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A rtigo

Análise Multidimensional da Sustentabilidade


Uma proposta metodológica a partir da Agroecologia*

Caporal, Francisco Roberto**


Costabeber, José Antônio***

Resumo: O presente artigo pretende con-


tribuir na construção da Agroecologia como
paradigma científico a partir da elaboração
de uma proposta metodológica para a análi-
se multidimensional da sustentabilidade.
Iniciamos defendendo a Agroecologia como
um promissor campo de conhecimento, uma
Ciência com especial potência para orien-
tar processos de transição a estilos de agri-
cultura e de desenvolvimento rural susten-
táveis. Depois, apontamos a necessidade de
reduzir o grave equívoco que vem ocorren-
do na definição da Agroecologia, não raras
vezes assumida como um modelo de agri-
cultura, uma tecnologia ou uma política
pública. Neste contexto, efetuamos uma

* Extraído de um texto mais amplo (Caporal e


Costabeber, 2002), intitulado "Agroecologia: enfoque
científico e estratégico para apoiar o desenvolvimento rural
sustentável", publicado na Série Programa de Formação
Técnico-Social da EMATER/RS. Sustentabilidade e primeira tentativa de definir seis dimen-
Cidadania, texto 5.
sões de análise da sustentabilidade, levan-
** Engenheiro Agrônomo, Mestre em Extensão Rural
do-se em conta três distintos níveis hierár-
(CPGER/UFSM), Doutor pelo Programa de
quicos: dimensões ecológica, econômica e
"Agroecología, Campesinado e Historia" - ISEC/
ETSIAM, Universidad de Córdoba (Espanha), social (primeiro nível); dimensões cultural
Extensionista Rural e Diretor Técnico da EMATER/RS- e política (segundo nível); e dimensão ética
ASCAR. E-mail: caporal@emater.tche.br (terceiro nível). Concluímos pela necessi-
*** Engenheiro Agrônomo, Mestre em Extensão Rural dade de aprofundar e qualificar esse deba-
(CPGER/UFSM), Doutor pelo Programa de te, já que uma análise equivocada da sus-
"Agroecología, Campesinado e Historia" - ISEC/ tentabilidade pode comprometer severa-
ETSIAM, Universidad de Córdoba (Espanha), mente nossa capacidade de adequada inter-
Extensionista Rural e Assessor Técnico da EMATER/RS- venção em processos de transição apoiados
70 ASCAR. E-mail: costabeber@emater.tche.br nos princípios da Agroecologia.

