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Maria da Gloria Gohn MOVIMENTOS SOCIAIS E LUTAS PELA MORADIA “Edicées‘Loyola PREFACIO ste livro é fruto de quinze anos de trabalho sobre iG tenuitica dos movimentos sociais urbanos e da continuida- de a pesquisas anteriores sobre as Assoc’ agoes de Morado- res — as Sociedades Amigos de Bairro — e€ a Luta por Cre- ches em Siio Paulo, Neste texto apresentamos os resultados de nossas pesquisas sobre as Lutas pela Moradia Popular, também em Sio Paulo, assim como sistematizamos OS prin- cipais paradigmas tedrico-metodolégicos que tém fundamen- tado a producao académica sobre os movimentos sociais. Esta pesquisa, assim como as anteriores, foi apresentada inicialmente como tese e dissertagio na Universidade de Sao Paulo (mestrado/doutorado e livre-docéncia). Analisar um processo em andamento, com cardter ainda de experiéncia néo-consolidada sem uma trajetoria anterior similar, apresentando quest6es novas, certamente incorre na possibilidade de equivocos, Um dos grandes problemas resi- de na dificuldade da separagio entre a acao politica, pessoal, de militancia e a produc&o analitica gerada. Separar a mili- tancia e a andlise 6 uma tarefa penosa porque, de certa forma, alguns analistas estao participando da construgaéo do objeto histérico em exame. Trata-se de questées metodold- gicas profundas e complexas. Existe 0 risco permanente de estar apenas projetando as sombras que a historia projeta na nossa consciéncia. Sdéo os riscos da andlise apaixonada. Entretanto, a riqueza de poder reconstruir um processo em seu interior, a partir das agdes empreendidas coletivamen- te, buscando 0 significado e o sentido das praticas efetuadas, & luz de teorias mais abrangentes, compensa todos 0S pos- siveis equivocos existentes, Apr ‘sentam i rl ee etictag ne introdugio deste livro uma avaliagao 70. Depoig Sabai Ss Movimentos Populares na década de Ape 1MOS 0 contetido em trés Partes, a saber: rimeira Parte é de doi oo is capitul le contetido tedrico. Ela é composta ree OS onde objeti: sigai didati aiearceters jetivamos fazer uma exposicéo de ence das Principais correntes contemporaneas, e de alguns (Ca ar Ores, na andlise dos movimentos sociais urbanos Penni eee pees também construir um quadro refe- Orico-analitico para nossas investigagées (Capi- tulo In), ® oa » __ A Segunda Parte aborda o cendrio delineado pela atua- gao dos movimentos sociais populares urbanos no Brasil (Capitulo III) e 0 mapeamento das principais formas de manifestacao da luta pela moradia popular em Sdo Paulo, no periodo de 1975-1988 (Capitulo IV). A Terceira Parte retrata uma pesquisa de campo, de acompanhamento de trés formas de lutas pela moradia po- pular: invasdes de terras (Capitulo V), posse e/ou reurbani- zacio de favelas (Capitulo VI), e construgéo de moradias populares através de mutirées de ajuda mutua e autogestao (Capitulo VII). Em cada forma analisamos inimeros movi- mentos sociais, em sua origem, praticas, demandas, encami- nhamentos, articulagées etc. Dado o interesse que a conjuntura politica de So Paulo tem despertado para a andlise dos movimentos populares depois de 1989, com a eleigio do Partido dos Trabalhadores para a Prefeitura Municipal, elaboramos um capitulo especi- fico sobre a Luta pela Moradia na gestéo do PT (Capitulo VIII). O livro apresenta ao final algumas consideragées anali- ticas e uma bibliografia detalhada sobre a tematica dos mo- vimentos sociais no Brasil e em alguns paises europeus. Aproveito a oportunidade para agradecer a todos aque- les que colaboraram para que esta obra fosse possivel, desta- cando-se varias liderangas e assessorias dos movimentos po- pulares, Nao vamos listd-las pois seria demasiadamente longo e, certamente, sempre estariamos nos esquecendo de alguém. Meus sinceros agradecimentos & banca que examinou este trabalho no formato de tese, fornecendo intimeros comenta- rios criticos e sugestdes: Paul Singer, Francisco de Oliveira, Lucio Felix Kowarick, Décio Saes e Fernando Casério de Al- 6 meida (in memoriam). A Fapesp pelo apoio financeiro em uma das etapas da pesquisa. A Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da FAU-USP, onde trabalhdvamos como docente na ocasiio do trabalho de campo, pelo apoio institucional. As intimeras datilografas e a José B. A. Caldas pela revisaéo dos originais, minha gratidao. Finalizando, um agradecimento especial a Renato, André e Daniel lacgos fundamentais — pelo apoio, compreensao e paciéncia, para que este trabalho se tornasse realidade. Introdugao OS MOVIMENTOS SOCIAIS POPULARES A PARTIR DE 1970 O Brasil registrou, a partir dos anos 70, como varios outros paises da América Latina, o surgimento ou ressurgi- mento de um grande ntimero de movimentos sociais. Foram movimentos de classe: sindicais, urbanos e rurais; movimen- tos com caréter de classe, a partir das camadas populares, em nivel do local de moradia, lutando por bens de consumo coletivo, nos setores de infra-estrutura urbana, satide, educa- Gio, transportes, habitagio etc.; e movimentos sociais com problematicas especificas sem serem de classe, tais como os movimentos feministas, ecoldgicos, dos negros, homossexuais, pacifistas etc. Embora estes ultimos fossem minoritarios no conjunto dos movimentos sociais, ocuparam, por um grande periodo, cendrio de grande expressividade devido ao acesso que seus participantes usualmente tém junto aos meios de comunicagéo de massa. Os movimentos populares séo quantitativamente os mais numerosos e a meu ver, do ponto de vista politico, os que tém gerado transformagées sociais substantivas, dado 0 con- tetido de suas demandas, as relagdes que mantém.com o Es- aoe oO papel que desempenham na luta de classes mais geral. . Os movimentos populares na década de 70 eram lutas isoladas, por agua, luz, transportes, creches. Eles se agluti- “aram em organizacGes locais no final da década. Tinham o apoio de facgdes da esquerda e de setores liberais, que luta- vam contra o regime militar. O opositor era um sd: o Esta- do..Nos anos 80 os movimentos populares se transformaram. Para compreender este processo é preciso refletir sobre @ Conjuntura Brasileira nos anos 80. 9 Do ponto de vista e, . modo, 6 hn sia peondmico, podemos dizer que, Grosso depois de Uplementado no Brasil pelos militares 1964 © dor de rend: t continuow O mesmo nos anos 80: concentra- A ineapaci a ox ludente, voltado para 0 mercado externo. se@pacidade de manutencgio dos indices de crescimenta econdmico dos anos 70, a ¢ vas nacionais pa multiplicou litica dos governantes levaram a crise, 2 recessio econdmica € ao desemprego no inicio dos anos 80. A retomada do proces- so de crescimento depois de 1984 nao recuperou os indices dos anos 70, Alguns analistas chegam a denominar esta fase de “a década perdida”. Perdeu-se impulso e esgotou-se 0 mo- delo de crescimento. A crise do petroleo e em seguida a crise da divida paralisaram njio apenas o Brasil, mas toda a Amé- rica Latina. Caminhamos para 0 século XXI relegados a uma posicio periférica na economia internacional, em contraste com a formacio de novos grandes blocos como 0 mercado europeu, 0 asidtico e o norte-americano. Mas niio foram s6 com as perdas que sobrevivemos nos anos 80. Tivemos também grandes ganhos. No contexto ma- crossocial, ganhamos com a perda de alguns mitos que sus- tentavam o modelo vigente, tal como a idéia do progresso num pais de potencialidades ilimitadas.1 Ganhamos com a perda da crenga no nacionalismo, amplamente utilizada pelo regime militar