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Cadernos de Estudos Leirienses – 2

A Terceira Invasão Francesa


no norte do Distrito de Leiria
Miguel Portela*

Nos últimos anos, têm sido editados diversos estudos sobre as Invasões
Francesas na região norte do distrito de Leiria, bem como em zonas de con-
fluência com esse território, particularmente em relação às freguesias que
compõem a diocese de Coimbra.1
Pela natureza das próprias fontes, contam-se em maior número os estu-
dos na vertente militar, diplomática e sociopolítica, sendo ainda diminutos os
estudos acerca dos impactos materiais e humanos. Os sofrimentos impostos
às populações têm sido menos estudados, mas não deixaram de merecer a
atenção de alguns historiadores, de que são exemplo os contributos trazidos
por Mário Rui Rodrigues2, Joaquim Eusébio3 ou recentemente por Manuel
Augusto Dias4. Contudo, uma coisa é o estado do conhecimento destes im-
pactos, tal como a historiografia o situa, outra, bem diversa, por vezes, é a
realidade que lhe está subjacente e que permanece desconhecida nas es-

* Investigador
1
Sobre este ponto, veja-se, por exemplo, o que sucedeu em terras como Leiria nos estudos de
AZEVEDO, Ricardo Charters d’, As destruições provocadas pelas Invasões Francesas em Leiria,
CEPAE/Folheto, Leiria, 2009; FERNANDES, Carlos, Invasões Francesas. Leiria, 5 de Março de 1811:
O incêndio da cidade – 200 anos, Organização, selecção de textos e notas introdutórias de Carlos
Fernandes, Textiverso, 2011; ESTRELA, Jorge, Leiria no tempo das invasões francesas, Gradiva,
Lisboa, 2009. Observe-se, ainda, os estudos relativos à região de Coimbra, Lousã e Pombal: SECO,
Ana Filipa Rodrigues, O combate de Foz de Arouce (1811): evocação histórica, Coimbra: Faculdade
de Letras, 2009 (Relatório de Mestrado policopiado). LOPES, Maria Antónia, “Sofrimentos das popu-
lações na terceira invasão francesa. De Gouveia a Pombal, O Exército Português e as Comemora-
ções dos 200 Anos da Guerra Peninsular, Exército Português/Tribuna da História, Lisboa/Parede,
2011, vol. III, pp. 299-323.
2
RODRIGUES, Mário Rui Simões, “Alvaiázere nas Invasões Francesas”, Viagens pela História de
Alvaiázere, Câmara Municipal de Alvaiázere, 2006, pp. 367-418.
3
EUSÉBIO, Joaquim, “As invasões Francesas”, Pombal – 8 Séculos de História, Câmara Municipal
de Pombal, 1997, pp. 154-164.
4
DIAS, Manuel Augusto, “O impacto das invasões napoleónicas no norte do distrito de Leiria”, Cader-
nos de Estudos Leirienses-1, Editor: FERNANDES, Carlos,Textiverso, Maio – 2014.

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tantes dos arquivos. Talvez, em virtude de um menor interesse por questões


presumivelmente secundárias e às quais a dimensão e escala dos grandes
acontecimentos não reserva lugar.
Recorrendo a alguns documentos do acervo documental relativos às Inva-
sões Francesas na diocese de Coimbra – coleção organizada pelo Coronel
Belisário Pimenta, e que hoje se conserva no Arquivo da Universidade dessa
cidade, e que serviu de base a este estudo –, conseguimos recolher elementos
que nos permitem revisitar a região setentrional do norte do distrito de Leiria,
num período que escasseava de informação escrita. Certamente, muitas sur-
presas ainda estarão para surgir aos investigadores, podendo essas fontes pri-
márias aí depositadas contribuir de forma decisiva para se aprofundar e conhe-
cer com maior rigor um período tão marcante como quanto este foi.