Agroecol. e Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.3, n.3, Jul/Set 2002
A rtigo
Palavras-chave: Agroecologia, Agricultu- mum ouvirmos frases equivocadas do tipo:
ra Sustentável, Sustentabilidade, Análise "existe mercado para a Agroecologia"; "a
Multidimensional. Agroecologia produz tanto quanto a agricul-
tura convencional"; "a Agroecologia é menos
1 Paradigma agroecológico rentável que a agricultura convencional"; "a
Agroecologia é um novo modelo tecnológico".
e sustentabilidade Em algumas situações, chega-se a ouvir que,
Em anos mais recentes, a referência cons- "agora, a Agroecologia é uma política públi-
tante à Agroecologia tem sido bastante positi- ca". Apesar da provável boa intenção do seu
va, pois nos faz lembrar de estilos de agricul- emprego, todas essas frases e expressões
tura menos agressivos ao meio ambiente, que estão equivocadas, se entendermos a Agro-
promovem a inclusão social e proporcionam ecologia como enfoque científico. Na verda-
melhores condições econômicas aos agricul- de, essas interpretações expressam um
tores. Nesse sentido, são comuns as interpre- enorme reducionismo do significado mais
tações que vinculam a Agroecologia com "uma amplo do termo Agroecologia, mascarando
vida mais saudável"; "uma produção agrícola sua potencialidade para apoiar processos de
dentro de uma lógica em que a Natureza mos- desenvolvimento rural sustentável.
tra o caminho"; "uma agricultura socialmen- Como orientação metodológica, assumi-
te justa"; "o ato de trabalhar dentro do meio mos nesse artigo a Agroecologia como um
ambiente, preservando-o"; "o equilíbrio entre
nutrientes, solo, planta, água e animais"; "o
"... a Agroecologia como um
continuar tirando alimentos da terra sem es-
gotar os recursos naturais"; "um novo equilí- enfoque científico destinado a
brio nas relações homem e natureza"; "uma
agricultura sem destruição do meio ambien-
apoiar a transição dos atuais
te"; "uma agricultura que não exclui nin- modelos de desenvolvimento
guém"; entre outras. Assim, o uso do termo
Agroecologia nos tem trazido a idéia e a ex- rural e de agricultura convencio-
pectativa de uma nova agricultura capaz de nais para estilos de desenvolvi-
fazer bem ao homem e ao meio ambiente.
Entretanto, se mostra cada vez mais evi- mento rural e de agricultura
dente uma profunda confusão no uso do ter-
mo Agroecologia, gerando interpretações
sustentáveis"
conceituais que, em muitos casos, prejudi-
cam o entendimento da Agroecologia como
ciência que estabelece as bases para a cons- enfoque científico destinado a apoiar a tran-
trução de estilos de agricultura sustentável sição dos atuais modelos de desenvolvimen-
e de estratégias de desenvolvimento rural to rural e de agricultura convencionais para
sustentável. Não raro, tem-se confundido a estilos de desenvolvimento rural e de agri-
Agroecologia com um modelo de agricultu- cultura sustentáveis (CAPORAL;
ra, com a adoção de determinadas práticas COSTABEBER, 2000a; 2000b; 2001, 2002).
ou tecnologias agrícolas e até com a oferta Partimos especialmente de escritos de
de produtos "limpos" ou ecológicos, em opo- Altieri, para quem a Agroecologia constitui
sição a aqueles característicos da Revolução um enfoque teórico e metodológico que, lan-
Verde. Exemplificando, é cada vez mais co- çando mão de diversas disciplinas científi- 71
Agroecol. e Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.3, n.3, Jul/Set 2002
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cas, pretende estudar a ativi- Figura1.AgroecologiaeSustentabilidade*
dade agrária sob uma perspec-
tiva ecológica1. A Agroecologia
baseia-se no conceito de agro-
ecossistema como unidade de
análise, tendo como propósito,
em última instância, proporci-
onar as bases científicas (prin-
cípios, conceitos e
metodologias) para apoiar o pro-
cesso de transição do atual mo-
delo de agricultura convencio-
nal para estilos de agricultura *FiguraadaptadadeMiguelAltieri,conformeesquemaapresentadonoCursosobre
sustentável (Figura 1), em suas "Agroecologia:EnfoqueTécnico-Agronômico", EMATER/RS-ASCAR,Sobradinho(RS),14a18.11.2000.
diversas manifestações e inde-
pendentemente de suas deno-
minações. Então, mais do que uma disci- e estratégicos com maior capacidade para
plina específica, a Agroecologia constitui orientar não apenas o desenho e manejo de
um enfoque científico que reúne vários agroecossistemas sustentáveis, mas também
campos de conhecimento (as diversas se- processos de desenvolvimento rural sustentá-
tas representam as contribuições que são vel. É preciso deixar claro, porém, que a
recolhidas de outras ciências ou discipli- Agroecologia não oferece, por exemplo, uma
nas), uma vez que "reflexões teóricas e teoria sobre Desenvolvimento Rural, sobre
avanços científicos, recebidos a partir de Metodologias Participativas e tampouco so-
distintas disciplinas", têm contribuído para bre Métodos para a Construção e Validação
conformar o seu atual corpus teórico e do Conhecimento Técnico. Mas busca nos
metodológico (GUZMÁN CASADO et al., conhecimentos e experiências já acumu-
2000, p. 81). Assim, o enfoque agroecológico ladas em Investigação-Ação Participativa,
pode ser definido como "a aplicação dos prin- por exemplo, um método de intervenção
cípios e conceitos na Ecologia no manejo e que, ademais de manter coerência com
desenho de agroecossistemas sustentá- suas bases epistemológicas, contribua na
veis", como nos ensina Gliessman (2000), promoção das transformações sociais ne-
num horizonte temporal (a seta maior re- cessárias para gerar padrões de produção e
presenta a transição como um processo gra- consumo mais sustentáveis.
dual e multilinear através do tempo) que dê Adicionalmente, é preciso enfatizar que
cabida à construção e expansão de novos tal processo adquire enorme complexidade,
saberes socioambientais, alimentando, as- tanto tecnológica como metodológica e
sim, o processo de transição agroecológica. organizacional, dependendo dos objetivos e
Esta definição se expande na medida em das metas que se estabeleçam, assim como
que a Agroecologia se nutre de outros cam- do "nível" do processo de transição que nos
pos de conhecimento e de outras discipli- propomos a alcançar. De acordo outra vez
nas científicas, assim como de saberes, co- com Gliessman, podemos distinguir três
nhecimentos e experiências dos próprios níveis fundamentais no processo de transi-
agricultores, o que permite o estabeleci- ção ou conversão para agroecossistemas
72 mento de marcos conceituais, metodológicos sustentáveis. O primeiro diz respeito ao in-

