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Fundação Universidade Federal de Rondônia – UNIR

Pró-reitoria de pós-graduação e pesquisa – PROPESQ


Diretoria pesquisa
Programa Institucional de Bolsas e Trabalho voluntário de iniciação cientifica.
PIBIC/UNIR/CNPq

Bolsista e Voluntário

Projeto do grupo de pesquisa: Grupo de pesquisa em teoria política contemporânea

Projeto do orientador: Teorias Contemporâneas da Justiça e da Democracia

Projeto do bolsista/voluntário: A Teoria Crítica da Justiça de Axel Honneth.


Orientando: Elisandro Desmarest de Souza
Orientador: Prof. Dr. Fernando Danner

Dados do Candidato: ( X ) Bolsista ( ) Voluntário


Tipo: ( X ) Novo ( ) Renovação ( )Substituição

Período de pesquisa

01/07/2018 a 31/06/2019.

Resumo

O presente relatório final (PIBIC) tem por objetivo analisar a Teoria Crítica da Justiça de Axel
Honneth (1949), sendo que, em um primeiro momento analisar as questões das liberdades
negativa e reflexiva, e num segundo momento da liberdade social no contexto social presente
na obra “O Direito da Liberdade”. De acordo com Axel Honneth a teoria crítica procura num
contexto social de justiça delinear sobre as liberdades individuais, entretanto, nosso autor
afirma que a liberdade coletiva é a liberdade mais justa, pois é ela procura englobar a todos os
indivíduos de uma sociedade. Dessa forma eles possam realizar suas vontades de maneira
justa e democrática.

Palavras Chaves: Autonomia, Dignidade; Justiça; Liberdade; Respeito.

Abstract
This final report (PIBIC) aims to analyze the Critical Theory of Justice of Axel Honneth
(1949), being that, at first, analyze the issues of negative and reflexive freedoms, and a second
moment of social freedom in the present social context in the book "The Right of Freedom".
According to Axel Honneth, critical theory seeks in a social context of justice to delineate on
individual freedoms, however, our author asserts that collective freedom is the most just
freedom, since it seeks to encompass all individuals in a society. In this way they can fulfill
their wishes in a fair and democratic way.
Key Words: Autonomy, Dignity; Justice; Freedom; Respect.

Introdução

O presente relatório apresenta os resultados finais do projeto de pesquisa “A Teoria


Crítica da Justiça de Axel Honneth”. O objetivo principal do projeto foi o de expor as
questões da liberdade na teoria crítica da justiça desenvolvida pelo filósofo alemão Axel
Honneth (1949), atual diretor do Instituto de Pesquisa Social – também conhecida como
Escola de Frankfurt – da Universidade Johann Wolfgang Goethe de Frankfurt. Axel Honneth é
tido como o representante da terceira geração da mesma.
Com efeito, pela leitura das obras Luta por Reconhecimento, Sofrimento de
Indeterminação, A ideia de Socialismo e principalmente da obra O Direito da Liberdade
procurei, em um primeiro momento, analisar o desenvolvimento da Teoria Critica da Justiça
desenvolvida por Honneth, especialmente a grande influência exercida pela teoria social de
Georg W. F. Hegel (1770-1831) em suas intuições e teses essenciais e, em um segundo
momento, mostrar quais foram as principais reatualizações da teoria crítica empreendidos
pelo filósofo frankfurtiano.
Nestas obras, o nosso autor procura mostrar a evolução da luta por reconhecimento no
contexto social moderno, uma vez que as práticas de valores ideais levam à formação da
identidade do sujeito e, além disso, à construção de uma sociedade mais solidária, que, por
sua vez, ao mesmo tempo em que se forma um sujeito social autônomo em busca do bem-
estar da comunidade, se preocupa com o bem-comum dos seus membros.
A teoria crítica de Honneth não está somente preocupada com a distribuição de renda,
ela procura superar as desigualdades sociais, bem como se preocupar com a dignidade da
pessoa e o respeito do individuo no contexto social.
Iremos no primeiro momento ver os conceitos de liberdade individuais a saber:
liberdade negativa e a liberdade reflexiva, que são as liberdades monológicas onde o
indivíduo discute consigo mesmo o que é melhor para ele, sem interferências internas ou
externas. No segundo momento iremos analisar a construção do sujeito social nas relações
sociais de intersubjetividade e a conquista da liberdade social.
Em sua reconstrução da teoria critíca, Honneth procura mostrar, nas condições sociais
da existência das liberdades individuais, representadas pela liberdade negativa e pela
liberdade reflexiva, que o indivíduo tem sim sua vontade e ela deve ser realizada; entretanto,
essas liberdades são superadas através da eticidade e do reconhecimento intersubjetivo, na
tomada de consciência de que esse indivíduo não está só no mundo, e sim inserido em um
contexto social mais amplo e complexo, no qual ele participa e tem direitos e deveres que
precisam ser respeitados. Este tipo de liberdade é definido como liberdade social ou vontade
coletiva.
Objetivos

