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Temática Livre

Maternidade e Espiritualidade: aspectos simbólicos


Motherhood and Spirituality: symbolic aspects

Cátia Cilene Rodrigues-Câmara

Resumo
Este é um trabalho de cunho teórico que discute a representação simbólica da maternidade para a
mulher como uma expressão ou manifestação do Sagrado em sua existência. Foi realizado aqui um
aprofundamento nos conceitos de Símbolo, segundo concepções fundamentais Junguianas, e as
noções de Sagrado, Mística e Experiência Religiosa, abordando também questões próprias ao
universo feminino e à maternidade em si, com base em Jung (1996), Edinger (1988), Whitmont
(1998), Cavalcanti (1998). As noções de mística, de feminino, e de religiosidade na maternidade, a
fim de ampliar o conhecimento e fundamentar teoricamente tais categorias básicas de análise, são
debatidas a partir de Boff (2003) e Bonaventure (1975) de Harding (1995), Hardy (2001) e
Maldonado (1990). O debate teórico aponta que há diversas esferas que constituem a motivação e
significação da ação, em que não se descarta os motivos instintivos naturais para a maternidade;
mas consideram-se outras esferas, uma vez que o Ser Humano não se reduz à dimensão biológica,
mas amplia-se a motivos inconscientes, às crenças culturais. Sendo assim, o aprofundamento ao
significado místico e religioso dessa experiência pode constituir fator promotor de estruturação
multidimensional, no presente e futuro da mulher e bebê. Aos profissionais da saúde, o
conhecimento desse fator e sua dinâmica psicológica e existencial podem contribuir para
compreensão e tratamento das questões referentes à gestação, parto e maternidade, bem como
para o tratamento dos desdobramentos políticos em relação ao planejamento familiar.

Palavras-chave: Mística. Maternidade. Sagrado. Feminino.

Abstract
This is a theoretical work that discussing the symbolic representation of motherhood for women as
an expression or manifestation of the Sacred in its existence. It conducted a deepening in the
concepts of symbol, according to fundamental conceptions Jungian, and the notions of Sacred,
Mysticism and Religious Experience, also addressing questions concerning the feminine universe
and maternity itself, based on Jung (1996), Edinger (1988), Whitmont (1998), Cavalcanti (1998).
The notions of mystical, female, and religiosity in motherhood are discussed from Boff (2003) and
Bonaventure (1975) Harding (1995), Hardy (2001) and Maldonado, (1990), in order to expand the
knowledge base and theoretically such basic categories of analysis. The theoretical debate shows
that there are several levels that make up the motivation and significance of the action, as it does
not rule out the natural instinctive reasons for motherhood; but are considered to be other
elements, since the human being can not be reduced to the biological dimension, but expands the
unconscious motives, cultural beliefs. Thus, deepening the mystical and religious significance of
this experience may be promoting factor of multidimensional structure, in the present and future of
women and baby. For health professionals, the knowledge of this factor and its psychological and
existential dynamics can contribute to understanding and addressing issues related to pregnancy,
childbirth and motherhood, as well as for the treatment of political developments in relation to
family planning.

Keywords: Mistic. Matherhood. Maternity. Sacred. Feminine.

Psicóloga, Doutora em Ciências da Religião. Atualmente, realiza Pós Doutorado no Programa de Ciências da
Religião na PUC/SP.
Paralellus, Recife, v. 6, n. 13, p. 467-494, jul./dez.2015.
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1 Introdução

Cada vez mais a figura da mulher mulher moderna é de relevância em


insere-se no contexto social: seja na todos os âmbitos de sua atuação:
educação das crianças, seja nas artes, escolas, família, empresas, economia.
ciência, trabalho ou política, a mulher Enfim, é de importância a toda a
está presente, atuante, transformando sociedade na relação interpessoal de
valores, conceitos e contextos. É agente seus membros que, direta ou
modificador da realidade atual, e indiretamente, ligam-se a figuras
influencia visivelmente o desenrolar da femininas.
história da humanidade. Após os Todavia, estudar o compor-
movimentos de igualdade sexual dos tamento feminino, a experiência da
anos 60 do século passado, muitas mulher moderna frente à vida e ao
mulheres optaram por “produções mundo de relações que a cerca é
independentes”, ou seja, a formação de infinitamente abrangente, visto a
uma família com a geração de um filho capacidade humana de adaptações, bem
sem, contudo, a união conjugal a um como as particularidades em cada
companheiro ou marido. Atualmente, a aspecto e detalhe que o tema nos traz.
economia e as finanças da maioria dos Justifica-se, então, a realização de uma
países contam com o trabalho e com as escolha delimitada da dinâmica
contribuições femininas para o seu psicológica feminina: buscando uma
desenvolvimento. Desta forma, a mulher ótica de compreensão global dos
não somente faz parte da estrutura conteúdos inconscientes humanos, o
econômica de nosso país, bem como é a presente trabalho utiliza-se da
base familiar, sendo formadora e, em compreensão da experiência feminina
muitas situações, responsável pela cotidiana através dos símbolos e
manutenção das famílias brasileiras. fantasias que envolvem a situação de
Assim, a figura da mulher gestação e parto, sobretudo na
contemporânea em nossa sociedade dimensão religiosa.
torna-se amplo campo para a pesquisa Em trabalho anterior (Rodrigues,
científica em relações de gênero, uma 2003), estudei a relação entre a
vez que participa e atua na sociedade, sexualidade e a religiosidade de
assumindo novos e antigos papéis, mulheres católicas modernas, verificando
produzindo angústias individuais e até que, em nível consciente, a sexualidade
mesmo sociais, provocando alterações é plenamente explorada e a religião
culturais e de comportamento. Deste desmitificada, francamente analisada e
modo, a compreensão da experiência da radicalmente criticada por estas

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mulheres, à luz do racionalismo da a realidade intrapsíquica que contém, ou


Modernidade. Elas entendem os seja, expressar em sua apresentação
processos históricos de controle da condições internas da pessoa. Outros
sexualidade e anulação do feminino estudos no mesmo campo apontam para
exercido pela Igreja, sendo o processo de alteração de
ideologicamente contrárias aos mesmos, comportamento de pessoas que sofrem
posicionando-se em suas vidas em bruscas transformações físicas, como em
coerência com suas ideias. casos de amputação de membros,
Contudo, foi possível observar a cirurgias plásticas, ou processos de
dificuldade para compreender a própria emagrecimento. O corpo é a
sexualidade comungada com a manifestação material concreta da
espiritualidade, manifestando-se senti- existência subjetiva do ser humano.
mentos de culpa e conflitos existenciais. Nesse sentido, suas transformações irão
Nos bastidores de suas vidas, ou seja, impactar diretamente com esta
em nível inconsciente, os conflitos eram dimensão existencial do sujeito.
expressos, e foram demonstradas Tomando por pressuposto que o
dificuldades para acomodar-se corpo é a morada da consciência, e que
psiquicamente à identidade de mulher, sua transformação impacta diretamente
mãe, esposa, profissional, e ser a elaboração da identidade da pessoa e
existencial. da sua consciência de si, esse projeto
Considerando o conflito interno de supõe que as alterações físicas que a
mulheres modernas no exercício de sua mulher vivência no processo de
sexualidade e emancipação social frente gestação/parto e procriação geram
ao conjunto de tradições, crenças e também modificações em suas instâncias
valores religiosos em que foram psíquicas, de modo definitivo e
educadas – e que se apresentam fundamental, a ponto de influenciar
antagônicos aos seus posicionamentos – também suas questões existenciais –
é possível observar que, após a gestação partindo do conflito sexualidade e
e o parto, há uma mudança de valores e religião, por exemplo.
ideais, em que a visão de mundo da Por outro lado, considerando o
mulher é alterada. relato de parturientes, observamos
Há uma relação estreita entre relatos muito semelhantes aos de
corpo e consciência, uma vez que desde experiências místicas. Frases como “é
a Grécia antiga o Ocidente reforça o como se eu fosse uma nova pessoa”,
pensamento de que “o corpo é a morada “estou no céu”, “é uma experiência
da alma (consciência)”. De fato, diversos divina, foi como ver Deus”, “Sinto-me
estudos em Psicologia apontam para o completa agora”, apesar da dor e de
fato de o corpo expressar, por si mesmo, todo esforço realizado no trabalho de
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parto, são comuns no discurso de denotar em suas observações dinâmicas