na sustentag&éo da ideologia da seguranga na- cional. E ganhamos também com a descrenga no ideal da conciliacao enquanto formula ou ideal] de fazer politica. Estes ideais, como valores presentes no universo da cultura poli- tica, das diferentes classes e camadas sociais, foram profun- damente abalados, A estratégia de modernizacéo autoritaria mostrou-se ine- ficaz para reduzir as desigualdades sociais e promover um minimo de desenvolvimento social que integrasse as classes populares e as mantivesse amorfas sob 0 jugo das elites do- minantes. Sequer as camadas médias escaparam ilesas a incapacidade da Nova Reptblica de reordenar o cendrio nacional, Assistimos 4 queda do poder aquisitivo das classes trabalhadoras em geral, @ extingdo de politicas sociais na area da habitagao, ao sucateamento dos setores da educaciio ise gerada pela sucgao das is 0 pagamento da divida externa (a qual se sustadoramente) e a falta de legitimidade po- 1. Vide Otavio 8. Dulci, O Brasil entre o Passado e 0 Futuro, ii Revista Anilise e Conjuntura, vol. 4, n. 23. Fundagao Jodo Pinheiro Belo Horizonte, dezembro de’ 1989. eee eee 10 e da satide etc. Planos e mai mulgados em busca de solu cronico: 0 modelo de acu is planos econémic ices milagrosas Pp imulagdo vigente, As gran i i trastando nes ee eae Yading Sr ae oe politica ae ‘ ise de idéias, alternativas e solug6es efi- razes na area econdmica, os anos 80 foram de Ppolitizagao do setor social, de generalizacéo da politica para toda a sociedade. Das eleigdes para governadores em 1982 as elei- c6es para presidente em 1989, passando pela Campanha pelas Diretas, houve uma mobilizag&o intensa. Curiosamente, as grandes mobilizagdes populares, os grandes comicios héo tiveram grande rebatimento na sociedade civil, em nivel da continuidade dos eventos. As mobilizacées de’ massa eram acompanhadas de fluxos e refluxos. As mobilizacdes organi- zadas canalizaram-se para o plano legal-institucional: cam- panhas das emendas populares, articulagéo em torno da re. forma urbana, caravanas pela escola publica e ensino gratui- to, diversos féruns pela sauide, educacio, solo urbano, refor- ma agraria etc. Ou seja, passou a ocorrer um processo de juridicizagéo da sociedade organizada.? Vdérios movimentos sociais passaram a agendar em suas atividades cotidianas reunides, debates e semindrios para discutir e/ou elaborar subsidios para projetos de leis. ‘08 foram pro- ara um doente FE interessante observar que, no processo acima, a so- ciedade civil organizada passa a buscar inscrever em leis seus direitos e deveres. Ou seja, passa a querer interferir dire- tamente na sociedade politica, nas regras e mecanismos de funcionamento da sociedade e do Estado via poder legislati- vo. Paralelamente, entre alguns setores da sociedade civil, especialmente entre os empresdrios, e algumas parcelas da sociedade politica, elites dirigentes do status quo, ocorre um processo de reivindicagio da restricfo da atuagiéo do Esta- do em varios setores sociais. Articula-se um grande movimen- to nacional de cardéter neoliberal, que preconiza a volta & economia de mercado. Isto em pleno final do século XX, com um padrao dominante de economia internacionalizada. i i i domi- © neoliberalismo passa a ser visto pelos grupos dom! nantes — centralizadores e formuladores de politicas sociais que possibilitaram a interferéncia direta do setor privado nas mdquinas estatais — como @ politica por exceléncia, re- 2. Vide Jurgen Habermas, Teoria de la Action Comunicativa, Taurus, Madri, 1981. médio para todos os males. Apds décadas de beneficios trans- feridos para as empresas privadas, através de subsidios e fa- dades juridico-econdmicas, apela-se Para politicas priva- tas, indiscriminadamente apresentadas como a solugéo para a crise fiscal do Estado brasileiro, Acelera-se um pro- cesso de desmonte da atuagio estatal em dreas sociais prio- ritdrias como a satide, a educagio e a habitacSo, Patriménios puiblicos estruturados durante décadas, com grandes esforcos da sociedade brasileira, passaram a ser retalhados e leiloa- dos & iniciativa privada. Diante do agravamento da pressio das demandas popu- lares, o Estado brasileiro nfo redireciona seu modelo de desenvolvimento socioeconémico, no se estrutura para ter patamares minimos de uma politica de bem-estar social, Ao contrdério, privatiza ou transfere sua responsabilidade para as comunidades organizadas sob o argumento de poli- ticas participativas estatais. O grande discurso serd de cara- ter redistributivista. Os governos constituidos mudam seus discursos e prd- ticas. Os grupos organizados deixam de ser vistos como opo- sitores. Passam a ser conclamados como parceiros. Parceria com a comunidade seré a nova técnica de 6rgaos publicos até entao assistencialistas, clientelistas ou repressores, Neste contexto, como poderemos analisar os grupos de oposicao que ascenderam ao poder através do voto popular nos governos constituidos? Nao temos uma visdéo maquiavélica do Estado. N&o 0 vemos como um bloco monolitico. Ha tensées e lutas. As administragdes populares fazem parte deste processo. Elas nfo ganharam seu espaco por concess{o mas através de lutas. E um dos grandes desafios que passaram a enfren- tar foi justamente o de democratizar a. mdquina estatal. Democratizar as relagdes internas nas administragdes, demo- cratizando as préprias administragdes; formular politicas Sociais voltadas para as necessidades, transparentes; priori- zar O interesse pliblico etc. Tudo isso num contexto de lutas, questionamentos e pressdes. E como ficam os movimentos Sociais neste novo contexto? Os movimentos sociais na década de 80 Os anos 80 iniciaram-se com os movimentos sociais fortalecidos. Recém-criados a partir da conjuntura politica acileira dos anos.70, varios movimentos sociais pavers cabado de dar um grande salto qualitativo, saindo das re! 12 yindicagdes jsoladas para formas agregadas mais amplas das demandas populares, como foi 0 caso da luta por creches, pela moradia, pelos transportes etc. A unificagao das deman- das localizadas se fez a0 redor de setores problematicos do social, Embora houvesse um cruzamento intenso de formas organizacionais de setores das camadas médias (lutas das mulheres, dos estudantes, dos ecologistas, dos negros etc.) i com setores das classe populares (utas por equipamentos \ coletivos, bens e servicos ptiblicos, pela habitagao e pelo acesso & terra), havia alguns denominadores comuns: a cons- trugao das identidades através das semelhangas pelas carén- cias; 0 desejo de se ter acessO a0S direitos minimos e basicos dos individuos e grupos enquanto cidadaos; e fundamental- mente, a luta contra 0 status quo predominante: 0 regime militar. a 7 \ \ \ \ ‘A nova conjuntura politica. do inicio dos anos -80 foi quebrando ‘aqueles denominadores comuns. As diferencas foram se explicitando, a unidade. construida por forga da situagio vigente foi sendo esfacelada e as diferengas politi- co-partidérias se acentuaram. O-acesso de. parcela da opo- sicfo ao poder, em novembro de 1982, selou a quebra da { ‘unidade. Os movimentos populares se subdividiram. Alguns ; nao resistiram & nova conjuntura e desapareceram, como a juta pela creche em ‘So Paulo. Outros se perderam nos mean- dros das articulagdes em torno das novas politicas sociais engendradas pelos novos governos. estaduais e municipais. Alguns se fortaleceram e retiraram da crise 0 amélgama para delinearem novos perfis, a exemplo da luta pela moradia, O desemprego, o-aumento-dos aluguéis,.a_mudanca da, legis! lag&éo na area do solo urbano dificultando a constituigéo dq novos loteamentos populares, 0 aumento desproporcional dq prego das tarifas de transportes, 0 esgotamento dos espago! disponiveis nas favelas etc. Jevaram as invasGes coletivas d “Areas urbanas e & cons' tutigé0-de-movimentos. de luta_pela) moradia. As “difere! ormas--de-luta: (pelo_acesso..