Objetivo Geral

Partindo da leitura das obras de Honneth e de alguns comentadores, queremos estudar


a questão do reconhecimento intersubjetivo, da liberdade e justiça e, ao mesmo tempo,
problematizar e esclarecer a teoria crítica de Honneth, que assume como base principal as
esferas do reconhecimento. A tese honnetiana procura ir além de um mero reconhecimento
intersubjetivo de igualdade na distribuição de renda; para ele, a luta por reconhecimento no
mundo contemporâneo representa a procura por justiça social; e, para se ter justiça e
liberdade normativa, é necessário que tenha os reconhecimentos da dignidade e do respeito
de cada um; aliás, o reconhecimento da dignidade e do respeito de cada um representa o
verdadeiro ideal moral e político que perpassa as diferentes lutas sociais em nossa época. A
luta por reconhecimento, para nosso autor, é o remédio para as patologias sociais, que
impedem os indivíduos de exercer seus direitos de forma plena.

Objetivos Específicos

1. Mostrar a construção do sujeito social nas lutas por reconhecimento na sociedade


contemporânea;

2. Demonstrar a superação das liberdades monológicas pela liberdade social como liberdade
normativa;
3. Estudar questões relacionadas ao reconhecimento intersubjetivo, à justiça, à liberdade,
à autonomia e etc.;

4. Refletir teórica e criticamente sobre os conceitos de autodeterminação,


autoconsciência e autorrealização, e de como estes conceitos podem ajudar na construção do
sujeito social;

Materiais e Métodos
No decorrer da pesquisa foram feitos fichamentos, projeto de pesquisa para TCC com
o titulo “Evolução da Teoria Crítica de Axel Honneth ”, na monografia com o titulo
“Reconhecimento, Justiça e Liberdade: A teoria Crítica de Axel Honneth” que foi defendida e obteve
aprovação no dia 09 de julho de 2019 na Universidade Federal de Rondônia e resumos dos textos
de Honneth, bem como de alguns de seus comentadores. O objetivo principal foi reconstruir
os argumentos principais, presentes nas diferentes obras de Honneth, para o entendimento
sobre reconhecimento intersubjetivo que é a base para uma ideia de justiça e para, além disso,
os conceitos de liberdade sociedade contemporânea.

O método utilizado é analítico-interpretativo das principiais obras de Axel Honneth,


começando com Sofrimento de Indeterminação: Uma Reatualização da Filosofia do Direito
de Hegel; Luta por Reconhecimento: A Gramática Moral dos Conflitos Sociais; O Direito da
Liberdade e A ideia de Socialismos. Além disso, examinaremos livros e artigos de seus
comentadores, de modo a melhor compreender o alcance e os limites da teoria crítica
honnethiana.

Resultado e discussões

A seguir, apresentamos os resultados da pesquisa realizada.

