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Poesias Selecionadas - Gregório de Maios

o BARROCO:AMBIGUIDADES ECONTRADIÇÕES O "BOCA DO INFERNO"


o significado artístico do estilo Barroco está ligado a duas das maiores "[ ...] violento na sátira, quase piedoso na poesia sacra, num dualismo
tradições literárias do mundo ocidental: a tradição clássica (humanista, racionalista, que é o motivo central do barroquismo, é Gregório, sempre, um rebelado, um
universalista) e a tradição medieval (teocêntrica, sentimental, individualista). renovador, um agitado, brilhante e profundo. Na própria improvisação está a
Ao longo do século XVII ocorre um conflito entre ambas as tradições, o relação do seu gênio" (Antônio Loureiro de Souza).
qual pode ser explicado através de uma perspectiva histórica. A partir da terceira
década do século XVI, a Reforma liderada por Lutero desfez a unidade religiosa "Deixaria Gregório de Matos após si um fio de prata, ou deixaria sim-
européia e abalou o poder da Igreja Católica. A reação da Contra-Reforma, por plesmente baba? Foi ele, no bom sentido, um derrubador de ídolos, um torcionário
meio do Concílio de Trento (1545 a 1563), acentuou um embate ideológico que se da crítica, ou apenas um azedo detrator dos méritos que o humilhavam, um
estendeu por todo o século XVII, avançando, em alguns países, pelo século bilioso, um dispéptico, um pasquineiro vulgar? [...] Tudo manda ver nele um
XVIII. precursor de quantos vivem a escrever, com brocha gorda molhada em ralo de
Assim, ao mesmo tempo em que assistimos à vitória do capitalismo esgoto, todos os forrobodós' que convertem os nossos teatros em mafuãs
mercantil em países como Holanda, Inglaterra e França, em outros, como obscenos [...] Erucção pela certa o lirismo de um tal bardo gargantuesco"
Espanha e Portugal, vemos a ação da Igreja Católica buscando um retorno à (Agripino Grieco).
religiosidade medieval. Gregório de Matos é considerado o fundador da literatura brasileira e o
As contradições entre ideais antropocêntricos e teocêntricos podem maior poeta de nosso período colonial. Mas esse julgamento não é unânime.
explicar o surgimento do estilo Barroco na Espanha, na Itália e em Portugal. O Passados já três séculos de sua morte, o poeta baiano continua sendo também
Barroco seria, portanto, a expressão, nas artes, da profunda crise ideológica e o maior problema de nossa história literária e o centro de uma polêmica que se
da multiplicidade de estados de espirito do homem seiscentista, dividido entre a arrasta e ganha sempre novos contornos.
razão e a fé, entre a mentalidade em expansão (tradição clássica) e os valores No ponto em que estão os estudos sobre a obra de Gregório de Matos,
medievais defendidos pelo clero e pela nobreza. nenhum julgamento sobre ela pode ser considerado definitivo. Entretanto, o tom
À primeira das tradições mencionadas, inserese o viver voltado para a exaltado dos críticos e a renovação constante da polêmica são os principais
terra, o corpo, os prazeres e as paixões deste mundo, tanto quanto o viver indícios de que estamos diante de uma poesia fascinante.
inspirado nas verdades científicas. Já a segunda caracteriza-se pelo viver
voltado para o céu e para a consciência da precariedade de tudo o que existe, GREGDRIO DE MATOS
almejando a salvação da alma, a necessidade de Deus e da eternidade. Eu sou aquele, que os passados anos
Em consonância com este quadro, o estilo Barroco criou novas cantei na minha lira maldizente
linguagens, novos significados, sendo que a irregularidade, em contraposição à torpezas do Brasil, vícios e enganos
simetria e à regularidade do Classicismo, constitui a sua marca, expressando o
pessimismo, o conflito, o desequilíbrio entre razão e emoção.
Literariamente seus grandes recursos estilísticos são a metáfora, que
revela a tendência barroca à alusão e à descrição indireta; a antítese e o
paradoxo, que exprimem a coexistência angustiada de ideias e sentimentos
opostos e contraditórios; a hipérbole, expressão da perplexidade diante do
mundo e da vida; e o hipérbato. que reflete a inversão da frase e as contorções
da alma.
O cultismo e o conceptismo constituem as duas tendências básicas
do Barroco. Embora sejam estilos diferentes, podem coexistir num mesmo autor
ou até numa mesma obra. Há casos em que a distinção entre eles é muito dificil,
se não impossível.
O cultismo ou gongorismo (termo inspirado no poeta barroco espanhol
Luís de Góngora) consiste numa hipertrofia da dimensão sensorial (sonoridade e A biofrafia de Gregório de Matos é bastante imprecisa, pois são escas-
imagens) da obra literária, recorrendo exageradamente a metáforas, sinestesias, sos os documentos e os depoimentos de contemporâneos sobre ele.
aliterações, hipérbatos, antíteses, trocadilhos, neologismos estranhos etc, e assim De certo, sabemos que Gregório de Matos e Guerra nasceu em Salva-
oferecendo-se corno um espetáculo para os sentidos. dor no dia 23 de dezembro de 1633. Seu pai, também Gregório, e sua mãe,
Já o conceptismo ou quevedismo (termo inspirado no poeta barroco Maria, pertenciam à classe dominante - eram proprietários de terras, de enge-
espanhol Antônio de Quevedo) consiste na hipertrofia da dimensão conceitual da nho de açúcar e de escravos. Como filho de senhor de engenho, Gregório
obra literária. Utilizando-se mais da razão que dos sentidos, o autor conceptista estudou no colégio dos Jesuítas, em Salvador, até por volta de 1650. Por essa
cria raciocínios engenhosos, num refinado jogo intelectual de paradoxos e sutilezas época mudou-se para Portugal, onde cursou a Universidade de Coimbra, for-
lógicas. mando-se em Direito Canônico (1652-1661). Depois de formado, casou-se,
exerceu advocacia, foi nomeado juiz e participou das "Cortes" de 1668 e 1674
A BARIA DE GREGÓRIO DE MATOS como Procurador da Cidade de Salvador. Em 1682, aos 46 anos de idade, o Dr.
Gregório, já viúvo, interrompeu essa carreira de sucesso na Corte e voltou para
l'esde os meados do século XVI o Recôncavo baiano era um dos pólos
a Bahia.
produtores de cana e se tornara o principal centro da ação colonizadora portuguesa.
Em Salvador Gregório de Matos percorreu uma dupla trajetória da fama
O porto de Salvador movimentava toda a exportação do açúcar, rivalizando
e da decadência profissional e social (os moralistas acrescentariam "moral").
com Recife, que se desenvolvera sob o domínio holandês.
Perdeu o cargo que exercia na Relação Eclesiástica; casou-se, em segundas
Fundada em 1549 para sediar o Governo Geral, Salvador já tinha quase
núpcias, com D. Maria dos Povos,que lhe deu um filho (Gonçalo), e exerceu a
vinte mil habitantes na época de Gregório de Matos. Acidade fervilhava, sobretudo
advocacia. Ao mesmo tempo ficava conhecido em todo o Recôncavo como
a partir de 1661, quando, porum tratado com a Inglaterra, os navios estrangeiros
poeta satírico,o que lhe valeria o apelido de "Boca do Inferno", e como boêmio,
tiveram permissão de entrada nos portos brasileiros. Cenário de uma pequena
frequentador das prostitutas de Salvador. Atestam sua popularidade as inúmeras
Babel- a riqueza dos senhores de engenho, a diversidade de raças, o movimento
anedotas que corriam sobre ele, recolhidas pelo primeiro biógrafo (Pereira Rabelo), •
do porto, parada importante da "carreira das índias" -, Salvador tornou-se o
no início do século XVIII. No final da vida, Gregório de Matos era um poeta
principal personagem da sátira gregoriana.
ambulante, percorrendo os engenhos do Recôncavo com sua viola de cabaça. •

------------------------------------------11II.
As inimizades que ganhou com suas sátiras foram a causa de um pequeno ANTOLOGIA COMENTADA
exílio em Angola (1694). Foi perdoado, mas não pôde retomar a Salvador,
passando o último ano de sua vida (1695) em Pernambuco, doente, sem
recursos e proibido de fazer suas sátiras. Segundo a tradição, seu escritório de
AOS CAPITULARES smTEMPO
advoga-do em Recife era decorado de cachos de bananas. Morreu em 1696. (Fragmento da GENEALOGIA QUE O
GOVERNADOR ANTÔNIO
A TRADiÇÃO GREGÓRIO DE MATOS A nossa Sé da Bahia,
Gregório de Matos nunca publicou seus poemas. Seus versos corriam com ser um mapa de festas,
Salvador, em cópias manuscritas que se multiplicavam ao passarem de mão é um presépio de bestas,
em mão. Durante o sécu-Io seguinte (XVIII) alguns colecionadores copiaram em se não for estrebaria:
cadernos tudo o que se atribuía a ele. Evidentemente, essas cópias eram várias bestas cada dia vemos,
imperfeitas, sofriam alterações e, muitas vezes, censura. E nem sempre os que o sino congrega,
poemas pertenciam realmente a Greqório, Caveira mula galega,
o Deão burrinha parda,
Se, por um lado, essas cópias manuscritas deformaram a poesia
Pereira besta de albarda,
gregoriana original, por outro, garantiram a sua sobrevivência. Não fossem
tudo pa.ra a Sé se agrega.
elas, nosso maior poeta colonial seria, hoje, apenas um vago nome na história.
A recuperação da obra, ainda hoje incompleta, processou-se muito
Se fosse EI-Rei informado,
lentamente, a partir dos meados do século XIX. Apenas em nosso século, entre
de quem o Tucano era,
1923 e 1933, a Academia Brasileira de Letras publicou o conjunto da poesia
nunca à Bahia viera
gregoriana em 6 volumes. Essa edição, entretanto, está eivada de erros, por
governar um povo honrado:
carecer de métodos científicos. Uma segunda tentativa foi feita em 1969 por
mas foi EI-Rei enganado,
James Amado, em 7 volumes. Essa edição, que também não pode ser
e eu com o povo o paguei,
considerada definitiva e da qual nos servimos neste trabalho, é a mais utilizada
atualmente. que é já costume, e já
A obra atribuída a Gregório de Matos pelas cópias manuscritas não é a leidos reinos sem intervalo,
poesia original do autor. Provavelmente muita coisa se perdeu; muitos poemas que pague o triste vassalo
foram erronea-mente atribuidos a ele. Por outro lado, mesmo o que legitimamente os desacertos de um Rei.
lhe pertence, sofreu modificações de toda ordem: supressões, substituições,
Estas duas décimas são um bom exemplo da sátirn esabusada do
correções de palavras, de versos, de estrofes inteiras.
Portanto, o que chamamos hoje de "Obra de Gregório de Matos" é, na Boca do Inferno. A primeira satiriza o clero da Sé da Bahia, dando os es
verdade, toda uma tradição, cuja origem é a poesia de Gregório, mas que inclui dos padres que formavam o "presépio de bestas". Na seg a. o poeta,
os resultados da ação do tempo: a corrosão, as modificações e os acréscimos. destemidamente, denuncia a incompetência do governador tôoio • da
Câmara Coutinho, apelidado Tucano por causa do grande nariz O afiz de
Isso em nada diminui o valor dessa poesia. Antes, atesta o seu impressionante
embono / com tal sacada, / que entra na escada / duas horas primeiro/que
vigor, que a manteve viva apesar de todas as adversidades.
seu dono, diz outro poema sobre o governador). As sátiras a Câmara
podem ser comparadas às cantigas de maldizer medievais, pelas maldosas
UM POETA DE VÁRIAS FACES acusações de sodomia (homossexualismo) que Gregório faz ao 90 emadoI" e
a Luís Ferreira de Noronha, capitão da guarda. Supõe-se que essas' .• rias
As múltiplas vertentes da poesia atribuída a Gregório de Matos têm
foram a causa do exílio do poeta em Angola.
provocado a perplexidade dos estudiosos e alimentado uma longa polêmica.
Entretanto, é nessa mesma multiplicidade que reside sua riqueza. As contradições
Triste Bahia! Oh quão dessemelhante
entre os vários Gregórios de Matos é que desenham o seu perfil barroco: estilo
Estás, e estou do nosso antigo estado!
alto/estilo baixo; o sublime/o grotesco; piedade, ascese, arrependimento/
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,
hedonismo (culto do prazer); reflexão, moralismo/poesia jocosa, sátira maldizente;
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
idealização do amor e da mulher/amor carnal, pornografia ...

1.Diversidade de estilos: A ti trocou-te a máquina mercante,


Que em tua larga barra tem entrado,
• o estilo alto elabora os mais engenhosos jogos de pensamento A mim foi-me trocando, e tem trocado
(conceptismo, sob a influência de Camões e do espanhol Francisco de Tanto negócio, e tanto negociante.
Quevedo) e os mais requintados jogos de linguagem, manipulando a sonoridade
e as imagens em verdadeira pirotecnia verbal (cultismo. influenciado sobretudo Deste em dar tanto açúcar excelente
por Góngora); Pelas drogas inúteis, que abelhuda
• o estilo baixo parodia a linguagem barroca do estilo alto, tirando efeitos Simples aceitas do sagaz Brichote.
saborosos do falar brasileirolbaiano da época, incorporando o vocabulário
indígena e africano e descendo à lin-guagem do mais baixo calão. Oh se quisera Deus, que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
2. A diversidade temática da poesia gregoriana descreve um arco que vai da
poesia sacra à poesia fescenina (pornográfica), passando pela lírica amorosa, Este soneto teve as duas primeiras estrofes musicadas por Caetano
pela poesia encomiástica, pela sátira moralizante, pela sátira difamatória Veloso, em 1972 (LP Transa, Philips-Phonogram). É um bom exemplo da
e pela poesia circunstancial-burlesca. Na simples nomeação desses veios personificação da Cidade da Bahia (Salvador), objeto constante da crítica
temáticos já se revela o contraditório espirito barroco contra-reformista: o gregoriana.
contraste, a fusão dos opostos, o céu e a terra, o espiritual e o camal, o sublime Depois das invasões holandesas, sobretudo a de Pernambuco a
e o grotesco cultura da cana e o fabrico do açúcar espalharam-se pelo Caribe e o Brasü
perdera o monopólio do "ouro branco". Embora continuasse sendo o principal
porto brasileiro, Salvador refletia intensamente as crises econômicas e políticas
da colônia. O soneto compara essa mudança de "estado" (empobrecimento)
da cidade com a crise vivida pelo próprio poeta (d. os dois quartetos). Ele
culpa a máquina mercante (i. é, os navios que aportavam para comerciar), os
negócios e os negociantes.

B"'~-------------------------------------
-
Apesar das crises, a população rica da cidade mantinha um padrão A N. SENHOR JESUS CRISTO COM ATOS DE ARREPENDIDO E
luxuoso de vida. O autor critica na terceira estrofe a troca da riqueza da colônia SUSPIROS DEAMOR
(o açúcar) por "drogas inúteis" (o termo brichote, segundo Antônio Soares
Amora, é corruptela de british, e serve para designar o estrangeiro.
Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,
Corresponderia, hoje, a gringo). Veja a atualidade da crítica. Hoje, o Brasil,
É verdade, Senhor, que hei delinqüido,
apesar dos desequilíbrios da balança comercial, importa todo tipo de "drogas
Delinqüido vos tenho, e ofendido,
inúteis" que sustentam o consumismo das classes média e alta.
Ofendido vos tem minha maldade.
A última estrofe expressa o desejo de que a cidade tornasse juizo
(fosse tão sisuda) e aban-donasse o falso luxo em que vivia (passasse a usar
Maldade, que encaminha a vaidade,
capote de algodão).
Vaidade, que todo me há vencido,
Vencido quero ver-me e arrependido,
Rubi, concha de perlas peregrina,
Arrependido a tanta enormidade.
Animado cristal, viva escarlata,
Duas safiras sobre lisa prata, '
Arrependido estou de coração,
Ouro encrespado sobre prata fina.
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços, que me rendem vossa luz.
Este o rostinho é de Caterina;
E porque docemente obriga, e mata,
Luz, que claro me mostra a salvação,
Não livra o ser divina em ser ingrata,
A salvação pretendo em tais abraços.
E raio a raio os corações fulmina.
Misericórdia, amor, Jesus, Jesus!
Viu Fâbio uma tarde transportado
Bebendo admirações, e galhardias, CElEBRA A GRANDE ALGAZARRA QUE FIZERAM NA FESTA OS
A quem já tanto amor levantou aras:
ESTRANGEIROS BRINDANDO A QUITOTA, MENINA BATIZADA,
Disse igualmente amante, e magoado:
SENDO NO TEMPO DA PESTl
Ah muchacha gentil, que tal serias,
Se sendo tão formosa não cagaras! Se a morte anda de ronda, a vida trota,
Aproveite-se o tempo, e ferva o Baco,
Este soneto obrém o efeito de humor pelo contraste entre as três primeiras Haja galhofa, e tome-se tabaco,
e a última estrofe. No primeiro quarteto, a beleza de Caterina é idealizada Venha rodando a pipa, e ande a bota.
através do melaforismo mineral, preciosismo comum da poesia cultista: os
lábios e dentes (rubi, escarlata, concha de perlas), os olhos azuis (animado Brinde-se a cada triques à Quitota,
cristal, duas safiras), o contraste entre o cabelo loiro e a brancura da pele (ouro Té que a puro brindar se ateste o saco,
encrespado sobre prata fina). No segundo quarteto, contrastes típicos da poesia E faça-lhe a razão pelo seu caco
barroca: docemente obriga / mata, fulmina; divina /ingrata. No primeiro terceto, Dom Fragaton do Rhin compatriota.
o transporte amoroso de um admirador, Fábio, e o endeusamento de Caterina (a
=
quemjá tanto amor levantou aras - aras altares). O leitor é surpreendido pela Ande o licor por mão, funda-se a serra,
inversão violenta, ocorrida apenas no último verso. A descrição sublime da Esgote-se o tonei, molhem-se os rengos.
mulher amada cede lugar ao realismo grotesco e o soneto se fecha com uma Toca tarã-tará, que o vento berra.
vulgaridade escatolágica.
Há cousa como ver um Paiaiá Isto diz, que passou entre Flamengos,
Mui prezado de ser Caramuru, Quando veio tanta água sobre a teria,
Descendente de sangue de Tatu, Como vinho inundou sobre os podengos.
Cujo torpe idioma é cobé pá.
NOTAS: Baco: deus do vinho; a cada triques: a cada momento; ateste:
A linha feminina é carimá encha; caco: cabeça; Fragaton do Rhin: Fragatão do Reno: flamengo, holandês;
Moqueca, pitinga, caruru, rengo: pano para bordar, toalha; podengo: cão de caça.
Mingau de puba, e vinho de caju O primeiro soneto, pertencente à poesia sacra, é um ato de contrição
Pisado num pilão de Piraguá. pelos pecados, Dentro do espírito da Contra-Reforma, exprime uma piedade e
um arrependimento pungentes. A dramaticidade do poema é intensificada pelas
A masculinha é uma aricobé reiterações e pelo uso constante da anadíplose (figura de linguagem que
Cuja filha Cobé um branco Pai consiste na repetição da última palavra de um verso no início do verso seguinte).
Dormiu num promontório de Passe. Com esse recurso, ganham relevo, na primeira metade do poema, as palavras
que se referem ao pecado (é verdade, delinqüido, ofendido, maldade, vaidade)
O branco era um marau, que veio aqui, e, na segunda metade, as que se referem ao arrependimento (vencido,
ela era uma índia de Maré arrependido, coração) e à salvação (braços/abraços, luz, salvação). Observe
Cobé pã, Aricobé, Cobé Pai. que as anadiploses contínuas dão ao texto um movimento espiralado, retorcido,
semelhante ao das colunas barrocas. A emoção se intensifica ao longo do
NOTAS: Paiaiá: pajé; cobé: descendente de índio, tupi; carimá: bolo soneto, que se fecha com uma exclamação patética: Misericórdia, amor,
feito de farinha de mandioca; pitinga: variedade de peixe; puba: mandioca Jesus, Jesus!.
fermentada; Aricobé: nome de uma tribo; marau: malandro, patife. O segundo soneto pertence à poesia circunstancial-burlesca. Se o
Neste soneto, Gregório satiriza os caramurus (os brancos importantes), primeiro exprimia o arrependimento e o anseio pelo perdão e pela salvação, o
invertendo a genealogia e indicando a mestiçagem dos pretensos nobres da segundo, no extremo oposto, é uma celebração do prazer. A bebida e a farra,
Bahia. Sabemos que uma das práticas da colonização portuguesa foi a de como formas de escapismo, são justificadas filosoficamente através do motivo
firmar alianças com os índios através do casamento com as mulheres das do carpe diem (Aproveite-se o tempo). O estilo baixo manifesta-se no uso de
tribos. Observe a interessante sonoridade do poema, conseguidaatravés da gírias e expressões da linguagem popular (saco, caco, tarMará, berra). Observe -
utilização de palavras indígenas e das aliterações, em imitação satírica do os efeitos de humor das aliterações Gago sonoro pela repetição de consoantes) •
idioma tupi (que ele chama de cobé pá). e das rimas com consoantes oclusivas (trota/Baco/tabaco/bota), típicas da
poesia satírica de Gregório de Matos.

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PONDERAAGOU COM MAIS ATENÇÃO A FORMOSUU DE D. QUESTÕES


ÂNGElA
01. (FUVEST) A poesia lírica de Gregório subdivide-se em amorosa e religiosa.
Não vira em minha vida a formosura. a) Quais são os dois modos contrastantes de se ver a mulher, em sua lírica
Ouviafalar nela cada dia, amorosa?
E ouvida me incitava, e me movia
b) Como aparece em sua lírica religiosa a ideia de Deus e do pecado?
A querer ver tão bela arquitetura:
02. (VUNESP)
Ontem a vi por minha desventura
Na cara, no bom ar. na galhardia Ardor em firme coração nascido;
De uma mulher, que em Anjo se mentia; Pranto por belos olhos derramado;
De um Sol, que se trajava em criatura: Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:
Matem-me, disse eu vendo abrasar-me.
Se esta a cousa não é, que encarecer-me Tu, que em um peito abrasas escondido;
Sabia o mundo, e tanto exagerar-me: Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Olhos meus, disse então por defender-me. Quando cristal, em chamas derretido.
Se a beleza heis de ver para matar-me,
Antes olhos cegueis, do que eu perder-me. O texto pertence a Gregório de Matos e apresenta todas as características
seguintes:
Nos manuscritos, vários poemas de Gregório de Matos são interpretados a) trocadilhos, predomínio de metonímias e de símiles, a dualidade temática
como referências à paixão do autor por D. Ângela, filha do senhor de engenho da sensualidade e do refreamento, antíteses claras dispostas em ordem
Vasco de Sousa Paredes. A edição de James Amado (1968), seguindo um dos indireta.
apógrafos, organiza esses poemas num ciclo que tem a estrutura de uma b) sintaxe segundo a ordem lógica doClassicismoqueoautorprocurava
novela, com todos os lances da psicologia amorosa (encontro, paixão, tentativa imitar, predomínio das metáforas e das antíteses, temática da fugacidade
de conquista, decepção). Este é o quarto poema do ciclo e exprimiria os do tempo e da vida.
sentimentos do autor ao conhecer D. Ângela. Observe a idealização da beleza:
c) dualidade temática da sensualidade e do refreamento, construção
Ângela não é formosa, é a própria formosura, é anjo (Ângela) e Sol, que abrasa,
sintática por simetrias sucessivas, predomínio figurativo das metáforas
cega e mata. Na última estrofe, o sujeito lírico dirige-se aos próprios olhos,
e pares antitéticos que tendem para o paradoxo.
dizendo preferir a cegueira à perdição e à morte.
d) temática naturalista, assimetria total de construção, ordem direta
predominando sobre a ordem inversa, imagens que prenunciam o Romantismo.
AO PADRE DAMASO DA SILVA PEDINDO AO AUTOR REMIDlO PARA e) versificação clássica, temática neoclássica, sintaxe preciosista evidente
NÃO GASTAR COM DAMAS NEM COM FREIUS no uso das sínquises, dos anacolutos e das alegorias, construção
assimétrica.

Descarto-me da tronga que me chupa, 03. (PUCCAMP)


corro por um conchego todo o mapa;
Quefalta nesta cidade? - Verdade.
o ar da feia me arrebata a capa,
Que mais por sua desonra? - Honra.
o gadanho da limpa até a garupa.
Falta mais que se lhe ponha? - Vergonha.
O demo a viver se exponha,
Busco uma freira que me desentupaa
Por mais que a fama a exalta.
via que o desuso às vezes tapa;
topa, e topando, todo o bolo rapa,
Numa cidade onde falta
que as cartas lho dão sempre com chalupa;
Verdade, honra, vergonha.
Que hei de fazer, se sou de boa cepa,
e na hora de ver repleta a pipa Pode-se reconhecer nestes versos de Gregório de Matos,
darei por quem ma vaze toda Europa?
Amigo, quem se limpa da carepa, a) o caráter de jogo verbal próprio do estilo barroco, a serviço de uma
ou sofre úa muchacha que o dissipa, crítica, em tom de sátira, do perfil moral da cidade da Bahia.
ou faz da sua mão sua cachopa. b) o caráter de jogo verbal próprio da poesia religiosa do século XVI,
sustentando piedosa lamentação pela falta de fé do gentio.
NOTAS: tronga: prostituta; chupar, consumir, dissipar, tirar os bens; c) o estilo pedagógico da poesia neoclássica, por meio da qual o poeta se
gadanho: unha, garra; garupa: alforje (por metonímia, i. é, o que se leva na investe das funções de um autêntico moralizador.
garupa da montaria); chalupa: no jogo do voltarete, as cartas de maior valor (dar d) o caráter de jogo verbal próprio do estilo barroco, a serviço da expressão
sempre com chalupa: ter sorte); limpar-se da carepa: melhorar de vida.
lírica do arrependimento do poeta pecador.
e) o estilo pedagógico da poesia neoclássica, sustentando em tom lírico as
A idealização da mulher e do amor cede lugar ao amor camal e venal da
reflexões do poeta sobre o perfil moral da cidade da Bahia.
sátira fescenina. As mulheres são agora as prostitutas e as freiras que, feias ou
limpas (lindas), dissipam todos bens do amante. Restam a quem tem posses
04. (UFV) - Leia o texto:
(quem se limpa da carepa) duas alternativas: ver seus bens dissipados ou
contentar-se como sexo solitário. Observe as imagens com que o autor se Goza, goza da flor da mocidade,
refere ao ato sexual {desentupa a via que o desuso às vezes tapa) e à masturbação que o tempo trota a toda ligeireza,
(faz da sua mão sua cachopa). Reconhecem-se no poema a mesma sonoridade e imprime em toda flor sua pisada.
de efeito humorístico que vimos em soneto anterior: as aliterações (ex: topa, e
topando, todo o bolo rapa) e as rimas com consoantes oclusivas (em apa, epa, Ó não aguardes que a madura idade
ipa, opa e upa). te converta essa flor, essa beleza,
em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.
Créditos: EmíliaAmaral, SeverinoAntônio e Ricardo Silva Leite (Gregório de Matos)

a•••
~----------------------------
Os tercetos acima ilustram: . Maldade que encaminha a vaidade,
a) o caráter de jogo verbal próprio da poesia lírica do séc. XVI, sustentando Vaidade, que todo me há vencido,
uma crítica à preocupação feminina 90m a beleza. Vencido quero ver-me e arrependido,
b) o jogo metafórico próprio do Barroco, a respeito da fugacidade da vida, Arrependido a tanta enormidade.
exaltando o gozo do momento.
Arrependido estou de coração,
c) o estilo pedagógico da poesia neoclássica, ratificando as reflexões do
De coração vos busco, dai-me abraços,
poeta sobre as mulheres maduras.
Abraços que me rendem vossa luz.
d) as características de um romântico, porque fala de flores, terra,
sombras. uma poesia que fala de uma existência mais materialista do
Luz, que claro me mostra a salvação,
que espiritual, própria da visão de mundo nostálgico
A salvação pretendo em tais braços,
e) uma poesia que fala de uma existência mais materialista do que Misericordia, amor, Jesus, Jesus!
espiritual, própria da visão de mundo nostálgico-cultista.

Texto para a questão 05: Análise as afinnativas a seguir e assinale a altemativa que apresente apenas
a(s) correta(s):
Entram na tua casa a seus contratos
Frades, Sargentos, Pajens e Mulatos. 1- Texto típico da lírica religiosa atribuida a Gregório de Matos. Funda-se no
Porque é a tua vileza tão notória. processo cultista chamado anadiplose, que consiste na retomada do último
Que entre os homens não achas mais que a escória. vocábulo de um verso no início do seguinte. Apesardisso, o texto pode ser
considerado conceptista por apresentar esforço dialético no sentido de apre-
A todos esses guapos dás a língua. sentara defesa de um principio ou de uma posição retoricamente assumida.
E por muito que dês não te faz míngua. 11- O texto apropria-se de um lugar comum do discurso ideológico do Concilio
Antes és linguaraz, e a mim me espanta de Trento, em particular, e da Contra-Reforma, em geral, segundo o qual o
Que, dando a todos, tenhas língua tanta. homem deve se dirigir a Deus para, uma vez mais e sempre, reiterar seu
permanente estado de culpa. Essa modalidade poética é um dos traços de
Mas isso te nasceu, puta Andresona. exclusividade da poesia atribuida a Gregório de Matos.
De seres puta vil, puta fragona.
III-Adisposição dos vocábulos do inicio e do final dos versos sugere uma
Que o falar da janela e da varanda.
espiral descendente (figuração do infemo?), que pode representar o apreço do
estilo gregoriano pelo movimento sinuoso, o que consiste em mais um traço da
Só se achará em putas da quitanda
exclusividade estilística do genial Gregório de Matos.
Cal-te, que a puta grave, qual a donzela.
Geme na cama e cala na janela. a) Todas estão corretas
b) Todas estão erradas
c) Somente I está correta
05. Considerando que a poesia de Gregório de Matos pode ser dividida em: d) Somente I e 11estão corretas
- Lírica (religiosa, amorosa e refiexiva) e) Somente II e 111estão corretas.

- Satírica (graciosa e fescenina)


- Encomiástica ( laudatória e de louvação)
Assinale a altemativa incorreta sobre as estrofes extraídas do poema intitulado:
"À amásia de um Sujeito que, Fiada no seu Respeito, se fazia soberba e
desavergonhada".
a) Exemplo de poesia fescenina, em que o enunciador ressentido, jogando
com os vocábulos, produz texto equívoco, insinuando que a prostituta
usa a língua tanto para o sexo quanto para a maledicência.
b) Exemplo de poesia graciosa, em que o amante ressentido, jogando com
os vocábulos, produz texto malicioso e satírico, sem, contudo, se apro-
ximar da licenciosidade.
c) Respeitando a verossimilhança do chamado "estilo baixo", em que os
vocábulos se ajustam a matéria, o enunciador satírico não censura tanto
a promiscuidade sexual quanto a indiscrição verbal da prostituta.
d) titulos longos e explicativos, como o desse poema, são usuais nos
textos atribuidos a Gregório de Matos e recebem o nome de didascália.
e) Pela perspectiva do amante ressentido, a prostituta, além de quebrar o
decoro do silêncio, faltava por não selecionar devidamente os clientes.

06. Leia o texto a seguir e responda a questão proposta.


Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,
Verdade é, meu Senhor, que hei delinquido,
Delinquido vos tenho, e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.

------------------------------------------11II8
Espumas Flutuantes - Castro Alves
CASTRO AlVES A terceira (1860 a 1870) antes de mais nada procurou questionar a
Quebre-se o celro do Papa. realidade a fim de transformá-Ia, por esta razão prenunciando o Realismo.
Faça-se dele - uma cruz! Castro Alves, o principal criador dessa geração, dedicou-se
A piirpum sirva ao povo principalmente a dois gêneros poéticos: o lírico-amoroso e o épico.
Pra cobrir os ombros nus. No primeiro, embora preserve em alguns textos as visões idealizadas
do amor e da mulher, destacou-se por um erotismo mais natural e mais
ardente que aquele encontrado na lírica de Álvares de Azevedo, o que torna
sua musa mais encarnada, mais real que as fugidias senhoras medievais que
povoam grande parte dos poemas ultra-românticos.
No segundo, criou uma poesia social, dedicada a temas públicos,
políticos, conhecida como condoreira ou hugoana. Condoreira pelas
simbologias de amplidão e de liberdade presentes na palavra condor, que
significa uma ave-símbolo dos vôos altos e livres; hugoana em referência a
Victor Hugo, o grande escritor romântico francês cujas obras tematizam as
revoluções e transformações sociais, que com Lord Byron foi o mestre de
Castro Alves e de sua geração.
Com tom oratório, exaltado e grandiloquente, esta poesia é feita
para ser declamada em praças e comícios, para resgatar o sentido de missão
e de "alta" inspiração da lira romântica, para saudar os novos tempos - o
avento do Progresso e da Modernidade, a Democracia, a República - e
defender grandes causas, como a Abolição da Escravatura.
Antônio Frederico de CastroAlves, "o poeta dos escravos", teve vida Pujante, inconformista, messiânica, universal e ao mesmo tempo
efêmera, mas agitada e brilhante. Nasceu em Curralinho (hoje Castro Alves], nacionalista, essencialmente romântica e ao mesmo tempo pré-realista, a poesia
Bahia, em 1847; estudou Direito no Recife - onde conheceu Eugênia Câmara, de Castro Alves possui grande qualidade artística e humana.
uma atriz portuguesa a quem amou perdidamente, e que em muitos poemas
líricos denominou a "Dama Negra" - e também em São Paulo. Junto de ESPUMAS FLUTUANTES
Eugênia, encenou em vários lugares sua peça teatral, denominada Gonzaga, o livro das Espumas Flutuantes é, pelo visto, o de um moço que,
ou a Revolução de Minas, procurando despertar o interesse da mocidade náufrago de todas as ilusões, angustiadamente lança-se a seus versos para
brasileira pelas grandes ideias revoLúcionárias da época: aAbolição e a República. não soçobrar de vez ante a posteridade. O sentimento do abismo final à vista
Dedicou, assim, a curta existência à poesia, às experiências amorosas influiu evidentemente sobre a precipitada organização dessa coletânea, na qual
e às lutas políticas e sociais, com intensa participação em comícios e Castro Alves quis deixar uma ideia de todas as virtualidades de sua poética,
manifestações abolicionistas. Aos 22 anos, já separado de Eugênia, amputou o .com os olhos ainda fitos no futuro ... Encontram-se ali as principais diretrizes
pé esquerdo, que foi ferido num acidente de caça. Dois anos depois (1871), a de sua inspiração, que variou sempre de acordo com as circunstâncias e o
tuberculose, que contraíra ainda adolescente, voltou a atacá-lo. Morreu em gosto de sua época
Salvador, aos 24 anos. (Eugênio Gomes)
Outras obrns: A Cad10eirade PauklAfonso,Os Escravos Data de 1870 o surgimento de Espumas Flutuantes, único livro que
Castro Alves publicou em vida. Sentindo-se próximo da morte, organizou-o a
CASTRO ALVES EOROMANTISMO BRASILEIRO fim de deixar uma amostra com as principais diretrizes de sua inspiração: a
Sua estréia coincide com o amadurecer de uma situação nova: a crise poesia amorosa; a poesia social e humana; a poesia patriótica e a
do Brasil puramente rural; o lento mas firme crescimento da cultura urbana, dos poesia laudatória (de louvação à natureza, às datas, às personagens da
ideais democráticos e, portanto, o despontar de uma repulsa pela moral do pátria, às pessoas etc.),
senhor-e-servo, que poluíra as fontes da vida familiar e social do Brasil-Império. Trata-se, portanto, de uma coletânea desigual. Nela há textos de
(...) Mostra-se entusiasmado ao ver a penetração da máquina no meio agreste; idealização da mulher e de obsessão pela morte, de clara influência
e nisto é um autêntico filho da burguesia liberal em fase de expansão, logo ultra-romântica, e também textos em que a sensualidade explícita e o erotismo
ficada e reduzida ao sistema agrário. expresso remetem ao lirismo-amoroso que se tomou marca registrada do poeta
(Alfredo Bosi) Composta de 53 textos, escritos entre 1864 e 1870, a obra também
Por definição, Castro Alves era um romântico, mas contrariamente a abarca os grandes temas sociais - a defesa do Progresso, da Civilização,
seus predecessores que se deixaram absorver pelo passado ou simplesmente da Justiça, do Ideal, da Liberdade; a Abolição da escravatura, o advento da
por suas nostálgicas sugestões, voltava-se para o futuro com todo o fervor de República etc - e as imensas paixões às quais Castro Alves se dedicou: a
um coração juvenil. Não tanto por ser ainda um adolescente, mas porque havia Natureza, a Inspiração poética, o primado do Sentimento sobre a Razão, a
algo místico nessa atitude, com a qual Victor Hugo mereceu o título de Nação com seus vultos heróicos etc.
Poeta- Vidente, por suas messiâncias pregações em prol do Progresso e da Além disso, nela apareoem os estados emocionais do poeta, tanto
Civilização. em seus momentos de alvoroço juvenil, de arrebatamento eufórico, quanto nas
(Eugênio Gomes) terríveis apreensões diante da morte e do sentimento precoce da velhice.
A produção da poesia romântica brasileira deu-se ao longo de três Os sentimentos humanitários, a preocupação com o futuro da humanidade
gerações de poetas. e do mundo, a evocação da infância, a brejeirioe e a voluptuosidade, o desengano
A primeira (1840 a 1850), comprometida com a consolidação artística de e a esperança, as paisagens bucólicas e a natureza antropomorfizada,
nossa Independência política (1822), caracteriza-se por um nacionalismo constituem, enfim, elementos do amplo espectro temático que recobre estas
indianista e encontra em Gonçalves Dias seu principal representante. Espumas Flutuantes.
A segunda (1850 a 1860) denomina-se "ultra-romantismo". Seu traço Vazada na imaginação essencialmente plástica, exterior, objetiva de
mais típico é um estado de espírito conhecido como "mal do século", no qual Castro Alves - um poeta atento ao espaço visível, ao tato, ao movimento, à
predomina o spleen (tédio, morbidez, depressão), o desejo de evasão e morte, expressividade das camadas rítmicas e imagéticas do verso - a obra de
o constante sentimento de incompatibilidade entre o ideal e a existência cotidiana, que conheceremos alguns poemas exemplares sem dúvida constitui um marco
vista como medíocre, prosaica e injusta. Álvares de Azevedo é o nosso grande do Romantismo liberal e pré-realista que tivemos em nosso país.
poeta ultra-romântico.

DEma------------------------------------------
Antologia Comentada Repare que neste fragmento de O Livro e a América, Castro Alves
(...) E o que são na verdade estes meus cantos:" ... tematiza, em tom épico, grandiloqüente, condoreiro, o livro e a imprensa,
Como as espumas, que nascem do mar e do céu, da vaga e vendo-os como símbolos da cultura e do saber, no Novo Mundo, a América.
do vento, eles são filhos da musa :..- este sopro do alto; do R~~are também que esta apologia dos valores do "futuro" e da civilização
coração - este pélago da alma. utiliza-se das figuras de linguagem típicas do romantismo social do poeta e de
E como as espumas são, às vezes, ajlora sombria da sua geração para expressar-se artisticamente.
tempestade, eles por vezes rebentaram ao estalar fatídico do Na I'. estrofe, por exemplo, o poeta saúda o povo americano e o século
látego da desgraça. :m que foi descoberto (passagem do século XV ao XVI, quando surge a
E como também o aljofre dourado das espumas rejlete as Ideologia burguesa, de caráter iluminista), por meio de apóstrofe: Filhos do sec
opalas, rutilantes do arco-íris, eles por acaso refletiram o '10 das luzes '/Filhos da Grande nação.
prisma fantástico da ventura ou do entusiasmo- estes signos Na 2'. estrofe, a descoberta daAmérica e do surgimento do livro e da
brilhantes da aliança de Deus com a juventude! imprensa são evocados, através de metáforas que romanticamente os idealiza,
Mas, como as espumas flutuantes levam, boiando nas associando-os com elementos da natureza, como a ave, o ninho, a chuva
solidões marinhas, a lágrima saudosa do marujo ... possam etc, e heroicizando Colombo e Gutenberg, os responsáveis pelo nascimento
eles, ó meus amigos. '- efêmeros filhos de minb 'alma - do futuro, o futuro das luzes do saber e da razão, aclamado pelo poeta.
levar uma lembrança de mim às vossas plagas! Na terceira estrofe, a metáfora e o paralelismo, sempre em tom
hiperbólico, auxiliam na construção de versos lapidares, em termos de força
Neste trecho do prefácio de Espumas Flutuantes, podemos observar expressiva ,e poder de síntese, como O livro caindo n 'alma/É germe - que faz
que o poeta, ao afirmar serem os seus cantos filhos da musa - este sopro do a palma, /E chuva - que faz o mar.
alto; e do coração - este pélago da alma, identifica-se como romântico ao
leitor, uma vez que lança mão de elementos característiccs desse estilo literário,
que são reccrrentes ao longo de toda a obra: o fazer poético como resultado
o "adeus" de Teresa
de inspiração, que vem de um "sopro do alto", isto é, de uma musa
transcendente, e também dos sentimentos. A primeira vez que eu fitei Teresa,
Tais sentimentos - tanto os que ele vivência quanto os que deseja Como as plantas que arrasta a correnteza,
despertar - são poeticamente expressos por meio da natureza, grande aliada A valsa nos levou nos giros seus ...
dos poetas românticcs, ccmo se percebe na evocação do mar, com suas E amamos juntos ... E depois na sala
vagas e espumas, do céu, do vento etc . "Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala ...
A associação metafórica entre os cantos e as espumas flutuantes do
mar permile-nos reconhe-cer, nesta imagem que foi utilizada ccmo título da obra, E ela, corando, murmurou-me-, "adeus".
a presença da temática da transitoriedade da vida, da brevidade da
existência, fazendo com que nos lembremos tratar-se de trabalho organizado Uma noite ... entreabriu-se um reposteiro ...
para publicação apenas um ano antes da morte do poeta. E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus ...
o livro e a América (fragmento) Era eu... Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-apresa ...
Filhos do sec '10 das luzes!
Filhos da Grande nação! E ela entre beijos murmurou-me: "adeus!"
Quando ante Deus vos mostrardes,
Tereis um livro na mão: Passaram tempos seclos de delírio
O livro - esse audaz guerreiro Prazeres divinais Gozos do Empireo ...
Que conquista o mundo inteiro ... Mas um dia volvi aos lares meus.
Sem nunca ter Waterloo ... Partindo eu disse - "Voltarei! ... descansa! ... "
Eólo de pensamentos, Ela, chorando mais que uma criança,
Que abrira a gruta dos ventos
Donde a Igualdade voou! ... Ela em soluços murmurou-me: "adeus!"

