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A literatura periférica/marginal

Uma alternativa para os nossos tempos?

Alejandro Reyes

Poucos dias antes de viajar ao Brasil para participar no Clisertão, assisti a


um encontro de pensamento crítico nas montanhas do sudeste mexicano,
convocado pelo Exército Zapatista de Liberação Nacional (EZLN) 1, que reuniu
pensadores, artistas, cientistas e ativistas de muitas partes do mundo. Na carta
convite que todas e todos receberam, curiosamente, a primeira pergunta que o
EZLN pedia que respondessem era: “Como está seu coração?” É assim que os
povos maias de Chiapas perguntam como você está: k'usi av'o'onton. Para eles,
todo entendimento do mundo passa pelo coração; o pensamento e o sentimento
não são independentes: senti-pensamos. Portanto, eu gostaria de começar hoje
tentando responder essa pergunta.
Meu coração está feliz por estar aqui, pela oportunidade de escutar palavras
tão potentes, pelo carinho recebido e a profundidade do senti-pensar que eu tenho
percebido neste espaço. E feliz também porque está aqui minha companheira
Luciana, curadora da exposição que montamos no corredor: “Insurgências
mexicanas: Poéticas de vida em tempos de morte”. Mas meu coração também
está triste, indignado e com muita raiva, porque, como mostram as obras da
exposição, nosso mundo está profundamente doente, porque se abrirmos bem os
olhos perceberemos que estamos numa espiral de violência e desumanização
espantosa e cada vez mais destrutiva. Aqui, no México e em qualquer parte do
mundo. Sinais de uma crise civilizacional que tudo indica que só vai piorar nos
próximos tempos.
Isso tudo vem ao caso por duas razões. Primeiro, porque sempre é bom saber
como está o coração alheio. E segundo, porque o tema da mina fala hoje é a
literatura marginal ou periférica atual — ou seja, não a literatura marginal da
década de 1970, da qual falou o poeta Chacal, mas a literatura que está sendo
produzida hoje em favelas, periferias, prisões e outros espaços marginais e
marginalizados da sociedade. E essa literatura surge a partir de uma urgência
de falar, de visibilizar uma realidade invisibilizada de muitas formas; uma
realidade em que essa violência da qual eu falo não é uma exceção, não é a
irrupção de casos isolados, embora frequentes, de brutalidade extrema, mas o
pão nosso de cada dia. Uma realidade tão dura que, às vezes, a palavra não dá
conta de expressar, como mostra Paulo Lins (2009[1997]) em Cidade de Deus:

1Conversatório “Olhares, escutas, palavras: Proibido pensar?”


(https://radiozapatista.org/?page_id=26389), do 15 ao 25 de abril de 2018, Universidad de la
Tierra, San Cristóbal de Las Casas, Chiapas, México.
Poesia, minha tia, ilumine as certezas dos homens e os tons de minhas
palavras. É que arrisco a prosa mesmo com balas atravessando os
fonemas. É o verbo, aquele que é maior que o seu tamanho, que diz,
faz e acontece. Aqui ele cambaleia baleado. Dito por bocas sem dentes
nos conchavos de becos, nas decisões de morte. A areia move-se nos
fundos dos mares. A ausência de sol escurece mesmo as matas. O
líquido-morango do sorvete mela as mãos. A palavra nasce no
pensamento, desprende-se dos lábios adquirindo alma nos ouvidos, e
às vezes essa magia sonora não salta à boca porque é engolida a seco.
Massacrada no estômago com arroz e feijão a quase-palavra é defecada
ao invés de falada. Falha a fala. Fala a bala. (p. 21)
Mas essa literatura surge também de uma urgência de expressar a poética
de uma convivialidade que não está engaiolada pela lógica do consumo e do
capital, de uma coletividade permanentemente ameaçada e permanentemente
recriada em condições extremamente difíceis, como vemos neste trecho de Allan
da Rosa em Morada, esplêndido pequeno livro sobre a moradia nas periferias,
com fotografias de Guma e textos de Allan:
O quarto pra criança que nasce e enche a morada de esperança e graça,
bamboleando o calendário. Dá um oco, dá um cheio, no peito dos avôs.
