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A pós-verdade levará à

pós-democracia?
Fernão Lara Mesquita
Arte sobre foto de Marcos Santos
resumo abstract

É de engano e de mentira que se trata. A It is all about deception and lies. The novelty
novidade está, como em tudo o mais nos lies, as is the case of everything else in our
dias que correm, no que os computadores current days, in what computers and the
e a rede mundial permitem fazer com worldwide web can do with it. It is about
isso. Sim, é de mentira que se trata, mas lies, but mainly about using it to specifically
do uso dela com o objetivo específico subvert or undermine democracy, the only
de subverter ou minar a democracia, o system for establishing the power of the
único sistema de constituição do poder state in which “public opinion” is a decisive
do Estado em que a “opinião pública” é factor.
o fator determinante.
Keywords: post-truth; democracy,
P a l a v r a s - c h av e : p ó s - v e r d a d e ; freedom; justice.
democracia; liberdade; justiça.
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O
jogo é velho como nosso tema em mais de um aspecto, aliás.
a humanidade. É de A prensa de Gutemberg era uma novidade
engano e de mentira que ainda fresca e provocara, na ilha, um efeito
se trata. A novidade está, semelhante a este que a internet generalizou
como em tudo o mais no mundo. A Europa continental já ia firme
nos dias que correm, no no absolutismo monárquico do qual o prin-
que os computadores e a cipal instrumento de sustentação era o dito
rede mundial permitem “direito romano”, cuja “recepção” nada menos
fazer com isso. que revogara o direito baseado na tradição
Em 2016 a Universi- (common law), que fora comum a todos os
dade de Oxford elegeu povos do continente, os ibéricos inclusive.
“pós-verdade” como a Mas a Inglaterra ainda resistia. Lá, desde
palavra do ano e defi- por volta de 1300, todos os processos eram
niu a expressão como “um substantivo que registrados em duas versões, uma relativa à
se relaciona ou denota circunstâncias nas aferição dos fatos em julgamento, outra cen-
quais fatos objetivos têm menos influência trada na aferição do cumprimento dos ritos
em moldar a opinião pública do que apelos processuais. Essas transcrições, resumidas
à emoção e a crenças pessoais”. em compêndios, quase dicionários, que os
A eleição do alvo – bem preciso nessa referiam aos originais, tinham obrigatoria-
definição – aponta para uma “anteverdade”, mente de ser usadas para abrir qualquer pro-
que é essencial para se entender a “pós”. cesso. Eram a porta de entrada da justiça. O
Sim, é de mentira que se trata, mas do uso queixoso as acionava afirmando que o seu
dela com o objetivo específico de subverter caso era idêntico a um dos writs referidos
ou minar a democracia, o único sistema de
constituição do poder do Estado em que a
“opinião pública” é o fator determinante.
O ato inaugural da democracia moderna FERNÃO LARA MESQUITA é jornalista
na Inglaterra de 1605 relaciona-se com o e escreve em www.vespeiro.com.

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no livro e reclamava a mesma satisfação que torizar e anular as sentenças da corte do


tinha sido dada no caso anterior. Cabia a rei. A temperatura sobe com murmúrios
um júri aferir a verdade dos fatos e ao juiz de alta traição. O confronto final se dá na
zelar pelo cumprimento de todos os passos sala do trono. Sua majestade brande o seu
do processo e confirmar ou não, no final, a “poder divino” e a sua posição “acima de
identidade do caso com o precedente. A pena, todos os homens” e ameaça o pescoço dos
então, era automaticamente a mesma dada rebeldes com o machado. Os juízes à sua
no caso anterior. Segue sendo assim até hoje frente estão mudos, cabisbaixos. A rendição
nos países de common law, e a diferença no estava no ar. Mas então Edward Coke, o juiz
espaço para o arbítrio em cada um desses supremo da Inglaterra, toma a palavra. E,
dois sistemas está na raiz da diferença no com uma argumentação fulminante, declara
grau de corrupção dos organismos políticos o rei under god e under the law.
e institucionais que eles integram. Mas esse É esse under god que nos interessa mais.
não é o nosso assunto hoje... O que ele estava afirmando ali era a preva-
O fato é que só dois autores, na época, lência dos fatos sobre a “narrativa”, ainda
eram reconhecidos como fontes autorizadas que fosse a de sua majestade despejada lá do
de referência de writs. E os compêndios exis- Olimpo. “Ninguém tem o poder de alterar
tentes eram muito poucos e bem guarda- os fatos, que a Deus pertencem.” E eram
dos por órgãos ligados ao sistema judiciá- eles que deveriam orientar o oferecimento
rio, posto que copiados à mão. A prensa de de justiça “ou não haveria paz jamais”...
Gutemberg criou, entretanto, a primeira onda A luta não acaba ali, mas, desde então,
de “inflação editorial”. Ficou barato escrever passa a ser travada em outro patamar. A
e publicar. Uma série de compêndios wiki pedra fundamental da democracia moderna
começou a surgir, a confusão tornou o filtro estava lançada e a primeira cabeça coroada
bem mais permeável, ficou fácil entrar com da Europa ainda teria de rolar antes que o
processos. Tudo estava contaminado pelos Parlamento se firmasse definitivamente como
ruídos da imprecisão, da desconfiança e da o poder hegemônico (1689), mas era todo
sobrecarga sobre o sistema exatamente no o edifício do dogma, o único a sustentar
momento em que estava havendo uma troca o privilégio institucionalizado, que estava
de dinastias no reino. começando a ruir. A experimentação tomaria
Foi aí que James, o primeiro dos Stuarts, o lugar da revelação, a Terra sairia do centro
sentiu a oportunidade de agarrar para si os do Universo e o homem sairia do centro da
mesmos poderes absolutos de seus colegas Terra, a ciência moderna nasceria, a huma-
do continente. Diante da resistência da tra- nidade se livraria para sempre da escassez e
dicional corte de Common Pleas, ele cria teria de aprender a lidar com a abundância
outra, paralela, a Corte da Chancelaria. Dig- e a superioridade da democracia, passo a
nitários da igreja faziam o papel de juízes passo, se afirmaria, senão por tudo o mais,
e davam sentenças enviesadas pelas con- pelo argumento indiscutível do resultado.
veniências de sua majestade e da “fé”. Os Passados 413 anos, democracia mesmo,
fatos iam ficando à margem dos processos. o sistema que, a partir da virada do século
A justiça tradicional passa então a desau- XIX para o XX, evoluiu para armar a mão

