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COMO O CRISTIANISMO MODIFICOU A CULTURA MOÇAMBICANA

Antonio dos Passos Pereira

Nem é preciso ser um especialista em Antropologia Cultural para ser capaz de


reconhecer as influências perniciosas de uma contextualização inadequada do
evangelho e da evangelização paternalista numa cultura animista com contexto
histórico de colonização. Moçambique é um caso típico desse tipo de influência.

A igreja moçambicana apresenta hoje um índice de crescimente altíssimo, chegando a


mais de 22% de protestantes no país, segundo o Relatório de Liberdade Religiosa
Internacional feito pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos da América em
2007. A estatística por si só parece animadora, e não se pode negar o impacto positivo
e generalizado do evangelho sobre a nação; mas quem conhece a realidade de
Moçambique de perto há de reconhecer que esses números não revelam o quadro real
de inconsistência doutrinária e sincretismo religioso presentes na maioria das
denominações no país hoje.

Boa semente, crescimento estranho

Os primeiros missionários e organizações protestantes chegaram em Moçambique a


partir de 1883, ainda no período colonial. Estes trabalharam especialmente para
prover educação e saúde à população moçambicana, e através disto demonstraram o
amor de Deus e lançaram as primeiras sementes do evangelho no coração do povo.
Pregaram a palavra, plantaram igrejas, abriram escolas, ampararam os necessitados,
treinaram líderes locais e promoveram desenvolvimento social.

A semente lançada, germinou, produziu bons frutos, e alguns deles podem ser vistos
ainda hoje na região Sul do país, tais como: escolas evangélicas, igrejas, bíblias
traduzidas para línguas nativas e muito mais. Com a guerra pela libertação do
colonialismo entre 1965-1975, a instauração do comunismo e subsequentemente a
guerra civil, que durou de 1976-1992, as mais de 100 escolas fundadas pelos
missionários protestantes foram desabilitadas, igrejas destruídas, pastores
perseguidos e mortos e muitos crentes dispersos. Como resultado o evangelho quase
desapareceu do país.

Ainda neste período, a partir de 1982, os missionários começaram a retornar e outros


a entrarem com mais liberdade no país. Desde 1988 tem existido liberdade religiosa
assegurada por lei. Devido a uma série de fatores, especialmente físicos, tais como
condições de relevo e estradas, os trabalhos se concentraram ao Sul e faixa costeira da
região Central. Mas com o aumento dos esforços tanto de missionários estrangeiros
como do próprio povo moçambicano o evangelho já se espalhou por quase todo o
país. Infelizmente muitas destas igrejas ganharam formas completamente estranhas
ao conceito bíblico de igreja, enquanto outras nem podem ser chamadas de
evangélicas. O Relatório de Liberdade Religiosa Internacional classifica muitas das
igrejas independentes que nasceram de cisões tanto de igrejas evangélicas como de
católicas, como uma fusão de crenças e práticas tradicionais africanas com uma
moldura de cristianismo.

Cristianismo: religião dos brancos

Moçambique tem uma riqueza e complexidade cultural impressionantes, com mais de


40 línguas nativas espalhadas por toda a nação. Comunicar o evangelho num contexto
como esse seria um desafio assustador, não fosse o fato de que o Português é a língua
oficial do país e falada em todo o território nacional. Mas ao mesmo tempo que o uso
da lígnua portuguesa foi um fator importante na expansão do evangelho no país,
tornou-se um problema, visto que muitos missionários não levaram em conta as
diferenças culturais étnicas existentes, já que em tese “todo mundo” falava ou tinha
que falar Português.

Na língua Chissena falada pelo povo Massena da Região Central de Moçambique, a


palavra para Português é Chizungo. Chi é um prefixo usado para descrever “língua ou
idioma”, e Nzungo é a palavra para “homem branco”. Logo Chizungo significa
literalmente “língua do homem branco”. É nessa língua que o evangelho tem sido
largamente anunciado no país inteiro. É de se questionar: Será que não está sendo
dada a impressão de que o evangelho é “coisa de branco”, já que está sendo
comunicado na língua dos brancos?

Para muitos moçambicanos o cristianismo é exatamente isso: uma religião de brancos.


Por um lado eles tem razão. Muitos missionários brasileiros, por exemplo, estão
reproduzindo o que missionários estrangeiros fizeram aqui no Brasil no passado. Estão
comentendo o que chamamos de etnocídio, matando a cultura local, proibindo suas
canções e danças tradicionais e importando músicas do Brasil para a liturgia
moçambicana.

A mensagem do evangelho é relevante para qualquer cultura, indepedente de qual


língua esteja. Mas a maneira como ele é apresentado deve estar adaptada a formas
culturais que realmente façam sentido e que respeitem as manifestações culturais
locais que não são contrárias à Palavra de Deus. Do contrário nunca penetrará a
cultura e os corações das pessoas, não de uma forma profunda e transformadora.
Contextualizar é principalmente adaptar a comunicação do evangelho a formas
culturais relevantes. Não é criar um evangelho novo para cada nova cultura. Uma
contextualização inadequada, seja por faltas ou por excessos, além de provocar danos
irreparáveis na identidade cultural do povo, causam transtornos que descaracterizam a
identidade da própria igreja.

Sincretismo religioso

No período da guerra e pós-guerra muitas seitas ganharam força e expressão em todo


o território nacional e continuam a crescer ainda hoje. A medida que os países
africanos iam se libertando do colonialismo, fortalecia-se o sentimento de supremacia
racial entre alguns africanos. Muitos líderes evangélicos em toda a África romperam
com as igrejas das missões e fundaram suas próprias igrejas e ou aderiram a outros
movimentos. O Etiopismo e o Zionismo Africano, por exemplo, chegaram à África do
Sul com forma de igrejas, baseando suas doutrinas na Bíblia, mas com um caráter
extremamente nacionalista em reação às “igrejas dos brancos”. Logo esses
movimentos entraram também em Moçambique.

