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Projeto

PERGUNIE
E
RESPONDEREMOS
ON-LlNE

Apostolado Veritatis Splendor


com autorização de
Dom Estêvão Tavares Bettencourt, osb
(In mamoriam)
APRESENTAÇÃO
DA EDiÇÃO ON-LlNE
Diz 510 Pédro que devemos
estar preparados para dar a razAo da
nossa esperança a todo aquele que ncrfa
pedir (1 Pedro 3.15).
Esta necessidade de darmos
conta da nossa esperança e da nossa fé
" .. ,
hoje é mals premente do que outrora,
'~ , .' visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrárias à fé católica. Somos
assim Incitados a procurar consolidar
nossa crença católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste sita Pergunte e
Responderemos propOe aos seus leitores:
aborda questOes da atualidade
conlrover1ldas, elucidando·as do ponto de
vista cristlo B fim de que as dlMdas se
," dissipem e a vivê",a 08161108 se fortaleça
- ... no Brasil e no mundo, Queira Deus
abençoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatls Splendor que .e
encarrega do respectivo sita.
RIo de Janeiro. 30 de julho de 2003.
Pe. &te... _ r t , OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convênio com d. Estevão Benencourt e


passamos a disponibilizar nesta área. o excelente e 8emp4'e atual
conteúdo da revista teológico • f~osónca ·Pergunte 8
Responderemos·. que conta com mais de 40 anos de pubUcaçAo.
A d. EstêvAo Benencour1 agradecemos a conflaça.
depositada em nosso trabatho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
11
NOVEMBRO
1958

ERGUNTE ·
e
Responderemos

ANO I .
INDICE
Pia.
I. FILOSOFIA E RELlGlAO
J) "Pode-1St admitir ',nja ,lIgllma nligi40 rnlelml(J por Dllc. 1
E, e4&O a lia;n, por quI /finai, podl!r1a 'e?' r eton/uldda 1 O.
miltlgrelJ merecem pallCO crUítCl em no,",oll dia, '" _.. , •...

') "Com que 'Imdamcll:to le lli::: que o Ullerlutto, lín.gua intGl""!t-


cio ll: ol, te", I<i!lltjficfulo qUQJle f'"cliUiolSO, de.'1tÍlt(Uul9-lfc
ti "er (I
idioma da IIH"umidllde f."onlrattnfi::lula "ôbre ttot/Cll' bqea
"pirituallt 1" . _....... ..... ... . . ... . . . . .• • . . ••• ••• • _...•

11. nOml ,\TU 'A

;1) "Que é o AGNU.s IJEJ !


E qlUI Cf'ldito .e lXIcl. dnr às T/Ulnlvillun'G, vromeB~U an,:r:cu
ao .tu "'0
1 Não SI au,meUIOl1! clt do. bentinllo• • demai,
06;,t08 mdgko. , Pelo fato d, .c,.,m, aprovada.. J)(Ir KfII. em!.'
,or uluiástico, qlud a flN taridad, qu. compf:tc Cl c..aa pro-
W"UC\I'" •••. . .. _ . . .. _ . . ..• .•. • .. • .•.. ... . .. . . . • , , , , , , , .j.j6

111. SAGRADA ESCRITURA

"A 19r~ja tc:rú IIIY"lIIa tI~: 1lrtJi/)ido fi. leitura li" BiMia 'I"

"S, 11' tlfinJl4 que (I lA,de Moilléll foi 4b-rou4da por CrUlo,
porqU8 ni7l1Ü, 118 i" " i>lle 7In obllervdflcia dOIl m""tdtlmen.tOll /'0
n f'1Cii.lftylJ? ' fulm, r.w trc ê" t tx, 'lHe d Idto ,111./1 7rrr...r.ri(:ii...'" r.alt·
tent,lt,fcs ao ...U.....,,, 8 ~" i"lIIycltH '! Q.ml é "Iintel p critér io
para u dilltinVllÍr fi qlle loi ab...-ovado e o que ail'ldo. t. m
\Ift/or de lei'" . ", •. , . .• ,., . • , •• , . .•• , .• , . "., • . . .... , .

IV. DmEITO
6) "Q/wi3 03 illllJtdimulo, diriltl(l:lttell do ,,"atrim6nil,l 'I' .$$i

7) "Em q lll! 1'0nlfill tfl tJ ...lIamado ·p,;.,iUgio palllillP' f1voctldo fta


lteIHINI(np ,Ie nl!llfH N c",",ilt"" •.. , .. , . ... . .. .. ', ... , . , . .. ,46,4

V. IIISTORIA DO CRl STJA...~ISi\IO

H) "Comu lU'oclld.1I ti Igr.ja "O C/l lfO ltIutrimoJlial .. Ie Nopol.úl}


Bo1t(f.ptlrtot' N6.o l era cOrlllnt tido tiO div~rr:io 1'(1: /0 Ineo "I. qll.
o i",tel'ellllnd" e,,/, 11111 "Ionarca 1~~/er6Ifo 1" ... . .. .. . . . , .. . . ".
9) "Qllem. • do 011 'Cllrdeaill Neg,...,,"" . . .. ... . . , .. " ,., . .. . . .
".
JO) "Como lIe j/II/i/im o casamento r dilli6110 do rei de Port",gal
D. Pedro /I CO'" 1I111t c:nnhada, ellpiiHI$ 11" "til irlluio o rti
IJ. Alo,uo vt. lIill ,III crll vid" dl l/ te 1" , •. , ... ,., . , .' ,. " , . 410

CORREs rONDSl\'CI A MIUVA

COM 'APROVAQAO ECLESIASTICA


« PERGUNTE E RESPONDEREMOS »
Ano I - N' " - Novembro de 1958

1. FILOSOFIA E RELIGIÃO
1'r. l\r. S. (São Paulo) :
1) ePodc--se admitir haja alguma -religião revelado. por
Deu,,!
lo;, «'·a so I~ II:,j;~ lmr '1\1(1 Ninuis Jlutluiu. ser n~(\unlu ~ ci da ?
Os mila.grcs merecem pouco créc1Jto em nossos dias !.
Procedamos por etapas em nossa resposta.
Antes do mais, verificamos que as queStões acima, pelo seu
enunciado mesmo, pressupõem a existência de um Deus pessoal,
distinto do mundo, tal como o pode provar o raciocinlo filosófico.
Antes de Cristo. J6 Plat!o e Aristóteles na Grécia nos forneceram
essa prova, que $C poderia resumir nos seguintes tél"mos :
O mundo consta de sêres essencialmente cont!n~cnt(!S e mutivels . •
Ora o eontlnllcnte e mulA.vel, por deflnJCAo, não possui o ser por si
(o contingente c mutÀvcl Que se cxpUca.ssc por si. seria uma contradi·
çnol, mn l! tem (1 rn7..''io dI! »ua I,.'xiJI1(,lllcln f 01'3. de 51, lIum ente que deve
.ser Absoluto e Imutâv~1.
Donde se seaue que, se existe o c:onUngente e mU16vel (ou tempo·
ra)), deve existir o Absoluto, Imutivel (ou Eterno) . E tal é Deus, Deus,
que por eonseeuinte não se pode identificar com o mundo.
Esse D[!us distinto do universo hA 00 ser o Autor ou Criador do
mundo, pois, em caso contrArio, o mundo seria um Absoluto, e a untei·
dade de Deus estaria destrulda. Ulteriormente, conclulr·se-A que hi de
ser dotado de intcligõncla (sabedorJa) e vontade (amor), pois es tas &Ao
notas caracterlsUcas de uma pcrsona.lIdade criadora.

Pergunta· se agora se ê sse Deus se revelou explicitamente


aos homens, comunicando-lhes alauma forma de Religião. € esta
mais ou menos a dúvida dos filósofos chamados «delstas. ou
«enciclopedistas do séc. XVIII.. Até tal época o fenômeno re-
ligioso, dentro e fora do Cristianismo, foi geralmente associado
a uma revelação divina primordial (cada gl'3nde sistema reli-
gioso da humanidade tem seus Jivros sagrados, depositãrios do
que os respectivos fiéis julgam seI" a Palavra de DeuS) .
Abalxo proporemos um esbõço de resposta ao deísmo, estu-
dando: 1) a necessidade moral de uma Revelação; 2) a maneira
como esta se nos pode dar a conhecer. Procurando por flm fazer
.:.. 435 -
cPERGUNTE E RESPONDEREMOS. 11/1958, quo 1

uma aplicação concreta dos principios enunciados, focalizaremos


o tema do milagre, sêlo por excelência da. Revelação Divina.

1. A oeeessidnde de Revelação DIvina


1. Um Deus que houvesse criado o homem, mas o tivesse
abandonado, sem exercer providência (justiça e bondade) para
com êle, seria um Deus careccnte das qualidades mais óbvias
de qualquer scr moral; seria um verdadeiro absurdo. ProfessA·lo
já equivale a negar n existência (le Deus.

lnlcllzmente ntlo pouc3S pcssom; hOjl' em dia d izem :lcredltar cln


Deus, mas O Juleam injusto, desapiedado ou no menos estranho AI
uplra(6es do homem. Essn Cll ura do cDcus amoral ou JmoraJ. é uma
contradlc!o; quem a admite, JA nQ() crê em Deus.

2. Reconheça·se, por conseguinte, uma verdade professada


também fora do Cristianismo: Deus criou o homem para dar·lhe
a felicidade ou a plenitude de bens a que êste espontã.neamente
aspIraj e Deus providencia para que a criatura atinja esta meta.
Portanto, há ordem e finalidade no curso dos acontecimentos;
êste mundo e sua história não dependem da cega ação do acaso,
. mas são governados pelo Criador.

3. Eis, porém, que dincilmente o homem conseguiria a sua


meta, quo 6 cndolir a Deus, ~u Autor ., se ~stc o deixasse cn·
tregue às luzes de sua razão natural apenas.
e o que se depreende de uma consideração retrospectiva da
história : mesmo as verdades religiosas naturais, acessíveis por
si à razão humana, têm sido crrõneamente concebidas pelos
povos. Verifica·se que a idéia de Deus, que significa a Perfeição
subsistente, é .pervertida pelo politeísmo, o fetichismo, a magia ... i
8 consciência moral também é deturp.'\da em ritos obscenos e
cruéis, que, sob aspecto de legalidade, servem às paixões dos
seus adeptos.
A rigor, todos os homens seriam capazes, por suas facu1da·
des próprias, de conceber a mesma e única noção genuina de
Deus, a mesma moral autêntica, as mesmas normas gerais dI}
culto. Na prática, porém, é com IentidAo e dificuldade que che-
gam à dareu. em tais assuntos. .
1:ste estado de coisas se explica à luz dt' dois fOot6rel :
1) As questõcs concernentes ao ultimo I:tm. à orteem e ao stgnl-
ficado da vida humana na terra nAo se resolvem pela cxperll!ncla nem
por simples dedução, mas pertencem 110 domlnlo da metllflslca. 01'0
esta Jt'rà sempre flrdua para o comum dos mortais, pois requer que o
-436 -
liA UMA RELIGIAO REVELADA POR DEUS?

pensador eoze de certa deSpreocupaÇão Intelectual. de alguma persplciJ..


ela de esplrito, e que ame a verdade, Isento de preconceitos e paixões.
Ineeàvelmente, porem, a maioria dos homens nAo dIspOe de tais dote!(
ou nio vive em cIrcunstlndas tais. Ainda mesmo que uma classe de
cidadãos favorecidos conseguLsse peneIrar devidamente as verdades re.
lIg1osas, não se poderia esperar (como serJa para desejar) que de $Cus
estudos e conheclmentos se beneficiasse todo o gênero humano. 1;
Platlo quem observa ! ~Dlflell é encontrar o Autor e Pai do universo;
mas da·lo ta conhecer tIIos0!lcamente a todos ê absolutamente impos.
sl"el:. (Tlmcu).
2) A Revelaçll.o cri~l ã fornccc a ultima explicação do fenômeno :
o f1ccado Clc Adllo, se nrlO afetou diretamente n nalur(!1A com ~ua Inte'
IIJ~""dl\ P S I!:I wm lm!l', 110 IIlI'nos ('111'11'(11 1 (I hllml'lH I'm dl'I·"n..~H,n r. I:I!I.
(k~ \l1I[u lals l lUI ~ IÕlla l..,mVI'rs;'lu 1111 Invislvd t' ali Tr',lIIsn!llIll'uh! .'i4' lIu'
torna árdua: paix~ de${'(!sradali denlro do individuo, lcntaçúcs mui·
tlp1u provenientes de lora, atrativos Ilusórios do mundo senslvel con·
correm para o~r a Inteligência e debilitar a vontade na sua de·
manda de bens espirituais.

Se tal é a condição do homem no que diz respeito ao conhe-


cimento das verdades naturais concernentes a Deus e à religião,
ninguém terá. dificuldade em admitir a e:rande conveniência de
que Deus mesmo ensinasse ao gênero humano noções tão impor-
tantes (trata-se do último Fim da criatura!) i pode-se mesmo
afirmar que a revelação sobrenatural era moralmente nccessãria
(isto é, necessâria não por exigência da natureza humana, o que
seria nc~dnde física. mas por motivos derivados da cond\4ta
do hon1L'nl nu lcl't'u ). E, se cm momlmcnlc ncccssúrln, l>Odc-sê
tambêm dizer de antemão que muito provàvelmentc Deus, em
sua providência, a quis o.utorgar, a fim de assegurar ao homem
um reto curso de vida e a sua união definitivo. com o Criador,
Uma ulterior observação ainda se concntena com as precedentes:
pelo lato de ser provâv(!1 que Deus se tenha revelado sobrenatural·
mente ao homem, incumbe a qualquer Ind[vlduo que tome consc:lC!ncla
disto, a ohrIRo~"io de se rel'lirtcnr da exlstC!ncia ou não cle tnl revela(ão.
Furtar·se a ~t(! dever ser ia, de um lado, dcsprt:'/,ar (} hem do Ilr6J1rio
sujeito, injuriando a naturC'Ul humana, c, de oulro lado, nrc-nder o
Criador mesmo, Autor da Revelac;J.o reconhecida como provt,"el.
Mas como então atender n êsse dever de procurar a possivel
Revelação sobrenatural? Que crltérios de\'erão ser levados em
conta ?
2, Os sinais da. Revelação Divina

Dado que Deus tenha decretado revelar-se à criatura,


pode-se admitir sem dificuldade que haja munido essa revelaçúo
de sinais sufi cientemente claros, para que todos os homens (l
- 437-
cPERGUNTE E RESPONDEREMOS,. 1111958. quo 1

pudessem distlniU1r e abraçar com segurança. &sses sinais (tam-


bém chamados emotivos de credibilidade:.) serão, em primeira
linha, realizações extraordinárias verifi~das no curso da natu-
reza e só expHcãvels pela intervenção da Onipotência Divina; tais
realizações extraordinárias, porém, se deverão prender a deter-
minada doutrina como sêlo de autenticidade apôsto à mesma.
Dois são os tipos de sinais que os homens, quer eruditos,
quer simples, sempre consideraram como fortes comprova.l'ltes
de uma intervenção da Divindade no mundo: o milagre e a pro-
fecia. A êsll'S clilêrios se acrescentam, muito J'a7.oávclmcnlc,
ainda outros - o que nos permite estabeleccr o quadro seguinte:

externos
(obJetivos )
1 : :i~::~~ ::o::~ina
e os !.rutos de vida digna
que ela susCita em quem
1 a professa
Sinais de Revelação
Divina ou motivos a. satisfacl0 das mais M'
de credibilidade pontAneas asplraç6cs re·
IIglosas do g~nero hu·
Internos mano
(subJetivos)
a p;u profundo. experl.
mentada pelos dlsclpuios
tia dita doutrina

Os critérios acima, considerados isoladamente, terão uns


mais, outros menos valor apodIctlco; principalmente os critérios
subjetivos, que depelldem de experiência pessoal, poderão deixar
lugar a dúvidas. Acontece, porém, que a satisfação simultânea de
todos os critéPios da lista constituI prova inelutável. Com efeito,
tem-se então o que se chama co argumento por convergência de
probabilidades:. ; se várias linhas que se poderiam dispersar em
direções diversas, na realidade confluem para um só térmo, é
preciso assinalar uma razão sufidente ou adequada para essa
confluência: ora tal razAo suficiente não poderá ser senão a exis·
têncla do tênno mesmo para o qual as diversas lInhas confluem.
No nosso.caso: . . . não poderá. ser senão a veracidade da doutrina
qué cada um dos critérios da Revelação atesta do seu modo.
Pois bem; o Cristianismo, e o Cristianismo só, em sua (arma
tradIcional, católica, se beneficia de tal confluência de critérios
ou motivos de credibilidade. A exL..tência do Cristianismo, como
êle hoje se apresenta ao mundo através de vinte séculos, guar·
dando de geracão em geração o contato com CrIsto e os Após·
- 438-
HA UMA RELIGIAO REVELADA POR DEUS?

tolos, requer uma razão suficiente; e esta só pode ser a presença


c a atão de Deus mesmo que se revela pela Igreja Católica.
A demonstração minuciosa desta tese foge ao âmbito da
nossa questão; encontra-se sumàriamente em cP. R .• 8/ 19S7,
quo 1 e 7/ 1598, quo 4. Contudo 'abaixo empreendê-Ia-emos de
certo modo, considerando em particular o primeiro motivo de
credibilidade, que é o milagre.

