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Ataliba T.

de Castilho (USP, CNPq)


(Organizado

HISTORIANDO O PORTUGUÊS BRASILEIRO


História das línguas: variedades, gramaticalização, discursos
Relatório das atividades desenvolvidas ao abrigo do Programa CAPES-DAAD-PROBRAL,
de 2000 a 2003 (Projeto 109/00)
Coordenadores:
Ataliba T. de Castilho (USP / Brasil) – Konstanze Jungbluth (Tübingen / Alemanha)
Aspectos sincrônicos e diacrônicos do Português Brasileiro
Universität Tübingen
Blaubeuren, 4 – 7 de julho de 2003

Blaubeuren
2003
SUMÁRIO
Apresentação

Cap. I - Ataliba T. de Castilho (USP) e Jânia Ramos (UFMG)


– Perspectivas sobre a Gramaticalização no “Projeto para a História do Português
Brasileiro” .................. 1

Cap. II - Ilza Ribeiro (UFBa) e Marilza de Oliveira (USP)


– Mudança gramatical no Português Brasileiro: século XIX ................. 54

Cap. III - Tânia C. F. Lobo e Klebson Oliveira (UFBa)


_ A História Social lingüística do Brasil no âmbito do “Projeto para a História do Português
Brasileiro” ......... 80

Cap. IV - Afrânio Gonçalves Barbosa e Célia Regina dos Santos Lopes (UFRJ)
– Corpora do Projeto para a História do Português Brasileiro de 1997 a 2003..................
139

Cap. V - Ataliba T. de Castilho (USP)


– Planejando a continuação do Acordo Brasil / Alemanha. Anexo: Produção bibliográfica
do PHPB ................ 155

Conclusões
Ataliba T. de Castilho (USP) – Planejando a continuação do Acordo Brasil / Alemanha

Apêndice
Afrânio Gonçalves Barbosa (UFRJ)
– Para uma Tipologia Textual do Português (Pós-) Classico: a pluriortografia em
documentos oficiais ............. 166

Apresentação
De 31 de maio a 5 de junho de 1999, realizou-se na Universidade Estadual de
Campinas o III Seminário do Projeto para a História do Português Brasileiro, o qual contou
com a participação dos pesquisadores brasileiros Afânio Barbosa [UFRJ], Ângela C. S.
Rodrigues [USP], Ataliba T. de Castilho [USP], Célia Maria Moraes de Castilho
[doutoranda, Unicamp], Clotilde Murakawa [Unesp/Araraquara], Dinah M. I. Callou
[UFRJ], Emílio Pagotto [UFSC], Gilvan Müller de Oliveira [UFSC], Gladis Massini-
Cagliari [Unesp/Araraquara], Heliana Mello [UFMG], Heitor Megale [USP], Ilza Ribeiro
[UEFS], Jânia Ramos [UFMG], Márcio Leitão [UFF], Maria Aparecida T. Morais [USP],
Maria Eugênia L. Duarte [UFRJ], Marlos Pessoa de Barros [UFPe], Mário E. Martelotta
[UFRJ], Marymarcia Guedes [Unesp/Araraquara], Mateus C. Oliveira [UFAM], Mônica
Alkmim [UFOP], Norma de Almeida [UEFS], Renato Venâncio [UFOP], Rosa Virgínia
Mattos e Silva [UFBa], Rosane Berlinck [Unesp/Araraquara], Sônia Cyrino [UEL], Tânia
Alkmim [Unicamp], Zenaide Carneiro [UEFS], e dos pesquisadores alemães Brigitte
Schlieben-Lange [Universidade de Tübingen], Wulf Oesterreicher [Universidade de
Munique], Eberhard Gärtner [Universidade de Dresden] e Roland Schmidt-Riese
[Universidade de Munique].
Além da agenda habitual a esses seminários, os pesquisadores brasileiros e alemães
ali presentes decidiram estabelecer um convênio de estudos que tinha por objetivos versar
conjuntamente os seguintes domínios:1[1]

1. 1. 1. Gramaticalização e tipologia lingüística: neste domínio, devem se


analisar e descrever numa perspectiva românica e tipológica formas processuais
da mudança gramatical e lexical. Este subprograma coloca no centro do
interesse investigativo problemas gramaticais das línguas, suas evoluções e
resultados.
2. Tradições discursivas entre oralidade e escrita: neste domínio, será examinada a
relevância das tradições textuais da escrita para um conhecimento do
desenvolvimento lingüístico. Diferentes tipos de textos devem ser caracterizados
e interpretados em função de seu encaixamento pragmático. Este subprograma
envolvia pelo menos quatro quesitos: (1) aspectos formais dos textos, a serem
considerados em seus aspectos filológicos e paleográficos; (2) proximidade do
oral e do escrito, buscando-se caracterizar a relação entre independência

1[1][1][1][1]
O documento completo do acordo Brasil – Alemanha circulou entre os pesquisadores, tendo sido
publicado em Tânia Alkmim (Org. 2002): Para a História do Português Brasileiro, vol. III: Novos Estudos.
São Paulo: Humanitas, pp.489-521.
contextual e autonomia formal do texto; (3) encaixamento institucional: o textos
surgiram em contextos relacionados com o alto grau de profissionalização ? (4)
caracterização das tradições discursivas em relação à força ilocutiva dominante
e ver em que medida elas podem ser caracterizadas como conjuntos de atos de
fala.
3. Contacto, variação e normas lingüísticas: em primeiro lugar, as realidades
lingüísticas devem ser descritas e avaliadas em relação ao nível historico da
língua portuguesa; em segundo, será considerada a dinâmica da mudança
lingüística resultante dos contactos e conflitos entre línguas, variedades e
normas. Este subprograma prevê um conjunto de pesquisas sobre a Sócio-
história do Português Brasileiro.
De acordo com a proposta, os trabalhos seriam desenvolvidos sob a forma de
missões de trabalho, abertas aos pesquisadores doutores, e missões de estudos, abertas aos
pesquisadores doutorandos. O financiamento foi posteriormente solicitado e obtido junto à
CAPES e ao DAAD, ao abrigo do Programa Brasil-Alemanha [PROBRAL], tomando no
Brasil o número de Projeto 109/00, com vigência de 2000 a 2003.
Foram indicados para coordenar o programa, do lado alemão, a Profa. Dra. Brigitte
Schlieben-Lange, da Universidade de Tübingen, e do lado brasileiro o Prof. Dr. Ataliba T.
de Castilho, da Universidade de São Paulo. Infelizmente, pouco tempo após aprovado o
financiamento, falece a Profa. Dra. Schlieben-Lange, substituída pela Profa. Dra.
Konstanze Jungbluth.
Durante os quatro anos do projeto de cooperação foram realizadas as seguintes
missões:

PESQUISADORES BRASILEIROS PESQUISADORES ALEMÃES


Missões de Missões de Estudos Missões de Missões de Estudos
Trabalho Trabalho
Ano 2000 Ano 2000*

Marlos Barros Gilvan M. de Konstanze Uli Reich


Pessoa (UFPe) Oliveira (UFSC, Jungblugth (Munique)
doutorando (Tübingen)
Unicamp)
Sônia Cyrino (UEL) Roland Schmidt- Lars-G. Wigger
Riese (Tübingen)

*
Em 2000, também o Prof. Dr. Eberhard Gärtner esteve no Brasil, financiado porém pela Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo. Ele ministrou na Universidade de São Paulo um curso de pós-
graduação e proferiu diversas conferências no país.
(Munique)
Johannes Kabatek
(Tübingen)
Ano 2001 Ano 2001
Jânia Ramos Konstanze Graziela Romanha
(UFMG) Jungbluth (Munique)
(Tübingen)
Cornélia Doll Ulrich Detges
(Leipzig) (Tübingen)
Christine Hundt
(Leipzig)
Ano 2002 Ano 2002
Helena Nagamine Johannes Kabatek
Brandão (Freiburg)
(USP)
Afrânio G. Barbosa Roland Schmidt-
(UFRJ) Riese
(Munique)
Ano 2003 Ano 2003
Ataliba T. de Verena Kewitz
Castilho (doutoranda, USP)
(USP)
Marilza de Oliveira
(USP)
Mário E. Viaro
(USP)

Dificuldades várias explicam os claros observados na coluna do Brasil. Com isso,


deixaram de viajar o Prof. Dr. Mourivaldo Santiago, que organiza uma equipe do projeto na
Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, e os Profs. Marcelo Módolo, doutorando na
USP, e Marcelo Camargo, doutorando na UFMG.
Finalmente, por ocasião do V Seminário do PHPB, coordenado por Jânia Ramos e
realizado em Ouro Preto (outubro de 2002), decidiu-se apresentar ao Seminário de
Blaubeuren, organizado por Konstanze Jungbluth e previsto para julho de 2003, este
relatório das atividades dos pesquisadores brasileiros, composto das seguintes partes:

1.Ataliba T. de Castilho (USP) e Jânia Ramos (UFMG) - Perspectivas sobre a


gramaticalização no “Projeto para a História do Português Brasileiro”
2. Ilza Ribeiro (UFBa) e Marilza de Oliveira (USP) - Mudança gramatical no PB:
século XIX
3. Tânia C. F. Lobo e Klebson Oliveira (UFBa) - A História Social Lingüística do
Brasil no âmbito do “Projeto para a História do Português Brasileiro”
4. Afrânio Gonçalves Barbosa e Célia Regina dos Santos Lopes (UFRJ) - Corpora
do Projeto para a História do Português Brasileiro
5. Coordenadores do PHPB - Planejando a continuação do acordo Brasil /
Alemanha (redação de Ataliba T. de Castilho, USP)

Este relatório será encaminhado ao DAAD e à CAPES, como prestação de contas.


Os coordenadores brasileiros do PHPB propõem que uma vez revisto e ampliado de forma
a incluir textos dos colegas alemães, o texto seja vertido para o inglês e publicado na série
Para a História do Português.

Campinas / Blaubeuren, junho de 2003.

Prof. Dr. Ataliba T. de Castilho


Coordenador pelo lado brasileiro
_________________________________________________________________________

CAP. I - PERSPECTIVAS SOBRE A GRAMATICALIZAÇÃO


NO
“PROJETO PARA A HISTÓRIA DO PORTUGUÊS
BRASILEIRO”
VERSÃO PRELIMINAR
Ataliba T. de Castilho (USP, CNPq2[2])
ataliba@uol.com.br
Jânia M. Ramos (UFMG, CNPq3[3])
jania@dedalus.lcc.ufmg.br

Apresentação

Um conjunto de textos sobre gramaticalização foi produzido no interior do Projeto


para a História do Português Brasileiro (PHPB). Estes textos podem ser distribuídos em
dois subconjuntos, tomando-se como critério os pressupostos teórico-metodológicos
adotados. A diferença entre as duas abordagens pode ser sintetizada num só conceito: a
adoção ou não da categoricidade.
Este texto tem como objetivo debater problemas teóricos da gramaticalização e
fazer uma síntese das pesquisas desenvolvidas sobre o tema no contexto dessse projeto
coletivo de pesquisa. Na Parte I, Jânia Ramos discute a formalização do epifenômeno. Na
Parte II, Ataliba T. de Castilho enumera algumas das complicações teóricas nos trabalhos
sobre gramaticalização, propondo uma alternativa de cunho cognitivista-funcionalista. Na
Parte III, são apresentados resumos de estudos sobre a gramaticallização, elaborados até
aqui pelos pesquisadores do PHPB.

PARTE I – TRATAMENTO FORMAL DO EPIFENÔMENO DA


GRAMATICALIZAÇÃO

Jânia Ramos

As seguintes complicações ou inconsistências, de um modo ou de outro, são comumente


apontadas nos estudos sobre gramaticalização:

2[2][2][2][2]
Este trabalho integra o projeto “Para a história do Português Brasileiro: gramaticalização e mudança
bramatical”. Bolsa de Produtividade Científica do CNPq (Proc. 306319/88-8)
3[3][3][3][3]
Este trabalho integra o projeto “Novos clíticos no Português Brasileiro”. Bolsa de Produtividade
Científica do CNPq (Proc. 521811/97-0)
(i)“Os autores de trabalhos sobre gramaticalização parecem entender a língua
como uma entidade heteróclita, estática, passível de representação através de uma
linha, na qual podemos reconhecer pontos e estabelecer derivações entre esses
pontos: Castilho (2003:9).
(ii) A gramaticalização é feita de estágios unidirecionais, de tal maneira que a um
estágio A se segue um estágio B, a este se segue um estágio C, e assim por diante:
Hopper / Traugott (1993: 95). Cada estágio corresponde a um ponto na língua-
linha, e portanto uma relação de seqüencialidade poderia ser estabelecida entre
esses pontos.
(iii) Depositadas sobre essa linha, categorias lexicais dão surgimento a categorias
gramaticais, e estas a categorias ainda mais gramaticais, entendendo-se por isto os
afixos. Quereria isto dizer que os itens lexicais não têm propriedades gramaticais,
suficientes para arranjá-los em categorias próprias? Nesse caso, como entender
que as palavras possam ser dispostas em classes lexicais, as conhecidas classes
maiores (Pronomes, Nomes e Verbos), intermediárias (Advérbios, Adjetivos), e
menores (Artigos, Conjunções e Preposições) que freqüentam estas páginas? Por
outro lado, teriam essas classes um estatuto categorial claramente configurado, a
ponto de se sucederem perceptivelmente umas às outras na língua-linha,
permitindo-nos testemunhar sua metamorfose? Nesse caso, e pensando nos estudos
funcionalistas sobre a gramaticalização, onde foi parar a Teoria dos Protótipos?
Seriam mesmo tão claros os limites entre as classes lexicais, de tal forma que
pudéssemos estabelecer uma relação de derivação entre elas ? (Castilho 2003:10).
(iv) Na literatura sobre gramaticalização ficam situados no mesmo nível fenômenos
tais como erosão fonética, descategorização / recategorização morfológica,
ampliação dos empregos sintáticos, perda semântica, sem falar nas pressões do
Discurso sobre o sistema. Esse ponto de vista levou diversos autores a dispor o
Discurso, a Gramática e a Semântica num(a) “(c)line”, admitindo implicitamente
uma hierarquia e uma decorrente derivação entre esses sistemas. Essa percepção
implicaria em que no momento da criação lingüística nossa mente funciona em
termos de instruções seqüenciais, isoladas umas das outras, indo linearmente de
uma classe lexical para outra, de um subsistema lingüístico para outro? (Castilho
2003:10).

A partir das questões (i)-(iv), é possível identificar a não explicitação de dois eixos
distintos no tratamento da gramaticalização. Em (i) o problema decorre da suposição de que
a noção de língua seria única. Entretanto, há pelo menos duas noções distintas, decorrentes
de duas distintas noções de gramática: aprimeira assume a noção de unidades estruturais
como um primitivo (tal como na gramática gerativa) e a segunda, de corte funcionalista, as
concebe como um processo em andamento, sempre em constante re-sistematização
(Coseriu, 1974, apud Bybee & Hopper, 2001: 2).
Em (ii) assume-se implicitamente haver uma correlação um a um entre item lexical
e definição categorial: cada item seria pré-definido quanto a seu estatuto categorial. Há aqui
uma simplificação. A noção de item lexical depende da definição do que se entende por
léxico. Novamente, pelo menos duas noções distintas se apresentam. A primeira noção,
reconhecida como dogmática entre os lingüistas, admite uma linha divisória entre gramática
e léxico (as noções de numeração e componente computacional, nos recentes trabalhos de
Chomsky estariam de acordo com essa vertente). A concepção alternativa é que o próprio
léxico não contém representações esquemáticas [indicadoras de categorias], mas sim
representações mais específicas e locais que dependem da freqüência de uso.(...) O léxico
não estaria separado da gramática. Como as pessoas não falam através de morfemas
isolados ou palavras, em muitos casos as unidades da memória e processamento contêm
múltiplos morfemas e múltiplas palavras. As unidades de uso são armazenadas, formando
uma cadeia, a partir da própria experiência com a língua e, a partir dessa cadeia, padrões
recorrentes emergem (Bybee, 1998 apud Bybee & Hopper, 2001:8-14). Em conseqüência,
palavras funcionais, por exemplo, não teriam representação independente, já que só
ocorrem em construções (idem,12).
Na questão (iii), a referência à noção de estatuto categorial deixa claro o problema
central: a suposição de que a categoricidade seria um axioma. Entretanto, conforme assinala
Chambers (1995: 33), a categoricidade é apenas uma dentre outras suposições que podem
ser adotadas no tratamento de fenômenos lingüísticos. Para esse autor, várias sub-áreas da
Lingüística têm adotado posicionamentos alternativos: a sociolingüística laboviana seria
um exemplo, com domínio e procedimentos metodológicos independentes. Cada um desses
tratamentos poderiam ser associados à dicotomia “percepts” e “concepts”, proposta por
James (1911), em que se distinguiriam, respectivamente, por um lado a apreensão da
realidade e, por outro, a idealização da realidade.
A questão (iv) focaliza a noção de aquisição da linguagem e o estatuto cognitivo dos
pressupostos teóricos assumidos. Se, por um lado, admitirmos uma hierarquia entre os
níveis Gramática e Discurso, estaremos assumindo que a noção de emergência não coincide
com a de ontogênese gramatical. A noção de emergência, surgida na sociologia, refere-se a
condições que regem a continuidade e dissolução de estruturas e tipos de estruturas
(Giddens 1977:120). Se, por outro lado, não aceitarmos essa hierarquia, estaremos
assumindo um modelo modular, tal como proposto por Chomsky (1981, e trabalhos
posteriores).
Os pontos acima resumem boa parte da complicação teórica da gramaticalização,
embora nunca se tenha deixado de reconhecer que se trata de um processo, não de um
produto lingüístico. Argumento nesta secção a favor de um tratamento formal do
epifenômeno da gramaticalização. Sustento que a adoção da categoricidade é não só uma
abordagem possível como também desejável. São também mostradas as conseqüências da
adoção de uma posição a favor da não categoricidade.
Para os formalistas, a gramaticalização é um fenômeno diacrônico que consiste no
desenvolvimento de núcleos lexicais em núcleos funcionais. Esse desenvolvimento estaria
encaixado na teoria da marcação, de caráter mais amplo, no aprendizado da língua e na
mudança lingüística em geral, sendo essa última essencialmente randômica do ponto de
vista da Gramática Universal. Uma conseqüência é que a irreversibilidade dos fenômenos
tratados como gramaticalização seria apenas aparente. Outra conseqüência é que as seis
propriedades da gramaticalização depreendidas por Lehmann (1985)4[4] decorreriam do
caráter imanente de um primitivo da Gramática Universal: a existência de categorias
funcionais, que, por definição, não possuem estrutura argumental nem outras propriedades

4[4][4][4][4]
As seis propriedades referidas são atrito, condensação, paradigmatização, coalescência,
obrigatoriedade e fixação (tal como traduzidos por Castilho, 1997:49).
semânticas, sendo por isso resultantes, diacronicamente, de categorias lexicais
empobrecidas fonética e semanticamente (Roberts & Roussou (1999:23) 5[5].
Dois mecanismos seriam responsáveis pela gramaticalização: a reanálise e o
Princípio Lexical de Subconjunto. A reanálise consistiria na simplificação estrutural, que é
o tipo de mudança preferido pelo mecanismo de fixação de parâmetro, conforme Clark e
Roberts (1993)6[6]. Ao lado da reanálise, um segundo mecanismo seria o Princípio Lexical
de Subconjunto, que requer que itens lexicais sejam interpretados no menor conjunto de
contextos consistentes com o “input”7[7] (Kiparsky, s/d apud Roberts e Roussau (1999).
Grosso modo, na gramaticalização teríamos o seguinte esquema:
(1) (1) (1) (1) (1) x> x [+F], onde F é um traço de
dependência relevante.
Para alguns autores, F é o traço que vai ser visível pela Teoria da Checagem8[8], tal
como definida em Chomsky, 1995. Para Roberts e Roussou, F seria o traço visível na
Forma Fonética9[9], como resultado das operações Merge, Move ou ambas.
Como é fácil ver, a abordagem formalista da gramaticalização entra em conflito
com a abordagem funcionalista quanto a questões basilares. Lightfoot, um formalista
bastante representativo, critica os funcionalistas por sua insistência em relação à
continuidade e direcionalidade da mudança tratada como gramaticalização. Já os
funcionalistas criticam Lightfoot por ignorar o desafio que os dados de gramaticalização
parecem colocar aos modelos que assumem a descontinuidade.
De acordo com Vincent (2001)10[10], os gerativistas teriam preterido, em suas
discussões, a gradualidade das mudanças, isto é, as mudanças de pequena escala, tendo
ficado atentos apenas às mudanças de larga escala. Já os funcionalistas deveriam se colocar
a seguinte questão: a direcionalidade faz parte da definição de gramaticalização ou é uma
hipótese empírica?
Para os funcionalistas11[11], a premissa de que a estrutura da língua é independente
do uso da língua é rejeitada. Segundo Bybee & Hopper (2001:1-3), estes lingüistas
começaram a pensar a estrutura da língua (a gramática) como uma resposta a
5[5][5][5][5]
Roberts, Ian & Roussou, Anna. A Formal Approach to Grammaticalisation. In
//A:A%20Formal%20Aproach%to%grammaticalisation.htm
6[6][6][6][6]
Por mecanismo de fixação de parâmetro entende-se................
7[7][7][7][7]
“Lexical Subset Principle: Interpret lexical items as being susceptible of occurence in the smallest set
of contexts consistent with the input.”(in Roberts & Roussou (1999:20)
8[8][8][8][8]
Por Teoria de Checagem entenda-se........
9[9][9][9][9]
Forma Fonética, ao lado da Forma Lógica, seriam as interfaces entre o sistema computacional da
gramática e os sistemas externos à gramática, a saber, sistemas perceptuais-auditivos e sistemas conceptuais-
intencionais. (Chomsky, N. The Minimalist Program. 1995).
10[10][10][10][10]
Vincent, Nigel (2001) LFG as a Model of Syntactic Change. In M.Butt & T.H. King (eds) Time
over Matter. Diachronic Perspectives on Morphosyntax. Stanford, CLSI Publications.
11[11][11][11][11]
De acordo com Nigel (2001), este grupo reuniria estudiosos que adotam a gramática funcional de
Halliday, a gramática funcional de Dik e a Gramática Léxico-Funcional. Os dois primeiros grupos
conceberiam a língua principalmente em sua dimensão comunicativa, enquanto que o último abrigaria
aqueles que considerariam princípios que dizem respeito à correspondência entre estruturas, comportando
uma base representacional para variantes em competiçào, a partir das quais uma mudança poderia evoluir.
Estes últimos não estariam comprometidos a ver mudança morfo-sintática como resultado de efeitos erosivos
de mudança sonora.
necessidades do discurso, e a considerar seriamente a hipótese de que a gramática vem
através da repetida adaptação de formas do discurso vivo. Situam-se nesta perspectiva
Hopper (1979), Givón (1979, 1983), Hopper e Thompson (1980, 1984), Du Bois (1985).
Um conceito central seria o de emergência (Hopper 1987, 1988, 1993), entendido
como processo de estruturação em andamento (Giddens 1984). Na sociologia recente,
estruturação refere-se a condições que regem a continuidade e dissolução de estruturas ou
tipos de estruturas (Giddens 1977:120). Emergência, nesse sentido, é distinta de
ontogênese: estruturas emergentes seriam instáveis e se manifestariam por acumulação. (...)
A noção de emergência constitui uma ruptura com as idéias padrão sobre gramática,(...) [na
medida em que concebe] a estrutura, como uma resposta em andamento a pressões do
discurso e não como uma matriz pré-exitente. Segue daí que para dar conta da estrutura
gramatical e fonológica é necessário ter em conta o modo pelo qual a freqüência e a
repetição afetam e, em última instância, contribuem para a forma da língua (Bybee 1985, to
appear; Bybee et al. 1994).
Nesse contexto, a afirmação de Langacker (1987) adquire um papel demarcador
entre as abordagens funcionalista e formalista no estudo da gramaticalização: A noção de
língua como sistema monolítico tem de dar lugar à noção de língua como uma coleção
massiva de construções heterogêneas, cada uma como afinidades com contextos diferentes
e em constante adaptação estrutural ao uso.
Portanto, para os funcionalistas a rejeição das noções de categoria e estrutura como
um primitivo, a atribuição de um papel central ao uso e, conseqüentemente, à freqüência
seriam as balizas do debate sobre gramaticalização. É no interior delas que se situam os
seguintes temas, que têm ocupado a agenda de discussão nos momentos mais recentes: o
caráter processual da gramaticalização (Traugott, 2001), a unidirecionalidade (Joseph,
2001), o estatuto teórico ou epifenomênico (Newmayer, 2001), se a ontogênese e a
mudança lingüística se dissociam (Hopper & Bybee, 2001) e ainda se a sintaxe é ou não
autônoma (Hopper & Bybee, 2001). Há também um conjunto de pseudoproblemas: relação
arbitrária ou não entre realização fonética e semântica dos items, unicidade entre forma e
função e caráter eminentemente sincrônico das abordagens formalistas. Conforme
argumenta Newmayer (2001), nenhum formalista assumiria qualquer um desses
pressupostos, ao contrário do que dizem os funcionalistas. Um fator muito importante, cujo
estatuto continua indefinido, é o da freqüência: os duas partes em debate fazem menção à
freqüência, embora atribuindo estatutos diferentes ao uso. Outro pseudoproblema seria o de
que a gramaticalização seria um processo autônomo. Traugott (2001) admite que não o é,
na medida em que, como qualquer processo de mudança, não se poderiam fazer predições,
não havendo determinismos.
Depois desta exposição sobre os pontos de controvérsia mais gerais entre
formalistas e funcionalistas, passo a abordar questões pontuais, que dizem respeito aos
temas tratados e ao modo como foram desenvolvidos no âmbito do projeto para a História
do Português Brasileiro.
De modo geral, a discussão da gramaticalização desenvolve-se através dos seguintes
passos: O primeiro consiste em identificar itens que foram recategorizados e descrever a
alteração em termos de: (i) [especificador > núcleo]; (ii) [núcleo>núcleo] e (iii)
[especificador>especificador], assim como o tipo de operação aplicada, “juntar” e/ou
“mover”. Tal alteração seria resultado de reanálise. O segundo passo consiste em detalhar
o processo com base na distribuição sintática, com o propósito de justificar ter ocorrido, de
fato, uma reanálise, como também identificar o momento esse fenômeno se deu. O
terceiro passo consiste em identificar o gatilho, isto é, o fator responsável pela reanálise.
Outro passo, consistiria em “traduzir” os resultados e generalizações elaborados, com base
em pressupostos não gerativistas, de modo a obter uma terminologia coerente com o
modelo gerativista e, desse modo, alcançar uma descrição dos fenômenos estudados que
seja coerente e legível. A ordem em que os passos acima foram apresentados não retrata
uma ordem cronológica do trabalho desenvolvido. Tendo essa última consideração em
mente, passemos a uma síntese dos resultados obtidos.
Inicialmente identificamos três temas: O primeiro foi a recategorização de sintagma
nominal em pronome: “Vossa Mercê”> você” e “a gente> a gente”. O primeiro, que era
uma forma de tratamento, passou a pronome pessoal. O segundo, que indicava
agrupamento de pessoas de um determinado local passou a indicar “nós”. Em termos
gerativistas, tivemos um processo spec> núcleo. Outro fenômeno foi a recategorização de
dois pronomes do português brasileiro em clíticos: “você>cê”; “eles>es”, que também
podem ser descrito spec>núcleo. O terceiro foi a recategorização de verbo principal em
auxiliar, isto é, núcleo>núcleo. O quarto foi a negação, que seria spec>núcleo. De fato,
como veremos mais adiante, estas descrições estão longe de serem avaliadas como
definitivas.
Nestas discussões ressentimo-nos, imediatamente, de uma definição formal dos
termos em (i)-(ii) e da explicitação das correlações (iii)-(iv), que aparecem abaixo em
formato de perguntas:
(i) o que é um pronome? Seria esse um primitivo?;
(ii) o que é um clítico?;
(iii) as alterações fonológicas e semânticas observadas decorrem ou não da
recategorização?;
(iv) que tipo de correlação se pode estabelecer entre sintaxe de uma construção e
“erosão fonética” e “empobrecimento semântico”?
(v) a recategorização, a erosão fonética e o empobrecimento semântico são
concomitantes?

As questões (i-v) constituíram-se em um roteiro de trabalho, que teve como produto


a elaboração de quatro dissertações de mestrado (Correa, 1998; Alves, 1998; Vianna, 2000;
Maia (2003)); duas teses de doutorado (Alkmim, 2000; Lopes, 2000), quatro artigos (Vitral,
1996; Vitral e Ramos, 1999; Vitral 1999; Vitral 2003) e cinco capítulos de livros (Ramos,
1996/2002; Ramos, 2000; Vitral, 2000), além várias comunicações em eventos científicos.
Para chegar aos resultados, utilizamos análise quantitativa em alguns trabalhos.
Utilizamos também dados de fala e escrita, em outras palavras, fizemos uso de corpora.
Para justificar essa decisão metodológica no âmbito de uma análise gerativista, assumimos
que os dados de uma época, seja ela qual for, constituem “input”da gramática de
aprendizes. E aprendizes reanalisam os dados do “input”.
Se, por hipótese, a ocorrência de reanálises condicionam novas reanálises, isso leva-
nos a supor que não só é possível capturar ocorrência de reanálises gramaticais, nos dados,
como também quantificar estruturas reanalisadas de modo a medir sua frequência. A
freqüência de estruturas reanalisadas, por su vez, fornece o perfil de duas gramáticas em
competição: a nova, que incorpora a reanálise e a antiga, que rejeita a reanálise. Assim,
pudemos chegar a uma concepção de corpus que, em vez de ser um retrato da língua-E, é
um indicador de línguas-I em competição12[12].
Trabalhar com a frequência constituiu um recurso metodológico importante, embora
não peculiar a nosso estudo, pois vários gerativistas têm feito uso desse instrumento.
Feitas essas considerações, passemos ao que julgamos contribuições obtidas ao
tratamento formal da gramaticalização.
A recategorização nome> pronome, manifestada através do par “vossa mercê”>
”Vossa Mercê”, mostra perda de propriedades conotativas. Não é adequado, entretanto,
descrever essa “perda” como empobrecimento semântico, mas sim como “perda de
referência virtual”, nos termos de Milner (1982). Retomando a distinção entre referência
virtual e referência real, Rouveret (1987) propõe que os nomes comuns são termos dotados
de referência virtual e real próprias; já os pronomes pessoais são termos desprovidos de
referência virtual, mas dotados, no enunciado em que aparecem, de referência real. De
posse dessa distinção, pode-se retomar as etapas (1), definidas por Croft (1990) apud
Hopper e Traugott (1993:157), detalhando-as em (2).
(1) +def/+ref > -def+ref > -def-ref
(2) ref. Real> ref. Virtual > sem ref.
Concluímos, então, que (2) descreve melhor que (1) a diferença semântica entre o
nome “Vossa mercê”, no sentido de “favor vosso” “ Vossa Mercê’ como forma de
tratamento e como pronome pessoal. A descrição (2) é também mais adequada que (1) para
descrever a recategorização de “a gente”> “a gente”(Ver Lopes 2000, texto resenhado na
Parte III, e Maia, 2003).
As evidências gramaticais dos dois casos de recategorização são encontrados na
distribuição das ocorrências nos seguintes contextos: Se NP, os itens que compõem a
expressão (i) podem ser flexionados; e (ii) podem vir modificados por outros itens (Para
maiores detalhes, ver Vitral e Ramos, 1999 e Lopes, 2003).
Retomanto o processo diacrônico Vossa Mercê>você>cê, Vitral (1996) formula a
hipótese de que “você” seria um pronome e “cê”, um clítico. Esse último, sendo um núcleo
funcional, deveria ter uma distribuição sintática típica: (i)não poder receber foco, (ii)ocorrer
contíguo ao verbo, (iii) não ser objeto de preposição. As propriedades (i) e (iii) foram
confirmadas, mas não (ii). Esse resultado levou o autor à formulação de duas hipóteses: (a)
A não obediência à propriedade (ii), manifestada no contexto “cê não vem hoje”, seria
apenas aparente, já que a negativa e V estariam ambas ocupando um mesmo núcleo
funcional?; (b) será que o clítico ‘cê”, por ser recente na língua, está ainda num estágio de
uma trajetória que teria sido percorrida por outros clíticos mais antigos, não tendo ainda
chegado a um comportamento típico?
A hipótese (b) levou a um estudo diacrônico, que recobre o período do século XIV a
XX, em que se traça a trajetória do clítico “se” e se compara à trajetória do clítico “cê”,
conforme veremos mais adiante.
A hipótese (a) levou, por sua vez, à descrição da negação. Ramos (1996/2002)
apresenta evidências a favor da cliticização do ‘não”, registrando as realizações plena e
reduzida do item, respectivamente, “não” e “num”, o que para a autora constitui uma
evidência a favor de que seqüência “cê não vem hoje” não viola a propriedade (ii). A

12[12][12][12][12]
As noções de língua-E e língua-I foram formuladas por Chomsky (1986) nos seguintes termos
cliticização manifestada foneticamente através nos itens não/num seria, por sua vez, um
estágio de um processo mais longo e antigo, envolvendo o item “não”, presente na
expressão “não, senhor”. De acordo com Alkmim (2000), a expressão “não, senhor”, usada
com muita freqüência até o terceiro quartel do século XIX, no Brasil, caiu em desuso
abruptamente, pois o item “senhor” deixou de ser usado, por razões político-sociais. Essa
alteração teria constituído o gatilho para que o item “não”, que antes se ancorava no item
“senhor”, buscasse novo “hospedeiro”. A conseqüência imediata foi o surgimento da
negação do tipo [não V não], ausente no Português Brasileiro até aquele momento.
Vitral (1999), entretanto, discorda de que “não” seja um clítico. Argumenta a favor
da distinção entre núcleo>clítico> afixo,e sustenta que “não” é um núcleo. Argumenta que
línguas que possuem Neg, núcleo da categoria funcional, preenchido por um item cujo
estatuto fonético é forte, também apresentam Neg [+forte]; ao passo que línguas que
possuem item negativo com estatuto de clítico ou afixo possuem Neg [-forte], no sentido
chomskyano desse traço. Conclui que tal reconhecimento permite atribuir à
gramaticalização a vantagem de retirar o caráter estipulativo das distinção [+forte/-forte],
utilizada pela teoria de checagem.
No que diz respeito à correlação entre enfraquecimento semântico e erosão fonética
e o processo item lexical> item gramatical apresentados em Hopper & Traugott (1993),
Vitral e Ramos (1999) formulam a seguinte questão: haveria concomitância entre esses
processos? A partir dos contextos em que ocorrem os itens “você” e “cê”, os autores
confirmam a conclusão de Duarte (1997) de que o item “você” ocorre como expletivo, isto
é, sem referência. Esse resultado é surpreendente, pois, sendo a hierarquia (3) justificável ,
do ponto de vista semântico, e a hieraquia (4) justificável do ponto de vista fonético, era de
se esperar que o item foneticamente mais reduzido, isto é “cê”, fosse aquele que se
realizasse como expletivo.
(3) +ref,+def> +ref,-def> - ref (Croft, 1990)
(4) você > ocê > cê (Ramos, 1997)
Assim, o fato de o item ‘você” estar mais à esquerda da hierarquia (4) e apresentar
conteúdo semântico que na hierarquia (3) aparece mais à direita constitui uma evidência de
que não há concomitância entre os processos semântico e fonético.
Será que o fato de os processos não serem concomitantes constitui evidência de que
os processos semântico e fonético sejam independentes? Vitral (2003) argumenta que não,
pois , são as categorias gramaticais que atraem itens pertencentes a outras categorias
gramaticais, e também pertencentes às categorias. Essa “cooptação” de itens, exercida
pelas categorias gramaticais, provoca a redução fonética e a alteração da natureza do
significado (ou “esvaziamento semântico”) captadas por meio da noção de processo de
gramaticalização (p.14).
Outra recategorização identificada no Português Brasileiro foi eles>es. De acordo
com Correa (1998), o pronome “eles” foi reanalisado como clítico. Embora a ocorrência da
forma reduzida, “es”, seja registrada no português desde o século XIV, a atribuição do
estatuto de clítico é recente, datando século XX. Ramos (2003) retoma o processo eles>es,
e discute o estatuto teórico das noções de clítico e pronome. A partir das propostas
Cardinaletti (1997) e Dèchaine e Wiltschko (2002), argumenta a favor de que se deve levar
em conta que diferentes objetos sintáticos podem ter uma mesma realização fonética. No
que diz respeito ao item realizado como “es”, esse parece ter sido objeto de reanálise,
sendo-lhe atribuído, por alguns falantes, o estatuto de traços-phi, enquanto que outros
falantes lhe atribuem estatuto de DP. Conclui que assim como um pronome não seria um
primitivo, conforme argumentam Déchaine e Wiltschko, também um clítico não seria. Tal
reconhecimento permitiria descrever o comportanto de “es” nos contextos em que o verbo
aparece flexionado na terceira pessoa do plural, em que “es” é um elemento que entra numa
relação Spec/núcleo com o verbo, e nos contextos em que “es”ocorre com o verbo no
singular. Nesse último caso, “es” é o núcleo de T, comportando-se como uma flexão de
número afixada ao verbo. Os dados relevantes são:
(5) a. Eles vão embora.
b Es vai longe.
Aqui a marca de “plural”, presente em “es”, é capaz de “compensar” a ausência de
marca morfológica de plural no verbo. Portanto, seu estatuto aqui seria o de afixo.
Dando prosseguimento ao estudo do par você/cê, Vitral (2003) descreve a
cliticização como um processo diacrônico, previsto através de estágios discretos, a serem
percorridos pelos diferentes itens na língua (p.3). Conforme mencionamos, esse estudo
resulta da comparação entre “cê” e “sê” e visa a testar a hipótese (b), também já referida
acima, segundo a qual “cê” seria um clítico. Com base nos dados dos séculos XIV a XX,
Vitral argumenta inicialmente que o fenômeno da não contigüidade entre clítico e verbo
seria uma conseqüência desses diferentes estágios.
Em sua origem, “se” se vincularia à raiz indo-européia *SE, que significa “à parte,
separando para si”, de acordo com Romanelli (1975:169). Inicialmente, portanto, teria sido
uma categoria XP lexical. Por volta do século XIV, “se” teria sido atraído pelo
complementizador. No estágio seguinte, “se” é atraído pela categoria Flexão. A atração por
C acarreta a não contigüidade com o verbo, já a tração por Flexão acarreta contigüidade
com o verbo.Portanto, conclui Vitral, a propriedade (ii), referente à contigüidade de “se”
com V, seria uma manifestação superficial de um processo de mudança que envolveria
diferentes estágios.
A partir dessas conclusões, o autor aponta o seguinte paralelo entre “se” e ‘cê”:
ambos seriam XPs nos estágios iniciais da cliticização; e a não contigüidade presente hoje
entre “cê” e o verbo seria decorrente de seu surgimento no português ser mais recente do
que o surgimento de “se”.
Por fim, a recategorização verbo principal>verbo auxiliar, descrita como núcleo
lexical> núcleo funcional, foi analisada por Vianna (2000). Sua hipótese é que haveria um
processo de gramaticalização, afetando os verbos modais no português. Esse autor
comparou dados dos períodos arcaico, moderno e contemporâneo, e observou, no eixo do
tempo, o seguinte: aumento de freqüência dos modais, menor quantidade de material
interveniente entre modal e infinitivo, aumento progressivo da estrutura
Neg+Modal+Infinitivo, maior ocorrência de alçamento de clítico, menor número de formas
de flexão dos modais e aumento de uso de modais na acepção epistêmica. Estes resultados
foram interpretados como evidência da recategorização verbo lexical> verbo auxiliar.
Feita essa breve síntese dos resultados, passemos à parte final desse trabalho em
que, à guisa de conclusão, faremos um breve diagnóstico das complicações e
inconsistências detectadas na literatura atual sobre gramaticalização. Nosso propósito, ao
retomar esses problemas, é fazer deles diretrizes diretrizes a partir das quais definir nossa
futura agenda de trabalhos futuros no âmbito do Projeto Para a História do Português
Brasileiro.
PARTE II – PARA UMA ABORDAGEM COGNITIVISTA-FUNCIONALISTA DA
GRAMATICALIZAÇÃO
Ataliba T. de Castilho

Em Castilho (2003) enumerei as principais complicações teóricas que identifico nos


estudos sobre gramaticalização, reproduzidas no texto de Jânia Ramos (ver Parte I).
Precisaríamos encontrar alternativas para essas questões, tarefa sem dúvida complexa que
poderia ser encaminhada por um grupo de pesquisadores. No que se segue, adianto alguns
argumentos para a consideração dos que estiverem interessados em buscar alternativas.
Duas conjunturas me levaram a propor esse debate: de um lado, o Seminário de
Blaubeuren, em que pesquisadores alemães e brasileiros darão um balanço às atividades
desenvolvidas durante a vigência do Projeto 109/00 [CAPES/DADD/PROBRAL] e
discutem o planejamento futuro; de outro, a organização em 2002 vários grupos de trabalho
no interior do PHPB, entre eles o de Mudança gramatical de um ponto de vista
funcionalista, que tenho a honra de coordenar.
Num primeiro momento, precisaríamos tirar algumas conseqüências de um fato que
goza de grande unanimidade: a gramaticalização é um processo de criação lingüística, o
que demandará uma teoria dinâmica sobre a língua. Mais que isso, a gramaticalização é um
dentre outros processos de criação lingüística, o que demandará a postulação de uma teoria
multissistêmica da língua, a que correspoderá um conjunto de processos.
Uma teoria dinâmica e multissistêmica nos permitiria - se a desenharmos algum
dia! - dar conta da grande quantidade de fenômenos que temos estudado sob a rubrica
“gramaticalização”, permitindo, ademais, enquadrar este processo entre outros, igualmente
relevantes para o entendimento da criatividade lingüística.
Para escapar da estatividade, poderíamos assumir que a língua é um multissistema
dinâmico, que pode ser graficamente representado numa forma radial, tendo ao centro o
Léxico e à volta o Discurso, a Semântica e a Gramática. Tais subsistemas seriam por
postulação teórica independentes uns em relação aos outros, dispondo cada um de
categorias próprias.
Admitiríamos também que nossa mente opera simultaneamente sobre o conjunto
das categorias lexicais, discursivas, semânticas e gramaticais. Os produtos lingüísticos que
daí resultam podem ser representados sob a forma de uma constelação. Quero com isto
dizer que uma mesma expressão lingüística exibe simultaneamente propriedades lexicais,
discursivas, semânticas e gramaticais, variando o grau de saliência entre elas, por razões
pragmáticas.
Dialogando com os textos de Morris (1938), Franchi (1976) e Nascimento (1993),
vou portanto assumir que a língua tem uma natureza multissistêmica, capturada em termos
dos quatro sistemas acima mencionados. Insisto em que esses sistemas são independentes
uns de outros, não sendo postuláveis implícita ou explicitamente regras de determinação
entre eles. Isto quer dizer que o Discurso não estipula a criação dos sentidos e das estruturas
gramaticais. Analogamente, Semântica não estipula a criação das categorias discursivas,
nem as estruturas gramaticais que “empacotam” sentidos e categorias gramaticais. No atual
quadro dos meus conhecimentos, não vejo vantagem em estabelecer uma hierarquia entre
Discurso, Semântica e Gramática, como tacitamente pretendem os autores de estudos sobre
a gramaticalização.

1. A língua como um multissistema


Eis aqui uma descrição sumária desses subsistemas.
O Léxico será definido como um conjunto de propriedades cognitivas abstratas,
potenciais, prévias à enunciação, com base nas quais construímos os traços semânticos
inerentes. Entendo por categorias cognitivas VISÃO, COISA, ESPAÇO, TEMPO,
MOVIMENTO, etc., e por subcategorias, digamos, de VISÃO, FUNDO / FIGURA, de
ESPAÇO, a (i) VERTICALIDADE / HORIZONTALIDADE / TRANSVERSALIDADE,
(ii) a DISTÂNCIA / PROXIMIDADE, (iii) o CONTINENTE / CONTEÚDO, etc. Os
traços semânticos inerentes são constituídos a partir dessas categorias, tais como /animado
~ inanimado/ a partir de COISA, /télico ~ atélico/ a partir de MOVIMENTO, e assim por
diante.
Combinando categorias e traços de diferentes modos, obtemos os itens lexicais, que
serão realizados no dicionário seja como um Nome, um Advérbio, uma Conjunção ou uma
Preposição. Quer dizer que a cada um desses itens corresponde determinado arranjo de
traços, não sendo sustentável que de um Nome derive um Advérbio, e deste uma
Preposição, por exemplo.
É bem visível que estou seguindo os autores que entendem o Léxico como um
conjunto de traços semânticos, não como um conjunto de palavras, situando-o ademais no
centro do sistema lingüístico. Quando adquirimos o Léxico, provavelmente adquirimos em
primeiro lugar esses traços e a habilidade de combiná-los em diferentes padrões, e em
segundo lugar as palavras em que por convenção social esses padrões se abrigam. Estou,
portanto, propondo que o Léxico seja entendido nos quadros de uma hierarquia que vai da
cognição pré-verbal para a expressão verbal.
O Discurso é uma sorte de contrato social que estabelecemos lingüisticamente, de
que decorrem os usos lingüísticos. Esse subsistema está fulcrado no eixo dêitico, isto é, na
instanciação das pessoas do discurso e em sua localização no ESPAÇO e no TEMPO.
Satisfeitas essas condições prévias, dá-se a interação através de estratégias pragmáticas que
nos revelam as categorias discursivas do turno conversacional, tópico, unidades discursivas,
nexos textuais, etc. (Castilho 1989). Situam-se nesta perspectiva a organização dos gêneros
discursivo, as operações de parafraseamento, parentetização, e assim por diante.
A Semântica é a criação dos significados baseada em estratégias cognitivas tais
como o emolduramento da cena, a hierarquização de seus participantes, a organização do
campo visual, a movimentação real ou fictícia dos participantes, sua reconstrução através
da metáfora e da metonímia, etc. Daqui resultam as categorias semânticas de dêixis,
referenciação, predicação, foricidade e conexidade.
Finalmente, a Gramática é um conjunto de estruturas razoavelmente cristalizadas,
ordenadas nos subconjuntos da Fonologia, Morfologia e Sintaxe, e governadas por regras
de determinação interna. Essas estruturas se expressam por meio das categorias
gramaticais, definíveis em termos de classes palavra, sintagma, sentença), relações
(regência, concordância, colocação) e funções (argumentos e adjuntos). A regularidade das
categorias gramaticais tem sido comumente reconhecida, o que não exclui que a
instabilidade é constitutiva da estrutura gramatical.
O ponto central desta proposta, ainda em seus lineamentos muito gerais, é que o
Léxico é governado por um dispositivo sociocognitivo de caráter pré-verbal, através do qual
o falante ativa, reativa e desativa as propriedades lexicais, dando origem a categorias
discursivas, semânticas e gramaticais. Esse dispositivo é “social” porque é baseado numa
análise continuada das situações que ocorrem num ato de fala. E é cognitivo porque lida
com as categorias cognitivas e os traços semânticos já mencionados. Uma conseqüência
dessa postulação é negar que as classes de palavra sejam deriváveis umas de outras.
A postulação desse dispositivo repousa nos achados dos pesquisadores ligados ao
Projeto de Gramática do Português Falado (PGPF). Que mecanismos lingüísticos esses
pesquisadores identificaram? Algumas respostas podem ser encontradas em Nascimento
(1993), Castilho (1989, 1998b). Pessoalmente, penso que os pesquisadores do PGPF
identificaram três mecanismos, que aqui apresento como princípios -mesmo reconhecendo
a precocidade deste rótulo. Esses princípios encontram seu fundamento nas estratégias de
gestão dos turnos conversacionais- o que situa a conversação como a manifestação
discursiva por excelência. Os princípios aqui propostos assentam, portanto, em observações
empíricas, não precedem os dados da língua, não são apriorísticos. Sua postulação aparece
em versões anteriores, sucessivamente alteradas: Castilho (1998a, b).

