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Suplemento

Nós,doRN...
Diário Oficial do Estado do Rio Grande d o Norte - Ano I - Nº 03 - Fevereiro de 2005

NATAL
2 nós, do RN Suplemento Natal - Fevereiro de 2005

Apresentação
Uma tarefa cumprida Estado do Rio Grande do Norte
Assessoria de Comunicação Social
Rubens Lemos Filho Wilma Maria de Faria

N
ão poderíamos iniciar melhor 2005, como E está na Fundação José Augusto, a nível esta- Governadora do Estado:
o fizemos em janeiro, oferecendo deste à dual, o desenvolvimento das novas atividades cultur- Carlos Alberto de Faria
clientela do Diário Oficial do Rio Grande ais do Rio Grande do Norte, destacando-se entre Gabinete Civil do Governo do Estado
do Norte uma excelente edição do suplemento elas as Casas de Cultura - extensão do Palácio da
Rubens Manoel Lemos Filho
"nós, do RN", mostrando todo o vigor da política Cultura ao território norte-rio-grandense. Assessoria de Comunicação Social
cultural empreendida pela governadora Wilma Pela entrevista do presidente da FJA, escritor
Maria de Faria. Trouxemos os reflexos da origem François Silvestre, a "nós, do RN", tivemos a dimen-
quando Sua Excelência, à frente da Prefeitura do são dos avanços que o Governo Wilma Faria deu no
Natal, criou a Fundação Capitania das Artes - campo das artes, promovendo a reestruturação da
Funcart. Orquestra Sinfônica, a volta do Coral Canto do D.E. I.
Além da sua historicidade, o pleno funciona- Povo e construção do Teatro de Cultura Popular. Rubens Manoel Lemos Filho
mento da Funcart é mostrado na sua pauta de ativi- Salientou-se, neste Suplemento do Diário Oficial, Diretor Geral em exercício
dades e pela elaboração e implementação do plano o Palácio da Cultura, que abriga a Pinacoteca do Henrique Miranda Sá Neto
nascido da 1ª Conferência Municipal de Cultura Estado, vinculada ao Centro de Documentação da Coordenador de Administração
convocada em parceria com a Fundação José FJA, compondo um acervo de quinhentas peças, e Editoração
Augusto. que podem ser apreciadas gratuitamente. Juracir Batista de Oliveira
Subcoordenador de Finanças

Editorial Eduardo de Souza Pinto Freire


Subcoordenador de Informática

Carnaval de paz e alegria nós, do RN


editor-geral
Miranda Sá Miranda Sá

C
om índices de violência Natal. Também na Cidade Baixa Diante deste fato histórico, este chefe de redação
inferiores aos do ano da capital, as escolas de samba e Suplemento Multicultural do Diário Moura Neto
passado, o carnaval os blocos de índios mantiveram, Oficial do Rio Grande do Norte não equipe redacional
norte-rio-grandense atravessou o jubilosamente, o desfile já poderia alhear-se. A maior festa Paulo Dumaresq - reportagem
chamado Reinado de Momo em cinqüentenário. Espalhando-se João Ricardo Correia - reportagem
popular do País e do Estado faz parte João Maria Alves - fotografia
paz e alegria. E as notícias de bons pela Grande Natal, saíram os da vida nacional e sentimo-nos na
festejos chegaram de todos os memoráveis blocos "das obrigação de registrar a sua História. diagramação e arte final
quadrantes, com excelentes per- Kengas", "Baiacu na Vara" e "Os Edenildo Simões
Assim, os que fazem "nós, do RN" Alexandro Tavares de Melo
formances nos tradicionais car- Cão", além das troças que cobri- trabalharam com a determinação de
navais de Areia Branca, Barra de ram os litorais Norte e Sul. pesquisa
trazer o Carnaval dos velhos tempos,
Maxaranguape e Macau e a Pelas cidades interioranas regis- Anchieta Fernandes
duração de sete dias de folia no traram-se ruidosas manifestações para ser transmitido às novas
gerações e contribuir para as colaboradores
Seridó, com o epicentro em carnavalescas, com excelente orga- Carlos Morais
Caicó, onde brilhou a Ala Ursa nização, nos municípios de pesquisas necessárias à preservação Emanuel Amaral
dos costumes. Rubens Lemos Filho
do Poço de Santana. Alexandria, Alto do Rodrigues, Moura Neto
Para alegria dos tradicionalis- Apodi, Dix-sept Rosado, Felipe Damo-nos satisfeitos com esta Anchieta Fernandes
tas, tivemos a revivência dos car- Guerra, Galinhos, Jardim de edição de fevereiro de "nós, do RN"
e esperamos que os nossos leitores apoio gráfico
navais antigos, que mobilizou Piranhas, Lagoa Nova, Mossoró, Willams Laurentino
multidões para a Ribeira, em migrante para Tibau, e Umarizal. também. Evoé, Momo! Valmir Araújo

Correspondências
Para Miranda Sá sadores e escritores que já habitualmente fã da publicação.
(...) o nós, do RN merece homena- não encontram espaço para publicação É isso, camarada.
gens especiais, pois revela o Rio Grande do resultado de suas pesquisas. Além de DEPARTAMENTO ESTADUAL DE IMPRENSA
Abraço carinhoso do Maurício Azêdo. Av. Câmara Cascudo, 355 - Ribeira - Natal/RN
do Norte a si mesmo (e a outros apoiar esses autores, Nós, do RN estimu- (Jornalista. Presidente da Associação Brasileira de
Cep.: 59025-280 - Tel.: (084) 232-6793
Estados onde chega) e traz à luz pen- la outros pesquisadores e estudiosos. Sou Imprensa - ABI)
Site: www.dei.rn.gov.br - e-mail: dei@rn.gov.br
Natal - Fevereiro de 2005 Suplemento nós, do RN 3

