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OS SINAIS DOS TEMPOS

Com esta revista completamos a série de três com que desenvolvemos o


tema «A restauração do testemunho de Deus», um tema da maior importância
em nossos dias.
Desde os dias de Lutero –e até um pouco antes– Deus veio reagindo contra
a decadência e o cativeiro espiritual. Agora, na aurora deste século XXI, a obra
de restauração avançou bastante, e a luz acumulada nestes séculos nos permite
olhar com mais esperança para o futuro.
É obvio, no mundo não há esperança. A condição do mundo é cada vez
pior. Mas em Deus temos esperança. E Deus cumprirá o seu propósito com a
Sua igreja, no meio de toda incredulidade e cepticismo.
Nem todos estão conscientes desta grande obra presente de Deus. Isto não
é novidade, porque em todo tempo Deus atuou por detrás da ordem
estabelecida. Deus surpreendeu aos homens com o seu modo de agir tão
peculiar, como, por exemplo, quando fez nascer o Menino Jesus em Belém,
para depois dá-lo a conhecer como galileu.
Para conhecer os caminhos de Deus se requer discernimento. Os «sinais
dos tempos» não se podem conhecer quem meramente conhece que haverá
tempestade porque o céu nublado tem um vermelho sombrio (Mateus 16:3). É
necessário que tenha os olhos ungidos com o colírio de Deus.
Deus está produzindo uma mudança de paradigma, e poucos são os que se
estão precavendo disso. Amarrados às tradições e a uma história esplêndida,
muitos setores da cristandade são incapazes de observar a obra presente de
Deus. Mas, graças a Deus, há exceções. Como disse Paulo: «Até neste tempo
ficou um remanescente escolhido por graça» (Romanos 11:5).
Esperamos que os artigos desta revista sejam de ajuda para conhecer um
pouco mais quais são os caminhos de Deus, e qual é esse novo padrão que
Deus inaugurou nestes últimos dias.
2 INDICE ÁGUAS VIVAS

águas vivas
UMA REVISTA PARA TODO CRISTÃO / ANO 8 · Nº 44 · MARÇO - ABRIL 2007

TEMA DE PORTADA
Luminares no mundo (3)
Qual é o testemunho dos cristãos no mundo? Christian Chen ................................... 3
Da cruz à glória (3)
O caminhar do cristão exemplificado nos patriarcas do Antigo
Testamento. Hoseah Wu ......................................................................................... 16
Uma Casa para Deus (3)
A edificação do templo de Jerusalém como alegoria da edificação
da Igreja. Gino Iafrancesco ..................................................................................... 25
O fim de nós mesmos
Os cristãos precisam ter uma experiência espiritual mais profunda
a fim de serem úteis a Deus. Gonzalo Sepúlveda .................................................... 38

ESPIGANDO NA HISTÓRIA DA IGREJA


O Príncipe dos Pregadores (2ª Parte)
Charles H. Spurgeon, um homem que fez brilhar belamente
o evangelho na penumbra da Inglaterra do século XIX ............................................ 43

SEÇÕES FIXAS
Pequenas delícias da Mesa do Rei .......................................................................... 42
Coisas velhas e coisas novas ................................................................................. 54
Cartas dos nossos leitores ...................................................................................... 56
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 3

Qual é o testemunho dos cristãos no mundo?

3ª Parte

Christian Chen
Leitura: Efésios 5:25-27.

S
egundo esta Escritura, sabemos século a igreja começou a decair, e
que Cristo apresentará a igreja cinco das sete igrejas o Senhor lhes
a si mesmo; e de acordo com diz em Apocalipse: «arrepende-te». A
Paulo, será uma igreja gloriosa. Isto igreja estava envelhecendo, tinha ru-
significa que ela está na fase da lua gas e manchas. Por isso, das sete
cheia, sem mancha, nem ruga nem igrejas, algumas ainda estavam na
coisa semelhante; mas santa e condição de lua cheia, e outras na
irrepreensível. condição de lua nova. Ainda se cha-
Esta vez, pela graça do Senhor, mam igrejas, ainda são representadas
desejamos saber como o Espírito San- por um castiçal de ouro, e aquele cas-
to operou ao longo da história da tiçal estava nos lugares celestiais.
igreja; como ele fez esta obra de res- Mas a sua função como igreja já não
tauração logo que a igreja caiu no ca- está. A lua está ali, mas o mundo não
tiveiro da Babilônia. pode ver a sua luz.
Tiatira é um desses exemplos. Ela
Tiatira não só representa uma igreja local no
Na mensagem anterior dizíamos primeiro século. O Espírito Santo uti-
que nos últimos 33 anos do primeiro liza a condição de Tiatira para repre-
4 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

sentar o estado da igreja em um perí- Mas a maior tragédia é que as pesso-


odo de sua história: a Idade Escura. as já não sabem o que é a salvação. O
Quando a igreja ainda estava na que eles sabiam a respeito da salva-
Idade Escura, houve um famoso bis- ção? Eles tinham sido ensinados, não
po, o bispo de Wurzburg. Ele devia no que a Bíblia diz, mas sim no que a
conhecer muito bem a palavra da igreja diz.
vida; no entanto, ouçam o que dizia: O ensino era que havia dois tipos
«Dou graças ao céu porque nunca li de pecados: pecado mortal e pecado
as epístolas de Paulo, porque se as ti- venial. O pecado mortal era digno de
vesse lido me teria convertido em um morte, mas o pecado venial podia ser
herege como Martinho Lutero». O perdoado. O pecado mortal conduz
seu comentário representa a condição ao inferno, ao fogo eterno. Contradi-
da igreja naquela época. Se Paulo ti- zendo o ensino bíblico, ensinavam
vesse ouvido essa declaração, haveria que os bons iam para o céu, os maus
dito: «trabalhei em vão». para o inferno, e se alguém era meta-
Naquela época, a condição geral de bom e metade mau, iria para um
da igreja era de total escuridão. lugar chamado purgatório. Ali purifi-
Quando a igreja está na fase da lua caria a sua alma até que estivesse
nova, uma coisa é certa: perdeu-se a preparada para ver a Deus. Agora,
palavra da vida. quanto tempo teria que estar ali? De
Conhecemos a história de Tomás acordo com alguns cálculos feitos no
de Aquino, o grande teólogo. Um dia século XI, cada pessoa, em média, co-
viajou para Roma, e o papa convi- mete diariamente 30 pecados veniais.
dou-lhe para visitar a catedral, sali- Por cada pecado venial, deveria pas-
entando o ouro e a prata que havia sar um dia no purgatório. Se uma
no teto e nos muros. Tomás fez este pessoa tiver 60 anos de idade, sabem
comentário: «Você se lembra que o quantos anos teria que estar ali? Mil e
nosso primeiro papa, Pedro, disse: oitocentos anos!
Não tenho ouro nem prata?». O papa Mas, como poderia sair do purga-
respondeu: «O nosso primeiro papa tório? Era necessário alguém que ti-
disse isso, mas hoje já não dizemos vesse méritos: os santos, os papas, os
isso. «Olhe o teto, olhe os muros; mártires, que acumularam muitos
agora temos ouro e temos prata». To- méritos, para pô-los no ‘banco’ da
más de Aquino disse: «Sim, agora te- igreja, de maneira que esses méritos
mos ouro e prata, mas, podemos di- pudessem ser distribuídos entre o
zer: Em nome de Jesus de Nazaré, eu povo, e assim, alguns pecados pode-
te ordeno, levante-te e anda? Temos riam ser perdoados.
ouro e prata, mas não temos aquele Então, supondo que alguém deve-
poder». ria estar 1800 anos no purgatório, por
Quando falamos a respeito da meio desses méritos, pode-se reduzir
igreja na Idade Escura, podemos esse tempo somente a uns cinco anos.
mencionar milhares de coisas que es- Então, como alguém iria cuidar da
tão em oposição à palavra de Deus. sua salvação? Há vários métodos: re-
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 5

zar o rosário, assistir a missas, pagar Um dia, houve uma tempestade


uma peregrinação a Roma, e outras que parecia cair sobre a sua cabeça, e
coisas deste estilo. ele teve tanto medo que se escondeu
Isso é a palavra da vida? De onde no campo. Lutero era muito supersti-
surgiu este tipo de conceito? Essa cioso, e dependia dos méritos de San-
pessoa não é budista, não pertence à ta Ana. Então, disse: «Me ajude, San-
religião da Babilônia. Eles são chama- ta Ana, e te prometo converter-me em
dos ‘cristãos’. Eles tinham a Bíblia, um monge». Depois desse incidente,
mas não tinham acesso a ela. Nin- ele cumpriu a sua promessa.
guém tinha certeza da sua salvação. Como monge mortificava a si
Tinham que trabalhar, tinham que mesmo, pensando que ia acumular
derramar muitas lágrimas para ga- algum tipo de mérito para alcançar a
nhar a sua salvação. sua salvação. Por trás daquelas por-
Na época de Martinho Lutero, a tas, ele já deveria ser um santo. No
igreja tinha caído em tal condição, entanto, para a sua decepção, ele des-
que eles começaram a vender ‘indul- cobriu que ainda era um pecador, e
gências’. Se alguém comprava uma se afligia muito por isso.
indulgência, os seus pecados podiam Um dia, Lutero decidiu visitar
ser perdoados. Existe uma história Roma. Esta visita a Roma era uma
real sobre isto. Uma pessoa comprou outra forma em que alguns pecados
a indulgência, com a qual os seus pe- podiam ser perdoados. Nessa época
cados eram perdoados. Com o docu- havia ali uma escada famosa, chama-
mento em suas mãos, ele foi e roubou da a escada de Pilatos. Segundo a tra-
a caixa onde se guardava o dinheiro dição, a escada tinha estado antes em
das indulgências, pois os seus peca- Jerusalém, e supunha-se que Jesus ti-
dos já estavam perdoados! nha sido julgado nesse lugar, e que o
A igreja caiu em sua condição sangue de Jesus ainda estava nela. Se
mais baixa. Ao estudar a história da hoje alguém visitar Roma, ela ainda
igreja nessa época, cada página nos está lá, e se vê muitos assim chama-
causa vergonha. Agora, de acordo dos cristãos que quando sobem por
com os capítulos 2 e 3 de Apocalipse, ela, choram por seus pecados, pen-
isto estava representado pela igreja sando que desta forma serão perdoa-
em Tiatira. dos.
Na metade de sua ascensão pela
Lutero escada – e a ascensão era feita de joe-
Nesse tempo, Martinho Lutero lhos: muitas lágrimas, muito suor –,
era professor de teologia na universi- Lutero ouviu uma voz do céu: «Mas o
dade. Mas antes disso, sua consciên- justo por sua fé viverá» (Hab. 2:4). A
cia o perturbava. Sabia que ele, por luz celestial brilhou sobre Lutero!
sua própria condição, estava sempre Graças a Deus, por meio de
debaixo da ira de Deus, e queria fa- Martinho Lutero temos a Bíblia aber-
zer algo para aquietar a sua consciên- ta. A Bíblia já não estava mais agri-
cia. lhoada; ele a traduziu para o alemão.
6 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

Ele disse: «Quando traduzo a Moisés, meio do sangue de nosso Senhor Je-
quero dar ao povo a impressão de sus, e mais que isso, por meio de João
que Moisés é um alemão, e não um Calvino sabemos que tudo é por gra-
judeu». Agora a Bíblia está muito ça. Nós somos totalmente incapazes,
próxima. Agora temos a fonte da não temos nenhuma esperança; da
vida, podemos saber que estamos cabeça até os pés, somos como os le-
justificados pela fé. Agora somos fi- prosos. Tudo é por meio da graça de
lhos de Deus e começamos a crescer Deus.
até ser suficientemente maduros para
nos encarregar dos negócios de nosso A justificação e o sacerdócio
Pai; somos capazes de cumprir a von- Por meio de Martinho Lutero, não
tade de Deus. Agora como podemos só vimos a justificação por fé. Tam-
fazer isso? bém fez outra grande descoberta na
Se alguém permanecer como um palavra de Deus: o sacerdócio de to-
bebê, como pode fazer a vontade de dos os crentes.
Deus? Precisamos crescer, e de novo, O que significa isso? Que, entre
é necessária a palavra da vida. Gra- Deus e o homem não há nenhuma
ças a Deus, por meio de Lutero, de classe intermediaria, como no Antigo
Calvino, de Zwinglio, pessoas mara- Testamento. No judaísmo, havia um
vilhosas, o Senhor fez resplandecer a sacerdote que levava as ofertas por
sua luz. outros ao altar. Os sacerdotes se con-
Nesta época ainda não é a lua verteram em uma classe
cheia; mas ao menos temos um quar- intermediaria entre Deus e o homem.
to da lua. Em seguida, Deus vai fazer Mas, graças a Deus, quando voltamos
uma obra maior. À medida que Deus para a Bíblia, é evidente que todos os
vai trabalhando na história, depois que são comprados pelo precioso
de duzentos anos, já não só teremos sangue de nosso Senhor Jesus são os
um quarto, mas sim a metade da lua. sacerdotes que Deus tem hoje.
Vocês podem ver irmãos? É assim Todos nós somos sacerdotes, e su-
que Deus começou a sua obra de res- põe-se que todos sirvam a Deus. Por
tauração. seu sangue, nós estamos capacitados
Quando é lua nova, não se vê para estar em sua presença. O que
nada; toda a palavra da vida está queremos dizer com a justificação
perdida, o paraíso está perdido. Mas, pela fé? Que podemos estar na pre-
graças a Deus, por meio da maravi- sença de Deus sem sermos consumi-
lhosa obra de Lutero, Calvino e ou- dos. Se você vê a justificação pela fé,
tros, os nossos olhos se abriram. Hoje automaticamente saberá quem nós
temos uma Bíblia aberta. É maravi- somos. Poderá verificá-lo com a Bí-
lhoso! Uma vez mais, podemos che- blia. Em Apocalipse e em muitas ou-
gar à fonte da vida. Graças a Deus tras passagens descobriremos que to-
por isso. dos nós somos sacerdotes.
E mais ainda, começamos a ver Se estudarmos a história da igre-
que somos justificados pela fé, por ja, no seu início, todos sabiam que to-
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 7

reformadores, e pensamos que temos


Lutero conhecia a palavra que restaurar a ordem na igreja. Você
da vida. Mas, devido a in- pode restaurar a ordem da igreja, por-
que isso é mais fácil, é uma coisa téc-
terferências externas, ele nica. Se for um bom organizador,
não pôde fazer tudo o pode pôr tudo em ordem.
que lhe tinha sido confia- O problema é este: Se tudo o que
se preocupa é a restauração da ordem
do. Então teve um dese- da igreja, então tudo o que se precisa
jo: «Um dia haverá uma ser é um bom organizador. Quando a
igreja dentro da igreja, palavra da vida está sendo recupera-
da, o problema da ordem na igreja já
uma igreja invisível den- estará resolvido. Não é pela doutrina.
tro da que é visível». Porque se estivermos retendo à pala-
vra da vida, se ela for plena, então o
dos eram sacerdotes. No norte da testemunho também será pleno. E
África, houve um pai da igreja muito isso é o que ocorreu com Martinho
famoso: Tertuliano. Ele disse: «Nós, Lutero e muitos outros.
os laicos, não somos também sacer-
dotes?». Até no tempo de Tertuliano! Uma igreja dentro da igreja
Vocês se dão conta? Outro pai da Mas Lutero encontrou alguns pro-
igreja na Alexandria, chamado blemas, e ele tinha uma grande dor
Orígenes, disse: «Ou ignorais que interior por isso. Ele sabia que a igre-
para vocês também, isto é, a toda a ja só abrangia os cristãos renascidos.
igreja de Deus, ao povo crente, foi No entanto, ele não tinha saída, por-
dado o sacerdócio?». que a Reforma tinha sido ajudada
A justificação pela fé e o sacerdó- pelo poder político. Antes, todos os
cio de todos os crentes, são coisas que nascidos no império romano, perten-
vão de mãos dadas. Se estes dois pi- ciam à igreja. Agora, todos os que
lares são estabelecidos, o problema nasciam na Alemanha, eram
estará resolvido. Na estrutura da luteranos.
igreja, uma classe intermediária, os Lutero conhecia a palavra da
sacerdotes, eram responsáveis por vida. Mas, devido a interferências ex-
dois ‘sacramentos’: a celebração da ternas, ele não pôde fazer tudo o que
missa, e o batismo. Então, quem ia lhe tinha sido confiado. Então teve
celebrar a missa e os batismos? Só um desejo: «Um dia haverá uma igre-
eles podiam fazê-lo, assim eram pes- ja dentro da igreja, uma igreja invisí-
soas muito importantes. Por conse- vel dentro da que é visível». A assim
guinte, toda esta estrutura entraria chamada igreja visível incluía os in-
em colapso se fosse pregada a justifi- crédulos, mas a invisível só os cris-
cação pela fé ou o sacerdócio de to- tãos nascidos de novo.
dos os crentes. Essa foi uma frase famosa de
Nós, algumas vezes, queremos ser Martinho Lutero. «Uma igreja dentro
8 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

da igreja». Isto nos fala de que ele viu


Senhor Jesus, não era em Jerusalém
claramente o que tinha sido revelado nem naquele monte da Samaria. Je-
na Bíblia; no entanto, não pôde chegar sus disse: «Nós adoramos o que conhece-
a este ideal. Mas mais tarde vemos mos». Significa que aquela era uma
que Deus sim pôde. Deus sempre vai adoração falsa, correspondia à adora-
obter aquilo que tem proposto. Mas ao ção dos pagãos.
menos aqui foram restaurados dois Claro, os judeus conheciam a ado-
pilares – a justificação pela fé e o sa-
ração, sabiam quem era Deus. Mas en-
cerdócio de todos os crentes. tão, por que Jesus disse: «...a hora vem
Outra vez lhes digo: ver algo, é quando nem neste monte nem em Jerusa-
uma coisa; fazer a vontade de Deus é lém adorarão...»? O que significa Jeru-
outra coisa. A visão que recebemos é salém? O templo de Deus estava ali;
maior que a nossa realidade. Assim se você deseja adorar, vá a Jerusalém.
foi com Martinho Lutero, e assim é Ali tinha todo aquele sistema judaico
também com cada um de nós. Não que representava a adoração. Quando
me diga que, porque vê tanto, já está eles falavam de adoração, era a adora-
na realidade do que vê. Não. Isso é o ção segundo o Antigo Testamento.
que ocorreu no século XVI: vemos a Você não se atreveria a se aproximar e
justificação pela fé; esta é ao menos anecessitava de um sacerdote que se
primeira fase da restauração de apresentasse a Deus em seu lugar. No
Deus. Não vemos ainda a lua cheia, entanto, se for a justificação pela fé,
mas ao menos vemos um quarto. nós, pelo precioso sangue de nosso Se-
Graças a Deus! É um começo maravi- nhor Jesus podemos nos aproximar
lhoso. Se não tivéssemos aquilo, hoje até a presença de Deus. No Lugar
ainda estaríamos em escuridão. Santíssimo, podemos contemplar a
sua glória com o rosto descoberto.
A adoração da igreja O Senhor disse: «A hora vem...».
No entanto, quando falamos da Depois que Jesus morreu por nós na
justificação pela fé e o sacerdócio de cruz, ele abriu um caminho novo e
todos os crentes, normalmente aplica- vivo para você e para mim. Em qual-
mos isso a nossa vida individual. quer momento, nós podemos chegar à
Mas estes dois princípios também se sua presença. Jesus disse que o Pai
aplicam à vida da igreja. está procurando verdadeiros
Quando falamos da justificação adoradores. No grego, a palavra ‘ver-
pela fé, significa que cada um de nós, dadeiros’ não é um contraste entre
pela graça de Deus, pelo sangue de verdadeiro e falso. Há duas palavras
nosso Senhor Jesus, está capacitado que se podem traduzir como ‘verda-
para estar na presença de Deus, e isto deiro’. Uma se refere ao verdadeiro
nos fala da adoração da igreja. Quan- em contraste com o falso. Mas nesta
do nos referimos à vida da igreja, o passagem, a palavra ‘verdadeiro’ é
que há por trás do princípio da justi- oposta a sombra. Isto significa que no
ficação pela fé é a nossa adoração. Antigo Testamento, aquela adoração
Onde vamos adorar? Segundo nosso não era nada mais que sombra; no en-
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 9