1.1 - Princípio de ativação, ou princípio de projeção pragmática


A ativação é o movimento mental de escolha das propriedades lexicais que se
agruparão nas palavras. Os diferentes padrões de agrupamento das propriedades lexicais
constroem a dimensão discursiva, semântica e gramatical das palavras.
Quando conversamos, tentamos o tempo todo prever os movimentos verbais do
interlocutor, isto é, se ele completou sua intervenção, ou se ela ainda está em curso, se
devemos antecipar o momento de nossa entrada no curso da fala, etc. Para dar conta desse
mecanismo, que assegura a manutenção da conversação, Sacks-Schegloff-Jefferson (1974:
702) postularam um “componente de construção de turnos” cujas unidades-tipo, isto é,
palavras, sintagmas e sentenças com os quais o falante contrói seu turno, “projetam a
próxima unidade-tipo”, numa sorte de antecipação da atuação verbal do interlocutor. Estas
afirmações constituem o princípio de projeção pragmática.
No subsistema discursivo, a ativação seleciona as palavras necessárias à
hierarquização dos tópicos, à construção das unidades discursivas e sua conexão, etc. A
ativação das propriedades semânticas tem o papel de escolher as palavras necessárias à
representação da dêixis, da referenciação, da predicação, da foricidade e da conexidade. A
ativação das propriedades gramaticais é responsável pela construção dos sintagmas e das
sentenças, pela ordenação dos constituintes, pela concordância e pela estrutura argumental.
Neste particular, entendo que a atribuição de caso e de papéis semânticos decorre do
princípio de projeção estrita, descrita na reflexão tradicional como “transitividade”,
“regência”, “valência”, e como “princípio de projeção” em alguns modelos formais. A
projeção estrita é uma abstratização obtida a partir da projeção pragmática: Castilho
(1998b).

1.2 - Princípio de reativação, ou princípio de correção


A reativação é o movimento mental por meio de que rearranjamos as propriedades
lexicais e as palavras que as representam, retornando por assim dizer a construção do
enunciado. Trata-se portanto de uma volta ao enunciado já produzido, abrindo caminho
para sua simples repetição, ou para sua paráfrase, ou para a alteração de seu eixo
argumentativo, para a mudança do arranjo sintagmático, etc.
Pelo menos dois rótulos têm sido utilizados na literatura para captar este princípio: a
poligramaticalização e a reanálise. A reanálise, dada como um dos princípios da
gramaticalização, decorre deste impulso da criatividade lingüística. Reanalisam-se as
palavras, o que dá lugar às regramaticalizações. Reanalisam-se sintagmas e de sentenças, o
que acarreta a mudança da fronteira sintática.
Esse princípio encontra seu fundamento no sistema de correção conversacional.
Como se sabe, no curso de uma conversação temos freqüentemente de mudar seu rumo,
seja corrigindo nossas próprias intervenções (= autocorreção), seja corrigindo a intervenção
do interlocutor (= heterocorreção). O sistema de correção conversacional busca eliminar os
erros de planejamento.
O princípio de reativação opera no subsistema lexical dando origem às
ressignificações. No subsistema discursivo ele promove a repetição de grandes segmentos,
com o objetivo de assegurar a coesão do texto. No sistema semântico a reativação promove
a paráfrase, e no sistema gramatical, através da repetição de palavras, esse princípio
assegura a constituência sentencial, fato que examinei em Castilho (1997c).

1.3 - Princípio de desativação, ou princípio do silêncio.


A desativação é o movimento que ocasiona o abandono das propriedades escolhidas
e das palavras que estavam sendo ativadas. Este princípio mostra que o silêncio é
igualmente constitutivo da linguagem. A linguagem musical apropriou-se desta
característica, alternando-se na pauta as notas, ativadas e reativadas, e as pausas, que são a
desativação do som.
Também este princípio assenta nas práticas conversacionais, quando ocorre a
chamada “despreferência”. A estratégia da “despreferência” consiste em verbalizar o que
não é esperado, violando-se o princípio de projeção pragmática. Isso ocorre quando
respondemos a uma pergunta com outra pergunta, quando recusamos um convite, etc.
Nestes casos, cria-se na conversação um “vazio pragmático”: Marcuschi (1986).
O princípio de desativação promove no Léxico a morte das palavras. Ele produz no
sistema discursivo uma alteração da hierarquia tópica, levando os locutores a manobras tais
como os parênteses e as digressões. No sistema semântico, ele está por trás das alterações
de sentido presentes nas metáforas, nas metonímias, na especialização e na generalização,
por meio dos quais “silenciamos” o sentido anterior e simultaneamente ativamos novos
sentidos. Na Gramática, o princípio de desativação é responsável pela categoria vazia, de
que se encontram exemplos na Fonologia (sílaba com núcleo vocálico omitido), na
Morfologia (morfema flexional zero) e na Sintaxe (elipse de constituintes sentenciais, ou
categoria vazia).
É importante entender que esses princípios operam ao mesmo tempo, não
seqüencialmente, numa forma prevista por Lakoff (1987). Assim, a desativação ocorre
simultaneamente com a ativação, e esta com a reativação. A mente humana parece
funcionar de modo mais complexo que um computador, que obedece a instruções seriais,
constantes de entidades opositivas do tipo “zero / 1”, ou “sim / não”. O dispositivo
sociocognitivo age por acumulação de impulsos, e somente assim poderemos dar conta da
extraordinária complexidade da linguagem. Neste quadro, fica difícil concordar com as
análises que mencionam o “desbotamento” do sentido, a “erosão” fonética, pois a língua
desvela um processo contínuo de ganhos e perdas.
Tendo essas idéias como pano de fundo, parece claro que três programas adicionais
precisariam ser desencadeados, o da lexicalização, o da semanticização e o da
discursivização, privando a gramaticalização de sua atual centralidade. Examinarei o item
vez à luz dessas possibilidades; parte dos exemplos vêm de Castilho (2001).

2. Lexicalização de vez
Lexicalização é a criação das palavras via seleção de propriedades cognitivas e de
traços semânticos derivados, processando-se sua misteriosa concentração numa forma. A
etimologia e os usos de vez permitem identificar essas propriedades.
Vez tem por origem o lat. uicis, “turno, sucessão, alternativa, destino, retorno,
reciprocidade, o turno / o papel / o ofício de alguém ou de alguma coisa”. A palavra era
defectiva: não dispunha de nominativo, sendo uicis se genitivo, uicem seu acusativo, usado
adverbialmente no sentido de “no lugar de”, e uice seu ablativo, igualmente usado como um
adverbial, com o mesmo sentido, podendo vir preposicionado (in uicem “para tomar o lugar
de, no lugar de”, ad uicem, “no lugar de”): Gaffiot (1947: s.v. vicis), Ernout-Meillet (1967,
s.v. uicis, uice, uicem). Para sua história em português, ver Machado (1952-1959, s.v. vez),
Cunha (1982, s.v. vez).
Os bons dicionários da língua portuguesa mostram que os usos do termo revelam as
seguintes propriedades cognitivas de base, de que foram resultando outras propriedades:
• /LUGAR/, perceptível em “tirar a vez de alguém”, de que derivam (i)
“substituir / ocupar o lugar de outrem”, como em “fez as vezes do cobrador, para
ficar com o dinheiro”, “começou logo a gritar, em vez de discutir calmamente”, (ii)
lugar no eixo argumental, como em “em vez de entrar, saiu”, “uma vez que / de vez
que você não me ouve, desisto”, “uma vez que você me dê ouvidos, te atenderei”,
deslizando já para /TEMPO/ e /QUALIDADE – condição/, nestas acepções.
• /TEMPO/, que deriva metaforicamente de /LUGAR/, de que decorrem (i)
“momento de um evento, próximo ou remoto”, como em “era uma vez uma
princesa”, “na vez dele, fique quieto !”, “chegou sua vez”, “desta vez ele não me
escapa”, “esta fruta ainda está de vez” [isto é, antes de madura], (ii) “alternância
de momentos”, como em “falava de vez em quando / de quando em vez / por vezes”
• /QUALIDADE/, conceito abstrato que deriva metaforicamente de /TEMPO/, na
indicação de “momentos que se repetem”, de que decorre o Aspecto Iterativo, como
em “o trem-de-ferro às vezes chega no horário”, “muitas vezes reclamei contra
isso”, “por vezes acho que não tenho a razão”
Veremos adiante como o dispositivo sociocognitivo opera sobre essas categorias de
base, dando surgimento a diferentes categorias lexicais, gramaticais e afixais.

3. Discursivização de vez
A agenda da discursivização inclui indagações sobre topicalização (= hierarquia
tópica, desvios tópicos por digressão e por parênteses), correção sociopragmática,
tratamento da informação, entre outros temas. Alguns lingüistas brasileiros têm estudado a
discursivização, sem uma elaboração teórica maior: ver, pelo menos, Castilho (1997a: 60),
Bittencourt (1999) e Gorski / Gibbon / Valle / Rost / Mago (2002). Essas referências têm
entretanto o mérito de mostrar que há certo desconforto em tratar os temas acima como
casos de gramaticalização, o que significaria fazer confluir para uma mesma dimensão
processos lingüísticos de variada ordem.
Um estudo pormenorizado da utilização de vez na organização do texto deveria
explorar os seguintes aspectos:
(1) Introdução do tópico discursivo, como em:

(1) tinha vez que eu não jogava... mas lá em casa havia umas pessoas que achavam graça...
ouviu...(RJ 374)
(2) L1 uhn uhn ... que hoje:: dentro da nossa profissão ainda mais uma vez falando nela ...
até parece que sou emPOLGAdo por ela não é ? ((risos)) não acha? (D2 SP 62)
(2) Agregação de informação secundária, enriquecendo a elaboração do tópico, via
adjuntos:
(3) quando eu estive uma vez em Uberaba houve uma exposição de gado... impressionante
os fazendeiros daqueles lugares todos... (RJ 374)
(4) e muitas vezes era uma verdadeira luta domar o carneiro...(RJ 374)
(5) mas depois de você passar...várias vezes na porta da loja...sabendo que lá existia aquela
televisão...você...passou a querer... a televisão... (RJ 341)
(3) Determinação / indeterminação / impessoalização do tópico, como em
(6) A primeira vez a gente nunca esquece.
(7) Muitas vezes já é tedioso.
(4) Iniciação de narrativa: seu sentido primordial de “ocasiäo, oportunidade”
permite que vez inicie as narrativas, fato observado por Ilari (1992: 183). Nesse papel, a
palavra opera como argumento único de verbos monoargumentais apresentacionais, como
ser, ter (8), ou como estimulador de uma narração (9):
(8) tinha vez que eu não jogava... mas lá em casa havia umas pessoas que achavam graça...
ouviu...(RJ 374)
(9) L1 - por que o quê ? por onde passa a barata?... os caminhos que ela faz?... os caminhos...
L2 - ah ... verdade ‚...
D1 - e outros animais? como ‚ que fazem pra... pra... com esses animais pra se
livrarem deles...
L2 - eu uma vez...
L1 para?
D1 - pra se livrarem deles não ‚...
L1 - ah...
D1 - a senhora ia contar uma história... uma vez...
L1 - [ Baygon...
L2 - ah... eu fui a uma casa antiga... uma casa que pertencia a uma família amiga...
então eles queriam que nós fôssemos visitar aquela... aquele solar e... antes de eles
venderem queriam que a gente conhecesse (RJ 374)
(5) Articulação do discurso, papel em que vez ainda está engatinhando:
(10) Das vez, é isso mesmo que ela estava querendo [port. pop., exemplo recolhido por R.
Ilari].
(11) Uma vez, um rei procurava um príncipe para casar com sua filha..
Nesses exemplos, vez ocorre na cabeça do enunciado, articulando o que se segue
com o que precede, recuperando seu sentido original de “ocasião”, “momento”.

4. Semanticização de vez
Precisamos sem dúvida entender mais claramente os mecanismos semânticos das
línguas naturais, para configurar a agenda da semanticização. Parece inadequado derivar
sentidos abstratos de sentidos concretos, o que teria por fundamento pressupor mentes
primitivas, restritas à produção de sentidos concretos, de que teriam resultado mentes mais
desenvolvidas, capazes de alçar vôos para domínios abstratos. Outra dificuldade, como já
disse, está nas explicações que aludem a um desbotamento semântico (“bleaching”,
“fadindg”), como se a permanente criatividade de que é feita a língua implicasse em perdas,
sem ganhos, em desmaios, sem despertamentos. Em contrapartida, parece adequado
aprofundar as pesquisas sobre a dêixis, a referenciação, a predicação, a foricidade e a
conexidade, precedendo tudo isso com indagações sobre como criamos os sentidos.
A semântica de uicis mostra que “do sentido de ‘no lugar de’, passou-se ao sentido
de ‘no turno de’, ‘na vez de’” Ernout-Meillet (1967). Cunha (1982, s.v. vez) destaca outros
desdobramentos do sentido básico de lugar: “termo que indica um fato na sua unidade ou
na repetição, ensejo, ocasião”. Essas observações captam o processo de semanticização do
item, que desenvolveu por metáfora vários sentidos: da representação do ESPAÇO
(Locativo: “em determinado momento”, “no lugar de”) > TEMPO (“ocasião”) > QUALIDADE
(= Aspecto Iterativo / “repetição”, Conjunção / “condição”).
Esta seqüência foi formulada por Heine / Claudi / Hünnemeyer (1991a), a qual
fornece um quadro interessante para captar as translações de sentido e partir de categorais
cognitivas de base. Convém lembrar que na notação desses autores, as letras maiúsculas
remetem a sentidos abstratos; entre parênteses, anotei os sentidos específicos de vez,
sempre lembrando que em minha representação o sinal “>” significa disposição radial, não
linear.
Algumas palavras derivadas de vez preservaram os elos acima representados: lat.
uicario > port. vigário, “o que fica no lugar de”, “substituto”, preservou /LUGAR/; lat.
*uicata > port. arc. vegada “uma ocasião”, “uma vez” preservou /TEMPO/; revezar “ter seu
turno de novo” preservou /QUALIDADE/ - Aspecto.
Ilari (1992 e 1998) discrimina na semântica dessa palavra vez1, que “expressa a
reiteração cíclica de eventos”, construindo expressões que respondem à pergunta quantas
vezes?, e vez2, “ensejo”, “ocasião”, “oportunidade”, que “intervém nas expressões certa
vez, uma vez, normalmente utilizadas para introduzir desenvolvimentos narrativos
bastante amplos”. O arranjo que apresentei no item 2 inverte a indiciação proposta por
Ilari, pois considero /LUGAR/ mais básico que / TEMPO/. Seria necessário, também, debater o
estatuto da homonímia na perspectiva oferecida por este texto.
É alta a freqüência de uso de vez, seja compondo um adverbial predicativo
aspectualizador (Ilari 1992, Castilho 1999 a, b), seja compondo um adverbial semelfactivo,
como em:
(12) e uma vez por semana eu me dou o luxo de comer do::ces...sabe ? (DID RJ 328: 47).
(13) você disse... uma vez... em aulas passadas... que...(RJ 364)
e o iterativo, como em
(14) tu viajas deixa o apartamento e muitas vezes essa segurança também pifa (D2 POA
291: 1382).
(15) ao rever os seus objetivos muitas vezes o professor se dá conta de que (...) (EF POA
278: 60).
(16) a temperatura às vezes de 40 graus à sombra... o pessoal de gravata e calça comprida
(D2 POA 291: 788).
(17) o brasileiro come muito mal (...) às vezes... muitas vezes talvez seja o... o aspecto do...
do poder aquisitivo de cada um...né ? (D2 POA 291: 19)
(18) não... não come [peixe cru] já se fez várias vezes... na tua casa mesmo (D2 POA
291: 50).
(19) algumas vezes já vi [essas danças] até já enjoei (DID POA 45: 478).
(20) mandavam a gente copiar a mesma lição uma porção de vezes (DID POA 45: 344).
É comum omitir o núcleo do sintagma nominal constituído por vezes, em função
adverbial, restando apenas o especificador quantificador preenchido por muito, pouco,
bastante, numa forma aparentemente neutra, preservada a noção de iteratividade:
(21) se usa muito o termo extrapolação (EF POA 278: 221].
(22) eu que saio bastante (DID POA 45: 103),
isto é,
(21a) se usa
muitas vezes o termo extrapolação
(22a) eu que saio bastantes vezes
A iteratividade representada pelos adverbiais constituídos a partir do item vez pode
ser universal, partitiva ou distributiva, na dependência do especificador do sintagma
nominal de que ele é o núcleo.
Na iteratividade universal, o adverbial seleciona a totalidade dos indivíduos que
compõem o conjunto verbalizado pela classe-escopo:
(23) síntese é toda vez que for produzida uma nova comunicação (EF POA 278: 360)
(24) chove em São Paulo todas as vezes que saio sem guarda-chuva.
Na iteratividade partitiva, o adverbial seleciona uma parte dos indivíduos que
compõem o conjunto descrito pela classe-escopo, como em muitas vezes, poucas vezes, às
vezes, inúmeras vezes, várias vezes, algumas vezes, uma porção de vezes. A quantificação
partitiva se acentua naqueles casos em que antes de vezes aparece a preposição de, como
em a maior parte das vezes, a menor parte das vezes.
Finalmente, na iteratividade distributiva o adverbial seleciona alguns desses
indivíduos, omitindo outros:
(25) cada vez que chego à Universidade, lá está ele plantado na porta.
(26) esse meu orientando me procura umas vezes sim, outras vezes não, já estou ficando
maluco por causa dos prazos.

5. Gramaticalização de vez
5.1 - Fonologização: no singular, o item perdeu uma sílaba, continuando dissilábico no
plural. Isso mostra que a palavra não sofreu alterações fonológicas muito profundas, nem
mesmo quando usado como afixo.
5.2 - Morfologização: operando sobre o elenco de traços lexicais apresentado
anteriormente, o dispositivo sociocognitivo compôs diferentes classes de palavra:
(1) Substantivos, ativando /LUGAR/ e desativando as categorias derivadas de
/TEMPO/ e /ASPECTO/:
(27) Não pretendo tirar a vez de ninguém.
(2) Adverbiais semelfactivos e iterativos, ativando /QUALIDADE/ e /ASPECTO/, e
desativando /LUGAR/, podendo o N vir preposicionado ou não:
(28) não... tive uma vez com uma moça que era... trabalha na pesquisa... no Rio Grande do
Sul eh... e ela estava falando dessas coisas (RJ 374)
(29) você alguma vez jogou no bicho? (RJ 374)
(30) às vezes quando eu era pequena meu pai tinha uma fazenda em Queluz... cidade de
São nós íamos... lá ...
(31) de vez em quando a gente lê em jornal mesmo no Brasil e em outros países também
mais ( ) problemas ligados a certos animais que estão desaparecendo né ? (RJ 374)
Repetindo o item, e mantido o mesmo arranjo acima, obtém-se:
(32) De vez em vez penso que as coisas estão melhorando.
O papel das preposições precisaria ser aqui examinado com mais detalhe.
(3) Advérbio modalizador de dúvida, português arcaico tamalavez, moderno talvez,
ativando /QUALIDADE/ e /MODO/ e desativando /LUGAR/ e /TEMPO/:
(33) muitos de vocês tenham chegado à adolescência um pouco mais cedo… ou talvez…
um pouco mais tarde (RJ 364)
(34) é claro… e o ponto mais BACANA é o aspecto é… da história de ( ) talvez… mas
é que em muitos casos o ratinho se salva…(RJ 251)
(35) não sei se seria cobra não venenosa… não … talvez fosse…(RJ 374)
(4) Locução conjuncional, ativando /LUGAR/ como “substituição” e como “espaço
no eixo argumental”, /QUALIDADE/ como “condição”, e desativando /TEMPO/:

(36) o que acontece é que em vez de se ampliar… pertinentemente o âmbito do ensino… o


que está ocorrendo nos nossos alunos é uma fragmentação do ensino…(RJ 356)
(37) então em vez de o professor riscar aqui o arbitrário com agá… o professor apenas
sublinha o arbitrário e dá ao aluno as fontes onde ele pode encontrar essa palavra
corretamente escrita… ou seja… um dicionário.(RJ 356)
(38) uma vez que a renda... nós vimos na Revolução Industrial... estava mais
uniformemente dividida...(RJ 382)
(39) uma vez que partimos do pressuposto... de que o estudante universitário não pode ser
analisado como um fenômeno isolado daquela realidade...(RJ 356)
(40) Uma vez que você faça tudo certinho, o emprego será seu.
(5) Afixo, ativando /LUGAR/ como “substituição” e desativando os demais valores.
A seleção desse traço se encontra no prefixo culto vice-, popular e arcaico viso-, em viso-
rei, com a variante vis-, em visconde.
Como conjunção e como prefixo, vez se desnominaliza, atingindo o ponto máximo
de sua morfologização.
5.3 - Sintaticização
A defectividade morfológica de vez tem como correlato a diversidade de suas
propriedades funcionais. Com efeito, num primeiro levantamento no corpus do Projeto
NURC, vez está em processo de desnominalização, predominando a função de adjunto
adverbial (51,5%), e a de nexo (39,3%), se juntarmoss aqui as ocorrências enquanto
conjunção e articulador discursivo. A isso se contrapõe o seu papel como argumento único
(6%) e como complemento oblíquo (3.2%). Ernout-Meillet mostram que o fato já se notava
no latim, em que predominava o uso adverbial, agregando que ele ocorria seja no acusativo,
seja no ablativo (como em uice uersa, literalmente, “alternado o lugar”).

Primeiras conclusões
Os argumentos arrolados mostram que há certa urgência em debater teoricamente os
processos de lexicalização, discursivização, semantização e gramaticalização. Reconheço,
naturalmente, que muita pesquisa precisa ainda ser feita para arredondar meus argumentos.
Caminhando nessa direção, proponho a seguinte agenda para os debates futuros sobre a
gramaticalização:
(1) No que diz respeito ao Léxico, vamos temporariamente deixar de lado a
afirmação segundo a qual categorias menores derivam de categorias intermediárias, e estas
de categorias maiores, num ritmo unidirecional. Os movimentos sociocognitivos contínuos
e simultâneos de agrupamentos de propriedades parecem suficientes para explicar a criação
das palavras, e mostram a multidirecionalidade desse processo. A criação do Vocabulário
das línguas naturais deve proceder daqui, muito menos do que estranhas mudanças de uma
classe para outra. O grande desafio continua a ser a identificação das categorias cognitivas
básicas e dos traços semânticos derivados, tarefa que poderá desvendar esse mecanismo.
Será necessário refinar as pesquisas nessa direção, somando esforços com aqueles que vêm
trabalhando na Semântica Cognitiva e na Semântica de traços.
(2) Outra questão a retirar de nossa agenda é o tratamento derivativo que se
estabeleceu entre Gramática, Discurso e Semântica. Deixando de lado uma percepção linear
desses subsistemas da língua, compreenderemos melhor as relações entre eles se
postularmos que são de caráter (i) indeterminado, (ii) pancrônico, (iii) radial, (iv)
muldirecional. Juntamente com a lexicalização, os processos de constituição lingüística
gerados nessas instâncias precisariam ocupar nossas atenções, concentrando-se nossos
esforços para o entendimento das línguas naturais em sua dinamicidade. É claro para mim
que centralizar toda a criatividade lingüística na gramaticalização restringe e obscurece o
entendimento de como as línguas funcionam.
(3) A gramaticalização cinde-se em três subprocessos: fonologização,
morfologização e sintaticização, os quais ocorrem simultaneamente, sem uma hierarquia de
precedência entre eles. A unidirecionalidade só pode ser comprovada no tratamento das
palavras no interior de cada um desses subprocessos – e por aqui vai ficando o famoso
princípio da unidirecionalidade. Acredito que a ação do dispositivo sociocognitivo, uma
vez mais detalhado e melhor entendido, fornecerá as bases teóricas para o entendimento da
gramaticalização, da regramaticalização e da desgramaticalização.
PARTE III- RESENHA DOS ESTUDOS SOBRE
GRAMATICALIZAÇÃO
Apresentamos inicialmente uma relação não exaustiva dos estudos sobre
gramaticalização, desenvolvidos ultimamente no Brasil, assinalando com um asterisco
aqueles resumidos neste texto. Esses estudos, muitos dos quais realizados fora do PHPB,
cobrem os seguintes tópicos 13[13]:
• Trabalhos de conjunto: Martelotta / Votre / Cezario (Orgs. 1996), Castilho
(1997a), Neves (1999).
• Aspectos teóricos e metodológicos: Martelotta / Votre / Cezario (1996), Ferreira
/ Cezário / Oliveira / Martelotta / Votre (2000), Naro / Braga (2001), Gorski et
alii (2003).
• Nome: Bittencourt (1999), Castilho (2001).
• Verbo: Ilari (1986), Martelotta / Leitão (1996), Mattos e Silva (1999), Galvão
(2000, 2002), Callou / Avelar (2001), Kewitz* (2002a,b), Gonçalves (2003).
• Pronomes e expressões de tratamento: Freitas (1995), Omena / Braga (1996),
Vitral (1996), Vitral / Ramos (1999*), Lopes (1999 / 2003, 2002), Ramos
(2000*), Ramos / Oliveira (2002*), Salles (2002), Menon / Lambach / Mandarin
(2003), Souza (2003).
• Advérbios: Cunha (1996), Vitral (2000), Braga / Silva / Soares (2001), Ramos
(2002), Braga / Paiva (2003), Costa (2003), Martelotta / Barbosa / Leitão
(2002a,b*).
• Conjunções e integração de sentenças: Cezário / Gomes / Pinto (1996), Castilho
(1997b), Barreto (1999), Pezatti (2000), Ignácio / Hintze (2001), Longhin
(2003), Módolo (em andamento).
• Preposições: Viaro (1994), Baião / Arruda (1996), Macêdo (1997), Poggio
(1999), Castilho / Viaro et alii (2002*), Guedes / Berlinck (2002).
• Operadores discursivos e argumentativos: Risso (1993, 1996), Martelotta
(1996), Martelotta / Rodrigues (1996), Martelotta / Alcântara (1996), Braga /
Silva / Soares (2001), Souza (2001), Gorski / Gibbon / Valle / Rost / Mago /
Freitag (2002), Tavares / Görski (2002), Mago / Görski (2002).

1. Gramaticalização de Pronomes

1.1 - Célia Regina dos Santos Lopes - O percurso de a gente em tempo real de longa
duração. Em R. V. Mattos e Silva (Org. 2001, Volume II – Tomo I – Primeiros Estudos.
pp. 127-148). Resumo feito por Ilza Ribeiro.

13[13][13][13][13]
Desnecessário dizer que esses tópicos freqüentemente se recobrem. É o caso, pelo menos, das
entradas “advérbios”, “conjunções”, “preposições” e “operadores discursivos e argumentativos”.
O texto trata da gramaticalização ou pronominalização da forma substantiva gente
como pronome indicador de primeira pessoa: a gente. A autora traça um percurso histórico
desta forma, desde o português arcaico.
A análise mostra que, neste processo da gramaticalização, houve perdas e ganhos de
propriedades formais e semânticas. A identificação e interpretação dos traços formais e
semânticos de gênero, número e pessoa em relação a gente (substantivo) e a gente
(pronome), seguindo a perspectiva de Rooryck (1994) para as subespecificações destes
traços nas línguas humanas, ilustram esta questão:
a) GÊNERO: gente (nome) [+fem, FEM] > a gente (pronome) [fem, αFEM], com
perda do traço formal [+fem] e ganho de subespecificação para o traço semântico.
O exemplo a seguir mostra a não-correlação entre traço formal [+fem] e traço
semântico [FEM = neutro, não-marcado] de gênero no substantivo gente:
(1) ... quem governava, e mandava era elle Epifanio e Manoel Congo, e que todos os dias
de manhã mandava reunir a gente e contava o número della (Insurreição dos negros, fala de
Miguel Crioulo, p. 48/49, séc. XIX)
O substantivo a gente coocorre com o pronome della, indicando que o gênero
formal é [+fem]; contudo seu significado não é [+FEM], pois se refere a um agrupamento
de pessoas de ambos os sexos (o réu e seus companheiros escravos)
Por outro lado, a forma pronominal tem o gênero formal neutro ou não-marcado
[fem], mas o gênero semântico pode ser subespecificado para [+FEM] ou [-FEM], como
ilustrado nos seguintes exemplos:
(2) a) A gente ficou arrasada com as inundações
b) A gente ficou arrasado com as inundações
Também nos pronomes pessoais “legítimos” (eu, tu, nós,..), o gênero formal é zero
[fem], mas são subespecificados quanto ao gênero semântico [αFEM].
b) PESSOA: gente (nome) [eu, EU] > a gente (pronome) [eu, +EU], com ganho, para
o pronome, de subespecificação do traço semântico de pessoa, incluindo a pessoa que fala.
O traço formal de pessoa [eu] se mantém, por continuar a se combinar com verbos em
P3:
(3) a) a gente, dentro da nossa cabeça, ... (AC01, NURC/RJ)
b) a gente tem uma paisagem bonita no Rio (NURC/RJ)
c) NÚMERO: gente (nome) [αpl, +PL] > [pl, +PL] > a gente (pronome) [pl, PL],
com dois estágios evolutivos. No segundo, o traço formal de número passa a ter valor
default, mantendo a interpretação semântica [+PL]:
(4) a) Quando viu o mundo quel o eu vi, / e viu as gentes que eran enton (Canc. Ajuda, séc.
XIII)
b) mas o monge lla cuidou / fillar, mas disse-ll” a gente (Cant. de Santa Maria, séc.
XIII)

Assim, há perda da possibilidade de construções como a exemplificada em (4a).


No terceiro estágio da gramaticalização, a interpretação semântica também passa a ter um
valor default, designando um todo abstrato, indeterminado e genérico, designando o
conjunto “ser-pessoa” e perdendo gradativamente o sentido de “+de um”, o que possibilitou
sua combinação com verbos no singular. Os exemplos a seguir ilustram as
(im)possibilidades de construções, segundo as três fases:
FASE I = [αpl, +PL] (substantivo gente ~ gentes)
(5) a) Sobre as armas e caualos que tem as gentes dos conçelhos são feitas tantas e tam boas
ordennações que não saberia hy al diujsar (D. Duarte. L. Da Cartuxa)
b) ... a geral gente sera ysto proueytosso çerto non mas antes non proueytosso (D.
Duarte)
FASE II = [pl, +PL] (substantivo gente)
(6) a) Muita gente gosta de fazer isso.
b) *Muitas gentes gostam de fazer isso.
FASE III = [pl, PL] (pronome a gente)
(7) a) *As gentes comem mal.
b) A gente come mal

A autora trabalha com uma amostra de 270 ocorrências, sendo 126 do substantivo
gente e 144 da forma pronominal. As ocorrências de gente como pronome são atestadas na
segunda metade do século XIX; entre os séculos XVI e primeira metade do XIX, há
exemplos esporádicos que apresentam ambiguidades quanto a uma leitura de substantivo
(=pessoas) ou de pronome (=nós), como nos seguintes exemplos:
Séc. XVI
(8) Também há muita infinidade de mosquitos prinçipalmente ao longo dalgu Rio antre
huas aruores q se chamão manges não pode nenhua pessoa esperallos e pello matto
quando não há viração são muj sobeios e perseguem muito a gente. (GÂNDAVO, P.
1965:235)
Séc. XVII
(9) (...) E os tigres, em tanta cantidade (por não haver descampados), que, em se metendo
ua rês no mato, não sae, e o mesmo risco corre a gente, se não anda acompanhada, e
pelos rios e lagos dos jaguarés ... (BERNARDO, 1996:28)
Séc. XVIII
Rosinha - A prima Maricota disse-me que era uma coisa de pôr a gente de queixo
caído. (JÚNIOR, 1882:165)
Nos três exemplos, parece que a interpretação semântica de pessoa genérica do
substantivo gente começa a sofrer mudança. A possibilidade de incluir o falante na
interpretação dos exemplos indica uma mudança no traço semântico de pessoa.
O traço de subespecificação do número formal [αpl] está presente até o século XIX,
embora, paulatinamente, o traço [pl] ganhe terreno, apresentando uso categórico no
século XX. É no século XVI que se tem evidência da segunda fase do processo de
gramaticalização, com 75% dos dados apresentando os traços [pl, +PL].
Outro aspecto considerado atuante na pronominalização é a diminuição gradativa de
realização do artigo diante do substantivo gente: no séc XIII, é comum o uso do artigo (a
gente, as gentes); nos séculos subseqüentes, o artigo torna-se mais raro e outros tipos de
determinantes começam a ocupar sua posição (minha gente, essas gentes, muita gente, ...).
À medida que o artigo se cristaliza na forma pronominal (a gente), mais rara se torna sua
realização diante do substantivo gente.

1.2 - Célia Regina dos Santos Lopes - De gente para a gente: o século XIX como fase de
transição. Em: T. Alkmim (Org. 2002: 25-46). Resumo feito por Ilza Ribeiro.
O texto apresenta uma análise quantitativa e qualitativa da mudança categorial do
substantivo gente para o pronome a gente, com base em dados do século XIII ao XX,
mostrando que o processo de gramaticalização foi lento e gradual. Os pesos relativos
indicam os séculos XVII-XVIII como os períodos em que se inicia a pronominalização do
substantivo gente, embora as taxas de uso sejam baixas até antes do século XX. Dos 212
dados levantados em textos do século XIX, 31% são de a gente pronominal e 69%, de
emprego da forma substantiva; para os séculos XVII e XVIII foram levantados 125 dados,
dos quais 90.4% são da forma substantiva.
Nos séculos XIII-XVI, as ocorrências de gente não apresentam, em geral,
ambigüidade interpretativa; são poucas as ocorrências de usos de a gente ambíguos em
relação a uma leitura de "pessoas" (substantivo - a não-pessoa) ou de "nós" (pronome -
+EU). A partir do século XVI, começa uma escala de ampliação dessa ambigüidade
interpretativa, com 2 casos no século XVI; 2, no XVII; 9, no XVIII; e 36, no XIX.
Exemplos são dados a seguir:
(1) O jograr por tod' aquesto | non deu ren, mas violou como x' ante violava, | e a candea
pousou outra vez ena vyola; mas o monge lla cuidou fillar, mas disse-ll' a gente: "Esto vos
non sofreremos".
A virgem Santa Maria ....(p. 27, V.I, CSM, Século III)
(2) Quanto mais se chega a fim do mundo, atodo andar, tanto a gente é mais ruim!
(Gândavo, p. 230, século XVI)
(3) (...) E os tigres, em tanta cantidade (por não haver descampados), que, em se metendo
~ua rês no mato, não sae, e o mesmo risco corre a gente, se não anda acompanhada, e pelos
rios e lagos dos jaguarés ... (Bernardo, 1996: 28 - Século XVII)
(4) Rosinha - a prima Maricota disse-me que era uma coisa de pôr a gente de queixo caído
(Júnior, 1882:165 - século XIX)
O século XVII é visto como o início do período de transição, em que gradualmente
o traço de pessoa do a gente passa a permitir de forma mais nítida uma leitura incluindo o
falante: cresce o número de casos ambíguos, decresce o número de emprego de a gente
como sinônimo de "pessoa"; no século XIX, as interpretações ambíguas deixam de ser
possíveis, o que caracteriza este período como o momento decisivo neste processo de
gramaticalização. (Figura 4.5). Desta forma, a mudança é vista de forma dinâmica,
refletindo um continuum de perda gradativa de traços formais.
Além do fator relacionado com a categoria lexical (substantivo ou pronome), a
autora controlou os seguintes fatores:
I - Concordância interna no SN, para controlar a subespecificação de número formal no
substantivo (esta gente / estas gentes); os usos de formas no singular favorecem o processo
evolutivo gente > a gente. No século XVI, há 74% de casos sem o traço formal de número;
a partir desse período, o uso de gente só no singular ganha terreno, chegando a 100% no
século XX.
II - Traços formais e semânticos de gênero, desde que gente substantivo se refere a um
agrupamento de pessoas [+genérico], enquanto a gente pronome apresenta subespecificação
semântica quanto ao gênero [?FEM]. Do século XIII ao XV, há várias possibilidades de
concordância de um predicativo adjetival com o sujeito gente/a gente, ocorrendo 17 casos
no feminino (9 no plural) e 6 no masculino plural; nos séculos XIX e XX, a morfologia
realizada é de feminino singular. O uso significativo de dados que apresentam ambiguidade
interpretativa e a concordância de a gente com adjetivos no feminino referindo-se a
personagens masculinos evidenciam a transitoriedade do processo.
III - Traços de pessoa, verificando-se uma preferência pelos usos de P6 nos século XIII-
XIV (68%), comparados aos 28% no século XV, chegando a 0% no século XX. Assim, a
partir do século XVI é que a freqüência de P3 começa a se tornar relevante.
IV -Os dados do século XIX mostram, quanto ao fator gênero (sexo), uma maior realização
de a gente pronominal na fala feminina, com .77 de peso relativo. Nas obras analisadas, as
mulheres representam personagens populares, caricaturais. Isto permite concluir que a
disseminação desta gramaticalização resulta de um processo de baixo para cima, tendo sido
implementada pelas mulheres. Caracteriza-se também como conseqüência de uma mudança
encaixada lingüística e socialmente, iniciada com as reestruturações das formas nominais e
pronominais de tratamento entre interlocutores. O uso dêitico da forma a gente também é
apontado como favorecedor da gramaticalização, com peso relativo de .94. Também a
forma pronominal a gente é favorecida com a interpretação +genérica (.62) do que
específica (.44). Associados à interpretação genérica, os tempos verbais do subjuntivo (.92),
do presente do indicativo (.51) e formas infinitivas (.87) favorecem a forma pronominal a
gente.
Separando dados do português europeu dos do PB, a autora considera que a
mudança no Brasil ocorre realmente a partir do século XX, pois no século XIX o peso
relativo para a probabilidade de ocorrência de a gente pronominal é de .19, sendo de .84 no
século XX.

1.3 – Marilza de Oliveira e Jânia Ramos (2002) - O estatuto de 'você' no preenchimento do


sujeito. Comunicação apresentada no XIII Congresso Internacional da ALFAL, Costa Rica.
Estudos como os de Duarte (1993, 1995), Roberts (1993), Galves (1993), Faraco
(1996) apontam para a perda do sujeito nulo no PB. Duarte (1993) atribui a mudança na
realização do sujeito à redução do paradigma flexional do verbo no PB. A entrada da forma
"você", originalmente um pronome de tratamento, no sistema de pronomes pessoais levou à
neutralização das formas verbais de 2a. e 3a. pessoas. Apoiando-se nesses dados, Roberts
(1993) sugere que o enfraquecimento da morfologia verbal no PB não se deve a mudanças
fonológicas, mas sim à reorganização do sistema pronominal.
Oliveira (2001, 2001a) propõe que o enfraquecimento da flexão verbal do PB está
pautado em uma mudança fonológica ocorrida no português medieval (séc. XV), a saber, a
queda do /d/ nas formas verbais de 2a. pessoa do plural. A autora sugere que a queda do /d/
cria encontros vocálicos que são desfeitos pela semivocalização e pela crase. Essas duas
resoluções para a dissolução do hiato configuram duas gramáticas distintas: a primeira
reconstitui o paradigma verbal com a inserção da semivogal; a segunda, resultado da crase,
provoca a composição de uma paradigma verbal com formas neutralizadas para a 2a.
pessoa do singular e a 2a. pessoa do plural. Tem-se aí a representação das gramáticas do PE
e do PB, respectivamente. Textos quatrocentistas registram a variação nas formas de 2a.
pessoa do plural:
(1) E quero logo saber de vos se vos prazerá que os tyre fora, ou a maneira que em ello
quereis ter, ... (Crônica de D.Pedro, de E. Zurara, p.378)
(2) Como querês, Rruy Gomez, _ disserã allg~us dos outros _ que vamos a cometer tall
pelleja, ... (Crônica de D.Pedro, de E. Zurara, p.374)
O apagamento do /d/ intervocálico podia atingi tanto o morfema lexical quanto o
morfema flexional do verbo. A queda do /d/ no morfema lexical deixa intacta a diferença
entre as formas do singular e do plural:
(3) Rei Bandemaguz, eu hei mui gram pesar porque vaas a esta demanda, ca tu i morrerás.
(Demanda do Santo Graal:48)
(4) Senhor, verdade é, mais rogo-vos, se vos aprouguer, que vaades comigo a aquela
foresta...(Demanda do Santo Graal:19)
Em alguns casos /d/ intervocálico do morfema lexical é mantido à expensa do
morfema flexional (podetis > podedes > podees > podês) e a distinção entre a 2a. pessoa do
singular e plural é mantida apenas pela distribuição do acento:
(5) Senhor, vos nom devees n~e podees dereitamente emtrar em Portugall (Cronica del Rei
Dom Joham I, Fernão Lopes, p.96)
(6) [...] E assy, senhor, que não ponhais fundamento nessas cousas, caa podês por ellas ficar
muito ~eganado. (Cronica de D.Pedro, de Zurara, p. 531)
(7) Ora _ disse elle _ podes dezer o que te prouver, ca pois Abu me tem nessa pose e eu não
quero sayr della... (CP:416)
Em outros casos, nem a distribuição do acento garante a distinção entre singular e
plural. A diferença entre o singular (tomasses) e o plural (tomassês) está apenas na forma
tensionada da vogal <e> na 2a. pessoa do plural, resultado da crase:
(8) E porque ally nõ estaa tall capitão em que nos tenhamos tall fiança, queriamos que vos
tomassês parte dessa empresa. (CP:562)
Na Demanda e nas cartas enviadas aos jornais do século XIX a variação
morfofonológica entre as formas do singular e do plural se estende para outras expressões
verbais, como o pretérito perfeito:
(9) Rei Artur, eu me vou pera o Paraíso, que me tu quisestes tolher per tua luxúria;
(DSGraal:225)
(10) Galvam, vós me havedes morto e escarnido, que me mataste meu sobrinho...
(DSGraal:114)
(11) Dizeis ainda, meu jurisconsulto de tarimba, que o delegado não podia derrogar um uso,
e invocastes o chavão, que citasteis de orelha _ que o uso faz lei. Para que vos metteis á
tralhão, meu rabula quadrado? Já que fallasteis em uso fazendo lei, pergunto-vos, com que
condição o uso faz lei? (...)Porque não pescasteis isto ahi com algum moço do 3.o anno?
Isso evitaria que viesseis tocar rabeca com arco de taquara. (O Correio Paulistano
22/07/1854)
Oliveira (2001a) correlaciona o percurso evolutivo das formas verbais com o
aparecimento das formas nominais de tratamento, em particular Vossa Mercê (de que
deriva 'você'), introduzidas também em meados do século XV (Santos Luz 1957). Oliveira
e Ramos (2002) observam que as formas de tratamento podiam concordar com o verbo na
2a. pessoa do plural ou na 3a. pessoa do singular, respectivamente em:
(12) Senhor, _ disse elle _ eu farey vosso mamdado, pero eu quisera que vos ho forais amte
per mão do comde, meu senhor e padre, que he tam homrrado como vossa merçe sabe e
como he sabido per muitas partes do mundo. (CP:694)
(13) Mas vossa merçee sayba que Aabu me disse que eu viesse a vos... (CP:416)
A concordância das formas de tratamento na 2a. pessoa do plural deve ter ocorrido
na gramática que recompôs o paradigma verbal, o PE; a concordância das formas de
tratamento na 3a. pessoa do singular deve ter sido comum à gramática representada pela
neutralização das diferenças entre as formas do singular e do plural, o PB.
Além da diferença na pessoa do verbo, a forma nominal 'Vossa Mercê' passou por
um processo de perda de massa fonética¨, que levou à sua gramaticalização: nome >
pronome > clítico. Uma vez gramaticalizado, 'você' constituiu uma escolha para a
efetivação do preenchimento do sujeito na gramática II, que caracteriza o PB, mas não foi o
gatilho para o preenchimento. Essa hipótese está em consonância com a proposta de
Moraes Castilho (2001) de que o PB tem base quatrocentista.

2. Gramaticalização de Advérbios
2.1 - Mário Eduardo Martelotta (UFRJ) / Afranio Gonçalves Barbosa (UFRJ) / Mário
Martins Leitão (UFRJ) -Ordenação de advérbios intensificadores e qualitativos em -mente
em cartas de jornais do século XIX: bases para uma análise discrônica. Em Duarte /
Callou (Orgs. 2002: 167-176).
O trabalho analisa as tendências de ordenação dos advérbios indicados em cartas de
jornais e em anúncios do século XIX, comparando-os com ocorrências do século XVI.
Foram considerados apenas os advérbios que têm um verbo por escopo, dada a
maior possibilidade de colocações nesse ambiente. A hipótese que anima o trabalho é a de
Pagotto (1999), segundo a qual até o século XVIII a posição pré-verbal era disponível para
qualquer tipo de advérbio, situação que se altera do século XIX em diante, continuando aí
apenas as estruturas comparativas.
As seguintes posições foram consideradas:
P1 – antes do sujeito
P2 – entre o sujeito e o verbo
P3 – antes do verbo sem sujeito expressso
P4 – depois do verbo, sem outros complementos ou advérbios
P5 – entre o verbo e o objeto
P6 - depois do objeto, sem outros complementos ou advérbios
P7 - entre o objeto direto e o objeto indireto
P8 - entre o verbo e o advérbio, sem complementos
P9 – depois do advérbio
No português arcaico, como no atual, predomina a posição pós-verbal, e, 67% dos
casos. Os advérbios em –mente e os intensificadores predominaram em P3, disposição não
considerada por Pagotto:
(1) (1) [P2] ... o padre e madre direitamente falando
(2) (2) [P3] honra esta que muito apreciará quem tem a satisfação de
confessar-se
Os intensificadores apurados nas cartas do século XIX não mudaram muito o
quadro do português medieval, com duas “novidades”: (1) ausência de ocorrências em P6 e
P9, o que pode ser interpretado como um movimento de aproximação do advérbio em
relação ao verbo; (2) diminuição dos casos de P2 e aumento dos de P3, ratificando a
hipótese de que a posição entre o sujeito e o verbo é mais típica do português arcaico. Os
qualitativos em –mente acentuam essas tendências, como se vê em
(3) (3) V. Ex. Considerava vago o lugar que ele dignamente enchia no senado
(4) (4) ... sobre os eleitores nós cordialmente lhe agradecemos
Observou-se nos anúncios de jornais a tendência à posição pré-verbal P3,
predominando P4, o que favorece a hipótese de Pagotto para este século.
Em conclusão, comparando as duas fases do português constata-se que no século
XIX diminui a liberdade de colocação dos advérbios estudados, o que aponta para uma
sintaxe mais rígida.

