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Maro Lara Martins

Entre as Metáforas da América e da Ibéria: Alberto Salles,


Sílvio Romero e Oliveira Vianna.

Rio de Janeiro

2006
Maro Lara Martins

Entre as Metáforas da América e da Ibéria: Alberto Salles,


Sílvio Romero e Oliveira Vianna.

Dissertação apresentada ao Iuperj -Instituto


de Pesquisas do Rio de Janeiro - como
requisito parcial para a obtenção do título de
mestre em sociologia.

Rio de Janeiro

2006
Resumo

A
partir das imagens criadas sobre a América e a Ibéria, procuramos
nesse trabalho uma correlação entre as teorias de Alberto Salles,
Sílvio Romero e Oliveira Vianna. A intenção desse trabalho é refletir
sobre a efervescência crítica relacionada às mudanças políticas ocorridas no período
da chamada Primeira República. Propomos uma discussão sobre as idéias pelas quais
estes autores norteavam sua posição dentro da sociedade, no sentido de definir uma
auto-imagem pela qual o papel do intelectual era estabelecido, além de uma avaliação
das idealizações efetuadas por eles sobre o mundo em que viviam. Exploramos os
temas gerais a partir de temas clássicos do pensamento social e político brasileiro como
as idéias de solidariedade e de interesse associadas aos conhecimentos sobre a
sociedade (tempo social), a política (tempo político) e a história (tempo histórico),
elidindo as possibilidades e os limites teóricos do liberalismo e do federalismo da
Primeira República brasileira. O ponto central que se ressalta neste sentido são as
contradições e os percalços da modernidade à brasileira.

Palavras-Chave: Americanismo – Iberismo – República – Alberto Salles – Sílvio


Romero – Oliveira Vianna.
Sumário

Introdução…………………………………………………………………………...9
Capítulo 1
Americanismo e Iberismo: matrizes do pensamento republicano brasileiro............18
1.1 A Latência Americana........................................................................................18
1.2 A Desilusão Republicana....................................................................................25
1.3 A Latência Ibérica..............................................................................................29
Capítulo 2
Interesse liberal, evolução social e federalismo político .........................................36
2.1 O problema da política: política abstrata, política concreta e evolução.............36
2.2 Separatismo, federação e teoria da nacionalidade..............................................40
2.3 O problema do interesse e da solidariedade em Alberto Salles..........................46
Capítulo 3
Evolução Social, identidade nacional e re-invenções da política.............................51
3.1 Tempo social: tradição e identidade nacional.....................................................52
3.2 O problema da política: compasso entre os tempos...........................................57
3.3 Brasil Social, Desilusões e (re)invenções republicanas......................................65
Capítulo 4
Insolidariedade, interesse clânico e estatismo..........................................................79
4.1 Da utilidade do tempo social e do tempo histórico............................................79
4.2 Oliveira Vianna e o caso brasileiro.....................................................................85
4.3 O problema social: interesse clânico e solidariedade.........................................90
Considerações Finais..............................................................................................100
Bibliografia.……………………………………………………………………....105
Agradecimentos

T erminar uma dissertação não é tarefa fácil. Resta-me agradecer ao apoio


e incentivo de pessoas e Instituições, que auxiliaram a realização da
pesquisa e a escrita deste texto.
Em primeiro lugar, agradeço ao Cnpq – Conselho Nacional de Pesquisa e
Desenvolvimento Tecnológico, a concessão de uma bolsa de estudos, e ao Iuperj –
Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, as condições estruturais
necessárias para o andamento e a conclusão da pesquisa.
Agradeço aos amigos do mestrado e doutorado do Instituto, assim como seus
funcionários e professores. Em especial, à Luiz Werneck Vianna, orientador, pela
parceria e incentivo destas reflexões, à Maria Alice Rezende Carvalho e João Marcelo
Maia, pelas valiosas contribuições que me estimularam a observar lacunas e questões
abertas, e conseqüentemente, à buscar novos caminhos. Agradeço também aos amigos
em minha temporada no Rio de Janeiro, em especial, à Marcelo Diana e Pedro Scotti,
pelo cotidiano sempre agradável. Aos amigos e professores da graduação em História
pela Universidade Federal de Viçosa, agradeço a força nos momentos difíceis e o
compatilhamento das dúvidas iniciais que o ofício propicia.
À minha família, agradeço e dedico estas reflexões: Samira, Waldemar, Alex,
Jonas, Rafael, Isabela e Vanuza.
“Simples operário do pensamento, obscuro e
despretensioso, nada mais almejo do que contribuir,
medida de exíguas forças, para a iniciação na minha
pátria desse grandioso movimento de renovação
científica de onde há de vir para a humanidade inteira,
o verdadeiro regime da ordem e do progresso.” 1

“E, em se tratando de ciências e disciplinas que se


ocupam das criações humanas, cresce de ponto a luta
e a desordem aparece quase sempre.” 2

“Há um século estamos sendo como os fumadores de


ópio, no meio de raças ativas, audazes e progressivas.
Há um século estamos vivendo de sonhos e ficções,
no meio de povos práticos e objetivos. Há um século
estamos cultivando a política do devaneio e da ilusão
diante de homens de ação e de preá, que por toda
parte, em todas as regiões do globo, vão plantando,
pela paz ou pela força, os padrões da sua soberania.
(...) Devemos doravante jogar com fatos, e não com
hipóteses; com realidades, e não com ficções; e, por
um esforço de vontade heróica, renovar nossas idéias,
refazer nossa cultura, reeducar nosso caráter.”3

1
SALLES, Alberto. Ciência Política. Brasília, senado federal, 1997. p.297.
2
ROMERO, Sílvio. Da Crítica e sua Exata Definição. Rio de Janeiro, Imago, 2002. p.371
3
VIANNA, Oliveira. Populações Meridionais do Brasil. pp.20-21.
Introdução

“Não se trata mais, portanto, de conceitos que


classificam experiências, mas sim de
conceitos que criam experiências.”4

intenção inicial deste trabalho é refletir sobre alguns aspectos da obra

A de autores do período republicano, privilegiando as invenções teóricas


efetuadas no campo político e social, e discutir a efervescência crítica
relacionada às mudanças políticas ocorridas no período da chamada
Primeira República. Nossa tentativa é a de formar uma opinião sobre as interpretações
sobre o Brasil realizadas por Alberto Salles, Sílvio Romero e Oliveira Vianna. Em
primeiro lugar, nos propomos a discutir as idéias pelas quais estes autores norteavam
sua posição dentro da sociedade, no sentido de definir seu papel e suas incumbências
no mundo em que viviam. O que está em jogo, é a criação de uma auto-imagem pela
qual sua sociabilidade era estabelecida. Isto incluía os pressupostos de uma ação
interventora dentro da sociedade, seja pelos referenciais cientificistas, seja pela
idealização de uma civilização européia em relação ao atraso brasileiro, seja pela
experiência vivida e a recusa pela organização sócio-política instituída, seja pelos
resultados obtidos por suas reflexões.
Por outro lado desta ponderação, cabe a avaliação das idealizações efetuadas
por estes autores sobre o mundo em que viviam. Trata-se também da constituição de
uma teoria do conhecimento.
A história deve ser apreendida em sua própria historicidade. Sentido da historicidade.
Investigar a constituição lingüística das experiências temporais, ali onde elas se
manifestaram e a forma pela qual, em determinado tempo presente, a dimensão
temporal do passado entra em relação de reciprocidade com a dimensão temporal do
futuro. O prognóstico produz o tempo que o engendra e em direção ao qual ele se
projeta. Produção de configurações estilizadas das formas de controle temporal e
político. Os homens conhecem o seu presente e são capazes de iluminar o futuro, e
isso não de forma teológica, mas sim de um ponto de vista político prático. Criando
assim um complexo pragmático, a fim de extrair do acontecimento casual uma ordem
interna. A luta pelos conceitos ganha relevância social e política. Os acontecimentos
históricos e sua constituição lingüística estão entrelaçados, entre os dois, existe uma
tensão que se modifica continuamente. Não se trata mais de conceitos que classificam
experiências, mas sim de conceitos que criam experiências. Não há expectativa sem

4
KOSELLECK, R. Futuro passado. 2006 p.324.
experiência, não há experiência sem expectativa, entretanto, a presença do passado é
diferente da presença do futuro.
Acesso heurístico para interpretar as realidades passadas.

1 – disponibilidade e possibilidade da história, singular coletivo, história em si (história


como realidade e reflexão sobre esta realidade), renúncia à uma instância extra-
histórica e concepção de ação.
2- as previsões e os planos dos homens são sempre diferentes de sua realização.

Desta forma, somos levados a cogitar o modo pelo qual o mundo em que
viviam era caracterizado que nos levam a outro panorama reflexivo, que se refere a
construção de uma experiência e de uma expectativa, que incluía uma concepção de
tempo histórico, cingido na concepção de que o conhecimento histórico tem sua base
cognitiva na capacidade de criar reconhecimento entre o indivíduo, a experiência e a
expectativa humana.
O aparecimento da história como fonte de conhecimento da política e da
sociedade merece atenção, pois, a partir do momento em que se criou um conjunto de
instrumentos intelectuais, capazes de fundamentar as opções tomadas pelos
pensadores na construção de teoremas de organizações sócio-políticas, houve um
processo de depuramento das possibilidades práticas justificadas através da história, a
partir da secularização do conhecimento e do contraponto aos cânones imperiais. O
ponto comum que se ressalta neste sentido são as contradições e os percalços da
modernidade à brasileira, no que tange à reflexão das inter-relações entre o espaço de
experiência e o horizonte de expectativa.
O espaço de experiência é o passado atual, aquele no qual acontecimentos
foram incorporados e podem ser lembrados. Na experiência se fundem tanto a
elaboração racional quanto as formas inconscientes de comportamento. O que
distingue a experiência é o haver elaborado acontecimentos passados, é o poder torná-
los presentes, o estar saturada de realidade, o incluir em seu próprio comportamento
as possibilidades realizadas ou falhas que se modificam com o tempo. “As
experiências se superpõem, se impregnam umas das outras. E mais: novas esperanças
ou decepções retroagem, novas expectativas abrem brechas e repercutem nelas. Eis a
estrutura temporal da experiência, que não pode ser reunida sem uma expectativa
retroativa.”5

5
Ibid. p.313.
Enquanto, o horizonte de expectativa se realiza no hoje, é o futuro presente,
voltado para o que ainda não existe, para o não experimentado, para o que apenas pode
ser previsto, não se dá enquanto experiência, mas sim, como espera do porvir.

Bem diferente é a estrutura temporal da expectativa, que


não pode ser adquirida sem a experiência. Expectativas
baseadas em experiências não surpreendem quando
acontecem Só pode surpreender aquilo que não é esperado.
Então estamos diante de uma nova experiência. Romper o
horizonte de expectativa cria, pois, uma experiência nova.
O ganho de experiência ultrapassa então a limitação do
futuro possível, tal como pressuposta pela experiência
anterior. Assim, a superação temporal das expectativas
organiza nossas duas dimensões de maneira nova 6.

É a tensão entre experiência e expectativa que suscita novas soluções, novos


empreendimentos, fazendo surgir o tempo histórico através da diferença temporal no
presente, na medida em que entrelaçam diversos passados e futuros de maneira
desigual, alterando a situação de onde esta relação se origina. Na medida em que o
horizonte de expectativa adquire na modernidade, a característica de possuir um
coeficiente de mudança e um coeficiente de variação temporal, as expectativas
relacionadas ao futuro se desvinculam das antigas experiências, e estas já não são
suficientes para balizar novas expectativas.
Este caráter essencial do conflito entre a historicidade da experiência e da
expectativa cria o tempo histórico. A partir do fruto desse conflito, têm-se a própria
historicidade e futuridade da organização social e política. Desta interação da história
na política se forma um horizonte de expectativa que inclui o progresso como
coeficiente de mudança no tempo, configurando a assimetria temporal entre
expectativa e experiência na modernidade.

Pois o tempo histórico, caso o conceito tenha mesmo um


sentido próprio, está associado à ação social e política, a
homens concretos que agem e sofrem as conseqüências de
ações, a suas instituições e organizações. Todos eles,
homens e instituições, têm formas próprias de ação e
consecução que lhes são imanentes e que possuem um
ritmo temporal próprio.7

6
Idem
7
Ibid. p.14.
Posto nestes termos, a ação social e a ação política dispostas nessa historicidade
inerente a cada uma, produz ritmos temporais diferenciados. Assim, a ação social e a
ação política produzem através da experiência e da expectativa tempos distintos,
enquanto a ação social tempo social, enquanto ação política, tempo político.
A aceleração temporal da modernidade se define como percepção da ruptura
entre passado e futuro, uma contraposição à historia magistra vitae, ao dar sentido de
aperfeiçoamento constante ao futuro e sentido e direção à experiência vivida. A
investigação semântica dos conceitos revela componentes de planejamento futuro ao
lado de elementos de longa duração advindos da constituição social e política
originárias do passado.
Esse procedimento heurístico possibilita uma análise sobre os diversos
empregos e significações dos conceitos políticos e sociais apreendidos por sua
realização no nível lingüístico. “A isso se segue uma exigência metodológica mínima:
a obrigação de compreender os conflitos sociais e políticos do passado por meio das
delimitações conceituais e da interpretação dos usos da linguagem feitos pelos
contemporâneos de então.”8
Associado a esta exigência está o fato de que a análise histórica dos conceitos
deve remeter também à dados da história social, na medida em que a semântica se
relaciona a conteúdos que ultrapassam a dimensão lingüística.
Mesmo antes do advento da República no Brasil, exacerbou-se dentro do
republicanismo, o debate sobre os caminhos que deveríamos seguir na nossa
modernidade. Entre os temas das nossas heranças coloniais e da obra do Império, a
pergunta do “quem somos” procurava ser respondida. Neste emaranhado de possíveis
alternativas, destacavam-se duas proposições gerais orientadoras da percepção da
história como singular-coletivo9.
A da nossa originalidade americana, associada à democracia liberal e
federalista, e por conseguinte, ao mundo da cultura material e das instituições cívicas,
e a dos nossos atavismos, oriundos da nossa formação colonial ibérica, impeditiva para

8
Ibid. p.103.
9
Para uma relação mais aprofundada sobre o processo de criação da percepção de singular-coletivo na
modernidade: O advento da idéia de coletivo singular, manifestação que reúne em si, ao mesmo
tempo, caráter histórico e lingüístico, deu-se em uma circunstância temporal que pode ser entendida
como a grade época das singularizações, das simplificações, que se voltavam social e politicamente
contra a sociedade estamental: das liberdades fez-se a Liberdade, das justiças fez-se a Justiça, dos
progressos o Progresso, das muitas revoluções La Revolution.” KOSELLECK, R. Futuro Passado,
2006 p.52.
a concretização do modelo americano. Seríamos uma extensão americana de Portugal,
ou nosso destino estaria ligado às potencialidades democráticas e liberais cujo
principal expoente, a América de “cima”, estava legando ao mundo. 10 Metáforas
criadoras das imagens históricas do passado, além de intensificar o efeito
argumentativo dos conceitos construtores da historicidade, pretendem produzir
imagens do passado e do futuro através das quais se procura abarcar o presente com o
seu fundo de tradição e inovação, conferindo compreensão ao passado e ao futuro. E
estas imagens históricas, que são, por sua vez, metáforas, estão saturadas de passado e
de futuro.
A definição do “quem somos” e do nosso destino, estaria condicionada às
idealizações sobre o passado e sobre o futuro, construindo as próprias idiossincrasias
e estabelecendo novos significados ao presente.
O papel explicativo destas origens, americanas e ibéricas, trama a
dramaticidade das evocações de nosso republicanismo, ao se levar em conta, o
inventário de nossa entrada para a modernidade com o advento da República,
emergindo assim, os nossos dilemas constitutivos através destas alegorias explicativas.
De certo, este debate alegórico, podemos remontá-lo em outra chave – a do
monarquismo - à época do Império, na famosa contraposição entre o Visconde de
Uruguay e Tavares Bastos. Efetivamente a que vigorou institucionalmente –a de
Uruguay-, seja conduzida pelo Partido Conservador, seja pelo Liberal, resultou na
fragilização da representação parlamentar, portanto do “espírito público”, no dizer de
Tavares Bastos, deixando o monarca como último recurso de legitimação do poder.
Centrava-se sobretudo, na correção das marcas de nosso tempo social, via
centralização política e administrativa, numa concepção que via o Estado como o
administrador metafísico do tempo, o elemento propulsor do desenvolvimento
histórico, ao re-afirmar a racionalidade política sobre as demais11.
A estratégia de Tavares Bastos, que em certa medida, foi também a do Centro
Liberal de 1869, e em certo sentido a do Partido Republicano pós-1870, apontava para
os desígnios de nosso americanismo ao propor a descentralização política, o
alargamento da representação da nação, para a formação gradativa da nacionalidade e

10
Estamos utilizando estes termos como uma metáfora. Consiste em uma comparação entre dois
elementos por meio de seus significados “imagéticos”, como uma comparação que não usa conectivo,
mas que apresenta de forma literal uma equivalência que é apenas figurada.
11
CARVALHO, J. A Construção da Ordem, 1980. CARVALHO, M. O Quinto Século. 1996.
da cidadania. O que estava em jogo, era uma leitura política do liberalismo como
elemento propulsor da revolução passiva brasileira12. Com a vitória momentânea de
Uruguay, a matriz política imperial se caracterizou pelo predomínio dos ideais do
liberalismo “estamental”, do catolicismo e do romantismo indianista.
O romantismo indianista buscava a fundamentação da identidade nacional
brasileira, ao formular as raízes do povo brasileiro a partir da exaltação do nativo
indígena. Esta corrente promoveria a idealização da nacionalidade tendo por epicentro
a fusão de um colonizador épico com um bom selvagem. Assim, se firmavam as nossas
características positivas em uma imagem idílica da nacionalidade e se expurgava o
processo de colonização. Pois, para que a nação fosse de fato brasileira era preciso
gerar uma diferenciação com a antiga metrópole, enfim, uma origem nativa. O
propósito político e os aspectos literários se afinavam tanto porque não havia uma
camada letrada autônoma no Império - política, historiografia, letras e bacharelismo
compunham facetas de uma carreira pública unificada. Nota-se que autores como José
de Alencar e Gonçalves Magalhães, expoentes do romantismo brasileiro, atuavam na
política oficial do Império. Estes autores chegaram a exercer postos decisórios dentro
do Estado Imperial.
O catolicismo dava os meios simbólicos da legitimação do trono, a partir da
postulação da forma litúrgica do regime, da representação hierárquica da sociedade,
propiciando argumentos para uma sociabilidade tradicional. Desta forma, a Igreja
vinculava-se intimamente ao Estado. Cabe lembrar que D. Pedro II era também
autoridade máxima da Igreja católica no Brasil, a partir da existência de mecanismos
como o padroado e o beneplácito. Além disto, a Igreja apresentava-se como um braço
do Estado na área rural do país, onde o Estado oficial não conseguia exercer seu poder.
Por fim, o liberalismo definia a cidadania e buscava garantias para que o Poder
Moderador não descambasse em poder pessoal. A unidade de representação política
era a família, e não o indivíduo, portanto, o voto era concebido como função social.
Os poucos cidadãos aptos a exercer o voto, deveriam ter senso moral e econômico para
realizarem o bem coletivo. Por outro lado, o liberalismo imperial convivia com a
questão do escravismo das elites territorialistas.
O processo de cisão política e a disputa pela condução teórica, através dos
intelectuais, e prática, através do Estado, da modernização da sociedade e da economia

12
Ibid.
dos anos 1870 e 1880 geraram uma crise que desestabilizou a chamada ordem
saquarema. Neste contexto de divisões partidárias, o Poder Moderador ganhou
evidência como força incontrolável. As mudanças políticas passariam pela obra do
Poder Moderador, e os liberais passaram a contestar a intervenção direta do Imperador
após a queda do Gabinete Zacarias. Os partidos políticos se desfiguraram, exacerbou-
se a cisão liberal, caracterizada pela deflagração de uma oposição ao regime, e os
princípios da ordem sócio-política foram reiterados pela ala reacionária. Além disso,
a reforma conservadora abriu novas vias de acesso ao universo político para agentes
sociais até então alijados dos centros decisórios13.
Com o advento da República e a Carta de 1891, temos a revira-volta, dentro da
organização do Estado, rumo ao americanismo como possibilidade de acesso ao futuro,
uma espécie de horizonte de expectativa. 14 Um americanismo reinventado, que re-
posicionou os agentes no interior de uma estrutura de poder e de um novo princípio de
autoridade, consagrando uma nova ordem legal, que possuía como elemento central o
reconhecimento da autonomia política dos Estados, e sua conseqüente incorporação
ao sistema federativo. Entretanto, a partir da solução imposta por Campos Salles,
mostrava-se a ambigüidade das novas práticas e a sobrevivência de velhos hábitos,
como a forma geral dos conflitos, expresso na luta entre facções, na investidura da
autoridade nas práticas eleitorais, e na relação público/privado, geral/particular. 15 A
política dos governadores bloqueava o sistema de diferenciação política, negando as
situações conflituosas da política, a República brasileira nascera sem um programa
efetivamente democrático no campo societal.
Nesta República, encarnava-se a simbiose entre a penetração dos interesses
modernos com o patriarcalismo moral tradicional, mais uma re-significação conceitual
e semântica das metáforas. Neste redemoinho, nesta espécie de revolução sem luta, a
início estritamente política, contraditória na Carta de 1891, com sua efetividade prática,

13
ALONSO, Ângela. Idéias em Movimento. 2002.
14
KOSELLECK, R. Futuro Passado. 2006.
15
“O coronelismo como forma de fazer política talvez possa, realmente, ser interpretado como síntese
(solução) histórica de uma revolução inacabada em razão da exclusão das classes populares. Uma
revolução geradora de uma identidade nacional autônoma (por oposição à heteronomia de uma nação
referida a um poder externo a si própria) que se truncou na dispersão da subjetividade republicana por
uma infinidade de centros de poder patriarcal irredutíveis, (...) à generalidade de uma ordem
democrática. (...) Uma síntese portanto entre o velho e o novo.” ANDRADE, R. Ordem Política e
Conflito na Constituição do Estado Brasileiro: 1889-1937. São Paulo, tese de doutoramento FFLCH –
USP, 1981.
juntaram-se elementos aparentemente irreconhecíveis entre si. Tanto a América
quanto a Ibéria, carregavam em si, o peso de nosso passado e nos constituíam.
Neste ínterim, a tensão entre essas culturas políticas, agora sob o viés do
republicanismo, foram criadas e recriadas continuamente através das articulações entre
os conceitos utilizados, a partir de uma redefinição semântica de novas categorias que
circulavam através de outros textos do período, e, lado a lado de novas categorias
importadas de outras tradições intelectuais e culturais redefinidas semanticamente para
adaptar-se à realidade brasileira.
No fundo, procuramos uma via interpretativa sobre as obras de Alberto Salles,
Sílvio Romero e Oliveira Vianna, ressaltando a necessidade de uma análise que tende
a refletir sobre as possibilidades teóricas inerentes a cada contexto e como cada autor
interpretou e agiu sobre tais variantes históricas16. Em Alberto Salles refletimos sobre
suas concepções de política, evolução histórica, federação, sociedade, intervenção na
sociedade, em busca de observarmos em sua obra a constituição de uma alternativa
crítica ao que julgava ser o mundo em que vivia, sob os auspícios da monarquia e da
república.
O empreendimento teórico de Alberto Salles centrava-se na tentativa de
elucidação dos meandros evolucionários que permitiriam a própria evolução histórica
e a formação das idiossincrasias das nacionalidades. Existiam duas proposições gerais
em toda sua obra postas na ação do tempo: uma proposição teórica-política, de
afirmação da teoria republicana e democrática de organização estatal associada ao
liberalismo, e, uma proposição teórica-social, de abordagem do mundo industrial e dos
meandros sociais que permeiam a nacionalidade, como a solidariedade e a cooperação
no mundo moderno.
A tradição liberal, articulada por Salles, versava como ponto central sobre o
indivíduo autônomo que livre e voluntariamente realiza um pacto com os demais
indivíduos na criação e recriação contínua da sociedade, ao mesmo tempo, a narrativa
histórica do romantismo era contraposta pela secularizada narração do progresso. A
polaridade entre indivíduo e o todo social o levou a exaltar a liberdade individual como
princípio chave, mas seu organicismo e sua teoria da nacionalidade, o fazem exaltar
também o todo social.

16
Trata-se de considerar o texto escrito como uma forma de ação efetiva dentro da sociedade. Uma
possibilidade de intervenção no mundo público, através de debates e polêmicas.
Esta espécie de dialética entre indivíduo e povo-nação (chave para
entendimento e base da cidadania e autoridade) atinge dois pontos básicos com relação
ao futuro desejado, pois, o horizonte de expectativa girava sobre a concepção orgânica
e funcional da sociedade, através da pedagogia que a prática democrática estabeleceria
ao reatar com o nosso passado de americanismo político, e, por outro lado, se
estabeleceria a cooperação social advinda dos sentimentos anti-individualistas.
Alberto Salles procurava o retorno às nossas raízes americanas. Seríamos
genuinamente americanos até a vinda da família real portuguesa em 1808, fato este
que, promoveu o desajuste entre o nosso tempo social e o nosso tempo político. A obra
da monarquia sobre o nosso tempo social, arrefeceu as nossas características
americanas, liberais e democráticas.
Haveria a precisão de uma intervenção em nosso tempo social levada a cabo
pelos intelectuais dentro do Estado, pois, a implementação da representação, da
federação e da reorganização do trabalho como problemas que solicitavam respostas
no âmbito da consolidação da nacionalidade, estavam associados ao funcionamento do
Estado. A federação traria consigo a descentralização do poder político, a unidade
nacional e o equilíbrio de nossas forças democráticas propulsoras do interesse coletivo.
A ação do Estado deveria ser tal que estimulasse o desenvolvimento dentro da ordem,
gerando a organicidade e a funcionalidade necessárias para o progresso, fazendo rodar
a engrenagem do tempo histórico. Tratava-se de um retorno ao nosso americanismo
perdido. Os textos selecionados desse autor para análise foram Catecismo Republicano
(1884), A Pátria Paulista (1887) e Ciência Política (1894).
Em Sílvio Romero abordamos temas como a relação entre história, tradição e
mestiçagem, a concepção de sociedade e política, apontando o movimento das
invenções e (re)invenções da república efetuadas pelo autor, caracterizando-o como
um movimento de desilusão republicana, fruto do descompasso entre o tempo político
e o tempo social. Sílvio Romero encarnava a nossa dicotomia, a floração desta
oposição metafórica entre o novo e o velho em nossa jornada rumo à modernidade.

Acabamos sempre confundido-o com o Brasil. É que ele se


parece muito com as coisas brasileiras – é um tumultuar de
contrastes, de esperanças e de desilusões, um misto de
simplicidade e de complicação, de erros tremendos e de
boa vontade de acertar. Sílvio Romero reflete, ao nosso ver,
a ingenuidade um tanto complicada, das nossas elites
intelectuais. Por isso mesmo ele nos atrai. O que lhe dá
grandeza é o seu infatigável esforço de compreensão do
Brasil; não é a sua filosofia.(...) Sílvio é o Brasil, atropelado,
errado, mas vivo17

Como veremos, para ele, teríamos elementos, ibéricos e americanos, de uma


forma bastante peculiar, nunca se esquecendo que, em nosso teatro histórico, estava
montado o palco de uma civilização que se reinventava. Romero representa o momento
da transição da América, encarnada por Alberto Salles, à Ibéria de Oliveira Vianna, e,
pela disputa entre essas matrizes rivais, sem que uma interpele completamente a outra,
a cada momento de sua vida, admitiu elementos de ambas.
As principais obras e opúsculos elencados foram: Introdução a História da
Literatura, História da Literatura Brasileira (1888), Presidencialismo e
Parlamentarismo - cartas a Rui Barbosa (1893), Introdução a doutrina contra
doutrina (1894), As Zonas Sociais e a Situação do Povo – trecho duma carta a M. E.
Demoulins (1906), O Brasil Social (1907), Realidades e Ilusões no Brasil (1907), As
Oligarquias e Sua Classificação – Discurso pronunciado aos 31 de maio de 1908
(1908), A Bancarrota do Regimen Federativo na República Brasileira (1910), O
Brasil na Primeira Década do Século XX (1912) e O Remédio Brasileiro (1914) .
Em Oliveira Vianna sublinhamos as relações efetuadas entre a concepção de
história, de política e sociedade, cunhados como pressupostos para a organização do
Estado. Para ele, a nossa américa seria outra, a de “baixo”, caracterizada pelos
atavismos de nossa colonização. A nossa saída estaria em retomar os projetos
efetuados pelo Estado Português, e, principalmente, concretizarmos a obra da
monarquia. Seríamos no fundo ibéricos, e a República não dera conta de apagar essa
fatalidade de nosso ambiente social e político. Tal Ibéria estaria “escondida”, agindo
subterraneamente no Brasil “real”. Vianna observava a inadequação do liberalismo e
do federalismo entre nós, como projeto “civilizatório”, sobretudo, por não serem
instrumentos capazes de induzir a integridade nacional, a ordem, a legalidade e o
ajustamento com a nossa realidade social e o nosso “homo sociologicus”.
Os textos escolhidos para a nossa interpretação sobre o pensamento de Vianna
referem-se aos textos publicados em torno dos anos vinte, como Populações
Meridionais do Brasil (1920), Pequenos estudos de psicologia social (1921), O
idealismo na evolução política do Império e da República (1922), Evolução do povo

17
CRUZ COSTA. Contribuição a História das Idéias no Brasil. 2 ed. Rio de janeiro, Civilização
Brasileira, 1967. p.299 e passim.
brasileiro (1923), O Ocaso do Império (1925), O idealismo na Constituição (1927) e
Problemas de Política Objetiva (1930).
A nossa principal fonte são os textos escritos por estes autores, entendidas
como uma forma de experiência social e política. Por um lado, observamos a idéia do
contraste entre eles, buscando uma interpretação comparativa, por outro lado,
atentamos para o feixe de idéias que estavam presentes em dado momento histórico e
que se constituíram como uma das tradições do pensamento republicano brasileiro.
Em suma, exploramos os temas gerais a partir de temas clássicos do
pensamento social e político brasileiro como as idéias de solidariedade e de interesse
associadas aos conhecimentos sobre a sociedade (tempo social), a política (tempo
político) e a história (tempo histórico), processando no alcance, as possibilidades e os
limites teóricos do liberalismo e do federalismo da Primeira República brasileira. O
ponto de partida é a caracterização do tempo social, tempo político e tempo histórico
que assinalam a crítica ao funcionamento prático da Primeira República e a transição
do predomínio das idéias liberais para a articulação de um ideário republicano que
nascia em contraste com a tradição liberal vigente.
A constituição de uma tradição de pensamento brasileiro, com suas múltiplas
singularidades e com seus percalços ao longo de um tempo histórico não-linear ou
cronológico, está aberto às nossas intervenções. Seria como se o passado e o presente
fossem faces de um processo inesgotável de possibilidades sempre em movimento.
As concepções analisadas embaralham o contexto de produção e difusão de
nossas idéias, transfigurando-se em tradições de pensamentos que são apropriadas e
reinterpretadas sobre diversas circunstâncias, pois, através das metáforas da América
e da Ibéria engendradas, movem os atores a estipularem novas formas de organização
política e social, numa espécie de sublimação do nosso passado, ao re-inventar e re-
significar estas matrizes. Dessa forma, a significação polissêmica de americanismo e
iberismo, não pode ser considerada a partir de uma concepção fixa de tradição, e sim,
aberta às intervenções efetuadas pelos intelectuais na construção de seus textos.
Capítulo 1
Americanismo e Iberismo: matrizes do pensamento republicano
brasileiro.

