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ioteca Marumby Revisitando as psicologias : da epistemologia 3 ét ‘Ac, 24743 -R. 38092 Ex. 2 ‘Compra - CURITIBA, Nf: 9912 RS 24,69 - 03/02/2012 Psicologia Dados Internacionais de Catalogacto na Publicacdo (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP. Brasil) Figuetedo, Luis Claudio M, Revistando as psicologas : da episem Petropolis. RU ISBN 326-1379-0 Biblogra 1, Psicologia - Filosofia 2. Psicologia — Historia 3, Pslcologia ~ Teot metedes ete, | Tit cpp-150, ices para catalogo sistema Luis Claudio M. Figueiredo Revisitando as psicologias Da epistemologia a ética das praticas e discursos psicolégicos vozes Petopolis FACULDADE DON BOSCO BIBLIOTECA 1 Convergéncias e divergéncias: a questao das correntes de pensamento em psicologia Luis Clausio Figuerrego* (Opresente texto enfoca um tema a que me venho de- dicando ha cerca de quinze anos e no qual venho inves- tindo uma parte substancial do meu esforco de pesquisa e reflexdo. No entanto, quero, também, de antemao, fa- zer uma advertencla: estes anos todos néo foram sufici entes para que eu possa hoje oferecer respostas comple- tas e convincentes aos intimeros e angustiantes proble- mas que decorrem da fragmentagao do conhecimento psicoligico. Poderia dizer, contudo, que o ganho tem sido exata: mente o de fazer avancar o problema no sentido de man- 1té:lo aberto, tornando-o para mim mesmo mais clara: mente delineado, Isto, talvez, seja pouco para oferecer, mas no gostaria de decepcionar excessivamente meus * usp -Puc-sP. eventuais leitores prometendo mais do que realmente me acho em condigées de oferecer, ‘Ao longo destas paginas tratare em primeiro lugar da propria dificuldade que nds psicdlogos encontramos por ter de lidar com a fragmentacdo de nossos saberes; vere- ‘mos como frequentemente, atordoados pelas divergén- clas e ansiando por convergéncias e unidade, envereda- ‘mos pelos caminhos perigosos do dogmatismo e do ecletismo, Em seguida, apresentarei algumas perspecti- vas que me parecem mais maduras e proficuas para en- frentar estas questoes. Estas perspectivas dizem respei- to, primeiramente, a tentativas de compreender a estru- tura da dispersao (que parece castica, mas na verdade tem sua propria organizacao); em segundo lugar, tra- ta-se de avaliar o alcance das divergéncias (que é muito ‘mais amplo, profundo e complexo do que aquilo que po- deriamos chamar apenas de “divergéncias tedricas"); no exame deste alcance seré muito enfatizada 2 dimensao proptiamente ética envolvida na questao. Faz parte do conhecimento de todo psicélogo, de todo professor de psicologia e de todo aluno em formagao © estado fragmentar do conhecimento psicol6gico. A pro- Pésito, Luiz Alfredo Garcia-Roza referiu-se & psicologia ‘como “um espago de dispersao”. Para quem acompanha a historia desta érea de producao de saberes e de pratices fica muito claro que esta designacdo serve para caracteri- zara psicologia pelo menos nos titimos cem anos e nada indica que vé perder a validade nos anos futuros. Efetiva- ‘mente, a ocupacao do espaco psicol6gico pelas teorias € Parte! 6 sistemas nao deu lugar 4 formagdo de um continente, mas sim de um arquipélago conceitual e tecnolégico. Ou seja, ndo se trata de um territorio uno e integrado, embora também nao sejam ilhas totalmente avulsas e desconec- tadas. Na verdade, ao longo de cerca de 40 anos, as duas ultimas décadas do século XIX e as duas primeiras do sé- culo XX, surgiram, quase que simultaneamente, as gran- des propostas de apreensao tedrica do psicol6gico ou do comportamental. De li para cé 0 que assistimos foi a con solidacao de microcomunidades relativamente indepen- dentes, cada qual com suas crengas, seus métodos, seus cobjetivos, seus estlos, suas linguagens e suas histérias particulares. No entanto, a independéncia nao é comple- ta, o que se mostra de variadas maneiras, Por exemplo: via de regra, dentro de um curso de for- acao de psicdlogos estao representadas mites (mas ndo todas) destas comunidades, Os alunos, ao ingressa- rem no curso e entrando em contato com o currcul, podem fica, de inicio, com a expectatva de que vias dlsciplinas iréo se organizar harmonicamente, conver indo para uma meta comumm, sequndo uma concepgao comparithada por todos os professores do que seja pen- sare