parturientes, bem como no discurso de de exclusão que levam ao
místicos. Assim, se a transformação do subdesenvolvimento uma vez que, como
corpo na gestação do bebê leva a mulher aponta Berger e Luckman (1985), a
a uma nova consciência de si, o parto é realidade é construída socialmente, e de
o ápice do sentimento de plenitude acordo com Weber (1997), as crenças
existencial, como se após tal evento a religiosas determinam a ética de conduta
pessoa se sentisse completa, pronta pessoal do indivíduo, sendo
inclusive para a morte. determinantes na visão de mundo que
Desse modo, a transformação do este desenvolve, bem como na sua
corpo para o parto pode se relacionar a própria relação interpessoal na
elementos conciliadores para a sociedade, no que se refere às tomadas
acomodação emocional de conflitos entre de decisão.
identidade religiosa e sexualidade das De outro lado, de acordo com os
mulheres modernas, uma vez que em últimos resultados do Censo Brasileiro,
nível social o papel de mãe é há uma nova constituição familiar, cuja
amplamente valorizado no Catolicismo e chefia ou liderança têm sido cada vez
na sociedade ocidental em geral, mais atribuída a uma mulher, não raras
legitimando a existência feminina, e em vezes carente econômica, cultural e
nível mais profundo psicologicamente, o emocionalmente – justamente o perfil
parto poderia simbolizar a sacralização geral de um dos grupos de mulheres
do corpo feminino enquanto corpo gestantes que a pesquisa objetiva
místico, psíquico e orgânico, sendo para investigar. Assim, questões como
mulher uma experiência divina, uma vez formação, educação, núcleo familiar
que neste contexto ela é meio da podem achar interesse em dados aqui
criação, co-criadora da humanidade, apontados para repensar a dinâmica de
legitimando-se espiritualmente. indivíduos que na trama social
A relevância do tema consiste, em constituíram breve movimento social.
primeira instância, no seu recorte social No campo da teologia, há
e político: tratando-se de pesquisa relevância da relação espiritual,
empírica, que visa investigar o vivencial, na formação das crenças que
imaginário religioso de mulheres será organizadora e orientadora para os
gestantes carentes – que são membros indivíduos pesquisados em sua ação
participantes (conscientes ou não) da conseguinte. Já na esfera particular da
dinâmica coletiva e, assim, tendo suas psicologia social da religião, o presente
ações individuais interferindo no trabalho poderá contribuir com a
processo político de cidadania de todo o observação e obtenção de dados
grupo social – o presente trabalho pode empíricos sobre a relação entre fé,
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sentimento e comportamento, além de da vida humana. Tal experiência pode-se


poder sugerir novos questionamentos a dever à aproximação simbólica do
esta área do conhecimento, objetivo significado de “criação”, em que o
básico de todo processo científico. sentimento de transcendência se daria
Além de cada vez mais serem as pela ideia de que neste processo natural
mulheres as chefes de suas famílias, haja uma manifestação do Sagrado no
tradicionalmente em nossa sociedade corpo feminino, viabilizando a existência
são também as maiores responsáveis da vida humana. Tal experiência
pela educação dos filhos: assim se torna configuraria, assim, uma experiência
relevante não somente o que elas arquetípica, em que há uma vivência de
sentem em relação à existência daqueles transcendência na imanência humana: a
seus rebentos, mas, sobretudo, os experiência mística se encontraria na
valores e crenças que lhes transmitem e intimidade da mulher com o Sagrado
que, consequentemente, tornaram-se os Criador ao gerar em seu corpo, dentro
valores e crenças da sociedade num de si, uma das Suas criaturas. Assim,
futuro próximo. representaria o processo de gestação e
Deste modo, este estudo busca parto à mulher um mergulho no divino
uma ampliação do conhecimento das transcendente, com quem se encontra e
relações entre religiosidade e produções a quem conhece.
simbólicas, compreendendo a Deste modo, se poderia supor
experiência da gravidez e da que: a) existem aspectos arquetípicos
maternidade como experiência mística ligados ao Self que representam
para gestantes. Obviamente, associam- experiências místicas à consciência
se a tais questões a relação entre mística feminina, e que envolvem o processo de
e reprodução humana, os símbolos que gestação e parto em sua dimensão
sintetizam tal relação, a existência de simbólica, independente do desejo ou
diferencial intrínseco na experiência planejamento da gravidez pela mulher;
mística em relação ao diferencial de b) o princípio feminino humano ligado ao
desejo pessoal pela circunstância de arquétipo de criação manifesta-se pela
reprodução. Para tal propósito, parto do maternidade; c) tais aspectos retratam
pressuposto de que haja uma ou relacionam-se à mística,
experiência mística e religiosa, de espiritualidade ou relação com o
transcendência, dentro da experiência transcendente para a mulher (seja de
natural e psicológica de reprodução modo numinoso ou sombrio, simbólico
(gestação e parto) para a mulher, ou diabólico para a pessoa que o
sobretudo pela transformação do corpo experimenta, mas nem por isso deixa de
no processo gestacional e de parto, que ser místico) e; d) o trabalho arquetípico
lhe evidencia concretamente a coautoria focal nestes símbolos religiosos e no
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imaginário da mulher promove a sua relação com a Fenomenologia, e as


integração daqueles aspectos à psique, noções de Sagrado, Mística e Experiência
influenciando a integração da Religiosa, abordando também questões
feminilidade e identidade feminina ao próprias ao universo feminino e à
Self. maternidade em si, sempre buscando
Em suma, a hipótese central relacionar os conceitos. São trabalhadas
deste trabalho aponta para o fato de que as questões do Símbolo e Realidade nas
gestação e parto são experiências concepções da Psicologia Analítica e da
naturais que são vivenciadas, até o Fenomenologia, com base em Jung
presente momento, apenas por (1996) e estudos de Edinger (1988) e
indivíduos do sexo feminino, mas que Cavalcanti (1998). Além disso, apresento
para o ser humano, especificamente, capítulos que estudam a noção de
também configuram uma singular mística, de feminino, e de religiosidade
experiência existencial de relação com o na maternidade, a fim de ampliar o
Transcendente Sagrado, seja de forma conhecimento e fundamentar teórica-
simbólica ou sombria, que mobiliza mente tais categorias básicas de análise.
sentimentos e emoções próprios à Para tal, utilizo o referencial de Boff
experiência mística e religiosa, capaz de (2003) e Bonaventure (1975) para a
“elevar”, “transportar”, ou mesmo discussão sobre mística na maternidade,
“aumentar a consciência” da pessoa a numa perspectiva Junguiana; e de
uma nova amplitude da sua consciência Harding (1995), Hardy (2001) e
espiritual e individual. Maldonado (1990) para fundamentar as
Farei aqui um aprofundamento questões sobre a maternidade e feminino
nos conceitos de Símbolo, segundo especificamente.
concepções fundamentais Junguianas e

2 A dimensão espiritual da Maternidade: noções simbólicas

Os processos da gestação, parto e influenciam a compreensão existencial


puerpério são eventos constituintes da da mulher em relação a esta realidade
maternidade biológica, e que específica, podendo facilitar ou tornar o
naturalmente promovem diferentes evento ainda mais complexo. São muitos
transformações físicas e emocionais à os fatores próprios da maternidade que
mulher que os experimenta. A constituem fator de estresse à mulher,
maternidade no contexto urbano, contudo são agravados pela expectativa
popular, cultural e contemporâneo de fertilidade, de realização, pelo desejo
brasileiro apresenta elementos que ou rejeição do feto, pela condição social

