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Supremo Tribunal Federal

Revista Trimestral de
Jurisprudência

Volume 197 – Número 2


Julho / Setembro de 2006
Páginas 371 a 724
Diretoria-Geral
Sérgio José Américo Pedreira
Secretaria de Documentação
Altair Maria Damiani Costa
Coordenadoria de Divulgação de Jurisprudência
Nayse Hillesheim

Seção de Preparo de Publicações


Neiva Maria de Moura Ludwig
Seção de Padronização e Revisão
Kelly Patrícia Varjão de Moraes
Seção de Distribuição de Edições
Margarida Caetano de Miranda

Diagramação: Manoel Vieira Santana


Capa: Patrícia Weiss Martins de Lima
Edição: Supremo Tribunal Federal

(Supremo Tribunal Federal — Biblioteca Ministro Victor Nunes Leal)

Revista Trimestral de Jurisprudência / Supremo Tribunal Federal,


Coordenadoria de Divulgação de Jurisprudência. — ano 1,
n. 1 (abr./jun. 1957) -. – Brasília: Imprensa Nacional, 1957-
Trimestral
A partir de 2002 até março de 2005, foi editada pela
Editora Brasília Jurídica.
ISSN 0035-0540
1. Direito - Jurisprudência - Brasil. I. Supremo Tribunal
Federal (STF).
CDD 340.6

Solicita-se permuta. STF/CDJU


Pídese canje. Anexo I, 2º andar
On demande l'échange. Praça dos Três Poderes
Si richiede lo scambio. 70175-900 – Brasília-DF
We ask for exchange. rtj@stf.gov.br
Wir bitten um Austausch. Fone: (0xx61) 3217-3573
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

Ministra ELLEN GRACIE Northfleet (14-12-2000), Presidente


Ministro GILMAR Ferreira MENDES (20-6-2002), Vice-Presidente
Ministro José Paulo SEPÚLVEDA PERTENCE (17-5-1989)
Ministro José CELSO DE MELLO Filho (17-8-1989)
Ministro MARCO AURÉLIO Mendes de Farias Mello (13-6-1990)
Ministro Antonio CEZAR PELUSO (25-6-2003)
Ministro CARLOS Augusto Ayres de Freitas BRITTO (25-6-2003)
Ministro JOAQUIM Benedito BARBOSA Gomes (25-6-2003)
Ministro EROS Roberto GRAU (30-6-2004)
Ministro Enrique RICARDO LEWANDOWSKI (9-3-2006)
Ministra CÁRMEN LÚCIA Antunes Rocha (21-6-2006)

COMISSÃO DE REGIMENTO

Ministro SEPÚLVEDA PERTENCE


Ministro GILMAR MENDES
Ministra CÁRMEN LÚCIA
Ministro EROS GRAU – Suplente

COMISSÃO DE JURISPRUDÊNCIA

Ministro MARCO AURÉLIO


Ministro CEZAR PELUSO
Ministro JOAQUIM BARBOSA

COMISSÃO DE DOCUMENTAÇÃO

Ministro CELSO DE MELLO


Ministro CARLOS BRITTO
Ministro RICARDO LEWANDOWSKI

COMISSÃO DE COORDENAÇÃO

Ministro GILMAR MENDES


Ministro CEZAR PELUSO
Ministro EROS GRAU

PROCURADOR-GERAL DA REPÚBLICA

Doutor ANTONIO FERNANDO BARROS E SILVA DE SOUZA


COMPOSIÇÃO DAS TURMAS

PRIMEIRA TURMA

Ministro José Paulo SEPÚLVEDA PERTENCE, Presidente


Ministro MARCO AURÉLIO Mendes de Farias Mello
Ministro CARLOS Augusto Ayres de Freitas BRITTO
Ministro Enrique RICARDO LEWANDOWSKI
Ministra CÁRMEN LÚCIA Antunes Rocha
SEGUNDA TURMA

Ministro José CELSO DE MELLO Filho, Presidente


Ministro GILMAR Ferreira MENDES
Ministro Antonio CEZAR PELUSO
Ministro JOAQUIM Benedito BARBOSA Gomes
Ministro EROS Roberto GRAU
SUMÁRIO

Pág.
ACÓRDÃOS ................................................................................................ 371
ÍNDICE ALFABÉTICO ................................................................................... I
ÍNDICE NUMÉRICO .............................................................................. XXIII
ACÓRDÃOS
EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NA QUESTÃO DE ORDEM
NA AÇÃO CAUTELAR 738 — SP

Relator: O Sr. Ministro Celso de Mello


Embargantes: Primo Schincariol Indústria de Cervejas e Refrigerantes S.A. e
outro — Embargada: União
Ação cautelar — Embargos de declaração na questão de ordem —
Ausência de formal publicação do acórdão consubstanciador do julgamento
em causa — Impugnação prematura — Intempestividade do recurso —
Embargos não conhecidos.
— A interposição de recurso que se antecipe à própria publicação
formal do acórdão revela-se comportamento processual extemporâneo e
destituído de objeto. O prazo para interposição de recurso contra decisão
colegiada só começa a fluir, ordinariamente, da publicação da súmula do
acórdão no órgão oficial (CPC, art. 506, III). Por isso mesmo, os pressu-
postos de cabimento dos embargos de declaração — obscuridade, con-
tradição ou omissão — hão de ser aferidos em face do inteiro teor do
acórdão a que se referem. A simples notícia do julgamento efetivado não
dá início ao prazo recursal. Precedentes.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Segunda Turma, na conformidade da ata do julgamento e das notas
taquigráficas, por unanimidade de votos, não conhecer dos embargos de declaração,
nos termos do voto do Relator. Ausente, justificadamente, neste julgamento, a Ministra
Ellen Gracie.
Brasília, 17 de maio de 2005 — Celso de Mello, Presidente e Relator.
374 R.T.J. — 197

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Celso de Mello: Esta colenda Segunda Turma, ao apreciar
questão de ordem suscitada na Ação Cautelar n. 738/SP, referendou, integralmente,
por seus próprios fundamentos, a decisão do Relator que deferiu, em parte (fls. 522/
526), o pedido de medida cautelar formulado pela parte ora embargante.
Embora ainda não publicado o acórdão consubstanciador desse julgamento, os
ora recorrentes opuseram embargos de declaração a tal decisão colegiada (fls. 576/
582).
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Celso de Mello (Relator): Não conheço dos presentes embargos de
declaração, eis que deduzidos extemporaneamente.
É que — tal como acentuado no Relatório — o acórdão consubstanciador do
julgamento em causa sequer foi objeto de formal publicação.
Isso significa, portanto, que o recurso em questão foi interposto prematuramen-
te, pois deduzido sem que ainda existisse, formalmente, o acórdão que a parte recorren-
te deseja impugnar.
Cabe assinalar, por necessário, que a intempestividade dos recursos tanto pode
derivar de impugnações prematuras (que se antecipam à publicação dos acórdãos),
como sucede no caso, quanto resultar de oposições tardias (que se registram após o
decurso dos prazos recursais).
Em qualquer das duas situações — impugnação prematura ou oposição tardia —, a
conseqüência de ordem processual é uma só: o não-conhecimento do recurso, por
efeito de sua extemporânea interposição.
No caso, como precedentemente referido, os embargos declaratórios foram dedu-
zidos antes da publicação formal do acórdão consubstanciador do julgamento da
questão de ordem que referendou a decisão que havia deferido, em parte, o pedido
formulado pelos ora embargantes.
Impende acentuar, neste ponto, que o prazo para interposição de recurso contra
decisões colegiadas só começa a fluir da publicação da súmula do acórdão no órgão
oficial (CPC, art. 506, III). Na pendência dessa publicação, qualquer recurso eventual-
mente interposto considerar-se-á intempestivo, além de destituído de objeto.
Daí a orientação que tem prevalecido no âmbito desta Suprema Corte, cujas
sucessivas decisões, no tema, proclamam que “o prazo para recorrer só começa a
fluir com a publicação da decisão no órgão oficial, sendo prematuro o recurso que a
antecede” (AI 437.126-AgR/RS, Rel. Min. Carlos Britto — grifei).
Com efeito, a simples notícia do julgamento, além de não dar início à fluência
do prazo recursal, também não legitima a interposição de recurso, por absoluta falta
de objeto, conforme tem advertido o magistério jurisprudencial firmado pelo Supremo
R.T.J. — 197 375

Tribunal Federal (RTJ 187/498, Rel. Min. Celso de Mello — AI 152.091-AgR/SP, Rel.
Min. Moreira Alves — AI 286.562/DF, Rel. Min. Maurício Corrêa — AI 406.483-
AgR/SP, Rel. Min. Gilmar Mendes — HC 81.675-ED/SP, Rel. Min. Sydney Sanches —
RE 194.090-ED/RS, Rel. Min. Ilmar Galvão — RE 232.115-ED-AgR/CE, Rel. Min.
Ilmar Galvão — RE 320.440-AgR/RJ, Rel. Min. Ellen Gracie, v.g.):
“O termo inicial do prazo para recorrer extraordinariamente pressupõe que
o acórdão tenha sido lavrado, assinado e publicadas as suas conclusões, não
bastando a simples publicação da notícia do julgamento, ainda que em minuciosa
súmula do decidido.”
(RTJ 88/1012, Rel. Min. Cordeiro Guerra — grifei)
“Ação direta de inconstitucionalidade — Medida cautelar deferida —
Acórdão não publicado — Embargos de declaração (...).
A interposição de recurso que se antecipe à própria publicação formal do
acórdão revela-se comportamento processual extemporâneo e destituído de
objeto. O prazo para interposição de recurso contra decisão colegiada só começa
a fluir, ordinariamente, da publicação da súmula do acórdão no órgão oficial.
Por isso mesmo, os pressupostos de cabimento dos embargos de declaração —
obscuridade (...), contradição ou omissão — hão de ser aferidos em face do inteiro
teor do acórdão a que se referem. A simples notícia do julgamento efetivado não
dá início ao prazo recursal.”
(RTJ 143/718-719, Rel. Min. Celso de Mello)
“Embargos de declaração. Oposição contra acórdão que não conheceu
de idêntico recurso, porquanto interposto antes de publicado o acórdão que se
pretendia impugnar.
O acórdão embargado não conheceu dos embargos de declaração, por
haverem se antecipado à publicação da decisão impugnada.”
(RE 204.378-ED-ED/RS, Rel. Min. Ilmar Galvão — grifei)
“O prazo para interposição de recurso conta-se a partir da publicação do
acórdão. Não serve como termo inicial a mera notícia do julgamento.”
(Pet 1.320-AgR-AgR/DF, Rel. Min. Nelson Jobim — grifei)
Os fundamentos que dão suporte a essa orientação jurisprudencial põem em
evidência a circunstância de que a publicação do acórdão gera efeitos processuais
específicos, pois, além de formalizar a integração dessa peça essencial ao processo,
confere-lhe existência jurídica e fixa-lhe o próprio conteúdo material. É mediante a
efetiva ocorrência dessa publicação formal que se viabiliza, processualmente, a
intimação das partes, inclusive para efeito de interposição, opportuno tempore, dos
recursos pertinentes.
Daí a advertência feita por Moacyr Amaral Santos (“Primeiras Linhas de
Direito Processual Civil”, vol. 3/26, 21ª ed., 2003, Saraiva), cuja lição, na matéria ora
em exame, ressalta que “É da publicação que se conta o prazo para interposição do
recurso” (grifei).
376 R.T.J. — 197

Esse mesmo entendimento é perfilhado por José Frederico Marques (“Manual


de Direito Processual Civil”, vol. 3/29, item n. 528, 9ª ed., 1987, Saraiva), que, em
magistério irrepreensível, acentua ser, a publicação do pronunciamento jurisdicional
do Estado, o fato relevante “que lhe dá qualidade de ato do processo”, passível, então,
a partir dessa formal divulgação no órgão oficial, de todas as conseqüências autoriza-
das pelo ordenamento positivo, notadamente aquelas de natureza recursal.
Igual percepção do tema é revelada por José Carlos Barbosa Moreira (“Comen-
tários ao Código de Processo Civil”, vol. V/693, item n. 377, 12ª ed., 2005, Forense),
cujo comentário, a respeito da indispensabilidade da publicação do acórdão, enfatiza,
presente o que dispõe o art. 506, III, do Código de Processo Civil, que é somente com
a publicação do acórdão que “começa a correr o prazo de interposição de qualquer
recurso porventura cabível (...)”.
Sendo assim, pelas razões expostas, e considerando, sobretudo, os precedentes
firmados por esta Suprema Corte, não conheço dos presentes embargos de declaração,
porque extemporâneos e destituídos de objeto.
É o meu voto.

EXTRATO DA ATA
AC 738-QO-ED/SP — Relator: Ministro Celso de Mello. Embargantes: Primo
Schincariol Indústria de Cervejas e Refrigerantes S.A. e outro (Advogados: Waldir Luiz
Braga e outro e Celso Renato D’Avila e outros). Embargada: União (Advogada: PFN –
Lígia Scaff Vianna).
Decisão: A Turma, por votação unânime, não conheceu dos embargos de declara-
ção, nos termos do voto do Relator. Ausente, justificadamente, neste julgamento, a
Ministra Ellen Gracie.
Presidência do Ministro Celso de Mello. Presentes à sessão os Ministros Carlos
Velloso, Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa. Ausente, justificadamente, a Ministra
Ellen Gracie. Subprocurador-Geral da República, Dr. Francisco Adalberto da Nóbrega.
Brasília, 17 de maio de 2005 — Carlos Alberto Cantanhede, Coordenador.

EXTRADIÇÃO 931 — REPÚBLICA PORTUGUESA

Relator: O Sr. Ministro Cezar Peluso


Requerente: Governo de Portugal — Extraditando: Mário Sérgio Taborda Barata
1. Extradição. Passiva. Delito de associação criminosa. Art. 299º do
Código Penal português. Inquérito em fase inicial de investigações. Indi-
cações precisas sobre local, data, natureza e circunstâncias do fato. Au-
sência. Pedido indeferido quanto a tal imputação. Aplicação do art. 80,
R.T.J. — 197 377

caput, da Lei n. 6.815/80. Não pode ser deferido pedido de extradição com
base em imputação de delito, cuja apuração, em inquérito, encontra-se em
fase inicial de investigações e, portanto, ainda carente de indicações
precisas sobre o fato supostamente criminoso.
2. Extradição. Passiva. Delitos de burla qualificada e falsificação
de documento. Arts. 217º, n. 1, 218º, n. 2, a, e 256º, n. 1 e 3, do Código Penal
português, e 171 e 298 do Código Penal brasileiro. Contrafação de che-
ques depositados pelo acusado em sua conta corrente, e cujos valores
foram sacados por ele em dinheiro após o creditamento. Falsum cuja
potencialidade lesiva se exaure na fraude elementar da burla qualificada,
ou estelionato. Absorção daquele por este. Aplicação do princípio da
consunção. Inexistência de concurso formal. Pedido deferido apenas
quanto ao crime de burla qualificada. Se a potencialidade lesiva da
falsificação de cheques se exaure na fraude que figura o elemento
constitutivo do delito de burla qualificada, ou estelionato, consistente na
obtenção de vantagem indevida com o levantamento dos valores dos
títulos depositados na conta do acusado, o primeiro crime é absorvido
pelo segundo.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, sob a Presidência do Ministro Nelson Jobim, na
conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade, conce-
der, em parte, o pedido de extradição, autorizando-a, tão-somente, com relação ao
crime de burla qualificada, nos termos do voto do Relator. Ausentes, justificadamente,
os Ministros Carlos Velloso, Ellen Gracie e Carlos Britto. Falou pelo extraditando o
Dr. Paulo Guanabara Leal de Araújo.
Brasília, 28 de setembro de 2005 — Cezar Peluso, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Trata-se de pedido de extradição do cidadão portu-
guês Mário Sérgio Taborda Barata, deduzido pelo Governo de Portugal, com aquies-
cência aos compromissos formais previstos no art. 91 da Lei n. 6.815/80.
O parecer do Exmo. Sr. Procurador-Geral da República assim expõe o presente
caso:
“1. A República Portuguesa formaliza pedido de extradição do português
Mário Sérgio Taborda Barata, contra quem foi expedido mandado de captura
com eficácia internacional pela MM. Juíza de Instrução Criminal do Tribunal
Central, Dra. Airisa Caldinho — fls. 6/7, pelo cometimento dos crimes de ‘burla
qualificada, p.p. nos arts. 217º 1 e 218º/2ª) do CP com pena de dois a oito anos,
falsificação, p.p. no art. 256º/1ª) e 3 do CP com pena de seis meses a cinco anos
de prisão ou multa de sessenta a seiscentos dias, e associação criminosa, p.p. no
378 R.T.J. — 197

art. 299º/1 e 2 do CP com pena de um a cinco anos, consubstanciados no facto


de, no âmbito de um grupo organizado de âmbito internacional, se haver apode-
rado de cheques emitidos a empresas italianas, e às mesmas remetidos por
correio, sem que estas os chegassem a receber. Com os nomes dos respectivos
beneficiários alterados e/ou endossados falsificados viriam tais cheques a ser
depositados na conta bancária do arguido na CGD (Caixa Geral de Depósitos),
ou apresentados pelo próprio a pagamento numa agência do BPN, em Lisboa. O
montante global dos cheques contrafeitos ultrapassa os 80 mil euros, sendo que
o arguido ainda conseguiu levantar cerca de 10.800 euros antes da intervenção
do banco ao suspeitar da fraude (fls. 6/7).
2. O extraditando encontra-se preso, desde o dia 18 de outubro de 2004, no
Quartel Central do Corpo de Bombeiros Militares do Estado do Ceará — fls. 158/
163.
3. O extraditando foi devidamente interrogado às fls. 228/230, e apresentou
defesa a fls. 252/274, na qual aduz a ausência de relato dos fatos, como exige o
artigo 80, do Estatuto do Estrangeiro: “A inexistência de descrição da natureza
e circunstância dos fatos, necessária à admissão e concessão do pedido
extraditório, é patente, seja na peça judicial que embasa o pleito do Governo
de Portugal, como já demonstrado, seja no próprio relatório da autoridade
policial, composto de meras apreciações subjetivas. Veja-se, a propósito, que o
citado relatório policial, elaborado para justificar o pedido de extradição, é
constituído tão-somente de longas divagações sobre a postura do extradi-
tando (...)” — fls. 259; os tipos penais pelos quais a extradição foi solicitada
(‘burla qualificada’, associação criminosa e falsificação de documentos) não se
subsumem à conduta descrita no instrumento extraditório: “Não há qualquer
descrição de fatos que se ajustem à moldura do crime de quadrilha. A conduta
de depositar cheques em conta bancária recebidos em pagamento de dívida,
efetuando-se, depois, saque parcial não se ajusta, em absoluto, ao delito de
burla, que corresponde ao estelionato em nosso sistema de direito penal. E, por
último, no tocante à acusação por falsidade documental ocorre insuperável
causa obstativa do atendimento do pedido extradicional, qual seja, a ausência
do pressuposto da dúplice incriminação. É que no nosso modelo jurídico-
penal, não há crime de falsificação em concurso material com o crime de
estelionato, o delito que corresponde ao crime de burla” — fls. 260/273.” (fls.
278/279).
O parecer conclui pelo deferimento parcial da extradição. É que não estaria
observado o disposto no art. 80 da Lei n. 6.815/80, por falta de indicações precisas
sobre um dos fatos (local, data, natureza e circunstâncias), ante a circunstância de que
as investigações, cujo resultado poderia levar à configuração do crime de associação
para cometimento de delitos, estão em fase inicial de apuração (fl. 284). Neste ponto, o
pedido não mereceria conhecimento.
É o relatório.
R.T.J. — 197 379

VOTO
O Sr. Ministro Cezar Peluso (Relator): 1. O pedido de extradição é oriundo de
mandado de detenção internacional extraído do Processo de Inquérito n. 378/03.4
JFLSB, que corre pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal.
Conforme a motivação constante do referido mandado:
“- Evidenciam os autos indícios da prática pelo arguido Mário Sérgio
Taborda Barata de crime de burla qualificada, p.p. nos arts. 217º/1 e 218º/2ª) do
CP com pena de dois a oito anos, falsificação, p.p. no art. 256º/1º) e 3 do CP com
pena de seis meses a cinco anos de prisão ou multa de sessenta a seiscentos dias,
e associação criminosa, p.p. no art. 299º/1 e 2 do CP com pena de um a cinco anos,
consubstanciados no facto de, no âmbito de um grupo organizado de âmbito
internacional, se haver apoderado de cheques emitidos a empresas italianas, e às
mesmas remetidos por correio, sem que estas os chegassem a receber. Com os
nomes dos respectivos beneficiários alterados e/ou endossos falsificados viriam
tais cheques a ser depositados na conta bancária do arguido na CGD, ou apresen-
tados pelo próprio a pagamento numa agência do BPN, em Lisboa. O montante
global dos cheques contrafeitos ultrapassa os 80 mil euros, sendo que o arguido
ainda conseguiu levantar cerca de 10.800 euros antes da intervenção do banco ao
suspeitar da fraude.
- A força dos indícios advém da análise da prova documental e por declara-
ções reunida (sic) já na investigação, sendo que o próprio arguido já tem conheci-
mento da pendência do inquérito uma vez que já foi interrogado pela autoridade
policial. Nem por isso deixou de se ausentar para parte incerta, suspeitando-se que
presentemente se encontrará no estrangeiro, juntamente com sua família, o que
inviabilizou a execução dos mandados de detenção anteriormente emitidos nos
autos na sequência do despacho de fls. 173.
- Em cumprimento do despacho judicial de 06/05/2003, foram emitidos,
contra o arguido, mandados de detenção para apresentação ao Juiz e subsequente
aplicação de medida de coacção, configurando-se séria possibilidade de lhe ser
aplicada a medida de prisão preventiva.
- A necessidade de proceder à extradição activa da pessoa a deter ao abrigo
do disposto nos arts. 69º e seguintes da Lei n. 144/99 de 31 de agosto” (fls. 06/07).
2. O documento não atende, em parte, aos requisitos previstos no art. 80, caput, da
Lei n. 6.815/80, que exige “indicações precisas” sobre o local, data, natureza e
circunstâncias do fato criminoso. Resta examinar, pois, se tais indicações estariam
alhures.
No pedido de detenção, elaborado pela Polícia Judiciária (fls. 72/79), lê-se:
“Trata-se aqui da contrafacção, já identificada, de cinco cheques, num
montante global de 84.510 Euros, de Instituições de Crédito nacionais e estran-
geiras, os quais foram integralmente depositados na conta bancária do argüido.
De facto, o arguido Sérgio Barata surge, nos presentes autos, como o único
titular da conta bancária através da qual se consumou a fraude bancária, com
recurso à contrafação dos títulos de crédito.
380 R.T.J. — 197

Não demonstrou possuir uma actividade profissional definida, sendo notó-


rio que não tem meio de subsistência certo e estável, razão pela qual o arguido
surge conotado com inúmeros esquemas negociais pouco claros e sempre na
dependência do seu pai - cfr. fls. 160 a 163.
Os títulos de crédito em apreço correspondem a cheques autênticos, com o
mesmo número, os quais - três dos cinco cheques - foram expedidos por empresas
portuguesas para empresas italianas, destinando-se ao pagamento de dívidas do
trato comercial, sem lograrem contudo - os cinco cheques - chegar ao seu destino
final.
Surgiram então os cheques contrafeitos, juntos agora aos presentes autos,
semelhantes aos documentos autênticos que lhes serviram de referência de refe-
rência em muitos elementos - número, titular, etc. - e diferindo, p. ex., no montante,
o qual foi fraudulentamente empolado.
Efectivamente, os cinco cheques contrafeitos e constantes dos autos foram
depositados, na sua totalidade, naquela conta, sendo que, o arguido, após
creditação, procedeu desde logo a levantamentos, em cash, no montante de
10.800 Euros - vd. fls. 62 a 65 e 84 a 89.
Não fora o bloqueamento, em tempo oportuno, da referida conta bancária,
efectuado pela Caixa Geral de Depósitos, ao dar-se conta do modus operandi em
curso, e provavelmente a totalidade do montante indevidamente creditado ao
arguido teria o mesmo destino.
Na presente investigação urge apurar a eventual intervenção de outros
comparticipantes, cuja função e grau de intervenção, em caso afirmativo, impor-
ta ainda delimitar” (fls. 72/73. Grifos nossos).
Nesse mesmo documento, a Polícia Judiciária reconhece “o facto de o presente
inquérito se apresentar ainda numa fase inicial das suas investigações” (fl. 76).
Quanto à imputação dos crimes de falsificação de documento e de burla,
constam indicações precisas acerca do local, data, natureza e circunstâncias dos
fatos criminosos, não, porém, no que concerne à imputação da prática de associação
criminosa.
Este o tipo penal da associação criminosa:
“Artigo 29. Associação criminosa
1. Quem promover ou fundar grupo, organização ou associação cuja finali-
dade ou actividade seja dirigida à prática de crimes, é punido com pena de prisão
de 1 a 5 anos.
2. Na mesma pena incorre quem fizer parte de tais grupos, organizações ou
associações ou quem os apoiar, nomeadamente fornecendo armas, munições,
instrumentos de crime, guarda ou locais para as reuniões, ou qualquer auxílio para
que se recrutem novos elementos” (fl. 99).
Volto aos elementos apresentados com o pedido, quanto a esse delito. Deles já
grifei:
R.T.J. — 197 381

“Na presente investigação urge apurar a eventual intervenção de outros


comparticipantes, cuja função e grau de intervenção, em caso afirmativo, importa
ainda delimitar” (fl. 73).
Vê-se logo, pois, a ausência absoluta da precisão exigida do art. 80 da Lei n.
6.815/80, sem a qual é impossível exercer qualquer juízo sobre a dupla tipicidade dos
fatos e a ocorrência, ou não, de prescrição da pretensão punitiva.
Daí, entende-se que, quanto ao delito de associação, o pedido não cumpre os
requisitos legais, impondo-se-lhe o indeferimento.
3. Presente o requisito da precisa indicação do fato no que toca aos outros crimes,
analiso a questão da absorção do delito de falsificação pelo de burla qualificada.
E, nesse ponto, tem razão a defesa quando sustenta:
“Se há acusação por burla, não pode haver acusação por falsificação de
documentos. A jurisprudência nacional, desde os tempos da Judicatura de
Adalício Nogueira (RTJ 52/18) e de Victor Nunes Leal (RTJ 46/667), tem consa-
grado a tese de que a falsidade é praticada para alcançar o estelionato, aquela é
crime-meio, que é absorvido por este, crime-fim, não ocorrendo o concurso
material” (fl. 267).
O documento da Polícia Judiciária, já transcrito, assim descreve os fatos:
“Os títulos de crédito em apreço correspondem a cheques autênticos, com o
mesmo número, os quais - três dos cinco cheques - foram expedidos por empresas
portuguesas para empresas italianas, destinando-se ao pagamento de dívidas do trato
comercial, sem lograrem contudo - os cinco cheques - chegar ao seu destino final.
Surgiram então os cheques contrafeitos, juntos agora aos presentes autos,
semelhantes aos documentos autênticos que lhes serviram de referência de refe-
rência em muitos elementos - número, titular, etc. - e diferindo, p. ex., no montan-
te, o qual foi fraudulentamente empolado.
Efectivamente, os cinco cheques contrafeitos e constantes dos autos foram
depositados, na sua totalidade, naquela conta, sendo que, o arguido, após
creditação, procedeu desde logo a levantamentos, em cash, no montante de
10.800 Euros - vd. fls. 62 a 65 e 84 a 89” (fls. 72/73).
Está claro, pois, que, diversamente do que professa a douta Procuradoria-Geral,
teria havido volição única, a de falsificar os cheques para obter vantagem patrimonial
ilícita (art. 171 do CP) ou com a “intenção de obter para si enriquecimento ilegítimo”
(art. 217º, 1, do CP Português), donde não poder excogitar-se concurso formal homo-
gêneo (cf. fl. 285), senão mero concurso aparente de normas, que leva à absorção do
falsum pelo estelionato, ou burla, neste caso.
A Corte já teve oportunidade de enfrentar casos semelhantes, admitindo a absor-
ção de uma figura típica por outra, em pedidos de extradição. Assim sucedeu na Ext n.
543 (Rel. Min. Moreira Alves), em que o Plenário, na esteira do voto do Relator,
resolvendo concurso aparente de normas pela via do princípio da subsidiariedade
tácita, indeferiu a extradição pelo crime de constrangimento ilegal, porque figurava
elemento constitutivo do crime de roubo (RTJ 138/428).
382 R.T.J. — 197

Na Ext n. 654 (Rel. Min. Néri da Silveira), o Plenário, por maioria, entendeu
que as acusações de um incêndio de primeiro grau e de quatro homicídios de primeiro
grau deveriam ser reduzidas a um só crime, o do art. 250, caput, cc. art. 258 do CP
brasileiro.
Posto não seja incontroverso o tratamento do tema da absorção do falsum pelo
estelionato na Corte, não há negar, neste caso, a imperiosidade da aplicação do
princípio da consunção, com base no saudoso Francisco de Assis Toledo:
“O mesmo ocorre com certas modalidades de falsum e estelionato, quando
aquele se exaure na fraude, que constitui elemento essencial deste último. Isso
acontece, por exemplo, na falsificação de um documento que, usado como fraude
para obtenção de lucro patrimonial indevido, se esgota em sua potencialidade
lesiva, permanecendo sem qualquer outra finalidade ou possibilidade de uso (ex.:
alguém falsifica a assinatura do correntista em um cheque e obtém, no banco
sacado, o pagamento indevido). Como o cheque esgotou-se na consumação do
estelionato, não podendo mais ser utilizado para outros fins, o crime-fim de
estelionato absorve o falsum” (Princípios básicos de direito penal. 5ª ed., 10ª tir.
São Paulo: Saraiva, 2002, p. 53).
Retomo, aqui, a descrição dos fatos dada pela Polícia Judiciária portuguesa:
“Efectivamente, os cinco cheques contrafeitos e constantes dos autos foram
depositados, na sua totalidade, naquela conta, sendo que, o arguido, após
creditação, procedeu desde logo a levantamentos, em cash, no montante de
10.800 Euros - vd. fls. 62 a 65 e 84 a 89.” (Fls. 72/73).
Não há dúvida, portanto, de que a potencialidade lesiva dos cheques falsificados
pelo extraditando se esgotou ao serem depositados na conta do ora extraditando, sem
nenhuma possibilidade de voltarem a ser usados para quaisquer outros fins.
A tese do concurso formal de crimes somente poderia ser acolhida se não se
caracterizasse a exaustão da potencialidade lesiva dos instrumentos falsificados. Va-
lho-me, uma vez mais, daquele ilustre penalista:
“Assim, porém, não ocorre na falsificação de certos documentos que,
utilizados na prática do estelionato, continuam com a potencialidade lesiva
para o cometimento de ouros delitos da mesma ou de variada espécie. Nesta
hipótese verifica-se o concurso formal de crimes (falso e estelionato), como
ocorre, por exemplo, com a falsificação de um instrumento de mandato para a
emissão de cheque do pretenso mandante e seu recebimento no Banco sacado.
Consumado o estelionato, a procuração, se contiver poderes para outros
saques ou para outros fins, não se exaure na fraude daquele delito” (op. e loc.
cits.).
Por tais razões, indefiro o pedido de extradição, no que diz respeito ao crime de
falsificação, previsto no art. 256º, n. 1 e 3, do Código Penal português.
4. Resta por analisar o pedido no que tange à burla qualificada, objeto dos arts.
217, n. 1, e 218, n. 2, alínea a, do Código Penal português:
R.T.J. — 197 383

“Art. 217. Burla


1. Quem, com a intenção de obter para si ou para terceiro um enriquecimento
ilegítimo através de erro ou engano sobre factos, que astuciosamente provocou,
determinar outrem à prática de actos que lhe causem, ou causem a outra pessoa,
prejuízos patrimoniais, será punido com prisão até 3 anos.
(...)
Art. 218. Burla qualificada
2. A pena é de prisão de 2 a 8 anos se:
a) o prejuízo patrimonial for de valor consideravelmente elevado;
(...).”
Quanto a esse fundamento, tenho por coexistentes todos os requisitos de deferi-
mento do pedido.
O fato típico, como já visto, é igualmente punido pela legislação nacional, no art.
171 do Código Penal, e a pena cominada autoriza a extradição (reclusão de um a cinco
anos e multa).
Os fatos encontram-se precisamente descritos na documentação que instrui o
pedido. Os cheques falsificados (fls. 13/14) foram depositados na conta-corrente do
extraditando, e os valores, sacados em espécie (fls. 18/19), tudo no mês de dezembro de
2002 (fls. 18/19).
Entre a data dos fatos e a presente, não ocorreu prescrição, quer perante a legisla-
ção nacional (doze anos, art. 109, CP), quer em face da lei portuguesa (dez anos, art.
118º, I, b, CP).
5. Isso posto, voto pelo deferimento parcial do pedido de extradição, autori-
zando-a tão-somente com relação ao crime de burla qualificada.

EXTRATO DA ATA
Ext 931/República Portuguesa — Relator: Ministro Cezar Peluso. Requerente:
Governo de Portugal. Extraditando: Mário Sérgio Taborda Barata (Advogados: Renato
Guanabara Leal de Araújo e Paulo Guanabara Leal de Araújo).
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, concedeu, em parte, o pedido de extradi-
ção, autorizando-a, tão-somente, com relação ao crime de burla qualificada, nos termos
do voto do Relator. Ausentes, justificadamente, os Ministros Carlos Velloso, Ellen
Gracie e Carlos Britto. Falou pelo extraditando o Dr. Paulo Guanabara Leal de Araújo.
Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Marco Aurélio, Gilmar Mendes, Cezar Peluso, Joaquim
Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da República, Dr. Antonio Fernando Barros e
Silva de Souza.
Brasília, 28 de setembro de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.
384 R.T.J. — 197

EXTRADIÇÃO 944 — ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA

Relator: O Sr. Ministro Carlos Britto


Requerente: Governo dos Estados Unidos da América — Extraditando: William Henry
Howard Ogle ou Pierre Jacques Dellannoy ou Pierre Jacques Dallanoy ou Pierre Jacques
Hernandes Delamoy ou Pierre Jacques Hernandes Delannoy ou Pierre Delanoy ou Henry Ogle
Extradição. Tráfico internacional de drogas. Alegação de que o
indictment não é documento apto a viabilizar a concessão do pedido, além
do que a pena máxima para o crime é de prisão perpétua, o que impediria
a extradição.
Pedido extradicional que atende às exigências do Tratado Bilateral
de Extradição Brasil/Estados Unidos, bem como às da Lei n. 6.815/80.
O indictment é instituto equiparável à pronúncia, e o Supremo
Tribunal Federal já se manifestou pela suficiência desse ato formal para
legitimar pedidos extradicionais (Ext 542).
O Extraditando responde a processo no Brasil, razão pela qual é de
se adiar a entrega até o desfecho da ação penal.
Em face da possibilidade de cominação da pena de prisão perpétua,
é de se observar a atual jurisprudência deste Supremo Tribunal Federal
para exigir do Estado requerente o compromisso de não aplicar esse tipo
de reprimenda, menos ainda a pena capital, em caso de condenação do
réu (Ext 855).
Extradição deferida com as mencionadas restrições.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, por seu Tribunal Pleno, sob a Presidência do Ministro Nelson Jobim,
na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de
votos, deferir o pedido de extradição, nos termos do voto do Relator.
Brasília, 19 de dezembro de 2005 — Carlos Ayres Britto, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto: O Governo dos Estados Unidos da América
pediu a extradição do nacional norte-americano William Henry Howard Ogle ou
Pierre Jacques Delannoy, processado por crimes de tráfico de drogas. Para tanto,
encaminhou os documentos formalizadores e de justificação do pedido (fls. 4/160).
2. Pois bem, segundo a Nota Verbal, o extraditando “trabalhou como piloto das
Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Fuerzas Armadas Revolucionarias de
Colômbia) (‘FARC’), pilotando pequenas aeronaves, carregadas de cocaína da Colôm-
bia para outros países da América do Sul, incluindo o Brasil, e para a América Central,
sendo que parte da cocaína era destinada aos Estados Unidos.
R.T.J. — 197 385

3. Deu-se que, em 24 de setembro de 2003, Willian Henry Howard Ogle foi preso
pela polícia brasileira após haver sido pego fazendo transporte aéreo de uma carga de
200 quilos de cocaína, proveniente da Colômbia para Itú, no Brasil. De acordo com um
informante do DEA, Willian Henry Howard Ogle trabalhou para as Farc durante muitos
anos, tempo em que transportava cocaína de propriedade das Farc da Colômbia para o
México e outros países da América Central e América do Sul, parte da qual era
destinada aos Estados Unidos.
4. Os documentos encaminhados pelo governo requerente dão conta de que foi
expedido mandado de prisão contra o extraditando, tendo por base o Indictment
(pronúncia) n. 04-212, proferido pela Corte Distrital dos Estados Unidos para o Distrito
de Columbia, no dia 29 de abril de 2004, nos seguintes termos (fls. 70/71):
“A partir de 2001, ou em alguma ocasião nesse ano, a data exata sendo
desconhecida pelo Grande Júri, e continuando depois disso até a data do registro
desta pronúncia, inclusive na República da Colômbia e em outros lugares, os réus
(...), William Henry Howard Ogle t.c.c. ‘Pierre Jacques Dellanoy’ e (...), de forma
propositada e intencional combinaram, conspiraram, confederaram e concorda-
ram com outros conhecidos e desconhecidos pelo Grande Júri, incluindo os co-
conspiradores não indiciados na presente, para cometer os seguintes delitos
contra os Estados Unidos: propositadamente e intencionalmente fabricar e distri-
buir cinco quilogramas ou mais de uma mistura e substância que continha uma
quantidade detectável de cocaína, uma substância controlada da Lista II, com a
intenção e o propósito de que tal substância fosse ser importada ilegalmente para
os Estados Unidos, em violação ao Título 21 do Código dos Estados Unidos,
Seções 959 e 960".
5. Ante esse panorama, e tendo por fundamento o art. 81 da Lei n. 6.815/80, c/c o
art. VIII do Tratado de Extradição firmado entre o Brasil e os Estados Unidos da
América (Decreto n. 55.750/65), decretei a prisão do extraditando.
6. Avanço neste relato para anotar que, por meio do Aviso n. 4.249, o Exmo. Sr.
Ministro da Justiça informou quanto à notificação do extraditando sobre o mandado de
prisão preventiva para fins de extradição, como informou ainda, S. Excelência, que o
estrangeiro já se encontrava preso em razão de processo-crime a que também responde
perante a Justiça brasileira.
7. Na seqüência do processo, deu-se o interrogatório do extraditando, que, apesar
de intimado, deixou de constituir advogado. Razão por que lhe foi nomeada defensora
ad hoc, substituída, em seqüência, por agente dos quadros da Defensoria Pública da
União. Defensoria que de logo sustentou que o artigo 1º do Decreto 55.750/65 só prevê
o instituto da entrega recíproca para os indivíduos que “tenham sido processados ou
condenados” por qualquer dos crimes ou delitos especificados no artigo II do Tratado
de Extradição. Daí aduzir que tanto a pronúncia quanto o mandado de prisão preven-
tiva são requisitos formalizadores do pedido de extradição, mas não extinguem o
processo. Mais: argumenta que “o indictment, ou melhor, a pronúncia somente possui
o condão de dar início à ação penal”, de sorte a concluir pela impossibilidade do
deferimento da extradição, já que o tratado exige que o extraditando já esteja em
situação de processado ou condenado.
386 R.T.J. — 197

7. Já em outra linha de fundamentação, argumenta a defesa que a pena máxima


pelo crime praticado pelo extraditando é de prisão perpétua, fato impeditivo da extra-
dição, nos termos da alínea b do inciso XLVII do art. 5º da Constituição de 1988. Daí
requerer o indeferimento do pedido.
8. A seu turno, a douta Procuradoria-Geral da República, em parecer do seu ilustre
titular, Dr. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza, opinou pela procedência do
pedido extradicional.
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto (Relator): Feito o relatório, passo ao voto.
Fazendo-o, começo por dizer que a instrução do processo me parece atender às exigên-
cias do artigo IX do Tratado Bilateral de Extradição Brasil/Estados Unidos, bem como
as do art. 80 da Lei n. 6.815/80. Também tenho como preenchido o requisito da dupla
tipicidade, uma vez que o extraditando é acusado de “conspiração” para fabricar e
distribuir cinco quilos ou mais de cocaína, com o propósito de que a droga fosse
introduzida ilegalmente nos Estados Unidos. Isso em ofensa à legislação penal daquele
País (USC, Título 21, Seções 963, 959, 960 (a) (3) e 960 (b) (1) (B) (ii) e Título 18,
Seções 2 e 3.551 e seguintes (fls. 61/68))1. Delitos que correspondem, no Brasil, aos
crimes descritos nos arts. 12, 13 e 14 da Lei n. 6.368/76, inclusive com a incidência do
art. 18 da mesma lei, que prevê o aumento de pena para o “caso de tráfico com o
exterior ou de extraterritorialidade da lei penal”.
12. Nesse rumo de idéias, acrescento que o Tratado de Extradição prevê como
extraditáveis os autores dos “crimes ou delitos contra as leis relativas ao tráfico, uso,
ou produção ou manufatura de narcóticos ou ‘canabis';” (item 27 do art. II).
13. De outra banda, tanto pela legislação brasileira como pela lei estadunidense,
há que se considerar a pretensão punitiva quanto aos crimes imputados ao extraditan-
do, ocorridos entre os anos de 2001 e 2003. E, segundo a legislação do Estado
requerente, só não são puníveis os crimes cuja pronúncia (indictment) ocorrer após
cinco anos da respectiva conduta (Título 18, seção 3.282, do Código dos Estados
Unidos — fl. 66). Já pelo Ordenamento Jurídico brasileiro, a prescrição se dá em 20
anos (inciso I do art. 109), o que significa a legítima persistência da pretensão punitiva
do Estado, dado que houve prática de crimes até o ano de 2003.

1 “Título 21, do código dos Estados Unidos, Seção 959 — Posse, fabricação ou distribuição de
substâncias controladas
(a) Fabricação ou distribuição com a finalidade de importação ilegal
Será ilegal para qualquer pessoa a fabricação ou distribuição de uma substância controlada da Lista
I ou II (...)
(1) com intuito de que tal substância ou substância química seja ilegalmente importada para os
Estados Unidos ou para águas a uma distância de 12 metros da costa dos Estados Unidos
(2) com o propósito de que tal substância ou substância química seja ilegalmente importada para os
Estados Unidos ou para águas a uma distância de 12 metros da costa dos Estados Unidos”
R.T.J. — 197 387

14. No tocante à competência do Estado requerente para processar e julgar o


extraditando, cumpre transcrever a manifestação da douta Procuradoria-Geral da Repú-
blica:
“(...)
15. O Estado requerente dispõe de competência jurisdicional para processar
e julgar o extraditando, ainda que o suposto delito não tenha ocorrido em seu
território. É que, nos termos do art. 4º do Tratado celebrado entre o Brasil e os
Estados Unidos, quando o crime tiver sido cometido fora da jurisdição territorial
do Estado requerente, o pedido de extradição poderá não ter andamento quando
‘as leis do Estado requerente e as do Estado requerido não autorizam a punição de
tal crime ou delito’, o que não ocorre na hipótese.
16. De fato a competência dos Estados Unidos para o julgamento dos fatos
relatados no pedido extradicional resulta da própria análise da redação do Título
21, do Código dos Estados Unidos, seção 959, segundo o qual ‘será ilegal para
qualquer pessoa a fabricação ou distribuição de uma substância controlada da
Lista I ou II (...) (1) com intuito de que tal substância ou substância seja ilegalmente
importada para os Estados Unidos (...)’ (fl. 61).
17. Ademais, o delito imputado ao requerente destinava-se à introdução
ilegal de substância entorpecente nos Estados Unidos. Com a associação para a
introdução de cocaína nos Estados Unidos, o resultado visado pela prática
delituosa ocorreria em território americano, estando configurada, portanto, a
competência do Estado requerente para o julgamento do delito.”
15. Prossigo no voto para averbar que também não procedem os fundamentos
levantados pela defesa como óbice ao deferimento da extradição. É que não se revela
prestimosa a assertiva de que o Tratado de Extradição exige que o extraditando já tenha
sido processado ou condenado. A se admitir tal afirmação, seria necessário que esta
Suprema Corte desconsiderasse a existência da extradição instrutória. É dizer, não mais
se atenderia o pleito extradicional cujo objeto fosse a entrega do indivíduo para
responder a processo perante o Estado requerente. Não é esse o sentido do dispositivo
do Tratado invocado pela douta defesa, porquanto seria uma repetição inútil estabele-
cer-se a necessidade da entrega de sujeitos somente quando “já tenham sido processa-
dos ou condenados”. Isso porque, quanto aos já processados, só há interesse na extradi-
ção se o possível resultado for a condenação. Ademais, conforme se vê do próprio
Tratado, tanto no art. II quanto no art. IX, há previsão da extradição para as pessoas na
condição de acusados do crime ou delito em que se baseia o pedido.

“Título 21, do Código dos Estados Unidos, Seção 963 — Tentativa de conspiração
Qualquer pessoa que tentar ou conspirar para cometer qualquer delito definido neste capítulo estará
sujeita às mesmas penalidades previstas para o delito cujo cometimento foi objeto da tentativa ou
conspiração”
“Título 18, do Código dos Estados unidos, Seção 2 — Principais
(a) Aquele que cometer um delito contra os Estados Unidos ou ajudar, participar, aconselhar,
comandar, induzir ou encomendar o seu cometimento é punível como principal”
388 R.T.J. — 197

16. Acresce que esta Suprema Corte já se manifestou pela suficiência do


indictment para legitimar pedidos extradicionais, pois o instituto é equiparável à
pronúncia e “constitui título jurídico hábil que legitima, nos pedidos extradicionais
instrutórios, o ajuizamento da ação de extradição passiva” (Ext 542, Rel. Min. Celso de
Mello).
17. O que me cabe, agora, é analisar o fato de o extraditando estar respondendo a
processo no Brasil. A esse respeito, os autos noticiam que, entre nós, ele já se encontrava
preso, em razão de processo-crime por tráfico de drogas (fl. 176). Sendo o caso de
aplicação do disposto no artigo XIV do Tratado de Extradição, que determina o
adiamento da entrega do extraditando até que a “ação penal ou sentença termine por
qualquer das seguintes razões: rejeição da ação, absolvição, expiração do prazo da
sentença ou do prazo em que tal sentença tiver sido comutada, indulto, livramento
condicional ou anistia”.
18. Finalmente, importa considerar que, na legislação estadunidense, a pena
máxima pelo cometimento do crime de conspiração é a de prisão perpétua. Em face
dessa possibilidade cominatória, é de se ver que a jurisprudência desta Suprema Corte,
a partir da Ext 855, da relatoria do Min. Celso de Mello, mudou, para exigir do Estado
requerente o compromisso de não aplicar esse tipo de reprimenda, menos ainda a pena
capital, em caso de condenação do réu. Pelo que, por ocasião do julgamento daquela
extradição, votei pela necessidade de o Supremo Tribunal Federal, ao deferir o pedido,
condicionar a efetivação do ato de entrega do extraditando ao compromisso formal de
o Estado estrangeiro comutar a prisão perpétua em pena privativa de liberdade não
superior a trinta anos.
19. Diante de tudo isso, presentes os requisitos para o atendimento do pleito,
defiro o pedido extradicional, com as restrições aqui vocalizadas; ou seja, ao término
do processo penal e do eventual cumprimento da pena imposta pela Justiça brasileira,
o extraditando somente será entregue ao Estado requerente se este assumir, em caráter
formal, o compromisso de comutar a possível pena de prisão perpétua em pena de prisão
com o prazo máximo de 30 anos.
É o meu voto.

EXTRATO DA ATA

Ext 944/Estados Unidos da América — Relator: Ministro Carlos Britto. Reque-


rente: Governo dos Estados Unidos da América. Extraditando: William Henry Howard
Ogle ou Pierre Jacques Dellannoy ou Pierre Jacques Dallanoy ou Pierre Jacques
Hernandes Delamoy ou Pierre Jacques Hernandes Delannoy ou Pierre Delanoy ou
Henry Ogle (Advogado: Defensor Público-Geral da União).
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, deferiu o pedido de extradição, nos
termos do voto do Relator. Ausentes, justificadamente, os Ministros Celso de Mello e
Eros Grau. Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim.
R.T.J. — 197 389

Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda


Pertence, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes, Cezar Peluso,
Carlos Britto e Joaquim Barbosa. Procurador-Geral da República, Dr. Antonio
Fernando Barros e Silva de Souza.
Brasília, 19 de dezembro de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

RECLAMAÇÃO 1.013 — RJ

Relator: O Sr. Ministro Marco Aurélio


Relator para o acórdão: O Sr. Ministro Nelson Jobim
Reclamante: Instituto Nacional do Seguro Social – INSS — Reclamado: Juiz de
Direito da 2ª Vara da Comarca de Três Rios
Constitucional. Norma legal que, declarada constitucional, gera
eficácia contra todos e efeito vinculante. Desrespeito a essa decisão.
Cabimento da reclamação. Ação julgada procedente.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, sob a Presidência do Ministro Carlos Velloso, na
conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por maioria de votos,
julgar procedente a reclamação, vencido o Relator.
Brasília, 7 de junho de 2000 — Nelson Jobim, Relator para o acórdão.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Ao proceder ao exame do pedido de concessão de
medida acauteladora e indeferi-la, assim retratei a espécie:
O Instituto Nacional do Seguro Social evoca o que decidido, no campo
precário e efêmero da liminar, na Ação Declaratória n. 4-6, para sustentar o
cabimento desta reclamação. O pano de fundo é único e diz com o deferimento,
pelo Juízo da 2ª Vara da Comarca de Três Rios, da tutela antecipada, restabelecen-
do, assim, o pagamento de benefício previdenciário. O Reclamante assevera que
tal providência judicial conflita com o preceito do artigo 1º da Lei n. 9.494, de 10
de setembro de 1997, cuja constitucionalidade foi proclamada, liminarmente, na
citada declaratória, e pleiteia, destarte, seja concedida liminar para suspender a
eficácia do ato judicial referido, ou seja, afastar-se do cenário jurídico a tutela.
O Ministro Carlos Velloso, no exercício da Presidência, despachou à folha
30, determinando a requisição de informações, diante das quais seria apreciado o
pedido de suspensão liminar da tutela.
390 R.T.J. — 197

Aos autos vieram as informações de folhas 38 a 41, no sentido da imperti-


nência do que articulado. Consoante se afirma, o artigo 1º da Lei n. 9.494/97
remete ao artigo 1º da Lei n. 5.021/66, e este último é estranho aos benefícios
previdenciários, apenas vedando a concessão de liminar ligada a vencimentos e
vantagens pecuniárias requeridas pelos servidores públicos. Em passo seguinte,
argumenta-se não haver sido esgotado, no deferimento da tutela, o objeto da ação
ajuizada, isso tendo em conta as parcelas vencidas (folha 47).
A Procuradoria-Geral da República emitiu o parecer de folhas 50 a 54, no
sentido da improcedência da reclamação. Em síntese, a peça revela que não se tem, na
espécie, a incidência do disposto no artigo 1º da Lei n. 9.494/97 e, portanto, não se
configurou o desrespeito ao pronunciamento desta Corte, no âmbito da liminar, ao
apreciar a Ação Declaratória n. 4/DF. De acordo com o Ministério Público Federal,
enquanto em jogo proventos, o óbice previsto à concessão da tutela antecipada diz
respeito à reclassificação, equiparação, aumento ou extensão de vantagem, ou mes-
mo pagamento de vencimentos e vantagens pecuniárias a servidor público.
À folha 58, despachei, determinando fossem solicitadas informações sobre a
situação em que se encontra o processo no qual implementada a tutela. Aos autos
veio o ofício de folhas 71 e 72, noticiando que o processo acha-se na fase de
especificação de provas. Os autos voltaram-me conclusos em 29 de setembro de
1999, sendo que neles lancei visto no dia 2 de outubro imediato.
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Marco Aurélio (Relator): Ao indeferir a liminar, assim me expressei:
Em primeiro lugar, ressalte-se a pertinência do agravo contra decisões
prolatadas em antecipação de tutela. O recurso é cabível para o tribunal a que
esteja vinculado o autor do citado ato judicial, podendo este deferir o efeito
suspensivo. Em um segundo passo, vale registrar que esta Corte, julgando a
Questão de Ordem na Declaratória n. 1, assentou, fiel ao texto do § 2º do artigo
102 da Constituição Federal, que o efeito vinculante, relativamente aos provi-
mentos nas ações declaratórias de constitucionalidade de lei ou ato normativo
federal, está jungido às decisões definitivas de mérito, com as quais não se
confunde mera providência acauteladora. Acresce, ainda, que, como bem salien-
tado pelo Juízo, o artigo 1º da Lei n. 9.494/97 não alberga controvérsia sobre
benefício previdenciário. Aliás, a premência que cerca tal espécie de pleito
direciona a considerar-se a adequação da tutela (folhas 47 e 48).
A par dos aspectos supra, consentâneos com o ordenamento jurídico constitucio-
nal, tem-se que o próprio Instituto, antes de ingressar com esta medida reclamatória,
interpôs agravo de instrumento perante o Tribunal Regional Federal da 2ª Região,
atacando, na via própria, a tutela deferida. Entrementes, veio a utilizar nova via,
escolhendo o Órgão para exercer crivo, ou seja, o Supremo Tribunal Federal. O
agravo foi interposto em 17 de dezembro de 1998, sendo que esta reclamação foi
formalizada em fevereiro de 1999 — folha 68. Vê-se o paradoxo a que levou a
R.T.J. — 197 391

concessão da liminar na Declaratória n. 4. Jurisdicionados passaram a contar com a


possibilidade de escolher não só a medida a ser intentada — agravo de instrumento
ou reclamação — mas também o Órgão de atuação — o Tribunal Regional Federal ou
o Supremo Tribunal Federal. Acresce a isso que não se trata sequer de hipótese
coberta pela liminar da Declaratória n. 4. Conforme ressaltado no parecer da lavra do
Subprocurador-Geral da República Dr. Flávio Giron, a Lei n. 9.494/97, que, ao que
tudo indica, precisou do endosso desta Corte para tornar-se obrigatória no território
nacional, versa tão-somente sobre os servidores públicos, não apanhando o artigo 1º o
reconhecimento de proventos, de benefício previdenciário. Eis o que disposto no
artigo 1º da Lei n. 9.494/97:
Art. 1º Aplica-se à tutela antecipada prevista nos arts. 273 e 461 do Código
de Processo Civil o disposto no arts. 5º e seu parágrafo único e 7º da Lei n. 4.348,
de 26 de junho de 1964, no art. 1º e seu § 4º da Lei n. 5.021, de 09 de junho de
1966, e nos arts. 1º, 3º e 4º da Lei n. 8.437, de 30 de junho de 1992.
Ora, na espécie, sem cogitar-se da liquidação de parcelas atrasadas, o que bem
comprova que não se esgotou o objeto da ação intentada, determinou-se, apenas, o
restabelecimento de quadro que vinha sendo observado há dezessete anos e que
revelava o pagamento de proventos, tendo em conta a satisfação de benefício
previdenciário.
Por tais razões, julgo improcedente esta reclamação.

VOTO
O Sr. Ministro Nelson Jobim: Sr. Presidente, o STF, na ADC 4/DF, por votação
majoritária,
“(...)
(...) deferiu, em parte, o pedido de medida cautelar, para suspender, com
eficácia ex nunc e com efeito vinculante, até final julgamento da ação, a prolação
de qualquer decisão sobre pedido de tutela antecipada, contra a Fazenda Pública,
que tenha por pressuposto a constitucionalidade ou a inconstitucionalidade do
art. 1º da Lei n. 9.494, de 10-9-97, sustando, ainda, com a mesma eficácia, os
efeitos futuros dessas decisões antecipatórias de tutela já proferidas contra a
Fazenda Pública (...)
(...)”
Em face dessa decisão, está vedada a concessão de tutela antecipada contra a
Fazenda Pública — CPC, arts. 273 e 461.
No Supremo, a Reclamação é o remédio
“(...)
(...) para a preservação de sua competência e garantia da autoridade de suas
decisões.
(...)” (CF, art. 102, I, l).
392 R.T.J. — 197

No caso, ao conceder a tutela antecipada, o juízo contrariou a decisão proferida na


ADC 4, que tem efeito vinculante e eficácia contra todos (CF, art. 102, § 2º).
Em face do exposto, conheço da Reclamação para julgá-la procedente.

EXTRATO DA ATA
Rcl 1.013/RJ — Relator: Ministro Marco Aurélio. Relator para o acórdão:
Ministro Nelson Jobim. Reclamante: Instituto Nacional do Seguro Social – INSS
(Advogado: Ayres Antonio Pereira Carollo). Reclamado: Juiz de Direito da 2ª Vara
da Comarca de Três Rios.
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, negou provimento ao agravo. Votou o
Presidente. Ausentes, justificadamente, os Ministros Néri da Silveira, Sydney Sanches,
Ilmar Galvão e, neste julgamento, o Ministro Moreira Alves. Plenário, 1º-6-2000.
Retificação de decisão: O Tribunal, por unanimidade, decidiu retificar a procla-
mação da decisão proferida na Rcl n. 1.013-9/RJ, constante da Ata da Décima Quinta
Sessão Extraordinária, realizada em 1º de junho de 2000, que passa a ser a seguinte: “O
Tribunal, por maioria, vencido o Ministro Marco Aurélio (Relator), julgou procedente
a reclamação. Votou o Presidente”. Redigirá o acórdão o Ministro Nelson Jobim.
Ausentes, justificadamente, os Ministros Sepúlveda Pertence e Ilmar Galvão.
Presidência do Ministro Carlos Velloso. Presentes à sessão os Ministros Moreira
Alves, Néri da Silveira, Sydney Sanches, Octavio Gallotti, Celso de Mello, Marco
Aurélio, Maurício Corrêa e Nelson Jobim. Procurador-Geral da República, Dr. Geraldo
Brindeiro.
Brasília, 7 de junho de 2000 — Luiz Tomimatsu, Coordenador.

AGRAVO REGIMENTAL NA AÇÃO ORIGINÁRIA 1.056 — MS

Relator: O Sr. Ministro Carlos Velloso


Agravante: AMATRA XXIV – Associação dos Magistrados da Justiça do Traba-
lho da 24ª Região — Agravada: União
Constitucional. Administrativo. Magistrado: remuneração: verba
de representação: cálculo.
I - A verba de representação incide sobre o vencimento básico e
não sobre a soma dele com “parcela autônoma de equivalência”.
Resolução Administrativa do STF adotada na Sessão Administrativa
de 10-2-1993.
II - Precedentes do STF.
III - Agravo não provido.
R.T.J. — 197 393

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo


Tribunal Federal, em Sessão Plenária, sob a Presidência do Ministro Nelson Jobim, na
conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade, negar
provimento ao agravo regimental, nos termos do voto do Relator. Ausentes,
justificadamente, os Ministros Sepúlveda Pertence, Celso de Mello, Gilmar Mendes e,
neste julgamento, o Ministro Carlos Britto.
Brasília, 24 de novembro de 2005 — Carlos Velloso, Relator.

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Carlos Velloso: Trata-se de agravo regimental, com pedido de


reconsideração, fundado no art. 317 do RI/STF, interposto pela Associação dos Magis-
trados da Justiça do Trabalho da Vigésima Quarta Região – AMATRA XXIV, na
qualidade de substituta processual dos magistrados da Justiça do Trabalho da 24ª
Região, da decisão (fls. 213-216) que, em sede de ação originária, negou seguimento ao
pedido e determinou seu arquivamento, sob o fundamento de que, nas ADIs 2.098/AL
e 2.107/DF, esta Corte decidiu que a “parcela autônoma de equivalência”, decorrente
da Lei 8.448/92, integra os vencimentos de seus Ministros para todos os efeitos legais,
exceto para o cálculo da representação, a qual leva em conta tão-somente o vencimento
básico.
Sustenta a agravante, em síntese, o seguinte:
a) a peculiaridade da situação dos magistrados da Justiça do Trabalho que, por
força do decidido pelo STF na ADI 1.899/DF, tinham seus vencimentos “fixados
diretamente pela Constituição Federal, em razão da regra que impedia o recebimento
de vencimentos inferiores, entre os magistrados integrantes de cada uma das instânci-
as, ao valor equivalente de 5%” (fl. 221);
b) a “parcela autônoma de equivalência” foi instituída tão-somente para evitar
desigualdade de vencimentos dos membros do Supremo Tribunal Federal com os
membros do Poder Legislativo;
c) se o STF decidiu, na ADI 1.899/DF, que os magistrados da Justiça do Trabalho
têm seus vencimentos fixados por resolução, visando observar o art. 93, V, da CF, a
verba de representação deve incidir sobre esses vencimentos, que não consideram a
existência de “parcela autônoma de equivalência”.
Ao final, requer a agravante a reconsideração da decisão impugnada, para que,
dando seguimento à ação, seja o feito incluído em pauta de julgamento ou, caso assim
não entenda, seja o agravo provido para julgar procedente o pedido.
É o relatório.
394 R.T.J. — 197

VOTO

O Sr. Ministro Carlos Velloso (Relator): Tem este teor a decisão agravada, ora sob
exame:
“(...)
Em caso semelhante, AO 657/DF, escrevi:
‘(...)
A questão aqui debatida foi solucionada, em termos definitivos, pelo
Supremo Tribunal Federal, no julgamento das ADIs 2.098/AL e 2.107,
ambas relatadas pelo Ministro Ilmar Galvão (DJ de 14-12-2001). No seu
voto, registrou o Ministro Ilmar Galvão, com o apoio dos seus pares:
‘(...)
O Supremo Tribunal Federal, na 1ª Sessão Administrativa de
1993, realizada em 10 de fevereiro, assentou o entendimento de que ‘a
natureza jurídica da parcela autônoma correspondente à diferença
decorrente da Lei n. 8.448/92 (art. 1º, parágrafo único) (parcela autôno-
ma de equivalência) é a de vencimento, que, somado ao vencimento
básico e à representação, compõe os vencimentos dos Ministros do STF,
para todos os efeitos legais, exceto para cálculo da representação, que
leva em conta apenas o vencimento básico’, sendo a remuneração da
magistratura como um todo calculada tendo em vista essa posição.
Não poderia ser diferente, considerado que, com a fixação de
uma cifra para a remuneração de Deputados e Senadores, por meio do
Decreto Legislativo n. 7 (DO de 23-1-95), os vencimentos de Ministro
do Supremo Tribunal Federal foram-lhe equiparados, por força do
mencionado dispositivo legal, com reflexo para os demais magistra-
dos dos diversos graus, estando compreendidas no respectivo
quantum, por óbvio, todas as parcelas compreendidas no conceito de
vencimentos, notadamente a gratificação de representação, permane-
cendo excluído de seu âmbito, por isso, apenas o adicional por tempo
de serviço, que constitui vantagem de natureza pessoal.
(...)’. (DJ de 27-8-2002)
Assim posta a questão, nego seguimento ao pedido e determino o seu
arquivamento.’
No mesmo sentido foram as decisões proferidas na Ações Originárias 757/SC,
773/MG, 946/RS, 989/SP, DJ de 9-6-2003, 30-4-2003, 29-10-2003 e 1º-8-2003,
por mim relatadas.
Do exposto, reportando-me aos precedentes, nego seguimento ao pedido e
determino o seu arquivamento, condenada a vencida no pagamento da verba
honorária de R$ 500,00 (quinhentos reais), corrigida monetariamente.
(...)” (Fls. 213-216).
R.T.J. — 197 395

A decisão é de ser confirmada, por seus fundamentos, porque assentada na


jurisprudência da Casa, conforme nela mencionado.
Além dos precedentes indicados na decisão agravada, há outros. Na AO 786-AgR/DF,
Relator o Ministro Maurício Corrêa, decidiu o Supremo Tribunal Federal:
“Ementa: Agravo regimental. Juízas do trabalho. Base da verba de
representação. Recálculo. Sessão administrativa do STF, de 10-2-93. Medi-
das cautelares e decisões de mérito em ações diretas de inconstitucionalidade.
Superveniência da Lei 10.474, de 27-6-02. Perda do objeto: não-ocorrência.
1. Esta Corte pacificou exegese de que o cálculo da verba de representação
deve ser feito apenas sobre o vencimento básico, excluindo-se o complementar.
2. Lei 10.474, de 27-6-02, que dispõe sobre a remuneração da magistratura
da União. Não há falar em perda do objeto se entre a data da propositura da ação
e a edição da nova lei o alegado direito ao recálculo da verba de representação
deveria ser examinado à luz da legislação anterior.
Agravo regimental a que se nega provimento.” (DJ de 7-2-2003)
No mesmo sentido: AO 755/PR, Ministro Sydney Sanches, DJ de 25-4-2003;
AO 719/SC, Ministro Maurício Corrêa, DJ de 16-5-2003; AO 867/DF, Ministro
Sepúlveda Pertence, DJ de 13-9-2002; AO 785/MG, Ministra Ellen Gracie, DJ de
7-2-2003.
Do exposto, nego provimento ao agravo.

EXTRATO DA ATA
AO 1.056-AgR/MS — Relator: Ministro Carlos Velloso. Agravante: AMATRA
XXIV – Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 24ª Região (Advo-
gados: Alberto Pavie Ribeiro e outro). Agravada: União (Advogado: Advogado-Geral
da União).
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, negou provimento ao agravo regimental,
nos termos do voto do Relator. Ausentes, justificadamente, os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Gilmar Mendes e, neste julgamento, o Ministro Carlos Britto.
Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Carlos
Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa
e Eros Grau. Vice-Procurador-Geral da República, Dr. Roberto Monteiro Gurgel
Santos.
Brasília, 24 de novembro de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.
396 R.T.J. — 197

AGRAVO REGIMENTAL NA AÇÃO ORIGINÁRIA 1.160 — SP

Relator: O Sr. Ministro Cezar Peluso


Agravantes: Suzana de Camargo Gomes e outro — Agravados: Tribunal Regional
Federal da 3ª Região, Márcio José de Moraes, Anna Maria Pimentel, Diva Prestes
Marcondes Malerbi, Marli Marques Ferreira, Ramza Tartuce Gomes da Silva, Maria
Salette Camargo Nascimento, Newton de Lucca, Otávio Peixoto Júnior, Fábio Prieto de
Souza, Cecília Maria Piedra Marcondes, Therezinha Cazerta, Nery da Costa Júnior,
Mairan Gonçalves Maia Júnior, Alda Maria Basto Caminha Ansaldi, Luis Carlos Hiroki
Muta, Consuelo Yatsuda Moromizato Yoshida, Luís Antonio Johonsom Di Salvo,
Pedro Paulo Lazarano Neto, Nelton Agnaldo Moraes dos Santos, Sérgio do Nascimento,
Leide Polo Cardoso Trivelato, Eva Regina Turano Duarte da Conceição, Vera Lucia
Rocha Souza Jucovsky, Regina Helena Costa, André Custódio Nekatschalow, Nelson
Bernardes de Souza, Carlos André de Castro Guerra, Jediael Galvão Miranda, Walter do
Amaral, Luiz de Lima Stefanini, Luís Paulo Cotrim Guimarães, Maria Cecília Pereira de
Mello, Marianina Galante, José Eduardo Barbosa Santos Neves, Vesna Kolmar e
Antonio Carlos Cedenho
Competência originária. Supremo Tribunal Federal. Não-caracte-
rização. Mandado de segurança. Ato administrativo. Impetração contra
eleição do Presidente e do Corregedor-Geral de Tribunal Regional Federal.
Impedimento ou suspeição dos membros votantes. Não-ocorrência teórica.
Interesse direto ou indireto deles ou da magistratura. Inexistência. Compe-
tência do próprio Tribunal Regional. Pedido não conhecido. Agravo
improvido. Aplicação das Súmulas 623 e 624 do STF. Inteligência do art.
102, I, n, da CF. Voto vencido. 1. O Supremo Tribunal Federal não tem
competência para conhecer, originariamente, de mandado de segurança
impetrado contra eleição para cargos de direção de outro Tribunal, na
qual não há interesse direto nem indireto da magistratura. 2. O fato de os
membros do Tribunal terem participado da votação da eleição, impug-
nada em mandado de segurança, não os torna a priori impedidos ou
suspeitos, nem interessados diretos ou indiretos na solução da causa
jurisdicional.

