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Nº 115 - Setembro 2015 - www.suplementopernambuco.com.

br

HALLINA BELTRÃO

EXCLUSIVO: PUBLICAMOS TRECHO DE ENSAIO AUTOBIOGRÁFICO DO ESCRITOR GILVAN LEMOS


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PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

COL A BOR A DOR E S


Hallina Beltrão, designer Luís Henrique Pellanda, Silviano Santiago, escritor
e ilustradora, mestre em jornalista e escritor, e crítico literário, autor,
design gráfico editorial autor de Asa de sereia. entre outros, de Uma
na Elisava (Barcelona). literatura nos trópicos
e Stella Manhattan.

E M A IS
Flavio Pessoa, designer e ilustrador, atualmente na revista Superinteressante. Gilvan Lemos, escritor falecido em agosto, reconhecido como um dos maiores
romancistas pernambucanos. Priscilla Campos, jornalista. Escreve para fugaparaoeste.com.br. Ronaldo Bressane, escritor e jornalista. Publicou Mnemomáquina
(Demônio Negro) e Sandiliche (Cosac Naify), entre outros. Sidney Rocha, autor de Fernanflor.

C A RTA DOS E DI TOR E S SUPERINTENDENTE DE EDIÇÃO


Adriana Dória Matos

No que o menino se transforma quando nesse trecho um tom irônico ao se debru- SUPERINTENDENTE DE CRIAÇÃO
ele já não mais é menino? A metamorfose çar sobre seus próprios “azares”. O texto
GOVERNO DO ESTADO Luiz Arrais
já está em processo, não adianta mais vol- completo sairá numa biografia do escritor
DE PERNAMBUCO
EDIÇÃO
tar, ou melhor, só adianta voltar. Em um que está sendo preparada pela Cepe. Governador Schneider Carpeggiani e Carol Almeida
conto inédito de Luís Henrique Pellanda, Temos ainda um especial escrito por Pris- Paulo Henrique Saraiva Câmara
REDAÇÃO
enviado especialmente para o Pernam- cilla Campos sobre o boom da publicação Dudley Barbosa (revisão), Marco Polo, Mariza Pontes
buco, se revive o processo onde mutações de contemporâneos autores holandeses Vice-governador
e Raimundo Carrero (colunistas)
e memórias se fundem, em um tributo ao no Brasil, os pontos em comum entre eles, Raul Henry
centenário de uma das obras seminais a navegabilidade de suas escritas. Desta- ARTE
Secretário da Casa Civil Janio Santos, Karina Freitas e Manuela dos Santos
da literatura moderna, a própria A me- que ainda para uma revisão de Silviano (diagramação e ilustração)
tamorfose, de Franz Kafka. Pellanda, que Santiago sobre Stella Manhattan, o livro que Antonio Carlos Figueira Agelson Soares e Pedro Ferraz (tratamento de imagem)
confessa não ter tido muito contato com há 30 anos criava um diálogo entre dois
literatura infantojuvenil quando criança, gêneros de um só corpo, numa identida- COMPANHIA EDITORA PRODUÇÃO GRÁFICA
DE PERNAMBUCO – CEPE Eliseu Souza, Joselma Firmino, Júlio Gonçalves
parece estar inspirado pela presença da de mais contemporânea do que nunca. e Sóstenes Fernandes
filha – e pelas leituras que faz ao lado dela Outra personagem que parecia perdida Presidente
- para falar de como as crianças são as no tempo e é posta de volta ao debate se Ricardo Leitão MARKETING E PUBLICIDADE
fundadoras das primeiras transfigurações chama Jean Louise, protagonista de O sol Diretor de Produção e Edição Daniela Brayner, Rafael Lins e Rosana Galvão
que sofremos em vida. Se articulando é para todos que ressurge com a publicação Ricardo Melo COMERCIAL E CIRCULAÇÃO
também com a metáfora maior da obra de Vá, coloque um vigia, o livro “perdido” Diretor Administrativo e Financeiro Gilberto Silva
kafkiana, Raimundo Carrero esmiúça a de Harper Lee. Há quem se espante com Bráulio Meneses
ambiência psicológica e os cortes nar- a revelação de que um dos heróis mais
rativos da desventura de Gregor Samsa. queridos da América tenha sido, desde CONSELHO EDITORIAL
A edição traz ainda um inédito texto au- sempre, um racista. Mas no texto de Carol Everardo Norões (presidente) PERNAMBUCO é uma publicação da
tobiográfico de Gilvan Lemos, um dos Almeida o que se coloca é que o buraco é Lourival Holanda Companhia Editora de Pernambuco – CEPE
Rua Coelho Leite, 530 – Santo Amaro – Recife
maiores romancistas pernambucanos, sempre mais embaixo. Nelly Medeiros de Carvalho CEP: 50100-140
falecido recentemente. Gilvan, que costu- Pedro Américo de Farias Contatos com a Redação
mava falar pouco sobre si próprio, revela Uma boa leitura e até o mês de outubro. Tarcísio Pereira 3183.2787 | redacao@suplementope.com.br
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PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

BASTIDORES

As criaturas
JANIO SANTOS

nunca vêm
a passeio
Esmiuçando as virtudes
e defeitos do personagem
central de seu novo
romance, autor se pergunta:
de quem se trata esse outro
que, no fundo, somos?
“Jeroni nos engole. Jeroni me engoliu. Estou dentro dele,
Sidney Rocha
agora.”, disse Lourenço Mutarelli diante da Ilha
Redonda, em Jeroni.
Quem é Jeroni Fernanflor? Leitor e autor de romances não dão nenhum
Alguém que pode merecer mais do que ódio, passo sem assinar esse pacto de devoração e de-
amor e compaixão. votação um pelo outro.
Está vivo e caminha desobrigado de verdades. Por isso, criaturas de romance nunca vêm a passeio.
Mas de qual verdade cuidaria, num mundo da Tranquilo, ocioso e altivo, Jeroni caminha. Avança
mais-valia, do mais-que-verdade, do sonho da pelo magasin, senhor de si e de suas emoções, sem que
hipérbole devastadora por todos os lados? nada, nem o tempo, possa feri-lo. Ele imagina e só
Para o escritor, a verdade só é possível no largo depois o mundo passa a existir. O mundo da repre-
universo da linguagem. Ela iguala tudo: indivíduo e sentação, desejo e beleza. E de nenhum escrúpulo.
multidão. E Jeroni está preso a esse beiral: o pesa- Ele é o que faz?
delo coletivo de solidão, o sonho do individualismo Observa. Tem a imaginação alterada pela obser-
inalcançável. vação da realidade. E a observação alterada pela
Quem é? imaginação. Nisso se iguala a um escritor.
Fernanflor é o retratista, retrato e retratado em Mas se o perguntássemos, diria não acreditar na
Fernanflor, meu romance. literatura, assim como não crê nas luzes nem nas
Ele não acredita na salvação se não chegamos perspectivas. Acredita redondamente na beleza e
sozinhos lá e, nisso, inaugura a desumanidade mais em nenhuma outra mágica. Todas as outras coisas
humana, porque reconhece a tragédia de sempre no planeta são manchas de ideias.
precisarmos do Outro para nos contemplar. O Outro Daria sua vida e colocaria sua fortuna na roleta
nos preenche. O Eu é um truque ao espelho. para sentir outra vez o perfume da inocência. Mas a
Fernanflor talvez considere tolice amar qualquer vida e o romance são o reino da experiência, onde
sonho de liberdade, essa Ilha. nada é fixo e cada um está naturalmente no seu lugar.
Mas isso são ideias altas ou demasiadas ou em vão. Esse concurso de forças pode engendrar as reações
Personagens não são feitos de ideias, mas de mais imprevisíveis e aterradoras. Sem saber porque,
coração e experiência. Parte da experiência pode continuamos pactuando com essas criaturas. E,
até dá-la o escritor, no entanto o coração e sangue quando falamos em pactos, se lemos romances o
para bombear dá-lo certa estirpe de demônio inato, suficiente, presumimos de quem afinal é a vitória.
o tipo com o qual ou se nasce com ele ou não se é Mas sempre acreditamos na virada, a cada página.
escritor, como disse Faulkner. Por isso ler é uma das atividades mais mal pagas
É no coração humano do personagem que pulsa e arriscadas.
a verdade.
E é a desumanidade, e não o espírito elevado, a ***
única ferramenta de Jeroni para retratar os seres hu-
manos em torno de sua gana e ganância, maravilha- Quanto a mim, contemplo daqui o sol viole-
dos pela morte, pela vaidade e pelo o dinheiro, onde ta da ilha sem-fim e sem-começo, das verdades
estão iludidos pela descoberta do gene da felicidade. excessivas. Leio as provas de revisão enviadas por
Jeroni não estranha nenhuma dessas coisas humanas, Samuel Leon. Tanto tempo depois de ter escrito
sofrimentos — paixões; estão doentes de feiuras, têm este romance, sinto Jeroni ainda me empurrando
a vida impregnada por ardis de todo azar. Porém, fortemente livro adentro. Ele e suas contradições.
não é juiz de nada, embora pudesse ter sido tudo o Sua alma, boa e má, empurra, empurra com a
quanto seu desejo fundasse. Assim como é, acredita certeza de fazer pulsar para sempre o coração do
elevar ao máximo sua experiência humana na Terra. seu tempo: o agora.
Pouco importa se o mundo é justo ou injusto. Isso me faz amá-lo, odiá-lo, e compreender que
Ele pinta. o Eu é só um truque, mas certamente o truque
Quem? mais perigoso. Montado nesse cavalo de eletricidade,
A tristeza ou a alegria são para ele expressões vejo progredir a convicção de que foi para isso que
da beleza vital. A pintura é sua sublime pilhagem, cheguei até aqui. Depois de muitos anos, choro,
assim como o sexo é para a psicanálise. Aliás, talvez porque descubro ter passado estes cinquenta anos
tenha sido para conter tanta interpretose que Jeroni escrevendo esse romance. Isto me conclui. Me cerca.
Fernanflor recusou-se a pintar o retrato de Sigmund Me enterra. Fernanflor finda por me escrever.
Freud. “Não me interessei pela encomenda. Repassei.”
Ele atira. Altera a emoção do bando. Supera todos
no apogeu e cada um na derrota. Ou é como diz O LIVRO
Gonçalo M. Tavares olhando nos olhos de Jeroni: Fernanflor
“Quanta arrogância necessitas para sentir que o prédio mais Editora Iluminuras
alto é mais baixo que tu!”. “Também tu não escaparás! O ponto Páginas 112
final é, por vezes, um ponto, mas ponto-bala em plena testa.”.
Esta constatação não serve também para cada
um de nós o tempo inteiro?
Quem não é Jeroni Fernanflor, afinal?
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RESENHA

Quando o erro
MANUELA DOS SANTOS

não pode ser


negociável
“Novo” livro de Harper Lee
redimensiona nosso olhar
sobre O sol é para todos
Carol Almeida

Esta não é uma história sobre heróis, anti-heróis e, A autora do romance em questão, Harper Lee, o
menos ainda, vilões. É sobre as pessoas que vivem escreveu antes do primeiro e único livro que havia
na linha de tiro entre esses personagens cristalizados publicado até agora: O sol é para todos, clássico absoluto
em nossas narrativas cotidianas e sobre o espaço de da literatura norte-americana, lido por várias gera-
concessão entre nossa formação moral e o funciona- ções de jovens e adultos brancos que viram na figura
mento social. Jean Louise, a personagem central de do advogado Atticus Finch uma espécie de remição
que se vai falar aqui, é alvejada de todos os lados. Sua dos pecados, uma mea culpa por todo o sangue jorrado
consciência e a razão ética em um front, o sentido de em plantações de algodão. O homem branco que
pertencimento à família, a um espaço, em outro. Jean vai dar o seu melhor para, num julgamento fadado
Louise é uma personagem de mais de 50 anos atrás, ao fracasso, salvar um homem negro, já que este
quando não havia redes sociais ou comentaristas de sozinho nunca poderia ser o mestre de sua própria
portais de notícia. E, no entanto, a distância entre o redenção. Quando o romance chegou às livrarias em
seu Alabama-EUA no pós Segunda Guerra e a fila na 1960, já aconteciam nos Estados Unidos as primeiras
padaria de qualquer bairro classe média num Brasil reuniões do Movimento dos Direitos Civis. Dois anos
de ontem, hoje e amanhã se mede com uma trena depois, quando o livro foi adaptado para o cinema,
de menos de três metros. Jean Louise está em todas com aquela câmera levemente inclinada de baixo
as pessoas desconfortáveis no sofá, com as opiniões para cima, jogando um spray de grandiosidade no
fundadas em crenças cegas e segregacionistas. Ela está Atticus Finch de Gregory Peck, veio a imagem que
no movimento que precede cada amizade desfeita no faltava para condensar um personagem didático que
Facebook e, particularmente, está no momento em ensinasse à população branca o que estava por vir.
que se decide relevar o outro em nome de uma ceia O sucesso do livro e do filme jogaram sobre aquela
de Natal sem grandes polêmicas. jovem autora holofotes tão pesados que ela decidiu
Escrito em meados dos anos 50, Vá, coloque um vigia não mais publicar nada em vida. O sol é para todos seria
(Go set a watchmnan no original), o livro que tem gran- sua única obra.
des chances de fechar o ano com o primeiro lugar Mais de 50 anos depois de todos esses eventos,
entre os títulos de ficção mais vendidos nos Estados em um movimento muito suspeito, a advogada
Unidos, é, dentro e fora de suas páginas, um debate da escritora afirma ter “descoberto” o manuscrito
atual e necessário. Mas o caminho que as críticas e conseguido autorização por escrito da própria
sobre esse lançamento estão tomando segue a direção Harper Lee, que muitos afirmam estar senil, para
errada. Muito se fala sobre a decepção de ver agora publicar este que teria sido um livro escrito antes
exposto como racista um personagem por tantos do seu one and only best-seller. Numa história que,
anos emoldurado entre sólidas madeiras da retidão narrativamente, se encaixa como uma continuação
ética, da Justiça e do discurso racional pela igualda- temporal dos acontecimentos de O sol é para todos, Vá,
de, quando o mais tocante de tudo não é a queda da coloque um vigia só não havia sido publicado porque a
máscara, e sim ter de admitir que fomos nós quem então editora de Lee, Tay Hohoff, teria aconselhado
modelamos essa máscara no começo de tudo, como a escritora a lançar primeiro o manuscrito que partia
se instintivamente estivéssemos negando que, por do ponto de vista de uma Jean “Scout” Louise ainda
trás dela, esteja vivo algum reflexo bisonho nosso e criança. Sabiamente, a senhora Hohoff viu naquela
a inabilidade de lidar com esse espelho. primeira pessoa pueril, encantada com a aparente
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Por fim, no último capítulo, um desfecho anticlí-