Tudo começou nos


bacanais da antiguidade
Moura Neto

N
ão se sabe ao certo, até
hoje, a origem do car-
naval. A maior festa
popular coletiva deste país, no
entanto, tem certamente raízes nas
festas pagãs das sociedades primiti-
vas. Para alguns estudiosos, a
comemoração do carnaval advém
de costumes das comunidades
agrárias, onde homens e mulheres,
por volta de 10 mil anos a.C.,
usavam máscaras, pintavam os cor-
pos, bebiam bastante e dançavam
até cair para espantar os demônios
da má colheita.
Outras correntes de pesqui-
sadores acreditam que o carnaval
foi uma herança dos cultos realiza-
dos pelos egípcios, gregos e
romanos em nome de seus deuses –
Ísis, Baco e Dionísio, respectiva-
mente. Estes rituais, como se sabe,
consistiam em verdadeiras orgias.
O combate do Carnaval e da Quaresma, 1559. Pintura a óleo de Pieter Bruegel
Licenciosidades que se vê ainda
hoje, de forma simulada, durante o realizadas no pátio externo do seu sinado numa destas festas, quando co, em forma de barco, no qual os
nosso conhecido reinado de Palácio. Consta que o baile de más- estava fantasiado de urso. romanos antigos celebravam sua
Momo. cara foi introduzido nas festas reli- Na França romântica do século festa. Pode ter se originado de
Seja como for, a Igreja foi tole- giosas nesta época, chegando ao XIX, o carnaval adquiriu a feição outra expressão do latim, “carne,
rante com o carnaval. Combateu os auge no século XVI. O costume de festa artística, prevalecendo a vale”, que quer dizer “adeus,
abusos e excessos, claro, e procu- logo foi incorporado pela corte, elegância dos bailes e dos desfiles carne”, numa menção à abstinência
rou imprimir nova orientação às sendo utilizado principalmente alegóricos. Até que no começo do que passou a vigorar na quarta-feira
festividades. Mas foi tolerante a pelas damas como arma de século XX começou a perder força de cinzas.
ponto de inserir a festa no seu ca- sedução. O rei Carlos VI foi assas- na Europa, mantendo-se como Se por um lado não há como
lendário religioso. O carnaval, ainda tradição apenas em algumas afirmar qual a procedência da festa
hoje, termina na penitência da
quarta-feira de cinzas, antecedendo Carnaval vem cidades da França, Itália e
Alemanha.
e o significado do seu nome, por
outro, nos dias atuais, ninguém
Controvérsia – Também desconhece o que caracteriza o
a Quaresma dos católicos.
Na Roma do Papa Paulo II, no de “carrum não há consenso quanto à carnaval no Brasil. Euforia coletiva,
século XV, o carnaval compreendia origem do termo carnaval. desabafo popular, divertimento
corridas de cavalo, desfiles de car- novalis”, que significa Pode ter surgido da expressão público, com pitadas de manifes-
ros alegóricos, brigas de confete, latina “carrum novalis”, que tações folclóricas, representadas,
lançamento de ovos e inúmeras
outras manifestações populares
“carro naval” significa “carro naval”. Era
numa espécie de carro alegóri-
por exemplo, nos blocos dos sujos
e dos mascarados.
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Cena de Carnaval no Rio de Janeiro do século XIX. Gravura de Jean Baptiste Debret

C
om a colonização do Brasil
pelos portugueses, o país
herda, também, o hábito de
comemorar o carnaval, ou melhor,
o entrudo europeu. Somente mais
tarde, já no início do século XX,
Carnaval chega ao
foram acrescentados elementos
africanos que deram originalidade à
festa brasileira, como as escolas de
samba. O carnaval que se brincava
Brasil com lusitanos
no Brasil colônia naquela época,
porém, tinha semelhanças sobretu- tornando mais civilizado. Ao invés vamente para o carnaval foi a mar- Colombina, Arlequim e Pierrô, por
do com o que acontecia na Itália das substancias grosseiras, água per- cha “Ô abre alas”, de Chiquinha exemplo, eram personagens da
fumada e bisnagas cheias de vinho. Gonzaga, em 1899. O corso (desfile comédia italiana. Colombina era
renascentista: uma brincadeira de
Até que, em 1885, foram introduzi- de caminhões e carros sem capota) uma criada sedutora e volúvel, que
rua violenta, onde eram praticados
dos os lança-perfumes, de origem virou moda a partir de 1907, quan- vestia trajes de cores variadas, como
abusos e até atrocidades, atirando- francesa. Data desta época, tam- do as filhas do presidente Afonso o seu amante Arlequim, rival de
se ovos, farinha de trigo, cal, goma, bém, os bailes de máscaras, cuja Pena fizeram um passeio pela via Pierrô pelo amor da Colombina.
laranja podre e água suja em quem procedência é a mesma. carnavalesca no carro presidencial, Arlequim representa o palhaço, o
passava. Depois, vieram as fantasias. E se no Rio. Começou a desaparecer cômico. Pierrô tem como caracterís-
Muitos protestos surgiram antes não havia um ritmo musical com as dificuldades de tráfego e a tica a ingenuidade. Outro perso-
diante desse carnaval selvagem que que caracterizasse o entrudo, com modernização dos automóveis. nagem, o Momo, foi inspirado no
desembarcou no país com as os bailes firmaram-se as melodias Algumas figuras carnavalescas bufo, ator que representava peque-
primeiras caravelas e os foliões de que simbolizavam o evento. A conhecidas no Brasil têm origem, nas comédias teatrais para divertir
além-mar. Por isso o entrudo foi se primeira música composta exclusi- portanto, da cultura européia. os nobres portugueses. (MN)
Natal - Fevereiro de 2005 Suplemento nós, do RN 5
Depois do entrudo, os blocos de rua Acervo Lenine Pinto
desenhista e inovou colocando carros alegóricos no
seu bloco.
Aliás, vale salientar, que os poetas renomados
daquela época, tais como Lourival Açucena,
Olimpio Batista Filho, João Estevam, Otoniel
Menezes e Jaime Wanderley, este último, além de
tudo, um grande folião, escreviam as letras dos
hinos dos blocos da cidade, que os jornais divul-
gavam.
Em 1909, numa tarde de carnaval na Natal
pacatamente provinciana, os jornais noticiavam o
desfile da menina Zuleide Barreto, filha do Capitão-
Doutor Maximiano Barreto, que percorreu as ruas
da capital em carro alegórico que homenageava o
jornal A República, órgão que tinha colunas espe-
cializadas na cobertura da festa.
A sociedade de então recorria à luxuosa
Barbearia Quincó, situada na rua 13 de Maio (atual
Princesa Isabel), para comprar fantasias e adereços:
laranjinhas coloridas, bisnagas, relógio d’água, con-
fetes e borboletas. Na década de 10, a família
Botelho fundou o primeiro bloco com o nome Zé
Pereira – em homenagem ao folião português, cujo
nome verdadeiro era José Nogueira de Azevedo
Pelles Vermelhas: bloco que brincou em Natal nos anos 30 . . . Paredes, um sapateiro que numa segunda-feira de
carnaval saiu pelas ruas de sua cidade tocando fre-
Anchieta Fernandes lorido e picado, o popular confete, nos outros
foliões. Nasciam, no início do século XX, os neticamente zabumba, fazendo surgir imitadores
primeiros blocos de rua realmente organizados. por toda parte, inclusive no Brasil, nos carnavais