tanto, agora, no Novo Testamento, nós o pioneiro, ele pôs o alicerce, embora
estamos na presença de Deus, e essa é não tenha estabelecido tudo em sua
a verdadeira adoração. A Bíblia diz: plenitude. Sua visão foi maior que a
«...adorarão em espírito e em verdade». sua prática.
Paulo diz: «Vós sois o templo de Mas graças a Deus que levantou
Deus». Falando exteriormente, nós os quaquers. Embora eles tenham ido
temos um corpo, assim como o átrio a alguns extremos, mesmo assim, te-
exterior; nossa alma é comparada mos que recordar este ponto muito
com o Lugar Santo, e o nosso espírito importante que Deus nos quer ensi-
é o Lugar Santíssimo. Assim, quando nar através deles. Quando se muda-
adoramos a Deus no espírito, signifi- ram para Boston, os puritanos os per-
ca que já estamos no Lugar seguiram, cortaram-lhes as orelhas,
Santíssimo. O que é isso? A justifica- arrancaram-lhes os olhos. No entan-
ção pela fé e o sacerdócio de todos os to, seguiram avançando. Graças a
crentes! Essa é a adoração segundo o Deus, hoje em dia nós vemos o que
Novo Testamento. eles viram nos séculos XVI e XVII.
A adoração segundo o Antigo Tes-
tamento é caracterizada pelo judaís- Zinzendorf e a santificação pela fé
mo; a adoração do Novo Testamento Quando chegamos ao século
caracteriza a igreja. Assim, a justifica- XVIII mais a primeira metade do sé-
ção pela fé, por uma parte, aplica-se culo XIX, podemos mencionar três
aos indivíduos, e por outro lado, à nomes: Zinzendorf, John Wesley e
igreja em geral. John Nelson Darby. Também pode-
Esqueci-me de dizer algo que mos adicionar a George Fox. No se-
ocorreu no século XVII. Normalmente, gundo período de que estamos falan-
as pessoas necessitavam de uma cate- do, vemos que Deus levantou outro
dral que lhes ajudassem a entrar na grupo de pessoas, e eles desejavam
presença de Deus. Mas, graças a seguir adiante.
Deus, no século XVII, Deus levantou Quem era Zinzendorf? Era um
um homem chamado George Fox e nobre alemão, como aquele jovem
com ele outros irmãos chamados os rico da Bíblia. Aquele jovem tinha
‘quaquers’. Eles viram algo, viram muitas riquezas, mas quando Jesus
uma luz interior. O Senhor disse: «Eu lhe disse «Siga-me», ele disse «Não».
sou a luz do mundo; quem me segue, não No entanto, aqui temos outro jovem
andará em trevas, mas terá a luz da vida». rico, e este lhe disse «Sim» ao seu
Agora, a luz da vida é uma luz in- Mestre. O Senhor realmente o usou
terior, e representa a vida do Espírito para fazer uma obra de restauração,
Santo. O Espírito Santo habita em para levar a igreja desde o quarto da
nosso espírito. Então, quando adora- lua até a lua media. Damos graças a
mos a Deus, não é necessário um Deus por ele.
grande edifício nem um programa de Um dos teólogos liberais mais fa-
adoração. O Senhor já deu luz para mosos, chamado Karl Barth (1886-
aperfeiçoar tudo. Martinho Lutero foi 1968), fez um importante comentário
10 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

sobre Zinzendorf. Este comentário é blia, oravam juntos e tinham uma co-
muito interessante, porque não per- munhão maravilhosa com Cristo.
tence ao círculo evangélico. Ele disse: Eles absorviam a energia e a graça
«Provavelmente, Zinzendorf é o úni- daquela comunhão, e tinham a força
co cristocêntrico genuíno da idade para viver uma vida santa, uma vida
moderna». Zinzendorf tinha um de separação do mundo. Por si mes-
lema: «Tenho uma paixão, e é Jesus, mos, eles nunca poderiam viver uma
só Jesus». Ao estudar a sua história, vida santa. No entanto, porque esta-
sem dúvida, ele era um homem vam em uma nova posição na presen-
centrado em Cristo Jesus. ça de Deus, eram fortalecidos, e desta
Outro escritor fez um comentário comunhão recebiam poder para viver
muito interessante: «Zinzendorf foi uma vida maravilhosa e santa.
Martinho Lutero voltado para a Zinzendorf foi Lutero voltado
vida». Recordem que Lutero tinha o para a vida; isto é verdade quanto ao
sonho de uma igreja verdadeira den- pietismo. Houve um grande
tro da igreja visível. Quem tornou reavivamento na Igreja Luterana, e
possível esse sonho? Nos tempos de até mais, aquela maravilhosa comu-
Zinzendorf, houve um grande nhão não só estava integrada por
reavivamento na Alemanha, e as pes- luteranos, mas também por outras se-
soas envolvidas nisso foram chama- ções da igreja. Eles nunca disseram
dos ‘pietistas’. Reuniam-se em uma «Nós somos luteranos, e vocês não o
casa, estudavam a Bíblia, oravam jun- são», mas sim «Somos somente ir-
tos e tinham uma comunhão maravi- mãos». Havia uma maravilhosa co-
lhosa. Os pietistas nunca tentaram munhão onde se manifestava o amor
formar uma igreja distinta da Igreja do corpo de Cristo; não é de se sur-
Luterana. Hoje se fala sobre as igrejas preender que eles tivessem vida.
por células. Quais foram os primeiros Agora não só temos a justificação
a praticar isto da igreja por células? pela fé, mas também a santificação
Os pietistas. pela fé.
Quando as pessoas iam à igreja,
sentavam-se, ouviam a mensagem, Os irmãos Wesley
cantavam um hino, oravam, e volta- Um dia, John Wesley viajou para
vam para casa. Tudo era passivo. Só os Estados Unidos como missionário,
um ou dois membros eram ativos. A e houve uma tempestade no mar. Ele
igreja era o corpo de Cristo? Em teo- estava com muito temor, mas havia
ria, sim. Mas, na realidade, onde es- vinte e seis irmãos e irmãs alemães na
tava o corpo? Eles conheciam a teoria cabine inferior do navio. Eram irmãos
da justificação pela fé, mas não atua- morávios, que se reuniam com
vam de acordo com essa verdade. Zinzendorf. Wesley descobriu que,
No entanto, os pietistas eram dis- embora ele fosse um grande homem
tintos, e por que realmente criam na de igreja, aquelas pessoas tinham algo
justificação pela fé, eles chegavam à que ele não possuía. Aquilo o impres-
presença do Senhor, estudavam a Bí- sionou tanto que, na sua volta a Lon-
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 11

dres, ele encontrou salvação no salão te do mundo, acontece o que vemos


de reunião dos irmãos morávios. em 1ª Coríntios. Alguns irmãos dizi-
Quando John e Charles Wesley am: «Eu sou de Apolo», outros: «Eu
foram salvos, o Senhor os usou para sou de Paulo», e outros: «Eu sou de
acender o fogo do avivamento na In- Cefas». O que disse Paulo a respeito
glaterra. A influência deste movimen- disso? «São carnais». E não só isso.
to, que foi chamado ‘Movimento de «Não só são carnais, mas também esse
santidade’, foi muito grande. Quando é o modelo deste mundo: divisão após
viram a luz, desejaram viver uma divisão. Esse é o modelo do mundo.
vida santa, e por causa do seu teste- No mundo grego, alguns eram parti-
munho, toda a Inglaterra mudou. Na dários de Platão, outros de Aristóteles.
Inglaterra aconteceu de forma dife- Estavam divididos. No entanto, Paulo
rente do que aconteceu com a França. lhes disse: «Como é possível que o
Lá houve uma revolução sangrenta. mundo tenha entrado em vós?».
Por que não houve algo similar na In-
glaterra? Porque Deus usou a John e John Darby
Charles Wesley para trazer aquele O que é a igreja A igreja é
grande avivamento. celestial, portanto, deve estar separa-
Então, o testemunho da igreja foi da do mundo. Se estivermos na car-
muito brilhante, quase como os três ne, se formos mundanos, a conseqü-
quartos da lua. Toda a Inglaterra foi ência é divisão após divisão. Na épo-
comovida. E não só isso. A influência ca de Darby, o corpo de Cristo estava
do movimento de santidade foi tão dividido. Graças a Deus por Darby.
grande, que dali surgiu o movimento Por uma parte, ele viu que a igreja é
pentecostal e o Exército da Salvação. celestial, e também viu que a igreja é
Isso é a santificação pela fé. Graças a santa, e que não tem nada a ver com
Deus, ainda que houvesse alguns ex- o mal. Separação do mundo e separa-
cessos com os quais não concorda- ção do mal. Então se pode preservar
mos, de alguma forma vemos que é a igreja santa e unida.
evidente que nos séculos XVIII e XIX, Dividir a igreja é dividir o corpo
o Senhor fez uma obra maravilhosa. de Cristo. Isso é pecado, é um pecado
A santificação pela fé se aplica aos corporativo. Se alguém beber vinho,
indivíduos. No entanto, se as pessoas fere o seu corpo, e isso é pecado. No
perseverarem na palavra da vida, os entanto, se alguém dividir o corpo de
problemas da igreja também serão re- Cristo, é pecado corporativo. Como
solvidos. Seguir a santidade significa podemos ser livres do sectarismo? O
procurar ser liberto do poder do pe- único caminho é nos separar do mal e
cado. Então, não permanece no peca- reconhecer que estar divididos é um
do, e pode viver uma vida vitoriosa. pecado. Se vivermos uma vida santa,
A vida santa é uma vida de separa- temos que permitir que a obra da
ção. Esta é a santificação pela fé. cruz trate com o nosso pecado. Esse é
O mesmo se aplica à igreja. Quan- o caminho para a unidade, para man-
do ela está secularizada e se torna par- ter a igreja santa.
12 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

No tempo de John Nelson Darby, Glorificação pela fé


ele aplicou o mesmo princípio à vida Naqueles cento e cinqüenta anos,
da igreja, e encontrou o caminho pelo temos a santificação pela fé. Final-
qual a igreja podia reunir-se com mente, da segunda metade do século
simplicidade, em unidade e também XIX até o tempo presente, descobri-
em santidade. No entanto, outra vez mos que o Espírito Santo avançou um
houve extremos ali, porque eles passo a mais. Da fase de um quarto,
enfatizaram o princípio da separação na metade da lua, agora ele quer que
mais que o princípio de união. cheguemos a três quartos da lua. Foi
Nós somos o corpo de Cristo; to- restaurada a justificação pela fé, e em
dos nós somos de Cristo. Esse é o seguida a santificação pela fé.
princípio de unidade. Ninguém pode No entanto, o Espírito Santo quer
nos separar. Nós devemos aceitar avançar em sua obra, e esta é a glori-
àqueles a quem Cristo já aceitou. No ficação pela fé. Isso significa que o
entanto, eles insistiram no princípio Senhor retornará muito em breve.
da separação mais que no princípio Então, nós estaremos maduros, por-
de união. Quando viram que alguns que muitos filhos serão manifestados.
estavam nas denominações, disse- Quando eles brilham, brilham como
ram-lhes: «Vocês estão associados filhos que estão sendo transformados
com o mal; portanto, não temos nada na imagem de Cristo. Esta filiação e o
a ver com vocês, não temos comu- reinado significam ser transformados
nhão com vocês». Eles queriam man- à imagem de Cristo. E vemos que o
ter a igreja pura, e assim nasceu o Espírito Santo realmente restaurou
exclusivismo. Deixaram fora àqueles essas verdades nos últimos duzentos
a quem Jesus Cristo tinha recebido. e cinqüenta anos.
Isso é uma tragédia.
Suponhamos que minha família Govett e a «verdade do reino»
vive em uma condição de muita po- Agora, quando falamos a respeito
breza, e suponhamos que minha filha disto, devemos mencionar três no-
é muito doce, e que há um parasita mes. Antes disto, devemos mencionar
no cabelo de minha filha. Minha es- a Robert Govett (1813-1901).O seu
posa ama a minha filha. Isso não sig- ministério foi muito reconhecido na
nifica que ela ama a esse inseto; ela segunda metade do século XIX.
aborrece aquele inseto e vai tratar Quando chegamos à época de
com ele, embora ame a sua filha. Darby, não só vimos a justificação e a
Deus aborrece o pecado, no entanto, santificação pela fé, mas sim a pala-
ele ama o pecador. Então, irmãos, se vra da verdade tinha chegado a tal
insistirmos no princípio de separa- ponto, que estava quase totalmente
ção, poderemos manter a igreja pura, plena. No entanto, havia dois siste-
mas a igreja se fará cada vez menor. mas teológicos: a Teologia Reformada
A igreja tem que abraçar a todos os e a Teologia Dispensacional. E foi
cristãos que nasceram de novo. Darby quem realmente nos deu en-
tendimento. É evidente que a Teolo-
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 13

gia Reformada veio de João Calvino. disse: «Uma das obras mais profun-
As duas estão apoiadas na palavra de das sobre Apocalipse que conheço é o
Deus; mas, de alguma maneira, elas livro de Robert Govett. Minha pró-
eram irreconciliáveis. Todos criam na pria opinião é que ele traz para a sua
Bíblia, a palavra inspirada pelo pró- interpretação um conhecimento mais
prio Deus. Agora, se isso for verdade, completo das Escrituras em relação a
essas teologias deveriam coincidir. Apocalipse do que qualquer outro es-
Como eles não podem ver [...]? O que critor de sua geração».
significa isso? Por que ambas não po- Quando o irmão Watchman Nee
dem se reconciliar uma com a outra? fez uma exposição sobre Apocalipse
Nós cremos em toda a Bíblia, não se- na cidade de Shangai, o irmão
guimos um sistema de ensino. Stephen Kaung queria editar essa
Então, apareceu Robert Govett. O mensagem e publicá-lo em forma de
Senhor realmente o usou. Agora, de livro. Mas o irmão Nee disse: «Não é
alguma forma, ao abrir a palavra de necessário fazer isso; simplesmente
Deus, vemos que na Bíblia não só há comprem o livro de Robert Govett so-
espaço para a Teologia Reformada, bre Apocalipse».
mas também para a Teologia Outro comentário a respeito de
Dispensacional. E se pusermos todas Govett: «Poucos homens poderiam
as coisas da Bíblia juntas, veremos comparar-se com ele em originalida-
uma gloriosa verdade chamada ‘ver- de de pensamento. Ele também pos-
dade do reino’. Lembrem, se real- suía uma mente muito ordenada e
mente conhecermos o reino, tudo o disciplinada, e podia traçar um tema
que era contraditório será harmônico. através da Escritura com uma lógica
Sem dúvida nenhuma, Govett é sem enganos» (Dr. Cyril J. Barber).
um dos grandes servos de Deus, le- Finalmente, tenho que mencionar
vantado pelo próprio Deus. Spurgeon o que disse um professor da Univer-
fez o seguinte comentário sobre ele: sidade de Cambridge (R. E. D. Clark,
«O senhor Govett escreveu cem anos The New International Dictionary of
antes de seu próprio tempo, e chega- the Christian Church): «Seus escritos
rá o dia em que as suas obras serão são extensos, de qualidade variada,
entesouradas como ouro refinado». A freqüentemente marcada por um alto
profecia de Spurgeon se cumpriu. nível de erudição, um enfoque
Hoje, conseguir o livro de Govett so- magnificamente lógico, uma origina-
bre Apocalipse é quase impossível. lidade extraordinária e uma completa
Nos Estados Unidos há somente cem fidelidade à revelação bíblica». E ago-
cópias, e cada uma vale cem dólares. ra, ouçam cuidadosamente o seu ve-
São dois volumes, cada um deles redicto final: «Longe, Govett é o me-
mais volumoso que a Bíblia. lhor teólogo». Em outras palavras,
O livro que Govett escreveu sobre Govett foi o melhor teólogo sistemáti-
Apocalipse é provavelmente o me- co. Graças a Deus por este vaso.
lhor. O Dr. Wilbur Smith, professor Por obra do Espírito Santo, este ir-
da Escola Fuller de Teologia (USA), mão pôde retornar à palavra de Deus.
14 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

Por uma parte, ele abraçou a Teologia pessoas que naquela época ainda es-
Reformada, e por outra, aceitou a Teo- tavam com vida. Uma é a irmã
logia Dispensacionalista. No entanto, Margaret Barber. Ele disse: «Se ela
na Bíblia, não há contradição. Como é ainda estivesse com vida, então a
possível isso? Uma verdade gloriosa igreja não seria a mesmo hoje». E em
saiu desse estudo. Por meio de Govett, seguida ele disse: «Quando viajei
a igreja descobriu uma verdade que para a Europa, encontrei alguém que
estava perdida. Na fase da lua cheia, realmente me fez recordar à irmã
no tempo de Paulo, essa verdade esta- Barber, e ele é T. Austin-Sparks».
va ali, e logo se perdeu. Mas é muito T. Austin-Sparks foi considerado
importante, porque este reino tem a como um profeta do século XX. Não
ver com nossa maturidade, nossa só A. W. Tozer é considerado um
filiação e nossa realeza. Graças a profeta, mas também T. Austin-
Deus, que usou o irmão Govett para Sparks. Ao estudar os seus escritos,
nos ajudar a entender a glorificação descobrimos algo muito fantástico.
pela fé. Quando estudamos teologia siste-
mática vamos descobrir que é algo
Convenção de Keswick lógico, sistemático; no entanto é por
Na última parte do século XIX, na tópicos. Temos a Teologia propria-
Inglaterra, o Senhor usou uma im- mente dita, a respeito do próprio
portante Convenção ou Conferência, Deus; a Cristologia, a respeito de
a Conferência de Keswick. Aqueles Cristo; a Pneumatologia, sobre o Es-
irmãos e irmãs tinham um encargo a pírito Santo. Assim é a teologia sis-
respeito de uma vida mais profunda, temática.
eles desejavam crescer até a maturi- Quando Deus levantou a T.
dade. Não só viver uma vida santa, Austin-Sparks, ele conhecia muito
mas também ser transformados à bem a teologia sistemática. No entan-
imagem de Cristo. to, detrás de todos esses variados tó-
picos, há algo que traz clareza, capaz
T. Austin-Sparks e Watchman Nee de conectar e de unificá-los todos em
E mais que isso, no começo do sé- torno de um pensamento central.
culo XX, na Inglaterra, o Senhor le- Esse é um dos seus maravilhosos
vantou outro servo de Deus, descobrimentos. Nenhum outro teó-
Theodore Austin-Sparks, considera- logo sistemático pôde fazer isso. Seu
do provavelmente o homem mais es- descobrimento é a vontade eterna de
piritual e mais centrado em Cristo Deus. Por causa disso, nós não só co-
nestes vinte séculos. Qualquer que nhecemos a vontade de Deus em plu-
conhece os seus escritos não tem dú- ral, mas também a vontade de Deus
vidas a respeito disso. O irmão em singular, de tal maneira que já
Watchman Nee o considerava o seu não vemos a Bíblia do ponto de vista
mentor espiritual. Ele fez um comen- terrestre, mas sim do ponto de vista
tário aos seus co-obreiros, dizendo celestial.
que tinha sido influenciado por duas A revelação de Austin-Sparks é
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 15

muito grande. Às vezes, pode ser A restauração do testemunho


muito abstrata. Quem a trouxe para Então, nos últimos 150 anos, atra-
um nível mais singelo? O ministério vés dos ministérios de Robert Govett,
de Watchman Nee, que falou a res- T. Austin-Sparks e Watchman Nee, e
peito da igreja como o corpo de as Conferências de Keswick, nossos
Cristo. Sem dúvida, Austin-Sparks olhos foram abertos. Agora começa-
teve a visão sobre a epístola aos mos a ver não só a justificação pela
Efésios – a igreja é o corpo de Cris- fé, a santificação pela fé, mas também
to, a plenitude. É claro, essa é a a glorificação pela fé. Vamos sendo
igreja universal. No entanto, a ênfa- transformados à imagem de Cristo.
se de Watchman Nee está no capítu- Deus está trabalhando até a lua
lo 12 de 1ª Corintios: «Vós sois o cheia. Não digo que já tenhamos che-
corpo de Cristo». «Vocês, que estão gado àquela fase, mas vimos como o
reunidos em Corinto, são o corpo de Senhor trabalhou nos últimos seiscen-
Cristo». tos anos. Nos séculos XVI e XVII, a jus-
Graças a Deus, no século XX, o tificação pela fé. Em seguida, nos sécu-
Senhor levantou alguém como los XVIII e XIX, a santificação pela fé. E
Austin-Sparks, e também a alguém nos séculos XIX, XX e XXI, a glorifica-
como Watchman Nee. Sua lógica, sua ção pela fé. Quando reunimos tudo
mente, é quase igual ao pensamento isto, vemos que a palavra da vida está
de Robert Govett. No entanto, por sendo maravilhosamente restaurada.
outro lado, sua visão tão profunda foi Agora, só o Espírito Santo pode
influenciada por Austin-Sparks. nos conduzir para a realidade, pode
D. L. Moody disse: «Se você quer nos ajudar a crescer e fazê-lo real em
dar um queque (pequeno bolo) aos nossas vidas. Desta forma, antes da
meninos, não o ponha tão alto que volta do Senhor, ele se apresentará a
eles não possam alcançá-lo; nem o si mesmo uma igreja gloriosa, uma
ponha tão baixo que seja muito fácil igreja que não tem glória em si mes-
tomá-lo. Tem que estar na altura exa- mo. Mas quando ela contempla o seu
ta». Watchman Nee tinha esse dom. Mestre, absorvendo a sua glória, en-
Ele era capaz de pôr a palavra de tão é transformada na sua semelhan-
Deus em tal ponto que se tornava ça, de gloria em glória.
muito real, muito prática. Pela graça de Deus, nós resplan-
Vocês conhecem o seu livro «A deceremos como a lua no universo,
Vida Cristã Normal». Do ponto de retendo a palavra da vida. E Paulo se
vista teológico, este livro cobre a teo- regozijará no dia de Cristo, de não ter
ria da salvação. No entanto, por que corrido em vão ou trabalhado em
este livro se transformou em um clás- vão. Esta é a restauração do testemu-
sico? Porque ele expôs de uma forma nho do Senhor. Que o Senhor fale aos
tão fácil de entender que era como se nossos corações.
falasse com os camponeses e os alfai- Versão editada de uma mensagem ministrada
na 2ª Conferência Internacional, setembro 2005.
ates na China.
***
16 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

O caminhar do cristão exemplificado nos patriarcas do Antigo


Testamento.