Agroecol. e Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.3, n.3, Jul/Set 2002
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cremento da eficiência das práticas conven- ção de estilos de agricultura sustentável, no
cionais para reduzir o uso e consumo de médio e longo prazos. O que estamos ten-
inputs externos caros, escassos e daninhos tando dizer é que, como resultado da apli-
ao meio ambiente. Esta tem sido a princi- cação dos princípios da Agroecologia, pode-
pal ênfase da investigação agrária conven- mos alcançar estilos de agricultura de base
cional, resultando disso muitas práticas e ecológica e, assim, obter produtos de quali-
tecnologias que ajudam a reduzir os impac- dade biológica superior. Mas, para respeitar
tos negativos da agricultura convencional. aqueles princípios, esta agricultura deve
O segundo nível da transição se refere à subs- atender requisitos sociais, considerar aspec-
tituição de inputs e práticas convencionais tos culturais, preservar recursos ambientais,
por práticas alternativas. A meta seria a apoiar a participação política dos seus ato-
substituição de insumos e práticas intensi- res e permitir a obtenção de resultados eco-
vas em capital e degradadoras do meio am- nômicos favoráveis ao conjunto da socieda-
biente por outras mais benignas sob o ponto de, numa perspectiva temporal de longo prazo
de vista ecológico. Neste nível, a estrutura que inclua tanto a presente como as futu-
básica do agroecossistema seria pouco al- ras gerações (ética da solidariedade).
terada, podendo ocorrer, então, problemas
similares aos que se verificam nos siste-
mas convencionais. O terceiro e mais com- 2 Agricultura de base eco-
plexo nível da transição é representado pelo
redesenho dos agroecossistemas, para que lógica e sustentabilidade
estes funcionem em base a um novo con-
Nossa opção pela terminologia "agricul-
junto de processos ecológicos. Nesse caso,
tura de base ecológica" tem a intenção de
se buscaria eliminar as causas daqueles distinguir, primeiramente, os estilos de
problemas que não foram resolvidos nos dois
agricultura resultantes da aplicação dos
níveis anteriores. Em termos de investiga-
princípios e conceitos da Agroecologia (es-
ção, já foram feitos bons trabalhos em rela- tilos que, teoricamente, apresentam maio-
ção à transição do primeiro ao segundo ní-
res graus de sustentabilidade no médio e
vel, porém estão recém começando os tra-
longo prazos) em relação ao propalado mo-
balhos para a transição ao terceiro nível delo de agricultura convencional ou
(GLIESSMAN, 2000, p. 573-5).
agroquímica (um modelo que, reconhecida-
Como se pode perceber, os três níveis da
mente, é mais dependente de recursos na-
transição agroecológica, propostos por turais não renováveis e, portanto, incapaz
Gliessman, afastam ainda mais a idéia
de perdurar através do tempo). A opção pela
equivocada de Agroecologia como um tipo de
terminologia agricultura de base ecológica
agricultura, um sistema de produção ou tem a intenção, também, de marcar dife-
uma tecnologia agrícola, por mais bondosa
renças importantes entre ditos estilos e as
que esta possa ser. Além disso, estas bre-
agriculturas que poderão resultar das ori-
ves considerações dão a dimensão exata da entações emanadas da corrente da inten-
complexidade dos processos socioculturais,
sificação verde, cuja tendência parece ser
econômicos e ecológicos envolvidos e refor-
a incorporação parcial de elementos de ca-
çam a natureza científica da Agroecologia, ráter ecológico nas práticas agrícolas
bem como o seu status de enfoque ou cam-
(greening process), o que constitui uma ten-
po de conhecimentos multidisciplinar e ori-
tativa de recauchutagem do modelo da Revo-
entado pelo desafiante objetivo de constru- 73
Agroecol. e Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.3, n.3, Jul/Set 2002
