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EMOÇÃO CONTIDA

FIRECLOUD

Lynn Erickson

A cúmplice solidão noturna, o apelo da paixão... Até que ponto Adam seria
capaz de resistir?
Robin admirou o luar sobre a imensidão do canyon, depois, com um suspiro, voltou
o rosto para Adam. Estavam sozinhos ali, homem e mulher à mercê da suave magia de
uma noite estrelada. Mas ele permanecia com o olhar fixo nas chamas da fogueira, a
expressão impenetrável, belo como seus ancestrais apaches que um dia tinham sido os
donos daquelas terras. Ignorava-a, mantinha distância, negando-se à força do amor como
se entre ambos se abrissem intransponíveis abismos. Que segredo torturava-lhe a alma,
impedindo-o de tomá-la nos braços e dar vazão ao desejo que os consumia?

Digitalização: Tinna
Revisão: Amanda
Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

Título: Emoção contida

Título original: Firecloud

Autor: Lynn Erickson

Copyright © by Molly Swanton & Carla Peltonen

Publicado originalmente em 1988 pela Harlequin Enterprises Limited, Toronto, Canadá


Tradução: Cecília C. Bartalotti

Copyright para a língua portuguesa: 1989

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.


Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 — 3º andar
CEP 01452 — São Paulo — SP — Brasil
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressa na Artes Gráficas Parâmetro Ltda.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

CAPÍTULO I

Em vinte minutos já seria tarde demais, pensou Robin Hayle, enquanto abria a porta
de sua loja. Eram seis e cinco da manhã e logo o céu mudaria seu tom cinza perolado
para rosa, depois dourado, e as sombras na praça ficariam todas erradas para o efeito
que ela desejava. Acendeu as luzes nos fundos de seu estúdio fotográfico e colocou
depressa o filme na câmera, antes de separar as lentes especiais que levaria consigo,
para o caso de precisar delas.
— Bom dia! — veio uma voz da frente da loja. — Srta. Hayle Está aí dentro?
— Nos fundos — Robin respondeu. — Já estou indo. — Ela pegou um rolo extra de
filme e foi cumprimentar sua vendedora, Ericka. — O que você está fazendo acordada a
esta hora?
Ericka já se encontrava atrás do balcão, com seu bonito rosto redondo alegre como
sempre.
— Hoje começa a feira indígena, não é? Imaginei que você estaria ocupada e achei
melhor chegar mais cedo.
— Bem, obrigada! Vou tentar tirar algumas fotos da praça antes que a multidão a
invada.
— Vá em frente. Aprontarei tudo por aqui.
Robin sorriu para a funcionária. Ericka tinha apenas dezenove anos e já era tão
eficiente. Ela própria não se lembrava mais com precisão de sua adolescência, mas
certamente nunca fora tão responsável quanto Ericka Dalton. Sem dúvida, nunca se
levantara antes das seis da manhã, para iniciar um dia de trabalho.
A loja e estúdio fotográfico de Robin localizava-se na Sena Plaza, bem no centro da
parte antiga de Santa Fé. A poucos metros da loja, ficava a Santa Fé Plaza, construída há
quase quatrocentos anos. Cercada por árvores, ostentava em um dos seus lados o
Palácio Real, sede do governo.
O palácio fora erguido em 1610, lembrou-se Robin, enquanto caminhava para lá sob
as árvores centenárias. Os índios pueblos ainda vendiam seus tapetes e cerâmicas, suas
joias e bugigangas, sob a sombra do portal do antigo prédio.
Robin parou em uma das extremidades da praça e verificou o fotômetro da câmera.
À luz diáfana do amanhecer, ela era a imagem da elegância informal, alta e graciosa,
vestida com uma saia azul de cambraia que descia abaixo dos joelhos e uma blusa
branca de seda amarrada com um nó na cintura. Um colar de contas turquesa brilhava em
seu pescoço, balançando conforme ela se movimentava.
A praça costumava estar silenciosa às seis e quinze da manhã. Apenas o ocasional
bater de asas de uma pomba elevando-se do campanário da igreja perturbava a imensa
calma. Mas não naquele dia. Era o último fim de semana de agosto, data da feira dos
índios de Santa Fé, um evento que atraía visitantes de toda parte do mundo. Já havia
caminhões e jipes descarregando os artigos e índios com xales multicoloridos aprontando
suas barracas.

Robin atravessou a praça com passos largos. As montanhas Sangue de Cristo, que
se erguiam a leste da cidade, eram visíveis no rápido alvorecer, com seus picos passando
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de cinzentos a róseos aos primeiros raios do sol. Robin gastou meio rolo de filme
fotografando as montanhas. Uma pomba levantou vôo do teto do palácio; ela registrou a
imagem de paz em um retrato.
Andou pela praça, tirando fotos das mulheres atarefadas, tentando captar o porte
tímido, porém altivo característico dos índios pueblos.
— Ah, aí está você! — Shelly Dalton, mãe de Ericka, atravessou a rua e aproximou-
se de Robin. Trazia um pacote branco nas mãos. — Quer uma rosquinha doce?
— Eu já comi, mas... — Robin deu de ombros e pegou uma. — Você acredita que já
tenha tanta gente aqui? Sei que moro nesta cidade só há um ano, mas nunca vi tantas
pessoas na praça ao mesmo tempo.
As duas olharam em volta. Embora o dia ainda nem tivesse amanhecido direito, os
turistas começavam a se aglomerar, examinando os tapetes navarros, admirando as joias
de turquesa e prata, soltando exclamações de espanto diante dos trabalhos de cerâmica.
— Talvez eu devesse colocar um cartaz nas costas: — brincou Shelly. — “Compre
na Galeria de Arte Dalton”.
— O verão foi bom para você, não foi?
— Foi ótimo. Só ontem vendemos mais do que todo o mês de junho. Vou fazer
Chuck me comprar aquele carro que estou querendo. Ericka já está na loja, não é?
— Está. Chegou cedo e cheia de entusiasmo. Por falar nisso, é melhor eu não
perder muito tempo. Tenho uma cliente às nove horas.
— Quem é dessa vez?
— Uma madame de Los Angeles quer tirar uma fotografia vendendo joias com as
mulheres índias sob o portal.
— Ah, eu “adoro” suas histórias! Você conhece as pessoas mais interessantes.
— É verdade. Às vezes me sinto como uma psiquiatra lidando com as fantasias dos
outros. — Ela sacudiu a cabeça, séria. — Sabe, acho que eu deveria adotar uma ética
como a dos médicos e nunca divulgar os segredos de meus clientes.
— Não faça isso! Eu perderia uma diversão — riu Shelly.
Robin se especializara em produzir fotografias que satisfizessem qualquer fantasia
dos clientes. Era possível querer ser retratado como um guerreiro indígena, um guardião
do inferno, Afrodite erguendo-se do mar ou um nobre espanhol do século XVII. Robin
cuidava de todos os detalhes: roupas, maquilagem, penteados, acessórios. O trabalho às
vezes era exaustivo, mas, desde que Robin se mudara de Illinois para o Novo México
havia um ano e abrira sua própria loja, o negócio fora um grande sucesso. Tinha trinta e
dois anos e sentia-se satisfeita.
— Preciso levar estas rosquinhas para Chuck — disse Shelly. — Saímos de casa tão
cedo que não tivemos tempo de tomar café.
— Posso comer só mais uma?
— Sinceramente, Robin Hayle, não entendo como você pode comer tanto e
continuar tão esquelética.
— Para minha altura, sessenta e dois quilos não é ser esquelética. — Ela tirou uma
foto de Shelly, pegando a amiga sem maquilagem e com os cabelos castanhos compridos
até os ombros, ainda molhados.
— Obrigada. Agora, por favor, destrua o filme.
— Ah, claro!
O sol surgia atrás das montanhas Sangue de Cristo, banhando a praça com sua luz
dourada e iluminando os telhados das velhas construções. Robin gastou outro rolo de
filme, tentando captar a sensação de paz e quietude inerente à cidade de Santa Fé. Não
conhecia outro lugar onde homem e cenário se encaixassem tão bem.
Robin apaixonara-se pelo Novo México três anos antes, quando estivera ali a
passeio. Como centenas de outros artistas que a precederam, maravilhara-se com a
qualidade única da luz da região, uma luz clara e precisa que fazia cada pinheiro

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destacar-se em contornos puros e objetos distantes delinearem-se com perfeição contra o


céu. Desde aquela ocasião, soube que Santa Fé se tornaria seu lar.
E mudara-se na hora certa; aquela região do sudoeste era um centro cultural, mas,
ao contrário de Paris e Nova York, o Novo México tinha muito espaço aberto para ser
explorado. Ela viajara por todo o Estado, tirara centenas de fotografias, e ainda sentia que
poderia descobrir coisas novas durante o resto de sua vida.
Seu amor pela terra revelava-se nas fotos que tirava. Cada centímetro das paredes
de seu estúdio estava coberto de retratos da paisagem local.
Muitos povos tinham vindo para o Novo México ao longo dos séculos e todos se
integraram ao local, encontrando seu próprio estilo. Os índios anasazis haviam deixado
sua marca, assim como os navahos e os apaches, os espanhóis, mexicanos e anglo-
saxões. E, como cada onda sucessiva de recém-chegados ao vale do rio Grande, Robin
também esperava encontrar ali o seu lar. Perdera os pais em um acidente de avião
quando tinha nove anos e, desde então, sempre buscara sentir-se segura, amada. Não
tinha queixa dos tios que a haviam criado em Waukegan, Illinois, nem duvidava do amor
deles, mas não era a mesma coisa que ter mãe e pai.
Em Santa Fé, Robin sentia-se em pé de igualdade com os demais, já que todos
eram novos para aquela terra tão antiga.
Robin tirou mais uma foto antes de retornar ao estúdio. O rosto daquela criança
atraía sua câmera como um ímã. Uma criança indígena, um rosto misterioso e altivo em
um momento tranquilo em que se sentava em uma barraca brincando com um colar de
prata ao lado da mãe. Robin caminhou de volta à loja, pensativa. Que pensamentos
estariam por trás daqueles calmos olhos negros?
Ao entrar na loja, a qual tinha o nome de Robin's Nest, já havia uns dez clientes
querendo comprar filme.
— Ah, srta. Hayle! — exclamou Ericka quando a viu. — Poderia me dar uma
mãozinha?
Robin apressou-se para trás do balcão. Gostava muito de Ericka. A moça viera para
Santa Fé ainda pequena, quinze anos antes, quando os pais Chuck e Shelly decidiram
deixar Ohio e abrir uma galeria de arte no Novo México. Lutaram com dificuldades
durante anos, até Santa Fé tornar-se um paraíso para os colecionadores de arte.
Ela tivera mais sorte, em certo sentido. Seus pais a haviam deixado em uma
situação financeira confortável, embora não o suficiente para que ela pudesse comprar a
linda mansão na Canyon Road que sempre admirava. Robin fora modelo durante seu
curso universitário, levada pela fascinação por fotografia. E possuía os indispensáveis um
metro e setenta e cinco de altura, além dos cabelos abundantes de um tom loiro prata e
olhos azuis que ficavam lindos com maquiagem. Poderia ter seguido a carreira durante
anos, mas o outro lado da câmera começou a seduzi-la e não tardou a levar Robin para
um curso profissional de fotografia.
Os Dalton tiveram de lutar, mas pelo menos eram uma família. Robin sempre se
sentira privada de várias coisas que famílias compartilham e, por causa disso,
desenvolvera uma incômoda insegurança. Escondia bem esse fato, parecendo sempre ter
o controle de sua vida, sempre pronta com uma piada, um dito espirituoso, uma história
engraçada. Tendia a falar demais, mas bem no íntimo abrigava a sensação de ser uma
estranha, de não pertencer a lugar algum.
A cliente de Robin entrou na loja poucos minutos depois das nove, obrigando-a a
deixar Ericka sozinha no balcão para atender a todo o movimento. No dia seguinte,
pensou, deixaria que a moça tivesse a manhã livre para descansar.

A mulher de Los Angeles, sra. Hartmann, era baixa, atarracada, com cerca de
sessenta anos. Estava bem vestida, com bolsa combinando com as sandálias de salto
alto e joias finas ornamentando os braços e pescoço. Nos fundos da loja, vestiu as roupas

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tradicionais dos índios pueblos: um vestido verde sem mangas preso sobre um ombro por
cima de uma blusa, um xale azul com estampa de rosas, longos colares de contas
vermelhas, brincos e braceletes de prata. Robin a ajudou a colocar a peruca negra.
A sra. Hartmann olhou-se no espelho e quase deu pulos de alegria.
— Oh, está maravilhoso! — exclamou, antes de sair da loja com Robin, a caminho
da praça. — Eu “sempre” quis ser índia. Por um dia, claro! Meu avô era um navarro puro-
sangue. E você, srta. Hayle? Também não tem uma fantasia?
— Tenho um trilhão delas. Uma das maiores, se a senhora puder guardar segredo, é
encontrar um homem bem alto.
— Ah, entendo. — A sra. Hartmann levantou a cabeça para fitar Robin.
O sol já estava quente quando chegaram ao palácio à procura de uma sombra sob o
portal. Não havia muito espaço. Centenas de turistas se acotovelavam, examinando os
artigos indígenas e reclamando dos preços.
A sra. Hartmann conversou com duas índias e conseguiu que a deixassem sentar
junto com elas na barraca que vendia cobertores. Robin tirou um rolo de fotos. Tinha de
admitir que a sra. Hartmann desempenhava bem o papel e divertia-se bastante.
— Quando posso ver as fotografias? — a mulher perguntou, excitada, quando
terminaram.
— As provas estarão prontas segunda-feira de manhã, lá pelas onze horas.
Podemos examiná-las e escolher a melhor.
— Ótimo, srta. Hayle. Ótimo!
Robin ainda teve mais um cliente para atender antes do almoço; era um jovem
estudante de um seminário no Estado de Nova York, que estava em viagem de férias com
o irmão. Ele queria ser fotografado em frente da Catedral de São Francisco, vestido como
um padre do século XVI. Robin tivera trabalho para encontrar as vestimentas, mas
acabara conseguindo convencer um dos sacerdotes a emprestar o antigo hábito ao rapaz.
Quando, por fim, retornou à loja, Ericka a aguardava ansiosa para poder sair para o
almoço. Seus grandes olhos azuis revelaram toda a decepção quando Robin lhe pediu
que voltasse dentro de uma hora.
— Só uma hora? Eu prometi a Shane que ia almoçar com ele e...
— Tudo bem. Se é questão de amor, não vou atrapalhar.
— Ah, obrigada, srta. Hayle. — Ericka saiu correndo com o entusiasmo da
juventude. Robin suspirou. Há quanto tempo não corria para se encontrar com um
namorado.
Os clientes continuaram chegando até esgotar o estoque de filmes. Robin vendeu
também duas fotos emolduradas da cidade, que ela mesmo tirara, ambas bastante caras.
E vendeu seu retrato favorito de flores silvestres no outono com os índios ao fundo.
Ganhara um prêmio com aquela foto na primavera anterior. Quem sabe ainda conseguiria
sair de seu apartamento no centro para a linda casa da Canyon Road!
Por volta do meio-dia, o movimento diminuiu. Robin caminhou até a porta e respirou
fundo, esticando os braços sobre a cabeça. Sua loja situava-se em uma rua pitoresca.
Como todas as ruas antigas de Santa Fé, seu pavimento estreito e curvo era margeado
por casas históricas e árvores altas que formavam, lá em cima, um dossel verde
refrescante. Os vizinhos de Robin eram galerias de arte e lojas de joias, tapetes indígenas
em uma profusão de cores, cestos, cerâmicas, quadros. Shelly apareceu à porta de sua
galeria.
— Oi! — ela chamou, acenando. — Muito ocupada?
— Não, agora está mais calmo.

— Espere só até saírem dos restaurantes! — exclamou Shelly, com uma expressão
de cansaço.
Santa Fé vivia um renascimento. A arte indígena estava em alta entre os

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colecionadores e a cidade era o centro de uma das maiores concentrações de índios no


país. Havia os pueblos, herdeiros dos anasazis que habitavam os rochedos mil anos
atrás, um povo tranquilo, centrado na vida comunitária. E havia os navahos e apaches,
tribos totalmente diferentes, relativamente recentes no Novo México, nômades, depois
pastores, mas, acima de tudo, valentes guerreiros.
A arte dos índios fascinava Robin. As cerâmicas, as joias de prata e turquesa, os
tapetes e cobertores, tudo vinha da natureza: a argila, a lã, os metais e as pedras, os
corantes, até mesmo os pincéis de fibras.
Robin abriu um pacote de batatas fritas e começou a comer, enquanto observava as
pessoas na rua. Mais adiante, inclinada sobre um cavalete com artigos indígenas, estava
uma mulher com rosto classicamente espanhol. A seu lado, um homem loiro com
manchas de suor sob os braços discutia com ela por causa de uma peça de prata que
ambos queriam. O artesão indígena os fitava com infinita paciência, esperando por uma
decisão.
A história se repete, Robin pensou. Os anglos haviam sido os últimos a chegar ao
Novo México, onde lutaram contra os índios e espanhóis que já viviam lá. Por fim, se
cansaram e uma certa paz desceu sobre a região, onde os três povos passaram a
coexistir.
Robin tomou um refrigerante, ainda na porta da loja. Os restaurantes começavam a
esvaziar e os turistas voltavam a encher as ruas. Ela decidiu trazer para a loja seu
estoque pessoal de rolos de filme e encontrava-se nos fundos, selecionando o material,
quando ouviu a porta da frente abrir. Virou-se automaticamente para ver se o cliente
precisava dela e parou, surpresa. Não era sempre que via um homem como aquele.
Por um tempo absurdamente longo, Robin ficou escondida no fundo da loja,
observando o homem. Ele era bem alto, por volta de um metro e noventa, de ossos
grandes e corpo musculoso, com uma constituição sólida e forte do pescoço aos pés.
Não parecia precisar de ajuda no momento. Provavelmente apenas dava uma
olhada por ali enquanto esperava que a esposa terminasse de fazer compras em alguma
loja próxima. No entanto, mostrava-se muito interessado por um painel de fotos que Robin
arrumara recentemente. Talvez tivesse alguma fantasia e pensasse em registrá-la em
imagens. Qual poderia ser o desejo secreto daquele homem? A mente de Robin imaginou,
excitada, várias possibilidades, e ela começou a examiná-lo com um ponto de vista mais
profissional. Ele tinha uns quarenta anos e, sem dúvida, descendia de índios. Sua pele
era morena e lisa como cetim. O rosto bonito parecia ter sido esculpido por mãos
habilidosas e os olhos eram escuros como noites sem lua.
Ele devia mesmo ser casado, pensou, com uma inesperada inveja. Por que ela não
podia ter um homem como aquele?
Havia uma evidente vitalidade nele e sua postura revelava competência e
autoestima. Ele era índio, mas vestia uma camisa polo verde, calças caqui e trazia no
pulso um relógio fino europeu.
De repente, o homem virou-se e percebeu o olhar de Robin. Embaraçada, ela
disfarçou e postou-se atrás do balcão, mas a atenção do estranho retornou de imediato
para o painel. Robin percebeu que ele mexia nas fotos, mas, antes que pudesse protestar,
ele retirou um dos retratos emoldurados do painel.
— Pois não? — disse ela, depressa, descontente por vê-lo desfazer o arranjo.
O homem a fitou de forma tão intensa com seus olhos negros que Robin sentiu-se
perturbada por um instante.

— Onde arrumou esta foto? — ele indagou, com polidez, mas evidentemente,
interessado na resposta.
— Eu mesma a tirei. Há alguma coisa?
— Você se lembra exatamente de onde a tirou?

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— Sim, foi em San Lucas Pueblo — respondeu ela, intrigada. — Há umas duas
semanas. Por quê?
O estranho caminhou até ela e indicou um belo pote de argila na fotografia, que ela
usara como parte do cenário.
— Este pote é uma falsificação. O verdadeiro está no Museu Peabody na
Universidade de Harvard. Está vendo isto? — Apontou para uma mancha no pote. — Eu
reconheci a peça por esta marca escura. Foi uma mancha que se formou quando a peça
foi levada ao fogo, em sua fabricação original. Esse pote é inconfundível.
— Oh... — murmurou Robin, confusa. Lembrava-se distintamente da ocasião em
que tirara aquele retrato. Havia levado um cliente até o local em busca de um cenário
adequado e pararam para observar um ceramista executando seu trabalho ao ar livre, na
maneira tradicional dos índios. Ela perguntara ao homem se podia usar uma das peças na
foto e lhe dera uma gorjeta em agradecimento. O ceramista mostrara-se muito simpático e
orgulhoso por ter seu trabalho admirado. — Ouça, eu não entendi bem...
Ele a fitou longamente com seus olhos negros de índio antes de tornar a falar.
— Acho que devo me apresentar, srta. …
— Hayle. Robin Hayle.
— Robin's Nest. Então você é a proprietária?
— Sim.
— Eu sou Adam Farwalker, do Departamento de Arqueologia da Universidade do
Novo México, em Albuquerque. Vi esta fotografia por acaso, quando passava pela
calçada, e a princípio não pude acreditar que isto estivesse exposto assim, em público. —
Ele fez uma pausa, percebendo que Robin continuava confusa. Inclinou-se sobre o
balcão, com os braços fortes cruzados diante do peito, um joelho dobrado de forma a
fazer com que seus olhos ficassem no mesmo nível dos de Robin. — Peças antigas, e
“verdadeiras”, estão alcançando preços altíssimos, srta. Hayle. O original deste pote em
sua fotografia é muito valioso. E, alem disso, seria contra a lei vendê-lo.
— Quer dizer que fotografei uma falsificação?
— Sim, e muito bem-feita.
— E o ceramista tão simpático de San Lucas é um vigarista? — Robin sacudiu a
cabeça, incrédula.
— Talvez. Ou ele pode ser inocente. Os índios são frequentemente explorados.
Inventam para eles que precisam de uma reprodução para um museu, ou coisa parecida.
Há anos isso vem sendo feito com quadros a óleo e, agora que o artesanato indígena
está tão valorizado, esse tipo de falsificação vem surgindo cada vez em maior número.
Significa muito dinheiro para comerciantes de arte inescrupulosos. Atualmente, srta.
Hayle, é difícil obter potes pré-históricos. Desde que a lei de proteção aos recursos
arqueológicos foi aprovada, só se podem vender cerâmicas encontradas em terras
particulares.
— Entendo. — Ela levantou os olhos para o rosto de Adam Farwalker, observou os
traços bem definidos, imaginando se ele seria da tribo pueblo. Não se parecia com os
pueblos que ela havia visto. Robin torceu para que ele não a levasse a mal, mas não
podia mais conter a curiosidade. — Você parece saber muito sobre esse tipo de
artesanato. Será que é... ahn... um pueblo?

— Sou apache — ele respondeu, com uma dignidade discreta. — Cerâmica pré-
histórica é minha área de estudo e, inclusive, estou participando de uma escavação em
Chaco Canyon. — Ele fez uma breve pausa. — Acha que poderia reconhecer o ceramista
outra vez?
— Sim, claro. Lembro bem dele.

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Ericka retornou do almoço, interrompendo-os. Robin apresentou a moça, julgando


que o assunto do pote falsificado estava encerrado, mas foi um engano.
— Já que a srta. Dalton está aqui para cuidar da loja, nós poderíamos ir logo — ele
disse.
— Como?
— Para San Lucas Pueblo.
— Mas...
— Para encontrar o ceramista.
Robin ficou tão espantada que, por um momento, não soube o que dizer. Foi Ericka
quem a trouxe de volta à realidade.
— Você tem um compromisso às três horas.
— Ah, é verdade. Quase me esqueci. Sinto muitíssimo, sr. Farwalker, mas creio que
não posso ajudá-lo.
— Claro que pode. Iremos até San Lucas depois do seu compromisso. Garanto que
a questão é muito importante, srta. Hayle.
— Bem, eu...
— Estarei esperando na praça.
— Mas não sei quanto tempo irei demorar — Robin protestou, um pouco
incomodada com o fato de aquele homem ter decidido tudo sozinho e tão depressa.
— Não faz mal. Eu espero. — Ele acenou e saiu. Robin ficou imóvel, olhando para o
espaço vazio que Adam Farwalker estivera ocupando, até que a voz de Ericka a trouxe de
volta à realidade.

CAPÍTULO II

Robin teve dificuldade para se concentrar na sessão de fotografias do sr. Norgard,


um homem grande, loiro e musculoso que posou de viking. Seria um presente de
aniversário para a namorada, ele explicou, um pouco tímido. Felizmente, a sessão não foi
muito demorada. Robin olhou para o relógio, imaginando se Adam Farwalker de fato ainda
estaria esperando por ela. Deveria ir encontrá-lo? Afinal, ele era um estranho. Talvez não
fosse quem afirmava ser...
Ericka, porém, tranquilizou-a depressa.
— Ah, eu sei qual é a família do sr. Farwalker. Eles têm uma grande fazenda ao sul
daqui. São uma família tradicional na região. Não os conheço pessoalmente, mas todos
dizem que são boa gente.
— Então acho que não há problema em ir encontrá-lo.
— Claro que não.
— Você fecha a loja às seis?
— Fique tranquila. Até amanhã.
— Durma até mais tarde. Espero você ao meio-dia.
— A patroa manda, eu obedeço — respondeu Ericka, brincalhona.
Robin pegou sua bolsa e câmera, passou a mão pelos cabelos, ajeitou a saia e saiu
da loja, sob o sol forte da tarde. Embora a praça ficasse a alguns metros de distância,
ouvia o barulho da multidão na feira indígena, e a calçada encontrava-se apinhada de
gente.
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E se não conseguisse encontrar Adam Farwalker em meio àquela massa humana?


De repente, uma constatação a surpreendeu: ela queria vê-lo outra vez. Havia alguma
coisa naquele homem, algo muito especial, embora ela não conseguisse precisar o quê.
Ele, sem dúvida, era do tipo intelectual, mas não parecia presunçoso. Robin atravessou a
rua, abrindo caminho entre as pessoas e esticando o pescoço para ver melhor. E se ele
tivesse cansado de esperar e resolvido ir embora?
Mas ela o avistou assim que chegou à sombra do portal do Palácio Real. Ele
sobressaía-se na multidão por causa da altura, no entanto foi sua aura de imperturbável
calma que chamou a atenção de Robin. Ela parou por um instante, observando aquele
estranho que surgira tão de repente em sua vida.
Ele estava conversando com alguém e, entre o movimento das pessoas, Robin
conseguiu ver que se tratava de Julien Cordova. Não era de surpreender que se
conhecessem. Julien havia nascido e crescido em Santa Fé e era o curador do museu do
Palácio Real. Adam sorria de algo que Julien havia dito. Como ele era bonito, com os
dentes brancos destacando-se em contraste com a pele morena! Ela adoraria tirar uma
série de fotografias de Adam Farwalker para descobrir se era suficientemente hábil para
captar no filme aquela atmosfera de calma que parecia rodeá-lo. Adam tinha um rosto
cheio de orgulho e energia, o rosto de um guerreiro, com uma beleza dura e uma
bagagem de segredos, como a terra em que nascera.

Robin forçou-se a despertar do devaneio. Afinal, ele era apenas um homem, e


estava a sua espera. Aproximou-se de onde os dois se encontravam, comparando
mentalmente Adam e Julien. Eram tão diferentes. Adam, grande, moreno e tranquilo;
Julien, pequeno, elegante, animado, com a pele clara e os olhos tristes de seus
ancestrais, os nobres e espanhóis que se haviam estabelecido em Santa Fé havia quase
quatrocentos anos.
Conhecia Julien muito bem. Ele era presidente da recém-fundada Associação
Comercial de Santa Fé, da qual Robin era um dos membros. Julien fora eleito por
unanimidade, devido a seu conhecimento, espírito de liderança e habilidade política.
— Oi, Julien — ela o cumprimentou, um pouco mais entusiasmada do que gostaria.
— Vejo que conhece o sr. Farwalker. — Robin virou-se para Adam. — Desculpe a
demora.
Julien levou a mão de Robin aos lábios para um beijo de cortesia, mas durante todo
o tempo ela sentia sobre si o olhar perturbador de Adam.
— Minha cara Robin — dizia Julien, sorrindo ‒, espero que você esteja tendo mais
movimento neste fim de semana.
— Ah, sim. A loja vai indo bem.
— Ótimo. — Ele passou os olhos pela multidão de compradores que brigavam por
tapetes, pratarias, cerâmicas e pinturas nas barracas e até puxavam artigos que não
haviam sido descarregados dos caminhões trazidos pelos índios de centenas de
quilômetros de distância. — Bem, vou precisar deixá-los. Tenho vários problemas para
resolver hoje. Adam, foi bom tornar a vê-lo. Estou ansioso pela festa de sua mãe esta
noite.
— Ela não poderia realizá-la sem você, Julien.
— Obrigado. E boa sorte na procura do homem que falsificou o pote.
— Você contou a ele? — Robin indagou, depois que Julien foi embora.
— Ele ia acabar sabendo de uma forma ou de outra. E Julien tem condições de
alertar as pessoas quanto a esse tipo de coisa.
— Então você acha mesmo que é importante assim?
— Ouça, srta. ... — Ele hesitou.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— Hayle. Robin.
— Srta. Hayle. A economia desta área depende muito dos dólares dos
colecionadores de arte, especialmente dos colecionadores de arte indígena. Além de ser
ilegal, a prática da falsificação poderia arruinar a reputação de todos os comerciantes de
arte honestos do Estado.
— Ah, agora estou entendendo.
— Então vamos sair desta confusão. — Adam a segurou pelo braço. — Você trouxe
a fotografia?
— Sim, está na minha bolsa.
Era impressionante a facilidade com que Adam abria caminho entre a multidão.
Parecia o mar Vermelho abrindo-se para Moisés. Seria o tamanho dele ou apenas a
determinação em seus olhos? Robin sentiu-se bem sendo escoltada por ele ao longo de
três quarteirões, até onde Adam estacionara seu carro sujo de barro.
— Você disse San Lucas? — indagou ele, abrindo a porta para Robin.
— Sim. — Ela notou, satisfeita, que ele, como um cavalheiro, a esperou acomodar-
se para, então, fechar-lhe a porta.
— E você não sabe o nome do ceramista?
— Não, nem perguntei. Foi tudo por acaso. Vi algumas pessoas fazendo objetos de
cerâmica e comecei a conversar.

Adam enfrentou o trânsito pesado das ruas centrais e logo tomou a estrada para o
norte. Robin o fitou, desejando iniciar uma conversa, mas o silêncio e a testa franzida dele
a contiveram. Estremeceu, sentindo um misto de atração e receio por aquele homem. Isso
não era comum nela. Costumava rir e brincar com facilidade. Sabia que tinha uma
tendência a falar demais, mas não com Adam.
— O pote é extremamente valioso. É considerado o arquétipo do artesanato anasazi
— disse ele, por fim. — Existe apenas um no mundo e há colecionadores dispostos a
pagar qualquer coisa por ele.
— Por um pote?
— Ele tem quase mil anos. Se um colecionador acreditasse ter encontrado o
original, não há dúvida de que desembolsaria o dinheiro.
— Mas ele não poderia expor o objeto, não é? Ele saberia que a compra tinha sido
ilegal.
— É, talvez. Mas alguns colecionadores ficam satisfeitos simplesmente em possuir a
peça e nunca mostrá-la a ninguém. E existem peças valiosas legítimas à venda. A
proibição restringe-se ao artesanato encontrado em terras do governo. Se uma peça for
achada em terras particulares, não há nada que impeça sua comercialização.
Robin tirou a fotografia da bolsa e examinou-a uma vez mais. Seu cliente estava
vestido de conquistador, com armadura, elmo e botas altas de couro e postava-se diante
do povoado com suas casinhas de barro. No chão havia um arranjo cuidadoso de
abóboras, espigas de milho, pimentas vermelhas e o gracioso pote redondo com seu
gargalo estreito e formas geométricas negras sobre o fundo branco.
— É uma bela peça. E parece mesmo antiga. Eu poderia jurar que vi uma
rachadura.
— Foi muito bem-feita — admitiu Adam.
— Tem certeza de que não pode haver outro pote verdadeiro como o original? Talvez
alguém tenha encontrado...
— Tenho certeza — ele respondeu, e voltou a atenção para a estrada.
A terra ressecada passava veloz pela janela do carro. O céu era de um azul tão
intenso que quase exigia o uso de óculos escuros. Havia montanhas a leste, uma massa

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

verde escura que parecia envolta nas brumas do calor. Era uma região inquietante, cheia
de enigmas, de lugares ocultos de impressionante beleza e trechos áridos perigosos
como o que se chamava “Jornada de la Muerte”. Era uma terra que podia abrigar homens
como Adam Farwalker, professor de arqueologia, todo homem, todo índio. Algo primitivo
agitou-se dentro de Robin.
— Então você leciona? — ela arriscou.
Ele fez um sinal afirmativo com a cabeça, os olhos fixos na estrada. Seu perfil era
vigoroso, o contorno dos lábios perfeitos. Era um homem muito atraente.
Robin tentou outra vez, determinada a fazê-lo falar.
— Você está de licença? Isto é, se está participando de uma escavação em Chaco
Canyon...
— Sim — foi tudo o que ele disse.
— A universidade está financiando a escavação? — ela insistiu.
— Em parte. A universidade e o Instituto Geográfico Nacional. É uma continuação de
um projeto iniciado na década de 70.
Bem, pelo menos conseguira tirar alguma coisa dele.
— Você fica lá o ano todo?
— Não. Normalmente apenas durante o verão, mas este ano ficarei até o início do
segundo semestre.
— É um belo lugar.
Por fim, Adam teve uma reação.
— Já esteve em Chaco Canyon, srta. Hayle? — indagou, cético.
— Não, mas...
— É uma terra árida. Um local seco no Estado mais seco do país. O sol evapora a
água do corpo das pessoas mais depressa do que nossa capacidade de repô-la. A beleza,
srta. Hayle, como dizem, está nos olhos de quem vê.
— Por favor, pode me chamar de Robin. Ele a fitou por um breve instante.
— Certo. Robin.
Vinte e cinco quilômetros ao norte de Santa Fé havia um conjunto de povoados nas
colinas avermelhadas. Adam entrou na estrada secundária que, quase dois quilômetros
de curvas depois, desembocava em San Lucas. O ponto central era a praça ensolarada,
cercada de árvores; ao fundo, as casinhas de barro amontoadas uma sobre as outras,
construídas da própria terra, como os anasazis haviam aprendido a fazer naquela região
árida, desprovida de florestas. Crianças índias brincavam sob as árvores, cães latiam,
mulheres de xales e saias coloridas movimentavam-se em seus afazeres diários. A cena
era intemporal, exceto pelos caminhões estacionados nas proximidades.
Adam parou o carro e virou-se para Robin.
— Para onde vamos?
— Bem, eu lhe disse que encontrei o homem puramente por acidente, atrás das
casas.
— Então vamos começar por lá.
Mas a área estava deserta e apenas um cachorro esquálido marcava presença na
calçada.
— E agora? — Robin indagou.
— Vamos perguntar por aí, mostrar a fotografia. Esta comunidade é pequena. Ouça,
eu sinto muito por tê-la tirado de seu trabalho, srta. Robin. Mas isto é muito importante.
— Não se preocupe — Robin tranquilizou-o, satisfeita pela súbita consideração que
ele demonstrava. Aquele homem, afinal, talvez não fosse tão frio como parecia.
Adam aproximou-se de um velho índio que estava sentado em uma cadeira diante
de uma das casas.
— Sabe quem fez este pote? — perguntou em inglês, fazendo um sinal a Robin para
que mostrasse a fotografia.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

O homem olhou para ele sem dizer nada. Adam tentou a mesma pergunta em
espanhol, mas o homem continuou a fitá-lo impassível, enquanto fumava seu cigarro.
Finalmente, moveu a cabeça de um lado para outro, soltando a fumaça pelo nariz.
Adam perguntou se havia um chefe no povoado com quem ele pudesse conversar.
Robin percebeu-lhe o tom de impaciência na voz e imaginou se ele não estaria tornando
as coisas mais difíceis. Afinal, encontravam-se praticamente em território estranho, já que
os povoados indígenas, assim como as reservas, eram entidades autônomas governadas
pelos próprios conselhos tribais.
— Vamos — Adam disse a Robin. — O chefe fala inglês. Este camarada não sabe
nada.
Mas Robin tinha suas dúvidas.
Ela seguiu Adam por uma escada e ao longo de um corredor, até uma porta pintada
de azul vibrante. Adam bateu. Uma mulher corpulenta atendeu e chamou o marido.
— Sou Reynaldo Sanchez. Em que posso ajudá-los? — o chefe indagou, em inglês.
Adam explicou o problema, mostrando a fotografia.
— Gostaria de localizar o ceramista que fez este pote. O homem pareceu acautelar-
se.
— Quer comprar o pote?
— Não, só queria falar com o homem que o fabricou. “Oh, não”, Robin pensou.
“Agora nunca iremos descobrir.” Ela estava certa. Reynaldo ficou sério e disse algo em
dialeto indígena para sua mulher. Virou-se outra vez para Adam e sorriu.
— Sinto muito. Nunca vi esse pote e não sei a quem pertence. Talvez a fotografia
tenha sido tirada em outro povoado.
— Oh, não — Robin respondeu depressa. — Foi ali na praça, embaixo daquela
grande árvore. Tenho certeza.
Um menino, provavelmente filho do chefe, saiu correndo da sala, roçando a saia de
Robin. Estava apressado para cumprir alguma tarefa. Robin não deu muita atenção ao
fato... até mais tarde.
— Não posso ajudá-los — repetiu Reynaldo, fechando a porta azul diante deles.
Voltaram à praça e Adam mostrou a fotografia a algumas mulheres. Elas o fitaram
com uma expressão vazia e levantaram os ombros.
— Vamos perguntar naquela loja — Robin sugeriu, apontando para uma pequena
quitanda. — Comprei um refrigerante lá. Tenho certeza de que o homem vai se lembrar de
mim.
Mas ele não se lembrou e Robin sabia que era o mesmo homem que a havia
atendido.
— Não, nunca vi esse pote. Ninguém em San Lucas faz potes assim. Vocês podiam
tentar Cochiti ou Acoma.
— A moça disse que tirou a foto aqui — Adam repetiu, irritado. — Ouça, nós só
queremos falar com o artesão.
— Ninguém aqui fez esse pote — o homem insistiu, com a paciência e
irredutibilidade dos índios pueblos.
— Por que eles não falam conosco? — Robin indagou, depois que saíram da loja.
Adam murmurou alguma coisa, talvez um palavrão, em uma língua estranha.
Apache?
— Porque eles têm medo e são teimosos e reservados. Não confiam em ninguém
estranho à comunidade.
— Mas você é...
— Sim, sou índio. — Adam parou e virou-se para ela. — Mas do tipo errado.
Apaches e pueblos são inimigos hereditários desde antes da chegada dos espanhóis.
Infelizmente, eles não confiam em mim mais do que em você.
— Ah, não.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— Receio que não iremos descobrir nada por aqui. Eles parecem estar prevenidos.
— Mas como todos puderam saber tão depressa? Ah, aquele menino...
— Provavelmente. Eu devia ter imaginado. Se tivéssemos falado em “comprar” o
pote, talvez conseguíssemos alguma coisa.
— Bem, e agora? — Robin perguntou, imaginando se deveria voltar a San Lucas
sem Adam e fazer mais algumas investigações, de maneira mais sutil. Mas não
adiantaria, agora eles a conheciam também.
— Vou levar você de volta para Santa Fé. Está ficando tarde.
O sol estava baixo no horizonte, seus raios longos e dourados atravessando a praça
e iluminando os pequenos cubículos onde os índios viviam. O povoado parecia uma
pirâmide iluminada contra o fundo de montanhas escuras. Um menino conduzia cabras
para casa através de nuvens de pó que refletiam o brilho do sol.
— Você se importa? — indagou Robin, pegando a câmera. — A luz é irresistível.
— Não, vá em frente.
Robin sorriu para ele e começou a tirar fotos das cabras, do povoado, de algumas
mulheres vestidas com roupas tradicionais, de uma árvore com o sol reluzindo entre os
galhos. Várias crianças reuniram-se em torno dela, curiosas. Ela captou o conjunto de
expressões infantis também: rostinhos redondos e morenos cheios de sensibilidade.

Adam a esperava recostado a uma parede, com as mãos nos bolsos da calça bem
talhada. Ela queria perguntar se podia fotografá-lo, mas não teve coragem. Talvez em
alguma outra ocasião, se tornasse a vê-lo.
Robin despertou do devaneio e desviou o olhar, percebendo que Adam a observava.
Então, ele afastou-se da parede e agachou para falar com duas das crianças. O que teria
dito a elas para fazê-las rir? Adam sorriu também, tranquilo e aberto como quando
estivera conversando com Julien. Por que com ela mostrava-se tão reservado? Por que
não ria e brincava daquela maneira quando estava em sua companhia? O que havia
naquele homem que o tornava tão misterioso?
Aproveitando o fato de ele estar distraído com as crianças, Robin tirou uma
fotografia dele. Não pôde resistir. Fora tão rápida que nem tinha certeza se focalizara
direito. Queria apenas a imagem dele; quando fotografava alguma coisa, era como se a
possuísse um pouco. Era uma ideia estranha, mas sempre tivera essa sensação.
O crepúsculo escurecia as colinas, suavizando-as, enquanto Adam dirigia o jipe em
direção a Santa Fé.
— Obrigada por me esperar — Robin disse, tentando quebrar o gelo. — Não
consigo desperdiçar nenhuma cena.
— Vai usar todas essas fotos?
— Ah, não, algumas não sairão boas. Outras eu guardarei no arquivo. Talvez
escolha umas três ou quatro para ampliar, emoldurar e colocar na loja. Os turistas adoram
comprar fotografias desta região.
— Interessante.
— Bem, é um meio de vida. Não, eu não deveria dizer isso. Adoro fotografar. Fui
modelo na época da faculdade, mas sempre estive mais interessada no outro lado da
câmera. Fotografias podem captar estados de humor, personalidades. E eu gosto de
satisfazer as fantasias das pessoas.
— Fantasias?
Robin explicou sobre seu estúdio e o tipo de trabalho que executava. Adam sorria
enquanto ouvia algumas das histórias que ela contava.
— Bem, esses são os casos engraçados — Robin comentou. — Uma vez eu tive de
preparar o cenário para um homem ser fotografado vestido de gorila, no zoológico, com
os gorilas!

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— Você fez isso?


— Claro! Foi complicado e quase morri de medo, mas é o meu trabalho.
— O meu parece tão monótono em comparação ao seu.
— Não! É fascinante. Sempre me interessei por artesanato e ruínas antigas, e por
saber como as pessoas viviam milhares de anos atrás.
— É mesmo?
— Ah, sim. Adoraria ver sua escavação. Isto é... Será que é possível eu... ir ver o
que vocês estão fazendo lá? — Oh, não, lá estava ela se convidando outra vez!
— Você queria ver Chaco Canyon?
— Aposto que poderia tirar ótimas fotos lá.
— Bem, talvez eu possa dar um jeito — Adam disse, mas Robin não poderia afirmar
se ele falava sério ou não. Achou melhor mudar de assunto.
— Puxa, estou com fome. Aliás, parece que sempre estou faminta. Será que a gente
poderia dar uma parada? — Ela notou que Adam olhou para o relógio. Droga! Ela estava
forçando a situação de novo. Era provável que sua mulher, ou namorada, estivesse
esperando na festa que Julien mencionara. — Desculpe. Você já deve ter outro
compromisso. Talvez alguém o esteja esperando para jantar em casa.
Ele a fitou por um momento, como se estivesse pensando.

