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U N IV E R D ID A D E FEDERAL DE SAN TA C A T A R IN A

CENTRO DE C Iê N C IA S HUHANAS
DEPARTAHENTO DE C IÊ N C IA S S O C IA IS
PROGRAHA DE PÓS G RAD U ACSO EM A N T R O P O L O G IA S O C IA L

A S D IV IN A S P A L A V R A S ": R E P R E SE N T A Ç Õ E S É T N IC A S
DO S G U A R A N I

ALDO L IT A IF F

Dissertação apresentada ao P r o g r a m a de
P ó s - G r a d u a c i o em A n t r o p o l o g i a S o c i a l da
U n i v e r s i d a d e Fede r a l de S a nta Catarina,
c o m o r e q u i s i t o p a r cial p a r a o b t e n ç ã o do
g r a u de M e s t r e em A n t r o p o l o g i a .

SETEMBR0/Í991

FLORIANÓPOLIS - SANTA CATARINA


D i s s e r t a ç ã o a p r e s e n t a d a ao C u r s o de Pós-Graduacão
em A n t r o p o l o g i a S o cial da U n i v e r s i d a d e F e d e r a l de
Santa Catarina, como requisito par ci al para
obtenção do grau de Mestre em Antropologia.
A p r o v a d o pela Banca Examinadora composta pelos
s e g u i n t e s pr ofes so res:

Profa. Dra. Esther Jean L a n g d o n - O r i e n t a d o r a

Prof. Dr. Sel vin o

F lo r ia n ó p o lis , 07 de o u tu b ro de 1991
is» Cláu d i a , pelos desenhos
e revisão; por t o d o amor,
c a r i n h o e d e d icação.
"Os g u e r r e i r o s da l i b e r d a d e tofcal e s c o l h e m o
m o m e n t o e o m o d o de sua p a r t i d a d e s t e mundo.
É e n t ã o que os c o n s o m e um fogo i n t e r i o r e
d e s a p a r e c e m da face da terra, livres, c o m o se
n u n c a t i v e s s e m e n i s t i d o ”. (C.C./J.M.)
A G R A D E C ÎH E N T O S

E s t h e r Jean Lan gdon, p e l a o r i e n t a ç ã o e amiz ade .

Ao F i l ó s o f o S e l v i n o J o s é A s s m a n n , que me i n c e n t i v o u d e s d e o
início.

Ilka Boaventura Leite, que me abriu as portas do


conhecimento antropológico.

Ao s m e u s c o l e g a s de t u r m a Glóri a, E l s j e e P e d r o Hart i n s .

S í l v i o C o e l h o dos Santos, que d e f i n i u os c a m i n h o s de minha


pesquisa.

A C l á u d i a P. Sch arf, pela tradução (fr anc ês) .

Ao meu grande amigo e companheiro de mato, Francisco


Aureliano Dornelles W i t t .

K l e b e r e Sabrina , pelo s o r r i s o de Pa tr í c i a ,

W a l m i r e Iren e p e l a pres t e z a .

Sepetiba, p e l a revisão.

Mário Guidarini, pela S e m i ó t i c a e s u a s pistas.

Ao C a c i q u e V e r á Mirim, "o d e t e n t o r da s d i v i n a s palavras",


s e m ele n a d a s e r i a p o s s í v e l .

A M o a c i r Loth, C ristina, leda, Cá ti a, Déa e Alexandre.

A t o d o s a q u e l e s que a l e m b r a n ç a n ã o fixou; mas que o c o r a ç ã o


guardou.

A J. H. e C.C., v e r d a d e i r o s c o n d u t o r e s da f o rca c r i a d o r a .
‘T h e D i v i n e ÍÂlords; ethnic reprasentationïï of the Mbyá-
G u a r a n i of B r a c u i "

ABSTRACTS

T h i s p a p H r t o u c h e s a n t h e e t h n i c a s p e c t s ; p r e s e n t in t h e
d i s c o u r s e a b o u t c o s m o v i s i o n a n d s o c i a l p r a c t i c e s of the
G ua ra n i - r i t ay á o f t h e B r a c u i s e t t l e m e n t , s i t u a t e d o n M o r r o d o
B i c o d a A r r a i a , a p l a c e o f d i f f i c u l t a c c e s s betv^ ee n t h e
m u n i c i p a l i t y of A n g r a d o s R e i s a n d t h e A n g r a I N u c l e a r
F-'lantn o n t h e s o u t h c o a s t o f t h e S t a t e o f R i o d e J a n e i r o .
T h e c entral focus of the s t u d y is upon the e t h n i c
r e p r e s e n t a t i o n s c o n t a i n e d in t h e c i a s s i f i c a t i o n s y s t e m o f
t h i s group,, W e h a v e v e r i f i e d t h e d i c h o t o m o u s c a t e g o r i e s
u t i l i z e d by the H b y á to i d e n t i f y t h e m s e l v e s , t h eir
e n v i r o n m e n t a n d t h e " o t h e r s ”,. W e t h u s i n t e n d t o d i s t i n g u i s h
the ethnic s y m b o l s by w h i c h the g r o u p r e p r e s e n t s its
i d e n t i t y a s o p p o s e d t o '' ou tsiders-'.

T h e n b y á t vgho i n o t h e r t i m e s i n h a b i t e d t h e i n t e r i o r o f
S o u t h A m e r i c a n fc sre st s , n o w s h a r e s p a c e w i t h o t h e r g r o u p s
s o m e o f w h i c h a r e t h e i r t r a d i t i o n a l e n e m i e s ( a s in t h e c a s e
of the K a i n g a n q and t h e X o k l e n q ) , a s i t u a t i o n w h i c h ha s
g e n e r a t e d s e r i o u s conflicts,. G u a r a n i can be s e e n w a n d e r i n g
a l o n g t h e h i g h w a y s in s o u t h e r n B r a s i l , a p p e a r i n g a s p o o r a n d
assimilated Indians, yet they p r eserve cultural values that
a r e v i t a l to t h e i r s o c i e t y ' s s u r v i v a l . T h e y a r e c o n s t a n t l y
on the m o v e s e a r c h i n g f o r g o o d l a n d and w o r k , l o o k i n g for
r e l a t i v e s in o t h e r s e t t l e m e n t s , o r s e l l i n g t h e i r c r a f t s . T h e
■ q u e s t i o n o f h e a l t h , p r i m a r i l y m a l n u t r i t i o n w h i c h is. v e r y
s e v e r e amiong t h e M b y á ( r e l a t e d t o t h e l a c k o f l a n d and.
s u b s i s t e n c e means),, i s the, m o s t s e r i o u s p r o b l e m in p r e s e n t
timoss.,

T h e M b y á comfiiunity o f B r a c u i i s c o m p o s e d o f a b o u t .t w o
h u n d r e d m.em.bers, d i s t r i b u t e d a.mong t h i r t y h o u s e h o l d s » T h e y
b a s i c a l l y live o f f t h e c u l t i v a t i o n of c o r n a n d m a n i o c a n d
the m a n u facture a n d c o m m e r c i a i i z a t i o n of b a s k e t r y . T h e
g r o u p is led by t h e c h i e f ( C a c i q u e ) V e r á M i r i m ^ w h o is a l s o
r e s p o n s i b l e f o r t h e c o l l e c t i v e r e l i g i o u s r i t u a l s . It i s
through the leader's c h a r i s m a t i c personality that the
Guarani maintain their social o r g a n ization and their world
v i s i o n . T h e M b y á d e f i n e t h e m s e l v e s in etnriic t e r m s as
" f o r e s t p e o p l e " : tiiat is, t h e y " c a n n o c l i v e in c i t i e s , a w a y
f r o m n a t u r e : d o n ' t m i n g l e w i t h w h i r e pec^ple; a n d c o n s u m e
n e i t h e r alcohol n o r a n y f o o d of E u r o p e a n o r i g i n "
F i n a l l y ^ this p a p e r intersds to r a i s e c e r t a i n i s s u e s
t h a t c a n c o n t r i b u t e f o r a b e t t e r u n d e r s t a n d i n g ,o f t h e
G u a r a n i c u l t u r e j s p e c i f i c a l l y in c l a r i f y i n g t h e e t h n i c
problems that em e r g e from the v i o l e n t cont a c t between the
Mby á and the national society.
RESU H O

E s t e t r a b a l h o a b o r d a a s p e c t o s é t n i c o s c o n t i d o s nos
discursos sobre a cosmovisao e práticas sociais dos
G u à r a n i - H b y á da a l d e i a dc Bracuí, localizada na H o r r o do
B i c o da Arra i a , S e r r a do H a r , e n t r e o M u n i c í p i o de A n g r a dos
R e i s e a U s i n a N u c l e a r A n g r a 1/ litoral do E s t a d o do R i o de
Janeiro. 0 foco central da p e s q u i s a são as representações
étnicas contidas no sistema de c 1a s s i f icaçao de mundo.
V e r i f i c a m o s as c a t e g o r i a s p e l a s quais os M b y á i d e n t i f i c a m a
si me smos, seu meio e aos d i v e r s o s "outros". Em última
anális e, p r e t e n d e m o s a p u r a r os s í m b o l o s é t n i c o s que o gruPo

r e p r e s e n t a s u a i d e n t i d a d e em c o n t r a s t e com "os de fora".

Os Hbaá, que outrora habitavam o interior das


f l o r e s t a s da A m é r i c a do Sul, a t u a l m e n t e d i v i d e m o e s p a c o das
á r e a s de o u t r o s g r u p o s (como„„Kaingang e Xokl e n g ) , situação
que tem gerado graves conflitos. E s tes g u a r a n i estão em
constantes movimentaçoes, p o d e n d o ser vistos perambulando
p e l a s r o d o v i a i s do sul do Br asil, São Paulo, R i o de Janeiro
e E s p í r i t o Sant o; vendenso artesanato, procurando parentes
em o u t r a s a l d e i a s , ou em b u s c a de boas t e r r a s o n d e possam
v ive r c o n f o r m e as leis de s u a cultura. A q u e s t ã o da saúde,
principalmente a subnutrição, m u i t o g rave e n t r e a população
infa nti l, e a f a l t a de ter ras , são a t u a l m e n t e os problemas
m a i s g r a v e s d e s s e grupo.

A c o m u n i d a d e H b y á de Brac u í é c o m p o s t a por cerca


de d u z e n t o s memb r o s , distribuídos em t r i n t a casas. Vivem
b a s i c a m e n t e do c u l t i v o de m i l h o e man dio ca; e da c o n f e c ç ã o e
comercialização de cestarias. 0 grupo é liderado pelo
Cacique Verá Mirim, também responsável pelos rituais
religiosos coletivos. Os M b y á d e f i n e m - s e em t e r m o s étni c o s ,
c o m o " g e n t e da fl oresta" , ou seja, a q u e l e s que não podem
v ive r em c i d a d e s , longe da n ature za.
Por fim, e s t e t r a b a l h o p r e t e n d e l e v a n t a r q u e s t õ e s ,
que p o s s a m c o l a b o r a r p a r a um maior c o n h e c i m e n t o da cultura
Guarani, especificamente no esclarecimento dos problemas
é t n i c o s que e m e r g e m do c o n t a t o e n t r e os M b y á e a sociedade
nacional.
ÍN D IC E

Página
Apresentaçao

1 - Int r o d u c a o ................................ ........... ..... í

2 - H i s t ó r i c o ....................................................... 17

3 - A A l d e i a de B r a c u í ........................................... 23

4 - L í n g u a . .............. ........................................... 36

5 - O r g a n i z a ç ã o S o c i á l ............................ ............... 40

6 - S u b s i s t ê n c i a ................................................... 69

7 - R e l i g i ã o e M e d i c i n a .............. ............................ 82

8 - M i t o l o g i a . . . . ...... . ..7'.'. .-................................. 107

9 - As M i g r a ç õ e s Mby á e Yvy M a r a E y ...........................121

í<ò- C o ntraste, C o n f l i t o e A n t r o p o f a g i a ....................... 137

11- R e p r e s e n t a ç õ e s é t n i c a s ...................................... 146

12- C o n s i d e r a ç o e s F i n a i s ................................. ....... 161

B i b l i o g r a f i a ............ ........................ ........... 163


APRESEM TACSO

"Kunca foisos catequizados. Fizesos foi Carnaval. 0 índio vestido de


senador do lepério. Fingindo de Pitt. Ou figurando nas óperas de álcncar, cheio de
bons sentioentos portugueses". (Osiíald de Andrade - Kanilesto Antropófago)

As p o p u l a ç o e s G u a r a n i do Brasil vêm s o f r e n d o ao
l ong o do tempo violento e acelerado processo de
descaracterização e destruição. Grupos inteiros foram
dizimados. Neste contexto onde o branco é o ’
'antropófago"
devorador de sociedades n ã o - o c i d e n t a i s , numa inversão de
papéis com o "índio" romantizado e estereotipado pela
civilização cristã oGidentaJ. , alguns grupos conseguiram
s o b r e v i v e r ao l ò ngo do tempo, mantendo aspectos de seus
costumes, v a l o r e s e iden t i d a d e .

A d e s c o b e r t a da s Américas implicou numa profunda


r e a v a l i a ç ã o da c o n c e p ç ã o de homem e humanidade, entre os
f i l ó s o f o s da Eur opa. Todavia, muitos atualmente argumentam
que "os índios*' são testemunhos de um período passado da
história deste continente e que, sendo muito p o u c o s dentro
do Bras il, logo irão desaparecer! Então, n ã o no s devemos
p r e o c u p a r c o m isto. O u t r o s c o n s i d e r a m p o v o s c o m o os Guarani
"primitivos", se c o m p a r a d o s c o m as g r a n d e s c i v i l i z a ç õ e s da
A m é r i c a Lat ina . Mesmo estas não conseguiram sobreviver ao
v i o l e n t o p r o c e s s o " c i v i l i z a t ó r i o " europeu.

Um dos principais fatores que concorre para


reforçar este etnocentrismo é a ignorância quanto às
características atuais desses "indígenas" (termo
generalizador que carrega alto teor de preconceitos e
estereótipos). 0 pesquisador paraguaio León Cadogan
( 1 9 4 9 : 2 1 - 8 8 ) d e c l a r a que os G u a r a n i - M b y á , inicialmente, são
tão c o n h e c i d o s que a t é parece supérfluo um e s t u d o a seu
resp e i t o ; porém, esclarece o autor, " e ste conhecimento é
muito superficial". E n t e n d e m o s que esta situação persiste
atualmente.

Em 23 de n o v e m b r o de í989, uma equipe da Rede


G l o b o de Televisão esteve na aldeia de Bracuí , com o
o b j e t i v o de filmar algumas cenas c o m os Mbyá, p a r a serem
e x i b i d a s n u m fim de s e m a n a à noit e , com o título "Programa
de índio". Esta era a narrativa das aventuras de um
Antropólogo e sua n a m o r a d a jornalista, que enfrentava um
g r u p o de b a n d i d o s l i d e r a d o s por um g r a n d e vilão. Os Mbyá
ficaram muito agitados com o grande número de pessoas,
caminhões e equipamentos. A o c h e g a r e m no local m a r c a d o da
g r avação, os i n t e g r a n t e s da e q u i p e de produção ficaram um
tanto decepcionados. 0 motivo do desapontamento dos
f u n c i o n á r i o s da T M . G l o b o foi p o r q u e os G u a r a n i "não e r a m be m
o que eles e s p e r a v a m " , ou seja, não correspondiam à imagem
de " í n d i o “ b r a s i l e i r o r e p r e s e n t a d a , principalmente, pelos
g r u p o s que v i v e m no Parq u e N a c i o n a l do X i n g u (ou, o que é
ma is c o m u m ainda, í n di os dos f i 1mes n o r t e - a m e r i c a n o s ). Eles
e n c o n t r a r a m no lugar dos "índios de verdade" um grupo
f o r m a d o por S E hom en s, "feios, su jo s, mal v e s t i d o s e de
baixa estatura". "Est e s são os í n d i o s I?, onde estão as
penas, as p i n t u r a s de guerra, os a r c o s e as flechas. Assim
não dá pra filmar", p r o t e s t o u o diretor, pedindo que a
produção resolvesse o problema. Algumas horas de po i s ,
a p a r e c e u um a u t o m ó v e l a b a r r o t a d o de arcos, la nças e flechas
de K a r a j á s e Xava n t e s ; gentilmente cedidos pelo Museu do
índio. Os Mbyá, então, f oram " p i n t a d o s de K a d i w e u " pelas
maquiadores da t e l evisão, segundo a orientação de um
G u a i k u r d (grupo ao qual pertencem os Kadiweu) contratado
c o m o ator (est e G u a i k u r d e s t r e l o u o f i l m e "Ku arup", de Rui
Guerra; onde representou um Kayapó!). E as sim, o
H b y á - G u a r a n i , e n q u a n t o ser c o n c r e t o e real, foi e l i m i n a d o ; e
transformado para os olhos do público em uma projeção
estereotipada e romantizada, denominada "índ io". Este
curioso relato procura mostrar como a sociedade brasileira
F 1|SALN\ENTE , 0 5 HBVÁ TõRtHAM -SE " ÍH D Io e ",
PRODUTORA DA TV GLOBO EHTPFGA ARCO E t=uecHA AOS MBYA , E

O DIRETOR M06TRA COMO DCVEt^ SER UôADOà!


d e s c o n h e c e t a nto os Guarani, quanto os diversos outros
g r u p o s e, c o n s e q u e n t e m e n t e , " c o n s t r ó i o índio".

Os Mbyá, que outrora habitavam o interior da s


■Florestas do sul da A m é r i c a do sul; a t u a l m e n t e p e r a m b u l a m em
pequenos grupos pelas estradas e rodovias em busca de
terrasj v e n d e n d o seus artesanatos, ou, à p r o c u r a de algum
t r a b a l h o tem p o r á r i o . A q u e s t ã o da saúde , principalmente a
subnutrição, que é m u i t o g r a v e e n t r e o s Hbyá; e a f a l t a de
t e r ras, s ã o a t u a l m e n t e os m a i o r e s p r o b l e m a s d e s t a p o p u l a ç ã o .

Os Gu arani são considerados pelos outros grupos


c o m os qua is m a n t ê m c o n t a t o , "os í n d i o s m a i s i n f e r i o r e s ” e
os ú l t i m o s da h i e r a r q u i a na s o c i e d a d e n a c i o n a l . Os próprios
Hbyá, c o m o veremos , se c o n s i d e r a m "a n a ç ã o mais s i m p l e s de
todas"! C o n t r a s t a n d o c o m os g r u p o s dd X i n g u (aparentemente
c o m a l t o grau de p r e s e r v a ç ã o ) ; o Guarani, e m v i r t u d e de su a
a tua l aparência (roup as ocidentais pouco conservadas),
c a r r e g a o e s t e r e ó t i p o do " í n d i o s u j o e v a g a b u n d o " , minorias
t o t a l m e n t e integr ada s. Porém , no decorrer desta monografia
c o n s t a t a r e m o s que e s t a i m a g e m é altamente questionável. Os
Hbyá tiveram que se adaptar parcialmente; preservando,
porém, grande parte (talvez a p r i n c i p a l ) de su a cultura
milenar; e m a n t e n d o sua identidade. Eles mudam para nã o
desaparecerem. Os Mbyá constituem um grupo de forte
i d e n t i d a d e étnica, s e n d o e s t a u m a de s u a s m a i s i n t e r e s s a n t e s
e importantes características.

Egon Schaden (1963:83), em artigo sobre os


Mbyá-guarani, declara que ainda estamos longe de um
c o n h e c i m e n t o e x a u s t i v o d o s v á r i o s g r u p o s Guar ani, q u a d r o que
t a m b é m n ã o se m o d i f i c o u (vid e b i b l i o g r a f i a ane xa). Para este
a u t o r é fundamental f o m e n t a r p e s q u i s a s de campo, pois, "é
n e c e s s á r i o se d e s t r u i r o m i t o de que a s o c i e d a d e G u a r a n i já
é bastante conhecida e de insistir na urgência de se
retornar o estudo dessa cultura com referência às suas
v a r i a n t e s re gionai s".
Percebemos, então, a i m p o r t â n c i a da r e a l i z a ç ã o de
pesquisa junto aos Gua rani; especificamente os Hbyá
(subgrupo Guarani), que d e s d e os t r a b a l h o s de León Cadogan
no P a r a g u a i e Egon S c h a d e n no Bra sil; at é agora, muito pouco
foi feit o em t e r m o s de e t n o g r a f i a s s o b r e e s t e grupo. Nossa
p r o p o s t a é fazer um a d e s c r i c ã o c e n t r a d a nas representações
é t n i c a s de um g r u p o M b y á - g u a r a n i , l o c a l i z a d o em B r a c u í , na
S e r r a do H a r , A n g r a dos Reis, litoral sul do E s t a d o do Rio
de Jan eiro, Br asil. Para tanto, é fundamental a realização
de um trabalho específico, em detrimento de pesquisas
genéricas. Desta forma, optamos pelo estudo de caso na
r e f e r i d a ald eia.

Finalmente, é i m p o r t a n t e s a l i e n t a r a i n d a que esta


a n á l i s e foi fe ita d e n t r o dos l i m i t e s da v i s ã o de a l g u é m que
está fora da cultura abor d a d a . Acreditamos na
i m p o s s i b i l i d a d e da s u s p e n s ã o do "v iés" i d e o l ó g i c o que t a m b é m
i m p r e g n a as pesquisas científicas. Sendo objetivo dessa
pesquisa mostrar dados a t u a i s sobr-e a . c u l t u r a de um grupo
n ã o - o c i d e n t a l , p r o c u r a m o s a p r e s e n t a r na í n t e g r a os d i s c u r s o s
de nossos colaboradores, que, desta forma, participam
a t i v a m e n t e de su a c o n s t r u ç ã o .
í- IN T R O D U C S O

0 foco c ent r a l de nossa pesquisa são as


r e p r e s e n t a ç õ e s é t n i c a s c o n t i d a s no s i s t e m a de classificação
de mu ndo, do grupo Mbyá-guarani (que s e r á s i t u a d o adiante).
V e r i f i c a r e m o s as c a t e g o r i a s (M. Mauss, Í974) ou c l a s s e s de
representação utilizadas pelos Mbyá para identificarem a si
mesmos, s e u m e i o e aos "ou tros". E s s a f o r m a de o r g a n i z a ç ã o é
a maneira pela qual os i n d i v í d u o s em s o c i e d a d e s ou grupos
o r d e n a m s e u mundo.

Nosso objetivo principal é descrever aspectos


étnicos contidos no sistema simbólico*** cultural dos Mbyá
de Bracu í. Para tanto, partiremos especificamente dos
discursos dos Mbyá; visando, desta forma, à maior
objetividade e integridade destas informações. Buscaremos
t ambé m, a p o n t a r o u t r o s d a d o s o b t i d o s por- o b s e r v a ç ã o direta,
para melhor eontéxtuaiizar esses importantes depoimentos.
Não é objetivo, entretanto, a interpretação dos símbolos
c u l t u r a i s dos M b y á de Bracuí, por c o n s i d e r a r m o s i n s u f i c i e n t e
o t e m p o em que e s t i v e m o s e n t r e eles para r e alizarmos esta
monografia. Por este motivo, complementaremos nossas
informações com dados de p e s q u i s a d o r e s da cultura Guarani
(principalmente: Egon Scha d e n , Curt Nimuendajú e León
Cadogan) que p o d e r ã o a u x i l i a r no e n t e n d i m e n t o deste grup o.
Tentaremos, en tão, m o s t r a r um p o u c o da vida destes Mbyá,
p r i n c i p a l m e n t e o que p e n s a m s o b r e a r e l a ç ã o d e l e s c o m o u t r o s
grupos étnicos (brancos e "índios"). é importante
c o l o c a r m o s aqui, que, ao a n a l i s a r m o s p o s t e r i o r m e n t e nossos
dados , constatamos que as questões étnicas realmente
transpassam quase todas as informações sobre os Mbyá,
o b t i d a s em campo.

Pretendemos então ap u rar, aqui, as categorias


é t n i c a s * ® * e o u t r o s s í m b o l o s c o m que o g r u p o r e p r e s e n t a sua
identidade. Nossa preocupação nesse estudo não é apenas o
conteúdo, mas também a imagem ou forma (enquanto dado
significativo) pela qual esses "símbolos culturais" (G.
Melho, i97S : 7 i ) aparecem no s discursos dos informantes.
Neste contexto, mesmo informações contraditórias são
consideradas relevantes por conterem implícitas
significações. é fundamental entendermos que estes
d i s c u r s o s é t n i c o s (que, m u i t a s vezes, é a fala do Cacique
p a r a s u a c o m u n i d a d e ) sã o d i r i g i d o s ao p e s q u i s a d o r , que t e n t a
obter informações dos m e m b r o s de uma dada cultura, sobre
e l e s p r ó p r i o s ( a u t o - r e p r e s e n t a ç ã o ) e os d i v e r s o s " outros".

As r e p r e s e n t a ç õ e s (como “est ar em lugar de") ou


símbolos, são i ma ge ns da s i d é i a s ( c o n s c i e n t e s ou não) que os
i n d i v í d u o s têm de si m e s m o s e de suas r e l a ç õ e s . 0 símbolo
significa a concepção do u n i v e r s o soci al, ou seja, é a
s í n t e s e do "e thos" e cosmovisão de um grupo específico.
S e g u n d o G e e r t z (1978:1 44) , " e t h o s " s ã o os a s p e c t o s m o r a i s (e
estéticos), e l e m e n t o s v a l o r a t i v o s e e s t i l o de v i d a a p r o v a d o s
de uma dada cultura; e visão de mundo, o quadro de
e l a b o r a ç ã o das c o i s a s na " s i m p l e s realidade", conceito de
si, n a t u r e z a e soci e d a d e , é a o r d e m geral òu c o s m o l ó g i c a .

Entendemos "cultura", parafraseando Geertz


(1978:106), como fonte extrínseca de informações que
f o r n e c e m um d i a g r a m a p a r a i n s t i t u i ç ã o de p r o c e s s o s s o c i a i s e
psicológicos, m o d e l a n d o o c o m p o r t a m e n e t o públ i c o . A cultura,
numa visão semió tic a, é c o m o uma "teia de símbolos" que
p o d e m ser lidos e que formam os padrões culturais ou
sistemas de sí mb olos . Geertz (1978:15) declara que:
"Acreditamos, como Max Ueb er, que o homem é um animal
a m a r r a d o a teia s de s i g n i f i c a d o s que el e m e s m o tece u, assumo
c u l t u r a c o m o s endo e s s a s t e i a s e a sua análise ... é como
u m a c i ê n c i a i n t e r p r e t a t iva à p r o c u r a de s i g n i f i c a d o s " .

A c u l t u r a é, s e g u n d o G e e r t z (1978:10 3): "...padrão


de s i g n i f i c a d o s t r a n s m i t i d o s h i s t o r i c a m e n t e , i n c o r p o r a d o s em
símbolos; um s i s t e m a de concepções herdadas expressas em
3

form a s s i m b ó l i c a s , por m e i o das quais o s X o m e n s comunicam,


perpetuam e desenvolvem seu c o n h e cimento e suas atividades
em r e l a ç ã o a vida". Os p a d r õ e s culturais dão significado,
isto é, o f e r e c e m u m a f o rma c o n c e p t u a l o b j e t i v a à "realidade
social" e psicológica, " m o d e l a n d o - s e a ela" e " m o d e l a n d o - a a
ele mesmo". Esta definição de cultura enquando sistema
simbólico, orientará este estudo; acentuando ainda que,
sendo a cultura algo dinâmico, muda com o tempo e espaço, de
a c o r d o c o m a s o c i e d a d e na qual se insc rev e.

C o n f o r m e o " e t h o s " e v i s ã o de mundo, cada cultura


c r i a s e u s i s t e m a de c a t e g o r i a s , que s ã o c l a s s e s de e l e m e n t o s
que agrupam relações semânticas (ligação formal desses
el e m e n t o s , ou s ím bolos, c o m as c o i s a s do m u n d o ) e s i n t á t i c a s
( r e l a ç ã o d e s t e s e l e m e n t o s e n t r e si, ou o r g a n i E a ç ã o "lógica"
implícita). Estas categorias são comuns aos indivíduos do
grupo, constituindo-se em sua identidade é t n ica, como
veremos posteriormente. Consideramos, como Geertz (i978:62),
que e s t e s e l e m e n t o s c u l t u n a ’
is são símbolos intrínsecos aos
grupos humanos, e que o homem necessita destes elementos
p a r a " e n c o n t r a r s e u s a p o i o s no mund o " ; pois, "...vivemos num
hiato de informações preenchidos pela cultura". Nosso
objetivo, como vimos acima, se prende unicamente à
identificação destes s í m b o l o s para, futuramente buscarmos
um a m a i o r c o m p r e e n s ã o s o b r e a s o c i e d a d e Mbyá.

Através da "Teoria Extrínseca" de Galanter e


G e r s t e n h a b e r , Geertz ( Í 9 78 ;i85), define o pensamento como
construções e manipulação dos sistemas s i m b ó l i c o s que são
empregados como m o d e l o de outros sistemas não simbólicos
(físico, o r g â n i c o , so cial ...), de f o r m a que e s s e s outros
sistemas tornem-se compreensíveis para o homem, pois,
"pensar, c o n c e i t u a r ... consiste em combinar os e s t a d o s e
processos dos modelos simbólicos com estados e processo do
mundo mais amplo", em o u t r a s palavras, pensar significa
representar.
Logo, os símbolos sa o fontes extrínsecas que
padronizam a vida para a percepção, compreensão e
manipulação do mundo pelo homem. Desta forma, padrões
culturais estéticos, religiosos, ideológicos e outros; como
coloca Geertz (Í978;i 88) , sã o p r o g r a m a s que fornecem um
diagrama para organização dos processos sociais e
psicológicos, d e f orma s e m e l h a n t e aos s i s t e m a s g e n é t i c o s que
f o r n e c e m tal gabarito para a organização dos processos
orgânicos.

Os f a t o r e s religiosos são muito importantes no


s e n t i d o de se a l c a n ç a r um e n t e n d i m e n t o da cultura Mbyá.
Geertz (1978:105) define religião*®* como sendo sistema
s a g r a d o "que a t u a p a r a e s t a b e l e c e r p o d e r o s a s , penetrantes e
duradouras disposições e motivações n o s homen s, através da
f o r m u l a ç ã o de c o n c e i t o s de u m a o r d e m de e x i s t ê n c i a g e r a l e
v e s t i n d o e s s a s c o n c e p ç õ e s c o m tal a u r a de f a t u a l i d a d e que as
disposições e motivações parecem singularmente realistas".
Segundo o autor , os símbolos religiosos oferecem uma
g a r a n t i a c ó s m i c a n ã o 'Apenas p a r a á ‘c a p a c i d a d e de c o m p r e e n s ã o
do mundo, mas t a m b é m p a r a que, c o m p r e n d e n d o - o , d ê e m p r e c i s ã o
ao s e n t i m e n t o d o d e v o t o e um a d e f i n i ç ã o a s u a s e m o ç õ e s , que
lhe p e r m i t a s u p o r t a r as i n t e m p é r i e s da v i d a terr e n a . A visão
de mundo é comunicada e atualizada através do ritu a l
religioso, dando sentido à vida cotidiana do i n d i v í d u o no
grupo. Segundo Geertz ( 1 9 7 8 ; 1E4), o r i t o r e l i g i o s o e x p l i c a e
j u s t i f i c a a e x p e r i ê n c i a moral, i n t e l e c t u a l ou e m o c i o n a l . A
religião, através da a ç ã o do líder e s p i r i t u a l (que será
abordado adiante); funciona como uma poderosa força de
coesão s o c i a l .

P e r c e b e m o s aqui a necessidade de d e s e n v o l v e r os
conceitos de "Identidade", "Etnicidade", "Identidade
Étnica" e "Grupos étni c o s " ; f u n d a m e n t a i s no entendimento
das questões tratadas nesta pesquisa. 0 mate r i a l produzido
s o b r e os c o n c e i t o s acima é m u i t o vast o, nã o c a b e n d o aqui
esgotá-lo. Raul G. R uben (Í988:76) afirma que a primeira
t e o r i a s i s t e m á t i c a da identidade social surgiu com Hegel,
n u m a t e n t a t i v a de fundar u m a i d e o l o g i a que j u s t i f i c a s s e a
u n i f i c a ç ã o dos e s t a d o s g e r m â n i c o s a t r a v é s de uma " i d e n t i d a d e
u n i v e r s a l " um "si g e n e r a l i z a d o " , que s e r i a a essência da
identidade. Esta teoria teve sua difusão nos Estados Unidos
na p r i m e i r a m e t a d e do s é c . XX, a t r a v é s das idéi a s de George
H. Mea d, que co m seu "Interacionismo Simbólico" tomou o
c a m i n h o i n v e r s o ao de Hegel (porém, da m e s m a f orma ideal),
onde observa a ausência de uma identidade universal num país
únic o, proclamando o "outro generalizado", que s i g n i f i c a a
d i m e n s ã o que viabiliza a i n t e g r a ç ã o de toda e qualquer
sociedade, pois permite uma relação comum de identidade
(Ruben, Í988:8Í).

Mead (1972: 184 ), que c o n c e b e um e s t a d o único e


universal para toda sociedade onde são minimizados os
conflitos, d i f e r e n ç a s e d e s i g u a l d e s e n t r e as v á r i a s c u l t u r a s
que o c o n s t i t u e m (como é o exemplo do E s t a d o s Unidos e
Brasil); declara que "La comúnidad o grupo s o cial
organizados que proporciona al indivíduo su unidad de
persona pueden ser llamados 'el otro generalizado'. La
a c t i t u d dei otro g e n e r a l i z a d o es la a c t i t u d de toda la
comúnidad". 0 "ou tro generalizado" representa as reações
o r g a n i z a d a s de todos os m e m b r o s d o g r u p o ou s o c i e d a d e , onde
cada indivíduo adota continuamente as a t i t u d e s dos que o
rodeiam, é f u n d amental s a l i e n t a r m o s que o d i s c u r s o d o s M b y á
de B r a c u í e s t á d i r i g i d o a este "outro generalizado" (neste
caso, representado pelo pesquisador), pois simboliza o gue
e le s . lü lq a m - S j E x , a s e s p e c t a t iv a s q u e ..,o.s „ ,,b ra n ç o s.tê m d e le s ; ou
seja, é u m a r e s p o s t a a a c u s a ç õ e s como: "índios vagabundos,
alcoólatras, ateus", etc. Nestes depoimentos fica c l a r a a
p r e o c u p a ç ã o dos M b y á em r e c h a ç a r e m e s t e s e s t i g m a s . Em ú l t i m a
análise, a t e o r i a de Mead t e n t a n e u t r a l i z a r as d i f e r e n ç a s e
c o n f l i t o s de u m a o r g a n i z a ç ã o s o c i a l do t i p o e statal, muitas
v e z e s c o n s t i t u í d a por d i v e r s a s e t n i a s e s p e c í f i c a s .

A teoria contemporânea de i d e n t i d a d e é marcada


pela multiplicidade, diferença e o contraste <Ruben,
1988: 8 3 ) se o p o n d o à c l á s s i c a a p e n a s n e s t e sent ido, ou seja,
a noção de i r r e d u t i b i 1 i d a d e , porém , a categoria "outro",
c o m o a c r e s c e n t a R u b e n (198 8 : 8 6 ) n ã o muda. M a i s tarde, c o m os
c h a m a d o s " P ó s - m o d e r n o s " , c o m o D e l e u z e e Guat t a r i , aparece a
i déi a da d e s c e n t r a l i z a ç ã o do "out ro".

0 conceito de grupo étnico como forma de


organização so cial "organizational type" (Barth, 1969),
r e m e t e a e t n i c i d a d e c o m o um " m a p a s o c i a l " o n d e as p e s s o a s se
situam e se d e f i n e m frente aos " outros", é fundamental,
então, para o e s t u d o de u m a d a d a cul tura, c o m o foi visto
acima, identificarmos seus "símbolos étni c o s " ; pela
i m p o r t â n c i a d e s t e s na o r g a n i z a ç ã d de grupos-..S e g u n d o Velho
(19 72:8 1), "através deste 'mapa s o c i a l ' p o d e m o s v e r i f i c a r o
modelo consciente de uma imagem da sociedade comum ao
universo pesquisado".

Em "Los G r u p o s é t n i c o s y sus F r o n t e r a s " , Fredrik


Barth (197 6:15 ) define grupos étnicos como "tipo de
organização social ", afirmando que: "Una adscripción
c a t e g o r i a l es u n a a d s c r i p c i ó n é t n i c a c u a n d o c l a s i f i c a a una
p e r s o n a de a c u e r d o con su i d e n t i d a d e b á s i c a y más general,
s u p u e s t a m e n t e d e t e r m i n a d a por su o r i g e m e for maci ón. En la
m e d i d a en que los actores utilizan Ias i d e n t i d a d e s étnicas
p a r a c a t e g o r i z a r s e a sí m e s m o s y a los otros, con f i n e s de
interacción, form an grupos étnicos en este sentido de
organización".

A etnicidade surge em situações de contato


interétnico, pois, é na c o n s t a t a ç ã o da d i f e r e n ç a e na busca
da s c a r a c t e r í s t i c a s p e c u l i a r e s (fatores diacríticos) que os
g r u p o s h u m a n o s se distinguem uns dos ou tros. A identidade
s e l a os l i m i t e s entre "organizações" hu manas. Como aponta
B a rth (1 976:10), "... Ias d i s t i n c i o n e s é t n i c a s no dependen
de una a u s ê n c i a de i n t e r a c c i ó n y a c e p t a c i ó n s o c i a l e s j por el
c ont r a r i o , generalmente son el fundamento mismo sobre el
cual e stán construidos los sistemas sociales que Ias
cont i e n e n ".

Os limites, segundo B a r t h (1976:18) supõem que


t o d o s os m e m b r o s do grupo étnico estão "jogando o mesmo
jogo", e n q u a n t o os o u t r o s formam grupos sociais distintos.
P a r a e ste autor, "... la c o n s e r v a c i ó n de los l i m i t e s é t n i c o s
se encuentran situaciones de contacto social entre
indivíduos de diferentes culturas: los grupos étnicos
persisten como unidades significativas sólo si van
a c o m p a n a d a s de n o t o r i a s d i f e r e n ç a s en la condu ta, es de cir,
de d i f e r e n c i a s c u l t u r a l e s persisténtcs ..; la persistencia
de los g r u p o s é t n i c o s en ceffitacto i m p l i c a n o s ó l o critérios
a senales de identificacion, sino t amb i é n estruturas de
i n t e r a c c i ó n que p e r m i t a la p e r s i s t e n c i a de Ias diferencias
culturales".

R o b e r t o C a r d o s o de O l i v e i r a (1976:01) p a r t i n d o de
Barth, d e c l a r a que o c o n c e i t o de "et nia " é o "... uso que
uma p e s s o a faz de t e r m o s raci a i s , n a c i o n a i s ou religiosos
para se identificar e, desse modo, relacionar-se aos
outro s". P a r a C a r d o s o de Oliveira (1976:05), a essência da
identidade étnica é a i d e n t i d a d e de cont r a s t e , concordando
d e s t a f orma c o m Barth; pois a i d e n t i d a d e só se d e f i n e na
relação enquanto opo sição, nunca no isolamento; pois,
impl i c a na a f i r m a ç ã o de "nós" d i a n t e do "outro". C a r d o s o de
Oliv e ira, alhures (1983: 105 ), reafirma esta posição
d e c l a r a n d o que a e t n o l o g i a m o d e r n a e stá v o l t a d a p a r a e s t u d o s
da " c u l t u r a d e con tat o", pois a relação seria a essência da
p r ó p r i a et nia". Assim, as c a t e g o r i a s de identificação ou
c l a s s e s de r e p r e s e n t a ç õ e s se d e f i n e m na relaç ão, enquanto
c o n t r a s t e e n t r e "nós" e o " o u t r o " (não p r e t e n d e m o s , todavia,
8

formular quadros de o p o s i ç Ô e s b i n á r i a s da s categorias de


c o n t r a s t e a p o n t a d a s por n o s s o s i n f o r m a n t e s ) .

