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Artigo original

BRIGAR JUNTO CONTRA O GOVERNO


Alianças e disputas na implantação de um Plano de
Desenvolvimento Sustentável*
Renata Barbosa Lacerda
 https://orcid.org/0000-0001-6128-7285

Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAS/MN/UFRJ), Rio de
Janeiro – RJ, Brasil. E-mail: reblacer@gmail.com.

DOI: 10.1590/3410008/2019

Introdução Terra Nossa (PDSTN) e da floresta nacional (Flona)


do Jamanxim.1 Esses territórios, ainda não regulari-
Este artigo analisa como sujeitos sociais hetero- zados, foram criados nos marcos do Plano BR-163
gêneos, que já mostraram divergências ou hostilidade Sustentável, o qual “mudou as regras do jogo”, isto
entre si, se mobilizaram conjuntamente para a reali- é, os termos pelos quais esses sujeitos concebiam a
zação de um bloqueio da rodovia BR-163 (Cuiabá- mediação do governo no acesso às terras públicas e
-Santarém) na cidade de Novo Progresso (Pará) em aos recursos florestais e minerais na região.2
2013, no qual demandaram a redelimitação do as- Diferentemente da literatura regional que im-
sentamento Projeto de Desenvolvimento Sustentável plícita ou explicitamente supõe haver “manipula-
ção” daqueles com maior capital político e econô-
mico na mobilização para manifestações como a
* Agradeço aos meus interlocutores, sem os quais seria
impossível a pesquisa de mestrado cujos dados etno-
de 2013,3 argumentamos que seus participantes se
gráficos fundamentam esse trabalho, bem como aos constituem como sujeitos éticos ao refletirem sobre
comentários de Thiago Brandão Peres (Iesp/Uerj), Ca- as relações de poder nas quais se situam (Laidlaw,
milo Salcedo (PPGSA/UFRJ) e aos pareceristas anôni- 2014) e compartilharem um conjunto de valores e
mos a versões iniciais deste texto. A elaboração deste
artigo se deu a partir das questões do curso sobre éticas categorias (Bailey, 1971). Desse modo, a constru-
e agonísticas ministrada por John Cunha Comerford e ção de uma moralidade comum ao que identificam
Dibe Ayoub no PPGAS/MN/UFRJ. como “sociedade progressense” possibilitou, por
Artigo recebido em: 09/05/2018 um lado, a articulação de diferentes lutas e de su-
Aprovado em: 14/10/2018 jeitos vistos como desiguais em uma mesma briga
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contra o governo e, por outro lado, disputas entre marcação, de modo a resolver o “impasse entre
sujeitos associados à mesma luta. assentados e posseiros” em torno da terra.
Como recurso metodológico, empregamos as
narrativas dos sujeitos que atuaram na manifestação A primeira pauta era associada pela imprensa
sobre suas histórias de vida e suas versões desse pro- aos garimpeiros representados pelo Sindicato dos
testo,4 por meio de: entrevistas concedidas em tra- Garimpeiros (Siganp) e aos madeireiros. A segunda
balhos de campo;5 reportagens; e discursos públicos pauta era vinculada especialmente ao Sindicato dos
de lideranças. Na primeira parte do artigo, apresen- Produtores Rurais (Sinprunp), às associações de pro-
tamos a manifestação, suas motivações associadas dutores rurais da Flona e, por vezes, aos trabalhado-
à “mudança das regras do jogo” e as diferenciações res rurais contratados por esses e representados pelo
sociais entre os manifestantes. Na segunda parte, Sindicato de Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais
enfocamos as alianças e disputas, as relações com de Novo Progresso (STTR/NP). A terceira pauta
os líderes e com o governo, tendo em vista analisar era apresentada como ligada aos assentados, também
como essa forma de brigar, como uma performance representados pelo STTR/NP. Apesar de não men-
ritual no sentido de Lambek (2011; 2015), (re)pro- cionados pela imprensa, os manifestantes assinala-
duziu critérios éticos a partir dos quais foram cons- ram ainda a atuação do Sindicato dos Trabalhadores
tituídas, avaliadas e orientadas práticas cotidianas e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (Sinttraf )
que dizem respeito a saber brigar, lutar e governar. na defesa dos assentados e do Sinprunp na defesa da
desafetação de áreas reivindicadas por produtores ru-
rais dentro do assentamento PDSTN. Ademais, os
A briga, as lutas e as regras meios de comunicação – em especial a rádio local
usada para a convocação de mais participantes – des-
Em outubro de 2013, sujeitos que se autoclas- tacaram que os comerciantes, por meio de suas asso-
sificam como garimpeiros,6 trabalhadores rurais ciações, apoiaram a ação.
(assentados ou não),7 produtores rurais,8 comer- Tanto o PDSTN (149.842 hectares) quanto a
ciantes,9 madeireiros10 e suas entidades de repre- Flona do Jamanxim (1.301.120 hectares), unida-
sentação bloquearam por oito dias consecutivos a de de conservação (UC) de uso sustentável, foram
rodovia BR-163 na cidade de Novo Progresso. A criados em 2006 como parte das ações do Plano
manifestação foi noticiada de maneiras variadas por BR-163 Sustentável de combate ao desmatamento
meios de comunicação nacionais, estaduais, regio- através da regularização fundiária, demarcação de
nais e locais, os quais destacaram a paralisação do áreas protegidas e mecanismos de participação so-
fluxo de caminhões que transportavam grãos de cial. Contudo, desde a instituição desses territórios
Mato Grosso para o porto de Santarém. Em sínte- houve aumento de desmatamento12 e contestações –
se, foram divulgadas as seguintes pautas: judiciais, legais e por meio de ações coletivas – diri-
gidas ao governo e centradas na crítica à sobreposi-
a) o livre acesso à Flona do Jamanxim, pois a re- ção a garimpos e a posses de produtores rurais, que
cém-instalada guarita de fiscalização do Institu- raramente possuem títulos de propriedade13. Em
to Chico Mendes de Conservação da Biodiver- suma, se desenrolaram as seguintes disputas:
sidade (ICMBio)11 vinha impedindo o trânsito
de combustível para garimpos e aumentando a a) de garimpeiros, representados pelo Siganp,
fiscalização sobre a extração ilegal de madeira; pela regularização de sua atividade diante da
b) a redução dessa Flona pelo mesmo instituto, de crescente competição com grandes minerado-
modo que os produtores rurais das áreas desafe- ras pela aprovação de requerimentos de lavra
tadas pudessem obter o título de propriedade; em UCs que possuem zonas previstas para a
c) a regularização do assentamento PDSTN pelo mineração, como a Flona do Jamanxim;
Instituto Nacional de Colonização e Reforma b) de trabalhadores rurais através do STTR/NP,
Agrária (Incra), órgão responsável pela sua de- mas sobretudo produtores rurais (Sinprunp e
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associações da Flona) que defendem a anulação governo para que cumpra acordos previamente esta-
ou redução da Flona pelo ICMBio; belecidos.16 Além do manifesto, assentados falavam
c) de madeireiros clandestinos, pela legalização de sobre a “briga na Justiça” entre os fazendeiros do
sua atividade diante dos órgãos de fiscalização entorno do PDS e o Incra, parte da sua luta para
ambiental através da regularização fundiária; permanecer no assentamento. Um produtor rural
d) entre assentados (por meio do STTR, Sinttraf que reivindica ter posse na Flona mencionou ainda
e associações) e os fazendeiros (com o Sinpru- a “briga no Congresso” se referindo a dois projetos
np) que reivindicam a posse de determinadas de decreto legislativo (PDL) que buscaram sustar os
áreas do PDS pela (re)delimitação do assenta- decretos de fevereiro de 2006 que criaram UCs no
mento, e deles com o Incra.14 Pará, entre elas a Flona do Jamanxim.
Em poucas palavras, a briga significa uma si-
Essas contestações, chamadas de brigas, eram re- tuação de enfrentamento com algum agente especí-
latadas principalmente pelas lideranças como episó- fico. No caso aqui analisado, o repertório de brigas
dios de uma briga comum contra o governo – nesse com o governo é marcado espacialmente (rodovia,
caso, o governo federal15 –, vivenciada como lutas Congresso, Justiça, Brasília, Belém), bem como
por pautas e direitos justificados com base em legis- temporalmente, pela durabilidade delimitada, evo-
lações ou em critérios morais partilhados, relativos cação de episódios passados (outros manifestos e
ao que se entende como direitos de trabalhar e de reuniões com o governo) e projeção de episódios
produzir. A ideia de governo é expressa através de futuros (promessas, ameaças de bloqueio da ro-
seus órgãos particulares – como o Incra, o ICMBio dovia, reuniões agendadas). Ademais, como argu-
e o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Re- mentamos ao longo do trabalho, a noção de briga é
cursos Naturais Renováveis (Ibama) –, dos servidores fabricada eticamente, nas práticas de autorreflexão
com quem lidam diretamente no cotidiano ou ainda feitas nas relações entre os sujeitos das lutas da Flo-
de seus escritórios em Brasília, Belém ou Santarém. na e do PDSTN. A (in)existência da briga é pensa-
Lutar possui um significado mais abrangente da nas relações com o governo, mas também entre
que brigar, sendo uma categoria mais referida nessa pequenos e grandes, assentados e produtores rurais,
situação a lutas que se prolongavam por anos, no garimpeiros e mineradoras.
sentido de “luta da Flona” (para produtores), “luta
do Terra Nossa” e “luta para ficar” (para assentados) As motivações da briga: a “mudança das regras
e “luta por uma terra” (quando se referem à luta dos do jogo”
fazendeiros do entorno do PDSTN). Cabe ressaltar
que o termo luta é polissêmico, possuindo diversos Os produtores rurais, empresários e comer-
sentidos conforme quem o enuncia e o contexto, o ciantes que reivindicam posses na Flona do Jaman-
que remete à análise de Comerford (1999) referen- xim e no PDSTN passaram predominantemente
te ao seu uso por um sindicato de trabalhadores ru- pelas regiões Sul, Centro-Oeste e Sudeste do país
rais de Minas Gerais, pois pertence a um universo e por diversas ocupações, entre as quais se destaca-
de representações que abrange noções de sofrimen- vam: o trabalho em fazenda, especialmente como
to, trabalho e direitos. Assim, abarca desde práticas administradores do proprietário; a mineração, so-
cotidianas no presente ou no passado à mobilização bretudo como donos de garimpo; como donos ou
de sujeitos coletivos no seu fazer-se nas lutas – seja trabalhadores de serrarias; a construção civil; como
um setor específico (por exemplo, produtores), suas motoristas de caminhão; como taxistas; o comér-
entidades representativas (por exemplo, um sindi- cio. Daqueles considerados como tendo mais con-
cato, uma associação) ou, mais genericamente, a dição, destacam-se os membros de famílias sulistas
“sociedade progressense”. reconhecidas como pioneiras, as quais no período
Já a ação coletiva de fechar a BR-163, também da abertura da BR-163 pelo Exército – do fim dos
chamada de greve ou manifesto, é entendida como anos de 1970 a meados dos anos de 1980 – chega-
uma forma de brigar baseada na pressão coletiva ao ram com poucos recursos em povoados que com-
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põem o atual município de Novo Progresso, visto às autorizações emitidas pelo último para a ativi-
como local de terras abundantes e baratas. Eles se dade madeireira em posses. Porém, em dezembro de
dizem pioneiros porque teriam permanecido ape- 2004, a Portaria Conjunta n. 10 do Ministério
sar do sofrimento, ilustrado pelas histórias dos que do Desenvolvimento Agrário (MDA) e do Incra,
foram embora ou morreram, além de terem cons- uma das medidas emergenciais do Plano BR-163
truído a própria cidade apesar do “abandono do go- Sustentável, invalidou qualquer direito atrelado a
verno”. Naquele tempo, afirmavam seguir as “regras documentos cadastrais expedidos pelo Incra em
do jogo”, isto é, a comprovação de ocupação pelo terras públicas federais. Os progressenses apontam
desmatamento de 50% da área, para terem suas que isso teria retirado os “direitos de todo mundo”,
posses reconhecidas pelos documentos conferidos pois “todos viraram criminosos”, o que teria inicia-
pelo Incra de 1982 a 2004. do a crise no município. Isso afetou diretamente o
Os garimpeiros que se encontravam na região setor madeireiro, pois todos os planos de manejo
nesse período e que se consideram pioneiros,17 por florestal foram suspensos e as empresas passaram a
seu turno, eram principalmente ex-seringueiros depender de áreas com título de propriedade para
ou pequenos agricultores nordestinos que desde conseguirem a aprovação de novos planos, o que le-
