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LRDO

A Saudade e outros contos


A Autora
Laís nasceu em Salvador, em 1986. Ainda adolescente,
mudou-se para o Rio de Janeiro, onde fez faculdade e
mestrado em Direito. Atualmente, vive em Brasília.
Começou a escrever em 2013, mesmo ano em que
desenvolveu o blog de cinema LRDO. É também
colaboradora do blog Mulheres Ventaneras, onde escreve
contos. Amante de literatura clássica e grande fã de Jane
Austen, Laís lançou este ano o livro Primeiras Impressões,
uma adaptação moderna de Orgulho e Preconceito.

Contato: contato@lrdo.com.br

Blogs: www.lrdo.com.br e
http://mulheresventaneras.blogspot.com.br/
Sumário
A Saudade

A boa Cecília

Duas palavras

Mãe

O Xale
A Saudade
Ela sempre me surpreende. Volta quando menos espero. Ataca-me sem piedade.
Deixa-me sem fôlego. Por favor, agora não. A loja está cheia. Os clientes estão
aguardando. Vão achar que sou louca.

Uma das funcionárias preocupa-se com minha palidez repentina. Ofereço-lhe


meu sorriso postiço, usado tantas vezes que nem eu sei mais a diferença entre o
verdadeiro e este. Dirijo-me ao meu escritório para fugir dos olhares curiosos. Ao
contrário do mundo, a vida não continuou para mim desde que ela se foi.

Abro a minúscula janela para respirar. Ela está do outro lado, em frente à porta
vermelha da casa onde nossa família foi formada e destruída. Está descalça, com nada
sobre a pele a não ser seu vestido favorito azul bebê rendado.

Atravessa a rua em meio ao trânsito caótico sem olhar para os lados, algo que
deixaria mamãe desesperada. Não eu. Tudo o que quero agora é o seu toque. Seu
sorriso. Sua voz. Assim que se aproxima da única abertura de minha parede que permite
nosso contato, sinto meu coração acelerar.

Seu toque em minha bochecha traz mais do que calor à minha alma. Traz
lembranças de uma época em que sua pele ainda era rosada. Seus cabelos, longos e
cheios. Seu sorriso, esperançoso. Como éramos felizes em nossa ignorância!

O leve contato entre a mão de Luiza e meu rosto leva-me à minha outra vida. A
um passado muito mais real para mim do que o meu presente.

Um tempo antes das infinitas esperas em corredores cinzentos com cheiro de


formol e álcool, rodeada por rostos melancólicos desconhecidos. Um tempo em que
receber ligações telefônicas não me dava medo. Um tempo em que planejar viagens em
família não dependia da aprovação de um estranho em jaleco branco. Um tempo em que
a minha irmã caçula não estava guardada em um jarro de cristal fosco em cima da
lareira da sala.

Abro os olhos. Sua face não esconde sua decepção. Apesar de seus infinitos
esforços para me animar, meus pensamentos sempre se voltam para os anos ruins, para a
doença que a tirou de mim. Afinal de contas, Luiza sempre foi a otimista da família.
Lentamente, ela retorna até nossa antiga casa, atravessando a porta vermelha
como se fosse feita de ar. Aos poucos, as vozes distantes vindas do café se tornam
realidade, evocando a necessidade de minha presença no horário de pico.

Antes que me pergunte, garanto à doce funcionária que estou bem, que estava
somente apertada para ir ao banheiro. Ela ri-se com a ingenuidade de quem ainda não é
coberta por cicatrizes, de quem ainda não precisa mascarar sua tristeza com sorrisos
postiços, de quem não sonha acordada para não enlouquecer.

Eu já fui assim um dia. Não mais. Hoje não passo de uma presa, sempre à espera
do próximo ataque. E a minha predadora é paciente. Espreita, vigia, observa. Até que
sua caça esteja novamente desarmada. Desprevenida. Vulnerável. Sem esperanças. Sem
Luiza.
A boa Cecília
Cecília era boa.