Por uma fatalidade Quando voltei ... era o palácio emfesta! ...
Dessas que descem de além, E a voz d 'Ela e de um homem lá na orquestra
O sec'Io, que viu Colombo, Preenchiam de amor o azul dos céus.
Viu Guttenberg também. Entrei! ... Ela me olhou branca ... surpresa!
Quando no tosco estaleiro Foi a última vez que eu vi Teresa! ...

Da Alémanha o velho obreiro E ela arquejando murmurou-me: "adeus!"


A ave da imprensa gerou .
Este poema apresenta afinidades com a produção lírico-amorosa do
O Genovês salta os mares .
Busca um ninho entre os palmares ultra-romantismo, ccmo se vê pela utilização da natureza para expressar os
E a pátria da imprensa achou ... sentimentos, pela visão idealizada do amor e da mulher, pela linguagem
Por isso na impaciência exclamativa e repleta de adjetivos etc. Entretanto, lendo-o com atenção
Desta sede de saber, podemos perceber que aqui o amor e a mulher adquirem maior concretude e
Como as aves do deserto - veracidade, tomando-se portanto menos fantasistas e puramente imaginários.
As almas buscam beber ... No texto, há forte presença de cromatismo como recurso expressivo:
a cor vermelha e a cor branca estão associadas, respectivamente, com os
temas do encontro e do desencontro amoroso. Observe, ainda, como se
Oh! Bendito o que semeia Livros ...
livros à mão cheia ... organiza o enredo do poema: a primeira e a última cena se aproximam, na
E manda o povo pensar! medida em que têm um baile por cenário; entretanto, enquanto na cena inicial o
O livro caindo n'alma sujeito poético e sua amada dançam, na final ele a surpreende com outro -
homem.
É germe - que faz a palma,
É chuva - que faz o mar.

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-
Mocidade e Mone lIragmento) metáforas referentes à Hebréia constróem, por meio de elementos perenceníes
E perto avisto o porto Imenso, à natureza - pomba, lírio, estrela e ramo de murta - uma imagem idealizada
nebuloso e sempre noite, da mulher, reforçada com apóstrofe: Tu és ". ó filha ...; Tu és, ó linda ...; e
Chamando - Eternidade! antonomásia. filha de Israel formosa.
Laurindo (Rabelo)
Quem tlá aos polires empresta a Deus {fragmento}
Lasciate ogni speranza, vai ch 'entrate Dante
Eu, que a pobreza de meus pobres cantos
Oh! Eu quero viver, beber perfumes Dei aos heróis- aos miseráveis grandes
Na flor silvestre, que embalsama os ares; - Eu, que sou cego, - mas só peço luzes .
Ver minh 'alma adejar pelo infinito, Que sou pequeno, - mas só fito os Andes .
Qual branca vela n 'amplidão dos mares.
No seio da mulher hã tanto .aroma ... Canto nesfhora, como o bardo antigo
Nos seus beijos de fogo há tanta vida ... Das priscas eras, que bem longe vão,
- Árabe errante, vou dormir à tarde O grande NADA dos heróis, que dormem
À sombra fresca da palmeira erguida.
Do vasto pampa no funéreo chão ...
Mas uma voz responde-me sombria: (...)E foram grandes teus heróis, ó pátria,
Terás o sono sob a lájea fria. - Mulher fecunda, que não cria escravos
-Que ao trom da guerra soluçaste aos filhos:
Morrer... quando este mundo é um paraíso,
E a alma um cisne de douradas plumas: "Parti- soldados, mas voltai-me- bravos!"

Não! o seio da amante é um lago virgem ... E qual Moema desgrenhada, altiva,
Quero boiar à tona das espumas. Eis tua prole, que se arroja então,
Vem! formosa mulher- camélia pálida, De um mar de glórias apartando as vagas
Que banharam de pranto as alvoradas. Do vasto pampa no funéreo chão.
Minh 'alma é a borboleta, que espaneja
O pó das asas lúcidas, douradas ... Perceba o tom ufanista com que esse poema te matiza a Guerra do
Paraguai e exalta a carida-de dos que se compadeceram de seu órfãos. O
E a mesma voz repete-me terrível, sentimento de patriotismo nele presente manifesta-se pela adesão do poeta à
Com gargalhar sarcástico: - impossível! causa da pátria, a cujos heróis - os soldados que lutaram para defendê-Ia-
Eu sinto em mim o borbulhar do gênio. oferece o seu canto.
Vejo além um futuro radiante: Na primeira estrofe, observe a presença de antítese, expressando a
Avante!- brada-me o talento n'alma imagem que o poeta romântico condoreiro tem de si mesmo enquanto bardo,
E o eco ao longe me repete - avante! - isto é, enquanto criador cuja lira está voltada para os grandes temas sociais:
O futuro ... o futuro ... no seu seio ... Eu, que sou cego, - mas só peço luzes ...
Entre louros e bênçãos dorme a glória! Que sou pequeno, - mas só fito os Andes ...
Após- um nome do universo n 'alma, Na segunda estrofe, uma metáfora essencialmente romântica caracteriza
Um nome escrito no Panteon da história. a pátria, associando-a com uma mãe cujos filhos, os soldados que a seu pedido
foram para a guerra, são os heróis da nação. Ao mesmo tempo, ao comparar a
E a mesma voz repete funerária: - pátria com Moema, personagem de O Caramuru, de Santa Rita Durão, Castro
Teu Panteon - a pedra mortuârial Alves dialoga com personagens nacionalistas do Arcadismo.
Metáforas, prosopopéias, antíteses, hipérboles e repetições intencionais
Neste fragmento de Mocidade e Morte há uma estrutura textual em aliam-se aos versos decassílabos sáficos com que o texto é estruturado, para
forma de diálogo entre a vida e a morte. Por meio dela, percebemos que o caracterizar-lhe o estilo condoreiro.
sujeito lírico, apesar de seu desejo imenso de viver, amar e dar asas a seu Créditos: EmíliaAmaral e Ricardo Silva Leite
talento, sente-se condenado a morrer.
O verso Eu sinto em mim o borbulhar do gênio, um verso antolágico de
Castro Alves, exemplifica a visão romântica da poesia como resultado de QDESTÜES
inspiração e de talento, mais que de quais-quer outros fatores. Observe na 2". 01.(FUVEST)
estrofe o exotismo e o sensualismo do poeta: no seio da mulher há tanto Ohl Eu quero viver, beber perfumes
aroma (...) - Árabe errante vou dormir à tarde.
Na flor silvestre, que embalsama os ares;
Ver minh 'alma adejar pelo infinito,
Hellréia {fragmento} Qual branca vela n'amplidão dos mares.
Fios campi et lilium convallium. (Cãntico dos Cãnücos) No seio da mulher há tanto aroma ...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida ...
Pomba d'esp'rança sobre um mar d'escolhos! - Árabe errante, vou dormir à tarde
Lírio do vale oriental, brilhante! À sombra fresca da palmeira erguida.
Estrela vésper do pastor errante!
Ramo de murta a recender cheirosa! ... Nesta estrofe de Mocidade e Morte, de CastroAlves, reúnem-se, como
Tu és, ó filha de Israel formosa . numa espécie de súmula, vários dos temas e aspectos mais característicos de
Tu és, ó linda, sedutora Hebréia . sua poesia. São eles:
Pálida rosa da infeliz Judéia
Sem ter o orvalho, que do céu deriva! a) identificação com a natureza, condoreirismo, erotismo franco, exotismo.
b) aspiração de amor e morte, titanismo, sensualismo, exo-tismo.
Observe que os sinais exclamativos que finalizam os versos da estrofe
c) sensualismo, aspiração de absoluto, nacionalismo, orientalismo.
ampliam o caráter metafórico de cada um deles, aumentando-Ihes a
d) personificação da natureza, hipérboles, sensualismo vela-do, exotismo.
expressividade e tornando-os mais emotivos e passionais. Além disso, as
e) aspiração de amor e morte, condoreirismo, hipérboles, orientalismo.

DEmD~--------~----------------------------
02. Contrariamente aos primeiros românticos, Castro Alves, em seu sentimenta- Texto para a questão 05
lismo amoroso, "percorre a gama completa da came e do espírito", segundo
Oh! Bendito o que semeia
o crítico literário Antonio Candido (ln: Aformação da literatura brasileira. 7 ed.,
Livros ... livros à mão cheia ...
v. 2. Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Itatiaia, 1993. p. 251). Os versos de
E manda o povo pensar!
CastroAlves, abaixo, que caracterizam a afirmativa de Candido sâo:
O livro caindo n 'alma
a) "Queres voltar a este país maldito É germe - que faz a palma,
Onde a alegria e o riso te deixaram? É chuva - que faz o mar.
Eu não sei tua história ... mas que importa?"
Vós, que o templo das ideias
b) "Uma noite, eu me lembro ... Ela dormia Largo - abris às multidões,
Numa rede encostada molemente ... P'ra o batismo luminoso
Quase aberto o roupão ... solto o cabelo Das grandes revoluções,
E o pé descalço no tapete rente. " Agora que o trem de ferro
Acorda o tigre no cerro
c) "Deuslô Deus! onde estás que não respondes? E espanta os caboclos nus,
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes Fazei desse "rei dos ventos"
Embuçado nos céus?" -Ginete dos pensamentos,
-Arauto da grande luz! ...
d) "Stamos em pleno mar ... Doudo no espaço (Castro Alves)
Brinca o luar - doirada borboleta -
E as vagas após ele correm ... cansam 05. O tratamento dado aos temas do livro e do trem de ferro, nestes versos de "O
Como turba de infantes inquieta. " livro e a América", permite afirmar corretamente que, no contexto de Espumas
flutuantes,
e) "No céu dos trópicos a)o poeta romântico assume o ideal do progresso, abandonando as preocu-
P'ra sempre brilha, pações com a História.
Ó noite esplêndida,
b)o entusiasmo pelo progresso técnico e cultural determina a superação do
Que as ondas trilha. n
encantamento pela determina a superação do encantamento pela natureza.
c)o entusiasmo pelo progresso cultural contrapõe-se ao temor do progresso
O texto a seguir servirá de base para as questões de 03 e 04:
técnico, que agride a natureza.
"Oh! Eu quero viver, beber perfumes d)o poeta romântico abre-se ao progresso e à técnica, em que não vê
a flor silvestre, que embalsama os ares; incompatibilidade com os ciclos naturais.
Ver minh 'alma adejar pelo infinito,
e)o poeta romântico propõe que literatura e natureza somem forças contra a
Qual branca vela n 'amplidão dos mares.
invasão do progresso técnico.
No seio da mulher há tanto aroma ...
Nos seus beijos de fogo há tanta vida ...
06. "Ahasverus e o Gênio" - poema que, em Espumas Flutuantes, vem imedia-
Árabe errante, vou dormir à tarde
tamente antes de "Mocidade e Morte" - Castro Alves assim nos apresenta a
A sombra fresca da palmeira erguida. fgura do 'judeu errante":

Mas uma vez responde-me sombria:


Terás o sono sob a lájea fria. " Sabes quem foi Ahasverus? .. -o precito, (maldito)
O mísero Judeu, que tinha escrito
03. Nesses versos de CastroAlves estão presentes a seguintes características Na fronte o selo atroz!
da poesia romântica: Eterno viajor de eterna senda ...
a) o sentimento nacionalista, a exaltação da paisagem tropical e a versificação
Espantado a fugir de tenda em tenda,
com metros variados. Fugindo embalde à vingadora voz!
b) a defesa da causa abolicionista, o fascínio pelos largos espaços naturais
Misérrimo! Correu o mundo inteiro,
e a preferência pelos versos brancos.
E no mundo tão grande ... o forasteiro
c) a repulsa pelo amor carnal, o recolhimento em ambientes intimistas e
Não teve onde ... pousar.
uma linguagem bastante coloquial.
Co'a mão vazia-viu a terra cheia.
d) a consagração do amor na morte, o apego aos cenários noturnos e o O deserto negou-lhe -o grão de areia.
culto dos símbolos do cristianismo. A gota d'água -rejeitou-lhe o mar.
e) o conflito entre os anseios e o destino, a idealização da natureza e a
variação de tons emotivos na linguagem.
O poeta se identifica com Ahasverus. Qual o sentido romântico dessa
identificação?
04. Estes versos de Castro Alves ilustram bem a seguinte afirmação:
a) Essa identificação representa a perseguição ao poeta romântico pratica-
a) o poeta explorou com perícia a poesia narrativa, apoiando-se tanto em da por Deus .
vultos históricos quanto em figuras da mitologia clássica.
b) Essa identificação representa a condição de ser privilegiado e maldito
b) o estilo de sua poesia condoreira ganha um máximo de grandiloqüência que o poeta romântico carrega diante da sociedade.
quando o poeta fala do direito que temos todos à vida em liberdade.
c) Essa identificação representa a condição de solitário que o poeta român-
c) na expansão do sensualismo juvenil - por vezes contrastada com tico carrega se excluindo de todo e qualquer problema da sociedade.
fúnebres pressentimentos - o poeta representava a força criativa que
d) Essa identificação representa a paixão que o poeta romântico tem pelo
sentia em seu íntimo.
judaísmo em oposição ao cristianismo.
d) por vezes o poeta se afasta de temas amorosos ou das cau~as de seu
e) Essa identificação representa a condição de ser mais inteligente que
tempo, para retratar com tintas fortes a beleza natural, suticiente em SI
todos que o poeta romântico tem diante da sociedade.
mesma.
e) há momentos em que sua linguagem é leve, delicada, graciosa, aplican-
do-se a temas mundanos como um baile, uma festa - ou cantando a
inocência das flores e dos pássaros.

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A Capilal Federal1891- Arlur Azevedo

Quando eu morrer, não deixarei meu pobre nome ligado a nenhum livro,
ninguém citará um verso meu, uma frase que me saísse do cérebro; mas com
"A CAPITAL FEDERAL":
certeza hão de dizer: "Ele amava o teatro", e este epitáfio moral é bastante, Sempre envolvido em questões nacionais, seja no teatro, como no
creiam, para a minha bem-aventurança etema. jornalismo e na vida pública, Azevedo registra com "A Capital Federal" sua
Arthur Azevedo - 1903 visão crítica do crescimento urbano e suas contradições através de personagens
estigmatizados. E apoiado nesses estereótipos de alguns segmentos sociais,
OTEATRO: que seguem uma seqüência de quadros que representam uma panorâmica da
Muitas posições foram colocadas quanto à situação da cena teatral cidade, o texto mostra eficiência no seu objetivo de apresentar com humor os
brasileira nos últimos decênios do século XIX. De um lado, esaitores e intelectuais costumes urbanos do final do século XIX. Seguindo regras de conduta moral,
criticam intensamente os rumos que o teatro segue: ausência de literatura que sublinha a visão do autor da realidade, como também na busca do efeito
dramática suprimida pela excessiva preocupação com a concepção plástica do histriônico, que subverte essa mesma visão, "A Capital Federal", enquanto
espetáculo, afastando assim a possibilidade do chamado teatro sério. De outro, literatura teatral, propõe leituras que, em princípio, parecem contraditórias. Se
empresários e artistas tentam viabilizar financeiramente a produção teatral, concessões são feitas à moralidade vigente, como a punição das personagens
incorporando modelos de forte apelo popular. De origem européia, a comédia que violam as regras do convívio social e com um desfecho que apela para o
realista, que se apresentava na dramaturgia de Alexandre Dumas Filho ("A sentimentalismo, por outro lado o texto explora uma renovação da. linguagem
Dama das Camélias", "O Mundo Equivoco") e Théodore Bariére ("Os teatral, que combina os modelos da cena burlesca com uma composição das
Parienses") - entre outros, chega ao Brasil com a criação do Teatro Ginásio personagens, que enquanto tipos, supõe-se baseados na realidade.
Dramático, em 1855 - uma companhia fixa, e desperta o interesse de uma
platéia selecionada a qual não agrada mais os melodramas românticos. Paralelo Onde? - A cidade do Rio de Janeiro, se afirmando como a capital do
a esse teatro com preocupações literárias, que só conseguia êxito com montagens governo republicano, o Grande Hotel, o Largo da Carioca, os Arcos da Lapa,
estrangeiras, surgia no Rio de Janeiro a casa de espetáculos Alcazar, onde o Largo do São Francisco, a casa de Lola, um salão de baile, o Belódromo
formas de teatro popular integravam um conteúdo que combinava o cômico e o Nacional, a Rua do Ouvido r e um sótão fazendo às vezes de moradia.
erótico. Combatidos pela elite cultural, esses espetáculos, geralmente operetas Quem? - Uma família do interior de Minas Gerais, uma cortesã, um
francesas e comédias populares, que utilizavam recursos de textos baseados aposentado, jogadores, comerciantes, cocotes, literatos decadentistas, serviçais
na malícia e seus derivados, foram considerados como a causa da decadência e velocistas.
do teatro brasileiro. Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manuel de O Que? - A família chega à capital federal à procura de um rapaz que
Macedo, como vários outros intelectuais, colocam-se contrários e lamentam o prometera casamento à filha e nuncá mais apareceu. O tal rapaz está envolvido
grande sucesso que esses gêneros teatrais obtinham e o malogro do teatro com Lola, a espanhola que tudo faz para lucrar com os homens. E um desses
"sério", que já tivera expressão na dramaturgia de Alencar, Quintino Bocaiúva, homens será Eusébio, o pai e fazendeiro de Minas, fazendo o percurso do
Pinheiro Guimarães e alguns outros. E Machado, incomodado com a ausência ingênuo mundo rural para o imoral, corrompido e neurótico urbano.
de peças nacionais e a invasão do teatro cômico e musicado nos palcos, Quanto às personagens, podemos notar o recurso de oposição, como,
apresenta a sua decepção (in Ideias Teatrais: O Século XIX no Brasil, 154): por exemplo, o que ocorre entre a cocote espanhola Lola e o fazendeiro
Hoje, que o gosto público tocou o último grau da decadência e perversão, Eusébio, e também o deslocamento de algumas personagens do ambiente
nenhuma esperança teria quem se sentisse com vocação para compor obras rural para o urbano, como no caso da família que chega do interior de Minas,
severas de arte. Quem lhas receberia, se o que domina é a cantiga burlesca ou em especial em Benvinda,- na qual é operada uma transformação, tomando o
obscena, o cancã, a mágica aparatosa, tudo o que fala os sentimentos e desajuste entre a sua origem de escrava e a nova posição de cocote uma
seqüência em que o humor está presente na impossibilidade da sua mobilidade
instintos inferiores?
social.
E é oAlcazar, o reduto dos gêneros teatrais considerados vulgares e
de mau gosto, e que é acusado como o responsável pela decadência do teatro O primeiro quadro, ambientado no Grande Hotel da Capital Federal,
literário, que prepara a cena brasileira para o espetáculo como entretenimento e cantado nas copias da abertura como excepcional pelo gerente, criados e
deleite do público médio. hóspedes, em meio a uma marcação de movimentos ágeis, é também o lugar
Em meio a este ambiente cultural está o jomalista, poeta humorístico e que serve de ponto de partida dos personagens, em que apresentam suas
comediógrafoArthur Azevedo, que em 1873, aos 18 anos, transferiu-se de São características e intenções.
Luis do Maranhão, onde nascera, para o Rio de Janeiro, onde consegue que Revelado isso, partem em busca dos seus objetivos, que para Lola é
sejam levadas à cena suas primeiras comédias: "Amor por Anexins" s.d.( 1872?) encontrar Gouveia, um jogador que, em função de ser seu amante, exige que
e "Horas de Humor" (1876). Depois de algumas tentativas de escrever "teatro a presenteie com bens materiais. Encontrar o jogador quer também Eusébio, o
sério" que não tiveram aceitação do público, Azevedo mostra muito empenho e fazendeiro, para cobrar uma promessa de casamento que fez à filha Quinota,
consegue a adesão do público com montagens de gêneros chamados "ligeiros", quando passou por São João do Sabará como um caixeiro viajante. E correndo
que, de matrizes francesas, adapta para o momento político e social brasileiro. por fora está Figueiredo, aposentado que aprecia mulatas e se empenha em
Na revista do ano "O Tribofe", apresentado em 1892, sobre os lançá-Ias socialmente, interessando-se portanto por Benvinda, a agregada da
acontecimentos do ano anterior, o comediógrafo já definia basicamente o que família interiorana.
viria a ser uma de suas obras mais reconhecidas: a budeia " A Capital Federal", Dada a partida, os tipos já intensamente caracterizados, e assim
que estréia em 1897 no Rio de Janeiro, apresentando um painel de tipos compondo a encenação com base no estereótipo, atravessam a representação
humanos, a partir de uma observação baseada nos extratos sociais e nas cenográfica de lugares que representam a capital federal, recorrendo a meios
possibilidades de representação que contextualizam e fazem esses tipos para conquistar seus objetivos que denotam, em alguns casos, total ausência
interagirem. Para isso, Azevedo lança mão dos mais diversos recursos de ética e moral. Nesse campo fértil, Azevedo, já experiente na expressão cômica,
gêneros teatrais que atraiam grandes platéias: a ópera cômica, a revista, a tanto no teatro como em sua produção literária, combina gêneros de teatro
mágica aparatosa e o vaudeville -, que pediam, na sua concepção de espetáculo, popular, e assim expressa, entre buscas e fugas desabaladas, através de
o exagero como regra, criando assim muitas condições para a expressão questão relevantes da época, como os vícios, a corrupção e os amores
visual e cômica. Ou seja: grandes, e por vezes, luxuosos cenários onde venais.
personagens típicos se movimentam, entre encontros e desencontros, envolvidas
em busca a determinados objetivos, construindo uma mise en scene característica
AS PERSONAGENS:
a esse modelo de empreendimento teatral. Lola, a inescrupulosa cortesã, metaforizada a partir de suas relações
econômicas, em que o seu valor de troca é a própria sexualidade, manipulando
os desejos masculinos para o seu proveito material, atinge o mais alto grau de

m ••• ~------------------------------------
mordacidade da peça e assim oferece ao público uma inversão de valores, assedia insistentemente a mulata Benvinda, para depois encarregar-se da sua
trazendo ótimos resultados cômicos. Suas investidas são sempre voluptuosas, transformação de serviçal roceira em uma dama da sociedade. Suas tentativas
como podemos notar nas suas aparições, primeiro em busca por Gouveia, no de ensinar a mulata, como na passagem em que se encontram no Largo de São
Grande Hotel e em lugares públicos, depois na festa à fantasia, que traz uma Francisco, em que o próprio Figueiredo caminha como unia dama como
referência clara a um tipo de espetáculo comum da época nos quais prepondera demonstração, alcançam proporções hilariantes. Aentrada dos dois personagens
o apelo erótico, e por fim no Belódromo, o quadro onde todas as personagens na festa à fantasia na casa de Lola, vestidos de Radamés eAída, e a sucessão
se reencontram. de gafes cometidas por Benvinda, rebatizada Dona Fredegonda, deixando
Integrando os tipos femininos está a mulata Benvinda, ou como diz o Figueiredo apreensivo, resultam em diálogos carregados de humor. Este, aliás,
aposentado Figueiredo: "trigueira, por ser menos rebarbativo" , - em um jargão que tem como único objetivo lançar mulatas, mesmo sendo um dos personagens
que anuncia suas intenções, que de serviçal é promovida à dama de sociedade, principais, não interfere diretamente no enredo. Sempre esquivo às investidas
mas nas entrelinhas revela o papel de cortesã. A personagem, em suas novas de outras personagens, principalmente de Lola, cheio de exigências quantos às
atitudes e vestimentas quando muda de classe social,- sempre inadequadas ao regras, o que o torna irritadiço, e com apartes sarcásticos, Figueiredo atravessa
contexto, estiliza a gafe como efeito cômico a partir das possibilidades de toda a ação paralelamente; interagindo com todos os outros personagens
contraste entre a raça negra e o estilo europeu,- que seriam um figurino com formalmente, que se altera nas suas cenas com Benvinda, revelando toda a
exagero de cores e formas, e também sua inabilidade com os termos em sua ironia. Além disso, sua presença serve para "costurar" as cenas da trama
francês, exibindo uma seqüência de disparidades. Vale lembrar que o grande principal e algumas vezes chegando a concluí-Ia, quando na passagem que
sucesso que esse tipo teve fez proliferar nos palcos brasileiros, nos primeiros encontra e lê a carta do cocheiro Lourenço para a patroa Lola, avisando que
decênios do século XX, o estereótipo da mulata faceira e sensual. tinha roubado todas as jóias e dinheiro da falsa espanhola.
Fortunata, a mãe de família rural, avessa às veleidades da vida Gouveia, o galã enrascado, sendo procurado por todos os lados, tanto
urbana, busca a reintegração do seu lar, seja pelo casamento da filha com pela família mineira, como por Lola, e dividido entre a compulsão ao jogo e o
Gouveia ou na busca pelo marido, que a abandona para se envolver com Lola. amor romântico de Quinota, entra em um processo de decadência decorrente
Reagindo com estranhamento às relações instituídas pelos vícios da cidade, do vício. As passagens em que aparece pontuam a sua descida à completa
que dela tiraram o noivo da filha Quinota, a agregada Benvinda e o marido miséria, que logo será percebida por Lola, que o expulsa de casa, no começo
Eusébio, mantêm no desenrolar do espetáculo uma certeza moral, mesmo do quadro da festa à fantasia, adequadamente vestido de "Mefistófeles". Dai,
expressa de fonna rude, e consegue a façanha de ser a grande redentora final. aparece redimido com Quinota e Fortunada no quadro do Belódromo, para
Mas essa vitória se deve mais ao insucesso dos planos das outras personagens depois, completamente falido, novamente sumir. E o seu retorno deve-se ao
que as suas atitudes, norteadas pela vontade de retomo à vida rural. Prejudicada encontro com o arrenpedido Eusébio, que juntos resolvem voltar ao convívio
por toda espécie de exploração, seja quanto à moradia, que a leva a viver em da família. E nos momentos finais, em uma solução arbitrada pelo fazendeiro,
uma espelunca, quanto à estrutura familíar, com a ausência do pai provedor, - que o faz sócio na fazenda e se case com Quinota, que Gouveia se livra
envolvido com a sedutora espanhola, sua participação toma importância no definitivamente do tal "micróbio da pândega".
final. É quando, em um desfecho inverossímil, recolhe as "ovelhas desgarradas Completando o painel social, temos vários personagens secundários,
do seu rebanho', para junto a ela retomar ao seu meio, que sendo rural, sendo os mais expressivos: Quinota, a mocinha romântica, Lourenço, o serviçal
representa na peça virtudes perdidas com a degenerescência da ordem urbana. cúmplice e amante da cortesã, Duquinha, o pretenso poeta decadentista, Pinheiro,
Dos personagens masculinos, podemos dizer que geralmente são o agiota e pai de família falso-moralista e Juquinha, a criança mimada e irrequieta.
acometidos pelo 'micróbio da pândega", expressão da época para definir a E também a exigência constante de um grande número de figurantes na maioria
susceptibilidade dos homens aos amores venais e ao jogo, e assim das cenas, como por exemplo os hóspedes e criados do hotel, cocotes,
desestruturando a íarnília. E é nessa área de conflito, entre a tradição moral e a transeuntes, velocistas, apostadores e convidados do baile à fantasia.
licencíosídade, que os homens transitam, deflagrando toda uma série de
movimentos, por vezes por serem procurados, outras por estarem à procura. o CENÁRIO:
Essa dualidade é nítida nas palavras de Décio deAlmeida Prado A cenografia representava, no teatro popular brasileiro do final do
(in"O Tríboíe", posfácio, 274): século XIX, um recurso indispensável para a realização de gêneros~qLfé'
necessitavam de efeitos espetaculares e grandiosos cenários, e assim criando
"... A malícia de "A Capital Federal", peculiar ao teatro da momentos apoteóticos, para delírio da platéia. Com o crescente interesse do
passagem do século, nasce precisamente dessa ambigüidade, público pelos efeitos cenográficos e todas as novidades que eles podiam
desta luta meio escondida, meio declarada, entre a força do proporcionar, toma importância, em alguns casos mais que o autor e o diretor do
sexo e a percepção aguda das convenções sociais, entre o espetáculo, a figura do cenógrafo, que podemos citar, como os mais importantes,
que o indivíduo quer e o que a sociedade solicita dele em os italianos radicados no Brasil: Gaetano Carrancini e Oreste Oliva. Acerca
termos de compostura moral". dessa forte tendência plástica do teatro, vale registrar a avaliação de Décio de
Almeida Prado (in "O Tribofe", 266):
Dentro dessa perspectiva moral temos Eusébio, o fazendeiro, em "". mais que a maestria do autor e dos intérpretes, o talento criador e
princípio defensor da tradicional família (mineira) "descendo ao inferno" para os conhecimentos técnicos do cenógrafo, a sua engenhosidade em tirar proveito
buscar o já corrompido noivo fujão Gouveia. Eusébio, personagem do ator daquelas complicadas máquinas que no século dezenove cercavam o palco,
Brandão, que fizera tanto sucesso em "O Tribofe", e que o teria feito a insistir escondendo-se por trás dos bastidores, acima das gambiarras e por baixo do
para que Azevedo criasse um novo texto, que viria a ser "A Capital Federal", tablado. A função delas era produzir uma espécie de realismo ingênuo, material,
é quem em suas peripécias faz que extratos sociais apresentem suas intenções, que o realismo fotográfico do cinema, muito mais convincente, logo tomaria
nem sempre as melhores. O seu envolvimento com Lola, que viria depois a ser obsoleto, dando outros rumos ao teatro".
desmascarada como falsa espanhola, sua incursão no mundo das regras Azevedo, mesmo preocupado com a importância do texto que a
sociais, rendendo muita comicidade, que atinge o ponto alto da peça na festa à cenografia tornava menor, conta com a colaboração desses profissionais para
fantasia e, por fim, o seu retomo (arrependido) à tradição familiar, confere ao a montagem de suas revistas e operetas cômicas. Em "A Capital Federal", que
personagem uma posição de destaque em relação aos outros. Suas decisões tinha Carrancini como cenógrafo, encarregado de criar uma panorâmica sobre
e atitudes refletem no movimento cênico, sempre desencadeando outras ações: a cidade do Rio de Janeiro, com mutações constantes que desencadeiam uma
a chegada à capital federal com a missão de procurar o noivo da filha, que por ação ágil, encurtando as falas e assim não permitindo um aprofundamento das
sua vez irá possibilitar a relação de Benvinda e Figueiredo e a dele próprio com personagens, e, nesse aspecto, aproximando-se do espírito do teatro de revista.
Lola, que o faz abandonar a família. O final confirma essa vocação com a ausência total de atores, em uma "apoteose
Figueiredo, logo no início apresentado pelo gerente do hotel como "o à vida rural", na qual a música e os efeitos cênicos suprimem o texto. Quanto
verdadeiro tipo do carioca: nunca está satisfeito", e que justifica sua especialidade a essa questão das "modalidades de teatro musicado ter presidido a elaboração
em lançar mulatas pelo fato de ser "solteiro, aposentado e independente", da "A Capital Federal"", acrescenta muito a transcrição de Prado

(O Tribofe, 277) das palavras de Olavo Bilac, cronista e crítico, sobre o espetáculo de estréia:

-------------------------------------------lDIIm
"E há uma pancada seca no bombo e nos timbales da E em La Vie Pariense, a cena correspondente:
orquestra, e abre-se o fundo da cena, e, por uma tarde
batida de sol, aparecem os arcos da Carioca, e, sobre eles, Tous, reprenant:
o bonde elétrico voando - numa esplêndida cenografia de Fez partout!
Carrancini ... E o pano cai, ao reboar dos aplausos. " Lãchez tout!
Qu 'on s' élance,
Bilac refere-se, é claro, ao final do primeiro ato, no último quadro que Que l'on danse! etc. etc.
tem apenas uma cena e uma única fala de Eusébio (- Oh! A Capitá Federá! A
Capitá Federá!. ..), em um momento que a maquinaria teatral, exibindo sua E Azevedo, explicando a criação de uma opereta cômica a partir de
exuberância com finalidade apoteótica, minimiza a importância do texto, "O Tribofe", uma revista do ano, e suas opções musicais, conclui com essas
equiparando-se á mágica, que se utilizava desses recursos cênicos nas suas palavras, conforme transcrição de Prado (in "O Tribofe", 271):
temáticas sobrenaturais. ..., resolvi escrever uma peça espetaculosa, que deparrcse aos
nossos cenógrafos, como deparou, mais uma ocasião de fazer boa figura, e
FIGURINO EADEREÇOS: recorri também ao indispensável condimento da música ligeira, sem contudo,
Ao propor a composição de tipos, e por isso basear-se na observação descer até o gênero conhecido pela característica denominação de maxixe.
dos costumes, a burteta deArthur Azevedo recorre aos mais diversos padrões Foram conservados alguns bonitos números da partitura do Tribofe,
de vestuário, de acordo com as personagens e as situações que se encontram. escrita pelo inspirado Assis Pacheco, e introduzi da uma linda valsa, composta
Em principio uniformizadas em suas funções sociais, como caipiras, cocotes, por Luís Moreira. Da composição de todos os demais números, que não são
burgueses, serviçais, para depois falsear a representação da realidade, no poucos, em boa hora se encarregou o jovem Nicolino Milano, talento musical
caso da transformação de Benvinda, e, mais longamente, envolvendo várias de primeira ordem, a quem está reservado um grande futuro na arte brasileira.
personagens, na festa à fantasia, com pretexto de criar a ilusão, revela verdades Mais uma vez, o autor maranhense, ao louvar os seus colaboradores,
subjacentes, que surgem na inadequação dos tipos rurais às suas fantasias, em revela a receita da sua grande popularidade, ao se aliar, sem preconceitos, aos
contraponto ao glamour oferecido pelos representantes do meio urbano. Eusébio, meios de expressão artística ora definidos como comerciais. Sempre defensivo
vestido de pricês, se embebedando com ponche flamejante, e Benvinda, como quanto ao estigma de agente da decadência do teatro brasileiro em suas respostas
Aida, sendo conduzida e "lançada" por Radamés ( Figueiredo), em meio a à crítica que o condenava, Azevedo conseguiu, em sua enérgica trajetória de
cocotes e convidados fantasiados, possibilitam tonalidades berrantes, que, homem de teatro, transpor os limites que os gêneros populares impunham, e
juntamente com a música e a dança, confirmando semelhança com a opereta. registrar, em "A Capital Federal", um padrão para o humor nacional e uma
E no quadro do Belódromo, quando a todo momento uma personagem valiosa descrição dos costumes de uma época decisiva na formação da sociedade
sente a aproximação da chuva, anunciando uma apoteose onde guarda-chuvas urbana brasileira. Hábil na caricatura de personagens, e com isso manipulando-
abertos, agitados por perseguições e fugas, mais do que acessórios de cena, os para alcançar o seu maior objetivo: comunicar-se com grandes platéias, o
servem para compor plasticamente o espetáculo. Recurso, aliás, que estará autor constrói tipos anedóticos, antecipando um conceito de humor que tanto
sempre presente conforme as situações apresentadas: como as malas dos proliferou no teatro popular brasileiro, calou-se no getulismo e voltou licencioso
hóspedes do hotel na abertura, a bagagem da familia caipira chegando à capital no pós-guerra, rebatizado de "Teatro de Revista". A mulata faceira e sensual, o
(malas, trouxas e embrulhos), as lunetas (face-en-main) de Figueiredo e caipira ingênuo, a cortesã estrangeira, o corrupto e tantos outros, são tipos que
Benvinda, a bicicleta de Juquinha, os indispensáveis chapéus, muitas jóias e, habitam o imaginário popular e até hoje encontram espaço no cenário do humor
mesmo sem indicação no texto, um leque para completar o disfarce de nacional. Em meio a todas as inovações tecnológicas, Arthur Azevedo mantém-
espanhola de Lola. se firme no seu maior desejo: fazer o povo rir.

Créditos: Orestes da Silva Chaves Neto


A MÚSICA EA FAlA:
No final do século XIX, as influências lingüísticas na sociedade brasileira
lutavam com a imposição da língua padrão. Nesse aspecto, Azevedo, mesmo Exercícios:
sendo um erudito, registra em sua obra uma forma de falar próxima da realidade
A questão 01 toma por base os seguintes fragmentos da peça A Capital Federal
da personagem, como recurso de caracterização. Em "A Capital Federal", a
de Arthur Azevedo. Portanto, leia-os com atenção e responda a questão proposta:
fala das personagens, cristalizadas em seus próprios erros, no caso das
personagens rurais, ou nos estrangeirismos, nas urbanas, conferem aos diálogos
o maior recurso de efeito cõmico. O exemplo de Benvinda, alçada a uma nova
condição social, sendo ensinada por Figueiredo a mudar da rudimentar fala rural Fragmento I
para o modo de falar da capital, cheio de galicismos, é um dos pontos altos da "Uma mulata, sim! Eu digo trigueira por ser menos rebarbativo. Isso é
peça, entre outros, que usam desse recurso. que é nosso, é o que vai com o nosso temperamento e o nosso sangue! E
Essencial à realização do espetáculo, a música, em "A Capital Federal", quanto mais dengosa for a mulata, melhor! loiô, eu posso? Entrar de caixeiro,
que se encontrava entre o erudito e o popular e sem correspondente aos sair como sócio? ... Você já esteve na Bahia ..."
padrões atuais, foi composta por quem possuía formação profissional apurada.
Rejeitando as formas de música popular, cantado nos circos, por seresteiros e Fragmento 11
trovadores de rua e que só eram aproveitadas, vez ou outra nas revistas, para
"Pois eu sou casado, e todos os dias agradeço a Deus a santa esposa
caracterizar a origem humilde da personagem, a música de teatro da época
e os adoráveis filhinhos que me deu! Vivo exclusivamente para a familia. Veja
adaptava ao limite artístico nacional o modelo europeu para revistas e operetas.
como vou para casa cheio de embrulhos! E é isto todos os dias! Vão aqui
E inspirada na opereta de Offenbach: La Vie Pariense, compara Prado (in "O
empadinhas, doces, queijo, chocolate, andaluza, sorvetes de viagem, o diabo! ...
Tribofe", 278),"a opereta ganhava intensidade em um momento de alegria
Tudo gulodices! ..."
furiosa" quando "no instante em que os fios do enredo, tendo atingido o auge do
entrelaçamento, começam a caminhar para a tranqüilidade do desenlace", e
apropriadamente colocado no centro da peça, como nesta cena:
Fragmento 11I
Lola: "Faltou-lhe uma frase, para o final da cena - coitado! A respeito de
Dancem! Dancem! Tudo dance imaginação este pobre rapaz foi sempre uma lástima! - os homens não
Ninguém canse compreendem que o seu único atrativo é o dinheiro! Este pascácio devia ser o
No cancã primeiro a fazer uma retirada em regra, e não se sujeitar a tais sensaborias!
Pois quem se acha aqui presente Bastavam quatro linhas pelo correio.-
Tudo é gente Oh! também a mim, quando eu ficar velha e feia, ninguém me há de
Folgazã! querer! Os homens têm o dinheiro, nós temos a beleza; sem aquele e sem esta,
(cancã desenfreado em torno à mesa) nem eles nem nós valémos coisa nenhuma."

mEmD~--------------------------------------
Fragmento IV fortuna que não existe. Desagradam-me esse visíveis esforços que o senhor
-o flor das flores,
linda espanhola! faz para iludir os outros. O melhor partido que o senhor tem a tomar... e olhe
que este é o conselho da tua noiva, isto é, da pessoa que mais o estima neste
Como eu te adoro, como eu te adoro!
Pelos teus olhos, ó Lola, ó Lola! mundo ... o melhor partido que o senhor tem a tomar é abrir-se com papai ...
confessar-lhe que é um jogadorarrependido ...
De dia canto, de noite choro,
Linda espanhola, linda espanhola! Gouveia - Oh! Quinota!...
Fortunata - Não tem - ó Ouinota - nem nada! É a verdade! ...
És uma santa, santa das santas!
Como eu te adoro, como eu te adoro! Ouinota -Irá conosco para a fazenda, onde não lhe faltará ocupação.
Meu peito enlevas, minhalma encantas! Fortunata - Sim sinhô; é mió trabaiá na roça que fazê vida de vagabundo na
Ouve o meu triste canto sonoro, cidade! - Outro pingo!
Santa das santas, santa das santas!"
Ouinota - Papai precisa muito associar-se a um moço inteligente, nas suas
Fragmento V condições. Sacrifique à sua tranquilidade os seus prazeres; case-se, faça-se
agricultor, e sua esposa, que não será muito exigente e terá muito bom-senso,
"Sinhô, eu sou fazendeiro
todos os anos lhe dará licença para vir matar saudades daquilo a que o senhor
Em São João do Sabará,
chama o micróbio da pândega.
E venho ao Rio de Janeiro
De coisas graves tratá. Gouveia (À parte.) - Sim, senhor, pregou-me uma lição de moral mesmo nas
Ora aqui está! bochechas!"
Tarvez leve um ano inteiro
Na Capitá Federá!" 02. No fragmento apresentado podemos observar que várias críticas apresentadas,
no decorrer da peça, à sociedade fluminense, são condensadas nas falas de
01. Assinale a aternaãva que apresente os personagens correspondentes aos Ouinota e Fortunata. Análise as expressões a seguir e assinale a altemativa
fragmentoo apresentados. que não expressa uma opinião crítica de Ouinota ou Fortunata sobre a sociedade
a) 1- Figueiredo, 11- Lourenço, 11I- Laia, IV - Juquinha e V - Eusébio. fluminense.
b) 1- Figueiredo, 11- Rodrigues, 111- Lola, IV - Juquinha e V - Eusébio. a) "cheia de sobressaltos"
c) I - Lourenço, 11- Gerente, 111- Benvinda, IV - Rodrigues e b) "o á da capitá federá"
V - Juquinha. c) "micróbio da pândega"
d) 1- Gerente, 11- Lourenço, 11I- Benvinda, IV - Gouveia e V - Fortunata. d) "iludir os outros"
e) 1- Figueiredo, 11- Rodrigues, 11I- Lola, IV - Duquinha e V - Eusébio. e) "vida de vagabundo"

f.s ques ões 02 e 03 tomam por base o fragmento a seguir extraído de 03. Tomando o fragmento apresentado e a peça como um todo podemos dizer que
A Capital Federal de Arthur Azevedo além da peça como um todo. Portanto, todas as afirmativas a seguir estão corretas, exceto:
leia-o com atenção e responda as questões propostas:
a) O fragmento, pelo assunto tratado, permite-nos afirmar que ele está
-, Cena VII- inserido no terceiro ato da peça.
b) Um dos recursos teatrais usados no fragmento que ocorre na peça inteira
Gouveia, Fortunata e Ouinota
é a presença de rubrica. .
Fortunata (Entrando apressada à frente de Gouveia e Ouinota.) - Não! Não c) A peça apresenta tanto recursos do teatro em prosa quanto do teatro
quero vê meu fio corrê na tá história! ... E logo que acabá a corrida, levo ele poético como fica claro no fragmento apresentado.
pra casa, e aqui não vorta! ... Oue coisa!... Benvinda desaparece ... Seu d) Há na peça uma dualismo entre personagens que formam o núcleo
Eusébio desaparece ... Juquinha não sai do Belódromo ... Tou vendo quando urbano e os que formam o núcleo rural. E ao final da peça podemos
Ouinota me deixa! observar, mesmo que cômico, uma tendência a se valorizar os princípios
Ouinota - Oh! Mamãe! Não tenha esse receio! de comportamento do mundo rural.

