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CDU 981

I SB N
Rio de Janeiro
- RJ
- 1989

I
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I_ A INTEGRAÇAO DO TERRITÓRIO
SEBGTPANO À COLONIZAÇÃO PORTUGUESA

As pesquisas históricas comprovam que o litoral do atual


Estado de Sergipe, situado entre os rios Sáo Francisco e Real,
teria sido visiiado pela primeira expediçáo exploradora que,
em 1501, veio ao Brasil comandada por Gaspar de Lemo-s.j.
justificativa é encontrada na carta do piloto florentino Américo
Vespúcio, (1) que a acompanhou, relatando os principais fatos
ocorridos. Refere-se ele à impossibilidade do desembarque das
naus na altura do estuário do Sáo Francisco, encontrando, Po-
rém, logo depois, praias "de fácil desembarque nos batéis, e de
unt:oradouro suportável" para os navios dessas frotas do princípio do
sóculo XVI, no Cotindiba (2), no Vasa-Barris, no rio Real, na afirma-
tiva do historiador Cândido Mendes, que concluiu:
"Portanto foi no litoral próximo ao atual rio do Vasa-Bar-
ris, que a frota lusitana ancorou, e sem desastre porque
era época de inverno, e os ventos que reinavam mostra'
vam-se favoráveis" (3).
Ncssc local, as naus teriam permanecido cinco dias, "e achamos
('unu.físlulas puito
grossa§, verde e também seca em ctma das ár-
lrrrr'.§" escreveu Vespúcio (4), dizendo, ainda, "que assentamos
ilr troz.cr deste lugar um par de homens para aprender a língua e
vicnrm três deles por sua vontade para o Portugal" . Foram estes
os primeiros sergipanos a emigrar.
A circunstância de ter impressionado aos nautas a existência,
ntr t'cgiiur. da canfístula (5), como revela a cafta de Vespúcio , " de'

l7

t
)
veria, naturalrnente, deixar uma lembrança no roÍeiro dessa nave'
Acrescentava ainda o Rei que se alguma pessoa ali se interessasse
pe{a doação de terras para povoá-las, mandasse as informaçôes
I
gação, tratando-se, do primeiro ponto em que desembarcaua e se
para que o ato fosse baixado.
travaria relaçao de comércio com os indígenas'l (6). Gabriel So-'
Ante as múltiplas atividades com que se defrontou, Tomé de
ares de Souza, que visitou o litoral de Sergipe nós fins do primeiro
Souza náo teve condiçóes de voltar-se para o território além do rio
século de colonizaçáo, ali régistrou a presença de um rio chamado
( Canafistula entre o Vasa-Barris e o Real (7). Real, como náo teriam seus sucessores Duarte da Costa e Mem de
' A expediçáo de Martim Afonso de souza teria avistado terras Sá.
Em 1572, D. Sebastiáo dividiu o Brasil em dois governos ge-
sergipanas a uma distância de seis léguas, em março de i53l'
rais, considerando serem suas costas "tao grandes e tão distantes
quunaorumavaparaosul,conclui-sedaleituradoDiáriodePero
uma das outras" e existirem jâ"muitas povoações e esperança de
Lopes de Souza (8).
se fazerem muitas mais pelo tempo em diante" (i,2). O governador
A divisáo do Brasil em, Capitanias Hereditárias,'em 1534; inte-
grou o território sergipano à Capitania da Bahia de Todos os San- Luís de Brito, sediado na cidade de Salvador, exerceria as funções
dali para o norte, eirquanto Antônio Salema, centrado no Rio de
to§iconcedida a Francisco Pereira Coutinho por Carta de Doaçáo
Janeiro, teria jurisdiçáo para o sul.
de 05.04.1534, e regulamentada por Foral de vinte e dois de agosto
do mesÍno ano. Abrangia ela 50 léguas de terra, que se estendiam Na administraçáo de Mem de Sá, porém, havia sido realizada
grande perseguiçáo aos índios do rio Reali sob o pretexto de pu-
da fo3 do Sá9 Francisco à Ponta do Padráo em Salvador.
nir-se os Caetés por terem devorado o primeiro bispo'do Brasil,
il,: iO-Dõnatáriô (í), hom"m de'recursos, chegou à Bahia em 1536' i

, laniando as bases da colonizaçáo ao fundar a Vila Velha do Pe- Dom Pero Fernandes Sardinha em 1556. Determinou-se que os
reira (10). Na região encontrou Caramuru, de quem recebeu auxí- tornassem escravos "onde quer que fossem achados, sem fazer
excessão alguma, nem advertir no mal que poderia vir à terra"
lio nas tarefas iniciais. Mas as desavenças entre os colonqs que o
' haviam acompanhado, levaram-no a retirar-se para a Capitania de (13). Tamanhos foram os horrores dessa arremetida que, ante a de-
Porto Seguro. Quando dali regressava em 1547, o barco naufragou núncia dos jesuítas, no Reino foi julgada guerra injusta, determi-
nas proximidádes da Ilha de Itaparica, onde foi nrorto pelos índios
nando-se que fossem os cativos postos em liberdade (14).
Tupinambás que o haviam aprisionado.
"Os sertões do rio Real foram preferidos por essa inomi-
A açáo da presença de Franciscô Pereira Coutinho náo atingiu
nável caçada humana onde todq sorte de crueldade se pra-
Sergipe. Desse abandono aproveitaram.se os piratas franceses para
o contrabántfo do pau-brasil e outros produtos extrativos da regiáo,
ticou contra aquelas infelizes criaturas que além de bati-
das da fome e da peste que houve nessa época, eram agri-
contando com a colaboraçáo dos Tupinambás que aí habitavam.
Desconhecido dos portugueses permaneceu o território sergi- lhoadas pelo cativeiro, quando não as matavam por lá se
pano, sendo sua exploraçáo uma das atribuições de Tomé de Sou- serem julgadas imprestáveis para esse fim" (15).
za, devendo dela prestar informaçáo a D. Joáo III, segundo de-
E, valioso o depoimento de Anchieta sobre as conseqüências nega-
.terminações do Regimento que recebera:
tivas de tal atitude (16).
Decorrente dessa perseguiçáo e da investida predatória reali-.
"Quanto às ten'as e águas da dita Capitania que estão zada contra as aldeias indígenas, cresceu no Tupinamdá do rio
fora do termo que ora ordeno a dita povoaçao, até o rio de Real e de todo o terriiório sergipano o ódio aos portugueses, o gg.e- .
Sao Francisco por onde parle com a Capitania de Duarte os levaria a intensificar a aliança com os franceses. tl ll\pc'l--}'ti
Coelho, vos informareís que terras são e que rios e ôguas Entre as instruçoes trazidas por Luís de Brito, orientando sua
hô nelas e quantas e que disposição tem para se poderem administraçáo, estava a de combater a permanência dos franceses
fazer engenhos de açúcar e outras benfeitortas" (11). no rio Real, rio "que tem de boca meia légua, em a qual há dois
18 t9
canais e por qualquer deles entram nqvios da costa de cinqüenta rubi, e a de Sáo Paulo , "junto eo mar", regiáo do cacique Serigi.
toneladas" (17).
/ À medida que se firmava a colonizaçáo lusa na colônia, desapa- Nessas aldeias agregou-se numerosa populaçáo indígena liderada
pelos caciques Serigi, Surubi e Aperipê, este dominando as terras
recià a aparente cooperaçáo inicial do indígena à empresa coloni- entre o rio Real e o Vasa-Barris (21). Os padres começaram a ensi-
zadora. Esta passava a exigir máo-de-obra que a escravizaçáo do nar a doutrina cristá (22), e na Missáo de Sáo Tomé o Padre Gas-
gentio poderia fornecer, bem como era indispensável a ocupaçáo par Lourenço abriu uma escola para as crianças, denominada Sáo
de suas terras. Crescia a reaçáo do índio ao colonizador branco, Sebastiáo, tendo como profgssor o Irmáo João Salônio, nuê foi, as-
visto já como inimigo. sim, o primeiro professor de Sergipe.
Dentro desse quadro iria realizar-se a primeira tentativa de in- Paralela à atuaçáo dos inacianos, o Governador Luís de Brito
tegrar o território sergipano à colonizaçáo lusa, num momento de delegara poderes a Garcia D'Avila, o famoso potentado da Casa
.grande desavença entre as autoridades portuguesas, os colonos e
da Torre (23), para iniciar a colonização sergipana.,Este permane-
os padres da Companhia de Jesus. O motivo era a intransigência ceu nas cercanias do rio Real (Itanhy dos nativos), fundando uma
destes em proibirem a escravizaçáo do gentio, por eles segregados povoaçáo três léguas diatante do rio, para o interior, onde náo exis-
em aldeias ou missões sob sua tutela. tiam condiçôes para subsistir pela má localizaçáo, "por distan-1
A colonizaçáo sergipana vai ser tentada a partir de uma aliança ciar-se do litoral e dos lugares ricos de pau-brasil, pimenta e ou-.
entre o Estado português através de seus prepostos na colônia e os tros produÍos" (24). Ligado à pecuária, a Garcia D'Avila, certa-
latinfundiários, especialmente o mais importante deles Garcia mente, interessava expandí-la pelos sertóes sergipanos, sendo a
D'Avila o homem de mais posses na Colônia depois do - donatá-
-
rio de Pernambuco. Teria sido ele quem mais instigou Luís de
povoaçáo fundada o ponto de partida. Southey, o historiadoroinglês
que táo bem compreendeu a formaçáo colonial brasileira, diriu
Brito à conquista violenta de Sergipe, em detrimento da promissora
catequese que os inacianos já desenvolviam (18). Inicialmente, ha- "O local fora mal escolhido; nao havia navio de mais de
viam sido cordiais as relaçóes entre o senhor da Casa da Torre e sessenta toneladas, que pudesse ali entrar; e a terra, até
os padres da Companhia de Jesus. À medida, porém, que os cam- onde chegava a maré, que seriam seis ou sete léguas, para
pos de além do rio Real se tornaram importantes para a plena ex- pouco mais servia, senão pqra o gado" (25).
pansáo do gado, exigindo o desalojamento das populaçóes nativas, \5
surgiram os antagonismos entre eles. O Pe. Manuel da Nóbrega, Atendendo aos interesses da política colonial lusa (26), em no-
que antes elogiava Garcia D'Avila como "o homem que ele mais vembro do mesmo ano de 1575,/Luís de Brito transpôs o rio Real
se alegrava e consolava nesta terra" (19), passou a combatê-lo a "com grande aparato de guerra''',1embora os padres lhe avisassem
partir de 1559. que
Nessa luta pelo controle das populaçoes indígenas do território
sergipano, se anteciparant,,os jesuítas sob o pretexto de atenderem r- !» l(os índios estavam quietos e se aparelhavam para serem
ao apelo dos que ali residiàm. Em janeiro de 1575to Padre Gaspar cristãos, íonfiadost no amparo das igrejas que tinham e
Lourenço, "grande língua e entre eles muito afamado" (20), e o com isso ficava a costa segura para irem e virem por terra
irmáo Joáo Salônio passaram o rio Real, iniciando a catequese com da Bahia para Pêrnambuco,f poreue tlnham já feito. pazes
a fundaçáo da Missáo de Sáo Tomé, seis léguas distantes do rio com outras trinta aldeias do' Serigi; e que se fosse daquela
Real (onde póssivelmente se localiza a cidade de Santa Luzía). maneira haviam de fugir com medo, como aconteceu"
Uma pequena'lgreja de pindoba foi erguida e consagrada à Nossa (27).
Senhora da Esperança. Seguiram-se as Missóes de Santo Inácio,
l0 a 12 léguas para o noÍe. às margens do Vasa-Barris (rrovavel- Luís de Brito náo aprovou a fundaçáo do povoado que fizera Gar-
mente no local da cidade de ltaporanga), nas terras do cacique Su- cia D'Avila, fracassando essa primeira tentativa leiga de coloniza-
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çao qll--e-"nunca se ac'abou de povoar, senão de currais de gado", persegue-os. Surubi morre, e os mais entregam-se. Cativa
no.dizer de Frei Vicente de Salvador (28). Realmente, a Casa da todos e os encurrala na lgreja de Sao Tomé como em um
Torre, através da concessáo de sesmarias, tornar-se-ia proprietária cárcere. Os soldados assolam tudo quanto encontram e os
de grande extensáo do solo sergipano, por onde se estenderam os arrastam para a Bahia de modo que o resultado de tantqs
rebanhos dos seus prepostos. esperanças foi o cativeiro de mil e duzentos transportados
O Governador Luís de Brito, acompanhado de soldados e di- para a Bahia que Deus com a morte se serviu de líbertar
versos moradores da Bahia, "animados pelo desejo de Írazer gen- dentro de um ano do cativeiro. A varíola e o sarampo te-
Íio para o cativetro, uns por terrq, outros por mar em barco" (29), riam dizimado metade deles" (34).
alcançou o local das missões. Como previra o Padre Gaspar Lou- I

renço, os chefes indigenas, intimidados, foram, com seus lidera- I Luís de Brito retirou-se do território sergipano sem deixar, po-
dos, abandonando as Missões, pretexto que encontrou o Governa- rém, qualquer marco de colonizaçáo.',Logo os franceses retorna-
dor para iniciar violento ataque contra as aldeias, destruindo-as, e ram ao comércio do pau-brasil com os indios Tupinambás, que vol-
)
taram dos sertóes, e os kiriri, vindos das regiões interioranas
"com tanta fortuna os venceu, que presos dois capitães, para ocupar os espaços vazios resultantes da devastaçáo que havia
os maiores que tivera sua nação, mortos uns e outros cati- sido feita.
vos, fez retirar os mais para o ínterior daquele continente"
I (30). "Fluiram os kiriri, nômades das 'caatingas', gulosos de
carne humana, indomáveis, odiando o branco, como os I

Os silvícolas que náo foram mortos fugiram para os sertóes. Surubi seus parentes janduis, icós, tremembés, propensos à
morreu na luta, Aperipê escapou para o interior, náo sendo alcan- aliança Çom os franceses, sem perdoarem os tupis aldeia-
çado pelos invasores, apesar de Luís de Brito ter mandado perse- dos pelos missionários, acostumados ao "corso", que era
guí-lo "cincoenta léguas sem lhe poder dar alcance" (3t1. Quanto a sua forma veloz de guerrilha à volta dos povoados" (35).
ao destino de Serigi, divergem,.os historiadores; uns escreveram l
qué teria seguido preso para a Bahia, onde morreu em greve de A medida que o século XVI vai descambando, o progresso da
fome contra a escravidáo;j outros afirmam que se refugiou no inte- crllonizaçáo portuguesa exige o estabelecimento de comunicaçâo
rior, baseando-se no dizer de Anchieta que "os índios do Serigi fi- regular entre Salvador e Olinda, os dois mais importantes núcleos
caram de guerra até agora" (32), refenndo-se ao ano de 1584. Náo urbanos da colônia. Para a concretizaçáo, tornava-se imprescindi
estaria, porém, Anchieta falando da regiáo de Sergipe ou Serigi, I vcl a colonização do território sergipano "porque ninguém cami-
nome como, inicialmente, era conhecido Sergipe? Em realidade, nhava por lerra que nao o matassem e comesseni os gentios" (36).
tamanha foi a resistência dos nativos, morrendo na luta ou refugi- I
Também era necessário gqantir o livre acesso às barras dos prin-
ando-se nos sertões, que ficaram frustrados os que acompanharam cipais rios da regiáo, impedido pela constante presença dos barcos'
o GovernadoÍ "por não acharem o genlio que buscavam para o (
ll'anceses. Além do que, as excelentes pastagens ali existentes agu-
catiieiro e se servirem deles" (33). I çavam a cobiça de criadores da Bahia e de Pernambuco.
Realisticamente, a§sim foi descrita a atuaçáo de Luís de Brito Os portugueses conheciam, minuciosamente, o litoral de Ser-
em terras de Sergipe: gipe na década de 1580, como comprova a descrição detalhada que
(iirbriel Soares de Souza fez na Notícia do Brasil, onde destaca a
' "Arruinaram-se, totqlmente, os trabalhos do rio Real. O importância do rio Sergipe para o êxito da colonizaçáo:
Governador veio com tropas para bater <ts índbs de Ape-
' ripê, e ao aproximar-se da aldeía de Santo Iná<:kt fogem "Tem este rio duas léguas por ele acima é Íerrafraca, mas
seus habitanÍes. Ele considera a fuga uma quebra de paz, daí avante é muito boa para se poder povoar, onde convêm
22 23

)
muito que se faça uma povoação, assim para atalhar que em março de 1588, determinava "fazer guerra ao gentio da costa
nao enirem ali Franceses ' como por segurar aquela costa de sergipana, castigá-lo e lançá-lo fora da terra" (40). Essa atitude
gentio que vive por este rio acima, o qual todos o-s anos fa.z do governo metropolitano decorria do episódio acontecido em
muitos danos, assim nos barcos que entraY nele e no rio 1586, dois anos antes, no governo de Manuel Teles Barreto,
Real no inverno com tempo, como em homens que cometem
quando se deslocaram para a regiáo do rio Real, 150 soldados e 300
este caminho para Pernambuco fugin(o-à justiça' e nos
que l
índios domesticados com o apoio da Casa da Torre, que lhes for-
pelo mesmo rbspeito fogem de Pernambuco para Bahia; os necera mantimentos. Para ali haviam ido os jesuítas atendendo à
de maravilha escapam que os não matem e comam" (37)' solicitaçáo dos índios kiriri, liderados por Baepe6a, para desenvol-
ver a catequese. Instigados pelos franceses, que, na região, carre-
gavam pau-brasil, os indígenas atacaram os soldados entrincheira-
Chamou, também, a atençáo para o papel que o rio Real poderia I

dos, trucidando-os, "não deixaram quase nenhuma dessa gente,


desempenhar, enfatizando :
(lue era a mais estragada da terra" (41). Constituía o episódio a
extrapolaçáo da animosidade existente na Capital da Colônia entre
"Pelos sertões deste rio há muito pau-brasil, que com os colonos, ávidos do braço escravo, e o inaciano que o queria ar-
pouco trabalho todo pode vir ao mar, para se poder carre- rebanhar para as missóes. Um contemporâneo do fato assim o des-
gar para estes reinos! E para que esta costa esteja segura c re veu:
I do gentio, e os franceses desenganados, de que poderem
vir resgatar com ele entre a Bahia e Pernambuco' c<tnvém " Um gentio principal do Bando de Cerigi (Sergipe) que
ao serviço de Sua Magestade, que mande povoar e fortifi' dista da Bahia perto de 70 léguas, veio pedir aos jesuítas.
car este rio, o que se pode fazer com pouca despesa de sua para ensinar o caminho de Deus. Queriam agora porque
Fazenda do que já El-Rei D. Sebastião, que esÍá em gló' sempre guerrearam contra os portugueses e ficaram fora
ria, foi inÍormado" (38). da Igreja."
"Poderam, então, os iesuítas ajudar os índios que come-
Nos fins do século XVI, o Mercantilismo' que norteara a ex- Çaram a comerciar com nós confiantes, sabendo que nõo
pansáo ultramarina lusa, por força da rópria dinâmica do processo, há de correr perigtt sua liberdade e nem ocorrerao maus
pasiou a nova etapa de desenvolvimento. "O capital comercial Írato.s." (42)
instala'o sistema produtor, fornecendo o,s meicts necessarios, uten-
sílios e mao-de-obra, e continuq a operar na esfera da produção" Felisbelo Freire, baseando-se em Frei Vicente do Salvador
(39). Conseqüentemente, impunha-se a necessidade de lançar, em (43), fala de traiçáo dos índios de Sergipe nesse episódio do go-
bases sólidas, a colonizaçáo brasileira, estimulando a produçáo verno de Manuel Teles Barreto. Preferimos, porém, com funda-
agráia que necessitava de terras, braços para o trabalho e segu- mentô no jesuíta Padre Cristóváo de Gouveia, interpretar o suce-
.ànçu puru o pleno desenvolvimento. Combater a pirataria externa, dido como uma decorrência de terem os indígenas percebido que
ameaça constante desde os primórdios da colonizaçáo no litoral os colonos traziam intençáo de aprisioná-los. Este jesuíta acusou
brasilãiro.Uominar as tribos indígenas que resistiam à escravizaçào como responsáveis pela expediçáo o Governador, Garcia d'Avila e
dos conqulstadores assegurando-lhes máo-de-obra barlla, torna- os religiosos de Sáo Bento a quem foram prometidas terras em'
ram-se ob.l"tiro do Estado português. A dominaçáo obtida assegu- Sergipe (44), despertando a reaçáo dos nativos e o fracasso do tra-
raria, sobretudo, a posse das terras ocupadas pelos índios' balho de catequese dos inacianos, cujo êxito náo interessava aos
A ocupaçáo do território sergipano se apresentava indispensá- senhores de terra da Bahia. Pedro Calmon escreveu que, entáo, os
vel à nová eiapa do'mercantilismo luso. O Regimento que recebera kiriri, comandados por Baepeba, deram' "aos caçadores de escra-
Francisco Giraldes, ao ser nomeado Governador-Geral do Brasil vos tremenda liçao" /451:-
25
24

I
I \

Nos anos subseqüentes a 1586, intensificou-se a ação dos indi Cerca de 2.400 índios foram mortos, 4.000 feitos prisioneiroy4ris-
genas contra os colonizadores, insuflados pelos franceses, mais tóváo de Barros mandou perseguir os que haviam escapado Éara os
numerosos após a expulsão da Paraíba em 1575. Afirma Cristóváo sertóes, rumo norte, em direçáo ao Sáo Francisco. Expedições
de Gouveia que cerca de 500 brancos foram assassinados no terri- .continuaram a escravizar os naturais da terra através de traiçóes e
tório sergipano (46), o que comprovam as tentativas'dos coloniza- violências, buscando os chefes obterem vantagem na captura de
dores de ocuparem as terras de Sergipe para a expansáo dos reba- escravos.
nhos, e a reaçáo do índio lutando contra os invasores. O sacrifício de grandes contingentes indígenas marcou o triunfo
Em 1590, no reinado de Felipe II, coube a Cristóváo de Barros da conquista do território sergipano.
(47), um dos membros Ca Junta Provisória que governava o Brasil
após a morte de Manuel Teles Barreto em 1587, resolver o pro- "Alcançada a vitória e curados os feridos, armou Cristó-
blema da colonizaçáo do território sergipanoy'Tornava-se inadiável vao de Barros alguns cavaleiros como fazem na Áfiica,
o problema sob pressáo de vários fatores, como assegurar a comu- )r por provisão de El-Rei que para isso tinha, e fez repartiçao
nicação terrestre entre Bahia e Pernambuco, só possível subju- dos cativos e das terras, ficando-lhe de uma cousa e de ou-
gando os nativos; desalojar os franceses do litoral, eliminando o tra muito boa porção, com que fez ali uma fazenda de ga-
forte concorrente dos produtos extrativos coloniais nos mercados do, e outros a seu exemplo.fizeram o mesmo, com que veio
europeus; proteger a colonizaçáo clas margens dos rios Itapicuru e. a crescer tanto pela bondade dos pastos que Sali se pro-
I Real dos freqüentes ataques dos índios sergipanos; obter máo-de- vêm de bois os engenhos da Bahia e de Pernambuco e ôs
açougues de carne",
i
obra barata que, com ajustificativa de guerrajusta, poderia ser ob-
tida, atendendo, assim, à exigência de braços solicitada pelo cres-
cimento dos engenhos do Recôncavo baiano, numa época em que descreveu o sucedido, cerca de três décadas depois, Frei Vicente
o escravo africano estava altamente valorizado ante a concorrência do Salvador (51).
das minas da América Espanhola; (48) e, finalmente, a possibili- Visando consolidar a vitória, Cristóváo de Barros fundou a,
dade de ocupar excelentes pastagens para atender à expansáo dos cidade-forte de Sáo Cristóváo perto da foz do rio Sergipe, no ístmo
formado pelo rio Poxim, atualmente região do município de Ara-
'rebanhosf
Acompanharam Cristóváo de Barros na expediçáo.pessoas re- çaju (52). Lançou os fundamentos da vida administrativa de Sergi-
presentativas da vida da Bahia de entáo, como, alóm do Alcaide- pe, designando o Capitáo-mor Tomé da Rocha preposto do gover-
mor Duarte Muniz Barreto, Diogo Lopes Ulhoa, Belchior Dias no-geral do Brasil com poderes de prover os cargos dos ofÍcios de
Moréia, Joáo de Avila e Bernardo de Andrade. justiça e fazenda, tendo, ainda, alçada no crime e no cível. Cons-
"A base da expediçao e abrígo a casa da Tor- truiu um presídio, justificado como necessário à ordem, criou uma
re" (49). -porto -foi
Com expressivo aparato bélico, inclusive peças de arti- força policial que contava com um armazém bélico, duas peças de
lharia, a integravam soldados em número de 3.000, entre brancos, artilharia, entregue o comando ao Capitáo Rodrigo Martins para
mamelucos e índios frecheiros tapuias, sendo 400 fornecidos pelas garantir a segurança da nova Capitania. Passou a cidade a ser Fre- S,
aldeias dos jesuítas da Bahia, e muitos colonos da Bahia e de Per- guesia de Nossa Senhora da Vitória pertencente ao Bispado da
nambuco, estimulados pela promessa de escravízar o gentio, pois ,Bahia, sendo designado o Pe. Antônio Murtinho para vigário, o
"sendo guerra tao jutta, dàdq com licença de El-Rei, esperavam qual tornar-se--ia, grande proprietário rural.isergipe del Rei, assim
trazer muitos esciavos" (50)/Apesar do heroismo, os indígenas en-' se denominou a nova Capitania, por ter a conquista resultado de
trincheirados na várzea do Vasa-Barris, em número aproximado de iniciativa real, e, também, para diferenciá-la de Sergipe do Conde,
20.000, sob o comando de Baepeba, o últirno dos seus caciques, fo- localidade do Recôncavo da Bahia desenvolvida em torno do enge-
ram vencidos no alvorecer do ano de 1590. A cavalaria, arma que nho fundado por Mem de Sá, que, por sua morte, passou a perten-
os nativos desconheciam, facilitou a vitÇria dos conquistadores. ccr ao genro, o Conde de Linhares.
26 27
I
O rei Felipe II
fez, por merecimento, doaçáo a Cristóváo de çendqs" , " sendc a pior eleiçao, por quanto no Vasa-Barris que tem
pior barra" (56).
Barros das terras por ele conquistadas, com a condiçáo de as re-
Com a denominaçáo de Sergipe del Rei, também Sáo Cristóváo
partir pelos colonos que bem melhor lhe parecessem, e de ali fun-
seria conhecida no século XVII. Os cronistas e os documentos his-
dar povoações num'prazo fixado por El-Rei. Dentro dessa atribui- tóricos. que a mencionam, ora usam uma denominaçáo, ora outra.
gáo, o conquistador concedeu ao seu filho, Antônio Cardoso de (s7)
Barros, a primeira sesmaria que possuia l0 léguas de extensáo na Dando-lhe embasamento, desenvolvia-se a cultura de manti-
costa, indo do rio Sergipe ao Sáo Francisco. mentoso necessária para abastecer os habitantes de Sáo Cristóváo,
a Capital. (58)
"A conquista de Sergipe, simuhânea a da Paraíba, re' A pecuária tornou-se, inicialmente, a mais importante atividade
presentam o triunfo da política de aproveitamento do solo
"
dos colónos, que, através áadoação de sesmarias, foram ocupando
exigida pelos senhores de engenho para abrir novos cam- a terra no sentido sul-norte, a partir das margens dos rios Real e
pos à sua atividade" (53). Piauí. O grande número de pedidos de sesmaria c.omprova o inte-
resse pela regiáo, ante as vantagens que as terras ofereciam às ati-
vidades agícolas. "Antes do segipano ser lavrador, foi pastor",
Seu desfecho significou o triunfo dos grandes latifundiários baia-
afirmou Felisbelo Freire (59). Nos começos do século XVII já os
nos, especialmente ligados à atividade pastoril, que ocuparam suas
pastagens com os rebanhos.
rebanhos alcançavam as margens do Sáo Francisco, destacando-se
na expansão a Casa da Torre, que com seus rendeiros e sesmeiros
I
Estabeleceram-se, regulares, as comunicaçóes entre Bahia e Per-
teve grande importância na ocupaçáo do território sergipano. No
nambuco. As viagens se tornaram freqüentes pela costa. " N a fah a de
século XVII, continuou a doaçáo de sesmarias,'mais extensas, pe-
pontes ou canoas aproveitararn-se os vaus. Às vezes bastava esperar
los antiplanos interioranos.
pela maré."(54)
Consolidade a conquista, após oito meses de árduas lutas, Cris-
"Requerer sesmarias, para a gente de Tatuapara, que
tóváo de Barros retornou a Salvador, deixando à frente do governo
as escolheu a dedo, galgando as cumeadas e as serras de
de Cerezipe ou Cerezipe Novo, Tomé da Rocha, que no cargo
onde as perspectivas têm serenidade oceônicas, era expe-
permaneceria até.1594 quando o substituiu Diogo. Quadros. Este
diente a que se acostumara. Davam-lhas, com afacilidade
governou até 1600, e, normalmente, foi evoluindo a vida político-
com'que as pedia. O gado foi, assim, ocupando qs pasta-
administrativa sergipana, contando com o Ouvidor e o Provedor-
gens dos altiplanos, fazendo recuarem os indígenas porque
mor, responsáveis pela justiça e fazenda, além de funcionários do
o vaqueiro precisava do campo, da cacimba, da largueza,
segundo escaláo como almoxarifes e escriváes. Instalou-se a Câ-
da umidade. O rebanho crescia, caminhando" (60).
mara Municipal.
A estrutura político-administrativa da Capitania de Sergipe del
A cultura canavieira chegou depois, a partir de 1602, segundo as
Rei se processou segundo as deterininaçóes das Ordenaçóes Fili- -pelas
concessões de sesmarias, desenvolvendo-se, iniciahénte,
pinas em vigor. .
terras férteis da Cotinguiba, denominaçáo que tomou a regiáo ba-
Alegando motivo de segurança (55), os moradores da cidade de
nhada pelo baixo curso do rio Sergipe e seu afluente o Cotinguiba.
Sáo Cristóváo a transferiram para uma elevaçáo situada entre a
Papel importante tiveram os rios Real, Piauí, Vasa-Bârris, Ser-
barra do rio Poxim e o litoral, fato que teria sucedido entre 1594 e gipe Cotinguiba, Japaratuba, Sáo Francisco.
1595. Outra transferência ainda ocorreria em 1607 para o local on-
de, hoje, se encontra a cidade, quatro léguas a dentro da enseada "Pela funçao econômica que desempenharam desde a
do Vasa-Barris, na confluência qtue faz com o Paramopama. Essa
formaçao e povoamento do nosso território se distinguem,
localizaçáo pernlitia aos habitantes ficarern "mais perto de suas fal
2?
28
I
muito nitidamente, em dois grupos: um representado pelos Íos e canaviais e os escravos que possuíam; grande número deles
rios limites, ao norte e ao sul, o Sao Francisco e o Real, dizia ter vindo com Cristóvão de Barros " ganhar a terra ao gentio
em cqjas margens se desenvolveu urna atividade tipica- e ao fraiciês".
mente pastorial, enquanto os demais, que banham em
Muitos dos que receberam as sesmarias náo fizeram, porém,
maior intimidade as nos.§úts terras, são, com melhor pro- qualquer tentativa de ocupá-las. Em sua maioria, eram eles com-
priedade, os fundadores de nossa vida sedentária, sem a
panheiros de Cristóváo de Barros que as haviam recebido como
qual jamais se completa, em qualquer região da terra, o
compensaçáo por terem participado da vitoriosa expediçáo de
verdadeiro povoamento e o processus da ocupaçao do so-
1590, e que náo mais retornaram a Sergipe. Oitenta por cento des-
lo, em toda sua plenitude" (61).
.sas doaçóes estavam situadas na área mais ientável da Capitania,
aquela situada entre os rios Vasa-Barris e Sergipe, tendo, no má-
A colonizaçáo sergipana em seus primórdios foi, essencialmen- ximo, uma légua de extensáo. Dentro do pragmatismo que norteou
te, uma empresa militar. E assim continuou para sobreviver desde a política colonial portuguesa, impunha-se a imediata colonizaçáo
quando os povoadores deveriam enfrentar lutas constantes contra
das terras conquistadas,.daí, logo a partir de 1596, começou a re-
o pirata francês na regiáo litorânea, contra os índios e os negros distribuiçáo das áreas que náo haviam sido ocupadas., e que diziam
aquilombados no interior. Para que a colonizaçío lusa triunfasse, "respeito às doações realizadas nos primeiros anos da ocupaçõo".
sucedeu em Sergipe o mesmo que ocorrera em toda a colônia,
como viu Oliveira Viana: A doação de sesmaria originou a propriedade rural brasileira, e,
no caso, a sergipana. Instituiçáo ibérica, surgiu quando da reto-
" Durante o período colonial a conquista da terra apre- mada das terras aos mouros pelos cristáos, sendo regulamentadas
senta'por isso, um caráter essencialmente 'guerreiro. Cada as doações por Carta Régia de D. Fernando de 28.05.1375., A me-
latifúndio desbravado, cada sesmaria povoada, cad,a cur' trópole seÍnpre teve preocúpaçáo de impedir a formaçáo db gan-
ral erguido, cada engenho 'fabricado' tem como preôry- des propriedades para evitar o aparecimento de grande potentados,
bulo uma árdua empresa militar. Não se pode tratar de limitando a extensáo da terra a ser doada. Mas sempre foi encon-
fábrica ali - diz um cronista do II,século, Frei Leonardo trado um meio de a lei ser burlada e as grandes propriedades rurais
na outra" se afirmaram na colônia. Na Capitania de Sergipe del Rei, desde o
Oros
(62).
- senão com a foice nesta mão e a espada primeiro momento elas se constituiram através das diversas doa-
çÕes a um só proprietário como Gaspar do Amorim, Melchior Ma-
O desenvolvimento da colonizaçáo da Capitania de Serg'pe se ciel, Simão Apdrade, Pe. Bento Ferraz, Pe. Gaspar Fernandes,
processou dentro da política mercantilista iberica dominante, visan- cntre outros..
do a levar grandes rendimento.s ao Tesouro Real. Buscava-se de- Dois decênios após a vitória de Cristóváo de Barrôs sobre o
senvolver a agricultura que resultasse em produtos solicitados pela gentio, já se apresentava promissora a vida na Capitania, como a
economia eüropéia em plena expansáo, trazendo bons lucros. retratou o autor do Livro que dá Razao ao Estado do Braiil em
Desse modo, a doaçáo. de sesmarias destinava-se a pessoa§ que t6t2;
dispusessem de condiçóes financeiras para o empreendimento, daí
a exigência da enumeraçáo dos bens ào solicitante, bem como das
atividades que ali pretendia desenvolver. "Esta Capitania é muito proveitosa aos engenhos e fa-
Grande foi a corrida inicial de colonos pela posse da tena ser-
I

zendas de Pernambuco e Bahia para os quais vai muito


gipana. Entre os anos 1596 e 1607, Felisbelo Freire registrou a gado, assim para comer, como para serviço; criam-se nes-
doaçáo de 205 sesmarias. Os solicitantes alegavam a necessidade tes pastos muitos bois, éguas, e bons cavalos, que do Bra-
de pastos para os rebanhos, de terras para o nlantio rlç mantimen- sil são os melhores.
30 3l

/ /
Tem esta Capitania mais de duzentos moradores bran- plantando mandioca, milho, arroz, feijáo, legumes, criando aves,
cos separados uns dos outros, a respeito das criaçõei para cuidando do rebanho, os colonos que chegavam acompanhados da
as quais sao tao cobiçosos de terra, que'há morador que família, conforme dizem os pedidos de sesmaria, foram sedimen-
tem 30 léguas de sesmaria em diferentes partes". tando a sociedade sergipana.