$. O alUagre

l . Por emilagl"C Pl'úllI'jamente dito. cntcnrlc-sc ~m Tt'Olo--


gia um fenômeno que
a) no momento em que é produzido, ultrapassa o alcance
de tôda e qualquer fôrça criada e, por conseguinte, deve ser tido
como realizado por Deus;
b) e reaHzado a Om de testemunhar a presença e a atão
do Todo·Poderoso no mundo.
Ao lado do milagre assim estritamente defmido. deve-se re-
conhecer a existência de fenômenos que, embora se apresentem
como extraordinários, estão perfeitamente enquadrados dentro
do!; limites de tôrças naturais:
são efeitos de faculdades da alma humana ainda nâo de
todo exploradas pela Psicologia; fenômenos paranormais (= ao
lado dos normais). Têm origem em choques psiquicos, estados
patolóelcos, às vêzes indlscemiveis ao comum dos espectadores.
mas cada vez mais' explanados pela nova ciência chamada ...Pa·
rapsicologla_ ;
podem também ser efeitos de esplritos que, vivendo fora de
corpo (anjos bons e maus, aJmas dos defuntos), possuem capa-
cidade de ação mais ampla que a do homem; têm~se entio os
chamados denõmenos pretcma.tural~. (= postos alem da natu·
reza. humana, não, porem, além de tôda e qualquer natureza
criada; não são fenômenos csobrenaturais. , isto é, postos acima.
da natureza criada). Os fatos preternaturais nada têm que ver
com o milaere propriamente dito ; êste é sempre evidente obra
de Deus.
A Indole de sInal, repitamo--lo, é essencial ao conceito de
milagre. Por conseeuinte, não entram em consideração, para
quem procura se de tato existe uma religião revelada, fenôme-
nos extraordLnários que correspondam exclusivamente à curio-
sidade, à vaidade ou à fantasia dos homens, mas não levem para
Deus e o genuino culto de Deus no mOnoteismo (o panleismo e
o politeismo são aberrações).
- 439-
cPERCUNTE E RESPONDEREMOS. 11/ 1958, qu. 1

Os artigos de cP. R.. 2/ 1957, qUo 2 <! 6/ 1958, quo 1 pro-


curam mostrar como, apesar dos progressos da ciência contem-
porânea e não obstante a multiplicação dos fl!n6menos parapSi-
cológicos, ainda. se pode em nossos dias dar pleno crédito a mlJa-
gres. A fim de não repetir quanto ai foi dito I!m estilo espI!CUta-
tivo, esforçar-nos.emos abaixo por evidenciar o mesmo resul-
tado, seguindo outra via : à luz de um caso concreto, verifica-
remos como certos fatos são tidos, com o concurso da l'nzão
humana, quais autênticos t~temunhos de Deus ou quais genuí-
nos miln):rrcs•
.
2. Desde fins do século passado. existe em Lourdes (Fran-
ça) um eBureau Médical des Constatatlons~ , repartição desti- '
nada a examinar com a mais moderna aparelhagem técnica
curas que os peregrinos dizem obter naquela cidade. A reparti-
ção, seu laboratórios e suas pesquisas são franqueados a médicos
de tôda e qualquer ideologia., aos quais se reconhece o direito
de examinar os arquivos, controlar os exames de seus colegas e
tomar parte nas discussões que cada caso provoca. Em 1948,
por exefT\plo,. fOl"am fazer estágio de contrôle em Lourdes cêrca
de mil médicos de fora, dos qunls trinta. e sete eram professôres
de Faculdades, mais de cem clinicos ou cirurgiões de hospitais e
numerosos especialistas.
E como funciona o eBureau Médical des Constatations. ?
Logo que um doente se apresente como curado na cidade,
os módicos encarregados do respectivo inquérito ouvem os depoi-
mentos do cmlraculado. e de seus acompanhantes e conhecidos,
depoimentos que ficam arqulvados juntamente com as observa-
ções dos médicos examinadores. Convida-se, a seguir, o paciente
a voltar a Lourdes dentro de um ano, levando atestados médlC03
divcrsos; devcrá e.ntão SCl' submetido a novo C)I,'"anlC. Esta segun-
da instância é suficiente para eliminar vários casos : ou a pessoa
não volta ou, caso volte, verifica-se que a cura foi efêmera ou
que não há provas suficientes de que o doente, ao chegar a Lour-
des, sofria realmente da moléstia alegada.
Dado que o segundo exame do eBureau~ nada descubra
contra a .pretensa cura, o paciente é deferido a outra Comissão
de Médicos, internacional, a qual recorre a llOVOS e mais rigo-
rosos testes, rejeitando geralmente boa parte dos casos aleeados.
Suposto Que as duas equipes de médicos não encontrem
razão para eliminar tal ou tal caso, não declaram tratar-se de
milagre, mas apenas de fenômeno Inexplicável pelos atuais
conhecimentos da medicina.
- 440_
HÁ UMA RELIGIAO REVELADA POR DEUS?

A titulo de Jlustracão, eis· aqui as cinco condlc6es estipuladas ",:los


examinadol"e$ para que possam lazer tal dcclarac;1o :
1 ) tenha havido molktla grave, acompanhada de altcra(6es nnatb-
m lcas (modltlcaç6cs de tecidos, perda ou superproducão dêstcs), molés-
tia diagnosticada e comprovada segundo os mais recentes mNodos de
pesquisas, com prevlsrl o de evolução sinistra ao menO! no órgão Oll nos
tccldos afetados (nAo se lcvam em conta, por conseguinte, doenças me·
ramente nervosAS);
2) IncClcAcla de todo mNodo temp(!ullco ou ao menos de lodos os
recursos medicinais aplicados ao pncicnte:
3) haja extinção de lMa les<lo ori::Anica em pra7.o tão curto que se
possa laJar de curllo lnstanl!\nca (instantânea cm sentklo absoluto ou,
nn meM!;, em sentido rcln!lvo);
111 ntu) ".' v. ' rir/IIIU':I .h'm",·:, 11:I1'1I":t11l1~~'S-':·. t"b ,oal'a 1i J"I'f'tl)It ' Il'l'
..:;'10 ,:I"1Hlali v1\ 11,,1'1 fllIl~'Ôt:S ot";.:itni'·i\'õ 1",,.dlth.IN 1ft l'õI.·k"h' dl )VI ~rÚ IInf:'
cJlatamcnte podl'r andar, comer (l digerir com IMa a normalidade ... l,
nem a demora exigida para a absorção de edl'mas, derramamentos de
pleura, para o. destruição de musas de tumores, etc. Esta condiçAo,
porem, nAo exclui que o 6tado geral de saúde do en!êrmo faça rápidos
proJ:reJSOS mediante aumento de p(!so, de fOrt'tls, etc. j
5) seja a cura duradoura, isto é, definitiva, capa:t de ser compro-
vada por exames sucessivos feitos a notlvelll Intervalos de tempo,

A declaracão das comissões médicas levada ao conheci-


mento das autoridades eclesiásticas não basta para que estas
apregoem II: milngl'c", A autoridade da Igreja é ncccss,;l'io exami-
nar ainda a segunda nota característica do milagre, isto é, se o
fenômeno tem Indole auténticamente religiosa, índole pela qual
o milagI'C propn:l.mente dito se distingue de qualquer manlfesta-
çÍlo diabólica ou simplesmente parapsiCOlógica. Por isto, em uJte-
nOt" instância, o paciente munido dos atestados médicos é entre-
gue a uma. comissão de teólogos e jurista!õõ eclesiãsticos, que· inda-
gam, segundo os crlterlos estabelecidos pelo Papa Bento XIV
(1740-58) ,
1) se a cura foi perfeita e definitiva,
2) se, nas circunstâncias e n os efeitos do fenômeno verlfi-
cndo, naria se deprccndc de r!'Ívolo. lidicu lo, dr.soncsto, torpe,
violento, ímpio, sobel"bo, fl"duc.lulento ou impugmívcl u qualquer
titulo moral que seja,
3) se, no contrário, tudo no (enómeno c decente. sel'io,
convidativo à plednde. â rclfgião e à santidade (requer·se expli-
citamente que o fenômeno se haja verificado em resposta a atos
de fé e de virtudes, como sejam a oração, uma peregrinação, a
aplicação não-supersticiosa de uma l'eUquia, etc.).
Caso a estas três questões se possa daI' resposta afirmativa,
então a comissão de cclcsiasticos declara que, com certeza mOl'al
(Isto é, com o grau de certeza que ti. pl'udência humana pode
obter), o fenômeno previamente tido pelos mMicos como
- 441-
cPEJtCUNTE E RESPONDEREMOS. 1111958, 9u. 1

estranho a qua1quer explicação clentilica pode ser considerado


como milagre estritamente dito (note-se que uma sentenca des·
sas nunca é imposta qual matcria de fé; fica a todo cat6Uco a
liberdade de aceitã·la ou não),
Ainda Q.ue os casos hoje considerados mlltlJll"()$O!I possam um dia
vir a ser ~xpllcados por tlgentes naturais, o simples fato de que se P<'O"
duzem em nossos dias de maneira IncxpllcllvCll e como resposta :L atos
de fé, leva a concluir o Uiulnte: tal Cenômeno, que talvez pudesse ter
·sldo causado por agentes naturais, foi realmente suscitado por Deus a
Clm de ser sinal de Deus.

EnllJlldc·sc (Iue n Il1niOl;a dos CH..<;O!; L'Sludados n;"lO I'csista


aos sucessivos exames das três comissõcs, nâo por serem frau·
dulentos, mas por serem suscetíveis de elucidação meramente
natural. Assim é que dos miJhareS de «curas_ anunciadas em
Lourdes desde o· comêço das aparIções (1858) sõmente 54 são
hoje reconhecIdas tanto pelas autoridades mêdicas como pelas
eclesiásticas (talvez se pudessem registrar mais casos genuinos
nesse periado, se as averiguacôes e estatlsticas tivessem sído
mais regulares e se a comissão canônica não tivesse funcionado
apenas durante vinte c dois anos). .
Em 1946, por exemplo, loram registrados 14 casos de ccuran;
~stcs, 7 apenas 51!' s ubmctero.m a. novo exame após um ano e final·
mente 3 foram considerados como autênticos. Em 1947. dos 35 casos
registrados, 14 LOTum rooxaminados um ano mais tarde c 6 apenas
obtiveram pleno reconhecimento médico.

Estas noticias dão--nos a ver. entre outras coisas. como a


Igreja está pronta a, levar em conta qualquer obje;ão que por
parte da elência se possa fazer contra o milagre. Lon,e de pre·
tender nutrir lJ.'U mentalidade fanãtica ou falsamente mlstica,
ela só apela para êste, quando não há outra explicação para
determinado falo . • 0 uso da razão precede n CC_, declarou opor·
tunamente Pio IX, em 1855 (cf. Denzinger, Enchirldion 1651).

À guisa de cOmplemento, vls.::lndo facllltl1r" ao leitor um juizo obJe-


tivo 11Ibre o assunto, apresentamos aqui um dos portentos mais recen-
tes li! famosos obtidos lora do Catolicismo, portento êstc que a opinião
pQbllca na .Inglaterra c no estran·ielTo chegou a qualUlcar de crt:l lla.grc~
do cMessJas. Indonéslo Mohammed Pak Subuh (relato encontrado na
revista cParls Match. n· 453, 141XIII1957, piglno..s 18-Z1J .
Em junho de 1957 a artista de clnemll Eva Butok jazia num leito
de cllnlca em tIolywOOd, aguardando ser operada de tumor" canceroso
dentro de poucas horas. Repentinamente, porém, à meia-noite acordol1
sobressaltada com uma voz que lhe manda.va seguir viaJem Imediata-
ment~ pa.ra Coombs Spring tlnglaterra>, onde vivia uma colllnia de

- 442-
HÁ UAlA RELIGIAO REVELADA POR DEUS!

"scelas budistas, recrutados na alta sociedade lne1êsa, sob a orlentaçAo


de Mohammed Pak Subuh e John Bennett, bte iilUmo era um inglês
que em viagem pelo Oriente fOra Iniciado no ocultismo e no mlsUcismol
da Arâbla e da !ndla e que Eva Bartok Já conhecia havia muitos anos .
Em Coombs Sprini, dll..la a voz. Eva r ecuperaria. a sat1de,
Em desespêro de causa, a artista rendeu,se a esta IntlmaCao. Tomou
logo o avião e em breve vlu·se no antigo palActo de Coombs Sprlng,
onde John BenncU multo amigàvelmentc a recebeu; (ê-Ia repousar e
Introduziu nos .seus 3posentos o (amolO cSl'ldd hu~ 1= santo) Indonéslo,
que só em casos raros sala de sua cela c de seu Isolamento meditativo,
Pak Subuh curaria Eva, assegurnva BenncU.
Refere então a reportagem que no primeiro encontro o indon~sln,
ele' olhel<.l nC!I:I'n.<: f'l1 C'IM Ih' ('alnr (' lC'rnurn, Ile 1c~.1. ~lJmtll"b, c"Slalurn
III 'q UC!CliI, s{:1'a C! hnlll':l'slllllill1l1.', SI! 1t11l'lIxhnuu ctn ,Iivrc vC :l'lIll!lho IIIKII:
jnzia a artista, Estavll ncompanhado por U'a mulher revestido. de si.-ilil,
denominada Ilu (= a Mile), espOsa e disclpula do Mestre. Os dois visi-
tAntes diante da doente juntaram as mãos anle a (RCC à maneira hindu,
e a"lm permaneceram Im6vels durante horas. Eva, que j;1 nAo donnla
havia meses, acabou por cair' no sonc. e s6 despertou após a ulda dos
dois orientais, maravilhosamente repousada ...
Durante mesc,s Q. fio o casal voltou diAriamente li. presença da en·
!érma, retomando sempre aspecto e atitude Impressionantes. Nlo lhe
diziam palavrn, pois 50 sabiam o Idioma Indonéslo; apenas se comunl'
cavam pelo olhar, o que contrlbula para mnlor Impon~ela da cena.
Pouco n pouco Eva «senUa que lhe In!undlam a sua fôrca :.. Conseguiu
levAntar·se; (oi ,r ecuperando o vigor corporal, ate que !Inalmente se
deu por completamente curada: flenho a Impressão de que tudo que
"Ivl at~ ti minha cura nfio era seno.o um mau sonho. Despertel·mê
e minha vida comC(n~, pôde ela dizer, como que reproduzindo as pala-
vrM de Buda após n s ua « lIuml naçiio~: cNASCI para a vld4 verdadeira!
Minha vida come('n !~. Eva, em conseqUênela, anexou·se à. comunidadê
de Coombs Spring-, levando a vida severa dos demais asceto.s da casa.
O episódio é impressionante, pois parece comproveI' aS práticas e
a doutrina do budismo ou do hlndulsmo em ,eral. Como apreclá·lo ?
Num exame sereno, destltuldo de tese preconcebida, verUlcam·se
em tMa a hlst6rla dessa cura evidentes sintomas de telepatia, transmis-
são de pensamento, hipnotismo, suge."tno, isto é, de elementos que roo
ullr:aI"'J..-:>am ilS rllr.ulr bulC!l jI!o;if'olós.:lcnl' Cl 1)IlI'ltllSi(:016Hil:a~ da natuFC?.a
humana c que nos dispensam de at>rlar pArn extraonlinArla IntervcnçD.o
de Deus. TenhR-se em vista, por exemplo, a morosidade com que n cura
Col sendo obtldn; houve visitas sucessivas decorridas em sll!ndo Impres-
sionante, sendo que os vfsltnntcs tomaVam (isionomla e posições carac·
terlstlcns, ao passo que a artlSla visitada logo nu primeiro encontro
caiu em profundo e benéfico sono. Esta trama se assemelha demais lt
dos fenômenos parapsicológicos, perdendo assim o direito de ser Inter·
pretad4 diferentemente dêstes. Se, por conseguinte, a fenomenologia
acima descrita é suscetlvel de expllcacào natural, jã. não seria cientifico
tomar o caso de Eva Bartok como autêntico milaGre ou como sinal
diretamente produl..ldo por Deus para atestar a santidade de alruma
douu'lna ou de alguma pessoa.
Contudo nno se nei'a possa haver verdadeiros mll:l.grcs fora da
JireJa Católica; quando, porém, se verificam, concorrem para levar ao
(mico DeU!. Cf. cp, R,a 6/1958, quo 1.
- 443-
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS, 11/1958. gu. 2

ESPERANÇOSO (Rio de Janeiro) :


2) .Com que rundamento se diz" que o esperanto, língua
lntemaelonaJ, tem significado qua.s& reUgioso. destinaado-so a
ser o Idioma da humanidade conrnternizada. sôbre novas base5
espiri~5h

O cspemnto (palavra que no próprio idioma esperantista


significa "csperançoso" ) é, ao menos por seu nome, um idioma
mensageiro de bom agouro. Disto, porém, não se segue que a
RC'ligião como Inl cst('jn ctirctnmcntc Cllvolvida no significado
sucial (k'S.o.;:l lillJ:,"lIa . Ir: cl 11'....• ~' "c,.'á Pl 'I"'t:OITt' llc1o algulls r:lt()~ ctn
história.
1. O idioma esperantista se deve a um filólogo e médico,
Luis Lãzaro Zamenhof, nascido em 1859 na. localidade de Bie--
lostock (Polônia), Já como jovem estudante, Zamenhof se im-
pressionava ao ver em sua cidade natal quatro grupos étnicos
que viviam juntos sem se entender mutuamente: russos, polone-
ses, alemães e israelitas. Concebeu então o ideal de derl'Ubar as
barreiras filológicas que distanciam uns dos outros os homens no.
terra. O estudo de diversos lInguas - latim, grego, l"USSO, fran-
cês, Inglês, alemão - COI'l'obol'Ou-o nesse intento. Formulou en·
tão dezesseis regras de gramática multo simples (apenas dois
casos, 1><11'0 as dcc:1I.n.-..~ ; torm<1s verbais $õcm flexão de pes-
soas c numero .. . ) ; Qunnto ao vocabulârio. proc"Urou rormü-Io a
partir de raíscs usadas nos pl"incipais Idiomas internacionais
(mormente no latim e no alemão); assim o esperanto diz vino,
corr~ndendo ao têrmo vlnum latino, , 'lnho português, vln
franCês, vlno italiano, vina espanhol, \Vein alemão, wine inglês,
vlna russo. As regras de composição e flexão das palavras não
admitem exceção na nova língua : a é a desinência de todo e
qualquer subst."Ultiva; n, a dos adjetivos; c. a dos advérbios; I,
a dos infinitivos: J. a da. rorma de plural ; n. a do objeto direto
(donde komerco, comércio: komerca. comercial; komerce, c0-
mercialmente: komcrel, comerciar; komercoj. comércios).
" Em 1887 apareceu a primeira brochura esperantista, da au-
toria de Zamenhof: "0-1'0 Esperanto - Llngvo Internada. Anta
uparolo kaj Plena Lemolibro" isto é, ''Doutor Esperanto (Espe·
-rançoso) "- Lingua Internacional. Prefácio e livro de estudo
para "uso dos Russos". A segunda monografia saiu em 1890,
ambas multo bem acolhidas e rApidamente difundidas em vãrios
·idiomas. Em 1905 teve Jugar na cidade de Bou1ogne-sur·Mer
(França) a primeira reunião internacional de esperantistas, que
contava oitocentos participantes a representar trinta. palses
diferent:e:s,
- 444
-ESPERANTO, UNGUA DO MUNDO NOVO?