2.2 - Mário Eduardo Martelotta (UFRJ) / Afranio Gonçalves Barbosa (UFRJ) / Mário
Martins Leitão (UFRJ) – Advérbios qualitativos e modalizadores em –mente: do português
arcaico ao português do século XIX. Texto apresentado ao V Seminário do PHPB (Ouro
Preto, MG).
Este trabalho analisa os advérbios qualitativos em -mente, observando, em seus
usos, três aspectos que são aparentemente distintos, mas, que um estudo mais atento revela
estarem bastante relacionados: as suas tendências de ordenação, a polissemia que os
caracteriza e o fenômeno da gramaticalização.
Esses advérbios parecem poder se colocar, no português arcaico, não apenas depois
do verbo, como é normal atualmente, mas também antes do verbo, aparecendo, inclusive,
entre o sujeito e o verbo. Tudo indica, portanto, que havia uma situação de variação no que
diz respeito à colocação desses advérbios no português arcaico, que, salvo recurso de
estilização, desapareceu na fase contemporânea.
Levando em conta a mudança por gramaticalização, podemos observar que, com o
desenvolvimento desse processo, novos usos surgem, especializando-se em posições
específicas. É o caso dos advérbios em -mente, que, perdendo valor de qualitativo e
assumindo valor modalizador, assumem tendências de colocação diferentes. 0Isso
demonstra a importância de se observar a polissemia dos advérbios nos diferentes
momentos evolutivos da língua estudados.
Nossa análise pretende verificar a ocorrência e a posição dos advérbios em -mente
em textos do português arcaico e do século XIX. Para tanto, utilizamos os corpora: Bíblia
Medieval Portuguesa, organizado por Silva Neto (1958), Livro das aves, de Rossi et alii
(1965), Livros dos conselhos de El-Rei D. Duarte, transcrito por Dias (1982) e O Orto do
Esposo, de Maller (1956) e os Registros médicos, de Bastos (1993), para o português
arcaico. Já os exemplos do século XIX são retirados dos corpora do Projeto Para a História
do Português Brasileiro (PHPB): cartas publicadas em jornais oitocentistas e de cartas
pessoais manuscritas. Os dados recolhidos das cartas pessoais são do Rio de Janeiro,
Paraná, Minas Gerais e Bahia, ao passo que os dados retirados de jornais, além de oriundos
desses mesmos lugares, contam, também, com material de São Paulo. A referência à
atualidade está baseada em uma pesquisa feita em Pinto (2002), com base em dados de
língua falada e escrita, recolhidos do corpus do Projeto Discurso e Gramática, do
Departamento de Lingüística e Filologia da UFRJ.
Com respeito aos advérbios em –mente, Pereira (1935) propõe que um processo
novo desenvolveu-se em português e nas outras línguas românicas para a formação de
advérbios qualitativos: aglutinar o substantivo feminino mente (do latim mentem = maneira,
intenção) aos adjetivos, que, com isso passam à forma feminina: justamente,
honradamente, etc.
Mas há ainda determinados aspectos do uso de alguns advérbios em -mente que são
interessantes para a análise da gramaticalização relacionada a esses elementos. É o que
propõem Traugott (1995) e Tarbor e Traugott (1998). Esses autores repensam a noção de
unidirecionalidade, com o objetivo de englobar alguns usos de marcadores discursivos que
não podem ser explicados pela teoria da gramaticalização, tal como apresentada nas
primeiras propostas do início da década de 1990. Nesse sentido, os marcadores podem ter
seus usos explicados pela trajetória de gramaticalização advérbio interno à cláusula >
advérbio sentencial > marcador discursivo. Essa trajetória caracteriza alguns advérbios
portugueses como de fato, com certeza e formações em -mente, como certamente,
realmente, verdadeiramente, seguramente, fatalmente, praticamente, obviamente, entre
outros.
No que diz respeito ao português arcaico, os dados demonstraram uma a forte
tendência dos qualitativos em -mente para ocorrer em posições pós-verbais. Entretanto, há
uma quantidade significativa desses elementos em posição pré-verbal, sobretudo entre o
sujeito e o verbo. Esses fatos apontam para uma abertura às posições pré-verbais, que não é
comum ao português atual. Notamos também uma tendência mais geral que esses advérbios
apresentam de ocorrerem próximos ao elemento que modificam, no caso, o verbo. Percebe-
se ainda que, quando o sujeito ocorre antes do verbo, há uma tendência maior de o advérbio
assumir posição pós-verbal. Isso pode ser visto como uma espécie de processo de equilíbrio
entre os elementos na oração. Quanto aos modalizadores, esperávamos, uma quantidade
grande de desses advérbios no início da oração. Mas constatou-se quase um equilíbrio com
as ocorrências no meio da oração.
No que diz respeito ao português do século XIX, percebemos a mesma tendência do
português arcaico para as posições pós-verbais: com as posições pré e pós verbais
apresentando percentagens muito parecidas e, do mesmo modo, uma quantidade
considerável de ocorrências entre o sujeito e o verbo. Esses fatos vão contra nossa hipótese
inicial de que o século XIX apresentaria bem menos casos de qualitativos em -mente em
posição pré-verbal, especialmente entre o sujeito e o verbo. Esperávamos encontrar mais
modalizadores no início e, em menor escala, no fim da oração, já que esses advérbios se
referem à oração como um todo. De fato a maioria das ocorrências se deu no início da
oração. Entretanto, além de não encontrarmos ocorrências no final da oração, detectamos
alguns casos no meio da oração. Embora, nesses casos, o advérbio se refira à oração como
um todo, ele parece enfatizar um elemento que ocorre no seu interior.

3. Gramaticalização de Preposições
Ataliba T. de Castilho / Mário Eduardo Viaro / Marcelo Módolo / Verena Kewitz / Nanci
Romero / Rafael Coelho / Tasso A.C. dos Santos – Gramaticalização das preposições ante,
até, de, entre / com / para. Comunicação apresentada ao V Seminário do PHPB (Ouro
Preto, 2002).
O trabalho acima tem por objetivo o estudo da gramaticalização das preposições no
corpus do PHPB, a partir das seguintes questões, adiante detalhadas: (1) Propriedades
lexicais das preposições: do Léxico para a Gramática; (2) Propriedades discursivas das
preposições: do Discurso para a Gramática; (3) Propriedades semânticas das preposições:
das categorias cognitivas para a Gramática; (4) Propriedades sintáticas das preposições: a
estrutura argumental e as adjunções.
1 – Propriedades lexicais das preposições: do Léxico para a Gramática
Para avaliar a trajetória das preposições do Léxico para a Gramática, iniciamos o trabalho
pelo estudo de sua etimologia. Caso um mesmo étimo tenha dado origem a diferentes
classes de palavras, todas as ocorrências destas serão estudadas, para se comparar os
diferentes graus de gramaticalização das preposições em relação a essas outras classes.
Tendo por pano de fundo essa decisão metodológica, poderemos no final da pesquisa
identificar as condições da “preposicionalidade”, entendendo melhor o estatuto categorial
dessa classe. Como hipótese inicial, as preposições foram agrupadas em pelo menos três
pontos em sua escala de gramaticalização: (i) as mais gramaticalizadas, isto é, as que se
comportam exclusivamente como preposições (como parece ser o caso de de, em, a, para,
com, por), (ii) as medianamente gramaticalizados (sem, sob, sobre, até, entre, contra, desde,
após) e, finalmente, (iii) as menos gramaticalizadas (ante, perante, durante, exceto,
salvante, salvo, conforme, trás, segundo). Essa espécie de “escala interna” vai dos itens
mais freqüentes e com maior amplitude sintática, para os itens menos freqüentes, de menor
amplitude sintática.
2 – Propriedades textuais das preposições: do Discurso para a Gramática
Para o estudo das propriedades textuais das preposições, foram formuladas as
seguintes perguntas: (1) que expressões preposicionadas topicalizam o enunciado, vale
dizer, que expressões fornecem o quadro de referências dentro do qual deve ser entendido o
enunciado que se segue ? é possível identificar os papéis dessas construções de tópico ? (2)
que expressões preposicionadas operam como conectores do enunciado ? (3) há competição
entre as preposições que desempenham essas funções textuais? Vejam-se ss seguintes
exemplos:
2.1 - Preposições que atuam nas construções de tópico (= CTs), identificando-se seu papel:
(1) CT modalizadora:
De certo / sem dúvida, logo havendo o uniforme fica sempre o mesmo vicio que se quer
evitar [SP CJ 19, 1]. [hiperpredicaçãoda sentença por modalização asseverativa].
(2) CT delimitadora:
(a) Para nós, a situação de Ruanda é igual à de Botsuana.[o conteúdo proposicional é
considerado verdadeiro dentro do quadro de referências criado pela CT].
(b) Com respeito à globalização, eu gostaria que o senhor falasse sobre o significado da
globalização no mundo moderno.
Foram consideradas como CTs as expressões preposicionadas que tomam por
escopo toda a sentença, e não apenas um de seus constituintes. As CTs se situam fora das
fronteiras sentenciais. Isto quer dizer que se distinguiu “topicalização” (= [i] mecanismo
discursivo de seleção de um tópico textual; [ii] deslocamento de constituinte para a
esquerda da sentença) de “construção de tópico” (= estruturação de um constituinte extra-
sentencial). Adjuntos se movem na sentença, mas as CTs já são produzidas em sua
periferia. Tanto assim é que, adotado o expediente de movê-las para dentro da sentença,
altera-se o significado proposicional, como se pode constatar em
(2’) Eu gostaria que o senhor falasse com respeito sobre o significado da globalização,
isto é,
(2’’) Eu gostaria que o senhor colocasse respeitosamente o significado da globalização,
que não parafraseia (2b). Neste caso, o SP está em adjunção ao SV, funcionando como um
adjunto adverbial de qualidade.
2.2 - Expressões preposicionadas que funcionam como conectivos textuais:
(3) As chuvas chegaram com uma fúria incontrolável, as lavouras foram destruídas,perdeu-
se a criação. Com isso / desse modo os prejuízos se avolumaram, e a miséria se abateu
sobre a região.
3 – Propriedades semânticas das preposições: das categorias cognitivas para a Gramática
A literatura sobre as preposições tematiza continuadamente a difícil questão de seu
sentido. Teriam elas um sentido de base, de que decorreriam sentidos derivados ? Ou
seriam completamente vazias de sentido, e a semântica das expressões preposicionadas
decorreria dos termos que elas relacionam ?
Nesta pesquisa, hipotetizou-se que as preposições têm um sentido prototípico de
base, que se desdobra por metáfora em sentidos derivados.
Os sentidos prototípicos das preposições correspondem às categorias semântico-
cognitivas de POSIÇÃO NO ESPAÇO, DESLOCAMENTO NO ESPAÇO, DISTÂNCIA
NO ESPAÇO e MOVIMENTO. A categoria de ESPAÇO poderá ser descrita em termos
dos eixos horizontal, vertical e transversal, como se pode ver pelo quadro abaixo:
CATEGORIAS SEMÂNTICO-COGNITIVAS DE BASE
Eixo Origem
horizon-tal Meta
Eixo vertical Inferior
POSIÇÃO NO ESPAÇO Superior
Eixo Anterior
trans-versal Posterior
Conti-nente / Dentro
conteúdo For a
DESLOCAMENTO NO ESPAÇO + Movimento
- Movimento
DISTÂNCIA NO ESPAÇO Proximal
Distal
CATEGORIAS SEMÂNTICO-COGNITIVAS Imperfectivo
DERIVADAS Aspecto Perfectivo
Iterativo
Passado
Tempo Presente
Futuro
Causa
Modo
Posse
Qualida- Matéria
de Assunto
Instrumento
Condição
Finalida-de
Meio
Beneficiário

Seria entretanto ingênuo supor que as preposições espelham perfeitamente os eixos


espaciais indicados nesse quadro. Como se reconhece amplamente na literatura cognitivista,
“entre a linguagem e o mundo físico ou objetivo há um nível intermediário que nos
chamamos ‘cognição’”: Svorou (1993: 2). A criatividade humana intervém aí de diferentes
modos, promovendo alterações nos sentidos prototípicos, de que derivam os sentidos de
Aspecto, Tempo e Qualidade, recolhidos na parte inferior do quadro acima.
Num trabalho anterior, Viaro (1994) havia proposto várias categorias para dar conta
do desenvolvimento semântico das preposições latinas em sua mudança para o português e
o romeno. Ele opera com as seguintes categorias: (1) Afastamento (ab, ex, de, sine, se(d),
*an, dis-); (2) Aproximação (ad, usque, tenus, paene, illac); (3) Meio (per); (4)
Circularidade (circum, circa, ambi-); (5) Verticalidade (de, *an-, au-, *ni-, infra, sub,
super, sursum, deorsum, subter, subtus, supra, per); (6) Seqüência (ob, prae, por-, pri-,
pro, ante, contra, erga, re-, pos, secus); (7) Interioridade (ex, in, inter, indu-, intro-, intra,
foras, foris, penes); (8) Proximidade (apud, iuxta, cum, ad, ab, prope, cis, citra, uls, ultra,
trans, longo).
Os termos “afastamento”, “aproximação”, “meio” e “seqüência” de Viaro (1994)
correspondem ao percurso horizontal, captado pelo eixo respectivo; “verticalidade”, ao eixo
vertical; “interioridade”, à oposição recipiente / conteúdo. No quadro acima, ficou de fora o
parâmetro de “circularidade”, gramaticalizado em português por meio das preposições
complexas.
A pergunta a formular aqui é: haveria uma mudança diacrônica nessas
representações ? Para responder a essa pergunta, teríamos de investigar a estabilidade das
preposições em sua representação das categorias cognitivas:
(4.1) Que categorias semântico-cognitivas as preposições exemplificam ? Que posição ou
posições elas ocupam nas células do quadro matricial proposto ? Houve mudança nessa
distribuição ?
(4.2) Os usos apurados são de natureza prototípica, mais concretos, ou de natureza
metafórica, mais abstratos ?
(4.3) Uns e outros se distribuem por igual entre argumentos e adjuntos preposicionados ?
Os dados apurados no conjunto das pesquisas serão reunidos em quadro próprio,
permitindo que se compare a atuação das preposições estudadas.
4 - Propriedades sintáticas das preposições: argumentos e adjuntos preposicionados
Foram considerados os seguintes quesitos: (1) Funções sentenciais das expressões
preposicionadas, distinguindo-se argumentos de adjuntos adverbiais. Os adjuntos
adnominais não foram considerados nesta fase da pesquisa. (2) Posição do constituinte
preposicionado. (3) Elipse de preposições. (4) Troca lexical de preposições. (5) Grau zero,
ou desaparecimento de preposições. (6) Conjunções sentenciais formadas por preposições.
4.1 – Funções sentenciais: argumentos e adjuntos preposicionados, posição desses
constituintes na sentença, e estudo de seu movimento
Para o estudo dos lugares de figuração dos constituintes preposicionados, foi
adotada com pequenas alterações a seguinte representação da sentença proposta por Tarallo
/ Kato (1992: 321):
[…Tóp (...Suj...V...OD...O1...OBL) Antitóp…]
Na formulação acima, substituiu-se da representação original V+FLEX por V, Co
por OD, Ci por OI, tendo-se incluído OBL para “complemento oblíquo”. Caso de trate de
perífrase, V se desdobrará em V1 e V2. As reticências assinalam os espaços passíveis de
preenchimento por adjuntos adverbiais.
Para o estudo da movimentação desses constituintes, partiu-se da hipótese de que
adjuntos adverbiais preposicionados movem-me mais na sentença do que os argumentos. A
pesquisa procurará correlacionar os tipos de adjuntos adverbiais e sua posição preferida,
identificando quais os que se movimentam mais, e se é verdadeiro que os argumentos
preposicionados têm perfil diferente. Braga e Botelho (1981) mostraram que os Adjuntos
Adverbiais de Tempo [e de Aspecto] movimentam-se para a esquerda mais que os de
Lugar, Modo, Quantidade e Companhia, numa proporção de 43,5% deslocados para os
temporais, e de 56,5% não deslocados para os demais:
(4) Naquele dia, eles me levaram... [SP / Tempo]
(5) ∅ Sábado e domingo eu não gosto de passar sem dinheiro. [SP / Tempo, com
apagamento da preposição a]
(6) Às vezes, ela fica em casa. [SP / Aspecto iterativo]
(7) Sempre o carnaval dá mais preocupação. [Sadv / Aspecto imperfectivo]
4.2 - Elipse de preposições
Expressões preposicionadas movidas para a esquerda elidem habitualmente a
preposição. Rocha (1996) estudou os adjuntos sem cabeça no PB, concluindo que os papéis
temáticos temporal, locativo e freqüentativo favorecem a elisão das preposições. Os
seguintes nomes encabeçam os adjuntos sem cabeça: unidades do calendário (dia, mês, ano,
minuto, hora), intervalos particulares do calendário (abril, segunda, manhã, noite, dia,
sábado), nomes comuns (tempo,vez, ocasião, férias, época), nomes comuns ou próprios
indicativos de lugar. Em outro trabalho, tratando de “adjuntos que ocorrem à margem
esquerda da sentença sem serem regidos por um núcleo visível”, Rocha (2001: 41) dá o
seguinte exemplo:
∅ O Norte, principalmente no Amazonas e no Pará, a influência indígena é muito
(8)∅
grande.
O exemplo mostra a elipse da preposição em em O Norte e sua retenção quando o
constituinte vem focalizado: principalmente no Amazonas e no Pará..
4.3 – Troca lexical de preposições
Alguns autores admitem que as seguintes preposições estão em processo de
substituição no PB: a por em / para, em por ni, de por desde, ante por diante de e após por
depois de. Como se vê, a troca lexical em alguns desses casos se dá por regramaticalização,
fato já documentado no latim vulgar e no português arcaico (de que são exemplos sempre
lembrados de > des > desde, migo > comigo, entre outros), ou por substituição por
locuções prepositivas, como em ante / diante de. O item que sai e o item que o substitui
entram inicialmente em variação, assumindo uma das variantes um valor mais geral, e a
outra um valor mais específico, até a consumação da troca lexical.
Alguns casos terão de ser examinados mais de perto. Por exemplo, há de fato
substituição de a por para ? Borba (1971: 133) mostra que com os verbos ir, vir, levar,
chegar, conduzir, voltar, mandar, descer, etc., a preposição a indica a direção desse
movimento, como em ir ao restaurante, voltar à fazenda, ao passo que a preposição em
indica que o falante não está interessado em representar a direção em si, mas apenas sua
inclusão no ponto de chegada, como em ir no restaurante, voltar na fazenda. Nova
diferença entre essas preposições, ainda que em outro contexto sintático, vem apontada à
pág. 142: na indicação de datas, a “tem valor pontual”, como em “às oito horas, às nove
horas”, ao passo que em indica a duração, empregando-se com períodos mais longos, como
em “em agosto, em 1970”. Borba está repercutindo o ensinamento de Varrão, para quem
essas preposições não são sinônimas, visto que “in forum ire” significa “entrar no forum”,
ao passo que “ad forum ire” significa “ir a um lugar próximo ao forum”. Pontes (1992:
25) dá exemplos em que a é mais geral e em é mais específico, quando introduzem
complementos de verbo de movimento; em é mais geral que ni; de é mais geral que desde.
Mollica (1996) sustenta que a variação a / para e em depende de características
morfossintáticas do N encaixado no SP, explicando-se ainda por fatores discursivo-textuais.
Morais (1999/2002) tratou do emprego da preposição a na introdução de SPs dativos
topicalizados, com papel temático /origem/, hoje substituída por de como em “a Antonio
José de Babo Broxado (…) fugiu (…) um negro crioulo de idade de 50 annos”. Como
ambas as preposições trazem associado o papel /origem/, a autora explica a mudança como
uma competição entre as formas, vencida por de quando a perdeu esse papel. Nesta sessão,
Marilza de Oliveira retomará esse assunto, de outro ângulo.
4.4 – Grau zero da gramaticalização das preposições
Quando uma preposição A é trocada por uma preposição B, é de supor-se que A
esteja morrendo. O grau zero da gramaticalização das preposições sobreviria após uma
troca lexical.
Hipóteses gerativistas sobre a mudança do PB previram que alterações no quadro
dos pronomes acarretariam perdas no sistema das preposições. Mollica (no prelo) notou que
no português do Rio de Janeiro, entre os anos 80 e 90, prevaleceram as relativas cortadoras,
o que confirma essa hipótese. Berlinck (1997, 2000 a, b, 2001) pesquisou os complementos
preposicionados no português paulista do séc. XIX. Ela constatou uma diminuição
progressiva da freqüência de a, em favor de para, confirmando-se assim o prognóstico de
Pontes (1992: 20-31). Comparando o PB moderno com o PB do séc. XIX, tal como
documentado em textos de Martins Pena, Simões Lopes Neto e em anúncios de jornais, ela
encontrou os seguintes valores, que falam por si:

Época / preposição A PARA EM


PB séc. XIX 72% 20% 8%
PB contemporâneo 4% 74% 22%

O desaparecimento progressivo de a deve explicar as dificuldades atuais em operar


com a questão da crase.
4.5 – Conjunções sentenciais formadas por preposições
Os dados levantados até aqui mostram que as preposições, em geral acompanhadas
por outras expressões, podem funcionar como conjunções sentenciais:
(9) Conjunção coordenativa: O caipira é vadio. Vive em sua casa, mal barreada, e ali
vivem, ou antes,morrem a mulher e filhos, ao desabrigo [SP CJ 19 2]
(10) Conjunção subordinativa: Entretanto, quem, antes de findar os dous annos, quizer
pagar o valor da letra, podê-lo-á faze mediante um abatimento (…) [PR CJ 19 2[
(11) Conjunção correlativa: Hoje gastamos mais do que vendemos, nossa venda é menor
que a despesa (…). [SP CJ 19 2].
Os primeiros resultados da pesquisa estão disponibilizados na página
www.fflch.usp.br/dlcv/lport
4. Gramaticalização de verbos
Verena Kewitz – Gramaticalização de ser e estar no português medieval e no século XIX.
São Paulo: FFLCH/USP, dissertação de mestrado, 2002.
A revisão da literatura pertinente mostrou que o tratamento dado aos verbos ser e
estar tem contemplado o estudo de um verbo em relação ao outro, procurando delimitar os
contextos lingüísticos em que cada um desses verbos atua no português atual, ou
procurando apontar a restrição do uso de ser e ampliação de estar em estruturas locativas e
atributivas. Nenhum desses estudos visava a observar o percurso de cada uma dessas
formas independentemente.
O trabalho buscou justamente preencher esta lacuna. Tomando o recorte
funcionalista, observou-se o processo de gramaticalização desses verbos no período
medieval (séculos XIV e XV) e no século XIX. Para tanto, foram propostos grupos de
fatores semânticos e sintáticos.
Foram observados dois processos de gramaticalização: o primeiro diz respeito à
recategorização de ser e estar, de verbos plenos a verbos funcionais. Com base em fatores
como tipo de sujeito e presença ou ausência de termo adjacente, foi possível observar que
esses verbos, definidos como “verbos de postura”, passaram a ter uma acepção mais geral
de localização. Esse processo ocorreu no período medieval.
O segundo processo de gramaticalização observado está correlacionado com o
conceito de metaforização (cf. Heine, Claudi & Hünnemeyer 1991, Lakoff & Johnson
1980). A partir de combinações de ser e estar + termo adjacente, verificou-se que esses
verbos, cujo significado primário indicava ESPAÇO, passaram a ser usados para expressar
outros domínios conceituais, como por exemplo, MODO, POSSE, ASPECTO etc. Esse
processo ocorreu entre os dois períodos analisados.
Nos dois processos de gramaticalização identificados, os fatores semânticos
analisados se mostraram relevantes. Além disso, verificou-se uma hierarquia em relação
aos traços semânticos do sujeito: o traço animacidade precede o traço concretude.
Considerando que essa hierarquia ocorreu na recategorização e na metaforização de ser e
estar, propus um esquema que descreve a atuação desses fatores.
Ao longo de todo o trabalho, foi possível verificar que ser apresenta-se num estágio
de gramaticalização mais adiantado que estar. Praticamente todos os fatores lingüísticos
selecionados apontavam que os dois verbos caminham paralelamente, no que concerne ao
processo de gramaticalização, no entanto, ser está sempre mais à frente nesse processo. Em
decorrência disso, observou-se que, em alguns momentos, ser e estar acham-se em
distribuição complementar. Em outras palavras, estar era usado em contextos lingüísticos
que já haviam sido exemplificados por ser. Esses aspectos podem auxiliar na interpretação
da transição de ser para estar, como aponta a literatura, e foram devidamente ilustrados,
ainda que não tenha sido este o objetivo central desta pesquisa.

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CAP. II - MUDANÇA GRAMATICAL NO PORTUGUÊS


BRASILEIRO: SÉCULO XIX
(Versão preliminar)
Ilza Ribeiro / UFBA
ilzaribeiro@uol.com.br

Marilza de Oliveira /USP


marilza@usp.br

Por ocasião do II Seminário do PHPB, Oliveira (2000) apresentou um programa de


estudos para a análise lingüística do corpus do PHPB baseado na hipótese de que o léxico
funcional determina a variação lingüística e que o número limitado das categorias
funcionais inibe a proliferação dos Parâmetros e o caráter aleatório de seu estabelecimento.
Assumiu-se que as categorias funcionais integram três grandes sistemas: o sistema que dá
conta dos elementos na periferia esquerda da oração (C), o sistema constituído de
elementos flexionais (I) e o sistema não-oracional marcado pelo determinante (D). A
articulação entre as categorias lexicais e as categorias funcionais dá conta de diferentes
relações gramaticais.
A grande quantidade de estudos envolvendo o sistema I no PB, a partir dos
trabalhos pioneiros de Mary Kato e Fernando Tarallo na Universidade Estadual de
Campinas, levou o grupo do PHPB a optar pelo estudo inicial do sistema I, para confirmar
ou não as mudanças observadas nos trabalhos diacrônicos orientados por esses dois
professores. Assim, em reunião de 26 de novembro de 1999, fixou-se o seguinte conjunto
de temas para a análise da mudança gramatical (Castilho 1999): (i) Descrição de fenômenos
sintáticos, negação em S; (ii) ordem dos constituintes sentenciais; (iii) realização plena/nula
do sujeito e do objeto; (iv) verbos pronominais e modais; (v) preposição em complementos
verbais; (vi) auxiliares; (vii) flexão nominal e verbal. Com essa análise lingüística,
pretendia-se responder especificamente às seguintes questões:
a) houve variação/mudança?
b) Que lugar têm os resultados encontrados na história social do PB?
c) Que variações/mudanças podem ser explicadas por fatores sócio-históricos
(encaixamento social, implementação e avaliação)?
A circulação do trabalho de Ribeiro (2001), apresentado no primeiro Seminário, e a
apresentação do trabalho de Moraes de Castilho (2001) no III Seminário colocaram novos
questionamentos no que concerne à diacronia do PB. O trabalho de Ribeiro, cujo título é
bastante sugestivo, A mudança sintática do PB é mudança em relação a que gramática?,
salienta que as comparações entre o PB e o PE têm sido pautadas no PE moderno, o que vai
na contramão da história da colonização do Brasil, que recebeu portugueses em diferentes
períodos. Segundo a autora, a base do PB atual se acha em duas gramáticas portuguesas,
que, grosso modo, correspondem aos séculos XVI-XVIII e XIX-XX.
Moraes de Castilho (op.cit.) vincula o PB ao português quatrocentista. De acordo
com a autora, os textos quatrocentistas exibem muitas variantes lingüísticas e a diferença
entre o PE e o PB pode estar na opção diferenciada por uma dessas variantes. A autora
propõe, então, um extenso programa de estudo do português quatrocentista para elucidar a
formação do PB.
Com esses dois trabalhos, as perguntas específicas da mudança gramatical são
ampliadas:
d) quais são as estruturas que o PB desenvolveu a partir do português medieval e quais as
mudanças que se pode creditar ao século XIX, período de relevo para o desenvolvimento
do PB (Tarallo, 1993)?
e) a estrutura gramatical do PB moderno está toda modelada no século XIX ou há
desenvolvimentos no século XX?
f) A mudança está implementada na escrita? A escola recupera os fósseis
lingüísticos?
Essas perguntas, disseminadas nos trabalhos elaborados até o presente momento,
têm norteado os estudos sintáticos dos pesquisadores que integram o PHPB. Neste artigo,
fazemos uma releitura dos textos apresentados nos vários seminários e buscamos recuperar
as idéias centrais dos trabalhos, cuja exposição se faz a seguir, para traçar o primeiro
quadro geral dos resultados a que se tem chegado. Como se verá, os trabalhos, que
seguiram a Agenda proposta no II Seminário, trazem importantes revelações sobre o
sistema I (flexão) do PB. O texto está organizado da seguinte maneira: na primeira seção,
fazemos uma breve retrospectiva dos estudos sintáticos do PB, com base no quadro da
Teoria de Princípios e Parâmetros; na segunda seção, trataremos da realização dos
argumentos; na terceira seção, apresentamos os resultados da análise da preposição em
complementos verbais; na quarta seção, agrupamos os resultados da análise da ordem dos
constituintes sentenciais em sentenças declarativas; na seção cinco, são abordadas as
estruturas negativas e na seção seis dá-se atenção aos verbos auxiliares. Por fim, fazemos
algumas considerações finais.

I – A mudança lingüística no PB: breve retrospectiva

1. Parâmetro pro-drop
As idéias iniciais que deram origem ao que hoje se conhece como Parâmetro do
Sujeito Nulo surgiram de estudos comparativos entre o inglês e línguas românicas como o
italiano e o francês. (Chomsky 1981, Rizzi 1982, Jaeggli & Safir 1989): em inglês, a
realização do sujeito pronominal é obrigatória, mesmo quando não-referencial ou expletivo
(it, there), caracterizando-se como uma língua [-pro-drop]; em italiano e em espanhol, ao
contrário, o sujeito pronominal só deve ser realizado sob certas condições sintático-
discursivas, em geral em contextos em que o pronome recebe um acento enfático ou
contrastivo, sendo, portanto, línguas [+pro-drop].
O Português europeu (PE) e o português brasileiro (PB) se distinguem em relação
aos valores atribuídos a este parâmetro, marcado positivamente para o PE e negativamente
para o PB. Essa diferença motivou o estudo do preenchimento do sujeito no PB por
pesquisadores com diferentes abordagens teóricas, quer numa abordagem sincrônica, quer
numa abordagem diacrônica. Entre eles, destacamos aqui só alguns, por a natureza do nosso
texto não permitir uma apresentação mais ampla da questão (sobre outros estudos, cf.
referências). Tarallo (1983/1985) apresenta evidências diacrônicas para a tendência,
observada no PB, ao preenchimento pronominal da posição de sujeito, a partir dos inícios
do século XIX; Duarte (1993/1995) também apresenta evidências de mudança em tempo
real e em tempo aparente, em direção à marcação negativa para o parâmetro pro-drop.
Ambos relacionam o fenômeno à redução da morfologia verbal no PB, devida aos usos do
pronome você(s) para segunda pessoa (em substituição a tu14[14] e vós) e a gente para
primeira pessoa do plural.
Kato (1993/1996/1999) procura explicar formalmente a perda da propriedade pro-
drop do PB como resultante de uma análise da morfologia verbal como [-pronominal], o
que condiciona a realização obrigatória do sujeito pronominal (pronome fraco). Para Galves

14[14][14][14][14]
Ainda em uso em algumas regiões, com formas verbais variando entre morfologia canônica de
2a. pessoa e morfologia de 3a. pessoa.
(1984/1991/1993), a perda da propriedade pro-drop também está relacionada com a
natureza da morfologia verbal, embora com uma proposta distinta da de Kato: a flexão
verbal contém pessoa apenas como um traço puramente sintático, não mais conseguindo
identificar a pessoa do sujeito nulo. Negrão (1999), Modesto (2000), entre outros,
consideram que o enfraquecimento da morfologia verbal leva a uma reanálise categorial do
sujeito nulo no PB, como uma variável A'-ligada.

2. Objeto nulo
O estudo das propriedades paramétricas do objeto nulo tem sido feito por Rizzi
(1986), Farrell (1987/1990) e Kato (1987,1991,1993), citando só alguns. O estudo inicial
deste fenômeno é o de Huang (1984), que analisa o objeto nulo como uma variável ligada a
um tópico discursivo nulo. O segundo estudo sobre este fenômeno, o de Raposo (1986),
também caracteriza o objeto nulo como uma variável, pois o objeto nulo sofre restrições em
ilhas sintáticas no PB. Para o autor, o objeto nulo, uma variável, deriva do movimento de
um OP vazio para a posição COMP; este OP nulo estaria vinculado ao tópico nulo do
discurso. Com isto, Raposo consegue explicar as restrições de objeto nulo em ilhas no PE.
As possibilidades de realização de objeto nulo, bem como o estudo das suas
características estruturais, também têm estado no âmbito dos estudos sobre a sintaxe do PB,
sincrônica e diacronicamente. Com base nos estudos de Huang (1984/1989), Galves
(1987/1989/1991, entre outros, aponta as diferenças entre objeto nulo no PB e no chinês.
No que concerne à comparação entre o objeto nulo no PE e no PB, Raposo (1986) e Galves
(cf. referências) sugerem que no PE o objeto observa as restrições de ilhas e que, no PB, as
possibilidades de objeto nulo são mais amplas, podendo ocorrer mesmo em ilhas. Cyrino
(1990/1992/1993/1997) traça um percurso diacrônico desta mudança paramétrica, no que
diz respeito ao PB.
Outros estudos surgiram mostrando que o fenômeno conhecido como objeto nulo
não é homogêneo, nem sempre se caracterizando como uma variável, como muitos dos
objetos nulos observados em PB, em quíchua e no italiano. Cole (1987), por exemplo,
mostra que o objeto nulo do quíchua imbabura se comporta como um pronome e não como
uma variável. Farrell (1987) compara diferenças entre PB e chinês e analisa o objeto nulo
do PB como um pronome. As propostas de Galves (1987, 1989) e Kato (1991, 1993)
também caracterizam assim o objeto nulo do PB como categoria pronominal.
Em artigo de 1991, Huang reformula sua análise, caracterizando o objeto nulo do
chinês como um epíteto nulo. Kato (1991) propõe que o objeto nulo dêitico seja analisado
como um nome nulo. Outros casos de "objeto nulo" são analisados como resultantes de
elipse de VP, aceita por todos os lingüistas citados acima, como possibilidades de
manifestação superficial de objeto nulo. Assim, vê-se que o fenômeno é complexo e pode
resultar de estruturas que podem ser confundidas com o chamado objeto nulo. Há uma
variação entre as línguas no que diz respeito a este fenômeno, apresentando ocorrências
bem restritas em umas, e mais amplas em outras. As diferenças entre PE e PB são
analisadas como definição de diferentes valores paramétricos.

3. Ordem VS
A possibilidade de inversão entre sujeito-verbo, em sentenças declarativas simples,
tem sido associada à possibilidade de sujeito nulo, como em (Chomsky 1981 e Rizzi 1982).
Assim, desde que a inversão livre de sujeito é considerada uma propriedade de línguas de
sujeito nulo, estudos têm observado a crescente fixação da ordem SVO no PB,
correlacionada com a perda da propriedade pro-drop (Torres Morais 1995, Lopes Rossi
1996, Berlinck 1995, Cyrino, Duarte & Kato 2000, e Kato 2000). Nascimento (1984) e
Kato & Tarallo (1988) e Kato (2000), entre outros, mostram que a ordem VS no PB
contemporâneo é restrita a ambientes de monoargumentos, ocorrendo sobretudo em
construções apresentativas. A hipótese de Kato (2000, cf. também outros textos da autora) é
que os afixos de concordância do PB não são pronominais, não funcionando como
argumento do verbo. Desse modo, o pronome fraco deve ocupar a posição de sujeito
(Spec/TP). A ordem VS ainda é possível em construções apresentativas (inacusativas e
existenciais) por o PB ainda manter um afixo -0 de concordância com valor pronominal,
que funciona como um tipo de expletivo neutro (tipo it do inglês / il do francês).

No âmbito do projeto PHPB, tem-se procurado fazer a descrição desses tópicos


tomando como norte as diferentes hipóteses sobre a organização da sintaxe do PB aqui
delineadas. A seguir, apresentamos os resultados a que se tem chegado com a análise do
corpus do século XIX, previsto na Agenda do PHPB.

II - A realização lexical dos argumentos

A. Questões relacionadas com a realização do sujeito

Os estudos sobre as questões relacionadas com as possibilidades de realização do


sujeito pronominal, lexicalmente realizado ou foneticamente nulo, permitiram uma
caracterização ampla deste fenômeno no PB em relação não só a sujeitos de referência
definida/determinada, como também a sujeitos com referência indeterminada, genérica,
além de sujeitos não referenciais. Diferentes estudos apresentados pelo PHPB abordam
estes tópicos. A seguir, fazemos algumas considerações sobre os resultados dos trabalhos e
sobre as interpretações dadas pelos pesquisadores do projeto, com vistas a fazer um balanço
dos estudos sintáticos realizados no âmbito do PHPB. Iniciamos com o sujeito referencial e
o sujeito arbitrário.

1. O sujeito referencial

A terceira pessoa
Partindo da constatação de que a 3a. pessoa resiste mais ao preenchimento do sujeito
(Duarte 1995, Oliveira 1996), pois a identificação do sujeito nulo pode ser realizada pela
coindexação com um antecedente (Negrão & Muller 1994), Oliveira (1999) analisou a
realização pronominal de 3a. pessoa nas estruturas de subordinada com correferente. A
autora observou que nesses contextos o sujeito podia ser realizado pronominalmente,
inclusive nos casos em que entre o sujeito da matriz e o da encaixada houvesse a
interveniência de um SN, contrariando a hipótese de Calabrese (1985).
A autora observou no corpus recorrente separação do sujeito, por meio de vírgulas,
o que a levou a hipotetizar que essa marca pode ser um indício da marcação de fronteira
entre a posição do sujeito e do tópico (SN [__VX]), uma evidência de que a posição de
sujeito estava se tornando vaga para o preenchimento do sujeito, o que teria permitido o
aparecimento da estrutura de duplo sujeito no PB (Duarte 1995).
Como o trabalho se restringe ao documento anúncios, a presença da vírgula
separando o sujeito do verbo pode ser uma estratégia de focalizar o elemento anunciado,
sem com isso estabelecer uma marcação da fronteira. A análise de outros documentos para
a averiguação dessa hipótese ainda não foi realizada, mas merece investigação, uma vez
que o sujeito duplo está sendo implementado no PB e tem importantes conseqüências na
aprendizagem da realização pronominal dos argumentos (Cordeiro, em andamento).

A segunda pessoa
No que concerne à segunda pessoa, Oliveira (2001a) observou nas cartas do século
XIX o uso das formas verbais de 2a. pessoa do singular para a 2a. pessoa do plural e vice-
versa. A presença das mesmas alterações na Demanda do Santo Graal levou a autora a
analisar as formas verbais da 2a. pessoa do plural, pois, de acordo com Mattos e Silva
(1994), essas formas verbais sofreram a queda do /d/ intervocálico.
Estudando a queda do /d/ intervocálico nas formas verbais no Português Medieval,
Oliveira (2001, 2001a) observou que a dissolução do hiato era feita com a semivocalização
e com a crase. A autora interpreta essas duas resoluções como a configuração de duas
gramáticas distintas: a que optou pela crase criou um paradigma com neutralização das
formas do singular e do plural, da qual deriva o PB; a que optou pela semivocalização
reconstituiu o paradigma de seis formas distintivas, derivando o PE.
A autora observa ainda que a queda do /d/ intervocálico coincide com o
aparecimento das formas de tratamento e correlaciona o preenchimento do sujeito do PB a
esses dois fenômenos lingüísticos, i.e. o enfraquecimento da morfologia verbal, decorrente
de um processo fonológico, e o aparecimento de formas pronominais de tratamento em
substituição ao pronome vós, cuja forma verbal apresentava-se morfologicamente
enfraquecida. O longo período de tempo entre a manifestação do enfraquecimento da
morfologia verbal, a partir da queda do /d/ intervocálico ocorrida no século XV, e o
preenchimento do sujeito no PB, que ocorre no século XX (Duarte 1993), se explica pelo
longo processo de gramaticalização das formas nominais de tratamento, assunto não
desenvolvido pela autora nesse trabalho.
Oliveira e Ramos (2002) recuperam a hipótese da correlação entre o
enfraquecimento da morfologia verbal e o surgimento das formas nominais de tratamento.
Na esteira de Oliveira (2001, 2001a), as autoras sugerem que o pronome você não foi o
gatilho do preenchimento do sujeito (Duarte 1993), ainda que a gramaticalização desse
pronome tenha sido uma escolha para a efetivação do preenchimento do sujeito. Nesse
trabalho as autoras discutem a avaliação das formas pronominais tu e você no Brasil e em
Portugal para explicar o avanço da forma você no PB. O trabalho é uma tentativa de dar
uma explicação, dentro da história social, à escolha do pronome você para a efetivação do
preenchimento do sujeito no PB. As autoras sugerem que a avaliação negativa de você em
Portugal se explica pela abertura da vogal nesse pronome, remetendo-o ao vós, e pela
concordância desse na 3a. pessoa do singular. O pronome você no PB, cuja vogal é fechada,
não remetendo, portanto, à segunda pessoa, pode estabelecer a concordância verbal com a
3a. pessoa. Essa proposta deve ser melhor investigada do ponto de vista diacrônico.
2. O sujeito arbitrário

2.1. Formas de sujeito arbitrário em sentenças finitas


Cavalcante (2001) analisa o sujeito arbitrário em uma gramática do século XIX e
em uma gramática do século XX e observa que a primeira cita três tipos de sujeito
arbitrário, a saber: a 3a. pessoa do plural, o uso do pronome se e a expressão a gente. A
gramática do século XX prescreve apenas o uso dos dois primeiros tipos. O trabalho parte
da observação de Duarte (1995) de que na fala espontânea do PB o sujeito arbitrário é
majoritariamente realizado por formas pronominais como você, a gente, eles e o pronome
se nas estruturas com verbos na 3a. pessoa do singular é de uso variável.
Cavalcante (op.cit.) retoma os resultados de trabalhos sincrônicos sobre o sujeito
arbitrário e observa que no PB atual o sujeito arbitrário pode ser realizado por a gente,
você, eles e nós. O uso de você é mais freqüente na variante culta e o uso de a gente
compete com nós na variante popular. O pronome eles tem baixo índice de freqüência na
amostra analisada. Esses tipos de sujeito arbitrário aparecem realizados lexicalmente,
independentemente do nível de escolaridade do falante.
Analisando dados provenientes da imprensa carioca dos séculos XIX e XX,
Cavalcante (2002) observou que o uso de nós e de a gente como sujeito arbitrário é atestado
desde o primeiro quartel do século XIX (1848-1869) e que o uso de você é atestado apenas
um século depois (1964-1968).
O que podemos observar nos resultados desses trabalhos é que de todas as formas
de sujeito arbitrário, o pronome eles é o que apresenta mais baixo índice percentual de
preenchimento, seguindo a mesma trajetória do sujeito referencial, ou seja, a 3a. pessoa é a
que mais resiste ao preenchimento do sujeito. Se de um lado, pode-se aventar a hipótese de
que a realização nula da 3a. pessoa é responsável pelo menor uso do pronome eles como
sujeito arbitrário, de outro, deve-se levar em conta uma reorganização do sistema
pronominal com interpretação arbitrária em torno das pessoas do discurso (você, a
gente/nós), que efetivamente apresentam maior índice percentual de preenchimento nos
casos de sujeito referencial.

2.2. A gramaticalização de a gente como sujeito arbitrário


Lopes (2001) estuda a gramaticalização do item a gente, em tempo real de longa
duração, partindo do português medieval. Analisando os traços de número, gênero e pessoa,
a autora observa perdas e ganhos no processo de gramaticalização de a gente. O traço
formal de gênero [+fem] é eliminado e o traço formal de número passa a ter valor default,
designando um todo abstrato, indeterminado e genérico. Ganha a subespecificação do traço
semântico de gênero e de pessoa, incluindo a pessoa que fala, e mantém a interpretação
semântica de número [+PL].
A autora propõe três fases no processo de gramaticalização do item a gente: a) na
primeira fase, observa-se a alternância no nome gente/gentes; b) na segunda fase, o número
deixa de ser marcado formalmente no nome gente/*gentes; c) na terceira e última fase, o
nome é recategorizado como pronome, pois observa-se a inclusão da pessoa que fala.
Cavalcante (2002) mostra que a transitoriedade do processo de gramaticalização de
a gente é marcada pela perda do traço formal de número (*gentes), o que ocorre no século
XVI (74%), pela concordância desse item com adjetivos no feminino, referindo-se a
personagens masculinos e pela ambigüidade interpretativa, que começa a se manifestar de
forma relevante no século XVI, período a partir do qual P6 começa ceder espaço para a
freqüência de P3. De fato, entre os séculos XVI e primeira metade do XIX, há casos
esporádicos de uso de a gente com leitura ambígua, nome (pessoas) ou pronome (“nós”).
As primeiras ocorrências desse item como pronome são atestadas na segunda metade do
século XIX.
A autora conclui que a gramaticalização de a gente é uma mudança encaixada, pois
inicia-se com as reestruturações das formas nominais e pronominais de tratamento. A
mudança efetiva no PB ocorre no século XX, período em que a gente pronominal alcança
.84 de peso relativo e, acrescentamos, a forma você também passa a ser usada como sujeito
arbitrário, o que nos leva a assumir a reorganização do sistema pronominal de leitura
arbitrária na órbita das pessoas do discurso.

2.3. O uso variável de se nas construções de sujeito arbitrário

2.3.1. Sentenças finitas


Duarte (2002) observou que o argumento em posição pré-verbal favorece a
concordância e o posposto a desfavorece, pois o peso relativo para não concordância é de
.38 e .56 para SNs antepostos e pospostos, respectivamente.
Na análise das formas de indeterminação do sujeito nas cartas publicadas nos
jornais do século XIX, Duarte e Lopes (2002) observam três ocorrências de verbo no
singular sem o pronome se e atestam dois tipos de alternância nas construções com se nas
sentenças coordenadas: a) se+verbo no singular alterna com formas verbais no plural sem
se; b) se+verbo no singular alterna com o pronome nós. Além dessa alternância em um
mesmo período, as autoras observaram o uso predominante de nós nas cartas de redatores, o
que pode ser indício da transmissão da voz do jornal, e de se nas cartas de leitores, em que
se comentam assuntos gerais.
O apagamento de se nas sentenças finitas e alternância entre se e nós em sentenças
coordenadas podem ter criado espaço para a implementação do uso do item a gente, em
processo de gramaticalização. Esta hipótese, ainda não explorada, se apóia na constatação
de que a forma pronominal reflexiva para o item a gente é homófona à forma do pronome
com interpretação arbitrária se.

2.3.2. Sentenças não finitas


Analisando os anúncios publicados nos jornais do século XIX, Duarte (2002)
observou o predomínio de se nas reduzidas de gerúndio (78%) e o predomínio das
construções sem se nas reduzidas de infinitivo (64%).
Segundo Cavalcante (2002), que analisa dados do século XIX e XX, a presença de
se nas infinitivas é favorecida pela preposição, embora Cavalcante (2001) tenha observado
a alternância entre a realização lexical e nula de se nas sentenças não finitas do PB atual
(Há muita coisa para _ ver e uma ou outra dá até para se comprar).
No que concerne à concordância verbal nas infinitivas com se, Duarte (2002)
observou maior ocorrência de sua não realização com SNs na forma pluralizada ou
coordenados. Cavalcante (2002), por sua vez, sugere que a não-concordância verbal nas
infinitivas com se apresenta uma curva de variação estável e conclui que nas sentenças não
finitas ocorre a passagem de se indeterminador para se apassivador, em contraposição às
sentenças finitas em que se verifica a passagem de se apassivador para se indeterminador.
A autora sugere que a escola tem sido bem sucedida na manutenção dos traços de
concordância.
A autora não explica de que forma a escola tem atuado para a manutenção de traços
de concordância em uma construção (inf+se) que configura uma inovação no PB (Nunes,
1990).
Quanto ao uso de se nas infinitivas, vale salientar que essa forma pronominal não
apresenta traços de concordância, como me e te (Pagotto 1993), o que pode ter motivado o
seu uso justamente nas sentenças em que o verbo também não exibe traços de
concordância. O favorecimento de se nas infinitivas preposicionadas pode estar relacionado
à posição dos clíticos. A preposição tem sido apontada como um fator que favorece a
próclise. Atuando na posição dos clíticos, é possível que a preposição atue também na sua
realização fonológica.

B- A realização lexical dos complementos verbais


Há três propostas para explicar a realização do objeto no PB: a) o objeto nulo é
licenciado pelo V em T, o que caracteriza o PB em oposição ao português seiscentista; b) o
objeto nulo é reanálise da elipse proposicional e está relacionado à hierarquia da
referencialidade e c) o pronome tônico é resultado do apagamento do clítico nas estruturas
de redobro.