Fortunata - Oue terra! Eu bem não queria vi no Rio de Janeiro! e) O comportamento de Gouveia, Figueiredo e Lola ao longo da peça são
exemplos de personagens que justificam as críticas apresentadas pelos
Ouinota - Oue vida tão diversa da vida da roça! (A Gouveia.) Não ficaremos olhares de Ouinota e Fortunata no fragmento apresentado.
aqui depois de casados.
Gouveia - Por quê?
Ouinota - A vida fluminense é cheia de sobressaltos para as verdadeiras
mães de familia!
Fortunata - Olhe seu Eusébio, um home de cinqüenta ano, que teve até agora
tanto juízo! Arrespirou o á da Capitá Federá, e perdeu a cabeça!
Gouveia - Apanhou o micróbio da pândega!
Ouinota -Aqui há muita liberdade e pouco escrúpulo ... faz-se ostentação do
vício ... não se respeita ninguém ... É uma sociedade mal constituída.
Gouveia - Não a supunha tão observadora.
Ouinota - Eu sou roceira, mas não tola que não veja o mal onde se acha.
Fortunata - parece que já está chuviscando ... Eu senti um pingo ...
Quinota - O senhor, por exemplo, o senhor, se pensa que me engana,
engana-se. Conheço perfeitamente os seus defeitos.
Fortunata (À parte.) - Aí!
Gouveia - Os meus defeitos?
Quinota - Oh! São muitíssimos - e o menor deles não é querer aparentar uma

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Bom Crioulo: Adolpho Caminha

OBRAS
Adolfo Ferreira Caminha nasceu em Arati, província do Ceará, em 29
Romances Contos Poesia
de maio de 1867. Seus pais eram primos e negociantes, e Caminha foi o
A Normalista (1893) Judite (1887) Vôos incertos (1886)
primogênito de uma prole de cinco irmãos. Aos dez anos, perdeu a mãe, vítima
Bom-Crioulo (1895) Lágrimas de um crente (1887)
da grande seca de 1877 . Transferido para Fortaleza, estudou as primeiras letras
Tentação (1896)
em casa de parentes. Mais tarde, aos treze anos de idade, foi para o Rio de
Janeiro, acolhido por seu tio-avô, que se encarregou de sua educação,
Crítica Literária Viagem
matriculando-o, afinal, na antiga Escola de Marinha.
Cartas literárias (1895) No país dos ianques (1894)
Datam da época de esíudante as primeiras composições em prosa e
em verso, publicadas na Fênix Literária, que corria nas mãos de seus CONTEXTO HISTORICO
colegas. Logo que terminou o curso na Escola de Marinha, publica, na Gazeta
de Notícias, o conto "A Chibata", denunciando publicamente o castigo físico
NATURALISMO: A mlNCIA NA lITERATURA
em vigor entre os homens da Marinha. Estreava, assim, no jornalismo com um
escrito que causava surpresa e indignação entre seus superiores. Em 1885, Não é possível falar-se do Naturalismo sem associá-I o ao Realismo.
tornou-se guarda-marinha, e, no ano seguinte, fez uma viagem de instrução a Grande parte da crítica literária chega mesmo a reconhecer aquele como exagero
bordo do Almirante Barroso, conhecendo, então, as principais capitais das deste. De qualquer maneira, as duas estéticas caminham juntas na segunda
Antilhas e várias cidades dos-Estados Unidos. Essa viagem inspirou-lhe a metade do século XIX e, muitas vezes, interpretam-se, chegando mesmo
obra no País dos lanques, publicada inicialmente em folhetins no Diário do confundir-se em algumas características e posicionamentos.
Ceará e depois em livro. O Realismo, no Brasil, surgiu em conseqüência da crise criada com
De volta, serviu em diversos navios da Armada, na Guanabara, e em a decadência econômica açucareira, o crescimento do prestígio dos estados do
fins de 1888 foi servir no Ceará, junto à Escola de Aprendizes de Marinheiros. sul e o descontentamento da classe burguesa em ascensão na época, o que
Naquela época, a Escola de Recife era um importante centro irradiador facilitou o acolhimento dos ideais abolicionistas e republicanos. O movimento
das principais idéias em vigor na segunda metade do século XIX: cientificismo, republicano fundou em 1870 o Partido Republicano, que lutou para substituir o
republicanismo, abolicionismo, anticlericalismo, materialismo, entre outras. trabalho escravo pela mão-de-obra imigrante.
Caminha, então com vinte e um anos, já em Fortaleza, participou ativamente Nesse período, as idéias de Conte, Spencer, Darwin, Taine e Haeckel
da vida intelectual local, aderindo àqueles novos ideais, sendo inclusive membro conquistaram os intelectuais brasileiros que se entregaram ao espirito cientifico,
fundador do Centro Republicano Cearense. sobrepujando a concepção espiritualista do Romantismo. Todos se voltam para
Por aquela época, Caminha envolveu-se num caso passional, trazendo explicar o universo por meio da Ciência, tendo como guias o positivismo, o
para si muitas complicações. A mulher era Isabel Jataí de Paula Barros, darwinismo, o naturalismo e o cientificismo. O grande divulgador do movimento
casada com um companheiro de farda de Caminha. Freqüentemente eram foi Tobias Barreto, ideólogo da Escola de Recife, admirador das idéias de
vistos juntos, lado a lado, trocando sorrisos e palavras nas ruas de Fortaleza. Augusto Conte e Hipólito Taine.
O ambiente tornou-se tenso entre seus colegas de farda e entre os membros da O Realismo e o Naturalismo aqui se estabelecem com o
sociedade cearense. aparecimento, em 1881, da obra realista Memórias Póstumas de Brás Cubas,
Foi chamado ao Rio de Janeiro pelo Ministro da Marinha que reprovou de Machado de Assis, e da naturalista O Mulato, de Aluísio Azevedo,
sua conduta. Em junho de 1889, entrou em gozo de licença e voltou para o influenciados pelo escritor português Eça de Queirós, com as obras O Crime
Ceará para viver com Isabel. Transferiu-se com a mulher para o Outeiro, lugar do Padre Amaro (1875) e Primo Basílio (1878).
mais distante, nas cercanias de Fortaleza.
No entanto, novamente, foi chamado pelo Ministro da Marinha e,
daquela vez, o caso se resolveu pela maneira mais dramática: na iminência de CARACTERlsTICAS
ser mandado para a Europa, negou-se a partir e, em 15 de fevereiro de 1890, A literatura realista e naturalista surge na França com Flaubert (1821-
foi oficialmente desligado da Armada. 1880) e Zola (1840-1902). Flauberté o primeiro escritora pleitar para a prosa a
No Ceará, junto de sua mulher, Caminha conseguiu modesto emprego preocupação científica com o intuito de captar a realidade em toda sua crueldade.
de escriturário de Tesouro Nacional, permanecendo ali até fins de 1892, sempre Para ele, a arte é impessoal e a fantasia deve ser exercida por meio da
cercado de hostilidade do meio social de sua terra, ao qual ele respondia com observação psicológica, enquanto os fatos humanos e a vida comum são
altivez, isolando-se e entregando-se a uma crescente misantropia. Durante o documentados, tendo como fim a objetividade. O romancista fotografa
tempo em que morou no Ceará, produziu intensamente. Lutou contra a apatia minuciosamente os aspectos fisiológicos, patológicos e anatômicos, filtrando
reinante no meio literário e lançou, em janeiro de 1981, a Revista Moderna, na pela sensibilidade o real.
qual manteve a seção "Notas e impressões", criticando as obras recebidas e Contudo, a escola realista atinge seu ponto máximo com o Naturalismo,
os acontecimentos sociais locais. Com outros intelectuais fundou a Padaria direcionado pelas idéias materialísticas. Zola, por volta de 1870, busca aprofundar
Espiritual, que se dedicava a difundir as idéias realistas-naturalistas na província. o cientificismo, aplicando-Ihe novos princípios, negando o envolvimento pessoal
Em 1893, transferiu-se com a familia para o Rio de Janeiro, onde do escritor que deve, diante da natureza, colocar a observação e experiência
dedicou-se, de maneira integral, à literatura, crítica literária e jomalismo. acima de tudo. O afastamento do sobrenatural e do subjetivo cede lugar à
Publicou no Rio de Janeiro os romances A Normalista (1893) e observação objetiva e à natureza sempre, aplicadas ao estudo da
Bom-Crioulo (1895), livros que, apesar de já brilharem os natureza, orientando toda busca de conhecimento.
naturalistas, abalam os leitores: são considerados libidinosos, portanto, Vindo da Europa com tendências ao universal, o Realismo acaba,
inteiramente nocivos à moral e aos bons costumes. , aqui, modificado por nossas tradições e, sobretudo, pela intensificação das
A literatura representou, para o naturalista Adolfo Caminha, a arma de contradições da sociedade, reforçadas pelos movimentos republicano e
que necessitava para denunciara sociedade hipócrita de seu tempo. Tal ousadia abolicionista, intensificadores do descompasso do sistema social. O
custou-lhe caro: foi ignorado pela crítica e seu reconhecimento como homem conhecimento sobre o ser humano amplia-se com o avanço da ciência e os
das letras é fato relativamente novo. Morreu aos 29 anos, atacado pela tuberculose, estudos passam a ser feitos sob a ética da Psicologia e da Sociologia. A Teoria
doença incurável à época. da Evolução das Espécies de Darwin oferece novas perspectivas com base
científica, concorrendo para o nascimento de um tipo de literatura mais engajada,
impetuosa, renovadora e preocupada com a linguagem.

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Os temas, opostos àqueles do Romantismo, não mais engrandecem RESUMO DA OBRA
os valores sociais, mas os combatem ferozmente. Aambientação dos romances
Amaro, o Bom-Crioulo, é um ex-escravo, ainda num tempo em que a
se dá, de preferência, em locais miseráveis, localizados com precisão, os Abolição não fora proclamada, aos dezoito anos, ingressa na marinha.
casamentos são substituídos pelo adultério; os costumes são descritos "Inda estava longe, bem longe a vitória do abolicionismo, quando Bom-
minuciosamente com reprodução da linguagem coloquial e regional.
Crioulo, então simplesmente Amaro, veio, ninguém sabe donde, metido em
O romance sob a tendência naturalista manifesta preocupação social
roupas d'algodãozinho, trouxa ao ombro, grande chapéu de palha na cabeça e
e focaliza personagens vivendo em extrema pobreza, exibindo cenas chocantes.
alpercatas de couro cru. Menor (teria dezoito anos), ignorando as dificuldades
Sua função é de crítica social, denúncia da exploração do homem pelo homem
por que passa todo homem de cor em um meio escravocrata e profundamente
e sua brutalização.
superficial como era a Corte - ingênuo e resoluto, abalou sem ao menos
A hereditariedade é vista como rigoroso determinismo a que se pensar nas conseqüências da fuga."
submetem as personagens, subordinadas, também, ao meio que Ihes molda a Bom-Crioulo torna-se hábil marinheiro, dedicado ao trabalho, vendo
ação, ficando entregues à sensualidade, à sucessão dos fatos e às circunstâncias
na pesada atividade uma situação muito melhor que antes: afinal, era livre e "a
ambientais. Além de deter toda sua ação sob o senso do real, o escritor deve disciplina militar, com todos os seus excessos, não se compara ao
ser capaz de expressar tudo com clareza, demonstrando cientificamente como
penoso trabalho da fazenda, ao regime terrível do tronco e do chicote".
reagem os homens quando vivem em sociedade. Além disso, "ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram
Os narradores dos romances naturalistas têm como traço comum a iguais, tinham as mesmas regalias."
onisciência que Ihes permite observar as cenas diretamente ou por meio de Os oficiais o estimavam pelo caráter bom e modos ingênuos, por isso
alguns protagonistas. Privilegiam a minúcia descritiva, revelando as reações
é que recebeu o apelido de Bom-Crioulo. (É possível perceber que, se há
extemas das personagens, abrindo espaço para os retratos literários e a descrição
"crioulo bom", tal fato remete à concepção de que a cor da pele não era bem
detalhada dos fatos banais numa linguagem precisa. vista: resquícios da marginalidade em que viveram os escravos).
Embora fossem contemporâneos e muitas vezes tenham se Ganhou fama, na marinha, de negro forte, determinado, puro múscu-
"interpenetrado", o Realismo e o Naturalismo apresentam diferenças no enfoque los, embora de caráter brando. Viajou o mundo afora, embarcado a serviço.
dado ao tratamento dos assuntos e características próprias. Assim, pode-se Entretanto, durante uma viagem em que fora nomeado gajeiro
dizer que no Realismo as personagens são mais "humanizadas", enquanto no (encarregado) de proa, tomou contato com a cachaça. Nessas horas, saía de
Naturalismo ocorre uma espécie de "zoomorfização" das personagens: si, ficava violento de tal forma que os demais o temiam.
degradadas à categoria de animais, sem drama moral, movidas por instintos.
Nessa viagem conheceu o grumete Aleixo:
"Sua amizade ao grumete nascera. de resto, como nascem todas as
ENREDO grandes afeições, inesperadamente, sem precedentes de espécie alguma, no
O enredo de Bom-Crioulo baseia-se num fato real, que causou momento fatal em que seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse movimento
escândalo no Rio de Janeiro, no século XIX, e enfoca a questão da escravidão indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários,
por meio de uma abordagem abolicionista e republicana. Atende, assim, à determinando o desejo da posse mútua, essa atração animal que faz o homem
postura de engajamento proposta pela estética naturalista: o compromisso com escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho para a
a análise, a crítica e a denúncia social. fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela primeira
A crítica e a denúncia se fazem, principalmente, por intermédio dos vez com o grumetezinho. Nunca experimentara semelhante cousa, nunca
problemas vividos pelo protagonista, Amaro, que é marginalizado por uma homem algum ou mulher produzira-lhe tão esquisita impressão, desde que se
estrutura social injusta, preconceituosa e hipócrita devido à sua cor. conhecia! Entretanto, o certo é que o pequeno, uma criança de quinze anos,
Narrada em terceira pessoa, a ação tem início com uma descrição, abalara toda a sua alma, dominando-a, escravizando-a logo, naquele mesmo
obedecendo ao que preceitua a estética naturalista: instante, como a força magnética de uma ímã."
"Marinheiros conversavam à proa, sentados uns no castelo, outros em Passou a dar conselhos ao jovem sobre a vida do marinheiro: que não
pé, colhendo cabos ou estendendo roupa ao sol, tranqüilamente, esquecidos da se metesse em brigas.
faina. As chapas dos mastros, a culatra das peças, varais de escotilha, tudo Mas ele próprio, Amaro, quando serve num cruzador chegado da
quanto é aço e metal amarelo reluz fortemente, encandeando a vista." Europa, sob as ordens do comandante Varela, ao ser punido, questiona a
Amaro, o Bom-Crioulo, é um jovem escravo fugido que se alista autoridade do chefe. Aleixo não saía de sua cabeça:
como marujo e impressiona todos por sua incomum massa muscular, além de "Nas horas de folga, no serviço, chovesse ou caísse fogo em brasa do
sua simpatia e disposição para o trabalho. céu, ninguém lhe tirava da imaginação o petiz: era uma perseguição de todos os
Fracassos sexuais com mulheres, e sobretudo impulsos fisiológicos instantes, uma idéia fixa e tenaz, um relaxamento da vontade irresistivelmente
incontroláveis, levam-no a apaixonar-se por Aleixo, um jovem grumete loiro de dominada pelo desejo de unir-se ao marujo como se ele fora o outro sexo, de
apenas quinze anos. Esse aceita o assédio de Amaro e quando estão em terra, possuí-Io, de tê-Io a si, de amá-Io, de gozá-Io. Ao pensar nisso, Bom-Crioulo
vivem juntos num quartinho sórdido de uma casa de cômodos. transfigurava-se de um modo incrível, sentindo ferroar-Ihe a carne, como a
Enlouquecido de paixão, o Bom-Crioulo torna-se péssimo marinheiro, ponta de um aguilhão, como espinhos de urtiga brava, esse desejo veemente
mete-se em confusões e é removido para outro navio. uma sede tantálica de gozo proibido, que parecia queimar-lhe por dentro as
Após a transferência de Amaro, passam a se desencontrar e o amante visceras e os nervos."
adolescente, então, é seduzido pela dona da casa de pensão, Amaro estava devastadoramente arrebatado pela paixão homossexual.
Dona Carolina, que, apesar de quarentona, também deseja Aleixo Jeitosamente, aproxima-se deAleixo. Tornam-se amantes:
ardentemente. "Depois de um silêncio cauteloso e rápido, Bom-Crioulo, aconchegando-
Ao descobrir a traição, Bom-Crioulo foge do hospital de onde se ao grumete, disse-Ihe qualquer cousa no ouvido. Aleixo conservou-se imóvel,
convalescia de um castigo físico, ordenado pelo oficial de sua embarcação, e sem respirar. Encolhido, as pálpebras cerrando-se instintivamente de sono,
assassinaAleixo, em plena rua, sendo preso de imediato. ouvindo, com o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa; não
No romance, o relacionamento de Aleixo e Amaro é retratado como teve ânimo de murmurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil
outro qualquer e Aleixo é sempre descrito como "feminino", tornando-se e uma promessas de Bom-Crioulo: o quartinho da Rua da Misericórdia no Rio
"masculino" só após algum tempo como amante de Dona Carolina. de Janeiro, os teatros, os passeios ... ; lembrou-se do castigo que o negro
Se somados a morbidez do amor homossexual de Amaro, seus sofrera por sua causa, mas não disse nada.Uma sensação de ventura infinita
ciúmes, seu tormento íntimo e seus ímpetos assassinos à descrição precisa da espalhava-se-Ihe em todo o corpo. Começava a sentir no próprio sangue
vida no mar e às cenas terríveis de sadismo dos oficiais da Marinha de Guerra impulsos nunca experimentados, uma como vontade ingênita de ceder aos
do Brasil (mandando os marujos para a chibata) têm-se, em o Bom-Crioulo, caprichos do negro, de abandonar-se-Ihe para o que ele quisesse uma vaga
o romance de atmosfera mais sufocante e opressiva do século XIX, no país. distensão dos nervos, um prurido de passividade ...
-Ande logo! Murmurou apressadamente, voltando-se.
E consumou-se o delito contra a natureza."
O narrador é, sob certa ótica, brutal quando narra tais fatos. Não poupa •
o leitor, não sugere: ele descreve os acontecimentos, como naturalista que é.

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•••.m
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Ao aportarem no Rio de Janeiro, Bom-Crioulo procura sua amiga "Bateu à porta e começou a se despir a toda pressa, diante deAleixo,
Dona Carolina e, num sobradinho da Rua da Misericórdia, encontra para ele e enquanto ele deixava-se estar imóvel, muito admirado para essa mulher-homem
Aleixo um quartinho aconchegante. Estava feliz o Bom-Crioulo: que o queria deflorar ali assim, torpemente como um animal."
"Bom-Crioulo, desde a primeira noite dormida no sobradinho, começou ( ... )
a experimentar uma delícia muito íntima, assim como um recolhido gozo espiritual "Ela, de ordinário tão meiga e tão comedida, tão escrupulosa mesmo,
certo amor à vida obscura daquela casa onde ultimamente ninguém ia, e que aparecia-lhe agora como um animal formidável, cheio de
era o seu querido valhacouto de marujo em folga, o doce remanso de sua alma sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada,
voluptuosa. Não sonhava melhor vida, aconchego mais ideal: o mundo para que se atira ao macho antes que ele prepare o bote ...
ele resumia-se agora naquilo: um quartinho pegado às telhas, oAleixo, e ... Era incrível aquilo!
nada mais! Enquanto deus lhe conservasse o juízo e a saúde, não desejava Amulher só faltava urrar.!"
outra coisa." Aqui está formado o triângulo amoroso que culminará na morte de
Amaro enchia o quartinho de enfeites e, ao amanhecer, estendia sobre Aleixo.
a cama de vento um grosso cobertor para "ocultar as nódoas". Amaro não estava feliz no couraçado, que ele julgava uma prisão de
Por meses e meses levou uma vida absolutamente em ordem. Com aço "que lhe consumia o tempo, e cuja disciplína um horror de trabalho,
Aleixo também a vida ia certa e boa, exceto "Uma coisa desgostava ao privava-o de ir a terra hoje sim e amanhã não, como nos outros navios".
grumete: os caprichos libertinos do outro. Porque Bom-Crioulo não se Estava infeliz longe deAleixo a quem amava e desejava e de quem sentia falta.
contentava em possuí-Io a qualquer hora do dia ou da noite, queria Tinha ódio aos superiores, como um bicho encurralado. Seu modo de
muito mais, obrigava-o a excessos, fazia dele um escravo, uma 'mulher agir metia medo aos oficiais que temiam deixá-Io ir a terra e arranjar brigas.
à-toa' propondo quanta extravagância lhe vinha à imaginação. Logo na Evitavam que ele pudesse descer e promover toda sorte de animalidades.
primeira noite exigiu que ele ficasse nu, mas nuzinho em pêlo: queria Insatisfeito e revoltado no couraçado, Amaro sonha desertar e fugir
ver o corpo ... como o amante. Vale-se de um expediente para rever Aleixo: oferece-se para
Aleixo amuou: aquilo não era coisa que se pedisse a um homem!" remar no escaler que fará compras e, ao desembarcar, alegando uma desculpa,
A portuguesa, D. Carolina, dava carinhos a Aleixo, chamando-o de foge até seu quartinho em casa de D. Carolina. Encontra tudo em desordem e
"bonitinho", cuidando bem dele, admirando-lhe a aparência sempre limpa, desconfia, Aleixo não está e D. Carolina mente, dizendo que o moço quase não
perfumado e vistoso. tem aparecido.
Como o navio estava atracado, Amaro e Aleixo podiam descer a terra Depois de esperar, em vão, por Aleixo, o Bom-Crioulo sai, bebe e
e estavam sempre no quartinho. Os três, Amaro, dona Carolina e Aleixo, arranja confusão; vai preso para o navio e é chicoteado e levado para um
passavam a formarfamília, falavam sobre tudo, riam-se. Dona Carolina gracejava hospital.
sobre o romance deles: Aleixo, em dia de folga, vai ver dona Carolina, louco de desejo pela
"Vocês acabam tendo filho ..." portuguesa. Ela estava feliz com o jovem amante: "o grumete, por sua vez,
Entretanto, Bom-Crioulo começou, repentinamente, a emagrecer, a experimentava o que experimentaria qualquer adolescente - uma
achar-se fraco e com dor no peito, sonolento após qualquer esforço. Seu afeto tendência fatal para a portuguesa, um forte desejo de possuí-Ia sempre,
ao menino já não era lúbrico nem ardente. Havia paz dentro dele: confiava em sempre, a toda hora, uma vontade irresistível de mordê-Ia, de cheirá-Ia,
Aleixo, pois já estavam juntos há um ano. de apalpá-Ia num frenesi de gozo, num ímpeto selvagem de novilho
Então, Amaro é transferido para outro navio, um couraçado, "um de insaciável."
aço, muito conhecido pelo seu maquinismo complicado e pela sua Toda a noite amavam-se como dois bichos. À mente deAleixo, vinha
formidável artilharia; belo conjunto de forças navais, que fazia desse a figura de Amara: era-lhe grato, embora reconhecesse nele sinais de bestialidade.
encouraçado um dos mais poderosos do mundo", onde há "um horror Queria varrê-Io da imaginação, arrancar aquele homem de seus pensamentos.
de trabalho" e sente profunda revolta contra seus superiores. Amaro não gosta O que o grumete e a portuguesa não sabiam é que Amara estava hospitalizado.
da noticia: iria ter de separar-se do grumete: No hospital, Bom-Crioulo passava os dias tristemente, pensando em
"Renasciam-lhe os zelos: aquela separação brusca e inesperada irritava- Aleixo, recordando os dias felizes que estivera ao lado dele.
o, acordando no fundo de sua alma um egoísmo exacerbado, uma desconfiança Enquanto cicatrizavam nele os estragos da chibata, crescia o ódio
vaga no futuro. - É verdade que o grumete já não era mais criança para se surdo por tudo ao redor: enfermeiros, superiores, oficiais, companheiros. Insultava
deixar iludir, mas, meu amigo, podia o rapaz se entusiasmar por algum oficialzinho os médicos. O seu único consolo era olhar uma fotografia de Aleixo.
bonito, e, adeus, Bom-Crioulo!..." Afinal, pediu a um funcionário do hospital que escrevesse um bilhete
Amaro tem apenas uma folga por mês, devido à sua fama de briguento ao rapaz. Mas a resposta não chegava. Quase enlouquecido, o Bom-Crioulo
e indisciplinado. "Espojava-se na cama, de um lado para o outro, abafado, sem ar que
Enquanto isso, D. Carolina sente por Aleixo uma irresistivel atração e lhe enchesse os pulmões, numa terrível crise de nervos, como se
decide seduzi-Io, e consegue. Na verdade, durante a ausência de Bom-Crioulo, estivesse a lutar com fantasmas, ora repuxando os lençóis, ora
D. Carolina empreendera um verdadeiro processo de sedução de Aleixo, até descobrindo-se todo na agonia de uma formidável dispnéia. -
que, um dia, o ataca realmente. O grumete gosta da experiência e pensa que Abandonado, ele! Abandonado por aquele que o devia estimar como a
seria uma felicidade nunca mais ver "o negro": um pai! Abandonado por Aleixo, pelo seu querido Aleixo ... "
"Há dias metera-se-Ihe na cabeça uma extravagância: conquistar Aleixo, Acaba sabendo, por um marinheiro, do caso entre Aleixo e D. Carolina:
o bonitinho, toma-Ia para si, tê-Ia como amantezinho do seu coração avelhentado "Amigado, oAleixo! Amigado, ele que era todo seu, que lhe pertencia
e gasto, amigar-se com ele secreta mente, dando-lhe tudo quanto fosse preciso: como o seu próprio coração; ele, que nunca lhe falara em mulheres, que dantes
roupa, calçados, almoço e jantar nos dias de folga - dando-lhe tudo, enfim. era tão ingênuo, tão dedicado, tão bom!"
Era uma esquisitice como qualquer outra: estava cansada de aturar Amaro sai do hospital e vai à procura de Aleixo.
marmanjos. Queria, agora, experimentar um meninote, uma criançola sem Olha, de longe, o sobradinho:
barba, que lhe fizesse todas as vontades. Nenhum melhor que Aleixo, cuja 'Veio-lhe um não sei quê, uma saudade, como uma cousa que lhe
beleza impressionara-a desde a primeira vez que se tinham visto. Aleixo entrasse n'alma, a dor de uma ingratidão muito velha, quase apagada. Sim, a
estava mesmo a calhar: bonito, forte, virgem talvez ..." dor de uma ingratidão: ali é que ele se juntara ao outro com uma confiança de
( ... ) noivos; ali é que ele tinha passado o melhor da sua vida; ali é que ele tinha
"Mas Aleixo sabia, por Bom-Crioulo, até onde chega a animal idade aprendido a amar, a 'querer bem'.
humana e, passado o primeiro momento de surpresa, sentiu que também era ( ... )
feito de carne e osso, como o negro, e D. Carolina - Valia a pena decerto uma Enchiam-se-Ihe os olhos d'água, turvava-se-Ihe a vista, nem era bom
noite como aquela!" pensar ...
"O efebo teve um arranco de novilho excitado ..." Bom-Crioulo sentia-se mais do que abandonado, mais do que nunca
( ... ) lhe doía fundo o desprezo do grumete, esse desprezo calculado, proposital,
voluntário, com que Aleixo o esmagava, o ludibriava impunemente:

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Foi à padaria perguntar por dona Carolina e por Aleixo, uma vez que Nesse tempo, o 'negro fugido' aterrava as populações de um modo
o sobradinho permanecia fechado; e soube pelo português que dona Carolina e fantástico. Dava-se caça ao escravo como aos animais, de espora e garrucha,
o Aleixo saíam à noite, levantavam-se tarde todos os dias: "Dizem até que mato adentro, saltando precipícios, atravessando rios a nado, galgando montanhas
está amigada com o pequeno." ,
Foi quando viu Aleixo sair. Precipitou-se sobre ele, xingando-o, Registra-se, por outro lado, a ocorrência do monólogo interior das
agarrando-lhe o braço de maneira desafiadora. Houve um tumulto, gritos. E personagens, o que enfatiza o estado emocional deles. Esse recurso possibilita
quando dona Carolina chegou à janela do dobrado, viu o rapazinho ensangüentado ao leitor a apreensão do verdadeiro estado de espirito da personagem e também
"levado como um fardo, o corpo mole, a cabeça pendida para trás, roxo, os a compreensão das diferenças entre os sentimentos e as atitudes:
olhos imóveis, a boca entreaberta." "Metidos em ferros no porão, Bom-Crioulo não deu palavra.
Enquanto Aleixo era levado nos braços por dois marinheiros, já morto Admiravelmente manso, quando se achava em seu estado normal, longe de
a navalhadas, o Bom-Crioulo seguia rua abaixo, preso pelos guardas. qualquer influência alcoólica, submeteu-se à vontade superior, esperando,
"Ninguém se importava com "o outro", com o negro, que lá ia, rua resignado, o castigo. Reconhecia que fizera mal, que devia ser punido, que era
abaixo, triste e desolado, entre baionetas, à luz quente da manhã: todos, porém, tão bom quanto os outros, mas, que diabo! Estava satisfeito: mostrara ainda
queriam 'ver o cadáver', analisar o ferimento, meter o nariz na chaga ... uma vez que era homem ... Depois estimava o grumete e tinha certeza de o
Mas, um carro rodou, todo lúgubre, todo fechado, e a onda dos curiosos conquistar inteiramente, como se conquista uma mulher formosa, uma terra
foi se espalhando, se espalhando, até cair tudo na monotonia habitual, no etemo virgem, um país de ouro ... Estava satisfeitíssimo."
vaivém." Os discursos empregados pelo narrador são, principalmente, o discurso
Consuma-se, dessa forma, um crime passional, direto e o indireto livre, com menor incidência para o discurso indireto, já que
esse distancia a fala das personagens.
ESTRUTURA ELINGUAGEM DO TEXTO "-Agor::\. D. Carolina vai nos arranjar um quartinho, mesmo que seja
o romance Bom-Crioulo está dividido em doze capítulos numerados no sótão, rematou; mas um quartinho sem luxo, para quando viermos à terra.
e sem títulos. - Uma cama ou duas? Perguntou a quarentona.
O ritmo da linguagem, que assume o tom coloquial, muito próximo da - Como quiser ... Marinheiro é gente que dorme aos quatro, aos cinco ...
prosa (característica no naturalismo) chama a atenção do leitor: aos cinqüenta! Se houvesse uma caminha larga ...
"O Bom-Crioulo desembarcou, a pretexto de 'fazer uma necessidade', - Arranja-se, meu Deus, arranja-se, tornou a portuguesa, O
prometendo voltar logo. comodozinho de cima está desocupado, e, quer que lhe diga?, eu acho que
- Era um pulo: ficavam melhor. ..

"entrou pelo dia com ares de quem não quer se incomodar, o semblante O discurso indireto livre aparece em abundância no romance, pelo fato
carregado numa sombria expressão de aborrecimento, falando pouco e em tom de o narrador -onisciente captar o fluxo do pensamento da personagem protagonista
grosseiro, ameaçando: - que o deixassem, que o deixassem; não queria Amaro:
brincadeira; ainda rachava a cabeça dum!" "Maldita a hora em que o pequeno pusera os pés a bordo! Até então sua
No entanto, a linguagem coloquial- típica das falas das personagens, vida ia correndo como Deus queria, mais ou menos calma, sem preocupações
seres do povo -, cede lugar a uma linguagem surpreendemente sofisticada, incômodas, ora triste, ora alegre, é verdade, porque não há nada firme no
quando o narrador toma as rédeas da narrativa: mundo, mas, enfim, ia-se vivendo ... E agora? Agora ... hum, hum!. .. agora não
"O domingo amanhecia esplêndido e preguiçoso numa soberba havia remédio: era deixar o pau correr. .."
ostentação de azul, fresco e transparente. As montanhas da baia, o Pão d'Açúcar,
os Órgãos, e, lá longe, o Corcovado, sem um floco de nuvem no topo, "Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua
desenhavam-se na eterallimpidez do ar calmo, davam à vista uma doce roupa limpa, e comia bem, a se fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne
impressão de aquarela." cozida, amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com
Na obra, é valorizada a ação exterior, com destaque para cenas pimenta e "sangue de Cristo" ... Para que vida melhor? Depois, a liberdade,
verdadeiramente cinematográficas, como os momentos de briga de rua, de luta minha gente, só a liberdade valia por tudo."
para controlar a embarcação em dia de tempestade ou a cena dos castigos A história quase se narra por si, pela exposição direta dos fatos, que
corporais a que eram submetidos os marinheiros que infringiam o regulamento. vão montando a estrutura narrativa, ou seja, a história das três personagens
Merecem o mesmo tratamento as cenas de sexo, que são interrompidas ou não envolvidas num caso de amor: Amaro, Carolina e Aleixo.
chegam a minícias explícitas em virtude da moral social que também atinge o O narrado r relata os episódios de forma crua, impessoal, distante, no
escritor e sua preocupação com a reação do leitor. sentido de que não é opinativo. Contudo, não deixa escapar as minúcias das
Embora o Naturalismo valorize mais a ação externa e o Realismo a ações. A questão do homossexualismo em Bom-Crioulo prioriza a
ação psicológica, interior, observam-se, no romance, vários monólogos interiores, demonstração da relação amorosa, humana, inerente ao ser, em detrimento de
tanto de Amaro quanto de Aleixo, para captar e revelar seus conflitos e seus uma explicação da patologia sexual.
momentos de mudança de atitude.
TEMPO NARRATIVO
FOCO EDISCURSO NARRATIVO Predomina, na obra, o tempo cronológico, a narração linear. O tempo
Bom-Crioulo é narrado em terceira pessoa, por um narrador da história coincide com o momento da escritura da obra: a segunda metade do
onisciente e impessoal que busca não se confundir com a história, nem com as século XIX. Tal expediente atende à proposta contemporaneísta da corrente
personagens. O narrador conta os fatos de modo linear, gradativo, utilizando-se realista-naturalista.
de uma linguagem clara, direta e objetiva. A linearidade, no entanto, é rompida vez ou outra com a inserção de
Dessa forma, relata de maneira objetiva os acontecimentos, faz a denúncia alguns flash-back (quando o narrador resgata o passado de Amaro),
social de maneira isenta e irnpessoal. Apenas de vez em quando pode-se rememorações ou digressões. Entretanto, essas ocorrências não quebram a
observar um ou outro trecho em que observamos uma opinião menos isenta referida linearidade e o romance, portanto, deve ser considerado cronologicamente
desse narrador. disposto.
'lnda estava longe, bem longe a vitória do abolicionismo, quando Bom- "Inda estava longe, bem longe a vitória do abolicionismo, quando Bom-
Crioulo, então simplesmente Amaro, veio, ninguém sabe donde, metido em Crioulo, então simplesmente Amaro, veio, ninguém sabe donde, metido em
roupas d'algodãozinho, trouxa ao ombro, grande chapéu de palha na cabeça e roupas d'algodãozinho, trouxa ao ombro, grande chapéu de palha na cabeça e
alpercatas de couro cru. Menor (teria dezoito anos), ignorando as dificuldades alpercatas de couro cru. Menor (teria dezoito anos), ignorando as dificuldades
por que passa todo homem de cor em um meio escravocrata e profundamente por que passa todo homem de cor em um meio escravocrata e profundamente
superficial como era a Corte - ingênuo e resoluto, abalou sem ao menos superficial como era a Corte".
pensar nas conseqüências da fuga. "Nesse tempo o 'negro fugido' aterrava as populações de um modo
fantástico. Dava-se caça ao escravo como aos animais, de espora e garrucha, _
mato adentro, saltando precipícios, atravessando rios a nado, galgando

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-
montanhas ... Logo que o fato era denunciado - aqui-del-rei! - enchiam-se as o ambiente de bordo é marcado pelo trabalho exaustivo e por uma
florestas de tropel, saiam estafetas pelo sertão num clamor estranho, medindo vida sem privacidade, o que possibilita a explosão das mais diversas perversões:
pegadas, açulando cães, rompendo cafezais. Até fechavam-se as portas, com "O convés, tanto na coberta como na tolda, apresentava o aspecto de
medo ... Jornais traziam na terceira página a figura de um "moleque" em fuga, um acampamento nômade. A marinhagem, entorpecida pelo trabalho, caíra
trouxa ao ombro, e, por baixo, o anúncio, quase sempre em tipo cheio, minucioso, numa sonolência profunda. Espalhada por ali ao relento, numa desordem geral
explícito, com todos os detalhes, indicando estatura, idade, lesões, vícios, e de ciganos que não escolhem terreno para repousar. Pouco lhe importavam o
outros característicos do fugitivo. Além disso, o "proprietário" gratificava chão úmido, as correntes de ar, as constipações, o beribéri. Embaixo era maior
generosamente a quem prendesse o escravo. o atravancamento. /. ../ No intervalo das peças, na meia escuridão dos
Conseguindo, porém, escapar à vigilância dos interessados, e depois recôncavos moviam-se corpos seminus, indistintos. Respirava-se um odor
de curtir uma noite, a mais escura de sua vida, numa espécie de jaula com nauseabundo de cárcere, um cheiro acre de suor humano diluído em urina e
grades de ferro, Amaro, que só temia regressar à "fazenda", voltar ao seio da alcatrão. Negros, de boca aberta, roncavam profundamente, contorcendo-se na
escravidão, estremeceu diante de um rio muito largo e muito calmo, onde havia inconsciência do sono Viam-se torsos nus abraçando o convés, aspectos
barcos vogando em todos o sentidos, à vela, outros deitando fumaça, e lá cima, indecorosos que a luz evidenciava cruelmente."
beirando a água, um morro alto, em ponta, varando as nuvens, como ele nunca O ajuntamento de homem favorece a promiscuidade entre indivíduos que
tinha visto ... vivenciam a solidão da redusão da vida no mar e que, principalmente, sentem a falta
Depois mandaram-no tirar a roupa do corpo (até ficou envergonhado ..), de liberdade, vítimas de um sistema duro e cruel- a vida na marinha:
examinaram-lhe as costas, o peito, as virilhas, e deram-lhe uma camisa azul "Mas, havia ordem para não desembarcar, e Bom-Crioulo, como toda
de marinheiro. a guarnição, passou a tarde numa sensaboria, cabeceando de fadiga e sono,
No mesmo dia foi para a fortaleza, e, assim que a embarcação largou ocupado em pequenos trabalhos de asseio e manobras rudimentares. - Diabo
do cais a um impulso forte, o novo homem do mar sentiu pela primeira vez toda de vida sem descanso! O tempo era pouco para um desgraçado cumprir todas
a alma vibrar de uma maneira extraordinária, como se lhe houvessem injetado as ordens. E não as cumprisse! Golilha com ele, quando não era logo metido
no sangue de africano a frescura deliciosa de um fluido misterioso. A liberdade em ferros ...
entrava-lhe pelos olhos, pelos ouvidos, pelas narinas, por todos os poros, Ah! vida, vida!. ..
enfim, como a própria alma da luz, do som, do odor e de todas as cousas Escravo na fazenda, escravo a bordo, escravo em toda parte ...
etéreas ... Tudo que o cercava: a planura da água cantando na proa do escaler, E chamava-se a isso servir à pátria."
o imaculado azul do céu, o perfil longínquo das montanhas, navios balouçando Por esse trecho, nota-se uma crítica implícita à Abolição dos Escra-
entre ilhas, e a casaria imóvel da cidade que ficava atrás - os companheiros vos que parece não passar de uma ilusão, já que os homens oriundos das
mesmo, que iam remando igual, como se fossem um só braço - e sobretudo, camadas mais baixas da população continuam a ser explorados.
meu Deus!, sobretudo o ambiente largo e iluminado da baía: enfim, todo o Num segundo momento, a ação de desloca para a terra, mais exata-
conjunto da paisagem comunicava-lhe uma sensação tão forte de liberdade e mente para um quarto, de uma casa de pensão, na Rua da Misericórdia, onde
vida, que até lhe vinha vontade de chorar, mas de chorar francamente, Amaro e Aleixo, após terem se conhecido no navio, vivem o auge e o declínio
abertamente, na presença dos outros, como se estivesse enlouquecendo ... de seu relacionamento. O espaço cue abriga os dois homossexuais é sempre
Aquele magnífico cenário gravara-se-Ihe na retina para toda a existência; nunca descrito de maneira disfórica (que causa mal-estar).
mais o havia de esquecer, Ó, nunca mais! "O quarto era independente, com janela para os fundos da casa, espécie
Ele, o escravo, 'o negro fugido' sentia-se verdadeiramente homem, de sótão roído pelo cupim e tresandando a ácido fênico.
igual aos outros homens, feliz de o ser, grande como a natureza, em toda a Nele morrera de febre amarela um portuguesinho recém-chegado. Mas
pujança viril da sua mocidade, e tinha pena, muita pena dos que ficavam na Bom-Crioulo, conquanto receasse as febres de mau caráter, não se importou
"fazenda" trabalhando, sem ganhar dinheiro, desde a madrugadinha té ... sabe com isso, tratando de esquecer o caso e instalando-se definitivamente. Todo o
Deus!" dinheiro era para a compra de móveis e objetos de fantasia rococó, 'figuras,
Esse trecho, início do segundo capítulo do romance, é um flash-back, enfeites, cousas sem valor, muita vez trazidas de bordo .., pouco a pouco o
que interrompe a narrativa linear, cronológica do livro a fim de introduzir o pequeno 'cômodo' foi adquirindo uma feição nova de bazar hebreu, enchendo-
passado da personagem principal, Amara, e seus primeiros sonhos: a se de bugigangas, amontoando-se de caixas vazias, búzios, grosseiros e
possibilidade de usufruir da liberdade, o que mais tarde se revelará um engodo. outros acessórios omamentais. O leito era uma cama de vento' já muito usada,
sobre a qual o Bom-Crioulo tinha o zelo de estender, pela manhã, quando se
ESPAÇO NARRATIVO levantava, um grosso cobertor encarnado "para ocultar as nódoas"."
Aação do romance desenvolve-se em dois espaços: no mar, a bordo O espaço aberto - o mar -, que não pertence a Amaro, contrasta
de uma corveta, e na Rua da Misericórdia, localizada nos subúrbios do Rio de com o quartinho sórdido que lhe serve de morada e em que ocorrem as
Janeiro. Ora se apresenta como espaço aberto mazelas de uma vida promíscua com seu companheiroAleixo. Às condições
- de manhãs claras, muita luz e vento - ora fechado, em espacialidades miseráveis acrescenta-se um dado importante na visão naturalista: homem e
como o quartinho que o Bom-Crioulo alugou para si e para o grumete, ora a meio intrinsecamente ligados.
pensão de dona Carolina.
"A velha e gloriosa corveta - que pena! - já nem sequer lembrava o PERSONAGENS
mesmo navio d'outrora, sugestivamente pitoresco, idealmente festivo, como As personagens de um romance naturalista raramente são dotadas de
uma galera de lenda, branca e leve no mar alto; grimpando serena o corcovo alguma profundidade psicológica. São personagens planas, não evoluem no
das ondas!. .. transcorrer da narrativa, de modo que suas ações apenas confirmam as poucas
Estava outra, muito outra com o seu casco negro, com as suas velas características que as definem.
encardidas de mofo, sem aquele esplêndido aspecto guerreiro que entusiasmava AMARO - protagonista, ex-escravo, bom marinheiro, que consegue
a gente nos bons tempos de patescaria. Vista ao longe, na infinita extensão fama pela força e pela valentia. É extremamente forte, fisicamente. Sua força
azul, dir-se-ia, agora, a sombra fantástica de um barco aventureiro. Toda ela provém do trabalho escravo e do trabalho na Armada, em que se engajara após
mudada, a velha carcaça flutuante, desde a brancura límpida e triunfal das velas ter fugido da fazenda. Tem trinta anos, no início da narrativa. Insatisfeito
té à primitiva pintura do bojo. sexualmente em relação às mulheres, opta por um comportamento homossexual
No entanto ela aí vinha - esquife agourento - singrando águas da quando conhece Aleixo.
pátria, quase lúgubre na sua marcha vagarosa; ela aí vinha, não já como uma A força do negro é realçada pelo narrador, numa das cenas iniciais do
enorme garça branca fiechando a líquida planície, mas lenta, pesada, como se romance, por meio da discrição de uma cena em que Amaro está sendo punido
fora um grande morcego apocalíptico de asas abertas sobre o mar. .." com a chibata:
Por meio dessa descrição minuciosa e da riqueza de detalhes que "- Uma! cantou a mesma voz. - Duas!.., três!. ..
auxiliam a compor o ambiente externo, nota-se como o autor (naturalista) se Bom-Crioulo tinha despido a camisa de algodão, e, nu da cintura para

debruça sobre o meio que terá papel decisivo no comportamento das personagens, cima, numa riquíssima exibição de músculos, os seios muito salientes, as
estando de acordo com as teorias deterministas em vigor na época: espáduas negras reluzentes, um sulco profundo e liso d'alto a baixo no dorso,
as circunstâncias externas determinam o comportamento humano. nem sequer gemia, como se estivesse a receber o mais leve dos castigos.