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e econômica em que a mulher se contexto atual, mesmo com o


encontra. Se tantos são os fatores desempenho de diversos outros papéis
naturais constituintes de alteração sociais realizadores do ser, e com a
biológica, emocional e psicológica da progressiva presença paterna
mulher durante estes processos da contribuindo com atividades ligadas ao
maternidade, poderíamos supor que a espaço doméstico, ou ao cuidado e
dimensão espiritual e religiosa da mulher educação dos filhos, o processo da
também sofra alterações complexas, o maternidade mobiliza física, psíquica e
que pretendo discutir neste capítulo. socialmente a mulher, indepen-
Considerando a maternidade dentemente da sua escolha/desejo
como um importante evento no processo consciente por ser mãe.
de amadurecimento da vida de uma Segundo cartilha da ONG
mulher, influenciando sua identidade, Católicas pelo Direito de Decidir (2000),
lugar social, e integração psicológica, a ideia de instinto materno é construída
quero agora transcorrer sobre a noção culturalmente e não necessariamente um
simbólica e religiosa da maternidade impulso para ser mãe e amar os filhos.
para a mulher que é mãe, as relações Contudo, independentemente da cultura
entre mística e universo feminino, e o ou época histórica, sempre encontramos
imaginário popular e os arquétipos sobre mulheres desejantes de gerar filhos e
a maternidade. Dada a importância do preocupadas com a manutenção e
Cristianismo para a cultura ocidental, e destino de seus rebentos; a própria
reconhecendo a relevância da figura de perpetuação da espécie denota que o
Maria, mãe de Jesus, como modelo e número de mulheres descomprometidas
símbolo entre os cristãos (sobretudo, os com a criança gerada deve ter sido
católicos), incluo ao capítulo com a sempre consideravelmente inferior ao
análise desta figura e seus elementos daquelas ligadas emocionalmente ao
para vivência da maternidade. Por fim, bebê. Obviamente, a relação, o sentido e
este capítulo aborda a questão do bem e afetos predominantes, o desejo pela
do mal como símbolos presentes na criança, a relação com o parceiro
maternidade, com igual importância para prescrevem a particularidade de cada
compreensão mais ampla do significado caso. A própria cartilha apresenta
deste processo na vida feminina. depoimentos sobre a relação entre ser
mulher e ser mãe que denotam a
2.1 Maternidade identificação da maternidade como
constitutivo do feminino para as
Ainda que não exclusivamente,
mulheres, afirmando que
através da maternidade a mulher
encontra realização feminina. No [...] identidade da mulher e
maternidade são duas coisas muito

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difíceis de separar. A maternidade representação da maternidade entre


tem um peso muito grande na
construção de nossa identidade mães jovens e suas mães, a valorização
individual e social, independen-
temente de se exercer a função de características ligadas ao afeto e, por
materna (SECOLI; SANTIN, 2000, p.
14). parte das jovens mães, apesar de não
revelarem conscientemente o desejo de
Crítica relevante oferecida pela
serem diferentes de suas mães,
cartilha é a condição de mãe
perceberam a ênfase em indicar a
trabalhadora e a insensibilidade do
emergência de novos valores ligados à
mercado profissional às condições
maternidade.
especiais dessas profissionais: ter de
Em sua minuciosa compilação e
confiar os filhos aos cuidados de creches
discussão de dados científicos sobre
ou terceiros para manter-se oito
maternidade, sob ótica da psicologia
horas/dia no local de trabalho; falta de
evolucionista, Hardy (2001) tem a
locais para amamentação no período
preocupação de afirmar sua visão das
produtivo; exigência de não engravidar
mães como mulheres multifacetadas e
mais; dificuldade em manter-se
estrategistas, para promover sua
atualizada no mercado de trabalho numa
investigação sobre instintos maternos,
cultura que prega a educação das
infanticídio realizado pelos pais,
crianças pelas mulheres. Contudo, estas
dedicação da mulher ao filho, entre
reais dificuldades sociais, embora
outras peculiaridades da experiência da
interessantes e importantes para
maternidade.
compreensão do universo da
A princípio, aponta que tanto
maternidade na esfera social, não terá
entre camponesas na Índia, como entre
aprofundamento na presente pesquisa; a
as mulheres das sociedades
não ser como motivadores de ansiedade,
industrializadas ocidentais, há uma
as condições denunciadas não competem
tendência de as pessoas que vivem em
ao objeto específico desse estudo: a
melhores condições financeiras terem
experiência de Deus no processo de
menores taxas de natalidade. Afirma que
gestação e parto. No entanto, e de
quando a mulher exerce o controle sobre
acordo com a ONG: “[...] somente nós,
sua reprodução e haja uma condição de
mulheres, engravidamos, temos a
melhorar de vida, a opção mais
capacidade de gerar filhos! Isso significa
frequente é pelo bem-estar e segurança
um poder imenso perante a humanidade
econômica com a redução do número de
e uma experiência muito importante na
filhos. Contudo, não considera isso como
vida das mulheres” (SECOLI; SANTIN,
contrário à natureza, mas aos mitos
2000, p. 33).
sociais sobre o feminino na sociedade
Para Dias; Lopes (2003), que
ocidental. Explica que “[...] biologi-
realizaram estudo que investigou a
camente, maternidade refere-se ao
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processo de conceber e dar à luz [...]. feminino era reduzido à capacidade de


Mas no Ocidente, o conceito de conceber, gerar e amamentar os bebês.
maternidade implica uma longa tradição Deste modo, a autora afirma que
de abnegação” (HARDY, 2001, p. 30). a maternidade exige da mulher a
O estudo apresenta as crenças capacidade de planejamento, estratégia,
vitorianas que, mesmo do ponto de vista responsabilidade, oportunismo e
científico da época, convenciam que as negociação para prover o alimento ao
mulheres obedeceriam aos preceitos da bebê. Também aponta como natural a
natureza de modo imutável, com diferenciação de afeto dedicada aos
comportamentos que consideravam, diferentes filhos, afirmando que a
então, naturais, como o caso do desejo discriminação resultava do fato de que o
amoroso pelo filho ou pela compromisso com a prole depende das
amamentação, impondo um código circunstâncias que a mulher vive: “para
moral à natureza. A partir do referencial cada mãe, a vida é uma série de pontos
teórico de Darwin, e utilizando o conceito de mutação e momentos decisivos,
da seleção natural, desenvolve seu sobretudo a respeito da melhor forma de
trabalho contra a visão da mulher como atribuir e repartir recursos no decorrer
uma máquina de procriar, mas de sua existência, seja ela curta ou
considerando todas as implicações longa” (HARDY, 2001, p. 63).
biológicas do processo de gestação e Em relação à experiência para a
maternidade para a mulher: própria mulher, diz que:

Predestinadas para ser mães, as Gravidez e maternidade mudam uma


mulheres nasciam para ser passivas mulher para sempre. Não me refiro
e não-competitivas, mais intuitivas apenas à redução de recursos
do que lógicas. Interpretações maternos, como cálcio, à distensão e
errôneas das provas a respeito da redistribuição de seus tecidos, ou a
inteligência da mulher foram alterações em seu perfil hormonal.
esclarecidas e dissipadas nos Existem outros inúmeros pequenos
começos do século XX (HARDY, processos. [...]. Gravidez, trabalho
2001, p. 37). de parto e parto alteram o cérebro.
Levam a novos percursos neurais e á
acentuação de certas capacidades
Baseada em estudos biológicos
sensoriais, como o olfato e a audição.
sobre instinto que se calquem na [...] Muitas mães de primeira viagem
sentem que seu bebê é uma parte
observação da maternidade e do integrante delas própria. (HARDY,
2001, p. 114).
comportamento materno em ambientes
concretos e cotidianos, busca entender Um complicador dos processos da

os sentimentos e emoções maternas na maternidade é o equilíbrio entre trabalho

sua complexidade e, de fato, no que se e filhos. Recordando os altos custos

denomina “leis naturais”, para além energéticos e perda de eficiência

daquela anterior visão sobre decorrentes da presença de um outro


ser, dentro de si ou sob sua custódia,
maternidade, em que tal potencial
concorda que as mulheres sempre

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tiveram que administrar tal relação. como será dar à luz e ser mãe. Suas
expectativas não se baseiam
Contudo, na modernidade, as vidas somente nas experiências que elas
próprias tiveram nem na observação
produtivas e reprodutora da mulher são de outras mães e no convívio com os
bebês delas, mas também no que
compartimentadas em setores outros lhes contam a respeito do que
isso deve ser. (HARDY, 2001, p.
incompatíveis, o que dificulta o equilíbrio 185).
entre estas esferas da vida feminina. E,
As expectativas sobre suas
deste modo,
reações, emoções, sensações
Supõe-se, de um modo geral, que
influenciam a relação da mulher com a
competitividade, ambição, empenho
e determinação na busca de status, maternidade, que pode variar do júbilo à
qualidades essenciais para o sucesso
em carreiras exigentes, são indiferença, tornando impossível a
incompatíveis com ser uma “boa
mãe”, de quem se espera que seja apresentação de uma lista de traços
abnegada, altruísta e incentivadora.
[...] mas, a maternidade no mundo universais típicos da espécie humana
natural é diferente da imagem
vitoriana de mães. O trabalho das nesta questão. Nota-se que, pela
mães não esteve sempre tão
separado da criação dos filhos quanto alteração hormonal inclusive, há uma
hoje, nem o seu status era tão
independente das perspectivas de frequência em relação ao sentimento de
que a prole de uma mãe sobreviva e
melancolia e a episódios de choro entre
prospere. (HARDY, 2001, p. 130).
as parturientes, podendo mesmo chegar
Contudo, lembra que, diferente
à depressão. Contudo, afirma que a
dos homens, a ambição feminina
depressão pós-parto é de origem
pertinente à produção de filhos
especificamente humana, uma vez que
sobreviventes e que prosperam, não
“[...] existem provas consideráveis em
compete por reputação, mas naquilo que
relação aos mamíferos de que se
importa como mãe: segurança, nutrição,
processam mudanças neuroquímicas
proteção da prole. Neste sentido,
durante a gravidez e no período de
ambição e maternidade estão
resguardo a fim de assegurar a
naturalmente associadas.
proximidade de mães e bebês” (HARDY,
Discutindo a ideia de “instinto
2001, p. 191).
materno”, sua compilação denota a
Conclui que o amor instintivo das
existência de um sistema integrado e
mães não corresponde à verdade, não
desenvolvido comum entre a maneira
ocorrendo nem mesmo entre outros
como uma mãe satisfaz as necessidades
mamíferos, afirmando que a criação do
do filho e o modo como estes suscitam
filho depende de estímulo, reforço,
as respostas necessárias a isto. Contudo,
manutenção, nutrido. Deste modo, a
contesta a ideia de que o instinto de
rejeição da mãe pelo bebê, considerada
criação seja inato à mãe, e muitos são
popularmente como desequilíbrio na
os fatores que envolvem tal processo.
sociedade ocidental, que consideram tais
Ao contrário de outros primatas, as mulheres como ‘mães desnaturadas’,
mulheres imaginam antecipadamente