a década de 1970 se voltaram para a extração de vou a maioria para a situação de clandestinidade.18
ouro. Em seus relatos, também enfatizavam que o O Sindicato da Indústria Madeireira do Sudoeste
próprio governo teria incentivado e regulamentado do Pará (Simaspa), cuja sede é em Novo Progres-
essa atividade, o que se expressou na criação da Re- so, foi o primeiro a brigar contra isso, organizan-
serva Garimpeira do Tapajós Ministério de Minas do bloqueios de rodovias ao longo da BR-163 em
e Energia (MME) em 1983 e, logo em seguida, na 2005. Mesmo assim, das sessenta madeireiras que
construção da rodovia Transgarimpeira, que deu movimentaram a “febre da madeira” restaram so-
acesso a vários garimpos da região. mente dez licenciadas em 2013 no município.19
Já as famílias vindas durante a “febre da ma- Na perspectiva de produtores rurais, de suas
deira” e a “fofoca do ouro”, em especial do fim dos associações e do Sinprunp, assim como na de parte
anos de 1990 até 2004 e que em sua maioria es- dos comerciantes que partilham de trajetórias se-
tavam saindo do Mato Grosso, apresentam uma melhantes, a portaria de 2004 foi apenas o início
diversidade de situações, de trabalhadores, agricul- da “mudança das regras do jogo”. Para eles, o seu
tores e garimpeiros a madeireiros e empresários. agravamento foi a criação da Flona do Jamanxim –
Embora alguns tenham chegado no período ante- criada, segundo eles, sem a consulta prévia exigida
rior, muitos assentados chegaram nesse momen- pela lei do SNUC (Lei n. 9.985/2000) –, a qual te-
to após “andarem” com suas famílias por diversos ria se sobreposto a posses que, por estarem em área
locais do país antes de irem para Novo Progresso, protegida, não podem mais ser tituladas. Para os
com destaque para cidades do Pará, Maranhão, garimpeiros e o presidente do Siganp, o problema
Mato Grosso e Paraná. Além do trabalho na terra, era a Flona ter se sobreposto à Reserva Garimpeira
os assentados recorreram no passado e às vezes ain- do Tapajós, que havia sido criada pelo governo para
da recorrem a: garimpo, como cozinheiras ou na amenizar o conflito entre os pequenos garimpeiros
extração de ouro; trabalho em fazenda, geralmente e as grandes mineradoras, mas passou a acentuá-lo
como peão; trabalho em serraria; professor(a); pe- ao privilegiar as últimas na permissão de pesquisa e
queno comércio; empregada doméstica e babá. lavra na UC.
Nesse momento de febre, Novo Progresso era Além disso, foi intensificada a fiscalização am-
recomendado como um “estouro de cidade”, com biental, considerada iniciativa do Ibama, que teria
grande oferta de empregos e potencial de “desen- passado a brigar com produtores, madeireiros e
volvimento”, o que foi possível graças à alta do pre- garimpeiros. Isso piorou em 2013, quando come-
ço internacional do ouro, à permissão da atividade çou a realizar operações com a Força Nacional, a
garimpeira pelo Departamento Nacional de Pro- Polícia Federal e o ICMBio que resultaram no
dução Mineral (DNPM) e pelo Ibama, bem como embargo de milhares de áreas ocupadas e cabeças
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de gado, assim como na apreensão e destruição de no início de 2013 a Justiça decidiu pela regulari-
equipamentos usados para atividades ilegais. Apesar zação das terras de fazendeiros que processaram o
de não realizar a fiscalização sozinho, o Ibama é o Incra, determinando a paralisação da demarcação
órgão responsabilizado socialmente pela destruição do assentamento e a expulsão de quinze famílias
de maquinário, motos e caminhões. Esses são vistos de assentados que se encontram na área das posses.
sobretudo como meios de produção para os grandes Apesar de o Incra ter recorrido com base no fato de
envolvidos nessas atividades (fazendeiros, donos de que esses fazendeiros concentram terra ilegalmente,
garimpo e de serrarias) e instrumentos de trabalho o recurso foi negado, mantendo a situação indefi-
por aqueles que se consideram pequenos (assenta- nida.20 Se os assentados resistiram até então à desa-
dos, trabalhadores rurais e garimpeiros), bem como fetação de áreas do PDS – principalmente daquelas
para a maioria dos madeireiros clandestinos que, que incidem na área que chamam de comunidade,
diferentemente das indústrias madeireiras sindica- onde construíram a escola –, após as decisões favo-
lizadas, não acreditavam ser possível seguir as no- ráveis aos fazendeiros se inclinaram mais a negociar
vas regras. Paralelamente, a instalação da guarita do a redução do assentamento.
ICMBio na entrada da Flona em abril do mesmo De todo modo, uma narrativa comum perpas-
ano passou a impedir a circulação do combustível sava as entrevistas e discursos públicos ao buscarem
necessário para o maquinário de extração de ouro e estabelecer a causalidade dos problemas e, logo, a
significou o aumento da fiscalização da extração de motivação das brigas: a denúncia do governo, for-
madeira pelos madeireiros sem planos de manejo. mado por órgãos reconhecidamente autônomos,
Já para os assentados, a “mudança das regras” que não cumprem acordos e são responsabilizados
significou a destinação de terras públicas federais pela privação de direitos que regras atuais ou ante-
para o assentamento e simultaneamente a sua não riores dizem assegurar ou promover.21 Esses direitos
demarcação. Como demonstra Torres (2012), o dizem respeito ao acesso à terra e aos recursos na-
PDSTN fez parte da criação de uma centena de as- turais e são reivindicados por argumentos baseados
sentamentos da modalidade PDS no Oeste do Pará, na legislação vigente que trata da criação de UCs e
decorrente do pacto ilegal entre o Incra, o Ibama e assentamentos, como a não realização de consulta
o Simaspa que buscava florestas primárias de fácil pública e de licenciamento ambiental. Dizem res-
aprovação de planos de manejo após a portaria de peito também a argumentos morais, pois para os
2004. Somado à falta de licença ambiental, isso ge- progressenses as novas regras significavam “a es-
rou a indefinição judicial que o PDSTN enfrenta tagnação do desenvolvimento do município”, vis-
desde 2007, quando o Ministério Público Federal to que teriam prejudicado as “vocações regionais”
(MPF) suspendeu esses assentamentos. Assim, os (madeira, garimpo e gado). Significavam ainda a
assentados relatam sofrer desde que chegaram ao criação do “impasse” entre a livre apropriação pri-
PDS devido à infraestrutura precária e à falta de vada de terras públicas e recursos naturais – antes
crédito: “[...] o maior problema é o Incra, que não promovida abertamente pelo governo, considerada
regulariza. Não cumpriu também o que combina- trabalho e produção –, bem como o direito dos as-
ram com os fazendeiros. [...] desenha um círculo sentados à regularização do PDSTN para que pu-
com o Incra no centro, os assentados de um lado e dessem realizar o que valorizam como trabalho: a
os fazendeiros no lado oposto. Cada um tá brigando agricultura e criação de animais em pequena escala.
pelo o que acha que é direito seu” (assentado, en- Como a noção de economia moral de Thomp-
trevista, 28 out. 2013, grifos nossos). son (1998) permite observar, esse sentimento de
Esse acordo não cumprido do Incra diz res- desrespeito a normas sociais (inclusive legais) pro-
peito à promessa de desafetação das posses com- duziu o consenso – não só entre esses agentes, mas
provadas de fazendeiros, ou seja, à sua retirada do na sociedade mais ampla – acerca da ilegitimidade
perímetro do assentamento para que pudessem ser da forma de implantação pelo governo das novas
tituladas pelo Programa Terra Legal, conforme de- políticas fundiárias e ambientais que “mudaram as
terminou a Justiça Federal em 2010. Para piorar, regras do jogo”. Esse sentimento compartilhado de
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injustiça, por sua vez, possibilitou brigas conjuntas com relação a garimpeiros em Goiás (Guedes, 2011)
como o bloqueio de 2013, que mobilizou milhares ou assentados em Mato Grosso (Desconsi, 2011), nas
de progressenses, conforme foi reiteradamente afir- suas ações no presente, esses agentes sociais acionam
mado pelas lideranças em entrevistas à imprensa e um conhecimento elaborado em torno de suas expe-
à pesquisadora, sendo a adesão mais ampla medida riências nos deslocamentos já realizados, bem como
pelas refeições servidas durante a manifestação. histórias e informações compartilhadas em suas
redes de relações sociais. De forma semelhante, os
Diferentes condições e humilhações assentados do PDSTN buscavam mostrar com suas
histórias que aprenderam a brigar ao lidarem com
Os posseiros da Flona e do assentamento, os ameaças à sua reprodução social no passado e que
garimpeiros e os madeireiros avaliavam que aqueles se atualizavam na situação atual por meio de humi-
com mais condições foram os que melhor conse- lhações de fazendeiros, se valorizando nas narrativas
guiram se adaptar às novas “regras do jogo”. Por po- como “guerreiros”.
derem realizar outras atividades enquanto esperam O direito moral e legal de desafetação das
o problema ser resolvido, não precisam “desmatar áreas de fazendeiros do PDSTN era debatido pe-
para sobreviver” ou não sentem tão duramente os los assentados. Enquanto alguns acreditavam que
efeitos da nova regulamentação ambiental, conse- tinham direito a manter as fazendas, pois desen-
guindo permanecer mais facilmente nas lutas da volveram relações de amizade ou de trabalho com
Flona e do PDSTN. Por outro lado, diante das determinados fazendeiros e/ou não se viam amea-
penalidades do Ibama e do ICMBio (multas, em- çados pela desafetação (seus lotes não coincidiam
bargos e/ou destruição de equipamentos), aqueles com as fazendas), os demais denunciavam condu-
com menos condições se viram obrigados a: vender tas dos mesmos fazendeiros por encrencarem, hu-
a terra e se mudar para outros lugares, ou morar e milharem e iniciarem a “briga na Justiça” mesmo
trabalhar na cidade; ficar na terra e parar tempo- sem título. Uma das maneiras de resistirem era a
rariamente a produção agrícola; continuar criando evocação nas conversas da memória de Otávio,23
gado, extraindo madeira e ouro ilegalmente, cor- um fazendeiro que foi assassinado, não se sabia por
rendo o risco de perderem seus meios de produção quem, por sempre “arrumar encrenca” não só com
em operações de fiscalização. Para esses agentes, assentados, mas também com madeireiros e a polí-
essas medidas “repressivas” representavam humilha- cia. Com isso, enfatizavam o que poderia acontecer
ções do governo, que ferem o direito moral de pro- se outros fazendeiros ultrapassassem limites ao inti-
duzir e trabalhar, fundamentado nas lutas de famí- midarem assentados na luta pela sua terra.
lias que seguiram as “regras do jogo” anteriores de Conforme contam, depois da morte de Otávio,
ocupação de uma terra inóspita a mando do gover- outros fazendeiros que encrencavam e humilhavam –
no. Ao governo de ontem contrapõem o de hoje, contrastados com os fazendeiros ditos “humildes”24 –,
que os humilharia a mando do meio ambiente e “se acalmaram” e se voltaram para a disputa judicial
parece, ao seu ver, querer “esvaziar a Amazônia”. com o Incra, o que também surtiu efeitos desfavorá-
Embora o Ibama também fosse visto como in- veis para os assentados. Esse foi o caso do fazendeiro
justo pelos assentados,22 para estes a humilhação era Daniel, considerado o mais agressivo e cuja posse se
associada sobretudo às ameaças verbais e agressões fí- situa na área da escola do PDS construída por muti-
sicas perpetradas por fazendeiros por meio de jagun- rão. A história mais propagada sobre ele antes de ter
ços. Por exemplo, um assentado contou ter vivencia- se “acalmado” dizia respeito ao dia em que conduziu
do a humilhação quando tinha posse de terra tanto um trator na direção dessa escola em 2008. Quando
em Mato Grosso quanto no Paraná. Após ameaças de tentou avançar para derrubá-la, foi impedido pelas
morte, ele se mudou com a esposa para o Paraguai, assentadas: “as mães e crianças ficaram na frente e fa-
onde ocupou uma terra até ela falecer, quando foi so- laram pra ele derrubar, que aí é que elas derrubavam
zinho para Colíder (MT), onde “sofri uma humilha- ele do trator”, conforme um assentado descreveu,
ção, jagunçada”. Em outros contextos etnográficos, destacando a coragem dessas mulheres.25
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A encrenca cotidiana de iniciativa de alguns famílias ao longo do tempo, o que relacionavam às