Tão boa, que nem de formiga no açucareiro ela reclamava. A mais velha de sete
mulheres, ela fora a primeira a casar-se. Seu marido gringo a levou para conhecer sua
família irlandesa, a qual vivia em Londres, e por lá ficaram. Até que o homem descobriu
que a esposa não podia ter filhos. Com o desejo irresistível de gerar filhos com seu
sangue, o descendente de vikings introduziu seu código genético no útero de sua
secretária, Ginger, uma mulher que havia acabado de deixar para trás a puberdade.

Cecília voltou à sua cidade natal, declarando estar feliz que alguém satisfaria a
vontade mais profunda de seu antigo esposo. Suas irmãs surpreenderam-se com sua
calma e tranquilidade diante de situação tão repugnante. A caçula da família, sorridente,
apenas disse: “Claro que ela está feliz. Afinal de contas, Cecília é boa”.

À época, outras três irmãs de Cecília já haviam se casado: Cora, Clara e Cláudia.
Clara casara-se com o homem mais rico da cidade, e viviam em uma grande mansão
com mais quartos do que pessoas. “Enquanto não os enchemos de filhos”, ela sussurrou
ao marido, “Cecília deveria ficar conosco. Ela é boa”. Após uma noite em claro
discutindo o assunto por meio de gemidos, o milionário convenceu-se de que Cecília
poderia ficar hospedada em sua casa.

E foi assim que a boa Cecília viveu. Entre as casas de suas irmãs
alternadamente, ficando com aquela que mais precisava dela, criando todos os seus
sobrinhos. Por vezes cuidava do filho de Cora, quando a asma atacava. Outras, estudava
com os meninos de Cláudia, quando eram reprovados em alguma matéria. Quando Clara
queria passear pela Europa ou Clarice queria se aventurar pelos Andes, era a boa Cecília
quem cuidava dos pequenos. Foi Cecília quem ficou ao lado de sua caçula, Cida,
durante os nove meses de gravidez com complicações. Seu marido era o responsável por
uma grande obra na Amazônia, e raramente podia visitá-la. “Não se preocupe em me
deixar, meu amor. Estou bem com Cecília. Ela é boa”, assegurava Cida.

Quando seus sobrinhos estavam criados, foi a hora de apoiá-los com seus
respectivos filhos. E, por agradecimento a todos aqueles anos da companhia da boa tia,
eles batizaram todas as suas filhas mulheres com Cecília no nome: Ana Cecília, Maria
Cecília, Elis Cecília, Mia Cecília. Os amigos e conhecidos perguntavam por que havia
tantas Cecílias em uma mesma família. E eles sempre respondiam, em uníssono: porque
Cecília era boa.
Duas palavras
As primeiras noites foram sofridas. Vê-la ali, nua, perfeita, sentir seu perfume
através das minúsculas frestas das paredes envidraçadas sem poder tocá-la era
excruciante. Sentir o movimento infinito, reação natural àquela visão divina intocável,
sem a possibilidade de alívio, transformava o prazer inicial em dor da opressão. E ela,
mascarada, linda, puta, percebendo o meu desespero, abria ainda mais suas pernas,
deixando sua umidade visível, mesmo estando eu a muitos metros de distância.

Sem contar que seu lado era muito melhor do que o meu. Separados por uma
fina camada de vidro, que continuava infinitamente para ambos os lados e em direção
aos céus, estávamos em mundos distintos. No meu, a secura e falta de vida me
lembravam de uma viagem que havia feito com o exército, onde treinei durante seis
meses junto ao meu regimento. Lá, o céu azul era desprezado, e rezávamos por dias de
chuva.

No lado dela tudo era diferente. Aquela puta sacerdotisa deitava-se


confortavelmente no tapete verde escuro, macio, úmido, aconchegante. As árvores
ofereciam sombra, e as flores selvagens transformavam o conjunto em uma obra de arte
aromatizada. Podia ouvir os passarinhos cantando, o barulho de um riacho correndo por
entre paredes terrosas, as folhas balançando com uma brisa infinita.

