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A Sinagoga de Satanás.

E. Michael Jones

Pressentindo que a hegemonia Helênica sobre a Palestina estava cessando, Pompeu colocou os
sucessores dos generais de Alexandre, o Grande, uns contra os outros, como uma oportunidade para tomar
o poder e aumentar o alcance do governo Romano em torno do Mediterrâneo, oceano chamado pelos
romanos de “nosso”. Em 64 a. C. Pompeu depôs Felipe II, o Selêucida, e fez da Síria uma província
Romana. Logo compreendeu que os Judeus não seriam incorporados no Império sem um enorme esforço,
assim como seus sucessores não conseguiram manter os Judeus no Império sem grandes turbulências.
Um ano depois da tomada da Síria sem, por assim dizer, disparar um tiro, Pompeu empreendeu
um cerco a Jerusalém. Convocou uma guarnição vinda do Tiro, derrubando árvores para atravessar os
fossos que cercavam Jerusalém, mas o sucesso era incerto. Os Judeus tinham água e comida. Tinham
também o Templo de seu Deus, a respeito do qual Pompeu escutara relatos impressionantes, se não
contraditórios. Enquanto Pompeu estava fora dos muros, os sacerdotes sacrificavam ao seu Deus, que
parecia querer manter os Romanos onde estavam.
Pompeu então estudou a religião dos Judeus. As proibições Judaicas contra o trabalho no Sábado
permitiam portar armas somente para se defender. Os soldados Romanos, portanto, abriram mão das armas
no Sábado Judaico, e, em vez disso, começaram a derrubar os muros da cidade, contra o qual o escrúpulo
dos Judeus religiosos não permitia reação.
Em junho de 63 a. C, uma das torres do Templo caiu. Os soldados Romanos atravessaram uma
fenda no recinto do Templo onde chacinaram os sacerdotes. Muitos Judeus cometeram suicídio jogando-
se das ameias do Templo. Outros imolaram a si mesmos nas piras de sacrifício animal. Ao todo, 12 mil
Judeus morreram. Com a vitória iminente, a curiosidade de Pompeu sobre o interior do Lugar Santíssimo
do Templo Judeu tomou o lugar das preocupações da guerra. Avançando através do sangue dos sacerdotes
mortos, Pompeu penetrou no Santo dos Santos para ver se o objeto de adoração dos Judeus era uma cabeça
de asno, como os propagandistas Alexandrinos afirmavam. Ele descobriu que, em termos Romanos, lá
não havia nenhum objeto de adoração. Talvez Pompeu tenha encontrado um santuário fora do lugar;
talvez ele tenha ficado desconcertado por uma presença que sentia mesmo sem ser representado por
nenhum objeto. De qualquer modo, Pompeu parou diante do tesouro do Templo com seu ouro e voltou de
mãos vazias.
O Templo foi deixado de pé, mas os muros de Jerusalém foram arrasados. Foi cobrado aos Judeus
um imposto com valores apropriados para uma província conquistada. O Templo fora violado, mas
permaneceu intacto. Os sacrifícios do templo continuaram, mas Israel deixou de existir como uma nação
com um Estado.
Pompeu executou os mais fanáticos dos Judeus revolucionários, os Zelotes. Ele nomeou Sumo-
sacerdote e etnarca o flexível e estúpido Hircano, garantindo que ele fosse o único líder colocado sob a
autoridade de Antípatro, a quem fez governador da Judeia. O mais formidável Aristóbulo foi enviado a
Roma com seu filho Antígono e uma horda de Judeus prisioneiros, cujos descendentes, conhecidos como
libertini, ou os emancipados, sentaram-se à direita do Tibre sobre as encostas da colina Vaticano. A ponte
que atravessa o Tibre era conhecida como Pons Judaeorum, indicando a raça dos habitantes que eles
estiveram lá por muito tempo.
A derrota dispersou os Judeus. Daquela dispersão aparentemente sem esperança, os seus
descendentes começaram a promover, nas palavras de Graetz, “um novo tipo de guerra contra as
instituições Romanas”, que seriam finalmente “modificadas ou destruídas aos poucos”. Mas Graetz não
poderia ter se referido a outras seitas judaicas não tão distantes, pois, enquanto eles eram engolidos pelo
Império Romano, eles recusaram serem digeridos por ele. Como a opressão Romana aumentou, as
colônias judaicas ao redor do império se tornaram a fonte de insurreição e atividade revolucionária que
ameaçava a existência do império de uma forma diferente da ameaça de sucesso Cristã.
Os Romanos eram geralmente versados nas regras das nações conquistadas, mas os regimentos
Romanos na Palestina foram uma história de destroços e opressão. Como os Macabeus tinham lançaram
longe a hegemonia Grega cem anos antes do triunfo de Pompeu, uma vitória similar contra os Romanos
não parecia impossível. A derrota dos Judeus por um poder estrangeiro, juntamente com a arrogância e
erros estúpidos dos Romanos, alimentaram um fervor apocalíptico.
Determinada literatura apocalíptica começou sob a hegemonia Helenística devido às conquistas de
Alexandre, o Grande, em 333 a. C. Antíoco IV Epifânio pressionou uma assimilação em 167 a. C. ao
abolir as práticas judaicas e estabelecer o culto de Zeus no Templo. Ele ordenou o sacrifício pagão sobre
o novo altar do Templo. O sacerdote Matatias e seus cinco filhos chamaram os judeus para uma revolta.
Foram três anos de guerra, durante os quais o Livro de Daniel foi escrito. Daniel é o primeiro de uma série
de Apocalipses - ou revelações de coisas ocultas - que culmina no livro de Apocalipse, último livro do
Cânon cristão. Os livros apocalípticos tiveram a sua maior popularidade a partir de 200 a. C até 100 d. C.,
um tempo de angústia e perseguição para os Judeus e, em seguida, para os Cristãos. Daniel, de acordo
com os editores da New American Bible, “foi composto durante a amarga perseguição feita por Antíoco
IV Epifânio (167-164) e foi escrito para fortalecer e confortar o povo Judeu em sua provação” ao mostrar
“que o homem de fé pode resistir à tentação e vencer a adversidade”.
No segundo capítulo de Daniel, o Rei Nabucodonosor sonha com uma estátua com pés de argila,
que nenhum de seus sábios puderam interpretar. Daniel explica que as quatro partes da estátua
correspondem a quatro reinos que governarão a terra. O quarto reino “esmagará e destruirá todos os
primeiros reinos” em uma sequência de eventos familiares aos habitantes da Palestina. Mas o quarto reino
sob o domínio da quarta besta “devorará a terra, derrotará e esmagará”. O livro de Daniel descreve a
trajetória da história humana num mundo caído. Um império segue o outro; a única constante: opressão,
com cada sucessivo reino mais tirânico que o anterior.
O livro de Daniel também propõe um “final da história”. “Uma pedra que se soltou, que não fora
tocada por qualquer mão, atingiu a estátua, atingiu seu pé de ferro e barro e o quebrou”. De acordo com a
interpretação de Daniel: “No tempo destas coisas o Deus celeste erguerá um reino que nunca será
destruído, e este reino não passará para as mãos de outra raça; quebrará e absorverá todos os reinos
anteriores em si para sempre – assim como você viu a pedra intocada por mãos sair da montanha e quebrar
o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro”.
Pompeu fez o que Daniel disse que a quarta besta faria: conquistou Jerusalém em 63 a. C. Ele
destruiu o reino de argila e ferro, mas sua vitória somente intensificou a expectativa Messiânica. O triunfo
do quarto reino indicava de que a vinda do Messias era iminente. O Filho do Homem deveria libertar os
judeus da opressão e inaugurar um reino sem fim que destruiria a todos os impérios. A opressão alimentava
o fervor Messiânico. O Messias “torna-se mais sobre-humano quando a situação se torna mais sem
esperança”. Ele vem ao povo judeu oprimido como um “poderoso guerreiro” para destruir os inimigos de
Israel e “fazer cativo o líder dos Romanos e levá-lo em correntes ao Monte Sião, onde será morto” e
“estabelecer um reino que durará até o fim dos tempos”. A libertação da opressão política deveria ocorrer
da única maneira que o povo judeu considerava possível: através de um poderoso general que “se
mostraria invencível na guerra”. Visto que o conflito com Roma se tornou mais implacável, “as fantasias
messiânicas fizeram com que muitos judeus tivessem se tornassem obsessivos”.
Na perspectiva Cristã, a era apocalíptica culminou em Cristo. Jesus repetidamente referia a si
mesmo como “o Filho do Homem”, invocado na profecia em Daniel e apontando a si mesmo como o
inaugurador do Reino Messiânico. Quando a sua vida terrestre se tornou pública, tornou-se claro que Jesus
não era nenhum poderoso guerreiro do tipo que os Judeus admiravam no Rei Davi. Ele dizia ser da Casa
de Davi, mas não estava claro como um homem que não era um guerreiro libertaria os cativos da
escravidão do braço Romano.
O desejo dos judeus por um salvador “sobre humano” encontrou seu cumprimento e
desapontamento em Jesus Cristo. Cristo convenceu os seus seguidores que Ele era sobre humano, mas os
desiludiu quanto a noção de que era meramente uma versão mais poderosa de Davi ou Alexandre, o
Grande, ou de César. O “Superman” é uma personagem das histórias em quadrinhos criada na América
durante a Depressão por Jerry Siegel e Joe Schuster, Judeus da Europa oriental que não expeliu a ideia de
um Messias de sua consciência. Mas também fala de uma incapacidade perene em ver a sobre-natureza
como algo mais do que um exagero cômico dos heróis militares que lhes conquistaram.
A fantasia de um Superman atormentou-lhes até mesmo no tempo de Cristo. O Filho do Homem
seria tal como o Superman? Seria o Reino de Deus uma versão mais poderosa de Roma? Como o Messias
destruiria Roma? Como a pedra intocada por mãos humanas estilhaçaria o quarto reino? Ninguém tinha a
resposta, pois, esta ambiguidade somente poderia ser clareada pelo Messias, o próprio Filho do Homem.
A chegada do reino é o tema central dos Evangelhos Sinóticos, e Jesus, chamando a si de “o Filho do
Homem” nos relembra que Ele cumpre o destino desta misteriosa figura. Jesus identificou-se como o
“Filho do Homem”, mas seus encontros com seus seguidores Judeus mostraram sua dificuldade em
distinguir o “Filho do Homem” da fantasia de um Superman.
Graetz afirma que “a rapacidade dos governadores Romanos” intensificou “a ânsia para a
libertação anunciada nas escrituras proféticas” de modo que “qualquer pessoa talentosa [...] encontraria
rapidamente discípulos e seguidores em sua missão Messiânica”. Isso teria sido como uma surpresa para
Jesus. O Evangelho de João descreve Jesus em debates cada vez mais acrimoniosos com “a ovelha perdida
da Casa de Israel”, o próprio povo que ele veio salvar, mas que, de acordo com Graetz, desejava aceitar
“qualquer pessoa talentosa” como seu Messias. O anseio dos judeus pela libertação da opressão Romana
aumentava a cada ano, mas ele se fixava em uma figura empenhado em um poder militar. O Nazareno
estava propondo uma coisa diferente, e o conflito com as expectativas dos judeus levaram-no a discussões
e recriminações cada vez amargas até os Judeus que rejeitassem a Jesus e finalmente buscassem a sua
morte.
A primeira vinda de Cristo criou uma crise entre os judeus. Nos Evangelhos, os judeus definem a
si mesmo por sua relação com o homem que se diz o “Filho do Homem”, ou o Messias. Como
consequência, a discussão das expectativas Messiânicas se torna rapidamente em uma discussão do que
significa ser um judeu. Klaus Wengst diz que “o Evangelho de João foi escrito fora da situação de duras
pressões de uma minoria de judeus cristãos que viveram após 70 d. C confrontados pela oposição da
ortodoxia rabínica”.
Se o Evangelho de João foi escrito após a destruição do Templo, com Wengst sustenta, ou antes,
como diz Markus Barth, a hegemonia Romana criou um contexto político para ambos os grupos de judeus,
tanto para “aqueles que rejeitaram a Cristo quanto para os judeus e não judeus que acreditavam que ele
era o Messias”.
O conflito entre esses dois grupos de Judeus permeia todo Evangelho de João. Neste Evangelho,
onde o termo “judeu” aparece 71 vezes, há uma discussão prolongada a respeito do que significa ser um
judeu. “Quem são os “judeus”? Bom, isso depende. A palavra tem diferentes significados em contextos
diferentes, mas o contexto cada vez mais específico e cada vez mais hostil que progride na narrativa do
Evangelho conduz, finalmente, a um racha entre “os judeus” e Jesus que o leva à sua morte.
Uma das consequências mais interessantes do ataque à Paixão de Cristo, de Mel Gibson, feito pela
Liga Anti-Difamação, foi o foco sobre se os Evangelhos são anti-semitas. Abraham Foxman e o Rabino
James Rudin condenaram o filme, pois ele continha a passagem de Mateus 27, 25, onde o povo judeu
disse a Pilatos: “Que seu sangue caia sobre nós e nossos filhos”. Mas, se a declaração é anti-semita, então
a culpa não recai sobre Mel Gibson, mas sobre São Mateus. Entretanto, Foxman e Rudin revelam sua real
posição, isto é, que os Evangelhos e, por extensão, a Cristandade, são intrinsecamente anti-semitas; Mel
Gibson precisa ser censurado porque ele faz publicamente esta a afirmação em um filme de grande
orçamento. O rabino Daniel Lapin ficou chocado com Foxman e Rudin, “apresentando a si mesmos como
líderes judeus” para fazer trazer os holofotes a si e prejudicar todos os judeus nos Estados Unidos, mas