— Não há ninguém me esperando em casa. Vamos parar. Robin sentiu uma onda de
alívio. Então ele não era casado.
No momento, nem cogitou sequer em explorar as razões de sua súbita alegria.
Sentaram-se em mesinhas ao ar livre em um restaurante próximo a Santa Fé,
observando as últimas luzes rosadas do pôr-do-sol colorirem o céu.
Sobre o cardápio, Robin observou o rosto de Adam. Por força do hábito, sua
imaginação começou a funcionar e ela o viu agachado junto a uma fogueira, vestido com
roupas de couro, seus cabelos negros presos em uma trança grossa, os olhos fitando a
terra escura. Sim, ele pertencia àquele lugar, e a forte ligação com o mundo natural, que
os índios mantinham intacta, a fascinava.
Gostaria muito de conhecer Adam melhor. Queria romper as barreiras impenetráveis
e fazê-lo rir. Decidida, juntou toda sua coragem e respirou fundo.
— Talvez amanhã, no fim da tarde, nós possamos voltar ao povoado e procurar o
artesão outra vez.
Ele levantou os olhos escuros, refletindo nas pupilas a luz das velas que luziam
sobre a mesa. Uma vez mais, pareceu pesar as palavras dela.
— Está bem — respondeu por fim, e Robin percebeu que ele não havia reparado no
tom de convite em sua voz.

CAPÍTULO III

Mas Adam, na verdade, reparara muito bem no tom de convite, e isso o deixara
perturbado. Sentira-se atraído desde a primeira vez em que vira Robin Hayle na loja. Ela
possuía uma maneira especial de olhar para um homem com franqueza, deixando as
emoções virem à tona livremente.
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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

Robin Hayle.
Tentou suprimir a atração que ela inspirava. A filosofia de vida apache mandava
evitar todos os excessos, mesmo de felicidade, e isso sempre lhe fora útil.
— Conte mais sobre a escavação — ela pedia. Era estranho, mas ele tinha vontade
de contar.
— Estou fazendo pesquisas em Pueblo Bonito. Você conhece as ruínas de lá?
Ela inclinou a cabeça e o fitou com seus profundos olhos azuis.
— Só as mais comuns.
— Pueblo Bonito é a comunidade mais conhecida no canyon, mas há várias outras.
Estou tentando datar os períodos das cerâmicas com mais precisão, ligá-los aos poucos
fatos de que temos conhecimento. Robin, devo estar chateando você com esta conversa.
— De jeito nenhum. — Ela apoiara o queixo na mão, o cotovelo sobre a mesa,
observando-o atentamente como se quisesse tirar uma fotografia.
Ele recostou-se na cadeira, aumentando a distância entre ambos.
— Bem, não há muito mais para contar. Leciono no Departamento de Arqueologia da
Universidade do Novo México, em Albuquerque. Minha especialidade são os índios do
sudeste e suas cerâmicas.
A garçonete chegou para anotar os pedidos. Robin comia bastante e não tinha
vergonha disso: escolheu o maior prato.
Adam a fitou, disfarçadamente. O que o atraía tanto naquela mulher? Seu jeito
descontraído? Sua beleza, o corpo longo e esguio? O tipo estranho de trabalho que ela
fazia?
— Como você veio parar em Santa Fé? — ele indagou, um pouco surpreso pela
própria curiosidade. Sua mãe o esperava para o churrasco anual e ele estava atrasado,
mas, naquele momento, isso não importava.
— Eu estive aqui certa vez com uma amiga de minha cidade, Waukegan, em Illinois.
Faz três anos. Fiquei apaixonada por este lugar. As possibilidades para meu trabalho são
infinitas. E as pessoas... Sabe qual é a impressão que esta terra dá a alguém do meio-
oeste? É como um país estrangeiro. Exótico.
— Já me disseram isso. — Ele gostava do entusiasmo de Robin, de seu sorriso
cheio de alegria. No entanto, quando ela estava calada, quase parecia uma criança
vulnerável, que devia ser tratada com gentileza. O mistério intrigava Adam: aquela mulher
alta, confiante e cheia de vida sem dúvida escondia alguma coisa. Podia perceber isso
nos olhos dela, quando a pegava desprevenida. O instinto e a experiência lhe diziam que
havia dor em Robin Hayle, e dor era algo que ele sabia reconhecer.

Adam caiu em si e controlou-se. Aquela curiosidade sobre uma mulher que


provavelmente não tornaria a ver era inútil. Nada aconteceria entre eles; não permitiria
que aquele encontro resultasse em alguma coisa. Os dois estavam tão longe em seus
mundos, separados como o sol da lua.
Ela empurrou o prato vazio e suspirou.
— Ah, sinto-me humana outra vez! Você se importaria se eu fizesse algumas
perguntas a seu respeito? Estou muito curiosa. Nunca conheci um índio antes. — Ela
apertou os lábios e baixou os olhos. — Desculpe, mas não sei de que outra maneira
posso dizer isso.
Adam sorriu da sinceridade dela.
— Não se preocupe. O que você quer saber?
— Tudo.
— Ei, assim fica um pouco difícil!
— Então... fale dos apaches. Como eles são?

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

Adam sentia vontade de conversar com Robin. Era como se não falasse com uma
mulher interessante há séculos. Que mal poderia haver em um simples bate-papo?
— Todos falam dos apaches como guerreiros, mas eles lutavam por necessidade,
embora minha tribo, os mescaleros apaches, tivesse uma fama terrível. Na verdade, para
nós, a família e o clã são tudo. Nós nos chamamos de Diné, que significa povo. E
chamamos esta terra de Dinetah.
— Dinetah — Robin repetiu, saboreando o som.
— O exército norte-americano lutou contra nós por cinquenta anos. Mas, antes que
os espanhóis ou os norte-americanos chegassem, meu povo era formado de pacíficos
agricultores e pastores.
— Agricultores. Eu nunca teria imaginado.
— Também somos bons com cavalos. E nunca mentimos.
— Nunca?
— Nunca. E somos uma comunidade matriarcal. A mãe é a cabeça da família.
Quando uma filha casa, traz o marido para o lado materno.
— Interessante. E eu sempre pensei que os apaches fossem uma sociedade
guerreira e machista.
— Os guerreiros apaches eram violentos na sua época, mas ao contrário do que se
acredita, nunca tiraram escalpos. Os apaches têm horror à mutilação, mesmo dos
inimigos.
— Você é violento?
Ele a fitou por um momento, surpreso.
— Eu? Eu sou um índio civilizado. Com diploma universitário e tudo mais.
— Você tem jeito de poder ser violento — ela refletiu.
— Isso não é algo estranho para se dizer a uma pessoa que você mal conhece? —
ele revidou, sério.
— Acho que sim, mas não consigo parar de imaginar as pessoas em fotografias,
com fantasias e cenários. Bobagem minha, não é? Uma das imagens que faço de você é
vestido de guerreiro, com uma longa trança, sobre um cavalo.
— Você tem visto filmes demais.
Ela ignorou o comentário e inclinou-se sobre a mesa, fitando-o intensamente.
— Qual é sua fantasia, Adam Farwalker?
Ele ficou frio por dentro. O que havia acontecido com a conversa inocente?
— Não ligo para fantasias.

— Mas devia. Pense um pouco nisso. Como você se vê? Adam desviou o olhar e
fitou a escuridão. A voz abafada dos outros frequentadores, o som dos talheres, o ruído
de uma rolha pulando de uma garrafa de champanhe chegavam a seus ouvidos. Sentia
que Robin o observava, curiosa, atenta. Uma súbita vontade de contar-lhe tudo o invadiu.
Podia livrar-se do peso, parar de se esconder, de fingir. Era como se uma mulher
desconhecida pudesse ver dentro de seu coração.
Não. Nenhuma mulher compreendia o que havia de errado com ele. Violento. Tinha
vontade de rir.
— Vamos, você já deve ter se imaginado em algum tipo de cena — ela insistiu.
— Detesto ser desmancha-prazeres, mas acho que é melhor irmos embora. — Ele
olhou para o relógio. — Estão me esperando.
— Ah. — Robin baixou os olhos. — Desculpe. Você devia ter me dito. Eu posso
pegar um táxi.
— De jeito nenhum, Robin. Eu a arrastei até San Lucas e agora vou levá-la de volta
a Santa Fé. Ainda é cedo.

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— Bem, se você tem certeza. Às vezes eu perco a noção de quanto estou falando.
Meus amigos já aprenderam a me mandar calar a boca quando eu começo a exagerar. —
Ela levantou-se, pegou a bolsa e acompanhou Adam para fora do restaurante.
O vento da noite entrava pela janela do carro enquanto seguiam em direção à
cidade. Adam sentia o aroma familiar da terra onde nascera. Há muito aprendera a
controlar cada gesto, cada expressão, cada palavra quando se encontrava com uma
mulher. Era preciso manter distância, e ele sabia disso.
— É pena que não tenhamos conseguido encontrar o homem que fez aquele pote —
comentou Robin. — O que você vai fazer agora?
— Posso tentar ir até San Lucas e fazer perguntas outra vez.
— Não pode pedir ajuda da polícia?
— Não. Não tenho provas além de sua fotografia. Isso não é suficiente para
convencê-los de nada.
Ele sentiu a hesitação de Robin, como se ela quisesse dizer algo, mas não
soubesse se devia. Gostaria de poder rir com ela, colocar a mão em seu braço, tocar seus
cabelos claros. Queria ainda ter a liberdade de fazer isso.
Mas, a situação era ridícula, absurda. Dez anos antes, ele pegara caxumba de uma
prima mais nova. Caxumba, um adulto com uma doença estúpida de criança. Mas, em
homens adultos, a caxumba acarretava o risco da esterilidade. E o médico o informara,
consternado, que ele nunca poderia ser pai.
Assim, tomara a decisão consciente de evitar relacionamentos sérios. Tivera alguns
casos amorosos, mas as mulheres pelas quais se sentira atraído sempre esperavam algo
que não lhes podia dar. Então, ele mascarava sua deficiência com um comportamento
distante. Sabia que às vezes parecia arrogante, mas receava que nenhuma mulher
pudesse aceitar a verdade sem um sentimento de decepção ou, pior ainda, pena.
A voz de Robin intrometeu-se em seus pensamentos.
— Você é daqui de Santa Fé?
— Sim, nascido e criado aqui. Meus pais vivem nos arredores da cidade.
Ela suspirou, sem que Adam compreendesse por quê. Depois virou-se para ele, com
um dos braços apoiados no encosto do banco. Adam tinha plena consciência dela, de seu
perfume, de seus cabelos brilhando à luz da estrada, dos olhos questionadores.
— Você tem sorte — ela disse, com a voz suave. — Pertence a este lugar, tem
raízes, sua família vive aqui. Às vezes me sinto tão desligada que chega a ser assustador.
Meus pais morreram anos atrás. Espero que você dê valor ao que tem.

Ali estava o traço de dor que ele notara. Ela era só, apenas isso. Onde se
encontravam todos os homens que certamente haviam se interessado por ela? Por que
não casara? Contra a vontade, voltou os olhos para Robin, observando-lhe o pescoço
claro e bem delineado, o perfil clássico. Adam estacionou diante da loja.
— Obrigado por ter largado tudo e ido até San Lucas comigo.
— Foi pena não descobrirmos nada. Poderíamos tentar de novo, não acha? De
qualquer forma, obrigada pelo jantar.
Ele saiu do carro para abrir a porta de Robin, enquanto ela pegava a bolsa e a
câmera no banco de trás. Seus seios repuxaram o tecido branco da blusa e Adam desviou
o olhar.
— Obrigada novamente — disse ela, descendo do carro. — Foi uma tarde
agradável. Você me avisa se houver algo que eu possa fazer para ajudar?
— Aviso — ele respondeu, prometendo para si mesmo que nunca tornaria a ver
Robin Hayle. Ela era muito perturbadora para sua paz de espírito tão duramente
conquistada.
— Bem, tchau. — Ela virou-se e então parou, olhando para a frente da loja. — Por

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que será que Ericka fechou a persiana?


— O quê?
— Nunca fechamos a persiana. Estraga a vitrine. Por que ela...
— Vocês nunca deixam a loja assim? — Adam perguntou, intrigado.
— Não. Será que Ericka esqueceu? Mas por quê?
Ela abriu a bolsa à procura da chave e dirigiu-se à porta.
— Espere. — Adam a segurou, dando ouvidos a um sexto sentido que aprendera a
respeitar.
Robin parou e o fitou na meia-luz da rua.
— O quê?
— Há uma porta dos fundos em sua loja? Ou alguma janela?
— Sim, no estúdio, na rua de trás.
— Fique aqui. Eu vou dar uma olhada.
— Mas o que você está achando que aconteceu?
— Não sei. Vou apenas dar uma olhada.
Ele foi até os fundos e constatou imediatamente. Alguém havia quebrado a janela e
entrado no estúdio. A porta encontrava-se aberta também. Adam aproximou-se, tentando
descobrir se havia algum barulho lá dentro. Não, o silêncio era total.
— Adam — Robin o chamou. — Ah, você está aí. O quê...?
— Eu lhe disse para ficar...
— O que houve? Minha janela!
— Alguém entrou na loja.
— Oh, não! — Robin passou por ele e acendeu as luzes do estúdio. Adam a ouviu
soltar um gemido e entrou atrás dela. A loja estava em desordem completa. Todas as
gavetas e armários haviam sido abertos e o conteúdo esparramado pelo chão, todas as
fotografias arrancadas das paredes, todas as câmeras e rolos de filmes jogados pelo
aposento, muitos desenrolados, expostos, arruinados.
Ele notou que Robin não parecia bem e, depressa, segurou-lhe o braço e a levou
para a cadeira mais próxima. Ela apertou-lhe a mão e olhou em volta, atordoada. Havia
lágrimas em seus olhos.
— Você nunca foi assaltada antes?
— Não.
— E as lojas em volta?
— Nunca aconteceu nada desde que me estabeleci aqui. Será que roubaram o
dinheiro? Está em uma gaveta...

Adam a deixou e foi verificar a gaveta que ela lhe apontou. O dinheiro, cheques e
recibos de cartões de crédito do dia haviam sido cuidadosamente guardados por Ericka
em um malote de depósitos bancários. Ele lhe entregou o malote em silêncio e esperou
até que Robin conferisse o conteúdo e levantasse os olhos, surpresa.
— Está tudo aqui. Não entendo...
Mas Adam começava a entender. Era evidente que não havia nada faltando na loja.
Aquela invasão mais parecia um aviso. Adam cruzou os braços e a fitou.
— Acho que isto não foi um simples assalto, Robin. Foi muita coincidência. É um
aviso.
— De que você está falando?
— Alguém descobriu que você estava San Lucas hoje, fazendo perguntas sobre um
pote falsificado. A fotógrafa que havia estado lá há duas semanas. A notícia deve ter-se
espalhado como fogo no mato. Alguém em San Lucas sabia o seu nome?
— Sim, eu dei meu cartão ao ceramista, para o caso de ele querer uma cópia da
fotografia. — Ela o fitou, assustada. — O que você está querendo dizer?
Adam sentiu raiva de si mesmo por ter envolvido uma pessoa inocente no que já se

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

tornara uma situação complicada.


— Ouça, esse ceramista do povoado, ou algum conhecido dele, deve ter feito isso
para que você não se meta mais com eles.
— Imagine! — Robin exclamou, cética.
— Robin, acho que você não percebe com o que estamos lidando. Alguns desses
falsificadores de peças artísticas faturam muito alto. Há milhares, talvez milhões de
dólares em jogo. E parece que eles não gostam de investigações.
Adam caminhou até a frente da loja, inconformado com sua própria falta de tato.
Entrara naquele povoado pisando duro e deixara toda a comunidade desconfiada. Por
que não fora mais sutil? Por que não usara a cabeça? Talvez por causa da presença de
Robin, que o deixara confuso, incapaz de pensar direito. Mas não podia ter sido tão
descuidado.
— Adam — ela chamou. — Acho que devo chamar a polícia.
— Ah, sim. Quer que eu faça isso?
— Não, não se preocupe. Mas eu gostaria de lhe pedir um favor. Sei que você tem
um... um compromisso, mas talvez possa esperar e receber a polícia comigo. Eu tenho a
sensação de que eles não vão acreditar em mim. Acha que pode telefonar e avisar que se
atrasará um pouco?
Ela estava tão abalada, tão vulnerável, que Adam não viu outra saída.
— Claro. Meu compromisso não é tão importante.
— Pode usar o telefone.
Adam queria abraçá-la, afagar seus cabelos loiros, dizer-lhe que tudo ficaria bem.
Foi necessário autocontrole para manter-se distante dela.
Robin chamou a polícia, depois olhou em volta com raiva, avaliando o estrago que
haviam feito em sua pequena loja.
— Que canalhas! Não me admira eles terem fechado a persiana.
— Eu ajudo você a pôr tudo em ordem.
— A polícia disse para não mexer em nada.
— Então mais tarde. Amanhã.
— Não vou recusar a oferta — ela respondeu, com um sorriso triste.
Não haviam se passado mais que cinco minutos quando uma viatura estacionou
diante da loja. O policial mostrou suas credenciais, apresentou-se e fez uma careta ao ver
a desordem.
— Investigador Cordova? O senhor é parente de Julien? — Robin perguntou.
— Rod! — Adam exclamou. — Mas que surpresa!
— Adam! — Os dois apertaram-se as mãos. — Faz alguns anos, hein?
— Rod foi meu colega de escola — Adam explicou a Robin. — Ele é o irmão mais
novo de Julien. Bem... um dos irmãos mais novos.
Rod era baixo como Julien, mas não tão elegante. Dava a impressão de ser
perspicaz e arguto. Tirou um caderninho de anotações do bolso e olhou para Robin.
— Bem, o que houve aqui?
Robin contou sobre o pote, sobre a viagem até San Lucas, sobre as suspeitas de
Adam. Rod Cordova ouvia pacientemente, anotando os detalhes e fazendo uma ou outra
pergunta de esclarecimento.
— Vou mandar uma pessoa aqui na segunda-feira para colher impressões digitais —
ele decidiu. — Talvez haja alguma.
— Você não parece muito convencido, Rod — Adam comentou.
— Bem, Adam, eu tenho de me basear em fatos. E, por enquanto, os fatos são
claros: nada foi roubado. Talvez tenha sido algum grupo de adolescentes arruaceiros.
— Mas por que na minha loja? — Robin indagou.
— Há uma menina que trabalha aqui, não é?
— Ericka?

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— Eu irei interrogá-la. Talvez ela tenha amigos que a ouviam falar da loja. Sabe
como são essas coisas, srta. Hayle. Acontece toda hora.
— Ericka não tem nada a ver com isso — ela protestou.
— Rod só está fazendo seu trabalho — tranquilizou-a Adam. — Ele apenas precisa
verificar tudo.
Ela não disse mais nada, mas era evidente que estava irritada. Rod não levava o
caso tão a sério quanto Adam gostaria, embora tivesse que admitir que, sem provas de
suas suspeitas, o crime não parecia muito grave.
— Ouça, Rod, deixe a questão do pote em aberto, está bem? Pode haver alguma
ligação.
— Não fecharei nenhuma possibilidade, até provar o contrário — assegurou o
investigador. — Acontecem coisas estranhas. Boa noite, srta. Hayle. Boa noite, Adam.
Robin fechou a porta e virou-se para Adam, furiosa.
— Mas que coragem a desse sujeito! Acusar Ericka! Eu gostaria que “ele” tivesse de
arrumar tudo isto.
— Eu receava mesmo que a polícia fosse agir assim.
— Ele não ajudou muito, não é? Mas, sem dúvida, é uma história difícil de acreditar.
Talvez seja só uma coincidência. Um grupo de adolescentes, como ele sugeriu. Pode ser,
não é?
— Robin... — Ele não queria assustá-la ainda mais nem lhe dar uma falsa
esperança. — Eu não sei quem fez isso, e não quero apavorá-la, mas se mexemos com
uma quadrilha de falsificadores, as coisas não podem parar por aqui.
— Que absurdo! — Robin caminhou até a porta, olhando em volta com raiva. — E a
polícia não faz nada! Se eu pudesse, daria um jeito de descobrir sozinha quem fez isso!
Ela estava brava, e tinha todo o direito. Mas havia algo que Adam não lhe contara,
algo que se lembrara na presença de Rod Cordova. Acontecera em Albuquerque, dois ou
três anos antes. Um policial local descobrira uma pista de uma das quadrilhas de
falsificadores e a história encheu jornais por algum tempo. Mas tudo terminara
abruptamente. O corpo do policial fora encontrado no deserto, ao lado de seu carro.
Alguns acharam que havia sido um acidente, outros não tinham tanta certeza. As
investigações não levaram a nada.
Em que ele havia envolvido Robin?

CAPÍTULO IV

Adam gostaria de poder partir para Chaco Canyon e enterrar-se no trabalho, voltar
para trás o relógio até aquela manhã em que passara pela vitrine de Robin e vira a
fotografia. Porém, firmemente incorporado a sua formação, havia o conceito apache de
honra, dever e justiça. Colocara Robin naquela situação delicada e não podia, agora, fugir
da responsabilidade.
— É melhor você ficar na fazenda hoje — ele sugeriu.
— O quê?
— Quero que você seja uma hóspede na casa de meus pais, Robin — Adam
explicou melhor. — Claro, não posso forçá-la a ficar lá, mas por questões de segurança,
eu me sentiria mais tranquilo se aceitasse o convite. Pense bem nisso.
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— Eu não posso. Nem conheço sequer seus pais — ela respondeu, constrangida.
— Eles não vão se incomodar. A casa é bem grande. Tenho certeza de que
concordarão comigo.
— Que situação mais idiota. Você fala como se estivéssemos envolvidos em alguma
trama criminosa.
— Talvez estejamos mesmo — ele afirmou, sério. Robin refletiu por um instante.
— Eu vou poder chegar cedo à loja amanhã?
— À hora que você quiser. E eu a ajudarei a limpar esta bagunça.
— Ah, eu não estava falando sério. Você não precisa fazer nada disso.
— Eu faço questão.
Adam levou Robin até a casa dela, que se localizava a apenas quatro quarteirões da
loja.
— Pelo que entendi, há alguma festa na casa de seus pais hoje — ela começou,
hesitante. — Acho que não é uma boa hora para eu aparecer lá assim...
— É o churrasco beneficente anual. E não há problema nenhum em você
comparecer.
— Tem certeza? Sinto-me um pouco sem jeito. Espero que não seja um jantar
formal.
— De jeito nenhum.
— A festa é em benefício de quê?
— Do museu de Arte Indígena aqui em Santa Fé. Minha mãe é uma pessoa muito
ativa e gosta de participar dos empreendimentos locais.
— É um jantar elegante?
— Não, você está bem assim — ele garantiu observando-a depois de estacionar o
carro. — Como eu já disse, não é nada formal. Você se importaria de me dar sua chave?
Robin o fitou, assustada.
— Não está pensando que alguém pode ter entrado em minha casa também, não é?
— É uma possibilidade. — Ele pegou a chave, saiu do carro e subiu o estreito lance
de escadas. Robin o seguiu, relutante em acreditar no perigo em que poderia estar
envolvida.
Com cuidado, Adam experimentou a maçaneta. A porta estava trancada. Inseriu a
chave na fechadura e abriu devagar, escutando, confiando em seus sentidos. Encontrou o
interruptor e acendeu as luzes. Aliviado, percebeu que ninguém havia revirado a casa.
— Ah, ainda bem! — ela exclamou, fazendo menção de entrar.
— Espere. — Adam examinou a cozinha e o quarto antes de dar sinal verde a Robin.
— Vou trocar de roupa e colocar algumas coisas em uma sacola. Não demoro — ela
avisou.
Sozinho na sala, Adam olhou em volta. Sua inata sensibilidade indígena começou a
registrar impressões. Para ele, o ambiente em que uma pessoa vivia evidenciava o que
ela era por dentro, suas ideias e heranças. Naquele aposento, havia o cheiro feminino de
Robin, mas nada que lembrasse sua origem em Illinois. Todos os objetos eram novos, de
estilo tradicional da região. Ela havia deixado o passado para trás, Adam pensou; aquele
passado que, segundo ele presumira, devia guardar alguma dor.
Porém, a sala era um lugar agradável, cheia de peças de bom gosto. Tapetes e
cestos navahos, quadros de paisagens regionais feitos por índios hopis e pueblos, vasos
de plantas bem cuidadas, posters da Ópera Santa Fé. A decoração era basicamente em
bege, verde e tons pastel. Adam estranhou, porém, não ver nenhuma fotografia tirada por
ela mesma. Era como se Robin tivesse sensibilidade pela terra e sua cultura, mas ainda
não se sentisse parte integrante do cenário.
— Já estou quase pronta — ela gritou do quarto. — Se quiser, pegue algo para
beber.
— Não, obrigado — Adam respondeu, perturbado com a noção de que ela se

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encontrava atrás da porta, a poucos passos, trocando de roupa, penteando os cabelos.


Mesmo de costas, Adam sentiu a presença dela na sala assim que Robin entrou. Era
como se, de repente, ela houvesse trazido vida a um lugar inanimado. Virou-se para fitá-
la. Robin estava linda, como um sol radiante; trazia consigo um frescor e uma vitalidade
que iluminavam o ambiente.
— Bem, como estou? — ela quis saber.
— Está ótima — Adam respondeu, tentando não demonstrar nenhuma emoção. Ela
havia prendido os cabelos com pentes, o que dava um efeito natural, mas elegante,
feminino e sensual. Adam pegou a sacola que ela trazia e forçou-se a desviar a atenção.
Aquela mulher era uma tortura para seu autocontrole.
— Espere um segundo. — Robin caminhou até a cozinha e começou a escrever
alguma coisa em um bloco de anotações. Adam observou-lhe a figura esguia inclinada
sobre a mesa. Ela vestia uma saia salmão que descia abaixo dos joelhos, um blazer da
mesma cor, com mangas puxadas até o cotovelo, e uma blusa gelo de gola alta. Quando
Robin endireitou o corpo, Adam não pôde deixar de notar que ela não usava sutiã sob o
tecido macio.
— O que você acha? — Robin perguntou, mostrando-lhe o bilhete.
— “Não tenham o trabalho de demolir esta casa” — ele leu. — “Eu entendi bem a
mensagem.” — Adam olhou para Robin e sorriu. — Vai deixar isto na porta?
— Claro que sim. Não quero estragos aqui também, “se” sua teoria sobre os
falsificadores estiver certa. — Ela passou por Adam para pregar o bilhete, e seu perfume
encheu o ar. Era como se o estivesse torturando de propósito.
— Vamos embora — ele chamou, arrancando-se do encantamento.
A viagem até a fazenda não foi longa. A propriedade localizava-se no final da
Canyon Road, a poucos quilômetros do centro da cidade, cercada pelas colinas que
subiam do rio Santa Fé.
— A fazenda é de nossa família há mais de três séculos — ele explicou.
— Mas... os apaches tinham fazendas aqui nessa época?
— Na verdade, não. As terras eram, originalmente, possessões espanholas
entregues a um ancestral meu. Isso é uma lenda de família, mas minha mãe afirma que o
rei da Espanha as concedeu a um de seus filhos bastardos.
— Então você não é inteiramente apache.

— Sou uns noventa por cento índio. Minha trisavô Cassandra casou-se com um
norte-americano rico depois que o pai dela morreu. Dessa forma, salvou a fazenda
quando os Estados Unidos venceram a guerra contra o México. A maioria dos outros
mexicanos perdeu tudo. Mas ele não.
— E como os apaches entraram na família?
— O marido de Cassandra morreu na Guerra Civil e ela casou-se novamente, com
um apache. E o nome dele era Adam.
— Você recebeu o nome dele? Que emocionante!
— Minha mãe gostava da história. Os filhos de Adam herdaram a fazenda e, daí por
diante, todos se casaram com apaches.
— É uma bela história mesmo.
— Eu sempre me pergunto quanto disso é verdade, embora o documento original de
concessão das terras esteja arquivado na biblioteca histórica. É uma das poucas
fazendas que sobreviveram às taxações e leis topográficas norte-americanas.
— Cassandra... uma mulher forte. Eu teria gostado dela.
— Acho que ela também teria gostado de você — Adam comentou, sem pensar.
— Que linha hereditária interessante.
“Mas vai acabar tudo comigo”, ele teve vontade de acrescentar.

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À frente deles estendiam-se as colinas da fazenda, a Las Jaritas, que iluminava a


paisagem noturna. À luz do luar, o gado pontilhava as encostas sobre o rio Santa Fé que,
no fim do verão, não passava de um fio de água.
Adam estacionou o carro e, segurando a sacola de Robin com uma das mãos e o
braço dela com a outra, conduzi-a pelo pátio lotado até o local onde se encontrava sua
mãe. Christina Farwalker era a perfeita combinação do ético e do chique: vestia uma saia
ampla com um cinto artesanal e blusa bordada, e usava os cabelos cortados em um
elegante estilo moderno.
No momento em que viu o filho, pediu licença ao homem com quem conversava e
veio a seu encontro. Adam teria de ser rápido com as explicações; sua mãe pensaria que
Robin era uma namorada e não esconderia o entusiasmo. Abruptamente, ele soltou o
braço de Robin.
— Oi, Adam — Christina cumprimentou.
— Oi, mamãe. Esta é Robin Hayle. Ela é dona de um estúdio fotográfico em Santa
Fé e, por causa de alguns acontecimentos imprevistos de hoje, eu a convidei para ficar na
casa de hóspedes. Foi por isso que atrasei tanto.
— Nada ruim, espero. Robin, você é bem-vinda aqui. — Ela olhava de Robin para
Adam, visivelmente confusa.
— Robin acabou se envolvendo em uma ideia maluca que tive... — Adam começou.
— Mas eu explico mais tarde.
— É um prazer estar aqui, sra. Farwalker — Robin assegurou, cumprimentando a
mãe de Adam e tomando o controle da conversa.
— Pode me chamar de Christina, por favor. Adam, leve Robin ao quarto e depois
arrume alguma coisa para ela comer.
— Eu sei que pareço faminta — Robin comentou, rindo.
— É meu estado natural. Mas Adam já me levou para jantar.
— Prometo que não contarei a ninguém — Christina brincou, com ar de
cumplicidade, e as duas já se sentiram amigas. De alguma forma, a ideia perturbava
Adam.
A fazenda estendia-se pela encosta da colina, com suas inúmeras dependências,
todas térreas. Uma capela antiga conservava-se separada da estrutura principal. Nas
proximidades, uma construção que já fora residência de empregados servia agora,
totalmente reformada, como casa de hóspedes.
— Vou me perder para voltar à festa — Robin brincou, enquanto Adam abria a porta.
— É só seguir o barulho.
— Estarei pronta em um segundo.
— Eu a encontro lá. Preciso conversar com uma pessoa. Você se importa?
— Claro que não. — Mas ela parecia desapontada. Adam saiu e fechou a porta,
sabendo que estava lhe fazendo um favor.
Havia mesmo alguém com quem ele precisava conversar. Abriu caminhou entre a
multidão e encontrou sua mãe outra vez. Precisava preveni-la antes que ela dissesse ou
fizesse alguma coisa constrangedora para ele ou para Robin.
Adam chamou Christina para um canto e explicou rapidamente a situação de Robin
e como ele a havia envolvido naquele problema.
— E você acha mesmo que há uma quadrilha de falsificadores e que alguém entrou
na loja de Robin para assustá-la? — Christina indagou.
— Acho bastante provável, e quero ter certeza de que Robin está segura.
— Claro. Ela pode ficar aqui quanto tempo quiser.
— Mamãe, você entendeu que foi apenas pela proteção dela que eu a trouxe aqui,
não é?
— Uma moça tão bonita. Você não acha?
— É, mas se ela fosse uma bruxa eu teria agido da mesma maneira — Adam

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respondeu, impaciente.
— Adam, até que enfim você chegou — soou a voz de seu pai. — Mas perdeu o
leilão.
— Adam teve um probleminha. — Christina repetiu a história para o marido. — Foi
por isso que se atrasou. Mas você tem de conhecer Robin, a amiga dele. Ela é uma moça
adorável, Ray.
Ray Farwalker era um homem bastante alto, rosto anguloso, que vestia camisa em
estilo western, botas, calça de brim e mantinha os longos cabelos grisalhos amarrados em
um rabo-de-cavalo, à maneira tradicional. Quieto e trabalhador, tinha uma aura de paz em
torno de si que sempre causara admiração a Adam.
— Vocês avisaram a polícia? — ele indagou, sóbrio.
— Rod Cordova está cuidando do caso.
— Ótimo. E onde está essa sua garota?
— Ela não é minha garota — Adam revidou, com impaciência. — Eu apenas me
sinto responsável depois do que aconteceu à loja dela.
— E tem razão — Christina afirmou. — Coitadinha. Por que não vai buscá-la, Adam?
Seu pai gostaria de conhecê-la.
— Mamãe...
— Ela é uma hóspede em minha casa, Adam. Acho que lhe devemos algumas
cortesias.
— Eu vou ter chances de conhecê-la mais tarde — Ray contemporizou.
— Bem, vou voltar à festa — Christina trocou um olhar significativo com o marido.
Adam percebeu e não conteve a raiva. Ela o estava pressionando outra vez.
— Mamãe, não veja nisso mais do que existe realmente — avisou novamente.
— Filho, sua mãe apenas...
Mas Christina colocou a mão no braço do marido para silenciá-lo.
— Adam, você foi educado para permanecer em harmonia com a vida. Se a
natureza lhe negou filhos, cabe a você encontrar o caminho para aceitar o fato, e não lutar
contra, como o homem branco faz. — Ela ficou na ponta dos pés e beijou o rosto do filho.
— Divirtam-se na festa, você e Robin. — Pegou o braço de Ray e os dois desapareceram
no meio da multidão barulhenta, enquanto Adam apenas observava, com o rosto
destituído de expressão.

Robin sentou-se na cama e apoiou o rosto nas mãos, avaliando a situação. Gostaria
que Adam nunca houvesse parado diante de sua loja. Queria nunca tê-lo visto, ou falado
com ele. Adam era alguém de quem ela poderia gostar muito, mas ele não parecia nem
um pouco interessado.
Olhou em volta, pensativa. O quarto era um exemplo do velho charme de Santa Fé
que tanto a agradava. A mobília simples e escassa, impecavelmente limpa, tinha um
jeitinho espanhol. Sobre a cama, havia um cobertor indígena preto e vermelho e, no chão,
um tapete navaho. O banheiro era totalmente moderno. O quarto era uma trindade de
culturas. Como Adam Farwalker.
Ela não estava com a menor vontade de ir à festa. Com um suspiro, levantou-se e
foi até a janela. A música de violões erguia-se do pátio e flutuava por toda a fazenda.
Havia vasos de flores em qualquer direção que olhasse. Junto à antiga capela, avistou um
pequeno banco solitário encostado ao muro alto que protegia a propriedade de intrusos.
De repente, sentiu-se perdida, deslocada.
Saiu do quarto e caminhou até a capela, pensando na história de Cassandra. A
mulher andara por aqueles mesmos caminhos, cheirava aquela exótica profusão de flores
de fim de verão. O muro devia ser novo na época, e a capela mais bem conservada.
Passos atrás de si fizeram-na virar-se. Era Adam.

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— Você me assustou.
— Desculpe. Achei que você tinha mesmo se perdido.
— Estava bisbilhotando um pouco. Este lugar é tão antigo, tão fascinante. É
maravilhoso que sua família ainda more aqui. Você é o filho mais velho? — ela indagou,
imaginando quem herdaria a fazenda.
— Sou. Tenho duas irmãs mais novas.
— Então serão seus filhos que levarão seu nome adiante e viverão aqui.
Adam recostou-se à parede da velha capela e cruzou os braços.
— A sociedade apache é matriarcal, como eu já lhe disse. Minhas irmãs é que
deveriam trazer seus maridos para morar aqui. Infelizmente, elas se modernizaram tanto
que acharam melhor se mudar depois que casaram. Minha mãe não ficou nem um pouco
satisfeita.
— Sabe, sua linha hereditária é algo que deveria ser preservado — ela arriscou,
tentando fazê-lo abrir-se mais. Será que ele não pensava em se casar? Adam, porém
permaneceu quieto. — Este lugar é lindo. Sinto até uma certa inveja. Imagino se você
sabe avaliar o valor que tem uma família.
— Eu sei, Robin — ele disse apenas, com um tom quase ríspido.
Ficaram em silêncio, com a história a envolvê-los. No entanto, Robin sentia a
distância que Adam parecia fazer questão de manter.
— Você deve estar com sede — ele disse, por fim. — Vamos até a festa?
— Vamos. — Como poderia dizer-lhe que preferia ficar ali, no escuro, com ele?
A festa estava animada no pátio iluminado. Robin deparou-se com uma saborosa
mistura de rostos: elegantes descendentes de espanhóis cujas famílias viviam no Novo
México há séculos; herdeiros de fortunas no Leste que tinham vindo para a feira indígena;
colecionadores de arte; típicos moradores do Oeste, com pele bronzeada, botas e
chapéu; índios que eram artistas locais ou amigos dos Farwalker.
Adam foi buscar para Robin cerveja e um prato com frango, costelinhas de boi e
salada. Vendo-a sozinha, Christina aproveitou a oportunidade para aproximar-se.
— Está gostando da festa, Robin?
— Muito, sra. Farwalker.
— Chame-me de Christina. Esta é a ocasião do ano de que eu mais gosto. É minha
maneira de unir as comunidades indígena e branca.
— É muita generosidade sua.
— Meu marido desconta do imposto de renda — Christina brincou, e ambas riram.
— Meu filho me contou sobre a fotografia e a sua loja. Que coisa mais horrível.
— Eu fiquei furiosa.
— Essas quadrilhas de falsificadores podem ser muito perigosas. Você precisa ter
cuidado. Não sei o que passou pela cabeça do meu filho para arrastá-la até aquele
povoado. Ele costuma ser tão equilibrado.
— Acho que eu devia ter consultado você primeiro, mamãe — Adam disse, em tom
de brincadeira, ao voltar com um prato para Robin e outro para si.
— Um casal de Nova York, donos de uma galeria de arte, entrou na conversa. Robin
notou a desenvoltura com que Adam falava com eles. Como ele parecia adquirir mais vida
quando discutia algo ligado a seu trabalho de preservar a História. Ele chegou até a rir
uma vez. Por que não se soltava assim com ela?
Mesmo assim, ele era o anfitrião perfeito, levando-a de grupo em grupo e
apresentando-a a tantas pessoas que ela nunca conseguiria guardar todos os nomes.
Julien Cordova conversava animadamente com um grupo de colecionadores e
cumprimentou-a com efusão.
— Que bom vê-la aqui, Robin. A festa está ótima, não é?
Eles continuaram caminhando pelo pátio, enquanto um jovem cantava músicas
românticas em espanhol. Adam parou para conversar com dois artistas do Arizona, mas

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Robin nem ouvia o que diziam. Toda sua atenção estava no rosto de Adam, na energia de
seus traços, nos lábios bem delineados.
Adam percebeu que ela o observava e virou-se ligeiramente para outro lado,
enquanto sua expressão animada fechava-se como se ele houvesse interrompido a
passagem para sua alma. Talvez, Robin pensou, fosse o senso inato de privacidade com
que os índios se protegiam de estranhos. Com o tempo ela poderia conhecê-lo melhor,
compreender suas atitudes.
Mas talvez estivesse apenas se enganando em relação a isso. Adam mostrava-se
tão distante com ela, tão pouco interessado.
À meia-noite os convidados começaram a ir embora. A música parou, empregados
limparam as mesas, as luzes foram diminuídas.
Robin estava cansada. Estivera conversando com Ray Farwalker sobre um retrato
que tirara na reserva apache perto de Santa Fé, mas ele tivera de levantar para despedir-
se de alguns convidados. Sozinha, ela sentia-se uma estranha no mundo de Adam.
Sem jeito, procurou-o com o olhar. Ele despedia-se de Julien no outro lado do pátio.
Parecia tranquilo e relaxado. Robin sentiu que poderia ficar olhando para ele a vida toda.
— Robin — Christina a chamou. — Pensei que já tivesse ido se deitar.
— Não, ainda não.
— Você deve estar exausta. Adam! — ela chamou antes que Robin pudesse impedi-
la. — Você deixou nossa hóspede sozinha? Leve-a para o quarto, filho. Ela está muito
cansada.
Robin levantou-se, constrangida, e sentiu a mão de Adam segurar-lhe o braço.
— Não é preciso, eu posso ir sozinha — ela garantiu.
— Deixe de bobagem. Mamãe tem razão.
Robin deixou que ele a acompanhasse e ambos caminharam em silêncio. Ao
passarem pelo banco ao lado da capela, Robin imaginou Cassandra sentada ali com seu
amante apache, pressionada contra o peito dele, beijando-o com paixão. Sentiu-se fraca.
Por que Adam não a abraçava assim? Por que não a beijava?
Ele abriu a porta o afastou-se para que ela entrasse.
— Boa noite --- despediu-se, sem emoções.

Robin sentiu-se envergonhada, consciente de quanto desejava um toque, uma


palavra mais íntima, um olhar mais quente dele. Mas não iria conseguir. Não daquele
homem. Adam parecia caminhar sozinho pela vida.

CAPÍTULO V

Foi um dia de frustrações.


