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17/08/2019 Honoré de Balzac – Wikipédia, a enciclopédia livre

Honoré de Balzac
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Honoré de Balzac (Tours, 20 de maio de 1799 — Paris, 18 Honoré de Balzac
de agosto de 1850) foi um prolífico escritor francês, notável
por suas agudas observações psicológicas. É considerado o
fundador do Realismo na literatura moderna.[1][2] Sua
magnum opus, A Comédia Humana, consiste de 95
romances, novelas e contos que procuram retratar todos os
níveis da sociedade francesa da época, em particular a
florescente burguesia após a queda de Napoleão Bonaparte
em 1815.

Entre seus romances mais famosos, destacam-se A Mulher de


Balzac em 1842.
Trinta Anos (1831-32), Eugènie Grandet (1833), O Pai Goriot Pintura realizada após daguerreótipo de 1842
(1834), O Lírio do Vale (1835), As Ilusões Perdidas (1839), A de Louis-Auguste Bisson.
Prima Bette (1846) e O Primo Pons (1847). Desde Le Dernier Nome Honoré de Balzac
Chouan (1829), que depois se transformaria em Les Chouans completo
(1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou Nascimento 20 de maio de 1799
ou abordou os problemas do dinheiro, da usura, da hipocrisia Tours, Indre-et-Loire, Primeira
República Francesa (hoje
familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França departamento de Centre-Val de
liberal burguesa e, ainda que o meio operário não apareça Loire, França)
diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais Morte 18 de agosto de 1850 (51 anos)
a partir da pintura dos ambientes rurais, como em Os Paris, Segunda República
Camponeses, de 1844.[1] Além de romances, escreveu também Francesa (hoje França)
"estudos filosóficos" (como A Procura do Absoluto, 1834) e Nacionalidade francesa
estudos analíticos (como a Fisiologia do Casamento, que Cônjuge Ewelina Hańska (1850)
causou escândalo ao ser publicado em 1829).
Alma mater Universidade de Paris
Balzac tinha uma enorme capacidade de trabalho, usada Ocupação Escritor e dramaturgo
sobretudo para cobrir as dívidas que acumulava.[1] De certo Movimento Realismo / Romantismo
modo, as suas despesas foram a razão pela qual, desde 1832 literário
até sua morte, se dedicou incansavelmente à literatura. Sua Magnum opus La comédie humaine (1829-
extensa obra influenciou nomes como Proust, Zola, Dickens, 1847)
Dostoyevsky, Flaubert, Henry James, Machado de Assis, Assinatura
Castelo Branco e Ítalo Calvino, e é constantemente adaptada
para o cinema. Participante da vida mundana parisiense, teve
vários relacionamentos, entre eles um célebre caso amoroso,
desde 1832, com a polaca Ewelina Hańska, com quem veio a
se casar pouco antes de morrer.

Índice
Biografia
Família

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Primeiros anos
Adolescência
Primeiros esforços literários
"Une bonne spéculation"
La Comédie Humaine e sucesso literário
Hábitos de trabalho
Casamento e últimos anos
Estilo
Realismo
Personagens
Lugares
Perspectiva
Política
Legado
Lista de obras
Ver também
Referências
Bibliografia
Ligações externas

Biografia

Família
Honoré de Balzac nasceu de uma família que se esforçou para ganhar respeito. Seu pai, nascido Bernard-François
Balssa, era um dos onze filhos de uma pobre família de Tarn, região do sul da França. Era inicialmente um modesto
funcionário[3], mas em 1760, partiu para Paris com apenas um Louis d'or no bolso, decidido a melhorar sua posição
social. Em 1776, tornou-se maçon e secretário do Conselho do Rei, mudando seu nome para o de uma antiga família de
nobres, adicionando, sem nenhuma causa oficial, o aristocrático de.[4] Após o Reino do Terror (1793–94), estabeleceu-
se em Tours para coordenar suprimentos do Exército.[5]

A mãe de Balzac, nascida Anne-Charlotte-Laure Sallambier, era burguesa, e cresceu em uma rica família de merceeiros
(pequenos comerciantes) em Paris. A riqueza de seus parentes foi um fator considerável na troca de alianças: ela tinha
somente 18 anos quando se casou com o cinquentão Bernard-François.[6] V. S. Pritchett, crítico literário britânico,
certa vez escreveu: "Com certeza ela sabia que tinha sido dada a um velho marido como recompensa pelos serviços que
ele havia feito a um amigo de sua família e que o capital estava do lado dela. Ela não era apaixonada por seu esposo."[7]

Honoré (assim chamado por conta de Santo Honoré de Amiens, cujo dia é comemorado em 16 de maio, quatro dias
antes do aniversário de Balzac) era à época o segundo filho nascido dos Balzacs; exatamente um ano antes, nascia
Louis-Daniel, mas ele só chegou a viver durante um único mês. Posteriormente, um terceiro filho nasceu, chamado
Simone de Hudsone.[8] As irmãs Laure e Laurence nasceram em 1800 e 1802, e seu irmão Henry-François em
1807.[9][10]

Primeiros anos
Assim que nasceu, Balzac foi enviado a uma ama de leite; no ano seguinte, ele e sua irmã Laure passaram quatro anos
longe de casa.[11] Embora o livro Emílio, ou Da Educação do filósofo genebrino Jean-Jacques Rousseau houvesse
convencido milhares de mães da época a amamentarem seus próprios filhos, ainda era comum entre as famílias de

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classes média e alta o envio de bebês às amas de leite. Quando os pequenos voltaram para casa, os mantiveram
friamente afastados de seus pais, o que deve ter afetado o autor profundamente: a sua novela Le Lys dans la vallée de
1835 apresenta uma cruel governanta, chamada Miss Caroline, baseada em sua própria babá.[12]

