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SUMÁRIO DA DISCIPLINA

Plano da Disciplina ...................................................................................................................................... 00

UNIDADE I

O BRASIL MULTICULTURAL

Texto 1: História e Cultura Afro-Brasileiras ............................................................................................... 00


Texto 2: Cultura Indígena ........................................................................................................................... 00
Texto 3: As Influências dos Imigrantes ....................................................................................................... 00
Texto 4: Exclusão Social ............................................................................................................................. 00

UNIDADE II

FORMAÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA

Texto 5: As Raízes do Modelo Capitalista Brasileiro ......................................................................................... 00


Texto 6: O Processo de Modernização ........................................................................................................ 00
Texto 7: O Papel do Estado nas Décadas de 70 e 80: Autoritarismo e Concentração de Renda ................ 00

UNIDADE III

O PROCESSO DE REDEMOCRATIZAÇÃO BRASILEIRA E O CONTEXTO ATUAL DO BRASIL

Texto 8: As Consequências Socioeconômicas do Modelo de Desenvolvimento Brasileiro ........................ 00


Texto 9: A Construção de uma Nova Cidadania e os Movimentos Sociais ................................................. 00
Texto 10: O Brasil e o Contexto Internacional ............................................................................................ 00

Glossário ..................................................................................................................................................... 00
Referências bibliográficas ........................................................................................................................... 00
Plano da Disciplina
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Carga Horária Total: 30h/atividades
Créditos: 02

Relevância da Disciplina
A disciplina propõe estudar a modernização do Brasil e as consequentes transformações políticas e sociais a
partir da compreensão do modelo capitalista brasileiro e dos processos de exclusão social, refletindo acerca da
pobreza no Brasil, da diversidade social e cultural e dinâmica de classes que estrutura a sociedade brasileira,
situando-a no contexto da nova ordem mundial.

Objetivos da Disciplina
Analisar diferentes visões crítico-reflexiva do contexto social brasileiro; desenvolver e/ou utilizar conhe-
cimentos e habilidades para a formação de profissionais conscientes de sua responsabilidade no processo de
implantação e implementação de uma sociedade mais justa e igualitária.

UNIDADE I: O BRASIL MULTICULTURAL


Tempo estimado de autoestudo nesta unidade: 8h/atividade

Objetivos: Reconhecer a importância da diversidade cultural que constituiu o povo brasileiro e a influência desse
multiculturalismo na formação da nossa sociedade e nos dias atuais.

Quadro-resumo da unidade

Assuntos Onde Encontrar Atividades Complementares

Leituras Complementares
Texto 1: História e Cultura Afro-Brasileiras Página 00 • FREYRE, Gilberto. Casa-Grande &
Senzala. Rio de Janeiro:Record, 1998.
• HOLANDA, Sergio Buarque de. Raízes do
Brasil. Rio de Janeiro : J. Olympio, 1989.
• MOTA, Carlos G. (org). Brasil em
Texto 2: Cultura Indígena Página 00 Perspectiva. São Paulo: Difel, 1969.
• RIBEIRO, D. O povo brasileiro: a
formação e o sentido do Brasil. Ed.
Companhia das Letras, 1995.

Texto 3: As Influências dos Imigrantes Página 00 Músicas


• Que país é esse?, da Legião Urbana;

Filmes Indicados
• A Missão;
Texto 4: Exclusão Social Página 00
• Chica da Silva.
• Desmundo.
UNIDADE II: FORMAÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA
5
Tempo estimado de autoestudo nesta unidade: 8h/atividade

Objetivos: Caracterizar a Revolução Industrial como o momento de instalação do modelo capitalista de


produção; perceber as contradições da modernização surgida a partir da Revolução Industrial; identificar o
Brasil como um país de industrialização recente; reconhecer as marcas da economia dependente no modelo de
desenvolvimento brasileiro.

Quadro-resumo da unidade

Assuntos Onde Encontrar Atividades Complementares

Filmes Indicados
• Tempos Modernos,
Um operário de uma linha de montagem, que tes-
Texto 5: As Raízes do Modelo Ca- tou uma “máquina revolucionária” para evitar a
Página 00
pitalista Brasileiro hora do almoço, é levado à loucura pela “monoto-
nia frenética” do seu trabalho. Tempos Modernos
é uma crítica contundente ao movimento “frené-
tico” imposto pelo processo da industrialização.

• Pra frente Brasil,


Em meio à euforia do milagre econômico e da vi-
tória da seleção na Copa de 70, um pacato cidadão
da classe média é confundido com um ativista po-
Texto 6: O Processo de Modernização Página 00 lítico, sendo então preso e torturado por agentes
federais. Dirigido por Roberto Farias (Assalto ao
Trem Pagador), com Antônio Fagundes, Reginal-
do Faria e Flávio Miggliaccio no elenco.

Sites indicados
• http://www.dominiopublico.gov.br

Leituras complementares
Texto 7: O Papel do Estado nas • DAMATTA, R. O QUE É O BRASIL?. Rio de
Décadas de 70 e 80: Autoritarismo Página 00 Janeiro: Editora: Rocco, 2004.
e Concentração de Renda • DREIFUSS, René A. 1964 A Conquista do Estado.
Petrópolis: Vozes, 1981.
UNIDADE III: O PROCESSO DE REDEMOCRATIZAÇÃO BRASILEIRA E O CONTEXTO ATUAL
6 DO BRASIL
Tempo estimado de autoestudo nesta unidade: 8h/atividade

Objetivos: Relacionar a globalização e o neoliberalismo com o desenvolvimento brasileiro dos anos 90; per-
ceber as contradições entre as funções de controle, no plano social, e de modernizador, no plano econômico,
dos governos pós-90.

Quadro-resumo da unidade

Assuntos Onde Encontrar Atividades Complementares

Sites Indicados
Texto 8: As Consequências Socio-
 www.brasilcultura.org/brasilcontemp.htm
econômicas do Modelo de Desen- Página 00
volvimento Brasileiro
Leituras Complementares
SANTOS, Milton. Por uma outra globalização.
Do pensamento único à consciência universal. Rio
de Janeiro, Record, 2000.
Texto 9: A Construção de uma Nova
Página 00
Cidadania e os Movimentos Sociais

Texto 10: O Brasil e o Contexto


Página 00
Internacional
INTRODUÇÃO 7

Sabemos que precisamos ser cidadãos atuantes em Aqui no Brasil, costumamos cometer o erro de
nossa sociedade, mas para nela melhor atuarmos pre- confundir o Estado e a Nação. Nosso estado pode
cisamos conhecer os contextos e nuances que a cons- não ir muito bem das pernas, mas nossa nação é um
tituem, como as características da população, das sucesso de público e não somos nós que dizemos
regiões brasileiras, características econômicas, polí- isso, mas os estrangeiros que nos visitam. A que se
ticas, sociais e culturais. Como tudo se constituiu até deve isso?
os dias de hoje, as suas consequências e influências.
Pare e pense! Sobre o que estamos conversando?
Contexto é algo que está nas entrelinhas, nossas au- Sobre algo que é próprio da nossa cultura e da forma-
las são para aqueles que desejam lançar seus olhares ção de nossa identidade: a miscigenação, convivência
para uma nação, a nação brasileira. bastante íntima dos três povos que nos formaram.

Por meio de trechos da nossa história e episódios Como se deu esse encontro, quantas marcas deixou,
da nossa cultura, tentaremos nos aproximar de alguns quantas feridas abriu, quantas bocas beijou?
pensamentos que formam a nossa mentalidade. Por
exemplo, o sentimento nacional, que em nós, brasilei- O português protagonizou o regime escravocrata
ros, aparece aqui e acolá, que explode em um gol ou mais cruel e eficaz do mundo moderno, mas, como
que vem manso, como no poema de Mário de Andra- na História a contradição não fere a lógica, foi quem
de, “O poeta come amendoim”: mais se miscigenou com seus escravos.

“Noites pesadas de cheiros e calores amontoados, Três vertentes que criaram uma só nação, múltipla e
Foi o sol! díspar, desafio contemporâneo de resgatar e reinven-
Que por todo o sítio imenso do Brasil, tar culturas que nos tornaram especiais e diferentes de
Andou marcando de moreno os brasileiros”. tudo o mais que existe no mundo.
8 UNIDADE I

O BRASIL MULTICULTURAL

“O ser senhor de engenho é título a que muitos as- um milhão e meio de pessoas viviam em Portugal no
piram, porque traz consigo o ser servido, obedecido século XVI. Os trabalhadores deveriam ser gerados
e respeitado de muitos”, Antonil. fora do reino. No Brasil os índios assumiram parcial-
mente a função de escravos.
Sob sol abundante e intenso, sobre terras vastas e
férteis, construiu-se um mundo novo, o lugar que se Quando os portugueses chegaram nas terras que fu-
chamaria Brasil. Três povos distintos, unidos pela fa- turamente seriam o Brasil, não as encontraram desa-
talidade dos processos históricos, erguiam nas terras bitadas. Muito pelo contrário, o extenso território era
americanas um complexo de produção que almejava povoado, e bem povoado, diga-se de passagem. Esti-
suprir os mercados internacionais de açúcar, um ver- ma-se que viviam aqui cerca de três milhões e meio
dadeiro ouro branco para alguns e mortalha da morte de índios, divididos em quatro principais troncos lin-
para muitos. guísticos, que se desdobravam em incontáveis diale-
tos. O principal grupo, com o qual os descobridores
Para entender como nosso país se tornou tão rico em fizeram contatos em abril de 1500 foi o tupi-guarani.
diversidade cultural, vamos voltar ao tempo e com- Tronco constituído por várias nações que habitavam
preender o desenvolvimento do Brasil e a constitui- o litoral, depois de terem expulsado para o interior as
ção do “povo brasileiro”. tribos que não eram tupis. De modo geral, podemos
dizer que se organizavam em núcleos menores – as
Se com propriedade podemos dizer que o período tribos – e desconheciam a propriedade privada. Tanto
pré-colonial foi sustentado pela extração do pau- a terra como os produtos dela tirados e o resultado
brasil, não será menos dizer que a cana-de-açúcar fez das caçadas e das pescarias pertenciam à coletivida-
igual pela colonização. Diante do desafio enfrentado de. Conheciam a agricultura, embora essa fosse ru-
pela coroa e pelos comerciantes envolvidos na expan- dimentar. Plantavam principalmente mandioca, além
são marítima de encontrar uma saída para o Brasil, a de milho, feijão, amendoim e abóbora. Completavam
cana pareceu a mais promissora. Dela extraía-se um a dieta alimentar com a caça e a pesca - no que eram
suco de extrema doçura, já conhecido pelos indianos muito hábeis – e com a coleta de frutos silvestres.
de longa data. Produto raro e caro, frequentou mesas
abastadas e boticas de cirurgiões. Adoçava e curava. Na tribo destacavam-se duas figuras: a do sacerdote,
No século XV, quando Portugal preparava-se para que comandava os cultos e cuidava das doenças; e
saltar o Atlântico, a cana era cultivada em algumas a do guerreiro, que conduzia os seus nas constantes
ilhas e também em terras mediterrânicas, mas con- batalhas que travavam com outras tribos pelo domí-
tinuava sendo cara. Os comerciantes italianos eram nio territorial de caça e pesca, e para vingar ofensas.
os maiores distribuidores da rara doçura, que traziam Embora seja possível apontar as duas figuras princi-
do Oriente. Os portugueses, depois de estabelecerem pais da tribo, como você leu acima, deve-se ressal-
contatos comerciais no Índico, colaboraram para a tar que entre eles não havia aquilo que conhecemos
vulgarização dos produtos obtidos da cana-de-açúcar, como classe social. A educação dos meninos e das
todos com grande aceitação no mercado europeu. meninas ocorria num clima harmonioso, por meio
do qual eram inseridos, progressivamente, na vida da
Um produto agrícola de valor comercial e terras comunidade. As crianças acompanhavam os adultos
em abundância. Dois elementos fundamentais para a nas atividades cotidianas e pouco a pouco aprendiam.
construção do mundo da cana. E esta combinação foi
potencializada pela natureza. Uma extensa faixa de Os contatos entre os índios e os portugueses nem
terra, que cobria o correspondente de hoje do nordes- sempre foram hostis, mas também nem sempre fo-
te e parte do sudeste, era constituída de massapé, solo ram pacíficos. Ele variou segundo os interesses e os
altamente propício ao cultivo da cana-de-açúcar. comportamentos de ambos. Ao longo da colonização,
de forma geral, pode-se dizer que os portugueses as-
E a mão de obra? Como alimentar enormes fazen- sumiram uma postura arrogante diante dos índios.
das com trabalhadores? De onde trazê-los? Portugal Sentiam-se superiores a eles e esforçaram-se para
era incapaz de fornecer este subsídio demográfico. A escravizá-los e submetê-los à lógica do trabalho for-
sua população não era grande. Se comparada aos dias çado, fundamental para tirar das terras conquistadas
atuais, chega mesmo a ser inexpressiva. Não mais de as riquezas cobiçadas. Movidos pela ganância e pela
necessidade, os descobridores perpetraram verdadei- cana, podiam transformá-la em açúcar e outros deri-
ros massacres, reduzindo a população nativa a um nú- vados. O complexo processo de produção culminava 9
mero insignificante comparado ao ano de 1500. nos seus depósitos, de onde eram enviados para os
portos e depois para o mundo.
A solução encontrada e que melhor cobria as neces-
sidades apontadas foi a escravização do africano em As terras eram ocupadas por florestas, plantações
escala mercantil. Além de coibir o controle dos colo- de cana, pomares, hortas e pastagem. As grandes fa-
nos brasileiros sobre a mão de obra, fato importante zendas tentavam a autonomia. Em suas terras eram
para a manutenção do pacto colonial, gerava novas e plantados os alimentos que nutriam os escravos e os
riquíssimas fontes de renda. A coroa vendia o direito demais habitantes do lugar. As florestas eram derru-
de explorar o comércio escravo e taxava a sua passa- badas periodicamente, cedendo lugar às novas plan-
gem pelos portos. E tem mais. Se a África era trans- tações e fornecendo energia ao engenho. Por isso
formada em fornecedora de energia, de trabalhadores, também os lotes de terra concedidos aos plantadores
de mulheres e homens escravizados, ela assumia este deveriam ser vastos. A monocultura da cana esgotava
papel sozinha. O Brasil deixava de ser um fornece- o solo, exigindo a abertura de novas clareiras na mata.
dor de energia escrava e se especializava em produzir
cana. Assim não havia concorrência entre as colônias O engenho recebia e processava a cana plantada nas
e os lucros eram maiores, pois sem concorrência o vastas terras pelos escravos. Era um trabalho árduo
preço pode ser melhor controlado. e intenso. Durante meses as caldeiras permaneciam
funcionando e os edifícios eram iluminados para que
De um lado o Brasil, com suas terras infindas e fér- o trabalho ocorresse sem grandes intervalos. Tirava-
teis, sendo coberto paulatinamente por plantações, de se o caldo da cana nas moendas, muitas vezes movi-
cana principalmente. Florestas sendo abatidas para das pela força dos escravos, mas também tracionadas
dar lugar ao cultivo e fornecer madeira para alimentar por juntas de bois e em alguns casos por grandes moi-
as caldeiras dos engenhos. Do outro lado a África, nhos de água. Depois da moagem o suco era cozido,
sendo transformada em usina de energia humana, em purificado, cristalizado e tratado até ser encaixotado.
combustível da colonização. Estas duas realidades se O engenho era a parte mais mecanizada da fazenda.
unem pelas águas atlânticas, atravessadas ordinaria- Os seus componentes eram importados da Europa.
mente por velames portugueses abarrotados de ho- E muitos técnicos do velho continente vieram se es-
mens e de mercadorias. tabelecer no Brasil nascente, onde desempenhavam
importante papel na cadeia produtiva.
O mercantilismo alimentava-se deste trânsito cons-
tante, do vaivém das embarcações. E a América Por- Os trabalhos começavam normalmente em fins de
tuguesa ia sendo paulatinamente construída. Vários junho, quando se comemora a noite de São João. Fes-
elementos corroboraram para esta construção. Porém, ta de herança colonial, que sintetiza vários elementos
destacaremos um que pela sua abrangência, tanto eco- do mundo do açúcar. Casamentos eram realizados na
nômica quanto cultural, pode esclarecer os demais. presença do padre, que comparecia ao engenho para
Trata-se do engenho de açúcar. Centro da produção abençoar os trabalhos e os trabalhadores. Uma noite
de riqueza e também de um modo de vida. Podemos de folguedos e festejos antecedia a abertura dos traba-
dizer que boa parte das relações sociais desta primeira lhos. O mundo da cana preparava-se na íntegra para
idade do Brasil girou em torno do engenho. Gilberto adoçar as praias do Brasil nascente, as praias do mun-
Freire nomeou este complexo aparelho colonial de do. Um país a nascer com gosto de suor, lágrimas,
Casa Grande e Senzala, título de seu mais notável sangue e cana, um gosto tão orgânico quanto suas pai-
livro. sagens. O suco dos homens misturava-se ao da cana
e fazia o brasileiro.
Grande extensão de terra. Na base de tudo a gran-
de propriedade. Poucos homens a possuí-la, portanto, A casa grande, morada do senhor, de sua família
um sistema de distribuição da terra, que era também nuclear, das sinhás, dos agregados e dos escravos de
o de distribuição da riqueza: a terra era a mais im- casa. No começo dos tempos coloniais, a casa grande
portante fonte de produção. Proprietários de terras primava pela seriedade. Uma casa que era também
cultivadas eram os grandes lavradores. Proprietários pequena fortificação. A história registra vários epi-
de terra e de engenhos eram os senhores. Cume da as- sódios de construções (incluindo a casa do senhor e
censão econômica e social. Ser senhor de engenho era o engenho), que foram destruídas pelos ataques dos
o que todos queriam. Eles constituíam uma espécie de índios, que perseveraram na luta pelo seu território
nobreza da terra, de aristocracia americana, ligados ao longo de toda nossa história. Quanto mais fechada,
a Lisboa por distinção e riqueza. E, para formarem mais protegida. Aliada a este princípio, a herança da
uma elite, deveriam ser poucos. Eram os mais ricos Ibéria moura nos deu casas com pátios e jardins in-
e poderosos porque, além de plantarem e colherem a ternos. Sair de casa não era propriamente ir à rua. Era
caminhar pelo pátio interno da casa. A Casa Grande é foi brutalmente transportado de ambiente. Cabe sa-
10 a sede do patriarca, desta família que Gilberto Freire lientar que a ideia de uma etnia negra é uma invenção
explicou como patriarcal. Nela concentrava-se o po- do continente americano, na África não havia essa
der e a riqueza. O senhor de tantas vidas e tantas for- identidade por meio da cor da pele, assim como entre
tunas, que tão diretamente agia sobre os destinos de os índios. Por isso, é ingênua a perplexidade de se
seus subordinados, fez dela sua sede. A violência do surpreender com informação de que tribos, de negros
escravista e a provedoria do pai estiveram na consti- ou de índios, escravizassem outras para fornecer aos
tuição do senhor de engenho e de sua morada. portugueses.