Robin acordou com o sol, cedo demais, ainda cansada, mas incapaz de dormir mais.
A ideia de que logo tornaria a ver Adam Farwalker a deixava agitada como se tivesse
tomado café em excesso.
Ele era um homem estranho e fascinante. Isso em parte devia-se ao fato de ser
índio, mas sem dúvida havia algo poderoso e significante por trás de sua reticência.
Era inútil continuar deitada. Robin levantou-se, tomou um banho e vestiu uma calça
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branca justa e uma camisa vermelha que descia quase até os joelhos. Depois de limpar a
loja, ficaria imunda, mas não podia sentar-se à mesa dos Farwalker de jeans e camiseta.
Caminhou até a casa principal e entrou em silêncio. Dirigiu-se à cozinha, com a
esperança de encontrar Adam tomando café, mas o aposento estava vazio. Nem mesmo
Christina havia levantado.
A curiosidade impeliu Robin a espiar os aposentos principais da casa. Aquele era o
lugar onde Adam nascera, onde correra e brincara quando criança. Mas tornava-se difícil
imaginar Adam pequeno e alegre; era como se ele sempre tivesse sido reservado e
contido.
Enquanto explorava, experimentava com força a velha sensação de ser uma
estranha. Desde a perda de seus pais, Robin sempre sentia-se excluída quando
presenciava uma cena familiar, uma casa grande e confortável como aquela, ocupada por
pais carinhosos e várias crianças gritando. Aquela fazenda lhe passava a impressão de
fortes laços familiares.
Encontrava-se na sala, examinando um lindo cesto de vime colocado ao lado da
lareira, quando Christina a encontrou.
— Está gostando de nossa casa? — ela indagou.
— É linda. Tão... aconchegante.
— Quer dar uma olhada nela? Ou está com fome?
— Já andei espiando — Robin admitiu. — E estou mesmo com fome.
Christina lhe disse que Adam ainda dormia e Robin forçou-se para conter uma leve
decepção. A anfitriã serviu-lhe um prato de huevos rancheros, ovos com milho,
temperados com um molho picante de tomate, pimenta e cebola.
— Meu filho me contou que você satisfaz as fantasias das pessoas através das fotos
— Christina comentou.
— Ah, ele contou? — Robin sentiu-se feliz por saber que Adam falara dela com a
mãe. Mais animada, começou a explicar seu trabalho para Christina e narrar seu estoque
de histórias engraçadas.
As duas estavam rindo quando Adam entrou na cozinha. Ele hesitou quando viu
Robin. Como se houvesse esquecido que ela se encontrava lá e não tivesse gostado da
surpresa. Robin não podia negar que aquela atitude a magoava, mas dizia a si mesma
que era ridículo ser tão sensível. Além disso, Adam estava tão bonito que ela perdoaria
qualquer coisa. Vestia jeans e uma camisa xadrez preta e vermelha com as mangas
arregaçadas. Parecia mais jovem, mais descansado, ou talvez mais à vontade na casa
dos pais.
— Dormiu bem? — ele indagou.
— Claro, muito bem.
Christina dominava a conversa. Tinha uma maneira descontraída e carinhosa de
tratar o filho, e parecia o tipo de mãe que dava conselhos demais. Mas Adam não se
incomodava e deixava que ela pensasse ter o controle da situação.
Por fim, Ray Farwalker juntou-se a eles. Havia levantado cedo e saído com alguns
empregados para procurar um bezerro desgarrado. A conversa voltou-se para questões
de família e Christina lembrou Adam do aniversário da irmã.
— Vou tentar vir, mas a equipe de escavação precisa voltar logo para a faculdade e
ainda temos muito trabalho pela frente.
— Uma tarde não vai matar você — Christina insistiu. Ele sorriu para a mãe e tomou
o resto do café.
— Preciso ir. Robin tem de voltar para a loja e eu estou cheio de trabalho.
Christina os acompanhou até a porta.
— Robin, telefone, está bem? E pode ficar aqui conosco quando quiser. Quero ouvir
mais histórias de seus clientes. Traga-a outras vezes, ouviu, Adam?
Adam não respondeu e a atmosfera tornou-se subitamente tensa. Robin comentou

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alguma bobagem qualquer, falando demais como sempre, na tentativa de aliviar o


ambiente. Depois, seguiu-o até o carro.
— Foi uma festa e tanto, não?
Ele demorou para dar uma resposta, olhando fixamente para a estrada.
— Minha mãe adora essa reunião. Aproveita para reunir todo mundo que não viu
durante o ano.
O amplo vale diante deles estava banhado em brilho de luz do sol da manhã. Logo a
cidade foi tomando conta dos espaços, com suas ruas estreitas e prédios antigos. Adam
estacionou diante da casa dela.
— Deixe suas coisas aí e então iremos arrumar a loja.
— Você não precisa ir comigo. Eu e Ericka podemos cuidar disso.
Ele apenas a fitou em silêncio antes de descer do carro e verificar se a casa estava
em ordem.
— Gostaria que você ficasse na fazenda, Robin. Seria mais seguro.
— Obrigada, mas não creio que haja necessidade.
— Você é quem sabe — ele respondeu, visivelmente contrariado.
Robin deixou sua sacola no quarto e pegou as poucas ferramentas que possuía, um
martelo e duas chaves de fenda. Na loja, começou a varrer o chão, separando artigos
estragados dos ainda aproveitáveis, enquanto Adam procurava tábuas velhas na rua para
pregar na janela quebrada. Robin olhou em volta, avaliou o estrago e concluiu que, pelo
menos, aquilo trouxera algo de bom. Poderia passar mais algumas horas com Adam.
Relutante, colocou um aviso na porta, dizendo que abriria só ao meio-dia. Era
domingo, último dia da feira indígena, e a rua fervilhava de turistas, ávidos para fazer
compras.
Adam voltou dos fundos da loja e pôs-se a ajudá-la na arrumação. Robin decidiu
pressioná-lo para ver se ele se abria um pouco e satisfazia sua curiosidade.
— Fale de suas irmãs — pediu.
— Elas são mais novas do que eu. Casadas. Felice tem dois filhos e Amanda tem
três.
— Ah, então você é titio. Que delícia! Eu adoraria...
Alguém batia insistentemente na porta. Irritada, Robin foi ver quem era.
— Sra. Hartmann, bom dia.
— As provas já ficaram prontas?
— Eu disse segunda-feira, sra. Hartmann.
— Segunda? Mas... Ei, o que aconteceu aqui?
— Um assalto — Robin disse depressa, para não esticar a conversa.
— Que pena! Bem, eu volto amanhã.
Robin trancou a porta de novo e virou-se para Adam. Começou a fazer outra
pergunta sobre as irmãs dele, mas outra pessoa começou a bater.
— Moça, preciso de filme — um homem gritou da calçada. — Você abriu para
aquela outra mulher.
Tentando ser educada, Robin foi atendê-lo.
— A loja só vai abrir ao meio-dia. Estou sem filmes. O senhor poderia voltar...
— Querido! — A mulher do cliente passou por Robin e entrou na loja. — Veja esta
fotografia! Quanto é?
Era um retrato de colinas rochosas contra um arco-íris. Robin também gostava
daquela foto, mas ela se encontrava no chão, com o vidro quebrado. Mesmo assim, a
mulher a admirava com entusiasmo.
— Quanto é? — o homem perguntou.
— Cinquenta e nove dólares e noventa e cinco centavos com a moldura. Mas o vidro
está quebrado...
— Quanto é sem o vidro?

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— Bem... cinquenta.
— Vou levar. O que houve por aqui?
— Um assalto — Robin respondeu.
— Que bagunça, hein? Ei, aqui está um filme como eu preciso — ele disse,
apontando para o chão.
Robin pegou a fotografia e o filme e dirigiu-se ao balcão. Começou a remover os
cacos de vidro que permaneciam na moldura, mas... Na pressa para se livrar logo dos
clientes, distraiu-se e cortou o dedo.
— Ai, droga! — ela exclamou.
Adam aproximou-se imediatamente.
— O que foi?
— Cortei o dedo. Como sou desajeitada! Agora não posso pegar o retrato ou o
sangue vai estragá-lo.
— Deixe que eu cuido disso. É só você me orientar.
— Vocês são casados? — o homem perguntou. — Bela loja a de vocês. Eu tenho
um açougue em Pittsburgh.
Adam enrolava um lenço no dedo ferido de Robin e manteve a cabeça baixa. Ela
sentiu o rosto enrubescer. Como aquilo podia estar acontecendo?
— Não somos casados — disse depressa.
— Ah, esses jovens de hoje. Não precisa dizer mais nada. Ouçam, vocês sabem
que a carne...
Robin sentia-se realmente frustrada. Seu dedo doía, o homem discursava sobre os
benefícios da carne, a mulher remexia as fotografias e câmeras no chão. Enquanto isso,
Adam encarregou-se perfeitamente da venda. Embrulhou a fotografia, cobrou, agradeceu
aos clientes com um sorriso e os colocou para fora da Robin's Nest.
— Não sei se a venda valeu o corte — ela murmurou.
— Deixe eu dar uma olhada nisso.
Era estranho ver Adam examinando seu dedo como se ela fosse uma criança. Mas,
quando ele foi até os fundos buscar um curativo, Robin teve uma súbita sensação de
aconchego.
Fazia muito tempo que um homem não tomava conta dela. Perdera o pai ainda
pequena e o tio, com quem morara, era um vendedor que nunca parava em casa. Robin
fora forçada a manter sua independência, a contar consigo mesma.
Que mulher não gostaria de ter um homem forte tomando conta dela de vez em
quando?
Adam voltou com o curativo na mão, sério e compenetrado. No entanto, havia uma
energia nele que parecia encher a pequena loja. Seria a origem apache? Por isso ela se
sentia tão misteriosamente atraída por aquele homem?
Ele levantou a cabeça e flagrou Robin analisando-o. Por um instante, houve uma
espécie de comunicação entre os olhares, como se ele quisesse lhe contar alguma coisa.
— Alô! — chamou uma voz à porta, mexendo na maçaneta. — Alô, Robin!
— Julien — Adam disse. — Vamos deixá-lo entrar?
— Claro. — Enquanto Robin colocava o curativo no dedo, Adam foi abrir a porta.
— Mas o que aconteceu aqui? — Julien perguntou, franzindo a testa. — Dios mio!
— Nós não sabemos muito bem — Robin respondeu, forçando um sorriso.
— Meu irmão me contou uma história maluca, sobre uma ligação com aquele pote
falsificado. O que está havendo, Robin?
Ela contou toda a história novamente, imaginando se Julien não iria embora nunca
para deixá-los terminar o trabalho. Julien era um homem simpático, afetuoso e agradável,
mas será que não percebia que ainda era dia de feira indígena?
— Quero ajudar vocês. O que posso fazer?
— Nós estamos conseguindo dar conta do serviço — Adam respondeu.

30
Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— É — disse Robin, aproveitando a dica. — Vamos acabar logo.


— Bem, então... Mas esta noite, na reunião da associação, teremos de discutir esse
problema.
— Claro — ela concordou conduzindo-o discretamente para a porta. — Até a noite, e
obrigada, Julien.
Ao meio-dia, a loja estava suficientemente em ordem para ser aberta aos clientes.
Adam encontrava-se nos fundos, recolocando alguns objetos nas prateleiras, mas Robin
percebia a ansiedade dele para ir embora. Era horrível pensar nisso. Talvez nunca mais
tornasse a vê-lo.
Ele apareceu, limpando o pó das mãos.
— Posso lhe pagar um almoço? — Robin sugeriu.
— Não, obrigado. Tenho de ir. Quero passar por San Lucas outra vez. Talvez
descubra mais alguma coisa. — Ele hesitou. — Ouça, Robin, não estou querendo dirigir a
sua vida, mas eu me sentiria melhor se você dormisse na casa de meus pais, pelo menos
por algum tempo.
— Não se preocupe, Adam, eu ficarei bem. Esses bandidos já deram seu alerta e
pronto. Além disso, o investigador Cordova está cuidando do caso agora.
— Bem, não posso obrigá-la.
— É, não pode.
— Mas você promete que entrará em contato com Rod se acontecer alguma coisa
fora do normal?
— Prometo.
Ele começou a caminhar em direção à porta. “Isso é tudo”, Robin pensou. “Não vou
vê-lo nunca mais.”
Por um momento, quase lhe perguntou quando ele estaria de volta à cidade, quase
lhe disse que gostaria de receber notícias. Mas controlou o impulso. Se ele quisesse vê-la
outra vez, teria dito alguma coisa.
— Bem, obrigada por ontem à noite e por me ajudar na limpeza hoje. — Ela
estendeu a mão, sentindo-se estranhamente tímida; — Foi um prazer conhecê-lo, Adam.
— É. — Ele apertou-lhe a mão, desajeitado. — Foram vinte e quatro horas
interessantes. Bem...
— Bem... Talvez a gente se veja por aí.
— Robin! Aí está você! — Era Shelly Dalton, que vinha correndo pela rua em direção
a eles, para consternação de Robin. — Oh, meu Deus! Ericka recebeu um telefonema da
polícia sobre a sua loja... — Ela olhou para Adam. — Oh, desculpe, eu não tinha
percebido...
Robin suspirou e fez as apresentações. Logo em seguida, Chuck saiu da galeria e
também teve de ser apresentado.
— É sua mãe quem organiza o leilão todos os anos, não é? — ele perguntou a
Adam. — Uma ideia fantástica.
— Você “tem” de me contar o que aconteceu! — Shelly pediu, enfática, enquanto
Adam consultava o relógio. — Ericka disse que a polícia desconfia de adolescentes
arruaceiros ou algo assim.
— Só um segundo, Shelly. Eu já conto toda a história. Adam estava evidentemente
ansioso para ir embora. Talvez, se Shelly não houvesse aparecido, ela o tivesse
pressionado um pouco para saber se pretendia vê-la outra vez.
— Tenho mesmo de ir — ele disse. — Tome cuidado, Robin.
— Não se preocupe. Se você descobrir mais alguma coisa, vai me contar, não é?
— Claro.
Então, ele se foi. Sua figura alta e morena sumiu na multidão. Shelly e Chuck
falavam ao mesmo tempo e Robin imaginava estar dando as respostas certas, mas mal
conseguia se concentrar, pois seus olhos procuravam Adam inutilmente na multidão,

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

como se ele fosse reaparecer. Seu atraente e misterioso índio apache.


— E ele ajudou você a limpar a bagunça? — Shelly perguntou. — Robin, você está
ouvindo?
Ela estava e não estava. Parte de sua mente divagava, imaginando se não poderia
descobrir mais sobre a cerâmica falsificada. Essa não seria uma excelente desculpa para
procurar Adam Farwalker?

CAPÍTULO VI

— A reunião vai ter início — Julien Cordova anunciou, exatamente às sete horas, e
os murmúrios e agitação na sala de conferência do Hotel La Fonda cessaram. — Peço
desculpas por ter marcado esta assembleia em um domingo, mas sei que após a feira
indígena e o final do verão muitos de vocês deixarão a cidade, e eu queria organizar a
associação antes disso. Agora, como primeiro item da pauta, pedirei à secretária que leia
a ata da última reunião.
Robin cruzou as pernas e tomou um gole de seu café, na esperança de que a
cafeína a mantivesse acordada. Sentia-se cansada e sonolenta, com vontade de cair na
cama e esquecer as últimas vinte e quatro horas.
— Não sei se é aconselhável gastar dez mil dólares em propaganda de página
inteira na revista Travel and Leisure — Chuck Dalton opinou. — Todo mundo sabe da
existência de Santa Fé.
Robin suspirou. A discussão havia começado e, provavelmente, iria se prolongar por
horas.
Thad Mencimer, um rapaz loiro e troncudo, levantou-se com o rosto vermelho de
indignação.
— Isso é muita presunção! Há milhares de pessoas que não sabem o que Santa Fé
tem a oferecer. Precisamos atingir um mercado mais amplo. Os números do mês passado
mostram uma queda nas vendas.
— Um por cento — interrompeu Chuck. — E isso porque tivemos uma semana de
tempo ruim.
Outro homem levantou-se e esticou o dedo para Chuck.
— Um por cento significa uma queda em minha receita e não vou ignorar isso. Todos
sempre culpam o tempo.
— Alguém já considerou a ideia de um anúncio de meia página? — Chuck sugeriu.
— Ridículo! — revidou Thad, e Robin percebeu que a mulher dele, Lorraine, puxava-
o pela manga. Jovem e grávida, ela estava evidentemente constrangida pela exaltação do
marido.
Robin agitou-se na cadeira dura, pensando onde Adam estaria. Em Chaco Canyon?
Imaginou-o abaixando-se para entrar em uma pequena barraca. Como ele viveria ali? Em
um trailer? Uma cabine? Teria encontrado o ceramista em San Lucas?
— Tivemos uma boa feira indígena este ano — Julien dizia. — Dada a conjuntura
econômica, acho que todos faturarmos bem.
— Não o suficiente! — protestou Thad Mencimer. — Um anúncio de página inteira é
absolutamente necessário. Tenho estatísticas aqui mostrando quantas pessoas um
anúncio como esse iria atingir.
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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— Temos negligenciado o mercado exterior — alguém mais disse. — Japão,


Alemanha. É lá que os dólares estão.
— Que tal a seção de viagens do New York Times? — outro membro sugeriu.
— Estamos fugindo do assunto — alertou Thad. — Peço que votemos a questão
agora mesmo.
Robin terminou seu café já quase frio. Seria uma longa noite.
Após alguns minutos de discussão, o item foi colocado em votação e aprovou-se o
anúncio de página inteira na Travel and Leisure. Julien convencera a todos de que a
associação possuía dinheiro suficiente para cobrir a despesa e Chuck Dalton não se opôs
à decisão. Enquanto isso, Robin tentava decidir se continuava sentada ou se ia até o
banheiro jogar água fria no rosto.
Nesse momento, Shelly Dalton levantou-se, avisando que tinha um pronunciamento
importante a fazer.
— Vocês sabem o que aconteceu ontem com a loja de Robin Hayle, pessoal? — ela
perguntou, provocando murmúrios de todo o grupo. — Bem, acho que Robin deve nos
contar toda a história para que nós pensemos muito bem no caso.
— Robin, suba até aqui e conte os fatos à associação — Julien chamou. — Eu ia
mesmo colocar esse assunto em pauta.
“Obrigada, Lhes”, Robin pensou, encaminhando-se para a frente da sala. Tentou ser
rápida e clara em sua narração
— E foi isso que aconteceu — ela concluiu. — Ainda não posso afirmar com certeza
quem ou por que entraram em minha loja. O irmão de Julien, Rod Cordova, sugeriu que
poderia ser obra de adolescentes arruaceiros, mas eu não penso assim. Foi muita
coincidência, tudo isso acontecendo no mesmo dia em que investigamos o caso do pote.
De qualquer forma, estou pensando em instalar um sistema de segurança, como algumas
das galerias possuem.
— É uma desgraça! — exclamou um proprietário de galeria. — Não estamos
seguros em lugar nenhum.
— Para que pagamos a polícia, afinal? — protestou outro.
— Se há mesmo uma pessoa ou um grupo fabricando cerâmicas valiosas e
vendendo para colecionadores, todos os comerciantes de arte de Santa Fé estão
comprometidos — lembrou Thad Mencimer. — Nenhum grande colecionador confiará em
nós. Temos de fazer alguma coisa!
— E seu irmão, Julien? Ele pode nos ajudar? — perguntou alguém.
— Nada de polícia! — opinou uma mulher. — Se a polícia se envolver nisso, haverá
publicidade e a história se espalhará por todo o mundo da arte em questão de semanas.
Imaginem as manchetes: “Santa Fé inundada de falsificações”. Nossos negócios iriam à
falência!
— Madeline tem razão — concordou Shelly Dalton.
— Já posso ver nosso anúncio na Travel and Leisure — um homem comentou: —
“Vá para Santa Fé e seja roubado!”. É melhor não meter a polícia nisso.
— Certo, nada de polícia — decidiu Julien. — Mais alguma sugestão?
— Mas Rod já sabe de tudo — Robin lembrou.
— Vou conversar com Rod para que seja discreto — Julien garantiu. — Ele vai
compreender. Mas acho que devemos discutir métodos para lidar com esse problema.
Afinal, não podemos ignorar a possibilidade de você ter sido vítima de uma quadrilha de
falsificadores.
A discussão esquentou. As sugestões incluíam desde a criação de um comitê de
vigilância até um sistema de registro confiável para cada peça artística. Julien ouvia
pacientemente, esclarecendo propostas e dirigindo o debate. Por fim, levantou-se e pediu
silêncio.
— Muito bem, vejo que o ponto básico que surgiu aqui é a necessidade de mais

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

informações. Não podemos decidir nada enquanto não tivermos todos os fatos. Proponho
que formemos uma comissão de, digamos, cinco ou seis pessoas, para estudar o
assunto.

A moção foi aprovada e, antes que Robin entendesse o que estava acontecendo,
viu-se indicada como membro da comissão, junto com Chuck Dalton, Thad Mencimer,
Madeline Lassiter e Ben Chavez. Julien também compareceria às reuniões para cooperar.
Robin lembrou-se de que havia prometido a Adam não se meter mais nessa história
da falsificação. No entanto, lá estava ela, envolvida outra vez. Profundamente envolvida.
— Bem — disse Julien. — Acho que fizemos grandes progressos. A comissão irá se
encontrar três vezes por semana. Que tal na biblioteca do palácio? As conclusões serão
relatadas à associação na próxima reunião. É só, por hoje.
Robin fez uma careta. Três vezes por semana. Bem, talvez conseguissem alguns
resultados úteis. Ainda havia muitas perguntas sem resposta.
Ela retornou à loja, com Chuck e Shelly.
— Puxa, estou cansada — disse, bocejando.
— Imagino. Por que não trouxe seu amigo Adam à reunião? Ele está envolvido no
caso, não é?
— Ah, Shel, ele tem de trabalhar. É uma longa viagem até Chaco Canyon, Além
disso, não acho que ele esteja interessado em mim.
— Por que não?
— Sei lá. Eu mal o conheço.
— Mas e se ele procurar você outra vez?
Robin deu de ombros.
— Não estou em compasso de espera.
— Que homem, não? Alto, bonito...
— É, sem dúvida.
— Ah, se eu fosse jovem, solteira e sexy outra vez... — Shelly suspirou.
— O único desses adjetivos que se aplica a mim é solteira — Robin comentou, com
alguma amargura.
Diante da loja, o casal entrou na caminhonete verde. Da janela, Shelly acenou para
a amiga.
— Boa noite. Hasta manana.
Robin dirigiu-se a seu próprio carro, um modelo esporte branco importado, e ligou o
motor. Quando acendeu os faróis, viu uma sombra movendo-se sob uma árvore. Sentiu o
coração dar um pulo, mas era apenas um gato cinzento que patrulhava calmamente seu
território.
— Robin, você é uma idiota — murmurou para si mesma. Então pôs o carro em
movimento e foi assobiando enquanto percorria as ruas vazias.
Era duro admitir, mas estava um pouco nervosa ao subir a escada escura até sua
porta. Hesitou no primeiro degrau, virando a chave entre os dedos. Ouvia uma televisão
ligada em um dos vizinhos. Se quisesse, poderia ir até lá, pedir para usar o telefone e
ligar para Christina Farwalker. Estaria segura na fazenda.
Não. Aquilo era absurdo. Não poderia passar a vida com medo de cada sombra, de
cada ruído. Respirou fundo e subiu os degraus. A porta estava intocada, fechada, como
sempre. Até o bilhete que ela pregara com fita adesiva continuava no lugar.
Trêmula, desejando que Adam estivesse a seu lado, experimentou a maçaneta.
Continuava trancada, como ela deixara. Com um suspiro de alívio, abriu a porta e
acendeu as luzes. Tudo se encontrava em perfeita ordem. Ninguém estivera lá, ninguém
estragara nada. Fora tola por ficar tão nervosa.
Jogou a bolsa sobre uma mesa, tirou os sapatos e respirou fundo para relaxar. De

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repete, percebeu que estava com fome. Comeria alguma coisa e depois iria dormir.
No armário da cozinha, encontrou um pacote de biscoito de chocolate. Enfiou um na
boca e dirigiu-se à geladeira para pegar um copo de leite. Antes de abrir a porta, porém,
algo a fez imobilizar-se.
Do ângulo onde se encontrava, podia ver a quina do sofá e a mesinha de café.
Havia alguma coisa sobre a mesa baixa de tampo de vidro, como se fosse uma pilha de
peças irregulares.
Devagar, Robin aproximou-se, olhando em volta com medo, seu coração apressado
novamente. O que seria aquilo?
Pareciam pedaços vermelhos e pretos de algo quebrado. Quando chegou mais
perto, percebeu que havia fragmentos por todo o chão, sofá e cadeira de balanço.
Fragmentos vermelhos e pretos por toda parte, como manchas de sangue originadas de
uma explosão.
Ao discernir o que era o objeto, seu coração quase parou. Um pote de argila
vermelho e preto fora deliberadamente quebrado sobre a mesa, de forma a que os
estilhaços se espalhassem. Sim, um bonito pote desenhado em vermelho e preto, um
pote indígena, mas que não era dela. Robin não possuía um pote como aquele.
Alguém trouxera a peça, entrara em sua casa e a quebrara de propósito sobre a
mesa. Outro aviso! Então Adam tinha razão!
Afastou-se da mesa, pisou sobre uma lasca pontiaguda e quase nem sentiu. Alguém
entrara em sua casa. Como?
— Correu para o quarto. As janelas estavam fechadas. O terraço! Não, a porta
também continuava trancada.
Robin sentou-se em um cadeira, trêmula. O que deveria fazer? A pessoa que entrara
ali parecia saber tudo sobre ela, onde vivia, quando estava fora de casa. Devia ter
escutado Adam. Seria melhor telefonar para os Farwalker e ir para lá? Era tarde demais, e
ela mal os conhecia.
Rod Cordova. A associação não queria a polícia envolvida, mas havia alguém atrás
dela!
Rod Cordova não estava de plantão no domingo à noite e um policial com sotaque
mexicano conversou com Robin.
— Srta. Hayle, poderia me explicar outra vez o crime que foi cometido?
— Alguém entrou em minha casa e quebrou um pote sobre a mesinha de café.
— Alguém quebrou um pote que lhe pertencia?
— Não, não era meu. Mas eles entraram...
— A porta foi forçada?
— Não.
— Srta. Hayle, para que eu mande alguém aí devo especificar qual foi o crime.
Invasão de propriedade? Furto? Destruição de propriedade?
— Invasão de propriedade, eu acho. Estou com medo. Alguém entrou aqui e eu não
sei como.
— Certo. Já colocarei uma viatura a caminho.
Robin ficou andando pela sala, nervosa, até o policial chegar.
— Está vendo? — ela mostrou os fragmentos de cerâmica.
— Alguém entrou enquanto eu não estava em casa e quebrou isso sobre a mesa.
— A senhorita tem um gato?
— Não, e o pote não é meu. Alguém o trouxe para cá.
— Alguém lhe trouxe um pote e o quebrou?
Robin sentiu-se impaciente, mas sabia que a história parecia maluca. Ninguém iria
entender.
— Eu prestei queixa com o investigador Cordova ontem à noite. Entraram em minha
loja também.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— Será que a senhorita teve uma briga com seu... namorado?


— Eu não tenho namorado! — ela exclamou, exasperada.
— Não sei quem fez isso.
— Certo, então informarei o investigador Cordova sobre o caso assim que ele
chegar amanhã cedo.
— Obrigada, mas e esta noite? E se a pessoa tentar entrar outra vez?
— Vou pedir à ronda policial que passe por aqui a cada hora. Mantenha portas e
janelas fechadas.
— Elas “estavam” fechadas.
O policial preparou-se para sair. Antes, olhou novamente para a cerâmica quebrada
sobre a mesa e sacudiu a cabeça.
— Sinto muito pelo seu pote.
Era quase engraçado, Robin pensou, enquanto encostava cadeiras nas portas e
verificava as janelas. Depois vestiu a camisola, escovou os dentes e foi para a cama, sua
rotina usual, exceto que naquela noite ficou de olhos abertos na escuridão.
A noite era silenciosa. Robin contava cada carro que passava pela rua. O brilho dos
faróis iluminava a parede diante da cama e subia lentamente pelo teto. Então, ficava
escuro outra vez por um ou dois minutos. Um cabide para chapéus que se localizava em
um dos cantos do quarto projetava uma sombra fantasmagórica na parede cada vez que
as luzes o iluminavam. Para completar o quadro, eia deixara a porta do armário aberta;
um terror infantil fazia seus pelos se arrepiarem.
Após quinze minutos de tentativa fracassada para se acalmar, Robin sentou-se na
cama e acendeu o abajur. Decidida, pegou o telefone e discou para informações. Já se
sentia melhor.
— Centro de Visitantes de Chaco Canyon — disse com firmeza.
Sabia que não estaria aberto àquela hora da noite, mas discou assim mesmo. O
telefone tocou cinco vezes, e, então, ela ouviu uma voz gravada.
— Aqui é o Centro de Visitante de Chaco Canyon. Estamos abertos para o público
das nove às cinco, todos os dias. Se necessário, deixe seu recado após o sinal. Obrigado
pelo telefonema.
Robin esperou impaciente pelo sinal, com o coração apressado.
— Aqui é Robin Hayle — ela começou. — Tenho um recado urgente...

CAPÍTULO VII

Robin sentou-se nos fundos da loja, admirando a fotografia que havia tirado de
Adam sem que ele percebesse. Pegara seu rosto em um ângulo que permitia discernir
bem os traços firmes. Não era uma foto digna de prêmio, mas conseguia captar a
atmosfera de mistério que o envolvia. Um índio. Ela e Adam pertenciam à mesma espécie
humana, mas havia grandes diferenças entre ambos.
Poderia ficar ali, examinando o retrato, a noite inteira. Porém, eram quase seis horas
da tarde e logo começaria a reunião da comissão especial.
Adam viria para a reunião. Robin sentia um frio no estômago só de pensar que, em
poucos minutos, iria vê-lo outra vez. Havia telefonado para Chaco Canyon no domingo à
noite em estado de pânico, e quando Adam entrara em contato com ela, na segunda-feira,
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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

sentira-se aliviada ao perceber que ele queria ajudar. Adam parecera realmente
preocupado com ela e furioso por causa do pote quebrado. Mas, agora, começava a
julgar-se tola. Era uma longa viagem de Chaco Canyon a Santa Fé. Sem dúvida, seria
uma terrível inconveniência para Adam. Até mesmo Rod Cordova lhe assegurara que não
havia motivo para preocupação. Bastava ela manter portas e janelas fechadas e deixar o
caso das falsificações com a polícia.
Poderia ter ligado outra vez para Adam e dito que ele não precisaria vir. “Deveria” ter
feito isso. Mas queria vê-lo de novo.
Robin foi até o banheiro, penteou os cabelos e ajeitou a saia preta de brim e a
camisa de listras rosa e cinza. Não que Adam fosse notar, mas ela queria estar bonita.
Um pouco de perfume, rímel, batom.
A luz forte sobre o espelho não a ajudava muito. Via círculos escuros sob os olhos e
sulcos bem marcados em torno da boca. Estava envelhecendo. Nunca tivera um marido,
nem mesmo uma noite. Por quê? Todos adoravam Robin Hayle. Ela era alegre e divertida.
Nenhuma festa era completa a menos que comparecesse com sua câmera e suas
histórias malucas. Mas os homens sentiam-lhe a terrível insegurança e fugiam
assustados. Quem queria uma mulher desesperada?
Adam também vira através de sua fachada de descontração. Talvez nem aparecesse
naquela noite.
Robin apagou a luz e respirou fundo. Com trinta e dois anos, ainda era jovem, e
tinha muito tempo para constituir uma família. E disse a si mesma que Adam estaria lá.
Talvez até já tivesse chegado e estranhasse a ausência dela.
Exatamente às seis horas, todos os membros da comissão haviam se reunido na
biblioteca do Palácio Real. Julien anunciou que estavam esperando por Adam Farwalker,
que daria uma explicação sobre cerâmicas pré-históricas e sobre como detectar uma
falsificação.
Robin não parava de olhar para o relógio. Seis e quinze, seis e vinte, seis e vinte e
dois. Às seis e vinte e três, cruzou as pernas e puxou a saia curta. Suas mãos estavam
úmidas.
Às seis e meia, a porta da biblioteca se abriu e Robin virou-se depressa, com um
sorriso nos lábios. Mas era apenas o faxineiro, com um balde e um esfregão. Ela voltou a
atenção para a conversa e suspirou.
Eram seis e quarenta e três quando a porta abriu de novo. Dessa vez, Robin
continuou olhando para a frente. Não tinha por que revelar seu desapontamento. Mas a
cadeira vazia que reservara a seu lado foi, de repente, puxada para trás, e Adam sentou-
se.
— Desculpe pelo atraso — ele murmurou. — Tive alguns problemas.
— Não faz mal. Ainda estamos retomando os acontecimentos. Isto deve ser
maçante para você. Eu não devia tê-lo envolvido.
— Bobagem. Quero ajudar no que for possível. Thad Mencimer cutucou Robin.
— Quem é esse aí? — perguntou, em voz alta. Adam adiantou-se para responder.
— Meu nome é Adam Farwalker.
— Eu acho — Julien dizia — que devemos nos concentrar em sugestões para
impedir que essas peças falsificadas cheguem ao mercado. Alguma ideia?
Então Adam tinha vindo, Robin pensou, feliz e aliviada. Fitou-o disfarçadamente. Ele
estava ótimo. Seus traços fortes mantinham uma expressão impassível, como se
entalhada em pedra, eterna e bela. Parecia tranquilo e confortável.
No entanto, embora estivesse contente, sentia-se um pouco culpada por sua tática
alarmista de trazê-lo a Santa Fé. Agora ele tinha de ficar ali sentado, ouvindo os
problemas da comissão. E ele lhe havia recomendado para não se envolver na questão
das falsificações. Adam não sorrira para ela nem demonstrara satisfação por encontrar-se
lá. Devia estar fervendo por dentro.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

Para completar, Madeline Lassiter não tirara os olhos dele desde que o avistara.
Sem dúvida, não era só a Robin que ele fascinava. Porém, ele nem parecia notar a
atenção que despertava.
A ansiedade dela cresceu. Talvez não devesse ter ligado para Chaco Canyon. Talvez
fosse melhor não tê-lo mais visto. Tudo estava saindo errado.
O grupo discutia e lançava sugestões. Havia algumas ideias boas, outras absurdas.
Thad, sempre discordando de tudo, sugerira que a polícia datasse cientificamente todos
os trabalhos de arte que se encontravam à venda nas lojas locais, e até Robin teve de rir.
Apenas Adam permanecia em silêncio, inexpressivo, observando as pessoas. Estaria
interessado ou entediado?
— Robin — Julien chamou. — Você tem alguma ideia? Consciente de que o olhar de
Adam estava sobre ela, Robin cruzou as mãos sobre a mesa e pigarreou. Adoraria ter
uma ideia realmente inteligente.
— Há algo que talvez possa funcionar como ponto de partida. Estive pensando em
conseguir a cooperação dos próprios artesãos indígenas. Isto é, ir à raiz do problema.
— Ah, claro — interrompeu Thad. — Nós nem falamos a língua deles!
— Thad, por que você não me deixa terminar? — Robin lançou-lhe um olhar irritado.
— Minha sugestão é que tentemos fazer com que a comunidade indígena se organize.
Eles poderiam formar sua própria associação.
— Estou entendendo — interveio Ben Chavez. — Eles próprios se policiariam.
— Boa ideia — comentou Madeline, movendo-se com graça estudada na cadeira. —
Sr. Farwalker, qual é a sua opinião? — Ela sustentou-lhe o olhar por um tempo
constrangedoramente longo.
— A ideia de Robin é sensata. Os artesãos indígenas nunca se organizaram antes.
Pelo menos, como ela disse, pode ser um começo.
— Será que estas reuniões vão durar a noite toda? — resmungou Thad, olhando
para o relógio.
— Talvez possamos dar um intervalo para o jantar — sugeriu Julien. — Gostaria que
Adam tivesse tempo suficiente para nos fazer sua apresentação. Que tal nos
encontrarmos novamente às nove horas? — Todos concordaram, exceto Thad, que
protestou com tal rudeza que deixou os colegas sem ação.
Adam levantou e virou-se para ele.
— Sr. Mencimer, acho que a maioria manda. — Sem mais, tomou o braço de Robin
e conduziu-a para a rua.
Robin sentia-se culpada toda vez que o fitava. Aos últimos raios do sol poente, sob o
portal do palácio, observou-lhe o rosto moreno, os olhos sérios, e soube que ele tinha
vindo apenas porque encarava isso como uma obrigação.
— Ouça, estou me sentindo mal por tê-lo envolvido nesta história. E agora você vai
ter de ficar em Santa Fé sabe lá até que hora.
— Robin, eu viria mesmo que fosse só para ver o pote quebrado e ter certeza de
que você estava bem. Será que não entende que fui eu quem provocou tudo isto? Eu é
que deveria pedir desculpas.
— Bem, não vamos esticar a discussão. Nós dois nos desculpamos e pronto.
Mesmo assim, você vai ter de me deixar preparar um jantar ou eu me sentirei horrível.
— Não estou com muita fome, Robin. Não precisa se preocupar.
— Mas eu estou faminta — ela afirmou. — Como sempre. — Para sua surpresa,
Adam a presenteou com um belo sorriso. Animada, Robin deu o braço para ele e tomou o
rumo de sua casa.
Claro que já havia planejado aquele jantar para Adam. Correra até o armazém na
hora do almoço enquanto Ericka cuidava da loja e organizara tudo em casa, até a
pequena mesa redonda com velas e toalha de linho, sua melhor porcelana e os talheres
de prata que haviam sido de sua mãe.

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Ela abriu a porta e acendeu as luzes. Tudo estava em ordem.


— Quer um drinque? — Jogou a bolsa sobre o sofá e virou-se para ele, com as
mãos nos quadris. — Tenho vodca, gim, vinho tinto e...
— Aceito um copo de vinho — ele respondeu. — Mas primeiro eu queria ver o pote
quebrado.
— Ali no canto.
Robin apontou para a mesinha de café e Adam abaixou-se par examinar os
fragmentos.
— Você não devia ficar aqui sozinha — ele insistiu, sério.
— Adam, você mesmo disse que isso é um aviso. Ninguém vai me machucar.
— E agora você entrou naquela comissão. Não devia ter aceitado.
— Não pude me recusar. Não sou do tipo que foge da raia.
— Mesmo assim...
— Mesmo assim, o que está feito, está feito. Vamos esquecer disso e jantar. Não
estrague meu apetite.
— Acho que eu não conseguiria — ele comentou, numa tímida tentativa de humor
que não passou despercebida a Robin.
Quando tinha tempo, ela adorava cozinhar. Enquanto Adam esperava no sofá,
folheando um livro sobre índios, ela assobiava, cantarolava e colocava no forno duas
tortilhas de milho com feijões e queijo, temperadas em molho picante. O alface e o tomate
já estavam cortados para enfeitar o prato.
Começou a fatiar um melão para sobremesa. Serviria com creme de leite, do jeito
que mais gostava.
— O jantar estará pronto em dez minutos — avisou, virando-se para ele.
Adam a estivera observando e baixara os olhos depressa para o livro. O coração de
Robin deu um pulo. Então ele não era totalmente indiferente!
Ela começou a assobiar outra vez e abriu o forno para examinar a comida. O molho
ainda não estava borbulhando.
— Acha que esse livro é confiável? — ela indagou.
— Muito superficial. É o que os turistas querem acreditar.
— E como é a realidade?
— Dos índios? Bem, só posso falar pelos apaches. Os últimos cem anos têm sido
uma luta.
— Luta?
— Sim, entre os velhos e novos costumes. Poucos jovens obtêm sucesso ao sair da
reserva. Muitos vão para a faculdade e descobrem que não conseguem se adaptar.
— Mas você conseguiu, Adam.
— Não foi fácil. Mas minha família nunca viveu em uma reserva, embora ainda
tenhamos nossa tradição, nossa maneira de pensar, nosso desejo de liberdade.
— Mas você é livre.
— Robin, um apache é livre quando pode percorrer terras sem cercas, sem casas,
sem lojas... — Ele sorriu, melancolicamente. — Nunca mais poderá ser a mesma coisa.
— Você seria mais feliz caçando, pescando e caminhando pelas colinas?
— Não sei. Falo de minha raça como um todo. Nós nos sentimos bem em espaços
abertos. Está no sangue.
— Adam, você é feliz no que faz? — ela indagou, cautelosa. Ele pensou por um
momento, virando as páginas do livro.
— Acho que sim. Sou um dos poucos que conseguiram ligar os dois mundos. Creio
que não saberia sobreviver na terra, como meus ancestrais. Mas não há solução fácil. O
tempo caminha e os apaches terão de caminhar com ele para não desaparecer como
raça.
— Deve ser um desafio — Robin concordou.

39
Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

Minutos depois, as velas estavam acesas, a música de fundo em um volume


agradável e o jantar servido.
Adam ficou pensativo durante a refeição. Robin conseguira fazê-lo falar um pouco
das irmãs e de seu tio que vivia na reserva indígena, mas ele sempre mantinha certos
limites, como se ela não pudesse compartilhar dos segredos que conservavam seu povo
unido. Ficara evidente a distância entre as culturas e Robin se perguntava se haveria
alguma chance de duas pessoas tão diferentes um dia ficarem juntas.
Ela tentara insistentemente ir além da conversa superficial, sem sucesso. Quanto
mais ela sondava, mais Adam parecia estar discursando para uma de suas alunas. Aquele
distanciamento a irritava. Por que com outras pessoas ele às vezes se mostrava tão
animado?
Robin levantou os olhos do prato e surpreendeu Adam examinando-a. Sentiu-se
perturbada e com o súbito impulso de falar qualquer coisa que lhe viesse à cabeça, como
era seu costume em situações constrangedoras, mas algo nos olhos dele a manteve em
silêncio. Consciente da tensão que se instalara, pegou o copo e tomou vários longos
goles de vinho, tentando conter o desejo de sondar a vida dele. Afinal, o que esperara
conseguir convidando-o para jantar?
Olhou para o relógio de parede. Oito e vinte. Com podia ser tão cedo? Os minutos
se arrastavam, lentamente. Talvez se ela quebrasse um copo ou batesse na mesa o
terrível silêncio tivesse um fim.
Foi Adam que, de repente, baixou o garfo e falou.
— Robin, há algo... — Mas ele não terminou a frase e Robin não teve coragem de
pressioná-lo. Mais alguns longos momentos se passaram. — Sei que não estou sendo
uma companhia agradável.
— Algum problema, Adam?
— Não. Acho que só estou preocupado com sua segurança.
— Mas eu estou bem. Se alguém quisesse me machucar, já o teria feito. Você sabe
disso.
— Talvez, mas ainda acho que você está se arriscando.
— Não estou.
— Só o fato de estar naquela comissão já é arriscado.
— Não acredito nisso.
— Você está sendo teimosa.
— Talvez.
Mas ela reparara numa coisa: para quem não estava com muita fome, Adam comera
muito bem. Até elogiara as tortilhas, dizendo que eram melhores que as de sua mãe.
Durante a sobremesa, ele a fitava cada vez mais; era como se estivesse pesando
alguma coisa em sua mente. Isso fazia com que Robin se agitasse, inquieta, e falasse
demais outra vez, tentando aliviar a persistente sensação de desconforto. E, no entanto, a
tensão não era totalmente desagradável; trazia um toque excitante de antecipação que
lhe arrepiava a pele.
Por fim, chegou a hora de tirar a mesa e ir embora. Adam a ajudou. Fizeram várias
viagens à cozinha, levando pratos, copos, guardanapos e cesto de pão. Robin derrubou
um garfo, inclinou-se para pegá-lo, e Adam fez o mesmo. De repente, seus olhos estavam
diretamente nos dele, a poucos centímetros de distância. Por um breve instante, Robin
pensou que ele iria beijá-la. Os sinais eram visíveis no olhar, nos lábios entreabertos. Ela
conteve a respiração, sentindo-se fraca. Adam segurou-lhe as mãos, mas, em vez de
puxá-la para si, ajudou-a a levantar-se.
— Ah, obrigada — ela murmurou, com uma risada nervosa, antes de fugir para a
cozinha. Abriu a torneira e tentou relaxar. Sentia-se terrivelmente constrangida.
De repente, percebeu a presença de Adam atrás de si, tão próximo que sua
respiração lhe tocava os cabelos. Robin fechou os olhos, trêmula, em expectativa. Adam a

40
Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

segurou gentilmente pela cintura e Robin recostou-se no corpo dele. Com a outra mão,
ele afastou os cabelos de seu pescoço.
Robin sentiu os lábios quentes em sua nuca, subindo lentamente até a orelha. Com
a respiração apressada, ela abandonou-se às sensações, desejando apenas que ele a
virasse e a deixasse sentir o gosto daquela boca sensual.
O tempo pareceu parar, como se também esperasse pela decisão de Adam. Robin
ansiava pelo momento em que sentiria os braços dele em torno de seu corpo.
E então, de repente, viu-se sem apoio e percebeu que ele havia se afastado. Sua
visão foi recuperando o foco e deparou-se com a água correndo da torneira, os pratos
sobre a pia, como se nada houvesse acontecido.
Com uma profunda sensação de vazio, Robin virou-se e viu Adam parado junto à
janela da sala, olhando para a escuridão. Ela encostou-se na pia e sentiu o metal frio
pressionado contra o estômago.
— São quase nove horas. É melhor irmos — Adam disse, por fim, impassível e frio.
Robin perguntou a si mesma se não estivera sonhando. Como entender aquele homem?
No caminho de volta para a biblioteca, ele mostrou-se educado e distante. Foi difícil
para Robin seguir ao lado dele calada, mas sabia que, se abrisse a boca, diria muitas
coisas de que certamente se arrependeria depois.
— Ah, vocês chegaram — Julien os recebeu. — Adam, espero que não tenha se
ofendido com a grosseria do sr. Mencimer.
— De modo algum. Vamos começar?
O grupo dirigiu-se à biblioteca e Adam levantou-se para falar. Todos estavam
atentos, até mesmo Thad.
— Alguém aqui conhece o Ato de Proteção dos Recursos Arqueológicos? — ele
começou. Todos mostraram-se ansiosos para comentar, mas Adam controlou a situação
com a habilidade de um professor experiente. Robin quase não se mexia, impressionada
com a autoridade que ele impunha. E, mesmo contra sua vontade, ainda sentia o calor
dos lábios dele em seu pescoço.
— Um verdadeiro vaso Socorro em boas condições pode valer até vinte e quatro mil
dólares — ele prosseguia. — Claro, qualquer pessoa com um boa técnica pode pintar um
desenho preto sobre branco em uma antiguidade sem pintura, que por si só não teria
muito valor. Li, aí temos uma falsificação.
— Mas a pintura é nova. Não acha que qualquer um poderia perceber? — interveio
Thad, cruzando os braços sobre o peito com um sorriso desafiador.
— Não é bem assim. Se o vaso for levado ao fogo por um artesão hábil e
envelhecido com os materiais certos, até um especialista teria dificuldade em identificar a
falsificação.
— Deve haver algum teste — pronunciou-se Madeline.
— Claro — acrescentou Chuck. — Acetona, por exemplo. Não removeria uma
pintura antiga autêntica.
— É verdade — Adam concordou. — E luz negra pode ser usada para detectar
falsificações, mas sempre é necessário a presença de um especialista. Há um laboratório
em Los Álamos que testa um grande número de peças. Mas é um processo demorado e
caro.
— Talvez nós mesmos possamos testar nossas peças — sugeriu Thad.
— Mas o senhor tem o equipamento para testes de termoluminescência? — objetou
Adam.
— Bem, não, mas...
— Acho que Adam tem razão — Julien interveio. — Realizar nossos próprios testes
é pouco prático e dispendioso.
— Bem, por mim, pretendo manter-me na linha dos cestos e tapetes — afirmou
Chuck. — É mais fácil verificar sua autenticidade.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— E os lucros são melhores — Madeline acrescentou. — Um tapete navaho legítimo


pode valer até cem mil dólares.
— Se você conseguir encontrar um — Thad retrucou, com ar de desdém. — Vamos
pedir a algum especialista de museu que venha examinar nossas peças.
— O problema é que há pouquíssimos especialistas de verdade trabalhando em
museus — Adam explicou. — Talvez um ou dois em todo o Novo México poderia detectar
ou testar falsificações. É uma ciência exata.
— Então, Adam, o que faremos? — Robin indagou.
— Bem, em primeiro lugar eu sugeriria que um folheto fosse impresso e distribuído
entre os comerciantes de arte. Nele poderia haver uma lista de órgãos e laboratórios que
executam os testes que estivemos discutindo. Eu incluiria também uma relação de
comerciantes de arte independentes que mereçam confiança absoluta. Os folhetos devem
propor além disso medidas mais abrangentes a serem tomadas, como negociar apenas
com intermediários autorizados e de confiança, e gastar um pouco com testes para
averiguar a autenticidade de peças e legadamente valiosas. Além disso, acho que
deveriam aproveitar a ideia de Robin e ajudar os artesãos a organizar sua própria
associação. A maioria dos artistas é composta de pessoas honestas, trabalhadoras, com
uma reputação a zelar. Os poucos indignos de confiança seriam descobertos e ninguém
mais faria negócios com eles.
— Ah, excelente! — aprovou Julien.
Adam falou até mais de dez horas. Quando a reunião foi encerrada, Chuck e Julien
o retiveram mais um pouco conversando diante do palácio.
Robin não participava da discussão. Já dissera tudo que precisava na biblioteca.
Ficou em silêncio, observando aquele homem que, pouco antes, havia colocado a mão
em sua cintura e beijado sua nunca. Quase podia sentir os lábios mornos roçando-lhe a
orelha. Naquele momento, na cozinha, ele a desejara. O que o fizera parar?
— Adios — despediu-se Julien.