3ª Parte

Hoseah Wu

P
ara que Deus possa restaurar a completo em nosso meio. Lembre-se
criação para si mesmo, necessi- que não é só para nós, o povo de
ta primeiro nos restaurar - a Deus, mas sim deverá incluir toda a
igreja. Quando a igreja estiver plena- criação. Temos uma tremenda res-
mente restaurada, então Deus restau- ponsabilidade no cumprimento da
rará toda a criação para si mesmo. nossa chamada.
Nós somos o vaso principal, a figura E graças a Deus, nossa fé para
chave para a restauração. Aqueles essa restauração tem um fundamento
que estavam na arca, são os que en- sólido, porque aquilo que Deus dese-
contramos em Efésios 1:10. Na pleni- ja obter para si mesmo, já o tem em
tude do cumprimento dos tempos, seu Filho. O ministério do Espírito
Deus reunirá todas as coisas em Cris- Santo é reproduzir a Cristo em nós,
to Jesus, tanto as que estão nos céus porque o testemunho não somos nós,
como as que estão na terra. Então, na mas sim Cristo em nós. Quão neces-
arca, tudo foi restaurado para Deus. sário é que permitamos que o Espíri-
Quando nós tentamos cumprir o to Santo faça uma obra real tanto na
testemunho de Deus na terra, esse forma individual, como coletivamen-
testemunho não tem que ser somente te – como igreja.
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 17

Abraão Deus pelo seu povo, há amor pelo


Vamos falar mais um pouco sobre testemunho de Deus e pelo povo de
Abraão. Na vida de Abraão, por meio Deus. E o amor dos que entregaram
da sua fé e obediência, e dos cuida- as suas vidas por esta Conferência,
dos de Deus com ele, o objetivo de operou muitas vezes em forma invisí-
Deus era que Abraão pudesse vel. As pessoas não o vêem; no entan-
testificar como é Deus o Pai. Quando to, Deus viu. Porque quando Abraão
vemos a Abraão, vemos o amor de ofereceu Isaque somente dois sabiam.
Deus, porque ele, no final de sua Então, damos graças ao Senhor pelo
vida, quando ofereceu a Isaque, ofe- amor e pelas vidas que foram entre-
receu tudo de volta a Deus. Não re- gues.
servou nada para si mesmo, entregou
tudo no altar; reconheceu que o Deus Isaque
Todo-Poderoso é quem merece tudo, Isaque nos fala da vida de ressur-
e esteve disposto a dar tudo para reição, pois ele foi posto no altar, e de
Deus. maneira figurada esteve morto. No
A verdadeira adoração consiste entanto, Deus o ressuscitou da morte.
em devolver a Deus tudo o que ele A vida que nos foi dada é a vida da
nos deu. Em Romanos 8 há uns ressurreição de Cristo. Quando nós
versículos muito lindos a respeito de temos essa vida de ressurreição,
que Deus amou a tal ponto que ele como disse o irmão Sparks, a morte é
não reteve nada para si mesmo. E história, porque Deus é Deus de vi-
Abraão é um testemunho do amor de vos, não de mortos.
Deus. Ele pôs o seu filho sobre o altar Isaque nos fala da vida de res-
como holocausto. O testemunho de surreição. Esta é uma vida de ascen-
Abraão é que Deus nos amou de tal são, uma vida de plenitude. Tudo o
maneira que nos deu tudo o que ti- que Isaque fez foi cavar poços. E
nha. quando ele estava cavando os seus
Em todas as assembléias locais, poços, teve conflitos. Isaque enfren-
necessitamos de irmãos e irmãs que tou oposição; lutaram contra ele. No
conheçam algo do amor de Deus, e entanto, ele não se rendeu, porque
que estejam dispostos a permitir que quando um não se rende, significa
esse amor tenha expressão. Pensem que está vivendo uma vida de as-
isso. Sem esse amor, não haveria censão, porque sabe que está no
Conferência. Por detrás desta Confe- alto.
rência, há pessoas que deram as A realidade de uma vida de as-
suas vidas, que devolveram as suas censão é que um dia a sua vida na-
vidas a Deus. Deus não pode prosse- tural estará disposta a submeter-se
guir se não houver amor, se não à vida do espírito. Uma vida de as-
houver vidas entregues em suas censão significa que está no alto, e
mãos. quando o espírito está no alto, a
Graças a Deus por esta Conferên- carne se converte em servo do espí-
cia, porque atrás dela há amor de rito. Então poderá cumprir a vonta-
18 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

de de Deus, e poderá expressar a não nos vença primeiro, não pode-


vontade de Deus. Deus tem que res- mos ganhar a Ele.
taurar essa vida abundante, essa Na revista Água Vivas há alguns
vida de ressurreição, de ascensão artigos de Harry Foster, um colabo-
em sua igreja. Esta é a vida dos rador do irmão Sparks. Ele tem es-
vencedores. crito muitas lições para crianças; é
Há muitas dificuldades e impedi- um excelente mestre. Conheço-o pes-
mentos que precisam ser vencidos, soalmente a ele e a sua esposa; am-
porque aquilo que nosso Deus deseja, bos estiveram em nossa casa. Ele es-
o inimigo odeia. No entanto, graças a creveu um livro devocional a respei-
Deus, por causa da ressurreição, nós to dos personagens bíblicos. E ali diz
estamos ao lado do Vencedor; nossa que Jacó foi abençoado porque este-
vitória já está assegurada, porque ve feliz de que Deus o havia venci-
hoje Cristo já está na glória. do. Podem entender? Deus conquis-
tou a Jacó para si mesmo. Se Deus te
Jacó tomar como a sua possessão, você
Jacó nos fala de transformação. tem tudo. Deus não só venceu a Jacó,
Abraão nos fala do amor de Deus mas também ele aceitou ser conquis-
como nosso Pai. Isaque nos fala de tado por Deus. O que eu quero di-
Deus o Filho, da vida de ressurreição zer? Que, uma vez que formos con-
do nosso Senhor Jesus Cristo, a vida quistados, nós nos rendamos a ele. É
de plenitude, a vida vitoriosa, a vida possível que alguém tenha sido con-
de ascensão. É a vida de Cristo que quistado, mas que não deseje entre-
nos foi dada. Então nos atrevemos a gar-se a ele.
ser vencedores e não ser derrotados, Vou lhes dar uma ilustração mui-
porque essa vida agora mora em nós. to concreta. Durante a II Guerra
A epístola de João nos diz que maior Mundial, eu estive nas Filipinas. An-
é o que está em nós do que aquele tes dos japoneses invadirem este ter-
que está no mundo. E graças a Deus ritório, pertencia aos Estados Unidos.
por todas essas promessas, e o Espíri- Mas as tropas americanas e os
to Santo deseja tornar realidade todas filipinos não estavam preparados
essas promessas em nossa experiên- para a guerra, e a invasão os tomou
cia. de surpresa. E havia ali um grande
Uma das crises de Jacó é que ele soldado, o general Douglas
lutou com Deus. Quando ele lutou MacArthur. Quando os japoneses
com Deus, Deus disse que Jacó ven- chegaram, MacArthur conseguiu es-
ceu. Não há nada de errado nisso. capar. No entanto, ele tomou uma de-
Vocês desejam ter a Deus? Desejam cisão, e antes de ir-se, disse aos
ganhar a Deus para si mesmos? Sim, filipinos: «Voltarei». E, sabem, eles
porque Deus está se dando a nós, e viveram com essa esperança em sua
ele deseja que nós o vençamos. No mente. Todos os dias, os filipinos se
entanto, antes que possamos vencê- perguntavam: «Quando retornará
lo, ele nos venceu. A menos que Deus MacArthur para nos libertar?».
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 19

Eu estive ali durante os anos da com o Senhor, cada vez que avan-
ocupação, e fui testemunha dos sofri- çam, é por obra de Deus, é por sua
mentos das pessoas. Ocorreram coi- graça. Que o Senhor faça a todos es-
sas incríveis. Em 1944 os americanos piritualmente coxos, para que ele
iniciaram a invasão do Pacífico, e em possa manifestar o seu poder em
pouco tempo recuperaram as Filipi- nós. Ele pode nos conduzir no cami-
nas. E quando vimos os soldados nho que devemos andar.
chegando com os seus tanques, hou- Irmão ou irmã, você já foi con-
ve uma grande festa de bem-vinda. quistado? Graças a Deus, na Cruz, fo-
Alguns meses depois, os japoneses se mos conquistados. Agora podemos
renderam, e em Tóquio assinaram a confessar: «Senhor, tu me tens con-
sua rendição incondicional. Oficial- quistado!».
mente se renderam; no entanto, havia
muitos soldados que estavam escon- José
didos na selva que se recusavam a Agora queremos falar sobre José.
render-se. Sempre que leio a história de José,
Vêem? Oficialmente, nos rende- não posso deixar de continuar lendo,
mos; no entanto, na prática, estamos porque é uma história tão bela e
recusando a nos render. Ali na cruz, comovente. A história de José abran-
o Seu amor já nos conquistou. É um ge muitos capítulos no livro de
fato consumado, real. No entanto, Gênesis. A criação ocupa só um ou
nós não o percebemos, não estamos dois capítulos. Isaque e Jacó, alguns
dispostos a nos render. Quanto mais capítulos mais. Mas, a partir do capí-
rápido nos rendemos, mais cedo o re- tulo 28, parece que está todo ocupado
conhecemos como o Cristo e Rei so- com Jacó e sua família, e José tem um
bre as nossas vidas. papel muito importante.
Então, depois daquela luta, Deus Queria compartilhar com vocês
tocou na coxa de Jacó, e este ficou algumas características peculiares
coxo. Quando alguém se torna coxo do caráter de José. Não vou falar so-
por causa do Senhor está a ponto de bre os seus sonhos, que vocês co-
conhecer a plena bênção de Deus. nhecem bem. Por causa deles, os
Quando percebemos que não pode- seus irmãos o odiavam, e até os
mos andar por nós mesmos, então seus pais não lhe entendiam com-
nos apoiamos nele. pletamente. Mas uma das caracte-
Espiritualmente, precisamos ficar rísticas de José é que tinha uma co-
coxos. Então nos apoiaremos nele e nexão muito íntima com o seu pai.
teremos bênção o resto das nossas Era muito apegado a seu pai, era o
vidas. Não podemos permitir que seu filho predileto. E o pai fez a
ele se vá; necessitamos dele em todo José uma vestimenta especial. Esta
tempo. Sem ele não podemos avan- era uma amostra exterior; mas, se
çar um só passo. Cada passo adiante lermos a sua história, veremos que
é por sua graça e seu poder. E aque- há uma conexão muito estreita en-
les de vocês que têm uma história tre José e seu pai.
20 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

José tinha naquela época uns os, mas não os achei; a minha missão
dezessete anos, e estava aos cuidados está cumprida». No entanto, quando
das ovelhas com os seus irmãos. Ele os andava procurando, alguém lhe
chegou a sua casa e contou a seu pai perguntou: «A quem buscas?». Ele
algumas coisas más que os seus ir- respondeu: «Procuro os meus ir-
mãos faziam. Não é que ele falasse mãos». Disseram: «ouvi dizer que fo-
mal dos seus irmãos pelas costas, ram a Dotã». E ele foi a Dotã atrás
mas fazia com a esperança de que deles.
corrigissem a sua conduta. José é uma figura perfeita do nos-
Há uma preocupação sincera pe- so Senhor Jesus Cristo. Ele veio para
los irmãos e irmãs. Quando vemos os seus, e os seus recusaram aceitá-lo.
que uma coisa não é correta, não Apesar disso, ele veio. Isso nos fala
deve ser para condenar nem criticar, do amor de José por seu pai, e do
mas sim para orar por restauração. amor de José por seus irmãos.
Todos nós temos falhas, ninguém é O que quero compartilhar com
perfeito, e necessitamos que o Senhor vocês é sobre o fim da vida de José, e
corrija os nossos erros. No entanto, os de como ele se reconciliou com os
irmãos de José não o apreciaram. Eles seus irmãos. Para que José subisse
o odiavam, mas o amor dele para ao trono, teve que passar por algu-
com eles nunca mudou. É por isso mas coisas muito profundas em sua
que José é um tipo perfeito de Cristo, vida. Os seus irmãos o venderam
no seu amor por seu pai e seu amor para os egípcios. Mas, sempre que se
por seus irmãos. menciona sua estadia no Egito, as
Vocês se lembram que, quando o Escrituras nos dizem que Deus esta-
pai chamava José, ele imediatamente va com ele.
respondia: «Eis-me aqui». Em outras Para reinar com Cristo, esse rei-
palavras, estava sempre disposto a nado que Deus está buscando tem
responder para fazer a vontade de um alto custo. Nada espiritual vem
seu pai. Do mesmo modo, quando com facilidade. Temos que aceitar
Deus falou com Abraão, este respon- esse fato. Embora José soubesse que
deu: «Eis-me aqui». Eles estavam dis- estava destinado ao trono, ele estava
postos, tinham os seus ouvidos aten- preparado para aceitar toda a disci-
tos. Atentos para ouvir e atentos para plina necessária para chegar ao tro-
obedecer; estas duas coisas andam no. Há uma característica muito bela
juntas. Quando há um ouvido atento em José: diante de tudo o que lhe
para ouvir, é porque há um coração aconteceu, não se ouve nenhuma pa-
disposto para obedecer. lavra de queixa. Aceitou tudo como
José sabia que os seus irmãos o se viesse da mão de Deus sobre a
aborreciam. Seu pai lhe enviou para sua vida. Ele disse: «Possivelmente
ver o que eles estavam fazendo, mas os meus irmãos tiveram uma má in-
José não os encontrou. Sabendo que tenção; no entanto, Deus usou tudo
lhe odiavam, ele voltou inventando isto para bênção».
uma desculpa e dizendo: «Busquei- Quando José era um escravo no
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 21

palácio de Faraó, embora servisse a ele estava em seu lar e teve esses so-
um amo terrestre, em seu coração, ele nhos? Ele não sabia o seu significa-
estava aprendendo a servir a Jeová o do, só tinha os sonhos, mas não po-
seu Deus. O capitão da guarda reco- dia interpretá-los. Mas, à medida
nheceu que Deus estava com José. E que crescia espiritualmente, pouco
toda a casa daquele funcionário foi antes de subir ao trono, o Senhor lhe
abençoada porque José estava ali. concedeu sabedoria para interpretar
Imagine um escravo abençoando o sonhos, e foi por meio da interpreta-
seu senhor? O que pode fazer um es- ção deles que Faraó o fez subir ao
cravo? Não pode contribuir em nada. trono.
Mas não é o que pode fazer, mas sim Deus andou em intimidade com
a sua presença, pois Deus estava com José, fez uma obra profunda nele, ao
José. ponto de José conhecer bem a mente
Estamos vivendo dias difíceis, de Deus, e podia interpretar sonhos,
dias de maldade, dias de trevas. No e até o que ocorreria no futuro. É por
entanto, em qualquer lugar que este- isso que José subiu ao trono. Porque
jamos, temos que resplandecer como quando chegou o tempo oportuno,
luminares, devemos ser sal da terra. Deus o promoveu. Em certo sentido,
É por isso que estamos aqui. Assim, não foi Faraó quem elevou José ao
em qualquer lugar que José se encon- trono, mas o próprio Deus, porque ti-
trava, a presença de Deus estava com nha chegado a hora de ser promovi-
ele, e através de todas as suas prova- do, e ele se converteu em salvador do
ções, estava disposto a conhecer e mundo.
aprender quem é Deus. E aprendeu
uma atrás da outra, muitas lições de José e seus irmãos
submeter-se completamente, sem Agora quero compartilhar a res-
murmurações. peito de alguns encontros de José
Sabem no que falharam os com os seus irmãos. Antes disso, va-
israelitas ao entrar em Canaã? É que mos ler Gênesis 47. O povo veio a
eles murmuraram, e a murmuração é José para obter pão, e José lhes deu
incredulidade ou desobediência. E pão. Mas o seu interesse não era so-
dos lábios de José não houve nenhu- mente lhes dar pão. José desejava ga-
ma palavra de reclamação, porque, nhar um povo para si mesmo – tal
por cima de tudo, ele via a mão de como o Senhor Jesus veio buscar o
Deus sobre a sua vida. Nos dias em que estava perdido.
que estava na prisão, ou quando era «Não havia pão em toda a terra, e a
escravo na casa do chefe da guarda, fome era muito grave, por isso desfaleceu
ele aprendeu a preciosa lição de sub- de fome a terra do Egito e a terra de
meter-se. Deus estava fazendo José Canaã» (Gên. 47:13). Isto se refere ao
amadurecer, preparando-lhe para o pão físico. Hoje falamos do pão espi-
trono. ritual. Irmãos e irmãs, onde podemos
Vamos ver uma ilustração da encontrar hoje o pão da vida, a pala-
vida de José. Lembram-se quando vra da vida? Onde há pessoas que re-
22 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

almente conhecem a mente do Se- pravam; e colocou José o dinheiro na casa


nhor por meio da Palavra? de Faraó» (V. 14). Não havia pão no
Vou contar-lhes uma história ver- Egito nem em Canaã, e a única ma-
dadeira. Houve um irmão que foi a neira de sobreviverem era compran-
Honor Oak para ouvir a pregação do do pão. «Acabado o dinheiro da terra do
irmão Sparks, pela primeira vez. Ele Egito e da terra de Canaã, veio todo o
se sentou para escutar, e dizia: Egito a José, dizendo: dá-nos pão; por que
«Mas, de onde ele tira tudo isso?». E morreremos diante de ti, por haver-se
depois do encontro, procurou o ir- acabado o dinheiro?» (V. 15). Deus está
mão Sparks e lhe perguntou que ver- fazendo hoje uma obra muito profun-
são da Bíblia estava usando. Ele di- da. Nós desejamos pão, e pensamos
zia: «Como é possível que ele enxer- que temos dinheiro para comprá-lo,
gue na Bíblia coisas que eu não vejo? mas cedo ou mais tarde iremos à ban-
Que versão da Bíblia está usando? carrota – O dinheiro se esgotará, e
Que tipo de notas há nesta Bíblia? não haverá como comprar pão. No
Como é possível que nos mesmos entanto, se desejas sobreviver, procu-
versículos haja coisas que eu não rará a forma de obtê-lo.
vejo?». «E José disse: Dêem os seus gados e
Nós estamos vivendo dias de eu lhes darei por seus gados, se acabou o
fome espiritual. E digo-lhes que real- dinheiro» (V. 16). Quando acabou o di-
mente nós somos privilegiados; hoje nheiro, aceitou o gado. «E eles trouxe-
mesmo, temos o privilégio de partir o ram os seus gados a José, e José lhes deu
pão juntos. Graças a Deus, ele é o mantimentos por cavalos, e pelas ovelhas,
nosso alimento, nossa palavra de e pelas vacas, e por asnos; e lhes susten-
vida. E nós sabemos que só ele pode tou de pão por todos os seus gados aquele
nos satisfazer. ano» (V. 17). O pão é uma coisa
«E recolheu José todo o dinheiro que consumível; quando alguém come o
havia na terra do Egito e na terra de pão, vai cada vez mais se escassean-
Canaã, pelos mantimentos que dele com- do, e um dia este se acaba.
«Findo aquele ano, vieram o segundo
E depois do encontro, ano, e lhe disseram: Não encobrimos a
nosso senhor que o dinheiro certamente
procurou o irmão Sparks se acabou; também o gado já é de nosso
e lhe perguntou que ver- senhor; nada ficou diante de nosso senhor
são da Bíblia estava senão nossos corpos e a nossa terra. Por
que morreremos diante dos seus olhos,
usando. Ele dizia: «Como assim nós como a nossa terra? Compre a
é possível que ele enxer- nós e a nossa terra por pão, e seremos nós
gue na Bíblia coisas que e a nossa terra servos de Faraó; e nos dê
semente para que vivamos e não morra-
eu não vejo? Que versão mos, e não seja assolada a terra» (V. 18-
da Bíblia está usando?». 19).
Aqui vemos a progressão do
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 23

