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M ARK H ITC H C O C K

JEFF KINLEY

A APOSTASIA
EXPONDO A SABOTAGEM INTERNA DO CRISTIANISMO

VINDOURA

I a Edição
2019

cham ada
Originally published in the U.S.A. under the title:
The Coming Apostasy: Exposing the Sabotage o f Christianity from Within

Copyright © 2017 by Mark Hitchcock and Jeff Kinley


Portuguese edition © 2017 by Obra Missionária Chamada da Meia-Noite w ith permission of Tyndale House
Publishers, Inc. All rights reserved.
I a Edição-Fevereiro/2019

É proibida a reprodução desta obra em quaisquer meios sem a expressa permissão da editora, salvo para
breves citações com a indicação da fonte.

Tradução: Leila Frank


Direção Editorial: Sebastian Steiger
Capa e Projeto Gráfico: Stefan Yuri Wondracek

Salvo indicação em contrário, todas as passagens da Escritura foram extraídas da Bíblia Sagrada, Nova Versão
Internacional, NVI®, copyright © 1993,2000,2011 por Bíblica, Inc. Todos os direitos reservados mundialmente.
Passagens da Escritura marcadas como ARA foram extraídas da Tradução de João Ferreira de Almeida - 2a
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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação

H674a Hitchcock, Mark


A Apostasia Vindoura: expondo a sabotagem interna do Cristianismo / Mark Hitchcock, Jeff Kinley;
tradução Leila Frank. - Porto Alegre: Obra Missionária Chamada da Meia Noite, 2019.
200 p.; 13,5x20,5 cm.
Tradução de: The Coming Apostasy: exposing the sabotage of Christianity from within.

!.Cristianismo. 2 .Apostasia. 3 .Bíblia. I. Kinley,Jeff. II.Frank,Leila. III.Título.


CDU 234.272.2
CDD 234.23________________________________________________________

{Bibliotecária responsável: Nádia Tanaka - CRB 10/855)


SUMARIO
IN T R O D U Ç Ã O _________________________________________ ____ __7

1. D EU S E N AV IOS FANTASM AS__________________________ _11

2. A Q U IN T A C O L U N A ___________________________________ _31
3. A FÉ D O S N O SSO S PAIS________________________________ _51

4. C U L T U R A DA C O N D E S C E N D Ê N C IA __________________ _73
5. Q U A N D O A T O L E R Â N C IA É IN TOLERÁ VEL__________ _91
6. Q U E D A LIVRE DA M O R A L____________________________ 111
7. O M O M E N T O D EC ISIV O PARA A IGREJA_____________ .123

8. O V E R D A D E IR O JESUS VAI SE M A N IFESTA R?_________ 145

9. ATOS D O S APÓSTATAS________________________________ .163

10. SO B R E V IV E N D O AOS Ú LTIM O S DIAS DE APOSTASIA. .183


INTRODUÇÃO
N a F r a n ç a d o s é c u lotrabalhadores descontentes
d e z e n o v e ,

desenvolveram uma tática subversiva que envolvia jogar um sa-


pato dentro de uma máquina da fábrica, fazendo com que ela
parasse de funcionar, arruinando toda a produtividade. Esse ato
de agressão ficou conhecido como sabotagem (de sabota a palavra
francesa para sapato).1 Um único sapato jogado na engrenagem
podia causar um estrago incalculável em uma máquina em per-
feito estado.
Hoje em dia, nós estamos testemunhando a implacável sabo-
tagem interna do cristianismo e da igreja. Sabotadores sutis estão
jogando um sapato teológico após o outro dentro da máquina,
causando perplexidade e colapso espirituais.
Satanás sempre trabalhou para sabotar o trabalho de Deus
através de falsos mestres. E, apesar de Satanás ter muitos sapatos
e estratégias, as principais áreas de sabotagem usadas por ele são
contra a Palavra escrita de Deus (as Escrituras) e a Palavra viva
de Deus (Jesus, o Salvador).2 As primeiras palavras do Diabo
registradas na Bíblia foram dirigidas à Eva, no jardim do Éden,
e emanavam dúvida e contradição: “Foi isto mesmo que Deus
disse...?”.3 Desde aquele tempo, o silvo da serpente tem ecoado
ao longo das eras, de geração em geração, enquanto ele questio-
na, enfraquece e sabota a Bíblia. Como David Jeremiah diz:

[Satanás] não é dado a apenas uma abordagem. Se ele não


conseguir nos tirar a Palavra de Deus minando a sua autorida-
de, cie vai nos tirar da Palavra de Deus nos dando outra base

1 A etimologia exata da palavra sabotagem é incerta. Esta é uma visão.


2 Ver David Jeremiah, G odin You (Sisters, OR: Multnomah, 1998), p. 7 3 7 4 ‫־‬.
3 Gênesis 3.1.
A APOSTASIA VINDOURA

de autoridade. Satanás desenvolveu precisamente tal substitu-


to, o qual parece ser bem atraente para muitas pessoas.
Ele é chamado de experiência.
As pessoas se tornam tão envolvidas em suas experiências
espirituais que nem olham mais para a Palavra de Deus como
sua fonte de autoridade. As suas experiências se tornam a força
determinante em suas vidas.4

O dr. Jeremiah termina com esta poderosa observação:

Dois grupos, então, estão competindo por nossas mentes -


mas com o mesmo fim em vista. [Estudiosos liberais] tirariam
a Bíblia de nós, e aqueles que mantêm a visão experiencial nos
levariam para longe da Bíblia.5

Concordamos plenamente. A sã doutrina está sendo atacada.


A Bíblia está sendo reduzida, completamente rejeitada ou subs-
tituída pelo modo como as pessoas se sentem sobre qualquer
tópico moral ou teológico que esteja sendo considerado.
Todavia, nada do que vemos deveria nos surpreender. A Bíblia
predisse que este dia chegaria. As Escrituras nos informam que a
maré da apostasia vai aumentar à medida que o fim se aproxima.
Este presságio do fim é relatado em 2Tessalonicenses 2.3 como
a queda ou a grande apostasia final. Esse período poderá estar
chegando muito em breve. Em vista desta grave realidade, nosso
principal objetivo neste livro é desmascarar essa atual sabotagem
direcionada à autoridade e suficiência da Bíblia, que ataca a ex-
clusividade de Jesus como o único caminho que leva a Deus.
Nós queremos também armá-lo com a verdadeTelevar o seu dis-
cernimento e recalibrar o seu pensar e o seu viver de acordo com

4 Jeremiah, God in You, p. 75.


5 Ibid.
INTRODUÇÃO

a medida da verdade de Deus. Estas são questões sérias para a


igreja e para todo crente. Muita coisa está em jogo.
Que o Senhor tenha o prazer de usar este livro nas vidas de
cada leitor assim como ele já o tem graciosamente usado nas
vidas dos seus autores.
C apítulo 1

DEUS E NAVIOS FANTASMAS


Alguns... naufragaram na fé.
!Timóteo 1.19

O c a p i t ã o D a v i d M o r e h o u s e estava acostumado com as águas


agitadas do Atlântico Norte, mas ele não estava preparado para
o que os seus olhos viram naquele dia de inverno. Navegando
cerca de quatrocentas milhas ao leste das ilhas dos Açores, Mo-
rehouse encontrou uma visão perturbadora. Era um navio, o que
não é em si mesmo uma coisa fora do comum de se observar em
alto mar. O estranho era que este navio de dois mastros em parti-
cular parecia estar em grande perigo. Com suas velas de lona es-
farrapadas por um vento implacável, o navio flutuava sem rumo
em águas abertas. Do seu ponto de vista a bordo do Dei Gratiay
o capitão Morehouse não conseguia ver ninguém no convés da
instável embarcação. Então, depois de chamar e não receber ne-
nhuma resposta, o capitão britânico deu ordens para se aproxima-
rem do misterioso navio. Ele enviou um grupo de abordagem para
inspecionar o navio, mas o seu imediato e dois outros tripulantes
não conseguiram encontrar uma única alma a bordo.
Em vez disso, o que eles descobriram foi um carregamento
lotado contendo 1 701 barris de álcool bruto, junto com um
suprimento de comida e água para seis meses. O que estava fal-
tando era o único bote salva-vidas do navio. Também estavam
A APOSTASIA VINDOURA

desaparecidos o seu capitão, Benjamin S. Briggs, sua esposa, Sa‫־‬


rah, e a filha deles de dois anos de idade, Sophia, junto com oito
tripulantes. Porém, eles encontraram armários com roupas dei‫־‬
xadas para trás, sugerindo uma partida súbita. Durante a inspe-
ção que durou uma hora, os tripulantes do Dei Gratia também
observaram uma bomba d’água desmontada e cerca de um me-
tro de água banhando o casco. Mas, apesar dessas curiosidades,
a embarcação de aproximadamente 33 metros de comprimento
parecia estar em condições de navegar.
O navio rangente encontrado pelo capitão Morehouse, no dia
5 de dezembro de 1872, acabou por ser o Mary Celeste. Poste‫־‬
riormente os registros mostraram que o navio tinha zarpado de
Nova York rumo a Gênova, Itália, no dia 7 de novembro. Mas
alguma coisa aconteceu pelo caminho, e o Mary Celeste estava
muito atrasado. Aqueles agora a bordo do Dei Gratia, que em
latim significa “pela graça de Deus”, podiam apenas esperar e
orar para que aquela mesma graça protegesse os passageiros e
tripulantes do navio perdido.
A trágica histórià do Mary Celeste tornou-se um dos misté‫־‬
rios mais complicados da história marítima. Muitas teorias fo‫־‬
ram oferecidas para tentar explicar essa história perplexa e o que
aconteceu - tudo, desde piratas a tempestades em alto‫־‬mar, até
monstros marinhos. Especialistas ainda se esforçam para enten-
der por que o capitão Briggs ordenaria o abandono de um navio
que não apresentava sinais de perigo iminente.
Contudo, quase 150 anos depois daquele dia frio de dezem‫־‬
bro, e depois de especulações em artigos, livros, poemas e até
filmes, nós não estamos mais próximos de entender o que pro‫־‬
vocou a fatalidade do Mary Celeste do que estava Morehouse. Na
ausência do capitão ou da tripulação, o navio tinha se afastado
do curso em alto mar por cerca de duas semanas antes de ser
encontrado. Em vez de chegar ao seu destino planejado, o Mary
DEUS E NAVIOS FANTASMAS

Celeste ganhou a permanente infâmia de ser o típico exemplo de


navio fantasma da história.

Nossa Condição Atual

A não ser que você tenha passado os últimos anos naufragado


numa ilha deserta, sem dúvida você chegou à conclusão de que
o nosso planeta está em perigo. Somos uma cultura caótica, uma
raça humana capturada no epicentro de uma tempestade global.
Como o Mary Celeste, nós estamos à deriva como planeta, per-
didos num mar turbulento de confusão e incertezas. E não são
mais apenas os peritos que reconhecem as crises iminentes ame-
açando o nosso mundo. De acordo com uma pesquisa em nível
nacional, 41 por cento dos adultos norte-americanos acreditam
que estamos vivendo no “fim dos tempos”.6 Uma consciência
aguda dos problemas do nosso mundo finalmente alcançou a
pessoa comum. E o consenso predominante é que o planeta Ter-
ra está mostrando todos os sinais de estar se aproximando rapi-
damente de desastres em vários níveis.
Em outras palavras, estamos aqui em águas profundas e agitadas.
Este momento no tempo é nitidamente diferente daquele que
a geração dos nossos pais ou nossos avós conheceram. Apesar das
gerações anteriores testemunharem guerras mundiais, recessões
econômicas e turbulências políticas, este momento de escuridão
carrega uma carga distintamente apocalíptica. À primeira vista,
os acontecimentos da história recente podem se assemelhar mais
a um sonho mau ou a um cenário de filme de ficção científica.
Apesar de alguns ingenuamente pensarem que as coisas estão
melhorando, uma avaliação honesta e vigilante da situação da
humanidade revela muito mais distopia do que utopia. Essa é

6 “SHOCK POLL: Startling Numbers of Americans Believe World Now in the ‘End
Times’”, Religion News Service, 11 set. 2013. Disponível em: <goo.gl/d5DrNA>.
A APOSTASIA VINDOURA

a realidade, e não uma fantasia futura, esperançosa. Além disso,


é a sua realidade. O mundo no qual você vive está se tornando
cada vez mais volátil, subindo e descendo como uma proa de
navio numa furiosa tempestade, descontroladamente sacudida.
Instabilidade, agitações e incertezas são constantes neste drama glo-
bal contemporâneo. O mundo está mudando - e não para melhor.
Claro, é humano questionar e ponderar se o furacão da histó-
ria está prestes a atingir terra firme. Estando saturados em peca-
do, precisamos nos perguntar: será que 0 Apocalipse estáfinalmen-
te navegando em direção à nossa costa?
O que vemos ao examinar o horizonte da cultura? Cidadãos
cheios de raiva fazendo manifestações nas ruas, saqueando ne-
gócios locais devido à injustiça percebida em sua comunidade;
imigrantes e refugiados enredados numa crise internacional
sem precedentes, cujas consequências ainda são desconhecidas;
tiroteios em massa, combinados a uma contínua epidemia de
violência e homicídio, quase nos anestesiaram em relação ao as-
sassinato.7 E a contagem de corpos entre os que não nasceram
continua a aumentar, aproximando-se de 1,5 bilhão de massa-
erados mundialmente em nome dos “direitos de reprodução”.8
Os antigos cananeus não foram piores do que nós.
Mas isso não é tudo. Continue olhando ao redor, e você verá
autoridades estaduais e federais aprovando leis e proclamando
decretos que sancionam, legalizam, endossam, promovem e até
sinceramente celebram atividades homossexuais e o casamento
entre pessoas do mesmo sexo. Homens que se autoidentificam
como mulheres são autorizados a usar banheiros de mulheres,
expondo meninas a potenciais traumas, abusos e ataques. A
consciência moral da nossa sociedade entorpeceu-se ao ponto

7 Aamer Madhani, “Several big U.S. cities see homicides rates surge”, USA Today, 9
jul. 2015. Disponível em: <goo.gI/CRRSrS>.
8 “Number of Abortions - Abortion Counters”, US Abortion Clock.org. Disponível
em: <ww\v.numberofabortions.com>.
DEUS E NAVIOS FANTASMAS

de agora nós chamarmos o mal de “bem” e o bem de “mal”.


Esse triste comentário sobre a nação norte-americana se equivale
tragicamente a um prévio período na história de Israel quando
“cada um fazia o que lhe parecia certo”.9 Até já existe atualmente
uma proposta entre alguns círculos psiquiátricos para remover o
estigma de algumas ofensas sexuais como a pedofilia, referindo-
-se a pessoas que cometem essas ofensas como “pessoas atraídas
por menores”.10No nosso clima moral contemporâneo, aceita-se
praticamente de tudo - exceto, é claro, a moralidade bíblica. A
decadência coletiva da nossa cultura só é eclipsada pela deprava-
ção individual daqueles que a definem. É uma ruptura crítica no
casco da humanidade, deixando entrar uma enchente de loucu-
ra disfarçada de “iluminação” e “pensamento progressista”. E a
água continua a entrar.
O politicamente correto tem se tornado um dos nossos novos
ídolos, o qual nos exige regular veneração e adoração. Não se
atreva a ignorá-lo ou irritá-lo caso não queira sentir sua ira. Ape-
nas discordar, por exemplo, das modernas e “mais ricas” visões
da moralidade leva à acusação de promover um discurso de ódio
ou de intolerância. Valores judaico-cristãos históricos estão sen-
do sistematicamente afastados das paredes da consciência com
a moralidade pagã carnavalesca sendo esculpida em seu lugar.
Sugerir que ainda existe uma moralidade absoluta e objetiva em
relação a questões como sexualidade ou casamento é ser instanta-
neamente julgado, jogado no tribunal publico da vergonha e do
ridículo e ser sumariamente apedrejado até a morte pela opinião
popular e pelas mídias sociais. Como resultado dessa e de outras
notórias evidências da decadência moral, muitos acreditam que
estamos testemunhando em tempo real o colapso sistemático da

9 Ver Isaías 5.20; Juizes 21.25.


10 Bob Unruh, “Psychiatrists Seek to Destigmatize Adult-Child Sex”, WND, 22 ago.
2011. Disponível cm: <goo.gI/u5mcYX>.
Λ APOSTASIA VINDOURA

civilização ocidental. É quase como se isso tudo fosse parte de


um plano maior e sinistro.
Sim, alguma coisa está muito errada com a humanidade, algu-
ma coisa que como raça nós coletivamente recusamos a reconhe-
cer. Na verdade, as causas das nossas obsessões malignas são bem
mais profundas do que as causas sociais, psicológicas ou mesmo
morais. O que se encontra sob a superfície da nossa insanidade
universal é um problema espiritual, um vírus mortal, concebido
nos nossos primeiros pais e transmitido de geração em geração.
Mas continue olhando, agora internacionalmente, e nós ve‫׳‬
mos que a economia global nunca esteve tão instável, com múl-
tipias nações vacilando em direção ao colapso financeiro. De
acordo com o Fórum Econômico Mundial, a economia mundial
está atualmente vulnerável em várias frentes e correndo mais do
que nunca o risco de sofrer “choques globais”. Esses tremores
econômicos não respeitam fronteiras nacionais e podem poten-
cialmente abalar as fundações de sistemas financeiros inteiros e
de sociedades.11 Como em nenhum outro momento da história
registrada, a comunidade internacional está interligada. O que
acontece financeiramente em uma nação com frequência afeta
outra dramaticamente, com a crise econômica de um país en-
viando efeitos ondulatorios concêntricos para outros dez, ou
mais. Isso tem levado a uma interdependência sem precedentes
em um mercado financeiro mundial sempre emergente.
No seu relatório de Riscos Globais de 2014, o Fórum Eco-
nômico Mundial afirma: “Uma crise fiscal em qualquer grande
economia podería facilmente ter um impacto global com efei-
to dominó”.12 Simplificando, o castelo de cartas da economia
mundial poderia desmoronar a qualquer momento, um cenário

11 ‫״‬Global Risks 2014 Insight Report”, World Economic Forum. Disponível em: <goo.
gl/SW84nG>.
12 Kim Hjelmgaard, 10‫ ״‬greatest threats facing the world in 2014”, USA Today, 16 jan.
2014. Disponível em: <goo.gl/u9KDXX>.
DEUS E NAVIOS FANTASMAS

revelado que se sincroniza perfeitamente com o retrato de Apo-


calipse do futuro desastre econômico.13
Olhe ao redor, e você verá que o nosso mundo também está
enfrentando numerosas crises humanitárias, sendo uma delas os
mais de 780 milhões de pessoas famintas no mundo.14Apesar de
serem em grande parte pessoas de países em desenvolvimento,
ainda assim elas representam um oitavo da população do plane-
ta. Imagine a escala do impacto quando a fome mundial even-
tualmente atingir o mundo inteiro, como é previsto em Apo-
calipse. Chances de prosperar, tanto no Terceiro Mundo como
em países desenvolvidos, passarão rapidamente de improváveis
para virtualmente impossíveis. Além disso, o tráfico humano, o
tráfico sexual e a escravidão sexual formam juntos globalmente
uma indústria de 32 bilhões de dólares, envolvendo cerca de 21
milhões de vítimas no mundo inteiro.15
No que nos tornamos?
De uma perspectiva geopolítica, o Oriente Médio continua
sendo um sensível campo minado, que pode explodir facilmente
com um simples passo em falso. Acrescente a essa bom ba-relógio
os esforços furtivos do Irã para desenvolver bombas nucleares.
O desejo declarado do Irã é remover a nação judaica como se
ela fosse um “tumor” cancerígeno no corpo do mundo islâmico,
removendo-a da face da terra.16 Enquanto isso, Israel tem os seus
próprios problemas, como o contínuo conflito com o Hamas,
que ameaça explodir como um barril de pólvora a qualquer mo­

13 Ver Apocalipse 13.1617‫־‬.


14 “2015 World Hunger and Poverty Facts and Statistics”, World Hunger Education
Service. Disponível em: <goo.gl/KMP5Mx>.
15 “New ILO Global Estimate of Forced Labour: 20.9 million victims”, International
Labour Organization>1 jun. 2012. Disponível em: <goo.gl/thd7p6>.
16 Joshua Teitelbaum e Michael Segall, “The Iranian Leaderships Continuing Decía-
rations of Intent to Destroy Israel, 2009-2012”, Jerusalem Centerfo r Public Affairs.
Disponível em: <goo.gl/dzisfU>.
Λ APOSTASIA VINDOURA

mento. Periódicos ataques de mísseis de ambos os lados são parte


regular da vida no Oriente Médio.
De acordo com a profecia bíblica, a Rússia está pronta para
ser uma peça do fim dos tempos e continua reforçando a sua
reputação de intimidadora mundial, tendo previamente estabe-
lecido sua presença na fronteira de Israel. Embriagada por seu
próprio poder, a próxima jogada da Rússia permanece desconhe-
cida, mas essa nação poderia muito bem estar se posicionando
para a guerra apocalíptica prevista por Ezequiel.17
Mas tem mais.
O Estado Islâmico do Iraque e da Síria (EI) é a última apari-
ção indesejável no cenário terrorista mundial. Apesar disso, ele
conseguiu ter um impacto massivo e devastador em um espa-
ço de tempo relativamente curto. Começando como um grupo
dissidente da al-Qaeda, este culto à morte bárbara ficou bem
conhecido por campanhas militares, invasões, torturas brutais e
execuções públicas, incluindo crucificações. E o islamismo apo-
calíptico com esteroides, uma marca da ideologia jihadista que
acredita que a vinda do seu Mahdi (messias) pode ser antecipada
se o mundo for engolido em caos e carnificina.18 Ironicamente,
o método de execução favorito deles é a decapitação. Revivendo
uma forma antiga de barbárie sangrenta, o EI tem se autodeno-
minado um grupo de modernos açougueiros humanos. Decapi‫״‬
tações têm acontecido até mesmo nos Estados Unidos, inclusive
em comunidades rurais.19 E esses guerreiros perversos não dis-
criminam, pois brutalmente massacram centenas de mulheres

17 Esta guerra, comumcnte chamada de ‫״‬A Batalha de Gogue e Magogue”, envolverá


uma invasão massíva de nações islâmicas alinhando-se com a Rússia e seus líderes.
Seu objetivo será destruir Israel. Contudo, Deus intervirá sobrenaturalmente, resga-
tando seu povo da aliança para sua glória. Ver Ezequiel 38-39.
18 Para um exame mais detalhado sobre esse assunto, ver Mark Hitchcock, Iran and
Israel: Wars and Rumors o f Wars (Eugene, OR: Harvest House, 2013).
19 Greg Botelho, ‫ ״‬Police: FBI probing past of suspect in Oklahoma beheading”, CNN,
26 set. 2014. Disponível em: <goo.gl/13lQVA>.
DEUS E NAVIOS FANTASMAS

e crianças pequenas. Os monstros mascarados do EI também


produzem os seus vídeos de terror, demonstrando decapitações e
execuções selecionadas, postando-os na internet numa tentativa
de reforçar a sua causa e aterrorizar pessoas no mundo todo que
amam a paz.
Esse crescente corpo terrorista é bem financiado e organizado.
O seu alvo a curto prazo é criar um “califado” (Estado Islâmico)
na Síria e no Iraque. Forçando mais de um milhão de iraquianos
a deixarem suas casas, muitos deles sendo cristãos, o EI também
tem tomado o controle de campos de petróleo e apreendendo
cidades naquela região. As suas aspirações mais horrendas, con-
tudo, não estão confinadas ao Oriente Médio. Um boletim da
inteligência do exército norte-americano tem alertado sobre po-
tenciais ataques nos Estados Unidos por adeptos e simpatizantes
do EI contra militares americanos e seus familiares, ameaçando
'aparecer [em suas casas] e massacrá-los”.20
É claro: as raízes terroristas desse radicalismo remontam a um
ódio aos judeus de muitos milhares de anos. Agora, como um
vírus mortal, esse inimigo perverso passou por uma mutação,
ramificando-se com o objetivo de destruir outros infiéis igual-
mente desprezados (cristãos, amigos de Israel ou qualquer um
que não esteja disposto a se submeter às opressivas exigências
religiosas dos sádicos assassinos em série).
Como se isso não fosse suficiente, ataques terroristas isolados
em outros territórios (algumas vezes erroneamente rotulados de
"violência ocupacional”) têm estourado a bolha de nosso supos-
to isolamento dessa ameaça. Um novo tentáculo do terrorismo
tem se desenvolvido na medida em que indivíduos se radicali-
zam com vinganças sangrentas visando não-muçulmanos. Infe-

20 Catherine Herridge, “Army warns US military personnel on ISIS threat to family


members”, Fox News, 2 out. 2014. Disponível em: <goo.gl/edJWAC>.
A APOSTASIA VINDOURA

lizmente, nao existem métodos preventivos garantidos e eficazes


contra esse tipo de violência.
Negociações provaram ser impossíveis com uma ideologia
cujos aderentes acreditam ter recebido uma “ordem sagrada” de
subjugar ou matar os de fora. Eles não debatem, não argumen-
tam, não permutam e nem vacilam em cumprir sua missão, mas
são totalmente comprometidos com sua causa ímpia. E tudo in-
dica que essa espécie de terrorismo continuará a ganhar impulso
na medida em que células dormentes se infiltram em sociedades
livres com a finalidade de conquistá-las e destruí-las. Quem po-
deria imaginar que palavras como jihad e terrorismo ganhariam
lugar permanente no nosso vocabulário nacional? A ameaça imi-
nente de outro ataque terrorista, seja numa escala local ou em
larga escala, não é uma questão de se, mas sim de quando, pois
os nossos líderes militares e de inteligência acreditam que estes
jihadistas já estão em território norte-americano.21 Nós sabemos
que existem atualmente cerca de trinta e cinco campos de trei-
namento do terrorismo islâmico espalhados pelos Estados Uni-
dos.22 Esses extremistas muçulmanos também prometeram que
um dia irão “hastear a bandeira de Alá na Casa Branca”.23
Nós atravessamos oficialmente o espelho mágico e entramos
em outra realidade completamente diferente. E tudo indica que
o nosso mundo está à deriva, rumo à destruição.

21 ‫״‬Military Experts: With ISIS in El Paso, Ft. Bliss in Danger o f Terrorist Attack”,
Judicial Watch, 4 set. 2014. Disponível em: <goo.gl/cnokWx>.
22 “Terrorist Training Camps in che US”, Military.com, 18 fev. 2009. Disponível em:
<goo.gl/d4nkQP>.
23 Douglas Ernst, “ISIL to U.S.: ‘We will raise the flag of Allah in the White House”’,
The Washington Times, 8 ago. 2014. Disponível em: <goo.gl/X8xLWR>. Em outu-
bro de 2015, o então diretor do FBI, James Comey, declarou que havia pelo menos
novecentas investigações ativas visando atividades jihadistas (relacionadas com o El)
em solo norte-americano. O FBI está investigando atividades relacionadas ao El em
todos os cinquenta estados, o que significa que o El ten! urna rede de apoiadores
e simpatizantes em todos os estados da União. Ver Kevin Johnson, “Anxiety grows
over ISIL recruits in U.S.”, USA Todays 14 nov. 2015. Disponível em: <goo.gl/
DnLg8m>.
DEUS E NAVIOS FANTASMAS

Mas isso é o que acontece quando um motim emerge e a


humanidade desafiadoramente lança Deus no mar. Essas são as
consequências de resistir e rejeitar Deus, as ondas de repercus-
são pela recusa em reconhecer a existência do Criador e de seu
direito real de governar sua própria criação. Deus nos entrega
a nós mesmos. Bilhóes de pessoas, sujeitas a uma depravação
escravizadora.
No entanto, se os nossos olhos estão fixados apenas na huma‫־‬
nidade e nos eventos mundiais, poderemos facilmente ser vend-
dos por medo e incerteza, e frequentemente este medo conduz
a um isolamento e reclusão doentios quando nos esquivamos do
engajamento cultural e do testemunhar de Cristo neste mundo.
Resistindo a essa tempestade de pecado, os discípulos de Cristo
também podem falhar por autossuficiência,,em vez de suficiên-
cia no Senhor, pois o que está errado com o mundo pode ter um
efeito debilitante na nossa fé em Deus. Olhando para o caos que
nos rodeia, nós até podemos nos perguntar se ele ainda está no
controle. Deus está mesmo dirigindo a história? Ele ainda está
no comando? Ou ele nos abandonou completamente?
Se não fosse pela realidade de um Deus soberano, que preside
tanto a história quanto a humanidade, nós certamente entrarí‫־‬
amos em desespero. Felizmente, as Escrituras nos garantem que
o Deus do céu ainda está no controle. A pergunta é: nós cremos
nisso? Daniel 4.35 proclama: “Todos os povos da terra são como
nada diante dele. Ele age como lhe agrada com os exércitos dos
céus e com os habitantes da terra. Ninguém é capaz de resistir à
sua mão ou dizer-lhe: Ό que fizeste?‫'״‬.
À luz da escuridão ao nosso redor, o profeta Isaías oferece uma
perspectiva muito necessária em Isaías 40.6-31. Abra a sua Bíblia
e leia para você mesmo, permitindo que as palavras impregnem
sua mente.
A APOSTASIA VINDOURA

Enquanto isso, em casa...

Ao redor do mundo, navios abandonados enferrujam nas cos-


tas e praias. Alguns estão afundados pela metade, enquanto que
outros repousam completamente submersos dentro de oceanos
e lagos. Estas são embarcações que naufragaram por negligência,
abandono ou motim. Alguns foram deixados à deriva, navegan-
do sem rumo ao imprevisível capricho do vento e das ondas.
Muitos se depararam nas mãos de piratas. Embarcando à força
em navios desavisados, estes terroristas dos mares apreendem a
carga, matando os passageiros e a tripulação antes de afundar a
embarcação ou deixá-la à mercê dos mares. Ainda outros navios
foram encontrados vagando sobre as águas ou descansando no
fundo do oceano por causa de guerras, tempestades, incêndios,
doenças, um leme danificado ou pela falta de combustível ou
comida. A falta de vento ou ventos ruins facilmente contribuem
para o fim de um navio que antes era valioso. Ainda assim, o
denominador comum destes navios fantasmas é que eles estão
todos perdidos, à deriva na vasta extensão do oceano, sem ajuda
ou esperança, e sem timoneiro para guiá-los em direção a um
porto seguro.
Infelizmente, o que é verdade para navios também pode ser
verdade para pessoas. O mesmo perigo arriscado que ameaça
embarcações de alto mar também coloca em perigo aqueles que
se chamam cristãos. Foi por isso que o apóstolo Paulo repreen-
deu os corintios: “Examinem-se para ver se vocês estão na fé;
provem a vocês mesmos. Não percebem que Cristo Jesus está em
vocês? A não ser que tenham sido reprovados!”.24
Pedro, escrevendo aos crentes dispersos vivendo em uma socie-
dade decadente debaixo de um governo pagão, urgiu: “Portanto,
irmãos, empenhem-se ainda mais para consolidar o chamado e a

24 2 C o rín tio s 13.5. Ver tam b ém !C o rin tio s 10.12.


DEUS E NAVIOS FANTASMAS

eleição de vocês, pois, se agirem dessa forma, jamais tropeçarão


e assim vocês estarão ricamente providos quando entrarem no
Reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo”.25
Em um mundo correndo em direção ao Apocalipse, a igreja
de Jesus encontra-se hoje navegando suas próprias águas turbu-
lentas. Ela está se enchendo perigosamente de água enquanto
que alguns dos seus passageiros mais ingênuos parecem perfei-
tamente contentes, satisfazendo-se no banquete semanal de do-
mingo. Espelhando as igrejas que Cristo puniu em Apocalipse
2—3, o estado coletivo da cristandade de hoje enfrenta um perigo
interno muito mais mortal do que um ataque terrorista. Como
iremos descobrir, a noiva de Cristo não está exatamente em “boas
condições de navegação”. Em alguns lugares ela sofreu uma ra-
chadura no casco, perdeu o leme, falhou em pegar o vento e está
à deriva, longe do curso que Deus havia traçado para ela.
O que a espera bem à frente é o recife escondido da apostasia,
e ninguém entendeu isso melhor do que Paulo, já que o apóstolo
viajante sofreu literalmente três naufrágios!26 Usando isso como
uma metáfora poderosa, ele expõe exemplos de naufrágio espiri-
tual, até mesmo revelando os nomes destes indivíduos:

Timóteo, meu filho, dou a você esta instrução, segundo as


profecias já proferidas a seu respeito, para que, seguindo-as,
você combata o bom combate, mantendo a fé e a boa cons-
ciência que alguns rejeitaram e, por isso, naufragaram na fé.
Entre eles estão Himeneu e Alexandre, os quais entregue¡ a
Satanás, para que aprendam a não blasfemar.27

25 2Pedro 1.10-11. Todas as importantes qualidades às quais Pedro se refere neste ca-
pítulo inicial (versos 5 9 ‫ )־‬provem de uma experiência autentica do crente com a
Palavra de Deus (versos 3-4).
26 Ver Atos 27.272 ;44‫־‬Coríntios 11.2526‫־‬.
27 1Timóteo 1.18-20 (ênfase acrescentada).
A APOSTASIA VINDOURA

Há várias observações e princípios importantes que podemos


extrair das palavras de Paulo:
1. Perder ou abandonar a fé é equivalente a apostatar, ou
naufragar .
2. Os dois homens que Paulo menciona não foram os uni-
cos que abandonaram a fé.
3. Há consequências tangíveis e dolorosas ao abandono da fé.

É garantido que todos os seguidores de Cristo encontram


tempestades e passam por períodos ocasionais de pecado. Essa
é uma parte normal do desafio e desordem da tentação e santi-
ficação. Mas existe uma vasta diferença entre entrar água no seu
barco e o seu barco efetivamente afundar, e há uma diferença
enorme entre temporariamente navegar fora do curso e sofrer
um naufrágio fatal. A boa notícia é que Deus prometeu fielmen-
te disciplinar os seus filhos quando eles, seja por escolhas ativas
ou passivas, desviam-se do curso e rumam direto ao pecado.28
Às vezes podemos vaguear, navegando muito perto de costas ro-
diosas e ficando presos em recifes ocultos, mas ainda assim sem
emborcar e afundar permanentemente.
No entanto, para outros, não há resgate do mar revolto ou sal-
vação do que está abaixo. Estes que antes se professavam crentes
podem ter saído em sua peregrinação cristã com boas intenções
e nobres motivos. Eles até podem ter começado no rumo cer-
to, ter estado debaixo de ótimo ensino ou participado de uma
comunidade de fé saudável. Porém, por mais importantes que
essas coisas sejam, sozinhas elas não são suficientes. E assim, estes
autoproclamados seguidores de Deus eventualmente se tornam
“navios fantasmas”. Não é uma questão de perda da salvação,
mas sim de demonstração da sua verdadeira identidade. Eles
flertaram com a ideia de serem discípulos de Jesus em algum

28 Ver Hcbrcus 12.4-Π.


DEUS E NAVIOS FANTASMAS

ponto de suas vidas, mas o seu eventual afastamento revelou


que eles eram falsos cristãos. Como Jesus advertiu sem rodeios,
professar ele, não importa quão confiantemente, não necessária-
mente significa possuir ele.29 Foi por isso que o Espírito Santo
inspirou João a escrever: “Aquele que diz: ‘Eu o conheço5, mas
não obedece aos seus mandamentos, é mentiroso, e a verdade
não está nele55.30
Resumindo: as pessoas se desviam, vacilam e afundam. Igre-
jas e até mesmo denominações inteiras também o fazem. Tendo
meramente papagaiado uma fé em Jesus, elas podem —e mui-
tas vezes fazem - se desviar do curso. Alguns sucumbem a erros
doutrinários ou, como a igreja de Efeso, perdem o vento na sua
navegação, manifestado na ausência de um amor apaixonado
por Jesus Cristo.31
Esse “abandono da fé” (conhecido como apostasia) pode ser
um conceito nebuloso, talvez por ser pouco estudado, pregado
ou entendido por uma geração de frequentadores da igreja que
medem a sua temperatura espiritual pelo tanto que eles “aprecia-
ram” o culto e avaliam o seu progresso espiritual pela conformi-
dade com regras e religiosidades. Mas a nossa fé cristã vai muito
além disso. Parte do amadurecimento dos cristãos significa tratar
alguns dos assuntos mais pesados da Palavra de Deus. À medida
que crescemos, nós descobrimos que, juntamente com todos os
benefícios que Deus oferece (sua presença, paz, provisão e seu
amor inabalável e incondicional), há também algumas grandes
preocupações que ele tem por sua igreja, específicamente a sua
tendência de ficar à deriva, tanto doutrinariamente quanto pes-
soalmente. Esses perigos existem por causa do mundo em que
vivemos, da intenção do inimigo de nos destruir e dos nossos

29 Ver Mateus 7.21-27.


30 ljoão 2.4.
3 1 Ver Apocalipse 2.4.
Λ APOSTASIA VINDOURA

próprios corações, que são tão propensos ao desvio.32 Mas quan-


to mais perto nos achegamos ao coração de Deus, mais nossos
corações se tornam sensíveis e abertos às profundas questões que
a Palavra de Deus aborda. Nós começamos a querer o que ele
quer. Isso é parte do significado de “busquem, pois, em primeiro
lugar o Reino de Deus e a sua justiça”.33 Às vezes, podemos pen-
sar que as verdades e questões realmente importantes a respeito
da igreja são assuntos somente para pastores e líderes. Mas os
cristãos individuais também têm a responsabilidade de preservar
a unidade e pureza da igreja.34 Todos nós devemos entender e
manejar a verdade, senão muitas das cartas de Paulo seriam irre-
levantes para o cristão comum, o que sabemos que não é verda-
de, pois “toda a Escritura é inspirada por Deus e útil” para nós.35
Como este livro vai explicar, a apostasia vindoura é um sério
sinal do fim dos tempos e uma das mais pesadas verdades da
Escritura. Entender isso é essencial se quisermos navegar pelas
águas da confusa cultura atual.

O Capitão da Nossa Sal vação

Apostasia representa um abandono da fé, e isso pode acontecer


ao longo do tempo, sem que a pessoa se dê conta. Na verdade, o
exato oposto pode ocorrer, pois o orgulho misturado com a falsa
doutrina leva a uma atitude de superioridade, complacência e
autorretidão. De qualquer forma, ela está lá. Situada logo abaixo
da superfície, pronta para penetrar aquilo que nos mantém à
tona - nossa fé. Talvez você conheça alguns que partiram em
busca de um porto seguro em Cristo e acabaram estilhaçados
nas rochas pontiagudas da incredulidade. Não estando amarra­

32 Ver Efésios 2.1 3‫־‬.


33 Mateus 6.33. Ver também Salmo 37.4; Provérbios 3.5-6.
34 Ver 2Coríntios 11.13‫ ;־‬Efésios 4.3.
35 2Timóteo 3.16 (enfase acrescentada).
DEUS E NAVIOS FANTASMAS

dos à âncora bíblica da fé autêntica, eles ficaram à deriva numa


era do pensamento pseudocristão sem precedentes. Por vezes,
eles são guiados pelos ventos da teologia progressista, do pen■‫־‬
sarnento pós-moderno ou das filosofias e valores ímpios. Talvez
eles sejam motivados emocionalmente pelo politicamente corre-
to e até mesmo por uma releitura do próprio Deus. Numa era
de informação sem fim, onde autonomeados proclamadores da
verdade vendem fórmulas de fé falsificadas a membros da igreja
inocentes e inexperientes, não é de surpreender que muitos se
percam na neblina desorientadora. É por isso que cada pessoa
que confessa ser um crente em Jesus Cristo desesperadamente
precisa de um compasso magnético, um mapa, uma âncora, um
farol com sinal luminoso bem nítido - um GPS infalível guian-
do-as a cada passo.
E também por isso que elas precisam de um capitão.
Jesus prometeu que ele edificaría a sua igreja: “... e as portas do
Hades não poderão vencê-la36.‫ ״‬E ele tem mantido, e continuará
mantendo, essa promessa. Ainda assim, não é suficiente apenas
citar versículos, clamando imunidade aos ataques do inimigo.
Obviamente, por causa do pagamento eficaz de Cristo pelos pe-
cados, cada crente chegará ao céu em segurança. Mas isso não
garante uma vida isenta de esporádicos episódios de apatia, au-
toabsorção, falha moral, desvio doutrinário ou até mesmo de ser
temporariamente enganado por falsos mestres. Não existe ga-
rantia automática de uma passagem espiritual segura e contínua.
Não obstante, mesmo no meio de nossa confusão e sinuosidade,
Deus ainda está comprometido conosco - muito mais compro-
metido conosco do que nós com ele.37 Sim, Cristo vai edificar
a sua igreja. Ele a estabeleceu e a preservou através da história
e das heresias, e a morte não a derrotará e nem a tirará dos tri-

36 Mateus 16.18.
37 Ver Filipenses 1.6.
A APOSTASIA VINDOURA

lhos permanentemente. Mas isso não significa que ela não esteja
vulnerável ao alto mar nestes últimos dias em que vivemos. Há
perigos evidentes ameaçando a igreja —ameaçando você também.
Existem algumas questões que alguns podem considerar meno-
res ou não essenciais, mas que mesmo assim nos desviam do
mapa da fé. Quanto mais tempo continuamos viajando fora do
curso, mesmo que por apenas alguns graus, mais longe de nosso
destino pretendido nos desviamos.
Pilotos que erram nos cálculos dos planos de voo mesmo que
por um grau podem vir a perder o alvo destinado por centenas
de milhas, ou pior: voar em direção a uma montanha. Farma‫־‬
cêuticos que cometem apenas um erro ao combinar substâncias
químicas em uma receita médica podem potencialmente enve‫־־‬
nenar seus pacientes.
O mesmo é verdade para nós, e é por essa razão que devemos
sempre nos esforçar para permanecer no alvo com Deus e sua Pa‫־‬
lavra. Embora os cristãos possam discordar sobre certas áreas de
doutrinas periféricas, isso não diminui de modo algum a impor-
tância da doutrina‘em si. E nós não podemos irreverentemente
dispensar qualquer parte da Palavra de Deus, porque aquilo em
que acreditamos realmente importa.

A Oração do Senhor

Na última noite de Jesus com seus discípulos, eles tiveram uma


janta juntos, depois da qual ele os levou em uma caminhada para
um lugar que lhes era muito familiar.38 Localizado fora das mu-
ralhas de Jerusalém, este jardim de oliveiras provou ser um dos
locais de encontro preferidos por Jesus e os Doze. A palavra Get-
sêmani vem de duas palavras hebraicas que, quando combinadas,
significam “um local para prensagem de óleo”. Na cultura anti­

38 Ver João 18.2.


DEUS E NAVIOS FANTASMAS

ga, pesadas lajes de pedra eram usadas para esmagar azeitonas até
que todo o óleo fosse extraído. O óleo era entáo derramado em
vasos de barro para uso caseiro. Jesus conhecia bem essa prática
comum. Ele também sabia o que aquela palavra prefigurava para
ele. Ao chegar no jardim naquela noite, Jesus prostrou-se com o
rosto em terra, derramando seu coração ao Pai em oração.
Naquela oração íntima e apaixonada, o Filho de Deus expli-
citamente pede que o Pai não tire os seus seguidores do mundo,
mas que “os proteja do Maligno”. A razão para isso, ele diz, é
porque seus discípulos não pertencem a este mundo - ou ao
deus deste mundo.3940Mas exatamente como os discípulos atuais e
futuros de Cristo permaneceríam bem isolados da influência enga-
nosa e destrutiva de Satanás? A resposta é encontrada no versículo
seguinte. Eles apenas precisam que o Pai os santifique “na verdade”,
Jesus ora. Ele então afirma: “...a tua palavra é a verdade”/‘0
A influência transformadora e duradoura da Palavra de Deus
em nossas vidas é uma medida defensiva primária contra os
ataques de Satanás. Como seguidores de Jesus, nós precisamos
lembrar disso quando confrontarmos o mundo ímpio em que
vivemos, mas também precisamos entender que existem outras
ameaças, algumas que vêm de dentro da própria igreja.
A triste realidade hoje em dia é que o mundo e a igreja são fre-
quentemente indistinguíveis. À medida que filosofias e valores
mundanos infiltram o corpo de Cristo, valores morais se ajus-
tam e novas teologías emergem. Isso cria uma rachadura fatal,
permitindo que outras meias verdades comprometedoras e falsos
ensinos enganadores entrem no corpo. E por que isso seria de tão
grande preocupação? Por que isso é tão importante? Poucas coi-
sas fizeram o sangue de Paulo ferver mais do que falsos mestres

39 João 17.1516‫ ־‬. Ver 2Coríntios 4.4.


40 João 17.17.
Λ APOSTASIA VINDOURA

iludindo e enganando o povo de Deus.41 Falaremos mais sobre


isso ao longo do livro.
O princípio que extraímos da oração de Jesus é que nós somos
purificados e protegidos quando nos engajamos, cremos e vive‫־‬
mos a verdade de Deus. Resumindo: quando nós pensamos bi‫־‬
blicamente, nós somos menos suscetíveis a nos perder sem rumo.
Mas falhar em vedar as nossas mentes de pensamentos, crenças
e doutrinas não bíblicas nos leva a navegar perigosamente perto
da catástrofe. Ao ajustarmos a Escritura para se adequar aos nos‫־‬
sos próprios pensamentos (e não vice-versa), nós nos desviamos
da mente e do coração de Deus. E nós perdemos o melhor dele
para nós.
Nós escrevemos este livro por muitas razões importantes: (1)
para ajudá-lo a entender o que é apostasia; (2) para ajudá-lo a
entender que ela está aumentando ao nosso redor e que é um
sério sinal do final dos tempos; (3) para protegê-lo do naufrágio
espiritual e do perigo de afundar; e (4) para ajudá-lo a entender
a verdade, para que você permaneça no rumo certo enquanto
aguarda o retorno de Cristo.
Muitas pessoas oram atualmente por um reavivamento; em-
bora isso possa acontecer, tal reavivamento não foi profetizado.
Pelo contrário, de acordo com as Escrituras, uma grande aposta-
sia está a caminho.
Mas quão perto estamos?