As Invasões Francesas no Arciprestado de Arega

O governador de Coimbra, a 8 de Julho de 1808, havia feito uma procla-


mação aos Portugueses condenando veementemente todos os atos cruéis,
roubos, abusos, danos praticados até então pelos franceses, apelando patrio-
ticamente à mobilização de todos quantos se queriam libertar destes “Mons-
tros”. Afirmava ele: “(…) correi ás armas Portuguezes, conservai a honra, a
fidelidade, e o patriotismo, que os vossos maiores vos transmittírão como
herança: mostrai que sois descendentes d’aquelles, cujo valor fez tremer em
outro tempo maior Imperio do Universo: A causa he nossa, he da Religião, he
da Patria; a victoria he certa; e a gloria será immortal.” (DISCURSO, 1808: 3-
4. RODRIGUES, 2006: 367-418).
Pouco depois, o prior da igreja de Alvaiázere, Doutor Dionísio Miguel
Leitão Coutinho, freire conventual da Ordem de Cristo, fazia na estação da
missa, a 24 de Julho desse ano, um expressivo e persuasivo discurso aos
seus paroquianos no qual incluiu aquela proclamação. No fim do discurso,
narra a fonte que seguimos, “se repicárão os sinos, seguindo-se depois as
préces, e missa, que se continuárão por cinco dias.” Este prior de Alvaiázere
deu de donativo ao Governo de Coimbra 100$000 réis, afirmando ele que
seria maior a sua dádiva se não estivesse pagando nesse momento “o anno
de morto do seu benefício”.
Em 1809, o Doutor Francisco Soares Franco, lente de Medicina da Uni-
versidade de Coimbra, ao escrever a “Memória em que se Examina qual se-
ria o Estado de Portugal se, por Desgraça, os Franceses Chegassem a Do-

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Pormenor da Região Setentrional do Norte do Distrito de Leiria em 1705

minar”, antevia trágicos acontecimentos para os anos que se abeiravam, tan-


to para o comércio, como para a indústria e a agricultura, chamando a aten-
ção, numa visão mais ampla, para as alterações dos aspetos sociais, em
particular na Nobreza e no Clero, que adviriam da rejeição da “protecção à
francesa”. Advertia, este lente, na sua Memória: “Olhem para o que se faz em
França e em Nápoles (…) todos os conventos se extinguiram (…) os eclesi-
ásticos de ambas as ordens deveriam reputar-se perdidos.” Estas palavras
viriam a ser percebidas anos mais tarde, concretamente em 1834, com a
extinção das ordens religiosas patrocinada por Joaquim António de Aguiar
(CRISTÓVÃO, 2008: 495-509).
Foi na terceira invasão que os franceses se confrontaram, no território
do Arciprestado de Arega, mais especificamente no lugar de Rego da Murta,
a 30 de Novembro de 1810, onde interveio o Regimento de Cavalaria 11, com
48 praças, comandados pelo Alferes António Maria, e, de novo, a 4 de De-
zembro, onde batalhou o mesmo regimento e número de praças, agora co-
mandados pelo Tenente Barredo (INVASÕES, 1808-1814).

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Em Março de 1811, os franceses iniciaram a sua retirada. Desespera-


dos pela fome, cometeram as maiores atrocidades contra a população, a quem
roubavam, torturavam ou matavam, à medida que se deslocavam pelas di-
versas freguesias deste território. Todavia, “junto a Cabaços houve hum ata-
que mais forte: o combate durou tempo, e o inimigo teve de retirar-se em
vergonhosa fuga, perdendo 700 prizioneiros, além de 200 a 300 homens
mortos, ou feridos. A rapidez da sua retirada faz com que não levem forra-
gens algumas para os cavallos, e sómente algum biscoito para os soldados,
sem provisões algumas mais.”
Logo após os franceses se terem retirado, foi determinado aos párocos
das diversas freguesias que elaborassem relatórios sobre os danos
patrimoniais, prejuízos, mortes, etc., tendo em vista poder-se avaliar o estado
em que havia ficado a diocese de Coimbra.
O arcipreste de Arega, Padre Tomás José Lopes, em 17 de Maio de
1811, recolheu as informações dos párocos das 21 freguesias que formavam
esse arciprestado, das quais extraímos alguns relatos pertencentes às fre-
guesias mais setentrionais do distrito de Leiria. Este pároco menciona que no
arciprestado pereceram às mãos do inimigo 578 paroquianos: 468 homens e
110 mulheres (INVASÕES, 1811, doc. 21).

Chão de Couce (c. Ansião)

Nesta freguesia, por exemplo, pereceram às mãos dos franceses 53


fregueses homens e apenas uma mulher, com mais de 50 anos, não tendo
sido morto nenhum eclesiástico. Todavia, os estragos e prejuízos neste terri-
tório foram elevados. Para além dos roubos de animais, bens alimentares,
dinheiros, roupas, profanaram a igreja matriz e capelas da freguesia, sendo
que na matriz “fizerão curral de gado” e “queimarão lhe huã grande parte de
solho, ou estrados, hum confecionario: hum esquife; e outros mais trastes de
madeira.” Destruirão parte da urna do Altar-mor, tendo sido levados a quase
totalidade dos paramentos, mormente pontificais, alvas, amitos, cordões, e
toda a roupa branca, incluindo o vaso sagrado e uma cruz de prata, cujo
prejuízo, como se afirmava, “se não recupera com hum conto de reis.”
Nas capelas da Serra do Mouro e do Casal do Soeiro quebraram as
imagens dos santos, e nas restantes três capelas da freguesia “destruirão, e
levarão seus paramentos, e ornatos, e hum caliz de prata, e quebrarão todas
as pedras de ara.”