Aos 8 anos, Balzac foi enviado ao tradicional e rigoroso colégio oratoriano de


Vendôme, onde estudou por 7 anos. Seu pai, procurando transmitir a mesma
aparência de trabalhador que lhe garantiu a estima da sociedade, enviava
intencionalmente pouco dinheiro ao garoto, e isso o fez ser objeto de chacota entre
seus colegas de classe mais ricos.[13][14]

O menino tinha dificuldades de adaptação ao estilo da rotina de aprendizagem da


escola. Por conta disso, não raro era enviado ao "nicho", um castigo de salas
reservadas a alunos desobedientes.[15] Alguns biógrafos contam que o zelador da
escola, quando perguntado muitos anos mais tarde se se lembrava de Honoré
quando pequeno, respondeu: "Lembrar M. Balzac? Como se esquecer? Eu tive a
honra de escoltá-lo para a masmorra mais de uma centena de vezes!"[16] Ainda
O Collège de Vendôme – assim, os tempos que passava sozinho lhe propiciaram a liberdade de ler todos os
desenho de A. Queyroy. livros que encontrava pela frente.

Balzac usou essas cenas de sua infância — assim como fazia com os vários aspectos
de sua vida e das vidas de quem o cercava — em La Comédie Humaine. Seu tempo em Vendôme é refletido em Louis
Lambert de 1832, romance sobre um jovem garoto que estuda num colégio oratoriano em Vendôme. O narrador diz:
"Devorava livros de qualquer espécie, alimentando-se indiscriminadamente de obras sobre religião, história e
literatura, filosofia e física. Ele havia me dito que encontrava prazer indescritível ao ler dicionários, por falta de outros
livros."[17]

Contudo, embora a sua mente e espírito fossem nutridos, o mesmo não poderia ser dito de seu corpo. Muitas vezes
Balzac ficava doente, até que uma vez, finalmente, o diretor da escola contatou sua família com notícias de uma
"espécie de coma".[18] Quando voltou para casa, a sua avó soltou: "Voilà donc comme le collège nous renvoie les jolis
que nous lui envoyons!" ("Olha só como a academia nos devolve os bonitos que os enviamos!")[19] O próprio Balzac
atribuiu o coma à sua condição de "congestionamento intelectual", mas o seu confinamento prolongado no "nicho"
certamente era outro grande fator. Enquanto isso, paradoxalmente, o seu pai havia escrito um tratado sobre "os meios
de prevenir roubos e assassinatos, e de restaurar os homens que cometem crimes a um papel útil na sociedade", no
qual ele mostrava desdém pelos métodos de prisão, como forma de prevenção da criminalidade.[20]

Adolescência
Em 1814, a família Balzac mudou-se para Paris. Honoré foi enviado a professores particulares e escolas pelos próximos
dois anos e meio. Este foi um momento infeliz de sua vida, durante o qual ele tentou o suicídio em uma ponte que fica
sobre o Rio Loire.[21] Em 1816, Balzac entrou na Sorbonne, onde teve aula com três professores famosos: François
Guizot, que mais tarde se tornou primeiro-ministro, lecionava história moderna; Abel-François Villemain, recém-
chegado do Collège Charlemagne, realizava palestras sobre literatura francesa e literatura clássica para cativar
audiências, e Victor Cousin, o mais influente de todos, que dava aulas sobre filosofia e que incentivava seus alunos a
pensar de forma independente.[22]

Uma vez concluídos os estudos, Balzac foi persuadido pelo pai a segui-lo no Direito; por três anos, treinou e trabalhou
como estagiário no escritório de Victor Passes, amigo próximo da família. Durante essa época, ele começou a entender
os meandros da natureza humana. Em seu romance Le Notaire, de 1840, escreve que um jovem na profissão legal vê
"as rodas oleosas de cada fortuna, a disputa horrenda de herdeiros sobre corpos ainda não totalmente frios, e o
coração humano às voltas com o Código Penal."[23] Em 1819, Passes ofereceu a Balzac sua sucessoria, mas o seu
aprendiz estava suficientemente cheio da lei. Desesperava-se com a ideia de ser "um funcionário, uma máquina, um

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mercenário numa escola de equitação, comendo e bebendo e dormindo em horários fixos [...]" e por isso dizia: "Eu
seria como todos os outros. E é isso que essas pessoas chamam de vida, essa vida no rebolo, fazendo sempre a mesma
coisa… Tenho fome e nada me oferecem para satisfazer o meu apetite."[24] Aqui, anuncia sua intenção de ser escritor e
a família combate o sonho.[3]

A renúncia à oferta do Senhor Passes causou grande discórdia na casa de Balzac, mas Honoré não foi definitivamente
abandonado. Em vez disso, em abril de 1819, uma vez que a família mudava-se para cidade mais modesta,[3]
autorizou-o a viver na capital francesa, de uma forma que o crítico inglês George Saintsbury descreveria, "em um sótão
mobiliado da forma mais espartana possível, com um subsídio de fome e uma mulher idosa para cuidar dele",
enquanto o resto da família se mudava para uma casa a 20 milhas [32 km], nos arredores de Paris.[25]

Primeiros esforços literários


O primeiro projeto literário de Balzac foi um libreto para uma ópera cômica chamada Le Corsaire, baseado no The
Corsair de Lord Byron. Percebendo, no entanto, que teria dificuldades em encontrar um compositor, voltou-se para
outras atividades.

Em 1820, já havia completado os cinto atos da tragédia em versos Cromwell.