nosso caminhar espiritual. Todos confessar que ele é o seu Senhor e eu


nós estávamos com fome. A princí- confesso que ele é o meu Senhor, nós
pio, pensávamos que tínhamos os somos um.
meios para satisfazer a nossa fome.
Mas quando nos esgotaram os mei- Benjamim
os, por detrás disso, Deus estava Agora quero compartilhar com
trabalhando no seu propósito. O di- vocês sobre o caráter de Benjamim,
nheiro se acabou, o gado se foi, aquele que foi o instrumento para
tudo se foi; o único que ficou foi eu reunir a família. Quando Benjamim
mesmo. José estava aguardando nasceu, Raquel o chamou ‘Filho da
esse momento para ganhá-los para tristeza’, e depois Jacó trocou o seu
si mesmo, porque ele mesmo repre- nome por ‘Filho da minha mão direi-
sentava o pão. ta’.
Freqüentemente nós procuramos Na história da relação entre Jacó e
as coisas fora de Cristo, e assim nossa seus filhos, nenhum dos mais velhos
fome nunca será satisfeita. No entan- tinha intimidade com o seu pai. De
to, Cristo é tudo o que nós necessita- fato, vários deles causaram grandes
mos. José estava esperando o mo- problemas. Mas, ao ler as Escrituras,
mento quando eles dissessem: «Não percebemos que o coração de Jacó e o
temos nada; tudo o que possuímos é de Benjamim estavam muito unidos.
o nosso corpo, nós mesmos; toma-nos E quando Judá prometeu que a próxi-
para ti». Quando pertencemos a Ele, ma vez que viesse a José, traria
o problema da fome estará resolvido, Benjamim, José insistiu que o trou-
porque Jesus é o verdadeiro pão. O xesse. E Jacó disse: «Se tirarem a
importante não são as coisas que ele Benjamim, morrerei». E creio que
dá, mas ele mesmo, que é o pão de também Judá disse: «Se levar o meu
vida. irmão caçula, meu pai irá morrer».
Quero dar-lhes outro exemplo: Aqui temos um princípio espiritu-
Quando os seus irmãos foram para al. É claro que José não estava com a
o Egito para comprar comida, eles sua família. Benjamim era o único
não reconheceram a José, mas ele os que na realidade compreendia o co-
reconheceu. No entanto, ele deseja- ração de Jacó. É evidente que Jacó de-
va o momento em que eles chegas- sejava ver a José. Embora estivesse
sem a saber com quem estavam tra- próximo da sua morte, Jacó sempre
tando. sentia saudades de José. No entanto,
Queria concluir com um princípio para que Deus possa restaurar o seu
muito importante: Para que o Senhor povo para si mesmo, uma vez mais,
possa restaurar o seu povo, para nos precisa levantar muitos benjamins,
reunir como um diante da sua pre- que conhecem o desejo do coração do
sença, o seu trono tem que nos man- pai.
ter unidos. A razão pela qual ele é A oração do Senhor é que nós se-
exaltado é porque todos devem con- jamos um. Esse é o desejo do Senhor,
fessar que ele é o Senhor. Se você e este também deveria ser o nosso de-
24 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

sejo. Só o trono pode nos manter uni- de nosso Senhor Jesus Cristo seja ple-
dos. Os que entendem o coração de namente completo, a unidade no tes-
Deus estão dispostos a pagar qual- temunho é vital. Um Deus, um Se-
quer preço para permanecer na uni- nhor, um povo. Todos são um, e nós
dade do povo de Deus. Quando nós somos um. A Cruz nos fará um. Gra-
somos um com a Cabeça, então o tes- ças a Deus por isso.
temunho de Jesus Cristo é plenamen- Quando Deus nos olha lá do alto,
te realizado. e nos vê unidos, sendo um, esquecen-
Deus deseja que nos entreguemos do as nossas diferenças, simplesmen-
a ele. Gastamos todo o nosso dinhei- te nos olhando uns aos outros em
ro, e ainda temos fome; vendemos o Cristo Jesus, isso trará satisfação ao
nosso gado, e ainda temos fome. José Seu coração. Se quisermos lhe agra-
disse: «Esta é a oportunidade; entre- dar, guardemos com diligência a uni-
guem-se a mim, e jamais terão fome. dade do Espírito. Há uma Cabeça, há
Isto é o que o Senhor está procurando um Corpo. Há um alimento, o Senhor
– Ele precisa de muitos benjamins. Jesus. Temos um só caminho, e há
Nestes últimos dias, quando o um só testemunho que Deus procura:
povo está tão dividido, quem entende a plenitude de Cristo em todos nós.
o desejo de Deus de que todo o seu (Resumo de uma mensagem ministrada na 2ª
povo seja um? Para que o testemunho Conferência Internacional, setembro 2005).

***
Pode vir hoje
Quando o explorador irlandês Ernst Shackleton foi forçado a sair e deixar
a sua pesquisa no Pólo Sul, deixou os seus homens na Ilha Elefantes, mas
prometeu retornar para eles. Tratando de achar a melhor maneira de fazer
a sua viagem a Geórgia do Sul, tratou de retornar para os seus homens
para cumprir a sua promessa e fracassou; fez nova tentativa e fracassou.
O gelo estava entre eles e a ilha, pelo qual não podia aproximar-se. Ele
tinha prometido aos seus homens retornar e não podendo fazê-lo, não
tinha descanso.
Embora a temporada fosse adversa, e embora lhe houvessem dito que
era impossível que ele pudesse chegar com o pequeno rebocador chileno
«Yelcho» pela barreira de gelo que era muito espessa entre eles, tentou
novamente. Não era o tempo do ano adequado, mas é raro dizer que,
quando chegou perto da ilha, encontrou uma avenida aberta entre o mar e
o lugar onde tinha deixado os seus homens. Pôs o seu navio em grande
risco, recolheu todos os seus homens, colocou-os a bordo, e saiu antes
que o gelo se chocasse contra ele. Tudo isto foi feito em meia hora.
Quando a emoção já tinha quase terminado, se voltou para um dos seus
homens e lhe disse: «Bem, todos vocês estavam arrumados e prontos». O
homem respondeu: «Como vê, chefe, Wild (o segundo no mando) nunca
perdemos a esperança, e quando vimos que o mar estava livre de gelo, ele
enrolou o seu saco de dormir e dizia: Enrolem os seus sacos de dormir,
moços: o chefe pode chegar hoje».
Cristãos, enrolem os seus sacos de dormir: O Senhor pode vir hoje.
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 25

A edificação do templo de Jerusalém como alegoria da edificação


da Igreja.

2ª Parte

Gino Iafrancesco

Pontos de referência no desenvolvi- importante de referência na obra con-


mento do propósito de Deus tinuada de Deus. Depois veio Moisés,

A
o longo da Palavra do Se- e Deus começou a trabalhar com o
nhor, aparecem certos pontos povo de Israel, e deu a Lei. Então
chaves de referência no de- apareceu um novo ponto de referên-
senvolvimento do propósito de Deus. cia na obra de Deus. Sempre temos
O primeiro é Adão e Eva. Aqui Deus que voltar para o ponto de Adão, ao
revela coisas fundamentais. Depois, ponto dos patriarcas e também ao
no tempo de Abraão, de Isaque e de ponto da Lei.
Jacó, temos outro ponto importante: Depois apareceu outro importan-
Deus diz ser o Deus de Abraão, de te ponto de referência na história sa-
Isaque e de Jacó. grada: Davi. Com ele, Deus abriu
Nesses tempos tinha Ninrode, ti- uma nova etapa no avanço de sua
nha Hamurabi e outros personagens, obra. Os reis seguintes, Deus os me-
mas Deus disse ser o Deus de dia por Davi. Todos estes pontos de
Abraão, de Isaque e de Jacó. A inter- referência vão desenvolvendo o pro-
venção de Deus nas vidas desses pa- pósito de Deus. Desde o primeiro, já
triarcas se constituiu em outro ponto se projeta o propósito.
26 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

Nos estudos anteriores temos re- Davi, e segundo os planos que rece-
cordado superficialmente algumas beu de Davi, seu pai, e que Davi rece-
dessas coisas. Agora queríamos nos beu de Deus, Salomão edificou o tem-
deter um pouco na casa de Deus nos plo, o famoso templo de Jerusalém.
tempos de Davi e de Salomão. É um Esta história é contada duas vezes
novo ponto de referência, e em cada na Bíblia: no livro dos Reis e no de
novo ponto de referência, Deus acres- Crônicas. Na primeira, a ênfase está
centa detalhes à revelação. Ele fala da em Salomão e sua casa; mas, na se-
mesma coisa, mas acrescenta a reve- gunda, a ênfase está no Messias e a
lação. igreja. De maneira que Salomão,
Todo o Antigo Testamento é uma como filho de Davi, edificando o tem-
preparação para o Novo. Lembremos plo material para Deus, é figura do
que Deus diz que o que é relativo ao verdadeiro Filho de Davi, que é o Se-
mistério do Novo Testamento pode nhor Jesus, o verdadeiro Rei da paz,
ser visto com a ajuda das Escrituras o qual edificaria casa para Deus. «Seu
dos profetas (Rom. 16:25-26). De ma- filho me edificará casa ... e firmarei o
neira que não só estamos lendo a his- seu trono eternamente».
tória sagrada. Deus está falando coi- É claro que o trono de Salomão
sas espirituais; estas coisas são figu- não foi eterno, porque Salomão era só
ras das coisas espirituais. Assim que uma figura. O verdadeiro Filho de
devemos ler do véu para dentro. Davi é o Senhor Jesus. Não que o ou-
tro fosse falso; era apenas uma figu-
A casa de Deus nos tempos de Davi ra. Portanto, o Senhor Jesus tem uma
e Salomão encomenda de Deus – edificar casa a
Primeiro, vamos abrir a palavra seu Pai. Então, a verdadeira casa de
do Senhor no primeiro livro de Crô- Deus, que o verdadeiro Filho de Davi
nicas. edifica, é a igreja, é o corpo de Cristo.
No capítulo 17 temos um momen- Assim, como vimos a edificação
to chave na história da revelação. da igreja no tabernáculo, temos que
Davi estava interessado em uma casa ver também a edificação da igreja no
para Deus, e imaginava que poderia templo. «Porque vós sois o templo do
ser de cedro. Mas Deus – como tam- Deus vivente» (2ª Cor. 6:16). O Novo
bém depois Salomão entendeu – não Testamento nos fala de sermos
habita em templos feitos por mãos edificados como um templo santo,
humanas. Deus tem sim no seu cora- para morada de Deus no espírito,
ção ter uma casa. Nesta passagem, como a igreja, o corpo único de Cris-
ele fala da «minha casa». Mas não se- to, a soma de todos os filhos de Deus
ria Davi o que a edificaria. de hoje, de ontem e de sempre. So-
Já em outra passagem, Deus lhe mos o templo de Deus.
diz: «Tu tens derramado muito san- Olhemos, então, no livro de Crô-
gue; tu não me edificará casa. Mas o nicas algumas palavras importantes.
seu filho, ele me edificará casa». En- Primeiro, olhemos um pouco no 22 e
tão veio Salomão, um dos filhos de depois no 28.
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 27

«Depois mandou Davi que se reunis- filho é moço e de tenra idade, e a casa que
se os estrangeiros que havia na terra de se há de edificar ao Senhor há de ser mag-
Israel, e encarregou de entre eles pedrei- nífica por excelência – a igreja gloriosa
ros que lavrassem pedras para edificar a – para renome e honra em todas as terras;
casa de Deus» (1 Crônicas 22:2). Deus agora, pois, eu lhe prepararei o necessá-
usa estrangeiros para lavrar, para tra- rio» (V. 5).
tar com as pedras. «Deste modo prepa- Aqui, Davi está tipificando a Cris-
rou Davi muito ferro para os pregos das to em sua primeira vinda, preparan-
portas, e para as junturas; e muito bron- do o necessário, para que Cristo em
ze sem pesá-lo, e madeira de cedro sem sua segunda vinda possa ser recebido
contá-la» (22:3). Muita cruz; muita pela igreja. Salomão é o filho de Davi
disciplina, não é verdade? que mostra o trabalho de Cristo as-
Leiamos em Colossenses 1:24, cendido, edificando a sua casa, para
mas voltaremos para cá outra vez. apresentar-se a si mesmo uma igreja,
«Agora me regozijo no que padeço por uma igreja santa e gloriosa, sem man-
vós...». Não, não era que Paulo era cha e sem ruga. Devemos deixar que
masoquista; ele não se regozijava por sejamos apresentados como uma
causa das dores, mas sim porque es- igreja santa. Não estorvemos a unida-
sas dores serviam para outros. «...e de da igreja.
cumpro na minha carne o que falta das Agora, vamos ao capítulo 28 para
aflições de Cristo por seu corpo, que é a ver algumas expressões chaves ali.
igreja». Disse Davi a Salomão: «Olhe, pois,
Não entenda mal este verso; não agora, que o Senhor te escolheu para que
diz que a Cristo faltam aflições, mas edifique casa para o santuário; esforça-te,
sim a Paulo faltava participar das e faça-a. E Davi deu a Salomão seu filho
aflições de Cristo um pouco mais. o plano do pórtico do templo e suas casas,
Cristo consumou a sua obra; mas nos suas tesourarias, seus aposentos, suas câ-
concedeu não somente crer nele, mas maras e a casa do propiciatório. Deste
também sofrer por ele. modo o plano de todas as coisas que tinha
«...da qual fui feito ministro...» (Col. em mente para os átrios da casa do Se-
1:25). Paulo era ministro do corpo, nhor, para todas as câmaras ao redor,
ministro da igreja. Não era o funcio- para as tesourarias da casa de Deus, e
nário de alguma organização menor para as tesourarias das coisas santifica-
que o corpo; ele era um membro vivo
do corpo vivo de Cristo, ele funciona- Não podemos fazer igre-
va no corpo e para o corpo.
Então, voltemos para Crônicas: jas de brancos onde não
«...muito bronze sem pesá-lo, e madeira entram os negros, ou de
de cedro sem contá-la» (1 Cr. 22:3). Es- negros, onde não entram
tas coisas não se devem contar, por-
que os sidônios e tírios haviam trazi- os brancos. Não podemos
do para Davi abundância de madeira fazer igrejas de ricos.
de cedro. «E disse Davi: Salomão meu
28 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

das. Também para os grupos dos sacerdo- De maneira que se o tabernáculo


tes e dos levita – ou seja, da casa passa é figura do verdadeiro tabernáculo, e
para o sacerdócio –, para toda – olhe o templo é figura do verdadeiro tem-
esta expressão – a obra do ministério da plo, devemos pôr a nossa atenção no
casa do Senhor» (vers. 10 a 13). desenho do templo, porque Deus está
Essa expressão não é só do Novo nos falando do mistério de Cristo, a
Testamento; já está preparada no An- igreja, através do tabernáculo e atra-
tigo: Os obreiros edificando o corpo vés do templo.
de Cristo com todos os santos, que Deus começa com algo singelo,
estão tipificados no levantamento do com os traços mestres, e em seguida
templo de Deus e no erguimento do vai adicionando detalhes. Assim é
tabernáculo. E essa expressão – a obra que Deus atua. Em Gênesis 1:26, ele
do ministério da casa de Deus – que era diz: «Façamos o homem à nossa imagem,
o trabalho no tabernáculo e no tem- conforme a nossa semelhança...». E os
plo, é também hoje o trabalho de to- fez homem e mulher. No segundo ca-
dos os santos, ajudados, aperfeiçoa- pítulo, torna a falar da feitura do ho-
dos, pelos obreiros de Deus. mem, mas acrescentando detalhes. É
Então, segue dizendo: «...e para to- como um desenhista que primeiro
dos os utensílios do ministério da casa do traça as linhas principais, e depois,
Senhor». Tenhamos presente o plano. ao redor delas, põe os músculos, os
Davi falou do plano da casa, do pla- nervos, a pele.
no das tesourarias, das câmaras; in- Do mesmo modo, por exemplo, a
clusive dos instrumentos. Daniel, permitiu-lhe interpretar o so-
Agora, saltamos uns versos, e va- nho de Nabucodonosor, onde aparece
mos ler o 19. «Todas estas coisas, disse a história da humanidade de forma
Davi, foram-me traçadas pela mão do Se- ampla; mas em seguida, nas seguintes
nhor, que me fez entender todas as obras profecias fala do mesmo, mas acrescen-
do desenho». Assim que isto não foi tando cada vez mais detalhes. Quando
somente uma ocorrência de Davi. chega à última visão de Daniel, abran-
Sim, Davi queria fazer casa para ge três capítulos, e o que havia dito no
Deus, e Deus lhe explicou: «Davi, tu sonho de Nabucodonosor e na visão
tens derramado muito sangue. Você dos capítulos 7, 8 e 9, agora está cheia
não me edificará casa, mas o seu fi- de detalhes.
lho, ele me edificará casa». E então Deus começa com a idéia principal:
Deus revelou a Davi o desenho da «Lhe edificarei uma mulher». Em se-
casa, o plano detalhado em todas as guida aparece Bet-el, a pedra, a unção,
coisas. E Davi passou a Salomão seu a libação; em seguida o tabernáculo, e
filho todo o plano, para que fizesse as depois o templo. Deus está falando du-
coisas conforme o desenho que ele ti- rante toda a Bíblia da mesma coisa,
nha recebido de Deus. Da mesma for- porque toda a Bíblia fala do mistério
ma Deus está por trás deste desenho, de Cristo e a igreja. O mistério de Cris-
assim como esteve por trás do dese- to é a chave de toda a Bíblia.
nho do tabernáculo. Então, vejamos agora no livro de
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 29