fazendeiros que humilhavam e, no caso de Daniel suas diferentes condições associadas às distinções
em particular, que também pagava para que saíssem entre grandes e pequenos.28 Estas atravessam a ca-
do que reclama ser sua posse, não necessariamen- tegoria de produtores rurais e diferenciam os em-
te leva a brigas. Guardadas as devidas proporções, presários dos comerciantes, bem como os donos de
seu uso remete à análise de Ayoub (2016) acerca da garimpos dos garimpeiros. Portanto, os relatos ex-
noção de encrenca entre famílias de posseiros sob pressavam um reconhecimento das diferenciações
a vigilância de guardas, pistoleiros e jagunços que internas, além de uma valorização de suas experiên-
trabalhavam para uma madeireira no Paraná. Nesse cias no passado, com base nas quais julgam as ações
contexto, encrenca significava um “estado de tensão dos outros e de si mesmos nas lutas.
em aberto entre pessoas” que possuem uma relação
de proximidade (Idem, p. 28). No PDSTN, essa
proximidade era descrita em todas as narrativas, As lideranças e o governo
uma vez que, além de terem relações de amizade,
de trabalho ou amorosa com assentados, os fazen-
deiros faziam visitas recorrentes aos seus barracos Apoios, ajudas e lados: como brigar
para encrencar. Dependendo de como os envolvi-
dos lidavam com isso, podiam ocorrer brigas, hu- À primeira vista, a coordenação entre agentes tão
milhações e mortes.26 heterogêneos no bloqueio da BR-163 nos surpreen-
Do mesmo modo em que os assentados reco- deu e influenciou a pesquisa, visto que a literatura
nheciam um certo saber-fazer27 dos pequenos na regional e o trabalho de campo anterior indicavam
luta cotidiana contra a humilhação, ao lembrarem conflitos entre eles, em especial entre grandes pro-
humilhações já vividas no passado, observavam dutores rurais e assentados. Por exemplo, não parecia
que alguns grandes têm acesso a conhecimentos coerente sindicatos que representam trabalhadores
que os pequenos não têm, o que lhes conferiria rurais e agricultores familiares se unirem ao Sinpru-
vantagens para impedir a regularização do PDS, np, sindicato que representa os produtores rurais,
mesmo quando possuíam áreas griladas segundo pois meses antes da interdição uma liderança dos as-
o Incra. Enquanto Otávio extrapolou os limites sentados afirmara que “os grandes falam que apoiam
das encrencas e foi assassinado, o fazendeiro Da- os pequenos, mas são como massa de manobra, a
niel teria adquirido em sua vida o saber necessário pauta dos pequenos nem aparece”. E, ao passo que
para manter sua posição, que integra o seu estado essa liderança e assentados diferenciavam o Sinpru-
de ter condições. Condições de: acessar instâncias np como sindicato dos grandes, o presidente desse
estatais; não sofrer consequências por concentrar sindicato, Agamenon Menezes, reiterava “representar
terras públicas e humilhar assentados; vender ma- todos os produtores rurais, grandes e pequenos” –
deira do assentamento apesar das denúncias; ser o que, segundo ele, pode incluir os assentados que
ouvido e reconhecido pela Justiça, que não ouviria “comprovem a produção”.
assentados (além de ter dado liminar favorável aos Essa aparente contradição para observadores
fazendeiros representados por um advogado que é externos se desfaz ao questionarmos, inspirados em
filho de Daniel). Ou seja, na avaliação dos assen- Simmel (1955), a pressuposição de que discordân-
tados, Daniel tinha a habilidade de humilhar sem cias seriam incompatíveis com o sentido amplo do
sofrer consequências e de usar sua posição privile- conceito de unidade social. Afinal, forças divergen-
giada na luta pela redução do assentamento, o que tes e convergentes são partes constitutivas da socia-
teria faltado a Otávio. bilidade agonística (Comerford, 2003) que podem
Em suma, ao narrarem suas histórias de vida, ser vividas de forma coerente pelos próprios agen-
os manifestantes em geral justificavam suas ações tes. Ao longo das entrevistas essa coerência foi se
nas lutas do presente e revelavam os constrangi- evidenciando e pode ser traduzida pela expressão
mentos e oportunidades que se apresentaram a suas do presidente do Sinttraf de que “tava cada um bri-
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gando pela sua pauta, mas todo mundo junto no Conforme um assentado contou, sua vontade
mesmo manifesto”. Como um casal de assentados era de ter “colocado fogo naquela carreta lá de mi-
explicou: lho, sorte que os presidentes dos sindicatos me ti-
raram porque a turma ia linchar ele” (entrevista, 31
A1: Chamaram nós pra fechação de estrada out. 2013). Como Champagne (1984) identifica,
porque era um meio de apoio. O Agamenon ao tomarem as decisões, os organizadores da mani-
sabia que a gente era quente [...] usou a gente festação buscam controlar a representação que um
de laranja, só falava em Flona, não falava da público mais amplo, através da imprensa, fará dos
gente, mas Agamenon ajudou muito nós. É o manifestantes. Ao mesmo tempo que as lideranças
dono do sindicato dos fazendeiros [...]. contornaram os “incidentes” – o que gerou um tom
crítico à sua atuação por parte dos assentados –, re-
A2: [...] Pegaram nós do assentamento porque conheceram que esses são eficazes para a publiciza-
nós segurava lá. Nós não queria Flona, nós ção da interdição e pressão ao governo. A iminência
tava apoiando só eles. Mas nós tava pro Incra de briga com caminhoneiros foi sendo contornada,
vir (assentados, entrevista, 31 out. 2013, grifos o que é ilustrado em relatos sobre a necessidade da
nossos). ajuda desses para conseguirem manter a BR-163 fe-
chada à noite. Assentados contaram que caminho-
Logo, quem ajuda e quem apoia não está ne- neiros teriam sido compreensivos e que compartilha-
cessariamente na mesma luta ou no mesmo lado da ram a comida e a água fornecidas por comerciantes
luta29 e não briga entre si, como um assentado tam- e fazendeiros. De acordo com um assentado, “tinha
bém indicou ao mencionar que um dos fazendeiros comerciante que deu apoio em comida [...], os fa-
que fica “arrumando encrenca com assentados” parti- zendeiros sem supermercado mandavam um boi por
cipou do bloqueio, “mas não brigando com a gente”, dia” (entrevista, 28 out. 2013).
e sim para “lutar por uma terra que sabe que não vai Assim, as categorias apoio e ajuda remetem à
ser dele”. Nas narrativas sobre o protesto, apesar de re- noção de troca elaborada por Simmel (1955), ad-
conhecerem condições e lados diferentes, as brigas são mitindo antagonismos e distâncias sociais (peque-
direcionadas ao governo que, diferentemente desses nos e grandes), ao passo que são distinguidas das
agentes que se apoiam ou ajudam em certas circuns- brigas com o governo. Contudo, a assimetria de
tâncias, não ajudaria ninguém. A ênfase na unidade determinadas trocas abriu margem para julgamen-
é ressaltada por Agamenon Menezes (Sinprunp): “O tos negativos por agentes externos a elas, como foi
Incra e o MDA queriam causar briga entre pequenos e o caso da acusação por parte de quem não aderiu
grandes [produtores]. Mas eu cortei isso em Novo Pro- à manifestação de que Agamenon estaria apenas
gresso. Quem mais precisa do sindicato é os pequenos. usando os assentados para promover a pauta dos
A Fetraf [Sinttraf ] tava junto com nós na audiência produtores rurais da Flona. Estes ou concordam
[pública],30 assim como [o STTR/NP]”31 (Agamenon com isso ou acreditam que, apesar de terem sido
Menezes, entrevista, 21 out. 2013, grifos nossos). usados, também foram ajudados ou, até mesmo,
O presidente do Siganp também negou brigas usaram os demais – uma vez que, por serem “fracos
na manifestação, enquanto Agamenon afirmou ter de condições”, dependiam dos demais participantes
que manter a “manifestação pacífica”: “Tá nos meus para efetivar a briga, que além de custosa demanda
ombros qualquer incidente que tiver, apesar de que conhecimentos.
o incidente é que vai dar a pressa pro governo agir. À medida que a adesão à manifestação impli-
Viraram o caminhão de milho de um cara lá [...]. cava um compromisso com seus integrantes, isso
Chegava quatrocentos caminhões por dia. Abria de não anulava a existência de tensões, como as ocorri-
doze em doze horas pra aliviar. Aí brigava feio [...] das na própria manifestação, nem as diferenciações
Tinha uma equipe que queria quebrar o Ibama, qualitativas desses apoios, que podiam se expressar
não tavam aguentando” (Agamenon Menezes, en- com doações de alimentos e declarações públicas,
trevista, 21 out. 2013). que apesar de serem reconhecidas, não eram equi-
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valentes a estar na briga. Como funcionários de do propina. [...] Ele evita falar comigo, por-
uma associação de comerciantes explicaram, por que sabe que eu falo. Ele manipula todos da