— Até amanhã — Chuck disse a Robin, acenando antes de entrar em sua


caminhonete verde.
“Enfim, sós”, ela pensou.
— Bem, foi uma noite longa, mas produtiva — comentou. — Não acha?
— Espero que eu tenha ajudado.
— Ah, claro que sim! Bem, está ficando tarde. Acho que vou...
— Eu a acompanho até sua casa.
— Não se preocupe com isso.
— Eu quero, Robin. Pelo menos vou saber que você entrou em segurança.
Os dois seguiram lado a lado, caminhando pelas ruas escuras. Era bom estar na
companhia dele. Parecia que a coisa mais natural do mundo seria irem para casa juntos e
deixarem as emoções fluírem. Tudo era perfeito. O ar fresco da noite, o som dos passos
na rua de paralelepípedos, o aroma antigo e peculiar da cidade, das árvores seculares, da
terra.
— Você vai voltar agora para Chaco Canyon? — Robin arriscou.
— Não, é muito tarde. — Ele fez uma pausa e Robin sentiu o coração dar um pulo,
com uma súbita esperança. — Acho que vou para a fazenda.
— Ah.
Cauteloso, Adam abriu a porta e examinou a casa antes de liberar a entrada.
Estavam parados no patamar da escada, muito próximos. Robin sabia que ele partiria a
qualquer momento e tinha de fazer alguma coisa para segurá-lo, nem que fosse por mais
um minuto.
Respirou fundo e tomou coragem.
— Fique. Fique aqui comigo. — Robin sabia que seu rosto estava corado e que seu

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

pedido fora ousado demais, mas não se importava. O rosto dele revelava uma confusão
de emoções: surpresa, indecisão, espanto, necessidade.
Adam não disse nada, mas Robin mal teve tempo para pensar antes que as mãos
dele a puxassem para si e os lábios a procurassem para um beijo cheio de paixão.
A súbita explosão de desejo fez Robin esquecer de tudo. Só tinha consciência da
vontade quase primitiva de possuí-lo e de ser possuída. Abraçou-o com força,
pressionando seu corpo inteiro contra o dele. Era como se estivessem na cama, unidos
como um único ser.
Adam a beijava e deslizava as mãos fortes por seus quadris, a curva dos seios, os
cabelos, fazendo-a estremecer em antecipação pelo que estava por vir. Porém, de
repente, sem nenhum motivo lógico, ele a largou e afastou-se.
— Adam — Robin murmurou, atônita
— Eu tenho de ir, Robin. Desculpe... Desculpe...
E então ele partiu, em silêncio, rapidamente, engolido pelas sombras da noite.

CAPÍTULO VIII

Lágrimas de desejo e frustração vieram aos olhos de Robin. A pergunta voltava a


incomodá-la: por quê? Adam a quisera, isso era evidente. Tocara-a quase com desespero
e então... então simplesmente fora embora como se tivesse tomado um banho de água
fria. Por quê?
Lentamente, caminhou até o quarto. Sentia-se rejeitada. Apagou as luzes e deitou
na cama sem tirar as roupas, olhando para o teto escuro. Lágrimas corriam por seu rosto
e ela nem tinha energia para enxugá-las.
Por fim, o sono chegou, trazendo algumas horas confortantes de esquecimento.
De manhã, a situação já não parecia tão ruim. O sol entrava pela janela anunciando
mais um dia claro e Robin tomou banho assobiando. Estava decidida. A vida iria ser muito
mais simples daí por diante. Deixaria de vez essa história da falsificação; não queria mais
nem pensar no assunto. Sairia da comissão e eles que arrumassem outra pessoa para
substituí-la.
E, acima de tudo, iria esquecer Adam Farwalker, apagá-lo da mente e começar tudo
de novo. Sem dúvida devia haver muitos homens interessantes em Santa Fé que
apreciariam uma mulher divertida e carinhosa.
Ainda assobiava quando estacionou diante da loja. Tinha um cliente depois do
almoço e Ericka chegaria ao meio-dia para ficar no Robin's Nest, já que a fotografia seria
um trabalho externo. Continuava cantando enquanto abria a porta e vistoriava o estoque.
Sentia-se muito melhor naquela manhã. O segredo era afastar os problemas, levantar a
cabeça e ir em frente.
O cliente que Robin marcara para mais tarde era de Nova York e possuía uma casa
em Santa Fé. Chamava-se Gary Kahn, um homem pequeno e pálido, de óculos grossos,
proprietário de uma confecção.
Ele sempre desejara ser cowboy. Robin já providenciara a roupa: calça de couro,
camisa xadrez, botas, corda, chapéu. Gary queria ser fotografado sobre um cavalo, com
um laço na mão e um rifle na sela.
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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

Só faltava arrumar a locação e o cavalo, mas era fácil alugar um animal em um dos
inúmeros estábulos perto de Santa Fé.
De repente, ela teve uma ideia melhor. Convencida de que isso daria mais
autenticidade à foto, pegou o telefone e discou para a fazenda dos Farwalker.
— Robin, que surpresa! — exclamou Christina. — Algum problema?
— Não, está tudo bem. — Robin explicou sobre o retrato de Gary Kahn. — Então eu
imaginei se poderia usar um de seus cavalos. Vou pagar, é claro.
— Ah, que divertido! Eu posso assistir? Ray vai adorar. Querida, um dia vou lhe
pedir para fazer um retrato da família. Pode vir à vontade, e não precisa pagar nada pelo
cavalo. Será um prazer.
Marcaram à uma hora da tarde e Robin desligou com uma ridícula satisfação, como
se tivesse conseguido uma vingança contra Adam. Pelo menos a mãe gostava dela!
Gary Kahn chegou cedo, evidentemente entusiasmado. Colocou a roupa de cowboy
e olhou-se no espelho, admirado. Parecia outro homem, mais alto, mais enérgico, mais
forte.
— Fantástico! — exclamou. — Onde está o cavalo?
— O cavalo está em uma fazenda de amigos meus. Vamos indo?
Gary dava mostras de estar adorando o passeio. Cumprimentou Ray Farwalker com
efusão, comentou sobre a beleza de Santa Fé e interessou-se pelo churrasco beneficente
anual de Christina.
— Bem, no próximo ano incluirei o senhor e sua esposa em minha lista, sr. Kahn —
assegurou Christina. — Deixe seu endereço antes de ir e esteja preparado para fazer
lances altos no leilão!
— Ah, sem dúvida, sra. Farwalker. É para uma causa justa. Robin passou cerca de
uma hora fotografando Gary sobre o cavalo. Ray e Christina assistiam e alguns dos
empregados orientaram Gary quanto à maneira de segurar o laço. Todos se divertiram e
as fotos pareciam ter saído ótimas. Robin prometeu as provas para dali a dois dias e o
levou de volta à loja. Quando chegaram, Ericka a esperava com um recado: — Robin,
uma mulher esteve aqui a sua procura.
— A sra. Hartmann outra vez?
— Não, uma índia. Muito simpática. Eu disse que você estaria aqui no meio da
tarde. Ela não falou o que queria. Mas como foi a sessão de fotos?
— Excelente. Até eu estou louca para ver as provas. Gary saiu do estúdio, pequeno,
pálido e com os óculos grossos.
— Voltarei depois de amanhã. Obrigado, srta. Hayle. — Ele apertou a mão de Robin,
sorriu e foi embora. Robin baixou os olhos e ficou boquiaberta. Ele lhe deixara uma nota
de cem dólares na mão.
— Uau! — Ericka exclamou.
— Vamos dividir. E não discuta!
Ericka foi embora às quatro horas. Robin sentou-se atrás do balcão com seu
exemplar de Santa Fe Style, um livro com belas fotografias de sua cidade adotada. De
repente, a porta se abriu e alguém entrou na loja.
Ela levantou os olhos com um sorriso solícito, mas logo percebeu não se tratar de
um cliente comum.
A mulher parara junto à porta, como se estivesse relutante. Era uma senhora pueblo,
vestida da forma tradicional dos índios de sua tribo, com um xale colorido, colares e
pulseiras.
— Com licença — a mulher disse, com uma voz tímida e o rosto preocupado. Estaria
perdida?
— Pois não.
— É a srta. Robin Hayle?
— Sim.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— A senhora não me conhece, mas eu sei quem a senhora é. Robin largou o livro e
levantou-se.
— Ah, foi a senhora que veio me procurar no início da tarde? Eu estava em um
trabalho externo. A senhora queria encomendar uma fotografia?
— Não, não vim aqui por isso. Só quero conversar com a senhora. — Ela era uma
mulher suave e tímida, mas cheia de dignidade, como de hábito em sua raça. As mãos
pequenas e quadradas indicavam uma vida de trabalho.
— Pois não. Posso saber o seu nome?
— Meu nome não importa agora, mas o que eu tenho a dizer talvez lhe interesse.
— Então venha até meu estúdio, por favor. Quer um café? Ou chá?
A mulher a seguiu até o pequeno aposento nos fundos. Robin lhe indicou uma
cadeira e colocou água para ferver em uma chaleira.
— Bem, estou curiosa.
— A senhora esteve em San Lucas procurando um homem.
— Ah! A senhora mora lá.
— Não, não.
— Desculpe, não estou entendendo. — Ela entregou a xícara de chá para a mulher
e sentou-se.
— Vou começar do princípio. Eu também sou ceramista e conheço o homem que a
senhora estava procurando — ela disse, com uma voz baixa e apreensiva. — Conheço-o
há muitos anos. É um bom ceramista. Ele está com muito medo agora porque a senhora e
um homem andaram perguntando sobre seu pote, aquele que a senhora usou em uma
fotografia, e estão dizendo que o trabalho dele é uma cópia de uma peça muito famosa.
Mas esse meu amigo é inocente. Ele não sabia que o pote ia ser vendido. Só lhe pediram
para fazer uma reprodução. Eu juro. Ele não sabia que estava agindo contra a lei.
— Eu acredito na senhora — Robin respondeu.
— Ele é inocente, mas tem medo de não acreditarem se for à polícia.
— Sim, eu compreendo. Mas talvez ele concordasse em falar comigo.
— Não sei.
— Como é o nome dele? Como eu poderia entrar em contato? A mulher baixou os
olhos para as mãos calejadas e sua voz era tão fraca que Robin teve de se esforçar para
ouvir.
— É John Martinez. Ele lembra da senhora, mas não quer nenhum problema.
— A senhora lhe diria que eu não vou fazer mal algum? Só quero saber quem
encomendou aquele pote.
— Também quero deter esses homens. Eu disse a John... Essas pessoas nos
exploram. Não é justo. Mas temos medo de ir à polícia. Nem sempre nos tratam bem.
— Eu sei. Mas se a senhora puder dizer a John Martinez que eu não vou contar a
ninguém. Talvez eu possa ajudar. Por favor.
— Não sei. Vou falar com ele. É melhor a senhora esperar. Se tentar procurá-lo por
conta própria, ele vai desaparecer.
— Está bem. Como ele quiser.
— Não vai contar a ninguém mesmo?
— Não. Prometo. Pode confiar em mim.
A mulher levantou-se, ansiosa para ir embora.
— John não sabe que eu vim aqui.
— Diga a ele para não se preocupar. Eu só quero ajudar vocês. E obrigada por ter
vindo. Vou esperar que a senhora me procure outra vez.
Mas a mulher nem virou para trás. Foi direto até a porta, saiu e desapareceu.
Robin apoiou-se no balcão, entusiasmada. Resolvera o caso, ou pelo menos parte
dele.
John Martinez. Lembrava-se bem do artesão. Um homem de meia-idade, magro,

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não muito alto, com mãos grandes e fortes. Falava com bastante sotaque e parecia
orgulhoso de seu trabalho. Tinha de ser inocente. Caso contrário, por que a teria deixado
fotografar o pote?
Por outro lado, aquela mulher doce e meiga que acabara de sair não poderia ser
alguém tentando acobertá-lo? Isso explicaria seu medo de ir à polícia.
A porta abriu e chamou a atenção de Robin. Era Shelly.
— Oi, como está o movimento, Shel? — Ela teve vontade de contar a história à
amiga, mas algo a deteve. Precisava pensar melhor antes. Além disso, prometera à
mulher não dizer nada.
— Fraco. Chuck está lendo revistas e eu estou entediada.
— Vá para casa fazer trabalhos domésticos.

— Você está louca! Sabe, Robin, Chuck gostou muito da apresentação de seu
amigo ontem à noite. Ele verificou todas as cerâmicas que temos em estoque. — Ela
caminhou pela loja, examinando as fotografias. — Chuck disse que você e Adam saíram
juntos para jantar.
— Shelly, você está sondando!
— Estou mesmo.
— Não aconteceu nada. — Robin desviou o olhar. — Eu lhe disse que ele não
estava interessado em mim. Agora, quer parar com essa história?
— Está bem, desculpe. — Shelly a fitou por um instante, depois aproximou-se e
colocou a mão em seu braço. — Ele a magoou?
— Shel, eu mal o conheço!
— Ele não me pareceu um mau-caráter.
— Acho que o problema sou eu. Tenho uma tendência a forçar situações — Robin
disse, tentando mostrar-se despreocupada e indiferente. — Os homens correm de medo
de minhas atenções.
— São uns covardes. Não sabem dar valor a uma boa mulher.
Shelly foi embora momentos depois e deixou Robin em um estado de espírito
estranho. Por um lado, a lembrança de Adam trouxera de volta toda a ansiedade. Por
outro, sua mente ainda trabalhava na questão de John Martinez.
Às cinco horas, depois de fechar a loja, Robin entrou em seu carro pensando nas
opções. Poderia falar com Rod Cordova, mas ele a julgaria maluca, já que John Martinez
iria desaparecer e não haveria provas para sua história. Além disso, prometera à mulher.
E se contasse o caso à comissão? Mesmo assim, não resolveria muito. Não tinham como
encontrar Martinez e obrigá-lo a falar.
Mas precisava fazer alguma coisa. O quê?
A ideia já havia surgido, mas apenas no momento em que estacionava diante de
casa Robin admitiu que era o que realmente desejava. Jogaria o problema para a pessoa
que se mostrara mais interessada: Adam Farwalker.

CAPÍTULO IX

A terra foi gradualmente se tornando mais plana e seca. Ao norte, uma grande ave
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sobrevoava em círculos, caçando.


O sol castigava o solo ressecado, no entanto havia uma beleza de linhas nítidas,
paisagens amplas e cores sutis naquela parte do mundo.
Robin acelerou o carro pela estrada deserta em direção a Chaco Canyon. Era mais
longe do que havia imaginado, cerca de trezentos quilômetros
O que Adam faria quando a visse? Iria sorrir ou mostrar-se aborrecido com sua
presença? Bem, pelo menos ela tinha boas razões para procurá-lo daquela vez.
Parou para abastecer em um posto isolado em Pueblo Pintado.
— Vai para Chaco Canyon? — o frentista perguntou, enquanto limpava o para-brisa
do automóvel.
— Vou. Como o senhor...
— O que mais alguém da cidade poderia estar fazendo por aqui? São mais quarenta
e cinco minutos, se não ficar muito preocupada com o limite de velocidade.
Robin estava ansiosa para chegar, mas não sabia resistir a uma oportunidade.
— Será que o senhor me faria um favor? É a primeira vez que venho para esta
região e gostaria de tirar umas fotos.
— Claro, se quiser pode deixar seu carro aqui.
— Bem, eu queria tirar fotos do senhor.
— De mim?
Ele tinha o tipo de rosto que combinava com a paisagem causticante do deserto e
mostrou-se satisfeito em servir de tema para Robin. Minutos depois, ela lhe entregava
uma nota de vinte dólares em agradecimento e tornava a entrar no carro.
Ao ligar o motor, sentiu-se tentada a dar meia-volta e retornar a Santa Fé. Só não o
fez porque o frentista lhe sorria e acenava em despedida.
Estaria usando a visita da mulher índia apenas como desculpa para ver Adam?
Esquecera a promessa que sé fizera de não se envolver mais? Como podia negligenciar
os avisos que recebera?
Às vezes, imaginava se não estaria sendo seguida. Porém, pelo espelho retrovisor,
via apenas a estrada estendendo-se por quilômetros atrás dela, vazia e ensolarada.
Foi um alívio quando chegou ao centro de visitantes. Uma placa anunciava que
estava entrando no Parque Histórico Nacional de Chaco Canyon. Um recepcionista veio
atendê-la.
— Ah, Adam? Eles estão trabalhando em Pueblo Bonito. E só seguir a estrada. Fica
a poucos quilômetros, a sua direita. Não há como errar.
Estava um calor forte e Robin sentia-se suada, cansada e mais nervosa a cada
minuto. Algumas ruínas surgiam à base das paredes de pedra, mas as placas
continuavam mandando seguir adiante. Pueblo Bonito fora o nome dado pelo homem
branco ao descobrir o local, mas como seria que os anasazis chamavam sua cidade? Por
que a teriam construído naquela região árida?
Adam. Ele devia saber. Ele conhecia o amplo canyon intimamente. Era seu trabalho,
sua paixão. Robin sufocou uma ridícula pontada de ciúme.
Adiante dela, avistava-se Pueblo Bonito, uma enorme área semicircular rodeada por
paredes feitas de pedra. A cidade erguia-se no vale, desgastando-se lenta e
inevitavelmente pelo calor implacável do sol. Centenas e centenas de cubículos
empilhavam-se uns sobre os outros e, sem os telhados, pareciam buracos de tomadas
abertos para o céu.
Robin estacionou ao lado de uma caminhonete. Ouviu vozes a distância e avistou o
carro de Adam diante de uma das várias barracas armadas junto às ruínas. O vento
quente enrolava a saia em suas pernas e levantava os cabelos do pescoço úmido. Ela
entrou na antiga cidade dos anasazis por uma abertura na parede de pedra, quase
sentindo a presença intangível daquele povo que ali havia vivido, trabalhado e morrido.
Agora, o lugar não passava de uma pilha de rochas, um parque de diversões para

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arqueologistas.
As vozes ficaram mais próximas e, de repente, ela avistou Adam, agachado com
uma escovinha em uma das mãos e um objeto na outra. Sua concentração era total.
Usava short e os músculos em suas pernas brilhavam como cobre ao sol. Os cabelos
negros estavam presos por uma tira de pano amarrada à testa.
Ele ainda não a vira. Robin teve vontade de correr, de fugir de seus sentimentos por
aquele homem. Ele nunca poderia lhe pertencer; era parte daquela terra e uma distância
insuportável colocava-se entre eles, milhões de quilômetros, milhares de anos.
Mas Adam virou a cabeça e Robin pôde ver o corpo dele enrijecer ao avistá-la. Era
tarde demais para recuar. Por um momento, ele permaneceu imóvel, com o objeto
esquecido na mão, os olhos fixos nela. Depois levantou-se, disse algo para um dos
rapazes que o acompanhava, entregou-lhe a escovinha e a peça que examinava e
caminhou em direção a Robin, esfregando as mãos empoeiradas no short. Não havia
sorriso de boas-vindas em seus lábios.
— Adam, que bom que o encontrei — ela balbuciou, nervosa. — Eu...
— O que você está fazendo aqui?
A coragem e a energia de Robin sumiram como por encanto.
— Vim lhe contar uma coisa sobre os falsificadores. Desculpe, não devia ter
perturbado você, mas eu achei... É importante, Adam.
Por um tempo insuportavelmente longo ele apenas a fitou, com as mãos nos
quadris, os olhos negros duros e rígidos. Robin chegou a sentir medo. Não devia ter feito
aquela viagem.
— Certo, vamos a algum lugar mais reservado — ele disse, por fim. — Está com
sede?
— Sim. Foi uma longa jornada.
Ele a segurou pelo braço e a conduziu até um local sombreado junto à parede, onde
havia um grande isopor com gelo e água e algumas cadeiras. Robin sentou-se e ele a
serviu em um copinho de papel.
— Quer dizer que você veio até aqui para me contar algo.
— Sim. Não pensei que fosse incomodá-lo tanto. Achei que você ia querer saber.
— Eu quero saber. Desculpe minha reação. Fiquei um pouco surpreso ao vê-la.
— Sei quem fez o pote — ela contou, sem rodeios. — Seu nome é John Martinez.
Os olhos negros de Adam a fitaram sem surpresa, sem expressão. Ele apenas
cruzou os braços, imperturbável.
— Continue.

— Uma mulher pueblo entrou em minha loja ontem. Não disse como se chamava,
apenas que era ceramista. Sabia tudo sobre nossa busca por esse John Martinez em San
Lucas e sobre o pote. Afirmou que Martinez é inocente, mas tem medo de ir à polícia. Ele
não quer se envolver, nem a mulher, mas ela deseja acabar com as falsificações. Disse
que talvez John Martinez concorde em conversar comigo. Eu expliquei a ela que não
queremos prejudicá-lo. Estamos atrás das pessoas que lhe pediram para reproduzir o
pote.
Adam caminhou alguns passos, pensativo, então virou-se para ela em um
movimento brusco.
— Você não tem ideia de quem seja essa mulher?
— Não. Era uma senhora muito suave, meiga e assustada. Cerca de sessenta anos,

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

vestida com trajes e xales típicos dos pueblos. Falava bem e usava joias muito bonitas.
Tinha brincos de prata em forma de borboletas, lindos.
Adam passou a mão pelo queixo.
— Como você vai entrar em contato com ela outra vez?
— Ela disse que me procuraria e para eu não voltar a San Lucas. Parece que se
alguém for à procura desse Martinez ele irá desaparecer outra vez.
— Essa mulher também era de San Lucas?
— Não, pelo menos ela disse que não. Ela saiu apressada, como se tivesse mudado
de ideia quanto a conversar comigo.
Adam fitava as ruínas, de braços cruzados, pensativo. Seu rosto não revelava nada,
nem interesse, nem curiosidade, nem satisfação. No entanto, Robin tinha a nítida
impressão de que ele sabia alguma coisa mais do que ela, algo mais sobre a mulher
pueblo. Talvez tivesse sido sua falta de surpresa que lhe dera essa sensação, ou a
escassez de perguntas.
— John Martinez — Adam repetiu, como para si mesmo.
— Você o conhece?
— Não, claro que não — ele respondeu, voltando a atenção para Robin.
— O que nós vamos fazer agora?
— Nós? Eu cuidarei disso daqui por diante, Robin. Não quero que você se envolva.
— Mas eu “estou” envolvida. Aquela mulher pode voltar. Talvez Martinez converse
comigo.
— Eu cuido disso, Robin — ele repetiu. — Agora já sei o suficiente para tomar as
medidas adequadas. Você não precisa mais se envolver, está bem?
— Mas eu “quero” me envolver — ela protestou, levantando-se. — Você me colocou
nisso e agora não pode simplesmente dizer que eu não tenho nada a ver com a história.
Quero saber o que está acontecendo, o que vai acontecer!
Adam a encarou em silêncio e, por um momento, Robin pensou que fosse lhe contar
alguma coisa, mas ele logo desviou o olhar.
— Robin, obrigado por você ter feito toda essa viagem para me dar a notícia. Foi
muita consideração de sua parte. — Ele sorriu pela primeira vez desde que ela chegara,
mas foi um sorriso forçado, indicando o fim da conversa. — Já que você está aqui,
gostaria de ver nosso trabalho?
— Claro que sim, mas...
— Como fotógrafa, você vai se interessar por saber que William Henry Jackson
fotografou estas ruínas em 1877. Infelizmente, o filme se estragou, mas ele divulgou a
existência de Chaco Canyon.

Ela desistiu. Era evidente que Adam havia encerrado o assunto da visitante
misteriosa e de seu envolvimento no caso das falsificações. Ele mudava de humor como
se trocavam os canais de uma televisão. Em uma emissora estava Adam, distante,
reservado, contido. Em outra estava Adam, amigável, gentil, anfitrião perfeito. Havia ainda
Adam, o apache enigmático. E agora ele era o professor, arqueólogo inteligente, ávido por
transmitir informações.
— Como pode ver — ele dizia — eu não sou o primeiro a trabalhar aqui. Há
escavações que datam da década de 20, financiadas pela Sociedade Geográfica
Nacional, e depois o projeto Chaco na década de 70. Muito já foi feito, mas há treze sítios
arqueológicos só em Chaco Canyon e milhares por todo o sudoeste.
— Milhares?
— Durante algumas décadas por volta de 1 000 d.C. Havia uma irrigação razoável

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nesta área, que permitia a fixação de uma população grande. Quando a região ficou árida,
os anasazis migraram.
— Todos foram embora? — Robin indagou, seguindo Adam até a grande praça
semicircular central de Pueblo Bonito.
— Eles foram os ancestrais das tribos hopis, zunis e pueblos que existem hoje. Você
está disposta a andar um pouco?
— Claro. Para onde?
— Lá em cima. — Ele apontou para o alto da parede do canyon. — É uma vista
linda. Dá para entender melhor a organização das ruínas.
Era uma subida dura pela trilha nas pedras. Ainda fazia muito calor, mas Robin não
se incomodava. Era uma aventura e Adam mostrava-se falante agora, sempre solícito
para ajudá-la nos trechos mais difíceis.
— Puxa, eu me sinto um cabrito montês — ela brincou, parando para respirar.
— Antes havia degraus aqui. Olhe, algumas das pedras ainda permanecem — ele
mostrou.
Por fim, atingiram o topo. Abaixo deles, Pueblo Bonito descrevia um semicírculo
perfeito, exposto à observação.
— Como eles podiam viver aí embaixo? — Robin indagou.
— Construíram um sistema sofisticado de coleta de água, com diques, represas e
tanques para recolher cada gota de umidade que caía. Depois, transportavam a água
para a cidade. Era uma sociedade altamente organizada.
— Quantas pessoas havia?
— Há controvérsias quanto a isso. A princípio, acreditava-se que a população
chegasse às dezenas de milhares, com base no número de aposentos. Mas
recentemente uma nova teoria tem sido considerada: que essas enormes povoações com
seus vários kivas, as salas cerimoniais, não tenham sido de fato moradias, mas centros
de religião e comércio, quase vazios, exceto em épocas de cerimônias
— Então, nessas ocasiões, todos os anasazis se reuniam aqui?
— Provavelmente. Eles construíram estradas que convergiam todas para Chaco
Canyon. Olhe, dá para ver uma trilha bem fraca ali — ele apontou.
Sim, ela via linhas na terra árida, marcas tênues e retas.
— É inacreditável que possam ter empreendido projetos como esse!
— Devem ter sido muito evoluídos tecnicamente. Ainda há tanto para descobrir. Eu
poderia passar a vida inteira aqui.
— E suas aulas?
— É, minha licença dura apenas até o fim deste semestre. E a maioria dos garotos
que trabalham comigo têm de voltar logo para a faculdade.
— Dá para entender por que você é tão fascinado por tudo isto. É tão... tão
misterioso, tão lindo!
— É verdade.
Ficaram em silêncio, lado a lado, por alguns minutos, admirando a cidade em ruínas.
Um vento súbito atingiu Robin como uma carícia, colando a saia a suas pernas.
— Uma tempestade — Adam comentou, apontando para o oeste. — Mas talvez
passe por nós.
As nuvens negras avançavam em direção a eles, juntando-se e crescendo de forma
assustadora, enquanto o vento aumentava de intensidade.
— Acha que vai chover aqui? É melhor voltarmos?
— Acredito que irá para o norte. É o que normalmente acontece. — Adam protegeu
os olhos do vento e fitou o céu escuro. Trovoadas retumbavam a distância, precedidas de
enormes relâmpagos. — Está com medo, Robin? Nós podemos descer.
— Não, é muito bonito. Pena que deixei minha câmera lá embaixo. — Robin sentia-
se livre ali no alto, com o vento soprando em seu rosto e um homem forte e bonito a seu

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lado, um homem que pertencia àquele tempo e lugar. — Esta terra é propriedade dos
índios?
— Para o Departamento do Interior, não — ele respondeu, com tristeza na voz. —
Há duas reservas apaches no Novo México e uma no Arizona. Mas, quando os espanhóis
chegaram aqui, havia pastores apaches por todo o Estado.
— Aqui também?
— Provavelmente. Os navahos e os apaches eram intimamente relacionados e
chegaram aqui mais ou menos na mesma época, no século quinze. Eles encontraram
estas ruínas. Na verdade, o nome anasazi é uma palavra navaho.
— E o que pensaram destas ruínas quando as viram?
— Souberam que uma raça muito poderosa havia vivido aqui e respeitaram a
cidade. Nunca molestaram as ruínas nem fixaram residência nestas construções.
— E como seu povo explica o desaparecimento dos anasazis?
— Simplesmente dizem que eles foram embora. E, até o momento, isso é tudo que
podemos supor.
— Um mistério interessante.
— Gosto de subir aqui, olhar para baixo e ficar imaginando. Um vale insignificante
no meio de um deserto, no qual, civilizações floresceram e depois se perderam. O que o
último grupo de pessoas que deixou este canyon viu enquanto caminhavam sob o peso
de seus pertences? Para onde foram? O que seus deuses lhes disseram sobre a partida?
De repente, havia uma proximidade nova entre eles. Era como se Adam tivesse
aberto a porta de sua alma por um precioso momento, para que ela pudesse ver os
tesouros que mantinha escondidos. A tempestade movia-se para o norte, o vento diminuía
e o sol brilhava através das brechas que se abriam nas nuvens. Um arco-íris formou-se
no extremo oposto do vale. Robin olhou disfarçadamente para Adam. Ele era bonito,
como um de seus antigos deuses índios.
— Adam — ela disse, após um momento. — Quero ajudá-lo a encontrar os
falsificadores. Por favor.
Ele a observou por um longo tempo.
— Pode ser perigoso — respondeu, por fim. — Mas não há como convencê-la a
mudar de ideia, não é, Robin Hayle?

CAPÍTULO X

Adam virou o rosto para o sol poente e fechou os olhos, procurando equilíbrio,
deixando que a energia da natureza o penetrasse e enchesse seu espírito de harmonia.
Quando abriu os olhos, ela ainda estava lá, alta, esguia e adorável, suave e feminina.
Seus cabelos revoltos captavam os raios do sol como fios de ouro.
Ela não era apenas linda. Tinha uma abertura espiritual, uma sensibilidade que
faltava a muitas pessoas brancas. Talvez isso se devesse a seu olho de fotógrafa, que via
as coisas de maneira mais profunda. E sentia nela uma vulnerabilidade, um sorriso fácil
demais, uma certa tensão. Adoraria romper a superfície e encontrar a fonte daquele
conflito.
Mas onde estava com a cabeça? Por que concordara em que ela o ajudasse?
Esquecera o risco que ela estaria correndo? Poderia muito bem pegar as informações que
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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

ela lhe havia passado e entrar pessoalmente em contato com Martinez. Ou poderia ter
insistido em chamar Rod Cordova e entregar o caso à polícia, apesar da promessa que
Robin fizera à visitante misteriosa. Então, por que não agira assim?
Adam sabia a resposta. Apesar do conhecimento de que nada além de sofrimento
iria resultar de um relacionamento entre eles, não podia deixá-la ir embora de sua vida. A
força que o fizera voltar as costas para ela naquela noite em Santa Fé parecia havê-lo
abandonado. Sentia-se impotente diante de Robin.
— Está ficando tarde — disse. — É melhor descermos.
Ambos iniciaram em silêncio a descida íngreme. Adam fechou-se deliberadamente,
com medo de ter revelado muito de si para Robin. Por um momento, deixara seu
verdadeiro eu transparecer e sabia que ela havia percebido. Era preciso ter mais cuidado,
disse a si mesmo, enquanto observava as costas longas e esguias de Robin sob a blusa
de seda turquesa.
Mais uma coisa o incomodava: a mulher pueblo que visitara Robin. Tinha poucas
dúvidas quanto a quem ela era. Josefina Ortega. Estava furioso com ela por ter arrastado
Robin de volta para aquele caso. Mas por que Josefina estaria se intrometendo nisso?
— Posso ver mais? — ela perguntou.
— Mais?
— Sim, de Pueblo Bonito. Ainda vai demorar para escurecer.
— Claro. Você já viu uma kiva? — Ele sabia que estava perturbado e que seu
pensamento sobre Josefina fora injusto. Ela era uma mulher maravilhosa, amiga de
infância de sua mãe. Era também uma das maiores artistas indígenas do sudoeste
naquele século, tendo suas cerâmicas expostas em lares e galerias pelo mundo inteiro.
Adam não demorara mais do que alguns segundos para descobrir a identidade da
mulher quando Robin a descrevera. Os brincos foram a prova definitiva. A visita a Robin
não condizia com o comportamento normal de Josefina. Ela sempre fora tímida e
reservada, com uma vida girando em torno de seu povo, sua família e sua arte. Procurar
Robin para passar informações fora um ato de coragem.
Sem dúvida, sua própria mãe devia ter tido ligação com essa visita de Josefina. Com
certeza conversara com a amiga, a qual, por sua vez, descobrira sobre John Martinez. O
problema era que Josefina deveria ter procurado a ele, Adam, e deixado Robin de fora.
— Uma kiva! — Robin exclamou. — Não é a sala cerimonial?
— Sim, o local onde os anasazis e os hopis dos tempos modernos faziam suas
cerimônias religiosas. São frequentemente cavadas no subsolo, para permitir que os
iniciados estejam mais próximos da Mãe Terra. Nunca se permitiu a entrada de mulheres
nas kivas.
— Bem, esperemos que não descubram sobre mim — Robin brincou.
Ele segurou a cintura de Robin para ajudá-la a descer de uma pilha de pedras. Ao
tocá-la, à luz tênue do sol poente que tornava os olhos dela da cor das violetas, sentiu o
desejo torturá-lo outra vez. Como adoraria sentir a curva daqueles seios redondos contra
o peito, saborear os lábios macios e enfiar os dedos entre os cabelos claros.
Acordando do inesperado devaneio, ele a soltou depressa.
— Vamos logo ou ficará escuro para vermos alguma coisa.
Como conseguiria pensar com Robin a seu lado? No entanto, gostava da presença
dela, jovem, alegre e vital. Com certeza, ela queria casar e ter filhos. Claro que sim.
Por que Josefina tivera de se meter? Era por culpa dela que se encontrava agora
naquela situação incômoda Será que realmente acreditara que permaneceria anônima?
Apesar de todo seu talento e bondade, Josefina era muito ingênua
— O que eram estes aposentos? — Robin indagava, trazendo-o de volta à
realidade.
— Acredita-se que eram residências de famílias. As mulheres provavelmente
cozinhavam ali — ele apontou — e o dormitório ficava além daquela passagem.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— Como sabem tudo isso?


— A terra nos conta. — Ele parou e pegou alguns seixos soltos no chão. — Se eu
encontrasse, por exemplo, um fragmento de palha aqui, então eu procuraria outros na
área. A terra acaba revelando seus segredos.
— E se você achasse muitos fragmentos de palha?
— Eu suporia que as mulheres teciam cestos nesta área.
— E na área da cozinha, dá para saber o que eles preparavam?
— Com as técnicas sofisticadas atuais, podem dizer exatamente o que comiam.
— Isso é surpreendente — Robin comentou, passando o dedo por um assento liso
de pedra. — Eu quase posso ver uma mulher sentada aqui, ralando milho.
— Dá para ver todo tipo de coisas aqui. É esse o meu trabalho. Respirar vida nessas
pedras frias.
Passaram por uma mesa de trabalho contendo os achados do dia. Robin parou para
dar uma olhada nas peças e tocou com o dedo um fragmento.
— É de um pote muito antigo, talvez do século dez — ele explicou. — Do tipo que
chamamos de preto sobre branco. Vê às linhas aqui? Este possuía desenhos
geométricos. Acho que é um pedaço de caneca. Está vendo? Parece parte da asa.
— Vocês vão encontrar as partes que faltam e reconstituir a peça?
— Provavelmente não.
— Que pena.
— Vê esta mancha? — ele perguntou, mostrando uma névoa preta na curva do
fragmento. — Aparecem frequentemente em potes pré-históricos. Originam-se do
cozimento imperfeito da cerâmica.
— Como a mancha no pote de John Martinez?
— Isso. A mancha torna a peça menos valiosa para um colecionador.
— Ah, eu acho que a torna mais fascinante. Imagino uma mulher índia e como ela
deve ter ficado brava quando viu sua caneca sair do fogo com essa marca.
— Poucos pensam assim — Adam comentou. E não pôde evitar a comparação entre
a peça antiga e ele mesmo: também era imperfeito, marcado. Virou-se depressa e
começou a andar.

Indicou um lance de degraus recentemente escavados que levavam a uma


plataforma ampla e plana.
— Suba, mas tenha cuidado. As pedras podem estar soltas. — Seguiu-a de perto,
incapaz de tirar os olhos das pernas dela quando a viu segurar a saia rodada para pisar
no degrau.
— Adam, esta é a kiva, não é? — Ela parecia tão excitada, tão sinceramente
interessada, que Adam resolveu deixar de lado por algum tempo as outras preocupações.
— Sim. Uma entre muitas. Esta se encontra em processo de escavação no
momento. Você vai ser a primeira a vê-la.
— Eu?
— Além de mim e de alguns de meus ajudantes, ninguém entra aí há séculos.
— Nossa, que assustador — ela sussurrou, esticando o pescoço para espiar dentro
da abertura escura na parede rochosa, onde muitos séculos antes haviam sido realizados
rituais míticos.
A kiva, que se localizava abaixo da plataforma de pedra, ainda não estava
inteiramente escavada. Havia uma parede um pouco solta e Adam não estava muito certo
quanto ao teto.
— Vou pegar uma lanterna para você poder enxergar melhor.
— Nós não vamos entrar?
— Não é totalmente seguro, Robin. Eu preferia que você...
— Ah, por favor. Há até uma escada. Só uma olhada rápida. Eu prometo não pôr a

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mão em nada.
Normalmente, Adam não cederia. Mas ela estava tão linda, tão entusiasmada.
— Bem, acho que se eu descer na frente... Mas só uma olhada rápida mesmo,
Robin. O lugar ainda não está muito bem preparado.
A noite caía lentamente em Chaco Canyon enquanto Robin segurava a lanterna para
Adam entrar na escavação. Depois, passou a lanterna para ele e desceu as escadas.
Fazia um frio seco lá dentro.
Até mesmo para Adam o lugar era sinistro. Nunca havia entrado em uma kiva sem
sentir a presença das pessoas que, muito tempo atrás, haviam realizado ali seus ritos
secretos e mágicos sob a luz das fogueiras. Quase podia ouvir seus cantos primitivos e
sensuais.
— Uau! — exclamou Robin. — Então isto é uma kiva. Que lugar misterioso!
Adam tinha plena consciência do novo cheiro que invadia a kiva. O cheiro de Robin,
feminino e vital. O desejo começou a incomodá-lo outra vez, mais forte do que nunca.
Seus sentidos nunca haviam estado tão aguçados, tão afinados com a energia poderosa
do lugar. Queria possuir Robin por inteiro, seu corpo e sua alma, e desejava executar seu
rito naquele local encantado e mágico.
Sentiu a mão dela tocar-lhe o braço e seu coração começou a pulsar mais rápido.
Colocou a lanterna no chão duro e segurou o rosto de Robin. Havia apenas eles dois
naquela antiga kiva, naquele planeta solitário.
Foi só então que ele percebeu a terra vazando por uma fenda no teto curvo. Ficou
confuso por um momento. Então, viu Robin olhar para cima e o ar encher-se de pó.
O barulho veio uma fração de segundo depois. Adam teve tempo apenas de segurar
Robin e puxá-la para um canto da câmara, cobrindo o corpo dela com o seu. O teto
pareceu desabar sobre eles, terra e pedra caindo sobre suas costas, sufocante, dolorido.
Então, tão repentinamente como havia começado, o desabamento terminou.
Robin tossia, apavorada, sob o peso dele. Adam rolou para o lado e a puxou para
junto do peito.
— Já acabou. Você está bem?
— Acho que sim. Meu Deus, o que aconteceu?
— Parte do teto desabou.
— Nós vamos poder sair?
— Claro. Estou vendo a entrada. Só não sei onde foi parar a escada. Você ficaria
sozinha por um minuto?
— Sim, estou bem.
Ele se levantou na escuridão total e teve de ir tateando pelas paredes como um
cego.
— Adam, onde você está? — ela chamou.
— Aqui. Não consigo achar a escada. — Logo em seguida, ele tropeçou nela. — Ah,
encontrei. Aguente firme que vou colocá-la em pé. Você está bem?
— Sim.
Quando Adam conseguiu recolocar a escada no lugar, escutou passos na superfície.
Então alguém chamou-o na entrada da escavação.
— Sr. Farwalker! Está aí embaixo? Adam!
— Estou aqui! Ajude-me a segurar a escada.
Em questão de minutos, ambos estavam fora da kiva. Robin ainda tremia, mas não
havia se machucado. Todos os estudantes reuniram-se em torno deles fazendo
perguntas, surpreendidos pelo súbito e inesperado desabamento.
— Beba isso — ofereceu Linda, entregando a ele uma garrafa plástica com água. —
Oh, sr. Farwalker! Poderia ter morrido!
— Nós estamos bem — ele assegurou. Depois olhou para Robin, sentada a seu lado
com os joelhos encostados no queixo. — Eu não devia ter levado você lá embaixo.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

Quando penso no que poderia ter acontecido...