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo


Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das
notas taquigráficas, por maioria, negar provimento ao agravo, nos termos do voto do
Relator, vencidos os Ministros Marco Aurélio e Carlos Britto. Votou o Presidente,
Ministro Nelson Jobim.
Brasília, 17 de agosto de 2005 — Nelson Jobim, Presidente — Cezar Peluso,
Relator.
R.T.J. — 197 397

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Trata-se de agravo regimental interposto contra
decisão de fls. 89/93, do seguinte teor:
“Decisão: 1. Trata-se de ação originária (mandado de segurança), com
pedido de liminar, movida por Suzana de Camargo Gomes e André Nabarrete
Neto, contra ato do Tribunal Regional Federal da 3ª Região que, em sessão
administrativa, procedeu à eleição do novo Corpo Diretivo da Casa, para o biênio
2005/2007.
Alegam os impetrantes que, ao eleger a Desembargadora Federal Diva
Malerbi para a presidência daquele Tribunal Federal, teria sido ofendido o art.
102, caput, da Loman, por ter ela exercido cargos de direção por quatro anos
ininterruptos (Corregedora-Geral, no biênio 2001/2003, e Vice-Presidente, no
biênio 2003/2003).
E, quanto à eleição da Desembargadora Marli Ferreira para o cargo de
Corregedora-Geral, argúem inobservância do requisito da antiguidade, pois teria
antigüidade inferior à dos impetrantes.
Daí aduzem violação ao direito líquido e certo de serem elevados a cargo de
direção.
Requerem concessão de liminar, para sustar as posses das Exmas.
Desembagadoras Federais Diva Malerbi e Marli Ferreira, designando-se, para
responderem provisoriamente pelas atribuições da Presidência e da Corregedoria-
Geral, os dois Desembargadores Federais de maior antigüidade, excetuando-se os
ora impetrantes e os eleitos.
No mérito, pedem a concessão da segurança, para o fim de se anular a
eleição, determinando-se que outra se realize com observância do art. 102 da
Loman.
No que respeita à competência deste Tribunal, invocam o art. 102, I, n, da
CF, afirmando desnecessária a oitiva dos magistrados para declararem, expressa-
mente, seu interesse na causa, pois, ao votar, teriam viabilizado a prática ora
atacada.
2. Incompetente esta Corte.
A norma do art. 102, I, n, da Constituição Federal é de alcance estrito, não
incidindo quando se não configure interesse de todos ou de mais da metade dos
membros da magistratura, ou não haja efetiva declaração de impedimento por
parte deles (cf. AO n. 520, Rel. Min. Marco Aurélio, DJ de 14-5-1999; AO n. 465,
Rel. Min. Celso de Mello, DJ de 25-4-1997).
Não é consistente a alegação de que todos os membros do Tribunal tido por
coator estariam impedidos em razão do interesse revelado na só participação na
sessão administrativa em que se realizaram as eleições impugnadas, porque tal
participação em si não faz presumir suspeição nem impedimento que fosse capaz
de atrair o feito à órbita de competência desta Corte.
398 R.T.J. — 197

Em casos de todo semelhantes, em que excogitou o mesmíssimo argumento


básico, já deu esta Corte por sua incompetência (AO n. 813-AgR, Rel. Min.
Sepulveda Pertence, DJ de 31-8-2001; AO n. 1.132, Rel. Min. Carlos Velloso,
DJ de 1º-2-2005; MS n. 25.143-MC, Rel. Min. Marco Aurélio, DJ de 14-12-
2004. Cf. ainda, neste último, liminar indeferida pelo Min. Nelson Jobim, DJ de
2-12-2004). E, de um deles, é, para resumir, muito expressiva a ementa, que reza:
“Constitucional. Competência originária do STF. Eleição de tribu-
nal. Mandado de segurança impetrado contra ato do Tribunal de Justiça
do Mato Grosso do Sul. CF, art. 102, I, n. I - Mandado de segurança
impetrado contra ato do Tribunal de Justiça que, quebrando a regra da
antigüidade, prevista no art. 102 da Loman, preencheu, por eleição, o
cargo de vice-presidente da corte. A competência para o julgamento do
writ é do próprio Tribunal, dado que a competência para o julgamento de
mandado de segurança impetrado contra ato de Tribunal é do próprio
Tribunal. II - Os pressupostos do impedimento e da suspeição, impedi-
mento e suspeição que gerariam a competência do Supremo Tribunal
Federal, na forma da alínea n do inc. I do art. 102 da Constituição, devem
ser apreciados pelo Tribunal competente, em princípio, para o julga-
mento da causa. Precedentes do STF. III - A regra de competência
inscrita no art. 102, I, n, da Constituição, pressupõe, ademais, um proce-
dimento de natureza jurisdicional no Tribunal de origem. IV - Mandado
de segurança não conhecido. Remessa dos autos ao Tribunal de Justiça
do Mato Grosso do Sul” (AO n. 176, Rel. Min. Carlos Velloso, DJ de 18-6-
1993).
Os elementos típicos de hipótese de suspeição ou impedimento, cuja confi-
guração possa desencadear a competência desta Corte, devem ser estimados, em
primeira mão, pelo Tribunal competente para o julgamento da causa, ou seja, na
espécie, o mandado de segurança.
É que, doutro modo, em todos os casos de deliberação administrativa de que
participam os membros de Tribunal ou de órgão especial, jamais se poderia pensar
na própria competência deste ou daquele, cujo reconhecimento teórico está hoje
fora de dúvida (Súmula 624). Mas, como é óbvio, a mera participação em decisão
administrativa e, até, jurisdicional não implica suspeição nem impedimento
automático, porque a presunção é, antes, de que os magistrados participantes têm,
em princípio, isenção para rever, em sede jurisdicional, o que eles mesmos hajam
deliberado alhures. Só quando, por motivos sérios, previstos nas hipóteses
normativas (arts. 134 e 135 do Código de Processo Civil), não se sintam ou,
objetivamente, não possam considerar-se isentos, é que devem declarar-se tais ex
officio ou provocados mediante argüição simples ou exceção ritual, cuja dedução
será indispensável para gerar a causa de eventual deslocamento da competência
para esta Corte.
Está aí a razão por que a Corte assentou o entendimento de inaplicabilidade
imediata da regra especial de competência objeto do art. 102, I, n, da Constituição
da República, quando a alegação de interesse dos membros do Tribunal de
R.T.J. — 197 399

origem diga respeito a procedimento de caráter administrativo, desprovido de


conteúdo jurisdicional, pois não há nisso presunção de suspeição nem de impe-
dimento (AO n. 968-QO, Rel. Min. Sydney Sanches, DJ de 4-4-2003; AO n. 474,
Rel. Min. Celso de Mello, DJ de 3-2-1997; AO n. 1.108, Rel. Min. Celso de
Mello, DJ de 7-4-2005; MS n. 21.016, Rel. Min. Paulo Brossard, DJ de 26-10-
1990; MS n. 21.735, Rel. Min. Ilmar Galvão, DJ de 11-3-1994; MS n. 21.306,
Rel. Min. Carlos Velloso, DJ de 12-2-1993; AO n. 146, Rel. Min. Octavio
Galloti, DJ de 25-4-1997; AO n. 813-AgR, Rel. Min. Sepúlveda Pertence, DJ de
31-8-2001).
É o que se petrificou na Súmula 623:
“Não gera por si só a competência originária do Supremo Tribunal
Federal para conhecer do mandado de segurança com base no art. 102, I, n,
da Constituição, dirigir-se o pedido contra deliberação administrativa de
Tribunal de origem, da qual haja participado a maioria ou a totalidade de
seus membros”.
3. Diante do exposto, não conheço da presente ação originária, determinan-
do a remessa dos autos ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região.”.
Os agravantes insistem no conhecimento do pedido, alegando, em suma, que,
tendo sido violado seu direito subjetivo de serem alçados a cargo de direção (fl. 105),
o caso implicaria interesse direto da totalidade dos quarenta e dois desembargadores do
Tribunal Regional Federal, os quais seriam parte na causa a título de litisconsortes
passivos, donde a situação prevista no art. 102, I, n, da Constituição da República (i).
Criticam a jurisprudência deste Tribunal e aduzem que os precedentes não guardariam
identidade com a matéria do feito (ii). Sustentam que seria ingenuidade supor que os
membros do Tribunal Regional Federal teriam isenção para decidir o caso (iii) e, por
fim, que a decisão agravada se apartara do julgamento do MS n. 20.911 (iv).
A Procuradoria-Geral da República é pelo improvimento do agravo regimental
(fls. 118/122).
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Cezar Peluso (Relator): 1. A decisão agravada invocou e resumiu os
fundamentos do entendimento invariável da Corte, cujo teor subsiste intacto aos
argumentos do recurso, os quais, a rigor, pouco ou nada acrescentaram à compreensão
e ao desate da quaestio iuris nevrálgica da espécie.
Não se caracteriza aqui nenhuma situação em que seriam interessados, diretos ou
indiretos, na solução da causa, todos os membros da magistratura. Argúem os ora
agravantes injúria a direito subjetivo próprio, em decorrência de suposta nulidade de
eleição para os cargos de Presidente e Corregedor-Geral de Tribunal Regional Federal,
donde ser óbvio que interesse jurídico, direto ou indireto, na causa, esse adscreve-se
aos impetrantes e aos litisconsortes passivos cuja eleição seria nula, e apenas a estes. De
modo algum pode dizer-se que também o teriam os demais membros do tribunal e,
muito menos, todos os integrantes da magistratura, cujas esferas jurídicas não sofrem
400 R.T.J. — 197

com a resposta que, no mérito, se dê ao pedido, qualquer que ela seja. Em caso análogo,
se não idêntico do ponto de vista jurídico, já proclamou esta Corte, em ementa
exemplar:
“(...)
4. No mandado de segurança em que juiz de determinado Tribunal pleiteia
ser declarado eleito para um dos cargos de sua direção, em detrimento do
litisconsorte — cuja eleição para o mesmo posto pretende nula —, o interesse
direto na causa a ambos se adstringe.
5. Com relação aos demais membros do Tribunal, o fato de haverem partici-
pado com seus votos da formação dos atos administrativos questionados não lhes
acarreta, por si só, nem interesse direto ou indireto na solução do mandado de
segurança, nem impedimento para julgá-lo” (AO n. 813-AgR, Pleno, Rel. Min.
Sepúlveda Pertence, DJ de 31-8-2001).
Nem é lícito dizer que seriam litisconsortes passivos os demais membros daquela
corte que votaram, porque de nenhum modo são destinatários dos efeitos jurídicos de
eventual sentença de procedência, os quais gravariam apenas o ato administrativo do
tribunal, não a condição jurídico-pessoal de seus integrantes. A identificação das
partes ordinariamente legitimadas ad causam opera-se — já ninguém o contesta — por
via de hipótese, discernindo-se quais as pessoas que, em caso de procedência ou
improcedência, suportariam os efeitos jurídicos da sentença como ato final (cf. Elio
Fazzalari, Istituzioni di Diritto Processuale, Padova, Cedam, 1975, pp. 28-33). De
modo que os demais membros do Tribunal, metê-los todos a fórceps na qualidade
processual de litisconsortes passivos é expediente artificioso e frágil para tentar criar-
lhes suspeição ou impedimento que a priori não existe.
E não existe, porque, como já acentuou a decisão agravada, a só participação na
formação da vontade orgânica inerente ao ato administrativo da eleição, que, como
escolha pessoal, não se guia por lei, mas por livre preferência, não induz, de per si,
suspeição nem impedimento dos componentes do órgão, enquanto institutos que
concernem ao exercício da função jurisdicional. No julgamento suso aludido, notou
esta Corte, em tópico não menos curial da ementa:
“(...)
6. Do princípio do juiz natural, não cabe inferir a presunção de parcialidade
dos magistrados que hajam votado na eleição discutida, para a decisão
jurisdicional de sua legitimidade jurídica: de bem pouco valeria a isenção
juramentada dos juízes, se o fato de haver sufragado um ou outro candidato, em
determinada eleição, tolhesse a cada um dos eleitores a imparcialidade para julgar —
à luz dos princípios e não da preferência eleitoral — da validade do pleito” (AO
n. 813-AgR, Rel. Min. Sepúlveda Pertence).
Tampouco colhe a crítica de que se não ajustariam nem acomodariam ao caso os
precedentes que invocou a decisão agravada, quase todos pertinentes à impugnação de
eleições de cargos de direção em Tribunal, como o demonstra exame desapaixonado e
breve das referências.
R.T.J. — 197 401

E, no que respeita à decisão, isolada e velha, do MS n. 20.911 (Rel. Min. Octavio


Gallotti, Pleno, j. 10-5-1989, in RTJ 128/1141), a que se aferram os agravantes, não
deixa de ser isso, ou seja, velha e isolada, como faz muito advertiu a Corte:
“É certo que o Supremo Tribunal Federal, como se vê do precedente
colacionado na impetração (RTJ 128/1141), chegou a afirmar a sua própria
competência originária para processar e julgar, com fundamento no art. 102, I, n,
da Constituição, causas mandamentais que versassem matéria como a de que ora
se cuida. Tratava-se, no entanto, de decisão proferida em momento de indefinição
jurisprudencial, quando ainda se esboçava, no seio desta Suprema Corte, a fixa-
ção de uma diretriz norteadora da posição do STF a propósito dessa especial regra
de competência originária proclamada pelo texto da Carta da República. Veio a
prevalecer nesta Corte, afinal, o entendimento mais restritivo de que, mesmo em
face da previsão excepcional da letra n do art. 102, I, da Carta Política, permanecia
vigente a regra consubstanciada no art. 21, VI, da Loman, que atribui originaria-
mente aos Tribunais o processo e o julgamento dos mandados de segurança
impetrados contra seus próprios atos.
(...)
Demais disso, é preciso ter presente que as hipóteses referidas na norma
constitucional supõem a natureza jurisdicional do ato impugnado. O ato aqui
questionado, contudo — eleição para preenchimento de cargo diretivo em Tribu-
nal judiciário —, emergiu de procedimento eleitoral, de natureza eminentemente
administrativa, instaurado no âmbito do Tribunal de Alçada do Estado do Paraná.
A participação dos Juízes desse Tribunal no procedimento eleitoral de escolha do
novo titular da Presidência da Corte não se revela apta a induzir, só por si, a
competência originária do Supremo Tribunal Federal, visto que esta supõe, para
os fins e efeitos da alínea n do inciso I do art. 102 da Constituição, a existência,
atual e concreta, de uma causa no Tribunal de origem, vale dizer, de um procedi-
mento de natureza jurisdicional instaurado perante o Tribunal impetrado. É por
essa razão que este Supremo Tribunal, na interpretação criteriosa da nova regra de
competência, tem acentuado a inaplicabilidade do art. 102, I, n, da Constituição
a situações jurídicas que, como a exposta pelo impetrante, resultam de procedi-
mentos revestidos de caráter meramente administrativo: “(...) a Constituição atual —
assim como a anterior — não atribui ao Supremo Tribunal Federal competência
para o processo e julgamento de mandado de segurança contra ato administrativo
de qualquer Tribunal, e mesmo na hipótese do art. 102, I, n, da CF de 1988,
pressupõe que o processo jurisdicional tenha origem noutro Tribunal, hipótese
que aqui não ocorre.” (RTJ 129/596, 610, Rel. Min. Sydney Sanches — grifei).
Subsiste, desse modo, em toda a sua plenitude, a competência dos próprios
Tribunais para apreciarem, originariamente, os mandados de segurança impetrados
contra as suas deliberações administrativas, inclusive aquelas tomadas em proce-
dimentos destinados a preencher cargos diretivos. Nesse sentido, cf. a decisão
desta Corte na AO 179/PA, Rel. Min. Celso de Mello, que recusou ao Supremo
Tribunal Federal competência originária, para, com fundamento no art. 102, I, n,
da Carta Política, decidir em sede mandamental — e em face, precisamente, do art.
402 R.T.J. — 197

102 da Loman —, sobre a validade da escolha, por deliberação plenária do


Tribunal de Justiça do Estado do Pará, do Presidente daquele colégio judiciário
local. Cumpre invocar, ainda, por sua substancial identificação com a quaestio
suscitada na presente causa, decisão unânime do Plenário do Supremo Tribunal
Federal, proferida no julgamento da AO 176/MS, Rel. Min. Carlos Velloso, cujo
acórdão foi assim ementado (RTJ 152/3): “Constitucional. Competência origi-
nária do STF. Eleição de dirigentes de Tribunal. Mandado de segurança
impetrado contra ato do Tribunal de Justiça do Mato Grosso do Sul. CF, art.
102, I, n. I - Mandado de segurança impetrado contra ato do Tribunal de Justiça
que, quebrando a regra da antigüidade, prevista no art. 102 da Loman, preencheu,
por eleição, o cargo de vice-presidente da Corte. A competência para o julgamen-
to do writ é do próprio Tribunal, dado que a competência para o julgamento de
mandado de segurança impetrado contra ato de Tribunal é do próprio Tribunal. II -
Os pressupostos do impedimento e da suspeição, impedimento e suspeição que
gerariam a competência do Supremo Tribunal Federal, na forma da alínea n do
inc. I do art. 102 da Constituição, devem ser apreciados pelo Tribunal competen-
te, em princípio, para o julgamento da causa. Precedentes do STF. III - A regra de
competência inscrita no art. 102, I, n, da Constituição pressupõe, ademais, um
procedimento de natureza jurisdicional no Tribunal de origem. IV - Mandado de
Segurança não conhecido. Remessa dos autos ao Tribunal de Justiça do Mato
Grosso do Sul. “Não se revela passível de dúvida, portanto, que permanecem na
esfera de competência originária dos Tribunais o processo e o julgamento das
ações de mandado de segurança ajuizadas contra suas próprias deliberações
administrativas, notadamente em face do que preceitua o art. 21, VI, da Loman,
não derrogado, neste ponto, pela Constituição de 1988 (RTJ 70/645 — RTJ 78/87 —
RTJ 117/65 — RTJ 120/73 — RTJ 128/101 — RTJ 129/1070 — RTJ 132/706 —
RTJ 141/1025 — AO 197/RS, Rel. Min. Celso de Mello, v.g.)” (AO n. 474-MC,
Rel. Min. Celso de Mello, DJ de 3-2-1997).
Tais são as razões por que não seria despropositado observar, ainda uma vez, que
o disposto no art. 557 do Código de Processo Civil desvela o grau da autoridade que o
ordenamento jurídico atribui, em nome da segurança jurídica, às súmulas e, posto que
não sumulada, à jurisprudência dominante, sobretudo desta Corte, as quais não mere-
cem controvertidas sem graves razões jurídicas capazes de lhes autorizar revisão ou
reconsideração.
2. Isso posto, nego provimento ao agravo.

VOTO
O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto: Senhor Presidente, um dado que me impressio-
nou, na leitura de algumas peças, foi que a decisão do Tribunal me pareceu, gritante-
mente, salientemente, contrária ao art. 102 da Lei Complementar n. 35, de 14-3-79, e
esse aspecto de direito material afigurou-me imbricado com o lado processual da causa.
Mas, agora, ouvi, atentamente, o voto do eminente Relator e me dobro à lógica do
pensar de S. Exa. para acompanhá-lo.
R.T.J. — 197 403

O Sr. Ministro Cezar Peluso (Relator): À ponderação de V. Exa., noto que me


abstive e me abstenho de fazer qualquer consideração a respeito do mérito do pedido,
até para que não se alegue prejulgamento desta Corte em caso de eventual recurso.

O Sr. Ministro Marco Aurélio: Senhor Presidente, não está em jogo — e já


salientou o Ministro Carlos Ayres Britto — o tema de fundo, a eleição, em si, dos
dirigentes do Tribunal Regional Federal da 3ª Região. A questão é instrumental, ligada
à competência para o julgamento do mandado de segurança. O ajuizamento dessa ação,
de envergadura maior, que é o mandado de segurança, ocorreu no âmbito do Supremo
Tribunal Federal, objetivando afastar do cenário jurídico ato do Tribunal Regional
Federal da 3ª Região que discreparia — e não estamos, aqui, a adotar entendimento
sobre a matéria — da Lei Orgânica da Magistratura Nacional quanto à clientela que é
formada na Corte, para ter-se a escolha dos dirigentes. Ninguém desconhece que a Lei
Orgânica da Magistratura revela, no artigo 21, inciso VI, competir ao próprio Tribunal
julgar mandado de segurança impetrado contra ato que haja a Corte formalizado.
A articulação é outra, todavia. No agravo com o qual nos defrontamos, busca-se
definir a competência do Supremo Tribunal Federal não a partir dessa norma que, de
início, revela incumbir ao Regional Federal o julgamento do mandado de segurança,
mas a partir da cláusula abrangente que está ao término da alínea n do inciso I do artigo
102 da Constituição Federal. O que tivemos e temos como pano de fundo? Uma divisão
substancial da Corte de origem, uma disputa que desaguou na prevalência, obviamen-
te, da corrente majoritária, considerados os dois ou, talvez, mais segmentos existentes
no Tribunal, e, aí, deu-se a eleição.
Indaga-se: aqueles que sufragaram os nomes dos atuais dirigentes não têm interes-
se indireto — contenta-se a alínea n com interesse indireto — na permanência, na
intangibilidade do ato de eleição praticado? A resposta para mim é desenganadamente
positiva. Os eleitos, diria que têm interesse direto, e o preceito constitucional refere-se
a duas espécies de interesse: direto e indireto.
Votei já sobre a matéria, mas costumo dizer que não tenho compromisso com os
meus próprios erros e estou sempre pronto, porque não sou um juiz turrão, a evoluir, tão
logo convencido de assistir maior razão à tese inicialmente repudiada. Cogitar-se de
impetração na Corte de origem é assentar-se a remessa dessa impetração para as
calendas gregas, porque a história tem demonstrado que os mandados de segurança não
resultam em concessão de medida acauteladora e, geralmente, não têm julgamento
antes de expirados os mandatos para os cargos de direção, já que tais mandatos têm
prazo exíguo de dois anos. A alínea n enseja ao Supremo Tribunal Federal um campo
muito largo para pinçar este ou aquele processo que entenda deva sair do clima,
geralmente apaixonado, existente na Corte que o apreciaria. A cláusula primeira refere-
se ao fato de mais da metade dos membros do Tribunal de origem estarem impedidos.
Não cogito, aqui, de impedimento, porque não mesclo a atuação administrativa com a
jurisdicional. Não há preceito de lei a revelar que os integrantes da Corte, após a
eleição, estejam impedidos para julgar qualquer controvérsia sobre essa mesma elei-
ção. Não obstante, a cláusula final viabiliza a atuação, presentes as características do
conflito de interesse envolvido no processo, ou seja, a alusiva aos interesses diretos e
indiretos. O interesse, aqui, não é patrimonial ou individualizado, mas está ligado à
manifestação quanto à escolha deste ou daquele colega para presidir a Corte.
404 R.T.J. — 197

Peço vênia, e não estou aqui a ser incongruente, para fazer, tendo em conta as
especificidades do caso concreto, uma nova leitura da parte final da alínea n do inciso
I do artigo 102 da Constituição Federal, e dizer que, considerada até mesmo uma sadia
política judiciária, esse mandado de segurança deve ser apreciado pelo Supremo
Tribunal Federal, e penso que o será antes de extintos os mandatos em curso.
É como voto, provendo o agravo, e aceito a ponderação que pretende fazer — já
ia me esquecendo — o Ministro Cezar Peluso.
O Sr. Ministro Cezar Peluso (Relator): Agradeço a gentileza de V. Exa.
A ponderação é que o raciocínio de V. Exa., como sempre muito brilhante e
fundamentado, revoga as Súmulas n. 623 e 624, porque todas as vezes em que houver
mandado de segurança contra ato praticado pelo Plenário de qualquer tribunal, nem a
Súmula n. 623 nem a n. 624 serão aplicadas.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Não chego a essa visão abrangente.
O Sr. Ministro Cezar Peluso (Relator): O fato de ter participado da formação da
vontade administrativa do órgão, com voto neste ou naquele sentido, não importa a
matéria em discussão, implica sempre o mesmo tipo de interesse dos votantes. E, mais,
parece-me decisivo que o interesse por descobrir e apurar, em relação a cada um dos
participantes da votação, só pode ser visto de duas maneiras: ou interesse irrelevante do
ponto de vista jurídico, ou interesse relevante do ponto de vista jurídico. Se juridica-
mente relevante, importaria sempre suspeição, nos termos do artigo 135, V, do Código
de Processo Civil: é suspeito “o interessado no julgamento da causa em favor de uma
das partes”.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Não chego a tanto.
O Sr. Ministro Cezar Peluso (Relator): Se o Tribunal houver de reconhecer que
exista interesse jurídico dos desembargadores, que participaram da votação, na solução
deste mandado de segurança, terá também de reconhecer que, embora não haja impedi-
mento, há suspeição.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: A Constituição não define o interesse; contenta-se
com os interesses direto e indireto.
O Sr. Ministro Cezar Peluso (Relator): Em qualquer deles haveria suspeição no
cargo, e o Tribunal teria de reconhecê-lo.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: É mesmo difícil cogitar-se do interesse jurídico
indireto!
O Sr. Ministro Cezar Peluso (Relator): Sim, mas interesse jurídico indireto, qual-
quer que seja, torna os participantes suspeitos. O Tribunal teria de, reconsiderando toda
a sua jurisprudência, reconhecer que, automaticamente, o fato de ter participado da
decisão induziria sempre interesse jurídico dos participantes. E isso levar-me-ia a
repetir — achei muito importante a observação do Ministro Sepúlveda Pertence — que
de pouco valeria o juramento dos juízes de obedecerem à lei e à sua consciência, se o
fato de terem participado de votação administrativa os tornasse suspeitos, como inte-
ressados, no julgamento do mandado de segurança.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Não chego a tanto.
R.T.J. — 197 405

O Sr. Ministro Cezar Peluso (Relator): V. Exa. não chega, mas eu chego, a partir
raciocínio de V. Exa.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Não colo essa pecha aos meus Colegas integrantes
do Tribunal Regional Federal da 3ª Região.
Senhor Presidente, peço vênia para divergir do eminente Relator e dar provimen-
to ao agravo regimental.

O Sr. Ministro Carlos Britto: Sr. Presidente, antecipei minha dificuldade em


separar o lado puramente formal ou processual da questão de fundo. Deixei-me impres-
sionar exatamente pela questão de fundo.
O Tribunal questionado elegeu para a nova mesa diretora do colegiado o presi-
dente e o corregedor e, parece-me, em chapada violação — vou repetir o adjetivo do
Ministro Sepúlveda Pertence que é tão apropriado, tão carregado de sentido —, em
chapada rota de colisão com a Lei Orgânica da Magistratura, o que me parece suscitar
um embricamento inafastável e caracterizar o interesse, pelo menos indireto, do Tribu-
nal que está a responder pelo mandado de segurança.
Já disse o Ministro Marco Aurélio, a Constituição não se contenta com o interesse
direto, vai além e cataloga o interesse indireto para justificar, atrair a competência desta
egrégia Corte.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Revelando que o interesse não é jurídico, pelo
menos sob o ângulo substancial.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Aí eu até me perguntaria: o que sobraria para
caracterizar o interesse indireto? Que matéria remanesceria?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Embora não sendo parte numa determinada
causa, a questão jurídica nela a ser decidida influi necessariamente sobre a situação dos
juízes.
O Sr. Ministro Cezar Peluso (Relator): Situação jurídica dos juízes.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Não há interesse direto, porque senão seria
impedido.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Certo, e o indireto?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: O indireto é isto: o interesse na questão
jurídica, cuja solução se reflete, necessariamente, na sua posição individual.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Sr. Presidente, como esse período de discussão é
propício para o aprofundamento dos debates e o amadurecimento das idéias, também
não me pejo em reformular meu voto.
Peço vênia ao eminente Ministro Relator e acompanho o voto do Ministro Marco
Aurélio para dar provimento ao agravo.

VOTO
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Sr. Presidente, se se entende que há interesse dos
juízes, que poderia levar à suspeição desses, é necessário que, no tribunal de origem,
seja argüida a suspeição do magistrado; recusada essa suspeição, o Supremo Tribunal
Federal a apreciará e julgará.
406 R.T.J. — 197

Ora, se se afirma que há interesse indireto, que possa gerar suspeição, então que se
argúa essa suspeição; o juiz dirá se aceita ou não. Se não a aceitar, a questão é deslocada
para o Supremo Tribunal Federal, se abranger mais da metade dos juízes da Corte.
Peço licença aos eminentes Ministros que divergem, para acompanhar o voto do
Sr. Ministro Cezar Peluso, Relator.

VOTO
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Sr. Presidente, também peço vênia para, na
conformidade dos precedentes e dos argumentos agora trazidos pelo eminente Ministro
Relator, negar provimento ao agravo regimental.
A letra n do inciso I do artigo 102 da Constituição Federal é regra excepcionalís-
sima que, com a devida vênia, não pode ser barateada, sob pena de ser mais um fator a
inviabilizar a tarefa do Supremo Tribunal Federal naquilo que lhe é próprio e na qual
ele é insubstituível: a guarda da Constituição.
Notou, com razão, o eminente Ministro Cezar Peluso que a considerar-se haver
impedimento ou suspeição, “interesse indireto”, enfim, para usar da locução constituci-
onal, no ter participado de uma eleição, com mais razão haveria esse interesse nos atos
administrativos do Tribunal, resultantes de decisões que envolvem questões jurídicas,
cujas soluções, partindo de um Tribunal, há de presumir-se fundada juridicamente.
Ao contrário, na eleição distingue-se claramente um ato de vontade, que é a
escolha entre os candidatos registrados, e uma questão jurídica, que depois se lhe
submeta da validade daquele pleito. Senão, repito a brincadeira feita por mim: a Justiça
Eleitoral estaria inviável, ou todos os seus juízes estariam impedidos de exercer o
direito de voto.
É claro que a solução de os próprios tribunais julgarem os mandados de segurança
contra os seus atos causa preocupação. Está na origem, para os casos extremos, prova-
velmente, da letra n. Isso, às vezes, preocupa.
Mas, hoje, há de preocupar menos. O Supremo Tribunal tem de desvestir-se
daquela condição que, às vezes, mais ou menos implicitamente assumiu, de correge-
doria nacional do Poder Judiciário. Hoje, na vizinhança do meu gabinete, há um órgão
instituído para isso: o Conselho Nacional de Justiça.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Que não haja contaminação.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Exato. Tenho medo. É preciso aprofundar
quais as competências contidas na primeira das missões confiadas ao Conselho Nacio-
nal de Justiça, que é a de zelar pelo Estatuto da Magistratura.

VOTO
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Sr. Presidente, em relação à ponderação que se faz
sobre eventuais atrasos no julgamento, até levar a uma prejudicialidade, isso reclama,
talvez, normas de organização e procedimento, mais do que uma redefinição, uma
recompreensão do artigo 102, I, n, da Constituição Federal.
Com essas achegas, acompanho o voto do eminente Ministro Relator para dar
provimento ao agravo.
R.T.J. — 197 407

EXTRATO DA ATA

AO 1.160-AgR/SP — Relator: Ministro Cezar Peluso. Agravantes: Suzana de


Camargo Gomes e outro (Advogados: Sergio Ferraz e outro). Agravados: Tribunal
Regional Federal da 3ª Região, Márcio José de Moraes, Anna Maria Pimentel, Diva
Prestes Marcondes Malerbi, Marli Marques Ferreira, Ramza Tartuce Gomes da Silva,
Maria Salette Camargo Nascimento, Newton de Lucca, Otávio Peixoto Júnior, Fábio
Prieto de Souza, Cecília Maria Piedra Marcondes, Therezinha Cazerta, Nery da Costa
Júnior, Mairan Gonçalves Maia Júnior, Alda Maria Basto Caminha Ansaldi, Luis
Carlos Hiroki Muta, Consuelo Yatsuda Moromizato Yoshida, Luís Antonio Johonsom
Di Salvo, Pedro Paulo Lazarano Neto, Nelton Agnaldo Moraes dos Santos, Sérgio do
Nascimento, Leide Polo Cardoso Trivelato, Eva Regina Turano Duarte da Conceição,
Vera Lucia Rocha Souza Jucovsky, Regina Helena Costa, André Custódio
Nekatschalow, Nelson Bernardes de Souza, Carlos André de Castro Guerra, Jediael
Galvão Miranda, Walter do Amaral, Luiz de Lima Stefanini, Luís Paulo Cotrim Guima-
rães, Maria Cecília Pereira de Mello, Marianina Galante, José Eduardo Barbosa Santos
Neves, Vesna Kolmar e Antonio Carlos Cedenho.
Decisão: O Tribunal, por maioria, negou provimento ao agravo, nos termos do
voto do Relator, vencidos os Ministros Marco Aurélio e Carlos Britto. Votou o Presi-
dente, Ministro Nelson Jobim.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes,
Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da Repú-
blica, Dr. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza.
Brasília, 17 de agosto de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

AGRAVO REGIMENTAL NA AÇÃO ORIGINÁRIA 1.230 — DF

Relator: O Sr. Ministro Carlos Velloso


Agravante: ANAMATRA – Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do
Trabalho — Agravada: União
Constitucional. Subsídio de Ministro do Supremo Tribunal. Associa-
ção de juízes trabalhistas: ilegitimidade ativa.
I - Ilegitimidade ativa de associação de juízes trabalhistas para
pleitear majoração da remuneração dos Ministros do Supremo Tribu-
nal.
II - Ação julgada extinta sem julgamento do mérito. Agravo não
provido.
408 R.T.J. — 197

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo


Tribunal Federal, em Sessão Plenária, sob a Presidência do Ministro Nelson
Jobim, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por
unanimidade, negar provimento ao agravo regimental, nos termos do voto do
Relator. Ausentes, justificadamente, os Ministros Sepúlveda Pertence, Celso de
Mello e Gilmar Mendes.
Brasília, 24 de novembro de 2005 — Carlos Velloso, Relator.

RELATÓRIO

O Sr. Ministro Carlos Velloso: Trata-se de agravo regimental, com pedido de


reconsideração, interposto pela ANAMATRA – Associação Nacional dos Magistra-
dos da Justiça do Trabalho, da decisão (fls. 427-434) que, em sede de ação originária,
julgou extinto o feito sem julgamento do mérito, sob o fundamento de que uma
associação de juízes trabalhistas não tem legitimidade nem interesse direto para pleite-
ar, por equiparação aos membros do Poder Legislativo, a incorporação de dois subsídios
adicionais à remuneração dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, ainda que citada
majoração beneficie a magistratura trabalhista.
Sustenta a agravante, em síntese, o seguinte:
a) os magistrados da Justiça do Trabalho, como os demais servidores, possuem
interesse direto na fixação da equivalência da remuneração dos membros dos Poderes,
pois a própria Lei 8.884/92 afirmou que os valores poderão ser utilizados para os fins
previstos na lei e como teto máximo de remuneração;
b) a “parcela autônoma de equivalência” não foi instituída exclusivamente para
os Ministros do Supremo Tribunal Federal, mas constitui dispositivo a ser utilizado por
todos os servidores públicos alcançados pela Lei 8.884/92;
c) legitimidade e interesse de agir, porquanto, “da mesma forma como esse eg.
STF reconheceu à Ajufe”, na AO 630/DF, “legitimidade para impugnar judicialmente
a omissão relativa à não inclusão do auxílio-moradia, haveria de reconhecer à
Anamatra a legitimidade para impugnar judicialmente a omissão relativa à não
inclusão de qualquer outra verba remuneratória paga aos membros do Poder
Legislativo que não tivesse sido considerada por esse eg. STF quando da fixação da
parcela autônoma de equivalência” (fl. 452).
Ao final, requer a agravante a reconsideração da decisão impugnada para que se
dê seguimento à ação ou, caso assim não entenda, seja o agravo provido para julgar
procedente o pedido.
Autos conclusos em 30-8-2005 e mandados à Mesa em 17-10-2005.
É o relatório.
R.T.J. — 197 409

VOTO
O Sr. Ministro Carlos Velloso (Relator): Assim a decisão agravada, ora sob exame:
“(...)
Destaco do parecer da Procuradoria-Geral da República, fls. 416-422, lavra-
do pelo ilustre Procurador-Geral, Dr. Antônio Fernando de Souza:
‘(...)
13. Analisando os autos, observa-se que a associação autora pretende
obter a incorporação de dois subsídios adicionais, por ela denominados de
14º e 15º subsídios, à remuneração dos Ministros do Supremo Tribunal Federal,
posto que tais espécies remuneratórias encontram-se garantidas aos membros
do Congresso Nacional, nos termos do Decreto Legislativo n. 007/95, e que,
por via de conseqüência, também seriam devidas aos membros do Poder
Judiciário, em atenção à equivalência promovida pelo artigo 1º, parágrafo
único, da Lei 8.448/92.
14. Inicialmente, cabe destacar que esse Supremo Tribunal Federal
constitui o órgão competente para a apreciação e julgamento do feito, nos
termos do artigo 102, inciso I, alínea n, da Constituição Federal de 1988,
haja vista o interesse da magistratura no que tange à matéria discutida nos
autos.
15. Entretanto, ainda em sede de análise preliminar, impende ressaltar
a falta de legitimidade da associação autora. É que a pretensão deduzida na
presente ação consiste justamente na percepção de dois subsídios adicio-
nais pelos Ministros do Supremo Tribunal Federal.
16. Com efeito, o artigo 1º, parágrafo único, da Lei 8.448/92, mencio-
nado pela demandante como fundamento de sua pretensão, assegurava, ao
tempo de sua vigência, o direito à equiparação entre a remuneração dos
membros do Congresso Nacional e a percebida pelos Ministros do Supremo
Tribunal Federal, e não com a de todos os membros do Poder Judiciário.
17. Nesse sentido, o interesse da magistratura trabalhista no feito dá-se
apenas de maneira reflexa e indireta, eis que, de fato, o acréscimo de mais
dois subsídios à remuneração dos Ministros do STF acarretará o aumento na
remuneração dos magistrados substituídos, em observância ao
escalonamento estabelecido pelo constituinte no artigo 93, inciso V, do
texto constitucional.
18. No entanto, verifica-se que o direito à percepção dos subsídios
adicionais pleiteados, caso existente, pertenceria aos Ministros do STF, e
não aos magistrados trabalhistas. No caso em exame, não se afigura possível
à associação autora pleitear verbas remuneratórias eventualmente perten-
centes a Ministros do Supremo Tribunal Federal, razão pela qual há de ser
decretada a extinção do processo sem julgamento do mérito, nos termos do
artigo 267, inciso VI, do CPC, por falta de legitimidade ativa da
demandante.
410 R.T.J. — 197

19. No mérito, o pleito formulado pela demandante não merece pros-


perar.
20. Em primeiro lugar, importa esclarecer que a equivalência da
remuneração sustentada pela associação autora não possui previsão cons-
titucional. O artigo 37, inciso XI, da Carta Magna, mesmo em suas reda-
ções anteriores, não previu a fixação de subsídios equivalentes entre os
Ministros do Supremo Tribunal Federal e os membros do Congresso Nacio-
nal.
21. Na verdade, tal equiparação foi promovida, sem afronta ao texto
constitucional, pela legislação ordinária, por ocasião da regulamentação do
dispositivo constitucional acima mencionado.
22. De fato, a Lei 8.448/92, em seu artigo 1º, parágrafo único, dispôs,
à época de sua vigência, que:
‘Art. 1º (...)
Parágrafo único. Os valores percebidos pelos membros do Con-
gresso Nacional, Ministros de Estado e Ministros do Supremo Tribu-
nal Federal, sempre equivalentes, somente poderão ser utilizados para
os fins previstos nesta lei e como teto máximo de remuneração’.
23. A redação desse dispositivo, atualmente revogado pela Lei n.
10.593, de 6-12-2002, levou o Supremo Tribunal Federal a estabelecer,
administrativamente, a chamada ‘parcela autônoma de equivalência’,
objetivando o cumprimento da equiparação promovida pela referida lei
ordinária.
24. No entanto, atualmente a questão perdeu o seu objeto. Com o
advento da Lei n. 10.474/2002, que dispôs sobre a remuneração da magis-
tratura da União, não mais subsiste o fundamento da equivalência, eis que
esse novo diploma legal estabeleceu, no parágrafo 3º do artigo 1º de seu
texto que:
Art. 1º (...)
§ 3º A remuneração decorrente desta Lei inclui e absorve todos e
quaisquer reajustes remuneratórios percebidos ou incorporados pelos
Magistrados da União, a qualquer título, por decisão administrativa
ou judicial, até a publicação desta Lei.
25. Com o advento desse novo diploma legal, dispondo a respeito da
remuneração dos membros da Magistratura da União, não mais passou a
subsistir a regra da equivalência. Tanto é assim que o próprio Supremo
Tribunal Federal editou, em seguida, as Resoluções n. 235 e 236, também
do ano de 2002, tornando pública a nova tabela remuneratória dos membros
da magistratura.
26. Acrescente-se ainda o fato de que, em razão disso, o próprio artigo
1º, parágrafo único, da Lei 8.448/92 foi revogado pela Lei n. 10.593/2002.
27. Esse foi o entendimento adotado pelo Ministro Nelson Jobim, por
ocasião da análise da AO 630/DF, na qual a AJUFE pleiteava a concessão de
R.T.J. — 197 411

auxílio-moradia, também sob o fundamento da equivalência. Segue abaixo


transcrito trecho da decisão proferida nos referidos autos:
‘(...) Em 28 de junho de 2002, adveio a Lei 10.474. Dispõe sobre
a remuneração dos Ministros do STF e das repercussões quantos aos
demais membros da magistratura da União. A alteração procedida no
vencimento básico dos Ministros do STF repercutiu na composição da
remuneração dos demais membros da Magistratura da União (CF, art.
93, V, redação original). Tal alteração legal atingiu o fundamento do
pedido formulado na inicial — a equivalência — e as razões jurídicas
de concessão da liminar. (...) Em decorrência da alteração legislativa,
o Senhor Ministro Presidente do STF, através da Resolução n. 235, de
10-7-2002, republicada no DO de 23 de julho, tornou Art. 1º. (...)
pública a tabela, (...), dos valores a serem observados, a título de
remuneração da magistratura, com vigência a partir de junho de 2002.
Por outro lado, em 19 de julho, o Senhor Ministro Presidente do
STF editou a Resolução n. 236 que dispôs ‘(...) sobre a remuneração de
Ministro do Supremo Tribunal Federal.’ (...) A legislação subseqüente
à presente ação e à liminar de 27 de fevereiro de 2000 modificou,
substancialmente, a situação de fato que dava, até então, substância e
plausibilidade ao pedido então formulado. A novel legislação, para o
futuro, desqualificou os fundamentos da demanda e as razões da
liminar. Não mais subsiste o fundamento da equivalência. A novel
legislação obviou o problema. (...)
Aliás, a novel legislação sobre a remuneração da magistratura
curva-se, como não podia deixar de ser, à transparência, jurídica e
moralmente exigível, dos procedimentos administrativos dos tribu-
nais. Foi o norte da formulação legislativa. Tal é o que a Nação espera
dos Tribunais. Por tudo que se afirmou, o pedido perdeu objeto. Está
atendido nas Leis 10.474/2002 e 10.527/2002 e, ainda, nas Resolu-
ções n.s 235 e 236/2002 (...)’ (AO 630/DF, Relator: Ministro Nelson
Jobim, DJ 27-8-2002, p. 67, grifo nosso).
28. Desse modo, não mais subsistindo atualmente o direito à equipara-
ção postulada na petição inicial, não há que se falar em direito à incorpora-
ção de dois subsídios mensais, na forma percebida pelos membros do Con-
gresso Nacional.
29. Também não há direito à percepção retroativa dos mencionados
subsídios, correspondente ao período anterior ao advento da Lei 10.474/
2002.
30. Com efeito, a pretensão da associação autora somente poderia ser
acolhida caso houvesse lei concedendo aos seus associados o benefício
pretendido, de forma específica, o que não ocorre na hipótese dos autos. O
que se verifica, em realidade, é a pretensão de majoração da remuneração,
com o acréscimo de dois subsídios adicionais por ano, sob o fundamento da
412 R.T.J. — 197

isonomia, por meio de ato do Poder Judiciário, em flagrante afronta ao


Princípio da Independência dos Poderes da União, bem como à orientação
contida na Súmula n. 339 do STF:
‘Não cabe ao Poder Judiciario, que não tem função legislativa,
aumentar vencimentos de servidores publicos sob fundamento de
isonomia.’
31. Convém ressaltar que todas as vantagens específicas concedidas
aos magistrados encontram-se previstas na Lei Complementar 35/79, de
forma taxativa, sendo que em referido diploma legal não se faz alusão à
percepção dos subsídios pleiteados pela autora. Desse modo, observa-se
que, mesmo na data do ajuizamento da ação, não existia qualquer situação
jurídica que possibilitasse o acolhimento da pretensão ora deduzida, não
havendo que se falar, desse modo, em eficácia retroativa da equiparação
postulada na petição inicial.
32. Desse modo, eventual concessão do direito pleiteado não poderia
revestir-se de eficácia retroativa, à semelhança do tratamento conferido por
essa Corte ao ‘auxílio-moradia’.
Nesse sentido, ante os argumentos acima expostos, manifesta-se o
Ministério Público Federal pela extinção do processo sem julgamento do
mérito ou pela improcedência do pedido.’ (Fls. 418-422)
O que pretende a autora é a incorporação de dois subsídios adicionais à
remuneração dos Ministros do Supremo Tribunal, por isso que esses subsídios
teriam sido concedidos aos membros do Congresso Nacional. Assim, seriam eles
devidos aos Ministros do Supremo, tendo em vista a equivalência inscrita no art.
1º, parágrafo único, da Lei 8.448/92.
Todavia, como sustenta o Ministério Público Federal, a autora, uma asso-
ciação de juízes trabalhistas, não tem legitimidade para pleitear majoração da
remuneração dos Ministros do Supremo Tribunal. É verdade que, concedida fosse
citada majoração, a magistratura trabalhista acabaria beneficiada. Tem-se, no
entanto, interesse indireto, reflexo, que não seria capaz de conferir à associação
dos magistrados trabalhistas legitimidade para a causa. É que não representa ela
os Ministros da Corte Suprema.
Do exposto, julgo extinto o feito sem julgamento do mérito (CPC, art. 267, VI).
(...).” (Fls. 429-434)
A decisão é de ser mantida.
É que, conforme ficou esclarecido, o que pretende a autora é a incorporação de
dois subsídios adicionais à remuneração dos Ministros do Supremo Tribunal Federal,
por isso que esses dois subsídios teriam sido concedidos aos membros do Congresso
Nacional. Assim, seriam tais subsídios devidos aos Ministros do Supremo Tribunal,
tendo em vista a equivalência inscrita no art. 1º, parágrafo único, da Lei 8.448/92.
Ora, uma associação de juízes trabalhistas não tem legitimidade para pleitear
majoração da remuneração dos Ministros do Supremo Tribunal.
Nego provimento ao agravo.
R.T.J. — 197 413

EXTRATO DA ATA
AO 1.230-AgR/DF — Relator: Ministro Carlos Velloso. Agravante: ANAMATRA –
Associação Nacional dos Magistrados da Justiça do Trabalho (Advogados: Alberto
Pavie Ribeiro e outro). Agravada: União (Advogado: Advogado-Geral da União).
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, negou provimento ao agravo regimental,
nos termos do voto do Relator. Ausentes, justificadamente, os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello e Gilmar Mendes. Presidiu o julgamento o Ministro Nelson
Jobim.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Carlos
Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa
e Eros Grau. Vice-Procurador-Geral da República, Dr. Roberto Monteiro Gurgel
Santos.
Brasília, 24 de novembro de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 1.231 — DF

Relator: O Sr. Ministro Carlos Velloso


Requerente: Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil — Requeri-
dos: Presidente da República e Congresso Nacional
Constitucional. Anistia: lei concessiva. Lei 8.985, de 7-2-95. CF, art.
48, VIII, e art. 21, XVII. Lei de anistia: norma geral.
I - Lei 8.985/95, que concede anistia aos candidatos às eleições
gerais de 1994, tem caráter geral, mesmo porque é da natureza da
anistia beneficiar alguém ou um grupo de pessoas. Cabimento da ação
direta de inconstitucionalidade.
II - A anistia, que depende de lei, é para os crimes políticos. Essa é a
regra. Consubstancia ela ato político, com natureza política. Excepcio-
nalmente, estende-se a crimes comuns, certo que, para estes, há o indulto
e a graça, institutos distintos da anistia (CF, art. 84, XII). Pode abranger,
também, qualquer sanção imposta por lei.
III - A anistia é ato político, concedido mediante lei, assim da
competência do Congresso e do Chefe do Executivo, correndo por conta
destes a avaliação dos critérios de conveniência e oportunidade do ato,
sem dispensa, entretanto, do controle judicial, porque pode ocorrer, por
exemplo, desvio do poder de legislar ou afronta ao devido processo legal
substancial (CF, art. 5º, LIV).
IV - Constitucionalidade da Lei 8.985, de 1995.
V - ADI julgada improcedente.
414 R.T.J. — 197

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, sob a Presidência do Ministro Nelson Jobim, na
conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por maioria, conhecer
da ação, vencidos os Ministros Cezar Peluso, Joaquim Barbosa e Sepúlveda Pertence
e, no mérito, julgar improcedente, nos termos do voto do Relator, vencidos os
Ministros Marco Aurélio, Carlos Britto e Sepúlveda Pertence. Votou o Presidente, o
Ministro Nelson Jobim. Ausente, justificadamente, neste julgamento, o Ministro
Eros Grau.
Brasília, 15 de dezembro de 2005 — Carlos Velloso, Relator.
RELATÓRIO
O Sr. Ministro Carlos Velloso: O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do
Brasil, com fundamento nos arts. 102, I, a, e 103, VII, da Constituição Federal, propõe
ação direta de inconstitucionalidade, da Lei 9.985, de 7 de fevereiro de 1995, que
“concede, na forma do inciso VIII do art. 48 da Constituição Federal, anistia aos
candidatos às eleições de 1994, processados ou condenados com fundamento na
legislação eleitoral em vigor, nos casos que especifica” (fl. 28).
Sustenta o autor, em síntese, o seguinte:
a) a natureza da anistia, como instituto humanizador do direito e da política, tem
por finalidade a paz pública e, como motivação, o interesse público, não devendo
existir, pois, anistia que contrarie o interesse coletivo;
b) violação aos princípios constitucionais da moralidade administrativa e da
impessoalidade, previstos no art. 37, caput, da Constituição Federal, dado que a Lei
9.985/95 “não concede ‘na forma do inciso VIII, do art. 48, da Constituição Federal’
a anistia ali referida” (fl. 8);
c) configuração de desvio de poder, pois o autor, reportando-se à doutrina,
corrobora o entendimento de que “o ‘poder’ de anistiar que assiste ao Congresso (art.
48, VIII, da Constituição) obviamente não foi previsto na Lei Magna para que con-
gressistas se livrem de sanções judiciais. Isto é: a anistia não foi suposta para ser
utilizada em proveito próprio e com a finalidade de elidir sanções judiciais que
atingiram congressistas por terem violado a ordem jurídica” (fl. 10);
d) afronta ao art. 1º, in fine, da Constituição Federal, uma vez que, “na vigência
do Estado Democrático e de Direito, impõe-se a regra proibitória de leis específicas e
direcionadas para casos concretos, como no caso em foco”. Ademais, aduz que “a
missão constitucional conferida pelo corpo eleitoral ao Congresso Nacional cifra-se
na competência legislativa para a elaboração de leis que consultem aos interesses
coletivos e públicos” (fl. 14);
e) inconstitucionalidade da denominada “anistia especial”, porquanto a anis-
tia, segundo o texto constitucional, é sempre genérica e decorre da competência
conferida ao Congresso Nacional “para realizar, por uma lei, um interesse público,
vale dizer, de toda a sociedade” (fls. 16-17).
R.T.J. — 197 415

Ao final, requer o autor que “seja julgada procedente a presente ação, para o
fim de, em definitivo, ser declarada a inconstitucionalidade da Lei n. 9.985/95”
(fl. 21).
À fl. 32, o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil aditou a
inicial a fim de informar a republicação da lei ora impugnada, que passou a vigorar
sob o número 8.985/95, todavia, sem qualquer alteração em seu conteúdo.
Requisitaram-se informações (fls. 36 e 38). O Senador José Sarney, então
Presidente do Congresso Nacional, às fls. 40-190, sustentou, preliminarmente, o
seguinte:
a) impossibilidade jurídica do pedido, haja vista possuir o ato atacado efeitos
concretos já exauridos, não sendo, pois, suscetível de controle concentrado de
constitucionalidade;
b) ilegitimidade ativa da OAB, tendo em vista que não há pertinência temática a
compatibilizar as finalidades legais da OAB e o objeto da norma impugnada.
No mérito, alega, em síntese:
a) constitucionalidade da lei impugnada, dada a inexistência de quaisquer vícios
formais ou materiais. Ademais, “a Constituição de 1988, no art. 48, inciso VIII, eliminou
a distinção e hoje todos os tipos de anistia estão compreendidos nessa clássica palavra
grega, sem qualquer adjetivação em nosso texto constitucional” (fl. 65);
b) a concessão de anistia a pessoas determinadas e inclusive nominadas no
decreto de perdão é comum na legislação de todos os países, inclusive no Brasil. Logo,
nada obsta a que a lei de anistia se volte para certos fatos e pessoas determinadas que os
praticaram;
c) impossibilidade de revisão do ato legislativo da anistia pelo Poder Judiciá-
rio, porquanto este Poder não pode se ater ao exame de mérito da lei impugnada, o que
constitui conseqüência lógica da própria sistemática do princípio da separação dos
Poderes.
Por sua vez, o Senhor Presidente da República, às fls. 192-202, sustenta, em
síntese, o seguinte:
a) constitucionalidade do ato de anistia ora impugnado, uma vez que legitima-
do pelo processo de votação;
b) competência do Poder Legislativo para conceder anistia, mediante lei, ex vi
do art. 48, VIII, da Constituição Federal.
O então Advogado-Geral da União, Dr. Geraldo Magela da Cruz Quintão, apre-
sentando defesa do texto impugnado, requereu a improcedência do pedido (fls. 207-
210).
Às fls. 218-219, o eminente Ministro Marco Aurélio, então Relator, determinou o
cumprimento de providências ali elencadas, destacando-se a formação, em autos apar-
tados e em segredo de justiça, do agravo regimental interposto da decisão que determi-
nou que fossem riscadas, nos termos do art. 15 do CPC, as expressões tomadas como
416 R.T.J. — 197

injuriosas, contidas nas informações do Congresso Nacional, sendo certo que o Plená-
rio do Supremo Tribunal Federal, em 28-3-96 (fl. 226), negou provimento ao citado
agravo regimental.
O então Procurador-Geral da República, Prof. Geraldo Brindeiro, opinou pelo
não-conhecimento da ação e, se conhecida, pela improcedência do pedido (fls. 228-
234).
Autos conclusos em 21-6-2001.
É o relatório, do qual serão expedidas cópias aos Exmos. Srs. Ministros.

VOTO
O Sr. Ministro Carlos Velloso (Relator): Examino as preliminares argüidas.
a) Ilegitimidade ativa da OAB.
Assim se pronunciou, no ponto, o eminente Procurador-Geral da República, Prof.
Geraldo Brindeiro:
“(...)
A necessidade de haver pertinência temática entre o objeto da norma questio-
nada e as finalidades do ente legitimado a propor a ação direta de inconstituciona-
lidade tem sido reiteradamente afirmada pela jurisprudência do colendo Supremo
Tribunal Federal com relação a confederações sindicais ou a entidades de classe
de âmbito nacional (Informativos 121, 136, 101, 40) e também é exigida com
relação a Governador de Estado (ADI QO n. 1526, DJ de 21/2/97).
Entretanto, incorreta se afigura a assertiva de que somente o Procurador-
Geral da República possui legitimidade ativa universal para propor a ação direta
de inconstitucionalidade, pois a tem os Partidos Políticos com representação em
qualquer das casas do Congresso Nacional (ADI n. 2069, Informativo 186), e
tampouco se pode negá-la ao Conselho Federal da Ordem dos Advogados do
Brasil, vez que a advocacia é uma função essencial à justiça (art. 133 da Constitui-
ção Federal), constituindo objetivos da Ordem dos Advogados do Brasil ‘defen-
der a Constituição, a ordem jurídica do Estado democrático de direito, os direitos
humanos, a justiça social e pugnar pela boa aplicação das leis, pela rápida
administração da justiça e pelo aperfeiçoamento da cultura e das instituições
jurídicas.’(art. 44, I, da Lei n. 8906/94).
(...).” (Fl. 231)
Correto o parecer.
A Ordem dos Advogados do Brasil, pelo seu Conselho Federal, tem legitimidade
ativa, no caso, por isso que, entre o objeto da norma questionada e as finalidades desta há
pertinência temática. É que, além de a advocacia constituir-se em função indispensável
à administração da Justiça (CF, art. 133), compete à OAB “defender a Constituição, a
ordem jurídica do Estado democrático de direito, os direitos humanos, a justiça social
e pugnar pela boa aplicação das leis, pela rápida administração da justiça e pelo
aperfeiçoamento da cultura e das instituições jurídicas” (Lei n. 8.906/94, art. 44, I).
R.T.J. — 197 417

Rejeito a preliminar.
b) Impossibilidade jurídica do pedido.
Sustenta-se que a norma objeto da ação é de efeitos concretos já exauridos, não
sendo, pois, suscetível de controle concentrado de constitucionalidade.
Assim o parecer da Procuradoria-Geral da República, no ponto:
“(...)
Por outro lado, assiste razão ao Congresso Nacional quando defende o
descabimento da presente ação, pois, de fato, o ato normativo atacado não possui
a característica de abstração e generalidade que o tornaria passível de ser exami-
nado em sede de jurisdição constitucional.
Com efeito, a anistia, conceituada na lição de Ruy Barbosa1 como ‘um ato
político pelo qual se faz esquecer o delito cometido contra a ordem, o atentado
contra as leis e as instituições nacionais’, não detém a generalidade própria de
norma legal, pois destina-se unicamente a perdoar determinados delitos pratica-
dos por um grupo certo de pessoas. Seu alcance é, assim, restrito a destinatários
determinados, o que a qualifica como ‘norma individual plúrima’2 insuscetível
de ser objeto de controle concentrado de constitucionalidade.
Ressalte-se haver vasta jurisprudência desse colendo Supremo Tribunal
Federal no sentido de afastar do controle direto de constitucionalidade aqueles
atos que, embora revestidos com forma de lei, possuam efeitos concretos, fazendo-
se oportuna a transcrição do artigo publicado no informativo 174 que bem ilustra
esse entendimento:
‘Não se conhece de ação direta de inconstitucionalidade contra atos
normativos de efeitos concretos, ainda que estes sejam editados com força
legislativa formal (...) Precedentes citados: ADI (AgRg) n. 203-DF (DJU de
20-4-90); ADI n. 1716-DF (DJU de 27-3-98).’ (ADI n. 2057, Rel. Maurício
Corrêa, 9.12.99, DJ de 31/3/2000)
(...).” (Fls. 231-232)
Não tenho como acertado o parecer, no ponto.
A Lei 8.985, de 7-2-95, objeto da causa, concede, na forma do art. 48, VIII, da
Constituição Federal, anistia aos candidatos às eleições de 1994, processados ou conde-
nados com fundamento na legislação eleitoral em vigor, nos casos que especifica.
Tem este teor a citada Lei 8.985, de 7-2-95:
“Art. 1º É concedida anistia especial aos candidatos às eleições gerais de
1994, processados ou condenados ou com registro cassado e conseqüente de-
claração de inelegibilidade ou cassação do diploma, pela prática de ilícitos

1 Comentários à Constituição Brasileira. São Paulo: 1933, v. II, p. 402.


2 ADI n. 1.716, Rel. Ministro Sepúlveda Pertence, Pleno, DJ de 27-3-98.
418 R.T.J. — 197

eleitorais previstos na legislação em vigor, que tenham relação com a utilização


dos serviços gráficos do Senado Federal, na conformidade de regulamentação
interna, arquivando-se os respectivos processos e restabelecendo-se os direitos
por eles alcançados.
Parágrafo único. Nenhuma outra condenação pela Justiça Eleitoral ou
quaisquer outros atos de candidatos considerados infratores da legislação em
vigor serão abrangidos por esta lei.
Art. 2º Somente poderão beneficiar-se do preceituado no caput do artigo
precedente os membros do Congresso Nacional que efetuarem o ressarcimento
dos serviços individualmente prestados, na conformidade de tabela de preços
para reposição de custos aprovada pela Mesa do Senado Federal, excluídas
quaisquer cotas de gratuidade ou descontos.
Art. 3º Esta lei entra em vigor na data de sua publicação, aplicando-se a
quaisquer processos decorrentes dos fatos e hipóteses previstos no art. 1º desta lei.
Art. 4º Revogam-se as disposições em contrário.”
Tem-se, no caso, norma geral e não norma individual. É concedida anistia aos
candidatos às eleições gerais de 1994, processados ou condenados ou com registro
cassado e conseqüente declaração de inelegibilidade ou cassação do diploma, pela
prática de ilícitos eleitorais previstos na legislação em vigor, que tenham relação com
a utilização da gráfica do Senado, na conformidade da legislação interna.
Na lição de Kelsen, sempre atual, a norma pode ter caráter individual ou geral.
Ela tem caráter individual, “se uma conduta única é individualmente obrigada”. E
tem caráter geral, “se uma certa conduta universalmente é posta como devida”.
Acrescenta Kelsen, lição do agrado do Ministro Sepúlveda Pertence, que “o caráter
individual ou geral de uma norma não depende de se a norma é dirigida a um ser
humano individualmente determinado ou a várias pessoas individualmente certas
ou a uma categoria de homens, ou seja, a uma maioria não individualmente, mas
apenas de certas de modo geral”.
E conclui:
“Também pode ter caráter geral uma norma que fixa como devida a conduta
de uma pessoa individualmente designada, não apenas uma conduta única, indi-
vidualmente determinada, é posta como devida, mas uma conduta dessa pessoa
estabelecida em geral. Assim quando, por exemplo, por uma norma moral válida —
ordem dirigida a seus filhos — um pai autorizado ordena a seu filho Paul ir à Igreja
todos os domingos ou não mentir.”
Tem-se, aí, norma geral.
Todavia, se se tem “um mandamento a uma maioria de sujeitos individualmente
determinados e apenas é imposta uma certa conduta individualmente — como,
porventura, no fato de um pai que ordenou a seus filhos Paul, Jugo e Friedrich
felicitarem seu professor Mayer pelo 50º aniversário — então há tantas normas indivi-
duais quantos destinatários de norma”. (H. Kelsen, Teoria Geral das Normas, tradução
de José Florentino Duarte, Sérgio Fabris Editor, Porto Alegre, RS, 1986, pp. 10-11).
R.T.J. — 197 419

Ora, a norma, no caso, concede anistia aos candidatos às eleições gerais de 1994,
indistintamente. E mesmo que assim não fosse, é dizer, se dirigisse a norma a apenas um
indivíduo, também aí ela teria caráter geral. É que é da natureza da anistia beneficiar
alguém ou um grupo de pessoas, “mesmo porque”, bem disse, nas informações, o ilustre
Procurador Miguel Pró de Oliveira Furtado, “não se haverá de dizer (...) que o ato foi
praticado no interesse exclusivo dos beneficiados. Que o foi também no interesse deles
é fora de qualquer dúvida, mesmo porque só academicamente existe anistia sem
interesse do beneficiado” (fl. 194).
Também esta preliminar é de ser rejeitada.
Vamos ao mérito.
A anistia, segundo Rui Barbosa, “é um ato político, pelo qual se faz esquecer o
delito cometido contra a ordem, o atentado contra as leis e as instituições nacionais”
(Rui Barbosa, Comentários à Constituição Federal Brasileira, II/402). Pinto Ferreira
cita lição de W. Y. Elliot, que escreve: “A anistia, um conceito do direito público, vem
do grego amnistia, o que significa esquecimento e implica ato do soberano legal,
concedendo pela graça uma extinção voluntária da memória de certos crimes cometi-
dos contra o Estado” (Pinto Ferreira, Comentários à Constituição Brasileira, Saraiva,
1990, 2º volume, p. 518).
A anistia, de regra, é para os crimes políticos, as infrações políticas, já que para os
crimes comuns há o indulto e a graça — ambos estes institutos distintos da anistia —
esta a graça, referida na Constituição, como “comutar penas”, ambos da competência
do Presidente da República (CF, art. 84, XII). Já a anistia somente pode ser concedida
mediante lei (CF, art. 48, VIII, c.c. art. 21, XVII). Segundo João Barbalho, a anistia pode
ser “plena, para todos os efeitos; geral, para todas as pessoas; limitada, com exclusão
de algumas; restrita, quanto a seus efeitos, sendo dela excluídos certos crimes, e
quanto a determinados lugares; absoluta, se é dada sem condições; condicional, se
fica dependente de se verificarem cláusulas estabelecidas no ato da concessão” (João
Barbalho, Constituição Federal Brasileira de 1891, ed. fac-similar, Senado Federal,
1992, p. 132).
A anistia consubstancia ato político, tem natureza política. Nesse sentido a lição
de Pontes de Miranda (Comentários à Constituição de 1967, Ed. RT, 1970, Tomo II, p.
46).
Pinto Ferreira esclarece que “geralmente a anistia é concedida aos crimes políti-
cos; assim foi a sua origem no mundo antigo. Muitos textos repudiaram a concessão da
anistia aos crimes comuns. Entretanto, hoje em dia, ela é estendida inclusive, em
alguns casos, a estes crimes. Assim pensam Manzini em seu ‘Tratado’, Nelson Hungria
em estudo publicado na ‘RF' (87:583), Aloysio Carvalho Filho nos ‘Comentários ao
Código Penal' (p. 118, n. 44) e Georges Vidal no Curso de direito criminal e de ciência
penitenciária'. Este adverte que, malgrado a opinião dominante, ela tem sido aplica-
da também nos crimes comuns” (Pinto Ferreira, ob. cit., p. 532).
É dizer, a anistia, num primeiro estágio, tinha por finalidade perdoar delitos de
natureza política. O conceito, entretanto, evoluiu com o tempo, para abranger, também,
delitos comuns, em casos especiais, e atos punitivos de modo geral. Na Rep 696/SP, Relator
para o acórdão o Ministro Aliomar Baleeiro, decidiu o Supremo Tribunal Federal:
420 R.T.J. — 197

“Anistia a funcionários civis e a elementos da força pública estadual.


I - No Direito brasileiro, a palavra ‘anistia’ foi ampliada de sua acepção
clássica e etmológica para abranger também o cancelamento de débitos fiscais e
de faltas disciplinares.
II - Não há cláusula na Constituição que impeça ao Legislativo estadual
regular os casos de anistia de penas disciplinares impostas aos servidores públi-
cos, embora aplicada pelo Executivo dentro da lei.”
O Ministro Celso de Mello leciona, no seu excelente Constituição Federal
Anotada, Saraiva, 1986, p. 68, que “A anistia constitui uma das expressões de clemên-
cia do Estado. Seus efeitos em matéria penal são radicais, incidindo retroativamente
sobre o próprio fato delituoso. Conseqüentemente, não pressupõe sentença penal
condenatória, que, no entanto, se houver, não impedirá a incidência da lei concessiva
da anistia, apta a desconstituir a própria autoridade da coisa julgada”.
É dizer, hoje, qualquer sanção, qualquer pena, aplicada com fundamento na lei, é
anistiável. Com propriedade, escreve o advogado Saulo Ramos, na peça de defesa que
ofereceu em nome do Congresso Nacional:
“(...)
8.1. Toda a sanção aplicada com fundamento na lei pode ser objeto de
anistia, desde que concedida igualmente pelo legislador que editou norma puni-
tiva. Não há, no direito e na tradição, nenhuma reserva contra o ato de perdão
legislativo, que substituiu o medieval ato do príncipe, porque, no mundo moder-
no, é de competência do príncipe dos príncipes, o parlamento que representa o
povo — ‘Beneficium imperatoris quod a divina scilicet indulgentia proficiscitur,
quam plenissime interpretari debemus'. (Joveleno, no D., Liv. I, tít. 4º).
8.2. Nas alterações constitucionais provocadas pelos militares, no recente
passado brasileiro, distinguiu-se, no próprio texto, entre anistia comum e anistia
especial. A comum destinava-se a perdoar infrações penais em geral, sanções
administrativas, tributárias, trabalhistas, contratuais, e a especial apenas os cri-
mes políticos. A distinção criada pela doutrina foi levada para o texto constitucio-
nal para reservar-se ao Presidente da República a iniciativa exclusiva dos projetos
de lei propondo anistia de crimes políticos, a anistia especial. A proposta de
anistia comum era de competência concorrente, tanto os parlamentares, como o
Presidente, tinham a iniciativa do projeto respectivo.
8.3. A Constituição de 1988, no art. 48, inciso VIII, eliminou a distinção e
hoje todos os tipos de anistia estão compreendidos nessa clássica palavra grega,
sem qualquer adjetivação em nosso texto constitucional.
(...).” (Fl. 65)
Posta assim a questão, examinemos a argüição aqui posta.
Opina o Ministério Público Federal:
“(...)
De fato, a alegação de que a lei em questão foi editada com abuso de poder
não merece acolhida, vez que o Congresso Nacional detém a competência cons-
R.T.J. — 197 421

titucional para conceder anistia, inclusive aos seus membros, pois a Constituição
da República não impôs restrição alguma quanto aos destinatários dessa espécie
de ‘graça’. Destarte, se a Constituição não restringe a possibilidade de concessão
desse privilégio, descabe ao intérprete restringi-la.
Ademais, merece destaque o art. 2º da lei impugnada que estabelece, com
condição para ser agraciado com a anistia, ‘o ressarcimento dos serviços individual-
mente prestados’, revelando que o ato questionado não foi editado com a finalidade
única de beneficiar congressistas, mas sim, a par de permitir que o povo possa ver
seus representantes reeleitos, a de garantir o ressarcimento ao erário.
Como dito, a mencionada lei não foi editada com o intuito exclusivo de
beneficiar uma pessoa específica, não se constituindo, por tal razão, em ofensa ao
princípio da impessoalidade que deve reger a atividade administrativa.
De outra parte, frágil se revela, na hipótese, a alegação de ofensa ao princí-
pio da moralidade administrativa, até mesmo em decorrência da aplicação do
princípio constitucional da legalidade. A respeito desse princípio traz-se à
colação os ensinamentos doutrinários de Diógenes Gasparini3:
‘Diz Hauriou, seus sistematizador, que o princípio da moralidade
extrai-se do conjunto de regras de conduta que regulam o agir da Adminis-
tração Pública; tira-se da boa e útil disciplina interna da Administração
Pública. O ato e a atividade da Administração Pública devem obedecer não
só a lei, mas à própria moral, porque nem tudo que é legal é honesto,
conforme afirmavam os romanos. Para Hely Lópes Meirelles, apoiado em
Manoel Oliveira Franco Sobrinho, a moralidade administrativa está intima-
mente ligada ao conceito do bom administrador, aquele que, usando de sua
competência, determina-se não só pelos preceitos legais vigentes, como
também pela moral comum, propugnando pelo que for melhor e mais útil
para o interesse público.’
Não há, pois, a alegada ofensa ao princípio da moralidade administrativa
(na verdade dirigido ao administrador, não ao legislador), pois o ato normativo
em tela, editado pelo Congresso Nacional no exercício de sua competência
legislativa (Constituição Federal, art. 48, inciso VIII), busca, em última análise, o
interesse público, vez que, apesar de anistiar os delitos eleitorais cometidos por
candidatos às eleições gerais de 1994 relacionados com a utilização dos serviços
gráficos do Senado Federal, impõe, como condição necessária para recebimento
do benefício, o pagamento pela utilização desses serviços.
(...).” (Fls. 232-234)
Correto o parecer, no ponto.
A uma, porque sendo a anistia um ato político, concedida mediante lei, assim da
competência do Congresso Nacional com a sanção do Presidente da República, corre

3 Direito Administrativo. 4. ed. Editora Saraiva, 1995, p. 7.


422 R.T.J. — 197

por conta dos Poderes Legislativo e Executivo a avaliação dos critérios de conveniência
e oportunidade do ato, sem dispensa, entretanto, do controle judicial, porque pode
ocorrer, por exemplo, desvio do poder de legislar ou afronta ao princípio da razoabili-
dade, assim com afronta ao devido processo legal substancial (CF, art. 5º, LIV).
A duas, porque, se não se pode negar ao Judiciário o exame da constituciona-
lidade da lei de anistia, não se pode afirmar, no caso, que a lei objeto da causa seria
afrontosa aos princípios da moralidade e da impessoalidade. É que não está o Congresso
impedido, pela Constituição, de conceder anistia aos seus membros. Não há falar,
portanto, em violação do princípio da moralidade administrativa, não obstante reco-
nhecermos que o ato legislativo objeto da causa merece reprovação sob o ponto de
vista da ética geral. Mas o princípio da moralidade administrativa tem seus contornos
próprios, convindo esclarecer que a anistia, no caso, ficou condicionada ao “ressarci-
mento dos serviços individualmente prestados, na conformidade de tabela de preços
para reposição de custos aprovada pela Mesa do Senado Federal, excluídas quais-
quer cotas de gratuidade ou descontos” (art. 2º). Também não há falar em ofensa ao
princípio da impessoalidade, por isso que a anistia não visou beneficiar um ou dois
candidatos, mas “aos candidatos às eleições gerais de 1994, processados ou condena-
dos ou com registro cassado (...) pela prática de ilícitos eleitorais (...)”, tendo o projeto
de lei sido submetido ao processo legislativo constitucional e regimental.
A três, também não há falar em desvio de poder de legislar. Conforme vimos,
linhas atrás, a anistia abrange qualquer sanção imposta por lei. Sua natureza é política.
Daí, conforme já foi dito, ser da competência do Legislativo e do Executivo a avaliação
da conveniência e oportunidade do ato, sem dispensa, entretanto, do controle judicial.
Aos demais fundamentos da ação — afronta ao art. 1º, in fine, da Constituição
Federal e alegação de inconstitucionalidade da denominada “anistia especial” —
reporto-me, para rejeitá-los, ao que disse linhas atrás.
Do exposto, julgo improcedente a ação e declaro a constitucionalidade da Lei
8.985, de 7-2-1995.
É o voto.

VOTO
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Senhor Presidente, peço vênia para declarar a
extinção do processo, sem julgamento de mérito.
Trata-se de norma de caráter concreto e individual. Concreto, porque, na verdade,
se refere a uma situação histórica determinada e absolutamente irrepetível, isto é, não
há outro caso que possa ser de candidatos daquela data; é situação que se exauriu na
história, não pode ser repetida, não é, enfim, nenhum tipo ao qual possa outra ação
histórica vir a corresponder: é a situação daquele ano, naquela data. E de caráter
individual, porque se refere especificamente a um grupo determinado de pessoas, e,
portanto, nenhuma outra pessoa é capaz de se inserir na órbita de incidência dessa
norma. É regra tipicamente concreta e de caráter individual, que não é susceptível de
ser objeto de ação declaratória de inconstitucionalidade.
Não conheço do pedido.
R.T.J. — 197 423

O Sr. Ministro Marco Aurélio: Senhor Presidente, acompanho, quanto às prelimi-


nares, o voto do Relator. Faço-o, reconhecendo à Ordem dos Advogados do Brasil um
papel histórico, a dispensar, na defesa da sociedade, a pertinência temática quanto à
eficácia de lei.
É certo que o móvel poderá ter sido uma situação individualizada, impactante —
à época, fui Relator do caso no Tribunal Superior Eleitoral. Veio o diploma ordinário —
no bom sentido — a dispor de maneira abstrata, aludindo, no artigo 1º, àqueles que
foram processados, condenados e tiveram registro cassado, e, no artigo 2º, referindo-se —
de forma que reconheço com absoluta fidelidade quanto aos fatos — aos membros do
Congresso Nacional, compelindo-os, no entanto, a efetuar o ressarcimento aos cofres
públicos. Por isso, penso que o diploma desafia o controle concentrado de constitucio-
nalidade. Não vislumbro o nome deste ou daquele parlamentar.
Quanto ao tema de fundo, peço vênia ao Relator para divergir. Presente a Consti-
tuição Federal, não empolga, pelo menos a mim, o enquadramento do conteúdo da
norma como político. Há de se fazer, de qualquer modo, o cotejo com os princípios
explícitos e implícitos da Carta da República. Cumpre levar em conta que a lei em jogo
se antecipou até mesmo a uma lei complementar que criou, no âmbito da Justiça
Eleitoral, a ação rescisória, fazendo-o de forma muito limitada, considerados os pro-
nunciamentos judiciais acerca da inelegibilidade, e jungindo a propositura ao prazo de
decadência de cento e vinte dias.
Aqui tivemos uma rescisória abrangente, que ganhou contornos de algo contrário
aos princípios inseridos na Carta da República, não só quanto à autoridade e segurança
jurídica dos pronunciamentos judiciais, como também no tocante à sinalização, sob o
ângulo da busca de preservação de princípios, para eleições futuras.
Não consigo perceber que, praticamente — não estou generalizando os
beneficiários da norma — em causa própria, possa se partir, como se partiu, para uma
anistia, desautorizando-se — e, aí, colocando em plano secundário a primazia do
Judiciário — o Judiciário Eleitoral. A anistia versou sobre a existência de títulos
eleitorais, no sentido da jurisdicionalização, já devidamente formalizados.
Por isso, peço vênia para julgar procedente o pedido.

O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Essa questão não é inevitável? É índole da anistia
fatos criminosos que, eventualmente, ainda não foram judicializados ou até aqueles
que já foram judicializados. Não consigo captar esta idéia de afronta à coisa julgada ou
à independência dos Poderes, pois é da índole do próprio processo da anistia a
superação. Na verdade, aqui, até a idéia dos Poderes implícitos teria de ser chamada à
colação.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Insisto na preliminar suscitada pelo eminente
Ministro Cezar Peluso. Fui até chamado à colação, porque já, várias vezes, me referi a
esta passagem de Kelsen, cujos exemplos são expressivos. Diz ele: é norma individual
a norma paterna — a norma baixada pelo pai — que disponha: todos os meus filhos
terão de ir à missa no próximo domingo; ao contrário, é norma geral aquela dirigida a
424 R.T.J. — 197

um filho, destinatário único, estabelecendo que, todos os domingos, ele deve visitar o seu
padrinho, porque regula atos repetíveis e indeterminados, embora de uma única pessoa.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Que talvez não esteja mais entre nós.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Aí teríamos uma lei de eficácia exaurida.
Agora, parece-me ser um caso típico de lei de efeitos concretos, porque não atinge mais
ninguém, nunca mais, senão n — seja um, sejam vários — candidatos às eleições de
1994 que estivessem processados ou condenados pela Justiça Eleitoral em razão da
utilização indevida da gráfica do Senado.
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Permita-me, Excelência. A lei quis ser tão individual
que, no parágrafo único, dispõe que nenhuma outra condenação ou quaisquer outros
atos de candidatos serão por ela regidos. São apenas os indicados e individualizados.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Não há isonomia ou analogia; não há nada. É
para determinados — ou determinado — cidadãos; e exclui a ilicitude de um ato único,
irrepetível.

VOTO
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: A presente ação direta de inconstitucionalidade
está amparada, basicamente, em quatro fundamentos. Nenhum deles, Senhor Presidente,
me impressiona.
O primeiro deles diz respeito à ofensa ao princípio da separação dos Poderes (art.
2º da CF). Alega o requerente que a anistia teria sido concedida como “resposta,
retaliação ou represália de um dos Poderes da República contra decisão incontrastável
de outro desses poderes”.
Ora, a anistia, na medida em que, necessariamente, interfere em decisões tomadas
pela Administração ou pelo Judiciário, é, logicamente, uma relativização do princípio
da separação dos Poderes. Essa relativização é levada a efeito pela própria Constitui-
ção, ao prever, em seu art. 48, VIII, a competência do Congresso Nacional para conceder
anistia. Entender de outra forma nos levaria a também considerar o controle de
constitucionalidade das leis, realizado por este Tribunal, como uma afronta à harmonia
entre os Poderes da República.
Aliás, quero lembrar que essa competência extraordinária do Congresso Nacional
para conceder anistia foi inaugurada pela Constituição de 1891 (art. 34), a nossa
primeira Constituição republicana, cuja inspiração maior adveio justamente do princí-
pio da divisão e harmonia entre os Poderes.
Nesse sentido, também não vejo ofensa ao princípio republicano, consubstanciado
nos princípios da isonomia e da impessoalidade, como quer fazer crer o requerente em
seu segundo argumento. A anistia, como perdão concedido excepcionalmente a deter-
minados atos, praticados por pessoas específicas, produz, por sua própria natureza,
efeitos concretos e limitados no tempo.
Também parece um tanto óbvio que o Congresso Nacional possa conceder anistia
a seus próprios membros. Entender o contrário seria negar qualquer eficácia ao art. 48,
inciso VIII, da Constituição. Outro não foi o entendimento desta Corte no julgamento
R.T.J. — 197 425

da ADI n. 2.306 (Rel. Min. Ellen Gracie, DJ de 31-10-2002), no qual foi reafirmada a
competência do Congresso Nacional para conceder anistia, inclusive a seus membros.
De toda forma, creio que o ponto que merece uma reflexão pormenorizada do
Tribunal diz respeito à alegada violação ao princípio da moralidade. O requerente
sustenta que “o ato normativo agride o senso comum de moralidade (...)”. Quero
enfatizar que as “reações de repúdio por parte do senso comum, da moralidade pública
e da consciência jurídica” não podem servir, isoladamente, de parâmetro de controle
em abstrato da constitucionalidade dos atos normativos emanados do legislador demo-
crático. Alio-me, neste ponto, ao entendimento de Sepúlveda Pertence, já declarado em
outras ocasiões neste Tribunal, de que a moralidade pura e simples não pode ser
condição determinante da inconstitucionalidade de uma lei. Certamente, o Tribunal
não pode se ater unicamente à fluidez do conceito de moralidade para anular atos do
Poder Legislativo.
Evidente, por outro lado, que o tema pode ser devidamente densificado, tendo em
vista outros parâmetros, como o princípio da proporcionalidade, o princípio da não-
arbitrariedade da lei e o próprio princípio da isonomia. O princípio da moralidade,
portanto, para funcionar como parâmetro de controle em abstrato de constitucionalidade,
deve vir aliado a outros princípios fundamentais, dentre os quais assumem relevância
aqueles que funcionam como diretriz para a atuação da Administração Pública.
No tocante ao tema da anistia, lembro as lições de João Barbalho, em comentá-
rios ao art. 34, 27, da Constituição de 1891:
“Decretando anistia, o Congresso Nacional exerce atribuição sua privati-
va, de caráter eminentemente político, e nenhum dos outros ramos do poder
público tem autoridade para entrar na apreciação da justiça ou conveniência e
motivos da lei promulgada consagrando tal medida, que é um ato solene de
clemência autorizada por motivos de ordem superior.” (Cavalcanti, João
Barbalho Uchoa. Constituição Federal Brasileira (1891). Brasília: Senado
Federal; 2002, p. 133).
Deixe-se claro, todavia, que não quero com isso defender uma rígida separação
entre Direito e Moral, própria de um positivismo formalista. Desde seu primeiro incurso
na doutrina administrativista de Maurice Hauriou (Précis de Droit Administratif et de
Droit Public. Paris: Sociétè Anonyme du Recueil Sirey; 1927), o princípio da
moralidade traduz a idéia de que sob o ato jurídico-administrativo deve existir um
substrato moral, que se torna essência de sua legitimidade e, em certa medida, condição
de sua validade.
Intento apenas alertar o Tribunal para o problema da declaração de nulidade de
uma norma sob o único argumento de que é imoral ou, melhor dizendo, de que afronta
uma indefinida moral pública. Entendo que, neste caso, estaríamos a penetrar
indevidamente no juízo político e ético do legislador e, conseqüentemente, a estabele-
cer uma indesejável vinculação do Direito à Moral, que seria muito cara à própria
democracia, cuja essência está no pluralismo de valores éticos; pluralismo este declara-
do como “valor supremo” no preâmbulo da Carta de 1988.
Com essas breves considerações, voto pela improcedência da ação.
426 R.T.J. — 197

VOTO (Aditamento)
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Como instrumento de política judiciária — já
tivemos oportunidade de discutir isso aqui — entendo, também, essa ressalva à qual, de
vez em quando, adiro. Tenho a impressão de que, diante da importância da questão, não
do caso, mas da controvérsia — até tenho sugerido a superação desta reserva do ato
concreto, pelo menos quando se refira à lei —, o texto constitucional é claro quando
recomenda o cabimento da ADI.
Por isso tenho sustentado a conveniência de, nesses casos, superarmos a jurispru-
dência do ato concreto, pelo menos no referente à lei. Aqui também temos — e basta a
perplexidade que perpassa o Plenário — a dificuldade da definição. Nós mesmos, a toda
hora, defrontamo-nos com o exemplo. Claro que, para isso, temos explicações das leis
que criam municípios, mas que, na verdade, revelam um propósito amplo de
institucionalização, que nós tradicionalmente aceitamos e para o qual nunca levanta-
mos o caráter de efeito concreto.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Uma série de efeitos, a partir da criação de um
ordenamento jurídico, o do novo município.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Sim, cria um ordenamento jurídico, se quisermos. Eu
ponderaria que arrostássemos o mérito, tendo em vista exatamente essas considerações.
Vejo que se agitam aí considerações. Vi, por exemplo, com alguma preocupação, a
colocação suscitada da bancada pelo Ministro Sepúlveda Pertence, nesses dias, quanto à
invocação da moralidade como princípio básico para eventual parâmetro de controle. Eu
também, de acordo com Sua Excelência, tenho dificuldade de simplesmente começar a
declarar a inconstitucionalidade de lei em face do princípio da moralidade, porque
podemos chegar a situações de alta subjetividade e, talvez, a resultados fortemente
abstrusos. Por isso, parece-me recomendável julgar-se a questão. Nesse sentido, tenho um
curto voto escrito, no qual rejeito — e o estou juntando — todas essas considerações
constantes da impugnação, porque me parece que qualquer lei de anistia vai ter essa
repercussão na relação de dependência ou interdependência dos Poderes, com todos os
seus reflexos. Eventualmente, terá de arrostar a questão da coisa julgada; portanto, não
penso que estejamos a falar nenhuma novidade. Parece-me tratar de um típico ato
político, quer dizer, podemos sempre discordar, mas, daí a discutir sob este aspecto é algo
um tanto quanto hiperbólico, um tanto quanto exagerado.
Senhor Presidente, com essas considerações, acompanho o voto do Ministro
Relator.