Foxman e Rudin resumiram a questão honestamente, a partir de uma perspectiva especificamente judia,
ao concluir que os Evangelhos eram anti-semitas.
Phillip S. Kaufman, um judeu cristão e padre beneditino, tenta restaurar a civilidade ao insistir que
o Evangelho de São João é o menos anti-semita (pelo que ele quer dizer anti-judeu) dos Evangelhos.
Kaufman baseia seu argumento ao comparar as narrativas da Paixão, mas oculta o Capítulo 8 do
Evangelho de São João, especificamente 8, 44, onde Jesus diz aos “judeus” que “o demônio é o vosso
pai”, uma passagem que Caron considera a mais anti-semita do Novo Testamento. Tentando ser irênico,
Kaufman argumenta a tradução da frase joanina “ho Ioudaioi” para “Jerusalém oficial, líderes ou
autoridades”.
Kaufman provavelmente encontraria a simpatia do Rabino Lapin. Contudo, Lapin é a exceção que
prova a regra. Líderes judeus não seriam líderes se não tiverem seguidores, e seus seguidores continuam
sem se impressionar com o alcance ecumênico Católico. A consequência inevitável é a natureza
intrinsecamente anti-judaica das escrituras cristãs. De fato, o desapontamento é tão universal desde o
tempo de Nostra Aetate, declaração do Vaticano II sobre as religiões não cristãs, que a reavaliação e a
mudança de curso parece inevitável.
Em um diálogo entre evangélicos e judeus na Evangelical Academy of Arnoldshain, Alemanha,
em março de 1989, Micha Brumlik, um participante judeu, foi direto ao ponto. Como o diálogo é possível
se o “cerne irredutível” do Evangelho de São João é “intrinsecamente anti-judaico”? Se este Evangelho é,
como diz Brumlik, “repleto de ódio”, então a questão não é o diálogo inter-religioso, mas a identidade do
próprio cristianismo. Se o Evangelho de São João é normativo para o Cristianismo, então o Cristianismo
é uma religião de ódio, e não há vantagem num diálogo com seus fiéis. Brumlik se engaja no diálogo, mas
somente para denunciar os textos basilares da Cristandade como discurso de ódio. No Evangelho de São
João, escreve, “a mensagem que deveria levar o povo pelo caminho da fé e o Filho ao Pai, é, na realidade,
uma mensagem de marginalização, medo, ansiedade e ódio. Não há nenhum outro texto no Novo
Testamento onde o Cristianismo alcança mais plenamente a sua identidade não-judaica, e não há nenhum
outro texto no qual a marginalização dos judeus, pelo qual eu quero dizer judaísmo, é feita agudamente,
irreconciliável e intransponível que o Evangelho segundo João”.
São João consegue isso retratando os judeus “tanto na forma de uma Máfia espontânea como na
forma de uma liderança política e religiosa”, como “assassinos”. Até mesmo os judeus que criam em
Jesus, “na medida em que desejavam permanecer judeus”, foram denunciados como “filhos do Demônio”.
O cerne da questão, para Brumlik, está no Capítulo 8, que ele vê como “proto-racista” e
manifestamente “político e sócio-psicologicamente explicável como desilusões” ligadas a uma
“satanologia consistente” que demoniza os judeus e não lhes dá “nenhuma chance”. De acordo com
Brumlik, São João retrata os judeus como “um grupo de pessoas, que não reconhecem Jesus como o Filho
de Deus porque eles são ontologicamente e constitucionalmente incapazes de reconhece-lo como tal. Isto
é parte e parcela, de acordo com seu ponto de vista, de uma natureza satânica dos judeus. Eles não
reconheceram a Jesus, por isso, o perseguiram: “Por que não entendeis o que digo? Porque não podeis
escutar minha palavra. O Demônio é vosso pai, e preferis fazer o que vosso pai deseja. Ele foi mentiroso
desde o princípio e nunca esteve na verdade; não há nenhuma verdade nele”.
Os Evangelhos não são e não podem ser interpretados como anti-semitas, pois, como Caron
demonstra em Qui son les “juifs” de l’evangile de Jean?, “está claro que a expressão não inclui
inteiramente o povo judeu. Jesus e seus discípulos, assim como João Batista, são judeus”. O termo
“judeu”, de acordo com Caron, “não é usado num sentido étnico e racial”. Os Evangelhos não podem ser
anti-semitas porque os antagonistas são semitas. Os Evangelhos não defendem o ódio a indivíduos por
causa da raça; ser-lhes-ia impossível fazê-lo, pois os cristãos nos Evangelhos são todos judeus. Isso não
impede, entretanto, a natureza “anti-judaica” dos Evangelhos, a depender de como o termo será definido.
E como o termo “judeu” é usado? Brumlik não é útil aqui. Ele é incapaz de clarear a questão
porque a clarificação gira em torno da verdadeira identidade de Cristo. O Evangelho de São João, de
acordo com Brumlik, retrata os “judeus, de fato todos os judeus, na medida em que são judeus – isto é, na
medida em que se colocam como filhos de Abraão – como essencialmente inimigos malditos de Jesus”.
Jesus provavelmente objetaria, não porque a maldição não fosse uma real possibilidade para seus
oponentes (vide Mateus 23, 15; 23, 33), mas porque Brumlik os retrata como filhos leais de Abraão, algo
que Jesus rejeita em João 8, 37: “Se fosseis filhos de Abraão, fariam o que Abraão fez”.
O Evangelho de São João não é e nem pode ser considerado anti-semita, mas, ele é, como Brumlok
afirma, “judenfeindlich”? É anti-judeu? Segundo afirma o especialista em Escritura Raimond Brown,
Kaufman evita a questão, afirmando que, por “oi Ioudaioi”, São João quer dizer “líderes judeus”. “Para
capturar seu significado correto”, diz Kaufman, “tous Ioudaious e hoi Ioudaioi podem ser traduzidos no
mesmo verso como ‘Jerusalém oficial, líderes ou autoridades’”. Kaufman diz que “a tendência do passado
de alimentar antissemitismo pelo frequente uso do Evangelho da palavra ‘os Judeus’ poderia ser
‘eliminado pela tradução de hoi Ioudaioi como ‘Líderes hostis de Jerusalém’, visto que esta tradução é
justificada no contexto”. Kaufman queixa-se de que várias novas traduções da Bíblia eliminaram a
linguagem sexista, mas “não, ao mesmo tempo, corrigiram a linguagem ‘anti-judaica’”. Mesmo que
melhores traduções não sejam feitas, “tal correção deveria ser feita em lecionários e em todos os materiais
usados para leitura pública e para o estudo”.
Traduzir “oi Ioudaioi” como “líderes judeus” cria alguns problemas. Nicodemos e José de
Arimatéia eram líderes judeus, mas eles também eram seguidores de Cristo e isto prova que havia pouca
unanimidade entre líderes e seguidores. Brumlik certamente rejeita a tradução de oi Ioudaioi como
“líderes” porque ela oculta o que São João deixa claro, isto é “que ele não está falando somente sobre os
Fariseus, mas sobre todos os judeus”. No começo do Evangelho de São João, hoi Ioudaioi significa todos
os judeus; no final deste Evangelho ele significa todos os judeus que rejeitaram a Cristo.
Os judeus não são Judeanos ou Fariseus ou outros grupos opondo-se aos seguidores de Jesus; eles
são, na opinião de Brumlik, o povo judeu. O fato de que a “palavra Divina” dos Cristãos era um judeu não
muda a natureza fundamentalmente anti-judaica de seu evangelho. Brumlik conclui que o dilálogo entre
Cristãos e Judeus é impossível se se tomar o Evangelho de São João como ponto de partida. Não há acordo
possível porque Jesus é a essência do Cristianismo, de acordo com o Evangelho, e sua essência é
“precisamente o que os judeus, na medida em que permaneçam judeus, devem rejeitá-lo”.
Brumlik inadvertidamente faz a mesma coisa com São João. Para manter sua “identidade”, os
“judeus” tiveram que rejeitar a Cristo. Os “judeus” (ao contrário grupo ético, alguns dos quais aceitaram
a Cristo como o Messias) criaram uma nova identidade para si, uma identidade que é essencialmente
negativa.
São João conduz gradualmente os seus leitores ao seu entendimento de como os judeus definem a
si em encontros com Cristo em seu Evangelho. Judeu, no contexto do Evangelho de São João, não pode
significar todos os judeus num sentido étnico ou racial, uma vez que o próprio Jesus foi judeu, assim como
seus discípulos. Caron diz que “este uso particular de ‘oi Ioudaioi’, no contexto da narrativa do evangelho,
não permite a possibilidade de usar a expressão em qualquer sentido nacionalista ou étnico”. Igualmente,
Caron nega que “oi Ioudaioi” possa ser traduzido como “líderes judeus”.
Mas o que São João quer dizer quando fala dos “judeus”? Quando São João usa as palavras “oi
Ioudaioi”, ele está se referindo a um grupo que tinha rejeitado a Cristo. A vinda de Cristo mudou a
identidade judaica para sempre, algo que os judeus de seu tempo compreenderam com dificuldade. A
partir de então, os termos “israelita” e “judeu” não seriam mais sinônimos, pois, como Ferdinand Hahn
assinala no livro de Caron, na perspectiva cristã, “os ‘verdadeiros Israelitas’ são precisamente aqueles
que, como Natanael, reconhecem Jesus como o Messias”.
O conflito que define o que é um “Judeu” no quarto evangelho é essencialmente religioso. Caron
sugere que, quando São João faz uso de “oi Ioudaioi”, ele quer dizer “Judaísmo”. Mas o que Judaísmo
significa? Ambos os termos são definidos nas narrativas de João. Os Judeus definem a si e sua religião à
luz da proclamação de Jesus ser o Messias. Caron observa que o diálogo com os Judeus invariavelmente
ocorre durante um festival religioso, quando Jesus ou está em Jerusalém, ou está a caminho. “Não é
coincidência”, escreve, “que a confrontação com Jesus ocorra precisamente por ocasião daquelas
celebrações”. O Judaísmo celebra a identidade dos “Judeus”, suas origens, sua história e seu passado, e
qualquer um que questione um destes elementos, como Jesus o fez, é uma ameaça a esta identidade. Os
festivais celebram e confirmam a identidade judaica. Os encontros entre Jesus e os “Judeus” ocorriam
durante os festivais porque, para São João, a identidade judaica gira em torno da pessoa de Jesus.
O cristianismo está intimamente ligado a Cristo. O judaísmo está igualmente e intimamente ligado
a Jerusalém. O “Judaísmo em questão toma um caráter oficial. É sua instalação em Jerusalém e sua
hostilidade a Jesus”. É “le principal accusateur” de Jesus (o principal acusador de Jesus). Seu quartel
general fica em Jerusalém onde todas as confrontações entre Cristo e os “Judeus” ocorrem; é o centro da
“hostilidade sistemática do ‘Judaísmo’ contra Jesus”.
São João menciona essa hostilidade sistemática em seu relato sobre o homem nascido cego e
curado por Jesus. A notícia do milagre se espalha, mas “os Judeus [ênfase minha] não acreditavam que o
homem fora curado”. Para confirmar (ou desacreditar) a história, os “Judeus” enviam aos pais do homem
(que, como o que fora curado, eram Judeus), que, intimidados, recusaram-se a falar “porque temiam os
Judeus, pois os judeus tinham ameaçado expulsar da sinagoga todo aquele que reconhecesse Jesus como
o Cristo”.
Brumlik afirma que não há evidência de uma dissensão intra-Judaica fora dos relatos do
Evangelho, embora haja muito destes relatos dentro deles. Alguns comentadores afirmam que isso indica
uma projeção de tempo anterior ao tempo em que os Evangelho foi escrito, em torno de 170 d. C. O
testemunho de João, que diz que ele foi uma testemunha cujo “testemunho é verdadeiro” é que a cisão foi
virtualmente contemporânea ao ministério público de Jesus. É difícil ver como isso poderia ser de outra
forma. A afirmação de que Jesus era o “Filho do Homem” exigia uma decisão dos Judeus. Em João 7, 11,
lemos que "Buscavam-no os Judeus durante a festa e perguntavam: 'Onde está ele? E na multidão só se
discutia a respeito dele. Uns diziam: 'É homem de bem'. Outros, porém, diziam: 'Não é; ele seduz o povo'.
Ninguém, contudo, ousava falar dele livremente com medo dos judeus".
O significado de “Judeu” neste contexto é claro: um Judeu é abertamente hostil a Cristo e deseja
perseguir aqueles Judeus que o aceitem como o Messias. A menção de João a respeito do “medo dos
judeus” indica que Judeus tinham medo dos “Judeus”. O bem-estar dos Judeus que aceitavam a Cristo era
ameaçado pelos Judeus que o rejeitavam. Os pais do homem nascido cego tinham “medo dos Judeus”
porque os “Judeus” ameaçavam expulsar os seguidores de Jesus, também Judeus, das sinagogas. A
identidade dos dois grupos era essencialmente religiosa, não étnica; e as duas definiam-se em função de
Cristo. Os Judeus que reconheciam a Cristo eram expulsos das sinagogas; os Judeus que o rejeitavam, o
povo que João chama de “os Judeus” definiam a si mesmos por esta rejeição.
Insatisfeitos pela evasão dos pais, os “Judeus enviaram ao homem” um questionamento. Eles o
interrogaram e disseram que desse “Glória a Deus” para testemunhar contra Jesus, pois “de nossa parte,
sabemos que este homem é um pecador”. O homem recusou ser intimidado pelos “Judeus”. “Eu somente
sei”, disse, “que eu era cego, e agora eu posso ver”. Quando “os Judeus” pediram para repetir a sua
história, presumivelmente para colocá-lo em contradição, o homem se recusa: “Eu falei uma vez e vocês
não acreditaram. Por que desejam escutar novamente? Desejam tornar-se discípulos também?”. A este
ultraje “os Judeus” respondem que são “discípulos de Moisés”.
Em outra ocasião, Jesus rejeita a afirmação deles serem discípulos de Moisés. Em João 5, 45, Jesus
diz aos “Judeus”:

Não julgueis que vos hei de acusar diante do Pai; há quem vos acuse: Moisés, no qual
colocais a vossa esperança. Pois, se crêsseis em Moisés, certamente creríeis em mim, porque
ele escreveu a meu respeito. Mas, se não acreditais nos seus escritos, como acreditareis nas
minhas palavras?

A vinda de Jesus, de acordo com São João, é definitiva para todos os Judeus. Ele também traz uma
descontinuidade radical na história, pois aqueles que afirmam ser seguidores de Moisés não são o que
dizem ser. Eles são opositores: ao rejeitar a Cristo, eles rejeitam Moisés e tudo o que foi dito por ele. O
termo “Lei”, usualmente usado no mesmo contexto de Moisés, o legislador, é também enganoso. Jesus
recusa admitir que “os Judeus” são verdadeiros quanto a lei de Moisés. Em vez disso, ele refere
repetidamente aos “Judeus” como seguindo “vossa lei”. Como diz Caron, “A expressão ‘lei’ não se refere,
neste caso, à lei de Moisés ou aos escritos de Moisés, mas, em vez disso, à lei dos ‘Judeus’ ou a dos
fariseus... Os Judeus não são fiéis à primeira, mas à sua própria lei, ou, em outras palavras, a uma falsa
interpretação da lei de Moisés”. O Judaísmo oficial de Jerusalém, portanto, não é o que pretende ser. Esse
Judaísmo não é o Judaísmo de fato, mas, como Caron diz, um “pseudo-Judaísmo”. Os “Judeus” são fiéis
à “lei deles”, não à lei de Moisés.
O que é a verdade a respeito de Moisés face aos “Judeus” que afirmam ser seus filhos é também a
fortiori verdade a respeito de Abraão. Como a discussão da descendência espiritual vai do capítulo 5 ao
8, os termos se tornam mais claros. Em vez de falar sobre a lei, os “Judeus” falam sobre “sperma” ou a
herança biológica de seu status como povo escolhido. Em ambos os casos há uma descontinuidade radical
na história. Em outras palavras, a continuidade não é o que parece. Aqueles que aceitam a Cristo são os
filhos de Abraão e Moisés. Aqueles que se dizem “Judeus” são mentirosos.
Não julgueis que vos hei de acusar diante do Pai; há quem vos acuse: Moisés, no qual colocais a
vossa esperança. Pois, se crêsseis em Moisés, certamente creríeis em mim, porque ele escreveu a meu
respeito. Mas, se não acreditais nos seus escritos, como acreditareis nas minhas palavras?
São João era Judeu. Ou melhor: São João era Judeu, não “um Judeu”. De acordo com Overbeack:
“o autor do quarto evangelho não é um pagão Cristão, mas um Judeu helênico”. Por que, então, São João
se refere aos “Judeus” como forasteiros que estavam determinados a matar a Cristo? A resposta mais uma
vez gira em torno do significado desenvolvido no Evangelho.
João começa descrevendo o encontro de Jesus com a mulher Samaritana. Jesus diz: “Vós adorais
o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos”. Esta dicotomia é simples. Jesus é um Judeu; a
Samaritana não é. A distinção é importante porque, como Jesus diz, “a Salvação vem dos Judeus”. Sua
declaração é franca; os Judeus são um grupo étnico que foi escolhido como povo de Deus. Deste grupo
vem a salvação. Então, como que para complicar as coisas, Jesus acrescenta: “virá a hora, e ela já veio,
quando os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade”.
Agora que Jesus veio, as categorias “Judeu” e “verdadeiros adoradores” não são mais sinônimos.
A salvação vem dos Judeus, isto é, de um grupo étnico que afirma ser o povo escolhido. Quando Jesus
chega, entretanto, a situação muda, pois os Judeus devem aceitá-lo para permanecer Israel. Os Judeus
devem aceitar a Cristo para serem “verdadeiros adoradores” que “adorarão ao Pai em espírito e em
verdade”.
A implicação desta mensagem enigmática à Samaritana somente se torna perceptível quando Jesus
confronta os Judeus, e em sua confrontação, o significado da palavra “Judeu” também se torna perceptível.
João usa a expressão “Judeu” das duas formas. Ele começa dizendo que a “Salvação vem dos Judeus”, e
termina dizendo que aqueles que dizem ser “Judeus” não são filhos de Abraão ou de Moisés, mas, em vez
disso, têm Satanás como pai. Da identificação da palavra Judeu com “nós”, como Ele fez com a
Samaritana, Jesus passa a referir-se ao que João chama de “Judeus” como “vós”, isto é, a um grupo que
não inclui Jesus. Aceitar ou rejeitar o Messias se torna a principal forma de definição desta palavra.
João esclarece isso no capítulo 8. A discussão se acalora progressivamente, culminando num racha
irreparável entre Jesus e “os Judeus”, quando Jesus diz a “eles”, isto é, “aos Judeus”: "Eu me vou, e vós
me procurareis e morrereis no vosso pecado. Para onde eu vou, vós não podeis ir".
A questão do que significa ser um “Judeu”, portanto, só pode ser resolvida com a questão da
identidade de Cristo. Cristo é a antítese do pecado. Todo aquele que rejeita a Cristo morrerá em seus
pecados. “já vos disse”, afirma Cristo aos “Judeus”, “morrereis em vossos pecados”. Os “Judeus”
redefiniram a si mesmos pela rejeição a Cristo como o Messias. Eles propunham falsas dicotomias –
Moisés vs. Jesus; Abraão vs. Jesus – que, não obstante, se tornam a característica essencial que define o
que é um “Judeu”. Assim, o termo “Judeu” é aos poucos redefinida no Evangelho de São João, até que,
no final dele, significa algo diferente do que significava no começo. Esse novo significado requer o
desajeitado uso de citações em aspas para o termo “Judeu”. Com a vinda de Cristo e a anunciação de seu
ministério como o “Filho do Homem”, o termo “Judeu” tem quase que completa e exclusivamente um
significado étnico, isto é, despojado de qualquer noção de escolha, ou tem um significado completa e
exclusivamente teológico: um “Judeu” é alguém que rejeita a Cristo e, como resultado, irá morrer em seus
pecados. Após os Judeus rejeitarem a Cristo, o Judaísmo cessou de ser uma religião e se tornou uma
ideologia. Ou, em outras palavras, ele deixou de ser uma verdadeira religião (de fato, a única verdadeira
religião), para ser uma falsa religião, assim como o Islã, o Mormonismo, a Cientologia, etc., a despeito
do fato de que se reivindique a Palavra de Deus como seus textos fundacionais. Israel perde
simultaneamente sua base biológica. O Novo Israel, os verdadeiros filhos de Moisés e Abraão, são agora
a Igreja.
Os Judeus, conscientes da redefinição de sua identidade, não estão felizes e tentam retornar a
discussão de seu papel como o povo escolhido ou um grupo étnico favorecido por Deus. Os Judeus
respondem à denúncia de Jesus dizendo, “nós somos descendência de Abraão”. A palavra Grega é
instrutiva, pois os Judeus dizem para Jesus que são “Sperma Abraam esmen”, isto é “somos o esperma de
Abraão”, ou compartilhamos o DNA de Abraão e temos exclusiva posse, portanto, da necessária, se não
suficiente, condição para a salvação. Jesus, entretanto, muda o termo “Sperma” para “Tekna”, parando de
falar em DNA, ou “semente”, e passando a falar a respeito dos “filhos”.
Quando os Judeus repetem “nosso pai é Abraão”, Jesus responde: “Ei tekna tou Abraam est, ta
erga tou Abraam epoieite”. “Se fosseis filhos de Abraão (Tekna não Sperma), faríeis o que Abraão fez”.
Desse modo Jesus nega que a salvação dos Judeus vem tanto através do DNA, quanto através de
sua versão da lei. A diferença entre eles se torna irreconciliável, e a violência inescapável. Os “Judeus”
sentiam que Jesus lançava calúnias sobre seus pais. “Nós não somos filhos da prostituição”, exclamaram
com raiva. Jesus coloca mais lenha na fogueira: “Se fosseis filhos de Abraão”, disse Jesus, lançando
dúvida sobre sua herança,

“Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. Mas, agora, procurais tirar-me a vida,
a mim que vos falei a verdade que ouvi de Deus! Isso Abraão não o fez.”

