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Quarto Escuro

Anielson Ribeiro

QUARTO ESCURO

PREFÁCIO

Clarissa Loureiro

Fazer de meu Prefácio um texto fiel à obra ou sedutor a favor desta mesma obra, num sentido mais pervertido? Esta é a pergunta que eu tenho me feito enquanto penso no Quarto Escuro. A resposta demora. Porque a crítica literária e a amiga do peito se debatem. A professora pede didática. A cumplice de desabafos, sinceridade. O prefácio do primeiro livro de um amante da Literatura é um batizado, uma benção, ou simplesmente uma afirmação da cumplicidade de duas pessoas que buscam na Literatura um caminho. E é neste sentido que me arrisco a dizer deste livro que se propõe a ser o primeiro passo oficial de Anielson Ribeiro como escritor de si no mar de angústias, alegrias, solidão, frustações que é a busca pela escrita literária.

Em Quarto Escuro, Anielson Ribeiro busca se construir como poeta na sua primeira aventura dentro do universo da literatura. A primeira impressão que se tem numa leitura menos aprofundada é que se trata de uma “Lira dos Vinte Anos” traduzida para o universo moderno de Baudelaire, sonoro de Jack Kerouac, surrealista de André Breton, irônico de Lawrence Ferlinghetti e, sobretudo, marginal e suburbano de Bukowski. Esta pluralidade de vozes é emitida na tônica do rock and roll tão bem vivenciada pelo também músico Anielson Ribeiro.

Assim, “Quarto Escuro” é uma lira bem próxima da melancolia romântica, sem o seu pieguismo habitual. O que se observa é a dor existencial de um homem moderno, revisitando as suas mais intensas fantasias e suas mais intrigantes insônias, na qualidade de um flanêur perdido na multidão de imagens de um cotidiano suburbano que são emitidas no silêncio solitário de um quarto escuro preenchido, progressivamente, por um cromatismo berrante existente em imagens sensoriais capazes de arrepiar a pele, à medida que os textos se tornam câmeras cinematográficas que apresentam cenas carregadas de masturbação, sexo, alcoolismo, e, sobretudo, mulheres cujas faces se despedem de uma idealização para caírem na realista mulher demoníaca baudelairiana. São mulheres de pele, suor, orgasmos, mas, sobretudo, caprichos que despenteiam arquétipos estabelecidos, infiltrando-se no imaginário do livro como prostitutas baratas, lascivas e autônomas em boas-putas-quase-de-graça, musas negras caídas das nuvens no lodo de espermas de uma cama solitária em mambo pra Maria, ou simplesmente

mulheres reais chupando do falo masculino a mais íntima solidão de fim de tarde numa amena cidade do interior em entardecendo em sobradinho. O erotismo perde a descarga espontânea do fisiológico próprio à pornografia e assume um sentindo bem mais filosófico. O sexo é um dos artifícios da obra que exprime a grande angústia existencial do vazio dos dias coloridamente, como dados jogados no precipício, cujas formas geométricas incendeiam de uma febre própria de uma juventude bukowskiana. E isso fica ainda mais evidente nos poemas Inferninho e Festa, cujos títulos se identificam por transmitirem a construção do mesmo quarto escuro cujo foco é a cama onde se busca nos braços femininos a mesma vontade de um afogado pedindo por mais braços, pernas, seios, vaginas que lhe forneçam a vida doce diante da sufocante, embebedada existência salgada. A impressão causada no leitor é de uma forte tensão submetida aotesão predominante nestes poemas. Sobre as cenas explicitamente visuais emerge um forte subjetivismo que fura o sarcasmo próprio à geração Beat em sua urbanidade desolada e entrega-se a um eu-lírico que se utiliza das vanguardas para exprimir seus dramas mais pessoais. É o caso do poema Sufoco, o qual me despiu como leitora, professora e amiga, pela qualidade estética e a sua explosão emocional. Trata-se de uma mulher diferenciada das encontradas na obra. É uma miragem surrealista. Metáforas como “castelo na boca” e “corações de todos os santos nas mãos” exprimem a soberania de uma mulher na fala e nos gestos, que seduzem, calam a pretensiosa soberania masculina, tendo muito do subjetivismo que me proponho na minha prosa feminina. Desta forma, o poeta consegue ir além de si e se projetar na alma da “outra” com gênero e personalidade bem definidos. E, a partir disso, exprimir um desejo sexual bem maior do que o carnal, quem sabe existencial, desnudando-se diante do leitor, como um homem que se reinventa em sua própria poesia, escondendo-se na pele de tipos sociais e, ao mesmo tempo, revelando-se no seu olhar sobre o mundo que acaba sendo o de si mesmo. O que se avulta na obra é a capacidade do autor de se escrever como quem está num quarto escuro, sufocado por uma imensidão de ideias que não consegue verbalizar diante da gritante timidez, mas que se eternizam em metáforas soltas no ar, as quais também são personagens no livro. Nesta estreia no universo da escrita, Anielson Ribeiro parece desenvolver poemas metalinguísticos mais para se compreender como linguagem no mundo do que discutir os artifícios próprios da realização poética. Parece mais que ele usa a reflexão da linguagem para refletir sobre si mesmo. É o que acontece no poema Canção de Exílio que foge do caráter paródico de outros textos modernos que se debruçaram sobre o exílio cultural e espacial de Canção do Exílio de Gonçalves Dias. Predomina no poema um exílio existencial que não se desenvolve no modelo de paráfrase irônica do texto romântico para tematizar o seu momento histórico. A linguagem é livre e particular e