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lução Verde, sem, porém, qualquer propósi- adubos orgânicos mal manejados pode não
to ou intenção de alterar fundamentalmen- ser solução, podendo inclusive causar ou-
te as frágeis bases que até agora lhe deram tro tipo de contaminação. Como bem assi-
sustentação 2. nala Nicolas Lampkin, "é provável que uma
Em segundo lugar, a distinção entre simples substituição de nitrogênio, fósforo
Agroecologia e estilos de agricultura ecoló- e potássio de um adubo inorgânico por ni-
gica é de suma importância em relação a trogênio, fósforo e potássio de um adubo or-
outros estilos de agricultura que, embora gânico tenha o mesmo efeito adverso sobre
apresentando denominações que dão a a qualidade das plantas, a susceptibilidade
conotação da aplicação de práticas, técni- às pragas e a contaminação ambiental. O
cas e/ou procedimentos que visam atender uso inadequado dos materiais orgânicos,
certos requisitos sociais ou ambientais, não seja por excesso, por aplicação fora de épo-
necessariamente terão que lançar ou lan- ca, ou por ambos motivos, provocará um
çarão mão das orientações mais amplas curto-circuito ou mesmo limitará o desen-
emanadas do enfoque agroecológico. A títu- volvimento e o funcionamento dos ciclos
lo de exemplo, não podemos, simplesmen- naturais" (LAMPKIN, 1998, p. 3).
te, entender a agricultura ecológica como Por outro lado, Riechmann (2000) lembra
aquela agricultura que não utiliza que "alguns estudos sobre agricultura eco-
agrotóxicos ou fertilizantes químicos de sín- lógica põem em evidência que as colheitas
tese em seu processo produtivo. No limite, extraem do solo mais elementos nutritivos
uma agricultura com esta característica que os aportados pelo adubo natural, sem
pode corresponder a uma agricultura pobre, que pareça diminuir a fertilidade natural
desprotegida, cujos praticantes não têm ou do solo. Isto convida a pensar que na produ-
não tiveram acesso aos insumos modernos ção agrícola nem tudo se reduz a um aporte
por impossibilidade econômica, por falta de humano de adubo e um processo vegetal de
informação ou por ausência de políticas conversão bioquímica, segundo a visão
públicas adequadas para este fim. Ademais, reducionista inaugurada por Liebig, mas
opção desta natureza pode estar justificada que entre as lides humanas e o crescimento
por uma visão estratégica de conquistar da planta se intercalam processos ativos
mercados cativos ou nichos de mercado que, que têm lugar no solo por causa de uma ação
dado o grau de informação que possuem al- combinada de caráter químico e biológico
guns segmentos dos consumidores a respei- ao mesmo tempo". Citando Naredo (1996), o
to dos riscos embutidos nos produtos da agri- mesmo autor sugere que "nem a planta é
cultura convencional, supervalorizam eco- um conversor inerte nem o solo é um sim-
nomicamente os produtos ditos "ecológicos", ples reservatório, mas ambos interagem e
"orgânicos" ou "limpos", o que não necessa- são capazes de reagir modificando seu com-
riamente assegura a sustentabilidade dos portamento. Por exemplo, a aplicação de
sistemas agrícolas através do tempo3. doses importantes de adubo nitrogenado
inibe a função nitrificadora das bactérias
Na realidade, uma agricultura que trata
do solo, assim como a disposição da água e
apenas de substituir insumos químicos con-
nutrientes condiciona o desenvolvimento do
vencionais por insumos "alternativos", "eco-
sistema radicular das plantas. Em suma, se
lógicos" ou "orgânicos" não necessariamen-
impõe a necessidade de estudar não ape-
te será uma agricultura ecológica em senti-
nas o balanço do que entra e do que sai no
do mais amplo. É preciso ter presente que a
74 simples substituição de agroquímicos por
sistema agrário, mas também o que ocorre