A cólera dos Judeus e a verdade de Cristo se colidem, e da colisão vem a nova definição do que
significa ser um “Judeu”.
“O que estais fazendo”, diz Cristo aos “Judeus”, “é o que vossos pais fizeram”.
Os “Judeus”, sentindo-se insultados, afirmam que não são “nascidos da prostituição”. Mas seu
biologismo é deixado de lado na questão. Um filho de Deus é conhecido não por seu DNA ou Sperma,
mas pelo que ele faz, como os próprios “Judeus” tinham que admitir. Os “Judeus” reivindicavam ter Deus
como seu pai, mas suas ações indicam o oposto. “Se”, relembra Jesus, “Deus fosse vosso pai, vós teríeis
me amado”. Uma vez que os “Judeus” não amam a Cristo, Deus não é seu pai. Ou Seus interlocutores são
Judeus ou Cristo é um Judeu, mas, de acordo com São João, ambos não podem ser membros do mesmo
grupo. De fato, eles nem mesmo falavam a mesma linguagem "Por que não compreendeis a minha
linguagem?" Cristo responde aos "Judeus": "Porque não podeis ouvir a minha palavra". Então o capítulo
8 alcança seu ápice: os “Judeus” não são filhos de Deus. Seu pai é Satanás. “O demônio”, diz Jesus aos
“Judeus”, é vosso pai e vós preferis fazer o que vosso pai deseja”.
Os Judeus são transformados por seu encontro com Cristo. Aqueles que o aceitam se tornam o
Novo Israel conhecido como a Igreja. Estes são os verdadeiros “filhos” de Abraão e Moisés. Aqueles que
rejeitam a Cristo se tornam “Judeus” ou seguidores de Satanás. O “Judeu”, cujo pai é Satanás, “mentiroso
desde o princípio”, define a si mesmo por sua rejeição a Cristo e à Verdade. Neste momento, Israel deixa
de ter uma designação étnica. O antigo Israel estava determinado pelo DNA; era a “semente” de Abraão.
O novo Israel, que “adora em espírito e em verdade” é determinado inteiramente pelo comportamento,
mas significantemente pela aceitação de Cristo e de sua mensagem. A Igreja é o novo Israel.
As Epístolas de São Paulo são consistentes com o Evangelho de São João. “Porque nem todos os
que descendem de Israel são verdadeiros israelitas”, escreve em Romanos 9, 6, “como nem todos os
descendentes de Abraão são filhos de Abraão; mas: É em Isaac que terás uma descendência que trará o
teu nome. Isto é, não são os filhos da carne que são os filhos de Deus, mas os filhos da promessa é que
serão considerados como descendentes”.
O DNA é químico; filhos são indivíduos agindo. Os termos da eleição mudaram. Somente aqueles
“que seguem esta regra”, escreve Paulo em Gálatas 6, 16, “descendem de Israel de Deus”. Assim como a
consciente escolha e o comportamento consistente agora formam a única base dos membros do Novo
Israel, os “Judeus” tiram do DNA a base de todas as subsequentes ideologias de raça, desde o Nazismo
ao Sionismo. Os proponentes da raça sempre escolheram as mais primitivas formulações de comunidade
que levaram à escravidão intelectual em vez da liberdade baseada na escolha proposta pelos Evangelhos.
A confrontação entre Jesus e os “Judeus” conduz, primeiro, a uma redefinição da palavra “Judeu”,
a qual, outrora usada para referir-se ao povo escolhido, agora e refere àqueles que rejeitam a Cristo. Antes
usada como sinônimo de Israel, agora significa seu oposto. O uso de São João de “oi Ioudaioi” aponta
uma das mais profundas e radicais descontinuidades da história. Aqueles que, de acordo com os “Judeus”,
parecem rejeitar a religião de Moisés e de Abraão são os verdadeiros filhos de Moisés e Abraão. Eles são
a Igreja, o Novo Israel.
Quem são, portanto, os “Judeus”? Em Apocalipse 2, 9, João defende a nascente comunidade Cristã
contra os “Judeus” descrevendo que “caluniosas acusações” contra os Cristãos “têm sido feitas pelo povo
que se diz Judeu, mas são na verdade a sinagoga de Satanás”. Ele retorna ao tema em Apocalipse 3, 9,
referindo-se à “sinagoga de Satanás” como “aqueles que se dizem Judeus mas são mentirosos, pois eles
não são de fato”. O anjo visitando a sitiada comunidade Cristã em Filadelfia compelirá os “Judeus” a “cair
aos seus pés e admitir que são o povo que eu amo”. Assim como os judeus que rejeitaram a Cristo têm
um novo nome, a “sinagoga de Satanás”, o grupo de Judeus que o aceitam, agora alargado por Gentios
conversos, será de agora em diante conhecido como “a nova Jerusalém que desce de meu Deus no Céu”.
Escritores cristãos posteriores tentaram evitar a confusão que flui deste uso conflitante da palavra “Judeu”
ao referir-se à Igreja como o “Novo Israel”. Em vez da palavra “Judeu”, cujo significado muda
dramaticamente, “Israel” tem somente conotações positivas.
A vinda de Cristo trouxe, nas palavras de Wengst, “um ponto de inflexão em ambas economias
religiosas”. A Igreja é agora o verdadeiro Israel, e o “povo que professa ser Judeu” é na verdade composto
de mentirosos e membros da “sinagoga de Satanás”. Uma vez que o termo “Judeu” é redefinido, nenhum
diálogo posterior ou compromisso é possível. Jesus diz aos “Judeus” que “vosso pai é Satanás”, e eles
retribuem o favor buscando matá-lo, decisão que, nas palavras de Caron, “confirma num dramático
costume a diabólica identidade dos Judeus”.
O Pseudo-Judaísmo – termo proposto por Caron como sinônimo de “oi Ioudaioi” – foi o
responsável pela morte de Cristo. Aqueles que O rejeitam se tornam “os Judeus”, isto é: representantes
não da religião de Abraão e Moisés, mas, em vez disso, aderentes a uma nova ideologia, que, dentro da
geração seguinte após a morte de Cristo se torna o centro do fermento revolucionário no império Romano.
A despeito do ceticismo daqueles, como Gamaliel (Atos 5, 33-40), que urgiam precaução tanto em relação
aos Cristãos quanto a outras reinvindicações messiânicas, a ideologia revolucionária inexoravelmente
ocupou o espaço. Após ter falhado em conquistar Roma, a sua ideologia revolucionária adormeceu por
1000 anos para somente reemergir nos impérios Cristãos, quando a era moderna inicia.
Tentando colocar a relação da Igreja com os judeus num novo trilho após o Holocausto, os padres
do Vaticano II publicaram o Nostra Aetate, que diz:

Ainda que as autoridades dos judeus e os seus sequazes urgiram a condenação de Cristo à
morte (13) não se pode, todavia, imputar indistintamente a todos os judeus que então viviam,
nem aos judeus do nosso tempo, o que na Sua paixão se perpetrou. E embora a Igreja seja o
novo Povo de Deus, nem por isso os judeus devem ser apresentados como reprovados por
Deus e malditos, como se tal coisa se concluísse da Sagrada Escritura.

Uma extrapolação desta passagem é que o assassinato de Cristo foi um crime cometido por alguns
Judeus no tempo de Cristo. Ao descrever aquele povo, Nostra Aetate identifica-os às “autoridades dos
judeus e os seus sequazes”. São João os identifica como “chefe dos sacerdotes e os guardas” que gritaram
“Crucifiquem-no! Crucifiquem-no!”, quando Pilatos apresentou Jesus vestindo uma coroa de espinho e
um manto de púrpura. Na narrativa da Paixão, São João os identifica como “os Judeus”. O próprio Jesus
identifica quem é o grupo que está planejando matá-lo: "Nosso pai" – replicaram - "é Abraão". Disse-lhes
Jesus: "Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. Mas, agora, procurais tirar-me a vida, a
mim que vos falei a verdade que ouvi de Deus! Isso Abraão não o fez" (João 8, 29).
O grupo que “deseja matar-me” também diz: “somos descendentes de Abraão”, isto é, que são
“Judeus”. E assim aqueles “Judeus”, com a colaboração de Pilatos, mataram a Cristo. Cristo foi morto
não por “todos os Judeus indiscriminadamente”, mas pelos Judeus que rejeitaram a Cristo. De acordo com
a leitura de Caron, “o julgamento de Jesus e sua condenação foi, sem equívoco, obra dos Judeus... não é
a ‘palavra’ que matou Jesus, mas, em vez disso, os Judeus Joaninos”. “É particularmente significante que
todas as referências à morte de Jesus referem-se aos ‘Judeus’”. A conclusão, especialmente à luz de Nostra
Aetate, é inescapável: os “Judeus” (que Caron chama “les Juifs johanniques”) mataram a Cristo.
“Que grande angústia causada por uma execução!” Escreve Graetz em sua história dos Judeus:
“Quantas mortes e sofrimentos de todo o tipo não ocorreram entre os filhos de Israel. Milhões de corações
partidos e trágicos destinos ainda não expiados por sua morte. Ele é o único mortal de quem alguém pode
dizer, sem exagero, que sua morte foi mais efetiva que sua vida”.
Graetz, num costume Judeu, refere-se às Cruzadas, à Inquisição, aos pogroms e a todas as outras
inomináveis tragédias onde os Judeus morreram nas mãos de pelo menos cristãos nominais como fruto da
Cristandade. Ele também está sendo Judeu, no sentido em que São João definiu a palavra, ao ver o
Cristianismo como a fonte da aflição dos Judeus. Graetz tem o direito de ver a morte de Cristo como o
começo das dores dos Judeus, mas esta calamidade foi auto-infligida, como que o seu resultado. Apesar
do infame comportamento dos perseguidores “cristãos”, a origem deve ser encontrada em outro lugar. A
fonte da aflição dos Judeus foi o espírito revolucionário que procedeu inexoravelmente da rejeição de
Cristo. Foi também o espírito de revolução que incitou os Judeus a rejeitarem a Cristo, seja daqueles que
queriam uma revolução ou aqueles, como Caifás, que esperavam evitar tal revolução com tudo o que ela
implicaria. Os judeus queriam um líder militar que derrotasse as legiões Romanas, não um homem que os
Romanos pudessem matar na Cruz. A respeito da Paixão, escreve Mateus:

Os que passavam o injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam: "Tu, que destróis o templo
e o reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!".
Os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam dele: "Ele
salvou a outros e não pode salvar-se a si mesmo! Se é rei de Israel, desça agora da cruz
e nós creremos nele!"