É fascínio, dádiva, doçura e responsa açucarando labirintos paternos.
Casa onde no cordel se penduram roupas que a vida lê (cordel:
tradicional lábia de lava e de sereno), a cor no varal, as sombras feito
gravuras na página da parede, fora do claustro de gavetas naftalinas,
feridas em Poesia exposta. Casa onde se lida a vida, onde a máquina
de costura adentra as madrugadas no fura-dedos, na engenharia da
tecelagem, na teia das linhas que germinam vestes. Tua casa: onde se
lê pelo vão por debaixo da porta quem tá chegando, onde de longe se
traduz a sombra dos passos, onde se chega zombeta e jururu e se
alembra que tá sem a chave, mas sabe o macete pra abrir a porta, que
é o marco do início da intimidade e do respeito. Do que se cuida para
dentro, do que se louva nos beirais e nas cumeeiras. Onde se sabe cadê
as xicrinhas pra chamar uma parcerage e tomar um café. (Guma, 2001,
p. 27-29)
E, da mesma forma, a indignação perante a brutalidade do Estado:
Pra despejar, coturnos não vacilam. Chutam barrigas de sete meses,
descem o reio na pivetada, dão rasteira em muletas. Demolir com
gente dentro ou com parcos badulaques de estima, pra quem os guarda
com cheiro e recordação, não transtorna a cachola que veste o quepe?
O peito que se agasalha no colete à prova de balas? […] Às vezes um
mandado lambuzado de uísque e chocolate, assinado no tribunal, vem
junto com o cassetete e as bombas de efeito imoral. Ou se entrosa com
o requinte dos grileiros, que encharcam um gato com querosene, usam
o isqueiro e soltam o bichano pelas telhas e barracos de pau e de lona.
Incendiário felino visitando vinte trinta barracos antes de se finar
torrado, espalhadas as chamas na juntação de madeirite. (Ibíd., p. 22-
24)
É interessante notar, ao falarmos da moradia, o quanto a linguagem tem
também de violência. “Maloqueiro” no imaginário popular quer dizer bandido,
criminoso, marginal. Inclusive, a palavra entrou no dicionário com esse
significado. Segundo o dicionário Priberam, “maloqueiro” significa criança que
rouba ou trabalha para ladrões, pessoa maltrapilha, pessoa grosseira ou mal-
educada. Mas a palavra vem de “maloca”: a casa comunal dos povos indígenas da
Amazônia, um espaço sagrado relacionado com o ventre materno, onde mitos e
histórias que sustentam o sentido de ser dos povos são compartilhadas. Dessa
forma, ao associar a criminalidade à palavra “maloqueiro”, criminaliza-se
também a coletividade, as formas outras de se relacionar em sociedade e com o
entorno. Em contraste, alguns membros do movimento de literatura
periférica/marginal se apropriam do termo e o resignificam, propondo uma
“poesia maloqueirista” e até lançando uma iniciativa editorial chamada Edições
Maloqueiristas.
Então, a pergunta: A literatura periférica/marginal pode ser uma alternativa
para o nosso mundo?
Nesta quarta-feira, no minicurso que ministrei aqui no Clisertão, falamos
sobre a minha visão do estado do nosso mundo, inspirada nas reflexões
zapatistas e as de outros coletivos, organizações e pensadores do México e do
mundo. Na ocasião, como algumas assistentes expressaram, sentiu-se na sala
uma sufocante falta de ar... sensação que não é a minha intenção reproduzir aqui.