se propõe a ser subjetiva, individual e, em contrapartida, universal. Tanto que o verso inicial se desenvolve no seguinte formato: “que solidão!”. Trata-se de uma solidão individual e, ao mesmo tempo, própria a uma geração que vivencia a conhecida contemporaneidade da qual Anielson Ribeiro se propõe a fazer parte e que é pouco escutada, porque também não se propõe a ser ouvida, através de uma mídia enlatada, grandiosa e massiva. Daí a simplicidade da própria estruturação do livro, como é o projeto de construção poética do autor. Afinal, a sua Beleza não está no céu, nem nas propagandas de outdoor, mas no “poleiro”, esperando descer para aliviar um inquietante desajuste no mundo predominante em Quarto Escuro. E fica para o leitor deste prefácio a estereotipada pergunta a ser feita. Porque ler Quarto Escuro? Para que? E a resposta deste sujeito que se propõe a apresentar o livro é: para se perder dentro de si mesmo. A marca da obra é de uma intensa sinceridade que extrapola o universo do escritor e alcança quem lê com uma ousadia tão espontânea que acaba por despertar sensações íntimas de uma juventude de vinte anos que se eterniza por se repetir em cada um de nós. Por isso, é uma Lira de Vinte Anos” tão bem renovada. A lira do rapaz buscando-se descobrir como poeta e que sem planejar acaba por nos descobrir como humanos. Afinal, somos jovens até que desistimos de viver nossas dores nos nossos particulares quartos escuros.

Desci da minha torre de marfim E não achei mundo nenhum” - Jack Kerouac

Dedico este livro a Santana do Sobrado, Bahia

Contemple o breu

sob o signo da decadência

decore meus lábios verticais enquanto guio os horizontes para o abismo niilista sem fim que descobri no porão da alma enquanto renuncio a minha fé agora celebração do teu corpo aberto em teu sorriso endemoniado pensando-sempre-no-dia-que-vem teu sorriso de missa negra em plena páscoa em teu olho retardado de inferno absoluto teu olho miserável de gato com fome espreitando um pássaro frágil teu olho que tudo vê sem entender nada em teus seios de janelas para as escadarias de um beco sujo em tua barriga de harpa cristã esquecida em teu sexo de oratório sem graça feito de aroeira com mil santos enfeitados ninguém pra me salvar

festa

ela celebra nossa decadência

a arritmia dos nossos movimentos de corpo

numa foda mal-apresentada e sem sentido era mesmo todo aquele corpo fechado que tanto desejei em noites quentes

bagunçando lençóis

ela se permite fácil

e já levada pelo sexo e a cerveja me contou os medos como quem conta estrelas

e tudo se resume em imposturas

num quarto trancado onde tristeza é maciça

e nossa cama coberta por mentiras

queria mesmo uma casa só & nossa

das canções que o tempo tratou de encardir

o quarto permanece turvo

das noites em que mãos sujas escorriam por brancura nociva viciando a memória em tormento

lá fora o ruído morno dos automóveis

a

balada de um amor sem futuro

e

cada nova carícia aqui apresentada

é

mais esforço pro olvido

pudera a noite ser nossa criança sempre tão febril!