E ntrudo, palavra derivada do latim arcaico – Em Natal, destacaram-se, entre outros, o bloco seguintes.
entroydo – que significa “entrada da Maxixeiras, cujos integrantes usavam roupas
Quaresma”. É com este nome que o car- berrantes e cestas cheias de verduras, frutas e flores.
naval era brincado no Brasil até o século XIX, Desfilavam de madrugada, acordando a cidade com Viva o Zé Pereira
período no qual os povos católicos se permitiam ao o estribilho “plantei maxixe, nasceu quiabo, minha
excesso de bebida, comida e de intimidade para gente venha ver, venha ver que diabo!”. Surgiram Que a ninguém faz mal
com o semelhante. Jogava-se água suja e farinha nas também Os Jandaias, que editavam um jornalzinho
pessoas, brincadeira da qual gostava de participar o intitulado Diário Oficial; O Cão Jaraguá, fundado Viva a bebedeira
próprio Imperador Dom Pedro I. No Rio Grande
do Norte, nem mesmo o juiz de Direito, o tabelião
por um grupo de maçons, e Divisão Branca, criado
pelo poeta Ferreira Itajubá, que também era
No dia do carnaval!
e o vigário da paróquia de São José do Mipibu, no Acervo Umberto
Agreste, foram poupados de um banho de cuia
d’água em 1886. Abuso que ajudou a mudar os
rumos desta manifestação popular.
A partir de então as autoridades norte-rio-
grandenses passaram a ser mais intolerantes com os
foliões que exageravam nas brincadeiras, até que,
em fevereiro de 1900, o então chefe de Polícia do
Governo Alberto Maranhão, Francisco Carlos
Pinheiro da Câmara, apelidado de Chico Farofa,
apreciador de folguedos populares, como o bumba-
meu-boi e o pastoril, proibiu definitivamente o
“entrudo d’água, tintas e massas”. Findava o século
do entrudo, começava o do carnaval propriamente
dito.
Antes disso, aqui e acolá já pipocavam iniciati-
vas que sinalizavam com a mudança da característi-
ca da folia em terras potiguares. No mesmo ano em
que aconteceu o episódio que causou reviravolta
em São José do Mipibu, um grupo de foliões, em
Mossoró, fundava um bloco de frevo denominado
Os Guaranis. Anos depois, em 1897, um bloco car-
navalesco percorreu as ruas de Macaíba.
E o carnaval foi se firmando no Rio Grande do
Norte como uma brincadeira mais civilizada. Por
influência do que acontecia no Rio de Janeiro,
Bahia e Pernambuco, o povo começou a usar laran-
jinha com água limpa e perfumada e a jogar papel co- Bloco de Elite Lunik, na folia natalense da década de 70
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E
Acervo Edgar Dantas
xatamente no ano da re- lizou, nesta época, um concurso de
volução modernista das artes, Aero Clube nos anos 20
glosas carnavalescas. No corpo de
em 1922, os desfiles de car- jurado figuravam ninguém menos
naval foram transferidos da rua da
Palha (que depois se chamaria do que Luís da Câmara Cascudo e
Vigário Bartolomeu) para a avenida Jorge Fernandes. Detalhe: os premi-
Tavares de Lira, na Ribeira. Teve iní- ados receberam caixas de cerveja
cio, então, o desfile de automóveis Cascatinha, Antarctica e Brahma.
sem capota ou de capotas arriadas, Ao mesmo tempo, o carnaval
lotados de foliões, que jogavam, de de rua foi se enriquecendo cada
um carro para outro, jatos finos de vez mais com elementos da cultura
lança-perfume – das marcas Vlan, popular durante a década de 30.
Rigoletto, Rodouro, Rodo Metálico Surgiam os Papangus, figuras enro-
e Colombina, produzidas pela com- ladas em lençóis e/ou usando más-
panhia paulista Rhodia e vendidas caras de caveiras, que saiam desfi-
em bisnagas de vidro ou metal numa lando pelas ruas e avenidas. Os
loja que se chamava Vianna & Cia.
grupos de foliões costumavam
Estes desfiles ficaram sendo
conhecidos como corso. Acontecia “assaltar” as casas dos amigos,
também, durante sua realização, numa época em que esta palavra
“batalhas” de confetes e serpentinas tinha conotação amistosa e suave,
coloridas que deslizavam no ar com para beber, comer e brincar.
o movimento lento dos carros. O Com o advento da Segunda
trajeto geralmente era feito entre o Grande Guerra e a presença das
obelisco às margens do rio Potengi tropas americanas em Natal, na
até o coreto da praça José da Penha, década de 40, os pracinhas de Tio
de onde se iniciava o percurso de Sam invadiram também o carnaval
volta. As lindas mocinhas da época,

de salão,
de clube, criando inclusive os seus
fina flor da sociedade, fantasiadas, próprios redutos, como o Dowtown
acenavam sorridentes, contribuindo Club, e caindo na folia de rua. É
para realçar as faixas publicitárias de
empresas patrocinadoras fixadas muito divulgada uma foto do bar-
nos automóveis. O ambiente era beiro e boêmio Zé Areia, figura fol-
por demais democrático. Tanto que, clórica de Natal antiga, vestido de
em 1928, desfilou pela Tavares de mulher, em plena folia, cercado de

blocos
Lira o bloco dos Fascistas. marinheiros ianques.
Ao final da década de 20, os Nos anos 50, os desfiles são
clubes sociais e o Teatro Carlos transferidos da Tavares de Lira para a
Gomes, hoje Alberto Maranhão, avenida Rio Branco (e depois para as
começaram a realizar animados avenidas Deodoro e Prudente de
bailes carnavalescos – os chamados Morais). Os palanques eram arma-

de elite
“balmasqués”, que já haviam tido dos no Grande Ponto, onde as
um precursor, em 1915, quando o orquestras tocavam marchinhas,
bloco Divisão Branca, do poeta
Ferreira Itajubá, promovera um frevos e sambas. São os anos em que
destes bailes no teatro. Toda a os jovens da classe média formam os
sociedade participava da festa. O blocos de elite, que desfilavam em