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configura exatamente o seu oposto: uma Aponta nos valores atuais uma
expressão natural e possível entre inclinação à pouca atenção dada ao
mamíferos e, sobretudo, natural entre desenvolvimento do mundo emocional
seres humanos. Realizando uma revisão humano, incoerente com a resolução dos
na história, demonstra que, inclusive o problemas sociais, políticos ou
infanticídio – ainda que disfarçado pelas econômicos modernos, que são
rodas dos asilos ou conventos da Europa fundamentalmente humanos. Ainda
dos séculos XVIII e XIX – configuram defende que a emoção humana possa
processos naturais entre os seres ser educada para um mundo mais justo
humanos, o que questiona a ideia e melhor, para além do egoísmo e da
corrente de que o instinto materno é o raridade do amor, mas não de modo
amor e afinidade da mãe com o bebê. sonhador utópico, como cursos de

O envolvimento de uma mãe com o exercícios emocionais. Sugere o modo


seu bebê – e, no caso dos humanos,
da iniciação e da interpretação dos
é isso o que entendemos por “amor
materno” – não é um mito nem um mistérios presentes nas religiões antigas
construto cultural. Tal como em
outros mamíferos, o envolvimento da deusa da lua como meio de relação
emocional de uma mãe com o seu
bebê pode depender de circuns- entre os problemas humanos atuais e a
tâncias ecológica e historicamente
produzidas. Ninguém sabe como sua resolução através do
funcionam os mecanismos
subjacentes. Mas é uma conjetura desenvolvimento emocional humano.
razoável que tais mecanismos
envolvem limiares para responder a Nessas religiões, simbolicamente
sinais infantis. É bem possível que
estes sejam endocrinológica e diz-se que: a deusa lua, do amor e
neurologicamente determinados
fertilidade, está ausente quando há
durante a gravidez e antes do parto,
tornando a mãe suscetível a ser escassez, falta de energia, discrepâncias
envolvida, em menor ou maior grau,
pelos sinais infantis quando ela toma trágicas, infertilidade. Estes simbolismos
decisões sobre quanto de si mesma
investir no seu bebê. (HARDY, 2001, e signos dos mitos e religiões podem
p. 335).
representar um orientador para conduta
humana. Assim, Harding apresenta em
2.2 Noção simbólico-religiosa da seu livro pensamentos e análises do
Maternidade
significado das iniciações antigas à lua,
Dedicando-se à compreensão da de modo não dogmático, e pelo método
feminilidade na condição contem- Junguiano, a fim de entender o
porânea, Mary Esther Harding (1985) significado construtivo dos produtos
realiza uma seleção de alguns aspectos inconscientes presentes nesses símbolos.
do simbolismo da lua para trabalhar o Mary Esther afirma que a Ciência
significado da iniciação a Eros, que para moderna objetiva é limitada para
a autora é fase essencial no analisar aspectos subjetivos humanos,
desenvolvimento e quase totalmente porque estes apresentam uma outra
negligenciado atualmente. lógica. “Todos os fatores que não
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~ 478 ~ Cátia Cilene Rodrigues-Câmara – Maternidade e Espiritualidade: aspectos simbólicos

contribuem diretamente para o mulheres pela perda do princípio


conhecimento objetivo e foram excluídos feminino, que leva à incapacidade de
pela atitude científica formam um relacionamentos satisfatórios.
resíduo, rejeitado nos últimos 150 anos, Uma nova relação com esse princípio
da mulher é urgente e necessária
sendo considerado somente como
para contracenar com a unilateridade
refugo” (1985, p. 26). Deste modo, do modo masculino prevalecente na
civilização ocidental. [...] É impor-
afirma a necessidade de método para tante considerar que a essência ou
princípio feminino não pode ser
estudo de aspectos não objetivos, entendido através de um estudo
intelectual ou acadêmico. A essência
aspectos subjetivos não conscientes, última do princípio feminino não se
permite tal ataque, o sentido real da
mas que influem na percepção objetiva feminilidade sempre escapa ao
interrogador direto. Essa é a razão
da realidade, nas ideias e no pelo qual as mulheres são tão
misteriosas para os homens – isto é,
comportamento humanos. No que se para o homem que persiste em
tentar compreender intelectualmente
refere à condição feminina
a mulher (HARDING, 1985, p. 43).
especificamente:
Para a autora, o simbolismo da
Pois todo ser humano não tem
somente impulsos e instintos que lua expressa em poesia, mito, contos a
necessitam de uma vida levada
coletivamente no grupo social para a
representação da divindade da mulher e
sua satisfação, mas tem outros
de seu princípio feminino, referência de
instintos e impulsos que o instigam a
encontrar-se como um indivíduo fertilidade, como arquétipo humano
único. Cada indivíduo tem uma
natureza que busca amor e presente nas mais diversas sociedades.
relacionamento, mas também há
incrustado em todos a necessidade A proposta do seu trabalho é analisar o
de lutar pela verdade impessoal.
Essas tendências opostas são símbolo lua para compreender algo da
expressões da dualidade da natureza
humana, que é tanto objetiva quanto natureza do princípio feminino, e para
subjetiva. Em todos os seres
humanos tal oposição está ativa e possibilitar a diferenciação entre
leva inevitavelmente ao conflito. No
atual mundo ocidental esse conflito é
masculino e feminino, necessária para o
bastante grave e cai mais duramente
equilíbrio das relações humanas atuais
sobre as mulheres, porque a
civilização ocidental dá ênfase na legitimação dos aspectos de cada
especial ao valor exterior, e isso se
ajusta mais propriamente à natureza uma dessas naturezas: A lua como
do homem do que à da mulher. O
espírito feminino é mais subjetivo, provedora de fertilidade.
mais relacionado com sentimentos do
que com as leis e princípios do Na Simbologia e crença popular a
mundo externo (HARDING, 1985, p.
34-35). lua é influência no
crescimento/germinação de plantas e
Para a autora, o desenvolvimento
reprodução das mulheres, de onde se
do lado masculino da natureza da mulher
origina seu poder fertilizador. Diversas
é marcante na modernidade e afeta não
tribos primitivas creem que o nascimento
só o aspecto profissional da sua vida,
dos bebês está relacionado à ação da lua
mas toda sua personalidade e relação
sobre a mulher, e não ao ato sexual
consigo e com os outros. Deste modo,
propriamente dito. Além disso, em
na atualidade há um sofrimento das
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Cátia Cilene Rodrigues-Câmara – Maternidade e Espiritualidade: aspectos simbólicos ~ 479 ~