— Mas fui “eu” quem quis descer, Adam.
— Não foi sua culpa, sr. Farwalker — atalhou Jack, outro dos estudantes. — Todos
nós estivemos lá várias vezes. Simplesmente aconteceu.
Os seis jovens os observavam, evidentemente preocupados com a própria
segurança. Adam não podia culpá-los. Ele trabalhava em escavações há muitos anos e
vira vários desabamentos. No entanto, pensara que aquela kiva fosse relativamente
segura.
— Adam, pare de se culpar — Robin insistiu, colocando a mão no ombro dele. — Eu
teria entrado lá quer você concordasse ou não. E, depois, estou muito bem, comparada
com você. Está parecendo um limpador de chaminé.
Alguns dos estudantes riram e Robin olhou para Adam, sorrindo, em expectativa.
Por fim, ele cedeu e sorriu também. Afinal, ela tinha razão. Ninguém se machucara e não
havia motivo para lamentações.
Caminharam juntos para o acampamento. Adam colocou os braços sobre os ombros
dela num gesto meramente protetor, mas podia imaginar a maciez de sua pele nua.
Apostaria que todo o corpo dela era acetinado, quente, convidativo.
— Ainda está se sentindo culpado, não é?
— Eu deveria estar.
— Culpa é uma emoção inútil. Muito diferente de raiva ou felicidade.
— Robin Hayle, você é incrível. Será que nada tira o seu bom humor?
Ela ficou em silêncio por um instante.
— Algumas coisas me afetam, Adam Farwalker. Pode apostar nisso. — E lá estava
de novo o tom de insegurança em sua voz.
Nancy e Linda eram as encarregadas do jantar naquela noite. O cardápio consistiu
de macarrão com atum. Robin, como de hábito, achou tudo delicioso.
A conversa acabou recaindo no desabamento. Adam manteve-se em silêncio,
ouvindo as reações de seus alunos.
— Acho que deveríamos começar a restaurar a kiva amanhã cedo — opinou Nancy.
— Teremos de esperar até a primavera do ano que vem — discordou Jack. — Não
teríamos feito nem metade do trabalho quando começar a nevar.
— E às vezes a neve por aqui começa em outubro — lembrou Linda.
— Além disso, temos aula em Albuquerque — interpôs Craig.
— Eu não — replicou Nancy. — Já me formei, lembram-se?
— Bem, “eu” tenho de trabalhar amanhã — disse Robin, levantando-se.
— Você vai voltar para Santa Fé agora? — Adam indagou, surpreso.
— Claro que sim.
— Ei, tenha cuidado ao dirigir naquela estrada sozinha à noite — Craig alertou. —
Apareceram umas pessoas estranhas por aqui hoje.
Um pequeno sinal de alarme soou na cabeça de Adam.
— Que pessoas, Craig?
— Um índio. Parece que ele estava bebendo e cambaleando perto de uma das
áreas interditadas por cordas. Depois entrou em uma caminhonete velha e saiu como um
louco.
— Nas áreas interditadas?
— É. Acho que foi logo antes do desabamento. Ou talvez...
— Logo “depois”? — Adam sugeriu, com a expressão séria.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

CAPÍTULO XI

Adam parou ao lado do carro de Robin, preocupado.


— Não acho boa ideia você voltar sozinha a esta hora. Não vai chegar em Santa Fé
antes da meia-noite.
— Tenho de voltar. Marquei compromisso de trabalho para amanhã.
— Mas eu não me sinto tranquilo.
— Não se preocupe — ela garantiu, sorrindo. — Só porque seu aluno viu um homem
nos arredores não significa que ele tenha alguma coisa a ver com o desabamento.
— Não sei... — Adam tinha suas dúvidas. Ou melhor, mais do que dúvidas. Ele
sentia que havia alguma ligação. Mas Robin já estava com o motor ligado.
— Eu aviso assim que souber mais notícias desse John Martinez. Acredito que a
mulher índia vai me procurar de novo. Tchau, Adam.
Ele enfiou as mãos nos bolsos e a viu sair do estacionamento, levantando terra do
chão com os pneus. Por que não insistira mais para que ela ficasse? Seria por ela estar
ameaçando abalar a armadura com que ele se protegia há dez anos?
Era uma noite sem nuvens e o imenso dossel de estrelas brilhava sobre as paredes
do canyon. O céu era tão límpido que a Via Láctea parecia feita de gaze branca. Parado
ali, Adam sentia uma proximidade com a natureza que o revigorava e acalmava.
Ia virar-se para voltar ao acampamento quando uma vaga apreensão o deteve. Seu
olhar seguiu a curva da estrada e avistou as lanternas do carro de Robin, sozinha na
escuridão, cada vez menores. Uma parte da mente de Adam o tranquilizava dizendo que
ela estava bem, apesar de dirigir um pouco rápido demais. Outra parte, porém, reagia por
puro instinto e continuava a incomodá-lo.
De repente, Adam percebeu a razão de sua inquietude. Com o coração apressado,
viu outro par de faróis entrar na estrada bem atrás de Robin. Àquela hora da noite, em
uma parte isolada do canyon, a coincidência de surgir outro automóvel era grande
demais.
Adam não perdeu tempo. Correu pelo estacionamento e, em questão de segundos,
encontrava-se em seu carro acelerando em direção à pista. Bateu no volante com o
punho fechado. Droga! Por que ela não o escutava? Por que ele não insistira mais para
impedir uma viagem tão arriscada?
Seria impossível alcançar Robin naquela estrada cheia de curvas fechadas. O motor
roncava com o esforço excessivo que lhe era exigido, enquanto subia e descia ao longo
do canyon. Do alto de uma ladeira, Adam avistou os dois pares de luzes a distância, antes
que eles desaparecessem em uma nova curva. Robin certamente percebera que estava
sendo seguida e pisava o acelerador até o fundo. Nunca a alcançaria a tempo.
Imagens horríveis desfilaram por sua cabeça. Robin caída na estrada com um tiro no
peito. Robin no carro em chamas, gritando por ajuda, com os olhos azuis cheios de terror.
Durante vários quilômetros, Adam não viu nada à frente. Apenas as paredes de
pedra maciça margeavam a estrada como escuras sentinelas. O motor começava a
esquentar, forçado além de seu limite. Adam sabia que podia estragar o carro, mas não se
importava. Só havia Robin em sua mente, e o medo de não chegar a tempo.

Depois de uma curva abrupta, ele por fim avistou faróis ao longe, mas pareciam
estar imóveis, e num ângulo esquisito. Seriam do carro de Robin?
As luzes vermelhas cresciam em sua visão à medida que o marcador de
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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

temperatura de seu automóvel aproximava-se da zona de perigo. Mas Adam ignorou o


alerta e pisou mais fundo no acelerador. Era mesmo o carro de Robin, tombado fora da
estrada, com os faróis iluminando a escuridão.
Adam parou no acostamento e correu, com o coração apertado. Bateu na janela de
Robin, gritando seu nome, enquanto forçava a maçaneta.
Ela movia-se lá dentro, porém muito lentamente, como se estivesse bêbada.
Quando, por fim, conseguiu abrir a porta, Adam a ouviu gemer. Tocou-lhe de leve o ombro
e sua voz não passava de um murmúrio.
— Robin, sou eu. Adam. Vamos, Robin, temos que sair daqui.
Ela gemeu outra vez.
— Venha, devagar... Você está bem? Acha que pode ficar de pé? — Mas ela não
podia. Apoiou-se nele atordoada, dolorida. Quando a tomou nos braços, os faróis de seu
carro a iluminaram e Adam percebeu o sangue manchando a blusa de seda e grudando
os cabelos loiros junto à testa. Com cuidado, recostou-a na lataria do automóvel para
examiná-la melhor. Robin parecia bastante tonta, mas respirava bem.
— Fique quieta. Vou buscar o estojo de primeiros socorros em meu carro. — Ele foi
e voltou em segundos. Descobriu que o sangue saía de um grande corte na testa, sobre o
olho direito. Adam deteve a hemorragia e improvisou um curativo, limpando a ferida o
melhor que pôde e prendendo um pedaço de gaze sobre ela. — Robin, você está me
entendendo? Precisa levar alguns pontos nesse corte. Robin, por favor, você pode me
ouvir?
— Estou ouvindo — ela murmurou, após um tempo assustadoramente longo.
— Graças a Deus. — Adam sorriu e sentiu a tensão deixar seu corpo. — Acha que
consegue chegar até o meu carro?
— Ah... claro. — Ela não caminhava com muita firmeza, mas voltava lentamente a
si. Chegou até a ensaiar seu velho senso de humor. — Você não deveria me perguntar
que dia da semana é hoje ou algo assim? Para saber se eu estou consciente?
— Que dia da semana é hoje? — ele perguntou, ajudando-a a entrar no carro.
— Segunda-feira.
— Tente quinta.
— Certo, quinta. E meu nome é Robin Hayle. Essa eu acertei, não é?
Adam fechou a porta e ligou o motor.
— Está indo muito bem.
— E... e o meu carro?
— Não se preocupe. Eu peguei as chaves. Está com um pneu furado e a roda
partida.
— Para onde estamos indo?
— Para Cuba. Conheço um médico lá.
— Cuba?
— É uma cidade aqui perto, Robin.
— Ah. Eu preciso mesmo de um médico?
— Precisa. E sem discussão, mocinha!
O dr. Ernest Lopez era um caso raro de médico rural. Ainda atendia chamados em
casa dos clientes, embora insistisse com a população mexicana e indígena de Cuba para
que o procurassem na clínica. Algumas vezes eles iam. Poucas vezes.
Adam estacionou diante da casa do médico. Havia luzes acesas na sala.
— Espere aqui, Robin. Vou ver se Ernest pode atender você aqui ou na clínica.
— Adam, sobre o que aconteceu na estrada...
— Falaremos sobre isso mais tarde, está bem?
— Certo.
Robin tentou mostrar-se corajosa quando sentou-se na cozinha do dr. Lopez para
levar os pontos na testa.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— Ai, eu odeio isso — reclamou, fechando os olhos enquanto Ernest injetava


anestésico em torno da ferida. Esticou a mão à procura de Adam e encontrou-o a seu
lado. — Ainda bem que uso franja. Vou ficar parecendo a noiva do Frankestein. Ai!
Adam teve de insistir para que o dr. Lopez aceitasse um pagamento pelos serviços.
— Se você não aceitar, Ernest, da próxima vez eu vou procurar outro médico.
— E onde mais você vai encontrar uma clínica por estes lado, Adam?
— É, boa pergunta.
Pouco depois, Robin encontrava-se no carro de Adam, enrolada em uma velha
jaqueta de jeans que ele deixara no banco. Seguiram metade do caminho para Santa Fé
em silêncio, até que ela resolvesse falar no acidente.
— E o meu carro? Ficou lá na estrada?
— Não se preocupe com o carro. Eu cuidarei disso.
— Aquele maluco. — Ela tocou a testa com cuidado.
— Do que você se lembra, Robin?
— Não muito. — Ela puxou a jaqueta com mãos trêmulas. — Ele me seguiu, você
sabe. Não foi acidente.
— É, eu sei.
— Ele até bateu na traseira do meu carro umas duas vezes.
— Robin, se você preferir não falar...
— Eu estou bem, Adam. Na verdade, estou começando a ficar furiosa. Dá para
acreditar? O sujeito poderia ter me matado! Ficou me seguindo com aquela caminhonete
velha, tão perto que eu não via os faróis no meu espelho retrovisor. E então... então ele
emparelhou comigo e me forçou a sair da estrada.
— Ele vai pagar por isso — Adam afirmou, fervendo de ódio.
— Como? Nem sabe quem ele é!
— Ah, mas vou descobrir.
— Você parece muito certo disso.
— Vou falar com Rod Cordova.
— Não, você não pode! Dei minha palavra àquela mulher, Adam. Eu prometi.
— Eu entendo. Mas, Robin, será que “você” compreende que alguém tentou... matá-
la esta noite? Será que percebe isso?
— Sim — ela murmurou, baixando os olhos.
— Tenho certeza de que a sua visitante, a mulher índia, compreenderia.
— Eu não sei...
— Bem, mas eu sei. Robin, há alguém ciente de cada movimento seu.
— Mas como?
— Se eu soubesse... E eu diria que a razão de você ter sido atacada esta noite é a
comissão especial de que está participando.
— Isso é absurdo.
— Eu não acho. Por que mais alguém ainda estaria atrás de você?
— Não sei.
— A outra possibilidade é que você esteja sendo vigiada cada minuto do dia. Se
alguém viu sua visitante...
— A mulher índia?
— É. Tenho uma sensação ruim quanto a essa visita. No mínimo, foi uma
imprudência.
— Mas ela não poderia saber se eu estava sendo vigiada.
— Talvez — Adam disse, pensativo.
— Ah, não! A reunião da comissão era esta noite! Só lembrei agora!
— Eles vão compreender por que você faltou. E acho melhor você sair deste caso.
Vamos entregar o problema à polícia.
— Mas se falarmos com Rod...

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— “Eu” vou falar com Rod — ele afirmou, decisivo. — Ele pode localizar John
Martinez e talvez obtenha alguma pista.
— E se Martinez não quiser falar com ele?
— Então eu mesmo irei procurá-lo.
— Adam, eu não acho...
— Assunto encerrado.
Passou pela cabeça de Adam contar a Robin sobre a misteriosa mulher índia,
Josefina Ortega. Dizer-lhe que ela provavelmente iria à polícia se soubesse o problema
que sua visita causara. Mas, talvez, quanto menos Robin se envolvesse, melhor.
— Quero que você passe os próximos dias na fazenda de meus pais — ele disse,
quando as luzes de Santa Fé surgiram à vista.
— Ah, não sei, Adam. Sinto que é um incômodo para mim e para eles.
— Eu não estou pedindo, Robin. Está decidido. — Adam não gostava de ser
autoritário, mas sentia uma incontrolável necessidade de proteger aquela mulher que
entrara tão de repente e de forma tão intensa em sua vida.
Talvez ela nem se interessasse por ele e todo aquele esforço mental estivesse
sendo em vão, Adam pensou. Mas um homem não poderia se enganar com os sinais que
haviam surgido tão nitidamente entre eles desde a primeira vez em que seus olhares se
encontraram, na loja de Robin. E ele não fizera nada concreto para interromper aquilo!
Era culpa sua se agora tinha de enfrentar o problema.
— Vamos aborrecer sua mãe, Adam. Já é muito tarde. Não é justo com eles.
— Bobagem. Meus pais teriam um ataque se eu “não” a levasse para ficar lá.
— Mas não posso largar minha casa para sempre e ficar fugindo como um coelhinho
assustado. Não vou.
— Robin, vamos resolver uma coisa de cada vez — ele afirmou, estacionando diante
da fazenda. — Talvez amanhã Rod consiga alguma solução para o caso.
— Você acredita mesmo nisso?
Ele não acreditava, mas achou melhor não responder.
— Chegamos. Espere aqui enquanto eu pego a chave do quarto de hóspedes.
Era quase uma hora da madrugada e Adam teve cuidado para não acordar os pais.
Eles estavam acostumados com suas chegadas e saídas em horas estranhas; sempre
que Adam se encontrava em Santa Fé no verão, usava seu velho quarto na fazenda.
Ele acompanhou Robin até o aposento de hóspedes, sabendo que ela ainda não
estava muito firme para caminhar sozinha. O dr. Lopez recomendara que ela procurasse
seu médico local, pois pancadas na cabeça não eram coisas com que se pudesse brincar.
Mas Adam duvidava que Robin fosse seguir o conselho.
— Vou ligar o aquecimento para você. Fica muito frio aqui no começo de setembro.
— Obrigada. — Ela sentou-se na beira da cama e fitou a blusa ensanguentada. —
Nossa, pareço uma criatura de filme de terror!
— Vou ver se acho alguma coisa para você vestir. Enquanto isso, você poderia dar
uma lavada na blusa. As roupas de minha mãe não vão lhe servir.
Robin apenas fez um sinal afirmativo com a cabeça, parecendo uma menininha
perdida.
Ele hesitou à porta.
— Tem certeza de que vai ficar bem sozinha?
— Claro, só estou cansada.
Adam entrou silenciosamente na casa principal, pensando. Suas irmãs haviam
levado embora todas as roupas. O que ele arrumaria para Robin vestir?
Seguiu por um corredor longo e estreito até seu próprio quarto. Poderia lhe dar uma
de suas camisas, mas não tinha um pijama em algum lugar? Claro, na última gaveta. Um
presente de Natal que ele nunca usara.
Adam levantou o pijama azul e imaginou Robin nele.

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O decote em V ficaria profundo, porque ela era bem magra. E a cintura baixaria até
os quadris. Sem querer, pensou como seria a sensação do tecido novo de algodão contra
a pele macia de Robin.
— O que é isso, Adam? — resmungou consigo mesmo. — É apenas um pijama.
Voltou ao quarto de hóspedes e bateu à porta, mas não teve resposta. Talvez ela
tivesse adormecido. Abriu devagar e ouviu o som de água corrente no banheiro. Adam
atravessou o quarto e clareou a garganta.
— Ahn, Robin, eu trouxe algo para você vestir.
— Ah, obrigada. Já vou sair. — Ela esticou a mão pela fresta da porta e pegou o
pijama.
— Eu... ahn... acho que vou indo.
— Espere. Estou acabando.
Ele sentou em uma poltrona, sentindo-se ridículo. Devia voltar para a casa principal
e dormir um pouco. No entanto, uma parte dele recusava-se a qualquer movimento,
antevendo Robin naquele pijama.
Quando saiu do banheiro, ela trazia nas mãos a blusa molhada.
— Preciso de um cabide.
— Há alguns no armário. Vá para a cama que eu cuido disso. — Adam levantou-se
depressa, pegou o cabide e pendurou a blusa perto do aquecedor para secar. Parecia tão
pequena e feminina, tão molhada e macia ao toque. Ao virar-se, viu Robin puxando o
lençol para deitar-se e, como imaginara, o decote do pijama era grande demais, expondo
o pescoço e a suave elevação dos seios. Adam respirou fundo.
— Obrigada pelo pijama — ela agradeceu, sorrindo. Para Adam, estava
absolutamente linda.
— Nem chegou a ser usado. Foi um presente de Natal. Nunca uso... Bem, ele é
novo — Adam explicou, atrapalhado.
Ela bocejou e Adam lembrou-se de que era tarde. Tinha muito a fazer no dia
seguinte. Uma das primeiras coisas seria entrar em contato com Rod Cordova. Adam
adoraria interrogar pessoalmente o tal de John Martinez, mas tinha receio de acabar
assassinando o homem. Afinal, fora um índio que seu aluno vira rondando a kiva e,
depois, deixando o estacionamento em uma caminhonete velha.
— Adam — chamou Robin, interrompendo-lhe os pensamentos. — Será que você
poderia...
— O quê?
— Ficar aqui um pouco? Apenas ficar aqui, mais nada. — Seu olhar normalmente
ousado baixou para as mãos, que ainda seguravam o lençol.
Adam engoliu em seco. Não devia ficar. Não conseguiria estar ali e não tocá-la.
Porém, sair assim...
Como se alguma entidade invisível o impulsionasse antes que ele pudesse pensar,
viu-se sentado na beirada da cama com a cabeça de Robin em seu ombro.
— Obrigada — ela murmurou, feliz.

De alguma forma, Adam controlou os instintos e apenas a acolheu junto a si.


Quando a respiração de Robin ficou mais profunda e regular, ele levantou-se com cuidado
e apagou a luz. Depois sentou-se outra vez, colocou os pés em cima da cama e ajeitou a
cabeça de Robin na curva de seu braço, afagando-lhe suavemente os cabelos dourados
que há tanto tempo desejava tocar. E eles eram macios como seda.
Vária vezes na hora que se seguiu ele baixou a cabeça e seus lábios tocaram os
cabelos que os dedos acariciavam. Seus sentidos, apesar da cautela, estavam aguçados.

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Tinha a plena consciência dos cheiros que enchiam o quarto, da lã do tapete navaho, dos
lençóis limpos, do sabonete que Robin usara para lavar a blusa. E da própria Robin vinha
um aroma terreno, feminino. Seus olhos, ajustando-se ao escuro, fitaram através das
cortinas entreabertas e viram os pontos de luz enfeitando o céu noturno. O aquecedor
roncava baixinho, quase em compasso com sua respiração, e o peito de Robin subia e
descia suavemente.
Fechou os olhos por um minuto, depois tornou a abri-los e fitou o rosto de Robin. Ela
era tão corajosa, tão perfeita. E a única coisa que podia fazer por ela era protegê-la da
terrível situação em que a havia envolvido. Parecia muito pouco.
Sem perceber, Adam adormeceu. Quando voltou a abrir os olhos, a luz havia
passado o centro do céu e o alvorecer já se pronunciava a leste. E ele soube que havia
dormido, porque Robin encontrava-se em seus braços agora, os seios firmes
pressionados contra seu peito, a boca perigosamente perto da sua.

CAPÍTULO XII

O quarto estava vazio quando Robin acordou, mas ainda havia o cheiro masculino e
erótico que Adam deixara na cama e no ar. Ela espreguiçou-se e lembrou da sensação
dos braços dele, do calor de sua pele, da maciez de seu corpo.
Ele fora embora em algum momento da noite, mas sem dúvida bateria à porta do
quarto de hóspedes para avisá-la que o café estava pronto. Não poderia mais mostrar-se
fechado com ela após a intimidade daquela noite.
Robin sentou-se e sentiu a cabeça latejar. Automaticamente, levou a mão à testa.
— Ai! — gemeu, ao tocar o local dolorido sob o curativo.
Saiu da cama e caminhou descalça até o espelho. O quadrado branco que tapava o
corte deveria ser um lembrete amargo de seu acidente, mas ela não conseguia juntar
sentimentos de raiva naquela manhã. Sentia-se, em vez disso, cheia de alegria e
otimismo, como se o sol sempre fosse brilhar em um céu sem nuvens e nunca mais
houvesse um pingo de chuva para estragar um dia perfeito.
Claro que fora Adam que fizera aquilo com ela. Havia sido necessário uma sacudida
brutal para acordá-lo. Um acidente era algo sério, mas Robin estava sorrindo. Que
homem mutável ele era. De repente, como por milagre, ele abrira a porta para seu mundo
particular. Robin sentia-se feliz e, agora sabia com certeza, apaixonada.
Onde estava Adam? Provavelmente dormindo. Estiveram acordados até tarde na
noite anterior. Ela o imaginava adormecido, seu rosto relaxado, o corpo estendido, as
longas coxas musculosas, o peito largo e cor de cobre.
Nunca conhecera alguém como ele. Adam era discreto quanto a seus sentimentos,
mas quando decidia o que queria era gentil e carinhoso. Seria um amante apaixonado e
atencioso. Eles iriam conversar muito. Ah, quantas coisas tinham a dizer um para o outro!
Quanto poderiam aprender juntos!
Robin tomou um banho, com cuidado para não molhar o curativo, e vestiu as
mesmas roupas da véspera: a saia rodada e a blusa turquesa seca e manchada. Mas não
tinha outra escolha. Olhou-se outra vez no espelho, decidiu que o curativo branco era
muito feio e arrancou-o.
Aproximando o rosto do espelho, examinou o corte. Quatro pontos bem-feitos.
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Ajeitou a franja de modo a cobrir a ferida e sorriu. Ficara muito melhor. Por sorte, tinha
alguma maquiagem na bolsa. Estava muito pálida.
Eram quase nove horas. Adam ainda estaria dormindo? Adoraria entrar no quarto
dele e acordá-lo, mas Christina não aprovaria muito a atitude. Morria de vontade de vê-lo
outra vez, de ouvi-lo dizer seu nome. Será que ele lhe daria um beijo de bom dia? Talvez,
se seus pais não estivessem por perto.
Ele era antiquado; com certeza se importaria com o que a mãe pensasse. Talvez já
houvesse sofrido alguma desilusão na vida. Mas Robin descobriria qual era o problema
de Adam e o amaria tanto que curaria as feridas e o faria feliz todo o tempo. Não
importava o passado, não importava seus mundos serem diferentes. Agora que
descobrira que Adam se interessava por ela, Robin moveria céus e terras para que
ficassem juntos.
Christina encontrava-se na cozinha, lendo a seção de artes do jornal de Santa Fé.
— Bom dia, Robin. Como está se sentindo?
— Estou bem. Adam já...
— Deixe-me ver o corte. Adam contou o que aconteceu. — Christina levantou-se e
afastou a franja de Robin para examiná-la. — Ah, não é tão ruim. Ninguém vai perceber.
Adam disse que você vai ficar aqui conosco e eu acho mesmo que é melhor assim.
— Ele já levantou?
— Ah, sim. Já foi para Chaco cuidar do conserto de seu carro. Disse para você
esperar aqui.
— Ah. — Ele já havia partido. Robin sentia-se terrivelmente desapontada. — Ele não
precisava fazer isso.
— Adam não quis acordá-la. Estará de volta no fim da tarde. Agora, não se
preocupe. Sente-se e coma. Você é tão magrinha.
Robin fez um esforço para sorrir e pegou a xícara de café que Christina lhe
entregava.
— Obrigada. Na verdade, estou faminta.
— Eu sabia.
Havia ovos, tortilhas, bolo e café forte.
— Que delícia! — Robin exclamou. — Vou recomendar este restaurante a meus
amigos.
— Ray gosta de ter um desjejum reforçado.
— Vocês são muitos gentis, Christina, mas eu preciso voltar para minha loja. Hoje é
sexta-feira, tenho coisas a acertar no banco e Ericka só chegará à tarde.
— Adam disse para você esperar aqui até ele chegar com seu carro.
— Meu carro? Mas como ele vai fazer com o carro dele, se vier dirigindo o meu?
— Não sei, mas ele dará um jeito. Talvez peça a um dos alunos para trazê-lo. Não
se preocupe com isso. Ele disse também que ia procurar Rod Cordova e que não queria
você andando por aí sozinha até ele falar com a polícia.
— Que loucura! Não posso acreditar que isso esteja acontecendo. — Ela olhou para
a tortilha em seu prato e sacudiu a cabeça. — Talvez seja um sonho. Ou talvez não passe
de uma estranha coincidência de acidentes.
— Adam não pensa assim.
— Bem, de qualquer forma, tenho de voltar à cidade. Marquei com um cliente para
esta tarde.
— Meu filho vai ficar bravo conosco se a deixarmos sair sozinha — Christina
observou, franzindo levemente a testa.
— Ah, eu me sinto péssima dando todo esse trabalho. Vou chamar um táxi e...
— Não, espere até Ray chegar. Ele vai pensar em alguma solução. — Christina
apoiou o cotovelo na mesa de pinho. — Que fantasia esse seu cliente tem?
— Ele quer ser fotografado como soldado sobre um cavalo. Oh, meu Deus, ainda

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não arrumei a roupa!


— Adoro suas histórias! Ray vai levar você até a loja para esse compromisso.
— Ah, eu não poderia...
— Nem pense nisso. Agora trate de arranjar o uniforme do homem.
O que mais Robin poderia fazer? Ela telefonou à agência de aluguel de roupas para
o uniforme, depois conseguiu um cavalo com sela da cavalaria para as cinco horas.
Durante todo o tempo, Christina andava pela cozinha, arrumando as coisas. A mãe de
Adam. O que Christina pensaria dela, uma estranha que seu filho tinha de ficar salvando
como se fosse um cavaleiro andante?
Ray chegou do trabalho e sentou-se diante de um pãozinho e uma xícara de café.
— Então, mais aventuras, hein? — ele comentou com Robin. — Meu filho parece ter
virado sua vida de cabeça para baixo.
“Ah, se ele soubesse”, Robin pensou.
— Ray, Robin tem de ir para a cidade, mas não acho que deva ir sozinha. Você a
levará, não é?
— Claro. Só preciso resolver algumas coisas por aqui. Iremos daqui a uma hora.
— Sr. Farwalker, não seria mais fácil me emprestar um carro?
— E se acontecer alguma coisa? — Ele sacudiu a cabeça, sério.
— Ah, meu Deus. Eu odeio ser um peso.
— Querida, não fique preocupada. Famílias servem para isso — Christina garantiu.
“Que família?”, Robin pensou. “A família de Adam?”
— Posso usar o telefone e falar com Ericka? Ficarei mais tranquila se ela puder abrir
a loja.
— Claro, à vontade.
Foi Shelly quem atendeu.
— Você está “onde”? E me disse que ele não estava interessado, hein?
— Shel, os pais dele estão sendo muito bons comigo. O sr. Farwalker vai me levar à
cidade mais tarde.
— Ah, já entendi. Mamãe e papai estão aí. Não vou dizer mais nada.
— Ouça, diga a Chuck que eu sinto muito por ter perdido a reunião da comissão
ontem à noite. Tive de ir a Chaco Canyon e me atrasei.
— Chaco Canyon? Para quê?
— Ahn, fotografias. Tirei umas ótimas — ela mentiu. — Ericka está aí?
— Ainda não acordou. Você precisa dela na loja?
— Preciso. Não estou podendo ir para lá agora.
— Certo, eu vou acordá-la.
— Obrigada. Diga-lhe que pode tirar a tarde de folga.
— Está bem. E é melhor você conversar com Chuck sobre a reunião. Ele chegou em
casa espumando por causa de Thad Mencimer. Parece que houve uma discussão.
— Ah, que ótimo.
Ray a levou para a cidade em sua espaçosa caminhonete com ar condicionado. O
rádio estava ligado em uma estação que transmitia os comerciais em inglês e as notícias
em navaho.
— O senhor entende navaho? — ela perguntou.
— O suficiente.
— Aposto que a maioria das pessoas nem sabe que há uma estação que transmite
em navaho.
Ray Farwalker levou seu papel a sério. Acompanhou-a até a casa dela,
inspecionando os aposentos antes de deixá-la entrar. Robin trocou sua roupa por um
conjunto de jeans. Depois Ray foi com ela ao banco, à loja de aluguel de roupas e ao
supermercado para comprar pão e carne para os sanduíches que Robin preparou para
eles e para Ericka. O pai de Adam falava pouco, mas era agradável e alegre.

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Apareceu pouca gente na loja à tarde. Ericka foi para casa, Ray sentou-se em um
canto lendo revistas e Robin aproveitou para colocar a contabilidade em dia. Ray
Farwalker insistira em ficar lá para levá-la de volta à fazenda quando ela fechasse a loja.
Robin não conseguiu convencê-lo do contrário.
A porta se abriu de repente e ela levantou os olhos, esperando ver um cliente. Era
Adam.
Ele parecia cansado e impaciente. Robin aproximou-se, aborrecida por todo o
trabalho que ele tivera por sua causa.
— Adam... — começou, mas algo na expressão dele a deteve.
— Meu pai está aí? — ele perguntou, ríspido, fazendo-a gelar por dentro. Robin
apenas indicou o fundo da loja com um movimento de cabeça.
O que teria acontecido? Seu humor alterou-se de repente de alegria por ansiedade.
Momentos depois, os dois homens reapareceram. Tinham as cabeças baixas e
falavam em apache. Robin respirou fundo, recusando-se entrar em paranoia. Por fim,
Adam olhou para ela.
— Conversei com Rod Cordova esta manhã.
— Eu preferia que você não tivesse feito isso. Prometi àquela mulher que...
— Você prometeu a ela antes de quase ter sido morta — Adam interrompeu.
— Então... então você contou a Rod sobre John Martinez?
— Tive de contar. Sinto muito sobre a promessa que você fez a sua amiga índia,
Robin, mas fazer você jurar que ficaria quieta foi muito... infantil da parte dela.
— Ela não estava sendo infantil — Robin protestou, irritada. — Apenas sentia medo.
— Desculpe. — Adam passou a mão pelos cabelos. — Foi um longo dia.
— Eu compreendo. O que Rod disse?
— Ele ficou preocupado com seu acidente e, enquanto eu ia para Chaco Canyon,
ele foi a San Lucas.
— Encontrou John Martinez?
— Sim. Acabei de conversar com Rod outra vez. Parece que Martinez não ajudou
muito. Disse que nunca ouviu falar de você ou dos potes ou de uma mulher com brincos
de borboleta. Rod até investigou onde Martinez esteve ontem à noite. Todos no povoado
afirmaram que ele se encontrava em casa. Mas é claro que diriam isso, fosse verdade ou
não.
— Adam, não me diga que você está pensando que John Martinez esteve em Chaco
Canyon ontem e...
— Ele tem uma caminhonete velha.
— Como a maioria dos índios e vários rancheiros brancos — interveio Ray.
— Eu sei. Isso tinha de ser verificado, mas não levou a nada. Droga!
— Adam, agora que você está aqui, não acha que seu pai deveria ir para casa?
Ele levantou a mão e massageou a nuca, cansado.
— Há um pequeno problema. Papai, preciso que você me leve de volta a Chaco
Canyon.
— Hoje? — Robin indagou, desapontada.
— Tenho de estar na escavação amanhã cedo. E meu carro está lá.
— Tudo bem — Ray respondeu. — Podemos deixar Robin na fazenda primeiro.
— Espere aí — Robin interrompeu. Não suportava mais ver as pessoas tendo tanto
trabalho por sua causa. — Isso está ficando muito complicado. Adam, “eu” levarei você
até Chaco. É o mínimo que posso fazer.
— Robin, é uma viagem longa e sua cabeça...
— Minha cabeça está ótima. Pergunte a seu pai. Não desmaiei nem uma vez hoje.
— Não sei se é uma boa ideia.
— Por que não? Ouça, eu passarei a noite em algum hotel ou pousada perto de
Chaco e voltarei amanhã bem cedo. Ei, já sou uma mulher crescida. — Ela olhou de um

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para o outro. Ray parecia neutro, mas Adam franzia a testa. — Meu carro está
consertado, não está? O único problema é que tenho um cliente às cinco horas. Você
pode esperar?
— Filho, acho melhor você concordar — Ray opinou, decidindo a questão. Depois
despediu-se e deixou os dois sozinhos.
— Tenho uma grande ideia — disse Robin. — Você parece estar precisando de um
drinque. Vou fechar a loja e nós podemos ir até o La Fonda enquanto meu cliente não
chega.
— Eu aceito.
O bar era agradável, decorado em estilo mexicano e com um atendimento
primoroso.
Adam tomou um longo gole de seu margarita gelado e sorriu.
— É, foi mesmo uma boa ideia.
— Você deve estar exausto. Sua mãe disse que você saiu muito cedo esta manhã.
— Robin procurava ser cuidadosa e falava apenas de assuntos impessoais. O homem
sentado a sua frente não era o mesmo que a abraçara com carinho na noite anterior. Não
imaginava o que teria feito por causa daquela mudança drástica. Esperava que fosse
apenas o cansaço.
Nesse instante, Julien entrou no bar, acompanhado de Madeline Lassiter. Ele viu
Robin, acenou, e os dois se aproximaram.
— Buenas tardes, amigos — Julien cumprimentou. — Robin, você não apareceu na
reunião ontem à noite.
— É, desculpe. Eu não pude.
— Houve uma briga e tanto — Madeline comentou, olhando para Adam. — Sr.
Farwalker, que prazer tornar a vê-lo. Sabe, eu queria lhe perguntar sobre um vaso hopi
que tenho. O comerciante me garantiu que era do século dezesseis, mas suspeito que
seja mais novo.
— O laboratório da universidade terá prazer em ajudá-la, srta. …
— Lassiter. Madeline Lassiter — ela respondeu, sorrindo.
— É a mesma briga de que Chuck falou, Madeline? — Robin interrompeu,
incomodada com a clara intenção de flerte.
— Puxa, a coisa ficou pesada lá na biblioteca. Nós estávamos discutindo seu plano
de organizar os artistas índios. Então Thad, você sabe como ele é, fez um comentário
depreciativo sobre os índios. — Ela olhou para Adam. — Peço desculpas por ele, sr.
Farwalker. Bem, o fato é que Ben Chavez levantou-se furioso. O avô dele era navaho,
você sabe. Foi uma discussão feia. Com isso, acabamos não resolvendo nada.
— Thad é precipitado e um pouco ríspido — Julien acrescentou. — Mas não é má
pessoa.
— Ah, não? — comentou Robin.
— Ele vai cair em si.
— Não acha que a comissão funcionaria melhor sem Thad? — Robin indagou.
— Nós não podemos simplesmente expulsá-lo do grupo. Não seria justo. Nós o
convenceremos.
— Espero que sim — murmurou Madeline, fitando Adam outra vez. — O que acha
de Thad, sr. Farwalker?
— Não me sinto qualificado para fazer um julgamento, srta. Lassiter.
— Adam, talvez sua mãe pudesse ajudar — Robin sugeriu.
— Isso você terá de perguntar a ela. Você sabe que a comunidade indígena é muito
fechada. Sua ideia é sensata, mas organizar os artesãos índios pode não ser tão fácil.
— Mas vale uma tentativa, não é? — interveio Julien.
— Claro.
— Bem, eu posso consultar sua mãe. O pior que ela poderá dizer é não.

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— Uma ideia esplêndida — entusiasmou-se Julien. — Bem, vamos ter de deixá-los.


Eu e Madeline marcamos um encontro com um comerciante de arte.
— Boa tarde, sr. Farwalker. Ou posso chamá-lo de Adam?
— Esteja à vontade. — Galante, Adam levantou-se e apertou a mão de Madeline.
— Bem, parece que você arrumou uma nova fã — Robin comentou, depois que os
dois foram embora.
Mas Adam apenas terminou seu drinque, deliberadamente não engolindo a isca.
Apesar de seu silêncio, ele era uma companhia agradável e todas as mulheres no bar o
notavam. Robin gostava de estar com um homem tão atraente. Podia fingir que eram um
casal, que pertencia a ele e a Santa Fé, que havia um lugar para ela...
— São quase cinco horas — Adam avisou.
— Ah, é? — Ela terminou sua margarita. — De volta ao trabalho.
O cliente era Ted Butler, um texano tímido e magro de Houston, com um forte
sotaque sulino. Trocou-se nos fundos da loja e saiu como um perfeito confederado da
Guerra Civil, com túnica cinza, botas altas, chapéu e o emblema da Confederação dos
Estados sulistas na frente.
Adam os levou até um local a vinte quilômetros de Santa Fé onde, segundo a placa,
havia acontecido uma das batalhas. Era um lugar bonito, com colinas verdes e amplos
espaços abertos. O cavalo já havia chegado e um rapaz com ar de preguiça fumava um
cigarro de palha, encostado ao trailer com o animal.
— Pode tirar o cavalo do trailer, por favor? — Robin pediu.
— Ah, não, dona. Esse bicho está meio bravo. Eu disse pro chefe...
— Ah, que bom! — exclamou Robin, soltando um suspiro.
— E agora? — Ted perguntou, ansioso. — Não sou muito bom na montaria.
— Deixe comigo — Adam ofereceu-se. — Já lidei com cavalos bravos antes.
Sob o olhar encantado de Robin, ele montou o animal facilmente, parecendo não
temer a maneira furiosa como o cavalo batia os cascos no chão. Falava-lhe com voz
suave em sua língua nativa e acariciava-lhe o pescoço, enquanto o fazia andar
lentamente. Em poucos minutos, o animal se aquietou.
— Pode montar agora, sr. Butler. Ele só estava excitado.
Desajeitado, Ted Butler subiu à sela enquanto Adam segurava as rédeas. O sol
baixava sobre as colinas a oeste, lançando sombras interessantes no rosto comum de
Ted. Robin armou o tripé, escolhendo o melhor ângulo, de forma a que ele parecesse
mais velho, forte e autoritário.
— Coloque a mão direita na bainha da espada, Ted. Isso mesmo. Endireite o corpo.
Ótimo, ótimo. Agora um pouquinho mais para a esquerda. Levante um pouco o queixo. Aí.
Perfeito.
Depois de vinte minutos, a voz de Robin estava ficando rouca de gritar instruções,
mas a sessão correra muito bem.
Levaram Ted de volta à loja, depois pararam um pouco na casa de Robin para que
ela pegasse alguns objetos pessoais e puseram-se a caminho de Chaco Canyon, com um
suprimento de sanduíches e milk-shakes, às seis e meia.
— Você foi maravilhoso com o cavalo — Robin comentou, mastigando um
hambúrguer enquanto Adam dirigia.
— É a experiência. O animal percebe. Dizem que os apaches sempre foram bons
com cavalos. Talvez esteja em meus genes.
Robin fingia-se interessada nas batatas fritas, mas não conseguia tirar os olhos das
mãos de Adam no volante, aquelas mesmas mãos que haviam amansado o animal como
por mágica.
— O que você falou para o cavalo?
— Ah, coisas comuns, como “calma”, “relaxe”. Mas em apache as palavras parecem
alcançar melhor os animais. É difícil traduzir.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— É lindo ter esse tipo de poder sobre os animais. Você vai ensinar seus filhos a
fazerem isso? É muito difícil?
Ele ficou tão quieto que Robin o fitou, imaginando se a teria ouvido. O perfil dele era
rígido, os lábios fechados com firmeza. Ultrapassou um caminhão, pisando fundo no
acelerador do carro de Robin.
— Adam?
— Ahn? Ah, desculpe, eu estava concentrado na estrada. O que você perguntou?
Robin baixou os olhos e mexeu no anel de pérolas que usava havia pelo menos dez
anos.
— Nada, não era importante.
Ela terminou seu milk-shake, depois juntou canudos, copos e guardanapos em um
saco de papel e virou-se para colocá-lo no banco de trás. Viu uma bonita sacola de uma
loja de roupas em Santa Fé e, curiosa, esticou o braço para pegá-la.
— O que é isto?
— Ah, eu tinha esquecido. É para você.
— Para mim? — Ansiosa, ela abriu a sacola e tirou uma linda blusa azul-escura de
seda pura.
— Espero que você goste da cor. Não tinham nada em turquesa, como a blusa que
você perdeu, mas...
— Adam, eu não acredito! — Ela não sabia o que dizer. Seu abundante repertório
não a ajudou naquele momento. Mas sabia que era melhor não ser muito efusiva, ou
Adam ficaria embaraçado. Passou os dedos pelo tecido brilhante, pelos botões cobertos.
A cor azul combinava com seus olhos. De repente, imaginou se ele teria pensado nisso.
— Obrigada, é linda — Robin agradeceu, tornando a guardá-la na sacola.
Deixavam para trás as colinas e o vasto platô ressecado estendia-se à frente. Iam
na direção do pôr-do-sol, como se fossem penetrar no espetáculo rosa e púrpura que
coloria o céu do deserto.
— Quer que eu guie? — ela perguntou. — Dormi bem mais que você.
— Não é preciso.
— Se você ficar cansado...
— Claro.
Ela cruzou as pernas no carro apertado, incapaz de relaxar com Adam tão próximo
de si.
— Acho que John Martinez mentiu para Rod?
— Acho.
— E como alguém poderá descobrir alguma coisa?
— Mais cedo ou mais tarde Martinez terá de admitir o que fez ou alguém cometerá
algum erro e o entregará.
— E se isso não acontecer? Não posso ficar morando na sua casa pelo resto da
vida.
— É, eu sei. Bem, se as autoridades apertarem o cerco sobre os falsificadores, a
quadrilha desistirá ou se mudará para outro lugar. Sua ideia de uma associação indígena
é boa nesse sentido também, porque os bandidos se sentirão pressionados pelos dois
lados. Acabarão sendo pegos.
Havia poucos carros na estrada. Adam parou em um posto dê gasolina para
abastecer e, então, entregou as chaves a Robin.
— Sua vez.
Ela dirigia mais depressa do que ele. A lua ainda não surgira e a escuridão era total
lá fora, exceto pela luz dos faróis. Adam reclinou o banco e, momentos depois,
adormeceu. Robin ouvia-lhe a respiração lenta e cadenciada, sorrindo. Ele merecia
aquele descanso.
Adam acordou ao passarem por Pueblo Pintado. Esfregou os olhos e verificou o

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

relógio.
— Ei, você está dirigindo ou voando baixo?
— Sente-se melhor agora?
— Espere até eu acordar direito. Você está bem? A cabeça não a incomoda?
Ela tocou o corte com um dedo. Ainda estava dolorido.
— Eu quase esqueci disso.
— Mas eu não.
Passava de dez horas quando chegaram ao centro de visitantes.
— Pare aqui um segundo, Robin.
— Quer dirigir? — ela indagou, entrando no acostamento.
— Não. Ouça, Robin. — Ele hesitou. Era evidente que pretendia dizer algo difícil. —
Já é tarde e não há nenhum hotel aqui perto. Não quero você guiando por aí sozinha.
O coração dela se acelerou, antecipando intuitivamente o que estava por vir.
— O que você sugere, então?
Ele não a fitava diretamente, mas além dela, na direção das paredes escarpadas do
canyon.
— Fique aqui comigo.
Robin não tinha certeza se ouvira direito. Ele a convidava para ficar. Seria possível?
Adam esticou o braço e tocou-lhe o ombro.
— Fique comigo — repetiu, baixinho.
— Eu... — O coração dela batia tão forte que parecia querer pular do peito.
— Você percebe o que eu estou pedindo? — ele disse, com uma incrível ternura,
acariciando-lhe o ombro, o pescoço, a orelha.
— Sim — ela murmurou, esquecendo-se do mundo.