Mas eu gostaria de destacar alguns aspectos. Todos estamos presenciando um
aumento da violência em todos os espaços. E não falo apenas da violência física
evidente (tiroteios, massacres, sequestros, assassinatos, desaparições forçadas,
balas perdidas). Que existe, e muito, mas a violência não é só isso. Violência é
acordar de madrugada, tomar café ralo, pegar condução lotada, trabalhar o dia
inteiro sem contrato, com salário de miséria e tratos humilhantes, passar outras
duas ou três horas no percurso de volta à casa, despencar de cansaço para
começar tudo de novo depois de escassas horas de sono. Violência é viver em um
barraco minúsculo, limpar apartamento de luxo e ter que entrar pela garagem e
subir no elevador reservado ao serviço e ao lixo. Violência é ser detido pela
polícia, ser humilhado, levar tapa na cara, no melhor dos casos, só por ser negro
e pobre. Violência é não ter emprego nem possibilidade de tê-lo e ser esculachado
por vadio e preguiçoso. Violência é conseguir um emprego depois de muito
batalhar e ser demitida por não querer chupar o patrão. Violência é não ter
direito a uma educação decente e ser desprezada por ignorante. Violência é ver
todo dia na TV as imagens de um mundo de consumo em que ser é a mesma coisa
que ter, e não ter o direito nem de pôr um alimento decente na mesa.
Tudo indica que a violência, tanto a física visível quanto as muitas formas de
violência simbólica e sistêmica, tem aumentado dramaticamente nas últimas
décadas. Isso fica claro, por exemplo, se compararmos a curta-metragem “Couro
de gato”, de Joaquim Pedro de Andrade — uma das cinco curtas do filme Cinco
vezes favela (1962), referência do Cinema Novo — e uma cena similar no romance
Cidade de Deus (1997) de Paulo Lins. Em “Couro de gato”, várias crianças
descem da favela à procura de gatos para vender a um fabricante de tamborins.
Um deles consegue roubar um de um bairro de classe média. Antes de entregá-
lo, senta no alto da favela, com a vista à Baia de Guanabara, para comer o que
parece ser um pedaço de pão. Ele acaricia o gato, ele mia com fome, e o menino
lhe dá um pedacinho, que o gato come da sua mão. Mas, quando está prestes a
terminar o almoço, o gato mia de novo. A criança o olha pensativo, e sua
expressão muda de repente. Seu rosto demonstra raiva, e com raiva come o
último pedaço, ignorando o pedido do gato. Depois o leva ao seu algoz. Na última
cena, a criança desce as escadas do morro, de costas para a câmera, e vemos o
movimento do seu braço à altura do rosto, presumivelmente limpando as
lágrimas.
Três décadas e meia depois, lemos este trecho em Cidade de Deus:
Deram a primeira paulada na orelha esquerda, depois baixaram a
lenha pelo corpo todo. A cabeça ficou perfurada pelos golpes de um
pedaço de pau com um prego na ponta. O olho esquerdo saltou. Os
quatro membros foram quebrados em diversos lugares. Não pararam
enquanto não entenderam como inapelável a morte daquele fugitivo
arisco. (Lins, 2009, p. 104-105)
Ao ler o trecho imaginamos que se trata de um assassínio mais, como os
muitos que se repetem ao longo do romance. Mas não. Trata-se de Busca-Pé —
ou seja, o herói do romance, o menino que não participa no crime e que não adere
aos seus princípios — e seus amigos, matando um gato. Busca-Pé entrega o gato
morto a “Zé Miau”, um homem que vende carne assada de gato na zona do baixo
meretrício, e, depois de receber o dinheiro, as crianças vão brincar alegremente
num parque de diversões.
É óbvio que alguma coisa aconteceu entre uma obra e a outra. Esse aumento
da violência, tão naturalizado, como vemos em Cidade de Deus, é em parte o
resultado de uma polarização da sociedade sem precedentes, não só no Brasil,
mas no mundo. Hoje, os três homens mais ricos do mundo têm mais riqueza que
o PIB total dos 48 países mais pobres. 2 Ao mesmo tempo, uma característica da
fase atual do capitalismo é que está produzindo um excedente humano que não

2 Veja, por exemplo, http://www.worldcentric.org/conscious-living/social-and-economic-injustice


cabe mais no sistema, nem sequer como mão de obra de reserva, devido à
automatização, por um lado, e à espoliação de terras e o deslocamento das
populações rurais, por outro. Trata-se de pessoas que, na lógica do capitalismo
neoliberal, extrativista e neo-extrativista, seria preciso eliminar, porque
simplesmente não têm lugar: gente “descartável”. Este fato reflete-se na
literatura, por exemplo, se compararmos os romances de Jorge Amado, na
primeira metade do século XX, e as de Ferréz, na primeira década do século XXI.