&..terra, pela regularizagio da area, pela posse da terra, pela urbanit éncia,you pela SEAC — Secretari de. Acéo. Comunitarig, além de projetos especificos es Rondon etc Trata-se da constituigéo de um movimento comu- nitdrio ‘pré-construido_pelas_ctipulas. no_poder: Entretanto, alguns daqueles programas e/ou movimentos vieram a gerar mobilizag6es populares, dependendo da drea onde se inseriam e do grau de politizagéo das liderangas e das entidades que se apropriavam de sua dindmica. Porém, no geral, este tipo de movimento possui caracteristicas bastante diferenciadas dos movimentos populares criticos, criados pelas bases, a partir de articulagées da prépria sociedade civil. Provisoriamente, para diferenciar, chamaremos aqueles/ movimentos comuni- \taristas! Os prdprios programas oficiais apropriaram-se do er_mégico que o termo comunidadd passou a ter entre lasses populares, comovagregador—de _interesses comuns sentido este conferido pelo trabalho das Comunidades 1 Bele siais de Base da Igreja, passando a denominar as entidades eriadas pelo estimulo do poder ptiblico como comunitdrias. Os movimentos populares criados a partir de agdes da sociedade civil utilizaram o contetdo politico do termo co- munidade para conferir sentido a uma nova cultura poli- tica que se esbogava, fundada no aprendizado de uma nova cidadania, em que a reivindicagiéo em torno da nogio dos direitos ocupava um lugar central. ( Os movimentos sociais criados por estimulos dos agentes di la sociedade politica utilizaram o termo comunidade em seu sentido funcional-positivista, como locus geografico espacial, em oposicéo ao termo sociedade, organizacao social vista como burocratica e impessoal. A comunidade seria a teia 14 criada pela rede de relacdes informais, uniformizadora dos interesses dos individuos, negadora das diferengas sociais e, portanto, negadora de uma leitura do social a partir de uma sociedade dividida em classes. 5 Depois de 1986 a conjuntura politica trouxe fatos novos/ © Estado _como_um todo reelabora sua politica social em. torno de. hegociac6és com os movimentos organizados, Par-! celas deste Estado passam a ser administradas por gover-) nos com propostas populares, participativas. wi No Ambito da politica social da nagaio como um todo, consolida-se 9 ideal da participacaio enquanto formula de gerenciamento dos negécios do Estado. As emendas popula- res e dos grupos de parlamentares na Constituigaio de 1988, Propondo mecanismos de Participagdo da sociedade civil na gestdo e no controle das atividades publicas, de interesse da coletividade, atestaram e inscreveram em leis mudangas Significativas na cultura politica do pais, demarcando direi- tos e deveres dos cidadaos. No novo contexto, a sociedade organizada em associa- goes e movimentos deixou de ser algo marginal ou alterna- tivo; perdeu seu potencial exclusivamente contestador para ganhar um cardater legalista, ordenador e participante das novas regras estabelecidas para o convivio social.|O libera- ismo volta & cena através da reivindicagio dos direitos de ‘ cidadania; naéo-mais-e cidadania individual, imag "a-cidadanta coletiva, dos grupos organizados,. Entramos Ova era de fazer a politica. Uma politica para as massas que passa pela manifestagéo e expressio destas através das organiza- goes e movimentos. (OQ Poder Legislativo.se_reabilita enquanto espaco de construcao dos novos direitos. O j io passa a “ser uma instancia regularizadora das ré S SOciais, espe- “ranga entre aqueles que buscam e lutam pela diminuicao das> desigualdades @ injusticas sociais. E importante registrar, nas mudangas ocorridas na década de 80, uma certa inversao no cendrio dos movimen-; tos sociais, em relacéo ao papel dos agentes e atores _SO- ciais que interagem com eles. Enquanto nos anos 70 e inicio de 80 era a sociedade civil o principal sustentaculo de| apoio dos movimentos, destacando-se setores da Igreja Ca- tdlica, no final dos anos 80 passa a Ocorrer uma transfe- réncia de apoios para a sociedade politica, que deixa de sor, na figura do Estado, o “inimigo aparente” dos Ewaice OS populares. Varios fatores explicam esta mudanga, destac: 15, d0-se a ascensao do PT ao poder ptiblico municipal e a crise interna no interior da Igreja Catdlica progressista. Seu con- fronto com a ala conservadora, com uma visivel predomi- ;nancia desta Ultima, levou a retirada de grande parte do ‘apoio que antes era dado aos movimentos. As Comunidades Eclesiais de Base passam a ser cada vez mais eclesiais e me- nos politizadas. A proibigao e punig&io de.membros do clero progressista, como a ii ta ao frei Leonardo Boff) afetam a dinamica do processo de consciéntizagao popular; Este pro- “cesso contribuiu para uid Yeavaliagio da ‘atuacdo daqueles setores progressistas, no sentido de se aperceberem da com- plexidade das questées, da necessidade de andlises estrutu- rais amplas e n&o apenas andlises conjunturais limitadas, levando esta parcela do clero a ter atitudes menos antiinte- lectuais, a buscar aproximagéo com intelectuais antes vistos com reservas (pois seriam “sanguessugas” na mera retratagio da miséria do povo etc.), Compreendeu-se que nao basta estar. junto do povo, nao basta a fala do povo. O processo de mudanga passa a ser compreendido também como reflexao. [- A alteracdo da composicéo das forcas sociais presentes Ino interior dos aparelhos estatais levou liderangas, militan- tes e politicos de oposig&éo a ascenderem a cargos do poder através das eleigdes. Assessores de movimentos populares assaram a gerenciar secretarias e drgéos publicos. Como ficaram os movimentos populares neste contexto? Bastante confusos, serd a resposta. Alguns se desarticularam: a con- fusio entre “ser movimento” e “ser _governo” se estabeleceu. Isto porque a entrada de assessores-chave do movimento em Postos importantes da administragio municipal gerou, de um lado, uma grande expectativa de se ter as demandas aten- didas; mas, por outro lado, gerou também uma certa parali- ,Sla no movimento: n&o dd para ficar pressionando sempre, tem de se dar um tempo para a administragao se organizar, & preciso colaborar para que a gestaéo dé certo etc. Passou 2 corer inclusive um processo perverso: 'a_informagio, peca fundamental no processo de relag&o povo-governo, pas- Sou_a.ser, de certo. modo,~manipulada.— a administraca Sabe das intengdes do movimento, de suas estratégias.-de. agdo, pois possuem pessoas qué Atuam. dos dois lados (os. assessores-administradores). Mas 0s movimentos nem sem- Pre sdo informados do andamento da maquina estatal, isto Porque informagées passadas precipitadamente podem gerar crises e desencadear reagdes negativas. Ou seja, o espaco de Producao do movimento é apropriado pela administracao. 