M a n u e l a C a r n e i r o da C u n h a ( 1 9 8 6 :Í08), p a r t i n d o de
M. Weber, define comunidade étnica como formas de
o r g a n i z a c o e s políticas-. "... a etnicidade, como qualquer
forma de r e i v i n d i c a ç ã o c u l t u r a l , é u m a f orma i m p o r t a n t e de
p r o t e s t o po lít ico". A etnicidade é vista, desta maneira,
como uma "categoria nativa" usada pelos integrantes do grupo
ao qual e s t á inscrita. Segundo esta autora (1986:99), a
etnicidade enquanto f orma de o r g a n i z a ç ã o política só se
m a n i f e s t a na d i á s p o r a ou em s i t u a ç a o de contato, sob forma
de " c u l t u r a de c o n traste".

Em "La Identidad", Claude Lévi-Strauss e


J e a n - M a r i e Benoist (1981) a b o r d a m a q u e s t ã o do e t n o c e n t r i s m o
e sua implicação epistemôîôgica para a Antropologia atua l ,
p r o b l e m a fundamentfa'1 a e s t a d i s c u s s ã o . Benoist (1981:13) faz
a s e g u i n t e in terrogação: "Sob que c o n d i ç õ e s um a a n t r o p o l o g i a
l e g í t i m a c u i d a d o s a em d e d i c a r - s e à d i v e r s i d a d e das culturas
e de b u s c a r os elementos estruturais que p e r m i t e m lê-la,
poderá escapar ao risco etnocêntrico da reinscrição da
i m u t a b i l i d a d e t a u t o l ó g i c a de u m a N a t u r e z a h u m a n a i d ê n t i c a a
si m e s m a e c o m p o s t a de u n i v e r s a i s ...?". Esta possibilidade
de reducionismo c ult u r a l também remete à questão da
identidade; pois, em ú l t i m a análi se, está relacionada a um
colonialismo epistemológico.

Como a a n t r o p o l o g i a p o d e r á e s c a p a r a e s t e t i p o de
e t n o c e n t r i s m o se a p r o p o s t a de " t r a d u z i r " d i v e r s a s culturas
é uma tentativa de a p r o x i m a ç ã o do "outro" ao campo do
entendimento, "civilizador ocidental", tornando-o mais
"familiar", m e nos "exó t i c o " e " a m e a ç a d o r " ? E x i s t e m s u b s í d i o s
t e ó r i c o s no s e n t i d o de s a ber se o " o u t r o " o p e r a uma " s í n t e s e
igual a que elab o r a m o s " , buscando maior compreensão do s
fenômenos sociais observados? Será, irônica e
contraditoriamente, a s u s p e n s ã o da diferença, fundamental
p a r a a c o n s t a t a ç ã o da e x i s t ê n c i a de o u t r a s c u l t u r a s ; o único
m e i o de aproximação e e n t e n d i m e n t o do "outro", que desta
forma é transformado em " p a r e c i d o " ou um "nós" de segunda
categoria?

Existe um espaço obsc u r o , uma "distância


d i f e r e n c i a l " que gera a descontinuidade no processo de
r e i a t i v i z a ç ã o e n t r e os g r u p o s huma n o s . Seria este o limite
d a s t e n t a t i v a s de i n t e r p r e t a ç ã o das o u t r a s c u l t u r a s ? S e g u n d o
L é v i - S t r a u s s (Í98 i : 3 ó 9 ) "...esta distancia diferencial no
p u e d e ser c u b i e r t a " . 0 c h a m a d o " P o n t o C e go" a p o n t a p a r a e s t e
p r o b l e m a c e n t r a l no e s t u d o da i d e n t i d a d e , como bem c o l o c a o
a u t o r a c i m a (i 98í:í7); p o i s se d e s c o n h e c e r m o s o " p o n t o c e g o "
corremos o risco de um etnocentrismo da anexação que
" c o n v e r t e o o u t r o em mim mesmo".

Em 1983, realizamos p e s q u i s a em d i v e r s a s escolas


de p r i m e i r a série, em F l o r i a n ó p o l i s ; por o c a s i ã o d o " D i a do
índio". Foram solicitados ao s al un os, desenhos que
retratassem a atualidade das populaçoes "indígenas"
brasileiras. 0 produto foi uma totalidade de imagens
mostrando canibais, índios americanizados, negros e outros
estereótipos. N o final de 1989 e i n í c i o de 1990 repetimos
esta mesma p e s q u i s a em outras escolas t a m b é m de primeiro
g r a u da p e r i f e r i a da a l d e i a H b y á no R i o de Jane iro . Após a
a n á l i s e e c l a s s i f i c a ç ã o do material colhid o, constatamos a
semelhança êntre os r e s u l t a d o s da pesquisa anteriormente
r e a l i z a d a em F l o r i a n ó p o l i s , e a de A n g r a do s R e i s (estes
desenhos encontram-se a n e x o s ao final d e s t a dissertação).
N e u z a G u s m ã o (A N P O C S - 1 9 8 6 ;13) a f i r m a que " o c o n t e ú d o d e u m a
p i n t u r a e x p r e s s a as t e n d ê n c i a s s o c i a i s de seu tempo. Contém
ainda, dados emocionais, psicológicos e expressivos relatos
de v a l o r e s " .
Í0

A visão de mundo das crianças é profundamente


i n f l u e n c i a d a p e l o c o n t e ú d o i n f o r m a t i v o dos l i v r o s d i d á t i c o s ,
que, muitas vezes, transmitem im ag ens inpregnadas de
preconceitos e valores unilaterais. Esta "Ideologia do
R e c a l q u e " é v e í c u l o de v a l o r e s da s o c i e d a d e d o m i n a n t e , que
são incutidos p e los meios de comunicação e órgãos
institucionais (como a escola), e interiorizados pelos
membros de uma sociedade pluriétnica e paradoxalmente
racis t a , c o m o é o c a s o do B r a s i l .

D a r c a fíibeiro (i979:2ií), em carta dirigida a


R o b e r t o da Matta, lamenta o problema exposto a c ima, e
declara; "... me dói d e m a i s que por c u l p a de quem quer que
seja, tanta meninada b r a s i l e i r a t enha dos nossos índios a
i m a g e m que vê nos f i l m e s d e faroest e". Sílvio Coelho dos
Santos (Í97 5;6 i), falandW do funcionamento das e s c o l a s da
FUNAI , r e l a t a o c a % o de u m a c r i a n ç a K a i n g a n g de 13 anos, com
anotações em se u caderno ditadas por uma professora,
contendo "referências estereotipadas sobre as populações
indí g e n a s , que o c u p a v a m no p a s s a d o o País, e n e m u m a única
i n f o r m a ç ã o n o p r esen te, n e m s o b r e a h i s t ó r i a ou o cotidiano
d o s e u g r u p o a o qual o g a r o t o p e r t e n c i a " .

M e s m o com a d i s t â n c i a tempor al e geográfica, não


foi o b s e r v a d a qual q u e r a l t e r a ç ã o no q u a d r o apontado pela
primeira pesquisa realizada em Florianópolis. Percebemos,
ent ão, a n e c e s s i d a d e de um e s t u d o a n t r o p o l ó g i c o atual, junto
a algum grupo específico. Escolhemos os Mbyá, pois
p r e t e n d í a m o s t r a b a l h a r um g r u p o em c o n t a t o c o m a sociedade
envolvente; e, ao mesmo tem po, mantendo sua cultura e
identidade próprias. A aldeia guarani de B r a c u í nos foi
indicada para a pesquisa, por f u n c i o n á r i o s do Museu do
índio, co m os qua is m a n t í n h a m o s c o n t a t o há a l g u m tempo.

Pretendemos que, posteriormente, esta pesquisa


seja exibida em escolas de primeiro e segundo gr aus;

objetivando mostrar, principalmente através de recurso


audiovisual (que p o d e f a c i l i t a r o entendimento e acesso às
in f o r m a ç õ e s ) , a r e a l i d a d e atua l dessas populações. Alguns
profissionais da educaçao poderão ser treinados por
Antropólogos, para executarem este trabalho com eficiência,
j u n t o às i n s t i t u i ç õ e s de ensi n o . A c r e d i t a m o s que d e s t a f o r m a
poderemos contribuir para a tentativa de reverter a
lamentável situação acima colocada.

M e t o d o lo g ia

é importante para o total entendimento desta


pesq u i s a , colocarmos aqui os parâmetros metodológicos e
técnicos utilizados. A observação e a entrevista foram
nossos meios de a c e s s o aos d a d o s e m campoj apoiados por
fotografias (e diapositivos) e gravações em fita de
a u d i o c a s s e t e . D e s t a forma, todos os f at os o b s e r v a d o s foram
a c o m p a n h a d o s por registro audiovisual, e detalhado texto
e s c r i t o (para m e l h o r d e s e r i c ã o ) , que s i t u a e stes r e c o r t e s no
c o n t e x t o geral do u n i v e r s o a n a l i s a d o . C o n f o r m e os o b j e t i v o s ,
observamos, principalmente, os f a t o r e s lig ados à q u e s t ã o da
etnicidade; especificamente: os s í m b o l o s étnicos contidos
nos discursos do s informantes, os critérios de
auto-def inição, representação do ■
’out ro ", e conflitos
d e c o r r e n t e s do contato.

0 tipo de entrevistas utilizadas para abordar


questões como "auto-definição" e representação do "outro",
f o r a m as semi-abertas ou s e m i - d i r i g i d a s , t ent ando, desta
forma, ma nter um diálogo sincero e informal com nossos
i n f o rmantes; seguindo, entretanto, um roteiro
preestabelecido, objetivando maior espontaneidade e
objetividade nas respostas. Preocupamo-nos, p o rém, em
r e t o m a r o c o n t e ú d o do a s s u n t o e n f o c a d o q u a ndo a n a r r a t i v a se
d e s v i a r a pa ra t e m a s n ã o pertinentes. Os a s s u n t o s abordados
Í2

■foram: migrações; vida na alde i a ; visita à outras


comunidades Mbyá (principalmente às que se encontram em
á r e a s de o u t r o s grupos) ; conflitos com brancos e outros
g r u pos; religião. Estas foram a l g u m a s das p e r g u n t a s feitas
aos M b y á de Bra cuí : "Cíuem é Mbyá?", "Como vive o Mb yá?";
" C o m o é, e c o m o vivem, outros í n d i o s d i f e r e n t e s que voeis
tiveram contato?"; "Estes grupos eram Guarani também?";
"Como vive o Guarani?", "Quem é Guarani autêntico?"; etc..
é interessante relatar que só inicialmente houve
n e c e s s i d a d e de c o l o c a r m o s e s t a s p e r g u n t a s ao s informantes;
pois, decorridas algumas semanas, toda comunidade demonstrou
saber qua is e r a m os a s s u n t o s de n o s s o i n t e r e s s e . Isto t o r n o u
desnecessário fazermos indagações a eles. (iuando nos
encontrávamos com algum c o l a b o r a d o r Mbyá, este, após os
cumprimentos, iniciava imediatamente a conversa, dentro do
t e m a que no s i n t e r e s s a v a

Neste diálogo com "o o u t r o " buscamos trabalhar


seus símbolos e seus respectivos significados, situando-os
no c o n t e x t o grupai. P a r a tanto, foram entrevistadas pessoas
de sexo, idade e locais de nascimento diferentes;
objetivando maior abrangência dos da dos, para só então
reconstruir os acontecimentos individuais ( mig r a ç õ e s ,
nascimentos e mortes familiares, et c.), enfocando a visão
individual e coletiva. P a r a r e g i s t r a r e v e n t o s e h i s t ó r i a s de
vida, u s a m o s g r a v a d o r a u d i o c a s s e t e , c u j o p r o d u t o p r o c u r o u - s e
transcrever e reorganizar, cuidadosamente, d e n t r o de certos
critérios científicos. Nesta parte das entrevistas tentamos
abordar especificamente os símbolos das representações
é t n i c a s d o s Mbyá. Organizamos sistematicamente todos estes
d a d o s d e campo, para posteriormente analisá-los e situá-los
no u n i v e r s o d a s t e o r i a s c r í t i c a s d o s p r o b l e m a s em que stã o.

A parte fotográfica d e s t e t r a b a l h o foi realizada


c o m o a u x í l i o de n o s s o s i n f o r m a n t e s , qu e a p o n t a v a m objetos,
pessoas e/ou eventos significativos; p r o c e s s o que procurou
Í3

buscar dados conscientes de representação, e criar um


registro vis ual . As fotografias mostram também alguns
aspectos da cultura mater i a l do grupo abordado. Estas
imagens f o r a m p r o d u z i d a s por n o s s o s c o l a b o r a d o r e s K byá, que,
desta forma, nã o fora m reduzidos a meros objetos de
observação científica, d e s p r o v i d o s de seu carater h u m ano.
E s t e r e g i s t r o visua l c o n s t i t u i u t a m b é m o que p o d e m o s chamar
de m e m ó r i a da p esquisa, registrada democraticamente pelo e
p a r a a m b o s os lados, ou seja, p e s q u i s a d o r e i n f o r m a n t e s ; e,
por que não, um p a r â m e t r o de i d e n t i d a d e .

Em publicação do Museu do índio sobre


Antropologia Visual (0 9/Í986), a etnóloga Cláudia Meneses '
a p o n t a o i m p o r t a n t e papel da f o t o g r a f i a , que h o j e é c a d a vez
m a i s u t i l i z a d a em documentação e pesquisa científica; nã o
apenas como mero recurso ilustrativo, mas como autêntico
m e i o de e x p r e s s ã o n o s e s t u d o s a n t r o p o l ó g i c o s . Meneses afirma
que "o cinema e a fotografia associados à pesquisa
sociológica, tornam-se instrumentos de i m p o r t â n c i a capital
tanto na instrução popul ar, quanto para recuperação do
p a s s a d o h i s t o r i c o da s p o p u l a ç õ e s i n d í g e n a s

é i m p o r t a n t e r e l a t a r que n o s s o a c e s s o à a l d e i a de
Bracuí aconteceu por i n t e r m é d i o de um convite feito pelo
C a c i q u e do grupo, que p r e t e n d i a fazer u m r e g i s t r o e s c r i t o e
v i s u a l de sua comunidade, mostranto a "cultura e povo
Guarani". 0 lider Mbyá deixou clar o, poré m, qu e nossa
p r e s e n ç a n a a l d e i a d e p e n d i a da a u t o r i z a ç ã o da c o m u n i d a d e e,
principalmente, sua. Para tanto, foi realizada uma
assembléia, c o n t a n d o c o m t o d o s os m e m b r o s d a a l d e i a , visando
d e c i d i r n o s s a p e r m a n ê n c i a e n t r e eles. M e s m o c o m a aprovação
da maioria, no início desta pesquisa tivemos muitas
dificuldades, em f u n ç ã o da g r a n d e r e s i s t ê n c i a de a l g u n s em
d a r e m q u a l q u e r tipo de i n f o r m a ç ã o . Levamos várias semanas
para conseguirmos conversar com um Mbyá. Quando nos
a p r o x i m á v a m o s de um possível informante, e s t e se afastava
Í4

rapidamente, sempre em s ilêncio. As casas estavam quase


s e m p r e f e c h a d a s p a r a nos. F o m o s a c o m p a n h a d o s constantemente
e de perto por um h o m e m de confiança do Cacique, que
m o s t r a v a n o s s o s l i m i t e s na aldeia. Os a s s u n t o s m a i s e v i t a d o s
por n o s s o s i n f o r m a n t e s f oram os liga dos , principalmente, à
sua r e l i g i o s i d a d e . Estes Guarani estavam tentando controlar
o f luxo de i n f o r m a ç õ e s que c h e g a v a m a t é nós. Quando fomos
a c e i t o s p e l a c o m u n i d a d e o c o r r e u um fato m u i t o interessante;
ao c h e g a r m o s na a l d e i a no final de u m a tarde, um d o s a n c i õ e s
que e s t a v a r e u n i d o c o m um p e q u e n o g r u p o de h o m e n s Mbyá, se
l e v a n t o u e disse; " v o c ê é K araí P i a m b ú " ( " a q u e l e que b a t e o
pé no c h a o"). Posteriormente nos i n f o r m a m o s que e s t e e r a o
nosso "nome Guarani" (ta l v e z s i m b o l i z a n d o i n c l u s ã o , processo
que s e r á abordado adiante), que, entretanto, nunca foi
u t i l i z a d o por n o s s o s c o l a b o r a d o r e s que p r e f e r i a m n o s tratar
pelo "nome português". 0 Cacique inicialmente nos
a c o m p a n h a v a de p e r t o (e a q u a l q u e r v i s i t a n t e , índio ou não)
t ent ando, d e s t a forma, c o n t r o l a r as t r o c a s de informações
com "os de fora". I s t o d i f i c u l t o u a c o l e t a d e dado s. 0 líder
da a l d e i a de B r a c u í e x i g e o c o m p o r t a m e n t o s i l e n c i o s o de sua
comunidade, quanto a quest'õés'*consideradas i m p o r t a n t e s , na
m a i o r i a d a s v e z e s l i g a d a a r e g r a s de c o n d u t a social, língua
e reli g i ã o . A l g u n s deles, após diminuída a desconfiança,
declararam ter sidos proibidos de abordarem temas
considerados sagrados (como: A T e r r a se m Mal, r i t u a i s de
reza, mo rt e, nascimento, etc.).

Os M b y á d e m o n s t r a r a m em suas r e p r e s entações ter


c o n s c i ê n c i a da " p obreza", preconceitos e outros problemas
que os a t i n g e m . Percebemos, to dav ia, algumas discrepâncias
entre o que observamos, e os d i s c u r s o s apresentados por
nossos colaboradores (ex.: "Aqui em Br acuí , Guarani não
bebe"; todavia encontramos alguns Mbyá embriagados na
periferia da ald eia , p r i n c i p a l m e n t e d u r a n t e os finais de
sema n a ! ) . O s l i m i t e s c o l o c a d o s por e s t e s g u a r a n i enfatizara o
CACIQüE ACOI^PANWA V16»TAMTEô
d i s c u r s o d e l e s p a r a o "o ut r o " (o p e s q u i s a d o r ) ; e deles para
a própria comunidade, p o i s em suas falas o Cacique quase
s e m p r e er a o b s e r v a d o por u m g r u p o de Hbyá. Mesmo passados
a l g u m t e m p o as b a r r e i r a s n ã o f o r a m t o t a l m e n t e a b o l i d a s e n t r e
"eles", os Mbyá; e "nós", "o o u t r o g e n e r a l i z a d o " , "o branco
civilizado", "o e s t ranho". Esta pesquisa, então, é o
r e s u l t a d o d o que os Guar a n i de B r a c u í queriam expressar e o
que e l e s d i s s i m u l a r a m em t e r m o s de i n f o r m a ç ã o (considerando
que e s t e c o n t r o l e t a m b é m é s i g n i f i c a t i v o ) .

Os p r i m e i r o s c a p í t u l o s d e s t e trabalho (de 2 a 8)
destinam-se a relatar dados etnográficos e informações de
c a r a t e r étnico. No capítulo nove procuramos analisar a
q u e s t ã o das m i g r a ç õ e s e sua relação com o paraíso mítico
Guarani, Yvy M a r a E y . No c a p í t u l o dez t e n t a m o s t r a b a l h a r com
as d e c l a r a ç õ e s d o s M b y á s o b r e o c o n t a t o c o n f l i t u o s o o c o r r i d o
entre eles e outros grupos étnicos, incluindo acusações de
a s s a s s i n a t o e, at é mesmo, "antropofagia". 0 último capítulo
(íi), de caráter conclusivo, trata especificamente das
r e p r e s e n t a ç õ e s é t n i c a s dos M b y á de Bracuí. Observamos aqui,
qu^ f o r a m r e t i r a d a s t o d a s a s n o t a s de ro dapé, que passaram
efetivamente a fazer parte do corpo da redação. Nosso
o b j e t i v o co m is to é evitar interrupções desnecessárias,
facilitando assim a leitura e ententimento desta
dissertação.

E s p e r a m o s que o presente estudo possa colaborar


p a r a um c o n h e c i m e n t o maio r e mais atualizado da cultura
Guarani, e, e s p e c i f i c a m e n t e , no e s c l a r e c i m e n t o das questões
é t n i c a s que e m e r g i r a m d e c o r r e n t e s dos q u a s e q u i n h e n t o s anos
d e c o n t a t o d o s M b y á co m a s o c i e d a d e o c i d e n t a l .
Í6

Not a s

* »■> Gee rtz , citando Langer, define símbolo como "qualquer


at o ou o b j e t o físico, soc ia l, ou c u ltural, que s e r v e de
veículo à concepção" (Í978; Í78 ).

As representações l i g a d a s às categorias étnicas sã o


denominadas por Gilberto Velho (1 97 2:6 6) "unidades
mínimas ideológicas" ("índio", "br anc o", "povo",
"elite", etc.), p r o d u t o do c o n t r a s t e (conforme Cardoso
de O liveira, 1976).

Religião como "sistema simbólico que m o d e l a a ordem


social e cósmica, dando sentido ao m u n d o e à vida do
i n d ivíduo"; de a c o r d o c o m G e e r t z (1978).
s- H IS T Ó R IC O

Os Mbyá**-’ ou J e g u a k á T e n o n d é P o r ã - g u é como
se a u t o d e n o m i n a m , pertencem ao g r a n d e tronco linguístico
t u p i - G u a r a n i . São provenientes do n o r d e s t e da Argentina,
l e s t e do P a r a g u a i ( p r i n c i p a l m e n t e de G u a í r a e H o n d a y ) e sul
do e s t a d o d o H a t o G r o s s o do Sul no Brasil. D e p o i s da Guerra
do P a r a g u a i , os G u a rani que r e s t a r a m iniciaram migrações
p a r a o leste, em d i r e ç ã o à costa brasileira; juntando-se a
g r u p o s que já v i v i a m em se us a n t i g o s t e r r i t ó r i o s . Atualmente
os M b y á e n c o n t r a m - s e e s p a l h a d o s ao sul do Bra sil , no Estado
de Sã o Pau lo, Rio de Janeiro e Espírito Santo; em outros
p a í s e s da A m é r i c a do Sul, c o m o P aragu ai, Argentina (ver
S c h a d e n 1963 :85, 1974) e U r u g u a i (Revista Katu g u a , 1989:7).
De a c o r d o c o m M.I. Ladeira (19 89:58), "Alguns agrupamentos
são notados aiiicla no Maranhão, numa área das reservas
Guajajara, no To cantins; na aldeia Karajá do Norte, em
X amb ó i a ; e no Posto Indígena Xerente, em T o c a n t í n i a " .

Os Guarani*®* do B r as il divideiti-se em três


s u b g r u p o s (Sch ade n, Í974:S): os Kay ová, Nandéva e Mbyá.
Segundo Alfred Mét r a u k (í-^9.48:70 ), os Guarani, que
inicialmente eram conhecidos como C a r i j ó (-Carió, C a r i x ó ou
Kari ' 0 ) , f o r a m s e n h o r e s da c o s t a a t lânt ica, d e s d e a B a r r a da
Cananéia ao Rio Grande do Sul (onde era o gi^upo mais
numeroso), a p a r t i r daí a t é os r i o s Paraná e Paraguai. à
importante ressaltar que a região onde atualmente se
e n c o n t r a m os Mbyá de Bracuí, ou seja. Angra dos Reis,
inclui-se nesta área p o v o a d a anteriormente pelos próprios
G uar ani, que foram completamente dizimados do lito r a l
durante a colonização brasileira.

A n t e s da con q u i s t a , a divisão entre Tupi (que


a l c a n ç a r a m o litoral do s u d e s t e e nordeste) e Guarani (que
c o n t i n u a r a m n o sul), conforme Métraux (1948:69), do mesmo
t r o n c o l i n g u í s t i c o , se deu por m o t i v o de g r a n d e s migrações
que os dispersou em várias dire ç õ e s . Bartolomeu Meliá
Í8

(Í9 89;£49> d e c l a r a que "0 t u p i - 6 u a r a n i , como l í n g u a e como


cultura, é um r a m o do t r o n c o t u p i m a i s antigo, a p a r t i r do
qual toma características próprias e diferenciadoras
p r o v a v e l m e n t e a p a r t i r do p r i m e i r o m i l ê n i o a n t e s de C r i sto,
u n s 3<ò<ò<ò a £500 anos atrá s. Os m o v i m e n t o s de migração,
originados na bacia amazônica, ter-se-iam intensificado
motivados, tal vez, por um notável aumento demográfico numa
é p o c a que c o i n c i d e c o m o c o m e c o de n o s s a era, h á u n s £000
anos atrás. Esses grupos que conhecemos como Guarani
p a s s a r a m a o c u p a r as s e l v a s s u b t r o p i c a i s do alto P a r a n á , do
P a r a g u a i e do U r u g u a i M é d i o " .

No século XVI o sistema de "encomiendas"


( s e m e l h a n t e ao " s e s m a r i a s " n o B r a s i l ) , imposto p e l a E s p a n h a ,
levou à morte m i l h a r e s de Guarani a t r a v é s de guerras e
escravidão. Na r e g i ã o do G u a í r a , d e onde é proveniente a
maioria dos Mbyá (Cadogan, 1960:130), viviam cento e
c i n q ü e n t a mil G u a r a n i , que foram escravizados e mortos por
brancos, que posteriormente ocuparam sua s terr a s . Os
r e s t a n t e s p a s s a r a m a vi ve r j u n t o a o s j e s u í t a s em "reducôes"
ou “mis sões", que mais ta r d e foram também destruídas pelos
bandeirantes (Pires, 1 9 80:186). A l g u n s outr o s sobreviventes
f u g i r a m p a r a o i n t e r i o r das f l o r e s t a s .

León C a d o g a n (1950:233), s u s t e n t a que os Mbyá , em


r e l a ç ã o aos o u t r o s d o i s s u b g r u p o s Guara n i , n unc a v i v e r a m nas
reduções, sòfrendo o m í n i m o de c o n t a t o com a civilização.
Por e s t e mot ivo, os M b y á são chamados pelos outros Guarani
de K a 'ynguà, o u seja, "habitantes d a selva". C o n t a u m mito
c o l h i d o no P a r a g u a i por C a d o g a n (196 0 : 1 3 3 ) que, a o r i g e m do
M b y á se deu em "Yvy Mbyté", o c e n t r o da terra, l o c a l i z a d o em
Caaguazú, no m e i o da flo res ta; l u gar onde t eria o c o r r i d o a
u n i ã o do deus N a n d e Jary i e u m a b e l a do nzela, engendrando
Paí R e t é Kua ray , o pai do p o v o G u a r a n i .
Í9

A p o p u l a ç ã o M b y á no B r a s i l é de c e r c a d e d o i s mil
indivíduos (Pires, Í980-.Í94 - não possuímos dados precisos
m a i s atuais), de stes, apenas 878 vivem junto aos postos
i n d í g e n a s (Santos, Í9 75: 23 ), pois, até recentemente nã o
possuíam nenhum aldeamento definitivo, sendo comum
e n c o n t r á - l o s e m p e q u e n o s g r u p o s c i r c u l a n d o p e l a s r o d o v i a s do
país . Os M b y á que vivem em r e s e r v a tendem a se isolar,
buscando o mínimo de contato com a sociedade nacional.
Trabalham esporadicamente como empreiteiros em lavouras,
serrarias e outros serviços temporários. São r e l u t a n t e s em
manter grandes rocas, procurando cultivar produtos de
c o n s u m o imed iato. Estes dados somados à f a l t a de recursos
naturais (provocados pela colon i z a ç ã o branca e pelo viole n t o
p r o c e s s o de destruição das florestas brasileiras), geram
grandes períodos de fome ( c o n f o r m e S a n tos, 1975 : 2 5 ) , que
c o n t i n u a m a t a n d o a e s c a s s a p o p u l a ç ã o que r e s t o u do s Guarani
do passado. T a n t o os Mbyá, q u a n t o a m a i o r i a do s G u a r a n i , se
encontram hoje numa situação de misé r i a , pobres e
desterrados. As doenças, a subnutrição e o alcoolismo
( p r o b l e m a de q u ase todo,^ os g r u p o s " i n d í g e n a s " brasileiros)
têm reduzido de f orma dramática se u contingente
populacional.

0 p r o b l e m a da s a ú d e e s t á e s t r e i t a m e n t e r e l a c i o n a d o
à questão da f alta de terr a s , "com uma boa terra pode
plantar, caçar, p egar r e m é d i o no mato,- n i n g u é m fica d o e n t e " ,
d e c l a r a o C a c i q u e Hbyá, V e r á Mi rim. 0 g r u p o de B r a c u í p a s s o u
p e l o s e s t a d o s do sul do B r a s i l , e m b u s c a de t e r r a s p r ó p r i a s ,
onde não sofressem tantas pressões nos contatos
interétnicos. Em entrevista à revista Mbyá-Guarani
(1990:7-8), Maria Ismaela Aquino, enfermeira Mbyá do
Paraguai, relatando sua e s p e r i ê n c i a como representante de
se u p o v o na "Consulta Continental sobre el R a c i s m o en las
A m é r i c a s y el Carib e", realizado de 2 3 a 29 de s e t e m b r o de
1990, n o R i o de Janeiro, d e c l a r a a u r g ê n c i a da r e s o l u ç ã o do
20

p r o b l e m a da t e r r a p a r a os G u a r a n i : "El p r o b l e m a principal
para nosotros, los Mbyá, es la gran d e f o r e s t a c i ó n en el
campo...Ya tenemos problemas g r a v e s de s a l u d por falta de
alimientos. Los b l a n c o s s i e m p r e d i c e n que los i n d í g e n a s no
sirven para nada porque no quieren t r a b a j a r . Pero ellos no
s a b e n que antes teniamos todo lo que n e c e s i t a m o s en la
selva...". I s m a e l a f*ala tam bém, de g r u p o s M b y á que s a i r a m do
P a r a g u a i por c a u s a da f alta de terr as, e se d i r i g i r a m p a r a o
Uruguai; o n d e forara a s s e n t a d o s em cinco comunidades, cdm o
auxílio da Associação Indigenista dei Uruguay. Segundo
lam aela , "..el g r u p o según sus p r o p i a s e x p r e s i o n e s , quiere
e n c o n t r a r su t r a n q u i 1 i d a d " . A revista denuncia, também, a
i n v a s ã o de t e r r a s Mbyá, por b r a s i l e i r o s , grupos japoneses,
e m p r e s a s l o t e a d o r a s e outr os. "... el ej e de la p r o b l e m á t i c a
M b y á se e n c u e n t r a en la p o s e s i ó n de la tier r a . H á s de vinte
comunidades Mbyá e stán s o l i c i t a n d o el a c c e s o le gal a Ias
t i e r r a s que ocupan, c o m o ú n i c á f o r m a de d e f e n d e r y proteger
su c u l t u r a y s u s vidas, ante el a v a n c e de la Sociedad
N a c i o n a l s o b r e sus t e r r i t ó r i o s " .

A "íírea Indígena de Bracuí" está atualmente


(1990) em fase de demarcação pelo INCRA, que deverá ser
concluída ate o final de i99í. Em função da grande
e s p e c u l a ç ã o i m o b i l i á r i a na r e g i ã o do litoral R i o - S a n t o s , os
Mbyá vêm sofrendo grandes pressões da sociedade branca
envolvente. Outros grupos " i n d í g e n a s " os discriminam por
serem obrigados a dividir p a r t e de suas áreas com estes
Guarani (com o é o caso da r e s e r v a de Ibirama em Santa
Catarina, o n d e co nvi v em, a l é m dos X o k l e n g s e u s p r o p r i e t á r i o s
legí t i m o s ; os Ka ing ang, Hbyá, e um g r u p o de " C a f u s o s " ) . Este
t i p o de c o n t a t o vem gerando graves s i t u a ç õ e s de conflito.
Por e s t e s m o t i v o s os "intrusos" e sempre "marginais" Mbyá,
s ã o i m p e d i d o s de d i spor de qualquer recurso das áreas onde
vivem. Neste tipo de contato denominado por Cardoso de
Oliveira (19 76.2 4) "fricção interétnica", os Hbyá

encontram-se assimetricamente relacionados, n u m a s i t u a ç ã o de


dominação e sujeição a estes outros gr up o s . A presença da
" e s c o l a do branco", que p r o p o e uma e d u c a ç ã o qu e visa à
s u b m i s s ã o ou d i l u i ç ã o dessas minorias tribais à sociedade
nacional (conforme Sant os, i975 ; 5 3 > ; e a penetração de
grupos religiosos de inúmeros credos, que procuram
" c o n v e r t e r os índio s"; também vêm gerando graves cris e s de
identidade, e a t é s u i c í d i o s e n t r e os Guara n i .

Os c o n f l i t o s interétnicos gerados pela falta de


t e r r a s tê m provocado migrações e n t r e os Mbyá de diversas
aldeias. Uma dessas migrações levou o grupo liderado por
J o ã o d a S i l v a a Bracu í, r e g i ã o que d i s t a 25 km d e A n g r a dos
Reis, lit o r a l sul, a 200 km do R i o de Janeiro; onde foi
realizada esta pesquisa. No e s t a d o do R i o de J a n e i r o está
localizada outra aldeia também Mbyá, a de Araponga em
Patrimônio, P a r a t i . A A l d e i a de B r a c u í se f o r m o u a p a r t i r de
f a m í l i a s p r o v e n i e n t e s de C h a p e c ó e Ibirama (SC), Paranaguá
(Ilha da Cotinga) e M a n g u e i rinha.__ (PR). Posteriormente
c h e g a r a m g r u p o s de outras comunidades, como Ü b á t u b a -e- R i o
S i l v e i r a no li toral do E s t a d o de S ã o Paulo.
£2

N o tas

Mbyá, ou M b u á = gente, p o v o (Cadogan, 1950:233). Segundo


Schaden ( 1 963:83), existe grande confusão quanto ãos
nomes dos vários g r u p o s em que se d i v i d e m os Guarani,
por e s t e m o t i v o a d o t a m o s e s t a n o m e n c l a t u r a em o b e d i ê n c i a
ao que e s t a b e l e c e a convenção sobre a g r a f i a de nomes
tribais firmada por ocasião da Primeira Reunião
Brasileira de Antropologia, 1953, Rio de Janeiro.
Cadogan ( 1946: 15) recolheu diversos nomes do mesmo
subgrupo, no Paraguai; a l é m de Mbyá, Mbyá-Apytaré e
K a'y n g u â .

Em português significa "os primeiros ou principais


homens belos". Aos s e u s v i z i n h o s A v á - x i r i p á , ou N a n d é v a ,
também Guarani, chamam " j e g u a k á mirí", que quer dizer
anoes ( C adogan, 1946: 15). J .M . B e n o i s t (1981:12) em "La
Identidad", cita L é v i - S t r a u s s que fala da questão do
e t n o c e n t r i s m o : “...um grupo p e n s a que 'a humanidade'
t e r m i n a na f r o n t e i r a da trib o, d o g r u p o l i n g u i s t i c o ou,
até me smo, da aldeia... se autodenominam 'os homens',
'os bo ns', 'verdadeiros', ...".

Schaden ( 1 9 89:22), em n o t a de r o d a p é ( nota 23), afirma


que a d e s i g n a ç ã o G u a r a n i ("guerreiros") foi d a d a pelos
j e s u í t a s a c e r t o n ú m e r o de t r i b o s da r e g i ã o p l a t i n a . 0
a u tor fala, t a m b é m na m e s m a nota, dos mitos eponímicos
que " d e v e m s u a existência à personificação do nome da
tribo" , r e f e r i n d o - s e e s p e c i f i c a m e n t e a u m m i t o que t r a t a
da s e p a r a ç ã o entre os Tu pi e Guarani, segundo ele,
" i n e x i s t e n t e nos textos quinhentistas, e começando a
a p a r e c e r a p e n a s no s é c u l o XMI II" .
T E R R A IN D iqEN A DELIMITADA

U X A L IZ A Ç À O PA A1.DEIA

C U R 5 0 D'AQUA

R O D O V IA

U N H A D E EHEfiCilA PE ALTA T E N 5 Ã O
o GRUPO MBYA DE BRACUl
N €LSO M e > e N lT £

X D A l i n JA E Æ W ir e
R A lM U h iD O B é M lT C

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3 - A A L D E IA DE BRACUx

"Tupi, or not tupi that is the «westicm."


(Osmldo de todrade, Kanilesto Antropófago)

0 g r u p o de J o ã o da Silva, c o n h e c i d o e n t r e outros
M b y á por V e r á M i r i m ("pequeno relâmpago"), c h e g o u em Angra
do s R e i s no dia 8 de d e z e m b r o de 1987 v i n d o da Ilha da
Cotinga em P a ran aguá, litoral do Paraná. Nesta ocasião
v i e r a m c e r c a de d u z e n t a s pesso as, segundo censo feito pela
e n f e r m e i r a da F U N A I que os acompanhou durante a v i a gem;
s e n d o que m u i t o s d ele s eram parentes do C a c i q u e . Ap ó s a
chegada deste primeiro grupo, apareceram diversas famílias
que foram se agregando à comunidade; enquanto outras
partiam. Atualmente a população desta aldeia oscila entre
c e n t o e o i t e n t a a d u z e n t o s i n d ivíduos, incluindo visitantes
(número este que po de mudar em função dai~costantes
migrações, como v i m o s aci ma), d i v i d i d o s em trinta e oito
f a m í l i a s nucl e a r e s . A á r e a de B r acu í p o s s u i 7 0 0 h c . Cortada
p e l o R i o Itatinga, está localizada no M o r r o B i c o da Arraia
na S e r r a do Mar, a t r e z e n t o s m e t r o s de a l t i t u d e em relação
a o nível do mar. 0 lugar é isolado e de difícil acesso
( c e r c a d o por um pequeno povoado formado basicamente por
negros) apesar de esta r entre os dois maiores centros
u r b a n o s d o país. h apenas 22 km d a aldeia encontra-se a
Usina Nuclear Angra I. Fonte de grandes temores esta
" f a b r i c a de fogo", c o m o c h a m a m os Mbyá, e s t á r e l a c i o n a d a por
eles à uma profecia g u a r a n i que a n u n c i a o final do mundo,
p r o v o c a d o por um g r a n d e i n c ê n d i o (este a s s u n t o s e r á melhor
abordado adiante).

0 d e c r e t o e s t a d u a l n ú m e r o 9347, de 11 de novembro
de 1986, aprovou a área indígena de B r a c u í na g e s t ã o do
então Governador do E s t a d o do R i o de Jane i r o , Leonel de
Moura Brizola. Este decreto d e c l a r a de utilidade pública
p a r a f i n s de d e s a p r o p r i a ç ã o , a área mencionada, situada na
iode.- Exiicu'lvo AqJ c X c JL'I J'.i.
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b C iu tlC T
4r ftpcvtt^ nî* r L i V iC J - ' 'A ’< t t b

Decreto de cria çã o da' A r e a I n d i jena de Sracui


24

R e g i ã o de Bracuí, s e g u n d o d i s t r i t o do M u n i c í p i o de A n g r a d o s
Reis, n o E s t a d o do Rio de J a n e i r o ; n u m p r o c e s s o i n i c i a d o em
Í983.