A senzala, assim como a Casa Grande, também E este cenário nos remete a um quadro social tam-
denunciava o seu morador. Nela viviam os escravos. bém familiar. Uma massa de trabalhadores, que são
Construção ampla e comum, era uma habitação cole- os escravos, destituídos de direitos, reduzidos à con-
tiva. Rústica, muitas vezes insalubres, como também dição de objeto. Alguns trabalhadores eram livres,
eram as casas dos senhores, ao menos em alguns as- vinculados à administração, ao comércio, às técni-
pectos. Nela vivia a força motriz do mundo da cana. cas, à navegação, à religião, aos trabalhos manuais
A espantosa energia do homem da África posta vio- especializados. Nem todos tinham a mesma fortuna,
lentamente a serviço do mercantilismo. nem todos viviam a mesma riqueza. Mas eram livres
e assalariados. E alguns poucos senhores de engenho,
A cultura portuguesa preponderou, e com ela, tam- donos dos meios de produção de riqueza, que esten-
bém seus costumes. Os negros e índios foram subme- diam seus poderes para além das fronteiras de suas
tidos de forma física, culturalmente se viram expos- propriedades. Uma sociedade fortemente vincada
tos e fragilizados. O índio perdeu as terras e o negro pela liberdade e riqueza.

Exercícios
1) Faça você mesmo a conexão: escreva um parágrafo explicando porque a grande lavoura de cana-de-açúcar
encaixa-se tão bem aos interesses do mercantilismo.

2) Estabeleça uma lista com as principais personagens do complexo Casa-grande e senzala.

3) Por que era importante que os lotes de terra cedidos fossem vastíssimos?

Gabarito
Caro aluno, em seguida você encontrará um guia de resolução das atividades propostas.

1) O latifúndio monocultor adaptava-se aos interesses no mercantilismo porque ele produzia um produto
de grande aceitação no mercado.

2) A lista é enorme, mas podemos destacar entre as principais: o senhor, o escravo, a família do senhor e
os trabalhadores técnicos.

3) Primeiro, porque era um símbolo de distinção social e estratégia de criação de uma elite. Segundo, o
cultivo da cana esgotava o solo e os engenhos necessitavam de muita lenha para funcionar.

Dicas de Estudo
Filme recomendado
Indicaremos um filme bastante interessante e ilustrativo do viver na colônia no século XVI. Chama-se Des-
mundo. Baseado no romance histórico homônimo da escritora Ana Miranda, o filme conta a história de uma
moça órfã, que foi enviada ao Brasil para se casar com um homem que a escolhesse, tirando-a, assim, da situ-
ação de penúria e abandono que vivia em Portugal. Mas ela não gosta nem um pouco daquele que a escolheu e
sua vida torna-se um tormento. O filme foi dirigido por Alain Fresnot, lançado em 2003 pela Columbia Pictures 11
do Brasil.

Leitura recomendada
História da vida privada no Brasil: Cotidiano e vida privada na América Portuguesa 1 é um livro muito
informativo e agradável. Trata-se de uma obra coletiva, na qual vários autores visitam formas de viver e pensar
na época colonial, abordando aspectos quase sempre esquecidos nos livros escolares. Escolha alguns capítulos
e conheça um pouco mais da vida privada no Brasil nascente. A coleção foi dirigida por Fernando Novais e este
volume foi organizado por Laura de Mello e Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.

E ainda:
ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. Belo Horizonte/Rio de Janeiro: Itatiaia, 1982.
SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: Engenhos e escravos na sociedade colonial. São Paulo: Companhia
das Letras, 1988.

Texto 1: História e Cultura Afro-Brasileiras


“Ó mar salgado, quanto do teu sal experiência pregressa do cultivo em outras partes
São lágrimas de Portugal! do mundo, o litoral do Brasil, extremamente favo-
Por te cruzarmos, quantas mães choraram, rável ao cultivo, encontrou na lavoura da cana-de-
Quantos filhos em vão rezaram! açúcar sua expressão econômica fundamental, mas
Quantas noivas ficaram por casar economia é pouco para descrever a importância e
os futuros desdobramentos para a cultura brasileira
Para que fosses nosso, ó mar!
dessa opção.
Valeu a pena? Tudo vale a pena
A empresa açucareira necessitava de um latifúndio
Se a alma não é pequena. que plantasse cana para a produção de açúcar. Logo
Quem quer passar além do Bojador essa extensa propriedade, que pertencia ao senhor
Tem que passar além da dor. de engenho, vivia da monocultora, que, por sua vez,
Deus ao mar o perigo e o abismo deu, para atender a demanda e gerar os lucros desejados
Mas nele é que espelhou o céu. “ pela coroa portuguesa e pela burguesia comercial,
Fernando Pessoa fazia uso de uma mão de obra permanente. Como
para o capitalismo comercial praticado em Portugal
Coincidindo com o descobrimento do Brasil em seria inviável o trabalho assalariado, recorreu-se ao
1500, o acúcar converteu-se em produto de luxo, trabalho escravo.
que não era facilmente encontrado mas que era,
mais e mais, desejado para o consumo. Tanto que Fabricar açúcar era empresa que necessitava de
foi apenas a partir do século XVIII que, como con- investimentos vultosos para a instalação dos en-
sequência da expansão de sua produção e da sua genhos, exigia trabalhadores, livres e assalariados,
comercialização, pôde ser regularmente consumi- com conhecimentos especializados no cozimento
do por um público maior e passou a adoçar o chá, e no refinamento do produto. Porém, o grosso da
o café e o chocolate, que por sua vez, também ser mão de obra dos engenhos de cana era constituído
tornavam mais acessíveis ao consumo de maiores de escravos. Não custa lembrar que como afirmou
camadas das populações. Antonil, em uma sentença já há muito clássica, os
escravos eram como as mãos e os pés dos senhores
Porém, os usos e abusos do açúcar são bem mais de engenho.
variados: tempero, conservante, remédio e decoração.
O açúcar pode ser um dos ingredientes de uma massa A escravidão no Brasil aparece primeiro, vinculada
para modelar e pintar, sendo que no passado era sinal ao processo de desterritorialização sofrido pelo in-
de status social e fortuna, decorar mesas com a escul- dígena, logo, quanto mais ostensiva a presença por-
turas feitas de açúcar, o ouro branco. tuguesa mais presente era a escravização. Os índios
escravizados eram explorados até o limite de suas for-
Por conta dos grandes lucros advindos da comer- ças e acabavam morrendo por maus-tratos ou pelas
cialização do açúcar no mercado internacional e da doenças trazidas do universo bacteriológico europeu,
africano e asiático que entre si conviviam, mas para o por se constituir, em função do tráfico negreiro, em
12 qual a América estava indefesa. uma atividade extremamente lucrativa, ao ponto de
representar uma das mais bem sucedidas formas de
No começo foi utilizada a mão de obra indígena, acumulação de capitais para metrópole e se conso-
mas, ainda em fins do século XVI, a africana se tor- lidando como principal manancial de trabalhadores
nou mais comum por diversos motivos. O que parece escravizados.
predominar sem excluir alguns outros são os lucros
obtidos no comércio transatlântico dos escravos, na Some-se a isso também a questão dos jesuitas,
rota África-Brasil para a coroa portuguesa e a burgue- ordem religiosa de fundamental importância para a
sia comercial de Portugal. compreensão do Brasil, que condenava veemente-
mente a escravidão indígena, posto que, Deus aos
“Dou ao Demo os insensatos. índios reservou a catequese, obra máxima da con-
Dou ao demo a gente asnal versão, para o jesuíta essa era a sua missão. Agora,
Que toma por cabedal tudo isso pode ser levado em conta por que existia
Pretos, Mestiços e Mulatos.” uma alternativa já conhecida e que trazia beneficíos
para a coroa portuguesa e para o comércio portu-
Gregório de Mattos Guerra
guês, os negros, que se tornariam a principal fonte
O uso da mão de obra escrava negra foi bem mais do trabalho escravo durante o período colonial e
imperial brasileiro.
numeroso e propalado, até mesmo servindo de fun-
damento para teorias de supremacia racial. Porém,
Trazidos pelos portugueses para o trabalho escra-
embora a escravidão no Brasil tenha sido caracteri-
vo nos engenhos de açúcar do Nordeste, os escra-
zada pela presença de escravos trazidos da África,
vos eram vendidos como mercadorias, conforme sua
os indígenas também foram vítimas desse modo de
utilidade, os mais fortes e saudáveis valiam mais.
produção. Era uma forma de estabelecer relações de
Transportados para o Brasil nos porões dos navios
tabalho desligadas de relações sociais integradoras da
negreiros, vinham amontoados, em uma situação
coletividade, que para afirmar sua identidade neces-
considerada por muitos como desumana, isto em uma
sita negar a do outro.
época em que sequer se considerava o negro escravi-
zado um ser humano, sendo-lhe negada até mesmo a
No Brasil, a escravidão de forma sistematizada
alma. Os muitos que morriam no trajeto tinham seus
teve início com a produção de açúcar na primeira
os corpos jogados ao mar.
metade do século XVI. Nos primeiros tempos do
cultivo da lavoura da cana, a mão de obra do escra-
No que diz respeito à composição étnica, cons-
vo indígena era a que prevalecia. O índio, porém,
tata-se a presença de dois grupos importantes: os
oferecia perigos para o bom andamento dos traba- bantos e os sudaneses, trazidos da África Equa-
lhos, tais como violentas reações que chegaram até torial e Tropical em regiões que hoje perten-
mesmo a ameaçar a segurança e o bom andamento cem a países como o Congo, Guiné e Angola, e
da economia açucareira colonial, fugas em um ter- da África Ocidental, nas regiões que hoje per-
ritório conhecido, além de o lucro obtido por sua tencem ao Sudão e também ao norte da Guiné.
escravização não chegar ao tesouro da metrópole. Entre os sudaneses uma informação impressiona,
O tráfico negreiro proporcionava duas vantagens havia muitos que eram islamizados, sendo, inclusi-
em relação à escravidão indígena: era fonte de ve, alfabetizados, coisa que a maioria de seus algo-
mão de obra de mais fácil obtenção sem provocar zes sequer era. Foram eles os protagonistas de uma
o desagrado da Igreja e gerava lucros substanciais rebelião de escravos ocorrida na Bahia, em 1835, e
para a metrópole. Lucravam os comerciantes de es- que ficou conhecida como a Revolta dos Malês.
cravos e a Coroa portuguesa. A justificativa para
a adoção de um regime escravocrata era a falta de Quando aqui chegavam, para o trabalho na lavoura
mão de obra. do açúcar ou na extração de ouro, os escravos eram
submetidos a um regime de tratamento bastante
Essas e outras formas de reação prejudicavam os cruel dos vários pontos de vista que se possa ima-
negócios, o que desagradava profundamente os an- ginar: trabalho pesado na lavoura, instalações des-
seios mercantilistas portugueses, interessados em confortáveis com nenhuma facilidade nas senzalas,
largos acúmulos de capital. A utilização em larga es- correntes para dormir sem causar risco de fuga e
cala da mão de obra negra no Brasil Colônia, acabou castigos corporais. Os escravos eram submetidos a
castigos corporais, prescritos na lei. A aplicação dos gena também se fazia presente. Certamente vi-
castigos é realizada de forma sistemática e obedecia nham à tona no ambiente do quilombo a cultura 13
a um esquema que, após o açoite no pelourinho, in- e seus diversos matizes, entre eles a celebração
cluía espalhar sal sobre as feridas. dos rituais religiosos, de fundamental importância
na construção de uma identidade coletiva. Dentre
Havia protestos, embora por vezes distantes, sem continui- todos os quilombos, o dos Palmares foi o que co-
dade e sem medidas coercitivas, contra os maus-tratos. Em nheceu maior reputação. Os quilombos promove-
1º de março de 1700 por exemplo, o Rei de Portugal D. Pe- ram a fusão de elementos culturais das sociedades
dro II escreveu uma carta indignada ao governador-geral D. indígena e africana.
João de Lencastre sobre os maus-tratos dados aos escravos
no Brasil: «... Não lhe dando fardas e outros nem ainda fari-
Abortos, fugas isoladas, suicídios, banzo (esta-
nha», e comentando dos «cruéis castigos, por dias e semanas
do de melancolia no qual o negro caía em profunda
inteiras, havendo alguns que por anos se acham metidos em
correntes, sendo mais cruéis as senhoras em alguns casos
depressão ocasionando sua morte) e pelos quilom-
para com as escravas, apontando-se alguns que obram tanto bos. Variadas foram as maneiras de resistir ao es-
os senhores como as senhoras com tal crueldade como são cravismo, formar quilombos foi a mais estratégica.
pingar de lacre e marcar com ferro ardente nos peitos e na Os quilombos se constituiam em aldeamentos de ne-
cara, executando neles a mutilação de membros. De Fran- gros que escapavam da escravidão nas fazendas que
cisco Pereira de Araujo se diz que cortou as orelhas a um, abrigavam a lavoura da cana e também mais tarde nas
e pingou com lacre; outro veio do sertão, a quem o senhor regiões nas quais se extraía o ouro.
cortou as partes pudendas, entendeu com uma sua negra; de
outro, que se curou no hospital, se diz que foi tão cruelmente O escravo era propriedade de seu senhor, não
açoitado do seu senhor que lhe provocara especialmente o
tendo qualquer direito. O seu proprietário o ali-
rigor da Justiça Divina, pelo que é de razão». Diz ainda de
mentava e vestia. Por conta da escravidão, o Brasil
castigos que se fazem por suspensão de cordas em árvores,
para que os mosquitos os estejam picando e desesperando,
consagrou naquelas épocas um sentimento de re-
sobre os açoitarem e pingarem com a mesma crueldade que pulsa quanto ao trabalho, em especial, o manual,
fazem os demais...» (Site Wikipédia). considerado “coisa de negros”. Havia a alforria,
escravos libertados por vontade do senhor ou que
Culturalmente, viam-se impedidos de manifestar compravam sua liberdade, quando conseguiam
abertamente a sua religião bem como de celebrar amealhar alguma riqueza pelo exercício de ofícios
as festas e rituais que gostariam. Ainda assim con- mais elaborados ou desviando algum ouro do tra-
seguiram manter viva e tornaram sua cultura parte balho nas minas. Os escravos alforriados compra-
fundamental do que somos hoje. A maior parte da vam escravos para uso próprio. Mesmo nos qui-
mão de obra negra feminina estava destinada aos lombos a escravatura existiu. Muitas das revoltas
afazeres domésticos, incluindo aí, a amamentação, de escravos não visavam o fim da escravidão como
as negras alimentavam, até mesmo, os filhos dos se- sistema. A dos Malês, por exemplo, tinha como
nhores. Uma cena impensável em outros processos objetivo libertar os escravos africanos mas prega-
de colonização. va a escravização dos brancos e dos mulatos que
não eram convertidos ao islamismo.
Aconteciam também as fugas, que representavam
uma constante busca do negro por viver em liberdade O tráfico negreiro trouxe lucros consideráveis para
apesar de muitas vezes sequer poder imaginar o que seus comerciantes, fosse o destino dos escravos a la-
lhe aguardava caso obtivesse sucesso no seu intento voura canavieira, fosse a área da mineração ou a da
e de fato conseguisse se embrenhar na mata e encon- lavoura cafeeira. O fato incontestável é que a escra-
trar um lugar para viver longe da escravidão que lhe vidão preponderou como forma de trabalho e marcou
havia sido imposta pelo branco. Se esse impulso pode as relações sociais que com ela decorerram no Brasil,
ser compreendido como a busca por uma vida mais da colônia até o Império.
digna, era isso o que acontecia quando ele, escravo,
sonhava com os quilombos. Qual a lição da escravidão, por que se ocupar de um
tema tão árduo e que preferiríamos esquecer? A es-
Quilombos eram comunidades que se instalavam cravidão foi, entre nós, a primeira forma sistemática
nas matas e lá viviam em um estilo de vida que de exclusão social, tema, hoje, tão caro a quem quer
tinha como base, provavelmente, um tipo de so- que pretenda refletir sobre qualquer contexto brasilei-
ciedade que combinava o saber africano com as ro um pouco mais amplo. Desenvolvemos no Brasil
necessidades específicas que a vida nas florestas técnicas para conviver e tolerar a exclusão social, que
impunha, bem como, portanto, a influência indí- se perpetuam até hoje.
Atividades e Exercícios
14
1- Explique a importância do açúcar como elemento que proporcionou as necessidades do sistema escravo-
crata no Brasil.

2- Comente sobre o equívoco corriqueiro de se espantar que negros escravizassem negros para posterior co-
mercialização nas costas africanas.

3- Leia o texto complementar abaixo extraído do site Libertaria e de autoria dos professores Lúcia Helena
Storto e Sidney Aguilar Filho e reflita sobre as condições de vida dos escravos no Brasil. Procure traçar um
paralelo com as condições de vida dos brasileiros em situação de miserabilidade ou expostos à violência nos
dias de hoje.

Texto Complementar
O Mundo Negro

Ao deparar com o termo tráfico negreiro para explicar o comércio de escravos africanos, você
pode ter imaginado que o ato de traficar era um comércio ilegal ou coisa parecida, mas, na verdade,
essa atividade integrava política oficial dos Estados mercantis europeus, interessados nos pesados
impostos cobrados sobre os grandes lucros advindos desse comércio. E foram exatamente esses
lucros que, combinados à necessidade de mão de obra nas colônias americanas, fizeram com que
algumas das maiores companhias de comércio da Europa se interessassem em participar dessas ati-
vidades. Lembremos ainda que garantimos o abastecimento de mão de obra mais barata e lucrativa
da época, o tráfico interessava também aos senhores de engenho no Brasil. Toda essa lucratividade
deve-se, em grande parte, às característica desse comércio. No Império Português, por exemplo,
as principais formas de pagamento pelos negros na África eram mercadorias produzidas no Brasil.
Você deve se lembrar que a produção de tabaco e cachaça, como dissemos, no capítulo anterior,
servia muitas vezes ao tráfico negreiro.

Agora você vai fazer parte de uma história que se inicia ainda no interior da África. Sua tribo acaba
de ser invadida e você e outros sobreviventes são amarrados e arrastados até uma feitoria no litoral.
Batizados no catolicismo à força, são negociados e embarcados em porões de navios. Sem banho ou
alimentação adequada, aí permanecem por mais de um mês, em geral amarrados. Muitos adoecem e
outros tantos morrem. Enfim no Brasil, longe de casa e separado de sua família, você é exposto como
produto em um mercado de escravos em Salvador. Os compradores aproximam-se, examinando-lhe
os dentes, a musculatura e muitas vezes a genitália. Comprando, você é levado a um engenho a al-
guns dias de viagem. Marcado a ferro quente, você é agora uma propriedade sujeita às vontades de
seu senhor. Sua nova moradia é um galpão sem janelas, onde convive com vários negros e negras
que na sua maioria nem falam sua língua. Essa separação linguística era proposital, pois dificultava
a organização de revoltas.

O trabalho começa antes do amanhecer, sendo o ritmo ditado pelo chicote do capataz. Estende-se até o escu-
recer ou enquanto o senhor assim o quiser.

(...) gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente, e gemendo tudo ao mesmo tempo sem mo-
mento de tréguas nem de descanso: quem vir em fim toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela
Babilônia, não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios, que é uma semelhança do inferno
(padre Antônio Vieira - 1633 / descrição de um engenho).