3.1. O objeto nulo


Cyrino (2001) analisou o objeto direto e indireto no português do século XVI e
comparou os resultados com os de trabalhos sincrônicos do PB. Observou-se que no caso
de verbos ditransitivos o PB manifesta o apagamento simultâneo dos dois complementos e
o português seiscentista exibe o preenchimento simultâneo dos dois complementos. Nas
duas variedades o objeto direto nulo é predominantemente [+específico, -animado]. No
português seiscentista, o objeto indireto nulo era exclusivamente [+animado], ao passo que
no PB objetos [-animado] também podem ser nulos.
Considerando que o objeto nulo é licenciado pela posição do V em T, Cyrino
propõe que o português seiscentista e o PB se diferenciam no que concerne à posição do V.
Seguindo Torres Morais (1997) e Ribeiro (1997), Cyrino sugere que no português
seiscentista, o V achava-se acima de I e que no PB o V se acha em T. O problema está em
saber se a mudança na posição do V está relacionada ou não com o enfraquecimento da
morfologia verbal, como no inglês.
Cyrino (2002) analisou o objeto nulo nos anúncios e nas cartas enviadas aos jornais
do século XIX, tendo constatado 25% de objeto nulo nos anúncios e 15% nas cartas. Nos
anúncios o objeto nulo é mais freqüente quando o verbo se acha no infinitivo, gerúndio e
subjuntivo; nas cartas a autora não registrou nenhuma ocorrência do objeto nulo com os
infinitivos (complemento de V) e com o gerúndio.
No que concerne ao traço semântico, observou-se que nos anúncios o objeto nulo
ocorria com antecedentes de traço [+ ou - animado], em contraposição com os estudos
feitos para as peças teatrais, em que se registra objeto nulo apenas com antecedente [-
animado]. A análise particularizada dos antecedentes [+animado] revelou que o objeto nulo
ocorria com o antecedente escravo. A interpretação do escravo como uma mercadoria deve
explicar o uso de nulos com traço [+animado] nos anúncios.
O traço animacidade se revelou fundamental para a análise do objeto nulo, o que
levou a autora a relacionar o objeto nulo à elipse proposicional. Apoiando-se na Hierarquia
da Referencialidade (Cyrino, Duarte e Kato 2000) a autora sugere que o objeto com baixa
hierarquia referencial, como o que ocorre com o clítico sentencial, tende a elidir, pois a sua
interpretação depende do antecedente, o que leva à sua reconstrução na FL.

3.2. O objeto na forma de pronome tônico


Moraes de Castilho (s/d) sugere que ele acusativo e dele possessivo do PB atual
derivam do apagamento de parte da estrutura que apresenta o redobramento sintático dos
pronomes, entendendo o redobramento como uma relação de interdependência entre duas
estruturas de classes distintas X e Y.
A autora propõe três etapas para a mudança, entendida aqui como o apagamento de
um dos elementos que compõem o redobramento sintático: 1) clítico e pronome tônico
acham-se adjacentes; 2) clítico e pronomes perdem a adjacência; 3) um dos constituintes é
elidido. Com o apagamento do pronome tônico, tem-se a gramática do PE que privilegia os
clíticos e os pronomes fracos para o possessivo; com o apagamento do clítico, tem-se a
gramática do PB que privilegia os pronomes fortes. A conservação dos pronomes fortes no
PB depende não só do apagamento das formas fracas, mas da gramaticalização dos itens
retidos: o pronome tônico é reanalisado como acusativo e o P+ele é reanalisado como
possessivo.
A autora sugere a coocorrência das formas redobradas e das não redobradas durante
algum tempo. O redobramento desaparece da Língua-E, mas permanece como um princípio
da Língua-I. As mudanças iniciaram-se no português quatrocentista, com o apagamento de
um dos constituintes da estrutura de redobramento, e se desenvolveram no domínio do PB
com o processo de gramaticalização dos pronomes fortes.

III- A preposição nos complementos verbais

A. Construções com alta produtividade da preposição a no PB do século


XIX
A preposição a tem predomínio quase absoluto no corpus do PB do século XIX nas
construções com verbos dativos e nas construções com objeto direto preposicionado. Torres
Morais (2002) sugere que o PE exibe a correlação entre a preposição a e o clítico lhe, pois
essa forma pronominal cliticiza exclusivamente o NP introduzido pela preposição a, que
não tem conteúdo semântico, mas tem o papel morfológico de marcar Caso
superficialmente, cuja atribuição é feita inerentemente pelo verbo. Considerando que no PB
coloquial a preposição para é mais produtiva do que a com verbos dativos e que o clítico
lhe está sendo substituído por a ele/a ela, Torres Morais (2001, 2002) assume que no PB o
OI é uma função oblíqua, realizada quase exclusivamente por um SP.
No texto de 2001, a autora faz estudo quantitativo dos anúncios de São Paulo e do
Rio de Janeiro e observa que tanto a preposição a quanto o clítico lhe são dominantes na
expressão do OI, o que sugere que ou esse tipo de corpus não revela a mudança ou essa
reanálise é mais recente na língua.
A análise quantitativa do OI nas cartas e anúncios do século XIX de diferentes
regiões (Oliveira 2002) confirma o domínio quase absoluto da preposição a no PB do
século XIX, ainda que a preposição para já apareça introduzindo argumentos marcados
[+meta] e [+benefactivo]. A preposição a também é fortemente presente nas construções
com objeto direto preposicionado no século XIX, com elementos nominais que apresentam
o traço [+pessoa].
Torres Morais (2002) assume que a substituição de a por para, uma preposição
plena, que atribui papel temático e Caso oblíquo a seu argumento, retira do verbo a
propriedade lexical de atribuir papel temático e Caso inerente dativo a seus argumentos. No
que concerne às formas a ele/a ela, Moraes as interpreta como formas oblíquas. A
preposição a se alinha à preposição para, i.e. torna-se uma preposição semanticamente
ativa no sentido de que seleciona um argumento e lhe atribui o Caso inerente.

Oliveira (2002) busca observar o aparecimento de para com verbos dativos. Partiu
da hipótese de que o uso de para com verbos dativos segue o percurso: verbo de
movimento > verbo híbrido > verbo dativo. Essa hipótese foi descartada porque, nos
contextos de verbo híbrido (levar, trazer, etc), a preposição a, e não para, é usada
categoricamente com os nomes [+pessoa].
Apoiando-se na proposta de Figueiredo Silva (s/d) de que para projeta os elementos
fora de VP, como os adjuntos, e nos dados extraídos do corpus do século XIX, em que o
verbo dar aparece com objeto indireto arbitrário nulo e com a preposição para introduzindo
um SP deverbal, com valor final e com função oblíqua, Oliveira postulou a hipótese de que
o uso de para no OI deriva da reanálise do SP com função oblíqua, i.e. com valor final. A
preposição para teria seguido o seguinte percurso: verbo final > deverbal > N [-animado] >
N [+humano]. A autora não explica os casos em que, no PB atual, tem-se o uso da
preposição a. Se considerarmos que a preposição a também aparecia em contextos
oblíquos, com valor final, o que é bastante saliente nos dados do corpus analisado,
podemos hipotetizar que tanto a quanto para com essa função foram reanalisadas, no
sentido de que passaram a introduzir os elementos selecionados15[15] pelo verbo.

Quanto à preposição a, com função de marcar Caso, Oliveira sugere que a sua
presença é marcada pelo traço [+pessoa] no complemento dos verbos híbridos, no
complemento acusativo preposicionado e na realização do argumento dativo pelo clítico
lhe. Portanto, a perda dessa preposição está relacionada a uma perda mais geral no PB, a
saber, a perda do traço [+pessoa], verificado na morfologia verbal (Galves 1993) e na
preposição a.
No que concerne à seleção do verbo, no caso dos verbos de dois lugares registrou-se
a variante zero. A realização do argumento na forma de um clítico acusativo e a forma da

15[15][15][15][15]
Vamos deixar em aberto a questão da seleção do verbo.
passiva são evidências da reanálise do OI como OD. No que concerne aos verbos
ditransitivos, não se verificou a variante zero. Há duas possíveis análises:

a) os verbos ditransitivos estão perdendo a propriedade lexical de atribuição de Caso inerente


dativo e papel temático ao NP (Raposo), funções agora da preposição lexical (a/para) que
projeta fora de VP, como os adjuntos;
b) os verbos ditransitivos mantêm a propriedade de atribuição de Caso e de papel temático e
juntamente com a preposição descarregam o papel temático (Larson 1988). Nesse caso, o
elemento preposicionado é um argumento, i.e. é projetado dentro de VP.

Se se assume a análise a), então os verbos do PB, independentemente do número de


argumentos, estão perdendo a propriedade lexical de seleção de um argumento dativo. Com
os verbos de dois lugares, o argumento passa a ter função acusativa; com os verbos de três
lugares, o “argumento” é “expelido” para fora de VP e passa a ter a função oblíqua. Se se
assume a análise b), tem-se que os verbos de dois lugares deixam de selecionar um
argumento dativo e os de três lugares continuam a selecionar argumentos dativos. Nos dois
casos, tem-se um movimento de “introjeção” do elemento nominal. No caso dos verbos de
dois lugares, o argumento que antes era gerado em baixo de SP passa a ser gerado sob VP;
no caso dos verbos de três lugares, o SP antes gerado fora de VP, em adjunção a VP, passa
a ser gerado dentro de VP.

B. Construções em que a preposição a entra em variação com outras


preposições no PB do século XIX

1.1.1. Verbos de movimento

Três são os tipos de construções em que a preposição entra em variação com outras
preposições no PB do século XIX: 1) com verbos de movimento; 2) nas construções de
dativo de posse e 3) nas construções causativas e perceptivas.
No que concerne aos verbos de movimento, Guedes e Berlinck (2001) e Oliveira
(2002) apontam para o avanço da preposição em com verbos de movimento, em lugar da
preposição a. Com base nos verbos do tipo aparecer/comparecer, que apresentavam
variação no uso da preposição, Oliveira sugere que os verbos apresentativos constituem
contexto para o uso da preposição em com verbos de movimento, estabelecendo o seguinte
percurso para a extensão do uso de em: estado > existencial-apresentacional > movimento.

2. Dativo de posse
A análise dos NPs possessivos com verbos inacusativos (Ramos 1999) mostrou que
o licenciamento desses deixa de ocorrer no último quartel do século XIX, seguindo as
seguintes etapas: 1) NPs plenos ocupam a esquerda de VP; 2) NPs plenos ocupam a direita
de VP; 3) substituição da preposição a por de. A queda da preposição a tem o mesmo perfil
da queda do clítico lhe, evidência da correlação entre essa preposição e o clítico dativo.
A autora assume que aNP faz parte do DP e adota a estrutura de Small Clause para a
seqüência [NP possuidor NP possuído]. O clítico lhe tem a função de recuperar, através do
traço de concordância, a relação entre o NP possuidor, na posição de tópico, e o NP
possuído. Uma alteração no valor de Agr/D impede a projeção de Spec de Agr/D e, por
conseguinte, do movimento de aNP. Se Caso, este elemento deixa de ser visível na FF e a
construção passa a ser mal-formada. Para a autora, somente o movimento de núcleos é
licenciado, o que explica a realização de posse apenas com lhe no PB atual. Esta análise
deixa de captar a relação entre a queda do clítico lhe e a da preposição a, que, segundo
Ramos, apresentam o mesmo perfil.

3. As construções causativas
Baseando-se no italiano em que as construções causativas diferem das perceptivas
no que se refere à posição do NP em relação ao verbo infinitivo, mas se assemelham no que
concerne ao tipo de argumento acusativo ou dativo, em função da transitividade do verbo
não finito, Oliveira (2002) analisou essas construções nas cartas e anúncios do século XIX.
Observou-se que nas estruturas monoargumentais do verbo causativo tem-se a
ordem V+Vinf+NP e nas do verbo perceptivo predomina a ordem V+NP+Vinf. Nas
estruturas biargumentais, a ordem V+NP+Vinf é majoritária para os perceptivos e começa a
avançar no caso dos causativos.
No que concerne ao tipo de argumento, verifica-se que nas estruturas biargumentais
dos verbos perceptivos tem-se um NP ou clítico acusativo. No caso dos verbos causativos,
é mais alta a freqüência de SPs. Curiosamente, o clítico acusativo tem maior freqüência do
que o dativo nessas construções. Portanto, a mudança começa a partir dos verbos
perceptivos, atingindo a ordem e a realização do argumento. Além disso, a mudança no tipo
de clítico precede a mudança SP>NP. A autora não analisou em que medida a mudança na
ordem dos constituintes sentenciais nas declarativas (Berlinck 1989, 2000) está
correlacionada com a mudança na ordem dos constituintes das construções perceptivas e
causativas.

IV- A ordem dos constituintes sentenciais: declarativas


Ribeiro (2001) analisa a inversão do sujeito a partir da constatação de que o PB, ao
contrário do PE, não apresenta a ordem (X)VS em sentenças declarativas e interrogativas.
Em outras palavras, no PB a ordem VS é restrita à inversão românica e às estruturas
inacusativas ao passo que no PE a ordem VS inclui também a inversão germânica. A autora
observa que o Português Arcaico também exibia os três tipos de estruturas VS e se propõe a
analisar se a perda da ordem VS é resultante de uma mudança na gramática do século XIX,
conforme a literatura, ou se é resultado de uma mudança mais remota. Para isso, Ribeiro
analisa dados provenientes do século XVI, pois assume que as raízes do PB devem ser
buscadas nesse período.
A autora observa que, assim como no PB atual, o Português Clássico exibe baixa
freqüência da ordem VS, a qual também se limita aos contextos de posposição do sujeito e
de estruturas inacusativas. Esses dados sugerem que a inversão germânica não fazia parte
da sintaxe do português clássico como Língua-I e parece não ter sido presente no vernáculo
brasileiro. Assim, a sua ausência no PB não deve ser tratada como uma mudança em termos
de Língua-I.
No que concerne ao PE, Salvi (1990), Galves (1991), Martins (1994) e Torres
Morais (1995) observam mudanças prosódicas e sintáticas entre os séculos XVII e XVIII.
No século XVIII, o sistema gramatical do PE volta a exibir a inversão germânica.
Baseando-se em Torres Morais (1993), segundo a qual no século XVIII a inversão
germânica aparece de forma reduzida em escritores brasileiros, Ribeiro sugere que o século
XVIII marca a perda da inversão germânica no PB e se pergunta se a inversão germânica
nos escritores brasileiros do século XVIII pode ser analisada como objetos de língua-I ou se
faz parte de construções periféricas, efeitos de língua-E.
Como o objetivo da autora era o de explicar a ausência da inversão germânica no
PB, Ribeiro não buscou explicar o retorno da inversão germânica no PE. Entretanto, uma
vez que se questiona se a inversão germânica nos escritores brasileiros do século XVIII é
um objeto de língua-I ou de língua-E e uma vez que se assumiu que o português clássico
não exibia esse tipo de inversão, faz-se mister estudar diacronicamente a inversão
germânica no PE.
Ao lado da hipótese de que a inversão germânica não era objeto de língua-I do
Português Clássico e o seu reaparecimento no PE se deve a mudanças prosódicas e
sintáticas assinaladas para o século XVIII, é possível alinhar, graças à argumentação da
autora, uma segunda hipótese: a inversão germânica não se manifestava na Língua-E do
Português Clássico, mas era um princípio invisível da Língua-I, o que teria motivado o seu
reaparecimento no PE. Além disso, a hipótese de que a inversão germânica fosse um objeto
de língua-I só pode ser proposta se se assume que essa construção era um princípio
invisível da língua-I, pois, segundo a autora, o vernáculo brasileiro não exibia a inversão
germânica.
Retomando a questão da perda da ordem VS no PB, Ribeiro (2002) analisa a
inversão do sujeito em um corpus que representa o uso culto da língua, textos de
gramáticos dos séculos XVI, XVIII e XX, e compara os resultados com os dados
provenientes das cartas publicadas nos jornais do século XIX. Ribeiro observou que o
corpus do século XVI atestava seja a inversão VS seja a ausência da inversão nas estruturas
de topicalização.
No que concerne à focalização, obteve-se que, em todos os materiais de análise, a
focalização é realizada por meio da clivagem. Nesse tipo de focalização, não há movimento
do verbo para o Foco, pois esta posição já está ocupada pela forma expletiva “é que”. Com
o uso da estratégia da clivagem, as evidências de movimento do verbo para Foco deixam de
ser robustas e deixam de ser atestadas no século XVIII. Considerando que o PB atual tem
topicalização sem inversão VS e que a clivagem é uma estratégia é bastante recorrente
nessa variedade lingüística para focalizar constituintes, Ribeiro conclui que as estruturas
que suplantam a ordem VS no PB já estão presentes nos documentos portugueses do século
XVI e XVIII.

V- Estruturas negativas
Torres Morais (2001) observou que as estruturas de dupla negação do português
moderno apresentam uma assimetria na realização do não sentencial. Se o indefinido
negativo está em posição pré-verbal, a presença do não é excluída; se o indefinido negativo
está em posição pós-verbal, a presença do não é obrigatória. A análise da dupla negação no
português arcaico e no século XVI mostrou que, no português medieval, o licenciamento
dos itens negativos exigia a presença do marcador negativo. A dupla negação se manifesta
na posição pré-verbal e pós-verbal. Nas sentenças formulaicas observava-se já a variação
da concordância negativa em posição pré-verbal. No século XVI a obrigatoriedade da
presença do marcador negativo é relaxada quando os itens negativos se acham em posição
pós-verbal. A autora conclui que a dupla negação foi um fenômeno do galego-português.
Não foi possível datar a cronologia da perda da dupla negação em posição pré-verbal, pois
os séculos XV e XVI ainda atestam essas construções.
Alkmim (2002), analisando as estruturas negativas nos anúncios publicados nos
jornais do século XIX, atestou a dupla negação no século XIX. No que concerne
especificamente à partícula negativa não, verificou-se a sua ocorrência na posição pré e
pós-verbal. A partícula também aparece interpolada entre o verbo e o clítico, o que ocorre
em 33,5% dos dados. A autora salienta que a interpolação é um dos aspectos que
distinguem o PE do PB atual e que, nesse aspecto, as estruturas negativas devem ter sofrido
mudanças em período subseqüente. A autora observou também que, além da partícula não
ter escopo sentencial, os dados do século XIX mostram que ela pode negar outros
constituintes, formados por SP e por Adjetivo. A negação de constituinte nominais,
entretanto, não é atestada no material analisado, o que pode ser indício de que construções
como “o não-pagamento” sejam inovações lingüísticas que também remetem ao século XX.

VI – O estudo dos auxiliares: ter e haver


Callou & Avelar (2002) estudaram estruturas com verbo Ter e Haver nos anúncios
do século XIX com o objetivo de analisar a passagem de haver para ter, que caracteriza o
PB. Dentre as estruturas analisadas (existenciais, posse, V+particípio passado e modal), as
existenciais são as que mais resistem ao uso de ter (22%). As estruturas com particípio
passado ocorrem, majoritariamente, com o verbo ter (94%).
Os autores verificaram a presença de uma expressão locativa nas estruturas
existenciais e nas de posse com ter e haver, indício do elo semântico e sintático entre as
duas construções. Nas estruturas de posse, foram analisados aspectos como semânticos
como animacidade, características inerentes ao objeto, bem material ou abstrato do
possuidor e do elemento possuído. Observou-se que construções com X animado e Y
intrínseco também apresentam uma expressão locativa e estabelecem um elo entre
estruturas existenciais e possessivas (José Antonio tem uma cicatriz no peito). Desse tipo de
estrutura podemos derivar: a) O peito de José tem uma cicatriz; b) No peito de José tem
uma cicatriz.
Estruturas existenciais e possessivas com Y concreto e não intrínseco, comuns no
PB atual, não foram atestadas nos anúncios: a) A mesa tem um livro; b) Na mesa tem um
livro.
Com os resultados desse trabalho pode-se vislumbrar a hipótese de que a
gramaticalização de ter, passagem de verbo pleno para funcional, antecede o uso desse
verbo nas construções existenciais. Pode-se aqui levantar a questão: há correlação entre a
gramaticalização de ter e o seu uso nas estruturas existenciais?

Considerações finais:
Os trabalhos apresentados confirmam as hipóteses de Ribeiro (2001) e de Moraes de
Castilho (2001), a saber: (i) o PB é resultado de mais de uma gramática e não pode ser
descrito comparativamente apenas em relação ao PE moderno; (ii) algumas questões
gramaticais são derivadas das variantes lingüísticas do português quatrocentista, cujo
desenvolvimento está no domínio do PB.
As mudanças gramaticais creditadas ao português quatrocentista são as seguintes: a)
o enfraquecimento da morfologia verbal; b) o apagamento de um dos constituintes do
redobramento sintático, do qual deriva o uso do pronome tônico na posição de objeto e na
estrutura possessiva; c) a perda da ordem VS de inversão germânica.
No domínio do PB verificamos mudanças na realização dos argumentos e nas
preposições em complementos verbais. Na realização dos argumentos, observamos: a) o
preenchimento do sujeito nas encaixadas com sujeito correferencial; b) a gramaticalização
das formas pronominais, seja na posição de sujeito, seja na posição de objeto; c) a extensão
do uso das formas pronominais gramaticalizadas para a realização do sujeito arbitrário; e d)
a reorganização do sistema pronominal arbitrário, que sai da órbita da 3a. pessoa para as
pessoas do discurso. No que concerne às preposições em complementos verbais, foram
registrados os primeiros indícios da perda gradual da preposição a nos verbos de
movimento, nos verbos dativos e nas estruturas perceptivas e causativas.
No que diz respeito à gramaticalização das preposições nos complementos verbais e
à gramaticalização dos pronomes, seja para o sujeito referencial seja para o sujeito
arbitrário, parece que precisamos esperar o século XX para a implementação e difusão da
mudança. Nesse sentido, o século XIX apresenta apenas algumas poucas evidências do que
vinha a se firmar no século subseqüente.
De uma maneira geral, pode-se dizer que a realização dos argumentos verbais,
preposicionados ou não, depende do processo de gramaticalização dos elementos
pronominais, que se faz gradualmente, em um percurso de LONGA duração, como mostrou
Lopes, no estudo da gramaticalização do item a gente, e como mostraram os trabalhos de
Duarte e Cavalcante no estudo do sujeito referencial e arbitrário. Além disso, o
apagamento e o preenchimento de um elemento argumental se submetem à hierarquia da
Referencialidade (Cyrino, Duarte e Kato 2000), cujos pólos são atingidos após um LONGO
período de tempo, dada a interação dos diferentes traços semânticos envolvidos.
É possível que o enfraquecimento da morfologia verbal e o apagamento de um dos
constituintes do redobramento sintático sejam mudanças mais instantâneas, retardadas
apenas pelas diferentes gramáticas que se alinham com as diferentes ondas migratórias.
Em suma, pode-se dizer que os trabalhos de descrição lingüística desenvolvidos no
âmbito do PHPB são altamente elucidativos na explicação da formação do PB e a sua
continuidade se faz necessária para que possamos delinear o quadro descritivo da sintaxe
do Português do Brasil e para fornecer explicação gramatical dos epifenômenos descritos,
tarefas do PHPB, conforme Castilho (1999).

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CAP. III - A HISTÓRIA SOCIAL LINGÜÍSTICA DO BRASIL NO


ÂMBITO DO “PROJETO PARA A HISTÓRIA DO PORTUGUÊS
BRASILEIRO”
(Versão preliminar)
Tânia C. F. Lobo (UFBA)
mailto:tanlobo@ufba. Br
Klebson Oliveira (PPGLL-UFBA)
mailto:klebsonoliveira@bol.br

Introdução
O Projeto Nacional para a História do Português Brasileiro (PHPB) estruturou-se,
desde a sua origem, a partir de três campos de atividades: a) estudos sobre mudança
gramatical; b) estudos sobre história social lingüística e c) organização de corpora. O
objetivo deste relatório é apresentar uma síntese das reflexões e das investigações
produzidas no âmbito do referido Projeto relativamente à história social lingüística do
Brasil, o segundo, portanto, dos três campos de atividades anteriormente mencionados; para
tal, foram considerados os textos publicados em Castilho (1998), Mattos e Silva (2001),
Alkmim (2002) e Duarte & Callou (2002)16[16].
Embora o critério para a leitura dos textos tenha sido o cronológico, obedecendo-
se, portanto, à seqüência da sua comunicação aos Seminários realizados, a apresentação que
a seguir se fará está pautada em critério temático, tendo-se agrupado os textos em três
subconjuntos, com o objetivo, assim, de que, para além de permitirem visualizar o já feito,
permitam também melhor planejar as investigações futuras:
1. 1. Projetos gerais para a história social lingüística do Brasil e/ou para a
história social do português brasileiro17[17];
2. 2. Questões relativas à constituição sócio-histórica do português popular
e do português culto brasileiros;

16[16][16][16][16]
Os textos apresentados ao V Seminário Para a História do Português Brasileiro, realizado em
Ouro Preto, em 2002, serão organizados para publicação por Jânia Ramos e Mônica Alkmim.
17[17][17][17][17]
ELIZAINCÍN, Adolfo. (1998a). Estado actual del Proyecto Historia del Español de América e
(1998b) Historia social del español de América: perspectivas não serão abordados neste trabalho.
3. 3. Projetos e investigações sobre a história social lingüística do Brasil
e/ou sobre a história social do português brasileiro em regiões específicas do
país18[18].
Ao final, referem-se, na Bibliografia, os textos a partir dos quais este relatório foi
elaborado, todos exclusivamente produzidos no âmbito do PHPB.

1. Projetos Gerais
No âmbito do PHPB, durante a realização do seu I Seminário, destacam-se dois
textos de caráter geral, programático, em que se explicitam concepções teórico-
metodológicas sobre o campo de investigação história social lingüística, mais
especificamente sobre a história social do português brasileiro. São eles: Idéias para a
história do português brasileiro: fragmentos para uma composição posterior de Rosa
Virgínia Mattos e Silva (1998) e História social do português brasileiro: perspectivas de
Jânia Ramos (1998).

Em Idéias para a história do português brasileiro: fragmentos para uma


composição posterior, Mattos e Silva (1998) organiza sua exposição em duas partes. Na
primeira – “Sobre o português brasileiro” –, expressa, calcada numa concepção
sociolingüística, a sua compreensão do objeto português brasileiro e, na segunda – “Em
direção a uma história do português brasileiro” –, propõe quatro grandes campos de
pesquisa para a reconstrução e a escrita de uma história do português brasileiro.
Para explicitar a sua compreensão sobre o português brasileiro, parte de Serafim da
Silva Neto (1986 [1950])19[19], formulador e defensor da tese da unidade e
conservadorismo do português no Brasil - expressão que o referido autor prefere à
designação português brasileiro20[20]. O cárater reducionista da tese da unidade e do
conservadorismo é ressaltado por Mattos e Silva, quando afirma:

Reduzir a unidade ou variedade e a conservadorismo ou inovação a compreensão da


heterogeneidade – sobretudo social, mas também espacial – do português brasileiro é
extremamente simplificador; mas era o de que se dispunha. São os avanços mais recentes,
sobretudo nos estudos da morfossintaxe e sintaxe do português brasileiro, que vêm
permitindo delinear de forma menos redutora a realidade multifacetada do português
brasileiro.” (27-28)

Visando à superação da visão reducionista acima referida, Mattos e Silva acolhe


proposta de caracterização sociolingüística do português do Brasil, elaborada por Lucchesi

18[18][18][18][18]
Coube a Tânia Lobo a redação dos itens 1 e 2 e a Klebson Oliveira, a do item 3.
19[19][19][19][19]
NETO, Serafim da Silva. (1986 [1950]). Introdução ao estudo da língua portuguesa no Brasil. 5
ed. Rio de Janeiro: Presença.
20[20][20][20][20]
Afirma Mattos e Silva: “A defesa da tese do conservadorismo se funda basicamente em fatos de
mudanças fônicas que, talvez a partir do século XVII, mas com certeza no século XVIII, ocorreram no
português europeu e não se deram no português brasileiro. (...) são, fundamentalmente, aquelas relacionadas
ao sistema vocálico não-acentuado. Sustenta ainda essa tese o pressuposto do caráter conservador do mundo
rural, próprio ao Brasil até o nosso século.”
(1994)21[21], que, capitalizando “os conceitos teóricos de variação, mudança e norma
formulados pela lingüística contemporânea e os resultados de estudos e debates sobre o
português brasileiro, a partir dos anos 80 para cá, [vai] demonstrar argumentativamente que
o português brasileiro é não apenas heterogêneo e variável, mas também plural e
polarizado.” Segundo tal proposta, no diassistema heterogêneo do português do Brasil,
distinguem-se dois subsistemas igualmente heterogêneos – daí polarização e pluralidade –
, designados pelo autor como norma(s) culta(s) e norma(s) vernácula(s), designações que,
mutatis mutandis, se aproximariam das mais correntemente referidas português culto e
português popular. Enquanto a(s) norma(s) culta(s) tenderiam a perder características que
as aproximam do padrão europeu original, a(s) norma(s) vernácula(s) tenderiam a adquirir
características que as aproximam da(s) norma(s) culta(s), num processo de convergência,
mas com nítidas diferenças, entendendo-se que uma mesma comunidade de fala se poderia
caracterizar por sistemas de valores e padrões de uso lingüísticos distintos, ou mesmo
antagônicos. Mattos e Silva destaca ainda que a referida polarização tem sido tratada por
Kato (1993) como diglossia22[22].
Antes de passar à apresentação de propostas referentes à reconstrução e à escrita de
uma história do português brasileiro, Mattos e Silva discute duas questões: 1. Se a
construção da história de uma língua não pareceria extemporânea, anacrônica a lingüística
histórica, cuja motivação central, contemporaneamente, tem sido a busca de teorizações
sobre a mudança lingüística em geral, focalizando aspectos significativos de mudanças
lingüísticas em línguas específicas e 2. Se as mudanças lingüísticas são ou não tratáveis de
maneira rigorosamente científica, já que decorrem sempre de complexos condicionamentos
extra e intralingüísticos.

Relativamente à primeira questão, afirma:


A língua portuguesa, das suas origens (...) até a nossa contemporaneidade, não
dispõe de um relato histórico circunstanciado e fundamentado teórica e empiricamente.”
(31)

E ainda:
Quanto à história específica do português brasileiro nos seus cinco séculos de
constituição, o trabalho de 1950 de Serafim da Silva Neto (...) e seu artigo-síntese de 1960
ainda constituem os dois estudos mais aprofundados sobre questões referentes ao português
brasileiro, integrados nas concepções teóricas e ideológicas próprias do seu tempo. O
ensaio [de 1985] de Antônio Houaiss é uma renovada, mas sintética visão de conjunto
sobre o português brasileiro (...) (32)

Quanto à segunda questão, afirma:


(...) na minha compreensão, a reconstrução histórica do português brasileiro se
movimentará em direção à reconstrução tanto histórico-social quanto lingüística do Brasil;
e aí teremos de estar ancilares à historiografia sobre o Brasil. Palmilhando os caminhos da
ars interpretandi, palmilharemos também os caminhos da sociolingüística histórica ou

21[21][21][21][21]
LUCCHESI, Dante. (1994). Variação e norma: elementos para uma caracterização
sociolingüística do português do Brasil. Revista Internacional de Língua Portuguesa, 12:17-28.
22[22][22][22][22]
KATO, Mary. (1993). Português brasileiro falado: aquisição em contexto de mudança
lingüística. Actas do Congresso Internacional sobre o Português. v. II. Lisboa: Colibri/APL.
sócio-história lingüística, tentando estabelecer – o que é difícil, e muito, para o passado – a
correlação entre fatores extralingüísticos e lingüísticos; palmilharemos, ainda, os caminhos
previstos por teorias de mudança intralingüística, quer sejam segundo os modelos teóricos
explicativos e considerados científicos da teoria da gramática de orientação chomskiana,
quer sejam caminhos interpretativos que outras vertentes da lingüística nos possam
fornecer, mesmo que hoje considerados não-científicos, porque meramente descritivos.”
(33-34)

Ao discutir como tratar a questão histórica do português brasileiro, Antônio Houaiss


(1985)23[23] sugere quatro vias, que vêm abaixo mencionadas, por serem o ponto de
partida de Mattos e Silva para os quatro grandes campos de pesquisa que propõe para a
reconstrução e a escrita de uma história do português brasileiro:

1. a do levantamento exaustivo de depoimentos diretos e indiretos sobre todos os processos


linguageiros havidos a partir (e mesmo antes, para com os indígenas e negros) dos inícios
da colonização, levantamentos já em curso assistemático desde os historiadores dos meados
do século XIX para cá; 2. o mapeamento confiável da dialectologia brasileira [...]; 3. o
incremento da dialectologia vertical em tantos quantos possíveis grandes centros urbanos e
focos rurais antigos, a fim de se poder ver a interinfluência entre o rural e o urbano na
transmissão adquirida e induzida; 4. a penetração da língua escrita no Brasil, das origens
aos nossos dias, não numa leitura “estética” [...] mas essencialmente lingüística.

Os quatro grandes campos de pesquisa referidos são:

a, campo que se moverá na reconstrução de uma história social lingüística do Brasil; b,


campo que se moverá na reconstrução de uma sócio-história lingüística ou de uma
sociolingüística histórica; c, campo que se moverá na reconstrução diacrônica no interior
das estruturas da língua portuguesa em direção ao português brasileiro; d, campo que se
moverá no âmbito comparativo entre o português europeu e o português brasileiro.

A caracterização detalhada de cada um dos campos é apresentada a seguir:


Dentro do campo a – ou campo da história social lingüística –, que “se moverá
fundado na história social do Brasil, [sendo, assim,] dos quatro campos (...) aquele em que
o historiador da língua estará mais próximo do historiador tout court”, Mattos e Silva indica
duas vertentes de investigação: a) uma referente à reconstrução da articulação entre fatos
demográficos e fatos lingüísticos e b) a outra referente à reconstrução da história da
escolarização no Brasil, que aponta como fundamental para compreender-se a polarização
entre norma(s) vernácula(s) e norma(s) culta(s) do português brasileiro.” As vias 1 e 2,
previstas por Houaiss, estariam contempladas nesse campo.
A abordagem dos campos b, c e d é feita interligadamente, tomando Mattos e Silva
como orientação três dos conhecidos problems formulados por Weinreich, Labov e Herzog
(1968)24[24] para a investigação da mudança lingüística: o transition problem – na sua

23[23][23][23][23]
HOUAISS, Antônio. (1985). O português no Brasil. Rio de Janeiro: UNIBRADE/UNESCO.
24[24][24][24][24]
WEINREICH, U., LABOV, W., HERZOG, W. (1968). Empirical foundations for a theory of
language change. In LEHMANN, W. P., MALKIEL, Y. (eds.) Directions for historical linguistics. Austin:
University of Texas Press.
dupla face, transition na sociedade e transition na estrutura –, o embedding problem –
também na sua dupla face, embedding na sociedade e embedding na estrutura – e o
evaluation problem – ou seja, a questão da avaliação social das variantes.
Dentro do campo b – ou campo da sociolingüística histórica –, “que se moverá
numa perspectiva de estabelecer correlações entre fatores lingüísticos e fatores sociais”, as
investigações teriam como objetivo captar a variação histórica no âmbito (i) do embedding
problem, o encaixamento na sociedade, (ii) do transition, a difusão de variantes na
sociedade, e ainda (iii) do evaluation, a captação das avaliações que favorecerão ou não a
mudança. Para a realização dos objetivos apresentados em (i) e em (ii), prevê a organização
de um conjunto significativo de documentos, seriados tanto do ponto de vista estilístico
quanto do ponto de vista cronológico. A seriação estilística proporcionaria a visão da
variação sincrônica em momentos determináveis do passado, já que o objetivo é a
reconstrução histórica do chamado português popular e do português culto do Brasil, e a
seriação cronológica proporcionaria a visão do processo da mudança lingüística ao longo
do tempo. Já para a realização dos objetivos apresentados em (iii), prevê a exploração de
fontes indiretas, particularmente, porque passível de se fazer de forma sistemática, dos
instrumentos gramático-filológicos, não descartando, contudo, a recuperação de avaliações
dispersas em testemunhos históricos os mais inesperados.
Os campos c e d correspondem ao que, tradicionalmente, se designa como história
interna; movem-se ambos, pois, no âmbito de um dos aspectos do embedding problem.
Enquanto o objetivo do campo c seria o de “descrever e buscar explicitar ou explicar (...) o
encaixamento no interior das estruturas e a difusão da variante em mudança pela estrutura”,
a questão central do campo d seria “verificar se, em comparação com o português europeu,
as mudanças ocorridas no português brasileiro já estariam prefiguradas ou encaixadas nele.
Para tanto, terá de dispor do conhecimento do português europeu no seu processo histórico
de constituição.”

Em História social do português brasileiro: perspectivas, Jânia Ramos (1998)


organiza sua exposição em três partes. Na primeira – “História interna, história externa e
concepções de gramática” –, a dicotomia história interna x história externa é retomada “à
luz dos desenvolvimentos recentes da sociolingüística quantitativa referentes ao tratamento
da mudança sintática”; na segunda – “Inter-relação dos aspectos sociais e lingüísticos no
passado e no presente” –, argumenta “a favor de que a busca de resposta aos (...) problemas
formulados por Weinreich, Labov e Herzog (1968), revisitados por Labov (1982)25[25],
continua sendo uma formulação adequada para explicitar a interação entre linguagem e
sociedade, tomadas como componentes da história da língua de uma comunidade” e,
finalmente, na terceira – “Perspectivas” –, “a partir do ponto de vista definido nas duas
primeiras sub-partes (...), [retoma] um plano de trabalho para a sócio-história do português
brasileiro apresentado por Houaiss (1985)” e tece considerações sobre proposta de trabalho
para a investigação da história social do português brasileiro. Considerando o conjunto de
temas propostos para o I Seminário, quando, no que concerne à mudança lingüística, se deu
privilégio exclusivo à reflexão sobre a mudança sintática, Ramos aponta o seguinte
problema: “como se pode integrar a noção de mudança sintática, definida como resultado
de contato de gramáticas, num estudo que reconhece a atuação de fatores de ordem sócio-

25[25][25][25][25]
LABOV, W. (1982). Building on empirical foundations. In LEHMANN, W. P., MALKIEL, Y.
(eds.) Perspectives on historical linguistics. Amsterdã/Filadélfia: John Benjamins Co.
histórica?”. A sua reflexão, portanto, será no sentido de contribuir com parâmetros que
norteiem a construção de uma história social não na perspectiva do campo a – conforme
proposto por Mattos e Silva e por ela designado campo da história social lingüística –, mas
na perspectiva do campo b – designado de campo da sociolingüística histórica.
A revisão da clássica dicotomia história interna x história externa é feita, partindo-se
da oposição entre uma concepção estruturalista e uma concepção sociolingüística de
sistema. A autora destaca, assim, que, ao conceber o sistema como homogêneo, o
estruturalismo “impede uma abordagem que investigue a força dos diferentes grupos socais
no interior de uma mesma comunidade de fala, porque esta é vista como um todo e a
mudança lingüística, concebida como resultado da atuação de forças internas à gramática.”
Todavia, ao conceber o sistema como heterogêneo, sendo tal heterogeneidade passível de
sistematização a partir da noção de que a unidade do sistema é uma variável, a
sociolingüística laboviana “leva à formulação de um quadro em que a dicotomia história
interna x história externa fica diluída.” A noção de variável / de variação lingüística
permite, pois, integrar ao sistema a heterogeneidade social.
A seguir, Ramos traz ao debate a hipótese, formulada por Kroch (1989)26[26], de
que a origem da mudança é sempre externa, hipótese que tem a força de recolocar em foco
a questão do contato na explicação da mudança, porém não mais em termos de contato
entre línguas, mas entre gramáticas. De tal hipótese, decorreria que “informações sócio-
históricas, principalmente as de natureza demográfica, vão ser de interesse central em
análises cujo objetivo é fornecer explicações para fenômenos de natureza diacrônica.”
Decorreria ainda que “[se se aceita] a variação/mudança como resultantes de contato e [se
se assume] que o contato tem como conseqüência a produção de enunciados representativos
de gramáticas distintas, [se podem buscar], na variação sintática presente no corpus
selecionado, evidências da presença das especificidades das gramáticas presentes na
comunidade de fala.” Finaliza essa primeira parte do seu texto, concluindo que a
investigação diacrônica, no sentido de “recompor o caminho de cada variante no contexto
sócio-histórico, de modo a identificar em que momento e em que lugar geográfico e social a
variante ocorreu, (...) equivale a responder à seguinte questão: com que gramática se deu o
contato, quando, onde, como?”
Na segunda parte do seu texto, justamente com o objetivo de “exemplificar um
tratamento [da mudança] que poderia ser rotulado de sócio-histórico”, conjuga os
resultados de dois estudos sobre as formas de tratamento você e cê: Ramos (1996)27[27] –
que as investiga no dialeto mineiro – e Faraco (1996)28[28] – que faz uma abordagem
histórica de você. A perspectiva a ser demonstrada, como já se disse, é a de que a busca de
respostas aos problemas clássicos da sociolingüística, formulados por Weinreich, Labov e
Herzog (1968) em termos de questões, torna evidente a imbricação entre os aspectos sociais
e lingüísticos no passado e no presente.
O estudo de Ramos (1996) “verificou que as formas você e cê são freqüentes no
dialeto mineiro e que os contextos em que a forma cê é usada constituem um subconjunto
daqueles em que você o é”, resultados que forneceram “evidência a favor da hipótese
26[26][26][26][26]
KROCH. (1989). Reflexes of grammar in patterns of language change. Language, variation and
change, 1:199-244.
27[27][27][27][27]
RAMOS, Jânia. (1996). O uso das você, ocê e cê no dialeto mineiro. In HORA, Dermeval.
(org.), Diversidade lingúística no Brasil.
28[28][28][28][28]
FARACO, Carlos Alberto. (1996). O tratamento você em português: uma abordagem histórica.
Fragmenta, 13:51-82.
formulada por Vitral (1996)29[29], segundo a qual cê seria um clítico no estágio atual do
português brasileiro.” A partir do exposto, formula Ramos, então, as seguintes questões:
(i) sabendo-se que no português europeu a forma você tem uso restrito e que a forma
tu é preferida, qual teria sido a razão da “opção” por você no dialeto mineiro?;
(ii) em que momento a forma você entrou no português brasileiro?;
(iii) qual a correlação entre a cliticização de cê e outras tendências sintáticas
manifestadas no português brasileiro contemporâneo?

A seguir, sintetiza as conclusões de Faraco (1996). Segundo Ramos, nesse estudo, o


autor, ao traçar “panorama econômico da sociedade portuguesa do século XII ao século
XVII, com o propósito de evidenciar a correlação entre o tratamento dispensado ao rei (...)
e o aumento do poder a ele conferido”, conclui que é justamente no “contexto de
dependência ao rei (...) que se multiplicam as formas de tratamento. O tratamento por vós,
usado no século XII, dá lugar a outros cinco, todos tendo seu primeiro registro nos séculos
XIV ou XV: Vossa Mercê (1331), Vossa Senhoria (1434), Vossa Majestade (1440), Vossa
Alteza (1450) e Vossa Excelência (1455).” A forma de tratamento Vossa Mercê, por sua
vez, vulgariza-se: “No século XIV, torna-se forma habitual de tratamento não-íntimo entre
aristocratas; no século XV, entre aristocratas e não-aristocratas; no século XVI, entre não-
aristocratas (baixa burguesia); e, no século XVII, é ainda recomendada em cartas, tendo-se
arcaizado e já convivendo com a nova forma: você.” Para finalizar a aborgagem histórica,
Ramos chega à atual sincronia do português, para a qual, considerando o uso de você e de
tu, em Portugal e no Brasil, aponta as seguintes diferenças: a) em Portugal, o uso de você,
além de, segundo Paiva Boléo (1946)30[30], ser avaliado negativamente em regiões rurais
de Portugal, é observado entre iguais não-solidários e com interlocutor de status social
inferior; já tu corresponde a tratamento íntimo e em expansão; b) no Brasil, o uso de você
está em expansão e o de tu, restrito a certas regiões, utilizando-se a forma verbal
correspondente à 3a pessoa do singular.
Finalmente, após ter sido traçado o panorama histórico, os problemas são
abordados:
• Questão da restrição [constraint problem]: Que mudanças são possíveis e que mudanças
não são? Um estudo como esse não oferece elementos para a formulação de uma resposta.
• Questão do encaixamento [embedding problem]: Por que se expande o uso de tu no PE e
de você no PB? Encaixamento social: a forma você, usada pela baixa burguesia, era a
forma corrente na fala dos colonizadores que vieram para o Brasil, por isso estabeleceu-se
entre nós. Encaixamento lingüístico: a forma tu, indicativa de uma flexão mais rica,
possivelmente seria, e de fato foi, preferida pelo dialeto cuja flexão possui tal
característica: o PE. A forma você com flexão de terceira pessoa foi preferida pelo PB. No
momento atual, em que há extensão de uso nos dois dialetos, mantém-se a opção
diferenciada, o que mostra ser essa extensão subordinada a propriedades mais abstratas
das respectivas gramáticas (...)
• Questão da transição [transition problem]: Como a língua muda? Qual foi o percurso que
vai de vós a você? Por quais caminhos a língua muda? Primeiro momento: Vós -> 2a

29[29][29][29][29]
VITRAL, Lorenzo. (1996). A forma cê e a noção de gramaticalização. Revista Estudos da
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30[30][30][30][30]
BOLÉO, M. Paiva. (1946). Introdução ao estudo da filologia portuguesa. Lisboa: Revista de
Portugal.
pessoa do plural; segundo momento: V+N -> 2a pessoa do plural (oscilação da 3a pessoa
do singular) concordância; terceiro momento: V+N -> 3a pessoa do singular -> Você ->
3a pessoa do singular. Inicialmente tem-se uma escolha lexical entre as várias formas
V+N, depois a escolha é morfossintática (2a ou 3a pessoa?) e, por fim, há a escolha entre
clítico ou não-clítico.
• Questão da implementação [actuation problem]: Por que a mudança tu/você/ocê ocorreu?
Quando ocorreu? Onde ocorreu? Essas respostas são obtidas através de informações de
natureza sócio-histórica e análise lingüística quantitativa (...)
• Questão da avaliação [evaluation problem]: Como os membros de uma comunidade
avaliam a mudança? Quais os efeitos dessa avaliação sobre o processo de mudança em si?
Novamente aqui informações tanto de natureza sócio-histórica quanto de natureza
propriamente lingüística são requisitadas, de modo a evitar a conclusão de que a extensão
do uso de tu no PE resulta do fato de você ser usado em contextos de relação assimétrica,
sem levar em conta as propriedades gramaticais abstratas, que se manifestam no PB
contemporâneo como tendência de preenchimento de sujeito e marcação não-redundante
da concordância.

Na finalização dos seu texto, Ramos retoma as quatro vias do plano de trabalho
para a sócio-história do português brasileiro apresentado por Houaiss (1985) e sugere
alternativas, justificando-as a partir do que expôs nos itens anteriores31[31]:

• Primeira via: (...) selecionar o mais brevemente possível um conjunto de tópicos sintáticos a
ser investigade e um conjunto mínimo de dialetos regionais e, em seguida, empreender o
levantamento sugerido.
• Segunda via: (...) um mapeamento da dialectologia brasileira que informe satisfatoriamente
sobre construções sintáticas á algo ainda por fazer. Por onde começar? Como? Um ponto
de partida, a meu ver, seria identificar duas microrregiões cujo perfil evidencie diferenças
sócio-históricas claras. O segundo passo seria tomar como referência um grupo de
informantes representativo do dialeto urbano e um grupo de informantes representativo do
dialeto rural: comparar-se-iam dados lingüísticos das duas comunidades, os quais
refletissem os tópicos sintáticos inicialmente definidos e, em seguida se faria um histórico
da formação de ambas as comunidades, evidenciando fatos relativos ao contato com
falantes de outras gramáticas.
• Terceira via: (...) essa via se confunde com a anterior, diferenciando-se apenas na ênfase
dada ao aspecto vertical. A alternativa de abordagem sugerida em relação à via anterior
permite integrar a dialetologia vertical e horizontal, uma vez que se adotam a noção de
variação sociolingüística e um conjunto mínimo de variantes (...).
• Quarta via: (...) o recorte alternativo inicialmente sugerido poderia ainda ser mantido. Se
se leva em conta, no conjunto global das informações, referentes às duas comunidades
inicialmente selecionadas, a penetração da língua escrita em diferentes momentos do
tempo e nos diferentes segmentos sociais, será possível depreender tendências lingüísticas
diretamente condicionadas pelo fator letramento.