mais que o Sinprunp e Siganp tivessem pedido aju- associação dele. Tem quatro associações unidas
da do comércio para “aumentarem o impacto” do aqui. Tem dois rebeldes [...] (assentada, entre-
bloqueio, a briga era dos assentados, produtores e vista, 29 nov. 2013, grifos nossos).
garimpeiros. Ademais, era comum a constatação
entre assentados de que muitos apoiadores “iam lá É importante ressaltar que ter “acordo com
só pra comer, de noite iam embora” e, portanto, fazendeiro” não significava somente receber “pro-
eles é que teriam sido os principais responsáveis pina” de fazendeiros. Outra presidente de associa-
pelo fechamento da BR-163, inclusive por terem ção era julgada negativamente pelos assentados por
cozinhado e dormido no local todos os dias. suspeitarem que teria beneficiado outro fazendeiro,
Já a não adesão a essa forma de brigar signifi- com quem mantinha um relacionamento amoroso
cava a negação de determinadas reciprocidades e a e que estava desmatando o assentamento diaria-
afirmação de outras. O presidente do sindicato dos mente. Ainda assim, continuava sendo considerada
madeireiros (Simaspa), ao contrário dos madeirei- como “estando do nosso lado”, o que ela demons-
ros clandestinos, não aderiu. Justificou que o sindi- trava na briga ao falar publicamente a favor do as-
cato não tinha interesse naquele momento em fazer sentamento na imprensa e em eventos e por usar
reivindicações contra as novas regras, porque estava seus contatos com o prefeito – de quem observa-
se adequando às mesmas, apesar de já ter organiza- vam que tinha apoio – para visibilizar a pauta dos
do ou participado de bloqueios no passado contra assentados. Já Gustavo, pela sua oposição aberta à
o governo e embora concordasse que as pautas con- manifestação, reforçava o julgamento de ser traidor,
tinuavam sendo legítimas. por ter cruzado a linha do “nosso lado”, “unido”.
Paralelamente, quando a não adesão se expres- Dessa forma, as lideranças eram objeto de acusa-
sou na crítica pública ao bloqueio da rodovia, ela ções e expectativas diferenciadas a partir de suas
contribuiu para a reconfiguração do que é visto posições ambivalentes, entre os assentados e “gente
como o outro lado das lutas, havendo uma reava- de fora”, entre seus interesses públicos e privados
liação das práticas de determinados sujeitos baseada vinculados aos lados em jogo.32
nas suas performances nesse evento. Nesse sentido, É ainda no sentido do acordo com o outro lado
dois presidentes de associações do PDS foram cri- que os assentados que integraram a briga criticaram
ticados pelos assentados por não terem aderido e o fato das duas associações “rebeldes” terem se reu-
ainda por cima terem agido para o término do blo- nido justamente com o ex-prefeito, empresário e
queio, o que reforçou o seu não pertencimento ao “fazendeirão” Neri Prazeres, que discordou da ade-
grupo daqueles que se afirmam publicamente como são ao protesto por parte da associação de comer-
assentados e que aderiram ao bloqueio. Um desses ciantes, da qual fazia parte. Frequentemente citado
presidentes era Gustavo: pelos interlocutores, Neri se mostrou publicamente
crítico ao bloqueio, pois essa ação “não ajuda em
Gustavo é o mais errado daqui. Falou que nós nada” na resolução dos problemas, defendendo
era posseiro e não assentado, que por isso que para isso o “diálogo com o governo”, forma de bri-
não tinha que abrir estrada. Ele tem acordo gar que em sua visão já se mostrou eficaz no passa-
com fazendeiro. Por culpa dele é que a estrada do, principalmente por meio de seus contatos “po-
do nosso sítio não saiu. O nosso presidente é líticos”. Aderiu assim à posição manifestada pelo
Nilson, é batalhador. Quando Nilson arruma jornal local Folha do Progresso, que, ao contrário
benefícios, Gustavo vai por trás e tira benefício dos meios de comunicação (sobretudo locais) que
da gente. Gustavo é estudado e é mais inteli- afirmavam haver apoio do comércio ao protesto,
gente que a gente, mas só engana. Ele recebe ressaltou em suas reportagens que esse setor não era
dinheiro de Daniel [fazendeiro]. Ele chegou no unânime e condenou o suposto uso dos assentados.
início e tava do nosso lado, depois foi receben- Estes, por seu turno, criticaram Neri por nunca ter
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ajudado ninguém do assentamento e narraram, em como mecanismos legítimos e eficazes de fazer pres-
contrapartida, a presença de outras lideranças mu- são, complementares a outros modos de brigar.34
nicipais que costumavam ajudar, visitar suas casas e Cabe mencionar que tanto Neri quanto Aga-
comer com eles, como os presidentes do STTR/NP, menon são lideranças reconhecidas como pioneiras
do Sinttraf e do Siganp, além de enfatizarem toda a em livros sobre a história local, uma vez que suas
ajuda dada por Agamenon. famílias chegaram na região entre o fim dos anos de
Na leitura de um assentado, os presidentes 1970 e meados dos anos de 198035 e contribuíram
“rebeldes” teriam ligado “pra Brasília dizendo que para a fundação de Novo Progresso no contexto
eram contra a greve, e Neri ligou pro Incra” para de “abandono do governo”. Ao relatarem o período
tentar chegar a um acordo. Neri confirmou que em que as regras do jogo eram desmatar para ocu-
ligou para o então superintendente do Incra em par, ambos contaram em tons épicos o quanto cir-
Santarém, com quem ele era “muito bem relaciona- cularam por outras cidades paraenses para brigar
do” por ser indicação de seu partido (então Partido pra levar policiamento, posto de saúde, produtos,
do Movimento Democrático Brasileiro – PMDB), pista de pouso para aviões do garimpo, motor de
mas disse que o STTR/NP e o Sinttraf também se luz para fornecer energia e serviço de telefonia para
encontravam nessa reunião. Na conversa por tele- a cidade. Ambos valorizaram ainda suas diferentes
fone, o empresário contou ter aconselhado o supe- atuações no desfecho da luta pela redução da ter-
rintendente a fazer um ofício com a assinatura do ra indígena (TI) Baú dos Kayapós, em Altamira,
presidente do Incra se comprometendo a atender as declarada com 1.850.000 hectares em 1991, mas
demandas dos assentados de forma a resolver tanto homologada com 1.540.930 hectares em 2008.
o “litígio dos pecuaristas com os assentados” através Neri afirmou que convenceu “os índios que eles
da desafetação, quanto a necessidade de transferên- tinham que lutar contra” a demarcação da TI na
cia de supervisão do PDSTN para uma unidade parcela que incidia em Novo Progresso, porque “ia
em Itaituba.33 Depois conversou com o prefeito e inviabilizar o município”. Já Agamenon assegurou
“é dessa forma [que] acabamos com o manifesto, que foi o bloqueio da BR-163 em 2003, do qual
foi a minha participação”, concluiu. Deixou claro colaborou na organização, que resolveu o “proble-
ainda que só interveio depois que vereadores lhe ma indígena”, especialmente “quando fizemos ba-
chamaram para resolver o desacordo entre manifes- gunça, quando queimamos ônibus”. Em ambos os
tantes, pois os assentados queriam continuar o blo- casos, os apoios que foram sendo adquiridos nes-
queio, ao passo que os comerciantes já não queriam sas circulações e brigas do passado, para além dos
mais apoiá-lo – momento em que Agamenon te- indígenas Kayapó e dos progressenses que teriam
ria ameaçado publicamente os comércios, segundo se beneficiado dessas “vitórias”, foi se estendendo
Neri. Esse atribuía ainda às atitudes “conflituosas” a prefeitos, vereadores, sindicalistas, governadores,
daquele sindicalista sua motivação para ter concor- servidores públicos, deputados estaduais e federais.
rido à direção do Sinprunp em 2009; porém, per- Dessa forma, essas personagens da história lo-
deu a eleição. cal conseguiram uma distinção política ao se for-
Podemos observar que todas essas situações marem como lideranças, podendo ou não ser ad-
revelam avaliações sobre como se deve brigar e miradas, mas sempre comentadas e recomendadas36
concorrências pela imposição de determinadas nar- em conversas como homens poderosos,37 em nar-
rativas relacionadas com disputas pela representa- rativas que são parte da construção da hierarquia
ção política dos grupos sociais (Bourdieu, 2007). na vida social (Gilsenan, 1996). Com isso, são ava-
Enquanto Neri, a Folha do Progresso e os presiden- liados por produtores e progressenses como impor-
tes “rebeldes” do PDSTN defendiam o que o jor- tantes elos externos:
nal chama de “acordo político”, as lideranças que
bloquearam a BR-163 consideravam ser positivo o [Neri] é bem recebido em Brasília, em Belém, é
caráter briguento de Agamenon (que o próprio or- uma pessoa de nível político muito bom. Quer
gulhosamente reconheceu ser), vendo os protestos dizer, o povo queima ele por certa parte da ad-
BRIGAR JUNTO CONTRA O GOVERNO  11