Ao irromper a primeira guerra mundial, Zamenhof, que so·


nhava com a união dos homens entre si, não pOde deixar de se
sentir profundamente pesaroso ; veio a falecer em Varsóvia
em 1917.
De 1905 a 1939 realizaram-se 31 Congressos Internacionais
00 Esperanto ; têm tratado dos mais variados assuntos (eletro-
técnico, fLSica, qulmica, aviação, turismo, correio, policia, esteno·
grafia. etc. ) sempre em esperanto, e alheios à política e '1 reli-
gião, Hoje em dia contom·se cérca de 2000 gramáticas que em
54 linguas possibilita m o estudo do esperanto ; 112 dicionários
cspccin1i1..'uloo em 45 I'nm~ eln r.iêncin, eln ri!rn;nrin, ~ rla tknien
1)c1'1IIi1 ,I~1Il o lI~O do L'S(wt':tHlo em muitas das êll.ivic.Judes humanas
internacionais. Há cérca de 50 jornais e revistas Uterãrlas. eien·
tlflcas, políticas, religiosas publicadas regularmente em espe-
ranto, Quase todos os autores clássicos foram traduzidos para
êste Idioma (desde Homero e Virgillo até' Dante. Shakespeare.
Cervantes, Vitor Hugo. Goethe , , ,), MAis de 600 cidades publi.
caram brochuras turisticas em esperanto, A Conferência da
UNESCO realizada em Montevidéu no ano de 1954 exprimiu o
desejo de que o esperanto seja ensinado nas escolas,
2 . Eis o significado atual do esperanto; tomou·se uma Im·
gua que muito tem favorecido o Intercâmbio e a colaboração dos
homens entre si. Disto. porém, nã o se segue que tenha missão
rcligiosa dcpende nle de expectativas messiânicas inovadoras ou
nAo-crJstãs, O esperanto por si nada tem que ver com o advento
de nova era ou de nova filosofia religiosa, embora. alguns de
seus cultores o associem a tais expectativas (ou ' "esperancas"), -
Positivamente, o esperanto é mais uma afirmação da tendência.
do gênero humano a superar as barreiras do parUcularismo e
do egoismo desencadeadOll no mundo pelo pecado dos primeiros
pais; é uma expressA0 da sêde de redenção. de reconciliação uni-
versal que todos os homens, no fundo de sua consciôncia. experi-
mentam. Ora a Redenção loi trazida ao mundo por Cristo e é no
reino de Cristo prolongado através dos séculos (na Igreja) que
ela se encontra, O esperanto pode inepvelmente oontribulr para
facilitar a confraternização dos homens de diversas nações den-
tro desse reino. :t por isto que as autoridades da I~ja têm fa·
vorecido esse idioma (oolsa que não fariam se estivesse necessà-
1'1Ilmente llgado a umll concepção do mundo nãercristã) ,
O Santo Padre P io X. por exemplo, escrevia ao Pe. Pcltlel', autor
do livro . L'espolr cathollque. favorá vel ao ellperanto : . Reconheço {:I
\Itllldade do esperanto para salvaguardar a unld!lde dos católicos no
mundo'. O primeiro lIw-o de oraç6es em esperanto, redl,ldo por um
Católico francês, M. de Bcaufront, foL ofertado a Pio X em 190ft

-445 -
cPERGUNTE E RESPONDEREMOS. lUl9StJ. qu. 3

Os Papas Pio X, Bento XV e Pio XII têm abençoado os empreendi·


mentos esperantistas.
No XXXIV Congresso ~ucarl5Uco Internacional reunido em Buda·
peste em 1938, foi eleita uma Comlsslio encarregada de organizar as
sessões esperantistas que doravante teriam lugar nos Congressos Euca·
rlstlcos Internacionais; era a cKonstanta KomJtato por Eukarlstlaj
Esperanto Mondkunvenoj_.
Um dos mais recentes convênios da OrganlzacAo católica cPax
Chrlstb pediu a seus membros, prestiglasscm o espc-ronto como Ung ua
Internacional, aprcndcndo-a. c servlndo-se dela.
A Irrojn autoriza a conrissão sacramental em esperanto. Em
agósto de 1957 em Missa celebrada no santuário de N.-Dame-de-Ia-Guar-
de de Marselha o pr('~ador dlrlciu·se nos fI~ls nessa IIngua.

H. DOG&lATlCA

CüHLO (São !'aulo) :


3) «Que é o AGNuS DEI T
E que crédito ~ pode dar lu ma.ra.\·i1hosas promessas ane·
xas ao seu uso ! Nlo se assemelham lu dos bentinhos e demais
objetos mágicos !
Pelo fato do serem Rltro\'adns por um censor eclesiástico,
qual a. autorldndc que compete a. eSSM promessas ?»

Os Agnu.CJ Del são medalhões de cêra branca, for~ oval,


tamanho varlâvel, bentos pelo Sumo Pontificc. Trazem, de um
lado, a Imagem do Cordeiro Pascoal deitado sóbre o livro de
sete selos do Apocalipse (cf. 5,1) e acompanhado do dístico:
cEcce Agnus Del qui tollit peccata mundi:., assim como do nome
do Papa que benzeu o medalhão; do outro lado, apresentam a
imagem de um santo ou o sim bolo comemorativo de um aconte-
cimento importante. ~ -
Os cristãos sempre dedicaram grande estima a tais objetos.
Sendo assim, percorramos ràpidamente o histórico do Agnus Dei
e averigüemos qual seja precisamente a sua eficácia.
1. Breve histórico do Agnus Del
Embora hlo se possa dizer muita coisa sObre a origem do
AgnUl Del. consta que ela se deve à praxe dos cristãos de Roma.
O primeiro documento que fala dêsse objeto. é um «Ordo Ro-
manus. (livro de ritos e preces) do séc. IX. Goza de pouca pro-
babilidade a teoria que associa o uso dos Agnus Del com ocos·
tume dos antigos fiéis de' guardar consigo fragmentos do c1rlo
pascoal, ao qual (como se supõe) atribulam especial poder de
proteção.
-446 -
o cACNUS DEI. E SUA EFICACIA

Na Idade Média a bênção do Agnus "Del era efetuada no


sábado santo na basílica do Latrão, em presença do Sumo Pon a

tífice; o arquidiácono, a quem competia oficiar o rito, misturava


i. cerA liquefeita o óleo santo do crisma, benzia a mistura e a
colocava em fOrma, onde a massa recebia os traços do Cordeiro.
Os fragmentos assim oriundos eram guardados até a oitava da
Páscoa, domingo em que vinham distribuIdos aos fiéis após a
S. Comunhão. Os cristãos os conservavam e, ao correrem um
perigo qUalquer, os queimavam com devoção.
Aos 21 de março de 1470, o Papa Paulo lI, para evitar o
comércio e os abusos do A~us Dei (CIUC O povo muito prezava ),
J~rvou no Sumo Pontific..'C o direito de marKl,l r ra:t..cr c de ben-
zer tais objetos. Esta reserva continua em vigor, sendo quc a
confecção dos Agnus Dei está hoje em dia confiada aos monges
cistercienses da basilic:a da Santa Cruz de Jerusalém (Roma).
O Santo Padre procede à benção dos Agnlls Dei durante a
oitava de Páscoa do primeiro ano de seu pontificado e o. renova
de sete em sete anoS, foz:a, as ocasiões de anuência cxtraordinâ-
ria de peregrinos a Roma (jubileus, canonizações, etc.), quando
se esgota a reserva de tais objetos, tazendo-sc necessária nova
provisão.

2. Ericácia. do Agnus Dei


O Agnus Del constitui um dos chamados «sacramentais» da
Igreja, e é como tal que éle produz seus efeitos.
1 . Pergunta-se então: que são OS sacramentais ?
Os sacramentais (adjetivos que foi substantivado no
séc. Xli) são objetos ou ritos que, ostentando semelhança com
os sacramentos, sâo utilizados pela Igreja a Cim de obter de Deus
efeitos primàriamcnte cspiritunis. Exemplificando :
a) Pertencem à categoria dos sacramentais as bênçãos
que a Igreja confere aos elementos materiais com os quais o
homem lida nO desempenho de sua tarefa neste mundo. A Igreja
contere tais bêncãos a tim de que nenhuma das funções huma-
nas fique profana ou neutra perante a religião, mas, ao contrA-
rio, tooas, por mais corriqueiras que pareçam, constituam uma
extensão da obra da Redenção ao setor em que o operârio, o
artista, o estudioso, o pai de familia_ .. vivem; assim aS ~nçãos
dos alimentos, das casas, das oficinas, dos navios, etc.
b) Sacramentais são também CCl't03 objetos bentos ou
consagrados para servirem exclusivamente a tins religiosos, con-
- 447-
ePERGUNTE E RESPONDEREMOS. 1111958, quo 3

correndo do seu modo (vê-lo-emos abaixo) para a santificação


do individuo. Assim, um têrço bento, u'a medalha benta, as cin-
zas bentas na quart.a-feir~ inicial da Quaresma, as palmas do
domingo anterior a Páscoa, e também a cêra benta sob a forma
do Agnus Del.
e) :t um sacramental outrossim o uso dos objetos indica-
dos sob a letra b; o uso, por exemplo, da água benta e, em parti-
cular, o uso ou a leitura da Sagrada Escritw·a, a recitação do
Oficio Divino ou Breviário.

Mediante as preces que a IgrC"ja realiza SÓbl'C os sacramen-


tais quando os benze ou mediante a autoridade que lhes confere
quando os promulga, o uso dêsses objetos adquire uma eficâcia
própria, muito maior do que a que proviria Unicamente das boas
disposiÇÕeS do individuo. ~ todo o pêso, por assim dizer; da ora-
ção da Igreja (sempre agradável a Deus) que se coloca por
detrás dos sacramentais a fim de impetrar do Divino Espôso
efeitos salutares para os fiéis que os usam. - Contudo é preciso
acentuar bem que a eficácia dos sacramentais nada tem de me-
cânico ou mágico; o uso dêsscs objetos (medalha benta, escapu-
lário, água benta . .. ) não fo~a Deus a dar as suns graças nem
por si garante a salvação do homem. Exigir-sc·á sempre que
quem recorra aos sacramentais o faça conscientemente, exci-
tando contrição, ft:, e coridade em seu ânimo. Os sacramentais
pressupôcm tais disposições e visam avivá-las mais ainda, sendo
que, para a consecução de tal efeito, concorre, no caso, a o1'"ação
pura e sempre vAlida da Igreja. .
Embora geralmente os efettos coUmados pelo uso dos sacra-
mentais sejam de Indole espiritual (,raças atuais que fomentem
o progresso nas virtudes, fuga do esplrito mallgno . .. ). alguns
podem ter anexos também beneficios de ordem temporal ou ma-
terial (obtenção de saúde, de tempo bom, de messe abun-
dante), pois o corpo do cristão pertence, como o espírito, ao
plano religioso e sobrenatural; é objeto digno da prece da Igreja.
Requer-se, porém, que quem se serve das sacramentais para im-
petra.r algum beneficio temporal não faça désse beneficio o
tênno quase absoluto de suas aspirações, identificando sua Cclici-
dade com a posse de um objetivo material; lembre-se de que
Deus só concede os bens temporais na medida em que sejam
compativels com a salvação eterna dos fiéis; a dor e o sofrimento
não são. para o cristão, enigma Inconclliãovel com a Providência
de sorte que o dlsclpulo de Cristo deva crer que o Senhor o liber-
tará da cruz tOdas as vêzes que oral' com piedade c devoção; não,
nio creia nisto o cristão.
- 448-
o cAGNUS DEb E SUA EFICACIA

2, A luz de tais idêias é que se deve considerar o uso do


Agnus Dei.
~ objeto, colocado dentro de um invólucro de pano, pode
ser trazido nas vestes dos fiéis ou exposto em uma sala, aplicado
a um órgão doente, contraposto às chamas. como também pode
ser osculado com a recitação concomItante de uma jaculatória.
Estas práticas serAo proflcuas se fórem inspirados pela pura in-
tenção de servir a Deus na fé e na caridade -(caridade cujo obje-
tivo primário é a identificação Incondicional com a vontade do
Pai do céu).
Nn vcrdncJe, silO maravilhoso,<; os ereitos alribuídos ao
Agnus Dei pelos fonnulários que costumam acompanhar tais
objetos;, , . tão maravilhosos que merecem uma análise ao me-
nos sumárIa:
ta) entre os benefícios espirituais, promete-se Infusão ou
aumento da 2I'3ca. apagamento dos pecados veniais,
Como entender isto?
Nenhum dks~ efeitos é diretamente obtido pelo Agnus Del.
Ensinam os teólogos que o uso piedoso dos sacramentais, em
virtude da lnlel'C<!ssão da Igreja, pode obter"graças atuais CJue
dcspcrtnm ti. contrição c a caridade; estas duas virtudes é que
vão diretamente alcançar o perdão de pecados veniais c o au-
mento da graça santificnnte ou mesmo a infusão desta em uma
almn Que n50 n possua (desde que tn] a.lma., embora" deseje,
não possa receber o sacramento da penitência).
Ainda seri. obtendo graças atuais que o l'ecurso ao Agnus
Dei paderê. indiretamente alcançar, como diz o mencionado tor-
muhirio. «o desenvolvlmento da piedade. a dissipação da tibieza.
a preservação contra o vício, a predisposição para a vIrtude».
Está claro que as graças atuais assim alcançadas e o progresso
na virtude favorecido por elas tomam a alma apta « se desvenci-
lhar das ciladas do demônio e a escapar à eterna ruina», Isto.
porém, está longe de siitT1lficar que as pessoas portndol'BS do
Agnus Del sAo isentadas de tentações diabõlicas. As tentações.
no plano de Deus, devem constituir ocasiões de puriflcacão e
mais consciente adesão ao Senhor (cf. 1 Cor 10,13); por isto
muito se enganaria quem julgas~ poder santificar-se sem passar
pelo cadinho das tentações ou poder adquirir um «passaporte»
que imunizasse contra os assaltos do demônio; a vida dos santos
atesta mesmo que, quanto mais urna alma progride na vil'tude,
tanto mais também pode Deus permitir que seja perseguida pelo
Maligno, para o maior bem dessa alma (sejam citad~ O Ab.lde
S. Antão outrora residente no deserto e o Santo Cura d'Ars,
filho do séc, XIX);
cPERGUN"I'E E RESPONOEnEMOS. 11.119.'i8. q u. 3