Cansado, você resiste. O resultado, uma surra de chicote. Com as costas sem pele e humilhado pu-
blicamente no pelourinho, você agora conhece de perto todo o peso da palavra escravidão. Deitado
com salmoura nas costas, você imagina o que pode fazer para fugir desse inferno. Lembrando-se
da dor, dos possíveis castigos de uma tentativa malsucedida, você vacila. Descobre logo os seus
únicos direitos: pão, pano e paulada. Comida, vestes e castigos corporais. E o descanso? Com sor-
te, um dia por semana, que você deve usar para plantar a sua substância. Isso se o senhor permitir.
Você se questiona: Que mundo é esse? Serão os negros naturalmente inferiores? Quais as justifica- 15
tivas para essa dominação?

A escravidão deve sempre ser entendida dentro de sua realidade histórica. A discussão sobre inferioridade
ou superioridade racial é por si só absurda. Naquela época, contudo, a maioria dos brancos acreditava na sua
superioridade, e os negros, distante de suas sociedades, eram submetidos à humilhação do cativeiro. Isso não
significa que todos os negros aceitassem tal realidade, mas alguns a ela se submetiam. Dentro desse mundo de
proprietários e propriedades, você já percebeu o seu lugar. A vontade de resistir não se esgota, mas a realidade
impõe o trabalho e a espera da chegada de um momento propício a uma nova tentativa de fuga. De preferência
para um quilombo.

Numa noite, ao redor da fogueira, em um dos raros momentos livres, um negro recém-comprado,
traz notícias da existência de um lugar para onde muitos fugitivos têm se dirigido. Conta ele ainda
que o lugar é seguro e que, apesar de simples, é possível plantar e viver longe da escravidão. Distante
das terras do senhor no meio da mata ou no alto dos morros, a existência do quilombo resgatou-lhe
a fé na liberdade. O medo dos castigos o leva a adiar a fuga e, se fugir não é possível no momento,
resistir ainda o é. Quebrar ferramentas, não trabalhar na ausência do feitor, brigar ou ainda entrar
em profunda depressão e cometer o suicídio, foram alternativas que nunca deixaram de existir. A
resistência sempre acompanhou a escravidão durante todo o período escravista no Brasil. Inumerá-
veis são os exemplos abordando conflitos, fugas e revoltas de negros contra seus senhores. Práticas
anticonceptivas e de aborto eram profundamente disseminadas entre as negras escravas como forma
de evitar que um filho nascesse escravo.

Voltemos agora ao presente. Você vive em um país em que o racismo, apesar de muitas vezes ca-
muflado, está muito presente no cotidiano, e sua existência continua ameaçando a liberdade dos in-
divíduos. Em um país onde a escravidão dourou mais de trezentos anos, as relações de dominação
tornaram-se tão comuns que, muitas vezes, passam despercebidas. O subemprego, a miséria e o ma-
chismo são algumas de suas expressões. A visão equivocada do negro como inferior ou marginal, tem
na escravidão suas raízes. Isso porque todo trabalho considerado "menor" era destinado aos negros,
tais como os trabalhos domésticos e os da lavoura. Ainda hoje a manutenção dessa visão reflete-se nos
baixos salários e na desvalorização do trabalho manual, o que favorece a concentração de riquezas e
a acentuação da pobreza.

Fonte: site libertaria.

Gabarito
1- O acúcar converteu-se em produto de luxo que era desejado para o consumo, o ouro branco. Fabricar
açúcar era empresa que necessitava de mão de obra farta. O grosso dessa mão de obra no Brasil foi constituído
por escravos negros, já que forneciam também lucros por conta de sua comercialização.

2- As sociedades africanas possuem um grau de diversidade cultural que a ideia de uma África fundada na
identidade negra é completamente improcedente. Podemos inclusive afirmar que a identidade negra determi-
nada pela cor da pele é uma invenção do continente americano.

3- Sua resposta deve versar sobre uma reflexão acerca das condições de vida e o tratamento dispensado aos
escravos negros durante boa parte da história brasileira. Procure também fazer relações com a miséria que
ocorre hoje no Brasil com o racismo, bem como com a extrema desigualdade social da atualidade brasileira.
Filme Recomendado
16
Título do filme: AMISTAD (Amistad, EUA, 1997). Direção: Steven Spielberg. Elenco: Morgan Freeman,
Anthony Hopkins, Matthew McConaughey, Nigel Hawthorne, Djmon Housou, David Paymer, Anna Paquin;
162 min.

TEMÁTICA
Em 1839, dezenas de africanos a bordo do navio negreiro espanhol La Amistad matam a maior parte da
tripulação e obrigam os sobreviventes a levá-los de volta à África. Enganados, desembarcam na costa leste
dos Estados Unidos, onde, acusados de assassínios, são presos, iniciando um longo e polêmico processo, num
período onde as divergências internas do país entre o norte abolicionista e o sul escravista, caracterizavam o
prenúncio da Guerra de Secessão.

Leitura Recomendada
História da vida privada no Brasil: Cotidiano e vida privada na América Portuguesa 1, é um livro muito
informativo e agradável. Trata-se de uma obra coletiva, na qual vários autores visitam formas de viver e pensar
na época colonial, abordando aspectos quase sempre esquecidos nos livros escolares. Escolha alguns capítulos
e conheça um pouco mais da vida privada no Brasil nascente. A coleção foi dirigida por Fernando Novais e este
volume foi organizado por Laura de Mello e Souza. São Paulo: Companhia das Letras,1997.

E ainda:

ABREU, João Capistrano. Caminhos antigos e povoamento do Brasil. Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/
EDUSP, 1988.
ARAÚJO, Ricardo Benzaquen de. Guerra e Paz: Casa-grande & Senzala e a obra de Gilberto Freyre nos anos
30. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.
FREYRE, Gilberto. Casa-grande e senzala. Rio de Janeiro: Record, 1990.
MAURO, Frédéric. Portugal, o Brasil e o Atlântico. 1570-1670. Lisboa: Estampa, 1989.

Site Recomendado
Além do site da MULTIRIO, recomendado nas aulas anteriores, conheça também o http://www.libertaria.pro.
br/index.htm. Simples, sintético e eficiente. Um rico instrumento para ajudar a saciar a sua curiosidade.

Texto 2: Cultura Indígena


Em pleno século XXI, a grande maioria dos brasi- enquanto outros 150 mil encontram-se residindo em
leiros ignora a imensa diversidade de povos indíge- diversas capitais do país. É importante ressaltar que o
nas que vivem no país. Estima-se que, na época da censo populacional realizado em 2000 pelo Instituto
chegada dos europeus, fossem mais de 1.000 povos, Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicou
somando entre 2 e 4 milhões de pessoas. Atualmente, que a parcela da população brasileira que se autode-
encontramos no território brasileiro 230 povos, falan- clarou genericamente como “indígena” alcançou a
tes de mais de 180 línguas diferentes. marca de 734 mil pessoas.

A maior parte dessa população distribui-se por mi- Sabemos que os índios foram os primeiros habitan-
lhares de aldeias, situadas no interior de 630 Terras tes do território brasileiro. São formados por povos di-
Indígenas, de norte a sul do território nacional. ferentes com hábitos, costumes e línguas diferentes.

Segundo os dados do Instituto Socioambiental Os Ianomâmis falam quatro línguas: a Yanomam,


(ISA), a população indígena no Brasil atual está es- Sanumá, Yanomame e Yanam. Suas habitações são
timada em 600 mil indivíduos, sendo que deste total construídas de caibros encaixados, amarrados com
cerca de 450 mil vivem em Terras Indígenas (e, em cipó e revestidas de palha. Possuem características
menor número, em áreas urbanas próximas a elas), seminômades, já que mudam de habitat quando acre-
ditam ter explorado uma região ao máximo. São ca- Agora leiam sobre a miscigenação da Língua
çadores e acreditam em rixis: espíritos de animais que Portuguesa com a influência indígena, vejamos 17
ao serem mortos tornam-se protetores e amigos. que somos muito mais influenciados pelo nosso
histórico do que imaginamos.
Os Carajás falam apenas uma língua: a Macro-
Jê. São divididos em Karajás, Javaés e Xambioás. Antes mesmo da descoberta do território brasileiro já
Acreditam na transformação do homem em animais se falavam cerca de 1000 línguas diferentes, decorrentes
e vice-versa. Residem nas proximidades do rio Ara- da diversidade indígena existente. Após o descobrimento
guaia, pois acreditam que sua criação, rituais de pas- do Brasil, estabeleceram a língua geral derivada do tupi-
sagem, alimento e alegria são dados por ele. Vivem nambá para que os índios e brancos se comunicassem.
do cultivo do milho, mandioca, batata, banana, cará,
melancia, feijão e amendoim, e prezam pela pintura Quando o território passou a ser povoado por portu-
corporal. Dividem o trabalho, fica para os homens a gueses, houve uma grande confusão gerada pelo bilin-
defesa do território, abertura de roças, construção das guismo e a partir daí o português se fez predominante no
país com data de 1758, em substituição à língua geral.
casas, pesca e outros. Para as mulheres, o trabalho de
educar os filhos, cuidar dos afazeres domésticos, do A língua portuguesa é originada do latim vulgar que
casamento dos filhos, da pintura e ornamentação das também se caracteriza como uma língua neolatina que
crianças e outros. no período colonial passou a ser influenciada pelas lín-
guas africanas trazidas pelos escravos, como é o caso
Os Guaranis manifestam sua cultura em trabalhos do quicongo, quimbundo, fon, ioruba e outras que pas-
em cerâmica e em rituais religiosos. Possuem sua pró- saram a ser usadas por pessoas que viviam em contato
pria língua, somente ensinam o português às crianças com os negros. Palavras de origem africana como fubá,
maiores de seis anos. São migrantes e agricultores. moleque, bunda, jabé, cachimbo, acarajá e outras pas-
Acreditam que a morte é somente uma passagem para saram a ser incorporadas ao vocabulário brasileiro.
a “terra sem males” onde os que se foram partem para
este local para proteger os que na Terra ficaram. Após a independência do Brasil, houve uma grande
imigração da Itália e Alemanha para o país, o que con-
Os Tupis são dominados por um ser supremo desig- tribuiu com a diversificação de dialetos em diferentes
nado Monan. A autoridade religiosa dentro das aldeias regiões do país. Dessa forma, não é correto pensar que
é o Pajé, que é um sábio que atua como adivinho, a língua pronunciada no Brasil é de origem portuguesa
curandeiro e sacerdote. Utilizam a música e seus instru- somente, pois possui influência indígena, portuguesa,
mentos musicais para a preservação de suas tradições, africana, italiana, alemã e tantas outras aqui não citadas.
para produzir efeitos hipnóticos e para momentos de
procriação, casamento, puberdade, nascimento, morte, Hoje, é fácil miscigenar a língua brasileira, pois
com a constante presença de turistas de todas as par-
para afastar flagelos, doenças e epidemias e para feste-
tes e residentes de outras nacionalidades, faz-se uma
jar boas caçadas, vitórias em guerras e outros.
nova língua a cada dia.
Existem cerca de 225 sociedades indígenas distribu-
ídas em todo o território brasileiro, correspondendo Comparando Palavras Diferentes
a 0,25% da população do país. Diante das culturas
específicas de cada sociedade, somente algumas delas Veja exemplos de como os linguistas descobrem lín-
foram anteriormente destacadas. guas "aparentadas":

Línguas do tronco tupi

Awetí (família Munduruku (família Karitiana (família Tupari (família Gavião (família
Palavras
Awetí) Munduruku) Arikém) Tupari) Mondé)
Mão po by py po pabe
Pé py i pi tsito pi
Caminho me e pa ape be
Eu atit, ito on yn on õot
Você en en na en eet
Mãe ty xi ti tsi ti
Pesado potyi poxi pyti potsi patii
Marido men itop mana men met
Onça ta'wat wida omaky ameko neko
Árvore 'yp 'ip 'ep kyp 'iip
Cair 'at 'at 'ot kat 'al-
Línguas da Família Tupi-Guarani (Tronco Tupi)
18
Palavras Guarani Mbyá Tapirapé Parintintin Waiampí Língua Geral do Alto Rio Negro
Pedra itá itã itá takúru itá
Fogo tatá tãtã tatá táta tatá
Jacaré djakaré txãkãré djakaré iakáre iakaré
Pássaro gwyrá wyrã gwyrá wýra wirá
Onça djagwareté txãwãrã dja´gwára iáwa iawareté
Ele morreu omanõ amãnõ omanõ ománo umanú
"mão dele" ipó ipá ipó ípo ipú

Línguas da Família Jê (Tronco Macro-Jê)

Palavras Canela Apinayé Kayapó Xavante Xerente Kaingang


Pé par par par paara pra pen
Perna tè tè te te zda fa
Olho tò nò nò tò tò kane
Chuva taa na na tã tã ta
Sol pyt myt myt bââdâ bdâ rã
Cabeça khrã krã krã 'rã krã kri
Pedra khèn kèn kèèn 'eene kne pò
Asa, pena haaraa 'ara 'ara djèèrè sdarbi fer
Semente hyy 'y 'y djâ zâ fy
Esposa prõ prõ prõ mrõ mrõ prõ

Línguas da Família Aruak

Palavras Karutana Warekena Tariana Baré Palikur Wapixana Apurinã Waurá Yawalapití
Língua inene inene enene nene nene nenuba nene nei niati
Água uni one uni uni une wene weni une u
Sol kamui kamoi kamoi kamuhu kamoi kamoo atukatxi kamy kame
Mão kapi kapi kapi kabi iwakti kae piu kapi kapi
Pedra hipa ipa hipada tiba tipa keba kai typa teba
Anta hema ema hema tema aludpikli kudoi kema teme tsema
Quando falamos da cultura indígena não podemos • 50 povos (22,0%) têm uma população de até 200
esquecer da relação dos índios com o meio ambien- indivíduos; 19
te. Mesmo não sendo “naturalmente ecologistas”, • 49 (21,5%) entre 201-500;
aos povos indígenas se deve reconhecer o crédito • 30 (13,2%) entre 501-1.000;
histórico de terem manejado os recursos naturais de • 53 (23,3%) entre 1.001-5.000;
maneira branda. Souberam aplicar estratégias de uso • 11 (4,8%) entre 5.001-10.000;
dos recursos que, mesmo transformando de maneira • 07 (3,0%) entre 10.001-20.000;
durável seu ambiente, não alteraram os princípios de • 03 (1,3%) entre 20.001-30.000;
funcionamento e nem colocaram em risco as condi- • 02 (0,8%) com mais de 30.000.
ções de reprodução deste meio.
Os povos indígenas contemporâneos estão espa-
Apesar de não serem "naturalmente ecologistas", os lhados por todo o território brasileiro. Vários desses
índios têm consciência da sua dependência – não ape- povos também habitam países vizinhos. No Brasil, a
nas física, mas sobretudo cosmológica – em relação grande maioria das comunidades indígenas vive em
ao meio ambiente. Em função disso, desenvolveram terras coletivas, declaradas pelo governo federal para
formas de manejo dos recursos naturais que têm se seu usufruto exclusivo. As chamadas Terras Indíge-
mostrado fundamentais para a preservação da cober- nas (TIs) somam, hoje, 611.
tura florestal no Brasil.
Na Amazônia Legal – que é composta pelos estados
Mas, atualmente, como está a população indígena do Amazonas, Acre, Amapá, Pará, Rondônia, Rorai-
no Brasil? Onde eles estão? ma, Tocantins, Mato Grosso e parte oeste do Mara-
nhão – vivem 60% da população indígena. É possível
A população indígena total tem crescido nos últimos 28 estimar em cerca de 10 a 15% os índios que vivem
anos, embora povos específicos tenham diminuído demo- em cidades, mas ainda não existe um censo confiável
graficamente e alguns estejam até ameaçados de extinção. a esse respeito.
Na listagem de povos indígenas no Brasil elaborada pelo
ISA, sete deles têm populações entre 5 e 40 indivíduos. O reconhecimento das Terras Indígenas por parte do
Estado (processo de demarcação) é um capítulo ainda
Dos 227 povos listados 43 têm parte de sua popu- não encerrado da história brasileira. Muitas delas estão
lação residindo em outro(s) país(es). Mesmo quando demarcadas e contam com registros em cartórios, ou-
há informações demográficas a respeito, essas parce- tras estão em fase de reconhecimento; há também áreas
las não foram consideradas nem na estimativa global indígenas sem nenhuma regularização. Além disso, di-
para o Brasil nem para esta classificação: versas TIs estão envolvidas em conflitos e polêmicas.

Texto 3: As Influências dos Imigrantes

Podemos considerar o início da imigração no Brasil Amazônia, os italianos de Veneza, Gênova, Calábria,
o ano de 1530, pois a partir deste momento os por- e Lombardia, que em sua maior parte vieram para São
tugueses vieram para o nosso país para dar início ao Paulo, os japoneses, entre outros. O maior número de
plantio de cana-de-açúcar. Porém, a imigração inten- imigrantes no Brasil são os portugueses, que vieram
sificou-se a partir de 1818, com a chegada dos primei- em grande número desde o período da Independência
ros imigrantes não portugueses, que vieram para cá do Brasil.
durante a regência de D. João VI. Devido ao enorme
tamanho do território brasileiro e ao desenvolvimento Após a abolição da escravatura (1888), o governo
das plantações de café, a imigração teve uma grande brasileiro incentivou a entrada de imigrantes euro-
importância para o desenvolvimento do país, no sé- peus em nosso território. Com a necessidade de mão
culo XIX. de obra qualificada, para substituir os escravos, mi-
lhares de italianos e alemães chegaram para trabalhar
Em busca de oportunidades na terra nova, para cá nas fazendas de café do interior de São Paulo, nas
vieram os suíços, que chegaram em 1819 e se instala- indústrias e na zona rural do sul do país.
ram no Rio de Janeiro (Nova Friburgo), os alemães,
que vieram logo depois, em 1824, e foram para o Rio Todos estes povos vieram e se fixaram no território
Grande do Sul (Novo Hamburgo, São Leopoldo, San- brasileiro com os mais variados ramos de negócio,
ta Catarina, Blumenau, Joinville e Brusque), os es- como por exemplo, o ramo cafeeiro, as atividades ar-
lavos, originários da Ucrânia e Polônia, habitando o tesanais, a policultura, a atividade madeireira, a pro-
Paraná, os turcos e os árabes, que se concentraram na dução de borracha, a vinicultura etc.
Nos dias atuais, observamos um novo grupo imi- didas são adotadas com este propósito e uma delas
20 grando para o Brasil: os coreanos. Estes não são dife- é a dificuldade para se obter um visto americano no
rentes dos anteriores, pois, da mesma forma, vieram passaporte.
acreditando que poderão encontrar oportunidades
aqui que não encontram em seu país de origem. Eles O processo imigratório foi de extrema importância
se destacam no comércio, vendendo produtos dos para a formação da cultura brasileira. Esta, foi, ao longo
mais variados tipos (alimentos, calçados, vestuário, dos anos, incorporando características dos quatro cantos
acessórios até artigos eletrônicos). do mundo. Basta pararmos para pensar nas influências
trazidas pelos imigrantes, que teremos um leque enor-
Embora a imigração tenha seu lado positivo, muitos me de resultados: o idioma português, a culinária ita-
países, como os Estados Unidos, procuram dificultá- liana, as técnicas agrícolas alemãs, as batidas musicais
la e, sempre que possível, até mesmo impedi-la para, africanas e muito mais. Graças a todos eles, temos um
desta forma, tentar evitar um crescimento exagerado país de múltiplas cores e sabores. Um povo lindo com
e desordenado de sua população. Cada vez mais me- uma cultura diversificada e de grande valor histórico.