mas foi-se no vapor leve do meu café ao sair deixou melancolia flutuante num ar estagnado

e essa canção empoeirada

é resto de conforto

réquiem para todos os meus fantasmas do sexo

quisera eu repouso prum espírito maldito e arredio.

inferninho

eu esqueci minha felicidade naqueles seus risos no chão da casa triste vendi minha alma carregada de infernos pessoais - divirta-se

você achou meus erros no ciclo dos meus desacertos e tatuei mais alguns na fricção dos teus seios esqueci o ano da falência de minha vida

eu me perdi não lembro mais quem é a musa-morta-e-nua deste meu poema

mas esqueça isso de amor eu só quero você só quero até aqui

preço

esse lugar me corrompe

condena

em toda sua intimidade esta outra se oferece mais arrojada cheia de si

cheia de vontades

e eu rasgo a pele mais uma vez

no seu abraço que me impregna de deficiência já não estranhando o esgotamento

e percebendo que as frases que disse mal eram apenas o aguardo por quitação

entardecendo em sobradinho

ainda lembro bem quando ela encheu a boca com toda a minha alegria com toda aquela vida recém-morta

passeava minhas mãos através do seu belo corpo envergado até aquela inóspita vagina desvairada enquanto a cama se convertia num terreno estranho

e eu coloria os tetos de vidro do meu crânio com mais algumas tristes cenas de sexo

enquanto observava restos de porra seca no lençol

foi

tudo que sobrou

para muitos poderia ser o suficiente mas sou famélico demais

ela

ela sempre me cobrou mais caro pela miséria

e me sepultou inteiro

nesse cemitério de fotografias

os dias são cada vez mais penosos e lúgubres sucumbo fácil perante gravidade soberana

e ela me decreta cruz

que é recordar idéias safadas demais no puteiro mágico da minha solidão

mambo pra Maria

eu vejo através de toda sua áurea branca de ingenuidade e passividade que esconde mal os néons vermelhos ao redor de sua cabeça agitada trazendo seu cheiro de devassidão e febre na pele

oh doce madona negra & sensual de pernas frágeis que guardam a concha dourada de Vênus onde chega agora até mim o som e o cheiro que vêm subindo desses mares revoltosos nunca antes navegados atormentando minha cama

leite derramado.

4:37 AM

quanta poesia a gente perde com todo aquele pudor com todo esse amar emoldurado em frases de domínio público mas ela me desconsertou com sua maneira de me preencher como o tempo e a ferida

escrevi nas paredes da minha pele com o carvão da saudade mas você apagou tudo friccionando outro corpo nela apesar de tudo, Camões tinha razão:

o amor é, sim, toda essa miséria saciante

acordei só pra escrever esses versos fracos

e minha sina é acordar

sempre que precisar espantar

esses malditos súcubos

apresento ele

estes sãos os versos anêmicos de um poeta novo penitenciado com a solidão de todos os bons um constante fugitivo de todas-elas-possíveis sob máscara de covardia & timidez mas uma incontrolável vontade de satisfazer este sentimento de mundo é ainda dona deste flagelado coração insurgente mas nem mesmo toda aquela maconha e os porres me fizeram escrever boas coisas nenhuma gota nos meus dedos dos prometidos orgasmos poéticos

hora de poesia

eles ainda buscam algum resto de cadência de tempos tristes

e falsos demais em mim

o que há é apenas desejo de escarro

e ainda ela

mas muito bem violada

pelo tumor varonil da mediocridade

perseverando

este meu trabalho é pobre e solitário nesse lugarzinho fodido mas num vislumbre há loucura crescente derramada numa taça futura de amor líquido as rimas se foram

e

junto os clichês

e

tudo que é vulgar e lindo

se apossou dos meus dedos quando as putas seduziram minha canção

gozo!

requebrar

vago meio insosso e isso se manifesta em minha escrita tragado por barro e tristeza solitário de horas cansadas

estamos na metade de Junho meu salário já fez de mim um mágico em outros tempos e situações mas o coelho saltou antes do número dessa vez

hoje não posso comprar nenhum corpo feminino que me aqueça de euforia e orgasmo mas aguardo alguma qualquer desavisada para que minha alma lance sua torre ao escuro

logradouro

minha lista de mulheres ainda é pequena

mas foram belas e baratas

boas-putas-quase-de-graça

e este amor cobra apenas

um dízimo de prazer

e algumas realmente não estão interessadas na grana que eu não tenho

tenho adquirido certo desprezo pelos grandes poetas deste lugar alguns são sérios e complexos demais

e minha poesia é sinceramente medíocre

eles nunca vão ler essa bosta que seja! não quero ninguém dançando no meu inferno

hoje vou passear, Hemingway não vou dormir com Sylvia vou à praça com uns sacanas que não sacam de literatura

mas conhecem bem as putas!