ministração dele [...] mas em termos de buscar que são feitas na construção de suas respectivas fa-
recursos, de lutar pela região, acho que ele é a mas – condutas estereotipadas que geram previsibi-
pessoa principal aqui ó. Respeito muito ele [...] lidade para relações futuras, como define Marques
até porque admiro a coragem dele também né, (2002). No caso aqui exposto, a fama de briguento
de brigar... no bom sentido [...] pela região. [...] é disputada como boa ou ruim para fins das brigas
o Agamenon é um cara que tem lutado muito a serem enfrentadas, o mesmo valendo para a fama
pela população da região aqui ó, não só Novo de político de Neri – que como Agamenon ressalta,
Progresso, mas toda essa região aqui. É um que remete à “política dos partidos políticos”.
tá indo sempre pra cima, resolvendo. [...] Hoje é Portanto, as disputas pela imposição de nar-
ele e Neri que mais tem contato, que chega lá e rativas sobre modos de briga mais eficientes, fun-
não enfrenta fila (produtor da Flona, entrevista, damentadas em versões de histórias de brigas do
1 nov. 2013, grifos nossos). passado que fabricavam um conhecimento partilha-
do sobre o assunto, constituíam as próprias relações de
Entretanto, o reconhecimento mútuo im- concorrência não só entre lados, mas entre lideran-
plicado na disputa entre os líderes associados aos ças vistas como pertencentes ao mesmo lado das lu-
produtores rurais não excluía acusações, feitas in- tas: o dos produtores rurais. As atuações de ambos
clusive por Neri, de que Agamenon não seria pro- nessa briga se deram como meio de afirmar com-
dutor nem “pioneiro”, tendo em vista deslegitimá- promissos a certas relações de reciprocidade (lados,
-lo como representante dos produtores rurais. Por apoios e ajudas) ao passo que demonstravam sua
outro lado, o presidente do Sinprunp afirmou que força mobilizadora para os progressenses e para o
não deixa as críticas intervirem nas suas amizades, governo, sendo julgados negativamente ou positi-
considerando o ex-prefeito seu amigo; porém, alfi- vamente por isso, conforme sua performance na
netou que “muita gente me critica por inveja, por briga e o lado daquele que os julga.
não conseguir fazer, ou por política porque trata De forma semelhante, os assentados conside-
política como partido político”.  ram legítimo o apoio, a ajuda e os acordos entre
Assim, divisões entre os produtores em torno assentados e fazendeiros, como na organização de
desse evento acionaram certos valores que são de- brigas conjuntas que contribuam para a luta do
finidos continuamente nas suas interações sociais, PDSTN, desde que não beneficiem apenas a lide-
conformando disputas por reputações que consti- rança e o outro lado da luta. Ao se pedir ajuda e se
tuem “comunidades morais”, nas quais a competi- dar apoio, são feitas concessões que dão fim ou evi-
ção se dá primordialmente entre quem possui um tam conflitos, bem como se instauram reciprocida-
status semelhante (Bailey, 1971). O bloqueio da des que geram reconhecimento e prestígio a quem
BR-163 foi um evento oportuno para rivalizarem ajuda e recursos e favores a quem se apoia. Além
pela solução dos problemas legítimos, tendo em disso, ao se falar sobre ajudas e apoios, são reafirma-
vista ao mesmo tempo fixar relações e suas repu- das as qualidades morais das partes envolvidas nas
tações. Enquanto Agamenon conseguiu cristalizar trocas ou na sua negação. Lados, ajudas e apoios são
a percepção de que tem capacidade de articular formas de julgamento atualizadas no evento ritual,
produtores, garimpeiros, assentados e comerciantes fazendo parte de um processo de reciprocidades co-
para brigarem juntos num bloqueio de rodovia de tidianas passadas e expectativas futuras. Pertencer a
oito dias, Neri é aquele reconhecido por ter fabri- um lado supõe adesões a determinadas coletivida-
cado acordos por meio de reuniões com vereadores, des ligadas à solidariedades e disputas preexistentes
sindicatos e associações do assentamento e de con- que continuam sendo reformuladas.
tatos no Incra. Com isso, é atribuído a Neri o pa-
pel central no fim da interdição e a Agamenon no Entre ameaças e acordos com o governo
seu início. Uma vez que a reputação depende dos
outros, inclusive dos adversários (Campbell, 1973), Além do já enunciado consenso sobre a ilegiti-
há muitas possibilidades para as avaliações morais midade das medidas governamentais, seria possível
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indagar, com a curiosidade de Thompson perante Ao mesmo tempo, era comum observarem con-
a persistência dos motins da fome na Inglaterra do quistas ao explicarem por que bloquearam a rodovia:
século XVIII como forma de ação: “até que pon-
to ela era bem sucedida, seja em que sentido for?” [...] Fomos mais de vinte vezes pra Superin-
(Thompson, 1998, p. 186)? E, seguindo a indaga- tendência [do Incra] de Santarém, fomos pro
ção de Sigaud (1986) ao se referir a um ciclo de Ministério Público, que jogou prum tribunal
greves de trabalhadores rurais produzido no jogo de em Brasília. Tá lá. Por isso teve o fechamento
lutas com seus patrões: por que continuam se ma- da BR, pra ver se recebia algo do Incra, mas até
nifestando se houve descumprimento de acordos agora nada. [...] Já fechamos a BR na entra-
conquistados em cada protesto? da do assentamento [em 2011]. Conseguimos a
No caso dos produtores, suas reivindicações estrada e umas casas. Conseguimos botar firma
geraram ao longo do tempo respostas consideradas aqui pra fazer estrada, 52 créditos e 28 casas.
positivas por parte do ICMBio, que chegou a pro- Esse fechamento agora é a mesma coisa. Ver se
por a redução de 35 mil hectares da Flona do Ja- conseguimos alguma coisa. Mas o documento
manxim em 2009, proposta que foi rejeitada pelas veio sem nada, sem data (presidente de uma
associações e pelo Sinprunp. Posteriormente, um associação do PDS, entrevista, 28 out. 2013,
grupo de trabalho do ICMBio de Brasília passou grifos nossos).
a analisar a desafetação de cerca de 200 mil hecta-
res dessa UC, e desde dezembro de 2016 se aponta Além de remeterem sempre a episódios passa-
a possibilidade de conseguirem quase os 400 mil dos das brigas e seus efeitos, projetavam incertezas
hectares de redução que defenderam na audiência quanto ao futuro, ameaçando sempre com novos
pública de 2013.38 bloqueios cada vez que cogitavam a possibilidade
Já no caso dos assentados, a unidade do Incra de não terem seus problemas resolvidos. A ameaça
voltou para Itaituba somente em meados do ano se- é realizada em conversas informais e discursos pú-
guinte, mas ainda não foi solucionado o problema blicos – como em reuniões com representantes go-
da regularização do PDS, que continuou sendo sua vernamentais – e bastante divulgada em periódicos
pauta principal em novo bloqueio da BR-163 em locais. Para compreender essa recorrência da ameaça
fevereiro de 2016, realizado com indígenas Kayapó, é pertinente a interpretação de Lambek (2015) so-
cuja terra indígena (a TI Baú) se localiza no entor- bre os enunciados performativos a partir da concei-
no do assentamento.39 Na audiência pública que tuação de Austin, visto que a ameaça pública de um
discutiu as pautas do bloqueio, em especial a de re- protesto é, ela mesma, uma ação performativa e não
dução da Flona do Jamanxim, lideranças enfatiza- apenas sua descrição – a não ser que algum acordo
vam a não resolução dos problemas após tentativas seja cumprido. Seu efeito será considerado “feliz”
de acordo e diálogo com o governo: se convencer o interlocutor, nesse caso o governo, a
mover-se em uma direção. A persuasão, por seu tur-
[...] assim como nós fechamos em [2011] e no, é produzida pela rememoração de ações passadas
2013 a BR, se o Incra não vir pra regularizar que demonstram a capacidade de mobilização dos
nossa situação, nós tamos prontos pra fechar sujeitos que já organizaram as brigas. Dessa forma,
novamente a BR-163. Porque em [2011] veio como Thompson aponta ao ressaltar a importância
servidor do Incra, fez acordo com nós, nós te- da ameaça dos motins por gerar uma expectativa en-
mos documento em mãos, pra ele vim resolver tre os agentes do campo de forças em questão: “os
a situação, até hoje tamos esperando e nada. benefícios que se pode ter com a ameaça de guerra
Então fizemos de novo outro manifesto e ta- talvez sejam consideráveis, mas a ameaça nunca vai
mos esperando novamente. Se isso não acon- inspirar terrores se nunca for feita de fato a guerra”
tecer, nós vamos voltar pra BR [...] (presidente (Thompson, 1998, p. 187).
de uma associação do PDSTN, audiência pú- Diante dessas performances, os agentes esta-
blica, 18 out. 2013). tais reagem com o que os próprios interlocutores
BRIGAR JUNTO CONTRA O GOVERNO  13