Agroecol. e Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.3, n.3, Jul/Set 2002
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ou poderia ocorrer dentro e fora do mesmo, como vem sendo feito no Rio Grande do Sul,
alterando a relação planta, solo, ambiente" é talvez a única forma razoável de minimizar
(RIECHMANN, 2000).
a ampliação dessas novas contradições tão
Ademais, simplificações como as acima
típicas do sistema capitalista.
mencionadas - que centram os esforços e re-
Em síntese, é preciso ter clareza que a
cursos apenas na mudança da base técnica, agricultura ecológica e a agricultura orgâ-
objetivando gerar produtos diferenciados e de nica, entre outras denominações existentes,
nicho - podem provocar um novo tipo de espi- conceitual e empiricamente, são o resulta-
ral tecnológica, gerando novas contradições do da aplicação de técnicas e métodos dife-
e um outro tipo de diferenciação social na renciados, normalmente estabelecidos de
agricultura. Queremos alertar que, atual- acordo e em função de regulamentos e re-
mente, já é possível observar-se a existên- gras que orientam a produção e impõem li-
cia de uma categoria de "agricultores fami- mites ao uso de certos tipos de insumos e a
liares ecológicos" que sequer está sendo con- liberdade para o uso de outros. Contudo, e
siderada como uma outra categoria nos es- como já dissemos antes, estas escolas ou
tudos sobre a agricultura familiar brasilei- correntes não necessariamente precisam
ra. Ou seja, estamos diante do perigo de se estar atreladas ou seguir as premissas bá-
sicas e os ensinamentos fundamentais da
Agroecologia, tal como aqui foi definida. Todo
o antes mencionado serve como reforço à
" ... uma agricultura que trata
idéia que estamos defendendo, segundo a
apenas de substituir insumos quí- qual os contextos de agricultura e desenvol-
vimento rural sustentáveis exigem um tra-
micos convencionais por insumos tamento mais eqüitativo a todos os atores
'alternativos', 'ecológicos' ou 'orgâ- envolvidos - especialmente em termos das
oportunidades a eles estendidas, buscando-
nicos' não necessariamente será se uma melhoria crescente e equilibrada da-
uma agricultura ecológica ..." queles elementos ou aspectos que expres-
sam os incrementos positivos em cada uma
das seis dimensões da sustentabilidade,
como mostraremos a seguir.
ampliar as diferenças entre os agricultores
que têm e os que não têm acesso a serviços 3 Multidimensões
de assistência técnica e extensão rural, cré-
dito e pesquisa, assim como entre os que da sustentabilidade
dispõem e os que não dispõem de assessoria a partir da Agroecologia
para se organizar em grupos com o objetivo
de conquistar nichos de mercado que me- Desde a Agroecologia, a sustentabilidade deve
lhor remunerem pelos produtos limpos ou ser vista, estudada e proposta como sendo uma
ecológicos que oferecem (Costabeber, 1998). busca permanente de novos pontos de equilíbrio
A massificação do enfoque agroecológico via entre diferentes dimensões que podem ser
políticas públicas e com o decisivo apoio do conflitivas entre si em realidades concretas
Estado em áreas estratégicas (Extensão Ru- (COSTABEBER; MOYANO, 2000). Nesta ótica, a
ral, Pesquisa Agropecuária e Crédito), tal sustentabilidade pode ser definida simplesmen-
75
Agroecol. e Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.3, n.3, Jul/Set 2002
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te como a capacidade de um agroecossistema 3.1 Dimensão ecológica
manter-se socioambientalmente produtivo ao A manutenção e recuperação da base de
longo do tempo. Portanto, a sustentabilidade em recursos naturais - sobre a qual se susten-
agroecossistemas (ou em etnoecossistemas, para tam e estruturam a vida e a reprodução das
incluir a dimensão das culturas humanas no comunidades humanas e demais seres vi-
manejo dos ecossistemas agrícolas), é algo re- vos - constitui um aspecto central para atin-
lativo que pode ser medido somente expost. Sua gir-se patamares crescentes de sustenta-
prova estará sempre no futuro (GLIESSMAN, bilidade em qualquer agroecossistema. Por-
2000). Por esta razão, a construção do desenvol- tanto, "cuidar da casa" é uma premissa es-
vimento rural sustentável, a partir da aplicação sencial para ações que se queiram susten-
dos princípios da Agroecologia, deve assentar- táveis, o que exige, por exemplo, não ape-
se na busca de contextos de sustentabilidade nas a preservação e/ou melhoria das con-
crescente, alicerçados em algumas dimensões dições químicas, físicas e biológicas do solo
básicas (Figura 2). No marco desse artigo, en- (aspecto da maior relevância no enfoque
tendemos que as estratégias orientadas à pro- agroecológico), mas também a manutenção
moção da agricultura e do desenvolvimento ru- e/ou melhoria da biodiversidade, das reser-
ral sustentáveis devem ter em conta seis di- vas e mananciais hídricos, assim como dos
mensões relacionadas entre si, quais sejam: recursos naturais em geral. Não importa
ecológica, econômica, social (primeiro nível), cul- quais sejam as estratégias para a interven-
tural, política (segundo nível) e ética (terceiro ção técnica e planejamento do uso dos re-
nível)4. Assim, embora não sendo um trabalho cursos - uma microbacia hidrográfica, por
conclusivo sobre tema tão complexo, é mister exemplo -, mas importa ter em mente a ne-
que façamos uma primeira aproximação ao que cessidade de uma abordagem holística e um
está subentendido em cada uma destas dimen- enfoque sistêmico, dando um tratamento
sões, destacando alguns aspectos que poderiam integral a todos os elementos do agroecos-
ser úteis na definição de indicadores para pos- sistema que venham a ser impactados pela
terior monitoramento dos contextos de susten- ação humana. Ademais, é necessário que
tabilidade alcançados num dado momento. as estratégias contemplem
Figura2.Multidimensõesdasustentabilidade** a reutilização de materiais
e energia dentro do próprio
agroecossistema, assim
como a eliminação do uso de
insumos tóxicos ou cujos
efeitos sobre o meio ambi-
ente são incertos ou desco-
nhecidos (por exemplo, Orga-
nismos Geneticamente Mo-
dificados). Em suma, o con-
ceito de sustentabilidade in-
clui, em sua hierarquia, a
noção de preservação e con-
servação da base dos recur-
sos naturais como condição
76 **Fonte:elaboraçãoprópria