e a cidade que anda implorando reconciliação mas medo ainda é amante

a televisão me ensinou assim:

assista, tema, tranque-se e assista mais

salamê-minguê

tive que aceitar alguns conselhos “fique longe de igrejas e bares não podia perder mais dinheiro precisava de cerveja e pizza pro almoço

desculpe, queria ter pensado em algumas belas metáforas

mas no deserto do concreto não há sombra para abstrações

sufoco

ela tem um castelo na boca

e traz os corações de todos os santos nas mãos como uma estranha coleção de sapatos

é

muito mais bela do que eu

e

sabendo usa bem isso

enquanto dispara cansaço com os olhos mas aguardo algum momento desprevenida para fincar de vez minha vitória pois hoje sei que posso descarregar em novo corpo horas tombadas em que fodi sem qualquer motivo

fogos

o mundo nos esqueceu mesmo depois dos alaridos de repulsa e juventude das noites passadas com toda essa loucura nos quebrando até os ossos como as garrafas vazias arremessadas na direção dos portões reivindicando que cada momento seja sagrado

quarto escuro

sua buceta colecionadora de corações infantis demais devorou os nossos num único trago consumiu todo meu gozo com boca bem posicionada em rosto de fera ela distribui miséria em cheiros caros deixa o céu brumoso somente deste lado da cidade lado do eterno vizinho da solidão anjo de câncer um cara que aproveita três dias da mesma calça precisando desesperadamente de dinheiro hoje preciso encontrar semana inteira dentro desse quarto escuro onde permaneço enterrado e nunca mais vou escrever canções de amor mas agora espero que toda essa neblina fétida que sai de minha boca através desses créditos mortos chegue nesse instante e quebre teu lar perfeito e sem goteiras

canção de exílio

que solidão! recluso agora no meu antro silencioso de ansiedade esperando a Beleza descer do poleiro e pousar sobre o ovo enjaulado da minha saudade do mundo

blue bar

as memórias de minhas fodas são descendentes mongolóides

de noites carregadas de angústia

e em todas elas

meus lençóis eram sugados

para dentro do colchão

e ainda surgem num lampejo

antes de cada tragada num copo de caribé

enquanto habilito redoma instantânea contra qualquer camarada que aspire conversas tristonhas

e o último gole é como não emergir do batismo!

cárcere

nós somos heróis da noite mas amigos se mantêm cativos nos calabouços das rainhas loucas não suportaria ser mais cadáver no amontoado de homens em suas covas-comuns hoje prefiro estar longe de perigo e perto de um certo hospital

funeral-feliz

ah as gotas de vinganças que fabriquei sobre o chão vazio trazem um corpo novo aos meus lençóis esquálidos de indelicadas volúpias romântico em plena sanha inflamada de fantasia e libertinagem esperando que todas essas imagens supram os últimos dias embaraçosos

ainda cobiço cada olhar doce cada gemido imaginado

páginas

este castelo é erguido com blocos de rancor

e alicerçado na fadiga

onde o rei visita todo dia sua masmorra

e os súditos cuidam para deixar isso limpo e vendável

chão

meus versos estão cada vez piores cheios de sujeira e desgosto e declinam ainda mais sob a sombra dessa luz artificial que consente com toda a minha loucura preso permanente infantil das mulheres das poucas mulheres que conquistei que não me deixaram muito mas fico saboreando lambendo os dedos com o que sobrou

sobre karmas e refúgios

Enquanto viro mais uma cerveja goela abaixo ela me chupa ferozmente vagueia com o olhar ao redor da sala

seus olhos encontram então um retrato meu junto de minha mãe

e ah! chupa chupa chupa

com ainda mais fervor naquela boca raivosa até meus bagos ficarem vermelhos

termina o serviço pergunto se quer algum dinheiro “olha, meu bem, eu não sou puta” mas pensa melhor e talvez precise de cem reais

pruns cigarros e umas cervejas com as amigas acho justo. dá mais uma olhada para o porta-retrato. beija-me com

suavidade

adeus, minha putinha!

