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O lúdico e as atividades aquáticas

Conceituar o lúdico não é fácil, muitos pesquisadores tiveram a tarefa de contextualizá-lo, como a
exemplo de Brougère (1998), Roza (1999), Schwartz (1998) e Aberastury (1992), e o que parece ser
consenso entre eles é de que o lúdico tem função em si mesmo e está intrínseco em sua própria realização
e satisfação pela atividade.
Estudiosos que têm como área de interesse as atividades realizadas em meio líquido, viabilizam
propostas mais motivadoras e criativas dentro desse meio, como é o caso da inserção do elemento lúdico
nas aulas de natação, tanto para crianças como para adultos, a exemplo de Freire (2004), Pereira (2001),
Allen (1999) e Klar; Miranda Jr. (2001), que optam por uma abordagem do lúdico como filosofia
pedagógica, presente na fluidez das brincadeiras, gerando manifestações positivas que privilegiem a
criatividade, a espontaneidade, o prazer, a afetividade, entre outros, trazendo uma característica diferente
e particular em cada aula ministrada.
Dentro dessa perspectiva de visualizar a vivência lúdica como filosofia pedagógica dentro do trabalho
em atividades aquáticas, urge a necessidade de atentar para que o elemento lúdico não seja inserido de
maneira funcionalista, ou seja, que ele não perca sua identidade ao ser utilizado como estratégia no
processo pedagógico.
Torna-se necessário enfatizar que o lúdico alcança objetivos, mas não se presta a atingir um objetivo
em específico a priori e sim é possível com sua inserção alcançar aprendizagens essenciais com sua
vivência, sem contudo, possuir finalidade imediata. (BROUGÈRE, 1998).
Mesmo com todo esse respaldo em relação a abordagem do elemento lúdico, muitas vezes, ele é
inserido nas atividades aquáticas somente como facilitador da aprendizagem, como um meio para
alcançar determinado objetivo dentro do processo ensino-aprendizagem dos nados, esquecendo-se do
valor que o lúdico tem para o desenvolvimento global do ser humano.
Refletindo sobre a inserção do elemento lúdico nas aulas de natação, um grande obstáculo se instaura
na prática das atividades aquáticas, as quais são, normalmente, desenvolvidas em clubes recreativos,
academias e escolas de natação, pois com o objetivo emergente de atender as expectativas dos alunos, dos
pais, de professores e da instituição, se preocupam em ensinar a nadar os estilos da natação, seguindo uma
estratégia metodológica, mas nem sempre tendo o lúdico como norteador do programa. (Freire, 2004).
O lúdico na relação pedagógica em meio líquido alcança uma dimensão humana que vai além do
simples entretenimento ou como recompensa por cumprimento de tarefas durante as aulas de natação, ele
possibilita desvelar emoções e sensações, assim como aspectos relacionados a afetividade.
Mesmo que as expectativas dos professores e da instituição venham ao encontro das expectativas dos
pais e alunos, esse motivo parece não ser o suficiente para manter o praticante na atividade, existe um
motivo maior, que justifica a permanência nas mesmas.
Isto está relacionado diretamente ao estado de satisfação para a prática, que foi denominado por
Csizszentmihaly (1999) como estado de fluxo, quando o conteúdo da experiência, oferece uma resposta
imediata quanto ao crescimento pessoal imensurável conquistado, contribuindo para novos níveis de
desafios e aprendizado de novas habilidades.
Desta forma, atividade que provoca prazer, satisfação, liberação de sensações e emoções positivas,
podem representar um forte diferencial nas experiências vivenciadas em meio líquido, assim como, um
fator catalisador de estilos de vida ativos e saudáveis.
Nesta dimensão mais ampla em que se encontra a expressão lúdica, não há de se negar seu potencial
motivador na educação, existindo, segundo Winterstein (1995), um influenciador (professor) e um
influenciado (aluno), estabelecendo uma relação na qual ser privilegia essa influência como forma de
participação ativa do professor junto ao aluno, por meio da permissão do brincar em meio líquido,
construindo laços afetivos entre eles e uma relacionamento bilateral, onde tanto o aluno como o professor
aprendem nessa construção do saber.
As crianças são motivadas a participar de determinada brincadeira, quando esta tem alguma relação
com a experiência anteriormente vivida por elas, ou quando se sentem na possibilidade de resolver seus
conflitos em meio líquido, como a exemplo do sentir medo quando o rosto está em contato com a
superfície da água. Se esse contato ocorrer por meio do lúdico, a brincadeira parece minimizar o medo,
desvelando emoções e sensações que esse contato possa gerar, configurando-se num dos principais
motivos da realização ou não da brincadeira, conforme evidencia Brougère (1998).
O lúdico nas aulas de natação motiva a relação pedagógica, subentendendo-se que nessa relação existe
um adulto que pode se permitir brincar com o aluno por meio da fantasia, da música, das histórias
contadas, das dramatizações e dos jogos cooperativos.
Desta forma, a criança pode ser influenciada a participar com o professor quando a brincadeira detém
um certo aspecto de sedução e que nessa brincadeira proposta exista espaço para criar, expressar
fantasias, por meio do faz-de-conta, num tempo que não tem hora. Sendo assim, a motivação é a veia
propulsora da criatividade, permitindo à criança a capacidade de criar e imaginar.
Referente a postura do professor frente ao lúdico, ele pode assumir o comportamento de jogador ou ser
apenas um espectador, observando as atividades sem, contudo, participar e trocar experiências valiosas
com os alunos, porém para que a entrega ao lúdico seja total é necessário a troca.
Nas aulas de natação para crianças é fundamental que o professor mergulhe na aventura dessa emoção
em meio líquido, entrando na piscina e participando com as crianças das brincadeiras.

FREIREM.; SCHUWATS G M. O papel do elemento lúdico nas aulas de natação. Ef Deportes Revista
On Line, Argentina, 2005.

Questões para debate:


1-) A aproximação do aluno com o meio líquido, independentemente da faixa etária, é um processo
custoso e muitas vezes fator permanente para que ele desista da prática da natação. Onde o uso das
ferramentas lúdicas poderia auxiliar nesta questão tão importante para a iniciação a natação.

2-) A partir das discussões que são realizadas no texto, qual seria a diferença principal entre as atividades
lúdicas para o ensino de técnicas dos nados para atividades que proporcionam o prazer pleno pela prática
de atividades aquáticas.

3-) Utilizando os argumentos discutidos no texto acima, pense em quatro atividades para adaptação ao
meio liquido para crianças de sete e oito anos que nunca tiveram contato com a água. Discuta também os
possíveis pontos negativos que podem ser encontrados com esse grupo e quais as formas de propor a
melhor estratégia para o ensino do fundamento.