4 1 Ver Gaiatas 1.612 ‫־‬9 ; 3.1 ‫־‬4 ; 5. 1,7‫־‬.


C apítulo 2

A QUINTA COLUNA
E m 1939, a G Civil Espanhola estava chegando ao fim, e
u e r r a

o general Mola preparava o seu ataque a Madrid. Ele tinha qua-


tro colunas de tropas prontas para tomar a cidade, e alguém lhe
perguntou qual destas seria a primeira a atacar. “A quinta”, foi
sua resposta mundialmente famosa.
A linha de ataque mais importante do general Mola não era
os militares fora da cidade; era os rebeldes simpatizantes dentro
dela. Eles passaram despercebidos, mas já estavam se preparando
para o seu avanço. O termo quinta coluna passou a significar aque-
les que simpatizam com um invasor e o ajudam do lado de dentro.42
A quinta coluna dentro do cristianismo é a apostasia. Fran-
camente, a palavra apostasia é feia e desagradável - e mal-enten-
dida. No entanto, o assunto não é nada estranho para a Bíblia.
Nós todos gostaríamos de falar sobre coisas positivas e deixar as
negativas para os outros, mas apostasia é um assunto importante
no Novo Testamento. Desde os seus primeiros dias., a igreja tem
enfrentado o avanço da apostasia. Muitas das cartas do Novo
Testamento foram escritas para confrontar várias formas de en-
sinamentos falsos dentro das igrejas. Apesar de a apostasia não
ser nenhuma novidade para a igreja, nos últimos tempos o seu
aumento é palpável. Como A. W. Tozer escreveu: “Os cristãos
agora conversam com erudição sobre coisas que crentes simples

42 George Sweeting, *Betrayal in the Church”, Moody (abr. 1992): 74.


A APOSTASIA VINDOURA

sempre tomaram como certo. Eles estão na defensiva, tentando


provar coisas que gerações anteriores nunca duvidaram”.43 Pense
em quanto mais verdadeira essa afirmação é hoje.

Duas Guerras

O mundo de hoje está testemunhando duas grandes guerras em


progresso - duas guerras travadas em duas frentes. Uma frente
está no Oriente, onde radicais islâmicos estão levando adiante
uma guerra brutal, sangrenta e selvagem para estabelecer um ca-
lifado. Eles querem levantar uma religião que domine o mundo.
O espectro do islamismo radical lança a sua sombra ameaçadora
ao redor do mundo. A outra frente está no Ocidente. A guerra
no Ocidente é uma guerra filosófica —uma tentativa de remover
toda a influência de uma religião: o cristianismo. A guerra no
Oriente é para estabelecer uma religião. A guerra no Ocidente é
para erradicar uma religião.
Essas duas guerras estão estreitamente relacionadas. O papel
enfraquecido do cristianismo na arena pública tem deixado o
Ocidente incapaz ou pelo menos relutante em se defender contra
a pura maldade na forma do Estado Islâmico e outros militantes
jihadistas. Paralisia e impotência são cada vez mais as respostas
do Ocidente para o mal absoluto. O secularismo e o humanismo
entorpeceram a habilidade de discernir o mal, até mesmo nas suas
manifestações mais descaradas, e de agir contra ele agressivamente.
O cristianismo tem sido eviscerado por dentro e por fora. De
fora, os ateus, os secularistas e os humanistas descarregam uma
implacável barragem contra a fé. E de dentro, teólogos liberais
e toda a sorte de falsos mestres enfraquecem e até negam a dou-

43 A. W. Tozer, Man: The Dwelling Place o f God (Camp Hill, PA: WingSpread, 2008),
p. 118.

mm
A QUINTA COLUNA

trina e moralidade cristãs essenciais. Isso é apostasia, e ela está


corroendo como um câncer no coração do cristianismo bíblico.

O Grande Afastamento

Antes de seguirmos adiante, vamos relembrar o significado de


apostasia. Apostasia em geral é a deserção ou afastamento dos
princípios de alguma comunidade religiosa. A palavra grega
apostasia significa “rebelião” ou “abandono”. Apostasia cristã, em
termos mais abrangentes, é a deserção ou afastamento da verda-
de das Escrituras. Andy Woods descreve isso desta maneira:

A p alav ra a p o s ta sia é d e riv a d a d e d u a s p a la v ras gregas. A p ri-


m e ira p a la v ra é a p re p o s iç ã o apo, q u e sig n ific a “ lo n g e d e ‫ ״‬. A
s e g u n d a p a la v ra é o v e rb o histêmi, q u e sig n ific a “c o lo c a r-se ” .
P o rta n to , a p o s ta sia sig n ific a “c o lo c a r-se lo n g e d e ” . A p o sta sia
se refere a u m a fa s ta m e n to d c u m a v e rd a d e c o n h e c id a o u p re -
v ia m e n te a d o ta d a . O a s s u n to d a a p o s ta sia te m p o u c o a v er
c o m a c o n d iç ã o d o m u n d o p e r d id o , o q u a l s e m p re re je ito u a
v e rd a d e d iv in a e p o r isso n ã o te m n a d a d o q u e se afastar. A o
c o n trá rio , a a p o s ta sia se refere à te m p e r a tu ra e s p iritu a l d e n tro
d a ig reja d e D e u s .44

Apóstatas são aqueles que professam fé mas se rebelam ou se


afastam da mesma. Eles nunca possuíram Cristo e a vida eterna,
mas simplesmente professaram fé.45 Os apóstatas são consisten-
temente caracterizados por duas coisas no Novo Testamento: fal-
sa doutrina e vida ímpia. Os apóstatas acreditam erroneamente
e se comportam mal. “Eles afirmam que conhecem a Deus, mas

44 Andy Woods, “lh e Last Days Apostasy of the Church (Part 1)”, Bible Prophecy Blog>
19 nov. 2009. Disponível em: <goo.gl/W12XAM>.
45 Exemplos de apostasias pessoais sao encontrados nas sérias advertências de Hebreus
6.4-8 e 10.2631‫־‬.
A APOSTASIA VINDOURA

por seus atos o negam.”46 Os apóstatas são a quinta coluna den-


tro da igreja visível.
Alguns apóstatas negam a fé e deixam a igreja. Outros negam
a fé e permanecem dentro dela. Embora ambos sejam prejudi-
ciais, aqueles que permanecem e persistem em corroer a fun-
dação da igreja de Jesus Cristo são os piores. Vivemos dias de
uma apostasia desenfreada, crescente e invasiva. A quinta co‫־‬
luna está firmemente entrincheirada em quase todas as maio-
res denominações na atualidade e tem invadido a maioria dos
seminários teológicos. Cada aspecto do cristianismo está sendo
atacado continuamente. Fundamentos doutrinários estão sendo
desafiados e abandonados numa velocidade vertiginosa. Estamos
testemunhando um alarmante afastamento da verdade por parte
de indivíduos, igrejas e até denominações inteiras. A sã doutrina
está sitiada.
A ascensão da tecnologia moderna, que ajudou na dissemina‫״‬
ção do evangelho e no alcance do ensino da sã doutrina, também
deu voz a uma interminável enxurrada de ensino vindo daqueles
que regularmente‘rebaixam a verdade das Escrituras. A blogos-
fera é um campo fértil para ensinos rasos, obscuros e até mesmo
satânicos, que confundem muitos crentes e fornecem munição
para apóstatas. Conseguir um partidário está mais fácil do que
nunca.
E claro que a igreja sempre foi afligida pela apostasia, mas
nada parecido com o que vemos hoje. Recentemente, por exem‫״‬
pio, uma professora de uma conceituada universidade cristã
disse que o islamismo e o cristianismo adoram o mesmo Deus.
Lógico que essa afirmação é incorreta porque o Deus do cristia‫״‬
nismo é um Deus triúno (um Deus em três pessoas —Pai, Filho
e Espírito Santo), enquanto que o islamismo nega a divindade
de Cristo. O cristianismo ensina que Jesus é o único caminho

46 Tito 1.16a.
A QUINTA COLUNA

que leva a Deus, portanto, se você nega isso, você não pode ir a
Deus. A universidade se mobilizou e demitiu a professora que disse
que Deus e Alá são iguais, o que aplaudimos, mas a afirmação dela
(e o diálogo gerado) desvenda um crescente sentimento de que a
doutrina bíblica clara é turva, confusa e até mesmo contraditória.
A apostasia existe desde o início da igreja, mas será que a onda
de apostasia das últimas décadas pode ser mais um sinal de que
a vinda do Senhor está próxima? A. ascensão da apostasia é um
A JL

prenuncio do fim dos tempos? Será que a igreja de hoje está no


limiar daquele período de trevas profetizado para o fim das eras?

Tempos dos Sinais

O segredo de montar um quebra-cabeças é a imagem na tampa


da caixa. Todas as peças, quando colocadas juntas, se parecerão
com essa imagem. Aqui estão algumas peças-chave que nós ve-
mos encaixando-se no lugar.

Reagrupam ento do p o vo ju d e u
Muitas das profecias dos tempos finais estão determinadas, de
um jeito ou de outro, à presença do povo judeu em sua antiga
pátria. Contra todas as probabilidades, o povo judeu, depois de
quase dois mil anos de dispersão, está retornando à sua terra.
Quase 40 por cento do povo judeu já retornou, e, como as Es-
crituras predizem, eles estão debaixo de constantes ataques ou da
ameaça de ataques iminentes. O moderno Estado de Israel tem
sido corretamente chamado de super sinal do fim dos tempos.

A scensão do gtobalism o
O globalismo é outro sinal discernível do fim dos tempos. As
Escrituras predizem em muitos lugares que no final dos tempos
A APOS TASIA VINDOURA

o mundo estará sob o governo de um único homem.4748O mundo


fará uma volta completa no final dos tempos. Assim como Nin-
rode governou o mundo nos dias depois do Diluvio, antes das
pessoas serem espalhadas pela face da terra, Satanás trará o mun-
do todo de volta mais uma vez sob o governo de um homem
controlado por ele/18 O globalismo, acelerado pela tecnologia e
por uma economia internacional, surpreendentemente prenun-
cia o que as Escrituras expõem.

Ratificação de um tratado de p a z
De acordo com as Escrituras, o fim dos tempos começará com
um tratado de paz entre o último governante mundial (o Anti-
cristo) e a nação de Israel.49 Outras referências bíblicas apontam
na direção de um tempo breve de paz mundial quando o fim dos
tempos começar.50 O atual clamor mundial por paz em tempos
perturbados aponta para onde as coisas estão se direcionando. O
mundo está ansioso para achar alguém que possa trazer seguran-
ça e paz ao nosso devastado planeta.

Rum ores d e guerra no O riente M édio


O foco do mundo no Oriente Médio é outro sinal dos tempos.
O palco para vários eventos do fim das eras está nessa região. Os
holofotes do mundo encontram-se no devastado Oriente Mé-
dio, exatamente como deveriamos esperar se a vinda do Senhor
está próxima.
As nações listadas em Ezequiel 38.1-7 (incluindo Rússia, Irã
e Líbia) são todas nações existentes com o propósito e o desejo
de atacar Israel, exatamente como Ezequiel profetizou há mais
de 2 500 anos.

47 Ver Apocalipse 1 3 . 1 1 3 ‫ ־‬18; 17.11‫ ־‬.


48 Ver Gênesis 11.1 -9; Apocalipse 13.4.
49 Ver Daniel 9.27; Ezequiel 38.8,11.
50 Ver lTessalonicenses 5.1 3‫ ;־‬Apocalipse 6.1 4‫־‬.
A QUINTA COLUNA

Rebelião da apostasia
Muitos outros sinais significativos poderíam ser mencionados.
Porém, um sinal do fim dos tempos que é Frequentemente ig-
norado ou negligenciado é a ascensão da apostasia, ou o gran-
de afastamento final. Andy Woods escreveu: “Apostasia é outro
sinal, muitas vezes acontecendo bem debaixo do nosso nariz,
que deixamos de reconhecer como um sinal do fim. Apostasia
é o sinal bíblico específico dado para indicar que a igreja está se
aproximando da conclusão da sua missão na terra”.51 O Novo
Testamento diz que a grande apostasia final está chegando. Para
entender esse evento futuro, nós precisamos nos voltar para
2Tessalonicenses 2.

Apostasia c o Apocalipse

As cartas do apóstolo Paulo aos tessalonicenses foram escritas em


sua segunda viagem missionária, durante sua estada em Corin-
to.52 Embora essas cartas abordem muitos tópicos importantes,
sua característica marcante é um foco no futuro. Elas são fre-
quentemente chamadas de “epístolas escatológicas”, visto que a
vinda do Senhor é mencionada em todos os capítulos.
O segundo capítulo da segunda carta aos tessalonicenses é um
dos grandes capítulos proféticos das Escrituras. Nenhum outro
capítulo na Bíblia inteira cobre o mesmo terreno profético. Para
entender esse capítulo e seu conteúdo, precisamos conhecer um
pouco do pano de fundo. Algum tempo depois de Paulo ter es-
crito sua primeira carta aos tessalonicenses, surgiram na igreja
mestres que estavam defendendo falsas doutrinas. A natureza
deste falso ensino em particular era que o dia do Senhor já havia
chegado e a igreja já estava na grande tribulação. A tribulação,

51 Woods, “The Last Days Apostasy of the Church (Part 1)”.


52 Ver Atos 18.111‫־‬.
A APOSTASIA VINDOURA

ou dia do Senhor, é o tempo final do julgamento global que pre-


cede a segunda vinda de Cristo. Aparentemente, esse falso ensi-
no surgiu de várias formas, sendo uma delas uma carta forjada e
falsa que afirmava ser do apóstolo Paulo. Antes de endireitar esse
problema, Paulo enquadra a questão:

Irm ã o s, q u a n to à v in d a d e n o sso S e n h o r Jesu s C ris to e à n o ssa


re u n iã o c o m ele, ro g a m o s a v o cê s q u e n ã o se d e ix e m a b a la r
n e m a la rm a r tã o fa c ilm e n te , q u e r p o r p ro fe c ia , q u e r p o r p ala-
v ra, q u e r p o r c a r ta s u p o s ta m e n te v in d a d e n ó s, c o m o se o d ia
d o S e n h o r já tivesse c h e g a d o .5354

Embora possa parecer estranho para nós que os novos crentes


em Tessalônica pudessem dar ouvidos ao ensinamento de que o
dia do Senhor no final dos tempos já tivesse chegado, nós pre-
cisamos lembrar que eles estavam enfrentando séria perseguição
(como está refletido em 2Tessalonicenses 1). Sua atual persegui-
ção os tornou suscetíveis à noção de que o dia do Senhor já
havia chegado. Isso fez todo sentido à luz das suas circunstân-
cias. Porém, a realidade de estarem no dia do Senhor levantou
uma questão importante. Paulo, em sua primeira carta a eles
(lTessalonicenses), prometeu libertação do futuro tempo de
tribulação por meio de sua captura ou arrebatamento ao céu.5/í
Se o que eles estavam ouvindo agora fosse verdade, significaria
que o ensino anterior de Paulo sobre a libertação deles estava
errado ou que Paulo estava correto, e eles tinham sido deixa-
dos para trás.55 Nenhuma dessas probabilidades era atraente e

53 2Tessalonicenses 2.1 2‫־‬.


54 Ver lTessalonicenses 1 . 9 9 ‫ ־‬10; 4.17 ; 5.1 ‫־‬.
55 O faco de os cessalonicenses ficarem tão perturbados com o ensino que dizia que
eles estavam no dia do Senhor indica que isso não era algo que eles estavam espe-
rando. Isso apoia o tempo pré-tribulação do arrebatamento. Se os tcssalonicenses
acreditavam que precisariam suportar a tribulação antes da vinda de Cristo, então
por que eles ficariam tão perturbados ao receberem uma carta que dizia que o dia
A QUINTA COLUNA

cies estavam seriamente abalados “com o impacto de um grande


terremoto, e eles continuavam a sentir os perturbadores efeitos
daquele relatório56.‫״‬
A questão que os tessalonicenses enfrentavam era se os seus
sofrimentos presentes indicavam que eles já haviam entrado no
período da tribulação. A resposta de Paulo para essa questão é
um enfático náo. Ele diz aos tessalonicenses que eles não estão
no dia do Senhor. Para concluir a sua resposta, ele aponta duas
coisas que deveríam acontecer antes que aquele dia viesse, que
ainda não haviam acontecido: “Não deixem que ninguém os en‫־‬
gane de modo algum. Antes daquele dia virá a apostasia e, então,
será revelado o homem do pecado, o filho da perdição”.5‫ ׳‬Duas
coisas precisam acontecer antes que o fim dos tempos comece:
um evento precisa ocorrer (a rebelião) e uma pessoa precisa apa-
recer (o rebelde).
O ponto de Paulo é claro: como nenhum desses eventos tinha
acontecido, o dia do Senhor não poderia ter chegado. Mas virá
algum dia.

do Senhor já tinha chegado? Eles ficariam animados, náo abalados e temerosos. Isso
significaria que aquilo que Paulo os havia ensinado estava sendo cumprido. Eles
teriam encarado a tribulação com esperança e persistência, sabendo que a vinda
do Senhor aconteceria em menos de sete anos. Mas a resposta deles foi exatamente
o oposto. Eles se deixaram “abalar” c “alarmar”. A carta ilegítima que eles tinham
recebido contradizia o que Paulo os havia ensinado em 1Tessalonicenses 4-5. Isso
podia significar que Paulo havia mentido para eles antes sobre o arrebatamento pré-
-tribulaciónista, que eles não entenderam o que ele disse ou que o arrebatamento
já tinha chegado e eles foram deixados para trás. Qualquer um desses cenários seria
devastador. A única conclusão lógica de 2Tessalon¡censes 2 .1 2 ‫ ־‬é que, dos prévios
ensinamentos de Paulo em 1Tessalonicenses, os tessalonicenses devem ter acredita-
do que o arrebatamento aconteceria antes do começo da tribulação. Paulo foi além e
mostrou aos crentes, cm 2Tessalon ¡censes 2 .3 1 1 ‫־‬, que o ensino que dizia que eles já
estavam no dia do Senhor era uma falsa doutrina e que o medo deles de já estarem
nesse período era infundado. Para uma discussão mais minuciosa da cronologia do
arrebatamento, ver Mark Hitchcock, The End (Carol Stream, IL: Tyndale, 2012).
56 Charles R. Swindoll, Steadfast Christianity: A Study o f Second Thessalonians, Bible
Study Guide (Anaheim, CA: Insight for Living, 1986), p. 23.
57 2Tessalonicenses 2.3.
A APOSTASIA VINDOURA

A Aproximação da Apostasia

O primeiro evento que precisa vir antes do dia do Senhor é a


apostasia, ou rebelião. Paulo está dizendo que o derradeiro dia
do Senhor não pode vir até que haja um afastamento generaliza-
do da fé verdadeira. Alguns entendem o afastamento aqui como
sendo uma partida física, ou o arrebatamento da igreja para o
céu. Apesar de tal visão ter algum mérito, a maioria dos expositores
acredita que isso se refere a um afastamento ou partida teológica.58
O artigo definido aparece antes da palavra “apostasia‫ ״‬sinali-
zando que não é apenas um desvio qualquer da fé, mas um que é
único e que os leitores aparentemente já conheciam. É a aposta-
sia. Essa apostasia final implicará num afastamento generalizado,
em grande escala, por parte daqueles que professam conhecer a
Deus. Alguns estudiosos veem a apostasia em 2Tessalonicenses
2.3 em termos mais abrangentes, referindo-se a uma “rebelião
em escala mundial contra a autoridade no final dos tempos‫ ״‬-

58 Uma vez que a palavra apostasia significa “partida”, alguns têm entendido o termo
“a apostasia” como a partida física da própria igreja - ou seja, o arrebatamento,
já que o arrebatamento será uma partida física dos crentes da terra. Se essa visão
fosse correta, ela definitivamente colocaria o arrebatamento antes da tribulação, o
que seria uma vitória para a posição pré-tribulacionista. Apesar disso ser atraente
para os pré-tribulacionistas, existem seis razões principais para rejeitar uma partida
física como sendo o significado de apostasia neste contexto: (1) no grego clássico,
hè apostasia (“a apostasia”) era usado para denotar uma rebelião política ou militar;
(2) na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento), esse termo era usado
como rebelião contra Deus (ver Josué 22.22; Jeremias 2.19); (3) em 2Macabeus
2.15 (um livro não canônico do período entre o Antigo c o Novo Testamentos),
ele é usado como apostasia ao paganismo; (4) cm Atos 21.21, o único outro uso do
substantivo no Novo Testamento, há referência à apostasia ou partida física de Moi-
sés; (5) o arrebatamento não é um ato de partida realizado pelos santos, os santos
são participantes passivos e não ativos; e (6) em 2Tessaionicenses 2.1, Paulo se refere
ao arrebatamento como a “nossa reunião com ele”. Parece estranho usar esse termo
improvável (“a apostasia”) para a mesma coisa no contexto imediato. Esses seis pon-
tos são de D. Edmond Hiebert, The Thessalonian Epistles (Chicago: Moody Press,
1971), p. 331. Por essa razão, a maioria dos expositores bíblicos tem entendido “a
rebelião” (apostasia) não como a partida física da igreja no arrebatamento, mas sim
como uma partida doutrinária, teológica e moral da verdade.
A QUINTA COLUNA

isto é: uma revolta geral contra Deus.59 Apesar do fato de que


isso certamente ocorrerá, no contexto de 2Tessalonicenses 2.1-3,
a apostasia parece descrever um afastamento por parte daqueles
que professam conhecer a Deus. João Calvino observa:

P o rta n to , P a u lo u sa o te rm o re b e liã o o u “ap o s ta sia ” sig n ifi-


c a n d o u m tra iç o e iro a f a s ta m e n to d e D e u s , n ã o d a p a rte d e
u m a p esso a o u d e u n s p o u c o s in d iv íd u o s , m a s alg o tã o g ra n d e
q u e se e s p a lh a ria e n tre u m a m p lo c írc u lo d e p esso as. A gora,
n in g u é m p o d e ser c h a m a d o d e a p ó sta ta a n ã o ser q u e te n h a pre-
v ia m e n te professado seg u ir a C risto e o evangelho. A ssim , Paulo
está p red iz en d o u m a rebelião generalizad a n a igreja visível.60

Referindo-se a 2Tessalonicenses 2.3, G. K. Beale diz: “A apos-


tasia não ocorrerá primeiramente no mundo não cristão, mas
sim dentro da comunidade da aliança”.61 A cristandade está indo
em direção a um grande afastamento. Quando 2Tessalonicenses
foi escrita, havia, sem dúvida, alguns erros na igreja, mas não
havia uma apostasia generalizada dentro do cristianismo no sen-
tido ordinário do termo. As igrejas ainda eram fiéis ao Senhor.
Paulo está declarando que o dia do Senhor não pode vir até que
haja primeiro um afastamento universal e global da fé. As Es-
crituras falam com frequência dessa apostasia vindoura (ver a
próxima seção: “De Mal a Pior”).

59 F. F. Bruce, 1 & 2 7he$$alonian$> World Biblical Commentary, eels. David A. Hub-


bard c Glenn W. Barker, vol. 45 (Waco, TX: Word Books, 1982), p. 166. Ver cam-
bem Leon Morris, 1 and 2 Thes$alonian$> Tyndale New Testament Commentaries,
ed. rev. (Grand Rapids, MI: Eerdmans, 1989), p. 127.
60 Joáo Calvino, 1 & 2 Thessalonians., Crossway Classic Commentaries, cds. Alister
McGrath e J. I. Packer (Wheaton, IL: Crossway, 1999), p. 8 6 8 7 ‫־‬.
61 G. K. Beale, 1-2 Thessalonians, IVP New Testament Commentary Series, ed. Grant
R. Osborne (Downers Grove, IL: In terVarsity Press, 2003), p. 204. Beale providen-
cia muitos pontos convincentes para apoiar essa visão.

mm
A APOSTASIA VINDOURA

No século XXI, a situação é inteiramente diferente da que


foi para a igreja de Tessalônica. Hoje há, certamente, uma apos-
tasia generalizada. A triste verdade é que existem muitos que
não estão pregando o verdadeiro evangelho e, além disso, estão
negando as doutrinas centrais de nossa fé cristã. Muitos estão
ensinando que Cristo é somente um homem, que ele não nas-
ceu de uma virgem, que ele não viveu sem pecado, que ele não
ressuscitou dos mortos, que a salvação não é por seu sacrifício
expiatório, que as pessoas podem ir para o céu por outros meios
além de Jesus e que ele não voltará. Eles negam que as Escrituras
são a inerrante e infalível Palavra de Deus e decidem quais partes
da Bíblia são importantes e quais são opcionais ou até mesmo
ultrapassadas. Eles rejeitam os padrões bíblicos para uma vida
santa e aceitam práticas como a atividade homossexual, inclusive
entre os líderes da igreja. De certa forma, a apostasia já está aqui
e está se expandindo em força e intensidade.
O segundo evento que precisa ocorrer antes da tribulação final
é a revelação ou o desvendar do ‫״‬homem da iniquidade”. Esse
homem da iniquidade não é outro senão o Anticristo final. “Ho-
mem da iniquidade” é um dos seus muitos nomes registrados
nas Escrituras. O versículo a seguir descreve a natureza ultrajante
do seu pecado: “Este se opõe e se exalta acima de tudo o que se
chama Deus ou é objeto de adoração, chegando até a assentar-se
no santuário de Deus, proclamando que ele mesmo é Deus”.62
A ultrajante deificação própria do Anticristo será o último passo
descendente na rebelião humana contra o Deus verdadeiro.
A relação entre a apostasia e o Anticristo é clara. O grande
afastamento final preparará o mundo para a recepção do Anti-
cristo final. John Stott resume bem isso:

62 2Tessalonicenses 2.4.
A QUINTA COLUNA

O q u e ele faz é e scla re ce r a o r d e m d o s e v e n to s fu tu ro s . O d ía


d o S en h o r (2 b ) n a o p o d e já e s ta r a q u í, ele d iz, p o r q u e aq u e le
d ia n ã o v irá a n te s q u e d u a s o u tr a s co isas a c o n te ç a m . U m c e rto
e v e n to p re c isa a c o n te c e r e u rn a c e rta p esso a p re c isa aparecer.
E le c h a m a o e v e n to d e a rebelião (apostasia, “a R e v o lta c o n tra
D e u s ” [ N T L H ] ) e a p esso a d e 0 h o m em do p eca d o , o re b e ld e.
A in d a q u e P a u lo n ã o o c h a m e d e “A n tic ris to ” , é e v id e n te m e n -
te q u e m ele é. J o ã o escrev e s o b re a e x p e c ta tiv a d a su a v in d a .63

Charles Ryrie acrescenta: “É como se a infidelidade daqueles


que professam ser religiosos irá preparar o caminho e possivel-
mente até prover a ocasião para a exibição final da revolta contra
Deus na pessoa do homem do pecado. Mas o dia do Senhor não
estará presente até que essa grande apostasia percorra a terra”.64
Quando aqueles que professam conhecer a verdade se virarem
completamente contra ela, eles abraçarão a mentira definitiva —
adorando um homem como Deus.

Dc Mal a Pior

Um punhado de passagens do Novo Testamento nos dizem que


a apostasia será uma das características determinantes dos últi-
mos dias. Cada uma das seguintes passagens fornece informa-
ções importantes sobre a natureza da apostasia nos últimos dias.

!Tim óteo 4.1-3


O versículo 1 afirma: Ό Espírito diz claramente que nos últi-
mos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enga-
nadores e doutrinas de demônios”.

63 John R. W. Stott, 'lhe Message o f 1 & 2 7h>essaioniam (Downers Grove, IT: InterVar-
sit)‫ ׳‬Press, 1991), p. 158.
64 Charles Ryrie, First and Second Ihessalonians (Chicago: Moody, 1959), p. 103104‫־‬.
Λ APOSTASIA VINDOURA

O período em que a apostasia ocorrerá é definido como “úl-


timos tempos”. A palavra “últimos‫ ״‬ou “posteriores” indica que
aqueles tempos ainda estavam por vir quando Paulo escreveu
essa carta. A palavra usada aqui para “tempos” é a palavra grega
kairois. Ela se refere a temporadas ou períodos mais curtos de
tempo. Ela está no plural para indicar que haverá mais do que
um - ou seja, esses tempos de apostasia acontecerão intermiten-
temente através da era da igreja.65

2Tim ói€0 3.1-13


Esta passagem extensiva contém algumas das palavras finais do
apóstolo Paulo —palavras de advertência. Nesses versos, Paulo
cataloga dezenove características que prevalecerão durante várias
temporadas no decorrer dos últimos dias da igreja. Essas con-
dições vão piorar à medida que a era da igreja progride. Iremos
olhar mais detalhadamente para essa passagem no capítulo 6.

2Pedro 2.1-22; 3 .3 -6
Em 2Pedro 2.1-22, o apóstolo escreve uma longa denúncia con-
tra os apóstatas que ele prevê que entrarão na igreja para enganar
o povo de Deus e negar e desobedecer a verdade. Os versículos
1-2 dizem: “No passado surgiram falsos profetas no meio do
povo, como também surgirão entre vocês falsos mestres. Estes
introduzirão secretamente heresias destruidoras, chegando a ne-
gar o Soberano que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repen-
tina destruição. Muitos seguirão os caminhos vergonhosos desses
homens e, por causa deles, será difamado o caminho da verdade”.
Em 2Pedro 3.3-4, Pedro continua: “Antes de tudo saibam
que, nos últimos dias, surgirão escarnecedores zombando e se-
guindo suas próprias paixões. Eles dirão: Ό que houve com a

65 Homer A. Kent, Jr., The Pastoral Epistles, ed. rev. (Chicago, Moody, 1986), p. 143.
A QUINTA COLUNA

promessa da sua vinda?”’. Pedro diz que os apóstatas negarão até


mesmo a segunda vinda de Cristo.

Judas 1.1-25
Judas, um meio-irmão de Jesus, escreve toda a sua breve carta
como um aviso de que os apóstatas sobre quem Pedro havia alcr-
tado poucos anos antes já tinham chegado, rastejando para den‫־‬
tro da igreja. Eu (Mark) sempre achei interessante que a pequena
carta de Judas, que é o único livro da Bíblia devotado exclusi-
vamente à apostasia, está logo antes do livro de Apocalipse. De
muitas maneiras, Judas serve como pórtico ou antessala para o
livro de Apocalipse ao revelar como a igreja visível e professa será
nos dias que antecederem os eventos desdobrados em Apocalipse.

Sinal cios Tempos?

Nas Escrituras, a apostasia possui uma ‘orientação escatológica


específica”.66 A apostasia que vemos aumentando hoje está se en-
caminhando totalmente em direção ao afastamento final pleno
predito em 2Tessalonicenses 2.3, que as Escrituras dizem que
irromperá quando o fim dos tempos começar a se desenrolar.
Muitos estão atualmente esperando que haja um grande reaviva‫־‬
mento global à medida que o fim se aproxima. É claro que isso é
possível, e nós esperamos e oramos para que isso aconteça, mas
John Phillips nos dá uma útil perspectiva bíblica:

O rio d a a p o s ta sia e stá a tu a lm e n te s u b in d o . O s “te m p o s p e ‫־‬


rig o so s” so b re os q u a is P a u lo escrev e u e s tã o s o b re n ó s. E m
b rev e o rio te rá su a s m a rg e n s tr a n s b o rd a d a s , q u a n d o to d o s os
a flu e n te s d e ilu são e e n g a n o se u n ir e m à c o r r e n te p rin c ip a l.

66 Mal Couch, ed., A Biblical Theology o f the Church (Grand Rapids, MI: Kregel,
1999), p. 110.
Λ APOSTASIA VINDOURA

Q u a n d o a tin g ir o n ív e l d e e n c h e n te , esse rio in u n d a r á a te rra


n a ap o s ta sia fin al, q u e é a e n tro n iz a ç ã o d o m essias d o D ia b o
c o m o o d e u s e rei d e s te m u n d o . [...] A lg u n s p e n s a m q u e p o -
d e m o s e s p e ra r p o r u m d e s p e r ta m e n to e s p iritu a l n o m u n d o
to d o a n te s d o a r r e b a ta m e n to d a ig reja, m a s essa p assag em e m
2 T essalo n icen ses in d ic a o o p o s to ; u m a b a n d o n o m u n d ia l d a
fé p o d e ser e s p e ra d o . D e u s c c r ta m e n te p o d e e n v ia r u m reav i-
v a m e n to a n te s q u e ele c h a m e a ig re ja p a ra casa, m a s as E scri-
tu ra s n ã o p ro fe tiz a m isso.67

O aprofundamento da apostasia é um sinal dos tempos. Em


algum grau a apostasia sempre esteve dentro da igreja, mas está
chegando um período futuro distinto de escuridão moral e enga-
no espiritual. Hoje não há dúvida de que um profundo engano e
uma crescente apostasia estão sobre nós. O que vemos na igreja
de hoje é no mínimo chocante. Estamos testemunhando o au-
mento e a intensificação da apostasia que nós devemos esperar
se a volta de Cristo está próxima. Apesar do fato de que as coisas
sempre podem piorar, achamos difícil acreditar que elas possam
ficar muito piores do que os mal-estares teológico e moral que
temos testemunhado nos últimos cinquenta anos, especialmente
na última década. Parece que estamos na vanguarda da apostasia
final, e, à medida que o fim se aproxima, a batalha se intensificará.
Caso você pense que estamos exagerando ou que estamos so-
zinhos em nossa avaliação da apostasia como um sinal do fim
dos tempos, aqui estão algumas citações de renomados e respei-
tados pastores e professores de profecia que compartilham esse
ponto de vista.

67 John Phillips, Exploring the Future: A Comprehensive Guide to Bible Prophecy (Grand
Rapids, MI: Kregel, 2003), p. 225, 269.
Λ QUINTA COLUNA

John Walvoord, antigo presidente do Dallas Theological Se-


minary, em seu livro The Church in Prophecy [A Igreja na Profe-
cia], acredita que o que vemos hoje é um sinal dos tempos:

O a u m e n to d o m a l, o c re s c im e n to d a h ip o c ris ia , d o e g o ísm o
e d a in c re d u lid a d e d e n tr o d o s lim ite s d a c r is ta n d a d e p ro fe ssa
são , d e a c o rd o c o m as E s c ritu ra s , sin a is d a p r o x im id a d e d o
fim d a era. A p e sa r d e e x istire m m ilh a re s d e c o n g re g a ç õ e s fi-
éis e m u ita s a lm a s d e v o ta s a in d a te s te m u n h a n d o fie lm e n te a
C r is to c m n o sso s d ia s m o d e rn o s , é d ific ilm e n te v e rd a d e q u e
a m a io r ia d a c r is ta n d a d e e ste ja d a n d o u m te s te m u n h o v erd a -
d e iro . E a exceção e n ã o a re g ra q u e o s g ra n d e s fu n d a m e n to s
d a igreja se ja m a n u n c ia d o s n o p ú lp ito e q u e os o u v in te s m a -
n ife ste m a g ra ç a tr a n s f o r m a d o r a d e D e u s n a v id a e n a d ev o ç ão
sacrificia l. E m re s u m o , o s ú ltim o s d ia s d a ig reja n a te rr a são
d ia s d e a p o stasia s te o ló g ic a e m o ra l, d ia s d e in c re d u lid a d e e
d ia s q u e c u lm in a rã o e m ju lg a m e n to d iv in o .68

Walvoord conclui: “As Escrituras predizem que haverá uma


crescente apostasia ou afastamento do Senhor à medida que a era
da igreja progredir, e o seu aumento pode ser entendido como uma
indicação geral de que o arrebatamento está próximo”.69
J. Dwight Pentecost, uma autoridade notável na profecia bí-
blica, declara:

A b u n d a n te e v id ê n c ia p o r to d a p a r te m o s tra q u e o s h o m e n s
e s tã o se a fa s ta n d o d a fé. E les n ã o a p e n a s d u v id a m d a Pala-
v ra; eles a re je ita m a b e rta m e n te . E sse fe n ô m e n o n u n c a fo i tã o
d o m in a n te c o m o h o je . N o p e r ío d o d a h is tó ria e c le siástic a co-
n h e c id o c o m o Id a d e d as T revas, os h o m e n s e ra m ig n o ra n te s

68 John F. Walvoord, The Church in Prophecy (Grand Rapids, MI: Zondcrvan, 1964), p. 66.
69 Ibid., p. 50.
A APOSTASIA VINDOURA

a c erca d a v e rd a d e ; m a s n u n c a h o u v e u m a é p o c a e m q u e os h o -
m e n s n e g a ra m e r e p u d ia ra m a v e rd a d e tã o a b e rta m e n te . Esse
r e p ú d io a b e rto , d e lib e ra d o e in te n c io n a l d a v e rd a d e d a B íb lia
é d e s c rito n as E sc ritu ra s c o m o u m a d a s p rin c ip a is c a ra c te rísti-
cas d o s ú ltim o s d ia s d a ig reja n a te rr a .70

Harold John Ockenga foi uma das principais figuras do evan-


gelicalismo norte-americano nos meados do século XX. Ele
pastoreou a igreja Park Street, em Boston, e ajudou a fundar
o Fuller Seminary e o Gordon-Conwell Theological Seminary.
Comentando sobre a apostasia como um sinal dos tempos, ele
disse: “Nesta presente grande apostasia do cristianismo neo testa-
mentário, podemos ver um sinal que justificará a nossa crença de
que a vinda de Cristo pode não estar muito longe. Sempre houve
alguma medida de apostasia e por vezes tal apostasia foi grande,
mas não como tem sido nos últimos cinquenta anos”.71
Donald Grey Barnhouse, um grande pastor presbiteriano,
disse: “Fique atento para tal apostasia, disse Paulo; ela será o
sinal do dia do Senhor. Bem, é possível que estejamos vendo os
primeiros estágios de tal apostasia nos nossos dias. Se alguma vez
houve um afastamento da verdade, é em nossos dias. [...] Mas
nós só estamos vendo a ponta do iceberg”.72
John Horsch, escrevendo no início do século XX, disse:

A a p o s ta sia q u e é e v id e n te p o r to d o la d o é u m sin a l in e q u ív o -
co d o s te m p o s . E la d e v e ria d e s p e rta r a c ris ta n d a d e c re n te d a
su a le ta rg ia e in d ife re n ç a p a ra u m a c o m p re e n s ã o d as c o n d i-
ções c o m o elas são. C o m o c o n s e q u ê n c ia d a a p o s ta sia , a ig reja

70 J. Dwight Pentecost, Will Man Survive? (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1980), p. 58.
71 Harold John Ockenga, citado em “Apostasy”, Paul Lee Tan Prophetic Minsitries.
Disponível em: <www.tanbible.com/tol_ill/apostasy.htm>.
72 Donald Grey Barnhousc, Thessalonians: A n Expositional Commentary (Grand Rapi-
ds, MI: Zondervan, 1977), p. 98.
A QUINTA COLUNA

se vê h o je e n c a r a n d o u m a c rise c o m o n u n c a a n te s n o d e c o rre r
d a su a h is tó ria .73

Estes são os últimos dias de apostasia para a igreja. Ainda não


estamos na grande queda final que imediatamente prenuncia a
chegada do fim dos tempos, mas estamos na vanguarda.
Nas próximas páginas, queremos ser mais específicos sobre
algumas das áreas onde a apostasia está se acelerando e dar enco‫־‬
rajamentos práticos e esperançosos que nos ajudarão a acordar,
levantar e terminar a corrida fielmente, passando o bastão intac-
to para a próxima geração, se nosso Senhor não vier antes.

73 John Horsch, Modern Religious Liberalism (Scottdale, PA: Fundamental Truth De-
pot, 1921), p. 322.
C apítulo 3

A FÉ DOS NOSSOS PAIS


Você, porém, fa le 0 que está de acordo com a sã doutrina.
Tito 2.1

V iv e m o s n u m m u n d osentimentos superam o pensa‫־‬


o n d e os

mento racional, onde uma declaração pode ser considerada “ver-


dadeira” não porque ela realmente é, mas simplesmente porque
parece certa ou porque alguém quer que seja verdadeira. Pegue
qualquer verdade bíblica - seja sobre a soberania de Deus, a rea-
lidade da punição eterna ou sobre o casamento apenas entre um
homem e uma mulher - e se ela entrar em conflito com a crença
pessoal de alguém ou com o desejo do que a realidade deveria
ser, ela será simplesmente redefinida ou completamente rejeita-
da. O espírito predominante desta era é um onde os indivíduos
agora podem construir o seu próprio mundo da verdade, um
que se adapta a eles e à percepção deles da realidade.
E nesse sentido que os humanos essencialmente se coroaram
como pequenos deuses. E, por mais fantástico que isso soe, é
como a maioria das pessoas praticamente funciona. Nós toma-
mos a verdade, a doutrina e as decisões morais em nossas pró-
prias mãos e caímos no engano que os nossos primeiros pais
abraçaram no jardim. Questionando as claramente reveladas
vontade e Palavra de Deus, Adão e Eva acreditaram que realiza-
ção pessoal e felicidade estavam em algum lugar fora da provisão
A APOSTASIA VINDOURA

amorosa do Pai. E então, afastando-se da sua verdade e do seu


plano, eles morderam a isca e caíram na mentira, tornando-se
“como Deus”.74
E aqui estamos nós.
Milhares de anos depois, ainda pensamos que podemos nos
desviar da Palavra de Deus e, de alguma forma, não morrer. A
atração intoxicante de estar no controle das nossas próprias vidas
e de escrevermos o roteiro da nossa realidade é frequentemente
uma tentação prazerosa demais para resistir. Mas somente quan-
do reconhecemos que há um Deus e que não somos ele é que as
nossas mentes podem clarear e nós podemos começar a aprovei-
tar um relacionamento satisfatório com o nosso Criador. Nossa
fé não é cega, e quando cremos sem razão somos facilmente per-
suadidos para longe da verdade de Deus por um argumento mais
promissor ou convincente.
Isso nos trás à pergunta: por que você acredita no que acredi-
ta? A questão não é tanto sobre evidência quanto é sobre ímpeto.
Em outras palavras: que fatores o motivam a aceitar e a se apro-
priar de uma crença em particular? Quando você diz que acre-
dita em uma verdade bíblica, de onde essa crença vem? Alguns
podem dizer:
• Meus pais me ensinaram;
• É o que o meu pastor crê;
• Eu li num livro cristão;
• Um cristão famoso disse isso;
• Parece certo;
• E o que eu sempre acreditei;
• Acreditar nisso me dá conforto;
• Isso me faz feliz;
• Parece mais inclusivo;

74 Gênesis 3.5.
A FÉ DOS NOSSOS PAIS

• Eu não posso imaginar Deus se comportando de outra


maneira;
• Eu estudei isso seriamente;
• Está na Bíblia.