1.1– A Latência Americana

C omo afirmamos anteriormente, o empreendimento teórico de Alberto


Salles centrava-se na tentativa de elucidação
evolucionários que permitiriam a própria evolução histórica e a formação das
dos meandros

idiossincrasias das nacionalidades. Existiam duas proposições gerais em toda sua obra
postas na ação do tempo: uma proposição teórica-política, de afirmação da teoria
republicana e democrática de organização estatal associada ao liberalismo, e, uma
proposição teórica-social, de abordagem do mundo industrial e dos meandros sociais
modernos que permeiam a nacionalidade, como a solidariedade e a cooperação. A sua
abordagem contrapunha a organização do Império, suas críticas mais virulentas foram
dirigidas à centralização monárquica, à religião de Estado, aos critérios da
representação política, aos partidos, à escravidão e à monocultura latifundiária.
No fundo, Alberto Salles procurava o retorno às nossas raízes americanas. A
obra da monarquia sobre o nosso tempo social, para ele, arrefeceu as nossas
características americanas, liberais e democráticas. “A idéia de independência era a
única que fornecia ao sentimento popular um ponto seguro de convergência, tornando-
se cada dia mais saliente, como a primeira aspiração nacional.”18 Entretanto, “o brado
sumamente ridículo de –independência ou morte- que se levantou nos campos do
Ipiranga, como um protesto solene da colônia pela sua emancipação política, não foi
mais do que uma verdadeira farça.”19 Desta forma, “a constituição social, que já se
achava então perfeitamente acentuada, não foi que determinou a constituição política,

18
SALLES,A. Catecismo Republicano. p.104.
19
Ibid. p.113.
segundo devia ser, senão a vontade única de um príncipe aventureiro.”20 “A monarquia
brasileira, portanto, não teve sua origem na vontade popular.”21
Fato este que, promoveu o desajuste entre o nosso tempo social e o nosso tempo
político. Alberto Salles ansiava a concretização da imagem que Tocqueville fizera anos
antes da América. Desde a viagem de Tocqueville aos Estados Unidos, no século XIX,
esse se tornou mais um paradigma de constituição social e política, cujo exemplo,
lastreava a humanidade: a democracia22. Nada melhor do que estudar a democracia no
seu caso mais específico e onde seu “espírito” mais se desenvolvia: a América, que na
verdade, seria um apêndice do caso inglês23. Para tanto, Tocqueville desenvolveu uma
análise da sociedade americana que procurasse as causas e o funcionamento desta
democracia. Ele estabeleceu reflexões sobre os aspectos políticos, jurídicos, culturais
e sociais da organização democrática americana.
A América, vista por Tocqueville, possuía um interessante ponto de partida: a
unidade lingüística e cultural, as origens comunais de governo e a crença na soberania
do povo, se atentando para o fato de que, a América teria o mesmo grau de civilização
(costumes e hábitos do povo). A especificidade do caso americano se encontrava, para
ele, na participação do povo no que diz respeito à coisa pública, tendo por sentido, a
ação baseada no bem comum, estimulado pela dinâmica da comuna (township) e pela
própria estrutura administrativa. A descentralização administrativa no caso americano,
seria um imperativo para a liberdade. Na América, as instituições democráticas
exigiriam que cada cidadão desempenhasse um papel prático no governo, moderando
o seu excessivo gosto pelas teorias gerais, o americano, seria assim, um ser social
pragmático.
Na América de Tocqueville, a democracia uniria o interesse particular ao
interesse geral, para freiar o individualismo, pois, as instituições sempre lembrariam
ao indivíduo que ele está em sociedade. A doutrina do interesse bem compreendido
seria um empreendimento filosófico e moralista, que se reforçaria através do hábito e

20
Ibid. p.114.
21
Ibid. p.115.
22
Segundo Jasmin, o conceito de democracia em Tocqueville apresentava um aspecto duplo, de forma
de governo e forma de sociedade, assim, “por um lado, a democracia serviu para nomear as sociedades
históricas que ultrapassavam as estruturas sociais herdadas do feudalismo. (...) O processo secular que
opera a transição das sociedades aristocráticas para a modernidade igualitária foi então denominado
‘revolução democrática’. Por outro lado, o conceito ganhou estatuto teórico de totalidade abstrata para
significar um modelo de ordem social fundada na premissa da igualdade.” JASMIN, M. Aléxis de
Tocqueville: a historiografia como ciência da política. 2ª ed. Belo Horizonte, Editora UFMG, Iuperj,
2005. p.39.
23
TOCQUEVILLE, A. A democracia na América. Belo Horizonte/São Paulo, Itatiaia/Edusp, 1977.
ressaltaria a questão da utilidade das proposições na vida prática e cotidiana do
indivíduo. A moral proveniente das associações uniria os homens ao redor de
interesses grupais, a religião afagaria os interesses materiais na igualdade. A liberdade
seria o único recurso que obrigaria os cidadãos a se basearem nos negócios comuns,
na medida em que, a igualdade de condições estimularia o individualismo. A liberdade
democrática gerava a procura de prazeres materiais através da indústria.
Seria nesta “América tocquevilleana”, modelo de entrada na modernidade, da
qual também seríamos parte integrante, segundo Alberto Salles, que deveríamos nos
espelhar. Ele apontava que, “todas as aspirações, todos os sentimentos, convergem
hoje para o regime da mais perfeita igualdade; e quando uma crença se enraíza no
coração das massas, ela passa imediatamente da ordem social para a ordem política.
De sorte que a abolição dos privilégios sociais traz como conseqüência inevitável a
eliminação dos privilégios políticos.”24 O mundo do interesse político se associava à
aspiração moderna da igualdade, tendo em vista, a promoção do bem público via
participação política e satisfação dos interesses sociais.
Para ele, havia a necessidade do advento de uma autoridade reguladora desta
diversidade das necessidades que brotariam dos agrupamentos intra-sociais,
responsáveis também, pelo fenômeno da cooperação social. “À cada órgão a sua
função e a cada função o seu órgão.” 25 A autonomia política dos Estados, e o
conseqüente processo de descentralização, propiciariam o desenvolvimento moral e
material da sociedade. A chamada lei do progresso em sociologia, montada sobre a
dicotomia integração/desintegração, ou em outra chave, conservação/renovação,
preconizava o papel da reconstrução da nacionalidade, ao estipular pelo federalismo,
a unidade nacional. A autonomia política, administrativa, econômica e financeira, dos
Estados e Municípios criariam um novo sentido às nossas atividades públicas, pois,
indivíduo e Estado, tornar-se-iam entidades mais “próximas”. Seria assim, que a
Constituição e o direito tornar-se-iam “monumentos” orgânicos da própria sociedade,
pois, deveriam consagrar, “de uma maneira formal e positiva, todas as liberdades
individuais e sociais e cercá-las de todas as garantias precisas para a sua efetividade
real, de modo a ficarem todas completamente fora da ação do poder político.”26

24
SALLES, A. Catecismo Republicano. p.52.
25
Ibid. p.22.
26
Ibid. p.37.
Deste modo, estava montado o arquétipo do sistema representativo entre nós,
na união entre o interesse liberal, o federalismo e a evolução social, resultando no
sistema representativo à americana. Tratava-se de reorganizar a pulsão democrática
em nosso organismo social.27

Que no sistema representativo não se reconhece parcela


alguma do poder público, que não tenha a sua origem na
sociedade: que a nação não deve ser privada um só instante
do poder de fiscalização, por isso que ela deve, quando
quiser, regular todas as funções do governo; que a
autoridade governamental não é objeto de transmissão
hereditária, que se adquira pelo simples fato do nascimento;
que todas as funções públicas devem se achar subordinadas
ao princípio eletivo, visto como poder de fiscalização
suprema deve residir inteiro na nação; que os indivíduos
que exercem o poder governamental devem todos ser
escolhidos pela nação, em virtude do elemento eletivo ou
móvel, único capaz de impedir que esse mesmo poder
venha a se degenerar em uma soberania de direito plena e
constante; e finalmente, que a mudança é tão necessária ao
governo como a própria divisão dos poderes.28

A ação do Estado deveria estimular o desenvolvimento dentro da ordem


gerando a organicidade e funcionalidade próprias ao progresso moderno. Para Salles,
a ordem social, poderia ser natural ou artificial, “conforme se o lugar que cada
indivíduo ocupa no seio da sociedade é determinado imediatamente pelas suas próprias
aptidões ou por uma vontade arbitrária qualquer.” A ordem na democracia deveria ser
“naturalizada”. A monarquia seria o regime da “imobilidade e da permanência: é a
negação formal de todo espírito de renovação.(...) A República, ao contrário, é um
governo essencialmente elástico, essencialmente liberal, essencialmente perfectível”,
assim, “é um governo em que a soberania popular reside inteira na nação, em que todas
as atividades são cuidadosamente aproveitadas, em que as modificações se fazem com
facilidade; em uma palavra, é um governo de discussão e publicidade.”29
O liberalismo de Salles, o levava a crer, que a participação política se daria
através da organização dos interesses, criados espontaneamente pela sociedade. Assim,
à “iniciativa individual é que se deve deixar entregue a livre expansão da atividade

27
Alberto Salles, como teórico e propagandista do republicanismo brasileiro, radicalizou a postura
contida anos antes no Manifesto republicano de 1870. “Somos da América e queremos ser americanos.
A nossa forma de governo é, em sua essência e em sua prática, antinômica e hostil ao direito e aos
interesses dos Estados americanos.” “Manifesto do Partido Republicano” In: AMARAL, Roberto,
BONAVIDES,Paulo. Textos Políticos da História do Brasil. 3 ed. Brasília, Senado Federal, 2002. p.495
28
Ibid. p.44.
29
Ibid. p.50.
mercantil, ocupando-se apenas o Estado em favorecer, por meio da mais ampla
liberdade de associação e contrato, o constante congraçamento dos esforços e dos
capitais particulares.”30 Neste mundo dos interesses, estava presente a noção de uma
sociedade orgânica e funcional. Pela junção destes interesses individuais, fomentados
pela cooperação rumo à concretização de objetivos comuns, a integração social dar-
se-ia pela identidade de funções dentro do organismo social, e, pelo conjunto de
dependência mútua entre estas funções criar-se-iam as condições para a integração da
nacionalidade. Como vimos acima, esta seria a mesma lógica, aplicada por Salles, em
sua versão do federalismo. Pelo interesse individual, chegar-se-ia ao interesse coletivo,
pelo interesse dos Estados, chegar-se-ia ao interesse nacional.
Tornaram-se clássicas, as afirmações de Richard Morse sobre o espelho entre
as duas Américas, as de matrizes ibéricas e americanas.31 O ponto central deste debate
era a relação entre o privado e o público, entre o indivíduo e a comunidade, herdadas
pela(s) América(s) em seu processo constitutivo colonial. No iberismo, haveria a
identificação da ausência do individualismo anglo-saxônio como fator explicativo da
incapacidade brasileira para se organizar a sociedade política. Haveria uma análise
entre os ibéricos, sobre a ausência do espírito de iniciativa, da fragilidade da
consciência coletiva e a excessiva dependência do Estado, portanto, não teríamos a
cultura material e o civismo da América anglo-saxônica. A tradição ibérica brasileira,
salientaria os aspectos integrativos, participativos e afetivos, com ênfase na comunhão,
na incorporação, na predominância do todo sobre o indivíduo, em contraponto ao
individualismo, ao self-made man, ao materialismo e à política como lugar do conflito,
próprios do americanismo.
Apontamos em outro lugar desse texto, que Sílvio Romero exacerbaria a pulsão
do ideário republicano do americanismo para o iberismo. Se considerarmos sua obra
em conjunto, observaremos que em suas posições estavam presentes elementos destas
duas tradições. De início, Sílvio apontava para uma saída à americana, entretanto, com
o passar do tempo, com a conseqüente desilusão republicana e o descobrimento do
Brasil real, sua posição se afeiçoa mais ao iberismo. Desta pulsão entre o
americanismo e o iberismo em sua obra que passaremos agora.
Nos seus primeiros estudos sobre a literatura brasileira, Romero apontava para
os fatores pelos quais a identidade nacional seria construída. O nosso processo de

30
Ibid. p.26.
31
MORSE, R. O Espelho de Próspero. 1987.
colonização nos legava o encontro de três raças, cada qual com sua cultura e seus
modos de existência. O Brasil, seria assim, um país mestiço. Neste jogo de ações e
reações de nossa psicologia, com as nossas crenças, idéias e sentimentos,
encontraríamos a nossa organização societal, base para o empreendimento de nosso
tempo político. Entretanto, como ele assinalava,

Atravessamos uma época de crise para o pensamento


nacional: na política e na literatura o momento é grave.
Numa, como noutra, nos falta a força própria. Bem como
na ordem social nos falha a vida do município e a dignidade
do trabalho independente, assim nas letras falece-nos o
peso das convicções maduras e a sublime audácia dos
espíritos emancipados.32

A força criadora americana, associada à capacidade orgânica da literatura, e o


eventual dinamismo civilizador, teríamos que paulatinamente construir, no sentido do
progresso ocidental. Seríamos o “novo” no mundo, o gérmen da modernidade, no
fundo, americanos.

deve aceitar o fato da civilização e não querer por-se fora


dela. Deve apoderar-se das novas inspirações, que ilustram
a ciência atual, e procurar acompanhá-las, entrando na
pugna como combatente e não como espectador. A
civilização moderna é uma obra complexa; para ela todos
os povos devem agitar-se. À América, cumpre não esquecê-
lo, cabe trabalhar também. Então seremos originais e, ao
mesmo tempo, de nossa pátria. Nessa grande obra da
civilização não há privilégios de raças e continentes; há
somente o privilégio da força criadora. Quem mais
trabalha e adianta, mais preitos e considerações tem. 33

De certo, a nossa América guardaria as influências “perturbadoras” do


português, do índio e do negro. As diferenças no sentido da colonização entre as
Américas seria mais um elemento que teríamos que superar rumo a concretização de
nosso destino.

Os portugueses não vieram se fixar aqui com o mesmo


espírito que os ingleses na América do Norte. A fonte da
população anglo-americana foi em larga escala de
puritanos. O caráter que presidiu-lhe foi bastante livre e
elevado. Nossa origem embebeu-se de outras aspirações; o
católico e o aventureiro, que para aqui vieram, prendiam
suas raízes na tirania. O povo inglês naquele tempo tinha

32
ROMERO,S. A Literatura Brasileira e a Crítica Moderna. p. 41.
33
Ibid. p.66. Grifos nossos.
sede de liberdade, as lutas religiosas estavam em seu dia.
O povo português dormitava na beatice; a Inquisição tinha
a sua noite.”34

Seríamos uma dessas “nações novas”, cuja nacionalidade se achava em


construção. “É banal ainda repetir que a história do Brasil –literária e política- está de
todo por fazer. Não há um só tipo nacional que ocupe por direito seu lugar.”35 A nossa
identidade nacional, típica de nosso desenvolvimento histórico, poderia articular as
nossas tradições rumo a um novo tempo social.
No embate com as velhas concepções de mundo herdadas, o americanismo
sairia vencedor entre nós. Na medida em que,“a nação brasileira, se tem um papel
histórico a representar, só o poderá fazer quanto mais separar-se do negro africano, do
selvagem tupi e do aventureiro português.”36 Assim, seria que a democracia pulsaria
em nossos corações americanos, destruindo os nossos atavismos de formação e de
pensamento. Distanciando-nos do iberismo. “É a vida democrática e livre, o
americanismo, que mata o indianismo, como mentiroso e selvático, e o lusitanismo,
como poeirento e despótico. É a alma americana, como a civilização moderna a
fortaleceu, crente no homem e não nos fantasmas do pensamento.”37
Neste momento de sua vida, o americanismo associava-se ao moderno, à
democracia, à igualdade, à liberdade, ao “materialismo” das concepções sociais,
contraponto das teorias “metafísicas” de organização da autoridade social e política.

A literatura brasileira, a de toda a América, deve ser


adiantada como filha mais nova da civilização atual; deve
dar a lição de uma literatura que paira muito alto sobre os
prejuízos das raças, embriagada pelo incentivo da liberdade;
deve ser pensadora e democrática, séria e impertubável,
viril e fecunda; como a força de nações novas que se
aparelham para representar a terceira fase da civilização: o
mundo américo-europeu, como o chamava o filósofo. Ela
não há de ser a reprodução de um passado, que já morreu,
quer ele haja sido americano, quer não. À América cumpre
não pedir inspirações à morte, ou ela se lhe antolhe no
Velho ou no Novo Mundo. Cabe-lhe formar a consciência
clara do seu futuro, e começar, desde já, a trabalhar para
ele.38

34
Ibid. p.63.
35
Ibid. p.76.
36
Ibid. p.104.
37
Ibid. p.67.
38
Ibid. p.68.
O americanismo estava se realizando apesar do iberismo. No ano da
instauração do regime republicano publicou-se com o apoio39 de Sílvio Romero, a
Mensagem dos Homens de letras do Rio de Janeiro ao Governo provisório da
República do Brasil:

O povo, e, quando dizemos o povo, referimo-nos àquela


grande parte da nação que os aristocratas de todos os
tempos chamaram desdenhosamente o terceiro e o quarto
estado, donde, reparai bem, em sua maioria saiu sempre o
nosso glorioso exército; os homens de letras, e, quando
dizemos os homens de letras, referimo-nos a todos aqueles
que, tomando a si os encargos intelectuais da pátria, foram,
no curso de quatro séculos, os fatores mais energéticos e
mais desinteressados de nosso progresso; plebe e
pensadores, sempre estas duas forças caminham aqui
unidas!40

A cada mudança de posicionamento político, surgiria uma nova construção de


história para o Brasil, com a alternância na participação de diversos sujeitos históricos
na esfera política brasileira. A invenção de uma história para o Brasil se relacionava
com a sustentação de suas idéias sobre a sociedade e sobre a política. À medida que
alterava suas preferências de organização sócio-política, mudava-se o passado, o
presente e o futuro do país.

1.2 – A Desilusão41 Republicana

C om o advento do regime republicano, houve no discurso romeriano um


momento de euforia com o novo regime. Em 1894, Sílvio Romero
abordou o advento da República relacionando-o a aspectos da sociedade brasileira,
onde a constituição do povo deteve papel central no processo de “democratização” do
país. “A república foi uma vitória dessas populações novas, representadas por seus
homens mais eminentes, e por isso ela tem o apoio e reclama os aplausos de nosso
povo. Ela representa a maioria e tem assim um esteio etnográfico.”42 Desta forma, o

39
Algumas fontes apontam que foi o próprio Sílvio Romero quem redigiu este texto.
40
Mensagem dos homens de Letras do Rio de Janeiro ao Governo Provisório da República do Brasil.
Apud MOTA, Maria Aparecida Rezende. Sílvio Romero : dilemas e combates no Brasil da virada do
século XX. p. 42.
41
Sobre a desilusão provocada pelas relações entre espaço de experiência e horizonte de expectativa
nos projetos políticos surgidos na modernidade “Mas depois de haverem nascido de uma revolução,
quando os projetos políticos correspondentes se transformam em realidade, as velhas expectativas se
desgastam nas novas experiências.” KOSELLECK, R. Futuro Passado. 2006, p.326
42
ROMERO, S. Introdução de Doutrina Contra Doutrina. pp. 75-76.
nosso tempo social passou a ser o elemento central na organização republicana, na
medida em que a República estaria em consonância com os interesses da maioria. Seria
a sublimação do nosso tempo social com o nosso tempo político através de um
americanismo particularizado no Brasil, a junção entre o federalismo e o
parlamentarismo como alternativa política para o Brasil.
Entretanto, o funcionamento prático do regime insinuara a Sílvio Romero e a
Alberto Salles os desafios de uma ampla reforma política e moral. Para Salles, era
preciso definir os órgãos e as funções da administração e da opinião, no arquétipo de
organização republicana e democrática, para que o sistema adquirisse a funcionalidade
necessária.

Segundo o regime representativo, que é o atualmente


estabelecido entre todos os povos continuadores da
civilização ocidental, com algumas modificações neste ou
naquele Estado, conforma a índole e as tradições históricas
de cada nacionalidade, o povo delega os seus poderes
soberanos a mandatários de sua escolha, eleitos
temporariamente como funcionários ou executores de sua
vontade. A eleição aparece, pois neste regime como um
verdadeiro artifício político, para a constituição da
representação nacional, órgão autorizado da opinião. Quer
isto dizer que nos governos representativos, qualquer que
seja sua forma, supõe-se sempre que a assembléia nacional
(...) é o órgão legítimo da opinião e como tal cumpre-lhe o
dever primordial de ser, perante o governo ou o poder
executivo, em quem se encarna a função administrativa, a
intérprete fiel e sempre vigilante das necessidades mais ou
menos urgentes da coletividade social. (...) Qualquer que
seja a organização das assembléias, nunca aparecem os
seus membros como uma corporação uniformemente
constituída pelo sentimento moral do dever e do respeito
aos interesses reais da nação, senão como um ajuntamento
heterogêneo de grupos rivais, mesquinhos pelas paixões
dominantes e desprezíveis pela reconhecida
incompetência.43

Em nossa marcha civilizatória rumo ao nosso peculiar destino americano,


haveria a necessidade de uma intervenção em nosso tempo social, pois, a
implementação da representação, da federação e da reorganização do trabalho, como
problemas que solicitavam respostas no âmbito da consolidação da nacionalidade,
estariam agora, associados ao concurso sistemático. Certamente, para Salles, a idéia
de federação traria consigo a descentralização do poder político, a unidade nacional e
o equilíbrio de nossas forças democráticas propulsoras do interesse coletivo, entretanto,

43
SALLES, A. Ciência Política. p.39-40. Grifos nossos.
em nossa situação de metamorfoses regressivas, o nosso tempo político, caracterizado
pela falta de senso cívico e de responsabilidade, necessitava de uma re-elaboração.
“Daí ainda este desprezo que em muitos países tem merecido da parte de estadistas
como Bismarck, que, saltando por cima da ficção reinante, sabem compreender melhor
os destinos social e político da sua nacionalidade e empreendem com rigor e energia a
grande obra da integração nacional.” 44 Dada esta situação, a figura do publicista
surgiria como fonte de resolução de nossos males, ao intervir no seio de nosso tempo
social, cativando-nos para a democracia e corrigindo as disfunções do sistema
representativo.
Após a estruturação da ordem oligárquica na Primeira República e a decepção
republicana, notamos na obra romeriana um posicionamento crítico ao federalismo e
a proposição de uma República Unitária Parlamentar, com a incumbência de promover
a igualdade através da democracia e da mestiçagem. Sua abordagem requereria uma
concepção integrativa, dando ênfase na incorporação do Brasil real “descoberto” por
Euclides da Cunha. Ele estava realizando uma guinada para o iberismo, ao descobrir
o Brasil a partir da chave euclidiana da civilização e barbárie, em uma tecla oposta à
de Sertão e Litoral. Euclides da Cunha construiu uma dualidade contrapondo o falso
Brasil do litoral ao Brasil real das zonas semi-áridas. De modo que, apenas o mestiço
do litoral seria degenerado, sendo o outro, simplesmente um retardatário no tempo.
Como conclusão, teríamos que, se um Brasil está perdido, ao outro ainda se pode
delegar alguma esperança “civilizatória”.
As “reformas pelas cimalhas” empreendidas pela República, para Romero,
criariam um processo de ilusionismo, gerando o abandono das populações interioranas
pela elite intelectual e política da época. Este Brasil social, o levaria a crer que, a
política não poderia ser mais o lócus do conflito, como liberalismo radical, e sim, da
comunhão nacional. Desta forma, “o povo brasileiro, pelo seu estado de cultura, por
seus antecedentes étnicos e históricos, por sua educação, por seu caráter, por suas
tendências, não era nem é apto para esse federalismo que coseram aos ombros.”45 A
sua concepção sociocêntrica de abordagem exaltava a predominância da coletividade
sobre o indivíduo e a nossa capacidade integrativa. Seríamos

um prolongamento da civilização lusitana, um povo


americano, o que importa dizer que este povo, que não

44
Ibid. p.41.
45
ROMERO, S. O Brasil Social e outros estudos sociológicos. p.189.
exterminou o indígena, encontrado por ele nesta terra e ao
qual se associou, ensinando-lhe a sua civilização, que não
repeliu de si o negro, a quem comunicou os seus costumes
e a sua cultura, predominou, entretanto, pelo justo e
poderoso influxo da religião, do direito, da língua, da moral,
da política, da indústria, das tradições, das crenças, por
todos aqueles invencíveis impulsos e inapagáveis laços que
movimentam almas e ajuntam homens.46

Neste período de sua vida, Sílvio Romero apontou como tradição histórica
brasileira o comunarismo, para explicar a falta de solidariedade social e a ausência de
um projeto nacional estimulado pela idéia do interesse coletivo. Desde os tempos
coloniais, com a fusão das três raças, o comunarismo a partir do regime patriarcal do
português e do trabalho escravo, enraizou-se nos costumes populares. Contra o
americanismo, o iberismo sairia vencedor entre nós.

A verdade é que nem o colono português nem os seus


escravos, índios e negros, estavam preparados para os
duros trabalhos da cultura americana. A emancipação
rápida pertubou isso ainda mais. Com semelhante base de
família e de trabalho, o regime comunário abalado ou de
Estado domina de alto a baixo em toda a nação, de norte a
sul, de leste a oeste. A família aqui se poderia chamar
patriarcal desorganizada em os tempos coloniais.47

A solidariedade nacional só poderia ser alcançada através de uma


reorganização social e política que levasse em conta este atavismo comunário em
nossa formação, pois,

sem ter agora obtido as do regime de formação


particularista, a que não chegará senão ou por uma
assimilação hábil de elementos provindos das raças
particularistas, ou por um sistema de educação severíssima
de alto a baixo. (...) As tendências comunárias dos povos
que nos formaram agravaram-se consideravelmente na
estrutura da nova sociedade.48

A partir desses instrumentos conceituais, ancorados no social, Sílvio Romero


apontou a ausência do espírito de iniciativa do individualismo anglo-saxônio e a
precariedade das nossas condições na formação do self made man, contrapondo assim,

46
ROMERO, S. O Elemento português no Brasil. p.211.
47
ROMERO, S. As Zonas Sociais e a Situação do Povo. p.190.
48
ROMERO, S. As Zonas Sociais e a Situação do Povo. p.191.
o americanismo político cunhado pelo Legislador de 1891. O sentido atribuído ao
americanismo se alterou profundamente em relação às suas concepções anteriores.

A democracia moderna, comercialista, descrente,


interesseira, materialista e cúpida, fá-las pela ânsia do gozo,
do dinheiro, do lucro, do capital, para urdir trustes e
levantar sindicatos. Será um enorme progresso na ordem
material, porém pavorosa decadência na esfera moral das
relações políticas dos povos.49

A República, dentro dessa perspectiva, não aumentou a participação dentro dos


centros decisórios do Estado, haveria um aparelhamento deste Estado pelas oligarquias,
corporificado no clientelismo, na intervenção do Executivo federal nos estados e nas
fraudes eleitorais. Sílvio Romero alterava a concepção dicotômica da sociedade no
campo da política, contrapondo as categorias povo e oligarquia, que representavam
um antagonismo conflitivo absoluto. Em 1910, apontava que o povo não teve
participação nenhuma no processo que culminou com a instauração do regime
republicano.

A nação tinha adormecido monárquica e na bela manhã de


15 de novembro de 1889 acordou republicana. Era muito
rápido para ser sério, era único em todo o mundo para não
inspirar desconfianças ao observador imparcial dos fatos
sociais. A bestialização, na frase gráfica do mais sincero
republicano do dia, porque tinha a sinceridade da loucura,
a bestialização foi geral.50

Assinalou que a organização social neste caso, não motivou as mudanças


políticas, atualizando em novos termos a realação entre tempo social e tempo político.
“O Brasil espera uma ação que regenere a política nacional; a abolição deste mísero
federalismo que nos envergonha e corrompe e a decretação da República Unitária
Parlamentar.” 51 Agora, o exército era visto como o agente histórico portador do
desenvolvimento e da mudança democrática, caberia a ele tomar frente na derrubada
das oligarquias. A via ibérica, única alternativa política para o Brasil, estava
sistematizada no arcabouço propositivo de uma República Unitária Parlamentar, dada
a fragilidade da consciência coletiva, a excessiva dependência do Estado, e, o fracasso
do federalismo e do liberalismo da Primeira República.