Em Jubiabá (1935), como em outros romances de Jorge Amado, o trabalhador
explorado se redime através da organização e da luta contra essa exploração. Em
Capão Pecado (2000) e em Manual prático do ódio (2003), a condição de
trabalhador explorado é um privilégio e uma aspiração quase inatingível, e a
lembrança de ter tido, em algum momento da vida, um emprego estável, por
mínimo que fosse o salário e por piores que fossem as condições laborais, dilacera
os personagens com a nostalgia de uma dignidade aparentemente irrecuperável.
Ao mesmo tempo, praticamente todo o crescimento demográfico no mundo
acontece agora nas grandes cidades. E 95 por cento desse crescimento acontece
nas cidades do mal-chamado Terceiro Mundo, a grande maioria nas periferias
(Davis, 2007, p. 1-2). Assim, o que temos é um crescimento desenfreado de uma
população “descartável” que não tem lugar no sistema, amontoada em espaços
onde a presença do Estado existe quase sempre na forma exclusiva da repressão.
Aonde vai isso?
A literatura periférica/marginal surge justamente no momento em que esse
processo está no auge, ou seja, no final da década de 1990. No Brasil, é preciso
lembrar que a “democratização” pós-ditadura veio junto com políticas econômicas
neoliberais que polarizaram a sociedade, e de uma democratização simultânea
do acesso às drogas e da proliferação das máfias narcotraficantes. O medo das
classes privilegiadas marcou esse período com a construção de muros físicos e
simbólicos, que Teresa Caldeira (2000) descreveu de forma muito contundente
em Cidade de muros. Foram anos dominados pelo que Gilberto Dimenstein, que
em 1990 publicou A guerra dos meninos: Assassinatos de menores no Brasil,
caracterizou como uma cultura do extermínio. Impossível esquecer o massacre
da Candelária no Rio de Janeiro em 1993, que indignou o mundo, mas que quase
20% da população brasileira aprovou (Scheper-Hughes, 1998, p. 352). Ou o
massacre de Vigário Geral, alguns meses depois. Ou o massacre de Carandiru,
em São Paulo, no qual, segundo cifras oficiais, 111 presos foram assassinados
pela polícia militar.
Este crescente abismo social parece acontecer junto com o que alguns
pensadores, como João Castro de César Rocha (2006), entendem como uma crise
da capacidade mediadora de uma classe média ilustrada que, desde início do
século XX e durante todo o processo de constituição da identidade nacional, tinha
— de forma sem dúvida bem menos harmoniosa do que os discursos sobre a
brasilidade propõem — sintetizado as expressões culturais das elites e do povo,
do “morro” e do “asfalto”. Assim, o discurso sobre o caráter ambíguo, negociador
e não confrontador, jovial, carnavalesco e, no fim das contas, cordial do povo
brasileiro — encarnado na literatura e no cinema na figura do malandro —
parece ter-se fraturado. Nada mais evidente como sintoma dessa fratura que as
expressões espantosamente violentas de racismo e ódio de classe que proliferam
nas redes sociais a partir do “golpe” da direita que instaurou a Temer no poder
em 2016.
Para Rocha (2006), estas mudanças nos obrigam a procurar um novo
paradigma para entender as dinâmicas sociais no Brasil neste século XXI.
Tomando como ponto de partida a “dialética da malandragem” introduzida por
Antonio Candido em seu ensaio sobre o romance Memórias de um sargento de
milícias de Manuel Antônio de Almeida, Rocha propõe a superação parcial desse
modelo e sua substituição pelo que ele chama a “dialética da marginalidade”, “a
qual está principalmente fundada no princípio da superação das desigualdades
sociais através do confronto direto em vez da conciliação, através da exposição
da violência em vez de sua ocultação” (p. 36).