Quando terminada, o seu revisor foi um homem chamado Andrieux, ex-tutor de
Eugène Surville, irmã de Balzac, e que no manuscrito escrevia: "O autor pode fazer
tudo o que quiser, exceto literatura."[26] Apesar desse comentário, e apesar desse
trabalho ser fraco em comparação com as suas obras posteriores, alguns críticos de
hoje consideram o seu texto de muita qualidade.[27][28] Balzac estava convencido a
mostrar a obra à seus parentes e, depois do ponto final, foi à Villeparisis e leu a peça
inteira para sua família, que não se impressionou.[29] Após essa tentativa, iniciou
(embora nunca tenha finalizado) três romances: Sténie, Falthurne, e Corsino. A
família o considerava um fracasso e, apesar de o pai lhe cortar a mesada,[3] não
Desenho do jovem Balzac
desanimou, e viu que era hora de mudar de gênero.
em meados da década de
1820, atribuído a Achille
Em 1821, Balzac conheceu o empreendedor Auguste Lepoitevin, que convenceu o
Devéria.
jovem a escrever contos, que mais tarde seriam vendidos por ele a editoras. Em
seguida, Balzac focou-se em obras mais longas, e em 1826 já havia escrito nove
romances, todos publicados sob pseudônimos para resguardar seu nome,[3] e alguns produzidos em colaboração com
outros autores.[30] O escandoloso romance Vicaire des Ardennes (1822), por exemplo, era atribuído a 'Horace de
Saint-Aubin' e foi proibido por retratar relações quase incestuosas e trazer como personagem um padre casado.[31]
Tais dramalhões eram intencionalmente pobres, destinados sobretudo à venda comercial e à excitação do público. Na
opinião do biógrafo George Saintsbury, "eram, curiosamente, interessantemente, quase atraentemente ruins."[32]
Saintsbury refere que Robert Louis Stevenson tentou dissuadi-lo da leitura dessas obras iniciais de Balzac.[33] O crítico
americano Samuel Rogers, contudo, nota que "sem a formação que eles deram a Balzac, assim como a procura de seu
caminho à sua concepção madura de romance, e sem o hábito de juventude de escrever sob pressão, dificilmente se
pode imaginar a sua produção de La Comédie Humaine."[34] Outro biógrafo, Graham Robb, sugere que, assim que
descobriu o romance, Balzac descobriu a si mesmo.[35]

Ainda durante essa época, Balzac escreveu dois panfletos de apoio à primogenitura e à Companhia de Jesus. Este
último, em relação à ordem dos jesuítas, demonstra o interesse que manteve durante ao longo de toda a sua vida pela
Igreja Católica. Mais tarde, num prefácio da La Comédie Humaine, escreveria: "O cristianismo, e especialmente o
catolicismo, sendo uma repressão total das tendências depravadas do homem, é o maior elemento na Ordem
Social."[36]

"Une bonne spéculation"

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Em finais da década de 1820, Balzac também se envolveu em vários


empreendimentos comerciais, uma inclinação pela qual a sua irmã responsabilizou
um desconhecido vizinho.[37] O primeiro desses empreendimentos era editorial e
publicou certa vez um volume com clássicos franceses, incluindo as obras de
Molière, a preço de banana. Embora fossem baratos, o negócio fracassou
miseravelmente e muitos dos livros "venderam feito papel velho".[38] Balzac teve
melhor sorte com a publicação das memórias de Laure Junot, duquesa d'Abrantès,
com quem também teve um caso.[39]

Pedindo dinheiro de sua família e de outras pessoas, Balzac aventurou-se


novamente em trabalhos de impressão. No entanto, a sua inexperiência e a falta de
capital causaram de novo sua ruína nos comércios de setor editorial. Conheceu e se
Laure Junot, Duquesa apaixonou por Laure de Berny, mulher casada, inteligente e carinhosa, lhe deu
d'Abrantès. sociedade comercial, abrindo com ele uma impressora que não tardou em falir e
fazer com que seu relacionamento com Laure tornasse um verdadeiro escândalo
para a época.[3] Ele passou então os negócios a um amigo (que fez sucesso com eles), mas levou consigo várias dívidas
por muitos anos.[38] Em abril de 1828, devia cerca de 50.000 francos à sua própria mãe.[40]

Esta tendência por une bonne spéculation nunca deixou Balzac em paz. Ressurgiu dolorosamente anos mais tarde,
quando, sendo um autor ocupado e de renome, viajou à Sardenha na esperança do reprocessamento de escória nas
minas romanas nessa ilha. No fim de sua vida, apostou na ideia de cortar 20 mil hectares (81 km²) de madeira de
carvalho na Ucrânia e transportá-la até à França, para vendê-la no país.[38]

La Comédie Humaine e sucesso literário


Depois de escrever diversas novelas, em 1832 Balzac concebeu a ideia para uma enorme série de livros que retratariam
o panorama de "todos os aspectos da sociedade". Quando teve a ideia, Balzac correu para o apartamento de sua irmã e
proclamou: "Estou prestes a me tornar um gênio."[41] Embora no início tenha chamado o projeto de Etudes des
Mœurs (Estudos de Boas Maneiras), mais tarde ganhou o nome de La Comédie Humaine, e ele incluiu nesta coleção
todas as ficções que ele havia publicado durante sua vida sob seu nome real. La Comédie Humaine era o trabalho da
vida de Balzac e também se tornou sua maior conquista.