Formavam-se os grandes proprietários rurais que iriam comandar a


vida s.ergipana nos anos posteriores.
Nela havia, na época, " uma povoaçao de casas de taipa a qual
chamam Sao Cristóvao".
Comentando as sucessivas mudanças de localizaçáo que havia
sofrido a Capital, com o despovoamento dos núcleos anteriores' NOTAS
"porque cada um dos moradores logo trata de levar a cidade à
porta do seu curual", o cronista dos começos do século XVII 0I Américo Vespúcio, piloto florentino, conhecedor da Geografia, Cosmografia
e
percebeu um problema que passaria a ser constante na vida polí- Astronomia da época, serviu aos reis de castera integrando a tripulação
de ex-
pediçoes à América. A paÍir de 1501, passou a prestar serviçôs
iico-administrativa sergipana: a influência dos senhores de terra ao rei de por-
tugal, iniciados com a l.â expedição exploradoia daquere ano. Tornou-se
agindo segundo seus interesses fessoais. Como sucedia em outras fa-

t regioes do Brasil-Colonia, também aí dominava a ausência de no-


ção de coisa pública por parte da classe economicamente dominan-
moso pelas cartas em que divulgava as novas terras. Embora hoje se
iruloria, elas, especialmente a mais conhecida, Mundus Novus
riam responsáveis pelo nome América dado pero cosmógrafo alemáo
discuü ü
1504
- se-
-de waldsmül-
te, marcando as decisões político-administrativas tomadas' lcl ao continente, ao publicar a Cosmograpiie introducric.
lll V.ri.ção do nome cotinguiba, o mais impoÍante afluente do rio Sergipe. co-
As conseqüências dessa estrutura sócio-econômica, fincada nos tinguiba chama-se até hoje a região banhada pelos rios sergipe e seu-principal
primordios da colonizaçáo sergipana, entender-se-iám até os dias llhrcnle.
atuais. l)l Mcrrtfcs de Almeida, cândido. Notas para a História pátria os primeiros
O desenrolar da vida social da Capitania de Sergipe del Rei nas lr.n,t).,doft,s. Quem era o -
Bacharel de Cananéia. RIHGB, vol. XL, tomo
primeiras décadas de sua formaçáo, Luis Mott, realisticamente, a I lX,
lll77, p. ltt9.
ldcnr, p. 194.
2,

descreveu: lli (;ll:rlt\llr la. planta medicinal, era conhecida


no Oriente sendo dos produ-
Itt. tkt comerclo da epoca dos grandes descobrimentos.
"As primeiras confissões na mesa do Santo Oficio lXr Àlc rrr k. s tle Alme ida, Cândido. Obra citada p.
87
permitem-nos reconstituir senão um quadro, ao menos um il ( i:r hriel Soares Notícias do
Brasil Edição patrocinada pelo Depar-
esboço do panorama social e religioso de Sergipe nos pri-
I rllllr'lI l(t dc Assuntos Culturais do M. E. C. 1974, p. 23.
'.r l,rlrrl,r lr.r lt, do dito mes (março) tomei o sol em onze graus e melo fa-
meiros anos de sua existência enquanto sociedade luso- rlt' Ir lt;t mede terra dez léguas Para o caminho do sudoeste com
o
brasileira. Aí viviam soldados violentos que deixavam na '.I r'.,1 (' Flm SE pondo o sol demos numa aguagem
do no Sáo Frpncisco
Bahia suas mtulheres, algumas delas felizes por livrarem'se lrl/l,llll nrrrito escarceu
tlr íl r'\ r lr' muÍço ao melo dia tomei o
das pancadas e má vida que lhe davam seus senhores es' r I
sol em d,oze graus e dois terços; e
tl soI horr ve vista de terra, que me demorava
posos; ali estavàlm acantonados soldados que zombavam ao oeste: -faziam-me de-
li de noite por nos afastar de terra, fizemos o caminho ao sul
'da veracidade das Escrituras Sagradas, que desrespeita- r lrr ltrrlot'r te até o quarto d 'alva que tomamos à fazer caminho do su-
vam os mandamentos da Igreia com'endo carne nos dias lrtrilrrl rlc navegação de Pero Lopes de Souza. In Cadernos de
Histó-
proibidos". r lrr r11 rlos p()r Brasil Bandecchi Editora Parma Ltda., Sáo Paulo.

prcmiados, foi um Francisco Pereira Coutinho que tendo


Mas, enquanto dominava esse facetamento especialmente na lltíl rlc merecimento e cabedais no ano de 525 o Sr Rei Dom
Cidade de Sáo Cristóváo, nas roça.e, naslavouras de mantimentos, l,rzcrttkr o senhor Donatário do terreno que coÍTe pela Costa

32 33
fr

l
da Barra do rio sáo Francisco até a ponta do Padrão hoje santo Antônio da Garcia d'Ávila tem toda sua fazenda em criaçôes de vacas e éguas, e teró al-
Barra de Bahia, o qual logo que foi conferida aquela mercê de capitania, apre- guns dez currais por. esta adiante." Gabriel soares de souza. obra citada,
sentoir uma frota, em, acompanhado de muita gente para habitar e defender, p.25.
tanto nobre, como plebeu, e conquistou, sujeitando o gentio Tupinambá que en- 24. SALVADOR, Frei Viçente do. Obra citada, p.214.
táo a possuiam." vILHENA, Luís dos Santos. Recompilação de Notícias so' 25. SOUTHEY, Roberro. História do Brasil, Vol. I, Ed. Melhoramentos, 1977,
teropolitanus e Brasílicas. Ano 1808, vol. I, Bahia, Imprensa Oficial, 1921, p' p.228.
28t29.
r 26. "E mandou mui afincadamente a Luís de Brito, que n'este tempo governava
10. No local hoje se encontra o Farol da Barra em Salvador' este Estado, que ordenasse com muita brevidade como se povoasse este rio, no
11. Item ll do Regimento recebido por Tomé de Souza em 17 de dezembro de que ele meteu todo o cabedal, mandando a isso Garcia d'Ávila, que é um dos
1548. Memórias Históricas e Políticas da Bahia.l. Accioli Amaral: vol'
- B.
principais moradores da Bahia, com muitos homens das ilhas e dà terra, para
I, Bahia, 1919, p.266. que assentassem uma povoação onde parecesse melhor; o que fez pelo rio
12. PORTO SEGURO, Visconde de. História Geral do BrastT, tomo I, Companhia acima três léguas, onde o mesmo governador foi em pessoa com a força da
Editora Nacional, Sáo Paulo, 3.4 edição' p. 457. gente que havia na Bahia, quando foi dar guerra ao gentio daquela parte, o qual
13. ANCHIETA, Joseph de. Primeiros Aldeamentos na Baía. coleçáo Brasileira passou por esta nova povoação de cujo sítio ele e toda a companhia se descon-
de Divulgação, série IV n.o l, S.D. do M.E.C.' p' l3' tentaram: e com raáo porque estava longe do mar, para se valerern da fortuna
- História -
14. LEITE. Serafim. História da companhia de Jesus no Brasil. vol. I, Livraria dele; e longe da terra boa, que lhe pudesse responder com as novidades costu-
Portugália, Civilização Brasileira, Lisboa, Rio de Janeiro' 1938' p. 449' madas". Gabriel Soares de Souza. Obra citada, p. 23.
15. ALMEIDA, Pe. Aurélio vasconcelos de. vida do Primeiro Apóstolo de sergi- 27. capítulos que Gabriel soares de souza deu em Madrid ao sr. cristóváo de
pe; Padre Gaspar Lourenço. RIHGS..N.o 21, p. 169' Moura contra os Padres da Companhia de Jesus que residem no Brasil, com
16. Anchieta, contemporâneo dos fatos, dá o seguinte depoimento das conseqüên- umas breves respostas dos mesmos padres que deles foram avisados por um pa-
cias advindas: "Vendo os Índios os insultos e agravos que os Portugueses lhes rente a que os ele mostrou. o texto inserido trata-se da resposta dos jesuítas. i

faziam em os calivar, assim os das igrejas mais principais que tínhamos, e to- Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro,l940, vol. LXII, p. 376t3i7
dos o mais gentio que estava por esta lerrL, e pelas falsidades que os Porlu- 28. Salvador, Frei Vicente do. Obra citada, p.274.
guese; por si e por seus escravos lhes diziam da guerra que lhes havia de dar, e 29. I. Accioli e Brás do Amaral. Obra citada, vol. l, p.274.
eles viam pelo olho como eram salteados, se levantou parte do,gentio do Para- 30. Pitta, sebastião da Rocha. História da América poríuguesa, Editora da uni-
guassu e Cirigipe, indo-se para os sertoes." ANCHIETA, Joseph de' Obro ci' versidade de Sáo Paulo. Livraria Itatiaia Editora, Belo Horizonte, 1976, p.92.
tada, p. l3l14. 31. salvador, Frei vicente. obra citada, p. 214. Frei vicente do salvadorescreveu
17. SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil.5.a ediçáo. Melhoramentos, que Luís de Brito perseguiu Aperipê 50 léguas pelo sertáo até onde se encon-
1965, p. 207. travam duas lagoas, uma de água doce e outra de água salgada. Felisbelo aÍirma
18. PRADO. J. F. de Almeida. A Bahfu e as Capitanias do Centro' Tomo ll' que tais lagoas não poderiam encontrar-se em território sergipano, o que é con_
Sáo Paulo, p' 143' firmado por estudos posteriores.
Companhia Editora Nacional
19. Idem.
- Brasiliana, vo\.247, 32. Anchieta, Joseph de. Obra citada, p. 46.
20. O que significava grande conhecedor da língua indígena. 33. Leal, Antônio Henrique. Apontamentos para a História da Companhia de Je-
21. Náo encontramos nas fontes consultadas referência à localização do domínio de .ra.ç. RIHGB, 1874, p. 150.
Aperipê. Acreditamos, porém, ser aquela que conflitava com a expansáo baiana 14. sacchino, Francesco. História societatis Jesú. In Antônio Henriquê Leal,
nas margens do rio Real, partindo, assim, desse rio para o interior até se apro- Apontomentos para a História da Companhia de Jesus. Obra cttada, p. 15.
ximar do baixo curso do Vasa-Barris. Há nos documentos da época referência 3.5. Calmon, Pedro. O Segredo das Minas de prata. Tese apresentada à Congrega-
a esse cacique e às tentativas de eliminá-lo pelo perigo que representava aos ção do Colégio Pedro Il. Rio de Janeiro, 1950, p. 20.
que tentavam çscravizar os índios da região do rio Real. 36. Saf vador, Frei Vicente do. Obra citada, p. 502.
22. "lttso começou o Padre a ensinar-lhe a doutrina pela manhã, à tarde e à noi- J7. Souza, Gabriel Soares de. Obra citada,p.22.
te." Cartü do Pudre Inácio fu Tolosa, Provincial do Brasil, ao Padre Geral da Itt. ldem. p. 23.
16l a 167.
- Cód. 41.532' fls.
Companhia de Jesus." BNL 39' sodré, Nelson werneck. Formação Histórica do Brasil. Editora Brasiliense.
23. Garcia d'Ávila; fundador da Casa da Torre localizada em Tatuapara no Recôn- p. 84.
1962,
cavo da Bahia, veio para o Brasil com Tomé de Souza,'de quem recebeu a do- 40' ltcml6 do Regimento que foi dado a Francisco Giraldes, nomeado Governador
açáo das primeiras sesmarias. Referindb-se a Tatuâpara, escreveu Gabriel So- Geral do Brasil em março de 1588, mas que, devido às dificuldades surgidas na
aies de Sõuza: "Aqui tem Garcia d'Ávila, que é um dos principais e mais ricos viagem para o Brasil obrigando-o a regressar a Lisboa, pediu demissâo do ."r-
moradores do salva&r, uma povoação com grandes edificios de casas de sua go. Assim recomendava: "Porque sou informado que estõo entre a Capitania
vivenda, e uma igreju de Nosa Senhora da Conceição, muito ornada, toda de da Buhia e a de sergipe ao longo da costa haveró mais de três mil índioi qu" ,"
abóbada, em a qual tem um capelão que lhe minista os sacramentos. Este lcm teito fortes e fazem muitos insulÍos e danos nas fazendas de meus vaisalos

34 35

-7
I

duquelus partct racolhtttdo u si todos os negros de guiné que andam alevanta- Maria do Jaboatá. Novo Orbe Seráfico Brasílico ou Crônicas dos Frades Meno-
dos ç impedem ptxler-se <'uminhar por lerra de umas capitanias a outras vos rês da Província do Brasil. In RIGHS, Ano II 1914, p.51.
cn<ttmcn<l<t quc podendo dessarraigar daquele lugar este gehtio e dor-lhe o cas- -
56. Livro que àô Razão do Estado do Brasil, citado, p. 50.
lillo qu€ mcrc<'e pekts portugueses e mois gente que mataram praticando-o 57. Duarte de Albuquerque Coelho, que esteve em Sergipe com as tropas de Bag-
primeiro como o hispo e pessoas que vos parecer que entenderão e vos poderao nuolo ern ló37, nas Memórias Diárias da Guerra do Brasil usa a duplicidade
em aconselhur sobre a maneira que se deve ter para com menor risco e mais a dos nomes: "A 3l (de março) chegou Bagnuolo à cidade de Sergipe El-Rei, a
vosso sulvo poderdes castigar e lançar de terra este gentio." RIHGB, n.o 6,' 25 léguas do rio de São Francisco. Esta povoação, com o nome de São Cristó-.
parre l, 19O6, p.224. vão, dista do mar cinco léguas." Duarte de Albuquerque Coelto. Memôrias
41. Caía do Pe. Visitador de 19.05.1586. In Serafim Leite. História da Componhia Diárias da Guerra do Brasil. Fundação Cultural Cidade do Recife, 1981. p.
de Jesus no Brasil, tomo II, p. 166. 3191320.
42. Compêndio de algumas cartas que este ano de 87 vieram dos Padres da Compa- 58. Ao solicitar doação de sesmaria, que lhe foi concedida em 1602, Cristóváo Dias
nhia de Jesus. Coligidas pelo Pe. Amado Rebelo da mesma Companhia. Lis-
' alega " ser o pimeiro povoador desta Capitania, é o primeiro que nela fez man-
boa, 1718. timentos e sustentar os soldados deste presídto de sua roça." Felisbelo Freire.
43. Freire, Felisbelo. História de Sergipe,2.a edição. Editora Vozes em convênio Obra citada, p.398.
com o Governo do Estado de Sergipe, 1977, p.18. 59. FREIRE, Felisbelo. Obra citada, p. 176.
44. Em 3 de agosto de 1603 era concedida sesmaria aos Padres de Sáo Bento de 60. CALMON, Pedro. A Casa da Torre. 3.a ed., Fundação Cultural do Estado da
"três léguas em quadro no rio de Cotindiba da banda do noroeste" . Felisbelo Bahia, 1983, p.57.
Freire. Obra citada, p. 2731274. 61. BEZERRA, Felte. Etnias Sergipanas. Governo do Estado de Sergipe, 1984,
45. Calmon, Pedro. Obra citada, p. 20121. p. 51.
46. Leite. Serafim. Obra cirada. vol. ll, p. 163. 62. VIANA, Oliveira. Evolução do povo brasileiro.3.a ed., Sáo Paulo, I938, p. 96.
63. FREIRE, Felisbelo. Obra citada. Anexos.
47. Cristóvâo de Barros era filho de Antônio Cardoso de Barros que veio com
64. SALOMÃO, Lilian da Fonseca. As Sesmarias de Sergipe d'El Rei. Universi-
Tomé de Souza para ocupar o cargo de Provedor-mór, e que, quando retornava
dade Federal do Rio de Janeiro, 1981. Dissertação de Mestrado, p.77.
para Portugual em companhia do bispo D. Pedro Fernandes Sardinha, o navio
65. Livro que dá Razao do Estado do Brasil, citado, p. 256.
naufragou nas costas de Alagoas, sendo devorado pelos índios Caetés.
66. Idem.
48. Nas duas últimas décadas do século XVI, diversas vezes as autoridides espa- 67. MOTT, Luís Roberto de Barros. A Inquisição em Sergipe. Trabalho premiado
.nholas
do Peru'oficiaram ao Rei sobre a necessidade de importar negros do no concurso SERGIPE: Ivtemória e Momento, p. 3.
Brasil ante a demanda de máo-de-obra exigida pelas minas em plena expansão.
In: Melo Neto, Joáo Cabral de. O Arqúivo das Índias e o Brasil . Ministério das
Relaçóes Exteriores. Diyisáo de Documemtação, 1966, p. 175.
49. CALMON, Pedro. História da Ca;a da Torre,3.a ed., Fundaçáo Cultural do.
Estado da Bahia, 1983, p. 31.
50. LEITE, Serafim. Obra citada,II volume, p. 448.
51. SALVADOR, Frei Vicente do. Obra citada, p.336.
52. "Para guarda da Barra, e como feito se houvera outros cômodos aquelê (como
se vê) é sítio melhor para a passagem dos que caminham a Pernambuco, e dos
que vêm de mar em fora." Sgto.-mor Diogo Campos Moreno. Livro que dá Ra-
zao do Estado do Brasil no governo do Norte somente assim como o teve Dom
Diogo de Menezes e Sá até o uno de Ió12. Instituto Nacinal do Livro. Ministé-
rio de Educação e Cultura, Rio de Janeiro, 1968, p. 50.
53. PRADO, J. F. Almeida. Obia citada, p. 219.
54. ABREU, Capistrano de. Ensaios e Estudos. Edição da Sociedade Capistrano
de Abreu. 1932, p.275.
55. "Diz ojuiz, Vereador e procurador do Conselho nesta Capitania de Sergipe del
Rei. que o Desembargador Gáspar de Figueiredo Homem veio a esta Capitania
há sete ou oito anos, e a requerimenlo do'povo, assentou com os moradores, e
Capitáo, de mudar a Cidade, que se tal tempo estava no Aracaju, e que sê si-
tuasse neste outeiro, onde logo se passou a Igreja e o Forte, baseado em peti-
ção feita em 1603 ao governo da Capilania", afirmou Frei Antônio de Santa
36 3i:7
Y

TEXTOS

"Estava o gentio de Cirigí todo quieto com a paz que o


Padre tinha dado, e com a igreia que lhe tinha feito: to-
mou o Demônio para instrumento do que pretendia a um
mameluco, o qual se foi a'algumas das ditas aldeias, di-
zendo-lhes que olhassem o que faziam, que o Padre os en-
ganava, que não cressem o que lhes o Padre dizia, que os
ajuntava para serem escravos, e que já no mqr tinha al'
guma gente junta para oi irem amorrar. Isto dizia o mame-
luco pelos Portugueses que estavam na barra do Rio, que
foram com o Padre, e como esta gente facilmente crê o
que lhe dizem, principalmente se é coisa de medo, e eles
sabiam bem como os Portugueses tinham tratado a todos
os vizinhos, e viam, que no mar estavam os Portugueses,
como lhes o mameluco dizia, levantaram'se todos, e parte
dgs da igreja de S. Paulo, ficando alguns para verem o fim
da coisa, e foi quererem os Portugueses ir dar guerra a um
principal, que estava no sertão, que chamavam Apiripê, e
segundo se entendeu depois, mais foi esta guerra com de-
sejo de resolver os que eslavam de paz, para q'ue mais fa-
cilmente houvessem escravos, que por outro respeito."

il
Relato do Pe. José de Anchieta sobre a-expediçáo de Luís de
Brito a Sergipe em 1575. Primeiros Aldeamentos na Bahia. Cole-
çáo Brasileira de Divulgação, Série IV - História
dc M.E.S., 1946, p. 42. - n.o l, S.D.
" A primeira aldeia onde entrou foi a de Surubi que está
l2 léguas de S. Tomé, por mui rui caminho: foram mui re-
39
cebidos e apresentados em a casa de Surubi e os padres Deste rio de cotigipe ao rio do pereira a que outros chamam de
estiveram um grande espaço em pé diante dele, que estava canafistula, sáo quatro léguas. Do qual até Sergipe faz a terra outra
'deitado em sua rede sem falar-lhes uma só palavra. enseada, a que chamam Vasa-Barris, de que já falamos, a que mui-
E até que depois mandou os dessem alguma coisa para tos chamam do nome da enseada. Do rio do pereira a duas léguas
comer e foram quatro espigas de milho; porece que aguqr- está a ponta do rio Real, donde se corre a costa até Seregipe,iror_
dava que o padre começqsse a prática, e os ajuntasse a nordeste su-sudoeste.
todos que lhes desse razão de sua vinda, a que fez o padre; Gabriel Soares de Souza. Notícia do Brasil. Ediçáo patro_
depois, começou pela manhã a pregar-lhes as causas de cinada pelo Departamento de Assuntos Culiurais do
sua salvação; e como vínha a dar remédio às suas almas e M.E.C., Sáo pauto. MCMXXIV . p. 22123.
acabou depois do meio dia. Ftcaram contentes e todos a
uma vez, disseram que folgavam muito com sua vinda e
que queriam igreja. E assim logo ao outro dia começaram
a cortar madeira para ela, e os mais honrados eram os
primeiros a carregá-la, a trazê-la às costas eté o mesmo
Surubi, e assim em breve tempo a acabaram, porque a co-
bertura era de palha que há muito por aquelas partes e é
da invocação do glorioso Sto. Ignácio."

Trecho da carta do Padre Inácio de Toloza ao Geral da Com-


panhia de Jesus referente à atuaçáo do Pe. Gaspar I ourenço em
Sergipe em 1575. O Pe. Inácio de Toloza era Provincial do Brasil
na época do ocorrido. B.N.L., Cód. 41.532, f7. 164.

EM QUE SE DECLARA A COSTA DO RIO SERGIPE ATÉ O


RIO REAL

Deste rio de Sergipe, de que acima dissemos, a quatro


léguas está outro rio, que se diz de Cotigipe (Cotinguiba,
atualmente) cuja boca é de meia légua; em meio da qual
tem uma ilha, em que tem umas muitas moitas verdes, a
qual ilha faz duas barras a este rio; pela do sul podem en-
trat navios de oitenta tonéis, porque do mais debaixo tem
de fundo duas braças de baixa-mar, e mais para dentro
tem cinco braças; pela barra do norte entram caravelões
da costa. Tern este rio à boca da barra uns bancos de
areia que botqm meia légua ao mar. Por este rio se navega
trê§ léguas, que tqntas enlra a maré por ele acima, o qual
é muito farto de peixe e marísco, cuja terra é sofrível para
poder povoar, e no serlão dela tem muitas matas de pau-
brasil.
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III _OS HOLANDESES NA CAPITANIA DE
SERGIPE DEL REI

As inva-soes holandesas no'Brasil resultaram da uniáq de .p-ortu-


gal à Espanha de Felipe II, em 1580. O fato foi decorrência da
morte de D. Sebastiáo, dois anos antes, sem deixar herdeiro da co-
roa portuguesa. Vários pretendentes surgiram à sua posse, ven-
cendo a disputa, com o apoio dos setores mais reacionários da so-
ciedade portuguesa, o rei espanhol, neto por linha materna de D.
Manuel.
A Holanda, que integrara o império castelhano, em 1579 conse-
guiu a independência, sob a denominação de províncias Unidas,
após muitas lutas. Ao derrotar os espanhóis, sua burguesia rica e
opulenta assume o poder político e econômico.
Até entáo, as relaçóes dos holandeses com Portugal haviam
sido amistosas, participando, financeiramente, em seus empreen-
dimentos ultramarinos, como é exemplo o funcionamento do enge-
nho dos Érasmos em São Vicente, oficialmente o primeiro do Bra-
sil. Desde o século'XV, vinham atuando como aliados naturais; no
século XVII, o intercâmbio náo permaneceu "limitado ao campo
político ou da economia, mas fazendo sentir também no âmbito
cultural, nas letras e nas artes (l).
Mas, visando prejudicar aos holandeses, que tinham no comér-
cio marítimo a atividade básica, em 1580 Felipe II proibiu a en.
trada de seus navios nos portos ibéricos, onde iam buscar os pro-
dutos vindos das colônias asiáticas e americanas. Assim, náo mais
poderiam chegar até Flandres