49
ROMERO, S. O Elemento Português no Brasil. p.217.
50
ROMERO, Sílvio. O Brasil na primeira década do século XX. p. 113.
51
ROMERO, S. A Bancarrota do Regime Federativo no Brasil. p.17.
1.3 - A Latência Ibérica

A companhando as concepções de Alberto Salles e Sílvio Romero sobre o


papel e a missão do intelectual na sociedade, Oliveira Vianna se propôs
a tentativa de estudar os meandros do nosso tempo social e do nosso tempo político.
Como na latência ibérica de Romero, para ele, a nossa América seria outra, a de
“baixo”, caracterizada pelos atavismos de nossa colonização. Segundo Vianna, a nossa
saída estaria em retomar os projetos efetuados pelo Estado Português, e,
principalmente, concretizarmos a obra da monarquia. Seríamos no fundo ibéricos, e a
República não dera conta de apagar essa fatalidade de nosso ambiente social e político.
Tal Ibéria estaria “escondida”, agindo subterraneamente no Brasil “real” sempre
vilipendiado pelo Brasil “legal”. Vianna observava a inadequação do liberalismo e do
federalismo entre nós, como projeto “civilizatório”, sobretudo, por não serem
instrumentos capazes de induzir a integridade nacional, a ordem, a legalidade e o
ajustamento com a nossa realidade social e o nosso “homo sociologicus”.
Retomando as teses de Oliveira Vianna sobre nossa formação colonial,
podemos afirmar que do meio geográfico e do latifúndio derivaram as principais
características sociológicas da colonização, o poder público fragmentou-se e sua
dinâmica promoveu o desamparo jurídico e político do homem comum e o clã rural
apresentou-se como a unidade social agregadora, geradora da solidariedade clânica
patriarcal.52 Ressaltavam-se os elementos da vida rural brasileira: o isolamento das
suas unidades, ausência de mercado interno entre setores, falta de estradas e
comunicação, ausência do Estado como normatividade de direitos públicos.

52
Para Gildo Marçal Brandão (comentando a obra de Vianna)“tratar-se-á de educar as elites, evitar a
luta de classes, dar prioridade à construção da ordem sobre a liberdade, dar independência ao Judiciário,
limitar as autonomias estaduais, organizar a população por meio de corporações, e construir uma
sociedade civil (civilizada) por meio da ação racional de um novo Estado centralizado.(...) A imagem
do Brasil que emerge do pensamento conservador é a de que esse é um país fragmentado, atomizado,
amorfo e inorgânico, uma sociedade desprovida de liames de solidariedade internos e que depende
umbilicalmente do Estado para manter-se unida. Nesta terra de barões, onde “manda quem pode,
obedece quem tem juízo”, o homem comum só costuma encontrar alguma garantia de vida, liberdade e
relativa dignidade, se estiver a serviço de algum poderoso. Fora disso, estará desprotegido – a não ser
que o Estado intervenha. Ao contrário da Europa e dos Estados Unidos, aqui o Estado não deveria ser
tomado como a principal ameaça à liberdade civil, mas como sua única garantia.” Brandão, G.
“Linhagens do Pensamento Político Brasileiro.” DADOS – Revista de Ciências Sociais, Rio de Janeiro,
Vol. 48, nº 2, pp. 231-269.
Cada núcleo fazendeiro seria um microcosmo social, um pequeno organismo
coletivo, com aptidões cabais para uma vida isolada e autônoma. Daí essa diferença
entre a nossa e as sociedades européias. “Nestas a divisão do trabalho, especializando
as atividades, forma as classes sociais interdependentes – e as une numa solidariedade
estável.”53
Estes fenômenos em questão, com suas matrizes culturais e sociodemográficas,
permitiria a Oliveira Vianna, a partir de suas ferramentas conceituais, interpretar o
modus operandi de certas estruturas oligárquicas de dominação, as quais - seriam
incompatíveis com a constituição de uma democracia liberal- resultariam altamente
efetivas para a aquisição e o exercício do poder.

Em síntese: o povo brasileiro só organiza aquela espécie


de solidariedade, que lhe era estritamente necessária e útil:
- a solidariedade do clã rural em torno do grande senhor
de terra. Todas essas outras formas de solidariedade social
e política – os partidos, as seitas, as corporações, os
sindicatos, as associações, por um lado; por outro a comuna,
a província, a Nação – são, entre nós, ou meras entidades
artificiais e exógenas, ou simples aspirações doutrinárias,
sem realidade efetiva na psicologia subconsciente do
povo.”54

Este tipo de solidariedade clânica, ligada a nosso passado histórico não parecia,
aos seus olhos, destinada a desaparecer como simples consequência do
desenvolvimento ou da modernização no campo político. Oliveira Vianna apontou
como uma constante cultural, a existência desse padrão de dominação envolto na
inexistência de uma articulação espontânea de interesses dos grupos sociais com os
aparatos do Estado, que por sua vez, obrigar-se-iam a interagir com esses grupos
sociais, através de estruturas verticais de poder, em cujo topo se encontraria o chefe
do clã rural e eleitoral. Seríamos o oposto do modelo anglo-saxão.

Na Inglaterra ou na América, todos os interesses sociais,


que saem da esfera, aliás muito restrita, da ação do estado,
são promovidos pela iniciativa privada, pondo a seu
serviço a força estupenda da cooperação social. (...) Essas
formas de solidariedade voluntária, de cooperação
espontânea e livre, só aparecem entre nós sob a ação
empolgante dos grandes entusiasmos coletivos: a frio, com
a automaticidade instintiva dos anglo-saxões, não as
criamos, nem as sustentamos nunca. Partidos políticos, ou

53
VIANNA,O. Evolução do povo Brasileiro. p. 155.
54
Ibid. p.233.
ligas humanitárias, sociedades de fins morais ou clube
recreativos, todas essas várias formas da solidariedade têm
entre nós uma vida artificial e uma duração efêmera. 55

No nosso caso, o poder político e o poder social se organizariam


piramidalmente, de modo tal que, cada chefe rural se conectaria a outro de forma a
montarem uma estrutura de dominação articulada mediante o intercâmbio de “favores”
recíprocos - problemas da pupilagem política pela gratidão e amizade. Sempre se
encontraria um referente em âmbito nacional, que necessitaria controlar em ambito
regional, as autonomias de certos grupos sociais e políticos, com a finalidade de
facilitar o enquadramento político em tempos de eleições. Teríamos então, a situação
bifronte dos chefes de Estado, o conflito entre a Nação e o partido: “os chefes de Estado,
antes de passarem pelo escrutínio popular, passam pelo escrutínio dos partidos e vivem
da sua solidariedade.”56 A força aglutinante dos partidos seria a posse pelo poder ou
iminência desse.

Em síntese: dentre todas essas comunidades partidárias –


federais, estaduais ou locais – somente aquelas que estão,
de fato no poder é que possuem uma verdadeira
solidariedade moral; somente nessas o instinto gregário, o
espírito corporativo, o sentimento do interesse comum, da
defesa comum, do perigo comum é enérgico, resistente,
definido, organizado.57

Em nossa atividade política, seguia Vianna, não teríamos desenvolvido a idéia


de um interesse nacional, transcendente aos interesses imediatos, em nossa atividade
política teríamos ao invés disso, a concepção desta atividade meramente partidária,
exercida e consumida estritamente dentro do pequeno círculo do grupo, do clã, da
facção, do diretório local. “De modo que essa atividade, que poderia ser, exercida á
americana, um fator eficaz de educação democrática, fica, entretanto, pelo seu caráter
restrito e local, obscura e invisível á nação: perde, por isso mesmo, muito do seu valor
e da sua eficiência.”58

A nossa educação política se fez, quase toda, sob um


regime de formação extra-nacional do poder público.(...)
São, pois, trezentos anos de ostracismo obrigatório, de
ausência legal da vida pública, de incapacidade eleitoral

55
Ibid. p.156-57.
56
VIANNA, O. Pequenos Estudos de Psicologia Social. p.128.
57
VIANNA, O. Pequenos Estudos de Psicologia Social. p.127.
58
Ibid. p.93.
qualificada e aceita, no correr dos quais houve tempo
bastante para fixar uma tradição, forjar um caráter e definir
uma psicologia do nosso indiferentismo pela organização
dos poderes públicos.59

Em nosso contexto, continuava Vianna, a estrutura de valores apoiaria a


associação entre o político e esse “caudilho”, fato que justificaria a aquisição de aliados,
seu principal “capital político”, e motor de suas ações dentro do Estado e da política.
Através do estudo dessa estrutura montada, poder-se-ia chegar à fórmula do “remédio”
brasileiro.

Para a determinação e a definição do conceito nacional, do


conceito brasileiro do governo forte o primeiro ponto a
fixar é o da realidade das nossas corporações partidárias,
isto é, das nossas máquinas eleitorais, e sua verdadeira
significação, a sua natureza, os seus fins, as causas da sua
solidariedade, as normas habituais da sua conduta. Este é o
único método racional e científico para a solução do
problema.60

Assim, Vianna realizaria a separação entre os conceitos de liberalismo e


democracia, e, retornava ao iberismo sob a égide do “realismo” de nossas condições
sociais e políticas que se moldaram através de nossa história. A democracia liberal e o
federalismo da Primeira República, e o seu conseqüente americanismo, não
encontrariam, entre nós, ambiente favorável ao seu pleno funcionamento.

Confundimos os agentes do poder com o próprio poder; os


representantes da autoridade com a própria autoridade; os
órgãos do governo com o próprio governo social. Daí a
substituição muito amiudada do poder resultar em
desprestígio do poder; a sucessão constante da autoridade
dar em conseqüência a fraqueza da autoridade; a mudança
contínua dos órgãos do governo produzir a desordem, a
descontinuidade, a instabilidade do governo e da
administração pública e emprestar à vida política do país
uma feição de anarquia permanente. 61

No mundo saxão, haveria a necessidade local de satisfação de interesses


comuns, a preponderância do urbano, o senso de defesa coletiva geradora de
solidariedade nacional, a intelectualização do Estado, e, o princípio imanente da
sociedade e impersonalidade do poder.

59
Ibid. p.97 passim.
60
Ibid. p.124.
61
VIANNA,O. Populações Meridionais do Brasil. p.248.
Eles conseguiram discriminar, com perfeita lucidez, a
diferença entre o poder público, como tal, e os indivíduos,
que o exercem. Através dos representantes da autoridade,
conseguiram ver a autoridade em si, na sua abstração. Do
conceito concreto, tangível, pessoal do estado,
conseguiram elevar-se a um conceito intelectual, isto é, ao
conceito do estado na sua forma abstrata e impessoal. 62

Dadas todas essas condições mencionadas até o momento, a nossa alternativa


far-se-ia via estatismo, que se referia à idéia de fundar através do Estado, o sentimento
e a consciência da unidade nacional e de uma grande missão nacional no alto destino
histórico. Seria preciso um governo centralista e forte, que resistisse aos próprios
aliados.

Governo forte (excluído o lado social da sua ação) será o


que, rompendo com essas praxes más de solidariedade,
tenha a energia moral precisa para realizar, dentro do
próprio grupo a que pertence, a lei jurídica e a lei moral da
justiça. De modo que a sua atitude fundamental, será, não
a de quem ataca adversários; mas – a de quem resiste a
correligionários, entrincheirando-se no Dever e na Lei.63

Dada as suas concepções sobre o nosso tempo histórico, e sua conseqüente


correlação com o processo evolucionário desenvolvido na Europa e na América, no
tempo presente, “diante dos padrões, pelos quais se modela atualmente a moderna
civilização industrial, batido um povo no campo econômico, este povo está
praticamente batido no campo político: a sua soberania será uma ficção a cobrir a
realidade substancial de um suseranato de fato.”64
Nesta correlação entre presentes distintos, mas que se interconectariam no tema
do advento da civilização moderna, a questão social deveria ser resolvida por uma
interpretação à brasileira do mundo anglo-saxão, não mais pensado sobre o viés do
passado, e sim pela via do presente, não mais ao modo americano ou anglo-saxão do
liberalismo e do federalismo, e sim o da solidariedade social através do
corporativismo.65

62
Ibid. p.247.
63
VIANNA,O. Pequenos Estudos de Psicologia Social. p.133-34.
64
Ibid. p.117.
65
Sindicalismo anglo-saxão: Louis Vigoroux e Paulo Rousiers – no qual se observa“o poder
transfigurador desse sindicalismo que se assenta sobre o sentimento de independência individual e sobre
pelo sindicalismo à maneira deles, de acordo com o gênio
especifico da raça. Isto é, sem preocupações políticas, sem
objetivos revolucionários, sem impulsos destrutivos,
contido exclusivamente dentro do campo profissional e
visando objetivos práticos, de melhoria das condições de
vida do mundo trabalhador, pelo desenvolvimento do bem
estar individual do operário e pelo desenvolvimento do
espírito de cooperação e solidariedade.66

Estariam definidos assim, os limites do liberalismo e do federalismo na


Primeira República Brasileira. A efervescência da década de 20, no Brasil, completaria
o movimento do retorno ao iberismo como entrada ao americanismo, sob a crítica ao
funcionamento prático observado por nossos autores do tempo político e
principalmente do tempo social gerados nessa República, levando a outros moldes
dentro do republicanismo, essa convivência matricial.

o espírito de iniciativa pessoal, e tão diferente do sindicalismo doutrinário, radical, dinamiteiro,


subversivo, das massas proletárias da Alemanha, da França, da Itália, da Espanha.” Ibid.p.116-17.
66
Idem.
Capítulo 2
Interesse liberal, evolução social e federalismo político.

J oão Alberto Salles nasceu em Campinas, no ano de 1857. Formou-se em


Direito na Faculdade do Largo do São Francisco, em 1882, aos 25 anos de
idade, depois de uma tentativa frustrada de estudar engenharia nos Estados Unidos.
Sucessivamente jornalista, teórico do Partido Republicano Paulista - seu Catecismo
Republicano de 1885, editou-se às expensas do PRP -, Deputado Federal após o
advento da República, dedicou-se ainda ao magistério. Em 1894, Alberto Salles
rompeu com o Partido Republicano e, mais tarde, com seu irmão, Campos Salles,
Presidente da República, em vista da adoção do que passou a historiografia com o
nome de “política dos governadores”, fazendo parte da ala oposicionista, motivada
pela indicação de Rodrigues Alves no processo sucessório de Campos Salles e a
recomendação de Bernardino de Campos para o governo de São Paulo.
A propósito, em 1901, publicou no jornal Estado de São Paulo o artigo Balanço
Político – necessidade de uma reforma política, em que fazia severas críticas a toda a
política republicana, ao mesmo tempo em que demonstrava sua desilusão com a
realidade do regime. Dizia ele que era “preciso reconhecer com amargura que a
estrutura política que levantamos, cheios de entusiasmo e fé, sobre os destroços do
antigo regime, não tem sido mais do que uma longa decepção, desengano mortificante
às nossas mais ardentes aspirações.”67 Como apontou Luis Washington Vita68, Alberto
Salles exibia a idéia de uma fundamental mudança social no país, ancorado em
pressupostos que o levariam ao emprego de uma doutrina política que servisse de
condutor para a atividade política democrática.

2.1 - O Problema da Política: Política Abstrata,Política Teórica e Evolução.

N os seus primeiros estudos, existia a preocupação constante de uma


escrita didática voltada para a propaganda republicana, refletindo um
estilo utilitário de sua abordagem. Inserido nessa apreensão da produção intelectual,

67
Apud CARDIM, C. “Alberto Salles: Um século de Ciência política no Brasil.” In: SALLES, A.
Ciência Política. Brasília, Senado Federal, 1997. pp. III – XXV. Como afirma Cardim, o referido artigo
alcançou dimensões gigantescas para a época, bem como o seu Catecismo Republicano lançado anos
antes, cuja tiragem foi de 10000 exemplares.
68
VITA, L. Alberto Salles Ideólogo da República. Editora Nacional. São Paulo, 1965.
Alberto Salles caracterizava a política enquanto ciência expressa através da dualidade
entre a parte teórica e a parte prática.
O componente teórico se incumbiria de estudar as leis gerais que presidiriam a
organização do Estado ou que de alguma forma regulariam a marcha dos
acontecimentos políticos. Esta política, também chamada política abstrata, fundar-se-
ia na história e teria como parâmetro a dicotomia renovação/conservação na sua
relação com o Estado. A parte prática ou concreta da política referia-se à aplicação
justa e oportuna da teoria e procuraria denotar a aplicação das leis da evolução histórica
e política a certos e determinados grupos sociais, conforme suas particularidades em
dado momento desta evolução. Nestes termos, a política:

É uma ciência social que, pelo estudo das leis gerais da


evolução espontânea do Estado, procura, numa justa
coordenação das forças de conservação com as de
progresso, determinar a sua forma exterior que mais
favorece o desenvolvimento integral do organismo social.
A política é, pois, em última análise, uma ciência especial,
deduzida diretamente da parte estática da ciência social. 69

A sociedade para Alberto Salles, assemelhar-se-ia a um grande corpo dotado


de vida e reger-se-ia por leis fixas, caracterizadas por tendências profusivas e de
condições de equilíbrio, que se pautam pela dicotomia renovação/conservação. Esta
idéia de sociedade aparece assim correlata à de governo e à de autoridade. O governo
seria a autoridade que imprimiria a direção ao agrupamento social. “Não há sociedade
sem governo, nem governo sem sociedade.”70 E mais, não haveria sociedade sem o
senso de autoridade. Na família a autoridade é a autoridade paterna, na tribo é a
autoridade do chefe e na sociedade é a autoridade do Estado.
Inspirado nas idéias de Augusto Comte, Alberto Salles argumentou que a
consciência do Estado desenvolveu-se ao longo do tempo em três fases distintas, as
fases instintiva, incompleta e reflexa. A primeira refere-se a uma autoridade pautada
no poder divino, uma força estranha ao homem, sobrenatural. Nesta fase, existiria uma
confusão entre o poder espiritual e o poder temporal, a autoridade absoluta era exercida
por um chefe baseado no direito divino cuja imutabilidade das condições sociais fazia-
se por meio de uma legislação revelada. A forma de governo seria a teocracia com
predomínio dos sacerdotes.

69
SALLES, A. Catecismo Republicano. São Paulo, Leroy King Bookwalter, 1885. P.4.
70
Ibid. p.5.
A segunda fase, caracterizar-se-ia pelo assalto do Estado por certos indivíduos
ou classes. Seria o regime da aristocracia da classe militar, da nobreza e da dinastia. A
legislatura basear-se-ia no poder emanado da sociedade, através da mudança da
autoridade divina pelo poder temporal. Mudança esta que daria início a um processo
de “desencantamento” da política.
E por fim, a fase reflexa teria a autoridade eminentemente social, originada da
soberania nacional. Seria o regime democrático, o qual promoveria a eliminação das
castas e dos privilégios, caracterizando-se pela igualdade civil e política. Teve início
com a Revolução Francesa, que inauguraria a soberania nacional como única fonte de
poder, dando início ao processo inevitável de generalização do sufrágio, do advento
da federação e o estabelecimento da eletividade e responsabilidade das autoridades
públicas.
O processo de laicização do Estado seria inevitável, a separação entre a Igreja
e o Estado se referia também à separação entre a esfera pública e privada. A religião
se pautaria na fé e no dogma, portanto um fenômeno individual, que deveria se
restringir à esfera privada, na medida em que esse mesmo Estado, apregoaria a
liberdade de consciência e a igualdade dos credos. O Estado deveria se associar
exclusivamente à esfera pública.
Nessa lei evolutiva, baseada em um tempo histórico linear, o Estado era visto
por Salles como uma instituição social e política, que teria por fim promulgar e aplicar
a lei, visando a independência e a harmonia do corpo social. “É o órgão especial do
direito, o elemento regulador, por excelência, do corpo social.” 71 A autoridade do
Estado seria produzida socialmente, pela energia social.
Posto nesses termos, Salles admitiu que a Constituição se apresentaria como
uma lei orgânica do Estado, que serviria para estabelecer os limites do próprio Estado,
regulando sua competência de ação e estatuindo as condições da organização do poder
político. Nela, deveriam estar presentes, os atributos da autoridade no que diz respeito
a divisão, delegação e distribuição dos poderes, que se refletiriam nos poderes
legislativo, executivo e judiciário. A Constituição de uma nação deveria consagrar os
direitos individuais e sociais, bem como promover a adaptação reformista ao estado
social. Ela proveria da soberania do povo, e deveria estar em consonância com a
vontade social.

71
Ibid. p.17.
A melhor forma de governo seria aquela que acomoda a soberania na reunião
da comunhão social, exprimindo-se através do sistema representativo. O sistema
representativo teria o poder de fiscalização suprema, constituindo-se como o elemento
eletivo ou móvel dentro da armação do sistema político. O sufrágio “é um atributo do
cidadão, regulado por um certo estado social e para uma certa forma de governo.”72
Assim o sufrágio possuiria uma função (instituição política) e um direito (questão de
soberania). Deveria ter extensão a todos que tiverem condições de expressar seus
interesses 73 , sendo função do governo, a administração dos diversos interesses
coletivos. Esse sistema de cooperação evitaria o abuso, o arbítrio e a fraude.
Na teoria de Alberto Salles, a cooperação social se realizaria por uma troca de
serviços, que se exprime pela fórmula geral do contrato (em uma formulação idealista
do contrato social e da formação do chamado self-made man). O sufrágio possuiria as
características da igualdade, na medida em que todos os interesses são ouvidos, da
proporcionalidade, na medida em que os interesses hegemônicos da sociedade serão
sempre os ganhadores, e, exercido diretamente pelo indivíduo, garantindo a educação
pública contra o egoísmo individual. No fundo, tratava-se de uma reivindicação de
autonomia dos indivíduos-cidadãos diante da autoridade estatal e a definição dos
direitos de participação na conformação do poder, baseadas em critérios “racionais”
ditadas pela ciência.
Na monarquia a autoridade do monarca seria suprema, hereditária e ficcional,
pois a ordem pública seria artificial, baseada nos privilégios, o progresso não
encontraria lugar nesta sociedade caracterizada pela imobilidade e permanência. Ao
contrário, na república, pelo sufrágio universal existiria o senso de responsabilidade
do político e do cidadão e as funções públicas seriam eletivas, reflexo da simbiose
entre a vontade nacional e a execução política. A nação, entendida aqui como povo-
cidadão, expressaria sua vontade geral no governo. A ordem pública seria natural,
ancorada na igualdade de condições e de acesso. O progresso se daria pela discussão
e publicidade de opiniões.74

72
Ibid. p.73.
73
Os excluídos do sufrágio são balizados pelos critérios da mendicidade, idade e integridade de ânimo.
Os indigentes são nulos na convergência para a consecução do bem comum, os menores não tem as
faculdades desenvolvidas nem atividade própria, os loucos, mentecaptos ou interditos não tem
discernimento nem compreensão.
74
Neste ponto, Alberto Salles segue Stuart Mill ao considerar a melhor forma de governo como aquela
na qual a soberania se expressa na reunião da comunhão social através do sistema representativo. O
sistema representativo tem o poder de fiscalização suprema, elemento eletivo ou móvel do sistema
político, além de garantir os direitos civis aos cidadãos e protegê-los contra o próprio Estado
O interesse político associava-se portanto a uma aspiração moderna de
igualdade. O fim principal do governo seria manter a ordem para facilitar a evolução,
tendo em vista, a promoção do bem público. A decadência de uma nação se balizaria
pela indiferença pelos negócios públicos. A natureza humana caracteriza-se por dois
sentimentos antagônicos, a simpatia e o egoísmo. Do primeiro nasceria a idéia do
interesse comum, enquanto que, do segundo, transpareceria o interesse particular.
Desta tensão entre os interesses particular e comum surgiria o fenômeno da
cooperação e a necessidade do advento de uma autoridade reguladora da diversidade
das necessidades que brotariam dos agrupamentos intra-sociais. A finalidade do
Estado, portanto, se associava à utilidade geral e coletiva, como o órgão conciliador
das forças de renovação e conservação da sociedade, o direcionador do movimento
que levaria à ordem e ao progresso.

2.2 - Separatismo, Federação e Teoria da Nacionalidade.

C omo vimos, segundo Alberto Salles, seria preciso uma análise das
condições biológicas de desenvolvimento, procurando relacionar os
mesmos processos ocorridos no organismo biológico e no organismo social. Tal tipo
de reflexão, se associava à chamada lei do progresso em biologia, de caráter
spenceriano, e se pautava sob a dicotomia agregação/desagregação (ou
conservação/renovação). Para Alberto Salles, “à toda desagregação corresponde
necessariamente uma agregação paralela, à toda separação, uma integração correlativa.
É assim que se opera a passagem do homogêneo para o heterogêneo e que se efetua a
evolução dos organismos”75.
O processo que levaria a separação tem por causa as diferenças quantitativas e
qualitativas das funções dentro do organismo social, além das influências exteriores,
enquanto a integração seria fruto da identidade de funções. Ao tratar a sociedade como
um organismo, por um processo lógico de comparação dos processos biológicos e
sociais, Alberto Salles procurava as leis da evolução do organismo social, através da

assegurando-lhes a liberdade e a igualdade. “Na opinião insuspeita de Stuart Mill, a melhor forma de
governo é aquela que investe a soberania ou o poder supremo, que decide em ultima instancia, na massa
reunida da comunhão social, intervindo cada cidadão, não somente no exercício desse poder, mas ainda
chamado, de tempos á tempos, a tomar uma parte real no governo, pelo exercício de alguma função
pública local ou geral.” SALLES,A. Catecismo Republicano. p.42
75
SALLES, A. A Pátria Paulista. Brasília, Ed Unb, 1983 [1887]. p.17.
dicotomia integração/desintegração, portanto a lei do progresso em sociologia
caracterizava-se por uma complexificação da lei do progresso em biologia.

O progresso social, como o progresso biológico, dá-se por


via de desintegrações e agregações correlativas, com uma
diferença, porém, e que vem a ser que, neste caso, aquele
processo de diferenciação de órgãos e de localização de
funções, que é para assim dizer palpável no organismo
fisiológico, não se encontra de um modo tão claro, tão
distinto, tão concreto, se bem que o mesmo, em fundo, no
organismo social. Feito este reparo, a analogia é
completa.76

A política seria um ramo da sociologia, se constituiria como uma face da


realidade social peculiar, mas que seguiria a mesma lógica de investigação de
fenômenos biológicos e sociais. O principal objeto de estudo da política seria a
constituição das nacionalidades, nas quais estão embutidos dois fenômenos de
apreciação, as influências exteriores como a seleção natural, e a identidade de funções,
como as condições psicológicas gerais de um povo, a identidade de idéias, os
sentimentos e a cultura social.
Nesse processo de integração/desintegração das nacionalidades, não seria outro
o sentido da história da França, de Portugal, da Suíça e dos Estados Unidos da América
no escopo de suas reflexões. Nesses casos, observou fatores que confeririam
consistência à nacionalidade, como a seleção psicológica como fator de diferenciação
dentro da sociedade, e de uma sociedade para outra, o aspecto racial e o cruzamento
inevitável das raças. Em resumo, fatores de diferenciação étnica, geográfica e
psicológica.
Seguindo a análise de Alberto Salles, o separatismo e a república seriam a
solução para a reconstrução da nacionalidade, através da desintegração/integração com
o fim de propiciar a obtenção da felicidade comum. “Se a República concretiza um
progresso político e se todo o progresso político se efetua por separação e integração
paralela, é evidente que, sendo o separatismo o início, a fase espontânea dessa
evolução ou desse processo, querer proceder de modo diverso é simplesmente tentar
improficuamente inverter a ordem natural das coisas.”77

76
Ibid. p. 25-26.
77
Ibid. p.40.
A teoria da nacionalidade se apresentava para Alberto Salles como um
fenômeno político de primeira grandeza, pela história da evolução humana ter-se-ia a
comprovação das peculiaridades deste campo do conhecimento. Para o estudo da
política seria imprescindível o estudo dos fatos históricos. São nesses termos as
construções efetuadas por Alberto Salles da história universal da humanidade. Na fase
primitiva, o grau de coesão social seria fraco, sustentando-se pelo nascimento. Com o
advento da fase pastoril e posteriormente da fase agrícola, se iniciaria um processo de
estabilidade local formando-se as tribos. Tribos essas classificadas pelos termos
nomadismo, trogloditismo, caracterizadas pela poliandria e poligamia respectivamente.
A constituição da família traria consigo a concepção de monogamia, de organização
doméstica e a idéia de parentesco, além da figura do pater famílias, autoridade do
homem-pai sobre a mulher e os seus descendentes.
A cidade antiga se caracterizaria pelo surgimento de instituições mais
complexas de organização e autoridade sociais, além do surgimento do povo como
elemento político, “o povo, portanto, representa uma incorporação social e política de
indivíduos que se ligam pela identidade de origem e pela identidade de cultura.”78 Ao
lado do surgimento do povo estaria o surgimento da nação, ocorrido por fatores como
a idéia de território e a diferenciação lingüística e étnica.