Viajou à Bretanha após o fracasso dos seus negócios e permaneceu com a família de Pommereul nos arredores de
Fougères. Foi ali que ele teve a inspiração para escrever Les Chouans (1829), um conto de amor que dá errado entre as
forças monarquistas de Chouannerie.[30] Balzac, que era defensor da coroa, retratou os contra-revolucionários de
forma simpática—embora eles sejam o centro das cenas mais brutais do livro. Este foi o primeiro livro de Balzac
lançado com seu próprio nome e lhe garantiu o que um crítico chamou de "passagem para a Terra Prometida".[42] A
obra lhe proporcionou o estatuto de um autor que merecia notabilidade (mesmo que ainda devesse algo a Walter
Scott, escritor de romances históricos) e forneceu-lhe um nome a ser citado nas rodas literárias e nos salões
aristocráticos, além dos pseudônimos que havia criado no passado.[3]

Logo depois, na época da morte de seu pai, Balzac escreveu El Verdugo, sobre um homem de 30 anos que mata o
próprio pai (Balzac tinha 30 anos na época). Essa foi a primeira obra assinada como "Honoré de Balzac". Assim como
seu pai, ele adicionou o de que soava aristocrático para ser respeitado na sociedade, mas essa foi uma escolha baseada
em suas habilidades, e não no direito de primogenitura. "A aristocracia e a autoridade de talento são mais substanciais
do que a aristocracia de nomes e de poderes materiais", escreveu em 1830.[43] O momento da decisão também foi
significativa. O biógrafo Graham Robb escreve: "O desaparecimento do pai coincide com a adoção da partícula
nobiliárquica. É uma herança simbólica."[44] Tal qual seu pai trabalhou para sair da pobreza e atingir respeito social,
Balzac considerava seu esforço e trabalho como marcas de nobreza.

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Quando a Revolução de Julho destronou Carlos X em 1830, Balzac declarou-se


legitimista, apoiando a Casa de Bourbon, mas com qualificações. Ele pressentia que
a nova Monarquia de Julho (que lograva amplo apoio popular) era desorganizada
em seus princípios e que precisavam de um mediador para manter a paz política
entre o rei e as forças insurgentes. Ele pedia "um homem jovem e vigoroso, que não
pertença nem ao Diretório nem ao Império, mas que esteja encarnado em
1830."[45] Planejou candidatar-se, apelando principalmente pelas classes mais altas
de Chinon. Mas depois de um acidente quase fatal em 1832 (em que havia
escorregado e rachado a cabeça na rua), Balzac decidiu não se candidatar às
eleições.[46]

La Peau de chagrin experimentou sucesso em 1831 e é uma espécie de fábula sobre


um jovem desesperado chamado Raphaël de Valentin, que encontra uma pele de
animal que prometia grande poder e riqueza. O protagonista logra ganhar esses
Retrato de 1899 por J. Allen
atributos, mas perde a capacidade de gerenciá-los. No final, a sua saúde começa a
St. John de um Balzac em
sua maturidade. falhar e ele é consumido pela própria confusão. Balzac desejava, com essa trama,
testemunhar as voltas traiçoeiras que a vida dá e seu "movimento de
serpentina".[47] Em 1833, foi lançado Eugènie Grandet, seu primeiro romance a
figurar entre os mais vendidos da época.[48] A história de um jovem que herda o espírito de avareza do pai também
tornou-se um dos livros mais aclamados de sua carreira. A escrita é simples, mas os personagens (especialmente o
protagonista-título burguês) mostram-se dinâmicos e complexos.[49]

Le Père Goriot (O Pai Goriot, 1835) foi o seu próximo grande sucesso, em
que Balzac transpõe a história de Rei Lear a uma Paris da década de 1820,
destituída de todo o amor, mas que guardava amor pelo dinheiro. O fato do
autor ter centralizado a figura de um pai na novela se correlaciona com o
fato de que na época era mentor de seu secretário, o jovem Jules
Sandeau,[50] e principalmente porque agora (ao que tudo indica) também
já era pai, de Marie-Caroline, com Maria Du Fresnay.[51] Em 1836, Balzac
assumiu o comando do Chronique de Paris, revista semanal de sociedade e
política. Se esforçava para que suas páginas demonstrassem o máximo de
Casa de Balzac em Paris, vista da
imparcialidade possível e uma avaliação fundamentada em ideologias
Rue Berton. O Maison de Balzac é
diversas.[52] Assim, estava interessado em qualquer ciência social, política um dos três museus literários de
ou econômica, seja de direita ou de esquerda.[53] A revista faliu, mas, em Paris hoje em dia.
julho de 1840, fundou outra publicação, chamada Revue Parisienne, que,
contudo, durou somente até a terceira edição.[54]

Tais tentativas frustradas de negócios, acrescidas de suas desventuras já citadas na Sardenha, providenciaram um
milieu apropriado para escrever o livro de duplo volume Illusions Perdues (Ilusões Perdidas, 1843). O romance se foca
em Lucien de Rubempré, jovem poeta que se esforça para ganhar a vida e que fica preso no "pântano" das piores
contradições sociais. Seu inglório trabalho no jornalismo reflete as próprias tentativas fracassadas de Balzac nessa
área.[52] Splendeurs et misères des courtisanes (1847) continua com a história de Lucien. Ele está preso por Abbé
Herrera (Vautrin) em um plano complicado e desastroso para recuperar o seu status social. O livro é permeado por
uma fenda enorme de tempo; a primeira parte (de quatro) abrange um período de 6 anos, enquanto as duas últimas se
concentram em apenas 3 dias.[55]

Le Cousin Pons (1847) e La Cousine Bette (1848) contam a história de Les Parents Pauvres (Os Parentes Pobres).
Detalhes sobre testamentos e heranças nestas novelas refletem a experiência que o autor adquiriu quando era
funcionário e estagiário no escritório de advocacia do amigo de sua família, Victor Passes. A realização desses dois
livros foram significativas porque, nessa época, a saúde de Balzac se deteriorava e quase não pôde completá-los.[56]
Muitas de suas novelas foram inicialmente tornadas em série, como aconteciam com as de Charles Dickens. O

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tamanho dessas obras não era predeterminado. Illusions Perdues estendeu-se a milhares de páginas após o início
numa loja de impressão de uma pequena cidade, enquanto a La Fille aux yeux d'or (A Garota dos Olhos de Ouro,
1835) nos fornece um imenso panorama de Paris, embora seja uma novela muito focada em apenas cinqüenta páginas.