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Aguda (c. Figueiró dos Vinhos)

Esta freguesia foi assolada pelas mãos do inimigo das mais diversas
formas, tendo os franceses morto 15 paroquianos, 12 homens e três mulhe-
res, e queimado, aquando da retirada, “as casas do capitam mór do destricto
em que derão de prejuizo, pelo pouco, dez mil cruzados.”
Por toda a paróquia ocorreram saques e se arruinaram edifícios religiosos,
tendo a soldadesca napoleónica destruído e saqueado particularmente a igreja
matriz onde roubaram parte dos ornatos e paramentos, nomeadamente três
pontificais, duas capas, uma umbela, cortinados, pálio, entre outras coisas. To-
davia, “salvarão se porem os vazos sagrados, e mais prata da igreja.”
Algumas capelas desta freguesia foram tratadas do mesmo modo, sen-
do que, na capela de S. Pedro, “ofenderão a imagem do dito santo, e destrui-
rão huã casula com sua respectiva alva, amicto, e cordão, sendo a casula de
damasco de lam ja uzada bastantemente, e arruinarão parte do retábulo; e
quebrarão a pedra de ara. Na capela de S. Simão da mesma freguesia fizerão
hum igual estrago, com algua offensa tão bem da imagem.”

Avelar (c. Ansião)

Nesta freguesia, por seu turno, foram contabilizados 22 mortos entre a


população, 14 homens e oito mulheres, tendo o inimigo degolado o eclesiástico
António Lopes, de 37 anos de idade, o qual era capelão de domingos e dias
santos de “huma freguesia vezinha”. As tropas de Napoleão, para além de te-
rem roubado bens essenciais e queimado dois lagares de azeite à população,
perpetraram danos significativos nos edifícios religiosos, tanto em destruição
como em roubos. Atente-se na descrição do respetivo pároco sobre este ponto:
“Levarão huã cruz grande de prata chamada a do povo, a custódia, o vazo
ahonde estava o sanctissimo no sacrario; hum caliz, e o relicario tudo de prata,
que se achava em hum caixão enterrado em huã sepultura da igreja. Queima-
rão quatro vestimentas de todas as cores com seus ornatos competentes; dois
pontificais, hum branco, e outro rouxo; doze frontais, e seis cortinas; as campas
das sepulturas, e grades da pia baptismal, e tão bem queimarão em parte a
imagem do Divino Espirito Santo, quebrarão tres pedras de ara e sacrario, e
parte da tribuna; e demolirão o altar mór, e os dois collaterais. Finalmente que-
brarão duas lampadas, e huã cruz com o senhor crucificado. Arbitrase o perjuizo
desta Igreja no milhor de quatro mil cruzados.”

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Em relação à capela de Nossa Senhora da Guia, desta freguesia, demo-


liram o altar-mor, e “quebrarão as pedras de ara dos tres altares, que ali ha-
via, lacerarão hum bom pontifical, que á pouco custara cento, e quarenta, e
hum mil e duzentos réis.” Roubarão ainda a “ coroa da Senhora, dinheiro,
cordois, anel, e outras alfaias, que tudo valia oitocentos e cincoenta mil réis.”
Nas capelas de S. Roque e de Santo António destruiram todos os seus orna-
mentos e levaram um cálice de prata.
A 13 de Julho de 1801 havia o vigário colado desta igreja do Avelar,
José Joaquim de Macedo, pedido licença de bênção para os altares colaterais
da capela de Nossa Senhora da Guia, para assim se poder dizer missa no
primeiro domingo de Setembro (CABIDO, 1801: 1).