mEmD~----------------------------------------
Entretanto, já iam cinqüenta chibatadas! Ninguém lhe ouvira um gemido, ânimo de murmurar uma palavra. Viu passarem, como em sonho, as mil e uma
nem percebera uma contorção, um gesto qualquer de dor. promessas de Bom-Crioulo: o quartinho na Rua da Misericórdia no Rio de
Viam-se unicamente naquele costão negro as marcas do junco, umas Janeiro, os teatros, os passeios ..."
sobre outras, entrecruzando-se como uma grande tela de aranha, roxas e Quando Aleixo assume o relacionamento com o negro Amaro, exibe
latejantes, cortando a pele em todos os sentidos." uma postura feminina que se manifesta em todas as suas atitudes, cedendo,
Amaro, ao entrar para a Armada, é descrito como um homem bom: mesmo contra a própria vontade, aos desejos de Amaro:
"seu caráter era tão meigo que os próprios oficiais começaram a tratá- "Estava satisfeita a vontade de Bom-Crioulo. Aleixo surgia-lhe agora
10 por Bom-Crioulo." No entanto, corrompe-se pela vida de bordo, que o em piena e exuberante nudez, muito alvo, as formas roliças de calipígio
escraviza, tanto quanto a vida que levava antes da Abolição: ressaltando na meia sombra voluptuosa do aposento. (...) Nunca vira formas
"Aquele caráter dócil e tolerante, deixara-o ele no alto-mar ou nas terras de homem tão bem torneadas, braços assim, quadris rijos e carnudos como
por onde andara. Agora tratava com desdém os superiores, abusando se esses aqueles ... Faltavam-lhe seios para que Aleixo fosse uma verdadeira mulher!..."
lhe faziam concessões, maldizendo-os na ausência, achando-os maus e Todavia, a relação de Aleixo e Amaro, aos poucos, esfria. Por causa
injustos." da rotina e pela falta de novidades, Aleixo conclui que não vale mais a pena ficar
A mudança de caráter ocorre por influência do meio, traço fundamental com Amaro:
da teoria determinista apregoada pelo Naturalismo. "Sim, que podia esperar ele de Bom-Crioulo? Nada, e no entanto,
ALEIXO - jovem grumete, claro, olhos azuis e baixa estatura. Tem estava sacrificando a saúde, o corpo, a mocidade ... Ora, não valia a pena! (...)
quinze anos, formas rechonchudas e ar provocador. Assentara praça em Santa precisava mudar de vida!"
Catarina, obrigado pelos pais: A partir daí, o jovem marinheiro vai se revelando: à sua fraqueza
"Era filho de uma pobre família de pescadores de Santa Catarina que o física, soma-se sua fraqueza moral manifestada, principalmente, pela inconstância
tinham feito assentar praça em Santa Catarina, e estava se pondo rapazinho." de caráter. Essa inconstância presentifica-se pela indefinição do objeto sexual:
Mas, "Aleixo estava satisfeitíssimo com a vida que ia levando Amaro - Carolina. Não lhe importa qual seja o sexo de seus amantes, desde
naquele céu aberto da corveta, querido, estimado por todos, invejado que as relações lhe ofereçam vantagens.
por meia dúzia. Nada lhe faltava, absolutamente nada. Era mesmo uma Demonstrando falta de gratidão, e mesmo nenhuma fidelidade aAmaro,
espécie de principezinho entre os camaradas, o "menino bonito" dos o grumete deixa-se envolver por D. Carolina, que também lhe proporciona
oficiais, que o chamavam de "boy". Habituando-se depressa àquela mais regalias:
experiência erradia, foi perdendo o acanhamento, a primitiva timidez, e "Quando Aleixo vinha de bordo, nada lhe faltava naquele pobre
quem o visse agora, lesto e vivo, acudindo à manobra, muito asseado sobradinho da Rua da Misericórdia. Tudo era guardado para o seu formoso
sempre na sua roupa branca, o boné de um lado, a camisa um marinheirito: eram frutas, doces, comidas especiais, quitutes à portuguesa,
poucochinho decotada na frente, deixando ver a cova do pescoço, isso, aquilo, aquilo outro ..."
ficava lhe querendo bem, estimava-o deveras. O caráter de Aleixo é notado claramente no episódio em que, numa
Essa metamorfose rápida e sem transição perceptível foi obra de Bom- cena de ciúme, ele proíbe D. Carolina de ver o açougueiro, que ainda pagava
Crioulo, cujos conselhos triunfaram sem esforço no ânimo do grumete, abrindo- pelos favores da portuguesa. D. Carolina promete romper com o amante, mas
lhe na alma ingênua de criançola o desejo de conquistar simpatias, de atrair a conclusão do narrador é clara:
sobre a sua pessoa a atenção de todos." "Mas a verdade é que, se o açougueiro não continuasse a
Aiebo, talvez por seu jeito indefeso, foi a primeira pessoa a conseguir fornecer carne e a pagar o aluguel do sobradinho, tanto ele
penetrar na solidão em que Amaro vivia. Em vista disso, é possível perceber (Aleixo) quanto a portuguesa teriam renunciado àquele
que não era somente um ímpeto sexual que os unia, era a paixão embriagante, amor. "
plena: É evidente, portanto, que a relação entre o jovem marinheiro e a
"Sua amizade ao grumete nascera, de resto, como nascem todas as portuguesa é determinada por mútuos interesses. Mais uma vez, Aleixo incorpora-
grandes afeições, inesperadamente, sem precedentes de espécie alguma, no se a essa nova relação, de tal forma que suas atitudes passam a ser enfocadas
momento fatal em que seus olhos se fitaram pela primeira vez. Esse movimento por um viés masculino.
indefinível que acomete ao mesmo tempo duas naturezas de sexos contrários, A experiência com Amaro e a observação de vida de D. Carolina
determinando o desejo fisiológico da posse mútua, essa atração animal que faz fazem que Aleixo se deixe levar pelos costumes locais, fazendo parte de um
o homem escravo da mulher e que em todas as espécies impulsiona o macho jogo em que todos podem lucrar uns com os outros, mesmo que para isso
para a fêmea, sentiu-a Bom-Crioulo irresistivelmente ao cruzar a vista pela tenham de negociar o próprio corpo.
primeira vez com o grumetezinho. Nunca experimentara semelhante impressão, Mergulhado em seu egoísmo, pensando somente em si mesmo, Aleixo
desde que se conhecia! é incapaz de perceber o que sua atitude de descaso para com Amaro pode
Entretanto, o certo é que o pequeno, uma criança de quinze anos, causar:
abalara toda a sua alma, dominando-a, escravizando-a logo, naquele mesmo "Mais tranqüilo agora sem receio de que Bom-Crioulo o procurasse
instante, como a força magnética de um imã." para uma vingança, identificado com a portuguesa, esquecido mesmo de certas
Entretanto, a fascinação amorosa por parte de Aleixo esmorece tão coisas que o faziam tímido e medroso, Aleixo ia passando uma vida regalada,
10ngoAmaro tem de voltar ao trabalho de bordo. Cada vez mais distantes, os ora em terra, ora a bordo da corveta."
encontros entre eles rareiam. A autoconfiança de Aleixo e sua ignorância da força da paixão que
Aleixo é, na narrativa, o oposto de Amaro: branco, fisicamente fraco e movia Amaro, levaram-no a ser vítima de um ato passional.
pueril, subjugado pelas circunstâncias e por quem lhe é mais forte - será CAROLINA - ex-prostituta e mulher de negócios. Amaro conheceu
assim com Amaro e com Carolina: D. Carolina quando a salvou de um assalto, era uma portuguesa que mantinha
"Aleixo só fazia responder timidamente: - sim senhor - com um uma pensão num sobradinho da Rua da Misericórdia: "somente para pessoas
arzinho ingênuo de menino obediente, os olhos muito claros, de um azul garço de "certa ordem", gente que não se fizesse de muito honrada e de muito
pontilhado, e os lábios grossos extremamente vermelhos." boa, isso mesmo rapazes de confiança, bons inquilinos, patrícios, amigos
No entanto, o ar de submissão do grumete transfigura-se ao longo da velhos ... Não fazia questão de cor e tampouco se importava com a classe ou
narrativa. Nada se sabe sobre seu passado, a não ser que era filho de uma profissão do sujeito. Marinheiro, soldado, embarcadiço, caixeiro de venda, tudo
pobre família de pescadores que o tinham feito entrar para a Marinha em Santa era a mesmíssima cousa: o tratamento que lhe fosse possível dar a um inquilino,
Catarina. A ligação com Amaro oferece-lhe um novo mundo, bastante diverso dava-o do mesmo modo aos outros.
daquele de sua origem, e que, acima de tudo, propicia-lhe favores e proteção: Vivia de sua casa, de seus cômodos, do aluguelzinho por mês ou por
"Mas daí em diante Aleixo foi-se acostumado, sem o sentir, àqueles hora. Tinha o seu homem, lá isso pra que negar? Mas independente dele e de
carinhos, àquele generosa solicitude, que não enxergava sacrifícios, nem poupava outros arranjos que pudesse fazer, precisava ir ganhando a vida com um
dinheiro, e, por fim, já havia nele uma tendência acentuada para Bom-Crioulo." emprego certo, um emprego mais ou menos rendoso para garantia do futuro. -
( ...) Isso de homens não há que fiar: hoje com Deus, amanhã com o diabo.
"Encolhido, as pálpebras cerrando-se instintivamente de sono, ouvindo, Quando moça, tinha seus vinte anos, abrira casa na Rua da Lampadosa.
com o ouvido pegado ao convés, o marulhar das ondas na proa, não teve Bom tempo! O dinheiro entrava-lhe pela porta em jorros como a luz do dia, sem

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ela se incomodar. Uma fortuna de jóias, de ouro e brilhante! Já era gorducha, A rua enchia-se de gente pelas janelas, pelas portas, pelas calçadas.
então: chamavam-na Carola Bunda, um apelido de mau gosto, invenção da Era uma curiosidade tumultuosa e flagrante a saltar dos olhos, um desejo
rua ..." irresistível de ver, uma irresistível atração, uma ânsia!
Depois esteve muito doente, saíram-lhe feridas pelo corpo, julgou não Ninguém se importava com o "outro," com o negro que lá ia, rua
escapar. E, como tudo passa, ela nunca mais pôde reerguer-se, chegando ao abaixo, triste e desolado, entre baionetas à luz quente da manhã: todos, porém,
ponto de empenhar as jóias e tudo, porque ninguém a procurava, porque todos queriam ver o cadáver, analisar o ferimento, meter o nariz na chaga ...
ninguém a queria ("pobre cadela sem dono"). Mas, um carro rodou, todo lúgubre, todo fechado e a onda dos curiosos
D. Carolina revela-se que, desde o início, uma mulher de negócios, foi se espalhando, se espalhando até cair tudo na monotonia habitual, no eterno
cuja mercadoria era seu próprio corpo. Teve seus revezes e conseguiu se vaivém.
reerguer, observando como poderia lucrar com os outros, já que também A narrativa gira em tomo dessas três personagens que formam o eixo
lucravam com ela. No entanto, vive só. Nesse contexto, Aleixo - assim das principais e o triângulo amoroso do romance. Ao longo da narração, alguns
como o foi para Amaro - é alguém capaz de preencher seu lado mais carente. marinheiros aparecem, um ou outro oficial emite uma fala, contudo são fi:';~lrantes
Por um lado, o jovem marinheiro representa o filho que ela nunca teve; por nessa história passional.
outro, o amante jovem e inocente, duas. características que ela não possui. HERCULANO - marinheiro, melancólico, imberbe. Morbidez aparente,
Contudo, diferentemente de Amara, D. Carolina encara sua relação retraído, é castigado no início da narrativa por estar se masturbando.
com Aleixo de modo claro e racional: goza as delícias da carne, porém sabe AGOSTINHO - guardião da proa, fisicamente forte, especialista no
tudo o que representa para o grumete: algumas vantagens para seu bem-estar. trato com a chibata, ama o ofício em todos os momentos.
"Há dias metera-se-Ihe na cabeça uma extravagância: conquistar o SANT' ANA - marinheiro castigado por ter brigado com Herculano.
Aleixo, o bonitinho, tomá-Ia para si, tê-Ia como amantezinho do seu coração Gago, choroso e manhoso.
avelhentado e gasto, amigar-se com ele, secretamente, dando-lhe tudo quanto
Créditos: Sílvia M Ruggiero
fosse preciso: roupa, calçado, almoço e jantar nos dias de folga - dando-lhe
tudo enfim.l ..j Aleixo remoçava-a como um elixir estranho, milagrosamente
afrodisíaco. Exercícios:
Sentia-se outra depois que se metera com o pequerrucho: retesavam-
se-lhe os nervos, abria-se-Ihe o apetite, entrava n'alma uma extraordinária As questões de 01 a 03 tomam por base tanto o fragmento a seguir como o
alegria de noiva em plena lua-de-mel, toda ela vibrava numa festiva exuberância romance (como um todo) Bom-Crioulo deAdolfo Caminha.
de vida." "Dias e dias correram. A bordo todos o estimavam como na fortaleza, e
Ao conquistar Aleixo, D. Carolina assume uma atitude masculina: ela a primeira vez que o viram, nu, uma bela manhã, depois da baldeação,
o seduz e o possui sem lhe dar chance de escapar. A cena da conquista é refestelando-se num banho salgado - foi um clamor! Não havia osso naquele
descrita à maneira naturalista, comparando as personagens a animais, corpo de gigante: o peito largo e rijo, os braços, o ventre, os quadris, as pernas,
evidenciando o que há de mais instintivo no que as move: formavam um conjunto respeitável de músculos, dando uma idéia de força
"D. Carolina chegava-se pouco a pouco, estreitando-o, colando-se-Ihe física sobre-humana, dominando a maruja, que sorria boquiaberta diante do
num grande ímpeto de fúria lúbrica, de mulher gasta que acorda a uma sensação negro. Desde então Bom-Crioulo passou a ser considerado um
nova ... "homem perigoso", exercendo uma inftuência decisiva no espírito daquela
- Tu não podes comigo, disse trançando a pema sobre o joelho deAleixo. gente, impondo-se incondicionalmente, absolutamente, como o braço mais
E envolvendo-o todo com o seu corpo largo de portuguesa rude: forte, o peito mais robusto de bordo. Os grandes pesos era ele quem levantava,
- Dize lá: ficas ou não ficas? para tudo aí vinha Bom-Crioulo com o seu pulso de ferro, com sua força de
O efebo teve um arranco de novilho excitado, e, segurando-se à cadeira oitenta quilos, mostrar como se alava um braço grande, como se abafava uma
com as mãos ambas, todo trêmulo agora, sem sangue no rosto: vela em temporal, como se trabalhava com gosto!
Fico! Entretanto, o seu nome ia ganhando fama em todos os navios.
Então ela, como se lhe houvessem aberto de repente uma caudal de - Um pedaço de bruto, aquele Bom-Crioulo! Diziam os marinheiros.
gozo, cravou os dentes na face do grumete, numa fúria brutal, e segurando-o - Um animal inteiro é o que ele era!
pelas nádegas, o olhar cintilante, o rosto congestionado, foi depô-Io na cama: Tinha um forte desejo ainda: suspirava por embarcar em certo navio,
Prai, meu jasmim de estufa, prai! Vais conhecer uma portuguesa velha cujo comandante, um fidalgo, dizia-se amigo de todo marinheiro robusto; excelente
de sangue quente. Deixa a inocência pro lado, vamos! ... educador da mocidade, perfeito cavalheiro no trato ameno e severo. [...]
Bateu a porta e começou a se despir a toda pressa, diante de Aleixo, Lá estava bem defronte, por bombordo, o Pão d' Açúcar, talhado a
enquanto ele deixava-se estar imóvel, muito admirado para essa mulher-homem pique, sombrio, íngreme, batido pelas ondas, guardando a entrada; e mais
que o queria deftorar ali assim, torpemente, como um animal. longe, para o sul- termo final de uma espécie de cordilheira primitiva e bronca
-Anda, meu tolinho, despe-te também: aprende com tu velha ... Anda, - o cocuruto da Gávea, cinzento, dominando o mar ... [...] E começou a
que eu estou que nem uma brasa! ... descrever o pedaço do litoral que se ia desdobrando à luz, alcantilado e fulgurante,
Aleixo não tinha tempo de coordenar idéias. D. Carolina absorvia, como essas terras lendárias de tamoios e caramurus ... Aquela faixa de areia,
transfigurando-se a seus olhos. muito estreita, do outro lado [...], chamava-se Marambaia. Lá adiante, uma
Ela, de ordinário tão meiga, tão comedida, tão escrupulosa mesmo, montanha quase apagada, era o Cabo Frio ...
aparecia-lhe agora como um animal formidável, cheio de E foi indicando, um a um, com exclamações de patriotismo, os acidentes
sensualidade, como uma vaca do campo extraordinariamente excitada, da entrada, os edifícios: as fortalezas de S. João no alto, e de Santa Cruz à
que se atira ao macho antes que ele prepare o bote ... beira-mar, olhando-se com a sua artilharia muda; a Praia Vermelha, entre
Era incrível aquilo! A mulher só faltava urrar! E a sua admiração cresceu morros; o hospício; Botafogo ... [...]
ainda mais quando ela, sacando fora a camisa ensopada de suor, caiu nua no A pequena embarcação vinha-se chegando para a ilha, sem toldo,
leito, arquejante, segurando os seios moles, com um estranho fulgor no olhar de
remada por um galego de suíças, meio velho. Trazia à popa, no recosto do
basilisco." paineiro, o dístico - Luís de Camões, por cima de uma figura a óleo, que tanto
A descrição dessa cena evidencia uma sensualidade quase animalesca
podia ser a do grande épico como a de qualquer pessoa barbada, em cuja fronte
e brutal das personagens, mostrando reações guiadas pelo que neles há de se houvesse desenhado uma coroa de louros. Nessa infame garatuja, o poeta
mais instintivo. tinha o olho esquerdo vazado, o que, afinal de contas, não interessava ao negro."
No episódio final, o ponto de convergência das atenções será a luta e (CAMINHA, Adolpho. Bom crioulo. Rio de Janeiro: Ártiua, 1997).
a morte e jamais os sentimentos que motivaram as pessoas:
"Muitas vistas dirigiam-se para o sobradinho.
Aleixo passava nos braços de dois marinheiros, levado como um
fardo, o corpo mole, a cabeça pendida para trás, roxo, os olhos tinham grandes
nódoas vermelhas. (...)

memm~--------------------------------------
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01. Leia as afirmativas a seguire assinale a altemativa que apresentar apenas aIs) a) 11,111e IV.
correta( s). b) 111e IV.
c) I e IV.
I-Apersonagem-título da obra deAdolpho Caminha é uma representação
ti pica de degradação do homem. Amaro é, a princípio, respeitado por todos, d) I, 11e IV.
mas, aos poucos, vai mostrando seus ímpetos criminosos e seu amor e) I, 11e 111.
homossexual mórbido pelo jovemAleixo.lsso o leva a uma tormenta interior
que o conduz a um ato extremo: o assassinato do ex-amante. Mas essa 03. Leia as afirmativas a seguire assinale a altemativa que apresente apenas aIs)
degradação e opressão se fazem presentes também no plano coletivo e social correta( s).
com as cenas degradantes de sadismo dos oficiais da Marinha de Guerra do
I-Aironia (do grego eiróneia) é um recurso estilístico que consiste em negar
Brasil, que submetia os marujos à chibata.
a realidade, a fim de questionar certo tipo de comportamento, com alguma
11- Ao retratar a cidade do Rio de Janeiro da época do Império; o homem intenção. Assim, as características psicológicas do protagonista, na obra Bom
movido pelos instintos em detrimento da emoção e da razão; o enfoque na Crioulo são transformadas em afirmações assertivas. O fragmento: "Tinha
degradação humana ocasionada por um espaço corrompido socialmente, um forte desejo ainda: [...] no trato ameno e severo" corrobora esta
como ocorre no subúrbio onde moram Amaro, A1eixo e Carolina, o descritivismo, afirmação.
como comprovam os fragmentos do texto 11,é caracteristica recorrente dos
" - O texto Bom crioulo faz alusão a um negro considerado o homem mais forte
romances naturalistas e está presente em Bom crioulo.
entre os marinheiros de diversos navios. "Os grandes pesos era ele quem
"1- A obra Bom crioulo foi escrita no contexto do século XIX, quando ocorreu levantava ...".A força e a habilidade dos negros para o trabalho manual já eram
uma série de transformações de toda ordem, sobretudo no campo da ciência conhecidas desde os tempos coloniais. Muitos dos que vieram para o Brasil
que, pródiga de descobertas, especialmente no campo da biologia, teve forte como escravos provinham de culturas em que trabalhos com ferro e a criação
influência nas produções literárias da época. Isso fez surgir o Naturalismo, de gado eram usuais. Costumam-se dividir os povos africanos em dois
período literário em que o escritor, qual um cientista, documenta, disseca e ramos étnicos: os sul africanos e os africanos do norte. É bom lembrar,
analisa a realidade e os tipos humanos, dando ênfase, especialmente, à entretanto, que os negros escravizados no Brasil provinham de muitas tribos
patologia do indivíduo. É o que ocorre com a personagem-título do romance de ou reinos, com culturas próprias.
Adolpho Caminha.
lil-Amaro, o bom crioulo, é um escravo que vive as agruras de sua condição
IV - O romance da década de 30 do século passado foi bastante influenciado social num Brasil que dava os primeiros passos para a extinção da mão-de-
pelos princípios literários do Realismo-Naturalismo, o que valeu a esse período obra escrava, com o fim do tráfico negreiro. Esse "comércio" constituiu-se,
literário o cognome Neo-realismo e Neo-naturalismo. No romance Dom desde o período colonial, num dos sustentáculos da exploração mercantilista
Casmurro, de Machado de Assis, há características que o aproxima do européia imposta por Portugal à sua colônia na América.
romance deAdolpho Caminha, principalmente se comparados os protagonistas
IV - A obra Bom crioulo tem como palco a sociedade brasileira nos finais do
Bentinho eAmaro: a concepção biológica do homem; o destino das personagens
século XIX. Nesta mesma época, predomina, na Europa; o cientificismo
marcado pelo determinismo; as perversões humanas de natureza sexual,
assentado no pensamento positivista. O cientificismo sustentava a teoria da
social e psicológica; a dependência das leis naturais; a conduta das personagens
superioridade da civilização ocidental, diga-se européia, cujo desdobramento
condicionadas às forças da hereditariedade e do meio social.
se verificará na corrida imperialista e no domínio de vastas regiões na África
a) I, 11e IV. b) 11,111e IV. e na Ásia.
c) I, 111e IV. d) I, 11e 111. a) I, li e 111. b) li, 111e IV.
e) I e IV. c) I, 111e IV. d) I, 11e IV.
e) li e IV.
02. Leia as afirmativas a seguir e assinale a altemativa que apresente apenas aIs)
correta(s). A questão 04 toma por base o fragmento a seguir extraido do livro Bom-Crioulo
de Adolfo Caminha. Portanto, leia-o com atenção e responda a questão proposta.
I - As obras naturalistas, como Bom crioulo, de Adolpho Caminha, foram
fortemente influenciadas pelo Positivismo, de Auguste Comte, que estabelecia "E agora, como é que não tinha forças para resistir aos impulsos do sangue?
a ordem como base, com o objetivo de suprimir a indisciplina dos costumes, Como é que se compreendia o amor, o desejo da posse animal entre duas pessoas
e o progresso como meta. Outra corrente de pensamento que influenciou o do mesmo sexo, entre dois homens?
Naturalismo foi o Determinismo, de Hipolite Taine, teoria que afirmava ser o Tudo isto fazia-lhe confusão no espírito, baralhando idéias, repugnando os
comportamento humano condicionado pelas influências de raça, de meio e de sentidos, revivendo escrúpulos. - É certo que ele não seria o primeiro a dar
momento. exemplo, caso o pequeno se resolvesse a consentir ... Mas - instinto ou falta de
11-A linguagem apresentada pela obra Bom crioulo parece revelar supostas hábito - alguma cousa dentro de si revoltava-se contra semelhante imoralidade que
intenções para o protagonista atingir seus objetivos. Nesse sentido, ele é os outros de categoria superior praticavam quase todas as noites ali mesmo sobre
revelado pelo autor por meio de ações e de descrições importantes no sentido o convés ... Não vivera tão bem sem isso? Então, que diabo! não valia a pena
de não somente caracterizá-Io fisicamente, mas, sobretudo, traçar um perfil sacrificar o grumete, uma criança ... Quando sentisse"a necessidade", aí estavam
verossimil para o leitor, o menos superficial possível, imprimindo-lhe mulheres de todas as nações, francesas, inglesas, espanholas ... a escolher!"
sensualidade, embora o personagem apresente caráter duvidoso e
04. Analisando o fragmento podemos dizer que todas as altemativas estão corre-
comportamento premeditado.
tas, exceto:
111- No último parágrafo de Bom crioulo, destacou-se a passagem "Trazia à
a) O personagem que vive essa crise apresentada no fragmento é Amaro.
popa, no recosto do paineiro, o dístico[ ...] ...até pessoa barbada[ ...]", em que
b) Há no fragmento uma ironia ao sugerir que ocorriam relações homossexuais
as expressões paineiro, dístico e grande épico estabelecem propositadas
entre os oficiais da marinha.
relações de sentido, referindo-se, respectivamente, à madeira da árvore que
produz paina; grupo de dois versos; ao escritor português. c) A crise vivida pela personagem neste fragmento se assemelha, de certa
maneira, à vivida por Ricardo de Loureiro no livro A Confissão de Lúcio.
IV - No último parágrafo do texto 11,a partícula se, utilizada nas passagens "A
d) Assim como Ricardo de Loureiro e Lúcio criaram Marta para viverem o
pequena embarcação vinha-se chegando" e" [...]em cuja fronte se houvesse
seu amor homossexual, Amaro e Aleixo criaram Carolina para viverem o
desenhado[ ..]", é responsável pela predicatividade dos verbos a ela posposto
deles também.
e anteposto, funcionando, sintaticamente, como complemento em ambas as
e) Há no fragmento elementos que permitem identificar o estilo naturalista a
situações.
qual pertence o livro. •

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Contos Gauchescos - João Simões lopes Neto .

A estrutura da narrativa de Simões Lopes Neto, mostra, em termos (...) E, por circunstâncias de caráter pessoal, decorrentes da
gerais, a história real da construção e organização política, econômica e social amizade e da confiança, sucedeu que foi meu constante guia
do Rio Grande do Sul, mas ao revelar uma não linearidade, ou seja, uma e segundo o benquisto tapejara Balu Nunes, desempenado
difusão temporal cria, dessa forma, um tempo lendário, um tempo mítico ou um arcabouço de oitenta e oito anos, todos os dentes, vista
lamento, um saudosismo dos tempos que já se foram. Em oposição aos aguda e ouvido fino. (... )
romances nacionais vigentes Neto inova na forma de narrar. Ou seja, o escritor
coloca no centro dos contos um personagem popular Blau Nunes e, pela Genuíno tipo - crioulo - rio-grandense (hoje tão modificado), era Blau o
descrição dos acontecimentos e das paisagens narradas por esse peão, o guasca sadio, a um tempo leal e ingênuo, impulsivo na alegria e na temeridade,
escritor pretende mostrar a imagem de uma época que vai de desfazendo pelas precavido, perspicaz, sóbrio e infatigável; e dotado de uma memória de rara
mudanças econômicas, ou seja, pela urbanização e o progresso tecnológico. nitidez brilhando através de imaginosas e encantadora loquacidade servida e
Essa forma de descrever, de acordo com a teoria proposta por Lukács (1965), fioreada pelo vivo e pitoresco dialeto gauchesco.
aproxima de forma profunda o psicológico do narrador revelado pela descrição E do trotar sobre tantíssimos rumos: das pousadas pelas estãncias; dos
da paisagem que se personifica em lembranças de alegrias e tristezas, bem fogões a que se aqueceu; dos ranchos em que cantou, dos povoados que
como da descrição dos acontecimentos que expressam os hábitos, costumes atravessou; das coisas que ele compreendia e das que eram-lhe vedadas; (...)
e valores da sociedade da época com a qual ele conviveu. Essa inovação pela das erosões da morte e das edosões da vida entre o Blau - moço militar - e o
presença da primeira pessoa o escritor tem como objetivo não interferir no texto Blau - velho paisano ficou estendida uma longa estrada semeada de recordações
com sua linguagem culta ou padrão, aproximando, dessa forma, o narrador e o - casos, dizia - que de vez em quando o vaqueano recontava, como quem
leitor através da descrição das experiências pessoais, da longa vivência na estendesse ao sol, para arejar, roupas guardadas ao fundo de uma arca. (...)
lida campeira dos pampas do Rio Grande do Sul. O personagem usa para Patrício, escuta-o.
narrar os seus "causos" uma linguagem própria de um peão acostumado a A partir dai, Blau Nunes põe-se a relatar as dezenove histórias (e mais
tropear sobre um cavalo nos serviços da fazenda e no comércio de gado entre um conjunto de adágios: "Artigos de fé do gaúcho") que integram os Contos
as fazendas. Assim, a vida da campanha é exposta, mas o escritor a coloca de gauchescos. Histórias que ele viveu diretamente ou apenas presenciou ou
uma forma poética, caracterizada pela narrativa oral, muito comum na literatura simplesmente ouviu narrar por outras vozes que agora ele recupera para
popular. Enfim, seguindo a teoria de Lukács (1965), Neto, através do uso recontá-Ias a seu interlocutor. Mais do que evocações líricas do passado, da
adequado da descrição na narração, aponta de forma poética a relação do terra e do povo rio-grandenses, estas lembranças do vaqueano estão impregnadas
homem, o cavalo e o campo, e marca sua posição (lamentação) em relação às de uma tentativa de explicação do homem do pampa.
transformações gerais ocorridas nessa região no decorrer do tempo. A perspectiva de Blau Nunes a respeito do gaúcho é ambígua. Por um
lado, celebra-lhe as virtudes: a hombridade, a bravura, a honestidade etc. No
conto "Trezentas onças", por exemplo, ele perde uma bolsa carregada de
Análise da obra moedas de ouro que seu patrão lhe confiara para comprar uma tropa de bois.
Diante da hipótese de ser considerado ladrão, Blau pensa objetivamente no
A obra Contos Gauchescos, editada pela primeira vez em 1912, é suicídio. Um lampejo de consciência, desencadeado pela noite estrelada, impele-
uma coleção de 19 contos que tem como ambientação no pampa gaúcho. o à vida. Naturalmente as moedas de ouro lhe serão restituidas por tropeiros
Contadas pelo envelhecido vaqueano Blau Nunes, as histórias narram aventuras honestos e tudo acaba bem.
de peões e soldados. As narrativas são sempre sobre o gaúcho, guerreiro, Por outro lado, Blau Nunes é essencialmente um gaudério, um homem
trabalhador, rústico. Nelas a linguagem é sempre um dialeto característico do que tem de seu apenas o cavalo e as habilidades campeiras e guerreiras.
interior do Rio Grande do Sul e existe um enorme respeito pelos elementos Alguém que pertence ao núcleo dos "de baixo" e que olhas para os "de cima"
deste estilo de vida: os animais, os instrumentos, a paisagem. Existe também com certa desconfiança. Mais de uma vez, ele expressará a nostalgia de uma
uma grande exaltação do espírito guerreiro do gaúcho, especialmente nas época em que a hierarquia social não fora totalmente estabelecida.
narrativas de guerra, ambientadas na maioria das vezes na Revolução No conto "Correr eguada", o vaqueano lembra do tempo em que o
Farroupilha. gado ainda era xucro e sem dono. Lembra também que, quando os peões
Ao fazer de Blau Nunes o narrador de Contos Gauchescos, Simões campeavam estes animais soltos na vastidão das coxilhas, tinham direito à sua
Lopes Neto enfrentou um problema que nenhum outro escritor brasileiro até "tropilhita nova". Ajornada dos contos não estabelece apenas um itinerário
então solucionara: que linguagem utilizar? A norma culta soaria falsa e artificial. geográfico em busca das paragens típicas; também é um percurso existencial,
O linguajar do peão romperia a convenção literária e se isolaria na forma de pois o tapejara narra os casos de que participou, traçando a própria autobiografia.
expressão de um grupo. Simões Lopes Neto solucionou esse problema da Mas esta coincide, ainda, com um período crucial da história do Rio Grande do
seguinte forma: fez largo uso do léxico e eventualmente da sintaxe próprios da Sul e a sucessão episódica oferece um panorama ao leitor: as lutas de fronteira,
linguagem da campanha, mas submetendo-os a morfologia da norma culta. o desenvolvimento do contrabando, a Revolução Farroupilha, a Guerra do
Assim, ele manteve a "cor local", própria do regionalismo, sem romper com a Paraguai, finalmente a transformação dos campos abertos em propriedade dos
tradição literária, fazendo universal também a sua linguagem. estancieiros-soldados que tudo mandam e tudo podem.
A linguagem utilizada no conto "Trezentas Onças" demonstra bem
essa universalidade.
Através de Blau é que percebemos o presente e o passado, estruturados linguagem e ExpressãoAníslica
na narrativa. Há o Blau moço, militar e o Blau velho, "genuíno tipo - crioulo- Ao ceder a voz narrativa a Blau Nunes, em Contos Gauchescos,
rio-grandense". Os demais que protagonizam os contos narrados por Blau são, Simões Lopes Neto resolveu um problema contínuo da ficção brasileira: como
quase sempre, iguais a ele. pode um narrador culto e cítadino, expressar-se na forma quase dialetal de
Isso pode ser identificado no primeiro conto da obra de Lopes Neto, determinada região, sem cairno pitoresco e sem parecer falso?
"Trezentas Onças". Blau Nunes, que além de narrador (em 1" pessoa) também O velho gaudério assume a narração de seus casos, valendo-se de
é personagem do conto, é um vaqueano igual, tanto nas condições sociais uma espécie de linguagem popular campeira, imperante na campanha, pelo
como na honestidade, aos tropeiros que acharam e devolveram a sua guaiaca menos durante o século XIX, e que, certamente, já estava em desuso no inícío
com as trezentas onças. do século XX, quando o escritor a fixou literariamente. A fala de Blau Nunes é
Repare na apresentação que o escritor faz deste narrador: saborosa, sugestiva, em função de inúmeras e criativas metáforas, e nos dá a
impressão de total naturalidade. Nela avultam espanholismos (despacito, entrevero
etc.); arcaísmos (escuitar, peoretc.); corruptelas (vancê, desgoto etc.); e uma

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-
grande quantidade de termos específicos da região (china, bagual, chiru etc.); o peão puxou da faca e dum golpe enterrou-a até o cabo, no
sem contar algumas variantes do próprio escritor. Por isso, deve-se ler a obra sangradouro do boi manso; quando retirou a mão, já veio
com um glossário confiável. . nela a golfada espumenta do sangue do coração ...
O discurso simoniano ultrapassa, porta'nto, o mero localismo pitoresco Houve um silenciorito em toda aquela gente.
e, na sua abrangência, engloba a tradução de um código ético, o testemunho O boi velho sentindo-se ferido, doendo o talho, quem sabe se
histórico, a revelação psicológica. No fundo de tudo isto reside o substrato entendeu que aquilo seria um castigo, algum pregaço de
folclórico, a utilização literária da fala dialetal, sempre confrontando o homem e picana, mal dado por não estar ainda arrumado ... - pois
a natureza, infundindo uma qualidade simbólica ao mundo imaginário. No vancê creia! - soprando o sangue em borbotões, já meio
resultado final encontramos um desses raros momentos em que o regionalismo roncando na respiração, meio cambaleando, o boi velho deu
brasileiro se desprende do simples documentário para beirar o território do mito. uns passos mais, encostou o corpo ao comprido no
Em Contos Gauchescos percebemos as qualidades do narrador e cabeçalho do carretão, e meteu a cabeça, certinha, no lugar
paralelamente, os seus limites. Tomam-se nítidos a fixação do mundo gauchesco, da canga e ficou arrumado, esperando ... (... )
a oralidade e o regionalismo da IinguagefD. Para isso, muito vale a estratégia do E ajoelhou e caiu ... e morreu ...
autor, cedendo a palavra ao vaqueano Blau Nunes.
Contribui para o encantamento verbal a que o narrador nos submete o
fato de falar com alguém, um homem mais jovem, possivelmente o próprio o drama humano
Simões Lopes Neto, a quem o gaúcho está contando o seu percurso existencial. Os principais relatos do autor pelotense são aqueles denominados
Como ele tem um ouvinte, permite-se a indagações, assertivas, reticências, "contos de sangue e paixão". Apesar de todos estes contos documentarem os
silêncios, criando uma expressão própria inconfundível e que, muito depois, costumes e as singularidades da região pastoril e apresentarem personagens
seria retomada - na questão da forma de narrar - por João Guimarães Rosa. inseridos na "vida bárbara dos gaúchos", há neles uma ciranda tão cega e
Blau Nunes é o vaqueano que conduz o viajante através dos pagos. intensa de sentimentos elementares que o puramente regional é ultrapassado
Trata-se aqui do portador de um conjunto de valores que expressa a imagem do por algo maior: o homem universal, com sua cegueira e seus desatinos.
gaúcho gerada pela tradição coletiva: a grandeza, a hospitalidade, a amizade, A maldade dos estancieiros, em "O boi velho"; a luta fratricida entre
a confiança, a audácia e a perspicácia. dois comandantes farroupilhas provavelmente por causa de uma mulher, em
O vaqueano contará os seus casos, recolhidos no "trotar sobre "Duelo dos Farrapos"; a devoção do pai a sua filha em "Contrabandista"; o ódio
tantíssimos rumos". E a sua fala - por ser teoricamente a de um gaudério, a de e a vingança ilimitada, em "No manantial", "Os cabelos da china" e em "O
um peão sem trabalho fixo - se esquivará, por vezes, da exaltação dos pampas negro Bonifácio"; a loucura do orgulho ferido, em "Jogo do osso"; o horror da
e da condição gaúcha, que no fundo, foi sempre uma auto-exaltação dos guerra em "O Anjo da Vitória" são exemplos de relatos em que paixões
oligarcas sulinos. humanas, instintivas e profundas, corrompem a ordem natural e lançam os
Há no tom narrativo de Blau certa neutralidade, destruída aqui e alí seres no desconcerto e no aniquilamento
pela saudade dos antigos tempos e por certo moralismo de origem cristã. O Anjo da Vitória, apelido do heróico general Abreu, que lutou contra
Porém a sua nostalgia vincula-se a uma época na qual o gado ainda xucro era as forças uruguaias de Artigas, por exemplo, é um desses "contos de sangue
campeado - conforme o relato "Correr eguada" - e os peões tinham direito a sua e paixão". Escrito ao que tudo indica para celebrar a valentia épica do guerreiro
tropilha nova, fato que não se repetiria numa sociedade cada vez mais dividida rio-grandense, o texto acaba dilacerado entre a audácia do comandante que,
entre fazendeiros e trabalhadores. mesmo após um brutal erro militar - o exército imperial bombardeara e destruíra
Por outro lado, a significação moral das histórias exige-se sobre um suas próprias tropas - convoca a soldadesca à luta, e o desespero de Blau
sentimento de relativo desconforto no narrador com a violência imperante no Nunes, então um menino de 10 anos que acompanhava um capitão (seu
território gaúcho: a destruição do boi em serventia ("O boi velho"), a carnificina padrinho e protetor) durante o confronto. Assim, ele assiste a todo desastre
guerreira ("O anjo da vitória") etc. bélico. No final da história, o canto do heroísmo é substituído pelo tormento do
Ainda que um esforço documental presida a obra, o registro dos menino, solitário no campo de batalha, entre mortos e feridos. Trata-se de uma
costumes nunca é gratuito. Liga-se à ação dos contos e a psicologia simples cena devastadora:
dos indivíduos. Em três ou quatro narrativas, contudo, o valor do documento é
superado por urna legítima sensibilidade artística: "Trezentas onças", "O Campeei o meu padrinho morto, também, caído ao lado do
contrabandista" e "O boi velho" transcendem à condição de espelho da região, azulego, arrebentado nas paletas por um tiro de peça; ali
atingindo a chamada universalidade das grandes produções literárias. junto, apertando ainda a lança, toda lascada, estrebuchava o
Se muitos contos permanecem apenas como registro de costumes ou Hilarião, sem dar acordo, só aiando, só aiando ...
como anedotas bem contadas, a linguagem em todos eles é viva e cheia de Deitado sobre o pescoço do cavalo, comecei a chorar.
dialetismos, o que, em parte, di1icultaa leitura. O linguajargauchesco é reproduzido Peguei a chamar:
pelo escritor. Mas a utilização que Simões Lopes Neto faz do regíonalismo - Padrinho! Padrinho! ...
lingüística não visa o pitoresco, como acontece na maioria das manifestações - Hilarião! Meu padrinho! ...
artísticas dita regionais. Nele, a expressão típica é uma decorrência dos conteúdos Apeei, vim me chegando e chamando - padrinho! .
trabalhados, e, por isso mesmo, somos capazes de superar as dificuldades de padrinho! ... E tomei-lhe a benção, na mão já fria Puxei a
seu vocabulário. manga do chiru, que já nem bulia.
Há em sua obra o cuidado de reconstruir o timbre familiar das vozes. Sem querer fiquei vendo as forças que iam-se movendo e se
E isso fomeceria a mesma um efeito surpreendente de oralidade, encanto e frescor. distanciando E num tirão, quando ia montar de novo sem
Simões Lopes Neto controla magistralmente os pontos de tensão de saber pra quê foi que vi que estava sozinho, abandonado,
cada relato, açulando e, ao mesmo tempo, postergando a expectativa do leitor. gaudério e gaúcho, sem ninguém para me cuidar! ... (.. .)
A busca do dramático, em certos momentos, é tão intensa que os textos Comi do ruim... Veja vancê que eu era guri e já corria
parecem ameaçados pelo excesso, isto é, pelo melodrama barato. No entanto, mundo ...
a intuição do artista mantém os contos nos limites verossímeis daquilo que é
autêntica tragédia humana.
Em "Contrabandista", por exemplo, um pai atravessa a fronteira para
buscar um vestido de noiva para a filha, mas no dia do casamento, enquanto o
noivo, o padre e dezenas de convidados vão chegando, o pai não retoma com
o presente. Aespera, em plena festa matrimonial, pelo velho contrabandista e
seus asseclas é uma das cenas mais exasperantes da ficção brasileira. Também
o mísero destino de um animal, cruelmente morto por ricos fazendeiros a quem
sempre servira com abnegação, em "O boi velho", é narrado de forma tão
meticulosa por Blau Nunes que não há como fugir da comoção que o conto
desperta:

-----------------------------------------11II.
-
Contos: O resumo acima é de uma das histórias de Contos gauchescos, de autoria de
João Simões Lopes Neto. Qual?
TREZENTAS ONÇAS Blau Nunes.
a) "Correr eguada".
O NEGRO BONIFÁCIO Tudinhâ-Nadico-NegroBonifácio
b) "No manantial".
NO MANATIAL MariaAltina-André-Chicão) c) "Trezentas onças".
O MATE DO JOÃO CARDOSO João Cardoso d) "O anjo da vitória".
DEVE UM QUEIJO Velho Lessa-Castelhano e) "Contrabandista"

O BOI VELHO Dourado-Cabriúna 03. Quanto aos Contos gauchescos, de João Simões Lopes Neto, a alternativa
CORRER EGUADA Blau Nunes correta é:

CHASQUE DO IMPERADOR Blau Nunes -Imperador D. Pedro 11 a) Na obra, muitos costumes da terra e da gente rio-grandense são obser-
vados como a festa de casamento de três dias de duração; a escolha do
OS CABELOS DA CHINA Blau Nunes - Juca Picamã - Rosa noivo feita pelo pai que obriga a moça ao casamento; a declamação de
MELÂNCIA - COCO VERDE SaiTalapa-Costinha-Reduzo versos pelos convivas aos noivos. O conto Os cabelos da china
comprovam esta afirmação.
O ANJO DA VITÓRIA Blau Nunes - General José de Abreu
b) Como militar, Blau Nunes teve a oportunidade de conhecer e servir
homens influentes como Bento Gonçalves, Duque de Caxias e mesmo
CONTRABANDISTA JangoJorge o próprio Imperador. Há, portanto, na obra, referência as relações ocor-
JOGO DO OSSO Osório - Chico Ruivo - Lalica ridas entre aqueles a quem o narrador chama de graúdos e, conseqüen-
temente, situações nas quais fatos políticos são abordados.
DUELO DE FARRAPOS Bento Gonçalves-Onofre Pires
c) Nos contos, o retomar de personagens tão diversas, unidas por um
PENAR DE VELHOS Binga Cruz - pais mesmo tipo de caráter, coloca-nos frente a uma figura específica: um ser
JUCA GUERRA Juca Guerra humano fraco e covarde que convive em uma mesma realidade. O
desejo de louvor a certas regiões e aos homens que ali vivem é comum
ARTIGOS DE FÉ DO GAÚCHO Blau Nunes
à literatura anterior a 1930, que desenvolve um regionalismo utópico,
BATENDO ORELHA! Cavalo - Gaúcho como se observa nesta obra.
O "MENININHO" DO PRESÉPIO nhãVelinda-Vieira d) A figura do índio surge em alguns contos como O anjo da vitória,
Melancia, Coco ralado; essas personagens comparadas aos índios do
Créditos: Salete Valer período romântico do século XIX possuem também a mesma coragem e
fidelidade e o mesmo amor platônico encontrado na conhecida persona-
Exercícios: gem alencariana, Peri.
e) O mate de João Cardoso e O charque do Imperador são marcados pêlo
01. Leia o excerto a seguir, de Contos gauchescos, de João Simões Lopes Neto: elemento cômico que se realiza em ambos os contos, graças ao contra
censo que surge do encontro de dois mundos distintos, duas realidades
"- Eu tenho cruzado o nosso Estado em caprichoso ziguezague. Já senti a de vida que representam diferentes regiões do Brasil.
ardentia das areias desoladas do litoral; já me recreei nas encantadoras ilhas
da lagoa Mirim; fatiguei-me na extensão da coxilha de Santana; molhei as 04.Simões Lopes Neto fixou em seus Contos gauchescos a figura de Blau
mãos no soberbo Uruguai, tive o estremecimento do medo nas ásperas Nunes, imagem vívida e fiel do peão de estância, acostumado aos rigores da
penedias do Caverá; já colhi malmequeres nas planícies do Saicã, oscilei vida campeira e às exigências brutas da guerra. Blau Nunes desempenha, na
sobre as águas grandes do Ibicuí; palmilhei os quatro ângulos da derrocada obra citada,
fortaleza de Santa Tecla, pousei em S. Gabriel, a forja rebrilhante que tantas a) apenas o papel de testemunha dos fatos narrados.
espadas valorosas temperou, e, arrastado no turbilhão das máquinas possan-
b) sempre o papel de protagonista da ação narrada.
tes, corri pelas paragens magnificas de Tupaceretã, o nome doce, que no lábio
ingênuo dos caboclos quer dizer os campos onde repousou a mãe de Deus ...". c) o papel de narrador e, eventualmente, o de protagonista da ação narrada.
d) sempre o papel de uma personagem secundária envolvida na ação
Este é um trecho narrado por: narrada.
a) Blau Nunes, na introdução do livro. e) sempre o papel de testemunha ou de personagem secundária da ação
b) Bento Gonçalves, no conto "O duelo dos farrapos". narrada.
c) Romualdo, no conto "Trezentas onças".
d) Bonifácio, no conto "O negro Bonifácio". 05. A violência pode ser identificada em Contos gauchescos, num conto de
e) Binga Cruz, no conto "Penar de velho". sangue e paixão, que tem uma mulher como pivô: "No manantial". Nesse
conto, Um romance que apresenta incêndios criminosos num cartório e num
02. Leia atentamente o resumo: casarão e em que há uma luta pelo controle de uma extensão de terra que
passa a ser fértil, porque foi adubada com sangue, é:
"Um tropeiro carrega na sua guaiaca uma quantia considerável de ouro,
a) Maria Altina casa com Chicão, mas mantém um caso com Blau Nunes,
pertencente ao seu patrão, até que faz uma pausa para dormir e tomar banho
o que faz com que Chicão tente matar o rival e, posteriormente, tente o
em um riacho; na seqüência, retoma o seu caminho à estância de onde vai
suicídio.
comprar cabeças de gado. Algum tempo depois, entretanto, nota que a guaiaca
cheia sumiu. Desesperado, volta ao local do descanso, passando, no cami- b) Chicão, ao matar André a facadas, sai para concretizar sua intenção de
nho, por uma comitiva de tropeiros que conduz uma cavalhada. Lá chegando, matar Maria Altina e os pais dela, o que acaba conseguindo.
não reencontra o ouro, e para não ser acusado de roubo, resolve se suicidar, c) MariaAltina compromete-se com André, e Chicão, ao ver contrariadas
no que é demovido pelo cachorro e pelo cavalo que o acompanham: 'Patrício! suas intenções, tenta estuprá-Ia, o que culmina com a fuga da moça e
Não me avexo duma heresia; mas era Deus que estava no luzimento daque- sua morte trágica.
las estrelas, era ele que mandava aqueles bichos brutos arredarem de mim a d) André, depois de encontrar a esposa morta, pede ajuda a Chicão para
má tenção ...'. Conformado em vender as suas poucas posses para pagar a encontrar o assassino e acabar com ele.
dívida contraída involuntariamente, retoma à estância, onde, para sua surpre- e) Maria Altina tenta se livrar de André e pede a Chicão que elimine seu
sa, está a guaiaca com o ouro, que tinha sido achada pelos tropeiros com os marido a tiros para herdar sua estância.
quais ele tinha cruzado antes."

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A Conlissão de lúcio 1914 - Mário de Sá Carneiro
INTRODUÇÃO O decadentismo português é ainda fortificado pelo contexto político.
o objetivo deste trabalho é analisar a narrativa A Confissão de Lúcio Nessa altura encontramos Portugal em crise da monarquia acompanhada pela
(1914) do escritor e poeta modemista Mário de Sá-Cameiro ou, em palavras de decadência econômica e, ainda por cima, em descontentamento por causa do
José Régio, dum precursor e mestre do Modernismo português. A nossa Ultimato Inglês. Por motivo destas circunstancias políticas surgem no
análise ocupar -se-á sobretudo do tema de desdobramento das personagens, decadentismo português também marcas ocupando-se com a decadência do
prestando atenção ao ambiente e circunstâncias especiais das quais são as pais.
personagens rodeadas. O nosso objectivo é também oferecer uma das Em Portugal nasceram vários grupos de decadentismo que formaram
interpretações possíveis em que as três.personagens, aparentemente individuais, a literatura portuguesa e que podemos dividir em quatro grupos dominantes. Do
são as partes duma personagem desdobrada, A própria análise precedera uma primeiro grupo dos realistas teve, para o futuro modemismo e, especialmente,
curta introdução ao ambiente artístico em que o escritor viveu. Para além disso, para Sá-Carneiro, a maior influência Cesário Verde. Na obra de Cesário Verde
pretendemos dar algumas informações sobre a sua vida e obra para podermos e Mário de Sá-Carneiro podemos registrar algumas afinidades. Aos temas
enquadrar a narrativa analisada no contexto cultural e entender melhor as comuns pertence, entre outros, a criação da mulher fatal. Ambos os artistas têm
tendências artísticas do autor. na sua obra a imagem da mulher enfeitada que de longe os deslumbra. Grande
A própria análise da Confissão de Lúcio é dividida em três partes influência para o modernismo teve com certeza o Simbolismo, especialmente
parciais. Na primeira traçaremos a história da narrativa, na segunda vamos dar os literatos Eugênio de Castro e Camilo Pessanha. Eugenio de Castro representa
a maior importância as três personagens de Lúcio, Ricardo e Marta, cujas o pioneiro do Simbolismo português. Trata-se dum estilo que não tem as suas
características tentaremos detalhar. Ao fim desta parte ofereceremos a ideia de que raízes em Portugal, mas nas grandes cidades cosmopolitas, sobretudo em
todas estas três personagens são na verdade somente uma personagem dispersa. Paris. De mesma maneira como Eugenio de Castro, que se inspirou na literatura
O tema de desdobramento das personagens não figura na obra de francesa, também Almada-Negreiros e Sá-Cameiro desenvolveram mais tarde
Sá-Cameiro meramente nesta novela analisada. Pelo contrario, podemos dizer, o modemismo graças à influência parisiense. Camilo Peçanha, autor da coletânea
que o desdobramento, é um dos temas mais frequentes em toda a sua obra. Por conhecida como Clepsidra, impressionou fortemente o grupo dos artistas
isso, durante toda a análise remeteremos aos seus outros textos, quer contos modernistas que colaboraram na revista Orpheu.
quer poemas, para aproximarmos e explicarmos este problema de modo mais Os elementos característicos do decadentismo que se encontram
eficaz. Da mesma maneira como as outras obras do escritor, também A somente em Portugal são visíveis nos grupos de neo-garretismo, e de
Confissão de Lúcio é muito rica em ambiguidades, incoerências e mistérios e saudosismo. Estes grupos pretendiam ressuscitar a alma nacional para criarem
oferece espaço para mais do que uma interpretação admissível. Por isso, uma arte português com os seus tradições, mas este desejo estava mais virado
nenhuma das interpretações da Confissão de Lúcio pode ser considerada a única para o Futuro do que para a contemplação nostálgica do Passado.
e a mais certa. 1.2.Primeiro grupo modernista
Uma das questões básicas nesta novela que levanta problemas Como escreveu Mário de Sá-Carneiro ao seu amigo Fernando Pessoa
relaciona-se com o próprio título. De quem é a confissão desta narrativa na numa das cartas, era preciso ter um pouco da Europa na alma. Quer dizer,
verdade? De Lúcio? De Ricardo? Ou do próprio Sá-Carneiro? No fim da segundo alguns artistas do princípio do século XX, a literatura portuguesa
análise tentaremos, portanto, responder também a esta questão misteriosa. precisava de absorver algumas tendências literárias européias.
A atividade artística de cada artista é, em certos aspectos, uma reflexão Apesar de que Pessoa junto com Sá-Carneiro publicassem alguns
da sua própria vida e não vamos ser longe da verdade ao dizermos que em artigos, poemas e contos inovadores na revista saudosista AÁguia, logo se viu
cada poema ou conto de Sá-Carneiro defrontamo-nos com elementos que era necessário fundar uma própria revista. À volta de Mário de Sá-Carneiro
autobiográficos. e de Fernando Pessoa criou-se um pequeno grupo dos artistas que
Em consequência, a curta vida de Sá-Carneiro terminada pelo suicídio compartilhavam as mesmas ideias. Além dos escritores (podemos mencionar,
quando o poeta tinha somente 26 anos enraizou em seus leitores e críticos uma entre outros, Luis de Montalvor, Almada Negreiros, Ângelo de Lima ou Raul
visão de que toda a sua obra é sobretudo uma autobiografia. Mas este Leal), reuniram-se neste grupo também artistas plásticos, entre outros, por
entendimento da obra de Sá- Carneíro traz consigo o perigo de ser toda exemplo, Santa Rita Pintor. Nas suas obras entrechocaram-se tendências que
considerada do ponto de vista da autobiografia de um suicida louco, sendo o tinham irradiado de Paris, mas que recebiam por seu intermédio, em Lisboa,
lado artístico um tant o "assombrado". uma interpretação extremamente original. Aintrodução das tendências parisienses
O nosso trabalho quer, por isso, conceber a análise da Confissão de deu origem ao futurismo português, ao paulismo, sensacionismo e
Lúcio sob o aspecto nomeadamente literário e artístico. Todavia, não omitiremos interseccionismo - por outras palavras, as correntes que são ligadas sobretudo
também o papel do autor na sua obra. com a obra de Fernando Pessoa, Sá-Carneiro e Almada Negreiros.
1. ORPHEU E O MODERNISMO PORTUGUÊS As novas tendências circulantes no grupo exigiam com insistência
1.1. Decadentismo português uma revista. Embora o projeto da revista progressista fosse já dois anos atrás
Para darmos uma boa explicação do movimento literário chamado o discutido entre Pessoa e Sá-Carneiro, a ideia de estabelecer a revista Orpheu
modernismo temos que voltar alguns anos a corrente A que o modernismo chegou de Ronald de Carvalho e Montvalor, cujo objetivo era criar uma revista
precedeu. de intercambio literário luso-brasileiro.
Do ponto de vista literário, a passagem do século XIX e XX parecia O primeiro número de Orpheu, com que o modernismo entrou em
dominada pelo decadentismo. Mas o decadentismo não pode ser considerado Portugal, foi lançado em Março de 1915, sendo financiado pelo dinheiro do pai
uma época rigorosamente artística. Temos que falar sobre um tipo da percepção de Mário de Sá- Carneiro. Foi anunciado como uma revista trimestral, mas por
humana dessa altura que se refletiu no estilo da vida e em vários outros ramos causa da falta de dinheiro foram publicados apenas dois números. Já o primeiro
para além dos artísticos. número do Orpheu causou no campo literato um grande escândalo. As críticas
Por um lado, o decadentismo é caracterizado pela euforia dos consideravam os artistas participando nesta revista uns malucos e psiquicamente
progressos tecnológicos acompanhados pela migração às cidades grandes. A doentes. "A primeira imagem pública de Sá-Carneiro e, assim ,a de principal
mudança decorreu também dentro da sociedade. Um dos avanços significativos figura de um escândalo."
foi, por exemplo, a mudança em conceber o papel da mulher na sociedade. E o que queriam os participantes do Orpheu que se alinham em
Mas por outro lado, o decadentismo trouxe crise em pensamentos racionais do primeira geração modernista? O objectivo dos modernistas era provocar, criar
homem finissecular distinguindo-se em cepticismo ou aversão e medo pela escândalos e manifestar contra a literatura "oficial e acadêmica". Desejavam
vida quotidiana e estereotipada. criar a literatura "moderna" que aceitaria todos os - ismos oferecendo assim -
Os artistas tentam fugir do mundo real e criam um mundo próprio. uma nova atitude estética. As exigências mais urgentes deste estilo assentam-
Os aspectos mais palpáveis na literatura consistem em pessimismo, niilismo, se em cosmopolitismo e universalismo (num desejo de as obras serem
narcisismo, morbidez, um erotismo excessivo, misticismo e exotismo. "européias"). O segundo núrnero de Orpheu surgiu em Julho de 1915.

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Os diretores da revista tornaram-se Pessoa e Sá-Carneiro. Neste número sendo-o. Não é a boca daquela rapariga que eu quisera beijar, o que me
encontramos já textos claramente modernistas e vanguardistas. Por oposição satisfaria era sentir-me, ser-me aquela boca, ser-me toda a gentileza do seu
a Orpheu 1, que reúne textos numa tradição próxima dos mestres simbolistas, corpo agreste." Com certeza esta sua sensação de nunca a obter inteiramente
o Orpheu 2 é sobretudo um conjunto textual onde a vanguarda é dominante. levou-o loucura. É provável que a rapariga fosse uma rapariga "ligeira". E
à

Mário de Sá - Carneiro, partindo depois da publicação do segundo como José Araújo acrescenta, nos encontros com esta mulher, o escritor
número para Paris, planeou lançar o número seguinte. Mas por causa do fim do gastava muito dinheiro. Mário de Sá-Carneiro que nesse tempo termina a
financiamento de Orpheu pelo pai de Sá-Carneiro, o terceiro número nunca receber dinheiro do seu pai e que nunca tinha nenhum emprego, sofreu muito da
chegou à imprensa carência financeira. É possível que o desespero de nunca conquistar esta
2. BREVE INTRODUÇÃO A VIDA E À OBRA DE MÁRIO DE SÁ- rapariga e a falta de dinheiro tenham apressado a sua decisão de se suicídar.
CARNEIRO Afinal o seu corpo ainda vivo foi encontrado no dia 26 de Abril por José Araújo
2.1. Vida de Mário de Sá-Carneiro que o visitou. Mário de Sá-Carneiro suicidou-se da mesma maneira teatral e
A personalidade de Mário de Sá-Carneiro era muito complicada, por espetacular como cinco anos atrás o seu amigo Tomas Cabreira Júnior, Foi
isso vamos tentar mencionar os aconíecmentos mais importantes da sua vida encontrado vestido num traje e deitado na cama. Algumas horas antes deste
que marcaram a sua obra. suicídio, Mário de Sá-Carneiro pediu a José Araújo para ele o visitar às oito
Mário de Sá-Carneiro nasceu a 19 de Maio de 1890 em Lisboa. horas em ponto. Era a hora da sua morte. O escritor quis com certeza criar da
Quando tinha dois anos a sua mãe morreu e por causa do trabalho militar sua morte um espetáculo forte para se aproximar aos suicídios das suas
pretensioso do seu pai Carlos Augusto de Sá-Carneiro, o cuidado e educação personagens literárias. Apesar de que o seu suicídio fosse causado evidentemente
ficaram em responsabilidade dos avós do lado paterno. por causa da rapariga e da falta de dinheiro, e provável que a sua morte
O pequeno menino passou a sua infância isolado e afastado da prematura tenha sido, em relação as suas atitudes, inevitável. Era um homem
sociedade e das crianças da mesma idade. Por essa razão, teve durante toda muito egoístico com uma psíquica desequilibrada ou seja um homem destinado
a sua vida problemas de enquadramento em qualquer sociedade. Do cuidado a cair, como ícaro ao tocar o Sol, ou ao perder-se no labirinto do seu ser misterioso.
dos seus avós e do pai era muito mimado e da vida sedentária sofreu da 2.2. Obra de Mário de Sa-Carneiro
gordura. Apesar de que na sua vida futura vivesse com vergonha do seu As primeiras tentativas literárias significantes de Mário de Sá-Cameiro
desajeitado fisico e da incapacidade de atrair qualquer companhia feminina, apareceram quando o poeta tinha catorze anos. No inicio da sua criatividade
cresceu nele o sentido de ser predestinado para alguma vida especial. "( ...) o literária, Mário de Sá-Cameiro era interessado sobretudo em teatro.
mimo da infância lhe dera a convicção intima de ser, apesar de tudo, alguém, Em 1905 escreveu a sua primeira peça de um ato que se chamou Vencido.
uma pessoa excepcional, um príncipe," O primeiro êxito literário trouxe a Sá- Logo depois demonstrou também ambições de se apresentar como um
Carneiro a peça de teatro Amizade que escreveu com o seu colega de liceu ator, mas como descobriu que não dispunha de suficiente talento, decídiu-se
Tomas Cabreira Júnior em 1910. Relativamente curta amizade com Tomas renunciar a outras tentativas de ator. A peça "Amizade" escrita ainda com
influenciou tanto a vida quanto a obra do autor. Ambos os colegas de liceu Tomas Cabreira Júnior provém do ano 1910. A fase destas primeiras tentativas
encontraram nas suas vidas muitas afinidades e é provável que as suas teatrais é considerada por Fernando Cabral Martins a fase primeira orientada
percepções da vida fossem muito semelhantes. Por isso não surpreende que pelo Naturalismo. A mudança para o interesse em Vanguarda chegou com a
ambos os homens terminaram a sua vida pelo suicídio. Depois dos estudos no primeira partida de Sá-Cameiro para Paris em Outubro de 1912.
liceu que Mário de Sá-Carneiro concluiu em 1911 começou a estudar Direito na Entre os anos 1912 e 1916 foram publicadas as suas obras de valor
Faculdade de Letras em Coimbra. Essa altura é significante também do ponto muito significativo. Em primeiro lugar foi lançado Princípio (1912), livro das
de vista poética. É o tempo em que Mário de Sá-Carneiro escreve os seus suas primeiras novelas, dois anos depois o poeta escreveu doze poemas
primeiros poemas. Mas nem sequer ter terminado o primeiro ano na Universidade colocados em livro chamado Dispersão. De ano 1914 provém também a
de Coirnbra, decídi-se por acabar os estudos e foi para Paris que o fascinou narrativa Confissão de Lúcio e um ano a seguir foram publicados outros contos
pela sua grandeza, modernidade e progresso técnico e artístico. subordinados ao título Céu em fogo.
Dos anos 1912-1916 em que passou a sua vida entre as cidades Depois da sua morte apareceram mais alguns textos publicados muitas
Paris e Lisboa provém a sua melhor obra literária. Nessa época iniciaram-se vezes pelas revistas modernistas. Em 1924 na Athena 2 saiu os Últimos
amizades com pessoas de grande importância que atuavam no campo artístico. Poemas, em 1937 foi editada outra coletânea de poemas chamada Indícios de
Em Lisboa tornou-se amigo de Fernando Pessoa. Durante a estadia de Mário Oiro. E afinal entre os anos 1958 e 1959 veio a publico a correspondência de
de Sá-Cameiro em Paris decorria entre ambos os homens uma correspondêncía Sá-Carneiro a Fernando Pessoa colocada em dois volumes.
regular. Graças a estas cartas descobrimos muito sobre a personagem de Apesar das publicações em livros, Mário de Sá-Carneiro, contribuía
Mário de Sá-Carneiro, porém o valor das cartas consiste também em também para varias revistas. Ainda no tempo estudantil fundou o jomal O Chino
conhecimento da vanguarda francesa do ponto de vista de Mário de Sá- que pode ser considerado o precursor de Orpheu, mais tarde ainda com Femando
Carneiro que, em Paris contatou com vários artistas. Dos seus contactos Pessoa publicou os seus textos na revista saudosista A Águia. Mas com
parisienses dava conta ao amigo (a Fernando Pessoa), o que permitiu uma certeza a revista mais considerável da sua criatividade é Orpheu fundada em 1915.
atualização permanente dos nossos modernistas ( ...) afirmou Amélia Pinto 2.3. Temas da obra de Mário de Sá-Carneiro
Pais. Nas obras de Mário de Sá-Carneiro são marcantes ainda os aspectos
Voltando de Paris, Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa junto decadentistas e simbolistas, aspectos das correntes literárias do inicio do século XX.
com um grupo dos artistas das mesmas ideias fundaram, em Marco de 1915, Estas correntes refletem-se nos seus textos em forma do culto da
a revista Orpheu. Graças a ela entrou o modernismo em Portugal de caminho Beleza que é bem palpável nas descrições do espaço e das mulheres formosas.
oficial. Depois de segundo número de Orpheu (publicado em Julho de 1915) Das novas formas literárias típicas para o modemismo, podem ver-se
Mário de Sá-Carneiro mudou definitivamente para Paris. Mário de Sá-Carneiro na obra deste autor as marcas de paulismo, na poesia aparece o sensacionismo
suicidou-se no dia de 26 de Abril de 1916 ao consumir cinco frascos de e futurismo e, às vezes, também o interseccionismo.
arsenialo de estricnina. O seu suicídio não foi uma grande surpresa, porque nas Os temas compreendem varias formas de frustrações e obsessões
cartas enviadas a Fernando Pessoa, Sá-Carneiro anunciou já algumas vezes pela morte, sexualidade, beleza, excentricidade etc. Segundo José Régio, na
que se pretende matar. As razões concretas do seu suicídio não são bern obra de Sá-Carneiro predominam três obsessões relevantes: a do suicídio, a
conhecidas. É provável que as tendências para se matar tenham crescido nos do amor pervertido, a da anormalidade avançada até a loucura. As personagens
seus pensarnentos já muito tempo atrás. Mas na época de 1916, em que vivia das suas novelas são dispersas, enlouquecidas e quase sempre buscam uma
em Paris, os seus problemas psíquicos acumularam-se. Nessa altura Mário de solução para fugir aos seus problemas, ou seja a realidade. Sobre as personagens
Sá-Carneiro encontrou para primeira vez num café parisiense uma rnulher por destas novelas escreve também Pavla Lidmilova: "São os seres hipersensíveis,
quem conseguiu ter grande interesse. Segundo José Araújo, um comerciante e cujo êxtase toca a loucura. Assassínio ou suicídio - dissipação ou desaparição-
amigo de Sá-Carneiro, não se tratava de arnor propriamente dito, mas com e a única solução no momento do despertar iminente e da desilusão"
certeza aquela rapariga enlouquecía o escritor bastante. Se ele não a amava, Na sua poesia o sujeito sofre muitas vezes da autopiedade e do desejo
com certeza a desejava. E como ele escreveu numa das cartas a Fernando de não ser eu mas o outro. Depois segue o medo da perda de si mesmo que e
Pessoa, ele não era capaz de satisfazer nenhum destes desejos. substituída por vaguear em labirintos da alma.
"O que eu desejo, nunca posso obter nem possuir, porque só o possuíra Em geral podemos dizer que se trata do problema de desdobramento.

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É necessário acentuar que o tema do desdobramento nem é o elemento típico Rícardo Loureiro.
exclusivamente de Mário de Sá-Carneiro, nem da época literária rnodernista. 3.2. Abertura aos símbolos
Os temas do duplo e do desdobramento apareceram já na literatura romântica. A primeira parte da narrativa pode ser considerada a exposição do
Na altura do Realismo e Naturalismo este problema ainda se aprofundou. ambiente em que os protagonistas principais vão circular. A intenção do autor
Como um dos melhores exemplos duma personagem desdobrada podemos consiste em composição dum espaço irreal, feérico, cheio dos sonhos e de
anotar um Raskolnikov do romance Crime e Castigo de Fiodor Dostoievski. fantasmas. Trata-se dum espaço, cujas fronteiras entre o mundo real e irreal são
Como no caso de Lúcio que faz uma confissão de um crime que cometeu, muito pouco definidas, de maneira que o sonho toma-se um aspecto da realidade.
também Raskolnikov tenta através dos monólogos interiores explicar os seus E esta interpenetração do real e do irreal será uma constante do romance.
motivos que o levaram ao assassinato. Lúcio Vaz, vivendo neste momento em Paris cosmopolita na companhia
Semelhantemente aos contos de Sá-Carneiro, as personagens de das artistas e passando a maioria do seu tempo livre com Gervásio Vila-Nova,
Dostoievski demonstram o seu desdobramento através de várias obsessões. está um certo dia convidado ao palácio duma Americana fornnidável. Um dos
Trata-se de uma oscilação entre a ânsia e desespero e fuga da realidade ao convidados era também Ricardo Loureiro. Aqui assistiram todos os convidados
sonho. Mas, enquanto as personagens das histórias realistas vivem na realidade, a um espetáculo inesquecível- a uma "Orgia de fogo". As raparigas quase
no caso de Sá-Carneiro são as personaqens cercadas da imensa quantidade nuas cobertas de oiro dançavam num espaço repleto de luzes, aromas, fogos,
das metáforas e símbolos e oscilam entre o rnundo real e irreal de modo que águas e ...ludo se reunia numa orgia de came espiritualizada em outro.
nunca temos certezaonde se na verdade encontram e duvidamos se Na descrição da "Orgia de fogo" revelam-se as tendências de Sá
realmente existem. Carneiro as perversidades sexuais e a importância do corpo que representa a
3. O DESDOBRAMENTO DAS PERSONAGENS NA NARRATIVA porta a alma humana. O próprio autor ate vincula a sexualidade com a arte. Dito
A CONFISSAO DE LÚCIO pela boca da Americana fulva, ( ... )voluptuosidade é uma arte-e talvez ,a mais
A novela foi publicada simultaneamente com o livro dos poemas bela de todas. ( ...) fremir em espasmos de aurora, em êxtases de chama,
Dispersão em 1914. As primeiras críticas desta novela não foram favoráveis. ruivos de ânsia-não será um prazer bem mais arrepiado, bem mais intenso do
Contra a novela apresentou-se entre outros também a revista A Águia que que o vago calafrio de beleza que nos pode proporcionar uma tela genial, um
escreveu: (...) o Sr. Sá- Carneiro não foi feliz na escolha do seu assunto. poema de bronze? AAmericana formidável representa por sua vez um tipo da
Tratou-o com talento e original expressão, não obstante a febre tumultuaria de prefiguração da personagem da Marta -uma mulher místeriosa de corpo ideal.
duas ou três noites em que o escreveu, mas não pode ter a nossa simpatia pelo Durante toda a descrição do ambiente de palácio e do espetáculo Sá-
processo que seguiu. Uma critica semelhante apareceu no jornal O primeiro de Cameiro não poupa com adjetivos e verbos extravagantes e aparentemente
Janeiro. Embora avaliasse a cena de "Orgia de Fogo" sobre o resto da narrativa não convenientes para acompanharem os certos substantivos. Sá-Carneiro
acrescentou que se tratava duma psicologia de tal maneira inadmissível que, na descreve por exemplo a carne que se marulha ou a maravilha que nos varou.
verdade, só pode aceitar-se por singularidade literária. Outra vez fala sobre brisa cinzenta com laivos amarelos, luz sexualizada ou
O valor desta narrativa foi avaliado no momento da sua publicação beijos de esmeraldas. Estas metáforas originais transgridem a nossa imaginação
somente no interior do grupo modernista e nalgumas revistas brasileiras. A e criam realmente um mundo irreal, o Além. O autor mesmo criou um ambiente
apreciação da novela chegou sobretudo alguns anos mais tarde depois da onde é a luz em vez dos olhos absorvida pelo tacto. O Lúcio confessa que se
morte de Sá-Carneiro. Grande avaliação recebeu A Confissão de Lúcio de de súbito nos arrancassem os olhos, nem por isso nos deixaríamos de ver. Em
José Régio quem a designou a obra-prima entre as narrativas do autor. todo o ambiente e nos corpos nus das bailarinas ha muito oiro, cor amarela,
roxa, fulva e ruiva, fogo cintilado, luz dourada etc. Trata-se dum símbolo
3.1. Conteúdo da narrativa preferido do autor. Muito bem vemos a sua inclinação ao oiro na descrição da
Toda a história desta narrativa e contada pelo escritor Lúcio Vaz que no Americana: Envolvia-a uma túnica branca, listada de amarelo. (...) Jóias
momento do início da sua narrativa acabou por expiar dez anos na prisão. Esta fantásticas nas mãos, e os pés descalços, constelados ... (...)Como os lábios,
condenação foi, conforme as suas palavras, injusta porque o crime passional os bicos dos seios e o sexo estavam dourados - num ouro pálido, doentio. E
que lhe foi atribuído não cometeu. toda ela serpenteava em misticismo escarlate a querer-se dar ao fogo ... Aliás,
Agora depois de uez anos de preso, Lúcio decidiu dar uma confissão que mais do que o metal precioso podia marcar o supremo, o super-real?
sincera que explicaria todas as circunstâncias do assassinato envolvido em Com certeza não e por acaso que este lugar "fantástico" tornou-se o
mistério e que demonstraria a sua inocência. sítio do primeiro encontro de Lúcio com o poeta, autor das Brasas,
Embora acentue que durante toda a sua narrativa não se esquece de Ricardo Loureiro.
mencionar nem um pormenor aparentemente prescindível e que a sua confissão 3.3. Lúcio Vaz - o corpo
consistira só em fatos verdadeiros, ele próprio fica na dúvida se a sua confissão Lúcio Vaz desempenha o papel de narrador. Mas apesar de que julgue
será recebida com seriedade. que a sua confissão será objetiva, "a história contada por ele não pode deixar
No início descreve o seu encontro com o poeta Ricardo Loureiro e a de ser apenas uma versão possível, e não a única," como nota Fernando
amizade íntima crescendo entre os dois artistas logo depois. As grandes mudanças Cabral Martins. O problema de Lúcio consiste em fato que por um lado e o
na vida de Lúcio começaram a decorrer no momento em que lhe foi apresentada narrador da história e por outro lado e um dos protagonistas principais. "Lúcio
Marta, esplêndida e misteriosa esposa de Ricardo. Sem saber donde e quem nem é o protagonista da sua narrativa (...) nem é espectador, está entre asduas
esta mulher enigmática era e não podendo dizer nenhuma coisa sobre o seu coisas e é as duas coisas ao mesmo tempo,"
passado, Lúcio começa a duvidar da sua existência real. Mas apesar destas Somente na primeira parte da novela ou seja antes de aparição da
ambiguidades que rodeiam a personagem de Marta ou por isso mesmo Lúcio Marta, Lúcio mantém o papel de narrador - testemunha. Nesta altura Lúcio não
fica entusiasmado pela sua beleza nascendo nele uma ânsia persistente. Ao fala sobre as suas impressões, sensações artísticas ou psíquicas. Ou seja, as
passar a ser o amante dela, Lúcio eleva-se até ao cume da delícia. Nesta altura suas expressões e emoções não tem tanta força e urgência em comparação
escreve as suas obras-primas e uma peça Chama. A sua vida começa a com outras partes da narrativa. Como ele próprio afirmou, na primeira parte
precipitar-se com um descobrimento chocante: apura que ele não é o único descreve em principio somente os fatos. Deste modo chegamos a saber do
amante de Marta. E ainda por cima, descobre que Ricardo sabe sobre esta ambiente artístico em Paris e sobretudo dos acontecimentos relacionados com
relação e durante todo esse tempo assistia tranquilamente esta aventura erótica a Americana ruiva e do seu espetáculo fantástico, que ultrapassa as convenções
dele e da esposa. habituais.
No fim desta confissão Lúcio descreve Ricardo como deprimido. O Na descrição do ambiente recebemos também a opinião de Lúcio sobre
poeta tentou explicar o seu comportamento anterior. Por intermédio de Marta a arte. Encontramo-nos no ambiente da vanguarda. Lúcio, à semelhança de
desejava entrar na alma de Lúcio retribuindo assim a sua amizade. Mas quando Ricardo, abomina e despreza a sociedade artística baseada em admiração das
reparou que o papel de Marta funcionava como um elemento separador da novidades mais ardentes e mais difundidas. Os artistas que preferem este tipo
amizade firme entre ambos os homens, resolveu-se eliminar a sua esposa. da arte são muitas vezes fantoches sem própria criatividade. Deste modo
Assim resolvido dá um tiro do seu revólver a Marta. Lúcio fica muito surpreendido desaparecem numa massa da arte comercial, sem individualismo. A essência •
quando, em vez do corpo da Marta, estende-se no chão o corpo do Ricardo. A desta "arte" não e percebida como um resultado estético, pois o seu objetivo é
Marta desaparece sem nenhum vestígio e o Lúcio chocado com o revólver orientado ao aspecto físico e a atratividade do artista.
ainda fumegante junto aos seus pés fica acusado da morte do poeta O protótipo desta concepção compreende Gervásio Vila-Nova, um