Agroecol. e Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.3, n.3, Jul/Set 2002
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essencial para a continuidade dos proces- da utilização de certas tecnologias sobre as
sos de reprodução sócio-econômica e cultu- condições sociais das famílias de agriculto-
ral da sociedade, em geral, e de produção res que determina ou origina novas formas
agropecuária, em particular, numa perspec- de relacionamento da sociedade com o meio
tiva que considere tanto as atuais como as ambiente, um modo de estabelecer uma
futuras gerações. conexão entre a dimensão Social e a Ecoló-
gica, sem prejuízo da dimensão Econômica
3.2 Dimensão social
(um novo modo de "cuidar da casa" ou de
Ao lado da dimensão ecológica, a dimen- "administrar os recursos da casa").
são social representa precisamente um dos
pilares básicos da sustentabilidade, uma vez
3.3 Dimensão econômica
que a preservação ambiental e a conserva- Estudos têm demonstrado que os resul-
ção dos recursos naturais somente adqui- tados econômicos obtidos pelos agricultores
rem significado e relevância quando o pro- são elementos-chave para fortalecer estra-
duto gerado nos agroecossistemas, em ba- tégias de Desenvolvimento Rural Susten-
ses renováveis, também possa ser eqüita- tável. Não obstante, como está também de-
tivamente apropriado e usufruído pelos di- monstrado, não se trata somente de buscar
versos segmentos da sociedade. Ou seja, "a aumentos de produção e produtividade agro-
eqüidade é a propriedade dos agroecossis- pecuária a qualquer custo, pois eles podem
temas que indica quão equânime é a dis- ocasionar reduções de renda e dependênci-
tribuição da produção [e também dos cus- as crescentes em relação a fatores exter-
tos] entre os beneficiários humanos. De nos, além de danos ambientais que podem
uma forma mais ampla (...), implica uma resultar em perdas econômicas no curto ou
menor desigualdade na distribuição de ati- médio prazos. A sustentabilidade de
vos, capacidades e oportunidades dos mais agroecossistemas também supõe a neces-
desfavorecidos". Sob o ponto de vista tem- sidade de obter-se balanços agroenergéti-
poral, esta noção de eqüidade ainda se re- cos positivos, sendo necessário compatibi-
laciona com a perspectiva intrageracional lizar a relação entre produção agropecuá-
(disponibilidade de sustento mais seguro ria e consumo de energias não renováveis.
para a presente geração) e com a perspec- Aliás, como bem nos ensina a Economia Eco-
tiva intergeracional (não se pode compro- lógica, a insustentabilidade de agroecossis-
meter hoje o sustento seguro das gerações temas pode se expressar pela obtenção de
futuras) (SIMÓN FERNÁNDEZ; DOMINGUEZ resultados econômicos favoráveis às custas
GARCIA, 2001). A dimensão social inclui, da depredação da base de recursos naturais
também, a busca contínua de melhores ní- que são fundamentais para as gerações fu-
veis de qualidade de vida mediante a pro- turas, o que põe em evidência a estreita
dução e o consumo de alimentos com quali- relação entre a dimensão econômica e a
dade biológica superior, o que comporta, por dimensão ecológica. Por outro lado, a lógica
exemplo, a eliminação do uso de insumos presente na maioria dos segmentos da agri-
tóxicos no processo produtivo agrícola me- cultura familiar nem sempre se manifesta
diante novas combinações tecnológicas, ou apenas através da obtenção de lucro, mas
ainda através de opções sociais de nature- também por outros aspectos que interferem
za ética ou moral. Nesse caso, é a própria em sua maior ou menor capacidade de re-
percepção de riscos e/ou efeitos maléficos produção social. Por isso, há que se ter em
77
Agroecol. e Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.3, n.3, Jul/Set 2002
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mente, por exemplo, a importância da pro- les procedimentos ou técnicas que não se
dução de subsistência, assim como a pro- mostrem adequados nos processos de cons-
dução de bens de consumo em geral, que trução de novas estratégias na relação ho-
não costumam aparecer nas medições mo- mem-natureza. Ou seja, práticas cultural-
netárias convencionais, mas que são im- mente determinadas, mas que sejam agres-
portantes no processo de reprodução social sivas ao meio ambiente e prejudiciais ao
e nos graus de satisfação dos membros da fortalecimento das relações sociais e às
família. Igualmente, a soberania e a segu- estratégias de ação social coletiva, não de-
rança alimentar de uma região se expres- vem ser estimuladas. De qualquer modo,
sam também na adoção de estratégias ba- historicamente a Agricultura foi produto de
seadas em circuitos curtos de mercadorias uma relação estruturalmente condiciona-
e no abastecimento regional e da, envolvendo o sistema social (a socieda-
microrregional, não sendo possível, portan- de, os agricultores) e o sistema ecológico (o
to, desconectar a dimensão econômica da meio ambiente, os recursos biofísicos), o
dimensão social. que, em sua essência, traduz-se numa im-
portante base epistemológica da Agroecolo-
3.4 Dimensão cultural
gia, tal como nos ensina Norgaard (1989).
Na dinâmica dos processos de manejo de Mais do que nunca, esse reconhecimento
agroecossistemas - dentro da perspectiva da da importância do saber local e dos proces-
Agroecologia - deve-se considerar a neces- sos de geração do conhecimento ambiental e
sidade de que as intervenções sejam res- socialmente útil passa a ser crescentemente
peitosas para com a cultura local. Os sabe- valorizado em contraponto à idéia ainda do-
res, os conhecimentos e os valores locais minante, mas em processo de
das populações rurais precisam ser anali- obsolescência, de que a agricultura pode-
sados, compreendidos e utilizados como pon- ria ser homogeneizada com independência
to de partida nos processos de desenvolvi- das especificidades biofísicas e culturais de
mento rural que, por sua vez, devem cada agroecossistema.
espelhar a "identidade cultural" das pesso-
as que vivem e trabalham em um dado agro-
3.5 Dimensão política
ecossistema. A agricultura, nesse sentido, A dimensão política da sustentabilidade tem
precisa ser entendida como atividade eco- a ver com os processos participativos e demo-
nômica e sociocultural - uma prática soci- cráticos que se desenvolvem no contexto da
al - realizada por sujeitos que se caracteri- produção agrícola e do desenvolvimento rural,
zam por uma forma particular de relacio- assim como com as redes de organização soci-
namento com o meio ambiente. Esta faceta al e de representações dos diversos segmentos
da dimensão cultural não pode e não deve da população rural. Nesse contexto, o desen-
obscurecer a necessidade de um processo volvimento rural sustentável deve ser conce-
de problematização sobre os elementos for- bido a partir das concepções culturais e políti-
madores da cultura de um determinado gru- cas próprias dos grupos sociais, considerando-
po social. Eventualmente, estes elementos se suas relações de diálogo e de integração com
podem ser relativizados em sua importân- a sociedade maior, através de representação
cia, considerando-se as repercussões nega- em espaços comunitários ou em conselhos po-
tivas que possam ter nas formas de manejo líticos e profissionais, numa lógica que consi-