Figueiró dos Vinhos

Nesta vila, entretanto, os franceses tinham deixado um rasto de destrui-


ção, contando-se 14 mortos entre a população, 10 homens e quatro mulheres,
sem que no entanto tivessem incendiado habitações ou quaisquer edifícios.
Na igreja matriz desta vila, perpetrou o inimigo: “fogueiras, metterão nella
gados, cavallos, e bois, e nella tãobém os matarão, para comerém”, tendo
roubado, destruído e queimado muitos paramentos, ornamentos e peças de
prata. Para além de terem queimado o guarda-vento, os confessionários, os
bancos, a cadeira paroquial, três colunas do altar-mor, partiram as seis pe-
dras de ara dos altares, rasgaram e desfizeram em bocados um quadro que
fazia de fundo a um altar colateral. Destruíram os órgãos, ascendendo o pre-
juízo causado a 800 mil réis. Diz, ainda neste documento, que os franceses:
“Roubarão hum caliz da capella da Senhora de França, que pezava dois
marcos, onze mil, e duzentos réis. Queimarão as imagens de S. Pedro, S.
Paulo, Santo António, de Santo Antão, e de S. Pantalião, em que derão de
prejuizo secenta, e oito mil, oitocentos réis. Destruirão huã banqueta de esta-
nho, de Nossa Senhora, que valia quatorze mil réis, e outra dita do Espírito
Santo, que tinha o mesmo valor: em caixois da sacristia e das irmandades,
alfaias, e paramentos mais ordinários, queimados, e inutilizados cauzarão de
danno duzentos mil réis.”
No que respeita à Irmandade do Santíssimo desta igreja, a relação do
pároco informa o seguinte: “Queimarão as grades, que fechavam a capella, e
que valião quarenta mil réis: levarão e destruirão as cortinas de seda, que
tapavão a mesma capella, seu valor, vinte e hum mil réis: dois frontais de

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Interior da Igreja Matriz de Figueiró dos Vinhos

seda do seu altar, seu valor vinte e oito mil, e oitocentos: huã banqueta nova
de estanho, seu valor vinte e dois mil réis: huã umbella, seu valor, quinze mil
réis: as cortinas da boca do sacrario, seu valor, seis mil, e quatrocentos réis:
hum frontal mais rico para as solemnidades, seu valor, dezanove mil e du-
zentos réis.” Levaram também um paramento em tela de ouro, com casula,
dalmática, véu de ombros, bolsa e véu do cálice, capa de asperges e pálio
que “tudo havia custado, há quatro annos, hum conto de réis, e o estrago, que
sofreo, não se repara com seiscentos mil réis”, tendo ainda queimado uma
eça com baetas e galões, uma tumba e um esquife.
Só em 1816, a Irmandade do Santíssimo de Figueiró dos Vinhos manda-
ria efetuar o conserto de alguns paramentos, registando-se nas respetivas
despesas que se: “Dispendeo em Lisboa com o terno e palio rico com o con-
certo da destruição que lhe fizerão os Franceses, trezentos e secenta e seis
mil, quatrocentos e secenta e dois réis” (IRMANDADE, 1798-1817: 84).
Nos limites desta vila e no que respeita à Irmandade da Capela de Nossa
Senhora dos Remédios, os invasores roubaram “huã coroa, e resplendor de
prata, que tudo tinha de pezo hum marco, seu valor, cinco mil, e seiscentos réis;
huns brincos, e adereço da ditta Senhora que pezava dez outavos, seu valor,
quatorze mil réis; huã lampada de prata, que pezava nove marcos, seu valor,
quarenta mil, e quatrocentos reis: hum caliz de prata, que pezava dois marcos,
seu valor, onze mil, e duzentos.” Roubaram ainda paramentarias diversas, no-

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meadamente um frontal, alvas e toalhas, vestes de baeta, um pano de bélbute


do esquife, tendo ainda quebrado uma pedra de ara, e queimado umas portas e
mais trastes de madeira, tudo avaliado em mais de 72 mil réis.
Em relação à Misericórdia de Figueiró dos Vinhos, apenas se indica que:
“(…) profanarão, e destruirão algumas imagens, e em paramentos, os orna-
tos, e mais trastes, pertencentes á capella da ditta caza, fizeram prejuizo, que
se não recupera com menos de trezentos mil réis.”
Sabemos também que o Mosteiro de Santa Clara e o Convento de Nos-
sa Senhora do Carmo foram profanados e roubados. No entanto, não conse-
guimos prova documental com a descrição dos factos, sendo que a 17 de
Maio de 1881 o vigário de Maçãs de Dona Maria, Tomás José Lopes, que
escreve o relatório dos estragos do Arciprestado de Arega, apenas nos dá a
indicação de que “Vão avulsas duas relações pertencentes aos dous mostei-
ros da villa de Figueiró dos Vinhos.”

Vila Facaia (c. Pedrógão Grande)

Depois de os soldados franceses terem saqueado Figueiró dos Vinhos,


prosseguiram rumo aos lugares vizinhos deste concelho. Tomaram de assal-
to Vila Facaia, tendo nesta povoação morto três homens de forma violenta
(um a tiro, outro a baioneta e outro mutilado e queimado). Para além de terem
incendiado uma casa: “Quebrarão e destruirão tres imagens de Nossa Se-
nhora, outra de Santissima Trindade, e mais tres, huã de S. Sebastião, a
segunda de S. João, e a terceira de Santa Cattarina, e tao bem quatro pedras
de ara. Incendiarão dois sacrarios, e quebrarão outro: hum retabulo de sa-
cristia: tres armários: tres confecionarios: dois bancos de encosto: quatro
taburnos, e a cadeira parochial, tudo foi tão bem incemdiado. Quebraão vi-
draças: levarão duas capas de asperges: duas casulas: huã alva: seis toa-
lhas: dois cálices de prata com quatro veos dos mesmos, e fenalmente quatros
mezas de corporais.”