max desfaz esse binômio da razão x preconceito-fé.
Jean Louise se rende. Acredita que, apesar das sérias
divergências com o pai, ele ainda é um “homem de
bem”, para usar expressão contemporânea popu-
lar. E que ela precisa aprender a conviver com sua
família da forma que for possível, leia-se, com ela
(e somente ela) anulando um pouquinho aqui e um
pouquinho ali a sua visão de mundo. Para aceitar o
pai novamente, Jean Louise antes aceita seu próprio
erro, de quem passou toda a infância e adolescência
construindo um personagem fictício, o que de certa
forma redime o personagem de Atticus, culpabili-
zando a protagonista por não ter visto o que sempre
esteve bem diante de seus olhos. Em tempo: um
artigo publicado recentemente no site Jezebel pela
escritora Catherine Nichols indica todos os trechos
de O sol é para todos em que Harper Lee dá pistas de
que o advogado era, já ali, racista.
“O momento em que seus amigos mais precisam
de você é quando eles estão errados, Jean Louise.
Eles não precisam de você quando estão certos”, diz
o tio de Jean Louise quando ela busca achar saídas
para o dilema entre rejeitar seu pai por completo e
voltar para a Nova York liberal ou permanecer em
Maycomb e lidar com a sociedade sulista-racista.
É um conselho bonito, esse do tio dela. Podemos
aplicá-lo em diversas situações, usar profeticamente
em conversas de fim de noite. Mas há algo muito
perigoso nele. Lido pelos olhos de uma sociedade
que inegavelmente amadureceu sua articulação po-
lítica e está cada vez mais atenta às armadilhas da
afabilidade no discurso de quem sempre deteve o
poder, uma frase como essa, onde se equivale “er-
rados” a “membros do KKK”, deixa pouco espaço de
negociação. O que Harper Lee parece colocar então
é que não importa o quanto as convicções sejam
opostas, sempre haveria brechas de diálogo. A im-
portância da publicação neste momento de Vá, coloque
um vigia está bem menos na revelação do caráter de
Atticus, tampouco na mensagem apaziguadora de
sua protagonista, mas sim na pergunta: em função
de nossa sociabilidade cada vez mais mediada por
redes virtuais, nas quais é fácil criar novos grupos
de pertencimento, até que ponto as pessoas estariam
dispostas a ceder a tamanho abismo moral?
Harper Lee, que em O sol é para todos conseguiu criar
uma relação entre medo e ignorância a partir do uso
narrativo de fantasmas e sombras que perseguiam as
crianças, constrói raciocínios ingênuos nesse “novo”
sobriedade e gentileza de seu pai, a chance de criar
mais um paladino da América Livre. O romance
que chega agora às livrarias traz uma Jean Louise
O mais tocante romance. A elaboração dos personagens é certamente
bem mais fraca (pesa a ausência da editora/editor)
e, como diria a escritora Ursula Le Guin, chega a ser
adulta que, após longa temporada em Nova York,
volta para a cidade fictícia de Maycomb, Alabama,
e descobre que não apenas seu pai, mas todas as
de tudo não é a implausível que Jean Louise, tendo crescido num
Alabama completamente racista, não herdasse ao
menos a compreensão de ter vivido nesse ambiente
pessoas que ela amava e tomava como “os seus”
participam de grupos organizados para conter os queda da máscara, preconceituoso e se tornado um pouco empática a
ele. Mas apenas o fato de que o livro agora publicado,

e sim admitir que


avanços de direitos da população negra. E, pior, um romance que literalmente desmascara o espólio
constata que o mesmo homem que ela havia man- racista do Sul dos EUA, terminou sendo negligenciado
tido num pedestal por tantos anos seria membro em nome de outro livro que romantiza esse legado,

fomos nós quem


até do Ku Klux Klan. fala muito sobre as intenções de um mercado editorial
Em Vá, coloque um vigia, há uma afirmação sim- que, tal como as pessoas da sala de jantar, sempre
plória, mas bastante elucidativa sobre o caráter do esteve mais interessado em agradar que em gerar
romance, em que se lê: “Preconceito, uma palavra
suja, e fé, uma palavra limpa, têm algo em comum:
ambas começam onde termina a razão”. Simplória
modelamos essa atritos. Não que a recente publicação tenha surgido
com a nobre intenção de criar qualquer debate, pois
tudo na história desse “manuscrito achado” rima
porque a “razão” é, com mais frequência do que
nossa herança iluminista supõe, ideológica, cede
aos encantos do poder. Para vários personagens do
máscara com ambição comercial. Mas não deixa de ser curio-
so assistir ao esfacelamento de um mito e levantar
questões que a Harper Lee dos anos 50 possivelmente
livro, por exemplo, é racional supor que os negros vários momentos, de forma até ingênua. Razão não imaginava que iriam ganhar peso entre leitores
são intelectualmente mais atrasados que a popu- é construção dedutiva elaborada, muitas vezes, de hoje. Questões como o machismo, muito presente
lação branca. É preciso pontuar que tal afirmação por meio de abstrações. Vá, coloque um vigia entende em ambos os romances, e mesmo uma certa flui-
não chega a ser contestada pela protagonista do isso apenas em dois momentos pontuais. Primeiro dez de gênero da protagonista (alter ego de Lee) que,
livro, a jovem Jean Louise, que se diz, numa falácia quando Jean Louise sai à procura de Calpurnia, a quando criança, sempre se identificou muito mais
perpetuada até os dias de hoje, “colorblind”. Ou seja, empregada negra da família que cuidou dela e de com elaborações de corpo masculinas que femininas.
ela teoricamente não vê distinção de pele. Na prática, seu irmão “como se” fosse mãe deles e pergunta Entre altos e baixos, ecoa, ao fim da leitura, uma
no entanto, mesmo estruturalmente abalada com o se ela, agora aposentada, a odeia. Racionalmente, assertiva de Atticus Finch que, questionado pela
desvelamento da intolerância ao redor, ela é capaz Calpurnia teria todos os motivos históricos para filha sobre suas convicções, diz: “[...] hipócritas têm
de vir com diálogos do tipo “não é que eu vá me exercitar esse ódio ao longo de sua vida, mas nada tanto direito de viver nesse mundo quanto qualquer
casar com um homem negro”. Escrito nos anos 50, é tão simples assim no que tange ao afeto. No en- outra pessoa”. Jean Louise/Harper Lee não consegue
de nenhuma forma esse tipo de frase seria tomado tanto, a despeito de qualquer laço emocional que rebater o pai, tão gentil, tão atencioso. Porque ela
como uma postura preconceituosa pela branca crítica tenha sido construído sob uma relação de poder, a não se dá conta de que são dos hipócritas o governo
literária de então. Deslocada, sem edição, para os ex-empregada deixa claro que aquele espaço dos do mundo. Ao tentar vitimizar um lugar de fala que
dias atuais, ela reverbera bastante com o discurso do Finch nunca foi o seu espaço, e que com ele não sempre foi de privilégios, Atticus usa o velho truque
“eu não sou racista/machista/homofóbico, mas...” interessa ter mais contato, diálogo, concessão. O da psicologia reversa (e, neste caso, perversa) e ad-
A razão que supostamente delimita as fronteiras preconceito, a fé e a razão significam uma coisa só quire feições muito semelhantes às de pessoas com
do preconceito e da fé não é, portanto, uma estátua para Calpurnia: todos operaram para negligenciar quem volta e meia esbarramos. Atticus está na sala.
renascentista inabalável, como o livro coloca em não somente ela, mas também seus filhos e netos. Alguém vai se retirar?
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ENTREVISTA
Ana Martins Marques

Para escalar e
cair em versos
montanhosos
Em seu terceiro livro, a poeta belorizontina
cartografa desejos e explora o modo como os afetos
formam e deformam nossa relação com os lugares
RODRIGO VALENTE/DIVULGAÇÃO

Entrevista a Ronaldo Bressane

Mineiramente, na miúda, Ana Martins Mar-


ques ganhou um lugar muito peculiar dentro da
poesia brasileira contemporânea. Seus versos
têm humor, são pródigos em achados verbais
sobre sentimentos perdidos, e cavoucam o lugar
nenhum por trás do lugar comum; cheios de
mumunhas, não fazem munganga; são, antes
de tudo, minimalistas como as cidadezinhas
mineiras que nos encantam a cada curva da
estrada, em todo desvão de montanha. Mesmo
os poemas mais narrativos não são dados à
fala em espaço aberto; preferem um diapasão
secreto, como um sussurro a conta-gotas. No
entanto, não sonegam sua vocação pop, sintéti-
ca, e, felizmente, nada hermética. Ana escreve
desde criança, e ainda conserva o espanto in-
fantil sobre os astros e os desastres do mundo:
“Tenho comigo alguns desses textos da infância
(lembrete: queimar tudo)”. Porém, só lançou o
primeiro livro em 2009: A vida submarina (Scrip-
tum), que ganhou o Prêmio Cidade de Belo
Horizonte. Formada em letras, a belorizontina
safra 1977 fez mestrado em literatura brasileira
e doutorado em literatura comparada, mas, em Vou confessar uma coisa: detesto poesia que captar, ainda que furtivamente, alguma
vez de se tornar professora, evoluiu por um ofí- fala de poesia. Confesso outra: adorei seus coisa de fora. Por isso gosto de pensar que
cio tradicional a poetas brasileiros: funcionária poemas que falam de poemas. Como foi se os meus poemas nunca são exclusivamente
pública — trabalha como redatora e revisora na deter sobre o próprio fazer e não se render metalinguísticos: há poemas de amor
assembleia legislativa. Depois do segundo livro, à fetichização ou super intelectualismo da “disfarçados” de poemas metalinguísticos,
muito bem acolhido por crítica e público — Da metalinguagem - que, no limite, pode levar à ou poemas metalinguísticos que subitamente
arte das armadilhas (Companhia das Letras, 2011), frieza e ao afastamento do leitor? se transmudam num poema de amor. Nos
já em segunda edição e levou o Prêmio Alphon- Ao contrário de você, eu tendo a gostar de meus dois livros anteriores há muitos poemas
sus de Guimaraens —, Ana chega ao terceiro poemas que falam de poemas: gosto da ideia sobre poemas. Neste livro não é diferente. O
título. O livro das semelhanças (Companhia das de uma poesia que explora seus materiais, que há de um pouco diferente é que agora
Letras) tem forte componente metalinguístico. A mais ou menos como as artes plásticas ou há poemas que se voltam não só para a
primeira parte emula um livro: há poemas para a música, e que procura de alguma forma materialidade do poema ou da linguagem,
a capa, a dedicatória, o sumário, a contracapa. pensar sobre eles. Mas entendo as suas mas para a materialidade do próprio livro.
Uma segunda parte é ligada às cartografias do ressalvas em relação à poesia metalinguística.
coração. E a terceira, confessional como só Ana Existe no Brasil uma tradição importante Como é ser mineiro e ser obrigado a conviver
Martins Marques consegue — na manha, mi- de poesia sobre a poesia; até por isso, o com a sombra de Drummond?
neiramente mordaz: “Acendo um poema em exercício da metalinguagem na poesia Olha, acho que nunca pensei em Drummond
outro poema/ como quem acende um cigarro parece mesmo um pouco arriscado: há como uma sombra. Quando lemos
no outro/ Que vestígios deixamos/ do que não sempre o risco da mera repetição, ou de Drummond, temos a impressão de que está
fizemos?/ Somos cada vez mais jovens/ nas um excessivo fechamento da linguagem tudo lá: a lírica amorosa, dos poemas de
fotografias”. Pernambuco conversou com a em torno de si mesma. A poesia é sim dicção mais elevada aos deslavadamente,
poeta não ao vivo, infelizmente — é que Ana linguagem que se volta para si mesma, docemente pornográficos. O empenho social
só se abre em e-mail. E como fala! mas acho que nesse movimento ela pode e político, e a reflexão sobre o engajamento
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Publicar é fazer O poema, se


uma intervenção for um bom
no espaço público poema, vai gerar
e o espaço público desconhecimento,
foi por muito dúvida, hesitação,
tempo reservado vai complicar
aos homens a vida
e seus dilemas. O verso livre, o ver certos pontos de contato, existe literatura feminina? não me impede de notar o livro. Vejo algum humor em
poema-piada, a dicção coloquial e também, claro, algumas Existe literatura feminista? E quanto o sistema literário, apesar poemas dos livros anteriores,
e irônica, e a revisitação das diferenças. Sua hipótese de além: a militância em uma causa da ampliação expressiva da ou pelo menos alguma ironia,
formas clássicas. A poesia que essa familiaridade passa é essencial à literatura? presença das mulheres, ainda sobretudo nos poemas de amor.
do cotidiano e a reflexão da pela Ana C. é bem interessante, Pessoalmente sempre me se mantém em muitos aspectos Nós tendemos a desconfiar dos
poesia sobre si mesma. A embora o modo de colocar em incomodou que a recepção da predominantemente masculino. poemas de amor, ou ao menos
poesia memorialística. O funcionamento esse diálogo seja literatura escrita por mulheres Publicar é fazer uma intervenção nós já sabemos que o amor é
poema que incorpora traços obviamente diferente em cada ficasse frequentemente atrelada no espaço público, é tornar uma coisa aprendida nos poemas
dramáticos ou narrativos. A uma dessas poetas. A Marília à questão do “feminino”, público, e o espaço público foi de amor; tem algo de cena, ou
poesia-pensamento, com uma Garcia, por exemplo, trabalha que essa fosse quase sempre por muito tempo reservado aos de citação, em cada poema
incrível potência reflexiva. Os muito com a narratividade, o a questão de início, o que homens e ainda é em grande de amor, e me interessa jogar
poemas de circunstância. É como poema longo, que estabelece nunca acontece em relação à parte masculino, embora isso com isso nos meus textos.
uma grande matriz a partir da uma relação com o ensaio, literatura escrita por homens. esteja felizmente mudando.
qual várias poéticas diferentes e também com a anotação, Nunca vi nenhum homem ter Então eu tenho em relação a Por fim, a seção ‘Livro das
poderiam ser construídas. Ao próxima do diário. É uma que responder se existe ou não essa questão uma posição um semelhanças’, permeada de
mesmo tempo, a “influência”, poesia que pensa e que se “literatura masculina”. O fato de pouco ambivalente (e talvez melancolia e ‘afastamentos’,
ou a “referência”, ou mesmo a pensa, e que atravessa várias um escritor ser homem não é propositalmente ambivalente): parece adivinhar a
“herança” nunca são passivas, paisagens: paisagens da viagem, considerado uma idiossincrasia me interessa afastar certos impossibilidade do desejo morar
mas um trabalho complexo que da memória, mas também da e a literatura escrita por homens rótulos rápidos e a postulação dentro da palavra desejo. Não
pode incluir a apropriação, a tradução, do cinema, da reflexão nunca ou quase nunca é lida de posições identitárias rígidas há conforto possível, talvez nem
resistência, a desmontagem, teórica. A Alice também explora como “literatura masculina” ou de uma “essencialidade” mesmo na poesia?
e que sempre supõe, como essa dimensão narrativa, que (ela é lida como “universal”, feminina que se manifestaria Se existe alguma linha que
diz a Silvina Rodrigues Lopes, frequentemente são pequenas embora “masculino” e nos textos escritos por mulheres, costura os poemas dessa seção é
ao mesmo tempo amor e histórias, ao mesmo tempo “masculinidade” sejam e ao mesmo tempo assumir mesmo isso que você chamou de
infidelidade ao que se recebe. que mantém um sentido muito posições tão construídas quanto uma atenção crítica em relação “afastamento”, ou essa indagação
A questão é sempre como acurado do corte do verso. A “feminino” e “feminilidade” às questões de gênero no sobre a fratura, entre coisas e
construir, a partir da memória Bruna tem uma apropriação e embora obviamente seja espaço literário, que inclui palavras: “Quanto do desejo
e do esquecimento das nossas muito legal da oralidade, um possível detectar marcas de uma não somente os textos, mas as mora/ na palavra desejo?”.
leituras, um caminho pessoal, trabalho de recolher restos, “experiência masculina” em instâncias de legitimação, as Nunca pensei na literatura como
um entendimento do que a ruídos, um corte rápido, quase textos escritos por homens). Para editoras, o jornalismo cultural, lugar de conforto. A poesia
poesia pode ser, das forças que brusco, que cria aproximações mim a escrita literária é um lugar as escolas, a universidade, a em particular não vai nos dar
ela pode colocar em movimento. inesperadas; são poemas que, de deslocamento, de alteridade; historiografia e a crítica literárias, respostas, nem vai nos dar
embora também funcionem me interessa pensar a literatura os festivais, as premiações. acesso a algum conhecimento
Você integra uma geração que, no papel, convidam à leitura como esse lugar instável em que sistemático sobre o mundo,
a meu ver, oxigenou a poesia em voz alta. Tem uma música as identidades são colocadas em Sua poesia também embute no mas ela pode dar forma à nossa
brasileira — e, talvez não por do poeta Renato Negrão, xeque, ou são expostas em toda a lirismo o humor nonsense, como perplexidade, medos, desejos,
acaso, formada só por mulheres: gravada pela Juliana Perdigão sua força de metamorfose – um em ‘Poemas reunidos’ e na seção desequilíbrios. A poeta Luiza
Angélica Freitas, Bruna Beber, no seu Álbum desconhecido, que lugar em que a identidade não ‘Visitas ao lugar-comum’. Essa Neto Jorge tem um verso muito
Alice Sant’Anna, Laura Liuzzi, diz: “Que bom, que bom, que se “expressa”, mas se “inventa”, marca ficou mais característica bonito que diz “O poema ensina
Marília Garcia e muitas outras. bom ser contemporâneo seu”. se “joga” –, e sobretudo acredito neste livro. Existe uma busca a cair”. O poema, se bom poema,
Percebo nelas um apreço Mais do que reconhecimento que o poder e a radicalidade da pela leveza? vai nos ensinar a cair, vai gerar
pela fluidez que aproxima os geracional, o que sinto é literatura dependem de que ela Legal você dizer isso; acho que desconhecimento, dúvida,
versos de uma dicção prosaica essa espécie de alegria de não seja redutível a um discurso, os meus poemas têm sim um hesitação, vai complicar a vida,
(possivelmente eco de Ana conviver com essa turma. seja sociológico, seja filosófico certo humor, mas se não me nos tornar mais inquietos, mais
Cristina César). Você se ou moral; de que ela não seja engano ninguém nunca me desamparados, mas vai também
reconhece nessa geração? Vou te encaminhar uma lida como mero veículo ou disse isso (o que deve querer nos convidar a ver o mundo de
Acompanho a escrita delas pergunta que me fizeram em suporte de um discurso prévio, dizer que esse humor não uma forma mais complexa, a
com o maior interesse, com uma recente mesa com outros por mais bem-intencionado funciona lá muito bem...). Não mudar a compreensão que temos
admiração, com alegria. Consigo escritores (todos homens): que ele seja. Isso obviamente sei se é uma marca desse último de nós mesmos e dos outros.
8
PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