VOTO
O Sr. Ministro Carlos Britto: Senhor Presidente, entendo que os dois artigos
centrais da lei impugnada na ADI estão funcionalmente imbricados; são
interdependentes. O art. 1º, que consubstancia a própria concessão da anistia, ficou
condicionado ao preenchimento de requisitos do art. 2º. Este, condicionador da eficá-
cia daquele, tem por destinatários humanos — por endereçados ou por âmbito pessoal
de incidência — pessoas que, a priori, não se pode determinar, porque não se pode
dizer quem preencherá essas condições, mas não é só.
R.T.J. — 197 427

O Sr. Ministro Cezar Peluso: Essas condições já estão preenchidas.


O Sr. Ministro Carlos Britto: Mas não é só.
O Sr. Ministro Cezar Peluso: É só uma questão de se verificar, saber quem era
candidato naquela data. Não há nada mais a perquirir.
O Sr. Ministro Carlos Velloso (Relator): Permitam-me, Excelências, saliento o
que disse o Ministro Gilmar Mendes: é da maior importância a Corte Constitucional
apreciar uma lei de anistia, certo que qualquer lei de anistia incorrerá nisso que o
Ministro Cezar Peluso aponta.
Ora, algo da maior importância na ordem jurídico-constitucional, a Corte Consti-
tucional, a pretexto de se ter caráter individual, não examinaria?
O Sr. Ministro Carlos Britto: Perfeito. Quero completar. Há um outro destinatário,
um outro endereçado normativo do art. 2º: uma instituição pública; o Senado Federal,
que vai editar uma tabela de custos.
A coisa não é tão simples assim. Contento-me, para conferir o caráter de generali-
dade à lei — para não dizer de impessoalidade, de abstratividade —, com a
renovabilidade da hipótese de incidência, não apenas com a perenidade. Veja o caso da
Lei Orçamentária, que é editada para vigorar em um ano. Temos dito aqui que ela
desafia, sim, conhecimento por meio da ADI. Por quê? Porque, no período de um ano, os
pressupostos de incidência da Lei Orçamentária serão renovados, plurimamente reno-
vados. Essa renovabilidade da hipótese de incidência da norma me basta, não apenas a
perenidade do descritor da norma.
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Mas aqui isso é absolutamente impossível, Excelên-
cia. Quem foi candidato em 1994, foi candidato em 1994, e tal situação não se repete
em relação a candidatos de outros anos. A norma respeita apenas a quem foi candidato
em 1994 e, assim mesmo, processado e condenado!
O Sr. Ministro Carlos Britto: Sim, mas condicionadamente ao preenchimento de
condições que estão no art. 2º.
Então, pelo imbricamento dos dois relatos normativos — o art. 1º e o art. 2º —,
peço vênia à divergência iniciada pelo Ministro Cezar Peluso, para acompanhar o voto
do Ministro Relator.

VOTO
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Peço vênia para acompanhar o Ministro
Marco Aurélio. Reporto-me à fundamentação do meu voto no caso das multas eleitorais
(ADI 2.306).

EXTRATO DA ATA
ADI 1.231/DF — Relator: Ministro Carlos Velloso. Requerente: Conselho Federal
da Ordem dos Advogados do Brasil (Advogados: Jose Roberto Batochio e Marcelo
Mello Martins). Requeridos: Presidente da República e Congresso Nacional (Advogados:
Jose Saulo Pereira Ramos e Luiz Carlos Bettiol).
428 R.T.J. — 197

Decisão: O Tribunal, por maioria, conheceu da ação, vencidos os Ministros Cezar


Peluso, Joaquim Barbosa e Sepúlveda Pertence, e, no mérito, julgou-a improcedente,
nos termos do voto do Relator, vencidos os Ministros Marco Aurélio, Carlos Britto e
Sepúlveda Pertence. Votou o Presidente, Ministro Nelson Jobim. Ausente, justificada-
mente, neste julgamento, o Ministro Eros Grau.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes,
Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da Repú-
blica, Dr. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza.
Brasília, 15 de dezembro de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

RECLAMAÇÃO 2.123 — MA

Relator: O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence


Reclamante: Damião Benicio dos Santos — Reclamado: Tribunal de Justiça do
Estado do Maranhão
Reclamação: procedência, em parte: descumprimento da decisão
do HC 71.551 (1ª T, 6-12-94, Celso de Mello, DJ de 6-12-96), cujos
efeitos só cessaram com a extinção do mandato do ex-Prefeito, co-réu,
que prejudicou a questão pendente sobre a competência originária do
Tribunal de Justiça (Rcl 636-QO, Pertence, RTJ 181/829): nulidade dos
atos decisórios praticados no interregno dos diversos processos envol-
vidos.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira
Turma do Supremo Tribunal Federal, sob a Presidência do Ministro Sepúlveda Pertence,
na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de
votos, julgar procedente, em parte, a reclamação, nos termos do voto do Relator.
Brasília, 23 de agosto de 2005 — Sepúlveda Pertence, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Julgam-se, nesta assentada, as Reclamações
2.190 e 2.123 (em apenso).
I

Na primeira delas (Rcl 2.190), colhe-se a descrição dos fatos pelo il. patrono do
reclamante:
R.T.J. — 197 429

“Em 18 de outubro de 1993, perante o juízo reclamado, foi oferecida


denúncia contra o reclamante e outros, autuada sob o n. 150/93 (Documento n. 1).
Houve desmembramento do feito, dando origem à autuação sob o n. 155/93
[onde o reclamante está sendo processado].
Tendo o MP, posteriormente, oferecido denúncia também contra Salvador
Rodrigues de Almeida e outros, foi ela autuada sob o n. 193/94 (Documento n. 2).
Como Salvador Rodrigues de Almeida era Prefeito Municipal de Imperatriz,
o Juiz que presidia o feito proferiu despacho, em 13 de abril de 1994, nos autos do
processo 193/94 (fls. 135/9), declinando da competência e determinando a remes-
sa dos autos dos três processos (150/93, 155/93 e 193/94), ao Tribunal de Justiça
do Estado do Maranhão (Documento n. 3).
(...)
A requerimento do Procurador Geral de Justiça do Estado (Documento n. 5),
que ratificou a denúncia contra o então Prefeito Municipal, Salvador Rodrigues de
Almeida, o Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão decidiu, em 04 de maio de
1994, na Ação Penal n. 00089/94, ali instaurada, no sentido da sua competência
para julgar apenas o réu Salvador Rodrigues de Almeida, mandando que os demais
fossem julgados pelo Tribunal do Júri da Comarca (Documento n. 6).
Julgando o Habeas Corpus n. 71.551, em 6 de dezembro de 1994, esse
Supremo Tribunal Federal anulou aquela decisão do Tribunal de Justiça do
Estado do Maranhão, restando assim ementado o v. Acórdão:
‘Habeas corpus — Direito de defesa — Sustentação oral — Desres-
peito — Julgamento realizado sem prévia publicação da pauta respectiva —
Acórdão desprovido de fundamentação — Nulidade — Necessidade de
realização de novo julgamento — Concessão de liberdade aos pacientes —
Pedido deferido.
É nulo o julgamento de causa penal, em Segunda instância, sem prévia
intimação, ou publicação da pauta, salvo em habeas corpus (Súmula 431/
STF).
A realização dos julgamentos pelo Poder Judiciário, além da exigên-
cia constitucional de sua publicidade (CF, art. 93, IX), supõe, para efeito de
sua válida efetivação, a observância do postulado que assegura ao réu a
garantia da ampla defesa.
A sustentação oral constitui ato essencial à defesa. A injusta frustração
dessa prerrogativa qualifica-se como ato hostil ao ordenamento constitucio-
nal. O desrespeito estatal ao direito do réu à sustentação oral atua como
causa geradora da própria invalidação formal dos julgamentos realizados
pelos Tribunais. Precedentes.’ (Rel. Min. Celso de Mello) (Documento n. 7).
Na conclusão do voto do Eminente Relator, ficou assim decidido:
‘(...) defiro o pedido de habeas corpus, para o efeito de anular o
julgamento ora impugnado, realizado na sessão de 4-5-94 (Ação Penal n.
430 R.T.J. — 197

00089/94 - Imperatriz - fls. 46), a fim de que outro venha a ser proferido pelo
E. Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão, publicando-se, previamente,
a pauta respectiva e dela sendo intimadas as partes, assegurando-se a todos
os sujeitos parciais da relação processual, inclusive aos ora pacientes, nos
termos do Regimento Interno daquela Corte Judiciária (art. 281), o direito à
sustentação oral, expedindo-se, em favor dos que se acham privados de sua
liberdade individual, alvará de soltura, se por al não estiverem presos.
Como conseqüência desta decisão, ficam invalidados todos os atos
processuais, que, subseqüentes ao julgamento ora impugnado, tenham
sido praticados em primeira ou em segunda instâncias’ (Documento n. 7 -
pág. 427).”
Não cumprida essa decisão, foi ajuizada a Reclamação 636, julgada prejudicada
por esta Primeira Turma, nos termos do voto que proferi, verbis (fls. 68/69):
“É induvidoso que se deixou de dar cumprimento — imediato, como se
impunha — à decisão do HC 71.551, do Supremo Tribunal.
Há, no entanto, fato superveniente que tornaria ociosa, hoje, a procedência
da reclamação.
Com efeito.
O julgamento de 4-5-94 que — por afronta à defesa dos interessados — o
acórdão do HC 71.551 declarou nulo e cuja renovação determinou, teve por objeto
a questão de saber se, incluído entre os denunciados, mediante aditamento, o então
Prefeito do Município de Imperatriz, que sucedera à vítima, morta no exercício do
mandato em 6-10-93, a competência originária do Tribunal de Justiça para julgá-lo,
por força do art. 29, VIII, da Constituição, seria de estender-se aos co-réus, entre os
quais, o reclamante.
Decidiu, então, o Tribunal de Justiça que não (aliás, o que não está em causa,
na conformidade da orientação do Supremo Tribunal, invocada pelo Ministério
Público — HC 69.325, 17-6-92, M. Aurélio, RTJ 143/925).
De qualquer sorte, a questão decidida tinha por pressuposto a atualidade da
competência do Tribunal de Justiça, para julgar o então Prefeito, por fato
anterior à assunção do mandato.
É competência, no entanto, que cessa com a investidura, posterior ao fato
criminoso, que a tenha determinado (...)
Por isso mesmo, extinto — é de supor que em 1º de janeiro de 1997 — o
mandato do Prefeito denunciado, os autos foram devolvidos ao Juízo de primeiro
grau, como informa o seu titular (fl. 115).
Esse fato extintivo da competência originária do Tribunal de Justiça para a
ação penal contra um dos co-réus, o único que a determinava, por prerrogativa de
função, que é superveniente ao julgamento do HC 71.551, ocorrido em 6-12-94,
faz sem objeto a indagação sobre se, ao tempo, aquela competência atraía ou não
as ações penais contra os co-réus.
R.T.J. — 197 431

Logo, não faz sentido devolver a questão a uma nova decisão do Tribunal
local.
Esse o quadro, julgo prejudicada a reclamação, a fim de que prossigam os
diversos processos relativos ao mesmo homicídio, incluído aquele a que respon-
de o reclamante: é o meu voto.”
Comunicada a decisão, o Juiz de primeiro grau assim decidiu (Ação Penal 155 —
fl. 72):
“Considerando a decisão do STF acerca da Reclamação n. 636-1
Maranhão, de 4.12.01, julgando-a prejudicada, com a extinção do mandato do
Prefeito Salvador Rodrigues de Almeida, para restabelecer a competência do
Tribunal do Júri desta Comarca para julgamento (fls. 2.912 a 2.922) e já tendo
transitado em julgado a sentença de pronúncia, dê-se vista ao Ministério Público
para libelo acusatório no prazo legal”.
Oferecido o libelo, em 18-7-02 (fls. 73/74), o Reclamante peticionou àquele
Juízo, para que, em cumprimento à decisão do HC 71.551, fossem repetidos todos os
atos posteriores a 4 de maio de 1994 (fls. 75/89), sob o fundamento de que, desde
então, até o julgamento da Rcl 636, em 4-12-01, aquele Juízo era incompetente.
Decidiu o Juiz de primeiro grau no sentido de que, julgada prejudicada a Rcl 636,
“a decisão do Habeas Corpus 71.551-6 deixou de existir e de produzir os efeitos de
nulidade do julgamento do TJ/MA e dos atos posteriores”, não havendo, pois, nulida-
de a ser reconhecida (fls. 90/96).
Donde a primeira das reclamações, na qual se impugna esta decisão e a que dera
vista ao Ministério Público para o libelo, nestes termos:
“O Acórdão prolatado no HC 71.551 contém três decisões.
A primeira: anulou a decisão do Tribunal de Justiça e mandou fosse outra
proferida; por dois fundamentos, a saber, falta de fundamentação e ausência de
intimação das partes.
A segunda: em conseqüência da primeira, foi concedida liberdade aos
pacientes.
A terceira, também por conseqüência da primeira: anular todos os atos
praticados, em primeira e em segunda instâncias, em todos os processos, que
tiverem sido praticados posteriormente à decisão do TJMA, de 04.05.94. Logo,
tudo quanto se praticou a partir daquela data, não tem qualquer valor.
O Acórdão prolatado na Reclamação 636, ao julgá-la prejudicada, determi-
nou, em 04 de dezembro de 2001, o prosseguimento dos processos, afirmando, só
aí, a competência do Tribunal do Júri para julgar todos os acusados.
Esta última decisão do STF limitou-se a considerar desnecessária (...) a
realização de novo julgamento no TJMA acerca da competência, tendo em conta
a superveniência da extinção do mandato de Salvador Rodrigues de Almeida, e,
de conseqüência, a afirmar a competência do Tribunal de Júri. Nada mais que
isso. Cingiu-se a julgar prejudicado apenas o pedido de renovação do julgamen-
to na Corte Estadual, e afirmar a competência do Tribunal do Júri.
432 R.T.J. — 197

Tal decisão, por essa razão, não modificou, em nada, aquela decisão proferi-
da no HC 71.551, nem no ponto em que concedeu a liberdade aos pacientes, nem
tampouco na parte que declarou nulos todos os atos processuais após o dia 04
de maio de 1994. Ao julgar prejudicada a reclamação, o STF não revalidou os
atos processuais declarados nulos, nem podia fazê-lo, à evidência. Senão veja-
mos.
(...)
Com o julgamento da Reclamação 636, o Supremo Tribunal Federal dispen-
sou o TJMA de renovar o julgamento, em face de fato superveniente, e só aí (...)
afirmou a competência do Tribunal do Júri para julgar todos os réus, determinan-
do o prosseguimento de todos os processos.
A conclusão, óbvia, portanto, é a de que, enquanto não tinha sido julgada a
Reclamação 636, não se podia afirmar a competência do Tribunal do Júri. En-
quanto o STF não decidiu a Reclamação 636, os processos não poderiam ter tido
seqüência no juízo de primeiro grau, porque no HC 71.551, aquela decisão do
TJMA já fora declarada nula, bem assim todos os atos subseqüentes.”
Dentre os atos que defende devam ser anulados, aponta a decisão de pronún-
cia.
O Ministério Público Federal, em parecer do Il. Subprocurador-Geral da Repúbli-
ca Wagner Natal Batista, opinou nestes termos:
“(...) Temos que ao contrário do que entende o reclamante a ordem concedi-
da não se aplicaria a ele e nem ao processo que responde por uma razão bem
simples, não foi ele parte no habeas corpus que foi impetrado pelos réus dos autos
193 e não se referia aos autos 155. Os impetrantes do HC 71.551 como se pode ler
às fls. 46 foram: Damião Benício dos Santos, Ronaldo Machado Arantes, Salva-
dor Rodrigues de Almeida, e Saulo Antônio Gomes.
Entretanto, mesmo que tal não ocorresse entendemos que a decisão tomada
na reclamação 636 de julgá-la prejudicada aqui também se justifica pelos mesmos
argumentos o que nos leva a manifestar pelo seu indeferimento.”

II
Por prevenção, foi-me distribuída a Rcl 2.123 — em apenso —, na qual o co-réu
Damião Benício dos Santos — paciente no HC 71.551 — requer seja anulado o
processo principal a partir da decisão proferida naquele habeas corpus.
Deferida a liminar, para sustar a realização do júri designado (fl. 318), oficiou o
então Procurador-Geral Cláudio Fonteles, pela improcedência da reclamação (fls. 336/
339 do apenso).
É o relatório.
R.T.J. — 197 433

VOTO
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Relator):
I

Malgrado o reclamante da Rcl 2.190 não tenha figurado como paciente no HC


71.551, a decisão nele proferida alcançou todos os co-réus das ações penais 150/96,
155/93 e 193/94.
Por isso, conheço da reclamação.
II

No mérito, estou convencido de que as reclamações procedem em parte.


Com o julgamento do HC 71.551 — em 6-12-94 —, foram invalidados não só o
julgamento do Tribunal local — realizado no dia 4-5-94 — mas também todos os atos
processuais subseqüentes “praticados em primeira ou em segunda instâncias” (fls.
58/59).
Determinou-se, ainda, a expedição de alvará de soltura para os réus que eventual-
mente estivessem presos, bem como a realização de novo julgamento pelo Tribunal de
Justiça.
Ocorre que, mesmo com o julgamento do HC 71.551, apenas os autos em que o
Prefeito era parte permaneceram no Tribunal local, continuando o curso das demais
ações penais no Juízo de primeiro grau, incluindo a prática de atos decisórios.
Estes atos, contudo, dependiam da solução da controvérsia relativa à competên-
cia do Tribunal de Justiça, solucionada apenas em 1º de janeiro de 1997, com a
extinção do mandato do Prefeito, o que — tal como mencionado na Rcl 636 — fez sem
objeto a “indagação sobre se, ao tempo, aquela competência [por prerrogativa de
função do Prefeito] atraía ou não as ações penais contra os co-réus”.
É o que basta para — apesar de inexistente declaração formal do restabelecimento
da competência do Juízo de primeiro grau — considerar válidos os atos praticados após
a extinção do mandato do Prefeito, em 1º de janeiro de 1997, tendo em vista que, a
partir de então, manifesta a competência do Juízo local.
Daí, contudo, não resulta a validade dos atos decisórios praticados entre 4-5-94 e
1º-1-97, nem os que decorreram deles.
Certo, na parte dispositiva do voto-condutor que proferi na Rcl 636 — no que me
acompanhou a Turma —, determinei o prosseguimento dos “diversos processos relati-
vos ao mesmo homicídio, incluído aquele a que responde o reclamante”, não em razão
de suspensão deles pelo HC 71.551, mas por decisão nesse sentido do Juízo de primeiro
grau em 12 de abril de 1999 (fl. 92).
Entre 4-5-94 e 1º-1-97, pois, impedida estava a prática de quaisquer atos proces-
suais em relação não só ao reclamante, mas também a todos os co-réus.
434 R.T.J. — 197

III
Julgo, pois, em parte procedentes as reclamações, para anular os atos
decisórios praticados entre 4-5-94 e 1º-1-1997 e os que deles dependam, em relação aos
reclamantes e a todos os co-réus das Ações Penais 150/93, 193/94, 155/93, que ainda
não tenham sido julgados ou condenados com pena ainda não extinta, salvo quanto ao
então Prefeito, Salvador Rodrigues de Almeida, em relação ao qual, no período entre
4-5-94 e 1º-1-97, nenhum ato foi praticado no Juízo local: é o meu voto.

VOTO
O Sr. Ministro Carlos Britto: Sr. Presidente, estão bem discriminadas, por esse
período, as diversas competências do juiz singular e do tribunal.
Acompanho Vossa Excelência.

O Sr. Ministro Marco Aurélio: Senhor Presidente, a decisão, no habeas corpus, foi
categórica quanto à incompetência do Juízo. Àquela altura, considerado o crime de um
prefeito — apenas para refletir e ver se percebi bem a situação —, havia o envolvimento
de atos judiciais de um juiz. Inobservado o que decidido pelo Tribunal, apresentou-se
a Reclamação n. 636/MA, para tornar prevalecente o pronunciamento da Turma. Essa
reclamação, tendo em conta um fato novo, ou seja, o término do mandato do prefeito,
foi declarada prejudicada. Indaga-se sobre a eficácia, a concretude do que assentado
pela Corte no Habeas Corpus n. 71.551/MA — o acórdão que se aponta como
descumprido refere-se a esse habeas corpus. Tal decisão continuou sendo olvidada até
que veio a cessar a competência do Tribunal de Justiça.
É possível simplesmente balizar-se, a esta altura, o que decidido no habeas e
entender-se que, no caso, o descumprimento seria bastante a gerar certos efeitos, efeitos
posteriores, quanto aos atos posteriores, ao término do mandato?
O Direito Processual é, acima de tudo, documentação e visa à liberdade, em seu
sentido maior, a poder-se contar com segurança jurídica quanto a atos a serem praticados.
O que se nota — e, pelo menos, na minha visão — é que incumbia atender-se ao
que decidido no habeas corpus e, aí, ter-se-ia o deslocamento do processo,
desmembrado, para o Tribunal de Justiça, o que não se verificou.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente e Relator): Mas não foi o que
decidiu a Turma.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: No habeas?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente e Relator): No habeas corpus, sim.
Mas, depois, julgou-se prejudicada a Reclamação, porque entendeu a Turma que não
teria sentido devolver o caso ao Tribunal de Justiça, chamando todos os processos que
estavam em primeiro grau, dado que um fato superveniente ao habeas corpus, a
extinção do mandato, alterara inteiramente a equação jurídica.
R.T.J. — 197 435

O Sr. Ministro Marco Aurélio: Essa premissa realmente tem um peso maior, quer
dizer, a própria Turma que prolatara o acórdão no habeas veio, como que, a estabelecer
limites quanto a essa decisão, ao se pronunciar na reclamação. E, aí, lançou, como
fundamento da declaração de prejudicialidade, a cessação do mandato do prefeito que
estaria a gerar a competência do Tribunal.
Mas surge a problemática colocada — penso que numa ortodoxia maior — pelo
advogado da tribuna. Esse fundamento seria suficiente, por si só, a ter-se a legitimidade
dos atos praticados pelo Juízo sem que se observasse o acórdão do habeas corpus, e sem
que o Tribunal de Justiça, diante da cessação do mandato, viesse a declinar da compe-
tência?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente e Relator): Ministro, mal ou bem,
foi o que decidiu esta Turma. A reclamação não é contra a decisão desta Turma; é contra
a decisão do outro juiz.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Vou ficar com uma premissa: a decisão proferida no
habeas foi definitiva, de eficácia imediata, não foi uma decisão condicionada. Incum-
bia respeitá-la. O Tribunal sinalizou na reclamação, declarando o prejuízo — a compe-
tência do Tribunal de Justiça teria cessado com o término do mandato do prefeito.
Todavia, ao pronunciar um simples prejuízo, em si, teria mitigado a eficácia do acórdão
proferido no habeas? Por mais que se queira adentrar o campo do pragmatismo,
entendo que cumpre observar as balizas em jogo; cumpre observar que a decisão no
habeas foi descumprida e continuou a sê-lo. O processo-crime deveria ter sido desloca-
do para o Tribunal de Justiça, e não o foi. O Tribunal de Justiça poderia, sim, com a
cessação do mandato do prefeito, declinar da competência para o Juízo, mas não o fez.
Havendo permanecido o processo, revelador da ação penal, em primeiro grau, essa
permanência, a meu ver inicialmente equivocada, ficou comprometida, até mesmo
considerado o período — e a decisão proferida pela Turma no habeas corpus —
posterior à cessação do mandato.
Peço vênia para julgar procedente o pedido formulado na reclamação em maior
extensão, ou seja, tal como formulado na inicial da medida.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente e Relator): Sem nenhum amor pela
correção da decisão que proferi na reclamação, vejo-me constrangido a manter meu
voto, porque não estou julgando reclamação contra a decisão proferida por esta Turma
na reclamação anterior. Estou julgando reclamação contra decisão do juiz que obede-
ceu à decisão desta Turma, e releio o final do meu voto:
“Por isso mesmo, extinto — é de supor que em 1º de janeiro de 1997 — o
mandato do Prefeito denunciado, os autos foram devolvidos ao Juízo de primeiro
grau, como informa o seu titular.
Esse fato extintivo da competência originária do Tribunal de Justiça para a
ação penal contra um dos co-réus — o único que a determinava, por prerrogativa
de função —, que é superveniente ao julgamento do HC 71.551, ocorrido em 6-12-
94 —, faz sem objeto a indagação sobre se, ao tempo, aquela competência atraía ou
não as ações penais contra os co-réus.
436 R.T.J. — 197

Logo, não faz sentido devolver a questão a uma nova decisão do Tribunal
local.
Esse o quadro, julgo prejudicada a reclamação, a fim de que prossigam os
diversos processos relativos ao mesmo homicídio, incluído aquele a que responde
o reclamante: é o meu voto.”
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Na primeira instância?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente e Relator): Sim. Onde eles estavam.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Agora, pergunto a Vossa Excelência, a retirada do
mundo jurídico dos atos primeiros, anteriores à cessação do mandato, não repercute
nesses atos subseqüentes?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente e Relator): Salva-se alguma coisa.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Senhor Presidente, o argumento de Vossa Excelên-
cia é irresistível. Realmente, a Turma, mesmo declarando prejudicada a reclamação, e
talvez tenha sido pedagógica, foi além para assentar, em que pese ao prejuízo, que a
competência seria, a partir de 1º de janeiro de 1997, do Juízo.
Acompanho Vossa Excelência.

EXTRATO DA ATA
Rcl 2.123/MA — Relator: Ministro Sepúlveda Pertence. Reclamante: Damião
Benicio dos Santos (Advogados: José Lamarck de Andrade Lima e outro). Reclamado:
Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão.
Decisão: A Turma julgou procedente, em parte, as Reclamações n. 2.123 e 2.190,
nos termos do voto do Relator. Unânime.
Presidência do Ministro Sepúlveda Pertence. Presentes à sessão os Ministros
Marco Aurélio, Cezar Peluso, Carlos Britto e Eros Grau. Subprocurador-Geral da
República, Dr. Eitel Santiago de Brito Pereira.
Brasília, 23 de agosto de 2005 — Ricardo Dias Duarte, Coordenador.

INQUÉRITO 2.154 — DF

Relator: O Sr. Ministro Marco Aurélio


Autor: Ministério Público Federal — Indiciado: Jorge dos Reis Pinheiro ou Pastor
Jorge
Difamação — Tipicidade. A tipicidade do crime contra a honra que
é a difamação há de ser definida a partir do contexto em que veiculadas
as expressões, cabendo afastá-la quando se tem simples crítica à atuação
de agente público, revelando-a fora das balizas próprias.
R.T.J. — 197 437

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das
notas taquigráficas, por unanimidade, rejeitar a denúncia, nos termos do voto do
Relator.
Brasília, 17 de dezembro de 2004 — Nelson Jobim, Presidente — Marco Aurélio,
Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Marco Aurélio: O Procurador-Geral da República aponta configu-
rado o crime de difamação, aludindo ao disposto no artigo 21, combinado com o artigo
23, inciso II, ambos da Lei n. 5.250/67. Transcreve notícia de entrevista do denunciado
ao Jornal de Brasília, na qual teria acusado a vítima Kátia Christina Lemos, promotora
pública, de abuso de poder. No trecho reproduzido às folhas 3 e 4, grafa em negrito as
seguintes frases tomadas como ofensivas:
“Secretário acusa promotora de abuso.”
“O secretário reclama que o ofício pediu ‘algo ilegal’ já que o processo está
subjudice (sic)”.
“Ela não pode fazer isso, criando uma série de coações para conseguir o
processo e, através de um ofício altamente intimidador, reclama”.
“Foi uma ação isolada dela”.
“O secretário de Meio Ambiente, Jorge Pinheiro, diz que a promotora Kátia
Christina Lemos agiu como ‘oficial de justiça’(...)”
“O secretário de Meio Ambiente frisou ao Jornal de Brasília que ‘considera
ser uma ação isolada dela (promotora), não se estendendo aos outros membros do
Ministério Público’, diz. ‘O que ela fez é ilegal’, completa”.
Aponta-se que o denunciado “referiu-se a fatos claramente ofensivos à reputação
da ofendida (...)”. E que teve “a clara determinação intencional de ferir a reputação da
ofendida”. Em síntese, consta do item 10 da peça primeira que o denunciado colocou a
ofendida como “praticante de atos ilegais, abusivos, coercitivos e de intimidação”,
agredindo a atuação profissional da promotora de justiça. Vieram ao processo, com a
inicial, as peças de folhas 7 a 88.
Notificado, o acusado apresentou a defesa de folhas 101 a 106. Em suma, baseia-
se na óptica segundo a qual, de forma inapropriada, a promotora, sem mandado
judicial, buscara fossem-lhe entregues documentos. O denunciado, ocupando à época o
cargo de Secretário do Meio Ambiente do Distrito Federal, simplesmente reagira, como
lhe cumpria fazer, não deixando que processos e documentos daquela Secretaria fossem
alvo de violação ou mesmo extravio. Ademais, o integrante do Ministério Público
deveria dirigir-se ao Judiciário para obtê-los. Teria o acusado disponibilizado os
processos para obtenção de cópias, o que não foi aceito, sentindo-se a promotora
ofendida, passando a atacá-lo por meio da imprensa, conforme peça anexada. Na
438 R.T.J. — 197

publicação referida na inicial, não há, consoante as razões expendidas, declarações


ofensivas, mas apenas a revelação dos acontecimentos. A documentação trazida à
colação concerniria às obras da Ponte JK, nada tendo a ligá-la aos fatos que estariam a
consubstanciar a difamação. São evocados precedentes e doutrina.
À folha 114, ante a juntada de documento à resposta, abri vista ao Procurador-
Geral da República. Então, veio a manifestação do Procurador-Geral da República, Dr.
Claudio Fonteles, segundo a qual os documentos juntados pelo denunciado não se
contrapõem à peça inicial, deixando de revelar elo com as afirmações, veiculadas no
Jornal de Brasília de 8 de maio de 2004, ofensivas à vítima.
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Marco Aurélio (Relator): A atuação pública faz-se, é certo, presen-
tes certas balizas, descabendo a perda da urbanidade. Por vezes, surgem ópticas antagô-
nicas, e aí a recusa em proceder-se desta ou daquela forma não pode gerar, por si só, a
conclusão sobre a prática de crime contra a honra de quem quer que seja. É sabença
geral que o Ministério Público, em defesa da própria sociedade, vem atuando com
desassombro, especialmente na área da preservação do meio ambiente. Por vezes,
alguns enfoques extravasam o campo simplesmente administrativo para ganhar as
páginas de periódicos, não se mostrando incomum que a matéria extravasada seja alvo
de exacerbação. Há de se buscar sempre a compreensão.
Ora, conforme dados anexados à defesa, idas e vindas ocorreram nas obras da via
expressa referente à Ponte JK. A seqüência de tal via somente se tornou possível
quando o conflito chegou ao Superior Tribunal de Justiça, que autorizou a continui-
dade das obras. Então, constata-se que a atividade desenvolvida pelo Ministério
Público fez-se no sentido de cobrar certa postura do então Secretário de Meio
Ambiente. Vieram à balha as expressões tomadas como ofensivas, tendo em conta a
busca de elementos pelo Ministério Público. Todavia, tais expressões fizeram-se no
âmbito da razoabilidade, senão vejamos cada qual, presentes os grifos contidos na
inicial:
“Secretário acusa promotora de abuso”. O que assacado há de ser considerado no
contexto. Tudo teria resultado da tentativa de se lograr a retirada de certo processo do
setor competente;
“O Secretário reclama que o ofício pediu ‘algo ilegal’ já que o processo está
subjudice”. Mais uma vez, nota-se o desempenho de atividade própria à Secretaria. O
fato de se enquadrar postulação como a revelar ilegalidade não pode ser potencializado
a ponto de se chegar à conclusão sobre a difamação.
“(...) ela não pode fazer isso, criando uma série de coações para conseguir o
processo e através de um ofício altamente intimidador (...)”. Também aqui tem-se
insurgimento relativo a pleito do Ministério Público que se circunscreve ao âmbito do
exercício da própria cidadania, resistindo-se ao que pretendido.
“Foi uma ação isolada dela (...) O Secretário de Meio Ambiente Jorge Pinheiro diz
que a promotora Kátia Christina Lemos agiu como um ‘oficial de justiça’(...)”. Onde a
R.T.J. — 197 439

existência de expressões capazes de ser tomadas como difamatórias? Tem-se a aprecia-


ção de ato, lançando-se, no campo da retórica, paralelo com atividade que seria própria
do oficial de justiça, munido, este último, de ordem judicial.
“O Secretário de Meio Ambiente frisou ao Jornal de Brasília que ‘considera ser
uma ação isolada dela (promotora), não se estendendo aos outros membros do Ministé-
rio Público’, diz. ‘O que ela fez é ilegal’, completa (...)”. O que consignado anteriormente
serve ao enquadramento da frase.
Deve-se observar que a tomada de ato de terceiro como ilegal — gênero — não beira
as raias do crime contra a honra. As pessoas que atuam como agentes públicos hão de se
acostumar com a liberdade de expressão, não potencializando suscetibilidades que não
podem sequer ser admitidas, considerado o campo privado. O que se observa é que, com
o tempo, visões exacerbadas sofrem o temperamento da couraça criada e da percepção das
circunstâncias do momento vivido, dando-se ao que veiculado a cabível temperança. O
importante é que cada qual haja na respectiva área de atuação com desassombro, afastan-
do-se crivos que possam de alguma forma ressoar como intimidadores.
Não tenho como alcançado o perfil da atuante promotora Kátia Christina Lemos,
razão pela qual excluo a possibilidade de ter como configurado o tipo difamação.
Rejeito a denúncia.

EXTRATO DA ATA
Inq 2.154/DF — Relator: Ministro Marco Aurélio. Autor: Ministério Público
Federal. Indiciado: Jorge dos Reis Pinheiro ou Pastor Jorge (Advogados: Erik Franklin
Bezerra e outros).
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, rejeitou a denúncia, nos termos do voto
do Relator. Ausente, justificadamente, o Ministro Celso de Mello. Presidiu o julgamen-
to o Ministro Nelson Jobim.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes, Cezar Peluso,
Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da República, Dr. Cláudio
Lemos Fonteles.
Brasília, 17 de dezembro de 2004 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

INQUÉRITO 2.170 — DF

Relator: O Sr. Ministro Carlos Britto


Autor: Ministério Público Federal — Indiciado: Carlos Eduardo Torres Gomes
Inquérito. Deputado Federal. Omissão de gastos na prestação de
contas de campanha. Denúncia. Recebimento. Proposta, aceita, de sus-
pensão condicional do processo. Homologação.
440 R.T.J. — 197

É de ser recebida a denúncia quando atendidos os requisitos do art.


41 do Código de Processo Penal. Contudo, em face da concordância do
denunciado com as condições propostas pelo Ministério Público para a
suspensão do processo, defere-se a sustação do feito, nos termos em que se
deu a transação.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, por seu Tribunal Pleno, sob a Presidência do Ministro Nelson Jobim,
na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de
votos, sustar o feito, nos termos do voto do Relator.
Brasília, 30 de junho de 2005 — Carlos Ayres Britto, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto: Cuida-se de denúncia contra o Deputado
Federal Carlos Eduardo Torres Gomes, na qual se lhe imputa a prática do crime descrito
no caput do artigo 350 da Lei n. 4.737/65, in verbis:
“Art. 350. Omitir em documento público ou particular, declaração que dele
devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que
devia ser escrita, para fins eleitorais:
Pena - reclusão até cinco anos e pagamento de 5 a 15 dias-multa, se o
documento é público, e reclusão até três anos e pagamento de 3 a 10 dias-multa,
se o documento é particular”.
2. De início, anoto que faz parte da inicial acusatória a seguinte descrição dos
fatos:
“Conforme consta na inclusa notícia criminal (fls. 01/03) o denunciado, no
dia 05 de novembro de 2002 (fls. 47), omitiu, livre e voluntariamente, em docu-
mento particular (prestação de contas), para fins eleitorais (documento apresenta-
do ao Tribunal Regional Eleitoral do Estado de Tocantins), os seguintes gastos
efetuados na campanha eleitoral realizada para o cargo de Deputado Federal no
ano de 2002, hoje ocupado pelo mesmo, que nele deveriam constar, conforme
bem explicita o artigo 33 da Lei 9.096/95:
a) o valor de R$ 31.249,00 (trinta e um mil duzentos e quarenta e nove reais)
efetuado com camisetas e adesivos confeccionados pela empresa Girassol Indústria
e Comércio de Confecções e Representações Ltda., conforme demonstra as propos-
tas de serviços e a autorização juntada a fls. 04/15, constatando-se que o valor
declarado na prestação de contas foi de R$ 22.000,00 (vinte e dois mil reais) fls. 54;
b) o valor de R$ 224.400,00 (duzentos e vinte e quatro mil e quatrocentos
reais) gastos em sua estrutura de campanha em Araguaína - TO, conforme planilha
a fls. 16/18, produzida pelo Partido da Social Democracia Brasileira. Verifica-se
R.T.J. — 197 441

que o valor declarado na prestação de contas foi de R$ 182.569,83 (cento e oitenta


e dois mil, quinhentos e sessenta e nove reais e oitenta e três centavos) (fls. 54);
c) o valor de R$ 10.760,00 (dez mil e setecentos e sessenta reais) efetuado
com camisetas “silkadas” pela empresa Girassol Indústria em Comércio e Confec-
ções e Representações Ltda. (fls. 19/25);
d) os gastos que foram realizados em conjunto com a candidata a Deputada
Estadual Leonilda Barros, constantes da planilha de despesas assinada pelos dois
candidatos (fls. 29);
e) o valor de 28.258,00 (vinte e oito mil duzentos e cinqüenta e oito reais)
relativos a confecções de painéis e banners confeccionados pela empresa VOX
Publicidade Ltda., além de caracterização de veículos, constante da relação
apresentada pelo diretor da empresa, Carlúcio Carvalho (fls. 27), além do valor de
24.010,65 (vinte e quatro mil e dez reais e sessenta e cinco centavos) de serviços
executados durante a campanha eleitoral (fls. 26 e fls. 28).”
3. Diante de tais acusações, e tendo em vista que a pena mínima do crime
imputado ao denunciado é igual a um ano de reclusão, o presentante do Parquet
federal requereu fosse providenciada a respectiva folha de antecedentes criminais, com
o objetivo de verificar a possibilidade de suspensão condicional do processo (art. 89 da
Lei 9.099/95).
4. Na seqüência, o acusado alega, em resposta prévia, que a denúncia não merece
acolhimento. É que sua prestação de contas foi aprovada pela unanimidade dos mem-
bros do Tribunal Regional Eleitoral do Tocantins, já havendo transitado em julgado.
Ademais, argumenta que já estava eleito quando da apreciação das referidas contas,
motivo pelo qual não se configurou o elemento subjetivo “finalidade eleitoral”,
exigido pelo tipo do art. 350. Por fim, sustenta que os documentos trazidos aos autos
não são aptos a provar a caracterização do crime. Termos em que pediu o arquivamento
da peça acusatória.
5. Prossigo neste relato, para consignar que, diante da inexistência de anteceden-
tes criminais (fls. 159/175), o Procurador-Geral da República ofereceu proposta de
suspensão condicional do processo, mediante o cumprimento das condições seguintes:
“(...)
a) seu comparecimento pessoal, trimestral, durante 2 (dois) anos, em escolas
da rede pública de ensino do Estado do Tocantins, para testemunhar aos jovens
estudantes, proferindo palestras sobre o sistema democrático e o processo elei-
toral, devendo comprovar a realização das referidas palestras perante o Juízo da
Execução competente.
b) depósito na quantia de R$1.000,00 (mil reais) em benefício do programa
Fome Zero (Banco do Brasil, agência 1.607-1, conta corrente 100.2003-9).”
6. Finalmente, intimado a se manifestar, o denunciado declarou sua concordância
com a proposta oferecida (fl. 195).
É o relatório.
442 R.T.J. — 197

VOTO
O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto (Relator): 8. Como sabido, o recebimento da
denúncia constitui mero juízo de admissibilidade, não havendo espaço para se enfrentar
o mérito do pedido inserto na inicial acusatória. Pelo que passo a analisar os requisitos
para o recebimento da peça denunciativa. E, ao fazê-lo, anoto que a conduta narrada se
amolda, em tese, ao delito imputado, estando descritos os elementos configuradores da
suposta prática do ilícito penal. Além do mais, não se faz presente a manifesta atipicidade
da conduta que se increpa ao agente sob o torniquete da persecução penal.
9. Daqui se deduz que foram atendidos os requisitos exigidos pelo artigo 41 do
Código de Processo Penal, não se constatando, in casu, nenhuma das hipóteses de
rejeição a que se refere o art. 43 do mesmo diploma legal.
10. Recebo a denúncia, portanto. Contudo, em face da concordância do denunci-
ado com as condições propostas pelo Ministério Público para a suspensão do processo,
defiro a sustação do feito, nos termos em que se deu a transação.
11. É como voto.

EXTRATO DA ATA
Inq 2.170/DF — Relator: Ministro Carlos Britto. Autor: Ministério Público Federal.
Indiciado: Carlos Eduardo Torres Gomes (Advogado: Edson Domingues Martins).
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, sustou o feito, nos termos do voto do
Relator. Ausentes, justificadamente, o Ministro Carlos Velloso e, neste julgamento, o
Ministro Celso de Mello. Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes, Cezar Peluso,
Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Subprocurador-Geral da República, Dr.
Haroldo Ferraz da Nóbrega.
Brasília, 30 de junho de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 2.514 — SC

Relator: O Sr. Ministro Eros Grau


Requerente: Procurador-Geral da República — Requerida: Assembléia Legisla-
tiva do Estado de Santa Catarina
Ação direta de inconstitucionalidade. Lei n. 11.366/2000, do Estado
de Santa Catarina. Ato normativo que autoriza e regulamenta a criação e a
exposição de aves de raça e a realização de “brigas de galo”.
A sujeição da vida animal a experiências de crueldade não é compa-
tível com a Constituição do Brasil. Precedentes da Corte.
Pedido de declaração de inconstitucionalidade julgado procedente.
R.T.J. — 197 443

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, sob a Presidência da Ministra Ellen Gracie, na
conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos,
julgar procedente a ação direta, nos termos do voto do Relator.
Brasília, 29 de junho de 2005 — Eros Grau, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Eros Grau: O Procurador-Geral da República propõe ação direta,
com pedido de medida cautelar, na qual questiona a constitucionalidade da Lei n.
11.366/2000, do Estado de Santa Catarina, que tem o seguinte teor:
“Art. 1º Fica normatizada a criação, a exposição e a realização de competi-
ções entre aves das raças combatentes “Galus-Galus”, nos termos da presente Lei.
Art. 2º As atividades esportivas do galismo inerentes à preservação de aves
de raças combatentes, serão realizadas em recintos e/ou locais próprios nas sedes
das entidades denominadas “rinhadeiros”.
Art. 3º A autorização para realização das competições, será outorgada por
órgão do poder público estadual, mediante o recolhimento de taxa.
Art. 4º Os locais onde serão realizados os eventos, deverão ser vistoriados
anualmente pela autoridade competente para que possa ser fornecido o alvará,
como medida de segurança e proteção dos freqüentadores.
Art. 5º Um médico veterinário e/ou um assistente capacitado, atestará antes
das competições, o estado de saúde das aves que participarão do evento.
Art. 6º Fica proibida a prática desta atividade em locais próximos a Igrejas,
Escolas e Hospitais, devendo ser respeitada a distância mínima de oitenta metros
para preservar o silêncio, a ordem e o sossego público.
Art. 7º Nos locais onde se realizam as competições, é vedado o ingresso ou
permanência de menores de dezesseis anos, a não ser quando acompanhados dos
pais ou responsáveis diretos.
Art. 8º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 9º Revogam-se as disposições em contrário.”
2. O requerente sustenta que a lei hostilizada afronta o artigo 225, § 1º, inciso
VII1, da Constituição do Brasil, já que possibilita a prática de competição que submete
os animais a crueldade, ao contrário de buscar proteger a fauna como medida hábil a
tornar efetivo o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e observar a

1 Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do
povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de
defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações.
444 R.T.J. — 197

expressa vedação, na forma da lei, de atos que submetam os animais a tratamento


impiedoso.
3. A Assembléia Legislativa aduz que “vive arraigado na cultura popular o
tradicional combate entre galos da espécie criada unicamente para esse fim”. Acrescen-
ta que as aves “detém carga cromossômica orientada para a luta”, e que “não se prestam
ao abate para consumo humano”. Alega que não há que se “falar em crueldade quando
lutam entre si. O esforço físico a que se submetem é igual ao imposto aos cavalos puro
sangue inglês de corrida” [fls. 125/129].
4. Em face da relevância da matéria, o Ministro Nelson Jobim, Relator à época,
determinou, na forma do artigo 12 da Lei n. 9.868/99, a oitiva do Advogado-Geral da
União e do Procurador-Geral da República [fl. 136].
5. O Advogado-Geral da União, invocando precedentes desta Corte, manifesta-se
pela procedência do pleito.
6. O Procurador-Geral da República, ratificando os termos da inicial, opina pela
procedência do pedido de declaração de inconstitucionalidade.
É o relatório, do qual deverão ser extraídas cópias para envio aos Senhores
Ministros [RISTF, artigo 172].

VOTO
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Trata-se de ação direta na qual se pleiteia a
declaração de inconstitucionalidade da Lei n. 11.366/2000, do Estado de Santa Catarina,
que autoriza e regulamenta a criação, a exposição e a realização de “brigas de galo”.
2. O pedido merece acolhimento.
3. Com efeito, ao autorizar a odiosa competição entre galos, o legislador estadual
ignorou o comando contido no inciso VII do § 1º do artigo 225 da Constituição do
Brasil, que expressamente veda práticas que submetam os animais à crueldade.
4. Em situações análogas, este Tribunal afirmou a preservação da fauna como fim
a ser prestigiado, banindo a sujeição da vida animal a experiências de crueldade. Nesse
sentido:
“Constitucional. Meio-ambiente. Animais: proteção: crueldade. “Briga
de galos”. I - A Lei 2.895, de 20-3-98, do Estado do Rio de Janeiro, ao autorizar e
disciplinar a realização de competições entre “galos combatentes”, autoriza e
disciplina a submissão desses animais a tratamento cruel, o que a Constituição
Federal não permite: CF, art. 225, § 1º, VII. II - Cautelar deferida, suspendendo-se
a eficácia da Lei 2.895, de 20-3-98, do Estado do Rio de Janeiro.”
[ADI n. 1.856/MC, Relator o Ministro Carlos Velloso, DJ de 22-9-2000]

§ 1º Para assegurar a efetividade desse direito, incumbe ao Poder Público:


(...)
VII - proteger a fauna e a flora, vedadas, na forma da lei, as práticas que coloquem em risco sua
função ecológica, provoquem a extinção de espécies ou submetam os animais a crueldade.
R.T.J. — 197 445

5. Outro precedente deve ser citado. Refiro-me ao RE n. 153.5311, no qual se


discutiu a polêmica “farra do boi”, oriundo do mesmo Estado de Santa Catarina. O
Ministro Marco Aurélio, Relator para o acórdão, ressaltou que:
“[...] é justamente a crueldade o que constatamos ano a ano, ao acontecer o
que se aponta como folguedo sazonal. A manifestação cultural deve ser estimula-
da, mas não a prática cruel. Admitida a chamada “farra do boi”, em que uma turba
ensandecida vai atrás do animal para procedimentos que estarrecem, como vimos,
não há poder de polícia que consiga coibir esse procedimento. Não vejo como
chegar-se à posição intermediária. A distorção alcançou tal ponto que somente
uma medida que obstaculize terminantemente a prática pode evitar o que verifi-
camos neste ano de 1997. O Jornal da Globo mostrou um animal ensangüentado
e cortado invadindo uma residência e provocando ferimento em quem se encon-
trava no interior.
Entendo que a prática chegou a um ponto a atrair, realmente, a incidência do
disposto no inciso VII do artigo 225 da Constituição Federal. Não se trata, no caso,
de uma manifestação cultural que mereça o agasalho da Carta da República. Como
disse no início de meu voto, cuida-se de uma prática cuja crueldade é ímpar e
decorre das circunstâncias de pessoas envolvidas por paixões condenáveis busca-
rem, a todo custo, o próprio sacrifício do animal.”
6. Os mesmos argumentos constantes desse precedente bastam para elidir as
alegações da Assembléia Legislativa catarinense.
Ante o exposto, julgo procedente o pedido formulado nesta ação direta e declaro
a inconstitucionalidade da Lei n. 11.366/00, do Estado de Santa Catarina.

EXTRATO DA ATA
ADI 2.514/SC — Relator: Ministro Eros Grau. Requerente: Procurador-Geral da
República. Requerida: Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina.
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, julgou procedente a ação direta, nos
termos do voto do Relator. Votou a Presidente. Ausentes, justificadamente, o Ministro
Nelson Jobim (Presidente) e, neste julgamento, os Ministros Carlos Velloso e Marco
Aurélio. Presidiu o julgamento a Ministra Ellen Gracie (Vice-Presidente).
Presidência da Ministra Ellen Gracie (Vice-Presidente). Presentes à sessão os
Ministros Sepúlveda Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Gilmar
Mendes, Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Subprocurador-
Geral da República, Dr. Haroldo Ferraz da Nóbrega.
Brasília, 29 de junho de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

1 DJ de 13-3-1998.
446 R.T.J. — 197

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 2.836 — RJ

Relator: O Sr. Ministro Eros Grau


Requerente: Partido Social Liberal – PSL — Requeridas: Governadora do Estado
do Rio de Janeiro e Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro — Interessada:
Associação Nacional dos Membros do Ministério Público – CONAMP
Ação direta de inconstitucionalidade. Lei Complementar n. 106/03.
Lei Orgânica do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Artigo
9º, § 1º, alínea c, e artigo 165. Desincompatibilização dos candidatos ao
cargo de Procurador-Geral de Justiça.
1. O artigo 9º da lei exige a desincompatibilização dos candidatos
ao cargo de Procurador-Geral de Justiça que estejam ocupando qual-
quer outro cargo ou função de confiança.
2. A argumentação do requerente de que o aludido preceito permi-
tiria o exercício de cargos e funções não-afetos à área de atuação do
Ministério Público não merece acolhida.
3. O artigo 165 da Lei Orgânica do MP do Estado do Rio de Janeiro
é mera reprodução do artigo 29, § 3º, do ADCT da Constituição do
Brasil. Aos integrantes do Parquet admitidos antes da CB/88 aplicam-se
as vedações do texto constitucional.
4. Pedido de declaração de inconstitucionalidade julgado improce-
dente.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo Tribu-
nal Federal, em Sessão Plenária, sob a Presidência do Ministro Nelson Jobim, na conformi-
dade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de votos, julgar
improcedente a ação, nos termos do voto do Relator.
Brasília, 17 de novembro de 2005 — Eros Grau, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Eros Grau: O Partido Social Liberal – PSL propõe ação direta, com
pedido de medida cautelar, na qual questiona a constitucionalidade da alínea c do § 1º do
artigo 9º e do artigo 165 da Lei Orgânica do Ministério Público do Estado do Rio de
Janeiro — Lei Complementar n. 106/03.
2. Os preceitos impugnados têm o seguinte teor:
“Art. 9º São inelegíveis para o cargo de Procurador-Geral de Justiça os Procura-
dores de Justiça e os Promotores de Justiça que:
(...)
R.T.J. — 197 447

§ 1º É obrigatória a desincompatibilização, mediante afastamento, pelo menos


60 (sessenta) dias antes da data da eleição, para os que, estando na carreira:
a) ocuparem cargo eletivo nos órgãos de administração do Ministério Público;
b) ocuparem cargo na Administração Superior do Ministério Público;
c) ocuparem qualquer outro cargo ou função de confiança.
Art. 165. Aos membros do Ministério Público, admitidos anteriormente à
promulgação da Constituição da República de 1988, fica assegurado o que dispõe o
§ 3.º do artigo 29 do respectivo Ato das Disposições Constitucionais Transitórias.”
3. O requerente sustenta que o artigo 9º, § 1º, alínea c, da Lei Complementar n.
106/03 viola o disposto no artigo 128, § 5º, inciso II, alínea d1, da Constituição do
Brasil, já que contempla a hipótese de exercício, por membro do Ministério Público
estadual, de cargo ou função de confiança fora da instituição. Quanto ao artigo 165 da
mesma lei, afirma que a opção facultada pelo § 3º do artigo 29 do ADCT2 só poderia
ocorrer até 14 de fevereiro de 1993, data anterior à promulgação da Lei Orgânica
Nacional do Ministério Público — Lei n. 8.625/93.
4. A Assembléia Legislativa afirma que “é possível concluir que, havendo autori-
zação de cada Conselho Superior do Ministério Público, pode o membro do Parquet
ocupar cargo em comissão em órgão ou entidade afeta à área de atuação do Ministério
Público” e que o artigo 165 da lei “é correlato com as disposições contidas no art. 75 da
Lei Federal n. 8.625/933” [fls. 57/64].

1 Art. 128. O Ministério Público abrange:


(...)
§ 5º Leis complementares da União e dos Estados, cuja iniciativa é facultada aos respectivos
Procuradores-Gerais, estabelecerão a organização, as atribuições e o estatuto de cada Ministério
Público, observadas, relativamente a seus membros:
(...)
II - as seguintes vedações:
(...)
d) exercer, ainda que em disponibilidade, qualquer outra função pública, salvo uma de magistério;
2 Art. 29. Enquanto não aprovadas as leis complementares relativas ao Ministério Público e à
Advocacia-Geral da União, o Ministério Público Federal, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional,
as Consultorias Jurídicas dos Ministérios, as Procuradorias e Departamentos Jurídicos de autarquias
federais com representação própria e os membros das Procuradorias das Universidades fundacionais
públicas continuarão a exercer suas atividades na área das respectivas atribuições.
(...)
§ 3º Poderá optar pelo regime anterior, no que respeita às garantias e vantagens, o membro do
Ministério Público admitido antes da promulgação da Constituição, observando-se, quanto às
vedações, a situação jurídica na data desta.
3 Art. 75. Compete ao Procurador-Geral de Justiça, ouvido o Conselho Superior do Ministério
Público, autorizar o afastamento da carreira de membro do Ministério Público que tenha exercido a
opção de que trata o art. 29, § 3º, do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, para exercer o
cargo, emprego ou função de nível equivalente ou maior na Administração Direta ou Indireta.
448 R.T.J. — 197

5. A Governadora do Estado do Rio de Janeiro entende que o disposto na alínea c


do § 1º do artigo 9º da LC n. 106/93 permite, como o faz o artigo 10, inciso IX, alínea
c, da Lei n. 8.625/934, a participação de membros do Ministério Público em organismos
estatais afetos à sua área de atuação. Destaca que o artigo 165 da lei limita-se a fazer
remissão ao art. 29, § 3º, do ADCT [fls. 112/117].
6. Determinei, nos termos da decisão de fl. 127, fosse aplicada ao caso a regra do
artigo 12 da Lei n. 9.868/99.
7. O Advogado-Geral da União manifesta-se pela improcedência do pleito, ressal-
tando que o artigo 9º, § 1º, alínea c, da Lei Complementar carioca não autoriza o livre
exercício de outros cargos ou funções, limitando-se a fixar regra pertinente à concor-
rência ao cargo de Procurador-Geral; e que o artigo 165 da mesma lei em nada afronta o
art. 29, § 3º, do ADCT [fls. 129/136].
8. O Procurador-Geral da República opina pela improcedência do pedido de
declaração de inconstitucionalidade, sustentando que o primeiro preceito atacado não
permite “que o membro do Ministério Público exerça qualquer outro cargo ou função
de confiança no âmbito da Administração Pública”, e que, para os membros dos
Ministérios Públicos estaduais, a opção prevista no artigo 29, § 3º, do ADCT pode ser
feita a qualquer tempo, uma vez que nem a Constituição do Brasil nem a Lei Orgânica
Nacional do Ministério Público fixam qualquer prazo [fls. 139/147].
É o relatório, do qual deverão ser extraídas cópias para envio aos Senhores
Ministros [RISTF, artigo 172].

VOTO
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Trata-se de ação direta na qual é objetivada a
declaração de inconstitucionalidade de preceitos contidos na Lei Orgânica do Minis-
tério Público do Estado do Rio de Janeiro.
2. O primeiro preceito atacado é o seguinte:
“Art. 9º São inelegíveis para o cargo de Procurador-Geral de Justiça os
Procuradores de Justiça e os Promotores de Justiça que:
(...)
§ 1º É obrigatória a desincompatibilização, mediante afastamento, pelo
menos 60 (sessenta) dias antes da data da eleição, para os que, estando na carreira:
(...)
c) ocuparem qualquer outro cargo ou função de confiança”.

4 Art. 10. Compete ao Procurador-Geral de Justiça:


(...)
IX - designar membros do Ministério Público para:
(...)
c) integrar organismos estatais afetos a sua área de atuação;
R.T.J. — 197 449

3. O requerente afirma que essa disposição permite que membros do Ministério


Público exerçam cargos ou funções de confiança, o que é vedado pelo artigo 128,
inciso II, alínea d.
4. Sobre essa afirmação, ponderou o Procurador-Geral da República [fl. 145]:
“Como se pode perceber, o dispositivo normativo atacado não permite, como
afirma o requerente, que o membro do Ministério Público exerça qualquer outro
cargo ou função de confiança no âmbito da Administração Pública, como as [de]
Secretário de Estado. A norma prescreve que, para os casos em que os membros do
Ministério Público estejam ocupando qualquer outro cargo ou função de confiança
e desejem se eleger ao cargo de Procurador-Geral de Justiça, é obrigatória a
desincompatibilização, mediante afastamento, pelo menos sessenta dias antes da
data da eleição. Essa norma é aplicável àqueles membros que já ocupem cargo ou
função de confiança, no caso, aqueles que estão ocupando cargos ou funções de
confiança na administração do próprio Ministério Público e em seus órgãos auxili-
ares ou em órgãos estatais afetos à área de atuação da Instituição”.
5. Com razão o Procurador-Geral. O preceito atacado não está a permitir o
exercício de outros cargos ou funções de confiança, mas apenas determina que aqueles
que ocupem esses cargos e que desejem concorrer à eleição de Procurador-Geral de
Justiça deles se afastem, pelo menos 60 (sessenta) dias antes do pleito.
6. E ainda como apontado pelo Chefe do Ministério Público Federal, o artigo 119
da Lei Complementar carioca repete a vedação constitucional:
“Art. 119. Aos membros do Ministério Público se aplicam as seguintes vedações:
(...)
IV - exercer, ainda que em disponibilidade, qualquer outra função pública,
salvo uma de magistério;
(...)
Parágrafo único. Constituem funções do Ministério Público, não se lhes
aplicando o inciso IV deste artigo, as atividades exercidas em organismos estatais
afetos a área de atuação da Instituição e o exercício de cargos e funções de
confiança na sua administração e nos órgãos auxiliares”.
7. Também é questionada a constitucionalidade do artigo 165 da mesma Lei
Complementar, segundo o qual:
“Art. 165. Aos membros do Ministério Público admitidos anteriormente à
promulgação da Constituição da República de 1988, fica assegurado o que dispõe
o § 3º do art. 29 do respectivo Ato das Disposições Constitucionais Transitórias”.
8. O requerente afirma que esse artigo é inconstitucional, porque permite que
membros do Ministério Público exerçam cargo ou função de confiança em organismos
estatais fora do âmbito da própria instituição, sem que o membro do Ministério Público
do Estado do Rio de Janeiro, admitido antes de 5-10-1988 (vigência da CF/88), tenha
exercido a opção pelo regime anterior até 14-2-1993 (data anterior à publicação da
LONMP), já que, no seu entendimento, após essa data, o artigo 29 do ADCT teria
perdido eficácia. Transcrevo, por sua relevância, o citado preceito transitório:
.
450 R.T.J. — 197

“Art. 29. Enquanto não aprovadas as leis complementares relativas ao


Ministério Público e à Advocacia-Geral da União, o Ministério Público Federal, a
Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, as Consultorias Jurídicas dos Ministéri-
os, as Procuradorias e Departamentos Jurídicos de autarquias federais com repre-
sentação própria e os membros das Procuradorias das Universidades fundacionais
públicas continuarão a exercer suas atividades na área das respectivas atribui-
ções.
(...)
§ 3º Poderá optar pelo regime anterior, no que respeita às garantias e vantagens,
o membro do Ministério Público admitido antes da promulgação da Constituição,
observando-se, quanto às vedações, a situação jurídica na data desta.”
9. Anota José Afonso da Silva1:
“O § 3º procura resolver situação regida pela ordem constitucional anterior e a
ordem nova, dando ao membro do Ministério Público admitido antes da promulga-
ção da Constituição a oportunidade de optar pelo regime anterior, quando às
garantias e vantagens — o que, na verdade, envolvia a opção pela possibilidade de
exercício ou não de atividades políticas, que a Constituição vedou”.
10. No julgamento da ADI n. 2.0842, ficou firmado, mediante interpretação
conforme à Constituição, que os membros do Ministério Público só podem exercer
cargo ou função de confiança na Administração Superior da própria instituição, enten-
dimento reiterado no julgamento da ADI n. 2.5343.
11. E isso se justifica porque o § 3º do artigo 29 do ADCT4 estatui que, quanto às
vedações, observar-se-á a situação jurídica na data da promulgação da Constituição —
“data desta”. Assim, mesmo aos integrantes do Parquet admitidos antes de 5 de outubro
de 1988 aplicam-se as vedações inseridas no novo texto constitucional, ou seja, o texto
da ordem constitucional vigente.

1 SILVA, José Afonso da. Comentário Contextual à Constituição. Malheiros: São Paulo, 2005. p. 912.
2 ADI n. 2.084, Relator o Ministro Ilmar Galvão, DJ de 14-9-2001.
3 ADI n. 2.534/MC, Relator o Ministro Maurício Corrêa, DJ de 13-6-2003.
4 Art. 29. Enquanto não aprovadas as leis complementares relativas ao Ministério Público e à
Advocacia-Geral da União, o Ministério Público Federal, a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional,
as Consultorias Jurídicas dos Ministérios, as Procuradorias e Departamentos Jurídicos de autarquias
federais com representação própria e os membros das Procuradorias das Universidades fundacionais
públicas continuarão a exercer suas atividades na área das respectivas atribuições.
(...)
§ 3º Poderá optar pelo regime anterior, no que respeita às garantias e vantagens, o membro do
Ministério Público admitido antes da promulgação da Constituição, observando-se, quanto às
vedações, a situação jurídica na data desta.
R.T.J. — 197 451

12. Inexiste, contudo, qualquer disposição concernente ao prazo em que a opção


deve ser feita, circunstância que leva a crer que, enquanto estiver na atividade, o
membro do Ministério Público estadual admitido antes da promulgação da Constitui-
ção de 1988, pode optar pelo regime anterior. O Procurador-Geral da República mani-
festou-se nesse sentido [fl. 146]:
“Quanto ao art. 165 da Lei Complementar n. 106, de 3 de janeiro de 2003,
do Estado do Rio de Janeiro, não se pode vislumbrar qualquer inconstitucionali-
dade, visto que apenas reproduz o disposto no art. 29, § 3º, do Ato das Disposições
Constitucionais Transitórias da Constituição de 1988. Ademais, para o Ministé-
rio Público dos Estados, não se aplica a norma do parágrafo único do artigo 281
da LC n. 75/935, válida somente para o Ministério Público da União. No âmbito
dos Estados, a opção prevista no art. 29, § 3º, do ADCT pode ser feita a qualquer
tempo, pois nem a Constituição da República nem a Lei Orgânica Nacional do
Ministério Público,que estabelece normas gerais para a organização do Ministé-
rio Público dos Estados (Lei n. 8.625, de 12 de fevereiro de 1993), fixam qualquer
prazo”.
Ante o exposto, julgo improcedente o pedido formulado nesta ação direta.