7t
Y

"la pierre et perles orientales, parfaictes, or pur, mas' cimentos de Java, Ceiláo e Malaca. O suçesso que a empresa ob_
sif et battu, et espicérie, drogues, arnbre, musc, civette, teve permitiria a criação, em 1621, da Çgmpanhia das Ínàias Oci_
yvoire em grand quantité, rhubarbe, aloé, de l'azur que -dentais, com o objetivo de apoderar-se dôi metais preciosos dos
les Portuguais nomment anil, coton, rlcines de la Chine." Vice-Reinados do México e peru, fazer, diretamenté, o tráfico de
escravos da costa africana e o comércio dos produtos do Brasil,
Náo mais sobretudo o açúcar.
Da ação desenvolvida por essa Companhia na América Espa_
"-des sucres de l'isle de Saint Thomas", "la Mala- nhola, resultaria a fundação da colônia Nova Amsterdá, ocupada,
guette e autre drouguerie de lq coste de Guisnée;" nem posteriormente, pelos ingleses com a denominação de Nova iork.
"les sucres et le bon vin de Madàre," ou "leur sel, vin, Na-América portwu,e_sa, as consequências seriam a invasáo da Ba-
huile, pastel, graine, orcille et autres plusieures simples et hia em 1624 e a de Pernambuco em 1630. Na capital da colônia, os
bons fruicts frais et secs et côsits et mis en conserve," holandeses permaneceram cerca de um ano, vencidos que foram
"como gulosamente escreveu Guicciardinf ' @. pelas tropas da resistência organizadas, e que contaram com o blo-
queio do porto pela poderosa esquadra luso-espanhola de D. Fra-
Brlopia.srq,ab-rultampntÇ,umesqu-fl ttaaÇanÔlgrsQ-quefu,n-cio- dique Toledo Osório. Retornariam, porém, em 1630, com Llma
nara nlenamgntq "permitindo, no Brail, a montagem e o desen- frota bem preparada e contando com um melhor conhecimento do
volvimento da estrutura colonial da produção açucareira" (3). O litoral brasileiro, buscando a Capitania de pernambuco. Vçrr'
funcionamento fora perturbado, perdendo os holandeses a primazia çsndo a resistênÇ_ia dos habitantes. locais, vitoriosos, os holande.ses
na distribuição dos produtos que, como intermediários que eram, fgram plprg-apdg ? .?-Íea _conquistq5la, alcançando, para o norte, a
possuíam. Da pressáo econômica exercida, surgia a formulaçáo Capitania do Maranháo, e para ó sul o rio Real, limite meridional
de uma doutrina jurídica que correspondesse, ideologicamente, aos entre as Capitanias de Sergipe e Bahia.
interesses emjogo. A ocupação da- Capitania subalterna de Sergipe del Rei justifi-
cava-se porque estando
"Precisando transitar pelos mares fechados, negociar
e comerciar com os povos coloniais, saqueá-los e pilhá-los "situada entre a capitania da Bahia e a tena do domí-
que é a visão comercial e burguesa da época, era mister nio holandês era vantajosa pqra a defesa de nossas fron-
que se firmasse .a doutrina da libetdade dos mqres. Q tner- teiras, abundava de gddo e dava mais de uma esperança
canttlismo nascente do império holandês necessitnva da de minas" (5),
posse desses caminhos marítimos que tantos proveitos vão
fornecer à formação do capitalismo. A criação das Com- _ Duarte de Albuquerque Coelho, 4.o donatário da Capitania de
panhnias de Comércio inicia a série dos imperialismos Pernambuco, que
e acompanhou, em 1637, a retirada de Bagnuolo
econômicos" (4). através do território sergipano, definiu sua importân"iu
,ã-pro_
cesso da expansáo holandesa nas Memórias Diárias
da Guenã do
Grotius, com a doutrina do Mare Liberum, publicada em 1609, Brasil, publicadas em 1654:
tornar-se-ia o ideólogo do momento difÍcil em que viviam os holan-
deses. "Eram os dois distitos de Sao Francisco e Sergipe del
$ criação das Companhias de Comércio significou a resposta Rei os mais abundantes de gado em todo o Brasil, e como
que os holandeses «lemm ao ato de Felipe II, que visava a levá-los o mtmryo Ja tinha por seu o primeiro, procurava tirar o que
à ruína. Com a criaçiro clu Companhia das Índias Orientais, busca- pudesse do segundo, nao só para acrescentaro sett, mas
va-se assegurar as relaçíres comerciais com o Japáo e os estabele- também para ir-nos desfalcando, considerando (e bem)
72
73
a
I

em choupanas e fazendo plantações de mandioca e legumes',


Çue depressa nos faltaria e à Bahia que também dali se
''...'' f\i provia, e que se por ventura (ll). Entre os que seguirarh encontrayam-se Duarte de Aúuquer_
chegassem nossas armadas,
que coelho, donatário da capitarüa de pernambuco, o preto Henri-
.x ; privadas de tão necessário fiantilt_erylA, não podertamos que Dias, o índio Antônio Felipe Camaráo (poti), que dera tama_
: sustentar a guerra, assegurando-se persuaçõo de que da nhas provas de coragem na luta contra o invasor deide os primei-
I Espanha não viria todo o preciso, corno a ele vindo da Ho-
' landa, pois sustentou-se assim mais de seis meses, em que ros momentoS, recebendo, do Rei, como prêmio, o título de Dom,
não possuíam um palmo de campo" (6). com brazáo de armas e o Hábito de Cristo trazidos por Rojas y
Borjas, "honras bem merecidas por sua fidelidade, à qual io
fu_
A ocupação da Capitania de Sergipe ainda seria trrndegirau in- turo se fizeram maiores mercês', (l12). Também estavam nove je_
dispensável para a conquista dl .BanU porque suítas arrebanhando índios de três aldeias, destacando_se,,,pelo
grande desvelo e contínua assistência,, a eles prestada, ,',co'nfir_
"pslg-ça-mpletar a.c_oye].1is-ta d9 Brasil e fortalecer o mando ou reconduzindo-os ao serviço de s.M.,-o padre visitador
eu9 l_á_po;syíamos, é muito necessário ser a Bahia domi- Manuel Fernandez" (/-i). Grande luta ele teve que sustentar para
nada. Assim será destruído aquele formigueiro de onde impedir que os índios aceitassem a oferta dos holandeses a fiá de
procedem incessantemente tantos bandos de perturbado- permanecerem ao lado deles, convencendo_os que era melhor per_
res do sossego do país e de causadores de permanente es- der a vida como bons católicos e leais vassalos de s.M. que viver
tado de alarme" (7). entre os hereges e ajudá-los na guerra que contra a fé de cristo fa-
zíam.
A integração de Sergipe ao domínio holandês processou-se na
segunda fase de suas atividades no nordeste brasileiro * a fase de "Efecto fue desta vigilante prevención, la retirada que
larga acomodação (08), iniciada após os dois primeiros anos de in-
nuestros religiosos hizieron, maràhando com mas de mil
tensa resistência dos habitantes locais. A classe dominante, produ-
almas hacia Baia, por mastorrales desiertos y brenas en-
tora do açúcar e detentora dos lucros da produção, passou a aco-
trincadas, que llegaran a recogerse a Baia la mitad de los
modar-se aos novos senhores.
indios retirados" (14).
Q§jryê-spr§§§ hCggla$ e §grylPç_r-tp rnͧio da-administrn ção rl o
.Condg-I@,Mau:íçiode- Naçsau -(09-),- {truç-em janeiro-dql 637-' dç- A vida sergipana apresentava-se próspera. Segundo o Relatório
gçmbaÍçaYaçm-.3ecife.+ara.goveuuuoBf a,sil-Hplandê-s,".çllv-ipds
de Nassau (15), famílias da Bahia aí se haviam estabelecido após a
Be-la -Cornpaohia des I-q9-$q. Ogidgntqis. Sua administração, prolon-
gada até 1il4, marcou o peúodo áureo da ocupação holandesa, náo conquista de Cristóváo de Barros, funcionando quatro engenhos de
açúcar (16) de pouca importância "porque numa safra na.o rendem
só pelo alargamento das conquistas territoriais, pelas medidas ad-
mais de 6.N0 arrobas", existindo 400 currais onde pastavam gado
ministrativas executadas, a prosperidade econômica alcançada,
vacum, cavalos e bestas. Outro documento da época apresenta ha-
como pelo florescimento cultural ocorrido. (10). yer "muitas lavouras dos melhores tabacos" (17). Havia em Sáo
Depois de derrotarem as tropas luso-espanholas de Rojas y Bor-
jas na batalha de Mata Redonda em janeiro de 1617, Maurício de ' Cristóváo 100 fogos (18), uma igreja matriz, um convento dos car-
Nassau e seu exército, perseguindo os remanescentes dos vencidos melitas, e a receita.da Capitania era superior a 6$000. Exercia o
comandados pelo Conde de Bagnuolo, chegaram à margem do Sáo cargo de capitáo-mor Joáo Rodrigues Molenar.
Francisco em março, fundando ali o forte Maurício ondo hoje está De Sergipe, Bagnuolo passou a inquietar o inimigo através de
localizada a cidade de Penedo. Bagnuolo, atravessando o rio, al- guerrilhas e emboscadas, procurando, sobretudo, impedir que se
cangou o território sergipano, estabelecendo o quartel-general na abastecesse de gado nos pastos sergipanos.
cidade de São Cristóváo. Acompanharam-no, na fuga, paraibanos, Nassau teve.que retornar a Recife por doença; mandou, porém,
pernambçcanos, alagoanos, que se acomodaram "iunto à cidade Segismundo Van Schoppke, em companhia do Consultor Joáo
74 75
Southey completa o quadro ao escrever que "toda esta cqmpa-
Grisselingh, membro do Conselho Supremo Secreto das Índias nha fez-se na Capitania de Sergipe horuendo estrago entre o ga-
Ocidentais, comandando cerca de 3.000 homens, invadir o territó' do" (24). Enquanto Bagnuolo teria afugentado cerca de oito mil
rio sergipano nos começos de novembro de 1637. Bagnuolo, perce- cabeças e matado cinco mil para náo deixá-las ao inimigo, os ho-
bendolãr impossível á resistência (19), retirou-se para a Bahia landeses destruíram três mil, além de afogar-se grande número dos
"com grande pesar e indignaçao dos emigrados da Paraíba e Per- que, atravessando o Sáo Francisco, eram levados para o território
nambuco, que haviam começado suas roças" (20). âúes.-u0andox por eles. ocupados (25). Tais aÍirmativas atestam o rápido cresci-
iE. nd,tar.ps,canaviais -e, de qt gir tudo que pude s se benefrçier-q-iui- mento dos rebanhos na terra sergipana após o início de sua coloni-
r-n!gs, lnçlusive a matança-dç 5.000 cabeças de gado- q!19=-!ao- con-
zaçío.
§gCqiu levar. Com os que o acompanhavam, deslocou-se, em trá- @essoalmente, Nassau era contra a destruiçáo efetuada; mas a
gãa retirada, até a Caia da Torre de Garcia d'Ávila. Acossados encarava como plano estratégico, desde quando
pelos indígenas, perseguidos pelos invasores, mordidos de cobras,
"exaustos de sofrimentos, muitos houve que resolveram sub- 'ltinha por fim tornar essa capitania limítrofe de Sergí
meter-se ao inimigo, de quem obtiveram passaportes pqra retorna' pe, imprestável para as operações militares por parte do
rem às abandonadas habitações" (21). Ao voltarem, foram bem
tnimiso" (26))
acolhidos pelos holandese§, que, numa política realista, procura-
vam fazer com que náo ficasse "despovoada e infrutífera tao fértil
C-olnprq v-a: Le, esqt m- -a impo rtância do te rritório .sergipano para a
e tão larga campanha", concedendo vantagens aos que retorna- manutençáo da fronteira do Brasil-Holandês., constituindo-se uma
vam.
zona de defesa ante as investidas das forças restauradoras sediadas
Ao ocuparem a Capitania de Sergipe, os invasores encontraram na Bahia. Sua ocupaçáo passaria a ser disputada entre portugueses
uma terra devastada; os habitantes, que náo haviam se refugiado e holandeses como ponto de grande importância para a sobrevi-
na Bahia, se dispersaram nos sertóes. Completaram eles a destruiçáo vência das respectivas fronteiras. Seus pastos garantiriam o abas-
iniciada por Bagnuolo, depredando e incendiando engenhos e casas. tecimento regular, das tropas que os ocupassem, de carne e mon-
tada.
"Até as árvores de frutos eram arrancadas e as planta- Qs holandeses náo conquistaram, efçtivamente, a terra sergi-
çõe s inutilizadas" (22).
pan4 após a retirada de Bagnuolo e sua gente. Limitaram-se a cons-
truir fortes no baixo Sáo Francisco, nos rios Real e Vasabarris,
§ Incendiaram a cidade de Sáo Cristóváo, já semi-destruída pelas êlte protegendo a cidade de Sáo Cristóváo. A regiáo funcionava,
tropas luso-hispano-brasileiras, atuando segundô a descriçáo de apenas, como centro abastecedor de gado para as tropas. As auto-
Felisbelo Freire: ridades da Holanda náo consideraram a importância que a posse
efetiva do território sergipano representaria para assegurar o àomÊ
nio das terras que mantinham no Nordeste, podendó atuar como
"Depois de apagarem os holandeses todo vestígio de retaguarda contra os iniqrigos vinilos da Bahia,
vida que ainda restava na Capitania, e destruírem a pe- Fracassaram os planos de Nassau de fazer voltar a capitania de
quena riqueza que uma colonização de quareita e sete _
Selgip-e à prosperidade anterior.§gUS_pfqjetos náo foram aceitos
anos havia acumulado, voltam para o rio Sao Francisco pela companhia das Indias ocidentais, que os considerava dispen-
sern nela deixar o menor sinal de administraçao pública, diosos. A náo colonizaçáo de sergipe náo foi um erro dô Nassau
que cedo organizada, seguraria os interesses já presos ao
como afirmam alguns historiadores, inclusive Felisbelo Freire. A
norte do Sao Francisco. Limitaram-se a efetuar correrias lAylqáo holandesa se desenrolou segundo os interesses do grugq
pelo tenitório, frcando vestígios de uma completa deitrui'
Ue_rcantil que a empresÍra. Resultou do plano de uma e-iÊ"u
ção nos lugares por onde passaram" (23).
77
76

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c()mcrçial, "1(r.ul(,t.\'lito dtt .litst de capital comercial, no país


O-c$_e_q1ais par? inverter capitais. Náo apresentava as vanta-
vangu«rdcir() ilu.tt( utntrluç'utt desse capital" (27). Interessava à -11gla
gens econômicas das outras capitanias nordestinas, onde os enge-
Companhiu dus lntliirs Ocidentais o comércio de produtos valori- I
nhos, em funcionamento, possibilitavam grandes lucros. No Rela-
zados nos mcrcirdtls curopeus, especialmente o açúcar, aprovei-
tando a cstl'utura cconômica existente nas terras conquistadas. lgrio final, de 27-WJ644, quando se preparava para retornurã-Uo-
Não sc cnc()ntrava em seus objetivos montar colonizaçáo em re- landa, Nassau ainda referia-se aos problemas da capitania de ser-
gipe, afirmando que ela jamais seria povoada, retornando ao estado
gitics ocuptdas que requeriam consideráveis-investimentos. como
anterior de prosperidade, se náo fossem assegurados aos que pro-
cra o caso da Capitania de Sergipe. Um folheto, de autor anônimo,
publicado na Holanda em 1653, definia, claramente, o problema ao curavam habitá-la promessas de privilégios, e, sobretudo, assegu-
dizer:
Íar a paz com a Bahia porque "ningu.ém quer ficar, plantar, para
ser destruído, e sujeito ao perigo de perder a vida e os bens". E
"Colonizar terrqs tão extensas nenhuma Companhia deixou sugestóes para uma possível colonizaçáo sçrgipana (32).
poderâ fazê-lo, pois uma empresa mercantil só trata de Além dos interesses da política mercantilista que norteava a
proveitos particulares e imediatos, como fazem todos os ocupaçáo holandesa, existia o problema da carência de máo-de-
mercadores; só cuida de tirar lucros, e mais rapidamente obra européia, necessária ao desenvolvimento da colonizaçáo,
possível, do comércio" (28). ôomo atesta o pedido de Nassau ao seu parente, o príncipe de
Orange, em 1638, para que intercedesse junto à Companhia das
Esse pragmatismo chocava-se com a afirmativa de Nassau de Indias Ocidentais a fim de que fossem enviados
"não se poder, sem colonos, cultivar os desertos e os tornar mais
cultos:" "quantos colonos alemães pudesse achar, e se estes
não fosse possível havê-los, que se despejassem as cadeias
"Os colonos dariam maior resistência às províncias e e as galés, transportando os criminosos para aqui, onde
trariam maior segurqnça à república, que confiariam aos no útil e virtuoso trabalho se Ourgassem de seus delitosl'
seus próprios cidadaos. Sem esperança de lucros nao há (33).
esperança de colonos. Ninguém atravessa os mares na es-
pectaÍiva de fome" (29). Nesse mesmo ano, ele voltava a insistir junto ao Conselho dos
XX:
Segundo a política econômica que orientou as conquistas ho-
landesas, a colonizaçáo estabelecida tornou-se urbana, ao contrário "Cumpre achar meios de atrair ao país colonos holan-
da portuguesa essencialmente rural. Daí o progresso que desfrutou deses em grande escala. Quanto mais depressa for culti-
Recife durante os anos da ocupaçáo , " um crescimento assustador vada a terua, tanto mais sólido se tornará o alicerce do
da cidade sem corpo que a sustentasse: o desenvolvimento de uma nosso poder" (34).
a§ricultura, mesmo que fosse qpenas de subsistência" (30).
Não aceitaram as autoridades da metrópole a política de Nas- Resultante dessa sua preocupaçáo com o povoamento das re-
I
giões conquistadas, foi a permanência de muitas pessoas em Sergi-
sau (3 l), tentando conciliar os interesses do campo com a cidade, {,
vista pôr ele como necessária ante as circunstâncias sociais e eco- pe, que náo acompanharam Bagnuolo em sua retirada, atendendo às
promessas que lhe eram feitas. Comprova o fato a relaçáo dos cur-
nômicas.
A Capitania de Sergipe del Rei, onde, praticamente, a vida ur- rais de Sergipe, em número de 94, pertencentes a 65 proprietários,
localizados entre os rios Sergipe e Sáo Francisco, apresentada a
bana náo funcionava, desde quando as atividades gravitavam em
Nassau por Domingos Porto Carreiro, onde há a predominância de
torno dos proprietários rurais que viviam em suas fazendas, sítios
nomes portugueses (35), o que o mapa de Barléu confirmaria poste-
ou roças, náo despertava os interesses da Companhia das Índias
riormente.
78
79
Os apelos de Nassau náo tiveram eco na Holanda, e
guas, ' 'a ferro e fogo" , na expressáo de Barléu. Em maio, já se en-
contravam em Sergipe contingentes dessa tropa, comandados por
"das seis províncias que compunham o Brasil-Holan-
Henrique Dias, Camaráo, André Vital e Joáo Lopes Barbalho,
dês por ocasiõo da resÍauraçõo de portugal em 1640, ape-
causando danos ao inimigo através de emboscadas.
nas a de Sergtpe, inteiramente devastada por ocasião da
Em abril desse ano de 1640, o forte Maurício fora tomado pelo
conquisla, permanecia ainda abandonada dos seus habi-
mestre-de-campo D. Joáo de Souza, auxiliado por Luís e Joáo Barba-
tantes, e guarnecida por 40 homens constituindo um posto
lho. O êxito da tomada os animou a atacarem a cidade de Sáo Cristó-
avançado, ao sul, contra os portugueses,, (36).
váo em agosto, fazendo prisioneiro o comandante, o Major Van der
Brande.
O Mapa de Barléu traduz o pouco significado que os holande-
Continuou Sergipe a ser palco das incursões que fazia o holan-
ses atribuíram a Sergipe durante a ocupaçáo porque, enquanto as
dês na cata de abastecimentos. O novo Governo-Geral, Antônio
outras capitanias que lhes pertenceram apresentavam-se com seus
Teles da Silva, substituto do Conde da Torre, preso depois da de-
mapas adornados com os belos desenhos de Franz post, no de
sastrosa expediçáo feita para capturar Recife, enviou Camaráo a
Sergipe existe apenas
fim de preservar Sergipe para Portugal. Camaráo recebeu uma
sesmaria localizada entre os rios Siriri e .Ganhamoroba, onde, hoje,
"uma grinalda dé folhas e frutos decorativos, indi-
se encontra a cidade de Siriri, outrora chamada Pé do Banco (40).
cando a simples colheita como processo normal de traba- Ali teve curral de gado, que aparece no mapa de Barléu.
lho. Um cactus rasteiro, três animais, o porco-do-mato, Em 164o, após 60 anos d-g*d_onúqto, P:{Ueel 9-o_4l9guiU.1ibsr-
um rnaracajá, e uma anta dão idéia convencional da fauna tar: se-rl-a, p sparhê-quelgglql"sqtqa(o-:.-pu_qg9.. Cg_D-rae*ngl
sergipana" (37). 99s.r
púítúo-de-l)^-JoáolV-egmqspg-io.,gqincrpatrtgnlg,-dub_úguesia
Ufbau-a m.qrc-autil d6q çidade s port-uárias, inçlusiye dqs,. çnsIa-oS:gg-
Na Capitania de Sergipe, a presença numérica do holandês vo1-C,e1sev1-a g?Usê.da gcupqçág holandesa na colônia brasileira,
como colono foi, praticamente, nula. Aí ela revestiu-se, em grau desde que ela visara a atingir a Espanha. Logo iniciaram-se as con-
máximo, da fraqueza, a que se referiu Nieuhof, em relaçáo aos versações entre Portugal e as Províncias Unidas, que conduziriam
protugueses (38).
à declaraçáo do armistício de 1641, onde estavam explícitos o tra-
Em 1639, o Conde da Torre, ao assumir o Governo-Geral do tado de aliança ofensiva e defensiva dos dois países na Europa, e a
Brasil, designado pela Espanha, como o primeiro passo para um trégua de 10 anos nas lutas que.se travavam nas colônias. Nas ne-
ataque a Pernambuco, encarregou o Capitáo Joáo Lopes Barbalho gociaçóes entaboladas entre.os dois contendores, os portugueses
da tarefa de ocupar os fortes holandeses em Sergipe,.combatendo o procuraram sempre excluir o território sergipano dô domínio ho-
inimigo através de guerrilhas, sem, contudo, oferecerJhe batalha landês, no pressuposto de que sendo senhores de Sergipe "o eram
direta, "e tangendo o gado que nos pode ser necessário". Reco- do gado e mantimenÍos que se sustenta a Bahia" (41). Impug-
mendava o Governador que os colonos náo deviam ser molesta-
nando as propostas de paz oferecidas aos holandeses pelo embai-
dos' procurando sua cooperaçáo que se tornaria essencial "quando
xador português Francisco de Souza Coutinho, o parecer do
Conde de Oldemaria, entre outras objeçóes apresentadas, dizia
Desbaratada a esquadra do conde da Torre no litoral nordestino
ao tentar ocupar Recife nos começos de 16,40, seu comandante
'conseguiu desembarcar na Ponta dos Touros, no Rio Grande do "que não convinham às suas limitações, porquanto as
Norte, cerce de 1.300 homens, que, comandados pelo pernambu_
cano Luís Barbalho, na impossibiiidade de permane""i". na re- terras de Sergipe eram os pastos de gado da Bahia e o sus-
giáo, iniciaram a retirada para a Bahia, abrinào caminho de 400 lé- tento dos seus habitantes, e nem os holandeses possuíam
Sergipe além do que o rio estreito (refere-se ao rio Real), e
80
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para evitar desavenças deveri'a se tomar por limite o rio de Pdtrc-helilyg. 9eijn ys*LSa§-r m I uL o s ho lande se s c ontro lavam
São Francisco" (42). 94 currais (Anexo n.o 7), dominando, efetivamente, o baixo São
Francisco.
Entretanto, o Padre Antônio Vieira, no Discurso que persuade a O retorno de Maurício de Nassau à Europa em 1644, deixando
entrega de Pernambuco aos holandeses, era favorável à entrega, o governo do Brasil-Holandês, apressou o início de sua fase final
alegando que Sergipe declínio e expulsáo.
- de
Enquanto o Governador-Geral Antônio Teles da Silva manti-
"tao cêlebre neste tratado, hqie é nada e nunca foi nha atitude, dúbia, aparentemente procurando demonstrar que es-
grande coisa como se.imagina' ' (43). tava cumprindo as cláusulas do armistício, em março de 1645, Ca-
maráo 9 Henrique Dias, obedecendo a determinações enviadas por
No Brasil, as cláusulas do armistício náo foram respeitadas por Joáo Fernandes Vieira.
ãmbas as partes ocupantes. Em 1641, Andreas entrou pela barra do
Vasa-Barris, onde levantou um forte. O mesmo sucedeu com â forti- "rompem a marcha pelos agrestes sertões, e deixan/o
ficaçáo do rio Real que retornou a ser a fronteira meridional das as ribas do rio Real, vadeam o São Francisco, e vão reu-
possessões holandesas, mantidos ali 2.000 soldados, incluindo ín- nir-se aos revolucionários pernambucanos depois da es-
dios arregimentados, para impedir qualquer tentativa de retomada plêndida vitória do Monte das Tabocas" (45).
lusa; numa comprovaçáo da importância que conferiam à regiáo.
Para tornar real e garantir a posse do ter-ritório sergipano atra- As autoridades holandesas de pernambuco, em junho desse ano
vés da colonizaçáo, Maurício de Nassau, em 1642, fez sua doaçào de 1645, comunicavam aos dirigentes da Companhia das Índias
a Nommo Oliferdi, Conselheiro do Conselho de Justiça do Brasil, ocidentais que estava para estalar uma revolta dos habitantes da
terra (46). As notícias chegadas de Alagoas revelavam que Cama-
"para haver em propriedade como feudo perpétuo e ráo e Henrique Dias, com seis companhias compostas de brasilei-
. hereditário, povoar as terras e lugares, cabendo-lhe todas ros e negros, haviam passado as margens do Sáo Francisco. Man-
as terrai, matqs e águas da Capitania de Sergipe d'El Rei dam emissários, à Bahia, protestar junto ao Governador-Geral
que começa na terra firme do lado meridional do rio de contra o náo cumprimento das determinações do armistícío. Este
São Francisco para o sul, dilatando-se segundo os seus ve- afirma, porém, que náo se envolvera com a marcha dos dois caudi-
lhos limites, em pelo menos até onde esses limites foram lhos, determinando, inclusive, providências para que cessassem ali
levados sob a auÍoridade da Companhia das Índias Oci- as hostilidades, para o que encaÍTegara André Vidal de Negreiro e
dentais, e ao longo do referido rio para cima pela terra aÍé Martins Soares Moreno. (Justamente dois personagens que muito
a grande queda d'água, e daí através da terra até os ditos destacar-se-iam na insurreiçáo pernambucana).
limites" (44). Esse movimento vinha sendo preparado pelos habitantes da
terra com o beneplácito disfarçado das autoridades portuguesas.
Era, desse modo, a Cachoeira de Paulo Afonso considerado o ii- Era organizado, sobretudo, pelos senhores de engenhp-'"o*!.o-"_
mite ocidental da Capitania de Sergipe. tidos, financeiramente, com os mercadores hohnãeses, ,"^*
Minuncioso Regulamento de 3l artigos estipulava os termos da dições de saldar suas dívidas. o Padre Antônio viêira," realistica-
"on-
doaçáo, que, porém, náo seria ratificada pela Companhia das Ín- mente, definiu o significado da insurreiçáo, ao dizer:
dias Ocidentais.
Continuou sendo Sergipe campo de confronto entre os dois ad- " ....o levantamento se fez contra a vontade de muitos,
versários, através de guerrilhas e emboscadas, apesar da suspensáo os quais hoje e sempre abominqram tal guerra, e os prin-
das hostilidades determinada pelo armistício de 1641. O gado era o cipais que a moveram foi porque tinham tomado muito di-
82 83
Y

nheiro aos Holandeses, e nao poderam, ou não quiseram Cortadas as comunicações do


paear" (47). forte--túaurido por Kpyn . .nelas- rropas-ae-+l.ieelau
ABlha,"_ss__bolaodesesd&€idsde"do Sáo Cristóváofor-aqcggl§os
Também registrou um cronista holandês pelo Capitáo'Joáo .de-*Souza-*Sem*.cgggeguiremJgç"gbclalxílio,
-
renderam-se' ern setembro de lú15, eondo preso'-o'*C.ornandante
"os portugueses senhores de engenho, em conseqüên' Hans Velgs e remetido para-Po.úugal.
cia da guerra, perderam muitos dos seus bens, empobre' Conhecedor da importância do Sáo Francisco para manter o
cendo e incapacitando-se para restaurar seus engenhos, domínio da regiáo ocupada, Segismund Van Schoppke, em 1646,
mas graças aos créditos liberais facilitados pelos merca- enviou a expediçáo de Lichthardt e Henderson que reconquistou o
dores holandeses, puderam levantar'se, com o que se be- forte Maurício. Daí partiram tropas centra o Urubú (atual cidade
neficiou a Companhia; pagam sem pontualidade, sendo de Propriá), mas seu Comandante Lambert foi derrotado pela em-
necessário que os comerciantes insistam pelo pagamento" boscada do Capitáo Francisco Rabelo. Importante atuaçáo desem-
(48). penhou na expulsáo dos holandeses do UàixoSão_f'rancisco o insti-
tuidor do morgado de Porto da Folha, Pedro Gómes, à frente dos
Os holandeses necessitavam dos senhores de terra; sem sua co- índios Orumarus (52). Em 1647, nao tendo condições de permane-
laboraçáo, sem sua experiência na indústria açucareira, náo lhes cerem nas margens sanfranciscanas, dali se retiraram, definitiva-
seria possível firmarem-se na terra nordestina. Mas, mente, os trolandeses.
Por muito tempo persistiu, porém, o receio do retorno dos ho-
landeses. Ainda em 1667, o Governador-Geral do Brasil, Alexan-
"desde que a classe dos senhores de terra e de escra'
dre de Souza Freire, escrevia aos Capitáes-mores de todas as Ca-
vos se incompatibilizaria com os dominadores, a sorte des'
pitanias do Norte, a partir de Sergipe, dizendo que, segundo aviso
tes será selada. Quando a referida classe esposa a causa
de Sua Magestade,
da insuneiião, esta é'invencível. Esposando'a reúne todos
os grupos da população, soma todos os recursos e lança- "se deve temer este Estado ser invqdido bruscamente
se à luta de libertação com um apoio total que, no momen-
de uma armada holandesa, por cuja causa se deve estar
to, é indispensável. Esse apoio nao lhe falta e ê o que lhe
possibilita a vitôrta" (49). com todas as partes dele com a prevenção que é iusta"
(st1.
i.
Assim ocorreu no nordeste brasileiro a partir de 16,45. Q.Jri-
I