Eu ali, com a farda colada no corpo suado, a garganta seca, as narinas ardidas,
com a merda das botas apertando os meus pés calosos, o bigode coçando na minha cara,
somente com o nada para me reconfortar. E ela lá, aquela puta perfeita, sem o peso das
roupas, molhada do banho que certamente acabara de tomar, cheirando as hortênsias, os
lírios, as margaridas, brincando com os passarinhos azuis, esfregando aquele corpo de
deusa na minha cara, me mostrando tudo o que eu não poderia possuir.

Essa situação desgraçada repetiu-se durante seis longas noites. No sétimo dia,
temia adormecer. Bebi café durante todas as refeições, peguei alguns livros emprestados
de um dos meus soldados, fiquei no bar do Alberto até a hora de fechar. Achei que
poderia controlar o sono, mas ele se apoderou de mim com a mesma rapidez das balas
que deixam a minha espingarda.
Assim, antes que pudesse fugir, lá estava eu, fedorento, cansado, faminto. E lá
estava ela, aquela puta mascarada, desgraçada, bruxa, dançando livremente entre as
flores coloridas e as árvores protetoras. Porém, havia algo diferente desta vez. À minha
esquerda, podia vê-lo à distância: um ponto vermelho na parede de vidro. Com as
poucas forças que me restavam após seis noites inteiras de sofrimento, corri até a única
fonte de cor do meu lado.

Era uma porta.

Não consigo descrever todas as sensações que tive ao abri-la. Os cheiros, o


frescor, a suavização. Era como se o ar daquele lugar estivesse me convidando,
acariciando o meu rosto. De repente, surgiu dentro de mim uma necessidade
desesperada por sentir aquelas carícias em cada centímetro de pele do meu corpo.
Quando livrei-me daqueles trapos fedorentos, entendi o conforto em sua nudez, a
euforia em seu sorriso, a excitação em seu rosto. Não sabia se era ela que tornava este
mundo tão mágico ou se era este mundo que a tornava tão celestial.

Precisava encontrá-la, possuí-la, implorá-la para deixar-me descarregar meu


acúmulo dentro dela, alimentar-me com seu corpo paradisíaco, engolir-me com sua
boca celestial. Não havia mais fome por comida, sede por água, necessidade por uma
sombra. Todo desejo de meu ser estava voltado para a minha mascarada angelical.
Obviamente, como sou eu o invasor, foi ela quem me encontrou.

Não conseguia ler sua expressão ao encará-la. Ela mudara. Seus olhos não
estavam mais contentes. Estavam negros, vibrantes, encarando-me com apetite. Não
precisei suplicar. Ela cavalgou, cavalgou, cavalgou sobre mim. Continuou montando
mesmo após meu clímax. Continuou, com ainda mais potência, após seu próprio ápice.
Já havia me aliviado três vezes quando ela finalmente desmontou e caiu desmaiada
sobre o meu corpo. Minha deusa.

Acordei.

Ela havia invertido tudo. O mundo real era o dela, o nosso mundo, o mundo
físico tornou-se uma passagem cansativa e necessária para chegar até ela. Meus
soldados temiam que seu capitão estivesse doente, pois andava dormindo mais tempo do
que ficava acordado. O que eles não entendiam, nunca conseguiriam compreender, é
que o tempo acordado no mundo físico era tempo desperdiçado adormecido no meu
mundo real, no nosso oásis.

Na décima terceira noite, estava ansioso para voltar para casa, dormir aqui e
acordar lá, do outro lado, do meu lado de verdade agora. Não podia, pois antes deveria
comparecer à festa de um amigo. Entediado desde o momento em que cheguei, distraído
com meus devaneios pensando em meu mundo encantado, apenas percebi que ela se
aproximara ao sentir seus lábios mornos encostando-se à minha orelha.

Mal sabia eu que aquela feiticeira, a minha deusa, havia invadido este mundo
sem graça. Ela estava ali do meu lado, e eu estava tão angustiado para voltar à minha
cama, para voltar para ela, que nem a havia notado. Felizmente, ela decidira confessar
sua identidade, mudar minha realidade de volta para cá, desinverter tudo de novo. E,
como a deusa que ela era, o fez com apenas duas palavras.