EXTRATO DA ATA
ADI 2.836/RJ — Relator: Ministro Eros Grau. Requerente: Partido Social Liberal –
PSL (Advogado: Wladimir Sérgio Reale). Requeridas: Governadora do Estado do Rio
de Janeiro e Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Interessada: Associa-
ção Nacional dos Membros do Ministério Público – CONAMP (Advogado: Aristides
Junqueira Alvarenga).
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, julgou improcedente a ação, nos termos
do voto do Relator. Votou o Presidente, Ministro Nelson Jobim. Falaram, pelo reque-
rente, o Dr. Wladimir Sérgio Reale e, pelo Ministério Público Federal, o Dr. Roberto
Monteiro Gurgel Santos, Vice-Procurador-Geral da República.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes,
Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Vice-Procurador-Geral da
República, Dr. Roberto Monteiro Gurgel Santos.
Brasília, 17 de novembro de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

5 Art. 281. Os membros do Ministério Público da União, nomeados antes de 5 de outubro de 1988,
poderão optar entre o novo regime jurídico e o anterior à promulgação da Constituição Federal, quanto
às garantias, vantagens e vedações do cargo.
Parágrafo único. A opção poderá ser exercida dentro de dois anos, contados da promulgação desta
lei complementar, podendo a retratação ser feita no prazo de dez anos.
452 R.T.J. — 197

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 2.938 — MG

Relator: O Sr. Ministro Eros Grau


Requerente: Procurador-Geral da República — Requeridos: Governador do Estado
de Minas Gerais e Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais
Ação direta de inconstitucionalidade. Lei n. 13.454/2000 do Estado
de Minas Gerais. Juiz de Paz. Eleição e investidura. Simultaneidade com
as eleições municipais. Princípio majoritário. Previsão no art. 117 da
Constituição do Estado de Minas Gerais. Ausência de impugnação.
Inviabilidade da ação direta.
1. A viabilidade da ação direta reclama a impugnação conjunta dos
preceitos que tratam da matéria, sob pena de inocuidade da própria
declaração de inconstitucionalidade.
2. A ausência de impugnação do teor de preceitos constitucionais
repetidos na lei impugnada impede o conhecimento da ação direta.
Precedentes [ADI n. 2.132/MC, Relator o Ministro Moreira Alves, DJ de
5-4-2002; ADI n. 2.242, Relator o Ministro Moreira Alves, DJ de 19-12-
2001 e ADI n. 2.215, Relator o Ministro Celso de Mello, DJ de 26-4-2001].
Juiz de Paz. Eleição e investidura. Aplicação subsidiária do Código
Eleitoral e da legislação federal específica. Inconstitucionalidade. Norma
cogente.
3. Não há falar-se, no que tange à legislação atinente à criação da
Justiça de Paz, em aplicação subsidiária do Código Eleitoral [Lei n.
4.737/65], bem como da legislação federal específica, de observância
obrigatória em todo o território nacional.
Juiz de Paz. Eleição e investidura. Filiação partidária. Obrigatorie-
dade. Procedimentos necessários à realização das eleições. Constitucio-
nalidade. Art. 14, § 3º, e 98, II, da CB/88. Competência federal.
4. A obrigatoriedade de filiação partidária para os candidatos a
Juiz de Paz [art. 14, § 3º, da CB/88] decorre do sistema eleitoral constitu-
cionalmente definido.
5. Lei estadual que disciplina os procedimentos necessários à reali-
zação das eleições para implementação da Justiça de Paz [art. 98, II, da
CB/88] não invade, em ofensa ao princípio federativo, a competência da
União para legislar sobre Direito Eleitoral [art. 22, I, da CB/88].
Juiz de Paz. Eleição e investidura. Fixação de condições de elegibi-
lidade para concorrer às eleições. Inconstitucionalidade. Competência da
União. Art. 14 e art. 22, I, da CB/88.
6. A fixação por lei estadual de condições de elegibilidade em
relação aos candidatos a Juiz de Paz, além das constitucionalmente
previstas no art. 14, § 3º, invade a competência da União para legislar
sobre Direito Eleitoral, definida no art. 22, I, da Constituição do Brasil.
R.T.J. — 197 453

Juiz de Paz. Competências funcionais. Arrecadar bens de ausentes


ou vagos. Funcionar como perito. Nomear escrivão ad hoc. Constituciona-
lidade. Matéria meramente administrativa. Competência federal. Art. 98,
II, da CB/88.
7. Lei estadual que define como competências funcionais dos juízes
de paz a arrecadação provisória de bens de ausentes e vagos, nomeando
escrivão ad hoc, e o funcionamento como perito em processos não invade,
em ofensa ao princípio federativo, a competência da União para legislar
sobre direito processual civil [art. 22, I, da CB/88].
Juiz de Paz. Competências funcionais. Processar auto de corpo de
delito. Lavrar auto de prisão. Recusa da autoridade policial. Inconstitucio-
nalidade. Processo penal. Competência da União para legislar. Art. 22, I,
da CB/88.
8. Lei estadual que define como competências funcionais dos juízes
de paz o processamento de auto de corpo de delito e a lavratura de auto
de prisão, na hipótese de recusa da autoridade policial, invade a compe-
tência da União para legislar sobre Direito Processual Penal [art. 22, I,
da CB/88].
Juiz de Paz. Competências funcionais. Prestar assistência ao empre-
gado nas rescisões de contrato de trabalho. Inexistência dos órgãos pre-
vistos no art. 477 da CLT. Inconstitucionalidade. Direito do Trabalho.
Competência da União para legislar. Art. 22, I, da CB/88.
9. Lei estadual que define como competências funcionais dos
juízes de paz, na ausência dos órgãos previstos no art. 477 da CLT, a
prestação de assistência ao empregado nas rescisões de contrato de
trabalho, invade a competência da União para legislar sobre Direito do
Trabalho [art. 22, I, da CB/88]. Função já assegurada pelo § 3º do
mesmo preceito legal.
Juiz de Paz. Competências funcionais. Zelar pela observância das
normas relativas à defesa do meio ambiente e vigilância ecológica sobre
as matas. Providências necessárias ao seu cumprimento. Constitucionali-
dade. Art. 225 e 98, II, da CB/88.
10. Lei estadual que define como competência funcional do Juiz de
Paz zelar, na área territorial de sua jurisdição, pela observância das
normas concernentes à defesa do meio ambiente e à vigilância sobre as
matas, rios e fontes, tomando as providências necessárias ao seu cumpri-
mento, está em consonância com o art. 225 da Constituição do Brasil,
desde que sua atuação não importe em restrição às competências munici-
pal, estadual e da União.
Juiz de Paz. Prerrogativas. Prisão especial. Inconstitucionalidade.
Processo penal. Competência da União para legislar. Art. 22, I, da CB/88.
Direito assegurado pelo art. 112, § 2º, da Loman [LC 35/75].
454 R.T.J. — 197

11. Lei estadual que prevê, em benefício dos juízes de paz, o recolhi-
mento a prisão especial invade a competência da União para legislar
sobre Direito Processual Penal [art. 22, I, da CB/88]. Direito já assegura-
do pelo art. 112, § 2º, da Loman [LC n. 35/75].
12. Ação direta julgada parcialmente procedente.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das
notas taquigráficas, preliminarmente, por unanimidade, não conhecer do pedido for-
mulado na ação quanto à expressão “simultaneamente com as eleições municipais”,
contida no caput do artigo 2º, e quanto à expressão “segundo o princípio majoritário”,
constante do caput do artigo 3º, ambos da Lei n. 13.454, de 12 de janeiro de 2000, do
Estado de Minas Gerais. Votou a Presidente.
Prosseguindo no julgamento, o Tribunal, por maioria, quanto aos artigos 2º e 3º
da norma impugnada, conheceu do pedido formulado na ação e julgou-a improcedente,
exceto quanto ao vocábulo “subsidiária”, constante no caput do artigo 2º. Votou a
Presidente.
Prosseguindo no exame dos dispositivos impugnados na Lei n. 13.454, de 12 de
janeiro de 2000, do Estado de Minas Gerais, o Tribunal, por maioria, julgou improce-
dente a ação quanto ao artigo 4º. Por unanimidade, deu pela inconstitucionalidade
integral do artigo 6º, nos termos do voto do Relator. Em relação aos artigos 5º, 7º, 8º, 9º
e 10, o Tribunal, por maioria, julgou improcedente a ação. Quanto ao inciso VII do
artigo 15, julgou, por maioria, improcedente a ação. Por unanimidade, julgou
inconstitucional a expressão “e lavrar auto de prisão”, constante do inciso VIII do
artigo 15, nos termos do voto do Relator; e, por maioria, inconstitucional o remanes-
cente do dispositivo. Em relação ao inciso IX do mesmo artigo, o Tribunal, por
unanimidade, julgou inconstitucional a ação. Por maioria, julgou improcedente a
ação em relação ao inciso X do artigo 15, assim como, também por maioria, improce-
dente a ação quanto ao seu inciso XII. Em relação ao § 2º do artigo 15, o Tribunal, por
maioria, julgou improcedente a ação. E, quanto ao artigo 22, o Tribunal, por maioria,
julgou procedente a ação e declarou a inconstitucionalidade da expressão “e garante
direito a prisão especial, em caso de crime comum, até definitivo julgamento”.
Brasília, 9 de junho de 2005 — Nelson Jobim, Presidente — Eros Grau, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Eros Grau: O Procurador-Geral da República propõe a presente
ação direta, em que pleiteia a declaração de inconstitucionalidade do Capítulo II [arts.
2º a 10]; dos incisos VII, VIII, IX, da expressão “tomando as providências necessárias ao
seu cumprimento” no inciso X, da expressão “funcionar como perito em processos” no
inciso XII e do § 2º, todos do art. 15; e da expressão “e garante direito a prisão especial,
em caso de crime comum, até definitivo julgamento” no artigo 22, preceitos da Lei n.
13.454, de 12 de janeiro de 2000, do Estado de Minas Gerais, cujo teor é o seguinte:
R.T.J. — 197 455

“Capítulo II
Da Eleição e da Investidura
Art. 2º As eleições para Juiz de Paz serão realizadas simultaneamente com as
eleições municipais, na forma estabelecida por esta lei e mediante a aplicação
subsidiária do Código Eleitoral e da legislação federal específica.
Parágrafo único. O processo eleitoral de que trata este artigo será presidido
pelo Juiz Eleitoral competente.
Art. 3º O Juiz de Paz é eleito segundo o princípio majoritário, para mandato
de quatro anos, pelo voto direto, universal e secreto do eleitorado do distrito ou
do subdistrito judiciário respectivo, permitida a reeleição.
Parágrafo único. O mandato do Juiz de Paz coincidirá com o de Vereador.
Art. 4º Os candidatos a Juiz de Paz e seus suplentes serão escolhidos nas
mesmas convenções partidárias que deliberarão sobre as candidaturas às eleições
municipais, observadas as normas estabelecidas na legislação eleitoral e no
estatuto dos respectivos partidos políticos.
Art. 5º Cada partido político poderá registrar, na Justiça Eleitoral, candida-
tos ao cargo de Juiz de Paz em número correspondente ao de vagas existentes em
cada município.
§ 1º O registro de candidato a Juiz de Paz far-se-á com dois suplentes, em
chapa única, com indicação da suplência em ordem crescente.
§ 2º Não é permitido o registro do mesmo candidato para mais de uma
circunscrição nem para mais de um cargo na mesma circunscrição.
Art. 6º Para concorrer às eleições, o candidato atenderá às exigências cons-
titucionais e legais de elegibilidade e compatibilidade, especialmente aos se-
guintes requisitos:
I - ser brasileiro nato ou naturalizado;
II - estar em pleno exercício dos direitos civis e políticos;
III - estar em dia com as obrigações eleitorais;
IV - estar quite com as obrigações militares, se do sexo masculino;
V - ter domicílio eleitoral no distrito ou subdistrito pelo qual se candidatar
pelo prazo de, pelo menos, um ano antes da data da eleição;
VI - ter sua filiação deferida pelo partido pelo menos um ano antes da data da
eleição;
VII - ter idade mínima de vinte e um anos;
VIII - comprovar idoneidade moral mediante atestado de autoridade judici-
ária ou policial;
IX - ser alfabetizado.
Art. 7º Será considerado eleito Juiz de Paz o candidato que obtiver a maioria
dos votos, não computados os votos em branco e os nulos.
456 R.T.J. — 197

§ 1º A eleição do Juiz de Paz importará na dos candidatos a suplente com ele


registrados, na ordem de suplência a que se refere o § 1º do art. 5º desta lei.
§ 2º Em caso de empate na votação, considerar-se-á eleito o candidato mais
idoso.
Art. 8º A diplomação dos eleitos far-se-á de conformidade com as normas
estabelecidas na legislação eleitoral.
Art. 9º O Juiz de Paz eleito e diplomado tomará posse na mesma data da
posse do Prefeito, do Vice-Prefeito e dos Vereadores, perante o Juiz de Direito
Diretor do Foro da comarca a que pertencer o distrito ou subdistrito.
Art. 10. A Justiça Eleitoral expedirá as instruções necessárias à execução
desta lei e definirá os locais de votação correspondentes a cada distrito ou
subdistrito judiciário.
§ 1º Para fins de definição do número de vagas a serem preenchidas em cada
município, o Tribunal de Justiça do Estado fornecerá ao Tribunal Regional
Eleitoral de Minas Gerais, no momento oportuno, a relação de distritos e
subdistritos de que trata o art. 1º.
§ 2º Nos municípios abrangidos por mais de uma zona eleitoral, se o
número de vagas para o cargo de Juiz de Paz for inferior ao número de zonas,
caberá à Justiça Eleitoral delimitar o eleitorado apto a votar, observado o
disposto no art. 1º.
[...]
Capítulo IV
Da Competência
Art. 15. Compete ao Juiz de Paz:
[...]
VII - arrecadar bens de ausentes ou vagos, até que intervenha a autoridade
competente;
VIII - processar auto de corpo de delito, de ofício ou a requerimento da parte,
e lavrar auto de prisão, em caso de ausência, omissão ou recusa da autoridade
policial;
IX - prestar assistência ao empregado nas rescisões de contrato de trabalho,
quando inexistirem na localidade os órgãos previstos no art. 477 da Consolida-
ção das Leis do Trabalho – CLT
X - zelar, na área territorial de sua jurisdição, pela observância das normas
concernentes à defesa do meio ambiente e à vigilância ecológica sobre matas, rios
e fontes, tomando as providências necessárias ao seu cumprimento;
[...]
XII - funcionar como perito em processos e exercer outras atividades judici-
árias não defesas em lei, de comum acordo com o Juiz de Direito da comarca.
R.T.J. — 197 457

[...]
§ 2º A nomeação de escrivão ad hoc é obrigatória em caso de arrecadação
provisória de bens de ausentes ou vagos.
[...]
Art. 22. O exercício efetivo da função de Juiz de Paz constitui serviço
público relevante e garante direito a prisão especial, em caso de crime comum,
até definitivo julgamento.” [Grifei]
2. O requerente alega que os preceitos em exame ferem os comandos dos artigos
22, I, e 121 da Constituição do Brasil. Alega violação da competência privativa da
União para legislar sobre Direito Eleitoral, uma vez que o ato normativo impugnado
regula a eleição e a investidura para o cargo de Juiz de Paz.
3. Sustenta a afronta ao art. 121 da Constituição, visto que a organização e a
competência dos tribunais eleitorais é matéria de lei complementar. Por outro lado, à
luz do art. 22, I, do texto constitucional, é defeso aos Estados legislar sobre Direito
Processual Penal e trabalhista.
4. Aduz, por fim, que o ato normativo impugnado não pode atribuir aos juízes de
paz funções administrativas baseadas no poder de polícia, bem como atribuir-lhes
competências que ofendam a legislação processual civil.
5. Em face da relevância da questão, e tendo em vista a sua repercussão na ordem
pública do Estado de Minas Gerais, o então Ministro Presidente Maurício Corrêa
requisitou informações à Assembléia Legislativa e determinou fossem ouvidos o Advo-
gado-Geral da União e o Procurador-Geral da República, sucessivamente, para que se
pronunciassem, nos termos do art. 12 da Lei n. 9.868/99.
6. A Assembléia Legislativa sustenta que o ato normativo atacado, elaborado
dentro dos limites da competência dos Estados-Membros, não possui vício de iniciativa,
visto que o projeto de lei enviado àquela casa partiu do Tribunal de Justiça do Estado
de Minas Gerais.
7. O Advogado-Geral da União confirma a competência dos Estados-Membros
para legislar sobre a Justiça de Paz, cabendo à União somente a disciplina quanto ao
Distrito Federal e aos Territórios. Com esteio no precedente da ADI n. 903, Relator o
Ministro Celso de Mello [DJ de 24-10-97], admite a existência de um nicho para a
atuação legislativa do Estado-Membro, enquanto não houver legislação de caráter
nacional. Assim, a matéria eleitoral prevista no inciso I do art. 22 da Constituição do
Brasil diz respeito somente aos cargos eletivos do Poder Executivo e do Poder
Legislativo.
8. Assevera que as atividades conferidas aos juízes de paz pela lei mineira
observam o parâmetro constitucional do art. 98, II, de modo que nenhuma delas trata da
solução de conflitos de interesses próprios da atividade jurisdicional. Segundo o art.
15, XII, da lei impugnada, o funcionamento do Juiz de Paz em processos judiciais
depende de acordo comum com o juiz de direito da comarca. Do mesmo modo, a
lavratura de auto de prisão somente ocorreria na hipótese de omissão, ausência ou
recusa da autoridade policial.
458 R.T.J. — 197

9. A determinação legal de que os juízes de paz deveriam zelar pela observância


das normas concernentes à defesa do meio ambiente não configuraria a outorga de poder
de polícia, restringindo a sua atividade somente à comunicação das questões aos órgãos
públicos responsáveis, o que também é franqueado a qualquer cidadão brasileiro.
10. Por fim, aponta a inconstitucionalidade do art. 22 da lei impugnada, ao
garantir a prisão especial aos juízes de paz por invasão da competência privativa da
União para legislar sobre Direito Processual Penal.
11. O Governador do Estado reafirma a constitucionalidade do Capítulo II, visto
que o próprio Código Eleitoral regula as eleições para Juiz de Paz, submetendo-as ao
poder dos Tribunais Regionais Eleitorais. Quanto à filiação partidária dos candidatos
ao cargo, os argumentos da inicial afrontariam o art. 14, § 3º, da Constituição do Brasil,
bem como todo o histórico da Justiça de Paz no Direito brasileiro.
12. Anota que os arts. 2º e 3º, que determinam a adoção do sistema majoritário
para a escolha dos juízes de paz e a coincidência com as eleições municipais, encerram
normas já previstas no texto constitucional mineiro, que não foi impugnado.
13. Quanto às competências determinadas no art. 15, VII, VIII, IX, X, XII e § 2º,
aduz que as atividades atribuídas aos juízes de paz possuem natureza meramente
procedimental, as quais guardam relação com a organização judiciária do Estado de
Minas Gerais, consubstanciando matéria de competência legislativa estadual por força
dos arts. 24, XI, e 96, II, c, da CB/88, reproduzidos nos arts. 10, XV, l, e 104, IV, da
Constituição mineira.
14. O Procurador-Geral da República, em parecer de fls. 98/105, reitera os argu-
mentos expendidos na inicial, opinando pela total procedência do pedido.
É o relatório, do qual deverão ser extraídas cópias para envio aos Ministros
(RISTF, artigo 172).

VOTO
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): As impugnações oferecidas pelo Procurador-
Geral da República à Lei do Estado de Minas Gerais podem ser sintetizadas nos
seguintes pontos:
I - violação do art. 22, I, da CB/88, por legislar sobre matéria eleitoral, quanto
aos artigos 2º, 3º, 4º, 5º, 6º, 7º, 8º, 9º e 10;
II - violação do art 121, I, da CB/88, por legislar sobre atribuições e compe-
tências dos juízes eleitorais, quanto aos artigos 2º, 8º, 9º e 10;
III - violação do art. 22, I, da CB/88, por legislar sobre matéria processual
civil, quanto ao inciso VII; a expressão “funcionar como perito em processos” do
inciso XII e o § 2º, todos do art. 15;
IV - violação do art. 22, I, da CB/88, por legislar sobre matéria processual
penal, quanto ao artigo 15, VIII e a expressão “e garante direito a prisão especial,
em caso de crime comum, até definitivo julgamento”, do art. 22;
V - violação do art. 22, I, da CB/88, por legislar sobre matéria trabalhista,
quanto ao artigo 15, IX; e
R.T.J. — 197 459

VI - violação do art. 225 da CB/88, por conceder poder de polícia e fiscaliza-


ção aos juízes de paz, quanto à expressão “tomando as providências necessárias ao
seu cumprimento” do artigo 15, X;
2. A instituição da Justiça de Paz no Brasil a partir da ordem constitucional de
1988 ainda é uma questão pouco analisada por esta Corte. De outra banda, é escassa
legislação sobre o tema, dispersa em alguns artigos da Constituição do Brasil [art. 14, §
3º, VI, c; art. 98, II, e art. 30 do ADCT], da Lei Orgânica da Magistratura Nacional –
LOMAN [art. 112] e do Código Eleitoral [art. 30, IV, e art. 186, § 1º, VIII].
3. Prevista nos artigos 161 e 162 da Constituição do Brasil de 1824, a Justiça de
Paz foi regulamentada pela Lei de 15 de outubro de 1827, que estabelecia a eleição dos
juízes de paz para cada freguesia, concedendo-lhes amplos poderes, inclusive
jurisdicionais.
4. Por força do Ato Institucional n. 11, de 14 de agosto de 1969, foram extintas as
eleições para os novos juízes de paz, os quais passariam a ser nomeados pelos Governa-
dores dos Estados-Membros, permanecendo os então ocupantes dos cargos até o
término de seus mandatos.
5. Com o advento da Constituição de 1988, atribuiu-se aos Estados-Membros e à
União, esta com relação ao Distrito Federal e aos Territórios, competência para a criação
da Justiça de Paz, restituindo-lhe o caráter eletivo e as funções de natureza meramente
conciliatória.
6. É inegável a importância dessa parcela da magistratura nacional, como ressal-
tado pelo Ministro Celso de Mello na ADI n. 2.082 [DJ de 4-4-2000]. Não se pode, no
entanto, sobrepassar as competências definidas no texto constitucional para a sua
implementação. Passo à análise das impugnações oferecidas pelo Procurador-Geral da
República.
7. Os artigos 2º a 10 da lei mineira, ao disporem sobre a eleição e a investidura para
o cargo de Juiz de Paz naquele Estado-Membro, invadem a competência da União,
constitucionalmente definida no art. 22, I, para legislar sobre Direito Eleitoral. Quanto
aos arts. 2º, 8º, 9º e 10, há ainda violação do art. 121, I, da CB/88, ao dispor sobre matéria
afeta a lei complementar.
8. De fato, o art. 30, IV, do Código Eleitoral [Lei n. 4.737/65] define a competência
privativa dos Tribunais Regionais Eleitorais para fixar a data das eleições para Juiz de
Paz, quando não definida por preceito constitucional ou legal.
9. Note-se bem não se tratar, aqui, de competência concorrente, na acepção
conferida pelo Governador do Estado em suas informações.
10. A redação do preceito é clara, no sentido de que às assembléias estaduais
incumbe a criação da Justiça de Paz dentro de seus limites territoriais. À União, por fim,
caberia a competência para legislar sobre o tema no âmbito do Distrito Federal e dos
Territórios.
11. Trata-se de competência organizacional própria a cada ente federativo, sem
concorrência quanto à matéria a ser legislada. Os atos normativos provenientes das
respectivas casas legislativas não podem, no entanto, avançar sobre matérias de compe-
tência privativa da União, previstas no art. 22 da Constituição do Brasil.
460 R.T.J. — 197

12. A capacidade legislativa plena franqueada pelo § 3º do art. 24 do texto


constitucional, por outro lado, não deve extrapolar os limites materiais definidos nos
incisos daquele artigo.
13. Observo, no entanto, que o sistema majoritário e a simultaneidade das eleições
para a Justiça de Paz com o pleito municipal são previstos no art. 117 da Constituição do
Estado de Minas Gerais, que não foi impugnado pelo Procurador-Geral da República na
inicial. A coincidência dos pleitos, aliás, é prevista no art. 186, § 1º, VIII, do Código
Eleitoral [Lei n. 4.737/65].
14. A viabilidade da ação direta reclama a impugnação conjunta dos preceitos
que tratam da matéria, sob pena de inocuidade da própria declaração de inconstitucio-
nalidade.
15. Esse o entendimento desta Corte (ADI 2.132/MC, Ministro Moreira Alves, DJ
de 5-4-02; ADI 2.242, Ministro Moreira Alves, DJ de 19-12-01), conforme se infere do
precedente abaixo transcrito:
“(...) Controle normativo abstrato de constitucionalidade e efeito re-
pristinatório. A questão do efeito repristinatório indesejado. Necessidade,
em tal hipótese, de formulação de pedidos sucessivos de declaração de
inconstitucionalidade tanto do diploma ab-rogatório quanto das normas
por ele revogadas, desde que também eivadas do vício da ilegitimidade
constitucional. Ausência de impugnação, no caso, do diploma legislativo
cuja eficácia restaurar-se-ia em função do efeito repristinatório. Hipótese
de incognoscibilidade da ação direta. Precedentes”. (ADI 2.215-MC, Ministro
Celso de Mello, DJ de 26-4-01)
16. Assim, não conheço da ADI quanto às expressões “simultaneamente com as
eleições municipais”, do caput do art. 2º, e “segundo o princípio majoritário”, do caput
do art. 3º.
17. A questão da filiação partidária dos candidatos a Juiz de Paz, por sua vez,
merece algumas considerações. Em que pese os argumentos expendidos pela Advoca-
cia-Geral do Estado de Minas Gerais, a filiação partidária, obrigatória nas eleições de
membros do Poder Legislativo e do Executivo, não é compatível com as funções de um
membro do Poder Judiciário. Embora desprovido de funções de caráter jurisdicional, as
atribuições conciliatórias dos juízes de paz chocam-se com a idéia de partidarismo
obrigatório.
18. Aduzem os defensores do texto impugnado o histórico da Justiça de Paz no
direito brasileiro, que desde o Império evidenciava a vinculação partidária de seus
integrantes.
19. A análise histórica, todavia, é permeada por rupturas, às quais se seguem
novos modelos jurídicos. Assim, a vinculação partidária dos juízes de paz deixa de
existir com a promulgação da Loman. Esta, no § 1º do art. 112, neste ponto recebido
pela ordem constitucional vigente, veda a participação em órgãos de direção ou de
ação de partidos políticos aos candidatos a Juiz de Paz. Passo à análise das competên-
cias atribuídas pelo art. 15 da lei mineira.
20. A arrecadação de bens de ausentes ou vagos é determinada, respectivamente,
nos arts. 1.160 e 1.170 do Código de Processo Civil.
R.T.J. — 197 461

21. O vocábulo “juiz”, em ambos os casos, no contexto do CPC, designa o


magistrado togado, que, além de arrecadar os bens, tem o poder de publicar editais e
nomear curador, funções defesas ao Juiz de Paz por força do preceito constitucional do
art. 98, II.
22. Por outro lado, não há possibilidade de nomeação, pelo Juiz de Paz, de
escrivão ad hoc para lavratura do termo de arrecadação. Para os casos de bens de
ausentes, o escrivão da serventia judicial acompanhará o juiz de direito na diligência
de arrecadação dos bens, como preconiza o art. 1.145 do CPC. No caso dos bens vagos,
a lavratura do auto cabe à autoridade policial ou ao juiz de direito que recebeu a coisa.
23. Nada impede, no entanto, que o curador nomeado pelo juiz de direito para a
guarda dos bens seja o Juiz de Paz do distrito, o que será decidido oportunamente pelo
magistrado.
24. A função do Juiz de Paz como perito judicial, do mesmo modo, não é infensa
à legislação processual, permitida a livre escolha pelo juiz togado, na forma do art. 145,
§ 3º, do CPC.
25. Vê-se, no entanto, que todos os preceitos da lei mineira tratam de matéria
processual civil, de competência privativa da União. Daí a necessária declaração de
inconstitucionalidade do inciso VII, da expressão “funcionar como perito em proces-
sos” do inciso XII e do § 2º, todos do artigo 15 da Lei n. 13.454/2000.
26. O inciso VIII do mesmo art. 15 atribui competência à Justiça de Paz para
processar auto de corpo de delito e lavrar auto de prisão, em caso de ausência, omissão
ou recusa da autoridade policial.
27. O Governo do Estado de Minas Gerais alega que os autos de prisão e de corpo
de delito integram o inquérito policial, que não consubstancia processo, mas mero
procedimento, para o qual o Estado-Membro teria competência para legislar, à luz do
art. 24, XI, da CB/88.
28. Note-se, porém, que a competência para a realização do inquérito policial é
constitucionalmente definida no art. 144, § 4º, o que todavia não exclui as demais
modalidades de inquérito previstas no ordenamento. O modo como se dará a instaura-
ção e instrução do inquérito policial vem definido nos arts. 4º a 23 do Código de
Processo Penal. Seu art. 5º, § 2º, estabelece porém que, na hipótese de recusa de abertura
do inquérito por parte da autoridade policial, caberá recurso ao Chefe de Polícia, que
tomará as providências cabíveis como superior hierárquico.
29. Quanto ao exame de corpo de delito, os arts. 159 e 160 do Código de Processo
Penal determinam que a elaboração do laudo de corpo de delito seja procedida por dois
peritos oficiais. Já o auto de prisão é lavrado pelo escrivão do distrito policial ou, na sua
ausência ou impedimento, por quem vier a ser designado pela autoridade competente
[art. 305 do CPP].
30. O art. 22 da lei mineira garante a prisão especial aos membros da Justiça de Paz
em caso de crime comum, até o definitivo julgamento. Uma vez mais aventura-se a lei
mineira em seara reservada à União. Anoto, não obstante, que o preceito apenas repete
o teor do art. 112, § 2º, da Loman [LC 35/79].
31. Tanto o inciso VIII do art. 15 como o art. 22 versam matéria de Direito
Processual Penal, eivados, portanto, à luz do art. 22, I, da Constituição do Brasil, de
vício de inconstitucionalidade formal.
462 R.T.J. — 197

32. O inciso IX do art. 15 do texto impugnado invade a competência da União


para legislar sobre Direito do Trabalho ao prever a assistência do Juiz de Paz ao
empregado, nas rescisões de contrato de trabalho, na falta de representante do Sindicato
ou de autoridade do Ministério Público do Trabalho. Veja-se, ademais, que o supri-
mento da assistência das autoridades trabalhistas locais pelo Juiz de Paz está previsto
no art. 477, § 3º, da CLT, na redação dada pela Lei n. 5.584/70.
33. Por fim, merece destaque a impugnação do inciso X do art. 15 da lei mineira,
que permite aos membros da Justiça de Paz zelar pela observância das normas
concernentes à defesa do meio ambiente, tomando as providências necessárias ao seu
cumprimento.
34. Não vejo, neste ponto, desde que conferida ao preceito interpretação conforme
o art. 225 da Constituição do Brasil, atribuição fundada no poder de polícia, de modo
que as atividades do Juiz de Paz ficariam adstritas à comunicação de violação da lei às
autoridades ambientais competentes, que tomarão as medidas necessárias à preserva-
ção do bem jurídico.
35. A demora na elaboração de legislação nacional sobre a Justiça de Paz impede
a sua plena implementação nos Estados-Membros, que buscam formas alternativas para
o provimento dos cargos que surgem na medida em que os atuais juízes deixam suas
funções, em idade bastante avançada, por morte ou aposentadoria, sem o efetivo
cumprimento do art. 98, II, da Constituição do Brasil.
36. Embora louvável a iniciativa do Estado de Minas Gerais na reestruturação da
Justiça de Paz em seus limites territoriais, não há como criar normas de caráter eleitoral,
processual ou de direito trabalhista, em ofensa ao art. 22, I, da CB/88, sob pretexto de
conferir efetividade a norma constitucional.
Ante o exposto, quanto aos preceitos impugnados da Lei n. 13.454/2000, do
Estado de Minas Gerais:
I - não conheço do pedido quanto às expressões “simultaneamente com as eleições
municipais” do caput do art. 2º e “segundo o princípio majoritário” do caput do art. 3º;
II - conheço do pedido e julgo procedente a ADI quanto ao restante dos arts. 2º e 3º;
III - conheço do pedido e julgo procedente a ação direta quanto ao inteiro teor dos
arts. 4º a 10, bem como quanto aos incisos VII, VIII, IX, à expressão “funcionar como
perito em processos” do inciso XII e ao § 2º, todos do art. 15;
IV - conheço do pedido e julgo procedente a ADI quanto à expressão “e
garante direito a prisão especial, em caso de crime comum, até definitivo julgamento”,
do art. 22; e
V - conheço do pedido e julgo parcialmente procedente a ação direta quanto ao
inciso X do art. 15, para conferir-lhe interpretação conforme o art. 225 do texto
constitucional, de modo que a expressão “providências necessárias” compreenda a
comunicação aos órgãos públicos competentes para solucionar violação ao
ordenamento jurídico em matéria ambiental, bem como todos os meios de que dispõem
os cidadãos para defesa e proteção ao meio ambiente, sem atribuição de poder de
polícia aos juízes de paz.
R.T.J. — 197 463

VOTO
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Sra. Presidente, quanto ao “segundo o princí-
pio majoritário”, tenho dúvidas. Não há condições verificar os precedentes agora, mas
me parece que se afirmou que não haveria interesse para o requerimento de medida
cautelar, porque, se a questão é de competência da União ou dos Estados, pouco
importa que no momento coincidam ou não a norma federal e a norma estadual. Basta
cogitar-se que a norma federal pode ser revogada e alterada.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: O Relator apontou que não houve ataque a esses
dispositivos.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Mas por que, quanto ao dispositivo idêntico,
S. Exa. não conhece?
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Aí, não. Aí temos refutado.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Sim, porque está-se discutindo se é compe-
tência federal ou estadual e uma série de questões, por exemplo, prisão especial. Se a
competência é privativa da União, o dispositivo é inconstitucional, independente-
mente de coincidir ou não com o dispositivo federal.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Ministro Sepúlveda Pertence, perdoe-me,
vamos separar as partes — como diziam os esquartejadores — vamos aos pedaços.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Vossa Excelência pode interpretar as “tiras”.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Depois vamos chegar à questão da prisão
especial. Nesse primeiro momento, seriam essas duas questões, o que não vai me
impedir, depois, de manifestar-me especificamente sobre as demais questões.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Estou me lembrando. realmente o assunto vai
ter de ser destacado ponto a ponto. Mas me prendi em um: prisão especial. A Loman diz
o mesmo. Isso não torna constitucional, ou melhor, não elide a discussão sobre a
competência do Estado para legislar a respeito.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Perdoem-me, não quero absolutamente ser
impertinente. Mas, em seguida, direi que conheço do pedido e julgo procedente a ADI
quanto ao restante dos artigos 2º e 3º.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Quais os pontos em que V. Exa. não conhece?
A Sra. Ministra Ellen Gracie (Presidente): No caput do artigo 2º, a expressão
“simultaneamente com as eleições municipais”, e, no caput do artigo 3º, “segundo o
princípio majoritário”. São essas duas expressões.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Porque essas estão na Constituição estadual.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Exatamente. E não foram impugnadas. É só
isso agora.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Aí concordo com V. Exa., porque realmente
são normas estaduais. Quanto às questões, por exemplo, repetidas na Loman, V. Exa.
não está deixando de conhecer?
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Por enquanto não estou me manifestando. Só
não conheço essas duas; são seis ADIs.
464 R.T.J. — 197

O Sr. Ministro Carlos Britto: Estamos discutindo a cabeça do artigo 2º?


A Sra. Ministra Ellen Gracie (Presidente): Do artigo 2º e do artigo 3º, mas só
estas duas expressões: “simultaneamente, com as eleições” e “segundo o princípio
majoritário”.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: São reproduções da Constituição estadual.
Aí estou de acordo.

VOTO (Antecipação)
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Sra. Presidente, quanto à expressão: “será
presidido pelo juiz eleitoral competente”, de logo antecipo a minha discordância com
o voto do eminente Ministro Relator, nesse ponto.
Ao referir-se ao Juiz de Paz, no artigo 14, § 3º, c — ainda que incidentemente, só
para fixar-lhe a idade mínima de elegibilidade —, a Constituição incluiu a eleição do
Juiz de Paz no sistema eleitoral, cuja direção, a partir daí, só pode incumbir à Justiça
Eleitoral: não é preciso que venha uma lei complementar a dizer que a eleição de um
cidadão para um mandato, com condições de elegibilidade fixadas na Constituição, é
da competência da Justiça Eleitoral.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Qual artigo da Constituição está sendo citado?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: O artigo 14, § 3º, inciso VI, alínea c. Confesso
que é a primeira vez que leio com olhos de prestar atenção essa referência a Juiz de Paz,
no artigo 14 — depois de toda a nossa antiguidade no Tribunal Eleitoral.
A mim me bastaria isso para inserir a eleição do Juiz de Paz no sistema eleitoral
global, e não há outra autoridade, no sistema brasileiro, que possa dirigir eleições,
compreendidas no âmbito do artigo 14, que não seja a Justiça Eleitoral.
Isso foi discutido, salvo engano, quando se deslocou da União para os Estados a
lei de criação de municípios. E discutiu-se quem vai fazer referendo, quando se
entendeu, independentemente de ter perdido vigência a velha Lei Complementar n. 1,
que a competência só podia tocar à Justiça Eleitoral.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Perdoe-me, Ministro, não estou entendendo o
porquê da nossa divergência. Estou conhecendo e julgando procedente.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Mas estou julgando-a improcedente. Isso não
é matéria de Direito Eleitoral; prescrever que uma eleição compreendida no âmbito do
sistema eleitoral — de que tratam os artigos 14 e seguintes da Constituição — é da
competência da Justiça Eleitoral, pode-se dizer que é uma norma inócua, mas ela é
absolutamente constitucional, porque não poderia dispor de outro modo.
A Sra. Ministra Ellen Gracie (Presidente): Mesmo quando diz que se aplica,
subsidiariamente, o Código Eleitoral?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Sim, esse, subsidiariamente, aplica-se ao
Código Eleitoral.
O Sr. Ministro Carlos Britto: É norma com a qual ou sem a qual tudo permanece tal
e qual.
R.T.J. — 197 465

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Mas ela podia até ser “sem a qual”, mas não
podia ser diferente da qual, porque aí, sim, seria inconstitucional.
Causa-me certo prurido a previsão de aplicação “subsidiária” do Código Eleitoral.
A Sra. Ministra Ellen Gracie (Presidente): Inverte a hierarquia, manda aplicar essa
lei e, subsidiariamente, o Código Eleitoral.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: É uma eleição majoritária, municipal.
Julgo improcedente a ação com relação aos arts. 2º e 3º; mas, procedente quanto à
expressão “subsidiária”, constante do art. 2º.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Ministro Eros Grau, que a matéria é eleitoral
todos estamos de acordo; o que estou dizendo é que não poderia deixar de ser. Quer
dizer, a competência da Justiça Eleitoral e a aplicação, conseqüentemente, da legisla-
ção eleitoral federal decorrem do sistema da Constituição.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Agora, e essa disciplina prevendo a reeleição em
mandato coincidente com o do vereador?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Aí, acho que é matéria estadual mesmo.
O Sr. Ministro Carlos Britto: E já está na Constituição também.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Porque, vejam, aí não há competência concor-
rente. O art. 98 manda obedecer a legislação, que, no ponto, há de ser estadual.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Veja, Ministro Celso de Mello, a lei estadual não
discrepa do que dispõe o Código Eleitoral, que manda registrar no juízo eleitoral.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Será que a reeleição é harmônica? Porque o
preceito constitucional não prevê, é silente, não há vedação. Faço a pergunta no
sentido invertido: a lei estadual poderia vedar a reeleição?
O Sr. Ministro Carlos Britto: Inverto o raciocínio: como o princípio republicano
se caracteriza pela temporariedade no exercício do mandato e rotatividade no exercício
do poder, se a Constituição não prevê a reeleição, é porque ela não é admissível.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Não vamos ficar tão republicanos assim,
porque, senão, diremos que tudo no Brasil é republicano, menos o Chefe de Estado, que
pode ser reeleito.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Mas aqui é elemento conceitual da República.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: A Constituição estabeleceu alguns casos de
inelegibilidade ou elegibilidade e remeteu todo o resto à lei complementar. Acho que
realmente a matéria seria desta lei complementar, que não tem uma só palavra a respeito
dos juízes de paz, mas isso já é matéria infraconstitucional.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: E não há discrepância, porque está se fixando sem
alteração de tempo de mandato.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Mas, Excelência, continuo achando que, no silêncio
da Constituição quanto à possibilidade de reeleição, esse silêncio é eloqüente, opera
como vedação, mas data venia de entendimento contrário.
466 R.T.J. — 197

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Sim, Ministro, como a Constituição não prevê
a reeleição de deputado, ela seria inconstitucional?
O Sr. Ministro Carlos Britto: Mas aí a Constituição, ao falar de eleições gerais,
estabelece o período quadrienal. Então, a reeleição já está implícita.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Mas não diz que o deputado é reelegível.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Mas como essa matéria foi tratada em apartado pela
sua especificidade, a Constituição lhe conferiu um tratamento normativo absolutamente
em separado, acho que seria necessária a previsibilidade de reeleição, porque não é
norma geral, é especial.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Quando não se concebia a reeleição de Chefe
do Poder Executivo, havia um único caso, além do Legislativo, de reeleição na tradição
brasileira, a do Juiz de Paz. O Supremo agora vai decidir que “não”?
O Sr. Ministro Carlos Britto: Ao conferir esse tratamento constitucional à matéria,
o legislador constituinte rompeu com essa tradição.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Esqueceu-se de falar que deputado pode ser
reeleito. Vossa Excelência está se apegando a uma ruptura realmente histórica, porque
a reeleição dos chefes do Executivo era a única inelegibilidade prevista na primeira
constituição republicana e mantida em todos os textos constitucionais posteriores. Por
isso, teve de vir a emenda, para afirmar especificamente a reelegibilidade. Agora, dizer
que, da República, se tira a irreelegibilidade, então temos de responder por que os
membros do Poder Legislativo podem ser reeleitos.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Mas aí a Constituição já fala dos períodos
quadrienais.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Mas período quadrienal não quer dizer
irreelegibilidade, data venia.
Período marca a temporariedade de cada mandato. Não a possibilidade ou impos-
sibilidade de concorrer ao seguinte. Só se Vossa Excelência acha que da
temporariedade nasce a irreelegibilidade, como a borboleta da crisálida...
O Sr. Ministro Carlos Britto: O Ministro Marco Aurélio colocou essa matéria para
votação, não é?

VOTO (Sobre divergência)


O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Senhora Presidente, peço vênia ao Ministro
Relator para acompanhar a divergência.

VOTO (Sobre divergência)


O Sr. Ministro Carlos Britto: Sr. Presidente, peço vênia ao Ministro Relator para
acompanhar a divergência.

VOTO (Sobre divergência)


O Sr. Ministro Carlos Velloso: Sra. Presidente, peço vênia ao Ministro Relator
para acompanhar a divergência.
R.T.J. — 197 467

VOTO (Sobre divergência)


A Sra. Ministra Ellen Gracie (Presidente): Peço vênia ao eminente Relator para
acompanhar a divergência iniciada pelo Ministro Sepúlveda Pertence.

DEBATES
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Sra. Presidente, apenas para relembrar — se
Vossa Excelência me permitir —, grande parte do vício aqui está relacionada à filiação
partidária do Juiz de Paz. Estou votando no sentido de que não se admita a filiação
partidária. Mas verifico que vou ficar vencido, dada a alusão ao art. 14, § 3º.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Filiação partidária e exercício da judicatura são
como água e óleo, não se misturam. Aí, acho que Vossa Excelência tem toda razão.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Mas, se nós acabamos de votar com base no §
3º do art. 14, seria uma incoerência.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Ministro Eros Grau, veja que as funções exercidas
não são propriamente funções jurisdicionais.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Filiação partidária não é uma demasia? Porque ali,
quando se exige, é para eleições em geral, a filiação partidária é coerente, mas aqui...
O Sr. Ministro Carlos Velloso: A nossa democracia representativa faz-se por meio
de partidos políticos. É difícil excepcionar.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Temos, na verdade, nesses artigos, um novo
Código Eleitoral.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Tenho a maior dificuldade em afastar a
incidência do art. 14 da Constituição, relativo às condições de elegibilidade.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Estamos diante de uma situação de exceção.
Nos casos de exceção, a norma se aplica desaplicando-se. Para mim é muito claro que se
trata de atividade jurisdicional. É muito complicado admitir a coexistência de uma
função desse caráter com a filiação partidária.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Ministro Eros Grau, que função jurisdicional
importante há aqui?
“Art. 15. (...)
VII - arrecadar bens de ausentes ou vagos, até que intervenha a autoridade
competente;”
Quem nasceu no interior sabe. Morre um cidadão; não tem juiz na comarca. Ele
vai lá e arrecada até que intervenha o juiz de direito.
“VIII - Processar auto de corpo de delito, de ofício ou a requerimento da
parte, e lavrar auto de prisão, em caso de ausência, omissão ou recusa da autoridade
policial;
IX - prestar assistência ao empregado...”
Isso o sindicato faz.
468 R.T.J. — 197

O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Se o sindicato não for, ele supre a ausência.
Isso é matéria de Direito Trabalhista.
O Sr. Ministro Carlos Velloso:
“X - zelar, na área territorial de sua jurisdição, pela observância das normas
concernentes à defesa do meio ambiente e à vigilância ecológica sobre matas, rios
e fontes, (...)”
Todo cidadão é competente para fazer isso, deve fazer isso.
“XII - funcionar como perito em processo e exercer outras atividades
judiciárias não defesas em lei, de comum acordo com o Juiz de Direito da
comarca.”
Não há exercício, na verdade, de atividade jurisdicional em termos materiais. É
um auxiliar da Justiça.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Ele não é um auxiliar da Justiça. Não está
escrito na Loman que ele seja um auxiliar da Justiça. Ele está incluído na categoria.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Mesmo sendo a Justiça de Paz, está subjacente a
neutralidade, a imparcialidade, o que é incompatível com partido político, que, por
definição, é parte, facção.

VOTO (Sobre o inciso VI do art. 6º)


O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Senhora Presidente, voto no sentido da incom-
patibilidade.

VOTO (Sobre o inciso VI do art. 6º)


O Sr. Ministro Carlos Velloso: Sra. Presidente, peço licença para divergir. Conforme
disse, a democracia representativa brasileira realiza-se por meio de partidos políticos. O
Juiz de Paz é eleito.
A Constituição, expressamente, afirma:
“Art. 98. (...)
II - (...) cidadãos eleitos pelo voto direto, universal e secreto (...)”
Se se tem representação à base de partidos políticos, não vejo como excluir o Juiz
de Paz do seu registro mediante partido político. Aliás, é o que consta do Código
Eleitoral.
“Art. 87. Somente podem concorrer às eleições candidatos registrados por
partidos.”
Ao dispor sobre o registro:
“Art. 89. Serão registrados:
I - no Tribunal Superior Eleitoral os candidatos a presidente e vice-presiden-
te da República;
II - nos Tribunais Regionais Eleitorais os candidatos a senador, deputado
federal, governador e vice-governador e deputado estadual;
R.T.J. — 197 469

III - nos Juízos Eleitorais os candidatos a vereador, prefeito e vice-prefeito e


Juiz de Paz.”
Destarte, a lei estadual em debate simplesmente repete o que está no Código
Eleitoral. E vejam Vossas Excelências que, se se declarar inconstitucional esse disposi-
tivo, continua a exigência do Código Eleitoral de candidato a Juiz de Paz integrar
partido político.
Não me impressiona a afirmativa no sentido de que o juiz não deve ter filiação
partidária. Penso que não pode e não deve ter filiação partidária o juiz, o magistrado, o
ministro dos tribunais superiores, o juiz de direito, etc, que exercem efetivamente
função jurisdicional. O Juiz de Paz, entretanto, conforme se vê de suas atribuições, não
exerce função jurisdicional, senão de auxílio ao juiz de direito, à justiça togada. E da
experiência que tenho como homem do interior — meu pai foi juiz de direito no
interior de Minas — posso afirmar que os serviços que esses homens prestam é inesti-
mável. Em muitas comarcas, não existe juiz de direito. Morre alguém. Quem vai
arrecadar os bens? Outras providências precisam ser adotadas. É o Juiz de Paz quem as
adotará.
Do exposto, meu voto é no sentido de dar pela constitucionalidade desse disposi-
tivo, mesmo porque, se dermos pela inconstitucionalidade, ter-se-á uma decisão inó-
cua, porque a norma permanecerá no Código Eleitoral.

DEBATE (Sobre o inciso VI do art. 6º)


O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Só para esclarecer, vou reler três linhas do meu
voto, dizendo que:
“A análise histórica, todavia, é permeada por rupturas, às quais se seguem
novos modelos jurídicos. Assim, a vinculação partidária dos juízes de paz deixa de
existir com a promulgação da Loman. Esta, no § 1º do art. 112, neste ponto
recebida pela ordem constitucional vigente, veda a participação em órgãos de
direção ou de ação de partidos políticos aos candidatos a Juiz de Paz.”
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Logo, permite a filiação partidária, Excelência.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Mas o que eu quero dizer, a filiação como condição
de elegibilidade?
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Sim, se é eleito.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Acho que a demasia está nisso, exigir como condição
de elegibilidade.
A Sra. Ministra Ellen Gracie (Presidente): A não ser assim, todos os candidatos
teriam que ser avulsos. Alguém, necessariamente, tem que apresentar candidatos a
eleição, e quem o faz são os partidos políticos.

VOTO (Sobre o inciso VI do art. 6º)


O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Sra. Presidente, estamos em vias de declarar
inconstitucional o artigo 112, § 1º, da Loman, o qual só não permite a investidura na
470 R.T.J. — 197

função de Juiz de Paz a quem pertença a órgão de direção ou de ação de partido político
e, conseqüentemente, lhe permite a simples filiação.
Estamos, talvez, a reclamar que, na composição da lista dos jurados, os quais
exercem, sim, verdadeira jurisdição — e brava: são até trinta anos de reclusão —, se vá
exigir certidão negativa de filiação partidária. Mas fico na exegese pedestre: o Juiz de
Paz está compreendido no sistema do artigo 14 e, por isso, a meu ver, tem como
condição de elegibilidade — como todos os cidadãos eleitos pelo voto secreto, univer-
sal e direto — a filiação partidária.

VOTO (Sobre o inciso VI do art. 6º)


(Retificação)
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Senhora Presidente, vou reformular o meu voto,
para acompanhar a divergência.

VOTO (Sobre o inciso VI do art. 6º)


(Retificação)
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Sra. Presidente, estou há um ano neste Tribu-
nal e aprendi que o Plenário forma convicção.
Vossa Excelência, Ministro Sepúlveda Pertence, acabou de me convencer. Vou
retificar o meu voto para acompanhá-lo. Vossa Excelência está certo e não tenho
nenhum pudor em, finalmente, encontrar a solução que me parece mais correta.

VOTO (Sobre o inciso VI do art. 6º)


A Sra. Ministra Ellen Gracie (Presidente): Com a vênia dos Colegas, acompanho
a divergência aberta pelo Ministro Sepúlveda Pertence, especialmente, porque leio, no
inciso II do artigo 98 da Constituição Federal, quando trata da descrição da Justiça de
Paz e da forma como é composta, especificamente, que sua atividade não tem caráter
jurisdicional. Esse é o motivo por que, do meu ponto de vista, ela se exime da vedação
colocada a todos os magistrados stricto sensu, aqueles que exercem efetivamente
função jurisdicional e não podem ter filiação partidária.

EXTRATO DA ATA
ADI 2.938/MG — Relator: Ministro Eros Grau. Requerente: Procurador-Geral da
República. Requeridos: Governador do Estado de Minas Gerais e Assembléia Legisla-
tiva do Estado de Minas Gerais.
Decisão: Preliminarmente, o Tribunal, por unanimidade, não conheceu do pedido
formulado na ação quanto à expressão “simultaneamente com as eleições municipais”,
contida no caput do artigo 2º, e quanto à expressão “segundo o princípio majoritário”,
constante do caput do artigo 3º, ambos da Lei n. 13.454, de 12 de janeiro de 2000, do
Estado de Minas Gerais. Votou a Presidente. Prosseguindo no julgamento, o Tribunal,
por maioria, quanto aos artigos 2º e 3º da norma impugnada, conheceu do pedido
R.T.J. — 197 471

formulado na ação e julgou-a improcedente, exceto quanto ao vocábulo “subsidiária”,


constante no caput do artigo 2º, vencidos os Ministros Eros Grau (Relator) e Marco
Aurélio, que a julgavam procedente. Votou a Presidente. Após os votos dos Ministros
Eros Grau (Relator), Joaquim Barbosa, Carlos Velloso, Sepúlveda Pertence e Ellen
Gracie, que julgavam improcedente a ação quanto ao artigo 4º, e dos votos dos
Ministros Carlos Britto, Marco Aurélio e Celso de Mello, julgando-a procedente, o
julgamento foi suspenso para colher os votos dos Ministros ausentes neste julgamento,
por não atingir o quorum necessário para declaração de constitucionalidade ou
inconstitucionalidade. E, quanto aos demais artigos, o julgamento foi adiado em
virtude do adiantado da hora. Ausentes, justificadamente, o Ministro Cezar Peluso e,
neste julgamento, os Ministros Nelson Jobim (Presidente) e Gilmar Mendes. Falou pelo
requerido, Governador do Estado de Minas Gerais, o Dr. Carlos Bastide Horbach.
Presidência da Ministra Ellen Gracie (Vice-Presidente).
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes,
Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Vice-Procurador-Geral da República, Dr.
Antonio Fernando Barros e Silva de Souza.
Brasília, 8 de junho de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

VOTO (Sobre o art. 4º)


O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Senhor Presidente, também pedindo vênia à
divergência que se instalou, vou acompanhar o voto do eminente Relator, entendendo,
portanto, que não existe, no sistema, a vedação a essa filiação partidária.

VOTO (Sobre o art. 4º)


O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Também acompanho o voto do emi-
nente Ministro Relator.

EXPLICAÇÃO (Sobre os arts. 5º a 10)


O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Senhor Presidente, eu gostaria apenas de
lembrar que, no meu voto originário — depois aperfeiçoado, na medida em que
acompanhei o Ministro Sepúlveda Pertence —, eu levantava uma questão em relação
aos arts. 5º a 10, atinentes a uma inconstitucionalidade formal. Essa é uma matéria de
Direito Eleitoral, Processual Civil e Processual Penal.
Então estou, no meu voto, em seqüência, conhecendo e julgando procedente a
ação direta quanto ao inteiro teor dos arts. 5º a 10, os quais questiono por vício formal.

DEBATE (Sobre os arts. 5º a 10)


O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Diz o artigo 5º:
“Art. 5º Cada partido político poderá registrar, na Justiça Eleitoral, candida-
tos ao cargo de Juiz de Paz em número correspondente ao de vagas existentes em
cada município.
472 R.T.J. — 197

§ 1º O registro de candidato a Juiz de Paz far-se-á com dois suplentes, em


chapa única, com indicação da suplência em ordem crescente.
§ 2º Não é permitido o registro do mesmo candidato para mais de uma
circunscrição nem para mais de um cargo na mesma circunscrição.
Art. 6º Para concorrer às eleições, o candidato atenderá às exigências cons-
titucionais e legais de elegibilidade e compatibilidade, especialmente aos se-
guintes requisitos:” - que são as condições de elegibilidade:
“I - ser brasileiro nato ou naturalizado;
II - estar em pleno exercício dos direitos civis e políticos;
III - estar em dia com as obrigações eleitorais;
IV - estar quite com as obrigações militares, se do sexo masculino;
V - ter domicílio eleitoral no distrito ou subdistrito pelo qual se candidatar
pelo prazo de, pelo menos, um ano antes da data da eleição;
VI - ter sua filiação deferida pelo partido pelo menos um ano antes da data da
eleição;
VII - ter idade mínima de vinte e um anos;
VIII - comprovar idoneidade moral mediante atestado de autoridade judi-
ciária ou policial;
IX - ser alfabetizado.
Art. 7º Será considerado eleito Juiz de Paz o candidato que obtiver a maioria
dos votos, não computados os votos em branco e os nulos.
§ 1º A eleição do Juiz de Paz importará na dos candidatos a suplente com ele
registrados, na ordem de suplência a que se refere o § 1º do art. 5º desta lei.
§ 2º Em caso de empate na votação, considerar-se-á eleito o candidato mais
idoso.
Art. 8º A diplomação dos eleitos far-se-á de conformidade com as normas
estabelecidas na legislação eleitoral.
Art. 9º O Juiz de Paz eleito e diplomado tomará posse na mesma data da
posse do Prefeito, do Vice-Prefeito e dos Vereadores, perante o Juiz de Direito
Diretor do Foro da comarca a que pertencer o distrito ou subdistrito.
Art. 10. A Justiça Eleitoral expedirá as instruções necessárias à execução
desta lei e definirá os locais de votação correspondentes a cada distrito ou
subdistrito judiciário.
§ 1º Para fins de definição do número de vagas a serem preenchidas em cada
município, o Tribunal de Justiça do Estado fornecerá ao Tribunal Regional
Eleitoral de Minas Gerais, no momento oportuno, a relação de distritos e
subdistritos de que trata o art. 1º.
§ 2º Nos municípios abrangidos por mais de uma zona eleitoral, se o número
de vagas para o cargo de Juiz de Paz for inferior ao número de zonas, caberá à
R.T.J. — 197 473

Justiça Eleitoral delimitar o eleitorado apto a votar, observado o disposto no


art. 1º.”
Senhor Ministro Eros Grau, Vossa Excelência entende que seria competência da
União?
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Isso é matéria de Direito Eleitoral, portanto
não de competência do Estado-Membro.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Seria Direito Eleitoral? Quem vai
disciplinar, se a eleição diz respeito a questões estaduais?
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Ora, se a Constituição é expressa no conferir à
Justiça estadual a competência para criar a Justiça de Paz...
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Tem de se disciplinar como se cria; se
cria, tem de se dizer como se faz.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Eu me reservaria a ver o problema se e quando
a lei eleitoral federal viesse a dispor de forma contrária.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): E, suplementarmente, o que fosse
contraditado.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: E, pelo que vimos, não há divergência com a lei
estadual.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): As explicitações, não é?
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Perdoe-me, foi o que observei no meu voto,
chamando a atenção, inclusive, quanto à importância do Juiz de Paz e a circunstância
de que não há legislação federal. Mas cumpre ver até que ponto o Estado-Membro, na
omissão do legislador federal, pode supri-la. Essa é a questão fundamental.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Essa seria uma situação como, por exemplo, a ADI
estadual. Claro que o legislador estadual poderá disciplinar essas matérias.
O Sr. Ministro Carlos Britto: No caso, a Constituição usa até do substantivo
“legislação” em duas oportunidades, a mostrar que há uma confluência legislativa
estadual e federal.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Sim, quanto às outras funções não
jurisdicionais, na parte final do art. 98, II, CF, a alusão genérica a “legislação” não se
restringe obviamente à lei federal; à lei federal refere-se o parágrafo, porque relativo à
organização judiciária da União.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Vereadores?
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: De quando é essa decisão?
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Senão, não vai ter como fazer essa
eleição. Penso que, se tem o poder de criar, tem que regulamentar a forma pela qual
isso pode ser feito. Tanto é que admitimos, há pouco, a exigência da filiação partidá-
ria. São todas razoáveis. Aliás, os mineiros são sempre razoáveis quando concordam
com a gente.
474 R.T.J. — 197

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Realmente, isso vai depender da legislação


estadual, fatalmente: pode haver vários distritos de juizado de paz em cada município.
O Sr. Ministro Carlos Britto: É natural isso.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): A criação vai dividir em distritos e
subdistritos.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Mas aqui é muito mais do que isso. Por
exemplo: o art. 5º diz que cada partido poderá registrar, na Justiça Eleitoral, seus
candidatos; quer dizer, é matéria eleitoral pura, perdoem-me. Posso até vir a acompa-
nhar o Pleno, mas que é matéria eleitoral, é.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Isso consta do Código Eleitoral.
O Sr. Ministro Carlos Britto: E não estaria mais no plano do procedimento do que
no do processo?
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): O que diz o art. 30 do Código Eleitoral?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Agora, realmente, o Código Eleitoral, no art.
30, IV, prudentemente, ressalva, da competência dos TREs, a hipótese de a data da
eleição estar fixada na Constituição ou, também, na lei.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Um espaço.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Sim: quantos candidatos e eventualmente a
data serão previstos na legislação estadual.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Sim, e o art. 98 da Constituição Federal diz que:
“Art. 98. A União, no Distrito Federal e nos Territórios, e os Estados criarão:
(...)
II - Justiça de Paz”(...)
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Quer dizer, o que for da União, sim.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Nessa atividade de criar está, obviamente, a
possibilidade de disciplinar.

VOTO (Sobre os arts. 5º a 10)


O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Senhor Presidente, peço vênia ao Ministro Eros
Grau para divergir.
Entendo que a disciplina da matéria pelo Estado está dentro dos parâmetros
conferidos pela Constituição federal ao Estado-Membro para disciplinar a eleição à
constituição do Juizado de Paz na esfera estadual.

VOTO (Sobre os arts. 5º a 10)


O Sr. Ministro Carlos Britto: Sr. Presidente, também entendo que essa matéria é de
confluência legislativa em termos federais e estaduais. Há de haver mesmo um espaço
de normatividade reservada para o Estado, que tem poderes para criar o Juizado de Paz.
R.T.J. — 197 475

VOTO (Sobre os arts. 5º a 10)


O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Senhor Presidente, também acompanho a diver-
gência.

VOTO (Sobre os arts. 5º a 10)


A Sra. Ministra Ellen Gracie: Senhor Presidente, também acompanho a divergên-
cia, acrescentando, apenas, que a legislação mineira em nada contrasta a legislação
eleitoral federal.
De modo que, realmente, não há motivo para aqui encontrar inconstitucionali-
dade.

O Sr. Ministro Marco Aurélio: Presidente, sob o ângulo formal, creio que não cabe
distinguir se a norma é consentânea, ou não, com a lei federal. Ou bem se tem o vício, ou
não, e é possível a regulamentação da matéria no nível em que ocorreu. Assim tem
decidido o Plenário.
No mais, verifico que os artigos versam sobre tema estritamente eleitoral. De
acordo com o artigo 5º:
Cada partido político poderá registrar, na Justiça Eleitoral, candidatos ao
cargo de Juiz de Paz em número correspondente ao de vagas existentes(...)
Segue-se o § 1º, revelando a forma, em si, de se apresentar candidato à eleição, em
chapa única, contendo a indicação de suplente.
O § 2º volta, também, a adentrar o campo eleitoral, obstaculizando o registro do
mesmo candidato em mais de uma circunscrição.
O artigo 6º impõe o domicílio eleitoral e, no inciso VI, também está imposta a
filiação, a precedência, considerado o pleito, de filiação partidária.
No artigo 7º, tem-se que a eleição do Juiz de Paz importa a eleição dos candidatos
a suplente; há regra para o desempate no § 2º, e que está ligada à eleição verificada.
O artigo 8º cogita da diplomação dos eleitos.
Poderia continuar examinando os demais artigos, Presidente, mas vislumbro o
que contido nos diversos dispositivos como a versar sobre matéria eleitoral, que deve
ser tratada, a meu ver, de forma linear, sem distinguir-se — muito embora seja favorável
a uma ênfase maior à Federação — esta ou aquela unidade da Federação.
Por isso, peço vênia aos colegas que dissentiram, para acompanhar o voto do
Relator, Ministro Eros Grau.

VOTO (Sobre os arts. 5º a 10)


O Sr. Ministro Carlos Velloso: Senhor Presidente, com a vênia dos Srs. Ministros
Marco Aurélio e Relator, fico com a divergência.
476 R.T.J. — 197

VOTO (Sobre os arts. 5º a 10)


O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Sr. Presidente, a rigor, numa análise ortodoxa
desses dispositivos, exigiria examiná-los palavra por palavra.
Há coisas aqui que, por exemplo, no artigo 6º, são condições de elegibilidade e,
aí, não há dúvida, a Constituição Federal esgotou a matéria.
Eu diria que é preciso uma análise laboratorial. Por exemplo, se vai ou não haver
suplente de Juiz de Paz, não é matéria federal. Conseqüentemente, se haverá candidatos
a suplente ou não.
O artigo 5º, creio que decorre da organização local do Juizado de Paz.
O artigo 7º é efetivamente condição de elegibilidade e, nisso, até para afirmar a
filiação partidária, nós, ontem, argumentamos com ele para mostrar que a eleição do
Juiz de Paz tinha de se adequar àquelas disposições da Constituição.
Creio que, para o rigor técnico que temos de ter, a declaração de inconstituciona-
lidade dos artigos 6º, 7º e 8º é praticamente inócua, mas, na verdade, aqui, sim, é
legislação eleitoral. Recordem-se os Colegas que ontem votamos por eliminar a expres-
são “subsidiária” do artigo 2º, exatamente porque não cabe dizer que, em matéria
tipicamente eleitoral, a legislação eleitoral se aplicaria subsidiariamente.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Sim, mas o artigo 7º dispõe, exatamente, no caput:
“Art. 7º Será considerado eleito Juiz de Paz o candidato que obtiver a
maioria dos votos, não computados os votos em branco e os nulos.”
É um critério, mas poderia ser “maioria absoluta”, ou outro critério segundo a
forma.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Mas acho que temos de reconhecer que isso é
evidente, gritantemente eleitoral: o critério da proclamação da eleição. Isso é Direito
Eleitoral puro. Aí, ter-se-á de criar a partir da legislação eleitoral. Deveria até ficar
expresso no acórdão.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Daí a proposta do Ministro Celso de Mello de que
deixasse isso, que também pareceria um pouco heterodoxo, para a disciplina da Justiça
Eleitoral in totum.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Estou, inclusive, propondo que se ressalve,
quer dizer, que se mantenha o artigo 10, que torna explícito o poder normativo da
Justiça Eleitoral.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Acho que a solução proposta pelo
Ministro Sepúlveda Pertence é a melhor. Mas não todos, Ministro, apenas os artigos 6º,
7º e 8º.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Realmente, isso é tecnicamente insustentável,
quer dizer, ver se há alguma ilegalidade para declarar constitucional ou não a lei local,
porque o problema é de competência constitucional da União.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Vossa Excelência sugere, então, os
artigos 6º, 7º e 8º?
R.T.J. — 197 477

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: O 5º não, porque é decorrente da própria


organização.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Ou seja, declara a inconstitucionalidade
do art. 6º, porque define condições de elegibilidade.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: O 7º, o critério de eleição; e o 8º, a diplomação
se fará de acordo com a Justiça Eleitoral: não poderia, também, dizer o contrário.

VOTO (Sobre os arts. 5º a 10)


O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Sr. Presidente, não estou convencido da proposta
do Ministro Sepúlveda Pertence. Não consigo entender a sua argumentação, especial-
mente com relação ao caput do artigo 7º, porque, se pode, na regra do artigo 98, o
Estado criar e definir, portanto, como será, poderia adotar um outro critério que não
este. Aqui, estamos diante de uma lei, no mínimo, de caráter híbrido.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Sim, ao mesmo tempo de composição e de
eleição.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Veja, o artigo 7º é chave para essa definição.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Seria uma opção, maioria absoluta. O
artigo 7º da Lei n. 13.454/2000 do Estado de Minas Gerais não se refere ao mais votado,
mas à maioria absoluta, não computados os brancos e os nulos; ou seja, a maioria dos
que votaram “sim” ou “não”; que votaram em alguém; para isso, precisa-se da maioria
absoluta, tendo em vista a natureza da competência do Juiz de Paz. Isso é razoável.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Sim, poder-se-ia adotar um outro critério que não
o da maioria simples.

VOTO (Sobre os arts. 5º a 10)


O Sr. Ministro Carlos Velloso: Sr. Presidente, fico com o comando do inciso II do
artigo 98 da Constituição Federal.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Até a condição de elegibilidade? Essa nós
utilizamos ontem.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Ministro, que condição de elegibilidade contida na
lei estadual que esteja contrariando condição de elegibilidade da Constituição Federal
ou do Código Eleitoral?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Data venia, por isso é que a minha preocupa-
ção aqui é puramente técnica. Não importa, numa questão de competência, que a lei
local seja a cópia da lei federal, no caso, cópia da Constituição Federal. Se, amanhã, a
Constituição Federal eliminar ou aumentar o requisito “domicílio eleitoral”, prevalece
a lei estadual?
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Estou indagando o seguinte: no que diverge essa
legislação estadual da federal?
478 R.T.J. — 197

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Não é preciso lembrar. Vossa Excelência,


Ministro Carlos Velloso, está cansado de saber disso. Se a questão é de competência, o
conteúdo não importa. E o artigo 6º é um rol de condições de elegibilidade.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: O inciso II do artigo 98 da Constituição entrega aos
Estados a atribuição ou a competência para criar a Justiça de Paz.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Ministro, criar, de acordo. Assim como é o
Estado que cria município. Mas a Constituição e a lei federal que regem a eleição do
prefeito e dos vereadores.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Permita-me, criar de acordo com as regras que
sejam compatíveis com a federação. A questão que o Ministro Pertence levanta não é
técnica, em termos de competência.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: A questão de elegibilidade não é nem da lei
eleitoral, é da Constituição Federal.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Em que está incompatível?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Está incompatível em ter legislado sobre este
assunto. Só pode ser candidato quem satisfaz as condições de elegibilidade. E estas,
para todos os cargos — do Presidente da República ao suplente do Juiz de Paz — estão
no artigo 14, § 3º. Ninguém mais pode legislar sobre isso.
A Sra. Ministra Ellen Gracie: Ministro Carlos Velloso, foi exatamente esse racio-
cínio que nos levou a afastar aquelas expressões dos artigos 2º e 3º.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: O artigo 8º é de inocuidade total: será diplomado
na forma da Justiça Eleitoral.
Eu fico até no artigo 6º. Mas parece-me grave ficar, amanhã, na jurisprudência do
Supremo, que, para Juiz de Paz, quem fixa condições de elegibilidade é o Estado.
Fico só no artigo 6º, porque o outro já é misto.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Apenas o artigo 6º. Com tal limitação, adiro ao
voto.

DEBATE (Sobre o art. 15, incisos VII, VIII e IX)


O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Entendo que se trata de matéria de legislação
processual.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): O Relator está declarando a inconstitu-
cionalidade do inciso “VII”.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Vossa Excelência está declarando a inconstitucio-
nalidade porque entende que isso é matéria processual?
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Processo Civil. Está regulado nos artigos
1.160 e 1.170 do Código de Processo Civil. Eu digo no meu voto:
“O vocábulo “juiz” em ambos os casos, no contexto do CPC, designa o
magistrado togado que, além de arrecadar os bens, tem o poder de publicar editais
R.T.J. — 197 479

e nomear curador, funções defesas ao Juiz de Paz por força do preceito constitucio-
nal do art. 98, II.”
Atividade tipicamente jurisdicional essa de arrecadação, publicação de editais.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Vossa Excelência não está decidindo
lide nenhuma?
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Como?
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): A decisão é de natureza administrativa.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Tem a ressalva: até que intervenha a autoridade
competente.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Ministro Carlos Velloso, estou sendo extrema-
mente federativo, tentando levar ao extremo o sentido dessas regras de competência.
Agora, numa interpretação mais complacente, não tenho dúvida nenhuma...
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Acho que devemos acreditar na Federação. Veja
Vossa Excelência que o procedimento em matéria processual é de legislação concorrente.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Aqui, a arrecadação é no sentido material da
coisa, físico. É não deixar “o boi fugir”.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Como é que ele faria? Nomearia um escrivão
ad hoc para lavrar o auto?
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Ele funciona como escrivão ad hoc.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: O § 2º fala em escrivão ad hoc.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Ministro Sepúlveda Pertence, fico muito
preocupado com a Federação. Não podemos dar elastério à regra de competência do
artigo n. 22. Isso é muito sério, é muito grave.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Vossa Excelência tem que compreender que o artigo
22 há de ser interpretado em consonância com o artigo 24, que cuida da competência
concorrente.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Eu sei disso. Por isso antecipei, já que seria
vencido.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Precisamos atentar para os problemas que surgem.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Para preservar um julgamento histórico, estamos
elastecendo a Federação.
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Não. Estamos justamente acolhendo a autonomia
estadual.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Queria observar o seguinte: o que diz o
preceito? Diz que compete ao Juiz de Paz, quer dizer, o Juiz de Paz passa a ter um poder
que, na verdade, é dever, passa a ter o dever de arrecadar bens de ausentes ou vagos até
que intervenha a autoridade competente, nomeando um escrivão. Que fique claro que
isso não é um poder, é um dever.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Como toda competência.
480 R.T.J. — 197

VOTO (Sobre o art. 15, inciso VII)


O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Senhor Presidente, eu divirjo.
Considero constitucional o dispositivo nesse sentido que estamos dando. Ou
seja, é um mister supletivo que o Juiz de Paz exerce na ausência da autoridade
competente.
Acho que a realidade brasileira recomenda isso. Há municípios no Brasil em que
o juiz aparece a cada quinze ou vinte dias.

VOTO (Sobre o art. 15, inciso VII)


O Sr. Ministro Carlos Britto: Sr. Presidente, acompanho a divergência.
Até porque, no âmbito da Federação, a descentralização de poder, de competên-
cia, sempre que possível, é de ser afirmada. Entre duas interpretações possíveis, deve-se
optar por aquela que fortalece os entes federativos periféricos.

VOTO (Sobre o art. 15, inciso VIII)


O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Senhor Presidente, entendo que aqui se trata de
atividade puramente material, ou seja, lavrar o auto.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Não é dar voz de prisão.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: É funcionar como espécie de escrivão.

EXPLICAÇÃO (Sobre o art. 15, inciso VIII)


O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Sr. Presidente, eu queria lembrar que o Código
de Processo Penal estabelece que o laudo de corpo de delito será procedido por dois
peritos oficiais. E o auto de prisão é lavrado pelo escrivão ou, na sua ausência, por quem
vier a ser designado.
Quer dizer: não é apenas o fato de dar voz de prisão. Arts. 305, 159 e 160 do
Código de Processo Penal.
Matéria típica do art. 22 da Constituição da República, que diz competir privati-
vamente à União legislar sobre ela.
Mais uma vez, permito-me enfatizar a necessidade do acatamento que devemos
prestar ao princípio federativo.

VOTO (Sobre o art. 15, inciso VIII)


O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Sr. Presidente, penso que o Ministro Sepúlveda
Pertence já se manifestou no sentido de admitir. Não vejo nenhum problema.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Não tem sentido.
R.T.J. — 197 481

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Advirto apenas, se formos declarar a inconsti-


tucionalidade a partir do Código de Processo Penal, que esse Código, quando diz que
a perícia será sempre oficial por dois peritos oficiais etc., prevê, também, que, nos
grotões, pode não ser possível, donde a previsão do auto de corpo de delito indireta.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Exatamente.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Obviamente isso não será uma prova pericial.
Agora, atestar que realmente o homem estava morto e que o cadáver não podia esperar a
chegada do Instituto de Criminalística, que provavelmente estaria a oitocentos quilôme-
tros, é um bom começo do auto de corpo de delito indireto, não de perícia.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Autoriza a formalização de documento
que não é tratado como tal, mas tratado meramente como instrumento, considerando
essa realidade nacional.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Havia um cadáver.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Imagine lá em Sergipe.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Em Sergipe, as autoridades policiais, judiciárias e do
Ministério Público são mais atentas, cobrem o Estado todo, pois ele é menor.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Imaginem Santa Rosa do Acre, então.

DEBATE (Sobre o art. 15, inciso XII)


O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Só está dizendo que, havendo necessidade de
prova pericial — óbvio —, à altura da capacidade do Juiz de Paz, que eventualmente
não tenha como remunerar uma outra pessoa, o Juiz de Direito pode nomear um Juiz de
Paz para fazer a perícia.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Claro, para fazer a peritagem.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: É isso que está dito aí com essa palavra
pomposa. É claro que funcionar como perito de acordo com o juiz é ser nomeado pelo
juiz para funcionar como perito.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): É o que o juiz nomeia, e aí não tem
remuneração, porque está incluído na remuneração dele.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Não está dito aqui que não há remuneração.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): O quê?
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Aqui não está dito isso.
A Sra. Ministra Ellen Gracie: É um perito oficial.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Mas, se ele é remunerado pelo serviço,
se consta dele a função remuneratória, isso se faz remunerado.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): O que está me chamando a atenção neste caso —
e acho que isso é muito importante — é que normalmente o ordenamento jurídico
dispõe sobre as regras, não sobre as exceções. E, se os Colegas verificarem bem, estamos
raciocinando sempre com a exceção aqui. É muito bom que o ordenamento seja capaz
de alcançar também as exceções.
482 R.T.J. — 197

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Excelência, é óbvio que Juiz de Paz nos
Jardins de São Paulo é um ser absolutamente dispensável: são funções do Juiz de Paz
dos grotões.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Mas a legislação é mineira, não é paulista, nem
gaúcha.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Vossa Excelência não quer dizer com
isso que a paz é ineficaz em São Paulo.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Exato.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Eu disse, no meu voto — apenas para lembrar
o que falei ontem —, nada impedir que o Juiz de Paz seja nomeado perito, à luz do 145,
§ 3º. Não estou aceitando é que isso venha na legislação estadual, em homenagem ao
art. 22 da Constituição. Só isso.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Isso só pode ter o sentido de que, aí, será função
do cargo dele, e será o perito não remunerado quando puder ele fazer o que qualquer outro
cidadão minimamente qualificado poderia, mas com direito à remuneração.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Exato. Quem designa o perito é o juiz.
É uma questão, inclusive, de economia.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Eu preferia um parágrafo a mais no art. 145 do
Código de Processo Civil.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Então Vossa Excelência mantém?
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Mantenho.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Apenas desrespeitando, data venia, em amor
ao art. 22, o art. 98, uma das poucas reservas explícitas de lei estadual que encontro
nesta Constituição “Federal”, quando nela se diz que, salvo funções jurisdicionais, o
juiz funcionará no casamento e na habilitação de casamento e exercerá outras funções
que lhe der a legislação.
Nesse contexto, legislação é legislação estadual.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Aliás, a Constituição usa o substantivo “legislação”
quase que invariavelmente nesse sentido de convergência federativa.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Sim. Ela exige quando é lei federal, assim
como está no parágrafo, referente a Juiz de Paz no Distrito Federal e na Justiça Federal.

DEBATE (Sobre o art. 15, inciso X)


O Sr. Ministro Carlos Velloso: Quer dizer, as pessoas estão cortando as árvores, e
ele não pode impedir?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Ele é autoridade, tem o dever.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Qualquer um pode tentar impedir isso.
R.T.J. — 197 483

O Sr. Ministro Carlos Velloso: A interpretação conforme restringe a atuação dessa


autoridade.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Aceito a observação, mas não no sentido de
alterar meu voto, até por coerência. Porque há uma linha de coerência nele, desde o
início. O que me preocupa é a interpretação complacente do art. 22.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Matéria ecológica não é competência con-
corrente?
O Sr. Ministro Carlos Britto: Parece-me que não briga com a competência consti-
tucional outorgada ao Ministério Público; não briga para promover o inquérito civil e
a ação civil pública para defesa do meio ambiente. Não está brigando com essa norma.
É uma instância a mais para zelar pelo meio ambiente. Não há uma contradição entre
essa atividade e a do Ministério Público.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Quais são as providências que ele poderá tomar?
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Só a presença dele já inibe a situação.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Quais são as providências diversas em relação
às que qualquer pessoa poderá tomar numa situação como essa? Ele passa a ser uma
espécie de novo fiscal do Ibama? Ele passa a exercer atividade funcional do Ibama?
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Não, Ministro, quer que ele tome conta da área,
apenas.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Na competência administrativa do art. 23, inciso
VI, ressalta-se que a competência é comum.
“Art. 23. (...)
VI - proteger o meio ambiente e combater a poluição em qualquer de suas
formas;”
O Sr. Ministro Carlos Velloso: A competência é comum?
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: É. E no artigo 24.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Competência material comum.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: É. É a legislação concorrente ao artigo 24, inciso VI.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Quando houver necessidade de coerção, o
problema dele será provocar o juiz, promotor, delegado ou escrivão. Na verdade,
praticamente todo cidadão pode fazer isso, mas, dando-lhe a incumbência, ele fica com
o dever de fazê-lo.
O Sr. Ministro Eros Grau (Relator): Ele fará por dever, não em virtude de um
direito.

VOTO (Sobre o art. 15, inciso X)


O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Senhor Presidente, fico com a divergência, para
considerar constitucional na íntegra o dispositivo.
484 R.T.J. — 197

VOTO (Sobre o art. 22, caput)


O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Senhor Presidente, considero constitucional o
dispositivo, porque já consta da Loman.

VOTO (Sobre o art. 22, caput)


O Sr. Ministro Carlos Velloso: Sr. Presidente, fico com a divergência.

EXTRATO DA ATA
ADI 2.938/MG — Relator: Ministro Eros Grau. Requerente: Procurador-Geral da
República. Requeridos: Governador do Estado de Minas Gerais e Assembléia Legislativa
do Estado de Minas Gerais.
Decisão: Prosseguindo no exame dos dispositivos impugnados na Lei n. 13.454,
de 12 de janeiro de 2000, do Estado de Minas Gerais, o Tribunal, por maioria, julgou
improcedente a ação quanto ao artigo 4º, vencidos os Ministros Carlos Britto, Marco
Aurélio e Celso de Mello. Por unanimidade, deu pela inconstitucionalidade integral do
artigo 6º, nos termos do voto do Relator. Em relação aos artigos 5º, 7º, 8º, 9º e 10, o
Tribunal, por maioria, julgou improcedente a ação, vencidos os Ministros Eros Grau
(Relator), Marco Aurélio e Celso de Mello. Quanto ao inciso VII do artigo 15, julgou,
por maioria, improcedente a ação, vencidos os Ministros Eros Grau (Relator) e Marco
Aurélio. Por unanimidade, julgou inconstitucional a expressão “e lavrar auto de pri-
são”, constante do inciso VIII do artigo 15, nos termos do voto do Relator; e, por
maioria, inconstitucional o remanescente do dispositivo, vencidos os Ministros Gilmar
Mendes, Carlos Velloso, Sepúlveda Pertence e Nelson Jobim. Em relação ao inciso IX
do mesmo artigo, o Tribunal, por unanimidade, julgou inconstitucional a ação. Por
maioria, julgou improcedente a ação em relação ao inciso X do artigo 15, vencidos os
Ministros Eros Grau (Relator) e Marco Aurélio, que davam interpretação conforme,
assim como, também por maioria, improcedente a ação quanto ao seu inciso XII,
vencidos os Ministros Eros Grau (Relator) e Marco Aurélio. Em relação ao § 2º do
artigo 15, o Tribunal, por maioria, julgou improcedente a ação, vencidos os Ministros
Eros Grau (Relator) e Marco Aurélio. E, quanto ao artigo 22, o Tribunal, por maioria,
julgou procedente a ação e declarou a inconstitucionalidade da expressão “e garante
direito a prisão especial, em caso de crime comum, até definitivo julgamento”, venci-
dos os Ministros Joaquim Barbosa e Carlos Velloso. Votou o Presidente, Ministro
Nelson Jobim. Redigirá o acórdão o próprio Relator. Ausente, justificadamente, o
Ministro Cezar Peluso. Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes,
Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Vice-Procurador-Geral da República, Dr.
Antonio Fernando Barros e Silva de Souza.
Brasília, 9 de junho de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.
R.T.J. — 197 485

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 3.069 — DF

Relatora: A Sra. Ministra Ellen Gracie


Requerente: Governador do Distrito Federal — Requerida: Câmara Legislativa
do Distrito Federal
Ação direta de inconstitucionalidade. Lei distrital 3.083, de 7-10-
02. Dia do Comerciário. Data comemorativa e feriado para todos os
efeitos legais. Alegação de ofensa ao art. 22, I. Competência privativa da
União para legislar sobre Direito do Trabalho. Inconstitucionalidade
formal.
1. Preliminar de não-conhecimento afastada. Norma local que
busca coexistir, no mundo jurídico, com lei federal preexistente, não
para complementação, mas para somar nova e independente hipótese
de feriado civil.
2. Inocorrência de inconstitucionalidade na escolha, pelo legisla-
dor distrital, do dia 30 de outubro como data comemorativa em homena-
gem à categoria dos comerciários no território do Distrito Federal.
3. Implícito ao poder privativo da União de legislar sobre Direito
do Trabalho está o de decretar feriados civis, mediante lei federal ordi-
nária, por envolver tal iniciativa conseqüências nas relações empregatí-
cias e salariais. Precedentes: AI 20.423, Rel. Min. Barros Barreto, DJ de
24-6-59, e Representação 1.172, Rel. Min. Rafael Mayer, DJ de 3-8-84.
4. Ação direta cujo pedido é julgado parcialmente procedente.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, sob a Presidência do Ministro Nelson Jobim, na
conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de
votos, julgar procedente, em parte, a ação, para declarar a inconstitucionalidade da
expressão “e feriado para todos os efeitos legais”, contida no artigo 2º da Lei n. 3.083,
de 7 de outubro de 2002, do Distrito Federal, nos termos do voto da Relatora.
Brasília, 24 de novembro de 2005 — Ellen Gracie, Relatora.