o sol agora lança seus últimos grãos de cintilância

a noite impõe toda sua pompa com devaneios infindáveis revelando seu fundo suntuosamente purpúreo abraça todos os corações fodidos e solitários

e eles buscam afeto através de

pernas e peitos e bocas e bucetas e caralhos e cus e braços fortes

e sempre, sempre revelam tristeza em seus olhos cansados até os velhos cérebros em chamas

faço miojo e canto uma canção do Tom Jobim

memorial de Lourdes

Oh

tudo que eu esqueci durante

a longa dança macabra dos meus dias

todas as intenções pavimentando os infernos na minha alma todos os fantasmas de amor que ficaram

suspensos sobre o tempo

projetados nos néons do futuro encardido

e ainda estão lá

junto de teus mastros de marfim branco carregando todas aquelas bandeiras de promessas atraentes demais que se desmancharam frente aos meus grandes olhos de amante triste junto de todos aqueles teus sorrisos teu sorriso de passos de forró em casa de tia Luzia teu sorriso de mês de prestações atrasadas teu sorriso de quem espera pela queda teu sorriso mágico, só teu, de quem não sabe sorrir no teu semblante de Opala verde Desbotado

teus sonhos de vitrine da Avenida Guararapes aquele teu vestido amarelo florido na tua silhueta de ornitorrinco tua bíblia empoeirada de fé em nós resguardando meu poema de sufoco tudo permanece lá

parado

eu ainda solitário

e você ainda com teus braços de despedida

atordoado

a dor incurável me alcança o peito ela me decepciona sempre mas este tolo espera somente sexo fácil

permanecer estático me deixaria incólume mas o amor chega atropela corrompe atola num limbo pantanoso de armadilhas verbais

submissão

a rua encontra a madrugada

na curva da Espera:

sonhos, distopia e um cérebro flamejante que reclina fora do terço luzes reverberam opacas noites frias

de amores violados inumeráveis

a terra para quando ela pisa como a gravidade

soberana

criadora

do caos em sua destreza andando & fodendo

minha pobre cabeça meus nervos docilizados

e

ela é minha mãe

e

o desejo é meu

indecente

nascer de novo no útero espaçoso

necessidades

milhões de desatinos refugiam-se nas fibras tênues de meu cérebro demudado desejando outra casa outra mulher outra cama que drene meu sumo de solidão pra dentro do seu corpo traquinas de seus panos semi-destrutivos

estou perdendo todas as canções sujas

na minha cabeça que projetei pra lhe fazer dançar acompanhando seus olhos implacáveis seus olhos que me quebram

e me deixam em estado de necessidade de cura preenchendo cedo o espaço vazio do engano do insubstituível encontrarei mais um cigarro na gaveta

e estará tudo mais do que bem

preciso de um cigarro preciso também perder peso outro corpo novo sapato

impossibilidades

pesa meu corpo contra ela ainda sobre o tempo em que sua pele crua embalsamava minha libido hoje é difícil imaginá-la sorridente

a cama está sempre cheia de separações

e será preciso repensar dor para tê-la mais uma vez

aqui

para sempre

deusa coroada

qualquer palavra delicada aqui

é

mera provocação

o

que ela quer é descontrole

total

violência

minha desconformidade mas sabe bem como arruinar cada comentário pretensioso riscando sorrisos com batom

neste altar de libertinagem em um templo-masmorra trancado e excitante ela me transporta através de uma transcendente supernova orgástica aos melhores sentidos que esta existência seca pode ter

e estas carícias carregadas de melancolia me expelem de alguma forma da minha realidade de cão sozinho

