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Subserviência

Assim que subiu no elevador já sentia as roupas ficando mais largas, não sabia ao
certo o porquê.

A porta abriu, revelando entre as paralelas de metal o corredor já familiar. O suor


escorreu frio pelo meio das costas. Preciso comprar um cinto. Começou a andar por entre as
paredes cor de marfim envelhecido, e por cima de um tapete marrom de mal gosto, até
chegar ao ponto crucial entre a sala de reuniões e a copa, onde Caio lhe abordaria. Após
alguns passos o colega emerge de seu cubículo com um sorriso da cor das paredes, com um
olhar tão habitual quanto o corredor, insinuando o óbvio - "café?!".

Eles se esbarravam naquele ponto do trigésimo sexto andar todos os dias, e todos
os dias ouvia o mesmo pedido frustrante. O café preto com três sachês de açúcar desperta
em si o desejo macabro de que o colega sucedesse à diabetes. Santos vai até a copa e pega
o copo plástico varando a quentura do líquido preto nas mãos e entrega-o ao homem. Sente
o prazer inundar os olhos dele. Quando esse ritual começou, há dois anos antes, acreditava
que o brilho incomum provinha da expectativa pela bebida escaldante, somente com o tempo
passou a notar uma malícia quase imperceptível naquele olhar.

Depois de alguns desagradáveis minutos de interação social forjada, segue seu


caminho. Seu destino final é a sala de reuniões, onde irá encontrar os produtores do show.
Sempre era o primeiro a chegar. Gostava do silêncio inicial que precedia os zumbidos e
risadas exuberantes de seus colegas, forçadas, claro, para agradar a chefia medíocre da
emissora. O cheiro do cômodo era como um comprimido amargo de Xanax; a madeira na
mesa central tinha a mesma textura e tonalidade da escrivaninha onde escrevera suas
primeiras esquetes quando adolescente. Se perguntava de que forma o lugar era tomado por
aquela olência tão particular quanto enigmática. Talvez fosse coisa de sua cabeça.

“Precisamos que o stand up inicial tenha pelo menos uma referência ao surto
daquela retardada. É só disso que se fala nos sites de fofocas. Vamos explorar o assunto” – a
voz abafada pela divisória de concreto anunciava a chegada dos produtores. Que retardada?

“Santos Lacaio! Que bom que já está aqui. Vamos começar então. Para o show de
amanhã precisaremos de sete minutos de exposição antes de começarmos as entrevistas, e
nosso foco central será Maria Cecília.” O suor cessa e os batimentos cardíacos aceleram. Que
Maria Cecília?

*****

Acordava cedo para poder chegar à tempo no emprego medíocre de redator de


um jornal sem importância. Três horas de transporte público eram necessárias para adentrar
o sobradinho, onde passaria oito horas diárias sonhando com o dia que alguém, além de
Cecí, reconheceria seu talento. Suspeitava que suas piadas não fossem tão boas assim, afinal
Cecí ria de tudo o que falava.

A moça ainda jovem e livre de perversidades preparava o café fresco. O dia ainda
não amanhecera completamente. Ele, consternado, se levantava para tomar uma ducha fria,
enquanto Cecí terminava de se arrumar. Ela também tinha que madrugar. Não era fácil nem
rentável viver das artes cênicas. Sentia culpa por ter que confiar à Santos as contas mais
pesadas do mês. Mas Cecí fazia de tudo para conseguir algum bico de garçonete aos fins de
semana para que Santos não se apertasse tanto - não que ele se importasse, ele nunca se
importava. Santos também não ligava quando o motorista do ônibus da linha azul parava um
quarteirão à frente do ponto que descia, fazendo com que ele tivesse que atravessar,
desnecessariamente, uma praça escura e perigosa até o infame sobradinho. Passava pela
cabeça reclamar com a companhia de fretamento, mas nunca tomara a iniciativa.

Voltando para casa naquele dia, já tarde da noite, o jovem comediante ansiou por
ver Cecí. Queria contar à parceira que tinha sido nomeado o funcionário mais solícito do
trimestre – por mais ridículo que o tal feito fosse, com a bonificação extra conseguiria levar
Cecí ao restaurante peruano que ela queria tanto ir. Não conseguira o reconhecimento à
custo de nada, Santos era o faz-tudo do lugar. Simplesmente não conseguia dizer não ao
chefe, por mais que enxergasse a maldade nos olhos dele. A conquista minguada viria em
hora certa. Cecí também o aguardava para contar as boas novas; tinha sido escalada para o
papel de protagonista em uma novela de horário nobre. Os dois saíram para comemorar o
sucesso dela.