b) beoeficlos temporals : tais seriam, segundo os formulá-


rios distribuídos co mo Agnus Del, a isenção de morte repentina
e dos terrores causados pelos fantasmas; mais ainda: a imuniza-
ção contra doenças, pestes, epilepsia, venenos, raios, saralva, in-
cêndios. i"udações . . . Em uma palavra, os Agnus Del cannam
com a proteção divina contra a adversidade. fazem evitar os pe-
rigos c os desgraças, dão prosperjdad~ .
Que interpretação dar a tais dizeres ?
Tai... JlI'Oml~<>:ls lem Ill;m;u'iml'lf'ntc o ~tlc1o sct::Uinte : o
uso devoto do Agllus Dei imulliw nâo prôpriamcnlc l:olllnl o ~­
fomento temporal, a doença e as catãstrofes físicas como tais.
pois nada disto é realmente um mal para os fiéis, desde Que
Cristo tomou sôbre si as nossas dores e a nossa morte física
(desde então o sofrimento e a morte são Instrumentos de Reden-
ção e santificação para o disclpulo de Cristo que as abrace em
união com o Salvador) . Ma!';, em têrmos positivos, o uso devoto
do Agnus Dei pode concon-er eficazmente para se evitar o ver-
dadeiro e único mal, que muitas vêzes estã anexo ·às desgraças
fislcas, Isto é, o dcsespãro, a revolta contm Deus, n perda dc
coragem, de espírito de fé e confiança. sobrenaturais ... Estas,
sim, são calamidades, ns únicas ~alamidades para o cristão, pois
SflO os únicos mnlcs que Cristo não tomou sõbre si ~ não trans-
formou (nem podia transfonnar) em meios de sa.ntiCicnção; por
conseguinte, destas desgraças é que o cristão procura a todo
transe fugir, sendo nisto auxiliado pela prece da Igreja e as gra-
ças atuais que o Agnus Del pode comunicar. A doença. e os de-
mais flagelos desta. vida só são um mal para o homem se se tor-
nam ocasião para que peque.
Repitamo--lo. pois : já Que o pecado e a impiedade são nAo
raro ocasionados pelo sofrimento rlSico, diz-se QUC o Agnus Dei
preserva do sofrimento físico. Isto significa que imuniza não da
cruz como tal (pois então é que seria verdadeiramente .digno de
compaixão e infeliz o ~rjstão), mas da única desgr~ca (que é
espiritual, sobrenatural) freqüentemente decorrente do sofri-
mento fisloo. O Agnus Del tornar-se-á mesmo canal de fOrça e
caridade para que os fiéis sofram com o máximo pl'Oveito, usu-
fruindo tão zelosamente quanto ·posslvel as 8l'al;as que jo['1'am
da cruz.
Com estas observaç6es não se quer negar que o Senhor
possa realmente isentar de males temporais os devotos do Agnus
Del. ~e o farã, porém, segundo os: deslgnios lmprevislvels de sua
Providência, visando favorecer a santificação dos fiéis, sem que
- 450-
o c:AGNUS DEI,. E SUA EFICACIA

em caso algum possamos de antemão prometer.nos a isençoo de


tais males em troca do recurso ao sacramental.
3. Nos formulários expl1catlvos das cVirtudes do Aguus
Deb, ainda se lê :
cE l.s, sclundo os Papas Urbano V, Bcnto XIV. Paulo n, Júlio m
e Xisto V, as propriedades que se têm reconhecido nos Agnus Del em
tOlvor de quem se tr:l% com devoção e confkl.nça,..

Quer esta frase envolver a autoridade dos Sumos Pontifices


nW-l pl"OmNl".a~fio A~mls Dd ?
N...âo, em absoluto. Note-se bem : o texto acima dá a cntcn~
der apenas que os Papas nomeados atestaram a crença popular,
ou seja, atestaram que eram geralmente atribuídas pelos fieis
tais e tais propriedades ao objeto bento. Esta atcstaç'ão não
signifiea de modo nenhum declara.ção ou definição dogmãtica.
Implica Unicamente que os Pontiflces citados julgaram não
haver, a rigor, êrro dogmático em tal erenca popular, podendo
esta ser entendida devidamente, nos térmos acima explanados
mencionaram em alguns breves e bulas tal estima do povo para
com o Agnll'l Del, não prôprlamente por causa dos efeitos mate~
riais prometidos, mas principalmente por causa dos be!lefíclos
espirituais, ou seja, dos estlmulos que para a vida de piedade
podia tl<\1.cr a divulgação de tfll crença popular; referindo, pois,
n opiniflo pübllcn, os Pnpns visnvam, antes do mais, despertar o
espirito de fé e de oração nos cristãos.
Quanto às cláusulas clmprimatur~ e c Reimprjma-se ~ que
encerram os folhetos explicativos do Agnus Dei, elas represen..
tam o resultado da censura eclesiástica. Está claro que não têm
significado mais amplo do que o testemunho dos Papas que aca-:
bamos dc elucidar. ObselVe-se que à censura ecJesiãstica cabe
ünicamente verificar se em detennlnado texto se encontram
erros dogmáticos ou morais ou algo que se oponha ao dccôro da
religião cristã. O resultado da censura é, por conseguinte, mera-
mente negativo; está longe de significar que o censor ou o pre-
lado diocesano fazem suas as idéias expressas no texto exam!·
nado; êles apenas reconhecem que tais idéias sáo compativeis
com o edificlo dogmático do Cristianismo, embora não falem
sempre daquilo que há de mais belo e profundo na fé cristã. e à
luz dêstes princípios que se deverã entender o clmprimatur~
dado ao folheto «Virtudes do Agntu Del».
Lembremo-nos de que a Santa Igreja é sempre sóbria e cau·
telosa ao admitir promessas e !E:nOmenos portentosos. Que os
fiéis não se afastem desta sabedorIa!
- 451-
cPERGUNTE .E RESPONDEREMOS. lVl958. gu. 4

lU. SAGRADA ESCRITURA


SILVIO (Rio d. Janeln') ,
4) ..A Igreja terá alguma vez proibido .. leitura. da
Bíblia?

1 . A I~ja sempre estimou a Sagrada Escritura, junta·


mente com a Tradição divino·apost6lica, como fonte de fé. Ela
atribui à BlbUa o valor de um. sacramental, isto é, de objeto apto
a comunicnr n graça n Quem o us(! com fé e devoção. Um dos
sinnis mais evidentes dessa estima é o falo de que n leitura pú·
blica da Bíblia sempre foi associada à celebracão do Sacramento
por excelência, ou seja, da S. Eucaristia: a comunhão com o pão
da Palavra de Deus nas Escrituras deve preparar as almas para
a comunhão com o Pão da Vida na Missa. Testemunho multo
vivo dessa concepÇão é dado pela clmitaçA.o de Cristo», co único
llvro religioso que (fora a Biblia) seja comum a católicos e pro--
testalltes», como se exprime o autor protestante C. Hilty, em
cLesen und Reden». Lelpzig 1899, pâg. 45. Eis, com efeito, o que
lemos no titado opúsculo, 1. IV c. 11, n. 4 :
«SInto que nesta vida me são absolutamente nC!CCSwlas duas
colAS, sem as quais se me tomaria InsuportAvel esta mlsera ex1s.
t~ndll. ...
A mim, enf~nno. d6te o teu corpo snarado para 11. rcslnuraç!1o da
mente e do corpo; e concedeste a tua palAvra como Janterna para os
meus passos.
Sem essas duas coisas nl!.o poderia viver' retamc~te, pois a Palavra
de. Deus é a luz de minha. alma, e o teu. ucramcnto é o PAo da Vlda~ .

2. Aconteceu, porém, que clrcunstâncias contingentes da .


história levaram algumas vêzes as autoridades eclesiásticas a
exercer vigiJAnéta sObre o uso das Escritutas. Tais foram na
Idade Média
a) a heresia dos CAtaras ou Albigenses, que, abusando dos
livros sagrados. · induziu os Padres dos concilios regionais de
Tolosa (1229) e Tarragona (1234) a vedar provisbriamente aos
cristãos leigos a leitura da Bíblia;
b) oS erros de J . Wicleff, em vista dos quais o stnodo re·
Rlona1 de Oxford (1408) proscreveu as edições da S. Escritura.
que não tivessem aprovação ec1eslãstica (os here1es tàcUmente
deturpavam o texto sagrado) .
Estas medidas, contingen~es como er'am, não visavam impe.-
dIr a propagação habitual do cód.leo sagrado. Para só talarmos

- 452-
A IGREJA PRomtu LEITURA DA BtBUA!

da Alemanha, lembremos que o primeiro grande livro impresso


por Gutenberg foi a Bíblia em dois volumes (1453-1456). AtA
1477 saíram do .prelo cinco edições da Escritura em alemão; de
1477 a 1522, vieram a lume nove edições .novas (sete em
Augsburgo, uma em NUrenberg euma em Estrasburgo); de 1470
a 1520 apareceram cem edições de . PlenArios», jsto é, livros que
continham as eplstolas e OS evangelhos de cada domingo. Isto
bem mostra como a Igreja estava longe de querer, em circWlS-
tànclas normais da vida cristã, restringir o estudo da Bíblia.
No ~r.c,XVI, pon'!m, Lutero e D.'i S(!m: di!;Cipulo.", rU7.cndo
dn Escl'itura lL "nica rOnlc cle ré, donde hnul'iam suas inovar.'ÕCS
doutrinárias, inspiraram aos pastores da Sta. Igreja medidas cor-
respondentes. que tinham em mira preservar da SUtllC7.a exegé-
tica dos inovadores o povo cristão. Assim o Papa Pio IV aos 24
de março de 1564, na bula cDominicl gregis» (regra 4'), deter-
minou que o uso de traduções vemâculas da Sagrada Escritura
ficava reservado aos fiéis que, a juizo do respectivo bispo ou de
algum oficial da Igreja, pudessem ler a Escritura sem risco,
antes com proveito, para a sua fé e piedade, De resto, em Por-
tugal O senso religioso dos reis fidellsslmos já havia antecipado
essa determinação pontlCicla, adotando medidas análogas, vâli-
das para o território nacional. Note-se que as restrições caiam
apenas sôbre as traduÇÕC5 vernãculas, ficando o texto latino da
Vul~ntn nccssível n todos os fiéis. Não há dúvidn, no séc. XVI,
pcrlodo de conrusão religiosa e de inovaÇÕC$ mais ou menos sub-
jetivas, a leitura da BibIla podia constituir perigo para os fiéis
não familiarizados com as regras objetivas da hermenêutica.
Após a paz da Vestfália (1648), que, pondo fim à Guerra
dos Trinta Anos, estabilizou de certo modo a situação religiosa
na Europa, foram perdendo sua atualidade as determinacães
que no séc. XVI controlavam o uso da S. Escritura. Os Papas
voltaram então n estimular a leitura dn Biblia. Ei.. como, por
exemplo, escrevia Pio VI (1775-1799) ao arcebispo A. Martinl,
editor de uma traduÇlo italiana do texto biblico numa época em
que os fiéis eatóllcos ainda hesitavam sõbre a oportunidade de
tal obra: .Vossa Excelência procede multo bem recomendando
vivamente aos fiéis a leitura dos Livros Sagrados, pois são fon-
tes partlcu1annente ricas, às quais cada um deve ter acesso».
S. Pio X (1903-1914) em carta ao Cardeal Cassetta de_o
clarava :
cNós, que tudo queremos Instaurar em Cristo, descjanlol com o
mâxlmo ardor que nOSSOS lIIhos tomem o CO$tume de ler os EvanRclhos,
nAo dizemos freqUentemente, mas todos OI dllu, pois é principalmente

- 453-
"'PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 11/1958, gu. 5

por bte lIvro que se aprende como tudo pode e ~e ser Instaurado no
Cristo .. . O desejo universalmente esparso de ler o Evangelho, provo-
cado por vosso !llo, deve ser secundado por vós, na medida em que se
aumentar o nÍl:mero dos r espectivos uemplares. E oxalâ Jamais sejam
propalados sem sucesso! Tudo Isso serA fltIl para dissipar a oplnUl.o de
que a IEl'eja se opOe i leitura da Escritura Sagrada em Uneua vemAcuJa
ou lhe suscita alguma dificuldade».

Os . Pontlflces subseqüentes, principalmente Bento XV e


S. Santidade Pio XII, muito têm incentivado tanto O estudo
cie.ntifico da BibUa como o uso da mesma na vIda de piedade;
vejam-se os testemunhos re!'lpC!Ctivos em cP .R•• 4/ 1958, quo 5.

Em conclusão, tenha-se por certo que a Santa Igreja, hoje


como em seus primórdios, estima a leitura da Biblla como um
sacramental. Acontece, porém, que nem para todo organIsmo o
alimento mais nutritivo é sempre o mais adequado; periodos de
doença exigem dieta . .. Foi o que se deu com o Pão da Palavra
bíblica : em virtude de situações anormais nas quais se achava o
povo de Deus, a Sta. Igreja, em determinadas épocas ou regiões,
teve que controlar o uso da Sagrada Escritura, a fim de impedir
abusos contaminadores da fé (não faltava entrementes aos fiéis
â. Palavra viva da Tradição divino-apostólica). Caso não tivesse
assim procedido, a Igreja não haveria sido Mãe . ..

W. O. (São João del·Rei) :


5) «Se se afinna que a. I~I de l\loisés foi a~rogada. por
Cristo, porque ainda. se insiste na. observância dos maadamentos
do Deeálogo f :&(esmo entre êstesJ que é feito das prcserl~ coa.-
cernentü ao sábado e às imagens' Qual é a.tinal o critério para
se distinguir o {lue foI ob-rop,do e o que ainda tem valor de leih
1 . Antes do mais, na soIucão das questões acima, será pre.
ciso lembrar que as disposições concernentes a Israel no Antigo
Testamento tinham caráter de preparação para a vinda do Mes-
sias - por conseguinte, caráter provisório e figurativo de realJ·
dade vindoura ainda mals rica de conteúdo. A escolha do povo
de Israel não tinha outro sentido no plano de Deus senão o de
criar, em 'melo à corrupção doutrinária e moral crescente atra·
vés dos séculos, um núcleo de fl~ls que, nutrindo a CN!~ e a
esperança no verdadeiro Deus, se tomasse o receptáCUlO e trans·
missor das graças messlãnicas para o mundo inteiro.
2. A fim de preservar eficazmente os Israelitas da tendên-
cia a adotar os costumes e, conseqUentemente, as idéias das na-
- 454-
LEI DE MOIS~ ABOLIDA OU N AO ?

cões idólatras que os cercavam, o senhor houve por bem dar-


-lhes, mediante Moisés, uma legislação ampla e ponnenorizada,
a qual, entrando nos mais diversos setores da ativIdade do israe-
lita, faria que êste vivesse obedecendo continuamente a Deus (o
regime era teocrãtico) , recordado de que tinha u'a misão reli-
giosa a cumprlr na história.
A Lei de Moisés, ampla como era, abrangia três tipos de
preceitos : 1) prescrições civis e judiciárias, 2) prescrições
rituais e litúrgicas, 3) prescrições morais.
1) A Icgislaçii.o civil c judiciária Unha por fim isolar o
povo hebreu das demais nações, Impedindo que se organizasse,
politica e socialmente, como os Estudos pagãos; tôda a legislação
civil de Israel era assim u'a muralha que, em última análise,
vIsava proteger a religião do povo de Deus. - Compreende-se
que tais preceitos civIs tenham perdido sua razão de ser logo
que velo o Messias. Com efeito. ltste, qual Pastor universal, man-
dou os Apóstolos convocar os povos do mundo intei.ro para inte-
grarem a familla dos filhos de De:Js, abolindo desta forma o Iso-
lacionismo civil e naclonal de Israel, que a Lei de Moisés
fomentava.
2) As leis cerimoniaIs e litúrgicas de Israel tinham por
objeto numCl'OSOS ritos (s.'\crifícios, abluÇÕC:s. celebrações várias)
dotados de valor simbólico e profético em relação ao Messias;
assim a circuncisão, o cordeiro de Pãsooa, as festas anuais. etc.
Estas instituições anunciavam, cada qual do seu modo, o Messias
vindouro; por conseguinte, é claro que, após a vinda dêste, per-
deram tOda a. sua razão de ser; cederam ao novo culto instau-
rado por Jesus Cristo (cf. Hebr 5,4-6; 7,188; lO, 1.14).
3) Quanto à legislação móral de Israel, ela compreendia
uma série de preceitos de direito natural, condensados principal-
mente no Ded.Jo,o (1). ~ste. em verdade, não faz senão explici-
tar nonnas da lei natural, excetuado apenas o terceiro manda-
mento, que é, em parte, de direIto natural e, em parte, de direito
positivo divino; sim, de um lado é a lei natural que manda ao ho-
mem consagrar algum tempo ao serviço explicito do CrIador
(sem, porém, detern'Únar as ocasiões e a freqüâncla respectivas);
foi, de outro lado. a vontade positiva do Divino Legislador Que

(1) Seja aqui ~rdactll a distinção que vcltarà alndn nas páginas
seguintes. entre lei natural (OU direito natura)) e lei pcslUva (cu direito
positivo): ao passo que aquela é pl'omulgada pela pr6prla. natureza.