A construção da liberdade individual


De acordo com Honneth a teoria filosófica da sociedade tem como premissa a o
reconhecimento intersubjetivo, ou seja, ao invés dos atos isolados de seus indivíduos deve ser
aceita a socialização ou o convívio comunitário. Também há uma mudança na forma como se
travam as lutas sociais, que na modernidade a luta pela autoconservação de Maquiavel onde a
conservação do poder estava em primeiro plano, pois se um príncipe quiser permanecer no
poder, ele deve ser enérgico, caso contrário seu principado sucumbira e seus inimigos tomarão
o poder. E a “luta de todos contra todos” na luta pela autopreservaçao em Hobbes, este que
mostra que o reconhecimento se daria pelo medo da morte violenta, dessa forma o indivíduo
abriria voluntariamente parte de sua liberdade fazendo o pacto social, desta forma ele
conseguiria ter segurança, paz e a manutenção de sua propriedade. Diz Honneth:
Uma primeira interpretação dessa espécie decorre da tese desenvolvida por
Andréas Wildt, segundo a qual Hegel não fala aqui da “luta de vida e morte”
num sentido literal, mas somente figurado; a metáfora drástica refere-se
àqueles momentos de uma “ameaça” existencial, nos quais um sujeito tem de
constatar que uma vida plena de sentido só lhe é possível no “contexto do
reconhecimento de direitos e deveres” (HONNETH, 2009, p. 93).
Já o reconhecimento intersubjetivo se dá pela luta por reconhecimento, não mais uma
luta de vida e morte, mas uma luta dialógica que é travada no contexto social que tem como
pano de fundo o reconhecimento nas instituições da sociedade contemporânea, pois é nas
esferas do reconhecimento que o sujeito social desenvolve sua autoconsciência, e passa a
começar a reconhecer a vontade do outro.
Partido da leitura da obra Luta por reconhecimento, em que ele mostra a construção do
sujeito social evolui nas esferas do reconhecimento intersubjetivo, nessa evolução o indivíduo
procura suprir suas carências em outros indivíduos, podendo dessa forma ser capaz de se
reconhecer no outro em suas necessidades e também de construir de forma racional e
reflexiva o seu conceito de liberdade. Honneth diz:
Hegel começa descrevendo o processo de estabelecimento das primeiras
relações sociais como o afastamento dos sujeitos das determinações naturais;
esse aumento de “individualidade” se efetua através de duas etapas de
reconhecimento recíproco, cujas diferenças se medem pelas dimensões da
identidade pessoal que encontram aí uma confirmação prática. Na relação de
“pais e filhos”, uma relação de “ação recíproca universal e de formação dos
homens” os sujeitos se reconhecem reciprocamente como seres amantes,
emocionalmente carentes; o elemento da personalidade individual que
encontra reconhecimento por parte do outro é o “sentimento prático”, ou
seja, a dependência do indivíduo relativa às dedicações e aos bens
necessários para a vida (HONNETH, 2009, p. 49).

Como visto as relações intersubjetivas que se dão nas esferas do reconhecimento, faz
com que o indivíduo perceba que não é só ele que possui vontade, mas os outros também.
Com essa percepção ele começa através da sua consciência e reflexão a construir seus
conceitos de liberdade e justiça, e é neste momento que ele se desperta e se vê não apenas
como um indivíduo, mas como uma pessoa que possui direitos e deveres dentro de uma
sociedade.
Honneth diz que o sujeito social está dividido em três partes distintas, que se
completam e se desenvolve conforme sua evolução na sociedade, ele é composto de sua
singularidade, da sua particularidade e sua universalidade. Em cada esfera do reconhecimento
elas têm uma finalidade, pois na sua singularidade ele começa a superar suas carências e
desenvolve sua autoconfiança; em sua particularidade ele procura através de sua autonomia e
nas relações de mercado se autorrealizar e se sentir satisfeito sua potencialidade e na sua
universalidade ele tem a capacidade de se autodeterminar, ou seja, ele será capaz de decidir
por si só a livre escolha do seu destino.
É dentro dessa singularidade e particularidade que se desenvolvem os conceitos de
liberdade individual, ou de liberdades monológicas. As liberdades monológicas que Honneth
trabalha na obra O direito da liberdade, são à saber: liberdade negativa e liberdade reflexiva.
Honneth diz que o conceito de liberdade negativa está baseado na autonomia do
indivíduo, e isso consiste em buscar seus interesses sem ter a interferência interna ou externa
que o coaja, uma vez que ele é dono de sua própria vontade. O indivíduo conversa consigo
mesmo e através de sua racionalidade decide o que é melhor para sua afirmação. Diz
Honneth:
[...] Então, o princípio de autonomia individual já não se separa de ideia de
justiça social e das reflexões sobre como ela deve ser instituída na sociedade
para tornar justos os interesses e necessidades de seus membros. Por maior
que seja a importância de tudo o que, como perspectivas éticas, vier a se
acrescentar o discurso sobre justiça, sempre ficará à sombra do significado
de valor desfrutado pela liberdade indivíduo no ordenamento social
moderno. [...]. Hoje em dia, nem ética, nem crítica sociais podem fingir
transcender o horizonte de pensamento que, há mais de dois séculos de
modernidade, instaurou-se mediante a associação da representação de justiça
como ideia de autonomia (HONNETH, 2015, p. 36 - 37).