Texto 4: Exclusão Social 1

Todos sabem que a dívida externa é responsável por custo elevado para as empresas, afetando a sua com-
uma das marcas mais perversas da sociedade brasilei- petitividade no mercado.
ra: a exclusão social, que se agudiza numa economia
de mercado. Neste texto abordaremos o modelo eco- O que se tem dito da economia atual é que ela
nômico e a exclusão social. tem nos levado a perder o sentido de “bem co-
mum”. Os críticos desse modelo têm alertado para
O governo Collor iniciou um padrão de desenvolvimen- o fato de que os efeitos da modernização dão, ao
to baseado numa menor intervenção do Estado na econo- mudo atual, uma configuração bastante heterogê-
mia, na revisão de leis trabalhistas, na concorrência entre nea, que, na ótica de Félix Guatari, “não cria mo-
capitais nacionais e estrangeiros e na tentativa de incorpo- tivações às atividades de trabalho dos indivíduos e
ração de novos níveis de competitividade industrial. gera um polo de miséria absoluta e um outro polo
de riqueza inacessível”.
No entanto, o que se observa é que nem toda a socie-
dade brasileira tem se beneficiado da modernização
Nesse texto vamos tratar exatamente da relação en-
da economia. Há consideráveis contingentes da po-
pulação que ficam impedidos de acesso aos bens mais tre modernização e exclusão social.
essenciais, por conta de uma organização econômica
que se pauta pelo mercado. Com a modernização no final do século XX, as exi-
gências sociais aumentaram, especialmente no Brasil
e em outros países subdesenvolvidos, que passaram
Fique atento! de uma sociedade rural, agrícola e de autossuficiên-
cia/mercado local para uma sociedade urbana, terciá-
O que vem a ser economia de mercado? ria e guiada pelo mercado mundial.
Fundamentalmente um processo de trocas no qual
a informação relativa aos preços leva em conside- Essa modernização da economia, como não podia
ração a oferta e a demanda. deixar de ser, exigiu inovações tecnológicas na in-
dústria e no setor de serviços, que promoveram uma
Mas a oferta e a demanda, que regem o mercado fi- absorção insuficiente da mão de obra disponível.
nanceiro, são processos isentos de preocupação com
as responsabilidades sociais do Estado. Segundo o me- O resultado foi o desemprego e o crescimento das atividades
gainvestidor George Soros, os “mercados financeiros ditas informais. Isso é o que podemos chamar de modernização
excludente: destruição das atividades tradicionais e a não inclu-
são amorais. Neles nunca contam valores morais”.
são dos destituídos no setor moderno. Não é por outra razão
que, num país como o Brasil, cifras elevadas da população não
Desta forma, o mercado mundial passou a ser o te- participam do mercado (OLIVA & GIANSANTI, 1994:73).
atro privilegiado da guerra tecnológica, industrial e
comercial entre os grandes grupos mundiais e empre- Temos hoje, no Brasil, uma grande massa de trabalha-
sas multinacionais, onde a solidariedade e o estado dores subempregados ou desempregados, de duas espé-
do bem-estar social passaram a ser considerados um cies distintas. Uma se origina num processo de moderni-

1 Extraído e adaptado do instrucional da disciplina Contextos Brasileiros


zação dependente, que é caracterizado pela instabilidade Os estudos sobre distribuição de renda demons-
econômica, isto é, pelas crises econômicas, que implicam tram que o Brasil continua a ser um país de 21
demissão em massa, é o desemprego conjuntural; outra, grandes desigualdades sociais. É fácil entender,
no fato da urbanização não ter sido acompanhada pela ge- portanto, dentro deste quadro, como foi gerada
ração de empregos na indústria e no setor de serviços ou a exclusão de que são vítimas parcelas con-
ser resultante da falta de investimentos educacionais que sideráveis da população brasileira. Como não
formassem uma mão de obra qualificada para acompa- acumularam riquezas, dependem do trabalho,
nhar os avanços tecnológicos, tanto para o setor secundá- do emprego, uma vez que a sociedade urbana
rio como para o setor terciário, o desemprego estrutural. é, em essência, uma sociedade mercantilista, que
não tem lugar para a autossuficiência. Quem não
Observem o quadro que apresenta um outro grande
tem bens e não se integra ao mundo do trabalho
problema desse contexto, a concentração de renda.
passa a ser excluído socialmente.
Distribuição de renda no Brasil
As críticas a esse modelo de modernização se
Categorias 1960 2000 originam do fato de ele acarretar a submissão
dos interesses sociais aos do desenvolvimento econô-
60% mais pobres 23,4% 18%
mico, provocando desigualdades profundas entre os
30% intermediários 37% 34% países e, dentro dos países dependentes, exclusão
10% mais ricos 39,6% 47,6% de numerosos grupos sociais, que não têm acesso
aos bens produzidos, à educação, à saúde, à moradia
Fontes: IBGE. Recenseamento geral de 1960/ Banco Mundial. e ao emprego.
World Development Report, 2001.
22 UNIDADE II

FORMAÇÃO DA SOCIEDADE BRASILEIRA

Esse país, que atualmente representa uma grande preender o processo de formação da sociedade bra-
nação em tamanho e diversidade com características sileira. Faremos isso através do estudo da disciplina
específicas, constituiu-se através dos anos com forte
Brasil: Contextos e Atualidades. A priori teremos que
apego ao seu contexto histórico.
retornar nosso pensamento ao período que marcou o
Para tentar entender aspectos fundamentais que in- início da formação do Brasil.
fluenciam a sociedade atual, faz-se necessário com-

Texto 5: As Raízes do Modelo Capitalista Brasileiro

Com a crise da sociedade baseada no modelo feu- colônias fontes de enriquecimento. Podemos desta-
dal de produção, aparecem novas relações produti- car entre esses procedimentos aqueles mais comuns,
vas, que levaram à formação da sociedade capitalista. que caracterizaram o sistema colonial mercantilista:
Essa mudança de modelo feudal para sociedade atual a Colônia deveria ser um mercado consumidor; uma
ocorreu lentamente, tendo alguns fatores e marcos fornecedora de produtos comerciais; deveria fazer co-
históricos relevantes para a sociedade mundial. mércio apenas com a metrópole e respeitar os mono-
pólios. Nesse sentido a Colônia era entendida como
Na chamada era Moderna, a sociedade europeia uma produtora de riqueza para a metrópole.
encontrava-se cercada com um novo processo de pro-
dução e consumo. Iniciava-se a sociedade moderna Mas como a Europa e Portugal transformaram-se
capitalista. Enquanto o novo modelo leva às nações em metrópoles de uma nova ordem mundial? E como
europeias um desenvolvimento notório, cujas diver- o Brasil entra nesta nova ordem, desempenhando qual
sas transformações acentuam uma grande moderni- papel?
zação, o Brasil encontra-se preso a uma estrutura que
impede esse desenvolvimento. O final da Idade Média foi marcado, dentre outros
fenômenos, pela recuperação econômica baseada no
Para compreendermos esse contexto contraditório comércio. Daí a ênfase no mercantilismo. Porém essa
vivenciado no Brasil, é preciso compreender que o recuperação não se deu apenas pelo aquecimento das
desenvolvimento dos países europeus aconteceu à antigas rotas comerciais, tradicionalmente dominadas
custa da exploração de alguns territórios do continen- pelos italianos, que levavam os produtos do Oriente
te americano, entre eles o Brasil. até a Europa. Os caminhos terrestres, que atravessa-
vam desertos e territórios dominados por nações ini-
Cabe nesse momento refletirmos sobre os contextos migas, tornavam-se cada vez mais perigosos. Era im-
que permeiam a formação da sociedade brasileira no portante estabelecer novas vias de acesso às terras das
período histórico do Brasil Colônia e as transforma- especiarias para baratear os custos das negociações e
ções com o Império. escapar do monopólio italiano. Para as nações moder-
nas, que se queriam poderosas e tentavam fortalecer o
Por três séculos, o Brasil foi uma colônia portugue- poder dos monarcas, encontrar novos recursos econô-
sa, pautada na política econômica do Pacto Colonial micos, que trouxessem mais dinheiro para os cofres
que só beneficiava a Metrópole. A colônia era de- reais, era muito importante.
pendente da vontade da metrópole e considerava-se
como mais desejável a importação da cultura e dos Portugal era um pequeno país apertado entre a po-
comportamentos da Metrópole do que a celebração derosa Espanha e o desconhecido e temido Atlântico.
de uma identidade própria. Era relativamente pobre em recursos naturais, com
um artesanato incipiente e uma população que não
O pacto colonial era o ponto culminante do sistema ultrapassava um milhão e meio de habitantes. Embo-
colonial mercantilista (séculos XVI, XVII e XVIII), ra tenha sido a primeira nação moderna da Europa,
um conjunto de procedimentos colocados em práti- o considerável avanço político carecia de iniciativas
ca pelas potências marítimas, visando tornar as suas que a mantivesse autônoma e a colocasse no concerto
das novas tendências econômicas. Havia, à custa de Agora você tem elementos preciosos para compre-
sangrentas e longas batalhas, conquistado a autono- ender o que é o pacto colonial e o sistema mercantilis- 23
mia política em relação à Espanha, da qual fora ape- ta. Analise. A metrópole, no sistema colonial mercan-
nas um condado. Mas precisava consolidar esta im- tilista, é a sede de uma ocupação territorial. Portugal
portante conquista, criando recursos e saídas para o não construiu sozinho este sistema. Ele estava inseri-
seu precário equilíbrio econômico. do num amplo e complexo movimento de transforma-
ção do mundo, tanto nos aspectos econômicos como
Enfrentar a poderosa ex-senhora e vizinha Espanha nos geográficos e, é claro, nos culturais também. Na
não parecia ser uma atitude prudente. Então restava medida em que se navegava para fora dos limites do
aos portugueses a vastidão do mar. O mar tenebroso, mundo conhecido e terras desconhecidas eram desco-
lendário por suas criaturas estranhas e desconhecidas, bertas, incorporavam-nas às posses das metrópoles.
famoso pelos seus perigos, reconhecido como o limite Nesta nova lógica econômica, a produção de riquezas
do mundo. E é nesta vastidão que se lança Portugal! estava baseada na troca de mercadorias. Elas eram
produzidas em várias partes do mundo, mas os lucros
De uma hora para outra? Não! Foi um processo pau- gerados com a sua negociação deveriam se concen-
latino, marcado por duas tendências. Vejamos. Por trar nos cofres das monarquias e dos comerciantes.
um lado, a prática pesqueira; por outro, a rota comer- Se cada terra desconhecida e descoberta permane-
cial Mediterrâneo-Mar do Norte. cesse livre para produzir e comerciar com qualquer
potência marítima expansionista, o lucro gerado pelo
Com uma costa considerável, a atividade pesqueira empreendimento comercial seria consumido nas pró-
em Portugal foi naturalmente cultivada. E quem pes- prias colônias ou seriam escoados para países concor-
ca, navega. Mesmo que timidamente, ficando, a prin- rentes. A estratégia, então, era gerar um tipo de ad-
cípio, nas proximidades da praia, os pescadores foram ministração que coibisse a livre circulação comercial,
dominando cada vez melhor as técnicas de navegação, resguardando à metrópole o monopólio comercial: a
a leitura das estrelas, o conhecimento sobre o regime colônia só podia negociar com a sua metrópole, aque-
dos ventos e marés. Esses conhecimentos permitiam la que a descobriu e/ou conquistou.
que fossem cada vez mais longe em busca de melhores
pescarias. E quanto mais longe se ia mais se aprendia Observamos até agora nesse contexto histórico do
sobre os mistérios deste mar tenebroso que, durante Brasil o que chamamos de contradição histórica. O
séculos, representou uma barreira intransponível para Brasil possuía inúmeras riquezas que, como vimos,
a expansão portuguesa e, por que não dizer, europeia. não eram aproveitadas para o crescimento do nosso
país. Tudo era utilizado para acelerar a acumulação
Os produtos que chegavam à Itália do Oriente para se- de capital para a burguesia europeia.
rem depois distribuídos pela Europa eram transportados
por mar e por terra. Atingiam as regiões mais setentrio- A colonização brasileira traz como sua marca prin-
nais por longos caminhos que cortavam o continente. cipal a exploração do território. Esse fato marcou em
Mas esses percursos eram caros e perigosos. No final vários aspectos a constituição da nossa sociedade. Te-
da Idade Média e princípio da Idade Moderna, a rota mos que ter em mente que o Brasil não foi colonizado
marítima apresentava vantagens sobre a terrestre. Era para constituir uma nação, a ideia principal era explo-
mais barata, porque transportava maior quantidade de rar para acumular riquezas para os países europeus. A
carga. Então os barcos mercantes saíam do Mediter- riqueza produzida no Brasil era levada para a Coroa
râneo e passavam em Portugal para chegar ao Mar do Portuguesa, deixando apenas uma parcela que ficava
Norte. Lisboa cresce como um entreposto comercial. nas mãos das elites.
Seu porto é cada vez mais frequentado por navegadores
de várias procedências. Muitos navegadores e muitas Cabe-nos nesse momento lembrarmos que, por um
informações sobre a arte de navegar. Isso, somado à ex- período, o Brasil nem despertou interesse para Portu-
periência acumulada na atividade pesqueira, vai fazen- gal. Vamos ler o texto complementar a seguir e refletir
do de Portugal um importante centro de navegação. sobre esse período?
O Período Pré-Colonial
24
Luis Deulefeu

Em 22 de Abril de 1500, a esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral, que tinha como destino as Índias e
como objetivo o comércio de especiarias, oficializa o descobrimento do Brasil. Depois de um breve contato com os
naturais da terra a esquadra segue o seu destino. A colonização não começa imediatamente. Os portugueses, antes
de 1532, data da fundação da Vila de São Vicente, limitam a sua ação à exploração do pau-brasil e ao envio de al-
gumas expedições, que tinham a tarefa de reconhecer a terra e protegê-la da cobiça de outras nações expansionistas.

Porém, mesmo sendo possível dizer que o Brasil foi descoberto em 1500 e em 1500 esquecido, é impor-
tante afirmar que o chamado período pré-colonial preparou os momentos posteriores. Levemos em conside-
ração as seguintes circunstâncias:

Primeira - Quando os portugueses, comandados por Cabral, partiram de Lisboa, eles não buscavam exata-
mente novas terras. Não era, como às vezes somos levados a crer, uma viagem de descobrimento. Tratava-
se, sim, de uma viagem de contato comercial. O descobrimento do Brasil é apenas um capítulo na história
da expansão marítima e comercial europeia. O que se buscava à época era um caminho alternativo para as
especiarias, conjunto de produtos de grande valor mercadológico. Quer isto dizer que os portugueses esta-
vam preparados para viajar longas distâncias e fazer acordos diplomáticos e comerciais, mas construir mun-
dos não. Na medida em que navegavam, novas ilhas e continentes eram descobertos. E dentro do possível e
dos interesses econômicos, eram incorporados às rotas comerciais. A inserção destas novas descobertas no
universo de interesses dos portugueses era paulatinamente preparada.

Segunda - Quando as quilhas das embarcações portuguesas chegaram à praia, nada, ou quase nada, sabia-se
sobre o local e sua gente. A terra era grande ou pequena? Os habitantes eram hostis ou receptivos? Que lín-
guas falavam? Às indagações, poucas respostas. Conhecia-se aquilo que se dava aos olhos. Não parece justo
pensar que os protagonistas do “achamento” do Brasil desviassem o foco das Índias, terra de tantas riquezas
conhecidas, para investir no desconhecido e incerto. Podemos concluir que fazer o reconhecimento da língua
dos habitantes e de seus costumes, das riquezas e extensão da terra, da qualidade de suas águas e frutos, do cli-
ma e da topografia figurasse como um procedimento estratégico. E assim foi. Para começar, dois degredados
foram deixados para coletar informações e estreitar o contato com os habitantes. E apenas alguns anos depois,
algumas feitorias foram construídas para servir de entrepostos comerciais. Mas o que seria comercializado? O
pau-brasil. Antes, vale considerar que o período batizado de pré-colonial foi uma espécie de laboratório. Um
tempo em que os portugueses avaliaram e reconheceram as potencialidades da nova descoberta e tentaram
encontrar uma serventia para ela. Um tempo de aprendizado e de aproximação.

Caminha, o escrivão da armada, homem versado em letras e funcionário especializado na arte da escrita,
enviou ao rei de Portugal uma missiva na qual narrava os lances do “achamento” da terra e do que nela se
passou nos oito dias em que estiveram aqui.

“Neste mesmo dia, à hora de véspera, avistamos terra! Primeiramente um grande monte, muito alto e redondo;
depois, outras serras mais baixas, da parte sul em relação ao monte e, mais, terra chã. Com grandes arvoredos.
Ao monte alto o capitão deu o nome de Monte Pascoal; e à terra, Terra de Vera Cruz” (Carta de Caminha, 77).

Trata-se de uma carta de extrema importância. Ela é a certidão de nascimento do Brasil. Um documento
que descreve a terra e suas características mais salientes. Que fala dos habitantes como seres bons e lindos.

“E uma daquelas moças era toda tingida, de baixo a cima, daquela tintura; e certamente era tão bem feita
e tão redonda, e sua vergonha – que ela não tinha! – tão graciosa, que as muitas mulheres de nossa terra,
vendo-lhes tais feições, provocaria vergonha, por não terem as suas como a dela” (Carta de Caminha, 83).

Carta que, ao finalizar, aponta algumas serventias para a terra descoberta, traçando de antemão alguns
rumos da história.

“Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a prin-
cipal semente que Vossa Alteza deve lançar. E que não houvesse mais que ter aqui Vossa Alteza esta pousada
para a navegação de Calicute, isso bastava” (Carta de Caminha, 98).
Ou seja, se não servisse para nada, o Rei deveria catequizar os índios e poderia usar a terra para pousada,
momento das longas viagens transoceânicas destinado ao descanso da tripulação, reparo dos barcos e abaste-
25
cimento de água e alimentos frescos.

Devemos levar em consideração que Portugal não era o único país europeu a navegar por mares nunca
antes navegados. E se, por descuido ou desinteresse, deixasse as suas descobertas abandonadas, outros viriam
apossar-se delas. Estamos diante de um agudo problema. Por um lado Portugal não dispunha de homens para
ocupar as novas terras e nem queria utilizar os seus recursos técnico-navais para garantir a posse de um terri-
tório que rendia poucos lucros. Por outro lado, a constante ameaça de ter as terras invadidas exigia uma ati-
tude. As feitorias de exploração do pau-brasil foram a primeira estratégia de ocupação e manutenção da nova
descoberta. O pau-brasil era madeira valiosa. Sua seiva de cor vermelha desempenhava importante função na
indústria do tecido, tingindo-os com mais qualidade, durabilidade e a preços baixos.

A extração do pau-brasil torna-se uma exclusividade da coroa. Ela tinha os direitos de exploração, que eram “aluga-
dos” à iniciativa privada, mediante o pagamento de taxas acordadas entre as partes. Ricos comerciantes compravam
o direito de vir ao Brasil, extrair a madeira e vendê-la no mercado europeu. Em troca, pagavam altas somas à coroa,
que assim conseguia obter lucros sem investir. Além de pagar pelo direito de comercializar o pau-brasil, os comer-
ciantes assumiam a responsabilidade, nem sempre observada, de proteger e mapear o litoral. Assim as feitorias emer-
gem como laboratórios de encontro cultural, pois portugueses e índios relacionavam-se na organização do abate,
transporte e armazenamento da madeira. Além disso, as feitorias serviam como pontos de defesa e posse das terras.