muitas culturas é a lua também de menstruação, interpretada como a


responsável pela criança na hora do presença de um “mal” penetrado na
parto e guardiã das mulheres em suas mulher e expresso pelo sangramento
atividades especiais. Nessa perspectiva, expressam o temor coletivo sobre os
torna-se sem sentido a preocupação com mistérios que o feminino contém diante
virgindade pré-nupcial. A lua é, para o à lógica racional, uma vez que a
primitivo e radical no ser humano, ligada menstruação expressa a fecundidade, a
ao poder de destruição e morte, bem sedução, a atração incontrolável, o
como ao poder de crescimento, vida e próprio poder feminino que tira o homem
fertilidade. Lembra que, para os do controle.
chineses, o princípio yin constitui Assim como a lua, afirma a
essência do princípio feminino, que autora, a mulher tem dependência de
aponta tanto o lado positivo quanto o um princípio interior, cuja principal
negativo, o sombrio nas relações característica é a mudança, são os ciclos,
humanas, e por isso, pode ser que constituem qualidade da própria vida
interpretado como demoníaco na da mulher:
perspectiva racional. [...] para as mulheres, a vida em si é
cíclica. A força de vida tem um fluxo
Assim, a feminilidade em si teria e refluxo na sua experiência real, não
um caráter dominante ligado a somente no seu ritmo diurno e
noturno, como acontece para um
simbolismos e signos mais selvagens, homem, mas também nos ciclos da
lua […] Estas duas mudanças juntas
animal, instintivo, concomitante com produzem um ritmo semelhante às
mudanças da lua, e também às
criação, fecundidade, maternidade, marés, cujo ciclo mensal se
desenvolve simultaneamente às
nutriente. Descreve uma conexão entre mudanças cotidianas, algumas vezes
aumentando o impulso […] e em
o feminino, o símbolo da lua, outras trabalhando contra o
movimento das mesmas, no todo
universalmente mantida desde os produzindo um ritmo complexo e
difícil de entender. (HARDING, 1985,
tempos remotos com a descrição e
p. 106)
interpretação de diferentes mitos e ritos
A partir desta ampla
religiosos. Aponta então uma relação
fundamentação, demonstra o motivo do
entre o ciclo lunar e a menstruação no
culto à grande mãe (Magna Mater) estar
inconsciente coletivo de diversos povos,
presente em diversas religiões, desde
praticamente universal: “[…] um exame
antiguidade, em diferentes culturas e
dos costumes sociais revela o fato de
religiões, geralmente provedora da vida,
que em todas as partes do mundo e
como virgem e mãe de um filho rei e
entre todos os povos […] as mulheres
deus, que morre e ressuscita. A
são consideradas tabu durante a
maternidade é uma das características
menstruação” (HARDING, 1985, p. 91).
mais marcantes do universo feminino:
Afirma que regras e costumes
poder obscuro, úmido, sombrio,
depreciativos sobre a condição feminina
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~ 480 ~ Cátia Cilene Rodrigues-Câmara – Maternidade e Espiritualidade: aspectos simbólicos

repetitivo. Criativo porque proporciona o A autora ressalta a capacidade


nascimento e a manifestação dos feminina de compreender a realidade
impulsos e da própria energia masculina, religiosa para além do conhecimento
(quente, brilhante e poderosa). Mas intelectual, mas com interpretação “de
também como a lua, sua ira também é específica sensibilidade” para falar sobre
destruidora, senhora da chuva e Deus e de possuir a verdade. Aponta a
tempestade, maré e dilúvio. presença feminina de fundamental

O caráter contraditório da deusa da importância para cultura teológica cristã,


lua é assim solucionado, pois seus
seja com histórias participações como
aspectos bom e mal são vistos não
como absolutos, mas como relativos. mártires, visionárias, narradoras, seja
Seu poder produz o mal sob certas
circunstâncias, e o bem sob outras como viajantes, pedagogas, místicas,
(HARDING, 1985, p. 163
pregadoras, profetizas, fundadoras,
Assim, conclui que:
rainhas, abadessas e beatas, que
Gerar filhos físicos reais está deixaram como patrimônio suas
colocado em oposição ao poder de
desenvolver o filho psíquico interior, experiências e testemunhos. Nesse
que se acredita ser imortal porque
está além dos condicionamentos sentido, Valério (2005) classifica a
deste mundo, existindo de fato, num
reino diferente do universo externo participação feminina na elaboração
ou visível. O desejo de ter um filho
está em conexão com o desejo teológica cristã em duas categorias: a
universal de imortalidade (HARDING,
1985, p. 307).
mulher e a subjetividade crítica; e a
mulher e a especificação de gênero.
Numa perspectiva feminista,
Para a autora, o que ocorre
Valério (2005) analisa casos de mulheres
quando as mulheres comunicam a
e místicas que viveram entre 1553 e
própria experiência de fé e a própria
1957, com interpretações da Bíblia
percepção de Deus é que a elaboração
diferentes da tradição masculino no
do pensamento entra na profundidade do
Cristianismo. Em seu estudo, observa a
corpo, compreendendo este como lugar
influência dessas interpretações para
de subjetivismo, o que possibilita novas
busca da igualdade e diversidade na
metáforas do divino, através da
experiência religiosa no Cristianismo.
percepção de fonte, sabedoria, amor:
Para a autora, é relevante:
mãe, seio, sabedoria.
[...] admitir uma leitura das fontes A partir da corporeidade e códigos
que possuímos com os olhos atentos
às mulheres: elas não são mais, ou femininos, a percepção da imagem de
só objeto passivo de pregação e
doutrinação. A valorização de sua Deus se enriquece e revela a
presença na história e, especi-
ficamente, na tradição cristã, complexidade do mistério divino. Nesse
redesenha portanto, a trama e o
enredo de um tecido cultural muito sentido, sobre a maternidade, afirma
mais amplo e articulado, que coloca
o masculino e o feminino em espaços Valério:
de mútuas trocas e enriquecimento
(VALÉRIO, 2005, [s/p]). Com a reflexão das mulheres,
todavia, muda alguma coisa: a

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Cátia Cilene Rodrigues-Câmara – Maternidade e Espiritualidade: aspectos simbólicos ~ 481 ~

maternidade não é mais aspecto mundo para a liberdade. Quanto à


devocional útil a mitigar a
masculinidade de Deus; ela se torna participação da mulher no
um dado teológico, constitutivo da
essência de Deus. A maternidade é desenvolvimento da teologia cristã, a
propriedade que convém a todas as
três pessoas da Trindade. Para autora concluiu em suas observações
Matilde de Hackeborn (+ 1298),
Cristo é pai na criação, irmão no que até o Vaticano II, a relação das
Reino, mãe na redenção, sendo a
maternidade atributo essencial da mulheres com a teologia não se deu por
divindade (2005, [s/p]).
via acadêmica, mas sobretudo pela
Baseado em Giuliana de Norwich, experiência mística, que em tempos
Valério (2005) afirma a maternidade atuais, pode gerar novos meios para
como representação da plenitude de afirmar a própria diversidade como
Deus em criar, redimir e chamar o valor.

3 Imaginário popular e arquetípico sobre a dimensão religiosa da


maternidade

De acordo com Chevalier, os permite a regeneração do ser. Aponta


termos “matriz” e “útero” estão ligados à que em árabe, é através da realidade
manifestação, à fecundidade da natureza que exprime esse Nome que são levadas
e à regeneração espiritual. Para os à existência as possibilidades de
autores: manifestação contidas no Ser divino.

A mitologia está cheia de mitos de Assim, ar-rahmaniyah, a beatitude


Mãe Terra, homóloga da matriz dos
misericordiosa de Deus, pode ser
mundos subterrâneos, das cavernas,
dos precipícios. É, lembra Mircea concebida como matriz universal.
Eliade, a significação de delphus
(matriz) à qual o local de Delfos leva Para Porte; Schlesinger, o
o seu nome. Em outras regiões, se
diz que os recursos se originam da conceito de mãe “[...] em geral
matriz terrestre. As minas são
também matrizes, de onde se extrai, manifesta simbolicamente a
por métodos associados à obstetrícia,
os minerais, embriões que ali fecundidade” (1983, [s/p]). Em mitologia
amadurecem. Também as pedras
preciosas crescem, segundo à está associada à ideia do poder gerador,
tradição da Índia, dentro do rochedo,
como em uma matriz. Por das cavernas e dos mundos
associação, o forno dos metalúrgicos,
dos esmaltadores, o crisol dos
subterrâneos. Na tradição hindu, a mãe
alquimistas tem a mesma do universo (Prakriti) é substância
significação (1990, [s/p]).
universal, identificada com Brahma. Nos
Nesse sentido, avalia que a
textos purana equivale ora a Vishnu ora
tradição em relação ao útero e
a Parvati, sempre com fé transfor-
maternidade compreende sua função
madora. Para os alquimistas, o retorno à
transformadora; recipiente que serve
mãe significa o caminho da imortalidade.
para conter o fogo da vida, contendo as
No budismo está associada à natureza
sementes núcleo da imortalidade que
do fogo por sua luminosidade. O embrião
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~ 482 ~ Cátia Cilene Rodrigues-Câmara – Maternidade e Espiritualidade: aspectos simbólicos