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amigo de Lúcio. O Lúcio diz sobre o seu amigo.: "Pois Gervásio partia do considerar cada uma deles como uma individualidade." Conforme as suas
principio de que o artista não se revelava pelas suas obras, mas sim, unicamente, palavras, Ricardo sente-se predestinado para a obtenção dalguma coisa muito
pela sua personalidade.( ...) pouco importava a obra de um artista.Exigia-lhe elevada. Sente que o seu papel na vida não é a condenação à vida banal. O
porém que fosse interessante,genial, no seu 'aspecto físíco, na sua maneíra de problema consiste em incapacidade de obter esta eminência indefinida.Atendênda
ser. "O Lúcio sente antipatia portais pessoas." (...) como eu no fundo abominava a subir e atingir o cume da vida aparece também em muitos poemas de Sá-
essa gente-os artistas. Isto e, os falsos artistas cuja obra se encerra nas suas Carneiro. Para darmos um exemplo podemos citar do poema Partida da
atitudes, que falam petulantemente, que se mostram complicados de sentidos e coletânea poética Dispersão.
apetites, artificiais, irritantes, íntoleráveis. Enfim, que são os exploradores da E subir, e subir além dos céus
arte apenas no que ela tem de falso e de exterior. Não há nenhuma surpresa que Que as nossas almas só acumularam,
o próprio Sá-Carneiro tem a mesma antipatia por esta gente chamando-lhe E prostrados rezar, em sonho, ao Deus
lepidópteros. "A expressão lepidóptero, no sentido rnetafóríco indicado,( ...) Que as nossas mãos de auréola Lá douraram
sendo-o também a generalização de Júlio Dantas como paradigma de Não obstante estas subidas não têm muito êxito. Não têm grande
convencionalismo," permanência e o que é ainda pior, quase sempre segue uma queda torturante.
Pelo contrário Lúcio sente desde início muita simpatia por Ricardo E o regresso da alteza não termina na terra, senão no abismo profundo. No
Loureíro. Segundo as palavras de Lúcio trata-se dum indivíduo mais propriamente contexto da obra de Sá-Carneiro fala-se do assim chamado complexo do ícaro,
introvertido, da fisionomia muito expressiva, mas Lúcio não é capaz de dizer se um simbolo da descida súbita da alteza reputada e feliz.
era ou não era formoso. Sem dúvidas tratava-se dum artista em cujo seio se No poema Quase reflete-se a história da antiga mitologia grega com os
acumulava um grande potencial artístico. Em oposição aos lepidópteros, o seus símbolos característicos: sol, asas e mar.
mundo artístico desse poeta foí escondido na sua alma cheia da inquietação e Um pouco mais de sol- eu era brasa.
contradições. Um pouco mais de azul- eu era além.
Por que razão tem Lúcio tanta simpatia e compreensão por este homem? Para atingir, faltou-me um golpe de asas .
Vamos tentar dar urna interpretação explicativa. A amizade com o Se ao menos eu permanecesse aquém .
Ricardo traz à vida de Lúcio um novo impulso para viver. Ou seja, como Lúcio Assombro ou paz; Em vão ...Tudo esvaído
mesmo diz: (...) (o) encontro (...) marcou o principio da minha vida." Então será Num baixo mar enganador despuma
que antes desse encontro Lúcio não vivia? A explicação para a sua expressão ( ... )
pode ser a seguinte: Vivia só do corpo, no qual a sua alma estava profundamente No caso de Ricardo, o complexo do ícaro e também presente. A grande
escondida. Será que o seu corpo estava à espera dum enchimento ou abertura delícia para Ricardo chega com a Marta. Através dela permeara a sua alma, a
à alma? E será que Lúcio estava à espera de Ricardo considerando-o a alma de Lúcio. Mas infelizmente esta ponte entre ambos os homens não tem
encarnação do espírito? "Pela primeira vez eu encontrara efetivamente alguém sucesso resistente. Em vez da amizade, Lúcio começa a sentir aversão a
que sabia descer um pouco aos recantos ignorados do meu espírito." Estas Ricardo. Por isso Ricardo decide destruir não só Marta mas também a si
suas sensações podemos explicá-Ias como a recordação da alma escondida mesmo. O caminho da delícia tem o seu destino na morte.
no recanto do corpo do escritor. O complexo do ícaro tem na obra de Sá-Carneiro dimensões ainda
mais amplas. A queda ao abismo não é causada por nenhum elemento extemo
3.4. Ricardo Loureiro-a alma Ricardo Loureiro representa uma imagem mas na maioria das vezes trata-se da autodestruição acompanhada pela
de um artista ideal, porque cumpre, do ponto de vista de Lúcio, todos os critérios autopiedade. A queda ao abismo não é sofrida com dignidade mas, ao contrário
dum poeta verdadeiro. Segundo Lúcio, ele é uma pessoa que como um artísta com arrependimento. As personagens esperam que o seu ambiente as veja e
pensa, fala, sente e sobretudo vive. Portanto no seu comportamento, por mais julgue com compaixão. No famoso poema Dispersão o sujeito diz:
esquisito e caprichoso que seja, não podemos ver nenhum esboço da Eu tenho pena de mim,
superficialidade. Falamos duma pessoa que quer queira quer não queira, esta Pobre menino ideal. ..
para a vida de artista predestinada. Trata se duma vida fora das banalidades Que me faltou afinal?
mas também duma vida artística predestinada para viver em tormento, Um elo? Um rasto? ...Ai de mim!
incompreensão, desventura, e em vários martírios. Isto é o preço pela genialidade O próprio Ricardo pede muitas vezes a Lúcio uma piedade com o seu
e talento do artista. Deste modo podemos resumir as ideias do autor sobre o destino difícil. Para mostrar a incapacidade de encontrar a tranqüilidade para a
artista ideal e sem dúvidas o próprio Sá-Carneiro criou a personagem de sua alma apela para Lúcio. "Tenha dó de mim ...muito dó" E ainda por cima,
Ricardo à sua imagem e semelhança. Ricardo abdica da responsabilidade pela sua vida quando compara a sua
Na personagem de Ricardo refletem-se também varias correntes infelicidade com uma metáfora original."A expressão da minha vida: uma partitura
literárias, nas atitudes dele entrecruza-se seja o decadentismo, sejam as novas admirável, estragada por um infame executante." Ricardo compara a sua vida
ideias modernistas. No seu comportamento encontram-se problemas de com uma partitura admirável. Esta partitura perfeita enchia os seus valores
existência, sensações da incapacidade de ter afetos, desequilíbrio psíquico, presumíveis se aparecesse um musico capaz de a tocar. Neste caso o músico
pensamentos tocando o niilismo, egoísmo e narcisismo mas também a ânsia é representado pelo ambiente em que Ricardo vive a sua vida. Infelizmente,
por progresso e certa tentativa de provocar e chocar a sociedade em seu redor. conforme as palavras de Ricardo, o ambiente em seu redor não é capaz de
Tentaremos então por partes analisar os aspectos acima referidos desta tocar a sua "vida." Ou seja, as suposições da sua vida frutuosa não são
personagem complicada. Segundo as suas atitudes e comportamentos podemos enchidas por causa do ambiente que está a estragar a sua vida.
traçar as rnarcas do seu caráter mais importantes. Todas as obsessões referidas (medo da banalidade, da rotina, pavor da
perda de individualismo, sentido da predestinação e a piedade porsi mesmo)
3.4.1. Complexo do ícaro podemos enquadrá-Ias no estilo literário decadente.
"( ...) 'a vida de todos os dias- é a única que eu amo. Simplesmente
não a posso existir." 3.4.2. Sonho, sono e morte
Este frase do próprio Ricardo representa, embora brevernente, mas Ricardo e também as outras personagens de Sá-Carneiro notam-se
propriamente a sua relação complicada com o mundo. Detalhemos esta sua muito complicadas. Ricardo, não só que não e contente com a vida real, mas
contradição mais profundamente. luta com as contrariedades em si mesmo. Busca a solução para a paz interior
Das conversas ocorridas entre ele e o Lúcio, ou melhor dito, das muitas não na realidade, mas na irrealidade ou na morte.
das confissões que Ricardo fez ao seu amigo escritor, descobrimos alguns Há duas possibilidades, ou seja duas fugas como enfrentar a
traços da sua incoerência psíquica. A essência do seu desequilíbrio consiste em intratabilidade atormentadora da vida: ou a autopiedade e a ternura, nos seus
incapacidade de viver a vida de todos os dias, embora o desejasse. Esta farto momentos de realismo lúcido, ou, mais idealizadamente, a busca da superioridade
da rotina, da impossibilidade de descobrir coisas novas, tem medo terrível da em formas como o sonho, afirma Carla Rocha.
perda de individualismo. Este fato é documentado pela sua proclamação depois Para além da autopiedade que já tratamos no capitulo anterior, a outra
de um espetáculo assistido em music-hall. Sobre as bailarinas inglesas diz. saída da realidade ao mundo irreal, ao Além, tem o seu objectivo em encontro
"Ora essas criaturinhas são todas iguais, sempre-vestidas dos mesmos fatos, das coisas raras, insólitas e atraentes. Nesta fuga podemos ver a conexão com
com as mesmas pemas nuas (...) De maneira que eu, em vão, me esforço por um outro conto de Sá-Carneiro que se chama O Homem dos sonhos. À

mEmD~----------------------------------------
-
semelhança de Ricardo, também o protagonista deste conto costuma de escapar da
vida real a vida nos sonhos onde unicamente encontra o paraíso para a sua alma 3.4.4. Mulher
farta e desgostosa da realidade. Deste modo "O homem dos sonhos" viaja aos "Ser belo! Ser belo!( ...) Haverá triunfo mais alto (...)eu quisera ser
países onde a cor não é cor, onde se respira arnúsica e, inclusivamente onde as belo, esplendidamente belo?" queixa-se Ricardo numa conversa com
almas eram visíveis e os corpos das pessoas invisíveis. Mas, infelizmente para Lúcio. Para Ricardo a fisionomia do seu corpo tem grande importância.
Ricardo, nem os sonhos conseguem dar-lhe a satisfação. Como ele confessa, Desta vez aparece no seu caráter uma outra qualidade. Trata-se do
"Outrora a noite, no meu leito, antes de dormir, eu punha-me a divagar. E era feliz por narcisismo e egoísmo. Este narcisismo é ligado outra vez com um tipo de
momentos, (...) Mas hoje não sei com que sonhos me robustecer, (...) eles próprios evasão. Como ele não é contente com o seu próprio corpo resolve-se criar
me fartaram: são sempre os mesmos (...) Depois, não me saciam apenas as coisas as suas próprias imagens das Quadros, Antonio. Introdução à vida e a
que possuo- aborrecem-me também as que não tenho, porque na vida como nos obra poética de Mário de Sá-Carneiro.ln. Sá-Carneiro, Mário de. Céu em
sonhos, são sempre as mesmas," Se Ricardo está farto da vida e mesmo farto dos Fogo.Livros de bolso Europa-América, mulheres de corpo ideal que ele
sonhos o que lhe resta ainda? Onde seria possível encontrar uma evasão? Ricardo conseguira conquistar e possuir. Trata-se, portanto, duma fuga para mulher
tem medo do tempo. Do tempo que nos dá espaço para nele criarmos a nossa vida. idealizada. Um exemplo demonstrativo e Marta. "Era uma linda mulher
Como gastar o tempo? Como fugir ao tempo? Ricardo luta contra o tempo ao viajar loira, muito loira, alta escultural- e a came mordorada, dura, fugitiva. O seu
e ao escrever. Mas estas duas possibilidades representam só uma fase passageira. olhar azul perdia-se de infinito, nostalgicamente. Tinha gestos nimbados, de
Como ele diz, através destas atividades só consome instantes. uma beleza vigorosa, talhado em ouro".
O único estado em que as pessoas não conseguem sentir o fluir do tempo Da mesma maneira que no início a Americana misteriosa, também
oferece o sono. No estado do sono somos levados ao esquecimento. "O sono que Marta desempenha o papel da mulherfatal e inatingível. Trata-se de um tipo
funciona como contraponto da excitação e antevisão da morte, e muitas vezes da mulher que aparece sem nenhuma razão, entontece todos em seu redor
desejado como solução baísârnica,' afirma Clara Rocha. Mas nem o sono funciona e depois de súbito outra vez sem nenhuma razão desaparece.
como recurso do esquecimento total. Sempre nos despertamos. Por isso temos que A beleza de mulher é quase sempre envolvida pelos símbolos e
avançar mais um passo. O esquecimento total da vida corresponde só a morte. Por metáforas. Além da simbólica do oiro, fogo e ruividão que ajudam a criar
isso a morte é a solução final de muitas personagens das novelas de Mário de Sá- uma sensação da beleza suprema e valiosa, aparece na obra de Mário de
Carneiro. Sá-Carneiro muitas vezes uma comparação de mulher com a estátua de
Também Ricardo termina a sua vida pelo suicídio. O suicídio na obra de Sá- pedra. "A estátua inquietadora do desejo contorcido, do vício platinado."
Cameiro é caracterizado como a vitoria. Nunca é o suicida visto de maneira indigna Assim descreve Lúcio a Americana fulva vestida quase em oiro antes do
e as personagens nunca são concebidas como cobardes. Esta atitude do autor é seu espetáculo fantástico. E afinal Lúcio escreve um drama onde um dos
visível já num dos seus primeiros poemas que foi escrito à memória do seu amigo protagonistas principais desempenha o papel do escultor - o criador das
Tomas Cabreira Júnior, Trata-se duma elegia que glorifica a coragem do suicida. estátuas. Para explicarmos esta obsessão de Sá-Carneiro pelas estátuas
Para Sá-Carneiro, suicidar-se não significa estar derrotado. temos que dar a nossa atenção ao conto Loucura. Nesta narrativa o
Foste vencido?Não sei. protagonista Raul tornou-se o escultor para poder criar figuras nuas da
Morrer não é vencer. beleza etema. As estátuas nunca serão tocadas pelo tempo, a sua etemidade
Nem é tão pouco vencer nunca desaparece. Só a pedra vive sempre, não envelhece e mantém a
( ... ) sua formosura. No início deste conto Raul recusa o corpo vivo e aceita só
Mas tu ainda alcançaste alguma coisa: a morte E há tantos como eu que não o corpo feito da pedra. Quando fala com o seu amigo escritor diz: "( ...)
alcançam nada. De costume, a morte das personagens precedem tentativas da Mulheres? Para quê? Não tenho as minhas estátuas, não tenho mármore?
criatividade artística, várias formas da loucura e perversidades ou obsessões sexuais. Dizem vocês os literatos cretinos, descrevendo o corpo de uma mulher
Em geral, estes aspectos representam a última tentativa de não sucumbir à vida ideal: As suas pemas bem torneadas, eram duas colunas de rijo mármore,
cinzenta e banal. o seu colo, alabastro, puro. (...) vocês compreendem que a suprema
beleza da carne esta em parecer pedra ..."
3.4.3. Ânsia por Paris A ânsia imensa de possuir uma mulher deste tipo e na obra de
Se Ricardo goza na vida de alguma coisa, trata-se com certeza de Paris Sá-Carneiro bem palpável. As mesmas ânsias de apoderar-se duma
cosmopolita e do seu progresso civilizador. Através da sua admiração por esta mulher ideal são visíveis também no caso de Lúcio. Lúcio está cada vez
cidade metropolita reflecte-se nesta obra de Sá-Carneiro o futurismo. mais e mais movido pelo desejo de se apoderar de Marta. E esta caca a
Apesar de que na obra de Sá-Cameiro o futurismo não predomine, a simpatia mulher ideal revela-se nos atos sexuais em que Lúcio vê a única
com este estilo literário é evidente. possibilidade de a possuir absolutamente. Porém as sensações da
Sa-Carneiro vê o melhor exemplo do futurismo na obra do seu amigo apropriação mudam-se muitas vezes nos receios de a não ter inteiramente
escritor Fernando Pessoa. "Ao ler a Ode Triunfal de Fernando Pessoa, sob o e de a um dia perder para sempre.
heterônimo de Álvaro de Campos, que considerava a obra-prima do Futurismo, e "( ...)Cada dia que se levantava, era cheio de medo de que ela me
que a seu ver era a maravilha produzida pela escola fundada por Marinetti (...), faltasse. E desde a manhã a esperava, fechado em casa, numa excitação
Mário de Sá-Cameiro escrevera-lhe alguns meses depois: Depois de tudo isto, meu indominável que me quebrava, que me ardia." diz o próprio Lúcio dos seus
Amigo, mais do que nunca urge a Europa!". Ricardo dissipa-se no movimento martírios.
citadino de Paris, por cujas ruas flutua diariamente a vida simples e útil. Outra vez
enfrenta a complicação da sua alma. Numa página despreza a vida simples e 3.4.5. Procura da ponte de ligação artística
quotidiana, na noutra página está encantado com esta mesma vida mas não tem Os encontros de ambos os homens, Ricardo e de Lúcio, decorrem
capacidade de a viver. "Sou todo de incoerências. Vivo desolado, abatido, parado em forma de conversas incessantes. O rumo destes diálogos mútuos e
de energia, e admiro a vida, entanto como nunca ninguém a admirou." E depois dirigido pelo Ricardo. E Ricardo quem influencia os pensamentos de Lúcio.
segue uma exaltação e admiração da tecnologia e do progresso da Por isso podemos conceber a personagem de Ricardo como um impulso
modernização:"Lancar pontes! Lancar pontes! Silvar estradas férreas! Erguer torres para a criatividade artística de Lúcio. E podemos fazer uma afirmação
de aço ...!Contudo, Paris nao e nesta obra admirada somente do ponto de vista da corajosa quando dizemos que Ricardo personifica este impulso artístico.
sua grandeza cosmopolita. Aexaltação de Ricardo é ainda mais profunda. Ele ama Por isso trata-se desta ânsia de criar que se estabeleceu no seio de
a Paris por sua alma e tem saudades dela como se fosse um corpo duma mulher Lúcio.
formosa e ideal. As suas saudades de Paris, explica-as deste modo: "E a minha Contudo, ter a ânsia de criar não chega. É preciso ainda dalguma
saudade foi então a mesma que se tem pelo corpo de uma amante perdida ( ...) inspiração artística que possibilita aos pensamentos internos penetrar na
Amo-a por uma auréola, talvez, que a envolve e a constitui em alma," Deste modo vida. Por isso Ricardo sofre tanto, porque ele mesmo não é capaz de
personifica a cidade e, pela primeira vez, mostra a sua inclinação e admiração pelo prestar esta inspiração ao seu amigo. Deste modo, e possível interpretar as
corpo humano. Temos que dizer que o corpo feminino ideal pertence aos seus seguintes palavras de Ricardo. " (...) não posso ser amigo de ninguém. -
valores supremos. ( ) E como se me faltasse um sentido - se fosse cego, se fosse surdo.
( ) Há qualquer coisa que eu vejo, e não posso abranger, qualquer coisa
que eu palpo, e não posso sentir ...Sou um desgraçado ...um grande

----------------------------------------~IDIIID
desgraçado, acredite" Aincapacidade e fraqueza de não estar amigo de ninguém
consome esta alma incoerente. Asaída desta crise humana é vista por Ricardo 3.6. Corpo - Alma - Arte
numa transformação sexual. "Logo só poderia ser amigo de uma criatura do As personagens da narrativa de Sá-Cameiro são envolvidas no mistério.
meu sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo," Por mais estranha Nenhuma das personagens desta tríade pode ser considerada como um
que esta frase pareça, logo depois somos testemunhas da realização desta indivíduo. Permeiam-se mutuamente, fundem-se em unidade e ao mesmo
ocorrência. E Marta que Ricardo criou e em quem transformou o seu ser. Ao tempo entram em contradições e oposições.
criar Marta, a alma de Ricardo descobre a paz. Cria-se a ponte entre ambos os Todos os três representam uma pessoa desdobrada, cheia da incoerência.
homens e graças a Marta entra em Lúcio a verdadeira arte. Lúcio simboliza o corpo exterior, um tipo da casca em que o seu Eu procura a
alma dispersada de Ricardo. Através de Marta tenta expandir-se a vida real e
3.5. Marta - a arte encontrar a paz e harmonia eterna.
A personagem misteriosa de Marta é um símbolo da ligação do corpo de Para justificarmos esta nossa ideia da unidade destas três personagens
Lúcio com a alma de Ricardo. Como escreve Femando Cabral Martins, Marta podemos ainda declarar alguns momentos da narrativa significativos.
e uma metáfora do oiro, da alma e da literatura." Graças a ela encontram os Depois de um ano, quando Lúcio e Ricardo se encontram desta vez em
dois, para um pouco tempo, o contentamento espiritual. Por outras palavras, a Lisboa, escreve Lúcio sobre a mudança da fisionomia do seu amigo: as suas
ânsia de criar chegou afinal até ao fim. A Marta representa nesta novela um feições bruscas amenizaram-se, a sua voz e os seus gestos alteraram-se, todo
prolongamento das ideias e dos pensamentos de Ricardo que através dela o seu corpo parecia como se difundisse. A feminização de Ricardo depois de ter
entram em Lúcio. Esta passagem das ideias e simbolicamente afigurada pela criado Marta assinala a tentativa do poeta de se aproximar de Lúcio de modo
ligação sexual entre Marta e Lúcio. como se fosse uma criatura do sexo feminino. Mais tarde, quando Lúcio pela
Ricardo, deprimido por não ser capaz de nenhuma amizade, resolveu primeira vez entra no corpo de Marta no ato sexual, Ricardo no mesmo
criar Marta. Uma mulher esplêndida, cujo corpo com as ideias do poeta aceita momento se sente como se perdesse a sua alma e acaba de existir." Por acaso
Lúcio e os seus outros amigos potencias. Uma ocorrência interessante surge olhei para o espelho do guarda-vestidos e não me vi refletido nele! Via tudo em
quando Marta se transforma, perante Lúcio, em arte, neste caso em música. redor de mim, via tudo quanto me cercava projetado no espelho. Só não via a
Tudo isto acontece no momento em que um dos amigos de Ricardo está minha imagem ...(...) Não foi uma sensação de pavor, foi uma sensação de
sentado junto do piano. E ao começar a tocar"( ...) pouco a pouco, à medida que orgulho," Ricardo fala sobre orgulho. Pois, neste momento as três personagens
a música aumentava de maravilha, eu vi - sim, na realidade vi! - a figura de - Lúcio, Ricardo e Marta - uniram-se pela primeira vez, a alma de Ricardo
Marta dissipar-se, esbater-se, som a som, lentamente, até que desapareceu finalmente conquistou o corpo de Lúcio e começou a acordar nele as atividades
por completo," lemura-se Lúcio. Portanto, embora a sua existência tenha a artísticas. Ricardo atingiu o seu objetivo. E qual fruto trouxe esta fusão? Na
forma concreta, Marta é mais do que o corpo um ser abstrato. Podemos dizer altura da convivência deste "triangulo amoroso", ambos os artistas criaram as
que Marta é apenas uma ideia de Ricardo. E uma ideia artística, ou seja, a arte suas obras-primas. Ricardo concluiu o livro de versos Diadema e Lúcio lança
pura. a peça de teatro Chama. As duas obras nasceram graças a Marta. Conforme
Ninguém conhece a origem de Marta. A impossibilidade de descobrir o Fernando Cabral Martins, os dois livros são metáforas de Marta. O diadema
menor pormenor possível do seu passado irrita Lúcio cada vez mais. A obsessão sinaliza uma jóia feminina e a chama e um símbolo do fogo que se apaga no
e ânsia crescente de possuir Marta, fortifica-se quando Lúcio chega a ter momento da morte de Marta.
sensação que Marta não só não tem passado, mas também a sua vida presente Podemos, então, falar sobre uma fusão de duas personagens efetuada
parece duvidosa. pela terceira personagem de Marta. A fusão criou uma pessoa dupla, ou seja,
Entretanto, e talvez o seu mistério que leva Lúcio à paixão ainda mais uma pessoa, cuja alma é desdobrada. Para que esta pessoa desdobrada
intensiva e a loucura de se apoderar dela ainda aumenta. "Enlançava-me agora exista, é necessário que existam todas as partes desta pessoa - quer dizer as
sobre o seu corpo nu, como quem se arremessasse a um abismo encapelado personagens de Ricardo, de Marta e de Lúcio. E pelo contrário nenhuma destas
de sombra, tilitante de fogo e gumes de punhais - ou como quem bebesse um personagens podia viver como um indivíduo, porque cada uma delas faz parte
veneno sutil de maldição etema, por uma taca de ouro, heráldica, ancestral ..." da outra.
descreve Lúcio a sua loucura. Certo é que por mais que Lúcio quisesse, nunca Todos os três morrem devido ao assassinato misterioso e inconcebível.
a conseguiu realmente possuir. Era Marta apenas um sonho que Lúcio desejava Ricardo, o mundo interior do Lúcio mata a Marta - a metáfora da sua alma
mas na verdade nunca tivera? "Seria apenas um sonho que eu tivera e não artística. Aalma artística que não conseguiu apaziguar a sua vida real. E deste
lograra esquecer, confundindo-o com a realidade?" pergunta-se Lúcio. modo mata também a si mesmo. E Lúcio? O sentido da existência sem alma
Na verdade, foi ela quem se apoderava dele. E foi ela quem terminou desaparece. É condenado aos dez anos de prisão, mas como ele diz, a sua
a relação porque, segundo Ricardo, começou o tempo de ela entrar também nos vida já acabou no momento da morte de Ricardo. "Permaneci, mas já não me
corpos dos seus outros amigos que precisavam de uma musa artística e a sou. E até a morte real, só me resta contemplar as horas a esgueirar-se em
quem Ricardo queria retribuir as suas amizades. minha face ...A morte real- apenas um sono mais denso ... n

Podemos, então, ver que Sá-Carneiro considera a arte superior aos


artistas. Não os artistas mas a arte é o dono deles. Só a arte mesma decide a 4. CONCLUSÃO
quem possuíra e a quem abandonara. Ter a ânsia de criar não é suficiente. A Já foi mencionado que o desdobramento das personagens é um tema
condição para ser artista é ter talento. E os artistas não podem de maneira permanente das novelas e poemas de Mário de Sá-Carneiro. As marcas do
nenhuma influenciar a medida do seu talento. Por isso, e a arte que resolve a desdobramento das personagens reflete-se por exemplo no conto Eu-Próprio o
quem possibilita criar obras artísticas. Outro. O narradortransforma-se lentamente em alguém outro, por quem sentiu
Um bom exemplo que ilustra as teses anteriores, demonstra-o a seguinte no início admiração. Ao fundirem-se as duas almas (do Eu e do Outro), o
frase de Lúcio recordando-se de Marta. "Eu olhava-a como se olha alguém que narrador deseja fugir do outro, porque assim perde a sua individualidade.
nos é muito superior e a quem tudo devemos. Recebera o seu amor como uma "Já não existo. Precipitei-me nele. Confundi-me. Deixamos de ser nós-
esmola da rainha.( ...) Eu era apenas o seu escravo." Lúcio confessa que a dois. Somos um só. Eu bem o pressentia, era fatal... Ah! Como o odeio! Foi-
realidade sobre a origem de Marta, quer dizer o fato de que ela era apenas uma me sugando pouco a pouco. O seu corpo era poroso. Absorveu-me. (...)"
sombra do próprio Ricardo, descobre-a muito mais tarde. Mas já durante a Não é surpreendente que as novelas ilustram as próprias sensações do
convivência com ela e durante os encontros mútuos aparecem alguns indícios autor, a sua alma desdobrada, a ânsia de fugir de si mesmo e o desejo de ser
remetendo para a explicação da origem desta criatura desejável. Ao recordar as o outro. Contudo, numa das cartas mandadas a Femando Pessoa, Sá-Cameiro
feições dela, as únicas que Lúcio consegue desfiar são as de Ricardo. Uma confessa que a duplicidade das almas não pode existir. Escreve que, no caso
experiência ainda mais chocante para Lúcio era o momento quando Ricardo o da compreensão total entre as duas almas, os corpos morrem e persiste só uma
beijou. "O beijo de Ricardo fora igual, exatamente igual, tivera a mesma cor, a alma fundida.
mesma perturbação que os beijos da minha amante. Eu sentira-o da mesma Este pode-ser o caso da Confissão de Lúcio. Os corpos de uma
maneira." pessoa unida morreram (cada um do seu próprio modo: um corpo desaparece,
um fica morto no chão e o terceiro e ainda vivo mas sem sensação da vida)
mas a alma fundida sobreviveu. A personagem desdobrada de urna alma não
conseguiu viver no mundo real. Por causa da sua alma dispersa, as suas

mllll~-----------------------------------------
partes - Lúcio e Ricardo - não foram capazes de aceitar nas suas vidas a Marta, c) Para Ricardo tanto o corpo quanto a alma correspondem ao sentimento,
a personifição da arte: Não conseguiam viver na vida real e a convivência com logo não espaço para o desejo, pois este seria a ruína para a concepção
Marta trouxe consigo martírios ainda mais pesados. Marta tomou-se um elemento amorosa.
que desdobrou ainda mais as duas partes (de Lúcio e de Ricardo) duma d) Para Ricardo não existe oposição entre corpo e alma para ocorrer a
personagem. Por isso, a morte bizarra, com certeza significa um tipo da libertação concepção amorosa, pois a realização desta só seria possível através
dos martírios que já ultrapassaram as fronteiras aceitáveis. do contato físico, sexual.
Mas tal como a alma, também a arte não se pode matar. Assim podemos e) Para Ricardo o corpo corresponde ao desejo e a alma ao sentimento,
explicar o desaparecimento de Marta. Pois, Ricardo tentou matar, mas como a logo quem ama jamais poderá possuir sexualmente o ser amado se
arte e imortal, Marta não morreu, somente desapareceu. Em vez de Marta, quiser a realização da concepção amorosa.
estendeu-se no chão o corpo de Ricardo e Marta, como um espírito artístico
dissipa-se para encontrar outro espaço, ou seja outro corpo em que podia dar 02. Que outra personagem do livro apresenta concepção amorosa semelhante a
impulsos para criatividade artística. de Ricardo de Loureiro.
Também o próprio Mário de Sá-Carneiro não encontrou modo para
a) Gervásio Vila Nova.
viver a vida quotidiana, também a sua alma foi desdobrada e apesar de que
b)Americana.
quisesse não conseguiu nem viver no mundo real nem no mundo de arte e
decidiu suicidar-se de mesma forma como os protagonistas da Confissão de c) Santa Cruz de Vilalva.
Lúcio. Se calhar, também a sua alma artística ficou a viver a procura doutra d) Narciso do Amaral.
colocação. e) Sérgio Warginsky.
A Confissão de Lúcio pode ser, portanto, percebida como a confissão do
próprio autor. 03. Lendo o fragmento podemos notar que Ricardo de Loureiro não aceita o amor
homossexual e, ao mesmo tempo, deseja amar Lúcio. Sendo assim, como
Crédito: Natálie Bartosová
poderia Ricardo amar Lúcio se o contato sexual é indispensável para a
concepção amorosa? Este impasse apresentará uma "solução" que será
Exercícios: vivida pelos dois personagens em questão. Qual?
a) Ricardo e Lúcio se afastam em definitivo depois da declaração realizada
As questões de 01 a 03 tomam por base o fragmento extraído de A Confissão no fragmento apresentado. Para eles o único modo da concepção amorosa
de Lúcio de Mário de Sá Cameiro e o livro como um todo. Portanto, leia-o com se efetivar será sublimá-Ia através das cartas que eles trocarão.
atenção e responda as questões propostas.
b) Ricardo e Lúcio decidem por cometer suicídio em conjunto, pois só a
"- É isto só: - disse - não posso ser amigo de ninguém ... Não morte poderia realmente resolver o impasse que envolvia os dois.
proteste ... Eu não sou seu amigo. Nunca soube ter afetos - já lhe contei-, c) Ricardo e Lúcio conseguem resolver o impasse encarando a sociedade
apenas ternuras. A amizade máxima, para mim, traduzir-se-ia unicamente pela e assumindo pública e claramente as próprias homossexualidades.
maior ternura. E uma ternura traz sempre consigo um desejo caricioso: um d) Ricardo e Lúcio resolvem o impasse sublimando a concepção amorosa
desejo de beijar ... de estreitar ... Enfim: de possuir! Ora eu, só depois de através dos livros que ambos iam escrevendo ao decorrer da narrativa.
satisfazer os meus desejos, posso realmente sentir aquilo que os provocou. e) Ricardo e Lúcio resolvem o impasse criando Marta, que será uma
A verdade, por conseqüência, é que as minhas próprias ternuras, nunca as projeção psíquica de ambos, possibilitando assim o contato físico entre
senti, apenas as adivinhei. Para as sentir, isto é, para ser amigo de alguém eles e a realização da concepção amorosa tal como Ricardo de Loureiro
(visto que em mim a temura eqüivale à amizade) forçoso me seria antes possuir defendia.
quem eu estimasse, ou mulher ou homem. Mas uma criatura do nosso sexo,
não a podemos possuir. Logo eu só poderia ser amigo de uma criatura do meu
sexo, se essa criatura ou eu mudássemos de sexo.
"Ah! a minha dor é enorme: Todos podem ter amizades, que são o
amparo de uma vida, a "razão" de uma existência inteira - amizades que nos
dedicam; amizades que, sinceramente, nós retribuímos. Enquanto que eu, por
mais que me esforce, nunca poderei retribuir nenhum afeto: os afetos não se
materializam dentro de mim! É como se me faltasse um sentido - se fosse
cego, se fosse surdo. Para mim, cerrou-se um mundo de alma. Há qualquer
coisa que eu vejo, e não posso abranger; qualquer coisa que eu palpo, e não
posso sentir ... Sou um desgraçado ... um grande desgraçado, acredite!
"Em certos momentos chego a ter nojo de mim. Escute. Isto é horrível!
Em face de todas as pessoas que eu sei que deveria estimar - em face de
todas as pessoas por quem adivinho ternuras - assalta-me sempre um desejo
violento de as morder na boca! Quantas vezes não retraí uma ânsia de beijar os
lábios de minha mãe ...
"Entretanto estes desejos materiais - ainda lhe não disse tudo - não
julgue que os sinto na minha carne; sinto-os na minha alma. Só com a minha
alma poderia matar as minhas ânsias enternecidas. Só com a minha alma eu
lograria possuir as criaturas que adivinho estimar - e assim satisfazer, isto é,
retribuir sentindo as minhas amizades."

01. Nesse livro, tomando em consideração o contexto em que foi escrito, aparece
uma relação original entre corpo e alma que fica clara, por exemplo, na
concepção amorosa que Ricardo de Loureiro tem. Aesse respeito, assinale a
altemativa que melhor define essa relação original para Ricardo de Loureiro.
a) Para Ricardo o corpo corresponde ao desejo e a alma ao sentimento,
logo para ocorrer a concepção amorosa é necessário primeiro amar uma
pessoa para depois possuí-Ia sexualmente.
b) Para Ricardo o corpo corresponde ao sentimento e a alma ao desejo,
logo para ocorrer a concepção amorosa é necessário primeiro possuir
uma pessoa sexualmente para depois amá-Ia.

------------------------------------------11II&
A Teus Pés - Ana Crislina César

"A entrelinha quer dizer: tem aqui escrito uma coisa, tem aqui escrito
Nasceu no Rio de Janeiro. Viveu um ano em Londres, em 1968.
o~tra, e o autor está insinuando uma terceira. Não tem insinuação nenhuma,
Escreveu para revistas e jornais alternativos, saiu na antologia 26 Poetas Hoje,
nao. (...) Eu acho que, no meu texto e acho que em poesia, em geral, não
de Heloisa Buarque. publicou, pela Funarte, Mestrado em comunicação, lançou
existe entrelinha. (...) Existe a linha mesmo, o verso mesmo. O que é uma
livros em edições independentes: Cenas de Abril e Correspondência Completa.
entrelinha? Você está buscando o quê? O que não está ali?".
Dez anos depois, outra vez a Inglaterra, onde, às voltas com um MA em
Deve-se destacar que, na "poesia marginal" dos anos 70, a autora
tradução literária, escreveu muitas cartas e editou Luvas de Pelica. Ao retomar,
atualiza dois gêneros usualmente considerados literatura menor: a carta e o
descobriu São Paulo e fixou residência no Rio. Trabalhou em jornalismo,
diário. Resgata, dessa forma, não só o coloquialismo da linguagem, mas
televisão e escreveu A Teus Pés. Suicidou-se no dia 29 de outubro de 1983.
também a profunda interação entre o sujeito lírico e seu leitor implícito. Tal
preocupação pode ser observada nesta obra.
"A poesia de Ana Cristina César caracteriza-se por ser A forma de dizer desdizendo, que é, em última instância, uma forma de
predominantemente confessional, mas o tom de intimidade, manipular a linguagem, nos chama a atenção nos textos deAna Cristina, como
não nos deve enganar, pois é apenas um lance de sedução neste que abre A teus pés:
estética. A correspondência, realmente, como apontou
Armando Freitas Filho, teve bastante influência sobre a sua Trilha sonora ao fundo (.. .)
dicção poética. Ela cria um verdadeiro jogo de linguagem: Agora silêncio
textos curtos, poemas fragmentados, cartas, páginas de (.. .)
diário. A poesia torna-se, desta forma, uma inquietante Eu tenho uma ideia.
reflexão sobre o próprio fazer literário". Eu não tenho a menor ideia.
"Assim percebemos que o texto-colagem da poeta instaura (...)
um sujeito estilhaçado, uma memória construída através da Muito sentimental.
subjetividade fincada no corpo coletivo da linguagem. Seu Agora pouco sentimental.
método de composição baseia-se na apropriação incessante (...)
de versos e trechos de outros escritores que ela distorce, Esta é a minha vida.
desloca, alude, readapta, reescreve, parafraseia e parodia. Atravessa a ponte.
E uma obra que faz uma reflexão constante sobre a natureza (CESAR, 1998a, p.35)
do literário ". Misto de poesia e prosa, um primeiro olhar sobre os textos presentes
nesta obra já indica ao leitor que este não está diante de produções que pretendam
"Os poemas de Ana Cristina Cesar, inserida no clima da se ater aos procedimentos da lírica tradicional. Pelo contrário, os textos objetivam
geração 70, revelam, entre as muitas caracteristicas que redimensionar a produção poética por meio da desconstrução e da reconstrução
marcaram a produção poética daquela época, as seguintes: do cotidiano - transfigurado em literatura - e das formas tradicionais da poesia
atração pelo insólito do cotidiano; ênfase na experiência - pulverizadas em textos que recriam gêneros literários, como já citado.
existencial num momento especialmente difícil da história e da Na poesia de Ana Cristina César, a tentativa de apreender a
fragmentação do sujeito lírico por meio de instantâneos do cotidiano se apresenta
política brasileira; volta à primeira pessoa, à escrita da
como mecanismo de criação de uma grande proximidade entre autora e leitor,
paixão e do medo como caminho eficaz no sentido de romper
o silêncio e a perplexidade que tomaram de assalto a uma vez que tenta inserir este último em uma atmosfera de intimidade, a partir
produção cultural no início da década; o sentido de asfixia, da apresentação de acontecimentos que supostamente têm relação direta com
experimentado no cotidiano, mas trabalhado com humor; a vida daquela que escreve. A exposição do eu não se dá apenas em termos
valorização do coloquialismo; culto do instante, eixo de emoções, sentimentos ou aspirações pessoais, mas constitui procedimento
fundamental da nova poesia e do binõmio arte e vida. / O para a escrita literária, em poemas nos quais, reflexivamente, problematiza-se
binômio arte e vida era a consolidação de uma visão de a própria inserção de aspectos pessoais na poesia.
mundo que valorizava o aqui e o agora: a ideia do presente, Inserida em seu contexto, a autora também se vê às voltas com a
problemática do texto confessional, da autobiografia inscrita nos limites entre a
eliminando a ideia de futuro. "
confissão e a literatura", e faz dos acontecimentos cotidianos e corriqueiros sua
A Teus Pés, de 1982, é o último livro de Ana Cristina César, e único principal matéria poética, seu principal ponto de partida para a compreensão da
publicado por editora, reúne os três livros anteriores de edição independente: existência e da própria poesia.
Luvas de Pelica, Correspondência Completa e Cenas de Abril. Retrata com dor
e elegância as vivências urbanas e as impressões cotidianas de uma poeta ao Alguns poemas e análises:
mesmo tempo densa e delicada.
Nesta obra, além de utilizar formas que nos remetem a escritas Vários dos poemas de Ana C., bem como boa parte de sua prosa,
"intimas", a autora ousa mais, fragmenta mais, como se fizesse uma verdadeira realizam o processo de tornar óbvio o feminino dentro do texto; entretanto, na
colagem cifrada de frases vindas de diversos lugares. poesia isso se dá através da identificação explícita do eu poético como feminino,
O que se tem no fim são textos aparentemente desconexos, cheios de em vez de uma ideia mais vaga ou imprecisa de 'estilo', como ocorre na
saltos, de versos que parecem não se encaixar. E muita coisa ainda com cara narrativa. Alguns exemplos desse eu poético que se assume como feminino
de diário, de correspondência. Resultado: a impressão de que há segredos são "Cabeceira", "Anônimo", e "Noite de Natal.", de A teus pés,
escondidos nas entrelinhas, símbolos a serem decifrados, silêncios que respectivamente reproduzidos a seguir:
suspendem o entendimento e aguçam a curiosidade: o que ela está querendo Intratável.
dizer? Entretanto, parece não ser bem essa a pergunta a ser feita. Segundo Ana Não quero mais pôr poemas no papel
Cristina, não se trata de fazer uma literatura de entrelinhas. Esses vazios, nem dar a conhecer minha ternura.
saltos, silêncios, espaços em branco seriam o que ela define como o "não-dito" Faço ar de dura,
do texto literário, algo que difere bastante do que usualmente se entende por muito sóbria e dura,
"entrelinha". Acompanhemos Ana Cristina: não pergunto
"da sombra daquele beijo
que farei?"

m~~-------------------------------------
"Sou linda, gostosa; quando no cinema você roça o ombro em Novamente, a hipotética imagem no espelho se apresenta distante de
mim aquece, escorre, já não sei mais quem desejo, que me uma representação de narcisismo, de auto-aceitação, ou de encorajamento: é,
assa viva[.] na-verdade, fonte de aflição para o eu poético. Ela o contradiz e o frustra,
(.. .) A portadora deste sabe onde mê encontro até de olhos fornecendo sempre um desafio, um incômodo que leva o eu lírico à frente - sem
fechados; falo pouco; encontre; esquina de Concentração violência, com "afagos"; sem "maldizer" "entre dentes". Ainda assim, afogando.
com No segundo poema de A teus pés:
Difusão, lado esquerdo de quem vem, jornal na mão,
discreta. " o tempo fecha.
Sou fiel aos acontecimentos biográficos.
Noite de Natal. Mais do que fiel, oh, tão presa!
Estou bonita que é um desperdício. Esses mosquitos que não largam!
Não sinto nada Minhas saudades ensurdecidas por cigarras!
Não sinto nada, mamãe O que faço aqui no campo declamando
Esqueci (00.) aos metros versos longos e sentidos?
Entretanto sou moça Ah que estou sentida e portuguesa,
estreando um bico fino que anda feio, e agora não sou mais, veja,
pisa mais que deve, não sou mais severa e ríspida:
me leva indesejável pra perto das agora sou profissional.
botas pretas
pudera A questão do autobiográfico é explicitamente levantada no segundo
Cada um dos poemas pode ser interpretado tendo em mente a ideia de verso - o eu poético declara fidelidade ao biográfico. No verso seguinte, a ironia
feminino e como o restante dos versos caracteriza essa figura, ou como ela se aparece: o uso da interjeição "oh" concede um tom afetado ao texto que vem
vê refletida neles; no entanto, o que têm em comum e, talvez, como característica logo em seguida; o eu poético faz, então, menção a elementos cotidianos e reais
mais marcante, é a própria referência ao gênero ou sexo do eu poético que fala como insetos, para em seguida notar a discrepância entre os "versos longos e
- ele próprio se assume como uma entidade feminina, principalmente através sentidos" que declama "no campo", à presença de "mosquitos" e "cigarras". O
de adjetivos ("dura", "linda, gostosa", "discreta", "bonita"), cuja presença pode próprio reconhecimento da diferença entre a realidade e o poético acaba por ser
ser vista como casual e, até certo ponto, sutil: a afirmação da feminilidade do eu tanto confissão quanto elemento irônico - ao mesmo tempo em que desmonta a
poético não toma conta dos poemas, apenas existe. atmosfera poética, o eu lírico traz a poesia à realidade, sua e, conseqüentemente,
Ana C. procura investigar o fazer poético seu e de seu tempo em do leitor. Asolidez presente no poema através da menção desses elementos, e
relação à tradição assimilada, ligação que CAMARGO (2003, p. 53) coloca a verossimilhança do estranhamento do próprio eu poético é convincente para
como a questão central da poesia deAna, e à noção de feminino como identidade o leitor, faz com que este aceite mais facilmente a ideia da poesia real ou, ao
pessoal e literária: "(00') Ana Cristina dá a [seus ensaios) a mesma forma de menos, possível.
distribuição e circulação alternativas que vinha acontecendo na poesia. Aponta, Na primeira parte de "Duas antigas", temos:
também através de um elemento marginal ao texto, para a aproximação entre Vamos fazer uma coisa:
esses dois gêneros, tradicionalmente muito distintos, e ainda para urna tensão escreva cartas doces e azedas
que marca profundamente sua obra poética: a tensão entre o apreço pela Abre a boca, deusa
tradição literária e os vínculos com a poesia 'antiintelectual' e 'espontânea' de Aquela solenidade destransando leve
sua geração. Outro modo de expressar a tensão entre passado e presente, Linhas cruzando: as mulheres gostam
entre a tradição de modernidade e o seu próprio tempo aparentemente sem de provocação
tradições." Saboreando o privilégio
Essa investigação é, talvez, a força por trás da fragmentação voluntária seu livro solta as folhas
do "eu" que já existe, refletido no espelho, e da absorção dos cacos através da Aí então ela percebeu que seu olho corria veloz pelo
pele - um processo que, apesar de machucar, em última instância formará uma museu e só parava em três, desprezando como uma
amálgama originária de uma nova (no sentido de recentemente descoberta) ignorante os outros grandes. E ficou feliz e muito certa
identidade. A amálgama, e a identidade, são o que surge nos vãos com a volúpia da sua ignorância.
homogeneizados das vozes nos poemas, e na produção mais madura de A Só e sempre procura essas frases soltas no seu
teus pés o processo é mais claro e plenamente desenvolvido. livro que conta história que não pode ser contada.
A imagem do espelho é explorada em alguns poemas de A teus pés; Só tem caprichos
em "Pour mémoire", por exemplo: É mais e mais diária
(00.) E mais não quer saber - e não se perde no meio de tanta e tamanha
a outra, que sou eu, companhia.
do espelho em frente.
Ela instrui: A partir do nono verso, a linguagem e disposição dos versos
deixa a saudade em repouso previamente presentes alcançam um ritmo mais prosaico e contínuo; a dicção
(em estação de águas) do eu poético lembra muito a prosa de Clarice Lispector. A quebra relativamente
tomando conta visível entre o estilo dos oito primeiros versos e os cinco seguintes sutilmente
desse objeto claro chama a atenção do leitor para a diferença no texto, embora a referência seja
e sem nome. muito vaga e imprecisa. Os textos de Lispector são de um profundo conteúdo
Nesses últimos versos, o eu poético explicita a ideia de "outro" como psicológico e de exploração da própria identidade; lidam, também, com a
sendo a própria imagem no espelho, e um outro que "instrui", ensina a viver, questão da voz feminina na literatura - ao assimilar a busca de outro autor, a
interage. Neste outro poema, sem título, a ideia é muito menos explícita, mas poeta aceita qualquer progresso que já tenha sido feito anteriormente e o adiciona
ainda assim presente: ao que já fez ou procura fazer. Ao dizer, "as mulheres gostam / de provocação",
Queria falar da morte o eu lírico novamente introduz a ironia, e esta é ecoada no trecho "Iispectoriano"
e sua juventude me afagava. quando este diz, "[e) ficou feliz e muito certa com a volúpia da / sua ignorância".
Uma estabanada, alvissima, Nos primeiros versos, surge um outro elemento importantíssimo na
um palito. Entre dentes poesia de Ana C.: o da conversação. O primeiro verso já sugere a presença de
não maldizia a distração um outro alguém, além do eu poético: este usa o verbo na primeira pessoa do -
elétrica, beleza ossuda plural. O segundo verso traz um imperativo, que define, ao menos parcialmente,
ai mare. Afogava-me. o tom da relação entre o eu poético e essa outra pessoa; no terceiro verso, vê-
se um vocativo, enfim: "deusa". As referências diretas a interações com essa