Reis a edificação do templo por trocentos e oitenta anos. Mas, se a


Salomão. Mas não leremos somente toda essa quantidade de anos você
arquitetura ou engenharia civil, mas lhe subtrai os anos em que eles esti-
sim o mistério de Cristo, porque o veram sob governos alheios – por
verdadeiro Filho de Davi está exemplo, quando estiveram debaixo
edificando o verdadeiro templo que é dos midianitas ou outros gentios – ao
o corpo de Cristo. Ele é o arquiteto, e subtrair esses anos perdidos, obterá
os ministros de Deus são também exatamente quatrocentos e oitenta
como peritos arquitetos que têm que anos.
interpretar o plano para a edificação. Isto quer dizer que, para Deus, os
Paulo dizia: «...eu como perito arquiteto anos perdidos não contam. Nós te-
pus o fundamento...» (1ª Cor. 3:10). mos uma conta no céu. Paulo falava
Esse é o trabalho do ministério do aos filipenses de que o que eles ti-
corpo de Cristo – interpretar os pla- nham feito estava registrado nos
nos do arquiteto. céus: «...busco fruto que abunde em sua
conta» (Flp. 4:17). Alguns de vocês
A edificação do templo têm conta nos bancos, mas todos
No capítulo 6 encontramos uma vocês têm conta nos céus, e essa con-
passagem que a Sociedade Bíblica ti- ta está sendo engrossada. Mas o tem-
tulou «Salomão edifica o templo». Ou po perdido, o que ocupamos em ou-
seja, este é uma figura do Senhor Je- tras coisas, quando não andamos no
sus edificando o corpo de Cristo. Senhor e no que é seu, não se conta.
Vocês se lembram daquela passagem Não importa se os anos reais foram
em Efésios onde fala da altura, a lar- como seiscentos e trinta e tantos; para
gura, a profundidade, o comprimen- Deus, só foram quatrocentos e oiten-
to de Cristo? Bom, vamos começar ler ta, porque enquanto eles estavam sob
algo a respeito disso aqui. Salomão outros ‘senhores’, Deus não quer nem
edifica o templo – o filho de Davi contar.
edifica a casa de Deus. O tempo que tem significado para
Vamos revisar do verso 1 ao 14. O Deus é este: quatrocentos e oitenta
Espírito Santo pode falar a você coi- anos. E torna outra vez a aparecer o
sas que eu não vou dizer aqui. Você, 48 por 10. Ontem estudávamos o 48,
depois, complementará, elaborará e que era o número da casa. Agora,
enriquecerá isso. aqui aparece no tempo por 10 = 480.
Fixemo-nos em algo: Do verso 1, Muitas coisas que no tabernáculo são
já aparece um mistério. «No ano qua- 1, no templo são 10. No tabernáculo é
trocentos e oitenta depois que os filhos de um castiçal; no templo são dez. Quer
Israel saíram do Egito...». Quando você dizer que Deus quer a multiplicação
faz uma cronologia absoluta da Bí- do castiçal por toda a terra. No
blia, seguindo os anos que aparecem tabernáculo eram 48, no templo, 480.
nela, notará que entre a saída do Egi- E diz: «...depois que os filhos de Israel
to e a edificação do templo por saíram do Egito, o quarto ano do princípio
Salomão há muito mais do que qua- do reino de Salomão sobre Israel...». O
30 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

quarto ano. Note que primeiro é a ca- mo se vê no tabernáculo: Deus quer


beça; primeiro é Deus. Primeiro é o Pai, uma casa com pessoas de toda tribo,
o Filho e o Espírito Santo. Também, língua, nação, e classe social. Nenhu-
quando foram cruzar o Jordão, depois ma igreja poderá ser edificada para o
de três dias, ou seja, no quarto dia. Isso Senhor com exclusões.
quer dizer que, depois da cabeça, é o Deus não exclui raças, não exclui
quarto. Depois dos três anos, em que classes sociais, nem analfabetos, nem
se caracterizou quem é Salomão, por- eruditos. Paulo diz que o Senhor es-
que ele é a cabeça de Israel, então che- colheu o vil, o menosprezado, o que
gou a hora de edificar. Primeiro, a ca- não é. «Pois olhem, irmãos, a vossa vo-
beça, em seguida o corpo. cação, que não são muitos sábios segundo
«...no mês de Zif...», que é o segun- a carne, nem muitos poderosos, nem mui-
do mês. Também o tabernáculo se tos nobres...» (1ª Cor. 1:26). Sim, pode
edificou no segundo mês. O primeiro haver algum, mas a maioria não é no-
ano começou com o mês da páscoa. bre. É normal existirem sangue azul e
Tudo começa com a páscoa, tudo co- sangue vermelho na casa de Deus.
meça com o Senhor Jesus, sua morte Não podemos diminuir a casa,
por nós, sua ressurreição e sua ascen- não podemos fazer igrejas de brancos
são. Então vem o Espírito, e começa a onde não entram os negros, ou de ne-
igreja. Não pode começar a casa no gros, onde não entram os brancos.
primeiro ano e no primeiro mês. No Não podemos fazer igrejas de ricos.
segundo mês começou a edificar a Há pessoas que gostam de ir aos bair-
casa do Senhor. ros dos ricos, porque lá andam de
A casa que o rei Salomão edificou braços dados com o prefeito, com fu-
ao Senhor tinha sessenta côvados de lano e com cicrano, e não querem an-
comprimento, vinte de largura e trin- dar de braços dados com os do bairro
ta de altura. É como um retângulo, mais pobre.
mas elevado, não plano. Esta é a casa A igreja abrange a todos os que o
de Deus. A igreja tem que ser cheia Senhor chama, a todos os que ele ge-
das medidas de Cristo. A Bíblia nos rou. Essa é a medida de Deus; não
fala das medidas de Cristo. E esta é a podemos ter outra medida. Cada ir-
casa de Deus. Deus está nos revelan- mão tem que sentir-se cômodo na
do algo com essas medidas. igreja, não importa que seja pobre,
Em primeiro lugar, fala-nos do não importa que seja analfabeto, não
comprido: sessenta côvados. Aqui importa a sua raça, a sua classe. O
voltamos a ver a inclusividade do co- Senhor o escolheu, e esse é o compri-
ração de Deus. Sessenta vem de seis mento da casa de Deus.
por dez. Já sabemos que o número 6 é
o número do homem. E o 10, o núme- A largura da casa
ro da generalidade. Deus quer uma Agora, a casa de Deus também
casa que tenha sessenta côvados de tem largura. Mas é curioso que a lar-
comprimento, ou seja, que incorpore gura é apenas um terço do comprido.
toda classe de seres humanos. O mes- É um retângulo. O comprido são ses-
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 31

senta; a largura, somente vinte, a ter- to. Mas se Deus quer que todos se
ça parte. Neste ponto, discutem os salvem, por que nem todos se sal-
calvinistas e os arminianos: Os vam? Não é porque Deus não queira;
calvinistas dizem que a expiação é li- é porque o homem não quer. A luz
mitada, ou seja, que o Senhor só mor- veio ao mundo, mas «os homens ama-
reu por alguns. E os universalistas di- ram mais as trevas do que a luz, porque
zem que morreu por todos. Aqui ve- as suas obras eram más» (João 3:19), e
mos este retângulo. Depois, haverá esta é a condenação.
outro retângulo menor. Mas este pri- De maneira que a casa de Deus
meiro retângulo nos ajuda a entender tem forma de retângulo. Deus quer
essa complicação. pessoas de toda tribo, língua, nação,
Vamos ao livro de Zacarias, olhar sexo, e classe social; no entanto, nem
ali uma expressão importante. todos serão salvos, somente aqueles
Zacarias 13:8-9 diz: «E acontecerá em que crêem. Então, a população mun-
toda a terra, diz o Senhor, que as duas dial se reduz a um terço. Acaso não
terceiras partes serão cortadas nela, e se foi um terço que se rebelou? Deus ti-
perderão; mas a terceira ficará nela. E co- nha muitos anjos, mas a terça parte
locarei no fogo à terceira parte, e os fun- foi com Satanás. Então, Deus reser-
direi como se funde a prata, e os provarei vou esse outro terço para a sua gló-
como se prova o ouro. Ele – ou seja, este ria, para a sua casa.
um terço do povo – invocará o meu Deus quer que todos sejam salvos.
nome, e eu lhe ouvirei, e direi: É meu A expiação é universal, a intenção de
povo; e ele dirá: O Senhor é meu Deus». Deus é sincera; ele quer a salvação de
Notemos que o Senhor diz clara- todos, mas na prática, é limitada,
mente nessa profecia que dois terços porque serão para os que crêem, os
se perderão; mas um terço passará que estão em Cristo, e em Cristo são
pelo fogo, e ficará sendo o povo de escolhidos.
Deus. Agora, o apóstolo João diz Por isso vemos um retângulo
muito claramente: «Cristo ... é a aqui. Embora o comprimento seja
propiciação pelos nossos pecados; e não sessenta côvados, a largura é somen-
somente pelos nossos, mas também pelos te vinte, a terça parte. Se analisarmos
de todo o mundo» (1ª João 2:2). Ou seja, a humanidade, hoje em dia, um terço
o sacrifício de Cristo tem a capacida- pelo menos diz ser cristão, e outros
de de salvar toda pessoa humana que dois terços dizem ser ou muçulma-
possa existir. Se alguém não se salvar, nos, ou budistas, ou hinduistas, ou
não é porque o Senhor não quer, mas animistas, ou qualquer outro ‘ismo’
porque eles não querem, porque eles diferente ao cristianismo.
resistem, porque eles não recebem.
Por isso se perdem. Uma igreja madura
Deus «...quer que todos os homens Voltemos para 1 Reis 6. «...e trinta
sejam salvos» (1ª Tim. 2:4). Deus não côvados de altura» (V. 2). Vocês sabem
quer que ninguém pereça. Deus quer o que quer dizer o número 30? Na Bí-
que todos venham ao arrependimen- blia, é o número da maioridade. Hoje
32 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

em dia, na Colômbia, os moços que Os vencedores


têm dezoito anos, votam. Aos dezoito Agora vamos ver a outra parte do
anos, são considerados maiores de retângulo. Verso 3: «E o pórtico diante
idade. Claro que ainda não se man- do templo da casa...». Quando diz a
têm, ainda não sustenta a sua esposa casa, abrange o átrio, o lugar santo e
nem os seus filhos. o santíssimo. O templo da casa, o
A Bíblia considerava que a maio- santuário, é o santo e o santíssimo. A
ridade era aos trinta, não aos dezoito. casa em geral inclui o átrio. O pórtico
Por isso o Senhor Jesus esperou até os do templo da casa não é o pórtico de
trinta. Também os levita, aos vinte e fora, não é para que os perdidos se
cinco anos começavam a aproximar- salvem, mas sim os salvos vençam. É
se do tabernáculo, mas apenas aos outro retângulo.
trinta exerciam em plena atividade. Deus quer que todos se salvem,
E o que Deus quer quando diz mas só se salvam os que crêem. E
que a sua casa tenha trinta côvados quer que todos os que crêem sejam
de altura? Quer dizer que a igreja vencedores, mas somente será a me-
está destinada à estatura da plenitu- tade. Eram dez virgens esperando o
de de Cristo. Deus não quer uma marido, as dez tinham azeite na lâm-
igreja de meninos; ele quer uma igre- pada, mas só a metade tinha azeite
ja madura. Como Cristo iria se casar na vasilha além da lâmpada.
com uma menina? Tem que casar-se Então diz aqui: «E o pórtico diante do
com uma igreja madura. templo da casa tinha vinte côvados de com-
Deus quer uma igreja madura. A primento ao largo da casa...». Ou seja, an-
igreja deve evangelizar, deve lem- tes era sessenta de comprimento e vin-
brar-se dos homens; mas, depois de te de largura. O vinte são os realmente
salvá-los, tem que discipulá-los, crentes. Agora, este outro pórtico é ou-
alimentá-los, instruí-los, ensiná-los, tro retângulo de vinte côvados, o mes-
reuní-los como igreja, apresentá-los mo que tem ao largo da casa. Ou seja,
ao Senhor como igreja. Deus quer abrange a todos os crentes.
que venham à epignosis, ao pleno co- «...ao largo diante da casa era de dez
nhecimento da verdade. Ou seja, côvados», ou seja, a metade. Podem
cresçam a uma posição em que pos- notar? O Senhor morreu por todos,
sam compreender todo o conselho de mas só se salvam um terço. Agora,
Deus, a totalidade da Palavra, a pala- Deus quer que todos os salvos sejam
vra de Deus cumprida. vencedores, mas somente a metade é
Trinta côvados – a estatura da ple- prudente. Os outros são salvos, espe-
nitude de Cristo. Uma igreja de sal- ram o marido, têm azeite na lâmpa-
vos e maduros. Uma igreja de salvos da, e a lâmpada do Senhor é o espíri-
discipulados, conduzidos à plenitu- to do homem. Se tiverem azeite na
de. Essas são as medidas que Deus lâmpada, o seu espírito é regenerado,
disse: sessenta côvados de compri- mas não têm azeite também na vasi-
mento, vinte de largura e trinta de al- lha, não permitiram que a vida do Se-
tura. nhor passe para as suas almas – pen-
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 33

sem conforme Cristo, tenham o sentir da casa ao redor do templo e do lugar


de Cristo, e a vontade renovada, e si- santíssimo; e fez câmaras laterais ao re-
gam a Cristo. dor. O aposento de baixo era de cinco
Muitas virgens salvas são insen- côvados de largura, o do meio de seis
satas; só a metade é prudente, e fez côvados de largura, e o terceiro de sete
que passasse o azeite da lâmpada côvados de largura; porque por fora tinha
para a vasilha, do espírito para a feito pilastras de reforço para a casa ao
alma. Por isso aparece outro retângu- redor, para não embutir as vigas nas pa-
lo aqui. Vinte de largura, como o da redes da casa» (vers. 5-6).
casa – são os salvos. Mas só dez de Deus não quer deixar à casa aban-
comprimento – a metade. donada a si mesma; ele a rodeia de câ-
maras laterais. É o mesmo princípio
A necessidade de revelação que vimos no tabernáculo. Estavam
«E fez à casa janelas largas por den- todas as tábuas ao redor, mas o Se-
tro e estreita por fora» (V. 4). Aqui ve- nhor quis pôr cinco barras, para que
mos o mesmo princípio das peles de essas barras protegessem e mantives-
texugos no tabernáculo. Por fora, via- sem as tábuas retas; a casa foi reforça-
se como um grande ratão; por dentro da e guardada, nenhuma tábua se sol-
estava a glória. Os de fora não viam. tou, e fora mantida em seu lugar.
A Bíblia diz: «...aquele que não nascer Assim também, o Senhor mostrou a
de novo, não pode ver o reino de Deus» Davi e a Salomão que ele quer que a
(João 3:3). O homem natural não per- sua casa esteja rodeada por câmaras.
cebe as coisas que são do Espírito de Nessas câmaras se guardavam os te-
Deus, e não pode entendê-las, mas o souros; ali os sacerdotes se vestiam e se
espiritual discerne todas as coisas. despiam, saíam de um estado comum
Por isso diz aqui que a casa tinha e vestiam as vestimentas sacerdotais.
janelas largas por dentro e estreita Também na casa de Deus temos o
por fora. Ou seja, quem está dentro diaconato, o bispado e o apostolado.
pode ver tudo o que passa fora; mas Deus quer que a casa esteja res-
o que está fora não pode ver bem o guardada, protegida, pelos diáconos,
que há dentro. que têm que servir às necessidades
Assim é a casa de Deus. As coisas dos santos, e pelos anciões. São neces-
de Deus só se podem ver por revela- sários os presbíteros, que são os pró-
ção de Deus, de dentro para fora. prios bispos. Na Bíblia, bispos, pasto-
Mas o homem natural, fora, não res, presbíteros, intercambiam-se.
pode. Entender as coisas de Deus não Quando Paulo escreve a Tito co-
é questão de capacidade. Os que es- meça lhe falando de que o tinha dei-
tão dentro têm discernimento; os que xado em Creta para que corrigisse o
estão fora não podem ver nem entrar. que estava deficiente e estabelecesse
presbíteros em cada igreja local. E em
Os diáconos, bispos e obreiros seguida diz: «Porque é necessário que o
«Edificou também junto ao muro da bispo...». Ele vem falando dos anciões.
casa aposentos ao redor, contra as paredes Primeiro começa a falar de como deve
34 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

ser o caráter de cada um deles, mas maneira que os anciões estão sob a
agora já não lhe chama ancião, mas supervisão dos obreiros que os esta-
sim bispo, «...que for irrepreensível, ma- beleceram. Eles governam na igreja,
rido de uma só mulher...». mas na obra governam os obreiros.
Bispos e anciões, na Bíblia, é a Os obreiros fundam uma igreja e es-
mesma coisa. Na igreja dos tabelecem os anciões; mas, se os anci-
filipenses, estavam os santos com os ões se comportarem mal, então não
bispos e diáconos. Desta maneira é a se pode admitir acusação sem teste-
casa de Deus. No entanto, a igreja e munhas contra um ancião.
os anciões não estão isolados. A igreja Os obreiros não podem se meter
local não está isolada. Ela é parte da na jurisdição de outros, onde outros
igreja universal, está em comunhão trabalharam. Isso cabe aos que traba-
com outras igrejas, e a obra do Se- lharam ali, os que evangelizaram, os
nhor está nas mãos dos obreiros, que que discipularam, os que edificaram.
trabalham a um nível mais universal Os que instruíram à igreja, os que en-
que local. sinaram, corrigem as coisas que fal-
Os anciões cuidam da igreja em sua tam, nomeiam os anciões. Eles é que
localidade, mas os obreiros edificam o são apropriados para ouvir os proble-
corpo de Cristo universalmente. Por- mas que às vezes causam os anciões.
tanto, Deus quer que os anciões te- Então, em cima da segunda câma-
nham comunhão com os apóstolos. Por ra, há uma terceira. A primeira câma-
isso dizem os apóstolos: «...isso lhes ra, que é o diaconato, tem cinco
anunciamos, para que também vós tenhais côvados de largura; mas a de cima é
comunhão conosco»– Esse ‘nós’ é a equi- um pouco mais larga, tem mais res-
pe dos obreiros, os apóstolos– e nossa ponsabilidade, abrange mais, porque
comunhão – porque eles não estão isola- na igreja, os anciões governam os
dos, têm uma comunhão– verdadeira- diáconos, e não os diáconos aos anci-
mente é com o Pai, e com o seu Filho Jesus ões. Então, sobre a segunda câmara,
Cristo» (1ª João 1:3). Por isso existe a co- de seis côvados, Deus colocou uma
munhão apostólica, ou seja, a comu- terceira câmara de sete côvados. Por-
nhão dos apóstolos entre si, e das igre- tanto, os diáconos, os anciões, os
jas com os apóstolos, e dos apóstolos obreiros, cuidam da igreja; rodeiam-
com as igrejas. na como as barras no tabernáculo.
Então, diz Paulo a Timóteo: «Con- O diaconato está no primeiro lu-
tra um ancião, não admita acusação, a gar abaixo, mas há uma escada em
não ser com duas ou três testemunhas. forma de caracol que sobe do primei-
Aos que persistem em pecar, repreende-os ro piso, dando voltas e voltas. A esca-
diante de todos, para que os outros tam- da não é direta. Passa por uma prova,
bém temam» (1ª Tim. 5:19-20). Ou seja, passa outra vez por aqui, um pouco
que os obreiros fazem uma auditoria mais alto, e quando foi aprovado,
dos anciões que eles estabeleceram pode passar para o segundo lugar, ao
da parte de Deus. Deus os estabele- segundo piso, e do segundo pode
ceu, mas usou a eles para fazê-lo, de passar para o terceiro.
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 35

Por exemplo, o irmão José, na passarem na prova, serão diáconos em


igreja em Jerusalém, era um homem atividade. Agora passam a servir a
que servia, que ajudava e consolava casa, rodeando a casa, primeiramente
os irmãos. E os apóstolos trocaram o nos assuntos materiais, administrati-
nome dele por Barnabé, que quer di- vos. Não se metem com doutrinas, cla-
zer ‘filho da consolação’. O irmão ro, mas têm que guardar o mistério da
Barnabé começou a ser uma pessoa fé e outras coisas.
de confiança na igreja, e quando hou- E entre esses irmãos, temos, por
ve uma necessidade, então o envia- exemplo, a Estevão, que era diácono.
ram para ver como estavam as coisas Ele chegou a ser um homem de Deus,
lá em Antioquia. que não servia somente à igreja, mas
Quando ele chegou a Antioquia, também muito mais. Estevão ensina-
não era apóstolo, mas sim um colabo- va, testificava, e foi o primeiro mártir
rador dos apóstolos. E ele chegou e da igreja. E também Felipe, que che-
viu ali a graça de Deus. Ele não viu gou a ser evangelista, ou seja, pas-
os problemas. E como era um homem sando do primeiro piso para o segun-
bom, animou-os para que continuas- do, não como hierarquia, mas sim
sem. Era alguém de confiança. Che- como serviço, porque a responsabili-
gou a ser profeta e mestre, até que fi- dade na casa de Deus é para encarre-
cou em Antioquia, e chamou a outro gar-se de maiores problemas.
jovem, outro irmão, que tinha sido Cada vez que sobe, a responsabi-
problemático. Era Saulo. lidade é maior, os problemas são
Mas Saulo também subiu a esca- mais difíceis, assuntos que ninguém
da, e chegou a ser profeta e mestre, quer tocar. Mas são necessárias todas
como outros irmãos. Em Antioquia essas câmaras laterais ao redor da
havia profetas e mestres, mas não ha- casa, para cuidá-la. E essa escada é
via apóstolos. Mas, em determinado em caracol, ou seja, que a pessoa pas-
momento, o Espírito Santo dirigiu a sa e passa pelo mesmo lugar, mas
outros irmãos: «apartem-me a Barnabé cada vez um pouco mais. Não tem
e a Saulo para a obra a que os chamei» acontecido assim com você? A escada
(At. 13:2), e aí subiram a escada até o na casa de Deus é em caracol, repe-
terceiro piso, até a câmara de sete tindo e repetindo, para ir avançando.
côvados de largura. Foi ampliada a
responsabilidade. Sem acumular peso para a casa
Do capítulo 14, fala-se dos apósto- Seguimos em 1 Reis 6: «...por fora,
los Barnabé e Paulo. Mas não começa- havia pilastras de reforço ao redor da casa,
ram por cima; começaram dentro da para não embutir as vigas nas paredes da
casa de Deus. Há irmãos que se carac- casa» (V. 6). Olhem o cuidado do Se-
terizam porque estão sempre servin- nhor. Deus não quer que essas câma-
do. «Então, vamos pô-los a prova – ras – esses diáconos, anciões e obrei-
diz Paulo – para ver se podem ser ros – não pesem sobre as paredes da
diáconos». Ou seja, que já atuam casa. As vigas não é para pôr em cima
como diáconos, sem serem. Quando da parede, mas sim nestas pilastras de
36 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