RELATÓRIO
A Sra. Ministra Ellen Gracie: Trata-se de ação direta de inconstitucionalidade
proposta pelo Governador do Distrito Federal em face da Lei 3.083, de 7-10-02, que
passa a considerar, naquela unidade da Federação, o dia 30 de outubro data comemora-
tiva (Dia do Comerciário) e feriado para todos os efeitos legais.1

1 Lei 3.083, de 7-10-02, do Distrito Federal:


486 R.T.J. — 197

Alega que a Câmara Legislativa do Distrito Federal, ao instituir novo feriado,


atingiu as relações de emprego e de salário, tendo invadido, portanto, a competência
privativa da União para legislar sobre Direito do Trabalho (CF, art. 22, I). Aponta,
ainda, a existência de legislação federal disciplinando a matéria (Lei 9.093/95), “que
não deixou margem aos Estados para editarem normas instituindo outros feriados
além da data magna estadual e dos religiosos em número não superior a quatro” (fl.
04). Pede, ao final, a declaração de inconstitucionalidade do Diploma impugnado.
Aplicado o procedimento disposto no art. 12 da Lei 9.868/99 (fl. 10), o Presidente
da Câmara Legislativa do Distrito Federal prestou informações (fls. 16/21), nas quais
sustenta pretender-se, por meio desta ação, a análise de possível descompasso entre a
lei ordinária distrital e a lei federal que rege o assunto. Aduz, assim, a inadequação do
controle abstrato para a averiguação de ofensa a normas infraconstitucionais.
A Advocacia-Geral da União, em sua manifestação (fls. 23/30), salientou que a
criação, por si só, de uma data comemorativa local que represente uma homenagem à
categoria dos comerciários não afronta a Carta Magna, sendo certo que tal iniciativa
está inserida na autonomia que possuem os entes da Federação de “prestar homena-
gens a tudo que se revele especial”, havendo, nesse sentido, várias datas que festejam
fatos ou personagens históricos, direitos fundamentais, categorias profissionais, pessoas,
coisas, instituições etc.
Afirma, todavia, que a fixação de data de comemoração não se confunde com a
criação de feriado, iniciativa esta que “ocasiona reflexos nas relações de trabalho
devido à obrigatoriedade do pagamento de salários” (fl. 28), além de provocar a
interrupção de outras atividades públicas e privadas. Conclui, dessa forma, que a expres-
são “e feriado para todos os efeitos legais”, contida no art. 2º do ato normativo ora em
exame, invade a competência privativa da União para legislar sobre Direito do Trabalho.
Pelas mesmas razões expostas pela AGU, opinou a Procuradoria-Geral da Repú-
blica pela procedência parcial do pedido formulado e pela declaração de inconstitucio-
nalidade da expressão “e feriado para todos os efeitos legais”, presente no art. 2º da Lei
distrital 3.083/02 (fls. 32/34).
É o relatório. Distribuam-se cópias aos Senhores Ministros.

VOTO
A Sra. Ministra Ellen Gracie (Relatora): 1. Examino, inicialmente, a preliminar de
conhecimento levantada nas informações prestadas pela Câmara Legislativa do Distrito
Federal, que sustenta a presença, nesta ação, de um mero questionamento sobre a

Art. 1º O Dia do Comerciário será comemorado no território do Distrito Federal no dia 30 de


outubro de cada ano.
Art. 2º A data de que trata o artigo anterior será considerada comemorativa, e feriado para todos os
efeitos legais.
Art. 3º Esta Lei entre em vigor na data de sua publicação.
Art. 4º Revogam-se as disposições em contrário.
R.T.J. — 197 487

conformação do ato normativo atacado ao teor da lei federal que dispôs sobre feriados,
pretensão inviável em sede de controle concentrado de constitucionalidade de normas.
A Lei 9.093, de 12-9-95, definiu quais são os feriados brasileiros, divididos entre
civis (i - os declarados em lei federal; ii - as datas magnas dos Estados, fixadas em lei
estadual; e iii - os dias do início e do término do ano do centenário de fundação do
município, fixados em lei municipal) e religiosos (dias de guarda, declarados em lei
municipal, de acordo com a tradição local e em número não superior a quatro, neste
incluída a Sexta-Feira da Paixão).
Note-se que o referido Diploma representa a instituição das hipóteses de feriado,
exaustivamente enumeradas pelo legislador federal, que delegou à lei estadual, no caso
da data magna, e à lei municipal, nos casos do ano do centenário e dos dias de guarda,
tão-somente a fixação dos dias em que deverão recair aqueles feriados previamente
concebidos. Estaríamos no campo da ilegalidade, por exemplo, se em discussão a
eleição deste ou daquele dia do ano como a data magna do Distrito Federal.
Não é o caso dos autos.
Aqui, há a instituição de um novo feriado civil por meio de lei distrital, com todos
os efeitos daí decorrentes. É norma local que busca coexistir, no mundo jurídico, com
lei federal preexistente, não para complementação, mas para somar nova e independente
hipótese de feriado civil.
Rejeito, portanto, a preliminar ora tratada.
2. No tocante ao mérito, não verifico inconstitucionalidade alguma na escolha,
pelo legislador distrital, do dia 30 de outubro como data comemorativa em homenagem
à categoria dos comerciários do Distrito Federal. Aliás, desde 1932 esta data é nacio-
nalmente considerada dia do comerciário, por coincidir com a publicação no Diário
Oficial do Decreto-Lei 4.042, que reduziu a jornada diária de trabalho da referida
categoria de doze para oito horas e regulamentou o funcionamento do comércio.
3. Por outro lado, ainda sob a égide das Constituições anteriores, o Supremo
Tribunal Federal já assentava que implícito ao poder privativo da União de legislar
sobre Direito do Trabalho estava o de “decretar feriados civis, mediante lei federal
ordinária” (AI 20.423, Rel. Min. Barros Barreto, DJ de 24-6-59), por envolver tal
iniciativa “conseqüências nas relações empregatícias e salariais” (Representação
1.172, Rel. Min. Rafael Mayer, DJ de 3-8-84). A Constituição Federal de 1988, em
continuidade a esta sistemática, estabelece a competência privativa da União para
legislar sobre temas de Direito do Trabalho, aí incluído, segundo a jurisprudência
apontada, a criação de feriado civil, pois este, como bem ressaltou o parecer da douta
PGR, “institui um dia de descanso remunerado para os trabalhadores, fazendo surgir
obrigações para os empregadores” (fl. 33).
4. Diante do exposto, detectada a presença de vício formal pela invasão de
competência privativa da União pelo legislador distrital, julgo procedente, em parte,
o pedido para declarar a inconstitucionalidade da expressão “e feriado para todos os
efeitos legais”, contida no art. 2º da Lei 3.083/02, do Distrito Federal.
É como voto.
488 R.T.J. — 197

EXTRATO DA ATA
ADI 3.069/DF — Relatora: Ministra Ellen Gracie. Requerente: Governador do
Distrito Federal (Advogados: PGDF – Maria Dolores Serra de Mello Martins e outro).
Requerida: Câmara Legislativa do Distrito Federal.
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, julgou procedente, em parte, a ação, para
declarar a inconstitucionalidade da expressão “e feriado para todos os efeitos legais”,
contida no artigo 2º da Lei n. 3.083, de 7 de outubro de 2002, do Distrito Federal, nos
termos do voto da Relatora. Votou o Presidente, Ministro Nelson Jobim. Ausentes,
justificadamente, os Ministros Sepúlveda Pertence, Celso de Mello e Gilmar Mendes.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Carlos
Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e
Eros Grau. Vice-Procurador-Geral da República, Dr. Roberto Monteiro Gurgel Santos.
Brasília, 24 de novembro de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE 3.114 — SP

Relator: O Sr. Ministro Carlos Britto


Requerente: Governador do Estado de São Paulo — Requerida: Assembléia Legis-
lativa do Estado de São Paulo
Ação direta de inconstitucionalidade. Impugnação do parágrafo
único do artigo 25 e do caput do artigo 46 da Lei Complementar n. 836, de
2 de dezembro de 1997. Diploma normativo que instituiu o Plano de
Carreira, Vencimentos e Salários dos servidores públicos inegrantes do
quadro do magistério da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.
Alegação de desrespeito aos incisos IV e VI do artigo 84 da Constituição
Federal de 1998, bem como ao princípio da separação de Poderes (art. 2º
da CF).
— As normas constitucionais de processo legislativo não impossibi-
litam, em regra, a modificação, por meio de emendas parlamentares, dos
projetos de lei enviados pelo Chefe do Poder Executivo no exercício de
sua iniciativa privativa. Essa atribuição do Poder Legislativo brasileiro
esbarra, porém, em duas limitações: a) a impossibilidade de o parlamento
veicular matérias diferentes das versadas no projeto de lei, de modo a
desfigurá-lo; e b) a impossibilidade de as emendas parlamentares aos
projetos de lei de iniciativa do Presidente da República, ressalvado o
disposto nos §§ 3º e 4º do art. 166, implicarem aumento de despesa pública
(inciso I do art. 63 da CF). No caso, a Lei Complementar n. 836/97 é fruto
de um projeto de lei de autoria do próprio Governador do Estado de São
Paulo, e o impugnado parágrafo único do artigo 25, embora decorrente
R.T.J. — 197 489

de uma emenda parlamentar, não acarreta nenhum aumento da despesa


pública. Vício de inconstitucionalidade que não se verifica.
— O artigo 46 da Lei Complementar n. 836/97 dispõe que, na
hipótese de o deslocamento do servidor público ocorrer sem prejuízo
remuneratório, caberá ao Município ressarcir ao Estado os valores
pagos ao agente estatal cedido, bem como os encargos sociais correspon-
dentes. Tudo a ser feito com recursos provenientes do repasse do Fundo
de Desenvolvimento e Manutenção do Ensino Fundamental. Caso em que
se reconhece ofendida a autonomia municipal para aplicar livremente as
suas rendas (CF, art. 18).
— Ação direta julgada parcialmente procedente para declarar a
inconstitucionalidade da expressão “Na hipótese de o afastamento ocor-
rer sem prejuízo de vencimentos, o Município ressarcirá ao Estado os
valores referentes aos respectivos contracheques, bem como encargos
sociais correspondentes, com recursos provenientes do repasse do Fundo
de Desenvolvimento e Manutenção do Ensino Fundamental”, constante
do art. 46 da Lei Complementar n. 836/97, do Estado de São Paulo.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, por seu Tribunal Pleno, sob a Presidência do Ministro Nelson Jobim,
na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de
votos, julgar improcedente a ação quanto ao parágrafo único do artigo 25 da Lei
Complementar n. 836/97. Também por unanimidade, julgar parcialmente procedente a
ação quanto ao inciso X do artigo 64, acrescentado pelo artigo 46 da Lei Complementar
n. 836, de 2 de dezembro de 1997, à Lei Complementar n. 444, de 27 de dezembro de
1985, ambas do Estado de São Paulo, restando declarada a inconstitucionalidade da
seguinte expressão: “Na hipótese de o afastamento ocorrer sem prejuízo de vencimentos,
o Município ressarcirá ao Estado os valores referentes aos respectivos contra-cheques,
bem como aos encargos sociais correspondentes, com recursos provenientes do repasse
do Fundo de Desenvolvimento e Manutenção do Ensino Fundamental”, tudo nos
termos do voto do Relator. Votou o Presidente.
Brasília, 24 de agosto de 2005 — Carlos Ayres Britto, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto: O Governador do Estado de São Paulo
ajuíza a presente ação direta de inconstitucionalidade. Ação, essa, que impugna o
parágrafo único do art. 25 e o art. 46, caput, da Lei Complementar paulista de n.
836, de 2 de dezembro de 1997, que instituiu o Plano de Carreira, Vencimentos e
Salários dos servidores públicos integrantes do Quadro do Magistério da Secretaria
de Educação.
2. Os dispositivos questionados exibem a seguinte redação:
490 R.T.J. — 197

“Art. 25. (...)


Parágrafo Único. A Comissão de Gestão da Carreira referida no caput de
este artigo será composta de forma paritária com representantes indicados pela
Secretaria da Educação e das entidades representativas dos integrantes do
magistério, a ser regulamentada no prazo máximo de 60 (sessenta) dias.
(...)
Art. 46. Inclua-se no artigo 64 da Lei Complementar n. 444, de 27 de
dezembro de 1985, o inciso X, com a seguinte redação:
X - exercer atividades docentes ou de suporte pedagógico, junto a Municí-
pios conveniados com o Estado para municipalização do ensino, sem prejuízo de
vencimentos e sem prejuízo das demais vantagens do cargo ou com prejuízo de
vencimentos com expressa opção do servidor. Na hipótese de o afastamento
ocorrer sem prejuízo de vencimentos, o Município ressarcirá ao Estado os
valores referentes aos respectivos contra-cheques, bem como aos encargos sociais
correspondentes, com recursos provenientes do repasse do Fundo de Desenvol-
vimento e Manutenção do Ensino Fundamental.”
(Sem destaques no original)
3. Pois bem, sustenta o requerente que os dispositivos normativos em vitrine
foram inseridos, pela Assembléia Legislativa paulista, no projeto de Lei Comple-
mentar n. 38/97; inserção que, na ótica do autor, estaria a vilipendiar a competência
constitucional do Chefe do Poder Executivo para deflagrar, com privatividade, o
processo de elaboração de leis que versem sobre o regime jurídico dos servidores
públicos e a respeito da estrutura de órgãos da Administração Pública (art. 61, § 1º,
II, c e e, da Lex Legum). Aduz que o texto normativo sob censura desrespeita os
incisos IV e VI do art. 84 da Carta-cidadã, bem como o Princípio da Separação dos
Poderes (CF, art. 2º).
4. Já em sede de informações, o Presidente da Assembléia Legislativa do Estado
de São Paulo salienta que o caso dos autos não autoriza a instauração do processo
objetivo de constitucionalidade. Isso porque o embate jurídico sobre eventual
invalidade dos dispositivos impugnados seria travado em face da Constituição paulista
e, apenas de forma reflexa, frente à Norma Normarum. Diz, por outro lado, que o art. 61
da Constituição Federal cinge-se à iniciativa de leis do Presidente da República, não
sendo aplicável, portanto, aos Governadores de Estado. Nessa marcha batida, o reque-
rido também esgrime a tese de que os dispositivos hostilizados não dispõem sobre
servidor público e seu regime jurídico, tampouco referindo-se à criação de órgãos da
Administração Pública.
5. A seu turno, o digno Advogado-Geral da União manifestou-se pela improce-
dência dos pedidos articulados na inicial, enquanto que a douta Procuradoria-Geral da
República opinou pela procedência da pretensão autoral.
É o relatório.
R.T.J. — 197 491

VOTO
O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto (Relator): 7. Vê-se que o Governador do Estado
de São Paulo pugna pela declaração de inconstitucionalidade do parágrafo único do
artigo 25 e do caput do artigo 46 da Lei Complementar n. 836/97. Para tanto, sustenta
violação às alíneas a e c do inciso II do § 1º do artigo 61 da Lei Maior do País.
8. Pois bem, com os olhos postos no caso concreto, observo que o parágrafo único
do art. 25 da Lei Complementar n. 836/97 dispõe sobre a composição da chamada
“Comissão de Gestão da Carreira do Magistério”, órgão, esse, que deverá ser
paritariamente constituído por representantes da Secretaria da Educação e das entida-
des de representação. Mais: do exame do caput desse mesmo art. 25, infere-se que o pré-
falado comitê foi instituído para auxiliar o Poder Público no estabelecimento de
critérios garantidores da evolução funcional dos funcionários que integram a carreira
do magistério público1.
9. Bem vistas as coisas, é do meu pensar que o desate da controvérsia em torno da
validade do parágrafo único do art. 25 da Lei Complementar n. 836/97 dispensa
qualquer estudo que vise a detectar se esse dispositivo legal realmente tratou sobre
qualquer das matérias arroladas nas letras a e c do inciso II do § 1º do art. 61 da Lex
Legum. Assim me posiciono porque, segundo noticiou o próprio requerente (fl. 03), o
diploma normativo sob comento resultou de Projeto de Lei Complementar de autoria
do Poder Executivo paulista.
10. De outra banda, as normas constitucionais de processo legislativo não impos-
sibilitam, em regra, a modificação, por meio de emendas parlamentares, dos projetos de
lei enviados pelo Presidente da República no exercício constitucional de sua iniciativa
exclusiva. Essa atribuição do Poder Legislativo brasileiro esbarra, porém, em duas
limitações: a) a impossibilidade de o parlamento veicular matérias diferentes da tratada
no projeto de lei, de modo a desfigurá-la, e, b) a impossibilidade de as emendas
parlamentares aos projetos de lei de iniciativa do Presidente da República, ressalvado
o disposto nos §§ 3º e 4º do art. 166, implicarem aumento de despesa pública (CF, art.
63, I).
11. Seja como for, o fato é que não diviso qualquer inconstitucionalidade no
parágrafo único do art. 25 da Lei Complementar n. 836/97, do Estado de São Paulo.
Primeiro, porque esse diploma legal é fruto de um projeto de lei de autoria do Poder
Executivo e, segundo, porque o impugnado parágrafo único do art. 25, embora decor-
rente de uma emenda parlamentar, não acarreta nenhum aumento da despesa pública.
12. Debruço-me, agora, sobre a argumentação manejada para impugnar o art. 46
da multi-referida Lei Complementar n. 836/97, do Estado de São Paulo. Esse dispositivo
legal, repise-se, introduziu o inciso X no art. 64 da Lei Complementar n. 444, de 27 de
dezembro de 1985, do Estado de São Paulo, cujo teor é seguinte:

1 “Art. 25. Fica instituída, na Secretaria da Educação, Comissão de Gestão da Carreira, com a
atribuição de propor critérios para a Evolução Funcional e demais providências relativas ao assunto, na
forma a ser estabelecida em regulamento”.
492 R.T.J. — 197

“Art. 64. O docente e/ou especialista de educação poderão ser afastados do


exercício de seu cargo, respeitado o interessa da Administração Estadual, para os
seguintes fins:
(...)
X - exercer atividades docentes ou de suporte pedagógico, junto a Municí-
pios conveniados com o Estado para municipalização do ensino, sem prejuízo de
vencimentos e sem prejuízo das demais vantagens do cargo ou com prejuízo de
vencimentos com expressa opção do servidor. Na hipótese de o afastamento
ocorrer sem prejuízo de vencimentos, o Município ressarcirá ao Estado os
valores referentes aos respectivos contra-cheques, bem como encargos sociais
correspondentes, com recursos provenientes do repasse do Fundo de Desenvol-
vimento e Manutenção do Ensino Fundamental;
(...)”
(Sem destaque no original)
13. Nesse particular, Senhor Presidente, penso assistir razão ao acionante. É que o
art. 46 da Lei Complementar n. 836/97 dispõe que, na hipótese de o deslocamento do
servidor público ocorrer sem prejuízo remuneratório, caberá ao Município ressarcir ao
Estado os valores pagos ao agente estatal cedido, bem como os encargos sociais
correspondentes — tudo a ser feito com recursos provenientes do repasse do Fundo de
Desenvolvimento e Manutenção do Ensino Fundamental.
14. Nesse ponto, é do meu pensar que restou ofendida a autonomia municipal (CF,
art. 18) para aplicar livremente as suas rendas, como leciona Hely Lopes Meirelles, in
Direito Municipal Brasileiro, Ed. Malheiros, p. 93, in verbis:
“(...)
A atual Constituição da República, além de inscrever a autonomia como
prerrogativa intangível do Município (...), enumera, dentre outros, os seguintes
princípios asseguradores dessa mesma autonomia: a) poder de auto-organização
(elaboração de lei orgânica própria); b) poder de auto-governo, pela eletividade
do prefeito, do vice-prefeito e dos vereadores; c) poder normativo próprio, ou de
autolegislação, mediante a elaboração de leis municipais na área de sua compe-
tência exclusiva e suplementar; d) poder de auto-administração: administração
própria para criar, manter e prestar os serviços de interesse local, bem como
legislar sobre seus tributos e aplicar suas rendas.
(...)”
(Sem destaque no original)
15. Nesse mesmo sentido, arremata o saudoso administrativista (pp. 111/112,
ob. cit.):
“(...)
Outro princípio assegurador da autonomia municipal é a garantia que a
Constituição da República oferece ao Município de decretar e arrecadar os
R.T.J. — 197 493

tributos de sua competência e aplicar suas rendas sem tutela ou dependência de


qualquer poder (...)”
(Sem destaque no original)
16. Com esses fundamentos, Senhor Presidente, o meu voto é pela procedência
parcial do pedido, declarando tão-somente a inconstitucionalidade da expressão: “Na
hipótese de o afastamento ocorrer sem prejuízo de vencimentos, o Município ressarcirá
ao Estado os valores referentes aos respectivos contra-cheques, bem como encargos
sociais correspondentes, com recursos provenientes do repasse do Fundo de Desen-
volvimento e Manutenção do Ensino Fundamental”, constante do art. 46 da Lei
Complementar n. 836/97, do Estado de São Paulo.
17. É como voto.

O Sr. Ministro Marco Aurélio: Senhor Presidente, o Relator ressaltou dois aspec-
tos fundamentais. O parágrafo inserido tem a ver com a cabeça do artigo, que resultou
de projeto do Executivo e não gera, em si, aumento de despesa. A concluir-se que a
norma da iniciativa é peremptória, chegaremos ao ponto de entender que, tramitando o
projeto, não pode haver qualquer modificação na Casa Legislativa, a quem cabe tão-
somente placitar o que fora enviado pelo Executivo.
Sob o ângulo da razoabilidade, a boa procedência da inserção salta aos olhos,
porque, ao se disciplinar a Comissão de Gestão da Carreira sem definir-se o número de
participantes, versou-se sobre a integração de representantes do magistério. Algo
salutar e que observamos na vida administrativa em geral, ou seja, quando se imagina
um trabalho para melhor se estruturar a carreira, para melhor se implementar a carreira,
conta-se com a participação dos diretamente interessados, e incumbirá à Administração
Pública definir o número de representantes na regulamentação, no prazo razoável de
sessenta dias.
Acompanho o Relator, julgando improcedente o pedido formulado.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): A controvérsia proposta é que o caput
do artigo estabelecia:
“Art. 25. Fica instituída, na Secretaria da Educação, Comissão de Gestão
da Carreira, com a atribuição de propor critérios para a Evolução Funcional e
demais providências relativas ao assunto, na forma a ser estabelecida em regula-
mento.”
Ou seja, no projeto, é reservado ao regulamento a definição da composição dessa
gestão de carreira. O Relator e o Min. Marco Aurélio sustentam que o parágrafo
meramente estabeleceu a composição e não estaria fora da atribuição de emendas.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Observando até a ordem natural das coisas, a
natureza da comissão a ser constituída.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Apenas se impôs uma limitação na sua
composição.
494 R.T.J. — 197

O Sr. Ministro Carlos Britto (Relator): Que seria paritária, porque a Constituição
Federal consagra o princípio da gestão paritária do ensino no inciso VI do art. 206,
expressamente.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Além do que, nesse caso, a cláusula do art. 25
estava totalmente aberta. Não tinha, na verdade, uma delegação. Segundo a ortodoxia,
mais declamado na doutrina do que na prática constitucional, essas fórmulas, na
verdade, contêm delegação indevida. De modo que até nesse sentido parece dar um
mínimo de parâmetros.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Chamaria a atenção para a primeira vez
que isso surgiu no Tribunal. Lembrem-se da antiga Súmula n. 05 do Supremo Tribunal
Federal, que estabelecia aquele problema da sanção do projeto, supre a falta de iniciativa,
etc. Essa orientação do Tribunal acabou sendo alterada na Representação n. 890,
Relator Oswaldo Trigueiro, de 27 de março de 1974, porque, naquele momento, já
estava em vigor a Constituição de 1967, que havia reproduzido uma norma surgida no
Ato Institucional n. 2 determinando, pura e simplesmente, a proibição de emendas
parlamentares que aumentassem despesa.
Então, entendeu-se que a sanção do Executivo não superava a proibição ao Poder,
estabelecida na Constituição de 67. Curiosamente, tive oportunidade de fazer uma
pesquisa — e não recorri ao Ministro Sepúlveda Pertence, que tem a memória do Tribunal —,
e, depois, essa tese, que se restringia exclusivamente à questão relativa à despesa,
acabou se estendendo a todas as outras sanções do Presidente sobre alterações que
fossem feitas em projeto de sua iniciativa, mesmo quando não importassem em aumento
de despesa.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: O critério mais presente à jurisprudência do
Tribunal é o da pertinência, sem a qual seria inócua a própria regra de iniciativa
reservada.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: De iniciativa, com uma modificação substancial.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Se uma proposta de regra sobre vantagens de
servidores públicos, de iniciativa reservada ao Executivo, fosse dado emendar para
criar órgãos novos, obviamente estaria esvaziada a iniciativa, também privativa do
Executivo, para projetos de criação de órgãos administrativos. No caso, o que se tem? A
iniciativa da criação do órgão é do Executivo, com uma delegação ampla ao Governo
para regulamentá-lo como bem entender. Impôs-se, por emenda parlamentar, um caráter
paritário à composição dessa comissão. Não vejo nenhuma inconstitucionalidade.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Duas palavras apenas: apanhou bem o Ministro
Sepúlveda Pertence. Retifico o que lancei no voto, quanto ao número de integrantes. A
composição é paritária. A paridade visa ao equilíbrio. A comissão só tem a atribuição
de propor.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Não é vinculante.
Há um aspecto também a ser suscitado, que foi levantado da tribuna, em relação
ao parágrafo único na parte final.
O caput do artigo diz: “na forma a ser estabelecida em regulamento”.
R.T.J. — 197 495

E o parágrafo único diz: “a ser regulamentada no prazo máximo de 60 (sessenta)


dias”.
Tem de examinar separadamente esse pedido formulado na ADI, da imposição de
prazo ao governador de Estado.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: É razoável.
O Sr. Ministro Carlos Britto (Relator): Acho razoável. É o tipo de norma sem
sanção.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: E o período de sessenta dias? Se não se conseguir
constituir uma comissão em sessenta dias, há algo errado.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: : Essa questão do prazo da Constituição de 67/69
já foi objeto de consideração de Pontes de Miranda, dizendo que pode haver até lesão
à divisão de Poderes se houver uma imposição de prazo extremamente curto. Mas, na
hipótese, parece-me absolutamente razoável, guarda pertinência com a própria proposta
do Executivo, que teria de regulamentar a matéria.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Está no caput.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Também, não se trata de um prazo tão curto para
regular uma matéria importante.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): E resolve um conflito político. Se fica
sem prazo, como o parágrafo foi impugnado, acaba não regulamentando a comissão,
tendo em vista que isso foi produto de emenda parlamentar.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Nesta ação direta de inconstitucionalidade, houve
concessão de liminar? Porque a lei complementar é de 97.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Esse afastamento é dependente da autoriza-
ção administrativa?
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Como está o caput do artigo?
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Na cabeça do artigo, prevê-se “respeitado o
interesse da Administração Estadual”. A Administração Estadual definirá a cessão.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): O que diz a cabeça do artigo 64?
O Sr. Ministro Marco Aurélio: De acordo com o artigo 64:
Artigo 64. O docente e/ou especialista de educação poderão ser afastados
do exercício de seu cargo, respeitado o interesse da Administração Estadual,
para os fins:
(...)
Aqui se estabelece um regime de cooperação.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: O Estado celebra convênios em que se
compromete a ceder funcionários, com ou sem ônus para o Município.
O Sr. Ministro Carlos Britto (Relator): E dispondo, inclusive, sobre o modo de o
Município, eventualmente, ressarcir as despesas do Estado.
496 R.T.J. — 197

O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Obviamente, se isso é convênio, é se o Município


assentir em receber o servidor.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Claro, não há invasão.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Por essa regra o servidor só poderá
exercer a atividade docente, se o Município ressarcir o Estado.
O Sr. Ministro Carlos Britto (Relator): Já indicando os fundos.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): É o efeito, diz assim:
“Na hipótese de o afastamento ocorrer sem prejuízo de vencimentos, o
Município ressarcirá ao Estado os valores referentes aos respectivos contra-
cheques, bem como aos encargos sociais correspondentes, com recursos proveni-
entes do repasse do Fundo de Desenvolvimento e Manutenção do Ensino Funda-
mental.”
Então, condiciona que o convênio só será admitido se houver o ressarcimento.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Mas é interessante.
O Sr. Ministro Carlos Britto (Relator): Inclusive com indicação da fonte de
suprimento de recursos para o Município.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: O que me intriga um pouco é essa cláusula de
expressa opção do servidor.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Eu sei, mas aí exige-se a expressa opção do
prestador dos serviços, porque, deixando ele de receber dos cofres públicos, do próprio
Estado ao qual vinculado, haverá uma modificação substancial na relação jurídica. Por
isso é que se cogitou da opção expressa do prestador dos serviços. A regra qual é? A
cessão, e o órgão cedente satisfaz a remuneração do prestador dos serviços e, depois,
reembolsa-se mediante o convênio.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Agora, mesmo que o titular, o docente,
opte no sentido de ir trabalhar no Município com prejuízo dos vencimentos, tem que
concordar; se não concordar, irá sem prejuízo dos vencimentos, mas, nessa hipótese, o
Município terá de ressarcir, o convênio não ficará aberto no sentido de que o Estado
não seja ressarcido.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: O risco passa a ser dele.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Isso não tinha sido proposto, inicialmente, pelo
Governador, foi por inovação completa do projeto.
O Sr. Ministro Carlos Britto (Relator): Foi por emenda.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Mas visando à colaboração; é uma opção político-
legislativa.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Aqui, é uma restrição da norma imposta
ao Governador, que fica proibido de mandar servidores sem prejuízo dos vencimentos
e sem que haja ressarcimento pelos Municípios. Os Municípios têm a obrigação de
ressarcir. A cessão de servidores fica restrita a essa condição.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Isso entra na questão da pertinência.
R.T.J. — 197 497

O Sr. Ministro Carlos Britto (Relator): Tematicamente, essa emenda parlamentar é


novidadeira.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Se a emenda não é novidadeira, não é emenda.
O que importa é se ela tem a ver com o objeto do processo.
O Sr. Ministro Carlos Britto (Relator): É novidadeira de modo substancial, a
ponto de acarretar despesa.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Ela tem a ver com o objeto do processo.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): O governador não pode ceder sem
acertar o ressarcimento. A parte final diz:
“Na hipótese de o afastamento ocorrer sem prejuízo de vencimentos, o
Município ressarcirá ao Estado (...)”
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Ministro, acho que Vossa Excelência está
levando o problema da pertinência a uma linha muito estreita.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: O ressarcimento é na hipótese de o Estado continuar
satisfazendo a remuneração.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Exatamente. Há duas hipóteses de
convênio dos Municípios com os Estados. Ou o Estado manda servidores para os
Municípios, sem a exigência do ressarcimento pelas despesas com os vencimentos, e
nesse caso o Estado está ajudando o Município, ou o Estado envia servidores com a
previsão do ressarcimento das despesas com os vencimentos. Aqui, essa norma obriga
o ressarcimento, proíbe a primeira fórmula, a primeira alternativa, quando diz: “Na
hipótese de o afastamento ocorrer sem prejuízo de vencimentos, o Município ressar-
cirá”. Como a lei estadual não pode criar a obrigação para o Município, significa que
esse convênio que o Governador faça só é admissível se, e somente se, na hipótese de
permanecer pagando o vencimento do servidor cedido, houver o respectivo ressarci-
mento. Aí, está se restringindo uma decisão que possa ser do Governo, por conveniên-
cia ou por necessidade da educação, porque temos Municípios com absoluta impos-
sibilidade de atender as finalidades da educação. Aqui, há uma restrição à discricio-
nariedade típica do Estado no convênio. Não é verdade?
O Sr. Ministro Marco Aurélio: De qualquer forma, a Administração Estadual é
senhora da cessão.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Para decidir se o Governo cederá. E se
o servidor opta por manter a remuneração, o governo só pode ceder se o Município
ressarcir. Agora, se o Município não tem condição de ressarcir, não pode haver cessão,
criando-se um problema para os Municípios mais necessitados.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Não seria o caso de cortar-se o dispositivo?
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Aí, sim, concordaria, porque deixava
em aberto ao Governador a escolha.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: E fica a critério das partes convenentes.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence:
498 R.T.J. — 197

“X - exercer atividades docentes ou de suporte pedagógico, junto a Municí-


pios conveniados com o Estado para municipalização do ensino, sem prejuízo de
vencimentos e sem prejuízo das demais vantagens do cargo ou com prejuízo de
vencimentos (...)”
Até aqui não vejo nenhuma inconstitucionalidade, porque pertinente ou imperti-
nente não é o exemplo que dei, que é uma forma indireta de fraudar a iniciativa do
Governador: o Governador propõe uma questão sobre carreira e cria-se uma Secretaria
de Estado.
O Sr. Ministro Carlos Britto (Relator): Aí, vulnera a competência do Governador
para dispor sobre órgãos.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Agora, se é uma hipótese a mais em que se
permita o afastamento do servidor por convênio do Estado, não é obrigatório?
O Sr. Ministro Marco Aurélio: É salutar.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Se dissesse que o servidor poderia escolher o
Município no qual queria prestar serviço, sim, mas não, cria para o Estado a possibili-
dade de um convênio de municipalização.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Para viabilizar a cessão sem ônus.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Por convencimento, não por opção do servidor.
O Sr. Ministro Carlos Britto (Relator): A proposta do Ministro Sepúlveda Pertence
secciona o dispositivo, salva a primeira parte.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Secciono, paro em “ou com prejuízo de
vencimentos”, e declaro inconstitucional o restante.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Por expressa opção do servidor? Deixa
ou tira?
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Tira fora.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Também concordo. Porque aí fica a
alternativa possível, e o Governador resolve.
O Sr. Ministro Carlos Britto (Relator): Adiro. E toda a parte sobejante fica
afastada; concordo.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Fica de acordo com o convênio. Apenas
possibilita ao Governo criar convênios com esse tipo de auxílio à municipalização do
ensino.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Senão está restringindo o convênio.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Não restringe nada, porque se eu não quero
assinar convênio, pronto.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Aí fica em aberto, o que já é permitido.
O Sr. Ministro Carlos Britto (Relator): Adiro, comodamente.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Tenho uma preocupação e volto à premissa de meu
voto: por que o preceito exige a expressa opção do servidor?
R.T.J. — 197 499

O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Porque fica a alternativa.


O Sr. Ministro Marco Aurélio: Porque a relação jurídica dele é com o Estado. Para
se afastar o ônus do Estado à contraprestação pelo serviço prestado, e se essa
contraprestação ficar a cargo do Município, é que se exige a opção do servidor. É salutar
e seria mais, muito embora saindo o requerente um pouco chamuscado, se se afastasse a
segunda parte.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Porque aí fica mais explícito, embora o
desejo, a aceitação de servir seja opção do servidor; mas é bom deixar explícito.

EXTRATO DA ATA
ADI 3.114/SP: Relator: Ministro Carlos Britto. Requerente: Governador do Estado
de São Paulo (Advogado: PGE/SP – Elival da Silva Ramos). Requerida: Assembléia
Legislativa do Estado de São Paulo.
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, julgou improcedente a ação em relação ao
parágrafo único do artigo 25 da Lei Complementar n. 836/97. Também por unanimidade,
o Tribunal julgou parcialmente procedente a ação em relação ao inciso X do artigo 64,
acrescentado pelo artigo 46 da Lei Complementar n. 836, de 2 de dezembro de 1997, à
Lei Complementar n. 444, de 27 de dezembro de 1985, ambas do Estado de São Paulo,
tendo declarado a inconstitucionalidade da seguinte expressão: “Na hipótese de o
afastamento ocorrer sem prejuízo de vencimentos, o Município ressarcirá ao Estado os
valores referentes aos respectivos contra-cheques, bem como aos encargos sociais
correspondentes, com recursos provenientes do repasse do Fundo de Desenvolvimento
e Manutenção do Ensino Fundamental”, tudo nos termos do voto do Relator. Votou o
Presidente, Ministro Nelson Jobim. Falou pelo requerente o Dr. Marcos Ribeiro de
Barros, Procurador do Estado.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes,
Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da Repú-
blica, Dr. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza.
Brasília, 24 de agosto de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

AGRAVO REGIMENTAL NA PETIÇÃO 3.422 — DF

Relator: O Sr. Ministro Carlos Britto


Agravante: José Laerte R. da Silva Neto — Agravado: Luiz Inácio Lula da Silva
Ação popular contra o Presidente da República, ajuizada no Supremo
Tribunal Federal. Art. 102 da Magna Carta. Incompetência. Agravo regi-
mental contra decisão que negou seguimento ao pedido, na forma do § 1º
500 R.T.J. — 197

do art. 21 do RISTF. Remessa dos autos ao juízo competente. Inaplicabi-


lidade do § 2º do art. 113 do CPC.
Descabe a declinação da competência, por não ser ambígua a
matéria (MS 24.700-AgR, Relator para o acórdão Ministro Marco Au-
rélio). De outra parte, esta egrégia Corte não pode se transformar em
órgão de orientação e consulta das partes, “resolvendo, em caráter
definitivo, irreversível, questão sobre a competência de um Juízo ou
Tribunal, sem que aquele ou este tenha tido oportunidade de admiti-la ou
rejeitá-la” (Embargos de Declaração na Petição 3.326, Relator Ministro
Celso de Mello).
Agravo regimental desprovido.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, por seu Tribunal Pleno, sob a Presidência do Ministro Nelson Jobim,
na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de
votos, negar provimento ao agravo regimental, nos termos do voto do Relator.
Brasília, 6 de outubro de 2005 — Carlos Ayres Britto, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto: Trata-se de agravo regimental contra decisão que,
baseada na parte final do § 1º do art. 21 do RI/STF, negou seguimento à ação popular
ajuizada originariamente, nesta egrégia Corte, contra o Presidente da República.
2. A inicial, em resumo, reporta-se às notícias da imprensa, acerca da suposta
“existência de um esquema denominado ‘mensalão', mesada de R$ 30.000,00 (trinta
mil reais) que seria distribuída a parlamentares pelo tesoureiro do ‘Partido dos
Trabalhadores', senhor Delúbio Soares”.
3. Esclareço que neguei seguimento ao pedido porque, segundo a jurisprudência
da Casa, o processo e o julgamento de ações populares não se incluem, em regra, na
esfera de competência originária do Supremo Tribunal Federal, mesmo que o ato
alvejado seja imputável ao primeiro mandatário do País.
4. Pois bem, no presente agravo o autor popular vale-se do art. 113 do CPC para
requerer a definição do Juízo competente e, em conseqüência, a remessa a este dos
respectivos autos.
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto (Relator): Sem razão o agravante, conforme se
depreende da notável decisão do Ministro Celso de Mello, lançada em 22-3-2005, nos
Embargos de Declaração na Petição n. 3.326, in verbis:
R.T.J. — 197 501

“(...)
Não cabe, ao Relator da causa, considerados os limites fixados no art. 21, §
1º, do RISTF, em se registrando a hipótese de incompetência do Supremo
Tribunal Federal, indicar qual o magistrado ou o Tribunal a quem possa incumbir
o exercício da respectiva competência jurisdicional.
Cabe assinalar, neste ponto, por necessário, que esse entendimento encon-
tra apoio em orientação jurisprudencial firmada pelo Supremo Tribunal Federal,
cujas decisões, no tema, têm proclamado a inaplicabilidade, no âmbito desta
Corte, do art. 113, § 2º, do CPC (AO 175-AgR-ED/RN, Rel. Min. Octavio
Gallotti — Inq 1.793-AgR/DF, Rel. Min. Ellen Gracie, Pleno — MS 23.621-
AgR/RS, Rel. Min. Moreira Alves, Pleno — MS 24.261/DF, Rel. Min. Celso de
Mello — Pet 2.160/SP, Rel. Min. Moreira Alves, DJ de 19-3-2001):
“(...) quanto ao envio dos autos ao Tribunal, que ao Relator parecer
competente, por força do disposto no art. 113, § 2º, do Código de Processo
Civil, não é de ser determinado, por inaplicável tal norma no STF, pois,
nos termos do § 1º do art. 21 de seu Regimento Interno, deve o Relator, em
caso de incompetência da Corte, limitar-se a negar seguimento ao pedido,
como se fez no caso.
Vários julgados do STF explicam a razão por que tal providência
(remessa dos autos, pelo Relator, ao Juízo ou Tribunal, que lhe parecer
competente) não será, necessariamente, tomada: é que, se o fizer, acabará
resolvendo, em caráter definitivo, irreversível, questão sobre a competên-
cia de um Juízo ou Tribunal, sem que aquele ou este tenha tido oportunidade
de admiti-la ou rejeitá-la e sem ensejar às partes interessadas a discussão
do tema nas instâncias próprias e nas subseqüentes, inclusive na extraor-
dinária.
Com esse entendimento, ademais, procura a Corte evitar que, medi-
ante ações ou petições, a ela originariamente apresentadas, seja convertida
em orientadora da parte sobre qual seja o Juízo ou Tribunal competente,
quando tenha dúvida a respeito (...)”.
(MS 22.313-AgR-ED/BA, Rel. Min. Sydney Sanches, Pleno — grifei)
“Medida cautelar — Incompetência do Supremo Tribunal Federal —
Pretendido encaminhamento do processo ao juízo competente — Inaplica-
bilidade do art. 113, § 2º, do CPC — Incidência, na espécie, do art. 21, § 1º
do RISTF — Recurso de agravo improvido.
— Revela-se inaplicável, no âmbito do Supremo Tribunal Federal, o
art. 113, § 2º, do CPC, eis que o art. 21, § 1º do RISTF estabelece que o
Relator da causa, na hipótese de incompetência deste Tribunal, deve limi-
tar-se a negar seguimento ao pedido, sem ordenar, contudo, o encaminha-
mento dos autos ao juízo competente, sob pena de o Supremo Tribunal
Federal converter-se, indevidamente, em órgão de orientação e consulta das
partes, em tema de competência, quando estas tiverem dúvida a respeito de
tal matéria. Precedentes.
502 R.T.J. — 197

— A norma consubstanciada no art. 21, § 1º do RISTF foi recebida,


pela vigente Constituição, com força e eficácia de lei (RTJ 167/51), porque
validamente editada com fundamento em regra constitucional que atri-
buía, ao Supremo Tribunal Federal, poder normativo primário para dispor
sobre o processo e o julgamento dos feitos de sua competência originária ou
recursal (CF/69, art. 119, § 3º, c). Esse preceito regimental — destinado a
reger os processos no âmbito do Supremo Tribunal Federal — qualifica-se,
por isso mesmo, como lex specialis e, nessa condição, tem precedência
sobre normas legais, resolvendo-se a situação de antinomia aparente, quan-
do esta ocorrer, pela adoção do critério da especialidade (lex specialis
derogat generali).”
(Pet 2.653-AgR/AP, Rel. Min. Celso de Mello)
Impende ressaltar, finalmente, que o Plenário do Supremo Tribunal Federal,
em recente julgamento, reafirmou essa orientação, enfatizando ser inaplicável, a
esta Corte, em situações como a ora versada nesta causa, a determinação constante
do art. 113, § 2º, in fine, do CPC (MS 24.615-ED/SP, Rel. Min. Nelson Jobim).
(...)”
7. Em face de tais fundamentos, que adoto, nego provimento ao agravo regimental.
8. É como voto.

O Sr. Ministro Marco Aurélio: Presidente, normalmente, declino, não do voto, e


determino a remessa do processo ao juízo competente.
Em se tratando de situação concreta em que não temos sequer o problema que
ocorre no mandado de segurança, o prazo decadencial exíguo, acompanho o Relator,
desprovendo, porquanto o Regimento Interno autoriza a simples negativa de segui-
mento — artigo 21, § 1º.
EXTRATO DA ATA
Pet 3.422-AgR/DF — Relator: Ministro Carlos Britto. Agravante: José Laerte R. da
Silva Neto (Advogado: Jovenor R. da Silva Neto). Agravado: Luiz Inácio Lula da Silva.
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, negou provimento ao agravo regimental,
nos termos do voto do Relator. Ausente, justificadamente, neste julgamento, o Ministro
Eros Grau. Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes,
Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da Repú-
blica, Dr. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza.
Brasília, 6 de outubro de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.
R.T.J. — 197 503

MANDADO DE SEGURANÇA 24.544 — DF

Relator: O Sr. Ministro Marco Aurélio


Impetrante: João Cyrino Filho — Impetrados: 3ª Secretaria de Controle Externo
do Tribunal de Contas da União e Diretor do Departamento de Pessoal da Câmara dos
Deputados
Legitimidade — Mandado de segurança — Ato do Tribunal de
Contas da União. Imposição de valor a ser ressarcido aos cofres públicos
e previsão de desconto, considerado o que percebido pelo servidor, ge-
ram a legitimidade do Tribunal de Contas da União para figurar no
mandado de segurança como órgão coator.
Proventos — Desconto — Leis n. 8.112/90 e 8.443/92. Decorrendo o
desconto de norma legal, despicienda é a vontade do servidor, não se
aplicando, ante o disposto no artigo 45 da Lei n. 8.112/90 e no inciso I do
artigo 28 da Lei n. 8.443/92, a faculdade de que cuida o artigo 46 do
primeiro diploma legal — desconto a pedido do interessado.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das
notas taquigráficas, por maioria, conhecer da segurança, vencido o Ministro Joaquim
Barbosa, e, por unanimidade, indeferi-la nos termos do voto do Relator.
Brasília, 4 de agosto de 2004 — Nelson Jobim, Presidente — Marco Aurélio,
Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Insurge-se o impetrante contra desconto efetuado
nos respectivos proventos, considerada a glosa do Tribunal de Contas e ato do Diretor
do Departamento de Pessoal da Câmara dos Deputados. Argumenta com o disposto no
artigo 45 da Lei n. 8.112/90. Informa estar aguardando a propositura da execução fiscal
para ajuizar embargos à execução. Sob o ângulo da competência, evoca a alínea d do
inciso I do artigo 102 da Constituição Federal. Pleiteia a concessão de liminar quanto
à suspensão dos descontos, requerendo o deferimento da segurança em definitivo para
ter como intangível o que percebido (folhas 2 a 5). À inicial juntaram-se os documentos
de folhas 6 a 16.
À folha 19, o Ministro Maurício Corrêa, a quem sucedi na Relatoria deste processo,
deferiu a medida acauteladora, consignando o concurso do sinal do bom direito e do
risco de manter-se com plena eficácia o quadro, tendo em conta a natureza alimentar
dos proventos.
Aos autos vieram as informações de folhas 29 a 33, asseverando o Diretor do
Departamento de Pessoal da Câmara dos Deputados que, na oportunidade da comuni-
504 R.T.J. — 197

cação da liminar, a primeira parcela do débito já havia sido descontada. Sustenta que
apenas deu cumprimento à decisão da Segunda Câmara do Tribunal de Contas da
União, razão pela qual não teria praticado ato autônomo que o caracterizasse como
autoridade coatora. Alude às disposições da Lei n. 8.112/90, valendo-se da melhor
doutrina quanto à responsabilidade patrimonial do servidor público, quer se encontre
na atividade, quer aposentado. Cita Maria Sylvia Zanella Di Pietro.
À folha 37, tem-se ofício do Tribunal de Contas, mediante o qual se encaminha-
ram os documentos de folhas 38 a 76. Aponta-se que a 3ª Secretaria de Controle
Externo apenas endereçou à Câmara dos Deputados ofício, dando-lhe ciência da
decisão proferida pela Corte. Sob tal ângulo, não se chega a articular a impropriedade
de a Secretaria haver sido apontada como órgão coator. Em passo seguinte, busca-se
demonstrar a inexistência de ato impositivo dos descontos, cuja feitura pela Câmara
dos Deputados, a teor do item 9.5, teria-se simplesmente autorizado, em face do
disposto no artigo 46 da Lei n. 8.112/90. Analisa-se o sentido vernacular do vocábulo
“autorizar”, tecendo-se considerações sobre a incompetência desta Corte para julgar o
mandado de segurança, no que, em última análise, direcionado contra ato do Diretor do
Departamento de Pessoal da Câmara dos Deputados. Afirma-se que o Tribunal de
Contas da União não procurou executar a própria decisão. Evoca-se a Lei n. 8.443/92,
ressaltando-se mais uma vez a inexistência de determinação da Corte. Alega-se não
haver surgido dúvida quanto ao débito envolvido na espécie, citando-se precedentes
sobre a responsabilidade do Estado e informando-se não se ter hipótese enquadrável no
precedente decorrente do julgamento do Recurso Extraordinário n. 223.037. A Corte,
repita-se o que consignado, não estaria a executar a própria decisão. Menciona-se a
postura adotada pelo impetrante, no que requereu a prorrogação do prazo para o
recolhimento da dívida aos cofres do Tesouro Nacional. Apregoa-se o indeferimento da
liminar. Anexaram-se documentos.
A Procuradoria-Geral da República, mediante peça subscrita pelo Procurador-
Geral, Professor Claudio Fonteles, preconiza a conclusão sobre a ilegitimidade passiva
do Tribunal de Contas da União e, em conseqüência, a extinção do feito sem exame do
mérito. Ultrapassada a preliminar, o parecer é pela concessão da ordem. Eis a síntese do
que lançado:
Decisão do TCU autorizando o desconto do valor de indenização ao erário
diretamente sobre a folha de pagamento de servidor inativo. Ato implementado
por Diretor da Câmara dos Deputados sem a anuência do particular. Alegação de
ofensa ao art. 45 da Lei 8.112/90. Julgado do TCU que não se reveste de natureza
impositiva. Ato subseqüente do agente público dotado de autonomia, configurando
o verdadeiro “ato coator”. Ilegalidade passiva do TCU e conseqüente extinção do
feito sem exame do mérito, Sobre a questão de fundo, a Corte de contas não pode
executar seus julgados diretamente. O desconto pede a autorização do particular,
pois não possui previsão legal (folha 79).
Em 15 de setembro, declarei-me habilitado a proceder ao relato deste mandado de
segurança e a proferir voto (folha 89).
É o relatório.
R.T.J. — 197 505

VOTO
O Sr. Ministro Marco Aurélio (Relator): A questão sobre a natureza do ato do
Tribunal de Contas está diretamente vinculada à competência desta Corte para julgar o
mandado de segurança. Coloco em plano secundário a circunstância de, no intróito da
peça inicial, haver-se aludido a atos da 3ª Secretaria de Controle Externo do Tribunal
de Contas da União. No arrazoado apresentado, alude-se à decisão do Tribunal que, nas
informações, após haver consignado o fato, concluiu pela inexistência de prejuízo
maior ao exame da impetração. Assim, a ausência de autonomia da Secretaria é
conducente a ter-se a impetração como direcionada contra ato do próprio Tribunal de
Contas da União, que, inclusive, prestou as informações.
Cumpre, então, definir a natureza do ato praticado. Nas informações, o diretor do
Departamento de Pessoal da Câmara afirmou haver simplesmente cumprido a determi-
nação do Tribunal de Contas. Realmente, o item 9.5 do acórdão proferido consigna a
autorização para o imediato desconto das importâncias devidas, observado o disposto
no artigo 46 da Lei n. 8.112/90 (folha 40). Na verdade, em que pese haver-se utilizado
o vocábulo “autorizar”, tem-se determinação da Corte de Contas, que condenou o
impetrante solidariamente a satisfazer certo valor — item 9.4 (folha 40) — para, a
seguir, versar sobre o desconto. Ora, é a própria Lei n. 8.443/92, disciplinadora da
atuação do Tribunal de Contas, que prevê, no inciso I do artigo 28, caber-lhe “determi-
nar o desconto integral ou parcelado da dívida nos vencimentos, salários ou proventos
do responsável, observados os limites previstos na legislação pertinente”. Em síntese,
a literalidade do que contido no acórdão cede lugar à definição legal do ato praticado
pelo Tribunal de Contas. Concluo, portanto, estar-se diante de ato concreto do Tribu-
nal de Contas da União, muito embora lançado sob o eufemismo da simples autoriza-
ção. Na verdade, por força de lei, deu-se a determinação do desconto, entendendo-se a
cláusula 9.6 do acórdão como a encerrar simples possibilidade — excepcionalíssima,
na espécie — de a forma do desconto não surtir efeitos, quando, então, ter-se-ia a
cobrança judicial da dívida, prevista no inciso II do artigo 28 da Lei n. 8.443/92, como
passível, esta sim, de autorização pelo Tribunal de Contas. Admito-o como autoridade
coatora e firmo a competência da Corte.
No mais, improcede o inconformismo do impetrante. A Lei n. 8.112/90 autoriza o
desconto, quer se tenha o envolvimento de remuneração, quer de proventos ou de
pensão. A tanto equivale a referência, na cabeça do artigo 45, a remuneração ou
provento e, no artigo 46, a pensionista. Pois bem, a espécie está enquadrada na previsão
de lei acerca do desconto, conforme visto, contemplado no inciso I do artigo 28 da Lei
n. 8.443/92, sendo dispensável, por isso mesmo, a manifestação de vontade de servidor
ativo, inativo, ou de pensionista.
Indefiro a segurança.

EXTRATO DA ATA
MS 24.544/DF — Relator: Ministro Marco Aurélio. Impetrante e Advogado: João
Cyrino Filho. Impetrados: 3ª Secretaria de Controle Externo do Tribunal de Contas da
União e Diretor do Departamento de Pessoal da Câmara dos Deputados.
506 R.T.J. — 197

Decisão: Após o voto do Ministro Marco Aurélio, Relator, que conhecia do


mandado de segurança para reconhecer a Corte como competente para apreciar o ato do
Tribunal de Contas da União e indeferir a segurança, pediu vista dos autos o Ministro
Joaquim Barbosa. Ausentes, justificadamente, neste julgamento, os Ministros Celso de
Mello, Carlos Velloso, Nelson Jobim, Ellen Gracie e Gilmar Mendes. Presidência do
Ministro Maurício Corrêa.
Presidência do Ministro Maurício Corrêa. Presentes à sessão os Ministros Sepúl-
veda Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Nelson Jobim, Ellen
Gracie, Gilmar Mendes, Cezar Peluso, Carlos Britto e Joaquim Barbosa. Procurador-
Geral da República, Dr. Cláudio Lemos Fonteles.
Brasília, 17 de março de 2004 — Luiz Tomimatsu, Coordenador.

VOTO (Vista)
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: O parecer da Procuradoria-Geral da República
(fls. 79-87), que adoto como relatório, bem sintetizou a controvérsia:
“Trata-se de mandado de segurança, com pedido de liminar, impetrado por
João Cyrino Filho em face de ordem que determina o desconto em seus
proventos diretamente na folha de pagamento, ato tido por ilegal e atribuído ao
Tribunal de Contas da União e ao Diretor do Departamento de Pessoal da
Câmara dos Deputados.
Segundo informa o impetrante no arrazoado inicial, detém ele a condição de
servidor aposentado da Câmara dos Deputados. Teve seus proventos atingidos
por desconto em atenção a ordem do Diretor do Departamento de Pessoal daquela
Casa Parlamentar ante a sua condenação em feito promovido no âmbito do
Tribunal de Contas da União.
Indicando que não houve de sua parte autorização para a implementação do
desconto, o impetrante invoca o preceito do art. 45, da Lei n. 8.112/90. Pede, além
do deferimento da medida liminar que suste a ordem de desconto, a concessão do
writ para tornar sem efeito o ato do segundo impetrado.
Recebido no Supremo Tribunal, o feito foi levado ao exame do Eminente
Ministro Maurício Corrêa. O pedido de cautela foi deferido, afastando-se a
ordem de desconto até o final julgamento desta. Foram prestadas informações
pelas autoridades impetradas a fls. 29-33 e 38-49. Os autos foram distribuídos a
Vossa Excelência, em substituição ao Relator original - fls. 77.”
O feito foi chamado a julgamento perante o Plenário em 17-3-2004. Naquela
assentada, o ilustre Relator, Ministro Marco Aurélio, após conhecer da impetração,
indeferiu a segurança, nos seguintes termos:
“No mais, improcede o inconformismo do impetrante. A Lei n. 8.112/90
autoriza o desconto, quer se tenha o envolvimento de remuneração, quer de
proventos ou de pensão. A tanto equivale a referência, na cabeça do artigo 45, a
remuneração ou provento e, no artigo 46, a pensionista. Pois bem, a espécie está
enquadrada na previsão de lei acerca do desconto, conforme visto, contemplado
R.T.J. — 197 507

no inciso I do artigo 28 da Lei n. 8.443/92, sendo dispensável, por isso mesmo, a


manifestação de vontade de servidor ativo, inativo, ou de pensionista.”
Pedi vista dos autos, para melhor refletir sobre o assunto.
À guisa de preliminar, peço vênia ao Ministro Marco Aurélio, para dele discordar.
É que, a meu sentir, o ato do Tribunal de Contas da União não se reveste de caráter
impositivo a ponto de tornar o seu subscritor autoridade coatora neste mandado de
segurança.
Eis o teor do ato do Tribunal de Contas da União (fl. 10):
“Senhor Diretor-Geral [do Senado],
Encaminho a Vossa Senhoria, para conhecimento, cópia do Acórdão n.
259/2003, aprovado na Sessão Extraordinária da 2ª Câmara, realizada em 25/02/
2003, inserido na Ata n/2003, acolhendo proposta do Ministro Relator Adylson
Motta, referente ao processo de Tomada de Contas Especial relativa a recursos de
subvenção e auxílio financeiro concedidos à Cooperativa do Congresso Ltda.,
nos exercícios de 1986 e 1987.
Atenciosamente,
Secretário de Controle Externo”
O acórdão encaminhado ao Senado Federal contém o seguinte dispositivo (fls.
34-35):
“Acórdão:
(...) Acordam os Ministros do Tribunal de Contas da União, reunidos em
Sessão da Segunda Câmara, em:
(...)
9.3 Rejeitar os novos elementos de defesa apresentados pelos responsáveis
Sres. João Cyrino Filho, Oton Queiroz Mendes e Walter Sotero Franco uma vez
que não lograram elidir a irregularidade caracterizada pela omissão no dever legal
de prestar contas dos recursos cedidos pelo Senado Federal, a título de auxílio, no
exercício de 1987, à Cooperativa do Congresso Ltda;
9.4 com fundamento nos arts. 1º, inciso I; 16, inciso III, alínea a da Lei
8443, de 16 de julho de 1992, c/c arts. 19 e 23, inciso III da mesma lei, julgar
irregulares as contas dos Sres. João Cyrino Filho, Walter Sotero Franco e Oton
Queiroz Mendes e condenar os responsáveis solidariamente ao pagamento da
quantia de CZ$800.000,00 (oitocentos mil cruzados), com a fixação do prazo de
quinze dias, a contar da notificação, para comprovar, perante o Tribunal (art.
214, inciso III, alínea a do Regimento Interno), o recolhimento da dívida aos
cofres do Tesouro Nacional, atualizada monetariamente e acrescida dos juros
de mora calculados a partir de 02/12/1987 até a data do recolhimento, na forma
prevista na legislação em vigor;
9.5 autorizar, desde logo, o desconto das respectivas dívidas nas remune-
rações dos servidores, observado o disposto no art. 46 da Lei 8112, de 11 de
novembro de 1990; e
508 R.T.J. — 197

9.6 caso a medida determinada no item 9.3 não surta efeito, autorizar, desde
logo, nos termos do art. 28, II, da Lei 8443, de 1992, a cobrança judicial da dívida,
atualizada monetariamente, a partir do dia seguinte ao término do prazo ora
estabelecido, até a data do recolhimento, caso não atendida a notificação, na
forma da legislação em vigor;”
Deve-se ressaltar, portanto, que o ato praticado pela Corte de Contas consiste em
mero encaminhamento, ao Senado, de cópia do citado acórdão proferido em procedi-
mento de tomada de contas especial, a fim de que a autoridade administrativa do
Legislativo tomasse ela própria as providências necessárias para o ressarcimento ao
Erário, promovendo os descontos nos vencimentos ou proventos dos servidores res-
ponsáveis.
Extraio inicialmente a conclusão de que o Tribunal de Contas da União não
praticou diretamente ato lesivo ao interesse do impetrante, a partir do simples exame do
trâmite administrativo observado entre a Corte de Contas e o Congresso Nacional. De
fato, nota-se que o ofício do TCU, inserido à fl. 10, foi endereçado ao Diretor-Geral do
Senado. Isso porque os recursos públicos cuja não-prestação de contas deu ensejo à
tomada de contas especial do TCU consistiram em subvenção e auxílio financeiro
recebido do Senado Federal, recursos esses destinados à Cooperativa do Congresso
Ltda., da qual o impetrante era um dos responsáveis. Ocorre que o impetrante não é
funcionário do Senado Federal, mas integrante do quadro de inativos da Câmara dos
Deputados (fl. 12). Por esse motivo, não tendo os responsáveis pelos débitos quitado
suas dívidas (fl. 12), o Senado levou o fato ao conhecimento da Câmara dos Deputados
(fl. 09). Esta, por intermédio de sua Coordenadoria de Pessoal, iniciou o desconto nos
proventos do impetrante, na importância de R$ 12.318,97, em 17 parcelas de R$
759,65.
Concordo, assim, com o parecer do ilustre Procurador-Geral da República quando
S. Exa. assim se manifesta:
“Conforme enaltecem as informações prestadas pelo Diretor do Departa-
mento de Pessoal da Câmara dos Deputados, a ordem de desconto não decorre
diretamente da decisão promovida pelo Tribunal de Contas da União. A conduta
da direção de pessoal da Câmara baixa se reveste de suficiente autonomia para
inviabilizar raciocínio que envolva a Corte de Contas na ordem de desconto.
O teor da deliberação da Segunda Câmara do Tribunal de Contas serve de
substrato ao comando emitido pelo Diretor de Pessoal, mas a coerção, efetivamente,
está cingida ao ato desse último. Veja-se, nessa linha, breve trecho das informa-
ções prestadas pelo segundo impetrado: ‘Tomando conhecimento das decisões
proferidas no Acórdão n. 259/2003 da Segunda Câmara do TCU, e tendo em
vista os mencionados artigos da Lei n. 8.112/1990, o Diretor do Departamento
de Pessoal da Câmara dos Deputados determinou que os órgãos competentes
providenciassem o quanto necessário para se realizarem os descontos sobre a
remuneração do Impetrante...’ - fls. 31.
Exame do ofício emitido pelo Tribunal de Contas da União, juntado pelo
impetrante a fls. 10, bem demonstra que a sua decisão foi apenas levada ao
R.T.J. — 197 509

conhecimento da autoridade administrativa interessada, sem imposição de ordem


alguma. Diante da comunicação, movimentou-se a Secretaria de Controle Interno
da Câmara dos Deputados, que então determinou, por sua conta, o encaminha-
mento do débito então constatado para o ajuizamento de execução fiscal, nos
termos do art. 46, da Lei 8.112/90, e ainda, o desconto em folha. A recomendação
da assessoria da Secretaria de Controle Interno foi acolhida pelo seu Diretor,
sendo então executada pelo Departamento de Pessoal.
A menção do TCU ao desconto em folha não foi recebida pelos órgãos
competentes da Câmara dos Deputados como uma ordem. Foi interpretada como
singela alternativa, mera eventualidade, conforme se lê do Ofício n. 027/2003-
SAC/SCINT/SF, quando alude: ‘Entre os responsáveis condenados a ressarcir aos
cofres públicos estão os servidores João Cyrino Filho (...), pertencentes ao quadro
dessa Câmara dos Deputados, razão pela qual estamos encaminhando a V.Sª cópia
do ofício supracitado, bem como do acórdão n. 259/2003-TCU 2ª Câmara, para as
providências pertinentes ao assunto, inclusive quanto ao eventual desconto em
folha de pagamento, conforme autoriza o Tribunal de Contas da União no
Acórdão em tela’ - fls. 9, sublinhado para destacar.
Em síntese, a decisão do TCU serviu de indicativo. Seu papel, portanto, na
edição do ato tido por coator é limitado, não alcançando feição impositiva.
Observe-se que as informações prestadas pelo segundo impetrado expressamente
mencionam o substrato legal da ordem de desconto, apontando para o comando
da Lei n. 8.112/90, que em seus arts. 45 e 46, em seus §§ 1º, 2º e 3º, admitiria o
procedimento adotado pelo Departamento de Pessoal. Ou seja, o Diretor da
Câmara buscou substrato em diploma legal, vez mais indicando que não se
limitou a cumprir decisão do TCU, mas, de próprio punho, promoveu a ordem de
desconto.”
O autor do ato supostamente lesivo, portanto, é o segundo impetrado, isto é, o
diretor de pessoal da Câmara dos Deputados, razão por que o Supremo Tribunal Federal
é incompetente para julgar o presente mandado de segurança, devendo os autos ser
encaminhados à Justiça Federal de 1ª Instância de Brasília, que é o órgão jurisdicional
competente.
É como voto, preliminarmente, Sr. Presidente.
No mérito, Sr. Presidente, acompanho o Ministro Relator, para indeferir a segu-
rança.
Com efeito, insurge-se o impetrante contra “a autorização para proceder descon-
tos em sua folha de pagamento (...) por ordem da 3ª Secretaria de Controle Externo do
Tribunal de Contas da União”. Afirma que foi informado dessa autorização pelo
Departamento de Finanças da Câmara dos Deputados em 13-5-2003 e que, de acordo
com o art. 45 da Lei 8.112/1990, qualquer desconto em folha de pagamento sem a
autorização do servidor é ilegal e injusto.
Inicialmente, analisando os autos, verifico que a autorização emanada do Tribunal
de Contas da União para efetuar, no pagamento do impetrante, os descontos referentes à
reposição ao Erário de valores por ele devidos é decorrência de procedimento de tomada
510 R.T.J. — 197

de contas especial, em que houve plena garantia ao direito de ampla defesa do impetrante,
tendo este atuado no referido procedimento também como advogado.
A garantia à ampla defesa pode ser verificada no acórdão do TCU, publicado no
Diário Oficial da União em 18 de março de 2003 (fls. 34-35). Confira-se:
“Ementa: Tomada de Contas Especial. Auxílio e Subvenção Social repassa-
dos pelo Senado Federal. Cooperativa do Congresso Ltda. Omissão na prestação
de contas. Apresentação de novos elementos de defesa. Rejeição da defesa apre-
sentada por um dos responsáveis. Recolhimento do débito pelos gestores de
1986. Contas irregulares. Quitação, Rejeição da defesa apresentada pelos
gestores de 1987. Contas irregulares. Débito solidário. Autorização para desconto
das dívidas da remuneração dos responsáveis.
(...)
Relatório
(...)
4. Em atendimento às citações realizadas, os responsáveis apresentaram
alegações de defesa (vol. II dos autos).
(...)
5.1 Na mesma oportunidade foram rejeitadas as alegações de defesa apre-
sentadas pelos responsáveis Sres João Cyrino Filho, Oton Queiroz Mendes e
Walter Sotero Franco, uma vez que não lograram elidir a irregularidade carac-
terizada pela omissão no dever legal de prestar contas e, por conseqüência, a
irregular aplicação dos recursos concedidos pelo Senado Federal, a título de
subvenção social e auxílio financeiro, no exercício de 1987, à Cooperativa do
Congresso Ltda.
(...)
6.1 Também inconformados, os Sres João Cyrino Filho, Oton Queiroz Men-
des e Walter Sotero Franco apresentaram documentação intitulada “reconsidera-
ção” (vol. 6), que foi recebida como novos elementos de defesa, com fulcro no
disposto nos §§ 1º e 2º do art. 23 da Resolução TCU.
(...)
Voto:
(...)
Quanto aos responsáveis pela gestão e prestação de contas dos recursos
concedidos pelo Senado Federal no exercício de 1987, não havendo os mesmos
obtido êxito em justificar a ausência de prestação de contas dos recursos nem
apresentação de documentos que demonstrassem seu correto emprego, cabível o
julgamento pela irregularidade de suas contas, bem como a condenação ao
ressarcimento solidário do débito.”
Por outro lado, o mencionado acórdão trouxe, em seu dispositivo, autorização
expressa para que fossem adotadas as medidas cabíveis visando ao ressarcimento ao
R.T.J. — 197 511

Erário, entre as quais a possibilidade de desconto na folha de pagamento do impetrante


(item 9.3 do acórdão — fl. 35).
Extrai-se, portanto, da decisão do Tribunal de Contas da União que o impetrante
teve efetiva ciência do procedimento de tomada de contas e de seu desfecho, e,
conseqüentemente, estava ciente de que havia a possibilidade de serem adotadas as
providências para o desconto dos valores devidos em seus vencimentos. E mais. Em 4
de abril de 2003, o impetrante protocolou requerimento junto ao TCU solicitando a
“prorrogação de prazo para recolhimento da dívida aos Cofres do Tesouro Nacio-
nal” (fl. 50). Ora, ao solicitar prorrogação de prazo para recolhimento do débito ao
Tesouro, implicitamente o impetrante reconheceu a existência do débito. Não pode ele
agora se recusar a pagar o que deve — diga-se de passagem, de forma bastante generosa,
em 17 parcelas.
Deve-se ressaltar ainda que a exigência de notificação prévia do mencionado
desconto ao servidor ou pensionista, conforme determinação do art. 46 da Lei 8.112/
1990, foi observada, em 13 de maio de 2003, quando o próprio impetrante tomou
conhecimento de que os descontos seriam processados na folha de pagamento daquele
mês. Frise-se que o ofício expedido para a Coordenação de Pagamento de Pessoal foi
encaminhado em 9 de maio daquele ano, uma sexta-feira (fl. 14), e o impetrante obteve
a informação dos descontos na terça-feira seguinte, 13 de maio.
Por fim, cumpre consignar que o art. 28, I, da Lei 8.443/1992 expressamente
determina que, em caso de descumprimento da determinação emanada da Corte de
Contas para o pagamento de dívidas decorrentes de contas julgadas irregulares, pode
aquele Tribunal “determinar o desconto integral ou parcelado da dívida nos venci-
mentos, salários ou proventos do responsável, observados os limites previstos na
legislação pertinente”.
Há, assim, dupla base legal para o ato impugnado. Indefiro a segurança.

O Sr. Ministro Marco Aurélio (Relator): Senhor Presidente, duas palavras apenas,
não vou sustentar nem reiterar as razões do meu voto.
O Tribunal de Contas atuou a partir do inciso I do artigo 28 da Lei n. 8.443/92,
que disciplina a respectiva atividade e dispõe que compete a ele, Tribunal de Contas,
determinar o desconto integral ou parcelado da dívida nos vencimentos, salários ou
proventos do responsável, observados os limites fixados na legislação pertinente. Mais
do que isso, o inciso II daquele artigo 28 versa sobre a cobrança judicial da dívida
quando não possível o desconto — hipótese raríssima — e prevê também que essa
cobrança se dá a partir de manifestação da Corte de Contas.
É certo que, no ofício, ou talvez mesmo no acórdão, utilizou-se vocábulo um
pouco impróprio: que estaria o Tribunal de Contas da União a “autorizar” o desconto.
Porém, tal autorização decorreu do inciso I referido; em última análise, mostrou-se uma
verdadeira determinação. Daí admitir o Tribunal de Contas da União como parte
legítima.
512 R.T.J. — 197

O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): O Tribunal de Contas determinou que fosse
cobrado; autorizou fosse descontado em folha pela forma de executar a determinação.
O Sr. Ministro Marco Aurélio (Relator): Então, o impetrado, diretor do Departa-
mento de Pessoal da Câmara dos Deputados, disse haver se limitado a cumprir a
determinação, como não poderia deixar de fazê-lo.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Ministro Joaquim Barbosa, o Ministro
Relator faz referência à determinação para a cobrança dos valores pagos indevida-
mente e, ao mesmo tempo, autorizou-se o meio pelo qual deveria ser cumprida: o
desconto em folha.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: É a lei que autoriza.
O Sr. Ministro Marco Aurélio (Relator): A Lei n. 8.443/92 é clara quanto a essa
glosa do Tribunal de Contas, revelando que lhe compete:
Art. 28. (...)
I - determinar o desconto integral ou parcelado da dívida nos vencimentos,
salários ou proventos do responsável, observados os limites previstos na legisla-
ção pertinente;
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Isso é tomada de contas especial.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Exatamente. Não é o caso. Parece que é o
pagamento a maior de vencimentos.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Vossa Excelência tem a lei do artigo 46?
O Sr. Ministro Marco Aurélio (Relator): É a Lei n. 8.112/90.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: É o pagamento a maior ao funcionário; não é
a multa penal.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Pela Lei n. 8.112/90, as reposições e as indenizações
ao erário são acertadas entre a Administração pagadora e o servidor remunerado. Neste
caso, não caberia ao Tribunal de Contas fazer a imposição.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Nesse dispositivo, até pelo uso da expressão
“dívida do responsável”, será tomada de contas.
O Sr. Ministro Carlos Britto: É típico de processo de tomada de contas.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): E não para a execução de redução.

VOTO
O Sr. Ministro Carlos Britto: Peço vênia ao Ministro Marco Aurélio, para acompa-
nhar o voto do Ministro Joaquim Barbosa.