e o corso
presidente do Estado do Rio carros alegóricos puxados por trator.
Grande do Norte, Juvenal Os mais antigos lembram dos
Lamartine, participou de um anima- Karfagestes, Jardim de infância, Puxa
do baile no Aero Clube, em 1929, Saco e Ressaca.
conforme registrou a imprensa. Também muitos blocos de
Era costume, naquela época, “índios” fizeram seus batuques e
usar fantasias. Juvenal Lamartine se fumaram seus cachimbos ali em
deixou fotografar para a revista frente ao Novo Continente. As
Cigarra ladeado por um grupo de marchinhas do compositor potiguar
“chineses” e “chinesas”, na entrada Dosinho se tornavam sucesso. “Eu
do Aero Clube, criativamente deco- não vou, vão me levando”, cantada
rado como a Caverna de pela famosa Marlene, da Rádio
Mefistófeles, trabalho do artista
Erasmo Xavier. O maestro Nacional. E o nosso carnaval vai
Garibaldi Romano era o regente de parar na tela do cinema, em 1955,
uma orquestra que embalava os quando o fotógrafo José Seabra fil-
Acervo Carlos Lyra

foliões nos salões dos clubes. mou cenas dos bailes do América,
Os letristas das músicas procu- Aero Clube, Assen, Confeitaria
ravam abordar temas atuais. Em Cisne e da praia de Areia Preta,
1934, no rastro do filme King dando origem ao filme “Coisas da
Kong, foram compostas marchi- Vida”, que foi apresentado no cine-
nhas que falavam dos macacos. O ma Rio Grande em 10 de junho
bar popular “Cabana do Cego” rea- C a r n a v a l n a A v e n i d a T a v a r e s d e L i r a a n o s 3 0 daquele ano. (AF)
Natal - Fevereiro de 2005 Suplemento nós, do RN 7

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Acervo

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Acervo

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80 val ano
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cola Diplom
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A s primeiras escolas de samba a ani-


marem o carnaval natalense com o som
das cuícas, tamborins, violões e
cavaquinhos surgiram das dunas no final da
Em 1962
foi criado o bloco que anos
depois começou a fazer muito sucesso na mídia,
inclusive nacional. Os Cão, na praia da Redinha,
lho e a irreverência das bandas.
As mais famosas eram a Bandagália (de in-
telectuais e artistas), Xodó, do Sol, Tamanduá
(que fez a alegria das crianças, com uma repre-
década de 30. Batuque no Morro foi uma destas onde os participantes se lambuzavam com a sentação de pano e madeira deste animal,
agremiações. Em 1950, Severino Guedes fun- lama dos mangues. Foi na década de 70 que os medindo 10 metros, cujos foliões levavam car-
dou a Asa Branca, que no decorrer dos anos foi clubes sociais promoveram as matinês infantis, tazes avisando ao formigueiro – numa referên-
amealhando dezenas de troféus. valorizando o pequeno folião, que em 1988 teria cia ao então prefeito Marcos César Formiga -
Os intelectuais continuaram não só partici- em natal sua primeira escola de samba, a Escola que o tamanduá “vem ai”), Senhor Sol e
pando ativamente do carnaval, como buscando de Samba do Futuro, iniciativa da Febem. Senhora Lua (com dois bonecos de pano e
na festa motivo de inspiração. A Rádio Poti A década de 80 foi próspera em aconteci- espuma, de cinco metros de altura), do Cajueiro
transmitiu em 1958 a novela “O Pierrô mentos inusitados. Severino Galvão, que havia (Pirangi), Filhos da Pauta (dos jornalistas).
Escarlate”, de autoria do potiguar Jayme sido Rei Momo algumas vezes, inconformado Daí por diante o carnaval foi tomado pela
Wanderley. Naquele mesmo ano, registre-se, o com a perda do título, se lança como “Rei do presença dos efeitos tecnológicos especiais e
Aero Clube realizou em seus salões o I Baile Protesto” no carnaval de 1981, desfilando e pelos corpos nus, culminando com a realização
dos Cronistas, promovido pela recém-criada comparecendo a bailes de clube com coroa e do carnaval fora de época, o Carnatal, que
Associação dos Cronistas Carnavalescos de cetro. Em 1984, foi fundada a Federação das desvirtuou o sentido da verdadeira manifestação
Natal, que teve Expedito Silva como primeiro Agremiações Carnavalescas de Natal. E um popular do carnaval. Por isso merece aplausos a
presidente. Pois bem, durante este baile foi trágico acidente provoca a morte de 20 compo- iniciativa do escritor Gutenberg Costa, que em
entregue o troféu Djalma Maranhão para a foliã nentes e alguns músicos do bloco Puxa Saco, 2002 idealizou e concretizou o Movimento
mais animada, ninguém menos do que a poetisa sinalizando com o final dos desfiles de rua dos Antigos Carnavais, com desfiles de foliões puxa-
Zila Mamede. blocos de elite. dos pelas bandas de frevo pelas ruas da Cidade
Em 1960 começava o longo reinado de A alegria e a animação, contudo, não param. Alta e da Ribeira, ao estilo dos balmasqués.
Paulo Maux como Rei Momo do carnaval, por Em 1986, os três dias de folia momesca em Época em que faziam sucesso marchas, frevos e
onde passaram soberanos de todas as estirpes, Natal foram vitaminados pelas trinta toneladas sambas como “Quem sabe, sabe”, de Ari
gordos e não tão gordos, simples e intelectua - de som do Trio Elétrico de Dodô e Osmar, que Barroso; “Linda flor de madrugada”, de Capiba;
lizados, sérios e simpáticos, como Givaldo veio de Salvador para imprimir sua marca nas e “Acorda, escola de samba”, de Herivelto
Batista, que era repórter de “A República”. ruas da cidade. Esta década viu ressurgir o bri - Martins e Benedito Lacerda. (AF)
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Retratos de car-
Acervo SECTUR

em branco e preto

Francisco das Chagas Lima Rei Momo de 1998 e 2001, com governadora Wilma de Faria, na ocasião prefeita de Natal

Paulo Jorge Dumaresq repente, o olhar pára no instantâneo do Grande do Norte, Socorro Gurgel, no Outro achado é a página da revista
ex-prefeito Djalma Maranhão, um folião Aero Clube, no carnaval de 1957. Um Cigarra, estampando fotos de blocos no