É nesse contexto que surge a literatura periférica ou marginal na segunda
metade da década de 1990, contexto fundamental para entender o sentido mais
profundo desse fenômeno, que eu me atreveria a chamar de movimento literário
e social.
Embora Paulo Lins não concorde com o termo “literatura marginal” e se
recuse a se enquadrar nesse fenômeno (Peçanha, 2009, p. 58-59), podemos dizer
que seu romance Cidade de Deus (1997) foi pioneiro e preparou o caminho para
o interesse mediático, editorial e acadêmico por essa produção literária. Paulo
Lins, originário de Cidade de Deus, periferia do Rio de Janeiro, participou como
assistente de pesquisa da antropóloga Alba Zaluar, num projeto da Universidade
Federal do Rio de Janeiro sobre o crime nas classes populares. Foi a partir dessa
pesquisa que nasceu o romance Cidade de Deus, que em 2002 foi levada à tela
por Fernando Meirelles e Kátia Lund, com roteiro de Bráulio Mantovani, se
tornando um dos maiores sucessos cinematográficos do país. O sucesso
internacional, tanto do filme quanto do romance, catapultou Paulo Lins,
despertando o interesse por uma produção literária até então muito pouco
conhecida e respondendo à famosa pergunta de Gayatri Spivak (pode o
subalterno falar?) com um definitivo “Sim, os favelados escrevem”.
Na mesma época, surgem dois acontecimentos na periferia sul de São Paulo
que transformariam essa produção literária, de acontecimentos pontuais a
verdadeiro movimento literário. Um deles foi o surgimento dos saraus: espaços,
geralmente bares, onde poetas e escritores das periferias compartilham suas
criações perante um público ávido e combativo, também periférico. Em 2001, o
poeta Sérgio Vaz cria a Cooperifa (Cooperativa de Poetas da Periferia), que se
mantém ativo até hoje toda quarta-feira, com um público que chega, às vezes, às
300 pessoas, no bar do Zé Batidão. Em pouco tempo, espaços similares
começaram a surgir em outras periferias de São Paulo e, a partir da segunda
metade dessa década, o fenômeno se estendeu à maioria das cidades do país. São
espaços onde não apenas se compartilha a palavra poética e literária; há
lançamentos de livros, debates, planejamento de ações políticas paraliterárias ou
extraliterárias. Mas, sobretudo, são espaços de dignificação, politização, criação
e fortalecimento de uma coletividade consciente e ativa. Dessa politização e
sentido da coletividade surgem então incontáveis iniciativas editoriais,
educativas, de auto-sustentabilidade, economia solidária e muito mais, com um
eixo em diferentes níveis autonomista. Um grande número de antologias e livros
de autor tem sido publicado a partir dos saraus em todo o país.
O outro grande impulsor dessa produção literária na década de 2000 foi
Ferréz (Reginaldo Ferreira da Silva), originário de Capão Redondo, zona sul de
São Paulo. Em 2000, Ferréz publica seu primeiro romance, Capão Pecado, e em
2003 publica Manual prático do ódio. Ambos romances, sobretudo o segundo,
adquirem grande notoriedade e têm sido traduzidos a várias línguas e publicados
em vários países. Em 2001, Ferréz edita o primeiro de três números especiais da
revista Caros Amigos, intitulados “Literatura marginal: A cultura da periferia”,
e em 2002 e 2004 edita o segundo e o terceiro. Essa publicação deu visibilidade
nacional ao incipiente fenômeno, ao ser veiculado numa revista de esquerda de
classe média de grande divulgação, mas também despertou o reconhecimento por
parte da população periférica, ao se olhar no espelho do olhar dessa classe social
e reconhecer nela a potência da sua própria criatividade. Dessas duas iniciativas
surgiram os dois principais nomes hoje associados a essa produção literária:
“literatura periférica”, vinculado ao movimento dos saraus, e “literatura
marginal”, vinculado às iniciativas de Ferréz.