reforço que eram feitas, para que não «...não por ganho desonesto...». Essa
pesem demasiadamente. viga não pode ser posta na parede,
Vamos ver essas pilastras de re- terá que pôr uma coluna, uma salien-
forço em 1ª Pedro 5:1-3: «Rogo aos an- te aqui: «...de boa vontade...»,
ciões que estão entre vós, eu também an- voluntariedade.
cião com eles – porque tinha subido do Mas são três pisos. E o outro é:
segundo para o terceiro piso –, e teste- «...não como tendo senhorio sobre os que
munha dos padecimentos de Cristo, que estão ao seu cuidado, mas sim servindo
sou também participante da glória que de exemplo ao rebanho». Então aí você
será revelada: Apascentem o rebanho de vê que as paredes da casa não estão
Deus que está entre vós, cuidando dele, suportando muito peso. Não há um
não por força, mas sim voluntariamente; senhorio exagerado, não estão exau-
não por ganho desonesto, mas sim de boa rindo os santos, não estão fazendo as
vontade; não como tendo senhorio sobre coisas por profissão, mas sim por
os que estão ao seu cuidado, mas sim ser- amor, voluntariamente, de boa vonta-
vindo de exemplo ao rebanho». de, sendo exemplos para o rebanho.
«...não por força...». Se for por força, As câmaras laterais eram para guar-
pressionará demasiadamente. Os san- dar a casa em vez de sobrecarregá-la.
tos sentem que as pessoas estão fazen-
do as coisas por obrigação. ‘Ai, porque Preparados nas pedreiras
acontece isto comigo. Por que você Verso 7: «E quando se edificou a
não prega, eu estou muito cansado?’. casa, fabricaram-na de pedras que trazi-
Se for por força, faz pressão sobre as am já acabadas, de tal maneira que quan-
paredes da casa, faz pressão sobre os do a edificavam, nem martelos nem ma-
santos. Onde está a pilastra de refor- chados se ouviram na casa, nem qualquer
ço, essa coluninha que terá que ser outro instrumento de ferro». Assim
posta? Aí diz: «...voluntariamente...». A como o ouro significa a natureza di-
primeira pilastra é voluntariedade. Não vina; a prata, a redenção; o bronze, a
por força, mas sim voluntariamente. disciplina de Deus, o ferro significa a
Segundo «Não». «...não por ganho autoridade. (Apoc. 2:26-27). No en-
desonesto, mas sim de boa vontade...». tanto, quando se edificava a casa, as
Hoje em dia é tão comum exaurir as pedras já vinham preparadas. As pe-
ovelhas, é tão comum que uma pessoa dras eram preparadas nas pedreiras.
comece a pregar sobre o dízimo e a Há irmãos que estão nas pedreiras,
prosperidade somente para encher os sendo preparados. Alguns estão sofren-
seus bolsos, fazendo dos santos uma do marteladas. Lá sim se ouve a marte-
mercadoria, como os fariseus que como lada. Essas pedreiras têm pessoas
pretexto faziam largas orações, mas ti- registradas como pessoas jurídicas, têm
nham o olho na casa da viúva. ‘Ah este placas com nomes e tudo, e são filhos
irmão é rico, este pode ofertar bastante. de Deus. São as pedras de Deus, e eles
Irmão, venha, sente-se aqui na tribu- devem ser um só templo para Deus.
na’. Mas Tiago diz: ‘Irmão, não façam Claro, as pedras são tiradas das
acepção de pessoas na igreja’. pedreiras. Graças a Deus que há pe-
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 37

dreiras, e as pessoas estão sendo sal- dro a cobria. Depois punha ouro, e
vas. Mas, o que vamos fazer com as no ouro punham palmeiras. De todas
pedras se for um montão de pedras as maneiras, as pedras não eram vis-
na frente do terreno de cada um. tas. Cada irmão por trás da cruz, ne-
Deus não pode viver aí. Como ele vai gando-se a si mesmo, não fazendo as
viver se pusermos um montão de pe- coisas por si mesmo. Caso contrário,
dras para cá e outro montão lá. Cada retorna para a pedreira.
pedra tem que ser tratada e prepara- «Edificou deste modo o aposento ao
da na pedreira. E quando o Senhor redor de toda a casa, da altura de cinco
traz, pode ser encaixado com os seus côvados – Graça. Cinco côvados, tudo
irmãos, porque se não encaixar, volta é graça – o qual se apoiava na casa com
para a pedreira, para receber martelo, madeiras de cedro». Mas, como se apoi-
para receber cinzel. ava na casa? Naquelas pilastras de
E quando já estiver preparado, reforço, naquelas colunas.
então já pode ter comunhão com os
seus irmãos, agora não é necessário O objetivo é a Presença
que ouçam machadadas nem marte- No verso 11, diz: «E veio a palavra
ladas, como diz o verso 7: «...e quando do Senhor a Salomão dizendo: Com rela-
se edificou a casa, fabricaram-na de pe- ção a esta casa que tu edificas, se andares
dras que traziam já acabadas». Quando nos meus estatutos e executares os meus
se encontram uns irmãos com outros, decretos, e guardar todos os meus man-
parece que era como já se conheces- damentos andando neles, eu cumprirei
sem, como estando falando as mes- contigo a minha palavra que falei com
mas coisas, a mesma linguagem. Davi seu pai; e habitarei nela...».
Estamos no mesmo Espírito. O objetivo da casa é a presença. O
Mas se você se encontra com al- que caracterizou os grandes aviva-
guém, e ele diz: ‘Eh, irmão, mas as ir- mentos é a presença do Senhor.
mãs aí usam a saia até aqui...’. Ou: Edifica-se o tabernáculo para que a
‘Não puseram gravata para pregar’. nuvem o encha; edifica-se a casa para
Bom, que passem outros meses na pe- que a nuvem a encha. Deus quer um
dreira, até que não mais se incomode lugar na terra para poder manifestar
que os irmãos não usem gravata. a sua presença. A terra está cheia da
«...acabadas, de tal maneira...». Ou seja, sua glória, mas não lhe conhecem.
de tal maneira já estavam acabadas, Ele quer que seja cheia do conheci-
«...que quando as edificavam, nem marte- mento da sua glória. E a glória de
los nem machados se ouviram na casa, Deus quer encher a igreja. Para isso
nem nenhum outro instrumento de ferro». se edifica a casa: para a glória, para a
Era tudo tão suave, tão agradável. presença.
«Lavrou, pois, a casa –Lavrou, isso «...e não deixarei o meu povo de Isra-
é à custa de golpes, não?– e a termi- el. Assim Salomão edificou a casa e a ter-
nou; e a cobriu com artesanatos de ce- minou».
(Síntese de uma mensagem ministrada
dro». Coberta de cedro; a cruz de ce- em Rucacura, janeiro de 2006).

***
38 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

Os cristãos precisam ter uma experiência espiritual mais pro-


funda a fim de serem úteis para Deus.

Gonzalo Sepúlveda

«Miserável de mim! quem me livrará deste corpo de morte?» (Romanos 7:24).

A
bem conhecida exclamação a respeito da obra do nosso Senhor
de Paulo em Romanos 7:24, Jesus Cristo na cruz em seu aspecto
costuma desconcertar muitos externo ao homem em si: o perdão
cristãos. Muitos chegam a duvidar de dos pecados cometidos, por meio do
que esta expressão represente a um sangue derramado (3:25), o repouso
renascido; ao contrário, parece a con- da consciência ou a bem-
dição de um mundano sem relação aventurança de quem sabe que está
alguma com o Salvador Jesus Cristo. perdoado (4:7) e em paz para com
No entanto, devemos reconhecer que, Deus (5:1). Mas, a partir da segunda
na sabedoria divina, este famoso ca- parte do capítulo 5 desta importante
pítulo 7 do livro de Romanos está epístola, o Espírito Santo começa a
muito bem localizado no Novo Testa- nos revelar a condição de «nós mes-
mento. mos»; não somente os delitos e peca-
dos que nos afastavam do Deus san-
A revelação de nós mesmos to, e sim a «constituição» do próprio
Até a metade do capítulo 5 de homem por causa da herança
Romanos, Paulo expõe amplamente adâmica (5:19).
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 39

Nenhum dos frutos do verdadei-


ro cristianismo poderá ser vistos na Deixemos atrás os tem-
vida e testemunho prático do crente,
a menos que consiga compreender pos de preguiça e negli-
esta vital revelação que as Escrituras gência, os tempos em
nos mostram a respeito de nós mes- que só líamos passagens
mos. A tão sonhada restauração da
igreja, a vida corporativa, o funcio- devocionais favoritos em
namento de todos os membros, a nossas Bíblias, e rogue-
unidade dos filhos de Deus renasci- mos ao Senhor que nos
dos em Cristo, o testemunho do
evangelho por meio da igreja às na- revele a sua palavra da
ções, etc., não será possível, nada cruz.
será uma prazerosa realidade, a me-
nos que todos, ou a maioria, ou ao rança pelo poder do Espírito Santo,
menos muitos irmãos e irmãs em cheios de todo conhecimento (15), e
Cristo, cheguem a uma clara e inte- todos os santos servindo com gozo ao
ligente experiência de Romanos ca- Senhor, abrindo as suas casas para a
pítulos 6 e 7. comunhão da igreja e para a
Uma das maiores desgraças do evangelização, atentos contra toda di-
cristianismo contemporâneo consiste visão e tropeços contra a doutrina
em que a grande maioria dos irmãos (Cristo), servindo sempre a «nosso
não passa de Romanos 4 em sua ex- Senhor Jesus Cristo» e esmagando a
periência de fé, o qual os torna tre- Satanás debaixo dos seus pés (16).
mendamente vulneráveis na hora de Bendita igreja de Cristo, bendita noi-
enfrentar situações de provações, tri- va que espera o seu amado, bendito
bulações, perseguições, desilusões, testemunho para quem jaz em seus
conflitos entre irmãos, (leia-se divi- pecados, bendita luz a um mundo
sões), e batalhas espirituais com o egoísta e escravo de paixões infames.
inimigo, Satanás, o acusador. Essa é a igreja sonhada por todo ser-
Quando lemos Romanos capítulos vo fiel e – por que não dizê-lo –, pelo
12 a 16, nos encontramos com uma próprio Cristo. É a igreja gloriosa, é a
igreja sonhada: com todos os mem- glória posterior (maior que a primei-
bros amando-se, preferindo-se e ra), pela qual o Senhor virá, fechando
abençoando uns aos outros (12), com a história da graça e iniciando a nova
um fiel testemunho diante do próxi- era do seu bendito reinado (como é
mo, diante das autoridades civis, des- anunciado em Apocalipse 12:10; 19:7
prezando as obras das trevas e reves- e 20:6).
tindo do Senhor Jesus Cristo (13), re- Mas, amados irmãos, nada disto
cebendo uns aos outros, sem lutas, poderá se realizar, se não passarmos
menosprezos nem julgamentos, vi- pelo «máquina de moer» de Romanos
vendo para o Senhor (14), suportan- 6 e 7. Temos que chegar ao fim de
do, recebendo e abundando em espe- «nós mesmos», a ter-nos por homens
40 TEMA DA CAPA ÁGUAS VIVAS

e mulheres miseráveis, incapazes de sua peregrinação pelo deserto e tam-


realizar os propósitos divinos; nossas bém na circuncisão de todos os ho-
forças devem ser enfraquecidas ao mens na colina de Haaralote, relata-
extremo, para dar lugar à vida sem- do no livro de Josué capítulo 5, entre
pre poderosa e triunfante do Espírito outras passagens.
Santo. Quando um cristão não pas-
sou por este tipo de crise, costuma A necessidade de uma experiência
tornar-se perigoso – mais ainda, de mais profunda
pouco confiança – na obra de Deus. Amados irmãos e irmãs que de
Quando Pedro sugeriu ao Senhor coração limpo invocam o precioso
que não fosse a Jerusalém, sem dar-se nome de nosso Jesus Cristo em todo
conta, estava recorrendo às suas pró- lugar, vivemos uma hora crucial no
prias idéias, ou seja, à sua força natu- desenvolvimento do propósito de
ral, às suas «boas intenções». Como Deus nesta geração. É urgente e ne-
sabemos, o Senhor Jesus atribuiu ao cessário que inclinemos o coração
próprio Satanás tais intenções diante do trono do nosso bendito
(Mateus 16: 22-23). (Neste episódio Deus e Pai e reconheçamos que, a
Pedro representa a muitos cristãos menos que a vida da ressurreição do
inexperientes, meio formados, cheio nosso Senhor Jesus Cristo se mani-
de boas opiniões, mas longe de agra- feste em cada um de nós, não sere-
dar ao seu Senhor). Foi só depois do mos de muita utilidade no seu reino.
triste episódio da negação, que este Para isto, é necessário que a Sua pa-
servo chegou a conhecer a si mesmo. lavra faça-se vida em nós, que deixe-
Tal experiência é o melhor exemplo mos atrás os tempos de preguiça e
do relatado pelo apóstolo Paulo em negligência, os tempos em que só lí-
Romanos 7:24. Naquele pranto amar- amos passagens devocionais favori-
go (Mateus 26:75), Pedro tomou real tos em nossas Bíblias, e roguemos ao
conscientização da sua miséria pesso- Senhor que nos revele a sua palavra
al. da cruz (1ª Cor.1:18) tal como ele de-
Em Lucas 5:8, Pedro tem consci- seja que a conheçamos; que passe-
ência dos pecados cometidos em sua mos para uma etapa mais elevada,
vida antes de conhecer o senhor Je- mais madura, de nossa experiência
sus, mas em Mateus 26 chega a ter em Cristo Jesus.
consciência de sua incapacidade na- Até quando o nosso testemunho
tural de agradar ao Senhor com as estará limitado à experiência do per-
suas próprias forças: teve o «querer dão dos nossos pecados por Seu san-
fazer o bem, mas não a capacidade de gue? Já não é tempo de levantarmos e
realizá-lo» (Romanos 7:18). Isto é o proclamar que em Cristo morremos
que tecnicamente poderíamos definir para o pecado e que, além disso, mor-
como «a operação ou experiência subjeti- remos para a lei? Não descansemos
va da cruz». No Antigo Testamento (na realidade não há descanso possí-
este tema está amplamente tipificado vel), até que o que está escrito em Ro-
em todos os fracassos de Israel em manos 6, 7 e 8 venha a ser parte da
ÁGUAS VIVAS TEMA DA CAPA 41

nossa própria vida, de nossa bendita e a auto-suficiência do homem natu-


experiência em Cristo. De outra ma- ral ainda estão muito presentes.
neira, passaremos a fazer parte da Certamente para muitos dos nos-
extensa lista de cristãos frustrados, sos leitores este tema já lhes é conhe-
que jamais entraram nas riquezas da cido e repetitivo nesta publicação,
graça do nosso Deus e que estão ex- mas de algum forma sentimos que
postos a ter grande perda no tribunal não devemos deixar de insistir sobre
de Cristo. o mesmo, pois a ignorância de mui-
Deus nos chama a ser protagonis- tos filhos de Deus os mantém cati-
tas do nosso tempo, vencedores em vos, sem saída nem resposta diante
meio de um cristianismo morno e das grandes interrogações do
conformista. É hora de nos levantar estancamento da fé. É triste ver mul-
com o poder da «lei do Espírito de tidões de cristãos, em muitos luga-
vida em Cristo Jesus», para que o Se- res, seguindo lideranças e/ou doutri-
nhor Jesus Cristo obtenha a Sua igre- nas heréticas. Muitas vezes, as ove-
ja gloriosa. Ele a obterá sem dúvida, lhas do Senhor terminam exauridas
mas nossa aspiração deve ser estar lá: por quem – como profetizou Paulo
ser parte da noiva vestida de linho em Atos 20:29 – não poupando o re-
fino, ser um dos vencedores de banho, fazem dos santos uma merca-
Apocalipse 2, ser dos servos fiéis de doria, enquanto estes jazem em sua
Mateus 25. ignorância, ofuscados pelas coisas
É fácil reconhecer a vida de Cristo externas da fé.
fluindo em outro irmão. Torna-se Muitos terminarão frustrados, de-
bela e singela a relação de comunhão, siludidos, pois nunca amadurecerão;
de amor e até de serviço entre os ser- viveram pela fé de outros, até termi-
vos, irmãos e irmãs, cujo único centro nar enredados em sua própria ruína.
das suas vidas é o próprio Cristo. De Digamos, finalmente, que Deus
outra forma, se tão somente nos en- quer que, além de reconhecermos
contrarmos com um ‘sábio cristão’, que somos pecadores por causa das
de conhecimentos fora do nosso al- faltas cometidas, cheguemos ao fim
cance, com uma vida cristã teórica e de nós mesmos, a reconhecer que, a
religiosa, ao relacionarmos com tal ir- menos que Cristo viva em nós (isto
mão, nos encontraremos talvez com implica nossa crucificação nele), não
boas doutrinas, com uma linda histó- poderemos jamais agradar-lhe. Então
ria, mas, enfim, só tocaremos ‘no ho- nos firmaremos no Espírito Santo,
mem’ que sustenta certas verdades poderoso para nos vivificar interior-
(pelas quais lutará até render a sua mente e, em comunhão com todos os
vida), mas infelizmente, ao não en- que se negaram a si mesmos, vere-
contrarmos com a inconfundível vida mos os dias mais gloriosos da histó-
de Cristo nele, a comunhão é algo ria da igreja… a igreja gloriosa pela
quase impossível… A cruz não foi qual nosso Marido celestial não tar-
provada na experiência; a arrogância dará em retornar!
***
42 PEQUENAS DELÍCIAS DA MESA DO REI ÁGUAS VIVAS

SEPARAÇÃO

O Senhor Jesus disse em certa ocasião: «E aquele que me en-


viou está comigo; o Pai não me tem deixado sói, porque eu faço
sempre o que lhe agrada» (Jo. 8:29). Este versículo nos mostra
a normalidade da relação do Pai e o Filho. O Filho em submissão
absoluta; Seu caráter dócil e reverente diante do Pai, lhe agra-
dando em tudo. A sua submissão constante à vontade de Deus
lhe permitia desfrutar de sua agradável companhia sempre. Não
é perfeito?
No entanto, quando estava na cruz, Ele exclamou: «Elí, Elí, lamá
sabactani? Isto é: Deus meu, Deus meu, por que me desampa-
raste?» (Mat. 27:46). Este grito lacerante contrasta em tudo com
o anterior. Há aí desamparo, indefensibilidade, angústia. Este é
um grito dilacerador, incontido, que surge das suas entranhas.
O desamparo a respeito de Deus é dilacerador ainda para nós,
que vivemos uma comunhão apenas relativa com Deus. Como
seria para Ele, que nunca deu motivos, ser deixado só? Para Ele
era algo estranho, impensável, incompreensível! Por que então
o Pai lhe deixa só na maior necessidade, no pior momento?
Por favor, não procuremos a causa em Deus, como se tivesse
traído o Filho. Não a busquemos no Filho, como se tivesse deixa-
do de agradar ao Pai. Ao contrário, procuremo-la em nós, os
pecadores, cujos pecados Ele carregava na cruz nesse momen-
to: «O Senhor fez cair sobre ele o pecado de todos nós» (Isaías
53:6).
As mais vis ações, os maiores despropósitos, os pecados mais
horrendos pesavam sobre os seus ombros. Por isso o Pai lhe
deixou. Oh, que injustiça, que loucura! Oh, que injustiça a que
lhe fizeram! Os céus foram comovidos, a terra se obscureceu, os
sepulcros se abriram e os infernos se espantaram. Os universos
mais longínquos deveriam saber também. Toda a criação de Deus
parou de respirar nesse momento sublime. Oh, meu Senhor ben-
dito!
«Certamente ele levou as nossas enfermidades, e sofreu as
nossas dores... ele foi ferido por nossas iniquidades, moído por
nossos pecados ... por suas chagas nós fomos sarados» (Isaías
53:4-5).
Eis aqui, bendita graça, os que estávamos aí, fomos declara-
dos livres. Livres para sempre!
ÁGUAS VIVAS ESPIGANDO NA HISTÓRIA DA IGREJA 43

Precoce, fértil, polêmico, eloqüente. Charles Haddon Spurgeon,


um homem que maravilhosamente fez brilhar o evangelho na
penumbra da Inglaterra do século XIX.