Sasha Grey

os corpos erram mas nunca se fecham

e aguardam algum sopro violento

que atire suas imaginações ao alto que preencha todos estes organismos gulosos de prazer & êxtase & música & juventude & dinheiro

você ainda consegue realmente me convencer de que o sexo

é o único território em que alguém

pode experimentar uma brecha de liberdade verdadeira dizendo sim para tudo

mas a loucura se disputa à força

vítima

vigorosa vítima inconsolável o tempo repousa na oscilação de teu clitóris de um lado pro outro me abrindo mares de carne encobertos

das canções que ainda estão por vir assim como deus ainda não chegou na euforia e na juventude desperdiçadas em camas macias demais

transcrição de corpo em canção febril

ela é a voz que perturba minha ansiedade que ecoa sentido nestes dias trêmulos e aguardo a noite chegar para vê-la ninar o mundo com os passos em dança e esperança em direção ao meu coração inquieto de todos os dias e tudo para:

tempo & mundo

o momento é todo nosso

então posso observá-la por entre as luzes derramadas nas ruas bêbadas e a poeira opaca no ar cálido ela vem

e

cada movimento de seu corpo é uma nota grave de uma canção de amor insinuante a pele negra e ainda crua que delira como a noite dos amantes seus olhos contestadores com um sorriso incendiário me desgovernam em público e toda vez que ela se aproxima

e seus lábios mexem “eu te amo” é carnaval em meu coração

dispa meu pudor e encontre o homem dispa o homem: não há pudor deixa-me penetrar à carne estremecida deixa-me abrir a alma frenética e faremos nosso pacto no escuro sem carros, olhares ou desejos contidos.

rascunho de uma canção de 2010

eu quero ser seu livro velho do Faulkner para ser segurado com tamanho zelo eu quero ser seu Fiat Mille para te levar longe aos paraísos mais distantes quero ser seu Cavalo Branco pra você beber até o fim quero ser sua canção favorita do Elvis Costello sussurrada baixinho quero ser seu sapato seu celular secreto seu creme para pentear eu quero ser seu cão seu peixinho dourado seu partido seu universo inteiro numa casca de noz eu quero ser seu qualquer objeto desde que seja seu.

sozinho na multidão

estava tudo mais calmo constante mas não se pode manter paz atirando moedas aos poços

perdendo dinheiro na terra dos dragões

a faca cega de raiva & desejo

traspassa o corpo ainda quente

agora-gélido-demais-agraciado-pelo-fogo

abençoe e cante suas ternuras

o medo do livro chega

acomoda

mas há tanta angústia e desolo no quarto negro que não sai de mim

sonso

fardo cáustico em conduta covarde não me iludo procrastinando a investida a rua o beco o palco de espetáculo errante em hora fria

separação (parole)

a cena se espalha fluída feito um tumor

em minha própria mente desvairada e tempestuosa

a impermanência de todos os sentidos de qualquer memória lançada ao desapego do Letes

de cultura em ruínas produzimos alguns sentidos em nossos sonhos fortes

e tijolo por tijolo

desfizemos nossa casa encantada

nossos móveis empoeirados por palavras sujas & teimosas nossa louça incalculável encardida por nossa fartura em frases falsas nossas roupas acumuladas de tapas & dissimulações de semana que passou

fabricamos nossa própria linguagem

e junto um dialeto

de panelas & rancor variação do amor louco em teorias requentadas

sem nome

a musa persiste rua a fora pisando em sandálias

e corações remendados

seguindo o mapa abstrato da sua euforia sexual puta incansável urrando à rosa dos ventos com a boca dilacerada em sangue & porra do seu último inimigo imaginário

Rimbaud no parque

cerram os corpos nas veias abertas do terceiro-mundo-América improvisando algum sentido para o sangue e as vísceras para a derrota completa para o vício das justificativas desvalorizando todos os valores para encarecer o homem livre eles sabem eles sabem e acreditar é o suficiente para morrer enquanto domam a liberdade em nome da liberdade destroçam todos braços erguidos até sobrar tão somente entranhas rasgadas & crânios infantis em sobrenome de paz

primeiro alento

agora a rua nos incita a novos goles na madrugada quente do assassino camaradas persistem feito mariposas vacilantes a sugar cada faísca magnética de açúcar do éter atentos ao homem que ameaça emboscada

não haverá derrota

no fim da noite esses passos ocultos triunfarão

absoluto

a invasão certeira

de tudo que é bom reivindicada no ciclo vicioso dos desejos incontidos

nenhum lugar é menor do que a tua buceta viscosa, mulher

e saiba que toda cama atrai tormentos

como encher o papo de pássaros massacrados não há por que mentir

sobre estar preparada para a morte para o amor às vezes para o gozo

diga meu nome diga meu nome

sussurra o anjo anunciado maldito

nos piores lugares de sujeira inabitáveis

e essas paredes úmidas

sem teto são mesmo um túmulo do universo inteiro & do meu vazio & nenhum átomo é menor que aqui