Seria impossível enumerar aqui todos e todas as escritoras que formam parte
do movimento, ou sequer os de maior projeção, nem os livros que têm sido
publicados e muito menos todos os saraus que têm proliferado no país e as
iniciativas editoriais e outras vinculadas ao movimento. O que acho importante
ressaltar é a imensa diversidade dessa produção, em termos estéticos, temáticos,
de mecanismos de publicação e até mesmo políticos. No entanto, apesar dessa
diversidade, há algumas caraterísticas gerais que podemos apontar.
De início, trata-se, como temos visto, de uma literatura escrita por autores
originários de espaços urbanos marginais ou marginalizados, em particular de
favelas, periferias e prisões (até agora não foi incluída nessa produção a
literatura rural, indígena ou camponesa). Ao mesmo tempo, trata-se de uma
literatura com um forte vínculo a um projeto político que vai além da própria
literatura, ou pelo menos com um compromisso com as condições sociais de
marginalização e opressão das próprias populações que a produzem. Além disso,
a maioria das obras trata de temáticas que geralmente — mas nem sempre —
abordam a realidade desses espaços subalternos. Uma literatura que, como
propõe Rocha, tenta visibilizar a violência, tanto física quanto simbólica e
estrutural, por meio da confrontação e não da negociação e ocultação. Uma
literatura que, ao mesmo tempo em que explicita o abismo que divide as classes
sociais no Brasil, tenta criar pontes entre elas, assumindo um papel de mediação
cultural e social. E uma literatura que desafia as fronteiras tradicionais entre os
gêneros literários, onde romance, conto, memória, autobiografia, crônica,
reportagem, testemunho e etnografia se confundem.
Um número de manifestos tem sido produzido por diversos membros do
movimento; posturas que diferem tanto em sua proposta estética quanto política.
Essa divergência não é problemática ou contraditória, mas reflete a grande
variedade de visões e propostas no interior de um fenômeno que não é fechado
nem tem um programa específico ao qual todos os seus participantes aderem. Os
de maior impacto são o “Manifesto da Literatura Marginal” ou “Terrorismo
Literário” de Ferréz (2005), que abre a antologia Literatura marginal: Talentos
da escrita periférica, e o “Manifesto da Antropofagia Periférica” de Sérgio Vaz,
divulgado na Semana de Arte Moderna da Periferia, organizada pelo poeta em
2007 (também em alusão à Semana de Arte Moderna de 1922).
Mas eu gostaria de examinar brevemente aqui outro texto que acho que
contribui com uma visão de grande relevância: “Manifestação da Literatura
Divergente” ou “Manifesto Encruzilhador de Caminhos”, do poeta Nelson Maca
(2012) de Salvador, Bahia.
Eu acho que a proposta do que Maca chama de literatura divergente é
inconscientemente zapatista, ao enfatizar a politização da diferença. Como
diriam os zapatistas: Criar um mundo onde caibam muitos mundos. Trata-se de
uma proposta de forma alguma similar à tolerância da diferença do pensamento
progressista. Aqui a questão não é tolerar, mas enfatizar a divergência em vários
sentidos. Primeiro, a divergência do canônico e do hegemônico. Para Maca, a
verdadeira potência transformadora se encontra fora do centro: embaixo, nas
margens, do lado de fora (“do lado do coração”, diriam os zapatistas: embaixo e à
esquerda). A literatura divergente se coloca, assim, em primeiro lugar, como
divergente — e em oposição — ao hegemônico. Mas também divergente entre si,
pois reconhece que existem muitas formas de divergir. Portanto, a literatura
negra, carcerária, LGBT, periférica, indígena, etc., são todas formas de
divergência do canônico, que por sua vez diferem umas das outras, mas que
convergem justamente por seu caráter divergente. Ao mesmo tempo, não por ser
negra, carcerária, indígena, etc., a literatura é necessariamente divergente; o
que caracteriza a literatura divergente é seu caráter contestatário: das normas
canônicas, das estruturas de poder implícitas no campo literário (Bourdieu,
1989), das representações a partir de olhares hegemônicos. Assim, a proposta de
Maca abrangeria a literatura periférica (que diz respeito especificamente à
literatura produzida por membros das periferias) e a literatura marginal (que
incluiria também a carcerária e a de outros espaços marginais), mas também
outras literaturas não canônicas. Neste sentido, a proposta da literatura
divergente tem mais ressonância, por exemplo, entre os escritores do “bairro
bravo” de Tepito, na cidade do México, que produzem uma literatura muito
semelhante à que temos comentado aqui, mas que não se consideram marginais
nem periféricos (Tepito fica no centro geográfico, mas também cultural, da
“cidade monstro”).