fazer psicologia. Muito rapidamente ees percebemn «que algo no caminha conforme 0 esperado, Costuma éemergi,entéo, um certo desassossego e uma ceta des- confianga, Penso que algo que mereca ser prontamente tematzado € a relagéo entre o estado um tanto cadtico e inevitavelmente desarticulado de qualquer curriculo de formagao em psicologiae as condigées histércas desta rea, Eta seria uma boa razao para arbuirmos 20 es- tudo da histria da psicologia, ou das psicologias, um hi 42" privlegiado na formacéo do psicélogo. E claro que Da eplstemologa&atica ete. esta historia ndo poderia ser apenas, como frequente- ‘mente ocorre, uma exposicdo das teorias e sistemas: se- ria necessario enveredar pelo estudo dos niveis ou planos ‘em que estes sistemas podem ser confrontados e com- preendidos como legitimos habitantes do espaco psico- logico: seria ainda necessario identificar suas posicdes particulares dentro deste espaco, com todas as implica- ‘GOes praticas, técnicas e éticas que Ihes correspondem. A isso voltarei mais tarde. Na auséncia de uma compreensdo mais abrangente profunda do nosso espago de dispersao, experimen ta-se um sutil mal-estar que poderia ocasionalmente con verter-se em epis6dios de angustia. Se esta nao aparece claramente é porque contra ela logo emergem duas rea ‘Goes muito tipicas e perniciosas: o dogmatismoe oecle- tismo. No primeiro caso, 0 psicélogo em formacao ou jé formado tranca-se dentro de suas crencas e ensurdece para tudo que possa contesté-las. No segundo adota in- discriminadamente todas as crengas, métodos, técnicas e instrumentos disponiveis de acordo com a sua com- preensao do que Ihe parece necessério para enfrentar unificadamente os desafios da pratica. E preciso perceber o que estas duas defesas contra a ngiistia tem em comum: elas blogueiam 0 acesso a ex- periéncia, No caso do dogmatismo a minha afirmacao. deve parecer dbvia: quem se agarra aos sistemas como. tabua de salvacdo nao s6 nao pode owvir as interpelacoes, ‘que viriam de outras vozes teéricas (que ficam de ante: ‘mao desqualificadas), mas também nao se permite ouvir © que a sua pratica tem a dizer, salvo na medida em que se encaixe no esquema do que o psicdlogo pensa que sabe, Eu nao estou aqui defendendo uma posicao inge- Parte ‘nuamente empiista; Sei muito bem que as teorias sao in- dispensavels para que se tome inteligivel o campo das cexperiéncias; sao elas que nos ajudam na tarefa de confi- guracdo deste campo e sem elas estariamos desampara dos diante de uma proliferacao de acontecimentos com pletamente fora do nosso manejo. Contudo, o reconhe- cimento deste papel para as teorias e, mais amplamente, © reconhecimento de que nao ha experigncia sem pres- supostos nao se pode confundir com o aforamento dog- matico a um conjunto de crengas que resulte na propria impossibilitagao de qualquer experiéncia nova, A posicao eclética apenas aparentemente escapa des- te cativeiro: ocorre, na verdade, que o eclético langa mao de tudo, sem rigor e sem compromissos, a partir de um plano de compreensao que, este, nunca é questionado: ‘odo senso comum. E neste nivel do senso comum que o ceclético acha que “no fundo” existe uma unidade entre as teorias e sistemas, que as técnicas ¢ instrumentos se ‘complementam, que ele as avalia, que ele supoe identif- car as necessidades de seus clientes, etc., etc. A priso do senso comum é mais invisivel exatamente porque é a ‘mais préxima e envolvente, mas ela é, tal como a do dog- ‘matismo, um limite e um bloqueio, De fato, seja enclau- surado dogmaticamente na sua teoria ou ingenuamente enclausurado no senso comum o psicélogo que cede & tentacdo de escapar da angistia através destas formas bastardas de unificagao perde a capacidade de experi: ‘mentar, © que € experimentar, efetivamente, sendo en- trar em contato com a alteridade? Fazer uma experiéncia com 0 que quer que seja, uma coisa, um ser humano, um deus, Isto quer dizer: deix-la vir sobre nés, para a epistemologia a ética 19 {que nos atinja, nos caia em cima, nos trans. forme e nos faa outro (Heidegger) Estas so as palavras de um dos maiores pensadores, ssendo 0 maior, do século XX, Martin Heidegger. O que ele enfatiza € que a verdadeira experiéncia comporta um mo- mento de encontro, de negacéo, de transformacao. Ou seja, experimentar é deixar-se fazer outro no