Seguiam-se recomendaçóes sobre a possibilidade de ajuda, o alerta


rryiro erito da insiureição partiu,. assiÍn"dâ. Capitani*ds SergtÍte' a toda gente, a fortificaçáo dos pontos vulneráveis, a Çstocagem de
-.mlÍfl a atitúde dê Camaráo, que 4 s.g-PnçooÍrâve desde 1041, vi- mantimentos.
saido-*impedir a expp4sáo do iniruigo aglt-Ég-de Sáp.-&istováo. o que signifi cou a permanência dqs*ho-
E-uromeços de-1645, e.le, al?çau e retono*o$orte'holandê9 do rio B+ra .e.:t-{e, g-elgipana,
landeses nos oito anos que aí estiveram em disputas com os por-
RS3|._atenqe3do à orientaçáo de Joáo Fernandes Vieiia O0), rece- tugueses, e que foram marcados por correrias, emboscadas e guer-
bida no ano anterior rilhas? De positivo, hg,,,-y-. o reconhecimento e -exploração das-rç-
gióes interioranas através dd '6üSêa de metais preciosos, que.-a
" Se até então a iüia de revolução não passava de um avenÍura-de Belchi,sr-Dias-À4oreia deixara a cohiç". Di:lerSâs ex-
tímido desejo, de uma aspiraçao dos conquistados, ela. pediçóes exploradoras, realizacla§ 4 p,artir da c.osa qdçntal,,alcan-
agora transfonnt-se em ato. Era impossível que se conti' çaram as serras de Itabaiana (ItapauÁa) e Miala, dçsloç-andolse
nuasie a monter qualquer plano de adiamento" (51). até as matas de Simáo Dias. Os famosos desbravadores Wilhelm
84 85
Glimmer, Paul Semler, Paul Van Lingem e Elias Herckmans, tra- Esse resíduo de sangue "flamengo" ficaria ."antes de tudo na
zidos por Nassau, percorreram os sertões sergipanos. Subindo o margem sanfranciscana ou, mui, salpicadamente, em ouÍros pon-
curso do Sáo Francisco teriam chegado, provavelmente, à cacho- tos do interior do Estado" (57).
eira de Paulo Afonso. Foram, porém, burladas as esperanças de Cqmo saldo negativo, houve a intemrpçáo da marcha ascen-
encontrar as cobiçadas minas, "pois, inúmeros cavaram e vários I
de{e--à4-.qq!snizaçao iniciada +ros -idss -de i 590. Desapareceu a in-
sítios não revelaram prata ou metal importante" (54), segundo o cipiente indústria açucareira; a embrionária üdaurbarra sofreu aba-
que concluíram as expedições, "seguindo as pegadas de Belchior los profundos.
Dias", sob o comando de Niemeyer e de Pieter Persijn à frente Náo aconteceu entre os habitante$de+egiáo qualquer influência
dos tapuias, orientando-se de acordo com uma memória deixada socióló-gica ou psicossológica que os historiadoies apontam como
por Jorge de Albuquerque, que queria libertar-se das prisões ho- legq{g--Ç,o_1trg-lan$qse-s-9gr-Eçrnambueo.
landesas (55). Em realidade, a Capitania de Sergipe-d€+ Rei náo foi marcada
pelo tempo dos Flamengos (58).
Através do mapa de Barléu, evidencia-se que o lnalgl._c-qnheci-
mento dos holandeses do território sergipanq abrangia as regioes
da costa atlântica, que ofereciam condiçoes climáticas favorá-
veis. Nelas dominavam a Floresta Mesótica semi-decídua, a Flo- NOTAS
ffiffitecídua, os Cerrados e uma parte meridional da caatingp hi-
poxerófila. A parte setentrional , zoÍta da caatinga superxerófiIa, r0l. LEITE, José Roberto Teixeira. A Pintura no Brasil Holandês, Ediçóe\
mais castigada pelas fortes estiagens, aparece sem qualquer aci- C.E.D., Rio de Janeiro, 1967, p. 16.
02. Idem
dente geográÍico registrado, destacando-se a presença do cactus, 03. soDRÉ, Nelson werneck. Formaçao Histórica do Brasil. Editora Brasiliense,
do porco-do-mato, do maracajá e da anta no grande espaço vazio. l9ó2. p.68.
QonseqlQncla_{9-sse período holandês teria sidq o despçt?r de 04. RODRIGUES, José Honório e RIBEIRO, Joaquim. Civilizaçao Holandesa no
um sentimento de revolta nessa populaçáo que sofreu a destruiçáo Brasil. Companhia Editora Nacional, 1940, p. 67.
05. BARLÉU, Gaspar. Históría dos feitos recintemente praticados durante oito
de seus bens e viveu a intranqüilidade dos anos de lutas entre os anos no Brasil'e noutras partes sob o governo do ilustríssimo Joõo Maurício
do i s ad vers ári o s . .E s_sa rebeldia rnan_{g qt U: §-e
-a, po steriormente," no Conde de Nassau. Ediçáo do Ministério da Educaçáo, 1940, p.226.
desafio às autoridades enviadas pela metrópole portuguesa para 06. COELHO, Duarte de Albuquerque. Memórias Diárias da Guerra do Brasil,
governá-las. 9s chqques conínuos entre os colonos e os agentes. Fundação de Cultura da Cidade do Recife, l99l, p.322.
,07. VAN DER DUSSEN, Adriaen. Relatório sobre.as capitanias conquistadas no
do poder metropolitano caracterizam a história política sergipana I
Brasíl pelos Holandeses (1óJ9). Instituto do Açúcar e do Álcool, Rio de Janei-
da segunda metade do século XVII. ro, 1947, p. 138.
Dado o carâter turbulento de que se revestiu, a ocupaçáo ho- 08. SODRE, Nelson Werneck. Obra cítada, p, fi.
landesa náo marcou a vida sergipana, como ocoÍTeu êm outras ca- @. Joao Maurício de Nassau (1fr411679), formado em universidades européias,
pitanias que estiveram sob seu domínio. Em decorrência dos mi. miliÍar destacado, culto, amante das artes, era o exemplo típico do homem do
Renascimento. Recife
lhares de soldados que ali transitaram, teriam ficado sobrevivên- - Maurstadt
. embelezado com a construçao - que escolheu para residência, foi por ele
de palácios, pontes e jardins. Cercou-se de sá-
cias raciais, como a que D. Marcos Antônio de Souza registrou bios, artistas e intelectuais.
nos começos do século XIX: 10. Entre os que acompanharam Maurícío de Nassau, destacaram-se os pintores
Franz Post, Albert Eckout, Zacarias Wagener, o arquiteto pieter post, o mé-
"Também se contam algumas pessoas de raça holan- dico e naturalista Willam Píso, o astrônomo e cartógrafo Georg Marcgraf, o
poeta e pregadorfrancês Plante.
desa, quando os holandeses. ocuparam esta Capitania no ll. COELHO, Duarte de Albuquerque. Obra citada, p.321.
ano de 1637 e se acharam em guerra com os pernambuca- tl2. ldem. p.273.
nos" (56). 13. MORAIS, dr. Melo. Corografia Histórica, Cronográfica, Geneológica, Nobi-
liória e Política do Império do Brusil. Rio de Janeiro, Tipografia Brasileira.
86
87
1860, vol. IV, p.45. "Retiiou com este serviço a Companhia ao ínimigo .tumes, que os rrnsos quiseram introduzir, não obstante a diferença e fraqueza
(ganhando-o V.M.) grande número de solda&ts, que poderiamfazer o dano.que "
relativamente aos port rgue ses. NIEUHOF, Joan. Memorável, iiagem marí-
os índios, que o holandês perverteu, fazem agora à nossa qente." tima e terres.Íre ao'Brasil. Livraria Martins Editora. Sáo paulo, i.
326.
14. Idem. 39. Dom Fernando de Mascarenhas, Conde da Torre, dirigiu-se a Luís Barbalho
15. Relatório de Maurício de Nassau aos Estados Gerais em 27.09.1U4. Documen' em 31.07.1639 Documentos coligidos na Holanda, citado.
tos holandescs paro a História do Brasil coligidos na Holanda pelo encarregado 40. cândido Mendes - de Almeida aftma: "Entre o rio Maniçoba e o rio Maroni ou
dos Negócios Joaquim Caetano da Silva. IHGB, tomo II, Arq. 1.3.25. Lourenço de Souza como lhe chamou Barléu, se achàva o curral ou fazendola
16. Duarte Albuquerque Coelho refere-se a oito engenhos. Obra citada, p.329. A de Camarao, depois que foi obrigado a abandonar o território de pernambucõ
mesma afirmativa encontra-se em Robert Southey. História do Brasil volume l, antes do levantamento de João Fernandes víeira." NoÍas para a História da
p. 395. Pátria, RIHGB. Vol. XL. Tomo 2. 1877, p. 190.
17. FREYRE, Francisco Brito. Nova Lusitânia
- História da Guerra Brasílíca.
2.a Ediçáo, Governo de Pernambuco, Recife, 1977, p. 408.
41. Arquivo da casa de cadaval respeitante ao Brasii. papeis vários, tomo 29. có-
digo 874 (kVIII lm), fls.332/333 portugal.
18. Significavam I00 casas. 42. ldem, fls.328-331. -
19. Bagnuolo sofreu críticas por ter abandonado Sáo Cristóváo naquelé momento. 43. Discurso de Padre Antônio vieira em que persuade a entrega de pernambuco
Duarte Coelho de Albuquerque, porém, justifica o ato afirmando qlue "nao aos holandeses. RIHGB, Tomo LVI, 1893, p. lg.
convinha expor-se ao perigo de defender um lugar aberto e sem porto de mar 44. In Freire, Felisbelo. Obra citada, p. 1461147.
principal, a 66 léguas da Bahia, distância grande para socorrê-\a." 45. FREIRE, Felisbelo: Obra citada, p. 156.
ALBUQUERQUE, Duarte Coelho de. Obra citada, p.326. 46. "Nous avons reçu une lettre de directeur Mousheron, datée des Alagoas, g de
20. FREYRE, Francisco de Brito. Obra citada, p. 408. ce mois, par laquelle il nous informe qu'on l'a verti de Rio st. Fraicisco que
21. SOUTHEY, Robert. Obra citada, p.415. camaron et Henrtque Diás, avec six compagnies composés de Brésiliens et de
22. NETSCHER, P.M. Os Holandeses no Brasil. Brasiliana. Vol. 220. Companhia nàgres, avanÍ passé h riviere de st. Francisco." Documentos holandeses para
Editora Nacional. 1942, p. 1ffi. a História do Brasil, citado. Tradução francesa. Tomo 3 (1635-1646), IFiGB,
23. FREIRE, Felisbelo. História de Sergipe.2.a ediçáo. p. 126. Arq. I,3.26.
24. SOUTHEY, Robert. Obracítada, p.397. 47. Discurso de Padre Antônio yieira,citado, p. 19.
25. Relatório de Maurício de Nassau aos Estados Gerais, citudo. 48. VAN IER DUSSEN, Adriaen. Obra citaãa, SO/AZ.
i.
26. Idem. í9. SODRE, Nelson Werneck. Obra citada, p.9jl
27. SODRE, Nelson Werneck. Obra citada, p.90. 50. "Também João Fernandes Vietra po, um próprio da terra a D. Antô-
28. In NEME, Mário. Fórmulas Políticas no Brasil Holandês. Difusão Européia "rrrrr"ina capitaiia'de seryipe
nío_Felipe camarão que estava arojado
d"l niei-com
do Livro. São Paulo, 1971, p.61. todos os seus brasilíanos, pedindo-rhe ,o* rogos e encarecidas para-.
29. Relatório de Maurício de Nassau, clÍado. vras que
'
^iito,
havia nascido na províncía de pemambico e havia
''pois feito pioeza
30. BEZERRA, Felte. Açao e efeítos do período massoviano em Sergipe Colonial. na defesa dela ao rempo de Matias Albuquerque e do conde de Bágnuito, que
RIHGS, n.o 22, vol. XVtl (1955-1958). p.71. não lhe faltasse agora na miséria em que seus moradores estavam.;,
31. Em 1642 e 1643 ainda tentou Nassau estabelecer uma corrente imigratória de CALADO, Frei Manuel. O Valeroso Luciendo e Triunfo da Liberdade., p.
\il.
agricultores para Sergipe e Alagoas, "mas os diretores estavam preocupadot 51. FREIRE, Felisbelo: Obra citada, p. 156.
em economizar, e o projeto jicou em nada". BOXER, C.R. Os Holandeses no 52. DANTAS , Beatiz Góis e DALLÀRI, Darmo de Abreu. Terra dos Índios
xo-
có. Comissáo Pró-Índio, Sáo paulo, 19g0, p. 13.
Brasil (1624-1654)
- Companhia Editora Nacional. São Paulo, 1961, p.204. 53. carta que se escreveu a todos os capitáe-s-mores de todas as capitanias
32. NASSAU, Joáo Mauício. Relatório final. do
33. SOUTHEY, Robert. Obra citada, p.393. Sergipe del Rei. Documentos Históricos, t920, vol. lX,'p. ZaSIZAO.
34. WATJf,lN, Hermann. O Domínio Coloníal Holandês no Brasil. Brasiliana. Sáo
-. BARLEU.
54.
I9t"_1"_.9e
Gaspar. Obra citada, p.226.
Paulo, l93tt, p.381. 55. RODRIGUES, José Honório. Obra citada, p. l13.
35. VAN DIrR DUSSEN, Adriaen. Obracitada, Apenso IV. 56. SOUZA, Marcos Antônio de; Memórias ,ob* o Capitania de Sergipe.
Ano
36. CASCUDO, l,uís da Câmara. Geografia de Sergipe no domínio colonial ho- 1808. 2.a ediçáo. Aracaju, 1944, p. 12.
landê.ç. RIH.GS, n.') XVI, Vol. XI (1930-1940). 1942,p.06. 57. BEZERRA,Feke.Etnias Sergipanas. L. Regina, Aracaju, 1951, p. g4.
58. -fU^""["r.
37. CASCUDO, l.uís tla Càmara. Idem. YPLLO NETO, Jqpé Antônio Gonçalves. Tempo dos fàiçao do
38. "Os mottr'.rs ( us (uuses que moveram os resídentes portugueses a se levanta- Governo de Pernambuco em convênio com o Bánco do Norãeste do'Brasil
rem conltu ír,§ l(r.rJír,r t,t'illrer novomeníe em guierra, diz-se que são vários: en- S/4. Recife. 1979.
tre os quuis uquclas qru,, gentlntt,nte, movem e incitam os povos dominados a
libertarem-se. Acrestenle-sc u i,rso a diferença de religíão, de língua e de cos-

8.8
89
nuar a guerra, Porém o valor de nossa gente tudo
facilitava quando era mister."

Memôrias Diâriasfu Gucna do Brasil Duarte de


Albuquerque Coelho (1630-1638). Fundação de
Cultura Cidade do Recife, 1981, p. 3tgt3i2}.

Discurso do Padre Antônio Vieira em que per-


suade a ent̀ga de krnambuso aos holandeses.
TEXTOS PRIMEIRO PONTO
MARÇO 31, "A 31 chegou Bagnuolo à cidade de Sergipe de Este ponto mostra os inconvenientes que há nos artigos da capi_
El-rei, a 25 léguas do rio de S. Francisco. Esta po- tulação peia ordem seguinte:
voação, com o nome de cidade de S. Cristóvao,
dista do mar cinco léguas, em altura de l1 graus, e QUARTO INCIDENTE TERCEIRA RAZAO
um terço da equinoxial para o sul, sem porto a não -
ser de um rio (por onde se comunica) chamado in- Terceira: porque damos Sergipe, tao célebre neste tratado,
corretamente Seregipe sendo o seu verdadeiro hoje é nada, e nunca foi tao grande cousa como se imagina. Dett
nome Serigip. Está numa planície e tem tanto de por ventura esta equivocação motivo a chamar-se na Bahia, geral-
circuito como uma Praça; não chega a 500 fogos. mente sergipe a tudo aquilo que fica da Torre de Garcia d'Ávila
Uma igreja matriz e um convento do Carmo com para o norte, náo sendo verdadeiramente Sergipe, senáo uma Capi_
pioucos religiosos; e uma casa de Misericórdia: tania que está distante da Bahia 58 léguas, e o rio do mesmo nome,
num monte próximo, uma Ermida de S. Gonçalo. que é tr que nos havia de dividir dos holandeses, que dista mais de
Pelo que toca sua iurisdição, para o Norte ao río' 60 léguas. Daqui se segue, primeiramente, que a vizinhança fica
S. Francisco 25 léguas e para o Sul até o rio TapL sendo tanto como se corisidera, principalmentà havendo de dcar as
curu 20. Tem oito engenhos de açúcar e muitos fortalezas dos Holandeses l0 léguas mais atrás conforme o capitu-
currais de gado que ali se dá muito bem por causa 'lado, e sendo
todas as terras, que estáo em meio, retalhadasiom
dos bons pastos. O seu governo civil exercia-o a muitos rios caudalosos, e com bosques e caminhos inacessíveis, e
Câmara ou Magistrado com nome'de Juízes ou Re' incapazes de marcha, como experimentaram as tropas de D. Fran_
gedores eleitos cada ano. O Ciminal, um Auditor cisco de Moura,'quando por mandado do Marquêi de Montalváo
sem letras dando apelação para a Bahia. O militar foram desalojar dali o inimigo, o qual quando queria intentar al-
(sem haver soldados, senão alguns moradores) guma coisa na Bahia, não podia fazer senáo por mar, e para isso
uma pessoa que lá enviava o Rei tendo este débil não nos há de sqír do rio de Sergipe, que mal é capaz de barcos,
governo por anos limitados; e distando da Bahia 66 senáo do porto de Recife, com que a distância fica sendo sempre a
léguas. Aqui fizemos alto para aloiar-nos, cada vez mesma.
com menos notícias do inimigo, pela distôncia em Quanto aos mantimentos, sabida cousa é, que os de que se sus_
que ficamos e o embaraço nao pequeno de ter em tenta a Bahia, nunca jamais vieram de Sergipe, senáo do Cairu,
meio o caudaloso rio S. Francisco, sem braços Boipeba e Camamu, que Íica 15 até 201éguas para a pârte do sul, e
para o atravessar, privando-nos assim de conti- mais de 80 para a parte de Sergipe, mas depois que àquela Capita_
90
9l
nia foi tomada pelos Holandeses, ficou totalmente deserta; e se
acaso depois do levantamento de Pernambuco se lhe tem metido
algum gado, pode-se retirar outra vês, e náo será a primeira que
isto se tem feito, de maneira que o que se dá aos Holandeses náo
sáo os gados, nem Sergipe, que está deserta; e além de duas partes
que nos ficam temos também o rio Real, Itapicuru, a Cachoeira, a
Terra Nova, a Torre, Itaparica, a Mata, e outras terras de gados,
de que se sustente, e sustentou sempre a Bahia. Mais ainda que
esta terceira parte de Sergipe, que se tem prometido aos Holande-
seJ, ,se lhe prometa, bem se pode resgatar facilmente, dando-lhes
algum dinheiro ou açúcar, que cessa toda a questáo." IV AS PRIMEIRAS I
RIHGB, Tomo XLVI 1893, p. 18/19. -
ECONÔMICAS. O PAU.

O desenvolvimento econômi
gado à sua geografia geomo
geobotânica. -
Apesar da pequena extenúo
tre 90, 3l', 5" e 11o, 34',12" li
mação geológica, que se estende
zóico Quaternário, e que seria rr
dades geomorfológicas ali encc
marcantes, destacam-sê í?Iaffi
a foz do Sáo Francisco ao rio R
tada e com maior largura junto à
Francisco onde alcança 20 Kms
planaltos sedimentares,. em que i

metros e ocorrem ao nordeste e


caractenzada pelo relevo colinor
Cotinguiba e Real-Piauí; a Supet
se após os tabuleiros costeir,os ,

superficie onde permanecem rek


I'
Pediplano Sertanejo, que se este
setni-árido, aplainado por intens
tre 400 e 750 ms,, sendo as mais
e a Serra Negra (l).
O clima de Sergipe, em que a
res determinantes, é classificadr
árido {anexo n.o 01). Há divers
92
I

VII O BRANCO NA FoRMAÇAo ÉrNrca


SERGIPANA

"Foram os marinheiros franceses, famosos traficantes


do pau-brasil, os primeiros homens que entram em contato
com os íncolas de Sergipe. Os franceses iniciaram não
qpenas a nossa história econômica
- com a exploraçao da
madeira de tintoraria, aqui existente em quantidade e da
melhor qualidade, mas também a mestiçagem
- meninos
sardos, filhos de franceses e tupinambás, aos quais se re-
fere o cronista Gabriel Soares de Souza",
escreveu o historiador José Calasans (l). Realmente, os docu-
mentos comprovam que, desde os primórdios da história do Brasil,
marinheiros franceses percorreram o litoral sergipano, possivel-
'mente começando as atividades quando aí aportou Binot Paulmier
de Gonneville, comandando a nau L'Espoir que zaÍpaÍa do porto
de Honfleur em 1503. Essas incursões se estenderiam por todo o
século XVI e os primeiros anos do século XVII.
O fator responsável por táo insistente presença foi a abundân-
cia do pau-brasil e sua excelente qualidade, na floresta da'encosta
do Atlântico , na zona situada entre o cabo de Santo Agostinho, em
Pernambuco, e o rio Real em Sergipe. Também contribuíram para
o carregamento das naus outros produtos extrativos a pimenta,
oalgodáo-epapagaios. -
Esses navios zarpavam, principalmente, da costa da Bretanha,
destacando-se os portos de Honfleur e Dieppe, e buscavam, em
.Sergipe, de preferência, as fozes dos rios Real, Vasa-Barris e Ser-
gipe.{!_IgaliZayaÍ-npÊscqmbo com os Tupinambás, que se torna-
r'
í
/ r55
I

,ram seus ali4(os, sobretudo quando os portugueses intensificaram a presença francesa. Vivia-se a época em que a pirataria procurava
a3têfrtâtivas de gscravizáJos, em decorrência do desenvolvimento ocupar as colônias ibéricas, como o Brasil, em conseqüência da
dà'êdlõnüm-ãã bahía e da necessidade de máodeobra. gqgrra-que se desenrolava, na Europa, entre Felipe-Ilda-Espanha
Os franceses disputavam aos portugueses o comércio ultrama- e Henrique IV da França. (Porlugal estava sob o domínio espanhol
rino no "Brasil, Guiné e Taprobana", que estes lhes queriam fe- desde 1580). Encontraram, porém, os aventureiros franceses maior
char resistência dos portugueses estabelecidos na terra, e não contaram
com o apoio dos Tupinambás afugentados para o interior pela mar-
"porque seja o menor povo do globo, este nao parece cha da colonizaçáo. Em 1593 seriam vencidos por Tomé da Rocha,
suficientemente grande para satisfozer sua cobiça" (2). l.o Capitão-mor de Sergipe (1591-1594) (5); três anos após sofre-
ram novo revés no rio Real, ao serem batidos pelo Capitáo-mor
Após o fracasso da França Antártica com a derrota infringida Diogo Quadros (1595-1601). No ano anterior, o famoso traficante
por Estácio de Sá e Mem de Sá, em 1565, aos seus integrantes, in- Pain de Mill partiu do porto de La Rochelle, na Bretanha, tendo
tensificou-se a presença dos marinheiros da França nas costas do como principal objetivo saquear a Bahia; mas uma tempestade
Nordeste. atingiu a frota, alguns navios naufragaram, e os que conseguiram
escapar das águas, entre eles o comandante, acossados pela fome e
"Durante anos ficou indeciso se o Brasil ficaria perten- epidemias, chegaram à regiáo dafoz do rio Real onde, porém, l16
cendo ao Perô (portugueses) ou aos Mai'r (franceses)" (3). tripulantes foram presos e remetidos para a Bahia, sendo Pain de
Mill e muitos dos seus companheiros enforcados.
Os portugueses reagiram aos prejuízos que a concorrência fran' Apaz de Vervins, de 1598, entre a França e a Espanha, teria,
cesa, nos mercados da Europa, trazia ao comércio da madeira tin- possivelmente, contribuído para limitar a açáo dos corsários fran-
torial, empreendendo a conquista das regióes onde o perigo da pi- ceses na costâ brasileira. Mas em 1617 ainda apareceram no litoral
rataria era maior, o que sucedia, em grande escala, no litoral sergi- de Sergipe, conforme depoimento do Capitáo-mor Joâo Mendes
pano. Teriam sido os franceses que ensinaram aos Tupinambás o (6).
uso da arma de fogo com que se apresentaram às tropas de Luís de A lSlgA p."ermanência dos marinheiros da França em território
Brito em 1575. Mas, derrotadosi refugiaram-se nos seúões os que sergipano. náo poderia deixar de contribuir pÍua a miscigenaçâo da
escaparam da mortandade e da escravidáo. Momentaneamente, en- populaçáo nativa com a qual rnanteve intenso contato. Gabriel So-
táo, os franceses se retiraram da terra sergipana, mas a ela retorna- ares, contemporâneo do início da colonização de Sergipe, a enfati-
ram assim que perceberam náo terem os portugueses deixado forti- zou âo escrever:
fica@es assegurando sua presença.
Na década de 1580 intensificou-se a presença francesa nas.cos- "Os franceses deixaram entre o gentío alguns mance-
tas dê Sergipe; contando com a colaboraçáo dos Tupinàú'b᧠e dos bos para aprenderem a língua e poderem servir na terua,
Kiriri, que haviam descido dos sertões, teriam mesmo chegado a quando tornassem à França, para lhes fazer resgate: os
ameaçar a capital baiana, indo os silvícolas por terra e os franceses quais se amancebaram na terra, onde morreram, sem se
por mar (4). Provavelmente. tal plano, que náo chegou a concreti- quererem tornar para a França, e viveram como gentio
zar-se, fora animado pela matança de 130 homens brancos e 300 com muitas mulheres, dos quais e dos que vinhain todos os
índios que haviam vindo a Sergipe ante o aceno, em 1586, de Ba- anos à Bahia e ao rio de Sergipe em naus da França, se
epeba para os jesuítas catequizarem os índios da margem sergipana inçou a terra de mamelucos que nasceram e morreram
do rio Real. como gentio: dos quais há hoje muitos dos seus descen-
Mesmo depois da vitória de Cristóváo de Barros e o início da dentes, que sao louros, alvos e sardos, e,havidos por ín-
colonizaçáo regular do território sergipano em 1590, era assinalada dios Tupinambás, e são mais bárbaros que eles" (7).
156 157
f

Entre es-ses -mgq.tiços estáo personagens semilendárias da histó- "os homens bons, lairadores, artífices, artesãos, que
ria de Sergipe, como Simáo Dias, o francês, que, fugindo à che-
gada dos holandeses e desobedecendo às ordens de Bagnuolo de foram os verdadeiros colonizadores, capazes de uma ativi'
h dade sedentárta, permanente, de rotina" (12).
rglir4r-se para a Bahia, refugiou-se, com seus rebanhos, nas matas
de Itabaiana, onde daria origem à povoaçáo que ainda hoje.leva A criaçáo e as culturas de subsistência, náo exigindo grandes in-
seu$ome (cidade de Simáo Dias) Outros desses mestiços sáo Ho- vestimentos, permitiram a atividade colonizadora da " gente miú-
norato, o perito encarregado de'buscar a urca flamenga Grifo Dou- da" (13). ! .,i*' '' | '

rado, que trazia Gabriel Soares, ao encalhar na enseada do Vasa- Eram esses colonos oriundos de regiões diversas de Portugal,
Barris em 1593, e Albert Guillet, morador e proprietário em Sâo daquelas que mais gente enviaram ao Brasil, destacando-se o Mi-
Cristóváo ao aí chegarem os holandeses. Quando da primeira Visi- nho, a Beira, a Alta, seguindo-se a Extremadura e as llhas de Aço-
taçáo do Santo Oficio às partes do Brasil em 1591, foram citados res e Madeira. Traziam eles a complexidade étnica de seu país,
dois franceses residentes na Capitania de Sergipe del Rei. Um, Ni- desde quando
colau Luís, casado com uma mameluca, há22 anos no Brasil, o ou-
tro, Simáo Luís, quando tinha l0 anos "veio de grumete" num na- : "o elemento português que veio para o Brasil nao
vio à nossa costa para buscar pau-brasil, e quando o navio partiu constituía.uma raça, mas um grupo étnico, que se vinha
preferiu esconder-se e ficar no rio Sáo Francisco, permanecendo \ formando desde longos séculos. Nele figurava a maior va-
dois anos em terra com os índios, "usando todas as genttlidades t riedade étnica, havendo assim verdadeira diversidade de
como os ditos gentios, de modo que até os l2 anos nao conheceu a
tr tipos antropológicos. E em conseqüência mesmo de suas
lei de Jesus Cristo" (8). Sáo esses os primeiros homens brancos : origens regionais, portadoras de variados tipos culturais."
conhecidos a monarem na terra Sergipana.
l(t4):
Já no campo cultural, náo sáo identificadas marcas deixadas pe- Na península Ibérica,
los marinheiros franceses em Sergipe, embora José Calasans se re-
fira às idéias protestantes (9). O carâter dos seus contatos. objeti- "a base racial comum é hoje o Homo Mediterrâneus,
vando essencialmente o escambo e a obtençáo de lucros, tornou-se moreno, dolicocéfalo, mas à sua compsiçao contribuíram
responsável pela ausência de influência cultural.,Essa só vai chegar no decorrer dos tempos, povos de proveniência diversa,
muito mais tarde, a partir dos meados do século XIX, através dos que se misturavam na península, no tipo ftsico e na cultu-
escritores do Romantismo. ra." (15). a'
PQftugueses Em decorrência da situação geográfica, Portugal tornou-se uma
pano,
espécie de ponte entre a Europa e a África. Por aí passaram povos
sa de 1590 contra o gentio da regiáo, e que, como recompen-
diversos, movimento iniciado por volta do século X 4.C., com a
sa, obtiveram a doaçáo de sesmarias (10). Muitos deSses sesmeiros
chegada dos ibéricos, celtas e ligúrios, que constituem a pré-histó-
eram rendeiros e foreiros da Casa da Torre, onde aexpediçáo teve
ria portuguesa.'De sua fusáo destacaram-se os lusitanos, localiza-
"base,
- porto e abrigo" (/1). Na última década do século XVI e
começos do século XVII, iniciaram a ocupaçáo da terra com reba-
dos entre os rios Douro e Minho. Pelo litoral de Portugal passaram
os fenícios, que, por volta do século XII 4.C., ileixaram marcas
nhos e culturas de mantimento.
de sua passagem no Algarves e outras regiões litorâneas; os gre-
gos, da época da grande expansâo colonizadora do século VI
Raros
':-."'-- -nobres e "homens de posse" encontravam-se entre os
--
sesmeiros que iniciaram o povoamento de Sergipe. Predominavam
4.C., legaram o alfabeto; posteriormente, chegar4m os cartagine-
ses. Os romanos apareceram no século II A.C. e, apesar da resis-
158
159
os co -
tência encontrada liderada por Viriato, incorporaram Portugal ao --Egi-dÚafugeliule4olasa@israrêm
lonos que, diretamente, ou através de seus
, coloniza-
seu império. Essa dominaçáo deixaria marcas profundas na língua, ram o território canavlals e engenhos,
nas instituiçóes político-administrativas e na religiáo através da di-
_c!I1U-ry! de sub-sistênc-ia,do-fumo, do algodáo. A maior parte des-
vulgaçáo Oõ crisiianismo. A diversidade de procedência dos legio- ses imig-rantes provinha da regiáo de Minho e do Douro. Foi contí-
nários romanos tornou mais complexa a etnia portuguesa, acen- nua a vinda do colono português para Sergipe durante a época co-
tuada com a chegada dosjudeus, em conseqüência dos 50.000 deles lonial. Mesmo depois da Independência, ocorrerá grande entrada
que Adriano, em I 17 D.C., quando da Diáspora, encaminhou para
de imigrantes na segunda metade do século passado.
a península ibérica.
- -e Manuel Qiegues Jr. escreveu sobre a variedade de grupos so-
pu.ti, do século v D.C., gerÍnanos se precipitaram sobre
ciais e, conseqüentemente, das diversidades culturais que caracte-
o mundo romano, estabelecendo-se' no território poÚtrguês' os go- rizaram a colonizaçáo lusa no Brasil, afirmando:
dos e suevos, que se fúridiram aos remanescentes romanos' A evo-
luçáo dessa acómodaçáo seria interrompida no século VII pela in- i'Esses diversos elementos sociais permitem
uu.áo *uçulmana. Suas cimitarras, em nome de Alá, eram empu- evidenciar-se que nao houve exclusivismos de criminosos,
nhadas por guerreiros de procedências diversas, predominando os
como querem alguns, nem exclusivismo de aristocratas,
bérberes e os mouros. Misturados com a populaçáo nativa, os mo-
como querem outros. Ao contrôrio: ao invés de exclusü
çarabes, como eram denominados, inÍluenciaram largamente
na
da der- vismos encontramos elementos muitos variados, que pode-
vida portuguesa. Essa influência continuou mesmo depois remos sintetizar em cinco grupos principais:
rota que lhes infringiu Afonso Henriques após a constituiçáo do
reino àe Portugal em 1140, quando libertou da tutela de Castela o
01. Fidalgos e militares, os que tiveram preferência nas conces-
Condado portúcalense, iniciando a dinastia de Borgonha. Os reis
sões de lerros, e que constituíram os elementos de classes mais
dessa dinastia alargaram o território para além das fronteiras do
elevadas na época, nao só por sua origem, sendo ainda por
pequeno Condado iituado entre o Minho e o Douro, atingindo, o
sua participação nas conquistas e navegações portuguesas;
paii, as dimensÕes atuais. À cruzada contra os infiéis muçulmanos,
02. Sacerdotes, que representavam a parle espiritual da coloniza-
à"o.t"*. povos do norte da Europa, provenientes de França, (ao, influindo na organização moral da sociedade que se eri-
Flandres, Dinamarca, Inglaterra. gia, sobretudo os pertencentes a ordens religiosas, destaca-
Das lutas travadas pela consolidaçáo da monarquia portuguesa,
damente os jesuítas;
sUfgliggçntraste entre o Portugal interiorano e o do ütoral, este 03. Degredados, aqueles que vieram para o Brasil em virtude de
,ottãõ para o mar, 6e onde saíram centenas de navios que leva- degredo a que eram condenados, às vezes por crimes ou peca-
ram os portugueses pelos caminhos do mundo, "indo mui além da
dos assim considerados na época; em sua.maioria, pecados de
Taprobana", no verso do maior de seus poetas, Luís de Camões' amor;
Aí desenvolveram-se relações comerciais, atividades de pesca e de 04. Criminosos, os que fugiam para o Brasil por verdadeiros cri-
navegaçáo, alguns setores artesanais, enquanto no interior encon-
mes cometidos, aqui procurando couto e homizio, ou incorpo-
tra-sã uma, agricultura incipiente, tumultuada por conflitos milita- rando-se à vida desregrada verificada em algumas capitanias,
res. No litoral, verificou-se contra o que, aliás,.iá.falava Duarte Coelho;
05. Homens bons, lau_raQg7qs,_arytfrce.!: g-l!g&St, que foram ver-
"um quadro de flutuações, mudanças, choques, gente
dadeiros colofiizadores, capazes de uma atividade sedentária,
diversa passando ou fixando'se, trocas, contatos múlti' permanente, de rotina." (17)
plos, disenvolvimento; no interior, um quadro de vida
Alguns desses colonos chegaram com as famílias, como atestam
atormentada, inquietaçao constante, com produção em
as doaçóes de sesmarias. A maior parte, porém, vinha desacompa-
crise, êxodo das populações, relações feudais" (16)'
160
t6l