EXTRATO DA ATA
MS 24.544/DF — Relator: Ministro Marco Aurélio. Impetrante e Advogado: João
Cyrino Filho. Impetrados: 3ª Secretaria de Controle Externo do Tribunal de Contas da
União e Diretor do Departamento de Pessoal da Câmara dos Deputados.
R.T.J. — 197 513

Decisão: Após o voto do Ministro Marco Aurélio, Relator, conhecendo do man-


dado de segurança para reconhecer a Corte como competente para apreciar o ato do
Tribunal de Contas da União e indeferindo a segurança, e do voto do Ministro Joaquim
Barbosa, não conhecendo da segurança, pediu vista dos autos o Ministro Cezar Peluso.
Ausente, justificadamente, neste julgamento, o Ministro Carlos Velloso. Presidência,
em exercício, do Ministro Nelson Jobim, Vice-Presidente.
Presidência do Ministro Nelson Jobim, Vice-Presidente. Presentes à sessão os
Ministros Sepúlveda Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen
Gracie, Gilmar Mendes, Cezar Peluso, Carlos Britto e Joaquim Barbosa. Procurador-
Geral da República, Dr. Cláudio Lemos Fonteles.
Brasília, 27 de maio de 2004 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

VOTO (Vista)
O Sr. Ministro Cezar Peluso: 1. A divergência representada pelos votos dos
Ministros Joaquim Barbosa e Carlos Britto, que acompanharam o parecer da Procura-
doria-Geral da República, dando pela ilegitimidade passiva do Tribunal de Contas da
União, radica na interpretação da natureza da eficácia do dispositivo do acórdão do
TCE que, em processo de tomada de contas especial (art. 8º, caput, da Lei federal n.
8.443, de 16 de julho de 1992), reconhecendo “a irregularidade caracterizada pela
omissão no dever legal de prestar contas dos recursos concedidos pelo Senado
Federal, a título de auxílio, no exercício de 1987, à Cooperativa do Congresso Ltda.”,
condenou, entre outros, o ora impetrante, solidariamente, a pagar o valor da dívida
apurada e comprovar-lhe, em quinze dias, o pagamento, e deliberou “autorizar, desde
logo, o desconto das respectivas dívidas nas remunerações dos servidores, observado
o disposto no art. 46 da Lei n. 8.112, de 11 de dezembro de 1990” (fl. 56), caso, é óbvio,
não feita a prova do recolhimento espontâneo (art. 28, caput, da Lei n. 8.443, de 1992).
Tenho que, a despeito do uso menos correto, mas de todo irrelevante, do verbo
“autorizar”, o dispositivo guarda evidente caráter mandamental, dirigido à Câmara
dos Deputados, a cujo quadro de servidores inativos pertence o ora impetrante.
É que tal decisão corresponde à precisa hipótese prevista no art. 28, inciso I, da
Lei n. 8.443, de 1992, o qual, em não menos precisa conformidade com o disposto no
art. 70, inciso VIII, da Constituição da República, estatui:
“Art. 28. Expirado o prazo a que se refere o caput do art. 25 desta lei, sem
manifestação do responsável, o Tribunal poderá:
I - determinar integral ou parcelado da dívida nos vencimentos, salários ou
proventos do responsável, observados os limites previstos na legislação pertinente.”
Ou seja, apurando, em tomada de contas especial, instaurada diante de omissão no
dever de as prestar, por parte de servidor que gerenciou ou administrou valores públi-
cos (art. 8º, caput, cc. os arts. 5º, inciso I, e 1º, inciso I, da Lei n. 8.443, de 1992), o TCU
aplicou, como lho autoriza a Constituição da República (art. 70, inciso VIII), a respon-
sável por irregularidade de contas, uma das sanções previstas em lei e que consiste no
desconto da dívida aos proventos (art. 45 da Lei n. 8.112, de 1990), mas para cuja
514 R.T.J. — 197

execução, imputável apenas ao órgão pagador, não está legitimado. Não existe outra
hipótese legal a que se amolde a decisão do TCU, porque nenhuma há que, para este
caso, preveja apenas ato de mera recomendação, de modo que o teor literal do disposi-
tivo do acórdão só pode ser interpretado como ato de “determinar”. Aliás, se fora
“autorizar”, tampouco seria diversa a conseqüência, porque, se o cumprimento de
dever legal de agente da administração pública depende de autorização de outra
autoridade, o ato desta não lhe confere alternativa alguma: obriga aquele a cumprir o
dever.
A circunstância de a execução da ordem competir ao órgão pagador é, como se
sabe, inconseqüente para efeito de definição da legitimidade passiva ad causam, que,
em mandado de segurança, recai, não sobre o agente executor, senão sobre o autor do
ato lesivo, o qual, como órgão competente, figura a única autoridade capaz de o
desconstituir. O agente ou autoridade que executa a ordem, em cuja emissão se situa o
ato lesivo, esse, ainda quando seja, no caso, a Câmara dos Deputados, não tem compe-
tência para a expedir, nem a fortiori para a desfazer, donde não poder sofrer, em sua
esfera jurídica, a eficácia de eventual sentença favorável ao impetrante, a quem a
quitação da dívida só pode ser, aliás, expedida pelo TCU (art. 27 da Lei n. 8.443, de
1992). Não é, portanto, a Câmara, destinatária dos efeitos jurídicos da sentença e, como
tal, é parte passiva ilegítima ad causam.
2. E, no mérito, também denego a segurança.
É verdade que o caput do art. 45 da Lei n. 8.112, de 1990, preceitua, literalmente,
que, salvo por imposição legal ou mandado judicial, nenhum desconto pode incidir
sobre remuneração ou provento, e, no parágrafo único, subordina a consignação em
folha de pagamento a terceiro à autorização do servidor. Mas, aqui, há expressa
previsão legal para o desconto (art. 28, I, da Lei n. 8.443, de 1992), e a consignação não
é a favor de terceiro, mas do órgão pagador mesmo, que é União, ou seja, do erário
federal. Esta é a razão por que não delira o Decreto n. 3.297, de 17 de dezembro de 1999,
que, regulamentando o art. 45 da Lei n. 8.112, de 1990, reputa, no art. 3º, como
consignações compulsórias, entre outras, “reposição e indenização ao erário” (inciso
V), “decisão judicial ou administrativa” (inciso VII) e “outros descontos compulsóri-
os instituídos por lei” (inciso X).
O que se exige é apenas que a dívida seja líquida e que tenha sido apurada em
procedimento administrativo regular, com estrita observância dos poderes do contradi-
tório e da ampla defesa, inerentes ao justo processo da lei (due process of law),
segundo, aliás, pode a contrario sensu inferir-se a precedente da Corte (cf. AI n.
241.428-AgR, Rel. Min. Marco Aurélio, DJ de 18-2-2000). Ambos esses requisitos
foram cumpridos na espécie.

EXTRATO DA ATA
MS 24.544/DF — Relator: Ministro Marco Aurélio. Impetrante e Advogado: João
Cyrino Filho. Impetrados: 3ª Secretaria de Controle Externo do Tribunal de Contas da
União e Diretor do Departamento de Pessoal da Câmara dos Deputados.
R.T.J. — 197 515

Decisão: O Tribunal, por maioria, vencido o Ministro Joaquim Barbosa, conhe-


ceu da segurança e, por unanimidade, indeferiu-a nos termos do voto do Relator.
Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes,
Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da Repú-
blica, Dr. Cláudio Lemos Fonteles.
Brasília, 4 de agosto de 2004 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

MANDADO DE SEGURANÇA 24.742 — DF

Relator: O Sr. Ministro Marco Aurélio


Impetrante: Sonia Irsai Azevedo — Impetrado: Tribunal de Contas da União
Aposentadoria — Regência. A aposentadoria é regida pelas nor-
mas constitucionais e legais em vigor na data em que o servidor preenche
as condições exigidas — Verbete n. 359 da Súmula do Supremo Tribunal
Federal.
Aposentadoria em cargo civil — Militar reformado. A Carta da
República de 1967 bem como a de 1988, na redação primitiva, anterior à
Emenda Constitucional n. 20/98, não obstaculizavam o retorno do mili-
tar reformado ao serviço público e a posterior aposentadoria no cargo
civil, acumulando as vantagens respectivas.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das
notas taquigráficas, por maioria de votos, conceder a segurança, nos termos do voto do
Relator, vencido, parcialmente, o Ministro Joaquim Barbosa.
Brasília, 8 de setembro de 2004 — Nelson Jobim, Presidente — Marco Aurélio,
Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Ao apreciar o pedido de concessão de medida
acauteladora, assim resumi os parâmetros deste processo:
Este mandado de segurança está dirigido contra decisão do Tribunal de
Contas da União que resultou na declaração de ilegalidade do ato que implicara a
reforma do marido da impetrante, falecido em 1998. Aponta-se que, durante trinta
e seis anos, serviu o militar à Força Aérea Brasileira, havendo alcançado a reforma
516 R.T.J. — 197

no posto de Coronel da Aeronáutica em 13 de março de 1982, passando a receber


os proventos respectivos. Decorrido um mês da reforma, veio a ser contratado, sob
o regime da Consolidação das Leis do Trabalho, pelo Centro Técnico Aeroespa-
cial – CTA, para o cargo de Pesquisador Sênior, ocupado por onze anos, após o que
ocorreu a transformação do emprego em cargo público, no qual acabou se aposen-
tando, com a conseqüente percepção de proventos. Em 6 de novembro de 2002, o
CTA recebeu expediente do Tribunal de Contas da União para que a pensionista,
ora impetrante, optasse entre as pensões civil e militar. O próprio Diretor do CTA
buscara obter melhores esclarecimentos, à luz das orientações da Corte de Contas
e das instruções normativas.
Afirma-se que o cancelamento da pensão relativa à vinculação com a Aero-
náutica não se fez precedido do devido processo legal, ressaltando-se o longo
período mediante o qual foram satisfeitos os proventos. Alude-se a ofício-circular
sobre a concessão das aposentadorias, permitindo-se a cumulação até o pronuncia-
mento do Advogado-Geral da União. Menciona-se o Verbete n. 105 da Súmula do
Tribunal de Contas da União, segundo o qual a modificação posterior da jurispru-
dência não atinge aquelas situações constituídas sob critério interpretativo ante-
rior. Para corroborar a propriedade desse enfoque, remete-se aos Verbetes n. 146 e
204 da Súmula da Corte de Contas, acerca da pertinência da percepção cumulati-
va das vantagens. Pleiteia-se o deferimento de liminar que viabilize o pagamento
da pensão militar, admitindo-se, em caráter sucessivo, que se venha a afastar, até
a decisão final deste mandado de segurança, a pensão civil, julgando-se, alfim,
procedente o pedido para restabelecer-se a pensão militar. À inicial juntaram-se
os documentos de folhas 9 a 27.
À folha 29, despachei, consignando a necessidade de contar-se com as
informações para, então, examinar-se o pedido de medida acauteladora.
À folha 33, está o ofício do Presidente do Tribunal de Contas da União com
o qual encaminhado o parecer da Consultoria Jurídica daquela Corte. Na peça,
aponta-se a improcedência do que articulado, salientando-se a impossibilidade
da acumulação de aposentadorias quando vedada a cumulação dos cargos em
atividade. Impróprios seriam os enunciados 105, 146 e 204 da Súmula do Tribu-
nal de Contas da União, Corte que agira com base no artigo 71, inciso III, da
Constituição Federal e nos artigos 1º, inciso V, e 39, inciso II, da Lei n. 8.443/92.
Assegura-se que a revisão judicial das decisões do Tribunal de Contas da União
pressupõe irregularidade formal grave ou manifesta ilegalidade, remetendo-se a
precedente publicado na Revista Trimestral de Jurisprudência n. 43, à página 51.
Sob o ângulo do devido processo, do contraditório e da ampla defesa, evoca-se o
disposto nos artigos 34 e 48 da Lei n. 8.443/92. Segundo tal parecer, apenas após
a apreciação da legalidade do ato concessório de aposentadoria é que se tem
oportunidade para impugnação, por meio de embargos declaratórios e de pedido
de reexame, de resto não implementada pela interessada, que somente teria se
dirigido ao Comando da Aeronáutica – Coordenadoria de Recursos Humanos
para renunciar à pensão civil. A seguir, reproduz-se o voto condutor do julgamen-
to que resultou no cancelamento da reforma, no qual ressaltada a circunstância de
R.T.J. — 197 517

a Constituição de 1967 haver vedado a acumulação de proventos decorrentes de


reserva ou reforma com a remuneração de cargo público, reportando-se ao que
decidido por esta Corte no Recurso Extraordinário n. 163.204-6/SP, em 9 de
novembro de 1994, quando afastada a acumulação de proventos de policial civil
com remuneração de cargo de professor. A Constituição de 1988 não teria
viabilizado a acumulação de cargos por militar, deixando de repetir, até mesmo, o
texto da Emenda Constitucional n. 1/69 quanto à possibilidade de um militar da
reserva acumular, considerado cargo de magistério. A Emenda Constitucional n.
20/98 tornara expressa a vedação de acumulação de cargos e proventos de
servidores civis, convalidando as admissões ocorridas desde que realizado con-
curso público ou verificado o ingresso mediante forma contemplada na Carta
Federal. A teor do § 10 do artigo 37 da Constituição Federal, ter-se-ia a impossi-
bilidade de percepção simultânea de proventos de aposentadoria, embora não
expressa a Emenda n. 20/98 a respeito. Haveria de se levar em conta, na espécie, a
simetria entre a atividade e a inatividade. Vedada a acumulação na primeira, por
via de conseqüência, caberia igual tratamento quanto à segunda. Por estar o
regime de previdência dos militares previsto em legislação ordinária é que não
foram estes mencionados quando da promulgação da Emenda n. 20/98. Remeten-
do-se ao disposto na Lei n. 6.880/80, argumenta-se que a opção pelos proventos
da reserva, enquanto exercido o cargo ou emprego público, conflita com o que
decidido na Ação Direta de Inconstitucionalidade n. 1.541. Alfim, entende-se
que, não configurado o vício formal grave ou manifesta ilegalidade, não estaria a
impetração a merecer seguimento. Suplantada essa óptica, preconiza-se o
indeferimento da segurança.
Às folhas 53 e 54, o Vice-Presidente, no exercício da Presidência, Ministro
Nelson Jobim, postergou para a reabertura dos trabalhos o exame do pedido de
liminar, isso em 19 de janeiro do corrente ano.
Em passo seguinte, aludi à jurisprudência da Corte sobre a desnecessidade de ter-se,
no processo complexo de aposentadoria, a observância do contraditório, ressaltando
que o tema de fundo, ou seja, a viabilidade da acumulação, seria tratado pelo
Colegiado. Fiz ver mais, que o mandado de segurança não é veículo próprio à opção por
esta ou aquela pensão. Por medida de cautela, determinei fossem solicitadas informa-
ções complementares ao Tribunal de Contas da União, para saber se o que decidido no
Processo TC n. 009.021/2002-8 ficara restrito à homologação da reforma deferida ou
se, ocorrida esta em data anterior, deu-se, na verdade, a cassação. Ao processo vieram as
informações suplementares, com a notícia de o Tribunal de Contas da União haver
apreciado, pela vez primeira, conforme acórdão proferido, a reforma do militar (folhas
68 e seguintes).
A Procuradoria-Geral da República emitiu o parecer, de folhas 92 a 101, pela
concessão parcial da ordem. Eis a síntese da peça:
Mandado de segurança. Acumulação de duas pensões, uma de origem
militar, outra de natureza civil, refutada pelo TCU, visto que representaria viola-
ção à CF/88, a qual impede práticas dessa espécie, salvo diante de cargos que
seriam acumuláveis na ativa. Decisão que rejeita o registro da aposentadoria
518 R.T.J. — 197

militar, pois a civil, ainda que oriunda de vínculo posterior com a Administração,
já havia sido registrada. Regularidade do ato atacado em referência à impossibi-
lidade de cumulação diante da orientação da Suprema Corte sobre o tema.
Contudo, a impropriedade desse mesmo ato quando refuta a legalidade da
aposentação, pois a acumulação se deu em momento posterior ao desligamento
do militar. A ilegalidade reside no segundo laço com a Administração, e, por
conseqüência, no segundo pedido de aposentadoria, ainda que examinado em
primeiro lugar pelo TCU. Impossibilidade lógica do primeiro benefício ser o
ilegal, pois a acumulação vedada pela Carta da República se deu com o
reingresso do militar reformado aos quadros da Administração. Nulidade da
pensão civil, que deverá ser revista.
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Marco Aurélio (Relator): Os dados cronológicos são incontro-
versos. O finado marido da impetrante veio a ser reformado no cargo de Coronel da
Aeronáutica em 13 de março de 1982. Em 14 do mês imediato, foi contratado, sob a
égide da Consolidação das Leis do Trabalho, pelo Centro Técnico Aeroespacial – CTA,
permanecendo como pesquisador sênior por onze anos, havendo ocorrido, nesse espa-
ço de tempo, a transformação do emprego em cargo público. Em 25 de outubro de 1998,
faleceu, passando a viúva a receber as duas pensões, ou seja, a militar e a civil.
Sob o ângulo do contraditório, registre-se a natureza do processo concernente à
reforma do militar, que é idêntica à do relativo à aposentadoria do servidor civil.
Mostra-se complexo, com o implemento da aposentadoria pelo órgão de origem, a fim
de não haver quebra de continuidade da satisfação do que percebido pelo servidor,
seguindo à homologação pelo Tribunal de Contas da União. Vale dizer que não se tem
o envolvimento de litigantes, razão pela qual é inadequado falar-se em contraditório
para, uma vez observado este, vir o Tribunal de Contas da União a indeferir a homolo-
gação. Nesse sentido é o precedente desta Corte: Mandado de Segurança n. 24.784,
relatado pelo Ministro Carlos Velloso, perante o Plenário, cujo acórdão foi publicado
em 25 de junho de 2004. Na espécie, ficou devidamente esclarecido que não houve a
cassação de reforma deferida e homologada anteriormente, mas a continuidade do
processo, visando ao exame da respectiva legalidade.
No mais, o marido da impetrante alcançou a reforma sob a regência da Constitui-
ção Federal de 1967 e, aí, viu-se contratado e depois guindado a cargo público, para
prestar serviços técnicos, ou seja, como Pesquisador Sênior do Centro Técnico Aeroes-
pacial – CTA, onde permaneceu por onze anos, vindo a lograr aposentadoria em 1993.
A Carta de 1967 preceituava no artigo 93, § 9º:
A proibição de acumular proventos de inatividade não se aplicará aos milita-
res da reserva e aos reformados, quanto ao exercício de mandato eletivo, quanto ao
de função de magistério ou de cargo em comissão ou quanto ao contrato para
prestação de serviços técnicos ou especializados.
R.T.J. — 197 519

O retorno ao trabalho após reforma em relação à qual não foi articulado qualquer
defeito fez-se ao abrigo do citado § 9º. Regra semelhante é dado encontrar relativamente
aos servidores civis, no que estabelecia o § 4º do artigo 99 que:
A proibição de acumular proventos não se aplica aos aposentados quanto ao
exercício de mandato eletivo, quanto ao de um cargo em comissão ou quanto a
contrato para prestação de serviços técnicos ou especializados.
A distinção entre os servidores civis e militares, beneficiando estes últimos, diz
respeito apenas à acumulação de proventos, tendo em vista cargo de magistério, mas,
mesmo assim, é mitigada pela premissa de que, possível acumulação em atividade,
inexiste óbice à de proventos. A Carta de 1988, na redação primitiva, nada dispôs a
respeito, em si, da acumulação de proventos. Com a Emenda Constitucional n. 20, deu-se
disciplina interpretativa para viabilizar a acumulação de proventos e vencimentos
considerados aqueles que, à época, haviam reingressado no serviço público por concurso
público de provas ou de provas e títulos e pelas demais formas previstas na Constitui-
ção Federal, vedando-se, isso em 1998, a percepção de mais de uma aposentadoria pelo
regime de previdência a que se refere o artigo 40 da Constituição Federal, aplicando-se
o limite fixado no § 11 do artigo 40, na redação imprimida:
“§ 11. Aplica-se o limite fixado no art. 37, XI” — limites gerais —, “à soma
total dos proventos de inatividade, inclusive quando decorrentes da acumulação
de cargos ou empregos públicos, bem como de outras atividades sujeitas a
contribuição para o regime geral de previdência social, e ao montante resultante
da adição de proventos de inatividade com remuneração de cargo acumulável na
forma desta Constituição, cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação
e exoneração, e de cargo eletivo.”
No campo da aplicação da lei no tempo é dado, então, proclamar:
a) a reforma do falecido marido da impetrante ocorreu sob a égide da Constituição
de 1967, e a legitimidade, em si, não se faz em jogo;
b) o falecido marido da impetrante retornou ao serviço público em data anterior
à Carta de 1988, isto é, quando o § 9º do artigo 93 do Diploma Maior, de 1967, o
permitia;
c) aplica-se à reforma a Lei Básica de 1967 e à aposentadoria subseqüente no
campo civil a Constituição de 1988, na forma primitiva.
Descabe, portanto, chancelar a glosa procedida pelo Tribunal de Contas da
União, ante as peculiaridades da regência da matéria. Também não é o caso de conce-
der-se a ordem parcialmente, quer consideradas as balizas objetivas da impetração —
não está em jogo a aposentadoria como civil —, quer a circunstância de esta última
haver ocorrido sem a incidência de óbice constitucional, tendo em conta a data em que
contratado o servidor falecido e aquela alusiva à jubilação, isso para efeito da incidên-
cia do teto previsto no § 11 do artigo 40 da Constituição Federal, na redação dada pela
Emenda Constitucional n. 20/1998.
Concedo a segurança para assentar o direito da impetrante ao recebimento da
pensão militar deixada pelo falecido marido, o coronel Dorotthy Silveira Azevedo.
520 R.T.J. — 197

VOTO
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Senhor Presidente, acompanho o Relator quanto
à primeira parte, mas faço a ressalva sugerida pelo Ministério Público em seu parecer,
quanto à segunda aposentadoria, aposentadoria civil, de não haver nenhuma manifes-
tação, permitindo, assim, que o Tribunal de Contas examine sua regularidade.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Mas a dificuldade é que ele registrou a
segunda, não é?
A Sra. Ministra Ellen Gracie: Registrou a segunda, e não só isso: ao momento em
que ele ingressou nessa relação trabalhista com o CTA, a acumulação não era proibida.
Não havia qualquer proibição. Durante onze anos em que prestou serviço ao CTA,
contribuiu para o PSS regularmente. Então, não há realmente nenhum motivo para o
Ministro Joaquim Barbosa fazer ressalva.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Mantenho meu entendimento.
O Sr. Ministro Eros Grau: É correto o que disse a Ministra Ellen Gracie, mas, além
disso, o art. 11 da Emenda n. 20 ainda permitiria, reconheceria esse direito.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Sim, porque é fato anterior.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Mas nele se proíbe a acumulação dos
proventos. Acho que realmente não temos de tratar deste assunto; isso rigorosamente
não está em causa — se pode ser revisto ainda, se não pode.
O Sr. Ministro Marco Aurélio (Relator): Senão ia tornar o mandado de segurança —
como eu disse — uma ação processual, como se fosse uma rescisória de mão dupla.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): Sim, mas o tema tem uma questão
preliminar, suscitada pelo Ministro Sepúlveda Pertence e pela Ministra Ellen Gracie,
de que a segunda não está sendo objeto da discussão neste Mandado de Segurança,
mas, sim, a primeira. A segunda não é caso de análise. Não estamos analisando autono-
mamente a segunda, porque ele mostra que o problema está restrito à primeira.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Melhor ainda. Nem se questiona. E quanto à primeira,
se por outro motivo não fosse impossível ao Tribunal de Contas cancelar, o devido
processo legal realmente não foi observado. Uma coisa é o Tribunal de Contas — eu e
o Ministro Sepúlveda Pertence temo-nos manifestado assim — não ouvir o servidor
público quando da primeira fase de apreciação. Ele não foi ouvido na primeira fase,
nem podia.
A Sra. Ministra Ellen Gracie: Ministro Carlos Britto, mesmo que tivéssemos o
maior rigor em não aplicar esse precedente, ainda assim, o caso concreto, pelos dados
que nos alcançou o eminente Relator, permitiu-me verificar que todo esse longo
processamento se fez inteiramente à revelia, quer do servidor falecido, quer da sua
viúva. Veja, ele trabalhou até 1993 nessa segunda relação de emprego — o CTA;
faleceu em 1998. Apenas em 2003 é que se considerou ilegal o ato de reforma, aquele
que tinha acontecido em 1982.
O Sr. Ministro Nelson Jobim (Presidente): O primeiro.
O Sr. Ministro Carlos Britto: É, perfeito.
R.T.J. — 197 521

A Sra. Ministra Ellen Gracie: Tudo isso sem qualquer comunicação e ao contrário
disso.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Mas, nisso, realmente temos considerado que
não se faz necessária a audiência do aposentado, para o aperfeiçoamento do procedi-
mento administrativo da transferência para a inatividade, com o julgamento de sua
legalidade e o registro pelo Tribunal de Contas.
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Depois de vinte anos vem-se pronunciar.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Diante da circunstância em questão, não
devemos dizer uma palavra a respeito.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Nesse primeiro momento, não.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Esse é o meu ponto de vista.
O Sr. Ministro Marco Aurélio (Relator): De qualquer forma, nem sempre a demora
corre à conta do TCU, porque, às vezes, o órgão de origem é que retarda o encaminha-
mento.
A Sra. Ministra Ellen Gracie: O curioso é que o Tribunal de Contas registrou a
aposentadoria civil. Aí, não podendo mais fazer nada com relação à aposentadoria
civil, ele cassou a militar.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Mas essa, se ainda pode ser revista, há de ser,
obviamente, mediante processo administrativo com audiência do aposentado.
O Sr. Ministro Marco Aurélio (Relator): Sim, porque essa já foi registrada.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Uma vez registrada, abre-se para o beneficiário a
possibilidade do direito ao devido processo legal, uma vez registrado o seu benefício.
Aqui, não é o caso.

EXTRATO DA ATA
MS 24.742/DF — Relator: Ministro Marco Aurélio. Impetrante: Sonia Irsai Aze-
vedo (Advogados: Zeina Maria Hanna e outro). Impetrado: Tribunal de Contas da
União.
Decisão: O Tribunal, por maioria, concedeu a segurança, nos termos do voto do
Relator, vencido, parcialmente, o Ministro Joaquim Barbosa. Presidiu o julgamento o
Ministro Nelson Jobim.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes,
Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da Repú-
blica, Dr. Cláudio Lemos Fonteles.
Brasília, 8 de setembro de 2004 — Luiz Tomimatsu, Secretário.
522 R.T.J. — 197

MANDADO DE SEGURANÇA 25.006 — DF

Relator: O Sr. Ministro Marco Aurélio


Impetrantes: Espólio de João Ribas representado pela inventariante Edna
Bennett Alves Fernandes Ribas e outro — Impetrado: Presidente da República
Desapropriação — Reforma agrária — Produtividade do imóvel. O
mandado de segurança não é meio próprio a chegar-se à insubsistência
de laudo do Incra revelador de se tratar de imóvel improdutivo.
Desapropriação — Reforma agrária — Invasão do imóvel — Óbice à
vistoria. Se a vistoria é anterior à vigência do preceito que veio a
obstaculizá-la, tem-se como improcedente a causa de pedir da impetração.
O Decreto n. 2.250, de 11 de junho de 1997, mostrou-se simples orientação
administrativa, não gerando direito subjetivo.
Desapropriação — Reforma agrária — Ação declaratória em curso.
O fato de estar em curso ação declaratória para elucidar a produtividade
do imóvel não é óbice à tramitação de processo administrativo voltado à
desapropriação.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das
notas taquigráficas, por unanimidade de votos, indeferir a segurança, nos termos do
voto do Relator.
Brasília, 17 de novembro de 2004 — Nelson Jobim, Presidente — Marco Aurélio,
Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Eis a síntese do processo, lançada quando do
indeferimento da medida acauteladora:
Este mandado de segurança está dirigido contra decreto do Excelentíssimo
Senhor Presidente da República de 31 de março de 2004, publicado no Diário da
União do dia seguinte, que implicou a declaração de interesse social, para efeito
de reforma agrária, do imóvel denominado Floresta I, situado no Município de
Promissão/São Paulo.
Três são as causas de pedir constantes da inicial. A primeira está ligada ao
ajuizamento de ação ordinária declaratória de produtividade, na qual se formulou
pedido de tutela antecipada. Consoante as razões expendidas, a improcedência
revelada em sentença fora impugnada mediante apelação, seguindo-se o emprés-
timo, a esse recurso, dos efeitos devolutivo e suspensivo. São tecidas considera-
ções a respeito, partindo-se da premissa de que deveria ser aguardado o desfecho
da ação. A segunda causa de pedir concerne à invasão do imóvel por sem-terras.
R.T.J. — 197 523

Ter-se-ia, na dicção dos impetrantes, o óbice do Decreto n. 2.250, de 11 de junho


de 1997, no que veio a afastar a vistoria de imóveis invadidos, enquanto não
cessada a ocupação — artigo 4º. Por último, diz-se da produtividade do imóvel. A
inicial envolve pedido de concessão de liminar que suspenda a eficácia do
decreto desapropriatório, vindo-se, alfim, a declará-lo insubsistente. À inicial
juntaram-se os documentos de folhas 29 a 357.
Impetrado o mandado de segurança no curso das férias coletivas de julho,
ou seja, em 27 do citado mês, o Presidente desta Corte despachou, à folha 359, no
sentido de que fossem solicitadas informações.
À folha 366, já distribuído o processo, determinei se aguardasse a manifesta-
ção, que restou consubstanciada na Mensagem n. 477, de folha 368, acompanhada
de documentos. Em síntese, aponta-se que não cabe, na via do mandado de seguran-
ça, definir a produtividade do imóvel. No que tange à invasão, ressalta-se haver
ocorrido a vistoria em data anterior ao óbice introduzido pelo artigo 2º, § 6º, da Lei
n. 8.629/93, com a redação imprimida pela Medida Provisória n. 2.183-56, de 24 de
agosto de 2001. De qualquer forma, argumenta-se que a parte invadida, ínfima, fora
excluída dos levantamentos efetuados. Registra-se ainda que a sentença prolatada
pela 2ª Vara de Bauru/São Paulo, no Processo n. 1999.61.00.032579-7, resultou
na conclusão sobre a improdutividade.
À folha 586, despachei, concedendo ao impetrante prazo para regularizar a
representação processual, o que ocorreu conforme se depreende do documento de
folha 593.
O parecer da Procuradoria-Geral da República é no sentido do indeferimento da
ordem, estando assim resumido:
Mandado de Segurança. Desapropriação. Alegações de existência de ação
declaratória em curso, de produtividade do imóvel e de ocorrência de invasão.
Ação judicial em curso não impede a edição de decreto expropriatório, máxime
quando a sentença em primeiro grau é contrária aos interesses dos impetrantes.
Alegações de produtividade não cabíveis na via estreita do writ. Não aplicabili-
dade do § 6º do artigo 2º da Lei n. 8.629/93, por ser posterior ao fato combatido.
Parecer pela denegação da ordem.
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Marco Aurélio (Relator): As causas de pedir não subsistem a
exame. Inicialmente, é de consignar a impertinência de se discutir a produtividade do
imóvel na via do mandado de segurança, presente até mesmo a existência de laudo do
Incra em sentido contrário. Também deve ser salientado que não se pretendeu justificar,
em si, a ausência de produtividade com a invasão, com o motivo enquadrável como
estranho à vontade dos impetrantes. Articulou-se simplesmente a impropriedade da
vistoria. Valho-me do que tive oportunidade de ressaltar ao indeferir a medida
acauteladora:
524 R.T.J. — 197

Sob o ângulo da produtividade do imóvel, notam-se afirmações conflitantes


na inicial. A um só tempo, assevera-se a produtividade e sustenta-se a impossi-
bilidade da realização da vistoria em virtude da invasão. A assertiva primeira é
conducente a concluir-se pela irrelevância da segunda. De toda sorte, a ocupa-
ção da área, tomada como mínima e mesmo assim excluída dos levantamentos
verificados, aconteceu antes da lei que obstaculizou a feitura da vistoria. À
época desta, somente se encontrava em vigor, ao que tudo indica, o Decreto n.
2.250, de 11 de junho de 1997, verdadeira orientação administrativa. No tocante
ao processo em curso no Juízo, mostra-se neutro relativamente ao ato impugnado
neste mandado de segurança, sendo certo ainda que, até aqui, julgou-se impro-
cedente o pedido formulado. O empréstimo de eficácia suspensiva à apelação
não tem o efeito sugerido na inicial — de impedir a continuidade dos atos
desapropriatórios.
Indefiro a ordem.

EXTRATO DA ATA
MS 25.006/DF — Relator: Ministro Marco Aurélio. Impetrantes: Espólio de João
Ribas representado pela inventariante Edna Bennett Alves Fernandes Ribas e outro
(Advogados: Ademir Freire de Moura e outro). Impetrado: Presidente da República
(Advogado: Advogado-Geral da União).
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, indeferiu a segurança, nos termos do voto
do Relator. Ausente, justificadamente, o Ministro Sepúlveda Pertence. Presidiu o
julgamento o Ministro Nelson Jobim.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Celso de
Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes, Cezar Peluso,
Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da República, Dr. Cláudio
Lemos Fonteles.
Brasília, 17 de novembro de 2004 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

MANDADO DE SEGURANÇA 25.194 — DF

Relator: O Sr. Ministro Celso de Mello


Impetrante: Renata Rodrigues Tavares — Impetrado: Tribunal de Contas da União
Justiça Eleitoral — Requisição de servidores (Lei n. 6.999/82) —
Eficácia temporal dessa requisição administrativa — Cessação do afasta-
mento dos servidores requisitados, por efeito da superação do prazo legal —
Necessário e automático desligamento do servidor cedido, com a sua
conseqüente devolução à repartição de origem — Inexistência, em tal
situação, quanto ao servidor requisitado, de direito subjetivo à perma-
R.T.J. — 197 525

nência no órgão eleitoral requisitante — Correta deliberação adotada


pelo Tribunal de Contas da União, com apoio em competência constitucio-
nal que lhe confere a prerrogativa de exercer a fiscalização externa dos
Poderes da República (CF, arts. 70 e 71) — Considerações em torno do
poder constitucional de controle externo deferido, institucionalmente,
aos Tribunais de Contas — Precedentes do Supremo Tribunal Federal —
Mandado de segurança denegado.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das
notas taquigráficas, por unanimidade de votos, negar a segurança, nos termos do voto
do Relator. Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim.
Brasília, 3 de agosto de 2005 — Nelson Jobim, Presidente — Celso de Mello,
Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Celso de Mello: O eminente Procurador-Geral da República, ao
apreciar a controvérsia jurídica suscitada nesta sede processual, opinou pela
denegação do mandado de segurança, invocando, para tanto, os fundamentos que
expôs em causa idêntica (MS 25.193/DF) à que ora se examina nos presentes autos (fls.
206/214):
“1. Trata-se de mandado de segurança, com pedido de liminar, impetrado
por Renata Rodrigues Tavares com o qual pretende o reconhecimento de ilegali-
dade inserta em decisão proferida nos autos do processo TC-011.992/2002-6,
feito que teve curso no Tribunal de Contas da União.
2. Prestadas informações pela autoridade coatora (fls. 145-164) e indeferi-
do o pedido de cautela (fls. 204), vieram à Procuradoria-Geral da República.
3. A controvérsia suscitada é idêntica à que examinei em parecer levado ao
MS 25.193. Lá, como aqui, examinava-se suposta ilegalidade da decisão proferida
pelo TCU no processo TC-011.992/2002-6 (Acórdão 2.060/2004) por pretensa
violação ao devido processo legal, como também a Resolução do TSE. Os autos
ora apreciados contam com a mesmíssima questão. Desta forma, rememoro minha
primeira manifestação acerca dessa temática anexando cópia do parecer exarado
no MS 25.193.
4. Ante o exposto (...), manifesta-se o Ministério Público Federal pela dene-
gação da ordem.
(...)
Mandado de Segurança impetrado contra o Acórdão n. 521/2003 do
Plenário do Tribunal de Contas da União, confirmado pelo Acórdão n.
2.060/2004 do mesmo órgão, que determinou o retorno aos órgãos de
526 R.T.J. — 197

origem de todos os servidores requisitados pelo TRE/PB cujos prazos de


permanência naquele órgão estivessem em desacordo com o disposto pela
Lei n. 6.999/82.
- A relação levada a exame pelo TCU está afinada com a condução da
coisa pública, no que é gerida pela Administração, sem adentrar imediata-
mente nas relações funcionais subjacentes. Não há razão, portanto, para se
invocar suposta violação ao devido processo legal.
- Resolução n. 21.412/03 do TSE, que garantiria ao impetrante o
direito de permanecer a serviço do TRE/PB, estando em cabal divergência
com a Lei n. 6.999/82, não pode subsistir, em face da hierarquia entre as
normas.
- Parecer pelo indeferimento do writ.
Trata-se de mandado de segurança impetrado (...) em repulsa ao Acórdão n.
521/2003 do Plenário do Tribunal de Contas da União, confirmado pelo de n.
2.060/2004, que determinou o retorno aos órgãos de origem de todos os servido-
res requisitados pelo TRE/PB cujos prazos de permanência naquele órgão esti-
vessem em desacordo com o disposto pela Lei n. 6.999/82.
Em enxuto resumo das alegações do impetrante, argumenta que haveria
afronta ao devido processo legal, da ampla defesa e do contraditório, visto que
não teria sido chamado a se pronunciar no feito que lhe impôs o gravame; que
seria possível, com esteio em decisões jurisdicionais e resoluções do Tribunal
Superior Eleitoral - TSE, a requisição de servidores, não ocupantes de cargos em
comissão, por mais de um ano, em contraposição ao que impõe a Lei n. 6.999/82;
e que a decisão atacada viola os princípios da continuidade do serviço público,
da razoabilidade, da eficiência, da segurança jurídica e da dignidade da pessoa
humana.
Apresentaram-se as informações (...). Em preliminar, suscita-se a ausência de
interesse processual, uma vez que não restou demonstrado conflito de interesses
entre as partes ou prejuízo ao impetrante, o que estaria a inviabilizar o exame do
mandado de segurança. Sobre o mérito, argumenta-se que não houve lesão aos
princípios da ampla defesa e do contraditório, de vez que o órgão agiu dentro de suas
competências constitucional e legal; que não pode resolução do TSE contrariar
dispositivo de lei, em face da hierarquia entre as normas; que recentemente foram
nomeados novos servidores, concursados, para tomarem posse no TRE/PB; e que
não existe direito de permanência de servidor requisitado no órgão para o qual foi
cedido. Por fim, pleiteou-se o indeferimento da liminar, pela carência do fumus boni
iuris e do periculum in mora, além da denegação da segurança.
Recebidos os autos, Vossa Excelência houve por bem indeferir a liminar
pleiteada.
Vieram os autos, então, para esta Procuradoria-Geral da República, para
manifestação.
Não assiste razão ao impetrante.
R.T.J. — 197 527

O próprio cabimento do presente mandamus é severamente questionável.


Isso porque, do que se extrai do pronunciamento do TCU, restou apreciada uma
relação administrativa adstrita à Administração do Tribunal Regional Eleitoral
da Paraíba, sem reflexos imediatos sobre o plexo de direitos dos servidores. A
Corte de Contas crivou um comportamento, uma política, da gestão administra-
tiva do Tribunal Eleitoral, dando-o por ilegal. Censurou, com precisão, a prática
maciça identificada no âmbito do TRE-PB, que se vale da remoção para compor
seus quadros funcionais, em detrimento do provimento de cargos públicos, ins-
trumentos regulares para a consecução de tarefas usuais e permanentes do Poder
Judiciário Eleitoral.
Assim, a censura limitou-se ao âmbito da Administração Pública, sem resva-
lar em plexo de direitos subjetivos. Como já antecipam os Eminentes Ministros
Marco Aurélio e Carlos Britto em casos idênticos, ainda que em juízo meramente
cautelar, o veículo da requisição não concede ao servidor um direito de manter-se
vinculado a tal ou qual órgão. A requisição é prerrogativa do Poder Público, por
necessidade do serviço.
No indeferimento da cautela pleiteada no MS 25.224 o Eminente Ministro
Marco Aurélio tratou de assinalar: ‘(...) A própria impetrante admite que esponta-
neamente o Tribunal Regional da Paraíba poderia devolvê-la ao órgão de origem,
cumprindo ter presente também a possibilidade de este manifestar-se em tal senti-
do (...)’ (DJ de 17/2/2005, p. 9). Por sua vez, o Eminente Ministro Carlos Britto, ao
questionar o cabimento de mandado de segurança na hipótese tratada, ponderou:
‘(...) a requisição se me afigura um mecanismo jurídico endo-administrativo,
envolvendo, a princípio, exclusivamente o órgão de controle externo e o órgão
controlado (...)’ (MS 25.209 MC, DJ de 4/3/2005, p. 41).
A decisão do TCU, nessa ordem de idéias, retrata um provimento eminente-
mente afetado à Administração Pública.
Tendo o próprio Tribunal Regional Eleitoral da Paraíba aceitado a devolu-
ção do servidor a seu órgão de origem, falece o direito do impetrante, visto que
não existe direito adquirido a requisição, isto é, direito à permanência no órgão
pelo qual foi requisitado.
Não há direito líquido e certo a ser preservado, no que resta prejudicado o
exame da legalidade do ato dado por coator nesta estreita via processual.
Ainda que se avance sobre o tema de fundo não é encontrada qualquer
irregularidade na decisão do TCU.
Inicialmente, sobre a suposta afronta ao devido processo legal, valem
também aqui as previsões acima externadas. A relação levada a exame pelo
TCU está afinada com a condução da coisa pública, no que é gerida pela
Administração do TRE-PB, sem adentrar imediatamente nas relações funcionais
subjacentes. Não há razão, portanto, para se invocar suposta violação ao devido
processo legal, em especial no espectro da ampla defesa e do contraditório, pois
os servidores requisitados não são titulares de direito subjetivo eventualmente
posto em jogo.
528 R.T.J. — 197

É a prática desmedida, e sem substrato legal, da requisição, em detrimento


da nomeação de servidores públicos a cargos já criados por lei, que é objeto de
apreciação pelo TCU. Trata-se da mais típica função fiscalizatória externa, sem
diretos influxos sobre o plexo de direitos dos requisitados, focada na atuação
funcional dos administradores.
Desnecessária a chamada dos servidores, portanto, quando instaurado o
procedimento perante o TCU, sede na qual foi examinada uma política adminis-
trativa do TRE-PB, que teve plena possibilidade de externar suas razões em
defesa da prática adotada, inclusive com o oferecimento de recurso próprio. As
relações existentes entre TRE-PB e os requisitados não são postas sob exame,
tanto assim que não há determinação nos acórdãos atacados voltada aos servido-
res, mas diretrizes direcionadas apenas ao equacionamento dos serviços do Tribu-
nal Regional.
Cai a argumentação central deduzida na impetração.
Assim, tendo o Acórdão n. 521/2003 e Acórdão n. 2.060/2004, ambos do
Plenário do Tribunal de Contas da União, respeitado o devido processo legal,
passa-se ao exame de sua conformidade com a legislação a eles afeta. As manifes-
tações da Corte de Contas se encontram fulcradas na Lei n. 6.999/82, que, em seus
artigo 3º e 4º, assim dispõe:
‘Art. 3º No caso de acúmulo ocasional de serviço na Zona Eleitoral e
observado o disposto no art. 2º e seus parágrafos desta Lei, poderão ser
requisitados outros servidores pelo prazo máximo e improrrogável de 6
(seis) meses.
§ 1º Os limites estabelecidos nos parágrafos do artigo anterior só
poderão ser excedidos em casos excepcionais, a juízo do Tribunal Superior
Eleitoral.
§ 2º Esgotado o prazo de 6 (seis) meses, o servidor será desligado
automaticamente da Justiça Eleitoral, retomando a sua repartição de origem.
§ 3º Na hipótese prevista neste artigo, somente após decorrido 1 (um)
ano poderá haver nova requisição do mesmo servidor.
Art. 4º Exceto no caso de nomeação para cargo em comissão, as
requisições para as Secretarias dos Tribunais Eleitorais, serão feitas por
prazo certo, não excedente de 1 (um) ano.
Parágrafo único. Esgotado o prazo fixado neste artigo, proceder-se-á
na forma dos §§ 2º e 3º do artigo anterior.’
Observada a norma legal, não resta dúvida de que, tendo sido o servidor
requisitado para cargo diverso de cargo em comissão, sua requisição é ilegal e,
como tal, deve deixar de produzir efeitos.
Não merece acolhimento o argumento do impetrante de que a Resolução n.
21.412/03 do TSE lhe garantiria o direito de permanecer a serviço do TRE/PB,
haja vista que, estando o ato em cabal divergência com o texto legal colacionado,
não pode subsistir, em face da hierarquia entre as normas.
R.T.J. — 197 529

Ademais, incensurável a percepção Eminente Ministro Walton Alencar


Rodrigues na letra do Acórdão n. 2.060/2004 ao detectar o contundente abuso
na prática da requisição pelo órgão controlado. A necessidade de adequação da
prática administrativa do TRE-PB ao ditames legais é evidenciada no fato de
estar o quadro funcional daquela Corte composto por servidores requisitados
em mais da metade de seus integrantes, constatação que não é mais admissível
em vista da crescente estruturação da Justiça Eleitoral. Assenta o julgado em
questão - fls. 74:
‘No caso concreto, porém, o motivo do recurso do TRE/PB é a alegada
dificuldade, ou ‘impossibilidade’, de submeter as requisições para a secreta-
ria à disciplina do art. 4º do citado diploma legal. O Presidente do TRE/PB
afirma que se instalaria o ‘caos’ na Corte, caso não ampliado o prazo das
requisições feitas para a sua secretaria. Entende que tal ampliação não
entraria em confronto com a Lei, se interpretada suas disposições em con-
junto com os princípios constitucionais da eficiência e da economicidade.
Com a devida vênia, não vejo como princípios jurídicos possam
justificar a literal derrogação das disposições moralizadoras da Lei 6.999/
1982 até o ponto de sua integral perda de eficácia. O preenchimento dos
cargos públicos, destinados a suprir necessidades administrativas, com
caráter de definitividade, é feita após a sua regular criação, por lei especí-
fica, e aprovação em concurso público.
Ora, a requisição eleitoral não comporta a finalidade de eternizar o
vínculo dos requisitados com a Justiça Eleitoral, mediante o provimento
de cargos ou funções efetivas no âmbito da Justiça Eleitoral, a quem foi,
parcimoniosamente, confiado o poder de requisitar, por tempo certo. Os
instrumentos para o provimento efetivo de cargos são, como visto, os
previstos na Constituição e no art. 8º da Lei 8.112/90, não se incluindo,
dentre eles, a requisição eleitoral.
Pela relação de funções desempenhadas pelos servidores requisitados
no TRE/PB, materializada nos documentos encaminhados, o poder de
requisitar foi utilizado, de forma extremamente ampla e pouco razoável. Os
requisitados exercem todo tipo de atividades, mesmo que totalmente estra-
nhas à matéria eleitoral. Há flagrante desvio na utilização do instituto,
porquanto se pretende que os requisitados permaneçam definitivamente
nos quadros da Justiça Eleitoral, o que é ilegal. A necessidade de servido-
res, em caráter definitivo, resolve-se pela criação de cargos, providos por
concurso público, e não por requisições.
Na verdade, a realidade que o recorrente diz ser óbice à aplicação da
norma, é a mesma que a norma procurava expressamente limitar, por visível
e indelével ânimo moralizador.
A limitação imposta pela lei concretiza justamente o princípio da
moralidade, impedindo que o instrumento possa ser empregado para aco-
modar situações individuais estranhas ao interesse público.
530 R.T.J. — 197

Da mesma forma, os princípios jurídicos, insculpidos na Constituição


Federal, não podem elidir ou derrogar o conteúdo normativo do art. 4º da
Lei 6.999/1982, pelo simples fato de ser ele restritivo da atividade adminis-
trativa.
(...)
O dispositivo apenas tornou claro ao administrador que não lhe é
dado, no uso do poder de requisitar, fazê-lo por período indefinido. Note-se
que nisso, o referido diploma não vai de encontro ao disposto no art. 30,
inciso XIV, do Código Eleitoral, que ao dar vida ao instituto da requisição
de servidores para as secretarias dos tribunais eleitorais, restringiu-o a
situações de ‘acúmulo ocasional de serviço’.
A aplicação do instituto revelou-se, portanto, irregular, em descom-
passo com os princípios atualmente abrigados no art. 37 da Carta de 1988,
tais como o da moralidade e o da impessoalidade, e com os termos expressos
da Lei 6.999/1982.
Do ponto de vista prático, não há como dizer que o quadro geral de
desconformidade em relação à Lei 6.999/1982 seja insuscetível de regulari-
zação, como dá a entender o recorrente.
Pela magnitude da força de trabalho requisitada - mais da metade do
efetivo total do TRE/PB, mesmo excluídos os 29 servidores comissionados,
em conjunto com a pretensão de perenidade da atual situação, expõe-se o
abuso no exercício do poder de requisitar.
Deve ser lembrada a fragilidade de vínculos entre o servidor requisi-
tado e o Órgão Eleitoral, com inquestionáveis reflexos no desempenho da
função por parte daquele e no poder de exigibilidade e responsabilização
por parte da administração. Há também os problemas funcionais que
naturalmente surgem do convívio de funcionários com regimes legais tão
díspares.
A Corte Eleitoral não poderia, assim, transigir com a má operacionali-
dade resultante da utilização do instituto da requisição como forma de
provimento, em completo desacordo com seu regime legal.
Não se discute que, com a redemocratização do país, as atividades
eleitorais ganharam impulso e abrangência. E a Justiça Eleitoral tem sabido
responder ao desafio de assegurar o exercício de direitos eleitorais, básicos
à cidadania, a todos os habitantes do vasto território nacional. A sociedade
brasileira tem reconhecido também a contribuição dessa Justiça especializada
para o inegável aperfeiçoamento das práticas democráticas. Mas tem ofere-
cido, em contrapartida, o suporte financeiro necessário para que ela se
desincumba de sua ingente missão. Hoje, a informatização das eleições
atingiu patamar raramente visto entre as nações do mundo. Com isso, o fato
eleitoral, da votação à proclamação do resultado, transcorre em pouquís-
simos dias.
R.T.J. — 197 531

A recente Lei 10.842/2004 prevê a criação, até 2006, de 5.748 cargos


de analista e técnico judiciários, entre outros. Sem falar que a Lei 8.868/
1994 já havia promovido expansão semelhante no quadro efetivo das
Cortes Eleitorais.
Com isso, não se pode admitir que as Cortes Eleitorais recorram
continuamente ao instituto da requisição eleitoral, para recrutamento de
servidores em número superior ao de servidores efetivos, para desempenho
de tarefas estranhas à matéria eleitoral e inclusive em períodos distantes
das eleições, tudo em desacordo não só com a Lei que criou o instituto,
como também com a que, posteriormente, procurou discipliná-lo, por meio
da explicitação de limites.’
A precisão das conclusões do TCU é eloqüente e demonstrada pelos
fatos subseqüentes ao seu pronunciamento. Veja-se que, em seguida ao
comunicado da decisão ora atacada, o TRE-PB, por seu Presidente, fez a
convocação dos candidatos aprovados em concurso público em busca do
preenchimento dos cargos criados com a Lei 10.842/2004 (...). Está demons-
trada a viabilidade da execução dos serviços antes entregues aos esforços
dos requisitados por servidores públicos regularmente investidos em cargos
públicos, mediante a aprovação em concurso público.
Por derradeiro, quanto aos demais princípios ventilados pelo impe-
trante, devem ser afastados, no que tange ao caso em tela, pela razão de não
terem sido demonstrados na exordial.
Ante o exposto, o Ministério Público Federal opina pelo indeferimento
do writ.” (Grifei)
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Celso de Mello (Relator): O Egrégio Plenário do Supremo Tribu-
nal Federal, ao apreciar situação em tudo idêntica à que se analisa na presente causa,
proferiu decisão consubstanciada em acórdão assim ementado:
“Administração Pública — Fiscalização — Servidores requisitados —
Desnecessidade de participação no processo administrativo-fiscal. Tratando-se
de atuação do Tribunal de Contas da União, considerado certo órgão da Adminis-
tração Pública, não há como concluir pelo direito dos servidores requisitados de
serem ouvidos no processo em que glosadas as requisições.
Justiça Eleitoral — Cargos — Preenchimento — Servidores requisitados —
Balizamento no tempo. Cumpre aos tribunais eleitorais preencher os cargos
existentes no quadro funcional, fazendo cessar a prática das requisições, de
modo a atender as balizas da Lei n. 6.999/82. O servidor não conta com o direito
líquido e certo de permanecer no órgão cessionário, cabendo, isso sim, o retorno
ao cedente.”
(MS 25.198/DF, Rel. Min. Marco Aurélio — grifei)
532 R.T.J. — 197

Impende acentuar, por relevante, que essa orientação — em tudo aplicável ao


presente caso — vem sendo observada em sucessivos julgamentos plenários proferi-
dos a propósito da mesma controvérsia mandamental que ora se renova na presente
sede processual (MS 25.213/DF, Rel. Min. Eros Grau — MS 25.206/DF, Rel. Min.
Marco Aurélio, v.g.):
“Mandado de segurança. Tribunal de Contas da União. Interesse proces-
sual do impetrante. Ofensa ao princípio da ampla defesa e do contraditório.
Inocorrência. Servidores requisitados. Limitação temporal. Art. 4º da Lei n.
6.999/82. Resolução n. 21.413 do Tribunal Superior Eleitoral. Direito adqui-
rido. Inocorrência. Hierarquia entre as normas.
1. Há interesse processual do servidor público na impetração de mandado
de segurança quando o ato do Tribunal de Contas da União afeta diretamente as
suas relações jurídicas. Precedente [MS n. 25.209, Relator o Ministro Carlos
Britto, DJ de 4-3-05].
(...)
3. A requisição de servidores públicos para serventias eleitorais justifica-se
pelo acúmulo ocasional de serviço verificado no órgão cujo quadro funcional
não esteja totalmente estruturado ou em número suficiente. Trata-se de procedi-
mento emergencial, que reclama utilização parcimoniosa, sem a finalidade de
eternizar o vínculo dos requisitados com o órgão para o qual foram cedidos. Daí
a limitação temporal prevista no caput do art. 4º da Lei n. 6.999/82.
4. Por força da hierarquia entre as normas, a Resolução do TSE, que
prorroga o prazo de requisição de servidores, em divergência com o art. 4º da Lei
n. 6.999/82, não pode prevalecer. Não há falar-se, pois, em direito adquirido à
permanência do servidor no órgão eleitoral.
5. Segurança denegada.”
(MS 25.195/DF, Rel. Min. Eros Grau — grifei)
Cabe acentuar, por necessário, que a postulação da parte impetrante não tem
amparo na legislação, eis que, como se sabe, a Lei n. 6.999/82 dispõe, em seu art. 3º,
que, “No caso de acúmulo ocasional de serviço na Zona Eleitoral e observado o
disposto no art. 2º e seus parágrafos desta Lei, poderão ser requisitados outros
servidores pelo prazo máximo e improrrogável de 6 (seis) meses”, e que, expirado tal
prazo, o servidor requisitado deverá ser automaticamente desligado e devolvido à
repartição de origem, podendo a cessão funcional ser renovada somente após decor-
rido um ano contado do término daquele lapso temporal (Lei n. 6.999/82, art. 3º, §§
2º e 3º).
Registre-se, ainda, que, “exceto no caso de nomeação para cargo em comissão,
as requisições para as Secretarias dos Tribunais Eleitorais serão feitas por prazo
certo, não excedente de 1 (um) ano” (grifei), findo o qual aplicar-se-ão, aos órgãos
judiciários ora mencionados (“Secretaria de Tribunais Eleitorais”), as normas inscritas
nos §§ 2º e 3º do art. 3º da Lei n. 6.999/82, consoante prescreve, de modo expresso, o
parágrafo único do art. 4º desse mesmo diploma legislativo.
R.T.J. — 197 533

Vê-se, desse modo, que inexiste a possibilidade de reconhecer-se, em favor dos


servidores cuja requisição cessou por efeito de legítima determinação do Tribunal de
Contas da União, qualquer parcela de direito líquido e certo amparável pela via
constitucional do mandado de segurança, consoante vem acentuando a jurisprudência
que o Plenário desta Suprema Corte firmou no exame da mesma matéria ora em
análise neste julgamento (MS 25.217/DF, Rel. Min. Marco Aurelio, v.g.).
A deliberação ora em exame fundou-se na inquestionável competência
fiscalizadora de que se acha investido, ope constitutionis, o Tribunal de Contas, e que
lhe confere a atribuição de exercer, de modo legítimo, em matéria contábil, financeira,
orçamentária, operacional e patrimonial, o controle externo dos atos dos Poderes da
República, notadamente se se tiver presente a relevantíssima circunstância de que a
nova Constituição Federal ampliou, de forma extremamente significativa, em tema de
fiscalização estatal, a esfera de competência institucional das Cortes de Contas (RTJ
153/151-152, Rel. Min. Celso de Mello, v.g.).
Cabe enfatizar, ainda, que a presunção juris tantum de legitimidade dos atos do
Poder Público não deve impedir que o Tribunal de Contas exerça, em plenitude, a
ação fiscalizadora de que foi incumbido pela Lei Fundamental da República.
Não se pode ignorar, neste ponto, que esse poder de fiscalização repousa em
insuprimível atribuição que assiste às Cortes de Contas, no sistema de direito consti-
tucional positivo vigente no Brasil, especialmente se se considerarem os paradigmas
ético-jurídicos que devem pautar a atuação do Poder Público.
É preciso ter a percepção de que a nova Constituição da República ampliou, de
modo extremamente significativo, a esfera de competência dos Tribunais de Contas, os
quais, distanciados do modelo inicial consagrado na Constituição republicana de
1891 — que limitava a sua atuação à mera liquidação das contas da receita e despesa e
à verificação de sua legalidade (art. 89) — foram investidos, agora, de poderes mais
extensos que ensejam, em tema de controle externo, a possibilidade de ampla fiscali-
zação contábil, financeira, orçamentária, operacional e patrimonial das pessoas estatais
e das entidades e órgãos de sua administração direta e indireta.
A essencialidade dessa Instituição — surgida nos albores da República com o
Decreto n. 966-A, de 7-11-1890, editado, pelo Governo Provisório, sob a inspiração de
Rui Barbosa (RTJ 132/1034) — foi acentuada, uma vez mais, com a inclusão, no rol
dos princípios constitucionais sensíveis, da indeclinabilidade da prestação de contas
da administração pública, direta e indireta (CF, art. 34, VII, d).
A atuação do Tribunal de Contas, por isso mesmo, assume importância funda-
mental no campo do controle externo. Como natural decorrência do fortalecimento
de sua ação institucional, os Tribunais de Contas tornaram-se instrumentos de
inquestionável relevância na defesa dos postulados essenciais que informam a própria
organização da Administração Pública e o comportamento de seus agentes, com
especial ênfase para os princípios da moralidade administrativa, da impessoalidade e
da legalidade.
Nesse contexto, o regime de controle externo, institucionalizado pelo orde-
namento constitucional, propicia, em função da própria competência fiscaliza-
534 R.T.J. — 197

dora outorgada aos Tribunais de Contas, o exercício, por esses órgãos estatais, de
todos os poderes — inclusive os implícitos (MS 24.510/DF, Rel. Min. Ellen
Gracie) — que se revelem inerentes e necessários à plena consecução dos fins que
lhes foram cometidos.
Cabe ter presente, neste ponto, a advertência feita por Pontes de Miranda
(“Comentários à Constituição de 1967, com a Emenda n. 1 de 1969”, tomo III/258, 3ª
ed., 1987, Forense), cujo magistério, ao analisar o poder de controle outorgado ao
Tribunal de Contas, enfatiza:
“Todo ato, quer do Poder Executivo, quer do Poder Legislativo, ou do Poder
Judiciário, de que resulte despesa, tem de ser conferido com as leis, para que se
verifique se alguma das suas cláusulas viola regra de direito cogente.” (Grifei)
Inquestionável, desse modo, a plena legitimidade da deliberação do E. Tribunal
de Contas da União impugnada na presente sede mandamental.
Sendo assim, em face das razões expostas e considerando, ainda, o douto parecer
do eminente Procurador-Geral da República, denego o presente mandado de segurança,
mantendo íntegra, em conseqüência, a deliberação emanada do E. Tribunal de Contas
da União e consubstanciada em acórdão objeto de impugnação nesta sede processual,
incidindo, ainda, na espécie, a Súmula 512/STF.
É o meu voto.

EXTRATO DA ATA
MS 25.194/DF — Relator: Ministro Celso de Mello. Impetrante: Renata Rodri-
gues Tavares (Advogado: Stanislaw Costa Eloy). Impetrado: Tribunal de Contas da
União.
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, negou a segurança, nos termos do voto do
Relator. Presidiu o julgamento o Ministro Nelson Jobim.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes,
Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da Repú-
blica, Dr. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza.
Brasília, 3 de agosto de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.

AGRAVO REGIMENTAL NO MANDADO DE SEGURANÇA 25.271 — DF

Relatora: A Sra. Ministra Ellen Gracie


Agravante: Maria Ângela Lemes Pereira — Agravados: Presidente da República e
Superintendente Regional do Incra/MS
Administrativo. Mandado de segurança. Desapropriação. Autoridade
impetrada. Competência.
R.T.J. — 197 535

Mandado de segurança interposto contra ato ilegal do Superinten-


dente Regional do Incra referendado pelo Presidente da República. Com-
petência desta Corte.
Agravo improvido.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das
notas taquigráficas, por unanimidade de votos, negar provimento ao agravo, nos termos
do voto da Relatora.
Brasília, 27 de outubro de 2005 — Ellen Gracie, Presidente (art. 37, I, do RISTF)
e Relatora.

RELATÓRIO
A Sra. Ministra Ellen Gracie: Eis o teor do despacho agravado:
“Cuida-se de Mandado de Segurança, com pedido liminar, contra ato ilegal
do Superintendente Regional do Incra referendado pelo Presidente da República
e consubstanciado no Decreto de 21 de setembro de 2004, publicado no Diário
Oficial da União de 22-9-2004, que declarou de interesse social, para fins de
reforma agrária, imóvel rural denominado ‘Fazenda Morro Bonito', situado no
Município de Campo Grande, no Estado de Mato Grosso do Sul.
A impetrante, herdeira testamentária, busca sustar a eficácia do referido
decreto e obstar o eventual ajuizamento de ação de desapropriação. Alega a
existência de vícios no procedimento administrativo que antecedeu o decreto e
requer seja determinada à Superintendência Regional do Incra que se abstenha de
praticar qualquer ato de condução do processo expropriatório e a reabertura do
prazo para que possa impugnar o relatório agronômico.
Consoante o artigo 18 da Lei 1.533/51, o prazo para impetração do mandado
de segurança esgota-se em 120 dias contados da ciência pelo interessado do ato
impugnado.
O Decreto Presidencial em questão, datado de 21-9-2004, foi publicado
no Diário Oficial da União do dia 22-9-2004. No primeiro dia subseqüente
iniciou-se a contagem do prazo legal. A impetrante ajuizou o mandamus no dia
25-2-2005, 156 dias após o ato impugnado, portanto, quando já decorrido o
prazo decadencial.
Ante o exposto, nos termos do art. 21, § 1º, do Regimento Interno do
Supremo Tribunal Federal, nego seguimento ao pedido, prejudicado pedido de
liminar.”
A agravante sustenta que o Presidente da República não é a autoridade coatora,
mas, sim, o Superintendente do Incra/MS. O ato coator consistiu na negativa injustifi-
536 R.T.J. — 197

cada de atendimento ao pedido formulado em 6-12-2004, em que foi requerida mani-


festação sobre questão procedimental em expediente anteriormente protocolado na
Superintendência pelo co-herdeiro Adolfo.
Requer a agravante a reconsideração do despacho.
É o relatório.

VOTO
A Sra. Ministra Ellen Gracie (Relatora): Não tem razão a agravante.
A petição inicial do writ distribuída perante esta Corte é explícita ao colocar, no
pólo passivo, além do Superintendente Regional do Incra, o Presidente da República
em razão do ato consubstanciado no Decreto de 21 de setembro de 2004, publicado no
Diário Oficial da União de 22-9-2004, que declarou de interesse social, para fins de
reforma agrária, imóvel rural denominado “Fazenda Morro Bonito”. Por ter manifesta-
mente se insurgido também contra o referido decreto, e não apenas contra ato do
Presidente do Incra, o impetrante distribuiu o writ perante esta Corte.
Em razão da negativa de seguimento pelo decurso do prazo decadencial, o
impetrante pretende, agora, em tentativa de verdadeira emenda à inicial, pela via do
agravo, sustentar que só o Superintendente do Incra integra o pólo passivo.
Mesmo que admitido, como sustenta o impetrante, que a autoridade impetrada
seja apenas o Superintendente do Incra/MS e não o Presidente da República, ainda
assim, o caso seria de negativa de seguimento ao pedido do mandamus, porque aquela
autoridade (Superintendente do Incra) não faz por atrair a competência deste Supremo
Tribunal Federal (art. 102, I, d, da CF) para seu julgamento.
Nego provimento ao agravo.

EXTRATO DA ATA
MS 25.271-AgR/DF — Relatora: Ministra Ellen Gracie. Agravante: Maria Ângela
Lemes Pereira (Advogado: Afrânio Alves Corrêa). Agravados: Presidente da República
(Advogado: Advogado-Geral da União) e Superintendente Regional do Incra/MS.
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, negou provimento ao agravo, nos termos
do voto da Relatora. Ausentes, justificadamente, os Ministros Nelson Jobim (Presidente),
Celso de Mello, Carlos Velloso e Cezar Peluso. Presidiu o julgamento a Ministra Ellen
Gracie (Vice-Presidente).
Presidência da Ministra Ellen Gracie (Vice-Presidente). Presentes à sessão os
Ministros Sepúlveda Pertence, Marco Aurélio, Gilmar Mendes, Carlos Britto, Joaquim
Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da República, Dr. Antonio Fernando Barros e
Silva de Souza.
Brasília, 27 de outubro de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.
R.T.J. — 197 537

MANDADO DE SEGURANÇA 25.460 — DF

Relator: O Sr. Ministro Carlos Velloso


Impetrante: Normíria Ferreira Pinho (Assistida pelo Sindicato dos Servidores
Públicos Federais no Estado do Espírito Santo – SINDSEP/ES) — Impetrados: Tribunal
de Contas da União e Coordenador-Geral de Recursos Humanos do Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA
Constitucional. Servidor público. Vantagem deferida por sentença
judicial transitada em julgado. Tribunal de Contas: determinação no
sentido da exclusão da vantagem. Coisa julgada: ofensa. CF, art. 5º,
XXXVI.
I - Vantagem pecuniária incorporada aos proventos de aposen-
tadoria de servidor público, por força de decisão judicial transitada
em julgado: não pode o Tribunal de Contas, em caso assim, determi-
nar a supressão de tal vantagem, por isso que a situação jurídica
coberta pela coisa julgada somente pode ser modificada pela via da
ação rescisória.
II - Precedentes do Supremo Tribunal Federal.
III - Mandado de segurança deferido.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, sob a Presidência do Ministro Nelson Jobim, na
conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, conceder a segurança,
nos termos do voto do Relator. Ausente, justificadamente, neste julgamento, o Ministro
Eros Grau.
Brasília, 15 de dezembro de 2005 — Carlos Velloso, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Carlos Velloso: Trata-se de mandado de segurança, com pedido de
liminar, fundado nos arts. 2º e 5º, XXXVI e LXIX, da Constituição Federal, impetrado
por Normíria Ferreira Pinho, contra ato do Presidente da Primeira Câmara do
Tribunal de Contas da União, consubstanciado no Acórdão 2.562/2004-TCU-1ª
Câmara (fls. 22-23), proferido nos autos do TC 001.965/2001-7, que considerou ilegal
a aposentadoria concedida e determinou ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e
dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA a cessação de todo e qualquer pagamen-
to decorrente da decisão judicial transitada em julgado nos autos da Reclamação 962/
1991, da 1ª Vara do Trabalho de Vitória/ES (fls. 34-72), que conferira à impetrante
direito à incorporação do Plano Bresser (26,06%) e da URP de fevereiro de 1989
(26,05%). A presente impetração também indica como autoridade coatora o Coordena-
dor-Geral de Recursos Humanos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos
538 R.T.J. — 197

Recursos Naturais Renováveis – IBAMA, com intuito de que o mesmo não continue
a cumprir a determinação do Tribunal de Contas contida no referido acórdão.
Sustenta a impetrante em síntese:
a) a incompetência do Tribunal de Contas da União para determinar a referida
suspensão, porquanto amparada por decisão judicial transitada em julgado, consoante
se infere da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal (MS 23.665/DF, Plenário,
Ministro Maurício Corrêa, DJ de 20-9-2002);
b) a ocorrência de ofensa à coisa julgada (CF, art. 5º, XXXVI) e aos princípios da
segurança jurídica e da irredutibilidade de vencimentos (CF, art. 37, XV);
c) a existência do periculum in mora, ante a supressão, dos valores em questão, de
seus vencimentos, a partir do mês de abril de 2005 (Ofício n. 159/05 — CGREH/Ibama —
fl. 20), que afetou a qualidade de vida de sua família, colocando-a em dificuldades
financeiras.
Ao final, requer a impetrante, liminarmente, a imediata suspensão da eficácia do
Acórdão 2.562/2004-TCU-1ª Câmara, para impedir que o Coordenador-Geral de Re-
cursos Humanos do Ibama continue a cumprir a determinação nele contida. No mérito,
pede a concessão da segurança para que lhe seja assegurado definitivamente o direito à
inclusão das parcelas remuneratórias referentes às decisões judiciais transitadas em
julgado em seus proventos.
Requisitadas informações (fls. 94, 96 e 98), o Coordenador-Geral de Recursos
Humanos do Ibama alegou, às fls. 101-111, em síntese:
a) a sua ilegitimidade passiva, mormente porque apenas cumpriu a decisão
proferida no Acórdão 2.562/2004-TCU-1ª Câmara, não detendo poder ou competência
para rever ou cancelar o ato ora atacado;
b) a inexistência de direito líquido e certo da impetrante;
c) a constitucionalidade do ato de controle do Tribunal de Contas da União, nos
termos do art. 71 da Constituição Federal;
d) a inocorrência de ofensa à coisa julgada, porquanto sujeita às alterações fáticas
e jurídicas subseqüentes, na medida em que a concessão dos referidos percentuais
estava limitada à data-base, por não constar da sentença a sua extensão por tempo
indeterminado;
e) a ocorrência de ofensa ao princípio da isonomia, consubstanciada na continui-
dade do referido pagamento até os dias atuais, em completa disparidade com os outros
servidores, certo que o Supremo Tribunal Federal, ao apreciar a questão, entendeu que
os servidores não teriam direito aos referidos reajustes;
f) a inexistência de direito adquirido a regime jurídico.
O ilustre Presidente do Tribunal de Contas da União, por sua vez, às fls. 113-126,
sustentou em síntese:
a) a inexistência de ofensa à coisa julgada, porquanto a concessão dos referidos
percentuais não se incorporou aos vencimentos da impetrante, ante a sua natureza de
R.T.J. — 197 539

antecipação salarial, limitada à data-base. Ademais, a jurisprudência do Supremo


Tribunal Federal é no sentido de que inexiste direito adquirido aos referidos reajustes;
b) a existência de ilegalidade na aplicação desses reajustes, tendo em vista a
mudança superveniente do regime jurídico da servidora, em que foi devidamente
preservada a irredutibilidade de seus vencimentos;
c) a ocorrência de coisa julgada inconstitucional, em flagrante ofensa aos princí-
pios da constitucionalidade, da prevalência do interesse público sobre o particular,
da legalidade e da moralidade, daí a necessidade de sua relativização à luz da
moderna doutrina, bem como da revisão da atual jurisprudência do Supremo Tribu-
nal Federal;
d) a inexistência de direito adquirido e de ofensa ao princípio da segurança
jurídica, ante o entendimento do Supremo Tribunal Federal no sentido de que o ato de
aposentação é um ato complexo, apenas se tornando perfeito quando devidamente
registrado pela Corte de Contas;
e) a ausência de periculum in mora, dado que “os fatos arrolados pela Impetrante
não permitem concluir pela irreversibilidade da continuidade da decisão do TCU
no mundo jurídico, não estando em risco a eficácia da prestação jurisdicional
pretendida na presente ação mandamental. Não há irreversibilidade, por se tratar
de um possível crédito em face de um sujeito solvente e certo, a União; a simples
natureza alimentar e os compromissos assumidos também não permitem inferir
estado de necessidade” (fl. 125).
Em 3-8-2005, deferi a medida liminar (fls. 131-134).
A Procuradoria-Geral da República, em parecer lavrado pelo eminente Procura-
dor-Geral da República, Dr. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza, opina pela
denegação da ordem (fls. 148-150).
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Carlos Velloso (Relator): Em caso igual, MS 25.009/DF, por mim
relatado, decidiu o Supremo Tribunal Federal:
“Ementa: Constitucional. Processual. Mandado de segurança preventivo.
Servidor público: vantagem deferida por sentença judicial transitada em jul-
gado. Tribunal de Contas: determinação no sentido da exclusão da vantagem.
Coisa julgada: ofensa. CF, art. 5º, XXXVI.
I - A segurança preventiva pressupõe existência de efetiva ameaça a direito,
ameaça que decorre de atos concretos da autoridade pública. Inocorrência, no
caso, desse pressuposto da segurança preventiva.
II - Vantagem pecuniária, incorporada aos proventos de aposentadoria de
servidor público, por força de decisão judicial transitada em julgado: não pode o
Tribunal de Contas, em caso assim, determinar a supressão de tal vantagem, por
isso que a situação jurídica coberta pela coisa julgada somente pode ser modificada
pela via da ação rescisória.
540 R.T.J. — 197

III - Precedentes do Supremo Tribunal Federal.


IV - Mandado de Segurança preventivo não conhecido. Mandado de Segu-
rança conhecido e deferido relativamente ao servidor atingido pela decisão do
TCU.” (DJ de 29-4-2005)
Destaco do voto que proferi quando do julgamento do citado MS 25.009/DF:
“(...)
Examino a segurança no ponto em que conhecida.
Assim, nesta parte, o pronunciamento do eminente Procurador-Geral da
República:
‘(...)
10. No mérito, razão assiste à impetração. Com efeito, o caso se
amolda ao decidido por essa Egrégia Corte no julgamento do mandado de
segurança n. 23.665, cuja ementa restou assim redigida:
‘Mandado de segurança. Tribunal de Contas da União. Apo-
sentadoria. Registro. Vantagem deferida por sentença transitada em
julgado. Dissonância com a jurisprudência do Supremo Tribunal
Federal. Determinação à autoridade administrativa para suspender
o pagamento da parcela. Impossibilidade.
1. Vantagem pecuniária incluída nos proventos de aposentadoria
de servidor público federal, por força de decisão judicial transitada em
julgado. Impossibilidade de o Tribunal de Contas da União impor à
autoridade administrativa sujeita à sua fiscalização a suspensão do
respectivo pagamento. Ato que se afasta da competência reservada à
Corte de Contas (CF, artigo 71, III).
2. Ainda que contrário à pacífica jurisprudência desta Corte, o
reconhecimento de direito coberto pelo manto da res judicata somente
pode ser desconstituído pela via da ação rescisória. Segurança conce-
dida.’ (MS 23665 - DF - TP - Rel. Min. Maurício Corrêa - DJU
20.09.2002 - p. 00089)
11. Cumpre registrar trechos do voto condutor do mencionado
decisum, perfeitamente aplicáveis ao caso:
‘18. Vê-se, em conseqüência, que a decisão da Justiça Federal
realmente discrepa da orientação definitiva desta Corte sobre o direito
às diferenças salariais em debate, o que motivou, inclusive, o decisum
do impetrado. Sem embargo da louvável intenção de resguardar-se o
erário, não se pode perder de vista que a União deve obediência à
condenação judicial a que foi submetida.
19. E nessa circunstância, o órgão da Administração a quem é
oponível a sentença judicial tem obrigação de cumprir a decisão,
mesmo na hipótese de não estar ela em conformidade com a jurispru-
dência dos Tribunais Superiores, inclusive do Supremo Tribunal Federal.
Essa é a força da coisa julgada material instituída em face de recursos
R.T.J. — 197 541

possíveis ou da inércia da parte que não os utiliza, e que, alçada à


garantia constitucional (CF, artigo 5º, XXXVI), não pode ser simples-
mente descartada.
20. Dá-se, na hipótese, o que se denomina ‘efeito negativo da
coisa julgada material, que consiste na proibição de outro juiz vir a
decidir sobre o que já foi decidido em dispositivo de sentença de
processo anterior entre as mesmas partes (...). Seus efeitos, por isso,
projetam-se fora do processo, impedindo que se ajuíze nova demanda
sobre o objeto da decisão, que somente pode ser desconstituída por
ação rescisória.’
12. Vê-se, nesse diapasão, que a ordem emanada pelo Tribunal de Contas
da União, consubstanciada no item 9.3 do acórdão n. 1.157/2004-TCU-1ª
Câmara, é flagrantemente ilegal por afrontar a coisa julgada relativa ao decidido
na ação ordinária n. 89.0001705-5, já transitado em julgado (fls. 159).
(...).’ (Fls. 280-281)
Correto o parecer também nessa parte.
O Tribunal de Contas da União não poderia afrontar a coisa julgada, dado
que nem a lei pode fazê-lo (CF, 5º, XXXVI). E, no caso, o que ressai das informa-
ções é que procura o Tribunal encontrar justificativas para o seu ato, justificati-
vas, entretanto, que esbarram na garantia constitucional inscrita no art. 5º,
XXXVI, da Constituição Federal.
O Supremo Tribunal Federal, no julgamento do MS n. 23.665/DF, Relator o
Ministro Maurício Corrêa, decidiu, registra a Procuradoria-Geral da República,
no seu parecer, que não pode o Tribunal de Contas da União suspender ou
suprimir ‘vantagem pecuniária incluída nos proventos de aposentadoria de servi-
dor público federal, por força de decisão judicial transitada em julgado’, por isso
que ‘o reconhecimento de direito coberto pelo manto da res judicata somente
pode ser desconstituído pela via da ação rescisória’ (DJ de 20-9-2002). No mesmo
sentido do decidido pelo Ministro Carlos Britto, no MS 24.939/DF (DJ de 21-6-04).
No AI 471.430-AgR/DF, Relator o Ministro Eros Grau, decidiu o Supremo Tribu-
nal, pela sua 1ª Turma, que é ‘pacífico o entendimento de que o Tribunal de
Contas não possui atribuição para rever decisão judicial transitada em julgado’
(DJ de 17-9-2004). No MS 23.758/RJ, Relator o Ministro Moreira Alves, decidiu
o Supremo Tribunal Federal, pelo seu Plenário:
‘Ementa: Mandado de Segurança.
- Determinação de suspensão de pagamento de vantagem pessoal aos
impetrantes que fere a coisa julgada.
- Mandado de segurança deferido, para tornar sem efeito a decisão
do Tribunal de Contas da União com relação aos ora impetrantes.’ (DJ de
13-6-2003)
No MS 22.891/RS, por mim relatado, decidiu o Supremo Tribunal Federal
em Sessão Plenária:
542 R.T.J. — 197

‘Ementa: Constitucional. Administrativo. Servidor público: adici-


onal por tempo de serviço: servidor da Justiça do Trabalho: coisa
julgada. ADCT, art. 17.
I - O pressuposto para a aplicação do art. 17, caput, ADCT/1988,
isto é, para a redução do vencimento, remuneração, vantagem e adicio-
nal, bem como de provento, é que estes estejam em desacordo com a
Constituição de 1988. Ora, a Constituição de 1988 não estabeleceu
limites ao critério do cálculo do adicional por tempo de serviço, em
termos de percentuais. O que a Constituição vedou no art. 37, XIV, é o
denominado ‘repique’, ou o cálculo de vantagens pessoais uma sobre a
outra, assim em ‘cascata’.
II - Situação jurídica coberta, no caso, pela coisa julgada, assim
imodificável.
III - Mandado de segurança deferido.’ (DJ de 7-11-2003)
Um argumento sério foi utilizado pelo TCU, no caso, o de que a parcela da
URP poderia ter sido absorvida num reajuste de vencimentos posterior. Cumpria
ao TCU, entretanto, comprovar a ocorrência dessa alegada absorção, o que não
fez. Limitou-se, no ponto, a presumir a ocorrência de tal fato.
Do exposto, não conheço da segurança preventiva e, conhecendo do writ
relativamente apenas ao servidor Fernando Avelino de Souza, representado pelo
seu filho, Francisco de Souza Moura, defiro-a.” (DJ de 29-4-2005)
Do exposto, defiro o mandado de segurança.