16 O mesmo nao ocorre no sentido inverso, pois a adminis: c&o nfo responde apenas por aqueles movimentos que a apdiam, mas tem de dar respostas ao conjunto. E varios mo- vimentos de oposicéo, até entao inativos, se reorganizaram., No caso de Sao Paulo, por exemplo, as Sociedades Amigos de Bairros se rearticulam enquanto os movimentos sociais apoiados pelas Comunidades Eclesiais de Base se desace- leram. E chegamos ao nosso segundo fator explicativo da inver- sao do peso dos apoios aos movimentos sociais, da sociedade civil para a sociedade politica. Esta inverséo causaré grandes, confusédes na administracéo popular de Luiza Erundina em Sao Paulo, Em janeiro de 1990 a imprensa registrou uma crise| naquela administrag&o gerada por funciondrios do poder pt- blico que financiaram e defenderam o uso de verbas publicas para o desenvolvimento de atividades dos movimentos popu- lares (no caso, 0 aluguel dos énibus que levaram os sem-ter- ra a Brasilia para pressionar o governo federal). -. Trata-se .de.um momento de-nova crise de identidade da ‘ala ativa e progressista dos movimentos. sociais p ES) Ad-inesmo™~temipo” que eles realizaram avancos, saindo das Propostas localizadas para as § gerais, localizadas em_nivel da estrutura. do..poder.federal, nao deixaram de ser repre: tantes apenas de certas clientelas, nao formulayarn | ‘propostas . globalizantes para toda a categoria que defendem. “Atuam ainda muito corporativariiente;’ : Observamos que os movimentos sociais esto construin- do suas histdrias a partir de fluxos e de refluxos. Ha uma! certa alternancia entre: predominio das formas progressista: nos governos mais autoritdrios; predominio das formas mais) conservadoras nos governos mais democraticos. A produgao tedrica sobre os MSU padece do mesmo problema de fluxos e refluxos. No Brasil, nos anos 80 ela foi uma “moda”, uma das inovagGes nas ciéncias sociais. Fo- ram estudos mais descritivos; n&o se produziram teorias con- sistentes para explicd-los, Por isso é preciso que tenhamos como meta a produgao tedrica globalizante. Este livro pretende contribuir com aquela meta. No pr6- ximo capitulo vamos sistematizar as principais correntes que tém teorizado sobre os MS ou servido de base referencial de analise. A maior parte desta produgio é de origem européia. 17 Capitulo Hl LEME LEMENTOS PARA UMA TEORIA SOBRE OS M ROVIMENTOS SOCIAIS URBANOS NO BRASIL No Brasil, a temdtica dos movimentos sociais urbanos surge como objeto central de investigacdo entre alguns cien- tistas sociais, na década de 70, num momento histérico em que estes movimentos comecgavam a se projetar na cena politica por dois motivos -bdsicos: um de ordem estrutural — o agravamento da falta de condicdes de infra-estrutura urbana e o rebaixamento salarial, portanto, o aumento da ex- ploragao econémica e da espoliagao urbana. O segundo mo- tivo era de ordem conjuntural — o regime politico-militar e a auséncia ou represséo de espacos ja tradicionais de participacgiéo popular, tais como partidos e sindicatos. Aqueles cientistas produziram, ao longo do periodo, um conjunto de pressupostos que passou a compor um dado paradigma analitico sobre os movimentos sociais urbanos. Este paradigma contém as seguintes afirmacées: 1 — Os movimentos sociais urbanos sao manifestacdes das classes populares. — Sfo fendmenos novos na sociedade. — Est&o centrados na esfera do consumo. — Eles partem dos bairros, do local de moradia. — Si&o heterogéneos quanto & composicao social. — Nascem espontaneamente. — Sio auténomos e alternativos. 8 — Constituem germes de transformagao social. 9 — Emergem devido a existéncia de contradigdes ur- banas. 10 — Sao contra o Estado, aAAaRwoNn 33 As questGes mais pesquisadas durante a fase de forma- cao do paradigma relacionavam-se a origem dos movimentos, seu cardter (novos ou nao), sua natureza (transformadora ou n&o) e sua dindmica interna. . Observamos no paradigma apresentado algumas afirma- des, es O importante a destacar sao dois pontos, a saber: _Primeiro — O paradigma se utiliza de nogées e cate- gorias tedricas pertencentes a matrizes tedricas diferentes. Segundo — Ele aborda os movimentos urbanos como um todo homogéneo. E sobre estes dois pontos que construi- remos nossas reflexdes. Afirmamos anteriormente que os movimentos sociais urbanos nao so um todo homogéneo. E necessdrio fazer uma série de diferenciagdes para resgatar os elementos constituti- vos dos movimentos sociais urbanos e apreender sua natu- reza e o papel que desempenham na sociedade brasileira atual. Para isso, a primeira tarefa 6 fazer algumas diferenciacées. Diferenciacdes Os movimentos sociais urbanos nao séo um todo homo- géneo. Eles diferem, em primeiro lugar, de uma série de outros movimentos sociais, tais como os feministas, os eco- légicos, dos negros, dos homossexuais etc., os quais também tém sido tratados, erroneamente, como movimentos sociais urbanos. Os movimentos sociais urbanos propriamente ditos assim devem ser qualificados por conterem uma problema- tica urbana, que tem a ver com 0 uso, a -distribuicéo e a apropriacéo do espacgo urbano. Portanto, sio movimentos sociais urbanos as manifestagdes que dizem respeito & habi- tac&o, ao uso do solo, aos servigos e equipamentos coletivos de consumo. Em segundo lugar, os movimentos sociais urbanos nao se restringem as camadas populares, embora sejam signifi- cativos entre estas camadas, e sfo estes movimentos meu objeto especifico de pesquisa — os movimentos sociais po- pulares urbanos. Em terceiro lugar, 0S movimentos sociais populares urbanos também nao séo homogéneos porque comportam za yisdes diferenciadas quanto aos processos de mudan gros transformagao da sociedade, quanto ao proprio Dana: movimentos nestes processos € a. sua dinamica, ee lide- em pontos que dizem respeito a articulagae oi } ranea, papel da lideranga, das a sessorias € das re. iH s orio o Estado, Igreja, partidos e facgoes politicas e com ees movimento sindical. Em suma, oS movimentos Don ens urbanos comportam projetos politico-ideologicos e one diferenciados segundo a articulagaio de forcas que contém. com o Estado, com a liticos. Delinear 0s con- osso proximo tdpi- itados projetos dos Que articulagdes sao estas? Sao Igreja e com as facgées e partidos polit tornos basicos destas articulagdes sera no co para, em seguida, caracterizarmos OS Cl movimentos. 1. Movimentos urbanos e Estado Sabemos que o Estado burgués apresenta uma dupla natureza. AO mesmo tempo em que expressa forga e poder, e portanto garante a dominacdo de classe e revela sua esséncia, | por outro lado mantém um discurso universalizante que pre- tende revelar uma existéncia formalmente separada das clas- ses, Apresenta-se como acima das classes, com a aperéncia de neutralidade, usando o discurso da igualdade. De um ponto de vista geral, a intervengaéo do Estado no urbano tem a ver com a criacgéo de condig6es gerais para a j acumulac&éo do capital e para a reproducéo da forca de tra- | balho. O Estado procura atenuar a contradicéo entre as ne- cessidades de reproduc&o da forga de trabalho e os interes- { ses da acumulacao do capital via distribuicdo, via saldrios indiretos. Ele promove uma ajuda econémica ao capital através da politica social de beneficios urbanos, procurando reduzir os custos de reproducio da forga de trabalho. A ajuda econémica do Estado reflete-se, no plano politi- co, numa busca constante de neutralizagio do conflito de classes através de politicas que escamoteiam a Segregacao, a espoliacio etc.; e estas politicas transformam tudo linear. mente em questées de diferencas temporais. Estas diferen- Gas sfio tratadas no plano da distribuicgéo como diferencas de acessibilidade. Observamos que o Estado atua nas politicas sociais através de governos determinados, como ordenador das re- 35 lagSes sociais, despolitizando as lutas, universalizando as te- miaticas e organizando a dominaciio. _ Porém, temos de compreender que o Estado