C lubes, ruas e avenidas repletas de infatigável, posando de cacique e seguran- ano depois, Celso torna-se presidente da Aero Clube, templo consagrado à folia
palhaços, arlequins, pierrôs, do o cachimbo da paz, na companhia da Associação dos Cronistas Carnavalescos, carnavalesca.
colombinas, odaliscas, zé-pereiras, consulesa francesa Dominique e de uma fundada em 10 de janeiro de 1958. O acervo ainda revela flagrantes da vida
mascarados e papangus, exalando alegria amiga aviadora da Outro flagrante históri- em rosa e em calorias dos nobres Reis
e felicidade ao som de frevos e marchi- mesma origem, na co registra, de um lado, o Momos. Esteticamente incorretas, essas per-
nhas ingênuas. Era esse o panorama na folia de 1962. escritor Nei Leandro de sonagens de calibre avantajado se equilibram
Natal dos antigos carnavais do século Mais adiante cai Castro, e, do outro, o pres- nas formas rotundas, com muito vigor e ale-
XX. Aberta à descontração e à irreverên- nas mãos imagem idente da Sociedade gria. Exemplo maior foi o inesquecível Paulo
cia, a cidade tem história para mostrar do ex-governador e Artística e Estudantil, José Maux, em flagrante com a Rainha do Clube
quando o assunto é folia de Momo. atual senador, Sales, no Baile do Pierrô, Atlântico, nos anos 1970.
Tudo está documentado em acervo Garibaldi Alves na sede do Clube do Rádio Mais recente, datado de 1985, instan-
pertencente ao pesquisador e escritor Filho, dividindo Amador, nos distantes tâneo eterniza o ex-Rei Momo Severino
Gutemberg Costa, que conseguiu reco- mesa com Erivan anos 1950. Atente-se ainda Galvão, acompanhado da Rainha em tra-
lher mais de 500 registros fotográficos França, o ex-Rei para a foto do jornalista e jes minúsculos. Também consta da
em quase três décadas de coleta. O Momo Paulo Maux escritor Berilo Wanderley, coleção imagem do radialista e ex-Rei
escopo é a preservação da memória do e a Rainha, no final na condição de pierrô mas- Momo Givaldo Batista, o Gigi da
carnaval natalense em sua fase áurea. A da década de 1960. carado. Imagem não Mangueira, bem como de Beré, o
antiga idéia de transformar um álbum A governadora menos rara é a da Caverna primeiro Rei Momo negro do carnaval
caseiro na maior coleção de fotografias Wilma de Faria, à de Mephistopheles, datada natalense. Beré ainda aparece ao lado do
do Rio Grande do Norte, sobre o tema época prefeita de de 1929, tendo sido adap- ex-prefeito de Natal, Manoel Pereira, da
carnaval, só foi possível ser colocada em Natal, também foi tada para o Aero Clube Rainha e do locutor Bethânio Bezerra,
prática graças à doação de familiares, ami- retratada entregan- pelo consagrado cenó- em foto de 1982.
gos e foliões, alguns arrependidos. do troféu ao Rei Gutemberg Costa: pesquisador grafo Erasmo Xavier, a “Não há nenhum centro de docu-
O acervo documental compreende o Momo de 1998 e partir de idéia do doutor mentação relativo ao carnaval no
período de 1919 a 2004, priorizando as 2001, Francisco das Chagas de Lima. Décio Fonseca. Estado”, acentua Gutemberg Costa, lem-
oito primeiras décadas do século passado, Ainda na seara política, identifica-se Cumpre notar que os bailes car- brando que, no ano de 2002, expôs 150
quando foliões anônimos, carnavalescos, facilmente o então candidato a vereador navalscos ‘bombavam’ na Natal pas - fotografias do acervo nas galerias da
artistas, intelectuais, políticos, reis e rai- Nelson Freire, em registro de 1981, pres- sadista. AABB, ABC FC, Aero Clube e Fundação Cultural Capitania das Artes.
nhas (do carnaval) dividiam as atenções tigiando o bloco Magnatas, do bairro do América FC dividiam as atenções dos Ele sonha reunir a coleção em livro, CD-
dos fotógrafos de plantão, ao Alecrim, que apresentava ainda o folião foliões mais abastados, enquanto que Rom e/ou sítio, mas está na dependência
emprestarem vida e frescor à capital do Gutemberg Costa – na foto, o segundo Assen, Atlântico, Albatroz, Alecrim FC e de patrocínio para a empreitada, não
Estado numa ‘ofegante epidemia que se da direita para a esquerda – sem a barriga o Intermunicipal da Cidade da Esperança obstante o projeto ter sido aprovado
chamava o carnaval’, na expressão do proeminente e a barba grisalha que con- acolhiam os menos favorecidos pela pelas Leis de Incentivo à Cultura do
compositor Chico Buarque de Holanda. serva nos dias de hoje. Deusa da Fortuna. Entre uma e outra, os Município e do Estado. “A receptividade
Debruçado sobre o acervo, dá para No ‘bloco’ dos intelectuais, o olhar foliões cantavam a plenos pulmões a letra do público é grande. As pessoas se
entender porque o carnaval é a mais pousa na foto do jornalista e poeta Celso de uma marchinha sem perder de vista a reconhecem nas fotos”, assevera o
democrática das festas populares. De da Silveira, todo cortesia com a Miss Rio odalisca ou a melindrosa perdida no salão. pesquisador.
Natal - Fevereiro de 2005 Suplemento nós, do RN 9
Acervo A República

O Bloco Tamanduá criticava humoristicamante o prefeito Marcos Formiga, na Natal dos anos 80

prescindir da figura de Raimundo

Carnaval de rua,
Amaral, o primeiro folião homem a se
vestir de mulher, mais precisamente de
Carmem Miranda, chocando a
sociedade local nos anos 1940. Foi um
espanto! A ousadia, claro, mereceu re-
gistro fotográfico. Escândalo seme-
lhante foi protagonizado pelo folião
Adiel de Lima com a farda de aluna da

catarse coletiva Escola Doméstica, no desbunde da


década de 1970.
Voltando no tempo e, precisamente,
ao carnaval de 1944, imagem perpetua o
poeta repentista e barbeiro Zé Areia