EXTRATO DA ATA
MS 25.460/DF — Relator: Ministro Carlos Velloso. Impetrante: Normíria Ferreira
Pinho (Assistida pelo Sindicato dos Servidores Públicos Federais no Estado do Espírito
Santo – SINDSEP/ES) (Advogados: Ana Izabel Viana Gonsalves e outro e Rogerio da
Silva Venancio Pires). Impetrados: Tribunal de Contas da União e Coordenador-Geral
de Recursos Humanos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis – IBAMA.
Decisão: O Tribunal, por unanimidade, concedeu a segurança, nos termos do voto
do Relator. Ausente, justificadamente, neste julgamento, o Ministro Eros Grau. Presi-
diu o julgamento o Ministro Nelson Jobim.
Presidência do Ministro Nelson Jobim. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello, Carlos Velloso, Marco Aurélio, Ellen Gracie, Gilmar Mendes,
Cezar Peluso, Carlos Britto, Joaquim Barbosa e Eros Grau. Procurador-Geral da Repú-
blica, Dr. Antonio Fernando Barros e Silva de Souza.
Brasília, 15 de dezembro de 2005 — Luiz Tomimatsu, Secretário.
R.T.J. — 197 543

HABEAS CORPUS 70.231 — SP

Relator: O Sr. Ministro Celso de Mello


Paciente e Impetrante: Antonio Rodrigues Filho — Coator: Tribunal de Justiça
do Estado de São Paulo
Habeas corpus — Crime de tráfico de entorpecentes — Alegada
inépcia da denúncia — Inocorrência — Peça acusatória que atende,
plenamente, às exigências legais — Suposta divergência quanto à quanti-
dade de entorpecente apreendida — Irrelevância — Situação que, acaso
existente, não afastaria a tipicidade penal — Ausência do Ministério
Público aos atos de instrução penal — Formalidade cuja observância só à
parte contrária interessa — Irregularidade processual que não enseja a
nulidade do procedimento penal persecutório — Pretendido reconheci-
mento de cerceamento de defesa — Não-caracterização — Efetiva parti-
cipação do defensor nos atos processuais — Ausência de fundamentação
da sentença penal condenatória — Alegação improcedente — Sentença
penal que apresenta fundamentação suficiente e adequada — Suposta
ocorrência de flagrante preparado — Mera afirmação, desacompanhada
da necessária comprovação — Menção à inexistência de provas suficien-
tes para a condenação do paciente — Improcedência — Análise que exige
exame aprofundado de provas e fatos — Impossibilidade em sede de
habeas corpus — Pedido indeferido.
— A denúncia, quando contém todos os elementos essenciais à
adequada configuração típica do delito e atende, integralmente, às exi-
gências de ordem formal impostas pelo art. 41 do CPP, não apresenta o
vício nulificador da inépcia, pois permite, ao réu, a exata compreensão
dos fatos expostos na peça acusatória, ensejando-lhe, desse modo, o pleno
exercício do direito de defesa.
A suposta divergência quanto à quantidade de entorpecente apreen-
dida não descaracteriza a tipicidade penal, sendo irrelevante sua
constatação, além de revelar-se insuscetível de apreciação na via
sumaríssima do processo de habeas corpus.
— A voluntária ausência do representante do Ministério Público a
atos de instrução do processo, especialmente quando dela não resulta
qualquer prejuízo ao réu, não pode ser invocada, pelo acusado, como
causa de nulidade, eis que a legislação processual penal brasileira
dispõe que nenhuma das partes poderá argüir nulidade referente à
formalidade cuja observância só à parte contrária interessa (CPP, art.
565, in fine).
— O fato de o Promotor de Justiça deixar de assinar o termo da
audiência, longe de configurar qualquer hipótese de nulidade, caracteriza
mera irregularidade processual, que não dá ensejo à invalidação formal
do procedimento penal persecutório.
544 R.T.J. — 197

— Não há que se falar em defesa insuficiente ou omissa, quando se


ensejou ao paciente, em plenitude, o efetivo exercício do direito de defesa,
sem qualquer restrição ou obstáculo que pudesse afetar a cláusula consti-
tucional que assegura, a todos os acusados, o contraditório e a amplitude
de defesa, com os meios e recursos a ela inerentes.
— Satisfaz, integralmente, a exigência constitucional de motivação
dos atos decisórios, a condenação penal que, ao fixar a sanctio juris, o faz
mediante fundamentação suficiente e adequada, discorrendo sobre a
atividade criminosa do acusado e analisando, de forma minuciosa, am-
pla e precisa, o conjunto probatório existente nos autos.
— A ação de habeas corpus constitui remédio processual inadequa-
do, quando ajuizada com objetivo (a) de promover a análise da prova
penal, (b) de efetuar o reexame do conjunto probatório regularmente
produzido, (c) de provocar a reapreciação da matéria de fato e (d) de
proceder à revalorização dos elementos instrutórios coligidos no proces-
so penal de conhecimento. Precedentes.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Primeira Turma, na conformidade da ata do julgamento e das
notas taquigráficas, por unanimidade de votos, indeferir o pedido de habeas corpus,
nos termos do voto do Relator.
Brasília, 30 de novembro de 1993 — Moreira Alves, Presidente — Celso de
Mello, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Celso de Mello: Trata-se de habeas corpus impetrado, em causa
própria, por Antonio Rodrigues Filho, que se encontra preso e recolhido à Casa de
Detenção de Presidente Prudente/SP, em virtude de haver sido condenado à pena de 5
anos de reclusão, e multa, que lhe foi imposta pela prática do delito de tráfico de
entorpecentes (Lei n. 6.368/76, art. 12).
Determinei o apensamento dos autos do HC 70.093/SP, também impetrado pelo
ora paciente, eis que os fatos e fundamentos constantes desta impetração coincidem,
em essência, com os mencionados naquele writ.
Prestadas as informações pelo órgão apontado como coator, este assinalou que
“todos os argumentos deduzidos na impetração guardam relação profunda com as
provas existentes nos autos”, o que bastaria — segundo sustenta — para inviabilizar
a utilização do remédio constitucional do habeas corpus (fls. 48/51).
A douta Procuradoria-Geral da República, ao opinar pelo indeferimento do
pedido (fls. 34/37), assim apreciou, no ponto, a impetração (fl. 35):
“Sobre as teses das impetrações unificadas
R.T.J. — 197 545

No HC n. 70.093-4/130, sustenta inicialmente o impetrante que a denúncia


não pode subsistir, pois alude à apreensão de 43 quilos de cocaína, ao passo que
a soma dos autos de apreensão daria conta da apreensão de 41 quilos e seiscentos
e 19 gramas. Sustenta, ainda, que a instrução acusatória fora realizada sem a
presença do Representante do Ministério Público. Argumenta ademais que o seu
advogado não agiu com a necessária diligência, causando-lhe enorme prejuízo.
Focaliza, ainda, a sentença, asseverando que não estaria assinada pelo Magistra-
do, que não teria individualizado a pena e, ainda, estaria a descoberto de funda-
mentação.
No HC 70.231, o impetrante-paciente reitera as teses da impetração anterior,
sustentando ademais, que, in casu, se estaria diante de flagrante preparado ou
mesmo de processo sem prova suficiente para a condenação.” (Grifei)
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Celso de Mello (Relator): O ora paciente, juntamente com outros
cinco co-réus, foi condenado pelo magistrado de primeiro grau à pena de 5 anos de
reclusão, e multa, pela prática do delito tipificado no art. 12 da Lei n. 6.368/76 (fls.
69/86).
Inconformado com essa condenação, o paciente recorreu para o E. Tribunal de
Justiça do Estado de São Paulo, que deu parcial provimento à apelação por ele
interposta, para, tão-somente, reduzir o valor da multa, mantendo, no entanto, quanto
ao mais, a sentença penal condenatória de primeiro grau.
Objetiva o impetrante, com o presente writ, a nulidade do acórdão do Tribunal
apontado como coator, alegando, para tanto, (a) inépcia da denúncia, (b) ausência
do representante do Ministério Público a alguns atos de instrução processual, (c)
cerceamento de defesa, (d) ausência de fundamentação da sentença condenatória,
(e) falta de individualização da pena e (f) inexistência de provas suficientes para a
sua condenação.
Entendo não assistir razão ao impetrante.
Improcede a alegação de inépcia da denúncia. É que a peça acusatória, formula-
da pelo Ministério Público, atendeu, plenamente, às exigências de ordem formal
impostas pelo art. 41 do Código de Processo Penal.
A simples leitura da denúncia ora questionada evidencia tratar-se de peça proces-
sual incensurável, posto que nela se contém, de modo preciso e objetivo, a correta
descrição do fato delituoso (fls. 52/54 dos autos em apenso).
Ademais, a análise da alegada inépcia da peça acusatória, nos termos em que
proposta pelo ora paciente, refoge à mera discussão jurídica sobre os aspectos
concernentes a esse vício formal, que, presente, revelar-se-ia apto a ensejar a invalidade
da própria denúncia formulada pelo Ministério Público.
O impetrante sustenta, ainda, que o vício da inépcia residiria no fato de o
Promotor de Justiça haver apontado, na peça acusatória, que os réus tinham, em seu
poder, 43 kg de cocaína, quando, na realidade, teria sido apreendida, pelas autoridades
546 R.T.J. — 197

policiais, quantidade ligeiramente inferior àquela constante da denúncia (cerca de 41


kg e meio de cocaína).
O exame dessa circunstância supõe, no caso, apreciação de todo conjunto
probatório existente nos autos do procedimento penal instaurado contra o ora paciente,
o que é vedado na via angusta do habeas corpus, consoante orientação jurisprudencial
prevalecente nesta Corte.
Cumpre registrar, demais disso, a manifestação da douta Procuradoria-Geral da
República, no ponto em que, ao pronunciar-se sobre esse fundamento da impetração,
ressaltou (fl. 36):
“Examinado-se as peças que instruem as informações, vê-se que a denúncia
imputa ao ora paciente, com precisão, fatos típicos.
(...)
A alegação do réu de que o peso total da cocaína seria, aproximadamente,
um quilo e meio a menos tem pouco significado processual, pois o transporte de
menor quantidade não afastaria o tráfico.”
A análise das peças processuais produzidas nesta sede heróica revela, contudo,
que inexiste a divergência alegada pelo ora impetrante. Tal como ressaltou a douta
Procuradoria-Geral de Justiça do Estado de São Paulo, “A prova da materialidade é
inconteste, diante do perfeito laudo de exame químico-toxicológido de fls. 97/99, não
obstante a insistência inócua da defesa quanto à fictícia divergência de peso entre a
denúncia e o que foi apreendido. O Dr. Promotor de Justiça não se enganou ao
estabelecer que a apreensão foi de aproximadamente 43 (quarenta e três quilos) de
entorpecente. Basta computar a apreensão de fls. 24/27. Vejamos: 01) 17.785 Kg; 02)
980g; 03) 2.315 Kg; 04) 2.530 kg; 05) 7.790 e 06) 11.635 kg = 43.035 kg. O Dr.
Defensor foi muito infeliz na sua parcial contabilidade ‘de chegar’ para desmerecer a
denúncia” (fl. 95).
Em suma: a denúncia, quando contém todos os elementos essenciais à adequada
configuração típica do delito e atende, integralmente, às exigências de ordem formal
impostas pelo art. 41 do CPP, não apresenta o vício nulificador da inépcia, pois
permite, ao réu, a exata compreensão dos fatos expostos na peça acusatória, ensejando-
lhe, desse modo, o pleno exercício do direito de defesa.
E foi, precisamente, o que se registrou na espécie ora em exame.
No que concerne à suposta ausência do representante do Ministério Público aos
atos de instrução processual — especificamente à inquirição das testemunhas arroladas
pela acusação —, nenhuma razão assiste ao ora impetrante, eis que, além de o alegado
não-comparecimento do Ministério Público não haver causado qualquer prejuízo à
defesa (CPP, art. 563) ou à apuração da verdade real (CPP, art. 566), essa nulidade —
acaso configurada — somente seria suscetível de invocação pelo próprio órgão da
acusação penal, não, porém, pelo réu.
A legislação processual penal brasileira dispõe que nenhuma das partes poderá
argüir nulidade referente à formalidade cuja observância só à parte contrária interessa
(CPP, art. 565, in fine).
R.T.J. — 197 547

A presença do Ministério Público em todos os atos do processo é obrigatória.


Traduz uma decorrência do princípio do contraditório consagrado pela Carta Federal.
A falta do Parquet a qualquer dos atos a que deva comparecer constitui, por isso
mesmo, nulidade processual que deverá ser proclamada (RT 331/302 — RT 445/440).
Essa drástica conseqüência de ordem jurídico-formal, no entanto, somente deve ocorrer
naquelas estritas hipóteses em que a falta de participação do Ministério Público tenha
decorrido, não de sua própria vontade, mas, sim, de obstáculo processual criado por
terceiros.
A ausência do Ministério Público aos atos do processo, quando voluntária,
não pode ter o condão de afetar a validade da prova penal produzida em juízo. Essa
contumácia do órgão da acusação, contudo, não pode ser invocada pela Defesa
como causa de nulidade processual, especialmente quando a ausência do Promotor
de Justiça não ocasiona qualquer prejuízo ao réu. Essa causa nullitatis somente
pode ser legitimamente invocada pelo próprio Ministério Público, desde que não
derive — como já ressaltado — de omissão processual voluntariamente causada
pelo Parquet.
De qualquer maneira, porém, a leitura do termo da audiência em que foram
inquiridas as testemunhas arroladas pela acusação evidencia a presença do Ministério
Público, a quem, inclusive, se ensejou a possibilidade de formular reperguntas (fls. 19/
26v.). Por mero lapso, o Promotor de Justiça deixou de assinar aquele termo. Essa
situação, longe de configurar qualquer hipótese de nulidade, caracteriza mera irre-
gularidade processual, que não dá ensejo à invalidação formal do procedimento penal
persecutório.
Também não procede a alegação de cerceamento de defesa.
É que o ora paciente foi assistido por defensor legalmente constituído que o
acompanhou e esteve presente aos atos de instrução. Esse defensor técnico assistiu aos
depoimentos testemunhais, formulando reperguntas (fls. 129/135 — autos em
apenso), ofereceu defesa prévia e apresentou alegações finais (fl. 73 — autos em
apenso).
Vê-se, daí, que não há que se falar em defesa insuficiente ou omissa. Pelo
contrário, ensejou-se, ao ora paciente, em plenitude, o exercício do direito de defesa,
sem qualquer restrição ou obstáculo que pudesse afetar a cláusula constitucional que
assegura, a todos os acusados, o contraditório e a amplitude de defesa, com os meios e
recursos a ela inerentes.
Não procedem, por igual, as objeções pertinentes à alegada ausência de funda-
mentação da sentença penal condenatória (mantida pelo Tribunal a quo) e à suposta
falta de individualização da pena. O ato decisório ora questionado revestiu-se de
suficiente e adequada fundamentação, havendo discorrido sobre a atividade crimino-
sa do paciente e analisado, de forma minuciosa, ampla e precisa, a matéria probatória
existente nos autos (fls. 71/86).
O magistrado sentenciante expôs e examinou, em longo ato decisório, todas as
teses deduzidas pela Acusação e pela Defesa, justificando, de modo claro, as razões
que o levaram a emitir o provimento condenatório.
548 R.T.J. — 197

O Ministério Público Federal, ao repelir esses aspectos da impetração, correta-


mente salientou (fl. 36):
“A sentença é minuciosa (fls. 71/86), justificando adequadamente a declara-
ção de incidência do réu no crime objeto da denúncia.
(...)
De outra parte, a sentença justifica adequadamente o quantum da pena
imposta.”
A alegação do paciente de que teria sofrido flagrante preparado pela Polícia não
se reveste de qualquer fundamento fático-jurídico. O impetrante, nesse ponto, limitou-
se, sem qualquer razão, a afirmar que o comportamento dos agentes policiais poderia,
“mesmo que ligeiramente” (fl. 11), ter incidido na Súmula 145 do STF.
Essa mera alegação, totalmente desacompanhada de um acervo mínimo de
razões de fato e de direito, não autoriza a sua apreciação nesta via sumaríssima do
habeas corpus.
Finalmente, quanto à alegada inexistência de provas suficientes para a condena-
ção do paciente, não vislumbro a possibilidade de apreciar esse aspecto da
impetração, eis que a sua análise exigiria aprofundado exame da matéria de fato, o que
se mostra vedado em sede de habeas corpus (RTJ 129/1199 — RTJ 134/1227).
É conveniente assinalar, neste ponto, que a ação de habeas corpus constitui
remédio processual inadequado, quando ajuizada com objetivo (a) de promover a
análise da prova penal, (b) de efetuar o reexame do conjunto probatório regular-
mente produzido, (c) de provocar a reapreciação da matéria de fato e (d) de
proceder à revalorização dos elementos instrutórios coligidos no processo penal de
conhecimento.
Pelas razões expostas, e nos termos do parecer da douta Procuradoria-Geral da
República, indefiro o pedido de habeas corpus.
É o meu voto.

EXTRATO DA ATA
HC 70.231/SP — Relator: Ministro Celso de Mello. Paciente e Impetrante:
Antonio Rodrigues Filho. Coator: Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.
Decisão: A Turma indeferiu o pedido de habeas corpus, nos termos do voto do
Relator. Unânime.
Presidência do Ministro Moreira Alves. Presentes à sessão os Ministros Sepúlveda
Pertence, Celso de Mello e Ilmar Galvão. Ausente, justificadamente, o Ministro Sydney
Sanches. Subprocurador-Geral da República, Dr. Miguel Frauzino Pereira.
Brasília, 30 de novembro de 1993 — Ricardo Dias Duarte, Secretário.
R.T.J. — 197 549

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO RECURSO EM


HABEAS CORPUS 82.390 — SP

Relator: O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence


Embargantes: Elaine Cristina do Prado Brunheroto Pires, José Carlos Andrade
Gomes e José Gallardo Dias ou José Gallardo Diaz — Embargado: Ministério Público
Federal
Embargos de declaração: ausência dos seus pressupostos: rejeição.
1. Embargos de declaração a acórdão que, na linha da decisão
plenária do HC 81.611, Pertence, Informativo STF 333, deu provimento
ao recurso de habeas corpus, para declarar a nulidade do processo, desde
a denúncia, inclusive, sem curso, no entanto, a prescrição penal.
2. Manifesta improcedência dos embargos que não se prestam: a
explicitar pretendida sinonímia entre a declaração de nulidade desde
a denúncia, inclusive, e o chamado “trancamento da ação penal”; a
cuidar da validade ou não da representação fiscal, da qual, declarada
a nulidade do processo penal que provocou, nenhuma lesão ou ameaça
resulta para a liberdade de locomoção do paciente; a declarar o
fundamento do “trancamento da ação penal”, longamente deduzido
na decisão embargada e a alterar o julgado quanto à suspensão da
prescrição.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros da Primeira
Turma do Supremo Tribunal Federal, sob a Presidência do Ministro Sepúlveda
Pertence, na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por
unanimidade de votos, rejeitar os embargos de declaração no recurso em habeas
corpus e determinar à Secretaria do Tribunal a retificação da autuação, nos termos do
voto do Relator.
Brasília, 14 de dezembro de 2004 — Sepúlveda Pertence, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence: Trata-se de embargos de declaração contra
acórdão desta Turma, que, por maioria de votos, deu provimento ao recurso ordinário
em habeas corpus, nos termos da ementa transcrita:
“Ementa: Crime material contra a ordem tributária (Lei 8.137/90, art.
1º): lançamento do tributo pendente de decisão definitiva do processo administra-
tivo: falta de justa causa para a ação penal, suspenso, porém, o curso da prescrição
enquanto obstada a sua propositura pela falta do lançamento definitivo: precedente
(HC 81.611, Pleno, 10-12-2003, Pertence, Informativo STF 333).”
Este o voto-condutor por mim proferido após o pedido de vista (fls. 206/209):
550 R.T.J. — 197

“Os pacientes foram condenados — na forma dos arts. 29 e 71 do Código


Penal — por infração do art. 1º, II, da Lei 8.137/90, que incrimina o fato de
“fraudar a fiscalização tributária, inserindo elementos inexatos, ou omitindo
operação de qualquer natureza, em documento ou livro exigido pela lei
fiscal”.
No dia 12-7-95 (fls. 194/212; 329/475 – apensos I e II) os pacientes recorre-
ram administrativamente junto ao Tribunal de Impostos e Taxas de São Paulo,
objetivando o cancelamento da ‘exigência fiscal' decorrente dos fatos objeto da
denúncia.
Antes do julgamento de referidos recursos, foi oferecida denúncia, recebida
em 19-6-96 (fls. 2/3 e 481/482 — apensos 1 e 3), sobrevindo a sentença
condenatória, na qual se sustentou que ‘o exaurimento da via administrativa não
é necessária para obstar' a ação penal (fl. 576 — apenso 3).
Na mesma linha, o acórdão da apelação interposta pela Defesa, verbis (fl. 663 —
apenso 3):
“(...) Nos crimes previstos na Lei n. 8.137/90, como é o caso dos autos,
não há necessidade de representação da Fazenda Pública, uma vez que se
trata de ação pública incondicionada.
Também não há necessidade de o Ministério Público esperar o exau-
rimento da via administrativa para oferecimento da denúncia, bastando,
para tanto, prova da materialidade e indícios suficientes da autoria.”
Daí a impetração do habeas corpus perante o STJ, que denegou a ordem e
manteve a condenação ao fundamento de que ‘a propositura da ação penal,
envolvendo os delitos tipificados na Lei n. 8.137/90, independe do prévio
esgotamento do procedimento administrativo-tributário instaurado', nem é ne-
cessária, para o oferecimento da denúncia, ‘prévia representação da Fazenda
Pública', nos termos do art. 83 da Lei 9.430/96 (fls. 32/42).
Donde o presente recurso ordinário, ao qual negou provimento o em.
Relator — Ministro Moreira Alves — que após transcrever o acórdão do STJ,
assim votou:
‘1. Não têm razão os recorrentes.
Com efeito, quanto à questão de que o delito previsto no artigo 1º,
II, da Lei n. 8.137/90, combinado com o artigo 83 da Lei n. 9.430/96,
necessita de representação da Fazenda Pública, tratando-se de ação
penal pública condicionada à representação do ofendido.
Esta Corte, ao julgar a ADI 1.571-MC, entendeu que o artigo 83 da
Lei n. 9.430/96 deve ser entendido no sentido de que não define condição
de procedibilidade para a instauração da ação penal pública pelo Minis-
tério Público. Daí, ambas as Turmas deste Tribunal, seguindo essa orien-
tação, afirmarem que o artigo 83 da Lei 9.430/96 não estabelece condi-
ção de procedibilidade para a instauração da ação penal pública pelo
R.T.J. — 197 551

Ministério Público, que pode antes mesmo de encerrada a instância


administrativa, que é autônoma, propor a ação penal com relação aos
crimes a que ele alude.
Por outro lado, não é exato que a sentença de primeiro grau e o
acórdão do Tribunal de Justiça não tenham analisado o envolvimento
dos recorrentes no fato criminoso, como demonstrou o acórdão ora
recorrido, transcrevendo, a propósito, os trechos dessas decisões que se
encontram, respectivamente, a fls. 579/580 e 663/665 do apenso. É,
aliás, de observar-se que, nos crimes de autoria coletiva ou conjunta,
em especial nos delitos praticados em sociedade, não é necessária a
especificação pormenorizada da conduta de cada agente (cfe. HC
71.788, 2ª Turma, com relação ao crime contra a ordem tributária).
Note-se, ainda, que as penas privativas de liberdade foram fixadas no
mínimo legal e, posteriormente, substituídas por duas penas restritivas
de direitos.
Finalmente, quanto à terceira alegação desse recurso, está correto
o parecer da Procuradoria-Geral da República (...) (fl. 171).
2. Em face do exposto, nego provimento ao presente recurso.”
II
Após o pedido de vista, no julgamento do HC 81.611, Pleno, por mim
relatado, j. 10-12-03, Informativo STF 333, esta Corte firmou entendimento no
sentido de que, ‘nos crimes do art. 1º da Lei 8.137/90, que são materiais ou de
resultado, a decisão definitiva do processo administrativo consubstancia uma
condição objetiva de punibilidade, configurando-se como elemento essencial à
exigibilidade da obrigação tributária, cuja existência ou montante não se
pode afirmar até que haja o efeito preclusivo da decisão final em sede adminis-
trativa’ ou, segundo outros votos que também compuseram a maioria, elemento
essencial à tipicidade do fato.
Este é o caso dos autos, pois a denúncia foi recebida antes de haver decisão
definitiva no processo administrativo.
Assim, dou provimento ao recurso de habeas corpus, para declarar a nulida-
de do processo, desde a denúncia, inclusive, sem curso, no entanto, a prescrição
penal.”
Donde os presentes embargos, com os quais se pretende:
a) “fique entendido que a inclusão da denúncia na declaração de nulidade
do processo tem o mesmo significado semântico do que trancamento da ação
penal por falta de justa causa”;
b) seja anulada, também, “a representação fiscal, sob pena, inclusive, de
responsabilidade administrativa, civil e penal em face daqueles que de forma
extemporânea deram causa ao constrangimento dos embargantes: Administra-
ção, Autoridade Administrativa, Ministério Público, Promotor de Justiça (...)”;
552 R.T.J. — 197

c) “seja declarado, expressamente, o fundamento legal que ensejou o


trancamento da ação penal”;
d) seja afastada a suspensão da prescrição, “já que falta justa causa até para
acusação, ou subsidiariamente, que seja estipulado qual o período, início e fim,
da suspensão, bem como fundamento legal”.
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Relator): Manifesta a improcedência dos
embargos de declaração que não se prestam:
a) para explicitar a pretendida sinonímia entre a declaração de nulidade desde a
denúncia, inclusive — conforme o dispositivo do acórdão — e o chamado “trancamento
da ação penal”;
b) para cuidar da validade ou não da representação fiscal, da qual, declarada a
nulidade do processo penal que provocou, nenhuma lesão ou ameaça resulta para a
liberdade de locomoção do paciente;
c) para declarar o fundamento do “trancamento da ação penal”, longamente
deduzido na decisão embargada;
d) para alterar o julgado quanto à suspensão da prescrição.
Rejeito os embargos: é o meu voto.
Observe a Secretaria os pedidos relativos à autuação e às intimações formulados
ao final dos embargos.

EXTRATO DA ATA
RHC 82.390-ED/SP — Relator: Ministro Sepúlveda Pertence. Embargantes:
Elaine Cristina do Prado Brunheroto Pires, José Carlos Andrade Gomes e José Gallardo
Dias ou José Gallardo Diaz (Advogados: Raouf Kardous e outros e Rodrigo Pittas
Yamashita). Embargado: Ministério Público Federal.
Decisão: A Turma rejeitou os embargos de declaração no recurso em habeas
corpus e determinou à Secretaria do Tribunal a retificação da autuação, nos termos do
voto do Relator. Unânime.
Presidência do Ministro Sepúlveda Pertence. Presentes à sessão os Ministros
Marco Aurélio, Cezar Peluso, Carlos Britto e Eros Grau. Subprocurador-Geral da
República, Dr. Paulo de Tarso Braz Lucas.
Brasília, 14 de dezembro de 2004 — Ricardo Dias Duarte, Coordenador.
R.T.J. — 197 553

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO HABEAS CORPUS 82.770 — RJ

Relator: O Sr. Ministro Gilmar Mendes


Embargante: Rogério Costa de Andrade e Silva — Embargado: Superior Tribunal
de Justiça
Embargos de declaração no habeas corpus. 2. Crime hediondo —
duplo homicídio qualificado. 3. Alegação de omissão no acórdão
embargado quanto o fundamento da prisão preventiva decretada na
sentença condenatória. 4. Discussão acerca do direito de apelar em
liberdade. 5. Matéria em apreciação pelo Plenário desta Corte (Rcl
2.391). 6. Decreto da prisão preventiva devidamente fundamentado para
garantia da ordem pública (CPP, art. 312) 7. Inocorrência de omissão,
contradição ou obscuridade. 8. Efeitos infringentes. 9. Descabimento. 10.
Embargos de declaração rejeitados.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Segunda Turma, sob a Presidência do Ministro Celso de Mello, na
conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por unanimidade de
votos, rejeitar os embargos de declaração, nos termos do voto do Relator.
Brasília, 13 de dezembro de 2005 — Gilmar Mendes, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Gilmar Mendes: Ao apreciar o Habeas Corpus n. 82.770/RJ, de
Relatoria do Min. Celso de Mello, em que fui o redator para o acórdão, esta Turma
indeferiu a ordem, por maioria, estando o acórdão assim ementado:
“Ementa: Habeas corpus. 2. Superior Tribunal de Justiça. 3. Duplo homicí-
dio qualificado. 4. Crime hediondo. 5. Apelação em liberdade. 6. Repugna-se a
fundamentação de prisão cautelar assente simplesmente em clamor público. 7. Da
leitura do § 2º do art. 2º da Lei n. 8.072, de 25-7-90, extrai-se que a regra é a
proibição de se apelar em liberdade, que só pode ser afastada mediante decisão
fundamentada do juiz. Precedentes. 8. Habeas corpus indeferido.” (fl. 174)
Primeiramente, o então Vice-Presidente desta Corte, Min. Ilmar Galvão, no exer-
cício da Presidência, apreciou o pedido de liminar no HC 82.770/RJ, indeferindo-o (fls.
37-38). Após a distribuição do feito ao Relator Min. Celso de Mello, houve pedido de
reconsideração, sendo concedido o direito de apelar em liberdade (fls. 54-60).
Por ocasião do julgamento, o Min. Celso de Mello votou pela concessão da
ordem, por entender que o decreto da prisão preventiva não estava devidamente
fundamentado, por caracterizar a prisão apenas com relação às hipóteses do art. 312 do
Código de Processo Penal, sem fazer qualquer referência ao art. 2º, § 2º, da Lei n. 8.072/90
(fls. 125-162). Abri divergência, acompanhando o entendimento da Corte sobre a
554 R.T.J. — 197

questão, que entendia que “da leitura do § 2º do art. 2º da Lei n. 8.072, de 25-7-90,
extrai-se que a regra é a proibição de se apelar em liberdade, que só pode ser afastada
mediante decisão fundamentada do juiz” (fl. 174).
O embargante, Rogério Costa de Andrade e Silva, opôs os embargos de declara-
ção de fls. 179-190, com pedido de efeito modificativo, em que sustenta o direito de
apelar em liberdade, pelas seguintes razões, verbis:
“Concessa vênia, para assim decidir, a Eg. Segunda Turma do STF incidiu
em grave equívoco e patente omissão, cujo suprimento ou sanação, por via dos
presentes embargos declaratórios, importará na alteração do julgado, na linha de
numerosos e expressivos precedentes da Suprema Corte, como se verá a seguir.
Como por duas vezes ressaltou o eminente Ministro Celso de Mello, a
controvérsia suscitada na impetração cinge-se ao fato de que o decreto de prisão
preventiva e o acórdão do STJ que o convalidou negaram ao paciente o direito
de recorrer em liberdade, sem fazer qualquer alusão, para tanto, à norma
inscrita no art. 2º, § 2º, da Lei n. 8.072/90, optando por invocar razões —
fundadas, unicamente, no art. 312 do CPP — que lhe parecem pertinentes,
embora destituídas de base empírica derivada da existência de fatos concretos
reveladores da necessidade da adoção, no caso, da medida excepcional da priva-
ção cautelar da liberdade de locomoção física do paciente.
Ocorre que, no voto condutor da decisão majoritária da Suprema Corte, o
eminente Ministro Gilmar Mendes reconheceu que as decisões impugnadas não
se sustentavam do ponto de vista da fundamentação que expenderam para a
adoção e manutenção da medida excepcional constritiva da liberdade do pacien-
te. A despeito disso, manteve a prisão do paciente mediante a invocação de
fundamento que não integrou o decreto de prisão cautelar nem a decisão com que
o STJ o convalidou — ou seja, mediante a invocação do art. 2º, § 2º, da Lei n.
8.072/90.
Evidente, pois, que o v. acórdão embargado omitiu-se em apreciar o funda-
mento nuclear da impetração, por mais de uma vez destacado pelo eminente
Ministro Celso de Mello, no sentido de que, não tendo o art. 2º, § 2º, da Lei n.
8.072/90 sido invocado como fundamento do decreto de prisão preventiva, a
toda evidência não poderia incidir na espécie dos autos, a não ser com grave
comprometimento do sistema de garantia jurídica, como em casos análogos
reconhece a jurisprudência pacífica da Suprema Corte.” (fls. 185-186)
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Gilmar Mendes (Relator): Tal como relatado, discute-se nos pre-
sentes embargos o direito de apelar em liberdade. O paciente foi condenado à dezenove
anos e dez meses de reclusão pela prática de duplo homicídio qualificado, tendo sido
decretada sua prisão preventiva na sentença condenatória, com o fim de resguardar a
ordem pública.
R.T.J. — 197 555

Irresignado, interpôs apelação. Buscando apelar em liberdade, impetrou habeas


corpus no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) e no Superior Tribunal de
Justiça (STJ), sendo ambos indeferidos, pela inexistência de constrangimento ilegal.
Após, impetrou habeas corpus perante esta Corte, tendo sido, primeiramente,
indeferido o pedido de liminar, mas, depois do pedido de reconsideração, teve a
cautelar deferida.
Em 27-8-2003, a ordem de habeas corpus foi indeferida, por maioria, entendendo
que o § 2º do art. 2º da Lei n. 8.072, de 25-7-1990, dispõe como regra a proibição da
apelação em liberdade. O Relator Min. Celso de Mello foi vencido, por entender que o
decreto da prisão preventiva não se encontrava devidamente fundamentado em relação
à Lei n. 8.072/90, mas apenas quanto ao art. 312 do Código de Processo Penal,
concluindo, assim, que o paciente teria o direito de recorrer em liberdade.
O recurso de embargos de declaração é cabível para demonstrar a ocorrência de
omissão, contradição ou obscuridade da decisão embargada (arts. 619 e 620 do Código
de Processo Penal).
No presente caso, o embargante não indicou como o acórdão teria incorrido em
uma das hipóteses que legitimam a oposição de embargos de declaração. Na verdade,
busca-se, com a rediscussão da matéria decidida no acórdão recorrido, dar ao presente
recurso efeito infringente, o que é inviável na via eleita. Nesse sentido, inúmeros
precedentes: HC n. 84.793/SP, de minha Relatoria, DJ de 11-11-005; HC n. 84.420/PI,
Rel. Min. Carlos Velloso, DJ de 8-10-2004; HC n. 83.999/RS, Rel. Min. Carlos Britto,
DJ de 17-4-04; HC n. 81.024/PR, Rel. Min. Nelson Jobim, DJ de 26-3-04; HC n. 82138/
SC, Rel. Min. Maurício Corrêa, DJ de 14-11-2002.
Quanto à matéria de fundo, a possibilidade de apelação em liberdade está sendo
rediscutida pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal na Rcl 2.391. O entendimento
que está a se firmar, inclusive com o meu voto, impõe que a prisão cautelar, anterior ao
trânsito em julgado de sentença condenatória, seja fundamentada nos termos do art.
312 do CPP.
À fl. 1882 do “Apenso-01”, constam as razões da negativa do direito de recorrer
em liberdade, dentre as quais destaco o seguinte excerto, verbis:
“É mais do que sabido que a Constituição da República consagra, dentre
outros, o princípio irretocável do estado de inocência. Por isso, só em casos de
extrema excepcionalidade e imperiosa necessidade é que se pode privar
cautelarmente a liberdade de um indivíduo. No caso em tela, o que se tem
verificado nesta longa jornada de julgamento é que a ordem pública de nosso
Estado merece proteção, respeito, consideração e garantia. Não se pode admitir,
sob pena de desmoralização da Justiça que merece o nosso país, que o ora
condenado pelos dignos e corajosos representantes de nossa sociedade saia pelas
portas deste Palácio da Justiça, acompanhado da corte que aqui o trouxe e que
aqui o reverenciou todo o tempo, para continuar expondo a vida de outros,
escudado no seu notório poder econômico, enxovalhando agentes públicos e, o
556 R.T.J. — 197

que é pior, levando insegurança e medo aos cidadãos que licitamente sobre-
vivem nesta cidade. Não se pode negar o óbvio. A justiça deste IV Tribunal do
Júri tem por dever restaurar e, frise-se, garantir que a ordem pública seja
restabelecida, como autoriza o art. 312 do CPP, que neste particular foi
recepcionado pela Lei Maior. É bom lembrar que o conceito de ordem pública
não se limita a prevenir a reprodução de fatos criminosos, mas também acautelar
o meio social e a própria credibilidade da justiça, em face da gravidade do
crime e de sua repercussão. A decisão dos Srs. Jurados merece respeito. O
Tribunal do Povo merece respeito. Nossa cidade merece respeito. Nosso país
merece respeito. Deixar Rogério Costa de Andrade e Silva solto seria desres-
peito. Por isso, decreto a sua prisão cautelar, determinando a expedição do
competente mandado.”
Aliás conforme o próprio ora embargante reconhece expressamente, verbis:
“como por duas vezes ressaltou o eminente Ministro Celso de Mello, a controvérsia
suscitada na impetração cinge-se ao fato de que o decreto de prisão preventiva e o
acórdão do STJ que o convalidou negaram ao paciente o direito de recorrer em
liberdade, sem fazer qualquer alusão, para tanto, à norma inscrita no art. 2º, § 2º, da
Lei n. 8.072/90, optando por invocar razões — fundadas, unicamente, no art. 312 do
CPP.” (fl. 185)
No caso concreto, observo que o decreto prisional, de forma inequívoca, ressaltou
a possibilidade de que os trâmites processuais fossem obstados pelo paciente de modo
a comprometer a própria credibilidade da justiça. Nesse sentido, entendo que a custó-
dia cautelar foi devidamente fundamentada com garantia da ordem pública, nos termos
do art. 312 do Código de Processo penal.
Ante o exposto, diante da inexistência de obscuridade, omissão ou contradição
na decisão ora embargada, rejeito os presentes embargos.
EXTRATO DA ATA

HC 82.770-ED/RJ — Relator: Ministro Gilmar Mendes. Embargante: Rogério


Costa de Andrade e Silva (Advogado: Antonio Nabor Areias Bulhões). Embargado:
Superior Tribunal de Justiça.
Decisão: A Turma, por votação unânime, rejeitou os embargos de declaração, nos
termos do voto do Relator.
Presidência do Ministro Celso de Mello. Presentes à sessão os Ministros Carlos
Velloso, Ellen Gracie, Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa. Subprocuradora-Geral da
República, Dra. Sandra Verônica Cureau.
Brasília, 13 de dezembro de 2005 — Carlos Alberto Cantanhede, Coordenador.
R.T.J. — 197 557

HABEAS CORPUS 83.658 — RJ

Relator: O Sr. Ministro Joaquim Barbosa


Paciente: César Andrade Lima Souto ou César Andrade de Lima Souto — Impetrantes:
Antonio Carlos de Almeida Castro e outros — Coator: Superior Tribunal de Justiça
Habeas corpus. Corrupção ativa. Condenação. Provas. Princípio da
correlação entre acusação e sentença. Absolvição dos supostos corrom-
pidos. Pena. Fixação. Circunstâncias judiciais e aumento de pena pela
continuidade delitiva. Motivação. Hipótese de concessão da ordem de
ofício rejeitada.
Não procede o argumento de negativa de autoria, baseado na ausên-
cia de prova para a condenação, dado que o paciente, responsável pela
contabilidade do esquema do jogo do bicho, foi identificado por testemu-
nha e mediante perícia grafotécnica, realizada em diversos livros-caixa,
como um dos autores do crime de corrupção ativa.
As provas indicativas da autoria delituosa foram produzidas no
curso da instrução processual, de sorte que não há como falar em ilicitude
da condenação.
O paciente foi acusado e condenado — por ser um dos mentores das
operações criminosas do jogo do bicho — como partícipe no crime de
corrupção ativa na modalidade “oferecer vantagem indevida”, do que
não decorre violação do princípio da correlação entre acusação e sentença,
afastando-se a hipótese de anulação do acórdão condenatório.
A absolvição de um dos denunciados não exclui a condenação do
paciente, em razão da existência de diversos outros agentes condenados
por corrupção passiva, que receberam propina proveniente do fundo
gerido pelo paciente. Rejeitada a tese da ausência de bilateralidade entre
“oferecer” e “receber” vantagem indevida.
As circunstâncias judiciais, enumeradas pelo art. 59 do Código
Penal, foram todas criteriosamente analisadas pelo acórdão condenatório
para a fixação da pena-base.
O fato de o réu ter ou não maus antecedentes torna-se irrelevante
para obstar a fixação da pena-base acima do mínimo legal, se todas as
demais circunstâncias judiciais lhes são desfavoráveis e devidamente
justificadas pela decisão condenatória.
Mostra-se plenamente justificado o aumento de pena pela continui-
dade delitiva, em face da exaustiva demonstração, em cinco laudas e
meia, de 143 lançamentos registrados em livros-caixa de propinas pagas
a diversas autoridades, em que se aponta o número de crimes praticados,
as datas e os valores correspondentes.
Rejeitada a proposta de concessão de ofício da ordem.
Habeas corpus indeferido.
558 R.T.J. — 197

ACÓRDÃO

Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo


Tribunal Federal, em Segunda Turma, sob a Presidência do Ministro Sepúlveda Pertence,
na conformidade da ata do julgamento e das notas taquigráficas, por maioria de votos,
indeferir o pedido de habeas corpus, vencido, em parte, o Ministro Cezar Peluso, que
concedia de ofício o habeas corpus, para devolver o julgamento da impetração ao
Superior Tribunal de Justiça, a fim de que fossem examinados os tópicos enumerados
em seu voto.
Brasília, 29 de junho de 2004 — Joaquim Barbosa, Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa: Trata-se de habeas corpus impetrado em favor
de César Andrade Lima Souto, tendo por autoridade coatora a Sexta Turma do
Superior Tribunal de Justiça, que denegou a ordem requerida no HC 24.352.
O paciente foi condenado pelo Órgão Especial do Tribunal de Justiça do Estado
do Rio de Janeiro, pela prática de corrupção ativa. Em face desse acórdão, impetrou-se
habeas corpus ao Superior Tribunal de Justiça, que denegou a ordem. Por fim,
impetrou-se o presente writ.
O acórdão do Superior Tribunal de Justiça tem a seguinte ementa:
“Habeas corpus.
- O exame detalhado da prova não é próprio do habeas corpus.
- Ordem denegada.” (Fl. 65)
Os impetrantes alegam (i) ausência de ligação fática entre o paciente e os fatos que
deram ensejo a sua condenação e (ii) impossibilidade de condenação do corruptor em
face da absolvição do corrompido. Conseqüentemente, pedem a anulação do acórdão
condenatório.
As informações de praxe foram prestadas (fls. 65-85).
A Procuradoria-Geral da República opina pela denegação da ordem, em virtude
da impossibilidade da apreciação de matéria fática (fls. 88-103).
É o relatório.

VOTO (Preliminar)
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): A presente impetração submete à
jurisdição da Corte duas questões: de um lado, a inexistência de prova da participação
do paciente nos fatos que levaram a sua condenação; de outro, a impossibilidade de
condenação de alguém por corrupção ativa na hipótese de absolvição dos supostos
corrompidos.
R.T.J. — 197 559

Preliminarmente, esclareço que o deslinde dessas questões exige profunda medi-


tação sobre o material probatório. Certo, o entendimento contrário à análise fática em
habeas corpus há de ser invocado com certa parcimônia, pois o julgamento da tese é
indissociável do julgamento do fato (cf. HC 83.348, Rel. Min. Joaquim Barbosa; HC
82.405, Rel. Min. Maurício Corrêa; HC 80.639, Rel. Min. Nelson Jobim, e RHC 55.947,
Rel. Min. Djaci Falcão).
No entanto, na presente impetração o remédio de habeas corpus foi utilizado —
como tem ocorrido freqüentemente — de forma indevida, ou seja, como se fosse mero
recurso, a exigir do julgador a ponderação acerca das versões apresentadas e de todas as
provas colhidas, e não sobre a legalidade do julgamento ou sobre eventual abuso nele
praticado. Para a apreciação do mérito, é necessário — conforme se verá caso a presente
preliminar não seja acolhida — exaustivo estudo e posterior valoração de fatos, o que
sabidamente não é nem pode ser a função do habeas corpus.
Ora, é inadmissível que o Supremo Tribunal Federal tenha, na via estreita do
habeas corpus, de se travestir em juízo recursal, quando as instâncias ordinárias já se
encontram esgotadas. Há, dessa forma, um distanciamento de sua missão de guardar a
Constituição, para resolver, de forma tópica, questões probatórias.
Assim, creio seja hipótese de não-conhecimento da impetração.
É como voto, Senhor Presidente.

EXTRATO DA ATA
HC 83.658/RJ — Relator: Ministro Joaquim Barbosa. Paciente: César Andrade
Lima Souto ou César Andrade de Lima Souto. Impetrantes: Antonio Carlos de Almeida
Castro e outros. Coator: Superior Tribunal de Justiça.
Decisão: Após os votos dos Ministros Joaquim Barbosa, Relator, e Carlos Britto
não conhecendo do pedido de habeas corpus, pediu vista dos autos o Ministro Cezar
Peluso. Falou pelo paciente o Dr. Nélio Machado.
Presidência do Ministro Sepúlveda Pertence. Presentes à sessão os Ministros
Marco Aurélio, Cezar Peluso, Carlos Britto e Joaquim Barbosa. Subprocurador-Geral
da República, Dr. Wagner de Castro Mathias Netto.
Brasília, 20 de abril de 2004 — Ricardo Dias Duarte, Coordenador.

VOTO (Vista)
Ementa: Ação penal. Competência originária do Tribu-
nal de Justiça. Condenação. Impugnação mediante Habeas
corpus. Alegação de questões de direito. Não-conhecimento
pelo STJ, sob fundamento de necessidade de reexame de pro-
va. Inadmissibilidade. HC concedido de ofício para cassação
do acórdão.
O Sr. Ministro Cezar Peluso: 1. Trata-se de pedido de habeas corpus, substitutivo
de recurso ordinário, impetrado em favor de César Andrade Lima Souto ou César
560 R.T.J. — 197

Andrade de Lima Souto contra ato do Superior Tribunal de Justiça, que indeferiu writ
tendente a anular acórdão que condenou o ora paciente à pena de seis anos de reclusão
e de sessenta dias-multa, pela prática do crime descrito no art. 333, c.c arts. 29 e 71,
todos do Código Penal.
Conforme o relatório do Min. Joaquim Barbosa:
“Os impetrantes sustentam (i) a ausência de ligação fática entre o paciente e
os fatos que ensejaram sua condenação e (ii) a impossibilidade de condenação do
corruptor em face da absolvição do corrompido” (p. 2 do relatório).
O Ministério Público é pelo indeferimento da ordem.
O Ministro Relator, todavia, não conhece do pedido, porque sua apreciação
envolveria aprofundado reexame de prova, inadmissível no âmbito do habeas corpus,
verbis:
“Preliminarmente, esclareço que o deslinde dessas questões exige, necessa-
riamente, uma profunda meditação sobre o material probatório. Certo, o enten-
dimento contrário à análise fática em habeas corpus há de ser invocado com certa
parcimônia, pois o julgamento da tese é indissociável do julgamento do fato (cf.
HC 83.348, de minha Relatoria; HC 82.405, Rel. Min. Maurício Corrêa; HC
80.639, Rel. Min. Nelson Jobim, e RHC 55.947, Rel. Min. Djaci Falcão).
No entanto, na presente impetração, o remédio de habeas corpus foi utili-
zado — como tem ocorrido freqüentemente — de forma indevida, ou seja, como
se fosse mero recurso, a exigir do julgador a ponderação sobre todas as provas
colhidas e sobre as versões apresentadas, e não sobre a legalidade do julgamento
ou sobre eventual abuso nele praticado. Para a apreciação do mérito, é necessário —
conforme se verá caso a presente preliminar não seja acolhida — um exaustivo
estudo e posterior valoração de fatos, o que, sabidamente, não é e nem pode ser a
função do habeas corpus. Ora, é inadmissível que o Supremo Tribunal Federal
tenha, na via estreita desse writ, de se travestir em juízo recursal, quando as
instâncias ordinárias já se encontram esgotadas. Há, dessa forma, um
distanciamento de sua missão a guardar a Constituição, para resolver, de forma
tópica, questões probatórias. Assim, creio seja hipótese de não-conhecimento da
impetração” (pp. 1-2 do voto).
O Ministro Carlos Britto acompanha o Relator.
2. Este writ é substitutivo do recurso ordinário, previsto no art. 102, II, a, da
Constituição Federal, que reza:
“Art. 102. Compete ao Supremo Tribunal Federal, precipuamente, a guarda
da Constituição, cabendo-lhe:
(...)
II - julgar, em recurso ordinário:
a) o habeas corpus, o mandado de segurança, o habeas data e o mandado de
injunção decididos em única instância pelos Tribunais Superiores, se denegatória
a decisão”.
R.T.J. — 197 561

Tal recurso é “impugnação equivalente à apelação, permitindo amplo reexame


das questões decididas no tribunal a quo; assim, tanto a matéria de direito como
eventuais questões de fato, dentro, é evidente, das limitações próprias do procedimen-
to analisado, podem ser objeto de irresignação” (Grinover, Ada Pellegrini, Gomes
Filho, Antonio Magalhães, Fernandes, Antonio Scarance. Recursos no processo pe-
nal. 3 ed. rev. atual. ampl., São Paulo: Revista dos Tribunais, 2001, p. 382. Grifei).
De modo que, diversamente do que sustenta o ilustre Ministro Relator, a Consti-
tuição da República atribuiu, sim, a esta Corte o poder de ampla cognição, horizontal e
vertical, dos temas cabíveis no âmbito do recurso, previsto nela sob título de ordinário,
para contrariar julgamento de habeas corpus denegado, em única instância, por Tribunal
Superior. É o caso.
Ora, se do julgamento do pedido de habeas corpus, pelo Superior Tribunal de
Justiça, quadra, de um lado, recurso ordinário constitucional, com ilimitada cognição
do material decisório, e, de outro, uso substitutivo de outro habeas corpus (cf. RHC n.
83.941, Min. Joaquim Barbosa; HC n. 80.103, Min. Sydney Sanches; HC n. 79.765,
Min. Moreira Alves), a este não se pode deixar de reconhecer o mesmo espectro de
cognição próprio da devolutividade do recurso substituído, nos limites do objeto do
acórdão impugnado (HC n. 79.765, Min. Moreira Alves; HC n. 79.551, Min. Nelson
Jobim; HC n. 77.807, Min. Moreira Alves). O objeto, assim do recurso ordinário,
como do habeas corpus substitutivo, é delimitado pela decisão denegatória de habeas
corpus proferida por Tribunal Superior, neste caso o Superior Tribunal de Justiça.
A decisão aqui atacada denegou a ordem, sob fundamento de não caber em
habeas corpus o exame minucioso da prova (HC n. 24.352, fl. 65). Logo, a presente
impugnação deve ater-se à questão de saber se o pedido original visava, deveras, ao
“exame detalhado da prova”.
3. Faço breve digressão neste ponto.
Sigo de perto o entendimento reiterado do ilustre Presidente da Turma, Min.
Sepúlveda Pertence, de que se deva emprestar ao remédio constitucional do habeas
corpus o mais largo âmbito de admissibilidade.
Ora, conquanto o acórdão impugnado não tenha descido ao exame da matéria
posta no habeas corpus, a qual foi tida por incognoscível, conformou-se a respeito o
impetrante, que se adscreve a reapresentar, nesta Corte, os argumentos deduzidos, mas
não conhecidos, perante o Superior Tribunal de Justiça.
Poderia eu invocar, então, precedente da Turma, que, expresso no RHC n. 80.110
(Rel. Min. Sepúlveda Pertence), assenta boa doutrina:
“Somado à inexigibilidade do prequestionamento, o poder-dever da con-
cessão do habeas corpus de ofício permite — quando manifesta a ilegalidade
que o Tribunal coator se haja indevidamente recusado a examinar — que se
sobreponha a decisão imediata e favorável do caso à ortodoxia da não
supressão de instância”.
Mas particularidade do caso parece recomendar-me outra solução.
562 R.T.J. — 197

É que, cuidando-se de sentença condenatória prolatada no exercício de competên-


cia originária do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, não lhe prevê, o
ordenamento, recurso de devolutividade que, análoga à da apelação, permitisse cognição
plena das questões de fato e de direito versadas na instância de origem. Ao ora paciente
ficam-lhe apenas os recursos especial e extraordinário, ambos de admissibilidade e
cognição restritas, e a ação de habeas corpus, de alcance não menos curto.
Se se penetra no mérito das questões não decididas pelo Superior Tribunal de
Justiça, subtrai-se-lhe ao paciente a possibilidade de sua discussão por mais uma
instância: decisão desfavorável daquela Corte sempre autorizará impetração de habeas
corpus para esta. Daí, afigurar-se-me gravoso ao status libertatis do paciente examinar
desde logo aquelas questões, não obstante a aparência de graves nulidades que,
desafiando ordem oficial de habeas corpus, maculariam o processo, designadamente:
a) falta de correlação entre a acusação e a sentença: enquanto a denúncia imputa
prática de corrupção ativa, consumada mediante comportamento integrativo de outrem
(“mediante prepostos e intermediários”), a sentença condena por autoria direta do
crime (“prática de atos de corrupção”);
b) equivocada avaliação de duas circunstâncias judiciais: a consideração de duas
ações penais, ainda em curso, como “maus antecedentes”, e o motivo invocado —
“enriquecimento fácil à custa das economias exatamente das camadas mais pobres da
sociedade, nas quais recrutam os apostadores do ‘jogo do bicho’ e outros semelhan-
tes” (fl. 251) —, o qual se mostra estranho ao crime por que foi o paciente condenado,
corrupção ativa, e não, como por erro considerou a sentença condenatória, promoção de
“jogo do bicho”;
c) falta de justificação do aumento de pena pela continuidade delitiva: a senten-
ça, sem identificar nem sequer mencionar quantos crimes teriam sido praticados pelo
paciente, aumentou-a de metade, exasperando o mínimo legal,1 sem fundamento ade-
quado (“tendo em vista o grande número de crimes”).
4. Retomando o raciocínio, a impetração perante o Superior Tribunal de Justiça
centrou-se na alegação de (a) “impossibilidade manifesta de se inocentar alguém
acusado de corrupção passiva, na modalidade de recebimento de vantagem indevida,
condenando-se o pretenso doador que nada concedeu” (Apenso 1, inicial do habeas
corpus, fl. 21); (b) “não-comprovação do fato narrado na denúncia”; e (c)
“imprestabilidade de elemento de prova obtido em fase extrajudicial, em contexto no
qual restou inobservado o contraditório” (idem, fl. 27).
Conquanto a segunda questão (b) — relativa à não-comprovação do fato narrado
na denúncia — pudesse ou possa envolver, em tese, reexame da prova, igual coisa já
não se pode dizer dos outros dois fundamentos submetidos ao Superior Tribunal de
Justiça (a) e (c).

1 Código Penal, art. 71, caput: “Quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica
dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras
semelhantes, devem os subseqüentes ser havidos como continuação do primeiro, aplica-se-lhe a pena
de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas, aumentada, em qualquer caso, de um
sexto a dois terços” (grifei).
R.T.J. — 197 563

O primeiro deles (a) exige apenas o exame dos termos do acórdão condenatório,
não das provas em que se baseou, à medida que corresponde a uma questão de direito
(quaestio iuris), qual seja, a de que não poderia ser condenado por corrupção ativa o
acusado de pagamento de “vantagem indevida a funcionário público” (art. 333 do
Código Penal), quando, por falta de prova, a mesma decisão absolve o “funcionário
público” que a teria recebido e praticado o crime de corrupção passiva (art. 317, Código
Penal), bem como o terceiro que teria intermediado a entrega do numerário.
Não se discutia, neste tópico do writ original, acerca da valoração da prova, de sua
suficiência ou não, mas tão-só, à luz das motivações do próprio acórdão, sobre a
hipotética ilegalidade de condenação que, pressupondo certeza do fato consistente na
percepção da vantagem pecuniária indevida, o teve por incerto. O que ali se fustigava
não era a condenação do paciente por deficiência da prova contra ele eventualmente
produzida, senão a condenação associada à absolvição de quem que teria recebido a
vantagem indevida por ele paga. Donde, vê-se logo que o deslinde da matéria não
dependia em nada do reexame da prova, e, muito menos, de seu “exame detalhado”,
mas só da análise de pressupostos lógicos e jurídicos da condenação.
A mesma observação vale para o terceiro fundamento (c), vazado na argüição de
ilicitude do uso de elemento de prova obtido em fase extrajudicial, não sujeito ao crivo
do contraditório, como expresso suporte retórico da condenação. É que o tema não diz
com necessidade de revisão do valor persuasivo do depoimento em si, senão com a sua
validade à luz das normas constitucionais e processuais penais que disciplinam a
admissibilidade, a produção e a valoração das provas. É, aliás, o que já notou esta
Corte, em sede mesma de habeas corpus:
“Prova. Princípio constitucional do contraditório. Condenação fundada
exclusivamente no inquérito. Falta de justa causa para a condenação. É corolário
inevitável da garantia da contraditoriedade da instrução criminal que a
condenação não se pode fundar exclusivamente nos elementos informativos
do inquérito policial, sequer ratificados no curso do processo, sobretudo,
quando as investigação policiais não lograram fornecer nem a prova material do
crime e da autoria e tudo se baseia em provas orais, desmentidas em juízo” (HC n.
67.917, Rel. Min. Sepúlveda Pertence. Grifei).
Equivocou-se, também aqui, o Superior Tribunal de Justiça, ao argumentar com
inviabilidade de reexame pormenorizado da prova, para indeferir a ordem, quando
disso não se tratava.
Conforme já decidiu o Plenário desta Corte:
“No procedimento sumário e documental do habeas corpus, não cabe
inverter, mediante reavaliação de provas controvertidas, o suposto de fato que
haja constituído a premissa menor do silogismo judicial da decisão condenatória
que se pretenda carente de justa causa; nele, contudo, é lícito verificar — quando
a verificação não reclama o deslinde de controvérsias sobre provas de significa-
ção equívoca —, a inexistência material de prova necessária à construção do
suposto de fato da decisão coatora” (HC n. 71.161, Rel. Min. Sepúlveda Pertence.
Grifei. No mesmo sentido, cf. ainda, HC n. 72.500, Rel. Min. Sydney Sanches, e
HC n. 83.542, Rel. Min. Sepúlveda Pertence).
564 R.T.J. — 197

Por todas essas razões, voto pelo não-conhecimento do pedido, mas concedo
habeas corpus de ofício para, cassando o acórdão proferido pelo Superior Tribunal de
Justiça, determinar a essa egrégia Corte que aprecie o mérito dos fundamentos enuncia-
dos, que não postulam reexame algum da prova.

O Sr. Ministro Marco Aurélio: Vossa Excelência não conhece por quê?
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Não quero adentrar o conhecimento dessas matérias,
porque suprimiria uma instância, eventualmente em prejuízo do status libertatis.
Supondo-se que o paciente lhe visse negados, desde logo, todos esses fundamentos,
perderia o juízo de uma instância.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente) — Mesmo contra o “parecer” de
Vossa Excelência?
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator) — Senhor Presidente, temos um proble-
ma sério: sou o Relator e não avancei sobre o mérito; o Ministro Cezar Peluso, porém,
o esgotou. Então, creio, há de me ser concedida a oportunidade não só de manter o meu
voto pelo não-conhecimento mas também de ler a parte relativa ao mérito.
O Sr. Ministro Carlos Britto: É pelo não-conhecimento ou pelo indeferimento?
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Não há divergência. Também não estou conhecendo
da ação e concedendo o habeas corpus de ofício.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): E o Ministro Joaquim Barbosa?
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Não concedo, pelas razões que vou
expor no voto.
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Senhor Presidente, se Vossa Excelência me permite
a ousadia, gostaria primeiro de ser esclarecido.
O eminente Relator está reconsiderando o voto? Porque Sua Excelência não
conhece do habeas corpus. A mim me parece que, agora, avança no exame das provas
do processo. Se não conhece do habeas corpus e se não há divergência, porque também
não conheço, não percebo bem como apreciar o mérito.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Falta colher os votos dos Ministros
Marco Aurélio e Sepúlveda Pertence.
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Vossa Excelência não conheceu do habeas corpus.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Não conheci e fui acompanhado pelo
Ministro Carlos Britto.
O Sr. Ministro Cezar Peluso: O mesmo eu.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Já está formada a maioria pelo não-
conhecimento.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Seria interessante enfrentarmos a preliminar de
não-conhecimento, porque Sua Excelência está indo, realmente, ao mérito, e, pelo
visto, para indeferir o habeas corpus.
R.T.J. — 197 565

O Sr. Ministro Cezar Peluso: Exatamente. Noutras palavras, para não conhecer, Sua
Excelência invocou o fundamento da impossibilidade da análise da prova e, agora,
examina a prova para se encaminhar não sei bem para qual direção. Enfim, Sua Excelên-
cia precisaria, em primeiro lugar, que a Turma julgadora tivesse conhecido do habeas
corpus para poder avançar no conhecimento do mérito. Como Sua Excelência manteve
o não-conhecimento — assim também votamos o Ministro Carlos Britto e eu —, a menos
que algum de nós reconsidere os votos, não se conhecerá do habeas corpus.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Processualmente, seria o caso de conhecer e indeferir;
não se trata de não-conhecimento.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Acho que, ao seguir o raciocínio do
Ministro Cezar Peluso, estaremos deixando de lado a fundamentação do habeas corpus
e reexaminando in totum a sentença.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): Ao que entendi, do Ministro
Cezar Peluso, S. Exa., na linha principal do seu raciocínio, procurou demonstrar que os
argumentos postos perante o Superior Tribunal de Justiça não eram questões de fato,
mas de direito.
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Exatamente, duas questões idênticas. Eram três
fundamentos, dentre os quais, realmente o segundo poderia envolver uma questão de
apreciação de prova; mas o primeiro e o terceiro, como tentei demonstrar, eram meras
questões jurídicas, ou seja, de avaliação da juridicidade.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Mas acho que temos de concluir a
preliminar.
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Mas, então, vamos voltar à preliminar; se conhece-
mos, ou não, do habeas corpus.

PROPOSTA DE ADIAMENTO
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Senhor Presidente, vamos ter um
fenômeno inusitado: o Relator terá de pedir vista para examinar esse ponto, porque,
como disse Vossa Excelência, o Ministro Cezar Peluso deu um verdadeiro parecer.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): O Tribunal tem o seu cerimonial;
não se diz que o Relator pediu vista. Em rigor, ele conheceu dos autos e indicou
adiamento.

EXTRATO DA ATA
HC 83.658/RJ — Relator: Ministro Joaquim Barbosa. Paciente: César Andrade
Lima Souto ou César Andrade de Lima Souto. Impetrantes: Antonio Carlos de Almeida
Castro e outros. Coator: Superior Tribunal de Justiça.
Decisão: Prosseguindo o julgamento, após o voto do Ministro Cezar Peluso, que
também não conhecia do pedido de habeas corpus, mas concedia a ordem de ofício
para devolver a impetração a julgamento do Superior Tribunal de Justiça, o julgamento
foi adiado por indicação do Ministro Joaquim Barbosa, Relator.
566 R.T.J. — 197

Presidência do Ministro Sepúlveda Pertence. Presentes à sessão os Ministros


Marco Aurélio, Cezar Peluso, Carlos Britto e Joaquim Barbosa. Subprocurador-Geral
da República, Dr. Eitel Santiago de Brito Pereira.
Brasília, 25 de maio de 2004 — Ricardo Dias Duarte, Coordenador.

VOTO (Sobre preliminar)


(Retificação)
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Senhor Presidente, trago novamente o
presente habeas corpus para julgamento, a fim de evitar uma maior demora e, por
conseqüência, possível prejuízo ao paciente.
Antes mesmo de retomar a discussão de fundo, gostaria de fazer breve retrospecto
do feito.
A impetração traz como causas de pedir a ausência de vinculação entre o paciente
e os fatos que deram ensejo a sua condenação, bem como a impossibilidade de
condenação do corruptor ante a absolvição do corrompido.
Na sessão de 20-4-2004, levei o feito para julgamento e sustentei, em preliminar,
a impossibilidade de conhecimento da impetração, visto que, no caso concreto, a
análise do mérito significaria nova valoração de fatos, provas e versões já decididos
pelo Tribunal de Justiça por ocasião da condenação do paciente. Noutras palavras, o
presente habeas corpus não visa à correção de ilegalidade ou abuso de poder, mas, sim,
a novo julgamento, em favor do paciente. Acompanhou-me nesse entendimento o
Ministro Carlos Britto. Em seguida, o Ministro Cezar Peluso pediu vista dos autos.
Na sessão de 25-5-2004, o eminente Ministro Peluso, em seu voto-vista, não
conhecia da impetração, por entender que, pelo fato de o Superior Tribunal de Justiça
não ter conhecido do habeas corpus lá impetrado, o julgamento do mérito da causa por
esta Turma implicaria subtração de instância em desfavor do paciente. Sua Excelência
propôs, então, a concessão de habeas corpus de ofício, porquanto o Superior Tribunal
de Justiça não poderia ter-se furtado ao julgamento de mérito do writ lá impetrado.
Além disso, o Ministro mencionou três questões que deveriam ser apreciadas por
aquela Corte, a saber: a falta de correlação entre a denúncia e a sentença, a equivocada
avaliação de duas circunstâncias judiciais do art. 59 do Código Penal e a falta de
motivação do acórdão condenatório quanto ao aumento da pena por força da continui-
dade delitiva.
Examino as propostas do Ministro Peluso.
Quando trouxe o feito para julgamento, salientei que o deslinde das questões
concernentes às causas de pedir exige profunda meditação sobre o material probatório.
Não quis dizer com isso, conforme textualmente afirmei, que me oponho sistematica-
mente à análise de matéria fática, até porque isso é impossível dentro da atividade
judicante.
Por outro lado, o Ministro Peluso, na segunda assentada, afirmou que o Superior
Tribunal de Justiça não julgou o mérito da impetração, de sorte que não se poderia
conhecer do presente habeas corpus.
R.T.J. — 197 567

De fato, a ementa do acórdão atacado nos dá essa impressão:


“Habeas corpus
O exame detalhado da prova não é próprio do habeas corpus.
Ordem denegada.” (Fl. 54)
Ocorre que da leitura dos votos proferidos cheguei a conclusão diversa. O voto do
Ministro Relator no Superior Tribunal de Justiça, Fontes de Alencar, é pela denegação
da ordem. São utilizadas como fundamentação as provas produzidas contra o paciente,
notadamente o testemunho de Ronaldo Soares de Azevedo, colhido em ação cautelar
de produção antecipada de prova, e o laudo pericial que confirma serem do paciente as
assinaturas encontradas nos livros-caixa regularmente apreendidos. A observação de
que o habeas corpus não é meio idôneo para apreciação de provas, portanto, foi
incidental e não implicou o não-conhecimento da impetração. Veja-se que o voto do
presidente da Sexta Turma daquele Tribunal, Ministro Paulo Gallotti, é enfático e
sintetiza toda a questão do presente writ. Transcrevo-o parcialmente:
“[...] nos termos em que posto o habeas corpus, ou seja, pretendendo
demonstrar a impossibilidade da condenação do corruptor em face da absolvição
do corrompido, penso, não obstante as minhas homenagens aos ilustres
impetrantes, inclusive, pelas belíssimas intervenções no plenário no dia de hoje,
não ser possível a concessão da ordem. Isto porque, como bem demonstrou o
Ministro Fontes de Alencar, o que já havia sido sublinhado no parecer da
Subprocuradoria-Geral da República, a condenação não se de deu tão-somente
em razão do ato relacionado ao Juiz de Direito de Angra dos Reis que restou
absolvido. Tanto a denúncia quanto a acusação enumeram uma série de fatos
tidos como delituosos que teriam sido praticados em conluio por um número
muito grande de pessoas, entre as quais o ora paciente.
Diante dos termos em que posto o habeas corpus, não vejo como conceder
a ordem.
Denego o pedido.” (Fl. 72)
Portanto, parece-me claro que o Superior Tribunal de Justiça examinou na sua
inteireza a tese central da impetração, embora a ementa do acórdão nos leve a outra
conclusão.
Nesse aspecto, sem me vincular à tese da ampla cognição no âmbito do habeas
corpus, preconizada pelo Ministro Peluso em seu voto vista, reformulo parcialmente
meu voto, visto que o Superior Tribunal de Justiça efetivamente enfrentou o mérito do
writ lá impetrado. Assim, afasto a preliminar de não-conhecimento tout court que
suscitei na sessão de 20 de abril do corrente ano e conheço da tese central da
impetração.
Examino agora as demais propostas do Ministro Peluso.
São três os argumentos ressaltados por Sua Excelência, a saber: (i) ausência de
correlação entre acusação e sentença, (ii) equivocadas valorações das circunstâncias
judiciais do art. 59 do Código Penal e (iii) falta de fundamentação do acórdão
condenatório quanto à majoração da pena pela continuidade delitiva.
568 R.T.J. — 197

Quanto ao primeiro argumento, de ausência de correlação entre a imputação feita


na denúncia e o acórdão condenatório, creio seja umbilicalmente ligado ao ponto
central da impetração, de modo que deverá ser abordada por ocasião do julgamento do
mérito.
No que diz respeito aos outros dois argumentos, concernentes exclusivamente à
fixação da pena (e não à condenação do paciente), por dizerem respeito apenas à
matéria legal, creio seja possível levá-los em consideração no presente caso. E aqui
cabe a seguinte ponderação: o Ministro Peluso concede a ordem de ofício apenas para
determinar ao Superior Tribunal de Justiça a análise dessas duas teses, sem, no entanto,
concedê-la no mérito, nos seguintes termos:
“Daí, afigurar-se-me gravoso ao status libertatis do paciente examinar des-
de logo aquelas questões, não obstante a aparência de graves nulidades que,
desafiando ordem oficial de habeas corpus, maculariam o processo [...]”
Creio que a proposta de concessão de ofício feita por Sua Excelência não precisa
ser previamente apreciada pelo Superior Tribunal de Justiça, por três motivos. Primeiro,
por tratar de questão meramente jurídica; segundo, porque visa ao favorecimento do
paciente; terceiro, porque os autos contêm toda a documentação necessária para o
julgamento do mérito (a exemplo do HC 83.883, de que fui Relator e em cujo julgamen-
to, em preliminar, ficaram vencidos os Ministros Marco Aurélio e Sepúlveda Pertence).
Assim, pedindo vênia ao Ministro Peluso, entendo ser caso de também se conhe-
cer da impetração pelos fundamentos para cujo exame Sua Excelência entende necessá-
rio prévio julgamento pelo Superior Tribunal de Justiça.
Nesses termos, conheço da impetração em sua maior amplitude, ou seja, por seus
fundamentos iniciais e também pelos fundamentos trazidos pelo Ministro Peluso.
Submeto a questão ao crivo da Turma, para nova deliberação, visto que, na
primeira assentada, o Ministro Britto me acompanhou quanto ao não-conhecimento da
impetração e, na segunda, o Ministro Peluso também dela não conhecia, embora por
outro fundamento, e devolvia o caso ao Superior Tribunal de Justiça.

VOTO (Sobre conhecimento)


(Retificação)
O Sr. Ministro Carlos Ayres Britto: Senhor Presidente, já havia retificado o meu
ponto de vista para entender que o caso era de conhecimento.

VOTO (Sobre conhecimento)


(Retificação)
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Sr. Presidente, estou de acordo em indeferir o habeas
corpus.
Usamos o termo “não-conhecimento”, mas, tecnicamente, o eminente Relator, já
na sessão anterior, indeferiu o habeas corpus, por entender que a questão demandava
exame aprofundado da prova.
Nada tenho a opor quanto à requalificação.
R.T.J. — 197 569

EXPLICAÇÃO
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): Ministro Joaquim Barbosa, Vos-
sa Excelência não chega ao indeferimento?
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Não. Vou prosseguir no mérito.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): Pelo que entendi, Vossa Excelên-
cia levou em conta, sobretudo, que os votos no STJ examinaram a questão. Dessa forma,
embora o dispositivo tenha sido de não-conhecimento, cabe examinar, de logo, o
mérito.

VOTO (Sobre conhecimento)


O Sr. Ministro Marco Aurélio: Senhor Presidente, admito o habeas corpus para
julgamento amplo.

VOTO (Sobre conhecimento)


O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): Também tenho conhecida posi-
ção no sentido de que, em princípio, as questões suscitadas em habeas corpus perante
o tribunal a quo podem ser examinadas pelo Supremo Tribunal Federal, ainda que
sobre elas não se tenha manifestado a decisão impugnada. Com maior razão, quando —
embora concluindo pelo não-conhecimento — a Turma do STJ, conforme mostrou o
Relator, examinou o mérito da questão posta.
Por isso também conheço do habeas corpus.