burgués nao € um bloco monolitico; justamente por ser perpassado pelas lutas, hé brechas e espagos no seu interior, composto de aparelhos que sao carregados de ambigiiidades e conflitua- lidades. No caso das politicas participativas aos movimentos urbanos, elas nfo sfio apenas uma resposta estatal em busca do controle e dominagéo. Sio respostas a agentes em luta. As vezes 0 Estado age até como indutor do movimento, por querer se adiantar & solugo de um conflito em desenvolvi- mento, Na relacio Estado-movimento destaca-se o papel dos técnicos. Esses técnicos nao sao neutros, eles tém opcodes politico-partiddrias. Muitas vezes eles atuam como asses- sorias aos movimentos populares, abrindo espagos a estes Ultimos dentro dos aparelhos governamentais, através do acesso as informacées. O contrdério também ocorre, de técnicos que contribuem para a desmobilizagéo do movimen- to, via burocratismo. O que temos observado no Brasil na atual politica par. ticipativa € um processo de consulta parcial as bases (ape- nas a ala do movimento afinada com 0 partido que esté no poder). E apenas consulta, através de semindrios, encontros e congressos, Nao ha participacio efetiva nas decis6es; ao contrario, busca-se a participagio dos movimentos como agenciadores de miao-de-obra gratuita para os programas de mutirGes etc. Certos movimentos sociais séo selecionados como inter- locutores validos, outros séo obrigados a se institucionalizar para manter um didlogo e relagdes com o Estado, para de alguma forma dar respostas as suas bases, Outros aspectos que se destacam na: para oS movimentos populares so: baseada na relacio custo-beneficio, rismo, como forma de rebaixar os pular, 0 saber contido nas praticas antepassados sao reapropriados co! de custos. O resultado tem sido a instauragéo de um novo padrao de urbanizagéo, de segunda categoria; a instituciona- lizagéo da segregacio social existente, ea desqualificagaio dos direitos de cidadania, criando-se uma cidadania inferior, S politicas publicas a légica dos programas, € © apelo ao comunita- custos. A criatividade po- tradicionais herdadas dos mo forma de rebaixamento 36 drées de 208, qualidade de materiais etc. sao redefi- nidos, assim como a propria legislagéo comega a se alterar. Mas as mudancas nao expressam apenas controle, domi- nacio Ou perda para 0 movimento popular. Elas expressam lutas. E varias destas lutas tém sido vitoriosas. O movimen- to popular tem crescido nos ultimos anos, ganhado formas novas, 2. Movimentos populares e Igreja No Brasil, a ala do clero catdlico articulada ao movi- mento de renovacio da Igreja, a Teologia da Libertaciio, tor- nou-se, no periodo do regime autoritario, fonte geradora dos movimentos sociais, ao abrir espacos fisicos e de orientagao espiritual-ideologica para as massas populares urbanas. A atuagio da Igreja junto aos movimentos populares sempre se pautou por ‘grandes ambigiiidades. A partir de uma ideologia basista, antimodernizante e antiintelectual, a Igreja imprimiu uma direcdo e um sentido as lutas a partir do trabalho baseado na acao direta, em questdes fundamen- tais para o cotidiano das classes populares, Estas questdes passaram a ser vistas sob a Otica dos direitos dos cidad4os, ainda que estes direitos correspondam a uma fase nao desen- volvida do capitalismo, por serem direitos ditos tradicionais (& posse, ao abrigo, & protegao). O fato concreto é que, dado o grau de espoliagao e ex- ploracao existente, estes direitos passaram a ser vistos como objetivos a conquistar. “Descobrir o direito da gente” 6 uma afirmac&o usual na histéria de vida de varias liderangas-agentes pastorais. % bom destacar o papel do agente pastoral nos movimentos. Trata-se de uma acdo que é encarada como uma tarefa, como uma miss4o, A nova miss4o do cristaéo € o trabalho coletivo, é o trabalho junto aos oprimidos, nesta vida e nao em outra. © trabalho pastoral da Igreja, junto aos movimentos populares, contribui para 0 surgimento de um novo campo de organizagéo popular. # necessdrio reconhecer que a ala progressista tem um trabalho popular e que os movimentos populares mais dina- micos e representativos estao articulados a este trabalho. Portanto o fato concreto é que o trabalho da ala progressista 37 redundou na construcéio de uma identificagéo social dos grupos e camadas populares, criando-se lagos de solidarieda- de e acdes conjuntas. A identificagio passa pelo reconheci- mento de um sentimento difuso de exclusio, de diferenciagao. As agdes coletivas geradas por estes movimentos tém Gelineado um novo sujeito histérico a partir do local de moradia e novos campos de eclosdéo do conflito de classes. A questiio que se pée é quanto ao futuro desses movimen- tos, isto porque eles tendem a crescer e a romper o controle que a propria praxis junto 4 Igreja impde. Ha um conflito entre esta praxis e a estrutura eclesial. 3. Movimentos populares e partidos politicos Embora movimento e partido sejam duas formas de organizacéo distintas, elas correm em leitos paralelos e uma 6 realimentadora da outra. O fluxo vital entre eles nao exclui nem substitui nenhuma das formas de organizagio e luta. Na realidade, had uma grande polémica nesta questao e as diferengas caracterizam projetos politico-ideoldgicos e culturais distintos. Para alguns, 0 partido é mais importan- te, é uma forma superior, e ele deve levar a consciéncia ao movimento. Para outros, o movimento deve ser aut6nomo em rela- cio ao partido. Em alguns casos, os movimentos tém de superar seu cardter localista e devem se articular com os partidos, como estratégia. A unidade seria de objetivos e nao de forma. Para este grupo, 0 partido nfo deve levar cons- ciéncia ao movimento, pois esta se adquire na luta cotidia- na. Mas os partidos devem ter uma politica para os movi- mentos. Esta segunda posigfo é a que tem predominado junto aos movimentos populares dindmicos em Sao Paulo. A vinculagéo movimento-partido, na pratica, tem ocor- rido via lideranga e assessorias aos movimentos. No caso brasileiro, observamos, na ultima década, a ocorréncia de dois processos. Num primeiro momento, uma fus&éo entre os interesses dos movimentos populares e das propostas politico-partiddrias da oposigéo contra o entéo regime politico autoritdrio vigente. A unidade aparente era dada por um denominador comum — a luta contra o status quo vigente que se traduzia na luta pela redemocratizagao da sociedade. 