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da “opinião pública” do recall, do referendo
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e da iniciativa para fazer a sua vontade efe-


tivamente prevalecer sobre a dos seus repre-
sentantes eleitos, ainda é um privilégio de
muito poucos. O conceito geral, entretanto,
foi universalmente adotado como sonho. Nin-
guém pode bater de frente com ele impune-
mente. Até as ditaduras precisam vender-se
como “excesso de democracia” e incluir no
seu figurino institucional elementos que ao
menos se pareçam com instituições democrá-
ticas. A paulatina conversão da luta contra
a democracia “burguesa”, de uma disputa
entre verdades concorrentes para a destrui-
ção do próprio conceito de verdade, inclui
o reconhecimento da relação indissolúvel
entre democracia e verdade. Admitir que
onde está bem plantada, a democracia só
pode ser destruída por dentro, a partir de
uma deliberação da maioria contra si mesma,
e que só uma trapaça pode produzir esse
efeito, homenageia a superioridade moral
que seus inimigos sempre lhe negaram ao
longo do século XX.
No estágio pré-tecnológico, quase arte-
sanal, aquilo que viria a se transformar na
“pós-verdade” evoluiu do “patrulhamento ide-
ológico” de antes do poder para a repressão e
a agressão armadas da disputa por uma hege-
monia geoestratégica, até desaguar, depois de
detida no seu avanço militar, na tentativa de
impor uma “hegemonia cultural” em busca
do “consentimento social” para um conjunto
de convicções, normas morais e regras de
conduta semeadas com um trabalho meti-
culoso de “superação” induzida de crenças
e sentimentos estabelecidos, conducente à
autoimolação das democracias, a ser obtida
pelo “controle dos meios de difusão cultural
da burguesia”, e à “cooptação de artistas, pro-
fessores e intelectuais orgânicos” a serviço

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da conquista do poder político proposta por

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Antonio Gramsci. Eles se encarregariam de
um cerco sistemático à verdade para impedir
que qualquer forma de contraditório ou de
comportamento divergente aflorasse até que
a “realidade”, para uma parcela majoritária
da sociedade, passasse a ser a única que
lhe seria apresentada por esses agentes ao
longo de toda a vida. Uma tarefa formidável,
mas de cuja exequibilidade, ao menos numa
sociedade linguisticamente segregada como a
brasileira, nós temos hoje provas suficientes.
Em paralelo, a “guerra psicológica
adversa”, que emprega técnicas de propa-
ganda e contrapropaganda com a rápida e
maciça difusão de mentiras nos campos eco-
nômico, social e militar com o objetivo de
influenciar ou despertar opiniões e emoções
na opinião pública e direcioná-la nos proces-
sos democráticos de decisão, passou a ser
uma política de Estado do bloco soviético.
É uma espécie de xadrez comportamental
no qual o objetivo é antecipar as reações
das pessoas a determinados impulsos vários
lances à frente. Equipes multidisciplinares
de cientistas com orçamentos ilimitados tra-
balharam anos no desenvolvimento dessas
técnicas. E provaram sua eficácia usando
tão somente as velhas mídias de massa para
deslocar a “decisão” da Guerra do Vietnã
do campo militar para o da manipulação
do processo decisório democrático. Vladi-
mir Putin, ex-chefe da polícia política da
ditadura soviética e hoje presidente, era um
especialista então e hoje é um entusiasta
do assunto, como se pôde constatar com as
interferências na eleição americana.
O “truque” está sempre, essencialmente,
no fato de que as democracias, assim como
a imprensa democrática, funcionam sob
regras conhecidas e bem definidas, que o