- 455-
cPERGUNTE "E RESPONDEREMOS. 1111958. qu. 5

escolheu precisamente o sétimo dia para tal fim; e, dJga-se logo,


do Antigo Testamento, visando, mediante a observAncia do sã-
bado, avivar nos judeus a crença na promessa de um Messias
vindouro e da obra da Redenção que estava por se cumprir.
Ora, sendo o Decálogo (feita a resSalva acima) uma expli-
citação direta do direito natural, Isto é, de exigências ditadas
pela natureza humana mesma, entende-se que não tenha sido
ab-rogado por CrIsto; nem o podia ser, a menos que o Legislador
DIvino quisesse entrar em contradic:ão consigo mesmo, retratan-
do pela sua revelação positiva (no Evangelho) o que tivesse Of-
denado pela revelação natural. As prcscrlc:õcs do Decálogo eram,
por conseguinte, obrigatórias já antes de Moisés e núo deixam de
ter seu vigor ainda em nossos dias; serão sempre atuais enquanto
se propagar sôbre a terra a natureza humana com suas notas
essenciais (é por estas que o Criador fala). O Senhor Deus, no
Antigo Testamento, promulgando explicitamente os mandamen-
tos do Decálogo, visava apenas facilitar ao homem (tendente ao
vicio em conseqüência do pecado de Adão) o reconhecimento da
voz da natureza e impedir que esta tôsse ofuscada pelas paixões.
Verifica-se mesmo que, longe de ab-rogar os preceitos naturais
do Decálogo, Jesus Cristo se dig;nou aprofundar o seu sentido e
valor, incutindo observância mais profunda e exata dos mesmos;
o Salvador lembrou-nos, por exemplo, que a eastidade não con-
siste apenas em uma conduta exterior (não cometer adultério),
mas significa plimàriamente uma atitude interna da alma (nem
sequer desejar adultério) ; da mesma fonna, dizia-nos o Senhor..
a carldade, a justiça, a veracidade, etc. têm que se arraigar pri-
meiramente no Intimo do cristão para poder "transparecer na sua
conduta externa (ct. Mt 5,17-48). Além disto, a fim de favorecer
o tIm colimado pelos preceitos do Decálogo, o Senhor Jesus pro-
pôs os chamadQ.s cconselhos evangélicos., ou seja, a renúncia
espontânea a bens licitos em vista de se conseguir mais desem-
baraçada união com Deus (cf. Mt 19,3-29).

esta é manUcstada por uma declaração ou um decrete explicito do )egI9·


lador, seja do Le&islador dIvino (donde $C! tem a lei poslUva dlvlna) ,
teJ. do ICelslador humano (donde. lei poslUva humana).
A leeJslaçAo natural' JmutAvel. pola estA fundada 11Ibre a naturC"Za
das coisas, que nAo se muda. Ao contrirlo, • leeJslaç!lo pOSltlva 6 mutâ.
vel e al>rog{l.vel, pois depende da livre vontade do )eglslador, que pro-
cura. interpretar e aplicar a lei natural de acllrdo com as exIGências
contln,entes do bem comum.
No caso acima dIr·. . . : as. leis civis rituais de Israel pertenciam ao
direito positivo divino, enquanto. legl. laç.D.o moral ou o Decálogo era
de direito natural

-456 -
LEI DE MOIstS ABOLIDA OU NAO '!

t: por isto que O código de moral cristã continua a urgir a


observância do Decálogo. .

3. Mas, fel~ estas observações, ainda. restam abertas 89


questões partk:ulares concementes ao dia do Senhor (sãbado ou
domingo?) e ao usO de imagens sagradas entre os cristãos.
a) Quanto à primeira dúvida, ela se dissipa à luz do que
acima foi dito com referência ao terceiro pr~lto do Decálogo ;
os cristãos observam o que neste se deriva da lei natural, dedi-
cando periOdicamente algum tempo (um dIa) ao serviço direto
dc Deus; o dia de guarda dos cristãos, porém, não {! mais o sá-
bado (ou o sétimo dia da semana judaica) prescrito rHl Antiga
Lei, pêlo óbvio motivo que se segue ; o sábado foi escolhido pelo
Divino Legislador de Israel de acõrdo com o grau de Revelação
religiosa que os israelitas possulam; está claro que, para êstes,
o dia do repouso ou da interrupeão dos trabalhos servis devià ser
o dia em que, conforme a linguagem figurada do Gênesis, Deus
mesmo entrara no seu repouso, isto é, o sétimo dia após seis
dias de trabalho que recordavam a criacão do mundo ; o sãbadG
judaico, portanto, evocava as origens da história sagl'ada e ex-
citava o anelo à plenitude dos tempos marcada pela vinda do
Messias; era essencialmente função da espiritualidade do Antigo
Testamento; observando-o, o judeu vivia a sua vIda mística tão
Intensarnc.nte quanto possível dentro dos moldes da Revelação
pnXristã.
Eis. porém, que Cristo velo ao mundo como Autor de nova
criação, por assim dizer, ou como Restaurador do gênero huma-
no, o qual tenninou sua obra no dia subseqUente ao sãbado ju·
dnlco no silencio do sepulcro para se manifestar, apresentando
ao mundo a nova criatura (cf. 2 Cor 5, 17), logo após o dia de
guarda dos judeus. Em conseqUência, os Apóstolos e as subse-
qUentes gerações cristãs entenderam que o dia do Senhor é atua)-
mente o dia posterior ao antigo sábado; compreenderam que o
domingo é o dia escolhido peta lei positiva de Deus no Novo Tes-
tamento, para se cumprir o preceito natural do culto do Senhor
(cf. At 20,7; 1 Cor 16,2; Apc 1, 10). Não se entenderia que os
cristãos continuassem a observar o sá.bado, simbolo da primeira
criação e da ordem de coisas pré--cristãs, depois que o Autor do
mundo se dignou recriar o homem e o universo, dando consuma~
ção ao seu plano no dia seauInte ao sábado. Mais amplas conside-
rações sObre esta questão se poderão encontrar em cP. R .•
1/ 1958, quo 9.
b) Quanto à prolblçlo do Decáloeo referente ao uso de
Imagens, not~se que ela figura no texto sagrado do Antigo Tes-
-457 -
cPERGUNl'E E RESPONDEREMOS. 11/1958. quo :5

tamento ünicamente para assegurar o culto ao único Deus ou o


monoteíSmo em Israelj já que os judeus viviam cercados de povos
que adoravam figuras feitas por mãos humanas, a Lei de Moisés
quis preservá-los de tal êrro, vedando-lhes a confecção de qua1~
quer imagem.
Chama-nos a atenção, porém, o fato de que o próprio DeuS,
no Antigo Testamento mesmo, MO hesitou em derrogar a esta
proibição, ora mandando que seu povo ornasse a arca da Aliança
.e o templo de Jerusalém com estátuas de querubins esculpidas
em madeira (cf. ex.25,17-22; 3 Rs 6,29s), ora ordenando a con-
fc«flt) da scl'('I('ntc de bronze (cf_ Núm 21,8s). A proibição de
se usarem imagens, im.agens que sclvil'iam p;.tl1l elevar o <..'Spírilo
dos fiéis a Deus, era evidentemente de dlrelto positivo e contin-
gente; estava longe de se derivar das exIgências da natureza hu-
mana como tal. Esta, ao contrârio, tende a galgar a contem-
plação das realldades invisiveis mediante a observação das coisas
vislveis. Compreende-se então que, uma vez passado o perigo
de politeismo e idolatria, havendo o govêmo humano chegado 1
maturidade de esplrito, o próprio Deus tenha suspenso a lei p0-
sitiva do Antigo Testamento Que vedava a fabricação de irna-
gensj é o que a Tradição cristã entendeu desde os seus primeiros
tempos, estimulada principa1mente pelo foto de que Deus tomou
face humana, bem sensível, na Encarnação. Os cristãos podem
fazer (e fazem) uso reto e profícuo de figuras sensíveis, pon-
do-as, de acõrdo com a indolc de sua nntu1'C7.a pslco-somática, a
serviço do seu espirlto sequioso de Deus, do único Deus.

E is aqui uma passagem do Papa SAo G.rctgórlo Magno ct G(4) quo


bem atesta o valor catequético das Imalens nas Igrejas :
cA imagem é para os anaUabetos aquilo que a letra é para os que
sabem ler; medlante as Jmaaens os analfabetos aprendctm () que devem
Imitar; as imaglns Slio o livro clt' leitura dos nnaltabetOSll (ep. IX lOS,
00. }'(Ignc lato '27, 1927).

Em conclusão, verifica-se que os cristãos observam o pre-


ceito do Decálogo referente ao monotelsmo, preceito que dimana
da lei natural mesma., sem estar presos " sobrecarga positiva
(não fazer imagens) que a Lei de Moisés acrescentou a tal man-
damento; ·o acréscimo positivo tinha sua razão de ser no regime
do Antigo Testamento; carece, porém, de fundamento no estado
de coisas do Novo Testamento, em que Já é licito dar plena satis-
façAo à lndoJe pslco-somátlca da natureza humana.
Também êste assunto jã foi abordado em cP. R. ~
4/1957, quo 4.
- 458-
lMPEDIMENTOS DIRIMENTES DO MATRlMONIO

IV. DffiElTO

AQ"EJ.It>1E (Salvador) e ESTUDANTE (Rio d. Ja-


neiro):
6) «Quais 05 impedimentos dirimentes do matrimônio!»
Os impedimentos matrimoniais estipulados peJo Direito
Eclesiástico sâo de duplo gênero: uns dirimentes, outros mera-
mellte proibitivos. Os primeiros fazem que absolutamente nulo
seja o matrimônio religioso que os noivos tentem contrair sem
te!" ublido dis[JCnsa pl'(!via, Os impe<.limcnlos Ill'Oibilivos não tor-
nam inválido o contrato, mesmo que êste se efetue sem dispensa
prévia; fazem-no, porém, 1Jícito,
Eis os doze impedimentos dirimentes :
1) a Idade (câ.n. 1067). O Direito Canônico exige dezesseis
anos completos para o rapaz e quatorze para a jovem que se
queiram unir em matrimônio. - Já que êste impedimento de-
pende de positiva determinação eclesiástica, a Igreja pode dis-
pensar dêle.
2) A impotência (cãn. 1068). Trata-se da incapacidade de
consumar a união fisica ou de realizar li cópula conjugal, incapa-
cidade provenic..,tc ele constituição orgânica ou de derclto fun-
cionai (carência dc membro viril ou de ambos os testiculos, es-
treiteza do órgão feminino, .. ). Não se trata da incapacidade de
gcrar ou da esterilidade fisiológica, a qual é compatlvel com a
capacidade de efetuar a cópula conjugal.
Para que a impotência seja impedimento dirimente, faz-se
mister que ela exista no momento do casamento e tenha caráter
incur.ivcl ou só possa cessar mediante uma operação dificil ou
ilícita ou de resultado Incerto. Náo vem ao caso, por conseguinte,
a impotência temporária, seja qual fOr o seu motivo.
este impedimento é de direito natural (versa sObre Q maté-
ria essencial do casamento); por isto a Igreja não pode dispensar
a tal respeito. Pelo motivo de afetar diretamente o objeto do
contrato matrimonial, a impotência torna nulo o casamento,
quer um dos cõnjuges conheça, quer ignore a incapacidade do
outro.
3) O ,incuJo (cân. 1069). Quem está vAlidamente ligado
por anterior matrimônio, não pode contrair outro - proposição
óbvia, visto ser o caJõ8mento cristão indissolúvel. Excetuam-se.

- 459-
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 11/1958, qu. 6

porém, os casos compreendldos no cpriviléglo paulino» ou, mais


largamente, no «privilégio da fé», de que trata a quo 7 dêste
fasciculo. .
4) A disparidade de eultos (cân. 1070). Opõê-se ao casa-
mento de uma pessoa não·batizada com outra que, vàlidamente
batizada, haja sido durante algum tempo membro da Igreja Ca-
tãlica (ainda que depois a tenha abandonado). Presume-se vá-
lido o batismo conferido em certas seitas protestantes, caso se
tenham empregado a matéria e a forma devidas.
A Ip:rejn só conccd~ clispcns.1. dêstc impedimento, dado que
o cônjuge n[lo-calólico 111"0: leia dcb;;u' ao cal.õli<.:o am(.la 1i1Jc1'tla-
de para praticar a sua religião e ambos se comprometam a man-
dar batizar e educar tõda a prole na Igreja Católica .
. Dir·se-A talvez ,que, por esta clãusula, a IQ;reja ultrapassa seus di·
reltos impondo a um núo-ca.tóUco atitude contrária As suas convicções.
Tenh.a-e em vista. porfrn, o liame que prende a Igreja a seus filhos; ela
tem o poder e o dever de proteger a fé de seus lIélsj por conseguinte,
. se um d~stcs pede favor exccpclonal, toca à autoridade ecleslAstlca
formular as condlc(ies que ela julgu~ nct'Cssl!.rlns llO bem do fiei cat6·
lico; li parle nfío-eal6l1ca sern n!llm aletada, mas Indiretamente apenas,
011 seja, pelo fato ele querer entrar em rela~s matrlmonl:tis com um
membro da Igreja.

5) A ornem sacra (cãn. 1072) . Bispos, sacerdotes, diáco-


nos c subdiáconos nflo podem receber vÍllidQmcntc o SQcrnmcnto
do matrimônio. No Oriente unido a Roma, porém, o Direito ecle-
siástico permite a varões casados recebam o subdiaconato, o dia-
conato e o presbiterado (não o episcopado) e continuem a sua
vida conjugal ao mesmo tempo que exercem o ministério Sagtu-
do. Contudo nem no Oriente seria lícito a um diácono ou a um
presbitero casar-se depois de ordenados. ,
O impedimento de ordem é de Direito eclesiástico; pode por
isto ser dispensado em circunstâncias excepcionais, com maior
Cacllidade paro os subdiáconos, com extrema parcimônia para os
presbiteros (notam-se, porém, casos recentes de pastores pro:-
testantes que, casados, se converteram à Igreja e foram ordena.-
dos sacerdotes, conservando o direito de viver conjugalmente: cf.
cP. R.,. 4/ 1957, quo 7).
6) O voto de castidade proferido por Religiosos (cân,
1073) , seja voto solene, seja voto simples ao qual a Igreja tenha
associado o efeito de tomar nulo o matrimônio (caso que se dá
por exemplo, na Companhia de J esus), A solenidade do voto
aqui mencionada não depende da cerimônia durante a qual os
votos são emitidos. mas do valor que lhes atribui a Igreja.
-460 -
lMPEDIMEN'I'OS DmIMENTES DO MAmIMONIO

Também êste impedimento admite dispensa, por ser de Di-


reito ecJesiãstlco.
7) O rapto (cAn. 1074) . Não pode haver casamento válido
entre o varão que, para contrair matrimônio, haja raptado u'a
mulher, e esta sua vitima, enquanto a vitima estiver detida sob
violência pelo pretendente. Desde, porém, que a mulher posta em
liberdade e em lugar seguro declare aceitar o raptor por marido,
cessa o óbice ao matrimônio.
Embora êste Impedimento seja de Direito eclesiástico, a
Igreja jamais déle dispel1sa, pois está em poder do raptor fazer
que o Impedimcoto CC5.C;C por si mesmo.
8) O erlme (cãn. 1075). Por ccrlme:a entende-se aqui um
atentado contra matrimônio jã existente. Pode tomar quatro
modalidades:
a) um varão e u'a mulher cometem adultério entre si e
prometem um ao outro unir-se em matrimônio logo que morra o
cônjuge legitimo (ou morram os respectivos cnôjuges);
b) o varão e a mulher, postos nas circunstâncias acima.
chegam a contrair matrimônIo civil.
:tstes dois casos .) e b) se verificam t6das as v~zes que crlsUios
dlvordados e casados de novo no 16m civil queiram regularizar sUa
~ ituQt:lIo perante a. Igreja após 1\ morte do cõnju(::e legitimo (ou dos
rl'l'llCCllv lJ." cimju.t:r:s 1t1;;lllmosl. S ..,Ib.'1Im qur. lu\ Impedimento dirimente
p.'1Ira o ca~manto n..'IiJ;:loso. lmpcdlmcmlo. pormn. que, sendo de- Dlicito
eck'1llàsllco, pode ser dispensado.

C) um varão e u'a mulher cometem adultério entre si e, a.


seguir, um dêles mata o respectivo cônjuge. a fim de se casar
com o cúmplice;
d) um varâo e u'a mulher, conjugando esforcos, matam o
respectivo cõnjuge no intuito de contrair matrimônio entre si.
Em tal caso não é preciso haja adul~rio para que surja o impc~
dimento.
As duas últimas modalidades do óbice de crime não sAo dis·
pensadas senão com difJculdade. dado o perigo de escândalo dai
decorrente. monnente se o assassinlo é de conhecimento do pú~
bIlco.
9) A .........gühUdlUle (cãn. 1076) .

COn&o.nlUlnldadc é o vinculo Q.ue une pessoas procedentes do mcs·


mo tronco por via de gerat;'"do. .
Para lSe avaliar a consangUlnldade, é preciso distinguir tronco, linha
e grau..