38 ia 1 a substituig&o do regime militar pela Nova Repu. erencas politico-partiddrias se explicitaram e de- m tambem os diferentes projetos politico-ideologicos movimentos populares. A rigor as diferengas sempre tiram, So que elas estavam encobertas. A perda de unidade de objetivos (queda do regime mili- tar) levou & quebra da unidade de ago e 4 fragmentacao do movimento popular. Nesta fragmentacdo, a cisaéo entre dois projetos politicos para os movimentos populares ficou bem clara. Um partindo dos proéprios movimentos — de con- terido transformador; o outro, partindo do Estado e de certas alas do movimento popular que estavam articuladas com aqueles setores que ascenderam ao poder, de contetido institucionalizador. Co blica, as dif Embora tenhamos novamente de diferenciar os movi- mentos, pois a generalizagéo nos levard a erros grosseiros, a questo da relacéo dos movimentos populares com os partidos é fundamental para compreendé-los. Chego mesmo a@ postular que os movimentos urbanos se formam a partir de um conjunto de relagdes e de articulagdes onde os parti- dos e a Igreja tém tido um papel fundamental. Enquanto nfo se estabelecem as relacées, as reivindica- ¢des ficam em nivel das demandas isoladas e nao se’ cons- tituem em movimentos. Sao reivindicagdes econémicas, nao projetam seus demandatdrios como sujeitos politicos reivin- dicantes de direitos. O importante é atentar para a existéncia de uma tensao permanente entre os movimentos. e os partidos. Essa ten- sio 6 fruto da luta de classes e leva a avancos e recuos das lutas. Os refluxos séo também fatores constitutivos dos movi- mentos populares. Embora existam varias organizagdes populares urbanas que contestam as praticas politicas tradicionais — particular- mente as vinculadas as estruturas partidarias —, 0 que a realidade nos tem revelado 6 que todos os movimentos urbanos tém suas articulagdes partidarias. Assim, ha um processo de transigao de formagao entre a existéncia de organizag6es e a cons' jtuigéo de um movimento propriamen- te dito. Embora os movimentos se declarem apoliticos e nao 39 possuam vinculo: rt A s formais explicitos com os partidos, na pra- tica os vinculos Se estabelecem via liderancas e ha um pro- cesso de luta interna nos movimentos pelo controle. Nesse Processo estaio envolvidas as diferengas partiddrias. Portan- to, no Brasil, os movimentos populares urbanos nao se or- ganizam de costas para o Estado e para os partidos politicos, Ao contrario, esses podem até ser agentes indutores. A prixis nos movimentos urbanos Em relagio aos movimentos urbanos, a categoria da praxis adquire importancia pelo cardter criador e potencial- mente transformador. A busca de solugées e alternativas para as condigées de vida cotidiana leva ao encontro de ca- minhos que apontam pata a superacio estas condigoes. O pensar articula-se ao fazer e este processo nao se realiza espontaneamente, mas é permeado por uma intencionalidade politica, presente nos projetos que os movimentos delineiam na historia, A forma de organizacgio do movimento 6 a expressio visivel de sua praxis. O importante nao 6 o fato de uma organizacgaéo ser formal ou informal, mas saber como ela se estabelece, como se articula em relagéo & suas bases, qual sua direg&o, que sentido estabelece para o movimento. A direcéo do movimento é um ponto controverso. Uns advogam sua autonomia; outros, seu dirigismo. Temos por hipotese que, desde que se trate de um movimento, a direcaio sempre existe. Ela é dada nao apenas por uma equipe coorde- nadora, mas pelo conjunto de pressupostos que fundamen- tam suas prdaticas. Esta direcao pode ser mais ou menos democratica, principalmente em relagéo as suas bases. Isto dependera dos contetidos Politico-ideoldgicos e do projeto mais global do movimento. A concepcSo sobre os modos pos- Siveis de se operar as transformagées sociais influi deci- sivamente neste processo. As organizagoes ditas basistas buscam estruturar. suas praticas de forma a possibilitar 0 Pleno exercicio da demo- cracia direta, das bases propriamente ditas, Entretanto, suas diregdes néo se eximem do trabalho de coordenagao, pois elas estruturam e de certa forma controlam todo o processo de exercicio da democracia direta. Nao raro © principio da 40 nao-tomada de decisées antes da consulta as bases pode ser uma estratégia de amadurecimento ou de negacao de enca- minhamentos e solugdes que n&o Ihes convém. Nas organizagdes e movimentos vanguardistas, dirigidos por intelectuais filiados a formagées partidarias com a mis- sio de levar @ consciéncia as bases, nao se pde 0 problema do democratismo local. Ao destacar as diferengas de condepgdes quanto & rela- cdo direcéo/base do movimento, estamos assinalando dois outros aspectos fundamentais da ‘metodologia sobre os movi- mentos populares: a questao da identidade e das diferengas e a questéo dos projetos e das ideologias dos movimentos. Reconhecer os elementos que constroem a identidade de um movimento social 6 um ponto de partida necessario. Po- rém € preciso também reconhecer que esta identidade as- senta-se em diferengas, em divergéncias. Ela € a forma pos- sivel de aumentar as desigualdades e de converté-las numa proposta de acaio na qual a solidariedade é 0 grande amdlga- ma. Sendo assim, investigar a natureza de um movimento social implica decompor sua aparente unidade, reconstruir seus elementos constitutivos. A forca e a potencialidade de um movimento decorre do cardter dos elementos constitutivos que compéem a unidade aparente, mas que divergem entre si. Os conflitos e contradi- Ges internos nos movimentos sao os indicadores basicos das diferengas existentes. Estes conflitos e contradig6es decor- rem de forgas sociais e politicas que possuem visdes e€ pro- jetos politicos peculiares, leituras especificas sobre a mudan- ca e a transformacao social. A identidade nao é algo dado. Ela se constroi historica- mente num processo de lutas. No Brasil um grande elemento fermentador da constituicdo de identidades tem sido 0 Esta- do, através de suas politicas para responder aos movimentos populares. Ele une o que estava dividido. O estabelecimento inicial da identidade se faz fundado na localizagao ou criagéo de dreas de igualdade, em contraposigao as propostas es- tatais. Assinalamos que a identidade expressa um processo em curso. Sua constituicgdo pode ser acelerada ou incrementada por fatores externos ao movimento, principalmente pelas 41 ; 5 Ponte emel nterno importante lemento i renee is ha um outro e 1 6 a licar como as diferencas se compoem num Sa nocio da ex 1. O papel da experiéncia A experiéncia foi uma nog&o relegada por varios anos eutre os analistas de, postura critica, pelo fato de estar as- sociada ao empiricismo, particularmente ao empiricismo inglés, e As andlises funcionalistas. Mas nao foram s6 os economistas empiricistas ingleses ou Os funcionalistas americanos que destacaram o papel da experiéneia, em contraposicio as atividades filosdficas da mente. A sensibilidade provocada pela experiéncia foi bas- tante destacada por Nietzsche, ao valorizar 0 papel das apa- réncias como constitutivas do universo do saber. Ou por gran- des autores da fase do Romantismo, os quais destacaram 0 papel do fazer e sentir, das emogées, como as grandes vias de estruturacao e explicacdo das acdes humanas. Esta tiltima linha de abordagem influenciard as representacdes presen- tes nos movimentos populares no que concerne ao papel do comunitarismo, como constituidor e agregador das praticas populares. Entretanto, outras correntes contribuiram para resgatar a importancia da experiéncia nas agdes cotidianas. No ma- terialismo temos, além da contribuigao fundamental de Marx através da nocgéo de praxis anteriormente explicitada, as andlises de Gramsci e Mao Tsé-Tung. O primeiro destacan- do o papel da experiéncia como cimentadora de solidarie- dades e constituidora de embrides de uma vontade coletiva geral. O segundo assinalando a importancia da experiéncia como ponto de partida no processo de conhecimento de uma dada realidade. A troca de experiéncias constitui uma grande fonte de realimentagaéo das lutas. Ela confronta as diferencas e pos- sibilita 0 surgimento da identidade através de direcdes e sentidos comuns As lutas. __Portanto, a troca de experiéncias, através de espagos de praticas coletivas engendrados pelos movimentos populares, € o ponto fundamental para a socializacio das informagées e a constituigiéo de uma identidade de objetivos e agao. 42 iénci i le bairros possui duas eres de im ale da troca. Trata-se pri- cos onde se desenvolvem as rro é a grande novidade dele a Igreja e os centros A eXxk outras vertentes de import meiro da constituigao dos espacos: experiéncias, e nesse sentido o bai: na década de 70 no Brasil, e dentro comunitarios. Em segundo lugar, a experiéncia gerou, para OS movi- mentos populares, um método de trabalho. Explicitando me- lhor: a unidio de pessoas carentes de equipamentos da forga a suas acées, seguindo o cldssico slogan “a uniao faz a for- ca”. Unem-se experiéncias semelhantes de vida cotidiana. Unem-se a partir do conhecimento de resultados obtidos por outros grupos, que obtiveram sucesso. Portanto, unem-se também a partir da absorcaéo da experiéncia alheia. | Um ultimo destaque em relacio ao papel da experiéncia junto aos grupos populares. As experiéncias passadas, de cooptacdo, de atrelamento, de manipulacao e outras, deixa- ram marcas profundas. E ha uma memoria disso tudo. De tal forma que “construir e buscar a solucio com nossas pr6- prias maos” passou a ser uma aspiracdo unanime. Outro fator: a convivéncia. dos movimentos populares com os espagos institucionais tem gerado grande aprendizado, gran- de experiéncia e um saber particular. 