VOTO
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): A impetração originariamente submete
à apreciação da Corte duas questões: de um lado, a inexistência de prova da participa-
ção do paciente nos fatos que levaram a sua condenação; de outro, a impossibilidade de
condenação de alguém por corrupção ativa na hipótese de absolvição dos supostos
corrompidos. Ao lado dessas questões, há outras três teses que, embora não tenham sido
argüidas pelo impetrante, foram suscitadas de ofício pelo Ministro Cezar Peluso: uma
referente à violação do princípio da correlação entre acusação e sentença e outras
concernentes à fixação da pena imposta.
Negativa de autoria, bilateralidade da corrupção ativa e passiva e violação do princí-
pio da correlação
No mérito, a primeira tese — da negativa de autoria — não procede. O paciente,
sobrinho do bicheiro Castor de Andrade, era responsável por toda a contabilidade do
esquema de jogo do bicho por aquele comandado. Mediante perícia grafotécnica,
constatou-se em diversos livros-caixa (anexos referidos no volume 2 do apenso, fls.
7374-7379) o pagamento de valores a diversas delegacias de polícia do Rio de Janeiro.
Há ainda prova testemunhal, de pessoa imediatamente subordinada ao paciente, que
confirma a ocorrência de corrupção ativa por este praticada.
570 R.T.J. — 197

Transcrevo trecho do acórdão condenatório do Tribunal de Justiça do Estado do


Rio de Janeiro, por considerá-lo elucidativo:
“A regularidade com que se distribuíam propinas aos integrantes das unida-
des policiais com jurisdição em Angra dos Reis e localidades próximas, como
Parati, Frade, Itacuruçá, Mambucaba e Muriqui, além de Rio Claro, está cabal-
mente documentada, como se acaba de mostrar, pelos respectivos registros nos
livros de movimento do caixa escriturados por Ronaldo Soares de Azevedo. Essa
escrituração, por sua vez, era realizada, como também se viu, com base em
rascunhos previamente submetidos à aprovação do réu Cesar [paciente], o qual,
de próprio punho, fazia as correções e adendos que lhe pareciam.
Tudo isso demonstra, com absoluta segurança, a completa integração de
César no esquema de corrupção de autoridades e agentes policiais engendrado
pela ‘Cúpula’ da contravenção chefiada por Castor de Andrade, seu tio e sócio na
exploração do ‘jogo do bicho’ em Guarapari e na ‘Seção’ integrada pelas cidades
de Angra dos Reis, Mangaratiba e Rio Claro, segundo Ronaldo controlada pelo
acusado.
[...]
Praticou Cesar, assim, reiteradamente, ao longo dos anos de 1991 a 1993,
abrangidos pelos citados livros de movimento de caixa, atos de corrupção de
funcionários públicos, com a finalidade de motivá-los a se omitirem no cumpri-
mento dos deveres de suas funções, permitindo a livre prática da contravenção
nos lugares em que lhes cabia reprimi-la.” (Apenso 2, fls. 7379-7380)
Há ainda, relativamente às provas que deram ensejo à condenação do paciente,
outro argumento apresentado pelos impetrantes. Eles alegam que a condenação do
paciente se deve exclusivamente à prova colhida extrajudicialmente. Também nesse
aspecto não merece acolhida a pretensão dos impetrantes.
A condenação do paciente deveu-se à somatória de dois elementos essenciais. O
primeiro refere-se à prova testemunhal produzida em juízo, em cautelar de antecipação
de prova. Destaco trecho do acórdão condenatório que me parece elucidativo:
“Informações semelhantes forneceu a testemunha [Ronaldo Soares de Aze-
vedo] ao depor no procedimento de produção antecipada de prova testemunhal
cujos autos constituem o Anexo 72” (Apenso 2, fl. 7369 — Grifei)
Além da prova testemunhal, a condenação pautou-se em prova documental. A fim
de escriturar toda as transações do jogo do bicho, o paciente contava com o auxílio de
um contador (justamente a testemunha Ronaldo Soares de Azevedo). Após a apreensão
de livros-caixa, constatou-se que o paciente supervisionava toda a atividade contábil
levada a termo por Ronaldo Soares de Azevedo. Este entregou à Procuradoria-Geral de
Justiça documentos que, após a devida perícia requerida pelo Parquet e realizada pelo
Instituto de Criminalística, comprovaram o envolvimento do paciente nos fatos que lhe
foram imputados.
Por essas razões, não vejo como considerar indevida ou até mesmo ilícita a
condenação do ora paciente.
R.T.J. — 197 571

No que se refere à segunda tese — de que é inviável a condenação do paciente


(por oferecer vantagem indevida), em virtude da absolvição dos supostos corrompidos
(porque ninguém teria recebido a propina dada) —, tenho que não há como ela
prosperar, pelo simples fato de que não se amolda à hipótese fática dos autos. Acrescen-
to ainda a tese da violação do princípio da correlação entre a imputação feita na
denúncia e o fato pelo qual o paciente foi efetivamente condenado.
Esclareça-se, por primeiro, a imputação feita pelo Ministério Público ao paciente.
Lê-se na denúncia:
“[...] o denunciado Cesar Andrade (sobrinho do notório Castor de
Andrade), contribuia para o fundo comum já mencionado e, especialmente, o
modo pelo qual, a mando de Cesar, eram distribuidas propinas a autoridades e
outros funcionários públicos na comarca de Angra dos Reis.” (Apenso 1, fl.
1635)
Já o trecho do acórdão condenatório que isoladamente poderia suscitar alguma
dúvida quanto ao fato pelo qual o paciente foi condenado é o seguinte:
“Praticou Cesar, assim, reiteradamente, ao longo dos anos de 1991 a 1993,
abrangidos pelos citados livros de movimento do caixa, atos de corrupção de
funcionários públicos” (Apenso 2, fls. 7380)
Assim, o paciente foi acusado e condenado como partícipe no crime de corrupção
ativa (na modalidade “oferecer vantagem indevida”), porque era um dos mentores das
operações criminosas do jogo do bicho. Noutras palavras, o paciente não foi denunciado
como executor material dos delitos, mas porque geria “fundo” voltado à distribuição de
propinas.
Ora, a expressão “praticou atos de corrupção” não leva à conclusão de que o
paciente teria sido condenado por execução material do crime do art. 333 do Código
Penal — corrupção ativa. As expressões constantes do referido tipo legal são “oferecer”
e “prometer”, não tendo o paciente se imputado, de forma direta, ou seja, como autor,
nenhuma delas. Sua condenação se deve ao fato de que participava diretamente das
atividades voltadas exclusivamente à corrupção de funcionários públicos, atividades
essas consubstanciadas no referido fundo, cuja existência está largamente demonstrada
nos autos.
Somente com a retirada de contexto do voto condutor no Tribunal de Justiça do
Rio de Janeiro é que se poderia chegar à conclusão de que o paciente fora o executor
material, e não partícipe.
Quando muito, creio eu, seriam cabíveis embargos de declaração, mas nunca a
anulação do acórdão condenatório, de sorte que não procede a alegação de violação do
princípio da correlação entre acusação e condenação.
Afastada essa primeira tese, tenho que, na hipótese fática dos autos, não houve,
como sustenta o impetrante, absolvição de todos os denunciados por corrupção passi-
va. Vale dizer, houve quem recebesse vantagem indevida dada pelo paciente.
O que ocorreu foi o seguinte: os autos da ação penal em que o paciente foi
condenado foram desmembrados. Os autos principais contaram com nada menos que
572 R.T.J. — 197

58 réus, dos quais cinco foram condenados por corrupção ativa e doze por corrupção
passiva. Já nos autos em que o paciente figurou como réu, houve três condenações:
duas por corrupção passiva e a do paciente, por corrupção ativa. Não são, pois,
verdadeiras as assertivas dos impetrantes no sentido de que “ninguém foi condenado
por corrupção ativa [...] à exceção do Paciente” (fl. 07) e de que “as pessoas aponta-
das na vestibular como destinatárias de propinas, na Comarca de Angra dos Reis,
foram inocentadas” (fl. 09). Houve, sim, pessoas condenadas por receber propina
oriunda do fundo gerido pelo paciente.
Os impetrantes se agarram ao fato de que um dos denunciados por corrupção
passiva (sob a modalidade “receber”), Nicolau Cassiano Neto, juiz da comarca de
Angra dos Reis à época dos fatos, foi absolvido.
De fato, se esse fosse o único réu denunciado por receber vantagem indevida dada
pelo paciente, a tese aventada — de que haveria bilateralidade entre “oferecer” e
“receber” — poderia até merecer um pouco mais de atenção. Mas não é o caso.
Por ocasião do julgamento da ação penal pelo Tribunal de Justiça carioca, a tese
ora suscitada foi repelida de forma motivada, nos seguintes termos:
“[...] Em que pese não se ter conseguido provar o efetivo recebimento, pelos
três co-réus que exerciam suas funções naquela cidade e imediações, das propinas
referidas na denúncia (co-réus Nicolau Cassiano Neto, José Roberto da Silva
Ferrari e Paulo Tarso Oliveira Leite) — sem que se tenha, como mostrado ao longo
desta decisão, qualquer dúvida quanto à efetiva saída, para lhes serem entregues,
das quantias escrituradas —, o certo é que os livros de movimento do caixa de
Angra dos Reis estão repletos de registros de pagamentos de somas em dinheiro a
funcionários públicos e a órgãos da Secretaria de Segurança Pública, podendo ser
citados, a título de amostragem, os seguintes exemplos, selecionados pela maior
legibilidade dos lançamentos respectivos: [segue extensa lista de delegacias e
pessoas que teriam recebido vantagem por parte do paciente].” (Apenso 2, fls.
7373-7379)
Em complemento, a fim de que se individualizasse quem teria recebido as propi-
nas dadas pelo paciente, o acórdão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro condenou
outros dois co-réus do paciente por corrupção passiva (sob a modalidade “receber”),
mediante análise minuciosa de prova documental, de prova testemunhal e ainda de
interceptação telefônica.
Paulo César Oliveira Santos, detetive-inspetor lotado na 28ª Delegacia de Polícia
(apenso, v. 1, fls. 7139-7140, e v. 2, fls. 7393-7402), e Alan Cardeque Manoel Villela,
detetive-inspetor lotado na Divisão de Repressão a Entorpecentes (fls. 7139-7140 e fls.
7402-7407), foram condenados justamente porque receberam diversas vezes vantagem
econômica indevida, oriunda do “caixa” alimentado pelo paciente e pelos demais
chefes do jogo do bicho. E — aqui é importante frisar — as condenações tomaram por
base os mesmos livros contábeis que nortearam, entre inúmeras outras provas, a conde-
nação do paciente.
No Superior Tribunal de Justiça, o Ministro Paulo Gallotti, presidente da Sexta
Turma, destacou com precisão esse aspecto. Transcrevo trecho de seu voto:
R.T.J. — 197 573

“[...] a condenação [do paciente] não se deu tão-somente em razão do ato


relacionado ao Juiz de Direito de Angra dos Reis que restou absolvido. Tanto a
denúncia quanto a acusação enumeram uma série de fatos tidos como delituosos
que teriam sido praticados em conluio por um número muito grande de pessoas,
entre as quais o ora paciente.” (Fl. 72)
Assim, a tese apresentada sequer se amolda aos fatos contidos nos autos, de sorte
que a rejeito.
E há mais, Senhor Presidente.
A impetração tem como um de seus sustentáculos o fato de que o juiz Cassiano
Nicolau foi absolvido das acusações de corrupção passiva. Trago à Corte, unicamente à
guisa de melhor esclarecimento de nossa deliberação, mas também insistindo na tese do
descabimento do presente habeas corpus, trecho de um dos votos vencidos no Tribunal
de Justiça, que condena de maneira veemente o magistrado. Esse voto, de lavra da
eminente Desembargadora Áurea Pimentel, de um lado traduz a natureza polêmica da
decisão do Tribunal de Justiça de absolver o juiz e, de outro, acrescenta um motivo para
a denegação da ordem, uma vez que, para a concessão do habeas corpus, seria indispen-
sável revolver o imenso acervo fático-probatório que levou à condenação do paciente.
Transcrevo o voto da desembargadora:
“Data Venia da douta maioria, julgava a ação penal procedente, também,
em relação aos réus Antônio Petrus Kalil, Ailton Guimarães Jorge, Weber Stábile,
José Roberto da Silva Ferrari, Nicolau Cassiano e Adilson Martins da Cruz.
O exame das peças principais deste processo — que são, em substância, as
mesmas da Ação Penal originária 10/94 — revela a existência de poderosa
organização criminosa, formada por contraventores, engendrada para manter
inerte e submisso o aparelho policial através de distribuição de propinas.
Aliás, esse acerto de vontades, destinado a corromper a polícia neste Estado,
já havia sido posto a calva quando do processo da 14ª Vara Criminal, presidido
com desassombro e coragem pela eminente Juíza Dra. Denise Frossard, quando
então apurou-se que a organização criminosa, formada pelos contraventores da
chamada ‘cúpula do jogo do bicho’, desenvolvia atividades que desbordavam
dos limites da mera exploração de jogos de azar, envolvendo contrabando de
armas e tráfico de entorpecentes.
Este leque de atividades dos contraventores explica, em certos casos, a
razão pela qual — consoante apurou-se nesta ação penal — foram pagas propinas
a policiais cujas delegacias não eram especializadas na repressão de contraven-
ção penal.
A existência de um fundo destinado à corrupção de policiais ficou nos
presentes autos fartamente demonstrada, apurando-se que o mesmo era adminis-
trado pelo contraventor Castor de Andrade, já falecido.
[...]
Com referência aos réus José Roberto da Silva Ferrari, Nicolau Cassiano
Neto e Adilson Martins da Cruz, por integrarem o mesmo esquema de corrupção,
que agia em conjunto, tiveram, por mim, suas situações examinadas também em
conjunto.
574 R.T.J. — 197

Os três, comprovadamente, estavam diretamente envolvidos, em Angra dos


Reis com o conhecido Contraventor Cesar Andrade Lima Souto, com o qual
mantinham estreitas relações, vergonhosa intimidade mesmo, sendo que, com
relação aos dois últimos (Nicolau Cassiano Neto e Adilson Martins da Cruz)
como se pode constar dos dados constantes de fls. 5647,5673, inúmeras foram as
ligações telefônicas que fizeram entre si, o Juiz Nicolau Cassiano Neto, Cesar
Andrade Lima Souto e Adilson Martins da Cruz.
Com relação ao Juiz Nicolau Cassiano Neto, como se vê da lista de contabi-
lidade do bicho (Anexos XXXVI e XXXIX) há o lançamento de diversas propinas,
que de abril de 1993 a dezembro de 1993 foram registradas como ‘despesas
políticas’ porque — explicou a testemunha Ronaldo, ouvida nestes autos — o
Juiz à época já estava afastado de suas funções pelo Tribunal.
A conduta do réu, Nicolau Cassiano Neto, profundamente desmoralizadora
da magistratura deste Estado se encontra fielmente retratada no depoimento do
Promotor Talma Prado Castelo Branco Júnior, às fls. 4346 a 4351, onde se
revela como de comum acordo os três agiam; Adilson como apanhador do
dinheiro para o Juiz e intermediário de Cesar, em favor do qual tentou interferir
para o arquivamento de processo de homicídio no qual estava envolvido o
contraventor Castor de Andrade.
Dito depoimento pôs também a calva a intimidade que, para vergonha da
Justiça, mantinha o Juiz Nicolau Cassiano Neto com o chefe do tráfico de drogas
em Angra dos Reis, Henrique Vale.
É profundamente lamentável que a douta maioria tivesse preferido ignorar
tudo isto, em conseqüência, mantendo na magistratura do Estado um Juiz que
maculou sua toga e enxovalhou a Justiça.” (Apenso 2, fls. 7441-7444).
Em suma, denego a ordem quanto a seus fundamentos originais, pelas seguintes
razões:
(i) Há prova suficiente para a condenação do paciente pela participação em crime
de corrupção ativa;
(ii) O paciente geria “fundo” destinado à distribuição de propina, que era efetivada
por intermediários;
(iii) Houve a condenação de diversas pessoas por corrupção passiva, por haverem
recebido propina proveniente do fundo gerido pelo paciente, e isso tanto nos autos
principais como naqueles em que o paciente figurou como réu, o que invalida a tese da
ausência de bilateralidade.
Passo a examinar agora as demais questões suscitadas de ofício pelo Ministro
Cezar Peluso.
Teses do Ministro Peluso
As outras duas teses apresentadas pelo Ministro Peluso, conforme já afirmei,
dizem respeito à fixação da pena, e não à absolvição do paciente.
Para conceder de ofício a ordem, argumenta Sua Excelência que houve má
avaliação de duas circunstâncias judiciais do art. 59 do Código Penal. Seriam elas a
R.T.J. — 197 575

consideração de duas ações penais ainda em curso como maus antecedentes e o motivo
invocado — “enriquecimento fácil à custa das economias exatamente das camadas
mais pobres da sociedade, nas quais se recrutam os apostadores do ‘jogo do bicho’ e
outros semelhantes” (Apenso 2, fls. 251) —, que seria estranho ao crime pelo qual fora
o paciente condenado, a saber, corrupção ativa, e não — como por erro considerou a
sentença condenatória — promoção de jogo do bicho.
Pois bem, creio que não há violação do referido dispositivo do Código Penal.
Em primeiro lugar, é importante destacar que o art. 59 do Código Penal exige,
para fixação da pena-base, análise conjunta de todas as circunstâncias do fato concreto,
bem como das condições pessoais do acusado. A redação do aludido dispositivo não
deixa dúvidas a esse respeito:
“Art. 59. O juiz, atendendo à culpabilidade, aos antecedentes, à conduta
social do agente, aos motivos, às circunstâncias e conseqüências do crime, bem
como ao comportamento da vítima, estabelecerá, conforme seja necessário e
suficiente para a reprovação e prevenção do crime: [...]”
E o que fez o acórdão condenatório? Analisou todos os itens do art. 59 do Código
Penal e concluiu o seguinte:
“As chamadas circunstâncias judiciais, enumeradas no art. 59 do Código
Penal, mostram-se de todo desfavoráveis ao acusado, tornando imperiosa a fixa-
ção da pena-base consideravelmente acima do mínimo legal.” (Apenso 2, fl.
7380)
A partir daí, houve minuciosa avaliação de todas as circunstâncias judiciais. Cito
aleatoriamente o exame feito no acórdão condenatório de apenas duas das circunstân-
cias do art. 59 do Código Penal: a culpabilidade e as conseqüências do crime.
Diz o acórdão do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro:
“A culpabilidade não poderia ser mais intensa, afigurando-se sumamente
reprovável o comportamento de quem, visando a garantir o livre desempenho de
atividade ilícita como a exploração de jogos contravencionais, associa-se a outros
contraventores para, de forma organizada e sistemática, desmoralizar o aparelho
policial através da disseminação da corrupção entre os seus integrantes, da mais
elevada à mais modesta hierarquia, sem a menor preocupação com os reflexos —
desastrosos para a sociedade — da desmoralização dos órgãos incumbidos da
manutenção da ordem e da apuração das infrações penais.” (Apenso 2, fl. 7381)
E ainda:
“As conseqüências do crime, finalmente, são de gravidade extrema, apre-
sentando-se como a mais importante circunstância judicial a ser considerada.
Como se observou ao fundamentar a fixação das penas do segundo réu, condena-
do pela prática do crime de corrupção passiva, a corrupção de um membro da
Polícia, interagindo com a de outros integrantes do organismo policial, produz,
ao longo do tempo, a desmoralização de todo o aparelho estatal de prevenção e
repressão ao crime, tornando-o, cada vez mais, inoperante e inconfiável. O resul-
tado direto e imediato é o aumento da criminalidade até níveis insuportáveis, a
576 R.T.J. — 197

insegurança em todos os setores da sociedade, a degradação da qualidade de vida,


a deterioração das atividades produtivas e a resultante decadência econômica. A
desmoralização e a inoperância da Polícia do Estado do Rio de Janeiro, fruto da
corrupção de não pequena parte dos que a integram, é, nos dias que correm,
verdade inconcussa. Para essa triste realidade, cujas manifestações diariamente
experimentam todos os setores da sociedade, vem contribuindo, há decênios, os
exploradores do ‘jogo do bicho’, com suas ‘listas’ de propinas oferecidas às
autoridades e agentes com a regularidade e naturalidade de quem paga um
segundo salário. O mal que esses semeadores de corrupção há décadas vêm
causando à sociedade, enxovalhando a Polícia, transformando seus integrantes
em serviçais solícitos, dando ordens nas Delegacias, usando os agentes como
‘seguranças’ e, não poucas vezes, como executores de empreitadas criminosas de
muito maior gravidade que simples ilícitos contravencionais, fazendo-os senti-
rem-se outros tantos marginais, sem respeito próprio e sem o respeito da socieda-
de, certamente nunca será devidamente avaliado. A resposta penal a lhes ser
infligida, correspondendo à gravidade objetiva de sua conduta, não pode deixar
de ser intensa, para que seja efetiva do ponto de vista das finalidades da lei
repressiva.” (Apenso 2, fls. 7382-7383)
Quanto à motivação, parece-me óbvio que se trata de corrupção para impedir a
atuação do Estado no combate ao jogo do bicho. A participação do paciente na
qualidade de “financiador” de todo o esquema de corrupção evidentemente está
associada à prática do jogo do bicho. Cuida-se de um dado concreto, devidamente
demonstrado nos autos da ação penal e que não pode ser ignorado para os fins de
fixação da pena (Apenso 2, fl. 7382).
Já no tocante à consideração de duas ações penais ainda em curso como maus
antecedentes, observo que o tema é polêmico. A Primeira Turma já entendeu que tal
juízo de valor é incompatível com a presunção de inocência, de status constitucio-
nal (RHC 80.071, Rel. Min. Marco Aurélio). A Segunda Turma, por sua vez, tem
entendimento diverso, no sentido de se admitirem como maus antecedentes tanto
inquéritos como ações penais sem trânsito em julgado (RHC 83.705, Rel. Min.
Ellen Gracie).
Sem querer me prender a qualquer um desses entendimentos, o que me parece
importante é que, independentemente de o paciente ter ou não maus antecedentes, tal
circunstância, por si só, seria irrelevante. Ora, se todas as demais circunstâncias judiciais
são desfavoráveis ao paciente, não há razão para anular o acórdão condenatório, pois a
majoração da pena-base está devidamente motivada.
Por fim, o Ministro Peluso concede a ordem por “falta de justificação do aumento
da pena pela continuidade delitiva: a sentença, sem identificar nem sequer mencionar
quantos crimes teriam sido praticados pelo paciente, aumentou-a de metade, exaspe-
rando o mínimo legal, sem fundamento adequado”. Também discordo desse argumento.
O acórdão condenatório está vazado nos seguintes termos:
“Praticou Cesar, assim, reiteradamente, ao longo dos anos de 1991 a 1993,
abrangidos pelos citados livros de movimento do caixa, atos de corrupção de
funcionários públicos, com a finalidade de motivá-los a se omitirem no cumpri-
R.T.J. — 197 577

mento dos deveres de suas funções, permitindo a livre prática da contravenção


nos lugares em que lhes cabia reprimi-la.” (Apenso 2, fl. 7380)
Após elencar, em cinco laudas e meia, nada menos que 143 lançamentos de
propinas pagas a diversas autoridades, todos documentalmente registrados em livros-
caixa, o acórdão condenatório conclui:
“A regularidade com que se distribuíam propinas aos integrantes das unida-
des policiais com jurisdição em Angra dos Reis e localidades próximas, como
Parati, Frade, Itacuruçá, Mambucaba e Muriqui, além de Rio Claro, está cabal-
mente documentada, como se acaba de mostrar, pelos respectivos registros nos
livros de movimento do caixa escriturados por Ronaldo Soares de Azevedo.”
(Apenso 2, fl. 7379)
Como se vê, o acórdão condenatório justificou adequadamente o aumento da
pena pela continuidade delitiva, apontando o número de crimes praticados, as datas e
os valores das propinas pagas aos membros do aparato policial.
De todo o exposto, peço vênia ao Ministro Cezar Peluso e também denego a
ordem que Sua Excelência concede de ofício.
É como voto, Senhor Presidente.

VOTO
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): A minha dúvida é a seguinte: o
Ministro Cezar Peluso chegou a conceder de ofício para esses fins que V. Exa. rejeita,
ou apenas para remeter ao STJ?
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Só remetia. Não examinei nenhuma dessas questões.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Eu levantei essa preliminar e a submeti
à Turma.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): Não. V. Exa. conheceu quanto à
questão principal, aí está perfeito, e toda a Turma concordou. Agora, quanto às outras
questões, a não ser que um Ministro da Turma proponha a concessão de ofício, creio
que V. Exa. está propondo a denegação de ofício.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Eu submeti novamente a questão à
Turma quanto ao conhecimento da primeira questão, original. Sustentei, também,
como se tratava de questão jurídica, que deveríamos examinar, já, a proposta do
Ministro Peluso. Foi isso que submeti à Turma.
O Sr. Ministro Carlos Britto: Parece que o Ministro Cezar Peluso remetia para o
STJ, mas já avançava razões concessíveis do habeas corpus.
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Penso ser o melhor intérprete de mim mesmo. Eu
apenas disse que havia, nos autos, alguns elementos que, eventualmente, poderiam
sugerir nulidades — o verbo foi usado exatamente no condicional — que maculariam
o processo. Não as examinei, todavia. A justificação era não transformar o habeas
corpus em recurso da acusação, no qual se pudessem colher argumentos desfavoráveis
ao paciente num caso marcado pela singularidade de a sentença ter sido prolatada em
578 R.T.J. — 197

processo de competência originária dos tribunais, o que suprimiria um grau de jurisdi-


ção. Daí por que não avancei nesse exame, para não prejudicar a situação do paciente.
Minha postura permitiria que o Superior Tribunal de Justiça, se entendesse devido,
examinasse ex officio essas questões. Se o fizesse, daria oportunidade, uma vez
rejeitados os argumentos do paciente, de ele recorrer a esta Corte, para reexame da
matéria, evitando o exame, que está sendo feito agora, em primeira mão, de questões
antes não aventadas.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Ministro Cezar Peluso, essas matérias foram colo-
cadas na impetração perante o Superior Tribunal de Justiça?
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Não.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Então seria uma sinalização da possibilidade de
concessão de habeas de ofício, talvez, pelo Superior Tribunal de Justiça?
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Não, apenas menção a matérias que não examino
agora.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): Entendi que havia questões
postas, falta de justa causa — como argumento dessa falta de justa causa a
bilateralidade, porque cuidar-se-ia de corrupção efetiva (dar e receber), e o recebedor
teria sido absolvido. Quanto a isso o Ministro Cezar Peluso não conhecia, igualmente
V. Exa., mas adiantava que, além disso, haveria outras questões.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Questões que gerariam, de início — penso que não
podemos subestimar a defesa —, impetração originária no Superior Tribunal de Justiça,
se houvesse uma omissão por parte daquela Corte.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): Conceder habeas corpus de
ofício é dever do Tribunal. Proposta de concessão de habeas corpus de ofício depende
muito da confiança e do humor dos Colegas no dia, senão resulta em denegação, de
ofício, de habeas corpus.
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Foi exatamente por isso que não propus.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Sr. Presidente, creio que fui mal
interpretado. Vou recapitular o que disse em preliminar. No meu voto inicial, eu
simplesmente não conhecia. Como eu disse, não conheço tout court, por implicar em
exame de provas. Diante das propostas do Ministro Cezar Peluso, reexaminei o meu
voto, reexaminei o acórdão do STJ e constatei que o acórdão realmente examinou o
mérito. Então, reformulei para conhecer aquilo que eu não havia conhecido.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): E denegou. Até aí perfeito.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Até aí não deneguei.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): Depois indeferiu o habeas
corpus impetrado.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Não, Sr. Presidente, examinei em
seguida as propostas do Ministro Cezar Peluso e sustentei o ponto de vista de que elas
deveriam ser examinadas.
Vou ler o meu voto, novamente, nesse trecho.
R.T.J. — 197 579

O Sr. Ministro Cezar Peluso: Mas eu não fiz proposta nenhuma sobre essa matéria,
Ministro.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Fui seguido pela Turma. Vou ler o
voto:
“Creio que a proposta de concessão de ofício feita pelo Ministro Peluso não
precisa ser previamente apreciada pelo STJ, tendo em vista três aspectos: primei-
ro, por tratar de questão meramente jurídica; segundo, porque visa a favorecer o
paciente; e terceiro, porque os autos contêm toda a documentação necessária ao
julgamento do mérito. (...)
Assim, pedindo vênia ao Ministro Peluso, entendo ser caso também de se
conhecer da impetração pelos fundamentos para cujo exame S. Exa. entende ser
necessário o prévio julgamento por parte do STJ.
(...)
Submeto a questão ao crivo da Turma para nova deliberação, tendo em vista
que na primeira assentada o Ministro Britto me acompanhou quanto ao não-
conhecimento da impetração e, na segunda assentada, o Ministro Peluso também
não a conhecia, mas por outro fundamento, e devolvia o caso ao STJ.”
Foi isso que submeti à Turma e fui acompanhado. Passamos, então, ao exame do
mérito.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Senhor Presidente, quando votei, foi quanto à
admissibilidade do habeas tal como impetrado. Compreendi a proposta do Ministro
Cezar Peluso no sentido da devolução para o exame dessas matérias pelo Superior
Tribunal de Justiça. Resta saber se essas questões, alvo da proposta, foram colocadas
perante o Superior Tribunal de Justiça.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Não foram.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): Nós só podemos cogitar delas
para conceder.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Para conceder a ordem e, mesmo assim, de ofício,
porque não estão versadas na inicial.
O Sr. Ministro Cezar Peluso: V. Exa. me permite? O eminente Ministro Relator
examinou aquilo que eu não quis, com receio de que acontecesse o que está acontecen-
do: examinar em primeira mão.
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Mas não devemos examinar para indeferir!
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Exatamente.
O Sr. Ministro Joaquim Barbosa (Relator): Eu indefiro para que não seja remetido
ao STJ.
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): O Ministro Moreira Alves era
radical. Lembro que muitas vezes o eminente Dr. Cláudio Fonteles aventava a concessão
de ofício e o Ministro Moreira Alves dizia: Eu não, não posso sabê-lo; esses meus
Colegas são muito maus.
580 R.T.J. — 197

EXTRATO DA ATA
HC 83.658/RJ — Relator: Ministro Joaquim Barbosa. Paciente: César Andrade
Lima Souto ou César Andrade de Lima Souto. Impetrantes: Antonio Carlos de Almeida
Castro e outros. Coator: Superior Tribunal de Justiça.
Decisão: Prosseguindo o julgamento, após a retificação de votos dos Ministros
Joaquim Barbosa, Relator, Carlos Britto e Cezar Peluso, a Turma, por unanimidade,
conheceu do pedido de habeas corpus. No mérito, após o voto do Ministro Joaquim
Barbosa, Relator, indeferindo o pedido de habeas corpus, pediu vista dos autos o
Ministro Cezar Peluso.
Presidência do Ministro Sepúlveda Pertence. Presentes à sessão os Ministros
Marco Aurélio, Cezar Peluso, Carlos Britto e Joaquim Barbosa. Subprocuradora-Geral
da República, Dr. Maria Caetana Cintra Santos.
Brasília, 15 de junho de 2004 — Ricardo Dias Duarte, Coordenador.

VOTO (Ratificação)
O Sr. Ministro Cezar Peluso: Votei, sinteticamente, no sentido de concessão de
habeas de ofício, para, cassando o acórdão do Superior Tribunal de Justiça, determinar
que este aprecie o mérito de dois fundamentos do habeas corpus impetrado naquela
Corte, os quais, a meu ver, constituem apenas quaestiones iuris, assim resumidas:
1ª necessária bilateralidade entre os crimes de corrupção ativa e passiva, quando
praticado o segundo na modalidade de “receber” vantagem indevida (Apenso I, inicial
do habeas corpus impetrado perante o STJ, fl. 21);
2ª imprestabilidade de prova obtida em fase extrajudicial e não confirmada em
juízo, com observância do contraditório (ibid., fl. 27).
É que, como deixei consignado no voto vista, as questões, não conhecidas pelo
STJ sob argumento de implicarem reexame de prova, não o implicavam, assim porque
a primeira respeita a uma estrita questão de direito, como porque a segunda concerne à
valoração teórica de elemento de prova para fins de sustentação de decreto
condenatório. Por essa razão, pareceu-me, e continua parecendo, que não pode aquela
Corte deixar de apreciá-las.
O eminente Relator, que votou inicialmente pelo não-conhecimento do writ,
porque postularia denso reexame da prova, reformulou o entendimento e entrou a
conhecer das matérias suscitadas, sustentando que aquelas duas questões, não apre-
ciadas segundo meu juízo, o teriam sido efetivamente. Daí, afirma a suficiência das
provas para a condenação e a improcedência da tese da bilaterialidade (p. 17), e, em
seguida, as “teses” que teria eu apresentado (pp. 18 e ss.).
No que tange, especificamente, às razões pelas quais concedi habeas de ofício,
diz o nobre Relator:
“Ocorre que da leitura dos votos proferidos cheguei à conclusão diversa. O
voto do Ministro Relator, Fontes de Alencar, é no sentido da denegação da ordem;
são utilizadas como fundamentação as provas produzidas contra o paciente,
R.T.J. — 197 581

notadamente o testemunho de Ronaldo Soares de Azevedo, colhido em ação


cautelar de produção antecipada de prova, e o laudo pericial que confirma ser do
paciente as assinaturas encontradas nos ‘livros-caixa’ regularmente apreendidos.
A observação de que o habeas corpus não é meio idôneo à apreciação de provas,
portanto, foi incidental e não implicou o não-conhecimento da impetração. Veja-se
o voto do Presidente da 6ª Turma do STJ, Ministro Paulo Gallotti, é enfático e
sintetiza toda a questão do presente writ (transcreve fl. 72).”
Portanto, parece-me claro que o STJ examinou na sua inteireza a tese central
da impetração, embora a ementa do acórdão leve a outra conclusão” (p. 4).
E conclui:
“Creio que a proposta de concessão de ofício feita pelo Ministro Peluso não
precisa ser previamente apreciada pelo STJ, tendo em vista três aspectos. Primei-
ro, por tratar de questão meramente jurídica; segundo porque visa a favorecer o
paciente; e terceiro porque os autos contêm toda a documentação necessária ao
julgamento do mérito (...)” (p. 6).
Reafirmo o voto. A questão da necessária bilateralidade entre os crimes de
corrupção ativa e passiva, quando praticado o segundo na modalidade de “receber”
vantagem indevida, deveras não foi analisada pelo Superior Tribunal de Justiça.
Verdade é que o Min. Paulo Medina a versou, mas ficou vencido no ponto, precisamen-
te porque os demais julgadores entenderam que o exame pormenorizado de prova não
cabia no writ. Vejamos:
Depois de transcrever longos trechos do acórdão condenatório do Tribunal de
Justiça, sem nenhuma consideração especial sobre as questões, o voto vencedor do
Min. Fontes de Alencar, Relator do habeas, consigna: “O exame detalhado da prova
não é próprio do habeas corpus” (fl. 70, c/c fls. 68-69).
Igual coisa está no voto vencedor do Min. Felix Fischer: “Parece-me que a
impetração busca uma solução que exige o reexame aprofundado da prova, não de
uma prova convergente, mas, sim, de um cotejo de provas. Entendo que a solução
buscada escapa dos limites do habeas corpus no caso concreto” (fl. 80). E, sem nada
adiantar sobre a correlação dos crimes, quando praticada a corrupção passiva sob a
modalidade de “receber” vantagem indevida, remata: “E, como bem posto pelo Minis-
tério Púbico Federal, não há uma vinculação direta, no nosso sistema, entre
corrupção ativa e passiva. Se houvesse tal relação, digamos biunívoca, talvez a
solução fosse outra. Mas, dentro do nosso sistema legal, pelos tipos penais discutidos,
essa relação não existe” (ibid.).
Não foi diferente, no ponto, a ratificação de voto do Min. Paulo Gallotti:
“Acrescento que o pedido estabelece como premissa a necessidade da presença da
chamada bilateralidade entre a corrupção ativa e a passiva. Não vejo, no âmbito
do habeas corpus, como invalidar a conclusão a que chegou o acórdão, de ser
possível reconhecer a corrupção ativa, mesmo absolvidos o magistrado e o apon-
tado intermediário da trama criminosa, avaliação que só se mostrará plausível se
operada incursão no material fático-probatório, inviável, nessa extensão, na sede
eleita” (fl. 81).
582 R.T.J. — 197

Está claro, pois, com o devido respeito, que nada consta do acórdão sobre a
específica questão jurídica suscitada (pactum sceleris), cuja especificidade está na
existência, ou não, de correlação necessária entre corrupção ativa e passiva, quando
seja esta cometida na modalidade de “receber” vantagem indevida. Não se trata de
discutir correlação teórica absoluta entre os dois tipos, compreendendo todos os seus
verbos nucleares, mas na moldura particular de dar e receber vantagem indevida
(pactum sceleris).
Quanto à segunda questão — imprestabilidade de prova obtida em fase
extrajudicial, sem confirmação em juízo contraditório —, o Min. Fontes de Alencar
efetivamente dela tratou em seu voto, posto que de forma lacônica, invocando trecho
do acórdão condenatório, verbis:
“Como se vê, o depoimento foi ratificado em sede de produção antecipada
de provas. Assim, não há que se falar em violação ao princípio do contraditório”
(fl. 68).
Mas a questão guarda relevante singularidade no caso. É que, embora o acórdão
do Tribunal de Justiça, no trecho transcrito, se reporte a procedimento de produção
antecipada de prova testemunhal, cujos autos constituiriam o Anexo 72 (fls. 285-287,
c.c. fls. 68), dele também consta, de maneira não menos expressa, a título de um dos
fundamentos da absolvição do juiz Nicolau Cassiano Neto, o qual teria recebido o
dinheiro, que:
“Além da pouca credibilidade da palavra de Ronaldo, seu depoimento
ressente-se, ainda, da circunstância de haver sido colhido sem a garantia do
contraditório, não tendo sido possível a repetição em juízo em face do desapare-
cimento da testemunha, não mais localizada desde a época em que foi ouvida pelo
Ministério Público” (fl. 7390 dos autos do acórdão. Grifos meus).
Ora, da conjugação de ambas as afirmações do acórdão do Tribunal de Justiça, à
luz da inicial deste habeas corpus, infere-se que ou haveria, aí, contradição grave,
capaz de lhe comprometer a validez de certas conclusões, ou, como tudo indica, o
procedimento de produção antecipada de prova testemunhal teria prescindido de
citação do ora paciente, a quem, por falta das oportunidades garantidas do princípio do
contraditório, não poderia ser oposto como prova emprestada, no processo de que se
cuida. É que, como consta do acórdão mesmo, o ora paciente foi denunciado em
aditamento, antes do qual foi tomado, pelo Relator, em produção antecipada de prova,
o depoimento de Ronaldo Soares de Azevedo:
“Quanto à impossibilidade das defesas dos réus incluídos no aditamento
participarem da inquirição da testemunha Ronaldo Soares de Azevedo, cujo
depoimento foi colhido antes do oferecimento da denúncia originária através
da medida cautelar de produção antecipada de prova, a questão, suscitada pela
defesa do réu Paulo Tarso Oliveira Leite, nada tem a ver com a da ocorrência ou
não de quebra do princípio da indivisibilidade, dizendo respeito, exclusivamen-
te, ao valor probatório que possa ter semelhante testemunho, como prova em-
prestada, em relação aos réus cujas defesas não tenham participado da inquiri-
ção” (fl. 7200 dos autos do acórdão. Cf., ainda, fls. 7188-1189. Grifos meus).
R.T.J. — 197 583

Foi esta a razão por que, na justificação da absolvição de Humberto Chucri David
e Weber Stabile, o mesmo acórdão aduziu:
“Ainda aqui ressente-se a prova de acusação da impossibilidade da obten-
ção de maiores esclarecimentos por parte do desaparecido Ronaldo Soares de
Azevedo, ouvido sobre os fatos em depoimento prestado a uma das partes do
processo” (fl. 7366 dos autos do acórdão. Grifos meus).
Por resumir, estava posta, diante dos próprios termos do acórdão do Tribunal de
Justiça do Rio de Janeiro, a questão jurídica (quaestio iuris) do valor de prova empres-
tada, colhida sem citação do ora paciente e, portanto, sem observância do contraditó-
rio. O que disse a respeito, à luz, não do reexame da prova, mas dos próprios termos do
acórdão do Tribunal de Justiça, o STJ? Nada. Mas penso que, por ser esse aspecto
relevante da questão de direito sobre o alcance de prova obtida sem o contraditório,
devera tê-lo apreciado.
São as razões por que confirmo meu voto.

EXTRATO DA ATA
HC 83.658/RJ — Relator: Ministro Joaquim Barbosa. Paciente: César Andrade
Lima Souto ou César Andrade de Lima Souto. Impetrantes: Antonio Carlos de Almeida
Castro e outros. Coator: Superior Tribunal de Justiça.
Decisão: Prosseguindo o julgamento, após o voto do Ministro Cezar Peluso, que
concedia o habeas corpus, de ofício, para devolver o julgamento da impetração ao
Superior Tribunal de Justiça, a fim de que sejam examinados os tópicos enumerados em
seu voto, e do voto do Ministro Carlos Britto, que acompanhava o voto do Relator,
pediu vista dos autos o Ministro Marco Aurélio.
Presidência do Ministro Sepúlveda Pertence. Presentes à sessão os Ministros
Marco Aurélio, Cezar Peluso, Carlos Britto e Joaquim Barbosa. Subprocurador-Geral
da República, Dr. Edson Oliveira de Almeida.
Brasília, 22 de junho de 2004 — Ricardo Dias Duarte, Coordenador.

VOTO (Vista)
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Delimito as impetrações, ou seja, a ocorrida no
Superior Tribunal de Justiça e nesta Corte. Naquele Tribunal, revela o apenso 1 que se
apontaram três causas de pedir visando à concessão da ordem, a saber:
a) Bilateralidade, no caso, do crime de corrupção. O raciocínio desenvolvido
parte da premissa de que a peça acusatória versou sobre o fato de alguém haver
solicitado vantagem pecuniária e tê-la alcançado, recebendo valores, imputando-se ao
paciente o pagamento mediante interposta pessoa.
b) Transgressão do princípio do juiz natural, levando em conta o fato de a ação
penal haver sido julgada pelo Tribunal de Justiça, ante o envolvimento, como acusado,
do magistrado Nicolau Cassiano Neto. No particular, mencionou-se o julgamento do
Habeas Corpus n. 69.807/RJ, relatado pelo Ministro Néri da Silveira, quando a Corte,
584 R.T.J. — 197

o Supremo Tribunal Federal, procedera ao desmembramento do processo, submetendo


os acusados que não gozavam de prerrogativa de foro ao Tribunal do Júri.
c) Ofensa ao princípio do contraditório. A única prova existente contra o acusado
César Andrade Lima Souto fizera-se na fase de inquérito e, mesmo assim, quando não
era ele indiciado.
No Superior Tribunal de Justiça, no voto condutor do julgamento, da lavra do
Ministro Fontes de Alencar, proclamou-se, é certo, na ementa, a impossibilidade de
examinar-se a prova no julgamento de habeas corpus. Nota-se, no que veiculado em
termos de voto, que se aludiu à ratificação de depoimento em produção antecipada de
provas. Transcreveu-se, no tocante à causa de pedir principal do habeas corpus, a óptica
do Ministério Público Federal, segundo a qual a condenação do paciente não tivera como
único suporte fático o oferecimento de vantagem indevida ao juiz Nicolau, mas incluíra
a participação em esquema montado para corromper servidores públicos com vista a
evitar importunações às atividades desenvolvidas no âmbito do jogo do bicho (folha 65
a 71). O voto que se seguiu, do Ministro Paulo Gallotti, fez-se firme na óptica da
imputação abrangente, afastando, assim, o que alegado sobre a bilateralidade do crime de
corrupção. Sua Excelência remeteu à denúncia, mencionando a série de fatos havidos
como delituosos que teriam sido praticados com um número muito grande de pessoas,
entre as quais o paciente (folha 72). Deu-se o voto do Ministro Paulo Medina, conceden-
do a ordem para absolver o paciente, fundamentado na absolvição de quem recebera
valores e na impossibilidade de concluir-se, a um só tempo, pela condenação daquele que
implementara a dação. Em síntese, Sua Excelência acolheu a principal causa de pedir do
habeas, consignando a desnecessidade de reapreciação dos elementos probatórios e
citando precedentes (folha 73 a 77). Ante o escore de dois a um, convocou-se integrante
da Quinta Turma, em face do impedimento do Ministro Hamilton Carvalhido (folha 78).
Convocado, o Ministro Felix Fischer, após dizer da leitura atenta dos votos já proferidos
e remeter às sustentações da defesa e do Ministério Público, ao que tudo indica renova-
das, deixou assentado:
Parece-me que a impetração busca uma solução que exige o exame
aprofundado de prova, não de uma prova convergente, mas, sim, de um cotejo de
provas.
Concluiu pela impropriedade da via eleita, asseverando que, em nosso sistema
penal, não há vinculação direta consideradas as espécies de corrupção — ativa e
passiva. Aduziu que, se houvesse a necessária duplicidade, “talvez a solução fosse
outra. Mas, dentro do nosso sistema legal, pelos tipos penais discutidos, essa relação
não existe” (folha 80). O Ministro Gallotti reafirmou a impossibilidade de invalidar a
conclusão do Tribunal de Justiça, no que absolveu o magistrado, que teria recebido os
valores, e condenou o paciente, mais uma vez salientando que o acolhimento do
pedido demandaria o exame da prova (folha 81). Reiterou o voto o Ministro Paulo
Medina (folhas 82 e 83).
Diante desse quadro, concluo, então, que o Superior Tribunal de Justiça adentrou
o tema que consubstanciava a causa principal de pedir da impetração, ou seja, no caso,
a bilateralidade do crime, a exigir ou a condenação dos agentes ativo e passivo, ou a
absolvição de ambos.
R.T.J. — 197 585

Chega-se, agora, à impetração em julgamento. A causa de pedir mostra-se única —


a insubsistência da condenação do paciente, a quem se imputou a prática de dar
importâncias quando absolvidos o intermediário e também o beneficiário dos valores.
Com a peça de folha 2 a 33, volta-se, a partir de precedente da lavra do Ministro
Cordeiro Guerra e dos votos dos Ministros Leitão de Abreu e Eloy da Rocha, à tecla da
bilateralidade, dados os parâmetros da peça acusatória. Ressalta-se que o paciente
somente foi envolvido na ação penal quando do aditamento à denúncia, sustentando-
se haver sido ele o único condenado pela prática do crime de corrupção ativa. Também
na impetração perante esta Corte, esclarece-se que o caso não diz com a questão de se
saber se houve, ou não, pela autoridade administrativa, a prática de ato omissivo ou
comissivo, deixando-se, assim, de se lançar, como base da impetração, o que decidido
por este Tribunal no Inquérito n. 705, relatado pelo Ministro Ilmar Galvão.
Peço vênia para cingir-me à impetração, mesmo porque o paciente é defendido
por eméritos advogados — Doutor Nélio Roberto Seidl Machado, Doutor Wilson
Lopes dos Santos e o Doutor Antonio Carlos de Almeida Castro.
Passo, então, ao exame do pedido formulado. O acusado defende-se dos fatos
narrados na denúncia. O aditamento constante do primeiro apenso e que acabou por
incluir o ora paciente mostrou-se, quanto aos acontecimentos, abrangente. Aludiu-se a
um certo “caixa” para fazer frente a propinas e, em uma segunda parte, mencionou-se
que o denunciado Nicolau Cassiano Neto, Juiz de Direito na Comarca de Angra dos
Reis, recebera do denunciado César Andrade Lima Souto, mediante a intermediação de
Adilson Martins da Cruz, determinados valores, remetendo-se ao depoimento de
Ronaldo Soares de Azevedo.
Pois bem, fosse esta a única imputação, não teria a menor dúvida em conceder a
ordem. É que, no caso, referiu-se, de forma expressa, ao recebimento e à conseqüente
dação de valores. Ora, absolvidos aqueles que teriam incidido na corrupção passiva,
recebendo valores, e também o intermediário, forçoso seria concluir, observada a
ordem natural das coisas e a coerência, pela inexistência da dação das quantias.
Todavia, asseverou-se que os oito primeiros denunciados, entre os quais o paciente,
mantinham recursos para a distribuição a ocupantes de diversos cargos ou funções,
formando um fundo comum. Depreende-se da denúncia que a acusação não se limitou
à entrega de valores ao réu absolvido, englobando, também, a corrupção passiva
quanto aos demais denunciados. No caso, pelo crime do artigo 317 do Código Penal —
corrupção passiva —, foram condenados Paulo Cesar Oliveira Santos e Alan-Cardeque
Vilela. Assim, não vinga a tese da bilateralidade que, se procedente, desaguaria na
absolvição. O que se nota, às folhas 7367 a 7384 no acórdão proferido e que se encontra
nos apensos, mais precisamente essa parte no apenso 2, é que o decreto condenatório
fez-se lastreado na participação dita efetiva do paciente no fundo destinado ao suborno
e, aí, teve-se a condenação de dois réus pela corrupção passiva. Em síntese, o que se
proclamou é que ele próprio, paciente, contribuía para o fundo único, não sendo
decisiva, dessa forma, a circunstância de os subornados atuarem em áreas diversas.
Aliás, sob esse ângulo, apontou-se, no acórdão, que o objetivo era comum, tendo em
conta remanejamentos de servidores. Concluindo, não procede a causa de pedir apon-
tada no habeas corpus, valendo notar que, na fixação da pena, não se levou em conta o
que seria a corrupção ativa de se haver entregue valores aos réus que acabaram
absolvidos. Indefiro a ordem.
586 R.T.J. — 197

EXPLICAÇÃO
O Sr. Ministro Marco Aurélio: Senhor Presidente, no caso, a premissa do acórdão
condenatório é única: a existência do fundo comum, o fundo abrangente.
Como consignei em voto, aludiu-se a essa parte da defesa segundo a qual seriam
os envolvidos policiais de outra circunscrição que não aquela na qual estaria o paciente
a atuar no jogo do bicho: Angra dos Reis e cidades próximas. Então, colocou-se em
plano secundário o elo causal que decorreria, em si, não da entrega direta de valores,
mas da contribuição, e discorreu-se sobre gerenciamento, com perícia realizada, da
contribuição para o fundo.
VOTO
O Sr. Ministro Sepúlveda Pertence (Presidente): Peço todas as vênias ao Ministro
Cezar Peluso, para acompanhar o voto do eminente Relator. Já tenho sustentado aqui,
até com muita insistência — embora reconheça que a jurisprudência da atual como da
antiga Primeira Turma é um pouco fluida, vacilante —, que, suscitado o problema
perante o STJ, caberia o seu exame aqui, se na causa de pedir suscitada perante o STJ,
ainda que por ele não considerada, insiste o impetrante.
Vejo uma opção clara dos impetrantes, que não atuam como qualquer do povo,
mas como defensores do acusado, de só submeter ao Tribunal, entre os fundamentos do
habeas corpus requerido ao STJ, um deles: a bilateralidade da corrupção ativa na
modalidade dar a vantagem indevida com a corrupção passiva de receber a mesma
vantagem, e dada absolvição do indigitado autor da corrupção passiva.
Por isso, neste caso, deixo à defesa tomar a atitude que lhe parecer adequada para
sanar o que parece ter sido uma omissão do STJ, dado que suscitada a questão.
Quanto à bilateralidade, os votos dos eminentes Ministros Joaquim Barbosa,
Carlos Britto e, agora, do Ministro Marco Aurélio, a meu ver, demonstraram, com muita
clareza, que a questão não é tão simples. A condenação do paciente não se deveu
exclusivamente, pelo menos, à suposta corrupção do Juiz de Direito.
Por isso, indefiro a ordem.
EXTRATO DA ATA
HC 83.658/RJ — Relator: Ministro Joaquim Barbosa. Paciente: César Andrade
Lima Souto ou César Andrade de Lima Souto. Impetrante: Antonio Carlos de Almeida
Castro e outros. Coator: Superior Tribunal de Justiça.
Decisão: Prosseguindo no julgamento, a Turma indeferiu o pedido de habeas
corpus. Vencido, em parte, o Ministro Cezar Peluso, que concedia o habeas corpus, de
ofício, para devolver o julgamento da impetração ao Superior Tribunal de Justiça, a fim
de que sejam examinados os tópicos enumerados em seu voto.
Presidência do Ministro Sepúlveda Pertence. Presentes à sessão os Ministros
Marco Aurélio, Cezar Peluso, Carlos Britto e Joaquim Barbosa. Subprocurador-Geral
da República, Dr. Wagner de Castro Mathias Netto.
Brasília, 29 de junho de 2004 — Ricardo Dias Duarte, Coordenador.
R.T.J. — 197 587

AGRAVO REGIMENTAL NO HABEAS CORPUS 83.966 — SP

Relator: O Sr. Ministro Celso de Mello


Agravantes: Advogados inscritos na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) –
Seccional de São Paulo, Federação das Associações dos Advogados do Estado de São
Paulo – FADESP e outro — Agravado: Procurador-Geral da República
Habeas corpus — Recurso de agravo — Inexistência de situação de
litigiosidade que afete a imediata liberdade de locomoção física de qual-
quer indivíduo — Inviabilidade processual do remédio constitucional do
habeas corpus para preservar a relação de confidencialidade que deve
existir entre advogado e cliente — Impetração que não aponta a ocorrên-
cia de fatos concretos aptos a ensejar a adequada utilização da via do
habeas corpus — Ausência de legitimidade passiva ad causam do Procura-
dor-Geral da República Para figurar como autoridade coatora na pre-
sente impetração — Recurso improvido.
Não cabe habeas corpus, quando impetrado com a exclusiva finali-
dade de preservar e proteger o direito à intimidade (relação de
confidencialidade) dos advogados (e de seus eventuais clientes) vincula-
dos às associações agravantes.
— Com a cessação, em 1926, da doutrina brasileira do habeas
corpus, a destinação constitucional do remédio heróico restringiu-se, no
campo de sua específica projeção, ao plano da estreita tutela da imediata
liberdade física de ir, vir e permanecer dos indivíduos, pertencendo,
residualmente, ao âmbito do mandado de segurança, a tutela jurisdicio-
nal contra ofensas que desrespeitem os demais direitos líquidos e certos,
mesmo quando tais situações de ilicitude ou de abuso de poder venham a
afetar, ainda que obliquamente, a liberdade de locomoção física das
pessoas.
— O remédio constitucional do habeas corpus, em conseqüência,
não pode ser utilizado como sucedâneo de outras ações judiciais,
notadamente naquelas hipóteses em que o direito-fim (a proteção da
relação de confidencialidade entre Advogado e cliente, no caso), não se
identifica com a própria liberdade de locomoção física.
— A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal tem salientado
que, não havendo risco efetivo de constrição à liberdade de locomoção
física, não se revela pertinente o remédio do habeas corpus, cuja utilização
supõe, necessariamente, a concreta configuração de ofensa, atual ou imi-
nente, ao direito de ir, vir e permanecer das pessoas. Doutrina. Precedentes.
Impetração que deixa de indicar fatos concretos cuja efetiva ocor-
rência poderia ensejar a adequada utilização da via do habeas corpus.
— Torna-se insuscetível de conhecimento o habeas corpus, quando o
impetrante não indica qualquer ato concreto que revele, por parte da
autoridade apontada como coatora, a prática de comportamento
abusivo ou de conduta revestida de ilicitude.
588 R.T.J. — 197

— A ação de habeas corpus exige, para efeito de cognoscibilidade, a


indicação — específica e individualizada — de fatos concretos cuja
ocorrência possa repercutir na esfera da imediata liberdade de locomo-
ção física dos indivíduos.
— A ausência de precisa indicação de atos concretos e específicos,
por parte da autoridade apontada como coatora, que revelem prática
atual ou iminente de comportamento abusivo ou de conduta revestida de
ilicitude, inviabiliza, processualmente, o ajuizamento da ação constitucio-
nal de habeas corpus. Doutrina. Precedentes.
Ausência de legitimidade passiva ad causam do Procurador-Geral
da República para figurar como autoridade coatora na presente
impetração.
— Não se mostra viável atribuir-se, ao Procurador-Geral da Repú-
blica, a responsabilidade por atos emanados dos demais membros do
Ministério Público Federal, e que, por estes, hajam sido praticados no
desempenho independente de suas atribuições funcionais.
— A mera formulação, por representante do Ministério Público, de
pedido de interceptação telefônica, para os fins a que se refere a Lei n.
9.296/96, por traduzir simples postulação dependente de apreciação
jurisdicional (CF, art. 5º, XII), não importa, só por si, em ofensa à liberdade
de locomoção física de qualquer pessoa, descaracterizando-se, desse
modo, a possibilidade de adequada utilização do remédio constitucional
do habeas corpus.

ACÓRDÃO
Vistos, relatados e discutidos estes autos, acordam os Ministros do Supremo
Tribunal Federal, em Sessão Plenária, na conformidade da ata do julgamento e das
notas taquigráficas, por unanimidade de votos, negar provimento ao agravo, nos
termos do voto do Relator. Impedido o Dr. Cláudio Lemos Fonteles, Procurador-Geral
da República. Ausente, justificadamente, o Ministro Gilmar Mendes. Presidiu o julga-
mento o Ministro Nelson Jobim.
Brasília, 23 de junho de 2004 — Nelson Jobim, Presidente — Celso de Mello,
Relator.

RELATÓRIO
O Sr. Ministro Celso de Mello: A douta Procuradoria-Geral da República, em
parecer da lavra do Vice-Procurador-Geral da República, Dr. Antonio Fernando Bar-
ros e Silva de Souza — ilustre substituto legal do eminente Chefe do Ministério
Público da União, que ora figura como autoridade coatora —, assim sumariou e
apreciou o recurso de agravo interposto pela Federação das Associações dos Advoga-
dos do Estado de São Paulo – FADESP (fls. 90/96):
R.T.J. — 197 589

“Agravo regimental em habeas corpus. Só é admissível a impetração de


habeas corpus para a proteção da liberdade de locomoção, não se prestando o
remédio constitucional à tutela de quaisquer outros direitos. Não há como
prosperar o recurso ante a falta de indicação de ato concreto que possa vir a
violar o direito de locomoção dos pacientes. O Procurador-Geral da República
não é a autoridade competente para, por ato próprio, determinar interceptação
telefônica. Parecer pelo desprovimento do recurso.
1. Cuida-se de habeas corpus impetrado pela Federação das Associações
dos Advogados do Estado de São Paulo e pelos advogados Ricardo Hasson
Sayeg, Celso Renato D´Avila, Éverson Tobaruela e Luis Augusto Zanoni dos
Santos apontando como pacientes todos os advogados inscritos na Ordem dos
Advogados do Brasil – Seccional de São Paulo, os quais, segundo as alegações
expendidas na exordial, vêm sofrendo constrangimento ilegal, caracterizado pela
violação do direito de comunicação reservada com seus clientes, sendo esta
decorrente de supostas interceptações telefônicas as quais seriam de iniciativa do
Ministério Público Federal, razão pela qual indicam como autoridade coatora do
Procurador-Geral da República.
2. Asseveram os impetrantes que a Constituição Federal determina a
inviolabilidade dos atos e manifestações dos advogados no exercício de sua
profissão, sendo desdobramento deste princípio a garantia inscrita no inciso III,
do artigo 7º, da Lei n. 8.906/94, segundo o qual é direito do advogado comunicar-
se com seus clientes, pessoal e reservadamente.
3. Nessa linha de raciocínio, aduzem que o Ministério Público Federal, com
o escopo de aparelhar futura ação penal, e em instruções processuais penais,
requisita judicialmente a interceptação de linhas telefônicas que previamente
sabe pertencer aos pacientes, o que, segundo entendimento dos impetrantes,
violaria as garantias supramencionadas, haja vista a Lei n. 9.296/96, que discipli-
na a interceptação das comunicações telefônicas, não se aplicar à espécie, na
medida em que ‘não interfere o direito-dever do advogado manter com seu cliente
comunicação reservada, que, evidentemente, pode dar-se pela via da comunica-
ção telefônica’. (fl. 12)
4. Em decisão acostada às fls. 35/43, o Min. Celso de Mello não conheceu
da ação, razão pela qual restou prejudicada a análise do pedido de liminar.
5. Foi interposto, pelos impetrantes, agravo regimental, em que afirmam
não ter o eminente Ministro observado os princípios da proporcionalidade e da
razoabilidade, ‘que deveriam ter norteado a interpretação que se deu, na decisão
recorrida, ao Princípio do Devido Processo Legal’. (fls. 56)
6. Vieram, então, os autos, a esta Procuradoria-Geral da República, para
manifestação acerca do recurso interposto.
7. Não há como prosperar o presente recurso, porquanto, nos termos da
decisão recorrida, revela-se incabível a impetração de habeas corpus cujo objeto
é a proteção do direito à intimidade.
590 R.T.J. — 197

8. Depreende-se da leitura das razões recursais que buscam os impetrantes


garantir interpretação extensiva às hipóteses de cabimento do presente remédio
constitucional, sustentando, inclusive, a idêntica natureza entre o habeas corpus
e o mandado de segurança, o que permitiria, ante o princípio da fungibilidade, o
recebimento de um pelo outro.
9. Insuscetível de acolhimento tal pretensão, porquanto a Carta Consti-
tucional de 1988, ao contrário do alegado pelos requerentes, não atribui
caráter subsidiário ao mandado de segurança, determinando, de forma expres-
sa, que este, e somente este, é o remédio hábil à proteção de direito líquido e
certo ‘não amparado por habeas corpus’ - artigo 5º, inciso LXIX, da Constitui-
ção Federal.
10. Não há, portanto, possibilidade de, sob o argumento de observância do
princípio da fungibilidade, receber o habeas corpus como se mandado de segu-
rança fosse, conforme pretendido pelos agravantes, sobretudo na situação em tela,
em que não há direito líquido e certo a ser tutelado.
11. O fato é que pretendem os impetrantes a garantia do direito à intimidade
estabelecida entre o advogado e seu cliente, tutela que refoge o alcance do
habeas corpus, nos termos destacados na decisão recorrida, a qual fora lavrada em
absoluta consonância ao entendimento firmado pelo Supremo Tribunal Federal:
‘Ementa: Constitucional. Processo Penal. Habeas Corpus. Cabimento.
C.F., art. 5º, LXVIII.
I - O habeas corpus visa a proteger a liberdade de locomoção —
liberdade de ir, vir e ficar — por ilegalidade ou abuso de poder, não
podendo ser utilizado para proteção de direitos outros. C.F., art. 5º, LXVIII.
II - H.C. indeferido, liminarmente. Agravo não provido.’
‘Ementa: Habeas Corpus. Finalidade: proteção ao Direito de Locomo-
ção. CPI dos Títulos Públicos. Quebra de Sigilo Telefônico: Salvaguarda do
direito à intimidade. Ausência de Ameaça à Liberdade de Ir e Vir. Via
imprópria do writ.
Objetivando as razões da impetração salvaguardar o direito à intimi-
dade, sem demonstração de que a quebra do sigilo telefônico determinada
por ato da CPI instituída para apurar irregularidades na emissão de títulos
públicos constitua efetiva ameaça à liberdade de ir e vir do paciente, não é
o habeas corpus a via adequada à cessação do imputado ato ilegal. Habeas
corpus não conhecido.’
12. O fato é que o requisito constitucional do habeas corpus é a violência
ou coação à liberdade de locomoção do paciente, requisito este inexistente na
presente situação, o que demonstra a impossibilidade de provimento do recurso.
Em outras palavras, é impossível a utilização deste remédio constitucional como
sucedâneo de outras ações judiciais, na medida em que, repita-se, o habeas
corpus só é admitido nas hipóteses em que o direito-fim se identifica com a
liberdade de locomoção física.
R.T.J. — 197 591

13. Aliás, ainda que o presente H.C. tivesse como objeto a tutela da liberda-
de de locomoção, melhor sorte não assistiria aos impetrantes por ausência de
demonstração de que todos os advogados inscritos na OAB - Seccional São Paulo,
pudessem vir a sofrer, de maneira imediata, constrição em seu direito.
14. Nesse sentido, asseveram os impetrantes em sua petição recursal, que por
se tratar de habeas corpus preventivo, não haveria a possibilidade de se fazer
alusão a atos concretos ou a procedimentos penais específicos.
15. Ocorre, no entanto, que ainda quando se trate de procedimento preven-
tivo, a exigência da indicação da situação onde, concretamente, poderá vir a ser
desrespeitado o direito de locomoção, se faz presente, uma vez que não é possível
o conhecimento de H.C. promovido contra ato do qual não resulte ofensa à
liberdade de locomoção.
16. No caso em foco, o ato impugnado é a eventual requisição de autorização
judicial para a quebra do sigilo telefônico, ou seja, pretendem os impetrantes,
garantir que no bojo de investigação criminal, esteja o Ministério Público impedi-
do de requerer autorização judicial para efetuar escutas telefônicas em linhas de
advogados, sob a alegação de que o simples requerimento seria prática de cons-
trangimento ilegal.
17. Ora, falaciosa a consideração expendida pelos agravantes, pois o sim-
ples pedido de autorização formulado pelo Parquet não é ato capaz de violar
qualquer direito dos impetrantes, na medida em que sujeito à análise e deferimento
pelo Poder Judiciário.
18. O fato é que, conforme destacado na decisão agravada, o chefe do
Ministério Público não tem autoridade para determinar a realização de escuta
telefônica lícita, cabendo-lhe somente, em determinadas situações, solicitar a
necessária autorização da autoridade judiciária que, após a verificação do
preenchimento dos requisitos estabelecidos na Lei 9.296/96, deferirá, ou não, o
pedido.
19. Pretendem fazer crer os agravantes que as escutas telefônicas são
realizadas de forma corriqueira, em qualquer investigação criminal. Isso não é
verdade, uma vez que a citada Lei 9.296/96 impõe rígidos requisitos à conces-
são da autorização, dentre os quais se destaca a inexistência de outros meios de
prova.
20. Ademais, é importante observar que a decisão deferitória do pedido de
interceptação das comunicações telefônicas, há de ser fundamentada, razão pela
qual, ao contrário do afirmado pelos agravantes, a prática só recairá sobre telefo-
nes de advogados quando em relação a estes houver indícios razoáveis de autoria
ou participação em infração penal, pois em hipótese diversa não seria admitida a
escuta, nos termos do inciso I, do artigo 2º, da supracitada Lei.
21. Cumpre destacar, ainda, que o princípio da proporcionalidade, invoca-
do pelos recorrentes, revela-se suficiente à demonstração da impossibilidade de
provimento deste agravo regimental.
592 R.T.J. — 197

22. Ora, patente é a desproporcionalidade entre a medida pleiteada no


habeas corpus, isto é, a de que sejam banidas dos procedimentos penais as
interceptações de linhas telefônicas pertencentes a advogados, e o ato eventu-
almente praticado pelo Ministério Público Federal que se limita a requisitar a
medida perante o Poder Judiciário.
23. Uma vez que a requisição depende de autorização do Poder Judiciário
para se tornar legítima, clara é a demonstração de que não pratica o Ministério
Público Federal ato capaz de violar quaisquer direitos dos pacientes, que jamais
terão suas ligações telefônicas interceptadas, senão quando a autoridade judiciá-
ria verificar a ocorrência das hipóteses elencadas na legislação disciplinadora da
matéria.
24. Enfim, a decisão recorrida está em perfeita harmonia com a jurisprudên-
cia do Supremo Tribunal Federal que, de modo uníssono, reconhece não ser
admissível o habeas corpus em que o impetrante deixa de atribuir à autoridade
apontada como coatora a prática de ato concreto efetivamente abusivo ou reves-
tido de ilegalidade.
25. Não conseguem os recorrentes, em suas razões, indicar qual seria a
ilegalidade praticada pelo Procurador-Geral da República. Ainda que o chefe
do Parquet fosse o responsável por todos os pedidos de interceptação efetuados
no âmbito do Ministério Público Federal, não haveria qualquer indício da
prática de comportamento ilegal ou abusivo, pois tais requerimentos são feitos
nos termos da lei que regulamenta a parte final do inciso XII, do artigo 5º, da
Constituição Federal, comprovando o respeito aos princípios constitucionais
que regem o tema.
Assim sendo, ante a impossibilidade de impetração de habeas corpus para
a tutela de direitos outros que não o direito de locomoção, e considerando-se
não ser o Procurador-Geral da República autoridade competente para determinar
a escuta lícita de conversações telefônicas, manifesta-se o Ministério Público
Federal pelo desprovimento do recurso, mantendo-se, integralmente, a decisão
recorrida.” (Grifei)
Por não me haver convencido das razões invocadas pela parte ora recorrente,
submeto, à apreciação do Egrégio Plenário do Supremo Tribunal Federal, o presente
recurso de agravo.
É o relatório.

VOTO
O Sr. Ministro Celso de Mello: (Relator): Trata-se de recurso de agravo, que,
tempestivamente interposto pela Federação das Associações dos Advogados do Estado
de São Paulo, insurge-se contra decisão, por mim proferida, que não conheceu da ação
de habeas corpus ajuizada perante esta Corte pela entidade de classe em questão e,
também, por ilustres Advogados.
R.T.J. — 197 593

O ato decisório em questão apoiou-se, para tanto, em três (3) fundamentos: (a) o
caráter absolutamente genérico da impetração, que não indicou qualquer ato concre-
to ou procedimento específico em cujo âmbito estariam sendo praticadas medidas
caracterizadoras de injusto constrangimento ao status libertatis da totalidade dos
Advogados inscritos na OAB/Seção de São Paulo; (b) a inviabilidade da ação de
habeas corpus em causa, porque promovida com o objetivo de preservar a relação de
confidencialidade entre os Advogados paulistas e seus clientes, protegendo-lhes, em
conseqüência, não a sua liberdade de locomoção física, mas, sim, a integridade do seu
direito à intimidade e (c) a ausência de legitimatio ad causam passiva do Procurador-
Geral da República, para figurar como autoridade coatora na relação processual em
questão, eis que — além de não lhe haver sido atribuído qualquer ato específico de
que pudesse derivar ofensa ao direito de ir, vir e permanecer dos Advogados inscritos
na Seção paulista da OAB — também não se lhe pode imputar responsabilidade por
eventual decretação judicial de interceptação de conversações telefônicas, pois não
dispõe, para tanto, de competência constitucional para ordenar tão extraordinária
providência de caráter probatório.
A parte ora agravante, inconformada com tal decisão, veio a impugná-la no
presente recurso, neste reproduzindo, essencialmente, os fundamentos constantes
da impetração do pedido de habeas corpus, renovando a alegação de que “todos os
membros da nobre classe dos advogados, sem exclusão de quem quer que seja (...)”,
estariam sofrendo situação de constrangimento ilegal, decorrente “da violação ao
direito-dever de comunicação reservada com seus clientes, em razão das constantes,
inadmissíveis, inconstitucionais e ilegais interceptações de linhas telefônicas per-
tencentes sabidamente a advogados inscritos na OAB, no Estado de São Paulo,
ocorridas sob a lacônica justificativa de investigação criminal, por iniciativa do
Ministério Público Federal, com a complacência da autoridade coatora, o Senhor
Procurador-Geral da República, Chefe e representante do Ministério Público Federal,
a quem compete coibir os abusos cometidos pelos demais membros desse órgão” (fl.
51 — grifei).
Afirma, ainda, a parte ora recorrente, que “os Princípios da Proporcionali-
dade e da Razoabilidade (...) deveriam ter norteado a interpretação que se deu, na
decisão recorrida, ao Princípio do Devido Processo Legal, a fim de que o Senhor
Ministro Relator, em nome das garantias e salvaguardas maiores do Estado de
Direito, houvesse por bem relevar e afastar qualquer óbice formal que, segundo seu
entendimento (com o qual a Impetrante não concorda e cujo equívoco será abaixo
demonstrado), estivesse a impedir a concessão da ordem de Habeas Corpus e o
restabelecimento do direito da inviolabilidade da comunicação reservada entre
advogado e cliente, usurpados pelo Ministério Público Federal, em todo o território
nacional, com o beneplácito da autoridade apontada como coatora, no bojo de
investigações criminais” (fl. 56).
Passo a apreciar o presente recurso de agravo. E, ao fazê-lo, entendo assistir
plena razão ao eminente Vice-Procurador-Geral da República, quando opina pelo
improvimento desta impugnação recursal, em parecer assim ementado (fl. 90):
594 R.T.J. — 197

“Agravo regimental em habeas corpus. Só é admissível a impetração de


habeas corpus para a proteção da liberdade de locomoção, não se prestando o
remédio constitucional à tutela de quaisquer outros direitos. Não há como
prosperar o recurso ante a falta de indicação de ato concreto que possa vir a
violar o direito de locomoção dos pacientes. O Procurador-Geral da República
não é a autoridade competente para, por ato próprio, determinar interceptação
telefônica. Parecer pelo desprovimento do recurso.” (Grifei)
Ao proferir a decisão ora recorrida, tive o ensejo de enfatizar que a parte ora
recorrente, ao ajuizar o presente writ, com ele buscou resguardar e preservar, exclusi-
vamente, como se evidencia da impetração, o direito à intimidade dos Advogados
paulistas em geral, cuja esfera de privacidade — segundo ora sustentado nesta sede
processual — estaria sendo desrespeitada pelo Ministério Público Federal, em sede
de procedimentos penais, “com o beneplácito da autoridade apontada como coatora,
no bojo de investigações criminais” (fl. 56).
Na realidade, a própria parte impetrante, ao postular fossem “banidas, das
investigações criminais e da instrução processual penal (...), as interceptações de
linhas telefônicas (...)” (fl. 15) referentes a Advogados, expressamente apoiou o seu
pleito na alegação de que, com tal prática — efetivada “independentemente de
qualquer envolvimento na investigação criminal ou instrução criminal” (fl. 14 —
grifei) —, atentou-se contra “a intimidade de todo o número infinito de pessoas que
venham a procurar o advogado (...)” (fl. 14 — grifei).
Vê-se, pois, considerados os específicos termos em que formulada a presente
impetração, que se revela inadequado o meio processual ora utilizado, eis que o
habeas corpus foi deduzido, na espécie, com a exclusiva finalidade de preservar e de
proteger, unicamente, o direito à intimidade dos ilustres integrantes da classe dos
Advogados e o de seus eventuais clientes, sem a necessária conexão com a tutela da
liberdade de locomoção física dos ora pacientes.
O conteúdo absolutamente genérico do pedido ora deduzido pela parte recorren-
te evidencia, por isso mesmo, tal como por mim já enfatizado, o pleno descabimento
da ação de habeas corpus, pois não se demonstrou, na espécie, e de modo concreto, a
possibilidade de “todos os Advogados” (fl. 2) inscritos na OAB/SP estarem sofrendo, ou
virem a sofrer, de maneira imediata, injusto constrangimento em seu direito de ir, de
vir e de permanecer.
Cumpre rememorar, neste ponto, que a jurisprudência do Supremo Tribunal
Federal tem advertido, presente tal contexto, que não se revela pertinente o remé-
dio constitucional do habeas corpus, quando utilizado, como sucede na espécie,
sem que se evidencie a concreta configuração de ofensa imediata, atual ou iminen-
te, ao direito de ir, vir e permanecer dos pacientes (RTJ 135/593, Rel. Min. Sydney
Sanches — RTJ 136/1226, Rel. Min. Moreira Alves — RTJ 142/896, Rel. Min.
Octavio Gallotti — RTJ 152/140, Rel. Min. Celso de Mello — RTJ 180/962, Rel.
Min. Celso de Mello, v.g.).
R.T.J. — 197 595