Este é um mundo kafkiano. A frase, de tão repetida, resto do corpo, tremulavam desamparadas diante
elogiada e ressaltada em todos os lugares, tornou- dos seus olhos.”
-se medíocre. A culpa, óbvio, não é de Kafka, mas Narrativa em falsa terceira pessoa – quem viu?
a sua influência é imperativa. Não se pode negar E o que viu? Gregor Samsa, que passa a narrar di-
a sua força e a sua precisão a partir daquele início zendo o que viu, mas o narrador dá-lhe uma ter-
exemplar de A metamorfose, um achado literário ceira pessoa que, no entanto, é falsa . Estas são as
mais do que uma expressão filosófica. Sim, porque técnicas narrativas que enriquem a obra de ficção
a novela é absolutamente literária, criada com com artesanato exemplar.
base no ponto de vista filosófico do autor, atra- Grito primal interno – “O que aconteceu comi-
vés do narrador, porque assim são os elementos go? – pensou”. Gregor pensa e grita porque viu,
essenciais da narrativa, conforme expressão de assombrado.
Graciliano Ramos, um dos escritores mais técnicos Outra frase incisiva do narrador para que o leitor,
do Brasil. Aí se destaca, sem dúvida, a diferença inteiramente seduzido, entre no plano do real,
fundamental entre a ficção, produzida como obra mostrando dois planos bem definidos – o fantástico
de arte, portanto compromissada com a estética em todo primeiro parágrafo e concreto ou real em
e a invenção, e o texto ensaístico ou jornalístico, todo segundo parágrafo.
que visa, sobretudo,a precisão. No ensaio ou no É uma riqueza muito grande de técnicas e de
jornalismo, o narrador poderia escrever uma frase movimentos presente no livro, de forma que o
– ou um jogo de frases – correta, bela, incisiva. Na leitor não se sente enganado, mas permanece todo
ficção, os escritores têm a liberdade de investir em o tempo seduzido. Podemos dizer então que a nar-
metáforas, símbolos e imagens, de forma a criar rativa começa na terceira pessoa, passa para a falsa

Raimundo
com visibilidade e força, ainda que abra caminho terceira pessoa porque é o personagem que , indire-
para interpretações. tamente, narra o que vê. Vejam que predomina no

CARRERO
Começar uma história é sempre um problema. narrador o verbo “ver’. Isto é, depois de anunciar,
Para a maioria, a primeira frase é o segredo; para indiretamente, que Gregor Samsa acordou trans-
outros, é preciso encontrar o ritmo – denso ou leve formado num inseto, diz que ele levanta a cabeça
– e o clima narrativo. O exemplo mais eloquente é, e vê o corpo novo, portanto a narrativa é em falsa
sem dúvida, o começo de A metamorfose de Kafka, que terceira pessoa porque se trata de Gregor Samsa
coloca o leitor imediatamente dentro da história. narrando com os olhos e, ao se ver monstruoso,
“Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de pergunta gritando – “O que aconteceu comigo?”
sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama Didaticamente:
metamorfoseado num inseto monstruoso”, pro- “O que aconteceu comigo?- pensou.”
clama o narrador, impiedoso e franco, metafórico, Observem bem, no princípio, o narrador apre-
numa imagem dolorosa, cuja credibilidade está senta o personagem – narrativa em terceira pessoa
ligada ao mundo interno da ficção e não à realidade – e coloca nele o peso do olhar– viu –, que dá maior

A Metamorfose:
concreta. O ensaísta diria: “Quando certa manhã credibilidade ao conflito. A narrativa deixa de ser
Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, indireta – na terceira pessoa –, para assumir a falsa
sentia-se maltratado, humilhado e ofendido”. Sem terceira pessoa, fornecendo os elementos decisivos
dúvida um belo começo, bem escrito e simples, com incrível credibilidade. Numa única frase, o
mas não é literatura. A literatura reclama invenção autor faz com que a narrativa deixe de ser indireta

a história de
e beleza, metáfora e imagens, já disse. E, através e passe a ser direta e, mais uma vez, verdadeira,
dela, provoca e inquieta o leitor. sob a voz do olhar narrativo.
E ainda mais, a novela não tem um único narra- Logo em seguida Kafka dá um corte no clima
dor, como parece ter, mas um narrador em terceira psicológico, numa frase ainda mais curta em ter-

uma metáfora
pessoa, outro em primeira pessoa – o próprio Gre- ceira pessoa, puxando o leitor para o real.
gor Samsa – e outros tantos narradores dissimula- Rápido e ligeiro, definitivo:
dos, como se verá daqui pra frente. “Não era um sonho”.E em seguida mostra um
Mais claro ainda: cenário natural – que chama o olhar do leitor – sem
Terceira pessoa: “Quando certa manhã Gregor renunciar, contudo, à metáfora e ao olhar de Samsa,
Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou- o que se reforça agora no segundo parágrafo: “Não
-se em sua cama metamorfoseado num inseto era um sonho. Seu quarto, um autêntico quar-
De como Kafka armou a monstruoso”.
Ainda terceira pessoa – “estava deitado sobre
to humano, só que um pouco pequeno demais,
permanecia calmo entre as quatro paredes bem

angústia perfeita para os suas costas duras feito couraça e, ao levantar um


pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado, marrom,
conhecidas. Sobre a mesa, na qual se espalhava,
desempacotado, um mostruário de tecidos – Sa-

tempos em que vivemos


dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual msa era caixeiro-viajante – pendia a imagem que
a coberta, prestes a deslisar de vez, ainda mal se ele havia recortado fazia pouco tempo de uma
sustinha. Suas numerosas pernas, lamentavel- revista ilustrada e colocado numa bela moldura
mente finas em comparação com o volume do dramática. Representava uma dama de chapéu
FOTO: DIVULGAÇÃO

AVENTURA
Marco Escritores brasileiros de romances de aventura
Polo na linha do fantástico conquistam milhões de leitores
Você sabe quem é André Vianco sabia também que outro gigante
(foto), Raphael Draccon e das vendagens, Paulo Coelho,
Eduardo Spohr? São escritores se recusou a participar da
brasileiros que já venderam comitiva brasileira na Feira de
milhões de livros. E a lista está Frankfurt porque considerava
crescendo. Carolina Munhóz, que os autores elitistas indicados
Thalita Rebouças, Cirilo S. a representar o Brasil excluíam
Lemos, Eric Novello, Fábio M. aqueles três primeiros nomes

MERCADO Barreto e Affonso Solano estão


indo no mesmo caminho.
desta nota, por considerarem o
que eles faziam “baixa literatura”?

EDITORIAL Eles são autores de literatura


fantástica, na linha de O senhor
Seria bom que os críticos
literários se posicionassem
dos anéis, de J. R. R. Tolkien. E a respeito. Já é hora.
A Cepe - Companhia Editora de Pernambuco informa:

CRITÉRIOS PARA
RECEBIMENTO E APRECIAÇÃO
DE ORIGINAIS PELO
MANUELA DOS SANTOS
CONSELHO EDITORIAL
I Os originais de livros submetidos à Cepe, exceto
aqueles que a Diretoria considera projetos da própria
Editora, são analisados pelo Conselho Editorial, que
delibera a partir dos seguintes critérios:

1. Contribuição relevante à cultura.

2. Sintonia com a linha editorial da Cepe,


que privilegia:

a) A edição de obras inéditas, escritas ou


traduzidas em português, com relevância
cultural nos vários campos do
conhecimento, suscetíveis de serem
apreciadas pelo leitor e que preencham os
seguintes requisitos: originalidade, correção,
coerência e criatividade;

b) A reedição de obras de qualquer gênero da


criação artística ou área do conhecimento
científico, consideradas fundamentais para o
patrimônio cultural;

3. O Conselho não acolhe teses ou dissertações


sem as modificações necessárias à edição e que
contemplem a ampliação do universo de leitores,
visando a democratização do conhecimento.

II Atendidos tais critérios, o Conselho emitirá parecer


e estola de pele que, sensata em posição ereta, volta à postura de costas. Tentou isso umas cem sobre o projeto analisado, que será comunicado ao
erguia ao encontro do espectador um pesado re- vezes, fechando os olhos para não ter de enxergar proponente, cabendo à diretoria da Cepe decidir
galo também de pele, no qual desaparecia todo o as pernas desordenadamente agitadas, e só desistiu sobre a publicação.
seu antebraço.” quando começou a sentir do lado uma dor nunca
Podemos imaginar então que Kafka deve ter feito experimentada, leve e surda...
a primeira redação e percebeu que podia provocar – Ah,meu Deus – pensou – que profissão can- III Os textos devem ser entregues em duas vias, em
o tempo psicológico do leitor trazendo a informa- sativa eu escolhi. Entra dia, sai dia – viajando. A papel A4, conforme a nova ortografia, devidamente
ção concreta do recorte da revista – sem dúvida excitação comercial é muito maior na sede da firma, revisados, em fonte Times New Roman, tamanho
uma metáfora –, localizando assim o quarto real e além disso me importa esta canseira de viajar; 12, páginas numeradas, espaço de uma linha e meia,
para localizar verdadeiramente o lugar onde está a preocupação com a troca de trens, as refeições sem rasuras e contendo, quando for o caso, índices
o personagem e a sua realidade, reafirmada com irregulares e ruins, um convívio humano que muda
e bibliografias apresentados conforme as normas
a imagem do tempo turvo. Isso tudo mostra as sempre, jamais perdura, nunca se torna caloroso.
etapas da criação literária. Os cortes narrativos são O diabo carregue tudo isso.” técnicas em vigor. A Cepe não se responsabiliza
fundamentais, mas Kafka faz tudo isso através dos A partir daí se estabelece um tenso diálogo entre por eventuais trabalhos de copidesque.
elementos narrativos literários e só depois recorre o personagem e o narrador, o que torna a narrati-
ao discurso de Gregor, marcado por travessão, va mais ágil, enfocando-se a existência humana, IV Serão rejeitados originais que atentem contra a
sem aspas. Vejamos: embora com forte destaque para a técnica literária,
Declaração dos Direitos Humanos e fomentem a
“- Que tal se eu continuasse dormindo mais um justificando a convicção de que Kafka era, sobre-
pouco e esquecesse todas essas tolices? – pen- tudo, um Flaubert do século 20, com profundo violência e as diversas formas de preconceito.
sou, mas isso era completamente irrealizável, pois domínio da narrativa, o que justifica o novelista. Isto
estava habituado a dormir do lado direito, e no é decisivo: o que qualifica o autor é sua capacidade V Os originais devem ser encaminhados à
seu estado atual não conseguia se colocar nessa de inventar e de criar, e não apenas para debater Presidência da Cepe, para o endereço indicado a
posição. Qualquer que fosse a força com que se filosofia. O que faz a literatura é a literatura, mesmo seguir, sob registro de correio ou protocolo,
jogava para o lado direito, balançava sempre de reunindo os diversos saberes.
acompanhados de correspondência do autor, na
qual informará seu currículo resumido e endereço
para contato.

VI Os originais apresentados para análise não serão


devolvidos.

VII É vedado ao Conselho receber textos provenientes


de seus conselheiros ou de autores que tenham
vínculo empregatício com a Companhia Editora
de Pernambuco.
DIVERSIDADE RELIGIÃO

Livro infantil tematiza a Em nova produção, Frei Beto questiona a humanidade de Companhia Editora de Pernambuco
questão das diferenças Deus, a fim de aproximá-lo mais dos homens comuns Presidência (originais para análise)
Rua Coelho Leite, 530 Santo Amaro
Manuel era um menino como Jornalista, antropólogo, filósofo, de que Deus, ao se fazer CEP 50100-140
os outros até os sete anos. Mas teólogo, frade dominicano e humano, se tornou igual a nós
Recife - Pernambuco
seus pais eram gigantes e, de escritor, o mineiro Frei Beto, em tudo (exceto no egoísmo) e
repente, ele começa a crescer com 60 livros publicados, contextualizando Jesus em seu
até não caber mais na sala de traduzidos em 25 idiomas e tempo e no nosso, Frei Beto faz
aula. Ele tinha medo de ser duas vezes ganhador do Jabuti, questionamentos instigantes,
rejeitado pelos colegas mas, além do prêmio da Associação como “Jesus era um cínico?”
ao contrário, todos ficaram do Paulista de Críticos de Arte e ou “Jesus, divino ou maluco?”,
seu lado. Essa é a estória do do prêmio Alba de Literatura, mostrando uma proveitosa
livro infantil Gigante pouco a pouco lança agora, pelo selo Fontanar, exemplaridade desse sujeito
(Editora Biruta), do espanhol da Editora Schwarcz S. A., Um único e oferecendo critérios
Pablo Albo, ilustrado por Aitana Deus muito humano: um novo olhar éticos para o comportamento
Carrasco, também espanhola. sobre Jesus. Partindo do princípio diante das questões do dia a dia.
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PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

CAPA

Vira gente
Em forma de fábula, escritor
presta homenagem aos 100
anos de A metamorfose
Luís Henrique Pellanda

Quando menino, nunca li um livro “infantil”. Só fui ler com minha filha
mais velha, faz pouco tempo. Já Kafka, li no começo da adolescência, bem
antes de pensar em Lewis Carroll, L. Frank Baum, James M. Barrie, Carlo
Collodi. Lembro que li A metamorfose achando uma graça triste naquilo tudo,
e pensando que seria impossível, mais cedo ou mais tarde, eu próprio
não me tornar um outro, bom ou mau, não me perguntem como nem por
quê. O clichê nos ensina que viver é mudar, sabemos porque já fomos
crianças, e mesmo o tempo só se percebe pelas transformações com
que nos constrange. Só que há transformações boas e más, voluntárias
e involuntárias. Na literatura também é assim. Um escritor se transforma
ao narrar sua história, um leitor se transforma ao ler um livro que o
comova. Entre eles, se encasulam os personagens. Alice, Dorothy, Wendy
e Pinóquio se transformam na estrada, longe de suas casas. Gregor Samsa
se transforma em casa, perto demais de sua família. Metamorfoses
boas e más. Escrevi Vira gente, um conto de transfiguração para crianças,
pensando neste animal que somos: uma lagarta que quer virar qualquer
coisa, menos a borboleta.