Estes novos elementos de coesão dão ao Estado um caráter


que ele ainda não tinha e imprimem-lhe uma feição
inteiramente nova. Ao lado do povo, que indubitavelmente
representa uma incorporação, aparece a nação, que
representa uma verdadeira unidade social. É esta a terceira
fase da evolução política. (...) Com a diferenciação
lingüística coincide o aparecimento e a formação de uma
literatura nacional, tendo por base os costumes, as tradições
e o sentimento de cada nacionalidade; e esta cultura
literária, que surge no seio das novas nacionalidades,
concorre para separá-las ainda mais no ponto de vista da
diferenciação política. Ao lado do direito romano, brota por
toda parte um direito nacional, forte, vigoroso e cheio de
vida. O próprio organismo do Estado nacionaliza-se.79

O Estado e a nacionalidade seriam entidades inseparáveis. Como dissemos


acima, para Salles, a formação da nacionalidade apresentaria três fatores principais que
impulsionariam o seu desenvolvimento: o condicionalismo geográfico, o
condicionalismo étnico e o condicionalismo psicológico. Por conseguinte, no caso

78
Ibid. p.91.
79
Ibid. p.94 - 95
específico do Brasil, os fatores da nacionalidade proporcionariam três modelos
distintos de diferenciação. Quanto aos fatores étnicos 80 – Norte (indígena), Centro
(africano) e Sul (branco e população mais harmônica) – sendo os fatores geográficos
– Vale do Amazonas, Bacia do São Francisco e Bacia do Paraná – e por fim os fatores
psicológicos, – no qual o separatismo se apresentava como a síntese do sentimento
popular de autonomia nacional.
Através da idéia e da prática do separatismo e da federação, a República
construiria a agregação da nacionalidade brasileira à luz da teoria da evolução, pois,
“toda agregação social e política começa por uma desintegração, que é a fase primitiva
e inicial de todo o desenvolvimento dos agrupamentos humanos; é evidente, portanto,
que toda federação começa por uma separação.”81
O futuro político da pátria seria a República, pela lei evolutiva da história, por
um lado, e por outro, pelas especificidades do contexto brasileiro. O espírito separatista
paulista, observado por Alberto Salles, caracterizaria o empreendimento republicano
em contraponto à centralização do Império. Com a federação e a república viria a
autonomia política, administrativa, econômica e financeira.
A autonomia política, desse novo organismo político, caracterizado por
instituições particulares condizentes com suas condições e por uma nova
individualidade nacional, propiciaria o desenvolvimento material e moral da sociedade,
ao contrário do regime centralista monárquico, marcado pelo regime do privilégio e
do monopólio, uma ficção política baseada em preceitos metafísicos e teológicos
advindos da Idade Média.

O que existe neste país e o que a constituição consagra


terminantemente é uma tremenda centralização, que tudo
absorve e que tudo aniquila. É verdade que a constituição
do império reconhece, não somente um governo geral,
como ainda governos provinciais e municipais; mas o que
é exato é que, nem as assembléias provinciais, nem as
câmaras municipais, que deveriam ser os legítimos órgãos
dos interesses dessas respectivas circumscripções,
nenhuma autonomia possuem no exercício de suas funções.
As câmaras municipais estão diretamente subordinadas ao
governo provincial, sem cuja aprovação nada
absolutamente podem fazer; e as assembléias provinciais,
por sua vez, acham-se sujeitas ao governo geral, que, dessa

80
Segundo Alberto Salles, no Brasil (e no mundo ibérico) o cruzamento das raças foi mais prejudicial
do que útil.
81
Ibid. p.108.
forma concentra em si toda a atividade política e
administrativa da nação.82

O separatismo propiciaria, pela lei do progresso político, a república, e por


conseguinte, a divisão dos poderes, a concorrência pelas funções públicas, gerando a
autonomia e a consciência da idéia do cidadão. A autonomia administrativa, criaria a
possibilidade da descentralização das decisões político-administrativas, em
contraponto à nulidade das Assembléias Legislativas e dos governos municipais sob a
ação do Império. Enquanto a autonomia econômica e financeira para a gestão dos
negócios a partir da descentralização e proporcionalidade na relação entre impostos e
investimentos, possibilitaria o desenvolvimento da agricultura, associado ao
crescimento populacional, ao movimento imigratório e ao desenvolvimento
tecnológico.
Em suma, para Alberto Salles, separatismo e republicanismo se associariam na
formação de uma república federalista, a princípio, e de uma nacionalidade brasileira
estrondosa no futuro. Era preciso, segundo Salles, que o Partido Republicano se
apresentasse como o gerenciador do espírito separatista, organizando-o a fim de
derrubar a monarquia. O separatismo deveria estar na agenda política do Partido
Republicano, do qual fazia parte, na medida em que para o autor, expressava um
sentimento popular paulista em franco processo de expansão nacional.
Para Alberto Salles, na monarquia brasileira existiam quatro poderes, sendo o
poder moderador, uma aberração teórica e prática que conduz à centralização dos
poderes artificialmente criados, concentrando as energias no Estado unitário, gerador
de corrupção e imoralidade. Nosso autor observou uma nítida separação entre o povo
e o Estado no processo de independência brasileiro, gerador de uma situação de
desajuste entre o tempo social e o tempo político, pois a índole do nosso povo era
democrático e anti-imperial.
A monarquia era “uma forma de governo nascida das tradições da idade média
e incompatível em tudo como a organização regular de uma sociedade moderna”,83
como o Brasil, cujos elementos democráticos foram asfixiados pelo peso das estruturas
hierárquicas e centralizadoras da monarquia. Éramos, mais que tudo, modernos e
americanos. A revolução pernambucana de 1817, a Confederação do Equador, a

82
SALLES, A. Catecismo Republicano. p.36.
83
SALLES, A. Catecismo Republicano. p. 95.
Revolução de 7 de Abril, a República de Piratinin, seriam agitações que serviriam de
prova histórica

de que o povo brasileiro, não obstante ser levado


espontaneamente pelas suas próprias tendências ao regime
político da República, foi, no entanto, obrigado a aceitar o
governo despótico da monarquia bragantina, pela pressão
irresistível das baionetas reais. Nunca se poderá dizer, em
presença deste fato, que a monarquia no Brasil teve sua
origem na escolha franca do povo.84

A obra da monarquia sobre o nosso tempo social, teria gerado um processo de


arrefecimento de nossas características modernas, americanas, liberais e democráticas.
O iberismo suplantara nosso americanismo, gerando um processo que precisava ser
revertido pela propaganda republicana e pela educação. “Desde 1808 que se travara
seriamente no Brasil um grande conflito entre a índole essencialmente autoritária da
monarquia, que queria por todos os meios implantar-se definitivamente neste país, e
as tendências manifestamente democráticas do nosso povo, que reagia constantemente
contra semelhante pretensão.” 85 Tratava-se de um retorno ao nosso americanismo
perdido. Assim:

A formação do Brasil é desmembrada em dois processo


independentes: a construção do estado e a formação da
nação. Este é um deslocamento importante em relação à
tradição imperial. Separando povo e a monarquia, Sales
retirava a sustentação das duas justificativas-chave da elite
imperial para seu regime político: o estado centralizado
como condição da ordem e a forma monárquica como
indissociável lógica e historicamente da formação da
sociedade nacional.86

A federação promoveria a descentralização do poder político como uma lei


natural, trazendo consigo a harmonia, a independência, a unidade e o equilíbrio, pelas
relações de mútua dependência entre as partes com um centro regulador, através do
sistema duplo de governo (o geral e o local). Essa descentralização política
possibilitaria uma íntima relação entre os governos locais e a administração dos
interesses coletivos, estando assim, indiscutivelmente associado à índole democrática
do povo. Pois, “a unidade nacional não é um problema que se possa resolver pela

84
Ibid. p.101.
85
Ibid. p.146-47.
86
ALONSO, A. Idéias em Movimento: A Geração de 1870 na crise do Brasil-Império. São Paulo, Paz
e Terra, 2002. p.231.
centralização e a única forma que a contem é sem dúvida a federação”. Assim, “não é
por meio de laços artificiais, por mais fortes que sejam, que se há de chegar à
homogeneidade nacional, senão por um justo equilíbrio dos interesses e das condições
de liberdade e independência das diferentes unidades nacionais.”87

2.3 - O problema do interesse e da solidariedade em Alberto Salles

S eguindo a nossa linha argumentativa, para Alberto Salles, existiriam duas


formas de organização no seio das sociedades: uma puramente social e
espontânea (associada à liberdade moral) e outra coercitiva e sistemática (associada à
coerção moral): nos quais estariam presentes a organização civil e a organização
política.

Destas duas ordens de concurso das forças sociais,


individualizadas nos seus órgãos respectivos, resultam
naturalmente duas ordens correspondentes de cooperação:
a cooperação social, que nasce do concurso espontâneo, e
a cooperação política, que nasce do concurso sistemático.88

O concurso sistemático da organização política (ação do centro para a periferia)


sustentar-se-ia pela cooperação baseada na consciência e na coerção. Para Alberto
Salles, era o conhecimento da necessidade viva e palpitante de uma ação combinada
do todo, para a realização do interesse comum, e a obrigação de levá-la a efeito, mesmo
contrariando interesses isolados das partes, o que se constituía como fator fundamental
para a organização política - a relação entre a finalidade e a cooperação social que se
sobrepõem ao interesse individual.
Os sentimentos humanos seriam de duas ordens que gerariam tipos distintos de
cooperação social: uns que tem por objeto a nossa própria pessoa e outros que vão
recair indiretamente sobre nossos semelhantes. Os instintos pessoais (sentimentos
egoístas e/ou interesse particular) como a nutrição, a sexualidade, os meios de
conservação do indivíduo e da espécie, gerariam a cooperação social. O interesse
particular pela divisão dos ofícios e da combinação dos esforços, transformar-se-ia em
interesse de classe, sempre movido pelo instinto de preservação individual e de classe.
Os chamados instintos simpáticos (interesse comum e/ou sentimentos altruístas) como

87
SALLES, A. Catecismo Republicano. p.65-66.
88
SALLES, A. Ciência Política. Ed. Fac-símile. Brasília, Senado federal, 1997. [1891] p.97.
amor, a veneração e a bondade, gerariam a cooperação política. A causa do surgimento
deste sentimento seria o interesse coletivo do agregado social como um todo.
Ainda para Salles, existiriam três categorias de forças sociais que se mesclavam:
as materiais, as intelectuais e as morais. A força material se referia ao número de
representantes de uma classe e sua riqueza correspondente. O número se remeteria ao
movimento de expansão e a riqueza à concentração. A força intelectual, e portanto
moral, seria a expressão caracterizada pela exibição e preponderância, em uma
concepção que se submeteria à originalidade que impulsionaria o movimento histórico
das idéias.
Como procuramos demonstrar acima, o elemento primaevu da evolução
política seria a luta pela existência, pois “onde não há luta entre os diferentes agregados
sociais não pode haver também concurso sistemático e, conseguintemente, nenhum
vislumbre de instituições políticas.” 89 Assim, a política existiria no conflito e na
resolução destes, sendo os principais fatores da evolução política, o meio, a raça e a
constituição mental, postos no tempo histórico evolutivo.
O meio traria à baila às condições físicas e biológicas que afetariam o processo
geral de integração e diferenciação política, como as variantes do clima, da
alimentação, do aspecto físico, da salubridade e do solo. O clima seria o modificador
da atividade e da energia moral do homem, impondo limites à sua conservação. Nos
“países frios”, cujo caso de maior estabilidade era o inglês, o individualismo e as
instituições livres, a energia, o trabalho, e a vivacidade seriam as características
fundamentais do seu processo evolutivo. Enquanto nos “países quentes” imperaria a
preguiça, o descanso, a lassidão, e as instituições não-livres. Quanto aos aspectos
físicos, exerceriam uma influência direta sobre a imaginação social, numa espécie de
teoria antropológica do homem com a natureza que o circunda, na verdade, pela
relação direta entre homem – natureza. Enquanto a alimentação engendraria o processo
de luta pela posse de alimentos, e a variável do solo, seria responsável pela formação
de habitats adequados. Por sua vez, a idéia de raça, também seguiria a tendência
evolutiva do chamado concurso sistemático que presidiria o tempo da política. As
raças seriam produzidas pelo meio, pelo cruzamento e pela hereditariedade, tendo por
tendência a homogeneidade na produção de um tipo nacional.

89
Ibid. p.111.
A chamada constituição mental, para Alberto Salles, como fator de
diferenciação (linguagem, etnia, nacionalidade) associar-se-ia a uma espécie de
diferenciação psicológica. “As nacionalidades, como os indivíduos, tem cada uma a
sua idiossincrasia própria.”90 O caráter nacional poderia ser definido na teoria de Salles
como um fundo de idéias e sentimentos, de desejos e aspirações, sendo o tipo comum
nacional, um arquétipo que transcenderia as aspirações e os caracteres individuais.
Definir este tipo da nacionalidade seria fundamental, pois “cada povo tem o governo
que merece; e dar a uma nação instituições que não estejam de harmonia com a sua
constituição mental será um verdadeiro absurdo político.”91
Salles prosseguia seu argumento, procurando os mecanismos evolucionários
que permitiriam as idiossincrasias de cada nacionalidade, encontrando como ponto
central o papel exercido pela elite intelectual92.

Em cada sociedade há uma elite, que representa a


culminância do pensamento nacional, e é neste ponto que
se diferenciam os povos, cada um com sua cultura
intelectual separada e seus métodos especiais de
investigação. Há nações que nada criam de novo e que
assimilam a cultura alheia; há outras, ao contrário, que se
distinguem pela sua faculdade criadora.93

Quanto aos aspectos econômicos, Alberto Salles apresentava em seu


Catecismo Republicano o aporte do liberalismo econômico e defendia a idéia de que
naquele momento o país tinha necessidade de que se instituíssem novas normas e
novos princípios econômicos e políticos: federalismo, trabalho livre e reorganização
do modo de investidura dos cargos de representação política.94

90
Ibid. p.164.
91
Ibid. p.166
92
Como lembrou Monteiro: “À definição das categorias civilização e cultura como prática de um
comportamento determinado, segundo parâmetros éticos e morais considerados adequados à lógica do
pensamento liberal, as elites ligadas à cafeicultura paulista acrescentariam um significado utilitarista,
no sentido da aquisição de uma cultura letrada. Assim, atribuir-se-ia à cultura um sentido fundado pelo
enciclopedismo, como necessidade de conhecimento geral de todos os domínios do saber (como a
matemática, a física, as ciências naturais, além das disciplinas históricas e filológicas), que seriam
suporte para a realização das atividades técnicas que, por sua vez, indicavam o desenvolvimento
material alcançado pelos diferentes povos. À categoria civilização, tomando-a como similar à cultura,
seria agregado também esse sentido material, relativo ao desenvolvimento técnico, identificado com o
mundo urbano e industrial, cujo melhor quadro era o exemplificado pela sociedade européia.” Monteiro
M. “Civilização e cultura: paradigmas da nacionalidade.” Caderno Cedes, Campinas, v. 20, n.
51, 2000.
93
Ibid. p.165.
SAES, Décio. “A contestação à ordem monárquica no Brasil.” Primeira Versão. Campinas: IFCH-
94

Unicamp, 1992.
É preciso que o capital e o trabalho se associem
espontaneamente, livremente, independentemente. O único
regulador da atividade industrial é a lei da concorrência,
que deve operar do modo o mais livre possível, sem a
mínima intervenção do Estado. Seja qual for o ramo da
indústria, agrícola, manufatureira ou fabril, deve ser
deixada inteiramente aos esforços dos particulares. Não há
pior industrial que o Estado.95

Se o programa econômico de Salles, associava-se ao liberalismo ao propor a


idéia de livre iniciativa, livre concorrência e intervenção mínima do Estado na
economia, os aspectos sociais derivados da modernidade econômica, a partir do mundo
industrializado e de organização capitalista, eram visitados com certa cautela.

É bem sabido de todos que próprio princípio da divisão do


trabalho, sobre que assenta toda economia social, se fosse
levado as últimas conseqüências, por uma exagerada
especialização das funções, acabaria inevitavelmente por
produzir uma completa desintegração do corpo político e,
conseguintemente, por tornar-se um verdadeiro obstáculo
à estabilidade e continuação necessária da unidade social.
A dispersão das inteligências, que daí havia
necessariamente de aparecer, como conseqüência imediata
do círculo estreito traçado a ação do pensamento, por um
lado acabaria inevitavelmente por isolar o interesse
particular do interesse geral, especializando
demasiadamente as idéias e as relações, e,
conseguintemente, enfraqueceria cada vez mais os laços de
mútua simpatia entre as diferentes unidades sociais. Por
outro lado, a excessiva segmentação do corpo social, com
a formação sucessiva de grupos distintos, constituídos
unicamente pela identidade de condições e de interesses,
forneceria ao sentimento de classe um desenvolvimento
por tal forma exagerado, que terminaria por aniquilar
inteiramente as afeições sócias, concentrando cada
indivíduo exclusivamente no seio da sua própria classe e
subtraindo-o, por isso mesmo, à dependência natural e
indispensável da grande massa coletiva.96

Dessa forma, Alberto Salles alertou para a necessidade da constituição de


objetivos comuns a todos os indivíduos que compunham o corpo político da nação.
Para ele, os indivíduos que compunham a pessoa coletiva da nação, perdidos na
confusão imensa que resultaria da opinião de cada um em busca de um alvo diverso,
ou de uma satisfação diferente, não seriam impelidos pela mesma necessidade em
benefício geral do grande corpo social. O liberalismo de Alberto Salles pode ser
interpretado a partir de uma conexão com sua teoria política e social.

95
SALLES, A. Catecismo Republicano. p. 27.
96
SALLES, A. Ciência Política. p.229-230.
A idéia do livre câmbio e da não intervenção do Estado na sociedade remeteria
ao modo pelo qual a contraposição entre monarquia (centralização) e república
(descentralização) são postos numa teoria da história evolutiva, ao representar a
república indissociável do federalismo e da descentralização. O limite do liberalismo
estaria subordinado à organicidade social. Seria pelo concurso sistemático que
atingiríamos nossa estrada, já que o nosso concurso espontâneo precisava ser
(re)criado. Dito em outros termos, o tempo político deveria incidir sobre o tempo social.

Capítulo 3
Evolução Social, Identidade Nacional e Re-invenções da Política.

Não nos apavora o juízo dos contemporâneos, menos


ainda os dos pósteros, se eles se houverem de lembrar
de nosso obscuro nome.97

ilvio Romero nasceu em Lagarto no interior do Sergipe em 1851 98. Em


S 1863 viajou para o Rio de Janeiro e durante cinco anos estudou no Ateneu
Fluminense. Em 1869, já no Recife, conheceu Tobias Barreto, amigo e futuro
companheiro de anos. Ainda neste ano, lançou seu primeiro ensaio na imprensa,
chamado A poesia contemporânea e sua intuição naturalista.99
Formou-se pela Escola de Direito do Recife onde retornou, anos mais tarde,
para a obtenção do doutoramento. Na defesa de sua tese discutiu com o membro da
banca Coelho Rodrigues sobre o significado da metafísica. Segundo Romero, a
metafísica estava morta. Em 1874, foi nomeado promotor de justiça na Comarca de
Estância, Sergipe, e elegeu-se deputado provincial , mas renunciou ao cargo no ano
seguinte. Classificou-se em primeiro lugar em concurso para a cadeira de filosofia no
Colégio das Artes, mas o concurso é anulado. No ano seguinte, novo concurso para o
mesmo colégio, e Sílvio Romero foi preterido por outro candidato, por adotar idéias
vinculadas ao positivismo e ao evolucionismo.
No início da década de 1880 fixou residência no Rio de Janeiro, onde lecionou
nos colégios Pedro II (Colégio Nacional) e na Faculdade Livre de Direito e Faculdade
de Ciências Jurídicas e Sociais. Depois do advento republicano de 1889, Romero
passou a atuar diretamente na política. Após sucessivas tentativas, em 1900 foi eleito
deputado pelo seu estado natal, mas não chega a exercer o mandato, por motivo de
doença. Durante seu mandato, Romero proferiu apenas dois discursos dentro do

97
ROMERO, S. Introdução a Doutrina Contra Doutrina. São Paulo: Companhia das Letras, 2001. p.
49.
98
Existem diversas biografias sobre Sílvio Romero. As mais significativas são: BEVILÁCQUA, C.
Sílvio Romero. 1905. MENDONÇA, C. Sílvio Romero. Sua formação intelectual (1851-1914). 1938.
RABELO, S. Itinerário de Sílvio Romero. 1967. MORAES FILHO, E. Medo à Utopia: O pensamento
social de Tobias Barreto e Sílvio Romero. 1985. MOTA, M. Sílvio Romero : dilemas e combates no
Brasil da virada do século XX. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000.
99
Apesar de preparado em fins de 1869, o primeiro dos artigos de crítica literária de Sílvio Romero -
A Poesia dos Harpejos Poéticos - foi publicado em abril de 1870 no jornal recifense A Crença.
(LAB)
Parlamento. Em 1905 passa a integrar o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro,
instituição criada no período monárquico, de congregação de estudiosos para a
construção de uma história brasileira.
Nos seus 63 anos de vida (1851 – 1914), Romero publicou cerca de 350 artigos,
ensaios, teses, panfletos, discursos, conferências e os livros que compõem o corpo
principal de sua obra. A obra deste autor, englobou diversas temáticas e a construção
de respostas sobre pautas que vigoravam em seu contexto, discutiu questões como a
abolição da escravatura, a imigração, a educação popular, a construção da República,
a identidade e o caráter nacional100.
A obra romeriana pode ser descrita como multidisciplinar. Filosofia, crítica e
história literária, sociologia, economia, pedagogia, política, direito, folclore e poesia.
A sua obra de maior repercussão foi a História da Literatura Brasileira, escrita no ano
da Lei Áurea, 1888.

3.1 - Tempo Social: Tradição e Identidade Nacional.

O s principais referenciais do pensamento de Sílvio Romero eram de


autores europeus. As preferências de Sílvio Romero recaíam sobre
autores como Spencer, Haeckel, Büchner, Vogt, Buckle, Taine, Lévy, Demoulins,
Gobineau entre outros101. Deles derivou algumas idéias capitais que estarão sempre
presentes em sua obra. As noções de raça, de meio, de tradição histórica e de imitação
estrangeira. De acordo com Sílvio Romero, o século XIX para o campo científico
apresentou duas características positivas,

a unidade do saber pela distinção, enumeração e


subordinação mútua de todas as ciências do universo; a

100
Segundo Saldanha, “é possível talvez perceber-se, nos escritos políticos da época regencial e do
Segundo Reinado, incluindo-se as publicações jornalísticas, traços do que poderia ser um estilo já
brasileiro de teorizar. Assim, o gosto de fazer desfilar os exemplos estrangeiros (veja-se em João
Francisco Lisboa, e também no cap. I do famoso Libelo do Povo de Torres Homem); uma relativa
desarrumação de argumentos, compensada pela intensidade às vezes apassionata da exposição; o gosto
da frase cortante e da alusão ferina, sem exclusão dos motes severos e das glosas exemplares. Fundava-
se entre nós, por esse tempo e por força da imprensa, o gênero polemismo, que seria tão do gosto dos
brasileiros, e ao qual iriam aderir mesmo os maiores espíritos das nossas letras e de nossa vida de idéias.”
SALDANHA, N. História das Idéias Políticas no Brasil. 2001, p.179.
101
Interessante notar que nas polêmicas em que participou, como afirmou Ventura, “Silvio Romero dá,
a primeira vista, a impressão de indefinição teórica, tantos são os modelos críticos e filosóficos em que
se apóia. Foi criticado por José Veríssimo e Laudelino Freire, por adotar teorias contraditórias.” In:
VENTURA, R. Estilo Tropical. História Cultural e polêmicas literárias no Brasil. São Paulo:
Companhia das Letras,1991. p. 50.
identidade por toda parte das leis evolutivas da humanidade,
produzindo a sociologia geral pela individuação,
determinação e classificação dos fenômenos sociais, sem
discrepância de um só, com a doutrina das criações
fundamentais da humana espécie.102

A doutrina das criações da espécie humana a que Sílvio Romero se refere aqui
é o poligenismo. Esta doutrina afirmava que as diferentes raças provêem de fontes
diferentes. Segundo a teoria poligenista existiria uma diversidade das raças primitivas
que formariam as civilizações, em contraponto à teoria monogenista, que propunha
que as diferentes raças se formariam a partir de uma origem comum. “Eu acredito na
origem poligenista do homem (...). Parece-me um exagero reduzir todas as raças
humanas a uma só origem ancestral primitiva.”103
A sociedade seria fruto do estado em que se encontravam as raças, as raças
seriam produtos da natureza, portanto, a sociedade advém da natureza 104 . Romero
contrapõe-se à visão contratualista da sociedade, segundo a qual, a sociedade surgiria
através de um pacto entre os indivíduos. Para esta corrente, os indivíduos precederiam
a sociedade ao estipular o pacto social. De acordo com Romero, seria o inverso que
ocorre: a sociedade precederia o indivíduo.

A sociedade não é uma casa de taipa que se faça e desfaça.


Este sonho ainda é uma continuação das loucuras de
Rousseau. A sociedade organizou-se um dia como uma
produção biológica superior aos cálculos e manejos
humanos; evolui normalmente, segue um ritmo de
desenvolvimento, determinado sempre pela lei de causação,
que outra coisa não é mais do que a constância sistemática
e infalível de uma cadeia de antecedentes e
conseqüentes.105

Em todas as organizações sociais, segundo Romero, fatores como a raça e meio


influenciariam no surgimento e no desenvolvimento da sociedade. Porém, não quer
dizer com isso que todas as sociedades devem passar pelos mesmos estágios de
evolução. Muito pelo contrário. Cada sociedade possuiria um ritmo de desenvolvimento
peculiar. A sociedade brasileira teria características próprias que influenciam seu
surgimento e desenvolvimento. São tais características que formariam a identidade
nacional.

102
ROMERO, S. A Integridade do Brasil. p. 262.
103
ROMERO, S. Introdução a História da Literatura Brasileira. p. 146.
104
Inclusive pela ação do meio físico, como o clima por exemplo.
105
ROMERO, S. Introdução a Doutrina Contra Doutrina. p. 157.
Para Sílvio Romero, “o espetáculo de nossa história, pois, é o da modificação
de três povos para a formação de um povo novo; é o espetáculo de transformismo de
forças étnicas e de aptidões de três culturas diversas, de três almas que se fundem.”106
Para ele, do nosso processo de colonização resultaria um mestiçamento entre
três raças, o português, o indígena e o negro, cada qual com suas especificidades.
Entretanto, não seria somente o aspecto estritamente racista que derivou da fusão das
três raças. “Para contrabalançar as influências hereditárias da raça, por exemplo,
existem as influências transmitidas pela educação, pela seleção artificial da cultura.”107
Assim, raça e cultura seriam fatores importantes para a explicação da situação
brasileira.
A identidade nacional associada ao tempo social seria o resultado da
mestiçagem (racial e cultural). O Brasil seria um país mestiço, senão em termos raciais,
pelo menos no âmbito das idéias. Assim, o representante do povo seria o mestiço. Daí,
resultariam seus estudos sobre as expressões artísticas populares, como a poesia
popular e o folclore. Era preciso conhecer as características que provêem do tipo
nacional, sempre em formação, para conhecer o próprio país.
A literatura tornava-se fundamental nessa empreitada. Ela seria uma espécie de
testemunho histórico do desenvolvimento da sociedade. Para Romero, o conceito de
literatura não se restringiria somente aos textos e autores. “Compreende todas as
manifestações da inteligência de um povo: política, economia, artes, criações
populares, ciências...”108
O sentido que expressava o conceito de literatura, dizia respeito à capacidade
criativa de determinada sociedade, seja ela em que âmbito for. No fundo, Sílvio
Romero, como veremos adiante, adotava uma concepção sociocêntrica de análise.
Quanto ao método de análise histórica a ser utilizado, assim se expressava Romero:

Eu não sei qual será o acordo possível entre as duas


maneiras opostas de encarar a história, aquela que faz

106
ROMERO, S. Introdução a História da Literatura Brasileira. p. 256. As concepções raciológicas de
Sílvio Romero são melhor compreendidas quando articulamos o conceito de raça com o escopo geral
de sua obra, na medida em que versava sobre vários temas e debates presentes à sua época, e, ao mesmo
tempo, na medida em que este conceito se articula como mais um acessório teórico de interpretação da
vida social brasileira. Não sendo o único dentro da própria ótica romeriana.
107
Ibid. p. 255. Sobre o conceito de raça assim se expressava Romero: “a expressão raça aqui não quero
eu empregar apenas no sentido material do fenômeno; quero ver principalmente no fato o alto
significado moral da língua, das tradições, dos afetos, dos ideais e aspirações comuns, a imortal feição
histórica e cultural.” ROMERO,S. O Elemento Português no Brasil. p.213.
108
Ibid. p.128.
predominar a ação do exterior sobre o homem, e aquela que
dá vantagem à ação moral, ao fator humano sobre o meio.
Parece-me haver em ambas ainda um resíduo de metafísica
e de parti pris. Não resta a menor dúvida de que a história
deve ser encarada como um problema de biologia; mas a
biologia aí se transforma em psicologia; há um jogo de
ações e reações do mundo objetivo sobre o subjetivo e vice-
versa; há uma multidão de causas móbeis e variáveis
capazes de desorientar o espírito o mais observador.109

Este jogo de ações e reações desta psicologia cujo objetivo seria o de examinar
a multi-causalidade far-se-ia sob o jugo de um tempo histórico peculiar a cada caso
nacional, pois, cada povo possuiria idiossincrasias como a identidade nacional
formada pela tradição. Sendo assim, a construção de uma história literária brasileira,
seria de fundamental importância para a elucidação da identidade nacional e das
tradições que o povo construíra. “A história literária é uma das manifestações da
história social; as letras não são um luxo, senão uma necessidade orgânica da vida das
nações.”110
A questão da tradição histórica brasileira se remete ao processo que
culminararia na elucidação do estado de cultura do povo. Segundo Sílvio Romero, era
preciso conhecer as crenças, as idéias, os sentimentos, enfim, todos os aspectos
inerentes à formação social brasileira, para delinearmos corretamente as propostas de
organização sócio-política no Brasil. Na medida em que, “uma literatura tem uma base,
tem elementos e tem órgãos. A base da nossa é o sentimento do brasileiro, como nação
à parte, como produto étnico determinado; os elementos são as tradições das três raças
sem predomínio de uma sobre as outras; os órgãos são os nossos mais notáveis talentos,
todos aqueles que sentiram como brasileiros.”111
A tradição histórica do povo brasileiro se associava a própria construção de
uma história do Brasil, na qual o mestiço seria um dos sujeitos históricos essenciais.
A utilidade da história como fonte explicativa se referia, para Sílvio Romero, através
da relação entre causa e efeito. Para ele, os fatos históricos sempre apresentariam uma
causa motivadora específica, e eram estas que deveriam ser seguidas. Quanto aos
fenômenos políticos, também apresentariam como causa os aspectos da organização
social.112

109
Ibid. p. 255. Grifos nossos.
110
Ibid. p. 263.
111
Ibid. p. 222.
112
Neste ponto, Romero radicaliza as concepções de seu amigo Tobias Barreto, que apontava: “O único
meio de salvar e engrandecer o Brasil, é tratar de colocá-lo em condições de poder ele tirar de si mesmo,
Deste manancial teórico, Romero pôde derivar três conseqüências para a esfera
política:

a) a obrigação de estar ela em acordo e em consensus com


todas as outras manifestações espirituais e ativas de cada
povo, cuja vontade dirige e formula: direito, religião, moral,
arte, ciência, vida econômica.
b) obrigação de renunciar à mania de supor que instituições
se copiam indiferentemente de estranhos, sem atenção às
condições de tempo e espaço;
c) obrigação de abandonar no sistema representativo a base
do materialismo grosseiro do território e da cifra da
população e procurar o almejado apoio na representação
das grandes funções sociais, correspondentes às criações
fundamentais existentes. 113

Não seria a partir de importações de outros sistemas políticos, avessos à


cultura nacional, que se solucionaria o problema do funcionamento das instituições
políticas. Em um primeiro momento, Romero observou que existiria uma diferença
entre as instituições políticas brasileiras e o seu funcionamento, devido sobretudo, às
incompatibilidades geradas pela não assimilação destas instituições pelo povo. Era
uma das primeiras tentativas dentro do republicanismo de se associar a tradição
histórica da sociedade (povo) com as organizações políticas perpetradas pela elite.
Sílvio Romero adotou uma postura na qual o passado brasileiro era construído a partir
de seus referenciais na ânsia de resolver questões relacionadas ao tempo em que vivia.
E mais, o futuro deveria ser previsto e encaminhado de acordo com estas concepções.
Passado, presente e futuro seriam fundamentais para a invenção de uma história
brasileira.
Dessa perspectiva, ele se viu como um agente fundamental no processo
histórico, como um interventor dentro da sociedade. O problema que percebia era que
“os literatos preferem desconhecer o país e o povo; seqüestrar-se da alma nacional e
viver enclaustrados nas cidades, entregues ao sonho polucional de umas cismas
raquíticas; abandonados, segundo a frase gráfica de um escritor europeu, a uma espécie
de extravasamento, de onanismo intelectual.”114 A partir de seus referenciais teóricos,
construía uma história para o Brasil, propunha soluções para o presente, esperando

quero dizer, do seio de sua história, a direção que lhe convém. O destino de um povo, como o destino
de um indivíduo, não se muda, nem se deixa acomodar ao capricho e ignorância daqueles que pretendem
dirigi-lo.” TOBIAS BARRETO. Questões vigentes, V. p. 178, In: OBRAS, vol. IX, Sergipe, 1926
113
ROMERO, S. A Integridade do Brasil. p. 262.
114
ROMERO, S. Introdução a História da Literatura Brasileira. p.139.
acelerar o futuro. Romero estava motivado pelas idéias de expressão e importância de
autores, já indicada nos seus estudos sobre a história da literatura brasileira. “Tanto
mais um autor ou um político tenha trabalhado para a determinação de nosso carater
nacional, quanto maior é o seu merecimento. Quem tiver sido um mero imitador
português, não teve ação, foi um tipo negativo.”115
Se um autor tornar-se-ia representativo dentro de uma sociedade por causa das
inovações intelectuais que granjeiam a luta pela sobrevivência de idéias dentro de uma
sociedade, caberia a um autor procurar no plano das idéias conquistar a supremacia no
debate público.