Jehan Vellard (Í933:3i5) que e s t e v e e n t r e os Mbyá


d u r a n t e s u a s v i a g e n s ao P a r a g u a i , em 193Í, descreve uma de
s u a s alde i a s , localizada na r e g i ã o do Pac uri, perto de
Caaguasú; " H a b i t a m as c l a r e i r a s d a -Floresta em c a b a n a s de
m a d e i r a e p a l h a m u i t o bem fei ta s. Nos arredores eles fazem
plantações, em geral insuficientes, de milho.. . do qual
possuem variedades especiais, e também de ta baco. Eles
colhem a e r v a - m a t e na floresta, preparando sua f o l h a com
procedimentos primitivos...".

A aldeia de B r a c u í é formada por 30 habitações


d i s t r i b u í d a s d i v i d i d a s èm p e q u e n o s n ú c l e o s ; sendo o c e n tro,
a residência do Cacique e a Opy que é a c a s a de reza. Em
t o r n o d e s t a e s t ã o os p a r e n t e s ^mais p r ó x i m o s de V e r á Mirim.
Ao l a d o da c a s a do líder da c o m u n i d a d e r e s i d e sua s o g r a com
os f i lhos s o l t e i r o s desta. As O o ( f o t o na p á g i n a seguinte),
como os Mbyá chamam suas habitações, são pequenas
c o n s t r u ç õ e s de duas águas, feitas com troncos (cortados a
m a c h a d o de f o r m a l o n g i t u d i n a l ), ou bambu, f i n c a d o s no chão,
amarrados a uma travessa no sentido horizontal, com cipó
guae mbé ; c o m e x c e ç ã o da Opy, c u j a s paredes são feitas com
madeira mais resistente, presas com pregos, e revestidas de
barro, ( a l g u m a s c a s a s m a i o r e s t i n h a m d o b r a d i ç a s d e f e r r o nas
p o r t a s ) . Nenhuma das Oo visitadas possuía jane l a s , e sim
d u a s portas, uma em cada extremidade. Muitas casas são
r e v e s t i d a s por lona p l ástica, e/ou papelão. 0 teto das
habitações são feito com travessas de bambu ou f inos
barrotes de madeira , revestidos com folhas de pindó
(pa lm eira), ou guaricanga (material muito usado nas
edificações gua rani, segundo Schaden, Í9 74:29). Em sua
maioria estas construções possuem uma d i v i s ó r i a que corta
d o i s t e r ç o s do amb iente. A parte maior é a área social da
IN T ER IO R DA 00
C0MSTP.UÇÂO da oo
25

casai a outra mais isolada, um terço, é restrita a seus


habitantes (é com um , porém, os M b y á f i c a r e m ou receberem
v i s i t a n t e s em f r e n t e suas casas; s a l v o d i a s de c h u v a ) .

0 m o b i l i á r i o e n c o n t r a d o nas c a s a s f o r a m b a n c o s de
tábua (serrada e presa com p r e g o s ) ; tupá, que é cama de
t r o n c o s de p a l m e i r a pindó, cobertos com suas folh a s , há
a l g u n s c o b e r t o r e s i n d u s t r i a l i z a d o s de lã; m e s a e e s t a n t e s de
bambu; g r a n d e s c e s t o s de taqu a r a ; e um a f o g u e i r a a o centro
do c ô m o d o mai or, para calefação e cozer alimentos. Quando a
f olh a de pindó que cobre o telhado seca, é comum a
infestação por insetos, principalmente baratas. Nesta
ocas i ã o , então, é substituída. 0 c h ã o da s c a s a s é d e terra
batida, e, normalmente, está coberto por cascas de
alimentos, r e s í d u o s de p a p é i s e p l á s t i c o s . Patos e galinhas
c i r c u l a m d e n t r o e ao redor d a s O o v onde- m u i t a s v e z e s fazem
s e u s ninh o s , e c o m e m os i nset os . T o d a s as c a s a s p o s s u e m um
ou m a i s c ã e s (jaguá, como são chamados pelos Guarani) muito
magros e famintos. Ape s a r de s e r e m c o n s i d e r a d o s b o n s e ú t e i s
amigos, os M b y á c o s t u m a m b a t e r o u a p e d r e j á - l o s , quando estes
latem na c h e g a d a de a l g u m v i s i t a n t e .

A comunidade possui enfermaria e uma escola (a mbas


p r ó x i m a s ao centro da aldeia). Fora do limite da área
encontra-se o posto indígena administrado pela FUNAI, onde
mora o chefe do posto c o m s u a famí lia. Pouco distante do
c e n t r o da a l d e i a e x i s t e uma e d i f i c a ç ã o m a i o r que as outras
casas, construída pelos Mbyá (do mesmo material das
habitações), que funciona como depósito de ferramentas
agrícolas, máquinas (torno, m o e d o r de c a n a e milh o , et c.), e
outros objetos de t r abalho. A o lado deste galpão está o
c a m p o de futebol , onde quase todas as t a r d e s acorre um a
partida, que p o d e se estender até o início da n o i t e (em
quase todas as aldeias guarani que v i s i t a m o s no li toral
Rio-Santos e em Santa Catarina, e n c o n t r a m o s um campo de
..í _ , -^.f-:;-_ r.'-.iaii • - ;^*

síi;i-*iVjeL--J5sáS>??Ji';

EH FEKM AR\A
E5COV.A
CAMPO DE FUT E &OL DA ALDEIA
26

fu tebol, a t u a l m e n t e um do s p r i n c i p a i s d i v e r t i m e n t o s desses
grupos).

Os H b y á r e l a t a r a m que t i v e r a m m u i t a s dificuldades
ao c h e g a r e m Bra c u í , principalmente para plantar e construir
s u a s casas. A irmã do C a c i q u e <67 anos) e s t a v a n o primeiro
g r u p o que chegou a Bracuí, "A qu i e s t a m o s há dois anos.
V i e m o s c o m o ô n i b u s da FUNAI, s a í m o s d e lá s e i s d a t a r d e e
c h e g a m o s a q u i t r ê s da manhã. Aqui t u d o mato, N o s s a S e n h o r a ! ,
não t i n h a nada, ne m casa, t i v e m o s que c o r t a r o mat o, p a u e
p a l h a pra f a z e r a casa, t u d o no m a c h a d o " . A r e v i s t a M a n c h e t e
(1971:50-53) registrou a presença de um g r u p o Mbyá, também
v i n d o do P a r a n á , que o c u p a v a a á r e a a n t e s d o b a n d o de Verá
Mirim. Desse grupo restou apenas a família Aparício da
Silva, que c o n v i d o u seu tio, o atua l Cacique, a vir m o r a r em
Bracuí. Aparício, posteriormente, se retirou para outra
aldeia após a m o r t e de seu pai, Argemiro Karaí, que numa
noite, v o l t a n d o e m b r i a g a d o p a r a s u a casa, foi a t r o p e l a d o na
r o d o v i a B r - 1 0 1 , m o r r e n d o no local.

Após o primeiro c o n t a t o com Aparício, o Cacique


foi c o n h e c e r Bra cuí, e então resolveu mudar-se com sua
c o m u n i d a d e p a r a e s t a localid ade; s e g u n d o ele, principalmente
pela melhor q u a l i d a d e da terra. Os M b y á que m o r a r a m n a Ilha
da C o t i n g a r e c l a m a m de sua baixa fertilidade e do problema
do t r a n s p o r t e por mar, que a l é m de provocar muito receio
e n t r e eles, causava outros problemas, como a d i ficuldade de
t r a n s p o r t e d e doentes, etc. C o m o r e l a t o u A l b i n o de Souza,
sobrinho do Cacique, "A t e r r a d a q u i é m e l h o r que e m C o t i n g a ;
não d a v a n a d a lá, era tudo areia, p o u q u i n h o dava; ma s muito
não, p o u c a p l a n t a . . . l á era um ruim, a canoa podia virar,
v o c ê se a f o g a " .

0 G u a r a n i ma is v e l h o da a l d e i a (87 a nos) também


s a i u de C o t i n g a e v e i o mora r em B r a c u í com os p r i m e i r o s H b y á
que lá c h e g a r a m ; "em C o t i n g a n ã o tem lugar d e p l a n t a , muita
27

areia , ilhazinha muito pequena e depois bastante indiada,


não plantava não tem jeito. Daí que tinha mesmo esta área
dos Guarani, daí t e v e que falar c o m FUNAI e eles deram
e m b a r c a ç ã o e ô n i b u s p r a tira r a i n d i a d a d a ilha. T r ê s ô n i b u s
ch eios. Quando cheguemos aqui, n ã o t i n h a lugar de morada,
t e v e que limpar e fazer ranc h i n h o . E chu va, e chu va, . . .,
s o f r e m o s um poucoj mas assim mesmo melhor a i n d a que lá na
Cotinga. Aqui tem uma parte que q u e r i a fazer plantinha,
p l a n t a r m a ndioca, batata-dôce, milho, feij ão, laranja, de
tudo; m a s lá não dava. Daí teve que tirar tudo o capão de
mato, m u i t a c h u v a e c erração. A g o r a tô g o s t a n d o . Depois que
rocei, limpei, fiz p l a n t i n h a e ranchinho. A c h o aqui tudo
bom, se n ã o g o s t a s s e já t i n h a v o l t a d o lá p r a P a r a n a g u á . "

A e n f e r m e i r a da FUNAI que acompanhou a migração


d o s H b y á de C o t i n g a p a r a Br acuí, fala d a s d i f i c u l d a d e s da
viagem, principalmente a grave situação de s a ú d e em que se
encontram esses Guarani; "Èu e ura chefe d e P ô s t o Indígena
p e g a m o s o s u p r i m e n t o de fu ndos da F U N A I p a r a dar a p o i o aos
í n d i o s que já estavam na e s t r a d a viajando para Bracuí.
Então, f omos a um s u p e r m e r c a d o fazer c o m p r a s . Levamos muita
comida e medicamentos. Tinha criança desidratada, com
pneumonia, verminose; fazi a muito ca lo r, era uma época
quente , chuvia demais quando eles chegaram. 0 problema da
saúde e subnutrição é muito grave entre os Hbyá,
principalmente para as criancinhas mais pequenas. Tinha
m u i t a lam a e m u i t a f r i e i r a nos d e d o s de le s. Logo em seguida
v e i o a at ual e n f e r m e i r a de Br acuí. F i q u e i a q u i u n s d o i s d i a s
c o m ela, fazendo alguns atendimentos. Ela ficou trabalhando
c o m m u i t a d i f i c u l d a d e p o r q u e n ã o t i n h a n e m e n f e r m a r i a a i n da,
só um pedacinho da atual, que t i v e m o s que aumentar com
bambu . C o m u n i q u e i a s i t u a ç ã o à P r e f e i t u r a de A n g r a d o s Reis,
ao P o s t o de S a ú d e de B r acuí (que h o j e n ã o te m mais), e
instruí nova enfermeira sobre o que e l a t e r i a que fazer,
p o r q u e n a q u e l a é p o c a só c o n t á v a m o s c o m o H o s p i t a l de A n gra;
E8

não tinha o da Usina Nuclear para atender. Existe muita


r e s i s t ê n c i a do M b y á em ir p a r a o h o s p i t a l do b r a nco, é um
o u t r o p r o b l e m a grave. M u i t o s d e l e s p r e f e r e m mo rrer o u d e i x a r
m o r r e r as c r i a n ç a s . Eles g o s t a m m u i t o da c o m i d a e b e b i d a do
branco; m a s n ã o sei se faz b e m a eles! E s t a é u m a situação
difícil, n ã o sei c o m o se p o d e r e s o l v e r " .

Os M b y á vestem-se com roupas ocidentais usad a s ,


q u a s e s e m p r e do adas, r a r a m e n t e c o m p r a d a s novas. E s t e s t r a j e s
n ã o s ã o m u d a d o s a t é e s t a r e m t o t a l m e n t e r a s g a d o s e sujo s; ou
s e r e m a b a n d o n a d o s p e l o m a t o por a l g u m motiv o. A l g u n s usam
pulseiras e colares feitos c o m " l á g r i m a de N o s s a S e n h o r a ”,
t i p o de v e g e t a ç ã o a b u n d a n t e em Bra c u í . Os r e l ó g i o s de pulso
são muito comuns entre os Mb yá; porém, quase sempre não
estão funcionando. A maioria das mulheres enfeitam-se com
brincos e colares ocidentais; algumas se pi ntam. Não
o b s e r v a m o s n e n h u m a m u l h e r M b y á u s a n d o calça s; porém, segundo
informações, q u a n d o o f a z e m a c r e s c e n t a m u m a saia por cima.

0 t e t y m a k u á ( t e t y m a = pe rna; kuá = p r e n d e r no m e i o
- foto p. seg u i n t e ) , é u m a c o r d a f e i t a de c a b e l o t r a n ç a d o e
enrolado várias vezes em t o r n o de c a d a perna, logo abaixo
dos joelhos. Apenas alguns Mbyá mais velhos usavam este
adorno (d ois deles da Argentina). Segundo nossos
informantes, esta peça é feita pela sogra a p a r t i r de seu
p r ó p r i o c a b elo. Verá Mirim ostenta seu tetymakuá como sendo
m a r c a de Guarani; "es te aqui só Guarani puro que usa; se
t i v e r é M b y á pur i n h o " .

Encontramos dois instrumentos musicais entre os


M b y á de B r a c u í (foto p. s e g u i n t e ) ; mbara c á , que é um violão
c o m u m d e m adeira, tipo ocidental, c o m c i n c o c o r d a s de nylon
(as cinco primeiras)^ afinadas de for ma específica
( d i f e r e n t e da convencional); e a ravé, que é um violino
f e i t o a r t e s a n a l m e n t e de p e l e de c o t i a ou " p a l m i t o duro ", com
t r ê s c o r d a s de aço, a c i o n a d a s por u m a r c o de t r i n t a e cinco
T E T Y MAKiÜA
mbakaca e ir a v e
29

centímetros, feito de c o r d a de imbira preso a uma haste de


pindó . Na aldeia, e n c o n t r a m o s v á r i o s mbaracá, que t a m b é m é o
i n s t r u m e n t o de o r a ç ã o e x c l u s i v o d o Pajé, ou C a c i q u e " p u x a d o r
da reza" (este a s s u n t o será abordado mais adiante); porém,
r e g i s t r a m o s ap enas dois ravé, ambos feitos pelo Mbyá da
A r g e n t i n a Tito Duarte, que, s e g u n d o i n f o r m a ç o e s , era o único
n a a l d e i a que s a b i a c o n f e c c i o n á - l o . Esses dois instrumentos
sã o t o c a d o s era co njun to, da s e g u i n t e forma: enquanto o
t o c a d o r de m b a r a c á a c i o n a s e u i n s t r u m e n t o s e m p r e c o m a m e s m a
batida e posição, dando a base; o outro músico executa
a l g u m a s e s c a l a s com o r a v é . Em B r a c u í o b s e r v a m o s a seguinte
situação: dois m ú s i c o s M b y á sentaram-se num banco colocado
em frente à casa de o r a ç õ e s no p á t i o c e n t r a l da alde i a ,
e n q u a n d o um g rupo f o r m a d o por c r i a n ç a s e a d u l t o s observavam
n u m s e m i - c í r c u l o . Este e v e n t o a c o n t e c e u c o m a f r e q u ê n c i a de
d u a s v e z e s por semana, em médi a; s e m p r e ao fim da tarde.

Outros i n s t r u m e n t o s f o r a m c i t a d o s p e l o C a c i q u e : as
f l a u t a s mimby retá (ou, mimb y, a p e n a s ) , e mimb y - í . Contudo,
não encontramos nenhum desses instrumentos nesta ald eia.
Herbert Baldus (i9 52:4 8í/2), d e s c r e v e co m detalhes estes
instrumentos; que sã o " . . . f l a u t a s de t a q u a r a que o homem
f a b r i c a e toca. 0 p r i m e i r o d e s t e s i n s t r u m e n t o s m e d e 5í c m de
c o m p r i m e n t o e 2 cm de diâmetro, tendo seis orifícios, para
variar o som, que formam linha reta com o orifício para
sopr a r , sendo, como este, redondos e feitos a fogo...O
mimby-í (í é dimi n u t i v o ) m e d e 30 cm de c o m p r i m e n t o e í c m de
diâmetro, tendo, 5 o r i f í c i o s p a r a v a r i a r o som, e, no lado
ap o s t o , 2, s e ndo t odos ê l e s redondos e feitos a fogo. Na
m e s m a l i n h a ret a com os p r i m e i r o s 5 o r i f í c i o s está, cortado
c o m faca, ura o r i f í c i o r e t a n g u l a r ; t e n d o s i d o i n t r o d u z i d o por
este, p a r a fechar o tubo, c e r t a q u a n t i d a d e de c ê r a e s c u r a de
abelha, d e i x a n d o apen a s p e q u e n a a b e r t u r a p a r a p a s s a g e m d o ar
junto orifício r e t a n gular". Na aldeia do Rio Silveira no
l i t o r a l pauli sta, o u v i m o s r e l a t o s de a l g u n s M b y á s o b r e o uso
30

destas -Flautasj porém não conseguimos observar nenhuma


delas. S e g u n d o eles, estes instrumentos são tocadas pelas
m u l h e r e s da s e g u i n t e maneira; um g r u p o de t r ê s (ou mais)
G u a r a n i s e n t a m - s e c o m s u a s flautas, em b a n c o s de m a d e i r a no
p á t i o cent ral da alde i a . Então, cada participante toca
a p e n a s uma nota, que é imediatamente seguida pela nota
emitida por outra pessoa do grupo; e assim a música
pross egu e, üm de n o s s o s i n f o r m a n t e s d e c l a r a que; "pra tocar
música, n o s s a mús ic a, só na aldeia; se n ã o t i v e r pedacinho
de t e r r a que seja, n ã o dá. é assim!"

Os G u a r a n i d e n o m i n a m a t e r r a o n d e v i v e m de tekoá ,
ou seja, a "te r ra g u a r a n i " . Segundo Ladeira ( i98 9 ; 5 8 ) , "Para
os Guarani, sua terra é identificada com a expressão
T E K O H ^ (TEK04 p a r a os M b y á ) . . .TEKOHíá é o lugar o n d e se
d ã o as c o n d i ç õ e s de p o s s i b i l i d a d e do m o d o de ser g u a r a n i " . 0
m o d o de ser, m o d o de estar , sist ema , lei, c o s t u m e , n o rma,
co m p o r t a m e n t o , hábit o, c o n d i ç ã o , costume Guarani, conforme
Montoya, c i t a d o por L a d e i r a (198 9:58 ), é r e p r e s e n t a d o pela
e x p r e s s ã o tekó. C o m o coloca Meliá ( 1 9 89:336); "Sem tekohá
n ã o há tekó"; a c r e s c e n t a n d o a i n d a q ü e : "A e c o l o g i a guarani
n ã o se r e s t r i n g e à natureza, ne m se d e f i n e por s e u valor
e x c l u s i v a m e n t e p r o d u t i v o ... 0 tekohá significa e produz "ao
mesmo t empo relações econômicas, relações sociais e
organização político-religiosa, essenciais para a vida
g uarani". Os M b y á de B r a c u í t r a d u z e m o t e r m o "tekó", pela
e x p r e s s ã o em p o r t u g u ê s "sis t e m a " .

A área de Bracui parece ser insuficiente para


a t e n d e r as necessidades dos Hbyá, que reclamam de sua
e x t e n s ã o e da e s c a s s e z d a mata; "é m u i t o p e q u e n a , não dá nem
p a r a caçar", d e c l a r a um de n o s s o s principais informantes
D o m i n g o s Benite, nascido cm I b i r a m a (SC.); "Guarani é do
mato, vive no mato, com m u i t a caça, porco-do-mato, quatí,
jakú, tateto, ra posa; t e r r a grande, muito mato, árvore,
palmit o, t e r r a b o a pra plan t a r ; se a terra não for boa.

Guarani lá n ã o vive" . 0 M b y á se d e f i n e c o m o s e n d o " í n d i o do


mato" (também é identificado da mesma forma por outros
g r u pos, c o n f o r m e v e r e m o s a d i a n t e ) . Tekoá, então, representa
t e r r a fér til, m a t a vi rgem, lugar de c a ç a e c o l e ta. Sem estes
p r é - r e q u i s i t o s os M b y á p r o c u r a m outros l u g a r e s (o que pode
justificar, em parte, as i n c e s s a n t e s perambulacoes deste
grupo).

N o s s o s c o l a b o r a d o r e s de B r a c u í se r e f e r i a m à T e r r a
c o m o se f o s s e um ser vivo, d o t a d o de a l m a e v o n t a d e ; c o m seu
c o r p o c o b e r t o de v e g e t a ç ã o , que s e r i a s e u s p ê l o s e adornos;
devendo eles, por este m o t iv o, respeitar e venerar a
natureza. As si m, e m Bra cuí, a e x t r a ç ã o de m a d e i r a e palmito
é proibida pelo C a c i q u e que afirma, "Mbyá puro não corta
á r v o r e p o r q u e o mato, n o s s a casa. T i r a r á r v o r e só q u a n d o tá
seca pra comida e calor, n ã o vende. Aqui não pode cortar
t o r a p r a v e n d e r c o m o faz o K a i n g a n g em C h a p e c o . Lá derruba
dema i s , esse tempo pra cá de 8 5 a c a b o u com a madeira. 0
C a c i q u e de lá K a i n g a n g até p r o i b i a faze r r o ç a de m a t o puro,
e l e t a m b é m nã o d e r r u b a v a ; m a s então começou, aí os parente
M b y á f o r a m t u d o embora, tã o p r a cá ag ora. N ã o sei o que de u
na c a b e ç a do C a c i q u e K a i n g a n g ! Mas Kaingang é assim mesmo ,
n ã o r e s p e i t a nat u r e z a ; d i f e r e n t e do G u a r a n i . L á d e v e ter um
p o u c o d e c a c a ainda, s e m p r e dá tatu, e s t a s c o i sas; mas sem
m a t o n ã o vai dar m a i s caça, t e r r a fica ruim; aí lá n ã o pode
m a i s fica". P o d e m o s p e r c e b e r n e s t e d i s c u r s o a f o r t e relação
que os M b y á f aze m e n t r e etnicidade e a preservação do meio
natural. Seu João afirma sua identidade e do s seus como
s e n d o a q u e l e s que "não d e r r u b a m á r v o r e s " , pois os Mbyá "nã o
v i v e m s e m o mato", c o m o c o l o c a m e l e s p r ó p r i o s . Entretanto, a
q u e s t ã o da t e r r a é m o t i v o de t e m o r e p e s s i m i s m o por parte
d o s Hbyá, "tudo cada ve z m a i s piorando; mas eu a c h o pra
m e l h o r a r u m p o u c o pro í ndio p r e c i s a u m a r e s e r v a g r a n d e , daí
o í n d i o fica melhor. Pr a q u a n t i d a d e de í n d i o que m o r a aq ui
s e t e c e n t o s h e c t a r e s m u i t o pouc o. A q u i t e m p o u c o mato, terra

b o a de p l a n t a r lá embaix o, mas é do s brancos, aqui não dá


q u a s e pra p l a n t i n h a , muita pedra" , o b s e r v a L u i z E u s é b i o , o
Vice-cacique, " t o d a a vida, as c o i s a s t o d a s e s t ã o piorando
c a d a ve z m a i s p r o índio; mas só p r o índio, pro b r anco tá
bom" .

V e r á M i r i m fala s o b r e o p r o b l e m a do c o r t e e venda
de madeira dentro da s á r eas i n dígenas, "Nanderú não gosta
assim, n o s s o Deus, e l e fez pra nós v i v e r no mundo, p r a fazer
p l a n t i n h a e criar. M a s não tem jeito, v e m o u t r o índio, v e m o
branco , d e r r u b a e vende, e n t ã o o D e u s tá c a s t i g a n d o . 0 D e u s
fez o m u n d o c o m o quer, o mar, o b a r r a n c o do mar, que f i z e r a m
a s s i m pra el e ficar assim, o peixe, pra c o n s e r v a r o pe ixe;
h o j e em d ia tá acabando tudo, então o nosso Deus tá
castigando. 0 b r a n c o qu ebra a pedra e vai fazer casa, vai
c e r c a r o mar e o pei xe; não quer m a i s c o n s e r v a r , tudo isso.
0 j u r u á <= c i v i l i z a d o ) não quer s a b e r do mato, só se tiver
m a d e i r a boa para vender, então chega e diz; 'o senhor
Caciq u e , se q u i s e r pode c o rta r m a d e i r a e vender que nós
c o m p r a m o de v o c ü ' Foi a s s i m em C h a p e c ó , e Ibirama t a m bém.
B r a c u í até a g o r a não".

Em I b i r a m a os H b y á t i v e r a m m u i t o s p r o b l e m a s c o m os
Xokleng, que são considerados pelos primeiros como "os
p i o r e s i n i migos", os que mais d e s e j a m " v iver c o m o brancos";
v e r d a d e i r o s p r e d a d o r e s da na tureza. Um G u a r a n i que n a s c e u e
m o r o u g r a n d e p a r t e de s u a v i d a em Ibir ama , diz que s a i u de
lá por c a u s a d o s Xokleng; “Eu g o s t a v a m u i t o d a q u e l a te rra,
s e m p r e g o stei me smo, só que um t e m p o atrás, aquele pessoal
de Ibirama, o X o k l e n g e o branco; t i r a v a m madeir a, até hoje
muito. Eu m o r a v a n u m p e d a ç o de t e r r a que t i n h a roça e um
p e d a ç o de m a t o também, ma s t i n h a m a d e i r a b a s t a n t e lá. Então
o pessoal c o m e ç o u a inco m o d a r p a r a d e r r u b a r o mato. Eu disse
não, não p o d i a a c a b a r co m o mato t u d o ali. D i sse t a m b é m que
n ã o qu eri a a m a d e i r a pra mim, só a c h a v a b o n i t o d e i x a r o m a t o
a s s i m sem derrubar, deixa t oda a q u e l a natureza pro índio
33

p o d e r caçar, fazer balaio; m a s eles queriam derrubar tudo


pra vender madeira. Aí eu disse, s a b e de uma coi sa, vou
embora. C a d a á r v o r e que d e r r u b a v a m lá p e r t o de casa, quando
eu e s t a v a s a i n d o ainda, d a v a dó, m a s t i v e que ir. tias, não
fui p r a cid ade; viver b e m p e r t i n h o do b r a n c o Hbyá não se
acostuma".

é consenso e n t r e os Guarani de B r a c u í (e de
o u t r a s a l d e i a s por nós v i s i t a d a s c o m o B o a V i s t a em Ubatuba)
a c a u s a de s u a s c o n s t a n t e s via gens. Quando indagados sobre
e s t e assunt o, os Mbyá r e s p o n d e r a m de f orma u n â n i m e ; visitar
p a r e n t e s e falta de um b o m lu gar p a r a viver. Nestas viagens
e muito comum um indi v íduo, família ou, a t é mesmo, g r upo,
passar a morar no lugar v i s i t a d o . 0 Vice-cacique compara
B r a c u í c o m a a l d e i a de Barragem; " t e r r a b o a m e s m o só aqui,
B a r r a g e m m u i t o pequeno, p e r t o do b r a n c o dem ais . No litoral
q u a s e t u d o é d o Xiripá. E n t ã o o p e s s o a l tá s e m p r e viajando.
M a s aqui já tá bom."

A p a r í c i o da S i l v a (que m o r a a t u a l m e n t e e m U b a t u b a )
c o m p a r a Br acuí (onde e s t a v a em visi t a ) à a l d e i a do M o r r o da
S a u d a d e (Barragem), l o c a l i z a d a na p e r i f e r i a da c i d a d e de S ã o
Pa ulo; "lá eles v i v e m c e r c a d o s p e l o s bran c o s ; a qui não, tem
m a i s mato. Lá não tem mato, n ã o tem árvores, n ã o te m água
boa. Na B a r r a g e m tem p e i x e m a s tá t u d o doe nte. A g o r a a q u i no
B r a c u í g o s t o m u i t o de v i s i t a r , tem á g u a boa, m a t o bom, tem
pe dra. Aqui morava pouco índio, só minha famíl ia; então
m a n d e i ch amar me u tio. C a c i q u e J o ã o e a c o m u n i d a d e dele, pra
o c u p a r toda e s s a terra. Se n ã o fosse assim, o branco tomava
tudo; nós fi cava n o v a m e n t e s e m na da."

Da t erra boa, Yvy pori, o tekoá, o mato; depende o


tekó, a c u l t u r a Mbyá, ou N a n d é rekó k a t ú ( " n o s s o m o d o de ser
autêntico e verd a d e i r o " , s e g u n d o Meliá, í989:293); pois,
c o m o v i m o s acima, os M b y á se d e f i n e m c o m o sendo gente do
mato. A este respeito, d e c l a r a o C a c i q u e da aldeia de Nu
34

Apúa, San Pedro, Paraguai; "Nos d i c e n los p a r a g u a y o s que


p a r a qué q u e r e m o s tanto monte. E l l o s no e n t i e n d e n que se
necesita mucho m onte para que vivan los a n i m a l e s . . .A
n o s o t r o s N u e s t r o F’
adre nos d i o el, monte, a uds. les d i ó la
plata para que vivan en Ias c i u d a d e s ...La p l a t a de los
p a r a g u a y o s v i n o de la v e n t a de n u e s t r o s m o n t e s . . . E l m o n t e no
debe acabarse porque si se acaba el monte no podemos
viver...A nosotros, los dei monte, nos creó primero Nuestro
P a d r e y n o s d i ó el bo sque p a r a que v i v a m o s en él y cuidemos
de los animales silvestres. A los paraguayos los creó
d e s p u é s N u e s t r o P a d r e y los b a t i z ó p á r a que s e d i s t i n g u i e r am
de n o s o t r o s y les dió c a m p o s p a r a que c u i d e m Ias vacas. Esta
ley no se p u e d e camb i a r . " ( R e v i s t a M b y á - g u a r a n i , 199 0:8 )

Como podemos verificar, a posse da terra é


fundamental para a existência da cultura e sociedade
H b y á - g u a r a n i , que a f irma sua i d e n t i d a d e étnica como sendo
a q u e l e s que necessitam e preservara o meio natural; em
contraste aos outros g r u p o s c o m o os Xokleng e Kaingang, e
aos branc o s . Estes últimos praticam a comercialização da
t e r r a e s e u s r e c u r s o s n a t u r a i s que, na v i s ã o dos Mbyá, é um
at o a b s u r d o p o i s consideram a terra a l g o i m p o s s í v e l de se
avaliar economicamente. Segundo as p a l a v r a s do C a c i q u e de
Bracuí; "o b r a n c o c e r c a a t e r r a e d i z 'é meu, quero vender';
n ã o tem j e i t o , nã o dá p r a ser as si m. A terra tem muito
tempo, a n t e s m e s m o do G u a r a n i e d o bran co, não pode ve nder .
T e r r a p r e s e n t e de Nanderú; m a s n i n g u é m cuida, corta tudo as
ár vores, destrói o mato. Então Deus está castigando; não
n a s c e m a i s t a n t a pla nti nha , t e r r a treme, m u i t a chuva, depois
vai vi m o fogo. 0 branco construiu Usina Nuclear, lá tem
m u i t o fogo, n ã o dá pra ente n d e r ! »0 homem, t u d o é da terra;
mas t e r r a n ã o é do homem'! P a r a os Mbyá, o t e t y m a k u á é marca
de "Guarani puro", que vive na floresta evitando a
civilização. Por este motivo é considerado "índio mais
at r a s a d o " , p o r o u t r o s grupos.
35

A c r e d i t a m o s que a p rin c i p a l c a u s a do pessimismo


d o s Mbyá, é a c r e n ç a na impossibilidade de encontrarem
tekoá, a ’
’t e r r a o n d e o b r a n c o a i n d a nã o c h e g o u " . Porém, este
subgrupo Guarani continua sua b u s c a a um lugar o n d e seja
p o s s í v e l v iver d e n t r o das leis de sua cultu r a . Diante de
t o d o s os p r o b l e m a s a p o n t a d o s por n o s s o s i n f o r m a n t e s , parece
que a e x i s t ê n c i a de t e k o á está c a d a vez m a i s r e l a c i o n a d a a
u m p a r a í s o fora do m u n d o (assunt o que será abordado mais
adiante).
4 - L xN G U A

A língua é importante fator de etnicidade e


preservação da cultura Mbyá. Observamos que nossos
i n f o r m a n t e s de Bracuí c o s t u m a m falar no dia-a-dia entre
eles, d e n t r o e fora da a l d e i a , s o m e n t e em Guar a n i ; inclusive
d-iante de e s t r a n h o s . Q u a n d o f a l a m c o m b r a n c o só se e x p r e s s a m
em p o r t u g u ê s . S e r i a e s t a e n t ã o a d u p l a f u n ç ã o da l í n g u a p a r a
os Mbyá: comunicação restrita; e controle de informações
d i a n t e de e s t r a n h o s , que s ã o e x c l u í d o s de s u a s c o n v e r s a s .

V i v e i r o s de Ca st ro, que e s c r e v e a a p r e s e n t a ç ã o da
obra de Nimuendajú (1987:X X V I I I > fala da "espantosa
ca p a cidade de desterritorialização" e da l í n g u a c o m o locus
da "preservação do ser Guarani". Is to implicaria numa
o r i e n t a ç ã o e m t o r n o de f a t o r e s c u l t u r a i s ( como a lí ngua) que
se c o n s t i t u e m como poderosos p o n t o s de r e f e r ê n c i a de sua
i d e n t i d a d e étnica.
/V ^
Antes mesmo da terr a, Nanderu, o deus demiurgo
Mbyá, c r i o u a l i n g u a g e m r e l a c i o n a d a por e s t e s à a l m a huma n a .
A i m p o r t â n c i a da líng u a se e n c o n t r a em m i t o s guaran i, como o
Ayvy Rapyta, que s i g n i f i c a " f u n d a m e n t o da l i n g u a g e m humana"
( Cado gan , 1953:35 ). C i t a r e m o s aqui, o trecho que fa la do
m o m e n t o que s u r g e a lin g u a g e m :

"Habiendose erguido ( a s u m i d o la f o r m a human a ) , de


la s a b i d u r i a c o n t e n i d a en su propia divinidad, y en virtud
de su s a b i d u r i a crea d o r a , c o n c i b i ó el o r i g e n dei___ l..e.n..q.ü.a.i,e
h u m a n o ( g r i f o s meus). De la s a b i d u r i a c o n t e n i d a en su p r o p i a
divinidad, y en virtud de su sabiduria c readora, créo
n u e s t r o P a d r e el f u n d a m e n t o dei lenguaje humano, e h i z o que
f o r m a r a p a r t e de su p r o p i a d i v i n i d a d . A n t e s de e x i s t i r la
t ierr a, en m e d i o de Ias tinieblas primigenias, antes de
t e n e r s e c o n o c i m i e n t o de Ias co sas, c r e ó a q u e l l o que s e r i a el
f u n d a m e n t o dei lenguaje humano (el f u n d a m e n t o dei futuro
lenguaje humano) e h i z o el v e r d a d e r o primer Padre Namandú
37
que formara parte de su propia divinidad." (C ado gan,
i953;36-7)

0 f ilho mais vclho do Cacique, e professor da


e s c o l a da ald eia, comenta o Ayvu Rapyta e fala da língua
c o m o fator de etnicidade; "Ayvu é palavra, e Rapyta em
p o r t u g u ê s é central ou p r i n c i p a l . H b y á p o d e ter n a s c i d o no
Paraguai, n a Arge n t i n a , p o d e ser í n d i o do B r a sil ; é tudo
igual, é t u d o Guaran i, p r a ser H b y á mes mo, t e m qu e fala r a
l í n g u a e m o r a r na aldeia. Já o Xiripá não é muito Guarani,
eles não falam mais na lí ngua, só falam português, até as
crianças. I sto por causa da lín gua, nossa língua toda
dividida; X i r i p á é o u t r a língua; outro índio outra língua" ,
e s c l a r e c e Al ge miro.

Segundo o Cacique Verá Miri m, "Sendo Hbyá é tudo


igual, é m e s m a lingua, n ã o t e m d i f e r e n ç a , aqui em B r a c u í , lá
no E s p i r i t o Santo, Ubatu ba, Ibirama..., t u d o igu al". Sendo a
l í n g u a i m p o r t a n t e fator de identidade e coesão social para
os Hbyá, s u a e t n i c i d a d e vai a l é m d a s f r o n t e i r a s d a s aldeias
e nacionais.

Cadogan (i949/b:666) cita ainda uma linguagem


rit ual, "fíanderU a yvú" ( " i d i o m a de n o s s o s p a i s " ) , ou " I d i o m a
Secreto"; falado pelos Mbyá p a r a se comunicarem com os
deuses; " L o s dioses, seg ún los dirigentes espirituales de
Ias tribus, hablan un lenguaje distinto al cotidiano,
pertenciendo a este vocabulario religioso...". Alguns Hbyá
de B r a c u í declararam utilizar entre eles um a linguagem
ritual p a r a "falar com Deus". T r a t a - s e de uma linguagem
especial, " c o m o um a poe sia ", s e g u n d o d e c l a r o u o p r o f e s s o r da
alde ia. As p a l a v r a s são p r o f e r i d a s m u i t o m a i s r á p i d o que em
s u a f o r m a usua l. P e r c e b e m o s t a m b é m que é c o s t u m e d o C a c i q u e ,
na c h e g a d a de algum G u a r a n i ou, a t é me sm o, um visitante
branco conhecido, usar uma forma ritual de c u m p r i m e n t o em
Mbyá, numa linguagem também diferente. Notamos numa dessas
ocasiões, que o Cacique citou divindades como Jakairá,
38
Nanderú, Nanderú Tonendeguá, Tupã r a í , Tupã, e outros nomes,
c o m o u m a b ê n c a o d i t a a t r a v é s de uma l i n g u a g e m ritu a l .

Quando nossos i n f o r m a n t e s em Bra cuí , falavam em


Hbyá, n o t a m o s o u s o de certos termos em português. Segundo
uma das mulheres mais v e l h a s da ald ei a, "o í n d i o p e r d e u o
c o s t u m e de falar m u i t a c o i s a em guara n i , n ã o se l e m b r a ma is;
e n t ã o fala n o p o r t u g u ê s " . Na m e d i d a em que os Mbyá, enquanto
g r u p o étnico, convivem com a s o c i e d a d e m a i s ampl a, fatores
como a língua, passam por u m a s é r i e de transformações e
adaptações.. Mesmo assim, permanecem como fatores de
d i f e r e n c i a ç ã o f r ente a o u t r o s gr upos.