----------------------------------------~Elllm
interlocutora acabam, mas esses primeiros versos podem sugerir inicialmente 01. Os trechos citados tomam óbvia a interferência de uma obra sobre outra. Este
que o poema inteiro seria uma conversa (embora a porção narrativa do texto, a recurso pode ser interpretado, no âmbito dos estudos literários:
partir de "Ai então ela percebeu", introduza o discurso indireto e quebre essa
I. Como apropriação, ou seja, uma determinada obra, tema, imagem é
seqüência conversacional estabelecida): sem reciprocidade de uma das partes,
rearticulada por outro escritorlartista em outra época (ou até na mesma época),
aparentemente, uma vez que não aparece resposta por parte da interlocutora,
em outro espaço, como muito fizeram os modernistas no Brasil.
mas ainda assim uma conversa.
Em "Primeira lição" do livro Cenas de Abril: 11. Como plágio, ou seja, em momento posterior à exibição/conhecimento de
Os gêneros de poesia são: uma obra, alguém inadvertidamente se apropria da obra ou parte dela sem
lírico, satírico, didático, épico,ligeiro. atribuir os valores de crédito a seu respectivo autor, como muito fizeram os
O gênero lírico compreende o lirismo. modernistas no Brasil.
Lirismo é a tradução de um sentimento subjetivo, 11I. Como inteira falta de criatividade de um indivíduo, ou seja, alguém se
sincero e pessoal. apropria da obra (ou parte dela) de outrem e a reproduz "estetizando" uma
É a linguagem do coração, do amor. simples paráfrase sem valor artístico.
O lirismo é assim denominado porque em outros tempos os
versos sentimentais eram declamados ao som da lira. Marque a alternativa correta:
O lirismo pode ser: a) Apenas a proposição 111 está correta.
a) Elegiaco, quando trata de assuntos tristes, quase sempre b) Apenas a proposição 11 está correta.
a morte. c) Apenas a proposição I está correta.
b) Bucólico, quando versa sobre assuntos campestres. d) Apenas as proposições I e 111 estão corretas.
c) Erótico, quando versa sobre o amor. e) Apenas as proposições II e 111 estão corretas.
O lirismo elegiaco compreende a elegia, a nênia, a endecha,
o epitáfio e o epicédio.
Elegia é uma poesia que trata de assuntos tristes. 02. De acordo com Cereja e Magalhães, "os textos literários são divididos em
Nênia é uma poesia em homenagem a uma pessoa morta. dois grandes grupos: os textos em verso e os textos em prosa. Textos em
Era declamada junto à fogueira onde o cadáver era verso são poemas, isto é, aqueles construidos com versos, cada verso
incinerado. correspondendo a uma linha do poema. Textos em prosa são aqueles
Endecha é uma poesia que revela as dores do coração. construidos em linha reta, ocupando todo o espaço da folha de papel, e
Epitáfio é um pequeno verso gravado em pedras tumulares. organizados geralmente em frases, parágrafos, capitulos, partes".
Epicédio é uma poesia onde o poeta relata a vida de uma
pessoa morta. Análise as proposições abaixo:
I. Os textos de A teus pés correspondem literalmente a esta divisão clássica:
o tom elementar do texto, bem como as frases curtas e palavras a linguagem utilizada por Ana Cristina César nesta obra obedece a este
simples, lembram, de fato, uma cartilha infantil. Não há sinal de um eu poético "padrão".
explícito aqui, embora seja possível imaginar que ele seja quem recita ou lê as
11. Os textos de A teus pés não correspondem a esta divisão clássica: a
informações a partir de um hipotético livro. Os conceitos apresentados são o
que se considera mais tradicionalmente teoria do verso, o que torna o texto linguagem utilizada por Ana Cristina César nesta obra não obedece a este
"padrão", pois mistura em um mesmo texto a linguagem da prosa e da poesia.
invariavelmente metapoético ..
11I. Os textos de A teus pés não permitem a observação dessa divisão
Créditos a Antônio Miranda, Arminda Silva da Serpa, Annita Costa Ma/ufe,
clássica dos textos literários: todos os textos de A teus pés são somente uma
Anélia Montechiari Pietrani, Luciana Borges, Ana Helena Leopo/ski Mendes.
representação do drama vivido pela autora na década de 90.
Marque a alternativa correta:
Exercícios
a) Apenas a proposição 11 está correta.
Os textos a seguir servem de base para a questão 01. Portanto, leia-os com
b) Apenas a proposição I está correta.
atenção e responda-a.
c) Apenas a proposição 111 está correta.
d) Todas as proposições estão corretas.
Texto I
e) Todas as proposições estão erradas.
Variações Sérias em Forma de Soneto
Vejo mares tranqüilos, que repousam,
Atrás dos olhos das meninas sérias.
03 . "Os anos de 70 exigiriam um discurso à parte sobre a poesia mais nova que
Alto e longe elas olham, mas não ousam
vem sendo escrita. De um modo geral as chamadas vanguardas mais prag-
Olhar a quem as olha, e ficam sérias.
máticas de 1950- 60 vivem a sua estação outonal de recolha das antigas
Nos encantos dos lábios se lhe pousam
riquezas [...] Outras parecem ser as tendências que ora prevalecem e sensi-
Uns anjos invisíveis. Mas tão sérias
bilizam os poetas.limito-me a mencionar três delas:
São, alto e longe, que nem eles ousam
Dar um sorriso àquelas bocas sérias. a) Ressurge o discurso poético e, com ele, o verso, livre ou metrificado;
Em que pensais, meninas, se repousam b) Dá-se nova e grande margem à fala autobiográfica, com toda a sua
Os meus olhos nos vossos? Eles ousam ênfase na livre, se não anárquica, expressão do desejo e da memória;
Entrar paragens tristes tão sérias! c) Repropõe-se com ardor o caráter público e político da fala poética [...]
Mas poderei dizer-vos que eles ousam? Dois poetas que, desaparecidos em plena juventude, se converteram
Ou vão, por injunções muito mais sérias, em emblemas dessa geração: Ana Cristina Cesar e Cacaso, pseudôni-
Lustrar pecados que jamais repousam? mo de Antônio Carlos Brito. Em ambos, o lirismo do cotidiano e a garra
Manuel Bandeira crítica, a confissão e a metalinguagem se cruzavam em zonas de
Texto 11 convívio em que a dissonância vinha a ser um efeito inerente ao gesto
da escrita".
Atrás dos olhos das meninas sérias (Alfredo Bosi)
"Mas poderei dizer-vos que elas ousam?
Ou vão, por injunções muito mais
sérias, lustrar pecados que jamais
repousam?"
Ana Cristina César

mEmD~-----------------------------------------
Análise as proposições e marque a altemativa correta: b) porque o texto remete o leitor a um diálogo com uma escrita não-
autorizada, à escrita "chula" ou do palavrão, e esta linguagem é típica de
I. A poesia de Ana Cristina Cesar traduz o pensamento de renovação da
pessoas de índole má, como a que é aludida no poema: uma bruxa.
escrita literária, em seu tempo, porque se propõe a condensar várias caracte-
c) porque os termos vulgar, bicha, viada situam na sociedade certos
rísticas desta nova vertente de pensamento, pois a autobiografia, o cotidiano,
sujeitos marginais e a fala enunciada pela "personagem" do texto denun-
o verso prosaico e outros expedientes poéticos são incorporados à linguagem
cia a sua condição quando ela mesma marginaliza a sua condição de
de suas obras, especificamente de A teus pés.
mulher em um texto cujo título remete o leitor.a interpretá-Ia a partir de um
11. A poesia de Ana Cristina Cesar traduz o pensamento de renovação da espaço físico também marginalizado: aquele onde "nasceu" o
escrita literária, em seu tempo, porque se propõe a condensar características sambacanção.
desta nova vertente de pensamento, pois a autobiografia, o cotidiano, o verso d) porque a "personagem" do poema, através de uma linguagem não-
prosaico e outros expedientes poéticos não são incorporados à linguagem de autorizada, a linguagem poética, ri da sua condição de "inferior": por ser
suas obras, especificamente de A teus pés. mulher e por ser vulgar, concentrando em si aspectos negativos.
111. A poesia de Ana Cristina Cesar traduz o pensamento de renovação da e) porque a "personagem" do poema, em uma linguagem moderna e típica
escrita literária, em seu tempo, porque se propõe a condensar características de jovens adestrados socialmente, canta o seu caso de amor não
desta nova vertente de pensamento, pois a autobiografia, o cotidiano, o verso completado, instrumentalizando-se de estratégias discursivas capazes
prosaico e outros expedientes poéticos são incorporados à linguagem de suas de enganar o outro e chamar a atenção para si e para o poema - duas
obras como acidente político, ou seja, o momento em que vive exige da poeta instâncias marginais.
uma certa resistência
05. A literatura muitas vezes entendida como também "espaço da confissão"
no âmbito da linguagem; logo, a sua poesia só é assim caracterizada porque
proporciona ao leitor possibilidades de questionamentos de ideias criadas,
localizada, porque restrita a apenas atitudes políticas momentâneas, especifi-
veiculadas e perpetuadas nas várias práticas sócio-culturais. A literatura con-
camente em A teus pés.
temporânea se apropria dessa possibilidade de questionamento e investe
a) Todas as proposições estão corretas
contra determinadas práticas sociais às vezes abusivas (inferiorização de
b) Somente a proposição II está correta sujeitos diante de outros, negação dos diferentes), se compararmos tais práti-
c) Somente a proposição 111está correta cas aos níveis de diálogos estabelecidos entre as sociedades e seus mem-
d) Somente a proposição I está correta bros hoje. Um dos grandes temas que percorre a literatura brasileira contem-
e) Nenhuma proposição está correta porânea diz respeito às formas como homens e mulheres exercem papéis no
corpus social em que se inserem. No poema Samba- Canção, Ana Cristina
Cesar constrói um eu-lírico que fala a partir do ponto de vista feminino.
04. Se a poesia de Ana Cristina Cesar está inserida na chamada literatura margi- Considerando este texto como produção da literatura brasileira contemporâ-
nal, talvez porque a linguagem de que se apropria para falar da natureza do nea, pode-se dizer que:
sujeito humano tenha sido não-convencional, no poema SAMBA-CANÇÃO, I. A linguagem com que se apodera o eu-lírico de Samba-Canção demons-
de A teus pés, a imagem do ser marginal pode ser vista como duplamente tra a eterna condição de submissão do universo feminino em relação ao
inscrita (marque a justificativa correta): universo masculino.
SAMBA-CANÇÃO 11. Alinguagem com se apodera o eu-lírico de Samba-Canção demonstra
Tantos poemas que perdi. uma liberdade típica das mulheres de todos os tempos, que interpretam
Tantos que ouvi, de graça, de forma igualitária a conquista do outro parceiro, não negando, mas não
pelo telefone - tai, tornando muito importante o fato de a equação homem-mulher dar-se
eu fiz tudo pra você gostar, culturalmente na proporção de o homem conquistar e a mulher ser
fui mulher vulgar, conquistada.
meia-bruxa, meia-fera, III.A linguagem com que se apodera o eu-lírico de Samba-Canção de-
risinho modernista monstra uma liberdade típica das mulheres de hoje, que interpretam de
arranhado na garganta, forma igualitária a conquista do outro parceiro, não negando, mas não
malandra, bicha, tornando muito importante o fato de a equação homem-mulher dar-se
bem viada, vândala, culturalmente na proporção de o homem conquistar e a mulher ser
talvez maquiavélica, conquistada.
e um dia emburrei-me, É pertinente afirmar que:
vali-me de mesuras a) Estão corretas apenas as afirmativas I e III
(era uma estratégia),
b) Estão corretas apenas as afirmativas 11e I
fiz comércio, avara,
c) Estão corretas apenas as afirmativas II e III
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha d) Estão corretas todas as afirmativas
logo rubra, ou ao contrário, cara e) Está correta apenas a afirmativa 111.
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz ...

a) porque a imagem a que o poema faz referência é de uma mulher "vulgar/


meia-bruxa, meia-feralrisinho modernista/ arranhado na garganta/ma-
landra, bicha/bem viada, vândala" e a forma do texto se distancia
tipologicamente da linguagem poética aproximando-se mais da prosa
coloquial.

------------------------------------------11II&
o Outro Pé da Sereia - Mia Couto ,
o outro pé da sereia, romance de Mia Couto, jornalista, biólogo, Padre Antunes decidira ser padre por conta de um amor proibido e
ex-militante político e descendente de portugueses, entrelaça história e ficção, abdica da batina por perceber-se um homem diferente, após o contato com os
remete à tradição e, ao mesmo tempo, lança à África, e a Moçambique, em africanos e a paixão súbita pela indiana Dia, também passageira da nau Nossa
particular, urn olhar absolutamente contemporâneo. Senhora da Ajuda. Os indicios dessa mudança espalham-se pelo romance
Nesta obra o autor opta por abrir mão de um discurso abertamente antes de sua enunciação final, como comprova esta passagem:
centrado em uma abordagem política em prol de uma retórica híbrida e sutil,
permeada dos recursos estilísticos e intertextos que, ernbora atendendo ao "Foi então que reparou que estava com as mãos sujas de
gosto do leitor pós-moderno, não se priva de questionamentos acerca dos tinta. Com as mãos negras, ele reentrou no camarote. E com
estereótipos que envolvem a África. O autor vai além de questões político- as mãos negras ele se abandonou no rio do sonho" .
sociais contemporâneas, partindo da premissa de que é preciso que o africano
reencontre suas origens, suas tradições, seus cultos, suas crenças. A viagem conduz o padre para longe de sua fé, na medida em que, ao
Em O outro pé da sereia, não apenas o choque entre culturas é testemunhar as atrocidades impostas aos escravos e os desmandos da igreja
representado, mas também, e talvez primordialrnente, os arquétipos sobre o católica em Goa, ele começa a duvidar dos preceitos do cristianismo:
homem africano. Para tanto, o autor entretece duas histórias paralelas, interliga-
das por uma personagem. A primeira relata como Mwadia Malunga e seu A mais cruel das memórias de Manuel Antunes era de um
marido, Zero Madzero, encontram uma imagem de Nossa Senhora abandona- escravo, que, desesperado de fome, cortou a língua e a
da nas imediações do lugar em que vivem; significativamente denominado comeu. Mais do que uma recordação era um símbolo da
Antigamente. Mwadia é encarregada de ir a Vila Longe, onde vive a sua condição da gente negra: exilada do passado, impedida de
família, para providenciar um destino à imagem. Nesta história de retorno à falar senão na língua dos outros, obrigada a escolher entre
casa natal, nos são apresentados uma série de personagens e seus dramas a sobrevivência imediata e a morte anunciada.
pessoais. A segunda é uma narrativa histórica, que, em capítulos alternados,
conta como a referida imagem de Nossa Senhora chegou a Moçambique, A visão de um porão abarrotado de cargas, a riqueza destinada aos
trazida pelo jesuíta D. Gonçalo da Silveira em uma nau portuguesa em 1560. comerciantes, ocupando o espaço da água destinada aos escravos que ali
A imagem, benzida pelo papa, era destinada ao imperador do mítico estavam confinados e a certeza de que estes, em sua maioria, não chegariam
reino de Monomotapa, a fim de catequizar a região. Os acontecimentos dessa ao destino, mortos de sede e fome, fazem com que Antunes confronte D.
viagem, que em certa medida refletem problemas contemporâneos, envolvem, Gonçalo, perguntando:
ainda, o conflito pessoal do jovem sacerdote Manuel Antunes, que será seduzido
pelos ritos e ritmos africanos, e a relação de um escravo, Nsundi, com uma "Como iremos governar de modo cristão continentes inteiros
dama portuguesa e sua aia de origem indiana. se nem neste pequeno barco mandam as regras de Cristo?
A guiar-nos pelo seu universo ficcional, há epígrafes que se reportam
aos temas cruciais a serem desenvolvidos metaforicamente no romance, como, São as obviedades de um cristianismo parcial que fazem com que
por exemplo, identidade, memória, permanência, pertencimento e morte, além Padre Antunes perceba que se está convertendo em um negro:
do posicionamento do continente frente a um mundo globalizado. Até 4 de janeiro, data do embarque em Goa, ele era branco, filho e neto
No romance, o autor entrelaça diferentes imagens do "outro", ao de portugueses. No dia 5 de janeiro, começara a ficar negro. Depois de apagar
relatar, ficcionalmente, a viagem empreendida pelos padres jesuítas. A nau um pequeno incêndio em seu camarote, contemplou as suas mãos obscurecendo.
transporta não apenas portugueses, mas escravos africanos e, até mesmo, Mas agora era a pele inteira que lhe escurecia, os seus cabelos se encrespavam.
uma indiana a serviço de uma dama portuguesa, D. Filipa. Não lhe restava dúvida: ele se convertia num negro.
Durante a viagem há diversas instâncias em que o choque cultural se
manifesta. Boa parte delas gira em tomo da imagem da santa, que Nimi Nsundi, - Estou transitando de raça, D. Gonçalo. E o pior é que
o escravo encarregado de guardar a pólvora e gerir os fogareiros, associa de estou gostando mais dessa travessia do que de toda a
imediato à Kianda. restante viagem.
As águas têm significado especial nas manifestações culturais africanas
por remeterem aos mitos de fundação que regem as múltiplas formas de vida. A fala de Antunes ecoa uma outra fala, a do escravo do qual recebe
Tal como na cultura cristã, elas fazem parte de um mundo primordial, do qual os posteriormente o nome, Nsundi. Ao perceber que a imagem da santa abrigava
seres humanos e o universo descendem. Em Uso e Costumes dos Bantus, uma Kianda, o escravo ficara obcecado pela ideia de libertá-Ia, serrando um
Junod (1975, 285-286), antropólogo suíço que em 1895 dirigiu missão de pesquisa dos pés da imagem. Por esse ato, fora aprisionado no porão e ameaçado de
em Moçambique, identificou diversas lendas e costumes, dentre eles um principio morte. Após um momento de transe, enquanto tocava a mbira, o escravo se
feminino da água que justifica sua natureza germinante e, por isso, procriativa. atira ao mar. Quem se dá conta do fato é Dia, a indiana, aia de D. Filipa, tão
Em quimbundo, as sereias são chamadas de "ianda", no singular subalterna e excluída quanto ele; com quem fizera amor nas águas, por ser ela
"kianda". Ao ver a imagem da santa tombar no lodo, durante o carregamento da dona de um corpo que se incandescia ao contato sexual. Naqueles dias, Dia o
nau, o escravo se atira às águas, evitando que fosse tragada. Mais tarde, ao havia acusado de ter se submetido não apenas à fé, mas ao modus vivendi dos
ver D. Gonçalo da Silveira limpando os pés da santa, diz que ela não havia cristãos. Após a morte do escravo, ela encontra uma mensagem que ele lhe
escorregado; que ela queria ficar ali, no pântano. A devoção do escravo à Santa deixou. Nessa carta, dentre outras coisas, ele afirma:
comove o missionário, incapaz de compreender a quem Nsundi realmente
cultuava. "A verdadeira viagem é a que fazemos dentro de nós"
Assim como o escravo, Padre Antunes, que acompanha D. Gonçalo
em sua missão, experimenta um contato com a santa que é inconcebível
segundo a visão cristã. Sonha com uma mulher despedindo-se dele na berna
do rio Mandovi. Ela começa a desvencilhar-se de suas roupas, dizendo-lhe
que é deste modo que ele há de lembrar-se dela. Angustiado, o padre acorda e,
ao dormir novamente, torna a sonhar com a mulher, que lhe diz para tocá-Ia,
pois ela o fará renascer. No sonho, ele afunda, para ser devolvido à tona pela
estranha mulher, que, finalmente, se apresenta como Kianda, embora ainda
personificando Nossa Senhora. O sonho é o início de uma crise religiosa e
identitária .

• aa.-------------------------------------------
A travessia de Nsundi é de libertação: Ao desembarcarem em Moçambique e mediante as histórias que
ouviram sobre a crueldade dos habitantes do Monopotapa, as reflexões do
Eu lhe mostrei na noite em que fizemos amor: na popa da médico Femandes, natural de Goa, e do PadreAntunes despertam em D.Gonçalo
nossa nau está esculpida uma outra Nossa Senhora. Deixo o firme propósito de enviá-I os para serem julgados pela Santa Inquisição. O
essa para os brancos. A minha Kianda, essa é que não pode primeiro ousara afirmar que "quando se inventam assim maldades sobre um
ficar assim, amarrada aos próprios pés, tão fora do seu povo, é para abençoar as maldades que se vão praticar sobre eles"; o segundo
mundo, tão longe de sua gente. A viagem está quase os compara aos próprios portugueses.
terminada. Daqui a dias chegaremos a Moçambique, os D. Gonçalo começa a defrontar-se com a devassidão moral que reina na ilha:
barcos tombarão na praia como baleias mortas. Não tenho
mais tempo. Vão-me acusar dos mais terríveis crimes.Mas o Toda a sua vida imaginara que os demónios moravam no
que eu fiz foi apenas libertar a deusa, afeiçoar o corpo dela outro lado do mundo: em outra raça, em outra geografia.
à sua forma original. Durante anos ele se preparara para levar a palavra
O meu pecado, aquele que l'I'!efará morrer, foi retirar o pé redentora a essa gente tão diversa. Nos últimos dias Silveira
que desfigurava a Kianda (.. :) Agora não tenho mais medo confirmara que o Diabo fazia ninho entre os seus, os da sua
de morrer nem de ficar morto. Foi você quem me ensinou: a origem, raça e condição.
melhor maneira de não morrer queimado é viver dentro do
fogo. O padre vem a descobrir algo ainda mais surpreendente: que lá havia
negros que viviam da captura e venda de escravos:
Nsundi referia-se ao fato de que após a morte do marido, Dia cumprira
o ritual que dela se esperava, atirar-se ao fogo. Mas, para espanto de todos os o padre sorriu, incrédulo: escravos? Xilundo explicou-se: ele era es-
presentes, as labaredas não a consumiram e, incólume, ela atravessara o fogo, cravo, mas a sua família era proprietária de escravos. Viviam disso: da captura
sendo, a partir desse dia, excluida do convivio com as pessoas da aldeia, que e venda de escravos. O pai enviara-o para Goa, na condição de servo, como
acreditavam que ela estava possuída por espíritos. Da exclusão à escravatura punição de graves desobediências. O projecto do pai era simples: preparar o
fora um salto rápido, no qual ela "nem notou a diferença", pois "no mundo a que filho para herdar o negócio da venda de pessoas. No processo de ser escravo
pertencia, ser esposa é um outro modo de ser escrava. ele aprenderia a escravizar os outros.
A ideia de libertação perpassa o romance e está simbolicamente
inscrita até mesmo na passagem em que o elefante, que tanto impressionara D. Os registros encontrados no arquivo de Zimbabwe atestam que D.
Filipa, é atirado ao mar, para aliviar a carga: Gonçalo esteve por sete semanas na corte de Nogomo, período em que batizou
o próprio imperador, sua mãe e outros membros da corte, até que comerciantes
Como se tudo isso não bastasse, o mestre ordenou que se árabes, receosos da intervenção do padre em seus negócios, convenceram
deitasse ao mar o elefante enjaulado. Os grumetes, de Nogomo de que o jesuíta era um espião e que o ato de batismo não passava de
imediato, empurraram a jaula e a custo de muitos braços a um encantamento malévolo, o que determinou a sua morte, por estrangulamen-
fizeram transpor a amurada. A gaiola de ferro tombou com to, em 16 de março de 1561.
estrondo sobre as vagas, mas não se afundou logo, como O contexto da viagem, eixo temático deste romance, e, principalmente,
era de se esperar. Ficou vogando entre as altas ondas, em do intertexto histórico, equivale às viagens interiores das personagens em
vez de se alarmar, o elefante parecia rejubilar em se ver busca de si mesmas, transcendendo o relato que busca explicar o reaparecimento
mergulhado nas águas. Quando, por fim, a grade se da imagem em 2002, e remetendo a muitas outras viagens no outro
afundou, o bicho exibia ainda tal felicidade que era dificil plano da história.
sentir compaixão pelo seu destino. A tessitura ficcional e a figuração da África contemporânea
No plano do mundo contemporâneo, a história é tecida a partir do relato
A primeira mensagem de Nsundi a Dia rechaça as acusações que ela do aparecimento da imagem e da viagem empreendida por Mwadia Malunga,
lhe faz, condenando-o por ter se convertido aos deuses dos brancos, por ser- no intuito de encontrar um local para abrigar a santa. O relato entrelaça dois
Ihes submisso: espaços físicos, Antigamente e Vila Longe, que têm papel preponderante no
romance.
Não, minha amiga Dia, eu não traí as minhas crenças. Desde o primeiro capítulo, a relação entre Mwadia e Zero delineia-se
Nem, como você diz, virei as costas à minha religião. atípica aos olhos do leitor. Ela vive com um homem silencioso, que dizia estar
A verdade é esta: os meus deuses não me pedem nenhuma "a esquecer-se". Num certo dia, Zero encontra algo que ele descreve como
religião. Pedem que eu esteja com eles. E depois de morrer uma estrela que havia caído do céu e, inclusive, queimara-lhe as mãos ao
que seja um deles. Os portugueses dizem que não temos enterrá-Ia em seu quintal. Asuposta estrela nada mais é que uma aeronave em
alma. Temos, eles é que não vêem (00') é essa a razão por missão de reconhecimento e espionagem que caíra, que, aos olhos do pastor
que D. Gonçalo quer embranquecer a minha alma. Não é a de animais, assumira a forma daquilo que mais se assemelhava à bola de fogo
nossa raça que os atrapalha: é a cor da nossa alma que eles em que se tornara.
não conseguem enxergar. (...) Critica-me por que aceitei Após uma conversa com a mulher, ambos decidem desenterrar a
lavar-me dos meus pecados. Os portugueses chamam isso de estrela e levá-Ia para ser enterrada junto ao rio, no lugar do bosque sagrado.
batismo. Eu chamo de outra maneira. Eu digo que estou Mwadia sabe aquilo não é uma estrela, mas os restos de uma "desembarcação".
entrando na casa de Kianda (... ) De todas as vezes que rezei No entanto, não deseja desmentir o marido. Naquela noite, Zero sonha que
não foi por devoção. Foi para lembrar. Porque só rezando suas mãos se juntavam como duas chamas numa única fogueira, que, em
me chegavam as lembranças de quem fui. lugar dos dedos, lhe doíam dez pequenas labaredas, até que mãos feitas de
água se aproximaram das dele, aplacando a sua dor. Como sonâmbulo, ele
A identidade, o sentido de pertencimento, a autoconsciência chega até repete as palavras da mulher que lhe aparece no sonho.
ele de modo inverso. É graças aos rituais e padrões da fé que lhe é imposta que Essa passagem se reporta a outra de valor idêntico no outro plano da
ele aprende o que não é, e percebe a verdadeira dimensão do que fora um dia. história: à carta de Nsundi, ao relatar a Dia a experiência de rezar:
A incongruência do discurso cristão é reforçada na conversa entre D.
Gonçalo e Dia, quando aquele se surpreende ao vê-Ia calçar o morto: Acontecia-me a mim o inverso do que lhe sucedeu a si,
Dia Kumari. As minhas mãos se juntavam e pegavam fogo.
- Gostavas muito desse homem? Em lugar de dedos me ardiam dez pequenas labaredas.
- Ele era meuoo.eleera meu irmão. Era então que outras mãos, feitas de água, se aconchegavam -
- Irmão? Muito estranho. Não seria, vá lá, um meio-irmão? nas minhas e aplacavam aquela fogueira. Essas mãos eram
- Para nós não existem meios-irmãos, senhor padre. Irmão é da Santa. E ela me segredava: - Este é o tempo da água.
sempre inteiro. Era a voz da Santa que me percorria por dentro.

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A voz tomava posse de mim. E agora que lhe escrevi a carta, Mas a vida de Mwadia fez-se de contra-sensos: ela era do
vejo que esta letra não me pertence, é letra de mulher. mato e nascera em casa de comento; era preta e tinha um
Meus pulsos delgados se recolhem ao peso de um cansaço padrasto indiano; era bela e casara com um marido tonto;
de séculos. Meus dedos não têm gesto, meus dedos são o era mulher e secava sem descendência (p.69).
próprio gesto. Eu sou a Santa.
Em Vila Longe, ela se reencontra com o seu passado, com a mãe que
o tempo da água remete a temas e imagens recorrentes na obra de sempre se lamentara de sua partida; com o padrasto que vivia em "trânsito
Mia Couto. Ao rio, às margens que estabelecem uma fronteira entre o real e o nominal" por acreditar que, ao trocar de nome anualmente, acabaria por viver
irreal, ao espaço de Mwadia, que quer dizer "canoa" em si-nhungwé. mais; com as crendices de seu povo e com a novidade da chegada de um
Muito embora Mwadia não fosse apegada às crendices, respeitou o casal de americanos, que, pretensamente, viria estudar antigas histórias de
desejo do marido de consultar o adivinho Lázaro Vivo, em busca de permissão escravos.
para penetrar no local onde a estrela será enterrada. A mulher se surpreende ao As relações atribuladas com Constança, sua mãe, que atribui à sua
deparar-se com a "nova versão" do nyanga, que já não portava mais as longas partida a sua crescente abundância de cames, entabulam uma reaproximação
tranças de antes, nem as costumeiras roupas pretas. Ao invés disso, encontra dolorosa, permeada de descobertas, como a morte de Tia Luzmina, irmã de seu
um homem de cabelo curto e penteado de risca, usando uma blusa esportiva, padrasto.
e portando um celular. Lázaro vinha de Vila Longe, onde fora buscar uma Em suas deambulaçães pela cidade, à cata de suas memórias, Mwadia
tabuleta para pôr na porta de seu "estabelecimento". percebe situações anormais: cães assustados à sua passagem; pessoas cujo reflexo
O modo com que Mia configura a personagem é uma visão irônica da ela é incapaz de ver no espelho; a sensação de irrealidade ao contemplaro padrasto
prontidão em que a África se atira em direção à ideia de globalização: que a esperava do lado de fora da alfaiataria; a sua surpresa ao ouvir o chefe da estação
afirmar que ela estivera ali na semana anterior, quando partira há tantos anos.
- Eu já estou no futuro. Quando chegar aqui a rede, já A chegada dos americanos - na realidade, afro-americanos - traz ao
posso ser contactado para serviços internacionais. Entendem, romance um tom de comicidade, uma vez que Mia Couto retrata com extrema
meus amigos? ironia a ansiedade do povo em inventar uma África ao gosto do estrangeiro. A
comunidade reúne-se para íorjar uma memória sobre a escravidão, já relegada
Em uma entrevista concedida a Celina Martins (2002), Mia Couto ao esquecimento pelas contradições que traz em sua própria constituição, como
expôs a sua visão sobre o choque de culturas em África: a captura e venda de escravos, realizadas pelos próprios negros, os vangunis.
A estada dos americanos passa a ser a grande oportunidade de fonte
Esse encontro de culturas é sempre, em princípio, traumático, porque de renda para uma cidade desolada e entregue ao passado. Nas discussões
não se trata de um encontro, é uma incursão abusiva. O que chega a estas que se sucedem, Mia deixa entrever algumas questões que lhe parecem
culturas africanas não são as culturas européias. São emanações, cruciais, como, por exemplo, um desfraldar de bandeiras apoiado na questão
representações simbólicas por via da tecnologia. Mantemos ainda a imagem da negritude, na busca de uma África mítica, que, de certa forma, ignora a
dos primeiros encontros dos descobridores europeus que trocavam umas realidade da Moçambique contemporânea, fruto de uma intensa miscigenação.
bugigangas que reluziam diante dos olhos dos africanos. Estamos mais ou O desejo patético do afro-americano que quer ser africano é ironizado no diálogo
menos repetindo esse modelo de relação. Não existe globalização, o que a seguir:
existe é exportação e imposição de sinais, nem sequer são modelos, o modelo
fica junto do produtor, os africanos consomem passivamente aqueles sinais - O que se passa, mano, uma tontura?
mais brilhantes e apelativos. - Eu só queria beijar a nossa mãe ...
- Qual mãe?
Nesse sentido, Lázaro personifica, no mundo contemporâneo, e no - Queria beijar o chão de África ...
âmbito do consumo, a repetição de uma relação de dominação que se oculta - Ora o chão, pois o chão de África, mas veja, meu brada,
sob a égide da globalização. É um homem dividido entre as suas crenças e os o melhor chão para ser beijado é noutro local que lhe vou
possíveis benefícios da tecnologia e da modemidade. O romance deixa entrever, indicar, este chão, aqui, é melhor não ...
no entanto, que seus poderes são reais. É através de Lázaro que o romance
introduz pela primeira vez os rumores acerca da morte de Zero. A relação que o americano Benjamin estabelece com a África é
Após enterrar "a estrela", Zero descobre a estátua da Virgem, bem construída através do conceito intermediário de raça; conceito este que ele
como os pertences de Gonçalo da Silveira, que com ela estavam enterrados, adquiriu de uma matriz cultural euro-americana. Em consequência, suas respostas
e reconhece nela a mulher do sonho. Ao levarem o achado até o adivinho, às questões da identidade africana encontram-se enraizadas na visão arquetípica
Mwadia percebe que Zero está sangrando. Para o adivinho, Zero tinha despertado e romântica que foi o ponto de partida para os africanos que assumiram a
a alma do morto, pois uma pessoa assassinada não descansa como os mortos bandeira de uma nacionalidade negra pan-africana.
naturais; vira um gnozi. Dada a impossibilidade, até então não explicada, de Ao satirizá-Ia, Mia Couto tenta encontrar o espaço de construção de
Zero voltar a Vila Longe, fica decidido que Mwadia há de fazê-Ia. uma identidade moçambicana. Conforme afirma Appiah (1997, 115), a relação
Ante as muitas dúvidas de Mwadia, Lázaro afirma que ela ficara muito dos escritores africanos com o passado da África é uma trama de ambigüidades
tempo no seminário e acabara por perder o espírito das coisas de seu povo, delicadas, "se eles aprenderam a não o desprezar nem ignorá-Ia; ainda estão
distanciando-se da imagem de uma africana. Ao que ela responde que há por aprender a assimilá-Io e a transcendê-Ia".
muitos modos de ser africana, perguntando-lhe se ele sabe quem eles são. Mia não deixa incólume a ação internacional em prol dos povos
Nesse ponto, a questão da identidade é retomada, passando a entrelaçar-se africanos. No romance, os afro-amerícanos sobrevivem por meio de contas
com o tema da viagem, resgatando, por sua vez, outros itinerários que se dão superfaturadas para ONGS, como a SaveAfrica Fund, uma associação religiosa
no curso de rios reais e ficcionais. afro-americana, responsável pela verba que o casal trazia:
Vila Longe se revela como a Macondo de Gabriel García Márquez,
elevando a realidade à categoria onírica, sintetizando os mais díversos elementos: Espalhou gorjetas pelos funcionários, polícias, lavadores de
a história, a natureza, os problemas sociais e políticos, a vida quotidiana, a viaturas e carregadores de malas. Cada desembolso era
morte, o amor, as forças sobrenaturais, o humore o lirismo. cuidadosamente anotado numa pequena agenda em cuja capa
Conforme afirma o narrador, "a viagem não começa quando se se grafava a letra de imprensa: "Project budget".
percorrem distâncias, mas quando se atravessa as nossas fronteiras interiores".
A métafora mais importante do romance é o rio, a evocação implícita da sua A percepção aguda de Mwadia lhe faz pensar que "diversas viagens
terceira margem. A caminho, Mwadia reflete sobre a própria vida: se cruzavam, a um só tempo, naquela casa": "os americanos atravessavam
os séculos e os mares onde se esbatera a sua identidade" e "ela viajava no
território em que o tempo nega a converter-se em memória", Porém o esquecimento
era uma condição necessária: "O tempo existe para apagar o tempo".
Em entrevistas concedidas recenternente, durante sua passagern pelo

mlmml~-----------------------------------------
Brasil, Mia Couto disse pretender ironizar e questionar alguns arquétipos sobre que, na realidade, não passavam de uns trambiqueiros, que viviam de
o homem africano, principalmente a ideia de pureza ou autenticidade, bem como cambalachos. Mas essas não são as únicas revelações a serem feitas.
os lugares-comuns em sua representação: as crendices, a feitiçaria e a As palavras do barbeiro, o único a se recusar em participar das
sexualidade; como nos mostra o exemplo a seguir: encenações para os americanos, pontilham todo o romance, como ditados
oriundos de uma sabedoria primitiva. Este é um procedimento comum a outros
- Agora que estou no fim da minha vida, posso confessar: as romances do autor, assim como o itálico para discriminar a fala das personagens,
vezes em que eu fiz amor com maior paixão foi com o uso dessas falas como epígrafes dos capítulos, a dimensão sagrada da casa,
mulheres. da terra, do rio, do tempo. Neste romance em particular, a voz narrativa adere
- A mãe fez amor com mulheres? ao mesmo discurso mágico das personagens, criando sentenças que se
Mwadia estava aterrada. Uma mãe não fala de assuntos assemelham a ditados milenares.
destes. Muito menos confessa algo tão íntimo, tão chocante. É o barbeiro quem afirma que é necessário "esquecer para ter passado,
- Você tem que saber isto, minha filha. mentir para ter destino" . No momento em que se dá conta de que não há como
- Fomos ensinadas a esperar pelos homens. Mas essa fugir do passado, de que a história se repete, ele aconselha a Mwadia a
espera demora mais que uma vida. Ninguém espera tanto afastar-se de Vila Longe, perguntando-lhe se nunca ouvira falar de terras que
assim. foram erradicadas, que deixaram de constar. Aos poucos, as peças do imenso
- Estou espantada, admitiu a brasileira. quebra-cabeça começam a se encaixar.
- É o que lhe digo: os homens daqui são péssimos amantes. Por meio de Matambira, ela descobre que a razão de sua mãe ter
- Não é isso que consta lá no Brasil. engordado tanto não fora o desgosto com a sua partida, mas as repetidas surras
- Isso é porque não pedem a opinião das mulheres. que levava de Jesustino, o padrasto. Ao inquirir a mãe acerca da revelação,
outras mais surgem: seu marido Zero estava realmente morto, conforme várias
A questão da feitiçaria é te matizada em sua relação com as personagens sugerem ao longo do romance; o padrasto o havia assassinado a
transformações sociais, uma vez que, graças a questões econômicas, perde a facadas, por ciúmes de Mwadia. O romance sugere vagamente o fato de que
sua característica religiosa e passa a fazer parte de uma pantomima comercial. ela havia sofrido abuso sexual por parte do padrasto, que já tivera uma relação
Mwadia é convocada a encenar transes, visitas de espíritos, para impressionar incestuosa com a própria irmã.
os americanos. Para torná-Ios convincentes, de dia lê os velhos documentos Pouco a pouco, Mwadia vai sendo confrontada com o passado que
de D. Gonçalo, encontrados com a santa; à noite vai ao quarto dos americanos buscara esquecer. Constança determina a ação necessária à libertação de
e lê os papéis do casal, além de visitar a biblioteca que o padrasto havia Mwadia: colocar a foto de Zero na parede dos ausentes; aceitar a sua morte.
herdado. O efeito da encenação é imediato:
A viagem de regresso equivale ao retorno aos labirintos da
"Como Casuarino previra, os americanos ficaram fascinados alma, pois, conforme lembra o narrador, "a viagem termina
com a sessão de transe (...) Eis África autêntica, repetiam, quando encerramos as nossas fronteiras interiores.
deleitados ". Regressamos a nós, não a um lugar" .