Quando você olha para as fontes da nossa fé e por que nós


escolhemos abraçar uma certa doutrina ou verdade como nossa,
fica claro que somente uma fonte é cem por cento confiável. O
ponto principal de qualquer crença é que se ela não pode ser
apoiada pelas Escrituras, ela não é nada mais do que pensamen-
to ilusório, especulação ou teoria. Então, como exatamente é
formada uma crença? O que é? Ter uma convicção realmente
importa? E, se sim, por quê?
De acordo com a Bíblia, crença bíblica é mais do que um con-
sentimento intelectual. E mais do que um acenar espiritual da
cabeça. Em vez disso, ela ocorre quando tanto a mente quanto a
vontade se comprometem com a verdade de Deus. A volição está
envolvida, pois a fé é uma escolha consciente. A crença se conec-
ta com o espírito, e aquela crença então informa e influencia o
pensamento da pessoa, focalizando a lente através da qual ele ou
ela vê Deus, a vida, os outros, o mundo e a sua própria realidade.
Esse tipo de fé, derivada da Escritura, dá um discernimento que
nos ajuda a navegar o mundo confuso e contraditório em que
vivemos hoje.
Alguns hoje em dia argumentam: “Que diferença faz o que
você crê, desde que você ame Deus e os outros? Não são esses
os maiores mandamentos?”. Sim, esses são os maiores manda-
mentos, mas se essa fosse a soma total de tudo o que Deus qui-
sesse que soubéssemos, acreditássemos e fizéssemos, os sessenta
e seis livros da Bíblia seriam reduzidos a dois versículos. Há um
mandamento maior, mas ele de maneira alguma diminui a nossa
responsabilidade com todos os outros. Além disso, quem é esse
A APOSTASIA VINDOURA

Deus que somos ordenados a amar de todo o coração? O que


sabemos sobre ele? O que ele fez? Como ele é?
Não é possível efetivamente amar ou adorar um Deus do
qual nada sabemos. E mais, quanto mais nós sabemos sobre
este grande Deus, mais somos atraídos a amá‫־־‬lo e adorá-lo mais
profundamente. Portanto, nós precisamos encontrar a verdade
sobre ele; do contrário, o nosso amor não tem um objeto real
e acabamos mais uma vez com um deus produzido por nossas
próprias mentes.
Se realmente cremos que toda a Bíblia é divinamente inspi-
rada, então cada palavra dela é, como Paulo escreveu, “útil para
o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução
na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente
preparado para toda boa obra”.75
A beleza disso é que isso significa que Deus pretende que nós
ultrapassemos o mero “saborear dos Salmos”. Ele também nos
convida a mergulhar em Deuteronômio, estudar 2Timóteo e ler
Apocalipse. Significa que nós nos importamos com 2Crônicas
bem como com Colossenses. Como é trágico quando os cristãos
frequentemente tratam os livros da Bíblia como roupas velhas
no armário: “Eu não gosto mais daquela. Esta já não me serve.
Está velha, fora da estação ou saiu da moda. Ninguém mais usa
esse estilo”.
No entanto, embora a verdade possa de fato “sair da moda” na
sociedade, Deus e a sua Palavra nunca mudam. Por isso, aqueles
que acreditam na verdade de Deus reconhecem que eles irão, às
vezes, tornar-se impopulares ou até odiados quando suas crenças
colidirem de frente com a cultura. De acordo com Jesus, isso faz
parte do discipulado e é esperado.76

75 2Timóteo 3 .1 6 1 7 ‫־‬.
76 Ver Joáo 15.18-27.
A FÉ DOS NOSSOS PAIS

Por Que a Ycrdade Importa

Você já notou como as pessoas hoje estão seletivas sobre quais


partes da Bíblia elas aceitam como históricas, verdadeiras, rc-
levantes e necessárias para a vida no século XXI? Mesmo cm
algumas das principais denominações, muitos estão escolhendo
seguir os “básicos da fé”, ignorando, repudiando ou negando
completamente o resto da Palavra de Deus como opcional ou
até mesmo, como o popular autor Rob Bell sugeriu, “irrele-
vante” para a cultura dos nossos dias.7‫ ׳‬Mais ou menos como
não pegar o quiabo na mesa das saladas do restaurante, há um
movimento crescente entre os millennialfs cristãos em direção a
um entendimento figurativo, em vez de literal, da Bíblia. Entre
suas discussões há uma releitura do gênero, do relato da criação
em Gênesis, do casamento e divórcio, do papel das mulheres na
igreja e da homossexualidade.778
Essa definitivamente não é a fé do seu pai. Nem a de Paulo.
Mas é justo perguntar: quanto conteúdo da nossa fé realmente
importa? Existe realmente apenas uma fé à qual todos nós de-
veriamos aderir? Ou existem apenas algumas verdades centrais,
com o resto sendo qualquer coisa que queremos acreditar?
Uma maneira de abordar esse assunto é lembrando que a ver-
dade não existe num vácuo. Vivemos em um mundo onde existe
tanto o bem quanto o mal, tanto a virtude quanto o vício. Existe
um Deus e um Diabo reais, e existe uma natureza pecaminosa
dentro de cada um de nós que resiste a Deus e se rebela contra
ele. Satanás, o ego e um planeta saturado de pecado criam juntos

77 Em uma entrevista no programa SuperSoul Sunday, de Oprah Winfrey, Rob Bell


disse: “Nós estamos quase lá. Eu acho que a cultura já chegou lá. E a igreja conti-
nuará sendo ainda mais irrelevante quando citar cartas de 2 000 anos atrás como
sua melhor defesa”. Ver “Rob Bell Suggests Bible Not Relevant to Todays Culture”,
CBN News, 19 fev. 2015. Disponível em: <goo.gl/EXvoBd>.
78 Jim Minch, “Evangelicals Arc Losing the Bactle for the Bible. And They’re Just Fine with
That”, Los Angeles Review o f Books, 15 lev. 2016. Disponível em: <goo.gl/115gqyW>.
A APOSTASIA VINDOURA

um ambiente onde mentiras e a maldade são tão abundantes


como o ar que respiramos:
• Mentiras sobre Deus, humanidade, felicidade e vida
após a morte;
• Teorias das origens nascidas em mentes obscuras e intelec-
tos desprovidos da verdade ou da disposição de acolhê-la;
• Mentiras sobre o que e quem somos como humanos;
• Enganos intencionais sobre gênero, estrategicamente
plantados em nossa consciência coletiva pelo próprio
grande enganador.

Respirando essa atmosfera, às vezes fica difícil discernir entre


verdade, meias verdades e mentiras descaradas. Todos os dias,
nós caminhamos por um campo minado de falsidade. Foi por
isso que o autor de Hebreus escreveu que crentes maduros são
aqueles que são “aptos para discernir tanto o bem quanto o
mal”.79 Crescer na graça e no conhecimento de nosso Senhor e
Salvador faz parte de manobrar com segurança através do campo
minado.80 Resumindo: entender e acreditar na verdade de Deus
nos habilita a discernir a diferença entre a verdade e as mentiras
sutis de Satanás.81
Mas isso não é tudo. A sã doutrina faz muito mais por você:
• Ela o nutre na fé;82
• Ela o mantém fiel a Deus quando, nos últimos dias, as
pessoas minimizam a importância do ensino bíblico,
chegando a repudiá-lo e a negá-lo;83

79 Hebreus 5.14.
80 Ver 2Pedro 3.18.
81 Ver Tito 1.10-2.1.
82 Ver ITimóteo 4.6.
83 Ver 2Timóteo 4 .2 3 ‫־‬.
A FÉ DOS NOSSOS PAIS

• Ela o ajuda a encorajar outros crentes na verdade e a refutar


aqueles que descaradamente contradizem a Escritura.84

Por exemplo: em seu encontro com a mulher samaritana, Je-


sus não somente expõe e corrige sua teologia incorreta como
também ilumina o seu entendimento quanto à natureza da ver‫־־‬
dadeira adoração:

V ocês, s a m a rita ñ o s , a d o r a m o q u e n ã o c o n h e c e m ; n ó s a d o ra -
m o s o q u e c o n h e c e m o s , p o is a sa lv aç ão v e m d o s ju d e u s . N o
e n ta n to , está c h e g a n d o a h o ra , e d e fa to já c h e g o u , e m q u e o s
v e rd a d e iro s a d o ra d o re s a d o ra rã o o Pai e m e s p írito e e m v e rd a -
d e. S ão estes o s a d o ra d o re s q u e o Pai p ro c u ra . D e u s é e s p írito ,
e é n ec essá rio q u e o s se u s a d o ra d o re s o a d o re m e m e s p írito e
e m v e rd a d e .85

Jesus não tem medo de ofender essa mulher ou de ferir as suas


emoções, porque ele sabe que isso não é o que amor significa e nem
como ele opera. Em vez disso, ele genuinamente se importa e quer
o melhor para ela; portanto, ele comunica a verdade de um jeito que
faz sentido para ela, mesmo que possa ser um tanto desconfortável.
Pense nisto. Deus concebeu e criou não apenas o corpo hu-
mano, mas também a mente e o espírito.86 Portanto, é lógico
que ele saiba como eles operam melhor, como eles se conectam
com ele e como eles lhe trazem a máxima glória. Jesus está en-
sinando aqui que adorar em espírito não pode estar divorciado
do conhecimento da verdade. Lógica e cronologicamente, a ver­

84 VerTiro 1.9; 1Timóteo 6 .3 5 ‫־‬.


85 João 4.22-24.
86 Ver Gênesis 1.26. Ser criado á imagem de Deus envolve possuir intelecto (ser capaz
de pensar e raciocinar), emoções (a capacidade de sentir) e vontade (a habilidade de
escolher). Também significa que somos seres espirituais. Embora estávamos mortos
espiritualmente pela queda de Adão, nos tornamos vivos mais uma vez através de
Cristo na salvação (ver Efésios 2.1,4-5; Colossenscs 2.11-13; Tito 3.5).
Λ APOSTASIA VINDOURA

dadeira adoração deve começar com a revelação da verdade de


Deus para nossas mentes. O culto irracional, portanto, é uma
contradição. Estar espiritual ou emocionalmente envolvido em
adoração requer algum conhecimento prévio daquilo que você
está adorando. Caso contrário, não é nada mais do que um exer-
cicio imaginativo, uma fé fantasiosa. Adoração autêntica começa
com conhecer alguma coisa sobre Deus. Assim, o conhecimen-
to de Deus (ensino saudável) naturalmente nos leva a adorar a
Deus, e nunca deveriamos experimentar um sem o outro.
Deus nos fez para saber. Ele projetou nossas mentes para ra-
ciocinar, abstrair, questionar, investigar, explorar e compreender.
Como resultado, a fé cristã é mais do que apenas desejar, ter
esperança ou acreditar. Ela envolve um nível de confiança inte-
lectual na verdade que Deus revelou, da revelação geral (Criação
e consciência) à revelação especial (Cristo e Escritura).8‫ ׳‬Por isso,
fé baseada no conhecimento sobre Deus e sua verdade revelada é
o que realmente nos habilita a entrar em adoração e nos tornar o
que Jesus chama de 'Verdadeiros adoradores”.8788 Caso contrário,
podemos adorar uma imagem falsa de Deus, que é o que a Bíblia
chama de idolatria. Ela nos desvia da experiência completa de
desfrutar quem ele realmente é!89
Paulo escreve:

P ois, e m b o ra v iv a m o s c o m o h o m e n s , n ã o lu ta m o s s e g u n d o
os p a d rõ e s h u m a n o s . As a rm a s c o m as q u a is lu ta m o s n ã o são
h u m a n a s ; ao c o n trá rio , são p o d e ro sa s em D e u s p a ra d e s tru ir
fo rtalezas. D e s tru ím o s a r g u m e n to s e to d a p re te n s ã o q u e se

87 Ver Romanos 1.18-20; 2.14-15 a respeito da revelação geral. Ver também Colossen-
ses 1.1519‫ ;־‬Hebreas 1.14‫ ־‬em relação à revelação especial através de Jesus Cristo.
88 João 4.23.
89 Ver Êxodo 2 0 .1 8 ‫־‬. Ver também Lxodo 32.1 6‫־‬, onde Israel retratou o seu Deus como
um bezerro de ouro. Essa imagem falsa de Deus não apenas insultou sua glória, mas
também levou a toda sorte de pecado e libertinagem.
A FÉ DOS NOSSOS PAIS

le v a n ta c o n tr a o c o n h e c im e n to d e D e u s e lev am o s c a tiv o to d o
p e n s a m e n to , p a ra to r n á - lo o b e d ie n te a C r is to .90

O que são essas fortalezas das quais Paulo fala aqui? Uma for-
taleza é como um forte, um lugar de força. Paulo as identifica
aqui como “argumentos” humanos (ou demoniacamente inspi-
rados), os quais são pensamentos, idéias, crenças, teorias, opi-
niões, filosofias, doutrinas e assim por diante - qualquer coisa
que contraste com o verdadeiro conhecimento de Deus como é
encontrado nas Escrituras. Paulo inclui “toda pretensão”, signi-
ficando aquelas idéias ou filosofias que são propostas ou apresenta-
das como sábias, eruditas, estabelecidas, científicas ou superiores à
Palavra.
Paulo as chama de fortalezas porque elas são fortificações
mentais e espirituais que capturam o nosso pensar a respeito de
Deus, da verdade e da vida. Elas aprisionam os nossos pensa-
mentos, escravizando-os em falsos padrões de raciocínio. Mas
o cristão influenciado pela Palavra pode resgatar esses pensa-
mentos expondo as mentiras pelo que elas realmente são. Desse
modo, viramos o jogo das estratégias de Satanás, levando esses
pensamentos aprisionados à obediência de Cristo.
Alguns anos atrás, eu (Jeff) escrevi um livro sobre a doutrina
da natureza pecaminosa - o que é, como opera e como podemos
superá-la. Usando a metáfora dos zumbis, eu retratei a natureza
pecaminosa como o “morto-vivo” dentro de nós que anseia nos
consumir. Como resultado, fui convidado a falar e expor o meu
livro numa convenção internacional com a temática zumbi em
Seattle. Dos mais de sete mil entusiastas de filmes de zumbis e de
terror que participavam da conferencia, várias centenas vieram
me ouvir falar. Talvez eles estivessem curiosos para saber o que um
autor cristão podería dizer em uma convenção sobre zumbis.

90 2Coríntios 10.35‫־‬.
Λ APOSTASIA VINDOURA

O moderador da sessão (John) era um ateu declarado. E, ape-


nas para zombar de mim e ridicularizar a minha fé, ele vestiu
um colarinho de sacerdote durante toda a entrevista. Quando
nós dois subimos ao palco, ele me apresentou assim: “O autor
Jeff Kinley nos contará agora de seu livro sobre zumbis, e tenho
certeza de que também um pouco sobre o seu amigo imaginá-
rio... Deus”.
Seguindo aquela apresentação, ele começou a disparar per-
gunta após pergunta, atacando tanto a igreja quanto o cristia-
nismo com um ar de superioridade e justificação própria (e com
alguns palavrões bem escolhidos jogados no meio). Eu concordei
com algumas das coisas que ele disse sobre o estado da igreja.
Mas a cada “pretensão” e “argumento” que ele atirava em minha
direção, eu contra-atacava com razoável verdade das Escrituras.
Finalmente, frustrado que os seus argumentos antagonistas não
estavam levando-o a lugar algum (e constantemente perdendo a
sua credibilidade com a audiência), ele jogou as mãos para o alto
e perguntou: O k , chega de falar do livro. Apenas me responda
isto: por que um cara como você entrou nesta coisa de Jesus’ em
primeiro lugar?”.
Eu olhei para ele, maravilhado, pensando: eu ouvi direito? Ele
realmente acabou de me pedir para compartilhar meu testemunho
cristão com todas essas pessoas?
Eu agradecí a Deus por sua soberania e habilidade de anu-
lar os planos fúteis dos homens. Eu contei minha história de
como vim a crer em Cristo e de como ele ainda me ajuda a
superar meus próprios zumbis interiores (natureza pecaminosa).
Mais tarde, muitas pessoas ficaram por ali para fazer perguntas e
comprar livros, então eu não consegui dizer adeus ao John. No
entanto, no final daquela tarde, eu fui visitá-lo no seu estande
(ele era um jornalista que tinha se tornado um escritor de qua-
drinhos). Eu o presenteei com uma cópia assinada do meu livro,
A FÉ DOS NOSSOS PAIS

e ele graciosamente aceitou. Quando eu virei para ir embora, ele


ofereceu uma desculpa inesperada.
'O lha, eu sinto muito se fui um pouco duro demais com você
lá em cima hoje.”
Eu sorri e dei-lhe um forte aperto de mãos.
Nós nos separamos como amigos.
Felizmente, naquele dia o meu conhecimento das Escrituras
me ajudou a destruir argumentos e filosofias humanas. Se eu não
tivesse sido "nutrido com as verdades da fé e da boa doutrina”, John
e seus argumentos poderíam ter me comido... como um zumbi\
A maioria das batalhas espirituais que nós enfrentamos não
acontecem num palco na frente de centenas de pessoas, mas lá
fora na vida real - na sala de aula, no trabalho, ou com vizinhos,
amigos, ou até mesmo com a família. Na maior parte do tempo,
nosso campo de batalha está mais escondido, acontecendo na
privacidade das nossas próprias mentes. E eu nem sempre ganho
essas discussões. Às vezes conheço a verdade mas falho em segui-la.
Outras vezes eu a racionalizo para o meu próprio benefício egoísta.
Assim, conhecer as Escrituras é somente metade da batalha.
Como Jesus, quando tentado pelos enganos de Satanás, precisa-
mos ir além de meramente citar a verdade para obedecê-la!n
Mas com toda essa conversa sobre conhecimento e sã dou-
trina, você pode pensar: espera aí. Paulo não disse que “0 conhe-
cimento traz orgulho, mas o amor edifica”?1 Isso é absolutamente
verdade. O conhecimento, quando não é acompanhado de hu-
mildade, obediência, amor e adoração, pode facilmente produzir
orgulho em nós. Muitas vezes, quando as pessoas sabem algo
que as outras não sabem, elas se sentem superiores e usam aquele
conhecimento para rebaixar as outras enquanto exaltam-se ao
mesmo tempo. Isso é verdade para aqueles que rejeitam a reve-912

91 Ver Mateus 4 .1 1 1 ‫ ־‬.


92 Ver !Corintios 8.1.
Λ APOSTASIA VINDOURA

lação de Deus sobre a Criação, substituindo-a por suas próprias


teorias. Paulo diz sobre essas pessoas: "... os seus pensamentos
tornaram-se fúteis e o coração insensato [literalmente 'sem inteli-
gência ou 'sem entendimento’] deles obscureceu-se”. O resulta-
do é que, “dizendo-se sábios, tornaram-se loucos”.93
Mas os cristãos também podem se tornar presas desse tipo de
arrogância. Quando buscamos conhecimento só pelo conheci-
mento ou quando falhamos em aplicar o que a Palavra de Deus
nos revela, nós estamos nos preparando para nos tornarmos or-
gulhosos e envaidecidos. É por isso que devemos sempre receber
a verdade de Deus com humildade, respondendo com amor e
adoração a Deus. O verdadeiro conhecimento de Deus é muito
mais do que uma coletânea de dados. Doutrina não é simples-
mente uma sistemática coleção de verdades ou um armazena-
mento de "munição bíblica”. Não, a Palavra de Deus sempre nos
guia à pessoa de Deus. Nunca é um fim em si mesma. A verdade
vem de Deus para nós a fim de que possamos responder de acor-
do e viver essa verdade de volta para Deus. "Pois dele, por ele e
para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém.”94
Esse é o propósito de todo conhecimento e sã doutrina. Foi
por isso que Paulo escreveu em Filipenses:

E sta é a m in h a o raç ão : Q u e o a m o r d e vo cês a u m e n te c a d a vez


m a is e m co n h ecim en to e e m to d a a p e rc e p ç ã o , p a ra d isc e rn i-
re m o q u e é m e lh o r, a fim d e s e re m p u ro s e irre p reen sív e is a té
o d ia d e C r is to , c h e io s d o fru to d a ju s tiç a , fru to q u e v e m p o r
m e io d e J e su s C r is to , p a ra g ló ria e lo u v o r d e D e u s .95

Para os colossenses, ele orou:

93 Romanos 1.2122‫( ־‬ênfase acrescentada).


94 Romanos 11.36.
95 Filipenses 1.9-11 (ênfase acrescentada).
A FÉ DOS NOSSOS PAIS

Por essa razão, desde o dia em que o ouvimos, não deixamos


de orar por vocês e de pedir que sejam cheios [influenciados]
do pleno conhecimento da vontade de Deus, com toda a sabe-
doria e entendimento espiritual. E isso para que vocês vivam
de maneira digna do Senhor e em tudo possam agradá-lo,
frutificando em toda boa obra, crescendo no conhecimento de
Deus.™

Jesus até definiu “vida eterna” como conhecer o Pai: “Esta é a


vida eterna: que te conheçam, o único Deus verdadeiro, e a Jesus
Cristo, a quem enviaste”.9697
O conhecimento bíblico deve ser ao mesmo tempo intelectual
e experiencial.98 É um pacote - dois lados da mesma moeda des-
tinados a serem desfrutados juntos. Conhecimento sem resposta
é como uma frase incompleta ou uma música sem refrão. Infor‫־־‬
mação sobre Deus deve sempre levar a uma intimidade com ele.
Isso é tão verdadeiro agora como será um dia no céu, quando
nossa intimidade com Deus será exponencialmente aumentada
por um conhecimento mais completo dele.99
Você pode ver como crescer em seu conhecimento de Deus e
da sua Palavra é essencial para se tornar maduro e completo em
sua fé?100

Competidores Cristãos

Então, visto que ele se relaciona com a apostasia vindoura e a


falsa doutrina que atualmente circula ao nosso redor, como apli­

96 Colosscnscs 1.9-10 (ênfase acrescentada).


97 João 17.3.
98 A palavra mais usada para descrever esse conhecimento é ginóskó, cujo significado
principal é saber através da experiência pessoal. Essa experiência começa com a men-
te e é traduzida no viver prático.
99 Ver lCoríntios 13.12; ljoão 3 .2 3 ‫־‬.
100 Ver Efcsios 4.11-16.
A APOSTASIA VINDOURA

camos esse conhecimento? É importante notar que, embora a


pureza da fé cristã tenha sido preservada e transmitida por dois
mil anos, como a história registra, essa passagem nem sempre foi
tranquila. Houve épocas e até séculos onde a verdade ensinada
na igreja foi alterada, modificada e até negada, tudo em nome de
Deus. Foi preciso que corajosos homens da fé como Martinho
Lutero, João Calvino e Ulrico Zuínglio chamassem a igreja para
fora e de volta às suas raízes espirituais. E, fazendo isso, eles tam-
bém a chamaram para cima, em direção à piedade e maturidade
em Cristo. Essa é a fé que nós somos ordenados a defender. Le-
mos na carta de Judas: “Amados, embora estivesse muito ansioso
para escrever a vocês acerca da salvação que compartilhamos,
senti que era necessário escrever insistindo que batalhassem pela
fé à t uma vez por todas confiada aos santos”.101
A “fé” à qual Judas se refere é o corpo da verdade encontrado
nas Escrituras. Essa verdade não é uma revelação fluída e con-
tínua, mas sim uma que foi entregue “de uma vez por todas”
ao povo de Deus. Essa é uma das razões pela qual rejeitamos as
chamadas visões e supostas visitas ao céu, reivindicando novas
revelações não encontradas nas Escrituras. A fé cristã foi confia-
da a nós, depositada dentro dos nossos corações e mentes. Deus
está contando conosco para guardar “o que foi confiado” a nós
e a reter “o modelo da sã doutrina” que aprendemos.102 Paulo
exortou Timóteo: “Quanto ao que lhe foi confiado, guarde-0 por
meio do Espírito Santo que habita em nós”.103
Mas por que exatamente Judas nos chamaria vigorosamente
a batalhar pela fé? E por que Paulo nos exortaria fortemente a
guardar a fé? Por que as Escrituras nos urgem a lutar pela verda-
de? É simples: “Pois certos homens, cuja condenação já estava

101 Judas 1.3 (ênfase acrescentada).


102 1Timóteo 6.20; 2Timótco 1.13.
103 2Timóteo 1.14 (ênfase acrescentada).
A FÉ DOS NOSSOS PAIS

sentenciada há muito tempo, infiltraram‫־‬se dissimuladamente


no meio de vocês. Estes são ímpios, transformam a graça de
nosso Deus em libertinagem e negam Jesus Cristo, nosso único
Soberano e Senhor104.‫״‬
Em poucas palavras - falsos mestres. Lobos disfarçados de
ovelhas. Impostores. Apóstatas.
Esse não é um assunto que você ouve muito na igreja hoje em
dia, embora a Bíblia aborde ele repetida e profeticamente. Mas
por que não? Por que a teologia parece ser tão importante para
Judas e Paulo? Por que Deus leva a verdade tão a sério? Não de-
veríamos nos ater a questões cotidianas, problemas e “aplicações
práticas‫ ״‬para nossas vidas?
E aqui que precisamos de uma mudança de paradigma na
igreja. De acordo com Jesus e com os escritores do Novo Tes‫־‬
tamento, teologia e doutrina são questões práticas e elas defi‫־‬
nitivamente não são apenas para pregadores, teólogos e “nerds
da Bíblia‫״‬. A Palavra de Deus foi escrita para a pessoa comum.
Deus quer que cada um dos seus filhos leia e compreenda a sua
Palavra.
Além disso, até o mais novo crente sabe alguma teologia e
doutrina. Quando você diz: “Eu creio que Jesus morreu na cruz
por mim, para tirar o meu pecado”, isso / doutrina e teologia.105
Teologia é o estudo de Deus, e doutrina simplesmente se refere a
um sistema de ensino ou a um conjunto de crenças. Nossa fé não

104 Judas 1.4.


105 “Teologia‫ ״‬se refere ao estudo de Deus. Específicamente, o estudo da salvação é
referido como “soteriologia” e o estudo dc Cristo, “cristologia”. Esses termos são
usados para ajudar a sistematizar c categorizar a doutrina e o ensino cristãos. Dc
um modo geral, a maioria das teologías sistemáticas se divide da seguinte maneira:
prolegómeno (introdução à teologia geral, como Deus revela a si mesmo etc.), bi-
bliologia (o estudo da Bíblia), teologia propriamente dita (o estudo da doutrina de
Deus), cristologia (o estudo de Jesus Cristo), pneumatologia (o estudo do Espírito
Santo), antropologia (o estudo da humanidade), soteriologia (o estudo da salvação),
eclesiologia (o estudo da igreja), angelologia (o estudo dos anjos e demônios) e
escatologia (o estudo do fim dos tempos).
A APOSTASIA VINDOURA

é primariamente uma emoção. Ela é a crença baseada em fatos. É


mais sobre certeza fundamentada do que filosofia pessoal. Assim
como em outras disciplinas, como matemática ou ciência, nós
não podemos simplesmente inventar fatos ou imaginar coisas
sobre Deus e depois basear nossas vidas nesses pensamentos. Isso
seria abandonar radicalmente as Escrituras e as crenças históricas
da igreja primitiva. Em vez disso, nós devemos sempre calibrar
os nossos pensamentos sobre Deus à verdade bíblica, indepen-
dentemente do pensamento contemporâneo ou popular, dos
modismos de fé ou das tendências teológicas. E isso porque o
verdadeiro conhecimento começa com Deus.106
Você não afirmaria veementemente que 2 + 2 = 73 ou que o
Sol gira em torno da Terra mesmo que você ‘acreditasse nisso de
todo o coração”, porque você obviamente sabe que essas coisas
não são verdadeiras. E, por ser uma pessoa que pensa, você tam-
bém sabe que meramente dizer alguma coisa não faz com que ela
de alguma forma se torne verdadeira ou real. Acreditar em algo
não o transforma em verdade. Ou é verdade ou não é, indepen-
dentemente do que cremos.
Outra razão pela qual a verdade c tão crítica para a nossa fé é
que ela reflete o caráter e a natureza de Deus. Deus é verdade e
sua Palavra é verdade.107 Toda a verdade é dele. Então, quando
buscamos, descobrimos, cremos e vivemos a sua verdade, nós o
honramos e exaltamos o seu caráter.
A sã doutrina também é importante para nós porque acreditar
em alguma coisa que não é verdadeira sobre Deus é idolatria.
Nós normalmente caímos nessa armadilha quando acreditamos
ou acolhemos uma mentira sutil ou óbvia sobre Deus. Isso é
essencialmente substituir a verdade bíblica sobre ele com a nossa
própria. Portanto, o que cremos sobre Deus, Cristo, céu e vida

106 Ver Provérbios 1.7.


107 Ver João 17.3,17; Romanos 3.4; Tito 1.2.
A PH DOS NOSSOS PAIS

cristã não é eletivo, mas essencial. A apatia sobre a crença nos


confina a um estado de imaturidade e nos destina à impotência
espiritual. E nenhum discípulo dc Cristo quer isso.
Nós também devemos permitir que as Escrituras informem
e influenciem nossas crenças, porque nosso pensamento é he-
reditariamente limitado e falho. Deus entende isso, então o Es-
pírito Santo em nós faz uma parceria com a Palavra dc Deus,
iluminando a sua verdade e nos levando à maturidade em nosso
pensamento, caráter e comportamento.108
Por último, a sã doutrina nos protege contra as mentiras e
meias verdades enganosas dc Satanás. Quanto mais verdade nós
conhecermos e estivermos pessoalmcnte envolvidos, mais prote-
gidos estaremos em meio à guerra espiritual. Isso nos impede de
sermos enganados pelas muitas artimanhas do Diabo.109 Se qui-
sermos efetivamente batalhar pela fé neste mundo, precisamos
ser homens e mulheres que sabem 0 que e por que nós cremos.
Esse é o chamado de Deus para cada cristão.110

Detectando Falsificações

Discernimento doutrinário é uma habilidade da vida espiritual


que você aprende ao longo do tempo, não em um único sermão
ou livro. Funciona como um radar perpétuo da fé, que soa um
alarme interno toda vez que as Escrituras estão sendo deturpadas
ou prejudicadas.
Imagine por um momento que você está sendo treinado para
ser piloto. Você esperaria ter que registrar centenas de horas de
aulas e receber instruções pessoais de um piloto experiente, cer-
to? Depois ocorreríam muitas horas de treinamento em voo e

108 Ver João 14.26; 16.1316‫־‬.


109 Ver Efésios 6.11,14.
110 Ver 1Pedro 3.15.
A APOSTASIA VINDOURA

múltiplos testes práticos antes de você fazer o seu primeiro voo


sozinho. Você não assume que conseguiría pilotar um jato de
combate só porque assistiu Top Gun algumas vezes! Você não
compraria uma camiseta que diz “Harvad Law School” [Facul-
dade de Direito de Harvard] e depois esperaria discutir um caso
perante um juiz e um júri, não é?
No entanto, isso é bem próximo do que aconteceu no caso
de um adolescente chamado Frank Abagnale. Devastado pelo
divórcio de seus pais em 1963, Frank canalizou seu desapon-
tamento e frustração originando e elaborando um esquema de
falsificação, fazendo-se passar por um piloto de aviação. Ele
também se mascarou de advogado e até mesmo de médico. Em
tudo isso, Abagnale financiou seu ardil falsificando cheques, que
logo totalizaram milhões de dólares. Quando finalmente foi cap-
turado, ele passou anos em prisões na França, Suíça e Estados
Unidos antes de lhe ser oferecida uma chance de trabalhar para
a Divisão de Fraudes a Bancos do FBI. A sua história foi tão
incrível que foi adaptada num filme intitulado Prenda-me se For
Capazy estrelando Tom Hanks e Leonardo DiCaprio. Contudo,
apesar de pessoas estarem chamando Frank Abagnale de “capi-
tão” e ‘‘doutor”, ele não era nem um nem outro. Ele era, na
realidade, um impostor. Um enganador. Um falso. E ele sabia o
tempo todo o que estava fazendo.
Infelizmente, muitos hoje em dia deturpam Deus e as Escri-
turas enquanto acreditam que estão falando a verdade. Existem,
com certeza, aqueles que intencionalmente enganam outros por
poder e lucro. Outros falsos mestres são sinceros e confiantes,
mesmo que o que falam seja pura heresia. Mas a sinceridade
não substitui a integridade bíblica. De programas na internet,
blogs e aparições na televisão a púlpitos de igrejas e prateleiras
nas livrarias, a apostasia por qualquer outro nome cheira podre
do mesmo jeito.
A FÉ DOS NOSSOS PAIS

Isso pode soar um pouco duro e restritivo, talvez até limitado.


Se soa assim, é porque é mesmo.
Leia as palavras de Jesus em Mateus 7.13-14: “Entrem pela porta
estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição,
e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e aper-
tado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram‫״‬.
É interessante que as palavras seguintes do Senhor são um
alerta sobre os falsos mestres: “Cuidado com os falsos profetas.
Eles vêm a vocês vestidos de peles de ovelhas, mas por dentro
são lobos devoradores. Vocês os reconhecerão por seus frutos”.1,1
Sem um claro entendimento das Escrituras e de uma constan-
te calibragem dos nossos corações e mentes na Palavra de Deus,
a verdade em nós pode enfraquecer e até mesmo se transformar
para acomodar nossas emoções ou os tempos de mudanças. En-
tão, como pode um simples cristão saber a diferença entre uma
falsidade e a verdade? Como você pode saber se um pastor, pro-
fessor, palestrante, blogueiro ou autor está falando a verdade acerca
de Deus e da Bíblia? Como você pode detectar uma falsa doutrina?
A boa notícia é que nós podemos saber quem está trazendo
uma mensagem falsa e quem não está, mesmo quando os pro-
fessores estão todos vestidos como nós, ovelhas. Nós fazemos
isso examinando o seu ensino e o fruto do seu ministério. O
que eles ensinam se alinha com a Palavra? Harmoniza-se com o
entendimento histórico da doutrina bíblica? O que o ministério
deles geralmente produz —discípulos de Jesus ou grupinhos es-
pirituais? Até mesmo o testemunho pessoal de alguém precisa ser
autenticado pelas Escrituras.
Isso não significa que qualquer um de nós entende comple-
tamente tudo que acontece no momento da salvação ou que so-
mos capazes de eloquentemente articular isso. Mas, na medida
em que crescemos, nós começamos a compreender o profundo

111 M ateus 7. 15- 16.


A APOSTASIA VINDOURA

manancial da verdade por trás de algo tão simples quanto confiar


em Cristo para a salvação. Caso contrário, alguém pode afirmar
qualquer coisa sobre Deus ou sobre uma experiência pessoal com
ele e, a não ser que você treine a sua mente, você pode facilmente
ser induzido ao erro ou ser ensinado incorretamente por palavras
persuasivas, emoções e uma atraente apresentação. Mas quando
você é um estudante da Bíblia, os pensamentos de Deus com o
tempo se incorporam em seu pensamento. As Escrituras então
agem como um “sistema de filtragem da verdade”, peneirando as
mentiras astutas de Satanás. Esse tipo de discernimento é adido-
nalmente desenvolvido e aguçado pelo andar no caminho aper-
tado na companhia daquele que personifica a verdade.112
Por cinco anos eu (Jeff) viví em Mobile, Alabama, onde servi
como pastor estudantil numa igreja local. Durante aquele perí-
odo, nós promovemos eventos para os jovens no USS Alabama,
um navio de batalha da 2a Guerra Mundial. Permanentemente
ancorado na Baía de Mobile, o Alabama é uma das maiores atra-
ções turísticas do estado. Nós alugávamos o navio inteiro e os
nossos alunos se divertiam explorando seus muitos aspectos bem
como também desfrutando de algumas competições saudáveis,
depois das quais eu falava sobre a guerra espiritual. No entanto,
em uma de nossas visitas, uma jovem começou a reclamar de enjoo.
“É o balanço do navio de um lado para o outro”, ela disse. “Eu
não sei por quanto tempo ainda possa aguentar isso.”
Na minha tentativa de acalmá-la, eu cuidadosamente expli-
quei que na verdade o Alabama não estava balançando de um
lado para o outro, como ela pensava. O casco do navio de 42 000
toneladas estava descansando seguramente no fundo da Baía de
Mobile, permanentemente ancorado em concreto. O navio não
estava realmente balançando. Estava tudo na mente dela.

112 Ver João 1 . 1 7 1 4 . 6 ;18‫־‬.


A FÉ DOS NOSSOS PAIS

Cristáo, a sua Bíblia é um alicerce imóvel da verdade, ancora-


da no próprio Deus. E, ainda que seus sentidos talvez façam com
que você sinta que a sua verdade está balançando de um lado
para o outro, ela ainda permanece sólida e eterna.
Martinho Lutero intencionalmente escreveu:

Emoções vêm e emoções vãoy


E emoções são enganosas;
Minha garantia é a Palavra de Deas —
Nada mais merece ser acreditado.
Apesar de que todo 0 meu coração deveria se sentir condenado
Por querer algum doce símbolo,
Existe alguém maior do que 0 meu coração
O qual não pode quebrar a sua promessa.
Eu vou confiar na Palavra imutável de Deus
Até que a alma e 0 corpo se separem.,
Pois, embora todos as coisas passarão,
A sua Palavra permanecerá para sempre!

Pode ter certeza. Apesar do que a cultura ou o pensamento


popular cristão possam propor, a verdade de Deus não muda,
não progride e não emerge. E, embora não seja sua tarefa corrigir
o mundo inteiro no que se refere a falsos ensinos ou tornar-
-se um “policial da doutrina”, você ainda assim é chamado a
levantar-se e proclamar o que é verdadeiro e, quando for necessá-
rio, até a expor um falso ensino ou heresia.113 Sempre pergunte:
“O que a Bíblia diz?‫״‬, e não: “Isso me faz sentir bem, feliz ou
aceito pelos outros?‫״‬. Avalie as afirmações dos outros e rastreie
as suas próprias crenças de volta às Escrituras.114 Elas são o seu

113 Aqui está uma excelente lista de passagens bíblicas que lidam com falsos mestres e a
nossa resposta a eles: <goo.gl/Av91zu>.
114 Ver Atos 17.11.
A APOSTASIA VINDOURA

“verdadeiro norte”, o seu compasso numa cultura confusa, o seu


fundamento imóvel numa tempestade furiosa e constante.115

115 Ver M ateus 7 .2 4 -2 7 .


C apítulo 4

CULTURADA
CONDESCENDÊNCIA
U m mesa mais conhecidos é o Jenga. Neste jogo
d o s jo g o s d e

de habilidade, retângulos de madeira são empilhados um cm


cima do outro para construir uma torre. Os jogadores se reve-
zam removendo os retângulos sem fazer com que a torre caia.
Ao serem removidos, os blocos são colocados no topo da torre, e
assim a estrutura fica progressivamente mais alta e menos estável.
Finalmente, alguém puxa um bloco e toda a estrutura desmoro‫־‬
na, esparramando-se sobre a mesa.
Muitos na igreja atual estão jogando o Jenga teológico. Eles
estão removendo uma doutrina ou verdade moral atrás da outra,
deixando buracos vazios enquanto que a cidadela da fé se torna
cada vez menos estável. Mas, como num jogo de Jenga, eventu-
almente uma peça fundamental é removida, e a estrutura não
consegue mais se manter. A coisa toda desmorona num amon-
toado desordenado. Claro que nenhuma oposição humana ou
distorção da verdade jamais poderão derrubar a torre da verdade
de Deus, mas, em termos humanos, a visível igreja de Jesus Cris-
to está se enfraquecendo diante dos nossos olhos.
As transigencias que vemos hoje na igreja professa são tanto
doutrinárias quanto morais. Os fundamentos doutrinários da fé
- tais como a inspiração e suficiência das Escrituras, o nascimen-
to virginal de Jesus, a divindade de Cristo, o perdão somente
A APOSTASIA VINDOURA

pela graça e somente pela fé em Cristo, além do retorno literal,


visível de Jesus à terra - já não são mais considerados essenciais
e em muitos casos são vistos como prejudiciais ao progresso.
Lembro-me de uma história sobre o ministério de Billy Graham.
No encerramento de sua antiga cruzada em Los Angeles, o seu
ministério e pregação foram descritos na revista Time por um
reitor episcopal, que foi citado dizendo: “Eu acredito que ele está
fazendo a igreja retroceder 50 anos”. No café da manhã dos mi-
nistros, durante a semana de encerramento da cruzada, Graham,
que raramente respondia aos seus críticos, disse: “Temo ter fa-
lhado. Eu tinha esperança de fazê-la retroceder 2 000 anos”.11617
Juntamente com o afastamento doutrinário da verdade, pa-
drões morais estão sendo removidos um após o outro, assim
como os blocos do Jcnga. Francis Schaeffer apontou para esse
perigo anos atrás: “Se a nossa ação automática é sempre a aco-
modação, independentemente da centralidade da verdade envoi-
vida, algo está errado”.11
William Booth (1829-1912), que fundou o Exército de Sal-
vação, foi um apaixonado seguidor de Jesus Cristo. Nas vésperas
do século XX, Booth predisse que o evangelho não se sairia bem
no novo século. Ele predisse que até o final do século XX, muitas
igrejas pregariam:
• Cristianismo sem Cristo;
• Perdão sem arrependimento;
• Salvação sem regeneração; e
• Céu sem inferno.

As palavras de Booth parecem proféticas. É exatamente onde


nos encontramos hoje. Como diz o ditado: “A fé viva dos mor-
tos se tornou a fé morta dos vivos”. Nós vemos isso por todo o

116 Paul W. Powell, The Old Time Religion (Waco, TX: Paul W. Powell, 2001), p. 9.
117 Francis A. Schaeffer, The Great Evangelical Disaster (Wheaton, 1L: Crossway, 1984), p. 64.
CULTURA DA CONDESCENDÊNCIA

lado. A condescendencia tem sugado a vida da fé viva. Muitos


frequentadores da igreja bocejam hoje em dia diante das verda-
des pelas quais os seus antepassados derramaram sangue e até
morreram.
Pesquisas recentes revelam que 70 por cento dos norte-ame-
ricanos com uma afiliação religiosa dizem que muitas religiões
- não somente a deles ‫ ־־‬pode levar à salvação e à vida eterna,
enquanto que 57 por cento dos evangélicos que frequentam re-
gularmente a igreja acreditam que muitas religiões podem levar à
salvação.118 Essas estatísticas representam uma mudança de opi-
nião enorme e sem precedentes. Elas mostram que o maior pe-
rigo às igrejas hoje não é o humanismo, o paganismo, o ateísmo
ou o agnosticismo. O maior perigo não é a crescente hostilidade
da cultura contra a nossa fé. Nosso maior perigo é a apostasia
interna, surgindo de falsos mestres - teólogos liberais que negam
e distorcem a doutrina bíblica e conduzem outros pelo mesmo
caminho.
Os cristãos frequentemente se preocupam com o que está
acontecendo em nossa cultura. Nós tememos o que o governo
pode fazer com as nossas igrejas, e essa preocupação é certamente
justificada. Porém, nós precisamos lembrar que em Apocalipse
2.5 não é César quem viria fechar as portas da igreja; é Jesus
Cristo. Jesus fecharia as portas e desocuparia as instalações. Jesus
disse à igreja de Éfeso que ele removería o candelabro da igreja.
Ele iria puxar a tomada e apagar as luzes. Nós lamentamos uma
cultura decadente, e com razão, mas o risco maior para nossas
igrejas e para cada um de nós individualmente é o afastamento
da verdade da Palavra de Deus. Como Vance Havner disse certa
vez: Ό maior perigo para a igreja não são os pica-paus lá fora,
mas os cupins do lado de dentro”. Os cupins da condescendên-

118 “Americans: My Faith Isn’t the Only Way to Heaven”, Associated Press, 24 jun. 2008.
Disponível cm: <goo.gl/R5QKP7>.
A APOSTASIA VINDOURA

cía gradualmente corroem o interior da igreja e as vidas dos in-


divíduos, deixando cascas vazias internamente.
Muitos estão hoje abertamente, até militantemente, contra
a verdade, mas outros se posicionam de forma mais obscura.
Tentar discernir as suas posições em importantes assuntos teo-
lógicos ou morais é como pregar gelatina na parede. Sua abor-
dagem assemelha-se a um banquete teológico. Como eu ouvi
alguém dizer recentemente: “O vago está em voga”. No entanto,
de qualquer forma, a igreja está cedendo à pressão do mundo.119
Como chegamos aqui? Por que isso está acontecendo? Como re-
cuperamos a nossa base em urna cultura de valores descendentes?

Dois Tipos de Condescendencia

Para muitos hoje, condescender-se é fácil. Eles não têm problema


nenhum condescendendo em muitas coisas, mesmo em crenças
e morais essencialmente cristãs. Para outros, condescendencia é
uma palavra suja. Na visão deles, nada no mundo inteiro deveria
jamais ser transigido. A verdade, ao que parece, está no meio
destes extremos. Nem toda condescendência é má. Falando de
forma abrangente, há dois tipos de condescendência - a sábia e a
mundana. Condescendência sábia é uma tentativa de encontrar
um caminho entre dois extremos. É abrir mão de preferências
pessoais e desejos egoístas pelo bem da unidade e da paz. A con-
descendência sábia é boa. Nós condescendemos o tempo todo
no casamento, na família, nos negócios e até mesmo na política.
Ninguém consegue ter tudo do jeito que quer o tempo todo.
Muitas coisas na vida podem ser transigidas sem a violação de
qualquer princípio essencial. A submissão bíblica - uma dispo-
sição de render-se aos outros, uma ausência de egocentrismo e

119 Ver R om anos 12.2.


CULTURA DA CONDESCENDÊNCIA

uma consideração com o que os outros pensam - é uma forma


de condescendência sábia.
Condescendência mundana, por outro lado, é má. Ela se afas‫־‬
ta de princípios morais essenciais. Ela renuncia a verdade pelo
erro, a moralidade pela imoralidade e o bem pelo mal. E isso que
está acontecendo em muitas igrejas e denominações hoje. A. W.
Tozer observa: M A bênção de Deus é prometida ao pacificador,
mas o negociador religioso deve cuidar os seus passos. [...] Trevas
e luz nunca podem ser unidas por meio de conversação. Algumas
coisas não são negociáveis”.120
O profeta veterotestamentário Daniel é uma ilustração ade-
quada para o equilíbrio entre as condescendências sábia e mun-
dana. Ele e alguns outros jovens da nobreza judaica foram de-
portados de Jerusalém à Babilônia pelo rei Nabucodonosor.
Através dos seus assistentes, Nabucodonosor instituiu um pro-
grama para assimilar completamente esses jovens israelitas à vida
e cultura da Babilônia. O plano era mudar a linguagem, a edu-
cação, os nomes e a dieta deles. (Afinal, eles precisavam saber a
língua da Babilônia para se darem bem.) Eles concordaram com
os três anos de educação avançada que provavelmente envolvia
matemática, astrologia, astronomia e agricultura. Eles até con-
cordaram em mudar os seus nomes. Nada na lei os impedia de
usarem nomes babilónicos. Mas, quando chegou o assunto da
dieta, eles se recusaram a mudar.121 Por quê? Porque Deus havia
dado claras restrições dietéticas na lei. A comida que Nabucodo-
nosor lhes apresentou havia sido oferecida a ídolos como sacrifí-
cio e violava as proibições da lei. Foi aí que Daniel e seus amigos
estabeleceram um limite. Daniel não iria mudar, condescender
ou conceder ‫ ־־‬mesmo encarando a morte. Ele tinha convicções

120 A. W. Tozer, Man: The Dwelling Place o f God, reimpr. (Camp Hill, PA: WingSpread,
2008), p. 188.
121 Ver Daniel 1.320 ‫־‬.
A APOSTASIA VINDOURA

baseadas na Palavra de Deus. Existe um velho ditado: “Grandes


portas são movidas com dobradiças pequenas”. A recusa de Da-
niel em transigir a verdade de Deus foi a pequena dobradiça na
qual a grande porta da sua vida iria se mover.
Anos atrás, G. K. Chesterton fez esta poderosa declaração:
“O objetivo de abrir a mente, assim como o de abrir a boca, é
fechá-la novamente com algo sólido”. Aqueles que têm confiado
no evangelho - as boas novas de Jesus Cristo ‫ ־־‬fecharam suas
mentes na verdade sólida que ele é o Deus em carne humana
que providencia o único caminho a Deus Pai, e que a vida deve
ser ordenada de acordo com a Palavra de Deus, a Bíblia. Essas
convicções nunca podem ser transigidas. Podemos condescender
em muitas coisas na vida, e somos sábios ao fazer isso, mas não
devemos ter a mente aberta quando se trata do evangelho e de
suas implicações para a vida diária.
No musical Um Violinista no Telhadoy Tevye é um pai amo-
roso que é confrontado com coisas que seus filhos querem fazer
e que o desagradam, uma de cada vez. A princípio ele recusa.
Contudo, quando fica sozinho, ele começa a pesar os dois lados
da questão. Ele diz para si mesmo: “Por um lado...”, ao consi-
derar os aspectos de um lado da questão. Então ele diz para si
mesmo: “Mas, por outro lado...”, ao listar outros fatores envoi-
vidos. Por fim, ele concede o pedido da criança, mesmo que vá
contra sua vontade. Porém, quando uma das suas filhas quer se
casar com um jovem comunista russo, ele a proíbe. Quando co-
meça a raciocinar consigo mesmo, no seu padrão usual de “por
um lado...” e “por outro lado...”, ele não consegue permitir isso.
Nessa ocasião, ele diz: “Não tem ‘outro lado’”.
Isso é verdade quando se trata da fé. Existem algumas coisas
inegociáveis na vida cristã. Quando se trata do evangelho de Je-
sus Cristo e das implicações morais que fluem dele, não há “por
outro lado”.
CULTURA DA CONDESCENDÊNCIA

Por Que Tanta Condescendencia e Apostasia?