Graça (c. Pedrógão Grande)

Prosseguiram os franceses até à freguesia da Graça, onde os relatos


indicam que roubaram: “dois calices e hum relicário, tudo de prata, levou a
cera, e destruio ornamentos, e trastes de madeira que se julga haverem im-
portado em cincoenta e nove mil réis. Na capella da Senhora da Encarnação

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destruirão alguns ornamentos e trastes, que valião de mil réis. Da capella da


Senhora da Conceição levarão hum caliz tão bem de prata da capella da
Senhora do Bôttos, e alem deste danno derão de prejuizo nos seus ornamen-
tos vinte, e quatro mil réis.”
A narração dos acontecimentos indica que foram mortos sete homens e três
mulheres das mais diversas formas, tendo sido incendiada uma morada de casas.

Pedrógão Grande

Marcharam os invasores, depois, rumo a Pedrógão Grande onde, ape-


sar de não terem provocado incêndios, deixaram um rasto de mortandade,
tendo assassinado 14 homens a tiro e a baioneta e duas mulheres com pan-
cadas. Na Igreja Matriz desta vila: “queimarão tres sacrários, tudo do altar
mór e mais tres colaterais com suas banquetas; tres imagens com suas cru-
zes, gavetas dos caixois da sacristia e confecionarios: defumarão toda a igre-
ja fazendo nella cinco fogueiras: quebrarão huã imagem de S. Sebastião;
telhados da igreja e sacristia; donde roubarão duas casullas, huã alva com
seu arnicto e cordão e hum caliz com a capa de prata, hum pendão de da-
masco, hum frontal de damasco de ouro, hum paramento encarnado da con-
fraria do Senhor; que o thezoureiro, se dis mal acondicionara com várias ves-

Interior da Igreja Matriz de Pedrógão Grande em 1909

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tes e cera, cuja perda se não recupera com oitocentos mil réis.” Na Misericór-
dia “fizerão cavallarice, quebrarão grades, queimarão caixois, estragarão os
paramentos; muitos habitos, e tumba com hum pano de veludo; queimarão
portas, arruinarão telhados, e roubarao outras couzas que se não recupera
tudo com quinhentos mil réis.” Junto à vila e na capela do Calvário “queima-
rão duas ricas imagens do Senhor dos Paços, a quem levarão tão bem o
resplendor, e da Senhora das Dores, arrancarão os braços de hum crucifixo,
e queimarão o altar e parte da tribuna: prejuizo de quinhentos mil réis.” Igual
destino teve a de S. Sebastião onde “quebrarão a imagem e queimarão a
porta; e na da Senhora dos Milagres queimarão tudo ficando só as paredes.”5

Castanheira de Pera

Nesta freguesia, mau grado não haver registo de quaisquer incêndios


em edifícios ou habitações, foram mortos a tiro pelos franceses cinco ho-
mens e uma mulher, tendo sido roubados: “hum caliz, e huã patena, tudo de
prata da capella de Santo António do Troviscal.”6 Para além do roubo de
objectos de prata nesta freguesia os franceses, citamos: “Metterão gados na
capella de Nossa Senhora do Bom Sucesso do Monte. Fizerão cavallarice da
capella de S. Pedro das Sarzedas: cujas capellas se achão todas dentro dos
limites desta freguesia.”

Coentral (c. Castanheira de Pera)

Nesta freguesia, a informação recolhida pelo pároco dá-nos conta da


inexistência de mortes causadas pela passagem dos franceses, não tendo
sido incendiados quaisquer edifícios ou habitações. Refira-se, todavia, que:
“Foi esta freguesia a que menos padeceo em todo o Arciprestado”. Confirma-
va-se, no entanto, que os franceses roubaram: “hum caliz com sua patena,
tudo de prata de huã capella com o titulo de Santo António da Serra da Neve.”7
5
A capela de S. Sebastião havia sido dedicada a 11 de Março de 1712, no sítio onde existia uma
outra antiga que havia ficado arruinada de acordo com um auto que os moradores de Pedrógão
Grande haviam feito nesse ano, os quais se obrigavam a fazê-la de novo (CABIDO, 1712: 1-17).
6
Esta capela foi mandada erigir a 21 de Junho de 1760, pelo Reverendo Manuel Rodrigues de Abreu,
junto à quinta do Bom Sucesso, utilizando materiais da antiga que fora destruída por se encontrar
num sítio muito pantanoso (CABIDO, 1760: 1-38).
7
Anote-se, a propósito, que a capela de invocação de Santo António no lugar e freguesia do Coentral