No contexto moderno a ideia liberal de justiça estava baseado na autonomia do


indivíduo e não na vontade da comunidade, pois a liberdade individual seria como uma pedra
fundamental de ideia normativa de justiça. Pois dessa forma o indivíduo seria capaz de
questionar os ordenamentos social e racionalmente se autodeterminar, e assim podendo
garantir a realização da autonomia de todos os demais membros da sociedade.
A liberdade negativa é algo que o indivíduo toma como base de correto, é o seu “eu”
egoísta falando e decidindo o que é melhor pra ele, é a primeira ideia de liberdade que ele
tem. De acordo com Honneth a ideia de liberdade negativa para Hobbes é:
[...] a ausência de resistência externas, que poderiam obstruir os movimentos
possíveis aos corpos naturais; [...], Hobbes traça uma inferência para a
liberdade de seres que, como os homens, diferentemente dos meros corpos,
possuem “vontade”; assim, sua liberdade consiste em não ser obstruídos por
resistências externas na busca de realizar seus objetivos que s impõe para
ele: segundo o que se pode entender como definição, “homem livre é aquele
que não é impedido de fazer o que tem vontade de fazer naquelas coisas que
é capaz de fazer graças à sua força e seu engenho” (HONNETH, 2015, p.44).

De acordo com a passagem acima a liberdade negativa para Hobbes seria uma
“liberdade natural”, na qual o homem deve realizar sua vontade através de sua consciência e
daquilo que ele é capaz de realiza de forma autônoma na busca de seus interesses.
Portanto, para o filósofo frankfurtiano, nesse princípio de liberdade negativa, que é
dirigida exclusivamente pelos seus desejos, o indivíduo almeja efetivar sua vida boa dentro de
sua singularidade, numa tentativa clara de realizar sua vontade sem reconhecer a vontade do
outro. Honneth afirma que o século XXI seria o apogeu do individualismo; desse modo, aos
seus olhos, a concepção hobbesiana de liberdade negativa deve ser superada, pois essa
liberdade tem apenas o objetivo daquilo que o indivíduo quer para si.
Na esfera da liberdade negativa, o indivíduo “conversa” e “delibera” consigo mesmo;
é ele quem dita o que é melhor para si sem se preocupar com os resultados das ações que ele
venha adotar; em outras palavras, basta o ato puro de realizar seus desejos para que ele queira
usar sua condição de liberdade. Honneht utiliza também o conceito sartreano de liberdade
negativa: segundo ele, “no páthos existencialista, a liberdade incondicionada chega a um fim,
num processo que se iniciou já com a determinação imperceptível pela qual apenas
impedimentos externos poderiam limitar as ações de um homem” (HONNETH, 2015, p. 49-
50); nesse sentido, podemos perceber que o indivíduo poderia satisfazer sua vontade apenas
realizando suas escolhas próprias sem interferências externas.
Para Honneth, esse indivíduo, motivado pelo seu ímpeto singular de realizar suas
vontades, deve começar a aprender que ele não se encontra sozinho em uma sociedade; ele
precisa aprender que outros indivíduos também possuem suas vontades singulares e também
eles querem que elas sejam realizadas. A liberdade negativa, portanto, pode motivar conflitos
que podem limitar ou até mesmo prejudicar o processo de autodeterminação individual. Nas
palavras de Honneth:
Todas as insuficiências reveladas pela ideia de liberdade negativa remetem,
em última instãncia, ao fato de ela cessar antes do limiar legítimo da
autodeterminação indiviudal. Para se conceber esse tipo de liberdade que
contivesse um elemento de “autodeterminação”, seria necessário apreender
também o objetivo do agir como rebento da liberdade: o que o indivíduo
realiza, quando age “livremente”, poderia ser visto como resultado de uma
determinação, que ele próprio realiza para si (HONNETH, 2015, p. 57).