Uma boa pergunta a se fazer neste momento é: por que há tanta


condescendência e uma epidemia de apostasia nos nossos dias?
Por que tantos estão se afastando, aparentemente tão rápida e
facilmente? Por que os fundamentos bíblicos estão sendo desear-
tados tão casualmente? O que leva as pessoas dentro da igreja a
se afastarem da verdade da Palavra de Deus? É claro que muitas
razões e justificativas poderíam ser dadas, mas estas cinco pare-
cem se destacar nas Escrituras.
As três primeiras são bem diretas e simples. Nós gastaremos
mais tempo examinando as duas últimas. Primeira, muitos con-
descendem por amor ao mundo - claro e simples. Eles amam os
seus pecados e não querem seguir a Palavra de Deus.122Éles subs-
tituem a sabedoria de Deus com a deles mesmos. Eles se colocam
acima da Bíblia em vez de debaixo dela. Segunda, outros condes-
cendem devido a uma atenção superficial à Palavra de Deus. Eles
não conhecem a Bíblia e não a levam a sério. Eles se afastam da
verdade.123Terceira, a condescendência pode, por vezes, resultar de
completa e descarada rebelião e insubordinação.124
Quarta, muitos transigem porque a Bíblia e as palavras de
Jesus podem ser duras e restritivas. Jesus frequentemente perdeu
seguidores porque os seus ensinamentos eram muito duros.125
Suas palavras chocaram-se com a nossa natureza pecaminosa.
Por essa razão, comprometer crenças ou comportamentos torna
muito mais fácil viver vidas egocêntricas e evitar qualquer confli-
to com o mundo ao nosso redor. Na sua juventude, Mark Twain
mudou-se para uma cidade de mineração em Nevada. Era uma
cidade bem aberta, com bordéis e bares em cada esquina. Twain

122 Ver 2Timóteo 4.10.


123 Ver Hcbrcus 2 .1 4 ‫־‬.
124 Ver Hebreus 3.12.
125 Ver João 6.60,66.
A APOSTASIA VINDOURA

disse: “Eu imediatamente percebí que náo era um lugar para um


presbiteriano, então decidi não ser um”. Ele transigiu. Muitos
têm seguido o seu exemplo. Achando difícil ser um cristão, eles
param de tentar ou transigem suas convicções.
Quinta, muitos querem agradar pessoas. Eles não suportam a
ridicularização, a difamação e o maltrato. O fascínio da aceitação
é forte. Tomar a estrada larga e se amoldar a ela é menos estres-
sante. Nadar contra a maré é difícil e cansativo. A condescen-
dência sempre diminui o padrão. Raramente é ofensiva. Ela diz
às pessoas o que elas querem ouvir, e por isso é tão atraente. Di-
zer às pessoas que elas podem acreditar no que quiserem e viver
como quiserem é muito mais confortável do que dizer às pessoas
a verdade, ainda que só a verdade possa realmente libertá-las.
Nós, que vamos na igreja atualmente, estamos debaixo de
constante pressão para enfraquecermos nossa teologia e nossa
moralidade a fim de fazer com que as pessoas se sintam bem.
Ouvimos coisas do tipo: “Você não precisa crer no evangelho de
Jesus Cristo para ir ao céu. Existem muitos caminhos que levam
até lá”. Ou: “A vontade de Deus é que você seja rico e saudável
o tempo todo”. Ou: “Você pode amar quem você quiser amar.
Deus nunca o julgará. Ele é totalmente a favor do amor”. Ou:
“Por que acreditar num livro que foi escrito há tanto tempo?”.
A onda crescente de progressismo é aplaudida por muitos
como John Shore:

É in ev itáv el q u e os c ristã o s lib e ra is / p ro g re ssiv o s se rã o a m a io -


ria d o s c ristã o s n o s E s ta d o s U n id o s . N ó s já v e m o s as ág u as
d e s te o c e a n o d e m u d a n ç a s a u m e n ta n d o e m to d o s o s lu g ares
ao n o sso red o r. O s c ristã o s ev a n g é lic o s c o n s e rv a d o re s d e h o je ,
q u e e stão se r e u n in d o c o n tr a o “re la tiv is m o p ó s - m o d e r n o ” , a
“te o lo g ia se c u la r re v isio n ista ” , “u m a d o u tr in a n a tu ra lis ta d e
D e u s ” , o u seja lá o q u e fo r q u e eles p o ssa m r o tu la r d e te o lo g ia
CULTURA DA CONDESCENDÊNCIA

d e e s q u e rd a , são c o m o os a n tiq u a d o s d o n o s d e carro ç as se


r e u n in d o c o n tra os n o v o s a u to m ó v e is u ltr a m o d e r n o s .126

Sem ele saber, os sentimentos de Shore são realmente pro‫־‬


fetizados nas Escrituras. A atitude dele cumpre o que a Bíblia
disse que iria prevalecer nos últimos dias. O último comando do
apóstolo Paulo ao seu pupilo Timóteo profetiza o que vemos hoje:

N a p re se n ç a d e D e u s e d e C r is to Je su s, q u e h á d e ju lg a r os
v ivos e o s m o r to s p o r su a m a n ife sta ç ã o e p o r se u R e in o , eu
o e x o rto so le n e m e n te : P re g u e a p a la v ra, esteja p re p a ra d o a
te m p o e fo ra d e te m p o , re p re e n d a , c o rrija , e x o rte c o m to d a a
p a c iê n c ia e d o u tr in a . P ois v irá o te m p o e m q u e n ã o s u p o rta -
rã o a sã d o u tr in a ; ao c o n trá rio , s e n tin d o c o c e ira n o s o u v id o s,
ju n ta r ã o m e stre s p a ra si m e sm o s, s e g u n d o o s seu s p ró p rio s
desejos. E les se re c u sa rã o a d a r o u v id o s à v e rd a d e , v o lta n d o -s e
p a ra os m ito s .127

Pregações que coçam os ouvidos estão desenfreadas nos dias


atuais. Como Tim LaHaye e Jerry Jenkins escrevem:

F alsos m e stre s r a r a m e n te e x iste m n u m v á c u o e s p iritu a l. Eles


c o m e ç a m a a p a re c e r p o r q u e as p esso as q u e re m o u v ir e ag ir d e
a c o rd o c o m d o u tr in a s q u e a g ra d a m a c a rn e . D e m u ita s m a -
n e ira s, a e s p iritu a lid a d e é u m a m e rc a d o ria c o m o e le trô n ic o s
o u c a rn e e e stá su je ita a leis sim ila re s d e o fe rta e d e m a n d a . [...]
E m o u tra s p alav ras, as p esso as e x ig e m o u v ir fá b u la s ím p ia s, e

126 John Shore, “The Inevitability of the Rise o f Progressive Christianity”, Patheos, 19
set. 2011. Disponível cm: <goo.gl/34HmeM>.
127 2Timóteo 4.1-4.
A APOSTASIA VINDOURA

lo g o os falsos m e stre s c o m e ç a m a a p a re c e r p a ra s u p r ir a d e -
m a n d a - c o m o m o sc a s p a ra u m d e p ó s ito d e lix o .128

Um mantra consistente dos apóstatas contemporáneos é a


preocupação deles de que os cristãos de hoje serão odiados, con-
denados ou irrelevantes caso se posicionem pela verdade. Se qui-
sermos ganhar o mundo, precisamos dizer o que ele quer ouvir,
cedendo aos seus desejos, transigindo nossas convicções para que
os outros fiquem mais seduzidos a juntarem-se a nós. A virtude
mais importante é não ofender ninguém. Porém, se esse é o nos-
so objetivo, nós precisamos nos perguntar - para o que estamos
convertendo as pessoas?
Ironicamente, aqueles que pedem por condescendência em
áreas de moralidade sexual não hesitam em repreender os cris-
tãos por sua ganância, egoísmo e falta de cuidado com os po-
bres. Quando se trata de pressionar questões de justiça social aos
cristãos, eles citam a Bíblia literalmente e assumem uma abor-
dagem sem tabus. Eles não amenizam quando se trata de certos
tipos de comportamento pecaminoso. Porém, quando se trata da
homossexualidade ou de outros pecados culturalmente aceitos,
precisamos usar travesseiros como luvas de boxe e controlar toda
a nossa ação para que ninguém seja levemente ofendido. Como
Doc Holliday disse ao seu amigo Wyatt Earp perto do final do filme
Tombstone'. “Minha hipocrisia não tem limites”.
Teólogos liberais e progressistas também se utilizam de táti-
cas de vergonha e humilhação. Eles reivindicam o terreno mo-
ral elevado e desprezam os cristãos conservadores, que acredi-
tam na Bíblia, como desamorosos, negativos e desagradáveis.
Porém, quando nós discordamos deles e do seu entendimento
das Escrituras, somos imediatamente rotulados de intolerantes

128 Tim LaH aye e Jerry B. Jenkins, Are We Living in the End Times? (Carol Stream, IL:
Tyndale, 1999), p. 71.
CULTURA DA CONDESCENDÊNCIA

e aborrecedores, acusados de sofrer algum tipo de fobia. Nós


não podemos ser autorizados a discordar com o ponto de vista
deles. Temos que ser marcados, difamados e castigados por nossa
posição. Mas não importa quão ruidosamente eles denunciem
a nossa posição na Palavra de Deus, nós não podemos permitir
que o medo da vergonha e da humilhação nos induza à covardia
e à condescendência.

Nós Temos Lm Padrão?

Enquanto muitos teólogos progressivos modernos têm uma vi-


são ruim das Escrituras, às vezes eles apelam a elas para apoiar
os seus pontos de vista e, ao mesmo tempo, descontar as partes
que não gostam. Uma das suas passagens preferidas é João 8 - a
história sobre a mulher que foi pega em adultério, a qual foi
trazida a Jesus pelos seus inimigos. Essa bela história é torcida
com a finalidade de apoiar todo tipo de noção não bíblica de
transigência moral. Rachel Held Evans, por exemplo, acredita
que Jesus quebrou a lei de Deus para ajudar a mulher nesta his-
tória. Ela escreve:

Jesu s d isse c e rta vez q u e a m issã o d e le n ã o e ra a b o lir a lei, m a s


sim c u m p ri-la . E , n e s te e x e m p lo , c u m p r ir a lei e ra n ã o fazer
n a d a . Isso p o d e se rv ir d e p o u c o c o n f o r to p a ra a q u e le s q u e
so fre ra m a b u s o n a s m ã o s d o s q u e u sa m a B íb lia lite ra lm e n te ,
m as as leis p e r tu r b a d o r a s d e L e v ític o c D c u te ro n ô m io p erd e m
u m p o u c o d a su a p o tê n cia q u a n d o o p ró p rio D e u s as q u e b ra .129

Esse é um desconto nada sutil da validade e autoridade da


Bíblia e uma acusação blasfema de que Jesus pecou. No entanto,

129 Rachel Held Evans, A Year o f Biblical Womanhood (Nashville: Thomas Nelson,
2012), p. 54.
A APOSTASIA VINDOURA

Evans não entendeu a questão. J. Carl Laney providencia uma


compreensão útil do significado desse texto:

C o n t u d o , a lei q u e re q u e ria a m o r te p a ra os a d ú lte ro s ta m b é m


d e m a n d a q u e te s te m u n h a s q u a lific a d a s se ja m as p rim e ira s a
c o m e ç a r o a p e d re ja m e n to ( D e u te r o n ô m io 1 7 .7 ). T ais te ste -
m u n h a s e ra m q u a lific a d a s d e a c o rd o c o m os re q u e rim e n to s
d a lei m o saica?
A s p alav ras d e Jesu s - “ Se a lg u m d e vo cês estiv e r sem p e-
c a d o ” - se re fe re m à q u a lific a ç ã o ch a v e n a lei m o sa ic a , o u
seja, q u e a te s te m u n h a n ã o seja m a lic io sa (D e u te ro n ô m io
1 9 .1 6 -1 9 ,2 1 ; cf. Ê x o d o 2 3 .1 -8 ) . U m a te s te m u n h a m a lic io -
sa p ro m o v e v io lê n c ia , p e rv e rte a ju s tiç a e a b u s a d a lei p a ra
p ro p ó s ito s eg o ísta s, p re c is a m e n te o q u e o s líd e re s relig io so s
es ta v a m fa z e n d o n e s te caso. Je su s sa b ia q u e aq u e le s q u e es-
ta v a m te s te m u n h a n d o c o n tr a a m u lh e r n ã o e sta v a m fa z e n d o
isso m o tiv a d o s p o r u m c o ra ç ã o p u r o e p o r u m in te re sse p elo
q u e é c e rto . O s se u s p ro p ó s ito s c o n s p ira tó rio s , in ju s to s e eg o -
ístas os d e s q u a lific a ra m d e p a r tic ip a r n a e x e c u ç ã o e x ig id a n a
lei m o sa ic a. [...] Jesu s n ã o e sta v a a p lic a n d o “é tic a s it u a c io n a r .
E le c h a m o u o a d u lté r io d e p e c a d o e o r d e n o u q u e a m u lh e r
p ara sse d e p ec ar. Jesu s n ã o e stav a a te n u a n d o o p a d rã o m o ra l
d e D e u s. E m vez d isso , ele e sta v a c u id a d o s a m e n te a p lic a n d o a
lei. A lei ex ig ia o a p e d r e ja m e n to , m a s ta m b é m r e q u e ria q u e as
te s te m u n h a s fo ssem q u a lific a d a s .130

Outra maneira de ver esse incidente é que “Jesus não está que-
brando a lei ou fazendo pouco caso da lei do Antigo Testamento.
Pelo contrário, Jesus está chamando a atenção desses homens
para o seu padrão duplo, pensando que a lei se aplicava mais a

130 J. Carl Laney, John (Chicago: Moody, 1992), p. 156-157.


CULTURA DA CONDESCENDÊNCIA

mulheres adúlteras do que a homens adúlteros”.131 Em ambos


os casos, não há necessidade de ver Jesus como um quebrador
de leis, como sugere Held Evans. A graça e o perdão que Jesus
estendeu à mulher em João 8 não deveríam ser usados para ame-
nizar a postura de Jesus contra o pecado. Nós precisamos lem-
brar que, depois de salvar a vida dela, Jesus famosamente disse:
“Agora vá e abandone sua vida de pecado”, que no contexto se
referia ao pecado de adultério.132
Observe que Jesus não encobriu o pecado dela. Além disso, o
mesmo Jesus que resgatou a mulher em João 8 da turba assassi‫־‬
na disse aos seus discípulos, no capítulo anterior, que o mundo
“a mim odeia porque dou testemunho de que o que ele faz é
mau”.133 Mais adiante no evangelho de João, Jesus diz:

Se o m u n d o os o d e ia , te n h a m c m m e n te q u e a n te s m e o d io u .
Se vocês p e rte n c e sse m a o m u n d o , ele o s a m a ria c o m o se fos-
sem d ele. T o d a v ia , vo cês n ã o são d o m u n d o , m a s e u os esco -
Ihi, tir a n d o -o s d o m u n d o ; p o r isso o m u n d o os o d e ia . L e m -
b r e m ‫־‬se d a s p alav ras q u e e u disse: N e n h u m escrav o é m a io r
d o q u e o se u s e n h o r. Se m e p e rs e g u ira m , ta m b é m p e rse g u irã o
vocês. Se o b e d e c e ra m à m in h a p a la v ra , ta m b é m o b e d e c e rã o à
d e vocês. T ra ta rã o assim v o cês p o r ca u sa d o m e u n o m e , p o is
n ã o c o n h e c e m a q u e le q u e m e e n v io u . Se e u n ã o tivesse v in d o
e fala d o a v o cês, n ã o se ria m c u lp a d o s d e p e c a d o . A g o ra , c o n -
tu d o , eles n ã o tê m d e s c u lp a p a ra o se u p e c a d o . A q u e le q u e m e
o d eia, ta m b é m o d e ia o m e u P a i.134

131 Trillian Newbell, ‫ ״‬Biblical Womanhood and the Problem of the Old Testament”,
Desiring God, 15 out. 2012. Disponível em: <goo.gl/tEovCL>.
132 Ver Joáo 8.11.
133 Joáo 7.7.
134 Joáo 15.1823‫־‬.
A APOSTASIA VINDOURA

Não devemos tomar Jesus ou qualquer Escritura em partes


e porções, divorciadas do contexto geral. Sim, pecados sexuais
não são os únicos pecados na Bíblia. Injustiça e ganância são
pecados, e nós não devemos nunca nos intimidar em nomeá-
-los. Mas nenhum de nós pode escolher nossos pecados favoritos
para condenar e deixar outros desaparecerem por medo de nos
tornarmos impopulares com o mundo.
Eu preciso admitir que todos nós usamos Jesus às vezes para
apoiar nossas visões de estimação ao mesmo tempo em que ig-
noramos o que ele diz sobre os nossos próprios hábitos e atitudes
pecaminosos. Nenhum de nós é inculpável no uso de Jesus ou de
outras partes das Escrituras para nossos próprios interesses. Mas
vamos ser pelo menos honestos sobre como somos propensos ao
mau uso das Escrituras e fazer o nosso melhor para interpretar as
palavras de Jesus, e todas as palavras das Escrituras, justamente,
fielmente e completamente no seu contexto original. Qualquer
coisa diferente é inaceitável.

Deixe-me Ilustrar

Para ajudá-lo a ver a profundidade da confusão e da condescen-


dência doutrinária atual, aqui está um exemplo de milhares que
poderíam ser citados da blogosfera. A escritora deste blog é uma
autora presente na lista dos livros mais vendidos do The New
York Times, e a sua comunidade online é visitada por centenas de
milhares de leitores todos os dias:

O m e lh o r c a m in h o , a p e rfe iç ã o s u b ja c e n te d as coisas q u e sin -


to p r o f u n d a m e n te e m m e u ser, é este: n ã o h á g u e rra . T o d a s
as pessoas fa m in ta s e stã o a lim e n ta d a s . T o d a s as pessoas so litá -
rias são a m a d a s. [...] Pessoas d e to d as as raças, religiões, gêneros,
sexualidades, c u ltu ra s e h ab ilid ad es são ig u a lm e n te valiosas e m
nossa ú n ic a fam ília h u m a n a . H á ju stiça. Paz. A m o r. Igu ald ade.
CULTURA DA CONDESCENDÊNCIA

E sse tip o d e o r d e m in v isív el d a s co isas - n a m in h a o p i-


n iã o - é o c é u n a te rra . O s c ristã o s p o d e m c h a m a r isso d e o
re in o d e D e u s . M e u s a m ig o s ju d e u s c h a m a m isso d e sh a lo m ,
e n q u a n to q u e o s m e u s a m ig o s a te u s c h a m a m isso d e a m o r o u
p az. G e n tile z a a m o ro sa . O s n o sso s irm ã o s e irm ã s b u d ista s
p o d e m c h a m a r isso. [sic\ T O D A S A S P E S S O A S q u e e stã o tr a ‫־‬
b a lh a n d o p a ra tra z e r a o rd e m in v isív el d a s co isas a c im a p a ra a
te rra ag o ra - se ja m a te u s , ju d e u s , b u d is ta s , h in d u s , m u ç u lm a -
n o s o u cristã o s - E SS A S pesso as são m in h a s aliad a s. N ã o m e
im p o r ta q u a l r ó tu lo v o c ê d á a si m e s m o , e u m e im p o r to c o m
a o r d e m in v isív el d a s co isas q u e v o cê a c re d ita e p elas q u a is está
tr a b a lh a n d o ...
C o n t u d o , se q u is e rm o s u m a e s c ritu ra z in h a p a ra a p o ia r a
id e ia d e n ã o c o n s id e ra r ró tu lo s - p o d e ria m o s o lh a r p a ra M a ‫־‬
te u s 7 .2 1 : “ N e m to d o a q u e le q u e m e d iz: ‘S e n h o r, S e n h o r’,
e n tra rá n o R e in o d o s cé u s, m a s a p e n a s a q u e le q u e faz a v o n ta -
d e d e m e u Pai q u e e stá n o s c é u s” .
E u a c h o q u e essa e s c ritu ra é u m a a m e a ç a d o in fe rn o ? C la ro
q u e n ão . E u n ã o a c h o q u e e s c ritu ra a lg u m a é u m a a m e a ç a -
e u a c h o q u e a e s c ritu ra é u m c o n v ite a u m a o r d e m invisível
d as co isas q u e é m a is v e rd a d e ira d o q u e q u a lq u e r c o isa q u e
p o ssa m o s re a lm e n te v e r.135

Repare na repetida linguagem de “sentir” e “o que eu acho”.


Sentimento e opinião humana são a Bíblia moderna. A autora
apela para Mateus 7.21 e acredita que a passagem não se refere a
pessoas sendo julgadas. Ironicamente, porém, o contexto intei-
ro de Mateus 7.15-23 diz respeito a falsos pastores que lideram
ovelhas desavisadas para fora do caminho apertado, que leva à
salvação, e os conduz pelo caminho que leva à destruição. O que

135 Glennon Doyle Melton, “Are You Waiting for Heaven or Working for It?”, Momas-
tery, 29 mar. 2016. Disponível em: <goo.gl/yfK8X5>.
A APOSTASIA VINDOURA

a autora está fazendo tragicamente vem cumprir a advertência


severa de Jesus na própria passagem que ela cita. Essa blogueira
se une ao coro de vozes que negam e desprezam a inerrância e
suficiência das Escrituras e a exclusividade de Jesus como o único
caminho que leva a Deus.
Muitos diriam que condescender nestas questões é inofensi‫־‬
vo e benigno. Eles se perguntam por que toda essa discussão
sobre alguns pontos teológicos. Para eles, as palavras doutrina e
doutrinário são pejorativas. Eles enxergam verdades doutrinárias e
teológicas como irrelevantes, impraticáveis, divisoras, desamorosas e
até incognoscíveis. O problema é que eles não têm amor por estas
verdades nem apreciação pelas consequências terríveis e eternas que
estão em jogo. Jesus falou frequentemente sobre a destruição eterna
daqueles que o rejeitam e rejeitam os seus ensinamentos.136

Pessoas Fiéis

Quando confrontado com a apostasia, encontro consolo ao ras-


trear as vidas dos grandes santos do passado que se posiciona-
ram contra uma onda parecida e se recusaram a condescender,
mesmo diante de assustadora perseguição. Uma destas pessoas
fiéis foi Atanásio de Alexandria. A vida de Atanásio foi uma saga
épica. Ele serviu como bispo de Alexandria por quarenta e cinco
anos. Ele conheceu cinco papas e cinco imperadores. Ele sobre-
viveu cinco exílios - perto de vinte anos - , além da perseguição
sob o imperador Diocleciano.
Atanásio é mais conhecido por sua longa batalha contra a he-
resia do arianismo. Ário, um líder da igreja de Alexandria, no
Egito, acreditava que Jesus não era coigual e coeterno a Deus Pai
e afirmou que Jesus era um ser criado. Ele ensinou que Cristo era
simplesmente uma criatura - o maior de todos os seres criados.

136 Ver Mateus 7 .1 3 1 4 ‫ ; ־‬Joáo 3.36; 8.24.


CULTURA DA CONDESCENDÊNCIA

Atanásio não fez pouco caso do assunto, como se fosse sem im-
portância ou sem consequências. Ele entendeu que a totalidade
da fé cristã estava em jogo. A controvérsia com Ario alastrou-se
por muitos anos. Num certo ponto, quando parecia que todo
o Império Romano estava se movendo para longe da ortodoxia
e em direção ao arianismo, um preocupado colega de Atanásio
exclamou exasperado: “O mundo inteiro está contra você!”. Im-
perturbável, Atanásio deu a sua famosa resposta: “Então é Ata-
násio contra o mundo”.
Outro antigo gigante da fé foi Tertuliano, um advogado de
Cartago (no norte da África) que serviu à igreja no terceiro sécu-
lo. Ele foi o autor de um livro intitulado On Idolatry [A Idola-
tria]. O livro trata da questão dos cristãos que ganhavam a vida
fabricando imagens de ídolos. Quando os crentes de seus dias
foram informados de que, por serem cristãos, não deveríam se
envolver no negócio de ídolos, diziam: “Precisamos viver. Não
há outra maneira pela qual possamos nos sustentar”.
A resposta de Tertuliano foi: “Vocês precisam viver?”.
Que pergunta interessante. Ela atinge o coração da condes-
cendência. Sempre possuímos alguma desculpa para a nossa
condescendência. A derradeira justificativa seria: “Eu tenho que
viver”. No entanto, a verdade é que nem eu nem você temos
que viver. Nós pensamos que temos que viver. Muitos hoje em
dia acreditam que precisam viver e que precisam viver uma vida
confortável, sem nenhum conflito com a nossa cultura. A ver-
dade, no entanto, é que você e eu não temos que viver. A reivi n-
dicação suprema sobre as nossas vidas é lealdade a Cristo. Nossa
lealdade máxima não é para nossas vidas físicas - é para Cristo.
Nós não temos que viver, mas nós temos que ser leais a ele. Isso
é que é viver.
Na medida em que líderes, igrejas e denominações desviam-
-se da verdade e se afastam cada vez mais da fé, nós precisamos,
como Daniel, Anastácio e Tertuliano, permanecer firmes na ver­
A APOSTASIA VINDOURA

dade da Palavra de Deus. Não importa quão forte e contínua a


oposição possa aumentar, nós devemos, alegre e graciosamente,
defender a verdade, amorosamente compartilhá-la com os ou-
tros e nos esforçar para praticá-la em nossas vidas todos os dias,
no poder do Espírito Santo.
C apítulo 5

QUANDO A TOLERANCIA E
INTOLERÁVEL
No entantOy contra você tenho isto: você tolera Jezabel...
Apocalipse 2.20

O voo 1 1 d a American Airlines saiu do portão 26 para o que


se esperava ser uma viagem rotineira de Boston a Los Angeles.
O capitão John Ogonowski taxiou o seu Boeing 767-200ER na
pista com nove comissários de bordo e oitenta e um passageiros,
decolando às 7:59 da manhã. Ninguém podería imaginar que,
quarenta e sete minutos depois, todos eles morreríam. Quando
o avião se projetou para dentro da torre norte do World Trade
Center a 708 quilômetros por hora, 36 782 litros de combus‫־‬
tível explodiram, lançando cada um a bordo para a eternidade.
O mundo todo mudou num instante.
A causa dos eventos daquele desastroso dia de setembro foi
um punhado de homens. Consumidos por uma ideologia jiha-
dista, eles se empenharam à destruição da vida humana. E então,
invadindo a cabine de pilotagem, assumiram o controle do voo
11 enquanto simultaneamente atacaram e mataram passageiros
e tripulantes.
O cérebro desta profana guerra aérea naquele dia foi o térro-
rista egípcio Mohamed Atta. Ele estava acompanhado de quatro
A APOSTASIA VINDOURA

colegas terroristas (todos da Arábia Saudita). Quando a conta-


gem de corpos foi finalizada, outras 1 466 pessoas morreram na
torre norte, com mais 624 na torre sul. Aviões comerciais ameri-
canos foram transformados em mísseis explosivos tripulados por
muçulmanos maníacos. Foi o pior sequestro da história. E, na
verdade, embora súbito e inesperado, ele foi planejado por anos.
Nestes últimos dias, não são apenas os aviões que estão sendo
sequestrados. A Bíblia afirma: “O coração é mais enganoso que
qualquer outra coisa e sua doença é incurável. Quem é capaz de
compreendê-lo?”.137
Pelo fato de a humanidade ser inerentemente depravada, nós
iniciamos e participamos de outros tipos de sequestros: rapta-
mos a verdade, os valores morais e até o senso comum. Através
do engenhoso engano ao longo do tempo, nossa natureza pe-
caminosa, em parceria com o espírito desta época, toma como
reféns as boas coisas de Deus na tentativa de redefinir, repensar
e, em alguns casos, eliminar elas completamente do disco rígido
da humanidade.
Vemos essa pirataria da moral e dos padrões acontecendo hoje
no que se refere ao conceito de amor. Na tentativa de justificar
a atividade homossexual e o casamento entre pessoas do mes-
mo sexo, ativistas LGBT cunharam o slogan “amor é amor”. O
argumento por trás desse slogan é que se alguém sente afeição
romântica ou atração por qualquer outra pessoa (independente-
mente do seu gênero ou idade), então com certeza deve ser amor,
certo? Consequentemente, “amor é amor”. E certo que, se você
redefinir o que é amor, bem como de onde ele se origina, então
virtualmente qualquer definição ou expressão desse amor torna-
-se imediatamente legítima e justificável. Moralmente certa. Até
mesmo um “direito humano”. Redefinido e visto desta maneira,
o amor em si já não é mais um padrão definitivo pelo qual toda

137 Jeremias 17.9.


QUANDO A TOLERANCIA É INTOLERÁVEL

a humanidade deveria operar, mas, em vez disso, um capricho


em constante evolução nascido da preferência individual. Os
amores conjugal e sexual tornam-se então afeições e emoções
que alguém pode sentir por qualquer um - outros homens ou
mulheres, até mesmo múltiplas pessoas envolvendo múltiplos
gêneros ou nenhum “gênero”. Cada pessoa (ou seja, cada coração
enganoso e perverso) decide o que é amor, e não um livro anti-
quado ou uma suposta divindade.
É claro que, se realmente não existe Deus ou uma Escritura
autoritária, então logicamente não existe um padrão definitivo
para a moralidade - ou para a realidade, neste caso. O que é
“bom” ou “certo” para você é tão válido quanto a escolha de
qualquer outra pessoa. Pois, sem Deus para criar, revelar, guiar,
julgar ou recompensar, as decisões de vida de todos são igual-
mente aceitáveis... e sem sentido.
Pela mesma razão, sem Deus também não pode haver uma
forma autoritária ou conclusiva de saber se o que você sente por
alguém é uma conexão espiritual genuína, um sentimento emo-
cional ou uma compulsão social. Não há uma maneira de deter-
minar se “amor” é meramente um impulso físico provocado pela
química. Se somos apenas “moléculas em movimento”, somos
incapazes de saber qualquer coisa com certeza. Como C. S. Lewis
sabiamente observou:

S u p o n d o q u e n ã o h a ja u m a in te lig ê n c ia c ria d o ra p o r trás d o


u n iv e rso , e n tã o n in g u é m p la n e jo u o m e u c é re b ro p a ra o p ro -
p ó s ito d e p en sar. O q u e a c o n te c e é a p e n a s q u e , q u a n d o os
á to m o s d e n tr o d o m e u c râ n io , p o r raz õ es físicas o u q u ím ic a s,
se a rra n ja m d e c e rta m a n e ira , isso m e d á , c o m o u m re su lta d o ,
a sen sação q u e e u c h a m o d e p e n s a m e n to . M as, se é p en sa -
m e n to , c o m o p o sso c o n fia r q u e m e u p r ó p rio p e n s a m e n to é
v erd a d eiro ? É c o m o v ira r u m a ja r r a d e le ite e es p e ra r q u e a su a
f o rm a e s p a lh a d a a p re s e n te u m m a p a d e L o n d re s. M a s, se n ã o
A APOSTASIA VINDOURA

p o sso c o n fia r e m m e u p r ó p rio p e n s a m e n to , c e r ta m e n te n ã o


p o sso a c re d ita r n o s a r g u m e n to s q u e le v a m ao a te ís m o . P o r
isso, n ã o te n h o n e n h u m a raz ão p a ra ser u m a te u o u q u a lq u e r
co isa s e m e lh a n te . Se e u n ã o c re io e m D e u s , n ã o p o sso c re r n o
p e n s a m e n to . P o rta n to , n ã o p o sso u sa r o p e n s a m e n to p a ra n ã o
c re r e m D e u s .138139

Sendo assim, algo como o “amor verdadeiro” nem pode existir


sem Deus. Além disso, as Escrituras nos dizem o seguinte:
• “Sabemos o que é o amor porque Jesus deu sua vida por
‫ יי ׳‬no
nos.
• “Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho
Unigénito, para que todo o que nele crer não pereça,
mas tenha a vida eterna.”140
• “Mas Deus nos prova seu grande amor ao enviar Cristo
para morrer por nós quando ainda éramos pecadores.”141

A Bíblia também afirma indiscutivelmente que o amor vem de


Deus. Portanto, amor não é amor; Deus é.142Além disso, a única
maneira pela qual podemos verdadeiramente conhecer o amor
em qualquer tipo de relacionamento significativo é experimen‫־‬
tando primeiro o seu amor por nós.143 E em nenhum outro lugar
isso é mais verdadeiro do que no relacionamento matrimonial.
Quando o marido e a esposa experimentam o amor de Deus,
eles são capazes de experimentar um amor mais profundo um
pelo outro.144

138 C. S. Lewis, The Casefor Christianity (Nashville: Broadman and Holman, 2000), p. 32.
139 1João 3.16a (NVT).
140 João 3.16.
141 Romanos 5.8 (NVT).
142 Ver IJoão 4 .7 8 ‫־‬.
143 Ver lJoão 4.19.
144 Ver Lfésios 5.25,2829‫־‬.
QUANDO Λ TOLERÂNCIA É INTOLERÁVEL

É claro que descrentes podem experimentar alguns aspectos


do amor. Eles podem realizar atos de serviço altruísta em favor
de outros. Eles podem conhecer a alegria emocional e a satisfa-
ção de ter outra pessoa em suas vidas. Eles podem apreciar como
aquela pessoa preenche um vazio onde antes habitava a solidão.
Eles podem desfrutar o maravilhoso companheirismo do amor
relacionai humano. No entanto, eles nunca podem experimentar
plenamente tudo que o amor é e tem a oferecer, até que o rece-
bam de Deus, que é amor.
Finalmente, uma pessoa não pode dar aquilo que ela mesma
não possui. Encontrar o amor incondicional de Deus e a salva-
ção dá aos crentes a capacidade de realização emocional, serviço
altruísta, perseverança e perdão que são exponencialmente au-
mentados além do que a pessoa comum pode imaginar. Infeliz-
mente, muitos cristãos professos não crescem “na graça e no co-
nhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” de modo
a aprofundar sua exposição ao seu amor e participação nele.145
Mas o que estamos vendo acontecer hoje em dia é mais do
que só pessoas perdendo o amor de Deus. Em vez disso, tem
havido um movimento deliberado e consciente de rejeitar a de-
finição bíblica de amor e casamento, substituindo-o por um que
se harmoniza mais com os padrões morais decadentes da cultura.
Após a decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos em
2014 a favor do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a Star-
bucks pendurou uma “bandeira arco-íris” de 1 1 ,5 metros de lar-
gura e 5 metros de altura sobre a sua sede corporativa, em Seat-
tie. Anthony Hesseltine, um funcionário da empresa, comentou
na ocasião: “A mensagem é toda sobre a diversidade e aceitar pes-
soas por suas diferenças. Se pensamos em um arco-íris, nenhuma

145 2Pcdro 3.18.


A APOSTASIA VINDOURA

das suas cores é dominante. É uma harmonização das diferentes


cores, cada cor contribuindo com o todo146147.‫״‬
Diversidade e harmonia. Mais dois sequestros.
Nossa sociedade está se prostrando no altar da tolerância e
adorando no santuário da mente aberta. Valores que histori-
camente foram defendidos pela fé cristã estão sendo sistemad-
camente substituídos, tratados como lâmpadas queimadas por
uma cultura que está numa relação romântica com as trevas.14‫׳‬
Pense em como o nosso mundo está redefinindo os seguintes
conceitos cristãos:
• Aceitação (Romanos 15.7);
• Unidade e diversidade (Gálatas 3.27-29; 1 Corintios
12.12-13);
• Compaixão (Colossenses 3.12-13);
• Justiça (Provérbios 28.5; 29.7; Miqueias 6 .8 ; Romanos
12.19);
• Espiritualidade (Mateus 5.21-28; Gálatas 5.16; Efésios
5.18);
• Intolerância e preconceito (Atos 10.28; Romanos 10.12-
13; Colossenses 3.11; Tiago 2.9);
• Ódio (Provérbios 6.16-19; Romanos 12.9);
• Perdão (Efésios 4.32; Colossenses 3.13; ITessalonicen-
ses 5.15);
• Verdade (João 4.24; 8.32; 14.6; 17.17); e
• Martírio (Mateus 10.28; Lucas 11.50-51; Hebreus
11.37-40; Apocalipse 2.10; 6.11).

Quando comparamos o modo como cada um destes conceitos


é definido pela cultura com a descrição dos mesmos nas Escri-

146 “For the First Time, Starbucks Raises the Pride Flag atop its Headquarters”, Star-
bucks Stories, 23 jun. 2014. Disponível em: <goo.gl/F6vsLz>.
147 Ver João 1.9; 3 . 1 9 8 . 1 2 ;20‫־‬.
QUANDO A TOLERÂNCIA É INTOLERÁVEL

turas, podemos ver como eles têm sido torcidos e transformados


em armas contra os seguidores de Jesus. E uma troca de lugares,
uma virada de jogo. E é um exemplo moderno das palavras do
profeta Isaías:

A i dos q u e c h a m a m ao m al b e m e ao b e m , m al, q u e fazem das


trevas luz e d a luz, trevas, d o am a rg o , d o c e e d o do ce, am arg o !148

Paulo ecoou Isaías, escrevendo que aqueles que deliberada-


mente rejeitam o Criador e seu direito de governar em suas vidas
“trocaram a verdade de Deus pela mentira”. A consequência da
rebeldia espiritual é que Deus “os entregou” ao julgamento .149150E
a humanidade continua se afundando cada vez mais nas profun-
dezas da depravação, ao ponto que eles

to r n a re m -s e c h e io s d e to d a s o rte d e in ju s tiç a , m a ld a d e , ga-


n â n c ia e d e p ra v a ç ã o . E stã o c h e io s d e in v e ja, h o m ic íd io , ri-
v alid ad e s, e n g a n o e m a líc ia . S ão b is b ilh o te iro s , c a lu n ia d o re s ,
in im ig o s d e D e u s , in so le n te s, a rro g a n te s e p re su n ç o so s; in -
v e n ta m m a n e ira s d e p r a tic a r o m a l; d e s o b e d e c e m a seu s pais;
são in se n sa to s, deslea is, se m a m o r p e la fa m ília , im p lac áv e is.
E m b o ra co n h e ç a m o ju sto d ec reto d e D e u s, d e q u e as pessoas q u e
p ra tic a m tais coisas m e re c e m a m o rte , n ão so m e n te c o n tin u a m
a praticá-las, m as ta m b é m ap ro v a m aqueles q u e as p ra tic a m .0‫צו‬

Falando a Verdade

Assim, podemos ver nas Escrituras que muitos dos valores e “ver-
dades” promovidos hoje em dia são nada mais do que mentiras,

148 Isaías 5.20.


149 Romanos 1.2428‫־‬.
150 Romanos 1.2932‫־‬.
A APOSTASIA VINDOURA

imitações reinventadas da realidade. Ódio foi redefinido para sig-


niñear que “os seus valores bíblicos se chocam com os meus; por-
tanto, você é uma pessoa tóxica”. Ironicamente, o que o mundo
agora chama de “ódio” recebe de volta o verdadeiro ódio. Mas
isso não é nenhuma novidade. A mesma coisa aconteceu nos
tempos de Jesus. O nosso Senhor demonstrou mais amor aos
pecadores do que qualquer um podería demonstrar. E, ainda que
motivado por este mesmo amor (verdadeiro), ele também disse
a verdade aos que não se arrependeram dos seus pecados; e esses,
por sua vez, veementemente o odiaram por isso.151 Isso também
fez parte do que causou a sua morte.
Alguns cristãos usarão o famoso argumento de que “Jesus se
reunia com pecadores” para justificar amizades ou para tolerar o
pecado no corpo de Cristo. E, embora os crentes devam sempre
buscar construir pontes e amizades com os perdidos, o que às
vezes nos passa despercebido é que muitos daqueles pecadores
com os quais Cristo passou tempo estavam bem conscientes de
que sua condição pecaminosa e seu estilo de vida condenável
eram um problema. Sim, Jesus os aceitou em sua presença, mas
ele não os aceitou no seu reino até que eles reconheceram a ne-
cessidade que tinham dele e confiaram nele para perdoar os seus
pecados. São estes que ele promete jamais rejeitar.152
Nestes últimos dias, os valores e virtudes das Escrituras foram
sequestrados por uma civilização pós-cristã e alimentados por
uma ilusão satânica e corações e mentes obscurecidos. Na ver-
dade, nada mais parece ser sagrado em um mundo acelerando
rumo ao Apocalipse. Moral, valores, virtudes, origens, sexuali-
dade - todos estão à disposição, reciclados e revendidos àqueles
cuja consciência não está purificada pelas Escrituras. Até mesmo
o arco-íris que vemos no céu tornou-se refém e redefinido para

151 Ver João 15.18-25.


152 Ver João 6.37; Marcos 2 .1 3 1 7 ‫ ; ־‬Lucas 7 . 3 6 1 0 ‫ ־‬50 ; 19.1‫ ־‬.
QUANDO A TOLERÂNCIA É INTOLERÁVEL

simbolizar as várias escolhas de gênero, sexo e relacionamento


atualmente promovidas e celebradas nos nossos tempos.
Todavia, Deus fez o arco-íris, e ele não tem nada a ver com
a sexualidade. Ele tem, no entanto, um sentido simbólico, um
sinal de uma promessa que Deus fez com Noé e com as gerações
que o sucederam, de que ele nunca mais destruiría a humanida-
de com água. 153 Ironicamente, essa promessa veio depois que ele
trouxe um julgamento global devastador sobre os seres humanos
por causa da impiedade, violência e corrupção moral que agora
enche o nosso planeta!154

O “ Pecado Imperdoável”

Porém, possivelmente o maior sequestro de todos é o que a nos-


sa cultura tem feito com a ‫״‬tolerância”. Do jeito que algumas
pessoas falam, você acha que tolerância é a mais importante das
virtudes. No espírito da tolerância, algumas faculdades e univer-
sidades têm criado ‫״‬espaços seguros” nos seus campi para “pro-
teger” estudantes de opiniões divergentes. Assim, por exemplo,
se você afirma ser transgénero, lésbica ou “kingênero” (aqueles
que se identificam como parcialmente ou totalmente inumanos
—como um dragão ou uma raposa), a escola providenciará um
espaço onde você pode ser protegido da vergonha, ridiculariza-
ção, opressão ou perseguição.155 Sim, perseguição. A humanidade
claramente tomou um rumo de Romanos 1 em direção ao bi-
zarro. O que é comercializado e vendido como tolerância hoje
dificilmente se assemelha com a correspondente virtude cristã.