O período pré-colonial é assim chamado pela ausência de um processo efetivo de colonização. Mas não
pode ser desprezado, como se representasse apenas o esquecimento de Portugal em relação à nova terra.
Deve ser compreendido como uma estratégia de aproximação e preparação para os lances que futuramente
caracterizariam a espantosa tarefa de criar uma colonização em terras tropicais numa escala gigantesca.

Atividades
A partir do texto apresentado, responda às seguintes questões:

1) Aprendemos que contexto é um conjunto de circunstâncias que pode caracterizar o momento histórico e
cultural de um povo. Faça uma pequena investigação e escreva em duas etapas sobre o contexto em que você
vive. Na primeira o contexto brasileiro atual, na segunda o contexto da sua comunidade.

2) O período pré-colonial apresenta características próprias, que o diferem das posteriores fases da coloniza-
ção portuguesa no Brasil. Comente como o contexto da expansão comercial europeia dos séculos XV e XVI
explica o referido período.

3) Além do econômico, qual o papel desempenhado pelas feitorias no período pré-colonial?

Gabarito
Caro aluno, em seguida você encontrará um guia de resolução das atividades propostas.

1) Faça um apanhado dos aspectos gerais que caracterizam o Brasil hoje. Pode ser da área educacional,
social, política econômica ou cultural. Você escolhe. Escreva um parágrafo utilizando os aspectos que você
agrupou no seu apanhado. Depois faça o mesmo em relação à comunidade em que você vive.

2) Sendo a expansão marítima um movimento primordialmente mercantil, a colonização não estava nos
planos iniciais da coroa portuguesa.

3) O papel de laboratório da colonização. Na medida em que consideramos as dificuldades inerentes aos


primeiros contatos entre portugueses e indígenas, dificuldades oriundas inclusive da quase impossibilidade
na comunicação, podemos entender que o laboratório refere-se a aprender o que é a terra e sua gente.
Dicas de Estudo
26
Filme recomendado
Indicaremos um filme bastante interessante, que integra aventura aos contatos entre europeus e indígenas nos
primeiros anos do Brasil. Trata-se de Hans Staden, baseado no texto de um aventureiro alemão, que, depois de
prestar dois anos de serviço no forte de Bertioga, foi aprisionado pelos índios. O filme é uma produção bem
cuidada que nos aproxima do cotidiano dos índios, do ritual de antropofagia, que tanto apavorava os europeus,
e dos conflitos que marcaram o encontro entre europeus e tribos indígenas. O filme foi dirigido por Luiz Alberto
Gal Pereira e lançado em 2000, aproveitando o clima comemorativo dos 500 anos do descobrimento do Brasil.

Leitura recomendada
Quer ampliar os seus conhecimentos sobre os índios e os primeiros contatos com os europeus? Quer fazer
isso lendo um livro muito bem escrito, sobre uma belíssima história que mistura aventura, navegação, desco-
brimento e compromisso ético? Então leia o muito bem pesquisado e escrito livro de Leyla Perrone-Moisés,
Vinte Luas. Viagem de Paulmier de Gonneville ao Brasil: 1503-1505. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
Trata-se de uma ótima obra, que retraça a história de um navegador francês que vem ao Brasil, na Região Sul,
no começo do século XVI, e leva consigo o filho do chefe de uma tribo, mediante a promessa que o traria de
volta em vinte luas. Uma leitura instigante e informativa. E ainda:

AZANHA, Gilberto & VALADÃO, Virgínia Marcos. Senhores destas terras. Os povos indígenas no Brasil: da
colônia aos nossos dias. São Paulo: Atual, 1991.
BARRETO, Luís Filipe. Descobrimentos e Renascimento. Formas de ser e pensar nos séculos XV e XVI. Lis-
boa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983.
CASTRO, Silvio. A Carta de Pero Vaz de Caminha: O descobrimento do Brasil. Porto Alegre: L&PM, 1996.
GIUCCI, Guilhermo. Viajantes do Maravilhoso. O Novo Mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 1992
LOPES, Luis Roberto. História do Brasil Colonial. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1983.
MESGRAVIS, Laima. O Brasil nos primeiros séculos. São Paulo: Contexto, 1994.
WEHLING, Arno & WEHLING, Maria José. Formação do Brasil Colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994.

Site recomendado
A prefeitura do Rio de Janeiro, com a MULTIRIO, empresa ligada à Secretaria de Educação, desenvolveu
um site muito bem feito, com amplo material e de fácil consulta sobre o Brasil Colonial. É uma ótima fonte de
pesquisa, com textos simples e corretos e boas ilustrações: http://www.multirio.rj.gov.br/historia/index.html.

Para ler a Carta de Caminha, faça uma busca na Internet ou acesse o site http://www.dominiopublico.gov.br.

Texto 6: O Processo de Modernização

Iniciou-se uma redefinição desse quadro com a vin- para o Brasil com o intuito de fixar a Coroa aqui, pois
da da Família Real. A invasão francesa na Península vieram estrategicamente fugindo de Napoleão.
Ibérica, sob o comando de Napoleão, provocou um
acontecimento inesperado: a Corte Portuguesa se Fique atento!
transferiu para o Brasil. Até aquele momento, não
existia uma proposta ou ideia política de formar uma Cabe lembrar que essa transferência da Corte para o Bra-
sociedade no Brasil. sil foi patrocinada pelo governo britânico. Com isso, pode-
ríamos pensar: essa seria nossa primeira dívida externa?
Vejam o filme Carlota Joaquina, de Carla
Camurati. Ainda com fortes marcas da colonização explora-
tória no Brasil com a instalação da Corte Portuguesa
Para aqueles que assistiram ao filme Carlota Joa- na Colônia, observaram-se algumas substituições das
quina, de Carla Camurati, devemos ressaltar que os práticas mercantilistas existentes no pacto colonial.
personagens e os acontecimentos históricos foram Os portos brasileiros foram abertos às nações ami-
apresentados de forma caricata. Mas não tão distan- gas; manufaturas são abertas; foi fundado o Banco do
te da realidade. Afinal, sabemos que eles não vieram Brasil; criada a Imprensa Régia, o Jardim Botânico,
Museu Real; escolas, fábricas e indústrias são instala- Instalou-se com o capitalismo industrial a estrutura
das e ocorrem articulações que visam a modernização da sociedade moderna. Formada por classes polari- 27
do Brasil. zadas, onde encontramos de um lado a figura da bur-
guesia, a elite econômica e política que comanda e
Percebemos, então, analisando esses fatos, que no detém o poder da sociedade. Do outro lado, temos a
Brasil o início para as transformações começa a apa- classe trabalhadora, que se encontra no outro extremo
recer. As mudanças eram notórias, desde suas insti- dessa estrutura.
tuições econômicas, políticas e sociais, como também
na sociedade, com o surgimento de novos persona- Vamos pensar sobre esse quadro que se formou
gens e grupos de poder, sempre relacionados a uma no século XIX. Ele é diferente do Contexto que
elite e não ao povo. encontramos hoje?

O período em que a Corte esteve no Brasil já havia Em meio a esse contexto, no Brasil, essas transfor-
trazido uma fase independente e as transformações mações se manifestam com raízes no passado. A mo-
ocorridas já tinham se fixado com novas ideias. A in- dernização brasileira se mostrava através da existência
dependência do Brasil, em 7 de setembro de 1822, de alguns bancos, companhias de seguro, de transporte
ocorreu de forma pacífica se for comparado ao restan- a vapor, de transporte urbano e de transporte ferrovi-
te da América Latina. ário. Muitas iniciativas progressistas no Brasil vieram
de uma das figuras mais representativas do empreen-
Apesar dessas iniciativas e acontecimentos, o desen- dedorismo brasileiro. Irineu Evangelista de Souza, o
volvimento do Brasil ainda era lento. A hegemonia Visconde de Mauá, tentou dar um novo rumo ao de-
política e econômica do Brasil era protecionista, de- senvolvimento do Brasil, mas não conseguiu muito.
fendia os interesses da elite que era formada em parte
por produtores de café e outros produtos agrícolas. Vejam o filme Mauá.

É fácil encontramos marcas desse período por que Mesmo com essa visão empreendedora Mauá faliu.
nosso país passou. Nosso papel é compreendermos O que colaborou com esse fato foi a hegemonia eco-
que tudo isso influenciou a formação da sociedade nômica e política dos produtores de café e de outros
brasileira e está refletido em nosso contexto atual. produtos agrícolas, que se privilegiavam da política
Afinal fomos marcados por trezentos anos de atraso protecionista que existia na época.
em seu desenvolvimento no período colonial.
Encontrávamos como realidade o comando político
O Brasil, com a vinda da Família Real portuguesa de uma burguesia cafeeira, que se mantinha por en-
em 1808, começa a passar por transformações que o contrarmos no Brasil uma sociedade presa ao passa-
levaria a um processo de desenvolvimento mais níti- do. Nesse contexto o coronelismo e o voto de cabres-
do. Algumas estruturas do Brasil Colônia começam to marcaram extremamente a sociedade, que carregou
a modificar. traços desse quadro por muito tempo.

Contudo, a lógica do capitalismo segue mantendo Vale lembrar que ainda temos em nossa história re-
alguns aspectos iguais aos do seu início. Antes vía- cente exemplos dessa relação de poder, na qual en-
mos acontecer o surgimento de modelo comercial que contramos pessoas que tomam para si o poder, onde
enriquecia a Europa através da exploração das colô- o Estado está ausente. Você lembra de algum caso em
nias. No desenvolvimento do capitalismo industrial que essa relação é nítida nos dias atuais?
não foi diferente.
Para continuarmos nossos estudos, precisamos
Com a Revolução Industrial baseada na ideologia ter em mente que o Brasil, como os demais países
liberal o olhar sob a exploração muda, mas os interes- da América Latina, iniciou sua industrialização por
ses ainda são constituídos em favor do enriquecimen- um processo conhecido como substituição de im-
to de uma elite. Não existe um pensamento de pros- portações e que consistia em produzir, em território
peridade ao povo, a ideia básica é ampliar o mercado nacional, parte do que era destinado ao mercado de
consumidor para aumentar e concentrar os lucros nas consumo local.
mãos das elites, através da exploração de mão de obra
desrespeito às questões de idade, sexo etc. Nesse con- O processo de substituição de importações se carac-
texto temos o Brasil ainda sem a ideia de formação de terizava por: produzir apenas para o mercado interno;
uma sociedade. depender do Estado para a criação da infraestrutura ne-
cessária para a circulação de mercadorias; ter um par-
Vamos refletir um pouco mais sobre a estrutura so- que industrial constituído predominantemente de filiais
cial e as ideologias políticas?
de empresas internacionais; e remeter para o exterior, lista, por meio das transformações que comandou e
28 aos países-sede das empresas, os lucros da produção. coordenou no sentido da implantação de um parque
industrial brasileiro.

Getúlio e JK: Início e Consolidação da Foi esse Estado intervencionista o responsável pelo
Industrialização segundo surto industrial no país.

O Brasil chega ao século XX como um país funda- Segundo Almeida e Rigolin (2004: 394),
mentalmente agrícola, tendo como seu principal pro-
duto o café. A economia brasileira em ascensão era Vargas foi o responsável pela infraestrutura necessária para a
ligada a agroexportação. instalação de indústrias Getúlio no país no período de seu
primeiro governo (1930-1945). Entre suas realizações estão a
Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), organizada em 1941
Nesse período tanto a arte como a economia marca- e posta em funcionamento em 1946, em Volta Redonda, Rio de
ram o Brasil. Economicamente o nosso país crescia Janeiro, e a mineradora Companhia Vale do Rio Doce, instala-
apoiado ao eixo de desenvolvimento dos estados do da em 1942, em Minas Gerais. Também fundou, em 1943, a
Rio de Janeiro e de São Paulo. Na sociedade brasileira Fábrica Nacional de Motores (FNM) e a Companhia Hidrelé-
a modernidade começa a apresentar-se através de ma- trica do São Francisco, em 1945. Durante seu segundo mandato
(1950-1954), foi criado o Banco Nacional de Desenvolvimento
nifestações artísticas que romperam com os padrões Econômico (BNDE) em 1952 e, no ano seguinte, foi instituída
da época, na Semana da Arte Moderna de 1922. a Petrobras (Petróleo Brasileiro S/A) (ALMEIDA & RIGOLIN,
2004: 394).
Mas o desgaste da política das oligarquias e o descon-
tentamento com o governo levam à crise da República Realmente não podemos negar que Vargas era um
Velha, que leva à Revolução de 30 e à Era Vargas. visionário, e, para muitos, foi o primeiro político a
pensar no povo. Contudo, não podemos esquecer que
Em 1929, aconteceu uma crise que afetou profunda- o Brasil nesse período enfrentou um contexto em que
mente a economia brasileira. Foi a quebra da Bolsa de sua economia já estava presa ao capital estrangeiro, e
Nova York. No ano seguinte Getúlio Vargas toma o que infelizmente iria piorar.
poder e inicia um período marcado pela transformação
da sociedade e da organização econômica brasileira. Vejamos como foi o modelo de desenvolvimento de
JK, outro marco em nosso país.
Conhecido como a Era Vargas, esse período da nos-
sa história foi caracterizado por contradições e ino- Juscelino Kubitschek foi eleito no período de tran-
vações. Tinham uma postura política que lembrava o sição após o suicídio de Vargas. Governou tentando
passado autoritário do nosso país, mas promovia mu- cumprir seu “Plano de Metas”, que possuía uma ideia
danças fundamentais para a modernização e desen- desenvolvimentista apresentada pelo slogan “Cin-
volvimento industrial. Vargas ficou conhecido como quenta anos em cinco”. Geração de energia, trans-
“pai dos pobres”, por ter uma política para o povo, portes, construção de estradas e criação de indústrias
uma política nacional e de desenvolvimento indus- de base foram as suas grandes metas, que se consubs-
trial, criou uma identidade nacional. tanciaram no seu plano, sua pretensão era fazer com
apoio de investimentos internacionais.
Getúlio Vargas resolve a crise obtendo crédito para
compra do excedente da produção, troca pequena Esse desenvolvimento pregado por JK foi baseado
parte do produto por trigo americano e, para evitar a na economia capitalista internacional, que era refleti-
queda do preço no mercado, queima o resto do da na associação do Estado, nas empresas nacionais e
café que, tradicionalmente, seria estocado. no capital estrangeiro.

Há um sensível deslocamento dos capitais inves- O governo JK marca o início da internacionalização


tidos até então na cafeicultura, que passaram a ser da indústria no Brasil, época em que as montadoras de
aplicados na indústria, atividade que até então ocupa- automóveis, indústrias de aparelhos eletroeletrônicos
va um lugar de muito pouca importância no cenário e outras começaram a invadir o parque industrial
econômico do país. O processo de industrialização é brasileiro, passando a controlar o mercado interno.
auxiliado pela desvalorização da moeda brasileira. Compraram as empresas nacionais, que não con-
A consequente elevação dos preços dos produtos seguiam competir com os preços e a tecnologia dos
estrangeiros que importávamos vai servir de estímu- estrangeiros, e instalaram-se aqui definitivamente,
lo para a fabricação de similares no Brasil. inaugurando a era das multinacionais.

Na Era Vargas, o Estado cumpre com eficiência seu Em meio a esse contexto, JK e sua política de im-
papel de principal agente da modernização capita- provisação não terminaram com um saldo positivo.
Deixando uma característica que permeia por muito Vamos pensar sobre a realidade da época?
tempo no contexto brasileiro: os problemas econômi- 29
cos com a dívida externa. O ambiente político nacional estava instável, um
conjunto de ações e uma instabilidade sociopolítica
Ao fim da Era JK, a economia brasileira estava en- culminaram na tomada dos militares ao poder.
tranhada pelo capital internacional, dominada por
grandes empresas estrangeiras, introduzindo o país Em 1964, a crise atinge seu clímax e como consequên-
na era do capitalismo monopolista. Graças ao seu cia, por 21 anos, nossa sociedade esteve diante de mais
desenvolvimento peculiar, que se deu a partir dos uma ditadura, na qual vivemos uma política de autori-
tarismo e repressão. Desse período a sociedade carrega
investimentos internacionais, a nossa industrialização
marcas dolorosas das ações políticas ditatoriais. São ní-
se torna dependente. E, por se realizar num momento
tidas e delicadas as sequelas sociais, econômicas e polí-
em que os países mais avançados já haviam atingido
ticas deixadas nessa época.
a fase monopolista, diz-se que ela é tardia ou recente,
com todas as implicações que isso possa acarretar. O clima causado pela repressão era de extrema in-
satisfação. O descontentamento com o regime mobi-
lizou diversos setores da sociedade civil. Intelectuais,
Governo Militar: Aspectos Econômicos e
artistas, estudantes, trabalhadores, setores da igreja
Políticos católica e algumas entidades classistas protestaram
contra a repressão provocada pelo regime militar.
Ao iniciar a década de 60 do século XX, fica confir-
mado um quadro que por muito tempo tornou o Bra- No ano de 1968, um conjunto de medidas mais rígi-
sil um país frágil: a dependência brasileira ao capital das é publicado, o AI-5 estabeleceu a censura à liber-
estrangeiro. dade de expressão.

Ato Institucional número 5


(...)