Mas, voltemos à pergunta: A literatura periférica, marginal ou divergente é
uma alternativa para o nosso mundo?
Alguns elementos nos levariam a responder afirmativamente. Por um lado,
as transformações necessárias só podem acontecer por meio de uma profunda
mudança epistêmica; ou seja, como entendemos o mundo, a sociedade e as nossas
relações com os outros e com o meio ambiente. Questionar e desafiar o sistema
de valores imposto por um capitalismo voraz que nos está destruindo como
humanidade. E esse é, justamente, o campo onde essa literatura age,
estimulando uma profunda reflexão sobre as causas estruturais da violência, da
pobreza e da marginalização. Isso por meio da criação literária, que trata de
temáticas como a violência não só em seus aspectos mais visíveis, mas em suas
manifestações mais ocultas, mas não menos perversas, como elemento
subjacente e constitutivo de um sistema que se alimenta dessa violência, do medo
e da resultante fragmentação social. Mas também por meio de atividades
extraliterárias, como as muitas iniciativas educativas e de formação política
vinculadas ao movimento.
A função descolonizadora da literatura periférica/marginal acontece não só
no campo epistêmico, mas também no linguístico. Desde a Colônia, a gramática
e a língua têm funcionado na América Latina como mecanismos de exclusão e
dominação. A imposição de uma gramática normativa, a dita “norma culta”, que
não descreve de fato nenhuma forma viva da fala e que discrimina e marginaliza
toda forma popular de expressão, caracterizando-a de “incorreta” e resultado da
ignorância, é indissociável de um sistema educativo que apresenta imensas
dificuldades para as populações excluídas para aceder a essa norma, como vemos
na “istória pa tiatru” de Allan da Rosa (2006), Filomena da Cabula. Os autores
da literatura periférica/marginal enfrentam essa dimensão excludente da língua
normativa e a desafiam, a descolonizando, ao contaminar a normatividade da
escrita com a oralidade das ruas e a organicidade do vernáculo popular, a
impregnando, assim, de uma pluralidade de significados dificilmente
expressáveis numa língua canônica.
Ao mesmo tempo, essa literatura, como mencionamos acima, tem uma função
mediadora, com uma linguagem que se desloca de um lado a outro, e que num
momento se dirige à população periférica e em outro às classes privilegiadas,
numa tentativa por criar pontes ou rachar os muros que dividem a sociedade.
Quebrar as barreiras do ódio, do medo e da intolerância é requisito fundamental
para construir uma alternativa viável para o nosso mundo.
Nisso tudo, é fundamental resgatar o sentido de coletividade, tão ameaçado
pelo individualismo e a fragmentação capitalista. A literatura periférica,
marginal ou divergente não pode ser pensada sem sua dimensão coletiva. Ela é
coletiva porque é compartilhada em espaços como os saraus, onde o ato solitário
de escrever se transforma em coletividade solidária na hora de declamar, ler,
escutar e compartilhar. Ela é coletiva também no momento da criação de
antologias que se multiplicam por todo o país. Mas ela é coletiva também em si
mesma: apesar de os livros serem geralmente escritos de forma individual e
assinados com o nome do autor (ou seja, observam as normas editoriais, que
concebem as obras como de autoria individual), na grande maioria o autor fala
em nome de uma coletividade. Ou seja, há aqui um “nós” implícito, ao qual o
autor individual dá voz. A literatura periférica/marginal não pode ser lida de
outra forma, e essa é talvez uma das suas principais características.