Em n o s s a e s t a d a na aldeia de Bracu í, observamos


que d u r a n t e a n e g o c i a ç ã o do p r e ç o de u m a r t e s a n a t o , diante
de a l g u m turista; é costume esses Guarani discutirem a
proposta sempre em Mbyá, e falarem com os eventuais
compradores em português. E m suma, t o d a s as vezes que os
M b y á c o n v e r s a m e n t r e si, o f a z e m u t i l i z a n d o a l í n g u a n a t i v a ;
inclusive diante de estranhos, que desta forma são
excluídos. A m a i o r i a das m u l h e r e s i d o s a s e t o d a s as c r i a n ç a s
c o m m e n o s de c i n c o anos, só f alam M b y á (com c i n c o a n o s as
c r i a n ç a s p a s s a m a f r e n q u e n t a r a e s c o l a da a l d e i a e aprendem
a falar p o r t u g u ê s ) ; isto p o r q u e h a b i t u a l m e n t e s ã o os homens
que tê m m a i s c o n t a t o com o m u n d o fora da aldeia.

Os M b y á u t i l i z a v a m uma s é r i e de " n o m e s secretos"


de anim a i s ; "...para referirse a animales cuando suponen
h a l l a r s e é s t o s en Ias c e r c a n i a s , y p a r a que no se a s u s t e n y
alejen" (C adogam, 1 9 4 9 / b ;668). Po rém, n o s s o s i n f o r m a n t e s de
B r a c u í d e c l a r a r a m que a t u a l m e n t e desconhecem tais nomes ; e
que e s t e c o s t u m e t a l v ê z t e n h a sido usado pelos mais velhos
em o u t r a s é p o c a s . Os G u a r a n i m a i s i d o s o s da al deia, porém,
n ã o q u i s e r a m falar s o b r e e s t e assunto.

"0 G u a r a n i quer v i v e r a s s i m no mato, qu er fazer


p l a n t i n h a dele, quer s e g u r a r nação , a língua, tradição".
39
d e c l a r a M e r á Miri m ; a c r e s c e n t a n d o ainda, "Eu d a q u i da minha
p a r t e da a l d e i a d o Brac uí, eu g a r a n t o , nós v a m o s v i v e r a s s i m
mesmoj lá nas o u t r a s a l d e i a p o d e se v i r a r c o m o quer; en tã o ,
lá vai aca bar t u d o se a c a b a r na língu a; m e s m o c o m re za, não
te m jeito. Se fala mesma língua é Mbyá, puro Guarani",
e n c e r r a o Caci q u e .
5 - O R G A N IZ A C S O S O C IA L

A organização social dos Guarani baseia-se na


f a m í l i a extensa, ou seja, família composta do pai/sogro,
filhos s o l tei ros, filhas casadas e genros (Schad^,
1974:64). S o b r e este fato, afirma M.I. L a d e i r a <198'8Tef5),
"á r e g r a de residência - mecanismo b á s i c o de articulação
na s s o c i e d a d e s tribais - que d e t e r m i n a a composição da
'fam í l i a grande' gua rani. El a é uxorilocal, porém
'temporária' (isto é, o g e n r o a b i t a a c a s a de s e u s o g r o até
o n a s c i m e n t o do p r i m e i r o f i l h o e a estabilização do casa l ,
quando então estará livre para decidir seu destino
r e s i d e n c i a l )“.

Segundo Schaden (1974 ;66-67), " E n t r e os Mbyá, a


i n i c i a t i v a para a vida amorosa é do rapaz" . Este autor
( 1 9 7 4 : 6 7 ) di z que os G u a r a n i " c a s a m c e d o ...os M b u á p e l o s 14
a n o s de idade, o h o m e m pouco mais t a r d e . . . o r a p a z c e d o o b t é m
a s u a liberdade, e n q u a n t o a j o v e m p r a t i c a m e n t e f i c a p r e s a a
s u a f a m í l i a de o r i g e m até o fim dá vida". S c h a d e n (1974:70),
que e s t e v e com os M b y á de Chap ecó, relata que encontrou
e n t r e e l e s o ritual de c a s a m e n t o p r e s i d i d o p e l o " N a n d e r u " , o
chefe religioso (muitas v e z e s o próprio Caci q u e , como em
Bracuí), " r e p r e s e n t a n d o e s t e de c e r t o m o d o as a u t o r i d a d e s de
r e g i s t r o civil".

S o b r e os t ipos de c a s a m e n t o s , Schaden (1974:67-68)


c o l o c a ái nda: "No t o c a n t e ao casamento preferencial do ti o
materno com a sobr inh a, assinalado para outras tribos da
família lingüística Tupí-Guaraní, não encontrei claros,
. f i d e d i g n o s e u n í v o c o s e n t r e os G u a r a n i d e q u a l q u e r d o s
f
três
subgrupos. As i n f o r m a ç õ e s a c e r c a de s u a p o s s i b i l i d a d e eram
contraditórias, o que p o d e ser talvez indício de padrão
outrora existente e hoje abandonado ou em vias de
s ê - l o ... Q u a n t o ao c a s a m e n t o do s o b r i n h o com tia, m a t e r n a ou
paterna, não é perm i t i d o , segundo voz unânime do s

informantes; também os Mbuá estudados por Cadogan o


consideram incestuoso".

Schaden < 1974 : S S - S 3 ) , que observou casamento


exogâmico entre os Guarani, relaciona este aspecto ao
p r o c e s s o de d e s o r g a n i z a ç ã o s o cial que viiti sofrendo estas
populacoes, "As u n i õ e s m i s t a s entre Guarani e caboclos não
são r a r a s ... e s s a s r e u n i õ e s se d ã o e n t r e mulheres índias e
homens caboclos. As e x c e ç õ e s s ã o p o u q u í s s i m a s ; tenho notícia
de d o i s c a s o s em que o h o m e m G u a r a n i c o n s t i t u i u f a m í l i a com
m u l h e r e s c a i ç a r a s do lit or al sul de S ã o P a u l o . . . N o Araribá,
as í n d i a s c a s a d a s co m 'civilizados', i. e ., c o m caboclos,
c o n s i d e r a m - s e a e l i t e do g r u p o . . . I s t o n ã o v a l e p a r a os Mbuá,
que n ã o admitem em sua comunidade elemento estranho à
t r i b o ... D i z e m os M b u á que n ã o p o d e m p e r m i t i r c a s a m e n t o s com
indivíduos 'de f o r a ' . . . ”.

0 costume registrado na a l d e i a de Bracuí é a


m.a..tr i.l..Q.C-a1 i d a d £, ou seja, o h o m e m c o n s t r ó i s u a r e s i d ê n c i a ao
lado da c a s a da f a m í l i a da esposa (ou e n t ã o p a s s a a mora r ,
temporariamente, c o m os p a i s de s u a mulh e r ) . "Tem que morar
com a s ogra!", dizia um i n f o r m a n t e , "a filh a fica com
saudade, e d e p o i s a v e l h i n h a já t e m idade, p r e c i s a d e ajud a ,
não pode ficar sozinh a. Eu a t é vim morar aqui e m Bratuí
mesmo, porque minha sogra veio pra cá, eu gosto mais de
m ora r p e r t o da sogra. M o r e i at é c o m ela, só saí p o r q u e á
c a s i n h a era m u i t o pequ e n a , n ã o foi por b r i g a n e m nada " . 0
V i c e - c a c i q u e a f i r m a que os Mbyá, após o casamento, sempre
vã o m o rar com a f a m í l i a da esposa; "é costume n o sso,
porq ue, p egar a mul her , casar e já lev ar l o n g e da família,
a s s i m p r a nó s já fica ruim, G u a r a n i n u n c a faz". Observamos
nesta aldeia maior incidência à bilinearidade seguida à
ascendência patrilinear (encontramos a m atrilinearidade em
apenas quatro famílias nucleares, s e n d o que em t r ê s c a s o s o
h o m e m e n c o n t r a v a - s e ause n t e ) .

Os G u a r a n i de B r a c u í p r o c u r a m m a n t e r a endogamia,
p o i s o c a s a m e n t o ideal é e n t r e i n d i v í d u o s do m e s m o s u b g r u p o ,
da m e s m a a l d e i a ou de o u t r a s a l d e i a s Mbyá. Um dos p r i n c i p a i s
f a t o r e s de i de n t i d a d e , segundo afirmaram quase todos os
i n d i v í d u o s de Brac uí, é a o b r i g a t o r i e d a d e de moradia na
a lde i a . Se um m e m b r o do g r u p o c a s a r c o m um n ã o - H b y á , deve
deixar a comunidadei entretanto, "se s a i u da a l d e i a n ã o é
m a i s M b y á “, como coloca um de n o s s o s informantes; "libyá
m e s m o tem que m o rar na a l d e i a ; se s a i r n ã o e m a i s índio, vai
d e i x a n d o aos po u co s , n ã o fala m a i s na língua. 0 Mbyá puro.
Guarani, não pode m o r a r p e r t o de J u r u á (branco), não pode
m o r a r p e r t o de cidad e. Ninguém dos nossos 'pare nte s' (como
os M b y á t r a t a m os do m e s m o s u b - g r u p o > casa co m b r a n c o ou
o u t r o índio. Se for Guarani puro n ã o pode, se c a s a r com
b r a n c o tem que sair, a q u i n ã o dá c e r t o mor ar assim".

Porém, r e g i s t r a m o s a l g u n s relatos sobre Mbyá que


se c a s a r a m co m b r a n c o s e foram morar na cidade. A maioria
d e s s e s c a s o s fala v a de m u l h e r e s Guarani que se c a s a r a m com
h o m e n s br ancos. E n c o n t r a m o s casamentos interétnicos não só,
em Bracuí como também em outras aldeias do litoral
Rio-Santos. Em I b i r a m a c o n h e c e m o s u m a m u l h e r Mbyá, que após
ter p a s s a d o por d o i s c a s a m e n t o s c o m h o m e n s do m e s m o g r u p o , e
t i d o v á r i o s filh os c o m est es; u n i u - s e a um Kain g a n g , o qual
m a n t i n h a g r a n d e a f e t o d u r a n t e os m u i t o s a n o s de c o n t a t o . Não
o b s e r v a m o s n e n h u m c a s o de h o m e m G u a r a n i c a s a d o com m u l h e r de
o u t r o g r u p o étnico. "A m a i s s i m p l e s n a ç ã o z i n h a de í n d i o que
t e m no Brasil é o Mbyá; por i s s o n e n h u m o u t r o dá v a l o r . 0
branco casa com mulher Guarani; mas não deixa mulher branca
casar com índio. O u t r a índia também nã o vai casar com o
Guar a n i . A l g u m índi o c a s a c o m b r a n c o , mas não p o d e m i s t u r a r ,
a c a b a nação, a c r i a n ç a fica t u d o m i s t u r a d i n h a . Se j o g a r um
pouquinho de milho num saco cheio de arroz, o milho
d e s a p a r e c e . C o m G u a r a n i é a s s im, m u i t o p o uquinho; branco já
t e m muito; então se m i s t u r a r o índio d e s aparec e. Aqui na
43

aldeia aconteceu p o u c o . Só a irma de um d a q u i que c a s o u co m


bran co. H o j e tá lá p r a cidade, n ã o v o l t o u p r a cá, n ã o quiz
mais, já s e p a r o u até. Se quiser v o l t a r o pessoal , o Cacique,
rece be; mas se e l a vo ltar, pode s o z i n h a , s e m ele, sem marido
juruá; aqui n ã o p o d e mor ar branco , n u n c a teve", declara um
informante, é interessante acentuar que a mulher Mbyá
poderá retornar à aldeia separada de s e u marido branco;
entretanto acompanhada dos filhos mestiços, frutos dessa
união interétnica. De fato, e n c o n t r a m o s algumas crianças
H b y á de tez, c a b e l o s e o lhos claros. Talvez, a e x i s t ê n c i a de
ascendência matrilinear, pode estar ligada a este fato;
pois, c o m o vimos, os M b y á não a d m i t e m n ã o - M b y á , ou mestiços
r e s i d i n d o na aldei a. N e s t e caso, pode ocorrer um t i p o de
m a n i p u l a ç ã o d a r e g r a de a s c e n d ê n c i a , onde a criança receberá
s o m e n t e o s o b r e n o m e ma ter no, p e r t e n c e n t e a u m a das famílias
Hbyá.

Ura H b y á de Bracuí relata como se uniu à sua


espo sa: "ôuando c asei minha mulher tava em Ibiram a, eu
também tava sozinho, daí que eu g o s t a v a dela e ela não
g o s t a v a de mim. Mas, n a q u e l a época, lá em Ibirama, eu tinha
muita plantação e vivia sozinho e solteiro. Ela morava com a
m ã e dela. 0 m e u sogro, v e i o de C h a p e c ó c o m ela e a m u l h e r e
foi m orar lá em Ibirama. Daí então, eu a g r a d e i a velha e
e n t ã o pedi pra casar. Ela p r i m e i r o n ã o quis, daí fui, fui,
at é que deu certo. D e p o i s que ela q u i s eu c asei c o m ela,
l e v o u q uase um ano. T e m que go star, se não, n ã o pode. Tamos
c a s a d o s há c i n c o anos, quan d o casou ela tinha quinze anos,
eu tinha trinta, bem mais velho. 0 casamento começa
namorando, assim: a g e n t e vai lá na c a s a da moça, c o m e ç a a se
agra d a r , fica r i n d o e vai indo a t é que a g e n t e fala c o m a m ã e
d e l a se dá p r a morar ou não. A g e n t e já t a v a se o l h a n d o um
pouco, daí a m ã e d e l a conc o r d o u . Não levou muito tempo e eu
já casei. Q u a n d o s a í m o s de I b i r a m a v i e m o s m o r a r aqui porque
e l a t e m a mãe aqui e os parent es" .
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Durante nossa estada nesta a lde i a , nao


presenciamos nenhuma cerimônia do que podemos chamar de
"casamento"; porém, s o u b e m o s que o c o r r e r a m d u a s em m e n o s de
s e i s mi ses. Um a d e s s a s u n i o e s a c o n t e c e u e n t r e u m a m e n i n a de
14 anos e um r a p a z de 19 anos. As p r i m e i r a s r e l a ç õ e s s e x u a i s
acontecem antes d e s t e per ío do, conforme relatou o pai do
garoto. As dua s uniões fora m registradas no livro de
c a s a m e n t o s da FUNAI. Segundo alguns informantes Hbyá o
Cacique realizou o ritual de "casamento" em ambas as
ocasiões.

Encontramos alguns casos de s e p a r a ç õ e s na aldeia


de B r a cuí. Um j o v e m casal (ra paz de i9 a n o s da a l d e i a de
It ariri, S á o F'aulo; e moça de 14, da a l d e i a da Barragem)
unidos há m enos de um ano, separou-se após violenta
discussão seguida por agressões físicas (sofridas pela
m ulh e r ) . 0 rapaz a l e g a que, "ela não q u e r i a mas s aber de
mim, só q u e r i a ir pra c i d a d e de noite, no b a i l e d a n ç a r c o m o
juruá"; a c r e s c e n t a n d o t a m b é m que sua e s p o s a e r a m u i t o jovem
e " não s a b i a o que queria". Ele d e c i d i u ent ão, separar-se
dela; n ã o s e m a ntes t e ntar a reaproximação a t r a v é s de um
"remédio do mato pra jun tar casal apartado" (ele n ã o quiz
d izer a fórmula, só que u s a v a c a p i m do " p e g a - p e g a " ), f eito
por um de nossos i n f o r m a n t e s de Bracuí. Segundo conta o
rapaz este homem "conhece bem as e r v a s p a r a c urar vários
tipos de problemas", (mais t a r d e c o n s u l t a m o s o H b y á que fez
o "remédio"; porém, este n e g o u t o d a s as i n f o r m a ç õ e s . 0 rapaz
já h a v i a me p r e v e n i d o que p a r a n ã o - H b y á e l e se r e c u s a r i a a
falar s o b r e as ervas); "mas o r e m é d i o do í n d i o n ã o dá mais
certo; a g o r a ela quer cas ar só c o m j u r u á m e s m o " . Percebemos
e n t r e os m a i s jovens, e s t a t e n d ê n c i a de d e s v a l o r i z a r certos
c o s t u m e s Hbyá, principalmente os relacionados à cura e
religião (que v e r e m o s m a i s ad ia nte).

0 C a c i q u e J o ã o da S i l v a r e l a t o u - n o s o c a s o de um
N a n d é v a do litoral paulista cujas filhas casaram-se com
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brancos, por ser a endogamia considerada incesto nesta


aldeia; "O C a c i q u e de lá e x p l i c o u que e n t r e í n d i o n á o pode
c a s a r p o r q u e é t u d o p a r e n t e e c u m p a d r e . D i s s e ele; 'e ntão eu
m a n d e i c a s a r c o m b r a n c o p o r q u e b r a n c o n ã o é paren t e , t e m que
ser ass im'. Eiepois ele me p e r g u n t o u ; 'é c e r t o que v o c ê casa
com parente?'. Então eu disse pra ele que sobrinho e
s o b r i n h a n ã o p o d e casar, o tio n ã o p o d e c a sar com sobrinha,
não pode porque é parente m u i t o perto. Eu sou pai do
Algemiro, e n t ã o ele vai casar, fa zer filho, vai f azer filha.
E s s e aí p a r e n t e pertinho, n ã o p o d e casar . Então tem outro
lá, V e r g í l i o , m e u genro, c a s a d o cora m i n h a filh a I d a l i n a , ele
é de longe, então pode casar c o m ela; ass im" . 0 casamento
entre primos cruzados e sobrinhas (os) e tios (as) é
c o n s i d e r a d o i n c e s t o pel os M b y á de Bracuí.

Um de nos os informantes, falando sobre o


s i g n i f i c a d o d a b e b i d a no casa m e n t o , r e l a t a que c r i o u o f i l h o
d e sua i r m ã d u r a n t e longo t e m p o " p o r q u e ela t e v e que s e p a r a r
do m a r i d o por c a u s a das brigas . Ele b e b i a e batia demais
nela; m a s s ó q u a n d o e s t a v a bêbado! Ele chegou a cortar os
p u l s o s dela. E n t ã o ela pediu ajuda pro Cacique de lá de
Chape c ó , o n d e m o r a v a na época. 0 C a c i q u e a c h o u que n ã o dava
porque o marido dela i r i a falar que ele tirou sua mulher.
M a s um d i a a turma se r e u n i u e q u a n d o ele ia b a t e r nela
novamente, p e g a r a m ele e l e v a r a m pra cad eia. Então ela veio
p r a cá e me d e u a c r i a n ç a p r a c riar a t é casar e p o d e r pegar
de volta. 0 m a r i d o é Mbyá; mas é m e i o louco, toda mulher que
t e m el e j u d i a mesmo, b e b e muito ". Este mesmo colaborador
fala t a m b é m de s u a separ açã o; "é, eu sou separado da mãe
desse aqui ( a p o n t a n d o p a r a seu f i l h o de 17 anos, que estava
p a s s a n d o um t e m p o com ele. De pois, v i s i t a n d o as a l d e i a s do
li toral R i o - S a n t o s , e n c o n t r a m o s c o m este rapaz em Ubatuba;
o n d e d i s s e que e s t a v a m o r a n d o com u n s p a r e n t e s ) , ela ficou
m o r a n d o em Ibirama. Não sei bem p o r q u e me separei, acho que
não g o s t a v a m a i s dela, e l a t a m b é m n ã o g o s t a v a m a i s de mim.
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Ela n ã o me m a n d o u ir; mas eu fui. N a q u e l a é p o c a a g e n t e era


novo, m a s fiz um esfo rço. H o j e ela c a s o u n o v a m e n t e , e já t e m
d o i s filhos". 0 filh o d e s t e casal f icou só c o m o sobrenome
da m ã e .

Uma m u l h e r M b y á de Brac u í de a p e n a s 18 a n o s fala


de s u a separação, "índio quando briga muito, bate na
mulh e r , b a t e no homem, tem que sepa r a r . Tem mulher que é
m u i t o brava, aí b a t e no mar ido, aqui tem. B r i g a sai muita
q u a n d o quer n a m o r a r co m m u l h e r do outro, ou mari do. Eu t i n h a
ciúm e, m e u m a r i d o a r r u m o u o u t r a m u l h e r aqui, n ã o briguei
p o r q u e tava grávida, 3 meses, podia ser ruim. Então foi
e m b o r a pr a a l d e i a dele. 0 p e s s oal aqui n ã o g o s t o u do que e l e
fez. A mul h er que ficou c o m me u m a r i d o e r a d a q u i e f o r a m p r a
lá p r o E s p í r i t o Santo. Eu vi m pra cá p o r q u e minha mãe e
m i n h a vó tava aqui; a n t e s eu m o r a v a lá no E s p i r i t o Santo
tamb ém. Não t e n h o c i ú m e do me u marid o, ele t a m b é m não. A
g e n t e tem que resp e i t a r , não p o d e p e gar e levar. No E s p i r i t o
Santo Já vi índio levar mulher do outro também". Por
desconhecermos qualquer registro histórico preciso e mais
detalhado sobre esta questão, entendemos ser perigosa
a f i r m a t i v a s o b r e um s u p o s t o a u m e n t o de s e p a r a ç õ e s c o n j u g a i s ;
p o i s e s t e fato p o d e r i a ter s i d o s e m p r e c o m u m n e s t e s u b g r u p o .

Segundo nossos informantes as expressões em


G u a r a n i que designara r e l a ç ã o de parentesco, foram todas
substituídos por termos em português. Ós mais velhos
t e n t a r a m le mbrar de a l g u n s d e s s e s term os; porém, por ter
caído em d e s u s o (seg u n d o eles mesmos colocaram) não foi
possível. Os Mbyá mantêm ainda, d e s i g n a ç õ e s por f a i x a de
idade: karinguá de 0 a 7 anos; Kunumy (ver, Florestan
Fernandes, 1978:73) de 7 a 15 (mulher) e 17 (homem) anos;
Tujá acima de 15 ou 17 anos, até a velh i c e . Eles não
souberam relatar quando e x a t a m e n t e um indivíduo torna-se
velho; porém, fizeram referências à capacidade de ainda
poder trabalhar e manter r e l a ç õ e s sex u a i s . Para homens e
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mulheres solteiras usam o designativo Nomendaí, e casados


Ko me n d á . "Gente, pes so a, pra nós é Mbyá; homem é avá;
m u l her, cunhã; menino é a v á í; menina cunha í; t o d a s as
c r i a n ç a s é k a r i n g u á í. A v á guat í é h o m e m -feito. A mãe chama
o f i l h o m e n i n o de jepiapá; se for m e n i n a é nemenbí. Se for
p e r g u n t a r pro pai, e l e vai d i z e r que c h a m a o f ilho de ju rai;
e a menina filha, jera i p á . Tio é tietuté; tia, tiejetii",
declara um de nossos colaboradores. é interessante
ressaltar que a mã e trata os filhos por designativos
d i f e r e n t e s do pai.

J ú l i a da Silva, i r m ã de V e r á Mi rim, é a parteira


da ald eia. Ela, d e s c r e v e n d o su a função, diz que q u a n d o a
mulher grávida começa a sentir dor, o m a r i d o vai chamá-la,
"Então, p r i m e i r o faz c h á de Kapiá (erva t a m b é m c h a m a d a por
e l e s de 'lágrima de N o s s a S e n h o r a ' ) d e fazer colar com a
conta; pôe também vacapy (p at a de vaca - f oram colhidas
a m o s t r a s da s duas erv as ), e d á p r a e l a tom ar, pra n ã o s e n t i r
m u i t a dor e não ficar doen t e . Aí n a s c e c r i a n ç a ; então , pego
pra cortar cordão (umbilical) c o m f a q u i n h a de t a q u a r a , bem
afiadinha, que c h a m a T a q u a p e í . C o m o u t r a faca nã o pode, faz
mal. Antes, p e g a a ta quara, d e i x a sec ar, c o r t a bem finin h a ,
pequena, e faz a faca pra c o r t a r u m b i g o . A mãe guarda umbigo
p r a fazer cola r Ipowí (o u m b i g o da c r i a n ç a r e c é m - n a s c i d a , é
e n v o l t o e m um t e c i d o de a l g o d ã o , em f o r m a de um saquinho,
que é p e n d u r a d o no p e s c o ç o d a c r i a n ç a , por u m a c o r d i n h a f i n a
de algodão também). Depois que c o r t a deixo pendurado pra
s e c a r b e m e colo c a r no s a q u i n h o . A t é c i n c o a n o s t e m que u s a r
Ipowí, d á sorte, prote ge. Tem que c u i d a r bem, quando nasce
t e m que segur ar, poe j u n t o da mãe, c r i a n ç a chora. Depois
l i m p a b e m a mãe e dá b a n h o no filho, l i m p a b e m tudo, também.
T e m que ser na água quente, só. T e m que l i m p a r bem t o d o dia,
t r ê s dias. C r i a n ç a fica s e m p r e do l a d o da mãe. (iuando é
p e q u e n o n ã o dá pra s aber o n o m e da c r i a n ç a só d e p o i s de um
a n o que o C a c i q u e vai s a b e r (segundo nossos informantes e
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o b s e r v a ç o e s de campo, a criança quando nasce recebe apen a s o


n o m e em português; o "nome Guarani", só quando começa a
falar. E s t e a s s u n t o s e r á m e l h o r a b o r d a d o ma is adia n t e ) , pode
ser; K u a r a y Poty, M i r i m ( ' p a t r o n í m i c o s sag rados' - Cadogan,
i949/A:657), K araí ('patronímicos sagrados; Kara i Ru Eté,
d i o s dei f u e g o ' - idem). Verá í ('patronímicos sagrados'
i d e m : 667), Sunu ('tro nar , yapu/chunu empléase como
p a t r o n í m i c o sagr a d o ' - Idem :67 0); pros meninos. Se for
menina é Pará ('patronímicos sagrados, mar, ramificaciones
dei mar, las agua s ' - i d em;66 4), Kerechy ('patronímicos
sagrados' - i d e m : 657), Ara í ('patronímicos sagrados'
idem:65i), Jechuká ( ' a d o r n o que l l evan las m u j e r e s en la
cab eza , e m b l e m a de la f e m i n i d a d ' - idem;6 55). Meu nome é
P a r á Hiri m".

A l g u n s de nossos informantes declararam que os


Guarani possuem meios anticoncepcionais; "Pra não ter filh o,
tem que tomar r e m é d i o do mato. Aqui tem, é só p r o c u r a r erva;
mas, s ó os m a i s v e l h o s que sabe. F a z chá, d e p o i s que tem
filho toma tudo de u m a vez, aí, n ã o tem mais. Só que não
p o d e t o m a r café, n e m c o m e r a ç ú c a r do juruá; se tomar tem, eu
já vi. 0 C a c i q u e s a b e b e m d i r e i t i n h o o remédi o, p e g a e r v a n o
mato. 0 que eu tomei, foi u m a m u l h e r G u a r a n i do R i o Grande
do sul que me ve ndeu. 0 m a r i d o t e m que tomar também. Algum
t o m a m e s m o o do bran c o , ass im". O u t r o M b y á i n f o r m a que em
U b a t u b a a l g u n s G u a r a n i c o n h e c e m e s t e " r e m é d i o do ma to"; "eu
n ã o me l e mbr o b e m c o m o é, mas já v í . O u ase n i n g u é m s abe,
pelo menos a s s i m em português, é e r v a que dá em árvore
comprida. 0 nome guarani desta erva é Memb y venjá. Depois
que t o m o u não p o d e c o m e r açú car e café. Tem que ter c u i d a d o ,
te m que r e p o u s a r p e l o m e n o s um mês, h o m e m e mulher, se não,
acaba o efeito e v e m cria nça. D e p o i s que bebe o chá e faz
e s t a s coisas, é pr a se mpre. Cuidados é só por d o i s meses,
depois, n ã o p r e c i s a mais".
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Ego n Schaden (í963:86) informa que outrora


furava-se o lábio inferior dos meninos ao entrarem na
puberdade., p a r a u s a r e m o " t e m b e t á ”. 0 tembetá, ou tembequá,
é u m a h a s t e de r e s i n a ou t;3 .quára, c o m IS cm de comprimento
por 3 mm de largura (m édia); fixado em uma de suas
extremidades, em p e r f u r a ç ã o l o g o a b â i x o do c e n t r o do lábio
i nfer ior . Est e objeto não foi encontrado em Bracuí. A
p e r f u r a ç ã o labial é f e i t a a o s 13 anos, com uma fina agulha
de ta quara, conforme relatou u m v e l h o i n f o r m a n t e Mb yá; "em
C h a p e c ó e Ibirama, o pessoal u s a v a furó no beiço, não mais
agora. T e m b e q u á tá d e s a p a r e c e n d o . Só o homem usava para se
e n f e i t a r , a c h o b o n ito. N o s t r e z e a n o s fura v a assim, no t e m p o
que eu era men ino . Já não tamos no mato puro; aí n ã o us a
mais, s e n t e v e r g o n h a do b r a n c o " .

0 Cacique d e c l a r a que o tembetá era u s a d a como


" c a s t i g o p a r a as c r i a n ç a s m u i t o le va d a s " , e que é s e m e l h a n t e
a um raio, S c h a d e n (1974:19) d i z que na m i t o l o g i a Guarani,
" . . .Tupã, o deus d o tro vão, passa p e l o cé u com tembetá
reluzente, representado pelo raio...os Mbuá atuais não têm
furo labial, e os que o ostentam não costumam us ar o
tembetá...". Em Bracui e n c o n tramos a p e n a s dois indivíduos
com perfuração l a b i a l : o h o m e m m a i s idos o da aldei a, e um
M b y á da A r g e n t i n a de c i n q u e n t a anos. A perfuração labial
deveria ocorrer após o menino aprender todo conhecimento de
um h o m e m adu lto . "Há, por isso, um período de instrução
prév ia, de que se incumbe o pai, ou alguém por ele
designado. 0 en sino, f eito 'pa ra que o m e n i n o não se torne
preguiçoso', abrange a técnica de tran ç a r e outras
habilidades" (Sc ha den, 1974:61).

0 p r o c e s s o de s o c i a l i z a ç ã o das crianças é feito


por i m i t a ç ã o (ou seja, de m a n e i r a inf o r m a l ) e sem r e p r e s s ã o ;
"Bat e r não; nunca, t e m que f a l a r só, não p r e c i s a b a t e r nem
brigar"; d e c l a r a u m a j o v e m M b y á m ã e de três filhos, que fal a
a i n d a da f u n ç ã o da m u l h e r e d o h o m e m no lar; " H u l h e r faz
M EH IH O HBYA
CR.\AHÇA6 MBVÁ
CRÏAHÇA5 MDYA
50

b a l a i o eni casa, faz também a comida, l impa tudo, cuida do


filho; h o m e m t r a b a l h a na roça, faz a casa, trabalha fora,
caça, assim. Só a mul her c u i d a d a cria n ç a , a mãe fica com
criança crescendo, e n s i n a muito; o que a g e n t e faz, eles faz
igual. Na e s c o la, depois, a p r e n d e e s c r e v e r no c a d e r n o , ler a
l í n g u a do branc o; lá é diferente, e n s i n a t u d o as c o i s a s na
aula. h s v e z e s mãe, pai, b a t e na cria n ç a , eu não bato
nunca, h b y á p u r o não bate na c r i a n ç a . Tem um f ilho m e u f i c o u
co m o avô, não m a n d o mais, e l e n ã o bate. 0 que f i c a comigo
eu nã o bato, se nã o obedece eu falo só. Pra criança
a p r e n d e r , tem que fazer, mostrar, aí faz igual q u a s e tudo,
b e m dir e i t i n h o , aí apre n d e u , é assim. Menina aprende com a
mãe fazer com ida, lavar roupa , limpa a casa. 0 menino
a p r e n d e co m o pai, roça, ir no m a t o caç ar, fazer armadilha;
a m ã e não s a b e fazer a r m a d i l h a ; h o m e m s a b e fazer m u n d é u pra
p ega r tatu, tatet o. 0 pai t a m b é m e n s i n a as v e z e s a criança
falar j u r u á p o r q u e sai m a i s de ca sa. Quando menina cresce a
mãe ensina c o m o é, tem que c o z i n h a r c u i d a r da casa pr o
marido, o resto' a p r e n d e s o z i n h a " . Um h o m e m M b y á fala sobre
educação masc u l i n a , "Tem que cuidar da mulher, f azer
carinho, c u idar na h o r a d e ter o filho, c u i d a r filho também;
ser bom pra eles tudo, p r a famí lia , nã o brigar muito,
assim."

A escola da a l d e i a é instituída pelo "SUMMER"


( I n s t i t u t o L i n g ü í s t i c o de Verão). Segundo Sílvio Coelho dos
S a n t o s (í975:63), o Summ e r f o r m a p r o f e s s o r e s b i l í n g ü e s , para
e n s i n a r a forma escrita das línguas nativas e o português
e s c r i t o e falado, também. 0 f i l h o do C a c i q u e é o professor
da aldeia; f o r m a d o pela e s c o l a m i s s i o n á r i a de Rio d a s C o b r a s
(Paraná), t a m b é m do Summe r. As aulas, dadas de s e g u n d a à
sexta-feira, i n i c i a m - s e às o i t o hora s. Porém, o professor
abre a escola todos os domingos pela manhã, para que
e l e m e n t o s das igrejas crentes adjacentes, realizem seus
"cultos" doutrinários. Os p r o f e s s o r e s d e s s a s e s c o l a s r e c e b e m

um salário pago pelo Summer, que em seu centro de


tr einamento transmite a ideologia crista; que s e r á d i v u l g a d a
p o s t e r i o r m e n t e por e s t e s (a m a i o r i a c o n v e r t i d o s ) aos outros
m e m b r o s da aldeia . 0 p r o f e s s o r da aldeia informou-nos que
seu trabalho seria " tipo uma missão" (ver^ S í l v i o C. dos
Santos, 1 9 75:70). A l g e m i r o d e c l a r a que, "fui t r e i n a d o t a m b é m
e m L a r a n j e i r a s do Sul, p e r t o de C a s c a v é l (Par aná), na I g r e j a
do Cristianismo Deci d i d o , que é subordinada ao Núcleo
Assistencial I n d í g e n a do Su mm e r , em R i o d a s C o b r a s . 0 Summer
é protestante-luterano, por e s t e m o t i v o t e m que a l f a b e t i z a r ,
d i z e m que tem que e n t e n d e r a B í b l i a . T o d o ano, h á t r ê s anos,
f i c o u m mês, nas féri a s d o verã o , pra atualização. Tem todo
t i p o de í n d i o lá, K a i n g a n g , Xokleng, Xiripá, muitos. P r a ser
p r o f e s s o r tem que ser a l f a b e t i z a d o por eles, fui até a
q u a r t a s é r i e em Chape có, t i n h a que a n d a r d o z e km da minha
c a s a em E n t r e Rios, p e r t o de X a x i m a t é a esco l a . No Summer
a g e n t e a p r e n d e a e n s i n a r c r i a n ç a s de 5 à 7 anos, a escrever
n a língua, e falar e escrever o português, coordenação
mo t ora, tuddT. Tem duas maneiras de ensinar: Lá em
Mangueirinha, p e r t o de R i o da s C o b r a s n o P a r aná, os K a i n g a n g
n ã o f a l a m a l í n g u a materna. Então o Summer forma alguém de
lá que fale b e m a lí ngua m a t e r n a , e e s t e p r o f e s s o r e n s i n a as
duas línguas simultaneamente. No inicio aprende a escrever
só e m p o r t u g u ê s , d e p o i s que a criança aprende a escrita da
l í n g u a mater n a . E n t ã o o p r o c e s s o é ass im: primeiro escreve e
fala o p o r t u g u ê s e, se n ã o s o u ber, aprende o Kaingang (p ára
os K a i n g a n g ) ; depois aprende a escrever o Kaingang. é
diferente o e n s i n o na aldeia onde a c r i a n ç a só fala na
l í n g u a de o u t r a que a c r i a n ç a s ó fa la o p o r t u g u ê s " .

Conforme o professor Mbyá, as e s c o l a s bilíngues,


(muitas mantidas por g r u p o s religiosos; algu n s , como é o
c a s o do Su mmer, internacionais), utilizam cartilhas contendo
textos bíblicos, como apoio didático. A educação, em países
pluriétnicos, tem Sido o principal pilar de u m a política
52

indigenista, que b u s c a a i n t e g r a ç ã o d e s t e s g r u p o s é t n i c o s à
sociedade nacional.

Segundo um Guarani da aldeia de Boa V i sta,


Ubat u b a ; "0 b r a n c o a c h a que o í n d i o s e m p r e te m que a p r e n d e r .
Aprender a realidade do trabalho, aprender a falar o
português e saber de todos os problemas pra poder se
d e f e n d e r do p r ó p r i o bran c o ! Difícil ente n d e r ! Antigamente o
índio não precisa d e s s a e s c ola, não era prec i s o ; então o
juruá criou a necessidade e , ao m e s m o tempo, a e s c o l a pra
combater necessidade, não dá p r a e n t e n d e r mesmo. A n t e s , o
que o índio aprendia e r a caça r , pescar, fazer a casa,
bal aio , aprendia vendo e fazen do, assim. Hoje não, tudo
mudou, não t e m m a i s jeit o, n ã o dá p r a vol ta r, a escola está
aí, é n e c e s s á r i o p r a s o b r e v i v e r . Se n ã o soub e r t r a t a r c o m o
bra nco, ele acaba com o índio, mesmo o padre e freira
(risos). Em I t a r i r i t i n h a freira católica, professora, que
p r e n d e u c r i a n ç a que n ã o q u e r i a e s t u d a r e a c r i a n ç a m o r r e u no
fim do dia, í n d i o - n ã ó p o d e v i v e r pres o; só livre, n ã o d á pr a
p r e n d e r índicf m u i t o t e m p o em s a l a de aula. 0 í ndio n ã o pode
largar s e ü s i s t e m a por c a u s a da e s c o l a do bran co, se n ã o ele
acaba! Os í n d i o s m a i s v e l h o s t e m qu e c o n t i n u a r aconselhando
os mais nov os. Se t iver e s c o l a n ã o p o d e ser do S u m m e r , nem
de o u t r a r e l i g i ã o qual q u e r , p o r q u ê na verdade eles querem
que o í n d i o l a r g u e a r e l i g i ã o d e l e p r a ser crente, não pode
assim. Em B r a c u í tem m i s s a d o c r e n t e n o doming o, isso é mal.
Nã o dá pra m u d a r r e l i g i ã o , é assim , não adianta dizer que
o í n d i o n ã o s a b e que e x i s t e o Deus, o p a s t o r que d i z e r isso
do G u a r a n i n ã o s a b e nada. 0 í n d i o n o v o at é vai na i g r e j a do
branco, mas n ã o s e g u e a r e l i g i ã o . E l e vai p o r q u e é enganado
p e l o p a d r e que dá roupa, p ã o ou peixe; e n t ã o o í n d i o vai que
n e m bôbo. Mas p e n s a r em D e u s m e smo, só ná h o r a da r e z a de
n o i t e lá na Opy. Aqui em U b a t u b a t e m Opy também, tem Pajé;
mas, d e p o i s que c h e g o u e s c o l a do S u m m e r , muitos não vão mais
na r e z a de noite, que c o m e ç a t o d o s o d i a s as s e t e hor as , at é
m e i a noite; v a o t u d ó pro b a i l e do s b r a n c o s . 0 juruá tem que
deixar índio em paz, ele já a p r e n d e u se d e f e n d e r . Guarani
v i v e c o m o j u r u á há m u i t o tempo; se nã o s a b e se d e f e n d e r , já
tinha desaparecido tudo. Os que não sabiam já morreram.
Gu a r a n i n ã o p r e c i s a do bran co" .