31[31][31][31][31]
O plano de trabalho referido consta da síntese de Mattos e Silva (1998), feita anteriormente,
razão por que não é aqui retomado.
2. Questões relativas à constituição sócio-histórica do português popular e
do português culto brasileiros
Seis textos dedicam-se à constituição sócio-histórica do português brasileiro,
enfocando-o não como uma unidade, mas privilegiando o ponto de vista que o reconhece
como uma realidade heterogênea, para a qual, sempre dentro de enfoque sociolingüístico,
se distinguem caracterizações que ou o concebem como um diassistema constituído por
pelo menos dois subsistemas, também eles heterogêneos, designados de normas vernáculas
e de normas cultas, ou o interpretam como um diassistema constituído por três subsistemas,
grosso modo correspondentes a uma variedade rural inculta, uma variedade urbana inculta
e uma variedade urbana culta.
Os textos a serem apresentados a seguir, portanto, contribuem diretamente para uma
reconstrução mais aproximada da formação histórica daquilo que mais correntemente se
tem designado de português popular brasileiro e de português culto brasileiro. São eles:
De fontes sócio-históricas para a história social lingüística do Brasil: em busca de indícios
de Rosa Virgínia Mattos e Silva (2001); A variedade lingüística de negros e escravos: um
tópico da história do português no Brasil e Estereótipos lingüísticos: negros em charges do
século XIX de Tânia Maria Alkmim (2001 e 2002, respectivamente); Tentativa de
explicação diacrônica de alguns fenômenos morfossintáticos do português brasileiro de
Eberhard Gärtner (2002); Português padrão, português não-padrão e a hipótese do contato
lingüístico de Heliana Ribeiro de Mello (2002) e, finalmente, Quais as faces do português
culto brasileiro? de Ilza Ribeiro (2002).

Em De fontes sócio-históricas para a história social lingüística do Brasil: em busca


de indícios, de Rosa Virgínia Mattos e Silva (2001), o objetivo principal é argumentar, a
partir de indícios32[32] extraídos de fontes sócio-históricas, a favor do papel predominante
de africanos e afro-descendentes como difusores e formatadores do português popular
brasileiro (PPB), variante social majoritária do português brasileiro e cujo antecedente
histórico propõe ter sido o que designa de português geral brasileiro.
Ao iniciar o seu texto, Mattos e Silva retoma a caracterização sociolingüística do
português brasileiro contemporâneo proposta por Lucchesi (1994) e por ela acolhida33[33]
e destaca que a compreesão e explicitação da complexidade do diagnóstico feito só será
possível a partir de uma abordagem diacrônica. Embora não seja objetivo da autora tratar
do passado do português culto brasileiro (PBC) – que, afirma, só começará a elaborar-se
tardiamente, da segunda metade do século XVIII para cá, “a partir da política geral e da
política lingüística pombalinas, que definem a língua portuguesa como língua oficial da
colônia brasileira e iniciam o incentivo ao seu ensino” –, julga oportuno apresentar dados
do primeiro recenseamento geral do Brasil, de 1872, colhidos em Fausto (1994)34[34], que
revelam indícios da difusão provavelmente restrita do PCB, ao fim do período colonial e do
período imperial:

32[32][32][32][32]
Esclarece a autora que utiliza a designação indícios no sentido proposto por GUINSBURG,
Carlo. (1989). Mitos emblemas sinais: morfologia e história. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, para
quem o “conhecimento histórico é indireto, indiciário, conjectural”.
33[33][33][33][33]
Para a caracterização referida, ver Mattos e Silva (1998), anteriormente sintetizado.
34[34][34][34][34]
FAUSTO, B. (1994). História do Brasil. São Paulo: EDUSP/FDE.
Os primeiros dados gerais sobre instrução mostram enormes carências nessa área. Em
1872, entre os escravos, o índice de analfabetos atingia 99.9% e entre a população livre
aproximadamente 80%, subindo para mais de 86% quando consideramos as mulheres.
Mesmo descontando-se o fato de que os percentuais se referem à população total
[estimada nesse recenseamento em 4.6 milhões], sem excluir crianças nos primeiros anos
de vida, eles são bastante elevados. Apurou-se ainda que somente 16.8% da população
entre seis e quinze anos freqüentavam a escola. Havia apenas 12 mil alunos matriculados
em colégios secundários. Entretanto, calcula-se que chegavam a 8.000 o número de
pessoas com educação superior no país. Um abismo separava, pois, a elite letrada da
grande massa de analfabetos e gente com educação rudimentar. (Fausto 1994:237)

Conclui, a partir dos dados acima referidos, que a polarização em norma(s)


vernácula(s) e norma(s) culta(s) destacada por Lucchesi se enraíza no abismo a que se
refere o historiador.
A seguir, concentra-se na questão da dinâmica do multilingüismo/ multidialetalismo
no período colonial, enfocando, sobretudo, a emergência do antecedente histórico do PPB,
que designa de português geral brasileiro, mas tecendo, previamente, considerações acerca
do português europeu e das línguas gerais indígenas.
Ao enfocar o português europeu no Brasil colonial, Mattos e Silva vai buscar, nos
dados demográficos reunidos por Alberto Mussa (1991)35[35], resposta para a questão
relativa ao contingente demográfico que teria sido o forte candidato a usá-lo ou a usar o
português mais europeizado. A questão é relevante, pois, “o português europeu (ou o
português mais europeizado) seria o modelo a perseguir na elaboração do [PCB], que,
certamente, se distanciava do português geral brasileiro (...)”, e também porque “falantes
dessas variedades de português – o europeu e o geral brasileiro – estiveram, certamente,
em situações de contacto, portanto de interinfluências, ao longo, pelo menos, do período
colonial.”. Sobre tal questão, afirma:

(...) os europeus e os brancos brasileiros, que se supõe terem falado o português mais
próximo do português europeu, por causa da própria história familiar e conseqüente forma
de aquisição do português, constituíram, ao longo do período colonial, uma constante (...): à
volta de 30%, só crescendo para 41% na segunda metade do século XIX.

Ainda acerca do português europeu no período colonial, destaca que, para além da
necessidade de se ter em conta a existência de diferenças dialetais geográficas e de
diferenças dialetais sociais entre as variantes aqui chegadas, se deve considerar ainda que
“os portugueses e sua língua chegaram ao Brasil em 1500 e continuaram a vir por todo o
período colonial”, a fim de que se possa avaliar se é pertinente a postulação tradicional
segundo a qual o português brasileiro seria mais conservador em relação ao europeu,
mantendo características do período arcaico e quinhentista36[36].

35[35][35][35][35]
MUSSA, Alberto. (1991). O papel das língua africanas na história do português do Brasil. Rio
de Janeiro: UFRJ. Dissertação de Mestrado.
36[36][36][36][36]
A propósito desta questão, Mattos e Silva indica RIBEIRO, Ilza. (1998). A
mudança no PB é mudança em relação a que gramática? In: CASTILHO, A. T. (org.). Para
a história do português brasileiro. v. I. Primeiras idéias. São Paulo: Humanitas.
No tópico relativo às línguas gerais indígenas no Brasil, a autora discute uma uma
questão que considera fundamental na reconstrução de uma história lingüística do Brasil e,
conseqüentemente, na reconstrução da história do português brasileiro, ou seja, a questão
relativa a saber o que de diversidade lingüística recobre a designação língua geral, que,
utilizada no singular e genericamente, continua a ser repetida por lingüistas e historiadores:

O percurso histórico do conceito língua geral no Brasil teria de ser reconstruído para que
se tivesse uma aproximação mais exata dos valores semânticos recobertos pelo significante
língua geral.

O ponto de partida apontado para a compreensão da diversificação que está


embutida na expressão língua geral, é o estudo de Aryon Rodrigues (1986)37[37], em que
trata não de uma, mas de duas línguas gerais distintas – a paulista e a amazônica38[38]. A
situação referida leva-a a supor que, entre essas duas língus gerais, se pode idealizar um
continuum de situações, com maior ou menor marca das línguas em contato, o português e
a(s) língua(s) indígena(s). É, contudo, com base em trabalho do historiador John Manuel
Monteiro (1995)39[39] - segundo o qual, nas palavras do referido autor, “observadores
portugueses da época colonial (...) facilmente confundia[m]-se com o português colonial,
corrompido pela presença de barbarismos africanos e indígenas” – que vai levantar uma
hipótese ainda não explorada, a de que

[aquilo] que na documentação colonial se designa por usar a língua geral, falar a língua
geral, saber a língua geral se refira a um português simplificado, com interferências de
línguas indígenas e também de línguas africanas

Ou seja, mais concretamente,

deveria ter havido [dificuldade] em distinguir [as] línguas gerais [descendentes do encontro
do português europeu e de línguas da família tupi-guarani] do português geral brasileiro
das camadas sociais que constituíam a maioria, a base da sociedade colonial polarizada

A hipótese de investigação proposta complexifica-se ainda mais, na medida em que


não teriam sido os índios os difusores – no geral do Brasil – do português geral brasileiro,
já que, a taxa de índios integrados à sociedade colonial descresceu drasticamente do século
XVI para o século XIX: 50% no século XVI; 10% no século XVII; 8% no século XVIII;
4% na primeira metade do século XIX e, finalmente, 2% na segunda metade do século
XIX40[40]. A argumentação da autora41[41] será, pois, no sentido de demonstrar que
africanos e afro-descendentes foram os principais difusores e formatadores do português

37[37][37][37][37]
RODRIGUES, Aryon. (1986). Línguas brasileiras. São Paulo: Loyola.
38[38][38][38][38]
Admite que outras terá havido e menciona o caso da língua geral de base cariri, difundida pelos
interiores do Nordeste do Brasil, a que se refere Antônio Houaiss (1985).
39[39][39][39][39]
MONTEIRO, John Manuel. (1995). Negros da terra: índios e bandeirantes nas origens de São
Paulo. São Paulo: Companhia das Letras.
40[40][40][40][40]
Cf. MUSSA op. cit.
41[41][41][41][41]
Apóia-se em MUSSA op. cit. e RIBEIRO, Darcy. (1995).O povo brasileiro: a formação e o
sentido do Brasil. São Paulo: Compahia das Letras.
geral brasileiro, antecedente histórico do PPB. A defesa desse ponto de vista baseia-se nos
argumentos apresentados a seguir:

a. a. a. a. a. A massa de africanos e de afro-brasileiros (negros e mulatos) foi


extremamente significativa na dinâmica da demografia colonial e pós-colonial brasileira:
20% no século XVI; 60% no século XVII; 60% no século XVIII e 65% no século XIX. Não
tendo havido a possibilidade de se estabelecerem no Brasil línguas africanas, os africanos
adotaram o português do colonizador, reestruturando-o profundamente, porque adquirido
em situações de oralidade e sob o second language learning effect42[42];
b. b. b. b. b. A presença dos africanos e afro-descendentes foi generalizada
por todo Brasil colonial, ainda que com menos representatividade no Brasil meridional e no
Brasil Amazônico. Para além de terem estado sempre presentes nas grandes frentes de
exploração mercantil, desempenharam ainda múltiplos e pequenos, mas essenciais,
papéis43[43] no interior das famílias dos colonizadores e também no espaço extra-
doméstico, tanto nos núcleos urbanos em formação, como nas áreas rurais.

A caracterização feita para o português geral brasileiro apresenta-o como altamente


diversificado e, embora afirmando a autora não ser tal diversificação verificável
empiricamente, considera provável ter havido denominadores comuns entre as suas
variedades, as quais permitiriam a intercomunicação, pelo menos desde fins do século XVII
e início do século XVIII. Destaca, então, o período da mineração como primeiro momento
da integração colonial e afirma: “Muito provavelmente a língua de comunicação
generalizada nesse momento integrador da sociedade colonial seria o português geral
brasileiro (...).”
A parte final do texto trata da questão lingüística dos quilombos, aspecto da história
afro-brasileira apresentado como essencial para a compreensão da difusão do PPB em
perspectiva histórica. Houve, durante o período colonial, centenas, senão milhares de
quilombos44[44]. Segundo J. J. Reis e F.S. Gomes (1996)45[45] – organizadores da
coletânea de estudos Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil –, os
quilombos, espaços ilegítimos da escravidão, apesar de terem de se isolar para
sobreviverem, também, por causa da sua sobrevivência, se articulavam com a sociedade
legítima. A partir de indícios extraídos desta última fonte sócio-histórica, Mattos e Silva
diz:

Embora os estudos do livro não falem da “língua” dos quilombos como


gostaríamos, poder-se-ia conjecturar (...) que, nessas situações sociais, se encontrariam
múltiplas falas correntes no Brasil: africanas, indígenas, português africanizado, português
indígena, até português europeu, já que acoitavam fugitivos. Seriam laboratórios de

42[42][42][42][42]
Cf. KROCH, A., TAYLOR, A. (1994). English verb-second constraint: case study in language
and language change. Mimeo.
43[43][43][43][43]
Cf. KARASCH, M. (1994). Escravidão africana. In: NIZZA DA SILVA, M. B. (org.). (1994).
Dicionário da história da colonização portuguesa no Brasil. Lisboa: Verbo.
44[44][44][44][44]
Cf. SCHWARTZ 1994
45[45][45][45][45]
REIS, J. J., GOMES, F. S. (orgs.) (1996). Liberdade por um fio: história dos
quilombos no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras.
formação (...) de um português geral brasileiro, necessário à articulação com a sociedade,
sobretudo à do segmento escravo, mas não só, externa a esses espeços ilegítimos.

As referências explícitas à questão da língua em Palmares são transcritas pela autora


e apresentadas a seguir:

não sabemos que língua se falava em Palmares. Aparentemente, contudo, os palmarinos,


como uma população de origem variada, congregando africanosde diferentes tribos,
índios e europeus, deveriam usar uma espécie de língua comum, não necessariamente banto
(Funari 1996)46[46].

A língua falada pelos palmarinos, de acordo com o que li, era um tipo de português
misturado com elementos africanos, mas diferente o suficiente para que outros brasileiros
não a entendessem. Havia sempre intérpretes acompanhando as entradas com o objetivo de
interrogar os prisioneiros de guerra. (Price 1996)47[47].

Em ambos os casos, confirma-se, pois, que não seria uma língua africana a do
quilombo dos Palmares. Então, para concluir, reforça a autora o ponto de vista defendido:

Provavelmente cada quilombo teria tido sua própria configuração lingüística, a


depender dos membros componentes desses coletivos, mas muito provavelmente haveria
sempre aqueles, em cada quilombo, que se articulariam com os espaços legítimos do seu
entorno geográfico e social, já que havia uma articulação com os grupos sociais
envolventes, importantes para a sobrevivência, pelo menos econômica, dos quilombos.
Essas configurações também seriam diferentes, provavelmente, no que se refere aos
quilombos da periferia dos centros pré-urbanos da época em relação aos rurais.

Os dois textos da autoria de Tânia Maria Alkmim dedicam-se à caracterização da


variedade lingüística de negros e escravos.
No primeiro, justamente intitulado A variedade lingüística de negros e escravos:
um tópico da história do português no Brasil, após destacar a atuação pioneira de Serafim
da Silva Neto (1950) no registro de informações importantes, coletadas em fontes
históricas, sobre o tópico em questão, pergunta-se se haveria outras informações pertinentes
e responde afirmativamente a esta questão, dizendo que “a leitura de um conjunto de obras
que tratam da escravidão e do negro se mostrou fundamental com relação à questão da
documentação de fatos de linguagem.” O seu objetivo, pois, no texto em questão, é,
partindo essencialmente das informações extraídas de Serafim da Silva Neto (1950),
sistematizar um conjunto de informações extraídas de outras fontes: Cunha (1985)48[48];
jornais e periódicos do século XIX e ainda textos literários brasileiros do século XIX,
particularmente a prosa de ficção (romances e contos) e o teatro.

46[46][46][46][46]
FUNARI, P. P. (1996). A arqueologia de Palmares: sua contribuição para o conhecimento da
cultura afo-americana. In: REIS. J. J., GOMES, F. S. (orgs.) (1996). Liberdade por um fio: história dos
quilombos no Brasil. São Paulo: Compahia das Letras.
47[47][47][47][47]
PRICE, R. (1996). Palmares como poderia ter sido. In: REIS. J. J., GOMES, F. S. (orgs.) (1996).
Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. São Paulo: Compahia das Letras.
48[48][48][48][48]
CUNHA, Manuela Carneiro da. (1985). Negros, estrangeiros: os escravos libertos e sua volta à
África. São Paulo: Brasiliense.
Quanto aos dados extraídos de charges de jornais e de obras literárias, observa que,
“os dados relativos à linguagem coletados em obras literárias devem, antes de mais nada,
ser avaliados enquanto elementos que integram a criação artística. Além disso, como no
caso da reprodução de linguagem em charges, a análise de tais dados é inseparável da
questão dos estereótipos”. Chama ainda a atenção para o fato de que, apesar de as
informações e as fontes apresentadas serem muito distintas, não permitindo generalizações,
apontam fatos importantes para uma pesquisa sobre a linguagem de negros e escravos,
referindo-se a quase totalidade dos registros ao século XIX.
As informações coletadas foram organizadas nos sete grupos seguintes:
(i) Atitudes
(ii) Idade de escravos africanos
(iii) Consideração da influência de línguas africanas
(iv) Uso de línguas africanas
(v) Situações de contato e de interação
(vi) Aquisição e domínio da língua portuguesa
(vii) Dados lingüísticos

Quanto ao último dos sete grupos referidos – Dados lingüísticos –, os fenômenos


lingüísticos observados são de forma resumida, apresentados pela autora como vem a
seguir:

- formas de tratamento;
- uso do próprio nome em lugar do pronome de 1a pessoa;
- uso de forma verbal/pronominal de 3a pessoa;
- gênero incorreto;
- ausência da marca redundante de plural;
- omissão de artigo;
- concordância verbal incorreta;
- presente do indicativo em lugar do presente do subjuntivo;
- indefinido tudo em lugar de todos;
- uso da forma subjetiva do pronome em função de objeto;
- forma do pronome possessivo incorreta (mi, mê);
- ausência do reflexivo se;
- ausência do r final;
- ausência do l final;
- l em lugar de r;
- r em lugar de l;
- r fraco em lugar de r forte;
- fechamento do timbre da pretônica;
- fechamento do timbre da vogal de monossílabos;
- ieísmo;
- despalatalização;
- redução de ditongos;
- metátese;
- paragoge;
- prótese;
- epêntese de vogal em grupo consonantal;
- aférese;
- assimilação.

Na conclusão destaca que

o trabalho apresentado carece de aprofundamento, particularmente no sentido de


obter um volume bem maior de informações relevantes

No segundo texto, Estereótipos lingüísticos: negros em charges do séc. XIX, a autora


destaca, inicialmente, Labov (1972)49[49], para quem estereótipos são formas lingüísticas
fortemente estigmatizadas, de grande impacto social. E acrescenta:

Produto de avaliação social, os estereótipos constituem-se como marcas que


representam a fala de indivíduos, de grupos ou classe de indivíduos. Nesse sentido, os
estereótipos resultam da seleção de algumas formas – as mais freqüentes, as mais salientes,
as mais privativas – que, simbólica ou efetivamente, funcionam como índices de
pertencimento social, regional, sexual, etário, etc.

Neste trabalho, Alkmim analisa charges escritas entre 1831 a 1876 e observa que,
nelas, a fala de negros e escravos brasileiros faz contraste absoluto com a fala de
personagens brancas, o que permite caracterizar as formas lingüísticas identificáveis como
próprias ao grupo. Os negros e escravos são identificados como ‘negro’ (1831), ‘pretos de
ganho’ (1864), ‘negros minas’ (1868), ‘sargento pretalhão’ (1870) e ‘casal de pretos’
(1876) e, no que diz respeito às formas de tratamento atestadas, distinguem-se:
a) formas utilizadas dos negros para brancos: ssió (1831), meu sinhô (1864), seu
moço urbano (1868), sinhô velho (1868) e nhonhô;
b) formas utilizadas dos brancos para negros: paizinho (1864) e
c) formas utilizadas entre negros: pai Zuaquim (1868), mãe Zuana e pai Zuão.

Apresentam-se, a seguir, as marcas de linguagem que chamam a atenção nas charges,


as quais destacam aspectos fonéticos e gramaticais das figuras de negros e escravos
representados:

1. Marcas fonéticas
- ausência de r final
- ausência de l final
- l pós-vocálico → r
- fechamento do timbre da pretônica
- fechamento do timbre da vogal de monossílabos
- aférese
- síncope de fone
- síncope de fone em paroxítono
- epêntese de vogal em grupo consonantal (CVV)

49[49][49][49][49]
LABOV, W. (1972). Sociolinguistic patterns. Philadelphia: University of Pensylvania Press.
- →z
- ditongação
- l→λ
- paragoge (CVC)
- l→r
- r→l
- desnasalização
- redução de ditongos – a) ew → e
b) oy → o
c) ow → u
d) õwn → o
- λ→y

2. 2. 2. 2. 2. Marcas gramaticais:

- concordância de gêneros incorreta


- flexão verbal de número e pessoa incorreta
- ausência de artigo
- quantificador “tudo” em lugar de “todo”e “todas”
- ausência de marca redundante de número
- ausência de concordância sujeito-verbo
- forma do pronome após preposição
- presente do indicativo em lugar de presente do subjuntivo

Frente a esse conjunto de dados, pergunta-se a autora: “estamos, de fato, diante de


estereótipos lingüísticos de negros e escravos brasileiros? Ou ainda: os estereótipos
observados e fixados nas charges tinham correspondência com usos reais?”. E a sua
resposta é positiva, já que, em dados coletados em fontes literárias (prosa de ficção e teatro)
do século XIX, a quase totalidade das marcas fonéticas e gramaticais é observada nos dois
tipos de fonte, excetuando, para as marcas fonéticas, ditongação e l → λ e, para as marcas
gramaticais, forma do pronome após preposição e presente do indicativo em lugar de
presente do subjuntivo.
A questão final colocada é: tais marcas – ou algumas delas – seriam privativas do
grupo de negros e escravos? Segundo a autora, algumas delas parecem indissociáveis da
origem africana de seus usuários; outras, com certeza, não.

Em Tentativa de explicação diacrônica de alguns fenômenos morfossintáticos do


português brasileiro, Eberhard Gärtner (2002), a partir de estudos realizados na década de
80 sobre o português não-padrão de Angola e Moçambique e ainda sobre a respectiva
produção literária daqueles países, afirma aceitar a tese do contato lingüístico como
explicação primordial de certos fenômenos brasileiros50[50] e propõe uma caracterização
sociolingüística do PB, a partir de um diassistema constituído por três variedades
designadas de variedade rural inculta, variedade urbana inculta e variedade urbana culta.

50[50][50][50][50]
Afirma, contudo, não perder de vista a possibilidade de coincidência entre os resultados
concretos e os esperáveis da deriva.
A primeira parte do texto é, pois, dedicada a discutir a formação do referido
diassistema, entre cujas variedades não supõe existirem barreiras rígidas. Segundo o autor,
as línguas africanas e as indígenas com as quais o português entrou em contato no Brasil
pertencem a grupos tipológicos que não conhecem o processo de flexão típico do
português. Dadas as condições em que foram obrigados aprender o português, os falantes
dessas línguas teriam simplificado todos aqueles elementos cuja função não lhes fosse
transparente, resultando deste processo o que é geralmente suposto ter sido um
pidgin51[51], crioulo ou semi-crioulo52[52], ou seja, um português extremamente
simplificado. É com base em um processo posterior de reaportuguesamento ou
descrioulização, que afirma ser decorrente da imposição do português a partir do século
XVIII, que vai explicar a formação das variedades incultas, a rural e a urbana, as quais
apresentariam traços lingüísticos também encontrados nas variedades não-padrão do
português de Angola e Moçambique:

[o processo de reaportuguesamento ou descrioulização] terá contribuído para que o


sistema extremamente simplificado do pidgin ou semi-crioulo adotasse, nas regiões
influenciadas pela irradiação lingüística dos centros urbanos, pelo menos alguns dos
elementos e processos morfossintáticos do português normal, o que terá resultado na
formação da linguagem rural do interior, na forma dos dialetos matuto53[53] e
caipira54[54];

uma vez que as camadas baixas da população urbana se constituíram (e se vêm


constituindo até hoje) por elementos humanos de procedência rural, a linguagem dessas
camadas incultas, sob a influência direta do português normal das classes dominantes, se
terá ido paulatinamente transformando numa nova variedade lingüística, no que
costumamos chamar de linguagem urbana inculta, língua popular, linguagem popular ou
vulgar.

Explicado, assim, o processo de formação das duas variedades incultas, passa à


explicação do processo de formação da variedade urbana culta, cujo início vai situar em
momento posterior:

No século XIX, depois da Independência do Brasil, com a urbanização da sociedade,


começou a formar-se a linguagem urbana culta (...), sob a influência de dois fatores
opostos: a linguagem falada nas cidades, bastante heterogênea (...) e a norma culta
européia, imposta até o nosso século, por meio do ensino escolar. Na medida em que essa
nova variedade ia tomando corpo próprio, o que parece coincidir no tempo com a

51[51][51][51][51]
CARVALHO, Felix de. (1979). Sobre os falares crioulos do Brasil. Caderno de Letras,
Universidade Federal da Paraíba, 4:79-92.
52[52][52][52][52]
MELO, Gladstone Chaves de. (1946). A língua do Brasil. 3 ed. Rio de Janeiro: Agir. SILVA
NETO, Serafim da. (1950). Introdução ao estudo da llíngua portuguesa no Brasil. Rio de Janeiro: INL.
ELIA, Sílvio. (1979). A unidade lingüística do Brasil. Rio de Janeiro: Padrão. HOLM, John. (1987) Creole
influence on popular brazilian portuguese. In: GILBERT, G. G. (ed.). Pidgin and creole languages: essays in
memory of John E. Reinecke. Honololu, p. 406-429.
53[53][53][53][53]
ELIA, Sílvio. (1979). A unidade lingüística do Brasil. Rio de Janeiro: Padrão.
54[54][54][54][54]
AMARAL, Amadeu. (1920).
constituição da República em fins do século XIX, ela foi aceitando determinados
fenômenos do português popular, arraigados já irremediavelmente no uso oral.

Gärtner conclui o item relativo à explicação do processo de formação da variedade


urbana culta, observando ter sido tal processo descrito como alteração de parâmetros55[55]
e apresentado, às vezes, como uma mudança intra-sistêmica do PB56[56], comparada à
mudança similar no francês medieval57[57]; contudo a sua posição é a de que:

parece antes tratar-se de mudança dentro de uma determinada variedade, provocada pela
entrada nela de fenômenos que tiveram a sua origem no contato lingüístico da época
colonial, e que se expandiram da linguagem rural para a urbana inculta e daí para a falada
culta.

Passa a seguir à análise de fenômenos de simplificação ocorridos no português


brasileiro. O procedimento adotado em todos os casos é o de verificar se os fenômenos sob
análise se verificam: a) no suposto português extremamente simplificado do passado, do
qual só se teria conhecimento muito indireto através da imitação da fala de negros em três
peças de Gil Vicente58[58] ou ainda através da imitação da fala de índios das missões
numa tragicomédia representada por padres jesuítas em 162059[59] b) nos falares crioulos
ou semi-crioulos de Helvécia-Ba60[60]; c) em manifestações do folclore afro-brasileiro e
d) no português não-padrão de Angola e Moçambique.

1. Simplificação da flexão verbal e suas conseqüências


No âmbito da flexão verbal, o autor destaca a queda do morfema número-pessoal,
levando à generalização da 3a pessoa do singular e à presença obrigatória do pronome
sujeito61[61]. A partir de Marques (1985)62[62], a explicação proposta para a queda do

55[55][55][55][55]
ROBERTS, Ian, KATO, Mary. (orgs.) (1993). Português brasileiro: uma viagem diacrônica.
Campinas: Ed. UNICAMP.
56[56][56][56][56]
Cf. KOSS, A. M. (1971). Sobre um fenômeno da linguagem corrente falada no Brasil
(reestruturação do paradigma de conjugação (em russo). Filologi_eskije nauki, 4:102-110 e DUARTE, Maria
Eugênia Lamoglia. (1993). Do pronome nulo ao pronome pleno: a trajetória do sujeito no português do Brasil.
In: ROBERTS, Ian, KATO, Mary. (orgs.) (1993). Português brasileiro: uma viagem diacrônica. Campinas:
Ed. da UNICAMP.
57[57][57][57][57]
DUARTE op. cit.
58[58][58][58][58]
VICENTE, Gil. (1943). Frágoa d’amor (1525). In: Obras Completas. Lisboa: Sá da Costa;
VICENTE, Gil. (1968). Clérigo da Beira (1526). In: Obras Completas. Lisboa: Sá da Costa e VICENTE, Gil.
(1943). Nau d’amores (1527). In: Obras Completas. Lisboa: Sá da Costa
59[59][59][59][59]
MIMOSO, Juan Sardina. Relación de la real tragicomedia com que los padres de la Compañia de
Jesus...recibieron a la magestad católica de Felipe II (1620), publicado pel primeira vez em Silva Neto.
(1963).
60[60][60][60][60]
FERREIRA, Carlota. (1985). Remanescentes de um falar crioulo brasileiro (Helvécia – Bahia –
Brasil). Revista Lusitana, Lisboa, Nova Série, 5:21-34.
61[61][61][61][61]
Atesta a mudança da expressão do sujeito nas imitações da fala dos negros, nas imitações da fala
dos índios, nos falares crioulos ou semi-crioulos de Helvécia, no folclore afro-brasileiro e no português não-
padrão de Angola e Moçambique.
62[62][62][62][62]
MARQUES, Irene Guerra. (1985). Algumas considerações sobre a problemática lingüística em
Angola. In: Congresso sobre a situação actual da língua portuguesa no mundo (Actas, v. 1). Liboa: ICLP, p.
205-223.
morfema é a ausência da flexão verbal nas línguas bantas, que exprimem estas categorias
mediante prefixos concordantes do sujeito:

Os falantes de línguas bantas terão identificado os pronomes retos do português com


os sujeitos pessoais das suas línguas, e, descobrindo no português processo de concordância
prefixal, terão passado a expressar o sujeito só pelo pronome, tornando-o assim obrigatório
e negligenciando os morfemas verbais.

Propões Gärtner que o sistema primitivo “terá ido sendo gradativamente alterado
posteriormente, sob a influência crescente do português normal, morfologicamente intato,
dos imigrantes portugueses a partir do século XVIII” e identifica na reconstituição do
morfema verbal na primeira pessoa do singular, com o que se obtém o sistema morfológico
característico da linguagem rural, o primeiro passo do gradativo processo de alteração. A
reconstituição do sistema terá tido como conseqüência a redundância da expressão do
sujeito, que também ocorre com as formas semicorretas das primeira e terceira pessoas do
plural. Finalmente, na sociedade urbana, “a confluência do sistema rural com o do PE terá
levado à constituição do sistema redundante, com o emprego obrigatório do pronome
sujeito e do morfema verbal de pessoa e número em todas as pessoas do verbo (ainda)
usadas no PB”.

2. Simplificação da flexão nominal e suas conseqüências


2.1 Flexão de gênero

No âmbito da flexão nominal, a primeira situação referida é a confusão do gênero


dos substantivos (e até dos pronomes pessoais), observada, às vezes, na alteração da forma
do próprio substantivo (ou pronome)63[63], porém, na maioria das vezes, na atribuição do
morfema inadequado de concordância aos artigos e adjetivos adnominais ou
predicativos64[64]. Observa-se ainda que a alteração se pode fazer em qualquer um dos
dois sentidos: do masculino para o feminino e vice-versa. Também aqui a explicação
proposta para o fenômeno estaria na diferença tipológica das línguas em contato, ou seja, o
fato de as línguas bantas não conhecerem a subclassificação dos substantivos segundo o
gênero.

2.2. Flexão de número

O segundo fenômeno enfocado é a queda da concordância de número, ou seja, a


redução da sua expressão muitas vezes ao primeiro elemento do sintagma nominal65[65].
Segundo Gärtner, não seria este um processo fonológico generalizado, uma vez que o /s/ se
mantém, por exemplo, no primeiro elemento do SN, mas, antes, um processo morfológico,
que, mais uma vez, explica, a partir Marques (1985), pelo contato de línguas:

63[63][63][63][63]
Atestada na imitação da fala de negros, em Helvécia e no dialeto caipira.
64[64][64][64][64]
Atestada na imitação da fala de negros e índios, em Helvécia, no folclore afro-brasileiro, no
dialeto caipira e no português angolano.
65[65][65][65][65]
Na imitação da fala de negros e de índios, no folclore afro-brasileiro, no dialeto caipira, no
português de Angola e de Moçambique.
Nas línguas bantas, cujos substantivos se subclassificam em classes semânticas,
caracterizadas por um prefixo característico com formas para o singular e o plural,
respectivamente, o número é designado pelos prefixos variáveis dos substantivos e pelos
prefixos concordantes dos adjetivos. A concentração no prefixos, elementos iniciais, terá
levado os aloglotas africanos a negligenciar, mais uma vez, os morfemas gramaticais dos
nomes portugueses, por se encontrarem no fim da palavra.

2.3. Determinação: o artigo

O terceiro fenômeno tratado é a omissão, embora não sistemática, do artigo66[66].


A este respeito, afirma:

Como as línguas africanas também não conhecem a categoria de determinação, expressa


pelos artigos, parece natural atribuirmos sua omissão igualmente à simplificação
introduzida no português pelo aloglota.

2.4. Função sintática: preposições


2.4.1. Omissão

Segundo o autor, por serem as preposições um recurso específico das línguas


flexionais, não causa espécie encontrar-se, na imitação da linguagem de negros e índios,
exemplos da omissão de preposições em complementos adverbiais de direção e em
construções perifrásticas. Nota ainda que, apesar de, em construções perifrásticas a omissão
da preposição também se encontrar no PE, o fenômeno teve maior desenvolvimento no
português extra-europeu, tendo sido atestado nas linguagens rural e urbana inculta
brasileiras, mas, sobretudo, no português africano, onde não se limitou às construções
perifrásticas com a preposição a, estendendo-se a outras preposições e afetando mesmo o
objeto preposicional, as locuções preposicionais e adverbiais e até construções de infinitivo
regidas por verbos.

2.4.2. Extensão funcional da preposição em

O comportamento divergente das preposições foi atestado não apenas no que toca
aos casos de omissão anteriormente comentados, mas também quanto ao fenômeno da
extensão funcional da preposição em. No PE, em complementos adverbiais, em designa
normalmente o ‘lugar onde’, tendo passado, no entanto, no português extra-europeu a
designar também o ‘lugar aonde67[67]. Apoiando-se mais uma vez em Marques (1985),
Gärtner afirma:

vemos a causa da confusão entre ‘lugar onde’ e ‘lugar aonde’, mais uma vez, na falta da
respectiva distinção nas línguas bantas. Segundo a referida autora angolana, ‘para casa’ e

66[66][66][66][66]
Atestada na imitação da fala de negros e de índios, no semicrioulo de Helvécia, no folclore afro-
brasileiro e no português inculto africano.
67[67][67][67][67]
Uso atestado no folclore afro-brasileiro, nas linguagens rural e urbana incultas brasileiras, assim
como no português angolano e moçambicano.
‘em casa’ dão indistintamente ‘ku nzo’ em kikoongo, ‘konjo’ em umbundo e ‘ku bata’ em
kimbundo

E ainda:
À mesma causa será devido o emprego da preposição em para designar proximidade (...),
função reservada em PE à preposição a. A tese da origem no contato de línguas é apoiada
adicionalmente pela grande extensão que o emprego da preposição em em vez da
preposição a tem tido no português africano e que ultrapassa de muito as possibilidades do
português arcaico. Usa-se em adjuntos modais (...), em objetos preposicionais (...), no
objeto direto pleonástico (...), mas sobretudo, e nomeadamente no português angolano, no
objeto indireto dativo (...)

3. Simplificação da flexão pronominal e suas conseqüências

Nas variedades incultas do PB, nos subsistemas dos pronomes pessoais, constata o
autor a neutralização da oposição entre o caso reto e o oblíquo, e, na terceira pessoa,
também entre o dativo e o acusativo etimológicos. A este respeito afirma que

Embora as línguas bantas conheçam o processo de pronominalização anafórica, utilizando o


umbundo e o kimbundo até formas diferentes para o caso reto e o oblíquo, ao passo que o
kikoongo usa as mesmas formas para os dois casos, o sistema pronominal do português terá
sido pouco transparente para o aloglota. Assim, optou por duas estratégias: (1) evitar seu
emprego quando o sentido estivesse claro pela situação ou (2) empregar as formas tônicas
mais facilmente segmentáveis na cadeia falada portuguesa, mas sem distinguir os casos reto
e oblíquo e dando aos pronomes o mesmo tratamento sintático que aos substantivos.

3.1. Omissão do pronome pessoal objeto


A omissão do pronome (=objeto nulo) acontece sobretudo, embora não
exclusivamente, no caso do objeto direto68[68].

3.2. Pronomes sujeito em função de objeto

A linguagem rural brasileira apresenta solução radical quanto à oposição de casos,


empregando as formas retas na função de objeto direto e mesmo depois de preposição, com
exceção, talvez, do objeto indireto dativo, onde se atesta sistematicamente a forma mim.
Gärtner considera que o fato de a substituição das formas oblíquas pelas retas ter afetado
todas as pessoas torna pouco plausível a hipótese da sobrevivência de uso arcaico69[69],
explicando o fenômeno a partir do contato do português com línguas que não conhecem um

68[68][68][68][68]
Foram atestados indícios dela nas imitações da fala de negros e de índios, no
folclore afro-brasileiro, nas linguagens rural e urbana inculta brasileiras, no português de
Angola e de Moçambique. Gärtner ainda chama a atenção parao o fato de que “No Brasil,
como é sabido, a realização zero já entrou na fala urbana culta (...) não se restringindo (...)
aos clíticos do objeto direto.”
69[69][69][69][69]
, defendida por Sousa da Silveira (1966), Rocha Lima (1998) e Chaves de Melo (1946) para as
formas de terceira pessoa.
sistema pronominal com distinção de pessoa, número, caso e gênero70[70]. Supõe ter tido o
processo do reaportuguesamento, a partir do século XVIII, o papel de fortaler o emprego
das formas átonas, mas a reconstituição deu-se apenas parcialmente, já que ainda se
encontram formas retas em função de objeto direto na linguagem urbana inculta. Destaca
ainda, a ocorrência da forma reta da terceira pessoa (ele, ela) em registros informais da
linguagem falada culta71[71]. Para o autor,

A maior aceitabilidade deste pronome em função de objeto direto se explicará pelo fato de
ele, como os substantivos e o pronome-substantivo você, não ter formas distintas para os
casos reto e oblíquo (...). Temos, portanto, que o resultado de uma simplificação efetuada
em situação de contato lingüístico passou tal e qual para a linguagem urbana inculta,
arraigando-se de tal maneira que o emprego das formas átonas do PE é hoje sentido como
pouco brasileiro. A substituição das formas oblíquas átonas pelas tônicas retas de primeira e
segunda pessoa parece ser mais acitável depois de verbos causativos (deixar, fazer,
mandar) e sensitivos (ver, ouvir, sentir) seguidos de infinitivo (...). Isto se deverá a uma
reinterpretação da função sintática do pronome.

Em Português padrão, português não-padrão e a hipótese do contato lingüístico,


Heliana Ribeiro de Mello (2002) destaca inicialmente que “um dos primeiros fatores a se
levar em consideração ao analisar a ecologia lingüística caracterizadora do Brasil colonial é
o multilingüismo.” Assim, a questão fundamental a se discutir é como se teria
desenvolvido, a partir de tal contexto lingüístico, o que hoje se chama de português
brasileiro. Apoiando-se em Thomason and Kaufman (1998)72[72], propõe hipótese para o
desenvolvimento do português brasileiro, levando em conta a interação de fatores sócio-
históricos e suas implicações no âmbito da mudança lingüística.
Mello distingue, no português brasileiro, duas variedades:
- a não-padrão (PNP): dialetos falados pela massa populacional que pouco ou nenhum acesso
teve à educação escolar, ou por pessoas que dominam variedades dialetais padrão, mas se
expressam em PNP em contextos relaxados, íntimos, familiares;
- a padrão (PP): modalidade predominantemente utilizada nos contextos de interação formal
por uma parcela da população que teve acesso à educação formal.

Chama a atenção para o fato de que não haveria um corte abrupto entre PNP e PP e,
sim, gradações de marcas lingüísticas. Contudo, dentres outras, seriam cacterísticas apenas
de variedades do PNP as seguintes:

70[70][70][70][70]
explicação plausível, como aliás foi reconhecido em 1979 por Sílvio Elia (...)”
que antes reproduzia a explicação de Sousa da Silveira
71[71][71][71][71]
As imitações da fala dos aloglotas dos séculos XVI e XVII caracterizam-se
por uso preferencial (porém não exclusivo) das formas tônicas como objeto direto, sem
distinção de gênero na 3a pessoa, o que estaria de acordo com as línguas bantas, que não
têm a referida distinção. O uso de ele / ela como objeto direto também se encontra em
Angola.
72[72][72][72][72]
THOMASON KAUFMAN. (1988): “a história de uma língua é uma função da história de seus
falantes, e não um fenômeno independente que pode ser estudado em detalhes sem menção ao contexto social
em que está inserido”
a) redução do paradigma de concordância verbal;
b) marcação de concordância de número no primeiro elemento do SN;
c) predominância de construções analíticas (por exemplo a quasi-passiva em lugar
de passivas sintéticas);
d) relativas cortadoras e com estratégias de uso do pronome lembrete.

Para a autora, dois quadros, não mutuamente excludentes, se colocam no estudo da


formação do PNP:
1. mudanças lingüísticas intra-sistêmica e deriva (fatores internos) – “tendências
internas presentes em dialetos portugueses, incluindo-se aí variedades arcaicas, além de
inovações, simplificações e mudanças que ocorrem espontaneamente em todas as línguas
ao longo do processo de transmissão pelos seus falantes”;
2. inovações induzidas pelo contato lingüístico (fatores intersistêmicos) –
“possíveis efeitos acarretados por situações de contato lingüístico, ou seja, empréstimos,
transmissão incompleta e crioulização.”

Apesar de reconhecer ser a deriva, dentre os processos de mudança, o mais bem


estudado, afirma que “muitas dúvidas quanto aos mecanismos que levam à sua aplicação
permanecem”. Enfocando a vertente de estudos comparativos entre PNP e Português
Arcaico (PA), observa que se tem sugerido que muitos dos traços diferenciadores do PNP
seriam resultado de tendências evolutivas não apenas do PA, mas do próprio latim. Da
comparação entre o PNP e o PA, vai destacar:
Para o nível fônico:
Pontos de divergências:
a) “parecem diferir quanto ao número de consoantes e na qualidade de algumas
vogais”;
b) “[no PNP, ocorre] simplificação da estrutura silábica, especialmente no que diz respeito à
quebra de grupos consonantais pela inserção de vogais e apagamento de consoantes”;
c) “não encontrei evidências, nos dados consultados, que confirmassem a afirmação de Naro e
Scherre (1993) sobre a possível origem fonológica no PA para o apagamento de –s de
sílaba final (...)”.

Pontos de aproximação:
d) “um dos processos fonológicos que aparentemente já estavam em andamento no PA e que se
manifesta no PNP é a desnalazação das vogais átonas em sílabas finais”

Para o nível da morfossintaxe:


Pontos de aproximação:
a) uso do verbo ter em sentido existencial;
b) uso da preposição em com sentido locativo e direcional;
c) uso da preposição para em lugar de a;
d) uso de orações ativas com sujeito indeterminado substituindo construções
passivas;
e) no paradigma verbal, uso do pretérito imperfeito pelo futuro do pretérito e uso
do presente pelo futuro do indicativo;
São ainda apresentados no nível da morfossintaxe outros fenômenos possivelmente
resultantes da deriva, mas que aparecem esporadicamente nos dados consultados:
f) uso de pronomes nominativos em função de objetos;
g) construções relativas com pronome lembrete.

Observando que, aparentemente, nos dois últimos casos, as ocorrências se davam


em contextos enfáticos, vai propor, como explicação possível, que os portugueses
utilizassem construções enfáticas ao se comunicarem com falantes de outras línguas numa
tentativa de facilitar a comunicação e que, com tempo, o tom enfático se tivesse perdido e
essas construções entrado no uso corrente da língua.
Tocando na questão do contato que, com a emigração massiva para o Brasil, houve
entre falantes de diferentes dialetos portugueses, vai afirmar ter-se processado um
nivelamento dialetal e que “o efeito genérico [desse] nivelamento dialetal português no
Brasil foi o desenvolvimento de um autêntico dialeto brasileiro, que não passou pelas
inovações que se alastraram em Portugal após o pico da emigração para o Brasil.”
Passando, a seguir, à discussão do contato entre línguas no Brasil colonial, vai
distinguir duas situações:
- a de transmissão normal, que “preserva a língua geneticamente, mesmo que haja
mudanças resultantes de contato”;
- a de transmissão imperfeita, que “resulta na formação de línguas novas, mistas,
como é o caso das línguas crioulas”.

Segundo Mello, Thomason e Kaufman (1998) concluíram que é a sócio-história dos


falantes de uma língua, e não a estrutura da língua, que determina o resultado do contato
linguístico. Embora concordando quanto à importância dos aspectos sócio-históricos, diz
que alguns fatores puramente lingüísticos – os de natureza tipológica, implicaturas
universais ou regras de naturalidade – têm grande relevância na interpolação da gramática
de uma dada língua a outra e não podem ser excluídos da análise.
Na parte final do seu texto, Mello dedica-se a apresentar a sua hipótese para o
desenvolvimento do PNP. Segundo a autora, a maioria dos primeiros colonizadores falava
dialetos vernáculos e apenas uma pequena parcela, modalidades dialetais mais prestigiadas.
Os primeiros nivelaram seus falares para uma modalidade lingüística que eliminou formas
marcadas, dando início ao processo de distanciamento entre o português falado no Brasil e
o português de Portugal. Em áreas rurais, supõe, os portugueses devem ter aprendido
alguma forma de pidgin para comunicação com escravos africanos e, em áreas de
ameríndios, devem ter usado algum dialeto de contato, como a língua geral. Quanto aos
escravos africanos, falariam as suas línguas de origem, dentre elas, inclusive o crioulo
satotomense, já que “uma porcentagem dos escravos vindos para o Brasil se originou em
São Tomé” e devem ter usado alguma forma de pidgin português – aprendido nos
entrepostos escravagistas africanos ou nas fazendas e zonas mineiras – para se
comunicarem entre si e também com os falantes de português. Escravos de segunda geração
falariam as línguas nativas de seus pais e o pidgin, já as crianças escravas, criadas com as
brancas, falariam o português, com marcas de reestruturação. Escravos domésticos falariam
um português menos pidginizado. Com o tempo, escravos nascidos no Brasil falariam
variedades nativizadas do português com traços de línguas de substrato e erros de aquisição
de segunda língua. a população rural branca, em muitos casos, teria a fala escrava como
modelo de sua aquisição nativa.
Propõe que, ao final do século XVII, já deveria ter-se formado um contínuo de
variedades da língua portuguesa no Brasil – PNP –, em cujo extremo mais reestruturado
figuraria a fala dos escravos nascidos na África; em cujo centro fugurariam as variedades
faladas por escravos de zonas rurais nascidos no Brasil e, finalmente, em cuja extremidade
menos reestruturada, figurariam as variedades faladas pelos escravos domésticos e pela
população branca de baixa renda. Propõe ainda que a difusão de traços gramaticais no PNP
seja, em parte, explicada por meio de um nivelamento dialetal secundário, desencadeado
em sua maioria por movimentos migratórios73[73]. Destaca, finalmente, que o grupo
populacional que mais cresceu foi o mestiço e que “um dos elementos de coesão na
identidade desse grupo teria sido a língua por ele falada, (...) uma variedade do PNP.”

A autora sintetiza a sua proposta como vem a seguir:

foram propostas a interação e a confluência de três grupos de fatores para a emergência


dos chamados traço distintivos do PNP, quais sejam, fatores intra-sistêmicos (mudanças
internas do português, deriva, evolução lingüística), nivelamento dialetal e faores inter-
sistêmicos (aquisição imperfeita de segunda língua, transferência de traços de língua de
substrato, reestruturação gramatical).