\-
nhada, e se foi misturando com as índias e, principalmente, com as às vezes, o personagem mouro, numa demonstragáo do quanto
negras à medida que o desenvolvimento econômico exigia mão- esse povo, que integrara a invasáo árabe, marcou Portugal.
deobra e rareava o braço indígena. A mestiçagem vai caractenzar . O holandês -significa, em importância, o terceiro povo europeu
.p composiçáo racial sergipana e, em 1808, para uma populaçáo
de a atuai em-ferras sergipanas. Nos anos de permanência (1637-1.&5),
72.236 habitantes, há 30. 542 mestiço s ( I 8), signific ando 42Vo' marcados por correrias, guerrilhas, destruições, tentavam
.' eles controlar o grande centro de abastecimento de gado que era
portuguesa-p-rgyg!9ggu la..fonmçáo
i ÇgttuaEtg-ntq' a irdluência Sergipe. Mesmo a posse da capital, a cidade de Sáo Cristóváo, não
sergm;ív_elga 14gua - embora recebendo a contribuiÇáudo
Os colonos trouxeram seus san-
foi contínua, pois retomada pelos portugueses em 1640, passaria
Eg!"+-do índio..--e-na çsligno-
para os soldados de Nassau no ano seguinte, que daí seriam desalo-
Tós preferidos. que faziarn padroeiros das povoações fundadas - jados em 1645. Registram os documentos da época que muitos sol-
Santo Antônio, Sáo José, Sáo Francisco, Sáo Gonçalo, Senhora dados holandeses desertaram quando, em 1645, caiu o forte Maurí-
Santana, Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora do Socorro' cio, passando-se para o sul do Sáo Francisco, onde se misturaram
entre outros e as festas religiosas típicas, em que se imporia o
-
Sáo Joáo (19), até hoje a mais importante festa popular da^ gente
às populaçoes locais.
Integrado, exclusivamente, por homens, geralmente pessoas de
sergipana, ao lado das comemorações natalinas. Também influen- insignificância social e econômica no dizer de Gilberto Freire, é
ciou o português na organizaçáo familiar, dominando o patriarea- explicável que nos anos de permanência em Sergipe, os flamengos
lipmo, ôom a mulher reclusá no inÍerior do lar, costume que só co- se tenham misturado com as mulheres da terra, filhas dos colono's,
meçou a ser abalado nos começos do nossO século, ante as trans- índias ou escravas negras. A instabilidade social reinante entáo em
formações sócio+conômicas ocorridas. As instituiçóes político- Sergipe, teria contribuido para que náo se impusessem restriçóes a
administrativas sergipanas, desde a fundaçáo da cidade de Sáo tais uniões, como sucedeu em outras capitanias ocupadas Per-
Criitóváo; reÍletiam as de Portugal, com as autoridades nomeadas nambuco e Maranháo, por exemplo. Nada obstava a uniáo-desses
-lõffiiilôr, Provedor-mor, Almoxarifes, Juízes dePaz, Juíz Ordi-
que, também, apare- aventureiros, diversos deles desertores, com as mulheres da terra.
nário e a instalaçáo da Câmara Municipal,
- criadas, exercendo grande influên- Esses soldados traziam uma imensa complexidade étnica,
,ceria nas Vilas posteriormente
encontrando-se, entre eles germanos, frísios, alemáes, franceses,
cia na vida política local. Marcou o sistema de ocupaçáo da terra, ingleses, escoceses, valões, escandinavos, desde quando, na épo-
grande propriedade rural, das
através das sesmarias
- origem da
técnicas de produçáo agrícola que.se impuseram às dos povos es-
ca, dominava o mercenarismo na formaçáo das tropas.
Os cruzamentos raciais se deram evidentemente. Em 1808, D.
cravizados, ãos meios de transportes com a introduçáo dos animais Marcos de Souza, ao traçar o quadro demográfico de Sergipe, di-
de carga, do carro de boi, do cavalo como meio de locomoçáo dos ria:
senhores, usos e costumes trazidos pelo colono luso de suas pro-
víncias além-mar. .'. ' /"; - ,) .' '' " :
"Também se contam algumas pessoas de raça holandesa,
a influência nas
r Nq_fplclore sergipano. aiqda h,o-je. e"CIb§êrvada popular é incon-
quando os holandeses ocuparam esta Capitania no ano de
_ festas
-testávél populares como a chegança.(20). Na poesia 1637 e se achavam etn gaerra com os pernambucanos"
á superioridade da inflúncia lusa sobre as demais, como (24).
afirma Sílvio Romero (21), manifestada nos romances cavalheires-
cos como Dom Duarte e Domzilha, Dom carlos de Montealbar, D. Felte Bezerra, com razáo, afirma
Branca, A Pastorinha, Florioso e o Cego Andante (22), a Dança
de São Gonçalo (23). As histórias para crianças, que tanto encan- "a nosso ver, algum do sangue'flamengo' que se en-
taram a infâricia sergipana, Histórias de Trancoso com reis, contre em Sergipe estarô, antes de tfudo, nas margens
- metrópole, nelas
-aparecendo,
rainhas, princes.as, foram trazidas da franciscanas ou, mui salpicadamente, em outros pontos do
162

L.
Y

interior do Estado, na Capital onde permaneceram muito antigos moradores da terra, veio em companhia de Cristóváo de
tempo" (25). Barros "ajudar a guerra ao gentio e povoar a terra com sua pes-
soa e mulher e família indo em todas as guerras e saídas que se na
Estacada a fonte abastecedora com a retirada dos holandeses, ( dita capitania fizeram e ofereceram, indo sempre a sua conta",
os traços antropológicos se fotam diluindo nos sucessivos cruza- como registra seu pedido de sesmaria em 1602 (28). Cristáos-novos
mentos ocorridos. seriam Luís Alvares que, em 1606, recebeu sesmaria "junto ao rio
Quanto à contribuiçáo dos flamengos à cultura sergipana tor- Seregipe da banda norte correndo para o rio", na Capitania que,
na-se impossível identificá-la. Sua dispersáo no território, a transi- ele "suplicante, está povoando com sua mulher e filhos com suas
toriedade da permanência fizeram que qualquer inÍluência se dis- criações ordinárias, fazendo suas lavouras" (29); Antônio Muniz
solvesse no contato com a cultura lusa, indígena e africana. Nem de Lisboa que, em 1623, recebeu a sesmaia "de meia légua de
mesriro no vocabulário falado pelo povo sergipano nas regióes que terra em quadro com todas matas, pastos, águas, lenhas e madei-
viveram a presença do holandês, foram identificados, pelos estudio- ra" (30); Diogo Lopes Ulhoa "que qcompanhou Cristóvao de Bar-
sos, vocábulos que teriam ficado da passagem dos soldadqs de ros na conquista de Sergipe e obteve uma sesmaria. Um seu tio foi
Nassau. queimado pelo Santo Ojício em Lisboa" (31). Já Simáo Leao"che-
Outros g{rlpos-etnicos que oontribuírarn para a formaçáo sergi- gou a ter contrato de dízimos em Salvador
- onde residia - e
também em Sergipe del Rei, o que comprova a penetração desses
àenominaçáo de cistáos-novos, tomada no reinado de D. Manuel semitas no setor comercial privado", sendo "importantes merca-
quando, em 1497, foi determinado que todos os judeus se conver- dores de produtos coloniais para diversos portos do Norte e da Eu-
tessem à força. Ao começar a inquisiçáo a atuar em Portugal, a ropa";atuavam também no setor púbücô, "incluisive na própria
partir de 1540 osiudaizantes incluíram-se entre os criminosos de- igreja, posto que um dos patriarcas desta família, Diogo Leão,
portados para o Brasil, prática que havia sido iniciada em 1535. No t:hegou a ser ofictal da Confraria do Corpo Santo da Bahia, apesar
decorrer do século XVI, os judeus conseguiram, algumas vezes, de publicamente conhecido como'homem da nação' " (32). Ainda
permissáo para deixar Portugal, sendo, porém, proibidos em 1578. sáo citados Henrique Fernandes Mendes, natural do Algarves
Mas, em 1601, a proibiçáo era suspensa, e o rei obtinha do Papa o "que foi sambenitado", Pero Fernandes, carpinteiro, e Pedro de
Perdáo Geral aos cristáos-novos portugueses, e "suas passados Vila Nova, "judeu estrangeiro morador em Sergipe", que se en-
transgressões", mediante pagamento. Vigiados para náo lesarem o carregou de entregar o dinheiro do suborno para serem queimados
tesouro português, receando a Inquisiçáo, eles, em grande número, os Autos do sodomita Gaspar Rodrigues, também foragido em São
abandonaram Portugal vindo para o Brasil. Cristóváo (33).
Na segunda metade do século XVII, em I I de dezembro de
"O Brasil continuava a ser, e continuou por muito 1667 , era aprisionado Diogo Vaz,
tempo, o refúgio e o lugar do degredo dos cristãos-novos,
refúgio para os que podiam da metrópole eicapar às ma' "em parte cristão-novo, natural de Vila Campo e resi-
lhas do tenebroso tribunal; degredo para os que, por cul' dente em'Sergipe. Compareceu ao auto-de-fé de 3l de
pas leves, saíam por ele penitenciados
núrnero que aqueles" (26).
- esJe§ ern menor março de 1669 onde lhe ordenaram abjurar de Levi, sendo
condenado de três a nove meses de prisao. A 14 de abril
foi solto e leve licença de escolher sua própria residência,
Através da segunda visitaçáo da Inqui§içáo à-Bahia em-1618' é mas não de sair do país" (34).
conheffi6^-à preiença dos iristáos-novos no território sergipano
dede-o-lançamonto dos fundamentoq$;suc"etiloieegip. Assim, Nos começos do século XVIII a Inquisiçáo voltou a atuar, compa-
Baltzzar Leío, "membro de importííte família" (27), nm dos mais recendo as primeiras vítimas ao auto-de-fé de 30.07.1709 em Lis-
164 165

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boa. Das treze pessoas condenadas, oito eram do Rio de Janeiro, Torna-se, assim, difícil identificar sua contribuiçáo à vida sergi-
quatro da Bahia e uma de Sergipe (35). Em 1732 era denunciado o pana. Procurando fixar-se, preferentemente, no interior para fugir
cristáo<rovo Antônio da Fonseca, agricultor, morador nas margens à Inquisiçâo, o que o levava a ocultar sua origem, o cristáo-novo se
do S. Francisco. ( integrou e se acomodou à organizaçáo sócio-política local vigente,
Uispersos-ms. -regióes-jnteriomnas. - escondçndo-,a,*idcntielede o que náo o impediria, porém, de nela deixar a marca de sua pre-
para fugir às denúncias do §anto -Q.fÇio'oo jr"l"u" terrni'^ru**t- sença.
Ofuaraeterísttcetütural, absonrendoes"@
ür região onde se estabeleceram. Como bem escreveu Anita No- "O ambiente estranho, a solidao do vasto continente, a
vinsky: distância da prática e dos círculos familtares, e principal-
mente o imperativo da ruecessidade de cooperação parq a
"O cristão-novo no Brasil apresenta algumas caracte- própria sobrevivência, tanÍo material como social, apro-
ximou cristãos-velhos e cristãos-novos e amorteceu as bar-
rísticas extremamente interessantes e que o distingue niti'
reiras discriminatórias" ( 39).
damente dos cristãos-novos que emigraram para os países
do Norte da Europa ou para o Levanté. Miscegenou-se
Sob o imperativo destas circunstâncias, se movimentou o cristáo-
com a população nativa, criou raízes profund.as na nova
novo que chegou ao Brasil-Colônia. Assim ele viveu na Capitania
terra, integrando-se plenamente na organizaçao social e
política local" (36). de Sergipe del Rei.
Os ciganos, povos de origem controvertida (40), já se registrava
a sua presença em Portugal desde o século XV, crescendo a en-
A extensáo geográfica, a falta de braços e aptidóes para o traba-
trada com o decorrer do tempo. Dedicavam-se, principalmente, ao
lho influenciaram para que no Brasil náo medrassem os preconcei-
comércio ambulante. Em 1574, o rei D. Sebastiáo comutava a pena
tos do Velho Mundo.
de um cigano condenado às galés para o degredo no Brasil, pas-
sando, assim, a serem eles favorecidos pela legislaçáo portuguesa.
"No Brastl em construção, o cristao-novo experimen- A primeira notícia referente à presq4ça de cigargs em Sergipç)foi
tou de tudo: foi desbravador do sertão, lavrador, mecâni' dada pela segunda visita do Santo Oficio à Búia,.em 1618, ao refe-
co, mestre de açúcar, soldado "peruleiro" e até fidalgo' se- rir-se a um filho da cigana Joana, que morava na Bahia e se passara
nhor de engenho e capitao-mor" (37). para Sergipe del Rei. Eles estiveram presentes no século XVII
percorrendo o território sergipano sem se fixare_m, acompanhan-
Também, através das denúncias do Santo Ofício, ftca eviden- doos sempre a denúncia de roubo. No século XVIII contavam-se
ciado serem fracas as convicçóes religiosas dos cristáos-novos do numerosos os contingentes de ciganos que andavam pelo Brasil, e
Brasil sob o impacto do meio onde viviam' Geralmente, se

"as queixas eram de que os iudeus prejudicavam os


" eles se juntarem serão alguns mil em toda a Capitania
naturais, que eram homens que açambarcavam todas as (referência à Bahia), além de escravos que possuem, tais
fortunas, que tinham as melhores terras e ocupavam as como eles, e alguns índios que poderao coadjuvar" (41).
melhores posições" (38).
Em 1718, os ciganos e ciganas foram deportados do Reino para as
A concorrência, que os cristáos-novos faziam no setor econô-
Colônias, "pelos furtos e mais aelitos que freqüentemente come-
mico, tornava-se mais perigosa que as práticas religiosas por ele tiam". Em 1721, o Capitáo-mor de Sergipe, por continuarem os ci-
cultivadas. ganos "nos seus costumados insultos", mandou proceder contra
166 r67

L-
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I
I

eles "com a prisõo e ao mais que entender mereça" porque lhes "tem fama de mourisco e ao ouvir dizerem mal de sua
concedera licença para melhor serem vigiados, "entendido que filha,comentou que ela era tao pura quanto a Virgem
nesse sertão serão mais facilmente castigados" (42). Nossa Senhora" (48).

Apesar de considerados " homens embusteiros" e terem sofrido


Ali, um seguidor de Maomé teria se refugiado.
Decorrente de fatores geográficos, como a pequena área terri-
a repulsa de S. Carlos Barromeu no Concílio Provincial Mediona-
torial que a constituiu, e dàs condições sócio-econômicas que defi-
lense, e do Imperador Carlos V nas Cortes de Madrid no ano de
niram sua formação nos tempos coloniais, na Capitania de Sergipe i
1528 e de Toledo ano de 1540 (43), as autoridades portuguesas
-
liberaram a vinda dos ciganos para o Brasil, idêntico ao que faziam
del Rei náo subsistiriam etnias isoladas, como em algumas regiôes,
do Brasil.
com os degregados. Tentaram tomar medidas para sua aculturaçáo
na colônia, como ocorreu em 1760 (44):
"()s ciganos vêm vindo bastante e querem tomar vida NOTAS
regulada, porque por todos os portos os prendiam, pelas
01. CALASANS, José. Aspectos da formação sergipana -- Os franceses e a ex-
ordens que para isso se passaram para todos os
ploraçao do pau-brasil. RIHGS, n.o l6 (1930-19a0), p. 07.
Capitães-mores, ouvidores, iuízes de paz e ordinôrios. Os 02. THEVET. Cosmographie Uníversalle, p. 9(D. In I-Ény, Jean de. Viagem à
mais vão arrendando terras, oeupando com suas mulheres Íerra do Brasil. p.37. Biblioteca do Exército Editora, 1961.
em lqvouras e em abrir tenas de novo, deixando total' 03. ABREU, Capistrano de. Capítulos de História Colonial. Sociedade Capistrano
de Abreu, Livraria Briguiet, 1954, p. ü4..
me.nte o ilícito comércio e modo libertino que tinham de 04. Carta de sesmaria de Brás Dabreo, de 15 de maio de 1623: "... queria os ditos
vida" (45). franceses por mar e o gentio por terra a tomar a Bahia se lhe não viera dar
guerra o dito governador Cristóvão de Barros". FREIRE, Felisbelo. Histórla
Apesar das tentativas, foi dificil a integraçáo dos ciganos à so- de Sergipe.2.a ediçâo, p. 409.
05. CaÍa de sesmaria de Domingos de Lourenço, de 03 de dezembro de 1593: " Diz
ciedade colonial brasileira, náo só pela sua reaçáo, mas, sobretudo
Domingos Lourenço ota estante nesta cidade de Sao Cristóvão que ele vai em
pelos preconceitos sociais dominantes: três anos que veio a esta Capitania e nela ajudou a dar soldados ao Capitão
Tomé da Rocha e agora oferecendo este encontro dos franceses no rio Real
"As filhas será mais dificil acomodadas, porque na acompanhou a um com suas atmas e escravos donde o fez como valoroso sol-
Bahia não se querem servir com brancas e menos com fi- dado". FREIRE, Felisbelo. Obra cítada, p.340.
06. Correspondência do Capitao Joáo Mendes ao Governador-Geral Lús de Souza,
lhas de ciganos, temendo que alguma nôite se ajustem em 06 dejaneiro de 1618. "E estandõ eu de caminho e Cristóvão da Rocha para
com os pais para roubar as casas, e sobretudo querem-se nos partirmos me veio nova do rio Real estarem lá seis navios do inimigo um
só servir-se com mulatas e pietas" (4ó). patacho e uma lancha, que entaram no dito Rio e tomaram muitos porcos e
galinhas e roubaram o rnais que havía na casa do morador onde deram e assim
limparam as casinhas as entendo que é necessidade de agir a que vou acudir
Em Sçlrgipa-confinuaram na vida qg4ggdç' Em 1824, o Briga- com rytuita brevídadc e assim as mais paragens donde o podemfazer. Nesta dí
deiroíomandante de Estância, Guilherme Nabuco de Araújo, re- zem são franceses. Livro I do Govemo Geral do Brasil. Côdice D. Luís de
cebia o ofício do Presidente da Província, Brigadeiro'Mamrel Fer- Souza, Mss, Biblioteca do Itamarali,
nandes da Silveira, para que expulsasse da rdgiáo todos os ciganos 07. SOUZA, Gabriel Soares de. Norícia do Brasil, p. tB6.
08. Confissões da Bahia
(47). Expulsos dali buscaram, porém, a Cotinguiba.
147.
- 1591-1592. Editora Briguiet, Rio de Janeiro, 1935, p.
O óÍtro da Inquisiçáo identificou outra etnia na Capitania de @. " No primeiro século os navíos franceses freqüentavam o lítoral brasileiro mer-
Sergipe del Rei. Em 1678, o Carmelita Frei Inácio da Purificaçáo cadejando pau-brasil, pímenta, papagaios; distribuindo óom os íncolas espe-
denunciou a existência, nas bandas de Itabaiana, de Francisco da lhos, facas, tesoutas; dekaado por aqui meninos atuivados e idéias prote.§tan-
Maia Correia que tes". CALASANS, José. Obra cítada, p.08.

168 169

L-.
I

u
i0. "Desenvolvendo temas vinculados à vida do mar e às lutas contra os mouros,
10. cartâ de doaçáo de sesmaria a Tomé Femandes, de 23 de julho de 1594 - rio
,;DizTomé Femandes que ele veio ajudar a dar guerra em Sergipe as cheganças revivem no Íerritótio brasileiro antigas tradiçoes ibéricas cele-
Cotinguiba:
bradas em romances de inspiraçao marítima lais como a Nau Catarineta e nas
del Ríi em companhia de Cristóvao de Barros Capitao-Geral das entradas com mouriscas, danças que figuravam combater entre crtstãos e mouros". DAN-
suas atma§ e e§cravos a sua custa sem prêmio nenhum nem coisa alguma
del'
TAS, Beatriz Gôís. Cheganças. Cadernos de Folclore, MEC
Rei e depois da terra já ganhada se for assim que neste serviço de sua Majes-
cional ile Arte, Rio, 1976, p. 03. - Fundaçáo Na-
fade gaitou oito meses, o qual daí a um ano tendo notícías vinham moradores'
que 21. ROMERO, Sílvio. Estudos sobre a poesia popular do Brasil.2.â ediçáo. Edi-
o poioo, náo quis ser dos àerradeiros, e não arcnàendo ao muilo trabalho
passam nas terras novas se veio sua casa trazendo uma filha casada onde já tora Vozes Ltda.. em convênio com o Governo do Estado de Sergipe, 1977, p.
'nesra
capitania a três anos mora ajudando a povoar na paz como na guerra"'
t97.
22. LIMA, Jackson da Silva. O Folclore em Sergipe. Editora Cátedra MEC
FREIRE, Felisbelo. Obra citada, p.328' - -
1977.
ll. CALMON, Pedro. História da casa da Torre, 3.a edição, Fundaçao cultural 23. Sáo Gonçalo do Amarante, um dos santos mais populares em Portugal, no Bra-
do Estado da Bahia, 1983' P. 31.
sil foi, inicialmente, festejado no interior das igrejas. Pelo traço profano de que
12. DIÉGUES JR., Manuel. Etnias e Cultura do Brasil,3.â ediçáo. Editora Letras e
se foi revestindo, teve a proibiçáo das autoridades eclesiásticas. Assim foi de-
Artes, 1963, p. 78. õ_^-:t . a^ saparecendo dos núcleos urbanos para dominar nas áreas rurais onde ainda hoje
13.,,osportuguesesquevieramestabelecer-senasterrasdo.Brasilnãopefrenciam goza de popularidade. "É talvez a derradeira dança como ação religiosa, ofe-
à clásse Ãéüa, altás pouco populosà nesses começos da idade moderna' ma-
renda litúrgica que possuímos". CASCUDO, Luís da Câmara. Obra citada.
ximé ent.portugal onàe n1o hoiia indústria nem agricultura. Eramtidalgos
ou
plebeui degredados; a maior parte gente aventurosa e sem consciên- Volume A-1, p. t49.
ínfimos e
24. SOUZA, D. Marcos Antônio de. Obra citada, p. 13.
,ío. Uni poúcos vinham por senhores; outros e, na maioria' por governados' 25. BEZERRA, Felte. Etnias Sergipanas.2.a ediçáo. Governo do Estado de Ser-
senão deientos; melhor parte era a que pesquisava a fortura e as aventuras'
-
ou fugia à sanha da perseguição religiosa'
gipe,1974, p.85.
reÍletiam o estado de alma de Portugal do tempo da Inquisi- 26. Livro das Denunciações que se Jizeram na Visitaçao do Santo OÍício à cidade
Toioí
çõo, do
"nrrnnto,
país da Europa onde era mais cara a vida e onde o monopólio das es' do Salvador da Bahia de Todos os Santos, no ano de 1ó18. Anais da Biblioteca
Nacional, Volur.ne XLIX, Rio de Janeiro, p. 78.
pec'iárias, das sedas e preciosidades do oriente tinha desenvolvido o luxo, a
27. MOTT, Luís Roberto de Barros. Á Inquisição em Sergipe. Trabalho mimeogra-
,orrupçôroeprofundamisérta."RIBEIRO,Join'OElemeníoNegro'Record'
fado, premiado"no concurso Programa Editorial "Sergípe: Memória e Momen-
Rio, s/d, p. 16.
Ío", 1985, p. 05.
14. DIÉGUES JR., Manuel. obra cttada, p. 62. 28. FREIRE, Felisbelo. História de Sergipe. 2.a ediçao, p.371.
15. RAMOS, Art.ur. Introdução à Antropologia, ll volume, coleçáo Estudos Bra-
29. ldem. p. 402.
sileiros e CB,B, '1947, P. 36.
30. Ibidem, p. 413.
16. SODRÉ, Nelson werneck. Formação Histórica do Brasil. Editora Brasiliense,
31. Livro das Denuncíações, citado, p.90.
1962, p. 16.
32. MOTT, Luís Roberto de Barros. Obra citada, p.05.
17. DIÉGUES JR., Manuel. obra citada, p. 18.
33. ldem.
lg. souzA, D. Marcos Antônio de. Memória.sobre a capitania de sergipe. - 34. WIZNI"ÍZER, Arnold. Os judeus no Brasil Colonial. Livraria Pioneira Editora
Ano de 1808, 2.a ediçâo, 1944, P. 44.
,,Na península lbéica o culto àe São João é um dos mais antigos e populares; Editora da Universidade de Sáo Paulo, 1966, p. 128.
19.
portugal possuiu no espíriÍo de sua população todas superstições, advinhaçoes
35. -Idem, p. l3l.
36. NOVINSKY, Anita. Cristãos-Novos na Bahia. Editora Perspectiva, Sáo Pau-
ogoíroi amalgamadás na noite de 23 de iunho, convergência de vários cultos
"deiaparecidos i de práticas inumerávêis, confundidos e mantidos sob a égide lo, 1912, p.78.
37. Idem, p. 65.
de um santo católico. Para o Brasil a devoçao foi trazida pelos portugue.ses e
38. Ibidem. p. 66.
espalhada com a satisfoção de um hábito agradável. A maneira da comemora-
para o proselitísmo. Os indíg-enas fi- 39. Ibidem, p. 65.
çào do santo era a maii sugestiva e fácil 40. Povo possivelmente originário da India, em época recuada teria alcançado a
iaram seduzidos. E, em 158j, o jesuíta Femao Cardim, indicando as trê§ Íestas
gosto inicial, Pérsia, de onde, ern dois ramos, e migraram para o noÍe de África e para a Eu-
religo§as celebradas pelos indígenas com mais alegria, aplauso e
ropa através dos Balcás. Aíjá no século XV era registrada sua presença. Sem-
"a primeira é as fogueiras de Sao Joao, porque suas aldeias ardem
"rrírrrr,
emfogos; e iara saltarem as-Íogueiras não os estorva a roupa' ainda que al'
pre perseguidos, conseguiram sobreviver no estado nômade, que os caracteri-
zou, resistindo às tentativas de sedentarizaçáo e aculturaçáo sofridas.
gumas vezes chamusquem o couro". CASCUDO, Luís da Câmara. Dicionário
41. AHU
ào Folclore Brasileiro, 2.s ediçáo, volume J-2. Instituto Nacional do Livro. - Bahia. Documento n.o 5.351.
42. Documentos Htstóricos, vol. XLIV, p. 157.
Ministério da Educação e Cultura' Rio de Janeiro, 1962, p' 392'

170
t7t

\-
43. Correspondência do Ouvidor e Intendente de Sâo José do Rio Negro, Lou-
renço Pereira da Costa, de 12 de março de 1761. AHU Rio Negro' Caixa l'
-
44. Lei de 20 de setembro de 1760: "Eu, El Rey, faço saber aos que este Alvará de
Lei virem, que §endo-me presente que os ciganos que deste Reinoforam depor-
tados para o Estado do Brasil, vivem tanto à disposiçao de sua vontade, que
usando de seus prejudiciais costames, com total infraçao das minhas leis, cau'
sam intolerável incômodo aos moradores, comeÍendo continuados furtos de ca-
valos, e escravos, e fazendo'se formidáveis por andarem sempre incorporados,
e carregados de armas de fogo pelas estradas, onde com declarada violência
praticam
-rando mais a seu salvo seus perniciossissímos procedimentos; e conside-
Que assim para sossego público, como para correçõo de
gente tão inútil,
e mal educada, se for preciso obrigá-los pelos termos mais fortes e eficazes a TEXTO
tOmar vida ctvil. Proíbe-se a todos ciganos comerciarem em bestas, e escravos,
e andarem em ranchos". Coleçáo de Leis Tomo I.
45. AHU Bahia, documentô n.o 4'887.
-
46. AHU - Bahia, documento n.o 5.351' "Motins sanguinolentos abalavam Portugal no tempo em que
47. OÍicio -do secretário do Governo, Antônio Pereira Rebouças, ao Brigadeiro
Comandante de Estância Guilherme Nabuco de Araújo, de 23'11.1824. APES'
lá fora a centelha da Reforma passava no ambiente; tais foram os
pacote 125. horrores, os assassínios, as mortandades contra os judeus e sus-
48. MOTT, Luís Roberto de Barros. Obra citada, p.06. peitos de livre pensamento, que se achou logo louvável criar-se o
tribunal da Inquisição, ao menos como um instituto legal que pu-
nha um termo ao tribunal tumultuário das ruas.
Tais eram na colônia os Brancos.
A gente válida era dizimada no Oriente ou em Á7rica; ficava e
crescia a população parasitária, ignorante, cruel e fanática. Nos
poucos, na maioria provincianos, que sobreviveram ou resistiram
a essa dissolução, felizmente é que estava a vitalidade nacional,
nos seus navegadores e artistas; mas eram insignificantes para
obstar ao desastre próximo.
Vindo para o Brasil os brancos carregavam todos esses vícios
da decadência que nao deixavam de empanar a coragem, o valor e
espírito de aventura que lhes eram próprios.
Os colonos são turbulentos e desumanos; em breve odeiam o
trabalho que relaxam e passam ao índio ou ao negro; adotam a in-
dolência ou dela sõo vencidos e dos costumes dos naturais, que
pervertem até fisicamente, trazendo o contágio das epidemias.
Os de baixa condição, agora com a fortuna fácil, tornaram-se
arrogantes, arruínam-se no luxo das sedas e de todos os prazeres
sensuais.
Dentro de pouco a fortuna mais tardia e honesta do trabalho
agrícola é perturbada pela imaginaçao.das minas, dos eldorados e
das riquezas fantásticas
- miragem contínua e quase sempre
desmentida pela decepção no primeiro século.

172 r73

\
o elemento conservador e aristocrático da colônia compõe-se
dos grandes senhores de engenhos - estes à moda árabe, com a
*o"ido tríplice, impelida quase sempre à mao pelos escravos
(porque, no princípio, o muar é ainda raro)'
" dos senhores de engenho há os merceeiros da cidade'
t)epois
o, ouiir"r, que são em grande número, e os pequenos comercian-
tes.
Entre uns e ouÍros estão os capitaes de resgate, que capturam
os índios ao tempo que fazem o pau-brasil e as indústrias extrati'
vas" .

RIBEIRO, Joáo. O Elemento Negro. Record, Rio s/d', p' l6/18' vrrr o ÍNoro NA FoRMAÇAo sERcrpANA
-
Era numerosa a população indígena que habitava o território I
sergipano quando os portugueses aí iniciaram as tentativas de co- '

lonização. Muitas tribos Tupinambás ocupavam a area situada en-


tre os rios Real e Sáo Francisco, calculando-se, pelo relato dos
cronistas da época, que seus componentes eram superiores a
20.000 (l). A maior concentrd§ão demográfica ocorria entre os rios
Real e Sergipe, regiáo onde o Pe.' Gaspar Lourenço durante sua
breve ação missionária, em 1575, chegou a visitar 28 aldeias.
Grande rivalidader existia entre as tribos Tupinambás, como
de_§creve Gabriel Soares de Souza:

" Os que se aposentavam entre o rio de São Franctsco e o


rio Real, se declaram por inimigos dos que se aposentavam
do rto Real até a Bahia, e faziam-se cada dia cruel guerra, e
comiam-se uns aos outros; e os que cativavam, e a que da-
vam vida, ficavam escravos dos vencedores" (2).

Os_p:4ggge_!es explorayam essa rivalidade, jogando as tribos


umas contra as oiitras; do gue tiravam vantagem com a obtenção
de escravos...