3.2 - O Problema da Política: Compasso entre organização societal e política.

A pós a implementação da República, Romero dedicou-se aos estudos


sobre política e sociedade. Na Introdução de Doutrina contra Doutrina,
Sílvio Romero argumentou que o melhor serviço prestado ao país seria a elucidação
dos problemas que a recém instituída República brasileira estava passando. O principal
objetivo da Introdução de Doutrina contra Doutrina seria o de apontar as principais
correntes de opinião que disputariam a hegemonia política dentro da República. Para
Sílvio Romero, as correntes de opinião “não são outra coisa mais do que os
agrupamentos dos homens em torno de uma bandeira, o combate dos espíritos no
encalço de um ideal”. 116
Os principais partidos políticos reconhecidos por Romero eram os
sebastianistas, os socialistas, os jacobinos, os militaristas e os positivistas. O conceito
de partido empregado por Romero, perpassaria um “certo complexo de idéias, um
determinado programa, defendido por um grupo maior ou menor de cidadãos”. 117
Nestes termos, o partido consistiria em um agrupamento social em torno de idéias ou
propostas-chaves, que poderiam ser identificadas e assimiladas pelo resto da sociedade,
e que, disputariam a sua própria sobrevivência no âmbito da política.
Política que produziria o partidarismo e conseqüentemente a desunião e o
conflito, e mais, representaria a expressão “dos interesses, dos intuitos, das paixões

115
Ibid. p.124.
116
Ibid. p. 63.
117
Ibid. p. 104.
diversas, que se chocam, se despedaçam em direções desencontradas”118. A política
ideal transcorreria uma situação de resolução de conflitos, na medida em que deveria
representar o amplo corpo da sociedade civil. Assim, no conceito de política romeriana
existiria uma leve ambigüidade entre a situação real política da República e a projeção
ideal da resolução destes conflitos gerados pelo partidarismo político.
O primeiro grupo analisado por Sílvio Romero, os sebastianistas ou
monarquistas, atuariam na sociedade buscando um retorno a instituição monárquica,
estariam com os olhos voltados para o passado119. Romero os qualificaria como um
grupo que deveria ser combatido, utilizando-se de duas perspectivas. A feição positiva
consistiria na conscientização popular através do elogio da forma republicana,
procurando através de uma “sábia administração” demonstrar as qualidades do sistema
republicano. Já a feição crítica ancorar-se-ia na denúncia dos “desvarios” monárquicos
e na incompatibilidade do seu sistema representativo e político por meio de uma
análise histórica.
Segundo Sílvio Romero, o partido socialista no Brasil “é uma criação
prematura, artificial, que pode aproveitar alguns jeitosos, porém, decerto, não vai
servir ao operário, ao trabalhador nacional”120, pois, ainda não existiriam no Brasil,
condições históricas e sociais para o avanço deste programa, na medida em que o
problema da oferta de trabalho e da industrialização brasileira eram ainda incipientes.
Os trabalhadores deveriam se organizar enquanto classe, visando o desenvolvimento
nacional, e não, com aspirações de implementar o “sonho do éden” socialista a partir
de um partido.
Os jacobinos121 eram um grupo composto por “indivíduos provindos de duas
direções: antigos declamadores da tribuna e do jornalismo, representantes do elemento
retórico da propaganda republicana, e alguns mais novos que se lhes aliaram por
atração de índoles.”122 Este grupo político se sustentaria a partir de duas concepções,
a historicidade e a irredutibilidade. A historicidade seria a noção de que os jacobinos
seriam os únicos sujeitos históricos capazes de governar o país. A irredutibilidade seria
a idéia de que os jacobinos seriam inflexíveis em seus posicionamentos. Estas

118
Ibid. p. 111.
119
Para um aprofundamento sobre o movimento monarquista na República ver: JANOTTI, M. Os
subversivos da República. São Paulo: Brasiliense, 1986.
120
ROMERO, S. Introdução a Doutrina contra Doutrina. p.92.
121
Para um aprofundamento sobre os jacobinos na Primeira República, ver: QUEIROZ, S. R. Os
Radicais da República. São Paulo: Brasiliense, 1986.
122
ROMERO, S. Introdução a Doutrina contra Doutrina. p. 93.
características se remeteriam a idéia de que os jacobinos são os portadores de uma
visão de mundo exclusiva, incompatíveis com outros setores da sociedade. E por outro
lado, não construíriam um sistema de crenças e valores adequados, “indagai por seu
programa político-social, e em resposta recebereis apenas sofisticarias e rabulices.”123
Quanto aos militares, Sílvio Romero advertiu que a intervenção destes na
esfera política poderia gerar um mal, pois, passaria a representar somente uma
tendência de pensamento dentro da sociedade. O exército fora criado para outros fins
que estão relacionados a defesa nacional, e este por sua vez exige a imparcialidade,
apanágio que lhe daria força moral e prestígio. Portanto, “a intervenção da Força
Armada na política de um povo tem o duplo inconveniente: de desvirtuar essa política
e amesquinhar essa Força Armada.”124
O grupo dos positivistas seria o mais criticado por Romero, especialmente
quando elaborava uma associação entre estes e o militarismo. Criticava-os pela idéia
de ditadura positivista e pelo senso de sectarismo presente em seus adeptos. Para ele,
o positivismo seria uma espécie de religião, que encobriria a visão correta da sociedade
e buscaria através de uma ditadura militarista a exclusão popular dos centros decisórios.
“O Brasil é um país fatalmente democrático.”125
Escrito por Sílvio Romero em 1893, Parlamentarismo e Presidencialismo
apresentava uma crítica à forma de organização presidencialista instituída pela Carta
Constitucional de 1891. Foi originalmente publicado no Jornal do Commercio do Rio
de Janeiro, e depois reunido em livro antes da deflagração da Revolta da Armada no
governo de Floriano Peixoto. Dirigindo seus argumentos a Rui Barbosa, um dos
expoentes políticos da época e um dos principais propugnadores da forma de governo
adotada pela República brasileira recém-instituída, procurava Sílvio Romero a
ampliação do debate político sobre a mais adequada forma de governo a ser implantada
no Brasil.
Podemos observar no texto de Sílvio Romero três momentos distintos, mas não
totalmente separados: o primeiro momento é uma polaridade entre as formas de
governo presidencialista e parlamentarista, contrapondo-as a partir de uma perspectiva
histórica. A segunda parte constitui-se nos principais apontamentos de crítica ao
modelo presidencialista aplicado no Brasil. Na última parte do ensaio, Sílvio Romero

123
Ibid. p. 100.
124
Ibid. p. 112.
125
Ibid. p. 72.
buscou defender o modelo parlamentarista das possíveis críticas, e, apresentou suas
propostas para a efetivação de tal modelo126.
Existem algumas características fundamentais neste texto romeriano. A
primeira refere-se a idéia de fundamentar-se na história para demonstrar os modelos
políticos existentes e conseqüentemente sua aplicabilidade. Sílvio desenvolveu um
arquétipo de história comparativa entre os modelos políticos dos Estados Unidos, da
Inglaterra, da França e da Suíça.
Outra característica é a noção de que há um distanciamento entre a importação
destes modelos e sua aplicabilidade quando transpostos a outro ambiente. O sistema
político alteraria seu funcionamento a partir do meio em que é aplicado.
E por fim, a idéia de que o regime parlamentarista é mais adequado enquanto sistema
representativo do que o presidencialismo. Este é um pressuposto formalizado por
Romero em sua análise. Na comparação entre os dois regimes políticos, o
parlamentarismo possui vantagens que o presidencialismo não possui. Interessante
notar que Sílvio Romero adotou uma posição de crítica ao presidencialismo,
principalmente na formulação advinda do positivismo, e, por outro lado, de crítica ao
“constitucionalismo” parlamentar vigente durante o Segundo Reinado.
Na introdução ao texto, Romero buscou contrapor as formas de governo norte-
americana e a britânica, cada qual representando um tipo específico de organização
política e social. Para Romero, o modelo norte-americano apresentava-se como “um
filho espúrio da história, oriundo de um mal entendu, um resultado de inadvertência,
que só por aberração pode ser elevado à categoria de princípio político geral, que se
proponha à imitação das outras nações.” Baseado nas argumentações de Bryce,
Boutmy e Laboulaye sobre o contexto norte-americano, que considerava como uma
crítica “séria, sensata e desinteressada”, argumentava Romero que a “índole” do
presidencialismo norte-americano provêm das condições coloniais, de influências anti-
britânicas e de uma interpretação equivocada da organização política e social da
Inglaterra na época da Convenção Americana.
Quanto ao sistema parlamentarista, Sílvio Romero apresentava-o como um
produto histórico mais recente em sua fórmula completa, dotando a Inglaterra do
governo mais livre e de um exemplo a ser seguido por outros povos. Neste sentido, o

126
ROMERO, S. Parlamentarismo e Presidencialismo na República do Brasil (Cartas a Rui Barbosa).
1979.
presidencialismo americano seria um erro que tenderia a ser eliminado, enquanto o
parlamentarismo se aludiria como um modelo mais evoluído historicamente, pois teria
a seu favor a mais adiantada das concepções políticas dos povos modernos, e, portanto,
apto a ser imitado.
Entretanto, a monarquia parlamentarista britânica, apesar de ser considerada a
base de uma possível imitação, não poderia ser considerada como o modelo ideal
existente. “Este ponto é digno de ser ponderado: há monarquias não parlamentaristas,
como há repúblicas deste gênero; porém são as mais ferrenhas e as mais despóticas;
há monarquias onde o governo de discussão e responsabilidade é a regra, como existem
repúblicas desta espécie, e são, por certo, as mais felizes e as mais liberais.”127 Tanto
que, na concepção romeriana, outras nações de tradições arianas , como a Suíça, a
Bélgica e a Suécia, entraram, a partir do parlamentarismo britânico, “no grande ciclo
dos governos de discussão, de responsabilidade, de vida as claras, governos de
opinião”.128
O regime parlamentarista seria a revivescência do sistema representativo das
tradições arianas, impedido de se manifestar pelo regime absolutista. Após a
Revolução Francesa teria se dado início a retomada destas tradições.
Esta busca empreendida por Romero, enfatizando o aspecto do progresso e da
modernidade do mundo ocidental ao entrar neste novo ciclo, visava enquadrar o Brasil
neste mundo. A percepção que se tem é a da procura nestas sociedades de elementos
que apontem características dignas de uma conceituação de moderno, evoluído ou
civilizado, para uma possível aplicação prática no Brasil. Ou seja, através da imitação
de outras formas de governo da tradição ocidental, o Brasil poderia ser reconhecido
enquanto um país evoluído e adequado.
Não somente por esta noção progressista da história que uma forma de governo
seria entendida por Romero como a mais adequada. O gênio e o caráter do povo e as
tradições influenciariam diretamente na forma de governo adequada a cada caso. Ele
anotava que o caráter do povo se constituiria enquanto as especificidades raciais
existentes em dada sociedade, que por sua vez, está ancorada nas tradições históricas
de assimilação ou não de formas diferenciadas de organização social e política.
Outro ponto interessante de se notar é a justificativa que Sílvio Romero
estabeleceu para a existência do governo e suas atribuições. Para ele, “a razão de ser

127
Ibid.
128
Ibid.
de todo governo, seu princípio justificativo e fundamental é a salvaguarda dos direitos
de todos e a garantia da ordem pública.”129 Neste sentido, a existência do governo se
condicionava a aplicação da justiça e a consecução da paz, não havendo necessidade
específica de outras atribuições fundamentais.
Ao especificar as relações do povo com o governo, Romero assim estabeleceu:
“em todo regime político há duas espécies de conflitos: os dos governados uns com os
outros ou com a administração pública, e o dos próprios poderes governamentais entre
si. Os primeiros são inevitáveis, originam-se naturalmente das relações humanas na
luta pela vida social; cabem todos na alçada das leis civis e penais.”130
Neste ponto, nota-se em Romero, uma inquietação em demonstrar a
necessidade do Estado em manter a ordem pública, pois naturalmente, na luta pela vida
social os homens estão em conflito permanente. Sendo de responsabilidade do aparato
judiciário o controle da violência social. Os conflitos dos poderes governamentais,
entre si, deveriam ser evitados.
A discussão sobre a melhor forma de governo deveria ser fomentada. “That is
the question, que a nação brasileira tem o direito de discutir, quando mais não seja para
procurar as causas pelas quais o nosso desajeitado presidencialismo nos desorienta e
machuca há três anos.”131
Quanto ao modelo presidencialista adotado no Brasil, Romero tenderia a
considerá-lo uma imitação inadequada ao contexto brasileiro. De forma pontual,
estabeleceu suas ponderações, explicando-as uma a uma. As principais críticas
apresentadas por Sílvio Romero ao regime presidencialista implantado no Brasil são:

a) é chegado ao militarismo, especialmente entre nós, e é


muito jeitoso para manter indefinidamente;
b) é uma espécie de ditadura, nomeadamente entre os
povos latinos da América tendo todos os vícios desta
modalidade e moléstia política;
c) por uma péssima compreensão e divisão e harmonia dos
poderes públicos não tem maleabilidade, o elastério
indispensável ao jogo político da democracia moderna,
tornando-se um viveiro de revoluções armadas das quais as
repúblicas americanas oferecem exemplos diários, já
inumeráveis e de que o nosso Brasil já conta tristíssimos
casos;
d) acumula abusos incontrastáveis pela irresponsabilidade
e indiscussão em que se acha abroquelado;

129
Ibid.p.78
130
Ibid.p.79
131
Ibid.p.68
e) tira a força e o prestígio ao poder legislativo, e ao mesmo
tempo a respeitabilidade ao executivo;
f) por falta de cenário, de discussão, de luta das idéias, é
um regime apropriado a manter no poder indivíduos
medíocres, apenas hábeis em curvar a espinha aos
caprichos do presidente;
g) sofre de todos os vícios, e até mais agravados, dos
manejos eleitorais, sem as suas vantagens;
h) não tendo necessidade senão de poucos agentes, não
tendo que dar satisfação às grandes correntes da opinião
representadas nas assembléias, é próprio para manter-se
pela corrente, contra a vontade do país;
i) na geral indisciplina e desorganização do caráter
brasileiro, resvala facilmente para o despotismo;
j) estando divorciado, por vícios de sua origem militar, da
massa de nosso povo, não tem meios de o atrair, por sua
natural tendência de viver à parte, sem precisar de atender,
como se sabe, às aspirações da opinião;
k) tem contra si a índole do povo, no que ela tem de mais
liberal, as suas tradições, no que elas têm de mais seleto;
l) é antipático e suspeito à democracia, feição geral da vida
social contemporânea, pelo aferro com que o defende o
doutrinarismo compressor e ditatorial dos positivistas. 132

No primeiro ponto de suas críticas, Sílvio Romero amparou-se nas experiências


das repúblicas espanholas, onde haveria a presença do fenômeno do caudilhismo,
relacionando o caráter nacional brasileiro com tais regiões. Afirmou que nestes
regimes políticos o chefe do Estado distanciava-se das obrigações outorgadas pela
Constituição e pelo dever com o povo, formando-se um poder amparado pelo
militarismo. Na segunda crítica, continuava argumentando que, mesmo sem o aspecto
militarista, o presidencialismo afeiçoar-se-ia a uma ditadura, pois a “república precisa
de mais tino, mais respeito a lei, mais liberdade, mais sentimento do dever, mais
largueza de ânimo, mais espírito de concórdia, mais fraternidade.”133
Quanto ao terceiro infortúnio, Romero responsabilizou a inadequação da
separação de poderes montesquieuana pelas relações conflituosas entre os poderes.
Citou como exemplo a desarmonia entre legislativo e executivo nos governos
brasileiros até então. Para Romero, a fraqueza humana, quando não contida e cerceada,
descambaria para o abuso e o desmando. E o regime presidencialista, pela falta de um
aparato fiscalizador do executivo, ao invés de regulá-lo, torna-lo-ia mais propenso aos
desatinos e a corrupção.
No quinto aspecto crítico ao presidencialismo, Romero afirmou que tal sistema
ao nomear ministros e cargos superiores de administração, não propiciaria a disputa

132
Ibid.p.74-75
133
Ibid.p.77
meritória e se afastaria da opinião popular, resultando na falta de prestígio e força dos
poderes legislativo e executivo. Pela falta de uma disputa meritocrática e pelo aspecto
personalista, seriam nomeados personagens descapacitados para o preenchimento dos
postos de poder.
O sétimo ponto se referia ao sistema eleitoral brasileiro. Para Romero, o
presidencialismo se valeria de dois aparatos para controlar as eleições, o mito do povo
despreparado para fazer escolhas adequadas, e, a fraude eleitoral.
Quanto aos itens nove e dez, Romero acreditou que, nos estudos etnográficos
e históricos, o caráter do povo brasileiro abrangeria a falta de integração étnica, falta
de cultura forte e a falta de uma tradição histórica que os moldasse com feições dignas,
argumentando que o povo brasileiro se constituiria como um dos mais indisciplinados
e anárquicos, além de não se interessar pela política. Sendo assim, a classe dirigente
se apropriaria facilmente do poder e não o largaria, pois, o presidencialismo seria apto
a germinar as paixões de mando e não promoveria a incorporação do povo à política.
A última crítica pontual que Romero dirigiu ao modelo presidencialista remete-
se à influência do pensamento positivista na formulação de propostas para a
organização política da república. Crítica esta, que o próprio Rui Barbosa, já tinha feito.
Estes autores rejeitavam a idéia de uma ditadura positivista ancorada no militarismo,
aos moldes do governo Floriano e das repúblicas espanholas na América.
Nas objeções ao parlamentarismo, Sílvio Romero expôs as possíveis críticas
que eram atribuídas ao modelo de governo parlamentarista, refutando todas e propondo
medidas buscando a harmonia da república federativa com o parlamentarismo. “A
república federativa é perfeitamente harmonizável com o parlamentarismo”134.
Como notamos, para Romero política é conflito. Portanto, o lócus para a
resolução destes conflitos deveria ser o Parlamento. Ele expressaria a vontade popular,
na medida em que os eleitos representariam diretamente as aspirações do povo. O
Legislativo seria responsável pela depuração dos melhores projetos políticos. O
Executivo seria responsável pelas ações rápidas, cotidianas. O Judiciário garantiria a
justiça e a resolução de conflitos a todos os cidadãos. O regime adotado deveria estar
de acordo com os princípios do republicanismo moderno.

São princípios do republicanismo moderno, que não deve


ser confundido com o aristocratismo republicano da

134
Ibid. p.121.
Antiguidade: a elegibilidade do chefe do governo, a
temporariedade de suas funções, o alargamento do sufrágio,
a discriminação e responsabilidade das funções públicas, o
governo exercido pelos próprios governados, ou por si ou
por uma representação vasta e séria.135

Todas estas características seriam possíveis na união entre o federalismo e o


parlamentarismo, com a vantagem que o Parlamento, politicamente, seria a própria
expressão popular e o local adequado para a depuração através dos debates das
melhores propostas. Seria pelo Parlamento que se daria a decantação da vontade
popular. Contrário aos partidos locais, Sílvio Romero esperava a formação e
consolidação de um partido democrata a nível nacional. Este partido deveria ter a
incumbência de:

manter ileso o culto da liberdade, da expansão normal de


todas as suas atividades; manter e alargar o direito do voto
e a intervenção da nação no seu governo; difundir a
instrução primária dos dois graus gratuita e obrigatória,
como obstáculo à ignorância, propício terreno de
propagandas esdrúxulas; apoiar o espírito nacional nas suas
tradições legítimas, nas suas aspirações de ordem e
integridade pátria; promover a representação direta de
todas as classes para que tenham meio de ser atendidas em
seus justos reclamos; combater o espírito de separatismo,
onde quer que ele surja, pugnando pela igualdade prática
de todos os estados na gestão política do país; combater
implacavelmente as opressivas idéias e quaisquer
tendências e planos de ditatorianismos de qualquer gênero,
pela difusão de uma filosofia mais progressiva e mais de
acordo com o espírito dos novos tempos. 136

Sílvio Romero almejava a partir desta agenda política, defendida por este
partido, o combate às facções políticas que emergiam na cena pública desta época. O
combate principal deveria ser travado em oposição aos monarquistas e aos positivistas.
Os primeiros, pela idéia de um retorno ao regime monárquico. Os segundos, pela noção
da ditadura positivista.

3.3 - (Re)Invenções Republicanas:entre o americanismo e o iberismo.

135
ROMERO, Sílvio. Introdução a Doutrina Contra Doutrina. p. 141.
136
Ibid. p.161.
A pós a efetivação do pacto oligárquico, empreendido pelo Governo
Campos Sales, o sistema político entrava em um processo de
rotinização. 137 A República não trouxera a ampliação da participação popular nos
centros decisórios do país. Nesses termos, o discurso romeriano alteraria um pouco
seu teor, passando a tecer severas críticas a organização política implementada no
Brasil. Em As Oligarquias e sua Classificação, Sílvio Romero argumentou que
desejava ocupar na política a mesma posição que lhe coubera na literatura brasileira,
afastando-se de todos os “grupelhos” que a infestariam, perpassando assim duas
questões centrais de seu pensamento. A noção de isolacionismo, que se refere a idéia
de que seria o representante isolado de uma visão de mundo que não é compartilhada
por qualquer grupo social, e a noção de imparcialidade, remetendo-se a própria idéia
de cientificidade e verdade adquirida sob a luz de aparatos científicos.
De certo modo, antes do advento da República e, no limite, até a proposição do
chamado modelo Campos Salles, e seu desprendimento da política oficial, o
empreendimento teórico de Alberto Salles centrava-se sobretudo na tentativa de
elucidação dos meandros evolucionários que permitiriam a própria evolução histórica
e a formação das idiossincrasias das nacionalidades.
Se a política como ciência possuía como principal hipótese que o organismo
nacional seria tal como o organismo de um indivíduo (com estrutura, crescimento e
função definidos), a anatomia do corpo nacional reger-se-ia sobre a lei da evolução e
da especialização dos órgãos de uma forma natural, “sem que houvesse a interferência
de ninguém”. Entretanto, em alguns casos, como parecia ser o brasileiro, haveriam
desequilíbrios fundamentais, chamadas por Alberto Salles de metamorfoses
regressivas, nada mais do que o funcionamento anormal do Estado, como no caso do
fisco e do militarismo que via ressurgir como um problema grave da política
republicana, além da figura do Legislador, caracterizado como vaidoso, retórico e
vazio. “Na minha opinião o método próprio da política não pode ser outro senão o da
observação descritiva, auxiliado por um lado pelos processos elementares da
comparação e da analogia e, do outro, pelo processo fundamental da filiação; que é o
método por excelência da sociologia.”138

137
LESSA, R. A invenção republicana. Campos Sales, as bases e a decadência da Primeira
República brasileira. 1988.
138
Ibid. p.87.
No caso brasileiro, a questão das formas de governo tornara-se para ele, em
suas últimas publicações, um debate infrutífero. “A distinção em monarquia ou
república é puramente artificial.”139 Além desta mudança de posicionamento sobre a
relevância dos debates que praticamente movimentaram sua juventude em São Paulo
sob os auspícios da propaganda republicana, Alberto Salles acabou por realizar uma
contraposição às idéias de política abstrata e política concreta, em um movimento de
revisão de suas teses.

Não há dúvida que de algumas ciências puramente


abstratas nascem certas profissões artísticas. Aí temos o
caso bem conhecido da biologia e da medicina. Neste
sentido admite-se sem dificuldade que da ciência política
se deduza uma arte política, a arte de governar; mas afirmar
que a parte abstrata ou científica da política corresponde à
história ou à sociologia, parece-me inadmissível, como
verdadeiro erro filosófico e científico. A política não é
sociologia, assim como a sociologia não é a história. A
política é um ramo especializado, um simples capítulo
particular da ciência geral, enquanto que a história nada
mais é do que uma forma especial do método descritivo,
um simples artifício lógico do espírito. A política, como
ramo da ciência social, é sempre abstrata e tem como objeto
de estudo unicamente a face estática de uma certa categoria
de fenômenos, cuja feição dinâmica é deixada às
investigações do direito.(...) A política é um capítulo da
sociologia que investiga as leis estáticas de uma ordem
particular de criações sociais, que tem os fundamentos nas
nossas criações afetivas.140

Procurava Alberto Salles, por esta época, a investigação de um problema


capital no pensamento brasileiro: o problema do ajuste da democracia no Brasil. Para
ele, a República seria o regime da reciprocidade na igualdade, sendo o sufrágio um
fator fundamental na averiguação da opinião pública. Entretanto, os entraves de nossa
democracia estariam associados a confusão entre os sentimentos do desejo e da opinião,
ao nível educacional do povo, as falhas do sistema representativo, a mesquinhez dos
partidos políticos, ao interesse mercantil do jornalismo e à inércia dos publicistas. O
momento republicano brasileiro seria uma fase transitória, cujo principal perigo seria
a soma de poder político experimentado dentro da organização republicana com o
baixo nível de responsabilidade adquirido, fatores reforçados pela nossa baixa

139
Ibid. p.91.
140
Ibid. p.70-71.
elaboração intelectual e moral. Assim, já em 1891, Alberto Salles constatava os vícios
do regime democrático no Brasil:

Não há dúvida, portanto, que a responsabilidade só poderá


aparecer como um corretivo, quando ela brotar
espontaneamente da consciência geral de todas as classes,
como um produto direto de sua evolução intelectual e
moral, e não quando existir apenas na constituição ou nas
leis, como meras disposições escritas, verdadeiras plantas
exóticas que não tem raiz no cérebro e no coração das
massas.141

Na montagem de Salles, o desejo seria um fenômeno elementar, enquanto a


opinião seria um fenômeno complexo associado a um pensamento analítico. Todas as
classes sociais seriam capazes de desejos, mas nem todas de opinião, pois o elemento
integrante e associativo da opinião seria a doutrina política. O desejo social popular
seria responsável pela indicação do fim (finalidade) dando a direção do trabalho
realizado pelo Estado que seria responsável pela execução prática da opinião. O
jornalismo na teoria, potencial vetor de formação de opinião e de espaço para debates,
cuja principal característica seria a imparcialidade, no Brasil, entretanto, seria uma
instituição híbrida do consórcio entre o capitalismo e a indústria, possuindo uma
finalidade ligada a interesses econômicos. “O jornalismo contemporâneo, qualquer
que seja a sua ação sobre a opinião pública, tem invariavelmente um fim industrial e
mercantil.”142
Quanto ao sistema representativo, continuava a ser uma ficção política
dominado pelos grupelhos políticos que expressavam interesses particulares.
“Qualquer que seja a organização das assembléias, nunca aparecem os seus membros
como uma corporação uniformemente constituída pelo sentimento moral do dever e
do respeito aos interesses reais da nação, senão como um ajuntamento heterogêneo de
grupos rivais, mesquinhos pelas paixões dominantes e desprezíveis pela reconhecida
incompetência.”143
Para Alberto Salles, os partidos políticos sob a égide dos cânones
organizadores da Primeira República não conseguiram se estabelecer de forma
eficiente e funcional:

141
Ibid. p.8.
142
Ibid. p.48.
143
Ibid. p.40.
São eles os grandes esteios de todo o sistema de corrupção
que se tem introduzido nos governos representativos e é
deles que começa a vir o descrédito da democracia.
Organizados sob um regime verdadeiramente militar, os
partidos políticos atuais vivem e sustentam-se à custa da
violência feita às consciências. Aquele que adere a um
partido hipoteca-lhe virtualmente a sua vontade, a sua
opinião, o seu critério, toda a sua independência pessoal.
Moralmente é um homem morto, absorvido em tudo pela
férrea e despótica organização da corporação em que se
filia; abdica de todos os seus atributos intelectuais, para
aceitar ou rejeitar aquilo que lhe mandam que aceite ou
recuse, e submete-se como o jesuíta, quando entra para a
ordem, à vontade discricionária do geral, do chefe, com a
promessa de gozar depois dos proventos que a ordem possa
porventura receber. São os partidos verdadeiras máquinas
de guerra, aparelhadas unicamente para as grandes batalhas
da corrupção, chamadas eleições, e outra coisa não fazem
senão lutar pela posse do poder, para distribuir entre os seus
os grandes despojos dos empregos públicos.144

Neste movimento crítico à organização política brasileira da época, Alberto


Salles observou que existia uma confusão entre os órgãos da opinião e da
administração, naquela situação de descompasso entre o tempo social e o tempo
político. Seria preciso se criar órgãos adequados à manifestação da vontade popular e
restringir a ação da legislatura.