78 dos agroecossistemas, descartando-se aque- dera aquelas dimensões de primeiro nível como

Agroecol. e Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.3, n.3, Jul/Set 2002
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integradoras das formas de exploração e ma- como ponto de partida uma profunda crítica so-
nejo sustentável dos agroecossistemas. Como bre as bases epistemológicas que deram sus-
diz Altieri, sob a perspectiva da produção, a sus- tentação ao surgimento desta crise. Neste sen-
tentabilidade somente poderá ser alcançada "no tido, precisamos ter clareza de que o que está
contexto de uma organização social que prote- verdadeiramente em risco não é propriamen-
ja a integridade dos recursos naturais e esti- te a natureza, mas a vida sobre o Planeta, de-
mule a interação harmônica entre os seres hu- vido à forma como nos utilizamos e destruímos
manos, o agroecossistema e o ambiente", en- os recursos naturais. Sendo assim, a dimen-
trando a Agroecologia como suporte e com "as são ética a que nos referimos exige pensar e
ferramentas metodológicas necessárias para fazer viável a adoção de novos valores, que não
que a participação da comunidade venha a se necessariamente serão homogêneos. Para al-
tornar a força geradora dos objetivos e ativida- guns dos povos do Norte rico e opulento, por
des dos projetos de desenvolvimento [rural sus- exemplo, a ética da sustentabilidade tem a ver
tentável]". Citando a Chambers (1983), lembra com a necessidade de redução do sobreconsu-
que, assim, espera-se que os agricultores e cam-
poneses se transformem nos "arquitetos e ato-
res de seu próprio desenvolvimento" (ALTIERI, "... dentro da perspectiva da
2001, p. 21), condição indispensável para o avan- Agroecologia - deve-se considerar
ço do empoderamento dos agricultores e comu-
nidades rurais como protagonistas e decisores a necessidade de que as interven-
dos rumos dos processos de mudança social.
ções sejam respeitosas para com a
Nesse sentido, deve-se privilegiar o estabele-
cimento de plataformas de negociação nas cultura local ..."
quais os atores locais possam expressar seus
interesses e necessidades em pé de igualdade
com outros atores envolvidos. A dimensão polí- mo, da hiperpoluição, da abundante produção
tica diz respeito, pois, aos métodos e estratégi- de lixo e de todo o tipo de contaminação
as participativas capazes de assegurar o res- ambiental gerado pelo seu estilo de vida e de
gate da auto-estima e o pleno exercício da ci- relação com o meio ambiente. Para nós, do Sul,
dadania. provavelmente a ênfase deva ser em questões
como o resgate da cidadania e da dignidade
3.6 Dimensão ética
humana, a luta contra a miséria e a fome ou a
A dimensão ética da sustentabilidade se re- eliminação da pobreza e suas conseqüências
laciona diretamente com a solidariedade intra sobre o meio ambiente. Ademais, como lem-
e intergeracional e com novas responsabilida- bra Leff (2001: 93), "a ética ambiental vincula
des dos indivíduos com respeito à preservação a conservação da diversidade biológica do pla-
do meio ambiente. Todavia, como sabemos, a neta com respeito à heterogeneidade étnica e
crise em que estamos imersos é uma crise so- cultural da espécie humana. Ambos os princí-
cioambiental, até porque a história da nature- pios se conjugam no objetivo de preservar os
za não é apenas ecológica, mas também soci- recursos naturais e envolver as comunidades
al. Portanto, qualquer novo contrato ecológico de- na gestão de seu ambiente". Assim, a dimen-
verá vir acompanhado do respectivo contrato so- são ética da sustentabilidade requer o fortale-
cial. Tais contratos, que estabelecerão a dimen- cimento de princípios e valores que expressem
são ética da sustentabilidade, terão que tomar a solidariedade sincrônica (entre as gerações
79
Agroecol. e Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.3, n.3, Jul/Set 2002
A rtigo
atuais) e a solidariedade diacrônica (entre as ral e de agricultura convencional é insus-
atuais e futuras gerações). Trata-se, então, de tentável no tempo, dada sua grande depen-
uma ética da solidariedade (RIECHMANN, 1997) dência de recursos não renováveis e limi-
que restabelece o sentido de fraternidade nas tados. Ademais, este modelo tem sido res-
relações entre os homens. Na esteira dessa di- ponsável por crescentes danos ambientais
mensão, a busca de segurança alimentar in- e pelo aumento das diferenças sócio-econô-
clui a necessidade de alimentos limpos e sau- micas no meio rural; b) a par disso, está em
dáveis para todos e, portanto, minimiza a im- curso uma mudança de paradigma na qual
portância de certas estratégias de produção or- aparece com destaque a necessidade de
gânica dirigida pelo mercado e acessível ape- buscar-se estilos de desenvolvimento rural
nas a uma pequena parcela da população. Igual- e de agricultura que assegurem maior sus-
mente, esta dimensão deve tratar do direito ao tentabilidade ecológica e eqüidade social; c)
acesso equânime aos recursos naturais, à ter- a noção de sustentabilidade tem dado lugar
ra para o trabalho e a todos os bens necessári- ao surgimento de uma série de correntes
os para uma vida digna. Em suma, quando se do desenvolvimento rural sustentável, en-
aborda o tema da sustentabilidade, a dimen- tre as quais destacamos aquelas alinhadas
são ética se apresenta numa elevada hierar- com a perspectiva ecotecnocrática e aque-
quia, uma vez que de sua consideração pode- las que vêm se orientando pelas bases
mos afetar os objetivos e resultados esperados epistemológicas da Agroecologia, numa
nas dimensões de primeiro e segundo nível. perspectiva ecossocial; e d) a construção
deste processo de mudança tem impulsio-
nado uma transição agroambiental, que se
4 Considerações finais materializa pelo estabelecimento de dife-
Como vimos, a Agroecologia proporciona rentes estilos de agriculturas ecológica ou
as bases científicas e metodológicas para a orgânica, entre outras denominações, ade-
promoção de estilos de agricultura sustentá- mais de novos enfoques de desenvolvimen-
vel (perspectiva multidimensional), levan- to local ou regional que levam em conta as
do-se em conta o objetivo de produzir quan- realidades dos distintos agroecossistemas.
tidades adequadas de alimentos de elevada Não obstante, observa-se que os diferen-
qualidade biológica para toda a sociedade. tes enfoques conceituais e operativos, que
Apesar de seu vínculo mais estreito com vêm sendo adotados pelas distintas corren-
aspectos técnico-agronômicos (tem sua ori- tes da sustentabilidade, estão levando a um
gem na agricultura, enquanto atividade pro- afastamento cada vez mais evidente entre
dutiva), essa ciência se nutre de diversas as posições por elas assumidas na perspec-
disciplinas e avança para esferas mais tiva do desenvolvimento rural sustentável.
amplas de análise, justamente por possuir De um lado, a corrente agroecológica suge-
uma base epistemológica que reconhece a re a massificação dos processos de manejo
existência de uma relação estrutural de e desenho de agroecossistemas sustentá-
interdependência entre o sistema social e veis, numa perspectiva de análise
o sistema ecológico (a cultura dos homens sistêmica e multidimensional. Outras cor-
em co-evolução com o meio ambiente). rentes, por sua vez, se orientam, principal-
Assim, a título de considerações finais, mente, pela busca de mercados de nicho,
queremos destacar que: a) há consenso de centrando sua atenção na substituição de

80 que o atual modelo de desenvolvimento ru- insumos químicos de síntese por insumos