é ejetado do mundo das trevas para a Para a autora, a realidade da


luz. Entre os tântricos corresponde fragilidade e total dependência da
graficamente a um triângulo invertido, criança à mulher revela a “... face
com tendências fundamentais: inassimilável do Outro, fora do
concentração, dispersão e expansão. Na significado” (MARCOS, 2007, [s/p])
mística oriental, o verbo é a mãe do revela o próprio significante. Apresenta a
conhecimento. No alfabeto sânscrito as criança como representação do encontro
sete vogais são as sete mães da eterno da mulher com o que ela possui
linguagem. A beatitude eterna é de mais particularmente feminino,
concebida como o ventre de uma mãe ultrapassando todos os limites do saber,
universal. vivenciando a relação real a partir do
A partir da leitura das figuras de próprio corpo. Em sua análise da obra de
maternidade das personagens de Lispector, Marcos ainda apresenta a
Clarisse Lispector, Marcos (2007) ambivalência do significado da
observa a exibição de algo maternidade: do amor ao zelo obsessivo
incomensurável e de impossível e cruel, da doação à possessividade em
simbolização neste processo, mesmo relação ao rebento, da civilidade ao
ligada à esfera orgânica ou animal, excessivo animalesco, mas sempre para
concluindo que a criança ali torna além do significado assimilável.
presente um real incomensurável. Nesta Concebe-se, assim, o feminino como
origem, mas segundo uma posição
perspectiva, a maternidade estaria para
subjetiva que engaja uma outra à
além da equação simbólica da falta do maternidade [...] As figuras da
maternidade em Clarisse Lispector
falo para a mulher. A maternidade nos fazem pensar que a mulher não
está toda na maternidade ou na
evidencia o “[...] impossível histeria […] parece-nos que há, na
maternidade algo que revela a
recobrimento do real pelo simbólico […] existência desse gozo outro (…) que
aponta para a impossibilidade de
a face de sombra da maternidade” reconciliação entre o simbólico e o
real (MARCOS, 2007, [s/p]).
(MARCOS, 2007, [s/p]): ou seja, a
maternidade enquanto gozo para além
do falo, mas no que denomina “furo”: 3.1 O modelo encontrado na figura
cristã de Maria
[…] a mulher engravida e desse
modo ela tem uma relação com a
coisa materna pelo próprio corpo. Na
De acordo com Silva (2003), no
gestação e no parto, trata-se sempre catolicismo popular o significado da
de um real incomensurável. Podemos
até mesmo dizer que uma mulher Virgem Maria ultrapassa a narrativa
não encontra nunca sua mãe no
parto, mas o insondável de um corpo oficial dos evangelhos, com uma
outro, estrangeiro e gozador. A
criança presentifica o desconhecido, representação iconográfica ligada à casa
o enigma, a face inacessível do
Outro, mesmo se ela é também sagrada, coroa e santidade (mãe de
‘minha imagem e semelhança’
(MARCOS, 2007, [s/p]). Deus), que pode ser facilitadora para a
transformação feminina da mulher
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Cátia Cilene Rodrigues-Câmara – Maternidade e Espiritualidade: aspectos simbólicos ~ 483 ~

contemporânea. Coroa, do mesmo iniciativa, com fidelidade ao Senhor, pois


radical de cornos (chifres), associa-se ao confia mesmo no silêncio de Deus sobre
poder sobrenatural de fecundidade em suas dúvidas. No catolicismo, sua
diversas culturas, ligado à provisão, imagem de virgem agrega virgindade
proteção e sustento, agregando ao como valor e sentido na sociedade, mas
modelo cristão de mãe – a Virgem Maria considerando que “[...] virgindade
– o sentido de rainha. significa pleno consentimento da
Esse modelo, no Ocidente, castidade ao domínio de Deus, à plena e
compõe o arquétipo feminino da Grande exclusiva presença do Senhor. O próprio
Mãe, configurando legitimidade à Deus é o mistério final e a explicação
condição social da mulher através da total da virgindade” (LARRANÃGA, 1987,
experiência da maternidade concreta em p. 97).
si: como mãe, a mulher cristã encontra o O autor diferencia virgindade
mérito perdido na figura de Eva, sendo fisiológica e espiritual, definindo a
considerada nesta vivência particular “virgindade em Deus” (LARRANÃGA,
como fonte de vida, semelhante à Maria, 1987, p. 98) com crítica à compreensão
ligada ao princípio vital sagrado gerador da psicanálise, que não compreende a
da existência. Nesse sentido, concentra liberdade presente nesse termo, uma
em si o símbolo do núcleo da família, vez que a virgindade não cria
primeira casa humana, bem como dependências, só amor. A graça de que
confere santidade à figura da mulher – Maria é cheia está associada, para o
desde Eva, considerada fator de tentação autor, à sua virgindade, que significa
à humanidade. liberdade e plenitude. Assim, aponta o
Para Inácio Larrañaga (1987), Paradoxo existente na concepção de mãe
Maria, mãe de Jesus, tem caráter de para o cristianismo: sagrado e terreno.
missionária, pregadora dos Sendo assim, com esta perspectiva,
ensinamentos de Jesus, a partir de um afirma que a gestação é insondável, pois
círculo feminino. Esse seria um dos é uma realidade inefável, mas cria
fatores à veneração por Maria: mãe do hipóteses de maravilhamento e gratitude
Senhor, mãe da comunidade (irmãos de (magnificat), de enriquecimento do
Jesus), cuja missão recebe ao pé da “mundo interior”, de mistério. A
cruz. contemplação da maternidade leva à
Este autor considera que a figura maturidade, produtividade, coragem,
de Maria é modelo cristão de poder. Neste prisma, Divino humano é
feminilidade, humana e no espírito, ser materno. “Maria é aquela mulher
enquanto “transformação evolutiva”, grávida que aparece na grandiosa visão
através do seu silêncio, ativo e do Apocalipse, colocada sobre a lua,
consciente, questionador e com vestida com a luz do sol e coroada por
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um resplendor de estrelas (Ap 12,1-15)” (LARRAÑAGA, 1987, p. 153).

4 O simbólico e o diabólico

Para Boff, baseado na origem constrói e deve construir-se, não apesar


filosófica grega da palavra, simbólico da contradição diabólica/simbólico […],
remete ao processo complexo de reunir mas com e através dessa contradição”
realidades, congregando-as a partir de (1998, p. 20).
pontos diferentes. O símbolo é o sinal e Para o autor, o elo religador se dá
significante de algo não presente, capaz numa nova experiência do sagrado: de
de distinguir ou representar algo: uma qualidade luminosa, essa irradiação que
família, uma nação, uma marca. Do emana de todo existente, de cada
mesmo modo, sua análise sobre o pessoa e do universo, causando
sentido de “diabólico” aponta para tudo o admiração em sua mensagem e mistério
que desconcentra, separa, desune ou – ilimitado conhecimento, emotivo,
opõe. “Mas nunca o diabólico e o significativo, valioso. “Produz uma
simbólico se anulam ou um suplanta experiência interior perpassada de
totalmente o outro. Eles convivem comoção. A percepção do sagrado das
sempre em equilíbrios difíceis, dando coisas é um dado originário e irredutível”
dinamismo à vida” (1998, p. 15). (1998, p. 42)
Deste modo, afirma que a Simbólico ou Demoníaco, o
realidade é simbólica e diabólica, mesmo Sagrado é fascinante e tremendo,
ao que se refere aos fenômenos gerando simultaneamente entusiasmo e
naturais, como é o caso do objeto desta temor de que emerge o sentimento
pesquisa – a maternidade. Aponta que profundo de veneração, de respeito, de
em toda natureza, fenômenos reverência. Considerando o espírito
aparentemente associativos podem se humano falante, reflexivo e consciente,
revelar destruidores. Contudo, em nossa reativo, auto-organizativo e complexo,
cultura derivada do iluminismo, há a Boff afirma que através do corpo (e não
exaltação do que é inteligente e sábio no somente da mente) se conhece os outros
ser humano, renegando sua esfera e a si mesmo.
dissociativa, confusa, angustiada, Para o autor, o espírito humano é
destruidora. Assim, temos uma visão vida e relação; portanto, seu oposto não
dualista que antagoniza a realidade sem é a matéria (corpo), mas a morte e o
considerar que a realidade contém isolamento. Assim, o corpo configura
antagonismos por si só. Deste modo, expressão do espírito humano, bem
Boff sustenta que “[...] o humano se