1. 5.
Era um menino que se achava mágico. Não porque Quando a noite chegou, os passarinhos foram
fosse bobo ou convencido, mas porque conseguia embora, pois eram como você e eu, que não somos
se transformar no que quisesse. Bicho, pedra, mágicos e precisamos de descanso. Voaram todos,
planta, tudo. Se você conseguisse, sei que também de barriga cheia, o sono chegando gostoso, de leve.
se acharia mágico. E quem é que ia te chamar de E aquela grande árvore, enfim quieta, chateada de
bobo? tanto abrigar e oferecer, quis voltar a ser menino.
Até mesmo pra poder comer algumas frutas.
E foi o que aconteceu, o menino voltou a ser menino.
2. Comeu as frutas e adormeceu como vivia: satisfeito.
Um dia, o menino que se achava mágico acordou e
quis virar uma árvore. Foi rápido, nem doeu nada.
Sua mãe não estava olhando, ele deu um pulo ali no 6.
jardim e virou árvore. Criou raízes, penetrou a terra, No outro dia, o menino acordou e decidiu virar
atropelou minhocas, desceu bem fundo. Também água. Água doce e potável, não salgada. Então
cresceu rápido e subiu muito, furou uma nuvem, procurou um lugar bem longe dali, que estivesse
se molhou de garoa, deu até medo de ver a altura. precisando da sua mágica. Encontrou um leito
Mas a verdade é que o menino virou mesmo uma seco, uma imensa rachadura no chão, e se atirou
árvore. Grande, bonita e mágica. Que primeiro se dentro dela, nem pensou no risco que corria. Foi
encheu de flores e, depois, de frutos. lindo de ver, ele se espalhou por tudo, preencheu
todos os cantos, e saiu chispando pro mar, levando
tudo o que encontrava pela frente. Virou um rio
3. largo e forte, e todos iam até ele, beber e admirar
Na árvore tinha rosas, cravos, tulipas, margaridas, a sua passagem.
azaleias, orquídeas, violetas, lírios, bromélias.
Tudo misturado, uma bagunça, feito o quarto do
menino. E as flores eram vermelhas, amarelas, 7.
azuis, roxas, brancas. Porque o menino, arborizado Dentro do menino nadavam peixes e outras
ou não, queria tudo colorido. Isso sem falar nas criaturas esguias, pirarucus e piranhas, lambaris
frutas, de todos os tipos. Maçãs, bananas, amoras, e acarás, carpas e bagres, rãs e sucuris, botos e iaras.
cerejas, maracujás, pitangas, jabuticabas, mamões, Era tanto movimento que ele até sentia cócegas, se
figos, araçás. encrespava em corredeiras, selvagem e cintilante.
É, o menino dava de tudo, ele não era bobo, não. Às margens do menino pescavam os homens e
os jacarés, estátuas ao sol, e também cresciam as
matas e as roças, e ninguém conseguia barrá-lo,
4. e não havia muro que o segurasse, nem barco que
Tanta fruta boa, claro, atraiu muito passarinho. soubesse navegá-lo.
Eles vieram e pousaram nos galhos pesados do É, aquele rio não era fraco, não, aquele rio era um
menino, e fizeram a festa entre as folhas e os verdes mistério, o enigma do seu próprio curso.
que ele tinha inventado, e eram todos os pássaros
possíveis. Comiam e cantavam sem qualquer
preocupação, finalmente destemidos. Sabiás e 8.
sanhaços, corruíras e bem-te-vis, periquitos e Só que ainda era um rio inexperiente. E por isso,
canários, curiós e suiriris. Todos os passarinhos numa curva perigosa, sem o mínimo aviso, naquela
estavam lá, e até mais alguns outros, nem tão sua correria pro mar, o menino encontrou um
possíveis assim, mas que o menino imaginou abismo.
existirem também. Normal, você diz, quem é que nunca encontrou um?
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PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

HALLINA BELTRÃO
12
PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

CAPA

Mas na hora foi um susto, dá pra entender, uma


vertigem, o menino mágico não esperava aquela
queda sem garantias e quase sem fim, ficou até tonto.
É que ele acordou se 14.
O menino podia ter virado uma geleira, uma onda ou
um cometa, a neblina que esconde a estradinha da
Sorte que, de repente, percebeu o que acontecia, e
ainda a tempo de aproveitar a dádiva: ele tinha virado
uma cachoeira, e das gigantes, quer coisa melhor?
achando especial, serra, talvez o arco-íris de um fim de tarde de verão,
ou a lama em nossas botas, no inverno. Ele podia ter
virado uma caverna profunda e perdida no tempo,
Lá embaixo, uma última surpresa: uma turma de
indiozinhos tomava banho, brincava naquela sua assim poderoso, onde os homens de antigamente fossem pintar tudo
o que lhes partisse o coração ou revigorasse a alma

e quis ser um
água sem cor e sem maldade, todo mundo sem depois de um dia duro de caçadas e derrotas. Mas não.
roupas, e o mundo em volta sem problemas.

15.
9.
Foi legal. Mas, como sempre, veio a noite. As
monumento de Ah, ele podia ter virado qualquer coisa, mas quis
virar um vulcão. Porque esse menino, mais do que
crianças bocejaram e ficaram com frio, aquele
vento de chuva assobiando e a pele arrepiada, o
jeito era fugir, ir pra casa. Foram todas embora e,
pedra e fogo, um tudo, amava o suspense e a aventura. E podia, como
qualquer um de nós, explodir a qualquer momento.

cantando, sumiram entre a folhagem, os vaga-


lumes atrás delas. O rio, cansado de ser salto e
barulho, e de fazer tanta espuma naquelas rochas
vulcão irresistível 16.
No começo, tudo bem, ele estava só brincando,
lisas e redondas, quis voltar a ser menino. Até irresistível, quem é que não se sente atraído por uma como sempre. Fez a terra tremer um pouco e riu dos
porque queria, ele também, nadar um pouco nas cratera, quem não tem vontade de olhar lá dentro, cabritos que desceram a encosta aos pulos, cheios de
águas que vieram, frescas, depois dele. investigar aquele escuro todo? pavor. Até deixou que algumas pedras rolassem lá de
cima, da boca do menino que ele achava que ainda
era. Não machucou ninguém, mas foi por pouco.
10. 12. Depois soltou uma fumaça preta, cuspiu cinzas
O menino mergulhou, vasculhou o fundo de areia O menino podia ter virado qualquer outra coisa. pro alto, escureceu o céu de mil cidades, impediu
do rio novo, catou caramujos e pedrinhas coloridas, Podia ter virado uma estrela amarela, a realeza solta que os aviões decolassem, amedrontou pilotos,
deixou a cachoeira massagear suas costas, os olhos no vácuo, a cabeleira desgrenhada e em chamas. Ele tripulantes e passageiros, espalhou um cheiro ruim
fechados, o corpo feliz, e foi dormir satisfeito. Só podia ter regido a órbita de vários planetas, a sinfonia por toda a parte, um bafo quente que derreteu a
cuidou de se enxugar direito antes de se atirar na de muitas vidas, a música do espaço sideral, a trilha neve sobre o seu topete.
cama limpa, sua mãe ficaria uma fera. de todos os nossos sonhos, era só querer. Mas não. E apesar disso o menino ria. Ria dos cabritos que
despencavam, assustados, por entre as fendas da
sua carne, as feridas na pedra que ele sonhava ser.
11. 13.
Mais uma vez a noite passou, sempre passa, qual a O menino podia ter virado a lua cheia, e podia ter
novidade? De manhã, o menino mal abriu os olhos e iluminado, numa noite gelada e sem fogueiras, 17.
já foi se transformando. No quê? Numa montanha. É o primeiro beijo de amor entre dois fugitivos, O menino que se achava mágico curtiu aquilo de ser
que ele acordou se achando especial, assim poderoso, escondidos no oásis mais lindo do deserto mais vulcão, e quem não curtiria? Mas de tanto fabricar
e quis ser um monumento de pedra e fogo, um vulcão distante e ameaçador da Terra. Mas não. tremor de terra, de tanto treinar erupções e ensaiar
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PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

HALLINA BELTRÃO

derramamentos, de tanto fingir que explodiria


tudo, acabou mesmo explodindo. Foi horrível,
mas também bonito, a lava brilhante escorrendo
O menino tinha abasteceu helicópteros, fritou hambúrgueres, traiu
um colega, depôs contra outro, sentiu uma cólica,
sofreu um abalo, perdeu a cabeça.
rocha abaixo, o toró de magma incendiando vilas
e florestas, ah, um desperdício espetacular, um
espetáculo de desperdícios.
desaparecido e, no 21.
Pena que, da montanha, não sobrou nada.
Desmoronou sobre si própria, o menino desabando lugar dele, olhe só A noite achou o homenzinho no sofá de sua casa,
cansado de ser homem. De tão exausto, não tentou

a transformação:
na cratera que ele mesmo tinha fantasiado, e virar mais nada, tinha muito medo de falhar de
ninguém pra segurar a mão dele — alguém aí ajude, novo e, paralisado, diante da tevê, adormeceu
socorro, alguém, alguém — e agora, menino, e como vivia: insatisfeito.

um homenzinho
agora que você caiu feio, e agora, menino, que
você explodiu, e agora — ninguém?
22.

18.
E agora que a noite vinha chegando, e o céu parecia
barbudo, com A noite passou. É o que a noite costuma fazer.
E, inesperadamente, o homem acordou menino
mais uma vez — ainda bem, que viagem ruim. Ele
um teto rebaixado de brasas, o vulcão quis voltar a
ser menino, e bem depressa, pra fugir do buraco,
do calor e da escuridão. Mas não deu. O menino
remela, enxaqueca logo viu que tinha reaprendido a fazer seus truques
de criança, e, por isso, a primeira providência
que tomou foi a de se transformar na luzinha que
tinha desaparecido e, no lugar dele, olhe só a 20. invadia o seu quarto pela fechadura da porta. Deu
transformação: um homenzinho barbudo, com No trabalho, o homenzinho carimbou papéis, certo. Depois, pra testar melhor os seus poderes
remela, enxaqueca e dor nas costas. assinou documentos, visitou o cartório, pintou recuperados, virou também uma gota de orvalho,
O menino tinha crescido, mas, engraçado, estava paredes, dirigiu um táxi, recusou um projeto, um montinho de pó, uma teia de aranha, a geada
bem menor do que antes. rejuntou azulejos, instalou luminárias, consertou sobre um broto de palmeira, um bigode de gato e
vazamentos, corrigiu provas, redigiu discursos, o pingo de leite ali pendurado. E tudo funcionou
puxou dois tapetes, trocou o telhado, almoçou direitinho, ufa, maravilha.
19. com clientes, tingiu cabelos, carregou mudanças, Até hoje, o menino que se achava mágico não
O homenzinho acordou de mau humor. Não sabia montou um cenário, aprovou campanhas, descobriu se aquele dia vivido como homenzinho
fazer mágicas. Tentou virar a brisa que balançava a autorizou cobranças, vacinou um cachorro, extraiu foi um pesadelo ou não. Mas anotou, na sua
persiana, o friozinho que saía da geladeira, o gás que um apêndice, desviou verbas, assinou uma petição, caderneta de espantos, que ninguém tem a força
aquecia o chuveiro, e nada. Tentou virar uma formiga, lavou vidraças, serviu cafezinhos, vendeu um ou o tamanho de suas ambições.
e depois uma formiga esmagada. Sem sucesso. Tentou terreno, serrou um crânio, fotografou crianças,
virar um fósforo, e depois um fósforo queimado. Nada mandou e-mails, varreu as ruas, carregou lixo,
feito. Tentou passar um café, ficou fraco demais. cuidou de automóveis, engraxou cem sapatos, 23.
Tentou alcançar os pés, a barriga não permitiu. Foi demitiu funcionários, abateu uma vaca, bateu Somos, quem sabe, do tamanho das nossas
trabalhar, chegou atrasado, levou bronca. um bolo, pediu um aumento, apitou um jogo, alegrias.
14
PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

ESPECIAL

Por mares do
norte nunca
antes lidos
Literatura contemporânea
holandesa briga no Brasil
por seu espaço narrativo
Texto: Priscilla Campos/ Ilustração: Flavio Pessoa