2, Os projetos Os projetos séo 0 conjunto de propostas e diretrizes que explicam e organizam a praxis de um movimento social. Estes projetos nao s&éo necessariamente transformadores pois existem vérios movimentos sociais reaciondrios, defen: sores do status quo. Os projetos que contemplam aces trans- formadoras podem se desenvolver tanto sobre problemas imediatos como sobre problemas mais globalizantes. O card- ter transformador de um projeto é dado pela natureza em si da pratica do grupo, que pode estar voltada para a solucio de questdes localizadas (4gua na favela), mas contempla uma totalidade maior ao equacionar este problema no es- pectro da divisdo social do trabalho e das injustigas sociais (direitos). Os projetos determinam a praxis do movimento, ou seja, suas metas, objetivos, lutas, encaminhamentos etc. AZ Na realide Sti 5 pontos contr ade, a problematica dos Projetos é um dos en Primeing nudes dos movimentos sociais. Haé duas ques- | °, OS movimentos sociais, em si, se constituem artir de dois a: Social vigente, U; desenvolvidas, a Spectos basicos, no que diz respeito & ordem m tem a ver com a positividade das acdes Peter cai tirmadoras do status quo vigente. O outro Fecal se & negatividade destas agdes, ao seu potencial de ‘VO! @ e€ contestagéo. Assim, o projeto de um movimento podera destacar mais o fator positivo ou o fator negativo, dependendo do contetido de suas praticas e das representa- goes e ideologias de suas liderangas. Segundo, a idéia de projeto é algo polémica por envol- ver um certo conjunto de proposigées e articulacGes. A ques- tao 6: quem o elabora e em que momentos da luta isto Ocorre. Ou seja, haé concepgdes junto aos movimentos popu- lares que atribuem as liderangas externas, 4s assessorias, ou a outros, a tarefa de elaboracao dos projetos, previamente as agdes do movimento. Para outros os projetos se constroem Na prdatica cotidiana, sem sujeitos pré-designados. Na ultima proposicao, encontramos possibilidades mais democraticas de construgado de projetos realmente popula- res aos movimentos, que atendam aos seus anseios e neces- sidades. Isto porque a construgao do projeto a partir da pratica e da praxis cotidiana abre caminho para que os sujeitos demandatdrios possam dar sentidos novos as suas agoes, reordend-las segundo as conjunturas e forcas sociais presentes. Dar sentido as prdéprias condutas, em oposicio ao sentido ja dado ao sistema social pela ordem dominan- te, 6 o grande espago existente nos movimentos populares, na construgao de seus projetos. Os projetos dos movimentos populares urbanos da déca- da de 70, em Sao Paulo, por exemplo, em sua ala progressista ligada a Igreja, adquiriram peculiaridades que Ihes confe- riram cardter radicalmente distinto de todos os movimentos que os antecederam. Em primeiro lugar porque houve uma inversao metodoldgica na construgio destes projetos. O su- jeito passou a ser os discursos e as praticas dos demandatd- rios (ainda que assessorados). A partir de praticas de resis- téncia, advindas da experiéncia cotidiana no trabalho e na moradia, construiram-se os elementos de um projeto futuro, que se propunha a ser libertador, negando as experiéncias clientelisticas do passado. 44 los movimentos populares ovo projeto elaborado Pi leat P10 através de suas falas & da década de 70 no Bra: il continha, S suas experiéncias, uma reelaboragao dos acontecimentos. Os oprimidos, fracos, hhumilhados, subalternos outros ele- mentos unificadores da identidade popular tomam 0 centro deste projeto e se propdem a conduzir seus destinos nao mais guiados pelas palavras de ordem do lider populista, do politico da esquerda, monopolizador das verdades, ou da lideranga peleguista, correia de transmissio dos desejos do governo autoritario entao vigente. 3. Os projetos dos movimentos populares Basicamente podemos identificar dois grandes projetos politico-ideoldgico-culturais se desenvolvendo no seio dos movimentos populares, Um. engendrado junto aos movimen- tos mais dinamicos, com grande participacao das pases, li- derangas e assessorias, que denominaremos transfoyma- dor, O outro, engendrado a partir dos interesses das classes dominantes, partindo do Estado e também coexistindo entre certas parcelas do movimento popular, o qual passaremos a denominar de institucionalizador. O projeto transformador contempla a participagaéo real das classes populares. Contém elementos de negagéo da ordem social capitalista e di origem ao novo. Ele emerge a partir da articulagao de interesse dos subordinados e se constroi na praxis cotidiana através das reivindicagdes e das pressées politicas. Estas reivindicagées e pressdes emergem no cendrio urbano devido ao processo de pauperizagao das camadas subordinadas e das contradigdes engendradas pela acumulagao. O projeto transformador pode levar a ruptura das estru- turas de dominacao. Ele reivindica a participagéo popular nos processos de planejar, gerir e controlar a coisa publica, ou seja, uma gestao democratica da cidade. Argumenta-se com a necessidade de controlar os mecanismos institucio- nais. Neste processo observa-se a proposicao de novas formas de administracéo da referida coisa ptiblica, como bens cole- tivos e nao como estatais ou governamentais, os quais, como se sabe, tém privilegiado os interesse de grupos e lobbies econémico-financeiros. O projeto transformador pressupée uma reformulagao de postura dos agentes presentes e atuantes da sociedade 45 politica no sentido de que possibilitem uma gestao democrd- tica da cidade, autOnoma, pela base, independente da insti- tucionalizacao estatal, com participacao efetiva dos movimen- tos populares nos processos deliberativo-normativos e nao apenas consultivo-opinativos. Ha intimeros problemas as propostas do projeto trans- formador e intimeros impasses cuja superagio sé a praxis historica_possibilitara. Um destes problemas € represen- tar o carater o menos particularmente possivel e 0 mais slobalmente desejivel, sem universalizar ou diluir os inte- resses populares. Outro problema é encontrar formas que contemplem os conflitos existentes — mesmo no interior dos movimentos populares — entre as diferentes forgas Sociais que compdem o espectro social, sem aniquild-las. Em. suma, € preciso contemplar a democracia interna dos movi- mentos considerando o conflito como algo saudavel, neces- sdrio e nao pernicioso, de tal forma que se avance no sentido de uma