Agroecol. e Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.3, n.3, Jul/Set 2002
A rtigo
orgânicos ou ecológicos, restringindo-se, cimentos das condições sociais em que o de-
portanto, aos dois primeiros níveis da tran- nominado produto orgânico foi ou vem sendo pro-
sição. Como evidência das principais dife- duzido; talvez, nem mesmo lhe interesse sa-
renças de enfoque entre as correntes, des- ber. Neste caso, no limite teórico e sob a consi-
tacamos os dois aspectos a seguir: deração ética acima mencionada, nenhum pro-
• Enquanto a corrente agroecológica defen- duto será verdadeiramente "ecológico" se a sua
de uma agricultura de base ecológica que se produção estiver sendo realizada às custas da
justifique pelos seus méritos intrínsecos ao exploração da mão-de-obra. Ou, ainda, quando
incorporar sempre a idéia de justiça social e o não uso de certos insumos (para atender con-
proteção ambiental, independentemente do venções de mercado) estiver sendo "compen-
rótulo comercial do produto que gera ou do ni- sado" por novas formas de esgotamento do solo
cho de mercado que venha a conquistar, ou- ou de degradação dos recursos naturais.
tras propõem uma "agricultura ecologizada", Finalmente, temos consciência de que os
que se orienta exclusivamente pelo mercado desafios para fazermos avançar o enfoque
e pela expectativa de um prêmio econômico agroecológico, numa perspectiva de agricultu-
que possa ser alcançado num determinado ra e desenvolvimento rural sustentáveis, ainda
período histórico, o que não garante sua sus- são muito grandes e complexos, mas não são,
tentabilidade no médio e longo prazos, porque, em absoluto, intransponíveis. Sua superação
no limite teórico, uma agricultura ecologizada depende, primeira e principalmente, da nos-
mundialmente não guardaria espaço para um sa própria capacidade de diálogo e de apren-
diferencial de preços pela característica eco- dizagem coletiva, assim como do reconheci-
lógica ou orgânica de seus produtos. mento de que a sustentabilidade encerra não
• Enquanto a corrente agroecológica susten- apenas abstrações teóricas e perspectivas fu-
ta a necessidade de que sejam construídos pro- turistas, mas também elementos práticos que
cessos de desenvolvimento rural e agricultu- devem ser adotados em nosso cotidiano.
ras sustentáveis que levem em conta a busca Soma-se a isso o fato de que muitos dos já
do equilíbrio entre as seis dimensões da sus- comprovados impactos negativos causados
tentabilidade, outras correntes, por estarem pela agricultura química ainda não penetraram
orientadas principalmente pela expectativa de na opinião pública na intensidade necessá-
ganhos econômicos individuais, acabam ria, retardando o debate e a possível tomada
minimizando certos compromissos éticos e so- de consciência da sociedade, no sentido de
cioambientais. Sob a perspectiva de uma agri- apoiar a construção de processos de desen-
cultura ecologizada e desprovida destes compro- volvimento rural e de estilos de agricultura
missos, podemos até supor que venha a existir mais ajustados à noção de sustentabilidade.
uma monocultura orgânica de larga escala, ba- Destaque-se ainda que a socialização de co-
seada em mão-de-obra assalariada, mal remu- nhecimentos e saberes agroecológicos entre
nerada e movida a chicote. Essa monocultura eco- agricultores, pesquisadores, estudantes, ex-
lógica poderá até atender aos anseios e capri- tensionistas, professores, políticos e técnicos
chos de um consumidor informado sobre as em geral - respeitadas as especificidades de
benesses de consumir produtos agrícolas "lim- suas áreas de atuação -, é, e seguirá sendo,
pos", "orgânicos", isentos de resíduos uma tarefa imperativa neste início de milê-
contaminantes. No entanto, o grau de informa- nio. Se isto é verdadeiro, todos nós temos o
ção ou de esclarecimento de dito consumidor dever - e também o direito - de trabalharmos
talvez não lhe permita identificar ou ter conhe- pela ampliação das oportunidades de constru-
81
Agroecol. e Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.3, n.3, Jul/Set 2002
A rtigo
ção de saberes socioambientais necessários
para consolidar um novo paradigma de desen-
volvimento rural, que considere as seis di-
mensões (ecológica, social, econômica, cul-
tural, política e ética) da sustentabilidade.
Como enfoque científico e estratégico de ca-
ráter multidisciplinar, a Agroecologia apre-
senta a potencialidade para fazer florescer no-
vos estilos de agricultura e processos de de-
senvolvimento rural sustentáveis que garan-
tam a máxima preservação ambiental,
enfatizando princípios éticos de solidarieda-
de sincrônica e diacrônica.

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Notas
1
Entre outros importantes estudiosos que têm e de articulação dos distintos atores sociais
prestado inestimável apoio na construção coletiva da comprometidos com uma ou com outra perspectiva.
3
Agroecologia a partir de diferentes campos do Em recente artigo em que analisam a evolução e
conhecimento, ver também Altieri (1989; 1992; 1994; dificuldades da "produção biológica" em Portugal,
1995; 2001), Gliessman (1990; 1995; 1997; 2000), Cristóvão et al. (2001) apontam que o produtor
Pretty (1995; 1996), Conway (1997), Conway e Barbier biológico "médio" apresenta perfil distinto do produtor
(1990a; 1990b), González de Molina (1992), Sevilla convencional médio, "em termos de idade, nível de
Guzmán y González de Molina (1993), Carroll, escolaridade e formação profissional, sendo suas
Vandermeer & Rosset (1990), Leff (1994), Toledo explorações dominantemente médias a grandes e
(1990; 1991; 1993), Guzmán Casado, González de estritamente ligadas ao mercado". Por sua vez, os
Molina y Sevilla Guzmán (2000), Sevilla Guzmán consumidores de produtos biológicos formam "um
(1990, 1995a, 1995b, 1997, 1999), Martínez Alier nicho ainda restrito, constituído por elementos com
(1994), Martínez Alier y Schlüpmann (1992). maior poder de compra, mais informados e com mais
2
Como temos tentado ressaltar em outros lugares consciência em matéria de saúde humana e ambiente".
4
(Caporal, 1998; Costabeber, 1998; Caporal e Se entendermos o Desenvolvimento Rural
Costabeber, 2000a; 2000b; 2001), o processo de Sustentável como uma melhoria crescente destas seis
ecologização da agricultura não necessariamente dimensões, então será mais fácil estabelecer as
seguirá uma trajetória linear, podendo seguir distintas estratégias necessárias para caminhar-se na direção
vias, mais próximas ou alinhadas com a corrente da sustentabilidade. Não obstante, o maior desafio
ecotecnocrática ou com a corrente ecossocial, havendo reside no estabelecimento de indicadores capazes de
diferenças fundamentais entre as premissas ou bases mostrar avanços e/ou retrocessos nos níveis de
teóricas que sustentam cada uma dessas correntes. E sustentabilidade dos agroecossistemas, segundo suas
são essas diferenças que marcam os espaços de ação condições reais específicas. 85
Agroecol. e Desenv. Rur. Sustent., Porto Alegre, v.3, n.3, Jul/Set 2002