A literatura nos ensina que, entre as vias aquáticas Ele explica que, desde 2012, emissários da insti-
intermináveis e a ideia de família, existe uma dis- tuição visitam o Brasil e encontram-se com editores
função progressiva. Contemplamos os marinheiros e jornalistas para apresentar programas de fomento
conradianos, a coragem doentia de Ishmael, os núcleos à tradução. “A Fundação e, sobretudo, as editoras
familiares apresentados por Philip Roth em Complexo brasileiras enfrentam um problema grave: há poucos
de Portnoy e When she was good, com a flutuante sensação tradutores do holandês no Brasil, onde não há nenhum
de curiosidade, temor, repulsa. Tanto no mar, como curso universitário desse idioma. Espera-se que algu-
na construção de um afeto supostamente óbvio e na- ma universidade se interesse em criar um, quiçá, em
tural, estamos diante do estranhamento. Nesses dois parceria com o governo da Holanda. Enquanto isso,
grandes espaços narrativos, o sujeito pode perder-se a literatura holandesa continua desconhecida para a
por completo, não importa quantos mapas, bússolas grande maioria dos leitores daqui. A iniciativa do Café
e diários de bordo estejam disponíveis. Amsterdã é interessante para chamar a atenção para
No encalço de temas tão labirínticos estão as es- esse universo – mas será inócua se não se repetir ou
critas de Toine Heijmans, Arnon Grunberg, Tommy expandir-se, formando público leitor e estimulando
Wieringa e Arjen Duinker, todos autores holandeses potenciais tradutores”, reflete Furtado.
recém-traduzidos no Brasil. Os quatro nomes fazem Apesar da distância idiomática que persiste, e, para
parte da lista de convidados do Café Amsterdã, even- além das organizações oficiais, incentivos indepen-
to organizado pela Fundação Holandesa das Letras dentes também ajudam na recente disseminação da
(Nederlands Letterenfonds), que promoverá debates literatura e da cultura holandesa. O tradutor Daniel
e encontros em São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba. Dago, entusiasta da língua e responsável por um tra-
O festival surge como certo tipo de comemoração balho focado na produção clássica do país, mantém
para marcar o montante de títulos contemporâneos, um blog (www.literaturaholandesa.blogspot.com.
produzidos nos Países Baixos, que serão encami- br/) e uma página no Facebook intitulada Literatura
nhados para lançamento e distribuição ao longo Holandesa, nas quais divulga artigos da década de 1950
dos próximos meses. – obtidos na Biblioteca Nacional – e notícias recentes
O mercado literário brasileiro parece apostar, que envolvam a conexão Brasil-Países Baixos.
com atento envolvimento, no boom holandês que De acordo com levantamento feito por Dago, cer-
se aproxima. O número de editoras é expressivo: ca de 80 livros foram traduzidos para o português
sete estão participando da maratona proposta pelo brasileiro nos últimos dois séculos. A quantidade é
Café, algumas com mais de um livro a ser lançado ínfima, de fato, e reforça os embaraços linguísticos
– Cosac Naify, Editora 34, Rádio Londres, L&PM perpetuados até o momento atual. Na oportunidade do
Editores, Editora Rocco, Confraria do Vento, Martins contato, enfim, estabelecido, os leitores irão deparar-
Fontes. Outras, como Hedra e Intrínseca, também -se com mares afoitos, homens perturbados, famílias
possuem projetos focados em autores provindos destruídas, a paternidade como sinônimo de obsessão
das terras do Mar do Norte. Segundo Joaci Pereira e a irritante busca pela fuga infinita – atitude de quem
Furtado, consultor editorial da Fundação no Brasil, sabe não ter nada a perder.
um dos pontos que ainda dificultam a chegada A literatura contemporânea holandesa tem como
da literatura holandesa por aqui é o processo de personagem central a dissimulada hiena invisível que
adaptação linguística. nomeia o quadragésimo nono capítulo de Moby Dick.
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Escreve Melville: “Há certas circunstâncias e ocasiões humano e a descobrir o apavorante potencial destru- sem gerar enfado, como no início do terceiro capítulo:
bizarras neste estranho e caótico negócio que chama- tivo e autodestrutivo que também o conforma”. Em “Thyborøn ficou para trás há quarenta e quatro horas.
mos de vida nas quais um homem considera todo o No mar, o holandês trabalha sempre com essas duas São duzentas e trinta milhas náuticas de distância. O
universo uma grande piada, ainda que mal perceba possibilidades de ruína. percurso de lá até aqui já não importa. O importante
a sua graça, e mais do que suspeita que a piada seja O velejador permanece, durante toda a narrativa, agora é manter tudo inteiro. Tudo ainda está intacto.
feita à sua custa. No entanto, nada o desanima, e nada pressionando um tipo de “controle” metafórico no O barco está lindo. Convés arrumado. Velas altivas. A
parece valer o esforço de uma disputa”. Nos livros que qual a tensão ora cai sobre a tecla correspondente ao cabine é baixa; consigo ficar em pé por pouco. Pelas
serão analisados a seguir, cartuchos e pedras de fuzis seu fluxo psicológico angustiado, ora sobre o botão pequenas vigias vejo o mar, como se eu fizesse parte
são engolidos por homens que possuem, como diz que se destina à disciplina necessária para manter-se dele. Como se estivesse nadando”.
Melville, um “tipo estranho de humor caprichoso”: navegando. Um movimento anula o outro; Donald Talvez, o principal acerto do livro seja abraçar, de
aquele estado de espírito que permite compreender, balança conforme a dança destrambelhada de seus forma benevolente, o narrador excessivo em seu desejo
nos momentos de tribulação extrema, a enorme piada dedos. O que se projeta em ambos os lados do controle por preencher-se com todos os mínimos detalhes
coletiva cuja saída jamais existiu. é a paternidade e seus desdobramentos. do modelo patriarcal. Êxito esse que não se trata de
Um dos fios condutores do romance é a ansiedade escolha segura, mas sim do propósito em manter
GIGANTE DE FORÇA DESCOMUNAL que o personagem lança em direção ao relacionamento uma história aberta a partir da flutuante sensação que
“Penso que muita gente vê o mar como uma rota de com sua filha. A linguagem utilizada para construir esse definimos no início deste texto – curiosidade, pânico,
fuga – pelo menos, Donald vê. Ele pensa que será livre discurso denota uma agonia ainda no gatilho, como repulsa. Ao colocar Donald como sujeito imerso num
enquanto estiver velejando sozinho. Mas claro, isso é uma bomba pronta para explodir, mas não agora. A alerta incurável, não importa seu cansaço ou delírio,
uma fata morgana (espécie de delírio que se conjura no impressão é de que, mesmo se o barco afundar, não Heijmans deixa o leitor diante de inúmeros preenchi-
horizonte). No mar, principalmente quando sozinho, haverá arrebentamento suficiente. Sobre o exercício mentos (situações que acontecem entre uma mudança
muitas regras precisam ser obedecidas se você quiser, de seu estilo ao longo do texto, Heijmans conta que narrativa e outra).
no mínimo, sobreviver. Na verdade, o cotidiano fami- estava ciente da dificuldade em tratar de uma temática Existe uma bela contradição em No mar. Apesar de
liar é muito mais liberto do que estar em solidão ma- às vezes associada ao sentimentalismo excessivo e, o romance ser o resultado da tentativa de Heijmans
rítima”, escreve Toine Heijmans, de Amsterdã, para o por isso, tentou trabalhar com essa linguagem mais de reger grandes temáticas, a construção do discurso
Suplemento Pernambuco. O escritor e jornalista assina contida. “Por outro lado, eu queria construir um sus- é formada, na verdade, por “ações humanas signifi-
No mar (Cosac Naify, tradução de Mariângela Guima- pense atrelado à história e às indagações que emergem cativas”, expressão desenvolvida pelo teórico Franco
rães), romance no qual podemos seguir os intervalos a partir da função paterna. Acredito que os escritores Moretti no ensaio O século sério. Sim, temos o mar e as
entre magnitude aquática e convívio doméstico através não devem ter medo de explorar técnicas que resultem suas criaturas mirabolantes; sim, a paternidade pode
de Donald, personagem que empreende navegação em expectativa por parte do leitor”, conclui. ser tanto impostura social quanto dedicação infinda
solo em seu veleiro vermelho – nomeado Ishmael. De acordo com o holandês, as frases curtas também de afeto. Mas aqui, como num quadro de Johannes
Para Heijmans, o livro é sobre um homem que se são decorrentes da influência do local onde escreveu Vermeer, a “narrativa não é feita apenas de grandes
debate, freneticamente, no desejo de tornar-se uma quase todas as páginas de No mar: seu pequeno barco, cenas”. Uma espécie de cotidiano sobrepõe-se à ca-
espécie de super-herói em todas as áreas: afetiva, atracado num porto holandês. “Eu gostava de ouvir, tástrofe; o que consideramos antes como ápice do
profissional, paterna, náutica. “Donald leva essa ideia durante o processo de criação, o barulho da água. As perigo é apenas o seu entorno.
para o mar apenas para jogá-la, repetidas vezes, em sua pausas entre as sentenças são como as ondas batendo Mas só nos damos conta dessa sobreposição nas
própria cara”, pontua o escritor. No ensaio intitulado no casco do barco”, observa. Deveras, Heijmans não fi- páginas finais. Ao longo do livro, o lugar de leitura
É possível pensar o mundo moderno sem o romance?, Mario cou apenas no romantismo que ronda a sua afirmação. converte-se em incerteza menos pelo fato de estarmos
Vargas Llosa grafa: “Não a ciência, mas a literatura O jornalista alcança um ritmo de escrita refreado, que todos em deriva imaginária no meio do Mar do Norte
foi a primeira a examinar os abismos do fenômeno golpeia sem machucar e, ao mesmo tempo, embala do que por percebermos, desde as primeiras linhas,
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ESPECIAL

a falta de sensatez do narrador. Heijmans demonstra personagem que se mantém entre a neurose, a sabe ao certo. Foi sorte a vidraça ter ficado intacta”.
entendimento da voz que ecoa na escrita como meca- normatização e o machismo. Na mimada figura de Tirza, sua filha mais nova,
nismo primeiro na ideia de exercício literário. Afinal, Construída através de um processo gradual de Hofmeister colide com desejos obsessivos disfarçados
é através desse discurso que se estabelece qualquer revelações, a força do protagonista é inquestionável, de adoração e extremo cuidado. Já nos primeiros pa-
geografia, loucura ou glossário náutico diante dos porém, dolorosa. Se em No mar, Donald é acolhido, rágrafos, Grunberg explana sobre a ausência maternal
olhos de um leitor. durante sua expedição esquizo, pelas alternativas de naquela família, situação essa que tragou todos os
abertura da trama, em Tirza ficamos à frente de um membros – o pai, Tirza e filha mais velha, Ibi – para
2. BOM [DISSE O DOUTOR]. AGORA A GENTE PODE outro passivo-agressivo, pronto para atacar de ma- o espiral depreciativo de autoflagelação que só um
COMEÇAR. neira silenciosa. A frase de abertura do livro é um fantasma ainda vivo pode gerar. “O tempo não cura
Antes de pensarmos em Complexo de Portnoy como exem- simples e eficiente truque: “Jörgen Hofmeister está todas as feridas, descobriu. O tempo rasga e abre ainda
plo de obra relacionada ao conceito de distúrbio, pode- na cozinha cortando atum para a festa”. Grunberg mais as feridas, provocando intoxicações e infecções”,
mos criar uma associação daquelas que só a bruxaria foca nas alusões fáceis (peixe e cozinha, sinônimos afirma o narrador observador.
da literatura nos permite. A premissa da maravilhosa de aconchego; festa, sinônimo de celebração) e camufla Enquanto revive uma briga de seus pais, Portnoy
piada desprezível apresentada por Melville em Moby o corte, a faca, substantivos que têm o poder de síntese empreende as perguntas sem respostas geradas pelas
Dick encontra no relato de Alexander Portnoy o para- tanto do tom, quanto do enredo que será desenvol- lacunas de uma memória do susto. “A cena em si é
lelo certeiro. Se o fazer literário consiste em escrever vido a partir dali. como um móvel pesado, na minha mente, impossível
sempre um final para algo do passado, como afirmou Assim como Heijmans, o escritor faz uso das “ações tirar do lugar – o que me leva a crer que a coisa acon-
o bósnio Saša Stanišić durante a última edição da Flip, humanas significativas”. Mas, aqui, elas acontecem teceu, sim”, diz o advogado. Desse modo também nos
a novela de Roth é uma das sequências possíveis para com o intuito de suscitar pequenas dilacerações. A atinge o estilo de Grunberg: não conseguimos arrastar a
essa premissa do clássico norte-americano. rotina familiar em Tirza é violenta, não importa o grau incômoda mobília com incontáveis farpas de madeira
Nesse desenrolar perpétuo da literatura – ação de amenidade que a linguagem pretenda nos oferecer. cortando a nossa pele.
que proporciona, sem nenhuma justificativa, o Escreve Grunberg: “Hofmeister apanha uma bacia
embate entre passado, presente e futuro – chega- cheia de arroz morno, amassa um bolinho e, enquanto CAÇADAS E MARINHEIROS
mos a Tirza (Rádio Londres, tradução de Mariângela está ocupado com isso, observa o caixilho da porta da Tanto nas perseguições por qualquer recompensa
Guimarães), de Arnon Grunberg. No romance, cozinha como se nunca tivesse usado a bancada da pia quanto na decisão de alinhar uma iole de cruzei-
considerado um dos maiores destaques da litera- antes. Vê a tinta descascando, um ponto fosco no papel ro, com a âncora, sem que as suas velas batam ao
tura contemporânea holandesa, Grunberg monta a de parede junto ao caixilho, onde uma vez bateu um vento, sobrevive a concepção de exílio. No romance
equação composta por paternidade e angústia do homem sapato que Tirza tinha jogado em sua cabeça. Antes de Tommy Wieringa, chamado Joe Speedboat (Rádio
branco cujo algoritmo final é Jörgen Hofmeister, disso ela havia gritado ‘babaca’. Ou depois, ele já não Londres, tradução de Cristiano Zwiesele do Amaral),
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como uma boa surpresa do Café Amsterdã. Sua poesia


prende consigo qualquer coisa do contemporâneo que
nos faz entrar no cobiçado vórtice literário da memo-
rização; mais ou menos como um carimbo sem falhas
no meio de nossa página preferida. Ou ainda, como no
momento em que parecemos saber o exato local de um
livro nas prateleiras da biblioteca de Babel – quando,
na verdade, não sabemos até encontrá-lo novamente.

APÊNDICE
Não sou Mariana / e tu não és Chamilly // A minha história / é outra
/ e começa agora // Estou sempre / a começar. (Adília Lopes
em Dobra: poesia reunida 1983-2007)

Este anexo propõe investigar, brevemente, a presen-
ça feminina na literatura contemporânea holandesa
recém-traduzida no Brasil. Uma observação antes de
continuarmos no universo da escrita: Duas autoras do
país europeu estarão presentes no evento oferecido
pela Fundação Holandesa das Letras. São elas: Janny
van der Molen – jornalista e teóloga, autora de livros
infantojuvenis, entre eles, O mundo de Anne Frank (Editora
Rocco) – e Marjolijn Hof – também escritora YA (young-
-adult), que assina Um fio de esperança (Martins Fontes).
Na biografia dessa última, disponível no site oficial
da instituição, está grafado: “é um dos autores mais
bem-sucedidos em livros infanto-juvenis (...)”. Até
este momento – manhã do dia 17 de agosto – o erro
não foi corrigido. De volta à produção ficcional. Como
vimos ao longo dos intertítulos anteriores, os romances
holandeses que chegarão por aqui são protagonizados
por homens brancos, heterossexuais e com algum
tipo de neurose, psicose ou problema de saúde grave.
Enfim, personagens doentes e egoístas que procuram
contar sua história como expurgo da maldição que os
assola. Até aí, nada de muito novo no front.
No entanto, na base de cada uma das narrações,
está a mulher que se alterna entre: a) não ser ouvida
ou levada a sério; b) mãe protetora, complacente com

Cerca de 80 livros
foram traduzidos
para o português
brasileiro nos
últimos 200 anos. A
quantidade ainda é,
de fato, ínfima
e na coletânea poética da Antologia provisória, de Arjen mesmo quando não existe mais navio ou casa que as imaturidades do marido; c) malévola, fria e sem
Duinker (Confraria do Vento, tradução de Arie Pos), os sustentem. coração; d) alienada; e, em última instância, a perso-
as vozes narrativas – mesmo acompanhadas de outros De forma semelhante a No mar, os versos de Duinker nagem que se submete aos pensamentos patriarcais
personagens e envoltas em relacionamentos afetivos também possuem uma ode aos pormenores náuticos, constantes nos textos de No mar, Tirza e Joe Speedboat.
– estão absortos em seus respectivos isolamentos. como no trecho do poema E, presente na Antologia pro- Dos três, o que chama mais atenção e abrange mais
Em Joe Speedboat, o narrador anuncia sua situação, visória: “O mistério não fala para mim / A mística não letras expostas acima é o drama de Arnon Grunberg.
após voltar para casa de um acidente que quase o fala para mim / E tampouco a metafísica / Prefiro as A família Hofmeister possui o clássico protótipo
deixou paralisado por inteiro, da seguinte maneira: intenções da proa / E as certezas pacientes da âncora”. do homem como dominador absoluto. Jörgen é o
“[...] eu, Fransje Hermans, com apenas um braço fun- Nessa temática, o destaque fica para Sailor’s home, um maestro da casa e, claro, nem sempre estará em sua
cional suportando quarenta quilos de carne morta. No dos títulos mais extensos do livro, que expõe bonitos melhor performance. Mas, não importa, a visão dele
passado, já me vi em melhores condições. [...] Tenho fragmentos, aos quais fica difícil passarmos incólu- é a que vai prevalecer. Seus medos, dúvidas e anseios
de me mandar deste lugar o mais rápido possível. mes: “De repente, os elementos soltam as entranhas. serão captados sem parar, até o fim. Os romances
Eles estão me enlouquecendo com tanto vaivém ao / Relâmpagos formidáveis marcam a rota para o porto. manifestam – Tirza em especial – a ideia da perso-
redor da cama e com toda essa conversa mole sobre / O cheiro de cabelos soltos é implacável e fabuloso. / nalidade perturbadora que encobre a violência (seja
comércio e tempo”. O então garoto mora na cidade O navio avança ao encontro da cisão de realidades, / ela qual for) e reforça a mudez censurada do outro.
fictícia de Lomark, uma região que aprisiona, por Navega através de fatos insonoros e fatos ruidosos. / São enredos que reforçam o “calo porque não quero
motivos aleatórios, todos os seus moradores. Todos os fatos se reúnem aqui para escolher palavras, desestabilizar você” e nunca a autonomia do “calo
Na vontade da caça está intrínseca a urgência pelo / Todas as palavras se juntam para fazer sonhos, / Tão porque não tenho o que te dizer”.
retorno. Os personagens de Wieringa perduram na- bem que o bater das velas deixa de existir. A escolha de Adília Lopes como citação de abertura
quele lugar; clamam pela volta eterna e não sabem Porém, a despeito do eu lírico dirigido a referências deste apêndice foi devido a sua relação direta com as
nem o porquê de almejá-la com tamanho afinco. que poderiam denotar um aspecto afável – flores, tais “ações humanas significativas” que tanto falou
“Nós ainda continuamos aqui”, conclui Hermans percepções oníricas, lágrimas, nuvens – podemos Moretti e que parece eclodir na literatura holande-
na derradeira sentença do livro. Algo próximo à reconhecer uma frieza latente. Essa identificação sa contemporânea. Ao lermos a poeta portuguesa,
insistência, sem razão de ser, do alucinante coman- não afasta, mas sim produz certo desvelo tardio; a lembramos: não só a história pode ser outra, como
dante Ahab. No fim, a tripulação do baleeiro, assim conquista que ultrapassa a simples beleza da escrita também os personagens que caminham pelas beiras
como os habitantes de Lomark, são devorados, e e estimula, aos poucos, a invasão do leitor no texto. narrativas devem, sim, participar dela. Afinal, a mar-
isso vai além do significado de entrega. Joe Speeboat Em alguns poemas, o holandês abusa das repetições ginalidade dos que não se submetem aos enfadonhos
é sobre pessoas que não acharam a saída por que, e a metrificação pode trazer impaciência para a leitura. e insensíveis padrões é tão cotidiana quanto nadar na
talvez, sentem deleite na teimosia de fincar os pés Mas, de todos os escritores aqui citados, Duinker surge imensidão do mar gelado.
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O COMPUTADOR QUE QUERIA