Artigo quinto: a suspensão dos direitos políticos, com base neste Ato, importa, simultaneamente, em:
Primeiro - cessação de privilégio de foro por prerrogativa de função;
Segundo - suspensão do direito de votar e de ser votado nas eleições sindicais;
Terceiro - proibição de atividades ou manifestação sobre assunto de natureza política;
Quarto - aplicação, quando necessária, das seguintes medidas de segurança:
a) liberdade vigiada;
b) proibição de frequentar determinados lugares;
c) domicílio determinado,
Artigo dez: Fica suspensa a garantia de habeas corpus, nos casos de crimes políticos, contra a segurança
nacional, a ordem econômica e social e a economia popular.
Brasília, 13 de dezembro de 1968

de Futebol, em 1970, foi intensamente explorada como


Vejam o filme O Ano em que Meus Pais Saíram
sinal de um país que se desenvolvia e era vencedor.
de Férias, de Cao Hamburger.
O governo tentava conquistar o apoio popular com
O general Garrastazu Médici, em 1970, sucedeu a Jun-
slogans que constituíssem uma mentalidade cívica.
ta Militar, iniciando o terceiro mandato presidencial do
Aproveitaram como marketing a conquista da Copa
período militar. Durante o seu governo, intensificaram- do Mundo de 1970.
se as campanhas pela conquista do apoio popular,
através de slogans que construíssem uma mentalidade “Noventa milhões em ação,
cívica, entre os quais ficou famoso o que dizia “Brasil, Pra frente Brasil,
ame-o ou deixe-o!” e o que anunciava “Este é um país Do meu coração...
que vai pra frente!”. A conquista da Copa do Mundo Todos juntos vamos,
Pra frente Brasil, zação da sociedade. Clamava-se pela anistia, com o
30 Salve a Seleção! apoio do movimento da Anistia Internacional. Foram
fundadas várias organizações que se encarregam de
De repente denunciar o arbítrio, como a “Tortura nunca mais!”.
É aquela corrente pra frente, O governo responde com a proposta de uma abertura
Parece que todo o Brasil deu a mão... lenta e gradual e foi esse o modelo que prevaleceu. O
Todos ligados na mesma emoção... movimento pela Diretas já! foi derrotado no Congres-
Tudo é um só coração! so, adiando a escolha direta do próximo Presidente,
pois se temia que eventuais eleições diretas para o
Todos juntos vamos, cargo pusessem em risco o processo de redemocra-
Pra frente Brasil! tização da Nação.
Brasil!
Salve a Seleção!” Em 1985, os militares se retiram, mas, de certa forma,
continuam no comando, dessa vez através de antigos
As leis que reformaram a educação criam, no Ensi- aliados que dariam continuidade à sua obra. A chapa
no Fundamental, disciplinas como Educação Moral e Tancredo Neves -José Sarney é eleita indiretamente
Cívica e Organização Social e Política do Brasil e, no pelo Congresso Nacional para os cargos de presidente
Ensino Superior, os Estudos de Problemas Brasileiros, e vice-presidente da República, respectivamente. O
com o objetivo de formar nas novas gerações um senti- presidente Tancredo Neves não chega a tomar posse
mento de ufanismo pelo país em que estavam vivendo. por conta de grave enfermidade que veio a lhe causar
a morte. Assume em seu lugar o vice-presidente José
O cenário mundial, que havia possibilitado do ponto Sarney, o primeiro Presidente civil em 21 anos.
de vista econômico uma relativa tranquilidade ao
governo, a ponto do período entre 1967 e 1970 ser
considerado como o do milagre econômico brasilei- Fique atento!
ro, começa a mudar. No governo Geisel, os donos do
poder começam a pressentir que é hora de caminhar Faça uma reflexão sobre esse período, se você vi-
para a abertura política. venciou pode lembrar e refletir sobre a ditadura mili-
tar em diversos aspectos e ver o quanto esses 21 anos
E é com essa intenção que o quinto e último influenciam nossos contextos atuais. Para quem não
presidente militar, o general João Batista Figueiredo, viveu esse período vale a dica para uma boa pesquisa
toma posse em 15 de março de 1979, anunciando que histórica, pois esse é um marco de muita relevância
prendia e arrebentava quem se opusesse à abertura para nossa sociedade. Hoje existem materiais muito
política. Foi o início da volta aos quartéis. ricos sobre a ditadura no Brasil, para todo universi-
tário é válido ampliar seu conhecimento sobre esse
O mandato do presidente Figueiredo foi marcado, assunto. Aproveite que você está estudando agora.
desde o início, pelas lutas no sentido da redemocrati- Vale a pena pesquisar e conhecer mais um pouco!

Texto 7: O Papel do Estado nas Décadas de 70 e 80:


Autoritarismo e Concentração de Renda
O governo que se instala em 1964 institui o PAEG – lo”. Mas o milagre econômico não resultou como
Plano de Ação Econômica do Governo – que se pre- se esperava e como consequência vivenciamos mais
via, basicamente, a redução dos gastos públicos, o au- uma crise política e econômica.
mento da carga tributária e o arrocho salarial. Aliado
a isso, até 1970, o país recebe vultosos empréstimos Em 1973, começa a se delinear uma crise no cenário in-
internacionais e apresenta uma produção industrial ternacional. Os países árabes, exportadores de petróleo,
bastante significativa. passam a utilizar o preço do produto como arma econô-
mica. Todos pagam um alto preço, principalmente os pa-
Os anos entre 1967 e 1973 ficaram conhecidos como íses não desenvolvidos, dependentes do capital externo.
os anos do milagre econômico brasileiro, época em
que se observou uma retomada do desenvolvimento. A dívida externa brasileira se avoluma e agrava
O PIB brasileiro é o 8º do mundo e o melhor entre as as desigualdades sociais de um modelo que tenta-
nações periféricas. A ideologia econômica recomen- va combinar desenvolvimento com arrocho salarial,
dava “fazer crescer o bolo para só depois distribuí- contenção da inflação e uma brutal concentração de
renda, fenômenos que vão caracterizar os anos 70 e a Foi um período marcado pelo contexto de crise, re-
primeira metade dos 80. cessões, dívida externa, inflação alta e uma série de 31
planos econômicos para conter a hiperinflação.
A economia de todos os países subdesenvolvidos
entra num processo de estagnação, marca dos anos 80 No mundo inteiro o neoliberalismo impulsionava
do século XX, que por isso ficou conhecida como a transformações, reeditando sobre as experiências do
década perdida, não só para o Brasil, como para todos passado os novos elementos da economia mundial,
os países da América Latina. reformulando suas bases, tornando-as próprias para
a proposta neoliberal, para o novo milênio segundo
Com o intuito de dar continuidade aos índices de cres- este olhar.
cimento elevado, o governo militar aumentou o endi-
vidamento externo e cresceu a inflação. A riqueza pro- Mas a ditadura deixou mais do que as marcas da tortu-
duzida era direcionada para o pagamento dos credores ra. O Brasil estava com uma herança de dívidas, índices
internacionais, entre eles o FMI e o Banco Mundial. ruins no que se referia ao desemprego e mortalidade, in-
flação alta, desigualdades regionais e sociais. O quadro
Vejamos o que é o Fundo Monetário Internacional: encontrado era bastante ruim. Mesmo com a mudança de
um regime militar para um regime democrático, aquele
O Fundo Monetário Internacional foi criado em 1944, pelo quadro encontrado no Brasil não mudou, os problemas
Acordo de Bretton Woods; é o organismo financeiro da ONU
continuaram e com isso a sociedade se desiludia.
que fornece recursos financeiros para os países que apresentam
déficits nas contas externas. Geralmente, o auxílio do FMI in-
corre em medidas econômicas ortodoxas de equalização fiscal Leia o texto complementar e reflita um pouco mais
e cortes de gastos públicos (Site: Wikipédia.). sobre esse contexto.

Texto Complementar
Autoritarismo e concentração de renda
A política econômica do regime militar

Chiavenato

Do achatamento salarial à concentração de renda

Os militares e os seus sócios não se limitaram a subverter o processo político: também intervieram vigoro-
samente na economia brasileira, trocando o modelo capitalista dependente pela pura e simples subserviên-
cia. Favoreceu-se uma progressiva concentração de renda e o achatamento salarial, que serviu de base para
a desnacionalização da economia.

Os baixos salários, as isenções e os incentivos fiscais, a legislação benevolente e os financiamentos privile-


giados atraíram as multinacionais. As modificações jurídicas, permitindo às empresas estrangeiras comprar
enormes áreas de terra, especialmente na Amazônia, atraíram capitais que se reproduziam rapidamente e
tinham facilidades na “remessa de lucros”.

Houve o incremento da produção industrial de supérfluos. Mas os operários tiveram os seus salários acha-
tados – a maior baixa real na história do Brasil. Graças à concentração de renda, uma pequena parcela média
– que logo se destacou como “classe média alta” – teve acesso a altos salários e ao consumismo identificado
no fugaz “milagre brasileiro”.

Esse modelo exigiu um controle maior da população pobre e o aumento da repressão aos grupos politiza-
dos. O Judiciário e o Legislativo submeteram-se ao Executivo. Cristalizou-se a ditadura, o Estado tornou-se
cada vez mais forte, militarizado e acima da Nação.

Os pobres ficaram mais pobres e os ricos, mais ricos. Em 1960, os 20% mais pobres detinham 3,9% da
renda nacional; em 1970, a sua renda coletiva caiu para 3,4%; e em 1980, para 2,8%. Os 50% de pobres fica-
ram com 17,4% da renda, em 1960; 14,9%, em 1970; e 12,6%, em 1980. Enquanto isso, os 10% mais ricos
passaram de 39,5%, em 1960, para 46,7%, em 1970, e 50,9%, em 1980. A renda dos 5% ainda mais ricos
em 1980. E os 1% muito ricos progrediram de 11,9%, em 1960, para 14,7%, em 1970, e 16,9% em 1980.
32 Essa concentração de renda fez-se à custa do achatamento salarial das chamadas “classes baixas”. Pagan-
do-se cada vez menos aos trabalhadores e oferecendo salários mais altos a uma pequena elite consumidora,
ampliou-se o mercado de supérfluos para “classe média alta”. Isso, combinado com a especulação financei-
ra, sustentou durante certo tempo o “milagre brasileiro”.

Nos tempos do “milagre”, a grande maioria da população ganhava muito pouco. As estatísticas do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) comprovam: 12,5% dos trabalhadores ganhavam até meio salá-
rio mínimo, 20,8% recebiam até um salário mínimo: 31,1%, até dois salários mínimos: 23,6%, entre dois e
cinco salários mínimos: 7,2%, entre cinco e dez salários mínimos: 3,2%, entre dez e vinte salários mínimos:
e 1,6% deles recebiam mais que vinte salários mínimos.

Isto quer dizer: no tempo do “milagre”, 64,4% dos trabalhadores ganhavam no máximo dois salários
mínimos. A seguir, havia uma faixa intermediária de 23,6% recebendo até cinco salários mínimos e uma
“verdadeira” classe média de 7,2%, que ganhava até dez salários mínimos. Já o grande consumo era feito
por 4,8% dos salariados, que recebiam de dez a vinte salários mínimos, ou mais.

Que o milagre foi falso, todo o Brasil soube e sabe. O que vale a pena ressaltar é que, naquele período, o
aumento da produção industrial também não refletiu um aumento real da economia. Ele favoreceu apenas
7,2% dos assalariados ou, em uma avaliação muito otimista, 30,8% (se somarmos os 23,6% que recebiam
até cinco salários mínimos aos 7,2% correspondentes à “verdadeira” classe média). Outro ponto a salientar
é como se obteve essa produção: com a abertura da economia às multinacionais, com o sucateamento da
indústria nacional e com o maior endividamento externo que o Brasil já teve.

Da concentração de renda à dívida externa

A concentração de renda mostrou-se tão perversa socialmente que os próprios economistas do governo
militar tiveram de denunciá-la. O professor Mário Henrique Simonsen, por exemplo, ministro da Fazenda
no governo do general Geisel, afirmou que em 1970 houve uma concentração muito maior do que nos dez
anos anteriores.

Se o modelo dependente da economia brasileira já era responsável por uma concentração de renda histó-
rica, esse fenômeno potencializou-se ao passarmos da dependência à subserviência. A junção dos interesses
internos com os externos provocou o empobrecimento dos pobres e o enriquecimento dos ricos. O “milagre”
só foi possível porque o empobrecimento do povo não significou necessariamente uma estagnação econô-
mica na soma da renda nacional: esta apenas foi desproporcionalmente distribuída. Apesar do óbvio, isso
precisa ser dito (no nosso caso, de modo mais didático do que técnico), para que os mais “leigos” entendam
o processo que culminou jogando a economia brasileira em uma crise que se agrava a cada dia.

Por que os militares permitiram esse modelo? Eram “burros”? Impatriotas? Venais? Foram subornados
pelo capital estrangeiro? Sem descartar a possibilidade do “sim” para algumas dessas indagações, cabe
investigar razões mais profundas. Um artigo dos professores Fernando Henrique Cardoso e Enzo Falleto,
citado por Maria Helena Moreira Alves em Estado e Oposição no Brasil, explica que essa situação torna-se
possível quando:

(...) o sistema de dominação ressurge como uma força “interna”, através de práticas sociais de grupos e classes locais que tentam
fazer prevalecer interesses estrangeiros, não especificamente porque sejam estrangeiros, mas porque podem ir ao encontro de valores e
interesses que julgam tais grupos ser os seus próprios. (O grifo é nosso.)

De fato, o modelo dos militares derivava das suas concepções de segurança nacional. Ele foi aplicado pela
aliança com as forças externas e internas – a mesma aliança responsável pela queda de um governo que, bem
ou mal, pretendia libertar a economia brasileira. E a maioria das suas medidas correspondia à subserviência
externa como garantia de segurança interna, segundo a visão míope da ditadura.

Para obter sustentação, os governos militares privilegiaram os investimentos externos e comprometeram


o futuro imediato da nação. Daí o desrespeito às leis e a promulgação de uma Constituição à imagem do
poder – lembramos que a Constituição de 1967, no seu artigo 161, “entregava” o subsolo à exploração das
empresas estrangeiras interessadas nos minérios estratégicos.
Outra consequência importante dessa subserviência foi o aumento da dívida externa. Em quinze anos, os 33
governos militares elevaram a dívida externa brasileira em quinze vezes: de US$ 3 bilhões ela passou para
US$ 45 bilhões, um recorde mundial. Por quê? Porque uma vez desencadeado o processo, não havia como
voltar atrás sem desfazer alianças externas que sustentavam o modelo interno.

O governo Geisel, geralmente considerado austero, elevou a dívida externa de US$ 9,8 bilhões, em 1974,
para US$ 35,1 bilhões, em que reduzindo os empréstimos internos desaqueceria a produção que dava lucros
especialmente às multinacionais. E não estamos esquecendo os chamados “acidentes de percurso”, como as
sucessivas altas do petróleo. Se os problemas da economia internacional afetaram diretamente a economia
brasileira, eles não servem como desculpa para o fracasso do modelo: a sua subserviência e conformação
favoráveis ao capital estrangeiro já previam o fracasso de qualquer “milagre”.

A festa multinacional

Enquanto a crise econômica brasileira se agravava a partir de 1960, a capacidade de produção da indústria
aumentava. Ou seja: em plena crise, a economia trilhou o caminho da industrialização. Em 1957, a participa-
ção da indústria nacional na oferta de bens de produção foi de 58%, subindo para 77%, em 1960, e chegando
a 86%, em 1983. Os bens de consumo participaram com 92%, em 1956, 96%, em 1960, e chegaram a 98%,
em 1964. Nosso problema não estava na capacidade de produção da indústria, que já em 1960 atendia a
quase totalidade das exigências do país, segundo as estatísticas do Ministério do Planejamento.

O fato é que o governo militar preferiu associar-se ao capital estrangeiro, favorecendo políticas que estran-
gularam a indústria nacional. Indústrias obsoletas no Exterior, ou que já haviam exaurido o mercado dos
seus países, foram transferidas para o Brasil, em prejuízo das nacionais. A cartelização industrial passou a
ser uma regra.

Além de impedir o desenvolvimento da indústria brasileira, esse processo provocou a evasão de dólares.
De 1966 a 1976, por exemplo, a fabricante de cigarros Souza Cruz investiu US$ 2,5 milhões no Brasil e re-
meteu ao exterior, sob a forma de lucros, US$ 82,3 milhões. A Firestone mandou à matriz US$ 50,2 milhões,
com um investimento de US$ 4,1 milhões, conforme dados de uma CPI da Câmara dos Deputados, em 1976.

Em resumo, a política econômica do governo militar privilegiou as multinacionais: baixos salários, liber-
dade para a remessa de lucros e incentivos fiscais, além de permissão para a compra de terras com o dinheiro
que não conseguiam enviar às suas matrizes.

Referência: CHIAVENATO, Júlio José. O golpe de 64 e a ditadura militar. 2. ed. reformulada. Coleção
Polêmica. São Paulo: Moderna, 2004. pág. 124-128.
34 UNIDADE III

O PROCESSO DE R
REDEMOCRATIZAÇÃO
EDEMOCRATIZAÇÃO BRASILEIRO
E O CONTEXTO AT
ATUAL
UAL DO BRASIL

Após 21 anos de ditadura militar, iniciou-se em 1985 de 2008 tivemos um fato muito interessante e que
o período chamado de Nova República e um processo nós, como cidadãos, devemos refletir: o país saiu do
de redemocratização. estado de devedor mundial para a posição de credor,
liquidando a dívida externa.
Mas podemos refletir sobre esses nomes, afinal, mes-
mo após a Proclamação da República, o Brasil não vi- Temos que pensar que o país ainda possui pontos
venciou uma experiência verdadeira de democracia, que negativos, ver as questões com delicadeza porque as
é uma característica expressiva de qualquer república. questões sociais ainda continuam como a exclusão
social, educação precária, pobreza, habitação, não
Sendo assim, será que não podemos dizer que essa adianta muito este lado.
Nova República, esse novo processo de redemocra-
tização poderiam ser considerados como o primeiro Mas o problema é que não podemos descartar o mar-
período verdadeiramente republicano? co histórico que o país teve e inclusive a repercussão
que isto teve, porque foi a primeira vez desde que a
Contudo, esse processo não foi fácil. O processo de coroa veio para nosso território e trouxe as dívidas
redemocratização brasileiro teve inicialmente gran- em 1808 até este momento, em que o Brasil quita sua
des problemas de ordem política, econômica, social dívida externa, e isto é um ponto relevante.
etc. A herança deixada pelos governos militares e pe-
las políticas exploratórias e protecionistas da nossa É claro que não devemos ver e sorrir diante de fatos
história acarretou um longo período de dificuldades e que repercutem negativamente não só aos olhos inter-
até hoje é possível encontrarmos traços no cotidiano nacionais, bem como para o povo brasileiro e sua eco-
brasileiro. Na área econômica foram várias tentativas nomia. Mas sabemos que o Brasil se mantém de forma
políticas para resolver os problemas desse setor. Mui- disciplinada para que a economia se torne sólida, porque
tos planos econômicos foram lançados e todos fracas- falta esta solidez para que possamos aumentar o grau de
saram sem alcançar os objetivos almejados. investimento no país, para que possamos começar a re-
solver estes problemas sociais, e este desenvolvimento
Essas dificuldades fazem parte de nossa história atinja todos e não apenas uma pequena minoria.
contemporânea. Temos em nossa memória recente
as consequências e ações que ocorreram na política Cabe-nos refletir que por mais que as realidades ain-
e na economia do Brasil. A participação popular nes- da sejam cruéis em relação ao que vemos na socieda-
sas ações se tornou cada vez mais comum. Tivemos de, miséria, fome, o país teve um desenvolvimento, e a
o primeiro impeachment de um presidente e diversas economia está estável, a sociedade vivencia várias crises
ações que mudaram o quadro econômico do Brasil. em países vizinhos e nações amigas, e não somos logo
afetados e massacrados como antes. Isso não significa
E mesmo com todos os problemas econômicos e so- que não sejamos atingidos no futuro, afinal vivemos em
ciais delicados que já estudamos até aqui e que conti- uma perspectiva de globalização, mas há um conjunto
nuaremos lendo até o fim desse instrucional, no início de atitudes para que o país se desenvolva neste processo.