Em Quais as faces do português culto brasileiro?, Ilza Ribeiro (2002) contribui


com o debate, enfocando duas questões: a) a questão a história da escolarização no Brasil,
sobretudo a do ensino superior, cujo conhecimento é necessário para se rastrear a formação
do português culto brasileiro e b) a questão da caracterização das propriedades lingüísticas
que diferenciariam o PB culto do PB popular; relativamente à última questão, pergunta-se
“se é possível caracterizar sintaticamente a pluralidade e a polaridade do PB culto, em
oposição ao PB popular.”
No seu passeio pela história da escolarização no Brasil, Ribeiro vai partir de uma
fotografia que retrataria não só a situação do presente, mas também do nosso passado,
próximo e longínquo:

em 199174[74], de um total de 34.734.715 chefes de família, menos de 6% tinham


formação universitária completa, sendo que aproximadamente 30% tinham entre zero e um
ano de escolarização; o maior índice de escolarização, aproximadamente 30%, diz respeito
a uma média entre quatro e sete anos de estudo. Sendo de menos de 6% a porcentagem de
chefes de família candidatos ao domínio da norma culta, essa porcentagem tão irrisória de
algum modo se dilui na massa de brasileiros não-falantes da norma culta.

Quanto ao Brasil Colônia, vai destacar, a partir de Rossato (1998)75[75], que a


realização dos cursos de Filosofia e Teologia “tem levado historiadores a julgar que os
colégios dos jesuítas em quase nada se diferenciavam das instituições de ensino superior
das colônias hispânicas”. Assim, em 1638, com o curso de Filosofia no Colégio do Rio de

73[73][73][73][73]
Bandeirantes, mercadores e suas caravanas, movimentos de escravos das regiões canavieiras para
as mineradoras e, posteriormente, de volta às regiões agrárias, sendo o maior dos movimentos o que ocorreu
após o fim da escravatura com a ida de ex-escravos para as cidades.
74[74][74][74][74]
Fonte:
75[75][75][75][75]
ROSSATO. (1998).
Janeiro, teria tido início o ensino superior no Brasil. Em meados do século XVIII, os
jesuítas são expulsos do Brasil, resultando daí a destruição do sistema de ensino colonial,
pois inicialmente nada foi organizado para substituí-lo. Apesar dos cursos superiores que,
paulatinamente, foram surgindo, Ribeiro conclui, com base em Fávero76[76], ter havido, ao
longo do período que vai da Colônia à República, grande resistência à idéia de criação de
instituições universitárias. Relativamente à questão de saber quantos, no período colonial e
imperial, freqüentaram cursos superiores, sendo, assim, os prováveis falantes de um
português culto brasileiro, vai observar que, “com 30% de portugueses e descendentes na
composição demográfica da sociedade brasileira de então77[77], só uma parcela deles
deveria participar desses cursos, [já que] muitos dos portugueses que para cá vieram eram
adultos, analfabetos ou semi-alfabetizados e pobres”. De acordo com Ribeiro
(1978:20)78[78], ao longo de todo o período colonial, aproximadamente apenas 2.800
bacharéis e médicos se formaram em Coimbra; ainda segundo o mesmo autor, por ocasião
da Independência, seriam em torno de 2.000 os brasileiros com formação superior, número
que, segundo Fausto (1997), se eleva um pouco em 1872, quando se calcula que 8.000
pessoas teriam educação superior no país. Adverte ainda a autora para o fato de que “essas
prováveis 8 mil pessoas com curso superior correspondiam a uma pequeníssima parcela da
população, desde que eram analfabetos 99.9% dos escravos e aproximadamente 80% da
população livre.”
Com a criação do Ministério da Instrução Pública, Correios e Telégrafos, a
República (1889), mais sensivelmente, vai instaurar a preocupação com a erradicação do
analfabetismo, com a expansão da educação escolarizada. Todavia, só a partir da década de
20 surgem as universidades, sendo a Universidade do Rio de Janeiro, de 1920, considerada
a primeira79[79] e cabendo ao período getulista (1930-1945) a organização teórica e prática
da universidade brasileira: cria-se o Ministério de Educação e Saúde Pública, fundam-se 95
novas instituições de ensino superior e elabora-se o primeiro estatuto da universidade
brasileira. Mais uma vez, relativamente à questão de saber sobre a progressão do número
dos que freqüentaram cursos superiores, os dados abaixo extraídos de Rossato são
elucidativos:

a. De 1950 para 1960, passa-se de 44 mil para 96 mil matrículas no ensino


superior, o que, contudo, era era pouco expressivo para o volume da população do
país, que ultrapassava os 70 milhões na entrada da década de 1960. Em 1960,
portanto, menos de 2% da população freqüentavam cursos universitários;
b. De 1960 para 1970, passa-se de 96.691 para 425.478 matrículas no ensino
superior;
c. De 1970 para 1980, passa-se de 425.478 para 1.377.286 matrículas no ensino
superior ;
d. De 1980 a 1994, passa-se de 1.377.286 para 1.594.668 matrículas no ensino
superior; razão por que a década de 80 considerada como uma década perdida para
a educação;

76[76][76][76][76]
FÁVERO
77[77][77][77][77]
Cf. MUSSA op. cit.
78[78][78][78][78]
RIBEIRO. (1978).
79[79][79][79][79]
Rossato relata que, por influência política e poder da economia local, foram criadas 3
universidades de 1909 a 1912, embora de duração efêmera.
O crescimento do número de matriculados no ensino superior, apesar de não
significativo na última década, e também do número de instituições superiores não teria
alterado significativamente o quadro geral do ensino escolarizado no país, já que, a partir de
Cunha (1978)80[80], diz a autora:

do número total de crianças com 7 anos de idade, zonas urbana e rural, só 30.9%
freqüentavam a 1a série em 1964 e so 34.4%, em 1970. (...) em 1960, de 1.000 alunos
matriculados na 1a série, só 63 chegaram à 3a série colegial; desses só 48 alcançaram a 1a
série superior (...). Para 1971, do número total de ingressos na 1a série (5.657.999
matrículas), apenas 40.1% chegaram à 2a série, apresentando-se índices de 28.3% de
reprovação e de 13.1% de evasão. Quando é observado o número de matrículas na 2a
série, para 1972, constata-se uma evasão de 35.7% durante as férias.

Cunha analisa ainda, para 1970, a distribuição percentual de escolarização das


pessoas de 10 anos e mais, segundo anos de estudo e zonas urbana e rural. Com base nos
resultados que apresenta Ribeiro afirma:

A comparação entre os percentuais de pessoas com 6 anos de escolarização (2.5%),


com 7 anos (2.0%), com 8 anos (1.7%) e com 9 a 17 anos (7.9%) mostra claramente o
baixo índice de formação da população brasileira, o abismo que separa uma minoria com
curso superior da maioria com nenhum (36.6%) ou poucos anos de escolarização (variando
entre 6.3% e 13.8%).

Finalmente, para o período que vai de 1991 a 1994, apresenta os seguintes dados:
- analfabetismo (pop. + 15 anos): 1991 – 20.1%; 1994 – 17.2%
- escolaridade (crianças 7-14): 1991 – 91.6%; 1994 – 92%
- repetência (1o grau): 1991, sem dados; 1994 – 33%
- evasão (1o grau): 1991, sem dados; 1994 – 5.6%

A conclusão da autora é a de que


neste Brasil semiletrado, a aprendizagem da norma culta deve ser como aprender uma
língua estrangeira (...), pois muitos da pequena parcela que atinge o nível superior devem
ser oriundos de ambientes lingüísticos diversificados, com muito pouco ou nada da norma
culta a lhes ser apresentado, de modo natural, como modelo durante o processo de
aquisição da língua materna.

Passando à segunda questão, a da caracterização das propriedades lingüísticas que


diferenciariam o PB culto do PB popular, a opinião de Ribeiro é que este não seria um
problema de fácil solução. Considerando inicialmente características fônicas, a autora vai
afirmar a necessidade de se considerar a pluralidade das normas, já que, conforme os
exemplos a seguir o demonstram, não seria possível caracterizar uniformemente a fala da
população não escolarizada ou semi-escolarizada81[81]: a) redução de ditongo [ne‘gosu];

80[80][80][80][80]
CUNHA. (1978).
81[81][81][81][81]
Observa que os fatos referidos são bastante homogêneos na fala rural típica.
b) elisão de consoante final [‘õnibu]; c) metátese [frevenu]; d) confusão das líquidas
[‘gawfu] e e) simplificação de encontros consonantais [‘otu].
No que tange a fatos morfossintáticos, julga difícil definir características próprias às
normas populares, em oposição às cultas, exceto no que diz respeito ao fenômeno da
concordância, nominal e verbal. Adverte ainda para o fato de que “nem todos os casos de
não realização da concordância verbal e nominal podem servir de indicadores de norma
culta X popular”, como se pode notar a partir dos exemplos abaixo: a) Segue as blusas; b)
Vende-se casas e c) Pega essas cadeira aí e coloca tudo ali, naquele lugar.
Finalmente, lista algumas propriedades que não permitiriam distinguir normas
cultas de normas vernáculas:

1. Propriedades pertinentes à realização do sujeito oracional:


a) “A maior realização do sujeito pronominal, em construções como “Eu vou ao cinema”,
é um fenômeno geral na fala dos brasileiros (...);
b) “Também é de uso geral o sujeito a gente (...)
c) A substituição da forma do pronome sujeito de 2a pessoa singular tu por você e do do
pronome sujeito de 2a pessoa do plural vós por vocês;
d) “O uso do pronome oblíquo como sujeito de infinitivo (Isto é para mim fazer);
e) “Vários tipos de construções em que um sujeito paciente se realiza em uma estrutura
verbal ativa “O texto está xerocando”
2. Realizações e colocações dos complementos pronominais:
a) “uso de pronome em início de sentença (...)
b) “uso de pronome tônico como objeto
c) “ausência do pronome se reflexivo (Maria casou ontem); ausência do se em passivas
(Assoalho de madeira não encera – Galves 1993)
d) “uso de lhe como acusativo (Eu lhe abraço)
3. Orações relativas – são características do PB também identificadas na fala culta:
a) “uso de relativa cortadora (Vi o artista que te falei ontem)
b) “uso de relativa lembrete (Conheço uma moça que ela só gosta de música sertaneja)
c) “ausência de cujo (A casa que as janelas (dela) estão sujas)

Na conclusão destaca:
penso que a definição da norma culta em termos de escolarização superior não permite
delinear sintaticamente os dois pólos – culto e popular – identificados pelos pesquisadores
dos fenômenos da variação. Com exceção de alguns traços mais estigmatizadores da
concordância verbal e nominal, parece-me que a sintaxe dos falantes com e sem curso
superior não apresenta propriedades tão diferenciadoras como os fatos fonológicos levam a
supor.

3. Projetos e investigações regionais


Apresentam-se, neste item, as sínteses dos projetos e investigações sobre a história
social lingüística do Brasil e/ou sobre a história social do português brasileiro em regiões
específicas do país. Nos quatro Seminários realizados, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas
Gerais e a Região Sul foram as regiões que se destacaram por apresentar trabalhos
específicos. Os trabalhos apresentados e já publicados foram:
São Paulo
CASTILHO, Ataliba T. de. (1998). Projeto de História do Português de São Paulo.
CASTILHO, Ataliba Teixeira de. (2001). Para um programa de pesquisa sobre a
história social do português de São Paulo.
GROPPI, Mirta. (2001). Problemas e perspectivas para um estudo da situação
lingüística de São Paulo no século XVIII.
OLIVEIRA, Marilza de; KEWITZ, Verena. (2002). A representação do caipira na
imprensa paulista do século XIX.

Rio de Janeiro
CALLOU, Dinah. (2002). Da história social à história lingüística: o Rio de Janeiro
no século XIX.
CALLOU, Dinah; AVELAR, Juanito. (2002). Subsídios para uma história do falar
carioca: mobilidade social no Rio de Janeiro do século XIX.

Minas Gerais
VITRAL, Lorenzo. (2001). Língua geral versus língua portuguesa: a influência do
“processo civilizatório”.
VENÂNCIO, Renato Pinto. (2001). Migração e alfabetização em Mariana colonial.
RAMOS, Jânia Martins; VENÂNCIO, Renato Pinto. (2002). Topônimos mineiros:
uma fonte para a história social da língua portuguesa.

Região Sul
OLIVEIRA, Gilvan Müller. (2001). Matrizes da língua portuguesa no Brasil
Meridional (1680-1830).
AGUILERA, Vanderci de Andrade. (2002). Para uma história do português
paranaense: nas veredas do Atlas Linguístico do Paraná.

3.1. São Paulo


Ataliba de Castilho inicia texto de 1998 caracterizando o que designou de ‘nova’
lingüística histórica, que, segundo ele, se peculiariza por uma forte atuação interdisciplinar,
maiormente com a sociolinguística e a psicolínguística, e pela escolha da sintaxe como área
preferida de atuação. A seguir, debruça-se sobre as pesquisas na área da lingüística
histórica do português no que chamou de România Velha e România Nova. Quanto à
România Velha, buscou-se, de maneira geral, identificar as contribuições fonéticas e léxicas
dos povos pré-romanos e dos povos pós-romanos; reconstruir o latim vulgar e rastrear a
variedade hispânica do latim vulgar que dera surgimento ao galego-português. No que toca
à România Nova, as pesquisas focalizam as mudanças do português, do espanhol e do
francês da América.
Passa o autor a enumerar as fases do Projeto de História do Português de São
Paulo, que objetiva: (I) constituição de um corpus para a diacronia do português de São
Paulo; (II) rastrear a história social do português brasileiro e das particularidades do
português de São Paulo e (III) flagrar as mudanças lingüísticas do português de São Paulo.
Para a constituição do corpus, de acordo com Castilho, as melhores fontes escritas
para a pesquisa histórica são as que mais se aproximam da linguagem corrente. Ressalta
ainda a preocupação filológica com a formação dos pesquisadores. A pesquisa
propriamente dita se iniciará com a fase de recolha e a conseqüente informatização dos
fundos documentais; os materiais identificados serão digitados de acordo com critérios
técnicos em discussão na Associação Brasileira de Lingüística. No caso de São Paulo, o
projeto considerará eventuais contrapontos linguísticos relacionados com aspectos sócio-
históricos, tais como o povoamento da cidade, os ciclos econômicos a que estava sujeita, os
movimentos migratórios, entre outros tópicos. Além disso, as seguintes questões entrarão
em pauta de discussão: variedade(s) do português trazida(s) ao Brasil; contatos lingüísticos
do português de Portugal no Brasil; necessidade de se pesquisar o português quinhentista, a
fim de se dar conta sobre o português transplantado para o Brasil. Para o desenvolvimento
do Projeto referido, será necessário levar em conta o debate teórico atual sobre a mudança
lingüística. Por fim, informa o autor que as pesquisas sobre o português do Brasil na sua
variedade paulistana começarão pela sintaxe, orientadas pelas descrições fornecidas pelo
Projeto NURC e pelo Projeto Gramática do Português Falado, portanto partirão do presente
para o passado.

Em texto de 2001, Ataliba de Castilho retoma o Projeto de História do Português


de São Paulo. Neste trabalho, expõe o seu ponto de vista sobre o que é a história social de
uma língua e apresenta, em seguida, um plano de pesquisa sobre a História Social do
Português de São Paulo centrado em dois momentos, que considera relevantes: (1)
implantação e expansão do “português europeu em São Paulo”, entre os sécs. XVI e XVIII,
e (2) caracterização da variedade paulista do português brasileiro, durante os séculos XIX e
XX, dando-se ênfase ao português da capital.
Segundo o autor, a identificação dos dois momentos históricos mencionados assenta
em peculiaridades do Português Europeu desses séculos e em duas tendências observadas
na formação da sociedade paulista: uma tendência centrífuga e uma tendência centrípeta.
Quanto aos fatos demográficos, a tendência centrífuga predominou dos primórdios do
povoamento até 1765. Eis os aspectos sociais que caracterizam essa fase: movimentos das
bandeiras e das viagens dos tropeiros; escassez da população; predomínio da língua geral
paulista; período de colonização do planalto e, portanto, de estagnação e de despovoamento
da cidade de São Paulo. Por outro lado, a tendência centrípeta caracterizou a capital paulista
a partir da segunda metade do século XIX. O cultivo do café e integração de São Paulo na
economia de mercado; milhares de imigrantes externos e internos; aumento drástico da
população; predomínio da língua portuguesa, que sofre a influência do italiano e,
posteriormente, do falar caipira interiorano e dos falares nordestinos são fatos que
caracterizam o momento referido.
O autor procura identificar os processos constitutivos da língua falada e apresenta
uma teoria modular da língua: um módulo de partida, o Léxico, e dois módulos de chegada,
a Gramática e a Semântica. Alojado no centro da capacidade lingüística, um programa
discursivo-computacional, de natureza pré-verbal, faria a mediação entre esses módulos. É
através desse programa que se estabelecem as identidades constitutivas do discurso, vale
dizer, a subjetividade (=locutor) e a alteridade (=interlocutor). Continuamente alimentado
pela análise da situação de fala que envolve o locutor e o interlocutor, o programa
discursivo-computacional conduz à tomada de decisões sobre como administrar o Léxico,
que palavras escolher, e que propriedades semântico-gramaticais nele ativar, reativar ou
mesmo desativar. Disso surge a hipótese de que o mencionado programa discursivo-
computacional deve desempenhar um papel igualmente importante na mudança gramatical.
Hipotetiza o autor que, numa situação de estabilidade social, diminuem as variantes
gramaticais da mesma língua. A heterogeneidade lingüística, cuja natureza constitutiva não
nega, atenua-se nessa situação, as gramáticas em confronto não são muito distanciadas.
Sem a necessidade de buscar adaptações, diminui o ritmo da mudança. Por outro lado,
numa situação de grande mobilidade social, aloglotas disputam o mesmo espaço, cresce o
número de variantes gramaticais, locutor e interlocutor vivem uma situação de
“afastamento lingüístico”, e todo um processo de ajuste se desencadeia, visando a sustentar
a cooperação conversacional. Como decorrência disso, acelera-se a mudança lingüística. Se
esta hipótese for verdadeira, é um mecanismo discursivo de avaliação das identidades
lingüísticas envolvidas no ato de fala que freia ou dispara a mudança, via excitação da
busca de ajuste entre o eu e o outro. O momento decisivo da mudança gramatical se
localizaria, portanto, na interação conversacional, e nas avaliações continuadas a que os
locutores sujeitam as múltiplas imagens geradas nesse espaço. Como se vê, esta é uma
abordagem funcionalista da mudança.
Castilho discute ainda a importância dos contatos, tanto intra como interlingüísticos,
como gatilhos discursivos da mudança lingüística. Situações de contacto interlingüístico
caracterizam o ponto máximo do afastamento discursivo, impeditivo da natural tendência
que têm os humanos de interagir através da linguagem articulada. Em São Paulo, o invasor
português adotou por três séculos a língua do outro, dando lugar à “Língua Geral Paulista”.
A partir do final do século XVIII, a língua do invasor se torna vitoriosa, desaparecendo
progressivamente a língua indígena, e também o “dialeto das senzalas”, se é que ele existiu
em São Paulo. Novos aloglotas afluem no século XIX. As situações de contato
intralingüístico, por sua vez, caracterizam o ponto máximo da proximidade discursiva, não
impeditiva da interação. Em relação a São Paulo, a constituição da metrópole pôs em
contato, inicialmente, falantes paulistas da zona rural com falantes paulistas da zona
urbana. Depois, falantes do português nordestino e do português do sudeste convivem com
os falantes do português paulista. Lembra-se ainda o contacto entre falantes cultos e
falantes analfabetos de uma mesma variedade geográfica. Além disso, portugueses
continuam a chegar.
Debruça-se ainda o autor sobre a implantação e expansão do português europeu em
São Paulo. Segundo ele, marcavam a São Paulo colonial: a) “A característica mais
acentuada de São Paulo Colonial é o desenvolvimento de atividades voltadas para o
comércio interno, enquanto no Nordeste a produção era orientada para o exterior.” b) “Um
novo modelo de povoamento gerado em São Paulo [e motivado por razões geográficas]
separa essa cidade das demais comunidades brasileiras fundadas no século XVI. Com
efeito, pela primeira vez ocorre um povoamento no interior do país, e não na região
costeira, prática comum aos colonizadores portugueses (...)”. No século XVI, com a
fundação da Vila de São Vicente, em 1532, tem início todo um período de adptação do
imigrante português às novas terras. É pequeno o número de portugueses e grande o
número de índios, surgindo o mestiço, o mameluco. As escolas existentes pertenciam aos
jesuítas e são criadas essencialmente para evangelizar os índios. A língua do cotidiano é o
Tupinambá, ou Tupi Antigo. No século XVII, começa a expansão das fronteiras. Durante a
primeira metade desse século, a invasão do Nordeste por estrangeiros desarticula o tráfico
de negros para o Brasil, aumentando a procura de escravos índios. Assim, os paulistas, que
já escravizavam os índios, passaram a atacar as missões jesuíticas para aprisionar índios e
depois vendê-los no mercado interno. Surgem as bandeiras de aprisionamento. Essas
bandeiras começam a ampliar as fronteiras do Brasil. A população branca continua
minoritária, registrando-se grande quantidade de escravos índios e mamelucos. Produz-se
uma época de grande esvaziamento da cidade, motivada pelas bandeiras. Na segunda
metade do século, terminam as invasões estrangeiras no Nordeste e se restabelece o tráfico
de negros para o Brasil. As bandeiras deixam de perseguir índios, transformando-se em
bandeiras de contrato, com a finalidade de capturar negros fugitivos. Prossegue a tendência
ao despovoamento de São Paulo. O século XVIII caracteriza-se pelo desenvolvimento de
um mercado interno e a fundação de aglomerados que mais tarde se tornarão cidades. Na
primeira metade desse século, tem início um novo ciclo de bandeirismo, as bandeiras de
monções, “frotas fluviais voltadas para o abastecimento da região aurífera de Mato Grosso
e no comércio do gado muar do Rio Grande até a Região das Minas Gerais” (Bellloto
1979:33). O ponto máximo da expansão territorial ocorre em 1709, com a criação da
Capitania de São Paulo e Minas do Ouro. A partir daí sucessivos desmembramentos
reduzem consideravelmente o território.

Groppi (2002), como anuncia no título de seu texto, discutirá problemas e


perspectivas para um estudo da situação lingüística de São Paulo no século XVIII. Segundo
ela, para se poder ter uma idéia aproximada dos dados que atuaram, numa comunidade,
como input para a formação das gramáticas dos falantes em situação de aquisição, num
certo período histórico, é importante possuir uma visão da situação lingüística dessa
comunidade. Buscará, então, se aproximar de uma imagem da comunidade paulista do
século XVIII como fase prévia ao início do estudo do corpus pertinente.
Para justificar a escolha pelo século XVIII, a autora apóia-se nas opiniões de
historiadores, entre os quais:
a) Wehling e Wehling (1994)82[82]: destacam o século XVIII como época da
consolidação do projeto colonial português;
b) Queiroz (1992)83[83]: “o período que vai fundamentar a futura projeção da cidade de São
Paulo se inicia em 1765. A data marca a restauração do governo autônomo da capitania
(...)”;
c) Marcílio (1973)84[84]: “depois de dois séculos em que as condições tinham sido muito
especiais, de vida em isolamento, de convivência de culturas diferentes, com períodos em
que a vila era abandonada por boa parte da população, nas últimas décadas do séculos, as
condições econômicas começam a mudar, assim como as condições administrativas (...)”.
Groppi destaca ainda dois aspectos que têm interesse para uma história lingüística:
aumento da população de escravos e início de uma política lingüística para levar a uma
situação hegemônica da língua portuguesa. Ao enveredar pelo campo da história social, a
autora elege dados demográficos como ponto de partida: “entre os dados da realidade
histórica que devemos conhecer para chegar a entender a realidade lingüística da sociedade
paulista daquela época, aparecem os dados demográficos em primeiro lugar.” Portanto, será
nos trabalhos de recenseamento do século em questão em que se centrará a autora.
Conforme Groppi, houve trabalhos de recenseamento no século XVIII e nas primeiras
décadas do século XIX. Em 1765, após ter estado sob a jurisdição do Rio de Janeiro, a
autonomia é devolvida à Capitania [de São Paulo] e um Capitão Geral, Luiz Antônio Souza
Botelho, o Morgado de Mateus, é enviado com fins muito precisos. Os primeiros censos,

82[82][82][82][82]
WEHLING, WEHLING. (1994).
83[83][83][83][83]
QUEIROZ. (1992).
84[84][84][84][84]
MARCÍLIO. (1973).
registros de população, aparecem depois de 1765. No século XIX, o governo provincial vai
encarregar o Marechal Daniel Pedro Müller de um trabalho de recenseamento que vai ser
publicado em 1838 como Ensaios de um Quadro Estatístico da Província de São Paulo. Os
dados de ambos, segundo a autora, não são confiáveis.
Para o tópico que desenvolveu a seguir – O território e a ocupação -, Groppi apóia-
se em Marcílio (1973). Segundo ela, o estudo da ocupação do território de São Paulo traz
algumas diculdades dificilmente transponíveis, uma vez que:

Não se conhece a importância das migrações que, provenientes quer do exterior – da


Europa e da África – quer do sertão e de outras capitanias povoaram São Paulo. Nem
mesmo uma ordem de grandeza pode-se arriscar. Nenhum estudo sistemático foi realizado
no setor (Marcílio, 1973)

Outra dificuldade consiste na diferença que aparece nos documentos entre os


registros de brancos, negros e índios. Muitas vezes os registros de população referem-se
exclusivamente aos brancos. Além disso, sabe-se que São Paulo foi cidade depois de 1711,
mas qual a área que recebia esse título? Aquilo que era considerado como cidade de São
Paulo era, de fato, uma área diferente em momentos diferentes que eram cotejados como se
implicassem a consideração do mesmo espaço habitado. Como a primeira divisão territorial
das aglomerações urbanas na Colônia foi a paróquia, Marcílio estuda o povoamento de São
Paulo através da história das paróquias. Dessa maneira consegue reconstruir as relações
território-habitantes na época de diferentes recenseamentos.
Passa, então, a autora às fontes dos registros de população para a história de São
Paulo. Inicia com o que chamou de Listas de habitantes: “(...) é depois de 1765 que
começam os trabalhos de censo com certa regularidade. A partir dessa data, cada ano, são
organizadas listas de habitantes da cidade e seus distritos. As listas de habitantes das
cidades como os quadro de população estão no Arquivo do Estado como Maços da
População da Capital.” Embasada nos dados dos recenseamentos de 1765, 1798 e 1836, os
números a que chega para o total da população livre são: 1765 – 14.760 habitantes; 1798 –
21.304; 1836 – 21.933.
Para ter uma idéia do total da população, os dados foram reconstruídos empregando
as listas de escravos feitas pelos vigários da Capitania enviadas ao governador em 1768.
Entre 1765 e 1768, a população da cidade ficou em 20.873 habitantes. Através da
reconstrução dos dados, Marcílio contesta a idéia de um período de decadência que teria se
estendido depois de 1765 até a independência, segundo alguns autores que sustentavam que
teria havido uma regressão ou estagnação da população da cidade. Marcílio acredita que
houve uma estimativa errada dos números pelo fato de não terem sido levadas em conta as
perdas de território que a cidade teve nesses anos. Em 1765, a cidade que compreendia
também as vilas de Atibaia, Nazaré, Jaguari e Santo Amaro tinha, como foi dito, 20.873
habitantes, e, com o mesmo território, em 1836, teria 48.993 habitantes. A conclusão de
Marcílio contribui para dar a mesma imagem que a opinião de Queiroz (1992): o século
XVIII, ao contrário do que uma bibliografia mais antiga supunha, parece ter marcado o
início de um caminho de progresso para São Paulo. Queiroz salienta o sucesso da
implantação da lavoura de cana na Capitania. Segundo a autora, são de 1797 os primeiros
dados de excedentes de açúcar destinados à exportação. Queiroz indica um aumento
notável da população na capitania nessa mesma data. Os números que ela apresenta são os
seguintes: 1776 – 58.071 habitantes; 1797 – 158.450.
Resta a seguinte questão: esse aumento é devido à introdução de mão-de-obra
escrava africana? Ou também houve influência da mudança de vida que a lavoura de cana
trouxe, um vez que, ao contrário da lavoura de subsistência, fixou o homem à terra?
Os registros paroquiais constituem outra fonte através da qual a autora busca chegar
a números aproximativos da população de São Paulo. Pautada em Marcílio (1973), a autora
tece alguns comentários acerca dos Registros Paroquiais do Arquivo da Cúria
Metropolitana de São Paulo: “Até a proclamação da República os registros de batizados,
casamentos e óbitos eram da competência da Igreja. Essas três categorias de documentos
estão classificadas em duas coleções: Livres e Escravos.”
A partir dessas datas, existem, segundo a autora, informações mais seguras:
a) 1740 para batismos
b) 1728 para casamentos
c) 1731 para sepulturas
Os registros de casamentos parecem apresentar o maior número de dados e, segundo
Groppi, isso não varia no decurso dos anos. Entende que a informação contida nesses
documentos pode ser especialmente interessante para o estudo de cárater lingüístico. Uma
das indicações que esses registros fornecem – embora não sistematicamente – é a origem
dos cônjuges: indiretamente, ao especificar a origem geográfica dos noivos, identificam-se
quais foram as prováveis principais correntes migratórias. Segundo Bacellar (1991): “A
percentagem dos que jamais saíram de suas vilas de nascimento varia desde os 64% na
vila de Itu até os 100% de Campinas, índices simultaneamente elevados e diferenciados de
vila para vila. Os resultados das tabelas que aparecem na obra de Marcílio confirmam que a
mobilidade das mulheres da cidade de São Paulo era muito inferior à dos homens. Da
mesma forma, fica comprovado que a corrente migratória da metrópole apresentava
predomínio de elementos masculinos. Esses dados também confirmam o retorno das
populações das zonas mineiras, por volta de 1760; que os casamentos entre pessoas de São
Paulo com pessoas do Rio eram relativamente importantes; e que, através de 80 anos de
observação, o número de “negros novos” (nascidos na África) libertos era pequeno (52
homens e 12 mulheres).
Por fim, volta a autora para o que chamou de Setores de produção. Segundo ela, de
1765 a 1836 os escravos representavam um pouco mais de um quarto de toda população da
cidade. Já a população ativa livre foi dividida em três categorias das atividades produtivas:
setor primário, secundário e terciário. A população ativa livre da cidade consagrava-se em
grande parte à agricultura.

Oliveira e Kewitz (2002) investigam no seu texto a noção do caipira no século XIX
e sua representação no linguajar paulista oitocentista a partir de dois eixos: Rio de Janeiro x
São Paulo e São Paulo-cidade x São Paulo-interior. Inicialmente pesquisam a representação
do caipira em obras literárias, sociológicas, depreendendo que se identificava com adjetivos
pejorativos: atrasado, preguiçoso, etc. Possivelmente os padrões europeus no modo de
trajar, de portar-se e de falar implantados no Rio teriam servido de contraponto para a
definição do paulista como ‘caipira’. Com esse objetivo, estruturam o trabalho em quatro
partes: (I) Levantamento numérico da população da cidade de São Paulo ao longo do século
XIX e os principais fatos sócio-econômicos responsáveis pela organização da cidade; (II)
dados extraídos dos jornais do século XIX a respeito do epíteto ‘caipira’ atribuído ao
paulista; (III) Comparação entre as estruturas morfossintáticas dos anúncios paulistas e
cariocas numa tentativa de buscar traços que caracterizam o falar paulista; (IV)
Alinhavamento das idéias principais.
Com base nos anúncios do século XIX do Rio e de São Paulo, as autoras fazem um
estudo morfossintático a fim de verificar o português paulistano e carioca do século XIX,
baseando-se nas seguinte dicotomia:
- Paulistas - rural, barbárie, ridicularizado, rústico e popular;
- Cariocas - urbano, progresso, civilizado, elegante e culto.
Eis os aspectos lingüísticos confrontados:
1) Concordância verbal e nominal - Embora os dados dos anúncios de São Paulo
apresentem maiores índices de ausência da concordância, não se podem diferenciar os dois
eixos, uma vez que os dados não são suficientes.
2) Grupos verbais - verbos de controle que selecionam uma sentença infinitiva cujo sujeito
é correferencial com o objeto da matriz para averiguar o fenômeno da concordância - o uso
categórico da preposição a e da concordância verbal nos grupos verbais nucleados por
verbos de controle nos dados paulistanos sugere o distanciamento das demais variedades.
3) Locuções prepositivas - RJ: predominância das locuções formadas pela preposição de.
SP: predominância das locuções formadas pela preposição a, assim como na Constituição
do Império
4) Emprego do advérbio onde/aonde - Rio: imperava o emprego do onde. SP: imperava o
emprego do aonde, exatamente a forma mais corrente na Constituição do Império.

Os indícios mostram que o falar paulista se diferenciava dos demais em seus


aspectos discursivos.
As autoras elencam, através de duas cartas de 1865, características do português do
interior paulista. Não há diferenças que permitam caracterizá-las como expressão de um
português culto ou popular.

3.2. Rio de Janeiro

Os dois textos que versam sobre a história social do Rio de Janeiro são de autoria de
Dinah Callou, um dos quais em co-autoria com Juanito Avelar.
O primeiro, apresentado ao III Seminário do PHPB, realizado em Campinas/SP,
pauta-se na afirmação de que dar conta da história linguística de uma língua implica,
necessariamente, dar conta da sua história social. Disso, começa a autora apresentando
aspectos da cidade do Rio de Janeiro no século XIX. Segundo ela, o ano de 1808 marca o
início de uma nova fase cultural do Rio de Janeiro. A vinda da família real e a conseqüente
fixação do centro político do Império determinou a elevação da cidade a centro de uma
civilização luso-brasileira e há, ao menos até 1822, uma unidade culural. Dentre as
mudanças promovidas pela permanência da Corte Portuguesa estão a criação das cátedras
de ensino, a fundação da Academia Militar e o processo de implantação da impresa. Desse
modo, a cidade do Rio de Janeiro começa a transformar a sua forma urbana e a apresentar
uma estrutura espacial estratificada em termos de classes sociais.
A vinda da família real impõe ao Rio uma classe social até então inexistente,
impondo também novas necessidades materiais que atendam não só aos anseios dessa
classe, como facilitem o desempenho das atividades econômicas, políticas e ideológicas
que a cidade passa a exercer. No que se refere à Divisão administrativa, a cidade do Rio
dividia-se em freguesias ou paróquias. Ao final da Monarquia, contava com 21. Havia
diferença social entre as 5 freguesias urbanas.
O grande volume de escravos deu à corte características de uma cidade quase negra
e, a partir de 1840, de uma cidade meio africana. Essa composição étnica e social vem a
modificar-se em consequência da imigração portuguesa. A expansão urbana não foi
acompanhada de uma preocupação social igualitária, uma vez que não beneficia as áreas
em que as camadas mais pobres da população residiam. O primeiro recenseamento oficial
de 1872 mostra diferenças quanto à composição étnica e quanto à alfabetização entre as
paróquias do Rio de Janeiro.
A mobilidade espacial e populacional como privilégios de poucos talvez possa
explicar, em parte, as diferenças linguísticas que existem hoje na fala dos moradores das
tradicionais áreas da cidade. Pode-se verificar uma possível influência do ambiente espacial
em que vive o falante carioca tomando como ponto de referência a distribuição do R.
Enfatiza a autora os anúncios de jornais como fontes ricas que permitem o
levantamento historiográfico da vida social, política e cultural do Rio de Janeiro de 1850 a
1870 e também o registro do panorama linguístico. Por fim, faz uma longa discussão para
afirmar que a palatalização do S, em posição de coda silábico, parece ter sido introduzida
no falar culto do RJ no início do século XIX, trazido pela corte de D. João VI.

No outro texto também de 2002, Callou e Avelar iniciam apresentando os contrastes


geográfico, social e econômico no Rio de Janeiro atual, para se perguntarem: esse contraste
sócio-econômico implica em contraste linguístico?
O trabalho é parte integrante de um projeto que busca interpretar o português
carioca, marcadamente heterogêneo, numa perspectiva sócio-histórica, e assim contribuir
para a descrição da História Social do Português Brasileiro. O objetivo é correlacionar
instâncias que parecem ter sido fundamentais para a formação do atual quadro linguístico
da cidade. De outro modo: correlacionar fatores da história da capital fluminense com a
configuração atual da fala carioca. Busca também estabelecer de que forma a
heterogeneidade e polarização do português se organizam no espaço da cidade, num
intervalo que se inicia nos primeiros anos do século XIX e se estende até os dias atuais.
Segundo Mattos e Silva (1998), os principais atores no cenário do Brasil colonial
seriam as línguas gerais indígenas, o português europeu e o português geral brasileiro em
formação. Dessa maneira, tentam os autores, por meio dos contrastes resultantes do
processo da mobilidade social, depreender quais seriam os principais ‘atores linguísticos’
no Rio de Janeiro no século XIX.
Uma questão posta diz respeito à metodologia da pesquisa, mais especificamente
sobre como implementar estudos em História Social que tenham a língua como seu objeto.
Por conta de não haver essa metodologia, adotam o que chamaram de metodologia
particular. Procurar-se-á correlacionar, prioritariamente, o processo da mobilidade social à
migração portuguesa.
O processo da mobilidade que culminou numa série de contatos interlinguísticos
sugere que, ao final do século XIX, o português carioca seja marcado, pelo menos, por
quatro grandes resultantes:
um
1. falar de maior prestígio, das classes altas, localizadas na Zona Sul
2. um falar de caráter mais popular, das classes desfavorecidas, localizadas nas
freguesias mais centrais (Santa Rita, Esp. Santo e Santana)
3. um falar rural, localizado nas freguesias mais afastadas do centro (Guaratiba,
Jacarepaguá e Campo Grande)
4. um falar oriundo da confluência entre os habitantes das regiões rurais e das
regiões centrais (Inhaúma e Engenho Novo).

Focalizam os autores a imigração portuguesa por se apresentar como um fato


polêmico para a interpretação sócio-histórica do falar carioca. Após colocar em termos
numéricos a quantidade de portugueses que, no Rio de Janeiro, desembarcaram ao longo do
século XIX, põem, em termos lingüísticos, as seguintes questões: (1) se a leva de
portugueses vai caracterizar uma disposição em termos geográficos, permitindo uma
diferenciação entre as diferentes regiões da cidade; (2) de que forma essa leva vai interagir,
em termos sociolingüísticos, com os que já se encontravam na cidade, e as repercussões
dessa interação para uma possível nova configuração lingüística e (3) qual ou quais
modalidade(s) do português de Portugal chegou/chegaram junto com esses imigrantes.
Um primeiro passo para responder a essas questões seria definir a ‘funcionalidade’
social e/ou profissional dos novos profissionais. Para a última questão, um complicador
aparece: supõe-se que, com a família real, o uso lingüístico predominante não foi o do
português popular, se se considera que a maioria dos imigrantes fazia parte do ‘aparato
administrativo’.
Quanto à distribuição dos portugueses pelas diversas freguesias, os dados dos
censos de 1872 e 1890 sugerem diferenciação entre as freguesias urbanas e rurais: quanto
mais centrais as freguesias, maior a incidência de portugueses. Em termos lingüísticos, as
freguesias mais centrais teriam tido a oportunidade de absorver uma quantidade maior de
marcas do português europeu que as demais, uma vez que abrigavam um número maior de
imigrantes. Se a hipótese estiver certa, o ponto nevrálgico será identificar quais foram essas
marcas e para que regiões da cidade foram levadas. A única chance de a hipótese não estar
no caminho correto se situa na idéia de os portugueses terem tido as marcas dos seus falares
absorvidas pelas marcas do falar local, uma vez que o percentual de portugueses não
correspondia à maioria da população em nenhuma das freguesias.

3.3. Minas Gerais

Vitral (2001) afirma que, na literatura tradicional sobre o português brasileiro, é


comum a idéia de que houve, no Brasil, uma vitória da língua portuguesa sobre suas
concorrentes indígenas e africanas. Discutir, portanto, quais acontecimentos da nossa
história influíram nessa vitória da língua portuguesa será o objetivo do artigo do autor.
Pretende examinar, mais exatamente, a influência do chamado “processo
civilizatório”85[85] no fato de o uso da língua portuguesa ter superado o uso da língua
geral do sul no decurso do século XVIII.
A seguir, discute Vitral o significado do termo língua geral. Conforme o autor, “o
que exatamente é designado pelo termo língua geral continua a ser tema de discussão entre
nós.” (304). Adota nesse artigo a definição de Rodrigues (1996)86[86], que é a seguinte: “a
expressão língua geral tomou um sentido bem definido no Brasil nos séculos XVII e XVIII,

85[85][85][85][85]
Cf. ELIAS, N. (1990). O processo civilizador. Rio de Janeiro: Zahar e SILVEIRA, M. A. (1996)
O universo do indistinto: Estado e sociedade nas Minas setecentistas. São Paulo: Hucitec.
86[86][86][86][86]
RODRIGUES op. cit.
quando, tanto em São Paulo, como no Maranhão e Pará, passou a designar as línguas de
origem indígena faladas, nas respectivas províncias, por toda a população originada no
cruzamento de europeus e índios tupi-guaranis (especificamente os tupis em São Paulo e os
tupinambás no Maranhão e Pará), à qual foi-se agregando o contingente de origem
africana e contingentes de vários outros povos indígenas, incorporados ao regime colonial,
em geral na qualidade de escravos ou de índios de missão.” O auge do predomínio das
línguas gerais ocorreu no século XVII. A partir do século XVIII, a balança começa a
pender para o lado da língua portuguesa. O que houve na passagem do seiscentos para o
setecentos que determinou a vitória da língua portuguesa no Brasil?
Dois acontecimentos da nossa história colonial são, normalmente, associados ao
sucesso da língua lusitana. O primeiro deles foi gerado pela política do Marquês de Pombal,
que incluiu um decreto, de 1758, tornando obrigatório o uso da língua portuguesa na
colônia. Além desse decreto, fez parte da política pombalina a expulsão dos jesuítas do
Brasil, cuja presença, nos dois primeiros séculos de colonização, foi determinante para a
primazia das línguas indígenas. O segundo acontecimento é a vinda de D. João VI e da
corte portuguesa para a colônia. Os cerca de quinze mil portugueses que se instalaram no
Rio de Janeiro contribuem, segundo Teyssier, para “relusitanizar” a então capital do Brasil.
Rejeita o autor a idéia de que a instalação da corte portuguesa no Rio de Janeiro
tenha contribuído para a vitória da língua portuguesa. Parece a Vitral mais adequado
considerar que esse evento contribuiu para a consolidação dessa vitória. Tal não parece ser
o caso da reforma pombalina. A decretação de obrigatoriedade da língua portuguesa teve,
provavelmente, um papel determinante na sua prevalência sobre as línguas gerais. É preciso
evitar, no entanto, assumir uma perspectiva “legalista” em relação à história. No que diz
respeito a fenômenos de linguagem, esse cuidado deve ser ainda maior: não parece possível
obrigar o uso de uma língua por meio de decreto. O principal instrumento do decreto
pombalino foi a reforma do ensino. Pretendeu-se subordinar ao estado português a
educação formal na colônia, que, até então, estava a cargo de inacianos e religiosos em
geral. O analfabetismo imperava e a submissão à língua portuguesa de grande parte da
população da colônia, prevista pela política pombalina, não se fez de forma indireta, quer
dizer, através da escola. Apesar disso, a política lingüística arquitetada por Pombal obteve
seu intento.
O trabalho do sociólogo alemão Norbert Elias mostrou que, a par das mudanças
políticas e econômicas, a idade moderna caracterizou-se por promover um processo de
revisão do mundo de crenças dos europeus, que foi nomeado de “processo civilizatório”.
Segundo Silveira: “a aristocracia de alguns países europeus passou por uma espécie de
refinamento de hábitos em virtude das alterações que ocorriam em sua composição como
grupo social dominante. Na França, em particular, tais mudanças resultaram da mescla de
camadas aristocráticas e burguesas e os cuidados com o comportamento tornaram-se cada
vez mais necessários como meio de se distinguir. Passava-se, assim, da courtoisie – isto é,
o modo de se comportar em corte, herdado da idade média – para os novos padrões da
civilité.” O prestígio da cultura francesa em Portugal permitiu a influência, em território
luso, dos novos padrões civilizados, que, como marcas de distinção de classe, encontraram
condições favoráveis de propagação devido à estrutura do estado português, controlado por
um reduzido grupo vinculado à monarquia (Faoro 1975, Silveira op. cit.)87[87]. Pode-se
considerar que a plena instalação do poder da monarquia foi aliada do processo

87[87][87][87][87]
FAORO, R. (1975). Os donos do poder. Porto Alegre: Globo-EDUSP.
civilizatório. A partir da segunda metade do século XVII, a concepção absolutista do estado
foi solidificada em Portugal onde a estrutura administrativa lhe foi, então, propícia. A
política do Marquês de Pombal, no início da segunda metade do século XVIII, foi
formulada, portanto, nesse contexto de busca de civilidade. A medida pombalina de
expulsar jesuítas é, por exemplo, vista por Lorde Kinnoull, embaixador inglês enviado a
Lisboa em 1760, como de inspiração civilizatória. A política lingüística do Marquês de
Pombal pode também ser considerada como uma das conseqüências da influência do
processo civilizatório em terras lusitanas. Parece, então, que o uso da língua portuguesa era
visto como critério de atribuição de civilidade, sendo inclusive aliado do poder absolutista.
Essa valorização do idioma luso não se fez sentir apenas em relação às línguas indígenas.
Também em comparação com o latim, a língua portuguesa passa a ser valorizada.
A instalação da ordem institucional de acordo com os interesses do absolutismo
português e a reforma pombalina parecem, portanto, poder ser analisadas com reflexos da
mentalidade do setecentos que restabeleceu, valorizando de forma diferente os modelos de
convívio social. Essa interpretação dos fatos, gerada de acordo com os modelos teóricos da
história das mentalidades (1997, Le Goff & Nora 1976)88[88], torna inteligível, como se
verá a seguir, o fato de a língua portuguesa ter suplantado uma de suas concorrentes na
colônia. Discutir-se-á o papel de um acontecimento da história de Minas Gerais, a saber, a
guerra dos Emboabas, em relação ao cerceamento da expansão da língua geral do sul.
No cenário descrito de busca de civilidade que descreve, o estado português buscou
controlar mais de perto a colônia, o que se tornou preemente devido à descoberta, no final
do século XVII, de ouro e diamante na região das Minas, para onde afluíram aventureiros
de todas as regiões do reino e da própria colônia. Importava, então, para a coroa portuguesa
estabelecer a ordem institucional numa região onde a ambição e o sonho de enriquecimento
rápido justificavam o desapego às leis, a crueldade e todos os excessos. Foi essa realidade
que teve de ser dominada pelo estado português e pelo discurso reformista e civilizador do
século XVIII. O embate entre a civilidade e a barbárie vai perpassar todo o setecentos
mineiro, caracterizando muitos dos relatos a respeito da vida da capitania e do
comportamento de seus habitantes (cf. Silveira op. cit.).Os esforços civilizatórios obtiveram
certo êxito na capitania das Minas, o que pode ser comprovado [dentre outros aspectos]
pela Inconfidência Mineira, que, como se sabe, foi influenciada pelas idéias da Ilustração,
cujos elementos racionalistas foram, segundo Ávila (1967:118)89[89], “trazidos da Europa
pelos moços mineiros.”
Como já se disse, há um acontecimento na história da capitania das Minas que pode
ser considerado como um “divisor de águas”, possibilitando a exposição da capitania à
mentalidade do setecentos. Trata-se da guerra dos emboabas, ocorida no ano de 1709, que
opôs, de um lado, os paulistas e, de outro, portugueses, mas também baianos,
pernambucanos e outros (cf. Golgher 1982). Nesse conflito pelo controle da região das
Minas, os paulistas, seus descobridores, foram derrotados pelos emboabas, apelido dado
aos portugueses pelos paulistas. Silveira (op. cit.: 63) sugere que a imagem da galinha de
plumagem está “ligada à crítica aos hábitos afetados e pretensamente refinados dos
estrangeiros ante a rusticidade dos “indianizados” paulistas de então.” (311). Essa visão
selvagem e rústica dos paulistas pode ser facilmente comprovada: eles eram

88[88][88][88][88]
LE GOFF & NORA. (orgs.) (1976). História: novos objetos. Rio de Janeiro: Francisco Alves.
89[89][89][89][89]
ÁVILA, A. (1967). Resíduos seiscentistas em Minas. Belo Horizonte: Imprensa da Universidade
Federal de Minas Gerais. 2 v.
majoritariamente bilingües, dominando a língua geral do sul e o português90[90], e eram
temidos, muitas vezes menosprezados, pela ferocidade e cobiça que expressavam (cf.
Taunay 1975, Golgher op. cit.).
Diante desse quadro, o autor propõe que a vitória dos emboabas, ao permitir o
estabelecimento da ordem institucional na região das Minas, que veio a se tornar, no
transcorrer do século XVIII, a capitania mais importante da colônia, cerceou a expansão da
língua geral do sul no Brasil. Assim, a dominação política daqueles que não falavam a
língua geral da terra foi, provavelmente, decisiva na atribuição de prestígio ao idioma
lusitano. Levando em conta tal hipótese, é possível afirmar, então, que as línguas gerais
eram associadas com a barbárie enquanto a língua portuguesa era vista como a língua da
civilização. O desprestígio das línguas indígenas é transparente em relatos de viajantes no
início do século XIX. Se se compara agora a visão concernente às línguas indígenas na
época de Anchieta com a emitida pelos viajantes no início do século XIX, fica evidente a
mudança de mentalidade que interessa aqui. O contraste enfim entre a atitude dos jesuítas e
a dos viajantes parece autorizar a seguinte conclusão: as línguas de base indígena serviram
ao colonizador quando seu domínio se dava através da fé cristã, enquanto que o uso da
língua portuguesa se tornou parte dos padrões civilizados necessários para o domínio do
colonizador através do estado absolutista. Pode-se concluir assim que a atitude pode ser o
mecanismo social que permite a manifestação lingüística da mentalidade.