Em resumo, a liberdade negativa seria somente uma espécie de libertação das forças
que coagem o indivíduo a não adotar determinadas ações; desta forma, a liberdade negativa
pode inclinar o indivíduo a decidir somente por si mesmo como realizar sua vontade livre. No
entanto, essa realização é apenas individual, na medida em que ele não se preocupa em
realizar essa liberdade no mundo.
Honneth aborda o conceito de liberdade negativa e o conceito de liberdade reflexiva
como contraponto para justificar a verdadeira liberdade, a saber, a liberdade social (analiso
essa esfera da liberdade na próxima seção). A liberdade reflexiva se configura em uma
ampliação do conceito normativo de liberdade negativa; na perspectiva filosófica de Honneth,
a liberdade reflexiva está ligada à capacidade do indivíduo em usar suas orientações internas
para desenvolver, ao mesmo tempo, tanto sua ideia de autonomia como sua ideia de
autorrealização, fazendo com que o sujeito aja de forma que siga somente sua própria
vontade; essa vontade deve ser livre e deve acontecer no mesmo momento da intenção de
fazer. Honneth descreve a diferença entre os conceitos de liberdade negativa e reflexiva da
seguinte forma:
A liberdade negativa é elemento originário e indispensável da autoconcepção
moral da modernidade; nela se expressa a ideia que o indivíduo deve
desfrutar do direito de agir sem restrição externa e sem depender de coerção
para provar os motivos de “seu bel-prazer” enquanto não violar os mesmos
direitos de seus concidadãos. Ao contrário do que se tem aí, na verdade a
ideia de liberdade reflexiva se estabelece, antes de tudo, somente pela
relação do sujeito consigo mesmo; segundo a ideia, é livre o indivíduo que
consegue se relacionar consigo mesmo de modo que em seu agir ele se deixe
conduzir por suas próprias intenções (HONNETH, 2015, p.58).

Podemos afirmar, portanto, que na esfera da liberdade negativa é livre o indivíduo que
consegue se relacionar consigo mesmo, pois ele é somente conduzido por sua vontade sem
coerção externa; a liberdade individual, nesse sentido, pode ter diversas formas de
manifestações; entretanto, a ideia de liberdade reflexiva deixa claro que o indivíduo não pode
ter somente a vontade ou se deixar levar por seus desejos; ele tem que, de forma racional,
fazer dessa vontade uma ação que o beneficie sem transgredir o direito do outro; servindo-se
sempre de sua autonomia e de sua autenticidade, o indivíduo deve sempre buscar sua
autodeterminação e sua autorrealização.
Historicamente, a liberdade reflexiva é a primeira das liberdades, e é através dela que
o indivíduo, de forma racional, vai interagindo com os demais membros de sua sociedade. Em
sua ação e reflexão racional, o indivíduo não só pensa no “eu”, mas em “nós”; essa forma de
liberdade se apresenta como uma autolegislação coletiva. Além disso, esse tipo de reflexão faz
com que o indivíduo compreenda que o outro também possui desejos que querem ser
realizados. Contrariamente aos demais animais, o indivíduo realiza efetivamente suas
vontades dentro de uma esfera de reconhecimento, seja ela a mais singular ou a mais
universal. Sentir-se realmente livre, ter sua autonomia e sua autorrealização respeitada se
constitue como o horizonte da vontade de todos dentro das esferas sociais de reconhecimentos
recíprocos – em Honneth, essa vontade é conhecida como vontade autêntica. A liberdade
reflexiva está intimamente ligada ao conceito de liberdade e justiça, especialmente à justiça
social, que representa a realização de todas as liberdades indivíduais. Diz Honneth:
No cerne dessa questão existe a ideia de que a autonomia moral resulta
metodologicamente numa concepção processual de justiça. O processo de
autodeterminação individual é transferido para os graus superiores do
ordenamento social, em que é concebido como procedimento de formação da
vontade comum na qual os cidadãos, em condições iguais, deliberem sobre
os princípios de um ordenamento social que lhes pareça”justo” (HONNETH,
2015, p. 73).