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Leirienses –2

Prejuízos monetários causados pelos franceses aos paroquianos


Total do
Pratas, dinheiro, adereços, jóias, roupas, ornatos, trastes,
Freguesia prejuízo
outras preciosidades e alfaias
(réis/cruzados)
Chão de Em roupas, trastes, e ornatos de caza, e outras preciozidades 11.000$000
Couce calculase, que damnificarão onze contos de reis pelo menos.
Em dinheiro, ornatos, e joias de mulheres julgase levarem 2.920$000
seiscentos, e vinte mil réis; e em roupas, trastes, e ornatos de
Aguda
caza, e outras preciozidades não derão de prejuizo menos de
vinte, e dois contos, e trezentos mil réis.
Em roupas finalmente, e preciozidades destruirão sem duvida, e 4.000 cruzados
Avelar roubarão entrando os ornatos, e trastes de cazas, asima de
quatro mil cruzados.
Em dinheiro de particulares, e pratas levarão dois contos e 82.300$000
trezentos mil réis, cujo damno todo faz a soma salvo erro de
trinta, e nove contos, quatrocentos, e trinta, e seis mil réis. Mais
Figueiró
calculase que roubarão e destruirão de roupas, ornatos de
dos Vinhos
cazas, alfaias e outras preciosidades o valor de oitenta contos de
réis, não obstante tendo-se acautelado, enterrandose
entaipandose e trãsportadose para lugares distantes.
Em dinheiros particulares, roupas preciozidades trates, e ornatos 4.546$000
de cazas houve de perda nesta freguesia quatro contos
Vila Facaia
quinhentos quarenta, e seis mil novecentos, e cincoenta reis, por
arbitrio percedente.
Em dinheiros, joias de ouro e prata, roupas trates, ornatos de 2.800$000
Graça caza, e mais preciozidades emporta a perda em dois contos, e
oitocentos mil réis.
Em cordois de ouro, brincos, dinheiro, moeda, roupas teadas de 400.000
Pedrógão pano, e de saragoças, e com ornatos e trates de cazas cruzados
Grande queimadas, e destruidas, computase a perda em quatrocentos
mil cruzados.
Em dinheiro de particulares roubarão cento, e trinta mil réis, e 130$000
Castanheira arbitra-se prudentemente que o mesmo Inimigo em roupas, mais 33.000
de Pera preciozidades, trastes, e ornatos de cazas destruio, e levou o cruzados
milhor de trinta, e tres mil cruzados.
Coentral Em perda de roupas, ornatos e preciozidades seiscentos mil reis 600$000

Para além dos roubos e saques que a impetuosidade dos franceses cau-
sou nos edifícios religiosos, há que acentuar que todas as freguesias sofreram
elevados prejuízos, sendo que, citamos uma vez mais a informação paroquial
que vimos seguindo e que se resume no quadro que apresentamos a seguir:

foi mandada erigir pelo Capitão Julião Pereira de Castro, tendo sido obtida licença em Maio de 1778
e solicitada permissão para se celebrar missa em Novembro de 1794 (CABIDO, 1794: 1-58).

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Cadernos de Estudos Leirienses – 2