Escrevendo 1000 anos após a morte de Cristo, Maimônides estabeleceu o critério pelo qual o povo
poderia identificar o seu Messias. “Se”, escreveu, “surgir um rei da Casa de Davi, versado na Torá [que]
cumpra os mandamentos como Davi, seu ancestral [...], e empreender uma guerra de Deus, ele pode ser
considerado o Messias. Se ele, com sucesso, construir o Templo em seu lugar próprio e ajuntar os judeus
dispersos de Israel, então ele certamente é o Messias”.
Os que passavam o injuriavam, sacudiam a cabeça e diziam: "Tu, que destróis o Templo e o
reconstróis em três dias, salva-te a ti mesmo! Se és o Filho de Deus, desce da cruz!". Os príncipes dos
sacerdotes, os escribas e os anciãos também zombavam dele: "Ele salvou a outros e não pode salvar-se a
si mesmo! Se é Rei de Israel, desça agora da cruz e nós creremos nele!"
800 anos após Maimônides, Graetz diz a mesma coisa: “O único obstáculo para a crença deles
[dos “Judeus”] reside no fato de que o Messias que veio guiar Israel e levá-lo à luz da glória do reino do
céu teve uma morte vergonhosa. Como poderia o Messias ser sujeito a tal sofrimento? Um Messias
sofredor os desconcertou consideravelmente”.
Mais uma vez, os “Judeus” definiram a si mesmo por sua rejeição a Cristo, uma decisão com
consequências incalculáveis. Uma vez que os “Judeus” definiram um sofrimento do Cristo como uma
contradição de termos, tornou-se inevitável a sua rejeição ao Logos inevitável. E, uma vez que rejeitaram
o Logos, pavimentaram o caminho para a rejeição de todo Logos. Tendo feito isso, embarcaram sob um
caminho de atividade revolucionária que os levou à aflição quase que imediata. Todos os seus atos de
definição de si giram em torno de Cristo e, uma vez que o Messias Judeu não pode ser um servo sofredor,
deveria ser um rei guerreiro. Visto que os Judeus não regem sua própria nação, este rei deveria ser um
revolucionário que derrubasse a cultura política dominante. No tempo de Maimônides, esta definição
tornara-se axiomática. Se aquele que afirmasse ser o Messias não o fizesse através de um critério
completamente político e revolucionário, ele não seria, ipso facto, o Messias. O Messias deveria ser um
Revolucionário Judeu. Isto, não a perseguição pelos Cristãos, foi a profunda fonte de sua angústia, pois a
posição revolucionária do Judeu, redefinida por toda a história de insurreições políticas a subversão
cultural, levou-lhes a uma perseguição como reação: perseguição que afligiu culpados e inocentes.
Através da sua rejeição ao Logos, que era simultaneamente a Pessoa de Cristo e a Ordem no
universo, incluindo a ordem moral, que proveio da mente divina, o “Judeu” viu-se inexoravelmente preso
à revolução. Aos pais do homem nascido cego “os Judeus .... tinham já ameaçado expulsar da sinagoga
qualquer um que reconhecesse Jesus como o Cristo”. Após a crucificação de Cristo, os “Judeus”
continuaram a ameaça. Brumlik afirma que “a reconstituição do Judaísmo como rabínico ou farisaico”
começou “com a maldição dos hereges da 18º petição”. Esta maldição direcionada aos novos Cristãos foi
formulada e implementada entre 80 e 120 d. C., que é quando os eruditos dizem que o Evangelho de João
foi escrito. O Judaísmo era uma “religio licita”, ou uma religião permitida – uma religião isenta de
sacrificar ao imperador. A exclusão da sinagoga deve ter infligido severas dificuldades aos judeus
seguidores de Jesus, pois eles assim perdiam esta proteção.
Brumlik nega que a exclusão das sinagogas ocorreu quando São João diz, isto é, no tempo de
Cristo. Ele admite que isso afetou aos cristãos; entretanto, falha em ver o mais devastador efeito sobre os
“Judeus” quando isso transformou a sinagoga numa célula de atividade revolucionária. Após Cristo, a
influência Zelota sobre os “Judeus” cresceu em direta proporção ao número de Judeus expulsos da
sinagoga. Este processo culminou na revolução aberta quando os Judeus se colocaram contra a hegemonia
Romana em 66 d. C.
O processo é simples de entender. “Os fanáticos tinham uma carta na manga”, diz Kevin
MacDonald, “forçando os outros judeus a ou aderir a sua agenda ou simplesmente deixar de ser parte da
comunidade judaica”. MacDonald discute aqui o desenvolvimento do Sionismo, mas sua descrição se
aplica igualmente àqueles que ameaçaram os pais do homem nascido cego com expulsão. Esta dinâmica
tem funcionado através da história “judaica” desde os tempos de Cristo (MacDonald descreve isso mais
adiante). Os judeus que fizeram objeções à histeria que reinou quando judeus proclamaram Sabbetai Zevi
o seu Messias também foram expulsos da sinagoga. Alguns deixaram a cidade para salvar a sua vida e a
de sua família. Em ambos os casos, “os mais radicais” na comunidade judaica “terminaram empurrando
a comunidade inteira sob sua direção”.
“Os radicais que determinaram a direção da comunidade judaica” após a morte de Cristo ficaram
conhecidos como os Zelotes. Os Judeus que seguiram a Jesus foram expulsos da sinagoga, assim como
hoje: “Judeus vivendo na Diáspora que não apoiam o partido Likud em Isarel estão sendo retirados da
comunidade judaica”. Seguindo a morte de Cristo, os “judeus” se tornaram progressivamente mais
acometidos a atividades revolucionárias, isto é, a operações militares, para lançar fora o jugo da
hegemonia Romana. O movimento inexorável do povo judeu através da revolução começou quando, como
Mateus coloca, “o chefe dos sacerdotes e anciãos ... persuadiu para que pedisse a soltura de Barrabás e a
execução de Jesus”. Isso foi ratificado quando Anás e Caifás disseram a Cristo que eles poderiam aceitá-
lo como o Messias se Ele descesse da Cruz. A rejeição a Cristo estava intimamente ligada à aceitação de
Barrabás, o Zelota, i. e., escolhendo o judeu revolucionário no lugar do Cristo sofredor. Ao escolherem
Barrabás, os “judeus” escolhem a revolução. Rejeitando a Cristo, os “judeus” escolhem a revolução,
colocando em curso eventos que foram depois uma maior tragédia para Massada. Graetz cita Flávio
Josefo, judeu assimilado que escreveu A Guerra Judaica, como uma autoridade para estabelecer o papel
da política revolucionária messiânica na revolta contra Roma: “De acordo com Josefo, foi principalmente
a crença no iminente advento de um reino messiânico que lançou os judeus numa guerra suicida que
terminou com a captura de Jerusalém e a destruição do Templo em 70 d. C. Até mesmo Simão bar-
Kokhba, aquele que liderou a última grande luta por uma independência nacional em 131 d. C, foi também
saudado como Messias.
A insurreição de 66 d. C começou quando Florus, um governante romano, usou um pequeno
tumulto em Jerusalém como pretexto para pilhar o Templo. Os judeus apressaram-se a defender o Templo,
jogando pedras nos soldados Romanos, barrando sua passagem através do pátio de entrada e demolindo
as colunas do Forte Antônia. A revolução começou inadvertidamente, mas o caminho já fora traçado. A
combinação da arrogância Romana e a expectativa judaica da vinda de um Messias militar tonou
inevitável o conflito.
A população judaica dividiu-se entre os Zelotes e o partido da paz, que girava em torno da escola
rabínica de Hillel, entre os quais estavam o Rei Agripa e a Princesa Berenice. “O partido que favoreceu a
revolução”, reuniu-se em torno da rigorosíssima escola de Shammai. Quando Florus saqueou o Templo,
foi frustrado pela resistência popular e o futuro de Jerusalém pendeu na balança. Agripa reuniu a alta
tribuna oposta ao Templo, com a popular Princesa Berenice ao seu lado, tentando persuadir que resistir
os conduziria ao desastre. Muitos foram convencidos por seus argumentos e sentiram que a hegemonia
Romana sem Florus poderia funcionar, e então Agripa concentrou a sua retórica nisso. Mas quando Agripa
tentou persuadi-los a obedecer Florus até que Roma o substituísse, “o partido revolucionário mais uma
vez se levantou e Agripa foi obrigado a fugir de Jerusalém”.
Os revolucionários então controlaram o povo judeu, os quais se recusaram a pagar impostos a
Roma. Menahem, descendente de Judas, fundador dos Zelotas, derrotando a guarnição romana, capturou
o forte de Massada. Depois de se apoderar do arsenal romano, Menahem e seus seguidores apareceram
no campo de batalha dirigindo-se em direção à legião romana desde a palestina.
Eleazar, líder dos Zelotas, também levou os seus seguidores ao campo de batalha. Ele “soprou o
espírito revolucionário do povo e os guiou à completa ruptura com Roma”. Persuadiu aos sacerdotes
judeus a parar de oferecer o sacrifício diário ao imperador Nero, levando-os, portanto, à revolução. Os
aderentes da escola de Hillel clamaram que era ilegal recusar as ofertas dos pagãos ao Templo, mas seus
apelos encontraram ouvidos surdos. “Os sacerdotes em ofício [...] lançaram a si mesmos sem reservas no
redemoinho da revolução. A partir desse momento o Templo obedeceu ao seu chefe, Eleazar, e se tornou
o berço da insurreição”. Esperando evitar as medidas draconianas dos Romanos, Agripa enviou sua
cavalaria para lutar ao lado dos remanescentes da guarnição Romana na Judéia, mas eles não conseguiram
expulsar os Zelotas do Templo. O contra-ataque dos Zelotas afugentou os Romanos da cidade. Os Sicarii,
facção terrorista sob o comando de Menahem, rompeu as defesas do forte onde os Romanos fizeram sua
última resistência e os abateram. A revolução libertara Jerusalém temporariamente.
Gravemente subestimando a ameaça dos judeus revolucionários, Nero enviou seu general Cestius,
que foi de Antióquia a Jerusalém com 30.000 soldados experimentados. Assim como Nero, Cestius
subestimou o fervor dos judeus revolucionários e inconsideradamente os atacou frente aos muros de
Jerusalém, onde eles infligiram uma derrota atordoante às legiões Romanas.
O imperador Nero, na Grécia cantando para as multidões e os impressionando com sua habilidade
com os cavalos (charioteer), estremeceu-se ao saber da derrota de Cestius, “pois a revolução na Judéia
poderia ser percussora de graves eventos”. A ideia da revolução era essencialmente judia, praticada pelos
judeus para libertar o seu país do domínio de Roma, mas ela poderia ser extrapolada e refinada para
aplicar-se a outras nações. Os revolucionários judeus possuíam uma ameaça muito maior à hegemonia
Romana do que os membros rebeldes de outras tribos, cujos conflitos nunca transcendiam do local.
Os revolucionários judeus possuíam outra ameaça, pois, como os judeus em Roma no Monte
Vaticano, havia colônias de judeus por todo o Império. Cada uma delas era uma célula revolucionária em
potencial, fortalecendo não somente os judeus, mas urgindo outros grupos étnicos subjugados para
semelhante revolta. A visão revolucionária judaica era tanto etnocêntrica quanto altruísta. Como povo
escolhido por Deus, eles levariam a libertação revolucionária às nações. Os judeus revolucionários viam
a si mesmos como uma pequena pedra que destruiria o colosso Romano, não somente para seu próprio
benefício, mas também para o benefício dos gentios que buscariam a sua própria liberdade sob os seus
auspícios.
Nero, portanto, tinha razão para se estremecer. Ele escolheu como sucessor para o arrogante, mas
desafortunado, Cestius, Flavius Vespasiano, que subjugara os bárbaros bretões, e era um dos mais hábeis
generais de sua época. Vespasiano chegou à Judéia com quase o dobro de soldados de Cestius, mas com
cautela. Em vez de lutar com os judeus revolucionários no campo de batalha, onde seu entusiasmo poderia
compensar a falta de experiência militar, Vespasiano cavou fossas ao redor deles, pois sabia que uma
nação cercada, a mão que segurava uma espada não segurava o arado. Um longo cerco significava um não
plantio ou colheita. Os romanos controlavam o oceano; a fome tornou sua arma mais poderosa, derrubando
assim uma cidade após outra.
Embora os judeus estivessem perdendo a guerra, os remanescentes em Jerusalém consideravam a
cidade inexpugnável. A ideia de uma revolução Messiânica, não o tamanho de seu exército, os sustentava.
Os judeus eram “estimulados por sua ardente crença de que o período Messiânico por tanto tempo
anunciado pelos profetas estava às portas, onde todas as outras nações estariam sob o domínio de Israel”.
Mas nem todo mundo estava entusiasmado. De acordo com Graetz, “somente os jovens e os
homens sem nenhuma posição social se devotavam à causa dos revolucionários”. Os mais sensatos e os
mais prósperos estavam prontos para capitular e colocar-se à mercê dos Romanos. À medida em que o
brilho das vitórias iniciais diminuía e a insensatez de se rebelar contra Roma se tornava mais evidente, o
partido da paz se fortalecia. Os judeus adeptos à causa de Roma enviavam relatórios inteligentes enrolados
em flechas e os atiravam no acampamento romano.
Em fevereiro do ano 70 d. C, quando Tito, filho de Vespasiano e herdeiro do trono imperial, foi a
Jerusalém, a cidade tinha sustentado sua independência por quatro anos, num escândalo para Roma que
Tito deveria resolver. Tito tentou ser leniente com os judeus, exigindo somente que eles reconhecessem a
soberania de Roma e pagassem taxas, mas os judeus recusaram. Tito então resolveu não ser
misericordioso. Em março, o exército rompeu o muro externo de Jerusalém e tomou a cidade de Bezetha.
De sua oferta de leniência, Tito voltou transformou-a em crueldade para intimidar, crucificando 500
prisioneiros em um único dia. Os outros prisioneiros foram enviados de volta com as suas mãos cortadas.
A fome, mais do que as armas ou a crueldade Romana, estava prejudicando a cidade, fazendo com que
muitos judeus se rendessem; eles foram massacrados. Apesar de toda crueldade, sempre que Tito buscava
negociar, esbarrava no muro do messianismo judeu. João de Gischala estava convencido de que Deus não
iria abandonar o seu povo; ele levou os judeus à sua última posição defensiva, o próprio Templo, onde
detiveram os romanos ateando fogo em suas próprias construções.
Quando Jesus foi ao Templo de Jerusalém pela última vez, descreveu uma visão diferente das
profecias messiânicas de Daniel que os Zelotas fizeram. Discursando no Templo, ele falou aos seus
discípulos: “não ficará pedra sobre pedra; tudo será destruído”. Lamentou porque as ovelhas perdidas da
casa de Israel tinham escolhido políticas revolucionárias, numa decisão catastrófica àquelas pessoas que
veio salvar. “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas
vezes Eu quis reunir os teus filhos como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das suas asas, mas vós
não o aceitastes! Eis que a vossa Casa vos ficará desabitada!”. A imagem de Cristo como a mãe desprezada
pelos seus filhos cumpriu-se uma geração após sua morte quando uma mulher que fugiu para Jerusalém
foi levada além dos seus limites e matou e devorou seu próprio filho. Graetz notou sem ironia: “é como
que se nenhuma linha a respeito da profecia acerca da desgraça da Judéia não pudesse ficar sem
cumprimento”.
Tito, pressentindo a vitória, decidiu tomar o Templo sem destruí-lo, mas Deus tinha outros planos.
Em agosto do ano 70, um dos soldados romanos que haviam repelido uma onda furiosa de judeus subiu
nas costas de um companheiro e lançou uma tocha de fogo através da janela do Templo, queimando as
vigas de madeira do santuário. Logo todo o Templo ficaria em chamas. Tito ordenou que suas tropas
extinguissem o fogo, mas ninguém atendeu. Tomado pela mesma curiosidade que dominara Pompeu um
século antes, entrou no Santo dos Santos. Foi ele o último a contemplar o santuário vazio no coração do
Templo que desapareceria para nunca mais ser reconstruído. Juliano, o Apostata, tentou reconstruir o
Templo 300 anos depois, mas os trabalhadores foram frustrados por explosões de fogo e enxofre, e logo
o trabalho parou. Em meados de 1900, Israel foi restaurado como nação em um ato que os judeus da idade
média se surpreenderiam, mas o Templo nunca foi reconstruído. Tito teve o último vislumbre do último
remanescente da religião judaica, que girava em torno do sacrifício no Templo. O judaísmo seria
reconstruído como uma religião do livro após o altar do sacrifício ter sido destruído.
Visto que Tito contemplou a morte de algo maior que ele poderia entender no Santo dos
Santos, a matança continuou inabalável no pátio do Templo. Inumeráveis aglomerados de
pessoas de todo o país observavam nas chamas o sinal de que a glória de sua nação acabara
para sempre. Muitos habitantes de Jerusalém, sem vontade de sobreviver ao seu amado
Templo, lançaram-se de cabeça no fogo. Milhares de homens, mulheres e crianças se
agarravam ao pátio interno. Se não tivessem sido levados pelos lábios persuasivos dos falsos
profetas, teria Deus os salvado por um milagre no momento da destruição? Eles caíram, foram
mais uma presa fácil para os romanos, que mataram 6 mil no local. O templo foi queimado de
cima a baixo; apenas algumas ruínas fumegantes foram deixadas, erguendo-se das chamas
como gigantescos fantasmas. Alguns sacerdotes escaparam para o topo da muralha, onde
ficaram sem comida por alguns dias até serem obrigados a se render. Tito ordenou a sua
execução imediata, dizendo: "Os sacerdotes devem cair com seu Templo". As legiões
conquistadoras elevaram os seus estandartes no meio das ruínas, sacrificaram aos seus deuses
no Lugar Santo e saudaram a Tito como imperador. Por uma estranha coincidência, o segundo
Templo caiu no aniversário da destruição do primeiro Templo.