Com efeito, a esfera da vontade coletiva começa a superar, de forma amena, o sistema
de egoísmo social, de modo que a cooperação e a deliberação pública começam a aparecer
como a forma mais justa de realização da vontade, sem deixar que sejam perdidas as
liberdades indivíduais. A liberdade reflexiva se constitui, para o indivíduo, em um processo
que o ajuda na sua formação social e lhe fornece as condições de autorrealização, sem que
isso possa causar prejuízos para os demais membros dessa sociedade.
Na visão do nosso autor a liberdade monológica numa sociedade pluralista seria algo
que causaria muita controvérsia, pois a ideia de autonomia também seria pluralista e o “eu”
seria algo muito egoísta é difícil de realizar um valor de justiça ideal, a qual poderia ser
realizada na liberdade social.

A construção normativa da Liberdade Social na Teoria Critica de Honneth


A liberdade social é um tipo de liberdade que o sujeito vai compartilhar com os outros,
bem como, através do exercício de sua autonomia, vai buscar a realização da comunidade, e
não somente dele. Diferentemente da liberdade reflexiva, que é uma liberdade monológica, a
liberdade social precisa da interação social, ou seja, do reconhecimento intersubjetivo, pois é
somente nessas condições que podemos exercitar realmente nossa liberdade moral. Honneth
(2015, p.83-84) diz que, “assim, sou livre somente à medida que estou em condições de
orientar minha ação para objetivos estabelecidos de maneira autônoma ou em relação os
desejos autênticos”.
Honneth, baseado nas ideias hegelianas, cita como exemplo de liberdade social as
relações de “amor” e “amizade”, na medida em que, aqui, há uma interferência externa sobre
o indivíduo, reconhecendo no outro a suas vontades; Honneth usa o termo “estar consigo
mesmo no outro”, ou seja, há um reconhecimento recíproco entre os indivíduos. A liberdade
social, portanto, só pode ser realizada em meio de uma sociedade ou comunidade, de modo
que esse reconhecimento intersubjetivo só pode dar-se no meio das instituições:
[...] Conceito “social” de liberdade: em última instância, o sujeito só é
“livre” quando, no contexto de práticas institucionais, ele encontra uma
contrapartida com a qual se conecta por uma relação de reconhecimento
recíproco, porque nos fins dessa contrapartida ele pode vislumbrar uma
condição para realizar seus próprios fins. Desse modo, na forma do “ser em
si mesmo no outro” sempre se pensa numa referência a instituições sociais,
uma vez que somente práticas harmonizadas e consolidadas fazem que os
sujeitos compartilhados possam reconhecer reciprocamente como outros de
si mesmos. E somente essa forma de reconhecimento é a que possibilita ao
indivíduo implementar e realizar seus fins obtidos reflexivamente
(HONNETH, 2015, p. 86-87)

Por isso, Honneth afirma que o reconhecimento intersubjetivo, bem como a luta por
esse reconhecimento, ocorre principalmente na esfera da solidariedade, visto que é através de
instituições como a família, a escola, a igreja, o Estado, o mercado etc. que o indivíduo pode
se reconhecer e reconhecer os outros como iguais e portadores de direitos e liberdades. É
nesse sentido que poderemos ver a sociedade formada por sujeitos conscientes de seus direitos
e deveres, de forma a desenvolver uma sociedade mais justas, onde as patologias social sejam
amenizadas ou até extinguidas do seio dessa sociedade, prevalecendo a dignidade da pessoa
humana e o respeito mútuo. Portanto, a liberdade social é uma forma de liberdade baseado na
eticidade, em que o justo deve ser algo que ofereça igualmente aos indivíduos a oportunidade
de participação nas instituições de reconhecimento.
Na sociedade, as instituições devem promover as relações de reconhecimentos
intersubjetivos para que seus indivíduos possam exercer de forma mais plena a sua liberdade.
Na forma institucionalizada de uma relação intersubjeitva, cada indivíduo procura realizar sua
vontade livre; sua aspiração da liberdade individual fará com que esse sujeito, em sua
construção social, procure uma forma de liberdade mais ampliada. Honneth, tal como Hegel,
considera que o sujeito somente se sentirá realizado na esfera da vida pública. Diz ele:
Hegel exige também a função de tal generalização de desejos e intenções das
instituições que concentram toda a sua doutrina da liberdade. Assim, em
última instância, ele se deixa conduzir pela ideia aristótelica segundo a qual
os sujeitos, sob a influência de práticas institucionalizadas, aprendem a
alinhar seus motivos a seus fins internos. Desse modo , ao final de um
processo de socialização desse tipo tem-se um sistema relativamente estável
e costumeiro de aspirações que fazem que seus sujeitos pretendam o que
antes estava assentado em hábitos normativos das práticas (HONNETH,
2015, p. 93).