Hábitos de trabalho
São notáveis os hábitos de trabalho em que se dispunha Balzac—embora não conseguisse trabalhar rapidamente,
esforçava-se com dedicação e foco incríveis. Seu método preferido era comer uma rápida refeição às cinco ou seis
horas da tarde e então dormir até meia-noite. Depois do descanso, levantava-se na madrugada e escrevia por muito
tempo, às vezes interrupdamente, com pausas apenas para tomar algumas xícaras de café preto, pois, conforme
escreveu, "O café é a bebida que desliza para o estômago e põe tudo em movimento."[57] Costumava trabalhar em um
único trecho por cerca de 15 horas ou mais; chegou a declarar que certa vez trabalhou interrupdamente por 48 horas
com apenas 3 horas de descanso.[58]

Além disso, realizava revisões obsessivamente, cobrindo provas de


impressão com mudanças e adições a serem repostas. Por vezes, repetia
este processo durante a publicação de um livro e como resultado criava
despesas significativas para si próprio e seu editor.[59] Não raro o produto
final era muito diferente da ideia concebida anteriormente e do livro
original. Embora alguns de seus livros nunca tenham chegado a um estado
final, como Les employés (1841), eles não deixam de ser notados pelos
críticos.[60]

Apesar de Balzac ter sido um "eremita e vagabundo",[61] conseguiu manter- Primeira página dos esboços de
se conectado, e principalmente retratar como ninguém, o mundo social que Béatrix.
alimentava a sua escrita. Era amigo de Théophile Gautier e Pierre-Marie-
Charles de Bernard du Graal de la Villette, e conhecia Victor Hugo, a quem admirava e escrevia cartas. Não gastava seu
tempo em salons, tampouco em clubes, como faziam muitos de seus personagens principais. Porque, como dizem
biógrafos e críticos, Balzac não se sentia confortável nesses lugares, pois "pressentia que seu negócio não era
freqüentar a sociedade, mas criá-la."[62] Porém, frequentou muitas vezes o Château de Saché, próxima de sua cidade
natal, Tours, e que era a casa de seu amigo Jean de Margonne, amante de sua mãe e pai de seu irmão mais novo.
Muitos dos personagens atormentados de Balzac foram concebidos no quarto do segundo andar. Hoje, este Château é
um museu dedicado à vida do autor.

Casamento e últimos anos


Em fevereiro de 1832, Balzac recebeu uma carta de Odessa, sem remetente e assinada apenas como "L'Étrangère" ("O
Estrangeiro"), expressando tristeza pelo cinismo e o ateísmo de seu livro La Peau de Chagrin e a imagem negativa que
o livro fazia das mulheres. Ele respondeu comprando um espaço nos classificados da Gazette de France, esperando
que o seu crítico misterioso descobrisse a propaganda. Assim começava uma correspondência de 15 anos entre Balzac
e "o objeto de seus mais doces sonhos": Ewelina Hańska.[63]

Era casada com um homem 20 anos mais velho que ela, Wacław Hański, rico polonês proprietário de terras que vivia
em Kiev; havia sido um casamento de conveniência com o intuito de preservar a fortuna da moça. Em Balzac, Ewelina
encontrara uma alma gêmea para seus desejos emocionais e sociais, uma vez que também aspirava viver entre a gente
e as ruas glamurosas da capital francesa.[64] A correspondência de ambos revela um intrigante equilíbrio entre paixão,
decência e paciência; enquanto a moça sempre tentava imaginar realidades alheias, o moço estava determinado em
manter o seu rumo, independente dos truques que tinha para usar.[65]

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Para a felicidade de Balzac, Wacław Hański morreu em 1841. Com isso, o


admirador de sua viúva finalmente teve a oportunidade de concretizar
mais facilmente os seus sonhos e prosseguir com seus afetos. Concorrendo
com o compositor húngaro Franz Liszt, Balzac a visitou em São
Petersburgo em 1843 e impressionou-se com o que viu.[66] Após uma série
de reveses econômicos, problemas de saúde, e as proibições do Czar,
ambos finalmente conseguiram se casar.[67] Em 14 de março de 1850, com
a saúde de Balzac em sério declínio, foram do estado dela em
Wierzchownia (povoação de Verkhivnia) para uma igreja em Berdyczów
(cidade de Berdychiv, hoje na Ucrânia) e se casaram. Essa jornada durou
10 horas e resultou em pés inchados na noiva e problemas cardíacos no
noivo.[68]

Retrato de Ewelina Hańska por Holz Embora tenha se casado tarde, Balzac já havia escrito dois tratados sobre o
von Sowgen (1825). casamento: Physiologie du Mariage e Scènes de la Vie Conjugale. Ambas
as obras sofreram com a falta de conhecimento de primeira mão; como
dizem alguns críticos, "Cœlebs não pode falar de casamento com muita autoridade."[69] Em abril, o casal recém-
casado partiu para Paris. A saúde de Balzac piorou durante o percurso e Ewelina escreveu à sua filha que o marido
estava "em estado de extrema fraqueza" e "suando em bicas".[70] Chegaram na capital em 20 de maio, no
quinquagésimo primeiro aniversário de Balzac.[71]