As igrejas desses movimentos procuravam manter as características das igrejas


protestantes, mas ao mesmo tempo interpretavam a Bíblia adaptando-a a maneira de
viver dos africanos. O que na verdade fazem é uma integração do evangelho à tradição
africana, mantendo até mesmo ritos de curandeiria e ocultismo nos cultos. Ainda é
muito difícil lidar com as influências desses movimentos mesmo em denominações
consideradas genuinamente evangélicas no país.

Relações de dependência

Atitudes paternalistas também foram uma grande barreira para o desenvolvimento de


igrejas autóctones saudáveis e autosustentáveis em Moçambique, pois criaram
relações de dependência que agora impedem a igreja de andar com suas próprias
pernas. Muitos missionários ainda mantém a idéia de que os nativos não são capazes
de cuidar de suas próprias igrejas e administrar seus recursos. Como resultado, tem
permanecido na liderança das igrejas por 20 a 30 anos sem ter formado uma liderança
autóctone, que possa continuar o trabalho quando eles tiverem que sair. A questão é:
estas igrejas vão conseguir se manterem sozinhas no futuro?

Além disso, por causa da pobreza absoluta, ao invés de criar meios de ajudar o povo a
produzir recursos e rendas, parece mais cômodo aos missionários escrever para suas
igrejas e pedir que enviem ajuda de seus países de origem. É verdade que as
necessidades são gritantes, é não há problemas em oferecer ajudas pontuais em
momentos específicos de calamidade, por exemplo. O problema é que em muitos
casos, o missionário começou a ajudar e não conseguiu mais parar, criando assim um
elo de dependência que dificilmente será quebrado sem transtornos.

Outro problema sério é que parte da população já consolidou a idéia de que a igreja
está vinculada a ajuda humanitária, e a história explica um pouco disso. A vida em
Moçambique, como na maioria dos países da África, não é nada fácil. Guerras e uma
série de catástrofes naturais dizimaram os poucos recursos existentes no país e
desfizeram estruturas básicas de subsitência do povo. Para dirimir os problemas sociais
decorrentes das guerras e catástrofes e amenizar os sofrimento de famílias vivendo em
pobreza absoluta, organizações internacionais cristãs e não-cristãs chegaram no país
com ajuda humanitária, especialmente comida, roupa e medicamentos, e decidiram
usar a estrutura das igrejas locais para fazer a distribuição.

O papel das igrejas seria o de cadastrar os necessitados e fazer com que a ajuda
chegasse às mãos das pessoas certas. Ao invés de cadastrar os necessitados, muitos
pastores e líderes começaram a impor a “conversão” às suas igrejas como condição
para receber a ajuda internacional. Muitas pessoas que estavam refugiadas em países
vizinhos como Zimbábue e Maláui ao ouvirem a respeito da ajuda, retornaram aos
seus locais de origem com a intenção de também serem beneficiadas. Pastores locais
contam que falsos pastores reuniram grupos de pessoas e começaram a cantar e ler a
Bíblia juntos com o objetivo de serem cadastradas. Eram pessoas que nem sequer
haviam passado por uma experiência de conversão, mas se reuniram como “igreja” por
causa da necessidade. Pela misericórdia de Deus muitos foram conduzidos à salvação
mais tarde, incluindo alguns dos falsos pastores.

Modificação e transformação

Muito das modificações ocorridas na cultura moçambicana no decorrer dos anos é


claramente resultado de erros missiológicos e má interpretações do evangelho pelo
próprio povo. Há problemas que a igreja enfrenta hoje, fruto de erros de
contextualização e de paternalismo, que talvez nunca serão estirpados. Estão
sedimentados e tão arraigados à vida da igreja, que parecem que sempre fizeram parte
dela. Mas há erros que ainda podem ser corrigidos e outros que podem ser evitados
no futuro.

Apesar de tantos influências negativas decorrentes de erros na evangelização, é


possível ver transformação real tanto na vida de indivíduos como na sociedade em
geral. Existe uma igreja em Moçambique, que apesar de seus problemas, tem causado
um impacto profundo na cultura do país. Pastores locais reconhecem que muitas
práticas condenáveis e algumas criminosas que antes eram culturalmente praticadas e
aceitas, hoje estão sendo erradicadas da cultura, por causa do evangelho. Conclui-se
que, apesar dos erros humanos na proclamação do evangelho, Deus está operando
transformações reais na vida do povo moçambicano.

Além disso, não se pode desmerecer o trabalho sério e árduo que inúmeras agências
missionárias, missionários individuais e igrejas locais estão fazendo pela expansão do
reino de Deus em Moçambique, estabelecendo a cultura do Reino sem aniquilar a
cultura do povo. Na verdade, são estes a esperança para a redenção da cultura do
povo moçambicano para o louvor da glória do Rei das nações.

Antonio dos Passos Pereira, pastor presbiteriano e missionário em parceria com WEC Brasil. Casado com
Mirtes Áurea e pai de Vinícius de 5 anos. Trabalhou entre os anos de 2007-2009 em Moçambique na
área de treinamento de líderes e cuidado da igreja.

REFERÊNCIAS:

GARCIA, Francisco Miguel Gouveia Pinto Proença - Análise global de uma guerra (moçambique 1964-
1974). Porto, Outubro de 2001, 3º capítulo.
http://www.triplov.com/miguel_garcia/mocambique/capitulo3/protestantes.htm

Bureau of Democracy, Human Rights, and Labor of the USA. International Religious Freedom Report
2007. Mozambique. http://www.state.gov/g/drl/rls/irf/2007/90111.htm