Para Honneth, além dos indivíduos estarem ligados aos outros pelo reconhecimento
intersubjetivo, eles crescem juntamente com sua sociedade através de um ciclo de
socialização realizado nas instituições, podendo, assim, universalizar a liberdade social em
uma sociedade pluralizada, mediante a prática da reciprocidade. Com isso, durante toda a sua
vida, o indivíduo vai poder se realizar em sua vontade livre e conquistar a vida boa.
Em Honneth, portanto, conforme argumentei até agora, a liberdade está ligada à
autorrealização do indivíduo e à superação de suas carências, pois as relações de
interdependência dos indivíduos nas instituições da sociedade, a procura da realização de suas
vontades, bem como a exigência do respeito e a efetivação da dignidade da pessoa humana
fazem com que as lutas pelo reconhecimento intersubjetivo e a realização da vontade livre
transformem uma sociedade, através da eticidade, em uma sociedade justa e livre.

Conclusão

Os escritos de Honneth se propõem a reatualizar a teoria social de Hegel, mostrando a


evolução de sua teoria crítica através da luta pelo reconhecimento, no qual o indivíduo tende a
reconhecer que o outro possui aspirações à realização de suas vontades tal como ele. Nas
esferas do reconhecimento intersubjetivo, Honneth delineia a evolução do reconhecimento,
primeiramente, na esfera do amor e da amizade, representada tanto pelas necessidades como
pelas carências do indivíduo, de forma que, através do reconhecimento intersubjetivo, ele
possa desenvolver uma relação de autoconfiança; em segundo lugar, pela sua particularidade
no direito, Honneth procura mostrar que, através das relações de mercado, a pessoa pode
evoluir e desenvolver suas habilidades, alcançando, assim, sua autorrealização plena; a
terceira e última esfera do reconhecimento intersubjetivo é a esfera da solidariedade; pelo sua
característica de universalidade, o sujeito adquire sua autodeterminação.
Em sua reconstrução da teoria critíca, Honneth procura mostrar, nas condições sociais
da existência das liberdades individuais, representadas pela liberdade negativa e pela
liberdade reflexiva, que o indivíduo tem sim sua vontade e ela deve ser realizada; entretanto,
essas liberdades são superadas através da eticidade e do reconhecimento intersubjetivo, na
tomada de consciência de que esse indivíduo não está só no mundo, e sim inserido em um
contexto social mais amplo e complexo, no qual ele participa e tem direitos e deveres que
precisam ser respeitados. Este tipo de liberdade é definido como liberdade social ou vontade
coletiva.
Honneth mostra que a teoria crítica da sociedade está preocupada com a superação das
patologias sociais próprias de nossa modernidade política, social, cultural, econômica; além
disso, ele procura mostrar como o reconhecimento intersubjetivo individual e social pode
mudar a forma como cada um trata seus pares, procurando, através de uma concepção de
justiça normativa, respeitar a liberdade de seus indivíduos, podendo, assim, formar uma
sociedade com mais dignidade e respeito à pessoa humana, de modo possam exercer seus
direitos sociais de uma forma plena. Em suma, a liberdade, a construção do sujeito social, o
respeito da particularidade da pessoa de direto, a universalidade do sujeito e a sua autonomia
– eis o que está no núcleo da teoria crítica do reconhecimento de Honneth. Nas nossas
sociedade liberais contemporâneas, a liberdade só adquire legitimidade na medida em que é
construída de forma dialógica; para além do bem-estar do indivíduo, é a autorrealização da
sociedade, através de sua autodeterminação, que é o cerne da ação e da reflexão em termos de
justiça social, conclui Honneth.

Referências Bibliográficas

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