Seria de opinião que se restringisse o mais possível as


atribuições das câmaras legislativas, ainda mesmo que se
fosse operando essa restrição gradualmente e sem
sobressaltos, até chegar ao ponto de anular-se
completamente a organização atual dos parlamentos,
transformando-os em mera chancelaria destinada, como
uma corporação limitada e escolhida, unicamente a redigir
os regulamentos promulgados pela administração.145

A solução estaria na regeneração moral pela virtude do publicista, ao levar a


cabo a interpretação da vontade nacional. “A opinião limitará sua função em querer e
na indicação do fim; os publicistas apontarão os meios necessários à consecução do
fim e os estadistas pô-los-ão em execução.”146 O publicista teria por missão indicar os
meios conducentes ao restabelecimento do equilíbrio geral de todas as funções do
corpo social, inclusive a própria organização da política.

144
Ibid. p.43-44.
145
Ibid. p.51.
146
Ibid. p.297.
Na análise que empreendeu da situação da política brasileira, ao fim da
primeira década do século XX, Sílvio Romero criticou severamente o modelo
oligárquico de organização da República brasileira. Para Romero, a organização
republicana não admitira ainda uma noção de missão histórica a ser seguida e
desenvolvida, disciplinando a massa através da educação republicana. O que
caracterizaria este período seriam as oligarquias estaduais e seu monopólio de
influências dentro do Estado, estimulando cada vez mais a idéia de clientelismo.

Os partidos, as associações ou agrupamentos quaisquer nas


freguesias, nos municípios, nas comarcas, nas províncias,
hoje Estados, na União, todas as instituições, todos os
cargos públicos, em número incalculável, não tem outro
destino, outra função: seu fim é fornecer meios de vida a
uma clientela infinita. O Estado não tem por fim próprio a
manutenção da ordem, a garantia da justiça, ou, se
quiserem, a ajuda de certos empreendimentos elevados; seu
papel preponderante, e quase exclusivo, é alimentar a mor
parte da população à custa dos poucos que trabalham e isso
por todos os meios, como sejam as malhas de um
funcionalismo inumerável. Quando não são os empregos
diretos nas repartições públicas, muitos deles inúteis, são
as comissões para os influentes, as pensões, as
gratificações sob títulos vários, as obras públicas de toda a
casta e milhares de outras propinas.147

Romero apontou quatro modalidades tipológicas para as oligarquias estaduais:


(1) o familista, (2) o grupismo semifamilista e amigueiro, (3) os Indunas, e (4) o
castilhismo positivóide. O primeiro grupo poderia ser caracterizado como uma família
governamental, pois admitiria a família como base política de atuação, sendo que
“alonga tentáculos por toda extensão do Estado” 148 , “porque não passam de
reproduções do obsoleto familismo primitivo, mero comunarismo de família,
conhecido em remotos tempos, de há muito desaparecido dentre gentes cultas, fórmula
bastarda de organização político-social.”149 O segundo tipo de oligarquia seria uma
espécie de hibridismo entre diversas famílias que controlariam a política de um
determinado Estado. Se no primeiro grupo a família “mandaria” sozinha e controlaria
os altos postos do Estado, no segundo tipo existriam duas ou mais famílias que se
uniriam para ocupar os altos postos estatais.

147
ROMERO, S. As Zonas Sociais e a Situação do Povo – trecho duma carta a M. E. Demoulins. p.
192
148
ROMERO, S. As oligarquias e sua classificação. p. 204.
149
Ibid. p, 203.
O terceiro tipo compreenderia “a subserviência matreira, como meio de
sucessão no poder e a subseqüente traição, como meio de substituir um grupo
oligárquico a outro.”150 Nestes termos, haveria uma espécie de rodízio entre as famílias
que controlariam os altos postos do Estado. Por fim, a quarta classificação das
oligarquias se remeteria ao “castilhismo positivóide”, no qual se produziria uma
espécie de caudilho rio-grandense, ancorado no contrabando das fronteiras, nos
recursos das tropas federais e da prosperidade trazida pelos colonos imigrantes.
A influência destas oligarquias na organização do Estado brasileiro seria
maléfica, pois se utilizariam de meios ilícitos para assegurar seu domínio dentro da
política estadual. Para tanto, contribuiria também o governo da União, pois as
oligarquias levariam a efeito três processos, o do status quo, a interrupção e a
substituição. O status quo se referia ao processo de manutenção no poder das
oligarquias existentes. Tal processo serviria para a conservação das oligarquias que
mantinham laços de amizade com os detentores do poder central.
O processo de interrupção consistiria na “fabricação” de um candidato,
geralmente militar, que assumiria o estado no intento de promover a substituição de
uma oligarquia por outra. Este processo se diferenciava da substituição, pois nesta, a
intervenção militar far-se-ia de forma direta. Assim, na interrupção, a intervenção
política se fazia através de canais oficiais, enquanto na substituição ocorreria a
intervenção direta das forças armadas, a mando do poder central.
Nesta política como meio de vida, segundo Romero, a grande preocupação da
elite política da época estava em criar um sistema de argentinização, ou de ilusionismo
perante o mundo para captar recursos financeiros. Tal processo se expressaria nas
reformas urbanísticas do Rio de Janeiro, na vinda de letrados estrangeiros e pela
propaganda na imprensa veiculando as características positivas da República brasileira.
Desta forma, “o nosso querido Brasil tem sido levado a não se parecer com povo algum
da terra.” Não somos como os antigos militares da Assíria, da Babilônia ou da Pérsia
com seus monarcas, nem romanos do tempo do Império; não somos a Rússia com o
czar e “povo tumultuando pela liberdade”; não somos a Alemanha com o “imperador,
a aristocracia e uma burguesia vivaz que se entrega desassombrada às indústrias, à
navegação, ao comércio, à ciência, às letras, às artes, no mais vigor autonômico”; não
parecemos com a China com seu grande contingente populacional, sua intensidade

150
Ibid. p. 205.
agrícola e sua organização patriarcal estável; não parecemos o Japão com a sua
“consciência da força, seu industrialismo vigoroso, sua peculiar atividade
progressiva”; não somos a Inglaterra “do self governament, da iniciativa pessoal, do
liberalismo prático, da riqueza e do poder”; não parecemos com os norte-americanos
“livres, opulentos, industriais, fortes, cônscios da própria prosperidade”; não somos a
França “unitária, culta, severa no emprego da justiça, grande na evolução das idéias”;
não somos os suíços democráticos, “a terra do referendum, da prática segura da
liberdade efetiva do povo. Não, nada disso. O Brasil de hoje, como foi organizado por
certas fantasias sem cultura real, sem plasticidade orgânica de talento e de doutrinas,
confundidores famosos de frases com idéias.”151
Mas que Brasil é este? “Já andamos fartos de discussões políticas e literárias.
O Brasil social é que deve atrair todos os esforços dos seus pensadores, de seus homens
de coração e boa vontade, todos os que tem um pouco de alma para devotar à pátria.”152
Atrás dessa resposta seguiremos agora. Em fins do século XIX Sílvio Romero tornou-
se membro-fundador da Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de nº 17,
cujo patrono era Hipólito da Costa. Na ABL, envolveu-se em uma polêmica na posse
de Euclides da Cunha em 1906 . Sílvio Romero, encarregado do discurso de recepção,
fez severas críticas a Castro Alves, ao sistema político da época, e a organização social
brasileira. Segundo os parâmetros da ABL, os discursos de posse deveriam ser um ato
de elogio aos antecessores e de boas vindas ao novo integrante. Na platéia estavam
membros da política brasileira como o Presidente da República, Afonso Pena.
Em seu discurso, Sílvio Romero apontava a importância da obra de Euclides
da Cunha neste processo de “descobrimento” do Brasil pelos seus intelectuais. Sílvio
Romero a considerava uma destas “obras que fazem parte do tesouro intelectual da
nação, que lhe germinaram na alma, abrindo-lhe novas e mais rasgadas perspectivas,
que não podem desfolhar ao vento.”153

Assim sendo, crescia e se estruturava, no debate político-intelectual, então, a


consciência da débil integração da sociedade brasileira, das suas reduzidas
possibilidades de amplo desenvolvimento. Tornava-se, pois, imperioso que
se avaliasse com precisão o precário estado dos vários componentes da nossa
organização social, a partir do que, dever-se-ia pensar também nos

151
Ibid. p.200.
152
ROMERO, S. O Brasil Social de Euclides da Cunha. p.172.
153
Ibid. p.153.
mecanismos, nas estratégias de constituição ou reconstituição nacional para
o que, se reconhecia, a República tinha contribuído minimamente. 154

Nesta chave, assim Sílvio Romero reiterava sua apreciação da escrita de


Euclides, o tempo social e o tempo político, advindos de dois tempos históricos,
deveriam se fundir, para garantir o que parecia um cruzamento inevitável do qual
resultaria o nosso “centauro”155,

Seu livro (...) é um sério e fundo estudo social de nosso


povo que tem sido o objeto de vossas constantes pesquisas,
de vossas leituras, de vossas observações diretas, de vossas
viagens, de vossas meditações de toda hora. Começastes
por querer surpreendê-lo na índole, na sua constituição
mais íntima, na essência intrínseca, nessa espécie de
rendez-vous que ele se deu a si próprio nos campos do
Paraguai. (...) O nervo do livro, seu fim, seu alvo, seu valor,
estão na descritiva do caráter das populações sertanejas de
um dos mais curiosos trechos do Brasil.(...) Tanto é
profundo o inconsciente desconhecido de nós mesmo!(...)
De vosso livro deve-se tirar, pois uma lição de política, de
educação demográfica, de transformação econômica, de
remodelamento social, de que depende o futuro daquelas
populações e com elas os doze milhões de brasileiros que
de norte a sul ocupam o corpo central do nosso país e
constituem o braço e o coração do Brasil.156

No final do século XIX, a campanha de Canudos revelaria ao Brasil esta


população interiorana, onde predominariam crenças medievais e características de
momentos históricos anteriores. Segundo Euclides, “uma grande herança de abusões
extravagantes, extinta na orla marítima pelo influxo modificador de outras crenças e
de outras raças, no sertão ficou intacta”. Caracterizados por um tipo de atavismo, estes
homens representariam o próprio momento em que haviam se insulado, adquirindo, “a
forma grosseira de um campeador medieval desgarrado em nosso tempo”157, como se
ali o tempo tivesse permanecido imóvel, desligado do “movimento geral da evolução
humana”.158

154
GOMES, E. “Campo contra cidade: a reação ruralista à crise oligárquica no pensamento político-
social brasileiro (1910-1935)”. Dissertação de mestrado em Ciência política, Iuperj, 1980. p.26.
155
Diria Araripe Junior ao se referir à obra euclidiana: “o jagunço é um temperamento resultante das
circunstâncias em todas as gradações, desde o Calibã, o bruto inconsciente, que se move como uma
máquina de maldade, até o matuto mitrado, o qual, posto na orla da civilização, participa de ambos os
feitios, semelhante ao centauro, essa bela expressão mitológica do homem de intermédio. É nessa atitude
do centauro que o Sr. Euclides da Cunha encontra o jagunço, que surge de repente em canudos,
espantando o país, surpreendendo o governo e dando ao soldado disciplinado uma lição empírica da
tática dispersiva.” ARARARIPE JR. “Os Sertões.” In: Teoria, Crítica e História Literária. 1978. p.222.
156
ROMERO, S. O Brasil Social de Euclides da Cunha. p.164-165.
157
Ibid., p. 125, 155, 134.
158
Ibid, p.156.
Em fins do século XIX, habitariam um mesmo território, dois tipos distintos
em duas sociedade diversas, separados por quase trezentos anos de evolução
histórica.159 A percepção de que coexistiam dois tempos sociais distintos, ao mesmo
tempo em que aturdiria o autor, o estimulava a pensar a renovação da decrépita
civilização litorânea: aquela “rocha viva” atávica continha em si a bravura dos remotos
bandeirantes que seguiam inexoravelmente o fluxo do tempo, se deixando levar pelos
chamados da natureza. E daquele homem rústico e retrógrado, porém dotado de força
e boa compleição, poderia emergir o antídoto da “cultura de empréstimo” litorânea.

Não é, todavia, a natureza que tem o condão de arrancar à


paleta do escritor imagens, que são fotografias. Os tipos
étnicos, os caracteres das coletividades, as índoles
individuais, moldadas no cadinho dos vícios ambientes, os
vincos deixados nas almas pela atmosfera social fazem-se
reproduzir com firmeza. (...) Eis aí uma galeria de
indivíduos que são como índices ou sumários de um meio,
de uma situação, de um momento. (...) São como feixes de
fatos, cada um com seu rótulo, sua rubrica inapagável e
eterna; são como expoentes indicadores das correntes
subterrâneas das multidões; fórmulas lógicas, obtidas por
processos indutivos, como integração completa de
milhares de fenômenos observados. Mas são definições
ditadas pela própria natureza: cada indivíduo é um resumo
e um compêndio. Ali estão as cristalizações humanas
obtidas por quatrocentos anos do labutar de uma meia
cultura incongruente, cheia de falhas, grosserias e
indisciplinas de toda casta. E todas são reais e pegadas em
flagrante. Parece uma página do Purgatório ou dos quadros
tétricos de Dostoievski.160

Assim, o destino histórico da nossa nacionalidade estava associado ao nosso


tempo social e ao nosso tempo político.

Em suma, o evolucionismo oferecia a Euclides a


possibilidade de montar dois quadros simultâneos: os
quadros da essencialidade e da perdição. O quadro da
essencialidade ressalta o cerne da nacionalidade, o
sertanejo como sua “rocha viva”. Mas ela é constituída por
um mestiço que, fisicamente forte e adaptado a seu meio
rude, é entretanto incapaz da força imposta pela
complexidade da vida contemporânea.161

159
Euclides mobilizou diversos elementos para mostrar essa coexistência de temporalidades distintas.
O homem do sertão seria atávico, marcado por “divertimentos anacrônicos” (p. 145), “corridas de
tártaros” (p.144), “monoteísmo incompreendido” (p.154), etc. “Ali, as tradições do passado
permanecem intactas” (p. 121).
160
ROMERO, S. O Brasil Social de Euclides da Cunha. p.167-170
161
LIMA, L. Euclides da Cunha: contrastes e confrontos do Brasil. 2000. p.48.
Desta forma, “o heroísmo tem nos sertões, para sempre perdidas, tragédias
espantosas. Não há que revivê-las ou episodiá-las. Surgem de uma luta que ninguém
descreve – a insurreição da terra contra o homem”.162 Esse seria o sentido trágico163
da vida sertaneja, resultado da experiência direta com a natureza rude, nos trezentos
anos de insulamento. Tornava o sertão uma metáfora para a própria nação.164

existem as seguintes zonas sociais mais notáveis no Brasil:


região do gado no alto norte; região da borracha no vale do
Amazonas; região da pesca fluvial nesse grande rio e seus
afluentes; região do gado nos sertões secos do norte, região
do gado nos campos e tabuleiros de Minas, Goiás e Mato
Grosso; região do açúcar na chamada zona da mata, desde
o Maranhão até o norte do estado do Rio de janeiro (faixas
intermédias desta região existem próprias para o algodão,
o fumo, a banana); região da mineração em Minas, Goiás e
Mato grosso; região do mate nas matas do Paraná e Santa
Catarina e parte do Mato Grosso; região dos cereais na
zona serrana de santa Catarina e Rio Grande do Sul; região
do gado nos campos deste último Estado.165

Nesta metáfora do sertão se inseriu Sílvio Romero. O tempo social e o tempo


político no Brasil estavam desajustados. O regime do federalismo não se adequou ao
Brasil, pois,

O resultado final de tudo isto é que, em vez do regime


federativo, de autonomia real dos estados e dos municípios,
vivemos no duro regime de uma centralização de fato,
espécie de grosseiríssima república unitária, ilegal e
espúria. É que o gênio apático da raça, a tendência grupista
dos iberos- latinizados, verdadeiros comunários de estado,
que sonham sempre com o chefe, o guia, o patrono,
zombando das teorias de nossos retóricos, acaba sempre
por vir a flux e vingar-se das peias que lhe opõem. O povo
brasileiro, pelo seu estado de cultura, por seus antecedentes
étnicos e históricos, por sua educação, por seu caráter, por
suas tendências, não era nem é apto para esse federalismo
que coseram aos ombros.166

A tradição ibérica do comunarismo não estimularia no Brasil a idéia de uma


solidariedade nacional, que só poderia ser alcançada através de uma reorganização
social e política. A “singularidade latino-americana agravada no Brasil, e oriunda das

162
Ibid. p.150.
163
HARDMAN, F. “Brutalidade antiga: sobre história e ruína em Euclides.” Estudos Avançados, São
Paulo, v. 10, n. 26, 1996.
164
LIMA, L.C. Euclides da Cunha: contrastes e confrontos do Brasil. 2000.
165
ROMERO, S. As Zonas Sociais e a Situação do Povo. p.189.
166
ROMERO, S. O Brasil na Primeira Década do Século XX. pp. 188-189.
precedentes, é que não conseguimos formar ainda um povo devidamente organizado
de alto a baixo.” Pois, “faltam-nos a hierarquização social, o encadeamento das classes,
a solidariedade geral, a integração consensual, a disciplina consciente dum ideal
comum, a homogeneidade íntima”167.
Estaria rearticulado, o campo de experiência caracterizado a partir da tradição
histórica do comunarismo, para explicar a falta de solidariedade social e a ausência de
um projeto nacional estimulado pela idéia de bem coletivo, motivos do fracasso da via
americanista do Legislador de 1891. Segundo Romero, desde os tempos coloniais, com
a fusão das três raças, o comunarismo a partir do regime patriarcal do português e do
trabalho escravo, enraizou-se nos costumes populares. Assim, “as gentes brasileiras
por toda a vastidão do interior do país, e até nas próprias cidades nas camadas
populares, vivem de ordinário todas em torno de um chefe, de um patrão, de um
protetor, de um guia; todos têm o seu homem”.168Transpondo esta peculiaridade da
história brasileira para o aspecto político, ele observaria que “a política nos Estados
gira em torno de um chefe, um oligarca”.169
A tradição histórica do comunarismo brasileiro, construído no período
colonial, deveria ser combatido e repelido da vida política nacional. O que herdamos
do nosso passado comunarista expresso no nosso tempo social, impedia-nos da
simples imitação de soluções políticas geradas em outro contexto. Para Romero, o
povo deveria ser disciplinado através de uma educação republicana, que deveria
garantir o espírito cívico e propiciar o correto funcionamento de uma organização
democrática.

A crise universal hodierna entre a velha e a nova educação,


entre a cansada intuição comunitária, que procura resolver
o problema da existência, apoiando-se na coletividade, na
comunhão, no grupo, quer da família, quer da tribo, quer
do clã, quer dos poderes públicos, do município, da
província, do Estado, dos partidos, jogando como uma
arma principal das classes ditas dirigentes a política
alimentaria, o emprego público, as fáceis profissões
liberais ou o comércio, a crise entre esta intuição e a
educação particularista que se encara aquele problema,
principalmente como coisa a ser solvida pela energia
individual, a autonomia criadora da vontade, a força
propulsora do caráter, a iniciativa particular do trabalho, as
ousadias produtoras do esforço, essa crise universal acha-

167
ROMERO, S. O Brasil Social. p. 90.
168
ROMERO, S. As Zonas Sociais e a Situação do Povo. p. 191.
169
Idem.
se no Brasil complicada por causas e circunstâncias
especiais de seu desenvolvimento etnológico e histórico.170

Segundo Sílvio Romero, “os dois maiores fatores de igualização entre os


homens são a democracia e o mestiçamento.”171 A democracia expressaria a igualdade
em termos políticos e o mestiçamento em termos sociais e raciais. O fato é que no
Brasil, Sílvio Romero não observou nenhum dos dois procedimentos levados a efeito.
O mestiçamento era um projeto futuro, que expressava sua visão teleológica da história,
ora via o branqueamento da população num futuro próximo, ora distante. Enquanto a
democracia, mesmo no período republicano, para ele, não se dava de forma efetiva. O
eventual processo de controle da política pelos clãs políticos, a dominação central
exercida pelo Executivo nos Estados, o comunarismo ibérico herdado dos portugueses
e a situação cultural do povo, todos estes fatores na sua opinião, impediam o perfeito
funcionamento de um regime democrático entre nós.
Desta forma, temos “a página profunda em que delineia o que deveria ser o
governo e a organização política do Brasil, como um produto de sua própria história e
não como uma cópia do estado inglês ou do americano.”172 Assim, “O Brasil atravessa
uma fase de ilusionismo – pois - os governos, sem rota certa e sem firmes ideais, os
governos que não tem superior função nacional a cumprir, e cujo supremo esforço é
apenas conservarem-se no poder, sabem jeitosamente preparar essas fantasmagorias,
esses delírios de grandeza.”173
Em A Bancarrota do Regime Federativo no Brasil, Sílvio Romero prosseguiu
suas críticas ao nosso tempo político. Ele argumentou que a República Federativa
Presidencialista no Brasil entrou em um processo de colapso, “em face da antinomia
irreconciliável que existe entre ela e o gênio, o caráter, as tradições históricas, o estado
de cultura do povo.”174 A única solução viável seria a implantação de uma República
Unitária Parlamentar.

O Brasil espera uma ação geral que regenere a política


nacional; a abolição desse mísero federalismo que nos
envergonha e corrompe e a decretação da república
Unitária Parlamentar. Para isto basta um general resoluto

170
ROMERO, S. O Brasil Social de Euclides da Cunha. p. 174.
171
ROMERO, S. Introdução a Doutrina Contra Doutrina. p . 72.
172
ROMERO, S. O Brasil Social de Euclides da Cunha. p.161.
173
ROMERO, S. Realidades e Ilusões do Brasil. p. 57.
174
ROMERO, S. A Bancarrota do Regime Federativo no Brasil. Porto: Typ. Arthur José de Souza &
Irmão, Suce., 1912.
que tenha o exército formado atrás de si e saiba levantar as
oposições que jazem oprimidas nas vinte e uma oligarquias
escravizadoras. (...) Se o Marechal Hermes tem coragem,
faça-o, o que se imortalizará.175

O exército apareceria como um sujeito histórico fundamental para a derrocada


do federalismo e das oligarquias, pois, o exército “tem sido sempre o principal fator
de nossas conquistas democráticas.” 176 Exército que participara decisivamente da
Independência e da Proclamação da República. Os caminhos a seguir seriam a
“unidade política, para sufocar os caudilhismos oligárquicos; vasta descentralização
administrativa, garantida pelas assembléias provinciais, para assegurar os progressos
locais; unificação da justiça, para sustentáculo destes dois desideratuns...eis a fórmula
suprema.”177
Sendo assim, após a estruturação das oligarquias estaduais no poder durante a
Primeira República, Sílvio Romero adotou uma posição crítica ao modelo federalista.
Para Romero, a possibilidade de concretização da democracia e da mestiçagem se faria
a partir de um modelo de estado intervencionista. O Estado deveria ter a incumbência
de possibilitar a efetivação da igualdade, a partir de políticas públicas que visassem a
ampliação da participação política e da rejeição do aparelhamento do Estado pelas
oligarquias, e por outro lado, pelo incentivo da imigração para estimular o povoamento
do interior do Brasil e para acelerar o processo de mestiçagem e de ocupação do solo.
O tempo político interviria sob o tempo social, era preciso repensar o “remédio
brasileiro”, retomando as “grandes questões nacionais”.
Em O Remédio Brasileiro, Sílvio Romero apontou a necessidade de uma
reformulação política no Brasil. Em seu último escrito, Sílvio recordava o seu embate
a favor de uma organização sócio-política condizente com as tradições populares. Em
um tom memorialista, discutiu a importância do debate de “grandes questões”,
segundo ele já então arrefecidas, como a imigração, o caráter nacional e principalmente
a educação. Para Romero, o conhecimento “para o indivíduo é sempre um
companheiro fiel, alarga os horizontes do espírito, fornecendo a compreensão das
coisas, dos fatos e dos homens.” 178 Parecia depositar sua últimas esperanças na

175
Ibid. p. 17.
176
Ibid. p. 4.
177
Ibid. p. 23.
178
ROMERO, S. O Remédio Brasileiro. pp. 294 – 321.
instrução pública como caminho para o progresso, o remédio brasileiro seria a
educação.

Capítulo 4
Solidariedade, Interesse Clânico e Idealismo Orgânico

“Diante de todo e qualquer sistema de doutrinas, social,


jurídico ou político, a minha atitude é sempre pragmatista.
Estes sistemas, estas doutrinas só me valem pelos
resultados: se bons, a doutrina é boa; se maus, a doutrina
é má. Nunca me preocupo com saber se uma doutrina é
teoricamente boa. Em regra, toda doutrina, considerada
teoricamente, é boa. Mas, um problema social não pode ser
resolvido teoricamente; há de estar preso pelos seus
elementos equacionais á realidade da vida social.”179

4.1 - Da utilidade do tempo social e do tempo histórico.

I nventariando contra o que chamou de páginas mortas do documento,


Oliveira Vianna viria a conceber a história, de utilidade pragmática, uma
perspectiva que se apoiaria num método comparativo e interdisciplinar, a finalidade
de desvendamento das idiossincrasias das diversas organizações sociais e políticas.
Em seus primeiros livros, clamava pelo início dos estudos sistemáticos acerca da nossa
história, pois “nós somos um dos povos que menos estudam a si mesmo: quase tudo
ignoramos em relação à nossa terra, à nossa raça, às nossas regiões, às nossas tradições,
à nossa vida, enfim, como agregado humano independente.” 180
Esta intensa
preocupação o levará, assim como a Sílvio Romero, Euclides da Cunha e Alberto
Torres, a uma incursão ao tempo histórico para definir a caracterização do tipo de
sociedade que se desenvolveu nesta parte do continente americano. “Uma coisa é
estudar as instituições políticas como elas existem na sociedade, no viver prático e
habitual dos homens. Outra coisa é estudar as instituições políticas como elas
aparecem abstratamente, nos sistemas de leis e das Constituições.”181
Como vimos no capítulo anterior, para Sílvio Romero

todo conhecimento deve ser explicativo e não meramente


descritivo: de todas as explicações as mais compreensivas
são as históricas; de todas as explicações históricas as mais
elucidativas são as que se referem às origens; porque são
estas as que deixam o espírito surpreender em seu início as
forças latentes, em sua pureza nativa a índole dos fatores e
a qualidade dos impulsos que os fizeram juntar-se e
cooperar em comum.182

Assim seria que o Brasil social, o Brasil profundo e real se descortinaria para
o estudioso. Quanto ao nosso passado, o latifúndio e a adaptação do português
gerariam uma disparidade entre uma pequena elite de possuidores e proprietários

179
VIANNA, O. Pequenos Estudos de Psicologia Social. p.113.
180
VIANNA,O. Populações Meridionais do Brasil. p.15.
181
Ibid. p.283.
182
ROMERO, S. O Elemento português no Brasil. p.209.
enquanto o grosso da população nada possuíam. Nesta dualidade entre o litoral e o
sertão, exemplificava-se a antinomia entre a elite intelectual “principalmente na capital
e nas grandes cidades, e o imensíssimo número dos analfabetos ou incultos que
constituem a nação por toda parte.”183
Desta singularidade latino-americana, agravada no Brasil, adviria que não
conseguimos formar ainda um povo devidamente organizado de alto a baixo, nos
faltando a hierarquização social, o encadeamento das classes, a solidariedade geral, a
integração consensual, a disciplina consciente de um ideal comum, a homogeneidade
íntima, a radicação à terra pela propriedade espalhada largamente, pelo cultivo, pela
produção autônoma da riqueza nacional, pois, “o nosso povo está em geral
desenraizado do solo ou nele subsiste como uma vegetação estranha. Faltam-nos o
aferro ao trabalho, a base econômica livre, ampla e segura, e, mais, a masculinidade
da vontade, o espírito da iniciativa, a audácia do esforço, do empreendimento, da luta
pelo progresso e bem-estar.”184
A cidade e o campo também foram vistas por Alberto Torres a partir de uma
rígida dualidade. No campo, imperaria o trabalho produtivo e organizado, herança da
escravidão. Segundo ele, “social e economicamente, a escravidão deu-nos, por longos
anos, todo o esforço e toda a ordem que então possuímos, e fundou toda a produção
material que ainda temos”185. Ela seria o alicerce da formação nacional, e sua herança
permaneceria servindo de base para que o Brasil possuísse uma organização nacional,
em contraponto à desestruturação provocada pela influência urbana.
O desenvolvimento, para Torres, passaria não pela industrialização e
urbanização, mas sim, pela exploração sistemática e racional dos recursos agrícolas,
bem como pela preservação dos recursos naturais. A sua reflexão intelectual sobre o
Brasil se orientou basicamente por uma ampla crítica à inadequação do país ao regime
republicano, à ineficácia da constituição de 1891 e a conseqüente oligarquização da
república. Sob diversos aspectos a estrutura social e política brasileira se apresentavam
como artificiais, portanto inadequadas. Este artificialismo da organização liberal
republicana federativa, em relação às nossas realidades, traria como conseqüência a
necessidade de uma revisão constitucional e uma alteração das incumbências do
Estado.