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Cátia Cilene Rodrigues-Câmara – Maternidade e Espiritualidade: aspectos simbólicos ~ 485 ~

como meio/possibilidade de religamento sensação espiritual de que se está


com o sagrado pela experiência mística. contribuindo para o ciclo eterno da vida,
que está se juntando às fileiras de uma
3.2 Maternidade: experiência arquetí- irmandade de honra” (CARTER-SCOTT,
pica, os símbolos e a integração do 2005, p. 18). Para a autora, a
Self
maternidade desperta a parte mais
Em seu texto sobre maternidade, espiritual da humanidade, aprimorando a
Carter-Scott (2005) afirma que a experiência de vida da mulher.
realidade da mulher se transforma no De acordo com Neumann, no
momento do nascimento do filho, e que percurso da transformação e
ser mãe é uma aventura profunda e individuação da mulher estão incluídos o
única. Afirmando que criar um filho é que ele denomina como “mistérios de
tarefa multifacetada, defende que inclui transformação”, processos fenômeno-
apoiar o que estes têm de especial, pois lógicos que são conhecidos apenas por
a mulher cresce e aprende coisas novas quem os experimentam. Para Neumann,
com o desenvolvimento da criança. esses processos são essencialmente
A autora ainda aponta que a ligados ao sangue: “... os quais a
expressão específica de amor se modifica conduzem à experiência pessoal de sua
de acordo com o que a criança precisa própria fecundidade e surtem no homem
em cada momento, e que na experiência essa impressão numinosa” (2001, p.
da maternidade haverá altos e baixos: 40), com as raízes no seu
ou seja, não existe mãe perfeita e é desenvolvimento biopsicológico, da
essencial lembrar-se de cuidar de si. Por menarca à menopausa, passando pela
fim, aponta que a maternidade é um gestação e parto como um dos seus
processo que não termina nunca, pois os pontos mais específicos. De acordo com
filhos crescem, mas a mãe continua o autor:
sendo mãe para sempre – mesmo que
A gravidez é o segundo mistério de
morrer, abandonar, distanciar-se. Em sangue. Segundo a noção primitiva,
o embrião se constitui a partir do
suas palavras, a maternidade é “[...] o sangue recebido de sua mãe, sangue
este que – como denuncia a própria
rito de passagem mais profundo e interrupção da menstruação – não
mais será eliminado durante o
transformador que a mulher pode período de gravidez” (NEUMANN,
2001, p. 40).
vivenciar” (CARTER-SCOTT, 2005, p.
17), por ser meio para a experiência Para o autor, a arquétipo da
mais extraordinária de amor que existe. Grande Mãe situa-se entre o feminino
Baseada em sua experiência primordial da mulher, e a anima que
profissional de aconselhamento, aponta compõe a personalidade, entre o
o paradoxo emocional empolgação - inconsciente coletivo e a singularidade
medo, afirmando que “[...] existe a da pessoa. Desse modo, qualquer
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arquétipo do feminino, composto uma variedade de possibilidades, tal


derivado da Grande mãe, pode como a vegetação e a natureza, que
expressar-se em caráter elementar de proporciona mudança e
modo bondoso e, simultaneamente, amadurecimento, que nutre, alimenta,
terrível quando em caráter de embeleza.
transformação. Essas constituem apenas Essa profusão de seres vegetais
envolve a humanidade nas florestas
características de um mesmo feminino,
virgens e estepes, nas montanhas e
da Grande Mãe, sempre muito nos vales. A vida vegetal prolifera em
todos os lugares: embaixo da terra,
significativas para o ego e a consciência como raiz e tubérculo; em árvores de
fácil e difícil acesso, como mar de
da mulher, seu nível de maturidade frutos; no campo e no bosque, como
erva e bago, como noz e cogumelo,
psicológica. Desse modo, tal arquétipo como folha e grão. E esse mundo
primordial é o mundo do Grande
projeta-se em diversas figuras religiosas, Círculo e da Grande Mãe; ela é a
protetora, a mãe bondosa, que
mitológicas, simbólicas, de acordo com alimenta os homens com frutas,
tubérculos e grãos, mas que também
sua significação para o desenvolvimento os envenena e que, quando se afasta
dos seres vivos, faz com que estes
psicológico humano: passem sede e fome, nas épocas de
escassez (NEUMANN, 2001, p. 55).
A Grande Mãe-Terra, que a tudo dá
vida, é eminentemente a Mãe de
tudo o que é vegetal. Os mitos e O Grande Feminino expressado
ritos de fertilidade de terra
assentam-se, em todo o mundo,
pela figura da Grande Mãe também é
nesse contexto arquetípico. O centro
representado pela imagem do vaso, que
desse simbolismo vegetativo é a
árvore. Obs.: árvore, em alemão, é abrange tudo e todos tanto em seu
substantivo masculino = Baum.
Como árvore da vida que dá frutos, caráter elementar, como de
ela é feminina: gera, transforma e
nutre; as folhas, os ramos, e os transformação. Em sua unidade,
galhos estão “contidos” nela e lhe
são dependentes. O aspecto protetor simboliza-se a totalidade da natureza de
torna-se claro na copa, que abriga os
ninhos e as aves. Além disso, a onde emerge a vida. Contudo, expressa
árvore desempenha a função de
conter, porquanto é o tronco “dentro” paradoxos:
do qual vive o seu espírito, assim
como a alma habita no corpo. A Já encontramos nessa relação de
natureza feminina da árvore oposição os sintomas do teor
confirma-se, ainda pelo fato de que ambivalente do arquétipo. Gerar e
tanto a sua copa quanto o tronco libertar pertencem ao lado positivo
têm o poder de dar à luz, como se do caráter elementar; seu símbolo
comprova, entre muitos outros típico é o símbolo da vegetação, em
exemplos, pelo nascimento de Adônis que a planta que está em
(NEUMANN, 2001, p. 53). crescimento irrompe do escuro útero
da Terra e vislumbra a “luz do
mundo”. Essa libertação do escuro
Neumann afirma como
para o claro caracteriza o caminho da
características do arquétipo da Grande vida, bem como o caminho da
consciência. Ambos os caminhos
Mãe, tal como a figura da terra, o conduzem sempre, e basicamente,
da noite para a luz. Esse é um dos
aspecto da criatividade, o regimento da motivos para a conexão arquetípica
entre simbolismo do crescimento e a
vida no segredo da concepção, em aquisição da consciência, enquanto
que a terra, a noite, a escuridão e o
constante transformação para gerar a inconsciente são um conjunto em
oposição à luz e a à consciência. Na
vida. Neste contexto, explica o autor, há medida em que Feminino liberta para
a vida e para a luz o que nele está
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contido, torna-se a Grande Mãe e a complexo, muitas vezes sofrido e


Mãe Bondosa de toda a vida. Por
outro lado, a Grande Mãe torna-se sacrificante. De acordo com Neumann:
perigosa em sua função de fixar, não
permitindo a libertação de um ser Aquilo que pende da árvore, o filho
que aspira por sua independência e da mãe-árvore, na verdade
liberdade. Essa situação constela experimenta a morte através dela;
fases essenciais da história da entretanto, recebe dela a
consciência e de seu conflito com o imortalidade, o que lhe permite
Grande Feminino. Existe um símbolo ascender ao seu céu imortal, onde
que pertence a esse contexto e que compartilha de sua essência como
desempenha um papel de destaque Sofia, a doadora de sabedoria.
nos mitos e nos contos de fada: o Sacrifício e sofrimento são os pré-
cativeiro. Subentende-se com esse requisitos da transformação propor-
termo que o indivíduo, não se cionada por ela. Essa lei do morrer e
encontrando mais na situação natural tornar-se faz parte do núcleo da
e original da criança que é contida, sabedoria de que dispõe a Grande
vivencia a postura do Grande Deusa (2001, p. 222).
Feminino como constrangedora e
hostil. Mais adiante, a função de
aprisionar apresenta-se como uma O autor associa o simbolismo
tendência agressiva que, como o
simbolismo do cativeiro, pertence ao arquetípico da árvore ao mundo mítico
aspecto bruxa da mãe negativa. A
rede e o laço são, nesse caso, os
como imagem do crescimento e nutrição,
símbolos adequados, bem como a
que se estende dentro do Cristianismo e
aranha e a lula, com suas presas e
tentáculos captores. As vítimas dessa Judaísmo. Neumann afirma que a
constelação já dispõem de uma
parcela de independência, mas que fecundação transforma a mulher para si
se encontra ameaçada, pois, para
elas, estarem contidas na Grande mesma num ser numinoso. No processo
Mãe não é mais um fato
compreensível. Ao contrário, já são de gestação e parto, a mulher se
“renitentes”, de acordo com nossa
terminologia (NEUMANN, 2001, p. experimenta como fonte de vida, que “...
66).
à semelhança da Grande Deusa, ela está
Para Neumann (2001), o caráter ligada ao princípio vital gerador de tudo
de Transformação da Grande Mãe, a que existe, que consiste na união da
Anima, além de projeção do Masculino natureza criadora com o princípio
no feminino, constitui também uma gerador de cultura” (NEUMANN, 2001, p.
experiência autêntica do feminino, 267). Segundo Neumann, a mulher
gerador de inspiração e transformação vivencia um autêntico milagre ao dar à
espiritual à mulher, sendo na esfera luz, pois ascende ao feminino e ao
religiosa, artística, poética, imaterial. masculino.
Deste modo, a gravidez e parto, Por fim, dentro do arquétipo da
concretamente, podem configurar um Grande Mãe, o tema do nascimento
dos mistérios sanguíneos de sobrenatural, ou seja, de uma gestação
transformação para mulher, dando vida realizada por meios espirituais é
e morte, promovendo a sua individuação frequente e remete a uma dimensão
psicológica. De modo algum, entretanto, espiritual superior contida no filho
supõe-se que seja fácil ou simples esse luminoso, como expressão de uma
processo: diz respeito a um processo realidade pneumática-espiritual, e não
da castidade hostil para seu corpo.