E n t e n d e m o s que a " e s c o l a p a r a os í n d i o s " poderia


funcionar como alavanca de u m a p,plítica indigenista que
visasse à participação; e nã o a integração do G u a r a n i na
sociedade branca. A escola poderia buscar através de um
diálogo aberto e f r anco co m essas populações, suas
verdadeiras necessidades; transformando-se, d e s t a forma, em
" e s c o l a dos ín dios, p e l o s índios".

A área cen tral da aldeia, em frente à casa de


reza, é o e s p a ç o u t i l i z a d o p a r a r e u n i õ e s o n d e o C a c i q u e f ala
à su a c o m u n i d a d e (que s e r á v i s t o a segu i r ) , lu gar de festas
e danca; também ocupado d i a r i a m e n t e por g r u p o s de crianças
que b r i n c a m o d i a inteiro. 0 futebol e a b o l i n h a de vi dr o ,
ou bol ita j brinquedo também citado por S c h a d e n (Í974-.63);
s ã o os d i v e r t i m e n t o s prediletos tanto das c r i a n ç a s quanto
do s adul t o s , que muitas vezes participam dos brinquedos
inf ant is. "Menino b r i n c a de bolinha de vidro, brinca de
caçar, f uteb ol; m e n i n a já é d i f e r e n t e " , diz Yolanda Benite,
“m e n i n a b r i n c a c o m s e m e n t e de m i l h o A w a t í e t é í, que é o
m i l h o do índio; brinca com boneca, faz o balaiozinho,
assim".

0 Cacique Verá Mirim fala das brincadeiras e


c a n t i g a s i n f a n t i s Guarani: "Vou contar, s e m p r e me l e m b r o do
t e m p o de criança, vovó e vovô ensinaram cantar assim...
(noss o i n f o r m a n t e c a n t a a l g u m a s c a n t i g a s em Mbyá, que estão
registradas em fitas audiocassete). Essa é nossa
brincadeira. M a s é m e i o s e r i a p o r q u e fala d e N a n d e r u , nosso
d e u s e A n a ngá, que é m e i o diabo. Tem u m a o u t r a brincadeira,
que é s é r i o ta mb ém, fala da es trada; é para criança saber
54

qual o caminho certo, porque estrada do b r a n c o é muito


larga; m a s a de G u a r a n i e do D e u s é bem estreitinha. Essa
f a l a , d a m ã e de Jesus, Haria, que v e i o p r o c u r a r ele. E n t ã o os
o u t r o s p e r g u n t a v a m p a r a ela, 'onde é que vai a H a r i a ? ' ; e
el a r e s p o n d e , 'Eu vou o n d e f i l h o morreu' ; outro explica pra
e l a entã o, 'não, o Jesus tá lá na crus'; então a mãe de
J e s u s já v e m buscar, é assim, é pra c r i a n c a brincar e
cantar, p r a n ã o se e s q u e c e r do Deus, tamb ém" .

J o ã o da S i l v a c o m u m g r u p o de c r i a n ç a s m o s t r a uma
brincadeira Hbyá. Todos (um as dez crianças, meninos e
meninas, de três a o n z e anos ), f i c a m em fila, agachados, com
as d u a s m ã o s no o m b r o da c r i a n ç a i m e d i a t a m e n t e à fr ente, e
caminham ("como um pat o") nesta for maç ão; cantando uma
mú sica, que r e p e t e o s e g u i n t e verso, v á r i a s vezes; "Amandáu
Kyuí k y u í í, a m a n d á u kyuí kyuí í , ...". V e r á H i r i m explica
que e s t a m ú s i c a fala de u m a m i n h o c a , que sai de um b u r a c o no
m o m e n t o em que uma p e d r a r o l a s o b r e ela; e n t ã o as crianças
t e m t a m a v i s a r ao p e q u e n o verme, s o b r e o p e r i g o imin e n t e .

0 b a n h o de rio e cachoeira é outro divertimento


muito procurado .-pdf adultos e crianças Hbyá. Em Bracuí
e x i s t e um tanque de c a p t a ç ã o de água, feito para
a b a s t e c e r um l o t e a m e n t o que iria ser c o n s t r u í d o na área
Guarani. Com a desapropriação dessas terras este tanque
p a s s o u a ser local de b a n h o e d i v e r t i m e n t o p a r a os H b y á (ver
foto a s e g u i r ) .

Os Hbyá, em geral, mantêm boas relações com os


m o r a d o r e s b r a n c o s das a d j a c ê n c i a s de Bra cuí, "Aqui é bom,
temos amizade co m juruá. Nossos parentes até f o r a m jogar
futebol c o m os juruá. E l e s j o g a m bem", d e c l a r a um sobrinho
do Caciq u e ; d i z e n d o t a m b é m que s e u g r u p o p r o c u r o u o a l t o da
m o n t a n h a d o Bico da A r r a i a e m B r a c u í por ser local r e m o t o e
de d i f í c i l a c e s s o aos brancos da região. Assim, podemos
constatar que é c o m u m no d i s c u r s o de n o s s o s c o l a b o r a d o r e s , a
BAHHO HO WO BRACÜl
relação entre dist â n c i a , endogamia e preservação da
organização s o c i a l .

L id e ra n ç a

Os M b y á de Bracuí e s t ã o o r g a n i z a d o s em t o r n o de um
C a c i q u e que a c u m u l a as fu nc o e s de líder p o l í t i c o e r e l i g i o s o
<o t e m a " l i d e r a n ç a r e l i g i o s a " será abordado mais adiante).
M e s m o c o m 77 a n o s o Cacique é muito participante; de corpo
delgado e ágil; jamais a b d i c a aos deveres que lhe são
atribuídos. Observando atentamente todos os m o v i m e n t o s da
a l d e i a e de s e u s e v e n t u a i s v i s i t a n t e s , o v e l h o líder p r o c u r a
concentrar todas as atenções em t o r n o de sua imponente
figura. F'ara e n t e n d e r m o s o papel do C a c i q u e na comunidade
Mbyá é fundamental analisarmos a questão da liderança
info r m a l c a r i s m á t i c a ou “c h e f i a se m pod er" .

P i e r r e C l a s t r e s (1 97 8:10 6), trabalhando a relação


e n t r e o p oder e a pal av ra, o b s e r v a n d o que, as "sociedades
sem Estado" apresentam a aliança entre liderança e a
p ala v r a ; " S o b r e a t r i b o r e i n a o se u r e s p e c t i v o c h e f e e este
reina também s o b r e as p a l a v r a s da tribo . . . Não se deve,
junto a esses selvagens, perguntar: quem é seu c h e f e ? mas
antes, quera é, e n t r e vocês, a q u e l e que fala?" (P. Clastres,
1 9 7 8:107). P a r a o au tor n a s " s o c i e d a d e s de estado", como são
as s o c i e d a d e s o c i d e n t a i s , a palavra é o d i r e i t o do po der.
T oda via, em " s o c i e d a d e s s e m es tad o" , c o m o a Guar a n i , ocorre
o in verso; ou seja, a p a l a v r a é o "d ever do poder", pois
e s t a s c u l t u r a s n ã o r e c o n h e c e m ao C a c i q u e o d i r e i t o à p a l a v r a
porque ele é o líder; mas é e x i g i d o ao homem destinado a
e x e r c e r a l i d e r a n ç a que p r o v e s e u d o m í n i o s o b r e as p a l a v r a s .
Porém, s e g u n d o P. C l a s t r e s ( 1 9 78:108), "A p a l a v r a d o chefe
n ã o é p a r a ser e s c u t a d a . . . o c h e f e e s t a s e p a r a d o da palavra
p o r q u e e s t á s e p a r a d o do p o d e r " (de fato, em B r a c u í os Mbyá
56

muitas VGzes riam do Cacique d i s c u r s a n d o ) . Mesmo assim o


Cacique fala para sua comunidade; ele deve provar sua
q u a l i d a d e de b o m orador; este é seu pap el e n q u a n t o líder
carismático. "Nao é do lado do c h e f e que se encontra o
poder , daí r e s u l t a que sua p a l a v r a n ã o p o d e ser p a l a v r a de
pode r, de a u t o r i d a d e , de c o m a n d o . . . a s o c i e d a d e p r i m i t i v a é a
recusa de um pode r s eparad o, p o r q u e e l a próp r i a , e não o
chefe , é o lugar do po der" (P. C l a s t r e s , Í978;Í08). Sobre a
questão, declara Scha d e n (1 974:95) , "Em parte alguma, a
sociedade Guarani contemporânea chègou a construir
o r g a n i z a ç ã o do tipo e s t a t a l . . . " .

Foi o b s e r v a d o na a l d e i a de Br a cuí, que d u r a n t e as


" r e u n i õ e s da c o m u n i d a d e " ( como d i z i a V e r á M i rim) o Cacique,
antes de mais nada, proferia l ongo discurso (foto p.
seguinte). A r e t ó r i c a é o r e f o r ç o às n o r m a s i n t e r n a s (tidas
c o m o leis comuns a todos), e a tentativa de r e s o l v e r os
p r o b l e m a s d a aldeia. Seu J o ã o da S i l v a é c o n s i d e r a d o grande
Cacique e or ador, "ele fala bem pra toda comunidade",
d e c l a r a u m informante. D e s t a forma tem o c o n s e n s o do grupo
de que é o lider (é i n t e r e s s a n t e lemb r a r que e s t a a l d e i a é
b a s i c a m e n t e f o r m a d a por p a r e n t e s e a f i n s do C a c i q u e J o ã o da
Sil va) . Durante nossa estada nesta ald eia , correram
m i g r a ç õ e s de a l g u n s g r u p o s f a m i l i a r e s que t i v e r a m d e s a v e n ç a s
com o Cacique de Bracuí. Estes, então, se retiraram para
o u t r a s a l d e i a s Mbyá.

P e l a m a n h ã e ao c r e p ú s c u l o o C a c i q u e s e n t a - s e sob
u m a á r v o r e no p á t i o ce ntral d a aldei a, tomando chimarrão. Em
p o u c o te mpo, muitos membros da c o m u n i d a d e se r e u n e m para
o u v i - l o falar (quase t o d o s o s d i á l o g o s que t i v e m o s com João
da S i l v a foram a c o m p a n h a d o s por um ou m a i s Mbyá) . Este
evento acontece pela manhã e ao final da tarde antes da
oração comunitária. 0 consumo da erva-mate é hábito
constante entre os Guarani. Os p r e s e n t e s mais apreciados
p e l o C a c i q u e s ã o o fumo e o c h i m a r r ã o , s e n d o que e s t e ú l t i m o
CACIQ U E. PALA A SU A C O H U N lp A D E
é o f e r e c i d o às visi tas; t o m a d o em frente à O p s » à beira de
u m a fo gue ira, fora ou d e n t r o d a casa. As c u i a s de chimarrãó
o b s e r v a d a s n e s t a aldeia, f o r a m c o m p r a d a s em m e r c a d o s ; porém,
as b o m b a s de sucção, chamadas p e l o s H b y á de mombejá, foram
feitas artesanalmente, a p a r t i r de u m a h a s t e de b a mbu, com
u m a d a s b o r d a s vaz ada s, e a o u t r a c o m um t r a n ç a d o (cestaria)
de taqu a r a , c o m o formato d e um pequeno cesto depositado
d e n t r o da c u i a (esqu e m a p. s e g u i n t e ) .

Segundo Schaden ( 1 974 :66), atualmente apareceu a


f i g u r a do " C a p i t ã o ..., o c h e f e o f i c i a l do grupo, é indivíduo
r e l a t i v a m e n t e jovem, e s c o l h i d o pelo funcionário do Serviço
de Proteção ao índ io...". Este autor (1974:97-8)
comentando a q u e s t ã o do s u r g i m e n t o do C a p i t ã o de aldeia,
d e c l a r a que: "A instituição não se o r i g i n o u no seio da
cultura Guar ani ; foi-lhe imposta de for a." Em Bracuí,
entretanto, a l é m do Cacique, encontramos apenas uma outra
autoridade; o Vice-cacique L u i z Eusé b i o , que é totalmente
submetido à su a vontade. Em aldeias como Rio Silveira
( d i v i d i d a e n t r e Mbyá e Nandéva), no li toral Paulista, foi
registrada a existência deste tipo de lide r a n ç a ; porém,
também sem nenhuma autonomia política. 0 Vice-cacique (que
t a m b é m foi Capi t ã o ) e x p l i c a que a l g u n s l í d e r e s a n t e s de se
tornarem Cacique de um a determinada aldeia passaram pelo
p o s t o d e Capitão.

S c h a d e n ( 1974:96) a f i r m a a i n d a que p a r a os Hbyá ,


" . . . C a c i q u e (Capitão), de poder mais nominal que real,
escolhido de preferência em atenção a suas qualidades
f ísicas , cor age m, generosidade, t a l e n t o de comando e de
orad o r , é mantido no cargo enquanto não aborreça a
c o m u n i d a d e ... Para ser considerado competente, o Cacique,
e n t r e o u t r a s qualidade s, d e v e ser h á bil e a s t u t o no trato
com as autoridades brasileiras". A base carismática é
essencial à liderança Guarani; porém , "a a u t o r i d a d e precisa
ser a p e n a s nom inal ", encerra Schaden ( 1 9 7 4:100).
58

Conforme Kimuendajú (198 7 : 7 5 ) : "Antigamente os


Guarani nao reconheciam o u t r o l íder que o pajé principal.
Mas quando passaram a se relacionar com autoridades
brasileiras, estas - que jamais haviam levado em
c o n s i d e r a ç ã o os c o s t u m e s 'destes b u g r e s ' - nomearam (grifos
meus) principais todos aqueles que prometiam us ar essa
a u t o r i d a d e da m e lho r f o r m a p o s s í v e l em favor d o s que os
n o m e a r a m ...h q u e l e s pretendentes, contudo, o governo
c o n f e r i a u n i f o r m e e p a t e n t e de C a p i t ã o . . . " .

"Seu J o ã o v i r o u C a c i q u e p o r q u e d e s d e d e z o i t o anos
e l e t r a b a l h o u d e C a p i t ã o lá em G u a r i t a no Rio G r a n d e d o Sul .
A q u i n ã o t e m Capitã o. C o m e c e i a trabalhar lá em Paranaguá,
a j u d a n d o o C a c i q u e . A n t e s e l e t r a b a l h a v a sozi n h o , bastante,
ninguém ajudava, ele e s t a v a s o z i n h o . Se t i n h a que s a i r nã o
podia. S e u João, h o m e m de e x p e r i ê n c i a m a s com m u i t a idade,
t e m que t á junto. A c o m u n i d a d e p e d e p r a e l e tá j u n t o semp r e ,
ele é o chefão. M a s o C a c i q u e t e m que t r a b a l h a r fora tamb é m .
Lá em P a r a n a g u á , qualque r e n c o m e n d a p r a nós ele t i n h a que
pegar. E n t ã o t i n h a que sair d a I l h a da C o t i n g a , e s e m ser o
C a c i q u e n ã o p o d e re tirar c o i s a d a F U N A I , s ó se for o C a p i t ã o
ou V i c e - c a c i q u e j se não, n ã o pode. Eu t a v a a c h a n d o que el e
pra retirar qualquer co isa, pra assinar, levar qualquer
c o i s a p r a FUM AI, te m que ter u m o u t r o m a i s n o v o e m a i s f o r t e
p r a ajud a r . Tem que ser a u t o r i d a d e dos índios também. Foi
Se u J o ã o qu e r e s o l v e u eu ser C a p i t ã o , depois Vice-cacique.
A n t e s de m i m t e v e o u t r o lá e m C h a p e c ó que e r a c u n h a d o d o S e u
Joãoj m a s e l e b e b i a m u i t o e n ã o g u e n t o u o s e r v i ç o . E n t ã o fui
e u , n u n c a b e b i ".

S e m p r e que ocorre algum t i p o de problema entre


J o ã o da S i l v a e L u i z ( q u a l q u e r e p i s ó d i o que c o l o q u e e m r i s c o
o prestígio do Cacique diante de sua comunidade). Seu João o
destituía deste cargo, p a s s a n d o a chamá-lo de "Capataz"i
extinguindo temporariamente o cargo de Vice-cacique, ou
coloca algum de se us filhos no lugar, até restabelecerem
59

relações amistosas. 0 "Capataz" seria apenas um eventual


o r g a n i z a d o r d e g r u p o s p a r a um d e t e r m i n a d o t r a b a l h o . Todavia
e s t a f u n ç ã o e r a s e m p r e e x e r c i d a por Luiz.

D o m i n g o s B e n i t e fez p a r t e de um g r u p o organizado
por Verá Mirim, com o objetivo de manter a ordem e
supervisionar o trabalho na alde i a ; " A qui na a l d e i a Seu
J o ã o p e g o u eu, e m a i s três; p r a ser c a b o d a p o l í c i a . Mas o
p e s s o a l n ã o quis obed e c e r , pr a que serve isso então?, não
tem castigo, não tem na da!". Schaden (1974:66) faz
referência a esse tipo de autoridade, dizendo que "..se
a r v o r a m em 'c hefes de polícia', um tanto despóticos, na
m a i o r i a d o s caso s, porém, s e m m u i t o êxito ".

0 Cacique de Bracuí é chamado pelos Mbyá, de


Nanderú ("nosso pai"), txtulo tambem atribuído ao chefe
religioso, como veremos mais adiante. Um de nossos
principais informantes declara que, "é a p r i m e i r a vez que
t e m o s um C a c i q u e f o r t e a s s i m c o m o S e u João; e l e é quem sabe
falar b e m d i r e i t i n h o co m toda comunidade e com o branco
tamb ém. S e m e l e n ã o t i n h a alde i a , é c o m o u m pai p r a nós". A
participação da liderança nas questões da terra é
fundamental, como c o l o c a um primo do Cacique Verá Miri m,
" N ã o sei se foi D e u s quem deixou chefe para cada naç ão,
índio, br anco, tudo quanto é coisa . Até o bi cho, não sei
c o m o é a v i v ê n c i a d o bicho; m a s a f o r m i g u i n h a q u a n d o sai pra
c o m e r t e m que a v i s a r o c a p i t ã o z i n h o . 0 C a c i q u e que a r r u m o u a
r e s e r v a p r a n ó s ficar. E n t ã o nós s a i m o s t u d o junt o, sempre
a c o m p a n h a n d o ele. S e m C a c i q u e n ã o t e m terra, nã o consegue.
E n t ã o t e m que se guir, o b e d e c e r també m " .

A p a r t i c i p a ç ã o do líder Guarani é fundamental na


b u s c a d e u m e s p a ç o p a r a a a l d e i a Mbyá. 0 C a c i q u e f a l a de seu
papel n o p r o c e s s o que levo u à c r i a ç ã o da á r e a de Bracuí:
" D e p o i s que me a g r a d e i da t e r r i n h a , vim com minha comunidade
p r a cá. Naquele t e m p o eu fui na S e c r e t a r i a de Assuntos
60

Fundiários, fazer muita r e u n i ã o láj eu e três dos meus


parente. 0 terreno e s t e aqu i, o í n d i o já tinha morado de
m u i t o tempo. Fui falar e n t ã o com o Darcy Ribeiro, que t ava
junto com o governador Brizola, que c o m e c o u a demarcar o
terreno. Depois, p a s s o u pro Moreira F r a n c o que continuou,
mas o d i n h e i r o sumiu. Toda essa planta, vergamota, laranja,
quem p l a n t o u foi o Aparício que morava onde mora minha
filha. Daí eu fiquei s a b e n d o de l o n g e da m o r t e do Ka raí,
f i c o u a terra, casa, e eu f i q u e i t r i s t e do meu c o r a ç ã o . Aí
c h e g u e i na casa do Aparício, eu e m a i s três. Passemos por
São Paulo v i n d o s de Paranaguá o n d e morava. Primeiro nós
quatro viemos ver se agradava; a FUNAI não resolve, é o
í n d i o quem resolve, o í n d i o que vai r e s o l v e r , se a g r a d a r , se
n ã o a g r a d a r , a FUN AI faz c o m o o í n d i o quer. Aí o Aparício
disse 'já estava saindo mesm o; o meu pai ganhou este
terreno, daí morreu. Agora estou sozi n h o , se o senhor
agr ad a, fica'. N a q u e l e t e m p o eu t i n h a duzentos e pouco do
m e u pessoal, sempre duzentos, duzentos e p o u c o . Aí nó s
v i e m o s aqui e me agra d e i , gostei e disse, 'vou m o r a r ' , aí
então ele me deu pra mim. Falei, 'vou v o l t a r d a qui, vou
c o n v e r s a r com o c h e f e da FUNA I, marcar o dia e vou c onseguir
passagem'. Fique i aqui c o m o s t r ê s e o A p a r í c i o , três di as.
Aí, em S ã o P a ulo ficamos na C a s a do índio. Aí tem que
a s s i n a r papel d e s d e aqui em S ã o Pa ulo, Baurú; eu, o c h e f e da
FUNAI, o Luiz e o Nican o r , m e u genr o. D e p o i s nós f o m o s lá na
Cotinga, aí tem que c o n t a r o que é cert o. Eu d i s s e p r a m i n h a
c o m u n i d a d e que me a g r a d e i e, que a q u i em B r a c u í vai dar m a i s
certo, t e r r a melhor, n ã o p r e c i s a de b a r c o p r a chegar, c o m um
b a r c o s ó não aguenta. Aí, d e r r e p e n t e , apareceu o chefe do
p o s t o h o j e aqui, pr a a j u d a r a transportar a indiarada. Aí
e l e c h e g o u lá na Cotinga pra saber quantas famílias vão e
q u a n t a s fica, assim. Então , t u d o cert o, e l e f alou com o
p r e s i d e n t e da FUN AI lá em B r a s í l i a e a r r u m o u d o i s ô n i b u s . No
p r i m e i r o eu mand ei Seu Luiz, na o u t r a v i a g e m foi t u d o j u n t o .
E n t ã o foi toda i n d i a r a d a p r a cá p r a A n g r a do s Reis. A n tes,

p a r e i na U s i n a c o m o pe ssoal da FUNAI, a che i t u d o qu ieto. Aí


d i s s e pra m i n h a c o m u n i d a d e que p o d i a vir, não tem perigo,
n ã o p r e c i s a fugir".

J o ã o da S i lva s e g u e relatando a c h e g a d a de se u
g r u p o em Brac uí, e fala t a m b é m d o p r o b l e m a da d e m a r c a ç ã o da
área; "Aí a minha comunidade chegou aqui e já c o m e ç o u a
limpar um p o u co . P r i m e i r o fêz e s s a c a s i n h a que moro. Depois
de qui n z e dias fui falar com o (Governador) Moreira. Antes
fui falar c o m o Seu J o s é lá do Assuntos Fundiário, então
t u d o bem. D e p o i s v e i o g e n t e da CTI lá de P a r a t i p a r a a j u d a r ,
e e n f e r m e i r a de Ubatu ba. Depois v e i o o p e s s o a l do M u s e u do
índio, eu e o L u i z junto, f o mos e n t ã o falar n o v a m e n t e c o m o
G o v e r n a d o r do R i o pr a p edir a d e m a r c a ç ã o da terra, tava já
d a n d o b r i g a com vi zinho. A FUNAI mandou trinta milhão pra
fazer d e m a r c a ç ã o , pra n ã o acontecer nenhum problema, algum
i n t r u s o pegar t u d o isso aqui de nós. E s s e d i n h e i r o foi de
B r a s í l i a pr a p a s s a r pro G o v e r n a d o r ; mas p a r o u ali e n ã o s a i u
mais, ficou ali (muitos risos). Aí desde ent ão, tamos
lutando, c o n v e r s a n d o pra c o n s e g u i r demarcacão. Fazendeiro
invade, b r i g a p e l a terra, P e lo bananal; Mercantil (Cia. de
lo teamento, u m a da s p r e t e n d e n t e s à área da r e s e r v a ) bota
c e r c a d e n t r o da área, t o m a n o s s o rio, b r i g a c o m a i n d i a r a d a .
é assim, não sei por que, mas n ã o t e m jeito. Daí o c h e f e da
F U N A I falou p r a n ó s que e s s e d i n h e i r o p a s s o u pr o F e d e r a l de
volta, e p e r g u n t o u pro M o r e i r a , 'o s e n h o r já c o m e ç o u a f azer
a demarcacão, o d i n h e i r o t a v a aqui, p o r q u e que e s t á c u s t a n d o
p r a sair d e m a r c a ç ã o ? ' , aí o G o v e r n a d o r disse, 'tudo bem, eu
vo u manda r fazer d e m a r c a c ã o d a q u i do Bracuí'; mas, estamos
e s p e r a n d o até a g o r a e n a d a ! "

Verá Mirim falando sobre a s u c e s s ã o da liderança


da aldeia, liga e s t a q u e s t ã o ao p r o b l e m a da c o n t i n u i d a d e d o s
c o s t u m e s M b y á - g u a r a n i , "Se eu m o r r e r vai ficar p r o m e u f i l h o
A lge m i r o , então ele vai c o n t i n u a r f a z e n d o o m e s m o que eu.
62

tem que se guir siste ma, de o u t r o j e i t o a c a b a tudo. Tem que


ter C a c i q u e forte, sempre".

Eturante n o s s a e s t a d a na a l d e i a de Bra c u í o C a c i q u e
t a m b é m falo u da e x i s t ê n c i a de um g r a n d e P a j é Mbyá. Seu nome
J u a n z i t o Oliv e i r a , conhecido e n t r e os Guarani como "Karaí
M a j o r ” (Karaí = Pajé, ou um n o m e p r ó p r i o ) , ou s e j a "o maior
do s Pajé". C o n f o r m e J o ã o da S i l v a e s t e t í t u l o é d a d o p a r a o
líder r e l i g i o s o d e t o d o s os H b y á do Bra sil, é costume entre
os C a c i q u e d e s t e s u b g r u p o Guarani consultarem Juanzito
b u s c a n d o o r i e n t a ç ã o pa ra resolverem casos graves ocorridos
em suas c o m u n i d a d e s . E s t e d a d o foi p o s t e r i o r m e n t e c o n f i r m a d o
em o u t r a s a l d e i a s da R i o - S a n t o s . 0 pap el do Cacique é de
e x t r e m a i m p o r t â n c i a p a r a a c u l t u r a G u a r a n i pois, através de
sua fala de líder; além de preservar a organização
s ó c i o - p o l í t i c a do grupo, relembra a n e c e s s i d a d e de seguir
s u a s leis e c o s t u m e s (" etho s") c o m o p r o c u r a m fazer os Hbyá
d e s d e t e m p o s imem o r á v e i s ; mantendo assim a v i s ã o de mundo
d o s m e m b r o s de s u a comu n i d a d e .

O Alcoolismo e a Questão da Preservação dá Cultura

Os G u a r a n i desta e de o u t r a s aldeias por nós


visitadas, d e c l a r a r a m que a b e b i d a é p a r a eles a principal
c a u s a d o r a de v i o l ê n c i a , separações conjugais, prostituição,
m i s c i g e n a ç ã o e morte. F a l a m t a m b é m de bai les, na s a l d e i a s ou
em cidades mais p róximas, que geram brigas e mortes após
i n g e s t ã o de b e b i d a alc o ó l i c a ; "índio tem cabeça fraca pra
be bida, t r a b a l h a m fora a s e m a n a toda, p r a c h e g a r no sábado
d e noite, ir p r o b a i l e do juruá, gastar tudo com pi nga.
Depois, c o m e ç a a fazer bobagem, brig a, morre, vai pra
cade ia, é s e m p r e assim. Depois, se p e r g u n t a r p o r q u e foi que
brigou, n ã o s a b e mais, é as sim", declara o Mbyá mais velho
de Bracuí.
63

0 Alcoolismo G um dos principais fatores dc


d e s a g r e g a ç ã o social, segundo colocam os p r ó p r i o s Mbyá, que
temem o efeito nefasto da t r í a d e b a i l e / b e b i d a / b r i g a ; "Aqu i
não tem problema", d i z o C a c i q u e V e r á Mirim, "ninguém bebe,
n ã o é b o m b e ber . Pr a católico, crente, é muito ruim b e ber;
pro índio também é r u i m bebe r. Foi o b r a n c o que colocou
b e b i d a e e n s i n o u a briga r, mata r . Por isso que a indiarada
são tudo virado. N a q u e l e tempo, m u i t o tempo, na mata, briga
n ã o saía. Hoje indiarada tá c o m medo; mas não tem mais
jeito , o branco vem dentro da reserva, traz bacia com pinga,
á g u a a r d e n t e d a cana, e o í n d i o c o m e ç o u a b e b e r ( i m i t a n d o um
c ã o b e b e n d o águ a), a p r e n d e u a f azer b a i l e ( d a n ç a n d o ) , daqui
a pouco a briga e pumm ( g e s t i c u l a n d o um soco ), a c a b a tudo",

0 C a c i q u e de B r a c u í r e l a t o u - n o s que em v i s i t a a
u m a r e s e r v a N a n d é v a no lit or al de S ã o Paulo , v e r i f i c o u o uso
de b e b i d a s a l c o ó l i c a s d u r a n t e a reza, "A qui quando Guarani
r e z a n ã o sa i da Opy, tem que r e s p e i t a r . E n t ã o eu d i s s e ao
C a c i q u e de lá, que os Guarani é diferente do Xiripá,
r e s p e i t a m a i s i-eligião. Lá, e l e s bebem e não é caguijy, do
milh o ; é cana mesmo, dentro da reza, não pode. Até em
r e u n i ã o de Cacique e Nanderú sempre chegava algum com
g a r r a f a de p i n g a e s c o n d i d a , e d e n o i t e t o d o m u n d o bebe, faz
até baile, e n t ã o briga! A s s i m eu s e m p r e digo, é n ó s que b e b e
m a i s que o ju ruá. A n t e s nós n ã o t o m a v a pi nga, não c o m i a sal,
banhs., não, nun ca; a g o r a nó s s e m o s t u d o ju ruá, m a s í n d i o n á o
s a b e n e m a c e n d e r o fogo, n ã o t e m fós foro, como fazer? Mas o
M b y á n ã o bebe, só o Mbyá; o u t r a i n d i a r a d a t o d a tá bebendo.
Tem a pinga de milho, kawím do X i r i p á ; o c a g u i j y já é do
Mbyá. Mbyá não pode reza bêba d o , d e que jeito (risos ). 0
X i r i p á já r e z a b ê b a d o p o r q u e p r a lá q u a s e nã o reza, daqui
p r a lá c o m e ç a só baile, bebedeira; sei que a briga não
pres t a , a briga não é resultado. Hoje vai c h e g a r sábado,
e n t ã o vai p r e p a r a r só baile, vai c h e g a r tocador de fora,
juruá dentro da aldeia. 0 branco v e m e toca, aí c o m e ç a a
64

bebedeira, v e m briga, morte, a c a b a a naçã o, não tem jeito, o


í n d i o t u d o vai aca ba r, isso não p o d e . "

0 Cacique fal ou do c a s o de um parente seu que


m o r r e u e m A n g r a d o s Reis, ao e n t r a r em c o m a a l c o ó l i c a após
i n i n t e r r u p t a b e b e d e i r a que durou três dias e noites (cu jo
pai " t a m b é m m o r r e u b ê b e d o em Ibir am a", segundo o Cacique). 0
fato está registrado p e l o Jorn al H a r é (24 de n o v e m b r o de
1988:2), onde aparece n u m a foto, o corpo do Hbyá sendo
c a r r e g a d o p a r a o I n s t i t u t o M é d i c o Lega l por d o i s policiais,
segundo a lege nda . 0 texto do jorna l informa que, a
necrópsia mostrou que a morte foi causada po r "parada
c a r d í a c a por efeito de grande quantidade de alcool no
sangue". Diz o v e l h o Caci q u e , "Ele t i n h a t r i n t a a nos . Quando
c h e g u e i na c i d a d e um casal de jornalista chegou pra mi m
d i z e n d o que o índio tinha morrido e e s t a v a na delegacia.
D i z e m que e l e se m a c h u c o u sozin ho, c a i u de u m a pe dra. E u não
sei dizer, n ã o e n x e r g u e i nada. T a l v e z m a t a r a m ele".

Albi no, s o b r i n h o do C a c i q u e , d i z p o r q u e o H b y á não


pode morar em c i d a d e ou perto do br anco, por causa da
bebi d a ; " N ã o d á p r a m orar p e r t o d o juruá, b e b e muit o , depois
dá p r o b l e m a . Aqui o í n d i o quase n ã o bebe, q u e m b e b e já sai
briga , eu n u n c a bebi, í ndio p u r i n h o m e s m o n ã o bebe. Sempre
que í n d i o vai p r a c i d a d e a c a b a b e b e n d o , é o b r a n c o m e s m o que
dá. Isto n ã o a c a b a cert o " . A p esar da p r o i b i ç ã o d o Cacique,
muitos Mbyá bebem n a aldeia; porém, J o ã o da S i l v a procura
manter a imagem oposta. No ú l t i m o d i a de nossa estada em
Bracuí, p r e s e n c i a m o s u m a b r i g a em u m a p e q u e n a c i d a d e p r ó x i m a
de n o m e Frade, envolvendo alguns Mbyá que se encontravam
alcoolizados. Estes Guarani estavam trabalhando para um
br anc o, na e x t r a ç ã o c l a n d e s t i n a de palm i t o , na S e r r a d o Mar.
S á b a d o à noi te, t o d o s f oram a um b a i l e n e s t e local, beberam
muito e iniciaram uma violenta briga com seus companheiros
b r a n c o s de trabalho. Nesta época, o Posto Indígena foi
I

t r a n s f e r i d o p a r a e s t e local e a p o l í c i a c o m u n i c o u o f a t o ao
65

chefe deste posto, que imediatamente tomou as devidas


providências. Neste mesmo dia, p e l a manh ã, um dos Mbyá
e n v o l v i d o s no e p i s ó d i o nos tinha f a l a d o de seu "antigo"
hábito de beber, costume este que havia erradicado
definitivamente! Podemos constatar, então, uma das
c o n t r a d i ç õ e s e ntre fatos o b s e r v a d o s , e discurso dirigido ao
pesquisador "juruá", representante da s o c i e d a d e b r a n c a que
os t ê m c o m o "bêbados".

I n á c i o E u s é b i o <87 anos), que n a s c e u em C h a p e c ó e


m o r o u a m a i o r p arte de s u a v i d a era Ibir ama, fala de óbitos
e n t r e os M b y á p r o v o c a d o s p e l a bebida, " T e v e um t e m p o que uma
turma de Guarani saiu de C h e p e c ó e foi morar em Ibirama,
m o r r e r a m q uase tudo lá! A c h o que maior parte morreu de
bêbados, o r e s t o foi doe nça , m u i t o t r i s t e mas. G u a r a n i a s s i m
vai a c a b a r tudinho. Eles e r a m muitos, gostavam tudo de
beber, a c h a v a m bom, mas q u a n d o é pra a c o n t e c e r é pra já.
Aqui na aldeia uma parte não bebe, tem a l g u m que bebe. 0
Silva proibiu, mas t a m b é m n ã o obed ecem. Aí t o m a m e aparecem
bêbados. C a c i q u e tem que fic ar quieto, n ã o faz n a d a pra não
t e r briga. A pinga, pior c o s t u m e do bra nco , passou pra índio
só p r a m a t a r t u d o ! ”

C o m o vimos, os M b y á se identificam como aqueles


que n ã o b e b e m em c o n t r a s t e c o m os N a n d é v a que " s e m p r e b e b e e
br i ga", c o n f o r m e i n f o r m a n t e da a l d e i a de Bracuí,- "0 X i r i p á e
o Mbyá são diferente que eu sei só na bebid a. Xiripá bebe
m u i t o e quer brigar, i n c o m o d a o b r a n c o e o u t r o índio. Então,
pra não acontecer a briga, o Cacique proíbe a be bida; o
Cacique sempre forte, t e m que respeitar. Em Ibirama era
baile direto, festa. 0 C a c i q u e de lá só f a z i a baile, ent ão ,
m u i t a g e n t e bebe, a c o n t e c e a briga. Eu só v i v i a n o b a i l e lá
em Ibira m a , bebia, dançav a, hs v e z e s s a í a b r i g a no s o c o e
na faca. E u n unca b r i g a v a (est e M b y á foi um dos envolvidos
na briga acima r e latada). Com o G u a r a n i eu n u n c a brig u e i ,
u m a vez eu br iguei com ura c a b o c l o por c a u s a de bebedeira.
66

B r i g u e i c o m um Kaingang também, ele chegou a cortar minha


c a r a de f a c ã o ( m o s t r a n d o u m a cicatriz), e r a m u i t o ruim, aí
eu fui r u i m t a m b é m e dei n e l e e na m u l h e r d e l e de pau, a
c o i s a foi feia. Dia s e g u i n t e eu n e m me l e m b r a v a por que a
b r i g a (rindo)".

Um o u t r o Hbyá de 24 anos, residente em Bracuí e


n a s c i d o em Chapecó; fala do p r o b l e m a da b e b i d a n e s t e local e
em Ibirama, o n d e m o r o u m u i t o tempo ; "Aqui t ã o se d a n d o tudo
bem, n ã o sai briga, nada, t e m futebol c o m juruá. Lá em
I b i r a m a já saía briga sempre, quando a l g u m se pisava no
futebol os X o k l e n g já c a í a m em c i m a do G u a r a n i . M a s isso só
q u a n d o bebem. Aqui os K a m b á ( c omo c h a m a m os n e g r o s ) bebem
m a i s que os juruá, mas n ã o sai b r i g a c o m os índios. Em
C h a p e c ó n ã o dá, vivia junto com Kaingang, eu a c h a v a mal,
e l e s b e b i a m muito, saía br iga, m u i t o baile".

Em 27.1 1 . 8 9 , A p a r í c i o da Sil va, de U b a t u b a , veio à


a l d e i a de A r a p o n g a em P a r a t i e Brac uí; para tentar resolver,
junto ao C a c i q u e Uerá Hiri m, o problema causado por uma
briga entre dois Mbyá o c o r r i d a em sua aldeia. Aparício
c o n t o u que. d u r a n t e uma b e b e d e i r a , um dos envolvidos agrediu
o o u t r o a g o l p e s de facã o e f u g i u p a r a A r a p o n g a . Aparício,
então, resolveu procurar o agresssor e mandá-lo para
Argentina, onde nasceu. Aparício relatou-nos que, sendo
ex-Cacique, seu atual papel junto à comunidade Guarani é
viajar pelas aldeias tentando resolver eventuais problemas.
0 C a c i q u e J o ã o da S i l v a d i s s e que p e n s o u em t r a z e r o Mbyá
a g r e s s o r p a r a Bracuí, pois o m e s m o é pai de u m d o s m o r a d o r e s
d e s t a a l d ei a; porém. Verá M i r i m m u d o u de i d é i a a l e g a n d o que,
" Guar ani , n ã o faz vi olência, n ã o pode; en tão, tem que ir pra
1o n g e " .