183
ROMERO, S. O Brasil Social de Euclides da Cunha. p.175.
184
Ibid.p.176.
185
TORRES, A. A organização nacional. p. 32.
A crítica de Alberto Torres ao liberalismo republicano pode ser entendida sob
dois aspectos que se entrecruzam186. O seu entendimento do processo universal de
formação das nações e o diagnóstico imediato do Brasil. No primeiro aspecto, existiria
a concepção de que a estruturação das nações em geral implicaria na interação de
vários elementos de auto-identificação dos grupos, entre os quais a raça, a língua, o
território, a religião, até mesmo a literatura. Entretanto, estes são aspectos
fundamentais, mas não exclusivos, pois:

O espírito da nação forma-se assim, como um sentido


coletivo de proteção, de amparo, de assistência e de socorro,
práticos e efetivos contra riscos conhecidos e
experimentados, entre homens e famílias que vivem juntos,
tendo interesses comuns e sabendo da existência de outros
grupos, com os mesmos caracteres, e ligados pelos mesmos
interesses, contrários ou alheios, aos dos seus e prontos a
sacrificá-los, a bem da gente de sangue.187

A organização da nação brasileira dependeria de uma adequada intervenção


política que a direcione, pois o Brasil seria uma dessas “nações novas”, caracterizadas
por nunca se estruturarem espontaneamente, como as “nações velhas”, a partir de uma
solidariedade natural posta na evolução social, ao contrário, os problemas de
“organização nacional” ancorados neste tipo de solidariedade vão subsistindo ao longo
do tempo. O caso dos Estados Unidos tornara-se paradigmático para Alberto Torres
na medida em que a elite dirigente norte-americana soube, desde a independência,
captar os reais parâmetros daquela nacionalidade e dirigi-la de acordo com tais
parâmetros.
A relação do tempo social com o tempo político é de dependência: a sociedade
dependeria da ação estatal para organizar-se, superar seus conflitos e deficiências,
enquanto o Estado, para Torres, deveria se constituir como um espaço desvinculado
de interesses particularistas geradores de conflitos.
Nesse tempo histórico relacionado ao processo de formação das “nações
novas”, a terra adquiriria um papel fundamental como elemento de auto-identificação
de um grupo nacional a partir da relação homem e natureza. Além desta pavimentação
da solidariedade nacional, a terra englobaria o próprio território da nação, o solo como
meio de produção de riquezas e desenvolvimento. Também seria a terra que

186
SIMÕES, T. Repensando Alberto Torres. 1982.
187
TORRES, A. O Problema Nacional Brasileiro. p.55
movimentaria o tempo social associado à solidariedade social, e ao mesmo tempo,
constituir-se-ia como uma das fontes de vida devendo ser explorada racionalmente188.
Uma espécie de planificação econômica para a exploração do território da
nacionalidade. Podemos afirmar que os fatores correlacionados na análise torreana:
formas de produção econômica, sociabilidade e tipo de vida mental e moral, e,
instituições políticas, associavam-se à aplicação do saber “sociológico” na condução
do governo, através da organização racional das tarefas político-administrativas.
Neste sentido, o tempo político baseado na atividade política mais adequada à
organização das “nações novas”, deveria ser baseado no conhecimento dos recursos
naturais do país, racionalmente estruturado e livre dos interesses particularistas.

Estudar a geografia de um país (...) procurando apreender


o caráter das diversas zonas geológicas e mineralógicas (...)
para conhecer os elementos e aptidão de sua exploração e
cultura, e ao mesmo tempo as condições necessárias ao
espírito da unidade social e econômica à solidariedade
entre os interesses e tendências divergentes, eis o ponto de
partida de toda política sensata e prática.189.

A existência de um tempo histórico recente, incapaz de conduzir a um tempo


social cuja solidariedade nacional, associar-se-ia a caracteres homogêneos de
identificação, tornar-se-ia o fundamento para a elaboração do tempo político, e este
traduziria através de um método racionalmente estruturado, a formação de um tempo
social adequado. Tratava-se de uma posição interventora no tempo social e político
das “nações novas” da América em geral e do Brasil em particular.
Mesma posição interventora teve Oliveira Vianna, na medida em que,

o ator procura afirmar o seu protagonismo sobre os fatos,


deixando de confiar na cumplicidade do tempo, a essa
altura já tendo por que temer a possibilidade de se ver
ultrapassar pelo movimento da sua sociedade. Não há mais
lugar para o quietismo que apostava no futuro: o “destino”
se tornou uma tarefa a ser cumprida no tempo presente. 190

A matriz do chamado idealismo constitucional, tanto no Império como na


República, na sua relação entre tempo social e tempo político procurava criar uma

188
Teotônio Simões observou que a idéia de fonte de vida em Alberto Torres, constitui-se como
elemento fundamental no engendramento da relação entre homem e natureza, como por exemplo no
tema do trabalho, da alimentação, da paz e da sobrevivência. Cf. SIMÕES, T. Repensando Alberto
Torres. 1982.
189
TORRES, A. A Organização Nacional. p.97.
190
VIANNA, L. W. Caminhos e Descaminhos da Revolução à Brasileira.1996.
nação para o Estado, o que de fato, vai de encontro às teses de Sílvio Romero, Euclides
da Cunha, Alberto Torres e Oliveira Vianna, os quais diziam que era preciso criar um
Estado adequado para a nação. Para eles, este seria um dos dilemas constitutivos da
modernidade brasileira: a separação entre o tempo político e o tempo social promovido
pelo nosso peculiar tempo histórico, fato não encontrado por eles, nos paradigmas
clássicos do Ocidente, como o modelo anglo-saxão. De certo, as conclusões destes
autores apontavam para a idéia de que o tempo social transposto no tempo histórico,
interferiria diretamente no tempo político. Por sua vez, seria neste mesmo tempo
político que se daria a solução, pela intervenção no presente, para o nosso futuro. Um
novo tempo histórico se fazia necessário.
Como lembrava Vicente Licínio Cardoso, se esboçava por esta época uma
“geração de críticos republicanos”, justamente aqueles que foram capazes de formular
uma estratégia de contraposição, do ponto de vista político, ao modelo Campos Sales,
e, do ponto de vista conceitual, à geração dos “republicanos históricos”.191 Os críticos
republicanos, como Alberto Torres e Oliveira Vianna, opuseram-se à via estrita da
política, colocando o fulcro das questões pertinentes no tempo social. Retomariam com
vigor a exigência da matriz republicana de incorporação do povo para a legitimação
do poder, opondo-se aos mecanismos meramente formais da representação e do
sufrágio, colocando-os sob um fundamento “sociológico”. Além de ressaltarem os
problemas cruciais da nação, os consideravam a partir da complexificação da ordem
social moderna: o êxodo rural e o conseqüente inchaço urbano, as políticas industriais
e agrícolas, o capital estrangeiro e o problema do imperialismo, as políticas de
imigração e a ocupação do solo, a questão educacional e o domínio oligárquico. Daí a
relevância do tempo social e não o do político, que deve apenas expressá-lo.

4.2 - Oliveira Vianna e o caso brasileiro.

N o prefácio à quarta edição da obra Evolução do povo brasileiro, Oliveira


Vianna expôs sua concepção evolucionista reagindo contra a forma
unilinear de entender a evolução das sociedades a partir das supostas leis gerais que a
comandam. Acolhendo os conceitos de Gabriel Tarde, Vianna considerava que
existiriam múltiplas tendências na evolução das sociedades, e que é impossível reduzi-

191
CARDOSO, V. À Margem da República. Recife: FJN/Editora Massangana, 1990. 1ª ed. de 1924.
las a um único esquema.192 No estudo das sociedades podemos encontrar, segundo
Oliveira Vianna, uma multiplicidade de linhas de evolução e de fatores que interviriam
nessas linhas.

Para essa multiplicidade de tipos para essa variedade de


linhas de evolução, para este heterogenismo inicial
contribui um formidável complexo de fatores de toda
ordem, vindos da Terra, vindos do Homem, vindos da
Sociedade, vindos da História: fatores étnicos, fatores
econômicos, fatores geográficos, fatores históricos, fatores
climáticos, que a ciência cada vez mais apura e discrimina,
isola e classifica. Estes predominam mais na evolução de
tal agregado; aqueles, mais na evolução de outro, mas,
qualquer grupo humano é sempre conseqüência da
colaboração de todos eles; nenhum há que não seja a
resultante da ação de infinitos fatores, vindos, a um tempo,
da Terra, do Homem, da sociedade e da História. Todas as
teorias, que faziam depender a evolução das sociedades da
ação de uma causa única, são hoje teorias abandonadas e
peremptas: não há atualmente monocausalistas em
ciências sociais.193

Posto nestes termos, a evolução à brasileira constituiria um desafio que deveria


ser elucidado desde as origens da formação colonial no período vicentista. Contra a
idéia da homogeneidade de nossa formação, Vianna traçou três tipos de sociedade
diferentes: a dos sertões (norte), a das matas (centro-sul) e a dos pampas (sul), com
seus respectivos “ambientes sociais fixos.”194 Entretanto, era a sociedade do centro-
sul que mais lhe interessava pois dela derivaria o substratum de nossa cultura política.
Para ele, esta era a matriz da nacionalidade, “do seu espírito, da sua laboriosidade, de
seu afluxo humano, é que vivem as cidades do hinterland ou da costa, e crescem, e se
desenvolvem. Silenciosa, obscura, subterrânea a sua influência hoje, é no passado,
principalmente nos três primeiros séculos, poderosa, incontestável, decisiva.”195 Por
outro lado, do isolamento do interior viria a mestiçagem que “é o centro de
convergência das três raças formadoras do nosso povo. (...) O latifúndio os concentra
e os dispõe na ordem mais favorável à sua mistura. Pondo em contato imediato e local

192
VIANNA,O. Evolução do povo brasileiro. 4ª ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 1956.
193
VIANNA,O. Evolução do povo brasileiro. p .29-30. Oliveira Vianna apostava também na idéia de
um “conhecimento total”, advindo de uma síntese entre cada caso estudado, uma espécie de mosaico
que aos poucos se completaria. Neste sentido é taxativo: “Só depois desse formidável trabalho de
investigações e análises, consubstanciadas em monografias exaustivas sobre cada agrupamento humano,
e do estudo meditado dessa massa colossal de dados e conclusões locais, vinda de todos os pontos do
globo, será possível à ciência social elevar-se às grandes sínteses gerais sobre a evolução do homem e
das sociedades.” (p.33-34.)
194
VIANNA,O. Populações Meridionais do Brasil. p.18.
195
Idem.
as três raças, ele faz um esplêndido núcleo de elaboração do mestiço.”196 Do latifúndio
pois viria a gênese e a formação da própria nacionalidade.
Seguindo o argumento de Vianna, nos primeiros tempos prevaleceu a tendência
européia centrada nos hábitos aristocráticos e urbanos do litoral, interrompida pelo
dilema imperioso do duplo domicílio por interesses materiais: “ou optam pelo campo,
onde estão os seus interesses principais; ou pela cidade, centro apenas de recreio e
dissipação”197, processo intensificado pela colaboração de outros fatores como a busca
dos índios, a expansão pastoril nos planaltos e a conquista das minas. Dando início
assim, a obra de adaptação rural ou conformismo rural da aristocracia ao domínio do
latifúndio: “a obra de ruralização da população colonial, durante o século III”
possibilita a formação do homo rusticus que depois da Independência começa a
dominar a política do país, “desce das suas solidões rurais para, expulso o luso
dominador, dirigir o país.”198 Assim, o ardor aventureiro do luso que transmudara-se
na atividade do bandeirante, no século IV se extinguiria pelo sedentarismo agrícola.

O deserto e o trópico, a escravidão e o domínio


independente: sob a ação dessas quatros forças
transmutadoras, o laço feudal, a hierarquia feudal
transportada para aqui nos primeiros dias da colonização se
desarticula, desintegra, dissolve e uma nova sociedade se
forma com uma estrutura inteiramente nova. O feudalismo
é a ordem, a dependência, a coesão, a estabilidade: a fixidez
do homem à terra. Nós somos a incoerência, a
desintegração, a indisciplina, a instabilidade: a infixidez do
homem à terra. Em nosso meio histórico e social, tudo
contraria, pois, a aparição do regime feudal.” 199 “Daí o
traço fundamental de nossa psicologia nacional. Isto é,
pelos costumes, pelas maneiras, em suma, pela feição mais
íntima do seu caráter, o brasileiro é sempre, sempre se
revela, sempre se afirma um homem do campo, à maneira
antiga. O instinto urbano não está na sua índole; nem as
maneiras e os hábitos urbanos.200

A formação de uma nobreza territorial geradora de um processo no qual o viver


rural passaria a ser distinto, sinal de existência nobre “perfeitamente rural na sua quase
totalidade, pelos hábitos, pelos costumes e, principalmente, pelo espírito e pelo

196
Ibid, p.68.
197
Ibid, p.20
198
Ibid, p.37.
199
Ibid, p.130.
200
Ibid, p.36.
caráter,”201 triunfa por concentrar a maior soma de autoridade social e “é a que mais
legitimamente representa o nosso povo e a sua mentalidade social.”202
A grande propriedade rural, o latifúndio e conseqüentemente a noção do
exclusivo agrário e da função simplificadora dos latifúndios, tornaram-se
fundamentais no modelo explicativo de Vianna, sobre as condições nas quais a
solidariedade e os interesses foram constituídos no peculiar caso brasileiro, na medida
em que, “o grande domínio, tal como se vê da sua constituição no passado, é um
organismo completo, perfeitamente aparelhado para uma vida autônoma e própria.”203
Quanto à produção, estes possuíam uma capacidade poliforme, auto-sustentável em
sua circulação interna de produtos, fazendo com que alcancem “uma plena
independência econômica. Nem há que recear qualquer crise de subsistência, por
mesquinhez ou insuficiências de produção.”204
Esta função simplificadora impediria o comércio e a emersão de uma burguesia
comercial ou uma classe industrial, que se concentraria nas pequenas cidades do
interior, mas sem nenhuma força política, pois “falta-lhes o espírito corporativo, que
não chega a formar-se. São meros conglomerados, sem entrelaçamento de interesses e
sem solidariedade moral.” 205 Assim, entre a classe dos trabalhadores livres e a
aristocracia senhorial os laços não se constituem solidamente, acentuada pela
inexistência de uma classe média do tipo européia. “Ora, só da vitalidade dos pequenos
domínios, da multiplicidade deles, da solidariedade deles, resultaria a constituição,
entre nós, de uma classe média, forte, abastada, independente, prestigiosa, com
capacidade para exercer, defronte da grande propriedade, a ação admirável dos yomen
saxônios ou dos burgueses da Idade Média.”206
Disto resultaria a nossa vocação rural, na medida em que “o meio rural é, em
toda parte, um admirável conformador de almas.”207 A partir do latifúndio e da vida
rural, o tipo de solidariedade que se formava, segundo Vianna, era fragmentária e
incipiente, a estabilidade giraria em torno dos grupos familiares, os quais permitiriam
que se formasse uma trama de relações sociais estáveis, permanente e tradicionais,
tendo na figura do pater famílias a ascendência patriarcal e a posição de chefe. Tal

201
Ibid, p.33.
202
Ibid, p.47.
203
Ibid, p.116.
204
Ibid, p.115.
205
Ibid, p.119.
206
Ibid, p.128.
207
Ibid, p.48.
predomínio da classe fazendeira pela agregação patriarcal, revelaria, no fundo, um
espírito de corpo, e portanto, uma solidariedade interna e uma consciência social
correspondente. Sendo assim, no Brasil não há elementos de solidariedade externa, e
“no ponto de vista da sua psicologia social ficam, por isso, em plena fase patriarcal –
a fase da solidariedade parental e gentílica.”208

Todas as instituições locais são sempre, como vimos,


posteriores á ação do poder geral – porque são criações dele.
Dada a insolidariedade geral, a ausência de interesses
comuns, a rudimentariedade dos laços de interdependência
social, necessidade alguma imperiosa impôs às nossas
populações rurais um movimento de organização política
semelhante ao das comunas medievais.209

Deste tipo de solidariedade interna, exarcebaria a ação da capanagem senhorial,


elementos vindos da plebe rural, que “nada a prende à terra: nem a organização do
trabalho, nem a organização da propriedade, nem a organização social. Tudo a torna
incoesa, flutuante e nômade”210, a serviço dos caudilhos territoriais que exercem uma
autoridade maior do que os delegados da metrópole, fruto da disparidade entre o poder
público e a expansão colonial. Resultando daí, “uma discordância, ainda hoje
subsistente, entre a área da população e o campo de eficiência da autoridade
pública.”211 Ao contrário do Ocidente onde o tempo político e o tempo social seguiriam
o mesmo compasso, pois seria da organização societal que emanaria a política.

É geral, aliás, em toda a nossa evolução nacional, essa sorte


de heterocronia entre a marcha territorial da sociedade e a
marcha territorial do poder, essa sorte de discordância entre
os dois perímetros, o social e o político; de modo que este
é sempre incomparavelmente menor que aquele. Grande
parte, senão todas as anomalias constitucionais do nosso
povo, explicam-se racionalmente por esta grande causa
geral. Neste fato – de que, em nossa história e em nosso
povo, a expansão geográfica da sociedade tem sido sempre
maior do que a expansão geográfica do Estado – é que está
a origem do banditismo, do cangaceirismo, do caudilhismo,
do fanatismo, dominantes no seio das nossas populações
do interior.212

208
Ibid, p.158.
209
Ibid. P.222.
210
Ibid, p.161.
211
Ibid, p.178.
212
VIANNA, O. Pequenos Estudos de Psicologia Social. p.171-72.
Daí, esta particularidade da nossa formação social, na qual “todas as classes
rurais, que vemos, no ponto de vista dos interesses econômicos, separadas,
desarticuladas, pulverizadas, integram-se na mais íntima interdependência, para os
efeitos políticos. O que nem o meio físico, nem o meio econômico podem criar de uma
forma estável, à semelhança do que acontece no Ocidente, cria-o a patronagem política,
a solidariedade entre as classes inferiores e a nobreza rural.”213 A mentalidade do
povo, sua consciência coletiva associar-se-ia ao mundo clânico, “em suma: fora da
pequena solidariedade do clã rural, a solidariedade dos moradores, especialmente a
solidariedade do clã rural, a solidariedade dos moradores, especialmente a
solidariedade dos grandes chefes do mundo rural – os fazendeiros – jamais se faz
necessária.”214
A autoridade pública na colônia “se mostra frágil, reduzida, circunscrita. (...)
Três são, por esse tempo, os inimigos da ordem pública: os selvagens; os quilombolas;
os potentados. (...) Cada domínio rural avançando no deserto é uma vendeta contra a
selvageria.”215 O aparelho judiciário colonial como os capitanatos, as judicaturas, as
corporações municipais e a fobia (repulsa do trabalho militar) pelo recrutamento
acabariam gerando no Brasil, nos primeiros séculos, a emergência da corrupção e dos
interesses pessoais, a parcialidade e o facciosismo. O Estado apareceria então para esta
classe da população como um usurpador, estranho aos seus interesses, ao contrário do
clã rural que o protegeria e que de certa forma satisfazia o seu interesse.
No fundo, Oliveira Vianna apontou a insuficiência de instituições sociais
tutelares, no ponto em que a miserabilidade do moderno campônio brasileiro fez com
que carecesse de força pecuniária, material e social contra o arbítrio que o oprime, na
medida em que “tudo concorre para fazê-lo um desiludido histórico, um descrente
secular na sua capacidade pessoal para se afirmar por si mesmo.”216 Assim, o nosso
homem do povo, seria ele mesmo um homem de clã, necessitando sempre de um chefe
para orientar suas ações.
Da singular modalidade de nossa expansão colonizadora desorganizada,
intermitente e descontínua: “bandeiras sertanistas, explorações mineradoras,
fundações pastoris e agrícolas, tudo é feito por movimentos descoordenados,

213
Ibid, p.144.
214
Ibid, p.152.
215
Ibid, p.159.
216
Ibid. p.146.
independentes uns dos outros, salteadamente, ao léu dos impulsos individuais, tendo
apenas como uma única força de propulsão o interesse ou a cobiça dos poderosos
chefes de clã.”217 Entretanto, a partir do século III, “a máquina do sincretismo colonial,
aumentando cada vez mais a sua potência compressora, realiza, com igual eficiência,
a sua obra de legalização e de ordem”, visando sobretudo, a centralização pela
burocracia estatal com o duplo objetivo de “aproximar dos caudilhos a autoridade
pública; centralizar num poder supremo todos os órgãos do governo da colônia.”218 E
mais, “é que os velhos princípios europeus são inteiramente relegados pelos estadistas
coloniais, e que é com elementos novos que eles formulam e resolvem o problema
formidável da nossa organização política e administrativa.”219
Desta forma, os “os homens do estado colonial compõem para o Brasil, uma
obra admirável de senso prático, de senso social, de senso político.”220 Esta obra de
centralização, de legalização e de ordem sofrerá revezes durante o IV século. É pois o
tema a que se passa a discutir: a obra da monarquia e a inadequação do liberalismo ao
caso brasileiro.

4.3 - O Problema Social: interesse clânico e solidariedade.

P ara Oliveira Vianna, os problemas do liberalismo no IV século, são a


princípio de ordem prática, como nos efeitos gerados pelo Código do
Processo de 32 que promoveria um sistema de descentralização ao modo americano,
sendo a justiça, a polícia e a administração locais de incumbência das autoridades
locais, movimento ao qual se juntaria o Ato Adicional da Regência, que priorizava a
centralização provincial, definindo a hegemonia do poder público a nível provincial.

O que as experiências do Código do Processo e do Ato


Adicional demonstram, entretanto, é que essas instituições
liberais, fecundíssimas em outros climas, servem aqui, não
à democracia, à liberdade e ao direito, mas apenas aos
nossos instintos irredutíveis, de caudilhagem local, aos
interesses centrífugos do provincialismo, à dispersão, à
incoerência, à dissociação, ao isolamento dos grandes
patriarcas territoriais do período colonial. Esta é, em suma,
a tendência incoercível das nossas gentes do norte e do sul,
todas as vezes que adquirem a liberdade da sua própria

217
Ibid. p.179.
218
Ibid. p.186-7.
219
VIANNA,O, Evolução do Povo Brasileiro. p.241.
220
Ibid. p.242.
direção.”221“Entre nós, liberalismo significa, praticamente
e de fato, nada mais do que caudilhismo local ou
provincial.222

A essa inadequação do liberalismo gerador do centrifuguismo deveria ser


contraposto um movimento de centralização, realizado por Estadistas como Olinda,
Paraná, Sepetiba, Uruguay e Itaboraí, a fina flor do partido conservador do início do
Segundo Reinado, os verdadeiros construtores da nacionalidade, que pela Lei da
Interpretação fundavam a supremacia do poder central. O principal foco estaria na
desintegração dos clãs rurais por fatores políticos (centralização administrativa),
policiais (ataque a capangagem), jurídicos (partilha patrimonial intrafamiliar) e
econômicos (ação psicológica do trabalho agrícola na índole meiga e doméstica).

Os grandes construtores políticos da nossa nacionalidade,


os verdadeiros fundadores do poder civil, procuram sempre,
como o objetivo supremo da sua política, consolidar e
organizar a nação por meio do fortalecimento sistemático
da autoridade nacional. Os apóstolos do liberalismo nos
dão, ao contrário, o municipalismo, o federalismo, a
democracia como última palavra do progresso político.223

A Monarquia realizava a sua obra, ao promover a integridade nacional, a


centralidade administrativa, a ordem e a legalidade. O parlamentarismo à brasileira na
predominância do poder moderador “equivale a uma adaptação genial do instituto
europeu ao nosso clima partidário, a melhor garantia da liberdade política num povo,
em que, do município à província, da Província à Nação, domina exclusivamente a
política de clã, a política das facções, organizadas em partidos.” 224 Seria na verdade
um golpe contra a política da colméia e da mentalidade de chefe de clã na política225.
O imperador, pela imparcialidade e uso da prerrogativa constitucional do Poder
Moderador seria capaz de impedir que o mérito, o talento e a cultura, fossem
sacrificadas à habitual intolerância e ao desdém dos nossos mandões politicantes que
aparelhavam o estado em busca da satisfação de seus interesses clânicos.

Entre nós, essa paz interior, esse império do direito, essa


ordem pública, mantida e difundida por todo o país, é a

221
Ibid, p.192.
222
Ibid, p.212.
223
Ibid, p.191.
224
Ibid, p.213.
225
VIANNA,O. O Ocaso do Império. 4ª edição. Recife, Fundaj, Editora Massangana, 1990.
obra excelente e suprema do II Império, como a “pax
romana” foi a do século dos Augustos. É nesse período da
história nacional que a autoridade pública se revela na sua
plena eficiência: acatada, considerada, obedecida, cheia de
prestígio e ascendência.226

A monarquia teria esta finalidade prática ajustada a nossa condição por um lado,
e por outro, uma finalidade também “simbólica”. Pois da fidelidade ao monarca viria
mais um elemento centrípeto contra as tendências separatistas do provincialismo, pela
rotinização da autoridade nacional e do direito entre a população. D. Pedro II
encarnaria o idealismo latino, com as características da verdade, bondade e justiça, na
rotatividade dos partidos no poder.
Entretanto, esta benéfica obra da monarquia não duraria muito a ser contestada,
é o que se observa das proposições que Oliveira Vianna fez em o Ocaso do Império.
Nesta obra, Vianna objetivava procurar e isolar as causas da dissolução da monarquia,
tendo por objeto de estudo as forças políticas e a história das idéias. “O meu objetivo
neste volume é, por isso, definir, de uma maneira precisa, o papel exercido na queda
da monarquia pela idéia liberal, pela idéia abolicionista, pela idéia federativa, pela
idéia republicana e pelas fermentações morais que determinaram as chamadas
“questões militares”.” 227 O ponto inicial estaria na queda do gabinete Zacarias em
1868, cujas idéias dominantes no nosso ambiente político seriam reflexo das idéias
dominantes no mundo. A interferência do Imperador ao nomear Itaborahy
(conservador) para substituir Zacarias (liberal) num Parlamento com maioria liberal
provocou mudanças no sistema de crenças e idéias dos políticos à época, gerando a
descrença nas virtudes do sistema monárquico-parlamentar e a crescente aspiração por
mudanças, a partir dos temas do poder pessoal, da descentralização e da federação. A
obra da monarquia começava a ser colocada em cheque pela reação liberal, como em
Nabuco ao propor a monarquia federativa e Rui Barbosa na exasperação pela federação
com ou sem coroa, e pelos republicanos que associavam o binômio federação-
república. Desta forma, as noções de federação e liberalismo da América e Europa,
idéias antimonárquicas, quando transpostas ao Brasil viriam carregadas de espírito
republicano. Desta forma, a desilusão do monarca era a desilusão da própria
monarquia228.