identificam como acordos, firmados com as lideran- grupo. Nisso pareceu residir a insistência dos pro-
ças das lutas. No caso da Flona do Jamanxim e do dutores, garimpeiros e assentados em “mostrarem a
PDSTN, o Incra e o ICMBio buscaram responder realidade” para uma pesquisadora vinda do Sudes-
sempre em suas notas oficiais o seu compromisso te, para onde poderia ser transmitido esse conheci-
em buscar soluções para os problemas levantados, mento que adquiriram conforme suas condições e
mesmo quando não concordavam totalmente com experiências de vida e de luta.
a proposta defendida pelos manifestantes. A pro- Paralelamente, na manifestação e nas ameaças
dução do acordo, assim, é um ato que busca gerar de manifestos havia a exigência recorrente da pre-
previsibilidade frente à imprevisibilidade, criando sença física de agentes estatais que têm poder deci-
expectativas e possíveis sanções caso a promessa im- sório, em especial do Incra, mas também de outros
plicada nele não seja cumprida.40 Essa sanção, ex- representantes do governo, para que “conheçam a
plicitada nas ameaças dos manifestantes, é a conti- realidade da região”. Por outro lado, uma parte dos
nuidade do ciclo, dessa relação de briga construída produtores denunciava de forma abstrata o Ibama e
com o governo, na qual não dá pra ser um “povo o ICMBio, bem como determinados servidores es-
pacífico” por muito tempo e na qual o “acordo po- pecíficos que se tornaram mais presentes nas brigas
lítico” para muitos soa pouco eficaz, pois, como da Flona, pela mesma falta de conhecimento, ain-
relembram, o governo já quebrou acordos (e as pró- da que tivessem realizado estudos científicos sobre
prias regras do jogo). Justificam sua adesão à mani- sua situação. A causa disso era atribuída ao peso da
festação por não poderem só esperar, havendo a ne- pauta do meio ambiente na formulação de políti-
cessidade de novas ameaças e bloqueios da rodovia. cas públicas e no retrato produzido da região pela
Para todos os manifestantes, essas ações cole- imprensa nacional, o qual enfatizaria a ilegalidade
tivas são formas de atualizar demandas conforme das atividades lá realizadas, sem considerar as injus-
a correlação de forças num dado momento e de fa- tiças causadas pela perda do que os produtores con-
bricar acordos, para que possam recorrer a eles pos- cebiam ser seus direitos. Para vencerem as brigas,
teriormente na luta, possibilitando gradualmente entendiam ser necessário mostrar a realidade para
melhorias de vida. Isso talvez valha especialmente o governo: “[...] agora há possibilidade de avançar.
para os assentados que, de forma parecida com os Senão, vamos fechar de novo a BR, em definitivo
trabalhadores rurais de Pernambuco analisados por [aplausos], fazer que o governo olhe pra isso aqui de
Sigaud (1986), entendem possuir menos condições forma diferente. Acredito que a Dilma não sabe o
no jogo de lutas enfrentadas e continuam protes- que tá acontecendo, o Ibama não deixa, manipula
tando mesmo sem terem sido cumpridas todas as o que chega lá” (Agamenon Menezes, audiência pú-
conquistas dos protestos anteriores. Não protestar é blica, 18 out. 2013, grifo nosso).
arriscar perder a própria noção de direitos reconhe- Saber circular por Brasília, Belém e Santarém,
cidos nos acordos, o que possibilita a luta. conhecer (a “realidade da região”, a legislação, par-
lamentares, políticos e demais apoiadores), saber
Conhecer para governar brigar (com acordos e/ou protestos) e ajudar eram
fatores contrastados, nas narrativas, com as ações de
Em suas narrativas sobre a manifestação, os su- órgãos governamentais que, dessa forma, compro-
jeitos individuais e coletivos mencionados refletiam meteriam a gestão sustentável dos recursos naturais.
sobre si mesmos na elaboração de modos de avaliar A despeito dos mecanismos de participação estabe-
as práticas governamentais, cruzando-se de certa lecidos nos seus programas de desenvolvimento,
forma julgamentos referentes ao governo de si, o go- como o Plano BR-163 Sustentável, para esses su-
verno dos coletivos conformados nas lutas, e o gover- jeitos o governo não levaria em consideração suas
no que conduz a sociedade como um todo.41 As histórias de luta. Pelo contrário, criaria documentos
avaliações morais sobre como o governo deveria e leis cujo efeito seria a perda de seus direitos legais
governar apontaram para a necessidade de conheci- e morais, o que prejudicaria todos, mas principal-
mento da região ou da realidade particular de cada mente quem tem menos condições.
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Por fim, o conhecimento era visto como fun- elaborados em experiências de vida adquiridas no
damental para governar os grupos sociais que se passado e em valores que continuavam construindo
formam em meio às lutas e brigas. Agamenon su- coletivamente. Esses saberes, por sua vez, se confi-
geriu isso ao valorizar o próprio papel de represen- guraram como conhecimento da região e da reali-
tante, que “tem que conhecer legislação pra fazer dade compartilhada, isto é, no conhecimento dos
manifestação pacífica” e que, diferente dos demais critérios que justificam suas lutas, brigas e as formas
sindicatos e lideranças da região, tem “conhecimen- como decidem conduzi-las.
to dos deputados, autoridades federais e estaduais”. Se todos responsabilizavam o governo por injus-
Enquanto o governo não teria conhecimento ou tiças decorrentes da “mudança das regras do jogo”
não saberia usá-lo de modo apropriado, algumas ao narrarem a manifestação, justificavam-se de for-
lideranças são avaliadas e se avaliam como tendo mas bastante variadas, vinculadas às suas posições
conhecimento e o poder de saber usá-lo nas suas re- na configuração social que disputa a destinação de
lações, beneficiando sua própria reputação ao bus- terras públicas. Enquanto os garimpeiros afirma-
carem solucionar os problemas reconhecidos como vam estar em desvantagem com relação às grandes
comuns. Em síntese, saber lutar e saber brigar se mineradoras, os assentados entendiam depender
vinculam às suas concepções sobre o uso adequado dos grandes, inclusive daqueles que os humilham
do conhecimento da(s) realidade(s) que comparti- e que possuem maiores condições para lutar, não
lham como coletivos associativos ou progressenses. só para terem acesso a estradas e renda no assenta-
mento até hoje não demarcado, mas também para
organizar mobilizações que pressionem o governo
Conclusão a lhes garantir o acesso à terra. Os madeireiros, por
sua vez, se diferenciavam entre os poucos sindica-
A aliança entre esses sujeitos socialmente dis- lizados que negaram publicamente a participação
tantes e/ou em disputa vem acumulando forças no ato, porque já estavam seguindo as novas regras.
com o objetivo de redefinir tanto o PDSTN quan- A maioria dos que se encontravam em situação de
to a Flona do Jamanxim. Para um observador ex- clandestinidade justificava suas ações a partir de
terno, isso poderia parecer apenas uma tentativa acusações de repressão do Ibama. Já os produtores
de flexibilização de regulamentações ambientais e rurais se diferenciavam entre si não apenas pelas di-
fundiárias promovida por setores dominantes dessa ferentes condições, mas também por meio de dis-
sociedade, que usariam os dominados para fins de putas simbólicas, expressas pelas famas concorren-
apropriação privada de terras públicas e de recursos tes de duas lideranças: Neri, o político que defende
naturais. Porém, a ideia de manipulação subestima os acordos; e Agamenon, o briguento que recorre ao
a reflexividade dos dominados, além de reproduzir bloqueio de rodovia como forma de briga.
a narrativa de sujeitos, inclusive dominantes, inseri- Por meio da adesão ou não ao protesto, esses
dos nas lutas sociais, em vez de explicar como e por diversos sujeitos se posicionaram em diferentes
que se mobilizam conjuntamente.42 lados da comunidade moral mais ampla dos pro-
Como buscamos demonstrar, o exercício do gressenses, manifestando concorrências que atra-
poder se dá no seu sentido foucaultiano, pela “con- vessam a briga, bem como as condições e as lutas.
dução de condutas” de outros sujeitos, as quais são No confronto das regras atuais com as anteriores
livres, conscientes e reflexivas (Laidlaw, 2014). Não e entre acordos com o governo e ameaças de pro-
só a dominação pelo governo é questionada por ter testo, estavam em jogo não só a disputa por terra,
gerado um problema visto como comum a todos, madeira e ouro, mas também pela imposição de
mas a dominação dos grandes ou daqueles que pos- modos de conduzir esses recursos, sujeitos, mobi-
suem maiores condições é avaliada cotidianamente lizações e regras.
nas lutas, avaliação que é atualizada em eventos
rituais como as brigas contra o governo. Na bri-
ga aqui analisada, esses sujeitos acionaram saberes
BRIGAR JUNTO CONTRA O GOVERNO  15