O carnaval de rua sempre pegou os mostra a foto doada por Carlos Lyra. desse compositor que está com novo CD na ‘soltando a franga’, fantasiado de mu-
natalenses pelo pé, deixando a Uma imagem valeu mais do que mil praça, comemorando 52 anos de carreira lher, entre dois mariners, ao tempo da
explicação para essa catarse cole- palavras. Vá lá o lugar-comum, mas é o artística e 78 de muita vitalidade. Segunda Guerra Mundial, como revela a
tiva a cargo da sociologia. A imagem que se pode inferir depois de deter a vista “O povo canta o carnaval de foto de João Alves.
mais antiga do acervo de Gutemberg na foto do folião desmaiado na calçada, Dosinho” é o título do disco que traz 16 O carnavalesco Zé Fufu optou por
Costa data de 1919 e mostra centenas de enquanto a orquestra da Bandagália se músicas, sendo oito inéditas e igual ‘encarnar’ a personagem Amigo da Onça,
natalenses ‘curtindo’ a folia na rua da aproxima com seus metais pesados, número regravações de antigos frevos e criação de Péricles Maranhão, na rua João
Palha, atual Vigário Bartolomeu, metidos fazendo tremer o piso Copacabana. Já o marchinhas. O carro-chefe é o frevo Pessoa, onde foi capturado pela câmara nos
em traje Belle Époque tropical. jornalista e escritor Vicente Serejo arrisca “Carnaval com Bin Laden”, sucesso abso- saudosos 1940. Exercendo a sua condição
Referência para historiadores e pas-de-deux com a filha, na passagem da luto nos salões e nas ruas do Recife neste de nordestino, o folião anônimo não
pesquisadores, o corso na avenida Bandagália pela praia do Meio, no início 2005. Do Rio Grande do Norte, partici- perdeu a oportunidade de homenagear o
Tavares de Lira também mereceu re- dos 80, tendo, ao fundo, Rejane Cardoso. pam do CD, as cantoras Valéria Oliveira e Rei do Cangaço, Lampião, segurando um
gistro do fotógrafo João Galvão, nos Ivana; de Pernambuco, Claudionor rifle nas mãos, lá pelos idos dos 70.
anos 1930. Na foto, se vêm automóveis Dosinho, no ritmo das marchas Germano, Expedito Baracho e Wilson Personagens outros do carnaval nata-
engalanados desfilando no ‘corredor da Manuseando os instantâneos dos car- Duarte; e do Rio de Janeiro, Valter Levita, lense também estão presentes na coleção
folia’. Igualmente na década de 1930, navais em branco e preto, é impossível Mauro Marques e o Quinteto Violado. de fotografias dos antigos carnavais de
instantâneo congelou para a posteridade conter a emoção ao ver foto do lendário Talento reconhecido por público e Gutemberg Costa, como são os casos do
o bloco feminino Pelles Vermelhas, em compositor norte-rio-grandense Clau- crítica, Dosinho pondera que, se as ex-presidente da Escola de Samba
frente ao antigo Grande Hotel. domiro Batista de Oliveira, o Dosinho, na- marchinhas de carnaval tivessem a Balanço do Morro, Lucarino; do
A câmara do fotógrafo anônimo cap- tural de Augusto Severo, atual Campo mesma exposição na mídia que tem, por primeiro presidente da Escola Malandros
turou a porta-estandarte Vera, da Escola Grande, dividindo o mesmo quadro com exemplo, a axé music, a sua obra faria o do Samba, Aluizio, e do carnavalesco
Malandros do Samba, em plena evolução José Alexandre Garcia, Capiba, Firmino mesmo sucesso que a música baiana faz Nazareno, o nosso Madame Satã.
na avenida. Nos 1960, a Escola Moura e senhoras, nos idos de 1950, no nos dias de hoje nas rádios, TVs e Estas figuras populares e notáveis
Diplomatas no Samba também foi clicada Aero Clube. Creditado ao fotógrafo Jaeci, micaretas. “Os antigos carnavais eram emprestaram talento, dedicação e
na avenida Rio Branco, espargindo con- o registro revela dois talentosos composi- sadio e familiar, porque reinava a paz e a recursos, muitas vezes driblando
tentamento. Com a mesma alegria, os tores do carnaval nordestino. harmonia na folia. Era o carnaval povo. dificuldades de ordem financeira,
integrantes do bloco de elite Lunik mar- O potiguar Dosinho é um predestinado Eu ainda tenho esperança que ele volte”, para proporcionar o melhor do car-
cavam o passo em 1973, desfilando pelas a emplacar sucessos nos carnavais. Você, manifesta-se o veterano compositor. naval a milhares de cidadãos embria-
ruas de Natal. Mesmo cadenciada, a tribo leitor, já ouviu, pelo menos, uma vez na vida, gados de alegria, numa época e numa
de índios, com o caçador dominado, não os standards “Eu não vou, vão me levan- Irreverência em alta voltagem cidade ainda imune à miséria, à
deixava por menos, encantando o público do”, “Doido também apanha”, “Fantasia de Pródigo em quebrar tabus e precon- exploração sexual infanto-juvenil e à
em desfile no bairro do Alecrim, como capim” e “Se parar eu caio”, frutos da lavra ceitos, o carnaval natalense não podia violência. Evoé, Baco! (PJD)
10 nós, do RN Suplemento Natal - Fevereiro de 2005