Cinco meses depois do casamento, em 18 de agosto, Balzac morreu. Sua mãe era a
única pessoa que estava com ele, quando faleceu; Mme. Hańska tinha ido para a
cama.[72] Naquele dia, ele fora visitado por Victor Hugo, que mais tarde serviu
como acompanhante do funeral e que também se encarregou do elogio fúnebre no
cemitério.[73][74]

Balzac está enterrado no Cimetière du Père Lachaise em Paris.[75] "Hoje", proferiu


Hugo na cerimônia, "nós temos um povo de preto por causa da morte de um
homem de talento; uma nação em luto por um homem de gênio."[76] O funeral foi
assistido por "quase todos os escritores de Paris", incluindo Frédérick Lemaître,
Gustave Courbet, Dumas père e Dumas fils.[77] Mais tarde, Auguste Rodin criou
uma estátua monumental em homenagem a Balzac, e que hoje em dia fica próxima
do cruzamento da Boulevard Raspail e Boulevard du Montparnasse. Rodin também
retratou o autor das comédias humanas em diversas outras esculturas menores. Monumento a Balzac no
Cimetière du Père-
Lachaise.
Estilo
A Comédie Humaine ficou inacabada à época de sua morte — Balzac tinha planos de incluir nesta coleção vários
outros livros, a maioria dos quais ele não havia sequer iniciado.[78] Viajava muito durante o processo dos livros, e as
obras "completas" às vezes eram revisadas entre diferentes edições. Este estilo reflete a própria vida do autor, que
sempre foi uma tentativa de estabilização através de suas ficções. "O homem que constantemente desaparece",
escreveu V. S. Pritchett, "e que deveria ser perseguido da rua Cassini à… Versailles, Ville d'Avray, Itália, e Viena só
poderia construir uma habitação fixa no seu trabalho."[41]

Realismo
O uso excessivo que Balzac faz dos detalhes, especialmente os detalhes de objetos, para ilustrar a vida de suas
personagens, fez com que ele fosse um dos pioneiros do realismo literário.[2] Embora admirasse e fosse inspirado pelo
estilo romântico de autores como o escocês Walter Scott, procurou em sua obra retratar a existência humana através
do uso de particularidades.[79] No prefácio da primeira edição de Scènes de la Vie privée, ele escreveu: "O autor
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acredita firmemente que os detalhes apenas passarão a determinar o mérito das obras..."[80] Entre os detalhes mais
comuns em Balzac estão descrições às vezes minuciosas de decorações, roupas, e posses, que ajudam a conhecer
melhor as personagens.[81] Um exemplo notável são as descrições da Pension Vauquer em Le Père Goriot, em que o
papel de parede da pensão reflete a identidade interior dos seus moradores, inspirado num amigo pessoal do autor,
Hyacinthe de Latouche, que tinha conhecimento sobre suspensão de papéis de parede.[82]

Há críticos que consideram a escrita de Balzac um notável exemplo do naturalismo — uma forma mais pessimista e
analítica do realismo, que busca explicar o comportamento humano como intrinsecamente relacionado ao meio. Émile
Zola declarou certa vez que Balzac era o pai da novela naturalista.[83] Em outra ocasião, este autor francês disse que,
enquanto os românticos viam o mundo através de lentes coloridas, o naturalista vê o mundo através de um vidro
transparente — precisamente o tipo de efeito que Balzac se esforçava para alcançar em suas obras.[84]

Personagens
Balzac procurava retratar seus personagens como pessoas reais, nem totalmente boas nem totalmente más, mas
plenamente humanas. "Para chegar à verdade", escreveu no prefácio de Le Lys dans la vallée, "os escritores usam de
qualquer artifício literário que pareça capaz de dar a maior intensidade de vida possível a seus personagens."[85]
Alguns críticos de fato escrevem que "os personagens de Balzac eram tão reais para o autor que era como se ele
estivesse observando-os no mundo externo."[86] Essa realidade foi observada pelo autor inglês Oscar Wilde, que certa
vez disse: "Uma das maiores tragédias de minha vida foi a morte de Lucien de Rubempré [protagonista de Illusions
Perdues]... Isso me assombra nos momentos de prazer. Eu me recordo disso quando dou risada."[87]

E, ao mesmo tempo, seus personagens representam uma variedade de tipos sociais; o nobre soldado, o malandro, o
operário orgulhoso, o espião destemido, a amante sedutora, entre outros.[88] Não por acaso, como se vê, a sua
Comédie Humaine é dividida em cenas: "da vida privada", "da vida de província", "da vida parisiense", "da vida
política", "da vida militar" e "da vida do campo".[1][2] Uma das provas de habilidade do autor foi saber equilibrar a
força individual dessas personagens com a representação de seu tipo social. Um crítico explicou que "há um centro e
uma circunferência no mundo de Balzac."[89]

Seu uso repetitivo de personagens (muitos dos quais entram e saem nos diversos
livros da Comédie) reforça a sua representação realista. "Quando os personagens
reaparecem", observa Rogers, "eles não saem do nada; emergem a partir da
privacidade de suas próprias vidas que, por um intervalo, não fomos autorizados a
ver."[90] Balzac também utilizou uma técnica realista que o romancista francês
Marcel Proust posteriormente denominou "iluminação retrospectiva", no qual o
passado de um personagem é revelado muito tempo depois dele ou dela aparecer
pela primeira vez.