“E, assim, quando virdes a profanação horrível da qual falou o profeta Daniel, no Lugar Santo,
então, os que estiverem na Judéia fujam para os montes. Quem estiver sobre o telhado de sua casa, não
desça para retirar dela coisa alguma [...] Porquanto haverá nessa época grande tribulação, como jamais
aconteceu desde o início do mundo até agora, nem nunca mais haverá.”
Dentro de dois meses, Tito nivelou os muros de Jerusalém e estabeleceu três campos para capturar
e executar os soldados fugidos. Mais de um milhão de vidas se perderam no cerco. Muitas mulheres e
crianças foram vendidas a ponto do preço dos escravos colapsar. A Menorah, a tábua de ouro, e o rolo das
Leis foram levados a Roma juntamente com o guerreiro judeu Simão bar Giora, que foi arrastado pelas
ruas de Roma e lançado na rocha Tarpeia em sacrifício aos deuses.
Embora parecesse que a nação judaica pereceria após o cerco, um remanescente escapou para as
comunidades da Diáspora na Arábia, Egito e Cirene, onde mantiveram seu ódio a Roma e a política
revolucionária messiânica. Um remanescente do partido da paz também escapou. Percebendo que a
revolução estava levando a uma catástrofe, Jochanan ben Zakkai fora contrabandeado da Jerusalém sitiada
como um cadáver envolto numa mortalha. Quando os espiões judeus de Tito o informaram que Jochanan
era amigo de Roma, o general romano concedeu-lhe um pedido. Jochanan pediu permissão para começar
uma escola. Desta escola surgiu a nova religião do judaísmo. Os judeus não tinham Templo, nem
holocaustos, nem sacerdotes, nem sinédrio, nem governo. Tudo que tinham era um livro e, deste livro,
criaram uma nova religião. Agora o papel do rabino era comentar o livro. O comentário ficou conhecido
como o Talmud, que se tornou a base da nova religião judaica.
Os judeus revolucionários continuaram a viver com suas fantasias de onipotência messiânica,
mesmo quando as políticas messiânicas lhes trouxeram a catástrofe. A escola de Jochanan e Hillel e os
outros amigos de Roma, entretanto, que almejava uma boa oposição, sobreviveu. A base de sua religião
foi o Pentateuco, sobre o qual construíram uma superestrutura de comentário. A lei garantia a
sobrevivência, mas a sobrevivência frequentemente ditava o que seria a lei.
Após a destruição do Templo, as facções políticas entre os judeus se tornaram exigentes escolas.
A escola de Shammai, tendo defendido a causa dos Zelotas, agora retornou defendendo um rigorismo na
exegese das escrituras. A escola de Hillel tornou-se a escola da paz com os Romanos. Após a religião
judaica ter sido redefinida como uma religião do livro, ou de interpretações concorrentes do livro, estas
duas escolas iriam definir as opiniões de gerações de Judeus. Haveria judeus inclinados à assimilação,
seguindo o modelo de Jochanan e Hillel, e haveria judeus atraídos ao modelo do messianismo político,
seguindo o modelo de Eleazar, o Zelota, e da escola de Shammai. A vida judaica oscilaria entre estes
polos por dois milênios, e as duas opiniões se manifestariam de várias formas: Roy Cohn, urgindo a
sentença de morte para os Rosenbergs durante a era McCarthy; ou, em contraste, a excomunhão de
Spinoza pela sinagoga do Rabino Menasseh bem Israel em Amsterdan. Os judeus poderiam imitar Moses
Mendelssohn por um lado, ou Theodor Herzl, por outro; eles podiam imitar David Brooks ou Noam
Chomsky.
Infelizmente não havia um modo de julgar as interpretações concorrentes. As várias interpretações
não foram organizadas em nenhuma estrutura científica. O “Halachá” foi deduzido do Pentateuco e
acrescentado randomicamente, proferidas separadamente e usualmente ligadas ao nome da autoridade de
onde vieram. Elas foram então memorizadas e repetidas, gerando novas interpretações que também foram
memorizadas e repetidas. Não havia nenhuma forma de decidir entre as autoridades quando diferiam. Isso
levou ao Averroísmo, noção de que a mente poderia sustentar duas verdades contraditórias, ambas
verdadeiras. Durante um contencioso debate entre as escolas de Shammai e Hillel, uma voz do céu
declarou que “os ensinos de ambas as escolas são verdades do Deus Vivo, mas na prática as leis de Hillel
sozinhas devem ter mais peso”. Em outro momento, os rabinos concluíram: “Cada homem de acordo com
sua escolha pode seguir a escola de Hillel ou de Shammai, mas a decisão da escola de Hillel deverá ser a
única interpretação aceita da Lei”. Ao tornar-se a religião do livro, o Judaísmo subverteu o livro sobre o
qual se baseia: “As contendas entre as escolas, que se estendia a várias questões práticas, provocou uma
ampla divergência entre a visão a respeito da Lei e da vida. Um mestre sustentava algumas coisas como
permitidas, enquanto outro proibia. Dessa forma, o Judaísmo parecia ter dois corpos de lei, ou, de acordo
com o Talmude: “A lei única se tornou duas”.
Com diretrizes como estas, as relações entre as escolas se tornou mais acrimoniosa. Ao premiar a
sobrevivência judaica, a escola da acomodação não poderia resolver suas próprias disputas efetivamente.
O comentário Talmudico era baseado fundamentalmente na lei, mas o comentário constantemente se
contradizia ao comentá-la. “A Lei (isto é, o Pentateuco) e a Lei Oral (Sopheric) a partir deste momento
deixou de ser dois ramos amplamente separados, mas passaram a ter relações estreitas, embora esta nova
apresentação certamente violasse as palavras da Escritura”. Como resultado, os rabinos esperavam
alcançar unidade sem verdade. Dissidentes foram expulsos das sinagogas; os rabinos deveriam ser
obedecidos, mesmo se estivessem errados. Quando Joshua mostrou que o cálculo de Gamaliel para o
começo do mês de Tishri, durante o qual o dia da expiação era celebrado, era falso, Gamaliel recusou
ceder e ameaçou Joshua de expulsão da sinagoga. Para preservar a unidade, Dossa bem Harchinas
persuadiu Joshua a se submeter, argumentando que “os ensinos de um chefe religioso devem ser
incontestados, mesmo se estiverem errados”. Com este modo de pensar na festa da paz e acomodação, o
messianismo político dos Zelotas logo voltou a se inflamar.
Em 115, os judeus da Babilônia se revoltaram contra Roma. A revolta logo se espalhou. Em
Cirenaica, os judeus abateram 200 mil gregos e romanos. Em Cyprus, onde 240 mil gregos foram mortos,
os judeus revolucionários nivelaram Salamina. Tão grande foi a revulsão local em Cyprus que os judeus
que viviam lá foram exterminados 30 anos depois. Após isso, uma lei decretou que a nenhum Judeu
deveria ser permitido pisar na ilha, nem mesmo os que naufragaseem na costa.
Os normalmente dóceis judeus no Egito foram também capturados pelo fervor revolucionário,
massacrando indiscriminadamente gregos e romanos. Após saquear cidades próximas a Alexandria, os
judeus audaciosamente atacaram o exército romano sob o comando do general Lupus. Em seu primeiro
encontro, o espirito revolucionário dos judeus triunfou sobre a experiência militar dos romanos, e Lupus
fugiu. Quando os gregos e romanos aterrorizados pegaram um navio no Nilo, os Judeus continuaram com
sua vingança. O historiador Apiano, que vivia então em Alexandria, escreveu a respeito de “certo terror
excitado pelas populações judaicas”. Diziam que “os judeus comiam a carne dos gregos e romanos
capturados, lambuzando-se nas peles que lhe eram arrancadas”. Graetz sente dificuldade em crer, pois
estes “costumes são completamente estranhos ao caráter e costumes judaicos”. Entretanto, ele admite que
“é provavelmente verdade que os judeus lutaram com os gregos e romanos como animais selvagens ou na
arena” e caracteriza isso como uma “triste represália” para o que Tito e Vespasiano fizeram após a rebelião
de 66.
Na Judéia, a rebelião foi liderada por Julianus e Pappus, judeus de Alexandria. Como seu
predecessor Nero, Trajano temia as rebeliões dos judeus, pois uma rebelião judaica nunca seria meramente
local e porque havia colônias de judeus por todo o Império, além de que a ideia do messianismo judaico
era aplicável a todos os povos oprimidos. Assim, durante a revolução Bolchevique na Rússia os judeus da
vanguarda revolucionária podiam mobilizar um grande número de pessoas por causa da mensagem da
revolução judaica: a ideia messiânica que eles tiraram de Daniel, a ideia de uma resistência à autoridade
política derivada dos Macabeus e a ideia da libertação retirada do Êxodo, que tinha aplicação universal.
A declaração de Jesus de que “a salvação vem dos judeus” seria tomada em um significado político
diferente do intencionado por Jesus à medida em que os judeus gravitavam em torno da liderança de um
movimento revolucionário atrás do outro. A revolução contra Roma foi a primeira tentativa pós-Cristã