153 Ver Gênesis 9 .9 1 7 ‫ ־‬.


154 Ver Gênesis 6.1-13; Romanos 1; 3.11 2 ,2 3 ‫־‬. Para uma exposição mais detalhada
sobre o julgamento do Dilúvio, a geração de Noé e a sua relação com a profecia dos
últimos dias, ver Jeff Kinley, As It Was in the Days o f Noah (Eugene, OR: Harvest
House, 2014).
155 The Safe Space Network. Disponível em: <safespacenetwork.tumblr.com/Safespace>.
A APOSTASIA VINDOURA

Na sociedade contemporânea, tolerância significa ser aberto a


idéias divergentes e aceitar completamente aqueles que náo são
como você. Parece bom, não é? Até parece algo cristão. Quero
dizer, quem não gostaria de ser conhecido como alguém aberto
e acessível?
Os que são fiéis seguidores de Cristo já são assim. Tolerância
cristã significa demonstrar paciência com os colegas de traba-
lho, colegas de aula, amigos e familiares que não são cristãos.
Significa que nós ouvimos e nos importamos. Nós exercitamos
tolerância porque nós amamos as pessoas e sabemos que Deus
pode mudá-las. Nós oramos por eles e somos pacientes com eles
porque lembramos do tempo em que Deus e outras pessoas nos
trataram com o mesmo tipo de tolerância. 156 Significa que eles
podem vir a Deus do jeito que eles estão; afinal, como nós tam-
bém viemos.
No entanto, juntamente com a compaixão, compreensão e
empatia, chega a hora em que temos que dar nome ao pecado.
Como crentes, nós servimos numa função dupla de sacerdote e
profeta, sendo tanto compassivos como confrontadores. E, em-
bora equilibrar esse papel pode ser desafiador, as duas responsa-
bilidades podem existir juntas e simultaneamente. Nós podemos
ser tolerantes e, ao mesmo tempo, firmes na Palavra de Deus.
Um dos jeitos pode soar mais “amável” do que o outro. Mas,
será mesmo? ___________________________
Quando o meu (Jeff) filho Stuart tinha dois anos, seu irmão
mais velho caiu sem querer em cima dele, fraturando sua cia-
vícula. O acidente também quebrou meu coração, pois estáva-
mos todos brincando juntos quando isso aconteceu. O Salmo
103.13 diz: “Como um pai tem compaixão de seus filhos, assim
o S e n h o r tem compaixão dos que o temem”. Foi assim que me
senti enquanto levava Stuart para o hospital. E, durante a sua

156 Ver Efésios 4.32; Filipenscs 4.5.


QUANDO A TOLERÂNCIA É INTOLERÁVEL

recuperação, ninguém demonstrou maior compaixão por Stuart


do que eu. Toda vez que eu o via fazendo caretas de dor, o meu
coração doía. Eu queria muito poder remover o seu sofrimento
e desconforto. Mas a minha compaixão não podia anular o fato
de que ele ainda precisava ir ao médico, ser examinado e radio-
grafado, ter seu braço preso a uma tipo ia desconfortável e ouvir
constantemente que ele precisava permanecer imóvel por várias
semanas. A fria e difícil verdade era que ele teria que aguentar
dias difíceis pela frente. E, como seu pai, eu não somente o abra-
cei e o ajudei a se vestir, mas eu também tive que negar os seus
pedidos de ir brincar lá fora.
Isso acontece porque a verdade e a compaixão não são inimi-
gas. Elas são parceiras. E uma sem a outra muitas vezes leva a uma
deturpação de ambas. Como cristãos, nós temos uma tendência
de balançar o pêndulo quando precisamos lidar com o mundo lá
fora. Em nossa tentativa de alcançar o perdido, podemos nos es-
forçar tanto em sermos relevantes que nós comprometemos a fé.
Por outro lado, ao “defender o que cremos”, também podemos
cometer o erro dos fariseus, negligenciando “os preceitos mais
importantes da lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade”.17‫י‬
Mas nenhum dos atributos de Deus - da sua maravilhosa graça
a sua ira aterrorizante - são mutuamente exclusivos. Eles nunca
entram em conflito e nem se contradizem. É somente o nos-
so entendimento limitado destes atributos que causa confusão.
Contudo, na contabilidade de Deus existe perfeita harmonia e
equilíbrio divino entre eles.
Na prática, tanto o mundo quanto a igreja tendem a pertur-
bar esse equilíbrio ao enfatizar demais um e excluir o restante. O
que nós precisamos é de um entendimento apropriado das virtu-
des e valores das Escrituras e da habilidade para então aplicá-los
às pessoas e circunstâncias da vida real.157

157 Mateus 23.23. Ver também Mateus 9.13.


A APOS TASIA VINDOURA

Sim, por causa da verdade há um tempo para uma intolerân-


cia inabalável. Os pais precisam demonstrar intolerância diante
de certos comportamentos e atitudes dos seus filhos. Os pastores
precisam ser intolerantes com doutrinas falsas e qualquer um
que possa ameaçar o bem-estar das suas ovelhas. Os maridos de-
vem ser intolerantes com coisas que possam prejudicar suas es-
posas e o casamento. Os governantes devem ser intolerantes com
os malfeitores, aplicando punição justa. E, como cristãos, nós
precisamos mostrar intolerância a qualquer pensamento, filoso-
fia ou valor que se levanta contra o conhecimento de Deus. 158
Em todos esses casos, intolerância não é ódio nem fanatismo,
mas sim amor genuíno, cuidado, lealdade e justiça.
Paulo foi intolerante com o pecado descarado na igreja, pro-
nunciando rápida e completa condenação aos que nisso partici-
param em ¡Corintios 5.1-7. Contudo, apenas 3 versos depois,
ele lembra os corintios a continuarem suas amizades com des-
crentes que eram imorais, cobiçosos, ladrões e até idólatras. Nes-
se sentido, nós nunca deveriamos permitir que o mundo ame
mais do que nós. Ao mesmo tempo, Paulo instou os corintios a
limitarem a associação com os chamados “crentes” que praticam
tais pecados. Esse é um exemplo de como a verdade e o amor
coexistem um com o outro. Infelizmente, no entanto, muitos na
comunidade cristã estão abraçando essa tolerância redefinida e
até lendo e reinterpretando a Bíblia à luz disso. E talvez em ne-
nhum outro lugar isso é tão evidente quanto no caso do pecado
da homossexualidade. Embora Mark irá cobrir este assunto de
forma mais compreensiva no capítulo 7, vale notar que bloguei-
ros e autores influentes, como Matthew Vines, têm amplamen-
te aceitado e promovido a homossexualidade não apenas como
algo tolerável, mas como vindo do próprio Deus! A ideia é que,

158 Ver 2 C o rín tio s 10.5.


QUANDO A TOLERANCIA É INTOLERÁVEL

já que homossexuais “nascem assim‫״‬, os cristãos deveríam acei-


tar, e até aprovar, a prática homossexual.
Não é uma ironia que o nosso mundo (e alguns que afirmam
conhecer Jesus) permita tolerância para tudo menos a cosmovisão
cristã? De onde vem essa mentalidade de indiscriminada tolerân-
cia? E, ainda mais importante, para onde ela está nos levando?
Como um cristão vê sentido numa cultura que iguala tolerância
desenfreada com amor e ainda a chama de amor de Deus? É aqui
que os valores espirituais sequestrados pervertem e distorcem de
forma especial as verdades bíblicas. São inclusões imprudentes,
amor negligente e moralidade desprovida de sabedoria. Esses são
os portões abertos pelos quais a apostasia entra. E não podemos
nem devemos depender do governo humano para reconhecer
Deus e apoiar os seus padrões.
Tolerância cristã é dar espaço nos nossos corações para aqueles
que são diferentes. Também significa aceitar aqueles que são fra‫־‬
eos na fé ou que ainda precisam amadurecer no relacionamento
com Deus. 159 Mas, como qualquer outra virtude, ela é tempera-
da com sabedoria. Existem limites para quanta tolerância exibi-
mos e por quanto tempo. Podemos tolerar o latido do cachorro
do vizinho por algumas horas, mas não a noite inteira. Podemos
tolerar uma opinião dissidente de um colega de trabalho, mas
não quando ela começa a dificultar a produtividade e a moral da
empresa. Podemos tolerar uma opinião negativa de um parente a
nosso respeito, mas não quando aquele parente começa a infestar
os outros com mentiras e rumores sem fundamento. E podemos
tolerar pessoas que estão escravizadas pelo pecado, mas nunca
tolerar o pecado em si.
Contudo, a não ser que tenhamos muito cuidado, podemos
ser culpados do mesmo pecado da igreja de Tiatira, uma das
cinco congregações em Apocalipse que receberam uma intensa

159 Ver R om anos 14.


A APOSTASIA VINDOURA

repreensão de Jesus. Essa comunidade de fé transbordou de tole-


rancia —a do tipo ruim.
Enquanto Jesus louvou a igreja de Éfeso porque eles não to-
leravam “homens maus”, ele condenou a igreja em Tiatira por
causa da sua tolerância.160 Os crentes de Tiatira alegremente
coexistiram com uma mulher na igreja deles (apelidada de “Je-
zabel”) que se intitulava uma profetisa. O ensino dela levou a
congregação a afastar-se de um viver santo e a entrar na imora-
lidade e nos “profundos segredos de Satanás161.‫ ״‬E Cristo não
estava satisfeito.
Por isso, não nos atrevamos a ter essa atitude com relação à
graça de Deus, abusando dela para nossos próprios prazeres ego-
ístas. 162 No outro lado da libertinagem está o que os legalistas fa-
zem com os mandamentos de Deus: torcendo-os, redefinindo-os
e atribuindo mais significado a eles do que as Escrituras, “ensi-
nando doutrinas que são preceitos de homens”.163 Jesus advertiu
severamente os fariseus do seu tempo: “Bem profetizou Isaías
acerca de vocês, hipócritas; como está escrito: ‘Este povo me
honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim ’”.164 E
de novo: “Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas! Vocês
são como sepulcros caiados: bonitos por fora, mas por dentro es-
tão cheios de ossos e de todo tipo de imundície. Assim são vocês:
por fora parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de
hipocrisia e maldade”.165
Os legalistas sequestram o conceito cristão de obediência,
aterrorizando o povo de Deus com isso. Essa é na verdade uma

160 Apocalipse 2.2. Ver Apocalipse 2.20.


161 Apocalipse 2.24.
162 Ver Romanos 6.1-2,15; Gálatas 2.17-21; 5.13; 1Pedro 2.16.
163 Mateus 15.9 (ARA).
164 Marcos 7.6.
165 Mateus 23.27-28. Ver também Isaías 29.13; Mateus 6.1-2; 23.24; Lucas 16.15;
Galaras 4 . 1 0 4 ‫ ־‬11; 5.2‫־‬.
QUANDO A TOLERÂNCIA É INTOLERÁVEL

forma de mundanismo e carnalidade, porque ela alimenta e ca-


pacita a natureza humana na sua busca implacável para se justificar.
Mas Jesus disse: “Se vocês me amam, obedecerão aos meus
mandamentos”. 166 Note que é o amor por Cristo que motiva a
obediência, e não vice-versa. E o nosso amor por Cristo é direta-
mente proporcional ao nosso entendimento da sua verdade e da
gratidão e afeição que esse conhecimento propriamente produz.
Portanto, devemos evitar esse erro doutrinário e espiritual a todo
custo, para que não caiamos na mesma armadilha dos que são
do mundo.

Tolerância c o Fim da História

Então, como esse fenômeno da tolerância interfere na apostasia


dos últimos dias? Pelo que vimos, a tolerância atual não é ape-
nas um enfraquecimento da verdade ou dos valores, mas sim
uma deliberada negação dos mesmos. Os efeitos desse engano
espiritual são uma parte da coceira nos ouvidos, dos “mitos” dos
tempos finais sobre os quais Paulo solenemente avisou Timóteo.
E Satanás, que é o deus desta era e também o príncipe do poder do
ar, é quem alimenta essa grande ilusão. Consistente com a sua natu-
reza, ele faz jus à sua reputação de mentiroso e de pai da mentira.167
Felizmente para nós, apesar de Deus não tolerar o pecado, ele
tem paciência com os pecadores. Esta verdade levou Habacuque
a argumentar:

T e u s o lh o s são tã o p u ro s q u e n ã o s u p o r ta m v e r o m al; n ão
p o d e s to le ra r a m a ld a d e . E n tã o , p o r q u e to le ra s os p erversos?

166 João 14.15.


167 Ver 2Timóteo 4.32 ;5‫־‬Coríncios 4.4; Efésios 2.2; 6.11; João 8.44.
Λ APOSTASIA VINDOURA

P o r q u e ficas ca la d o e n q u a n to o s ím p io s d e v o ra m os q u e são
m a is ju s to s q u e eles?168

Sem dúvida você tem o mesmo sentimento quando observa


o mundo ao seu redor. Enquanto você sabe que Deus é intole‫־‬
rante com o pecado» parece que ele ainda permite que muitos
aconteçam . 169 Mas essa é outra razão pela qual conhecer as Escri-
turas é tão importante. A Bíblia também diz que está chegando
um tempo em que a paciência de Deus vai acabar. Pedro nos
lembra: “O Senhor não demora em cumprir a sua promessa,
como julgam alguns. Ao contrário, ele é paciente com vocês,
não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao
arrependimento170.‫״‬
Paulo ecoa isso cm Romanos 2 .4 5 ‫־‬, alertando descrentes a
não tomarem por certo a “paciência” (tolerância) de Deus:

O u se rá q u e v o c ê d e s p re z a as riq u e z a s d a su a b o n d a d e , to le ‫־‬
râ n c ia c p a c iê n c ia , n ã o re c o n h e c e n d o q u e a b o n d a d e d c D e u s
o leva ao a r r e p e n d im e n to ? C o n t u d o , p o r c a u sa d a su a te im o -
sia e d o se u c o ra ç ã o o b s tin a d o , v o c ê e stá a c u m u la n d o ira c o n -
tr a si m e s m o , p a ra o d ia d a ira d e D e u s , q u a n d o se rev e lará o
se u ju s to ju lg a m e n to .

Claramente, a paciência e a tolerância dc Deus são como ir‫־‬


mãs com DNA semelhante. Por sua graça e misericórdia, ele re‫־‬
teve julgamento sobre os pecados anteriormente cometidos. 171

168 Habacuquc 1.13.


169 Deus tem um plano e um propósito para tudo, inclusive a existência do mal e de
homens maus (ver Romanos 9 .1 5 2 2 ‫ ;־‬Provérbios 16.4; Deuteronômio 29.29). E
impossível conhecer todas as razões porque Deus permite que o mal exista, mas nós
sabemos que ele pode tornar ações pecaminosas em coisas boas para nós c cm glória
para ele (ver Gênesis 50.20; Atos 2.23; 4 .2 7 2 8 ‫ ;־‬Romanos 8.28).
170 2Pedro 3.9.
171 Ver Aros 14.1517‫ ; ־‬Romanos 3.24-25.
QUANDO A TOLERÂNCIA É INTOLERÁVEL

Ainda hoje, nem todo pecado é punido imediatamente, o que


não significa que Deus vai esperar para sempre. Sua paciência e
tolerância atuais não são pelos pecadores, mas com eles. Enquan-
to houver fôlego de vida (sendo o próprio fôlego um presente
gracioso de Deus), ainda há tempo para arrependimento . 172
Mas um dia a tolerância e a paciência de Deus darão lugar à
ira global. Isso começa nos sete anos de tribulação, onde a “ira
do Cordeiro” e de seu Pai será derramada sobre a terra e seus
habitantes. Curiosamente, mesmo aqueles que sofrem essa ira
sabem de onde ela vem, como Apocalipse 6.1517‫ ־‬profetiza:

E n tã o os reis d a te rra , o s p rín c ip e s , os g e n e rais, os rico s, os p o -


d e ro so s - to d o s , escrav o s e livres, se e s c o n d e ra m e m ca v ern as
e e n tre as ro c h a s d as m o n ta n h a s . E les g rita v a m às m o n ta n h a s
e às ro ch as: '‘C a ia m so b re n ó s e e s c o n d a m -n o s d a face d a q u e le
q u e e stá a sse n ta d o n o tr o n o e d a ira d o C o rd e iro ! Pois c h e g o u
o g ra n d e d ia d a ira d eles; e q u e m p o d e rá s u p o r ta r ? ” .

O dia do Senhor será um dia de feroz intolerância. Não é


muito melhor voltar-se para a graça de Deus enquanto ela ainda
é livremente oferecida?
Por todas as indicações, esses e outros “sequestros” ocorrerão
até e além do retorno de Cristo para a sua igreja no arrebatamen-
to. Valores e comportamentos imorais continuarão a ser não so-
mente tolerados, mas também celebrados, enquanto que ao mes-
mo tempo os padrões bíblicos, e aqueles que concordam com
eles, serão demonizados. Isso criará uma crescente tensão para
os crentes que desejam alcançar outros para Cristo, pois se veem
impedidos pelo fato de serem vistos como intolerantes, fanáti-
eos, anticientíficos ou homofóbicos. Isso provavelmente contri-
buirá para uma marginalização ainda maior da igreja na socie-

172 Ver A tos 17.242 ;2 5 ‫־‬C oríntios 6 . 1 2 ‫־‬.


A APOSTASIA VINDOURA

dade. Da mesma forma como Nero notoriamente usou a igreja


como bode expiatório para o incêndio de Roma, o nosso mundo
irá cada vez mais difamar os crentes nos anos por vir. Não se sur-
preenda quando os cristãos forem tratados com desprezo e vistos
como quem “impede o progresso” ou “nos mantém na idade das
trevas”. Estamos lentamente nos tornando párias da sociedade.
Mas, se serve de consolo, a igreja do primeiro século também era.
Então, em certo sentido, o mundo se tornará mais tolerante
e ao mesmo tempo mais rígido e discriminador com relação aos
cristãos e com o seu Cristo. E essa é mais uma razão para anted-
parmos ansiosamente o iminente retorno de Jesus Cristo, assim
como os primeiros cristãos fizeram.
Por estarmos vivendo nos últimos dias, o tempo não é nosso
amigo. Essa foi uma das razões pelas quais Paulo instou os cris-
táos de Efeso a aproveitarem “ao máximo cada oportunidade,
porque os dias são maus”. 173 Essa realidade não inflama nossos
corações e vidas com pânico, mas com urgência intencional. Ela
nos mantém nos trilhos, focados na fé que tem sido fielmen-
te passada para nós.174751 Na igreja, o que une pessoas de diversas
origens, raças e experiências não é que somos simplesmente to-
levantes uns com os outros, mas que somos unidos por uma fé
comum em Jesus Cristo. Essa é a essência do companheirismo.17‫כ‬
Os apóstolos lançaram as bases da igreja, com Jesus Cristo como
a pedra angular. Nós somos as suas “pedras vivas”. E nós temos
que continuar edificando o corpo, ainda mais quando vemos
“que se aproxima o Dia”.176
Portanto, este é o seu tempo na história de Deus. Você quer
um final forte, não um final chorado. Você será um cristão capaz

173 Efcsios 5.16.


174 Ver 2Timótco 2.2.
175 Grego koinonid - significando uma parceria ou compartilhamento, uma participa-
çáo conjunta.
176 Ver Efésios 2.20; 1Pedro 2.5; Hcbrcus 10.23-25.
QUANDO Λ TOLERANCIA É INTOLERÁVEL

de discernir, que vê através da neblina enganadora dos nossos


dias? Você será um revolucionário dos últimos dias que levanta
a bandeira de Cristo, não importa o custo? Você vai defender a
verdade de Cristo, recusando-se a tolerar a mediocridade no seu
próprio coração? Você vai combater o bom combate e completar
a carreira?
Você vai manter a fé?
C apítulo 6

QUEDA LIVRE DA MOR AL


U m a v iã o d a aérea Avianca caiu na Espanha em
c o m p a n h ia

1984. A investigação da queda pela caixa-preta revelou uma


conversa alarmante na cabine. Poucos minutos antes de o avião
atingir a encosta de uma montanha, uma voz de comando do
sistema de alarme automático do avião repetidamente advertiu
em inglês: “Puxa para cima! Puxa para cima!”. Crendo que o
dispositivo estava com defeito, o irritado piloto disse: “Cala a
boca, gringo!”, e desligou o sistema. Dentro de minutos, o avião
se chocou numa montanha, matando todos a bordo . 177
Semelhante ao sistema de alarme do avião, a Bíblia, o manual
de instrução e o sistema de alarme de Deus, é citada e obedecida
enquanto se encaixa no plano, diz às pessoas o que elas querem
ouvir e concorda com suas decisões e direções na vida. Agora,
quando a Bíblia as adverte a “puxar para cima!” - a parar al-
gum comportamento ou crença pecaminosos —elas não querem
ouvi-la; pelo contrário, querem que ela se cale. Tragicamente, o
resultado é uma espiral de morte espiritual ‫ ־־‬uma queda livre sem
paraquedas da moral. Isso é verdade para um indivíduo, uma famí-
lia, uma igreja e uma nação.

177 Adaptado de John MacArthur, “lh e Conscience, Revisited”, Grace to You. Disponí‫־‬
vel em: <goo.gI/XZkAmW>.
A APOSTASIA VINDOURA

Comportamento Acompanha a Crença

Eu gosto da história dos dois caçadores que se depararam com


um enorme buraco no chão. Um caçador disse ao outro: “Eu
nem posso ver o fundo deste buraco! Qual será sua profundida-
de?‫״‬. O outro respondeu: “Sei lá. Vamos jogar alguma coisa nele
e ouvir quanto tempo leva para chegar no fundo”.
“Eu vi uma velha transmissão de carro aqui perto”, disse o
primeiro caçador. “Vamos jogar aquilo no buraco e ver”. En-
contrando a transmissão, a arrastaram e a jogaram no buraco.
Enquanto escutavam para ver quando a transmissão chegaria no
fundo, começaram a ouvir um barulho de algo sendo arrastado
atrás deles. Então viram um bode se chocando com as moitas,
correndo até o buraco e se jogando nele de cabeça.
Eles ficaram intrigados com isso até que, enquanto ainda ten-
tavam entender aquilo, um velho fazendeiro veio na direção de-
les e perguntou: “Por acaso vocês viram o meu bode?”.
O primeiro caçador disse: “Engraçado você perguntar. Nós
estávamos aqui parados há um minuto quando um bode veio
correndo das moitas e se jogou de cabeça dentro do buraco!‫ ״‬.
O fazendeiro respondeu: “Esse não pode ser o meu bode. Eu
prendí o meu a um transmissor!178.‫״‬
Da mesma forma como o bode acompanhou a transmissão, o
comportamento acompanha a crença. O que acreditamos inevi-
tavelmente irá puxar junto o nosso comportamento. A. W. Tozer
diz: “Seria impossível exagerar a importância da sã doutrina na
vida do cristão. O pensamento correto sobre todos os assuntos
espirituais é imperativo se quisermos ter um viver correto. Assim

1/8 Essa piada foi adapeada de 100‫ ״‬Mile an Hour Goat”, eBaum’s World>9 nov. 2009.
Disponível cm: <goo.gl/vsNk9j>.
QUEDA LIVRE DA MORAL

como os homens não colhem uvas de espinheiros nem figos de


cardos, um caráter sadio não nasce de um ensino infundado”.179
Afastar a doutrina da verdade eventual mente afeta as vidas das
pessoas. Uma pessoa se torna aquilo que ela crê. Assim como a
noite segue o dia, vagar para longe da verdade do evangelho leva
inevitavelmente à apostasia moral. Por outro lado, o que cremos
é demonstrado pela forma como nos comportamos. Na Bíblia,
a apostasia envolve tanto a crença (doutrina) errada quanto o
comportamento (fazer) errado. A crença de alguém determina a
sua conduta e, em última análise, o seu caráter. 180
r

O Afastamento dos Ultimos Dias

O principal texto do Novo Testamento sobre a queda livre da


moral na igreja visível dos últimos dias é 2Timóteo 3 .1 1 3 ‫ ־‬. O
começo desta passagem ressalta dezenove características terríveis
da apostasia nos últimos dias:

S a ib a q u e n o s ú ltim o s d ia s h a v e rá te m p o s m u ito d ifíceis. P o r-


q u e as pesso as só a m a rã o a si m e sm a s e ao d in h e ir o . S erão
a rro g a n te s e o rg u lh o sa s , z o m b a rã o d e D e u s , d e s o b e d e c e rã o a
seu s p ais e se rã o in g ra ta s e p ro fa n a s. N ã o te rã o afe içã o n e m
p e rd o a rã o ; c a lu n ia rã o o u tr o s e n ã o te rã o a u to c o n tr o le . S erão
cru é is e o d ia rã o o q u e é b o m , tra irã o o s a m ig o s, se rã o im p r u -
d e n te s e ch e ia s d e si e a m a rã o o s p raz eres e m vez d e a m a r a
D e u s . S e rã o relig io sas a p e n a s n a a p a rê n c ia , m as re je ita rã o o
p o d e r ca p a z d e lh es d a r a v e rd a d e ira d ev o ção . F iq u e lo n g e d e
g e n te assim !181

179 A. W. Tozer, Man: The Dwelling Place o f God (Gimp Hill, PA: WingSprcad, 2008), p. 181.
180 Lcia 2Pedro 2 e a carta dc Judas, e verá esse padrão vividamente ilustrado.
181 2Timoteo 3 .1 5 ‫( ־‬NVT).
A APOSTASIA VINDOURA

A paráfrase de 2Timóteo 3.113‫ ־‬em A Mensagem é útil aqui com


sua descrição gráfica dos atributos da apostasia dos últimos dias:

Não seja ingênuo. Tempos difíceis vêm por aí. A medida que
o fim se aproxima, os homens vão se tornando egocêntricos,
loucos por dinheiro, fanfarrões, arrogantes, profanos, sem res-
peito para com os pais, cruéis, grosseiros, interesseiros sem
escrúpulos, irredutíveis, caluniadores, sem autocontrole, sei-
vagens, cínicos, traiçoeiros, impiedosos, vazios, viciados em
sexo e alérgicos a Deus. Eles vão fazer da religião um espetá-
culo, mas nos bastidores se comportam como animais. Fique
longe dessas pessoas.
Esse é o tipo de gente que entra sorrateira mente nas casas
de mulheres instáveis e carentes e tira proveito delas; mulhe-
res que, deprimidas pela própria vida de pecado, se apegam
a qualquer modismo religioso que se denomine “verdade”.
Elas são exploradas seguidamente e nunca aprendem. Esses
homens são como os velhos trapaceiros egípcios, Janes e Jam-
bres, que desafiaram Moisés. Renegados da fé e enganados no
pensamento, eles desafiam a própria verdade. Nada de bom
vem desses impostores, e um dia serão desmascarados, assim
como o povo percebeu o engano dos egípcios...
Homens inescrupulosos e traidores continuarão exploran-
do a fé, mas são tão enganados quanto as pessoas que eles
enganam. Enquanto eles existirem, as coisas irão piorar.

Existem cinco chaves importantes para entender essa passa-


gem. Primeira, Paulo diz a Timóteo e a nós: “Saiba que...”. Tra-
duzindo para o nosso idioma, Paulo está dizendo: “Marque isto,
sublinhe isto, ressalte isto, não perca isto”. Em outras palavras,
precisamos prestar atenção total e nos apegar a esta mensagem
sobre a apostasia nos últimos dias. Estes versos são como uma
etiqueta de aviso divino sobre os últimos dias. Paulo estava de­
QUEDA LIVRE DA MORAL.

finhando numa masmorra romana quando escreveu 2Timóteo.


Sua morte terrena estava próxima. Seu tempo na terra estava
chegando ao fim. Suas últimas palavras inspiradas gotejam com
um senso de urgência.
Segunda, no Novo Testamento, a frase “últimos dias” se rela-
ciona ao período de tempo total entre a ascensão de Cristo e o
seu retorno .182 Nós frequentemente chamamos este período de
tempo de era interadventos ou era da igreja.
Como já vimos, a palavra “tempos” em 2Timótco 3.1 signi-
fica “temporadas”. O verso 1 poderia ser traduzido assim: “Nos
últimos dias sobrevirão temporadas ferozes”. O que Paulo está
dizendo no contexto de 2 Timóteo 3.1 é que durante os últimos
dias - um período que já está próximo de completar dois mil
anos —haverão temporadas, períodos ou intervalos mais curtos
que serão especialmente difíceis; tempos terríveis de apostasia e
afastamento.183
A palavra “difíceis” {chelepoi) em 2Timóteo 3.1 transmite a
ideia de “grave” ou “terrível”. O único outro lugar em que essa
palavra grega é encontrada no Novo Testamento é em Mateus 8.28,
onde os dois endemoninhados estavam tão chelepoi (“violentos” ou
“ferozes”) que ninguém podia passar perto deles. Plutarco usou essa
palavra para descrever “uma ferida feia, infectada e perigosa”.184
Juntando tudo isso, Paulo está nos dizendo que os últimos
dias não serão uniformemente perversos, mas sim pontuados
por repetitivos ciclos de tempos medonhos e perigosos. Agora
mesmo estamos vivendo nesses tempos descontrolados.
Terceira, essa passagem diz que, embora haja temporadas ou
épocas de apostasia especialmente terríveis nos últimos dias, a

182 Ver Atos 2.17; Hebreus 1 .1 2 ‫ ;־‬lPedro 1.20; IJoão 2.18 (“a última hora”).
183 Homer A. Kent Jr., The Pastoral Epistles, ed. rev. (Winona Lake» IN: BMH Books,
1986), p. 272.
184 John F. MacArthur, 1 & 2 Timothy, in: The MacArthur New Testament Common-
cary (Chicago: Moody, 1995), p. 107.
A APOSTASIA VINDOURA

progressão geral também será que as coisas piorem. O verso 13


nos diz que devemos esperar que a apostasia fique pior à medida
que a era da igreja progride: “Contudo, os perversos e imposto-
res irão de mal a pior, enganando e sendo enganados”. Em outras
palavras, à medida que esse longo período de tempo conhecido
como os últimos dias se desdobra, os tempos perigosos e incon-
troláveis de apostasia serão mais frequentes e intensos à medida
que a volta de Cristo se aproxima.
Quarta, nós precisamos reconhecer que as condições ou sinto-
mas descritos em 2Timóteo 3 .1 1 3 ‫ ־‬são condições dentro da igre-
ja visível. Obviamente, os tipos de pecados listados aqui sempre
prevaleceram na sociedade como um todo. Isso não é novidade.
O chocante aqui é que os pecados da cultura se tornaram os
pecados da igreja. Cristãos professos são retratados vivendo no
nível mais baixo. O contexto inteiro de 2Timóteo 3 está des-
crevendo pessoas que professam conhecer Deus e mantêm uma
forma de piedade, negando, porém, o seu poder. Paulo diz cia-
ramente que não haverá falta de religião, mas que as pessoas irão
negar o poder que transforma as vidas das pessoas e da socieda-
de. Como Ray Stedman diz: “Paulo nos diz que a causa principal
desses ciclos repetitivos de estresse e perigo é a vida hipócrita
de pessoas que professam serem cristãs. Externamente elas pare-
cem piedosas e religiosas, mas internamente não têm o poder de
Deus em suas vidas. [...] Quando a nossa luz escurece, o mundo
inteiro mergulha ainda mais fundo na escuridão”. 185
Don Carson afirma: “Essa aparência de piedade pode ter
muitas formas diferentes. Pode ser uma bela liturgia ou mui-
to barulho exuberante. Pode efervescer num monte de falatório
fluente sobre Deus. No entanto, o que está faltando é o poder

185 Ray C. Stedman, The Fight o f Faith: Studies in the Pastoral Letters o f Paul, I and II
Timothy and Titus (Grand Rapids, MI: Discovery House, 2009), p. 238.
QUEDA LIVRE DA MORAL

transformador do evangelho que verdadeiramente muda as vidas


das pessoas”.186187
Quinta, o principal pecado da apostasia dos últimos dias, o
que encabeça a lista, é que “as pessoas só amarão a si mesmas...”.
Esse é o foco real para o qual essa lista aponta. Amor próprio é a
fonte poluída da qual fluem as outras dezoito características. Ele
é seguido pelas pessoas que “só amarão... ao dinheiro” e então
mais tarde vem aqueles que “amarão os prazeres em vez de amar
a Deus”. (Note que não está escrito que “amarão mais os praze-
res” do que Deus, mas sim “em vez de amar a Deus”. O amor a
Deus é substituído pelo amor ao prazer.)
A atual insanidade moral e a apostasia que estamos testemu-
nhando sinalizam uma mudança radical de reverência a Deus
para o amor ao ego. Nos últimos dias, um tipo inverso de revo-
lução copernicana está ocorrendo. O centro de toda a existência
é o ego no lugar de Deus, criando um buraco negro de deprava-
ção, onde se desenvolve todo tipo de pecado e rebelião:

O p r o b le m a real c o m e ste tu r b ilh ã o d e im p ie d a d e é q u e a q u e -


les q u e p ro fe ssa m ser o p o v o d e D e u s se rã o o s q u e ex ib irã o
estas c a ra c te rístic a s. [...] E les se rv irã o c o m o s lá b io s, m a s n ã o
se rv irã o c o m a v id a. [...] E les te rã o a fo rm a , m a s n e g a rã o o
p o d e r q u e a q u e la f o rm a in d ic a ria q u e eles tê m . [...] N o s ú l-
tim o s d ias, a relig ião v ai p ro sp e ra r, m a s d a m e s m a f o rm a a
p e rv e rsid a d e , p o r q u e o q u e se p a ssa r p o r relig ião n ã o c o n te rá
n e n h u m a d in a m ite . M a n te n d o u m a f o rm a d e relig ião , m as
n e g a n d o a su a d i n a m ite .18‫׳‬

186 Don Carson, From the Resurrection to His Return: Living Faithfully in the Last Days
(Tain, Escocia: Christian Focus, 2010), p. 18.
187 K. Edward Copeland, “Shadowlands: Pitfalls and Parodies of Gospel-Centered Mi-
nistry”, in: Entrusted with the Gospel: Pastoral Expositions o f 2 Timothy■, D. A. Carson,
ed. (Wheaton, IL: Crossway, 2010), p. 9 3 9 4 ‫־‬.
A APOSTASIA VINDOURA

Portanto, o que aprendemos dessa passagem é que durante


os últimos dias haverá momentos de uma apostasia moral espe-
cialmente séria, terrível e feia na igreja visível, e que a tendência
e trajetória gerais serão de um crescimento progressivo da deca-
dência e do afastamento dentro da igreja professa.

Vidas Inclinadas

Muitos anos atrás, em um programa televisivo para crianças, um


dos segmentos relatou que a inclinada Torre de Pisa, na Itália,
poderia desmoronar e, para interagir com a audiência, os repor-
teres pediram que as crianças apresentassem as suas soluções para
o problema.
Muitas das soluções apresentadas pela audiência foram desta-
cadas, incluindo um cabo para puxar a torre de volta, serpenti-
nas refrigeradas para congelar a torre no lugar e uma construção
ao lado da torre para apoiar discretamente a estrutura. Mas a
ideia mais perceptiva foi a sugestão de um menino de “apenas
construir os prédios ao redor da mesma forma inclinada e nin-
guém notará”.
Muitos cristãos professos hoje em dia estão adotando a mes-
ma solução no que se refere ao mundo inclinado no qual vive-
mos. Em vez de viverem vidas piedosas como testemunhas ao
mundo torto, eles constroem suas vidas de forma inclinada para
não atraírem nenhuma atenção negativa. 188
Os baixos padrões dentro de muitas igrejas e congregações
são dificilmente diferenciados dos padrões do mundo. Isso me
faz lembrar de uma história que Philip De Courcy compartilhou
sobre o lendário cantor de música country, Willie Nelson, que
comprou um campo de golfe. Alguém lhe perguntou qual era

188 Essa ilustração foi retirada de Doug McIntosh, Ufes Greatest Journey: How to Be
Heavenly M inded A N D o f Earthly Good (Chicago: Moody Press, 2000), p. 1 3 1 4 ‫־‬.
QUEDA LIVRE DA MORAL

o par naquele percurso. Ele respondeu: “O que eu quiser. Está


vendo aquele buraco lá? E um par 47”, ele acrescentou irônica-
mente: Έ ontem eu fiz um birdie nele”.189 Essa é uma história
engraçada, mas o que não é engraçado é que muitos dentro da
igreja nos nossos dias consideram a moralidade da mesma ma-
neira, abaixando o padrão de comportamento a fim de poderem
facilmente alcançá-lo. De Courcy continua para dizer:

Parece que um número cada vez maior de pessoas não acredita


numa verdade inquestionável que seja fixa ou universal sobre
o comportamento moral. Certo e errado são determinados
por seja o que for que a situação requeira ou seja o que for que
eles acreditam que esteja a favor dos seus interesses. Os nossos
tempos não são nada diferentes dos tempos dos juizes, quan-
do, por não haver um rei em Israel, cada um fazia o que lhe
parecia certo (Juizes 21.25). Os nossos tempos também não
são diferentes dos tempos do profeta Isaías, quando as pessoas
chamavam ao mal bem e ao bem, mal (Isaías 5.20). A nossa
sociedade cada vez mais secular está reescrevendo as regras da
moralidade (Juizes 2.10). Em um mundo pós-moderno não
há rei ou reino que governe sobre todas as coisas, “todos os ca-
minhos do homem lhe parecem puros‫( ״‬Provérbios 16.2,25;
21.2; 30.12). Cada pessoa é uma lei em si mesma, e cada gru-
po social é um reino em si mesmo. O indivíduo é autônomo
e livre para satisfazer os seus desejos sexuais, decidir o seu gê-
nero, viver a sua vida e até acabar com a própria vida - se ele
assim desejar. Esse é o admirável mundo novo da ética!190

189 Philip De Courcy, “You Don’t Got to Write the Rules”, Know the 7ruth, 22 jan.
2015. Disponível em: <goo.gl/WGPuFE>. Sobre o golfe, par é o número ideal de
tacadas definido para que se complete cada percurso, e birdie é quando se consegue
terminar o percurso fazendo uma tacada a menos do que o par define. (N.E.)
190 Ibid.
A APOSTASIA VINDOURA

E esse admirável mundo novo invadiu a igreja. Vemos isso


nos índices de divórcio dentro das igrejas evangélicas, que não
são diferentes (em alguns casos são até maiores) do que entre os
não cristãos. Padrões baixos também são aparentes na predo-
minância do sexo antes do casamento entre jovens adultos que
professam ser cristãos e também na visualização de pornografia
entre os crentes. Em muitas áreas vitais, a igreja não é muito
diferente do mundo.

A Única Opinião Qne Vale

A apostasia moral, uma metástase do câncer da apostasia dou-


trinária, aumentará à medida que a era da igreja progride, alean-
çando seu apogeu pouco antes do retorno de Cristo para levar
ao céu todos os que humildemente aceitaram o seu Filho como
Salvador do pecado.191 A escalada da apostasia durante esta era está
preparando o cenário para a apostasia final e derradeira que aconte-
cerá sob o Anticristo pouco antes de Cristo retornar à terra.192
Nesse meio tempo, enquanto aguardamos o retorno do nosso
Senhor, o nosso chamado é estudar e obedecer a Palavra de Deus.
O árbitro de beisebol Ralph Pinelli certa vez chamou um
strikeout para o batedor George “Babe” Ruth. Quando a mui-
tidão vaiou, Ruth desafiou o árbitro: “Tem 40 mil pessoas aqui
que sabem que o último arremesso foi uma bola fora”. Os treina-
dores e jogadores que testemunhavam o lance estavam prontos
para ver Ruth ser expulso do jogo, mas Pinelli tinha uma cabeça
fria e simplesmente respondeu: “Pode ser, Babe, mas a minha
opinião é a única que vale”.193

191 Ver ITessalo!licenses 1 .9 1 0‫־‬.


192 Ver 2Tessalonicenses 2.2-3.
193 No beisebol, um strikeout ocorre quando o batedor náo acerra a bola, que foi arre-
messada dentro da área permitida, crès vezes na mesma vez ao bastão. Quando isso
acontece, o batedor sai do jogo. (N.E.)
QUEDA LIVRE DA MORAL

A igreja atual precisa lembrar que, quando se trata de dou-


trina e moralidade, a única opiniáo que vale é a de Deus. A
passagem de 2Timóteo 3.14-17 deixa isso bem claro. A Escritura
é composta das palavras do próprio Deus. Um capítulo que co-
meça sob uma nuvem ameaçadora de apostasia termina debaixo
da pura luz solar das Escrituras inspiradas por Deus. A Palavra
de Deus é estabelecida como a resposta para a apostasia:

Q u a n to a v o cê , p o ré m , p e r m a n e ç a n a s co isas q u e a p r e n d e u e
d as q u a is te m c o n v ic ç ã o , p o is v o c ê sa b e d e q u e m o a p re n d e u .
P o rq u e d e s d e c ria n ç a v o c ê c o n h e c e as S ag rad a s L e tra s, q u e
são cap azes d e to r n á - lo sá b io p a ra a sa lv aç ão m e d ia n te a fé e m
C r is to Jesu s. T o d a a E s c ritu ra é in s p ira d a p o r D e u s e ú til p a ra
o e n s in o , p a ra a re p re e n sã o , p a ra a c o rre ç ã o e p a ra a in s tru ç ã o
n a ju s tiç a , p a ra q u e o h o m e m d e D e u s seja a p to e p le n a m e n te
p re p a ra d o p a ra to d a b o a o b r a .194

O versículo 14 começa com duas palavrinhas - “quanto...


você” (su de em grego). Num certo sentido, essas são as palavras-
-chaves em 2Timóteo. Quatro vezes Timóteo é chamado para
distanciar-se do que está acontecendo ao seu redor. 195 Ele era
o oposto dos muitos cristãos contemporâneos que decidiram se
encaixar em vez de se destacar. Ele foi fiel para aprender e praticar
a Palavra de Deus em sua vida.
A Palavra de Deus é a nossa fonte para detectar e rejeitar a
apostasia. 196 Philip Ryken, o presidente do Wheaton College, es-
creveu que, “segundo a tradição, os mineradores de carvão leva-

194 2T¡móteo 3 .14 17 ‫־‬.


195 Ver 2Timóceo 2.1; 3.10,14; 4.5·
196 Todas as principais passagens do Novo Testamento sobre apostasia e falsos ensinos
sao seguidas de perto por uma declaração sobre a Palavra de Deus. Aqui estão alguns
exemplos: lTimóteo 4.132 ;16‫־‬Timóteo 3.162 ;17‫־‬Pedro 1.21 (aqui a declaração
sobre as Escrituras precede a advertencia sobre os falsos mestres); 3.1 2‫ ;־‬Judas 1.17.
A APOSTASIA VINDOURA

vam um canário com eles ao subsolo, por medida de segurança.


Canários são aves frágeis, sendo os primeiros a sofrer os efeitos
prejudiciais de um ar insalubre. Caso houvesse uma falta de oxi-
gênio ou um súbito influxo de gás nocivo, o canário desmaiaria
e os mineiros saberíam que precisavam retornar à superfície”.197
Da mesma forma, em nossos dias a Palavra de Deus nos alerta
sobre a toxicidade da atmosfera moral ao nosso redor. A Bíblia
é como o canário no subterrâneo da mina, nos alertando sobre
a fumaça mortal infiltrando-se na igreja. Mas a Bíblia também
é o ar puro que é a resposta para o ambiente poluído da igreja.
Ouvir e humildemente obedecer ao chamado dela em nossas
próprias vidas, para 'puxar para cima”, é a única resposta à nossa
queda livre moral.