CAPÍTULO XIII

Robin o seguiu pela trilha escura, de mãos dadas, o coração batendo tão forte que
quase doía. Excitação e medo faziam seu corpo tremer.
— Quer ir mais devagar? — ele perguntou. — Está difícil enxergar o caminho.
Ela apenas sacudiu a cabeça, negativamente. Sentia-se ofegante, mas não só pela
caminhada.
Seguia um homem por uma trilha antiga sob um imenso céu estrelado, ao mesmo
tempo desejando e temendo o que estava por vir.
“O que estou fazendo?”, perguntou a si mesma. Embarcava em uma jornada que ela
mesma buscara, mas Adam, como seus bravos ancestrais, era estranho para ela. Saberia
de fato o que havia iniciado? Não teria sido mais seguro esperar até que o conhecesse
melhor? Inúmeras questões surgiam em sua cabeça, mas, a cada passo, seu destino
parecia mais sólido e definido.
— Por que você não acampa perto dos estudantes?
— Eles são jovens e não querem alguém tomando conta. O acampamento de Adam
era grande e convidativo. Havia uma barraca dentro da qual era possível ficar em pé e um
toldo de lona que cobria uma mesa de trabalho. Papéis seguros por pedras espalhavam-
se sobre ela, junto a pilhas de livros.
68
Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

Sob o toldo havia um fogão e, no centro da área, um local para acender fogo. Adam
ocupou-se disso.
— Fique à vontade — disse a Robin, enquanto juntava uma pilha de madeira. — Há
um banquinho de lona dobrado dentro da barraca.
— Certo. — Ela acendeu uma lanterna, entrou na barraca e encontrou o banquinho.
Permaneceu lá dentro por um momento, consciente do cheiro de Adam por todo o lugar,
misturado ao aroma de terra, lona e fumaça da fogueira.
Então, viu o colchão de ar onde ele dormia, onde “eles” iriam dormir, e seu coração
deu um pulo. Saiu depressa, sentindo-se tonta e um pouco constrangida.
Adam estava agachado junto à fogueira, alimentando o fogo. Havia tanto de índio
naquele homem que Robin achava difícil imaginá-lo na universidade, morando em um
apartamento, cercado de confortos. Ela sentou-se no banquinho e esfregou as mãos para
aquecê-las perto do fogo.
— Você não fica com frio aqui, à noite? — ela indagou.
— Não.
— Você gosta mais de viver ao ar livre? Ele levantou a cabeça e a encarou.
— Você é tão curiosa, Robin. À vezes tenho a sensação de que sou um espécime e
você está me estudando.
— Bem, eu “estou” interessada — ela declarou, decidindo que a franqueza era o
melhor caminho. — Você é um completo enigma para mim.
— Por que sou um índio?
— Sim. — Robin admitiu. — Isso me fascina. Mas não entenda da maneira errada.
Ser índio é parte de você, como ser alto ou baixo, magro ou gordo. A gente se sente
atraído por uma pessoa por causa do que ela é, certo?

— Admiro sua sinceridade, Robin. Acho que me ensinaram como conhecer a mim
mesmo, mas não a comunicar isso aos outros. Uma característica apache.
— Pode-se aprender a comunicar.
— Sim, se houver boas razões.
— O fato de eu ser branca me torna um enigma para você? — ela indagou,
aproveitando que Adam parecia disposto a falar. Ansiava por penetrar mais em sua alma.
— Ninguém me perguntou isso antes — ele comentou, com um sorriso. — Acho que
não. Às vezes você faz coisas que parecem estranhas para mim, mas eu sempre consigo
entender suas razões.
— O quê, por exemplo?
— Por exemplo, insistir em participar desse caso do pote.
— O velho senso norte-americano de justiça, talvez? — ela sugeriu, brincando. Será
que ele não percebia que, se não fosse o caso do pote não estariam juntos ali no
acampamento? — Sabe, eu o invejo, Adam. Você parece bem ajustado com sua família,
seu trabalho, e com você mesmo. Nós, pobres homens brancos, vivemos em busca
dessas qualidades que vêm tão naturalmente para seu povo. E nunca chegamos sequer
perto.
— A maior parte dos homens brancos não parece notar a falta.
— Mas eu noto. Sempre achei que, se fizesse parte de uma grande família, poderia
encontrar essa harmonia. — Ela colocou os cabelos atrás de orelha, pensativa. — Mas o
único jeito de isso acontecer é eu construir minha própria grande família.
— Então você merece isso — Adam declarou, apoiando os braços sobre os joelhos
e encarando-a de frente. — Quer dizer que você acha que não é ajustada consigo
mesma?
— Eu? — Robin riu, com excessiva despreocupação. — Como todo mundo, eu
imagino.
Ele permaneceu em silêncio por um minuto, examinando-a. Devagar, ficou em pé,

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

aproximou-se dela e segurou-lhe as mãos para ajudá-la a levantar-se.


— Não é da minha conta sondar sua vida, Robin. É suficiente que você esteja aqui
comigo. Eu quero você — ele murmurou, fitando-a com carinho e desejo.
Robin estava atordoada, com o pulso disparado, e mal teve a presença de espírito
para fazer um sinal afirmativo com a cabeça e segui-lo para dentro da barraca.
Adam parou diante dela, na semi-escuridão. A luz da fogueira iluminava-lhe o rosto e
os ombros enquanto ele desabotoava e tirava a camisa. Sombras escuras dançavam em
seu peito acobreado que se movia suavemente devido à respiração.
Robin percebeu todos os sentidos se aguçarem. Era como se não existisse mais
nada além daquela pequena barraca onde se encontrava com Adam. Levou as mãos aos
botões de sua blusa, mas ele a deteve.
— Eu quero fazer isso — Adam murmurou e, lentamente, começou a desabotoar a
roupa de Robin, roçando-lhe a pele com os dedos, deixando uma trilha ardente de
sensações que a faziam estremecer. Logo a calça uniu-se à blusa no chão, e Adam
procurou o fecho do sutiã. — Você é muito bonita, Robin.
A pele dela se arrepiou quando o ar frio da noite envolveu-lhe a nudez. Sentia-se
viva e sem o menor traço de inibição. Talvez um jovem casal anasazi tivesse estado certa
vez naquele local próximo à cidade, deixando suas roupas caírem uma a uma no chão
duro...
Adam beijou-lhe os lábios, os ombros, o pescoço, enquanto suas mãos seguiam o
contorno dos quadris e das nádegas. Parecia querer possuir-lhe o corpo todo, memorizar
cada curva e reentrância, antes de deitarem juntos.

Robin sentiu os joelhos enfraquecerem e apoiou-se nele. Suas próprias mãos


exploravam as costas musculosas e macias, deixando-se envolver no calor que o corpo
dele emanava. Gemeu baixinho quando ele a beijou com mais paixão, lentamente, como
se o tempo não tivesse mais significado.
Ainda abraçados, caminharam até o colchão. Robin deitou-se e afundou a cabeça
no travesseiro, sentindo os lábios dele a lhe saborearem os seios. Seu cérebro registrava
cada toque, cada movimento, cada respiração.
Adam a beijou com tanta ternura que ela abriu-se como uma flor, para ser penetrada
devagar e tranquilamente. Seus corpos moviam-se em perfeita sintonia, como se
houvessem sido feitos um para o outro.
— Oh, Adam — Robin murmurou, e ele soube que chegara o momento. Abraçados,
gemeram de prazer na noite silenciosa, abandonados à doce satisfação de seus instintos.
Adormeceram juntos, mas Robin estava agitada. O fogo ia diminuindo lá fora e ela
acordava de tempos a tempos nos braços quentes de Adam, escutando o estalar da
madeira ou ruído de alguma criatura noturna do canyon. Tinha vontade de acordá-lo, de
lhe dizer tantas coisas, de ver o fogo apagar ao lado dele. Mas Adam dormia
profundamente, com um dos braços sobre seus seios, uma das pernas dobradas sobre a
perna dela.
Começava a amanhecer quando Robin abriu os olhos outra vez. Ela virou a cabeça
e viu Adam acordado.
— Bom dia — ele murmurou.
— Oi — Robin sorriu feliz ao sentir os dedos de Adam acariciando-lhe os seios.
Fizeram amor novamente, de forma tão terna como na véspera, mas parecia haver
uma espécie de tristeza na paixão de Adam. Ela percebia alguma contenção em suas
carícias e beijos, como se ele entregasse toda sua carne, mas nada do espírito.
Essa ideia passou depressa pela mente de Robin, mas desapareceu assim que as
sensações se apoderaram de seu corpo. Havia apenas Adam, o peso de seu corpo forte,

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

a maciez de suas mãos carinhosas.


Minutos depois, Robin respirava satisfeita, coberta por um fina camada de
transpiração. Adam apoiou-se sobre o cotovelo e sorriu.
— Você é linda — ele murmurou, inclinando-se para beijá-la. Ele era tão gentil e
carinhoso, Robin pensou. Tão especial.
No entanto, havia sempre aquele distanciamento que ela já tentara compreender de
todas as maneiras, sem sucesso. Era como se, com sua contenção, ele tentasse dizer-lhe
alguma coisa, avisá-la de algo. Enquanto ela se vestia, Adam trouxe uma panela com
água.
— Está gelada, mas eu achei que talvez você quisesse... se lavar, ou algo assim.
— Ah, obrigada. — Robin adorava a timidez e a atenção dele. Seria capaz de passar
a vida toda a seu lado.
Adam estava preparando o café da manhã quando ela saiu da barraca. O cheiro de
bacon invadia o ar.
— Dizem que é ruim para a saúde — Adam comentou, apontando para as fatias de
bacon.
— Péssimo, mas eu adoro. — Ela sentou-se perto do fogo. Os primeiros raios do sol
iluminavam o alto do canyon, afastando a friagem. Logo o calor seria abrasador. Frio à
noite, tórrido durante o dia. Uma brincadeira cruel da natureza.
— Como você gosta dos ovos? — Adam perguntou. — Fritos ou mexidos?
— Ah, mexidos, por favor.

Ele vestia uma camisa xadrez verde e preta, jeans e botas. As mangas estavam
arregaçadas, mostrando os braços fortes que há pouco a haviam abraçado com tanta
paixão. O amor de Robin era intenso naquele momento, como fogo atiçado pelo vento,
poderoso, incontrolável.
— Precisamos resolver sobre esta noite. Acho que você deveria ficar na fazenda —
Adam retomou.
— Não, acho que eu vou falar com Shelly. Ela tem dois quartos de hóspedes.
— Será que você vai mesmo?
— Adam!
— Estou falando sério. Você parece tão despreocupada, mas espero que se lembre
do que lhe aconteceu duas noite atrás.
— Tenho pontos na testa para me lembrar.
— É bom mesmo. Alguém anda muito ciente de seus movimentos.
— Vou pensar nisso. E juro que passarei as noites na casa de Shelly até que esse
caso esteja resolvido.
— Mesmo que demore um pouco?
— Mesmo assim. É uma promessa. — Ela quase acrescentou que estaria disposta a
fazer a longa viagem até Chaco todas as noites, mas achou melhor ir mais devagar. E
havia algo estranho em Adam naquela manhã.
Comeram em relativo silêncio. Robin sentia-se feliz por estar ao lado dele naquele
lugar maravilhoso. Imaginava se Adam estaria com a mesma sensação. Estaria
apaixonado por ela também? Conhecia-o o suficiente para suspeitar que ele não era
homem de ter muitos casos amorosos, portanto a noite anterior devia ter sido especial
para ele, tanto quanto fora para ela. E era gostoso sentir-se querida, desejada.
Depois do café, Robin ajudou-o a arrumar as coisas e lavar os pratos. Então, olhou
para o relógio e soltou um suspiro.
— Já são oito horas. É melhor eu tomar uma atitude — disse.
— Tem razão.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— Adam, obrigada por tudo. Por esta noite, também. Ele não respondeu. Um alarme
soou na cabeça de Robin.
— Vou acompanhá-la até o carro.
— Não precisa.
— Eu quero, não é problema nenhum.
Era evidente que ele havia se distanciado outra vez. Estava escrito em sua
expressão fechada e no olhar impessoal. Robin tentou tranquilizar-se, garantindo a si
mesma que ele provavelmente andava preocupado com o trabalho, apenas isso. Não
havia motivo para Adam estar aborrecido com ela.
Robin parou ao lado do carro e abriu a bolsa para procurar a chave. Adam virou o
rosto para o sol, inexpressivo, como se quisesse fitá-la.
— Bem, eu vou indo — Robin falou.
— Promete que vai ficar na casa de Shelly?
— Prometo. — Ela ia entrar no carro quando Adam colocou a mão sobre seu ombro.
— Ouça, quanto à noite passada... Robin, eu... Foi muito especial para mim, e eu
quero voltar a vê-la. — Ele fez uma longa pausa e seus olhos pareciam querer contar-lhe
algo triste e assustador. Robin sentiu o coração acelerado.
— O que foi, Adam?
— Robin, espero que possamos ser sempre... amigos. Ela o encarou por vários
segundos, confusa e espantada.
Amigos? Sabia que estava pálida e seus lábios tremiam.
— É isso que você chama de amizade, Adam? Nós fizemos amor.
— Sinto muito, Robin. Eu não queria magoá-la.
— Obrigada por suas boas intenções.
— Você merece mais do que eu posso lhe dar. Nós somos muito diferentes. Não
pode dar certo.
— Isso é algum tipo de revelação apache? — ela perguntou, sarcástica.
— É apenas humano.
— Bem, então é só isso. Eu gostei de você, Adam. Achei que...
— Robin, não...
— Por favor. — Ela sacudiu a cabeça, incrédula, enquanto se esforçava para conter
as lágrimas. — Acho que é melhor eu ir embora. — Trêmula, entrou no carro e ligou o
motor. “Amigos”, ele dissera. Tinha vontade de rir histericamente.
— Você está em condições de dirigir sozinha? — ele indagou, com a voz tão tensa
quanto a dela.
— Claro que estou. — Robin pisou no acelerador e saiu cantando os pneus. Pelo
espelho retrovisor, viu Adam parado no mesmo lugar, imóvel.
“Amigos.” Como ela pudera ser tão estúpida?

CAPÍTULO XIV

O fim de semana arrastou-se. Adam classificou dezenas de fragmentos de cerâmica,


recolocou parte do teto caído da kiva e tentou ler uma nova revista sobre as cerimônias
dos mimbres. O trabalho físico lhe permitia esquecer Robin por alguns momentos, mas a
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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

leitura mostrou-se inútil.


No domingo à tarde, os estudantes foram almoçar em um restaurante em
Farmington; Adam deu uma longa caminhada. As nuvens juntarem-se a oeste e vieram
tampar o sol. Desta vez, a chuva caiu. Os pingos grossos atingiram a terra poeirenta em
grande quantidade, até transformá-la em lama.
Adam continuava andando, com as mãos nos bolsos, a água entrando em seus
olhos, numa tentativa de reintegrar-se na harmonia da natureza. Não parecia ter muito
sucesso, porém...
Devia ter contado a ela.
Ainda se lembrava da expressão magoada de Robin no sábado de manhã,
implorando respostas. “Amigos”, ele dissera. Não podia culpá-la por ter ido embora. Ele
não podia lhe dar o que ela queria.
Seus pés escorregavam na trilha embarreada. Um fio d'água corria pelo leito
usualmente seco do riacho. Chaco. Novecentos anos antes, aquele líquido vital teria sido
aproveitado para a preservação da comunidade. Agora, simplesmente se perdia, sugado
pela terra sedenta para nutrir as poucas plantas. Uma terra estéril, vazia e desolada como
ele.
Robin o amara com todo seu ser, corpo e alma. Por que ele cedera e deixara a
situação chegar naquele ponto? Porque se sentia fraco e sozinho, porque queria uma
mulher. Mas não qualquer mulher; ele queria Robin.
Bem, estava tudo acabado e, se tivesse juízo, não mexeria mais no problema.
A segunda-feira não foi muito melhor. Sua própria memória o atraiçoava: Robin em
seus braços, Robin rindo, Robin contando histórias engraçadas... Tudo parecia evocar
uma lembrança, uma sensação.
Tinha uma vontade irresistível de ir até o centro de visitantes e telefonar para a loja
dela. Estaria em segurança? Cumprira a promessa de dormir na casa dos Dalton? Rod
descobrira alguma coisa? Mas não cedeu à vontade, porque isso significaria começar
tudo de novo, ouvir a voz dela, desejá-la.
À noite, pegou seu saco de dormir e deitou-se ao ar livre. A lua estava quase cheia,
como um belo disco de prata. Adam tentou relaxar, abrir sua mente para as forças
poderosas que impregnavam o universo. O método apache talvez lhe trouxesse paz de
espírito, já que os métodos do homem branco pareciam não funcionar.
Desejou poder ir até a reserva apache onde vivia seu tio, tomar um banho ritual,
invocar os espíritos e ser limpo, curado. Mas a cerimônia era longa e precisava ser
marcada com semanas de antecedência para que os preparativos pudessem ser feitos.
Portanto, teria de esperar e suportar a dor sozinho.

Os apaches desprezavam os covardes. Seria ele um covarde? Ou apenas um


homem tentando fazer o melhor sob as circunstâncias? Não tivera outra escolha quando
dispensara Robin na manhã de sábado. Talvez se ela não houvesse dito tão
sinceramente, tão decididamente, como julgava importante possuir uma família, como
sonhava em ter um dia uma “grande” família... Talvez se ela declarasse que não queria
filhos, como era o caso de várias mulheres atualmente, ele não sentisse a terrível
necessidade de afastar-se de Robin.
Fitou a face gorda da lua e relembrou os cantos apaches, o fogo e os tambores, as
danças, fantasias e máscaras, a intimidade com o mundo além do humano.
Poderia viver sem nunca mais ver ou tocar Robin? Sua mente dizia que sim, mas o
coração rebelava-se contra a decisão. Já sentia falta dela, mais do que poderia ter
imaginado.
E se lhe contasse a verdade? Se ela o amasse, iria aceitá-lo. Muitos casais não

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

tinham filhos. Quanto à família, havia suas irmãs, seus sobrinhos...


Mas, por dentro, receava revelar seu segredo a Robin. E se ela sentisse pena? Ou
se ficasse com ele por senso de obrigação e depois guardasse esse ressentimento por
toda a vida?
Adam passou a mão pelo rosto. Era melhor esperar que o tempo os curasse.
Na terça-feira de manhã, decidiu que já havia fugido demais de suas
responsabilidades no caso dos falsificadores. Era muito fácil permanecer no canyon e
enganar-se dizendo que a situação se resolveria sozinha. Josefina Ortega sabia o que se
passava e talvez pudesse lhe dar mais informações. O problema era que, abandonando a
passividade, teria de defrontar-se outra vez com Robin. Teria de fingir que eram meros
conhecidos, controlar seus sentimentos e tentar concluir aquele assunto do pote sem
causar mais sofrimentos para nenhum dos dois.
Dirigiu-se ao centro de visitantes e telefonou para Rod Cordova. Como suspeitara,
as investigações estavam paradas.
— Desculpe, Adam, mas não consegui nada com o tal Martinez. Não vou arquivar o
caso, claro, mas será muito difícil provar que existe uma quadrilha de falsificadores.
O telefonema seguinte foi para sua mãe. Quando lhe pediu para falar com Josefina e
explicar o perigo em que colocara Robin, Christina hesitou.
— Mamãe, foi você quem contou a Josefina sobre a falsificação. Apenas ligue para
ela e peça que procure cooperar quando eu chegar aí. Ela confia em você.
— Ah, Adam, eu não sei. Josefina tem medo da própria sombra. Mas vou tentar.
Faltava apenas Robin. Ela era a verdadeira chave para a cooperação de Josefina.
Adam saiu do prédio, levantou o rosto para o sol, fechou os olhos por um momento e
pediu forças.
Ericka Dalton estava sentada atrás do balcão da loja quando a porta se abriu. Ela
levantou os olhos e sorriu.
— Bom dia, sr. Farwalker.
— Bom dia. Robin está aí?
— Está nos fundos, com uma cliente. — Ericka baixou a voz. — A mulher vestiu-se
de Maria Antonieta e trouxe dois poodles franceses. Acho que Robin vai estrangular esses
cachorros.
Do fundo da loja, veio o som de latidos agudos e a voz brava de uma mulher. Ericka
riu.
— Ela vai demorar?
— Pelo menos mais meia hora.
— Então eu volto daqui a pouco.

Adam foi comer alguma coisa e retornou antes que a meia hora tivesse se passado.
Robin estava conversando com uma sombra em um traje completo do século XVIII: saia
ampla de cetim, corpete decotado, peruca branca de cachos. Dois poodles brancos
pulavam e latiam a seus pés.
— As provas ficarão prontas quinta-feira. — Robin perturbou-se por um instante ao
ver Adam, mas pareceu recuperar-se em seguida. — Pode trocar-se na sala dos fundos,
sra. Downing. Ericka, vá almoçar agora.
A moça olhou de Adam para Robin e, silenciosamente, pegou sua bolsa e
desapareceu.
A loja, de repente, ficou vazia e quieta. Adam coçou o pescoço, pouco à vontade.
— Robin — ele começou, vendo-a caminhar para trás do balcão e mexer em alguns
papéis, deliberadamente o ignorando. — Ouça, tenho de falar com você. É sobre a mulher
índia que veio visitá-la. Eu escondi algumas coisas de você...
Robin ouviu em silêncio, com uma expressão imparcial, enquanto Adam contava

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

sobre Josefina Ortega. Depois jogou os cabelos para trás e apoiou as mãos sobre o
balcão.
— Por que você não me contou isso antes?
— Queria mantê-la fora disso. Mas agora tenho de pedir sua ajuda outra vez.
— Bem, não vejo o que eu possa fazer. — Ela permanecia atrás do balcão, como
para proteger-se.
— Vou falar com Josefina esta tarde. Gostaria que você estivesse presente. Se lhe
contar o que lhe aconteceu, tenho certeza de que ela vai decidir cooperar. Espero que nos
leve até John Martinez.
— Por que ela iria querer nos ajudar assim de repente?
— Pedi a minha mãe para conversar com ela e persuadi-la.
Robin olhou para a rua, pensativa. Adam sabia que ela estava relutante e não podia
culpá-la. Não devia nem ter ido procurá-la.
— Está bem, eu vou com você. Hoje à tarde? Tenho de estar de volta às sete horas
da noite. Shelly e Chuck vão dar um jantar.
— Não se preocupe. Obrigado pela boa vontade. Posso vir pegá-la às duas horas?
— Tudo bem.
Maria Antonieta, agora vestida como uma mulher comum, saiu da sala dos fundos
com seus poodles nervosos. Adam despediu-se e foi embora.
Às duas horas, ele estacionou diante da loja. Robin já se encontrava a sua espera,
graciosa em uma saia bege justa abotoada na frente e uma blusa verde de linha com
ombros estruturados. Toda vez que a via ela lhe dava a mesma impressão: uma pessoa
linda, cheia de vida e de amor.
— Esqueci de perguntar para onde vamos — ela comentou, entrando no carro.
— Para San Claro. Josefina mora lá.
— Por que ela não procurou você? Afinal, ela nem me conhece.
— Porque desejava permanecer anônima Os índios não gostam de se envolver.
— Era uma mulher tão meiga. Talvez fique assustada ao nos ver chegar assim.
— Espero que minha mãe já tenha falado com ela.
A tensão no carro parecia pesar sobre Adam. Era como se uma centena de
perguntas estivessem enterradas sob a superfície do silêncio, como lava em um vulcão,
prestes a explodir.
Ele a fitou disfarçadamente. Robin parecia rígida e distante, sem sua exuberância
usual. Mas ele a queria tanto quanto naquela noite em Chaco. Era quase insuportável tê-
la tão perto, sentir seu perfume, saber os segredos que se escondiam sob a roupa, a
maciez da pele, o gosto dela.

Com desgosto, voltou a concentrar-se na estrada. Havia coisas impossíveis de


serem alteradas e seu problema era uma delas. Precisava aceitá-los e conformar-se com
o destino.
San Claro era uma das mais antigas povoações habitadas do Novo México.
Localizava-se em um vale fértil cercado de colinas arredondadas. As casas eram mais
dispersas do que em San Lucas e altas árvores davam sombra à capela espanhola na
praça.
Encontraram Josefina trabalhando diante de seu estúdio. O filho a ajudava a
queimar as peças, que iam adquirindo a cor negra lustrosa pela qual seus trabalhos eram
tão famosos.
Adam e Robin aproximaram-se do fogo. Ao vê-los, Josefina interrompeu o trabalho,
com uma expressão insegura
— Josefina, você teria um momento para conversar conosco?
— Sua mãe me telefonou — ela disse, quase em um murmúrio. — Prometi que iria
ajudá-la.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

Robin estendeu a mão para Josefina e sorriu.


— É uma prazer vê-la outra vez.
Josefina os levou para dentro do estúdio, uma grande sala cheia de montes de
argila, potes inacabados, escovas e pincéis, ferramentas e desenhos. Sobre uma longa
mesa, havia fileiras de peças prontas de todo tamanho e forma, algumas coloridas, mas a
maioria no estilo preto sobre preto que valera aplausos internacionais para Josefina.
— Que maravilha! — Robin exclamou, entusiasmada.
— Gosta? É o trabalho de uma vida inteira — Josefina disse, com modéstia — Mas
venham sentar-se para podermos conversar.
Adam e Robin a acompanharam por uma porta que dava para a cozinha. Josefina
colocou uma cafeteira no fogo e indicou-lhes as cadeiras em torno da mesa.
— Christina me disse que você vai resolver esse crime dos potes falsos e que eu
posso ajudá-lo. Mas, primeiro, quero pedir desculpas à srta. Hayle por não ter contado
quem eu era. Só estava querendo ajudar, mas as coisas não saíram como pensei.
— A senhora falou com John Martinez depois daquele dia? — Robin indagou.
— Não. Deixei um recado, mas ele não respondeu.
Adam ficou aliviado por Josefina não saber que Rod Cordova havia interrogado
Martinez. Ela não iria gostar. Sentia-se um pouco culpado por usar uma mulher inofensiva
daquele jeito, mas precisava descobrir mais sobre John Martinez.
— Josefina, nós gostaríamos muito de conversar com John. Ele poderá nos ajudar a
encontrar essas pessoas que encomendaram os potes. — “Isto é”, Adam pensou, “se o
próprio John não estiver envolvido”.
— Eu quero ajudar, mas sei tão pouco. Talvez eu convença John a falar com vocês.
Talvez não. — Ela trouxe uma bandeja com as xícaras para a mesa. Parecia cansada e
triste.
— Josefina, preciso lhe contar o que aconteceu com Robin quinta-feira à noite. —
Ele falou sobre o desabamento da kiva, sobre o índio suspeito e a caminhonete que
jogara Robin para fora da estrada. Josefina empalideceu e sentou-se visivelmente
abalada. — Como vê, isso precisa acabar. Não só pela segurança de Robin, mas também
para proteger a reputação de todos os ceramistas índios.
— Meu Deus, o que devo fazer? — Josefina estava quase chorando.
— Leve-nos até Martinez. Se você lhe disser que somos de confiança, ele
conversará conosco, não é?
— Não sei.
— Podemos tentar — interveio Robin. — Não podemos? Josefina fez um sinal
afirmativo com a cabeça. A primeira batalha estava vencida.
Iniciaram a curta viagem até San Lucas. No banco de trás, Josefina torcia as mãos,
nervosa.
— A senhora está agindo bem — Robin tentou tranquilizá-la. — Não se preocupe.
— John vai ficar bravo quando vir que eu trouxe dois estranhos.
— Tudo vai dar certo, fique tranquila. — Robin começou a fazer perguntas. Adam
sorriu. A curiosa Robin, sempre querendo saber tudo sobre todos. — Como aprendeu a
fazer cerâmicas tão lindas? Isso é coisa de família?
— Ah, em casa todos ajudam. Eu aprendi com uma tia, mas o preto sobre preto eu
descobri sozinha, fazendo experiências com várias técnicas.
— Eu adoraria vê-la fazer um vaso!
— Terei prazer em lhe mostrar.
— Sabe, a senhora seria a pessoa perfeita para organizar os ceramistas. Se vocês
formassem uma organização, então todos os membros poderiam ser prevenidos contra
pessoas como as que encomendaram o pote a John. A senhora me entende?
— Uma organização?
— Sim, poderia funcionar. Como nossa associação em Santa Fé. Vocês poderiam

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

proteger a si mesmos.
— Eu não sei...
— Seria uma coisa ótima, Josefina.
— Eu não saberia como começar.
— Eu a ajudarei — Robin ofereceu-se.
— É uma boa ideia, Josefina — Adam opinou. — Um dia os índios terão mesmo de
fazer isso.
— Mas eu sou apenas uma ceramista. Não sei se saberia o que fazer.
Robin achou melhor não insistir. Josefina precisava de tempo para se acostumar
com a ideia.
Em San Lucas, ela os conduziu à casa de Martinez. Estacionada na frente havia
uma velha caminhonete enferrujada, como a que jogara o carro de Robin para fora da
estrada. Mas era ridículo supor que fosse a mesma, Adam pensou. Existiam pelo menos
mais vinte daquelas só em San Lucas. No entanto, Robin pareceu ter a mesma ideia, pois
também olhou para o veículo.
Josefina bateu à porta enquanto Adam e Robin esperavam no carro. Não queriam
assustá-lo. A situação já era suficientemente difícil. Afinal, era possível que Martinez fosse
culpado, apesar de Josefina pensar o contrário.
Um homem abriu a porta e Josefina levou vários minutos para acalmá-lo. Quando
ela retornou ao carro, parecia aborrecida.
— Ele vai falar com vocês, mas ficou zangado, como eu pensei. Acho que não lhes
dirá muita coisa. — Ela baixou os olhos. — Desculpem.
— Você fez o melhor que pôde — Adam garantiu. — Vamos ver o que John tem a
nos dizer.
— John Martinez era magro, cerca de quarenta e cinco anos, e tinha argila enfiada
sob as unhas. Fumava cigarros sem filtro um atrás do outro, evidentemente ansioso.
Falou algo a Josefina em tewa, sua língua nativa.
— Disse que os homens que encomendaram o pote o ameaçaram. Ele não pode
contar nada.
— Explique que ele não terá de ir à polícia. É só nos contar quem são esses homens
e nós nos encarregaremos do caso — garantiu Adam.
Josefina transmitiu o recado e Martinez os fitou com um olhar arredio, incerto,
temeroso.
— Conte a ele o que me aconteceu — Robin sugeriu, levantando a franja para
mostrar o corte na testa.
— Martinez pareceu chocado com a história e um longo silêncio se seguiu depois
que Josefina acabou de falar. Por fim, ele virou-se para Adam.
— Quando uma mulher se fere a situação é grave — ele afirmou, em um inglês
carregado de sotaque. — Vou lhes contar. Quero que saibam que só fiz aqueles potes
porque o homem veio me procurar dizendo que era de um museu. Queria que eu
copiasse uns potes de fotografias que me mostrou. Era para estudos. Eu acreditei nele e
fiz um trabalho caprichado, até com as manchas nos lugares certos. Não ganho muito
dinheiro com esses potes.
Adam ouvia em silêncio, não querendo perturbar a narrativa. Percebia Robin a seu
lado, com o rosto cheio de preocupação, sentindo pena de John Martinez. Ela acreditava
no homem. Mas seria possível que aquele índio de aparência inócua tivesse tentado
matar Robin? Estaria mentindo?
— Dois homens vêm todos os meses pegar os potes. Eu não sei quem são.
— Os mesmos homens? — Adam perguntou.
— Sim, mas usam chapéu e bigodes que parecem falsos. Pegam os potes e deixam
o dinheiro. Só isso.
— Como o senhor entra em contato com eles? — Robin indagou.

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— Eles me deram um número de telefone, mas é uma dessas máquinas para a


gente deixar recado.
— Uma secretária eletrônica.
— Eu só liguei uma vez, porque não tenho telefone.
— O senhor tem o número aí? — Adam perguntou, com cuidado.
Após um momento de hesitação, ele enfiou a mão no bolso, tirou uma carteira e
examinou vários pedaços de papel.
— É este. — Ele mostrou o número e Robin o anotou. — Vocês não vão dizer que
fui eu que falei, não e?
— Não. E, por enquanto, é melhor você continuar fazendo os potes — Adam
aconselhou. — Só por prevenção. Você é nossa única ligação com esses falsificadores.
Lembra-se de mais alguma coisa que possa nos contar?
Martinez ficou em silêncio por alguns segundos e, então, soltou um longo suspiro.
— Eles vêm cada mês com um carro diferente. Mas tem um que eu lembro mais que
os outros. Era uma caminhonete muito bonita, verde e prateada, com pintura de um
deserto em uma das portas. Gostaria de ter um veículo como aquele.
Mas Robin estava levantando da cadeira, com os olhos arregalados.
— Meu Deus! Eu conheço essa caminhonete!

CAPÍTULO XV

Robin cruzou os braços sobre o peito, apertou os lábios e fixou o olhar na estrada,
através da janela do carro.
— Ouça, eu não quis acusar seus amigos — justificou-se Adam. — Talvez eles
sejam mesmo boas pessoas. Mas acho que você vai ter de encarar os fatos. Martinez nos
falou dessa caminhonete, que é exatamente igual à dos Dalton.
— Então Martinez está mentindo. Só tentou jogar a culpa em alguém.
— Você não pode ter certeza disso.
— Sei que Shelly e Chuck são honestos. Não sou tão ruim para julgar o caráter das
pessoas. Meu Deus, eles têm até netos!
— E isso os torna inocentes?
Ele a estava deixando louca! Primeiro vinha com aquela história de “amigos” no
canyon, e agora tentava convencê-la de que os Dalton eram os chefes de uma quadrilha
de falsificadores!
— Robin, você quer me escutar um minuto? Não estou querendo começar uma
discussão.
— Eu diria que nós já “estamos” discutindo.
— Vamos encarar os fatos. Não há outra caminhonete aqui como a deles. Foi feita
por encomenda. Até eu a vi naquela noite da reunião da comissão.
— E daí? Isso significa apenas que todo mundo já viu a caminhonete, inclusive John
Martinez. Eu digo que ele está mentindo. Foi ele quem me tirou da estrada. — Ela cruzou
as pernas, sentindo-se como se fosse explodir. — Além do mais, Martinez é índio e seus
próprios alunos viram um índio perto daquela kiva. E “ele” tem uma caminhonete velha.
— Sei de tudo isso. — Adam soltou um longo suspiro.
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— Acho que devemos falar com Cordova e deixar que ele interrogue...
— Os Dalton? De jeito nenhum, Adam. Por favor. Você não pode envolvê-los assim.
Isso é horrível! Não vou deixá-lo fazer isso.
— Ele só iria fazer algumas perguntas. Tenho certeza de que seus amigos
compreenderiam.
— Compreenderiam o quê? Que eu os apontei como suspeitos de tentarem me
matar? Não posso. Eles são meus amigos. Ericka é praticamente minha protegida. — Ela
cobriu o rosto com as mãos por um momento, depois respirou fundo e tornou a olhar para
Adam. — Só sei de uma coisa. Alguém tentou me matar, e, não importa o que você queira
acreditar a respeito dos Dalton, não foram eles. Nem Shelly nem Chuck seriam capazes
disso.
Adam ficou em silêncio, pensativo. Estaria acreditando nela? De qualquer forma,
Robin não poderia deixá-lo ir à polícia com base apenas na palavra de Martinez. Agitou-se
no banco, nervosa, sabendo que teria de ir fechar a loja e enfrentar Ericka. Mais terrível
ainda, havia combinado que iria jantar na casa dos Dalton...
Eram quase seis horas quando Adam estacionou diante da loja. Robin tinha poucos
minutos para convencê-lo a não ir ainda falar com Rod. Desesperada, tentou pensar em
um bom argumento, e então lembrou-se.

— O número de telefone que John Martinez nos deu! Temos de experimentar. Talvez
a companhia telefônica possa nos dar o endereço.
— Certo, mas duvido que consigamos alguma coisa. No minuto em que começamos
a fazer perguntas em San Lucas na semana passada, tenho certeza de que os
falsificadores deram um jeito de cobrir as pistas.
— Então acha que o número vai estar desligado? — Robin estava desapontada.
— Provavelmente. E o endereço deve estar sob nome falso. Talvez eles mudem até
a maneira de recolher os potes. Vão ser muito mais cuidadosos agora. A menos que
estejam ganhando muito dinheiro com essa história. Ou a menos que achem que nos
assustaram o suficiente.
Robin ficou quieta, pensando. Se esses homens voltassem naquele mês para pegar
as falsificações com Martinez.
— Adam, “nós” poderíamos estar lá quando os homens forem buscar os potes.
Poderíamos vigiar a casa de John e ver se aparece alguém.
— Não sei. É muito perigoso.
— Talvez não. Nós só temos de ficar observando. Quando virmos quem aparecer, ou
“se” alguém aparecer, então chamaremos Rod. Pelo menos desse jeito teremos certeza
de quem são os verdadeiros criminosos.
— Robin...
— Ouça, é a única maneira que temos de saber se Martinez está dizendo a verdade.
— Seria muito mais seguro se a polícia ficasse esperando.
— Ah, claro — ela interrompeu depressa. — Exceto por uma coisa. Não há como
contarmos a história a Rod e deixarmos os Dalton de fora. Se não mencionarmos a
caminhonete então “nós” estaremos mentindo. Você não entende, Adam? — Robin fez
uma pausa, mas ele apenas a fitou, evidentemente cético. — Que mal poderia haver se
nós nos escondêssemos e ficássemos vigiando a casa de Martinez? Nós só temos de
anotar a placa do carro que aparecer e entregá-la a Rod.
— Precisaríamos saber exatamente quando esse carro vai aparecer.
— Esse é o único problema. John talvez não queira nos dizer. Se ele estiver
envolvido, é claro que não contará nada. Mas se ele for inocente...
— Josefina talvez o convença a nos ajudar — Adam completou.
— Ela faria isso?
— Ela gostou de você, Robin. Talvez faça por sua causa. — Adam refletiu por um

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segundo. — Vou falar com ela. Se conseguir essa informação de John, ela pode avisar
você.
— “Se”!
— Posso tentar. — Adam hesitou. — E se forem mesmo os Dalton? Você os
entregaria, Robin?
Ela demorou para responder.
— Sim, se eu tivesse de fazer isso, se houvesse provas. Mas não agora. Prometa
que não vai contar nada a Rod pelo menos até tentarmos pôr em prática essa ideia.
— Não sei. Talvez eu mesmo possa ir à casa de Martinez...
— Não. Eu vou também. Ele sorriu e sacudiu a cabeça.
— Voltaremos a isso outra hora.
— Certo. Vamos dispensar Ericka e depois tentar aquele número de telefone.
Como Adam suspeitava, o número fora desativado. Ligou para a companhia
telefônica, mas não conseguiu nada, porque o número não constava da lista. Só poderiam
obter o endereço com uma ordem judicial.
— Droga! — Robin resmungou. — Eles são mesmo espertos. — Estavam de pé lado
a lado no escritório, os ombros quase se tocando. Robin deu um passo para trás. — Bem,
tenho de ir para o jantar...
— Eu deixo você na casa dos Dalton.
A casa ficava a poucos quilômetros a sudoeste da cidade. Como todas as
residências naquela área exclusiva, era uma estrutura térrea com jardins naturais de
cactos e flores silvestres atrás dos muros baixos.
— Bela casa — Adam comentou, e Robin sabia exatamente o que ele estava
pensando: era preciso ter muito dinheiro para possuir uma propriedade daquelas. Só
esperava que ele não reparasse na piscina.
Para piorar, Chuck encontrava-se na garagem tirando alguma coisa da caminhonete.
A caminhonete verde, feita, a pedido, com a cena de deserto pintada em um dos lados.
Robin sentiu uma onda de náusea.
— Eles têm uma galeria de arte muito bem-sucedida — murmurou, consciente de
que o comentário era ridículo e de que seria difícil controlar o nervosismo durante o jantar.
— Acredito — Adam disse apenas.
— Oi! — exclamou Chuck, vindo cumprimentá-los no carro. Entre, os outros já vão
chegar. Como vai, Adam? Espero que possa ficar para jantar conosco.
— Eu não...
— Ah, venha, Adam. Shelly é uma grande cozinheira. Pelo menos tome um aperitivo
e prove alguns dos tira-gostos dela.
Ele acabou concordando e entraram juntos na residência. Robin já imaginara que
seria embaraçoso estar ali com seus amigos naquela situação, mas não estava preparada
para as dúvidas que não a abandonavam. Lembrava-se todo o tempo de como ficara
chocada quando Martinez falara da caminhonete e das coisas que lhe haviam passado
pela mente.
Quanto dinheiro eles ganhavam na galeria? O suficiente para manter aquela casa e
para mandar dois filhos, e agora uma filha, para faculdades caras em outros Estados?
— Oi! — gritou Shelly, que arrumava as mesas no pátio ensolarado, auxiliada por
sua empregada. “Sua” empregada, Robin pensou, olhando disfarçadamente para Adam
para ver se ele tinha percebido. — Venham pegar um drinque. Se forem esperar que
Chuck os sirva, vão morrer de sede.
— Oi, Shelly. Está tudo lindo. — Robin sentia o coração apertado. Por que deixara
que a história da caminhonete a abalasse tanto?
Adam foi até a mesa do outro lado da piscina e preparou dois gim-tônica. Outros
convidados estavam chegando, cerca de dez ou doze pessoas. Julien apareceu de braço
dado com Madeline Lassiter. O namorado de Ericka também se encontrava lá. Robin

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observou o belo casal de jovens que, isolados em um canto da piscina, conversavam sem
parar, tão entretidos um com o outro que o resto do mundo parecia não existir para eles. E
se Chuck estivesse envolvido com a quadrilha? O que seria de sua linda filha se o pai
fosse para a prisão?
— Você está bem? — perguntou Adam, ao lhe entregar o drinque.
— Adam, eu não vou poder mais ficar aqui.
— Então fique na fazenda com meus pais. Não pode dormir sozinha na sua casa até
que tudo fique esclarecido.
— Não dá, Adam. Vou para um hotel na cidade.
— E o que vai dizer aos Dalton?
— Não sei. Vou inventar alguma coisa. É muito desagradável ter de encará-los nesta
situação.
— Quer que eu a leve para a cidade?
Robin o fitou, intrigada. Por que ele estaria se preocupando tanto? Seria seu senso
de dever ou ele ainda sentia alguma coisa por ela... algo mais do que amizade? O que
saíra errado? Talvez nada. Talvez ele simplesmente já tivesse conseguido o que queria
dela. Naquele momento, Robin o odiou.
— Quer que eu a leve? — ele perguntou outra vez.
— Não. Mais tarde eu pego uma carona com Julien ou alguma outra pessoa.
— Tem certeza?
— Tenho — ela respondeu, com firmeza.
Adam ficou por lá mais alguns minutos, e parecia tão pouco à vontade quanto ela,
mas Robin não sabia se era por sua causa ou pelos Dalton. E não podia perguntar.
— Que blusa bonita — Madeline comentou no ouvido de Robin. — Onde você a
comprou?
— Não sei. Não me lembro.
— Robin sempre está linda, não é? — Julien a elogiou, inclinando-se para beijar-lhe
a mão. — Fico feliz em ver que você está bem. Que acidente terrível você sofreu.
— Mas como...
— Ah, meu irmão me telefonou para contar. Todos já sabem que seu carro foi jogado
para fora da estrada. Os membros da associação não param de ligar para pedir notícias.
Ficamos muito preocupados.
— É verdade — Madeline reforçou, olhando para os pontos que apareciam sob a
testa de Robin. — E aposto que não foi acidente nenhum. Tem de estar ligado ao caso
das falsificações, não acha? Coisas como essa não acontecem assim por acaso.
— Bem, nós achamos...
— É difícil dizer — Adam interrompeu. Era evidente que ele não queria discutir o que
sabiam, embora Robin não compreendesse por quê.
— É uma situação assustadora — Julien comentou. — Chuck me disse que você
está dormindo aqui, por questões de segurança. Ainda bem.
— Foi uma atitude inteligente — concordou Madeline. Shelly juntou-se a eles,
carregando uma bandeja de prata com salgadinhos.
— Oi, todos já pegaram um drinque?
O grupo continuou a conversar sobre a situação de Robin e Julien prometeu falar
com o irmão.
— Rod tem de entender o perigo que nossa Robin está correndo. Não importa se
não há provas. Robin precisa de proteção vinte e quatro horas por dia.
— Claro — reforçou Madeline, sorrindo para Adam. — Afinal, é para isso que
pagamos a polícia, não é?
— Eu acho que Robin está perfeitamente bem aqui conosco — opinou Shelly,
provocando um súbito pensamento em Robin: poderia Shelly ter algum motivo oculto para
querer que ela ficasse lá? Seria para observar suas atividades?