Notas 14 “Fazendeiros” é o termo empregado por outros agen-


tes para se referirem sobretudo a grandes produtores
1 O PDSTN se situa nos municípios de Altamira e rurais – que na maioria das vezes se autodenominam
Novo Progresso, no lado leste da BR-163. A Flona do pecuaristas, quando possuem centenas a milhares de
Jamanxim se situa em Novo Progresso, a oeste dessa cabeças de gado. Já os autodenominados sitiantes são
rodovia. pequenos produtores.
2 O itálico no corpo do texto introduz os termos nati- 15 Embora as contestações se dirijam mais diretamente
vos relativos ao objetivo do artigo ao governo federal e a seus órgãos, o Plano BR-163
Sustentável foi elaborado com a participação de go-
3 Nossa pesquisa deve muito a essa literatura que enfati-
vernos estaduais, prefeituras e organizações da socie-
za os antagonismos entre dominantes e dominados, os
dade civil da área de influência da BR-163 (Araújo,
quais são complexados na presente análise. Ver Cor-
2007).
rea, Castro e Nascimento (2013), Castro, Monteiro e
Castro (2005), Torres (2012) e Torres, Doblas e Alar- 16 Ver Esterci (2008) para o uso do termo “greve” por
con (2017). peões enquanto enfrentamento físico a empresas ou
fazendas que os prejudicam ou rompem contratos. Na
4 A partir das diferentes versões sobre esse evento, foi
presente pesquisa, assentados e pequenos produtores
possível mapear as posições e oposições sociais em
usam mais “greve” do que os grandes, o que sinaliza
jogo, seguindo Bourdieu (2004) e Heredia (1983).
suas diferentes trajetórias sociais.
5 Foram feitas duas visitas a Novo Progresso em 2013
17 Há diferentes versões sobre quem é “pioneiro”, po-
(fevereiro, outubro e novembro) com recursos da
dendo englobar ou não os nordestinos que chegaram
Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de
na mesma época que os sulistas.
Janeiro (Faperj) e da Coordenação de Aperfeiçoamen-
to de Pessoal de Nível Superior (Capes). 18 Segundo Torres (2012), a portaria não invalidou os
requerimentos de regularização fundiária expedidos
6 Os garimpeiros são os trabalhadores que extraem ouro
até aquela data, muitos oriundos de grilagem, que
na bacia do Tapajós, no caso aqui analisado.
continuaram a valer no já aquecido mercado de terras.
7 Os assentados neste trabalho correspondem às famí-
19 Silva (2011) aponta como isso ocasionou grande per-
lias com perfil de beneficiários da reforma agrária que
da de oferta de empregos. Conforme o IBGE, Novo
ocupam lotes no PDSTN (a maioria sem registro ofi-
Progresso contava com 37.067 habitantes em 2005
cial), onde plantam e criam pequenos animais. Podem
e 21.598 em 2007. Dos trabalhadores que ficaram,
trabalhar ainda como trabalhadores nas fazendas e/ou
muitos passaram a se dedicar ao garimpo ou pecuária.
como garimpeiros para donos de garimpos.
20 Em 2015, a superintendência do Incra reduziu o
8 Os produtores rurais, além da agropecuária, podem
assentamento para 13,4% de seu tamanho original.
ter comércio, serraria e/ou atuar no garimpo.
Após denúncias essa decisão foi revogada (Torres, Do-
9 Os comerciantes maiores são chamados de empresá- blas e Alarcon, 2017, pp. 111-112).
rios. Podem ter fazenda e/ou atuar no garimpo.
21 Ver Comerford (2003, p. 68) sobre como a noção de
10 Extraem e comercializam madeira, muitas vezes clan- briga entre os sitiantes da zona da mata mineira as-
destinamente, da terra que ocupam ou por meio do socia as motivações e os antagonistas de um episódio
arrendamento de terras de produtores e da anuência ou sequência de episódios narrados como de aberta
de associações de assentamentos. hostilidade ou de tensão latente.
11 Órgão responsável pela administração de áreas prote- 22 Por exemplo, denunciavam o Ibama por multar assen-
gidas federais desde 2007. tados por desmatamentos feitos por fazendeiros.
12 Ver Correa, Castro e Nascimento (2013) e Torres, 23 Os nomes citados são fictícios, exceto os de Agame-
Doblas e Alarcon (2017). non Menezes e Neri Prazeres.
13 Nessas contestações, se apresentam como posseiros. 24 Isto é, aqueles que tentaram entrar em acordo com o
Do ponto de vista legal e conforme servidores entre- Incra e não encrencavam com assentados.
vistados do Incra, uma parte praticou grilagem, visto
25 Como nota Comerford (2003), a narrativa sobre
que concentram terras públicas por meio da declara-
episódios de conflito atualizam uma configuração de
ção de áreas menores em nome de parentes ou “laran-
oposições conforme a situação presente. No caso dos
jas”. Ver Torres (2012).
assentados, tratava-se de justificar a necessidade de
16  REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 34 N° 100