- 461-
ePERGUNTE E RESPONDEREMOS.. lVl 958. qu. 6
Tronco ê a pes.soa da qual procedem todos os consangQlneos.
Linha .é a sér;e de pessoas unidas por consangÜinidade. Pode ser
reta ou vertleal e obllqun ou colateral. Ê reta, se as pessoas da mesma
série ckoseendcm uma da oulra por via de geração. Ê obllqua. ou colate!-
ral, se as pessoas dcseendlml do mesmo tronco, não. porém, uma da
OUtr.l; a linha colateral 6 dita ICUDI, quando as pessoas de que se trata
d1stam Igualmente do tronco comum; é desigual, em caso contlÚrio.
Grau ~ a distAncia que medeia entre duas pessoas da mesma linha
ou o número de ~erD;ç6es que se InterpOem entre elas. Em Direito
CanOllico, o grau em linha. reta se made contand().se as geracOes ou as
pessoaa vinculadas entre ai, excetuado apefUls o tronco ou a pessoa
donde as demais procedem; assim, por exemplo, avO e neto são con·
sangülneos em segundo. grau. Em linha obllqua Igual, o grau se mede
conlnndo.~e n~ 1:"''1l~ IL"\ IInhtl; n!lslm os primo.'\: Irmãos Silo consnn·
l:ülllCUS CIO sc~ululo j.!l"Uu. Em linha obllfIU."\ dt.'!\lglI;ll. t."Onln-se o ~r"u
de acô1'do com o nurnel·o de gernc;úcs lia linha mais longa.

A pertinência à mesma estirpe na linha vertical é impedi-


mento dirimente em todo e qualquer grau; por conseguinte, a
Igreja não admite matrímOnio entre ascendentes e descendentes
em linha reta : genltores e prole (o que é certamente contra 8
natureza) I avós e netos (o que provàvefmente também é de di~
reito natural, e expllcitamente de Direito eclesiástico).
A consangüinidade em linha colateral também é Impedi-
mento até o terceiro grau Inclusive, Isto é, até o parentesco
entre primos oriundos de primos I..mãos (primos segundos).
A Igreja não admite o casamento entre irmâo e lnnã (mesmo
que só tenham um genitor comum), pois se trata, em tal caso, de
Impedimento provãvclmcntc derivado do direito .natural. Quanto
à consangtilnidade cnrre tios e sobrinhos, as autoridades ccl~
siásticas declararam que, para ser dispensada, se requerem mo-
tivos mais Imperiosos do que os que são comumente alegados
em outros casos. Quanto mais remoto é o grau de parentesco.
tanto menos diflcllmente se obtém dispensa.
A consangULnldade ilegitima já basta para dar lugar ao im~
pedlmento. ..
10) A afinidade (cãn. 1077). Por «afinidade» designa-se
o vinculo Jee:al existente entre um dos cOn1uges e os consangüí-
neos do outro. A afinidade é avaliada. de tal sorte que os consan~
gillneos do marido são considerados, na mesma linha e no mesmo
grau, afines da espOsD , e vice-versa.
e impedimento dirimente n afinldnda em linha reta, qual-
quer que seja o seu grau. O que quer dizer que o viúvo não se
pode casar com a mãe de sua deCunta espõs& (genro com sogra),
nem n nora. viuva com o respectivo sogro, nem o pndrasto com a
enteada. A Igreja multo dificilmente concede dispensa em tais
casos.
- 462-
IMPEDIMENTOS DIRIMENTES DO MATRIMONlO

Também é impedimento dirimente a afinidade em Unha


colateral até o segundo grau. Donde se segue que, sem dispensa,
o viúvo não se pode casar com a ínnã, a tia, a sobrinha, a prima
innã de sua defunta espôsa. A dispensa da afinidade em linha
colateral se obtém sem grande dificuldade.
11) A honestidade públic=. (cãn. 1078>' O impedimento de
honestidade públi~a é o que resulta de uma situação análoga à
a finidade, situação, porém, ocasionada não por autêntico casa-
mento, mas por matlimOnlo Inválido ou concubinato público.
e.c;tc impedimento é menos c:den.w do C]uc os dois precedentcs :
só 10l'Oa invúlido o Cdsumcnlo entre o vurl10 c ao; consangüíneas
e m linha reta, até o scgwtdo grau, daquela que foi sua compa-
nheira, e vice-versa. Por conseguinte, o concubino não se poderá
casar, sem dispensa, com a filha ou com a neta de sua concubina,
e vice-versa. O lmpedimento de pública honestidade e m segundo
grau pode ser dispensado sem grande dificuldade.
Os óbiccs de consangUlnldade, afinidade e honestidade publica do
Impostos pelo Direito ecleslãsUco a fim de deter, de cel'to modo, as de·
sordens na sociedade; visam protcg-er a decência natural que deve
reinar entre pessoas da mesma famllla. Dill o seu notável alcance
locillL
12) O parentesco espiritual (cAn. 1079). 1!.: o vinculo que
resulta do sacramento do batismo, tornando nulo o matrimOnio
ela pessoa batizada com aqucle que n bnt izou ou com um dos res-
pectivos padrinhos (seja licito recorda~' que o batismo pode $Cr
administmdo não somente por um clérigo, mas também, em caso
de urgência, por um leigo, varão ou mulher). - Tal óbice é
suscetível de dispensa.
Os impedimentos acima, pelo rato de tornarem nulo o casa-
mento, são comumente alegados nos processos matrimoniais. O
papel dos juizes eclesiásticos consiste apenas e m averiguar, na
base de depoimentos ornls e escritos, sc, em tal caso dado, houve
ou não algum dos óbices diiimentes, nãl) previamente dispensa~
do: caso se possa realmente provar a existência do Impedlmento,
a Igreja declara nunca ter havido casamento e."tre as duas pes-
soas interessadas, as quais por consegu)nte ficam habllitadas a
receber vàlldamente o sacramento do matrlmOnlo.
A S. Congrecaçlo dos Sacramentos, a 1- de agOsto de 1931, balxou
uma instrução, sempre atual. em que 1) recomendava aOI pArocos. ex·
puscssem a~ fiéis as ratOcs pelas quaLs a IareJa Introduziu Impedimen·
tos matrimoniais e 2) llrocut"llsscm dlssuadh' os seus pa.roqulanos de
pedir, com den1ll3lAdA CMllldadc, dblpensa de Ill:um lmpcdbllcnto. CIo
Acla ApostoUca,c Sedls XXIII 413,
-463 -
.. PERGUNTE E RESPONDEREMOS. 11/ 1958, qu. 1

ESTUDAN.TE (Rio de Janeiro) ,

'7) «Em que consiste o cbamado 'privilégio paullao' evo·


cado na. separa.ção de alguns casais h

1 . Na sua l ' epistola aos Coríntios 7,12-16, São PauJo


considera o caso de dois pagãos unldos matrimonialmente, dos
quais um se converte à fé cristã e recebe o batismo ; diz então o
Apóstolo que, se a comparte pagã dai por diante já não aceita
viver p<1cUlca.mente no lar, o fiel batizado tem o direlto .de consi-
deraI' di<;.<;olvirlo o seu mnI1·intõnio.
c~ algum irmão (= cristão) tt:!m uma espô.9a qUe! n!'lo possui a fé
Cesp6sa paa:àl e esta consinta em habitar com êle. nAo a rt:!pudle. E, s'!!
uma esp6sa tem marido que não possui a Cé, e êste ronslnta em habitar
com ela, não abandone o seu marido .. . Se, porém. o qu~ não tem fi!
se aCasta, afaste-se; o Innlio ou a Irmlli (erlstQosl não estarAo sujeitos
l scrvld!'lo em tal caso; Deus nos chamou para a pa7~ (l Cor 1,125. 15J.
:estes dizeres permitem a ruptum do vinculo com n conseqOente
possibilidade de se eontTalr novo ea""mento, como se deduz do con·
texto : nos verslculos prC!C<!dentes (l().l1l, o Apóstolo, falando da &epa.
ratno de esposo:'> erlslnos. manda qu~ n mulher separada n:\o ~ CólSC
de novo. Nos vv. 12·15. porem, São Paulo, admitindo a st:!paraç-lo, não
acrescenta rcstricão alguma; não entende, pois, proibir novo matrimô-
nio, como o proibiu no eMO anterior. .Esta interpretação é oonflnnada
pelas palavras .scg ulnt~s : . Em tal roso, o Irm..'\o ou a Irmã nAo estar1l.0
SUjCltM 11. scrvllliio. ; o '100 quer dl1'.cr: ... n;10 Cfllar;lo sujeitO!t ao vln·
culo matrimonial que os prendia a um consorte pagão' disscmlnador de
discórdia e perigo para n f é no lar.
Esta determinação de São Paulo deu inicio a uma praxe
constante na Igre ja, praxe que apenas de meados· do séc. XVil
até a Revolução Francesa (1789) foi co.ntrovertida por escrito-
res franceses e alemães, imbuídos de jansenismo. Ainda hoje a
nonna do Apóstolo 1;e aplica não sômente em territórios de mis-
são, mas até nos grandes centros urbanos da Europa e da Ame-
rica, onde infelizmente não são raras as pessoas que, sem ter
sido batlzadas, se casam no fóro meramente civil. Cf. Código de
Direito CanôniCO, cãn. 1120-1127.
2. E como se justifica êsse «privilégio paullno. ?
H6. de ser entendJdo à luz dos seguintes principios :
Para que um matrimônio se tome IndissohiveI, duns condi-
ções devem ser preenchidas:
a) sejam os cOnjuges vàlidamente batizados (o que se pode
dar ou no Catolicismo ou em alguma denomina-;ão protestante
que confira vàlidamente o batismo) ;
b) haja consumação carnal do contrato matrimonial.
- 464-
QUE Ê O . PRIVILEGIO PAULINO,.?

Considerando Biora o matrimônio entre pagãos, vetifica-se


que não satisfaz rã. primeira dessas condições. Não é sacramento;
por conseguinte, pode ser dissolvido em vista de um bem maior.
Ora tal bem maior é certamente a conservação da fê numa. das
compartes que venha a receber o batismo; dado, pais, que esta
entre em perigo, o prOPI'iO direito natural, confirmado pela legls-
lacão positiva Clistã, confere ao neófito o direito, e às vêzes o
dever, de se separar para que náo se arrisque a perder o dom
da fé.
Naturalmente, a fim de que se possa r~nhecer êste direito
no consorte convertido, rc<luer-sc haj.'\, da pc1rte do cônjuge
pagão , indisposição ou animosidade que torne difícil ou impos-
sível a hannoniosa convivência de ambos; segundo o vocabulá-
rio paulino, dlr-se-ia : requer-se Que o não-batl:zado se aJaste,
física ou ao menos moralmente. Moralmente, isto é, causando
rixas em casa ou procurando seduzir o cônjuge batizado para a
apostasia, o adultério, a educação pagã da prole ou ainda negan-
do a liberdade religiosa à comparte, desejando viver em poliga-
mia, etc. O direito não será reconhecido ao cônjuge batizado
desde que o consorte pagão se decida a receber, também ele, o
sacramento do batismo ou a aceitar ao menos uma coabitação
pacifica no lar.
Para se verificar quais os propósItos da comparte pagã.
mnndc1 o Direito Canônico seja esta formalmente interrogada a
tal respeito. O intcl'rogntól'io cxplicito é ncccs~rio para a vali-
dade da dissolução do vinculo, mesmo que iã se saiba que o côn-
juge não-bati2ado nâo se quer converter nem deseja conviver
pacificamente com o católico. Sendo o matrimônio. segundo a
legislação eclesiástica, um ato público, faz-se mister que tudo
que lhe diz respeito seja devidamente atestado e comprovado
perante as autoridad~ competentes. Se não se conseguir de-
monstrar plenamente que a parte não-batizada se afastou (nos
tÍ'rmos acima expostos), fi Igreja não poderá considerar dissol·
vida o matrimônio em questão.
Contudo ac:ontece por vêzes que não é exeqüível o mencio-
nado interrogatôrio ou por se ignorar onde está o consorte pagão
ou por se temerem penosas conseqUências da interpelação; em
tais casos a autoridade eclesiástica dispensa da slndlclncia e re·
conhece a dissolução do vinculo, desde que não haja dúvida sObre
as intenções do não-batizado. 1: propriamente no ato em que a .
parte batizada contrai novo matrimônio que se dá. a. ruptura do
vinculo anterior (cãn. 1126).
Nola ainda o Código que o privilégio paullno evidentemente
não se aplica ao caso de um católico que se case com pessoa não-
-batizada, após haver obtido para isto a devida dispensa ecleslâs-
- 465-
.. pI::nGUNTE E RESPONDEREMOS* 11IIOC',.,\, quo li c !l

tica (cf; càn , 1120 ~ 2). Caso ·tal pessoa se faça batizar, nfio
pode pleitear dissolução do vínculo por privilégio pauli.no, ainda
Que a sua sItuação conjugal se lhe torne muito penosa.
A tituJo d:! ' complemento, seja acrescentada a seguinte
observação: o fato de Que o matrimônio só é indissolúvel quando
preenchidas as duas condiç6cs clássicas (batismo válido dos con-
sortes e consumaçii.o carnal) explica que a Igreja tenha recoJIhe-
cido a dissolução de casamento contraido por uma pessoa batiza-
da fora do Catolicismo (ou seja, no protestantismo) com uma
comparte nüo-bntizada. Tendo-se um dos dois consortes conver-
tido Ü vCl'dadeil'll l't'lig iiín, II nutol'idade ccle~ià!;lica, tom viJiita cio
bem do. ré c em circunst.ãnci:\s ('xeccionaL"Õ, reconheceu a l'Uplura
do vinculo anleriorme.nte contraidó. :€ o que atestam duas deci-
sões relativamente recentes do Sto. Oficio (lO de julho e 5 de
novembro de 1924).
v. mSTORIA DO CRlsrIAN1S~1O

F. L. (João Pessoa.) :
8) .Como lJroeedeu o. Igreja. 110 caso matrimoninl do Na-
poleão Bonapnrte l' Não terá consentido no divórcio pelo fato de
quo o intere.uado era um monllreo. poderoso !~
AGALJf;l\JE (Sal\'lulür) :

9) "Quem ~o os ·Ca.n1C1li~ Negros' ?


Rcconstltunmos exatam~nt~ o caso controvcrtido do'scgun-
do matrimônio de Napoleão, com tudo que éle tem de sutil, para
podennos apreciar devidamente a atitude da Igreja.
1. Aos 9 de março de 1796, Napoleão Bonapart~, que aca-
bava de ser nomeado Chefe Supremo das tropas francesas na
Itália. contrai~ com Josefina Tascher de la Pagerie. viúva do
General de Beauhamais matrimônio meramente civil em Paris.
E · poucos dias depois partiu em demanda de seu acampamellto
mUltar ... , sem ter realizado o devido contrato religioso. Porque
não o terá feito? A omissão não se poderia justificar por presu-
mida penúria de clero: em Farls desde 1795 havia qui.-ue igrejas
abertas e os eclesiásticos já deixavam a vida clandestina que ha-
viam levado nos anos anteriores sob os golpes da Revolucão.
Ademais, quandO Joseflna mais tarde se foi reunir ao General
na Itália, êste nAo parece ter demonstrado em absoluto a inten-
ção de recorrer a um sacerdote para. contrair matrimônio reli-
- 466-
o '"'DIVÓRCIO_ DO Ifo.IPERADOR N.A_PO_W_·,~"O,,-_ __

gioso. Tal atitude de Napoleão se torna particularmente signifI-


cativa se se leva em conta que na mesma época (1797) Napo-
leão fêz questão cerrada de que suas duas innãs Elisa e Paulina
se casassem na Igreja com Bacciochi C Leclerc. respectivamente.
No decorrer dos tempos, Josefina, mostrando-se estéril, era
ameac:ada de divórcio e hostllizada pela família de Bonaparte,
pelo que, muito desejava eretuar o ato religioso a rim de consoli-
dar seus direitos de cspôsa. .
Ora' aconteceu que Napoleão estava. para ser sagrado Im-
perador aos 2 de dezembro de 1804 pelo Papa Pio VII, que O
wbcrnno levara PI'opo~itndnnwnt.c n Pnri~: .Joscrina jldgou C'Juc
a ocllsifiu era ótima para l'(mst'J..:uir seu inll'nlo. pojs l.'Crtamcnle
o Pontífice não aceitaria presidir a uma tel'imónia que coroaria
dois conl.'\1binos. A 19 de dezembro, portanto, foi ter com PIo vn
e referiu-lhe a sua situação conjugal; em resposta, o Papa de-
clarou que não procederia à solenidade sem prévia legalização
religiosa da união de Napoleão e Josenna. InConnado disto no.
véspera do grande dia, o monarca não viu outro alvitre senão o
de ceder a Josefina. Quis, porém, reduzir o ato religioso à sua
expressão mais simples. Recusando a presença de testemunhas;
pediu a seu tio, o Cardeal Fesch, capelão-mor. que assistisse ao
contrato religioso e o abençoasse.
Fesch. porém, não era pessoa juridicamente habilitada para
isso; tal seria o arcebispo de Paris ou o pltroco sob cuja juris-
dicfio cstnvn comprccndido o p:\lflcio Impel'ial. Além disto, Fcsch
mesmo Impugnou a exclusão de testemunhas, fazendo saber a
Napoleão : «Point de témolns, point de mariagel". Eis. porém, '
Que o Cardeal, à vista da urgência eto caso, resolveu procurar
imediatamente o Papa Pio VII, a quem pediu lhe concedesse
f:l.õdns as dispensas que por vêus se tornam necessárias ao de-
sempenho das funções de capelão-mou; tendo Pio VII I'6pondl-
do favoràvclmente, Fcsch sem demora procedeu ao casamento
pctn$ -1 hs . da t:.1.rdc de l ' dc dC1.cmbro de 1804,
Como, porém, Josefina continuasse estéril, Napoleão em
1809 obteve o divórcio no fôro civil para casar-se com Maria
Luisa da Áustria. Era-lhe necessArio conseguir o mesmo da au-
toridade eclesiástica. A que Instância, porém, havia de recorrer?
Os casos matrimoniais dos príncipes são, pelo Direito da
Igreja, reservados ao julgamento do Sumo Ponüfice. Acontecia,
porém, que Pio Vil, na ocasião, era prisioneiro do rmperador
em Savona (Itália setentrional). Napoleão então levou seu pro-
c(>sso ao tribunal eclesiãstico de Paris. ltste a principio decla-
rou-se incompetente na causa; mas as circunstâncias 'extraordi-
nãrias, a dificuldade ou Imposslbl1tdade de se comunicarem com
o Papa levaram os juizes a aceitar o julgamento do processo.
- 467-
cPERCUNTE E RESPONDEREMOS,. lVl95S, qu. 8 e 9