2ª Parte

Procedente de uma antiga família cris- Colégio de Pastores

A
tã inglesa, Charles H. Spurgeon mostrou fim de ajudar os jovens que
muito cedo uma inclinação pelas coisas es- tinham o chamado para a
pirituais. Convertido aos 15 anos, aos 17 pregação, Spurgeon criou em
já era pastor. Aos 20 anos se encarregou de 1856, com recursos próprios, o Colé-
uma das igrejas mais antigas e prestigiosas gio de Pastores, que começou com
de Londres. Muito rapidamente começou a apenas um aluno e um professor. Em
atrair multidões por sua pregação. No en- pouco tempo, foi construído um edi-
tanto, também houve uma forte hostilidade fício para o Colégio. No fim de 1872,
para com a sua pessoa, por causa da sua em razão da alta demanda dos estu-
juventude, sua intrepidez, e suas firmes dantes, construiu-se um lar para o
convicções doutrinais. As dificuldades al- Colégio. Em seu discurso anual de
cançaram o seu ponto mais alto quando 1890, Spurgeon informava que nos 34
ocorreu um acidente em uma das suas reu- anos do Colégio, tinham sido recebi-
niões, que causou a morte a 7 pessoas. Esta dos nele 828 postulantes, dos quais
terrível tragédia deixou uma marca muito 673 exerciam na obra.
profunda no jovem pregador. Não obstante O Colégio de Pastores foi a obra
se repôs, e continuou o seu ministério. favorita de Spurgeon. «Aquele que
44 ESPIGANDO NA HISTÓRIA DA IGREJA ÁGUAS VIVAS

converte uma alma tira água de uma naram amplamente conhecidos, pois
fonte; mas o que prepara um ganha- em uma reunião noturna, Spurgeon
dor de almas, está cavando um poço convidou a John A. Jackson, um es-
do qual milhares podem beber a água cravo fugitivo originário da Carolina
da vida eterna. Por isso cremos que a do Sul, USA, que subisse ao púlpito
nossa obra entre os estudantes é a com ele. Isto fez que perdesse muito
maior responsabilidade de todas do apoio que recebia dos Estados
aquelas nas quais pusemos as Unidos, e afetou a venda dos seus
mãos...». sermões naquele país. Talvez por
A partir do ano de 1865 foi orga- isso, face aos inúmeros convites que
nizada a «Conferência Anual» do Co- teria que receber posteriormente,
légio de Pastores. A estes encontros Spurgeon nunca concordou em visi-
vinham todos os que tinham passado tar os Estados Unidos. Mais tarde re-
por suas salas de aulas, para ter uma cebeu também convites para visitar a
semana de refrigério espiritual, no Austrália e Canadá, mas ele respon-
abraço dos companheiros, na comu- dia que não tinha permissão do seu
nhão, no estudo aos pés do Mestre. Senhor para abandonar o seu posto.
Spurgeon sempre tinha para eles pa- Enquanto era levantado o
lavras de carinho e ânimo, de exorta- Tabernáculo Metropolitano,
ção e conselho. Spurgeon, os diáconos e alguns mem-
No final de 1857 foi publicado o bros da igreja, costumavam reunir-se
seu primeiro livro, o primeiro de para orar no meio dos trabalhos da
muitos que haveriam de serem publi- construção. Por fim, em 1° de março
cados: O Santo e o Seu Salvador, escrito de 1861, terminou o Tabernáculo Me-
principalmente «para a família do Se- tropolitano. Tinha capacidade para
nhor,» embora contenha muitas pas- 6.000 pessoas; além disso, havia um
sagens destinadas ao leitor não con- salão para a Escola Dominical, com
vertido. capacidade para 1.000 pessoas; e ou-
Da mesma forma que Wesley e tras dependências.
Whitefield, Spurgeon costumava pre-
gar ao ar livre. Certa vez pregou debai- Dias de êxito e reconhecimento
xo de uma grande árvore onde a pouco O primeiro serviço que foi cele-
tempo tinha morrido um homem parti- brado no Tabernáculo Metropolitano
do por um raio. Dessa maneira, ele foi de oração, dirigido por Spurgeon,
enfatizava o inesperado da morte. Em no dia 18 do mesmo mês, com mais
outra ocasião, 10.000 pessoas o escuta- de mil pessoas assistindo. As celebra-
ram pregar junto a uma grande rocha e ções de abertura tiveram uma dura-
cantar com todo ardor «Rocha da Eter- ção de 5 semanas. Várias pregações
nidade». Pregou também em estábulos, sobre a graça foram expostas pelo
abrigos, e uma vez, inclusive, pregou próprio Spurgeon e por outros prega-
em cima de uma carroça. dores convidados.
No fim de 1858, os sentimentos de Neste tempo Spurgeon tinha 26
Spurgeon contra a escravidão se tor- anos de idade, e só fazia 6 que se en-
ÁGUAS VIVAS ESPIGANDO NA HISTÓRIA DA IGREJA 45

contrava em Londres. Apesar da sua intitulada «A Verdadeira Unidade


juventude, e o tempo relativamente Promovida» que tem muita vigência
curto em que se achava à frente deste em nossos dias. Em 1866 tornou a
trabalho, tinha efetuado um trabalho pregar sobre este tema. Spurgeon de-
verdadeiramente brilhante. A fama monstrou a sua simpatia a favor de
de Spurgeon não cessou, nem dimi- uma verdadeira unidade cristã ao vi-
nuiu com a edificação do Tabernáculo sitar a Escócia na primavera desse
Metropolitano. Ao contrário, a sua re- ano, assistindo à Igreja Livre da As-
putação ia crescendo à medida que sembléia da Escócia e pregando em
passavam os anos. outra igreja de São Jorge e para as
Durante o ano de 1861 foram dis- Igrejas Presbiterianas Unidas de
tribuídos 200.000 sermões impressos Edimburgo.
nas Universidades de Oxford e
Cambridge, e saiu uma edição alemã A Sociedade de Colportores e o Orfa-
que foi exposta na Feira do Livro de nato
Leipzig. Muitos jornais dos Estados Em 1866 foi criada a Associação
Unidos seguiam publicando os seus de Colportores. Seu propósito era fa-
sermões a cada semana. zer circular a maior quantidade pos-
O volume de sermões do «Púlpito sível de literatura sadia, de caráter
do Tabernáculo Metropolitano» cor- cristão. Para Spurgeon, os colportores
respondente ao ano de 1864 é um dos não eram só vendedores de livros,
mais importantes de toda a coleção mas sim verdadeiros «missionários
que contém 56 volumes. A razão é que pregadores, e pastores». Algumas ci-
inclui sermões sobre «A Regeneração fras dão eloqüente amostra disso.
Batismal», «Meninos Trazidos a Cristo Durante os primeiros dois anos,
e não a Pia Batismal», «O Livro da houve somente 6 homens neste traba-
Oração Comum» (utilizado pela Igreja lho. Em 1872, havia 13; em 1874 ha-
da Inglaterra, anglicana), e «Pesado via 35; em 1875, havia 45. Em 1880,
nas Balanças». Spurgeon sabia que ti- que era o 14o. ano de sua existência,
nha «atiçado um ninho de cascavéis» a Associação contava com 79
e estava plenamente convencido que a colportores e foram vendidos 396.291
venda dos seus sermões baixaria dra- livros e revistas, efetuaram-se
maticamente, mas a partir desse mo- 631.000 visitas missionárias, e cele-
mento se ampliou a venda. brado 6.000 serviços de pregação. Em
Em 1865 iniciou a publicação de média, em cada ano, cada colportor
uma revista mensal a que pôs por tinha vendido 5.016 livros e revistas;
nome A Espada e a Pá de pedreiro. A re- efetuado 7.987 visitas; e celebrado 75
vista incluía a publicação de sermões, serviços de pregação. Seguindo o
de artigos e de comentários de livros. exemplo dos colportores, um grupo
Também mantinha informados os de membros do Tabernáculo partiu
seus leitores a respeito das demais para a Índia em trabalho missionário.
obras do ministério de Spurgeon. No ano seguinte começou a se
Em 1865 pregou uma mensagem concretizar outro sonho de Spurgeon:
46 ESPIGANDO NA HISTÓRIA DA IGREJA ÁGUAS VIVAS

um Orfanato. Como alguém disse: se não fosse ele quem a administras-


«O Orfanato representa da maneira se, o dinheiro não seria doado. Dessa
mais bela um dos traços mais ternos maneira Spurgeon se viu obrigado a
de Spurgeon. O seu amor aos meni- empreender a fundação do Orfanato.
nos só foi excedido pelo amor que os Junto com a doação de Mrs. Hillyar
meninos tinham para com ele». Mui- vieram muitas outras. Os edifícios
tas ocasiões, extenuado pelo excesso do Orfanato de Stockwell foram ter-
de trabalho, e preocupado pelos mui- minados no final de 1869. Nele in-
tos problemas, Spurgeon ia ao Orfa- gressaram centenas de meninos, de
nato para encontrar descanso físico e todas as classes sociais e denomina-
mental. Ali, Spurgeon era como «um ções cristãs, convertendo-se em um
menino grande entre muitos outros dos maiores asilos de órfãos da Ingla-
meninos pequenos». terra. Em 1880 começou a construção
No entanto, Spurgeon nunca teve do Orfanato de meninas.
o propósito deliberado de fundar um A única disciplina que se empre-
asilo de meninos. Sua criação foi pro- gava no Orfanato de Stockwell era a
videncial, e é necessário nos referir- do amor, a palavra carinhosa, e a afe-
mos a ela para conhecermos um pou- tuosa persuasão. Muitos dos meninos
co mais sobre este homem. No ano de criados ali foram pregadores do
1866, falando Spurgeon de uma ma- Evangelho.
neira incidental, de algumas coisas
que constituíam uma necessidade im- A obra se estende
periosa, mencionou um Orfanato, Em 1867, em vista das freqüentes
dando ênfase aos milhares de meni- enfermidades e o enorme trabalho de
nos que na própria Londres careciam Spurgeon, a igreja nomeou o seu ir-
de pão e de abrigo. Esta nota foi lida mão James como auxiliar. Desde esta
por uma assídua leitora de Spurgeon, data, e por espaço de 24 anos, esses
a Sra. J. Hillyar, que era viúva de um dois irmãos estiveram à frente daque-
clérigo anglicano e que possuía mui- la gigantesca obra. Por volta do final
tos bens. Depois de meditar muito so- deste mesmo ano terminaram um
bre isto, pôs a disposição de Asilo de Velhos com doze habitações
Spurgeon uma grande soma de di- para velinhas.
nheiro para a construção de um Orfa- Embora Spurgeon nunca tenha vi-
nato. Spurgeon rejeitou aceitar o ofe- sitado os Estados Unidos, teve estrei-
recimento, e a aconselhou que fizesse ta comunhão com cristãos norte-ame-
essa doação ao Orfanato de G. ricanos. Em 1875, os evangelistas nor-
Müller, em Bristol. te-americanos D. L. Moody e Sankey
Com essa carta Spurgeon creu pregaram no Tabernáculo Metropoli-
que ficaria terminado este assunto. tano. Em 6 de junho Spurgeon pre-
Mas quase imediatamente recebeu gou em uma campanha de Moody e
uma segunda carta, em que lhe dizia Sankey na cidade de Londres.
que Deus tinha posto em seu coração Em 15 de agosto desse mesmo
lhe entregar essa quantidade, e que ano, Spurgeon pregou um sermão
ÁGUAS VIVAS ESPIGANDO NA HISTÓRIA DA IGREJA 47

intitulado «Prescindindo do Sacerdo- de pregadores e professores da escola


te», que causou uma grande contro- dominical. Algumas vezes Spurgeon
vérsia promovida pelos jornais con- selecionava alguns desses incidentes
trolados pela Igreja da Inglaterra. e pregava sermões completos a res-
Durante uma reunião de oração peito deles. Por exemplo, durante
que teve na última noite de janeiro dois domingos do mês de Setembro,
deste ano, Spurgeon falou contra o pregou dois sermões sobre o afunda-
uso do título «Reverendo» (embora mento do navio Princesa Alicia.
ele ainda o usasse para não dificultar
a tarefa do seu carteiro). Ele afirmava As idosas e as enfermidades
que ninguém o tinha ordenado, e Com o passar dos anos, a enfer-
ninguém nunca o faria. midade do reumatismo e a gota co-
Na noite do primeiro domingo de meçaram a atacar fortemente
Julho de 1875 começaram a usar uma Spurgeon. Continuamente tinha que
nova estratégia de evangelização no se ausentar do púlpito, e reservar pe-
Tabernáculo Metropolitano: foi solici- ríodos de descanso na cidade de
tado a toda congregação que cedesse Menton, França, às vezes por sema-
os seus assentos, para que as pessoas nas ou meses. Neste tempo um jornal
que nunca tinham vindo pudessem dos Estados Unidos acusava um po-
escutar o Evangelho. Devido ao bom pular pregador londrino de falta de
resultado que teve esta experiência, moderação, expressando que a sua
foi repetida muitas vezes no futuro. enfermidade de gota requeria fre-
Em Dezembro de 1876 Spurgeon qüentes visitas a França, sendo que a
pregou uma série de cinco sermões gota era o resultado do excessivo
sobre Cristo: «Cristo o Fim da Lei», consumo de cervejas, conhaque e vi-
«Cristo o Conquistador de Satanás», nho de Jerez.
«Cristo o Vencedor do Mundo», Mas Spurgeon continuava a sua
«Cristo o que Faz Todas as Coisas obra. Continuamente recebia grandes
Novas» e «Cristo o Destruidor da somas de dinheiro, seja como presen-
Morte». No ano seguinte, publicou tes (em seus aniversários especial-
um livro, O Glorioso Êxito de Cristo, mente), donativos ou ganhos pela
uma coleção de sete sermões a respei- venda dos seus livros. Grande parte
to de Cristo como vencedor de Sata- desses dinheiros ele canalizava para
nás, do mundo, da morte, etc. as obras de caridade. Em 1879
Em 1878, no mês de Julho, foi publi- Spurgeon doou 5.000 libras esterlinas
cado um excelente livro intitulado: para os asilos e o restante para outras
«A Bíblia e o Jornal.» Spurgeon estava causas que eram dignas, tais como o
convencido que devia ler o jornal Fundo de Auxílio para os Ministros
«para ver como meu Pai celestial go- Pobres.
verna o mundo.» O livro contém uma Spurgeon também teve preocupa-
coleção de notícias de jornais sobre ção pelas idosas pobres. O «Lar das
diversos incidentes, vistos de uma Idosas» tinha nascido 50 anos antes
perspectiva espiritual, para benefício que Spurgeon se tornasse o pastor da
48 ESPIGANDO NA HISTÓRIA DA IGREJA ÁGUAS VIVAS

Igreja New Park Street; e se originou da Inglaterra, Mr. Gladstone, visitou


no coração de João Rippon. No entan- em 1882 o Tabernáculo Metropolita-
to, deve o seu maior aumento a no. A visita do senhor Gladstone foi
Spurgeon. Em 1880 encontravam-se inesperada de tal forma que não foi
abrigados neste asilo 17 idosas, a preparado um sermão especial para a
maior parte das quais eram antigos ocasião. O Primeiro-ministro se reu-
membros da Igreja do Tabernáculo. niu previamente em particular com
Este asilo era um verdadeiro lar Spurgeon durante quinze minutos, e
para as idosas. Spurgeon nunca creu posteriormente tornou a reunir com
na conveniência de que as pessoas ele para felicitá-lo pelo excelente tra-
encerradas em uma instituição bene- balho que era desenvolvido.
ficente vivessem amontoadas em Em 1884 foi a celebração do ani-
grandes salões, e ainda mais sendo versário número cinqüenta do prega-
idosas, as que como tal, têm os seus dor, celebração que teve lugar nos
hábitos de vida já formados, e os seus dias 18 e 19 de Junho. Os jornais co-
costumes estabelecidos. Providenciou mentaram o evento e congratularam
um grande número de habitações o pregador por ser um dos homens
para que nelas pudessem viver indi- mais conhecidos do seu tempo, tendo
vidualmente as asiladas, e nestas ha- sido primeiro «uma curiosidade e
bitações reuniu todas as comodida- posteriormente uma notoriedade.» O
des possíveis dentro de um bom en- Tabernáculo estava completamente
tendido espírito de economia, a fim lotado nas reuniões que tiveram lu-
de que os últimos anos de vida des- gar essas duas noites. 7.000 pessoas
sas idosas fossem tranqüilos e agra- estiveram presentes na noite de 19 de
dáveis. Ali viviam aquelas velinhas Junho. Em uma resposta característi-
independentemente, no entanto, em ca aos elogios que lhe eram feitos,
família, com a avaliação e a conside- Spurgeon disse que «ele não atraves-
ração de todos. Eram consideradas saria a rua para ir escutar ele mes-
não como objeto de caridade, mas mo.» No evento pregaram homens
sim como boas irmãs a quem se esta- eminentes tais como D. L. Moody e
va no dever sagrado de sustentar, tor- O. P. Gifford, dos Estados Unidos e
nando suportáveis os últimos instan- Canon Wilberforce, e os doutores
tes da sua existência. Newman Hall e Joseph Parker.
A popularidade de Spurgeon che- Spurgeon era um firme calvinista,
gou a alturas imprevisíveis, tanto, mas revelou a sua condição universal
que fazia severa concorrência aos po- ao pregar no mês de Abril a favor da
líticos mais importantes da época. Sociedade Missionária Wesleyana.
Conta-se que um estudante de uma
escola nos Estados Unidos, quando Rompe-se a paz: A Controvérsia do
perguntaram-lhe quem era o Primei- declínio
ro-ministro da Inglaterra, respondeu: As coisas andaram muito bem até
O senhor Spurgeon! o ano de 1887. Este foi o ano na vida
Precisamente o Primeiro-ministro de Charles Haddon Spurgeon de
ÁGUAS VIVAS ESPIGANDO NA HISTÓRIA DA IGREJA 49

acordo com os seus biógrafos e os meio deles». Spurgeon apresentou a


historiadores da igreja. Devido ao de- sua renúncia à União Batista.
senrolar dos eventos desse ano e à A Controvérsia do Declínio se
decisão tomada por Spurgeon, foi cri- converteu em tema de conversação
ticado, elogiado e avaliado depois. nos Estados Unidos e Canadá duran-
Foi o ano da «Controvérsia do te este ano. «O Batista Nacional» da
declínio». Filadélfia censurou a Spurgeon; a
Spurgeon olhava a muito tempo Convenção Batista da Província Ma-
com preocupação para as tendências rítima do Canadá, ao contrário lhe
modernistas entre certos pregadores apoiou.
batistas do seu tempo. Entre os enga- O pregador confessou que a «ten-
nos estava o negar o sacrifício são da controvérsia quase quebran-
expiatório de Cristo, a inspiração bí- tou o meu coração». A controvérsia
blica e a justificação pela fé. Os batis- refletiu-se na pregação desse ano:
tas, em vez de pôr ordem em suas fi- «Agarrando-se à Fé», «A Infalibilida-
leiras, e esclarecer pontos em dispu- de da Escritura», «Nenhum Compro-
ta, tinham comunhão com tais mo- misso», são alguns títulos das suas
dernistas. pregações.
Segundo Spurgeon, eles racioci-
navam assim: «Sim, nós cremos na Últimos dias
Divindade de Jesus; mas não deixarí- Durante os últimos dias de
amos um homem para fora do nosso Spurgeon agravou-se a enfermidade
convívio por pensar que o nosso Se- da gota, a qual se acrescentou o reu-
nhor é um mero homem. Nós cremos matismo e, no final, a enfermidade
na expiação: mas se outro homem o de Bright (que ataca severamente os
recusa, ele não deve, devido a isto, rins).
ser excluído de nosso grupo». Por No final de 1891, os médicos e
este motivo, Spurgeon considerou amigos aconselharam outra viagem a
um dever separar-se deles: «O sepa- Mentone. Durante os três meses que
rar-nos a nós mesmos daqueles que mediaram entre a sua chegada a
se separam a si mesmos da verdade Mentone e a sua morte, semanalmen-
de Deus não é só a nossa liberdade, te escrevia para a sua congregação
mas sim o nosso dever». cartas carinhosas que eram lidas pu-
Spurgeon não queria entrar em blicamente. Essas cartas mostram o
disputa, tampouco exercer pressões homem de Deus expressando a for-
para que eles mudassem o seu proce- mosura de Cristo. Em 21 de dezem-
dimento, mas simplesmente quis sair bro de 1891 escreveu uma carinhosa
do meio deles, conforme a Palavra. «O carta aos meninos do Orfanato, apre-
dever obrigatório de um verdadeiro sentando o seu carinho, e dando-lhes
crente para com homens que profes- saudáveis conselhos.
sam ser cristãos, e, no entanto negam Parece que a última carta que
a Palavra do Senhor, e resistem aos Spurgeon escreveu para a sua Igreja é
fundamentos do Evangelho, é sair do a que aparece datada em 15 de janei-
50 ESPIGANDO NA HISTÓRIA DA IGREJA ÁGUAS VIVAS