Aquela noite foi feliz. Naquela noite os dois conversaram sobre os planos futuros,
sobre o desejo de sucesso profissional. Cecí tinha sede por reconhecimento. Precisava provar
à mãe acadêmica que o que escolhera fazer era tão digno quanto as pesquisas que a figura
materna desenvolvia. Ela consolava Santos, assegurando que ele também conseguiria o que
tanto almejava; ser host de um talk show, e fazer nele o que sabia fazer melhor; tratar de
assuntos sérios usando o humor como ponte para atingir as pessoas com senso crítico falho.
Queria falar de política e sobre as relações humanas. Não tinha certeza se o seu plano iria
funcionar. O problema da ignorância é que, como todos os corpos, tende a permanecer na
inércia.

Santos nem percebera que tinha pegado no sono enquanto conversava com Cecí
tarde da noite. O prato fundo de Ceviche pesara no estômago. O clarão da manhã invadia o
quarto timidamente; uma pequena fresta de luz surgiu entre o vão central das duas cortinas
que dançavam com o balanço do pano exposto à brisa matinal. Entrelaçado no corpo de
Cecí, só conseguia pensar que não queria que ela acordasse, não queria que ela levantasse
para fazer o café, queira se deixar ficar ali. O cheiro de lavanda exalado dos longos cabelos
dela misturava-se com o do tabaco. Como era linda Cecí. Ao lado dela não se sentia pequeno.
Todas as suas células sensoriais afloravam. O cobertor macio tocando a perna direita, a calor
do corpo da mulher encostado no seu, contrastando com o ar gélido da manhã que fazia
arrepiar os pelos das partes descobertas. Ele não queria mesmo que ela levantasse. Mas
levantou. Era sábado, e tinha muito o que fazer. Tinha que reunir a papelada para finalizar a
contratação, nesse dia mesmo iria se encontrar com o roteirista para que lhe passassem as
primeiras instruções.

Em poucas semanas Santos começara a acordar sozinho e fazer o próprio café.


Quando chegava da redação no fim da noite não a mais encontrava cochilando no sofá. A
intimidade passara a ser escassa. Agora era ela quem assumia as contas da casa. Ele estava
tão feliz por Cecí, mas por ela somente. A amargura desse sentimento duplo o consumiu dia
após dia. Sentia falta da lavanda e do tabaco. E ela já não aguentava o sentimento de auto
piedade dele.

Nas idas e vindas até o sobradinho começou a imaginar a vida sem Cecí. Mas esses
pensamentos sempre eram acometidos pela doce lembrança dela ao seu lado. Estava lá
quando seu pai teve um surto psicótico e quebrou a porta de vidro da casa da família
cortando-se nos cacos remanescentes na estrutura de metal. As cicatrizes que o pai carregava
no corpo eram tão profundas quanto as que Santos carregava no psíquico. Ela também estava
lá quando o irmão caçula falecera prematuramente em um acidente de carro. Ela nunca lhe
dissera nada, mas a sua presença e seu toque eram reconfortantes quando o peso da vida
estacionava nos ombros fatigados de Santos.
Ele não precisou continuar com o ritual de tortura, pensando no rumo de seu
relacionamento com Cecí, a cada longa condução até seus destinos diários. As roupas
começaram a folgar no corpo. Com a chegada do inverno, ela partiu.

*****

Há mais de três anos não via a antiga melhor amiga pessoalmente. Eles ainda tinham
um ao outro nas mídias sociais. Ele sabia que depois da novela ela fez dois filmes de sucesso.
Ela sabia que ele tinha conseguido uma posição de destaque escrevendo pequenas comédias
para a mesma emissora que lhe dera a oportunidade de sua vida, um ano após o
rompimento. Ela também sabia que Santos chamou atenção da mídia depois de publicar um
stand up de cinco minutos em um canal no Youtube em que fazia referência à Groucho Marx.
Mas não sabia que depois de ganhar certa popularidade, ele tinha juntado um pouco de
dinheiro e mandado seu chefe à merda no andar superior do sobradinho – talvez uma das
únicas vezes que Santos não agira frouxamente. Nesse mesmo dia a foto de funcionário mais
solícito foi retirada da parede, claro. Tentou ligar para ele para parabenizá-lo, mas não teve
coragem. Nunca se perdoara pelo abandono repentino. Que pena.