Nos finais de s e m a n a os Guarani, principalmente


m a i s jovens, saem de suas aldeias para frequentarem os
"bailes" nas pequenas cidades adjacentes. N e s t a s “f e s t a s do
67

b r a n c o " os Hbyá e n t r a m em c o n t a t o c o m um a m b i e n t e e s t r a n h o a
se u meio; onde luz es c o l o r i d a s , a p a r e l h o s de s o m em grande
a ltur a, roupa s "da moda", contrastam com a tranqu i l i d a d e da
ald eia . E ntão o jovem q u e s t i o n a su a identidade. Por se
envergonharem de serem " í ndios", procuram esconder sua
origem; m a n i p u l a n d o s u a imagem, de f o rma a se a p a r e n t a r ao
p a d r ã o oci dental. 0 "índi o" d e c i d e e n t ã o ser c o m o o "jur u á " ,
b e b e n d o sua bebida, o u v i n d o e d a n ç a n d o sua s m u s i c a s , usando
s u a s roupas, etc. Porém, mesmo assim não conseguem romper
t o t a l m e n t e com sua i d e n t i d a d e Guarani. Esta situação, na
m a i o r i a das vezes, a c a b a em pri são , ou at é mesmo , na morte
de G u a r a n i ou branco. A p ó s a “n o i t a d a de festa", ós M b y á que
r e t o r n a m à sua a l d e i a r e l a t a m aos o u t r o s (como presenciamos
i n ú m e r a s vezes) os f at os o c o r r i d o s na n o i t e da c i d a d e ; o
baile, as bebidas "exóticas" do branco e as brig a s ;
contribuindo, d e s t a forma, p a r a i n t r o d u z i r o u t r o s v a l o r e s em
seu meio. Os que n ã o v o l t a r a m , ficaram dormindo ao relento à
b e i r a d a s e s t r a d a s ( a c o m p a n h a m o s um c a s o em que u m m e n i n o de
t r e z e a n o s da a l d e i a de Bra cuí, foi p r o c u r a r seu pai numa
c i d a d e próxima; o e n c o n t r a n d o d o r m i n d o e m b r i a g a d o à b e i r a da
rodovia, on de p a s s o u a noit e), em a l g u m a s a r j e t a da cidade;
e n c a r c e r a d o s na d e l e g a c i a ou s o b r e a m e s a do n e c r o t é r i o .

Os Mbyá são p a c í f i c o s , amáveis e muito retraídos


d i a n t e de e s tranhos. No s c o n f l i t o s v i o l e n t o s que ocorreram
e n v o l v e n d o os M b y á de Bracuí, na m a i o r i a d a s vez es, estava
presente a bebida alcoólica. N e s t a alde ia, no ano passado
(1989), ocorreram dois incidentes desta natureza; u m M b y á ao
c h e g a r b ê b a d o em casa cortou o rosto de sua mãe com uma
faca. A l g u m t e m p o d e p o i s o u t r o Gua rani, também alcoolizado,
a g r e d i u sua esposa co m uma barra de made i r a , causando
paralisia permanente na mulh er. Em ambos os c a sos, os
a g r e s s o r e s não s a b i a m d i z e r o que os l e v o u a c o m e t e r tal a t o
de v i o l ê n c i a .
68

E s t a s i t u a ç ã o p a r e c e ser geral e n t r e os Guara n i .


N i m u e n d a j ú r e l a t a em seu l i v r o s o b r e os Nandéva-Apapocúva
(1987:37), que OS Guarani, "...abusam do álco ol que lhes é
solicitamente oferecido pelos c o m e r c i a n t e s .,.em 191E, o
Guarani Avarety foi esfaqueado por seu próprio cunhado
tomado pela embriaguez. E s t e t i p o de coisa jamais ocorria
q u a n d o v i g o r a v a m os a n t i g o s c o s t u m e s i n d í g e n a s " . Este a u tor
(i987;9í) fala t a m b é m de f e s t a s e n t r e os Guara ni, co m danca
e bebida, " . . . o c a s i ã o em que as p a i x õ e s d e s e n c a d e a d a s pelo
á l c o o l dão margem a toda s o r t e de exces:sos . Nas brigas,
f r e q ü e n t e s n e s t a s festas, ... f o r a m a s s a s s i n a d o s d o i s índios,
e v á r i o s o u t r o s foram feridos".

Nossos informantes de Bracuí apontaram em seus


d i s c u r s o s que; o isolamento, a endogamia, e o costume da
reza, podem auxiliar no controle do consumo da bebida
alcoólica; pois, como c o l o c o u um a v e l h a i n f o r m a n t e Mbyá, "o
m a i s n o v o vai no b a i l e do juruá, e brig a; porque não fica
c o m os p a r e n t e na aldeia, n ã o fica m a i s na reza. Aí c a s a com
o branco, e e n t ã o não tem m a i s jeito, cai na p i n g a mesmo ".

é importante salientar, que o d i s c u r s o do C a c i q u e


e de s u a c o m u n i d a d e s obre a ausência do a l c o o l i s m o entre
eles, é a resposta a a c u s a ç õ e s do t i p o "índios bêbedos e
vagabundos", feit a s pelo b r a n c o (é o que e l e s p e n s a m que os
b r a n c o s p e n s a m deles!). N e s t e s depoimentos os Hbyá apontam
os Nandéva e outros grupos como sendo os verdadeiros
d e t e n t o r e s d e s t e s est igm as. Segundo nossos informantes, "os
X i r i p á n ã o s ã o índios"; em c o n t r a p a r t i d a , eles, o s M b y á sã o
os a u t ê n t i c o s Gu arani. Em ú l t i m a a n á l i s e , podemos constatar
que a e n d o g a m i a está f o r t e m e n t e r e l a c i o n a d a ao c o s t u m e de
m o r a r n a a l d e i a e de falar a l í n g u a n a t i v a ( l e m b r a n d o que a
l í n g u a foi a p o n t a d a por nossos informantes como importante
traco diacrítico). 0 isolamento e a distância, então, são
f u n d a m e n t a i s na p r e s e r v a ç ã o da o r g a n i z a ç ã o s o c i a l .
6- S U B S IS T Ê N C IA

"Foi porque nunca tivesos grasáticas, neg colecões de velhos vegetais. E


nunca soubetos o que era urbano, suburbano, fronteiriço e continental. Preguiçosos no
sapa-BÚndi do Brasil". (Ostrald de Andrade - Manifesto Antropófago)

A comercialisacão do a r t e s a n a t o e a agricultura
são atualmente as p r i n c i p a i s -Fontes^ de subsistência dos
Hbyá. A Agricultura, segundo Cadogan (1960:136), é atividade
de importância secundária na vida dos Mbyá. Schaden
(197 4:3 7), porém, reforça a importância da la vo u r a , que
representa atualmente para grande parte dos Guarani a base
do sust e n t o . Os G u a r a n i de B r a c u í r e l a t a m que o f o m e n t o ao
artesanato comercial s u r g i u ao e n t r a r e m em contato com o
t u r i s m o em P a r a n a g u á . A c o n f e c c ã o de a r c o s e flechas, que
e s t a v a d e s a p a r e c e n d o e n t r e eles, a u m e n t o u n e s t a o c a s i ã o . Os
M b y á v e n d e m s e u s a r t e s a n a t o s em B r a c u í ao l ong o da rodovia
Rio-Santosj ou nas r u a s e p r a ç a s de A n g r a d o s Reis. Estes
o b j e t o s s ã o t r a n s p o r t a d o s de ô n i b u s ou a pé, d e p e n d e n d o da
distância. D u r a n t e n o s s a s v i s i t a s às o u t r a s a l d e i a s Guarani
d o lit oral d o R i o de J a n e i r o e S ã o Paulo, observamos grupos
d e N a n d é v a e M b y á e x p o n d o s e u s a r t e f a t o s a o l o n g o d a B r . 101,
em l o c a i s p r ó x i m o s a suas áreas. N o s e s t a d o s do sul ( c o m o em
Santa Catarina: nas cidades de Itajaí, Camboriú e São
F r a n c i s c o d o Sul) e n c o n t r a m o s a l g u n s M b y á v e n d e n d o c e s t a r i a s
em v á r i a s p o n t o s da B r .101 e o u t r a s r o d o v i a s a d j a c e n t e s . Os
objetos comercializados com maio r f r e q u ê n c i a são; colares,
arcos e f l e c h a s de vários tamanhos, chocalhos (mbaracá),
a b a n a d o r e s e c e s t a r i a s de d i v e r s o s t i p o s e t a m a n h o s . Os H b y á
chamam seus cestos de "adjaká" ou balaio, que são os
artesanatos de m ai or importância, principalmente na
comercialização.

Else M. Waag (1972:150/151), declara ser o


artesanato Mbyá "expresión de un grupo étnico definido,
f u e r a dei cual no se realiza una artesanía co n estas
70

características... En la s e l v a donde tienen instalada su


v i v i e n d a r e c o g e n la m a t é r i a p r i m a . . . " . 0 m a t e r i a l d e que é
feita a "Cestaria Cain g u a " , citado pela aut ora , é q u a s e o
m e s m o e n c o n t r a d o em Bracuí. Os M b y á u s a m t r ê s t i p o s de cana:
tacuapi (merostachvs c lusenii, bambu pequeno), tacuarembó
(chusquea remosissima) e taquarusú (cuadua trinni) . Para
am a r r a r , estes G u a r a n i u s a m a r a í s de g u a e m b é (Phylodendron
selloun, guembep í: r a i z de p h y l o d e n d r o n sell o u n ) . Utiliza-se
a c a s c a r e s i s t e n t e da s r a í z e s de côr v e r m e l h o - e s c u r o deste
cipój p a r a amarrar, c o s t u r a r e r e f o r ç a r p e ç a s de a r t e s a n a t o ,
ou o u t r o o b j e t o qual q u e r (como na c o n f e c ç ã o da casa, visto
acima). Outro recurso muito utilizado no artesanato, e
t a m b é m na c o n s t r u ç ã o dè c a s a s (como v i m o s ) é a palmeira,
pindó (cocos r a m a n z o f f i a n a ) . S ã o a p r o v e i t a d o s o t r o n c o e as
f o l h a s d e s t e i m p o r t a n t e ve getal.

F‘
ara f a z e r e m a cest a r i a , os M b y á c o r t a m a taquara
i n t e i r a no iní cio da m a t u r a ç ã o , e retiram os ramos. Após
transportarem do mato onde cortaram para o local de
trabalho, d i v i d e m a c a n a l o n g i t u d i n a l m e n t e em duas f a c ç õ e s e
c o r t a m em pedaços menores (foto p. seguinte). Finda esta
operação, tem i n í c i o e n t ã o o d e m o r a d o p r o c e s s o de c o r t a r a
c a n a e m fi nas e e s t r e i t a s l i s t r a s de fibra, p a r a t r a n c a r a
cestaria. 0 uso da tinta vegetal está desaparecendo em
Brac u í , d a n d o lugar à t i n t a de t e c i d o s e p apel c a r b o n o para
c o l o r i r as fibras d e taquara e penas ornamentais. Nossos
informantes disseram que atualmente é muito difícil
encontrar a matéria-prima para fazer a t i n t a vegetal pois,
"tem m u i t o pouco mato, o branco derrubou e queimou quase
tudo".

Q u a l q u e r Mbyá, a d e s p e i t o do s e x o e idade, pode


fazer a r t e s a n a t o . T r a b a l h a m em frente à c a s a ou so b uma
ár vore, a qualcjuer h o r a do dia, n u n c a à noite . As crianças
aprendem a arte imitando os mais velh o s , como vimos
anteriormente. 0 t r a b a l h o de t r a n ç a r o a d j a k á s e m p r e começa
CORTE DA TAQÜARA PARA C E 6 T A R \A

p e l a b a s e quad rada , fixada a duas f i b r a s g r o s s a s de taquara


em diag o n a l , que s e r v e m de s u p o r t e a t é s u a f i n a l i z a ç ã o (foto
p. s e g uinte). T e r m i n a d a a b a s e i n i c i a m - s e as l a t e r a i s c o m a
m e s m a técn ica ; porém, u t i l i z a n d o as fibras coloridas para
fazer a o r n a m e n t a ç ã o do ces to. Encontramos tr ês desenhos
b á s i c o s de c e s t a r i a e n t r e os M b y á de Bracuí: Ip ará korá, em
f o r m a de losango; Ipará jacá, em cruz; e Ipará icy, em esse.
Os m a i o r e s b a l a i o s p o s s u e m t a m p a r e f o r ç a d a c o m c i p ó guaembé
e uma grossa lista circular de taqu a r a , com diferente
tran c a d o . 0 acabamento do cesto é feito com uma trama
espe c i a l , que t o r n a as b o r d a s mais duras e resistentes (se
for um c e s t o g r a n d e é c o s t u r a d o um aro de t a q u a r a ) . Alguns
b a l a i o s ( n o r m a l m e n t e os m a i o r e s ) possuem alcas e/ou trancas
f e itas de fibra de c i p ó (ou t a q u a r a ver de), enroscada ou
trancada.

A l g e m i r o da S i l v a c o n t a que se u grupo começou a


fazer a r t e s a n a t o p a r a v e n der , em Paranaguá, "Lá em Cotinga
que c o m e ç a m o s a fazer a r c o e f l e c h a pra vender, em Chapecó
nunca. C o m e ç a m o s a fazer há s e t e anos, d e s d e que c h e g a m o s em
Coti n g a . 0 t u r i s t a c o m p r a arco, flecha e chocalho. 0 cesto é
m a i s d i f í c i o de fazer, te m que c o r t a r m u i t a ta qua ra ; mas é o
que m a i s vende. N e m s e m p r e v e n d e bem, só no s á b a d o e d o m i n g o
que v e n d e mesmo; o pe ssoal p á r a de c u r i o s i d a d e e c o m p r a . Eu
e s t o u p a r a n d o de fazer por c a u s a da e s c o l a (é p r o f e s s o r da
alde ia, c o m o vimos); mas na i l h a f a z i a muito, m e u pai me
ensinou".

Os arcos são feitos com a parte central da


p a l m e i r a pindó, fl exí vel e r e s i s t e n t e (ver W a a g , 1978:159),
e f i bra de c i p ó guaembé, que é f i x a d o às p o n t a s do arco
d a n d o sua for ma curva. A l g u n s a r c o s s ã o c o b e r t o s por finos
t r a n ç a d o s de f i bra de taquara, e/ou adornados com penas
t i n g i d a s (em f u n ç ã o da d e v a s t a ç ã o da s flo res tas, os Mbyá
p a s s a r a m a usar t i n t a s a r t i f i c i a i s de roupa, papel c a r b o n o e
até mesmo Q-suco , substituindo corantes naturais) de
CONFECÇÃO PE ApjAKA
V^N D A DE ARTESAttATO MA RODDVIA
78

galinhas e outras aves. Os a r t e s a n a t o s mais o b s e r v a d o s em


Bracuí for am o s ce stos , chocalhos, arco e flecha (vimos
m u i t o p o u c o s a b a n o s e facas). 0 chocalho, mbaracá mirim era
usado pelos Mbyá durante a reza; p o r é m ho je e s t e costume
está de sapar ecen do, conforme informou o Ca cique, "mbaracá
mirim, só pra v e n d e r na pista; na r e z a não usa".

L u i z Eus é b i o , que nasceu em Chapecó, fala do


artesanato como solução para o problema da subsistência,
"Aqui em B r a c u í é m e l h o r de morar, p o r q u e dá pra g e n t e v i v e r
f a z e n d o b a l a io, e v e n d e r na estrad a, e dá pra p l a n t a r um
POUCO. Em C o t i n g a t i n h a p ouca taquara e cipó; também era
r u i m de v e n d e r o ba laio, t i n h a que ir de c a n o a até F'aranaguà
e quando chovia não dava, estragava tod o trabalho. Em
Chapecó não tinha artesanato, n ã o t i n h a c o m o vender; ent ão,
v i v i a só de p l a n t a ç ã o , é as sim". Luiz e outros Hbyá são
u n â n i m e s em dizer que cesto mudou q u ando aumentou sua
comercialização. A esté tica, então, passou a ser mais
imp o r t a n t e , e m d e t r i m e n t o de seu caráter utilitário para o
g r u p o (ver c o m e n t á r i o s de E.M. Waag, 1972:145), "0 cesto
ficou d i f e r e n t e , pra usar faz mais simples, a s sim; pra
v e n d e r te m que fazer m a i s be m feito, t e m c ô r . 0 de usar é
m a i s forte, mais grosso ta mbém . Em Chapecó, Ibirama era
diferente, e s t r a d a longe, t u r i s t a não tinha. A g o r a balaio
mudou, p r a usar é só bran co, pra vender tem que ser
colorido, é m a i s f r a c o também. Nós usamos balaio pra guardar
q u a l q u e r co isa: m a n d i o c a , co mida, qualquer coisinha. Cesto
m a i o r é pr a g u a r d a r o u p a velha, e p r a lavar. 0 P a u l o Benite
e o Tito, que v i e r a m lá de A r g e n t i n a ; a mulh e r d e l e s e a m ã e
usam adjaká com uma alça p r a p e n d u r a r na cabeça, é mais
fácil de usar n a cabe ça; mas tá p a r a n d o de usar; quando vai
fazer c o m p r a u s a bolsa, saco la. 0 Guarani trabalha muito
fazendo arco e flecha e vendendo lá fora pra conseguir
dinheiro, e n ã o p l a n t a quase nada. Bala io, melho r v e n d e r que
usar, aí tem o d i n h e i r o . Te m que t r a b a l h a r m u i t o vendendo
73

a r t e s a n a t o p o r q u e tá f i c a n d o m u i t o difíc i l , milKo quase náo


dá bom; o que dá m e s m o é batata-dôce e mandioca porque a
t e r r a não é muito boa. Guarani tem que ser a s s i m agor a,
a n t i g a m e n t e t i n h a que p l a n t a r a man dio ca, feijão e milho;
t r a b a l h a r c o m a roça, c o m o é que sem come r p o d e trabalhar?!
E n t ã o tem que f a z e r a r t e s a n a t o hoje, tem que fazer balaio
pr a vend er, se n ã o f osse isso, s ofre muito. T e m que e n t e n d e r
bem direitinho o sistema do juruá, na c a b eça; e no braço ,
tem que forcejar, fazer o serviço tudo aqui na a l d eia.
P o r q u e tem m u i t o s e r v i ç o , t e m d e m a i s até, m a s o G u a r a n i não
quer t r a b a l h a r n a ro ça. D e s s e j e i t o p a s s a fome".

Inácio Eusébio, pai do V i c e - c a c i q u e , apesar da


idade a v a n ç a d a , possui a m a i o r roça i n d i v i d u a l da al deia,
c u l t i v a d a por e l e mesm o. 0 velho Mbyá c o n c o r d a que a p ó s a
vinda dos Guarani para Cotinga intensificou-se o artesanato
em d e t r i m e n t o da agricultura. Em P a r anaguá, sendo a terra
"muito ruim de p l a n t a r " e com o turi smo , os m a i s jovens
passaram a preferir a v e n d a de a r t e s a n a t o que t o r n o u - s e a
principal a t ividade de subsistência. Em Bracuí ocorre o
mesmo problema, segundo c o n t a n o s s o info r m a n t e ; a terra é
p o u c o fértil e difícil de cultivar em f u n ç ã o da grande
quantidade de pedras existentes no local. A rodovia
Rio-Santos, c o m um grande trânsito turístico, oferece uma
ó t i m a o p o r t u n i d a d e p a r a os Mbyá venderem seus artesanatos;
"em C h a p e c ó s ó v i v i a da lav our a. H o j e í n d i o n ã o quer mais
fazer p l a n t a ç ã o , dá muito trabalho; o mais novo não planta
mais porque tem muita preguiça, nã o g o s t a de t r a b a l h a r na
roca, os p a i s n ã o e n s i n a r a m . é muito ruim vender o balaio
na b e i r a da estrada, o í n d i o a c o s t u m a p egar o dinheiro e
comprar comida, t u d o na v e nda; d e i x a de plantar. índio pega
o d i n h e i r o na m ã o e g a s t a t u d o no m e s m o dia, bebe, vai no
baile. Não é igual ao juru á, que guarda e vai gastando
de pois; branco é mais esperto!"
IH A C IO E U S EB IO
74

0 velho Mbyá t a m b c m c o n c o r d a que o balaio mudou


d e p o i s da i n t e n s i f i c a ç ã o de sua ve nda. Logo, o artesanato
a t u a l m e n t e é d i f e r e n t e do que e r a f e i t o em Chapecó, Ibirama
e em o u t r a s áreas mais i s o l a d a s o n d e era difícil a venda
desses produtos. A cestaria Guarani após o contato com o
turismo, t r a n s f o r m o u - s e em a r t e s a n a t o come r c i a l ; "o balaio
fico u d i f e r e n t e em C o t i n g a , m a i s f r aquinho, pint a d o , só pra
ven der . Hoje não se faz m a i s do o u t r o lá dos tempos de
C h a p e c ó e M a n g u e i r i n h a ; só faz o d e ven der ".

A c o m e r c i a l i z a ç ã o do a r t e s a n a t o pode ter s i d o a
solução encontrada pelos Mbyá, para a questão da
infertilidade e falta de terra ( como foi visto acima);
porém, gerou outros problemas como o c o n s u m o de alimentos
industrializados; p r i n c i p a l m e n t e , aç úc ar, f a r i n h a de trigo,
f a r i n h a de m i l h o e café. Em e n t r e v i s t a com o i n d i g e n i s t a A.
D., que a c o m p a n h o u o g r u p o de João d a Silva, por m a i s d e dez
anos, foi a p o n t a d o o a u m e n t o da q u a n t i d a d e de d o e n t e s entre
os Mbyá, poucos meses após a chegada destes à Ilha da
Cotinga (lem b r a n d o , como foi vist o, que neste local
i n i c i o u - s e a i n t e n s i f i c a ç ã o do a r t e s a n a t o ) .

Outros informantes Mbyá demostraram ter a mesma


v i s ã o do velho Eusébio q u a n t o ao problema da venda do
a r t e s a n a t o f r e n t e a o c u l t i v o da te rra. Um d e l e s d e c l a r a , "Eu
penso a mesma coisa que Seu I n á c i o falou, ele tá certo
porque também morou em Chapecó e I b i r a m a m u i t o tem p o . El e
t a m b é m p l a n t o u muit o, sempre plantou, e n t ã o p o d e fa lar. Em
I b i r a m a nós e r a t u d a amigo, lá t o d o m u n d o p l a n t a v a d e tudo,
só v i v i a de roça. Quando tinha que c o m p r a r outra cois a ,
v e n d i a um pouco da produção. N ó s só faz ia o balaio pr o
gasto, pra carregar milho, mandioca, a lavou ra. Arco e
flecha, m b a r a c á (c ho c a l h o ) , nós n u n c a fazia, não u s a v a . Meu
pai n a s c e u era C h a p e c ó , o pessoal de lá t a m b é m n u n c a fazia
a r t e s a n a t o p r a ve nd e r , só p l a n t a v a , a terra e r a boa. Ai,
q u a n d o fomos pra Cotinga, a terra m u i t o ruim lá, então
75

começou 3. vender artesanato pros turi s t a , pr a dá um


dinheirinho. Lá tinha muito turista, bom de vende r. Se
f i c a s s e só na t e r r a n á o da va, só t i n h a areia; mandioca tinha
u m pou co, m i l h o ná o n a s cia; e ntá o , o j e i t o era ir comprar
c o m i d a do b r a n c o na venda, se n á o nós m o r r i a tudo de fome.
Lá em C o t i n g a era o b r i g a d o a fazer artesanato, os índios
t i n h a que fazer, náo d a v a j e i t o d e plan t a r , t i n h a que fazer
o balaio p r a ven der e dá comida pras c r i a n ç a s . Ent áo , o
í n d i o foi se a c o s t u m a n d o a v e n d e r o a r t e s a n a t o , e deixando a
plantação. Tinha um p o u c o de material na ilha pra fazer
artesanato, aí fõi indo. Eu morei lá e vendia muito pro
turista. Aqui em B r a c u í v e n d e muit o , a t e r r a não é m u i t o bo a
também; mas dá pra p l a n t a r um pouco. 0 negócio é que a
índiarada não acostuma mais a p lant a r , artesanato é mais
fácil, vend e, tem d i n h e i r o . P r a p l a n t a r aqui difícil, terra
não é t ã o boa que lá em C h a p e c ó " .

J o ã o da S i l v a d i z que p a r a o G u a r a n i o a l i m e n t o é
sagr a d o , " i s t o p o r q u e o a l i m e n t o foi D e u s qu em deu, qualquer
al i m e n t o , de b r a n c o ou de índio. P r a nós, deixou alimento
próprio,í mand i o c a , milho, feijã o, is so t e m que plantar. No
mato, tem; ab elha, t e m caça, pe ixe, jakú, e s s e a l i m e n t o pra
nó s se a l i m e n t a r . Has agora nós tamos no fim, tá faltando
tudo, aí tem que ir lá no m e r c a d o do j u r u á compra r. Isso
porque o í ndio não plan t a ; índia nem moe mais o milho
tamb ém. Então, o que f a z e r ? " S e g u n d o i n f o r m a ç õ e s c o l h i d a s em
Br acu í, o c o s t u m e de p i l a r milho e o u t r o s alim e n t o s , foi
d e s a p a r e c e n d o na medida em que os Guarani iniciaram o
c o n s u m o de a l i m e n t o s i n d u s t r i a l i z a d o s . Yolanda Benite conta
que em outras aldeias c o s t u m a v a p ilar milho; porém, em
Cotinga e B r acuí e s t a atividade está erradicada, ".;.não
p r e c i s a mais, c o m p r a na v e n d a " , d e c l a r a Yolan da.

E n t r e os Hbyá de Bracuí o milho (awatí) e a


mandioca (mandió) s ã o os principais alimentos. Observamos
também o cultivo da batata-dôce (jetí), feijão, banana
MbVA COUHE AW ATl
76

(pakoá), cana (tacôroé ) e abacaxi. Foram registrados em


Bracuí quatro tipos diferentes de milho; a w a t í jd, amarelo
de e s p i g a pequ e n a ; awatí sí, e s p i g a b r a n c a e ma cia ; awat í
para i , e s p i g a com g r a o s "col o r i d o s " ; e a wat i jú guacú,
espigas grandes e amar e l a s . Alem de uma grande área de
lavoura coletiva (cana, aba cax i, m a n d i o c a e m i l ho); existem
outras menores próximas a pequenas c o n c e n t r a c o e s de casas
( n o r m a l m e n t e de t r ê s a c i n c o r e s i d ê n c i a s ) ; com lavouras para
"consumo diário" (banana, ma ndioca, b a t a t a - d ô c e e milho). Os
Mbyá criam c o l e t i v a m e n t e patos, marrecos e galinhas; que
f i c a m s o l t o s p e l a aldeia.

Nossos colaboradores descreveram alguns alimentos


que, j u n t o à mand i o c a , milho, banana, feijáo e amendoim; sá o
c o n s i d e r a d o s t í p i c o s do Mbyá: Korá, que é u m a f a r o f a a base
de f a r i n h a de m i l h o ou m andioca; Hu' ixi m, p a ç o c a de farinha
de m i l h o co m a m e n d o i m ; bo jia p é, que é um t i p o de pao, feito
c o m f a r i n h a de t r i g o e/ou milho, a s s a d o d e n t r o da f ogueira;
bijú; m a s s a de feit a de m a n d i o c a e água; Mbytá, bolo de
m i l h o verde. J u n t o aos a l i m e n t o s a c i m a os M b y á c o n s o m e m os
seguintes produtos industrializados: macarrão, arroz, sopa
e m pa cote, e n l a t a d o s (sa lsi cha , s a r d i n h a e f e i j ã o ) . 0 único
t i p o de b e b i d a ao qual os Mbyá f i z e r a m r e f e r ê n c i a s foi o
cagu i j y ; b e b i d a f eita à b a s e de milho. Nimuendajú (198 7 : 8 5 )
r e l a t a co m d e t a l h e s , o p r o c e s s o de p r e p a r a ç ã o d e s t a bebida
em n o t a de roda-pé: "0 m i l h o é s o c a d o no p i l ã o c o m um pouco
de cinza, p a l h a e á g u a p a r a l i m p á - l o do d e b u l h o ; o s g r ã o s se
conservam inteiros e são cozidos em grandes pote s. Em
seguida, os g r ã o s s ã o m a s t i g a d o s por m o ç a s c o m b o n s dent e s ;
d e s p e j a - s e o c a l d o por cima, d e i x a n d o e n t ã o o r e c i p i e n t e de
lado. Já na manhã seguinte começou a fermentação,
c o n s t i t u i n d o - s e n u m a b e b i d a ma tinal r e f r e s c a n t e e de sabor
agradável. Os kayguá g o s t a m de bebidas mais fermentadas
( cag uiai) em s u a s d a n ç a s prof a nas".
77

A mandioca, certamente, é um dos alimentos mais


consumidos em Bracuí. 0 Cacique conta que a primeira
mandioca teria nascido sobre a sepultura de um Guarani
morto, e fala de c o m o se p r o c e s s a v a a l a v o u r a Mbyá; "Nosso
a l i m e n t o a n t i g a m e n t e era milh o, f e i j ã o vage m , sem sal e se m
t emp e r o j a n t e s nã o tinha o sal, nem açúcar. 0 í n d i o v i v i a de
caca, tat eto , r a p o s a (como chamam o gambá!), tatú, Jakú;
p e g a v a mel, p e i x e do rioj p l a n t a v a milho, mandioca, bana n a ,
ba tat a. Dois t i p o s de amendoim; o amarelo e o vermelho.
A n t e s a m u l h e r pla ntava, o h o m e m só c a c a v a , pescava e pegava
mel. H o m e m só q u e i m a v a e l i m p a v a o m a t o p r a m u l h e r plantar,
n u m m e s m o bu raco, m i l h o e feijã o, d e p o i s t a p a v a o b u r a c o com
o pé. Os d o i s c r e s c e m e o f e i j ã o se e n r o s c a no pé de milho .
A g o r a t u d o mudo u, não tem jeito. Agosto plantava amendoim;
maio é a colheita; as m u l h e r e s se j u n t a v a m para colher,
d e p o i s f a z i a c o m i d a de m i l h o c o m a m e n d o i m t o r r a d o ou c o z i d o .
Crianças treinavam colhe r e fazer comida nos pequenos
balaios. 0 h o m e m vai caçar no mato. agora é triste, não tem
mais. N a q u e l e t e m p o s e mpre al egre; não tinha tristeza. E ra
t u d o unido, amigo; a gora mudou. 0 m u n d o n ã o muda; o povo é
que m u d a " .

V e r á M i r i m de B r a c u í a f i r m o u que a t u a l m e n t e o M b y á
se a l i m e n t a q u a s e igual ao bran c o , "café, de v e z em quando
Bodiapé; c a r n e do Mato, m u i t o pouquinho. Aqui tem milho do
í n d i o e m a n d i o c a também. M a s í n d i o tá c o m e n d o m a i s c o m i d a de
branco". Outros Mbyá concordam com o velho Cacique, dizendo;
" A g o r a n ó s c o m e qual quer coisa, q u a l q u e r jeit o. Antigamente
nós só u s a v a milho, feijão, mandioca, c a r n e d e tateto, jakú.
A g o r a G u a r a n i já tá c o m e n d o _ igual ao b r a n c o . Te m que comer
c o m i d a d o b r a n c o m e s m o p o r q u e tá d i f í c i l p r a nós a c o m i d a do
índio. N ã o t a m o s pl antando, n ã o caça, n ã o pesca, não pega
mel; l a r v a d o b e s o u r o da p a l m e i r a , p o u c o . 0 b r a n c o c o m e bem,
c o m e c a r n e de boi, g a l i n h a boa, tudo., t u d o as c o i s a s ; nós
Guarani come comida de índio, mi lho, mandioca, feijã o,
78

bata ta; mas te m p o u co . P r a c o m e r c e r t o tem que ir n o mato


pr a m ata r o tatú, o p o r c o do mato, a rapos a, isso é comida
do índio, c a r n e do m a t o mes mo. Hoje, tá a c a b a n d o tu do, índio
vai virar branco, é a s s i m “.

A caca está desapar e c e n d o das f l o r e s t a s da Serra


do Mar s e g u n d o r e l a t a r a m n o s s o s i n f o r m a n t e s . 0 desmatamento,
as q u e i m a d a s e a caça intensificada pelos brancos, sáo os
principais causadores deste problema. Um membro da
c o m u n i d a d e Bracuí, de 34 anos, n a s c i d o em C h a p e c ó , f a l a do s
t i p o s de a r m a d i l h a s u s a d a s p e l o s H b y á p a r a c a ç a r os poucos
a n i m a i s que a i n d a e x i s t e m : " P r a p e g a r v e a d o tem o inhoá, que
é laço feit o d e c i p ó quaembé; t e m m u n d é u p r a p e g a r tatd, com
t r o n c o de árvore. Pra pegar raposa (gambá) t e m m u n d e p í ( foto
p. segui nte ), p e g a t a t e t o e p o r c o do mato, tam bém . A g o r a nós
n a o c a ç a mais com flecha, n ó s n a o se a c o s t u m a mais; tem que
fazer o mundéu, só o antigo faz c a c a com a flech a; nós
p e r d e u costum e. Pra p e g a r c a ç a g r a n d e nós u s a e s p i n g a r d a que
é m e l h o r sim. No m a t o tem quati, tatú, tateto, mas caçador
b r a n c o vem e p e g a o que é nos so , m a t a tudo, nao s o b r a nada.
N ã o p o d e ser assim, este mato é do n o s s o povo, não é pro
br anc o. Pro j u r u á não f alta ca rne, não falta galinha; pr o
í n d i o tem pouca, o que tem, é p r o G u a r a n i caç ar. 0 juruá vem
na t e r r a do índio, d e r r u b a mato, q u e i m a t u d o mato, a c a b a com
t o d a caça; e pra nós, o que sobra?" Este colaborador fala
também , da p e s c a e cole t a ; "Aqu i em B r a c u í da pr a ir pescar
na praia, na C o t i n g a t a m b é m dava. Não pesca c o m a nzol e
linha, só com p i r a m b u á , que é c e s t i n h o c o m isca p r o peixe
e n t r a r dentro, assim. Ainda tem m a t o aqui, dá p r a t i r a r um
p o u c o de mel."

A c o m p r a do alimento industrializado, "comida do


bran c o " , p e l o s M b y á t e m gerado graves problemas em Brac u í ;
conforme a enfermeira responsável p e l a ald e ia; " a l é m de m a i s
caro é menos nutritivo, causando a subnutrição, responsável
p e l a maior p a r t e das d o e n ç a s e pela mortalidade infantil.
MUHDEU
79

N e s t a aldeia, só no ano de oitenta e nove, m o r r e r a m três


crianças de desidratação, causada por forte diarréia.
Tivemos também casos de tuberculose, anemia, pneumonia
(principalmente entre crianças c o m m e n o s de d o i s an os), e
o u t r a s doenças . Isto tudo porque o índ io não conhece o
alimento do branco, elrs não sabem como funciona
q u i m i c a m e n t e nos s e u s o r g a n i s m o s , em t e r m o s n u t r i t i v o s " . 0
problema da saúde está diretamente l i gado à questão
alimentar, pois, c o m o foi v i sto, a subnutrição é a principal
causa da mortandade infantil em Bracuí. No c e m i t é r i o Hbyá ,
por nó s visitado , emcontramos apenas qu atro túmulos de
crianças, que morreram dentro da aldeia (falaremos do
a s s u n t o adia nte ). A c a u s a d a morte, segundo a enfermeira da
F U N A I é " s e m p r e o me smo", pneumonia, diarreia e desidratação
c a u s a d a por subnutrição. H u i t a s das c r i a n ç a s m e n o r e s de 3
anos, da a l d e i a de Br acuí, estão doentes e subnutridas. Em
17 de d e z e m b r o de 1989 foi e n t e r r a d o no C e m i t é r o de Angra
dos Reis, um m e nino H b y á (que m o r r e u no hospi tal municipal
d e s t a c i d a d e ) de um an o e s e i s mêses; o mais r e c e n t e óbito
i nfantil. C a u s a da morte, s e g u n d o necr o p s i a , subnutrição.

Visitando algumas casas da aldeia de Bracuí,


d u r a n t e as re feiçõesj percebemos que as mães o f e r e c i a m a
s e u s filhos, p r i n c i p a l m e n t e os menores, água com açúcar,
biscoito, p a p a de á g u a e f a r i n h a de trigo, refrescos (tipo
Q- suco, tang, etc.); quando estas choravam pedindo comida,
d u r a n t e o p r e p a r o dos a l i m e n t o s . Entretanto, no m o m e n t o das
r e f e i ç õ e s e stas c r i a n ç a s m e n o r e s n a d a com iam, por n ã o terem
m a i s fome. As c r i a n ç a s m a i o r e s e os adultos comiam todo o
alimento, nã o restando nada aos meno res; que mais tarde
v o l t a v a m a pedir comida, e n t ã o a mãe s e r v i a n o v a m e n t e , água
com açúcar, biscoito, etc.; d a n d o c o n t i n u i d a d e ao processo
de subnutrição. D e s t a f o r m a as c r i a n ç a s m e n o r e s iam p e r d e n d o
peso, a d o e c e n d o e f i c a n d o s e m as c o n d i ç õ e s de d i s p u t a r e m os
a l i m e n t o s c o m os m a i s velh o s . As mães, q u ando consultadas
80

sobre este problema, afirmavam que não sabiam porque as


crianças adoeciam e, que eram muito bem alimentadas.
Justificavam elas que as criancas comiam o qu e queriam
quando choravam. "Eles g o s t a m m u i t o de á g u a com a ç ú c a r , e
bala"; d i z i a u m a i n f o r m a n t e m ã e de s e i s filhos; s e n d o que um
(o s é t i m o ) m o r r e u de s u b n u t r i ç ã o .

A l g u m a s m u l h e r e s que v e n d e m b a l a i o nas rodovias,


normalmente oferecem o mesmo a l i m e n t o que c o m e m (biscoito,
r e f r i g e r a n t e s e ba las) a seus f i lhos de m e s e s que carregam
durante a atividade. Esta, m u i t a s veze s, era a única dieta
para estas crianças, que p e r m a n e c i a m t o d o o di a (ou dias,
até) e x p o s t a s ao t e m p o (em Br acuí, chove diariamente, e a
t e m p e r a t u r a o s c i l a de fo rm a radi c a l ) . Os M b y á c o s t u m a m não
p r o t e g e r e m as crianças da c h u v a e d o vento, durante as
c a m i n h a d a s da a l d e i a at é os p o n t o s de v e n d a n a s e s t r a d a s ; o
que c o n t r i b u i p a r a o a u m e n t o da s d o e n ç a s i n f a n t i s .

0 pai do M i c e - c a c i q u e a f i r m a que " a g o r a a g u r i z a d a


tá d oe nt e, cora fome. Então, indiarada v e n d e b a l aio, pega
dinheiro, c o m p r a c o m i d a na venda, t o m a pinga, faz baile. 0
m i l h o p l a n t a d o é bem melh or, m a i s forte, é certo. Na C o t i n g a
a terra não e r a n a d a boa; m a s aqui d a v a pra plantar; mas
í n d i o fic ou p r e g u i ç o s o , só quer fazer b a l a i o pr a v e n d e r na
e s t r a d a e d a l e pinga! C o m i d a da v e n d a n ã o é b o a p r a c r i a n ç a ;
comida do mato muito mais forte. Fico triste de ver
criancinha, mulher, velhinho, tudo fraquinho de fome,
do ent e; mas, n ã o sei por que é assim, n ã o sei".