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inimigo que não respeita regra nenhuma pode Não há fim para essa lista de peço-
explorar ilimitadamente, tanto pela vertente nhas de ação instantânea, para as quais o
positiva quanto pela vertente negativa. A único antídoto continua sendo a apuração
imprensa e o Judiciário, por exemplo, só meticulosa da verdade dos fatos, pois os
podem mentir pelo que não fazem. Não “reis” hodiernos, individuais ou coletivos,
dá para denunciar um inocente nem para também estão under god. Mas isso custa
inventar um fato inexistente sem ser des- muito tempo e muito dinheiro, elementos
mentido em seguida, mas é perfeitamente cada vez mais escassos no universo do jor-
possível não denunciar um culpado e ignorar nalismo profissional, onde, como em toda
um fato existente sem ser necessariamente parte, homens da coragem e da estatura
acusado de mentir. Não se pode esconder moral de Edward Coke continuam sendo
impunemente uma denúncia levada a uma tão raros como sempre foram.
redação, mas pode-se facilmente escolher Foi a essa longa construção que se veio
a quais dossiês dar-lhe ou não “acesso” e, adicionar a vertigem da informática. Peque-
uma vez dentro das redações, decidir quais nos pacotinhos de código multiplicáveis e
serão publicados, cercados ou não de todos aceleráveis ao infinito podem operar essas
os emocionantes recursos de son et lumière falsificações e semeá-las em escala global
possíveis. Pode-se fazer minguar uma culpa precisamente dentro de cada ouvido que já
muito grande falando baixo e pouco dela ou se tenha declarado alguma vez disposto a
inflar uma culpa muito pequena falando alto aceitá-las e viralizá-las. Algoritmos destrin-
e insistentemente nela. Pode-se “relacionar”, chando massas ciclópicas de big data podem
“envolver” ou “ligar” fortemente alguém a analisar o trânsito dessas mensagens pela
alguém, mesmo que essa ligação seja tênue rede mundial em cada pormenor das suas
e fortuita, com a mera justaposição de maté- sucessivas idas e vindas, redistribuí-las e
rias. Pode-se descontextualizar um fato para ajustá-las para a produção do efeito dese-
fazê-lo parecer o que não é, condenar à não jado enquanto desviam das defesas erguidas
existência midiática alguém que vive de voto, à sua frente a cada passo. Novos aplicati-
brincar com a inversão da relevância do que vos permitem reproduzir e animar avatares
alguém disse ou deixou de dizer até fazer com imagens e vozes idênticas às originais
do sujeito o avesso de si mesmo. Pode-se a partir de uns poucos minutos de gravação
promover o linchamento moral de quem não do modelo... mas o único antídoto continua
declamar pela cartilha “correta” até que a sendo a lenta e minuciosa apuração artesa-
mentira deixe de ser uma questão moral e se nal da verdade.
transforme numa questão de sobrevivência, A humanidade sem edição é mais feia
expediente do qual guardam uma memória que a outra, mas, com o tempo, aprenderá
atávica os povos que viveram sob escravidão a adequar seus filtros às novas maneiras de
ou sob regimes de terror. E pode-se levar fraudar os velhos. Pode-se sempre enganar
esse medo – seja da execução física, seja muitos por algum tempo, mas nunca a todos
da execução moral ou econômica – a tais o tempo todo. O que é mais difícil de pilotar
extremos que até evidências materiais ou é a perda da capacidade dos Estados nacio-
biológicas “deixem de existir”... nais de impor a lei especialmente no campo

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econômico, que é organicamente transnacio- última, e segue sendo uma excepcionalidade


nal. O capitalismo democrático é a expressão histórica absoluta. Foi ela que moldou tudo
mais palpável da superioridade da democracia o que houve de bom no século XX e con-
“burguesa”. A liberdade que ela construiu e, tribuiu para catapultar a humanidade para
por quase um século, conseguiu garantir não uma nova dimensão. A virulência do impulso
é senão a que exercemos como produtores concentrador instilado na economia global
e consumidores que dispõem de alternati- pelo capitalismo de Estado empurra incoer-
vas de patrões e de fornecedores, obra da civelmente o mundo para os monopólios e a
moribunda legislação antitruste americana concentração da riqueza e predispõe os ouvi-
que fez mais pela distribuição da riqueza dos, tanto nas democracias plenas quanto nas
neste planeta do que todas as revoluções apenas em potência, para a “pós-verdade”.
socialistas juntas, incluídas da primeira à É este o maior desafio do terceiro milênio.

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