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antónio de deus-rosto

hoje vou
sufocar a
melancolia
Por vontade expressa do autor, a presente edição não segue a grafia
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2730-132 Barcarena

Título: Hoje Vou Sufocar a Melancolia


Autor: António de Deus-Rosto
Revisão: Silvina de Sousa
Pré-impressão: Fotocompográfica, Lda.
Capa: © Compañia
Impressão e acabamento: Norprint
ISBN: 978-989-754-194-0
Depósito legal: 406 825/16

1.a edição: Abril de 2016


HOJE VOU SUFOCAR A MELANCOLIA

A Física não enlouquece mais do que um decote.


E há uma dinastia de prazeres em nós:
primeiro queremos desesperadamente o que
assusta,
depois queremos preguiçosamente o que faz parte
da Terra.
A morte serve para ensinar a piedade, para que a
filosofia acalme momentaneamente a sede. Deus
pode ser encontrado num livro
mas também num tacho: na indiferença é que não.
A biologia não cabe na literatura.
«Quando te sentires a envelhecer foge
para dentro de um poema.»
Os filhos são estilhaços dos pais.
O sítio menos óbvio para amar é o futuro.

5
ANTÓNIO DE DEUS-ROSTO

Há um castigo qualquer na distribuição dos


sentimentos:
o poeta escreve mas o idiota ama.

6
HOJE VOU SUFOCAR A MELANCOLIA

Quis encontrar um terreno onde a minha mão


fechasse
sobre a tua sem que a idade
fosse um jogo. Esperei que em nós
só o fôlego acabasse. Mas nem os pulmões
desistem da ironia
dos teus lábios desmoronados
neles. Talvez a cultura seja a escravidão
da carne: é tão estreito o caminho
entre a língua e o abraço.
Talvez a guerra
seja o abraço ao contrário:

7
ANTÓNIO DE DEUS-ROSTO

devo a minha vida ao que cai a pique


e ao inferno, nunca à gramática
e ao sangue suave.
Só o prazer purifica.

8
HOJE VOU SUFOCAR A MELANCOLIA

A luz humilde do fim da rua torna


acessível o atravessar clandestino da minha
infância. Quando morre um Homem morre uma
paisagem, a cidade
perde uma das suas margens e as esquinas
deixam inocentemente de ter domingos. Os braços
de uma mãe deixam marcas complexas, as letras
a meia altura e uma nota aguda de violino estende-se
pelo sono.
Há muito que procuro o derradeiro reduto
de Deus, saber com paciência como dizer o
desmedido espaço
da minha solidão.

9
ANTÓNIO DE DEUS-ROSTO

Que importa a dor quando se consegue


a indiferença? Quero morrer depressa
no interior da tua tristeza
e dançar feliz.

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