197 Philip Graham Ryken, He Speaks To M e Everywhere: Meditations on Christianity and


Culture (Phillipsburg, NJ: P &: R Publishing, 2004), p. 17-18.
C apítulo 7

O MOMENTO DECISIVO PARA A


IGREJA
26 d e ju n h o 2015 foi um momento decisivo na história
d e

norte-americana. A Suprema Corte dos Estados Unidos, em um


caso conhecido como Obergefell v. Hodges, considerou que “o
direito de casar é um direito fundamental inerente à liberdade da
pessoa e, no âmbito do Devido Processo e das Cláusulas de Pro-
teção Igualitária da Décima Quarta Emenda, casais do mesmo
sexo não devem ser privados deste direito e desta liberdade”.198 A
decisão ainda proíbe qualquer estado de dificultar o casamento
de casais do mesmo sexo e revoga todos os estatutos e provisões
constitucionais estaduais que definem o casamento como uma
união entre um homem e uma mulher.
Essa decisão foi um golpe devastador para aqueles que cre-
em na Bíblia - na sua definição de casamento como uma união
monogâmica c heterossexual —e para todos os que sustentam a
visão tradicional de casamento que tem sido reconhecida desde
tempos imemoriais. Com um único golpe, o casamento natu-
ral não era mais a definição exclusiva de casamento nos Estados
Unidos. Por mais triste que essa decisão seja, não é uma surpresa
para qualquer um que tenha seguido a trajetória da questão. Era

198 Obergefell v. Hodges, 576 S. Ct. at 22 (2015).


A APOSTASIA VINDOURA

apenas uma questão de tempo desde o início da revolução sexual


dos anos 60.
No entanto, o que tem sido ainda pior do que a decisão da
Suprema Corte dos Estados Unidos, se isso é possível, é a res-
posta de muitos cristãos professos, até mesmo de líderes cristãos,
a respeito desse assunto. A decisão foi recebida com aceitação,
aprovação e até mesmo aplausos em muitos quadrantes do cris-
tianismo, tanto que muitas denominações principais e “cristãos”
progressistas fizeram isso antes mesmo da Suprema Corte.
Um ano antes da decisão Obergefell, a Igreja Presbiteriana
(EUA) aprovou o casamento homossexual: “O corpo legislativo
superior da Igreja Presbiteriana (EUA) votou com ampla mar-
gem [...] para reconhecer o casamento do mesmo sexo como
cristão na constituição da igreja, acrescentando que o casamento
pode ser a união de ‘duas pessoas', não apenas ‘um homem e
uma m ulher”.199
Cerca de duas semanas antes da decisão da Suprema Corte,
Tony Campólo, um líder cristão bem conhecido e franco, anun-
ciou ser favorável ao casamento homossexual. O raciocínio de
Campolo foi explicado no noticiário da rede CBN:

F oi o p r ó p r io r e la c io n a m e n to [d e C a m p o lo ] c o m s u a esp o sa
e c o m os v ário s casais d e p esso as d o m e s m o sexo q u e eles c o -
n h e c e m e c o m q u e m p a s sa m te m p o ju n to s q u e o c o n v e n c e u
d e q u e o p r o p ó s ito p r im á rio d o c a s a m e n to é o c re s c im e n to
e s p iritu a l. E le e screv e u a in d a q u e a h o m o s s e x u a lid a d e 'q u a s e
n u n c a é u m a e s c o lh a ” e q u e a ig reja d ev e o fere c er a m o r e acei-
ta ç ã o ao s q u e se s e n te m a tra íd o s p o r p esso as d o m e s m o sexo.
"F o i p rec iso h o ra s in c o n tá v e is d e o ra ç ã o , e s tu d o , c o n v e rsa s e
tu r b u lê n c ia e m o c io n a l p a ra q u e e u ch e g asse ao p o n to d e estar,

199 The Associated Press, “Presbyterian Church Leaders Declare Gay Marriage Is Chris-
nan”, N BC News, 19 jun. 2014. Disponível cm: <g00.gl/A0QJ38>.
O MOM ENTO DECISIVO PARA A IGREJA

fin a lm e n te , p re p a ra d o a a p e la r às ig rejas q u e a c e ite m p le n a -


m e n te os casais c ristã o s h o m o ss e x u a is.”200

Como já foi mencionado anteriormente, Rob Bell, ex-pastor


da igreja de Mars Hill, e sua esposa, Kristen, apareceram jun-
tos no programa SuperSoul Sunday, de Oprah Winfrey. Quando
questionado sobre casamentos homossexuais, Rob Bell disse:
“Nós estamos quase lá. Eu acho que a cultura já chegou lá. E
a igreja continuará sendo ainda mais irrelevante quando citar
cartas de 2 000 anos atrás como sua melhor defesa”.201 Sua des-
consideração total das Escrituras é impressionante.
A influente escritora e blogueira anteriormente menciona-
da Rachel Held Evans, que não se considera mais evangélica,
oferece apoio pleno ao casamento homossexual baseando a sua
opinião quase que exclusivamente em sentimentos e num desejo
de defender as pessoas ao invés das Escrituras. Ela diz: “Como
eu já afirmei anteriormente, eu apoio a igualdade matrimonial
e defendo os meus amigos gays e lésbicas que desejam assumir
um compromisso com outra pessoa para o resto da vida”.202 Po-
deríamos acrescentar aqui muitas outras citações semelhantes e
igualmente chocantes. A blogosfera está recheada de aprovações
solidárias de cristãos professos que apoiam relacionamentos ho-
mossexuais em nome do amor e da aceitação.203

200 “Tony Campólos Gay Marriage Support Highlights Divide”, CBN News, 12 jun.
2015. Disponível cm: <goo.gl/nXSuQ6>.
201 “Rob Bell Suggests Bible Not Relevant to Todays Culture”, CBN News.
202 Rachel Held Evans, “For the sake of the gospel, drop the persecution complex”,
Rachei Held Evans (blog), 15 jul. 2015. Disponível em: <goo.gl/Vu 1fE o .
203 Em um exemplo recente, uma blogueira influente entre os evangélicos postou esta
mensagem no Facebook: “Depois do nosso lindo, lindo evento de hoje, uma mulher
veio em minha direção e disse: Έ 11 tenho esperado a vida toda para ouvir alguém na
igreja falar o que você falou hoje’ [...] Eu disse [...] que está mais do que na hora de
0 $ cristãos abrirem amplamente os seus braços, as suas igrejas, as suas mesas, os seus
lares para a comunidade LGBT. Nossa condenação e exclusão têm sido tão grande
que os adolescentes cristãos gays são SETE VEZES mais propensos a cometer suicí-
dio. Não. De jeito nenhum. Não senhora. Isso não vai acontecer enquanto eu estiver
A APOSTASIA VINDOURA

Falando francamente, a maré virou no que se trata desse as-


sunto na cultura atual, especialmente entre aqueles que têm
menos de 50 anos e, de forma esmagadora, entre os com me‫־‬
nos de 30 anos de idade. Para os crentes que viveram nas últi‫־‬
mas décadas, nossas cabeças ainda estão girando. Como isso foi
acontecer? Como chegamos nisso? Apesar de vários fatores terem
contribuído para tal mudança, três se destacam.
Primeiro, por trás dessa mudança existe uma estratégia satâni-
ca bem organizada. A família é o fundamento da sociedade - a
primeira instituição humana criada por Deus. A principal passa-
gem neotestamentária sobre guerra espiritual é Efésios 6 .1 0 1 8 ‫ ־‬,
que vem logo em seguida de uma passagem sobre o casamento e
a família. Satanás é o inimigo declarado do tradicional casamen‫־‬
to natural e da família. Não há dúvida de que as mudanças de vi-
são quanto ao comportamento homossexual - uma das questões
que definem o nosso tempo —é uma estratégia evidente para per‫־‬
verter, reverter o propósito e reinventar a identidade humana. A
jogada final do Diabo é enganar e destruir todo e qualquer traço
de consciência encontrado na humanidade, a coroa da criação
de Deus. Satanás está trabalhando para afastar as pessoas de toda
forma de verdade —doutrinária e moral.
Quanto mais próximos estivermos do retorno de Cristo,
mais devemos esperar que o inimigo intensifique o seu ataque
à verdade, preparando o mundo para o grande afastamento fi-
nal predito em 2Tessalonicenses 2.2-3. O ritmo impressionante

aqui. Nunca mais. Isso está tão afastado do evangelho dc Jesus que eu nem consigo
reconhecer esta reflexão. Eu não consigo. E nem vou conseguir. Eu me nego. En-
tão, não importa o custo c a perda, aqui estou eu: adolescentes gays? Adultos gays?
Mamães e papais de preciosos gays cm formação? Amigos e amados vizinhos de
queridíssimas pessoas LGBT? Aqui estão os meus braços bem abertos [...] Você é
importante demais e sua vida é valiosa e bela. Não há nada de ‘errado com você' ou,
pelo menos, nada mais certo ou errado do que com qualquer um de nós, o que quer
dizer que nós todos estamos irremediavelmente ferrados, mas Jesus ainda assim nos ama
além dc qualquer razão e vive para fazer com que todos sejamos renovados, restaurados
e completos”. Postado no dia 23 de abril de 2016. Disponível em: <goo.gl/mhkggt>.
O MOM ENTO DECISIVO PARA A IGREJA

com que o comportamento homossexual ganhou aprovação só


pode ser explicado em termos sobrenaturais. Alguma coisa além
das forças humanas tem energizado esse assunto e incentivado a
marginalização e a zombaria aos que não concordam.
Segundo, a Bíblia e o ensino bíblico sólido estão rapidamen-
te se tornando relíquias. Hoje em dia, a Bíblia não é ensinada
fielmente em um número crescente de igrejas. A confiança na
Palavra de Deus como inspirada e inerrante está se dissolvendo
dramaticamente. Ou as pessoas não sabem o que a Bíblia diz, ou
não se importam, ou acreditam seletivamente no que querem.
Tudo se tornou brando e incerto. Sem autoridade final, o desa-
paredmento de uma cosmovisão cristã está sobre nós, e a mora-
lidade é um alvo em movimento, sujeito apenas às correntes da
cultura. Christian Smith lamenta essa tendência de abandonar
a verdade objetiva em favor de emoções subjetivas: “Enquanto
a grande maioria dos adolescentes americanos se identificaram
como cristãos, a ‘linguagem’ e, portanto, a experiência da Trin-
dade, santidade, pecado, graça, justificação, santificação, igreja,
eucaristia, céu e inferno, pelo menos entre a maioria dos adoles-
centes cristãos dos Estados Unidos, parecem estar sendo subs-
tituídas pela linguagem da felicidade, da gentileza e da recom-
pensa celestial merecida”.204 Smith e seus colegas chamam essa
nova fé de “deísmo moralista terapêutico”, um sistema de crença
que adota um deus que exige só um pouco mais do que ser uma
pessoa legal, “tendo como alvo central na vida ser feliz e sentir-se
bem consigo mesmo”.205 No clima predominante de moralismo
e relativismo, mesmo dentro das igrejas, nem deveríamos nos
surpreender com o que está acontecendo.

204 Christian Smith. Soul Searching: Ihe Religious and Spiritual Lives o f American Teen-
agers (Nova York: Oxford University Press, 2009), p. 171.
205 Ibid.
A APOSTASIA VINDOURA

Terceiro, muitos crentes professos estão dominados pela tran-


sigência e pela covardia. Numa sociedade que cada vez mais se
alegra em relacionamentos com pessoas do mesmo sexo e de-
moniza os que discordam disso, muitos não estão dispostos a
aguentar e encarar o fogo. É mais fácil se esconder e se acovardar.
Espere que cada vez mais cristãos professos sigam o caminho da
menor resistência e apenas fiquem quietos ou se rendam às on-
das da condescendência e tolerância.
No entanto, o povo de Deus é chamado a apegar-se firme-
mente às Escrituras e amar os outros, mesmo havendo o risco de
ser ridicularizado e difamado por nossas convicções em relação
a essa importante questão.206 O verdadeiro amor pelos próximos
inclui graciosamente falar a verdade.

Apostasia Moral

Alguns talvez se perguntem por que estamos salientando o com-


portamento homossexual como um divisor de águas para a apos-
tasia, dentre os outros pecados em nossa cultura. Vemos todos
os tipos de pecado por aí, então por que estamos dedicando um
capítulo a esse? Estamos escolhendo esse pecado porque ele é um
alvo fácil? Embora não podemos falar por todos os cristãos, cremos
que existem três razões principais pelas quais o comportamento ho-
mossexual é um divisor de águas no que se refere à apostasia.
Primeira, de uma forma singular, esse pecado é contrário à
natureza e é diretamente contrário à ordem da criação de Deus.
Em Romanos 1, Paulo enfatiza três vezes que o pecado homos-
sexual é contrário à natureza ou antinatural.207 Com esse pecado
cruza-se uma linha diferente dos outros pecados. Uma barreira
divinamente erguida é violada. Romanos 1.27 parece deixar isso

206 Ver 1Pedro 4.12-19.


207 Ver Romanos 1.26-27.
O MOM ENTO DECISIVO PARA A IGREJA

claro: “Da mesma forma, os homens também abandonaram as


relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns
pelos outros. Começaram a cometer atos indecentes, homens
com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela
sua perversão”. Nessa passagem, a homossexualidade é chamada
de antinatural, indecente, perversa e merecedora de castigo.
Numa tentativa de contornar esse ponto, muitos hoje em dia
argumentam que todos os pecados são iguais. Argumentam que
a homossexualidade não é diferente de falar uma mentira, de
fazer uma fofoca, de ficar embriagado. Então, por que destacar
tanto ele? Aqueles que se opõe à rápida aceitação do comporta-
mento homossexual são acusados de reagirem exageradamente
sobre o assunto e de não manterem um senso de proporção. Para
ser justo, esse ponto também é frequentemente citado por aque-
les que são contra o comportamento homossexual, em um esfor-
ço de serem imparciais. Afinal de contas, somos todos pecadores
- e nós dizemos “amém” a isso. Mas esse é o fim do assunto?
Todos os pecados são mesmo iguais?
A resposta a esta pergunta é sim e não. Sim, todos os pecados
são iguais no sentido de que eles infringem a lei de Deus. Eles
fazem do ofensor um transgressor da lei.208 Eles colocam o trans-
gressor em desacordo com a lei. Neste sentido, todos os pecados
são a mesma coisa. Mas, não, todos os pecados não são iguais em
seus efeitos e consequências. Qualquer leitura dos códigos de leis
do Antigo Testamento revela uma enorme diferença na punição
às diversas ofensas. Punições diferentes revelam que alguns peca-
dos são mais sérios que outros.
O mesmo acontece nos estatutos legais de hoje. Poucos ar-
gumentariam que as infrações de trânsito não são diferentes das
de estupro, assalto a banco ou sequestro. Sim, todas as infrações
infringem a lei. Todas as infrações nos tornam infratores da lei.

208 Ver Tiago 2 .10 11 ‫־‬.


A APOSTASIA VINDOURA

Mas todas elas não têm, nem de perto, as mesmas consequências


ou recebem as mesmas punições. Nas Escrituras, a homossexua-
lidade não é tratada como os outros pecados.209
Se alguém atirar em uma grande janela de vidro com uma
arma de chumbinho, o vidro será quebrado e um pequeno bu-
raco aparecerá. Com isso, o atirador de chumbinho é um que-
brador de vidro. Se outra pessoa disparar em uma grande janela
de vidro com uma bazuca, o vidro será despedaçado. O agres-
sor que empunhou a bazuca também é um quebrador de vidro.
Mas, neste último caso, o vidro é destruído. O resultado não
foi apenas um pequeno buraco, mas sim um buraco gigantes-
co. A janela e toda a estrutura ao seu redor estão destruídas.
As duas pessoas são quebradoras de vidro e, nesse sentido, os
seus atos são iguais, mas quem argumentaria que suas ações são
iguais? Com certeza não o dono da janela. A natureza desses atos
é imensamente diferente. As consequências têm importância. As
punições são feitas de acordo com a extensão do dano infligido.
Então, quando alguém diz que todos os pecados são iguais para
Deus, precisamos nos certificar de que estamos tratando corre-
tamente essa questão.
A segunda razão pela qual o comportamento homossexual é
uma questão decisiva para a cultura e para a igreja é que, até
muito recentemente, prevalecia a crença de que o comporta-
mento homossexual era errado. Crescendo nos anos 60 e 70,
pessoas de todas as idades e estilos de vida consideravam errada a
intimidade física com pessoas do mesmo sexo. Quase ninguém,
incluindo os incrédulos mais endurecidos, considerava o com-
portamento sexual algo aceitável. A avalanche nos últimos vinte
anos, que culminou na legalização do casamento homossexual
em nível nacional, tem sido de tirar o fôlego. A redefinição ra-

209 Ver Genesis 19 (Sodoma c catastroficamente eliminada por causa do seu pecado);
Levítico 18.22 (é chamado de “repugnante”); Levítico 20.13 (é punível com a morte).
O M OM ENTO DECISIVO PARA A IGREJA

dical de casamento atinge o coração da humanidade e da socie-


dade. A primeira instituição criada por Deus foi o casamento.
Mudar a definição de casamento significa que nada é sagrado
- nada está fora dos limites. Tudo pode acontecer.
Terceira, cada vez mais cristãos professos estão se submetendo
à cultura e aceitando relacionamentos entre pessoas do mesmo
sexo. De acordo com uma pesquisa conduzida pelo Pew Research
Center nos Estados Unidos, “a divisão entre os evangélicos e os
novos protestantes quanto ao casamento gay está se ampliando.
A pesquisa descobriu que 70 por cento dos evangélicos brancos
e 57 por cento dos protestantes negros não apoiam a legalização
do casamento entre pessoas do mesmo sexo [isso significa que
um terço dos evangélicos brancos e quase metade dos protes-
tantes negros o apoiam]. No entanto, 62 por cento dos novos
protestantes brancos e 56 por cento dos católicos estão a favor
do casamento gay”.210 A rendição de tantos a essa questão soa
o alarme para uma objeção fundamentada, para um chamado
ao discernimento bíblico e para uma resposta à pergunta: como
podemos nos firmar nas Escrituras e amar todas as pessoas, en-
quanto somos odiados e demonizados pelo mundo por simples-
mente acreditar na Bíblia?

Voltando à Bíblia

Por dois mil anos a igreja de Jesus Cristo acreditou que o com-
portamento homossexual é pecaminoso. Ter uma inclinação
pelo mesmo sexo não é algo pecaminoso em si, mas agir de acor-
do com tal inclinação contraria as Escrituras. A distinção entre ter
uma inclinação pelo mesmo sexo e agir de acordo com esse desejo é
importante, e precisamos manter esse ponto bem esclarecido.

210 “Tony Campólos Gay Marriage Support Highlights Divide”, CBN News.
A APOSTASIA VINDOURA

A crença de que a atividade homossexual é errada foi qua-


se que universalmente aceita entre os cristãos e não cristãos até
duas ou três décadas atrás. Expondo a questão da forma mais
simples possível, os cristãos têm acreditado que “Deus pretendia
que os humanos expressassem sua sexualidade dentro dos limites
do casamento entre apenas um homem e uma mulher, não com
alguém do mesmo gênero”.211
Então, subitamente, quando os ativistas começaram a reverter
a onda da opinião pública, os progressistas na igreja tiveram uma
epifanía de que o comportamento homossexual é aceitável para
Deus. No que parecia ser uma corrida de roedores, muitos quase
não conseguiram dar sua bênção com rapidez suficiente. Mas, ao
invés de haver uma epifanía, será que a mudança de posição não
nasceu de uma conveniência - um desejo de ser abraçado e aceito
pela cultura secular? O recuo está surgindo do desejo de evitar
o rótulo de homofobia e de parecer mais amoroso e tolerante
do que os crentes que se mantêm na interpretação milenar da
Palavra de Deus?
Voltando para a Palavra de Deus, há quatro passagens bíblicas
principais (ou agrupamentos) que se referem negativamente à
questão da atividade homossexual:
1. A história de Sodoma (Gênesis 19.113‫;)־‬
2. Os textos levíticos (Levítico 18.22; 20.13);
3. A descrição de Paulo sobre uma sociedade caída e longe
de Deus (Romanos 1.2632‫;)־‬
4. Duas listas de Paulo, cada uma contendo uma referência
a algum tipo de prática homossexual (1 Corintios 6.9-
10; !Timoteo 1.8-11).212

211 Glenn R. Kreidcr e Thomas M. Mitchell, ‫״‬Kindness and Repentance: Romans 2:4
and Ministry to People with Same-Sex Attractions”, Bibliotheca Sacra 173 (jan./mar.
2016): 60.
212 Ver John Stott, Same-Sex Partnerships? A Christian Perspective (Grand Rapids, MI:
Revell, 1998), p. 18.
O MOM ENTO DECISIVO PARA A IGREJA

Vamos dar urna breve olhada em cada uma delas. (As passa-
gens de Levítico serão discutidas em conexão com 1Corintios 6.)

G ênesis 19.1-13
A famosa passagem de Gênesis 19 se refere aos desejos homos-
sexuais dos homens de Sodoma em relação aos dois homens que
visitavam a cidade deles - que eram seres angelicais em forma
humana - e o julgamento cataclísmico de Deus sobre a cidade.
Desde então, Sodoma tem sido equiparada ao julgamento divi-
no. John Stott escreve: “O comportamento homossexual com
certeza não foi o único pecado de Sodoma; mas, de acordo com
as Escrituras, foi certamente um dos seus pecados que trouxe so-
bre si o terrível julgamento de Deus”.213A carta de Judas confirma
a ligação entre o pecado sexual de Sodoma e a sua destruição.214

Rom anos 1.26-32


Em Romanos 1.26-27 está escrito: “Por causa disso Deus os en-
tregou a paixões vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas
relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza. Da
mesma forma, os homens também abandonaram as relações na-
turáis com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos ou-
tros. Começaram a cometer atos indecentes, homens com homens,
e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão”.
Embora muito poderia ser dito - e tem sido - sobre esses
versos, não há dúvida de que as outras atividades listadas em Ro-
manos 1.28-31 são pecaminosas, e Romanos 1.28-31 vem logo
após os versos que lidam com a homossexualidade. Neste con-
texto, o qual cataloga pecados graves, argumentar que Paulo não
considerava o comportamento homossexual como um pecado é
bastante forçado. Kevin DeYoung diz isso muito bem:

213 Ibid., p. 22.


214 Ver Judas 1 .6 7 ‫־‬.
A APOSTASIA VINDOURA

A p rá tic a h o m o ss e x u a l é p e c a m in o s a p o r q u e ela v io la o p ro -
je to d iv in o n a C ria ç ã o . D e a c o rd o c o m a ló g ic a d e P a u lo , 110-
m e n s e m u lh e re s q u e se e n g a ja m n o c o m p o r ta m e n to sex ual
c o m o m e s m o sexo - m e s m o q u e eles e s te ja m s e n d o fiéis ao s
seu s p r ó p rio s s e n tim e n to s e d esejo s - s u p r im ir a m a v e rd a d e
d e D e u s e m ju s tiç a . Eles tro c a ra m a disp o sição das relações e n tre
h o m e n s e m u lh e res p o r u m a disp o sição c o n trá ria à n atu re z a .215

!C orintios 6.9-10
Na primeira carta aos corintios, os versos 9 1 0 ‫ ־‬do sexto capítulo
são uma lista feia de pecados que são incompatíveis e irrecon-
ciliáveis com o reino de Deus e com o evangelho: “Vocês não
sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não
se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros,
nem homossexuais, nem efeminados, nem ladrões, nem avarentos,
nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o
Reino de Deus (ênfases acrescentadas)”.
Não negligencie as sérias palavras de advertência: “Não se
deixem enganar”. Muitos hoje em dia, falhando em levar essas
palavras a sério, estão sendo enganados.
Duas das palavras usadas nesses versos se referem ao compor-
tamento homossexual:
• Malakos, algumas vezes traduzida como “efeminado”,
significa “suave ao toque”. Entre os gregos, a palavra se
refere aos machos que assumem o papel passivo no in-
tercurso homossexual.
• Arsenokoitai, encontrada em 1Corintios 6.9, é uma
combinação de arsen (homem) e koite (cama). Uma tra-
dução precisa é “homem de cama”, ou alguém que leva
homens para a cama. O claro significado da palavra é

215 Kevin DeYoung, What Does the Bible Really leach about Homosexuality? (Wheacon,
IL: Crossway, 2015), p. 55.
O MOM ENTO DECISIVO PARA A IGREJA

de homens engajados no comportamento homossexual.


Paulo provavelmente se referiu a Levítico 18.22 e 20.13
ao cunhar essa palavra.216 As passagens levíticas pedem
a pena de morte para o relacionamento homossexual e
o chamam de “repugnante”. As palavras relacionadas
em Romanos 1.27, arsenes en arsenin (“homens em ho-
mens”), são uma referência vivida e gráfica da intimida-
de homossexual entre homens.

Kevin DeYoung ressalta a importância desses versos:

Se 1C o r in tio s 6 e s tá c o rre to , n ã o é u m e x a g ero d iz e r q u e so-


le n iz a r o c o m p o r ta m e n to sex u al d e p esso as d o m e s m o sexo
— assim c o m o a p o ia r q u a lq u e r f o rm a d e im o ra lid a d e sex u al
- c o rre o risco d e c o n d u z ir p esso as a o in fe rn o . [...] Q u a n d o
to le ra m o s a d o u tr in a q u e a firm a o c o m p o r ta m e n to se x u al, es-
ta m o s to le r a n d o u m a d o u tr in a q u e c o n d u z as p esso as p a ra
m a is lo n g e d e D e u s. E ssa n ã o fo i a m is sã o q u e Je su s d e u aos
seus d is c íp u lo s q u a n d o lh e s d isse q u e e n s in a ss e m às n aç õ es
tu d o o q u e ele h a v ia o r d e n a d o .217

1 Timóteo 1.8-10
Outra lista de imoralidades que condena o comportamento ho-
mossexual é encontrada em 1Timóteo 1.8-10:

S a b e m o s q u e a L ei é b o a , se a lg u é m a u sa d e m a n e ira ad e -
q u a d a . T a m b é m s a b e m o s q u e ela n ã o é feita p a ra os ju sto s,
m as p a ra os tra n sg re sso re s e in s u b o r d in a d o s , p a ra os ím p io s e
p e c a d o re s , p a ra o s p ro fa n o s e irre v e re n te s, p a ra os q u e m a ta m
pai e m ã e , p a ra o s h o m ic id a s , p a ra os q u e p ra tic a m im o r a li­

216 Ibid., p. 6 3 6 5 ‫·־‬


2 1 7 Ibid., p. 7 7 .
Λ APOSTASIA VINDOURA

d a d e sexual e o s h o m o ss e x u a is, p a ra o s s e q u e stra d o re s, p a ra os


m e n tiro s o s e o s q u e ju r a m fa lsa m e n te ; e p a ra to d o a q u e le q u e
se o p õ e à sã d o u tr in a .

Paulo usa a palavra arsenokoitai em 1.10 (a mesma palavra


usada em 1Corintios 6.9) e claramente liga esse comportamento
a outras atividades pecaminosas que são contrárias à lei de Deus.

Crer on não crer


Acrescentada a esses textos, a visão bíblica do casamento apre-
sentada em Gênesis 1-2 exclui os atos homossexuais por im-
plicação, mesmo que nunca os proíba específicamente.218 Os
princípios positivos em Gênesis 1-2 e as consistentes proibições
sobre a imoralidade sexual no Antigo e no Novo Testamentos
confirmam o casamento monogâmico e heterossexual como o
único relacionamento de uma só carne que Deus aceita e aben-
çoa. As Escrituras são bem evidentes quanto a esse assunto, ape-
sar de todo o barulho que ouvimos hoje em dia. Aqueles que
argumentam que não há unanimidade entre os estudiosos sobre
essa questão precisam lembrar que, até pouco tempo atrás, havia.
Só porque recentemente as pessoas, influenciadas por tendências
culturais, começaram a questionar a interpretação tradicional de
passagens fundamentais não significa que a questão é nebulosa.
A pergunta é: nós acreditamos que a Bíblia é a Palavra inspi-
rada de Deus e estamos dispostos a aceitar o que ela diz como
sendo verdadeiro, usando princípios aceitáveis de interpreta-
ção? Que a Bíblia proíbe o comportamento homossexual está
bem claro para qualquer intérprete objetivo. Aqueles que estão
tentando distorcer as Escrituras para apoiar o comportamento
homossexual, ou pelo menos para causar mais confusão, falharam

218 Thomas E. Schmidt, Straight & Narrow? Compassion & Clarity in the Homosexuality
Debate (Downers Grove, IL: InterVarsicy Press, 1995), p. 64.
O M OM ENTO DECISIVO PARA A IGREJA

completamente na tentativa de montar sua argumentação a partir


das Escrituras.
Resumindo as proibições do Novo Testamento, Peter Coleman
observa: 'O s escritos de São Paulo repudiam o comportamento
homossexual como uma depravação dos gentios em Romanos,
como uma barreira ao reino de Deus em 1Corintios e como
uma ofensa a ser repudiada pela lei moral em 1Timóteo”.219 Rod
Dreher encoraja os jovens e os cristãos progressistas a apertar o
botão de pausa nessa questão:

H o m o s s e x u a lid a d e é u m a lin h a b e m clara. As p esso as q u e


p e n s a m c o m o R a c h e l H e ld E v an s p re c is a m se p e r g u n ta r se
e s ta ria m d isp o s ta s a se g u ir Je su s C r is to se, ao fazê-lo , elas ti-
vessem q u e to m a r u m a p o siç ã o c o n tra c u ltu ra l a c erca desse
a s su n to . D o p o n to d e v ista c ristã o , a c e ita r o c a s a m e n to e n tre
p esso as d o m e s m o sexo é u m a m u d a n ç a ra d ic a l, u m a q u e re-
p u d ia d o is m ilê n io s d o p e n s a m e n to e e n s in o cristã o s.
T e m o s ta n ta c e rte z a a ssim d e q u e n ó s, a m e ric a n o s d o sé-
c u lo X X I, e s ta m o s c o m to d a a raz ão , e q u e q u a lq u e r u m q u e
v eio a n te s d e n ó s, in c lu in d o o a p ó s to lo P au lo , estav a e rra d o ? 220

Essas palavras cheias de sabedoria devem ser levadas em con-


sideração por todos nós.

Argumentos Que Apoiam as Relações


Homossexuais

Livros inteiros foram escritos tratando dos argumentos favorá-


veis e contrários ao comportamento homossexual, de modo que

219 Peter Coleman, Christian Attitudes to Homosexuality (Londres: SPCK, 1980), p. 101.
220 Rod Dreher, “What If Rachel Held Evans Is Wrong?”, RealClearReligion, 15 mai.
2012. Disponível em: <goo.gl/XwA9BA>.
A APOSTASIA VINDOURA

o propósito aqui não é aprofundar esse assunto. Nesta seção,


no entanto, queremos brevemente declarar e responder alguns
dos argumentos mais frequentes oferecidos pelos proponentes
da homossexualidade para apoiar sua visão.

O que o am or tem a ver com isso?


Um argumento predominante a favor dos relacionamentos ho-
mossexuais é de que o amor supera tudo. Se as pessoas se amam,
o que elas fazem e com quem elas fazem não pode ser errado.
Embora isso soe atraente em nossa sociedade contemporânea e
tolerante, é uma tolice. Amor, que é uma parte essencial de qual-
quer relacionamento íntimo, não é o único critério que o auten-
tica.221 Afinal de contas, e se uma pessoa ama várias pessoas? E
se a pessoa ama um animal? E se um adulto ama uma criança e a
criança diz que ama o adulto? E se uma pessoa ama alguém que
é casado com outra pessoa?
O amor é encontrado em obediência à lei e ao propósito do
nosso Criador, não em rebelião contra isso. Como John Stott
disse: “Nenhum homem é justificado por quebrar o seu pacto
matrimonial com sua esposa, alegando que a qualidade do seu
amor por outra mulher é maior. Qualidade do amor não é o úni-
co padrão para medir o que é bom e certo. [...] Parece não haver
limites para o que algumas pessoas procuram justificar em nome
do amor”.222 O amor não pode ser o único critério para os rela-
cionamentos sexuais. O amor e a lei não são incompatíveis.223

Justiça p a ra todos?
Para muitos, a completa aceitação da atividade homossexual é
simplesmente uma questão de justiça e indiscriminação. Nós

221 John Stott, Same-Sex Partnerships?, p. 54.


222 Ibid., p. 54-55.
223 Ver João 14.15; Romanos 13.8.
O M OM ENTO DECISIVO PARA A IGREJA

ouvimos frequentemente sobre os “direitos LGBT”, o que dá a


entender que os homossexuais estão sofrendo uma injustiça que
precisa ser corrigida. Desmond Tutu, ex-arcebispo da Cidade do
Cabo, entre muitos outros, pressiona esse assunto. Mas será que
esse raciocínio é sólido?
Deus é um Deus de justiça e retidão. Ele é infinitamente jus-
to, e ele quer que suas criaturas amem e respeitem todas as pesso-
as, sem distinção. No entanto, isso não significa que o compor-
tamento homossexual deva ser desculpado como uma questão
de justiça. Falando sobre homossexualidade e justiça, John Stott
diz: “Falar de ‘justiça é inapropriado, já que os seres humanos
não podem reivindicar como um ‘direito’ algo que Deus não os
deu”.224 Uma vez que o Criador não deu aos seres humanos o di-
reito de expressar sua sexualidade com membros do mesmo sexo,
qualquer conversa sobre justiça ou direitos nesse tópico é equivo-
cada. As pessoas podem acreditar que relacionamentos homosse-
xuais são aceitáveis, mas apelar para a justiça ou aos direitos para
substanciar essa posição vai contra as Escrituras. “A intimidade
sexual é legítima, de acordo com as Escrituras, somente dentro
dos limites do casamento heterossexual. Por essa razão, a prática
homossexual não pode ser considerada como um equivalente ad-
missível, muito menos como um direito divino.”225

Jesus fic o u em silêncio quanto ao hom ossexualism o


Alguns apontam para o fato de que Jesus nunca condenou a
homossexualidade como evidência de sua aprovação implícita.
Essa noção apresenta dois problemas. Primeiro, Jesus não abor-
dou muitos pecados. Ele nunca condenou o abuso de crianças,
assalto a bancos ou o abuso de drogas, mas certamente todas
estas atividades são pecaminosas. Jesus nunca precisou condenar

224 Stott, Same-Sex Partnerships?>p. 57.


225 Ibid., p. 58.

mu
A APOSTASIA VINDOURA

o comportamento homossexual porque todos na cultura judaica


dos seus dias entenderam que ele ia contra a lei mosaica.226
Segundo, Jesus frequentemente referia-se a Sodoma (e algu-
mas vezes a Gomorra) para alertar seus ouvintes de uma destrui-
ção iminente.227 A palavra sodomía vem do pecado homossexual
de Sodoma. Qualquer argumento de que Jesus apoiava a homos-
sexualidade é um argumento pelo silêncio que desconsidera as
abundantes referências negativas que ele fez a Sodoma.

Aprovação e Aplauso

Como vimos, nenhum caso imparcial pode ser feito de que as


Escrituras apoiam atos homossexuais ou falham em condená-
-los. Os homossexuais que executam os seus desejos sexuais estão
violando a vontade de seu Criador. Mas a questão não se encerra
aqui. A Bíblia não apenas proíbe relacionamentos entre pessoas
do mesmo sexo como também proíbe aprovar ou aplaudir essa
atividade. Paulo, no mesmo contexto em Romanos 1 onde pro-
íbe relações com o mesmo sexo, conclui: “Embora conheçam o
justo decreto de Deus, de que as pessoas que praticam tais coisas
merecem a morte, não somente continuam a praticá-las, mas
também aprovam aqueles que as praticam”.228
Hoje em dia, a torcida pelos relacionamentos entre pessoas
do mesmo sexo, e até mesmo pelo casamento homossexual, tem
crescido imensamente em nossa cultura e dentro da igreja. A
aceitação tem levado à aprovação, que por sua vez tem levado
ao aplauso. Esse ponto de vista cresceu tanto que aqueles que
expressam qualquer objeção são cada vez mais rejeitados, difa-
mados e calados. Inúmeros pastores, líderes de igrejas e deno­

226 Ver Lcvítico 18.22; 20.13.


227 Ver Mateus 10.14-15; 11.23-24; Lucas 10.10-12; 17.26-30.
228 Romanos 1.32.
O MOM ENTO DECISIVO PARA A IGREJA

minações têm concedido total apoio ao que tem acontecido em


nossa cultura e demonstram desprezo a qualquer um que discor‫׳‬
de deles. O mal é chamado de bom e o bom é chamado de mal.
Romanos 1.32 é uma séria advertência contra essa atitude.
Aprovar e aplaudir os pecados listados no contexto anterior (in-
cluindo relacionamentos homossexuais) é severamente condena-
do por Deus. Romanos 1.32, na verdade, diz que aprovar esses
pecados é pior do que praticá-los. Como isso pode ser possível?
Thomas Schreiner explica: “A pessoa que comete o mal, mesmo
que suas ações sejam indesculpáveis, pode pelo menos alegar as
circunstâncias atenuantes da paixão momentânea. Aqueles que
encorajam os outros a praticar o mal o fazem a partir de uma
convicção apaixonada”.229
C. E. B. Cranfield, o eminente estudioso do Novo Testa-
mento, diz: “Há também o fato de que aqueles que toleram e
aplaudem as ações condenáveis de outros estão realmente fazen-
do uma contribuição deliberada para a criação de uma opinião
pública favorável à depravação e, desta forma, à corrupção de
um número indefinido de outras pessoas”.230 Quando as pessoas
“se deleitam com a pecaminosidade dos outros [...] a maldade
chegou ao seu ponto mais degradante”.231
O que estamos testemunhando nos nossos dias é o cum-
primento gráfico desse princípio. O aplauso está sufocando a
voz dos que discordam. De acordo com Romanos 1.32, os que
aplaudem a decisão da Suprema Corte de legalizar o casamento
entre pessoas do mesmo sexo estão praticando um mal ainda
maior do que os que são culpados do pecado da homossexu-

229 Thomas R. Schreiner, Romans, Baker Exegetical Commentary on die New Testa-
ment, ed. Moses Silva (Grand Rapids, MI: Baker Books, 1998), p. 9 9 1 0 0 ‫־‬.
230 C. E. B. Cranfield, The Epistle to the Romans, The International Critical Commentary,
eds. J. A. Emerton e C. E. B. Cranfield, vol. 1 (Edimburgo: T & T Clark, 2006), p. 135.
231 Robert H. Mounce, Romans, The New American Commentary, ed. E. Ray Clende-
nen, vol. 27 (Nashville: Broadman &: Holman, 1995), p. 86.
A APOSTASIA VINDOURA

alidade. Isso é muito sério. É o degrau mais baixo da escada.


Quando esse nível é alcançado na proporção que vemos hoje,
a apostasia final predita nas Escrituras pode estar bem próxima.

Apostasia Final

A revolução homossexual causou um impacto profundo nos úh


timos vinte anos. Uma linha foi cruzada que poucos imagina-
vam ser possível. No despertar desse afastamento, a cultura já
absorveu e aceitou tal comportamento, passando agora para to-
das as formas de confusão do gênero que se pode imaginar. Nada
parece fora dos limites ou tabu. Cada pessoa faz o que está certo
aos seus próprios olhos. Questões sobre gênero e identidade são
os novos tópicos acalorados. Em um artigo recente, a ABC News
identificou cinquenta e oito gêneros a serem escolhidos pelos
usuários do Facebook.232 Alguns descobriram mais de oitenta
identificações diferentes de gênero. A questão é: chegamos ao
fim do gênero? Muitas páginas na internet eliminaram qualquer
solicitação de gênero porque não conseguem listar todos ou não
têm certeza de quantos deveríam listar. Temos até traduções da
Bíblia que são neutras em relação aos gêneros. A homossexuali-
dade foi só o começo - o tiro de largada. Tendo perdido Deus, o
homem agora perdeu a si mesmo. Onde isso vai parar?
Jesus disse que o mundo antes da sua segunda vinda será
como nos dias de Ló na cidade de Sodoma:

A c o n te c e u a m e sm a c o isa n o s d ia s d e Ló. O p o v o e stav a co-


m e n d o e b e b e n d o , c o m p r a n d o e v e n d e n d o , p la n ta n d o e c o n s-
tr u in d o . M a s , n o d ia e m q u e L ó saiu d e S o d o m a , c h o v e u fogo

232 Russell Goldman, “Heres a List of 58 Gender Options for Facebook Users”, ABC
News, 13 fev. 2014. Disponível em: <goo.gl/t3LZqn>.
O M O M ENTO DECISIVO PARA Λ IGREJA

e enxofre do céu e os destruiu a todos. Acontecerá exatamente


assim no dia em que o Filho do homem for revelado.233

O que está acontecendo hoje não é coincidência ou casuali-


dade. Satanás está liderando uma investida global contra Deus e
contra o homem a fim de pavimentar o caminho para a apostasia
final predita em 2Tessalonicenses 2.2-3. Nós estamos vivendo na
vanguarda disso. Este pode ser o começo do fim.
A volta de Cristo pode ser em breve!

Sua Palavra, a Última Palavra

Questões sobre o homossexualismo — uma realidade única e


controversa — estão causando um efeito profundo na igreja e
nos cristãos individualmente, que não sabem no que acreditar
ou como devem responder bíblicamente. Vimos neste capítulo
que não podemos aprovar o que Deus desaprova. A igreja de
Jesus Cristo é um lugar para todos nós aprendermos a dizer não
ao pecado e encontrar ajuda espiritual para viver uma vida que
agrada a Deus. Todo crente deve tomar a sua cruz, morrer para si
mesmo e seguir a Jesus, independentemente dos nossos pecados
específicos. Nossa escolha hoje, no que se refere a esse assunto,
não está entre tolerar preguiçosamente o comportamento peca-
minoso ou atacar com raiva e condenação. “Existe uma outra
maneira. E possível mostrar amor e também falar da verdade
transformadora. Só não é fácil.”234
Enquanto Satanás prepara seu ataque final e furioso contra a
verdade e procura apagar qualquer vestígio de moralidade, po-
demos descansar humildemente no conhecimento de que Deus

233 Lucas 17.2830‫־‬.


234 Chelsen Vicari, “Jen Hatmakcr, Blurry Lines, and Transformative Truth”, Faith &
Chelsen (blog), 26 abr. 2016. Disponível em: <goo.gl/7vsvcY>.
A APOSTASIA VINDOURA

honra aqueles que confiam nele, se submetem à sua vontade e


procuram encorajar amorosamente outros a fazer o mesmo.
Dawson Trotinan, o fundador do ministério The Navigators,
utilizou um código de quatro letras para se referir ao seu estudo
noturno da Palavra de Deus: SPUR Sempre que estava em casa
com sua esposa ou com um grupo de pessoas à noite, e a con-
versa estava chegando ao fim, ele terminava com “SPUP” - “Sua
Palavra, a Última Palavra‫״‬. Um deles recitava uma porção da
Escritura e depois eles iam para a cama. Trotman desenvolveu
essa prática como uma forma de fazer com que os últimos pen-
sarnentos do seu dia estivessem focados no Senhor.
Essa é uma ótima prática para encerrar o dia, mas é uma ma-
neira igualmente eficaz de enfrentar os problemas de nossos dias.
Em cada questão da vida, nossa atitude deveria ser SPUP - “Sua
Palavra, a Última Palavra‫״‬.
Que a Palavra de Deus tenha a última palavra em nossas
vidas, nossas famílias, nossa nação e na igreja dele, enquanto
aguardamos a sua vinda.
C apítulo 8

0 VERDADEIRO JESUS VAI SE


MANIFESTAR?
“E vocêsperguntou ele. “Quem vocês dizem que eu sou?”
Mateus 16.15

Jesus C figura mais essencial, revolucionária e polêmica


r is t o é a

da história humana. Quanto a isso, não há dúvidas. Este homem


realizou mais no seu curto período de vida do que reis e impérios
em séculos. E apesar das bibliotecas do mundo estarem cheias de
volumes escritos sobre ele e sobre seu impacto na humanidade,
uma obra bem conhecida tornou-se um clássico. No seu me-
morável poema “One Solitaiy Life” [Uma Vida Solitária], o dr.
James Allan Francis descreve o começo humilde de Jesus e sua
morte infame. !Mas ele prossegue descrevendo a incomparável
influência de Jesus:

Dezenove séculos se passaram


E boje Jesus é a figura central da raça humana
E 0 líder do progpesso da humanidade.
Todos os exércitos queja marcharam
Todas as marinhas que já navegaram
Todos os parlamentos que já existiram
Todos os reis que já dominaramy colocadosjuntosy
A APOSTASIA VINDOURA

Não afetaram, a vida do homem, na terra


Tão poderosamente quanto aquela vida solitária.235

Contudo, apesar do colossal impacto de Jesus na história e


na humanidade, existe hoje uma confusão generalizada quanto
a quem ele realmente foi... e é. De fato, há aqueles que afirmam
que ele nunca existiu.236Também há aqueles, como o autor Bart
Ehrman, que afirmam que o próprio Jesus nunca alegou ser uma
divindade; em vez disso, suas reivindicações registradas não passam
de uma lenda criada por seus seguidores após sua morte.237
Porém, mesmo entre aqueles que acreditam que Jesus era
Deus encarnado, existem visões divergentes a respeito de sua
identidade, missão e realizações. Dentro da cristandade existe
urna multiplicidade de imagens flutuando nas cabeças daqueles
que professam conhecê-lo. Portanto, o refrão da história tem se
tornado uma pergunta recorrente que confronta cada nova gera-
ção: quem é Jesus Cristo? Ou talvez uma questão pós-moderna
mais apropriada e teologicamente emergente seria: quem é Jesus
para você?
A percepção popular sobre Jesus está mudando na cultura e
até mesmo na igreja. O Jesus das Escrituras está passando por
uma reformulação, e em alguns casos sofrendo uma transforma-
ção extrema. Faça uma pesquisa numa rua principal ou num tí-
pico campus universitário e você provavelmente encontrará uma
porcentagem surpreendente de pessoas que não têm a menor

235 Esta versão de ,O n e Solitary Life” é adaptada de James Allan Francis, “Arise Sir
Knight!”, in: The RealJesus and Other Sermons (Filadélfia: The Judson Press, 1926),
p. 123-124.
236 Kenneth Humphreys, Jesus Never Existed: An Introduction to the Ultimate Heresy
(Charleston, WV: Nine-Banded Books, 2014). Esta é, naturalmente, uma visão
minoritária, pois poucos historiadores seculares credíveis realmente duvidam ou ne-
gam a historicidadc de Jesus.
237 Warren Cole Smith, “A conversation with Bart Ehrman”, World, 9 jan. 2015. Dis-
ponível em: <goo.gl/vzSJ3Q>.
O VERDADEIRO JESUS VAI SE MANIFESTAR?

ideia da verdadeira identidade dele. Eu (Jeff) fiz isso na Ingla-


cerra, onde as respostas dos jovens variavam de “Não tenho a
menor ideia” até “Ele não é aquele cara que fez mágicas?”.
Devido à esmagadora secularização da sociedade, estamos co-
meçando a ver uma dramática perda do conhecimento bíblico
mais básico sobre Jesus. Um estudo recente do Grupo Barna re-
velou que menos de 50% dos millennialis acreditam que Jesus
era Deus, e 56% dos millennials acreditam que ele foi um pecador
como qualquer outra pessoa ou estão confusos sobre essa questão.238
Mas, entre aqueles com um conhecimento elementar de Cris-
to, muitos rejeitaram as crenças antigas acerca do Filho de Deus,
preferindo ao invés disso uma versão reinventada dele. Para eles,
ele está precisando de uma atualização —Jesus 2.0, um novo e
melhorado Cristo para uma nova geração. Numa época de espi-
ritualidade em evolução, Jesus passou a significar qualquer coisa
que você queira que ele signifique ‫ ־־‬um Salvador customizado
para todos os povos e preferências. Um Messias que se transfer-
ma.