SER GENTE ALGUÉM VIU MINHA MÃE? ERA UMA VEZ...
Homero Fonseca Pedro Henrique Barros Gabriela Kopinitz dos Santos
Certo dia, Joãozinho, um garotinho Uma menina e uma joaninha vivem A personagem Cigana Contadora de
de 10 anos, e Ulisses, seu computador, o mesmo dilema: uma série de mal Histórias, criada pela jornalista Gabriela
decidem trocar de lugar por 24 horas. entendidos faz com que se sintam Kopinits, que costuma ser levado à
A máquina queria saber como é ser abandonadas pela mãe até que escolas para sessões de contação,
um humano, por pensar que teria toda os problemas se resolvem e elas transforma-se em protagonista e narra
libedade que quisesse. compreendem que são muito amadas. várias de suas historinhas nesse livro,
que promete encantar as crianças.
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PARA JOVENS DE 8 A 80 ANOS TEATRAL GOLPE MILITAR
Décio Valença Filho Georges Stobbaerts Joana Rozowykwiat
Jogos, quebra-cabeças e brincadeiras O livro nasceu das experiências do Alguns dos “subversivos” que atuaram em
que utilizam o raciocínio lógico autor , que aliou a prática de Judô, Pernambuco após o golpe militar de 31
compõem o livro de Décio Valença, Kendo, Iaido e Aikido, as filosofias de março de 1964, entre os quais Luciano
engenheiro que se intitula “matemático Zen e Yoga e a formação de atores, Siqueira e Humberto Costa, abrem o coração,
amador” por ser um apaixonado desta resultando numa articulação entre a revelando como se sentem em relação ao
ciência. Inclui historietas atribuídas arte e o movimento, da qual nasceu o passado e o que esperam para o futuro
a gênios da matemática, e decifra os projeto Tenchi Tessen, que se baseia em do Brasil. O livro nasceu da tese de pós-
problemas mais difíceis. reflexão, meditação e ação. graduação em Jornalismo Político da autora.

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ANTONIO CALLADO ÚTIMO PORTO POEMAS 2


FOTOBIOGRAFIA DE HENRIQUE GALVÃO Daniel Lima
Ana Arruda Callado (Org.) Ana Maria César
Poemas 2 reúne as obras inéditas
Organizado por Ana Arruda Callado, Minuciosa pesquisa sobre o ambiente Cancioneiro do Entortado e
viúva do biografado, Antonio que cercava o capitão Henrique Galvão, Dernantonte, que aproximam uma
Callado Fotobiografia percorre toda comandante do navio português Santa expressão popular nordestina e uma
a trajetória do escritor, dramaturgo Maria, que atracou no Recife em 2 de brincadeira ou canção antiga, num
e jornalista, numa sucessão de fevereiro de 1961, com 871 pessoas a bordo. jogo de palavras que revela o apelo à
textos curtos e saborosos. Galvão apoderou-se do navio em protesto afirmação de alguém que encontra na
contra a ditadura salazarista, e recebeu asilo poesia o meio de, mergulhando em
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presidente brasileiro Jânio Quadros. descobrira nas profundezas de si próprio.
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ARTE & ARQUITETURA A EMPAREDADA DA RUA NOVA


NO BRASIL HOLANDÊS
(1624-1654) Livro mítico da literatura pernambucana,
José Roberto Teixeira Leite A emparedada da Rua Nova, escrito
por Carneiro Vilela, deve seu sucesso,
Resutado de 50 anos dedicados em grande parte, ao mistério que cerca
ao estudo contínuo das artes e sua criação: o autor teria retratado
arquitetura no período da dominação um crime verdadeiro e hediondo,
holandesa no Brasil, o livro de em que uma moça indefesa fora
José Roberto Teixeira Leite, Arte emparedada viva, pelo próprio pai, “em
e Arquitetura no Brasil Holandês defesa da honra da família”? Ou teria
(1624-1654), se debruça especialmente Vilela, usando recursos estilísticos
sobre a Arquitetura, o Urbanismo, de grande qualidade, criado a estória
a Jardinística e a Cartografia, sem que, de tão bem construída, faz com
esquecer da Literatura, do Teatro, que até hoje muita gente acredite
da Música e das artes decorativas. que ele se baseou em fatos reais?

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PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

ARTE SOBRE FOTO DE ALEXANDRE BELÉM/ACERVO SUPLEMENTO PERNAMBUCO

INÉDITOS

Vá vendo
o caiporismo
Nada de autobiografia, nada de depoimento para a tive conhecimento de que eu era assim quando certa vez
Gilvan Lemos

posteridade (ô merda!), apenas relembranças literá- ouvi de minha mãe, esclarecendo à vizinha que me
rias, ou melhor, da minha insignificante formação observava, curiosa: É assim o dia todo, passa horas aí,
de escritor. Na mocidade, eu tinha grande interesse brincando sozinho.
pelas biografias e, principalmente, autobiografias. Que seria isso, enfim? Do meu temperamento,
Era, talvez, uma maneira de me inspirar, porque, sem do meu retraimento? Porque, na verdade, eu, por
dúvida, eu pretendia ser um Grande Homem. Com ser o caçula, era muito privilegiado. Ao chegar da
o tempo, a realidade entrando-me pelos olhos (para rua, meu pai me sufocava de carinhos, enquanto
não dizer por outras vias), fui perdendo o interesse esperava o jantar carregava-me para sua cama, a
pelo gênero, passei a dar razão a minha irmã Malude, puxar conversa, a rir dos meus disparates. Minha
que julgava pretensiosos, vaidosos, os indivíduos mãe, meus irmãos... Claro que eu apreciava suas
que se dedicavam a falar da própria vida, como se afeições, mas havia momentos em que preferia me
fosse imprescindível que outros a conhecessem. separar delas. Discrição, constrangimento... Sempre
Hoje, além de vaidosos e pretensiosos, acrescento: fui muito imaginoso. Aos enredos dos filmes a que
egoístas, hipócritas e, em certos casos, mentirosos. assistia colocava adendos da minha imaginação; os
Afinal, esses caras só contam grandeza, altruísmo, dramas íntimos relatados, em tom de queixa, por
heroísmo etc. Cadê que revelam fraqueza? Uma ova, minha mãe, eu amenizava, transmudando o enre-
que revelam... Há sinceridade nisso? do. Tudo isso intimamente, sem ninguém saber. Devo
Poderia parecer que eu mesmo, com essa história acrescentar, entretanto, que nunca fui mentiroso,
de “formação de escritor”, estivesse me predis- jamais fui pegado, por quem quer que fosse, numa
pondo a relatar minhas próprias vitórias. Claro que mentira. Imaginoso, sim; mentiroso, não.
eu jamais cairia nessa esparrela. Primeiro, porque
reconheço que sou escritor apenas porque escrevo O cinema foi meu primeiro deslumbramento. Diante
livros (quem faz sapatos é sapateiro, quem faz pão é da tela eu me multiplicava. Mas aquilo era verdade,
padeiro, quem costura roupa é costureiro... Portan- existia de fato, e eu estava lá dentro, participando de
to, quem escreve livros é escritor, não é mesmo?); tudo. Se havia cena comovente, eu chorava; se hi-
segundo, porque, em seguimento a este relato, me lariante, morria de rir. Era um mundo novo que me
ocuparei, principalmente, dos fracassos. Não para fascinava, embora não o entendesse. Deslumbramento
me lastimar, granjear simpatia, obter caridoso per- que foi acrescido com as histórias em quadrinhos,
dão, cristianíssima remissão, sim para me vingar do que vim a conhecer mais tarde. Eram distrações, no
que bestamente chamamos de destino, revidar com entanto, que me encantavam e ao mesmo tempo mar-
autoridade suas provocações, mostrar-lhe que não as tirizavam. Sim, porque não dispunha delas como era
aceitei, aceito, passivamente. do meu insaciável desejo. Cinema, só às terças-feiras,
O título, por que o título? Lembro-me dum conto dia do seriado. Aos domingos, a mil e seiscentos réis a
de Machado de Assis, no qual são relatados os azares entrada, eu ficava de fora. De fora, vagando pela rua,
de certo personagem, sempre entremeados com a angustiado, a ouvir o retinir da campanhia anunciando
observação do autor: “Vá vendo o caiporismo”. É o a sessão. Enquanto a ouvisse, havia esperança. Bo-
que, a partir de agora, parafraseando o genial Machado tava a imaginação a trabalhar. Dez tostões perdidos,
de Assis, passo a referir: VÁ VENDO O CAIPORISMO. sem dono, à beira da calçada. Ou remanescente da
Sendo o último filho duma prole de cinco, quase feira do sábado. Ou caído do bolso de algum bêbado.
cinco anos mais novo do que o penúltimo, vivi muito A campanhia retinindo e eu... nada. Só a imaginar.
tempo isolado, em companhia de minha mãe. Somente Como nas histórias dos filmes, repentinamente surgia
aos sete anos passei a frequentar a escola, como era um milionário na praça, em seu carro monumental
costume na época. Meu pai no trabalho, meus irmãos dirigido por motorista fardado, por certo perdido.
na escola ou em companhia dos amiguinhos e eu sob Abordava-me: Meu filho, onde estou, que cidade é
a vigilância materna. Habituei-me, pois, a brincar esta? Eu o atendia, trêmulo de emoção, previsão: São
sozinho. Jogava dama comigo mesmo, baralho, futebol Bento. E ele, bondoso: Que está fazendo a esta hora na
de botão; construía casinhas, fazendas de boi de osso; rua? Eu lhe confessava meu sofrimento. E o milionário
executava aventuras copiadas dos seriados do cinema. desconhecido, abrindo a carteira de cédulas: Tome, vá
Eu me constituía em fazendeiro e boiadeiro, ladrão e pro cinema, leve mais esse trocado pra comprar con-
delegado, herói e bandido, em disputas interminá- feitos. Mas fatalmente a campanhia deixava de tocar,
SOBRE O TEXTO
veis. Dialogava em pensamento com meus desafetos, o milionário desaparecia, eu me convencia de que a
Esse trecho faz parte de participava de sua vivência enredada. Havia uns bo- sessão havia começado. E eu mais uma vez frustrado,
um ensaio que estará, na nequinhos de celuloide, do tamanho dum dedo, que do lado de fora, chorando, revoltado com a sorte, com
íntegra, em livro biográfico minhas irmãs utilizavam como filhos de suas bonecas a vida, com meus pais que não tinham dinheiro nem
sobre Gilvan Lemos, de pano; eu, como personagens. Tudo isso à porta da para me pagar uma entrada de cinema. Quanto aos
editado pela Cepe, como cozinha, no jardinzinho que mamãe conservava com Gibis, nome que generalizava as revistas em quadri-
parte da coleção Memória afeição de agricultora frustrada: sempre desejou ser nhos, o suplício se assemelhava. São Bento na época
fazendeira, como seus ascendentes. Minhas atividades não tinha mais do que 2.500 habitantes. Desservida
distrativas, contudo, passavam-me despercebidas. Só de estrada de ferro ou de rodagem federal, isolava-se
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PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

INÉDITOS entre Garanhuns e Caruaru, cidades maiores, às quais


só se alcançava em carro de aluguel, em caminhões
de carga ou de feirantes. Inexistia livraria ou banca
de revistas, de modo que Gibi era produto raro, que
apenas interessava aos garotos. Milagre, aparecer um
Gibi em São Bento, levado por algum estudante em
enfrentava qualquer parada (quando não estava
com enxaqueca), corria feito um raio, era craque da
pelota (jogando de óculos escuros na cara, evitando,
porém, as cabeçadas).
Refugiava-me nas historietas dos Gibis. Terminado
o curso primário, sem meios de continuar os estudos,
férias, um visitante ocasional... era neles que eu aprendia. Em São Bento não havia
Neste momento, sou obrigado a abrir um parêntese colégio, meu pai não tinha condições de me internar
para falar de duas pessoas que, nas circunstâncias a em Caruaru, Garanhuns ou mesmo Pesqueira, cidades
que me referi, tornaram-se-me grandes benfeitoras, vizinhas. Minha mãe lamentava não aproveitar pelo
espontaneamente amenizaram meu sofrimento. A menos eu e minha irmã mais velha, os mais inteligen-
primeira delas foi Major, sargento da polícia, amigo de tes, a seu ver, os que mais se interessavam pela leitura.
minha família, nomeado delegado da cidade. Major Mas eu e Malude líamos por prazer, sem qualquer
(apelido), era um grandalhão de aspecto simpático, interesse de nos ilustrar. Se eu lamentava não poder
cujo cinturão ameaçava estourar em sua farda oficial, frequentar um colégio era simplesmente por vaidade.
sempre com um charuto na boca, o que mais acentua- Sentia-me diminuído diante dos primos e amiguinhos
va sua parecença com Churchill, o herói inglês da 2ª que o podiam. Como os invejava ao regressarem nas
Grande Guerra Mundial. Nas noites de sessões em que férias, uniformizados, gaguejando frases em inglês ou
eu estava interdito, por falta de dinheiro, após o jantar francês, até citando latim: “Errarum humano est”. (Ainda
ia tocaiar Major no Café de Antônio Lalau, onde ele hoje nem sei se é assim que se escreve.) Meu pai me
fazia hora, a bebericar uma caninha, em companhia consolava: Vá ver que você sabe muito mais do que eles.
de amigos. Que suplício! A inesquecível campanhia Inventei de ser desenhista. Comecei copiando os
a retinir, Major a se demorar na conversa, eu vendo a quadrinhos, por fim lancei minha própria revista, com
hora de a sessão começar. Quando afinal ele se decidia histórias criadas por mim, desenhadas por mim. De
a encerrar o assunto, eu corria na frente, postava-me início, em cadernos de cálculos, sobrados da escola.
à entrada do cinema, armado dum arzinho muito infeliz. Sem pauta, porém de superfície meio porosa, onde a
Logo que me avistava, Major sorria, naturalmente tinta, não raro, borrava. Havia um papel de embrulho
compreendendo tudo, dava-me uma tapa na cabeça, que tinha um dos lados impermeável, cuja folha inteira
empurrando-me para dentro: Caminhe, corrupto (dizia custava um tostão. Uma folha, recortada apropriada-
“curruto”)! Isso, quanto às sessões de cinema. mente, dava uma revista das minhas. Grampeava-a
Com referência aos Gibis... Joaquim Ezequiel era com grampos retirados de velhas edições d’O cruzeiro
nosso vizinho da Rua José Mariano. Dono duma ou de cadernos usados. Nasceu, então, O farol. Sema-
fabriqueta de queijo, tinha família numerosa. Uma nal, com histórias episódicas, continuadas, como nos
de suas filhas menores, Lilia, mais ou menos da Gibis. Todas as histórias eram da minha autoria. Para
minha idade, cursava comigo o primário, comigo se dar maior seriedade à revista, para cada história eu
aventurava nas cercanias da fabriqueta, até a hora inventava um autor. Me decepcionara ao saber que os
em que se aprontava o queijo, que era retirado dos heróis dos Gibis eram americanos. Nacionalista como
Gilvan Lemos