Mas ao envolver-se no engodo, Mwadia faz uma importante Colocando a imagem da santa junto ao tronco de embondeiro, ela
descoberta. "Agora ela sabia: um livro é uma canoa. Esse era o barco que lhe segue viagem pelo rio. O rio dos seus medos e dos seus sonhos, o rio que leva
faltava em Antigamente. Tivesse livros e ela faria a travessia para o outro lado ao passado, mas também ao destino. À sua chegada, aguarda-lhe o marido
do mundo, para o outro lado de si mesma" . Dali por diante, Mwadia e sua mãe morto, e fica-lhe a certeza de que Vila Longe e seus habitantes há muito haviam
passam a fazer visitas prolongadas ao sótão, onde sessões de leitura devolvem deixado de existir:
à Constança a sensação de vida. Como aceitar que Vila Longe já não tinha gente, que a maioria morreu
Em seus transes fictícios, Mwadia traz à baila questões que desafiam e os restantes se foram? Como aceitar que a guerra, a doença, a fome tudo se
a busca do americano pelas próprias raízes e aprofundam tematicamente a havia ravado com garras de abutre sobre a pequena povoação? Vila Longe
miscigenação, que, pra Mia Couto, está no âmago das discussões sobre a cansara-se de ser mapa. Restavam-lhe as linhas ténues da memória, com
identidade do moçambicano: demasiadas campas e nenhuns viventes.
À noite, ao olhar para o céu é como se este se transformasse na
De olhos fechados, esticou o braço na direção do parede dos ausentes em Vila Longe. Nela surgem todos os rostos, seu padrasto
afro-americano e clamou; suicida, a tia Luzmina, Zeca Matambira, todos. Até mesmo seu verdadeiro pai,
- O senhor, Benjamin Southman, é um mulato. que passara a vida como homem e morrera como mulher. Sua mão ergue-se
- Mulato, eu? para ajustar à parede um último retrato, a foto do último ausente: Zero, que no
O ar ofendido de Benjamin suscitou a intervenção de leito dormia, sonhando e balbuciando que havia acabado de enterrar uma
Casuarino. Ora, ele não se magoasse. E acrescentou: estrela. Seu último rumo é o rio. O rio do qual era canoa, ao qual se entregaria
Afinal, desde Caim somos todos mulatos. O empresário em definitivo.
elaborava com eloqüência: havia a globaliração, Ao longo do romance, percebe-se claramente a imbricação entre o
Ao fim ao cabo, vivíamos a era da muiaiização global. real e o imaginário, entre o fantástico e a realidade, que, segundo o próprio autor,
E, isso, poucos entendiam. Em terra de cegos que: \ tem um é algo completamente presente na realidade moçambicana, que é regida segundo
olho vê menos do que os que nada enxergam. uma outra ordem de racionalidade.
Ao criar um mundo ficcional em que só o impossível é natural, Mia
Ao ficar sabendo, em mais um transe de Mwadia, que sua ancestral Couto revisita suas raízes, provando que a palavra é o lugar da construção da
era a indiana Dia e não uma africana genuína, Benjamin fica transtornado e é identidade, pois é onde a memória é preservada. Ao invés de dar três voltas à
levado à casa do adivinho Lázaro, já devidamente prevenido por Casuarino de volta da "árvore do esquecimento", como as personagens do romance, o autor
que devia se desvencilhar de todos os seus artefatos tecnológicos, assumindo opta por outro tipo de questionamento: compete ao homem decidir o que deve ou
uma aparência primitiva: não ser lembrado.
"Tudo selvagem, nada de modernices" . O outro pé da sereia é, afinal, o que propõe ser a partir do contexto
Apesar dos pequenos deslizes do adivinho, que, esquecido de seu histórico que lhe serve de base: um livro de viagens. Viagens entrecruzadas,
papel, dirige-se ao americano em inglês, inquirindo sobre os dólares, este nas quais a questão da identidade não é ponto de partida ou de chegada; é o
parece impressionar-se com a ideia de ser batizado e ter um novo nome, um caminho.
nome africano. No dia seguinte, batismo marcado, o americano desaparece, Créditos: Prol" Df" Shirley de Souza Gomes Carreira, Revista Eletrônica do
deixando alguns dólares em troca de seu novo nome: Dere Makanderi. Instituto de Humanidades, Unigranrio •
A fuga do americano precipita uma série de acontecimentos e
revelações. Rosie acaba por revelar que ela e o americano não são casados,

----------------------------------------~ ••••
que a busca do históriador americano por suas origens era verdadeira, mas
Exercícios:
01. Sobre a obra O outro pé da sereia de ~ia Couto é correto afirmar que:
a) Explora dois planos distintos da narrativa: o real objetivo e o real imaginá-
rio, na evocação de suas crenças e mitos, recorrendo, não raras vezes,
ao realismo mágico e ao maravilhoso.
b) Explora apenas um plano de narrativa: o real objetivo, pois todos os fatos
narrados têm comprovação científica.
c) Explora apenas um plano de narrativa: o real imaginário, pois não interes-
sa em nada qualquer fato histórico na construção do livro.
d) Explora dois planos distintos da narrativa: a idealização e o memorialismo,
pois interessa apenas o passado desde que seja idealizado por medo de
narrar o presente. '
e) Explora apenas um plano de narrativa: o memorialismo, pois através do
passado se conserva as tradições.

02. (...) Na igreja lhe ensinaram que Deus só é se é único, mais que único. Ele que
apagasse a multidão de deuses familiares, essas divindades africanas que
teimavam em lhe povoar a cabeça. Madzero era um postori. Noutras pala-
vras, ele era um crente da Igreja Apostólica, criada por John Marange, 1930.
Não seria exactamente um caso de fé, pois o juízo de Zero não aguentava nem
metade de crença. Ele aderira aos ''vapostori'' apenas porque, para ele, o nome
soava como um aportuguesamento da palavra pastores, e não de apóstolos. A
seita seria onde os pastores como ele se reuniriam e evocariam o dia em que
o planeta inteiro se converteria numa reverdejante paisagem.

Nos tempos de hoje pouco restava da agremiação religiosa".


(couro, 2006, p. 16)

(...) Há muito que lhe queria dizer isto, Meadia Malunga: você ficou muito
tempo lá no seminário, perdeu o espírito de nossas coisas, nem parece uma
africana.
(couro, 2006, p. 46).

Pensar o processo de colonização é refletir como se deu a imposição da cultura


do branco e, em contrapartida, a assimilação dos povos africanos. Aqui a
imposição da cultura do branco se faz presente devido a:
a) Aniquilação dos dialetos africanos.
b) Anulação de qualquer forma de manifestação musical do mundo africano.
c) A alfabetização dos povos africanos com a língua portuguesa.
d) A imposição da fé cristã.
e) A eleição de um governo branco para governar o povo africano.

03. A questão central do rornance O outro pé da sereia do rnoçambicano Mia Ccuto é:


a) a globalização de Moçambique como única salvação financeira para
este país.
b) a construção de uma identidade nacional.
c) a escravidão como algo que colocou Moçambique na história.
d) a eliminação do passado de Moçambique como única forma de se evoluir
industrialmente.
e) a valorização da colonização de Moçambique como forma de progresso
deste país.

IIIIII~-----------------------------------------------
Cidade de Deus - Paulo Uns
Neste seu romance de estréia, Paulo Lins faz um painel das nos moldes ideais dos burgueses. A participação da polícia é efetiva, que de
transformações sociais pelas quais passou o conjunto habitacional Cidade de forma violenta e implacável procura eliminar os criminosos. Destaca-se ainda
Deus: da pequena criminalidade dos anos 60 à situação de violência generalizada o amor e o casamento. A segunda parte, A História de Bené, tem seu maior
e de domínio do tráfico de drogas dos anos 90. Para redefinir a situação do lugar enfoque na busca do comando da favela por meio do tráfico de drogas e na nova
onde cresceu, Uns usa o termo "neofavela", em oposição à favela antiga, geração de criminosos que dão proteção à comunidade. Também se destaca a
aquela das rodas de samba e da malandragem romântica. ascensão dos cocotas como uma tribo social de características marcantes, a
O livro se baseia em fatos reais. Grande parte do material utilizado corrupção do sistema carcerário e a maneira de viver dos homossexuais. A
para escrevê-I o foi coletado durante os oito anos (entre 1986 e 1993) em que o terceira e última parte, A História de Zé Pequeno, traz a guerra propriamente dita
autor trabalhou como assessor de pesquisas antropológicas sobre a criminalidade e a seqüência interminável de sucessores no comando do tráfico. Emerge a
e as classes populares do Rio de Janeiro. figura do justiceiro implacável, Manoel Galinha, que, no entanto, não modifica o
Cidade de Deus é um romance que traz fortes traços culturais de um destino da marginalidade.
povo predominantemente negro, cultuador da Umbanda e do Candomblé, devoto
de São Jorge, amante do carnaval e dos ritmos brasileiros como o samba de
partido alto, hoje mais conhecido como pagode; tradicionalmente freqüentador Personagens
de clubes e bares, da praia do final de semana, da culinária associada às Cidade de Deus envolve grande número de personagens.
comidas fortes e ao consumismo popular por influência da mídia. Os protagonistas se sucedem de acordo com o sucessivo e interminável
número de mortes. Diante dessa característica, toda a trama é protagonizada
principalmente pela própria Cidade de Deus. Por isso destacaremos somente
Foconarrativo os três principais, até porque o perfil descritivo da maioria dos protagonistas se
Escrito em terceira pessoa, Cidade de Deus é extensa narrativa que assemelha com o deles.
pode ser analisada como romance naturalista, quando descreve o modo de
vida de seus personagens. A infância dos bandidos, nas brincadeiras de pipa, Cabeleira: Era negro de família humilde. Seu pai era alcoólatra e a
pião, futebol, nos banhos de rio e no contato com a natureza, marca esse mãe, prostituta. Elegante no andar, bom porte físico, bem sucedido com as
naturalismo e depois, na maturidade do crime como única forma de sobrevivência, garotas, habilidoso capoeirista, Cabeleira representa o anti-herói, surreal e
é a víolência que comanda os destinos, imperando a lei do mais forte, como se lírico. Não estupra, respeita a comunidade e a rapaziada do conceito. É com ele
todos fossem animais vivendo numa selva urbanizada e primitivamente civilizada. que começa a respeitar os limites da favela para se assaltar. Cabeleira, no
A animalização está presente no modo de agir dos bandidos: o consumo de entanto, é cruel e maldoso com seus inimigos, mata sem piedade e sempre se
drogas, o tipo de alimentação, o prazer do sexo, a organização de suas casas vê protegido por seus exus e pombagiras.
e a forma naturalmente cruel como se matavam uns aos outros.
8ené: É cria da Cidade de Deus. Sua crueldade fizera com que
herdasse, junto com Zé Pequeno, todo o poder do tráfico na favela. Admira os
linguagem cocotas e, depois que se enturma com eles, passa a se vestir só com roupas
Outro caráter que podemos sentir em todo o livro é o realismo. O autor de grifes famosas e tatua um enorme dragão no braço. É negro, baixinho e
parte de fatos reais para estruturar o romance e adapta sua linguagem através gordinho. Não é feliz no amor e sonha em ganhar muito dinheiro para fundar
de minuciosa pesquisa lingüística (diálogos, termos, gírias, palavrões) que uma comunidade alternativa.
permite, juntamente com a realidade dos fatos, apresentar ao leitor uma trama
independente de qualquer sentimentalismo que possa amenizar a crueza imutável Zé Pequeno: Também negro baixinho e gordinho, é o mais feio dos
dos acontecimentos. bandidos. Sua crueldade é a mais temível de toda a narrativa. Sonha em ser
Muito definido também é o caráter expressionista. O exagero e a dono da Cidade de Deus e para isso não poupa ninguém. Constantemente
insistência da narrativa em descrever pormenores e detalhes dos crimes é coloca seus amigos uns contra os outros. A risada fina, estridente e rápida,
característica que Paulo Uns mantém durante todo o livro e que destaca a forma acompanha suas ações de crueldade e é sua marca registrada. Totalmente
grotesca pela qual o autor valoriza a violência e o suspense em cada gesto dos infeliz no amor, estupra a namorada de Manoel Galinha, fato que gera a guerra
personagens. na favela. Representa o poder do submundo do crime. É o que mais enriquece
Ainda podemos destacar o caráter de transformação que, ajudado pelo com o tráfico e que comanda a favela por mais tempo, inclusive de dentro da
desenrolar dos fatos através de um longo período de tempo, marca a mudança prisão. Seu fim finaliza o romance mas não finaliza a história da Cidade de
de todos os componentes da trama. O conjunto habitacional transforma-se em Deus.
favela, as crianças se transformam em bandidos, a polícia se corrompe, a
natureza é poluída, os valores sociais se modificam etc.
Enredo
Cidade de Deus é uma história de guerra. Não só a guerra na favela,
Estrutura mas uma constante disputa por poder, ascensão social e dinheiro. O romance
Uma mescla de estilos é que mantém a estrutura do romance em toma variadas direções e tendências estéticas, ora explícitas na narrativa, ora
constante tensão. Arealidade se contrapõe à ficção, a natureza à urbanização, simplesmente sugeridas no desencadear dos fatos. É o fruto de exaustiva
a civilização organizada à anarquia, a ambição do poder à simplicidade da vida pesquisa na qual Paulo Uns protagoniza uma favela como metáfora da sociedade
e o progresso à decadência. carioca e da sociedade brasileira.
Tecnicamente o romance divide-se em três partes (capítulos). Anarrativa É importante destacar a relação dos moradores de Cidade de Deus
tem estilo cinematográfico, em que o detalhamento das cenas é a maior com a morte. A importância de um bandido, por serem eles que faziam as leis
característica. Há constante fragmentação que interrompe os casos narrados e de proteção à comunidade, era medida pelo número de pessoas que iam ao seu
também insere descrição dos personagens que entram na trama. Mesmo enterro ou pelo silêncio diante de alguma vítima de sua crueldade. Era o respeito
assim o romance segue uma cronologia linear em relação ao tempo real dos a essas regras que fazia com que houvesse a paz.
acontecimentos, com exceção de alguns flashbacks.
A primeira parte, A História de Cabeleira, narra a ocupação da Cidade
Deus e a formação das quadrilhas. Aambição é individual, a relação com as A História de Cabeleira
drogas é mais no sentido do próprio consumo, e o que move a criminalidade
dos bandidos é a vontade de fazer um grande assalto e viver o resto da vida

-------------------------------------------lIIIm
Inicia-se o livro com Busca-Pé e Barbantino se drogando e a narrativa de intenso consumo de drogas. Depois da comemoração, Marreco volta a
descrevendo as características físicas e particulares do empreendimento estuprar a paraibana que não oferece resistência, mas o marido surpreende
imobiliário que foi cedido para famílias de desabrigados e sem-teto que passavam Marreco e mata-o com uma facada. Ao enterro somente Lúcia Maracanã
necessidade no Rio de Janeiro. "Por dia, durante uma semana, chegavam de compareceu, porque seus amigos temeram o cerco da polícia.
trinta a cinqüenta mudanças, do pessoal que trazia no rosto e nos móveis as Alicate pensa em mudar de vida. Acaba deixando a Cidade de Deus
marcas das enchentes.( ...) Em seguida, moradores de várias favelas e da e tornando-se evangélico da Igreja Batista, em cujo templo trabalha e prega o
Baixada Fluminense chegavam para habitar o novo baírro (...) Do outro lado do evangelho. Cabeleira procura Madrugadão, seu novo parceiro, que lhe diz que
braço esquerdo do rio, construíram apês ..." Cabeção está cada vez mais ofensivo no cerco contra ele. Cabeleira vê em
Entre os casos que se sucedem, intercala-se a descrição de Cabeleira, sonho seus amigos mortos, Marreco, Salgueirinho, Haroldo, Pelé e Pará, com
Marreco, Alicate, Salgueirinho, Pelé e Pará. Esses protagonizam a seqüência a mesma indumentária e em meio a muito sangue. Marreco no sonho aconselha-
de crimes e assaltos e a disputa por melhores roubos e assaltos sempre a o a matar Cabeção , se não quiser ir para a companhia deles no outro plano.
espera "da boa" que Ihes possibilitará mudar de vida. Na divisão de poderes, Cabeção executa Wilson Diabo e jura que o próximo é Cabeleira.
Lá em Cima: Cabeleira, Marreco e Alicate e Lá em Baixo: Salgueirinho, Pelé Eles trocam tiros pelas ruas de Cidade de Deus, mas nenhum consegue atingir
e Pará. o outro. Marimbondo empresta uma pistola 45 e um fuzil para Cabeleira igualar-
A perseguição da Polícia aos bandidos é protagonizada pelo PM se a Cabeção. Ari, o irmão homossexual de Cabeleira, aparece e Cabeleira
Cabeção e pelo detetive Touro. Astutos, conheciam o conjunto habitacional e que não admite ter um irmão assim, se atem em se livrar do irmão para que ele
eram tão cruéis quanto os bandidos; além de os conhecerem bem, sempre não fique em Cidade de Deus. Enquanto Cabeção é implacável em sua
estavam na espreita dos marginais, andando fortemente armados e decididos a caçada, a narrativa descreve sua vida, seu comportamento e seu ingresso na
prender ou executar os inimigos. polícia. Ele continua a perseguir Cabeleira pelas vielas e acaba sendo
Cabeleira tem uma queda por Cleide, mulher de Alicate, mas depois surpreendido pelas costas por um vingados que o mata. Cabeleira fica sabendo
de conhecer Berenice, apaixona-se pela cabrocha e passa a viver com ela. do assassinato, mas nem sai de casa.
Lúcia Maracanã é parceira nas fugas e sempre recebe os marginais com A narrativa volta ao início e conta a história de Busca-Pé e Barbantino,
carinho e dedicação. Bá é dona de uma boca de fumo e, sempre protegida, seus sonhos e a maneira de vida dos cocotas e playboys dos subúrbios e
abastece os bandidos de droga. favelas cariocas. Da mesma forma é contada a história de Dadinho, como sua
Os roubos que começam na Cidade de Deus, aos caminhões de gás, mãe ganha uma cadeira de engraxate a qual lhe servia para fazer assaltos e
extrapolam os limites. Cabeleira era sempre decidido a roubar e nunca ficava como ela descobre que Dadinho se inicia na vida do crime.
sem dinheiro, e sempre "na ânsia de rebentar a boca".
Entram na trama Dadinho, Cabelinho Calmo, Bené e Sandro "... acordou Dadinho a tapas e chorando perguntava com o
Cenourinha, ainda crianças, na iniciação da vida do crime já liderando seus revólver nas mãos:
bandos. Enquanto isso, Cabeleira se impõe, executando um delator e o detetive - Pra que isso?
Touro continua na procura dos criminosos. Cabeleira, Carlinho Pretinho, Pelé e - É pra assaltar, matar e ser respeitado!"
Pará planejam um assalto sensacional a um motel. Resolveram levar Dadinho,
que na fuga desaparece, mas não morre e volta à cena mais tarde. Touro e Volta à sequência do assalto ao motel, Dadinho encontra Cabeleira
Cabeção trocam tíros com todo mundo na ânsia de pegar alguém. que promete uma grana pelo serviço do assalto e Dadinho pede um revólver.
A sequência de crimes não se reduz aos protagonistas da trama. Vão à casa de Marimbondo e são convidados a para novo roubo. Cabeleira
Casos absurdos são descritos, como o do marido traído que esquarteja vivo o não vai. Dadinho e Marimbondo fazem o assalto e se dão bem. No dia seguinte
filho que não era dele, entregando-o à sua mulher numa caixa de sapatos e do são noticias nos jomais. Empolgados, tramam o próximo crime, desta vez com
outro cortou a cabeça do "Ricardão" e entregou-o para a mulher numa sacola Bené incorporado ao grupo.
plástica. O detetive Touro procura Marimbondo em casa onde se homiziavam,
A violência se materializa no dia-a-dia e vai se formando o tecido mas eles estavam assaltando uma gráfica. O insucesso revolta o detetive.
cultural das crianças de Cidade de Deus. Os meninos dividem seu tempo entre "Pensava com brutalidade em tudo o que ocorria, porque era bruto, seu nome
heróis da TV, pipas, brincadeiras, banhos de rio, aulas e a iniciação ao consumo era Touro, sua fala, suas ideias. Avontade de querer mandar em tudo sempre
de drogas. lhe fora pertinente." Ainda continua rondando a casa de Marimbondo, enquanto
A vida do crime continua, em paralelos aos costumes da comunidade, os bandidos se escondem no mato após o roubo da gráfica.
aos bailes, pelas biroscas, pelas vielas de Cidade de Deus e suas Cabeleira se cansa de ficar entocado com os colegas e resolve sair
particularidades. Num desses bailes, Salgueirinho, que era galã disputando a sozinho. Queria ver os amigos de Cidade de Deus. A narrativa descreve uma
tapa pelas meninas, volta para casa com uma cabrocha que morava nas manhã calma e silenciosa." ...então por que aquela aflição? Por que aquela
Últimas Triagens e pela manhã, quando sai para a farmácia, é atropelado e vontade de voltar para perto dos amigos? Aquela sensação de vazio lhe trazia
morre. Diz-se que é por causa da macumba de uma mulher abandonada por sobressaltos, frios na espinha.( ...) A qualidade da paz era superlativa também
ele. Seu enterro foi prestigiado por mais de duas mil pessoas e todas as suas na Rua do Meio e fazia crescer aquele temor, temor do nada.( ...) Não sabia o
mulheres compareceram. porquê, mas pequenos pedaços de sua vida vinham-lhe repentinamente de
Touro elimina um ex-policial e cruza com um sargento do Exército que modo sucessivo. As mais vivas cores do dia tornaram-se significantes, de
acabava de ver Pelé e Pará assaltando um ônibus. Eles perseguem os bandidos significados muito mais intensos, confundindo a sua visão. O vento mais
e após a captura executam os marginais. A narrativa descreve a vida dos dois nervoso, o sol mais quente, o passo mais forte, os pardais tão longe dos
e como foram parar na Cidade de Deus. A tensão da trama é forte e até a homens, o silêncio inoperante, os piões rodando, os girassóis vergando-se, os
matança de um gato para fazer ·churrasquinho de feira" é descrita de maneira carros mais rápidos e a voz de Touro agitando tudo: - Deita no chão, vagabundo!
impressionante, dado o suspense da narrativa. Cabeleira não esboçou reação. Ao contrário do que se esperava Touro (...)
Jorge Nesfato tem seu fim como condenado por treze crimes que não Talvez nunca tenha buscado nada, nem nunca pensara em buscar, tinha só de
cometeu, além de ser condenado pela mulher. Marreco é perseguido e apanhado viver aquela vida sem nenhum motivo que o levasse a uma atitude parnasiana
por Cabeção. Acaba conseguindo fugir, mas na fuga uma bala perdida mata naquele universo escrito por linhas tão marginais. (...) Aquela mudez diante das
uma criança, colocando a comunidade em desespero. A operação de tráfico de perguntas de Touro e a expressão de alegria melancólica que se manteve
drogas é comandada por Damião e Cunha. Damião mata Cunha para obter dentro do caixão." A morte de Cabeleira fecha o primeiro capítulo.
poderes e para ficar com Fernanda, que é mulher de Cunha. Como Fernanda
não aceita, ele a espanca e some para nunca mais voltar. A História de Dené
Marreco apresentava comportamento esquisito: enlouquecia os Inicia o segundo capítulo a narrativa descrevendo a herança do tráfico
vizinhos, repetindo que era filho do Diabo; estuprou uma paraibana casada e de drogas na Cidade de Deus e o crescimento de Dadinho no mundo do crime.
queria matar qualquer um que atravessasse seu caminho. Laranjinha não pára Dadinho se consultava na Umbanda e assaltava cada vez mais. Apesar disso,
para falar com ele e só por isso é jurado de morte. Mesmo assim executa um lá em cima os traficantes eram mais respeitados e isso o feria. Morre o traficante
assalto de sucesso e como Cabeleira se deu bem, assaltando o pagamento de grande e Dadinho toma a boca de seu irmão.
uma construtora, eles vão juntos comemorar. A comemoração dura vários dias

mEmD~-----------------------------------------
Na Cidade de Deus há mudanças no poder, que agora gira em tomo polícia que dá um flagrante durante o assalto. A narrativa enfatiza a natureza, que
do tráfico de drogas e os bandidos cada vez mais precocemente se destacam ameniza os sofrimentos do povo de Cidade de Deus.
pela sua crueldade. Paralelo há um destaque para a vida dos cocotas e da Bené sai da prisão prometendo mandar todo mês uma quantia ao
"rapaziada do conceito", grupos que gravitam porfora da violência exacerbada delegado. De volta à favela, poupa a vida de Butucatu, que deveria ser executado
dos bandidos e traficantes, atuando oomo coadjuvantes na ação dos quadrilheiros. por Pequeno, pelo estupro e morte de sua ex-mulher. O criminoso não respeitou
No crime começam a destacar-se Bené e Zé Pequeno. os limites da favela e por isso foi espancado pela quadrilha de Pequeno. Bené
Enquanto a trama centra-se na história dos cocotas, suas aventuras, tem uma decepção com Mosca, sua mulher, que anuncia uma gravidez e
as brigas nos bailes, os festivais de rock, o amor de Thiago por Angélica e seu decide interrompê-Ia. Na operação de aborto, Mosca morre.
duelo com Marisol por causa da cabrocha, Pequeno dá a boca Lá de Cima para Após ser espancado, Butucatu planeja matar Pequeno e pouoo tempo
Sandro Cenoura Uá crescido) depois de matar os comandantes do tráfioo. Logo depois, ainda com dores, parte para o ataque atingindo fatalmente o abdômen de
após planeja dividir tudo só com Bené. "Seu sonho de ser dono de Cidade de Bené, que estava em companhia de Pequeno naquele momento. Pequeno
Deus estava ali, vivo, completamente vivo, realizado (...) Traficar, era isso que também foi baleado, mas ainda teve forças para trocar tiros com Butucatu e
estava na onda, isso que estava dando dinheiro." sobreviver. O velório de Bené foi um evento à parte. "E uma lua redonda,
Com a morte de Cabeleira, seu irmãoAri, que atendia pelo nome de clarissima, encantou ainda mais o eterno mistério que a noite sempre traz, e o
Soninha, retorna à Cidade de Deus e tem sua história de ódio com Pouca enterro daquela manhã de sol intenso foi o maior que já se viu."
Sombra e de amor com Guimarães, que abandona a mulher para ficar com o
homossexual. A narrativa descreve o submundo do homossexualismo, como
eles vivem e se relacionam. Enquanto isso, uma sucessão de mortes é A história de Zé Pequeno
destacada na trama: Pequeno ameaça Bigodinho, que mata Jorge Gato e é o terceiro capítulo começa com a inútil caçada de Pequeno a Pança
morto por Pequeno, contrariando Acerola. Cabelo Calmo é preso quando e Butucatu, dois bandidos que conhecem todos de Cidade de Deus e juram em
completava dezoito anos. É encaminhado ao Presídio Lemos de Brito, onde é segredo matar todo mundo e a oonsumação do romance deAri, o Soninha, com
transformado em "mulherzinha" do xerife do presídio, um bandido que mantinha Guimarães, que enjoou da mulher.
o cornando intemo da cadeia. Ao sair da prisão é recebido por Pequeno e Bené, Zé Pequeno procura uma loira por quem se apaixonou. Mexe com ela
mas não Ihes revela sua vida no cárcere. Eles tomam a boca de Cenoura e, a e, desprezado, estupra-a violentamente na frente do namorado. Depois procura
pedido de Bené, Pequeno não o mata. o namorado, Mané Galinha, em sua casa para matá-Io e, não o encontrando,
A narrativa descreve fatos e oostumes do Presídio de Ilha Grande e o mata seu avô. Isso causa uma enorme revolta em Galinha, que parte para a
mecanismo da corrupção no sistema. Marimbondo, que chegara ao presidia vingança obstinadamente. Galinha havia servido na brigada de pará-quedistas
com a mesma valentia com que se destacava na favela, é brutalmente do Exército e tinha uma enorme habilidade com armas, além de ser forte e
assassinado a facadas. Em Cidade de Deus, Bené se enturma e "conquista" atlético. No primeiro confronto Galinha mata dois quadrilheiros com extrerna
o cocota Daniel, a quem pede que lhe compre muitas "roupas de grife" para rapidez e crueldade. "Era a primeira vez que uma pessoa atirava em Pequeno
andar na moda dos cocotas cariocas. "- Sou playboy! - dizia Bené a todos que na favela, matava dois de seus quadrilheiros e fazia com ele se escondesse."
comentavam sua nova indumentária. Tatuou no braço um enorme dragão soltando Sandro Cenoura procura Mané Galinha para formar quadrilha e derrubar
labaredas amarelas e vermelhas pelo focinho, o cabelo ligeiramente crespo foi Zé Pequeno. Eles se unem e a guerra contra o bando de Zé Pequeno é
encaracolado por Mosca." Com sua Calói 10 ia à praia todas as manhãs, inevitável. As quadrilhas aumentam e a guerra prolifera com a participação das
tirando a maior onda da rapaziada. No seu envolvimento com a cocotada, crianças. Para manter a luta, Galinha começa a praticar assaltos, enquanto a
acaba entrando na briga de Thiago e Marisol, por causa de Angélica. Faz com imprensa destaca a guerra das quadrilhas de Cidade de Deus. O caos das
que os dois amigos façam as pazes e tudo fica bem. quadrilhas em guerra é evidente, e, num dado momento, a narrativa dá uma
A boca-de-fumo de Ari do Rafa, no morro de São Carlos, é atacada trégua à guerra e passa a relatar outros crimes paralelos, estando Mané Galinha
pela quadrilha de Pequeno e Bené. Simultaneamente, Nego Velho e Metralha escondido por uns tempos. Mais tarde, voltando à sua obstinada caçada,
assaltam uma rica residência. Aquadrilha captura a boca de Ari do Rafa e todos, Galinha vai à procura de Peninha e Cabelo junto com Fabiano, e acabam
inclusive oAri, são mortos e enterrados numa só cova. Carlinhos Nervo Duro, matando outro traficante. Aos poucos a guerra se generaliza, transformando
que dividia o poder no São Carlos com Ari do Rafa, toma partido e ataca a Cidade de Deus no lugar mais violento do mundo. Seus soldados se uniformizam
quadrilha de Pequeno e Bené. No tiroteio, novamente os bandidos do São e, no auge do conflito, Cidade de Deus é uma praça de guerra. Após ficarem
Carlos levam a pior e somente Nervo Duro escapa com vida. Enquanto isso, frente a frente, Pequeno atinge Galinha. Ele não morre, mas as matanças
Nego Velho e Metralha são perseguidos pela polícia em Cidade de Deus, mas continuam na briga pelo poder do tráfico. Calmo é novamente preso e Galinha
escapam e dividem o roubo, em grande almoço, a quadrilha toda reunida. A é resgatado no hospital. Aumenta seu desejo de vingança pela morte de seu
polícia aparece, mas reconhece que não há condições de enfrentamento e irmão Gilson. A polícia estava fora e, conforme passava o tempo, os bandidos
passa reto. Manguinha e seus amigos voltam para a favela após uma série de iam oontando suas vitimas. Mais uma vez, após um ataque de nervos, Galinha
assaltos espetaculares, disfarçados de médicos. O tráfico de armas junto à é baleado; depois, pela terceira vez, em conflito com Calmo e Madrugado, um
polícia e às forças armadas se intensificam e cresce a troca de donos das viciado finge ajudá-Ia e o atinge com vários tiros e sua morte é inevitável. O
bocas-de-fumo. Conforme as mortes aoontecem, seus responsáveis assumem viciado vingava a morte de um irmão." A festa para comemorar a morte de
a liderança das bocas e assim sucessivamente. Galinha atravessou três dias, enquanto Lá em Cima tudo era silêncio, ruas
Enquanto Cabelo Calmo é preso novamente, Pequeno e Bené desertas, biroscas e lojas comercias fechadas. O Corpo de Galinha foi velado
assumem o poder de Cidade de Deus e passam a ditar as leis da favela. São em sua própria casa, sem a presença de bandidos. Seu enterro, em número de
convidados a ajudar Voz Poderosa, compositor da Portela, na escolha do pessoas, superou o de Bené e de Salgadinho."
próximo samba da escola. A policia monta um novo esquema de repressão para Cidade de Deus
Bené vai para casa e chora com sua família contando seu sonho: e uma operação de grande porte é acionada na região. "A insegurança dominava
u ••. pediu desculpas ao irmão, falou que ia ficar só mais um tempo na vida do a favela. Até os viciados, antes fregueses bem-tratados porque sustentavam o
crime para poder comprar um terreno e fundar sua sociedade alternativa." ganha-pão, passaram a correr riscos de vida."
Enquanto isso, Touro intensifica a perseguição a ele e a Pequeno. No Enquanto Pequeno jogava Calmo oontra Bisooitinho e tramar tomar a
cerco aos marginais, os policiais Lincoln e Monstrinho prendem Bené; Touro é boca Lá em Cima, que é de Cenoura, a operação de polícia é escandalizada
afastado da Polícia por ter enforcado um trabalhador numa cela. pelo massacre de um grupo de crianças. Mesmo assim, o cerco aumenta e o
Preso, Bené pensa que sua vida poderia ser diferente e também que sargento Roberval prende Pequeno, mas o solta em seguida após pegar todo o
era apaixonado por Patricinha Katanazaka. Espada Incerta sai da prisão e jura dinheiro e pedir cinqüenta por cento de todo o dinheiro da boca.
para Cenoura que vai matar Bené. Vai para Realengo, vende um quilo de Cabelo Calmo e Biscoitinho duelam pelos becos de Cidade de Deus
maconha e na comemoração fica bêbado jurando de morte toda a família de e Calmo é atingido, mas foge com vida. O clima de revolta pela morte das
Bené. Acaba perdendo o dinheiro do tráfico e perseguido pela polícia; sua crianças continua, assim como o comando de Sandro Cenoura nas bocas Lá ;
própria mãe é que morre enquanto ele é preso. em Cima. A guerra com a policia faz enorme número de vítimas que são
A cocotada inventa de assaltar um açougue para dar uma festa e atiradas em lugares afastados. A ex-namorada de Playboy denuncia uma _
Daniel é a atração principal da festa após uma fuga espetacular do carro da reunião de traficantes, a polícia cerca o local e faz uma chacina. Isso faz com

------------------------------------------lIIIm
que algumas bocas troquem de dono. "Pequeno deu o azar de ser abordado compõe (bala).
pelas Polícia Civil e Militar mais seis vezes. Tanto os civis como os militares e) Personificação, pela caracteristica humana atribuida à "bala".
o extorquiam."
Novamente flagrado com dinheiro, õrcqas e armas, Pequeno foi julgado
e encaminhado ao presidio Milton Dias Moreira, onde passa a integrar a facção INSTRUÇÃO: Leia o texto seguinte e responda as questões de
que dominava os presidias cariocas. Do presidia, pelo telefone, Pequeno passa números 02 e 03.
as instruções a seu irmão Pinha e continua a comandar o crime, até que paga
"A boca era de Sérgio Dezenove, também conhecido como Grande,
um suborno e sai do presidio, refugiando-se fora da Cidade de Deus. Cenoura
bandido famoso em todo o Rio de Janeiro pela sua periculosidade e coragem,
é afastado da favela, mas sempre causando mortes. Cabelo Calmo se apaixona
pelo seu prazerem matar policiais. Grande também fora morador da extinta
por uma professora e se entrega à policia por insistência dela e acreditando na
favela Macedo Sobrinho, mas não foi morar em Cidade de Deus, porque
justiça. No segundo dia na penitenciária Lemos de Brito é assassinado a
achava que ali seria muito fácil a policia o encontrar. Gostava de morro, de onde
facadas por Nervo Duro. ,
se pode observar tudo de sua culminância. Havia se escondido em quase todo
A sucessão dos traficantes se intensifica: Israel é rnorto por Conduite,
o Rio de Janeiro, dos morros da Zona Sul até a Zona Norte, mas a policia já o
e Biscoitinho, por Lampião, Otávio que era urn cocota que pensava em matar
encontrara em todos eles. Por esse motivo, chegara ao morro do Juramento, no
todo mundo para ser dono do tráfico, entra para a macumba e se apresenta para
subúrbio da Leopoldina, dando tiro em tudo quanto era bandido, derrubando
a quadrilha da Treze, sob o comando de Tigrinho e Borboletão. Não pede
barraco aos pontapés, gritando que quem mandava ali agora era o Grande: o
nenhum cargo de hierarquia do tráfico. Ele só queria matar. Marisol, agora
Grande que tomou a maioria das bocas-de-fumo dos morros da Zona Sul; o
taxista, leva três tiros de Zezinho Cara de Palhaço, que é preso.
Grande de quase dois metros de altura, com disposição para encarar cinco ou
Enquanto Cenoura vai preso para a Baixada Fluminense, continua a
seis homens na mão de uma só vez; o Grande que tinha uma metralhadora
sucessão de bandidos no poder das bocas. Otávio mata Jacarezinho, que
conseguida na marra de um fuzileiro naval em serviço na praça Mauá; o
estava sabotando a boca de Borboletão e Tigrinho. Ele domina Jacarezinho e
Grande que teve sangue-frio para cortar o seu próprio dedo mindinho e colocá-
faz com que cave a própria cova. Trajado de vermelho e preto, com uma
10 num cordão; o Grande que matava policiais por achar a raça a mais filha da
cartola, Otávio é um assassino com requintes de brutalidade inigualáveis.
puta de todas as raças, essa raça que serve aos brancos, essa raça de pobre
" ...deu só um tiro para depois cortar o corpo de Jacarezinho com o facão. Com
que defende os direitos dos ricos. Tinha pra~er em matar branco, porque o
a própria cavadeira jogou a terra de volta para o buraco, foi até os pés da figueira
branco tinha roubado seus antepassados da Africa para trabalhar de graça, o
mal-assombrada, acendeu sete velas, sentou em cima da cova, retirou um
branco criou a favela e botou o negro para habitá-Ia, o branco criou a policia para
baseado do bolso, acendeu e fumou sem muita pressa," Depois desse crime,
bater, prender e matar o negro. Tudo, tudo que era bom era dos brancos. O
Otávio repete o ritual com mais de trinta vitimas e as enterra na mesma cova.
presidente da República era branco, o médico era branco, os patrões eram
É preso por dois anos e passa um tempo como pregador evangélico. Depois
brancos, o-vovô-viu-a-uva do livro de leitura da escola era branco, os ricos
casou, teve filhos e jogou a culpa de seus crimes no Diabo. Alegando que fora
eram brancos, as bonecas eram brancas e a porra desses crioulos que vira-
dominado por uma força maléfica, incontrolável. Mais tarde, porém, voltou. "
vam policia ou que iam para o Exército tinha mais era que morrer igual a todos
...rasgou a Bíblia, queimou o terno com o qual costumava ir aos cultos e foi à
os brancos do mundo."
boca pedir a Borboletão uma pistola para matar somente policiais."
(Paulo Lins, Cidade de Deus.)
Messias, o último "herdeiro" do tráfico Lá de Cima, propõe trégua a
Borboletão e Tigrinho na Treze. Com isso a paz volta a reinar na favela. 02. A partir da temática abordada pelo texto, responda:
Bastiana, a Bá, deixa o tráfico; a nova geração de cocotas continua curtindo a
vida' Busca-Pé realiza o sonho de ser artista como fotógrafo; Cara de Palhaço a) Qual é o problema social central dos morros cariocas, retratado pelo texto
recebe visita de Marisol, que ficara paraplégico por sua causa, e dias depois de Paulo Uns?
aparece enforcado na cela. _ b) Por que a personagem Grande nutre ódio pelos policiais e pelos brancos?
Pequeno encontra Borboletão, que continuava com a boca dosApes,
e deixa claro que vai voltar. Tinha estado em Realengo. "O bandido tinha sua 03,Com relação a questões de linguagem presentes no texto de Paulo Uns,
prepotência renovada e planos para ser novamente o dono de Cidade de Deus, responda:
e para isso já tinha planejado com seus parceiros de Realengo um ataq~e
a) Como deve ser entendida a palavra boca na frase que inicia o trecho do
surpresa na Treze logo na primeira semana de seu novo mandato nosApes,
romance de Paulo Uns reproduzido:
depois atacariam Lá em Cima."
No entanto, na sua volta, "...Tigrinho, que observava atentamente, A boca era de Sérgio Dezenove ... ?
retirou a pistola da cintura, deu um tiro no abdômen de Pequeno e saiu correndo b) Seria correto afirmar que o enunciador do texto valese, na maioria das
junto com Borboletão", O bando de Pequeno se entocou nos Apês, Pequeno vezes, da reprodução da modalidade oral da língua para construir seu discurso?
morreu ao som dos fogos de Ano-novo e eles voltararn para Realengo. Logo
após a morte de Pequeno a narrativa se encerra. "Lá na Treze, Tigrinho, bem Justifique sua resposta por meio de exemplos retirados do texto,
cedinho, mandou um menino moer vidro, colocá-Io dentro de uma lata com cola
de madeira. Depois do cerol feito, passou-o na linha 10 esticada de um poste ao
outro. Esperou o cerol secar na linha, fez o cabresto, a rabiola e colocou uma
pipa no alto para cruzar com as outras no céu. Era tempo de pipa na Cidade de
Deus.
Créditos: site WWW.passeiweb.com e WWW.algosobre.com.br

Exercícios:
01 . O escrtor Paulo Uns em seu romance "Cidade de Deus" expressa o avanço
da violência no Brasil, nas últimas décadas, com a frase:

"Falha a fala. Fala a bala."


Nas duas frases só NÃO se pode identificar a seguinte figura de linguagem:
a) Paronomásia, pelo trocadilho ou jogo de palavras com apelo sonoro.
b) Aliteração, pela repetição de fonemas consonantais.
c) Assonância, pela repetição da vogal "a". \
d) Perífrase, pela substituição de "violência" por um dos elementos que a

m~~----------------------------------
GABARITO

o BARROCO:AMBIGUlDADESECONTRADiÇÕES A Teus Pés Ana Cristina César


01. 01. C
a) A lírica amorosa gregoriana reflete a dualida- de do Barroco 02.A
contra-reformista: céu/terra; espiritualidade/sensualidade. Por um lado, a 03.0
idealização da beleza e a espiritualização mulher, vista como um anjo; por 04.A
outro, a visão sensual, o erotismo, o apelo sexual. 05.E
b) As idéias de Deus ~ do pecado são opostas, mas comple-
mentares. O pecado faz parte da própria natureza humana decaída. Mas se o
homem não pode fugir a ele, encontra em Deus a misericórdia e o perdão. Por
isso, parte da lírica religiosa de Gregório compõe-se de poemas de contrição, O Outro Pé da Sereia -Mia COUID
às vezes humil-de, às vezes quase arrogante na formulação de um raciocínio 01.A
que justifica o pecado e vê o perdão como uma necessidade do plano divino. 02.0
2. C 03.B
3.A
4. B
5.A
6. C Cidade de Deus - Paulo Uns
01. o
02 a) O texto de Paulo Lins retrata a violência presente nos morros
Espumas Flutuantes - Castro alves
cariocas, fruto da luta pelo domínio das "bocas-de-fumo", ou seja, dos pontos
01.A de venda de drogas. Pode-se entender, porém, que esse problema é conse-
02. B qüência de uma desigualdade social extrema, denunciada pela oposição
03. E simplista que o narrador faz entre brancos e negros.
04. C 02 b) Grande nutre ódio pelos policiais porque crê que eles servem
05.0 aos brancos, protegendo a riqueza destes, à custa da opressão do negro. Ele
06 .B tem raiva dos brancos porque acha que eles tinham roubado os africanos,
submetendo os descendentes destes a péssimas condições de vida
03 a) A palavra boca significa, dentro do contexto de Cidade de Deus,
A Capital Federal 1891- Artur Azevedo ponto de venda de drogas. Trata-se de jargão típico do Brasil, utilizado
01. E principalmente por traficantes e usuários de drogas.
02. C 03 b) O enunciador do trecho de Cidade de Deus chega a se utilizar
03. C de termos comuns na modalidade oral, como gírias ("boca" ou "bocas-de-
fumo"), expressões chulas ("a raça mais filha da puta", "porra desses criou-
los") ou mesmo construções típicas do coloquial brasileiro ("tinha mais era
Bom Crioulo - Adolpho Caminha que morrer"). Entretanto, predomina o uso do padrão culto, o que se percebe
01. o pelo emprego do pretérito mais-que-perfeito em sua forma simples ("fora
02. E morador", "chegara ao morro"), uso de nexos lógicos ("não foi morar em
03.C Cidade de Deus, porque achava que ali seria muito fácil a polícia o encon-
04.0 trar"), obediência às normas de colocação pronominal e de uso de pronomes
oblíquos átonos ("já o encontrara antes"), apego à regência culta ("Tinha
Contos Gauchescos - João Simões Lopes Neto prazer em matar branco", "chegara ao morro"), além da utilização de anàforas
01.A ("O Grande que tomou ( ... ); o Grande de quase dois metros de altura ( ... ); o
02.C Grande que tinha uma metralhadora").
03.B
04.C
05.C

A Confissão de Lúcio 1914 - Mário de Sá Carneiro


01.0
02.B
03.E

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