Texto 8: As Consequências Socioeconômicas do


Modelo de Desenvolvimento Brasileiro
Neste texto abordaremos como se deu a abertura reu no mandato do presidente Fernando Collor de
do mercado brasileiro para a chamada “economia Mello, que tinha como promessa de candidatura
global” e a distribuição interna nacional. transformar o Brasil em um país moderno, além de
preparar a economia brasileira para uma inserção no
Quando usamos a expressão “modernização collo- mercado mundial. Mas para alcançar tal intenção,
rida” já podemos imaginar que se trata do que ocor- ele precisava tentar acabar com os problemas fi-
nanceiros existentes. A forma que ele escolheu para a inflação. O Plano Real teve repercussão direta nas
adotar não foi a melhor. eleições presidenciais de 1995. Fernando Henrique 35
Cardoso, que era ministro da economia do Plano
O Plano Collor, como ficou conhecido, abriu o mer- Real, foi eleito presidente da República.
cado ao capital e aos produtos estrangeiros, causando
um processo de importação indiscriminado e a des-
nacionalização de ambos os setores da economia, Vamos Lembrar do Governo de FHC:
ou seja, a privatização de empresas estatais e outras o Sociólogo Neoliberal?
ações. Como consequência houve uma queda no PIB
e a redução da oferta de emprego, aumentando o de- Com a política apoiada na ideologia neoliberal, o pro-
semprego naquele período. cesso de privatização iniciado na era Collor foi retoma-
do. A postura de Fernando Henrique Cardoso era contra-
Collor rompeu com o modelo de desenvolvimento ditória ao seu passado de “esquerda”. O seu objetivo era
da era Vargas e ficou conhecido como “Caçador de implantar um “Estado Mínimo”. E antes que o governo
Marajás”, pois em sua campanha à presidência tinha FHC acabasse, o presidente conseguiu que o congresso
como objetivo acabar com os culpados pela insufici- votasse a favor da reeleição para presidência e, ainda,
ência do governo. que aprovasse a reforma da previdência social, aumen-
tando o tempo de contribuição para a aposentadoria.
Mas vale nesse momento a pergunta: o Brasil me-
lhorou com este modelo de desenvolvimento? Como era imaginado naquela época, tivemos a ree-
leição de FHC. No novo mandato, seu governo con-
Encontramos até os dias atuais antigas questões so- tinuava tendo a mesma postura neoliberal, contudo
ciais que ainda não foram resolvidas. O problema da teve que enfrentar algumas crises:
distribuição de renda é um exemplo desse contexto * Em 1997, a crise econômica na Ásia, com os paí-
que encontramos no Brasil e que agrava ainda mais a ses que formavam o grupo dos Tigres Asiáticos, cau-
desigualdade social. sou reflexos na economia do mundo inteiro.
* Em 2001, a crise do abastecimento de energia
Além de não conseguir cumprir suas metas durante o mostrou a fragilidade quanto ao investimento de re-
seu governo, Collor enfrentou denúncias e escândalos cursos, provocado pelas privatizações.
* No contexto social, o Brasil apresentava-se cada
que acarretaram no fim do seu governo. O colapso da era
vez mais em dificuldades diante de seus problemas.
Collor não foi causado apenas pelos desacertos políticos
e socioeconômicos. As denúncias feitas por Pedro Collor,
O último governo de Fernando Henrique Cardoso
irmão do presidente, sobre a existência de um esquema
terminou de forma ruim e repercutiu nas eleições
de corrupção intermediado pelo empresário Paulo César
de 2002. De um lado Luis Inácio Lula da Silva, ex-
Farias, tesoureiro da campanha e amigo do presidente,
metalúrgico, que desde a volta das eleições diretas
influenciaram bastante. A repercussão do escândalo re-
disputava a presidência, que em 2002 se apresentou
sultou numa indignação popular, que aumentou quando
de uma forma mais moderada. E do outro lado José
a CPI concluiu o envolvimento do presidente com o “Es-
Serra, apoiado por FHC, que mesmo tentando evitar
quema PC”. A população se organizou e dois movimen-
a rejeição que a população tinha pelo presidente ante-
tos se destacaram. Foram eles: o Movimento pela Ética
rior, não conseguiu se eleger.
na Política e o Movimento dos “Caras Pintadas”.

Após a trágica experiência com Collor, o Brasil teve Pela primeira vez um presidente eleito passa a faixa
uma tentativa de conciliação nacional com o presi- para outro presidente eleito na nova democracia. E o
dente Itamar Franco, vice na chapa de Collor. fato mais marcante é que um homem de origem humil-
de, que foi trabalhador operário, chegou ao cargo mais
Seu governo apresentou-se contraditório. Não se- alto do país. As imagens com certeza ficaram marcadas
guia uma ideologia específica, tinha posturas neolibe- como o dia em que um operário chegou ao poder.
rais e nacionalistas. Queria fazer com que a popula-
ção voltasse a ter confiança na credibilidade política, A postura de Lula à frente da presidência, querendo
mas a imagem negativa do congresso continuava. ganhar credibilidade dentro e fora do governo, não
agradou membros mais radicais de seu partido que
Na economia não tínhamos mudanças. E com o in- romperam e acabaram expulsos do governo. Eles
tuito de modificar o contexto econômico, foi criado queriam que Lula decretasse uma moratória2 e não
o Plano Real, que, aos poucos, conseguiu controlar pagasse a dívida externa.

2
Moratória é uma disposição que suspende o pagamento num prazo fixado por lei ou por força de um contrato. No caso
do governo Lula, deixar de pagar seus compromissos internacionais.
A posição adotada pelo governo fez com que voltasse No último ano de seu mandato surgiram denúncias
36 contra ele as acusações de ser neoliberal. Mas contrariando de corrupção no governo. Apesar de toda a reper-
os comentários o governo aumentou os impostos para a cussão negativa do caso, o Brasil vivia uma estabi-
população com mais renda e ampliou uma rede de serviços lidade, o governo não foi tão abalado e Lula acabou
assistencialistas que atendiam à população mais carente. sendo reeleito.

Texto 9: A Construção de uma Nova Cidadania e os


Movimentos Sociais

Vamos começar a pensar na construção de uma nova Precisamos nos perguntar que país é esse sempre e
cidadania e os movimentos sociais lendo e lembrando da para responder temos que refletir sobre todo os con-
música “Que País é Este?”, do grupo Legião Urbana. textos que temos estudado.

“Nas favelas, no senado O fim da ditadura é marcado pela recessão econô-


Sujeira pra todo lado mica e uma grande mobilização da sociedade civil
Ninguém respeita a constituição em busca de democracia. Como vimos em relação à
Mas todos acreditam no futuro da nação democracia, o nosso país ainda é visto como novo.
Na década de 80 essas ideias e vontades democráticas
Que país é esse? permeavam por todos os contextos brasileiros, sonha-
va-se com uma sociedade melhor.
No Amazonas, no Araguaia, na Baixada Fluminense
No Mato Grosso, nas Gerais e no Nordeste tudo em paz
Com o fim do regime militar, a sociedade vive
Na morte eu descanso mas o sangue anda solto
um clima de esperança e alegria. Vivenciar um re-
Manchando os papéis, documentos fiéis
gime democrático era algo que trazia conforto no
Ao descanso do patrão
contexto social.
Que país é esse?
Contudo, nossa população aprendeu a se posicionar
Terceiro Mundo se for diante do quadro alarmante e os movimentos popula-
Piada no exterior res começam a se organizar e lutar por seus direitos. A
Mas o Brasil vai ficar rico constituição de 1988 traz em seus escritos essa neces-
Vamos faturar um milhão sidade de vivenciarmos uma cidadania plena.
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão. Leia o próximo texto complementar para refletirmos
Que país é esse?” mais sobre esse assunto.

A Construção de uma Nova Cidadania

Esta palavra pode significar muitas coisas. Em princípio, todos os brasileiros deveriam ter o direito de
exercer a plena cidadania. Como você sabe, a ideia dos direitos do homem e do cidadão surgiu durante a
Revolução Francesa de 1789, baseada nos ideais democráticos iluministas. No Brasil, nós nunca tivemos
nossa revolução francesa completa. Por muito tempo, escravos, homens livres pobres e mulheres eram não
cidadãos. No governo de Getúlio Vargas, cidadania era o direito de ser reconhecido pelo Estado, ou seja, ter
emprego fixo, carteira de trabalho assinada, sindicato aprovado pelo governo.

A Constituição de 1988 estabeleceu vários direitos de cidadania. Infelizmente, a maioria ainda não existe
na prática. O direito de ser livre, não passar fome, de ter emprego, habitação decente, médico e segurança,
de não ser violentado pela polícia, de não ser discriminado racialmente ou sexualmente tudo isso tem a ver
com a cidadania.

Cidadão é o que participa ativamente da cidade, ou seja, aquele que influencia nas decisões da comunidade.
Portanto, os direitos do cidadão só podem ser garantidos se as pessoas procurarem se interessar ativamente
pela política, se elas se associarem para defender seus direitos.
No Brasil, o governo tem feito muito pouco pelo bem público. A impressão é que o Estado sempre foi privatizado, 37
ou seja, só existiu para atender aos interesses particulares de alguns grupos privilegiados e não de toda a população.

Historicamente, o governo brasileiro nasceu opressor. Ele foi instalado pela metrópole portuguesa com
algumas finalidades básicas: submeter os índios, garantir a disciplina dos escravos, apoiar os grandes pro-
prietários, assegurar a obediência a Portugal. Quando nos tornamos independentes, o Estado nacional foi
construído pelas elites, e ele pouco tinha de democrático. D. Pedro I era um tirano, as revoltas regenciais
foram esmagadas a ferro e fogo, o parlamentarismo monárquico de D. Pedro II era baseado no voto censitário
e indireto. Na República Velha, a política era dominada pelos coronéis e pelas oligarquias estaduais. Tempo
do voto em aberto, do cabresto eleitoral, da questão social encarada como um caso de polícia. Com Vargas, o
Estado procurou incorporar a sociedade civil. Por exemplo, a imprensa estava sob censura, os sindicatos eram
subordinados ao governo e até escola de samba precisava de autorização para desfilar. A mesma truculência
foi repetida durante a ditadura militar (1964-1985): o Estado reprimindo greves, invadindo sindicatos, proi-
bindo que se criticasse o governo, fechando jornais, prendendo opositores.

O primeiro passo para "desprivatizar" o Estado é garantir que ele seja democrático. Felizmente, hoje pos-
suímos mais liberdade do que em qualquer outra época de nossa história: o presidente é eleito com voto dire-
to e secreto, a imprensa é livre, todos os partidos podem funcionar, os sindicatos têm autonomia, as pessoas
podem ir para rua protestar. Esses direitos não caíram do céu, é claro. Resultaram de anos e anos de luta do
povo contra as ditaduras. Mas isso não basta. Porque um grave problema ainda não foi solucionado: como
evitar que as pessoas elejam políticos que não têm nenhum compromisso com a população? Como, através
do jogo democrático, derrotar os políticos mentirosos, oportunistas, enganadores do povo?

O Estado brasileiro precisa de reformas urgentes para que se torne mais ágil, mais dinâmico, mais moderno, ca-
paz de atender melhor às pessoas. Não tem cabimento que hospitais públicos caiam aos pedaços, que escolas não
tenham aulas, que os aposentados recebam tão pouco, que um simples documento leve semanas para ser expedido.

Um dos problemas mais graves (e isso acontece em quase todo o mundo) é o déficit público, ou seja, o go-
verno está gastando muito mais do que arrecada com impostos. Como resolver esse problema? A sociedade
precisa aprender a controlar os atos do governo, estar sempre atenta ao que o presidente e o Congresso andam
fazendo. É desta maneira que combatemos a corrupção e o mal uso que o governo faz com o dinheiro público.

Fiscalizar para evitar a corrupção, ficar de olho para que o governo faça gastos realmente importantes para
a população não é suficiente. Porque falta dinheiro mesmo. E como conseguir? Os partidos de esquerda
propõem o aumento de cobrança dos impostos sobre os mais ricos. Os partidos neoliberais acham que há im-
postos demais e gente pagando de menos, ou seja, as empresas estariam sufocadas e muito espertalhão estaria
sonegando. É possível que cada lado tenha um pouco de razão.

Muitas pessoas argumentam que o governo não tem dinheiro para investir em energia elétrica, telefones,
estradas, hidrelétricas, fabricação de aço. Por isso, o ideal é privatizar as empresas estatais que se dedicam a
tais atividades. Desde Collor até FHC o governo vem seguindo a linha de privatizações. Fernando Henrique
Cardoso chegou a privatizar a maior empresa mineradora do mundo, a Cia. Vale do Rio Doce. Os neoliberais
acreditam que as novas empresas privatizadas vão pagar impostos bem maiores ao mesmo tempo em que o
governo já não precisa mais investir nelas. Portanto, sobraria mais dinheiro para investir no bem-estar social.

No Brasil, sempre foi corriqueiro o político arrumar empregos públicos para seus eleitores. Um povão de
gente foi nomeado para se tornar aspone (assessor de porcaria nenhuma) numa repartição qualquer. Recebem
uma grana e nem comparecem. Enquanto isso, os outros funcionários têm de se virar para atender às pessoas.
O pior é que esses cabides de empregos (onde ficam pendurados os aspones) não podem ser mexidos por
causa da estabilidade no emprego. Ou seja, depois de alguns anos, o funcionário público jamais poderá ser
demitido. Direito garantido por lei. Uma das mudanças propostas seria criar leis que permitam o governo de-
mitir os funcionários públicos em excesso. Os neoliberais são favoráveis às demissões em massa para aliviar
as contas do governo. A esquerda é contra porque quer garantir o emprego. Mas como é possível falar em
empreguismo e ao mesmo tempo não aceitar nenhuma demissão? Até mesmo os aspones devem continuar
empregados? Até mesmo os funcionários de nível de segundo grau que recebem 60 ou 100 salários mínimos
por mês ou mais? Por outro lado, como lembra um estudo do historiador, sociólogo, jornalista e professor da
UFF, Maurício da Silva Duarte, o fim da estabilidade no emprego público pode fazer do funcionarismo um
joguete nas mãos de chefes políticos, especialmente nas cidades pequenas do interior. Mais uma vez vem à
38
tona a grande questão: como garantir o controle democrático da sociedade sobre o Estado? Como estimular
as pessoas a se interessar pelo que fazem os governantes e passar a cobrar deles?

Extraído: www.brasilcultura.org/brasilcontemp.htm.

Para os estudos sobre os movimentos sociais, fare- O Brasil descrito por Caminha como a terra em que
mos agora uma leitura do próximo texto “Movimento “se plantando tudo dá” não é verdadeiro e nem todos
social e estrutura agrária brasileira: o movimento dos os que vivem neste país têm acesso à mesma
Sem-Terra” 3. quantidade de terras e da mesma forma.

“O chamado mundo subdesenvolvido ou, como A urbanização provocada pela industrialização


querem alguns, em desenvolvimento, apesar do veio alterar profundamente a distribuição da popula-
enorme crescimento econômico de alguns países gra- ção no espaço territorial brasileiro, a ponto de haver,
ças à industrialização e à urbanização que apresen- hoje, três vezes mais pessoas morando nas cidades
tam, vive às voltas com graves problemas sociais. Um que nas áreas rurais. Este é um dado que tem que fa-
dos mais graves é o da luta pela posse das terras pe- zer parte da reflexão da sociedade brasileira, quando
los pequenos produtores rurais. Este e outros temas se considera que produzir alimentos é uma questão a
serão abordados no presente texto. ser resolvida no Brasil.

O fim das formas tradicionais de produzir, in- Se, teoricamente, o Brasil tem possibilidades, do
viabilizadas pela modernização, criou significativos ponto de vista territorial e do número de habitantes,
contingentes sociais que já nascem sob o signo de ser um grande produtor de frutas, verduras,
da exclusão, totalmente impedidos de ter acesso legumes, derivados de leite, carne etc., de modo que
aos benefícios que possam estar disponíveis no todos possam viver com abundância, por que a fome
mundo moderno. é uma evidência no nosso país? Por que a maioria
da população é subalimentada, em que pese os
Dentre essas graves questões, pode-se citar a fome, dados estatísticos que escamoteiam a realidade?
a falta de uma educação de qualidade, o não acesso Como explicar a situação de profunda desigualda-
à saúde, a violência e a criminalidade, o tráfico de de, com referência à distribuição de alimentos que se
drogas. verifica na sociedade brasileira?

Se não se pode sempre afirmar que as grandes De antemão, pode-se dizer que o fato de se ter mais
formações urbanas são constituídas de problemas – pessoas nas cidades que nas zonas agrícolas ou
uma vez que, ao lado de acumulá-los, acumulam de possuir uma enorme população não é o que provo-
também empregos, recursos financeiros e é, sem ca a fome no Brasil. É, antes de tudo, o fato da produ-
dúvida, um imenso mercado concentrado – pode-se ção de alimentos ser insuficiente e mal distribuída.
dizer, no que se refere às causas da metropolização
nos países periféricos, que o que se presencia é fruto Vários fatores contribuem para esse quadro, entre
de um capitalismo dependente, com todas as mazelas os quais: 1) fatores naturais ligados ao potencial do
que isso significa. solo; 2) possibilidades de exploração das áreas
agricultáveis; 3) a estrutura fundiária; 4) a capacida-
No caso específico do Brasil, não há muitas di- de de consumo das diferentes camadas da população.
ferenças. As ocupações geradas pela indústria pro-
vocaram um intenso fluxo migratório campo-cidade, Apesar de os brasileiros viverem a ideologia do Bra-
de tal forma que hoje mais da metade da população sil como "celeiro do mundo", da terra boa de onde
brasileira vive nas cidades, nas mais variadas tudo se pode tirar, "a maioria dos solos brasilei-
condições, em alguns casos em situação de enorme ros são pobres e ácidos e apresentam os problemas
precariedade. comuns ao ambiente tropical, como a lixiviação, [...]
a erosão e a laterização". (Moreira, 1995).
Uma das grandes questões sociais brasileiras é
a fome, que constitui também uma questão políti- Para superar tais problemas é necessário que os so-
ca, gerada pela injusta distribuição da terra. los sejam corrigidos e adubados, a fim de incremen-

3
Extraído e adaptado do instrucional da disciplina Contextos Brasileiros.
tar a produtividade. Isso exige o desenvolvimento A maior parte da produção agrícola brasileira é
de técnicas agrícolas, escolha do produto a ser plan- destinada ao mercado externo, pois ela deve, em 39
tado, irrigação, uso de fertilizantes e defensivos agrí- primeiro lugar, gerar divisas, através da exportação
colas, medidas que deverão ser utilizadas de acordo de seus produtos. Em segundo lugar, ela é dirigida
com cada situação específica. diretamente às indústrias, fornecendo-lhes matérias-
primas ou combustíveis. Em terceiro e último lugar
Essa é uma questão séria no Brasil, país que é que se exige que ela seja fonte de alimento para os
apresenta um panorama onde relevo, vegetação, grandes contingentes da população brasileira. É cla-
médias de temperaturas e quantidade de chuvas ro que este último objetivo é o que é atingido mais
determinam um mosaico de diferentes paisagens. E, precariamente. Pode-se afirmar, sem sombra de dúvi-
como se sabe, o que é bom para determinado lugar da, que a produção agrícola para consumo próprio
não o é, necessariamente, para outro. Aliás, as é claramente minoritária no território brasileiro.
tentativas de padronização têm sido mais desastrosas
do que benéficas, no caso da agricultura. Apesar de se saber que ainda existem no Brasil
grandes áreas não apropriadas para a agropecuária,
O fato de o Brasil possuir grande parte de suas ter- a concentração de terras é algo estarrecedor em nos-
ras localizada na zona tropical faz com que a maioria so país. Este é, aliás, um dos maiores problemas
de suas lavouras seja igualmente tropical, o que o brasileiros. Um pequeno número de proprietários
torna um exportador desses produtos e importa- concentra a maior parte das terras e os melhores so-
dor de outros. Isso evidencia sua impossibilidade de, los, ao mesmo tempo em que um imenso número
sozinho, satisfazer integralmente à demanda nacio- de pequenos proprietários possui áreas ínfimas.
nal de alimentos.
O que a Constituição estabelece é que não haverá
Deve-se considerar, ainda, as diferenças observa- reforma agrária em terras produtivas. O que a medida
das no relevo, que vão influenciar e limitar a prática provisória ainda em vigor acrescenta é que não será
agrícola porque determinam, por exemplo, o regime desapropriada a terra que for invadida. Com isso, o
dos rios, fator primordial na agricultura. que a legislação está determinando é que a reforma
agrária será feita respeitando a propriedade privada,
Outras questões naturais vão influenciar a poten- mas exigindo que quem a possui respeite o princípio,
cialidade agrícola do território brasileiro. No entan- também constitucional, da função social. A MP está es-
to, isoladas não explicam a relação entre a produção tabelecendo que quem manda no ritmo, na forma e no
de alimentos e a prática de agricultura no Brasil. local da ação governamental é apenas o governo.”