tachos para ser pesado. O mestre então nos dava em os diabos, fiz com que meus heróis fossem todos bra-
papel impermeável (amarelo, como me lembro!), sileiros. Só que aqui e acolá traía-me ingenuamente.
pequenas porções, branquíssimas, borrachudas, que Havia o índio Tapir, das selvas amazônicas (imitação
segurávamos nas pontinhas, por causa da quentura, de Tarzan); o Condor, êmulo de Batman (sem Robin);
e ficávamos a beliscar, na medida em que esfriavam. contudo, havia também Tommy e Hal (“parecidos”
Em seguida, Joaquim Ezequiel, com a família, mu- com Tim e Tom, da Patrulha do Marfim) e o cowboy Tom
dou-se para Maceió. Anos depois, eis que recebo Merril (um quase Bronco Piller, das páginas do Gibi).
inesperadamente um pacote enorme de Gibis, ver- Tudo muito precário, desenhado com tinta azul,
dadeira coleção. Lilia, que me mandara de Maceió. escolar, marca Sardinha e pena comum, que logo
E ficara mandando, para minha felicidade. escarrapachava (o computador, chato pra burro, está
Major, depois que saiu de São Bento, não mais o vi. dizendo que o certo é assim, mas nós dizíamos “es-
Sabia dele por intermédio da família. Mais ou menos carrapichava”). Ouvia falar duma tinta pra desenho,
na década de 60, soube que havia morrido em Carpina, chamada de Nankim, que eu nunca cheguei a pelo
onde destacava, ainda como delegado de polícia. E menos ver. Em São Bento, não. Como, igualmente, ja-
Lilia fez carreira na televisão. Telejornalista, atriz de mais recebera uma aula de desenho, jamais conhecera
telenovelas, morreu no Recife, pertencente ao quadro um desenhista. Tudo que eu fazia era sob a orientação
da TV Jornal do Commercio. Jamais esquecerei os mo- de Malude que, como eu, completara apenas o curso
mentos de indizível ventura que me proporcionaram. primário da escola de Dona Esterzinha Siqueira, no
Eu era naturalmente um menino solitário, já pelo Grupo Escolar Barbosa Lima. Contudo, minha fama
meu temperamento, já pela doença dos olhos que de artista se espalhou. Os amiguinhos iam lá em casa
me acometera quando eu andava pelos onze anos de ler O farol, acompanhar as aventuras dos meus heróis.
idade. Conjuntivite primaveril, havia diagnosticado Um número único, que passava de mão em mão, co-
o estudante de oftalmologia, nosso primo, que vinha migo ao lado, vigilante, temendo que o estragassem.
do Recife passar as férias em companhia dos pais. De vez em quando meu pai violava a gaveta onde eu
Adiantando: Você se livra dela quando atingir a maio- os guardava, a fim de gabar minha habilidade aos
ridade. Foi, realmente, o que aconteceu. De manhã amigos dele. Cheguei a desenhar uns jogadores de
eu acordava com os olhos pregados, sem poder sair do futebol para o União Sport Club, por encomenda do
quarto por causa da claridade, que me encandeava, Dr. Adelmar Paiva, que me pagou vinte mil réis por
causando-me um verdadeiro choque lacrimejante. eles. Um dia quase morro de gosto, porque meu tio e
Para ir à escola eu tinha de acordar antes do horário padrinho Getúlio Valença, respeitado na cidade pelos
previsto, a fim de acostumar a vista. Caíam-me os cílios, seus conhecimentos gerais e que eu muito admirava,
as pálpebras inflamavam, cercavam-se de carocinhos, elogiou meus desenhos. Sabendo das condições em
como terçóis. Vaidoso, envergonhava-me de exibi-los, que eu os executava, concluiu: Vocação inata. Só que
até que meu pai comprou-me uns óculos escuros, eu não sabia o que significava inata.
desses vagabundos, de lentes marrons, vendidos na Durante a guerra deflagrada pelo Eixo os Gibis pas-
feira. Ainda estava feliz? Veio-me, então, a enxaqueca, saram a ser invadidos pelos Super Heróis, homens de
eu estava com uns treze anos. Fui pegado de surpresa, poderes excepcionais, sobrenaturais, que voavam,
na rua. De repente minha visão começou a ser atrapa- tinham visão de raios X, eram imunes a tiros, pedradas,
lhada por umas argolas brilhantes, a movimentar-se facadas etc., todos norte-americanos, a combater os
constantemente, aumentando de tamanho (a esses nazistas. Bastava uma dessas personagens, Capitão
sinais os médicos chamam de escotomas), quase me América, por exemplo, para dizimar um pelotão inteiro
impedindo de enxergar. Corri pra casa, julgando tra- de alemães. Isso me desgostou, me esfriou com relação
tar-se de algum sintoma da conjuntivite. Minha mãe à leitura das histórias em quadrinhos. Malude, então,
esclareceu, experiente: É enxaqueca, vá se deitar. me socorreu: Leia romance. Ela própria lia bastante,
Era mal de família. E como incomodava! Quando os já influenciada por nossa mãe que, embora de poucas
escotomas desapareciam, vinha uma dor de cabeça de letras (não tinha nem o primário), vivia com um à mão.
rachar, que não passava com remédio algum. Náusea, Na mezinha do quarto de mamãe havia uma ruma de
vômito, dormência nos pés, nas mãos. Era um dia romances, duma coleção chamada CIP, na contracapa
perdido para mim. A enxaqueca ficou me visitan- o desenho duma mão com dois dedos levantados, in-
do semanalmente, às vezes dois, três dias seguidos. dicando o preço do livro: dois mil réis. Eram volumes
Diziam: Mas isso é doença de velho. Curioso é que, diminutos, em papel ordinário, creio que precursores
igualmente à conjuntivite, ao atingir a maioridade a dos atuais livros de bolso. Verdadeira coleção, e variada
enxaqueca desapareceu, voltou-me 36 anos depois, que era: O conde de Monte Cristo, Humilhados e ofendidos, O
estou com ela, e os médicos dizem: Na velhice, comu- homem que ri, Escaramouche, Os miseráveis, A moreninha, O
mente a enxaqueca desaparece. Só se for nas pessoas moço louro, Inocência, O prisioneiro de Zenda, O Máscara de
normais, em mim, não. Ferro... e por aí em diante.
Apesar de tudo, diante do caiporismo que se su- Eu pegava um a um, largava, desencantado. Enor-
cedia, não fui uma criança infeliz. Magro que nem mes, letras miudinhas, sem gravuras. Um dos autores
um caniço, participava de toda brincadeira infantil, chamava-se Fiedor Não Sei Que Lá. Um escritor com
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PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

ARTE SOBRE FOTO DE ALEXANDRE BELÉM/ACERVO SUPLEMENTO PERNAMBUCO

o nome de “fedor”... Malude destacou O conde de Monte


Cristo: Leia este, você vai gostar. Iniciei sua leitura
meio desanimado, mas logo me deixei absorver
Me decepcionara prima-dona. Anos depois, já morando no Recife,
ocasião em que procurei me aperfeiçoar na literatura
e passei a ler ensinamentos dos grandes especialistas
pelas aventuras de Edmond Dantés, sua inominável
sede de vingança. Na época havia a continuação
desse romance, A mão do finado, que li com o mesmo
ao saber que os da matéria, encontrei neles pouca novidade. À medida
que me ia apercebendo dos seus conselhos, dizia a
mim mesmo: Mas Malude já me ensinava isso.
interesse. Anos depois foi que fiquei sabendo que se
tratava dum livro apócrifo, parece que bolado por um heróis dos Gibis Claro que eu reconhecia minhas limitações. Saído
dum curso primário mal digerido — nunca fui bom

eram americanos.
português, e por muitos anos tido como da autoria estudante: ler por obrigação, para aprender, a fim
de Alexandre Dumas. Aliás, nunca mais ouvi falar de prestar exame no fim do ano não era comigo,
de A mão do finado. não tinha em que me segurar. Em contato com os

Fiz com que meus


D’ O conde de Monte Cristo passei a outros autores, escritores com os quais me identificava, seria capaz
principalmente nacionais. Meu irmão mais velho, de redigir um texto mais ou menos legível. Faltava-
já residindo no Recife, trazia nas férias os da moda. me, porém, conhecimentos gramaticais. Por incrível
José Lins do Rego, Érico Veríssimo, Jorge Amado...
Estes, logo me conquistaram: narravam “coisas da
época, dramas regionais, de nosso conhecimento”.
heróis fossem todos que pareça, lá em casa não havia nem um simples
dicionário. Tampouco, na cidade inteira, uma pes-
soa erudita que me desse os conselhos necessários.
Entretanto, para os velhos da família, muito imorais. Li
Banguê, de Zé Lins, escondido: Não é livro pra criança,
determinara meu irmão.
brasileiros Valia-me de minha irmã, que também tinha suas
limitações. Desesperava-me. Por que fora nascer
num lugar tão atrasado? São Bento era uma cidade
Mas eu achava que Jorge Amado era “pior”. Para meu cunhado, o erudito da família, aconselhava, isolada do mundo. Mamãe dizia: Cidade que nasce
mim, a Jacarecanga dos personagens de Érico Verís- não a mim, quem era eu?, mas para demonstrar duma banda nunca progride. Duma banda porque
simo era, sem tirar nem pôr, São Bento. Os mesmos conhecimentos: O romance requer maiores expe- ficava à margem da estrada de ferro, da contra-seca,
costumes, as mesmas intrigas familiares. Aquilo era riências. A pessoa deve ir se exercitando, primeiro estrada de rodagem federal, dos principais meios
vida, realidade. Iam aos poucos surgindo novos ro- em crônicas, descrições — descrever uma feira, por de transporte. Se alguém de São Bento pretendia ir
mances, que líamos em conjunto, parentes, amigos, exemplo, um passeio pelo campo... Depois o conto. ao Recife teria de pegar o trem em Belo Jardim, ou
o livro passando de mão em mão, comentados à Dispondo, então, do domínio da língua, o romance. viajar nos caminhões da fábrica, feliz se conseguia
noite, na praça. Eu, que já tinha os olhos inflamados, Isso não é para qualquer um. O qualquer um, sem uma vaga na boleia, e purgar uma viagem que du-
da conjuntivite, parecia que os lia chorando, tal a dúvida, era eu. Que ele não soubesse, mas não me rava quase um dia. Se o viajante saía de São Bento
maneira como lacrimejavam. Sem mais a obriga- coadunava perfeitamente com seu ponto de vista, às cinco horas da manhã, tinha de parar em Vitória
ção da escola, era dos romances que me ocupava, duvidava do seu gosto literário. Para ele, os roman- para almoçar, chegando ao Recife por volta das sete
dia e noite agarrado neles. O motor da luz elétrica, cistas modernos escreviam de modo desleixado, horas da noite. Ônibus? Que era ônibus? Falava-se
convencionalmente, parava à meia-noite. As onze seu autores prediletos não iam além de Humberto em “sopa”, meio de transporte das grandes cidades,
e meia fazia pequena interrupção, era o “sinal”, um de Campos e Coelho Neto. Andava com Humberto ocasionalmente aparecido desgarrado em São Bento.
aviso de que à meia-noite em ponto todas as luzes da de Campos debaixo do braço, lia suas crônicas em Como os aviões que raramente apareciam no céu,
cidade se apagariam. E eu sozinho na sala, os demais voz alta para uma roda de admiradores. Um dia, fazendo um barulho enorme, atraindo curiosos, que
membros da família recolhidos, e eu lendo, aprovei- enjoado, me atrevi: Humberto de Campos é sim- permaneciam horas de cara pra cima, admirados e
tando o restinho de claridade. Preocupada por causa plesmente cronista. A crônica é gênero dos menores estranhando o acontecimento. Diziam: E um avião,
da minha doença, minha mãe gritava do quarto: Vá na literatura. E ele, me encarando: Quem é você pra por certo está perdido. Meu desespero era tamanho
dormir, não apure tanto a vista. A lâmpada não se censurar Humberto de Campos! que já me arrependia de ter desistido de ser dese-
apagava de vez, ia esmorecendo aos poucos. Com o Não perdi tempo com crônicas, descrições de feiras. nhista para ser escritor. Pensava, de início, que ser
livro aberto, eu caminhava em sua direção, até ela Que era uma feira? Semanalmente a mesma coisa, a escritor era mais fácil, porque não havia necessidade
se apagar definitivamente. Daí prosseguia, tatean- mesma falta de novidade, as intrigas de sempre. No de desenhar, mais fácil e menos trabalhoso. Embora
do, até a cama. Acrescente-se que nesse tempo eu maior segredo do mundo, com receio de que meu sabendo que, para ser desenhista, necessitava igual-
tinha um medo tremendo de alma do outro mundo. cunhado descobrisse, escrevi um conto. Li-o, reli-o, mente dum professor para me ensinar a desenhar.
Pois, com o romance na mão, esquecia até os maus corrigi, emendei. Achei-o ótimo. Aí tive coragem de Quem, em São Bento, seria capaz disso? Marcelino,
espíritos, os espíritos zombeteiros, os fantasmas mostrá-lo a Malude. Como disse anteriormente, essa pintor que abria letreiro nas casas comerciais? Que
ocasionais. Uma verdadeira obsessão. Às vezes saía minha irmã , como eu, tinha apenas o curso primário. abaixo do indicando o Café da Noite desenhara um
por trás de casa, sozinho, com a intriga do romance Mais velha do que eu oito anos, no entanto era mil bule solto no espaço derramando café numa xícara
que lia no momento revoluteando em minha cabeça. vezes mais inteligente. Duma intuição extraordiná- também perdida no ar? (Os engraçados, para zom-
Penetrava nele, tomava parte no enredo, alterava ria, principalmente para as artes. Sem nunca ter tido bar do dono do café, gritavam da calçada: Acode, Zé
desfecho, arengava com o autor. Tomava morena a um professor, desenhava bem, pintava como uma Mendes, o café tá esborrando da xícara.) Sentia-me
garota que ele apresentava loura; antipático, o indi- artista de fato, entendia de tudo. Sempre foi minha o desprezado do mundo, o “condutor da caipora”,
víduo que era para ser simpático; gordo, o magro... conselheira, sempre acreditou em minha capacidade, como diziam os mais velhos, com referência ao sujeito
Se não está satisfeito com o romance, escreva um, previu que eu seria escritor. Quando meu padrinho azarado. Revoltava-me e, só por vingança, intima-
desafiava Malude. Não o fiz imediatamente, mas Getúlio fundou o grupo teatral da cidade, escolheu-a mente, desafiava o destino: Mostro se não vou ser
iniciei-me no conto. Ciente de minhas pretensões, como sua artista principal. Dizia ele: Malude é minha escritor, seu porra chaleira dos ricos.
22
PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

RESENHAS
DIVULGAÇÃO

Um panorama da Foi absurda a quantidade


de polêmica envolvendo
a carta em que Mario de
quanto o sexo é de um,
de todos e de ninguém,
que a pesquisadora teve
de um catálogo de
literatura erótica no seio
da literatura brasileira:
em termos de ficção. A
questão era justamente
colocar ordem nesse

nossa poesia de
Andrade, enfim, falava da ao montar sua seleção “Num esboço de prefácio legado, como um pastor a
sua homossexualidade, de “libertinos”. a Macunaíma, escrito por reunir ovelhas dispersas.
apenas revelada este “São misteriosos os volta de 1926, Mário de A organizadora faz