“Porta vermelha”.
Mãe
Quinta-feira. Dia da correspondência. Acordo animada e alerta, apesar dos
remédios que tomei na noite anterior. Corro até o banheiro feminino, para conseguir
pegar logo um chuveiro. Carmem já lá está, e noto que os outros dois também estão
ocupados. Com um sorriso de compreensão, deixa-me passar à sua frente, e lhe
agradeço enquanto arranco os trapos e giro o registro da água quente.

Engulo o pão duro com queijo sem gosto ainda mais rapidamente que o banho, e
antes das nove já estou ansiosa em minha poltrona, à espera do carteiro de roupa
cinzenta, chamado João. Ele não fica surpreso ao me ver naquele salão vazio. Apenas
me dá bom dia e entrega-me a carta aguardada da minha filha.

Desde que nasceu, todos sempre concordaram que era minha cara.
Principalmente agora, adulta, ela se parece comigo até no jeito e nas manias. Orgulho-
me de sua letra caprichada, tão semelhante à minha própria. Clara sempre fora uma
criança gentil e inteligente. A primeira a aprender a ler na escolinha, a primeira a
escrever também. Pedia-me a cada noite por uma nova estória, uma nova aventura, um
novo amor. Não dormia antes de passarmos pelo menos uma hora lendo juntas. Era
sempre a melhor hora do meu dia.

Quando cresceu, tornou-se uma bela mulher, admirada pelas amigas e desejada
pelos homens. Assim que surgia uma festa no bairro, vários rapazes passavam lá em
casa para convidá-la, mimá-la, cortejá-la, implorar-lhe por mais atenção. Ela os
recusava, dizendo que queria mais do que namorar, casar-se e ter filhos. Queria uma
bela carreira como editora.

Leitora com senso crítico e gosto impecável, recebeu bolsa para estudar
literatura em uma grande universidade americana. Por isso não vem pessoalmente.
Apesar de não passar dificuldades, pois além de bolsa conseguiu um excelente estágio
em uma editora muito conhecida, não tem o suficiente para vir me visitar aqui no Brasil.
Depois de se formar o fará, promete-me em suas cartas semanais.

Na que leio neste momento, ela me conta que conheceu alguém. Um rapaz
colombiano que, assim como ela, entrou para a universidade com bolsa de estudos, fruto
de anos de árduo trabalho. Já saíram algumas vezes e conheceu sua família, uma vez
que também vivem nos Estados Unidos.

Ele me interrompe. O homem sem rosto vestido de branco. Oferece-me dois


copos de plástico descartáveis, um preenchido com balas coloridas sem gosto e outro
com água da pia. Engulo tudo em apenas um gole, enquanto ele me leva pelo cotovelo
pelos corredores cinzentos com cheiro de álcool, cheio de pessoas com olhares perdidos
e embaçados.

Enfia-me no quadrado com uma janela minúscula, avisando-me que está na hora
da terapia com o doutor, o qual chegará em alguns instantes para me levar até seu
consultório. No pequeno cômodo, há apenas uma cama de mola acompanhada por um
travesseiro velho, um lençol gasto e um cobertor fino, que não me protegem das noites
em claro, das noites de pesadelos. Zonza por causa das balas, deito-me.

Encaro o teto descascado, o qual é meu único companheiro há quase uma


década. Desde que a perdi, quando ela deixou a proteção de meu útero precocemente.
Desde que a palavra com três letras jogou-me no abismo da loucura. De onde nunca
mais saí.
O Xale
Foi amor à primeira vista. Quando viu pela primeira vez meu xale, um retângulo
de linho com listras coloridas que lembravam um arco-íris, nunca mais o largou. O xale
tornou-se seu amigo, companheiro de brincadeiras, protetor para noites de frio, defensor
contra o monstro do armário, o alimento mais doce. Tudo o que ela queria, o Xalinho,
como minha pequena Magda o chamava, providenciava.