Depois de haver atentamente examinado as razões alegadas por


Napoleã'o (falta de consentimento da sua parte e carência de
fonnaJidades essenciais ao ato religioso), declararam nulo o
casamento pelo segundo motivo, ou seja, por defeito de forma :
o matrimOnlo devera teto sido celebrndo em presença do pároco e
de duas testemunhas, quando na verdade fOra real17.ado perante
o Cardeal Fesch apenas, que não possuia faculdades do Sumo
Pootífice suficientemente especificadas para tal ato. Com efeito,
o Cardeal obtivera do Papa eas dispensas necessárias ao exer-
cicio de suas funções. de capelão-mor: contudo entre as funções
de capelão-mal" pnl'CCC que nfio constava n de assistir e dar a
bênl,'flO <lOS casmncnlns da (;nuilia 1I1I1)(,I'i<l1.
Contra a declal'ação de nulidadt! assim pl'ofcrida houw
apêlo para ulterior Instância eclesiástica, ou seja, para o tribunal
metropolitano de Paris, O qual confinnou a sentc~ anterior,
acrescentando novo motivo : falta de consentimento no contrato,
da parte de NaPoleão; na verdade, êste parece ter nutrido desde
os primeiros tempos de vida conjugal a intencão de se separar de
Josefina (dai não se ter casado na I&reja antes de 1804), e só ha-
verá aceito o casamento religioso na véspera da coroação Impe-
rial, constrangido pela fôrça das circunstâncias ou receoso das
conseqüências que a recusa lhe acarretaria .
Pode-se, por conseguinte, reconhecer um fundamento de
justiça 'A sentcn~n dos oficiaL'i de Paris;' o matrimônio de Napo.-
leão com J oseCina era provüvelmentc nulo. Ainda que se quch-a
dizer, com aleuns historiadores, que Pio vrr, conhecedor do caso
. preciso visado pelo Cardeal Fesch, delegou a êste as devidas fa-
. culdades para assistir ao casamento, resta o óbice da coação
moral Que parece ter pesada sôbre o monarca.
. Admitindo-se, pois, em hipótese benigna, que o casamento
de Napoleão com Josefina fôra realmente nulo, o monarca em
consciência podia contrair o planejado matrimônio com Maria
Luisa da Áust1ia. Mas resta uma ressalva decisiva a fazer, . .
O matrimônio, conforme o Direito eclesiástico, é ato publico (a
Igreja não reconhece casamentos clandestinos); disto se segue
que a declaração de nulidade de um casamento deve ser pública
e promulgada pela autoridade eclesiástica competente. Ora no
caso o tribunal de Paris pode ter julgado com acêrto, sim, mas
certamente não tinha autoridade, nem própria nem delegada,
para o fazer; por conseguinte, sem efeito ou inválida fica.va, no
fôro púbUco, a sentença dos 'uizes de Paris; de nada" adiantava
a Napoleão tal declaracão. ConseQUcntemente, novo matrimônio
continuava sendo coisa ilicita para êle,
A atitude de Pio VII informado do processo de Paris e da
união de Bonaparte com Maria Lu lsa distinguiu bem os dois as·
- 468-
o (DIVORCIO. DO IMPERADOR NAPOLEÃO

pectos da questão; o Papa protestou contra a ilegalidade das


sentenças proferidas pelos juizes diocesanos e metropolitanos
numa causa que não lhes competia julgar. Mas sóbre o fundo
mesmo da questão (validade ou invalidade das núpcias com J ose-
fina) o Pontifice jamais se pronunciou.
Á iuistl de complemento da hist6rla acima narrada, aqui referimos
que treze membros do Colég~ Cardlnallcio residentes na França, à
rrenle dos quais cstava o Cardeal Consalvl, SecrctArlo de Estado de
Pio VII, se recusaram a assistir às nllpelos de Napoleão com Maria
Lulsa, alegando ter sido a causa matrimonial do Imperador julf:ada
por trlbunnl nflo competente; não se pronuneinram, porém, _~brc o
11'(\1' 1'01 ~ nl('nl,':I cli·ssc Irihunal • .Em r.onSf'fIUi·ndll, Nnllfllf~rlO rm flf:dnfOlI
(Nt:m ntllorllhttlc. l= t!vhll'nlc l dc:sllluldoll lia flljl:nld:ldl! cõu'dlnallcla.
(donde o nome de cCardeals Negros' ). privou-os de seus .rendimentos
c, em erupos de dois, envlou-o.s para diversas cidades da FrDncn_

2 . De quanto acaba de ser exposto, podemos tirar breve


conclusão_
o caso do segundo matrimônio de Napoleão ê extrema·
mente sutil e a-mblguo. pois envolve agentes e fatõres múltiplos
que levam a distinguir dois aspectos do problema ,
Pode ser que Napoleão, por falta de consentimento real e
espontâneo ou também por defeito de Corma canônica prescrita.
jamais tenha estado caS<'l,do com Joserlna. Não obstnnte, pode-se
SCj;Ul'nmcntc dizcl' quc as suns segundas nílpcins forntll inválidas,
pois a situação conjugal do Imperador não fôra previamente
reconhecida e publicada pela autoridade religiosa competente_
Em tOda essa trama de acontecimentos, pode-se também
nsscgurnr que a Igreja não concedeu no Imperndol- o divórcio.
isto é, a dissolução dc um matrimônio certamente válido. As
duas sentenças proferidas em Paris foram formalmente desauto-
rizadas pela voz oficial da Igreja representada por Pio VIT.
O que tornou o caso assaz complicado, gerando confusão
nos atores da história, foi a sagaz habllldade com que Napoleão
procurou dar Coros de legalidade religiosa a seus caprichos con-
jugais. Entregou (de boa ou de mA fé?) o julgamento de sua
causa a um triblUlal eclesiástico Incompetente_ OS juízes, postos
em circunstâncias extraordinárias e possIvelmente enganados
por estas, resolveram proceder ao exame do assunto e declara·
ram nulo o casamento. Nisto houve falha por haverem os pre-
lados pressuposto faculdades que êles na verdade não possuiam,
nAo por terem proferido uma sentença que possa ser tachada
de arbitrAria ou partidária. E note-se que tais prelados consU·
tulam órgãos particulares da Igreja, não a sua autoridade su-
prema e universal.
- 469-
"PERGUNTE E RESPONDEREMOS:> 11/J958. quo 10

Dissertando ulterionnente sôbre o tema., arrlscar-nos-.lamos


a cometer injustiças, pois carecemos de meios para sondar mais
Intimamente as consciências das pessoas envolvidas no episódio.

10) cCorno ~e justiflcn o casamento r:eligi050 do rei de


Portugnl D. Pedro 11 çom sua. cunhada, cspâsa do seu irmio o
rei D. Afonso VI, ainda. em vida. dêste '1'»

Estamos diante de mais um desses famosos processos ma-


trimoniais de prlncipes, que por sua natureza mesma movem a
opinifio públicn. (l1~lallc1o-sc a Cf(uívocos. Basta, porém, referir
a história com exatidão para se vel'ificar que ela. não depõe con-
tra a Santa Igreja. É o que passamos a fazer no caso acima.
o prlnclpe D. Afonso VI (1643.1683) foi aclamado rei de
Portugal em 1656, quando ainda era menor, ficando então como
regente a rainha sua mãe.
Eis a1guns dados biográficos do monarca, .n~sários para
se entender o seu caso matrimonial:

cAos dois paJl\ tres anos acomet~-(I uma enfermidade, cuja prin.
cipal conseqUêneia foi uma hcmiplceUt do lado direito, com dlstorsAo
da b6ca, paralisia da mão. imobilidade da coxa e dlstorsQ.o do pé, o que o
obrigava n coxear. O embalxndot' Inglês, Robcrt SouthmC!lI, numa Infor·
mação à sua C'Órtc, aClrma quo após a. docnca lIcara D. Afonso VI cem
estado est\kpldo, digno de compaixão:>. Jantava na cama, comia multo,
bebia vinho ccômo nenhum outro portugu~:> , segundo as palavras do
diplomata. Quando contrariado, acomeUam·no acessos de furor com
Impetos de agredir e de matar quem se aproximasse; depois tornava-Ie
apAtico. Esplrlto instAvel, Incapaz dc atençAo. Folgava de tratar com
(:"ente bronca e de se entrejtar a passatempos grosseiros. Ia para a.
,anelas do paço que deitavam para o pAUo da capela. ver brincar os
garotos que ali '110 Juntavam. Por véus Introduzia no paço mulheres
perdidas, por pura bn.sófia, A rainha nno via maneira de remediar o
mal. c quis abandonar a Tejtência quando o !ilho completou 18 anos: o
conselho do Estado, porém, rogou·lhe que -tal nao fizessc:> <Grande :En·
clclopédla Portui uesa e Brasileira. VoI. t . Lisboa e Rio de Janeiro,
pli. 5(3 ). .

Após a ascensão de D. Afonso VI ao trono, o rei Luis xrv


de França, desejoso de manter Portugal sob a sua influêncla
poUtlca. interveio na escolha da espõsa do novo monarca ; des-
tinava a éste a «Grande MademolseUe» e ao lnfante D. Pedro,
seu innão. a duquesa Maria FranciSca Isabel de Savoia. A
cGrande Mademoiselle:t tendo recusado o casamento, foi dada
como espõsa a D. Afonso VI a duquesa Maria Francisca, a qual
chegou a Lisboa aos 2 de agOsto de 1666.
-470 -
o CASAMENTO DE D. PEDRO 11. DE PORTUGAL

Eis de' novo quanto refere a história sôbre os festejos de


núpcias realizados entre D. Afonso VI e Da. Maria Franclsca :
cO matrhn6nio se reaUzou a Z7 de junho na Rochela (França),
sendo D. Afonso representado pelo m&rquês de $ande. A noiva embar·
cou para Lisboa a 30 de junho, chegando a 2 de agÔlto. Foi o rei
buscA·la a bordo, acompanhado da córte. De regmso, o corU!jo palIOU
pela igreja das Flamengas. onde o bispo de Targa abençoou OI noivos .
. • • 1.01:0 se disse que o soberano se aborreceu na cerlm6nla, do que
se ressarciu ceando copiosamente nos seus aposentos. Pretextou radlga
para nao comparecer na cela de gala, à qual pl'Hldiu, sôzlnha, a nova
sobc!rnnn. E, cem pretexto idl!ntico. .r ecusou·se a pas.~r lt cAmara
nupcinl. no l~hCJ:'ar o hom. Mais lorde, qUtux)o se Instaurou o célebre e
escandaloso processo de nulidade do matrlmOnlo, depOs o cende do
Prado que alguns dias depois da ch~gada da rainha, ao tentar alguém
oonvencê-Jo a Ir pernoitar na câmara desta (dtlma, desatou D. Afonso
em cllôro, quelxando-se de que o queriam matar, rorçando-o a um Im·
posllv~b (lbld. 504) . ~

As relações entre D. Afonso e Da. Maria Franclsca. olSSim


iniciadas, por pouco tempo se puderam sustentar. Aos 21 de
novembro de 1667, a rainha procurou refúgio no convento das
Religiosas da Esperança de Lisboa, declarando que de lã não
sairia 'senão para voltar à França. ; dizia outrossim à Abadessa
que se conservava donzela e não era verdadeiramente espOsa
de Afonso VI, pois éste era Incapaz de suscitar prole.
D. Pedro, então, apoiado pelo povo descontente, resolveu
mediante um golpe apoderar-se do govêrno ; plano êste Que êle
executou com o reconhecimento das CÔr-tCS de Portugal a l '
de janeiro de 1668; D. Afonso foi declarado inábil para reinar.
Luis XIV, porém, não se deu por satisfeito com o ocorrido, pois
vIa que lhe escapava o esteio de sua Influência em Portugal. Por
isto decidiu promover o casamento de Da. Maria Francisca com
o regcnte D. Pedro II; não lhe parecia difícil realizar o projeto,
visto que desde muito os dois pretendiam contrair tal matri-
mônio.
ConseqUentemente, o rei de França aconselhou a Da. Fran-
cisca obtivesse a dispensa eclesiástica do contrato matrimonial
celebrado com D. Afonso VI, visto tal contrato não haver sido
conswnado em relações conju&ais. A dispensa, porém, não podia
ser solicitada ao Sumo Pontifice, embora êste fOsse o único ár-
bitro reconhecido no caso pelo Direito da Igreja; Luís XIV temia
que o recurso a Roma facilltasse a intelVenção de pessoas
alheias aos lnterêsses políticos da França; por isto recomendou
à ratnha dirigisse sua petiçóo ao Cabido Metropolitano de Lis-
boa, jA que a sede patriarcal desta cidade estava vacante (mo-
mentlmcamente desprovida de bispo).
- 471-
... PEROUN"Y'E E RESPONDEREMOS. lVl958, 91.1. 10

A sentença proferida 80s 28 de abril de 1668 foi favorável


. a Da. Francisca, pois Que se reconhecia não haver sido consu-
mado o casamento com D. Afonso. Contudo os juizes do cabido
não ousaram acrescentar a dispensa, necessária para as novas
núpcias, do impedimento de pública honestidade, impedimento
que vedava união conjugal c;te Da. Moria Francisca com seu
cunhado. Luis XIV, porém, não querendo em absoluto levar a
causa ao conhecimento do Sumo Pontiflce, mandou recorrer ao
Cardeal de Vendôme, tio da interessada, o qual no momento se
achava em Frnnça, com podel'es de legado pontiCicio, para re-
pl'CSCntnl' o P:q)n no bnli'l.ado <lo Dclrllll: :t ô~t~ rll'clncto, cnlJ'C
outras faculdadcs, Córa oonOada a de dispensar de cca·tos im-
pedimentos matrimoniais «quoad sponsaUa» (no tocante ao
noivado). Interpelado, Vendôme concedeu a dispensa aos dois
pretendentes de Portugal, ultrapassa.ndo, sem dúvida, seus p0-
deres (pois que a causa, sendo ~e prlncipes, continuava reser-
vada ao Sumo Pontlflce). Em conseqüência, celebraram-se as
almejadas núpcias.
Todavia Da. Maria Francisca não se sentia tranqülla em
sua consciência ... Resolveu então enviar a Roma seu confessor,
o Padre de VilIes S. J., a quem confiou uma cópia do processo
e a suplica dhigida a S. Santidade o Papa. Clemente IX para
que confirmasse ludo o que ocorrera. Luis XIV, depois de haver
I.cnt..'\do debalde impedir a viagem do saCCI'dot~, intimou o Papa
a nno reexaminar o proccsso sob n ameaça de Que, em easo
contrário, pass..'\rin ti. impugnar a n~serva, feita ao Pontlficc, das
causa0; matrim0i1iai!; dos principes: o rei pl'Ometin «suscitar
contra o Papa 8 pena d~ muitos C'Scritol'cs e (mtrnr talvez mais
adiante do que desejaria Roma, no setOI' das dispensas:. (carta
de Bourlcmonl 00 rei Luis XIV e a Ltonne, em l' e 2 de ja-
neiro de l669h
Diante das instâncias, Clemente IX não se intimidou: tendo
exigido a aprcseílt:u;ão de tôdas as pecas do processo, nomeou
uma comissão de Cardeais pa.ra l'Cvel' o caso. Esta, em primeiro
lugar, declarou .que o Cardeal de VendOme excedera suas atl'i-
buicóes, cansurando-o por isto; a seguir, tendo instaurado mi-
nucioso estudo dos acontecimentos, reconheceu, como era not6--
rio, que o primeiro casamento de Da. Marta Francisca não fôra
consumado; a rainha obtivera mesmo de D. Afonso VI uma
carta em que êste confessava não estar casado com ela: de outra
feita o mesmo monarca fêz saber em púbUco que não coabitava
com a rainha (de resto, até o fim da vida o rei D. Afonso VI
se mostrou pessoa. de convivência difícil, sujeita a acessos de
furta. «Não faz duvida que a condição feroz de el-rel, por quase
insuportável, era de martirio àqueles que de necessidade lhe
- 472-
o CASAJ\.fENTO DE D. PEDRO lI, DE PORTUGAL

assistiam_, a testa o Pe. Maldonado, capelão do castelo ao qual


fOra enviado o monarca após a sua deposiCão).
Já que, como resultado do inquérito, constava da não.cem·
sumação do matrimônio, Clemente IX houve por bem sanear
oficialmente a situação ambígua que se criara na COrte de
Portugal: outorgou explicitamente a dispensa de cC8Samento
contraido, mas não consumado. e a do impedimento de pública
honestidade ln radlce matrlmonii. isto é, como se as: dispensas
tivessem precedido o segundo matrlmõnlo; ficava destarte isenta
de qualquer impugnação a união da rainha com D. Pedro lI.
O Papa Unha p()(lcJ'CS r),'u'a ns.c;im [l1'OCedel', poiR nn verdade
t) primcit'O CilSõ.ll11enlo de Da. Mal'ia 1·'nUlcisca 11:10 11I'l'CII(!hia. as
condições do malrimónio indissolú.vel (cf. quo 7 dêste fascículo
e quo 5 de cP . R •• 7/ 1957).
Infelizmente, porém, alguns autores, entre os quais Vol·
taire, deturparam a conduta de Clemente IX, denlgrando canse-.
qUentemente a posição da Igreja no caso. A tais hlstoriadores
Gérin (Louis XIV et te Saint-Siege, Paris 1894, t. lI) dá tes-
temunho em contrário, baseado em sólida doc:wnentação. Se
ale:o se pode censurar aos prelados no episódio estudado (será,
porém, sempre arriscado arvorar-Se em árbitro da consciência
alheia) , tu! será o procedimento, usurpador da autoridade, do
Cardeal de VendOme e do Cabido de Lisboa; êstes tópicos, p0-
rém, devem·se a personalidades particulares. com as quais não
se idcntiricou n Sôlntn Sé nem se jdc.ntincn n Snnta Igrcja.