real transformacai 40 do social, Outro ponto de grande relevancia que o projeto trans- formador levanta refere-se diretamente & questio da gestao popular, Esté embutido nas reivindicagdes 0 desejo da auto- gestao popular, ou seja, 0 exercicio do poder popular atra- A autogestéo vai além da mera participacgio e busca superar a proposta conservadora da co-gestao, Isto porque a co-gest&o apresenta-se como o limite das formas Participa- tivas no capitalismo avangado e nao se traduz num meio efetivo de barticipagdo nas decisdes. A co-gestaéo busca, em Ultima instancia, a Paz social através da atuacao de conse- Ihos e outras formas mediadoras, Ela é fruto de um pacto entre grupos de interesses; baseia-se numa visdo evolutiva e etapista do desenvolvimento social; e nao é uma alternativa realmente transformadora que delineie caminhos revolucio- narios, Resultados obtidos pelo projeto transformador Os movimentos formulam projetos quando articulam as reivindicagdes de suas bases sociais em organizagées estruturadas com objetivos e programas de lutas. Este pro- 46 s que sao centrais no viver tal como a luta pela mora- imeiro momento, OS ido em meio a luta dade capitalista, 2 da terra, Se, num Pp) 0 ento, Os ares desabrocharam em meio a reivindica Jadas, atualmente observamos, pelo me- hd alas do movimento que avangaram para lutas significativas, inspiradas e construtivas do Proje to transformador, Este avango deu-se ao longo de um p cesso que resultou para os movimentos populares em: cesso tem ocorriay e sobreviver na Cl dia ou pela posse movimentos popul: goes pontuais e iso nos em Sao Paulo, que le) A “descoberta” dos direitos sociais dos oprimidos, pelos oprimidos (em articulagio com as assessorias). 2°) A consciéncia da segregagio social, politica e eco- nomica, No plano do urbano, esta consciéncia se manifesta pela identificagéo social dos espagos diferenciados, pois as lutas possibilitam a explicitagéo das diferentes forgas sociais que lutam pela apropriagéo da cidade e dos agentes que materializam estas forgas. 3°) A constituigio, através da participacgio nos movi- mentos, de novos sujeitos histéricos que lutam no plano do consumo sob os efeitos gerados por uma acumulac&o explo- radora e espoliativa, Estes novos sujeitos aparecem de for- ma coletiva e sao reconhecidos pelo Estado e pela sociedade. Ha uma reposicao do coletivo, que tende a se institucionalizar em figuras juridicas quando em contato com o Estado. 4°) Enquanto sujeitos historicos transitérios, cumprem um papel de dentncia da incapacidade da economia de re- gulamentar o conjlito entre a constante valorizagéo/desvalo- rizgacéo do trabalho. Os saldrios reais néo sao suficientes para cobrir os custos totais para a reprodugiio da forga de trabalho, principalmente os gastos com a habitagao e seus complementos. Os movimentos reivindicam, do Estado, sald- rios indiretos e passam a atuar no cendrio politico como NOVAS FORCAS SOCIAIS. 5°) Através das relagdes desenvolvidas no cotidiano, os movimentos populares tém contribuido para a constituigéo de uma identidade popular. A cultura popular desempenha o papel de amdlgama desta identidade por intermédio dos significados e valores contidos nos projetos de vida dos agentes envolvidos. 6.°) Os movimentos populares urbanos contribuem para a gestacio de formas alternativas de um poder popular, 47 Sere Nesse sentido, senvolvem o que Gramsci denomina gue de posicaio no interior da soci dade civil, ou seja, a conquista de espagos para a constitu: ¢ao das camadas subor- dinadas como clas dirigente. 7°)O €spago social e politico construido pela praxis co- tidiana dos movimentos populares traduz-se em fontes per- ™Manentes de organizacdo popular, 82) Os movimentos Populares tém contribuido, em suas etapas mais desenvolvidas, bara alterar a logica de apropria- ¢a0 e uso do espaco urbano, através da alteracaio das leis de USO e disciplinamento do solo. Estas reformulagées tém cria- do novos direitos Sociais, a exemplo da uta dos favelados pela posse da terra e conquista de tarifas especiais de con- Sumo de servigos coletivos, 9°) O projeto transformador tem como resultado obje- tivo fundamental a conquista de uma contra-hegemonia po- © projeto institucionalizador, A ocupacio de espagos nos aparelhos estatais 48 flito e transforma as reivindicagdes especificas em meros problemas burocraticos. O projeto institucionalizador busca a construgao de in- terlocutores a partir da apropriagio de bandeiras, da con- quista dos movimentos populares dinamicos, assim como da cooptagao das liderancas dos movimentos populares menos dinamicos, recobertos de vicios do clientelismo politico ou da politica de favores. A concepgiio politica do projeto institucionalizador é me- canica, linear e reformista. Na concepcéo do processo de mudanga, o projeto apresenta duas versdes. A primeira é dada pelo papel dos agentes externos, cuja fungio é direcio- nar 0 curso dos acontecimentos. Sendo assim, os movimentos podem e devem ser direcionados. A segunda parte do pres- suposto de que os movimentos sao etapas preliminares para um regime democratico e popular, instrumentos de constru- «iio da democracia, nao do socialismo. Este projeto busca institucionalizar as praticas esponta- neas, extraindo energias para solucionar problemas imedia- tos, sem criar espagos participativos reais, que contemplem 4 presenga das massas populares nas decisdes politicas. Por tras de uma retorica diferenciadora entre processos consul- tivo-operativos e processos deliberativo-normativos, armam- estratégias formais impeditivas da participagao efetiva. Outro ponto de destaque do projeto institucionalizador diz respeito aos seus objetivos econémicos. Busca-se resol- ver problemas engendrados pelo modelo de acumulacaéo e acirrados pelas crises conjunturais, através da intervengao no processo social. Esta intervengao se faz por duas vias: 12) As propostas e alternativas populares, as estratégias ¢ os planos contidos nos movimentos transformadores (en- globando prdaticas culturais revitalizadas, como mutirao, por exemplo) séo apropriados pelo poder publico e transforma- dos em politicas estatais baseadas na l6gica custo-beneficio. © que importa é a reducao de custos. © potencial mobiliza- dor é utilizado no que se refere a uma reducéo no prego da obra ou benfeitoria a ser transferida as camadas populares, através da colaboragio dos movimentos populares. Disto resulta a segunda via, a saber: 2.8) As reivindicagdes de direitos de cidadania, contidas nas pressOes populares, sao apropriadas e transformadas em 49 cidadania de segunda categoria. Padrées minimos de condi- goes de habitabilidade sao redefinidos, 0 uso de materiais é alterado, Em suma, 0 projeto institucionalizador tenta impedir a constituigéo de uma identidade popular: “O avango no social significa inscrever a conquista e a melhoria publica na rela- cao social de produgéo e nao sé atender caréncias contrai- das pelo regime autoritdrio”.t Mais do que saldar 0 débito de uma divida social existente, como preconiza o projeto institucionalizador, 6 necessdrio estabelecer os termos para a saida da grande crise, como afirma F. de Oliveira, modifi- cando a relaco salarial, revertendo a privatizacao do social, despolitizando a economia, redefinindo o ptiblico. Ou seja, é necessario, conclui Oliveira, uma outra trama representativa. Nesta trama néo ha lugar para a mudanga sem a presenga do projeto transformador. 1. CE. i ivel Paulo, 1993, TCHS de Oliveira, Novos Estudos Cebrap, n, 13, Sao 50