para colocar os princípios revolucionários judaicos em prática. Os judeus – e Trajano provavelmente sabia
disso – eram motivados por uma ideia tão poderosa quanto a ideia de Roma. Como resultado, Trajano
enviou o cruel Mouro Quietus para esmagá-la.
Trajano morreu em 117; a notícia de sua morte ventilou a rebelião a um inferno que ameaçou
incendiar todo o Império. Nações cativas pareciam apanhadas na revolução, desejando dar suas vidas
contra o poderio militar de Roma. O sucessor de Trajano, Adriano, não teve a vontade brutal de seus
predecessores. Ele organizou um autogoverno limitado às províncias a leste e estava até mesmo aberto a
fazer concessões aos judeus. Quietus fora chamado a Roma e, em um gesto de reconciliação com os
Judeus, foi executado por comando do imperador. Em negociações, os judeus exigiram a Adriano a
permissão para reconstruir seu Templo. Adriano, para sua surpresa e deleite, aceitou. O que se seguiu,
entretanto, foi a quebra de promessas por Adriano e expectativas insatisfeitas para os judeus. Adriano
tinha outros pensamentos. A magnanimidade aos povos subjugados foi um comportamento imperial sem
precedentes. Os judeus se tornaram mais impacientes e mais inclinados a agir em seu crescente fervor
revolucionário.
Em 130, Adriano foi à Palestina ao encontro dos judeus rebeldes. Os Samaritanos, que
provavelmente o adoravam como um deus para o a gradar, em breve começariam a envenenar sua mente,
afirmando que a reconstrução do Templo era o primeiro passo do plano dos judeus para declarar
independência de Roma. Como resultado, Adriano abandonou as suas promessas. Os judeus poderiam
construir seu Templo, mas não no local original ou do tamanho original. Os judeus “tomados pela ideia
de rebelião”, não estavam dispostos a tolerar a prevaricação de Adriano.
Adriano ficou na Síria por um ano. Quando foi ao Egito, pensava que o problema estivesse
resolvido. Jerusalém seria reconstruída como uma cidade pagã, o que aceleraria a assimilação da raça
judaica ao Império Romano. As diferenças raciais e religiosas desapareceriam. Todos seriam Romanos,
nada mais, nada menos. Os judeus revolucionários, entretanto, conspiravam uma rebelião. O armamento
romano, modelado por fabricantes judaicos, era deliberadamente fraco e destinado a fracassar em batalha,
pois os judeus sabiam que os enfrentaria em breve.
A partida de Adriano foi o sinal para a rebelião. Bem planejada, ela estourou aparentemente
miraculosamente, tomando Adriano de surpresa. Igualmente miraculosa foi a emergência de Simão bar
Kohba, líder militar dos Judeus. Virtualmente, ninguém sabia nada sobre ele, além de seu nome. Kokhba
(ou Cochba) significa “estrela”, como a “estrela que surgiu em Davi”. Kokhba foi um jogo de palavras
para seu nome verdadeiro, Bar-Kosiba, referente à sua cidade de nascimento. Por um curto período, bar
Kokhba foi o terror do Império Romano, uma figura militar semelhante a Hanibal, outro Semita cuja
ousadia e habilidade ameaçava o Império Romano. Como Hannibal, bar Kokhba ameaçava a hegemonia
Romana em todo o Mediterrâneo.
Por personalizar o líder militar tão esperado, os judeus proclamaram Simão bar Kohba seu
Messias. Nele, os “judeus” encontraram tudo o que pensavam estar ausente em Cristo. Bar Kokhba era “a
encarnação perfeita da vontade e do ódio da nação, espalhando terror por todo o lado e sendo o centro de
um agitado movimento”. Bar Kokhba era o Messias que os judeus desejavam, pois ele “transformou a
pequena e derrotada nação judaica numa poderosa força que, em um curto período de tempo, afastou o
mais poderoso império que o mundo já conheceu”. Resnick acrescenta sem a menor ironia que “Bar
Kokhba foi um vislumbre do futuro, um vislumbre que permitiu que os judeus soubessem que um dia o
Messias realmente viria”.
Bar Kokhba foi proclamado Messias pelo Rabino Akiba, que também lhe deu o nome de “estrela”.
Akiba “foi confirmado [...] em suas esperanças de que o poder Romano seria em breve derrubado, e que
o esplendor de Israel mais uma vez resplandecesse através do rápido estabelecimento do reino
Messiânico”. Bar Kokhba foi proclamado Messias largamente porque os “judeus”, ao expulsar os judeus
cristãos de suas sinagogas, se tornaram revolucionários que definiram seu Messias exclusivamente em
termos políticos e militares: “A notável qualidade atribuída ao [Messias] é que, quando sua identidade é
revelada, os reis da terra temerão quando souberem disso; eles terão medo e tremerão e seus reinos
conspirarão contra ele pela espada e por outros meios”. De fato, de acordo com uma contra-tradição, o
falso Messias “causa a morte de Israel pela espada, para dispersar os que restarem e os humilhar. Ele abole
a Torá e engana a maior parte do mundo para servir uma divindade que não seja Deus". Novamente, os
judeus não tinham como julgar as afirmações contrárias; o fervor revolucionário varrendo o mundo em
um movimento fadado ao desastre.
Quando Sabbetai Zevi foi declarado o Messias em 1666, o veredito foi virtualmente unânime, mas
não completo. O rabino Jochanan Ben Torta ficou cético. Quando ele escutou que Akiba tinha proclamado
Bar Kokhba como Messias, ele exclamou: "Logo crescerá grama do teu queixo, Akiba, e ainda assim o
Messias não terá chegado". Mas sua voz foi ignorada, como os Judeus ignoraram profetas como Jeremias,
que os prevenira: “não se rebeleis contra o governo; não tenteis apressar o Fim dos Tempos. Não reveleis
os mistérios da Torá e não deixeis a Diáspora à força; porque o Messias virá.” Barkohba fez o que Jeremias
proibiu, mas a aclamação quase unânime que ele recebeu como Messias aumentou o seu poder e o ajudou
a unir o povo judeu.
Bar Kokhba exigiu que todos os judeus cristãos negassem a Jesus e fizessem guerra contra os
Romanos. Aqueles que se recusaram foram declarados traidores e punidos severamente. O processo que
começou quando os pais do cego de nascença foram ameaçados de expulsão da sinagoga encontrou aqui
a sua plenitude. Não havia mais nenhuma dúvida. Ser judeu significava ser um revolucionário. Ethnos e
religião desapareceram na ideologia política do movimento revolucionário, que agiria, a partir de então,
disfarçado nas circunstâncias, como ethnos e religião. Os judeus cristãos foram considerados
blasfemadores e espiões porque “recusaram tomar parte na guerra nacional”. Bar Kokhba não foi somente
a alternativa a Cristo, ele também cumpriu a profecia de Cristo a respeito dos outros que viriam dizendo
“eu sou o Cristo, e que enganarão a muitos”. A chegada de Bar Kokhba foi acompanhada por “guerras e
rumores de guerras” ao mesmo tempo em que os judeus cristãos estavam sendo expulsos das sinagogas,
e quando eles eram odiados por todos. Cristo também predisse um sofrimento sem precedentes, uma
predição que os judeus cristãos mantiveram viva quando seus co-étnicos se envolveram na histeria e
euforia que levaram à guerra.
Após Akiba ter proclamado Bar Kokhba como o Messias, guerreiros judeus atravessaram o
Império Romano e foram a Jerusalém para lutar ao seu lado. Fontes judaicas afirmam que Bar Kokhba
tinha 400 mil tropas. Dio Cassius, historiador pagão, diz que foi 580 mil. Para testar a ferocidade e
obediência de sua tropa, Bar Kokhba ordenou que mordessem o dedo, e 200 mil cumpriram a ordem. O
tamanho do exército era impressionante, mas, quando combinado com o fervor da ideologia
revolucionária e um número significante de pagãos que fizeram causa comum com os judeus, a “revolta
tomou grandes dimensões”, e todo o império Romano estava na iminência de uma calamidade “pela qual
os vários membros de seu gigante corpo seriam dilacerados”. De acordo com Dio Cassius, “Toda Judeia
fora instigada. Muitas outras nações se juntaram a eles por interesse pessoal. Toda a terra, pode-se dizer,
estava envolvida”.
A rebelião de Bar Kokhba não foi local; foi uma luta sobre quem governaria o mundo. O judaísmo
revolucionário nunca desejou menos que isto. A mesma coisa é verdadeira a respeito do Bolchevismo e
do Neoconservadorismo; todos eles têm o mesmo escopo universal. Aut munda aut nihil poderia até
mesmo ser o lema da revolução judaica. Uma vez que o Talmude passou a ser a essência da redefinição
do Judaísmo como anti-cristão, o judaísmo passou a ser uma visão política antitética ao que percebia como
um outro mundo cristão. Isso comprometeu os judeus ao messianismo político. De acordo com a leitura
de Resnick do Talmud, “a maior distinção da era messiânica seria política”. O Talmude ansiava pelo céu
na terra quando um messias político viesse reinar em um sistema político universal. A narrativa de Resnick
desta era milenarista mostra estranhas similaridades com as utopias judaicas propostas por Marx, Trotsky
e os Neoconservadores:

A era messiânica anunciará o início de um sistema político universal, com o Messias ao


seu comando. Não haverá mais preocupações a respeito dos recursos naturais. O espírito de
cooperação universal e de fraternidade reinará. Não haverá mais necessidade de acumular
riqueza [...] não haverá mais culturas e filosofias diversas. Assim como no início dos tempos,
um único homem foi criado, assim também, no fim dos dias, toda a humanidade será única.
Não haverá mais necessidade de guerra.

Finalmente, o milenarismo universal do sistema político revolucionário irá abolir as nações, pois:

A história nos ensinou que, num mundo dividido em várias nações, nenhuma nação pode
alcançar eterna independência ou autoconfiança. Mas, numa entidade política una, a verdadeira
independência pode ser alcançada. O homem poderá voltar sua atenção ao reino do espírito e
lutar pela perfeição moral e pela excelência intelectual. A Era Messiânica dará início ao
renascimento da virtude, ao renascimento da espiritualidade e ao entendimento da vontade de
Deus. O mundo experimentará um reavivamento espiritual que resultará na perfeição da
condição humana. O homem alcançará o mesmo estado de piedade que tinha quando foi criado.
O lobo habitará com o cordeiro.

Com grande número de judeus indo em direção à Judeia e um fervor revolucionário tão grande
quanto seu número, o “messias Guerreiro” dirigiu-se a Roma com legiões da Palestina. O Governador da
Judéia estava atordoado pelo tamanho e poder da força militar reunida contra ele. Ele recuou sob seus
golpes, abandonando no primeiro ano 50 fortalezas e 985 cidades e vilas. Como Nero, que assistiu o
impetuoso Cestius ser derrotado em 66, Adriano teve que enviar um general após outro antes que
encontrasse alguém equivalente a Bar Kokhba, que, no último ato de provocação, cunhara moedas que
levava suas imagens. Conhecidas como moedas Bar-Kokhba, ou "moedas da revolução", elas deixavam
claro o que era óbvio ao mundo inteiro. Os Judeus desafiaram Roma criando o seu próprio estado. Eles
eram um modelo para qualquer outro grupo étnico que se sentisse oprimido por Roma, e como tal, eram
uma ameaça para a existência da própria Roma. A revolução judaica lançara fora o jugo Romano. Akiba
estava certo: Bar Kokhba provara ser o Messias.
Em Julius Severus, que derrubou uma rebelião na Bretanha, Adriano encontrou o general
equivalente a Bar Kokhba. Chegando na Judeia, Severus encontrou os judeus tão firmemente entranhados
que uma rápida e decisiva vitória estava fora de questão. Como o menos impetuoso e mais efetivo de seus
predecessores, Severus tirou vantagem do controle Romano dos mares e colocou a fome como a sua arma
mais efetiva. Através do bloqueio, Severus reconquistou a Judeia vila por vila.
Durante a campanha de Severus, que durou anos e teve mais de 50 batalhas, a maré virou contra
Bar Kokhba. Rabino Akiba foi capturado e executado após uma prolongada estadia na prisão. Considerado
estrategicamente indefensável, Jerusalém foi abandonada aos Romanos, e em 9 de agosto, o dia em que o
segundo Templo fora destruído em 70 a. D., o governador Romano subiu ao monte do Templo e ofereceu
sacrifício aos deuses Romanos. Isso não era um bom presságio.
Os judeus se retiraram para a fortaleza de Bethar, e lá, como seus antepassados Messiânicos que
se empoleiraram no topo de Massada 70 anos antes, consideraram que Deus os protegeria. Os Romanos
fizeram cerco por um ano, o que seria a culminação de uma guerra de três anos e meio de atrito. Eusébio
afirma que Bethar foi cercada no 18º ano do reinado de Adriano (134 d. C), em torno de dois anos após a
revolta, e que a sua queda foi causada pela fome e pela sede.
Os judeus quase sobreviveram aos Romanos. De acordo com um relato, Bar Kokhba arrebatou a
derrota com garra ao chutar o pio Eleazar, cujas orações estavam afastando os romanos, e de quem ele
suspeitava ser conivente com um espião samaritano. Quando Eleazar morreu, uma voz foi escutada do
céu dizendo: "tu lançaste o braço de Israel e cegou-lhe os olhos; por isso teu o braço e os teus olhos
perecerão".
Outro relato diz que os Romanos estavam prontos para suspender o cerco, quando dois irmãos
samaritanos aprisionados pelos judeus jogaram um mapa detalhado das passagens subterrâneas sobre as
muralhas da cidade. Tomando vantagem do Sábado, os soldados romanos forçaram seu caminho à cidade,
onde houve um banho de sangue. Dizia-se que os cavalos atravessavam com sangue até as narinas. Dizem
que a maré de sangue levou os corpos para o mar. Dio Cassius afirma que meio milhão de judeus foram
abatidos, fora aqueles que morreram de fogo e fome. Os romanos também sofreram grandes perdas, mas
Bar Kokhba foi capturado; sua cabeça foi levada para Harain. Bethar caiu na data mais fatídica da história
judaica: 9 de Ab.
A população dos judeus da Judeia foi largamente exterminada em repressão ao que seguiu a queda
de Bethar. Adriano estabeleceu três estações militares para capturar fugitivos e os executar; mulheres e
crianças foram vendidos como escravos no comércio de Hebron e Gaza, como na primeira revolta. As
cidades que ofereceram alguma resistência foram niveladas; a Judeia foi "literalmente convertida em
deserto". Aqueles que puderam escapar foram para a Arábia, onde seus descendentes desempenharam um
papel na ascensão do Islã. No lugar de Jerusalém, Adriano construiu a Aelia Capitolina, uma nova cidade
ligeiramente ao norte e ao estilo grego. No Monte do Templo, em vez do templo prometido aos judeus,
Adriano ergueu uma coluna em sua própria honra e um templo em honra a Júpiter Capitolino. Jerusalém
foi completamente erradicada que "cem anos depois, um governador da Palestina perguntou a um bispo,
que disse que ele veio de Jerusalém, onde a cidade ficava".
A catástrofe que se seguiu ao curto e violento reino do messias Bar Kokhba não pôs fim ao povo
Judeu - embora quase que conseguiu isso - mas acabou com a política messiânica judaica por um tempo.
Por mais de mil anos, durante os quais o cristianismo suplantou Roma e estabeleceu sua hegemonia sobre
a Europa, os revolucionários judeus, em grande parte, mantiveram sua paz. A sangrenta supressão da
revolução de Bar Kokhba provocou a "aniquilação do nacionalismo político" que "pôs fim tanto à fé
apocalíptica quanto à militância dos judeus".
Adriano criou uma duradoura impressão sobre os Judeus. Após seu governador ter arado o Monte
do Templo, os judeus se concentraram em sobreviver. A religião do livro ficou em segundo plano em
relação à religião da sobrevivência etnocêntrica, que, a partir daí, ditou o significado do livro. Mais uma
vez, os rabinos disputavam entre si. Um grupo dizia que “todo judeu [...] deveria estar pronto para morrer
como um mártir”. A facção de Shammai, entretanto, disse que, "sob grande compulsão, pode-se
transgredir a Lei para preservar a própria vida". Uma assembleia em Lydda tomou o meio termo,
distinguindo entre "preceitos importantes e aqueles que têm menos peso". Finalmente, decidiu-se que
"todas as leis poderiam ser violadas, exceto as que proíbem a idolatria, o adultério e o assassinato" a fim
de evitar "a morte por tortura". Graetz comenta: "Era tocante notar os pequenos truques e fraudes piedosas
com as quais se esforçavam para evitar a morte e ainda assim para satisfazer sua consciência. As torturas
mentais que sofreram diariamente, e de hora em hora, fizeram com que fossem habilidosos em descobrir
válvulas de escape".
A busca por brechas se tornou uma característica definidora da raça judaica. A lei poderia,
portanto, se transgredida no interesse da sobrevivência, como neste exemplo:

As duas autoridades de Tiberíades, Jonah e José, ensinaram que era lícito cozinhar para
Ursicinus no sábado, e os professores de Neve, uma cidade gaulanita, permitiam que
pão fermentado fosse cozido para as legiões durante a Páscoa. Em sua aflição, os
representantes religiosos silenciaram suas consciências com a desculpa, na qual se
iludiram, de que o inimigo não exigia expressamente a transgressão da lei, mas
simplesmente exigia o suprimento regular do exército. Mas a intenção de Ursicinus
parece realmente ter sido instituir uma perseguição religiosa.
A noção de que “é melhor, por um tempo, que leis religiosas sejam transgredidas, não foi
endossada pelos judeus que se tornaram cristãos. Os Cristãos morreram em vez de queimar incenso ao
imperador. Muitos morreram em vez de violar a sua Fé. Eles ficaram conhecidos como “mártires”, isto é,
“testemunhas”. E aqueles que viam seu testemunho constantemente concluíam que eles acreditavam que
sua fé era verdadeira, o que fez com que muitos aceitassem sua fé.
A conclusão oposta se aplica aos judeus. Se eles não estavam dispostos a morrer por sua religião,
então provavelmente não era verdadeira. Era como se os judeus compreendessem que, com a queda do
Templo, criaram uma nova religião, e que ninguém estava disposto a colocar sua vida em risco para atestar
a sua autenticidade. A noção de que a sobrevivência de alguma forma permitia a transgressão das leis
religiosas não tinha precedentes nas escrituras. Os livros de Daniel e dos Macabeus mostram que um judeu
deve aceitar a morte em vez de transgredir a lei de Deus. Os cristãos têm esta posição, mas não os judeus.
O fato dos cristãos terem tomado a mesma posição de Daniel e dos Macabeus, enquanto que os judeus a
repudiavam, mostram a continuidade de Moisés para a Igreja, como Cristo indicou, não de Moisés com
"aqueles que se dizem judeus", nas palavras de São João.
Graetz zomba da tendência judaica em buscar "válvulas de escape", mas ignora o papel que
desempenhou ao entregar a vitória sobre Roma aos cristãos. Ao tomarem partido de Bar Kokhba, os
rabinos tornaram inevitável e amargo o rompimento com suas coetnias cristãs quando ela finalmente
chegou. Os cristãos conquistaram Roma porque foram expulsos da sinagoga. Se tivessem permanecido na
sinagoga, sem dúvida teriam sido comprometidos pela religião da sobrevivência étnica, que comprometia
tudo o que entrava em contato, incluindo a Torá, sua base nominal e razão de ser. "Desde o tempo de
Adriano", somos informados, "toda ligação entre os judeus e cristãos cessou". A Revolução de Bar
Kokhba fez a divisão final e irrevogável. Como que para mostrar sua independência, os cristãos
escolheram um pagão incircunciso como Bispo. Os judeus e cristãos, doravante, "não mais ocupavam a
posição de dois corpos hostis pertencentes à mesma casa, mas se tornaram dois corpos inteiramente
distintos". O paganismo, uma religião nutrida por ideias "irracionais, por engano e pela imoralidade" foi
substituída inevitavelmente pelo monoteísmo ético. A humanidade não pode fingir que não sabe dessas
coisas. Uma vez que a religião judaica e a filosofia grega foram transmitidas por toda a bacia do
Mediterrâneo pela infraestrutura romana, a humanidade não poderia voltar a aplacar deuses irracionais e
petulantes. Revulsão pelo excesso revolucionário judaico e o desprezo pelo comportamento supino que
frequentemente se seguiu significou que os pagãos também não aceitariam a religião dos "judeus". Isso
deixou o cristianismo, a religião revisada e renovada de Moisés, Abraão e Cristo, sozinho no campo. Após
a conversão de Constantino, o "último fio" que conectava o "cristianismo com seu país de origem" partiu
no Concílio de Nicéia, quando a Igreja decidiu que não se basearia no calendário judaico para calcular a
data da Páscoa, "pois", escreveu Constantino, "é indecoroso que, neste festival mais sagrado, devamos
seguir o costume dos judeus. Daqui em diante, não tenhamos nada em comum com esse povo odioso;
Nosso Salvador nos mostrou outro caminho". Citando Constantino, Graetz afirma que "a primeira
declaração do cristianismo no mesmo dia de sua vitória traiu sua atitude hostil em relação aos judeus e
deu origem a esses decretos malignos de Constantino e seus sucessores, que lançaram as bases da
sangrenta perseguição aos judeus nos séculos subsequentes".
Mas a história desmente a sua afirmação. A perseguição dos judeus ocorreu, como na época de
Massada e Bethar, em função da atividade revolucionária. Foi muitas vezes uma reação à participação
judaica na atividade revolucionária, como em Chipre durante o segundo século e na Europa Oriental nas
décadas de 1920 e 1930. Mas a ideia de revolução tem vida própria. A tentação de "judaizar" nunca deixou
o cristianismo, e os escritores cristãos que entendiam a força da ideia "judaica" denunciavam os
judaizantes como cães que voltavam ao vômito. Na Idade Média, à medida que a hegemonia cultural cristã
sobre a Europa atingia seu apogeu, a ideia judaica do céu na terra explodiria novamente. Os cachorros
retornariam ao vômito e os judeus seriam os primeiros a sentir seus efeitos.