Freguesia Extrato dos danos causados pelos invasores (INVASÕES, 1811, doc. 21)
Arbitrase prudentemente que o inimigo roubou nesta freguesia mil settecentos, e cincoenta
alqueires de trigo: de milho seis mil alqueires: de sevada quatrocentos alqueires: de rabeira
cem moios: de feijois mil alqueires: e trezentos alqueires de favas e legumes: duzentos
Chão de
almudes de vinho: de azeite mil, e duzentos alqueires. Em carnes de porco salgada
Couce
quatrocentas arrobas: porcos vivos quatrocentas cabeças: gado miudo de lam e cabelo
secenta e hum moios: dezanove juntas de bois, e vacas: duas bestas maiores, e doze
menores
Milho, trigo, e sevada cento, e vinte moios: de legumes cinco moios: de vinho duzentos
almudes: de azeite novecentos alqueires: em carnes de porco quatrocentas, e vinte e cinco
Aguda arrobas: em porcos vivos duzentos, e oitenta cabeças: em gado miudo de lam, e cabelo,
seis mil, oitocentas e noventa, e oito cabeças: juntas de bois dexaseis: e tres bestas
maiores, e quarenta, e cinco menores.
Dois mil, oitocentos alqueires de milho: quatrocentos, e cincoenta alqueires de trigo: cento
e secenta alqueires de cevada: noventa alqueires de legumes, e grãos de toda a qualidade
Avelar cento e quarenta alqueires de azeite: duzentos e cincoenta almudes de vinho: duas mil
cabeças de gado miúdo: vinte bois: vinte e tres cavalgaduras menores e huã maior: de
carne de porco trezentas arrobas; e oitocentas galinhas.
Quatorze juntas de bois tirou o inimigo desta freguesia, que arbitra cada huã em settenta, e
dois mill réis: doze bestas em quarenta mil réis cada huã: duzentas e cincoenta porcos
vivos em cinco mil réis cada hum: em gado de lam, e cabelo cinco mil, e quinhentas
cabeças, a mil réis; e quinhentas galinhas, a quinhentos réis. Doze mil alqueires de milho,
preço actual de mil, e quinhentos réis: quinhentos alqueires de feijão, preço actual mil, e
Figueiró dos
oitocentos réis: duzentos de trigo, preço de dois mil réis: duzentos ditos de senteio, preço
Vinhos
mil, e quinhentos réis. Cem ditos de sevada, preço de mil réis. Carnes de porco furtarão
duas mil arrobas, preço de tres mil, e duzentos; mil alqueires de azeite, preço de dois mil, e
quatro digo de mel vinte alqueires; preço de dois mil, e quatrocentos; e trezentas colmeias
destruídas, preço de mil réis: quatrocentos alqueires de azeite, preço de dois mil, e
quinhentos: Seiscentos almudes de vinho, preço de dois mil réis.
Roubarão o seguinte: cinco mil trezentos e dezassete alqueires de pam: seiscentos
almudes de vinho: duzentos e quarenta, e cinco porcos: mil novecentos e trinta, e duas
Vila Facaia
cabeças de gado miúdo: duzentas e secenta e tres arrobas de carne de porco: oito
cavalgaduras, e treze juntas de bois de trabalho. 
Nesta freguesia arbitra-se, que o inimigo roubara de milho quarenta moios; e dois de
senteio: trinta alqueires de trigo: tres moios de feijão: secenta almudes de vinho, e trinta
Graça alqueires de azeite: de gado miúdo secenta moios: de porcos vivos tres moios, e em carne
ja morta seiscentas arrobas: de castanha cinco moios, e mais trezentas e vinte colmeias; e
seiscentas galinhas e peruns
Quatro juntas de bois: hum macho, e tres bestas menores: settecentos porcos: mil cabeças
de gado miudo. Em fruitos levou igualmente mil, e oitocentos alqueires de milho: cento, e
Pedrógão cincoenta alqueires de senteio: de trigo cento e vinte alqueires: feijão cincoenta alqueires:
Grande azeite duzentos alqueires, vinho quinhentos almudes, e quinze de agoa ardente. Alem de
muita azeitona, que estragarão, que ser preta produziria de azeite mil, e duzentos
alqueires.
Julga-se haver o Inimigo levado desta freguesia, dois mil trezentos, e quarenta e seis
alqueires de pam, e grãos de toda a qualidade, quatrocentoas e secenta, e nove arrobas
Castanheira
de carne de porco: duzentos, e cinco almudes de vinho: secenta e cinco alqueires de
de Pera
azeite: duas mil settecentas, e novanta, e seis cabeças de gado miúdo: trinta e quatro de
gado vacúm: treze cavalgaduras, e cento e vinte e tres porcos. 
Foi esta freguesia a que menos padeceo em todo o Arciprestado, pois que de estragos, e
hostilidades sofreo só o seguinte: De gado miudo levarão duzentas e oitenta cabeças,
Coentral
vacúm nove, bestas huã, porcos dez; pam cento, e vinte alqueires, vinho vinte e oito
almudes, carne de porco setenta arrobas.