CORRESPONOtNC IA MiúDA
U "'l CONSULENTE (ltio ue Janeiro ) :

1) Quanoo ae diz que l>Ceados dos homenl afligem ou ~ll triltecem


"OI
a No.'I.~ Senhor ou a Dcus não há tLÜvida. de quo !IC Cala ngul'adamentc.
M
,

eonceb<!ndo !><fUI lt. aemclhança do um homem dotado de aCetoa. Na vclt·da·


de, OI pecado. das criat.uras não atingem a vida (cliz de Deus. Com deito,
~ Ie. nio surpl'ecndem nem deecpcion.m o AIHssh.,o. quo é onieicntc, nem
delÇo"ce~m o plano santo do Criado,·, poli a. S.bedul'ia Dlvi.na sabe (a·
~·Io. se1'vja·. causa do Dem : o abllmo da mi.él'in humanll nasta vida a6
(az dar ocasião a q ue mai ••e manifeste o abismo do misorlc6rdla dh".inai
na vida póltUmo, o pc(adol' que tenha morrldo Impenitente, aof rt!rá natu·
rolmcnto a dor conleqüentc! do seu alheamento a DeUI, mas Cata dor nio
desto.ri. do eoncerto da criaçio inteira; ela acrá um teltemunhO ".ui ce'
ner il" e eloqüente de que Dcus é a Suma Bondade. A !inalidade suprema
das criatura., portanto, que 6 dar gl6rla • DeUI, não IarA perturbada pelo
pecado, Donde se ve que as faltai dos homenl nlo sIo, para Deul. uma Ja·
cuna irreparável.
A razio de ser dOI oxprCllsôes metaf6rlc•• acima ~ o desejo de incutir
mtllhor a nós, homenl, o borror da culpa. Nio hA dúvida, porém, de que
-473 -
_ _ _---""p"E"n"Ge;U"'NTE E R.ESPONDEREMOS, 11/1958
JellUI, como homem out.rora peregrino na terr., mtperimcntou trillc!u. pelo
pecado, visto que tolJ'lOu sõbre .i Os afetos humanos que n50 eram indirnos
da aua aantlaaima. mimo do Redentor.
S6bre o peeado ·ofen . . . &1Q", cf. ·P.R." 6/1957, quo 2.
2) Nem a polignmia nem. bigamia .imultancaa fOrAm jamala acei·
tu pela Igreja, pois contrarlllm tanto 1\ natureza cemo ao sacramento do
matrim6nio (d. Ef 5.32). .
Quanto a S. ÁfOstinho. OB RUI dizeres bem mostram quanto foi co","
tnrlo ao div6rcio ; colocando o casamento cristAo sob a peupcetiva da
Indissolúvel unillo de Cr i.to com a Igreja, af-inTlava :
~ O bem dtl. nú pcias, que interessa ao povo de ~u .. consiste na IM·
lidado do IO.crnmcnto. em virtude da qual i iIIcito repudiar o (onlOrte c
cnsar-te (11111 (lllt.,'m" (llc hu no Mn ju~nli 2-4 ..1) . .
" O efeito mui!! InlimCl (rI'lI ) (Iê~ $ I<:mnll:nlu (rn:lll'imc"mil.l) cUn"iHlf',
tem dúvidu., em que: (I vAnia e a mulher u\lillos pelas núpcial Pc)'SCvcrcnl
sem conhecer separação (diuol ução do \;'nc:ulo) enquanto viverem" (De
nupliis et c:oneupiscentill 1,10) .
Foi no séc. XVI, ou seja, na époea do luteranismo, que IM! procurou dar
foroa do Iiccidade à bigamia, pois quo Lutero declnrou ao prlneipo Filipe
de Heucn e 30 rei JI(!nriClUc VIIl d4 Inglater ra que éle não considerava a
poligamia formalmente proibida a OI cristãos; Filipe de Hes.sen, apoiado
por Lutero, casou-51! então com Margarida de S4ale, estando viva a lua
primeira e.p6sa. Diante do esetlndalo causado pelo fato, Lutero aconselhou
• Filipe neellue ter contraldo S(!gundas .nupcias, atitude Que o Pio-Refor-
mador n.. lm jUIIUf!cavll :
NQue acontCCi.'rin se ..• , Ilnrn n benl d:L l"m'Ja crildii, 1I1a:u(!ln pror......
ri$&(! uma forte e boa mentira ... U'a mentira necessária, út il, que nos
auxilie, nno é contrn a lei de Dc\l ~, c êle (Lutem) 11. toma sob I\. .uo. ~ •.
punlUlbillclaoo" (Ctlllf"rÍ!nc14 ,le r:iftnnc:h, julll<'1 de lM1) .
P. M. O. (Odo Hrn-izO'Jlts): - Muito oportunas, as lua. pcreuntu.
A aJ~mas jA foI dnda re.posta em "P. R." j assim :
1) S6bl'tl as duas fontlls da Ravelneão - a Palavra de Deus oral e
a Palavra escrita - , veja "P. R/' 7/1958, qu o 2.
A pr6prla Bibli:s. manda auscultnr e legui r outra fonte de fil, que é a
Tradiçl.o autêntica (d. 2 Te. 2;15 ; 1 Cor 11,2; 2 Tim 1,12-14; 2 Tim 2,2).
Por con.ecu.inte, naus atitude não pode ser a de querer provar t6da e
qualquer propos!&1o de fé unicamente mediante a S. Exr1tura. Quanto à
autenticidade de uma tradição, o critério para rcconhecê-la é a universali-
dade dessa tl'l1dlção; é prociso que (1514 ~ja, desde o tempo dos Apóstolos,
posse comum da Cristandade (ao menos sob forma impllcita). t a voz ofi-
ciaI (o maclstérlo) dn lcreja quem hoje Interpreta. .. autenticidade da
Tradlçio.
Quanto .. genuinidade do magistério da Igreja Católica, nia • dedud-
moa da Blblia lI.J)enas (o que seria petlçio de principio e daria em elrculo
vicioso) . Deriv.mo-la do fato mesmo de que. I,reja Católica cstA em li-
gação continua com Cr isto e os Ap6. tolo. R m interrupçlo alguma; é
Cristo mei mo qUClm nela prolonga a l ua vida desde Pentecostes. An tm 55
gera~es crl.tia foram transmitindo umas la outra. Incontaminado o de-
p6sito ...grado, .oh a aui .t~nei a jnf.lh~l do Esplrito Santo, que é a
alma do Corpo M:lstico de Cristo (cf. Jo 14,16. 26; 16,10).
e • continuidade do Corpo Mlstieo, scmpre eOC8Q em Urno do leU
Chefe vJ.lvcl, que cnrante a vCI'O.cldade da Igreja. Qualquer parte da Cris-
tandade que BC tenha separado dn Cabcea vi.fvcl, já nio rep resenta o
Corpo ... Ivo de. Crl.to, embora .ub5i.ta em .eus quadros: externos até hoje.

- 474-
CORRESPONDt:NCIA MIúDA

Tal é o caIO das conlunidades cristãs c.iamitica. do Oriente: le bem Que


conservem a lueeado apost611ca, nio têm maia união com .. Cabeça vi.lvel
da l lTej.; ora ..bemo. que 16 há corpo " Ivo onde há cabeça e adulo
dOI memlJro. a (,'!-A.
2) Sóbl'e a irn1illolubilidade do vInculo matl';mcnial, queil's \'CI"
"1', R." 7/1967, quo 4·G. Volt.I'emos ao Ulunto num dos Tw6ximos Caldc"-
101, se UeUI quiser.

3) A pl'Opósito do veneraçii.o doi santo. I'cpl'escntadcs l)Or Imagen.,


veja " P. n." 4/ 1957, quo 6. t 6bvio que o. cat6licos não .dol... m im.genl;
tEm-nu apenai como .inaia vl.h'ei. de Deus (que se fê:. \'Isivel na earne
hUlnnna) e doll. ami ...."O!'I de Iku,o;.
QUIlIUIo !li] f:111! .h' ":VlfWlI\:õiu .111 11'l1 l1n .Ia ~ I ;I, CnI7,", .' lIl.c'nrhj·)I' j 11
lUlowl1l.:fw ,11't..'!:tlldll an J)h'in~. CI,tl<:iric:"du, 1111 H'lja, a I N:II" ~ IUC IIU ca,'ne:
h umana quis )lCl\!lcl' dI! ~lInto hmhn.
Sübre n intertC!S~lio dos aanto. e o .eu IUl'al' na piedade cri~ ta., "cja
~P. R." 8/1958, quo 6, A respeito de Maria na obro ua nOIlIL sonlificoçio,
d, " p , n." 4/ 1958, ql1. 1.

4) E'llCramo. em 19á9 tralar da In.tituição do saeel'd6cio hierár·


quito, da Confirmaçi'i.o, dll Extrema-Unção, a ..im como catudar o texto
de balas 7. S3bre a in.tltuição da IC(1nfissão sacramental, queira \'IH'
"P. n." 4/1957, quo 3; 8/1958, 'lu. 4-5.
JO,.;I. (Cu/,i'-ilIlJ': - A ql1l!Jltiin deu hr. n1.ruIIJiMR e fln!! eU I'UII ' Ior i:lP."
rl'lIli~,mlu)l ~râ IIIKII'thuln lIum tlll~ IlrúJlimos h.lCícu~ ele ~Ij . n....
Por ora frisemos apena. que a maioria. deuas euras R deve a faeul-
dndc!lI nllhll-nis dn IIlmo h umana, faculdAdea qnc ultimamente "~m aenuo
lII:1ill 11 lII:tilll'lduc1uclnll- 1__1:t lIIctlieiulI li o Paieolul!in; l'K~1I ellllOS nUo têm
que ver com inwrvellçiio direta fie l>cus ou de eapll'ito. do Allhnõ ti. prer.es
e o ritual USAdos pelo bentedeil'O são mel'" encenação (que freqUente-
mente o eurandeiro realiza com t6da a boa fé).
Em outros cuo., mais raros, é o riem6nlo quem age, ,Irincipahnente se
ele li evocado diretanlente sob a rOl'ma de um dOI ExulI tle Unlbanda ou
da Inaeumba. Eu. ftel'II1, o dcmônio nlo se faz de rogado quandc a lguém
que l' qu·e êle "tl'abalhe" eom os homens. l nten"ém pl'oduzindo efeito. mara-
vilhosos, até mesmo IlOb a aparência de atol piedOSOI, a. fim de maia en-
ganar os espeetador1!l,
A Intervenção clh'Cln de Deu!! ou de um esplritCl bClm e nvilldo pelo
Senhor, na obl'Q do. curandeiros, é I'aro, roia, (Iuunllo fa:. prodlgios, lJcus
OI pl'OVOI'Ciona a determiuado f im que. por lua imJ'lOrtàne.la, l'Calmente
mereça derl'Ognçio àlloil da natul-.:;ta. O Senhor normalmente lel'\'e-A(' das
cau.as segundas ou do. in.trumentol humancI; a6 fa z curai cx.traordiná-
riu cm circunstinciaa extraordinárill..l, que nno podemo. de antemão pl'e-
vcr; Ele nio se deixa mover pela limples aplicação de f6rmul as ccnsidera-
das pc!lol eUl-ande[rol aptas a desencodcar meeànicamentc p ação divina
(Om (11..\'01' doa homen •.
H. M . (Rio de }olleiro) : - Queira. agllardar CJ:planaçio da Radiel-
tesia em jllneil'O de 1939:
"Substância·, etinlolàgicamente, é aquilo que e.tá /lob ( ~ .ub·ltat·).
Em FilollOfia l! o correlath'O dos acidentei cu das notas contingentes de
um BOI', .a quais -l6bt~_vémH a 11m "'UflC)ltc" permanente, AIRumA coiaa ou
alruém podo variar de tanlBnho. e61', sabor, etc" lem deixar de ler .Iernpl'C
o mesmo suj eito (-.ub-jectum" IlLnçado lob, debaixo de, ,. ), Sendo assim,

- 475-
. PERGUl"o'E E RESPONDEREMOS. 1111958

vê·se que não se pode ralar rigorosamente de 1mb>rlfitttia em DeUI. rlOis em


DeUI não há luporte de eoiau acidentais ou transitól'ia •. "Subltlncia Di-
vina-, por conseguinte, significa simplesmente o Ser, a Entidade de Deua,
a qual ê limpllel8aima, absoluta e etel'na; " expl'eslJio vem a ser 1I1nb-
nhr.a de "ENfncla Di\"'n.",
Da aubatãndll di\inll, que ~ una, distinltuimol a. Peuoas Divinu..,E ••
u. aio a lubltineia divina com •• nol.. 1'l'Ópl'ias da Poternidade, da Fi·
Iiaçio e d. "Elpiraçio" panin, Estai nota. nio le podem identifkal' en·
tre .i, pois e.da uma delas, por .eu conceito mr.lmo, ae op60 1 outra (opo-
aiçAo relativa ): o pai, para sei' pai, tem que se diltinguit do filho. Acon-
tece, porém, que O ato d .. g1!rol' em Deus nAI) implica dlvlliio do. E~neia
divina, de modo que o Filho, embol·. não seja o Pai, ê tôda a ElSÔncia dl ... i-
IlA tom ~un inriniln IU'I ' r ei~iio. AtI'i'sci(ln .1f'AA.'\ notn pripl'ia que {o 1\ Fi·
linç'lio.
Di1-ae, em conléqüêncio, quo na Pessool Uivinlls 1:.10 N:luçõclI lliu~ i ...
tentes,ou aio • Easeneia divina n exercei' um ato correlativo a outro e
nio l uscettvel de ler identirk:ado com ~8te outro (taia li.o o ato de proce·
der por geraçio).
CATEQUISTA (Rio d" JMeiro):-Nio há, em absoluto, j neonve-
nk!nte em tomar como sinônimas as expreUÕ<!s péCado mortal e pecado
p7'4VI:" • • pecado vp:ial I: pecado leufl"
Os qualificativos de mortal c venial aplieadol ao pecado dealpam di-
retamente aa C!onseqüênciu devidas a tal ou tal pecado: o pecado mortal,
eorno o nome o diz, acuret" a mOl'te sobrenatural da alma e uma pena
eterna; o pecado venial, sem extinruir a vida aobl'l!naturnl ou a al ..ça
.. ntifieilinw, implk:a apenaI \lma pena temporal (nesta vida ou no purp-
tór;o); o pecado venial nio 6 adesão absoluta a um fim último indevido,
nUlI, antes, um alo de ineoeril'lCia do cristio, que permAnece radicalmente
voltadt) pll.l'lI. J)eUfI:. mas mnmentAnenmt!ntt! Mmrtt! um ftto I'lUC nÃO fW'IRC
.er voltadn pU.I"U o St!nho,".
Claro eltt\ quo ditel"Cnça de c:onacqU~nejllol IUlliic dlrel'Cnçn. de R'"avi-
dado dOIl pecados, ou melhor, l uplle haver pceado pl'Õpl'iamente grnv. li
pecado limplc.mente In • .
D. ESTIlVÃO BETTENCOURT 0.8.8 .

• PERGUNTE E RESPONDt.:REIUOS.
Allinatura anual (porte eomum) . " .. " ...•..... " .... •. , c" 500,00
(porto aéreo) .. , .• "" .•.. .. . .••.••.•.• CI"$ 780,00
Número avulso de qualquer ~I e ano •. . .... . " . . " ... . . . C" 60,00
Coleçlo encadernada de 1957 ....... . . ............. . . . . C" 650,00
Cole(ão encadernada de qualquer dOI anol ICcuintcl . ". CO'$ 750,00

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Cab.:a Postal 2660 B. Renl Grandeza, 108 - Bofafogo
mo do Janeiro TeL "20-182! - Rio de Janeiro

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