Jesus vs. “Jesus”

Cada nova geração é responsável por se engajar e responder à


revelação de Deus de si mesmo e de seu Filho. No entanto, na
ausência de um entendimento firmemente ancorado nas Escri-
turas, as percepções das pessoas sobre Cristo se tornam deforma-
das, ofuscadas e distorcidas. Como resultado, Cristos falsificados
entraram em cena, e os valores promovidos nestas várias subdivisões
da comunidade cristã nos ajudam a entender qual “ideia de Cristo”
cada uma segue. Aqui estão algumas que você talvez reconheça.

238 “What Do Americans Believe About Jesus? 5 Popular Beliefs”, Barna Group, 1 abr.
2015. Disponível em: <goo.gl/g5PQT5>.
A APOSTASIA VINDOURA

O Jesus hipster
O Jesus hipster é legal e muito de boas. Afinal, ele tem que ser
se queremos alcançar um grupo demográfico de jovens de vinte
e poucos anos vestindo calças coladas, deixando a barba crescer
e bebendo cerveja artesanal, certo? O Jesus hipster é bonitão,
acessível e capaz de fazer de tudo. Ele gosta muito de contar
histórias. Na verdade, tudo é história. Ele dá comida aos pobres
e distribui folhetos aos desabrigados. Ele defende os direitos hu-
manos. Em alguns círculos, ele até pode ser inclinado ao soda-
lismo, já que é dessa forma que muitos das gerações mais jovens
veem a igreja primitiva. Mas, embora o Jesus hipster seja famoso
por sua diversidade, seu seguimento é em grande parte formado
por brancos. E, por alguma razão, o Jesus hipster não se dá muito
bem em comunidades pobres. Esse Jesus está muito preocupado
com o meio-ambiente e com as alterações climáticas. Ele quer
que os seus seguidores sejam mordomos responsáveis do planeta.
Ele recicla e compra as suas roupas em brechós. Ele gosta de cafe-
terias e de música independente. Ele prefere “pastores da arte da
adoração” a “ministros de música”. Ele talvez faça uma dieta sem
glúten. Ele não fica muito perturbado com doutrinas específicas
nem se estressa se os pastores fazem pregações expositivas ou te-
máticas. Ele está mais para a teologia geral, se é que se importa
com isso. Ele valoriza o retorno à liturgia tradicional.

O Jesus igualitário
Este Jesus é muito mais liberal que o anterior, embora em alguns
pontos haja uma sobreposição. Ele não se preocupa com a “mo-
ral idade antiquada” que os cristãos fundamentalistas afirmam
que as Escrituras ensinam. Sendo assim, se certas passagens bí-
blicas não se encaixam bem com as crenças em evolução da nossa
sociedade ou com as práticas envolvendo gênero, sexualidade ou
casamento, esse Jesus não vai ficar chateado se nós as reinterpre-
tarmos ou ignorarmos. O Jesus igualitário não pode ser acusado
O VERDADEIRO JESUS VAI SE MANIFESTAR?

de estar do lado errado da historia. Aqueles que aderem ao Jesus


igualitário dizem que ele é totalmente favorável ao amor e à in-
clusão... na definição deles, é claro. Sua palavra favorita é todos, e,
para seus seguidores, frases como “qualquer que venha‫ ״‬e “assim
como eu sou” não apenas significam que Jesus nos aceita como
somos; elas significam que ele está perfeitamente satisfeito com o
que você quer ser. Aqueles que acreditam no Jesus igualitário não
somente redefinem palavras como amor e ódio para uma nova
era, mas também reclassificam vários pecados, designando atitu-
des como intolerância e discriminação entre as mais hediondas
e maldosas transgressões que alguém jamais poderia cometer. O
Jesus igualitário é um super-herói que luta pela justiça social e
provavelmente deixará todos irem para o céu eventualmente. Por
outro lado, é possível que ele decida deixar de fora os farisaicos,
os intolerantes e os conservadores que seguem a Bíblia.

O Jesuspatriota
Este Jesus é o equivalente mais antigo daquele representado pelo
grupo hipster. O Jesus patriota é ultraconservador, especialmente
no que se refere a questões morais. Ele é inclinado à extrema
direita na sua política e espera que seus seguidores se envolvam
profundamente no processo político. Não há escassez de sermões
com um toque politizado na cultura da igreja do Jesus patriota.
Na verdade, seus pastores rotineiramente entregam os seus púl-
pitos a políticos de mesma opinião que aparecem por ali. Como
resultado, esses políticos ganham o “voto evangélico” quando
fazem campanha por “valores judaico-cristãos” ou questões mo-
rais que ganham a simpatia dessa específica demografía religiosa
ou socioeconómica. Às vezes, esses eleitores ignoram uma falta
de caráter pessoal em seus candidatos escolhidos porque eles são
fortes nas questões “certas”.
Para os norte-americanos, o Jesus patriota ama a sua nação
e acha que ela é a melhor que já existiu. Ele fica feliz quando
A APOSTASIA VINDOURA

seu povo hasteia a bandeira nacional na igreja e celebra todos os


feriados nacionais importantes. Nesse sentido, esse Jesus é mui-
to americano. Os seus seguidores dizem que a América é uma
“cidade sobre um monte” c uma “luz para todas as nações”. Os
Estados Unidos são vistos como uma espécie de novo Israel ou
algum tipo de povo da aliança coletivo. Há rumores de que os
Estados Unidos são uma “nação cristã”, embora os seguidores do
Jesus patriota às vezes se esforcem para articular o que isso signi-
fica. Por fim, o Jesus patriota apoia as forças militares nacionais.
De várias maneiras, o Jesus patriota se parece mais com um
produto dos homens do que do céu, muito mais terreno do que
eterno. Ele parece mais preocupado com coisas temporais e com
questões nacionais do que com o destino das almas das pessoas.
Esse Jesus é obviamente branco e popular entre as famílias de
classes média a alta.

C aricaturas de Cristo
Há muitas outras caricaturas de Cristo em nossa cultura que
poderíam ser abordadas, mas todas elas nem chegam perto do
Salvador descrito nas Escrituras.
O que torna essas caricaturas tão fascinantes é o fato de elas
terem alguns elementos de verdade borrifados nas interpretações
do Cristo encarnado - verdade facilmente verificada pela leitura
dos evangelhos. O Jesus da Bíblia se importa com a justiça social
e com os oprimidos. Sobre a moralidade, ele ficaria profunda-
mente ofendido e irritado com o tráfico sexual, a violência e o
bárbaro massacre de bebes inocentes em nossos dias. E ele recebe
qualquer um que invoque o seu nome por salvação. E, quando
o seu povo se encontra suficientemente afortunado para estar
numa democracia, eles podem e devem participar do processo
político, especialmente quando o governo promove valores ím-
pios e ameaça a liberdade religiosa. O verdadeiro Jesus sofreu a
O VERDADEIRO JESUS VAI SE MANIFESTAR?

ira de Deus a fim de remover a penalidade e o poder do pecado


de todos os pecadores que nele confiam.
Contudo, apesar das coisas que as caricaturas de Cristo acima
mencionadas acertam, elas não conseguem fornecer a clareza e a
totalidade de quem é o Jesus retratado nas Escrituras. Um Jesus
parcial não é Jesus de forma alguma. Não podemos escolher as-
pectos de Jesus que nos atraem, enquanto ignoramos o restante
do que as Escrituras dizem que ele é. O cristianismo não é um
bufê de verdades bíblicas, onde evitamos os itens que não pas-
sam no nosso teste pessoal de gosto. Não somos nós que defini-
mos o menu da verdade, mas Deus.
Além de tentar desesperadamente relacionar Jesus com a pró-
xima geração, o que testemunhamos em alguns movimentos da
igreja é uma redefinição da própria essência de Jesus. Será que,
nesse caso, a igreja está se esforçando demais? Livremente basea-
das no Jesus da Bíblia, essas caricaturas são como sofrer ao longo
de um filme ruim que é “inspirado em fatos reais” ou “baseado
no livro”. Neles, as representações de personagens geralmente
têm pouca ou nenhuma semelhança com as verdadeiras pessoas
que elas representam. Embora alguns dos promotores dessas ca-
ricaturas incompletas de Cristo possam ter motivos nobres, ao
encaixar nosso Cristo em nossa cultura acabamos criando um
“Jesus híbrido”, alguém que pode ser mais adequado ao mundo
em mudança de hoje, mas que está longe do verdadeiro Jesus co-
nhecido nas Escrituras. Essas imagens de Jesus podem ter alguns
pontos fortes, mas as tentativas de torná-lo mais relevante do
que ele já é provam que o experimento falhou. O retrato de Jesus
pintado pelas Escrituras não tem como ser melhorado.
Deus não precisa de ajuda com a sua teologia, e ele não ga-
gueja quando fala. Assim como Moisés fez, nós também pode-
mos reclamar das suas proclamações, mas não podemos discutir
a veracidade delas.
A APOSTASIA VINDOURA

Alterar ou argumentar o conceito bíblico de Cristo, mesmo


que seja da forma mais minuciosa, desfigura a nossa visão dele,
rapidamente tomando a nossa imagem de Cristo, incompleta e
fabricada, em um ídolo.

Ajustando o Foco

Ao nos separarmos do Jesus das Escrituras, nós não apenas ter-


minamos com o Jesus errado, mas também provocamos um cur-
to-circuito no próprio poder do evangelho. Assim como com o
Pai e com o Espírito, remova quaisquer atributos de Jesus, e ele
subitamente se torna completamente outro Jesus. Assim sendo,
nós não precisamos de uma “nova visão” de Cristo; nós precisa-
mos de uma visão muito mais bíblica.
Ao dirigir-se às sete igrejas em Apocalipse, Jesus revê e corri-
ge uma imagem distorcida dele, apresentando a si mesmo com
indiscutível clareza e autoridade. Ali ele se descreve como res-
gatador, amoroso, glorificado, abrangente, soberano, vitorioso
sobre a morte, guerreiro, juiz, Senhor e Rei que virá pela segunda
vez!239 É assim que você o vê? Ou ele continua caminhando por
aí de sandálias, distribuindo peixes e curando pessoas enfermas?
A visão do Cristo ressurreto e glorificado em Apocalipse é ao
mesmo tempo formidável e traumática, inacreditável e inesque-
cível. Somente depois de transmitir essa visão é que Jesus começa
a sua repreensão extremamente “amorosa, mas firme”, às igrejas.
Portanto, nunca poderemos nos tornar os cristãos que devería-
mos ser ou compreender adequadamente a nossa missão à parte
de um conceito claro e um entendimento de quem Jesus Cristo é.
O que Jesus diria àquelas igrejas atuais que não são conhe-
cidas por proclamar este Jesus do Apocalipse, mas sim por suas
mensagens felizes, grandes multidões e espetáculos bem elabora-

2 3 9 Ver Apocalipse 1. 4 1 8 ‫ ־‬.


O VERDADEIRO JESUS VAI SE MANIFESTAR?

dos? O que ele diría às congregações que falam muito sobre re-
lacionamentos, mas pouco sobre arrependimento? Há celebração
sem sacrifício. Um alto valor é colocado na amizade, mas não é
dada muita ênfase no senhorio. E aqui que a ameaça da apostasia
é mais sutil. Como uma fenda muito fina num alicerce, esse é só
o começo de um eventual desmoronamento catastrófico. A não
ser que uma descrição con textual izad a e completa de Jesus seja
ensinada, cantada, acreditada e celebrada, nós acabamos erran-
do o alvo e obtendo pouco da espiritualidade. Deus quer que
conheçamos e compreendamos todo o seu Filho, não apenas as
partes que preferimos. Precisamos vê-lo na sua totalidade, não
apenas escolhendo certos aspectos convenientes da sua vida, do
seu caráter e do seu ministério.
A boa notícia é que não cabe a nós definir quem é o Filho de
Deus. Deus já fez esse árduo trabalho por nós, providenciando
tudo que precisamos através da revelação das Escrituras. E isso é
para o nosso próprio benefício, já que o nosso discernimento não
é nada confiável. Devido aos efeitos do pecado em nossas mentes
e na nossa habilidade de compreender a verdade espiritual, Deus
fez por nós o que nunca poderiamos fazer por nós mesmos - ele
nos ajudou a descobrir como ele realmente é. Durante o minis-
tério de Jesus na terra, ele se recusou a confiar nos corações das
pessoas, mesmo depois de alguns terem ‘crido no seu nome‫״‬.
João registra que Jesus “não se confiava a eles, pois conhecia a
todos. Não precisava que ninguém lhe desse testemunho a respeito
do homem, pois ele bem sabia o que havia no homem”.240
Jesus conhece as verdadeiras motivações dos corações das pes-
soas. E ele entende que se formos entregues às nossas imagina-
ções defeituosas, nós geralmente erraremos na nossa tentativa

240 João 2.23-25. A crença deles em Jesus podería ser meramence intelectual e náo uma
confiança volitiva nele. Como resultado, apesar de que “creram” nele, Jesus náo
“creu” (mesma palavra grega) neles.
A APOSTASIA VINDOURA

de descrever, entender e explicar Deus. Ele sabe que temos uma


deformada inaptidão no que se trata de encontrá-lo e entende-
-10 por nós mesmos. Nossa mente natural está obscurecida no
que se refere a compreender a sua verdade.241 Mesmo depois que
passamos a crer, ainda somos desesperadamente dependentes do
ministério iluminador do Espírito Santo, pois somos propensos
a interpretar erroneamente e a sutilmente torcer a Palavra de Deus.
E foi exatamente por isso que ele nos deu a Bíblia. À medida que
nos envolvemos com ela, o Autor revela a sua verdade; nossas men-
tes estão abertas para entendê-la. O Espírito Santo4acende as luzes”,
nos permitindo ver claramente e a entender completamente.242
Sem a revelação divina de Deus, podemos acabar acreditando
nele por todas as razoes erradas; ou, igualmente desastroso, o
“Jesus” que escolhemos adotar pode se originar de uma percep-
ção defeituosa e gerada de quem ele realmente é. Um resultado
involuntário disso é que nossas expectativas acerca dele podem
se tornar irrealistas ou não bíblicas devido ao nosso próprio
entendimento ou conclusão sem base bíblica. Em vez de res-
ponder e adorar o Cristo das Escrituras, projetamos uma réplica
insuficiente dele para a nossa experiência de fé. Nós vemos isso
acontecendo nestes últimos dias não só pela aparição de falsos
Cristos, mas também pelas representações deformadas dele.243
Como crentes, precisamos nos resguardar para não adotar um
vSalvador que simplesmente se adapta ao nosso paladar espiritual
ou se encaixa em nossas construções teológicas, sociais, morais e
políticas. Embora faça parte da natureza humana, isso se torna
intrínsecamente defeituoso e disfuncional.
E também é pecaminoso.

241 Ver Isaías 5 5 .8 9 ‫ ;־‬Romanos 3.10-12; Efésios 2.1-3. Ver também Romanos 1.21;
!Corintios 2.14.
242 Ver João 14.16-17,26; 16.1314‫־‬. Ver também Efésios 1.17-18; 1Corintios 2.10-16.
243 Nicola Menzie, “5 False ‘Messiahs’ and Why Their Claims to Be Christ Contradict
the Bible”, The Christian Post, 6 jun. 2013. Disponível em: <goo.gl/sG49ir>.
O VERDADEIRO JESUS VAI SE MANIFESTAR?

Assim, um dos perigos da apostasia que enfrentamos agora


mesmo é a percepção de um “Jesús” que é tanto incorreta quanto
incompleta. Porque muitos hoje o moldaram no que queriam
ou precisavam que fosse, ele se tornou um “Cristo conjurado”:
vagamente bíblico, mas com todos os detalhes práticos preen-
chidos pela imaginação humana. Ele é um deus de nossa pró-
pria criação, uma criação nascida da fantasia e não da realidade.
Tragicamente, errar no entendimento de quem Jesus é e o que
ele veio realizar leva a uma conclusão falsa sobre a natureza do
próprio evangelho. O teólogo emergente Brian McLaren é um
destes que pinta um retrato impreciso de Cristo. Em seu livro,
A New Kind o f Christianity [Um Novo Tipo de Cristianismo],
ele escreve:

E m vez d isso , [Jesus] v eio p a ra a n u n c ia r u m n o v o re in o , u m


n o v o m o d o d e v id a , u m n o v o m o d o d e p a z q u e tr a n s m ite
b o a s n o v as a to d a s as pesso as d e codas as relig iõ es. U m n o v o
na verdade
re in o é m u ito m a io r d o q u e u m a n o v a re lig iã o , e
tem espaço para muitas tradições religiosas dentro dele. E ssa b o a
n o v a n ã o foi s im p le s m e n te so b re u m n o v o m o d o d e resol-
v er os p ro b le m a s relig io so s d a q u e d a o n to ló g ic a e d o p e c a d o
o rig in a l (p ro b le m a s, le m b re m a is u m a vez, q u e se le v a n ta m
sé cu lo s m a is ta rd e e d e n tr o d e u m a n a rra tiv a to ta lm e n te d ife -
re n te ). N ã o e ra s im p le s m e n te u m a in fo rm a ç ã o so b re c o m o as
alm a s in d iv id u a is p o d e ría m d e ix a r a te rra , liv ra r-se d o in fe rn o
e s u b ir ao c é u d e p o is d a m o r te . N ã o , foi s o b re a v o n ta d e d e
D e u s s e n d o feita n a te rra a ssim c o m o n o cé u , p a ra to d a s as
p essoas. F o i so b re a fiel s o lid a rie d a d e d e D e u s c o m to d a a
h u m a n id a d e n o n o sso s o frim e n to , o p re ssã o e m a l.244

244 Brian D. McLaren, A New K ind o f Christianity: Ten Questions That Are Transforming
the Faith (Sáo Fransicso: HarpcrOne, 2011), p. 139 (ênfase acrescentada).

m
Λ APOSTASIA VINDOURA

Essa redefinição do cristianismo não é um novo entendimen-


to, mas simplesmente um antibíblico. O entendimento errado
que McLaren tem de Jesus e de sua expiação substitutiva deixa
claro que, nestes últimos dias, precisamos de um retorno apaixo-
nado a Deus e à sua Palavra, a fim de formar e transformar nosso
entendimento acerca do seu Filho.

Então... Responda à Pergunta

Uma das agradáveis ironias da verdade é que o Cristo soberano e


exaltado não tem problema em se relacionar com mortais como
nós. Pelo contrário, ele se identifica com toda a humanidade,
incluindo pessoas de todas as raças, tribos, línguas e nações. Ele
entende nossas lutas porque ele, na verdade, “tornou-se carne e
viveu entre nós”.24‫כ‬
Hebreus nos lembra:

P o rta n to , v isto q u e os filh o s são pessoas d e c a rn e e sa n g u e ,


ele ta m b é m p a r tic ip o u d essa c o n d iç ã o h u m a n a ... era n ec es-
sá rio q u e ele se to rn a ss e s e m e lh a n te a se u s irm ã o s e m to d o s
os a sp e c to s, p a ra se to r n a r s u m o sa c e rd o te m is e ric o rd io s o e
fiel c o m rela çã o a D e u s e fazer p ro p ic ia ç ã o p e lo s p e c a d o s d o
p o v o . P o rq u e , te n d o e m v ista o q u e ele m e s m o so fre u q u a n d o
te n ta d o , ele é c a p a z d e s o c o rre r a q u e le s q u e ta m b é m estão
s e n d o te n ta d o s .245246

E, novamente: “Pois não temos um sumo sacerdote que não


possa compadecer‫־‬se das nossas fraquezas, mas sim alguém que,
como nós, passou por todo tipo de tentação, porém, sem pecado”.247

245 João 1.14. Ver também Romanos 8.3; Filipcnscs 2.7.


246 Hebreus 2.14,17-18.
247 Hebreus 4.15.
O VERDADEIRO JESUS VAI SE MANIFESTAR?

Jesus entende como é caminhar na terra. Como nós, ele traba‫״‬


lhou, suou, teve fome e ficou cansado. Ele sentiu a ampia gama
de emoções que nos sentimos —alegria e paz, junto com tristeza,
frustração e a noite escura da alma. Ele experimentou a dor de
ser abandonado por aqueles que ele mais amava e se identifica
com o nosso estresse mental e abuso físico. Ele sangrou e mor-
reu. Ele era cem por cento humano.
Na verdade, essa foi uma das razões porque ele desceu do céu
e tomou a forma humana: para que soubéssemos que ele real-
mente entende como é ser como nós. Isso é o que o qualifica a
ser um Salvador que se compadece.248
Mas ele também veio para nos revelar o Pai, para efetuar re‫״‬
denção e para se tornar o substituto do nosso pecado. Fazendo
isso, ele agora nos representa diante do Pai.249250E apesar de a sua
identificação conosco não nos permitir transformá-lo perpetua-
mente em uma fantasia daquilo que desejaríamos que ele fosse,
ela nos comunica que ele entende.
O problema hoje em dia não é: “Jesus nos entende?”, mas sim:
“Nós entendemos eleY\
Esta é, justamente, a pergunta que o Senhor fez a seus dis-
cípulos no final do seu ministério na terra: “Quem os outros
dizem que o Filho do homem é?”. E depois que eles relataram o
que ouviram nas “redes sociais” daqueles dias, Jesus ficou mais
pessoal: “Quem vocês dizem que eu sou?”.
Pedro, o que mais se precipitava dos Doze, respondeu correta-
mente: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.20‫כ‬
Boa resposta, Pedro. Você estava prestando atenção.
Mas Jesus não fez essa pergunta para que ele pudesse saber
como se relacionar de forma mais eficaz com eles ou, de alguma

248 Ver Romanos 8.3; Hcbrcus 2.17; 4.14-16.


249 Ver João 1.14,18; 2Coríntios 5.21 ;Tito 2.14; Hebreus 7 . 2 5 9 . 1 5 ;27‫־‬.
250 Mateus 16.1316‫( ־‬ênfase acrescentada).
A APOSTASIA VINDOURA

forma, amoldar-se à imagem que os discípulos preferiam dele.


(Estes discípulos judeus esperavam que Cristo os libertasse da
opressão do Império Romano e estabelecesse o seu reino terreno
durante o período de vida deles.) Em vez disso, ele os questionou
para que pudessem revelar se haviam ou não desenvolvido um
conceito correto e autêntico dele em suas mentes, para mostrar
se eles haviam recebido e processado a verdade que ele lhes havia
ensinado. Na formação da percepção e do entendimento deles
de Jesus Cristo, era imperativo que eles enxergassem o quadro
completo e não apenas as partes que se acomodavam às suas
idéias preconcebidas. Qual foi a conclusão deles?
Ele era cem por cento Deus.
E ele ainda é. Havia e sempre haverá somente um Jesus. Ele
não se adapta, não evolui e não muda, mas é o mesmo “ontem,
hoje e para sempre”.251 Sua Palavra - e não nossas necessidades
emocionais, tendências culturais, modismos de crescimento da
igreja, filosofias missionárias ou preferências teológicas - é a nos-
sa fonte de autoridade no que diz respeito a Jesus Cristo.
Jesus é quem as Escrituras dizem que ele é. Ponto. Aumentar
essa declaração bíblica definitiva é criar um deus “Frankenstein”,
reunido com partes que desenterramos e costurado ao longo de
nossa jornada espiritual. Portanto, não ousemos modificar o Je-
sus que transformou água em vinho numa versão aguada dele
mesmo. E por isso que avaliamos cada pensamento, crença e
ensinamento, peneirando-os pelo filtro das Escrituras, para ver
se estão de acordo com a verdade. Caso não estiverem, nós os
rejeitamos, por mais atraentes que possam parecer.

251 Hcbrcus 13.8.


O VERDADEIRO JESUS VAI SE MANIFESTAR?

Experimentando Deus

Felizmente, o Senhor não ignora nossas mentes a fim de alcançar


nossos corações. Até mesmo na decisão mais básica e infantil de
confiar em Cristo é preciso haver primeiro algum conhecimento
de quem Cristo é e do que ele fez. Portanto, experimentar Je-
sus não acontece a menos que primeiro saibamos algo a respeito
dele. Deus nos projetou e criou, elaborando intrincadamente a
humanidade em corpo, mente e espírito.252 E ele nos criou para
respondermos a ele baseados na sua revelação. Nossa experiência
dele se desenvolve ao recebermos e crermos que aquilo que ele
diz sobre si mesmo é verdadeiro. Qualquer outra reivindicação
experiencial é antibíblica e herética.
Essa foi uma das razões pela qual Jesus, na sua última noite
antes de ser crucificado, encheu sua oração sacerdotal de uma
linguagem carregada de conteúdo e de importância na mudança
de vida. Considere o que ele orou por seus discípulos (e por
você) em João 17:
• “... que te conheçam' (verso 3);
• “Eu revelei teu nome àqueles que do mundo me deste”
(verso 6);
• “... eles têm obedecido à tua palavra” (verso 6);
• “Pois eu lhes transmiti as palavras que me deste” (verso 8);
• “... eles as aceitaram [as palavras]. Eles reconheceram de
fato que vim de ti e creram que mc enviaste” (verso 8);
• “... digo estas coisas enquanto ainda estou no mundo, para
que eles tenham a plenitude da minha alegria” (verso 13);
• “Dei-lhes a tua palavra (verso 14);
• “Santifica‫־‬os na verdade; a tua palavra é a verdade9(verso 17);
• “Eu os fiz conhecer 0 teu nome... a fim de que o amor que
tens por mim esteja neles” (verso 26).

252 Ver Salmo 139.13-16.


A APOSTASIA VINDOURA

Assim, até mesmo a alegria e o amor pelos quais nós todos


ansiamos começam com a compreensão e aceitação da revelação
de Deus sobre Jesus! Fora das Escrituras não podemos conhecer
virtualmente coisa alguma sobre Jesus Cristo.253
Então, o que você crê sobre Jesus Cristo? Como ele é? O que
ele fez? Que verdades teológicas ele ensinou? Além disso, o que
ele fez por seu pecado? Como você pode saber como andar com
ele diariamente? O que você precisa saber sobre Deus, a vida
cristã, Satanás, o mundo, sua natureza pecaminosa e como fun-
dona a santificação? O que você faz quando peca e por que você
não perde a salvação? Todos estes - e inúmeros outros tópicos —
fazem parte da doutrina e teologia. E todos eles são encontrados
nas páginas da sua Bíblia.
Você pode descansar na confiança de que o seu Deus é tão
santo quanto amoroso, tão irado quanto gracioso. O Jesus hu-
milde dos evangelhos é o mesmo do Apocalipse, um Cristo
exaltado, triunfante e que está voltando. O mesmo Jesus que
proclamou: “Bem-aventurados os pobres em espírito”, em Ma-
teus 5.3, também profetizou em Mateus 7.23 a respeito do dia
no qual ele diria: “Nunca os conhecí. Afastem-se de mim vocês
que praticam o mal!”. O mesmo Jesus que chamou: “Venham a
mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu darei
descanso a vocês”, também previu que alguns seriam lançados
“nas trevas, onde haverá choro e ranger de dentes”.254 O mesmo
Cristo que conforta as angustiadas Marta e Maria em João 11
também ofendeu milhares de seguidores em João 6. Não pode-
mos ter um Jesus sem o outro.
Ele é tudo isso e muito mais. Ele é um e o mesmo - um Cristo
completo.

253 Através tia “revelação geral” (Criação e consciência) podemos entender Deus como
um ser divino que é eterno, poderoso, moral e criativo. Mas os detalhes relativos ao
Cristo encarnado nós só podemos saber com autoridade através das Escrituras.
254 Mateus 11.28; 8.12.
O VERDADEIRO JESUS VAI SE MANIFESTAR?

Saiba que, nestes últimos dias, haverá um ataque constante


a esse Jesus bíblico. Como já estamos vendo, ele será retratado
como um Salvador que pisca para a iniquidade; que simples-
mente faz as pessoas se sentirem bem consigo mesmas; que pro-
mete saúde, felicidade e prosperidade; e que promove tolerância
e unidade acima de discernimento e doutrina. Este Salvador im-
provisado pega pesado no sentimentalismo e leve na soberania.
O Jesus dos dias atuais recebe qualquer um no céu, independen-
te da sua religião. Alguns fizeram alegações fantásticas de terem
visitado o céu e descrevem um Jesus Cristo diferente das Escri-
turas. E apesar de milhões engolirem essas fábulas açucaradas e
mentiras sentimentalistas, não seja você um deles.255
O senhor do engano é um mestre em distorcer a verdade so-
bre aquele que um dia o lançará no lago de fogo.256
Muitas coisas erradas serão ditas, pregadas, digitadas, escritas
e cantadas sobre Jesus nos dias que virão. Mas nós devemos nos
agarrar com firmeza à verdade de Deus para não sermos influen-
ciados por falsos mestres e por imagens falsificadas de Cristo.
Com as Escrituras como âncora e leme, nós não seremos “leva-
dos de um lado para outro pelas ondas, nem jogados para cá e
para lá por todo vento de doutrina e pela astúcia e esperteza de
homens que induzem ao erro”.257
Case sua mente e coração com Deus e sua Palavra, e veja o
verdadeiro Jesus elevar-se e destacar-se em sua vida.

255 Para saber mais sobre esse assunto, ver Mark Hitchcock, Visits to Heaven and Back:
Are They Real? (Carol Stream, IL: Tyndale, 2015).
256 Ver Apocalipse 12.9; 20.10.
257 Efésios 4.14.
C apítulo 9

ATOS DOS APÓSTATAS


Cuidem de vocês mesmos e de todo 0 rebanho...
Atos 20.28

Se r p e n t e a n d o pe la rural galesa existem infi-


b e la p a is a g e m

nitas artérias de ruas estreitas e cobertas de sebes. Essas estra-


dinhas são tão apertadas que é um mistério como dois carros
podem passar um pelo outro sem haver uma batida. Enquanto
eu (Jeff) estava pregando na Inglaterra alguns anos atrás, o pas-
tor que me hospedava levou minha esposa e eu para um dia de
passeio nas montanhas negras de Gales. Abrindo caminho pelas
estradas secundárias daquela terra antiga, subimos uma colina e
encontramos um pastor guiando suas ovelhas em nossa direção.
O carro parou e nós abrimos as janelas para ver melhor: o velho
fazendeiro, equipado com um cajado de madeira, galochas, uma
jaqueta de tweede um chapéu combinando, guiava devotamente
o seu rebanho através da estrada rural.
Acompanhado de seu leal cachorro, o homem deu uma olha-
da em nossa direção, subitamente assobiou, e o rebanho inteiro
se apressou para atravessar a estrada. Ele assobiou novamente,
desta vez um pouco diferente, e o rebanho inteiro virou-se para
um portão e entrou numa pastagem cercada, com o auxílio do
cachorro. Eu lembro de ter ficado admirado por tudo aquilo pa-
recer tão fácil e sem esforço. Apenas um assobio, ao menor som
A APOSTASIA VINDOURA

da boca do homem, e dúzias de ovelhas, cordeiros e carneiros


obedientemente dirigiram-se a campos mais verdes.
Uma das maneiras mais pitorescas que Jesus se descreve é
como um pastor. Mais uma vez ele demonstra seu esplendor na
comunicação eficaz. A geração de Jesus entendia bem o mundo
de pastores e ovelhas, uma vez que eles eram abundantes na cul-
tura daqueles dias. E então, aproveitando aquele meio de vida
bem conhecido, o Senhor lindamente ilustra o papel pastoral
que ele desempenha em nossa vida. Depois de se descrever como
a ‘porta das ovelhas” (isto é, o único caminho que leva a Deus),
ele continua: “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida
pelas ovelhas”.258 E, mais tarde: “Eu sou o bom pastor; conheço
as minhas ovelhas, e elas me conhecem. As minhas ovelhas ou-
vem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem”.259 Mas, em
vez de assobiar para suas ovelhas, nosso Senhor pessoalmente
“chama as suas ovelhas pelo nome e as leva para fora”.260
Que Salvador!
Essa conexão íntima que Jesus tem conosco tem diversas fa-
cetas, e todas elas são para nosso benefício. Como pastor, ele
é Protetor ao ponto de dar a sua vida por nós, o que ele fez
voluntariamente na cruz.261 Mas ele é também nosso Provedor,
guiando-nos a águas tranquilas, pastos verdejantes, dando-nos
uma vida que, conforme João 10.10, é verdadeiramente abun-
dante e satisfatória. Em parte, é por isso que ele é o Bom Pastor.
Ele deseja somente o que é melhor para nós porque nos conhece
e nos ama. Jesus Cristo é o “grande Pastor das ovelhas”.262
No entanto, de acordo com as Escrituras, nós, ovelhas, tam-
bém temos outros pastores ‫“ ־־‬sub-pastores”, por assim dizer -

258 Joáo 10.7,11.


259 João 10.14,27.
260 João 10.3 (ênfase acrescentada).
261 Ver João 10.11.
262 Hebreus 13.20. Ver também 1Pedro 2.25.
ATOS DOS APÓSTATAS

aqueles a quem Deus confiou o cuidado do seu povo. Um pastor


(ou presbítero) é alguém a quem é dada urna certa responsabili-
dade de supervisionar a igreja. Implícito nesta funçáo e respon-
sabilidade está um dever de pregar e ensinar a Palavra de Deus.
Na verdade, esse é o meio principal pelo qual o pastor cuida do
seu rebanho, a igreja, a qual Paulo descreve como a “coluna e
fundamento da verdade”.263 Em um mundo caído, é a igreja que
essencialmente sustenta, apoia e defende a revelação de Deus à
humanidade, e a sua presença piedosa e influência, por meio do
Espírito Santo que nela habita, estão atualmente prevenindo que
um tsunami de pecado, depravação e caos atinja as margens da
terra.264A responsabilidade de um pastor é grande, e aqueles que
são chamados a pastorear precisam entender que a incumbência
de liderar o povo de Deus é, ao mesmo tempo, honrosa e muito
séria.
Paulo lembrou o jovem pastor Timóteo da gravidade e da ne-
cessidade deste dever, instando o jovem ministro a:
• Ser constantemente “alimentado com as palavras da fé e
da boa doutrina”;26526
• Garantir que as Escrituras fossem lidas publicamen-
te para a igreja, havendo juntamente “exortação” e
« · » ‫·( ר‬,(·.
ensino ;
• Ser “diligente nessas coisas”, dedicando-se “inteiramente
a elas”;267
• Atentar bem “para a sua própria vida e para a doutrina”.268

263 1Timóteo 3.15. Ver lTimóteo 5.17.


264 Ver 2Tessalon ¡censes 2 .6 7 ‫־‬.
265 lTimóteo 4.6 (ARA).
266 lTimóteo 4.13.
267 lTimóteo 4.15.
268 lTimóteo 4.16.
Λ APOSTASIA VINDOURA

Em sua última carta a Timóteo, Paulo fortalece ainda mais


essa exortação, escrevendo:

N a p re se n ç a d e D e u s e d e C r is to Je su s, q u e h á d e ju lg a r os
vivos e o s m o r to s p o r su a m a n ife sta ç ã o e p o r se u R e in o , e u
o e x o r to s o le n e m e n te : P re g u e a p a la v ra , e ste ja p re p a ra d o a
te m p o e fo ra d e te m p o , re p re e n d a , c o rrija , e x o rte c o m to d a a
p a c iê n c ia e d o u tr in a . P ois v irá o te m p o e m q u e n ã o s u p o rta -
rã o a sã d o u tr in a ; a o c o n trá rio , s e n tin d o c o c e ira n o s o u v id o s,
ju n ta r ã o m e stre s p a r a si m e sm o s, s e g u n d o os se u s p ró p rio s
d esejo s. E les se re c u sa rã o a d a r o u v id o s à v e rd a d e , v o lta n d o -s e
p a ra os m ito s . V ocê, p o ré m , seja m o d e ra d o e m tu d o , s u p o r te
os s o frim e n to s , faç a a o b r a d e u m e v a n g e lista , c u m p r a p le n a -
m e n te o se u m in is té rio .269

As palavras de Paulo deixam claro que você precisa ser louco


ou chamado por Deus para ser um pastor! Sem dúvida o apósto-
10 acreditava que o estudo, o entendimento e a comunicação da
verdade de Deus deveríam ser altas prioridades na igreja. E ainda
mais quando consideramos o contexto das suas palavras ante-
riores: “O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns
abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de
demônios”.270 Aqui, 'últimos tempos” se refere ao período entre a
primeira vinda de Cristo e quando ele retornar para a sua noiva.271
Esse é o período de tempo no qual nos encontramos atualmente.
Além disso, assim como os outros sinais do fim dos tempos,
este abandono da fé irá aumentar drasticamente quanto mais nos
aproximarmos dos dias do Apocalipse.272 A palavra grega tradu-

269 2Timóteo 4.1-5.


270 1Timóteo 4.1 (ênfase acrescentada).
271 Ver Hebreus 1 . 1 1 ;9.26 ;2‫ ־‬Pedro 1.20; lJoão2.18.
272 Ver Mateus 24.37; 2Te$salonicenses 2 .3 1 2 ‫ ;־‬Hebreus 3.12; 5.11-6.8; 10.25; 2Pedro
3.3; Judas 1.18.

area
ATOS DOS APÓSTATAS

zida por “abandonarão” é relacionada à nossa palavra apostasia.


E como Paulo diz que essas pessoas deixarão a fé? Por seguirem
“espíritos enganadores e doutrinas de demônios”. Satisfazer o
ego e seduzir a humanidade para longe de Deus e da sua verdade
têm sido, há muito tempo, duas das estratégias favoritas de Sata‫־‬
nas. Ele é conhecido nas Escrituras como aquele que “engana o
mundo todo” no fim dos tempos.273 Ele é o “pai da mentira”, o
“deus desta era” e o “príncipe dos demônios”, os quais também
governam sobre as trevas.274
A capacidade enganadora de Satanás ainda é vista na sua ca‫־‬
pacidade de se transformar em um “anjo de luz”, o que significa
que ele regularmente se disfarça como um mensageiro da ver-
dade. Sendo assim, não surpreende que os seus servos tomem
a forma de “servos da justiça”. Paulo diz que esses mensageiros
são, na realidade, “falsos apóstolos” e “obreiros enganosos”.275
Os homens dos quais Paulo está falando aqui desejavam a auto‫־‬
ridade, o respeito e a influência que vinham com o apostolado
de Cristo, e eles usaram credenciais artificiais, criadas por eles
mesmos, para prejudicar o ministério e a missão de Paulo. E,
embora não haja apóstolos vivos hoje, esse fato de modo algum
impediu Satanás de seus esforços para desviar o povo de Deus
através de enganos e doutrinas sutis e demoníacos - até mesmo
por meio de alguns que afirmam ser “apóstolos”.

Os Novos Apóstatas

Mas os hereges não saem por aí voando com suas vassouras pe-
las igrejas, loucamente zombando das Escrituras e aterrorizando
o rebanho. Eles não aparecem com chifres e sorrisos sinistros.

273 Apocalipse 12.9.


274 Joáo 8.44; 2Coríntios 4.4; Lucas 11.15. Ver Fiesios 6.12.
275 2Coríntios 11.1315‫־‬.
Λ APOSTASIA VINDOURA

Ao contrário, eles se infiltram no rebanho usando palavras per-


suasivas, princípios de autoajuda e personalidades carismáticas.
Eles entram através de sites e blogs bem elaborados, oferecendo
promessas de utopia pessoal aos seus seguidores. Eles são bem-
-vestidos, atraentes, sorridentes, agradáveis, inspiradores, con-
vincentes e, acima de tudo, vendáveis. A missão deles é fazer você
feliz; é fazer você se sentir bem consigo mesmo. Eles querem
ajudar você a fazer o mundo um lugar de “Justiça. Paz. Amor.
Igualdade276.‫ ״‬Obviamente, cada uma destas virtudes é redefini-
da para se acomodar e conformar ao sistema de valores munda-
no em constante evolução.277 A descrição deles sobre o amor de
Jesus é como um cobertor mágico que, de alguma forma, abafa
outros atributos mais perturbadores de Deus ou verdades des-
confortáveis encontradas na Bíblia.
Embora esses professores muitas vezes fazem referências a
Cristo e a Escrituras específicas, o que eles estão vendendo é
uma nova imagem do cristianismo, uma não vinculada às eren-
ças e práticas arcaicas e restritivas da fé de seus avós. (Estamos
mais iluminados agora.) O mundo mudou. Rachel Held Evans,
por exemplo, não se envergonha de duvidar da “exclusiva autori-
dade, inerrância, clareza e consistência interna da Bíblia278.‫ ״‬Até
mesmo o governo despertou para a condição dos moralmente
e sexualmente oprimidos, aprovando leis e declarando decretos
garantindo que qualquer um que se posicione contra o “progres-
so social” e a “igualdade” seja empurrado para fora do mercado,
chutado para a margem da cultura e silenciado.

276 Glennon Doyle Melton, “Axe You Waiting for Heaven or Working for It?”.
277 liste é precisamente o tipo de mundanismo do qual Paulo alerta os crcntes em Ro-
manos 12.12‫־‬. É uma pressão externa que nos força a pensar c agir de urna certa
forma. Envolve tanto valores quanto o comportamento. E, num contexto religioso,
frequentemente significa “repensar” as tradicionais crenças históricas do cristianismo.
278 Rachel Held Evans, “Loving the Bible for what it is, not what I want it to be”, Rachel
Held Evans (blog), 2 jan. 2012. Disponível em: <goo.gl/¿RDP7X>.
ATOS DOS APÓS TATAS

Naturalmente, como discípulos de Jesus estamos convencidos


de que somente as Escrituras, não professores atraentes em qual-
quer forma que se apresentem, são a palavra final sobre a verdade
e a história - e para onde esta está se encaminhando. Assim sen-
do, os seguidores de Cristo são os que irão acabar do lado certo
da história, logo ao seu lado quando ele retomar em glória.279
Enquanto isso, as águas da apostasia continuam subindo, e o que
está em jogo é a própria natureza e definição do cristianismo.
Mas não é apenas a instituição do cristianismo que está em risco
aqui. E a alma da nossa fé.
O que distingue a fé cristã de qualquer outra religião, sistema
de crenças e filosofia pessoal é a pessoa de Jesus Cristo. Afaste-se
de quem ele é, mesmo da forma mais ínfima, e você terá acabado
de se desviar para a pista da apostasia. Cristo definitivamente
provou sua divindade quando, sozinho, efetuou a salvação e res-
suscitou dos mortos. Portanto, cada palavra que ele pronunciou,
seja registrada no Antigo Testamento, falada por ele enquanto
estava na terra ou inspirada pelo seu Espírito no Novo Testa-
mento, se torna inegável e imutável. E toda palavra profética de
sua vontade será cumprida, até a última e menor letra. Como o
próprio Jesus afirmou: “Não pensem que vim abolir a Lei ou os
Profetas; não vim abolir, mas cumprir. Digo a verdade: Enquan-
to existirem céus e terra, de forma alguma desaparecerá da Lei a
menor letra ou 0 menor traço, até que tudo se cumpra”.280 Que
tremenda declaração, enriquecida com dramáticas impli-
cações proféticas.
Ainda assim, os apóstatas de hoje, e aqueles que flertam com
a heresia, continuam com seu falar suave e linguagem ambígua.
Eles podem falar por horas e não dizer nada, mas deixar você
com a impressão de que eles sabem do que estão falando. De

279 Ver Apocalipse 19.1116‫ ־‬.


280 Mateus 5.17-18 (ênfase acrescentada).
Λ APOSTASIA VINDOURA

maneira sutil mas clara, cies subvertem, sabotam e negam as


doutrinas e crenças centrais da fé cristã, tais como:
• A divindade de Jesus Cristo;
• Sua expiação substitutiva na cruz;
• Jesus como o único caminho para a salvação e para o céu;
• Salvação pela graça através da fé;
• A inerrancia e infalibilidade da Escritura;
• A natureza triúna de Deus - Pai, Filho e Espírito Santo;
• A existência de um inferno literal e de tormento eterno
e consciente;
• A criação supernatural do universo, da terra e do ho-
mem como descrita em Gênesis 1-2;
• A natureza profética das Escrituras;
• O retorno de Jesus Cristo à terra.281

E eles fazem tudo isso em nome de Deus e, é claro, do ‘amor”.