Uma reserva quase infinita de energia


impulsiona os personagens dos
romances de Balzac. Lutando contra as
correntes da natureza humana e da Ilustração de 1897 para Le
Père Goriot.
sociedade, eles podem perder mais
vezes do que ganhar — mas só
raramente desistem. Este traço universal humano reflete a disputa do
próprio Balzac contra sua família e a sociedade, e um interesse pelo físico e
místico austríaco Franz Mesmer, pioneiro no estudo do magnetismo
Edição de 1901 de The Works of
animal. Balzac falava muitas vezes de uma "força de nervos e fluídos" entre
Honoré de Balzac.
os indivíduos, e o declínio de Raphaël Valentin em La Peau de Chagrin
exemplifica o perigo de se afastar da companhia de outras pessoas.[91]

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Lugares
As representações da cidade, do interior, das construções, eram essenciais no realismo de Balzac e muitas vezes
serviram para pintar um cenário naturalista em seus livros por onde a vida das personagens seguiria seu curso
particular. Isso lhe rendeu a reputação de naturalista. Para se ter uma ideia, alguns detalhes intrincados sobre locais
por vezes se estendem por cerca de quinze ou vinte páginas.[92] Assim como fazia com as pessoas a seu redor, Balzac
estudava com profundidade esses lugares, viajando para locais remotos e realizando notas de levantamento que tinha
feito em visitas anteriores.[93]

A influência da cidade de Paris permeia quase todas as páginas de La Comédie. A natureza ocupa um lugar de volta à
metrópole artificial, em contraste com as representações do tempo e da vida selvagem no meio rural. "Se em Paris",
escreve Rogers, "estamos em uma região feita pelo homem, onde até as estações do ano são esquecidas, essas cidades
do interior são quase sempre retratadas em seu ambiente rural".[94] O próprio Balzac já havia escrito que "as ruas de
Paris possuem qualidades humanas e não podemos nos afastar das impressões que elas causam nas nossas
mentes."[95] O foco da Comédia Humaine em Paris é a chave de ouro que coloca Balzac como um autor realista. "O
realismo não é nada se não for urbano", anota o crítico Peter Brooks; a cena do jovem ambicioso que vai à cidade
grande para encontrar a sua tão sonhada e prometida fortuna é onipresente no romance realista, e aparece
freqüentemente nas obras de Balzac, vide Ilusões Perdidas.[96][97]

Perspectiva
O humor literário de Balzac evoluiu com o tempo, passando de desanimado e decepcionado a solidário e corajoso -
mas nunca otimista.[98] Entre seus primeiros romances, La Peau de Chagrin é um conto pessimista da confusão e
destruição. Mas o cinismo caiu assim que sua obra avançou e as personagens de Illusions Perdues, por exemplo,
revelam simpatia com aqueles que são deixados à margem social. A evolução do romance no século XIX como
"democrática forma literária" propiciou a Balzac a afirmação de que "les livres sont faits pour tout le monde," ("livros
são escritos para todo o mundo").[99]

Era preocupado predominantemente com o mais escuro da natural essência humana e a influência corrupta das
sociedades média e alta.[100] Representou a humanidade em seu estado mais representativo, e freqüentemente
passava incógnito entre as massas da sociedade parisiense para fazer pesquisas.[101] Usou incidentes de sua própria
vida e da vida das pessoas a seu redor em diversas obras, como Eugénie Grandet e Louis Lambert.[102]

Política
Honoré de Balzac era um monarquista altamente conservador; de diversas formas, ele pode ser visto como o antípoda
do republicanismo democrático de Victor Hugo.[103] Desde Le Dernier Chouan (1829), que depois se transformaria
em Les Chouans (1829, na tradução brasileira A Bretanha), Balzac denunciou ou abordou os problemas do dinheiro,
da usura, da hipocrisia familiar, da constituição dos verdadeiros poderes na França liberal burguesa e, ainda que o
meio operário não apareça diretamente em suas obras, discorreu sobre fenômenos sociais a partir da pintura dos
ambientes rurais, como em Os Camponeses, de 1844. Não obstante, a sua aguçada percepção quanto às condições da
classe trabalhadora fez com que ganhasse estima de muitos socialistas e marxistas; era o autor favorito de Engels.[104]

Legado
Honoré de Balzac influenciou significativamente escritores de seu tempo e das próximas gerações. Muitos críticos das
mais variadas nações atribuem os seus grandes autores como seus Balzacs; Charles Dickens, por exemplo, já foi
chamado de "o Balzac inglês" e de fato o autor francês teve certa influência nele.[105] Certos críticos denominam
Manuel Antônio de Almeida o "Balzac brasileiro",[106] enquanto o Frankfurter Allgemeine Zeitung já reservou tal
título ao mais recente Jorge Amado.[107] Machado de Assis também sofreu forte influência de Balzac em seus
primeiros escritos realistas.[108] No entanto, ele rompe com a narrativa linear e principalmente com os narradores à

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modelo de Balzac, Zola e Flaubert, que desapareciam por detrás da


objetividade narrativa, e assim escreveu seus grandes romances, como
Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas, com narradores
cínicos e que merecem desconfiabilidade,[109][110] sem, absolutamente,
desprezar o caráter social e pessimista que também se encontra em
Balzac.[111][112] De fato, muitos críticos já escreveram aproximações sobre
ambos,[113] entre elas uma observação das influências das mulheres
balzaquianas nas mulheres de Machado, especialmente Capitu e a A
Mulher de Trinta Anos.[114] Dos realistas, contudo, Machado dizia:
"Voltemos os olhos para a realidade, mas excluamos o realismo; assim não
sacrificaremos a verdade estética."[115] Quanto aos detalhes excessivos
presentes em Balzac e em naturalistas como Eça de Queirós, criticou: "essa
pintura, esse aroma de alcova, essa descrição minuciosa, quase técnica, das
relações adúlteras, eis o mal."[116]
Busto de Balzac por Auguste Rodin
Eça de Queirós, por sua vez, admirava a Comédie tanto quanto Camilo (1892), disponível no Victoria and
Castelo Branco. Este escreveu um conjunto de oito narrativas a que deu o Albert Museum.
nome de Novelas do Minho (1875-1877), explicitamente influenciado em
Balzac,[117] enquanto o primeiro escrevia Cenas da Vida Portuguesa, ciclo de romances destinados a retratar a
sociedade portuguesa, após o estabelecimento do liberalismo em Lisboa, Portugal, dos quais vieram à luz Os Maias e A
Capital, à imagem das cenas sociais que o autor francês fazia de sua França e Paris.[118]