ro de 1892. O dia 17 participou de um Perfil do homem de Deus


culto familiar; e o dia 18 a gota afe- Spurgeon viveu e brilhou com
tou-lhe a cabeça. Na terça-feira dia 26 claridade extraordinária, em uma
era o dia marcado para trazer para o época em que, em seu próprio país,
Tabernáculo as ofertas de ações de sobressaíam magníficos pregadores.
graça. Esse dia Spurgeon ditou ao Muitos se perguntavam onde estava
seu secretário, o Sr. Harrald, o se- o segredo do seu poder e a chave do
guinte telegrama: «Eu e esposa, cem seu êxito. De fato, não possuía as ca-
libras, sincera ações de graças, para racterísticas que podem fazer um ho-
gastos gerais do Tabernáculo. Cari- mem atrativo para as massas. Sua es-
nhos a todos os amigos». E então tatura era média; o seu corpo era for-
caiu na inconsciência, a que conti- te, mas comum, com tendência à obe-
nuou quase todo o tempo restante. sidade; o seu rosto, sombreado nos
Antes havia dito ao seu secretário: últimos anos por uma barba rala, não
«Minha obra terminou». E a sua es- era certamente a representação da be-
posa: «OH querida, gozei um tempo leza; e toda a sua personalidade, con-
glorioso com o meu Senhor!». templada no púlpito, não tinha aque-
Charles H. Spurgeon dormiu no la simpatia atraente que tanto se ad-
Senhor em 31 de janeiro de 1892, ro- mira nos grandes da tribuna.
deado da sua esposa, um dos seus fi- Uma parte da imprensa começou
lhos, seu irmão e co-pastor, seu secre- a dizer que o êxito de Spurgeon era
tário particular, e três ou quatro ami- porque ele era um excêntrico do púl-
gos. O seu corpo foi colocado, dias pito. Mas nunca foi tal coisa. Pelo
depois, em seu lugar de descanso ter- contrário, era sim pausado e severo, e
restre, junto ao túmulo do missioná- os seus movimentos eram os que se
rio Robert Moffatt. esperavam em todo orador, próprio
Depois da morte de Spurgeon, de uma escola mais conservadora.
toda a imprensa deu atenção a ele en- No que Spurgeon possuía um ver-
chendo as suas colunas com os seus dadeiro tesouro, rico e inesgotável,
dados biográficos, com a enumeração era em sua voz, nos tempos em que
e apreciação da sua obra, e estima do não era conhecido o microfone. Al-
seu caráter. guém disse que enquanto se enchia o
Durante o seu pastorado, um total Tabernáculo parecia uma enorme col-
de 14.692 pessoas foram batizadas e méia. Mas tão logo Spurgeon subia
se uniram ao Tabernáculo Metropoli- ao púlpito, todos esses rumores se
tano. Os seus sermões continuaram acalmavam, e em meio a um grande
sendo publicados durante 27 anos silêncio, vibrava com uma grande in-
depois da sua morte, de tal forma tensidade a sua voz clara e cristalina
que «até estando morto, fala.» Atual- de timbre metálico; voz acariciadora,
mente, os livros e sermões de mas viril; voz que prestava, de ma-
Spurgeon, assim como a sua vida e neira maravilhosa, para as matizes
ministério, seguem inspirando a mi- de sentimentos mais delicados e di-
lhares de cristãos em todo mundo. versos.
ÁGUAS VIVAS ESPIGANDO NA HISTÓRIA DA IGREJA 51

A voz de Spurgeon era robusta, e ço até o maduro termino da sua obra,


extensa, e sempre chegou claramente a serena e imperturbável fidelidade
até o último dos ouvintes. Em várias de mente e de coração, de consciên-
ocasiões na Inglaterra, e Escócia falou cia,... de vontade, de tudo o que ha-
ao ar livre com multidões de 14 e via nele, e de tudo o que havia dele,
15.000 pessoas. Em certa ocasião, en- ao mero e puro, imutável, não
quanto provava a sua voz no solitário acomodatício neotestamentario Evan-
Palácio de Cristal, um trabalhador gelho de Cristo, que é o mesmo on-
que se encontrava em um andaime tem, hoje, e para sempre... Seja Deus
muito alto, colocando cristais em bendito por isso!».
uma das janelas, ouviu-lhe dizer: Outra característica extremamen-
«Palavra fiel e digna de ser recebida te apreciável em Spurgeon era o seu
por todos: que Cristo Jesus veio ao espírito de oração. Cria absolutamen-
mundo para salvar os pecadores’. Es- te na necessidade da oração, e a prá-
sas palavras foram repetidas com tica de sua vida nunca esteve em de-
uma voz baixa, suave, distinta. O ho- sacordo com isto. Certa vez, uns visi-
mem se surpreendeu grandemente, tantes procedentes dos Estados Uni-
porque não via ninguém no edifício; dos lhe perguntaram qual era o se-
mas aquelas palavras chegaram ao gredo do seu êxito. Ele lhes respon-
seu coração, e aceitou a Cristo.» deu: «Minha gente ora por mim».
Uma das características espirituais Quando alguém entrava para visitar
que Spurgeon possuía era a sua fé fir- o tabernáculo Metropolitano, ele o le-
me e invariável; uma fé que se sobre- vava para a sala de oração no sótão,
punha às dificuldades e contratempos. onde sempre haviam pessoas interce-
Aquelas coisas fundamentais de que dendo de joelhos. Então Spurgeon
falava, a respeito de Deus, de Cristo, declarava: «Aqui está a central elétri-
da vida eterna, não eram para ele me- ca desta igreja».
ras teorias, mas sim tremendas realida- Orar era tão natural para ele
des. Deus enchia todo o seu horizonte. como respirar. Wayland Hoyt, um
Jesus era tão absolutamente o Senhor amigo, conta o seguinte testemunho:
do seu coração, que as lágrimas corri- «Eu estava caminhando com ele (com
am dos seus olhos em torrentes quan- o Spurgeon) no bosque, e quando
do falava do Salvador. Jesus Cristo ti- chegamos a certo lugar simplesmente
nha fascinado o seu coração. disse, venha nos ajoelhemos junto a
Esta fé profunda se manifestava esta cabana e oremos, e assim elevou
em sua fidelidade à verdade. Em sua a sua alma a Deus na mais reverente
vida toda era guiado exclusivamente e amorosa oração que ouvi».
por essa lealdade à Palavra de Deus. Também, segundo Theodore
W. C. Wilkinson diz: «A coisa mais Cuyler, enquanto caminhando pelo
admirável a respeito de Spurgeon, bosque tiveram um tempo de humo-
era esta: a absoluta, singela e comple- rismo, Spurgeon parou de repente e
ta fidelidade que sempre manteve, disse: «Venha Theodore, agradeçamos
sem intermitências, do juvenil come- a Deus pelo riso», e ali mesmo orou.
52 ESPIGANDO NA HISTÓRIA DA IGREJA ÁGUAS VIVAS

Algumas das admoestações mais e escreverão bem; e se ajoelhados na


solenes que Spurgeon dirigiu a sua porta do céu podem reunir os seus
congregação foram sobre o perigo de materiais, não deixarão de falar bem
que jamais cessassem de depender de ... Nada pode lhes pôr tão gloriosa-
Deus em oração. «Que Deus me aju- mente em aptidão de pregar, como
de se deixarem de orar por mim! Avi- aquele que acabou de descer do mon-
sem-me naquele dia, e terei que ces- te da comunhão com Deus, para falar
sar de pregar. Avisem-me quando com os homens. Ninguém é tão apro-
propuserem cessar em suas orações, e priado para exortar os homens, como
clamarei: «meu Deus, me dê o aquele que esteve lutando com Deus
túmulo neste dia, e que eu durma no a favor deles».
pó». Essas palavras não eram elo- Mas, sem dúvida, o que caracteri-
qüência de pregador, mas expressa- za de maneira mais clara e significati-
vam os sentimentos mais profundos va o ministério de Spurgeon é a sua
do seu coração. Ele cria que sem o Es- pregação absolutamente
pírito de Deus nada poderia ser feito. Cristocêntrica. Cristo era a profundi-
Quando a sua congregação cessasse dade e o centro da sua pregação, re-
de sentir a sua «inteira dependência e ferindo-se a sua divina pessoa, ou a
absoluta na presença de Deus», esta- sua bendita obra. Para ele o único
va seguro de que «antes de pouco propósito e finalidade da pregação
tempo deveriam ser objeto de despre- era apresentar a Cristo para o mun-
zo e comentário velado, ou talvez um do; mas não a um Cristo ético e im-
mero lenho sobre a água». perfeito, mas sim o Cristo dos Evan-
Aos pregadores ensinava: «Se tem gelhos, perfeito em sua humanidade
que haver algum homem debaixo do e em sua divindade; um Cristo Salva-
céu obrigado a cumprir com o precei- dor, crucificado e morto para a nossa
to «orem sem cessar», é sem dúvida redenção; um Cristo que é o único re-
alguma o ministro cristão. Este tem médio para as nossas enfermidades,
tentações especiais, provações parti- e a única solução para todos os nos-
culares, dificuldades singulares... Ne- sos problemas, quaisquer que sejam.
cessita conseqüentemente muita mais Spurgeon estava acostumado a di-
graça que os outros homens, e como zer a respeito: «Muitos, são os aspec-
ele sabe disso, se vê obrigado a cla- tos sob os quais temos que considerar
mar incessantemente, pedindo força sobre o nosso divino Senhor, mas eu
ao Forte, e a dizer: «Levantarei os tenho que lhe dar sempre a maior
meus olhos para os montes, de onde proeminência ao seu caráter salva-
me virá o socorro... As orações que dor, de Cristo, nosso sacrifício, que leva
fazem serão os seus ajudantes mais os nossos pecados. Se houve uma época
eficazes enquanto os seus sermões este- na qual tivesse necessidade de ser-
jam ainda sobre a bigorna... podem mo- mos claros, decididos e veementes
lhar a sua pena (que se usava para neste ponto, é agora... Tratar de pre-
escrita antiga) em seu coração, recor- gar a Cristo sem a cruz, é negá-lo
rendo a Deus com toda a sinceridade, com um beijo... As pessoas que me-
ÁGUAS VIVAS ESPIGANDO NA HISTÓRIA DA IGREJA 53

nosprezam o sacrifício expiatório de ser eliminado do mesmo. Incapaz de


Cristo como a única oferta pelo peca- refrear os seus próprios sentimentos,
do, também dão golpe de morte na exclamou: «Sem o meu Senhor, não
doutrina da justificação pela fé... O tivesse o menor desejo de estar aqui;
pensamento moderno não é outra e se o Evangelho não fosse verdade,
coisa que a tentativa de retroagir o agradeceria a Deus por me aniquilar
sistema legal da salvação pelas neste mesmo instante, pois não dese-
obras... Alguns pregadores evidente- jaria viver se vocês pudessem des-
mente não crêem que o Senhor está truir o nome de Jesus».
como o seu Evangelho, porque para Muitos anos depois, a senhora
trazer e salvar os pecadores, o seu Spurgeon recordava este mesmo ser-
evangelho é insuficiente e têm que mão, e descrevia do modo seguinte
ser adicionadas as invenções dos ho- ao seu final, quando a voz de
mens. A pregação do singelo Evange- Spurgeon quase estava se extinguin-
lho tem que ser complementada, crê- do por causa do esgotamento físico:
em eles. . . Se vosso Evangelho não «Recordo-me, com estranha clareza
tem o poder do Espírito Santo nele, depois de tanto tempo, a noite do do-
não podereis pregar com confiança». mingo em que pregou aquele sermão.
Spurgeon amava proclamar «a Era um tema em que se alegrava ex-
glória de Deus na face de Jesus Cris- tremamente; o seu principal deleite
to». Cristo era o «tema glorioso, inten- era exaltar o seu glorioso Salvador, e
samente absorvente» de seu ministé- naquele discurso parecia estar ver-
rio, e esse Nome convertia as suas fa- tendo a sua própria alma e vida em
digas no púlpito em um «banho nas comemoração e adoração diante do
águas do Paraíso». Esta foi a sua ca- seu misericordioso Rei. E eu cri seria-
racterística desde os primeiros anos mente que tinha morrido ali, diante
do seu ministério. Por isso, não é de de todas aquelas pessoas! No final do
surpreender que repassando os títulos sermão, fez um grande esforço para
dos seus sermões em 1856 e 1857 en- recuperar a voz; mas a pronunciação
contremos este nome constantemente quase lhe falhava, e só pude ouvir
repetido: «Cristo nos Negócios do Seu com acento entrecortado o patético
Pai»; «Cristo, Poder e Sabedoria de epílogo: «Pereça o meu nome, mas
Deus»; «Cristo Levantado»; «A Con- seja para sempre o Nome de Cristo!
descendência de Cristo»; «Cristo Nos- Jesus! Jesus! Jesus! Coroem-lhe Se-
sa Páscoa»; «Cristo Exaltado»; «O Elo- nhor de todos! Não me ouvirão dizer
gio de Cristo»; «Cristo no Pacto». mais nada. Estas são minhas últimas
Em um dos tais sermões, palavras no Exeter Hall por esta vez.
intitulado «O Nome Eterno», prega- Jesus! Jesus! Jesus! Coroem-lhe Se-
do no princípio de 1855 quando tinha nhor de todos!» E então se desabou,
vinte anos, descreve o que seria do quase desacordado, na cadeira que
mundo se o nome de Jesus pudesse havia atrás dele.

***
54 REFLEXÃO ÁGUAS VIVAS

COISAS VELHAS

A SEMENTE DA MULHER

A cena da desobediência no jardim do Éden é dolorosa. Ainda


nos dói quando a lemos. A tentação e a queda. Adão e Eva
envergonhados, tremendo diante da presença de Deus; a
serpente, triunfante; a criação de Deus, confundida.
Deus sai ao encontro dos protagonistas de tão trágicos
acontecimentos. Suas palavras são fortes; sua sentença,
irrevogável.
Mas das palavras ditas à serpente existem algumas que têm
especial importância, porque é um aviso encoberto de um fato
que ocorrerá uns quatro mil anos depois: «E porei inimizade entre
ti e a mulher, e entre a sua semente e a semente dela» (Gên.
3:15).
Não nos referiremos aqui à inimizade entre ambas as
sementes, mas sim ao acontecimento de que tudo isso, e o que
segue, está se referindo à semente da mulher. Não à semente de
Adão e Eva, mas sim à semente da mulher.
A mesma mulher que foi objeto do engano; e que provocou o
maior descalabro teria que ser o instrumento por meio do qual
Deus teria que trazer o remédio.
Quando o anjo aparece a Maria, a donzela de Nazaré, naquela
inesquecível cena, lhe diz: «O Espírito Santo virá sobre ti, e o
poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso
também o Santo Ser que há de nascer, será chamado Filho de
Deus» (Luc. 1:35).
O anjo fala com Maria sobre o nascimento de Jesus. Não
comunica a homem algum, mas sim a esta mulher. É porque
chegou o tempo daquela antiga profecia se cumprir. Era o tempo
de nascer a semente da mulher.
Como sabemos, Jesus não nasceu pela vontade do homem,
mas sim de Deus. Isto todo cristão sabe, e nisso se alegra. No
entanto, o admirável e nem sempre conhecido, é que Deus o
anunciou no jardim, naquelas palavras ditas à serpente. A
serpente entendeu? A mulher soube?
Certamente que não.
Esta é, então, a primeira chave deixada por Deus nas Escrituras
a respeito do seu mistério eterno, e é o anúncio da vindicação
daquela frágil criatura que caiu tão vergonhosamente.
ÁGUAS VIVAS REFLEXÃO 55

COISAS NOVAS-

O CANTO DE ZACARIAS

Lucas 1:63-79

Zacarias esteve mudo durante nove meses. Não é um homem


ignorante, não é um homem qualquer. Ele pertence à família
dos sacerdotes de Israel. Além disso: apareceu-lhe um anjo, e
lhe falou. Mas faz nove meses que Zacarias não fala.
O anjo tinha lhe dito que a sua mulher (já muito idosa!) ia ter
um filho. Um filho? (Ela não é uma idosa?) Um filho! E que será
um profeta. Zacarias emudece de puro espanto, de estupefação...
de incredulidade! Então o anjo o deixa mudo.
Zacarias agora está falando por gestos, escrevendo em
tabuletas. Todos estão consternados, o que aconteceu? Zacarias
teve uma visão no santuário! Algo grandioso vai ocorrer!
Passam os nove meses, e Zacarias não diz nenhuma palavra.
Nasce o menino. «Como se chamará?» – perguntam-lhe. Ele anota
em uma tabuleta: «João é o seu nome».
Então ocorre um milagre: Zacarias fala. Sua boca se abre e
um jorro de louvor começa a fluir por ela. Espanto! Seguem
ocorrendo coisas estranhas nesta família.
Em seguida ocorre um segundo milagre. Zacarias fala não
do seu filho que está ali, à vista de todos, atraindo todas os
olhares.
Zacarias, cheio do Espírito Santo, bendiz a Deus e começa a
falar de outra pessoa. Fala de Alguém que ainda não nasceu,
mas que fará uma obra prodigiosa. Por Ele seriam salvos dos
seus inimigos e do temor para servir a Deus. O louvor flui
torrencialmente não para João, seu filho, mas sim para o Santo
Ser que haveria de nascer depois de três meses!
Em seguida, Zacarias fala do seu filho, de João, o profeta
precursor. Ele preparará o seu caminho. Isso é tudo. Embora
não seja pouco.
Dois milagres. O primeiro deles dá lugar ao segundo, ao
maior: O testemunho a respeito de Jesus Cristo. O primeiro que
Zacarias falou, logo depois de sua mudez, não foram palavras
para receber a seu filho, mas sim para anunciar o seu Senhor.
56 PÁGINA DO LEITOR ÁGUAS VIVAS

CARTAS

Conferência Unidos
Estivemos desfrutando da recente Vocês não imaginam quanta bênção foi
Conferência. Graças a Deus pelo que ele para a minha vida (e para muitos a quem
está fazendo nesses dias. Vi umas qua- reenvio) a sua revista Água Vivas. Qua-
tro ou cinco vezes as mensagens em se diariamente o Senhor me fala através
vídeo. Unimo-nos no sentir do Espírito dela, cuidando e dirigindo os meus pas-
neste falar tão rico e de tanta edificação. sos neste maravilhoso transitar em Seu
Que Deus siga usando os seus vasos caminho. Rogo ao nosso Pai celestial, que
para a glória daquele que merece toda siga crescendo o seu ministério da Web,
a glória, a honra e a excelência. já que serve de alimento espiritual para
Rodolfo Romero, McAllen, USA. tantas pessoas nos cantos mais recôndi-
tos do planeta. Um forte abraço do
Devocionais Paraguai, distante geograficamente, mas
Leio as devocionais diárias que vocês unidos em um mesmo corpo.
publicam e são para mim de grande bên- Rubén Yebrán, Asuncion, Paraguai.
ção. Entre muitos outros devocionais que
podemos encontrar na Internet o seu é Palavra fresca
dos melhores que eu tenho lido. Gloria Quanto prazer me dá saber sobre este
a Deus por isso e obrigado a vocês por ministério. Não tenho acesso a Internet,
publicá-lo e pelo trabalho que isso im- mas quando posso me colocar na rede,
plica. Me despeço com uma saudação no vou olhar o site. Dá-me muito prazer sa-
Senhor, agradecendo a ele que use a ber sobre sua definição de propósitos, e
vocês para trazer bênçãos diárias para especialmente a visão de ministrar uma
as nossas vidas. palavra fresca de Deus para a igreja.
Alfredo Caravaca, Barcelona, Espanha. J. C. R., Villa Clara, Cuba

Por razões de espaço, as cartas são resumidas.


Toda bênção procede de Deus; portanto, toda a glória é para Deus.

águas vivas
UMA REVISTA PARA TODO CRISTÃO / ANO 8 · Nº 44 · MARÇO - ABRIL 2007

Diseño y diagramación: Mario Contreras. Desenho Gráfico: Mario Contreras.


Traducciones: Edward Burke. Traduções: Edward Burke, Marcos Aurélio.
E-Mail: aguasvivas.cl@gmail.com Contato Brasil: Edward Burke Junior.
Equipe Redatora: Eliseo Apablaza, Roberto Rua Escócia N. 620, Apto. 304.
Sáez, Gonzalo Sepúlveda. Jardim Adriana II, 86046-230 Londrina, PR.
Nesta edição também: Hoseah Wu, Christian (0XX43) 30272539.
Chen, Gino Iafrancesco. E-Mail: vidadecristo@pop.com.br

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