O objetivo do texto de Venâncio (2001) é procurar avaliar os níveis de alfabetização


referentes à cidade de Mariana setecentista, tendo em vista a relação desse fenômeno com
os movimentos migratórios. Traça o autor inicialmente o perfil de Mariana Colonial:
inicialmente, quanto à população livre, a maior parte da população marianense era
composta por imigrantes; num segundo momento, a cidade deixa de receber adventícios.
Quanto aos escravos, eram originalmente africanos, índios e asiáticos em sua grande
maioria, depois os nascidos localmente predominaram.
Quanto à história da educação no Brasil colonial, até o presente momento, afirma
que se tem restringido à análise das leis da criação ou do fechamento das instituições de
ensino. A educação, no sentido da leitura e da escrita, ainda é um campo muito pouco
explorado. Para conhecer essa dimensão oculta da vida colonial, é necessário explorar
séries documentais ainda praticamente desconhecidas, como, por exemplo, livros de
ingresso em irmandades leigas, uma vez que as irmandades eram um elemento fundamental
nas cidades pré-industriais por conta de suas intensas atividades sociais. No Brasil, as
irmandades se organizaram a partir de identidades étnicas, distinguindo os homens brancos
em relação aos pardos e negros.

No século XVIII, os burocratas portugueses passam a exigir que os regulamentos


(‘os compromissos’) das irmandades fossem regidos e devidamente aprovados pelo poder
régio; além disso, tornam obrigatória a abertura de um livro de matrícula em que
constassem o nome, lugar de residência e a assinatura do irmão. Através da última
informação, é possível uma primeira avaliação, em Mariana Colonial, do número de

90[90][90][90][90]
Cf. RODRIGUES op. cit.e VILLALTA, L. C. (1997). O que se fala e o que se lê: língua,
instrução e leitura. In: SOUZA, L. M.. (org.) (1997). História da vida privada no Brasil. Cotidiano e vida na
América portuguesa. v 1. São Paulo: Companhia das Letras.
indivíduos que sabiam desenhar, assinar ou simplesmente marcavam uma cruz entre o
nome e o sobrenome.
Venâncio pesquisa duas irmandades situadas em freguesias rurais (Catas Altas e
Barão de Cocais) e a Irmandade do Santíssimo Sacramento, em Mariana. O resultado revela
uma elite com um perfil extraordinariamente culto para a época. Os altos índices de
alfabetização devem-se ao fato de que 60% da elite de Mariana era formada por
portugueses. Dessa forma, é possível sustentar que a alfabetização, entre os setores
privilegiados da população de Mariana, foi uma variável relacionada à emigração de
metropolitanos.
Para saber o índice de alfabetização entre negros, utilizou o autor o Livro de
matrícula da irmandade de N. Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Mariana. Os
dados indicam que os nativos nascidos localmente, os ‘crioulos’, teriam maior chance de
aprender a escrever do que homens e mulheres provenientes de sociedades africanas.

Ramos e Venâncio (2002) debruçam-se sobre os topônimos mineiros como uma


fonte para a história social da língua portuguesa. Segundo os autores, se estamos
interessados na história social de uma língua, a seleção lexical como objeto de investigação
permitirá capturar, de modo mais transparente, a força dos fatores sócio-históricos. Desse
modo, constitui o objetivo central do artigo identificar critérios adotados na escolha dos
nomes das localidades, tendo em conta permanências e substituições. É objetivo também
propor uma tipologia de base sócio-histórica para topônimos mineiros. Duas amostras
compõem o corpus dos autores:
a) nomes de cidades mineiras ao longo dos séculos XVIII e XX
b) nomes oficiais e populares de favelas de Belo Horizonte.

A comparação permitirá mostrar que, quanto maior a presença do Estado, menor a


presença dos nomes descritivos. Do ponto de vista linguístico, o estudo permitirá explicitar
que há sistematicidade na troca de nomes, o que confirmará a atuação de padrões de
organização social sobre a escolha lexical. Dos 853 municípios mineiros, apenas 15%
nunca sofreram alteração na respectiva designação. A hipótese inicial do trabalho é
formulada da seguinte maneira: as alterações nos topônimos estariam relacionadas à
tentativa de valorizar personalidades históricas. No entanto, ela não se confirmou: apenas
61 localidades têm o nome de personalidades (7,1%). É possível afirmar que a mudança de
nomes de cidades mineiras estava, e ainda está, vinculada ao ‘apagamento’ de nomes
religiosos. Na maior parte das vezes, isso ocorreu através da eliminação da referência ao
santo padroeiro do lugar (Santa Rita de Cássia > Cássia; Santo Antônio de Coluna >
Coluna). No período colonial, o abandono de nomes religiosos tinha outra origem:
observava-se a tendência à substituição de nomes religiosos por topônimos que fazem
referência à casa reinante portuguesa. Após o período colonial, em decorrência do processo
da construção da identidade nacional, algumas designações religiosas foram substituídas
em proveito de fatos ou de personagens da história brasileira (São João Del Rei >
Tiradentes; Coração de Jesus > Inconfidência). Esse traço nacionalista também se
expressou através de substituições de nomes estrangeiros por nacionais.
Nos últimos 150 anos, 9,9% das localidades mineiras adotaram designações
indígenas, reflexo de uma representação positiva do indianismo. Se o índio era considerado
um elemento positivo, o mesmo não podem dizer em relação à população de origem
africana. Houve um processo de apagameneto da memória africana na toponímia mineira.
A modernização da onomástica desdobrou-se ainda na tendência de apresentar rigor na
grafia das palavras, mudança orientada pela lei de 1938 (Oberava > Uberaba). Outra
conseqüência da modernização foi o apagamento de nomes descritivos (localidades
designadas por meio de nomes de animais, plantas e aspectos topográficos - geralmente
com alguma conotação irônica. Um traço comum a todas essas designaçõses é serem de
autoria do povo, traduzindo especificidades locais). Dos 384 topônimos analisados, quase
todos tiveram seu nome reduzido. A ampliação dos nomes é um fenômeno raro, sendo
registrada em apenas 18 localidades.
Os resultados da análise parecem exibir tendências contraditórias, pois tanto há
abandono quanto adoção das três categorias apontadas (nomes religiosos, indígenas, de
tradição popular). Mas essa contradição é aparente, uma vez que há um padrão regular na
adoção de novos nomes. Para a comprovação disso, há que considerar as denominações
intermediárias. A comparação dos dados leva a depreender o seguinte percurso:

nome descritivo > nome religioso > nome indígena > nome de pessoa > nome com
sufixo - pólis ou - lândia.

Quanto às favelas, os nomes oficiais convivem simultaneamente com os nomes não-


oficiais. O exame dos nomes das favelas vai mostrar tendência semelhante àquela
observada em relação aos municípios: o nome oficial apaga marcas da tradição popular.
Das 154 favelas atuais, 43,9% têm dois nomes. As denominações não-oficiais são
descritivas. Já os nomes oficiais são, em sua maioria, de inspiração religiosa ou
nacionalista.

3.4. REGIÃO SUL

O texto de Oliveira (2001) pretende ser, como diz o próprio autor, uma tentativa de
escrever História e Lingüística, focalizando uma região e uma época específicas: o Brasil
meridional de 1680 a 1830. É parte de um trabalho maior em andamento, o ‘Projeto Última
Fronteira: problemas e perspectivas para uma sócio-história da língua portuguesa no Brasil
Meridional (1680-1830)”, que encaminha a discussão sobre alguns pontos da Teoria do
Conflito entre Gramáticas (TCG), como vem sendo desenvolvida por Kroch (1996)91[91].
Segundo o autor, a compreensão do fenômeno a que chamamos ‘português
brasileiro’ depende de entendermos que houve, por um lado, a aquisição desta língua por
aloglotas, cuja representatividade no número total de habitantes foi muito grande e em
certas partes do território maior do que em outras. A seguir, procura, apoiado em
bibliografia da História, chegar a um quadro histórico da ocupação da Região Sul,
identificando ali dois focos de expansão: um paulista e outro dos estrategistas da Coroa
Portuguesa. Esses fatos fundadores permitem a construção de uma história portuguesa no
Brasil merdional.
Os mapas produzidos pelo Projeto ALERS permitem relacionar características
lingüísticas sincrônicas presentes na Região Sul com os ciclos históricos que determinaram

91[91][91][91][91]
KROCH, A. (1996).Sintactic change and the nature of grammar. Porto Alegre, I Encontro de
Variação Lingüística do Cone Sul (Setembro de 1996). Mimeo.
a povoação dessa Região. Algumas isoglossas dividem quase que perfeitamente as áreas
paulista e açoriana da colonização. O autor analisa os seguintes fenômenos para comprovar
essa correlação: africação do /t/ antes do /i/; uso do ‘tu’ ou de ‘você’ no tratamento íntimo.

Aguilera (2002) começa o seu texto dando informações acerca do português


paranaense no passado, através dos relatos de Auguste de Saint-Hilaire (1816-1822) e do
General José Cândico da Silva Muricy (final do século XIX). A seguir, historia o percurso
dos estudos dialetológicos sobre o português paranaense:

• a partir de 1950 - constituem breves registros dialetológicos, a maioria de ordem


fonético-fonológica e semântico-lexical, referentes a comunidades doSul e Sudoeste
paranaense.
• década de 70 - intensificam-se os estudos dialetológicos, principalmente sob a
forma de glossários, documentando as variantes lexicais paranaenses.
• década de 90 - pesquisas lexicais voltadas para as profissões, para pequenas
extensões terrritoriais e finalmente para o Estado todo.

A partir de Silva Neto (1957), discute a autora a importância dos atlas linguísticos
como fonte de dados diacrônicos de determinada língua92[92]. A seguir, postula que a
distribuição de variantes conservadoras, pelo território do Paraná Tradicional, isto é, das
regiões povoadas entre os séculos XVII e XIX, abre perspectivas de associação com os
movimentos das bandeiras paulistas, por meio da (a) manutenção de tupinismos e (b)
palavras e expressões arcaicos e rurais setecentista ou oitocentista. A autora considera a
proposta pioneira, uma vez que parte dos dados coletados na linguagem oral para
subsidiar a pesquisa documental. A pesquisa constará das seguintes etapas: (a)
levantamento das cartas lexicais que apresentam registros não padrão e que, do ponto de
vista do falante urbano, seriam arcaicos e/ou rurais; (b) seleção das formas lexicais para
comporem o corpus de investigação; (c) estudo e registro da etimologia das palavras
selecionadas; (d) análise da correlação registro lexical x fato e momento histórico; (e)
pesquisa em documentos da época para verificar a vitalidade ou não dessas formas; (f)
elaboração de artigos de cunho filológico sobre o vocabulário rural paranaense e sua
relação com o vocabulário português.

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história do português brasileiro. Primeiras idéias. v. I. São Paulo: Humanitas/FAPESP. p.
MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. (2001). De fontes sócio-históricas para a história social
lingüística do Brasil: em busca de indícios. In: MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. (Org.).
Para a história do português brasileiro. Primeiros estudos. v. II. t. 2. São Paulo:
Humanitas/FAPESP. p.
MELLO, Heliana Ribeiro de. (2002). Português padrão, português não-padrão e a hipótese do
contato lingüístico. In: ALKMIM, Tânia Maria. (Org.). Para a história do português
brasileiro. Novos estudos. v. III. São Paulo: Humanitas. p. 341-358.
OLIVEIRA, Gilvan Müller. (2001). Matrizes da língua portuguesa no Brasil Meridional (1680-
1830). In: MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. (Org.). Para a história do português
brasileiro. Primeiros estudos. v. II. t. 2. São Paulo: Humanitas/FAPESP. p. 401-420.
OLIVEIRA, Marilza de; KEWITZ, Verena. (2002). A representação do caipira na imprensa paulista
do século XIX. In: DUARTE, Maria Eugênia L.; CALLOU, Dinah. (Org.). Para a história
do português brasileiro. Notícias de corpora e outros estudos. v. IV. Rio de Janeiro:
UFRJ/FAPERJ. p. 125-154.
RAMOS, Jânia. História Social do Português Brasileiro: Perspectivas. In: CASTILHO, Ataliba T.
de. (Org.). Para a história do português brasileiro. Primeiras idéias. v. I. São Paulo:
Humanitas/FAPESP. p.
RAMOS, Jânia Martins; VENÂNCIO, Renato Pinto. (2002). Topônimos mineiros: uma fonte para
a história social da língua portuguesa. In: DUARTE, Maria Eugênia L.; CALLOU, Dinah.
(Org.). Para a história do português brasileiro. Notícias de corpora e outros estudos. v. IV.
Rio de Janeiro: UFRJ/FAPERJ. p. 113-123.
RIBEIRO, Ilza. (2002). Quais as faces do português culto brasileiro?. In: ALKMIM, Tânia Maria.
(Org.). Para a história do português brasileiro. Novos estudos. v. III. São Paulo:
Humanitas. p. 359-381.
VENÂNCIO, Renato Pinto. (2001). Migração e alfabetização em Mariana colonial. In: MATTOS E
SILVA, Rosa Virgínia. (Org.). Para a história do português brasileiro. Primeiros estudos.
v. II. t. 2. São Paulo: Humanitas/FAPESP. p. 391-399.
VITRAL, Lorenzo. (2001). Língua geral versus língua portuguesa: a influência do “processo
civilizatório”. In: MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. (Org.). Para a história do português
brasileiro. Primeiros estudos. v. III. t. 2. São Paulo: Humanitas/FAPESP. p. 303-315.

CAP. IV - CORPORA DO PROJETO PARA A


HISTÓRIA DO PORTUGUÊS BRASILEIRO DE 1997 A 2003
Afranio Gonçalves Barbosa (UFRJ)
afraniogb@letras.ufrj.br
Célia Regina dos Santos Lopes (UFRJ)
celiar@unisys.com.br

Introdução:

Este relatório enumera e sistematiza todos os materiais transcritos e/ou editados


pelas equipes regionais do Projeto Nacional PHPB desde seu primeiro seminário, realizado
na USP em 1997, até o primeiro semestre de 2003. Figuram aqui, primeiro, não só os
trabalhos coletivos com corpora programados para os encontros nacionais do grupo, como
também aqueles outros que as equipes regionais vêm publicando em suporte impresso ou
eletrônico. Registram-se, igualmente, as produções individuais de seus membros, em geral
contribuições espontâneas, livros ou partes de teses e dissertações que integram o quadro
tipológico-textual que o PHPB deixa à disposição da comunidade científica. Cabe destacar
o avanço significativo que o labor histórico de todos os integrantes do projeto proporcionou
à qualidade dos resultados das investigações em diacronia sob diferentes olhares teóricos:
edições boas e representativas fazem bons e representativos os maus e limitados dados
lingüísticos.

I - Produção Coletiva em âmbito nacional:


1.1) Para o III Seminário Nacional do PHPB (Campinas-SP, 1999), as equipes regionais da
Bahia, de Minas Gerais, do Paraná, de Pernambuco, do Rio de Janeiro, de Santa Catarina e
de São Paulo editaram corpora locais com anúncios publicados em jornais brasileiros do
século XIX. Todo esse material, totalizando 1643 anúncios, foi reunido sob forma de
capítulos em:

GUEDES, Marymarcia & BERLINK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram
commodos...: Anúncios de Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo:
Humanitas/FFLCH/USP.

1.2) Para o IV Seminário Nacional do PHPB (Teresópolis-RJ, 2001), as equipes regionais


da Bahia, de Minas Gerais, do Paraná, de Pernambuco, do Rio de Janeiro e de São Paulo
editaram corpora locais com cartas de redatores e cartas de leitores publicados em
jornais brasileiros do século XIX. Todo esse material foi reunido sob forma de capítulos
em:

BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina (orgs.). Críticas, queixumes e bajulações na


Imprensa Brasileira do séc. XIX: cartas de leitores e cartas de redatores. Rio de Janeiro:
Faculdade de Letras/UFRJ. No prelo. Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou
afraniogb@letras.ufrj.br.

1.3) Para o V Seminário Nacional do PHPB (Ouro Preto-MG, 2002), as equipes da Bahia,
Minas Gerais, Paraná e do Rio de Janeiro distribuíram eletronicamente edições de cartas
manuscritas – de caráter público e privado – dos séculos XVIII e XIX. O material,
detalhado na produção regional a seguir, será ampliado para o VI Encontro Nacional do
PHPB (Bahia, previsto para 2004) e oportunamente publicado em versão impressa.

II - Produção Coletiva em âmbito regional:

2. 1 BAHIA
2.1.1) Página na rede mundial de computadores com corpora da equipe da Bahia: em fase
final de construção. Informações e materiais por prohpor@ufba.br.

2.1.2) Publicação de textos oficiais setecentistas: os papéis de uma devassa e cartas


acompanhadas com anexos de natureza variada – listas, certificados, certidões, dentre
outros.

LOBO, Tânia (org.); FERREIRA, Permínio; GONÇALVES, Uílton; OLIVEIRA, Klebson


(Colaboradores). (2001) Cartas baianas setecentistas. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP
(Série Diachronica: fontes para a História da Língua Portuguesa,3).

2.1.3) Edição de Atas oitocentistas da administração privada escritas por negros africanos e
brasileiros afro-descendentes. Material ao encargo de Tânia Conceição Freire Lobo,
Klebson Oliveira e bolsistas IC/CNPq e PET – Edição de atas da Sociedade Protetora dos
Desvalidos: contribuição para a escrita da história lingüística dos negros no Brasil.
Prevista até julho de 2003 a edição de dois livros de Atas da SPD e outros documentos do
século XIX. Distribuição eletrônica por prohpor@ufba.br.

2.1.4) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

CARNEIRO, Zenaide de Oliveira Novais; ALMEIDA, Norma Lúcia F. de; RIBEIRO, Ilza;
ALVES, Juvanete Ferreira; BATISTA, Vanúzia; CARVALHO, Elaine de; MALAFAIA,
Aldísia (2000). “Estado da Bahia” . In: GUEDES, Marymarcia & BERLINK. Rosane de
Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram commodos...: Anúncios de Jornais Brasileiros
Século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP.
2.1.5) Cartas publicadas em jornais do século XIX em:

MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia; RIBEIRO, Ilza; CARNEIRO, Zenaide de Oliveira


Novais; ALMEIDA, Norma Lúcia F. de. “Cartas em jornais oitocentistas da Bahia”. In:
BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina (orgs.). Críticas, queixumes e bajulações na
Imprensa Brasileira do séc. XIX: cartas de leitores e cartas de redatores. Rio de Janeiro:
Faculdade de Letras/UFRJ. No prelo. Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou
afraniogb@letras.ufrj.br.

2.1.6) Documentos oficiais dos séculos XVIII e XIX – certidões, testamentos, inventários,
dentre outros – transcritos e em fase de edição por Zenaide de Oliveira de Novais e Norma
Lúcia Fernandes de Almeida. Material distribuído eletronicamente por zenaide@uefs.br e
analisado em:

CARNEIRO NOVAIS, Z.; ALMEIDA, N. L. F. de (2001) “Arquivos municipais do


interior da Bahia: fontes para a história do português brasileiro”. In: MATTOS E SILVA,
Rosa Virgínia (org.) Para a história do português brasileiro: volume II – primeiros
estudos. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP/FAPESP, tomo II, p. 500-529.

2.1.7 Cerca de 200 cartas pessoais escritas por 125 diferentes remetentes letrados e com
influência na política brasileira. Material remetido de diversas localidades, como Rio de
Janeiro, Bahia, Maranhão, Cuiabá, São Paulo, Minas Gerais, do sul do Brasil e do exterior.
Material distribuído eletronicamente por zenaide@uefs.br e analisado em:

CARNEIRO NOVAIS, Z.; ALMEIDA, N. L. F. de (2002) “Informes sobre corpus em fase


de conclusão: cartas de homens ‘ilustres’ do século XIX(PB/Bahia)”. In: DUARTE, Maria
Eugênia L.; CALLOU, Dinah. (org.) Para a história do português brasileiro: volume IV –
Notícias de corpora e outros estudos. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ/FAPERJ.

2.1.8 Transcrição diplomática de 26 documentos oficiais – certidões, inventários,


testamentos e declarações – dos séculos XVII, XVIII e XIX. Material distribuído
eletronicamente por zenaide@uefs.br e analisado em:

CARNEIRO NOVAIS, Z.; ALMEIDA, N. L. F. de (2002) “Notícias sobre o banco de


textos de Feira de Santana e Cachoeira”. In: ALKMIM, Tânia Maria. (org.) Para a história
do português brasileiro: volume III – Novos estudos. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP,
p. 465-488.

2. 2 MINAS GERAIS
2.2.1) Elaine Chaves e Mônica G. R. Alkmim. Publicação eletrônica com edição
diplomático-interpretativa e fac-similada de mais de uma centena de cartas do século XIX –
do Acervo Histórico Monsenhor Horta, localizado no Instituto de Ciências Humanas e
Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto (MG). Material organizado em:
CHAVES, Elaine & ALKMIM, Mônica G.R. (org.) (2002) Cartas pessoais do século XIX:
Acervo Histórico Monsenhor Horta. Mariana: Instituto de Ciências Humanas e
Sociais/UFOP, versão em CD-ROM. Informações por ramosjan@zaz.com.br.

2.2.2) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

ALKMIM, Mônica G.R.; BORGES, Júlia; RAMOS, Jânia; LEITE, Ana Maria; FREITAS,
Miriam Lúcia V. de (2000). “Estado de Minas Gerais”. In: GUEDES, Marymarcia &
BERLINK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram commodos...: Anúncios de
Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP.

2.2.3) Cartas em jornais oitocentistas de Minas Gerais em:

RAMOS, Jânia; ALKMIM, Mônica. “Cartas em jornais oitocentistas de Minas Gerais”. In:
BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina (orgs.). Críticas, queixumes e bajulações na
Imprensa Brasileira do séc. XIX: cartas de leitores e cartas de redatores. Rio de Janeiro:
Faculdade de Letras/UFRJ. No prelo. Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou
afraniogb@letras.ufrj.br.

2.2.4) Documentos da administração privada: transcrição parcial do Livro de Termos da


Irmandade do Rosário dos Pretos, Minas Gerais, século XVIII. Material distribuído
eletronicamente por ramosjan@zaz.com.br e analisado em:

RAMOS, Jânia (2001). “Seleção do corpus para o estudo da língua portuguesa na Capitania
de Minas Gerais no século XVIII”. In: MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia (org.) Para a
história do português brasileiro: volume II – primeiros estudos. São Paulo:
Humanitas/FFLCH/USP/FAPESP, tomo II, p. 423-434.

2. 3 PARANÁ
2.3.1) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

CYRINO, Sônia Maria Lazzarini (2000). “Estado do Paraná”. In: GUEDES, Marymarcia &
BERLINK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram commodos...: Anúncios de
Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP.

2.3.2) Cartas em jornais oitocentistas do Paraná em:

CYRINO, Sônia Maria Lazzarini. “Cartas em jornais oitocentistas do Paraná”. In:


BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina (orgs.). Críticas, queixumes e bajulações na
Imprensa Brasileira do séc. XIX: cartas de leitores e cartas de redatores. Rio de Janeiro:
Faculdade de Letras/UFRJ. No prelo. Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou
afraniogb@letras.ufrj.br.
2.3.3) Edição de 24 cartas pessoais do final do século XIX, sendo algumas de comércio,
com a qualidade especial de ter-se identificado a naturalidade de todos os redatores:
brasileiros. Material distribuído eletronicamente por oniryc@sercomtel.com.br.

2. 4 PERNAMBUCO
2.4.1) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

PESSOA, Marlos de Barros (2000). “Estado de Pernambuco”. In: GUEDES, Marymarcia


& BERLINK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram commodos...: Anúncios
de Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP.

2.4.2) Cartas em jornais oitocentistas de Pernambuco em:

PESSOA, Marlos de Barros. “Cartas em jornais oitocentistas de Pernambuco”. In:


BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina (orgs.). Críticas, queixumes e bajulações na
Imprensa Brasileira do séc. XIX: cartas de leitores e cartas de redatores. Rio de Janeiro:
Faculdade de Letras/UFRJ. No prelo. Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou
afraniogb@letras.ufrj.br.

2.4.3) Transcrição de textos da administração pública pernambucana do século XVII


guardados no Arquivo Histórico Ultramarino de Lisboa. Material distribuído
eletronicamente por marlospessoa@bol.com.br.

2.4.4) Transcrição de textos da administração pública pernambucana dos séculos XVIII e


XIX. Material distribuído eletronicamente por marlospessoa@bol.com.br.

2. 5 RIO DE JANEIRO
2.5.1) Página na rede mundial de computadores com corpora da equipe Rio de Janeiro:
www.letras.ufrj.br/phpb-rj. Materiais literários e não-literários dos séculos XVIII e XIX:
cartas pessoais, cartas das administrações pública e privada, peças populares; além de
anúncios, cartas de redatores e de leitores publicados em jornais oitocentistas.

BARBOSA, Afranio Gonçalves; CALLOU, Dinah Maria Isensee & LOPES, Célia Regina
dos Santos (2000). Corpora diacrônicos e sincrônicos do PHPB-RJ. Rio de Janeiro:
www.letras.ufrj.br/phpb-rj. Página do projeto Para uma História do Português Brasileiro
(equipe Rio de Janeiro) na rede mundial de computadores.

2.5.2) Página na rede mundial de computadores com corpora da equipe Rio de Janeiro:
www.letras.ufrj.br/nurc-rj. Transcrições de inquéritos do Projeto Norma Urbana Culta/RJ
gravados, na década de 70, em três modalidades: diálogo entre informante e entrevistador
(DID), elocuções formais (EF) e diálogo entre dois informantes (D2). Conta-se, também, de
um corpus complementar para estudos em tempo real, gravado na década de 90 com
informantes da de 70. (vide item 2.5.1).
2.5.3) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

CALLOU, Dinah Maria Isensee; AVELAR, Juanito Ornelas de; PORTELA, Kate Lúcia;
FRANCO, Ana Luísa (2000). “Estado do Rio de Janeiro”. In: GUEDES, Marymarcia &
BERLINK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram commodos...: Anúncios de
Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP.

2.5.4) Cartas publicadas em jornais do século XIX em:

BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina; CALLOU, Dinah. “Cartas em jornais


oitocentistas do Rio de Janeiro”. In: BARBOSA, Afranio; LOPES, Célia Regina (orgs.).
Críticas, queixumes e bajulações na Imprensa Brasileira do séc. XIX: cartas de leitores e
cartas de redatores. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ. No prelo. Distribuição
eletrônica por celiar@unisys.com.br ou afraniogb@letras.ufrj.br.

2.5.5) Cartas pessoais do século XIX: 15 escritas por naturais do Rio de Janeiro, 3 de
naturais de outros estados brasileiros, 4 escritas no Brasil sem identificação de naturalidade
e 4 cartas escritas no Brasil por portugueses. Material Distribuição eletrônica por
celiar@unisys.com.br ou afraniogb@letras.ufrj.br.

2. 6 SANTA CATARINA
2.6.1) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

OLIVEIRA, Gilvan Müler de (2000). “Estado de Santa Catarina” . In: GUEDES,


Marymarcia & BERLINK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os preços eram
commodos...: Anúncios de Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo:
Humanitas/FFLCH/USP.

2.6.2) Toda a produção da Série Filológica, edição crítica de fundos documentais de 1703 a
1830 do Arquivo Público do Estado de Santa Catarina (APE/SC) coordenada por Gilvan
Müller de Oliveira. Informações por gilvan@ipol.org.br e análise:

CASTILHO, Ataliba T. de (Org.) (1998). Para a história do português brasileiro: Volume


I – primeiras idéias. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP, p. 211-227.

2. 7 SÃO PAULO
2.7.1) Página na rede mundial de computadores da equipe São Paulo:
www.fflch.usp.br/dlcv/lport/ .Em breve, essa página contará com os documentos editados
pela equipe.

2.7.2) Anúncios publicados em jornais do século XIX em:

CASTILHO, Ataliba Teixeira de; BERLINCK. Rosane de Andrade; GUEDES,


Marymarcia; OLIVEIRA, Marilza de; MORAIS, Maria Aparecida C. R. Torres;
MURAKAWA, Clotilde de Almeida Azevedo; TOLEDO NETO, Sílvio de Almeida;
KEWITZ, Verena; MARINE, Talita de Cássia; ZAMBUZI, Luciana; KAWAKAMI, Taísa;
BARROS, Chimena Meloni Silva de; BARDINI, Tatiana; EUFRADE, Franciane Maria de
Godoy, DÓTELE, Kátia Regina; SILVA, Éster Cardoso da; OLIVEIRA, Lúcia Inês Freire
de; MACHADO, Soraia Floriano; NÓBREGA, Marlene Assunção de; SZABO, Leda
Cecília; FELICE FILHO, Renato H. de; MICHELETTI, Helena (2000). “Estado de São
Paulo”. In: GUEDES, Marymarcia & BERLINCK. Rosane de Andrade (orgs.). (2000) E os
preços eram commodos...: Anúncios de Jornais Brasileiros Século XIX. São Paulo:
Humanitas/FFLCH/USP.

2.7.3) Cartas em jornais oitocentistas de São Paulo em:

CASTILHO, Ataliba Teixeira de; MÓDOLO, Marcelo; OLIVEIRA, Marilza de; KEWITZ,
Verena. “Cartas em jornais oitocentistas de São Paulo”. In: BARBOSA, Afranio; LOPES,
Célia Regina (orgs.). Críticas, queixumes e bajulações na Imprensa Brasileira do séc. XIX:
cartas de leitores e cartas de redatores. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ. No
prelo. Distribuição eletrônica por celiar@unisys.com.br ou afraniogb@letras.ufrj.br.

III - Produção individual:

3. 1 BAHIA
3.1.1) Conjunto de cerca de 200 cartas particulares de enclausuradas no Convento de Santa
Clara do Desterro editadas na tese:

LOBO, Tânia Conceição Freire (2001) Para uma sociolingüística histórica do português
no Brasil. Edição filológica e análise lingüística de cartas particulares do Recôncavo da
Bahia, século XIX. São Paulo: USP. Orientador: Professor Doutor Ataliba de Castilho.

3.1.2) Conjunto de cartas particulares a ser publicado em sua tese de doutoramento de


Zenaide de Oliveira Novais Carneiro: Pronomes, com base no corpus “Cartas privadas da
elite letrada do Brasil oitocentista (1807-1900) com identificação biográfica dos
remetentes” (orientadora: Professora Doutora Charlotte Galves – UNICAMP; data provável
da defesa: 1º. semestre de 2004). Informações por zenaide@uefs.br.

3.1.3) Edição fac-similada de documentos escritos por africanos e afro-descendentes na


dissertação:

OLIVEIRA, Klebson (2003) Edição filológica e estudo lingüístico de documentos da


Sociedade Protetora dos Desvalidos, uma irmandade de cor – século XIX. (orientadora:
Professora Doutora Rosa Virgínia Mattos e Silva - UFBa e co-orientadora: Professora
Tânia Conceição Freire Lobo).

3.1.4) Edição de documentos de administração privada coordenada por Ilza Maria de


Oliveira Ribeiro – Cartas do Rosário dos Pretos do Pelourinho – Bahia, século XIX.,
colaboração de Ana Cristina Farias, Vanesca Bispo, Soraia Rebouças, Maria Margareth
Costa. Material distribuído eletronicamente por ilzaribeiro@e-net.com.br.

3.1.5) Edição de documentos, em sua maioria cartas, da administração privada do Hospital


da Santa Casa da Misericórdia da Bahia. Trabalho coordenado por Ilza Maria de Oliveira
Ribeiro. Material distribuído eletronicamente por ilzaribeiro@e-net.com.br.

3. 2 PARAÍBA
3.2.1) Conjunto de 203 cartas oficiais dos séculos XVIII e XIX guardadas no Arquivo
Histórico da Paraíba e editadas na dissertação:

FONSECA, Maria Cristina de Assis Pinto (2003). Caracterização lingüística de cartas


oficiais da Paraíba dos séculos XVIII e XIX. Tese de doutorado (2 v.), Universidade
Federal de Pernambuco, 215 p. (Orientador: Marlos Pessoa). Material distribuído
eletronicamente por cristinassis@uol.com.br.

3. 3 RIO DE JANEIRO
3.3.1.1) Edição de 93 cartas pessoais manuscritas por mercadores portugueses radicados no
Brasil na última década dos setecentos e reunidas em:

BARBOSA, Afranio Gonçalves. Para uma História do Português no Brasil: Cartas de


mercadores do século XVIII. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP (Série Diachronica:
fontes para a História da Língua Portuguesa). No prelo.

3.3.1.2) Edição de documentos oficiais (petições, textos anexos à devassa política e cartas)
escritos no Rio de Janeiro ao final do século XVIII. . Distribuição eletrônica por
afraniogb@letras.ufrj.br ou consulta direta à tese:

BARBOSA, Afranio Gonçalves (1999). Para uma História do Português colonial:


aspectos lingüísticos em cartas de comércio. Tese de Doutorado em Língua Portuguesa:
Faculdade de Letras/UFRJ. (Orientadora: Dinah Callou).

3.3.2) Edição de cerca de 60 cartas pessoais e oficiais escritas no Rio de Janeiro nos séculos
XVIII e XIX editadas em:

RUMEU, Márcia Cristina de Brito. Para uma História da Língua Portuguesa no Brasil:
formas de tratamento em cartas coloniais (título provisório). Dissertação de mestrado em
Língua Portuguesa: Pós-graduação em Letras Vernáculas/Faculdade de Letras/UFRJ.
(Defesa prevista para dezembro de 2003). (Orientadora: Professora Doutora Célia Regina
dos Santos Lopes; co-orientador: Professor Doutor Afranio Barbosa). Informações por
rumeu@bol.com.br.

3.3.3) Edição de documentos manuscritos diversos dos séculos XVIII e XIX: 5 cartas
pessoais escritas no Rio de Janeiro (01 datada em 1720, 3 em 1833 e 1 em 1851); 01 relato
histórico produzido no Rio de Janeiro em 1821 e 4 entremezes portugueses de 1706).
Documentação editada em:

LOPES, Célia Regina dos Santos (2001). Documentos dos séculos XVIII e XIX: Cartas
cariocas e peças portuguesas – Transcrição e fac-símile. Rio de Janeiro,
UFRJ/FUJB.(versão em CD). Informações por celiar@unisys.com.br.

3.3.4) Edição de 41 cartas pessoais manuscritas de Cristiano B. Ottoni e Bárbara B. Ottoni


a seus dois netos Christiano e Mizaelno período de 1879 a 1889 e reunidas em:

LOPES, Célia Regina dos Santos & MACHADO, Ana Carolina Morito (Org.) (2003)
Cartas da Família Ottoni aos netos 1879-1889: corpora diacrônicos PB (fac-símile). Rio
de Janeiro, UFRJ/PIBIC-CNPq. (versão preliminar em CD). Informações por
celiar@unisys.com.br.

3.3.5) Edição de 17 entremezes portugueses do séculos XVIII e XIX que foram reunidos
em:

LOPES, Célia Regina dos Santos, VIANNA, Juliana Barbosa de Segadas & MACHADO,
Ana Carolina Morito (Org.) (2003) Peças Populares Portuguesas – 1783-1877: Corpora
diacrônicos para estudos contrastivos. Rio de Janeiro, UFRJ/PIBIC-CNPq. (Versão
preliminar em CD). Informações por celiar@unisys.com.br.

3.3.6) Banco de dados de ter/haver em contextos de cinco linhas levantados em


documentos do século XVII da administração pública: sesmarias do Convento do Carmo no
Rio de Janeiro editados em:

ELEUTÉRIO, Sílvia Maria (2003). A variação ter/haver:documentos notariais do século


XVII. Rio de Janeiro, UFRJ, Faculdade de Letras, 417fls. Mimeo. Tese de Doutorado em
Língua Portuguesa. (Orientadora: Dinah Callou). Informações por aivelee@easynet.com.br.

3. 4 SÃO PAULO
3.4.1) Edição de 27 cartas particulares do século XIX (de 15 diferentes redatores) da
correspondência passiva no fundo Washington Luís do Arquivo do Estado de São Paulo,
material editado por:

KEWITZ, Verena (2002). A gramaticalização de ser e estar no período medieval e no


século XIX. Dissertação de Mestrado: Filologia e Língua Portuguesa – Faculdade de
Filosofia, Letras e Ciências Humanas/USP. (Orientadora: Professora Doutora Marilza de
Oliveira). Informações e distribuição por kewitz@matrix.com.br.

3.4.2) Edição de 14 cartas particulares do século XIX (diferentes autores) pertencentes à


coleção particular, material editado por:
MÓDOLO, Marcelo (1998) Um corpus para a Diacronia do Português da Cidade de São
Paulo. Dissertação de Mestrado, São Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas/ USP. (Orientador: Prof. Doutor Ataliba Teixeira de Castilho). Informações e
distribuição por modolo@usp.br ou marcelomodolo@hotmail.com

3.4.3) Edição eletrônica de documentos oficiais dos séculos XVII e XVIII do Estado de São
Paulo. Ver descrição dos materiais em: DUARTE, Maria Eugênia L.; CALLOU, Dinah.
(org.) Para a história do português brasileiro: volume IV – Notícias de corpora e outros
estudos. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras/UFRJ/FAPERJ. Material publicado em:

MARIOTTO, Lia Carolina Prado Alves & TOLEDO NETTO, Sílvio de Almeida (org.)
(2004) Documentos do ouro: corpus dos séculos XVII e XVIII. São Paulo, FFLCH-
USP/FAPESP,CD-ROM. Informações por tolnet@osite.com.br ou flc@edu.usp.br

3.4.4) Cópia digitalizada de correspondências do século XX publicadas no livro:

ANDRADE, Mário de (1958) "Cartas de Mário de Andrade a Manuel Bandeira". Prefácio e


notas de Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, Organização Simões (Col. Rex) 62 pp.
Digitalização feita por Marcos R. Sagatio, bolsista de iniciação científica da Fapesp.
Informações e distribuição por modolo@usp.br ou marcelomodolo@hotmail.com

3.4.5) Cópia digitalizada de diários de viagem do século XVIII: "Diário da viagem de


Moçambique para os rios de Sena" (1797-1798); "Instruções e diário de viagem da Vila de
Tete, capital dos rios de Sena para o interior da África (1798)" . Diários de viagens oficiais
ordenadas ao paulista Francisco José de Lacerda e Almeida, que estudara em Coimbra antes
de se tornar funcionário da Coroa Portuguesa na qualidade de astrônomo da comissão de
demarcação de limites territoriais, atuando no Brasil e em África. Textos copiados do livro:

LACERDA e ALMEIDA, Francisco José de (1944) Diários de Viagem. Notas e prefácio de


Sérgio Buarque de Holanda. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. 125 pp. Digitalização feita
por Marcos R. Sagatio, bolsista de I. C. da Fapesp. Informações e distribuição por
modolo@usp.br ou marcelomodolo@hotmail.com

3.4.6) Seleção e digitalização de cartas do século XVI: Dez cartas dos primeiros jesuítas no
Brasil, 58 pp. Trabalho feito por Marcelo Módolo a partir de cópia digitalizada de
correspondências do século XVI publicadas no livro:

LEITE, Serafim (1954) Cartas dos primeiros jesuítas no Brasil (1538-1553). São Paulo:
Comissão do IV Centenário da Cidade de São Paulo, 3 volumes. Informações e distribuição
por modolo@usp.br ou marcelomodolo@hotmail.com

IV – O quadro geral Corpora do PHPB.

O quadro geral dos textos disponibilizados, na íntegra, pelo PHPB permite


vislumbrar a constituição de um corpus diacrônico do português distinto da simples soma
de “papéis antigos” divididos por marcos seculares sem motivação histórica.93[93] De fato,
a separação por séculos – escritos setecentistas e oitocentistas – é a básica em nosso corpus
em função do número de células tipológicas a serem construídas e em função, também, de
impossibilidades reais, efetivas e intransponíveis como, por exemplo, a localização de
materiais impressos no Brasil no século XVIII. Veja-se que, quando a distribuição
cronológica está equilibrada, o material cobre ao menos três faixas de tempo dentro de um
século, como vem a ser o caso dos textos veiculados por jornais oitocentistas. Investigações
que se viabilizem cobrindo somente essa célula da amostra do PHPB podem estabelecer a
diacronia de seus fenômenos dentro do século XIX, período em que a nação brasileira se
rascunhava e se consolidava autônoma e independente no imaginário nacional.
Essa vantagem de um melhor recorte temporal, contudo, não é a principal vantagem
do material ora proporcionado. Os corpora do PHPB, até onde seja possível, são fruto de
um investimento especial tanto no tratamento filológico de fontes não literárias e literárias,
quanto na busca de materiais que possam refletir a linguagem de diferentes segmentos
sociais dentro e fora da esfera do poder oficial de cada fase da história brasileira. Mais que
isso, os materiais do século XIX proporcionam um contraponto mínimo do contexto de sua
produção.
Os pesquisadores podem controlar se os fenômenos lingüísticos em foco sofrem
condicionamentos pela diferente sintonia em que se opera o ato de escrever. Se hoje, nossas
opções de registros e fórmulas dependem da sintonia com o contexto geral de escritura, o
mesmo se aplica ao passado, diferindo-se os valores que guiavam a pena. O texto de um
redator contemporâneo, tenha ele o grau de instrução que tiver 94[94], assume opções
distintas quando se trata de uma mensagem eletrônica para um amigo, ou de uma carta
manuscrita para o mesmo amigo; de um escrito a ser publicado em um jornal ou em circular
interna de uma agência bancária. Assim funciona para o século XIX no corpus geral do
PHPB: cartas pessoais manuscritas podem ser comparadas àquelas escritas para serem
publicadas em jornais. Nesse caso, portanto, manuscritos versus impressos é categoria
significativa, é fator extralingüístico de controle fundamental.
O controle tipológico-textual, baseado nessa noção de sintonia com o contexto de
produção, não se restringe ao século XIX e alcança, evidentemente, os demais períodos
cobertos pelo corpus geral, como o século XVIII que começa a ser descortinado. Interfere,
por exemplo, a diferente pressão sobre os redatores criada pelo fato de os textos terem sido
escritos para serem lidos por um único receptor próximo – como no caso das cartas
pessoais – ou por um receptor simbólico, inatingível– como no caso dos documentos
destinados aos governadores coloniais ou ao próprio Imperador do Brasil. Apesar de
representado por um funcionário-leitor de inferior hierarquia, como um oficial da
burocracia palaciana, escrever a um governador exige cerimônias e modelos específicos aos

93[93][93][93][93]
As normas para transcrição dos documentos levantados pelas equipes do PHPB encontram-se
publicadas em: MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia (org.) (2001) Para a história do português brasileiro:
volume II – primeiros estudos. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP/FAPESP, tomo II, p. 553-555.
94[94][94][94][94]
Vale sempre lembrar que os esquemas de escrita – ou a preocupação em tentar seguir um
esquema qualquer preestabelecido pela tradição – independe da habilidade de quem escreve. Edith Pimentel
Pinto, em O português popular escrito, afirma que “Diferentemente do que ocorre na interação oral, que é
espontânea, (...) o monólogo epistolar acusa, não só um adestramento para a execução desse tipo de texto,
evidente no plano de disposição gráfica e orgânica do texto, mas também, e coerentemente, um senso de
responsabilidade manifesto no ato de escrever”.
textos a ele encaminhados. Esse contraponto pode ser recuperado no confronto entre
documentos oficiais e documentos privados.
Se uma dada pesquisa exigir maior rigor no controle da sintonia de escritura, essas
duas categorias podem ser desmembradas em três: administração pública, administração
privada e documentos pessoais. Escrever para ser lido por uma autoridade dentro de uma
instituição privada – da qual, muitas vezes, o próprio redator participa – segue diferentes
esquemas e tradições de escritura em relação ao material encaminhado ao rei, bem como ao
texto enviado a um amigo. Fosse numa ordem religiosa, num círculo literário ou entre
homens de negócios, de acordo com o período, enfim, era no espaço institucional não
público que se criaram condições de identificação de segmentos quase sempre sem registro
e desconsiderados pela máquina oficial. Eram contextos histórico-sociais peculiares que
produziram textos reveladores de marcas específicas.
Vem a ser esse o caso das irmandades religiosas de negros em Minas Gerais e na
Bahia: dois dentre outros filões de especial valor abertos, respectivamente, para os séculos
XVIII e XIX por diferentes equipes regionais do PHPB. De forma semelhante, ou seja,
apresentando marcas de determinados segmentos sociais, existem documentos de caráter
pessoal, por vezes trocados entre amigos ou parentes, que circularam em ambiente
administrativo não institucionalizado que permaneciam submetidos a ritos e cerimônias de
escritura diferentes tanto dos da máquina burocrática, quanto dos da circulação pessoal.
Trata-se, por exemplo, das cartas trocadas entre mercadores portugueses radicados no
Brasil e os donos de verdadeiras empresas intercontinentais não formalizadas que atuaram
durante o período colonial.
Por outro lado, se a opção de controle tipológico de uma dada investigação que
lance mão de nossos materiais não quiser considerar a administração privada como
categoria de análise, os materiais das Irmandades deverão ser incluídos aos da categoria
documentos oficiais, assim como as cartas de mercadores aos da documentos privados. O
importante é não enviesar os resultados.
O quadro geral dos corpora assume essa tripartição tipológico-textual que se
demonstrou produtiva como fator de controle extralingüístico em determinados estudos e a
ela somam-se os textos literários e de jornais. O critério subjacente é o do modo de
circulação dos textos: papéis que circulavam entre remetente e destinatário quando, de
certo modo, um deles fosse pessoa jurídica oficial, pessoa jurídica não oficial, ou quando
remetente e destinatário escrevessem na qualidade de pessoas físicas. Note-se que, no
século XIX, o próprio jornal transforma-se em categoria pois funcionava, e até hoje
funciona, como veículo para diferentes tipos de textos, imprimindo-lhes, contudo, a
diferente sintonia de serem escritos para circulação pública geral.
Vale dizer que sempre haverá certas sobreposições de critérios, inevitáveis a
qualquer tipologia. Dessa forma, os diários – quando não protocolares na administração,
por exemplo, como os diários de bordo em navios oficiais e da marinha mercante – são
colocados na categoria documentos particulares por seu caráter evidentemente pessoal,
ainda que o documento não circule, pois não há um outro destinatário senão o próprio
redator. De fato, o texto de um diário pessoal até pode circular, pois, apesar de não ter sido
concebido para tal, por vezes a vontade humana é a de que o itinerário de quem redige fique
registrado para além de sua própria existência, assumindo-se tacitamente a existência de um
leitor potencial não coevo. Nesse caso, poder-se-ia considerá-lo documento particular pois
o texto de um diário circula virtualmente na esfera pessoa-a-pessoa entre redator presente e
o leitor futuro. Reflexões à parte, para classificar os diários basta seu caráter essencialmente
pessoal ou administrativo.
Enfim, o leitor do presente, exatamente o deste relatório, conta, nas tabelas a seguir
– e no quadro complementar com os materiais dos séculos XVI e XX copiados de livros –
com uma visão ampla dos corpora reunidos e tratados nesses seis anos de trabalho do
PHPB nacional. Para agilizar a recuperação das informações, consta em cada célula das
tabelas a numeração do item deste relatório onde se encontra a descrição completa do
material em foco. Para evitar que se perca de vista a autoria de cada produção, os usuários
de qualquer um destes materiais não podem deixar de se referir às fontes sob forma de
indicação bibliográfica, exatamente conforme o indicado em cada item. Fundamental
mesmo é evitar a estagnação do conhecimento e agilizar o reconhecimento da produção
científica de qualidade.