Gustave Flaubert também foi substancialmente influenciado pela escrita de Balzac. Elogiando seu retrato da
sociedade, enquanto atacava seu estilo de prosa, certa vez escreveu: "Que homem ele teria sido caso soubesse
escrever!"[119] Enquanto desdenhava o rótulo de "realista", Flaubert claramente se focava na atenção de Balzac aos
detalhes e em suas descrições da vida "nua e crua" da burguesia.[120] Tal influência se mostra na obra L'education
sentimentale de Flaubert, que possui uma dívida com as Illusions Perdues.[121] "Aquilo que Balzac começou", escreveu
um crítico, "Flaubert ajudou a terminar".[122]

De maneira semelhante, Marcel Proust também aprendeu com o exemplo realista, e fazia estudos cuidadosos de sua
obra, embora tenha criticado o que veio chamar de "vulgaridade" de Balzac.[123][124] No entanto, seu À la recherche du
temps perdu utiliza um exemplo na ancestral história de Balzac chamada Une Heure de ma Vie (Uma Hora da Minha
Vida, 1822), em que segue em detalhes reflexões pessoais profundas.[101] Mais tarde, contudo, em sua maturidade,
Proust chamou de "loucura" a moda contemporânea de comparar Balzac com Tolstói.[125] O romancista norte-
americano Henry James, por sua vez, talvez tenha sido o mais afetado por Balzac que todos os outros aqui já citados;
escreveu quatro ensaios derramando elogios sobre ele (em 1875, 1877, 1902 e 1913), e num desses escritos afirmava:
"Grande como Balzac é, ele é todo de uma peça e permanece na perfeição."[126] James se esforçava para manter as
motivações psicológicas em detrimento de exibições históricas em seus novelas, e isso aprendeu com Balzac.[127]
Ambos autores utilizaram a forma do romance realista para sondar as maquinações da sociedade e da miríade dos
motivos do comportamento humano.[122][128]

A visão de Balzac de uma sociedade na qual o dinheiro, as classes e as ambições pessoais são os principais
intervenientes foi endossada por críticos de ambas tendências de esquerda e direita política.[129] O marxista Friedrich
Engels escrevia: "Aprendi mais com Balzac do que com todos os outros profissionais, historiadores, economistas e
estatísticos juntos."[104] Recebeu elogios de críticos tão diversos como Walter Benjamin e Camille Paglia.[130] Em
1970, Roland Barthes publicou S/Z, detalhada análise sobre a história Sarrasine e uma obra-chave na crítica literária
estruturalista. Balzac também tem influenciado a cultura popular. Muitas de suas obras têm sido adaptadas para o
cinema, como Cousin Bette de 1998, estrelando Jessica Lange. Ele também é incluído de maneira significativa no filme
The 400 Blows (1959) de François Truffaut. Como roteirista, Truffaut creditava Balzac e Proust como os maiores
escritores de toda a França.[131]

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Lista de obras
Tragédia em versos Títulos selecionados da La Comédie Humaine

Cromwell (1819) Les Chouans (1829)


Inconclusas por conta da morte A Mulher de Trinta Anos (1829-1842)
Sarrasine (1830)
Le Corsaire (ópera) La Peau de chagrin (1831)
Sténie Le Chef-d'œuvre inconnu (1831)
Falthurne Le Colonel Chabert (1832)
Corsino Le Curé de Tours (1832)
Publicadas em pseudônimo La Fille aux yeux d'or (1833)
Eugénie Grandet (1833)
Como "Lord R'Hoone", em colaboração
Le Contrat de mariage (1835)
L'Héritière de Birague (1822) Le Père Goriot (1835)
Jean-Louis (1822) Le Lys dans la vallée (1835)
Como "Horace de Saint-Aubin"
La Rabouilleuse (1842)
Illusions perdues (I, 1837; II, 1839; III, 1843)
Clotilde de Lusignan (1822) La Cousine Bette (1846)
Le Centenaire (1822) Le Cousin Pons (1847)
Le Vicaire des Ardennes (1822) Esplendores e Misérias das Cortesãs - no
La Dernière Fée (1823) original Splendeurs et misères des
Annette et le Criminal (Argow le Pirate) courtisanes (1847)
(1824) Peças
Wann-Chlore (1826)
L'École des ménages (1839)
Publicadas anonimamente
Vautrin (1839)
Du Droit d'aînesse (1824) Les Ressources de Quinola (1842)
Histoire impartiale des Jésuites (1824) Paméla Giraud (1842)
Code des gens honnêtes (1826) La Marâtre (1848)
Contos Mercadet ou le faiseur (1848)

Contes drolatiques (1832–37)


La Grande Bretèche
Um Episódio de Terror

Ver também
Balzaquiana, adjetivo criado após seu livro A Mulher de Trinta Anos, para referir-se às mulheres na faixa dessa
idade.[132]
Balzaquiano, referente à obra de Balzac.
Obras de A Comédia Humana de Balzac, lista integral de todas as obras de La Comédie humaine.

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Ligações externas
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