Finalmente, é importante ressaltar o papel da memória, pois a memória é o
que nos permite vislumbrar o futuro, como bem sabem os povos originários, que
caminham pra frente olhando pra trás.
Quando, há pouco menos de dois meses, o EZLN nomeou Comandante o
nonagenário Pablo González Casanova — um dos maiores intelectuais do
México, ex-reitor da UNAM e agora o primeiro mestiço a formar parte do Comité
Clandestino Revolucionário Indígena, Comandância Geral do EZLN — o
Subcomandante Galeano (2018) explicou que a nomeação faz parte da formação
de um novo exército insurgente: “Um exército com o cabelo grisalho, ou sem
cabelo, em cadeira de rodas ou com bengalas ou muletas, que não escuta bem,
que não enxerga bem, cujas mãos tremem, mas não de medo, e sim de
impaciência”; um exército que “não trará armas de fogo nem bombas… mas algo
mais mortífero, mais letal e mais poderoso: Memória e História”. A nomeação
aconteceu durante o encontro que mencionei no início destas palavras, no qual
escutamos histórias brutais, termômetro do que nos acontece no país e no mundo:
dezenas de milhares de desaparecidos, centenas de milhares de assassinados,
feminicídios, sequestros, grupos armados por todos os lados, soberania da
impunidade e um Estado indistinguível do crime organizado. Perante isso, a
Memória. Porque, como disse o Subcomandante, “Quando concebemos o
horizonte, não estamos sonhando; estamos lembrando”.
A maioria das obras da literatura periférica/marginal explora a memória de
muitas formas. A memória como arquivo histórico, como registro de um mundo
que está sendo destruído pela maquinaria da globalização homogeneizante, como
forma de salvar das ruínas do progresso as formas de convivência e o sentido de
ser desses territórios. Mas também como forma de reconstruir o presente e
reelaborar o sujeito, tanto individual quanto coletivo. Nos bairros e periferias
marginados, a narração — e a (re)invenção — da memória é um ato político, um
ato de resistência perante a invisibilização provocada tanto pela destruição física
de espaços e formas de convivência, quanto pelos discursos hegemônicos, que
limitam a representação dessas populações — majoritárias — a um exotismo
sensacionalista e a estereótipos que, muitas vezes, os criminalizam. Ao mesmo
tempo, é um processo de ressignificação — e redignificação — das experiências
traumáticas próprias de quem cresce nesses espaços, que permite transformá-
las em potência, resistência e re-existência.
Eu gostaria de concluir lembrando as palavras do Subcomandante Galeano
(2018) no penúltimo dia do encontro referido aqui. No seu discurso, o
Subcomandante conta a história de como o EZLN se transformou, de um exército
rebelde que se preparou para a guerra, num grande coletivo de povos organizados
para criar alternativas de vida. As probabilidades de que acontecesse o que
aconteceu, disse o Subcomandante, eram quase nulas. Agora, perante o colapso
mundial que vislumbramos no horizonte, é possível uma mudança de rumo? É
possível semear sementes de vida capazes de renascer entre os escombros de um
mundo que está chegando ao fim? O único que posso garantir, disse o
Subcomandante, é que é quase impossível. Mas os que sofrem a brutalidade do
sistema e a resistem e tentam re-existir, a qualquer preço
nos dizem, nos ensinam, nos esbofeteiam que é preciso se aferrar a
essa milionésima cifra de probabilidade. (…) E sim, as probabilidades
são mínimas, mas talvez se abrirão então os túmulos, e os mortos
voltarão a caminhar, e os desaparecidos aparecerão. (…) Com certeza
virão tempos muito difíceis (…) e nós lhes dizemos claramente: vai
piorar. Mas o que chamam de apocalipse não é o fim do mundo, é o fim
de um sistema: o fim da hegemonia, da homogeneidade, da liderança,
do caudilhismo, dos governos e, o dizemos sem nuanças: o fim do
Estado. E o responsável pelas nossas dores terá de pagar. E será
preciso começar de novo, de baixo pra cima, procurando a vida. E isso
que eu lhes digo não é uma profecia: é uma promessa.

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