“baixo-ventre”
ano. Na última Flip, laços que unem a poesia Andrade observava que, questão de destacar ainda
em homenagem ao ao erotismo. Misteriosos no Brasil, ‘as literaturas o caráter parcial do livro,
mestre modernista, a e duradouros, já que o rapsódicas e religiosas como apenas um dos
pesquisadora Eliane despertar da lira de Eros são frequentemente depoimentos possíveis
De insuspeitos como João Robert Moraes (foto) não
apenas revelou como a
parece coincidir com
a própria origem das
pornográficas e
sensuais. Não careço
do erotismo em nossa
literatura. É compreensível
Cabral a libertinos anônimos, o sexualidade do autor se
alastrava em alguns dos
línguas e, desde sempre,
seus ecos vibram com
de citar exemplos. Uma
pornografia desorganizada
o uso da palavra “parcial”:
o jogo do erótico jamais
livro é de pesquisa exemplar seus textos mais famosos, intensidade por toda é também da trata do tudo descobrir,
como o quanto sua obra parte. Não admira, pois, quotidianidade nacional’. do tudo conhecer.
pulsava com questões que a escrita erótica tenha Em contraposição a essa
Schneider Carpeggiani
eróticas — ­ e mais eróticas sido praticada por tantos produção licenciosa que
ainda por revelarem poetas e que muitos deles estaria dispersa na cultura
temas fundamentais tenham interrogado tais popular, o escritor evocava
para pensarmos a segredos para melhor as formas de ‘pornografia
identidade nacional.  conhecer o pacto entre organizada’ que entre ‘os
Essa mesma identidade a carne e a letra. As alemães científicos, os
Eliane busca flagrar respostas que nos legaram franceses de sociedade,
em panorâmica na repercutem, de forma os gregos filosóficos, os
organização que realizou notável, umas nas outras, indianos especialistas,
da Antologia da poesia erótica como que reafirmando os turcos poéticos etc.,
brasileira. Um trabalho as fundações de um existiram e existem, nós
que cobre os assuntos saber antigo”, observa sabemos. A pornografia
de “baixo-ventre” dos Eliane em seu ensaio entre eles possui caráter
nossos escritores, desde no começo do livro, étnico. Já falam que se
Gregório de Matos aos demarcando para o leitor três brasileiros estão POESIA
contemporâneos. E mais: o terreno onde ele irá juntos, estão falando de
o livro não fica restrito pisar daqui para a frente. porcaria...’” Ou seja, o Antologia da poesia erótica brasileira
apenas aos cânones, No texto, ela destaca erotismo como texto, Org. - Eliane Robert Moraes
focando também em ainda a diversidade e como expressão, também Editora - Ateliê Editorial
textos anônimos, uma a vastidão (a antologia faria parte de uma espécie Páginas - 504
percepção genial do conta com 500 páginas) de identidade nacional Preço - R$ 82
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CENTENÁRIO DE CELINA DE HOLANDA


Mariza Homenagens incluem lançamento de livro com CD
Pontes de poesias e link especial do site Cepe Documentos
Nascida em 1915 no Cabo gerais, e participou de várias
de Santo Agostinho, Celina coletâneas. As homenagens
de Holanda (foto), publicou pelo centenário incluem
seus primeiros poemas no lançamento de CD, reedição
Jornal do Commercio e no Diario de Viagens gerais e lançamento
de Pernambuco. Aos 55 anos dos inéditos Afago e faca e Tarefas
publicou o primeiro livro, O de nigiam, pela Panamerica
espelho e a rosa. Elogiada por Nordestal Editora, e órgãos

NOTAS poetas como Carlos Drummond


de Andrade, publicou ainda
de cultura do Cabo de Santo
Agostinho. O site www.

DE RODAPÉ A mão extrema, Sobre esta cidade


de rios, Roda d’água, As viagens,
cepedocumento.com.br lançará
link no Arquivo Especial
Pantôrra: o engenho e Viagens Centenários de Pernambuco.
23
PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

DIVULGAÇÃO DIVULGAÇÃO

PRATELEIRA
CLARICE,
Considerada a mais bem documentada
biografia de Clarice Lispector, escrita
pelo norte-americano Benjamin Moser e
traduzida por José Geraldo Couto, Clarice
virgula chega agora à sua terceira edição
com capa dura. A obra permanece como o
maior best-seller da editora Cosac Naify. O
livro revela aspectos fundamentais da vida
da escritora, e é o principal responsável pelo
conhecimento sobre Clarice fora do País.

Autor: Benjamin Moser


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CORDELENDAS – HISTÓRIAS INDÍGENAS EM CORDEL


Recém-escolhida pela Fundação Nacional do

Favela: ser ou não ser Deus, falta ou excesso Livro Infantil e Juvenil - FNLIJ para compor
seu acervo, com o selo de obra altamente
recomendável, o livro de César Obeid mistura
O incômodo começa já Marcelino Freire, Ferréz Há uma matemática em seu depoimento a beleza poética das lendas indígenas com o
no título. Je suis Charlie, (foto) e Ronaldo Bressane. que pode ser montada sobre a obra, que não dinamismo rítmico dos versos de cordel. Através
somos todos Maju, ser Mais uma observação: no romance de estreia chega sem uma dose de das belas ilustrações de Nireuda Longobardi, o
ou não ser, sempre a a coletânea traz apenas da escritora argentina assombro, o assombro leitor diverte-se ao mesmo tempo que encontra
questão. Escritores, por uma escritora (e apenas Selva Almada no Brasil, diante de algo como um explicação para diversas situações e nomes de
ofício, precisam ser outros, um dos contos tem como O vento que arrasa: 4 E.T.: “‘De onde vem esse origem indígena.
outras. Mas dar a uma protagonista uma mulher, personagens + 4 vidas livro surpreendente?’.
coletânea o peso político o de Ferréz). Favela, fragmentadas por Não sei responder”. Vale
de “ser favela”, ainda substantivo feminino, abandonos + 1 carro ressaltar que Selva vem
mais num livro de autores parece aqui ser um quebrado + 1 dia e 1 ao Recife no dia 5 de
brasileiros, editado para lugar de leitura e de fala noite de espera. Mas outubro, como convidada
gringo ver é perigoso. Ou preponderantemente essa conta nunca da Bienal do Livro de
você faz uma reunião de masculino (C.A.) chega a um resultado Pernambuco. (S.C.) Autor: César Obeid
textos a tentar desconstruir satisfatório porque Editora: do Brasil
o imaginário de favela, ou algo flutua por cima Páginas: 40
embala esses textos como desses números, um Preço: R$ 30,90
souvenir de aeroporto. Esta medo ou uma presença
edição pende pro segundo tangíveis, que lança ÉRAMOS MAIS UNIDOS AOS DOMINGOS
caminho. O conto de para o alto qualquer Seleção de crônicas do impagável Sérgio Porto,
abertura do livro fetichiza raciocínio lógico. Algo criador de Stanislaw Ponte Preta, seu alter
a pobreza no personagem que pode ser Deus, ego, grande observador da vida carioca e da
de uma criança (texto a falta de Deus ou o mudança de costumes nas cidades brasileiras,
de João Anzanello excesso de um Deus, que criticava a ditadura com humor debochado,
Carrascoza) e o que se ou todas essas opções principalmente no livro Febeapá: festival de besteiras
segue é uma maioria juntas, como se elas não que assola o pais. Os textos engraçados e os
de contos que precisa fossem excludentes, personagens populares são representativos de
dar conta do elemento pelo contrário: como o humor aliviou um dos períodos mais
mais simbolicamente complementares. Essa negros da vida brasileira.
compartilhado da CONTOS novela de pouco mais ROMANCE
favela, o crime, sem de 100 páginas é sem
necessariamente usá-lo Eu sou favela dúvida o livro mais O vento que arrasa
como uma ferramenta Autores - Vários forte que li em 2015 Autora - Selva Almada
narrativa interessante. Editora - Nós até agora. Ou como Editora - Cosac Naify
Quem consegue escapar Páginas - 80 pergunta a crítica Páginas - 128 Autor: Sérgio Porto
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REVOLTA E MELANCOLIA: O ROMANTISMO NA


CONTRACORRENTE DA MODERNIDADE
Ambos sociólogos, os autores analisam o
PRÊMIO AYRTON DE CARVALHO REVISTA L.A.B. ENTOMOFAGIA romantismo não só como corrente artística
europeia do começo do século 19, mas também
Pela preservação do Produção reúne crítica Mostra reúne mangás como expressão de uma visão de mundo
patrimônio cultural literária contemporânea kitsch e bonecas punk complexa e atemporal que seria uma resposta ao
modo de vida capitalista. Para eles, o movimento
O Governo de Pernambuco, através Resultado do Projeto Laboratório: Até dezembro, pode ser conferido se caracteriza pela convicção dolorosa e
da Secult e Fundarpe, lançou Literatura e Crítica, talk show que na Galeria de Artes do Sesc Casa melancólica de que valores humanos essenciais
o Prêmio Ayrton de Almeida movimentou os meios literários Amarela o universo da artista se perderam e que o romantismo representa uma
Carvalho, engenheiro que atuou de Pernambuco a partir de 2010 plástica Viviani Fugiwara, que modalidade de autocrítica
na implantação do Iphan, visando e que era exibido na TVU, foi mistura mangá kitsch e bonecas do mundo moderno.
incentivar ações de preservação lançada em agosto a Revista L.A.B., punk japonesas para falar dos
dos patrimônios culturais tangíveis que reproduz aqueles debates novos ideais femininos e da
e intangíveis de Pernambuco. literários e inclui entrevistas, conquista de direitos, ao mesmo
Poderão concorrer projetos que reflexões, poemas, contos e tempo que busca discutir a Autores: Michael Löwy
possam integrar o público com as um caderno de resenhas sobre fragilidade do homem frente à e Robert Sayre
diferentes linguagens da cultura. diversos autores. A revista é natureza, na mostra Entomofagia. Editora: Boitempo
Serão distribuídos 60 mil em editada por Cristhiano Aguiar e O trabalho da artista interage Páginas: 288
prêmios, sendo 20 mil por categoria. Wellington de Melo. também com o grafite. Preço: R$ 57
24
PERNAMBUCO, SETEMBRO 2015

MEMÓRIA
Silviano Santiago
MANUELA DOS SANTOS

Stella Manhattan, 30 anos de gastos


improdutivos e conquistas supérfluas
Tenho 79 anos. O romance Stella Manhattan, demasiadamente humanos, identidade é uma é que signifiquem o sacrifício de uma fortuna
30. Publiquei-o quando tinha 49 anos. Desde questão de diferença simétrica. Representa- pelo amor. O sacrifício do corpo pelo prazer.
1936, ano em que nasci no dia 29 de setembro, se pelo número três ou pelo nove e pode dar À voz de Bataille acrescento a de Gaston
a lógica do três e de seus múltiplos sempre um pulo até o 69. Bachelard: “A conquista do supérfluo pro-
definiu a mim e aos produtos. O nove pelo Stella Manhattan é proverbial. É juvenil, intui- porciona uma excitação espiritual maior do
viés do número três interfere na lógica de tivo, lúdico, estiloso (camp) e tem uma moral que a conquista do necessário. O homem é
Stella. O romancista ganhava careca e cabelos falocêntrica (a revolução comportamental a uma criação do desejo e não da necessidade”.
brancos, o romance queria ser sexy. O jeito reclamava então) que pode ser lida na batida Não estranhem notações numéricas e ci-
foi apelar para a memória. Localizar a trama do samba “Quem cochicha o rabo espicha”, tações de artes plásticas neste depoimento.
nos anos 1960. O primeiro capítulo se abre no cantado por Jorge Benjor. Não fique pelas es- Tenho medo de ser um artista comovido, tenho
dia 18 de outubro de 1969. A rebelião de Stone quinas, cochichando. Fale. Quem fala o phalo medo de ser um artista que comove. O medo,
Wall, hoje marco histórico do movimento gay, espicha. Passo a seguir Jorge, ao pé da letra: como em Clarice Lispector, não é sentimento
ainda era manchete. Escrito em tempos de saia pelo mundo afora fazendo amizades, que imobiliza. Se meu medo não imobili-
AIDS, Stella Manhattan é nostálgico da revolução. conquistando vitórias. Também não fique za, leva a quê? Ao despertar da sensualidade
A dedicatória dupla — a Auggie e a Minnie — pensando que essas vitórias serão fáceis. Pois no leitor. De que forma despertá-la? Através
homenageia amigos mortos. nesta vida de perde e ganha, ganha quem sabe duma escrita ficcional que o atinja como Lygia
Velhice e infância são inseparáveis — dis- perder. Perde, quem não sabe ganhar. Por isso Clark o atinge, pedindo-lhe que monte (como
se-nos Machado de Assis. Basta atar as duas você precisa aprender a jogar. se monta a um cavalo, no universo de Clarice)
pontas da vida para desdobrar Dom Casmurro Paralelamente, há em Stella Manhattan a ca- o “bicho”. Espero atingi-lo, leitor, pedindo-lhe
em Bentinho e escrever a solidão amorosa racterização do homoerotismo como desper- que trabalhe o contato epidérmico dos cinco
que estoura em Memorial de Aires (ou em Mil dício (de sêmen). Gasto improdutivo, con- sentidos com a escrita. Essa sensualidade, que
rosas roubadas). Difícil é conciliar velhice e quista do supérfluo. Desejo, transbordamento se exige do espectador da obra de arte, são os
idade da razão. Expulso do núcleo vital da e esbanjamento da libido. Excesso de energia corpos que eu gostaria de ter exposto em Stella
experiência pelo peso dos anos, você entra e “desregramento de todos os sentidos” (para Manhattan. Palavras se escrevem na página mais
escarrado na idade em que a voz da Morte retomar o verso de Rimbaud). Eis o homoe- para serem vistas do que lidas.
recita a contagem regressiva. Da desarmonia rotismo como elogio à Alegria e à Vida, para Cito um trecho do romance: “Quero fazer
origina-se um objeto abjeto, ao mesmo tempo atualizar os conceitos nietzschianos. O gasto um poema, um livro, onde a apreensão pelo
colorido, brincalhão e derrisório, semelhante improdutivo coloca contra a parede dos bons tato seja o que importa. Pedir ao leitor que
a escultura de Niki de Saint-Phalle à porta do sentimentos conservadores e religiosos a no- pegue as pa­lavras com as mãos para que as
Beaubourg, em Paris. ção de promiscuidade, aceita até hoje para sinta como se fossem vísceras, corpo amado,
Aparentemente, o protagonista do romance caracterizar o universo gay. músculo alheio em tensão. Que as palavras
se divide em dois: o jovem Eduardo e Stella. Na Dentro do livro, pedi ajuda ao francês Geor- se­jam flexíveis, maleáveis ao contato dos
verdade, se divide em três. Importa é a intersec- ges Bataille. Recorri à noção de desperdício, dedos, assim como antes, na poesia clássi-
ção de um no outro, do Outro no Um. Importa desenvolvida por ele nos livros A noção de ca, elas eram flexíveis e maleáveis quando
o eixo cilíndrico da dobradiça que destranca despesa e A parte maldita. Bataille fala do des- surpreendidas pela inteligência. Quero que
e abre a porta Stella até então reprimida pela perdício de energia, do gasto improdutivo a polis­semia poética apareça sob a forma de
esquadria Eduardo. Computa-se o três — a como movimento em direção ao sagrado. Ao viscosidade. Que não haja diferença entre
“diferença simétrica” entre dois, como se diz desdobrar o gasto como algo de improdutivo, apanhar uma palavra no papel e uma bo­linha
na teoria dos conjuntos. o eixo cilíndrico da dobradiça faz saltar à vista de mercúrio na mesa”.
As duas placas da dobradiça e seu eixo a perda de finalidade nas trocas capitalistas. Fechada a porta da leitura, que Stella Ma-
dizem que a identidade (do ser) está para Fala-se do gasto sem retorno para que salte à nhattan seja jogado para um canto. É o que
ser montada/desmontada como os Bichos, vista o dom. Troca-se o seis por meia dúzia. André Gide aconselha em Os frutos da terra:
de Lygia Clark, ou as Poupées (Bonecas), de A sexualidade adquire outro e pleno sentido. “Quando me tiveres lido, joga fora este livro
Hans Bellmer. A identidade de gênero não Nega o bumerangue da fertilidade que garante — e sai. Gostaria que te tivesse dado o desejo
é fixa nem imutável. É nômade. Coincide, o retorno produtivo da troca sexual. Georges de sair — sair do que quer que seja e de onde
no romance, com o escancarar da porta da Bataille dá o exemplo das joias: não é sufi- quer que seja, de tua cidade, de tua família,
Experiência e se figura como em quadro do ciente que sejam belas e deslumbrantes. Seria de teu quarto, de teu pensamento. Não leves
pintor Francis Bacon. Em termos numéricos e possível substituí-las por falsas. O importante meu livro contigo”.

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