encontro com o outro. Em outras palavras: s6 ha experiéncia onde hd diferenca e onde novas diferencas sao engendradas. Ora, tanto 0 dogmitico nao se dispoe a nada disto, como © eclético procura manter-se fundamentalmente © mes- ‘mo, encobrindo esta imobilidade e esta mesmice imper- meavel com a fantasia da variedade e da liberdade. ‘Se me alonguel nesta questao do dogmatismo e do ecletismo € porque infelizmente eles costumam ser ten- tacées quase irrecusaveis para o psicélogo. Mas serd que nao existem outras maneiras de enfren- tar a dispersdo do espaco psi, de lidar com a angiistia que ele evoca? Creio que sim, mas estas maneiras exi- gem uma estreita alianga de movimentos construtivos e ‘movimentos reflexivos. Charo de movimentos constru- tivos os que implicam em investir na produgao do conhe- ccimento a partir dos recursos conceituals disponiveis nas teorias e no encontro destes recursos com os desafios da pratica, ou seja, a partir das experiéncias. Nao se trata, necessariamente, de transformar todo psicélogo num pro- fissional da pesquisa, mas de trazer para as situacoes préticas e profissionais a competéncia de pensar que Parte | permita a elaboracao de conhecimentos novos. E preciso abandonar a ideia de que a psicologia dita “aplicada” seja ‘a mera aplicagao de um conhecimento cientifico ja const- {uido. No nosso campo, to ou mais decisivo que o conhe- cimento te6rico disponivel ¢ a incorporacdo deste conheci- ‘mento as habilidades do profisional como um dos ingre- dlientes do que poderiamos chamar de “conhecimento té- ito” do psicdlogo. Pois bem, esta incorporacao da teoria 6 acontece no bojo de um processo muito pessoal e em ‘grande parte intransferivel de experimentacao e reflexao; nesta medida, nossa atividade profissional vai muito além da aplicaco, constituindo-se em uma auténtica elabora- ‘cao de conhecimentos mesmo que estes no se tradu- zam em textos, mesmo que permanegam como conhe- cimentos tacitos incorporados as praticas do profissional na forma de um saber do oficio. No entanto, para que o movimento construtivo possa se efetivar é necessério conservar aberto o lugar para a experiéncia, o lugar da alteridade, da negatividade, da transformacao. Ora, a abertura e conservacao deste es- aco é tarefa da reflexao. A reflexdo destina-se, no caso, @ elucidar os limites de cada sistema, seja explicitando seus pressupostos, seja antecipando suas implicacdes consequéncias, muitas vezes invisivels a olho nu, Muitas vezes se pensa que a principal fungéo da ativi- dade reflexiva no campo das teorias cientificas seja a de ‘nvestigar e, se necessario, questionar suas pretens6es verdade. Em outras palavras, muitas vezes se acredita que quem reflete sobre teorias e sistemas psicol6gicos cdeveria fazer perguntas tais como: como se deu e se dé a produgao e a validagdo do conhecimento que se apre- senta como sendo cientifico? quais os métodos e técni- Da epistemologia & ética 21 cas acionados na produgao e validacao do conhecimen- to, ete.? Ora, em relacao a este tipo de preocupacao haveria duas coisas a considerar. Em primeiro lugar. a central dade das questées epistemolagicas no campo da cultura ‘moderna e cientifica tem sido cada ver mais problemati zada (RORTY, 1979; 1982; 1990). Observa-se em todo 0 pensamento contemporéneo um abandono progressivo @ as vezes dramatico do projeto fundacionista, ou seja, do intento de fazer repousar 0 conhecimento cientifico ‘em bases solidas e inquestionaveis, isto é, em alguma forma de conhecimento imediato e indiscutivel tal como, foram os projetos epistemolégicos da modernidade, se- jam os de inspiracao baconiana, sejam os oriundos da tradigao cartesiana. Ao contrario disso, jd se torna quase consenso a aceitacdo de que nao hé tais fundamentos, de que nao ha conhecimentos imediatos, de que nao ha conhecimento sem pressupostos, sendo que estes po- dem ser explicitados, e é bom que o sejam, mas jamais serao verificados ou refutados. No maximo eles poderao ser avaliados em suas propriedades heuristicas, ou seja, na sua fecundidade e na sua eficacia. Em segundo lugar, cabe assinalar que 0 abandono| do projeto fundacionista e a énfase na investigagao dos pressupostos das construgoes tedricas e das praticas vem a calhar para uma area como a nossa, marcada pela dispersao. Nao creio, efetivamente, que