Alguns dos que estão atualmente se afastando da fé são ali-
mentados por uma confiança em “impressões” e vozes internas
dando direção e declarando a verdade sobre Deus. Isso não é
o mesmo que o testemunho interno e a orientação do Espíri-
to Santo que todo crente desfruta. Pelo contrário, estas vozes e
impressões são definitivamente descritas como uma autoritária
“palavra vinda do Senhor”.
John MacArthur escreve:

O E s p írito d e D e u s m o v e n o sso s c o ra ç õ e s e n o s im p u ls io n a
a tarefas e c h a m a d o s específicos? C o m c e rte z a, m a s ele tra b a -

281 Existem outras aberrações doutrinárias perigosas que indiretamente questionam a


identidade de Cristo ou os fundamentos do cristianismo, promovendo um desvio e
afastamento da crença cristã ortodoxa. Essas aberrações de “segundo nível” incluem
crenças e práticas como o evangelho da prosperidade, o evangelho social, a “segunda
bênção”, o movimento da palavra da fé (ou movimento da fé), o “nomeie c reivindi-
que”, os curandeiros da fé, o movimento da unçâo do riso e a veneração de Maria e
dos “santos”.
ATOS DOS APÓSTATAS

lha através da Palavra de Deus ao fazer isso. Tais experiências


náo são, de modo algum, proféticas ou autoritárias. Elas não
são revelação, mas o efeito da iluminação\ quando o Espírito
Santo aplica a Palavra aos nossos corações e abre nossos olhos
espirituais à sua verdade. Precisamos cuidar para não permi-
tirmos que a nossa experiência e nossos próprios pensamentos
e imaginações subjetivos eclipsem a autoridade e a certeza da
Palavra mais segura.282

Então, sim, Deus nos guia internamente. No entanto, nós


cremos que a revelação direta, divina e autoritária terminou com
a conclusão do canon das Escrituras. O livro de Apocalipse foi
a revelação final de Deus.283 Portanto, reivindicações de uma
“nova verdade” ou revelações de Deus devem vir de outra fonte,
seja ela falivelmente humana ou enganosamente demoníaca.284
Mais uma vez, nossos pensamentos devem estar fundamentados
nas Escrituras e dependentes do ministério iluminador e do tes-
temunho do Espírito Santo.285
Infelizmente, em nossa cultura de ‘alimentação direta”, a
verdade de ontem é vista como desatualizada. Nós acordamos
todas as manhãs para um novo feed do Twitter. Notícias online
e redes sociais providenciam constantemente novos conteúdos,
atualizando-se num infindável suprimento de fotos e postagens.
Então, por que Deus não deveria nos prover revelações novas a
cada minuto? Afinal, nossa geração exige isso, certo?
Por causa da influência da nossa cultura conformadora e per-
suasiva em nosso pensamento, a Escritura não é mais “suficien-

282 John MacArchur, “False Prophets and Lying Wonders‫״‬, Grace to You. Disponível
em: <goo.gl/4epJAH>.
283 Ver Hebreus 1 .1 2 ‫ ;־‬Judas 1.3; Apocalipse 22.18-19.
284 Náo há escassez desse tipo de reivindicações nos dias atuais - de supostas visitas ao céu a
revelações sensacionalistas sobre a profecia e o fim dos tempos. Algumas dessas “palavras
de Deus‫ ״‬sáo relativamente triviais por natureza, enquanto outras beiram ao bizarro.
285 Ver João 1 4 . 1 6 1 4 ‫ ־‬17,26; 15.26; 16.13‫ ; ־‬Romanos 8.9,16.
A APOSTASIA VINDOURA

te”. É por isso que, para muitos cristãos professos, abrir a Bíblia
é como visualizar fotos antigas do Instagram. Podem até suscitar
uma emoção calorosa e sentimental, mas ainda assim serão (sub‫״‬
conscientemente) vistas como “notícias velhas”. Todavia, o que
essas pessoas deixam de perceber é que a Palavra de Deus é “viva
e eficaz, e mais afiada que qualquer espada de dois gumes; ela
penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas,
e julga os pensamentos e as intenções do coração”.286
O conceito de verdade viva e perpétua da Palavra de Deus se
perdeu numa era de interações novas e fluídas em redes sociais.
Olhamos nossos telefones e praticamente tudo mudou nos últi-
mos dois minutos. Mas abrimos nossa Bíblia e lemos o mesmo
que dois dias, dois meses, dois anos ou dois séculos atrás! Tudo se
resume a como entendemos a natureza da Palavra de Deus e seu
poder transformador. Quase todo cristão professo tem uma Bí-
blia, mas quantos foram adequadamente equipados e inspirados
a mergulhar nela? Ou talvez tenhamos nos tornado produtos de
uma geração que está muito ocupada, muito preguiçosa ou muito
distraída para gastar o tempo e a energia necessários para estudá-la.
Na realidade, a Bíblia é mais atual e relevante do que o seu
feed do Twitter - muitas vezes mais - , já que a Palavra de Deus
não apenas avalia o que está acontecendo atualmente no mundo,
mas também nos diz o que vai acontecer antes que aconteça! Isso
é relevante num nível totalmente novo.
Precisamos cuidar para não nos afastarmos da “Sola Scriptura‫י‬
[Somente a Escritura] defendida pelos reformadores protestan-
tes. O lema dos cristãos de hoje mais se parece com “algumas
vezes Scriptura” (acompanhado por onde quer que as minhas
emoções, minha busca da felicidade e minha realização pessoal
me levarem). Sem um retorno intencional à supremacia da Pala-
vra de Deus em larga escala, a igreja sucumbirá à apostasia e sub-

2 8 6 H ebreus 4.1 2 .
ATOS DOS APÓSTA TAS

mergirá na letargia, apatia, impureza e sonolência espirituais.28‫׳‬


Estamos rapidamente nos tornando urna cultura da igreja de
atividades, apresentações, autoajuda e pequenos sermões. Nosso
caso de amor com o ego precisa terminar e um amor renovado
por Jesus deve ser colocado em seu lugar. Este é o reavivamento
pelo qual você pode orar!
Pelo fato de vivermos numa época de gratificação instantânea
da mídia e com interações superficiais, precisamos reciclar nossas
mentes a fim de nos engajar com as Escrituras e entender sua sur-
preendente relevância diária e sua nova aplicação em nossas vidas.

Um Tipo Diferente de Desvio

Para outros, esse afastamento da fé é mais difícil de ser detecta-


do. De fato, leia a declaração doutrinária de muitos pastores e
líderes de igrejas atuais e você vai achar difícil encontrar pontos
de discordância. Todos eles parecem bíblicos e legítimos.
Mas ortodoxia e integridade são muito mais do que declara‫־‬
ções doutrinárias.
Recentemente, eu (Jeff) estava numa fila aguardando para
embarcar no avião, a caminho de uma palestra que eu daria.
Logo à minha frente na fila estava um homem de meia-idade
acompanhado por alguém muito mais jovem, perto da idade
universitária. O cavalheiro mais velho estava vestido de preto
dos pés à cabeça —sapatos pretos de couro, calças pretas, suéter
preto de malha e cabelo preto bem penteado. O jovem que o
acompanhava carregava uma mochila que parecia cheia. O mais
velho apenas carregava um celular. Não pude evitar de ouvir a
conversa deles, que estava acalorada. Bem, na verdade, somen-
te um deles estava falando. O rapaz universitário estava quieto.
Logo ficou claro, devido à natureza da repreensão do homem

2 8 7 Ver Apocalipse 3.1 2 ‫־‬.


Λ APOSTASIA VINDOURA

mais velho, que o jovem era seu assistente pessoal e havia come-
tido um erro grave. Quanto mais apontava o dedo para o jovem,
mais vermelho ficava o rosto do chefe.
Lembro-me de pensar: a qualquer momento ele vai dar um soco
no rapaz.
Finalmente, nós embarcamos no avião, e a punição verbal
(bem pública) terminou. Chegando no meu assento, fiquei de-
sanimado ao descobrir que estaria sentado bem perto do homem
de preto. O rapaz universitário estava na fileira detrás e do outro
lado de onde eu estava.
Sem problema, pensei. Estarei dormindo em cinco minutos, de
qualquer maneira.
Foi então que ouvi a voz de uma mulher chamando o homem.
“Olá, Pastor! Eu não sabia que o senhor estava neste voo. Que
coincidência. Eu só queria dizer o quanto eu amei a sua mensa-
gem da semana passada...” Essas observações introdutórias foram
seguidas de uma longa lista de elogios, trivialidades e louvores.
O rosto do homem de preto se iluminou e sorriu, imediata-
mente entrando no “modo de ministro”. O tom da sua voz ficou
suave enquanto ele acenava com a cabeça, em reconhecimento à
adulação da mulher. Enquanto isso, o jovem universitário estava
ao telefone, presumivelmente falando com o escritório da igreja.
Ouvindo sua conversa, pude descobrir que o “pecado imperdo-
ável” que o jovem cometera foi esquecer de providenciar para
que o carro da igreja os buscasse no aeroporto. Ao completar o
telefonema, o jovem açoitado e derrotado afundou-se no assento
e olhou pela janela.
Esse pastor pode concordar com as mesmas crenças essenciais
e doutrinas que eu. E tenho quase certeza que ele afirmaria ser
um seguidor comprometido de Jesus. Infelizmente, porém, seu
personagem naquele dia não recebeu o lembrete.
Agora, eu não vou fingir que conheço o coração daquele ho-
mem. E é bem possível que ele estivesse simplesmente vivendo
ATOS DOS APÓSTATAS

um dia difícil, ou que haviam outras circunstâncias atenuantes.


Pode ser que eu estivesse presenciando a única vez no ano em
que ele perdeu a paciência em público. Distinguir essas coisas é
o trabalho de Deus.
Mas o que posso dizer com confiança é que existem pessoas,
de acordo com Jesus, que não se desviam do caminho apertado
apenas em “momentos instantâneos”. Em vez disso, elas abando-
naram totalmente o mapa, pois suas vidas inteiras negam o que
dizem acreditar. Para elas, não se trata de uma cena isolada do
filme, mas o filme inteiro revela seu verdadeiro caráter e onde se
encontra sua lealdade.
Depois de explicar aos seus seguidores o conceito do caminho
apertado e dos poucos que o encontram, Jesus disse:

N e m to d o a q u e le q u e m e diz: “S e n h o r, S e n h o r ” , e n tra rá n o
R e in o d o s céus, m a s a p e n a s a q u e le q u e faz a v o n ta d e d e m e u
P ai q u e está n o s céu s. M u ito s m e d irã o n a q u e le d ia: “S e n h o r,
S e n h o r, n ã o p ro fe tiz a m o s e m te u n o m e ? E m te u n o m e n ã o
e x p u lsa m o s d e m ô n io s e n ã o re a liz a m o s m u ito s m ilag res?” E n -
tã o eu lh e s d ire i c la ra m e n te : N u n c a os c o n h e c i. A fa ste m -se d e
m im vocês q u e p ra tic a m o m a l!288

Quando os perdidos forem chamados à presença de Cristo no


julgamento do grande trono branco, a amplitude total da aposta-
sia será revelada.289 E entre aqueles que ele rejeitar existirão indi-
víduos de dentro da igreja que se declaravam cristãos. Enquanto
estavam na terra eles professavam a Cristo, até mesmo alegando
participação em atos e experiências sobrenaturais —profetizan-
do, expulsando demônios e realizando milagres. Um material
impressionante para um currículo religioso, sem dúvida. Mas

288 Mateus 7 .2 1 2 3 ‫־‬.


289 Ver Apocalipse 20.11 -13.
A APOSTASIA VINDOURA

para este grupo de pessoas em particular, Cristo pronunciará as


palavras mais terríveis que ouvidos humanos jamais ouviram.

“,4Nunca os Conhecí. Afastem-se de Mim”

A salvação se trata de um relacionamento com Jesus Cristo. Por


definição, um cristão é alguém que conhece Cristo e que é co-
nhecido por ele.290 Na passagem de Mateus 7 citada acima, Jesus
está dizendo que, por causa do afastamento da fé genuína,291 eles
evidenciam que nunca experimentaram a salvação genuína. Eles
nunca tiveram um relacionamento real com ele, embora aparen-
tavam realizar grandes coisas cristãs. Existia uma fachada de fé,
mas por trás dela a realidade era outra. Como resultado, Cristo os
afastará da sua presença. Advertências semelhantes foram dadas
aos que haviam sido “iluminados' e aos que “experimentaram” a
Palavra de Deus, mas que, subsequentemente, “caíram”.292
Estes são o “joio no meio do trigo”.293 Lobos em meio às ove-
lhas. Ervas daninhas no jardim. Eles podem ter a aparência de
discípulos e até acreditar como os outros. Eles quase não se dis-
tinguem de outros cristãos, pois se integram perfeitamente den-
tro do corpo de Cristo agora. Mas estão separados de qualquer
associação com Cristo no julgamento. Estes são como Judas. Fal-
sos convertidos. Simuladores. Falsificadores. Impostores.294
E o mais triste de tudo é que eles nem percebem isso.
Os principais entre eles são os falsos mestres, que levam mi-
lhares ao desvio. Eles assumem a postura e a posição de mestres
da verdade, às vezes até como profetas, mas Jesus diz que não

290 Ver João 10.14; 17.3; Filipenses 3.8; ljoão 2.3; 5.20.
291 A palavra para “afastar-se de‫ ״‬que Jesus usa em !Mateus 7.23 é distinta da palavra
similar em grego para apostasia, άποχωρέω vem de duas palavras: apo (“para fora‫״‬
ou “longe de‫ )״‬e choreo (“partir‫ ״‬ou “ir embora‫״‬, “afastar-se‫)״‬.
292 Ver Hcbreus 6.4-6.
293 Ver Mateus 13.2430‫־‬.
294 Ver ljoão 2.19; Judas 1.2024‫־‬.
ATOS DOS APÓSTATAS

passam de “guias cegos”.295 De fato, são tão cegos que não con-
seguem enxergar a verdade e nem admitir o seu próprio fracas-
so em cumpri-la. Longe de se refrear, Jesus também chama tais
gurus e guias espirituais de “filho [s] do inferno”, “hipócritas”,
“sepulcros caiados”, “serpentes” e “raça de víboras”. Ele também
lhes contou que não entrariam no reino dos céus.296
Então, Jesus, diga-nos o que você realmente pensa!
Em sua carta profética, Judas também nos adverte acerca des-
ses falsos mestres:

Esses h o m e n s são c o m o ro c h a s su b m e rs a s n as festas d e fra-


te rn id a d e q u e vocês fa z e m , c o m e n d o c o m v o cê s d e m a n e i-
ra d e s o n ro sa . S ão p a s to re s q u e só c u id a m d e si m e sm o s. S ão
n u v e n s se m á g u a , im p e lid a s p e lo v e n to ; á rv o res d e o u to n o ,
se m fru to s , d u a s vezes m o r ta s , a rra n c a d a s p e la raiz. S ão o n d a s
b rav ias d o m a r, e s p u m a n d o seus p r ó p rio s a to s v erg o n h o so s;
estrelas e rra n te s, p a ra as q u a is estão reserv ad as p a ra s e m p re as
m a is d e n sa s tre v a s.297

Linguagem severa. Discurso contundente. Mas a verdade


pode ser assim às vezes. Isso é porque muita coisa está em jogo
quando se guarda a pureza da preciosa noiva de Jesus.
Entre as principais prioridades dos mestres apóstatas de hoje
está a de reunir um grande número de seguidores, criando mi-
nistérios nacionais e internacionais. E isso é planejado para ser
assim. Alguns pastores famosos até mesmo chegam a persuadir
suas igrejas a comprarem milhares de cópias dos seus livros, gas-
tando centenas de milhares de dólares, a fim de inflacionar ar-
tificialmente as vendas e dar uma falsa impressão de sucesso ao

295 Ver Mateus 23.16-17,19,24,26.


296 Ver Mateus 23.13-36; Lucas 11.52.
297 Judas 1.12-13.
A APOSTASIA VINDOURA

livro. Essa é uma técnica do marketing usada para impulsionar


as vendas individuais, garantindo que o livro ganhe lugar de des-
taque na lista dos mais vendidos do The New York Times. Trata-se
de um “jogo” por vezes utilizado em nossos dias no mundo dos
pastores das grandes igrejas. Mesmo não sendo ilegal, essa técnica
é enganadora e evidencia uma ausência de integridade piedosa.
Um dos subprodutos do culto e da cultura de celebridades
cristãs é que eles atacam (e dependem) a existência de um amplo
suprimento de fiéis inexperientes e mal equipados. Em outras
palavras, ovelhas desavisadas e inocentes. E, infelizmente, esse
suprimento nunca acaba. Quando aqueles em cargos de lideran-
ça ou quando escritores, palestrantes e pastores com posições in-
fluentes se desviam para o erro da apostasia, eles arrastam consi-
go multidões de ingênuos seguidores. E porque muitos pastores
sinceros falham em verdadeiramente equipar seu próprio povo
no discernimento bíblico, esse trágico fenômeno só está crescen-
do. Falsos mestres são oradores fluentes e atores experientes. Eles
são adeptos da apresentação, persuasão, diversão e manipulação
psicológica... para “propósitos do reino”, eles diriam. Muitos sa-
bem exatamente o que estão fazendo, tendo meticulosamente
planejado e estruturado suas mensagens para massagear as men-
tes e emoções da audiência. Eles são muito habilidosos naquilo
que fazem. Infelizmente, suas apresentações e “demonstrações de
poder” são frequentemente confundidas com um “movimento
do Espírito”.
Da mesma forma que as celebridades seculares, eles amam (e
desejam) a atenção e o louvor das pessoas, muitas vezes com o
propósito de acumular riquezas - muitas riquezas. Para muitos
desses mestres amantes da fama, ministério equivale a dinhei-
ro.298 Infelizmente, eles são frequentemente as mesmas persona-
lidades que ganham proeminência e são exibidas como “bem-su­

298 Ver 1Timóteo 6.10.


ATOS DOS APÓSTATAS

cedidas” nas conferências ministeriais ou denominacionais. Eles


usam palavras como “mega”, “multi” e “enorme” para descrever
seus ministérios. Ainda que o tamanho da igreja não seja um
indicador da obra e da bênção do Espírito, esta é muitas vezes a
qualificação principal para preencher tais papéis de palestrante.
É muito triste que a igreja tenha caído na filosofia mundana do
“quanto maior, melhor”. Apesar de não haver nada intrínseca-
mente espiritual sobre uma igreja pequena e nem inerentemente
herético sobre uma igreja grande, existe um valor e uma moeda
sendo trocados aqui. “Grande” cada vez mais é igualado a “su-
cesso” e “favor de Deus”. Como resultado, você provavelmente
não verá muitos pastores de igrejas pequenas, não importa quão
talentosos ou piedosos, falando nesses eventos.
Negligenciadas e quase esquecidas nessas conferências são pa-
lavras como fiel, sacrifrcioy sofrimento, discípulo e servo. O único
sucesso que esses falsos mestres atingiram com toda a certeza é
que eles aumentaram a Palavra de Deus para que ela se adapte e
favoreça uma geração dos últimos dias - uma que valoriza acima
de tudo a profana trindade do Ego, do Tamanho e do Dinheiro.
Mas Jesus chama essas pessoas de ladrões, assaltantes e assala-
riados. Eles definitivamente não são pastores.299

Graças a Deus Pelo Legítimo

Que contraste gritante entre essas falsificações da fé e os minis-


tros autênticos. E, felizmente, ministros autênticos existem. Leia
ITessalonicenses 2.1-9 e veja como o revigorante exemplo de
Paulo se compara a alguns dos comunicadores cristãos atuais,
obcecados consigo mesmos:

299 V e rjo á o 10.1-16.


A APOSTASIA VINDOURA

Irm ã o s, vocês m e s m o s sa b e m q u e a v isita q u e fizem o s a vocês


n ã o fo i in ú til. A p e sa r d e te rm o s sid o m a ltra ta d o s e in s u lta d o s
e m F ilip o s, c o m o vocês sa b e m , c o m a a ju d a d e n o sso D e u s
tiv e m o s c o ra g e m d e a n u n c ia r o e v a n g e lh o d e D e u s a vocês
em m e io a m u ita lu ta . P o is n o ssa e x o rta ç ã o n ã o te m o rig e m
n o e rro n e m e m m o tiv o s im p u ro s , n e m te m o s in te n ç ã o d e
e n g a n á -lo s; ao c o n trá rio , c o m o h o m e n s a p ro v a d o s p o r D e u s
p a ra n o s c o n fia r o e v a n g e lh o , n ã o fa la m o s p a ra a g ra d a r pesso -
as, m a s a D e u s , q u e p ro v a o n o sso c o ra ç ã o . V ocês b e m sa b e m
q u e a n o ssa p a la v ra n u n c a foi d e b a ju la ç ã o n e m d e p re te x to
p a ra g a n â n c ia ; D e u s é te s te m u n h a . N e m b u s c a m o s re c o n h e -
c im e n to h u m a n o , q u e r d e vo cês q u e r d e o u tro s.
E m b o r a , c o m o a p ó s to lo s d e C ris to , p u d é s se m o s te r s id o
u m p eso , fo m o s b o n d o s o s q u a n d o e stá v a m o s e n tre vocês,
c o m o u m a m ã e q u e c u id a d o s p r ó p rio s filh o s. S e n tin d o , assim ,
ta n ta afe içã o , d e c id im o s d a r a v o cê s n ã o s o m e n te o e v a n g e lh o
d e D e u s , m a s ta m b é m a n o ssa p r ó p ria v id a , p o r q u e vocês se
to r n a r a m m u ito a m a d o s p o r n ó s. Irm ã o s, c e r ta m e n te vocês
se le m b ra m d o n o sso tra b a lh o e s g o ta n te e d a n o ssa fad ig a;
tra b a lh a m o s n o ite e d ia p a ra n ã o se rm o s p e sa d o s a n in g u é m ,
e n q u a n to p rc g á v a m o s o e v a n g e lh o d e D e u s a vocês.

Aos corintios, Paulo proclamou: “Ao contrário de muitos, não


negociamos a palavra de Deus visando a algum lucro; antes, em
Cristo falamos diante de Deus com sinceridade, como homens
enviados por Deus”.300
Mercenários e vendedores ambulantes, como os antigos ca-
melôs de festivais. “Vendedores de produtos falsos” espirituais.
Mas não Paulo. Sua mensagem e ministério foram marcados
por humildade, simplicidade e por uma verdadeira demonstra-
ção do poder do Espírito. E para quê? Para que a fé dos corintios

3 0 0 2 C o rín tio s 2.17.


ATOS DOS APÓSTATAS

não se baseasse na sabedoria, persuasão e personalidade de um


homem, mas sim no poder de Deus.301
Paulo era um homem cuja vida havia sido transformada pelo
Cristo ressurreto. E seu exemplo fiel ainda está sendo seguido
por pessoas piedosas atualmente. Aqueles a quem Jesus chama
e equipa para pastorear e falar, seja na igreja ou em geral, estão
marcados por uma característica distintiva - uma paixão ardente
para promover o nome de Jesus, não o seu próprio.302 E a fama
dele que buscam enquanto pregam, ensinam e servem. Eles con-
cordam com o lema de João Batista: “E necessário que ele cresça
e que eu diminua”.303
Eles são homens e mulheres da Palavra que possuem um com-
promisso com a integridade tanto doutrinária quanto pessoal.
Eles não se importam com o elogio das pessoas, mas se conten-
tam em agradar somente a Deus com uma honra reverenciai.
Eles não adulam a audiência em busca de ofertas. Eles não mi-
nistram por prêmios, reconhecimento ou glória humana, mas
sim visando uma coroa futura.304 Eles estão muito mais preocu-
pados com a saúde da igreja do que com o seu tamanho e mais
focados na fé do que nas finanças. As particularidades da igreja
ou ministério deles não importam, pois simplesmente desejam
ser bons mordomos. A alegria deles se encontra na fidelidade.
No céu, aqueles que receberão as maiores recompensas de
Cristo podem ser homens e mulheres de quem você nunca ouviu
falar. O que você acha?
Não importa quais sejam as nossas áreas de serviço no reino
de Deus, todos nós devemos nos ver como mordomos, servos
leais administrando a influência, autoridade e plataforma dadas

301 Ver lCoríntios 2.1-5.


302 Ver Salmo 115.1; 2João l .7.
303 João 3.30.
304 Ver 1Precio 5 .2 4 ‫־‬.
A APOSTASIA VINDOURA

por Deus.305 Precisamos ficar atentos para nunca usar essa auto-
ridade para dominar os outros ou desviá-los.
Isso porque os verdadeiros líderes que vêm de Deus são gentis.
Como mães que amamentam, eles tratam as pessoas e as suas
necessidades com sensibilidade. Eles entendem o equilíbrio bí-
blico de transmitir verdade e vida por meio de relacionamentos
autênticos. E, se necessário, eles estão dispostos a fazer sacrifícios
pessoas custosos a favor do evangelho e daqueles a quem minis-
tram. A motivação deles é um chamado convincente e um amor
consumidor por seu Senhor Jesus Cristo. E eles sabem muito
bem que haverá um “julgamento mais rigoroso” para aqueles
que ensinam.306
Essa é a antítese das doutrinas e práticas oportunistas da apos-
tasia dos nossos dias.
Agradeço a Deus por aqueles que escolhem a integridade bí-
blica no lugar da popularidade e conveniência. Eles são discípu-
los autênticos e dedicados de Jesus, e a bandeira da fidelidade
tremula com força acima deles. Escolha tais pessoas como seus
mentores, pastores e professores. Esses poucos piedosos. Esses
servos do Altíssimo.
E empenhe-se para ser um você mesmo.

305 Ver 1Corintios 4.1-5.


306 Tiago 3.1.
C apítulo 10

SOBREVIVENDO AOS ULTIMOS


DIAS DE APOSTASIA
M u it o s a n o s Nelson, pastor da Denton Bible
atr á s , T o m m y

Church, escreveu um artigo em uma publicação do Dallas Theo-


logical Seminary intitulado “Cristianismo ‘Clássico’”. No artigo,
ele observa que, “por várias gerações até a década de 1960, a
Coca-Cola era claramente o refrigerante dominante nos Estados
Unidos”. Contudo, numa habilidosa ação de marketing, a Pepsi
decidiu ter como alvo a geração mais jovem e deixar a Coca-Cola
continuar dominando o mercado das gerações mais velhas.
Na década de 1980, a Coca-Cola estava perdendo sua parti-
cipação de mercado para a Pepsi. Então, num esforço para recu-
perar terreno contra ela junto à nova geração, a Coca-Cola re-
formulou sua bebida emblemática, chamando-a de “New Coke”
[Nova Coca]. A Nova Coca era mais doce e foi apresentada como
o “novo sabor da Coca-Cola”. O movimento da Coca-Cola foi
saudado como o mais arriscado na história do mercado de bens
de consumo. E se você é velho o bastante para se lembrar da
Nova Coca ou já leu sobre ela, vocc sabe que esse foi, sem dúvida
nenhuma, um dos maiores erros de marketing que já aconteceu.
Houve uma forte reação dos leais consumidores de Coca-Co-
la. Telefonemas e cartas enfurecidas jorraram na sede da empre-
sa. Os fãs da bebida gostavam da fórmula antiga e não queriam
que ela mudasse.
A APOSTASIA VINDOURA

No dia em que a Nova Coca foi anunciada, a PepsiCo deu


um dia de folga aos seus funcionários, dizendo: “Pela ação de
hoje, a Coca-Cola admitiu que não é tudo isso”. A Pepsi estava
confiante de que iria dominar o mercado. A Coca-Cola havia se
ajustado e mudado.
Nelson descreve o que aconteceu em seguida: “Mas, então, a
Coca-Cola fez o que veio a ser chamado de o maior e mais genial
golpe de marketing da história. Eles pediram desculpas a nível
nacional, dizendo que eles compreenderam que a Coca-Cola era
uma instituição norte-americana. Eles retiraram a Nova Coca
das prateleiras e trouxeram de volta a fórmula original com o
nome de ‘Classic Coke' [Coca-Cola Clássica]”.
Ele continua: “Aquele nome não foi apenas um sinal, no co-
mércio dos refrigerantes, de que a bem conhecida Coca-Cola
estava de volta, masfo i também um reconhecimento do fato de que
quando você tem um clássicoy você não 0 muda simplesmente por
causa da pressão de uma nova geração”.307
Eu (Mark) gosto muito desta última frase porque ela é a men-
sagem básica deste livro. Repetidamente e de vários ângulos, te-
mos salientado a autoridade e suficiência da verdade na Palavra
de Deus e a centralidade e exclusividade do evangelho de Jesus
Cristo. Nós temos o clássico. Qualquer tentativa de distorcer, di-
luir ou negar isso conduz ao equivalente espiritual da catástrofe
de marketing da Coca-Cola.
Nosso chamado é ficar com o clássico.

307 Tommy Nelson, ‘“Classic Christianity: Teaching and Living the Unchanging Truth
of Gods Word”, Veritas, vol. 8, n. 1, jan. 2008. Disponível em: <goo.gl/zJeMLZ>
(ênfase acrescentada).
SOBREVIVENDO AOS ÚLTIMOS DIAS DE APOSTASIA

Ei, Judas

No último livro do Novo Testamento antes do desdobramento


de Apocalipse, Judas, o meio-irmão de Jesus, convoca todos os
seguidores de Jesus a se apegarem ao “Cristianismo clássico” e a
batalharem por ele:

A m a d o s , e m b o ra estiv esse m u ito a n s io so p a ra escrev er a vocês


a c erca d a salv ação q u e c o m p a r tilh a m o s , s e n ti q u e e ra neces-
sá rio escrever in s is tin d o q u e b a ta lh a s s e m p ela fé d e u m a vez
p o r to d a s c o n fia d a ao s sa n to s. P ois c e rto s h o m e n s , c u ja c o n -
d e n a ç ã o já estava s e n te n c ia d a h á m u ito te m p o , in filtra ra m ‫־‬se
d is s im u la d a m e n te n o m e io d e v o cês. E stes são ím p io s , tra n s -
f o rm a m a g raça d e n o sso D e u s e m lib e rtin a g e m e n e g a m Jesus
C ris to , n o sso ú n ic o S o b e ra n o e S e n h o r.308

O livro de Judas tem sido chamado por alguns de “Atos dos


Apóstatas”. Ele alerta seriamente que apóstatas irão se mistu-
rar com o povo de Deus, fingindo que são crentes verdadeiros.
Diante desse perigo sempre presente, os seguidores de Jesus de-
vem “batalhar” ou “defender” a fé. A palavra que Judas usa para
batalhassem na língua original transmite a ideia de uma luta ex-
tenuante e intensa. Todo crente em Cristo deve batalhar “pela
fé”, isto é, o corpo ortodoxo de verdade e doutrina contido na
Palavra de Deus.309 Observe como a fé foi transmitida. Ela foi
confiada e entregue a nós por Deus com certeza e finalidade —
“de uma vez por todas” —na sua Palavra. Sem nenhuma necessi-
dade de adicionar ou alterar. Nós temos o clássico.
Batalhar pela fé não significa que precisamos ser contendo-
sos ou irados, mas que devemos defendê-la. No entanto, muitos

308 Judas 1 .3 4 ‫־‬.


309 Ver !Timóteo 1.9; 4.1; 5.8; 6.10,21; 2Timóceo 4.7.
A APOSTASIA VINDOURA

hoje em dia estão desabando ao invés de lutar. Somos seduzidos


por nossa cultura a diluir a verdade ou simplesmente omitir as
partes mais difíceis de serem aceitas.
Isso me faz lembrar de um jovem pregador que começou o seu
ministério numa nova igreja. No primeiro domingo ele pregou
sobre os perigos de ingerir bebidas alcoólicas. No final do culto, um
dos diáconos aproximou-se dele e disse: “Um terço do nosso povo
planta cevada e destila álcool, então é melhor você ter cuidado”.
No domingo seguinte, o jovem pastor pregou contra o hábito
de fumar. O mesmo diácono veio até o pastor após o culto e
disse: “Um terço dos nossos membros planta tabaco, então é
melhor você ter cuidado”.
No terceiro domingo, o sermão foi sobre os perigos dos jogos
de azar. Mais uma vez, após o culto, o mesmo diácono puxou o
pastor de lado. “Um terço do nosso povo cria cavalos para com-
petições, então você precisa ser mais sensível.”
No domingo seguinte, o título do sermão foi: “O Perigo de
Mergulhar Profundamente em Águas Internacionais”. Ele en-
tendeu muito bem a mensagem. Mas nós não devemos ceder às
pressões da nossa cultura; nós devemos batalhar pela fé.
O livro de Judas é frequentemente descrito como o saguão ou
a antessala do livro de Apocalipse. Judas descreve vividamente as
condições que prevalecerão na igreja professa nos últimos dias
antes que os eventos do fim dos tempos comecem. Sua carta é
mais uma testemunha de que o aumento da apostasia é um sinal
dos tempos, prenunciando a chegada dos últimos dias.
Depois de sua breve introdução nos versos 1 3 ‫־‬, os versos
4-16 emitem uma forte denúncia aos falsos mestres apóstatas,
que rastejaram para dentro das igrejas às quais Judas se dirige.
A fim de enfatizar o perigo que aquelas igrejas corriam, Judas
deu três exemplos de apostasia coletiva no passado (a geração do
deserto, anjos que pecaram e as cidades de Sodoma e Gomorra)
e três ilustrações individuais de apostasia do Antigo Testamento
SOBREVIVENDO AOS ÚLTIMOS DIAS DE APOSTASIA

(Caim, Balaão e Corá). Judas não deixa dúvidas sobre a desobe-


diência e condenação de todos os que se desviam da verdade e
tentam levar outros para o mesmo caminho.

Então, Como Devemos Viver?

Começando no verso 17, Judas subitamente muda o assunto,


indo dos falsos mestres para os verdadeiros seguidores. Ele ni-
tidamente contrasta os seus leitores dos apóstatas que ele vem
descrevendo e denunciando nos versos 4-16. Judas 1.17 começa:
“Todavia, amados...”. A mesma expressão é encontrada nova-
mente no verso 20. Ele está nos dizendo qual é o nosso dever
nos dias da apostasia. Como um pastor amoroso, Judas não está
apenas preocupado em denunciar os apóstatas. Ele quer apoiar e
fortalecer os crentes rodeados pela apostasia. Se quisermos saber
como sobreviver nos últimos dias da apostasia, Judas 1.1725‫־‬
nos instrui claramente. Nesses versos, Judas estabelece diretrizes
simples para equipar seus leitores e também a nós.

Lem brem -se


A primeira coisa que Judas diz que devemos fazer nos dias da
apostasia é lembrar. “Todavia, amados, lembrem-se do que foi
predito pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo. Eles di-
ziam a vocês: ‘Nos últimos tempos haverá zombadores que se-
guirão os seus próprios desejos ímpios’”.310Judas está nos dizen-
do que a apostasia não deveria nos surpreender. A apostasia foi
predita por todos os apóstolos.311Embora o abandono da fé deva
nos entristecer, ele não deveria nos surpreender. Nós precisamos
lembrar que os apóstolos nos contaram que a apostasia viria.

310 Judas 1.17-18.


3 11 Ver 1Timóteo 4. 1; 2Timóteo 3.12 ;4.3 ;13‫־‬Pedro 2 . 1-2; 3.3-4 ; ljoão 2 . 183- 4. 1;19 ‫־‬.
A APOSTASIA VINDOURA

M antenham -se
Junto com lembrar-se, os crentes também precisam manter-se ou
permanecer firmes no seu próprio crescimento espiritual: “Edifi-
quem‫־‬se, porém, amados, na santíssima fé que vocês têm, oran-
do no Espírito Santo. Mantenham-se no amor de Deus, enquan-
to esperam que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo os
leve para a vida eterna312.‫ ״‬Esses versos contêm quatro coisas que
todo crente deve fazer para permanecer firme durante a apostasia.
Primeira, devemos nos edificar continuamente na mais santa
fé. Como fazemos isso? Estudando com fidelidade a Palavra de
Deus, a qual contém a verdade “da fé‫״‬. A verdade pura da Pa-
lavra de Deus nos edifica espiritualmente e nos fortalece para
permanecermos firmes em dias difíceis.
Segunda, os crentes devem orar no Espírito Santo. Nossa vida
de oração deve ser consistente e deve ser impelida, controlada e
guiada pelo Espírito Santo, que habita em nós.313
Terceira, nós precisamos nos manter no amor de Deus. Isso
não quer dizer que devemos fazer com que Deus continue nos
amando. Deus ama os seus filhos e nunca deixará de amá-los.
Nada pode nos separar do amor de Deus por nós.314 No entanto,
quando pecamos, podemos nos impedir de experimentar e des-
frutar seu amor. O amor de Deus é como a interminável luz do
sol, mas nosso pecado é como uma sombrinha que levantamos
em nossa vida e que nos impede de desfrutar plenamente do
amor de Deus. Nós permanecemos no amor de Deus por meio
da nossa obediência a ele.315
Quarta, ao testemunharmos a apostasia generalizada ao nosso
redor, devemos desejar ansiosamente a volta de Cristo. Alguém
já disse anos atrás: “Quanto mais sombrio é o olhar ao redor,

312 Judas 1.2021‫־‬.


313 Ver também Efésios 6.18.
314 Ver Romanos 8 .3 8 3 9 ‫־‬.
315 Ver João 15.910‫־‬.
SOBREVIVENDO AOS ÚLTIMOS DIAS DE APOSTASIA

mais resplandecente é o olhar para cima!”. O povo de Deus não


é derrotista. Nós somos os derradeiros otimistas. Jesus pode estar
voltando em breve. Todos os sinais que vemos ao nosso redor
são como luzes de uma pista de pouso assinalando a aproxima-
ção do nosso Salvador. Enquanto esperamos a chegada do fim
dos tempos, nossa tarefa é viver para Cristo, comprometidos a
uma vida de estudo, oração, obediência e observância enquanto
aguardamos a volta do nosso Senhor.

Alcancem
Depois de assegurar nossa própria saúde e estabilidade espiri-
tuais, Judas nos chama a amorosamente alcançar as pessoas ao
nosso redor que são vítimas de falsos mestres. Judas salienta três
grupos de pessoas que precisam de ajuda.
O primeiro grupo é o dos duvidosos. O verso 22 diz: “Tenha
compaixão daqueles que duvidam”. Nestes dias de apostasia e do
afastamento da verdade, estamos rodeados de crentes confusos,
vacilantes e hesitantes. Os falsos mestres atacam os mais vulne-
ráveis. Eu me encontro regularmente com cristãos professos que
lutam com todos os tipos de dúvidas sobre a veracidade da Bí-
blia, a exclusividade de Jesus, a natureza de Deus e o significado
da vida. Devemos demonstrar compaixão e misericórdia aos que
estão se afundando na dúvida e na confusão.
O segundo grupo que precisamos alcançar c o dos enganados.
O verso 23 diz: “A outros, salvem, arrebatando-os do fogo...”.
A única outra ocasião em que Judas usa a palavra “fogo” é no
verso 7, referindo-se ao fogo do julgamento, portanto eu creio
que aqui o significado é o mesmo. Essas pessoas estão em gran-
de perigo espiritual. Quando a sã doutrina está sendo atacada,
como acontece atualmente, precisamos procurar aqueles que es-
tão enganados e permitir que Deus nos use para compartilhar o
evangelho com eles, para que possam ser arrebatados do fogo.
Λ APOSTASIA VINDOURA

Suas falsas ideologias precisam ser confrontadas e expostas pelo


poder da verdade de Deus.316
O último grupo que precisa do toque do povo de Deus é
o dos contaminados. O verso 23 continua nos contando: a
outros, ainda, mostrem misericórdia com temor, odiando até a
roupa contaminada pela carne”. Essas são as pessoas que foram
dominadas, contaminadas e poluídas pela imundície deste mun‫־‬
do. À medida que os padrões morais, mesmo dentro das igrejas,
continuam a desmoronar, a apostasia moral irá segurar um nú-
mero cada vez maior de pessoas com suas garras. Os pecados
da cultura inevitavelmente se tornam os pecados da igreja. Aos
que estão subjugados pelo pecado, devemos exercer misericór-
dia com compaixão. !Mas Judas acrescenta esta advertência: “...
odiando até a roupa contaminada pela carne”. A “roupa conta-
minada pela carne” literalmente se refere a roupas íntimas sujas
por excreções humanas, significando que devemos ter aversão
ou repugnância pelo pecado na vida de outras pessoas da mes-
ma maneira que odiaríamos ter que lidar com as roupas íntimas
sujas dos outros. Precisamos ter um medo saudável do pecado e
manter a cautela de não nos aproximar demais, evitando assim
nossa própria contaminação. Lidar com o pecado requer cautela
e um medo saudável.

D escansem
A última condição para sobrevivermos aos últimos dias da apos-
tasia é descansar. Eu gosto muito disso. Judas termina esta som-
bria e tempestuosa carta com uma doxologia tranquilizadora da
nossa segurança e certeza em Cristo: “Àquele que é poderoso
para impedi-los de cair e para apresentá-los diante da sua glória
sem mácula e com grande alegria, ao único Deus, nosso Salva-
dor, sejam glória, majestade, poder e autoridade, mediante Jesus

.316 Ver 2C orínrios 1 0 .3 5 ‫־‬.


SOBREVIVENDO AOS ÚLTIMOS DIAS DE APOSTASIA

Cristo, nosso Senhor, antes de todos os tempos, agora e para


todo o sempre! Amém317.‫ ״‬Judas começa e termina sua carta des-
tacando a nossa segurança em Cristo.318
Nenhum crente verdadeiro pode apostatar da fé. Um crente
pode ficar confuso, lutar com o pecado e até acreditar em algu-
mas coisas erradas, mas nunca podemos perder nossa posiçáo
diante de Deus. Ele tem o poder de nos impedir de cair. Ele vai
nos acompanhar até o final, quando nos encontrarmos em sua
gloriosa presença. Mas você só pode estar seguro se tiver um rela-
cionamento pessoal com Deus pela fé em seu Eilho, Jesus Cristo.

Salvação Confirmada

Em 1912, quando o Titanic afundou no Atlântico Norte, 1 517


pessoas encontraram seu fim numa sepultura aquática. Assim
que a notícia da tragédia foi divulgada, todos queriam saber se
seus entes queridos haviam sido salvos. A fim de ajudar os que se
aglomeravam para saber notícias do destino dos seus queridos, o
escritório da White Star Line, em Liverpool, Inglaterra, levantou
uma grande placa dividida em duas colunas e com um cabeçalho
de cada lado: “Salvação Confirmada‫ ״‬e “Morte Confirmada‫״‬.
Centenas olhavam com o coração apertado sempre que novos
nomes eram colocados na placa.
Os passageiros do Titanic se registraram em primeira, según-
da e terceira classes, mas depois do naufrágio somente duas ca-
tegorias tinham significado: os mortos e os vivos. O mesmo será
verdade quando o Senhor retornar. No final, haverá apenas duas
classes: os salvos e os perdidos - aqueles que se voltaram a Jesus
Cristo para salvação e aqueles que não. Em ljoão 5.12, a linha

317 Judas 1.24-25.


318 Ver Judas 1.1.
A APOSTASIA VINDOURA

de demarcação é bem clara: “Quem tem o Filho, tem a vida;


quem não tem o Filho de Deus, não tem a vida”.
Apesar de uma erupção de negações modernas sobre a exis-
tência do inferno, existem apenas dois destinos finais - céu ou
inferno. Jesus, o Salvador amoroso que morreu por um mundo
de pecadores, claramente falou que o inferno é o destino final
daqueles que o rejeitam.
Acima de todas as coisas, certifique‫־‬se de que você está entre
os com a “salvação confirmada”. Certifique-se de ter recebido
Jesus como Salvador pelos seus pecados. Cer ti fique-se de que
você sabe qual será o seu destino final.
João 1.12 não poderia dizer isso de forma mais simples:
“Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome,
deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus”. A vida eterna,
o perdão e a entrada na família de Deus vêm através das simples
fé e confiança em Jesus Cristo, aquele que morreu na cruz em
nosso lugar e ressuscitou dos mortos.319
Você pode confiar em Jesus agora mesmo, clamando a ele pela
salvação dos seus pecados e recebendo o presente da vida eterna.

Ordens Permanecem Inalteradas

De todos os monumentos visíveis na capital dos Estados Unidos,


o “Túmulo do Soldado Desconhecido”, no Cemitério Nació-
nal de Arlington, é um dos mais profundos. Isso se deve, em
parte, à guarda constante e vigilante realizada por um pelotão
de trinta soldados. Todos os dias, desde 1937, a cada hora do
dia, em qualquer condição meteorológica (incluindo furacões)
e em todos os feriados, um único soldado caminha exatamente
21 passos, pausa durante 21 segundos e depois repete o proce-
dimento. A precisão do número 21 corresponde à salva de 21

319 Ver Romanos 10.9.


SOBREVIVENDO AOS ÚLTIMOS DIAS DE APOSTASIA

tiros, a maior honraria que um soldado pode receber. Quando


a vigília de um guarda termina e um novo guarda começa o seu
turno, as ordens são passadas em três simples palavras: “Ordens
permanecem inalteradas”.
Enquanto as nuvens de tempestade se formam, a escuridão
aumenta e a vinda de Cristo se aproxima, estas palavras - “or-
dens permanecem inalteradas” - deveríam ecoar em nossos cora-
çóes e mentes. Nós recebemos do nosso Salvador a nossa ordem
de batalha final, enquanto aguardamos o seu retorno:

Então, Jesus aproximou-se deles e disse: “Foi-me dada coda


a autoridade nos céus e na terra. Portanto, vão e façam disci-
pulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do
Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o
que eu ordenei a vocês. E eu estarei sempre com vocês, até o
fim dos tempos”.320

Muitas coisas vão mudar em nossas vidas e nos nossos mi-


nistérios ao longo dos anos. Mas uma coisa jamais deve mudar:
nosso compromisso com o clássico. Nunca devemos vacilar em
nossa fidelidade a Jesus e em nossa dedicação para espalhar o seu
evangelho e ensinar às pessoas tudo o que ele ordenou. Nosso
mundo não precisa de uma “Nova Coca”. Ele precisa da única
coisa que somente a Palavra de Deus pode dar: a verdade imutá-
vel e constante de Deus.

3 20 M ateus 28 .1 8-20.
I a edição fevereiro de 2019
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tipologia Bodoni 72 (títulos)
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