226
VIANNA,O. Populações Meridionais do Brasil. p.196.
227
VIANNA,O. O Ocaso do Império. p.17.
228
Ibid. p.58.
O Abolicionismo, cuja gênese provinha das Academias, também possuía raízes
exógenas, e sobre uma raça imaginativa, suscetível ao idealismo e dotada para o
entusiasmo foi mais um fator eficiente na generalização da idéia republicana. Exógena
e inadequada, pois os escravos formavam a tribo patriarcal nos latifúndios, eram
integrantes da família fazendeira, constituindo uma relação recíproca com os senhores.
Segundo Vianna, foram três as fases do Abolicionismo: (1) abolição gradual,
pela liberdade dos nasciturnos, caracterizada pela moderação. (2) Uma feição radical,
cuja proposta era a abolição completa do elemento servil, como nos casos de Dantas e
Nabuco de Araújo, pela Lei dos sexagenários e do fundo de emancipação. (3) A
Abolição imediata distinguida pela incoercibilidade, irresistibilidade e fatalidade
(popularidade), passando de questão partidária à questão nacional, com a adesão do
exército e da igreja, fase na qual os oradores e publicistas promoveriam o
desarmamento moral; o Parlamento, o desarmamento jurídico; e o exército, o
desarmamento material. O fato era que a oposição ao movimento abolicionista viria
dos grandes fazendeiros e chefes políticos, sendo o principal propulsor da abolição, D.
Pedro II que era gradualista. Desta forma a classe fazendeira desamparou a monarquia
e passou a se interessar como os paulistas pelo trabalho imigrante.
Quanto ao ideal republicano sua gênese também se encontraria na queda do
gabinete Zacarias e na conseqüente cisão do antigo Partido Liberal e a sua conseqüente
inclinação ao americanismo, no movimento de aproximação dos liberais exaltados
com o ideal republicano.

os homens de partido do tempo, com os olhos fitos na


Inglaterra, na França e nos Estados Unidos – salvo uma
pequena elite, com a intuição exata da nossa realidade –
não pensavam assim, não compreendiam assim, e viam no
predomínio dessa política centralizadora e pessoal a inteira
negação do seu ideal político. Sonhavam utopicamente um
governo do povo, um governo da opinião, à maneira anglo-
saxônica, num país em que a opinião, à maneira anglo-
saxônica, não existe – não pode existir, e, como não
poderiam realizar o seu ideal nem compreender exatamente
a causa dessa impossibilidade, irritavam-se,
impacientavam-se, desesperavam e, invadidos afinal pelo
ceticismo, acabavam –como se dizia – perdendo a fé nas
instituições.229

Os pontos comuns entre os principais republicanos, os positivistas e os


democratas eram o princípio da liberdade civil e a preocupação federativa. A

229
Ibid, p.84.
influência do positivismo se daria na Escola Militar, na Escola Politécnica, enquanto
nos cursos de Medicina e Direito prevaleceriam as teorias de Haeckel e Spencer. Os
positivistas entendiam a república por seu caráter autoritário, cuja sólida base
filosófica desembocava na oligarquia dos sábios e filósofos propostos por Augusto
Comte. O que lhes repugnaria na monarquia era a hereditariedade de sangue. Por sua
vez, os republicanos democratas propuseram a eletividade, curtos mandatos e a
renovação dos cargos eletivos. Os positivistas entretanto foram falhos na capacidade
evangelizadora devido a intolerância e a ausência de tática na propaganda das idéias,
bem como a ineficácia da imprensa republicana dos democratas e dos clubes e
agremiações do partido republicano antes de 1888. O que permitiu ao positivismo
gozar de influência na república foi acidental: a coincidência de serem desse credo
alguns membros prestigiosos na organização do novo regime.
O Manifesto Republicano de 1870, apresentava-se para Oliveira Vianna como
exemplo maior de uma política silogística. “Não havia tal generalização de sentimento
republicano, quando se deu a queda do Império. Por essa época (...) o sentimento mais
generalizado não era o da “crença” na República, mas sim a “descrença” nas
instituições monárquicas.”230 A idéia de república no Brasil seria então a intervenção
de uma variável externa ao jogo das elites tradicionais.
Por fim, Oliveira Vianna destacou a função política do exército na queda da
monarquia. Para ele, o exército nacional servira de mero instrumento das ambições
civis, politicamente orientado pela elite política. Nosso exército, continua Vianna,
nunca teve a consciência de uma missão política qualquer, nunca agiu por impulso
próprio, como objetivação do pensamento de uma política de classe. A partir de 1870
(pós-guerra do Paraguai) iniciava-se o processo, promovido pela elite política,
objetivando estimular conflitos entre a classe militar e os gabinetes. A chamada teoria
do cidadão fardado justificaria a participação dos militares na política como cidadãos,
entretanto, as características dos militares como o pundonor profissional, o espírito de
corpo, a honestidade, o patriotismo, o senso de hierarquia e a bravura, geravam
imensas incompatibilidades entre a psicologia do militar e a atividade partidária. O
político civil se basearia no combate moral e no ataque pessoal, elementos contrários
à psicologia dos militares. Fato este exemplificado na Questão Militar: a revolta contra
os políticos do governo, revoltam-se (os militares) contra o próprio governo.

230
Ibid, p.89.
Desta forma, seguindo os passos de Oliveira Vianna, o objetivo inicial do
movimento de 15 de Novembro não era republicano, era derrubar o Gabinete Ouro
Preto. A impossibilidade do III reinado e a impopularidade do Conde D’Eu, a divisão
dentro do exército entre “colarinhos de couro” e “cadetes filosóficos”, a moléstia do
Imperador e a popularização de sua incapacidade governativa, o isolamento de D.
Pedro na sua queda, pois a luz do trono só iluminava aqueles que não se aproximavam
demasiadamente do foco luminoso, e a fraqueza do sentimento monárquico nas
tradições do nosso povo, na medida em que a monarquia foi um sentimento de elite,
contribuíram decisivamente para o advento da República no Brasil. Desta forma, do
ocaso do Império viria o acaso da República.

Ora, reuni nesta convicção de que o cetro já não se achava


nas mãos do monarca, débil e quase moribundo; e mais as
repugnâncias pelo 3º Reinado; e mais a ação das grandes
influências gerais: a desilusão do ideal monárquico, o
descontentamento pela Abolição, a relativa difusão do
ideal republicano: e é fácil compreender agora as
oscilações de Deodoro, a relativamente recalcitrância com
que ele cedeu a sugestão e ao arrastamento de Benjamin
com a falange dos “cadetes filosóficos”. É fácil
compreender também porque o grupo numeroso dos
“colarinhos de couro” não quis fazer a contra-revolução e
aceitou o fato consumado da República. 231

Com o advento da República e a Carta de 1891, chamada por Vianna de regime


da federação centrífuga, o princípio dominante passaria a ser o predomínio dos poderes
estaduais frente ao poder central. Entretanto, os Estados não estariam preparados para
a autonomia apregoada pela federação, pela sua incapacidade de formação de novos
quadros dirigentes, pelo papel assumido pelos adesistas, pela elite local incapaz de
assumir a direção dos negócios locais e pelo erro da simetria e da uniformidade dos
estados. Nestes termos, a tendência comum na evolução dos Estados deu-se pelas
causas:

1.ª absorção crescente do poder municipal pelo poder


estadual, isto é, redução crescente da autonomia dos
municípios.
2.ª hegemonia crescente do poder executivo estadual sobre
os dois outros poderes, o legislativo e o judiciário, os quais

231
Ibid, p.161.
vão perdendo cada vez mais a sua necessária
independência.232

Com Campos Salles e a exacerbação da chamada “política dos governadores”,


segundo Vianna, iniciar-se-ia um processo de usufruto da máquina eleitoral para a
expressão da vontade e dos interesses dos ocupantes dos cargos dito eletivos. “Em
suma, a superestrutura política dos estados se vai modelando num duplo sentido: de
centralização e de aumento do ‘poder pessoal’ dos presidentes.”233 Desta forma, com
a política de reciprocidade entre o Estado e a União, “os presidentes da República
transigem com as situações estaduais e deixam de exercer sobre as unidades federadas
esse grande poder de disciplina e fiscalização, essa grande ação moderadora e corretora,
que era, no velho regime, uma das maiores garantias da liberdade dos cidadãos.” 234
As elites estaduais controlariam a República, pois dominariam o aparato
administrativo e político local, influenciariam o poder legislativo através das eleições
para o Senado e a Câmara, e influenciariam indiretamente o poder executivo da União.

Enfraquecido pela federação, o poder central não tem,


portanto, outro caminho racional para recobrar o seu antigo
prestígio senão o do desenvolvimento da circulação geral.
Ou esta, ou então a fragmentação federativa do poder,
como recurso único para manter a integridade do país. Há
dois meios de atacar, entre nós, o problema da circulação.
Há o meio direto: pela articulação ferroviária do país; pelo
desdobramento das nossas linhas de navegação interior;
pela multiplicação dos meios de circulação interespiritual:
correios, telégrafos, telefones, etc. Há o meio indireto: pelo
desenvolvimento dos centros de povoamento; pela
elevação do coeficiente de nossa densidade demográfica;
em suma, pela redução da dispersão social por meio da
colonização intensiva e sistemática.235

Como no final do III século e início do IV século, com o “acidente” da vinda


da família real para o Brasil, o processo de contraponto à obra da monarquia,
interrompera o processo lento e contínuo da organização do nosso tempo social via

232
VIANNA, O. Evolução do Povo Brasileiro. p.292.
233
Ibid. p.292.
234
Ibid. p.293.
235
Ibid. p.295. Oliveira Vianna apontou ainda a tendência para o que chamou de federação centrípeta,
presente nas constituições de 1934 e 37 com o predomínio da União sobre os Estados: “De maneira que
da ‘federação centrífuga’, de Jefferson, estamos sensivelmente evoluindo para a ‘federação centrípeta’,
de Webster. Tolhida no terreno político, pela força dos textos constitucionais, a sua ação
intervencionista, a União a dilata cada vez mais no terreno econômico e social dos Estados.” (Evolução,
p.309)
estatismo236. “Uns e outros inspiram-se em dados concretos e experimentais – mantêm
um contato permanente com as nossas realidades.”237 Era preciso o retorno a essas
raízes de usufruto eficaz de finalidade alcançada pelo Estado: a única solução
pragmática no mundo dos fatos observáveis em nosso tempo histórico, daí a utilidade
da história238, associava-se ao processo de centralização do Estado, um arquétipo de
estatismo em nossa política dando conta das peculiaridades de nosso tempo social.239
A princípio, a obra de Oliveira Vianna gravitará neste prognóstico sobre nossa
formação colonial, sobre a obra do império, sobre nosso passado, pelo menos até os
anos 30, onde alteraria um pouco o teor de suas propostas para o tempo político, com
o aparecimento de novos elementos teóricos inseridos neste estatismo, como a
concepção de sindicalismo e de democracia corporativa.
Sua intenção era:

de corrigir – pela ação disciplinar de uma organização


política centralizadora e unitária – os inconvenientes da
nossa excessiva base física, da nossa dispersão
demográfica e da ação centrífuga dos agentes geográficos.
Não é só. Dois fatos novos, de caráter social um e político
outro, surgidos o primeiro em 1931 e o segundo em 1937,
vão concorrer, da forma mais decisiva, para assegurar
melhores e mais seguras condições de êxito a este
pensamento centralizador, velho de duzentos anos. O

236
O interessante trabalho de Ricardo Silva (2002) contesta as interpretações sobre a idéia de um
autoritarismo instrumental em Oliveira Vianna, presente nas obras de Wanderley Guilherme dos Santos
(1978) e Antônio Paim (1994), redimensionando a questão à idéia de estatismo.
237
VIANNA, O. Evolução do Povo Brasileiro. p.274.
238
Nunca é demais lembrar que na concepção de história de Oliveira Vianna estava embutido a idéia da
história como mestra da política, e que seus estudos possuíam uma função pragmática, no sentido
mesmo de utilidade. “Nunca será demais insistir na urgência da reação contra esse preconceito secular;
na necessidade de estudarmos o nosso povo em todos os seus aspectos; no imenso valor prático destes
estudos: somente eles nos poderão fornecer os dados concretos de um programa nacional de reformas
políticas e sociais, sobre cujo êxito nos seja possível contar com segurança.” VIANNA,O. Evolução
do Povo Brasileiro. p.39 Além é claro das noções de objetividade e desprendimento intelectual com que
se referia às suas conclusões, pois segundo Vianna: “o que me inspira é o mais absoluto sentimento de
objetividade: somente os fatos me preocupam e somente trabalhando sobre eles é que infiro e deduzo.
Nenhuma idéia preconcebida. Nenhuma preocupação de escola. Nenhuma limitação de doutrina.
Nenhum outro desejo senão o de ver as coisas como as coisas são – e dizê-las como realmente as vi.”
p.50.
239
Cabe lembrar que o projeto dos estadistas da colônia foi eficaz quanto aos fins almejados naquele
determinado contexto. A solução dos estadistas do Império, também sucesso quanto aos fins se deu de
forma diferente. “Os estadistas coloniais haviam chegado à fórmula: integridade da colônia pela
fragmentação do poder. Os estadistas imperiais são levados a uma conclusão contrária: integridade do
país pela unificação do poder. Os estadistas republicanos voltam à conclusão colonial: integridade da
nação pela fragmentação do poder.” VIANNA, O. Evolução do Povo Brasileiro. p.279. Entretanto, “os
estadistas coloniais agiam antes por ação preventiva; os da república procedem, de preferência, por ação
repressiva. O método colonial levava legalidade aos altos sertões de modo permanente; o método
republicano a leva de modo violento e transitório. Os estadistas da Colônia eram incomparáveis
construtores da ordem; os da república são apenas destruidores da desordem.” VIANNA, O. Pequenos
Estudos de Psicologia Social. p.178.
primeiro é a organização sindical e o segundo é a
organização corporativa.240

Desta forma,

Enfraquecido pela federação, o poder central não tem,


portanto, outro caminho racional para recobrar o seu antigo
prestígio senão o do desenvolvimento da circulação geral.
Ou esta, ou então a fragmentação federativa do poder,
como recurso único para manter a integridade do país. Há
dois meios de atacar, entre nós, o problema da circulação.
Há o meio direto: pela articulação ferroviária do país; pelo
desdobramento das nossas linhas de navegação interior;
pela multiplicação dos meios de circulação interespiritual:
correios, telégrafos, telefones, etc. Há o meio indireto: pelo
desenvolvimento dos centros de povoamento; pela
elevação do coeficiente de nossa densidade demográfica;
em suma, pela redução da dispersão social por meio da
colonização intensiva e sistemática.241

Para Oliveira Vianna, tornava-se necessário avaliar o modo como se efetivaria


a reestruturação rumo ao iberismo, e uma vez mais, estava colocado o dilema do nosso
passado, e se este seria um obstáculo ou um suporte à criação de um mundo diferente.
Uma vez mais, o peso da herança ibérica se fazia sentir: de um lado, se imputava ao
passado marcado pelo iberismo, as circunstâncias por todas as dificuldades com que
se defrontava o americanismo republicano. De outro lado, se procurava utilizar esse
passado para construir o futuro, ou ainda, atribuía-se uma valoração positiva a esse
mesmo passado. Qualquer que fosse o caminho a ser percorrido, o passado era o ponto
central de onde qualquer solução precisaria ser encontrada. Em Oliveira Vianna, esta
carga atávica apareceu sempre como ponto de partida para se construir o futuro.
Dentro desta lógica, essa inversão do nosso tempo social teria de ser
considerada dentro da historicidade do nosso passado, e agora o “quem somos” deveria
ser entendido dentro de uma contingência da historicidade, portanto, resgatar o valor
dessa tese do “quem somos” e sairmos em construção da superação da antítese do “não

240
VIANNA,O. Evolução do Povo Brasileiro. p.11-12.
241
Ibid. p.295. Oliveira Vianna apontou ainda a tendência para o que chamou de federação centrípeta,
presente nas constituições de 1934 e 37 com o predomínio da União sobre os Estados: “De maneira que
da ‘federação centrífuga’, de Jefferson, estamos sensivelmente evoluindo para a ‘federação centrípeta’,
de Webster. Tolhida no terreno político, pela força dos textos constitucionais, a sua ação
intervencionista, a União a dilata cada vez mais no terreno econômico e social dos Estados.” Ibid. p.309
somos”, e assim, sermos “outro”, a necessidade do idealismo orgânico está pois em
definir a nossa modernidade como um lugar existente, possível, inadiável e peculiar.

Considerações Finais

O século XIX brasileiro pode ser visto como um período no qual as idéias
provenientes da Europa, atingiram um alto grau de penetração entre a
elite intelectual. O cientificismo europeu e o brasileiro, caracterizados como uma sub-
linguagem das tradições de pensamento, comportavam a noção de que através do
discurso científico os problemas sociais poderiam ser enumerados e solucionados,
como aventavam Alberto Salles e Sílvio Romero. As manifestações humanas passaram
a ser submetidas e entendidas a partir de leis e regras gerais.
Em finais do século XIX, as principais vias de acesso disponíveis aos
intelectuais eram as revistas de divulgação científica e os livros importados pela elite242,
principalmente revistas como a Revue des Deux Mondes e a Quaterly Review. Revistas
de variedades, traziam sessões de literatura, religião, filosofia, história, política,
ciências e arqueologia.
Além deste tipo de penetração das idéias por meios de comunicação impressos,
podemos considerar a própria formação intelectual e a vivência desta elite política.
Cabe lembrar que grande parte dela formou-se em Direito, na Universidade de
Coimbra e em alguns poucos centros universitários no país 243. E como demonstrou
Beatriz Leite, existia uma predileção entre os membros do Senado a realizarem viagens

242
SCHWARCZ, L. M. O Espetáculo das Raças: Cientistas, Instituições e questão racial no
Brasil. !870 – 1930. 1993.
243
CARVALHO, J. M. A construção da ordem. A elite política imperial. 1980.
para a Europa. Segundo esta autora, entre 1870 e 1889, 27,4 % dos senadores viajaram
para a Europa244.
Se, por um lado, as correntes cientificistas provenientes da Europa, tornaram-
se amplamente utilizadas, por outro, este empreendimento convertia-se em arma
simbólica na disputa para a legitimação de discursos políticos. “Eram as teorias que
tinham de se adaptar ao país e nisto está o caráter empírico, pragmático, do pensamento
político.”245
Na tentativa de encontrar respostas para o atraso brasileiro 246 , as idéias
provenientes da Europa indicavam a possibilidade de uma teorização sobre a realidade
em que viviam estes intelectuais.247 Sendo assim, a referência aos modelos europeus
comportou aspectos explicitamente políticos para os intelectuais brasileiros do período.
Se o mundo europeu representava a encarnação da civilização e do progresso, as
teorias importadas e a própria situação européia serviriam como um modelo de
desenvolvimento material e espiritual a ser seguido. Comparado à situação brasileira,
o contexto europeu e o norte-americano apresentavam-se como desejáveis. Caberia
aos intelectuais, portanto, a indicação das melhores alternativas a serem
implementadas no Brasil, para a superação deste atraso através dos projetos de
modernização do país.
As propostas para a realidade brasileira perpassavam a disputa entre as
alternativas através dos próprios referenciais teóricos que um autor acionava, o uso
dos conceitos, e a relação entre produção e difusão dentro do espaço público de
tradições de pensamento diferentes, caracterizados também pelas sub-linguagens248
que mobiliza para explicar o presente, o passado e o futuro.

244
LEITE, B. O Senado nos anos finais do Império 1870-1889. 1978.
245
ALONSO, A. Idéias em movimento. 2002. p. 55.
246
Para Koselleck, “a experiência necessária para que se possa diferenciar o tempo em si é a experiência
da aceleração e do retardamento.” KOSELLECK, K. Futuro Passado. 2006.p.58.
247
Existe uma polêmica interessante sobre a relação entre os intelectuais do século XIX e o referencial
teórico europeu adotado por eles. Esta discussão se remete a dois pontos: se as idéias estão fora do
lugar ou se estão no lugar. Este referencial teórico europeu ora é visto como uma importação indevida
que inadequa-se a realidade brasileira, ora é visto como uma adaptação ou um sincretismo teórico
perfeitamente condicionado as peculiaridades do século XIX. Evidentemente, os nossos apontamentos
perpassam um posicionamento que considera as implicações em se adotar o referencial teórico europeu,
porém, nossas conclusões nos levam a caracterizar as particularidades desse referencial como uma arma
política de legitimação de idéias, como uma referência para a construção de uma sociabilidade particular,
e portanto, como subsídios para a construção de uma auto-imagem. Nesse aspecto, consideramos que
existiu um processo de triagem elaborado pelos intelectuais brasileiros de modo a possibilitar um
arcabouço teórico socialmente aceito e ajustado à “realidade” brasileira.
248
POCOCK, Linguagens do Ideário Político,2001.
Neste aspecto, existem dois pontos cruciais no que se refere à própria
legitimação social de suas propostas e o contraponto a teorias adversárias. Primeiro,
era preciso tornar-se socialmente aceito para suas propostas serem levadas adiante,
definindo um projeto de sociedade baseado em idéias legitimadas e compreendidas
universalmente. Depois, era preciso desqualificar as propostas teóricas dos adversários,
criticando-as e expondo suas dificuldades de sustentação.
Existia um processo de triagem de autores escolhidos pelos intelectuais do
período e englobava fatores como a legitimação e aceitação social destas idéias, a
viabilidade da implementação das propostas, a inviolabilidade contra ataques dos
adversários, a proximidade ideológica com os referenciais teóricos aceitos
consensualmente, a ação prática e política dos autores escolhidos. Enfim, um amplo
panorama de possibilidades influenciavam neste processo de escolha dos referenciais
a serem adotados, pois a luta pelos conceitos adequados ganha relevância social e
política.
A idéia de ciência preconizada pelos republicanos dos anos 1880 relacionava-
se a noções correlatas de análise e resolução dos problemas da sociedade. Em primeiro
lugar, vinculava-se à idéia de ciência enquanto um método imparcial, legitimamente
definido por pressupostos objetivos pelos quais seria possível a identificação
“realística e racional” dos entraves ao progresso dentro da sociedade.
Ao postular uma visão de mundo na qual a sociedade deve ser alvo de reflexão,
a própria sociedade passa a ser considerada um objeto de estudo definido e tangível,
com seu funcionamento passível de ser exposto através do discurso científico. Seria o
“descobrimento” da sociedade e da política como campos disciplinares passíveis de
produzir um conhecimento mais sistematizado pelos eventuais estudos. O método
científico seria capaz de enunciar os melhores caminhos que a própria sociedade
deveria trilhar, a partir das generalizações efetuadas. Como diria Sílvio Romero,

Um conhecimento que não se generaliza, fica improfícuo e


estéril, e, assim, a história pinturesca deve levar-nos à
história filosófica e naturalista. (...) Seu fito é encontrar as
leis que presidiram e continuam a determinar a formação
do gênio, do espírito, do caráter do povo brasileiro.249

249
ROMERO, S. Introdução a História da Literatura Brasileira. p.125.
O que se nota em autores como Sílvio Romero, Assis Brasil e Alberto Salles é
a definição da República como uma forma de governo mais racional, atrelada ao novo
momento histórico que deslumbravam, em contraponto à caracterização da monarquia
como uma ficção baseada em postulados metafísicos, um sistema político arcaico que
pela lei da evolução estaria com os dias contados.
A figura do intelectual apareceria dotada de algumas prerrogativas essenciais
para o desenvolvimento da sociedade brasileira. A classe dirigente deveria atentar-se
para os ensinamentos vindos da camada de intelectuais e estudiosos da sociedade, pois,
as soluções para a superação do atraso brasileiro são definidas pelos intelectuais.
Assim, o intelectual deve ter todo respaldo em suas análises, inclusive mantendo uma
íntima relação com os postos decisórios dentro da sociedade. Portanto, é legítimo e
aconselhável o atrelamento entre os intelectuais e o próprio Estado.250
De um modo geral, os espaços de intervenção do intelectual republicano, na
política oficial do Império, apresentavam-se fechados e as oportunidades políticas de
intervenção social no contexto não estavam ao seu alcance. Os principais campos de
atuação e divulgação de idéias utilizadas por eles eram o jornalismo, a publicação de
livros e a congregação em alguns centros republicanos 251 . De todos os núcleos
republicanos no país, o mais complexo e organizado era o Partido Republicano
Paulista do qual Alberto Salles fazia parte. A intervenção de um intelectual na
sociedade fazia-se através da divulgação de suas idéias, o texto escrito aparece como
uma forma de posicionamento político, explicitamente uma ação efetiva dentro da
sociedade.

250
Isso não quer dizer que adotavam uma posição na qual o país devesse ser governado exclusivamente
pelos intelectuais ou numa chave mais dura como a dos positivistas. E sim, que os intelectuais adquirem
uma importância fundamental na estrutura do Estado, e dos problemas a serem enfrentados, gestando
soluções (políticas públicas) para a superação destes problemas. Na verdade, estes autores observaram
com pesar o insulamento da elite tradicional com a “realidade social”.
251
Para Nelson Saldanha, “o jornalismo, como atividade intelectual, atraiu o espírito nacional desde
cedo, pelo caráter ligeiro, pela oportunidade que dava para a polêmica, e pela correspondência com a
necessidade de dar dimensão verbal às lutas políticas de cada dia. Então, o padrão jornalístico se
manifestou não só nas folhas propriamente ditas, como também na enxurrada de folhetos, panfletos e
pasquins momentâneos, cheios todos de ímpeto, alguns com graça, outros desabusados. (...) Essa
uniformidade de características, que a imprensa de todas as províncias apresentava, já revela ao
historiador a marca duma maneira brasileira, então incipiente mas já perceptível. Símbolos e temas
houve que foram gerais e permanentes. A alusão à palavra povo, aprendida nos modelos estrangeiros;
a acusação de traição à nação (aplicada aos inimigos), e de desleixo ou “desmando”; a defesa da
liberdade, sempre ameaçada no entender da oposição, ou da autoridade”, que os governistas queriam a
toda hora salvar – e salvar sempre e sobretudo da “anarquia”, palavra que tanto designava a sublevação
como a possibilidade de desunião e separação.” SALDANHA, N. História das Idéias Políticas no Brasil.
2001,p.176-77.
Tanto Assis Brasil como Alberto Salles tiveram seus primeiros escritos
subvencionados pelo Partido Republicano. Eles se identificavam como agentes da
propaganda do partido e suas obras estavam voltadas para um estilo mais didático. Ao
contrário, por exemplo, de Sílvio Romero, que não granjeava a participação em
nenhum grupo político específico, apesar de adepto do republicanismo e da Abolição.
Nota-se portanto que existe uma íntima relação entre ciência, intelectuais e
política. Os intelectuais seriam os mais aptos a solucionar os entraves brasileiros,
devendo ocupar os postos decisórios dentro do Estado. Assim, o político deve ser
também um intelectual. Pois, o intelectual através do método científico seria o único
capaz de apontar caminhos para a situação política do país. Nestes termos os mais
aptos são os responsáveis pelo desenvolvimento da sociedade brasileira como um todo.
A definição de agentes sociais capacitados para o desenvolvimento de um
projeto de sociedade são escolhidos e bem definidos. Para Alberto Salles e Assis Brasil,
pelo menos no período imperial, era o partido republicano o órgão impulsionador da
“evolução” brasileira para o regime republicano. Para Sílvio Romero, a classe dos
políticos intelectuais.252
Para Alberto Salles tratava-se de uma intervenção em nosso tempo social
promovido pelos intelectuais dentro do Estado, pois, a implementação da
representação, da federação e da reorganização do trabalho como problemas que
solicitavam respostas no âmbito da consolidação da nacionalidade estavam associados
ao funcionamento do Estado. Ao mesmo tempo, impunha-se desenvolver entre a
população a idéia de que a política seria uma decorrência das atitudes cooperativas
praticadas pelos seus membros.
Encontrava-se assim, a condição necessária para a aquisição do direito à
participação política, que se refletia para além dos interesses econômicos e industriais,
e recaía sob a capa de uma preocupação com o governo representativo e os direitos
individuais, circunscritos ao direito legal. A ação do Estado deveria ser tal que
estimulasse o desenvolvimento dentro da ordem, gerando a organicidade e a
funcionalidade necessárias para o progresso, fazendo rodar a engrenagem do tempo
histórico. Em relação à educação, tratava-se de formar indivíduos tanto com
potencialidade para estimular o desenvolvimento material e industrioso quanto para

252
O empreendimento e a aceitação de um projeto perpassa uma disputa intra-elite de identificação, de
posicionamentos e propostas. Assim, o território de atuação intelectual deveria estar bem delineado, a
fim de prover diferenças e particularizar as ações. ALONSO,A. Idéias em Movimento. 2002.
desenvolver uma maturidade intelectual racional que os tornasse aptos a constituir, na
sociedade civil, o corpo político da nacionalidade 253 . Dessa forma, Alberto Salles
associava o interesse liberal à evolução social e ao federalismo político.
Não se tratava somente de caminharmos, avançarmos, de irmos longe em nosso
tempo histórico, mas principalmente de darmos um sentido a nossa caminhada rumo a
civilização. O atavismo da civilização ocidental era a integração social e o compasso
entre o tempo social e o tempo político, organicamente organizado, expresso pelo
interesse transcendente da Nação e/ou do Estado.
Por sua vez, Oliveira Vianna iberismo.............

Mais um capítulo de nossa revolução passiva.

Contudo, antes de procurar o jogo de metáforas que permeia em forma de oposições

todo o texto de RdB, pretendemos sugerir que a principal chave de entendimento da


obra de Sérgio Buarque está na relação metafórica que ele estabelece entre história e
vida, sendo a última um processo gradual de conhecimento através da experiência, a
experiência pessoal, imediata e a história, que teria uma certa afinidade com a arte

a metáfora entre história e vida não deve ser entendida como um salto, de um para
outro mundo, mas sim como uma ponte que permite a passagem do mundo da vida
para o mundo da história, sendo este último, ao mesmo tempo, mundo da morte e do
devir. Assim a própria história é entendida como uma metáfora, uma vez que ela liga
o mundo do presente ao mundo do passado, ela permite a passagem de um mundo para
outro, um transporte do mundo da experiência imediata para o mundo das verdades
estabelecidas e da tradição. Esta transposição, do presente para o passado e dele para
o presente, não se dá por meio de um salto vertiginoso, a metáfora é uma ponte que
permite a passagem entre os dois mundos. Metaforicamente, também estamos na
fronteira entre o mundo dos vivos e mundo dos mortos, o qual só podemos alcançar,
afugentar ou exorcizar através das imagens históricas.

procurando construir a ponte entre a tradição e o devir, entre o presente e o passado,


entre a vida e a história. Transportar-se do presente para o passado, e deste de volta
para o presente, num caminho por uma estrada móvel que propicie o devir e a mudança

Há uma ponte que nos leva do presente ao passado, assim como também traz o passado
para o presente. Transpor esta ponte, modificando o sentido de um em relação ao outro,
é esta a tarefa do historiador, comprometido com os desafios da mudança, um outro

253
MONTEIRO, M. “Civilização e cultura: paradigmas da nacionalidade.” 2000.
nome que pode ser dado à metáfora. Contudo, nada é nitidamente demarcado nesta
mobilidade sugerida pelos caminhos e pelas fronteiras. Ficamos muito mais
convencidos de que na história não encontramos respostas prontas, nem tampouco
certezas acabadas.

O novo enfoque, o homem enquanto ser social, que deixa de ser considerado
apenas sujeito, mero produtor da história e passa a ser alvo, objeto do
conhecimento.

Este processo construtivo, no republicanismo brasileiro, não se completou por


inteiro. Não temos uma história linear ou definitiva. Sempre procuramos avançar
adiante no tempo, recorrendo ao nosso passado254. Qualquer que fosse o caminho a ser
percorrido, o passado era o ponto central de onde qualquer solução precisaria ser
encontrada. Esta carga atávica apareceu sempre como ponto de partida para se
construir o futuro. Os que aspiravam fazer da América um mundo moderno e os que
percebiam ou acreditavam ser isto impossível, recorriam, igualmente, ao passado para
justificar os obstáculos à nossa modernidade.

254
WERNECK VIANNA, L. Caminhos e Descaminhos da Revolução Passiva à Brasileira. 1996.
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