Texto 10: O Brasil e o Contexto Internacional

A sociedade mudou bruscamente desde a primei- histórico intrinsecamente contraditório e complexo


ra Revolução Industrial. Os costumes, os modos de que caracteriza, em nossa perspectiva, uma nova eta-
produção e as relações humanas sofreram grandes pa de desenvolvimento do capitalismo moderno.
transformações a cada mudança de modelo econômi-
co vigente e de regime político. O capitalismo como É resultado de múltiplas determinações sócio-
conhecemos hoje sofreu modificações diversas. históricas (e ideológicas). Portanto, as três dimensões
da globalização que não podem ser separadas e que
A todo o momento esse modelo deixa transparecer sua
compõem uma totalidade concreta sócio-histórica,
fragilidade com enormes crises. As sociedades que de-
completa e integral são:
tém o poder através desse modelo surgem sempre com
uma reformulação. Contudo não se desligam de suas 1. A globalização como ideologia;
bases, de seus princípios que salientam um dos maiores 2. A globalização como mundialização do capital;
problemas da sociedade atual, que é a desigualdade 3. A globalização como processo civilizatório huma-
no-genérico.
Globalização e Neoliberalismo Portanto, a globalização tende a constituir novas
Em meio a tudo que estudamos até o momento, va- determinações sócio-históricas no (1) plano da
mos compreender o que é a chamada globalização? ideologia e da política, (2) no plano da economia e da
sociedade e (3) no plano do processo civilizatório
A globalização é um processo de integração de eco- humano-genérico, vinculado ao desenvolvimento das
nomias e mercados nacionais. É um fenômeno sócio- forças produtivas humanas.
40 Podemos agora pensar nessa relação de interdepen- dos países membros, o preço de matérias-primas, de
dência. Ela é igual para todos os países? Cabe-nos, mão de obra, de serviços.
nesse momento, algumas perguntas como: Para quê?
Para onde? E, principalmente, para quem está aconte- Fique atento!
cendo essa globalização?
Vale a pena procurar um aprofundamento no seu
Vamos entender a globalização no mundo contem- estudo, pesquisando um pouco mais sobre os blo-
porâneo? cos econômicos.

A partir da década de 70, detectou-se a necessida- Agora, para entender um pouco mais sobre a relação
de de um mercado global para criar a concorrência do neoliberalismo e a globalização, leia o próximo
texto complementar retirado de www.culturabrasil.
tão importante em uma economia capitalista. Foi
org/planoreal/htm,que fala da implantação do mode-
pensado em um mundo que não tivesse barreiras, lo econômico neoliberal no Brasil feito por Collor.
nem protecionismo que fosse regulamentada ape-
nas pelo mercado sem interferência de nenhum “(...)O projeto econômico do governo Collor era
governo. apoiado no neoliberalismo. Segundo Fernandinho e
Zélia, este seria o caminho para o país ingressar no
Mas analisando nossa realidade, a globalização é Primeiro Mundo. Vamos entender como é que o neo-
a solução ou é um problema? A globalização trouxe liberalismo apareceu no mundo?
para os países em desenvolvimento melhorias e solu-
ção dos problemas sociais? O capitalismo vivia uma profunda transformação des-
de a crise internacional de 1973. Em primeiro lugar, as
Para responder a essas questões, precisamos empresas multinacionais passaram a ser responsáveis
refletir bastante, pois não é difícil percebermos pela maior parte do volume de produção e comércio do
que a globalização é contraditória, que surgiu mundo. O que significa que os investimentos no estran-
geiro eram cada vez maiores e a economia se tornava
sob o signo da desigualdade. Esse mundo global
globalizada: um produto poderia ser feito com peças
no qual vivemos hoje é baseado em uma eco-
vindas, por exemplo, do México, Sri Lanka, Japão e Itá-
nomia que nos leva a perder a ideia de bem co- lia, para ser vendido em todos esses países.
mum. O desemprego, a falta de acesso à educa-
ção e à saúde, as condições subumanas de vida, Em segundo lugar, o volume de capital gerado pelas
as guerras, tudo isso está aí, não só no Brasil, a empresas particulares superou o que estava nas mãos
desafiar o mundo. do Estado, o que certamente revelava a inferioridade
econômica do governo diante dos grandes monopó-
Segundo Alves (2001), as dimensões da globali- lios e incentivava a privatização de empresas estatais.
zação são contraditórias e pelo lado de sua ideo-
logia tenta-se “ocultar” a desigualdade e exclusão Em terceiro lugar, a concorrência entre a Europa oci-
causada pela mundialização do capital. É preciso dental, os EUA e o Japão exigiu um aumento de eficácia
entender seu lado dialético, sendo como um pro- na produção e uma busca frenética por novos mercados.
cesso civilizátorio ou como uma barbárie que con- Em resposta a essas exigências, aconteceu a afirmação
tribui para a sedimentação de particularismo locais dos setores de serviços de alta tecnologia (informáti-
e regionais. ca, telecomunicações, robótica, engenharia genética,
química fina) e a reestruturação das empresas (técni-
cas administrativas de reengenharia cortando o número
Precisamos dar valor a essa dialética para não
de empregados, controle de qualidade, computadores
cometermos erros.
e robôs substituindo mão de obra, terceirização, isto é,
empresas que encerram determinadas sessões e passam
Em meio a todas essas transformações que a socie- a contratar outras empresas para fazer aquele serviço).
dade mundial tem sofrido nos últimos séculos, no
contexto atual, a globalização da economia tem de- Desde a crise de 1929 que o Estado capitalista se
sencadeado a formação de blocos econômicos supra- intrometia fortemente sobre a economia. Receitas
nacionais, que possuem como objetivo fazer frente a do economista J. M. Keynes para estimular o cresci-
políticas cada vez mais competitivas, diminuindo ao mento e evitar os desarranjos do mercado. Depois da
máximo as tarifas dos produtos gerados no interior Segunda Guerra, o keynesianismo levou ao Welfare
State, o Estado do bem-estar. Mas a crise de 1973 6. Estímulos para os investimentos de capital es- 41
e as mudanças que nós relatamos acima, deram voz trangeiro. A economia do planeta está se tornando
a economistas como Milton Friedman e Friedrich multinacional.
Hayek, que atacavam violentamente as ideias keyne-
sianas. Assim, nos anos 80, Keynes saiu da moda e Os neoliberais defendem um regime político liberal,
os países desenvolvidos começaram a seguir o neoli- ou seja, com eleições decentes, liberdade de impren-
beralismo. Os primeiros “heróis” neoliberais foram sa, pluripartidarismo. Acontece que neoliberalismo
o presidente Ronald Reagan (EUA) e a primeira-mi- econômico não é a mesma coisa que liberdade políti-
nistra Margareth Thatcher (Inglaterra), verdadeira ca. Foi o caso do Chile, que já nos anos 80 aplicava
heroína de Collor (o que ela fazia o deixava muito as receitas neoliberais, mas dentro de uma das piores
doidão). Quase todo o mundo desenvolvido seguiu ditaduras militares que o continente já conheceu (a
suas receitas, menos o Japão. do general Pinochet).

A ideia básica do neoliberalismo é a de que, se os Sem dúvida alguma, Collor foi o primeiro e é o prin-
homens tiverem total liberdade para investir e lucrar, cipal responsável por ter “rolado a bola” do neolibe-
chegarão a um desenvolvimento do mercado capitalis- ralismo em nosso país. Foi ele quem combateu leis na-
ta que beneficiará a toda sociedade. Vamos ver como: cionalistas que controlavam os negócios das empresas
estrangeiras no Brasil e quem iniciou um programa
1. Os neoliberais acham que o Estado não deve se consistente de venda das empresas estatais. Ao se re-
intrometer sobre a economia. Por isso defendem a cusar a pagar aposentadorias melhores, Collor tam-
privatização, ou seja, as empresas e bancos estatais bém mostrava seu empenho em adotar a ideia neoli-
seriam todos vendidos para as empresas particulares. beral de cortar brutalmente os gastos do governo com
Num segundo passo, seriam privatizados os hospitais programas sociais. Tudo isso, dizia ele, faria o Brasil
públicos, a assistência social (aposentadoria e planos entrar no Primeiro Mundo.
médicos seriam feitos por empresas privadas espe-
cializadas, que receberiam mensalidades das pessoas Enquanto o país esperava para entrar no Primeiro
interessadas) e as universidades do governo. Mundo, Collor tratou ele mesmo de ir para lá fazer
umas comprinhas no seu estilo de consumidor yup-
2. Os impostos cobrados sobre os ricos devem ser me- pie: gravatas Hermès, uísque Logan 12 anos, malas
nores. Aumentariam as diferenças sociais mas, em com- Louis Vuitton. O governo mandou liberar as importa-
pensação, argumentam os neoliberais, sobraria mais di- ções, abaixando as tarifas alfandegárias: foi a partir
nheiro para os ricos investirem na economia, resultando, de Collor que o país foi invadido pelos produtos es-
a médio prazo, em mais empregos e melhores salários. trangeiros, de eletrodomésticos a queijos franceses,
de quinquilharias coreanas a vinhos alemães. Os
3. As duas medidas anteriores se ligam ao corte nos automóveis nacionais foram xingados de “carroças”
gastos públicos. Nem investimentos em empresas es- e esperava-se que a abertura para os importados
tatais nem gastos sociais. criasse concorrência, o que forçaria as multinacio-
nais do Brasil a melhorar a qualidade de seus produ-
4. Desregulamentação da economia. Facilidades tos. Havia um fundo de verdade nisso tudo. Além do
absolutas para o vale-tudo capitalista. Isso inclui mais, puxa, graças a Collor, qualquer favelado já ti-
abertura para as importações (baixas taxas alfan- nha o direito de comprar automóveis Mercedes Benz,
degárias) e o fim do controle do governo sobre as telefone celular e gel para passar no cabelo.
operações financeiras. No mundo inteiro estão se for-
mando livres mercados, como o da União Europeia, O presidente era um Indiana Jones tupiniquim. Ado-
o Nafta (Canadá, EUA, México), o Mercosul (Brasil, rava a imagem de esportista, de atleta que tudo pode.
Argentina, Paraguai, Uruguai) e as ligações entre Parecia que todos os problemas seriam facilmente re-
o Japão e os Tigres Asiáticos (Coreia do Sul, Hong solvidos porque o homem do Planalto possuía a sutile-
Kong, Formosa). za de um lutador de caratê e a inteligência de um faná-
tico por jet-ski. O segredo para disparar a economia
5. Facilidade para contratar e demitir mão de obra, era o mesmo usado para acelerar uma moto Kawasaki
tornando as empresas mais ágeis. Isso significa abo- 1000. Enquanto isso, o povo competindo na raia, na
lir leis de proteção trabalhista. Os sindicatos podem modalidade “disputa por uma migalha de comida”.
protestar. Neste caso, um dos objetivos do neolibe-
ralismo é destruir o poder dos sindicatos operários. Fonte: www.culturabrasil.org/planoreal/htm.
Nesse contexto, nosso país está se desenvolvendo. Nosso futuro recomeça:
42 Finalizando nossos estudos, leia a música a seguir, Venha, que o que vem é perfeição”
Perfeição, de Renato Russo.
Como é difícil acharmos a perfeição para atender-
“(...) Vamos festejar a violência mos de forma mais justa e igualitária para nossa so-
E esquecer a nossa gente ciedade. Acredito que essa busca será eterna. Mas não
Que trabalhou honestamente a vida inteira é pela dificuldade que iremos desistir de construir a
E agora não tem mais direito a nada sociedade que almejamos.
Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso Caros alunos, agora que finalizamos nossos estudos,
Nosso descaso por educação temos certeza que no Brasil vocês já farão a diferen-
Vamos celebrar o horror ça. Serão cidadãos capazes de compreender a influ-
De tudo isso ência do contexto histórico e a importância de bus-
Com festa, velório e caixão carmos a ampliação continua de nosso conhecimento
Está tudo morto e enterrado agora para atuarmos com mais qualidade nessa sociedade
Já que também não podemos celebrar tão diversificada.
A estupidez de quem cantou esta canção
Venha meu coração está com pressa Lembro que essa disciplina e material de estudo
Quando a esperança está dispersa contemplam uma atualização da antiga disciplina
Só a verdade me liberta Contextos Brasileiros, e para um maior entendimen-
Chega de maldade e ilusão to e mais ampliação de conhecimento você não deve
Venha, o amor tem sempre a porta aberta fixar seus estudos apenas nesse material, utilizando
E vem chegando a primavera também todas as indicações que fazemos.

Exercícios
1) “...Me dá, me dá/ Me dá o que é meu/ Foram vinte anos/Que alguém comeu...” (Samba-enredo da escola
de samba Império Serrano).

Esta música relata de uma forma bem humorada a situação da democracia na época da ditadura militar. Sobre
este período podemos afirmar:

a) Foi um período em que, apesar dos anos de chumbo, conseguimos votar para presidente.
b) Foi o período de maior progresso democrático.
c) Perseguiam, torturavam e matavam as pessoas que não aceitavam o regime militar.
d) A ditadura nunca perseguiu ninguém, isto era boato da oposição.

2) “Brasil ... Bar Brasil/ Berço das grandes revoluções/Pra quem se queixa que dá um duro danado/ E é mal re-
munerado/ Pro revoltado com as broncas do patrão/ Ai, quem me dera se eu fosse um marajá (oba)/ Ganhasse a
vida sem precisar trabalhar/Mas acontece que é só a minoria/ Que desfruta a mordomia/ Nessa tal democracia/
Apertaram o gatilho num salário baleado/ Outra piada depois desse tal Cruzado”. (Samba-enredo da Unidos
da Tijuca – 1988)

Este enredo conta história do Plano Cruzado, política econômica do governo Sarney. Sobre este plano, pode-
mos afirmar:

a) Esta política favoreceu a classe trabalhadora pois aumentava o salário todo mês.
b) O governo bloqueou todo o dinheiro aplicado nos bancos dos investidores.
c) Com a volta da democracia, a economia foi estabilizada.
d) Este plano causou o problema do ágio e a subida dos preços dos produtos causando perdas salariais para
os trabalhadores.

3) “... E sem o seu trabalho/O homem não tem honra...” (Guerreiro Menino – Gonzaguinha).

“Garantindo a tranquilidade política, Juscelino partiu para o seu programa econômico, que tinha como slogan
“50 em 5”, isto é, cinquenta anos de progresso em cinco anos de governo” (FAUSTO, Boris. História geral da
civilização brasileira. 3 ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil,1995).
Sobre o período em que o Brasil foi governado por JK, é correto afirmar que houve:
43
a) Uma baixa inflação na economia brasileira.
b) Um aumento das desigualdades sociais entre a população brasileira.
c) Um pequeno aumento da dívida externa.
d) Intervenção estatal.

4) “Não devemos esquecer/Do confisco da poupança? De milhões de pessoas? Que guardaram na lembrança/ e
cresceu o desemprego/Isto não é mais segredo/Só restando a esperança.” (SILVA, Ulisses Higino. “O caçador de
marajás e a realidade trágica”. In: CURRAN, Mark. História do Brasil em cordel. São Paulo: Edusp, 1991, p.243.).

Sobre o governo Collor, podemos afirmar que:

a) Collor foi o salvador da pátria pois conseguiu elevar a nível de vida dos pobres.
b) O dinheiro confiscado foi para investir na saúde e educação, como o programa Bolsa Família, que Lula
prometeu continuar.
c) Apesar de todas as críticas o plano foi a fórmula do sucesso econômico.
d) O confisco da poupança e o congelamento de preços e salários foi uma das características do plano Collor.

5) “Nos barracos da cidade/Ninguém mais tem ilusão /No poder da autoridade/De tomar a decisão/E o poder
da autoridade/Se pode não faz questão/ Mas se faz questão não consegue enfrentar o tubarão...” (Nos barracos
da cidade – Gilberto Gil).
Esta música nos remete à reflexão sobre a exclusão social. Com relação a este assunto, podemos afirmar:

a) A concentração de renda e a falta de políticas públicas são as maiores causas da exclusão social.
b) A causa da exclusão social é a preguiça do pobre.
c) Os governos brasileiros sempre favoreceram a maioria pobre mas o povo não toma uma atitude.
d) O povo vota consciente naquele candidato que dará uma vida digna para os favelados e confiscará os
privilégios dos ricos.

Gabarito:
1-C
2-D
3-B
4-D
5-A
Glossário
44
Burguesia - grupo social constituído pelas pessoas ricas, comerciantes, empresários, banqueiros, industriais.
Capitalista - modelo de produção de riquezas que substituiu o feudalismo, onde o mais importante é o capital,
o dinheiro. A riqueza, as máquinas, o dinheiro, as ferramentas pertencem a um grupo social chamado burguesia.
Colonização - processo de dominação política e econômica de uma região, feita por um país mais poderoso.
Cultura - instituições, culturas e valores de uma sociedade.
Especiarias - produtos vindos do oriente como pimenta, cravo, canela e que tinham grande aceitação comercial na Europa.
Estado - divisão territorial de um país sob um governo central.
Feudalismo - forma de organização social, econômica e política onde, entre outras coisas, a riqueza girava em
torno da posse da terra (chamada de feudo). Quem tinha terra era nobre e tinha todos os direitos e privilégios.
Identidade - características de um indivíduo.
Mercantilismo -conjunto de práticas desenvolvidas pelos países europeus entre os séculos XV e XVIII, bus-
cando o enriquecimento do Estado e o fortalecimento do rei.
Metrópole - país colonizador, que domina uma outra região ou país em seu benefício.
Miscigenação - mistura racial.
Nação - diz-se do conjunto de habitantes de um território ligados por tradições, lembranças, interesses, língua
e aspirações comuns e ligadas a um governo central.
Pacto Colonial - estrutura de exploração desenvolvida por um país europeu sobre uma colônia, por exemplo
entre Portugal e Brasil, onde a colônia serve para enriquecer e complementar a economia da metrópole.
Pré-colonial - período que, no Brasil, refere-se aos anos 1500 a 1530, quando Portugal não se interessou em
ocupar a terra.
Quilha - parte inferior na frente do navio.
Bibliografia Básica
45
ALENCAR, Francisco; CARPI, Lucia; RIBEIRO, Marcus Venício. História da sociedade brasileira. Rio de
Janeiro: Ao Livro Técnico,1980.
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Material Didático Instrucional


Núcleo Integrador/ Universidade Castelo Branco – RJ. UCB, 2006 – 308 p.

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