"Os T4pirya4nbtas sõo homens de mea estatura, de cor


muito baça, bem feitos e bem dispostos, muito alegres de
rosto, e bem assombreados: todos teem bons dentes, al-
vos, miúdos, sem nunca apodrecerem; têm as pernas bem
feitas, os pés pequenos; trazem o cabelo da cabeça sempre
174 175
aparado, em todas as outras partes do corpo os não con- Como em todo o Brasil, chocavam-se em Sergipe duas realida-
sentem e os arrancam como lhes nascem; são homens de des sociais: a dos conquistadores europeus e a das tribos autócto-
grandes forças e de muito trabalho; sao muiito belicosos e nes.
em sua maneira esforçados, e para muitos, ainda que
atraiçoados; sao muito amigos de novtdades, e demasia' "Os pimeiros procediam da sociedade feudal ibero-lu-
dos luxuriosos, e grandes caçadores e pescadores, e ami' sitana, pioneira do mercantilismo, e uma das mais avan-
gos das lavouras". çadas do Ocidente europeu na época. Já os habitantes da
terra a ser conquistada, constituíam uma sociedade tribal
É a primeira descrição que deles'encontramos, tendo sido escrita e comunista-primitiva, com um modo de viver nômade, in-
pelo autor do Tratado Descritivo do Brasil em 1587(3). ferior aos adventícios no que se refere ao estágio de de-
A organização social que entre eles existia, apresentava as se- senvolvimento das forças produtivas (6).
guintes caracteísticas :
Travo_-u-se".una-luta de vida e morte dos índios para preservar sua
propriedade em comum dos meios de produção;
- os instrumentos rudimentares de trabalho;
forma de vida contra o invasor português que dispunha de armas
- a cooperação simPles;
de fogo, cavalaria, e as técnicas bélicas mais avançadas.
- a distribuição igualitária;
Os portugueses moradores na Bahia, desde que ali se estabele-
- a divisão natural do trabalho por condições de sexo e idade;
ceram com o primeiro Governo Geral, haviam tentado aproximar-
- a organizaçío gentílica da sociedade;
se dos índios do rio Real para escravizá-los. Assim nos informa o
- a ausência de excedentes de produçáo (4)'
cronista:
-
Vgigm, de s se modo, n9. Lggig, g-d,Êl§,omunided§. .primitivÀrin- "Na era de t574, sendo governador Luís de Brito, e o
comffiel com o sistema escravi-ita a sbr imposto pelos portugue- Padre Inácio Tolosa Provincial, o gentio do rio Real' que
ses, contra o.qual, heroicamente, lutaram como fizeram os índios estava 50 léguas desta cidade, e que sempre esteve em
u" guerrs com os portugueses pelos saltos e agravos que lhes
Ti::'f,""*r*+s primeiras tentativas dos portugueses-de co- tinham feito, donde tinham mortos alguns portugueses em
lonizaõáo. de Sergipe, destacaram-se, pela bravura e heroísmq,.ps sua defesa, como o tempo da salvação de muito era che-
caçJg[ásis"UtubirrPrincipal da terra, muito-nomeado e temido entre gado, vieram os principais daquela parte pedir padres que
os portuÊroéies,-dominando a regiáo do baixo Vasa-Barras, cen- lhe fossem pregar a lei de Deus" (7).
trando suas atividades no local onde hoje se situa a cidade de Ita-
poranga;'§gtigt com liderança n? zona litorânea, com sede na re- Numa natural rggtã;o à escravização que sofriam dos portugue_
poderio pe-
ãiao aà atlrãilidade de Aracaju; A.peripê estendia seu ses, os índios s-e.aliaram aos marinheiros franceses que, desdã os
l-", ,u.g"n, do rio Real e terras ádjacentes; Muribeca dominava co-efiilJãã-ôol*óniáção lusa freqüentavam a costa sergipana em
entre as localiades de Itabaiana e Lagarto, cêfitrado na serra da busca dos produtos extrativos, especialmente o pau-brásil, abun.
Miaba; hifid,Oo rio Sergipe ao rio Siriri, sendo a taba princpial lo- dante e de ótima qualidade. Os marujos da França, pelo tipo de
catizadaffiizinhanças áa atual cidade do Rosário do Catete; Ia- atividade que exerciam, náo buscavam apropriar-se dás terras dos
paratuba, no rio Siri (afluente do Sergipe) ao.rio Poxim do norte silvícolas nem escravízá-los, porque sem sua livre cooperação náo
tafl uente. do Sáo Francisco), morando às. grargggl
d9 dl- Japaratu- seria possível a obtenção dos produtos da terra. Náo era objetivo
üu, no local denominado Canavieirinha;l$ndaíb| da Ilhade Sáo desses traficantes manter no litoral sergipano colonização regular,
pedro do Porto da Folha à serra da Ta6anga, indo seu domínio definitiva, mas assegurar, apoiando-se nas feitorias, a ajuda dôs n:i-
além do riacho Tamanduá, com sede na Ilha de Sáo Pedro (5)' turais da terra no abastecimento das naus através do escambo.
176 177
I
I

Enquanto eram cordiais as relações dos índios com os franceses Ein 1590, sob pretexto de'guerua justa, a expedição de Cristó-
na regiáo do rio Real, o oposto sucedia nos contatos com os portu- váo de Barros devastou, violentamente, as aldeias indígenas, ape-
gueses. O diálogo com os nativos de Sergipe, registrado pelo Pe' sar da resistência valorosa do cacique Baepeba (coisa ruim), que
Gaspar Lourenço, retrata a realidade brutal da colonização portu- em 1587 havia infligido tremenda lição aos caçadores de escravos
guesa: (ll). Os que escaparam à escravidão internaram-se nos sertões e,
sendo perseguidos por prepostos do conquistador, refugiaram-se
"Mas estes porÍugueses nào nos deixam estar quietos, em regióes distantes, de dificil acesso. Essas peripécias vividas pe-
e se tu vês que tão poucos por aqui andam entre nós, to' los nativos da terra Frei Vicente do Salvador fixaria em cores vivas:
mam nossos irmãos, que podemos esperar quando os mais
vierem, serão que a nós e as mulheres e os filhos farão es- "Alcançada a vitória em Sergipe, partiu o governador
cravos? Ao mesmo tempo (lue mostravam alguns deles os Cristóvão de Barros para a Bahia, e deixou Rodrigo Mar-
perigos e açoites que em ccisa de portugueses tinham re- tins em Sergipe para acabar de recolher o gentio que da
cebido, isto faziam com muitas lágrimas e sentimen- guerra havia fugido, dos quais se haviam passado muitos
tos" (8). para a outra parte do rio de São Francisco, que é da Ca-
pitania de Pernambuco, donde também vieram muitos à
A expedição de Luís de Brito dizimou, em 1575, grande parte caça deles". Dessa batida pelos sertóes, resultaria o apri-
da população indígena de SergiPe, sionamento de muitos índios qrue "foram vendidos aos
brancos sendo uma parte levada para a Bahia e outra para
"à qual deu tal castigo naquele tempo, comose não Pernambuco" (12).
deú naquelas partes, porque mandou destrutr os mais va-
lorosos e maiores dos corsários capitães daquele gentio, " Mortos, escravizados ou afugentados para os sertões, os indí- pK
que nunca houve ryaquela costa, sem'lhe custar a vida a genas de Sergipe tiveram as terras arrebatadas pelos brancoscolo-
mais que dois escravos, os quais principais do gentio fo' nizadores, através da doação de sesmarias. À medida que a terra ia
ram mortos, e os seus que escaparam com vida ficaram sendo ocupada pelas boiadas, culturas de subsistência e canaviais,
cativos" (9). crescia a pressáo dos colonos sobre os remanescentes indígenas
,)
que se haviam refugiado nas regiões interioranas. Suas últimas al-
deias foram devastadas, desaparecendo as roças onde
Co1n. o a4iquilamento dos-.Iupinambás da regiáo do rio Real,
par âi ie encamiúaraln, acercando:se.da cQsla:. oÂlenqia-qr "antes "quando Luís de Brito foi dar guena ao gentio do rio
seus mtmtgos, agora seus vingadores". Afluíram os kiriri nôma- Real, se acharam pelas roças desses índios que viviam ao
des das ;'caatiigas", gulosõs de .carníTüinaná, indomáveis, longo desse rto, muí grossas e mui famosas canas de açú-
odiando o branco, como seus parentes janduís, icós, tremembés' car" (13).
propensos à aliança com os franceses, sem perdoarem aos tupis al-
deiados pelos missionários, acostumados ao "corso", que era a
sua forma veloz de guerrilha à volta dos povoados (10). Possivelmente teriam sido os contrabandistas franceses que para
ali trouxeram as primeiras rnudas, originando os canaviais que im-
Os indígenas das regiões do Vasa-Barris e do rio Sergipe que pressionaram o cronista Gabriel Soares de Souza.
conseguiram fugir embrenhando-se nas matas' logo depois retorna- Depois de fixada a colonização, e aldeados os remanescentes
riam, continuando o intercâmbio comercial com os franceses, que, indígenas, estes continuaraÍn a ser vítimas da política colonizadora,
entre 1580 e 1590, intensificaram as expediçóes em decorrência da como exemplifica a vinda a Sergipc do.Sargento-mor Diogo de
guerra, na Europa, entre a França e a Espanha.
179
178

'1
Campos Moreno para embarcar os índios da aldeia de Manoel Mi- há de que tbi cumprida essa finalidade na luta contra os mocambos
ranila, naregiáo sanfranciscana, para Porto Seguro. que se constituem em uma ameaça para os brancos. Assim, em 167 4 o
Em 1537, o Breve do Papa Paulo III declarava que Governador Geral Afonso Furtado determinou ao Capitáo-mor de
Sergipe que mandasse 30 índios da aldeia do Geru para uma entrada
"a ninguém é lícito, sob pena de .excomunhão, pertur- que iria fazer contra mocambos (15).
bar os abortgenes da América no gozo de sua liberdade p Nessas aldeias completou-se o trabalho de descaracterilação
t
natural tal como a haviam recebido de Deus." I cultural do índio iniciado nas Missõçs, Na teJnl?tiyn de €sistianizar
ít se u s integrants s, 9s religigs.os concorrerffiTilãã desaparecinento-
Mas a realidade econômica da colonização lusa no Brasil tornaria dos traços da.cultura nativa.
esse breve inócuo. Seu desenvolvimentô coincidiu com a alta valo- Em Sergipe, além dos Tupinambás, fi4g1a-m-§e outro_s qrupos
izaçáo do escravo negro ante a demanda de máo-de-obra exigida fugitivos da exp31-9!g c_olonizadora.nas capitanias do Nordeste,
pelas possessões espanholas em franco progresso, e que as popula- como os Caetés.Missáoàs margens do Sáo Francisco, e os*t(igir{,. ao sul,
çóes nativas náo supriam. constituindo a do Geru nos fins do século XVII. Nessa
época, os inacianos já contavam com várias aldeias .em Sergipe,
"Esperassem, porém, os donatários, esperassem as além de Geru, destacando-se Poxim, Aracaju, Agua Azeda, Japa-
capitanias, *perasse o Brasil, pois a vinda dos negros ratuba, Cana Brava.
fornecidos aí, toneladas para as Índias Espanholas, propi- Outras ordens religiosas também atuaram, com êxito, em Ser-
ciando pingues proventos à fazenda real, não poderá ser gipe no decorrer do século XVII, na;.!!qgões quç fundaram,
desviada para cô" (14). como os C-arme[tas e os Franciscanos.
Em conSeqüência dos padres da Companhia de Jesus monopo-
lizarem a maioria das Aldeias e, dessa forma, a mão-de-obra aí
Da pressáo dos colonizadores portugueses no Brasil, necessi-
concentrada, acentuaram-se, no Brasil, as divergências entre colo-
tan9g_braÇos para a agricultura em plena expansáo, e mesmõ para
nos e inacianos no decorrer do século XVII e na primeira metade
gãiantir a posse da colônia por parte de Portugal, resultou o Alvará
do século XVIII. Em Sergipe esses choques se verificaram desde
de 20 de março de 1559, qu9 ge_g11tlague cada senhor de engenho
os primeiros tempos da colonização, quando estava no Governo-
, pudesse resgatar até 120 escravos índios em guerra justi.Guérra
justa era considerada aquela que os branóoi fizesiem contra a Geral Diogo Menezes e Siqueira (1608/1612), que permaneceu ao
lado dos interesses dos colonos do braço escravo indígena contra
ameaça do nativo, guerra fácil de ser provocada com os meios que
os jesuítaslque, apoiâdos no BÍeve de Paulo III, procuravam im-
os colonizadores dispunham. Surgia, assim, um casuísmo para jus-
pedir a escravização do gentio. Acreditavam os moradores da Ca-
tificar a escravizaçáo do índio e burlar o Breve de Paulo III.
pitania de Sergipe del Rei que seu desenvolvimento estava condi-
Em 1609, sob a inÍluência da Companhia de Jesus, o rei Felipe
cionado à obtenção da rnáo-de-obra indígena, como expressaria
II proibiu que os índios fossem escravizados, determinando sua lo- Diogo de Menezes Siqueira ao denunciar às autoridades metropoli-
calizaçáo em aldeias. Estas, que deveriam conter cerca de 300 ca-
tanas o quanto a política dos jesuítas acarretava prejuízos à Fa-
sais, tinham a direçáo espiritual entregue a um sacerdote, e a civil a
zenda Real, calculados, então, em três contos anuais.
um capitáo, geralmente um índio ou mameluco. Em realidade, os
Visando a proteger seus interesses, explicam-se os protestos
inacianos controlavam a maioria dessas aldeias que, além da máo-
dos habitantes de Sergipe em 1708 contra os abusos do clero, espe-
de-obra que forneciam para as fazendas e engenhos da Companhia
cialmente os jesuítas, "que preponderavam e oprimiam os povos,
de Jesus, deveriam, como era, especificamente, uma das finalida- particularmente os índios reduzídos por eles ao estado que a quase
des daiMissáo de Geru, "ministrar índios de guerra, conforme as
escravidão' '. Os habitantes de Vila Nova do rio Sáo Francisco
requisições dos Governadores, a diversas expedições". Exemplos
chegaram a insurgir-se contra o vigário local, invadindo a igreja
180
18r

L-
I
quando ele celebrava missa, e "com ameaças obrigaram-no a dio potiguar Poti, que passaria à História êom o nome de Antônio
retirar-se do lugar". No ano seguinte, veio do Reino o Desembar- liclipe Camaráo.
gador Manuel de Azevedo Soares para proceder a devassa contrâ Em 1662, o Governador-Geral Francisco Barreto, ante a infor-
os implicados no fato, sendo recebido com protestos e manifesta- mação da existência de alguns mocambos na Capitania de Sergipe,
ções de desagrado "por parte do elemento popular" (16). Os im- cnviava contra eles
plicados porém, ficaram impunes sob a alegaçáo da falta de provas,
(201.
numa demonstração da impotência da autoridade ante os interesses
econômicos em jogo, reprãsentados pela exigência de braços para " um cabo pela confiança que faço de sua experiência" ,
as plantações em plena expansáo. que,iuntamente com mulatos e mamelucos,
. As Aldeias, sob a direção dos religiosos, interromperiam o pro- ';vá conduzindo todos os índios da Aldeia de Saguippe"
cesso da evolução tribal dos indígenas, desmantelando as estrutu-
ras econômicas sobre as quais se assentavam suas instituições e
cultura (17).
O índio, além de trabalhar na terra como vaqueiro ou lavrador, Em 1675, Fernáo Carrilho investiu contra os mocambos das

de integrar as entradas que buscavam os metais preciosos Bel- matas de Itabaiana, contando com
chior Dias Moréia em sua aventura em busca das minas de - prata
da Serra de Itabaiana contou com o " gentio manso" também " uma aldeia de gentio com seu principal e muitos de
muitas vezes foi utilizado pelas. autoridades nos ataques- cqpJp gs arco, e os situou três léguas de Sergipe (referência à ci'
môeaitrbos de négros foragidos. Habilmente o branco*'iazia dade de Sao Cristóvao) à sua custa, sustentando'os e
OãIiontãíeú-se, como inimigos, dois povos por ele oprimidos, provendo-os de necessôrto, tendo-os domésticas na minha
como é exemplo a investida aos negros que haviam fugido dos en- obediência para as ocasiões que se oferecerem para outras
genhos e fazendas de Sergipe nos começos do século XVII. Na
rebeldias" (21).
impossibilidade de contar com os nativos da regiáo já com expe-
riência da exploração dos colonizadores, o Governador Geral
Diogo Botelho conseguiu que viessem do Rio Grande do Norte Como meio de conter a rebeldia do gentio de Sergipe, o
800 frechêiros potiguares. Após combaterem os aimorés, que per- Capitáo-mor Jerônimo de Albuquerque, como faziam as autorida-
turbavam a Capitania de [héus, esses índios foram deslocados des portuguesas para domesticá-los, em 1658 reuniu os índios que
para destruir os mocambos do rio Real, com a oferta da proprie- conseguiu, numa aldeia junto a Sáo Cristóváo (provavelmente
dade dos negros que conseguissem aprisionar, Agua Azeda), "de onde devia tirar a força precisa" (22)' para as
investidas contra os mocambos. Em 1661, foi enviado Antônio Fa-
"e poderem recolher as suas terras apenas acabada a ria comandando 80 homens para prender os índios que, no interior
guerra" (18). dc Sergipe, se rebelavam ameaçando seus moradores.
"E tao valorosamente se conduziram que reduziram os
mocambos, efetuando algumas centenas de prisioneiros, r O índio desempenhou papel importante nas guerras holandesas,
que distribuíram entre si, havendo sido um dos que mais se gcralmente ao lado do invasor, que, com habilidade, soube atraí-lo
distinguiram e foram bem aquinhoados o jovem Camarão, pura seu lado. Compreendendo como o conhecimento que os nati-
que depois tornar-se-ia herói na guerra holandesa" (19). vos tinham da terra era vantajoso para a luta de guerrilhas e em-
hoscadas que caracterizou seu domínio, o holandês sempre procu-
De capitáo-do-mato a herói condecorado por Felipe III por Carta rrrtr tê-los como aliados. Ao contrário dos portugueses que procu-
Régia de 1633, recebendo o Hábito de Cristo, foi a trajetória do ín- rirvllm mantê-los na escravidáo. Maurício de Nassau recomendava
I tt3
r82
que fossem remunerados pelos serviços prestados, embora impres- mentos mistos como forma de facilitar a relação de raças (25). Es-
sionado ante o desprezo que eles manifestavam pelos bens mate- tava esse ato dentro da política progressista do Ministro de D. José
riais. I que procurava levar Portugal a viver o momento que outras na_
ções européias já desfrutavam dentro do Iluminismo. O Alvará
"Os brasileiros, que são os mais antigos moradores e de 06.06 do mesmo ano estabelecia a liberdade dos silvícolas, re-
prtmttivos senhores daquele país, não se mostram interes- tirando dos jesuítas o comando das Aldeias. A Carta Régia,
sados em reunir riquezas ou outros bens e por isso não de 08.05.1758, dirigida ao Çonde dos Arcos, Governador-Geral
trabalham nem para si próprtos nem para outrem a fim de do Brasil, restitui àos íncolàs a inteira liberdade, ordenando que
ganhar algum dinheiro, a não ser ter o que beber e para fossem"erigidãS'aldeias para eles, "em cujo governo não será per-
adquirir um pouco de pano para fazer camisas para as mu- mitíilii a ingerência dos religiosos', que as.haviam governado até
lheres; os homens usam roupas de algodão sobre a pele, então. o Alvará de 28.10.1759 expulsava os inacianõs de portugal
sem camisa" (23). e suas colônias.
Mas "e.sta farsa libertária só representau para os índios o dí
Dentro da ótica da exploraçáo com que tratavam os indígenas, o reito de serem explorados sem ter para quem apelar. os adminis-
português náo comprendia o porquê de sua preferência pelos inva- tradores das vilas forarn recrutados em geral entre vizinhos que
sores, como bem expressa Frei Manoel Calado: cobiçavam as terras da antiga missão ou a seara de todos os ín-
dios aldeados", afrrma Darci Ribeiro (26).
"Esquecidos que haviam sido criados entre nós, aos
peitos da Santa Madre lgreja, com os quais os Religittsos _ Relexg dessa política pombalina em Sergipe encontra_se a
Caúa Régia de 22.10.1759 elevando à Vila, com o nome de Tomar
da Companhia, de São Bento, de São Francisco e do
de Geru, a aldeia de Geru dos Kiriri, que havia estado sob a res_
Carmo, haviqm trabalhado tantos anos em os doutrinar na
ponsabilidade da Companhia de Jesus, para que náo fossem ,,espo-
Santa Fé Católica, vivendo eles de antes como brutos
animais, e selvagens das brenhas e havendo os Portugue- liados daquelas terras, de que eles foram os primeiros ocupado-
res e povoadores".
ses conservado com tanto amor em suas aldeias,
livrando-os de serem cativos, merecendo eles ser mais- que Náo seriam, porém, os indígenas beneficiados com essa liberta-
cativos por suas grandes maldades; e bgo ao ponto se fo- ção. Seq;g.gUafda-dp,s jesuítas, passaram a ser vítimas dos colonos
.ram meter com os holandeses, e se ofereceram a ilrcs dar cobiçosos da máo-de-obra domesticadã e conhecedora do trabalho
Íoda a Capítania de Pernambuco conquistada, e tào su- agrícola que significavam os índios aldeados. Logo as aldeias sâo
jeita que não houvesse jamais português que ousasse a le- ocupadas na tentativa de escravizar seus habitantei. Em Sergipe os
vantar os olhos, e logo começaram a sair com os Holan- principais dirigentes de tais atos foram Joáo Nunes o" g;o-sl en-
deses em tropas, ensinando-lhes os caminhos que nao sa- tônio vieira de carvalho e Isidoro Gomes, obtendo êxito. Em váo,
biam, e esquadrinhando os matos, por entre os quais mui- protestaram o capitão-mor, o ouvidor e missionários de outras
tos moradores estavam escondidos com suas famílias, e ali ordens religiosas. A vila de Geru foi tomada de assalto por Isi-
matavam e roubavam, não perdoando as mulheres, assim doro Gomes, "chefe de um bando armado", que investiu 1contra
eles, como os flamengos, outros desaforos, que não é líci- a cômara e cadeia, escala-as a machado e eicontrando resistên-
to, por honéstidade, e por não ofender os ouvidos fiéis, de cia por parte de seus habitantes, recorre à arma de
fogo, saciandct
que sejam escritos" (24). as suas paixões. Deram-se.mortos e ferimenÍos,' (221.
*d -*
Lutaram os indígenas pela liberdade,.dentro das possibilidades
O Alvará de 17.04.1755, do Marquês de Pombal, considerava de.qué dispunham, como fizeram em 1763 quando, u"à.ruOo.
pà'to.
os índios iguais aos brancos para empregos, e estimulava os casa- colonizadores, desesperados, em número de 3.ü)0, contando
u
184 "à.
185

/
/

aliança de negros foragidos, assaltaram a cidade de São Cristóváo. Isto prova o justo título com que os soberanos de por-
Rppelidss" ÍecuaraÍl para os sertões distantes. tugal possuem aquele território,' (31).
Outras ordens religiosas, cômo os Carmelitas Calçados, assu-
miram a direção espiritual das Aldeias Náo percebia, ou náo queria perceber o Bispo do Maranhão e
, A população indígena foi diminuindo sensivelmqnt-e em S, ergipe, ex-vigário de Pé do Banco (siriri), que a situaçào por ele descrita
enquanto suas terras iam sendo ocupadar4eJo@ Dificil de era o resultado de quase três séculos de espoliaçáo e escravizaçáo
sdr dominado e aceitar a escravidáo, o índio passou a representar que o indígena de sergipe, como em todo o território brasileiro, io-
para a sociedade, e, paÍicularmente, para os senhores de engenho, freu desde que o português iniciou a colonizaçáo
reitores do sistema político e econômico regional, um iestoryo,
' pois,
A pecha de preguiçosos e perturbadores da ordem, o índio
além dos prejuízos que causavam às suas propriedddes com sempre recebeu das autoridades, como atesta a referência à missáo
incursôes e roubos, "ocupavam terras que poderiam ser incorpo- de Agua Azeda:
radas ao seu patrimônio e ampliar as empresas agro'açucareiras"
(28). ".Esses índios sõo preguiçosos como naturalmente to-
dos: ébrios, vadios e que fazem grandes desordens e per-
Nos coÍneços do século XIX assim se encontravam os índios turbaçoes na cidade de Sao Cristóvao; sua lavoura é es-
em Sergipe: cassa, que apenas lhes chega para uma escassa sustenta_
çao". (32).
NAÇAO DO ORDENS
ALDEIAS GENTIO RELIGIOSAS
contrariamente a essa descriçáo desabonadora, encontra-se a
informaçáo do Ouvidor José Antônio Alvarenga Freire:
01. Agua Azeda(náo há n.o de hab.)
02. Geru í) casais Kiriri' Clero Secular "Todos estes índios se achom civilizados com a Reli_
03. Japaratuba 120 casais Boimé Carmelitas Calçados giao, e com a Polícia do Estado. Ocupam-se em cultivar
O4. Pácatuba 46 almas Caxago Capucho Italiano suas terras, alguns em oftcios mecânicos. Sabem ler e es_
05. Porto da Folha 250 almas Uruna Capucho Italiano crever a maior parte. Vivem pacífica, e obedientes às leis e
06. Rio Real 80 casais Kiriri Carmelitas Calçados (29)
interessam a toda a sociedade,, (33).

, A indcpendençia !q llêsll nao modificou-aStuaeaoass"idíge-


Essa populaçáo indígena calculada na época, por D' Marcos nqs de §_egipe. Continuaria a mesma espoliaçáo d"-urça-n-
Antônio de Souza, em 1.1140 pessoas, para a população sergipana ".oi
tos oe ôiõFfredades no Império foram feitos prejudicando os nati-
de 72.236 habitantes, composta de 20.300 brancos, 19.542 pretos e vos, sob a alegaçáo de náo existirem mais índios puros na provín-
30.542 mestiços (30), representava apenas cerca de ZVo' cia. Este argumento justificaria a extinçáo da Diretoria dos Ín-
Com visío de coloniiador, assim D. Marcos retratava os índios dios (Decreto de 06.04.1853). Desapareceram as Aldeias de paca-
do território sergipano: tuba eGeru, últimos remanescentes da grande população indígena
dos primórdios da colonizaçáo portuguesa. oi córonizudo.",
"Estes descendentes dos selvagens Tupinambós, que apropriaram-se de suas terras com a coniv-ência do governo e da
viviam vagabundos nesta Capitania, ainda hoje não co- Assembléia Provincial que legalizaram a ocupaçáo aÉgando
nhecem as doçuras do direito de propriedade bem como
seus ascendentrs, ne^ têm abraçado a ordem civil e so- "que não existem na província índios, verdadeiramente
cial, que'éntre os mesmos se tentou estabelecer' tais, há uma costa mestiça, domesticada vivendo em so_
186 187
ciedade, em aldeia ê vila, civilizados e instruídos em priry' quais e do que, vinham todos os anos a Bahia e ao rio de
cípios religiosos como é a maior parte da população" (34)' Sergipe em naus da França, se inçou a terra de mamelu-
cos que nasceram, viveram e morreram como gentios: dos
Algqmas vezes, a reaçáo dos índios ante a açâo"dos"detentores quais hô hoje muitos descendentes, que, são louros, alvos e
do podei atingia ao desespero, como sucedeu em dezembro de sardos e havidos por índios Tupinambás, e são mais bár-
1826 quando cerca de 300 deles, da Aldeia de Pacatuba, entraram, baros que eles" (36).
armados, em Vila Nova do rio Sáo Francisco, arrombando a ca-
deia e libertando o Sargento-mor da Missáo e outros índios que ali Ainda hoje encontramos nas populações interioranas de Sergipe
se encontravam presos por determinaçáo da autoridade municipal. caracteústicas sqm_áIiças do indígena que, embora náo sejam gran-
Mes.mo, numericamente, .decrescendQ, .Qs . índiq§.§§mpre'luta- des, "de quando em quando reponta o mameluco, em sinais-par-
rani contra a espoliaçáo de que erarn vítimas, chegando a se consti- ciais, nos que formam os mestiços da terrla" (37). Esses.sinais es-
tuírem perigo paÍa a classe dominante, como exemplifiça a Po(Bria táo na cor da pele, nos cabelos lissótricos, na face onde sobres-
dô ImperadorPedro I, de 05.05.1826,-determinando ao Presidente saem os malares, no ângulo facil muito aberto, no olho mongolói-
de Sergipe, Manuel Clllente Cavalcanti de Albuquerque, que de.
r A grande influência do índio em Sergipe Íicaria, porém, na to-
"se remetesse para o Serviço do Arsenal da Marinha ponímia, numa comprovaçáo de que fora ele o primeiro dono da
dessa Coite e dos navios da Armada Naval e Imperial, o terra, quem lhe deu nomes identificados com qüe o impressiona-
maior número possível de índios existentes na Província va no local. Nomes que até hoje permanecem, a começar por
que estejam nas circunstâncias de terem semelhante apli- Sergipe (significando rio dos siris para muitos estudiosos); nomes
cação" (35\. de cidades como Aracaju, Itabaiana, Propriá, Boquim, Indiaroba,
Itaporanga, Gararu, Siriri, Japaratuba, Pacatuba, Carira, Geru,
.
.,Apesar da segregaçáo em aldeias, das perseguições de que fo-
.o Moribeca entre inúmeros outros relacionados com rios, serras, lo-
ram vítimas, que o fez buscar os sertões distantes, o índio deixou calidades. Também encontramos a mesma inÍluência de denomina-
marca na formaçáo se;gipana, sobretudo- nas regiões do agreslç e
dominôu a peôüária. Processada em forma
çáo d-e*f[utos locais
- caju, cajá, oiti, pitanga, ouricuri, ingâ, ara-
çá, massaranduba, mangaba; de folhas e raízes comestíveis
'- do-§êmi-árido, onde -
seminômade, essa atividadd tôrnou-se rnais aãaptável à vida que, maniçoba, taioba, macaxeira; de animais -- urubu, jibóia, sagüim,
anteriormente, o nativo levava. Além de que, as relaçoes de traba- arara, sabiá, pitu, curimatá entre muitos outros.
lho exi§idas pela atividade pastoril conduziam a uma hierarquia so- NapJelore-ssrgipano, g.Jrgçg indígena é percebido na poesia e
cial menos agressiva, a uma maior liberdade do trabalhador, tor- conl.gs, populares, Sílvio Romero considera como indireta a in-
nando dificil manter a escravidáo. fluência do índio, bem como a do negro, ainda que real, desde
, Desde os contatos iniciais do indígena com os brancos - ini- quando foram forçados "eo uso de uma língua imposta" (38). O
cialmente foram os marujos franceses
- começou a mestiçagem,
aparecendo logo os mamelucos, aos quais s-e referem os primeiros
índio teria influenciado os romances de vaqueiros. Jí no conto po-
pular, Sílvio Romero considera sua açáo como direta, enquanto o
cronistas como Gabriel Soares de Souza ao dizer que os franceses mestiço atuou como agente transformador, após ter recolhido em
Sergipe diversos contos, destacando-se aqueles em que o cágado é
"deixavam entre os gentios alguns mancebos para o personagem principal, como o Cágado e a festa no céu, O Cá-
aprenderem a língua e poderem servir na terra, quando gado e o Jacaré, O Cágado e o Teiú. Cita, ainda, Sílvio outros
tornassem para lhes resgatar: os quais se amancebavam contos remanescentes da presença do índio como Á Onça e o Bo-
na terra, onde morreram, sem se quererem tornar para a de, O Veado e o Macaco, A Rciposa e o Tucano, O Macaco e a
França, e viverem como gentios com muitas mulheres, dos Cabaça.
188 189
Transmitidos pela tradiçáo oral através dos tempos, esses con- I l. CALMON, Pedro. Obra citada, p. 2Ol.
tos encontrados por Sílvio Romero entre o povo sergipano nos fins 12. SALVADOR, Frei Vicente do. História do Brasil. Nova ediçáo revista por
Capistrano de Abreu, Weiszflog Irmáos, Sáo Paulo, 1918, p. 339. Franciscano,
do século passado, demonstram a influência que nele deixaram os
natural da Bahia, onde nasceu em 1564, sua História do Brasil publicada em
primeiros habitantes da terra. 1627, a primeira obra, no gênero, de um brasileiro, constituiu-se no mâs impor-
Sobre os indígenas de Sergipe, definidos, por interesse e con- tante documento da vida brasileira dos fins do século XVI e começos do século
veniência do colonizador, como preguiçosos, traiçoeiros, bêbados XVII.
e mais, deixamos as palavras de Couto de Magalháes: 13. SOUZA, Gabriel Soares de. Obra citada, p.3@.
14. GOULARD, Maurício. Escravidôo Africana no Brasil. 2.a ediçáo. Livraria
Martins Editora. Sáo Paulo, 1950, p. 57.
"Coitados: eles não têm historiadores; os que escre- 15. B.N. Cartas de 1672 a 1685, Secçáo de Manuscritos,8,3, l.
vem a história sõo aqueles que, a pretexto de religiao e ci- 16. LIMA JUNIOR, Francisco Antônio de Carvalho. Capitães-mores de Sergipe.
vilizaçao, querem viver a custa do seu suor, reduzir suas APES
- Arquivos Particulares, Caixa I.
mulheres e filhas a concubinas; não são os que encontram 17. MOURA, Clóvis. Rebeliôes na Senzala, Livraria Editora Ciências Humanas,
São Paulo, 1981, p.23.
degradados por um sistema de catequese, que, com muiÍo
18. PORTO SEGURO, Visconde do. História Geral do Brasil. 3.8 ediçáo integral.
taras e honrosas exceções, é inspirado por um sistema de II volume, Companhia Melhoramentos de Sáo Paulo, p. 70.
,ganôncia e libertinagem hipócrita, e que dá em resultado 19. Idem.
,uma espécie de escravidão que, fosse qual a raça, havia 20. Documentos Históricos, Vol. VII da série E Y, 1929, p.75.
/e produzir a preguiça, a embriaguês, e mais vícios que in- 21. Documentos Históricos, vol XXIX, p. 432.
22. FREIRE, Felisbelo. História de Sergipe. 2.a ediçáo, p. 182.
felizmente acompanham o lxtmem quando se degrada" 23. VAN DER DUSSEN, Adriaen. Relatório sobre as capitanias conquistadas ao
(3e). Brasil pelos holandeses. (1639), 1947, p.87.
24. CALADO, Frei Manuel. O Valeroso Lucideno ou Triunfo da Liberdade. Yol,
I. Recife, 1949, p. 69.
NOTAS 25. "Os meus vassalos deste Reino e da América que casarem com as indias delas
não ficam com infômia alguma, antes se farão dígnos de minha real atenção e
01. "J0 léguas desta Cidade do Salvador está a Capitania de Sergipe del Rei, que que as terras em que se estabelecerem serão preferidos para aqueles lugares e
na era de l59l se ganhou aos Tupinambás e Franceses, que nela tinham uma'ur- ocupações que coberem na graduaçao de suas pessoas, e que seusJilhos e des-
rochela, com a ajuda de 30 Aldeias que naquela paragem havia, em que se con- cendentes serao hábeis e capazes de qualquer emprego, honra e dignidade,
tavam 25 mil homens de peleja." Relaçao da Província do Brasil, 1610, do Pe. sem que necessirem de dispensa alguma,"
Jácome Monteiro, In Serafim Leite: História da Companhia de Jesus. Tomo 26. RIBEIRo,'Darcy, os Índios e a ctvilizaçao. Editora civilização Brasileit'a,
IL In§tituto Nacional do Livro, 1949. Rio de Janeiro, p. 405- 1970, p. 51152.
02. SOUZA, Gabriel Soares de. Notícia do Brasil, p. '167. 27. FREIRE, Felisbelo. Obra citada, p.216.
28.
03. Idem, p.. 166. -DANTAS, Beatriz Góis. Índios e Brancos pela posse da Terra. Anais do vIII
04. SODRE, Nélson Werneck. Formaçao histórica do Brasil. Editora Brasiliense, Simpósio de História, vol. II, p. a261427.
i962, p. al5. 29. Estado atual da Civilizaçáo dos Índios da Comarca de Sergipe del Rey. AHU
05. TRAVASSOS, Antônio da Silva. Apontamentos históricos e topográficos so-
bre a Província de Sergipe (obra póstuma). Rio de Janeiro, Instituto Tipográ-
- Bahia, documento
30. SOUZA,
n.o 26,326.
Marcos Antônio. Obra citada, p.44.
fico do Direito, 1875, p. 617. 31. Idem, p. 18.
06. GORENDER, Jacob. O Escravismo Colonial.2.â ediçáo. Sáo Paulo. Editora 32. B.N. Secçáo de Manuscritos, II 33, 13, 3. Ft. 7.
Ática, 1978, p. 53. 33. Estado actual da civilizaçáo dos -Índios da comarca de sergipe del Rey. AHU
07. Trabalho dos Primeiros Jesuítas no Brasil. Biblioteca Pública Eborense., Có- ' Búia, documento n.o 26.326.
dice XXVI 1583. In RIHGB, tomo LVII, parte.I. 1884, p. 236. 34. -RELATÓRIO Do Presidente José Antônio de oliveira e silva. Ano 1E52.
08. Idem. - AN, Caixa 761. Documento n.o l.
09. SOUZA, Gabriel Soares de. Obra citada, p.309. 35. Portaria de Pedro I, de 05.05.1825, encaminhada ao presidente M. c. caval-
10. CALMON, Pedro. O Segredo das Minas de Prata. Tese apresentada à douta canti de Albuquerque, APN, X-ll-65.
Congregaçáo do Colégio Pedro II. Rio de Janeiro, 1950, p. 200. 36. SOUZA, Gabriel Soares de. Obra citada, p.342.