P
assageiro da alegria. É desse modo que amigos e familiares

Acervo da família
definem o carnavalesco Paulo da Silva Maux (1934 – 1984), o
eterno Rei Momo de Natal. Nascido no Recife, Sua Majestade
Paulo Maux, desde muito cedo, esquentou os pés nos álacres salões da
Veneza brasileira, antes de se mudar com a família para Natal em 1945,
então, com 11 anos de idade.
Uma vez na cidade dos Reis Magos, estudou no colégio Marista, mas
não fugiu ao destino, convidado que foi pelo ex-prefeito Djalma
Maranhão, em 1960, para assumir a vaga de Rei Momo. Foi recordista
de mandatos, tendo recebido a chave da cidade por 18 anos consecu-
tivos, de 1960 a 1978, para felicidade geral de Natal e do sempre con-
corrente Severino Galvão, que via no reinado oficial de Paulo Maux
oportunidade de instalar o seu necessário gabinete paralelo. A rivalidade
entre os monarcas durou décadas a fio.
A viúva Elba Maux conta que o ex-Rei Momo prestigiava todos os
bailes e clubes da cidade, do mais sofisticado ao mais humilde, inclusive
os famosos cabarés de Maria Boa e da Francesinha. À chegada de Paulo
Maux, o corneteiro Marimbondo, da Polícia Militar, anunciava a pre-
sença do soberano tocando o seu instrumento de sopro. Paulo Maux
também marcava presença no ensaio geral das escolas de samba e tribos
de índios, além de receber todos os blocos de elite em casa em assaltos
memoráveis. “Eu o acompanhava para todo canto”, declara Elba Maux,
com uma pontinha de orgulho.
Dona Elba revela ainda que, no carnaval de certo clube da cidade,
uma foliã mais assanhada sentou no colo do Rei Momo, no que foi
rechaçada prontamente com a ameaça de uma garrafada. Fatos
pitorescos envolvendo Paulo Maux foram muitos. Muitíssimos. Outro
ocorreu no América FC, onde o Rei Momo, ao apartar peleja envol-
vendo dois filhos de influente político do Estado, foi jogado pela janela
do clube alvirubro, quebrando o braço. Na época, a sede do América
FC funcionava na rua Maxaranguape, Tirol.
Em um dos carnavais no clube Cobana, Paulo Maux foi atirado na
piscina sem saber nadar. De outra feita, o palanque oficial armado na
esquina da avenida Deodoro com a rua João Pessoa cedeu. A preocu-
pação com a integridade física do Rei Momo – que chegou a pesar 184
quilos - foi geral, mas, graças aos deuses romanos da folia, o monarca
já houvera descido com o prefeito Djalma Maranhão. Isto sem falar
nos trotes que o rival Severino Galvão promovia, telefonando para o pai
de Paulo Maux e (mal) informando que o Rei Momo caíra do trio elétri-
co, deixando toda a família aflita.
Na vida real, foi comerciário da Suerdieck, funcionário do Banco do
Povo, agente da rodoviária Dom Vital e servidor da Cida. Carismático
e popular, soberano das multidões, Paulo Maux marcou o seu longo
reinado aspergindo alegria por todos os quadrantes e contagiando a
população com sua simpatia.
A paixão pelo carnaval ficou patente no poético texto que deixou às
gerações passadas, presentes e futuras: “Eu sou o carnaval da província.
Carnaval feito numa esquina de mar, na terra dos Reis Magos. Aqui,
como em outros lugares, também nasci da tristeza do povo, do seu
cansaço pelas coisas reguladas do dia-a-dia, dos seus sofrimentos, dos
seus sonhos; mas quando me entregam a cidade, menino, ofereço a cada
um semovente uma máscara colorida de alegria. A coisa muda de
imagem e há uma explosão de sentimentos presos, doidos por felici-
Paulo Maux com a Rainha do Carnaval dos anos 60 dade”. Paulo Maux nasceu para brilhar e ser feliz. (PJD)
Natal - Fevereiro de 2005 Suplemento nós, do RN 11
Acervo da família

S e v e r i n o
Gal v ã o ,
a irreverência
Severino Galvão, (ao centro) foi Rei Momo, muitas vezes, à revelia da prefeitura

I rreverência, seu nome é Severino locais para fazerem parte do gabinete. cial do carnaval e ingresso livre nos grandes
Galvão. Numa época marcada por Juntamente com os auxiliares, elaborava bailes clubísticos, quando costumava borrifar
grandes carnavais, o Rei Momo Severino programação para ser cumprida integralmente perfume Contouré nos foliões, usando para
de Oliveira Galvão (1914 – 1994) reinou à durante o reinado de Momo. Pela via biônica, isso bomba de aspersão. Outra esquisitice
margem do carnaval oficial pintando o sete. em 1980 Severino Galvão nomeou Luís de notada era o hábito de dar cochilos intermi-
Foram doze anos de mandato continuado Barros como primeiro-ministro; senador Jessé tentes no palanque oficial, em meio ao baru-
(1968 a 1980), as mais das vezes como Rei Freire, presidente do Senado Imperial; e João lho gerado pela passagem das escolas de
Momo alternativo. Medeiros Filho, chefe da Casa Civil, para ocu- samba e tribos de índios. Exercendo toda a
Natural de Pedro Velho, Severino Galvão par posto no alto escalão. A lista de sua criatividade, Severino Galvão fez chegar à
foi um pouco de tudo na vida: militar, comer- nomeações era imensa. imprensa uma suposta ameaça de seqüestro
ciante, publicitário, político e, principalmente, Episódios hilários envolvendo o Rei durante o carnaval de 1979, informando que
Rei Momo. Com as marcas indeléveis da Momo foram muitos. Um deles dá conta que, estava reforçando o serviço de segurança. O
irreverência e do bom humor, qualidades convidado para abrir o carnaval de Mossoró provável seqüestrador seria o coordenador
inatas que o acompanharam na saúde e na com os amigos João Fabrício e José Matias de dos Negócios do seu Reinado, vereador Érico
doença, o folião tinha o hábito de organizar Araújo (Zé Quitandinha), Severino Galvão foi Hackradt, amigo pessoal do Rei Momo. A
batalhas de carnaval em bairros da Natal das detido pela polícia no aeroporto acusado de notícia saiu no Diário de Natal, edição de 11
primeiras décadas do século XX. Desta época ser um impostor. O trote foi protagonizado de fevereiro de 1979.
para a majestade foi um pulo. Também fundou pelos amigos Luís de Barros e Roberto Freire, Antes de falecer aos 79 anos, 50 dos quais
o Clube Rex, na capital, para dar vazão aos que telefonaram de Natal para Mossoró e dedicados ao carnaval, Severino Galvão
arroubos carnavalescos. passaram informações falsas sobre ele para as deixou a autobiografia “A minha vida em ver-
Rei Momo de protesto e dono de rara autoridades policiais daquela cidade. A con- sos”, que está sendo revisada e acrescida de
capacidade inventiva, Severino Galvão se fusão foi grande. documentos e rico material fotográfico pelos
auto-intitulava Super-Rei, à revelia da Um dos seis filhos do soberano com dona filhos João e Erinalda Galvão. A intenção é
Prefeitura, responsável pela eleição, e do Rei Elvira Galvão, o arquiteto João Galvão, revela publicar os originais em livro. “O espírito
Momo oficialmente eleito, constituindo mi- que, mesmo como Rei Momo paralelo, dele era alegre e engraçado”, lembra a filha
nistério particular e nomeando personalidades Severino Galvão tinha acesso ao palanque ofi- Erinalda Galvão. (PJD)
Natal - Fevereiro de 2005
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Carlos Morais

de fevereiro de 1922, Sábado que Nataldispunhade“maisseletoe ConsueloWanderley(Tragédia),Jandira