Em pouco tempo Santos foi promovido e passou a apresentar seu próprio


programa. Não tinha o formato que quisera que tivesse. Entrevistava celebridades
desinteressantes e contava piadas prontas e rasas para agradar ao público. É só o começo.
Em breve terei autonomia o suficiente para poder abordar os assuntos que me interessam .
Dois anos se passaram, e continuava se sentindo pequeno. Sua motivação era alimentada
pela esperança de algum dia fazer feliz o adolescente perdido atrás da escrivaninha na casa
do pai.

Santos contava em seu show sobre o ganho de peso da celebridade x e sobre o


problema de alcoolismo da celebridade y. Toda vez que tentava convencer os produtores de
introduzir algumas anedotas políticas era recusado. Com um sorriso no rosto, concordava
com eles quando diziam que não era o momento certo. O malogro profissional passava
despercebido entre a família e os amigos, mas não por Cecí. Ela o conhecia. Ela sabia que ele
não estava feliz, e que não iria conseguir irromper com aquela situação.

Cecí também não estava em um momento bom em sua carreira. Depois de uma
rápida ascensão, há meses não recebia nenhuma proposta. Só aparecia nas colunas de
fofocas por estar saindo com o governador do estado. Ele a usava como laranja para diversos
esquemas de corrupção. Ela não entendia e assinava todo e qualquer papel que o político
lhe trazia. Estava ocupada demais pensando em formas de continuar no topo para prestar
atenção nas notas de rodapé.

*****

“Bem simples e engraçado. Ela virou piada no país inteiro, nem precisamos nos
esforçar muito”. Um gargalhar alto se propaga pela sala de reuniões. “Como assim ela não
sabia que estava ajudando ele a desviar dinheiro? Ou é burra ou é sínica. Tomara que pegue
um bom tempo atrás das grades e que lá tenha o rosto de songa monga desconfigurado por
alguma favelada. Essa corja merece”. Não. Não minha Cecí. “Vamos dedicar todo o stand up
no começo do programa a esse assunto”. Por favor, não. “Podemos começar passando o
vídeo dela tendo um ataque de nervos no restaurante quando a PF levou ela sob custódia.”
Mais uma propagação de risadas altas. As roupas estavam tão largas que mal sentia tocar-
lhe o corpo.

20h. Foi para casa, agora um apartamento em um bairro nobre. As pernas


bambearam por todo o caminho. O carro de luxo gritava com o peso dos pés frouxos
batendo nos pedais. Os outros condutores ao redor buzinavam freneticamente. Não dormira
essa noite. No outro dia de manhã levantara da cama com os olhos estalados convencido de
que não iria trabalhar. Rodou nos pensamentos diversas narrativas odisseicas para usá-las
como desculpa pela não presença no show. Dois maços de cigarros, algumas xícaras de café
e uma verdadeira caminhada em círculos dentro do próprio escritório depois, Santos não
conseguira pegar o telefone para informar os produtores que não poderia comparecer.
Tomou uma ducha fria. Colocou as roupas ridiculamente folgadas. Voltou para a emissora
virado.

A porta do elevador abriu, revelando entre as paralelas de metal o corredor já


familiar. O suor escorreu frio pelo meio das costas. "Café?!". Passara reto dessa vez, deixando
Caio intrigado. Entrou na sala de reuniões. Ninguém havia chegado ainda. Algo estava
diferente. A sala não tinha mais aquele cheiro peculiar, o cheiro de esperança.

Depois da reunião, caminhou até o estúdio e gravou o stand up sobre Cecí. Não
entro para clubes que me aceitem como sócio. Foi o programa com a maior audiência
naquele mês. Cecí foi absolvida e continuou a carreira como se as acusações fossem uma
mera eventualidade. Conseguiu outros papéis, papéis melhores. Santos Lacaio nunca mais
sentiria o tabaco misturar-se com a lavanda. E aprendera com a vida que a ignorância contida
nas mãos da elite pobre de espírito só pode ser combatida com assertividade ideológica
muito bem exercida. Santos Lacaio nunca encontrou a realização profissional. Cecí continuou
sentindo o desprezo nos olhos da mãe em meio à multidão de jornalistas que queriam tirar
uma foto sua saindo da emissora.

O encontro final foi no programa dele. Ele a entrevistara como se nunca tivessem se
conhecido antes. Mas a cada vez que os olhos se encontravam a angústia pelo que poderia
ter sido e pela certeza do que nunca irá ser espremia os sonhos nostálgicos que um dia
cultivaram juntos.

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