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~ 488 ~ Cátia Cilene Rodrigues-Câmara – Maternidade e Espiritualidade: aspectos simbólicos

Com o nascimento de seu filho, a gerar um espírito de luz que é eterno


mulher efetiva o milagre da e imortal, apesar de todas as
natureza, que é dar à luz algo transformações e quedas. O gozo
inteiramente distinto dela e oposto a resultante de sua capacidade para
si mesma. Esse filho divino, além gerar um ser vivo, o filho que a
disso, é algo inteiramente novo, não complementa por ser o outro, se
só por seu sexo como também em acentua em seu ainda maior
sua qualidade. Ele não só engendra, contentamento por criar espírito, luz
enquanto ela concebe e gera, mas e imortalidade, o filho divino,
também é luz em oposição à natural mediante a transformação de sua
escuridão daquela, e movimento em própria natureza. Pois, no mistério,
contraste com seu caráter estático. aquela que dá à luz também se
Assim, a mulher experimenta seu renova (NEUMANN, 2001, p. 279).
poder de gerar a luz e o espírito, de

5 Considerações finais: o Símbolo, o Sagrado e a Maternidade

Nem todas as mulheres são políticos e econômicos, crença pessoal,


religiosas no sentido das práticas, da contexto social, mas, sobretudo, o fato
vivência de ritos ou orações, de religioso nesse conhecimento do
participação de grupos religiosos Transcendente através da gestação,
hierarquicamente organizados. Contudo, parto e maternidade.
todas as pessoas apresentam crenças e A experiência da maternidade
valores que orientam suas ações e enquanto dimensão da feminilidade
comportamentos. São as crenças desperta significado e símbolos muito
pessoais (religiosas, morais e éticas) que intimamente ligados à compreensão
dão sentido e estruturam a vida da religiosa arquetípica, ligadas às crenças
pessoa, configurando um dos pilares da e comportamentos em sua realidade
felicidade humana. cotidiana.
Além disso, o Ser Humano é, Portanto, caso a experiência da
antes, um ser simbólico, que busca maternidade esteja para a mulher
significado no mundo externo e em sua gestante desvinculada de crenças e
própria subjetividade, através da significados que lhe faça sentido
linguagem, arte, religião. Os símbolos existencial, tornando-se diabólica, tal
são formas de converter o contexto, o experiência pode ser existencial e
significado, a essência de um fenômeno psicologicamente percebida como
ou experiência do indivíduo ao mais ausência, vazio, fragmento sem razão:
abrangente e completamente possível, distância e ausência da manifestação do
sem as fragmentações próprias da lógica Ser-em-si em sua vida, aterrorizante, e
cognitiva. que necessita da consciência religiosa
Postulo aqui uma relação entre a para atribuir sentido ao fato e
linguagem simbólica e a religiosidade experiência simbólica de encontro e
humana através da experiência da manifestação divina em sua vida.
maternidade, considerando elementos Todavia, o oposto pode ser verdadeiro.
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Cátia Cilene Rodrigues-Câmara – Maternidade e Espiritualidade: aspectos simbólicos ~ 489 ~

Trabalhar a experiência da sentido e propósito existencial para elas,


maternidade como experiência simbólica, como símbolo que aponta para uma vida
absorvendo todo seu símbolo e mística nova, uma conversão de direção, um
significante, relacionando na esfera chamado, um recomeço e renascimento.
cognitiva das crenças, pode promover a Apesar de ser uma experiência
unidade e integração entre esta natural e objetiva, a maternidade pode
dimensão da feminilidade na estar intensamente revestida de sentido
personalidade da mulher, bem como indizível e não mensurável: muitas
ampliar a consciência religiosa e carregar mulheres apresentam dificuldade em
de sentido este fato em sua vida. definir o que significa ser mãe, tanto
Com esta relevância, este pela linguagem verbal quanto pelo
trabalho procura compreender o desenho, frequentemente apelando para
processo de gestação e a maternidade expressões religiosas e próprias da
como elementos do conjunto simbólico condição mística da relação humana com
para mulher, com um sentido profundo, o Transcendente: é inexprimível,
oculto e/ou misterioso para sua vida, e impossível de dizer, só é possível
que, de modo real e material, físico, contemplar vivenciando.
natural e biológico, aponta uma Ou seja, tal a experiência mística,
dimensão Transcendente à existência. trata-se da contemplação do indizível, da
Seja porque se trata de uma oração silenciosa. Não se nega nesta
“nova vida”, “um anjo”, “um salvador”, discussão a dificuldade, a raiva, as
como podem definir o feto ou o recém- rejeições, o medo. Mas em todos esses
nascido que geraram, observa-se um casos, a maternidade como uma benção
significado que aponta para além da de Deus, um chamado, uma missão
natureza biológica da reprodução: como também está presente como um símbolo
que aquele processo concreto e material que remete a uma nova oportunidade de
que viveram e vivem apontasse para um vida, tal um batismo, ou renascimento;
significado num sentido místico, de uma dizem sentir tal oportunidade como uma
realidade além da objetiva. Esse fato revelação divina para suas vidas, bem
expressa que a gestação e a como um marco de conversão, mudança
maternidade, ainda que não de rota, de direção, de caminho em suas
desencadeada pelo desejo prévio da histórias.
mãe, muitas vezes sem planejamento, Esta perspectiva não tem a
com muito medo e culpa, ou mesmo intenção de refutar as teses da Psicologia
quando afirmam que esta experiência Experimental Evolucionista, que definem
em nada se relaciona com figuras a maternidade como experiência natural
diretamente religiosas (Deus ou Diabo), a partir do instinto de perpetuação da
que a experiência em si apresenta um espécie, determinada biologicamente.
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~ 490 ~ Cátia Cilene Rodrigues-Câmara – Maternidade e Espiritualidade: aspectos simbólicos

Contudo, considerando a dimensão que são próprias à experiência individual


natural e objetiva da maternidade, este da construção do sujeito. Sendo assim,
debate busca compor a compreensão acredito que o aprofundamento ao
desta experiência também através da significado místico e religioso dessa
sua dimensão Psicológica e Social, experiência constitua fator promotor de
Existencial e Mística. estruturação multidimensional, no
Há diversas esferas que presente e futuro da mulher e bebê. Aos
constituem a motivação e significação da profissionais da saúde, o conhecimento
ação, em que não se descarta os desse fator e sua dinâmica psicológica e
motivos instintivos naturais; mas não se existencial podem contribuir para
sugere aqui a redução somente a estes. compreensão e tratamento das questões
Ao contrário, consideram-se outras referentes à gestação, parto e
esferas, uma vez que o Ser Humano não maternidade, bem como para o
se reduz à dimensão biológica, mas tratamento dos desdobramentos políticos
amplia-se a motivos inconscientes, às em relação ao planejamento familiar.
crenças culturais, às experiências sociais

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Recebido em: 15/09/2015.


Aceito para publicação em: 01/12/2015.

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