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Ah, não, ela pensou, envergonhada. Lá estava ela acreditando que os Dalton eram
culpados! A semente da dúvida fora plantada e, por mais que tentasse, não conseguia
escapar das suposições.
— E eu acho que Robin não está com aparência nada boa — Madeline reparou. —
Está tão abatida. É a tensão. Eu sei como é isso. Quando eu tive aquela temporada ruim
em minha loja, dois verões atrás, fiquei com uma doença atrás da outra. Robin, se eu
fosse você, largaria essa história das falsificações.
— Ela vai largar — Adam afirmou. — Aliás, nós dois vamos. O caso agora é com a
polícia.
— É melhor assim — Julien concordou. — Acho que encontraremos alguma solução
para esse problema em nossa comissão especial. E devemos nos unir. Como um
exército.
— Exatamente — declarou Madeline, lançando um sorriso vitorioso para Adam.
Passaram-se mais uns dez minutos antes que Robin e Adam ficassem sozinhos
outra vez. Ela estava cansada daquela confusão e só queria poder apagar tudo como se
fosse giz em quadro-negro.
— Desculpe por tê-la interrompido durante a conversa — Adam disse. Só acho
melhor não comentarmos essa história de Martinez. Quanto menos gente souber, mais
chance teremos de descobrir os homens que pegam os potes falsificados.
— Eu entendo — Robin respondeu, sem entusiasmo. — Mas não se esqueça de
que eu quero participar. Não vá me deixar de lado. Promete?
— Vamos ver. Bem, tenho de ir. Se você não quer mesmo ficar aqui, gostaria de
levá-la até um hotel.
— Eu não posso ficar. Iria me sentir um traidora.
— Então eu lhe dou uma carona.
— Eu vou mais tarde. — Ela baixou o olhar para os pés.
— Em que hotel você vai ficar?
— Não sei. Ainda não pensei nisso. Talvez o Governor's Inn. Algum lugar perto de
minha loja.
— Está bem. Entrarei em contato logo. E não vá para sua casa sozinha, Robin.
Espere até vermos quem aparece na casa de Martinez.
— Claro. Espero que não demore muito. — Ela sabia que estava se mostrando mal-
humorada, mas Adam merecia isso. É claro que gostaria que ele a levasse até o hotel,
mas aquela era uma maneira de mostrar-lhe que já não fazia questão. Sentia-se melhor
assim.
Ele foi embora pouco depois, prometendo manter contato tão frequentemente
quanto possível. Robin não teve energia para responder. Nem mesmo disse adeus.
Apenas olhou para ele, com a mágoa indisfarçável no rosto e o coração doendo pelo que
poderia ter sido.
— Ah, Robin, não quero nem ouvir — Shelly protestou. — Você vai ficar aqui
mesmo.
— Obrigada pela preocupação e hospitalidade — Robin disse, incapaz de encarar a
amiga. — Mas eu... acho que preciso ficar sozinha. Você sabe que às vezes eu sou
assim.
Shelly apoiou as mãos nos quadris e franziu a testa.
— Você não é nem um pouco assim, Robin. Já sei o que está escondendo, e é um
absurdo. — Ela fez uma pausa e o coração de Robin quase parou. Shelly sabia sobre
Martinez, sobre a caminhonete... — É Adam, não é? Ele a incomodou tanto que você nem
consegue pensar direito.
Robin respirou aliviada e aproveitou a deixa.
— Tem razão, Shelly. É Adam.
— Você não precisa sair daqui por causa dele. Fique e nós podemos conversar.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— Não, é melhor eu ficar sozinha. Vou poder colocar as coisas em ordem na minha
cabeça. Preciso de tempo para mim Shel.
— Bem...
— Não se preocupe. Vou pegar um quarto... em um hotel — ela disse, percebendo
que não confiava o suficiente na amiga para contar aonde iria ficar.
— Então me telefone, certo? Podemos conversar?
— Claro, vou telefonar. E vejo você amanhã na loja.
— Aquele rato — esbravejou Shelly. — Não passa de um conquistador barato.
Às nove horas, Robin estava hospedada no Governor's Inn. Sentia-se tão abatida
que só queria cair na cama, dormir e esquecer.
Tomou um banho, vestiu a camisola e pensou em como havia sido uma traidora com
os Dalton. Que bela amiga!
Experimentou ligar a televisão. Havia um noticiário no canal local, apenas com
notícias ruins. Virou para um filme e não teve paciência de assistir. Tentou um programa
humorístico e não achou graça nenhuma nas piadas. Por fim desistiu e deitou-se,
cansada e sem forças, no escuro.

Como pudera ter sido tão cega? Adam sempre deixara tudo muito claro, mas ela,
intrometida como de hábito, se enfiara na vida dele, estupidamente, sem pensar no futuro.
Agora teria de tirar da cabeça todos os sonhos tolos e ingênuos, e continuar vivendo
como antes. Como fora idiota.

CAPÍTULO XVI

Robin nunca havia percebido quantas vezes por dia ela e Shelly faziam um intervalo
no trabalho para conversar. Se não iam uma até a loja da outra, era um telefonema rápido
ou um almoço no restaurante da praça.
O dia começou com biscoitos.
— Oi, que tal algumas calorias, magrela? — Shelly cumprimentou, mostrando um
saco de papel da padaria. E, pela primeira vez em anos, Robin não tinha apetite. Comeu
um só para não aborrecer a amiga.
— Obrigada.
— Ainda está deprimida?
— Acho que sim — Robin respondeu, chateada por estar enganando a amiga.
— Esse homem pode ser bonito, mas é um conquistador barato, Robin. Ainda bem
que você desistiu de tentar achar esses falsificadores.
— Por quê? — ela indagou, pálida.
— Assim Adam não vai mais ficar entrando e saindo de sua vida. É melhor desse
jeito.
— Ah...
— Você já pensou que eu vou ser uma mãe sem filhos nesta sexta-feira? Ericka vai
voltar para a faculdade.
— É, não sei como vou me virar sem ela — Robin comentou, mas estava contente
por não precisar ver Ericka todo dia e tratá-la como se nada tivesse acontecido, enquanto
mil dúvidas perturbavam sua mente.
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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— Ela está em Albuquerque hoje, gastando aquele dinheiro extra que você lhe deu.
Parece que há um novo shopping center.
— Tomara que ela se divirta.
Não era nem meio-dia quando Shelly apareceu outra vez.
— Que tal um jogo de tênis depois do trabalho?
— Eu, ahn...
— Ah, é mesmo, há a reunião da associação esta noite. Que droga!
— Talvez um outro dia — Robin murmurou.
Ela passou a maior parte da tarde examinando provas de fotografias e recebendo
clientes, mas às quatro horas já estava melancólica de novo, sozinha, com o queixo
apoiado nas mãos, pensando em como enfrentaria a reunião daquela noite ou as tarefas
cotidianas do dia seguinte e dos outros que se seguiriam. A vida já não parecia
interessante sem Adam por perto.
Talvez devesse ir a um psicanalista, tentar descobrir onde havia errado e como lidar
com a solidão. Quem sabe nem houvesse uma resposta para isso.
— Ei, são seis e cinco — Chuck chamou da porta. — Você vai à reunião, não é?
Ela não conseguia mais nem olhar seus amigos de frente. Como iria aguentar?
A Associação Comercial de Santa Fé parecia estar se desintegrando naquela noite.
Robin estava assombrada. E tudo começara porque Adam Farwalker passara certo dia
por sua loja e vira a fotografia.
Niles Warner, proprietário de um restaurante local, começara a confusão.
— Então eu devo contribuir com meu dinheiro para um folheto que essa tal de
comissão especial inventou? De jeito nenhum!
— Calma, Niles — tentou Julien.
— Eu nem vendo sequer obras de arte! — ele prosseguiu.
— Ninguém pode falsificar um bife ou um pé de alface. Talvez meus colegas devam
pensar em mudar de ramo.
— Estou de pleno acordo — interveio um dono de hotel.
— Não há razão para que alguns de nós sejamos penalizados porque alguns
colecionadores de arte compram falsificações por engano.
O velho Thad Mencimer levantou-se como um raio.
— Quem disse isso?
— Eu disse!
Thad encarou o dono de hotel. As veias em seu pescoço pulsavam.
— E se você precisar de ajuda em seu hotel, com estacionamento ou algo assim,
não vai trazer o problema para cá?
— Posso cuidar de mim mesmo.
Lorraine Mencimer puxou o braço do marido.
— Vamos fazer um pouco de ordem? — pediu Julien. Não adiantou.
Madeline levantou-se e apoiou o presidente.
— Não vamos chegar a lugar nenhum assim. A maneira como costumamos decidir
as coisas é pelo voto. Vamos votar a questão do folheto e talvez possamos dar um jeito
de escalonar os pagamentos.
— Isso mesmo — veio uma voz do fundo da sala. — Mas quero saber mais desse
folheto. Vamos descobrir em que estaremos investindo nosso dinheiro.
— “Seu” dinheiro — protestou Niles. — O meu não.
Robin ouvia em silêncio, tão tensa quanto os outros. A cidade parecia polarizada
entre várias facções, cada uma defendendo seus interesses pessoais.
A votação demorou quarenta e cinco minutos, mas o folheto foi eleito por uma
margem estreita, e apenas porque os donos de galeria ficaram no alto da tabela
progressiva de pagamento e os outros comerciantes na faixa mais baixa.
— Bem, agora vamos passar para algo menos controverso, se pudermos — Julien

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

pronunciou-se. — Gostaria que Robin Hayle subisse aqui por um minuto e explicasse a
ideia que ela sugeriu em uma das reuniões da nossa comissão especial.
Robin demorou um momento para lembrar qual era a ideia, tão atordoada estava
sua cabeça.
— Boa noite — ela começou. — Como Julien mencionou, eu tive outra ideia sobre
como acabar com essas falsificações. — Pigarreou, tentando formular em sua mente o
que iria dizer. Era terrivelmente difícil, não somente porque detestava falar em público,
mas também porque já não tinha tanto interesse naquela questão.
— Espero que não vá nos custar nada — alguém disse.
— Não se preocupe. O que eu tenho em mente é uma associação de artesãos
indígenas, mais ou menos nos moldes da nossa. Segundo fui informada, a comunidade
indígena nunca se organizou e os artistas trabalham de forma muito independente. Com
uma associação haveria comunicação, e talvez os artesãos honestos policiassem os
menos honestos.
— Como sabe se irá funcionar? — perguntou uma mulher na primeira fila. — Os
índios vivem em comunidades muito fechadas. Os pueblos ainda odeiam os navahos, os
zunis não confiam nas tribos do Rio Grande. E qualquer coisa que a comunidade branca
sugerir vai provocar suspeitas entre eles.
— Eu sei. Talvez não dê certo, mas acho que vale a pena tentar. Pelo menos, não
custará nada a ninguém.
— Eu concordo com a objeção — disse Thad Mencimer, levantando-se. — Não sei
se os índios irão querer se organizar. Será que não vão achar que é mais uma
interferência nossa na vida deles?
— Espero que não — Robin respondeu. — Estou pensando em pedir a ajuda da sra.
Farwalker. Todos sabem como ela é influente. Talvez nós consigamos. Bem, alguma
pergunta? Comentários?
Algumas pessoas se pronunciaram. Vários membros expressaram suas dúvidas
quanto à capacidade de organização dos índios. Mas Ben Chavez, Chuck Dalton e Julien
deram apoio integral.
— Acho que nem precisamos votar, certo? — perguntou Julien. — Obrigado, Robin.
Ela recebeu aplausos enquanto retornava a seu lugar. Em seguida foi trazido o
assunto do anúncio publicitário sobre Santa Fé na revista Travel and Leisure, mas a
reunião terminou sem que se chegasse a um acordo quanto à fotografia e ao texto.
Entediada, Robin olhava para os rostos um a um. Martinez havia descrito a
caminhonete dos Dalton, mas poderia estar mentindo. Qualquer dono de galeria poderia
estar envolvido.
A falsificação proporcionava dinheiro livre de impostos e havia muitos bons artesãos
para realizar o trabalho, especialmente se lhes inventassem alguma história convincente.
Robin sentiu um arrepio na espinha. Qualquer uma daquelas pessoas poderia ter sido
responsável pelo seu acidente, poderia ter contratado um índio para fazer o serviço. Mas,
no momento, o dedo apontava para Chuck e Shelly.
— Ei, Robin... Robin? — Era Chuck, batendo em seu ombro. — A reunião acabou,
menina.
— Ah, eu estava distraída.
— Você tem certeza de que ficará bem aqui na cidade?
— Claro, Chuck. Não se preocupe.
— Shelly ficou desapontada. Você sabe como ela a quer bem.
— Eu também a quero bem — Robin garantiu, com vontade de chorar. — Eu só
precisava de algum espaço.
— Foi o que Shelly disse. Então você não necessita de nada?
— Não, obrigada.
As pessoas foram saindo da sala e reuniram-se em pequenos grupos conversando

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

diante do hotel. Robin viu a caminhonete dos Dalton, e Shelly acenava da janela,
chamando Chuck.
— Venha! Estou cansada de esperar. Oi, Robin!
Robin respondeu ao aceno, mas tinha os olhos fixos na cena de deserto
artisticamente pintada na lateral do carro. Não podia haver dois veículos iguais àquele...
— Robin, acho que sua ideia não vai funcionar — comentou Thad Mencimer, saindo
com a esposa.
— Não custa tentar — ela respondeu, um pouco irritada.
— É, vamos ver. Ei, Chuck! Como vão os negócios? Ouça, eu queria lhe agradecer
por...
Mas Shelly continuava acenando, e Robin aproximou-se para cumprimentá-la. Mais
tarde, iria lembrar-se de que ouvira Thad dizer algo, mas, no momento, todos falavam ao
mesmo tempo e ela não prestava muita atenção. Só mais tarde pensaria no comentário
casual de Thad para Chuck, e que era muito, muito significativo.
Robin colocou um aviso na porta da loja de que só abriria ao meio-dia. Não marcara
clientes para aquela manhã e aproveitaria o tempo para começar a trabalhar na
organização dos artesãos índios. O primeiro passo seria falar com Christina Farwalker. Se
a convencesse a ajudar, meio caminho estaria percorrido.

Enquanto dirigia pela Canyon Road, ela pensou nas discussões da reunião da noite
anterior e nas conversas informais diante do hotel. A caminhonete dos Dalton estivera lá,
parado junto à calçada, com a pintura de um deserto que nenhum outro veículo possuía...
Havia mais alguma coisa sobre a caminhonete, mas ela não conseguia se lembrar.
Seria algo que Martinez dissera? Não, era outra coisa. Thad não falara com Chuck sobre
a caminhonete? Ela estava conversando com Shelly naquela hora e não ouvira direito.
Thad. Sim, ele agradecera a Chuck, falara algo sobre comprar sua própria
caminhonete quando sua loja começasse a dar mais lucros.
Robin franziu a testa. De repente, as palavras vieram à sua mente. “Eu queria lhe
agradecer por ter-me emprestado a caminhonete, Chuck”, Thad dissera.
Ela quase saiu da estrada. Parou o carro e apertou o volante. Claro! Só porque a
caminhonete fora vista em San Lucas, isso não significava que os Dalton estivessem
dirigindo!
Poderia ser Thad por trás das falsificações! E ele tinha um motivo: estava sempre
reclamando de falta de dinheiro. Havia um bebê a caminho. E ele nunca concordava com
as propostas nas reuniões da associação.
Um sorriso de alívio curvou os lábios de Robin. Chuck poderia ter emprestado o
veículo, inocentemente, a outras pessoas também. Qualquer um que conhecesse Chuck
Dalton tinha chance de estar envolvido na história. A lista de suspeitos ficara mais longa e,
agora, seu plano de esperar na casa de Martinez para ver quem aparecia tornara-se vital.
Precisava contar a Adam. Então ele acreditaria que os Dalton não poderiam ser os
culpados.
Mas como falar com Adam? Ele dissera que manteria contato, mas seria verdade?
Ela estacionou o carro diante da casa da fazenda e bateu à porta. Christina a
recebeu sorrindo.
— Robin, que surpresa agradável. Entre. Acabei de coar café. Sentaram-se no pátio,
sob o sol da manhã. Uma empregada trouxe duas xícaras de café e um cesto de
pãezinhos de canela feitos em casa.
— Hum... Que cheiro delicioso! — elogiou Robin.
— Experimente um. Você vai gostar. Que bom que veio me visitar. Mas eu ainda
preferia que você tivesse aceitado nossa hospitalidade até essa confusão ser esclarecida.
— Eu adoraria, Christina, mas ficar na cidade é mais conveniente para o meu
trabalho.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— Você é quem sabe. — Ela cruzou as mãos pequenas sobre a mesa. — Mas você
não está com cara de quem veio aqui só para tomar um cafezinho.
— É verdade. Há um assunto que eu queria conversar com você. — Ela contou
sobre sua ideia de organizar os artistas índios. — E achei que, se você pudesse me
ajudar a contatar os artistas, ou me indicasse os líderes, seria uma grande coisa. Você
agiria como uma espécie de ligação.
— Entendo. — Christina baixou os olhos, pensativa. — Preciso pensar nisso.
Josefina seria muito útil em um grupo assim.
— Eu sei, até já comentei o assunto com ela, mas ela não quer se comprometer a
fazer nada.
— Sim, esse tipo de coisa não é bem do estilo dela, mas talvez possamos
convencê-la. Mas esteja preparada para não se desapontar, Robin. Talvez, no fim, não dê
em nada.
— Já me falaram como os índios são fechados. Mas será que eles não veriam os
benefícios de uma organização?
— Pode ser, se a questão for abordada de maneira adequada. Vejamos... Teríamos
de escolher uma pessoa em cada povoado, para ser o contato. Talvez haja resistência.
Alguns artistas mais velhos terão medo de se envolver. Os mais jovens terão receio da
influência dos brancos. Não será fácil.
— Mas aposto que podemos conseguir.
— Vou consultar minha lista do churrasco beneficente e entrar em contato com os
índios que estiverem incluídos nela. Pelo menos, será um começo.
Robin sorriu. A questão já estava encaminhada.
Christina pediu licença para buscar mais café e a deixou sozinha por alguns
minutos. Robin levantou o rosto para o sol e suspirou. Havia estado naquele pátio antes,
sob circunstâncias bem diferentes. Adam ainda era o estranho misterioso que havia
entrado em sua vida poucas horas antes. Teria sido melhor se nada daquilo tivesse
acontecido. No entanto, mesmo que por um tempo muito breve, ele trouxera esperança a
sua existência. Fora pena o sonho ter durado tão pouco. Talvez fosse seu destino viver
sozinha.
Por que não conseguia alcançar Adam, entender sua mente, ler seus pensamentos?
Seria apenas a diferença entre as culturas? Talvez a mãe dele pudesse dar alguma
explicação, mas ela nunca teria coragem de perguntar.
— Mais café? — indagou Christina. Robin abriu os olhos.
— Ah, desculpe. Eu estava distraída. Este lugar é tão tranquilo. Aceito mais uma
xícara, obrigada. — Não, não poderia falar sobre ele com Christina. Afinal, mal a
conhecia, no entanto... — Christina — Robin começou, baixinho, hesitante.
— Sim?
— Eu estava pensando... Ah, não é nada.
— Fale, querida. Algo a está incomodando. O que é?
— Não, esqueça. — Robin sentia o rosto afogueado. — É melhor eu voltar para a
cidade.
— É algo a ver com meu filho, não é? Se eu puder ajudar, Robin... Nós somos
amigas.
— É isso mesmo — ela admitiu, com os olhos baixos.
— Pode falar. Estou ouvindo.
— Bem, às vezes é difícil chegar nele. — Ela tentou rir, mas o que saiu foi quase um
soluço. Agitou-se na cadeira, constrangida. Não devia ter iniciado aquele assunto.
— Só posso lhe dizer uma coisa — Christina falou, devagar, conscienciosa. — Você
compreende que eu seja leal a meu filho, não é?
— Claro que sim.
— Adam está escondendo algo de você. É tudo que posso revelar. Ele mesmo tem

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de lhe contar.
Robin apenas fez um sinal afirmativo com a cabeça, incapaz de dizer alguma coisa.
Vários pensamentos lhe vieram à cabeça, atropelados, confusos. Ele teria uma família em
algum lugar? Uma mulher? Um problema por ele ser índio e ela não? Algo ligado a um
ritual qualquer que ele tivesse de executar?
— Não se torture, Robin — Christina aconselhou. — Converse com Adam.
Por fim, Robin a encarou. Sabia que havia lágrimas brilhando em seus olhos e
sentia-se humilhada.
— Desculpe, Christina. Isto é tão constrangedor. — Ela enxugou os olhos e fungou.
— Eu nunca choro...
— Todo mundo deveria chorar de vez em quando, desabafar. É humano.
— Bem. — Robin respirou fundo. — Eu preciso mesmo ir embora.
— Quanto ao assunto que a trouxe aqui, fique tranquila. Eu falarei com Josefina.
A empregada apareceu no pátio e chamou Christina para atender o telefone. Robin
viu-se sozinha outra vez, mas começava a ficar ansiosa por ir embora. Como pudera ter
feito aquilo? Fazer perguntas à mãe de Adam! Porém, pelo menos Christina lhe dera uma
resposta. Adam estava escondendo alguma coisa. Mas o quê?
Christina retornou ao pátio séria, torcendo as mãos. Sua voz ficara trêmula.
— Robin, era Josefina no telefone. Suas cerâmicas... Seu estúdio... Alguém quebrou
tudo.
— Oh, não!
— E tem mais. — Os olhos assustados de Christina encontraram os de Robin. —
John Martinez foi espancado. Meu Deus, será que ninguém mais está em segurança?

CAPÍTULO XVII

Adam largou o trabalho por um instante, com um estranho pressentimento. Não


sabia discernir bem o que era, mas uma sensação sinistra lhe oprimia o peito. Em algum
lugar, acontecera algo que o afetava profundamente. Mas o quê?
Depois do almoço, quando retornou ao trabalho de restauração da kiva, a mesma
sensação ainda o perseguia. Devia ter algo a ver com Robin e os potes falsificados. Ela
estava ansiosa para brincar de detetive e, de fato, se conseguissem descobrir quem
encomendara os potes a Martinez, o caso estaria resolvido. Porém, não conseguia
esquecer o problema semelhante que ocorrera em Albuquerque, a quadrilha de
falsificadores e o investigador encontrado morto sob circunstâncias misteriosas.
Lembrava-se do carro de Robin fora da estrada e se repreendia por não ter sido mais
enérgico em sua intenção de deixar tudo nas mãos de Rod Cordova. Era um absurdo
Robin continuar envolvida naquilo.
— Sr. Farwalker! — chamou um dos estudantes. — Josh, do centro de visitantes,
está a sua procura.
Lembrando-se do pressentimento que o acompanhava desde cedo, ele limpou as
mãos no jeans e desceu depressa para o acampamento.
— Adam, eu estava passando por aqui e achei melhor lhe deixar este recado.
Parece importante — Josh avisou.
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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— Obrigado. — Adam pegou o papel cor-de-rosa onde a telefonista anotava as


mensagens.
— Até mais. Você vai à festa de despedida de Craig esta noite?
— Talvez. Ainda não sei — Adam respondeu, levantando os olhos do papel.
— Vou sentir falta dessa garotada quando eles forem embora — Josh lamentou,
antes de despedir-se e voltar a seu trabalho.
Adam leu o recado pela segunda vez. Era de Christina. 'Alguém invadiu o estúdio de
Josefina e Martinez está ferido. Telefone assim que puder.''
Ele sentiu um arrepio. Por que não dera mais atenção a seus instintos? Agora,
carregara mais gente para aquela confusão. Ocorreu-lhe nesse instante que, se Martinez
fora espancado, então ele não havia mentido.
Alguém vinha observando ele ou Robin e sabia onde tinham ido. Alguém tinha
conhecimento de todos os movimentos deles. E Robin, sozinha em um quarto de hotel!
Se estavam tentando assustar Josefina e Martinez, poderiam fazer o mesmo com Robin.
Dez minutos depois, encontrava-se no centro de visitantes discando para a loja de
Robin, mas ninguém atendia. Adam lutou para controlar o pânico. Lembrou-se de que
Ericka Dalton iria voltar para a faculdade e Robin, certamente, tivera de fechar a loja por
causa de alguma sessão de fotografias.
Em um impulso, ligou para o hotel. Não havia ninguém no apartamento dela
também. Esperou mais meia hora e tornou a discar para a loja. O telefone tocava, tocava,
sem resposta.

A impaciência o consumia. Era uma das reações que aprendera com o homem
branco ao longo dos anos. Por fim, resolveu telefonar para a mãe, imaginando se Robin
teria decidido ficar lá. Queria também saber mais detalhes sobre o que havia acontecido a
Josefina e Martinez.
— Adam? Você recebeu o recado depressa. Ah, filho, estou inconformada!
— Martinez está muito ferido?
— Não sei, Josefina estava tão histérica que só disse que alguém o espancou.
Adam, o caso é sério. Acho que você terá de ir à polícia.
— Rod já está informado sobre tudo o que eu sei e é evidente que Josefina e
Martinez não vão querer prestar queixa desse incidente. Mamãe, você tem notícias de
Robin?
— Sim, ela esteve aqui esta manhã, para falar de uma associação de artesãos
índios.
— A que horas ela saiu?
— Faz umas três horas. Deve estar na loja.
— Não está.
— Adam, você não acha que...
— Não sei.
Assim que desligou o telefone, Adam retornou ao acampamento, deu algumas
instruções aos alunos, jogou uma sacola de roupas no carro e tomou a direção de Santa
Fé, acelerando o máximo que seu carro aguentava naquela estrada cheia de curvas. No
meio da tarde, parou em San Ysidro e ligou novamente para a loja. Ninguém atendeu.
Por que não ficara com ela?
Os Dalton. Teriam descoberto que eram suspeitos? Se fossem realmente culpados,
poderiam ter atraído Robin para uma armadilha. Ou Martinez. Seria fácil para ele entrar
em contato com Robin e dizer que tinha novas informações, atraindo-a, assim, para San
Lucas. Mas ela também podia estar consolando Josefina. Claro, poderia estar em
“qualquer” lugar.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

Ele estacionou diante da Robin's Nest. O aviso na porta dizia: “Estarei de volta às
cinco horas”.
Só que já passava das seis.
Ele sentiu um aperto no coração. Havia acontecido alguma coisa com Robin. Não
podia mais enganar-se dizendo a si próprio que ela estava trabalhando. Já era muito
tarde.
Adam tentou acalmar-se e pensar nas opções. Poderia sair à procura dela,
perguntar aos amigos, verificar todos os hotéis da cidade, simplesmente esperar ou
chamar Rod Cordova. Foi até os fundos da loja e espiou através das persianas da janela.
O estúdio encontrava-se vazio.
Decidiu ir até a galeria dos Dalton. Eles mentiriam sobre o paradeiro de Robin se
estivessem envolvidos no caso dos potes, mas tinha de tentar.
Chuck Dalton estava fechando a loja.
— Oi, Adam. Estou ficando até tarde para um período de pouco movimento, não é?
— Ele riu, a própria imagem da inocência.
— Chuck, você sabe onde está Robin? Acabei de chegar de Chaco e há um aviso
na porta da loja dela dizendo que estaria de volta às cinco horas.
Chuck olhou para o relógio de pulso.
— E são quase seis e meia. Não sei, Adam.
— Acha que Shelly pode saber?

— Espere aí, ela está em casa. Vou dar uma ligada. — Ele foi até o telefone e
discou o número. — Eu achei que você seria a pessoa mais indicada para saber onde
Robin estaria — ele brincou com Adam. — Oi, Shel. Adam Farwalker está aqui
procurando por Robin. Você sabe onde ela está? Não, não está na loja. Deixou um aviso
dizendo que chegaria às cinco. Ah, é? Tudo bem, até mais. — Ele desligou e virou-se
para Adam. — Ela não sabe. Você está preocupado? Acha que pode ser alguma coisa
relacionada às falsificações?
— Não sei — Adam respondeu, evasivo.
— Tentou ir ao hotel onde ela se hospedou? Acho que é o Governor's Inn.
— Eu já estive lá.
— Ei, calma. Ela vai aparecer. Se soubermos de alguma coisa, onde poderemos
encontrar você?
— Deixe recado com meus pais. Você se importaria se eu usasse seu telefone para
ligar ao hotel outra vez?
— Fique à vontade.
Mas ninguém atendia no quarto 223.
Chuck fechou a loja e foi embora em sua caminhonete verde. Adam ficou pensando,
analisando as reações de Chuck. Seu sexto sentido lhe dizia que ele estava falando a
verdade, mas não podia confiar em intuição naquele momento. Os Dalton já estariam
alertas caso fossem mesmo culpados no caso das falsificações.
Adam caminhou de volta até a Robin's Nest. Talvez ela estivesse na casa de algum
outro amigo. Poderia tentar entrar em contato com Julien, ou com Madeline Lassiter, ou...
quem mais?
Poderia prestar queixa do desaparecimento dela a Rod Cordova. Mas ela estaria
mesmo desaparecida?
A noite começava a cair e ele continuava diante da loja, ansioso e sem saber o que
fazer. Um carro vinha aproximando-se pela rua tranquila. Era branco, como o de Robin,
mas os últimos raios do sol incidiam sobre o para-brisa, impedindo que ele visse o

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

motorista. O veículo veio em sua direção, encostou na guia e parou. Era Robin.
— Adam! O que está fazendo aqui?
Adam sentiu-se reviver. Caminhou até ela e a abraçou, profundamente aliviado. Lá
estava Robin, alta e graciosa, saudável, vibrante, perfumada. Apertou-a junto a seu peito
e depois segurou-a diante de si, enlevado com sua beleza que tivera tanto medo de
perder.
— Adam? O que foi?
— Por onde você andou?
— Estava trabalhando.
— Até esta hora?
— Fui tirar fotografias. Será que eu tenho de avisar cada vez que saio?
— Você está atrasada. — Ele apontou para o aviso na porta.
— É, estou.
— Mamãe me contou sobre Josefina e Martinez. Fiquei preocupado.
— Desculpe. Não imaginei que você viria me procurar.
— Robin... — ele começou, mas não pôde continuar. Um longo momento de silêncio
instalou-se entre eles, frágil e tenso como um fio finíssimo de vidro.
— Você vai ficar na cidade esta noite? — ela indagou.
— Ainda não pensei nisso.
— Eu só estava imaginando... Bem, é só uma ideia. Eu adoraria passar uma noite
em minha própria casa. Enjoei de comer fora. Já que você está aqui... — Ela riu,
embaraçada. — Bem, talvez possa passar a noite comigo...
— Com todo prazer — ele respondeu, antes que a razão o fizesse recusar a
proposta.
— Ah, ótimo! Vou guardar minha câmera e então podemos passar pela mercearia.
Vou fazer um...
— Eu a levo para jantar fora.
— De jeito nenhum. Não aguento mais comida de restaurante. Estou com vontade
de cozinhar.
Ela preparou hambúrgueres caseiros e uma grande salada. Tomaram sorvete de
café com cobertura quente de chocolate como sobremesa. Robin estava feliz por ter
podido voltar a sua casa. Deixou os pratos na pia e sentou-se no sofá ao lado de Adam,
com os pés sobre a mesinha de café.
— Ah, belo jantar! Ei, quase ia esquecendo de lhe contar.
— O quê?
— Ontem, na reunião da associação, ouvi Thad Mencimer agradecer a Chuck Dalton
por ter lhe emprestado a caminhonete.
— Quer dizer que Thad usou a caminhonete de Chuck?
— Sim. Então eu imaginei que pode ter sido Thad quem pegou os potes com
Martinez.
— Não temos nenhuma prova.
— Eu sei. Ainda temos de contar com nosso plano. — Ela levantou e pôs-se a
caminhar pela sala. — Tanto pode ter sido Thad como qualquer outra pessoa.
— Você já pensou que, se John Martinez realmente foi espancado, pode estar com
tanto medo que nunca irá nos contar quando irão buscar os potes?
— “Se” Martinez foi espancado? Você acha que...
— Eu não o vi. Não sei se Josefina o viu. Ele pode estar armando uma cena. Ou
podem ter ordenado que ele dissesse isso.
— Mas, se for verdade, então ele é inocente, certo? Não há uma maneira de
descobrirmos? Não há como convencê-lo a nos dizer quando os homens voltarão?
— Bem, se ele for mesmo inocente, terá medo de falar até mesmo com Josefina.
Por outro lado, seu orgulho pode fazer com que ele queira se vingar.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— E se ele não for inocente?


— Neste caso, eu diria que ele tem duas escolhas. Ou pode nos ignorar ou passar
uma informação falsa.
— Será que deveríamos... — Ela hesitou.
— O quê?
— Falar com Rod Cordova? Mas acho que é bobagem. Para quê? O que ele fez até
agora além de praticamente nos chamar de loucos? Ele que vá para o inferno!
Adam sorriu. Ela era uma mulher e tanto. Merecia alguém especial para lhe dar
amor, proteção e segurança. Mas não podia ser ele.
— Adam, você tem de ir embora logo para a fazenda? — ela indagou, após um
momento de reflexão.
Ele sabia aonde Robin queria chegar e um calor súbito aqueceu-lhe o corpo. Poderia
ficar com ela. Robin o estava convidando e ele a desejava com uma força que até o
surpreendia.
Adam levantou e caminhou até a janela. Como poderia rejeitar o amor e a beleza
dela? Ao mesmo tempo, como poderia aceitar?
— Adam? — ela insistiu, aproximando-se.
Ele virou-se e a encarou de frente. Os olhos dela eram sinceros e abertos, Robin
não tinha nada a esconder.
— O que há? Adam, por favor... Há algum problema?
O coração de Adam deu um pulo e o calor de seu corpo transformou-se em gelo,
deixando uma camada de suor frio sobre a pele.

— Conte-me — ela pediu. — Seja o que for. Podemos enfrentar juntos. Por favor,
deixe-me ajudá-lo.
— Não tem nada com você, Robin. Não é problema seu.
— É, sim — ela murmurou. — Qualquer coisa que o esteja perturbando é problema
meu também. Você não vê que está afetando nós dois? Não pode me contar? — Ela
passou a mão pelo rosto dele.
Adam segurou-lhe os dedos, sentindo a maciez da pele, a delicadeza dos ossos.
— Robin, eu não quero machucá-la.
— Mas... eu não entendo.
— Talvez seja o fato de sermos muito diferentes.
— Eu não acredito nisso.
— Seria melhor acreditar. — O coração de Adam batia apressado. Robin estava tão
perto que seu perfume parecia impregnar o ar. Levou a mão dela aos lábios, invadido por
uma enorme tristeza, uma terrível sensação de perda. Por um breve instante, pensou em
contar tudo sem dar importância às consequências. Robin, porém, deixara bem claro o
tipo de vida que desejava. E era algo que ele não lhe poderia dar. Qual seria a vantagem
de deixá-la saber a verdade? Só para fazê-la sofrer ainda mais?
Robin ficou em silêncio por um longo tempo. Por fim, recostou a cabeça no peito
dele.
— Desculpe. Você não tem de dizer nada. Apenas fique aqui comigo, Adam.
Ele soube que não conseguiria dizer não. Iria ficar, eles se amariam e, por algumas
horas, esqueceriam a tristeza. Baixou a cabeça e a beijou, lembrando-se abruptamente
do gosto e da textura daqueles lábios. Robin... A mera presença dela era capaz de
incendiá-lo.
Minutos depois, encontravam-se na semi-escuridão do quarto, abraçados,
deleitando-se na redescoberta de seus corpos. A luz tênue da rua atravessava a cortina e
tocava a nudez de Robin, revelando sensualmente a curva dos seios, o contorno dos
quadris, o formato das coxas.
Adam a puxou para a cama, ávido para reencontrar cada detalhe que tinha gravado

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

na memória. Beijou-lhe os seios, desceu os lábios até a barriga, acariciou-lhe os ombros,


as costas, ansioso por possuí-la inteira. Os gemidos de Robin aumentavam-lhe o desejo.
Robin arqueou o corpo, pronta para recebê-lo. Abandonou-se às sensações cada
vez mais intensas, inflamada de paixão, até a tensão caminhar incontrolavelmente para o
alívio. Abraçada a Adam, ela deixou que seu grito de prazer ecoasse na noite silenciosa.
As primeiras luzes do alvorecer encontraram Adam de pé junto à janela do quarto de
Robin. Um suave brilho dourado tocava o campanário da antiga capela e começava a
iluminar a praça. Ele virou-se lentamente e fitou a cama desarrumada, onde Robin
dormia. Estava virada de lado, com os ombros claros como mármore e os cabelos caídos
sobre o rosto. Mesmo durante o sono, tinha a testa franzida, e Adam sabia qual era a
causa daquilo. Era a incerteza, o tormento de não poder sentir-se segura ao lado dele.
A luz do dia adquiriu um tom perolado, amenizando as sombras no quarto. Robin
dormia, tão perfeita, tão íntegra. Fora um egoísmo imperdoável ter feito amor com ela
outra vez.
Pensou, por um momento, acordá-la e dizer-lhe isso. Mas talvez só fosse complicar
a situação.
Vestiu-se em silêncio, sem tirar os olhos dela. Ajoelhou-se ao lado da cama e beijou-
lhe de leve o rosto. Depois saiu silenciosamente do quarto, calçou as botas e deixou a
casa, fechando a porta com cuidado atrás de si.

CAPÍTULO XVIII

Às cinco horas da tarde de segunda-feira, Robin viu com alívio a sra. Vermeil
segurar a mão da filha e levá-la para fora da loja. A menina ficara linda vestida de Alice no
País das Maravilhas, mas fotografias de crianças sempre eram difíceis. O fato de ela
querer incluir seu coelhinho branco nos retratos só complicara as coisas, mas como
poderia ser uma autêntica Alice sem o coelho?
Robin foi até a porta e ficou olhando para a rua por alguns minutos. Era um dia
cinzento, prenunciando chuva para a noite e talvez neve nas regiões mais elevadas.
Imaginou como estaria o tempo em Chaco Canyon. Há três dias Adam se fora e não
dera mais notícias. Ou melhor, no sábado à noite o porteiro do Governor's Inn dissera a
Robin que um homem havia ligado perguntando se ela ainda se encontrava hospedada
no hotel, mas não deixara recado. Pelo menos, isso indicava uma certa preocupação da
parte dele.
Robin recostou-se à porta, com o olhar distante. Mas ele não se importara o
suficiente para estar a seu lado na manhã depois de terem feito amor. Como fora incrível
acordar sozinha, sem nem mesmo um bilhete. Haviam estado tão íntimos na noite
anterior. Por que ele fugira?
O fim de semana parecera interminavelmente longo. Voltara para o hotel, sentindo-
se triste e sozinha. Até tentara convidar Shelly para um jogo de tênis no domingo, apesar
de tudo, mas ela e Chuck tinham ido para Denver levar alguns pertences de Ericka.
O vento agitava as folhas das árvores e a rua estava praticamente deserta, exceto
por dois carros e uma mulher índia, cuja saia verde enrolava-se nas pernas por causa da
aragem. Uma mulher índia que andava com timidez, procurando algo, com os brincos de
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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

prata fazendo barulho conforme ela virava a cabeça, apreensiva.


De repente, Robin saiu do devaneio e a reconheceu. Josefina!
Procurando acalmar a evidente ansiedade da mulher, Robin a fez entrar e serviu-lhe
uma xícara de chá quente. Não queria assustá-la com perguntas, mas morria de
curiosidade para saber o que a trouxera ali.
— Soube que seu estúdio foi invadido — Robin comentou, com gentileza. — Eu
sinto muito. Fizeram o mesmo comigo, mas todas aquelas suas cerâmicas tão lindas...
— Sim, foi um horror. Mas, no fim das contas, meus trabalhos são apenas pequenas
partes da Mãe Terra, e ela é muito generosa. Farei outros. — Josefina segurou a xícara
com ambas as mãos. — Fiquei muito assustada, mas meus dois filhos mais velhos vieram
ficar comigo e tomar conta do estúdio, então já não estou mais tão preocupada.
— Ainda bem. Eu também gostaria de ter filhos fortes para me proteger — Robin
disse, melancólica.
— Você ainda terá, menina.
— E John? Ficou muito ferido?
— Ele parece estar bem. Mas ficou muito bravo, muito aborrecido. Ele não tem filhos
para ajudar, apenas filhas. Mandou a família ficar com um irmão em Isleta para protegê-la.
Foi terrível, Robin.
— Eu sei. Você pensou em ir à polícia?
— Não. Eles não podem fazer nada.
— Então “nós” faremos. Isso precisa acabar.
— Sim, nós faremos. John me mandou aqui para lhe contar... Os homens entraram
em contato com ele outra vez. Ele fingiu que estava apavorado e disse que atenderia
esse último pedido e depois não receberia mais encomendas. Os homens vão pegar os
potes na casa dele.
— Quando?
— Amanhã. Às três horas da tarde.
— Amanhã? Tão rápido assim?
— John acha que estão nervosos. Sabem que há gente atrás deles. Sabem de tudo.
Sabem sobre mim e que fomos falar com John naquela tarde. Eles o ameaçaram e John
mentiu. Disse que não havia nos contado nada, mas bateram nele assim mesmo.
— Josefina... John estava com algum corte ou marca de espancamento?
— Não. Ele disse que bateram aqui. — Ela apontou para as costelas. — Dói para
respirar.
— Nenhuma marca... — Robin murmurou para si mesma. E se John estivesse
passando informações falsas? Mas ele era o único contato de que dispunham e teria de
torcer para que fosse verdade.
— Você vai avisar Adam?
— Vou. Nós cuidaremos de tudo. Obrigada, Josefina. Nós descobriremos quem são
esses homens e eu prometo que eles irão para a cadeia.
— E se não der certo? Meus filhos vão ter de ficar para sempre como guardas na
minha casa?
— Não, nós os pegaremos — Robin garantiu. — Tudo o que Adam tem a fazer é
anotar a placa do carro e entregar a Rod Cordova. A polícia cuidará do resto.
Mas, depois que Josefina se foi, Robin não se sentia tão confiante como tentara
demonstrar. Havia muitas possibilidades de o plano dar errado. Adam poderia inclusive ter
desistido de levar a ideia adiante. Ou a informação de John poderia ser falsa e não
aparecer ninguém no dia seguinte. Mas, no momento, ela preferia nem pensar nisso.
E se os homens percebessem a presença dela e de Adam? Eles conheciam seus
carros. E se Martinez os delatasse? E se tudo fosse uma armadilha para tentar pegá-los?
Robin começou a caminhar pela loja, pensando. Talvez devesse esquecer o plano e
notificar Rod Cordova. Mas descartou essa ideia logo em seguida. Afinal, John Martinez e

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

Josefina Ortega haviam decidido ajudar porque confiaram nela e em Adam. Avisar Rod
agora poderia estragar tudo.
Não. Seguiriam o plano original e só chamariam a policia quanto tivessem provas
concretas.
Adam... Eram quase seis horas e o centro de visitantes em Chaco Canyon estava
fechado. Poderia telefonar e deixar uma mensagem gravada, mas ele receberia o recado
a tempo de estar em Santa Fé antes das três horas?
E se ele não viesse? E como agiriam um com o outro? Robin não suportaria outra
rejeição. Por mais difícil que fosse, teria de permanecer fria e distante.
Ela suspirou, pegou o telefone e discou para o centro de visitantes de Chaco
Canyon. Adam viria, seu coração lhe dizia isso. Viria porque não suportava a distância
mais do que ela.