Os Mbyá de Bra c uí, também trabalham fora da


alde ia, em s e r r a r i a s , p l a n t a ç õ e s e e x t r a ç ã o de p a l m i t o . é
c o m u m e n c o n t r a r m o s g r u p o s d e Mbyá, p r i n c i p a l m e n t e , mulheres,
crianças e ve lhos, mendicando nas ruas e portas de
s u p e r m e r c a d o s (onde e s p e r a m c o m p r a r a l g u m t i p o de a l i m e n t o ) ;
d a s c i d a d e s p r ó x i m a s (no c a s o de Br a cuí, e m A n g r a d o s Rei s).
0 artesanato, porém, é, atuàlmente, a principal fonte de
81

sobrevivência para os Mbyá; sendo a cestaria Mbyá, como


vimos , uma de s u a s p r i n c i p a i s " m a r c a s c u l t u r a i s " .

Entendemos, que a s o l u ç ã o p a r a as g r a v e s questões


ligadas à subsistência dos Mbyá, não deve passar pelo
paternalismo, r e s p o n s á v e l pela atual relação de dependência
desses grupos étnicos a. " c u l t u r a b r a n c a " . Esta situação é
•Fomentada por instituições ind igen ist a s , religiosas, ou
grupos i sola dos; que agem independentemente, sem uma
o r i e n t a ç ã o ger al e s i s t e m á t i c a . A c r e d i t a m o s que só através
de u m a p o l í t i c a i n d i g e n i s t a l i b e r t a d o r a p o s s a m ser criadas
c o n d i ç o e s p a r a que e s t a s e t n i a s gerem , elas próprias, su a
subsistência. Em o u t r a s p alavras, a sociedade branca deve
dar ao s G u a r a n i (e a t o d a s as o u t r a s e t n i a s ) m e i o s p a r a que
p o s s a m d e s e n v o l v e r sua s u b s i s t ê n c i a . D e s t a f orma p o d e r á ser
amenizado o efeito nocivo c a u s a d o p e l a s i t u a ç ã o de intenso
c o n t a t o c o m a s o c i e d a d e naci onal, à qual e s t e s g r u p o s estão
submet i d o s .
7 - R E L IG IS O E H E D IC IN A

”0 espírito recusa-se a conceber o espírito sea o corpo. 0 antropoiorfiSEQ.


Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de
Bcridiano. E as inquisições exteriores". (Ossald de Andrade - Kanifesto Antropófago)

A religião é um d o s mais importantes fatores de


e t n i c i d a d e p a r a os Hbyá. Em s e u s d i s c u r s o s s o b r e e s t e tema,
observaremos mais claramente c o m o os G u a r a n i de B r a c u í se
i d e n t i f i c a m em contraste a "outros índios" e brancos. é
f u n d a m e n t a l e s t u d a r m o s a r e l i g i ã o Hbyá, p a r a que possamos
ter um e n t e n d i m e n t o maior de su a cult u r a . Nossos informantes
guardam em segredo certos setores de sua religião,
d e m o n s t r a n d o que e s t e s r i t u a i s H b y á são "do e p a r a " o Hbyá;
d e s t a f orma t o d o s os e s t r a n h o s são e x c l u í d o s . No i n í c i o de
n o s s o c o n t a t o com e s t e grupo, o tema r e l i g i ã o foi t o t a l m e n t e
e v i t a d o por t o d o s os m e m b r o s da aldeia. A religião deve ser
e n t e n d i d a c o m o "uma m a n e i r a de c o n s t r u i r o m u n d o " (Geertz,
19 78: 126); era o u t r a s p alavras, fo rma de c o n c e b e r a vida
humana, ou cosraovisão. Por percebemos a dificuldade em
estabelecer limites entre religião e medicina na cultura
Hbyá; o p t a m o s era não separarmos estes dois pontos (as
eventuais divisões funcionam apenas a título de exposição).

Segundo Cadogan (1 949:23), os Hbyá crêem na


dualidade da alma, "Ay vú Ra pytá, el o r i g e n dei lenguaje
humano y origen de la p a l a b r a - a l m a Ne'eng, fué la primera
o b r a dei S e r Supre mo; e s t a p a l a b r a - a l m a N e ' e n g es la p o r c i ó n
d i v i n a dei alma, e n v i a d a por los dioses Ne'eng Ru Eté
v e r d a d e r o s P a d r e s de la P a l a b r a - a l m a - p a r a que se encarne
en la c r i a t u r a hu mana. Al n a s c e r el ser h u m a n o , a Ne'eng, la
palabra-alma di vina, se incorpora Tekó Acha Kué, cuya
traducción literal es: el produto de Ias
i m p e r f e c c i o n e s , ...c o n s t i t u y e la p o r c i ó n g r o s e r a , defectuosa,
t e r r e n a dei a l m a humana. En v i d a de aquel a qui en acompana
o, mejo r dic ho, cuyas pasiones la e n g e n d r a n , se la 11 a m a
Tekó Achy K u é - el p r o d u c t o de Ias i m p e r f e c c i o n e s - ; m u e r t o
83

el ser hum ano, s e - c o n v i e r t e en Taky Kué ry g u á - a q u e l l o que


sigue o acompanaj llamado también, A n g u é ...A n g u é o T a k y Kué
ry guá p e r m a n e c e en la tierra, pues debe su g ê n e s i s a los
a p e t i t o s hu manos, c o m o su n o m b r e lo indica; conviértese en
f a n t a s m a p e l i g r o s o que a n u n c i a e n f e r m e d a d e s , d e s g r a c i a s , la
mue rte, y debiendo ser a l e j a d o con pleg a r i a s , himnos y
f u m i g a c i o n e s de h u m a de tab aco. Ne' eng , la p a l a b r a - a l m a de
o r i g e n divino , v u e l v e a a s c e n d e r a la m o r a d a dei g r a n Padre
que la e n v i a r a a e n c a r n a r s e " .

P a r a os Mbyá, g r a n d e n ú m e r o de d o e n ç a s se deve
t a m b é m à náo o b s e r v â n c i a das leis do grupo. Por e s t e motivo
" T e k ó Achy Ku é" a t u a l m e n t e se d e s e n v o l v e u m u i t o em relaçáo
ao lado divi no, aumentando desta fo rma os m a l e s que os
ating em. Entretanto, segundo Cadogan (19 49: 25); "...los
medicamentos para cómbatirlas fuer on divulgados a 1a
h u m a n i d a d por los dioses. N a n d e Ru P a 'í Reté Kuaray
n u e s t r o Padre, el Sen or dei c u e r p o r e s p l a n d e c i e n t e c o m o el
Sol - hiáo’ dei C r e a d o r de la t i e r r a en que vivemos y de
mujer M b y á - g u a r a n í , al a b a n d o n a r la t i e r r a y dejar al h o m b r e
p a r a que l a b r a r a su prop i o desti n o , divulgó a sus h i j o s los
hombres Ias virtudes terapêuticas dè todas Ias yerbas
medicinales y otras substancias medicamentosas, como también
todos los elementos racionales de la terapêutica
m b y á - g u a r a n í ".

Po ã R e k ó Achy, r e m é d i o s das imperfeições, é como


os M b y á c h a m a m os m e d i c a m e n t o s de sua f a r m a c o l o g i a ; que,
segundo Cadogan (1949:25), foram divulgados pelos deuses,
por nã o a c h a r e m líci t o que s e u s filhos permanecessem na
terra, expostos aos e f e i t o s p e r n i c i o s o s de T e k ó A chy, sem
m e i o s para d e f e n d e r - s e . Ao c o l h e r e r v a s medicinais o Mbyá
d e v e invocar P a 'í R e t é Kuaray. Este aut or c i t a u m a dessas
oraçõe s: "Bien, P a d r e mío, s i e n d o tú el que c o n c i b i ó Ias
costumbres de los que portariam el emblema de la
m a s c u l i n i d a d y el e m b l e m a de la f e m i n i l i d a d en la morada
84

te rrena, y que concibió los remédios para los males


p r o d u c i d o s por T e k ó Achy, a tí me e n c o m i e n d o aí c oger este
r emédio , para que tus numerosos enviados hagan que sea
e ficaH" . P a 'í R e t é Kuaray, a l é m de ser o fundador da c i ê n c i a
mé dica, é também considerado o “pai dos M b y á - g u a r a n i " . A
esta divindade é atribuído o c o r p o de leis. transmitido
a t r a v é s das ger acoes; que r e g e m toda organização social
i n t e r n a e a c o n d u t a moral dos i n d i v í d u o s . (Cadogan. 1949:26)

Hélène Clastres (1978:26-30) álerta-nos que é


importante não pensarmos a religião Guarani como algo
estático. fruto de uma visão equivocada de cultura
cristalizada. Logo, s e n d o a r e l i g i ã o r e l a ç ã o com div indades;,
e. c o m o c o l o c a a a u t o r a ( c i t a n d o D u m é z i l ) , é " c o i s a atua l e
ativ a " (como d e v e m ser e n t e n d i d o s t o d o s os fatos c u l t u r a i s ) ;
devemos então perguntarmo-nos : qual é a prática religiosa
atual dos M b y á ?

0 centro religioso da a l d e i a é a Opy (“c a s a de


orac o e s " ) . S o b r e isto, d e c l a r a o C a c i q u e a p o n t a n d o p a r a e s t a
importante edificação; "Aqui é pra nossa reza, é pra se
/• w

lemb rar de Deus. N ó s r e z a m o s d i r e t o c o m n o s s o Deus, N a n d e r ú ;


c a t ó l i c o já t e m ^ a n t o . E s s e é o n o m e de n o s s o Deus, Nanderú.
Tem t a m b é m Tupã. e o Sol é K u a r a h y " . 0 C a c i q u e no s convidou
a e n trar na c a s a de oracoes. que é a maior c o n s t r u ç ã o da
a l d e i a (100 m e t r o s quadrados ), a única revestida com barro,
como vimos anteriormente. Não p o s s u i janelas, a p e n a s duas
portas; uma voltada p a r a oeste, de frente para o pátio
central da a l d e i a e o u t r a p a r a leste, na d i r e ç ã o do mar. 0
c h ã o é de t e r r a ba tida, e o t e t o de folha de pindó , como
t o d a s as o u t r a s casas. 0 m o b i l i á r i o é c o n s t i t u í d o por a l g u n s
b a n c o s de t á b u a s p r e s a s c o m prego s, u m a r e d e e um a f o g u e i r a .
"Os X i r i p á têm c r u z e m b a r a c á miri m; aqui já não te m",
d e c l a r a o C a c i q u e m o s t r a n d o o i t o t a q u a r a s de b ater n o chã o,
ou taquapí, e um m b a r a c á que el e t o c a n o s r i t u a i s c o m o l íder
reiigioso.
opy
85

A taquapí é um i n s t r u m e n t o de percussão, usado


e xclusivamente pelas mulheres durante a reza. T r a t a - s e de
um a v a r a de bambu, vazada l o n g i t u d i n a l m e n t e ao c e n t r o e em
um a de s u a s po ntas, u s a d a de forma vertical; de m o d o que a
face aber t a , fique v o l t a d a p a r a o c h ã o e a o u t r a (fec h a d a ) ,
p a r a cima. A mulhe r segura a taquapí c o m uma das mãos,
batendo ritmadamente a face inferior contra o chão,
p r o d u z i n d o um som grave.

0 C a c i q u e de Bracuí apontou um o u t r o importante


o b j e t o rit u a l dos Hbyá, o "popaguá", hastes de madeira
t a m b é m u s a d a s por ele n a s o r a ç õ e s n o t u r n a s . Segundo João da
Sil va, o mundo é s u s t e n t a d o por este bastão de madeira,
c o l o c a d o por Nan derú . Esta v a r a ou bengala é utilizada
somente pelos homens durante a reza. Um i n f o r m a n t e desta
al dei a, r e l a t o u - n o s que; "os G u a r a n i m a i s ve lhos, como Seu
João, u s a o p o p y g u á maior. S e u In ácio, muito velhinho, tem
um d e s s e s c o m a p o n t a mais grossa. A c r i a n ç a tem um menor;
quando cresce, vai aumentando o popyguá. Os v e l h o s u s a m o
popyguá como bengala pra anda r. Na Ilha da Peça, em
Paranaguá, vi o N a n d e r ú de lá b a t e r o p o p y g u á em v o l t a da
Opy" .

Uma única vez João da S i l v a m o s t r o u s e u popyguá,


d i z e n d o que é "só do Hbyá; e s s e aqui, s e tem, é Hbyá". Este
o b j e t o e r a c o n s t i t u í d o por d u a s h a s t e s de um m e t r o e vinte
de c o m p r i m e n t o , por um c e n t í m e t r o s de espessura, feita de
cerne da guaj u v i r a . Existe um outro tipo de popyguá
diferente do que mostrou o Cacique. São duas hastes de
trinta centímetros, por d o i s m i l í m e t r o s de e s p e s s u r a , unidas
por uma fina corda de fibra de imbira, com vinte
centímetros; geralmente feito de a l e c r i m . Este objeto é
u s a d o por c e r t o s h o m e n s H b y á durante suas viagens, como um
t i p o de a m u l e t o , pois permite ao seu portador dormir em
qualquer lug ar ("mato ou cidade") s e m ser molestado por
estranhos, n e m por a n i m a i s ou e s p í r i t o s . Verá Hirim declarou
86

que t odos os P a j é s e a l g u n s C aciques, ao se e n c o n t r a r e m em


certas situações especiais, cumprimentam-se, sacando seus
r e s p e c t i v o s popsg uá, b a t e n d o as d u a s h a s t e s do m e s m o u m a na
outra, v á r i a s vezes, produzindo um som met áli co. Segundo o
Cacique, o Pajé chega batendo seu popygu á, e os que o
r e c e b e m r e s p o n d e m da m e s m a -forma. Este at o é c o n h e c i d o p e l o s
H b y á como a " S a u d a ç ã o d o s Pajé", s e g u n d o r e l a t a o C a c i q u e de
Bracuí, que p r e s e n c i o u a l g u n s d e s s e s r i t u a i s r e a l i z a d o s p e l o
P a j é J u a n z i t o O l iveira.

E s t e s o b j e t o s t a m b é m sã o u s a d o s num o u t r o ritual,
d e n o m i n a d o a " D a n c a do S o n d a r o " , d e s c r i t o pelo p r o f e s s o r da
aldeia, da s e g u i n t e forma: d o i s h o m e n s f i cam ao c e n t r o de um
c í r c u l o f o r m a d o por o u t r o s Hbyá. E s t e s dois, então, iniciam
um tipo de combate, o n d e um d e l e s e s t á p o r t a n d o um grande
popyguá; que, a b r i n d o as d u a s hastes, p a s s a uma d e l a s so b os
pés de se u c o m p a n h e i r o , que d e v e sa ltar s o b r e ela; enquanto
a outra haste passa simultaneamente sobre sua c a b e c a . Ho
d e s e n r o l a r d e s t a danca, as d u a s h a s t e s do p o p y g u á v ã o sendo
aproximadas g r a d a t i v a m e n t e , diminuindo o espaco entre elas,
por onde deve p a s s a r o o u t r o p a r t i c i p a n t e . E n q u a n t o isto, os
o b s e r v a d o r e s que f azem o cír culo, cantam e d a n c a m em seus
r e s p e c t i v o s lugares. 0 h o m e m que c o n s e g u i r salt ar d e n t r o do
m e nor e s p a c o e n t r e as d u a s hast es, t o r n a - s e o sonda r o . Este
título é importante na organização social Hbyá, pois
d e m o n s t r a que seu detentor é um h o m e m que pode assumir
responsabilidades.

Um a m u l h e r Guarani r e l a t o u que alguns Mbyá de


B rac u í p i n t a m o r o s t o p a r a rezar, ou d u r a n t e a l g u m a s fest as.
Porém, ess e c o s t u m e e s t á d e s a p a r e c e n d o e ntre os Hbyá: "os
ín dios ficam com v e r g o n h a do b r a n c o ver, e não pint a m . Nem
diz que u s a c o m m e d o do b r a n c o rir e m a l t r a t a r " . 0 Cacique
reforçou essas informações, acrescentando que a p i n t u r a do
h o m e m pode ser: u m a cruz; um c i r c u l o preto, em c a d a l a d o da
face, com a f i g u r a do sol num d o s c írculos , e a da lua no
87

outro. Já a m u l h e r se p i n t a com, t r i s l i n h a s pret a s , em c a d a


face, s a i n d o do nariz, " c o m o se f os se o b i g o d e da onça".

E m B r a c u í a r e z a ou porahii é realizada todas as


no ites, podendo ser: comunitária, contando com a
p a r t i c i p a ç ã o de quase t o d a a ald eia, ou p e l o m e n o s um grupo
de v i z i n h o s ; ou domé s t i c a , o n d e a p e n a s os m o r a d o r e s da casa
participam, ou individual. I n i c í a - s e por v o l t a das dezenove
h o r a s à m e i a noite, p o d e n d o e s t e n d e r - s e a t é a manhã, "é o
C a c i q u e que r e z a pr a t o d o mundo. T u d o de pé, b a t e o pé no
chão, c a n t a n d o , o h o m e m danç a. Hulher bate taquara e o
C a c i q u e t o c a mbara ca, até m e i a noite. E n t ã o p e d e as coisas
A/

pr a H a n d e r ú tupã, o mai or de tudo (gesticulando com a mão


d i r e i t a no cor a ç ã o , e a o u t r a e s t e n d i d a em d i r e ç ã o ao céu),
assim"; declara uma i n f o r m a n t e , que é u m a das principais
cantadoras, o u " p u x a d o r a s de reza". E l a d i z a i n d a que q u a n d o
" f a l a c o m D e u s " pede c o i s a s como; c o m i d a p a r a ter bo a saúde,
sol p a r a a lavoura, f orça p a r a fazer e v e n d e r artesanato.
S e u f i l h o r e c i t a uma o r a ç ã o em Mbyá, g e s t i c u l a n d o muito, num
t o m de v o z s u a v e e sole ne. Alguns informantes disseram que
possuíam uma reza particular; "cada um t e m a sua, a minha
aprendi com meu pai; p o d e aparecer no s o n h o tamb ém, de
noite, e s p í r i t o que mo stra; então, de m a n h ã se lembra". Uma
M b y á de 69 a n o s di z que t e m u m a o r a ç ã o só dela, que v e i o em
sonho, p r a ser r e z a d a em casa.

A oração seguinte, dita pela manhã e


individualmente, foi registrada entre os M b y á de Bra cuí :
"Nó s d i s s e m o s a D e u s : nós n o s l e v a n t a m o s n o v a m e n t e . Nanderú
nos faz l e v a n t a r n o v a m e n t e . E l e nos faz r e p o u s a r novamente.
T o d a s as c r i a n ç a s se l evantam. Nova m e n t e , t o d o s os pássaros
se l e v a n t a r a m . El e nos faz l e v a n t a r n o v a m e n t e , t o d o s nós que
e s t a m o s no mundo. Hó Nanderú, pai v e r d a d e i r o dos hom ens,
c u i d e de nós." Vellard (1937:379 e 383), registrou no
Paraguai, o r a ç õ e s m u i t o s i m i l a r e s a esta, e a seguinte, que
é proferida antes dos Mbyá partirem em via g e n s , ou
88

perambulaçrôes no mato: "Escute, hó Nande rú. Permita-nos


part ir, nos •faca v i ajar sem a c i d e n t e s . Que teus filhos
c u i d e m bem de nós. F a c a - n o s depo i s , seguir caminho sem
dificuldades até a floresta onde vamos. Pela manh ã,
permita-nos novamente rezar, faz-nos part i r bem. Nós
c a m i n h a r e m o s de n o v o p e l a fl oresta. Faz l e v a n t a r e m em boa
s a ú d e as c r i a n ç a s pequ e n a s , e faz-nos retornar bem a nossa
alde ia, p e r t o de n o s s a s e s p o s a s " .

A p o r a h i i i n d i v i d u a l é livre, no que t o c a à forma


c o m o s e r á dita; porém, e x i s t e u m a c o n s t a n t e , as p a l a v r a s sã o
s e m p r e as m e s mas, como c o l o c o u o Vice-cacique, declarando
a i n d a que; " T o d o m u n d o aqui r e z a de f r e n t e p r o lado que vem
o sol, lado do mar. A Opy é c o n s t r u i d a assim, de f r e n t e pro
mar, foi o p r o p r i o c r i a d o r da t e r r a que de u e s s a i d é i a pra
nós; se não, ninguém s a b i a pr a que lado tem que r e z a r . Na
r e z a m e s m o é d i f í c i l de eu ir, m a s s e m p r e faço m i n h a oração
em casa, p a r a N a n d e r ú , que é n o m e do n o s s o Deus. F‘
r a mim, o
mais importante é cada um faz s u a o r a ç ã o que dá n o mesm o.
Has tem que r e z a r p a r a Kuar a h y , Tupã, a s s i m ”; (mais adiante
a b o r d a r e m o s a i m p o r t â n c i a do mar na r e l i g i ã o M b y á ) .

K u a r a h y e Tupã, "deus da chuva ", foram os deuses


mais citados pelos M b y á de Br acuí. C o m os relâmpagos e
trovões de uma tempestade, o Cacique e outros Mbyá,
interrompiam nossas conversas a l e g a n d o que "Tupã não está
go s t a n d o " , e saíam rapidamente. Um velho Hbyá de Bracuí
c a r r e g a um p e q u e n o "T" de m a d e i r a em um c o r d ã o de cipó
p e n d u r a d o em seu pescoço. Este si nal é um "santinho",
segundo nosso informante; "é Tupã". 0 objeto foi f e i t o a
p a r t i r da f r a ç ã o do t r o n c o de u m a á r v o r e a t i n g i d a por um
raio. 0 G u a r a n i afirmou ainda que T u p ã não ir ia m a n d a r o
r a i o s e m mo ti vo; a árvore foi " e s c o l h i d a p e l o deus". Heliá
(1 989 :326) c o m e n t a n d o um i m p o r t a n t e mito Guarani (que será
e n f o c a d o a s e g u i r ), d e c 1 a r a que; "A t e r r a e s t á ameaçada; a
escuridão com seus morcegos pode cair s o b r e nós e a onça
89

p r e t a quer nos devo rar. Entretanto, N o s s o F‘


ai -fez a pessoa
de T u p ã que, ao se m o v e r p e l o céu, troveja e relampeja".
Jehan Vellard (Í9 37;3 73) , a n a l i s a n d o t e x t o s r e l i g i o s o s Mbyá,
aponta a importância de Tupã como " d i s c i p 1 i n a d o r ", no
contínuo processo de manutenção da ordem cósmica;
" N a n d e r ú ...é a u x i l i a d o por seus numerosos f i lhos no se u
o f í c i o de pro tetor do s Mbyá, que têm m u i t o c u i d a d o ao pedir
s u a ajuda. Os filh os de N a n d e r ú f r e q u e n t e m e n t e se mostram
t

turbulentos e indisciplinados; para restabelecer a ordem


e n t r e eles, Tupã d e v e e s t a l a r seu chicote (o r e l â m p a g o e o
trovão)...". N o s s o s i n f o r m a n t e s de B r a c u í p a r e c e m acreditar
que os M b y á que falam s o b r e c e r t o s m i s t é r i o s de s u a r e l i g i ã o
a e s t r a n h o s , o que t a m b é m c a r a c t e r i z a i n f r a ç ã o a suas> leis
grupais; p odem ser c a s t i g a d o s p e l o c o l é r i c o d e u s Tupã o.

0 C a c i q u e é t a m b é m c h a m a d o p e l o s M b y á em B r a c u í de
"Nanderuvitxá" ("noss o chefe"; segundo S chaden, Í974;95;
"nome dado ao ' r e z a d o r ', ou chefe religioso..."). Como
i n f o r m a D o m i n g o s Benite, "Seu João é N a n d e r ú p o r q u e faz a
r e z a na Opy, faz r e m é d i o do mato, dá o n o m e da c r i a n ç a e
explica o sonho; é como um comandante padre. Para ser
N a n d e r u v i t x á tem que sempre rezar , não la rga de rezar,
sempre rezando e levando o pessoal p r a reza. Ele é que nem
pa sto r, se e s f o r ç a muito; mas quem qu iser ir vai; quem não
q u iser n ã o força. El e fi ca triste, mas s e m p r e fala, 'não
c h a m o m u i t o o pessoal p r a ir, q u e m q u izer vai; eu n u n c a vou
e s q u e c e r de Deus'. El e r e z a t o d o s os dias. No s á b a d o tem
m a i s reza, vai mais ge nt e. S e u J o ã o c o m e ç a a r ezar d e n o i t e ;
depois ninguém ma is entra, ele fecha a porta. Vai muita
gent e, velho, criança; o pessoal que g o s t a m a i s de re zar,
e n t r a ali e fica ouvin do. S e u J o ã o r e z a de pé, junto com os
m a i s ve lhos, é como se f o s s e na missa, o r e s t o do pessoal
fica senta do, o u v i n d o falar de Deus, r e z a n d o " .

J o ã o da Silva, porém , n'ão a c e i t a a d e s i g n a ç ã o de


Nanderú, afirmando que, "o Pajé mesmo, puro; não existe
90

mais", d e c l a r a n d o ser a p e n a s C a c i q u e , " P r a Pajé, não estudei


bem. C a c i q u e d i f e r e n t e de Pajé; se f a l t a P a j é de v e r d a d e e l e
p o d e bat iza r, fazer reza, curar com erva. A q u e l e que puxa
d o e n ç a co m a bo ca e m a n d a no e s p í r i t o , p a r e c e que n ã o tem
m a i s não, o ú l t i m o m o r r e u lá no P a r a g u a i . Eu sei, eu sou
C a c i q u e que batiza, faz a reza; ma s se dá pra cu rar e u p o s s o
curar com erva do mato, só. Pajé parece que a d i v i n h a v a o
sonho. S o n h o c a d a um tem; se t e m s o n h o bom, t u d o bem; se
ruim, t e m que resp e i t a r , h o j e n ã o vai t r a b a l h a r " . Verá Mirim
d e c l a r a a i n d a que o último Pajé Guarani morreu durante a
G u e r r a do P aragu ai; "Se t i v e s s e F‘
ajé mesmo, forte, tirava
dor, s o f r i m e n t o do Gua r a n i . Hoje não tem mais, depois da
G u e r r a do P araguai, morreu o último. Isso p o r q u e o p a r a g u a i o
t i n h a medo, q u eria acabar com Guar a n i ; então, indiarada
p arente , ficaram fazendo guerra pros paraguai. Ficaram na
b e i r a da e s t r a d a esperando soldado pas sar , então, mataram
tudo, nem viram de o n d e v i n h a a flecha. Só s o b r o u um pra
c o n t a r h i s t ó r i a depois. 0 paraguai voltou novamente. E n tão,
o P a j é estud ou, e mandou o v e n t o d e r r u b a r tudo, armamento,
carro, tudo. Só morreu um índio, o resto tudo soldado
morreu . 0 Pajé, v e l h i n h o c o m o eu, foi c o n v e r s a r c o m o S o l a n o
Lopes; então, ele foi cortando o dedo, o braço ; dai,
c o r t a r a m o p e s c o ç o do n o s s o F r a n c i s c o Felipe, coit a d o , nosso
Pajé. 0 tal do Solano saiu gritando, 'matei, matei esse
C a c i q u e por que sabe conversar, ele sabe muita coi sa,
peri g o s o ; e n t ã o matei, ninguém matava; m a s eu matei. Morreu
o C a c i q u e que c o m p r e e n d e muito, a g o r a acab o u ' . A indiarada
f ico u e s p e r a n d o o C a c i q u e - p a j é v o l tar; mas ele n u n c a mais
voltou. No final, o paraguaio, muito mais; m a t o u tudo a
i ndiara da; o que s o b r o u fugiu. V e i o p r o Brasil entã o, veio
pr o mar. É m u i t o triste, é c e r t o mes mo, o Guarani não tem
m a i s Pajé, e n t ã o tem que r e z a r muito, é assim". C o m o vim os,
o C a c i q u e liga a Guerra do P a r a g u a i c o m as m i g r a ç õ e s dos
Guarani para o litoral brasileiro (esta questão será
a b o r d a d a a diante ).

Percebemosj n e s t e ponto, a necessidade de uma


m e l h o r d e f i n i ç ã o da n o m e n c l a t u r a u t i l i s a d a na r e l i g i ã o Hbyá
para designar os l í d eres religiosos, visando evitar
ambigüidade (todavia, não é o b j e t i v o d e s t a m o n o g r a f i a , fazer
uma análise exaustiva deste tema). é fundamental aqu i
esclarecermos que e s tes termos surgiram exclusivamente
d e n t r o do d i s c u r s o r e l i g i o s o do s G u a r a n i de Bracuí.

0 ter mo "Pajé" trabalhado por M. Munzel


( c o r r e s p o n d e n d o a "Piai" p a r a M é t r a u x ) , c i t a d o por Viertler
(1982:306), foi utilizado pelos Mbyá (juntamente co m
"Nanderú"), para d e f inir s e u líder e s p i r i t u a l , como vimos;
porém, com atribuições b e m m a i s ampla s, que as definições
d a d a s p e l o autor acima. P a r a os G u a r a n i de Bra cuí, o Nanderú
o u Pajé, é o resp o n s á c e l pela reza, bat ism o, cura (com
"remédio do mato" ou através da extração de objetos
patogênicos por meio de c an to s, sucções, fricções e
baforadas de tabaco), interpretação de sonhos e/ou
presságios e comunicação com o "mundo dos espíritos".
Viertler (19 82:307) d e c l a r a que para Métraux o Piai, ou
Pajé, o b t é m seus poderes a p a r t i r da a q u i s i ç ã o de alguma
f o r m a d e s u b s t â n c i a m á g i c a (a p a r t i r do s u m o de tab aco , da
fu maça, d a respiraçã o, b e m c o m o de c e r t a s p l a n t a s m e d i c i n a i s
que o a p r e n d i z é lev ado a i n g e r i r d u r a n t e a s u a iniciação) .
De a c o r d o c o m este autor, " táis s u b s t â n c i a s m á g i c a s , fontes
d e u m a n o v a v i t a l i d a d e ou f orma de p oder mági co, constituem
também a origem de n u m e r o s o s males, doenças e infortúnios
quando se materializara sob f orma de dardos e flechas
mágicas, espi nha s, cri stais, resin a, etc.; que constituem
f o r m a s de e s p í r i t o s a u x i l i a r e s do piai. é por m e i o destes
'espíritos/substâncias' que o piai exerce as curas de
d o e n t e s ”.

U t i l i z a r e m o s os t e r m o s F’
a j é ou Nand eru, que, como
v imo s , s ã o as c a t e g o r i a s o b s e r v a d a s e n t r e os M b y á de Brac uí;
e cuja definição dada para estes nomes pelos autores acima.
92

é s i m i l a r ao e n t e n d i m e n t o que n o s s o s i n f o r m a n t e s têm, sobre


estes mesmos conceitos (e suas fu nções). Logo, por este
t r a b a l h o ser uma p e s q u i s a refe r e n t e a um grupo específico,
c o m o b j e t i v o s de c o m p r e e n d e r c e r t o s a s p e c t o s b á s i c o s de seu
sistema cultur al, buscaremos evitar generalizações
desnecessárias.

A inic i a ç ã o do P a j é é realizada através de um


outro mais v e lho que passa seus c o n h e c i m e n t o s de maneira
info r m a l , ou seja, a t r a v é s da p r á t i c a , por o b s e r v a ç ã o e
repetição. Conforme Schaden ( Í 9 63:87), "Os c a n d i d a t o s ao
o f í c i o sã o s u b m e t i d o s a u m p e r í o d o de in strução. Os mestres
lhes t r a n s m i t e as r e z a s e p r á t i c a s , e s s e n c i a i s à o b t e n ç ã o da
'sabedoria'; só lhes ensi n a , po rém, rezas e d a n ç a s de uso
geral, bem como regr a s de c o m p o r t a m e n t o g r a ç a s às quais,
r e c e b e r ã o as suas p r ó p r i a s i n s p i r a ç õ e s ...ôu a n t o aos médicos
feiticeiros, dividem-se êles em quat r o categorias,
A /

d e n o m i n a d o s s e g u n d o as q u a t r o divindades; N a n d e r ú ( de us do
sol), K a r a í Ru Eté (deus d o fogo), D j a k a i r á Ru E t é (deu s da
primavera) e Tupã Ru Eté (de us d a s chuvas). Note-se que
e s p e c i a l i s t a s nã arte de cu rar, p ó r o p o ã noá, nem s e m p r e são
d i r i g e n t e s de c e r i m ô n i a s r e l i g i o s a s " .

A p a r í c i o da Silva declarou estar sendo iniciado


n e s t a a p r e n d i z a g e m por um velho Pajé de Ubatub a; "Pra ser
(V

N a n d e r ú tem que ter a ligação com o e spírito, aí pega


doe nç a, gripe, febre, ou feitiço, t i r a e j o g a pra f o r a com
a j u d a do espír ito . Pode t a m b é m fumar c a c h i m b o e c o m a f u m a ç a
a gente traz pelo sopro, sopra o mal p r a longe, ou cospe
fora e vai embora. No o u t r o d i a a p e s s o a tá boa. R e m é d i o n ã o
uso. E x i s t e mui tos e s p í r i t o s que c a u s a m o mal, que s ã o ; das
pedr a s , da mata, ponta de fl echa, pena; também o próprio
( e s p í r i t o ) das pessoas. Quem aprende com espírito puro,
e s p í r i t o bom, vai até o c é u v o a n d o j só cura, n u n c a faz mal .
E s t e é o P a j é da c o m u n i d a d e , que c u r a doença. Tem t a m b é m o
e n f e r m e i r o juruá, se machucou, ele vai e cura; mas é
93

diferente. A g e n t e a p r e n d e as coisas, ma s é m u i t o difícil.


Aprende com o mais velho . Eu posso falar s o b r e i s t o mas é
muito difícil vocês compreenderem. F‘
or e x e m p l o : eu estou
fumando o meu cachimbo, o pety n g u á , tem que fumar m u i t o até
ficar tonto, m u i t o tonto; então, se liga ao e s p í r i t o . Quando
e s t á tonto, o e s p í r i t o v e m e leva o P a j é p r o o u t r a terra. Eu
c o n s e g u i a p r i m e i r a vez, c o m a a j u d a do P a j é da rainha a l d e i a
lá em U b a t u b a . Eu me s e n t i bem, fi quei leve, forte, curei
muitas pessoas. F i c o f e l i z c o m isso, e q u e r o c o n t i n u a r , este
é meu c a m i n h o , meu papel p r a c o m u n i d a d e . M e u n o m e na língua
é Arocajú, que quer dizer, guiado pelos espíritos do
terreiro amarelo, que é uitia t e r r a sagr a d a , Yvy Mar a e y , ou
T e r r a s e m Fim. F‘
ra lá eu v o u qua ndo fumo m e u p e t y n g u á . "

Foram registrados em Bra c u í os d o i s modelos do


c a c h i m b o Mbyá, ou petynguá, também citados por Schaden
<i9 63: 9í) e H e r b e r t B a l d u s (19 52: 480) : o d e barro; e de "nó
de pi nho" , ambos com canudo de taquara (pi teira). Os
cachimbos foram f e i t o s por uma mesma m u l h e r de 7<ò anos,
nascida na Argentina. Segundo informações, el a é a única
p e s s o a que faz (ou, s a b e faz er? ) o p e t y n g u á . Quase todos os
M b y á de Bracuí fumam cachimbo, que é também utilizado
d u r a n t e a reza, por e s t e m o t i v o é o b j e t o r i t ual. Cada casa
p o s s u í um, ou mais, cachimbos, que são f u m a d o s c o l e t i v a m e n t e
e o f e r e c i d o s ao s visitantes (foto p. seguinte). Em Bracuí
encontramos cachimbos de dois tama n h o s ; um menor para
viag e n s j e o modelo maior usado em c a s a e nas oraç õ e s . 0
fumo u s a d o n e s t e s c a c h i m b o s é o pet u- hu, o "tabaco preto",
p l a n t a d o na alde ia, geralmente pelas mulheres, ou comprado
nos b a r e s e vendas próximas (o "fumo de co rda "). Luiz
Eusébio mostrou-nos um cachimbo de nó de pinho, "Esse
p e t y n g u á é d o Mbyá, c o m p r e i da mu lher G u a r a n i que v e i o lá da
Argentina, ela que faz. Tem t a m b é m o de barro, igual.
C a c h i m b o u s a pra fumar e p r a rezar no s i s t e m a antigo, p r a se
PETYMSUA
9A

lembrar de Deus. 0 pessoal aqu i usa b ast ante, não pode


d eixa r. E s t e a q u i é só do Hbyá".

0 Pajé (ou o C a c i q u e ) , c o m o v imos a n t e r i o r m e n t e , é


responsável pelo batismo entre os Guarani. Os H b y á possuem
d o i s nomes, um em p o r t u g u ê s , r e c e b i d o pel os p a i s ao nas c e r ;
e outro nòme Guarani, que é " d e s c o b e r t o " Nand e r ú , somente
quando a criança começa a falar. Nimuendajú <í987:£7)
atribui a a d o ç ã o de um " n o m e de branco", por parte do s
Guarani, à p e r s e g u i ç ã o a e s t e s p o v o s , promovida em nome da
civilização cristã ocidental; "Por isso nã o se pode
absolutamente condenar, nos guarani, que p r o c u r e m esconder
sua r e l i g i ã o ao máximo, fazendo c o m que t o d o s os ataques
dirigidos contra ela resvalem no e s c u d o de um cristianismo
s imu l a d o . Assim como Heine se fez cristão para p oder
c o n t i n u a r s e n d o j u d e u em paz, t a m b é m o Guar ani , sempre que
possí v e l d e i x a - s e b a t i z a r " .

0 H b y á e s c o n d e s e u n o m e Guarani, apresentando-se
ao s e s t r a n h o s p e l o n o m e em p o r t u g u ê s . "0 índi o n ã o fala o
nome, a m a i o r i a n ã o fala, fica c o m verg onha, porque não sabe
falar o p o r t u g u ê s , ou o b r a n c o n ã o en tende, a c h a e n g r a ç a d o " ,
declara uma mulher Mbyá, que m o r o u muito tempo na c i d ade,
d i z e n d o a i n d a que não falava seu nome Guarani porque não
queria ser identificada como "índia", temendo
discriminações; "eu não gosto mu it o, to do m u n d o ri, fica
p e r g u n t a n d o c o m o é na aldeia, se a n d a sem roupa, faz piada;
m u i t o ruim".

Infelizmente não conseguimos observar nenhum


batismo, d u r a n t e o t e m p o e m que e s t i v e m o s e n t r e os M b y á de
Bra cuí; porém, nossos informantes a f i r m a m que pode durar
v á r i o s dias, no final dos q u a i s o Pajé, r e u n i d o c o m os pais
da crianç a, r e c e b e a m e n s a g e m d o s "deuses" s o b r e a o r i g e m do
espí r i t o , para só então descobrir seu "nome Guarani".
S e g u n d o a p a r t e i r a da alde ia, " C a d a um t r o u x e um n o m e q u a n d o
nasce. Q u a n d o já p o d e falar o C a c i q u e d e s c o b r e de o n d e veio
e bati za; pega a c a b e ç a e f ala o nome". 0 fato do batismo
o c o r r e r só q u a n d o a c r i n ç a i n i c i a a fala, p o d e ser e x p l i c a d o
a t r a v é s da r e l a ç a o que os M b y á f a z e m entre palavra e alma
(Ne' eng = p a l a v r a - a l m a ) . C a d a u m d e s s e s nomès, considerados
sagrados pelos Mbyá, está relacionado com um dos deuses
responsáveis pelo e n v i o do respectivo espírito, à terra.
E s s e s d e u s e s s ã o c o n s i d e r a d o s os " P a i s da P a l a v r a - a l m a " , ou
seja, os p a i s do e s p í r i t o . 0 C a c i q u e V e r á Mirim, declarou
que os n o m e s estão relacionados com uma certa posição no
q u a d r o so cial da aldeia (assunto ao qual se recusou a ir
adia n t e ) ; e com os q u a t r o p o n t o s c a r d e a i s , "os q u a t r o c a n t o s
da terra, onde tem q u a t r o p a l m e i r a pindó. 0 espírito pode
ter v i n d o do céu, do mar, ass im".