206
A Terceira Invasão Francesa no de
Cadernos norte do Distrito
Estudos de Leiria
Leirienses –2

Para além dos relatórios de 1811, que antes se referiram e citaram, hou-
ve lugar à redação de outras notícias descritivas sobre os efeitos nefastos
das invasões francesas nesta região. Datam de 1812, na verdade, alguns
outros testemunhos dos párocos coligidos e remetidos à “Junta de Socorro
da Subscrição Britânica, pelo Reverendo Provisor Governador do mesmo
Bispado”, dando origem à “Breve Memória feita na diocese de Coimbra”. Tes-
temunha este documento que: “Nos templos, nada escapou ao roubo e ao
estrago (…) o santuário foi convertido em cavalariça, degoladouro de animais
e em lupanares; quase todos os templos ficaram desguarnecidos do seu or-
namento, queimados os altares e o soalho; de outros só restaram as pare-
des, e a muitos não ficou pedra sobre pedra.” Esta Memória relata as mais
cruéis e bárbaras atrocidades cometidas pelo inimigo nesta região, das quais
apenas registamos: “Na Freguezia de Figueiró dos Vinhos esburgárão a car-
ne dos ossos a hum velho, desde a barba até ao peito, e a outro sangrárão-no
como se fôra hum porco. (MEMÓRIA, 1812:1-12).
Depois da retirada dos franceses havia que fazer regressar a população
foragida às suas casas, às suas terras. Todavia, praticamente tudo havia
sido destruído, roubado, inutilizado, sendo necessário refazer a vida adminis-
trativa das freguesias, reconstruir estradas, caminhos, edifícios, casas; reto-
mar a vida agrícola, voltando a cultivar os campos, para os quais havia ne-
cessidade de sementes, alfaias agrícolas e gado; socorrer a população do-
ente e empobrecida, entre feridos, órfãos, viúvas, mendigos, etc. Tudo care-
cia de avultadas quantias de dinheiro que o Reino não dispunha, mas para
cujo auxílio o governo inglês se dispôs a contribuir com 100.000 libras, para
além do socorro que, entretanto, viria do Brasil, do então príncipe regente D.
João e de alguns particulares mais abastados que contribuíram com donativos
e promovendo algumas subscrições públicas.8

Fontes e Bibliografia

Fontes Manuscritas
Arquivo da Universidade de Coimbra, Invasões Francesas
– Documentos organizado pelo Coronel Belisário Pimenta, doc. 21.

8
Conservam-se no Arquivo da Universidade de Coimbra algumas centenas de petições de vítimas
suplicando auxílio, mormente em Invasões Francesas, “Subsidio britânico: requerimentos para
donativos”, docs. 241-901.

207
Cadernos de Estudos Leirienses – 2

Cabido e Mitra da Sé de Coimbra


– Caixa II, 1801 (Avelar); Caixa V, 1760 (Castanheira); Caixa IV, 1794 (Coentral); Caixa XV, 1712
(Pedrógão).

Igreja Matriz de Figueiró dos Vinhos


– Irmandade do Santíssimo, 1798-1817.

Biblioteca Nacional de Portugal


– Exército Português na Guerra Peninsular, 1808-1814, Caixa 31, n.º 35.

Fontes impressas
– Discurso que o Doutor Dionysio Miguel Leitão Coutinho Freire Conventual da Ordem de Christo,
Prior da Igreja de Alvaiazere, Bispado de Coimbra Fez aos seus Freguezes na Estação da Missa
conventual do dia 24 de Julho de 1808; o qual Discurso foi depois annotado pelo mesmo Prior,
Lisboa, Na Officina de João Evangelista Garcez, 1808.
– Relação do destroço, que tem soffrido os Francezes na sua retirada e do combate de Pombal e
Cabaços, Lisboa, Impressão Régia, 1811.
– Breve Memória dos Estragos Causados no Bispado de Coimbra pelo Exército Francês, Comandado
pelo General Massena, Extraída das Informações que Deram os Reverendo Párocos, Lisboa,
Impressão Régia, 1812.

Bibliografia

– AZEVEDO, Ricardo Charters d’, As destruições provocadas pelas Invasões Francesas em Leiria,
CEPAE/Folheto, Leiria, 2009.
– CRISTÓVÃO, Fernando, “A Igreja portuguesa e as Invasões Francesas: uma crise na crise”, Revista
Lusófona de Ciências das Religiões, Ano VII, 2008, n.º 13/14.
– DIAS, Manuel Augusto, “O impacto das invasões napoleónicas no norte do distrito de Leiria”,
Cadernos de Estudos Leirienses, Editor: FERNANDES, Carlos,Textiverso, Maio – 2014.
– ESTRELA, Jorge, Leiria no tempo das invasões francesas, Gradiva, Lisboa, 2009.
– EUSÉBIO, Joaquim, Pombal – 8 Séculos de História, Câmara Municipal de Pombal, 1997.
– FERNANDES, Carlos, Invasões Francesas. Leiria, 5 de Março de 1811: O incêndio da cidade – 200
anos, Organização, selecção de textos e notas introductórias de Carlos Fernandes, Textiverso,
2011.
– LOPES, Maria Antónia, “Sofrimentos das populações na terceira invasão francesa. De Gouveia a
Pombal, O Exército Português e as Comemorações dos 200 Anos da Guerra Peninsular, Exército
Português/Tribuna da História, Lisboa/Parede, 2011, vol. III, pp. 299-323.
– RODRIGUES, Mário Rui Simões, Viagens pela História de Alvaiázere, Câmara Municipal de
Alvaiázere, 2006.
– SECO, Ana Filipa Rodrigues, O combate de Foz de Arouce (1811): evocação histórica. Coimbra:
Faculdade de Letras, 2009 (Relatório de Mestrado policopiado).

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