um acordo de regularização do PDS que os favoreces- 37 Isto é, aqueles que possuem o poder de agir sobre as
se frente às tentativas contrárias dos fazendeiros. ações dos outros (Foucault, 2010).
26 Houve ao menos dois assassinatos de assentados do 38 A MP n. 756 assinada por Michel Temer em 20 de
PDSTN até 2013, segundo periódicos locais. Porém, dezembro de 2016 retirou 57% da Flona do Jaman-
os assentados entrevistados só fizeram menção nesse xim. Uma versão dessa medida provisória, vetada em
momento à morte do fazendeiro Otávio. junho de 2017, tramita desde julho do mesmo ano no
27 O saber-fazer é o que, “levando em conta princípios Congresso Nacional na forma de projeto de lei (PL
gerais, [guia] a ação no seu próprio momento, de 8.107/2017).
acordo com o contexto e em função de seus próprios 39 Em reunião com os assentados o Incra se comprome-
fins” (Foucault, 2010, p. 59). teu no dia 2 de março de 2016 a realizar um estudo de
28 Ver Olwig (2007), que demonstra como as histórias redefinição do PDSTN (excetuando a área que conti-
de vida apresentam os valores e normas sociais de nua sub judice).
quem as narra, visto que nelas relacionam suas vidas 40 Ver Lambek (2011) em sua análise da dimensão éti-
às dos outros e aos imprevistos decorrentes das estru- ca dos atos de parentesco – marcados no fluxo das
turas sociais, políticas e legais. práticas cotidianas –, os quais criam para os atores
29 Isto é, mesmo estando em diferentes lados de um envolvidos determinados critérios de julgamento e o
problema gerado pelo Incra, fazendeiros e assentados reconhecimento de seu compromisso a esse ato em
podem se apoiar e se ajudar. práticas futuras e suas consequências.
30 Audiência pública que discutiu o projeto de redução de 41 Ver Laidlaw (2014) para uma análise da subjetivação
400 mil hectares da Flona do Jamanxim em 18 de ou- foucaultiana que discute como sujeitos éticos indivi-
tubro de 2013, dez dias depois do fim da manifestação. duais podem se autoconstituir no decorrer da auto-
constituição de sujeitos éticos coletivos, como movi-
31 Disputam a representação dos pequenos: o STTR, da
mentos e grupos sociais.
Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Esta-
do do Pará (Fetagri-PA); o Sinttraf, da Federação dos 42 Em sentido semelhante, ao analisar uma greve de
Trabalhadores na Agricultura Familiar do Estado do trabalhadores rurais em Pernambuco, Sigaud (1980)
Pará (Fetraf-PA); o Sinprunp, da Federação da Agri- argumentou que interpretações centradas na ideia de
cultura e Pecuária do Pará (Faepa). manipulação dos dominantes (dos “patrões”) na greve
apenas reiteravam que esses sempre buscarão tirar pro-
32 Assim, os “lados” enquanto princípios divisores deno-
veito dos dominados.
tavam adesões eventuais e avaliações cotidianas sobre
os perigos e virtudes da vida coletiva e de indivíduos
que a integram. Para uma análise nesse sentido em
comunidades rurais de Minas Gerais, ver Dainese BIBLIOGRAFIA
(2011).
33 Na nota, o Incra assume o compromisso de reestrutu- ARAÚJO, Rosane. (2007), Vozes dissonantes: esta-
rar a sua unidade de Itaituba e informa que os dados do, discurso e conflito no Oeste do Pará. Disserta-
referentes aos investimentos em infraestrutura e cré- ção de mestrado. Belém, NAEA/UFPA.
ditos neste assentamento seriam enviados à prefeitura AYOUB, Dibe. (2016), Entre jagunços e valentes:
de Novo Progresso.
família, terra e violência no interior do Paraná.
34 Essa complementaridade remete às práticas de varia- Tese de doutorado. Rio de Janeiro, PPGAS/
dos movimentos sociais que empregam ações diretas MN/UFRJ. 
e ações por vias institucionais (Leite Lopes e Heredia,
BAILEY, Frederick George. (1971), Gifts and poi-
2014).
son: the politics of reputation. Oxford, Basil Bla-
35 A família do paranaense Neri chegou no povoamento
ckwell. 
local em 1980, vinda de Alta Floresta (MT), enquan-
to a família de Agamenon chegou em 1985 de Campo
BOURDIEU, Pierre. (2007), O poder simbólico.
Grande (MS). Rio de Janeiro, Bertrand Brasil.
BOURDIEU, Pierre. (2004), El baile de los solteros:
36 Ambos foram muito recomendados para a pesquisa,
para falarem sobre a história de Novo Progresso e a la crisis de la sociedad campesina en el Bearne.
interdição da BR-163. Barcelona, Anagrama.
BRIGAR JUNTO CONTRA O GOVERNO  17

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RESUMOS / ABSTRACTS / RESUMÉS  19

BRIGAR JUNTO CONTRA TO FIGHT TOGETHER SE BATTRE ENSEMBLE


O GOVERNO: ALIANÇAS E AGAINST THE GOVERNMENT: CONTRE LE GOUVERNEMENT :
DISPUTAS NA IMPLANTAÇÃO ALLIANCES AND DISPUTES IN ALLIANCES ET DISPUTES SUR LA
DE UM PLANO DE THE IMPLEMENTATION OF A MISE EN ŒUVRE D’UN PLAN DE
DESENVOLVIMENTO SUSTAINABLE DEVELOPMENT DÉVELOPPEMENT DURABLE
SUSTENTÁVEL PLAN
Renata Barbosa Lacerda
Renata Barbosa Lacerda Renata Barbosa Lacerda
Mots-clés: mobilisation sociale; Action
Palavras-chave: Mobilização social; Ação Keywords: Social mobilization; Collec- collective; Colonies rurales; Aires proté-
coletiva; Assentamentos rurais; Áreas pro- tive action; Rural settlements; Protected gées; Politiques publiques; Moralités.
tegidas; Políticas públicas; Moralidades. areas; Public policies; Moralities.
Cet article examine de quelle façon les
Este artigo analisa de que maneira sujeitos This paper analyses how different social acteurs sociaux hétérogènes, qui sont en
sociais heterogêneos, que possuem diver- subjects, who are even hostile to each désaccord ou hostiles entre eux, se sont
gências ou hostilidade entre si, se mobi- other, mobilized themselves in a highway mobilisés, de façon conjointe, en vue de
lizaram conjuntamente para a realização blockade in the Southwest of Pará, Brazil. mettre en place un blocus sur une auto-
de um bloqueio de rodovia no Sudoeste Through this specific manner of struggle route dans le sud-ouest de l’État du Pará.
do Pará. Por meio dessa forma de briga against the government, they demanded Grâce à cette forme de lutte contre le
contra o governo, demandaram a redeli- changes in the delimitations of a rural gouvernement, ils ont revendiqué une
mitação de um assentamento e uma uni- settlement and a conservation unit created nouvelle délimitation d’une colonie
dade de conservação criados pelo Plano by the BR-163 Sustainable Plan, which rurale et d’une unité de conservation
BR-163 Sustentável, que “mudou as re- has “changed the rules” of access to land créées par le Plan BR-163 Durable, qui
gras” de acesso à terra e recursos naturais. and natural resources. Debating theoreti- « changea les règles » d’accès à la terre
Em diálogo com questões teóricas sobre cal issues regarding ethics, sociability and- et aux ressources naturelles. Par un dia-
ética, sociabilidade e conflitos sociais e social conflicts, we base ourselves on the logue à propos de questions théoriques
com base nas narrativas de trabalhadores narratives of rural workers, rural produc- sur l’éthique, la socialité et les conflits
rurais, produtores rurais, garimpeiros, ers, gold prospectors, timber merchants sociaux et ayant pour base les récits des
madeireiros e comerciantes sobre suas and traders about their life stories and the ouvriers agricoles, des producteurs ru-
histórias de vida e o protesto, argumenta- protestin order to argue that they share raux, des orpailleurs, les marchands de
mos que compartilham valores e refletem values and reflect ethically on the relations bois et des commerçants sur leurs his-
eticamente sobre as relações de domina- of domination with the government and toires de vie et la manifestation, nous
ção com o governo e entre si. Com isso, between themselves. Thus, we demon- défendons qu’ils partagent des valeurs
demonstramos que está em jogo não só strate that not only the flexibilization of et reflètent éthiquement sur les relations
a flexibilização de regulamentações am- environmental and land regulations are at de domination avec le gouvernement et
bientais e fundiárias, mas disputas por stake, but also disputes concerning ways entre eux. Nous démontrons, ainsi, que
modos de governar recursos naturais, su- of governing natural resources, subjects, ce qui est en jeu est la flexibilisation de
jeitos, mobilizações e políticas públicas. mobilizations and public policies. la règlementation environnementale et
foncière mais, aussi, les disputes à propos
des façons de gouverner les ressources na-
turelles, les personnes, les mobilisations
et les politiques publiques.

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