190 191
t

Sergipanos' Vol' VI'


37. BEZERRA, Felte. Etnias Sergipanas' Coleção Estudos
Aracaju, 1950, P' 2ll.
popular do Brasil' 2'a ediçáo' Cole-
38. ROMERO, Sílvio. Estudos sobre a poesia
do Brasil' Editora Vozes em convênio com o Governo do Es-
çáo Dimensôes
tado de SergiPe, 1917, P' 197'
39. ü;i;;Êããí, iotã íieiá couto' Ensaio de Antropologia- Região e Raças
Selvagens. RIHGB' vol' 47,1873, p' 411'

TEXTOS

Trecho do Regimento de 17.12.1548, que levou Tomé de Souza,


Governador- Geral do Brasil.

6. "Portanto vos mando que como chegardes a dita


Bahia, vos informes de quais são os gentios que sustive-
ram a paz e os favoreceis de maneira que, sendo-vos ne-
cessária sua ajuda, a tenhais certa. E tanto a dita cerca
for reparada, e estiverdes provido do necessário e o tempo
vos parecer disposto para isso, praticareis com pessoas
que bem o entendam a maneira que tereis para castigar os
culpados e mais a vosso salvo e com menos risco de gente
que pode ser. E como assim tiverdes praticado, e poreis
!l
em ordem destinando-Ihes suas aldeias e povoações, ma-
tando e castigando aquela parte deles que vos porecer que
basta para o seu castigo e exemplo de todos e dali em
diante pedindo-vos paz lh'a concedereis, dando-lhe pe>
dao. E isto serô, porém, com eles ficarem reconhecendo
sujeiçao e vassalagem com encargo de darem cada ano
alguns mantimentos para a gente da povoaçao; e o tempo
que vos pedirern paz trabalhareis por haver o vosso poder
alguns dos princtpais que foram no dito alevantamento e
estes mandareis por justiça enforcar nas aldeias donde
eram principais".

J. Accioli B. Amaral. Memórias Históricas e Políticas


-
da Bahia. Vol.I, Imprensa Oficial do Estado, Bahia, 1919,
p.2G.
192 t93
"sujeitando-se o gentio, cessaráo muitas maneiras de haver es-
cravos mal havidos e muitos escúpulos, porque teráo os homens
escravos legítimos, tomados em guerra justa, e teráo serviço e vas-
salagem doi índios e a terra se povoará e Nosso Senhor ganhará
muiás almas e S. A. terá muita renda nesta terra, porque haverá
muitas criações e muitos engenhos já que náo haja muito ouro e
prata.
Depois desta Baía senhorada será fácil cousa sujeitar as outras
Capitanias porque somente os estrondos que lá fez a guerra pas-
rudu or fez muito medrosos e aos cristáos deu grande ânimo, ten-
rx A PRESENÇA DO NEGRO NA FORMAÇAO
do-o antes mui caído e fraco, sofrendo cousas ao gentio que é ver- -
ÉTNTca SERGIPANA
gonha dizê-lo.
Desta maneira cessará a boca infernal de comer a tantos cns-
táos quanto se perdem em barcos e navios por toda a costa; os O negro chegou ao território sergipano com os primeiros colo-
quais todos sáo comidos dos Índios e sáo mais os que morrem que nizadores que aí.se estabeleceram, após a vitória de Cristóváo de
ó. qu" vêm cada ano, e haveria estalagens de cristáos por toda a Barros sobre o gentio em 1590. Os pedidos de sesmaria, entáo fei--
assim para os caminhantes da terra como para os do mar'" t()s, comprovam que diversos dos requerentes possuíam escravos
"oaiu,
negros, os quais, inicialmente, foram encaminhados para a pecuá-
Carta do Padre Manuel da Nóbrega, da Bahia, em 08 de ria porque, no dizer de Felisbelo Freire, "o sergipano antes de ser
maio de 1558. In LEITE, Serafim S.J. Novas Cartas Jesuí luvrador foi pastor". Mas, caberia à agricultura "de mantimen-
Íicas. Brasiliana, vol. 194, p.77178. ío§", como os sesmeiros, em sua maioria, alegavam ser o objetivo
«las terras pedidas, e, depois, à lavoura do fumo e da cana-de-
açúcar absorverem os contingentes de negros entrados em Sergipe.
A pecuária náo estimulava a escravidáo, náo só porque necessitava
pouca máo-de-obra a manutenção de uma fazenda, como a forma
dc trabalho 4ssentada em relações feudais trazia a incompatibili-
dade do pastoreio com o braço escravo (l). Os engenhos surgi-
riam no's começos do século XVII, sendo, porém, lento o desen-
volvimento, existindo em 1637, quando ali chegaram os holande-
ses, apenas oito em atividades, segundo os cronistas portugueses.
Os primeiros colonizadores do território sergipano, geralmente,
vinham da Bahia, de onde traziam os escravos, que aí passaram a
cntrar em grande quantidade após a chegada de Tomé de Souza. Já
registrava Anchieta:

"Vão ver agora os engenhos e fazendas da Bahia,


achó-lo-ao cheias de negros da Guiné e mui poucos da ter-
ra, a se perguntarem por tanta gente, dirao que morrêu."
(2).

195
194
A reação do índio à escravidáo, e, depois, a proteção que o je- neles lhes fazerem suas fazendas e se uma pessoa chega
suíta lhe dispensou, frzeram que se buscasse na África a máo-de- na terra a alcançar dois pares ou meia dúzia deles (ainda
obra da qual passou a depender o sucesso da colonização portu- que outra coisa não tenha de seu) logo tem remédio para
guesa, porque "setfi o Írabalho escrevo, e, portanto, sem o tráfico poder honradamente sustentar sua família: porque am lhe
negreiro, a empresa de produção seria impossível" (3). pesca e outro lhe caça, os outros lhe cultivam e granjeiam
suas roças e desta maneira nem fazem os homens despesa
"A maior parte da riqueza dos lavradores desta terra em mantimentos com seus escravos, nem com suas pesso-
:
consiste em terem poucos ou muitos escravos", as" (7).

escreveu o autor do Diário da Grandeza do Brasil (4) O Alvará de 03.06.1609 proibía "em absoluto o cativeiro dos
indígenas, cuja civilização e catequese ficam ao encargo dos jesuí-
I

"Os escravos são as mãos e os pés dos senhores de ía.r". Enquanto o índio era protegido pela metrópole e tinha defen-
engenho: porque sem eles no Brasil não é possível fazer, sores ardorosos nas ordens religiosas estabelecidas no Brasil, es-
conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corren- pecialmente a Companhia de Jesus,
I
te,".
"a escravidão africana legal e protegida, tornou-se a
assegurou Antonil (05). principal e, na verdade, a mais útil, com ela se instituíram
Os mercadores de Lisboa estimulavam a entrada do negro as lavouras de açúcar e os vergêis e pomares das primeí
como máo-de-obra, desde que se haviam lançado no tráfico ne- ras povoações" (8).
greiro, à medida que declinava o comércio do Oriente. Dentro da
política metropolitana visando aos lucros fornecidos pela colônia, a O Pe. Antônio Vieira, ardoroso defensor dos silvícolas contra os
escravidáo do indígena náo trazia os rendimentos imediatos asse- ttaques do branco escravizador, afirmava, porém, que, no Mara-
gurados pelo comércio de negros, em plena ascenção na época. nhão, só haveria remédio permanente "quando enÍrqssem, comfor-
Possivelmente, mas que a pressáo dos inacianos, influenciaram os çe, cscravos de Angola" (9).
interesses financeiros dos grandes comerciantes lusos na promul- Buscando identificar o escravo negro no contexto da sociedade
gação dos alvarás dos reis protegendo os índios do Brasil. colonial, a Carla Régia, de 20.02.1696, ao Governador e Capitáo-
Apeçar de, esporadicaniente, o escravo africano ter entrado no General do Brasil, comunicava-lhe ter resolvido proibir às escravas
Brasil com as Capitanias Hereditárids, o comércio regular come- do Brasil o uso de vestido de seda, cambraia renda e adornos de
tq
çou em 1550 quando o governo português fez chegar uma partida ouro e prata (10). Protegendo os interesses dos proprietários de es-
de africanos a Salvador ifim"de se repartirem entre os morado- crAvos, a Provisáo de 03.03.1741, do Rei de Portugal, mandava que I
res, descontando-se o seu valor do soldo e ordenados destes" s( marcasse "a ferro na espádua com um F todos os escravos !'.,

(06). O Alvará de 29.05.1559 determinava ao Capitáo da ilha de .lugidos" que fossem encontrados, e, se reincidentes, "que se lhes)
Sáo Tomé que "em vista de certidão passada pelo governador do (()rte uma orelha" (ll).
Brasil cada senhor de engenho pudesse resgatar até 120 escravos A procedência dos escravo,s_Jqç&res, "eue^-cheqeram. a Sergipe
do Congo". A dependência que os moradores da Capitania da Ba- nos tempó§CóIõÍiiâi§; teffi §idó mofivode divergência entre os que
hia passaram a ter do escravo é retratada por Gandavo ao afirmar a estudar.áfr. Nína-Rodíi§úed é partidrírio da predominância do es-
loque sudanás, enquanto Sílvio Romero e João Ribeiro admitem
"que todos , ou quase lodos, têm suas terras de sesma- ter sido o bantu, ponto de vista admitido por D. Marcos !-e Squza,
rias dadas pelos Capitães e Governadores da tena. E a cm 1808, ao escrever: "Também constitui uma grande parte dos
primeira coisa que pretendem adquirir, são escravos para c<tlonos grande número de negros da Guiné e maior número de
196 197

I
l

Angola" (12). Luís Mott, um dos mais esclarecidos pesquisadores holandês, a atitude do negro foi diferente da assumida pelo índio,
da formação étnica sergipana, assim apresentou a procedência dos que a ele se aliou. Já o negro, ou se encontra, quase sempre, nos
negros de Sergipe nos fins do século XVIII: contingentes lusos, ou fugindo para os sertões, o que era mais co-
mum. Ali constituíram os quilombo,§, que tanta preocupação cau-
"Congo-Angola saram às autoridades locais na segunda metade do século XVII.
Angola Como escreveu Clóvis Mura:
Congo
Benguela "No entanÍo os escrqvos que não acreditavam em
Costa do Ouro promessas, nem se subordinavam à tutela de líderes ne-
Mina gros que atuavam sob o comando dos senhores de enge-
Golfo de Benin nho ou dos flamengos, foram enchendo as matas e os ca-
Gêse" (13). minhos, fugindo e procurando a solução independente que
era o quilombo" (15).
O brasilianisr Stuart Schwartz levantou a origem étnica da Assim procederam os negros de Sergipe, enquanto lusos e ho-
máo-de-obra escrava da Ribeira do Vasa-barris em 1785: landeses travavam lutas pela posse da Capitania. Buscaram a li-
berdade, evadindo-se para os sertões, formando os mocambos (16)
NASCIDOS NA Ár'NTCA que, numerosos, váo assustar os proprietários de terra e as autori-
tlades, cessado o domínio holandês.
HOMENS MULHERES TOTAL resistência do negro à escravidáo vem sendo estudada, 7
Sú^a:
ue
Mina 4t 26 67 costumava envolver os que se dedicavam ao problema, ao destaca-
Angola 106 77 183 rcm a passividade do escravo e a benevolência do senhor, espe-
Gêge I 0 I cialmente no Nordeste, onde lhe seria dispensado melhor trata-
Congo 2 0 2 mento. Procurava-se fazer das exceções a regra dominante. .{..pr.-
Benguela 2 3 5 4) sividade do negrg, já contestada por Sílvio Romero e Manuel Bom-
fim, tambérn hoje é feita pelos mais lúcidos estudiosos do proble-
ma, demonstrando ser ela, apenas, aparente, em conseqüência da
Houve, assim, nessa importante regiáo açueareira sergípana o impossibilidade de reação do escravo. Este recorria ao "jeito, as-
predomínio dos grupos Angola e Mina. túcia, arte, destreza", descritos por Kátia de Queiroz Mattoso:
Inicialmente destinado às culturas de subsistência e à pecuária,
atividades econômicas que marcaram os primórdios da coronização " Para o escravo.jcito é a adaptação ou a inadaptação
sergipana, o negro foi, porém, sendo absorvido pelos engenhos à assumidas, a astúcia que o faz viver, a esperteza nascida
medida que os canaviais,ocupavam as várveas da Cotinguiba, do da experiência e forjada na adversidade, que vai marcar
Vasa-Barris, do Piauí. A povoação de Estância tornou-se o mais toda a vida brasileira, e dos homens escravos como a dos
importante centro receptor de escravos. homens libertados e ainda a dos homens livres. Graças ao
Já deveria sobressair-se a presença do escravo africano na Ca- seu jeito de saber viver, o escravo empenha-se em apres-
pitania de Sergipe quando aí chegaram os holandeses em 1637. Nos sar a passagem que leva do passado mítico, perdtdo, atra-
documentos que narram os fatos desenrolados entáo, náo encon- vés do presente di/ícil, a um futuro de liberdade idealiza-
tramos referência à sua participação. Nas regiões ocupadas pelo do. No dia-a-dia, o jeito permite, pois, ligar passado e fu-
198 199
I L
turo, é o saber sobreviver. Ele é quem libera tesouros ima_ escravos
gináveis, riqueza da vida escr(tva. Comprado, vendido, / Orocuro* de propósito o aborto, só que não che_
guem os filhos de suas entranhas
mandado, o escravo sabe preservar sua parcela de auto- padec"í o qíi-"iir"poa"_
cem" (20).
nomia, de humor, de ternura e de sonho', (17).
Como, anteriormente, ftzera o indígena,
A reação escrava ao senhor é uma hostilidade latente que se traduz com a vantagem do
conhecimento da terra, o negro
em ironia, visível nas manifestaçoes folclóricas o bumba- a fuga paxa os sertões,
,,'
meu-boi, no furto, roubo, desperdício, sabotagem "o*à
ao trabalho, :: gi"y -em srupos organizandó_ se sgffii$ê.du_r
"ap.""nã",
": aborto, suicídio, fuga, guerrilhas rurais e insurrei!ões urbanas.
_o
nanam centros de resistência ao bran'ô numa forma
das lutas camponesas posteriores, embrionária
onde vai t uu", o i..çá àãiii" a"
classes: do escravizadà contra o
"O negro coisificado e explorado como escravo, só en_ a ssPsqvg'tglt$wne, "r"rãriluoor.
conÍra na reação ao trabalho e ao seu senhor perspectivas dg 4:,irqgie, st _qesos de sergipe
-piimà
se i de nr ifi-çaram' dê sde .

de recuperar-se como ser humano, enquanto o senhor só ô s tíão rôn-iããa-o'


rái oi -

através das reificação do escravo e da coação extra_


chijsámiii o s lirimeiro
"
.. r.-.-i.o sI,;ã;-;, pórto Sêeuro a.uráo "i
:
-econômica encontra meios de manter sua posição privile- i "Os começos do século XVII já os
escravos fugiam dos
giada de domínio e espoliação', (tS). ., engenhos da Bahia ao, jor"iios de
Sergipe, que em
grandes mocam-bos se " haviam organizado nos palmares
O comportamento do senhor na posse de um escravo era a de do rio ltapicuru,' (21).
proprietário de uma fonte de renda. Em página admirável de re- Para desalojá-los, tornou-se necessário
que o governo da Bahia
alismo, Antonil retratou a situação do escravo nos começos do sé- mandasse vir índios potiguares
culo XVIII: por poti, que torna_se_
ia' depois, o herói Feripé camarão
"o-unJuàL.
àurã"ou. holandesas. como
capitáo-do-mato, poti teve tanto cxito
"No Brasil ÇosÍumam dizer que para o escravo sao ne_ escravos
ãue seria aquinhoado com
negros aprisionados após a destruiçáo
cessários três PPp a saber, pau, pão e pano. E posto que. Itapicuru, e com uma sesmarià em terras
oor.à"u-tà. oàio
comecem mal, principiando pelo castigo, que é o páu; sergipanas (22).
provem a Deus, que tao abundante
fosse o comer e o ves_
Em Sergipe como na Bahia, mocembos
ou quilombos
tir, como muitas vezes é o castigo; e com instrumento de denominava-se "toda habitaçao de negros
de cinco, aindà qae n fugido que passem
muito rigor ainda quando os crimes são certos; de que o ranchos levantados nem se achem
não usa nem com as bestas animais, fazendo algum se_ pilões neles" (23) o
stituiu,
nhor mais caso de um cavalo do que meia dúzia i,
vos, pois o cavqlo é servido e tem quem lhe busque"rrro_ "Inconstestavermente, a unidade
o ca_ básica de resistência
pim, tem pano para o suor; e sela, e fre,io dourado,, (19). do escravo. pequeno ou grande, estável
ou i" ,iir"ir"ra_
ria em qualquer região oide existia
a escravidão, lá se en_
E continua num desafio aos que, liricamente, retratam a escra- contrava ele como elemento de desgaste
(24).
do regime ,"rril,,
vidáo no Brasil, sobretudo no Nordeste:

"Ver que os senhores têm cuidado de dar algunla coisa l,elisbelo Freirê assim o definiu:
do sobejo de mesa aos seus filhos pequenos, à causa dos
escravos os sirvam de boq vontade, e que se alegrem
"O mocambo é-, poís, um produto da guerra,
e é tam_
Qe
lhes multiplicarem servos e servas. pelo contrárii, alguns bém a expressão de um proteito da raça
contra a escravi_
dão" (25)'
200
2or
I
I
A invasáo holandesa, desarticulando a incipiente economia ser-
gipanà, dêstruindo canaviais e engenhos, possibilitou aos escravos
bú."ar"- a liberdade, levando-os à construção de mocambos nas
\matasde ltabaianâ) Pelodesgaste que trouxeram à economia colo-
ilÍ"I, qu"t pela perda de máo-de-obra, quer pelos ataques que deles I' ,'+
;,f
paúiannÀr propriedade s vizinhas, saquemdo; roubando, devastan-
dq, ê§sei'ntocambos da Capitania de Sergipe levaram a classe do- v|'
minante à mobilização na tentativa de destruí-los, organizando ex- il,il
pedições que deveriam ser feitas.
I
I
r
"Assim pelos latrocínios e mortes que cometem, como
pelo preiuízo dos escravos que para eles fogem, com os
quais se lhes aumenta o número e diminui a seus donos o i
cabedal" (26). !, .t
:..
Chegavam às autoridades portuguesas sediadas n3-Bahia, aq qe-
-nilõmüorss-úe :rtauaenu e oüfías"Iôcaiidades sergi-
"h;;;ã-ã*
panas dizendo "que eram muitos os mocambos de negros fugidos
qi"-i"itàii, oqídos"porres, de que resíiltaiam grandes preiuízos
ao gado e lavouras" (27).
Destacalam-se, em Sergipe, três zonas de localização dos rno- (
cambos: a do rio Real, a primeira deles, vista como sede "de terrí-
veis mocambos't, também atraindo os negros da Bahia; a do baixo
Sáo Francisço,.onde,-em 1662, os escravos agrupados atacaram a
frítnêir. tentariva de cólonüàção lôcal feitll na Ilha do Ouro, des-
iruindo plantações e matando gado. Só em 1698, após sua destrui-
ção porindios adestrados, tornou-se posSível aos colonizadores
ali
ixa."--se. A-tgrceir.4 zona,localizada nas matas üàJtabaiana, foi
nu me ric ame"iálã:n*ri" i.po rtaÍtte'
Em 1656, quando ainda se refazia da destruição resultarite das
lutas entre holandeses e portugueses, a cidade de Sáo Cristóvâo
era atacada por negros fugidos das fazendas circunvizinhas'
C:g:ggg-q uú*ã-tg {g§*!e!!!19t€ I q9 I mo c a m I o ; ivme$"{a que
a Caffiã se refazia dôi-dãnoíádvinOos da ocupação"holandesa.
Aos negros que abandonavam as propriedades sergipanas, Apesar dessa destruição, no início da década de 1670, nova_
somaram-se aqueles foragidos das capitanias limítrofes - Alagoas, mente, os negros atemorizavam os proprietários rurais
,"rgipunor,
Pernambuco e Bahia na busca da liberdade has matas de dificil e o Governador-Geral Afonso Furtàdode castro
-
acesso. A*-pe+if do início da década de 1660, quando a economia
do Rio úôroon-
ça, entre as atribuições dadas ao capitáo João Munhoz, incluía a
sergipana retôóàva o rítmo de desenvolvimento, sentiram oS se- '.'!^" f?r", guena aos
negros que e,itão fugidos dos mocambos,,
nhores. de terras os efeitos nocivos da presença dos mocambos e ( 30).

202
203

\
Visando. a enfrentar o problema dos contínuos ataques dos es- assim, porque os mocambos foram desaparecendo a partir dos co-
cravõs tiúê-'iersistiam em agrupar-se em mocambos, a Capitania meços do século XVIII, perdurando, porém, sua lembrança na to-
de3érgipe foi dividida nos distritos de Itabaiana, Lagau-to, Rio de ponímia. No interior sergipano, três localidades denominadas Mo-
Sáo Francisco e Piauí, para onde foram enviados destacamentos e cambo uma no município de Aquidabá, outra no de porto da
ngllçados comandantes das Ordenanças. Em 1674, era criada a Folha e-uma terceira em Frei paulo, atestam a importância desses
iõmpanhia de Homens Pardos, tendo como Capitáo o pardo focos de resistência erguidos pelos escravos.
Francisco de Barros, "mestico mais simpatizado daqueles tem'
pos" (31), morador em Lagarto, e que tomara parte na guerra ho- Ante a pre ssao contra os a ma-
nife
landesa. O colonizador português, como fizeram outros povos, jo- a em. atitudes individuais.
que, na segunda metade do século X VIII. cresce-
gava os grupos étnicos dominados uns contra os outros, IVÍãs
ram os núcleos urbanos, destacando-se ao iado da Capital, a cidade
aproveitando-se de náo existir consciência de classe (32). Ainda
de Sáo Cristóváo, as vilas de Santo s de Es-
era criado um Corpo de Voluntários para atuar contra os mocam' e
tância e Laranjeiras,
áos, sendo designado para seu Capitáo-mor Belchior da Fonseca
Saraiva Dias, descendente de Belchior Dias Moréia' com jurisdi- vezes, se aos ne-
AS

e s, esboçando uma tomada de consciência de


ção da Casa da Torre ao rio São Francisco. A ele estavam subor-
classe que amedrontava a classe dominante A cidade ríe§ácrIris-
dinadas todas as capitanias dos Capitáes-do-mato existe'ntes na re-
tóvão tornou-se o centro dessas rebeliões; em 1774, o movimento
giáo. Sob seu comando realizou-se, em 1677, uma entrada contra
foi reprimido pela força policial; erul177, quaido contaram com a
ois mocambos sergipanos, destacando-se a atuação do pardo Fran-
aliança d,os jpd§.espoliádos de suas aldeias, após a expulsáo dos
cisco de Barros.
jesdítas; ên(t808)bs-nggros gêges prorgaram m-obilizai os escra-
A açáo destruidora dessas entradas at'astana, no moqlento, o vos dos engêtrhos das cercanias, mafudenqqgldgà/foi aberta de-
perigo dos ataques dos negros às propriedades e, conseqüentemen-
vassa sendo plg:gs_ps lídere_s apontados (34).-E-mil8091 movimen-
le, a expansáo do colonizador pelo interior sergipano esti-
"re.c", taram-se os escravos da Cotinguiba, á mais importdnte zona açuca-
mulada pela doaçáo de extensas sesmarias. Mas, a destruiçáo do
reira sergipana, para uma rebeliâo, sendo, potém, reprimidos atra-
quilombo de Palmares em 1694, em Alagoas, fez que muitos ne-
vés de fortes castigos corporais (35). Erp l8l5j novamente, o cená-.
gros, ao conseguirem evadir-se, buscassem refúgio em Sergipe, na
t rio retorna a Sáo Cristóváo com a tentativá de insurreiçáo que '
Serra Negra, onde, em número superior a 60, passaram a perturbar
alarmou a cidade, sendo, cronologicamente, a última da época co-
os moradores "residentes de Vila Nova, Canindé, a Capital de lonial.
Sergipe del Rei com roubos, mortes e escândalos" (33). O Capitáo
Francisco Soares conseguiu desalojá-los, restabelecendo o sossego Nas lutas da Independência, que se iniciaram em março de
aos moradores da regiáo. l82l; ái;ôi a deposiçào do Brigadóiro Carlos César Burlamárqui,
Cresce! a-expansáo cslonizadora*nos- coÍneços do século primeiro Presidente nomeado por D. Joáo VI para a Capitania de
XVIIII afundando-se o gado pelos sertoes à medida que os cana- Sergipe, independente da Bahia, hí a presença de mulatos livres
viais iam ocupando os vales férteis dos rios. Em 1724, os engenhos entre os que nelas se engajaram. Coqg*ç9LSggü9_qgi-e.dps proble-
sergipanos sáo 25; mas nos fins do século já chegam a 140. CrEsçe mas econômicos que essas lutas ocorridas entê ig2t e lg23 trou_
ojÍluxedê-§scravos para ateÍder à demanda da mãode-qbla exi- xeram' explodiram as contradições sociais nas tentativas de rebe-
giAa. e classe dominande passou a dispor de melhores meios de liáo dos escravos da ra onde se gran-
ãércsa a partir da criaçáo da Comarca de Sergipe em 1696, e das vi- des concentrações. Em AS de ie-
las de Nossa Senhora da Piedade do Lagarto, Santo Antônio e belião em Rosário e ;,em Amaro, Vila
Almas de ltabaiana, santo Amaro das Brotas e santa Luzia do rio Nova, Grande e Maruim; 'em Santo ,
Real, com o aparato político-administrativo exigido. Explica-se, Amaro e Estância.