25 de Carnaval: os natalenses se
esbaldaramnafoliado
CentenáriodaIndependênciadoBrasil.“A
elegante”,arregimentandoparasuasede,
naCidadeAlta,JoãoPessoacomaRio
Branco,oqueasociedadenatalense“tiver
Rodrigues(Comédia),DulceWanderley
(Música),EponinaSilva(Dança),Maria
Cacho(Poesia),NalvaPaiva(Eloquência),
velhacidade,modorrentamentesossegada, dearistocraciaebeleza!”. ElviraPinto(Astronomia)eCecy
nassuasruasquasedesertas”,dopoema O carnavalescoMaurodosSantos Lyra(Retórica).
OsBondesdeNatal,deEsmeraldo transformouosalãoprincipal,para Os bondes: fora
Siqueira,despertoudesualetárgica proporcionaralegriaaosfoliõesea
quietação.“Natalprepara-se,neste elegância dosblocos(Ciganinhas,Pierrôs dos trilhos da folia
estonteanteefamosoanodocentenário, VerdesePalhaçosAmericanos,entre
Umaausênciasentidanestecarnaval:a
parahomenagear,condignamente,o outros),numaornamentaçãode
dosbondes(ogovernadorAntôniode
endiabradoMomo,dandomostrasdeque deslumbranteaspecto.Promoveu,assim, Souzafechouaantigacompanhia,com
comtristezasnãosepagamdívidas”, umainstiganteginásticacoreográficana seusbondessucateadosepromoveua
anteviuumbemhumoradoredatordea disposiçãocuriosadasserpentinas, reformulaçãodafrota,reativadaem
Imprensa . coladasecaprichosamentedispostas, 1923)tãoincorporadosàpaisagem
Oautordacrônicacarnavalesca,acredita- superficialmente,aoforroe com urbanadaprovínciaquantoorioPotengi,
se,seriaLuísdaCâmaraCascudo,filhodo abundanteiluminação.Cadavezquese presentenafolia,àsuamargemdireita,
proprietáriodoperiód icoesaltitantenos desprendiam,demomentoamomento,se naTavaresdeLira,avenida
seus23anosdeidade,alémdeelogiado espalhavamgraciosaeabundantemente transformadaemchãodegentee
pela suacondiçãodeumdosanimados entreosfoliões. convergência deanimaçãocarnavalesca
foliõesde1922,nossalõesdoNatal popular,comseufebricitantecorsode
Clube, termômetrotradicionaldo
Sucesso feminino, automóveisefoliões,especialmentedo
carnavaldaaltasociedadenatalense.Com Baile à Fantasia ClubeNáuticoCapibaribe.Orumorde
seus grandesolhosbailarinos,ojovem trovoada,roncodecuícas,aquecimentoe
repinicadodetamborinsebailadosde
intelectualfoiumparticipanteprivilegiado Asmulheresdestacaram-se,
ganzás, saindodaTavaresdeLirae
dafoliasaçaricantedaqueleanoespecial. ostensivamente,numdosespetáculosmais subindoedescendo,ruidosamente,a
MasCascudinhorecebiajustareverência, bonitoseaplaudidos,duranteostrêsdias JunqueiraAires,comarapaziada,com
particularmente,pelasuaprecocecarreira nossalõesdoNatalClube,como Baileà seuscheirosos“almofadinhas”,ligada
lítero-jornalísticae,emespecial,peloseu Fantasia,emqueasasmaisatrativas nos gritosestridentesdosclarinseberrode
livrodeestréiadesuaesparramadae foram: Sultana (senhoraRositaGobat), guerrados“evoés”. E,aolonge,oclarim
multifacetadacarreira: AlmaPatrícia, Girassol(senhoraPedroMoura),Pavão marcialdoreiMomo.Nestevaivém,uma
versandosobrecríticaliterária,publicado (Maria Gluck), Noite (senhoritasMaria saudávelbatalhadesfech ava, aolongodo
noanoanter ior. Galvão,DalilaCavalcantieMariaLuiza corso,comsaraivadasdeáguadecheiro
Nocarnavaldocentenário,opresidente Benevides),Espanhola(senhoraMário dasbisnagas,arremessodegigantescos
EzequielWanderleyenfrentouseu rolosdeserpentinas,chuvasdeconfetee
Lira),NatalClube(senhoraOdorico bombardeiodejatosdolança-perfume,
principaldissabor:ainvasãodaconfraria Pelinca),FoliaCarnavalesca(senhoritas umclimadesonora e perfumada euforia
dosalmofadinhas,chamadosdePésdeLã, DulceeTerezaCâmara),FoliaBrasileira geral.
ousadospenetrasque,semconvitee (Maria Luiza),PierrôsBrancos(Sinhá Osblocosecordõescarnavalescos,os
forçandoabarra,tentavamburlara Filgueira,EsmerinaeEuridesSilva,Rute mesmosdetodososanos,emdesfile:
segurança. eFloripesTorres),PierrôsPretos(senhora Vassourinhas,UrubuMalandro,Coco
ObailedoNatalClubemarcavaoinício Potiguar,Canequeiros,DivisãoFrontin,
JoãoCancio,senhoritasNeusaFigueiredo, Roçadores,Camponesas,Ciganase
doreinadodocarnaval,garantiam,com DoraliceBarroseChiquitaCosta). PierrôsBrancos,entreoutros,sem
unanimidade,osdoisprincipaisjornaisda Outracriaçãodasmulheres: ocortejodas esquecer,contudo,osmáscarasavulsas,
época, ARepública e Imprensa .Em “NoveMusas”,trajadasacaráter: as emboraengraçados,masrarososque
1922,otradicionalclubecongregavao senhoritasFilomenaPatrizo(História), apresentavam originalidade.

OHinodo Deixemosqualquertristeza Háventurassemconta Cedeumanoàleidamorte, Porestasocasiões,


ClubeNoturno VamosportodooNatal, Nestatardefestiva, Chegaumoutronovo,afinal... Poiselaéditosafilha
(fundadoem1896): Dandoaopovoumasurpresa Queestamossemprenaponta SempreoNOTURNOadarsorte Dasardentesexpansões.
compostopelo NastroçasdoCarnaval. NastroçasdoCarnaval. NastroçasdoCarnaval.
Temeleasgratascarícias
saudosopoetaGotardo EnquantoodeusdaFolia Numdoceefecundoassomo Alerta!grupoexultante
Asaudaçãorosicléa,
Netoemusicado Palpitanoscorações, Deentusiasmosempar, Quenuncateverival.
Doolhardasbelaspatrícias,
peloprofessor Sódevehaveralegrias QuevibreaglóriadeMomo Docoraçãodamulher. Salve,NOTURNObrilhante
JoaquimGotardo Reinandosomenteexpansões. Sobestecéupotiguar. Amocidadeéquembrilha NastroçasdoCarnaval.

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