Por volta de uma hora da tarde no dia seguinte, Robin dava um pulo cada vez que a
porta se abria ou o telefonema tocava. Adam só poderia ter recebido o recado depois das
nove horas, quando o centro de visitantes começava a funcionar, e, assim, não daria para
chegar em Santa Fé muito antes da uma hora. De manhã, ela já havia telefonado para
uma agência e alugado um carro que não despertasse suspeitas, o qual se encontrava
estacionado diante da loja. Olhava de minuto em minuto para o relógio de parede,
desejando que Adam viesse, com medo de vê-lo, louca para jogar-se em seus braços e
odiando a si própria por sua fraqueza.
Onde ele estaria? Certamente teria ligado se não pudesse vir. Ou talvez não tivesse
recebido o recado. Robin respirou fundo. Partiria à uma e meia, quer Adam estivesse lá
ou não. Tinha a sensação de que era melhor estar escondida perto da casa de Martinez
bem antes das três horas.
À uma e quinze, ela começou a ficar agitada. Um homem entrou para comprar filme
e Robin quase o pôs para fora. Assim que ele saiu, colocou o aviso de “Fechado”, trancou
a porta e respirou ofegante, como se tivesse corrido quilômetros
O telefone tocou e Robin correu para atender.
— Alô?
— Oi, é Shelly. Você já almoçou? Quer ir ao La Cocina?
— Eu... Bem, eu já comi, Shel.
— Então quer ir me fazer companhia? Tenho grandes fofocas para te contar.
— Shel, estou esperando um telefonema muito importante...
— Ah, desculpe, eu vou liberar a linha. Tem certeza de que não quer nem mesmo
um taco? Você está sempre faminta.
— Não posso agora. Que tal amanhã? — Robin sugeriu, com um olho no relógio.
Uma e vinte e cinco.
— Certo. Então, telefone.
Estaria Shelly tentando mantê-la ocupada enquanto faziam o recolhimento dos
potes? Não, era ridículo. Sua imaginação andava trabalhando em excesso. Shelly não
tinha nada a ver com os falsificadores e apenas queria almoçar com sua amiga Robin.
Ela rabiscou um bilhete para Adam, colocou em um envelope e pregou-o à porta.
Não havia sinal do carro dele na rua. Deveria esperar mais alguns minutos? Não podia.
Iria sem ele. Adam devia estar a caminho.
Robin ligou o carro e pôs-se em movimento, devagar. Era mais um dia cinzento, mas

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

não chovia. A paisagem era monótona, escura. Passou por Tesuque, no meio do trajeto.
Olhou pelo espelho retrovisor, desejando ver Adam. Aquela era a única estrada asfaltada
para San Lucas.
Iria sentir-se muito melhor se Adam a acompanhasse. Estava um pouco apavorada.
Aqueles homens já haviam usado violência antes. E se estivessem a sua espera? Seguia
lentamente pela estrada, como se hesitasse em prosseguir. Foi preciso usar toda sua
força de vontade para pisar mais fundo o acelerador.
Uma buzina soou atrás dela, dando-lhe um susto. Robin reduziu a marcha,
assustada. Era um caminhão que se aproximava, insistindo na buzina. Olhou pelo
espelho retrovisor, com o coração na garganta, tentando identificar o motorista. Então,
com um suspiro aliviado, saiu da estrada e parou no acostamento.
Era Adam.
Em um segundo, ele encontrava-se a seu lado.
— Eu não podia esperar — ela explicou. — Mas confesso que estava com medo de
fazer isso sozinha. — De repente, o peso da tensão parecia tê-la deixado exausta.
— Desculpe o atraso. Demorei para receber o recado. Vou deixar meu caminhão
aqui e voltarei para pegá-lo depois. Quer que eu guie?
— Quero, obrigada.
As duas horas estavam estacionados em uma ruela com uma boa visão da casa de
John Martinez.
— Talvez tenhamos de esperar um bom tempo — Adam comentou. — Tente se
acomodar.
— Eu estou bem.
Houve um período de silêncio, como se um estivesse esperando que o outro falasse.
— Ainda bem que você conseguiu chegar — Robin disse.
— Você teria vindo mesmo sem mim?
— Se fosse necessário...
Adam virou-se para fitar a casa de Martinez. Robin tentava não olhar para ele o
tempo todo, mas estavam tão próximos. Gostaria de acariciar-lhe o rosto moreno. Tinha
vontade de segurar-lhe a mão, de poder tocá-lo como uma mulher toca o homem amado.
Ele lhe dera imensa alegria, mas também a deixara em torturante incerteza.
— Como está indo a escavação? — indagou.
— Vai bem. Os garotos estão voltando para a faculdade, com exceção de dois que já
são formados, mas conseguimos deixar aquela kiva quase restaurada.
— Ah, que bom. Choveu em Chaco ontem?
— Não, só ameaçou.
— Puxa, vou gostar de voltar para minha casa quando tudo isso acabar.
— Espero que seja hoje.
— Vai ser, a menos que Martinez esteja nos enganando. Josefina vai ficar muito
chateada se John for um dos culpados.
— É verdade.
— Eu perguntei a ela se Martinez tinha cortes ou contusões, mas parece que ele foi
atingido nas costelas. Então ninguém pode ter certeza se ele foi mesmo espancado ou
não. — Ela tentava manter um tom de conversação. Estaria falando demais? — Não
acredito que ele tenha ido a algum módico para...
— Espere. — Adam levantou a mão para silenciá-la, com os olhos fixos na casa de
Martinez.
Sim, alguém estava saindo. Era John, carregando uma grande caixa de papelão.
Colocou-a no bagageiro de sua caminhonete velha e, antes de entrar outra vez em casa,
olhou furtivamente em volta.
— O que ele está fazendo? — Robin sussurrou. John saiu com outra caixa.
— Há potes naquelas caixas — Adam afirmou, com segurança.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

— Ele está tentando fugir? É cedo para os homens chegarem.


— Tem certeza de que Josefina lhe disse que eles viriam às três horas na casa de
Martinez?
— Tenho, certeza absoluta.
— Então, Martinez está tentando evitá-los ou a nós saindo mais cedo, ou então foi
avisado para encontrá-los em algum outro lugar.
— O que vamos fazer? Chamar Rod?
— Acho que não dá tempo.
— Adam, nós “temos” de segui-lo.
— É, creio que sim. E era exatamente nisso que eu não queria nos envolver.
Martinez colocou mais duas caixas na caminhonete. Movimentava-se depressa,
assustado, olhando em volta. Então, entrou no carro, ligou-o, provocando uma fumaceira
negra, e foi embora.
— Vamos, Adam. Não deixe ele se afastar muito.
— Robin, desça aqui. Farei isso sozinho. Pegue um táxi de volta a Santa Fé e diga a
Rod...
— Não! Vamos logo, Adam!
— Robin, não sabemos para onde ele vai ou quem pode estar a sua espera!
— Você não vai ficar com toda a diversão, Adam! — ela gritou, impaciente.
Ele murmurou algumas palavras em apache e ligou o carro. A caminhonete de John
não andava muito depressa e foi fácil alcançá-la. O maior problema era ficar
suficientemente longe para não levantar suspeitas, sem perdê-lo de vista naquela estrada
cheia de curvas. Mas a caminhonete expelia um rastro negro de fumaça, de forma que
podiam segui-la mesmo quando não a avistavam.
Havia um longo declive e uma curva fechada à frente. Quando chegaram ao pé da
colina, não viram nem sinal da caminhonete ou da fumaça preta.
— Oh, não! — Robin exclamou.
— Talvez ele tenha entrado em algum acesso secundário. — Adam manobrou o
carro e retornou lentamente, ladeira acima. — Procure alguma estrada de terra. Ah, já
estou vendo.
Sim, Robin também via. Não passava de uma trilha estreita na encosta da colina,
mas um resquício de fumaça preta ainda pairava sobre a terra.
— É aqui mesmo! — Robin confirmou, excitada. Adam seguiu com cautela, atento a
qualquer movimento. Robin parecia nervosa.
— Não podemos ir mais depressa? — ela perguntou.
— Não queremos fazer uma curva e dar de cara com ele. Na verdade, acho melhor
pararmos por aqui e seguirmos a pé.
— A pé?
— Vê como as colinas estão juntas ali? — ele apontou. — Há um canyon à frente. A
estrada deve estar acabando mesmo.
— Mas Martinez...
— Ele está em algum lugar aí para cima. Precisamos encontrar uma brecha na
vegetação para esconder o carro. Não estou gostando desse lugar, Robin. É muito
isolado.
— Vamos ter cuidado. É só ver o que Martinez está fazendo e ir embora. Não
podemos dar meia-volta agora.
— Você pode.
— E deixar você aqui sozinho? Além do mais, só temos um carro. Não posso ir.
Ele desviou-se de um galho caído e o cano de escapamento raspou no chão. O
carro não aguentaria muito tempo naquela estrada. Por fim, avistou uma abertura na
vegetação densa e entrou com o veículo, quebrando galhos e ramos dos arbustos que se
fechavam sobre eles. Enquanto Robin descia do carro,

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

Adam já se encontrava de pé na estrada, com as mãos nos quadris, avaliando.


— Acho que dá. Mas espero que já tenhamos ido embora quando Martinez passar
de volta por aqui.
Caminharam cerca de oitocentos metros, prontos para esconderem-se nos arbustos
caso ouvissem algum barulho. Porém, o silêncio era quebrado apenas pelo canto de um
pássaro e pelo som de seus próprios passos.
Robin viu a fumaça no mesmo instante em que Adam levantou o braço para detê-la.
— Fogo? — ela perguntou.
— Talvez uma casa. É melhor sairmos da estrada.
Robin seguiu pelo meio do mato atrás de Adam, com o coração apressado, a boca
seca. Felizmente, ele estava abrindo caminho. Avançava com dificuldade, em silêncio,
através da vegetação fechada. Encontrava-se em seu elemento. De repente, ele levantou
a mão e parou.

Logo adiante, havia uma casa em estilo espanhol, com as janelas quebradas e as
telhas soltando. A única coisa nova era um cadeado reluzente na porta aberta. A
caminhonete de John Martinez estava estacionada em frente e, mais ao lado, havia um
furgão marrom.
Eles se abaixaram, vigiando. John Martinez apareceu à porta, depois foi até a
caminhonete e pegou uma das caixas de papelão. Dois homens o seguiram. A distância
era grande para ver com clareza e eles usavam chapéus puxados sobre os rostos. Robin
engoliu em seco, nervosa.
Um terceiro homem surgiu à porta e falou. Não conseguiram distinguir as palavras,
mas, pelo movimento, era evidente que mandava os outros tirarem as caixas da
caminhonete.
— Parece que John está trabalhando com eles — comentou Adam.
— É.
— Robin, alguém tem de ir chamar Rod agora mesmo, antes que esses homens
desapareçam. Seria melhor se fossem pegos em flagrante, mas não sabemos por quanto
tempo ficarão aqui. Acredito que vão guardar as cerâmicas neste local somente até
encontrarem compradores. — Ele pensou por um momento. — É melhor eu ficar aqui, de
olho neles. Volte você até o carro. Chimayo não fica longe, seguindo pela estrada
principal. Você encontrará um telefone lá.
— Não posso deixar você aqui! — ela protestou.
— Não se preocupe. Eles nem saberão de minha presença.
— E se forem embora antes de eu voltar?
— Eu anotarei a placa do furgão. A polícia poderá localizá-lo.
— E Martinez?
— Sabemos onde encontrá-lo. Isso não é problema.
— Adam, eu não queria deixar você...
— Ficarei bem. Vá depressa e tome cuidado. Acha que pode encontrar o caminho?
— Claro. Oh, Adam...
— Vá embora. Em silêncio.
Ela voltou pelo mato, tentando não fazer barulho, sentindo-se como se alguém
estivesse atrás dela a cada passo. Assim que chegou à estrada, correu até ficar sem ar.
Entrou no carro e seguiu pela trilha de terra como uma louca.
Não demorou a ver a placa: “Chimayo a 3 km”. Era um vilarejo antigo e simpático,
mas Robin nem notou. Parou diante de uma mercearia e correu para dentro.
— Onde há um telefone? — ela perguntou para o vendedor assustado. — É urgente!
Ele apontou para os fundos e Robin não perdeu um instante. Colocou algumas

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moedas no aparelho e chamou a telefonista.


— É uma emergência. Preciso falar com o Departamento de Polícia de Santa Fé. —
A ligação pareceu demorar um século para ser completada. — O investigador Cordova,
por favor. É uma emergência.
— O investigador Cordova não está de serviço hoje.
— Oh, não! Por favor, chame alguém que tenha autoridade. É muito importante.
— Aqui é o tenente Wilson — um homem respondeu, segundos depois.
— Ouça, meu nome é Robin Hayle. Rod Cordova está cuidando do caso. Estou em
Chimayo... — E ela teve de contar a história, rezando para que o tenente acreditasse. —
Há homens com... mercadorias de contrabando. São perigosos. O senhor poderia mandar
a polícia para cá? — Ansiosa, ela percebeu a relutância do policial. Sabia que sua história
parecia maluca. — Por favor, acredite em mim! Nós os perderemos se o senhor não
mandar alguém.
— Está bem, srta. Hayle. Vou mandar dois carros.
— Depressa, por favor. Eu estou voltando para o local.
— Fique longe desses homens — alertou o tenente Wilson. — Nós cuidaremos do
caso.
— Certo, obrigada. E depressa, por favor!
Robin retornou em tanta velocidade que nem prestou atenção no caminho. Deixou o
carro na mesma clareira onde o haviam escondido antes e correu pela estrada em direção
à casa.
Uma coluna de fumaça subia da chaminé quebrada. A caminhonete de Martinez
tinha sumido, mas o furgão marrom continuava estacionado em frente.
Não havia sinal de Adam.
Robin sentia vontade de chorar. E se o tivessem encontrado e prendido?
Esgueirando-se entre as plantas, ela aproximou-se da casa. Não tinha a menor ideia do
que iria fazer, mas precisava descobrir se Adam estava lá dentro, feito prisioneiro... ou
pior.
Parou a alguns metros da clareira, ofegante, apavorada. Quanto tempo a polícia
demoraria para chegar? Vinte minutos? Meia hora?
Um galho estalou atrás dela. Quando Robin ameaçou virar-se, uma mão cobriu-lhe a
boca enquanto um braço forte a puxava. Robin enrijeceu o corpo, aterrorizada.
— Shhh! Sou eu — alguém sussurrou em seu ouvido. Ela respirou aliviada e apoiou-
se no peito de Adam, trémula.
— Nunca mais faça isso comigo!
— Desculpe, mas não queria que você fizesse barulho — ele explicou.
— Rod não estava na delegacia. Falei com o tenente Wilson e ele prometeu mandar
dois carros. Acho que não acreditou muito na minha história. E não sei se chegarão a
tempo.
— Temos de tentar segurar os homens aqui. Martinez já foi embora.
— Talvez possamos fazer alguma coisa com o furgão — Robin sugeriu. — Os
pneus?
Adam enfiou a mão no bolso e tirou um canivete. Os dois se entreolharam.
— Vou ter de chegar perto da casa, mas, se mantiver o furgão entre mim e eles, não
irão me ver. Vou tentar cortar pelo menos dois pneus.
— E se eles o virem?
Adam deu de ombros e começou a avançar, sob o olhar apavorado de Robin. Não
demorou mais que alguns segundos para alcançar o furgão. Robin o viu enfiando o
canivete no pneu, mas a operação parecia demorar horas. Os homens poderiam sair da
casa a qualquer momento. Robin tremia de ansiedade, agachada no meio dos arbustos.
“Depressa, Adam”, pensou. “Depressa!” Um dos lados do furgão baixou devagar e Adam
moveu-se para o pneu da frente.

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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

Foi então que a porta da casa abriu e os três homens saíram. O coração de Robin
quase parou. Sem suspeitar de nada, os homens caminhavam devagar em direção ao
furgão. Eles conversavam e um deles ria.
Ela viu Adam imobilizar-se. Depois, deu mais um golpe no pneu e a dianteira do
furgão baixou lentamente. Mas era tarde demais. Os homens o tinham visto! Um deles
entrava no carro e os outros dois davam a volta para pegá-lo! Adam não teria tempo de
alcançar a vegetação!
Robin não tinha escolha. Naquele momento de pavor, sua mente trabalhava com
clareza e lógica. Ela ficou em pé e saiu na clareira, à vista dos três homens. Calmamente,
parecendo não ter conhecimento do que acontecia, caminhou em direção a eles.
— Ei, vocês! Ainda bem que encontrei alguém! Meu carro quebrou aí na estrada e
eu...
Os três homens ficaram imóveis, paralisados de surpresa por um momento, e Robin
pôde vê-los bem. O choque a atingiu como um soco no estômago e ela apenas ficou
olhando, boquiaberta e sem ação, para um deles.

CAPÍTULO XIX

Robin virou-se e começou a correr, ciente de que dois dos homens gritavam e a
perseguiam como cães atrás da caça.
Tinha medo de olhar para trás; se o fizesse, iria tropeçar. Então apenas correu o
mais que pôde, sentindo os ramos dos arbustos lhe cortando o rosto e os braços.
— Pegue-a! — uma voz soou, perto demais. — Vá por este lado! Corte o caminho
dela!
“Que lado?”, Robin pensou, em desespero. Arriscou uma olhada para trás, mas esse
movimento rápido foi suficiente para que ela se esparramasse sobre uma moita. Não ficou
no chão por muito tempo. Levantou-se e continuou a fuga, esperando apenas conseguir
ficar à frente deles até que Adam os alcançasse.
Onde estaria ele? Oh, Deus, teria sido pego pelo terceiro homem? Talvez eles
tivessem armas!
Correr pelo meio do mato era um pesadelo, com galhos surgindo em volta dela
como criaturas vivas, segurando-a, arranhando-a. Ergueu as mãos diante do rosto para
abrir caminho, mas os ramos flexíveis chicoteavam de volta, batendo em seus braços e
ombros. E, por mais rápido que ela tentasse se mover, o som de galhos quebrados atrás
de si ficava cada vez mais próximo.
A polícia! Deveriam chegar a qualquer momento, tocando as sirenes e assustando
seus perseguidores. Por que tanta demora?
Robin sentia o peito doer e suas pernas estavam perdendo a força. Um galho mais
pontudo cortou-lhe o rosto e o sangue correu até o canto de sua boca.
— Lá está ela! Pegue-a!
Apavorada, ela foi de encontro a uma árvore e caiu com tamanho impacto que, por
um momento, ficou sem ar. Tentou apoiar-se nas mãos e nos joelhos para se levantar,
mas seu peito doía e não conseguia respirar.
— Estou vendo! Vamos pegá-la!
Estava acabado. Mesmo que conseguisse se levantar, Robin sabia que não teria
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Super Sabrina 103 – Emoção contida – Lynn Erickson

forças para fugir. Paralisada de terror, ficou no chão, vendo os homens se aproximarem
como lobos. Só então lhe ocorreu a questão: por que ele?
Robin não sabia quanto tempo havia ficado ali no chão duro, ofegante como um
coelho assustado, imóvel, olhando para ele. Pareceram longos minutos, mas a lógica lhe
dizia que não poderia ter sido mais do que segundos. Percebeu o som vago de sirenes,
mas estava tão distante que era como se fosse em outro mundo. Se Adam estivesse em
condições de socorrê-la, pensou, já estaria ali. Um pressentimento horrível a invadiu,
afastando o terror por um momento. Adam...
— Você deveria ter levado os avisos mais a sério — o homem disse, parado diante
dela. — Eu sinto muito. Gostava de você.
— Por quê? — ela murmurou. — Por que você fez isso? Ele não respondeu. Apenas
fez um sinal para o outro homem, incapaz de encará-la.
De repente, Robin conscientizou-se de que iria morrer. Até mesmo as sirenes
haviam sumido, como em despedida. Sentiu uma estranha vontade de rir de si mesma.
Tantos sonhos, tantas esperanças...

Encontrava-se tão atordoada, tão perdida em divagações confusas, que a princípio


não discerniu a voz que se elevava, autoritária, sobre todos os outros sons. Era como se
viesse de um outro tempo, de outro lugar...
— Eu não faria isso se fosse você — a voz disse, e então Robin voltou à realidade e
viu Adam, atrás dos dois homens.
Ele estava tranquilo e em prontidão, com as pernas ligeiramente afastadas, os
braços caídos ao longo do corpo. Sua expressão era tão dura que fez Robin estremecer.
Então, tudo aconteceu rapidamente. Um dos homens, de cabeça baixa como um
touro, investiu contra Adam. Robin gritou, mas Adam apenas desviou-se habilmente,
agarrou o homem pelo pescoço e o atirou de encontro a uma árvore. E estava acabado; o
outro homem entregou-se sem reagir.
Afinal, Robin pensaria mais tarde, Julien Cordova era muito franzino para lutar.
Adam levou um longo tempo para explicar tudo à polícia. E Robin desconfiava que
eles só haviam engolido a história por causa das caixas de papelão com as cerâmicas
falsificadas, que serviram de prova.
— Ouçam — Adam dizia, parado diante da casa que servira como depósito para as
peças falsas. — Levem estes três homens para a cidade e nós iremos atrás. Poderemos
esclarecer tudo na delegacia.
— Eu não sei o que o investigador Cordova vai dizer disso — comentou um dos
quatro policiais, coçando a cabeça.
— Eu vou ficar surpresa se ele já não souber de tudo — interveio Robin. — Aposto
que ele estava envolvido nessa história. Não me admira que não tenha ajudado muito.
— Moça, acho que está indo um pouco longe em suas suposições — advertiu o
tenente Wilson.
— Ela está certa, tenente — Adam a apoiou. Passaram-se mais alguns minutos
antes que os três irmãos
Cordova e as caixas de cerâmicas fossem colocados nos veículos da polícia. Robin
e Adam pegaram o carro que haviam escondido e foram atrás deles.
— Adam, eu pensei que você tinha morrido — Robin confessou, enquanto o
automóvel trepidava na estrada esburacada.
— Como eu poderia ter problemas com você ali para me salvar? Você teve presença
de espírito quando viu os homens saindo da casa.
— É, eu pensei rápido. Isto é, até que vi Julien. Foi um choque para mim. O que
aconteceu enquanto eles estavam me perseguindo?
— Eu me levantei e cumprimentei Martin Cordova. Fazia anos que não nos víamos.
— O que ele fez? Desmaiou?

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— Quase. Depois disso, encontrar vocês no mato foi muito fácil. Faziam tanto
barulho que parecia um circo.
— E eu que pensei estar sendo tão silenciosa...
O sol já havia sumido atrás das montanhas quando alcançaram a estrada principal.
Robin ligou o aquecedor do carro e olhou pela janela. Nem podia acreditar que,
finalmente, estava tudo acabado.
As árvores ao longo da estrada começavam a ficar amarelas. Logo o inverno viria e
a terra se tornaria marrom e branca, à áspera de que os longos meses frios passassem e
a natureza pudesse renascer. Quando a primavera chegasse, Robin pensou, ainda estaria
vendo Adam ou seriam aqueles seus últimos momentos juntos? Queria perguntar a ele,
mas as palavras não lhe vinham aos lábios. Seria como implorar.
Já era tarde quando saíram da delegacia. Uma vez mais, Robin entrou no carro ao
lado de Adam. Seria a despedida?
Robin olhou para a lua cheia, que brilhava imensa sobre as montanhas Sangue de
Cristo. Suspirou e voltou-se para Adam.
— Agora só falta você me deixar em casa e todos os seus problemas estarão
resolvidos, não é? — Ela não conseguiu disfarçar a mágoa na voz.
— Não sei o que você quer dizer — ele respondeu. Mas Robin sentia a tensão
emanando dele. À luz dos carros que passavam, o perfil de Adam era rígido como pedra.
Estavam sentados a poucos centímetros de distância um do outro, mas era como se ele
fosse um. Estranho.
De repente, de forma totalmente inesperada, ele virou o volante com violência e
parou o carro junto à calçada. Robin o fitou, confusa. Ainda faltavam três quarteirões para
sua casa.
— Você não desiste, não é? — A voz de Adam era assustadoramente ríspida. —
Você não para de me pressionar, Robin.
— Eu...
Mas ele a silenciou com um gesto autoritário.
— Não diga mais nada. Você pediu por isto, então vamos lá. — Ele parecia furioso.
Robin sabia que estava prestes a descobrir o misterioso segredo, mas quase preferia não
ouvir. Não daquele jeito. Queria correr dali, tapar os ouvidos, qualquer coisa. — Acha que
eu sou bobo, Robin? Eu sei o que você quer e não posso lhe dar isso. Você quer um
marido e uma família. Você quer ser parte da vida de um homem...
— Não de qualquer homem, Adam Farwalker — ela interrompeu, zangada.
— Certo. Mas você pode negar que quer ser mãe, criar uma família? Bem, eu não
posso lhe dar isso, Robin. — Ele bateu a mão no volante, com raiva. — Pode parecer
ridículo, mas esta é a história. Eu estava com trinta anos... e tive caxumba.
Robin ficou imóvel pelo que pareceu uma eternidade. Caxumba. Ele era estéril.
Então era esse o segredo de Adam. Ela tinha medo de abrir a boca e dizer a coisa errada.
Adam estava tão ferido, tão bravo, tão sozinho com sua dor. Nenhuma palavra de conforto
lhe vinha à cabeça.
Por fim, foi Adam quem ligou o carro e rompeu o terrível silêncio.
— Vou levá-la para casa.
Robin conteve as lágrimas. Ele certamente tocara no ponto fraco. Ela queria mesmo
uma família, e estaria mentindo se dissesse o contrário. Deus, o que iria fazer? Amava
Adam!
— Sinto muito — ele murmurou, ao estacionar o carro. — Poderia ter sido bom entre
nós.
— Adam... nós não podemos... Não há algo...
— Não, Robin. A condição é irreversível. Não posso lhe dar o que você merece.
— Não acha que cabe a mim decidir isso?
— Robin, você já expressou seus sentimentos quanto ao assunto. Talvez você não

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devesse ter sido tão sincera, Robin Hayle. — Ele lhe deu um beijo no rosto, e a conversa
estava encerrada.
Durante longos e sofridos dias, aqueles minutos no carro com Adam repetiram-se
em uma sequência interminável na mente de Robin, como um disco riscado. Ela
continuou sua vida normal, abrindo e fechando a loja, lendo no jornal sobre a quadrilha de
falsificadores, mas sem concentrar-se em nada. Sentia-se totalmente vazia.
Felizmente, havia Shelly. Quando soube da história da caminhonete, mostrou-se
incrivelmente compreensiva e até riu.
— Ah, Robin, você devia ter me contado e se poupado de uma boa dor de cabeça.
— Eu não podia. Estava com medo. Será que você vai poder me perdoar?
— Na semana que vem, “você” compra os biscoitos na padaria e ficaremos quites.
Aquela era Shelly. A melhor amiga que uma mulher poderia ter.

Outra coisa que a manteve ativa naqueles dias foi a organização da nova
associação de artesãos indígenas. Ela pegou a lista de artistas importantes que Christina
preparara e começou a fazer contatos. Era desencorajador. Muitos dos índios mostravam-
se desconfiados ou hesitantes e alguns não falavam inglês, mas Robin estava
determinada a fazer sua ideia funcionar.
Falou com Josefina também, pedindo-lhe apoio para a organização.
— Não sei — Josefina murmurou. — Por que alguém iria me ouvir?
— Porque você é uma das artistas índias mais respeitadas e famosas da região.
— Isso me deixaria nervosa. Quem sou eu para dizer aos outros como devem agir?
Cada índio deve examinar seu próprio coração para saber o que fazer.
— Mas você concorda que a organização é necessária?
— Acho uma boa ideia, mas não sei como você vai fazer funcionar.
— Com a ajuda de todos. Josefina, se eu convencer alguns dos artistas a se
reunirem para conversar, você iria também?
— Eu vou pensar. Vou falar com meus filhos.
— Obrigada. Sei que você vai fazer a coisa certa.
— A coisa certa para um índio não é necessariamente a coisa certa para uma
pessoa branca — Josefina respondeu, sóbria.
Determinada, Robin não esmoreceu em seus esforços para manter contatos
telefônicos e na tentativa de penetrar numa cultura estranha e fechada, que já fora traída
demais pelos brancos europeus.
E não recebeu nenhuma notícia de Adam.
Foi Shelly quem, por fim, conseguiu romper o silêncio e tocar no assunto. Com muita
paciência e compreensão, acabou convencendo Robin a contar toda a história.
— Não tenha vergonha de chorar, minha amiga — ela aconselhou. — Você merece
isso. — Shelly abraçou a amiga e esperou até que os soluços cessassem. — E então? O
que você vai fazer? Não acho que essa decisão tenha de ser inteiramente de Adam.
— Mas “ele” tomou sua decisão. Acha que tudo o que eu quero na vida é ter filhos.
— E é mesmo?
— Sim... e não. Shelly, acho que nós poderíamos chegar a algum acordo.
— Sem dúvida.
— Afinal, centenas de pessoas se casam e depois descobrem que não podem ter
filhos, não é? E isso não impede que continuem a se amar.
— Claro.
— E aposto que, se soubessem antes de se casar, casariam assim mesmo.
— Existe a adoção — sugeriu Shelly, pegando um biscoito do pacote de Robin.
— Lógico! — Robin sentia-se viva pela primeira vez em muitos dias. — Eu gostaria
de ter meus próprios filhos, mas... Shelly, não se pode ter tudo, certo? E eu tenho tanto

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amor dentro de mim, suficiente para Adam e para um monte de crianças.


— Mesmo que não sejam suas?
— Elas precisariam de mim ainda mais, não é? Há tantas crianças sem lar...
— Milhares e milhares.
— Crianças índias também. Você pode imaginar quantos conhecimentos Adam
poderia transmitir a elas?
O verão índio tocou a terra com sua mão generosa, brilhando nos rios, verdejando
as colinas, beijando o deserto com um colorido de flores silvestres. Robin sentia-se em
paz e alegre. Pela primeira vez na vida, realmente sabia o que queria. E tomara a
decisão: mesmo se nunca mais visse Adam, mesmo se nunca houvesse um homem em
sua vida, pararia de esperar que o amor viesse até ela. Pelo contrário, sairia a sua
procura. Resolvera adotar uma criança.

Mas havia uma coisa a fazer primeiro: tinha de ver Adam uma última vez, tentar
convencê-lo de quanto o amava, de quanto o amaria mesmo se ele não tivesse um braço
ou uma perna. E, se isso não desse certo, não iria enterrar-se por trás de sua aparência
superficial e divertida. Nunca mais. Mas como faria para encontrar-se com ele?
A oportunidade finalmente apareceu quando Robin recebeu um telefonema de
Christina num dos últimos dias do mês.

CAPÍTULO XX

A reunião na casa de Christina serviria para fixar as diretrizes preliminares da


Associação de Artistas Nativos do Novo México. Robin tinha de estar presente. Fora seu
trabalho determinado que, finalmente, persuadira alguns dos índios a considerar a ideia.
Robin dirigia para Las Jaritas com o espírito um pouco inquieto. Era gratificante
saber que seus esforços para organizar as comunidades indígenas pareciam começar a
dar frutos. Mas, por outro lado, havia Adam. Imaginava se ele estaria na reunião. Era
sábado; talvez ele tivesse tirado o fim de semana de folga.
De fato, a primeira coisa que ela avistou ao aproximar-se da casa principal da
fazenda foi o carro dele, sujo de barro, entre mais dez ou doze veículos. Seu coração deu
um pulo. Sentia-se alegre e receosa ao mesmo tempo.
Ela passou a mão pelos cabelos, ajeitou a saia justa azul-marinho, fechou os olhos
por um segundo e, então, caminhou até a porta da frente e bateu.
Adam atendeu. Estaria esperando?
— Oi — ela cumprimentou.
— Como vai, Robin? — Adam estava sério, olhando para ela.
— Eu... vim para a reunião.
— Sim, eu sei. Entre, por favor. — O rosto dele era inexpressivo, a voz
cuidadosamente neutra. — Eles estão na sala.
Rígida, Robin o seguiu. Seria assim entre eles agora, apenas aquela polidez tensa?
— Oh, bom dia, Robin! — Christina levantou-se para recebê-la. Então, Robin viu-se
afastada de Adam para ser apresentada ao grupo, composto de representantes dos
povoados Pueblo e das tribos navaho e apache. Robin tinha dificuldade em se concentrar.
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Todo seu ser estava focalizado em Adam, que se sentara em um canto da sala. Mas
acreditava estar disfarçando bem, pois ninguém parecia notar sua preocupação.
Josefina Ortega encontrava-se lá com o filho Manuel, assim como John Martinez e
muitos outros índios que Robin não conhecia pessoalmente, mas com quem havia falado
ao telefone.
— Estivemos trabalhando desde cedo na organização — Christina explicou. — Eles
me elegeram presidente, mas só temporariamente. Mas temos uns pequenos problemas,
Robin. Precisamos decidir sobre os regulamentos e queremos ver uma cópia do folheto
que sua associação vai imprimir.
A discussão prosseguiu por meia hora. Robin respondeu a perguntas sobre sua
própria associação comercial, tentando mostrar um modelo de organização que talvez
pudesse ser seguido. Alguns dos índios ainda demonstravam desconfiança, mas isso era
de esperar. Com o tempo, acabariam convencidos de que a cooperação seria melhor para
todos.
Durante todo o tempo, Robin tinha consciência da atenção de Adam. Sentia a pele
sensível, como se tivesse febre, como se as mãos dele a estivessem tocando.
Por fim, o almoço foi servido e Robin sentou-se no sofá com seu prato, ao lado de
Christina. Durante a refeição, a conversa voltou-se para a quadrilha de falsificadores
recém-descoberta. John Martinez teve de explicar ao grupo seu papel no caso.

— Disseram que os potes eram para um museu. E pagaram tão pouco... — ele
começou.
Robin ouvia as palavras dele, mas estava mais interessada em Adam. Ele puxou a
cadeira para mais perto do sofá e, com o prato de comida na mão, parecia atento à
explicação de Martinez enquanto comia. O apetite de Robin, porém, havia desaparecido.
Christina comentou alguma coisa cm apache com a mulher sentada a sua direita e,
então, virou-se para Adam.
— Muitos dos presentes ainda estão confusos quanto ao caso das falsificações.
Talvez você possa lhes explicar melhor do que eu.
Adam colocou o prato sobre a mesa. Como de hábito, atraiu a atenção de todos
quando começou a falar.
— Acho que vocês já sabem que Julien Cordova era o chefe da quadrilha.
— Mas por que um homem fino e educado como ele faria uma coisa tão horrível? —
perguntou Josefina.
— Essencialmente, foi um ato de vingança. Os Cordova eram uma antiga família
espanhola proprietária de terras. Perderam suas propriedades há muitos anos, é claro,
mas parece que ainda guardam ressentimentos.
— Fizeram por dinheiro também — interveio Martinez, revoltado.
— E eles estavam na posição certa para realizar as operações sem problemas —
comentou Robin. Depois silenciou-se, pouco à vontade, percebendo o olhar de Adam
sobre si.
— Continue — ele encorajou. — Você também sabe toda a história.
— Bem... Julien tinha a posição perfeita para organizar a quadrilha. Ele conhecia
todo mundo em Santa Fé e é um dos maiores especialistas em arte indígena. Imaginem
que eu lhe contava cada movimento que fazia. Assim foi fácil eles estarem sempre um
passo a nossa frente.
— Há ainda o fato de seu irmão Rod, que também fazia parte da quadrilha. Como
policial, não teve problemas, por exemplo, em nos seguir até a casa de Martinez em San
Lucas e colocar a casa dele sob vigilância. Foi pura sorte Rod não estar na delegacia
quando Robin telefonou naquele dia.
— Por que será que os Cordova fizeram aquele último pedido de cerâmicas para
John? Já não estavam desconfiados? — indagou Christina.

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— Eles acharam que John estava sob controle depois da surra que lhe deram.
Mesmo assim, mandaram um recado para que ele fizesse a entrega naquela casa
isolada. Ainda procuravam ser muito cautelosos.
— Mas foi sorte Adam tê-los despistado quando disse a Julien, no jantar dos Dalton,
que nós estávamos saindo do caso.
— Mas isso depois que um irmão dele se vestiu de índio e fez uma caverna desabar
em cima de meu filho e de Robin — contou Christina. — Em seguida, tentou matar Robin,
jogando o carro dela para fora da estrada. Um homem horrível.
— A polícia de Albuquerque pegou Rod no aeroporto — Adam informou. — Ele tinha
uma passagem para o México.
— O que vai acontecer com esses homens? — perguntou uma tecelã.
— Eles serão julgados — Adam respondeu.
— Eu vou contar minha história no tribunal — avisou John Martinez. — Acho que é a
atitude mais correta.
— Que bom — apoiou Robin. — Seu testemunho ajudará muito.
— Não gosto dos caminhos da sua lei — explicou John. — Mas confio em vocês.
Minha família está de volta a San Lucas, em segurança.

Depois do almoço, Robin explicou o trabalho da comissão especial criada para


defender os interesses das pessoas que trabalhavam com arte na cidade e contou que,
com a saída de Julien, a associação comercial elegera um novo presidente: Chuck
Dalton, da Galeria Dalton. Todos aprovaram a escolha.
Quando a reunião acabou, muitas pessoas vieram apertar a mão de Robin e
conversar com ela. Josefina aproximou-se sorrindo e entregou-lhe uma caixa.
— Isto é por sua ajuda — ela disse, tímida. — E pelo perigo em que eu a coloquei.
Era um de seus trabalhos em preto sobre preto, uma grande vasilha rasa decorada
com serpentes estilizadas.
— Josefina, é lindo! Você não precisava...
— É o mínimo que posso fazer por você.
Com cuidado, Robin tornou a guardar a cerâmica na caixa. Abraçou Josefina,
conversou com mais algumas pessoas, mas durante todo o tempo percebia a presença
de Adam, parado em silêncio no fundo da sala, e sabia que ainda havia uma questão não
resolvida.
A situação era terrivelmente incômoda Robin não sabia se devia sair com os outros
ou dizer alguma coisa para ele, se devia esperar para o caso dele querer conversar ou
manter o que restava de sua dignidade e despedir-se com firmeza, de uma vez por todas.
De repente, a casa que estivera cheia de gente ficou absolutamente quieta. Até
mesmo Christina havia desaparecido como por encanto. Permaneciam apenas Robin, de
pé no centro da sala com a bolsa na mão, e Adam, com o olhar fixo nela, calmo e
impenetrável.
— Bem, acho que é melhor eu voltar para a loja.
Adam pareceu adquirir vida, então. Aproximou-se, vencendo não apenas o espaço
físico, mas também rompendo a barreira que vinha mantendo entre ambos. Robin sempre
se lembraria da incrível sensação de proximidade que os uniu naquele momento.
— Você pode tentar entender? — ele murmurou, segurando-lhe as mãos. — Eu quis
lhe dar tempo. Vamos até lá fora. Eu penso melhor ao ar livre.
Robin o seguiu até o pátio aquecido pelo sol. O ar impregnava-se do perfume de
maçãs maduras e flores. Sentaram-se frente a frente, sem que soltasse as mãos dela.
Robin tinha medo de falar, em uma apreensão agoniante.
— Durante toda a minha vida, fui ensinado a evitar excessos — ele começou. —
Nosso povo é assim. Fui ensinado a ter cautela com outras pessoas, principalmente as de

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fora de nossa tribo, e a caminhar de mãos dadas com o mundo natural. Nós, apaches,
somos muito centrados em nós mesmos. — Ele fez uma pausa para observar a reação
dela. — Mas agora você já sabe de tudo sobre mim e a escolha é sua, Robin. É um direito
que você tem.
Ela baixou a cabeça, sentindo as lágrimas umedecendo seus olhos.
— Eu só preciso saber uma coisa, Adam.
— O quê?
— Você me ama?
— Eu te amo.
— Bem, então não há o que pensar. Eu amo você. Quero você como meu marido,
para sempre, para o meu clã.
— Robin...
— Não tente me fazer mudar de ideia, Adam. Eu amo “você” e não o que você pode
me dar. Sei que tenho muitas inseguranças e provavelmente vou deixar você louco de vez
em quando — comentou, com um sorriso tímido. — Mas Adam, meu amor é grande.
— E você ficará feliz sem filhos?

— Nós podemos ter filhos. Vamos adotá-los. Muitos filhos, crianças índias. Elas
precisam muito de nós, Adam. E você pode ensiná-las a andar de mãos dadas com o
mundo.
— E você pode ensiná-las a amar — ele completou, com ternura.
— Nossos filhos terão o melhor dos dois mundos. Vai dar certo, Adam, você vai ver.
— Você sabe que eu passo a maior parte do tempo em Albuquerque, na
universidade.
— Ah... — o sorriso de Robin desapareceu. — Acho que poderíamos...
— Você se mudaria de sua preciosa Santa Fé? Faria até isso por mim?
— Sim, claro. Eu só tinha esquecido.
— Se bem que surgiu uma outra possibilidade. O museu do palácio está sem um
curador.
— Julien.
— Sim, ele era o curador.
— E daí?
— Daí que me procuraram para preencher a vaga.
— Adam, isso seria maravilhoso! — Os olhos de Robin se acenderam. — Nós
poderíamos viver aqui e passar os verões na fazenda. Já posso ver seu pai ensinando os
netos a andar a cavalo, caçar e falar apache.
— Parece que você já planejou tudo, hein? — Adam comentou, rindo.
— Ah, sim. Nós vamos estar muitos ocupados. — A alegria dentro de seu peito era
tanta que parecia querer explodir. — E muito felizes.
Adam sentou-se ao lado dela e a abraçou.
— Como dote de noivado, eu exijo um beijo.
O sol dourado iluminou a união dos lábios que selava o contrato, o difícil mais
resistente laço entre a trindade de anglos, índios e espanhóis que formava o Novo
México, a terra do encantamento.
FIM

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