204 205
Na povoaçáo {ez.Lapanjeiras, onde as desigualdades sociais interioranag onde se desenvolveram as culturas de subsistência é o
eram gritantes, eny'l§74õs6ntecimentos se revestiram de maior plantio do fumo e da mandioca.
expressáo desde qtsando os insuflava o mulato baiano Antônio Pe- O primeiro levantamento completo da populaçáo sergipana,
reira Rebouças (36), secretário do Presidente, Brigadeiro Manuel feito em 1808 por D. Marcos de Souza, assim apresenta distri-
Fernandes da Silveira. A denúncia era apresentada buiída a populaçáo sergipana: (40)

"contra os malfuitores, quase todos homens de cor, in' TOTAL BRANCOS pRbrOS' ÍNOTOS RAÇAS COMBTNADAS
72.236 20.300 19.954 1.440 30.542
suflados pelo Secretário do Governo Antônio Pereira Re- PERCENTAGEM 28,10 27,62 1,92 42,28
bouças, homem pardo, que os tem douÍrinado e persua'
dido que todo home! pafdg-au-prtu&:§3r-Ç.9perd; e Chama a atençáo do pesquisador o grande número dos mestiços
eles tão u6nios tem se feito, que altamente falam contra os que integrava a populaçáo sergipana nos começos do século XIX
brancos chamando-os caiados" (37). na qual é considerável a percentagem de escravos nascidos em
Sergipe, maior que o dos importados da Africa
que sucedia em outras regioes da colônia. Em 1785, - fato distinto do
na Ribeira do
Na devassa sustentada no Tribunal de Relaçáo da Bahia, as teste-
munhas arroladas eram destacados senhores de engenho de Sergipe Vasa-Barris, dos 507 escravos registrados, Stuart Schwartz (41) evi-
o Alferes José Sutério de Sá Júnior, do engenho Porteira; o Ca- denciou que 66,4Vo já haviam nascido no Brasil, demonstrando que,
-pitáo-mor José de Trindade Pimentel, do engenho Bolandeira; o há muito, já se vinha realizando a imigraçáo africana em terras da Ca-
Capitáo Francisco Vieira de Melo, do engenho Praia; o Coronel pitania de Sergipe. Luís M«rtt atribui o fato nâo só a impossibilidade
Sebastiáo Gaspar de Almeida'Boto, do engenho Catité; o Coronel de Sergipe importarescravos diretamente dos portos africanos, como
Antônio Luís de Araújo Maciel, do engenho Terra Negra (38). pelo predomínio da existência de pequenos engenhos, conferindo à
escravidáo um estilo de empresa doméstica, que levaria os negros a
A classe dominante provinciana, reforçada ante os poderes con- terem melhor alimentação, trazendo alta taxa de reproduçáo. A perda
feridos pelo Ato Adicional à Constituiçáo do Império de 1834, teve de um escravo repercutia, negativamente, no patrimônio do senhor,
condiçóes de impor sua autoridade e reprimir as insurreiçoes urba- enquanto o nascimento de novas crias acarretava',rantagens (42),
nas. Mas, latente, perÍnanece o sentimento de revolta que, na dé- A atividade básica dos esqravos de Sergipe se concçntrou na
cada de 1870, vem ã ton" entre a popula§áo da zona açucareira sob agricultura.'Os tfabalhos domésticos também os absórviam, quer
a forma de autênticas guerrilhas rurais. Mobilizaram-se as autori- no meio rural, quer nos núcleos urbanos. Estes, poucos desenvol-
dades sergipanas para destruir os novos mocambos, vidos, náo dispunham de condições para empregá-los no setor ter-
ciário, como acontecia em outras Capitanias.
"mas negaceando combates nos quais estavam inferio- Através dos festejos e confrarias religiosas, o escravo encon-
rizados, fugindo para as matas ou refugiando'se nos pró- trou condiçóes de minorar os horrores da escravidáo. Através de-,
prios engenhos, organizaram uma tática que nao foi derro' las, podiam cultivar a solidariedade que o senhor, por defesa, náo
tada até o frm" (39). lhe permitia manter na vida cotidiana.

A luta do negro .*k


pela liberdade estender-se-á, em Sergipe, até a
Abõfiçãõ.*-'- " Negar-lhes totalmente seus folguedos que são o.único
-Sêrgll9.ggbeu_g1q-1rdSC - çontiÍrgente§-de escre+es* -gmUera*-=-*-- alivio do seu cativeiro, é querê-los desconsolados.e melan-
numeío-sgs,se--Localizassem nas zonas açucareiras a Contiguib++- cólicos, de pouca vida e sa.úde. Portanto, nõto lhes estra-
ciÍitÍffi -
meridional" a ribeira do Vasr8afris nhem os senhores o criarem seus reis, cantar e bailar por
Eqra0eq§§úlitoraneo
ea re§iàísãnfrancissana também §ue presençâ esteve nas regióes algumas horas lwnestamente em alguns dias do ano, e o
-
206 207
alegrarem-se inocentemente à tarde depois de terem suas Em Sergipe, as irmandades religiosas surgiram, sobretudo, no
festas de Nossa Senhora do Rosário, de Sao Benedito e do decorrer do século XVIII, dedicadas quase sempre a Nossa Se_
orago da capela do engenho, sem gasto dos escravos, nhora do Rosário ou sáo Benedito. Em 1757, apareciam registra-
acudindo o senhor com liberalidade aosjuízes, e dando-lhe das a igreja de Nossa Senhora do Rosário dos'pretos, Vita
algum prêmio do seu continuado trabalho" (43). "- de_
Nova Real do rio Sáo Francisco (47\, e as capelas, da mesma
voçáo, na Vila do LagaÍo e na Freguesia de Nossa Senhora do
O sincretismo religioso (44), que caracterizou a aculturaçáo do socorro da cotinguiba. Na mesma época, existia em Sáo cristó-
africano no Brasil, levá-lo-ia a identificar seus orixás com os santos váo a Irmandade dos Homens Pretos do Rosário ,,que irmansva a
do cristianismo que lhe impunham os dominadores. As confrarias, maior parte dos homens pretos ali existentes, no vaia-Barris, co-
copiadas do modelo português, já os missionários as haviam intro- tinguiba e suas adjacências".
duzido no Congo quando da evangelizaçáo de seus habitantes. Em
1681, uma Bula Papal regulamentava as comemoraçóes dos pretos "Em certo mês de cada ano, eles reuniam uma mesa
a Nossa Senhora do Rosário, fixando-as para o primeiro domingo administrativa, com a presidência do vigário da Freguesia,
de outubro. No Brasil, as confrarias começaram a organizar-se nos afim de elegerem os novos funcionários que deviam servir
fins do século XVII, quando o desenvolvimento urbano acarre- no ano seguinte, assim como os três Reis e as três Raí-
tou maior concentraçáo de escravos. nhas, a quem competiam fazer as despesas da referida
festa de seis de janeiro" (48).
"A irmandade ê um elemento de coesao social, de tipo
corporativo, regulador de comportamentos e de relações Em 1779, em Sáo Cristóváo, encontrava-se em atividade a Con-
sociais entre grupos separados pela cor, pelo po.der eco- fraria de Sáo Benedito, e em 1784 estava em construção a Capela
nômico e pela vida cultural", de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos do Socorro. Também ti-
veram suas irmandades os pretos de Divina pastora, Rosário,
escreveu Kátia Mattoso Queiróz (45). Seus integrantes tinham a vida Santo Amaro e Brejo Grande, esta já na época imperial.
fiscalizada pela diretoria quanto ao cumprimento das práticas reli- Os cultos, que conseguiam náo chocar a moral e a religiáo, re-
giosas, e as principais atividades eram a construçáo de igrejas, fes- cebiam o e§-fímulô do§ senhores quê autorizavam as danQas e cele-
tividades sacras em que se destacavam as procissões. Comumente, braçáo segundo os costumes africanos.
construíam cemitérios que asseguravam sepultura aos seus mem-
bros. "Contudo, apesar dessas intimidades, o mundo dos se-
Nossa Senhora do Rosário e Sáo Benedito foram os santos com nhores e dos escravos permanece cultural e socialmente
ôs quais o negro mais se identificaria. Sáo Benedito morreu em separados, antagônicos, confrontando-se de maneira irre-
1569, ganhando logo fama de taumaturgo; a igreja católica, porém, dutível. A aparente amenidade das relações que se estabe-
só passou a admitir seu culto a partir de 1743. lecem entre senhores e escravos, a semelhança de uma
adaptaçao da mao-de-obra obediente e humilde é, na ver-
"Estes fatos parecem indicar que o culto dos santos dade, uma forma eficaz e sutil de resistência face a uma
negros e das virgens negras foi, inicialmente, imposto de sociedade que pretende despojá-la de toda uma herança
fora ao afriéano, como umo etapa de sua cristianização; e moral e cultural" (49).
que foi pensado pelo senhor branco cotno um meio de con-
trole social, um instrumento de súbmissao para o escravo" Os negros que tinham Sáo Benedito por seu patrono ,,talvez pela
(4ó). particularidade de ser santo de cor pteta" , nas festas religiosas,
gue em seu louvor celebravam, exibiam diversões ,,de uma remi-
208 209
I

Mesmo após a Independência, em plena época imperial, as res-


niscência íntima íos costumes pátrios, sendo a representaçao dos
trições ao negro continuaram em Sergipe, como atesta o Decreto
congos, principalmente, uma dessas diversoes" (50). Melo Morais
FilÀo registra.ser, em Sergipe. famosa na Vila do Lagarto a procis-
n.o 15, de 20.03.1838, do Presidente José Elói.Pessoa da Silva
(.11.05.1837 a 02.03.1838) regulamentando a Instruçáo Pública da
sáo de sáo Benedito, atraindo multidões. Nela havia a participaçáo
mulatas faceiras, vestidas de branco, que tl'ovíncia, ao determinar um de seus itens que estavam impedidos
dà congos e taieiras
-
bailavam e cantavam pelas ruas músicas alusivas ao santo (51)' Es-
tlc treqüentarem as Escolas Públicas, além das pessoas que pade-
ccssem de moléstias contagiosas, os africanos quer livres, quer li-
sas festas ocorriam no dia 06 de janeiro (52).
hcrtos (58). Tal atitude náo era exclusiva do Presidente da Provín-
As confrarias ou irmandades religiosas contribuíram para des- cia de Sergipe, mas de todo o Império.
caracteizar a cultura africana, sobre a qualjá incidiam tantos fato- O comportamento do senhor sergipano, quanto ao tratamento
re s de sagregadq.r-ç.&. qrre dispensava ao escravo, náo era diferente do que ocorria ,no
Quando a'Capitania de Sergipe encerrou a etapa colonial,-a po- país; os remanescentes das torturas a que eram submetidos
-
pulaçáo de cor, livre, era numerosa, fato que tem desafiado os es- lroncos, argolas de ferro, chicotes sáo comprrovantes. Houve,
tudiosos em busca de explicaçáo, considerando-se que a alforria
-
nirturalmente, exceções de benignidade, visíveis nos testamentos
individual náo parece justiÍicar tamanha percentagem. Também era cm que se concedem alforrias a escravos "amigos e companhei-
minoritária a populaçáo branca, existindo um branco para cada nts", na regra que fazia do escravo fonte de trabalho e de renda.
quatro pessoas de "cor" (53). Sc, de um modo geral, teria sido melhor o tratamento que, em Ser-
' Inúmeras restrições pesavam sobre o negro livre, e suas raízes gipc, os senhores dispensavam aos seus escravos em relaçáo a ou-
advinham do instituto da escravidáo. "O racismo não foi a causa tras regióes, deve-se ao fato do predomínio da pequena empresa,
da escravidão mas a conseqüência" (54). (J negro foi escravizado tlos pequenos capitais de que dispunham. Era a defesa do patrimô-
porque representava a máo-de-obra mais adequada ao sistema co- nio que levava esses proprietários a assim procederem, atitude
lonial montado pelo português em sua colônia, sobretudo ante o pcrcebida por D. Marcos de Souza em 1808:
fracasso da escravizaçáo do indígena. Os preconceitos que inci-
"Vinte escravos de Sergipe fazem muito maior quanti-
diam sobre o negro livre decorriam de sua anterior condiçáo de es-
cravo. Náo podia ele ocupar cargo público, nem ser soldado, a náo dade de açúcar do que muitos lavradores no recôncavo da
ser do batalháo dos-Henriques, denominaçáo que recebiam as tro- Bahia com enfraquecidos braços de 100 escravos. Mas eu
pas formadas exclusivamente por homens de cor. Na Capitania de descubro e apresento a razão de proveito tão vantajoso.
Sergipe, em 1795 no recrutamento realizado, alguns homens foram Ali sao mais bem tratados esses homens desgraçados, su'
excluídos porque "pela sua cor demasiada nao podiam servir no
jeitos à lei do cativeiro; são nutridos com os saudáveis
Regimento" (55). Em 1808, um recruta era dispensado "por ser alimentos de vegetais, com feijões e com milho, que por
muito preto" (56). A Igreja excluía negros e mestiços do sacerdó- toda parte colhem com abundância. Os escravos do re-
cio, ao exigir para nele ingressar côncavo da Bahia se nutrem com o escasso e nocivo ali-
mento de carne salgada do Rio Grande; suas pequenas ca-
"Se é legítimo e inteiro cristao velho, sem raça alguma sas são cobertas de palhas e mal os agasalham do rigor da
de judeu, mouro, mourisco, mulato, ou de qualquer outra estação, quando as senzalas de Sergipe sao cobertas de te-
tnfesta nação dos reprovados em direito contra Nossa lhas; os escravos vestidos em algodao manufaturado pe'
Santa Fé Cat\lica, ou descende de pessoas novamente las escravas, quando o; do recôncavo pela maior parte pa-
convertidas, e se por inteiro é legítimo cristao velho, e de recem mudos orangotangos. Ali se lhes permite a mais
limpo sangue, e geraçao até tido, havido e reputado sem doce sociedade; podem casar-se com as escravas da
haver fama, rumor ou suspeita em contrôrio" (57). mesma família e ainda de outra, quando os proprietários

210
2tt
da vizinha Bahia embaraçam a liberdade de matrimônio" Na religiáo da gente sergipana, a pfsssgsa"do-aogr§"suüreYive
(s01. rúravés dos candomblés, que se multiplicam sempre, além das
ioúmeras superstições que povoam a alma do nosso povo.
O negro deixou marcas indeléveis na formaçáo étnica sergipa- Nos contos populares registrados por Sílvio Romero, encon- '
na, sobretudo naquelas regioes onde o braço escravo significou o lra-se a marca do negro em muitos deles, como o Macaco e o Mo-
sustentáculo da economia. laque de Cera, o Macaco e o Rabo, caracterizados por " uma certq
ingenuidade" (68).
"Na disparidade de suas feições culturais, ao lado da Como sucedeu no Brasil, o escravo de Sergipe náo foi passivo e
variedade de tipos, dos traços cromáticos, da coloração rrcomodado, segundo costumam definíJos alguns estudiosos, erro
da pele ou a antropometria, deixaram em Sergipe, em edi- para o qual Manuel Bomfim já alertava:
çao reduzida, o que em larga escala fizeram na Bahta,
para nos legarem, também, os interessantes aspectos do " ... a história dos negros das Antilhas, a história dos
folclore, de ritos e crenças, de conflitos mentais enfim, de Palmares e dos quilombos aí estão para mostrar que não
que se vê, impregnada a populaçao sergipana nos dias pre' faltam aos africanos e seus descendentes nem bravura,
sentes. E que o negro conseguiu introduzir aqui como em nem vigor na resistência, nem amor à liberdade pessoal"
outros pontos do país onde sua permanênciafoi numerosa, (6e).
profundas cunhas em nossa argamassa cultural, das quais
sobrenadam vários resíduos" (60). Sua história é marcada pelo protesto ao sistema que, violentamen-
lc, o atingia, atitude que legaram às camadas pobres de cor de Ser-
Ao lado da contribuiçáo biotipológica (cor da pele, cabelos, na- gipe, e que tantas vezes escandalizou e assustou a classe domi-
riz, lábicis, olhos, índice cefálico), legada pela larga miscigenaçáo nante local, como expressava, em 1799, o Ouvidor da Capitania,
ocorrida desde os primórdios da côlonizaçáo, permanecerani'gs. Antônio Pereira de Magalháes Paços, ao referir-se aos mulatos,
sobrevivências culturais. Na língua falada em Sergipe, há influên- ncgros forros e alguns brancos:
cias no vocabulário (61), na morfologia, visível em vícios de pro-
núncia que ainda hoje permanecem, e mesmo no sistema gramati- "A índole de todos é de suma reserva e vingança; por
cal como assinala Joáo Ribeiro (62). Felte Bezerra vê no modo de qualquer leve capricho se despicam e o fazem atraiçoada-
falar do nosso povo, "especialmente do sergipano de baixo sta- mente a liro, vulgarmente de trás de paú. O pimeiro cui-
Íus" , traço cultural africano. dado deste é haver uma armü de fogo, ornato que temem
muito, se torlnam atrevidos e capazes de todo o mal; e
"A entonação da voz, a fala arrastada, sobretudo na neste continente é o uso da espingarda freqüente; os ho-
maneira de cantar ou cantarolar" (63). mens quietos e arranchados temem estes vadios e os so'
frem por evitarem cairem na indigna(ão deles" (70).
No folclore sergipano sáo consideráveis as sobrevivências afri-
canas. Nas festas populares, que ainda hoje permanecem, como o O regime da escravidáo'tornou-se responsável pelas transfor-
I quilombó ou lambe-s4jo, que seria, em seu simbolismo, uma espé- maçóes das caracteústicas culturais que o africano trazia de seu
habitat, que eraÍn
cié dê-tGiforra do negro contra o índio integrante da maior parte
das tropas que, outrora, destruíram seus mocamáos. Nas Taieiras
64, nà Dança de Sao Gonçalo (ó5), nos Reisados (66), no Ca- "... as de um povo primitivo dotado de grande inicia-
cumbT(67), na Êsta de Sáo Benedito, onde práticas cristás comoo tiva pessoal, talento organizador, notável poder de imagi-
Te Deum se misturam com as cançóes dasTaieiras. nação técnica e habilidade. Nem lhes falta o espírito guer-
212 213
reiro como ftcou provado quando os conquistadores de tre os rios Siriri e Ganhamoraáa). FREIRE, Felisbelo. História de Sergipe,2.à
ébano derrubararn nações e levantaram impértos. Também ediçáo, p. 128.
ficou patente o entusiasmo com que atendiam ao apelo de 23. Resposta do Rei de Portugal à consulta do Conselho Ultramarino, em
seus generais. Nao há nada que possa provar que a licen- 02.03.1740. In, MOURA, Clóvis. Obra citada, p. 67.
24. MOURA, Clôvis. Obra citada, p. 87.
ciosidade, a preguiça e a falta de iniciativa sejam caracte- 25. FREIRE, Felisbelo. História de Sergipe,2.a ediçáo, p. 194.
rísticas fundamentais dessa raça" (71). 26. Documentos Históricos. Volume XII. Série E, X dos Documentos da Biblio-
teca Nacional, p. 342.
27. Documentos Históricos. Volume VII. Ano 1929, p. 122 e 124.
NOTAS 2ll. FREIRE, Felisbelo. HistóriaTerritorial de Sergipe. (Bahia, Sergipe e Espírito
Santo), l.o Volume, Rio de Janeiro, 1906. Typografia do Jomal do Comércio,
01. SODRÉ, Nélson Werneck. Formação Histórica do Brasil. Editora Brasiliense. p. 117.
Sáo Paulo, 1962. 29. B.N.
- Seçáo de Manuscritos, I - 32, 20, ll.
30. FREIRE, Felisbelo. Obra citada, p. 168.
02. ANCHIETA, Joseph de. Prtmeiros Aldeamentos na Baía. S.D. do M.E.S.,
11. Documentos Históricos: Volume XII
1945, p. 48. - Série E e X dos Documentos Históri-
cos da Biblioteca Nacional, 1929, p.3421343.
03, SODRE, Nélson Werneck. História da Burguesia Brasileira. Editora Civiliza-
p. 36: 32. Mesmo entre os escravos, existia discriminaçáo. Crioulo ou ladino era o es-
çáo Brasileira, Rio de Janeiro. 1962,
04. BRANDAO, Ambrósio Fernandes. Diálogos da Grandeza do Brasil. Editora cravo nascido no Brasil, falando corretamente o português. Boçal erao nascido
Progresso. Salvador, 1956, p. 315. na África, visível no modo de firlar com diÍiculdade a língua da terra e entendê-
05. ANTONIL, AnaÉ Júao. Cultura e Opulência do Brasil. Liuaria Progresso. la.
Salvador. 1950, p.58. 33. FREIRE, Felisbelo. Obra citada, p.299.
06. SOUZA, Gabriel Soares de. Notícias do Brasil, p.63. 74. "Burlado o plano, Mesquita Pimentel mandou prender alguns negros encon-
07. GANDAVO, Pedro de Magalhães: História.da Província de Santa Cruz. Edi- trados num dos conciliábulos, entre eles um dos indicados para Rei, e ordenou
tora Obelisco, Sáo Paulo, 1q4, p. 34. ao Ouvidor a abertura de uma devassa dando ciência de tudo ao Governador
08. RIBEIRO,Ióáa. O Elemento Negro. Record, Rio de Janeiro, s/d., p. 23. da Bahia". LIMA JUNIOR. Francisco Antônio de Carvalho. Capitães-mores
de Sergipe, APES. Arquivos Particulares, Caixa l
09. LISBOA, Joáo Francisco. Vida do Padre Antônio Vieira. 3.t ediçáo, 1874, p.
454. 15. "Em sessâo de 25 de fevereiro de lW, a Câmara dirigiu-se ao Capitão-mor da
10. B.N. Il 34, 5, 77 n.o 02. Capitania de Sergipe para dar providência sobre um levante de pretos que va-
ll. ANTT. -Côdice 6, fl. 305. gavam pelas partes da Cotinguiba, aonde Íurtam, roubam e insultam os povos,
12. SOUZA, D. Marcos Antônio de. Memória sobre a Capitania de Sergipe. Ano a Jim de que aumente a dita corporação de sorte que Jique inconquislável,
180E. 2.4 edição, Aracaju, 19,í4, p. 13. oficiou-se em nome do Governador aos Capitães-mores das Ordenanças para
darem providências para coibirem os pretos revoltosos." Sergipe
13. MOTT, Luís Roberto Barros. Sergipe del Rey Populaçao, Economia e So- - Aponta-
ciedade, FUNDESC, Aracaju, 19E6, p. l43ll4É..- mentos para iua História. B. N.
- Secçáo de Manuscritos.
14. SCHWARTZ, Stuart 8.. Sugar Plantations in the formation of Brazilian Socie- 16. "A agitação em Laranjeiras, atribuída à influôncia do mulato baiano Antônio
ty, p.353. Pereira Rebouças, na época Secretário do Presidente da Província de Sergipe
15. MOURA, Clóvis. Rebelioes da Senzala, Livraria Editora de Ciências Huma- Manuel Fernandes da Silveira, que era acusado pela voz pública de ser cabeça
nas, Sáo Paulo, 1981, p. 180. da revolta de negros forros, e cativos, a qual tinha por objeto o massacre geral
16. Nome que, na Búia e em Sergipe, tomaram os quilombos. de brancos, e a instituição do horroroso sistema da llha de São Domingos." In
17. QUEIRÓS, Kátia Mattoso. Ser Escravo no Brasil. Editora Bràsiliense, 1982. p. Soldado de Tarimba. Jornal da da Bahia, de fevereiro de 182E, B.N., Secçáo de
r74lt7s. obras raras, mss. 31, 13, 13.
18. ALMADA, Vilma Paraíso Pereira. Escravismo e Transição. Espírito Santo 37. Representaçáo do Juíz Ordinário Presidente do Senado da Câmara e do Vere-
(1E50/I9EE). Gráal, 198a, p. ador mais velho, AN de Manuscritos.
130.
19. ÂNTONIL, An&é loão. Obra citada, p. 55. - Secçáo
It. Soldado de Tarimba. Jornal da Bahia.
20. Idem, p. 58. 39. MOURA, Clóvis. Obra citada, p.219.
21. PORTO SEGURO, Visconde de. História Geral do Erasil, Volume II. Com- '10. SOUZA, D. Marcos Antônio de.Obra citada, p.53.
panhia Melhoramentos de Sáo Paulo, 3.4 edição integral, s/d., p. 70. 41, SCHWARTS, Stuart 8.. Obra citada, p.35).
22, "De entre cunais frgura o de Camarão, c4ja localização, segundo o mapa de 42. MOTT, Luís Roberto de Barros. Obra citada, p. 37138.
Barléu, é onde está edificada a Vila de Pé do Banco (atual cidade de Sirtrl en- 43. ANTONIL, André Joâo. Ohra citada, p. 57158.
2t4 215
44. "O Sincretismo marca, pois, uma das condições dos países da escravidão que
é de mistura de raças e povos, a coabitaçào das mais diversas etnias num
65 ' A' dança de sâo Gonçalo, de influência portuguesa,
homenageando sáo Gonçalo,
santo que a crença popllar dizia ter gosiado
mesmo lugar e criaçao, acima das naçôes centradas nelas mesmas, de uma ãe farras e ser hábil violeiro, o negro
Iegou sua marc a. ,, Em Laranjeiras, inde
nova forma de solidartedade, no soírimenío, uma solidariedade de cor." BAS- a economia açucareiro ,"iri-Ã)r,
coníingente africano, estas inÍruências se rev,eram frn"
TIDE, Roger. Les Religions Africaines au Brésil- Vers une sociologie des in- lares dos orixás africanos." DANTAS
nos cantos, nas vestes, nos co-
terpretations de civilizacions. Paris, 1960, p. 260. ,Beatriz G6is. Dança
Cadernos do Fotclore_(9), Ministério aa fOucaiao
i" iá, c"rirt".
45. QUEIROS, Kátia Mattoso. Obrs citada, j. tl9. 66. "Reisados, ranchos, ternos, grupos qu,
e Cultuà,
]D7à,;. 11.''
46. BASTIDE, Rogers. Obra citada, p. 157. pode ser apenas a cantoria ,2*9
ÍÃtii"^ o Natal e Reis. O Reisado
47. AHU y"iW* poisuir enredo ott ,érirr,, prãi'"ro,
- Documento
48. SANTIAOO,
anexo ao n.o 2.66ó, Bahia.
Serafirn de. Anuário Cristovense. Enxertos organizados por
atos encadeados ou não." cAScuDo, iuís da
câmara. ox,iiiàn'r-ã"'ra-
clore Brasileiro (I Z), p. 225.
Jackson da Silva Lima, Revista Sergipana de Folclore. Ano I, n.o 02, p. 49. -
67. cacumbi, préstito com pequeno enredo e
49. QUEIRÓS, Kátia Mattoso. Obra citada, p. 103. bailados guerreiros, onde há ,,o centro
de interesse pela luta entre o rei negro e o rei indÇena.,.
50. COSTA, Pereira da. Folclore Pernambucano. In CASCUDO, Luís da Câma- CaSôUOO, lris a"
Câmara. Obra citada (A I), p. 225.
ra. Dicionário do Folclore Brasileiro (A - I). Instituto Nacional do Livro, Rio -
68' RoMERo, sírvio. Eslulos sobre a poesia popular do
de Janeiro, 1962. Brasil.2.a ediçáo. Edi-
tora vozes em convênio com o Governo do Esta{o
51. MORAIS FILHO, Melo. Fesras e Tradiçoes Populares, Rio de Janeiro, 1946, oe sergipe. rãúpotis,
1977, p.219.
52. DANTAS, Beatriz Góis. Nota prévia sobre rituais folclóricos numa festa da 69' BoMFIM, Manuel. o Bras, na América, Livraria
Igreja Francisco.Arves, Rio de
- A festa
de Folclore
de Sáo Benedito na Cidade de Laranjeiras. Revista Sergipana
n.o 01, agosto de 1976, p.9
neiro, 1929, p. 263. Ja-
70. Representaçôes do ouvidor da comarca de Sergipe
53. MOTT, Luís Roberto de Barros. Obra citada, p. 49. del Rei, Antônio pereira de
Magalháes paços, à Rainha, em 26.04.1799. eÉU _ Bahia, doc. n.o 20.ú.
54. WILLIAMS.tcric.Capítalismo e Escravidáo. CompanhiaEditora Nacional, Rio, _
71. BOAS, Franz. A Mentalidade do Homem primitivo,
1975, p. 12. In. NASH, Roy. A- Con_
-
quista do Brasil.2.a ediçáo, Brasiliana, vol. 150, paulo,
55. Oflrcio do Capitáo-mor de Sergipe ao Governador da Bahia, de 11.05.1795. Sáo f ú, p. âf .-
APEB, maço 137.
56. APEB Oficio de 22.12.1808. Maço 210.
57. Arquivo- da Cúria Diocesana de Salvador. De Genere, maço 14. In MOTT,
Luís Roberto de Barros. Obra citada, p. 56t57.
58. Esse item representava uma contradiçáo às posiçóes progressistas assumidas,
anteriormente, pelo Presidente José Elói Pessoa da Silva ante o problema da
escravidáo no Brasil, sendo considerado um precurssor do abolicionismo. Em
1826 publicara a Memória sobre a Escravidão e Projeto de Colonizaçõto dos E4-
ropeus e Pretos Africanos no Território do Brasil, deÍinindo uma posiçáo an-
tiescrâvista.
59. SOUZA, D. Marcos Antônio de. Obra citada, p. O9ll0.
60. BEZERRA, Felte. Etnias Sergipanas,2.a ediçóo. Governo do Estado de Ser-
gipe Coleçáo Joáo Ribeiro, 1984, p. 104.
- de origem africana, entre outras, comuns em Sergipe: mucunzá, mu-
61. Palavras
cama, giló, mandinga, calunga, camondongo, cacumbi, fubó, vatapá, carutu,
acarajé, calundu, batuque, ganzó, molanbo, marimbô, bobó, mingau, mocam-
bo, bangüê, bozó,_mocotó, tarimba, gambá.
62. RIBEIRO, Joáo. O Elemento Negro, Record, s/d., Rio, p. E3.
63. BEZERRA, Felte. Obra citada, p. ll5.
í
64. "Sob a denominação de Taieira a manifestaçõofolclórica é registrada por Síl-
vio Romero que baseado'nas observaçôes levadas a cabo na sua terra natal
'Lagarto em Sergipe as Taieiras como mulatas que, cantando e dançando,
-
-
tomavam parte na procissão de Sao Benedito, da qual também patrocina»am
rainhas negras e os congos, grupos de homens qúe encenavam uma disputa
. pela posse da coroa real." DANTAS,
Beatriz Góis. Taieiras. Cademos do
Folclore (4). MEC, 1974, p. 03.
216
217
Novo ORBE SERAFICO BRASILEIRO ou chronica dos fra-
des menores da Província do Brasil, por Frei Antônio de santa
Maria Jaboatam, impressa em Lisboa em 1761. In Revista do Insti-
tuto Histórico e Geográfico de Sergip€, N.o 03, 1914, pp. 56157.

"Essa Sociedade, tnspirada em seu etnocentrismo europeu, em


seu orgulho de casta, de poder, quando muito divertia-se i se eno-
.iava com as características dos 'negros boçais' e dos crioulos, já
ambientados ao meio e aceitos na intimidade de seus lares, porém
não se apercebia das mudanças que ela mesma experimentava ao
TEXTOS contato da massa numerosa e forçosamente presente da escrava-
ria e se recusava a admitir que os seus costumes, as suas crenças,
os seus modos de ser e de expressar-se, os seusfalares pudessem
ser afetados pelas maneiras, pelos jeitos, pelos mitot, jelos valo_
"Nao deixaremos de repetir por último, um mtlagre do nosso res daquela imensa patuléia de "brutos'. Admitir que àqueles há-
Santo Antônio também em beneftcio dos seus Devotos. Fugiu ao bitos, que aquelas mentalidades, que aquelas ,barbariãades' pu-
Coronel Domingos Dias Coelho, morador nos distritos desta Ci' dessem signtficar algo para a civilização da casa grande, dos'so-
dade de Seregippe Del'Rey um Preto, escravo seu, levando em sua brados e das igrejas matrizes seria, como explica Florestan Fer_
companhia duas Pretas, escravas também de outros Senhores' nandes, uma diminuição para a sociedade dominante.,'
Com estas se fot arranchar no centro dos sertões de Jacoca, aonde
viveu alguns anos fora de todo o comércio de outra Sente; ao prin- AZEVEDO, Thales. (Jma Nova Negitude no Brasil?.
cípio como lhe davam o campo, os matos, e os Rios do Vasa- In Revista Cultura MEC, 1976, p. 31.
Bàrris; e ao depoís com roças, e lavouras que plantava, vestindo' -
se ele, e as concubinas, comosfilhos que delas aliteve de peles de
veados, que apanhava em fojos, e à frecha, e os curtia.
Valeu-se o Senhor depois de outras diligências sem effeito, de
Santo Antônio. Eis que apparece ao Negro um Frade lá nesse re-
côndito em que se achava, e com voz repreensiva lhe pergunta:
Negro, que fazes aqui? Respondeu ele, que estava ali por não se
atrever com o serviço do Senhor, que o não deixava descançar'
Seja assim ou não disse o Frade, vai'te embora daquí; e enquanto
o Negro se não pôs a caminho, o Frade o não largou, pondo-se'lhe
sempre adiante, e repetindo: Negro, vai-te daqui. Veio enfim o
Negro, e o Frade adtante dele até à casa do homem, de quem era
uma das Pretas, qu,e entregou; e detendo-se ali algum tempo, foi
aviso ao Capitao do Campo, que o prendeu, e entregou a seu Se-
nhor, como também a outra Negra, a quem pertencia, fazendo
Santo Antônio este beneftcio ao seu de'voto, e sendo também a
causa de se livrarem as almas destes miseráveis escravos das con'
tínuas culpas em que cahiam."
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