Quadro Geral

Tipologia textual Século Século Século


XVII XVIII XIX

Documentos Bahia Bahia Bahia


da burocracia burocracia oficial burocracia oficial
Administração Pública oficial (ver 2.1.2; 2.1.6, 2.1.8) (ver 2.1.6, 2.1.8)
(ver 2.1.8)

Pernambuco Paraíba Paraíba


burocracia burocracia oficial burocracia oficial
oficial (ver 3.2.1) (ver 3.2.1)
(ver 2.4.3)

Rio de Janeiro Pernambuco Rio de Janeiro


burocracia burocracia oficial burocracia oficial
oficial (ver 2.4.4) (ver 2.5.1, 3.3.2)
(ver 3.3.6)

São Paulo Rio de Janeiro Santa Catarina


burocracia burocracia oficial burocracia oficial
oficial (ver 2.5.1, 3.3.1.2, (ver 2.6.2)
(ver 3.4.3) 3.3.2)

Santa Catarina
burocracia oficial
(ver 2.6.2)

São Paulo
burocracia oficial
(ver 3.4.3)
diários oficiais
(ver 3.4.5)

Tipologia Século Século Século Século


textual XVI XVII XVIII XIX

Documentos São Paulo Minas Gerais Bahia


da Cartas da doc. Irmandades de doc. Irmandades de
Administraçã adm. negros negros
o Privada jesuítica (em (ver 2.2.4) (ver 3.1.3, 3.1.4)
(ver 3.4.6) construção) doc.
Rio de Janeiro De Santas Casas
cartas de (ver 3.1.5)
mercadores
portugueses
(Ver 2.5.1, 3.3.1.1)

Tipologia textual Século Século Século Século


XVII XVIII XIX XX

Documentos Rio de Janeiro Bahia São Paulo


Particulares cartas pessoais cartas pessoais Cartas
(ver 2.5.1, 3.3.2, (ver 2.1.7, 3.1.1, pessoais
3.3.3) 3.1.2) (ver 3.4.4)

Paraná
cartas pessoais (ver
2.3.3)
(em
construção) Minas Gerais
cartas pessoais (ver
2.2.1)

Rio de Janeiro
cartas pessoais
(ver 2.5.1, 2.5.5,
3.3.2, 3.3.3, 3.3.4)

São Paulo
cartas pessoais
(ver 3.4.1, 3.4.2)
Tipologia textual Século Século Século
XVII XVIII XIX

Textos Rio de Janeiro Rio de Janeiro


literários: (em construção) peças teatrais portuguesas peças teatrais
(ver 2.5.1, 3.3.3, 3.3.5) portuguesas
(ver 2.5.1,
3.3.5)

Tipologia textual Século Século Século


XVII XVIII XIX

Textos em Bahia
Jornais: anúncios (ver 1.1, 2.1.4)
cartas de redatores e
cartas de leitores
(ver 1.2, 2.1.5)

Minas Gerais
anúncios (ver 1.1, 2.2.2)
cartas de redatores e
cartas de leitores
(ver1.2, 2.2.3)

Paraná
anúncios (ver 1.1, 2.3.1)
cartas de redatores e
(Não existiam no (Não existiam no cartas de leitores
Brasil) Brasil) (ver 1.2, 2.3.2)

Pernambuco
anúncios (ver 1.1, 2.4.1)
cartas de redatores e
cartas de leitores
(ver 1.2, 2.4.2)

Rio de Janeiro
anúncios (ver 1.1, , 2.5.1,
2.5.3)
cartas de redatores e
cartas de leitores
(ver 1.2, 2.5.1, 2.5.4)

Santa Catarina
anúncios (ver 1.1, 2.6.1)

São Paulo
anúncios (ver 1.1, 2.7.2)
cartas de redatores e
cartas de leitores
(ver 1.2, 2.7.3)

CAP. V - PHPB: PLANEJANDO A CONTINUAÇÃO DO ACORDO


BRASIL / ALEMANHA
Ataliba T. de Castilho (USP, CNPq)
Coordenador do Projeto CAPES/DAAD/PROBRAL 109/00 pelo lado brasileiro
Presidente da Associação de Lingüística e Filologia da América Latina

Três anos e meio após a vigência do Projeto 109/00, integrado no Programa


CAPES-DADD-PROBRAL, e esgotado o período de financiamento concedido por essas
agências para o período de 2000-2003, uma pergunta natural que todos devemos estar nos
fazendo é: “vamos parar por aqui, ou vamos continuar juntos”?

Este documento corporifica a opinião dos pesquisadores brasileiros, e é apresentado


a este seminário de Blaubeuren para ouvir a opinião de nossos parceiros alemães. Anexado
a ele, pode ser consultada a Bibliografia gerada pelo PHPB, um pouco lacunosa no que diz
respeito a possíveis textos de nossos parceiros alemães que não chegaram ao nosso
conhecimento.

Cabe inicialmente verificar se os subprogramas previstos em 1999, cujos resultados


constam do corpo deste relatório, foram desenvolvidos com a mesma intensidade. Esses
subprogramas foram enumerados na apresentação deste volume.

Uma primeira constatação diz respeito ao desigual tratamento desses itens. Pode-se
afirmar que os tópicos 1 (Gramaticalização e tipologia lingüística) e 3 (Contacto, variação e
normas lingüísticas) conheceram um considerável desenvolvimento, o que se deve à
existência prévia, nos dois ambientes, de interesses voltados para eles. Já o tópico 2
(Tradições discursivas entre oralidade e escrita) permaneceu por um bom tempo
representado pelas pesquisas do Prof. Marlos Barros Pessoa – pelo menos no que diz
respeito a uma atuação mais cingida às idéias de Brigitte Schlieben-Lange – e às
considerações filológicas de Heitor Megale, César Cambraia, Sílvio Toledo Neto e Afrânio
Gonçalves Barbosa (este, integrado como apêndice ao presente Relatório). Uma nova frente
teve início em 2002, com a participação de Helena Nagamine Brandão e Maria Lucia
C.V.O. Andrade no V Seminário do PHPB, as quais exemplificaram como poderia ser uma
Análise Diacrônica do Discurso.

A segunda constatação é que em seus primeiros 4 anos, o Acordo


CAPES/DAAD/PROBRAL envolveu o conhecimento mútuo de pesquisadores brasileiros e
alemães. É verdade que ambos os grupos praticamente não se conheciam, e que passaram a
conviver em virtude dos seminários anuais e das missões de estudo e de trabalho – estas
mais rarefeitas do que aqueles em seus resultados, visto que o mútuo benefício só pode ser
notado nas universidades visitadas em ambos os países.

Acredito que a essa natural dificuldade somou-se certo desconhecimento dos


procedimentos universitários de uns e outros, um aprendizado que teve início com a
vigência do Projeto. Agrava-se esta perspectiva quando se constata que poucos dos
pesquisadores brasileiros lêem textos publicados em alemão.

Mas o problema fundamental não está aqui. Não parece possível aprofundar os
trabalhos mútuos se ignorarmos que os lingüistas brasileiros envolvidos atuam
exclusivamente na área da Lingüística Portuguesa, ao passo que os lingüistas alemães
dedicam-se habitualmente a pelo menos três línguas românicas, por requisitos profissionais.
Seu interesse continua a concentrar-se no francês, italiano e espanhol, notando-se também
que as línguas românicas de pequena difusão (o catalão, o galego) têm despertado sua
atenção. No panorama da “Nova România”, o espanhol da América tem atraído sua atenção
bem mais que o português americano.

Esta última observação aconselha a que, com a necessária urgência, se agreguem


hispanistas na continuação de nossos trabalhos. Não se trata apenas de dar atendimento a
um evidente requisito dos parceiros alemães, e sim a de buscar uma interação entre
brasileiros e hispano-americanos, uma ação política que já se desenvolve em duas frentes,
de que tenho sido defensor em mais de uma ocasião.

Na primeira frente, precisamente no âmbito do PHPB, a busca dessa interação se


manifestou já em seus momentos iniciais. Assim, no I Seminário do PHPB (São Paulo,
1997), sinalizou-se claramente o objetivo de associar os dois projetos, o já consolidado
“História do Espanhol da América” e o nascente PHPB. Para pôr em marcha esse
desideratum, naquele momento foi convidado o Prof. Adolfo Elizaincín, da Universidad de
la República de Uruguay e integrante do primeiro projeto, a expor os resultados dessa
atividade e a interagir com os brasileiros. Incluir o espanhol neste plano de expansão
atende, portanto, igualmente aos interesses dos brasileiros, sobretudo aqueles mais tocados
pela necessidade de uma aproximação com nossos vizinhos. Se isto representar a vontade
de todos, poderíamos propor ao Prof. Elizaincín que procedesse às sondagens necessárias
junto aos nossos vizinhos de diacronia. Vizinhos na geografia da América Latina, vizinhos
nos departamento das universidades alemãs.

Na segunda frente, no âmbito da Associação de Lingüística e Filologia da América


Latina (ALFAL), sua atual diretoria criou a Comissão de Pesquisas em História do
Português da América, atualmente coordenada por dois membros do PHPB, os Profs. Drs.
Afrânio Gonçalves Barbosa e Célia Lopes, e pediu à coordenadora da pré-existente
Comissão de Pesquisas em História do Espanhol da América, Profa. Dra. Elena Rojas, da
Universidad de Tucumán (Argentina), que propusesse algum tipo de ação conjunta, à
semelhança do que ocorre com várias das Comissões de Pesquisa da ALFAL. Só para
lembrar a última das realizações neste domínio, a revista Lingüística 13 (2001) publicou os
resultados das pesquisas luso-hispanoamericanas em Aquisição da Linguagem. As
Comissões de Pesquisas em história do Espanhol e do Português, integradas na ALFAL,
poderiam fornecer a moldura para a continuação (alargada) de nossos trabalhos.

A entrada dos colegas alemães hispanistas daria um reforço considerável a essa


política, ampliando e consolidando uma relação triangular alemães-brasileiros-
hispanoamericanos.

Mas quê temas teriam o potencial de interessar e inspirar essa ação ? Bem, aqui
ingressamos no complicado terreno dos sonhos e dos projetos de cada um / “de cada
quien”. Impossível avançar sem conhecer esses sonhos para explorar seu possível
compartilhamento.

Ajudaria muito sondar o modo como estamos imaginando nossa atuação enquanto
lingüistas no séc. XXI. Ora, justamente Antônio Carlos Xavier e Suzana Cortez acabam de
publicar um inquérito entre 18 lingüistas brasileiros95[95]. Todos responderam às mesmas
perguntas, a última das quais foi “quais os desafios para a Lingüística no séc. XXI”?

Eis aqui um quadro-síntese das respostas:

1. Prosseguir nas análises do português e das línguas indígenas (pp. 48, 56, 128, 156),
preparando-se obras de referência (gramáticas e dicionários), com o objetivo de promover
uma interface com as ciências da computação (p. 76, 110, 199) e de entender melhor “esse
dentro da linguagem, como ela funciona, como é mesmo sua gramática, que regras regem
de fato uma língua”(p. 173). Impulsionar o caráter abstrato da Lingüística em sua
caminhada das regras, que se situam no nível da observação, para os princípios, que são
explicativos, e destes para as lei, inteiramente preditivas, refazendo a caminhada já
percorrida pela Física (p. 121).
2. Estimular o estudo sobre o passado do português, recuperando a história do português do
Brasil (p. 111).
3. Assumindo que “a linguagem é uma capacidade cognitiva” (p.187), aprofundar as relações
entre língua e cognição, acelerando a agenda cognitiva no que diz respeito às formas de
pensar, à criação de gêneros (p. 129, 140), à gramaticalização das categorias cognitivas (p.
61), e ao diálogo da Lingüística com a Neurobiologia, a Psicologia, a Filosofia da
Linguagem e a inteligência artificial (p. 192). Em suma, alargar a agenda da Lingüística,
tornando mais sistemáticos seus contactos com a Neurologia, a Psicologia e outras ciências
(p. 34), inserindo as pesquisas lingüísticas nas pesquisas experiencialistas da genética (p.
148).
4. Retomar os pressupostos de várias teorias e modelos já elaborados, na tentativa de “verificar
o que é possível conciliar [para] responder às grandes questões que se colocam sobre a

95[95][95][95][95]
Antônio Carlos Xavier e Suzana Cortez (Orgs. Conversas com Lingüistas. Virtudes e
controvérsias da Lingüística. São Paulo: Parábola Editorial, 2003, 199 páginas.
linguagem” (p. 22). Estimular a pluralidade teórica (p. 70). Redefinir do objeto da
Lingüística, retomando a linguagem como objeto, e não o sistema (p. 88). Estimular a
Lingüística Aplicada, para tornar mais eficaz o ensino da língua materna e das línguas
estrangeiras (p.90, 95).
5. Ganhar espaço público, “saltar os muros da academia”, fazendo ouvir nossa voz nos
grandes espaços institucionais (p. 70).
6. Construir a história das idéias lingüísticas no Brasil (p. 157).

Essa manifestação dos lingüistas brasileiros – que precisaria ser comparada à dos
romanistas alemães e hispanoamericanos – talvez nos possa ajudar na identificação dos
próximos passos a dar. Precisaríamos, portanto, identificar os interesses destes colegas, por
meio de algum tipo de questionário. Solicitarei à Profa. Cristina Altmann, coordenadora da
Comissão de Pesquisas em Historiografia Lingüística da ALFAL, que estude essa
possibilidade.

Do lado brasileiro, é clara a vontade de prosseguir o intercâmbio. Provavelmente a


agenda de 2000 precisará sofrer algumas alterações, sejam aquelas sugeridas em
Blaubeuren, sejam aquelas derivadas do questionamento mencionado acima. Mas sem
dúvida há interesse em verticalizar a temática, desenvolvendo pesquisas de cunho teórico.
Continua também a expectativa de que um número maior de interações sejam estabelecidas.

São estas as questões que trazemos ao debate em Blaubeuren.

Aspectos sincrônicos e diacrônicos do Português Brasileiro


Blaubeuren, 4-6 de julho de 2003.

CONCLUSÕES: PLANEJANDO A CONTINUAÇÃO DO ACORDO


BRASIL / ALEMANHA
Ataliba T. de Castilho (USP, CNPq)
Coordenador do Projeto CAPES/DAAD/PROBRAL 109/00 pelo lado brasileiro
Presidente da Associação de Lingüística e Filologia da América Latina

Três anos e meio após a vigência do Projeto 109/00, integrado no Programa


CAPES-DADD-PROBRAL, e esgotado o período de financiamento concedido por essas
agências para o período de 2000-2003, uma pergunta natural que todos devemos estar nos
fazendo é: “vamos parar por aqui, ou vamos continuar juntos”?

Este documento corporifica a opinião dos pesquisadores brasileiros, e é apresentado


a este seminário de Blaubeuren para ouvir a opinião de nossos parceiros alemães. Anexado
a ele, pode ser consultada a Bibliografia gerada pelo PHPB, um pouco lacunosa no que diz
respeito a possíveis textos de nossos parceiros alemães que não chegaram ao nosso
conhecimento.
Cabe inicialmente verificar se os subprogramas previstos em 1999, cujos resultados
constam do corpo deste relatório, foram desenvolvidos com a mesma intensidade.

Uma primeira constatação diz respeito ao desigual desenvolvimento desses itens.


Pode-se afirmar que os tópicos 1 (Gramaticalização e tipologia lingüística) e 3 (Contacto,
variação e normas lingüísticas) conheceram um considerável desenvolvimento, o que se
deve à existência prévia, nos dois ambientes, de interesses voltados para eles. Já o tópico 2
(Tradições discursivas entre oralidade e escrita) permaneceu por um bom tempo
representado pelas pesquisas do Prof. Marlos Barros Pessoa – pelo menos no que diz
respeito a uma atuação mais cingida às idéias de Brigitte Schlieben-Lange – e às
considerações filológicas de Heitor Megale, César Cambraia, Sílvio Toledo Neto e Afrânio
Gonçalves Barbosa (este, integrado no presente Relatório). Uma nova frente teve início
com a participação de Helena Nagamine Brandão e Maria Lucia C.V.O. Andrade no V
Seminário do PHPB, as quais exemplificaram como poderia ser uma Análise Diacrônica do
Discurso.

A segunda constatação é que em seus primeiros 4 anos, o Acordo


CAPES/DAAD/PROBRAL envolveu o conhecimento mútuo de pesquisadores brasileiros e
alemães. É verdade que ambos os grupos praticamente não se conheciam, e que passaram a
conviver em virtude dos seminários anuais e das missões de estudo e de trabalho – estas
mais rarefeitas do que aqueles em seus resultados, visto que o mútuo benefício só pode ser
notado nas universidades visitadas em ambos os países.

Acredito que a essa natural dificuldade somou-se certo desconhecimento dos


procedimentos universitários de uns e outros, um aprendizado que teve início com a
vigência do Projeto. Agrava-se esta perspectiva quando se constata que poucos dos
pesquisadores brasileiros falam a língua de seus parceiros alemães.

Mas o problema fundamental não está aqui. Não parece possível aprofundar os
trabalhos mútuos se ignorarmos que os lingüistas brasileiros envolvidos atuam
exclusivamente na área da Lingüística Portuguesa, ao passo que os lingüistas alemães
dedicam-se habitualmente a pelo menos três línguas românicas, por requisitos profissionais.
Seu interesse continua a concentrar-se no francês, italiano e espanhol, notando-se também
que as línguas românicas de pequena difusão (o catalão, o galego) têm despertado sua
atenção. No panorama da “Nova România”, o espanhol da América tem atraído sua atenção
bem mais que o português americano.

Esta última observação aconselha a que, com a necessária urgência, se agreguem


hispanistas na continuação de nossos trabalhos. Não se trata apenas de dar atendimento a
um evidente requisito dos parceiros alemães, e sim a de buscar uma interação entre
brasileiros e hispano-americanos, uma ação política que já se desenvolve em duas frentes,
de que tenho sido defensor em mais de uma ocasião.

Na primeira frente, precisamente no âmbito do PHPB, a busca dessa interação se


manifestou já em seus momentos iniciais. Assim, no I Seminário do PHPB (São Paulo,
1997), sinalizou-se claramente o objetivo de associar os dois projetos, o já consolidado
“História do Espanhol da América” e o nascente PHPB. Para pôr em marcha esse
desideratum, naquele momento foi convidado o Prof. Adolfo Elizaincín, da Universidad de
la República de Uruguay e integrante do primeiro projeto, a expor os resultados dessa
atividade e a interagir com os brasileiros. Incluir o espanhol neste plano de expansão
atende, portanto, igualmente aos interesses dos brasileiros, sobretudo aqueles mais tocados
pela necessidade de uma aproximação com nossos vizinhos. Se isto representar a vontade
de todos, poderíamos propor ao Prof. Elizaincín que procedesse às sondagens necessárias
junto aos nossos vizinhos de diacronia. Vizinhos na geografia da América Latina, vizinhos
nos departamento das universidades alemãs.

Na segunda frente, no âmbito da Associação de Lingüística e Filologia da América


Latina (ALFAL), sua atual diretoria criou a Comissão de Pesquisas em História do
Português da América, atualmente coordenada por dois membros do PHPB, os Profs. Drs.
Afrânio Gonçalves Barbosa e Célia Lopes, e pediu à coordenadora da pré-existente
Comissão de Pesquisas em História do Espanhol da América, Profa. Dra. Elena Rojas, da
Universidad de Tucumán (Argentina), que propusesse algum tipo de ação conjunta, à
semelhança do que ocorre com várias das Comissões de Pesquisa da ALFAL. Só para
lembrar a última das realizações neste domínio, a revista Lingüística 13 (2001) publicou os
resultados das pesquisas luso-hispanoamericanas em Aquisição da Linguagem. As
Comissões de Pesquisas em história do Espanhol e do Português, integradas na ALFAL,
poderiam fornecer a moldura para a continuação (alargada) de nossos trabalhos.

A entrada dos colegas alemães hispanistas daria um reforço considerável a essa


política, ampliando e consolidando uma relação triangular alemães-brasileiros-
hispanoamericanos.

Mas quê temas teriam o potencial de interessar e inspirar essa ação ? Bem, aqui
ingressamos no complicado terreno dos sonhos e dos projetos de cada um / “de cada
quien”. Impossível avançar sem conhecer esses sonhos para explorar seu possível
compartilhamento.

Ajudaria muito sondar o modo como estamos imaginando nossa atuação enquanto
lingüistas no séc. XXI. Ora, justamente Antônio Carlos Xavier e Suzana Cortez acabam de
publicar um inquérito entre 18 lingüistas brasileiros96[96][96]. Todos responderam às
mesmas perguntas, a última das quais foi “quais os desafios para a Lingüística no séc.
XXI”?

Eis aqui um quadro-síntese das respostas:

7. Prosseguir nas análises do português e das línguas indígenas (pp. 48, 56, 128, 156),
preparando-se obras de referência (gramáticas e dicionários), com o objetivo de promover
uma interface com as ciências da computação (p. 76, 110, 199) e de entender melhor “esse
dentro da linguagem, como ela funciona, como é mesmo sua gramática, que regras regem
de fato uma língua”(p. 173). Impulsionar o caráter abstrato da Lingüística em sua

96[96][96][96][96]
Antônio Carlos Xavier e Suzana Cortez (Orgs. Conversas com Lingüistas. Virtudes e
controvérsias da Lingüística. São Paulo: Parábola Editorial, 2003, 199 páginas.
caminhada das regras, que se situam no nível da observação, para os princípios, que são
explicativos, e destes para as lei, inteiramente preditivas, refazendo a caminhada já
percorrida pela Física (p. 121).
8. Estimular o estudo sobre o passado do português, recuperando a história do português do
Brasil (p. 111).
9. Assumindo que “a linguagem é uma capacidade cognitiva” (p.187), aprofundar as relações
entre língua e cognição, acelerando a agenda cognitiva no que diz respeito às formas de
pensar, à criação de gêneros (p. 129, 140), à gramaticalização das categorias cognitivas (p.
61), e ao diálogo da Lingüística com a Neurobiologia, a Psicologia, a Filosofia da
Linguagem e a inteligência artificial (p. 192). Em suma, alargar a agenda da Lingüística,
tornando mais sistemáticos seus contactos com a Neurologia, a Psicologia e outras ciências
(p. 34), inserindo as pesquisas lingüísticas nas pesquisas experiencialistas da genética (p.
148).
10. Retomar os pressupostos de várias teorias e modelos já elaborados, na tentativa de
“verificar o que é possível conciliar [para] responder às grandes questões que se colocam
sobre a linguagem” (p. 22). Estimular a pluralidade teórica (p. 70). Redefinir do objeto da
Lingüística, retomando a linguagem como objeto, e não o sistema (p. 88). Estimular a
Lingüística Aplicada, para tornar mais eficaz o ensino da língua materna e das línguas
estrangeiras (p.90, 95).
11. Ganhar espaço público, “saltar os muros da academia”, fazendo ouvir nossa voz nos
grandes espaços institucionais (p. 70).
12. Construir a história das idéias lingüísticas no Brasil (p. 157).

Essa manifestação dos lingüistas brasileiros – que precisaria ser comparada à dos
romanistas alemães e hispanoamericanos – talvez nos possa ajudar na identificação dos
próximos passos a dar.

Do lado brasileiro, é clara a vontade de prosseguir o intercâmbio. Provavelmente a


agenda de 2000 não precisará ser alterada, mas sem dúvida há interesse em verticalizar a
temática, desenvolvendo pesquisas de cunho teórico. Continua também a expectativa de
que um número maior de interações sejam estabelecidas.

São estas as questões que trazemos ao debate em Blaubeuren.

ANEXO – PROJETO PARA A HISTÓRIA DO PORTUGUÊS


BRASILEIRO
Informações e bibliografia
Última revisão: 20/06/03

1. Objetivos
Historiar o Português Brasileiro nas cidades de Recife, Salvador, João Pessoa, Rio de
Janeiro,Ouro Preto, São Paulo, Curitiba e Florianópolis. Para atingir esse objetivo o PHPB
desenvolverá três subprogramas:
• Constituição do Corpus Diacrônico do Português Brasileiro.
• História Social do Português Brasileiro.
• Mudança gramatical do Português Brasileiro. Até aqui, os pesquisadores têm optado por
um dos seguintes modelos teóricos: variação e mudança, gerativista (princípios e
parâmetros), funcionalista (processos de gramaticalização).

2. Formas de atuação

• Foram constituídas equipes regionais de pesquisadores, as quais desenvolvem a agenda


acima.
• Os resultados obtidos são apresentados e discutidos em seminários nacionais, realizados
a cada ano e meio.
• Uma vez revistos, os respectivos textos são publicados na série Para a História do
Português Brasileiro, editada pela Humanitas (FFLCH-USP).
• Encerrada a agenda de pesquisas, prevê-se a consolicação dos resultados obtidos e sua
publicação em série própria.

3. Corpus diacrônico do Português Brasileiro


Por enquanto, o corpus de análise se compõe dos seguintes tipos de texto:
• Anúncios em jornais brasileiros do século XIX: Guedes & Berlinck (Orgs. 2000).
• Correspondência de editores de jornais brasileiros do século XIX: Barbosa e Lopes
(Orgs., no prelo).
• Correspondência de leitores de jornais brasileiros do século XIX: Barbosa e Lopes
(Orgs., no prelo).
• Correspondência de juízes e desembargadores do séc. XVIII: Lobo (Org. 2001).
• Correspondência de ordem religiosa: Lobo (2001,vol. 4).
• Cartas da Santa Casa de Misericórdia, séc. XIX: Ilza Ribeiro / Soraia Rebouças /
Lavínia de Jesus (2001).
• Atas de reuniões de irmandade negra do séc. XIX: Oliveira (2003)
As “Normas para transcrição de documentos manuscritos para a história do português do
Brasil” foram publicadas em R. V. Mattos e Silva (Org. 2001, tomo 2: 553-555).

4. Seminários Nacionais

• I, São Paulo, 1997, sob o patrocínio da Área de Filologia e Língua Portuguesa da USP e
da Fapesp.
• II, Campos do Jordão, 1998, sob o patrocínio da Fapesp.
• III, Campinas SP, 1999, sob o patrocínio do Programa de Pós-Graduação em Lingüística
da Unicamp.
• IV, Teresópolis RJ, 2001, sob o patrocínio da Faculdade de Letras da UFRJ, CNPq e
Faperj.
• V, Ouro Preto, 2002, sob o patrocínio da UFMG.
5. Equipes Regionais
• PERNAMBUCO
Coordenador: Marlos Pessoa de Barros (UFPe).
• BAHIA
Coordenadora: Rosa Virgínia Mattos e Silva (UFBa). Pesquisadores: Ilza Ribeiro (UFBa),
Tânia Lobo (UFBa), Zenaide de Oliveira Novais Carneiro (UEFS, doutoranda Unicamp),
Norma Lúcia Fernandes de Almeida (UEFS, doutoranda Unicamp). Discentes: Permínio
Ferreira (doutorando USP), Klebson Oliveira (doutorando UFBa), Soraia Oliveira
Rebouças (Unifacs), Lavínia Rodrigues de Jesus (Unifacs), Marcos Bispo dos Santos
(graduação UFBa), Margarida Maria Oliveira dos Santos (graduanda UFBa), Marina
Andari Hatty (graduanda UFBa).
• PARAÍBA
Coordenador: Dermeval da Hora (UFPB). Pesquisadores: Maria Elizabeth Affonso
Christiano, Eliane Ferraz Alves, Maria Cristina de Assis Pinto Fonseca, Maria das Graças
Ribeiro Carvalho, Fabrício Possebon (Doutorando - USP). Discentes: Ana Clarissa Santos
Bessera (Mestranda) Rubens Marques de Lucena (Doutorando-UFPB), Adryana de Araújo
Oliveira (graduanda), Elton Jones Barbosa Andrade (graduando), Renata Conceição Neves
Monteiro (graduanda), todos da UFPB.
• RIO DE JANEIRO
Coordenadora: Dinah I. Callou (UFRJ). Pesquisadores: Maria Eugênia Lamoglia Duarte
(UFRJ), Afrânio Gonçalves Barbosa (UFRJ), Célia Regina dos Santos Lopes (UFRJ),
Mário Eduardo Toscano Martelotta (UFRJ). Discentes: Carolina Ribeiro Serra (UFRJ),
Juanito Ornelas de Avelar (UFRJ), Márcia Cristina de Brito Rumeu (UFRJ), Márcio
Martins Leitão (UFRJ).
• MINAS GERAIS
Coordenadora: Jânia Ramos (UFMG). Pesquisadores: Mônica Alkmim (UFOP), Renato
Porto Venancio (UFOP), Candice Fernandez (UFMG), Raquel Dettoni (UFMG/UnB),
Ev’Angela Barros (UFMG). Discentes: Daniela Bassani (UFMG), Lillian Moura (UFMG).
• SÃO PAULO [www.fflch.usp/dlcv/lport]
Coordenador: Ataliba T. de Castilho (USP). Pesquisadores: Ângela C. S. Rodrigues (USP),
Helena Nagamine Brandão (USP), Maria Aparecida Torres de Morais (USP), Maria Lúcia
C.V.O. Andrade (USP), Marilza de Oliveira (USP), Mário Eduardo Viaro (USP),
Marymarcia Guedes (Unesp / Araraquara), Rosane Andrade Berlinck (Unesp / Araraquara),
Tânia Alkmim (Unicamp). Discentes: Célia Maria Moraes de Castilho (doutoranda
Unicamp), Marcelo Módolo (doutorando USP), Nanci Romero (mestranda USP), Verena
Kewitz (doutoranda USP), Vandersi Santana (doutoranda Unicamp), Rafael Coelho (IC,
USP), Tasso A. C. dos Santos (IC, USP).
• PARANÁ
Coordenadora: Sônia Maria Lazzarini Cyrino (Univ. Est. Londrina). Pesquisadores:
Vanderci de Oliveira Aguilera (UEL), Jerusa de Paula Barrichello (UEL), Flávia
Figueiredo (UEL).
• SANTA CATARINA
Coordenador: Gilvan Müller de Oliveira (UFSC).

6. Doutorados
• Célia Regina dos Santos Lopes - A inserção de a gente no quadro pronominal do
português: percurso histórico. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 1999.
• Afrânio Barbosa – Análise Lingüística do Gerúndio. Cartas de comércio do séc. XVIII. Rio
de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2000, inédita.
• Tânia Lobo – Para uma Sociolingüística Histórica do Português no Brasil. Edição
filológica e análise lingüística de cartas particulares do Recôncavo da Bahia, século XIX.
São Paulo: Universidade de São Paulo, 2001, 4 vols, inédita.
• Miguel Salles – Pronomes de Tratamento do Interlocutor no Português Brasileiro: um
estudo de pragmática histórica. São Paulo: Universidade de São Paulo, 2001, inédita.
• Mônica Alkmim- Negativas Sentenciais: uma abordagem sociolingüística. Belo Horizonte:
Universidade Federal de Minas Gerais, 2001.
• Sílvia Rita Magalhães Olinda – A Colocação dos Pronomes no Português Brasileiro, sécs.
XVIII e XIX: a questão revisitada. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2002.
• Eliana Pitombo Teixeeira – Era uma vez Você. Salvador: Universidade Federal da Bahia,
2002.
• Gilvan Müller de Oliveira – História Social do Português de Santa Catarina. Universidade
Estadual de Campinas, em andamento.
• Marcelo Módolo – Diacronia das sentenças correlatas. Universidade de São Paulo, em
andamento.
• Raquel Dettoni – Marcação de Gênero no Dialeto da Baixada Cuiabana. Universidade
Federal de Minas Gerais , em andamento.
• Ev’Angela Barros – Realizações de dativo de posse: o percurso de uma mudança.
Universidade Federal de Minas Gerais , em andamento.
• Vandersi Santana – Interface Dialetologia / Lingüística Histórica. Campinas: Universidade
Estadual de Campinas, em andamento.

7. Mestrados
• Marcelo Módolo – Um Corpus para a Diacronia do Português de São Paulo. São Paulo:
Universidade de São Paulo, 1998, inédita.
• Verena Kewitz - Gramaticalização de ser e estar locativos. São Paulo: Universidade de
São Paulo, 2002, inédita.
• Klebson Oliveira – Textos escritos por africanos e afro-descendentes na Bahia do século
XIC: fontes do nosso latim vulgar ? Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2003.
• Lavínia Rodrigues de Jesus – O relativo cujo em documentos do século XIX. Salvador:
UFBa, 2002, inédita.
• Candice Fernandez – Português Padrão: conceituação e avaliação por informantes
belorizontinos. Universidade Federal de Minas Gerais, Dissertação de Mestrado, em
andamento.

8. Convênio internacional
Sob o abrigo do “Programa Brasil-Alemanha” (PROBRAL), estebelecido pela CAPES e
pelo DAAD, foi assinado um convênio para o intercâmbio de pesquisadores e de
doutorandos envolvidos neste Projeto, com vigência de 2000 a 2003 (Projeto CAPES
109/00). Do lado alemão, coordenou o convênio a Profa. Dra. Brigitte Schlieben Lange,
substituída após seu falecimento pela Profa. Dra. Konstanze Jungbluth. Pelo lado brasileiro,
o convênio é coordenado pelo Prof. Dr. Ataliba T. de Castilho. Em 2000, estiveram na
Alemanha, os Profs. Gilvan Müller de Oliveira (UFSC), Sônia Cyrino (UEL) e Marlos de
Barros Pessoa (UFPE), tendo-nos visitado os Profs. Konstanze Jungbluth, Roland Schmidt-
Riese e Uli Reich. Em 2001, Jânia Ramos desenvolveu pesquisas com o Dr. Waltereit, de
Tübingen, tendo vindo ao Brasil Cornelia Döll e Christine Hundt (Universidade de Leipzig)
e o doutorando Lars-G. Wigger. Em 2002, Helena Nagamine Brandão esteve na
Universidade de Tübingen, tendo vindo ao Brasil Johannes Kabatek (Universidade de
Freiburg) e Richard Waltereit (Universidade de Tübingen). Em 2003, seguirão Ataliba T.
de Castilho (USP), Marilza de Oliveira (USP), Mário Eduardo Viaro (USP) e Verena
Kewitz (doutoranda, USP). Os participantes alemães realizaram de 4 a 6 de julho de 2003,
em Blaubeuren um seminário bilateral de avaliação das atividades desenvolvidas e análise
dos desdobramentos futuros deste convênio.

9. Publicações
Relacionam-se aqui os trabalhos publicados na série Para a História do Português
Brasileiro, tanto quanto aqueles apresentados por seus pesquisadores em eventos no país ou
no exterior.

AGUILERA, Vanderci de Andrade (2002). Um estudo lexical em documentos notariais


paranaenses. In M. E. L.Duarte / D. Callou (Orgs. 2002: 223-235).
ALKMIM, Tânia (2001). A variedade lingüística de negros e escravos: um tópico da história do
português no Brasil. In R. V. Mattos e Silva (Org. 2001, tomo 2: 317-336).
ALKMIM, Tânia (Org., 2002). Para a História do Português Brasileiro, vol. III, Novos Estudos.
São Paulo: Humanitas / Unicamp - USP.
ALKMIN, Mônica (2001). Negativas Sentenciais no Dialeto Mineiro: uma abordagem
sociolingüística. Belo Horizonte: Univesidade Federal de Minas Gerais: tese de
doutoramento, inédita.
ALKMIM, Mônica / RAMOS, Jânia (2001). Projeto História da Língua Portuguesa em Minas:
Primeiras Informações. Palestra apresentada no V Cong. de Ciências Humanas Letras e
Artes. Ouro Preto (Caderno de Resumos, p.94.).
ALKMIM, Mônica (2002a). Negativa pré- e pós-verbal: implementação e transição. In M. A.
Cohen, M. A. / J. Ramos (Orgs. 2002: 169-182).
ALKMIM, Mônica G. R. de (2002b). Fontes para o estudo do português setecentista e oitocentista
em Minas Gerais. In: M. E. L.Duarte / D. Callou (Orgs. 2002: 87-92).
BARBOSA, Afrânio / LOPES, Célia (Orgs., no prelo). Cartas de leitores e redatores publicadas
em jornais brasileiros do séc. XIX.
BARBOSA, Afrânio / LOPES, Célia / CALLOU, Dinah (Orgs.2000). Corpora. Cd-rom publicado
pelo CNPq/Faperj.
BARBOSA, Afrânio (2000). Análise Lingüística do Gerúndio. Cartas de comércio do séc. XVIII.
Rio de Janeiro: Universidade Federal do Rio de Janeiro, tese de doutoramento.
BARBOSA, Afrânio / LOPES, Célia / CALLOU, Dinah (2002). Organização dos corpora
diacrônicos do PHPB-RJ na rede mundial de computadores. In M. E. L. Duarte / D. Callou
(Orgs. 2002: 29-38).
BERLINCK, Rosane de Andrade (1997). Sobre a realização do objeto indireto no português do
Brasil. Com. Ao II Encontro do Círculo de Estudos Lingüísticos do Sul, Florianópolis,
inédito.
BERLINCK, Rosane de Andrade (2000 a). Complementos preposicionados. Variação e mudança no
Português Brasileiro, inédito.
BERLINCK, Rosane de Andrade (2000 b) Complementos preposicionados no português paulista do
século XIX. In D. M. I Callou e M. E. L. Duarte (Orgs., no prelo).
BRANDÃO, Sílvia Figueiredo / CALLOU, Dinah Isensee / DUARTE, Maria Eugênia Lamoglia
(2000). As estruturas de complementação na fala standard e não standard do Rio de
Janeiro. In S. Grosse / K. Zimmermann (eds. 2000: 189-206).
CAFEZEIRO, Edwaldo (2002). Sobre o nexo em alguns textos do português colonial. In M .E. L.
Duarte / D. Callou (Orgs. 2002: 207-222).
CAGLIARI, Gladys M. (Org., no prelo) – Estudos Diacrônicos do Português. Araraquara: Unesp.
CALLOU, Dinah M. Isensee (1998). Um estudo em tempo real em dialeto rural brasileiro: questões
morfossintáticas. In S. Grosse / K. Zimmermann (eds. 1998: 255-172).
CALLOU, Dinah M. Isensee / DUARTE, Maria Eugênia Lamoglia / AVELAR, Juan (2001). As
estruturas de complementação na fala culta do Rio de Janeiro: análise em tempo real de
curta duração. In R. V. Mattos e Silva (Org. 2001, tomo 1: 251-263).
CALLOU, Dinah M. Isensee / AVELAS, Juanito (2002). Subsídios para uma história do falar
carioca: mobilidade social no Rio de Janeiro do séc. XIX. In M .E .L. Duarte / D. Callou
(Orgs. 2002: 95-112).
CAMBRAIA, César Nardelli (2001). Subsídios para a fixação de normas de transcrição de textos
para estudos lingüísticos – I. In R. V. Mattos e Silva (Org. 2001, tomo 2: 531-534).
CARNEIRO, Zenaide de Oliveira Novais / ALMEIDA, Norma Lúcia Fernandes de (2001).
Arquivos públicos municipais do interior da Bahia: fontes para a história do português
brasileiro. In R. V. Mattos e Silva (Org. 2001, tomo 2: 505-530).
CARNEIRO, Zenaide de Oliveira Novais / ALMEIDA, Norma Lúcia Fernandes de (2002).
Informes sobre corpus em fase de conclusão: Cartas de homens “ilustres” do século XIX
(PHPB-Bahia). In M.E.L.Duarte / D. Callou (Orgs. 2002: 61-76).
CAVALCANTE, Sílvia Regina de Oliveira (2001). O sujeito indeterminado na escrita dos séculos
XIX e XX: uma mudança encaixada ? In R. V. Mattos e Silva (Org. 2001, tomo 1: 233-
250).
CASTILHO, Ataliba T. de, MÓDOLO, Marcelo / SAGATIO, Marcos R. / KEWITZ, Verena /
PASSERI, Glauce (1997). História do Português de São Paulo. Paleografia e agenda.
Estudos Lingüísticos [Anais do GEL] 27: 1998, 190-198.
CASTILHO, Ataliba T. de (1997a). A Gramaticalização. Estudos Lingüísticos e Literários [UFBa]
19: março de 1997, 25-63.
CASTILHO, Ataliba T. de (1997b). Língua Falada e Gramaticalização. O caso de mas. Filologia e
Lingüística Portuguesa 1: 107-120.
CASTILHO, Ataliba T. de (1997c). Para uma sintaxe da repetição. Língua falada e
gramaticalização. Língua e Literatura [FFLCH / USP] 22: 293-332.
CASTILHO, Ataliba T. de (1998b). Projeto de história do português de São Paulo. In A. T. de
Castilho (Org. 1998, pp. 61-76).
CASTILHO, Ataliba T. (Org., 1998). Para a História do Português Brasileiro, vol. I, Primeiras
Idéias. São Paulo: Humanitas / Fapesp.
CASTILHO, Ataliba T. (2000a). Para um programa de pesquisas sobre a história social do
português de São Paulo. In R. V. Mattos e Silva (Org. 2001, tomo 2: 337-370). Republicado
com alterações como Para a História Social do Português de São Paulo. Revista Portuguesa
de Filologia, vol. XXIII (1999-2000): 29-70.
CASTILHO, Ataliba T. (2000b). Problemas do aspecto verbal no português falado no Brasil. In E.
Gärtner / C. Hundt / A. Schönberger (eds. 2000, vol. III: 17-46).
CASTILHO, Ataliba T. de (2001 a). Introdução à Lingüística Cognitiva. Relatório apresentado à
Fapesp e à USP, inédito.
CASTILHO, Ataliba T. de (2001 b). Notas sobre a gramaticalização de vez. In Clarinda Maia (Org.
2001). Miscelânea de Estudos em Homenagem ao Prof. Dr. José Gonçalo Herculano de
Carvalho. Coimbra, Universidade de Coimbra, no prelo.
CASTILHO, Ataliba T. (2002). Diacronia dos adjuntos adverbiais preposicionados no português
brasileiro. In G. M. Cagliari (Org., no prelo) – Descrição do Português: Estudos de
Lingüística Histórica. Araraquara: Unesp.
COHEN, M. A. / RAMOS, Jania (Orgs. 2002). O Dialeto Mineiro e Outras Falas. Belo Horizonte:
Faculdade de Letras da UFMG.
CYRINO, Sônia Maria Lazzarini (1998). Uma proposta para o estudo da sintaxe diacrônica do
português brasileiro. In A. T. de Castilho (Org. 1998: 89-100).
CYRINO, Sônia Maria Lazzarini (1997). O objeto nulo no português do Brasil - um estudo
sintático-diacrônico. Londrina: Editora da UEL.
CYRINO, Sônia Maria Lazzarini (2000). O objeto direto nulo no português brasileiro. In E. Gärtner
/ C. Hundt / A. Schönberger (eds. 2000, vol. II: 61-74).
CYRINO, Sônia Maria Lazzarini (2001). Elementos nulos pós-verbais e a categoria “INFL
(flexão)”no português do século XVI. In R. V. Mattos e Silva (Org. 2001, tomo 1: 205-
232).
CYRINO, Sônia Maria Lazzarini / BARRICHELLO, Jerusa / FIGUEIREDO DE PAULA, Flávia
(2002). Formação de um banco de documentos paranaenses: primeiros resultados. In M. E.
L.Duarte / D. Callou (Orgs. 2002: 77-86).
DUARTE, Maria Eugênia Lamoglia (1998). O sujeito nulo no português do Brasil: de regra
obrigatória a regra variável. In S. Grosse / K. Zimmermann (eds. 1998: 189-202).
DUARTE, Maria Eugênia Lamoglia / CALLOU, Dinah M. Isensee (Orgs., 2002). Para a História
do Português Brasileiro, vol. IV, Notícias de corpora e outros estudos. Rio de Janeiro:
UFRJ – Letras / Faperj.
DUARTE, Maria Eugênia Lamoglia / LOPES, Célia Regina dos Santos (2002). Realizaram,
realizou-se ou realizamos…? As formas de indeterminação do sujeito em cartas de jornais
do século XIX. In M. E. L.Lopes / D. Callou (Orgs. 2002: 155-166).
GÄRTNER, Eberhard / HUNDT, Christine / SCHÖNBERGER, Axel (eds. 2000). Estudos de
Sociolingüística brasileira e portuguesa. Frankfurt am Main: TFM.
GÄRTNER, Eberhard / HUNDT, Christine / SCHÖNBERGER, Axel (eds. 2000). Estudos de
Gramática Portuguesa, 3 vols. Frankfurt am Main: TFM.
GONÇALVES, Uiltondos Santos / FERREIRA, Permínio de Souza (2001). Aventura no reino das
traças: contribuindo para uma história lingüística da Bahia. In R. V. Mattos e Silva (Org.
2001, tomo 2: 483-504).
GROPPI, Mirta (2001). Problemas e perspectivas para um estudo da situação lingüística de São
Paulo no século XVIII. In R. V. Mattos e Silva (Org. 2001, tomo 2: 371-390).
GROSSE, Sybille / ZIMMERMANN, Klaus (eds. 1998). “Substandard”e Mudança no Português
do Brasil. Frankfurt am Main: TFM.
GROSSE, Sybille / ZIMMERMANN, Klaus (eds. 2000). O Português Brasileiro: pesquisas e
projetos. Frankfurt am Main: TFM, 345-376.
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commodos…Anúncios de jornais brasileiros do século XIX. São Paulo: Humanitas [Série
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filológica e análise lingüística de cartas particulares do Recôncavo da Bahia, século XIX.
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pronominais de tratamento: uma abordagem preliminar em textos brasileiros e portugueses
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Estudantes de Letras do Estado do Rio de Janeiro. Volta Redonda, Executiva Nacional dos
Estudantes de Letras - Região Sudeste.
LOPES, C. R. dos S. & DUARTE, M. E. L. (2002) Formas nominais e pronominais de tratamento
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Ordenação de advérbios intensificadores e qualitativos em –mente em cartas de jornais do
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uma composição posterior. In A. T. de Castilho (Org. 1998, pp. 21-52).
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brasileiro: velhos problemas revisitados. Conferência no concurso para Professor Titular de
Língua Portuguesa. Salvador: Instituto de Letras/UFBA (inédito).
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língua portuguesa no território brasileiro. Gragoatá, 9: 1-248)
MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia (2001). O português brasileiro: sua formação na complexidade
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língua portuguesa: diversidade e inovação”. Lisboa: Instituto Camões (inédito).
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MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. (2001). De fontes sócio-históricas para a história social
lingüística do Brasil: em busca de indícios. In R. V. Mattos e Silva (Org. 2001, tomo 1:
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corpora para o Projeto “Para a História do Português Brasileiro”. In M.E.L. Duarte / D.
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MATTOS E SILVA, Rosa Virgínia. (2002). Fatores sócio-históricos condicionantes na formação do
português brasileiro: em questão o propalado conservadorismo da língua portuguesa no
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Portuguesa’ (PROHPOR) e sua inserção no projeto nacional ‘Para a História do Português
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