Somente quando ela adormecia eu tinha coragem de separar os dois. Tinha de


lavá-lo quase toda noite, pois Magda o carregava até ao jardim da casa, correndo às
gargalhadas enquanto nossa cadela, Stella, tentava alcançá-los. Minha menina tinha
tanta energia que por vezes me esquecia de sua subnutrição.

Há alguns meses, um bando de animais começou a invadir nossa pequena


fazenda. Toda semana, geralmente aos domingos, algo adentrava nosso terreno. Quando
meu marido e alguns vizinhos acordavam e iam em busca dos bichos clandestinos, eles
já haviam fugido. Não tínhamos ideia do que eram, pois ninguém os havia visto, mas
sabíamos que eram muitos porque deixava vários buracos na cerca.

Começou a haver fofocas de que seriam chupa-cabras, alienígenas, uma nova


espécie de animal, jornalistas e cientistas chegaram a vir da cidade grande para tentar
desvendar o mistério. Enquanto isso, nossa comida era roubada, deixando-nos
dependentes da boa vontade dos familiares e amigos. E nada descobriam.

Temia as visitas, não pelas criaturas em si, mas pela fome que geravam em
Magda e o estado raivoso em que ficava meu marido. Toda vez que ele voltava das
cercas infestadas de fendas, infligia seu ódio nas maçãs de meu rosto, em minhas
costelas, no meu estômago. Tentava me manter quieta para não acordar Magda, mas por
vezes chorava ao vê-la parada na nossa porta, com aqueles olhinhos assustados,
agarrada ao Xalinho, sem saber o que fazer.

Meu marido finalmente teve a brilhante ideia de eletrificar as cercas em volta do


nosso terreno. Certo de que iria livrar-se das bestas, gastou o pouco dinheiro que
tínhamos poupado para tal fim. Não gostava da ideia, achava que seria um perigo para
as nossas galinhas, cabras e cachorros. Porém, nada disse. Mais do que tudo, queria que
as surras cessassem.
Acho que foi o zumbido da eletricidade correndo pelos fios de arame que atraiu
Magda. Eu havia me distraído por apenas alguns momentos ao telefone, explicando a
minha receita de bolo de cenoura com cobertura de chocolate a uma comadre. Ela já
estava a poucos metros da cerca quando a vi pela janela da cozinha.

Desesperada, agoniada, angustiada, mexi minhas pernas como nunca o fizera


antes, disparando em sua direção. Stella estava atrás dela, mordendo a ponta do
Xalinho, tentando sem sucesso arrancá-lo da pequena mão direita de Magda. Seu dedo
indicador esquerdo, curioso, estava se aproximando lentamente do ruído na cerca. E
tudo aconteceu em menos de um instante.

Pude ver a eletricidade maldita apoderar-se de seu corpo, correr pelo arco-íris do
xale e tentar possuir Stella. A cadela acabara de desistir de puxar do tecido, e começou a
latir assim que notou algo de errado com Magda. Culpei a desgraçada da cachorra por
não ter mordido com força suficiente, poderia ter puxado Magda para trás e eu teria
conseguido alcançá-la.

Pensei em minha vida a partir daquele momento em milésimos de segundos.


Magda seria levada ao hospital, mas já estaria morta ao chegar lá. Eu ficaria
inconsolável, e minha depressão impeliria meu marido a comprar cigarros e não mais
retornar. Sozinha, vulnerável, sem minha Magda, voltaria a beber. Seria novamente a
alcoólatra sem rumo que fora antes da luz chegar à minha vida. Seria achada desmaiada
com uma ponta de cigarro acesa em minha mão, tão tomada pelos comprimidos para
minhas intermináveis enxaquecas que nem teria forças para abrir os olhos.

Não quero esse futuro. Magda era meu futuro. Determinada, agacho-me e agarro
seu pequeno corpo. Uso meu indicador para repetir seus movimentos. Mamãe está
chegando, Magda.

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