a avaliagéo com- parativa das teorias e dos sistemas psicol6gicos pudesse ser feita apenas ou principalmente no plano epistemol6- {gico. Nao € possivel nem faz sentido procurar saber quem €0u foi mais cientifico: Skinner, Piaget, Freud, Jung, Ro- gers? O que se passa é que os diversos sistemas de pen- Parte samento psicoldgico nao visam os mesmos objetos, da ‘mesma maneira, com os mesmos objetivos e de acordo ‘com os mesmos padroes. As nogdes de “realidade”, de psiquismo", de “comportamento”, etc. variam:; igual: mente varia 0 que se entende por "teoria’, por “conheci- mento” e por “verdade"; em decorréncia, variam os crté- ‘ios de avaliagao do conhecimento e dos métodos e pro- cedimentos adequados. Nesta medida tals divergéncias nao se resolverdo mediante pesquisas, ja que qualquer pesquisa sera efetuada a partir de seus préprios pressu- postos. Chamo de “matrizes do canhecimento psicol6gi co” (FIGUEIREDO, 1991) a estes grandes conjuntos de valores, normas, crengas metafisicas, concepcdes epis- temol6gicas e metodologicas que subjazem as teorias € 8s praticas profissionais dos psicélogos. Coloco também ro plano das matrizes o conjunto das implicagdes éticas ‘que pertencem legitimamente ao mesmo campo de pro- ducao teética e de praticas, Aqui creio que seria oportuno deter-me um pouco no temo “matrizes”. E preciso de inicio estabelecer algu- ‘mas diferengas de nivel: falando em “sistemas”, em “es- colas”, em “faccées” ou em “correntes” eu permaneco ho nivel manifesto, embora recortando de forma mais ou menos flexivel, mais ou menos restrtiva o meu material E verdade que o termo “correntes” ao insistir na dimen- sao temporal se abre para uma passagem da apreensao das ideias tais como se mostram para uma apreensao das ideias na sua historicidade, na sua autogeragao. No en- tanto, se o meu interesse € o de identificar pressupostos implicagoes, eu necessito de um termo que me dé acesso a um nivel que opera no registro do latente, do que age dissimuladamente. Os termos “paradigma’ tal tica Da epistemolog! como empregado por Kuhn (1970), “episteme” tal como empregado por Foucault (1966; 1969), “bases metafisi cas” tal como empregado por Burt (1983), entre outros, dlizem respeito exatamente a este nivel que me interessava focalizar. Optei pelo termo “matrizes”, que por sinal tam- bem veio a ser proposto por Kuhn (1974), para substituiro de “paradigmas” porque ele me pareceu o mais apto a fa lar do meu tema: 0 espaco psi como um espaco de dis perso que, apesar de tudo, ndo é um espaco de caos ab- soluto, pois possui uma organizacao subterrénea a partir dda qual podem ser confrontadas, aproximadas ou contra- postas as correntes, as escolas, as seitas, enfim, todos os habitantes gratidos ou mitidos do espaco psicologico. As matrizes s80 geradoras; elas s80 fontes, elas instauram ‘0s campos de teorizacéo e de aco possivels, elas inau- ‘quram as hist6rias das psicologias. No meu livro Matrizes do pensamento psicolégico procurei oferecer um quadro panoramico das psicolo- «gas contemporéneas organizado a partir de suas matti- zes. O espaco nao me permitiré estender-me sobre a ‘questo. Apenas recordarei que la denomino matrizes ci- entificistas a todas as matrizes a partir das queis a psico- logia vem a ser concebida e praticada como ciéncia na- tural (de acordo, naturalmente, com os modelos de cién- cia natural disponiveis no século XIX); todas pressupdern ‘acrenca numa ordem naturale diferem apenas na forma de considerarem esta ordem: as psicologias geradas por estas matrizes seriam construidas como anexos ou se- undo os modelos de outras ciéncias da natureza, como, Por exemplo, a biologia. Como as demais ciéncias natu- rais; as psicologias estariam destinadas a fomecer um Parte! 4 conhecimento itil para previsao € controle dos eventos psiquicos e comportamentais. De outro lado, encontram-se as matrizes inspiradas no pensamento romantico de oposi¢ao ao racionalismo \luminista e ao império da matematica e do método: para las 0 objeto da psicologia ndo so eventos naturals, mas sao formas expressivas, ou seja, as aqdes, produtos e obras de uma subjetividade singular que através deles se da fa conhecer, Enquanto as psicologias engendradas por ‘matrizes cientificistas propunham-se como conhecimen- to aplo a previsoes e controles e, nesta medida, se obi