J o ã o da S i l v a fala s o b r e a o r i g e m dos espíritos.


"0 e s p í r i t o do índio do bran c o , c a d a um te m um e s p í r i t o , se m
e s p í r i t o n e s t a t e r r a não nas ce, n ã o se cria, não p o d e vive r .
Meu VOVÔ, d is que o espírito desce em um só lugar, onde
d e s c e tem que ser em um só lugar. T e m úm t i p o de á r v o r e , que
D e u s fêz só pra d e scer o espírito, tem que ser assim ,
n a q u e l e lugar só. 0 e s p í r i t o p a r e c e que não p o d e a c e r t a r b e m
a queda; então, tem a árvore bem g ra nd e. Primeiro tem que
descer lá na c o p a d a q u e l a árvo r e , depoi s, desce pro mundo,
só aí que tem corpo, é assim, vem, do c é u e d e s c e na c o p a da
madeira, o espírito então vive. 0 b r a n c o já diz que n ã o é
assim. 0 juruá sabe descobrir isso, t e m que ser m a i s c e r t o o
b r a n c o que o índio; nós nem sabemos escrever! Essa é
h i s t ó r i a do Guar ani, ve m de m u i t o tempo, é assim, esse
morreu , o filho; o n e t o tá vivo, então vai p a s s a n d o até
agora, d e s d e o co meço".

^ 0 Cacique Verá Mirim a l é m de liderar a reza e


batiz a r , t a m b é m c u r a os d o e n t e s da aldeia; "quando o pessoal
fi ca doe nt e, ele c u i d a tamb ém; faz r e m é d i o do mato, reza. Eu
já t o m e i r e m é d i o dele e f i q u e i boa. Mas é difícil saber.
96

quem s a b e n ã o cont a, nem eu sei dir eito. De v e z era quando


c h e g a G u a r a n i de a l g u m o u t r o lugar que s a b e fazer remédio
tipo um chá, aq ui tem uns. D e p e n d e n d o da doença tem a
e n f e r m e i r a F U NA I; mas aqui q u e m c u r a é o n o s s o C a c i q u e ; ele
é forte", d e c l a r a uma informante de Brac uí. Esta m u lher
a f i r m o u a i n d a ter t o m a d o um c h á feito por um P a j é da aldeia
de Ibi ram a, "0 nome não sei, só el es sabem; t omei num
c o p i n h o p e q u e n o que nem c h i m a r r ã o , só que e r a b e m pequeno,
n ã o sei qual e r a m as ervas; mas fiquei b e m b o a logo. Não
t i n h a m a i s fraq u e z a , dor de c a b eça. 0 Cacique João conhece,
/V

ele s a b e f a z e r reméd io, é Nanderú".

0 " r e m é d i o do m a t o " é p r e p a r a d o em f o r m a de chá, a


pa rtir de e r v a s e/ou raízes, como vimos, e servidas como:
“g a r r a f a d a s " , g a r r a f a s de v i d r o (como v a s i l h a m e s c o m u n s de
água mineral, e n c o n t r a d a s no merc a d o ) ; ou p e q u e n a s "cuias",
similares às de chimarrão. Estes foram os remédios
e n c o n t r a d o s em Bracuí: V a c a p í - ou "pata de vaca"; e K a a p ú í-
" L á g r i m a de N o s s a S enhora"; a m b a s u s a d a s no p a r t o (conforme
J ú l i a da S i l v a ) . Memb y v e n j á - a n t i - c o n c e p c i o n a l . C a a r é - e r v a
i n d i c a d a p a r a do r de e s t ô m a g o . C i p ó mil h o m b r e s - i n f l a m a ç ó e s
em geral (us o i n t e r n o e e x t e r n o ) . Erva c i d r e i r a - ou "capim
limão", tranquilizante.

As d o e n ç a s de maior incidência em B r a c u í foram;


subnutrição, desidratação, gr ip es, pneumonia, bronquite,
sarna, v e r m i n o s e s , e o u t r a s em m enor q u a n t i d a d e . Observamos,
um c a s o d e d o e n ç a ca rd íaca , um caso de t u b e r c u l o s e , três
s o f r e n d o de cegueira, uma paralítica, um c a s o de doença
renal, e vários alcoólatras ( d e n t r e eles d o i s c o m problemas
hepáticos). A subnutrição, de g r a n d e i n c i d ê n c i a e m Br ac uí, é
c a u s a d o r a da m a i o r i a das doenças e ó b i t o s infa n t i s , como
vimos anteriormente.

Em nossa estada em Brac uí estabelecemo-nos no


a m b u l a t ó r i o da a l d e i a ( a d m i n i s t r a d o pela FU NAI), durante as
97

féri a s da e n f e r m e i r a . Nesta ocasiao, tivemos a oportunidade


de comprovar que os Mbyá buscavam constantemente
medicamentos. A qualqu er hora dõ d i a ou da noite, recebíamos
m e m b r o s da a l d e i a procurando comprimidos ou i n j e ç õ e s para
d o r e s de c a b e c a ou febre, x a r o p e s p a r a gr ipes , pomadas para
f e r i d a s p r o v o c a d a s por i n s etos e o u t r o s animais.

A f i l h a de uma de n o s s a s i n f o r m a n t e s p r o c u r o u - n o s ,
durante nossa e s t a d a na enfermaria da a l d e i a de Brac u í ,
p e d i n d o um remédio para su a m a e que e s t a v a morrendo. Os
sintomas relatados foram: dor no cora ç ã o , pé muito frio,
f a l t a de a p e t i t e , além de s o n h a r t o d a s as n o i t e s c o m o f i l h o
m o r t o (caso relatado acima, do Hbyá que m o r r e u de coma
a l c o ó l i c a na c i d a d e de A n g r a do s Reis), “a c h o vai morr er,
muito velhinha, al ma já fraca, muito t r i s t e “. "Nhe ndova“
(alma não m a i s al egre), como declarou a men in a. Com uma
a l i m e n t a ç ã o e s p e c i a l e um n o v o c a s a m e n t o (po is a e n f e r m a era
viúv a ) c o m o irmão mais v e l h o tio Vice-cacique, ela se
restabeleceu. As d o e n ç a s p o d e m ser t r a t a d a s , dependendo de
seus sintomas, por " r e m é d i o s do mato" , ou p e l o t r a b a l h o do
Pajé. No entanto, o contato com a farmacologia ocidental
está afetando os p r o c e s s o s t e r a p ê u t i c o s int e r n o s ; podendo,
d e s t a forma, c a usar a d e s a g r e g a ç ã o do sistema social e
gerando dependência.

S e g u n d o i n f o r m o u um de n o s s o s c o l a b o r a d o r e s ; "Seu
J o ã o é mais C a c i q u e que Pajé, nã o sabe tudo sobre doenca,
e n t ã o fica d i f í c i l pra gente. Eu s e m p r e usei r e m é d i o d o m a t o
feito pelo Cacique e fico bom, m a s tem que ter fé; se não
c o n t i n u a do ente, se a c r e d i t a r D e u s ajuda, q u a l q u e r um, te m
que se firm ar no Pajé. 0 que a c o n t e c e é que e s s e s n o v o s não
a c r e d i t a m m u i t o no r e m é d i o de índio, e não conhecem mais
e s s e chá, a erva, tudo. Depois pega gripe, dor de cabeça,
t o m a c o m p r i m i d o de j u r u á e fica b o m logo, n e m vai n o mato
p r o c u r a r ervi n h a . Tem c a s o que n e m p r e c i s a de r e m é d i o ; mas a
e n f e r m a r i a tá lá. Se nã o tivesse a enfermeira, a tigrada
98

p e g a v a r e m é d i o com o C a c i q u e . Já m orei com os b r a n c o s e eu


sei que te m m uito r e m é d i o que eles pegaram do índio; se
foss e bom, o j ur uá não ia fic ar t o m a n d o r e m é d i o do mato, e
dando remédio d eles p r o Guarani. Aí o índio fica doente
s e m p r e com remédio do b r a n c o ; e o branco fica bonsinho
t o m a n d o r e m é d i o de índi o (ri sos)".

A p a r í c i o da S i l v a e x p l i c a que; "se a d o e n ç a for de


bran co, tem que levar pro b r a n c o curar; gripe, pontada,
isso. M a s q u ando for de índio, tem que t o m ar r e m é d i o do
mato; dor na cabeça, c o i s a d a n a t u r e z a que se t i r a d o corpo.
Se não for desse jeito, o í ndio fica tomando muito
comprimido, xa rope, não é bom; e o Pajé, o que vai fazer?
Tem que acreditar no Pajé; não tem jeito, assim, acaba
t u d o ."

é importante a c e n t u a r m o s aq ui que a figura do


Pajé, e n q u a n t o líder, e s t á d i r e t a m e n t e l i gada à preservação
da c o s m o v i s ã o do grupo, transmitida e fixa d a por ele,
a t r a v é s dos rituais religiosos (orações noturnas). Como
curandeiro o Pa jé formula explicações das causas das
doenças, de a c o r d o com as t r a d i ç õ e s de sua c u l t u r a . Os Mbyá
procuram" s a na r suas enfermidades (sintomas - efeitos)
a t r a v é s do Pajé. Se a d o e n ç a e s t i v e r for a do c a m p o de ação
t e r a p ê u t i c a do Pajé, estes G u a r a n i vão à enfermaria da
al deia, ou. em c a s o s m a i s graves, se d i r i g e m aos hospitais
mais próximos (Hospital Municipal de A n g r a dos Reis ou
H o s p i t a l da U s i n a N u c l e a r A n g r a I - fo to p . segu i n t e ) .

Durante nossa pesquisa, morreram duas crianças em


Bracuí, v í t i m a s da s u b n u t r i ç ã o ; s e n d o que u m a d e l a s apenas
foi s e p u l t a d a no c e m i t é r i o da aldeia. é costume entre os
Mbyá enterrarem em seu cemitério apenas aqueles Mbyá que
m o r r e m d e n t r o dos l i m i t e s da a l d e i a ; os que m o r r e m fora. são
e n t e r r a d o s em outros cemitérios "do bran c o " . 0 cemitério
s i t u a - s e em m e i o a uma p l a n t a ç ã o de m a n d i o c a , próxima à casa
h o s p it a l da üSiriA HUCUEAR
99

do Caci q u e . Lá, e n c o n t r a m o s q u a t r o c o v a s de c r i a n ç a s . Sobre


os p e q u e n o s t ú m u l o s e n c o n t r a m o s o b j e t o s que p e r t e n c i a m aos
mortos (como mamadeiras, brinquedos, sapatos, et c.) e
plantas (fot o p. s e g u i n t e ) . Não o b s e r v a m o s c r u zes, ou h a s t e s
de m a d e i r a s f i n c a d a s na terra; como vimos nos túmulos de
Hbyá, no C e m i t é r i o H u n i c i p a l de A n g r a do s Re is. 0 C a c i q u e de
Bracuí declara com g r a n d e ênf ase , "o Hbyá puro tem que
e n t e r r a r na t e r r a do Hbyá, se m o r r e a q u i t e m que enterrar
aqui; mas tem que ter a t e r r a do G u a r a n i , Teko á . é ass im".

Um info r m a n t e , que viveu muitos anos fora da


al deia, descreveu detalhadamente uma cerimônia fúnebre Hbyá
por e l e o b s e r v a d a em Bracuí, por o c a s i ã o da m o r t e de uma
c r i a n ç a de dois anos, o c o r r i d a em 1989; "Eu estava na
e n f e r m a r i a da FUNAI, q u a n d o ouvi um c h o r o m u i t o a l t o em toda
al deia. Este choro e s p a l h o u - s e por t o d o s os lados; foi o
m o m e n t o que a c r i a n ç a m o r r e u na c a s a de reza. P a r e c e que ela
e s t a v a lá só esperando morr e r . Durante dois dias todos
f i c a r a m de luto em s i l ê n c i o , nenhuma atividade; ninguém
e n t r o u na a l d e i a n e s t e tempo. 0 fu ne r a l t i n h a c o m e ç a d o há
d o z e horas. N ã o t i n h a n e n h u m b r a n c o da a l d e i a , a enfermeira
da F U N A I era índ ia também. Na Opy já t i n h a reza. 0 Cacique
me f a l o u que a c r i a n ç a já e s t a v a c o n d e n a d a . Ele disse também
que n e n h u m branco podia mais estar na a l d e i a durante o
funera l, a n t e s de entrarmos na c a s a de ora ç o e s . Quando
e n t r e i vi a l g u m a s v e l h a s à d i r e i t a d a porta, à esquerda vi
alguns jovens s e n t a d o s no chão de f o r m a desordenada; um
deles estava concentrado, fumando seu cachimbo. Bem no
c e n t r o da m e t a d e da Opy, estava o corpo da criança sobre um
p a n o bra nco, tipo um s a c o de f a r i n h a de trigo. Ela estava
d e i t a d a no c h ã o nua, co m a c a b e ç a v o l t a d a p a r a leste, para o
mar, lugar de Yvy H a r a E y , T e r r a s e m F i m ou s e m H a l , dá no
mesmo. No c e n t r o da o u t r a m e t a d e da Opy, estavam algumas
pessoas sentadas sobre um t r o nco. Ao fundo, onde morava o
C a c i q u e com s u a fa mília, v i a - s e uma fogu e i r a ; atualmente a
C E H IT E P .IO DA AU DEIA DE E>P.ACU\
Í00

Opy não é mais na c a s a do Cacique, foi c o n s t r u í d a outra


maior. Ura h o m e m p u x a v a a resa co m um vio lão , de c o s t a p a r a o
púb lico, de f r e n t e p a r a um g r u p o de m u l h e r e s que e s t a v a à
esqu e r d a ; e um g r u p o de h o m e n s à direi ta. Os d o i s grupos
f o r m a v a m um vê, c o m a ponta voltada para o leste, onde
ficava o t o c a d o r de mba ra cá . As mulheres batiam taquapí,
e n q u a n t o os h o m e n s de q u inze a v i n t e e c i n c o anos, dançavam
de m ã o s dadas. E s t a d a n ç a é c o m o se e s t i v e s s e m c a m i n h a n d o no
m e s m o lugar. Só as mulheres e o tocador de mbaracá que
cant a v a m . T o d o s vestiam r o u p a s com uns, não tinha nenhum
enfeite, n e m na casa. A música foi d i m i n u i n d o num certo
mom ento, foi b a i x a n d o o vo lume, d i m i n u i n d o o ritm o, até que
o F‘
ajé m a n d o u p a r a r a reza. D e v e r i a ser u m a s n o v e h o r a s da
noite. F u m a m o s c a c h i m b o c o m fumo f orte de r o l o qu e se pica.
0 Cacique pegou e n t ã o mbara cá, de fre n t e p a r a o corpo da
c r i a n ç a e f a lou que e s t a v a m u i t o t r i s t e c o m a m o r t e daquela
criancinhá, e que dali pra frente todos ir iam trabalhar
mais, p l a n t a r mais, p e n s a n d o no f u t u r o e nas c o i s a s boas.
A n t e s de c o m e ç a r a can tar, o C a c i q u e f a lou para-. Jakairá,
Nand e r ú , N a m a n d ú T e n o n d ê guá, Tupã, Tupã rai. Enquanto o
C a c i q u e f a l a v a os nomes, t o d a s as m u l h e r e s a p o n t a v a m p a r a o
oeste, com a mão e s t e n d i d a p a r a frente; d e p o i s p a r a o n o rte ,
e assim até citar todos os quatro pontos cardeais,
c o m p l e t a n d o u m a volta. Q u a n d o S e u J o ã o p a r o u de c a n t a r , foi
at é a cr ian ç a, passou a m ão em seu rosto, arrumou seus
b r a ç o s de f o r m a que as mãos f i c a s s e m s o b r e o peito . Depois
l e v a n t o u - s e e r e i n i c i o u a or ação. 0 funeral d u r o u q u a s e d o i s
dias. D e p o i s a c r i a n ç a foi e n r o l a d a num t i p o d e e s t e i r a com
um trançado semelhante ao do balai o, e enterrada no
c e m i t é r i o daqui. Após à morte da c r i a n ç a n ã o se f a l o u mais
do assunto, e a a l d e i a v o l t o u ao no rmal . Só o pai d a c r i a n ç a
f i c o u um mês de luto d e n t r o da Opy".

F*ara os libyá, a p ó s a morte a alma torna a se


f r a c i o n a r em seus d o i s c o m p o n e n t e s , o Ne'eng e o Tekó Achy
Í0Í

Kue. A p r i m e i r a p a r t e da alma das crianças pequenas, nas


q u a i s nao se d e s e n v o l v e u a p a r t e t e r r e n a ainda, retorna ao
p a r a í s o m í t i c o dos Hbyá. Com a a l m a d o s a d u l t o s é d i f e r e n t e ,
e l e s n o r m a l m e n t e não c o n s e g u e m a l c a n ç a r o p a r a í s o em função
de i n ú m e r o s o b s t á c u l o s que o e s p í r i t o do m o r t o e n c o n t r a p e l o
caminh o. 0 que p o d e r e e n c a r n a r é o Ne'eng, mas p a r a i s s o o
m o r t o tem que a desejar, e observar uma s é r i e de condutas
morais e exercícios espirituais. S e g u n d o os Mbyá, Tekó Achy
Kue d e s a p a r e c e na terra, ou v i r a assombração que, está
r e l a c i o n a d a com a lua, a s o m b r a n o t u r n a ; é com a d o e n ç a e o
mal .

Os Mby á de Br acuí em sua maioria, negaram a


p o s s i b i l i d a d e da reencarnação, argumentando que "pra esse
mundo, n i n g u é m quer m a i s volt ar, tá m u i t o ruim". 0 próprio
C a c i q u e d e c l a r o u que o e s p í r i t o d o s que já m o r r e r a m n ã o m a i s
r e t o r n a a terra, "esse nã o v o l t a mais; morreu, foi embora;
e u não ac redito". Schaden (Í974:ÍÍ0>, diz que os M b y á não
a d m i t e m o r e n a s c i m e n t o de p e s s o a s f a lecidas, quer a d u l t a s ou
cria n ç a s . "Sé não gostou, não a c o s t u m o u no mato, à T e rra,
vol tou , . . .não é p ara v o l t a r mais; quando u m a vai subindo,
o u t r a desce", declara uma informante da aldeia do Ri o
Branco.

Segundo Cadogan (1950;24£), no século passado


M o n t o y a r e g i s t r o u e n t r e os G u a r a n i do P a r a g u a i a c r e n ç a na
re s s u r r e i ç ã o . Os p r i m e i r o s d a d o s c o l h i d o s p e l o au to r s o b r e o
tema, fala m da " o b t e n ç ã o da g r a ç a d i v i n a sem so frer a prova
da morte", do Pajé Takuá Verá, que é vene rad o, junto com
o u t r o s "her ó i s d i v i n i z a d o s " , c o m o T u p ã Miri, um d e u s meno r .
S e g u n d o o mito, morreu o f i lho d e T a k u á Verá, e este se
d e d i c o u com fervor à dança, oração, e cantos em h o n r a do
morto, "ou me lhor dizen do, em h o n r a ao s o ssos dos m o r t o s
y v y r a 'i - k a g a " , até obte r a r e s s u r r e i ç ã o . C o n s e r v a r os ossos
dos m o r t o s (o e s q u e l e t o h u m a n o é c h a m a d o de "vára-insígnea"
p e l o s Mbyá), fazendo-os objeto de exercícios espirituais; é
Í0E

no que c o n s i s t e o c u l t o do s m o r t o s e n t r e os G u a r a n i . 0 corpo
é e n t e r r a d o até a p u t r e f a ç ã o da carne, exumado, lava-se os
o s s o s em água corrente e depois são depositados em um
r e c i p i e n t e de c e dro feito e s p e c i a l m e n t e com e s t a f i n a l i d a d e .
Esta caixa sagrada é colocada na c a s a de oracôes, para ser
cult u a d a .

Conforme Cadogan ( 19 50 :23 5), a ressurreição do


corpo, que apar e c e com toda nitidez na poesia sagrada
" e s o t é r i c a " dos Mbyá, é um dos e l e m e n t o s b á s i c o s da r e l i g i ã o
Guarani. 0 "Cul to aos O s s o s " foi l e m b r a d o em inúmeras
ocasiões, pelos Guarani de Br acuí. Um p a r e n t e do Caci q u e ,
f a l a n d o da res s u r r e i ç ã o , declara; "Quando o índio morre ele
vai p r o céuj mas o c o r p o fica, só o nosso c o r p o fica na
terra, o o s s o vai. Os o s s o s c h a m a Icaing ué. Aí D e u s vai
r e n o v a r e v o l t a na t e r r a sozi nho, é assim. 0 c o r p o fica na
terra, o nosso osso só vai pra o Deus renovar. Quando o
í n d i o mo rr e, é enterrado pelo Caci que . Tem que fazer caixa
de t a q u a r a , cesto, fica d o b r a d o d e n t r o do cesto, é diferente
m a i s um pouco deste que faz pra vender. Tem que l evar corpo
/V

p r a rezar, tem que reza r igual o Nander ú, at é l evantar ; aí


ele v o l t a a viver no o s s o . Se n ã o for fazer bem igualzinho
/V * ^ ^ ^

ao N a n d e r ú , aí d morto nao v o l t a mais. H o j e já tá tudo


diferente, difícil voltar viver, muito difícil". Os
d e p o i m e n t o s acim a demonstram a ocorrência de importantes
m u d a n ç a s no s i s t e m a de c r e n ç a s a n t e r i o r e s dos Hbyá. 0 que
t e r i a o c a s i o n a d o e s t e fato?

A presença de missionários católicos e


p r o t e s t a n t e s tem contribuído para aumentar a desagregação
s oci a l na a l d e i a de Bracuí. Passaremos agora a tratar dos
p r o b l e m a s g e r a d o s p e l o c o n t a t o e n t r e os H b y á e e s t e s grupos
religiosos, principalmente "cr ent es" . Estas organizações
p r o c u r a m c o n v e r t e r os G u a r a n i (e o u t r a s etnia s), dentro do
mesmo princípio centenário que iluminou o trabalho de
catequese, iniciado durante a colonização; ou seja, como
Í03

c o l o c a M e l i á (Í 989 :30 0), ”já se d i s s e dos G u a r a n i que eram


'finos a t e í s t a s , sem t r i b u t a r adoração a deidade alguma,
pois ignoram todas" '. A conversão dos Guarani tem por
objetivo "salvar a alma desses selvagens sem Deus",
submetendo seus corpos ao processo econômico do mundo
cristão ocidental; fomentando, d e s t a forma, a exploração de
sua f o r c a de t r abalho. No p r i n c í p i o d e s t e s é c u l o a m i s s ã o do
E s p i r i t o S a n d o dei Honday a Caruperá, tentou converter os
M b y á do P a r a g u a i , s e m m u i t o sucesso. Relata o Padre Franz
Mui 1er (1924:545), " Esos i n d i o s que contanto trabajos u
e s f u e r z o s h a b í a m o s s a c a d o de su v i d a s e l v a j e , prometiéndoles
una v i d a más t r a n q ü i l a a p r o v e c h o s a han a b a n d o n a d o la m i s i ó n
y h u í d o s n u e v a m e n t e a Ias s e l v a s . . . " . Em Brac u í a l g u n s H b y á
já e s t ã o trabalhando para católicos ou protestantes, em
se r r a r i a s , lavouras e colheita de p a l m i t o . E st es Guarani,
c o m o m u i t o s outros, foram c o n v e r t i d o s . N o s s o s colaboradores
identificam-se, em parte, c o m os crentes, "Crente muito
parecido com Hbyá, não fala mal um do outro, nã o bebe,
sempre rezando, f a l a n d o do Deus. Ü p r o b l e m a é que o crente
quer t o d a a indiarada crente, igual a eles, tudo igual;
c a t ó l i c o tam bém, isso n ã o pode! Isso aí é que é ruim pra
nós. E l e s v ê m aqui n ã o sei por que, de certo o trabalho
d e l e s é a s s i m mesmo. Eu n ã o p o s s o c o n c o r d a r c o m eles, não
p o d e m o s lar gar n o s s a r e l i g i ã o " , d e c l a r a o Ca ci que .

J o ã o da Silva falando da "linguagem secreta",


declara, " T e m que ser d i f e r e n t e , o D e u s fala d i f e r e n t e . Dá
pra entender, p a d r e n ã o fala d i f e r e n t e na m i s s a ? (d eve e s t a r
se r e f e r i n d o ao latim). A religião tem que esconder. Se
a l g u é m p e r g u n t a c a d a um r e s p o n d e c o m o quer só pra esconder,
n u n c a se r e s p o n d e c o m o é, é assim. Sei que e s c r e v e r a m livro
do N e ' e n g Porã, na l í n g u a do g u a r a n i até; mas tá tudo
erra do, escreveu, já n ã o é mais. Se for na o u t r a alde ia, se
for H b y á puro, n u n c a vai contar o que é certo, n u nca,
n u n c a . . . Has a q u i n ã o se u s a me ntira, enganar, não podemos
Í04

lograr, só não pode falar da reli g i ã o . N ã o sou mentiroso,


/V
N a n d e r u n ã o gosta, mas isso aí é só pra nós saber bem
certinho, n ã o é pro branco. N ã o sei p o r q u e é assim; não pode
falar, n ã o sei, não sei".

C o m o vimo s anteriormente, grupos de religiosos


c r e n t e s r é u n e m - s e com os M b y á na e s c o l a de B r a c u í (instalada
pelo SUHMER), procurando convertê-los. Porém, estes Guarani
a f i r m a m que; "os brancos fazem isto porque pensam que
c o n h e c e m o índio; mas n ã o s a b e m nada". Um i n f o r m a n t e c o m e n t a
a i n d a que; "El es não e n t e n d e m n a d a do s i s t e m a do índio, e
p e n s a que o índio náo s a b e de nada, que a r e l i g i ã o do í ndio
n ã o é boa, que a dele é melh or, que o D e u s do b r a n c o é mais
v e r d a d e i r o que Nanderú. ü branco pensa que é dono da
verdade, que sa be de tudo, mas se ele t i v e s s e a v e r d a d e não
estaria destruindo o mundo agora; fazendo guerra pra m a tar
at é os p r ó p r i o parentes; fazendo Usina Nuclear para q u e imar
t o d a a terr a, derrubando todo m a t o de Nan derú. Agora tem
carnaval lá e m b a i x o (esta e n t r e v i s t a foi r e a l i z a d a no final
de f e v e r e i r o ) , d e po is é só p e g a r o jorn al p r a ver quantos
morreram. S e r á que se o s i s t e m a dos b r a n c o s fosse bom ia
a c o n t e c e r e s s a s c o i s a ? Eles q u e r e m muda r o í n d i o p o r q u e nós
q u e r e m o s mor ar cm nossa casa de tronco, junto com nossos
parentes, n o s s a comunidade, plan t a n d o , tranqüilos, vendo a
c r i a n ç a d a cre sc er. Nós q u e r e m o s fazer o r a ç ã o de noit e, rezar
para Nanderu, n o s s o deus, m a s o b r a n c o n ã o e n t e n d e , n ã o quer
deix ar, diz até que é satanás; e n t ã o tem que e s c o n d e r , é
muito triste! 0 b r a n c o não c o n h e c e be m o s i s t e m a do índio,
por e s t e m o t i v o ele quer a c a b a r co m o índio, acaba e nã o
co n h e c e ! A g o r a eles vêm aqui na a l d e i a f a l a n d o de u m a outra
religião, que tem que mudar, acreditar. Eles enganam o índio
dando dinheiro, fa z endo favor; aí, o í ndio vai trabalhar
pros brancos. 0 j u r u á lucra, b o t a d i n h e i r o no bolso ; índio é
b o b o m e smo, a c a b a m o r r e n d o d o e n t e sem nada, e sempre assim.
Se o í n d i o d e ix ar a re lig ião, vai achar que indo p r o s i s t e m a
Í05

do b r a n c o c o n s e g u e a l g u m a coisaj vai ficar sem nada, nem um


p e d a c i n h o de t e r r a vai ter mai s. 0 c r e n t e quer e n s i n a r como
tem que rezar, c o m o tem que v i v e r , que deus é o m e l h o r ; não
sei se isso é v e r d a d e ? 0 c r e n t e aqui na a l d e i a já d i s s e que
o ín dio v i v e c o m o bicho. C a t ó l i c o também, d i z que í n d i o não
tem r e l i g i ã o , porque ninguém vê o
índio rezandoj isso é
A/
men tira! G u a r a n i v i v e do j e i t o que N a n d e r ú d i s s e p r a viver,
e n t ã o é m u i t o bom. 0 D e u s n ã o vai man dar fazer c o i s a e r r a d a .
Então, í n d i o que m u d a de r e l i g i ã o , de si ste ma, está contra a
v o n t a d e de Nander ú, isto sim é qué e s t á muito errado. 0
t t t

branco católico, protestante, f a l a no bem, no que é certo,


em deus; e a c a b a m f a z e n d o b a i le, beb en do, brigando e matando
o p r ó p r i o irmão. 0 que é m e l h o r , viver aqui na alde i a , no
mato, tranqüilo com os parentes; ou nesse mundo do
c i v i l i z a d o !?"

No i n í c i o do a n o de 1990, e n c o n t r a m o s o g r u p o de
um p a stor c r e n t e r e a l i z a n d o s u a p r i m e i r a p r e g a ç ã o em B r a c u í .
Ele nos i n f o r m o u que e s t e t r a b a l h o é d e s e n v o l v i d o t a m b é m em
outras aldeias da R i o - S a n t o s , como Araponga em P a r a t i , e
U b a t u b a em S ã o Paulo. 0 pastor, n e s t a ocasião, iniciou uma
discussão com'o Vice-cacique, que d e cla rou, "Não s o u contra
n e n h u m a r e l i g i ã o aqui do Brasil, posso at é a s s i s t i r , posso

ir lá c o m o e l e v e i o aqui, m a s p r a c o n t i n u a r eu nã o p o s s o , eu
não p o s s o me c o n v e r t e r , não é por ma lda de, de ruim. é que
eu s e m p r e t i v e r e l i g i ã o e q u e r o s e g u i r a minha ". 0 líde r dos
cren tes , porém, a r g u m e n t a que "...não estamos trazendo a
r e l i g i ã o p a r a eles, nós e s t a m o s t r a z e n d o o ensinamento da
p a l a v r a de Deus, a Bíblia sagrada. Já t e m o s aqui nesta
a l d e i a v á r i a s p e s s o a s que se d e c i d i r a m a c e i t a r a p a l a v r a do
verdadeiro Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo. Eles querem
segu i r e 1er o E v a n g é l h o c o m o e s t á (etn p o r t u g u ê s ) , já c a n t a m
e oram cono s c o . Se v o c ê tivesse chegado meia hora a n tes,
iria pega r uma p a r t e de n o s s o culto, o n d e as m u l h e r e s e
crianças índias já estão cantando nossos hinos". Luiz
PASTO R CP.EH TE HA ALOE IA DE &P.ACAJ1
Í06

Eusébio encerra a questão dizendo, "tem b r a n c o que a c h a que


o í n d i o tá aí a ssim p o r q u e n ã o s a b e de nada, de n a d a me smo,
não s a b e nem de Deus; mas é e l e que n ã o sabe de n a d i n h a do
índio. Mbyá até gosta m u i t o de assistir o c u lto, acha
bonito , c o n v e r s a com o cr ente, g a n h a pres e n t e , é muito bom.
Só n ã o quer que p a r e n t e m u d a a r e l i g i ã o , isso n ã o pod e".

Os m i s s i o n á r i o s procuram transformar os Mbyá em


cristãos, t o r n a n d o - o s d e s t a forma, a i m a g e m do h o m e m b r a n c o .
E n q u a n t o os G u a rani não adotarem o cristianismo, serão
sempre gente estranha e inferior diante dos o l h o s destes
religiosos. Um de nossos colaboradores Mbyá diz que a
i m p o r t â n c i a da r e l i g i ã o p a r a os b r a n c o s , é muito diferente
da que os índios atribuem à deles ; porque a civilização
ocidental é vitor ios a, dominou e tende sempre a dominar
t o d a s a s o u t r a s cult ura s. D e s t a forma, impôe f a t o r e s de sua
s o c i e d a d e às outras. "A r e l i g i ã o s u s t e n t a o que a i n d a t e m do
n o s s o sist e m a " , declara este informante. Cada sociedade tem
sua m a n e i r a e s p e c í f i c a de se c o m u n i c a r co m a d i v i n d a d e , nem
me lhor, n e m pior que as dema i s ; apenas diferente. Para o
Mbyá a conversão e o desterro são duas grandes d esgraças que
p o d e m s i g n i f i c a r o fim de su a c u l t u r a .

A religião é um dos fatores culturais mais


i m p o r t a n t e s que caracterizam os M b y á - G u a r a n i . Sobre esta
questã o, d e c l a r a Egon S c h a d e n (1969:248), " . . . h o j e se impôs
a tendência de conferir ao sistema religioso a
significação de um símbolo de identidade étnica";
r e f e r i n d o - s e aos Gua rani. A religião, fi nal mente, deve ser
vista em dois asp ect os: como f a t or d i a c r í t i c o , ou seja,
" s i n a i s " que c a r a c t e r i z a m e d i s t i n g u e m o g r u p o de o u t r o s ; e
c o m o c o n c e p ç ã o de m u n d o ou c o s m o v i s ã o .
8 - M IT O L O G IA

Eg on S c h a d e n ( í9 8 9 : í 6 - í 7), falando sobre a questão


do m i t o e n t r e os povos " i n d í g e n a s " do Bra si l, d e c l a r a que;
"...os mitos...são compreensíveis somente dentro da
c o n f i g u r a ç ã o cultura l em que n a s c e r a m ou e s t ã o insc r i t o s " ; e
mais adia n t e : "Não basta, porém reconstruir o passado
cultural e social da t r i b o . . . m a s é necessário descobrir o
v a l o r da a t u a l i d a d e i n e r e n t e à t r a d i ç ã o mítica" . E s t e autor,
citando Hermann Baumann (í989 :20 ), f risa a importância do
m i t o no que di z r e s p e i t o ao seu c a r á t e r social; pois fal am
de p e r s o n a g e n s c u j a s a ç õ e s reproduzem traços essenciais da
i m a g e m hu mana, que s e r v e m de p a d r ã o a e s t e s gr upos. Schaden
<i989: 2í) , declara ainda que, "...os mitos cosmogânicos,
a n t r o p o g â m i c o s , heró i c o s , e o u t r o s mais, a l é m de fornecerem
uma 'explicação' da o r i g e m do mundo, da humanidade e das
i n s t i t u i ç õ e s soci ais , dão s o b r e t u d o aos m e m b r o s da t r i b o ou
do povo, o s e n s o c o m u m de u n i d a d e e de oposição a outros
grup o s " .

León C a d o g a n < 1 9 4 6 : Í5) d i v i d e os m i t o s Mbyá em


duas categorias: as co muns, a c e s s í v e i s ao não-Mbyá; e as
sagradas, chamadas Ne'eng Porã T e n o n d é ou, "Belas Palavras
Originais", divulgadas u n i c a m e n t e ao s m e m b r o s do grupo e
p e s s o a s de alta confiança. Este autor colheu e traduziu
v a l i o s a s t r a d i ç õ e s orais, c o m a a j u d a de a l g u n s M b y á ( d e n t r e
e l e s o C a c i q u e P a b l o Verá, que p o s t e r i o r m e n t e m i g r o u p a r a o
litoral b r a s i l e i r o ) . Pierre Clastres (1990:1 3), a f i r m a que o
" c o r p u s " m i t o l ó g i c o d o s G u a r a n i se c o m p õ e e s s e n c i a l m e n t e do
g r a n d e m i t o do s Gê meos, do m i t o da o r i g e m do fogo e do mito
do d i l ú v i o u n i v e r s a l , ou Yvy Ru'ü (est e s d o i s ú l t i m o s f azem
parte do mito dos G ê m eos; porém, são narrados
separadamente). A e s t e s três, Cadogan (1 94 6:15 ) a c r e s c e n t a o
m i t o da c r i a ç ã o da primeira terra, Yvy Ten ondé, e o da
c r i a ç ã o da s e g u n d a t e r r a ou t e r r a nova, Yvy P y a h ú (que está
t a m b é m i n c l u í d o no Ciclo dos Gêmeos); que, como coloca o
Í08

autor, nã o pertencem às falas sagradas. Os capítulos


s a g r a d o s são: M a i n ó í Reky Ypy Kué (Os p r i m e i r o s c o s t u m e s do
Colibri)., que d e s c r e v e a a p a r i ç ã o do Ser Supremo, Namandú
*i» ^ ^

(ou Nand e r ú ) ; Ayvy R a p y t a ( O r i g e m da linguag em) , que f a l a da


c r i a ç ã o da l i n g u a g e m hum ana , p a l a v r a s do " C r i a d o r " referente
ao e n v i o de e s p í r i t o s à terra para encarnarem-se; palavras
dos d e u s e s Tupã N e 'eng (os " pais da p a l a v r a - a l m a " ) e a l g u m a s
o r a ç o e s e cantos.

Por e s c a p a r ao n o s s o o b j e t i v o centr al (que não


t rat a de uma análise exaustiva das tradições míticas
Guar a n i ) j abordaremos apenas alguns desses importantes
mitos, onde aparece a cosmovisão, os f u n d a m e n t o s do c o n c e i t o
Mbyá de humanidade e leis grupais. Entendemos que estes
pontos são fundamentais no entendimento de questões
s ó c i o - c u l t u r a i s Mbyá; p e r t i n e n t e s ao t e m a d e s t a m o n o g r a f i a .

No M a i n ó í R e k y Ypy Kué (Cadogan, i946:í8-80)


surge Nanderú Ten ondé , antes de exis t i r o Sol e todo
univ e r s o ; contando apenas com a aju da do Colibri,
( c i t a r e m o s o inic i o d e s t e b e l o mito, o nde s u r g e Nanderú):
" N u e s t r o Pri mer Padre, el A bsoluto, se creó a si mismo
(surgió) en m e d i o de las t i n i e b 1 as p r i m i g e n i a s .. . El r e f l e j o
de la divina sabiduria (órgano de la vista), el divino
o y e - l o - t o d o (órg ano dei oído), las d i v i n a s p a l m a s de las
m a n o s con la v a r a insígnia, con las r a m a s flo rida s, ( dedo y
unas), las creó N am anduí, en el c u r s o de su e v o l u c i ó n , en
m e d i o de las t i n i e b l a s primigenias. De la d i v i n a coronilla
e x c e l s a las flor es del a d o r n o de p l u m a s eran (son) g o t a s de
rocio. Por e ntre m e d i o de las flo res dei d i v i n o a d o r n o de
plumas el pájaro primigenio, el Colib ri, volaba,
revoloteando. Mientras muestro Prim e r P adre cr eaba, en el
c u r s o de su evol u c i ó n , su d i v i n o cuerpo, e x i s t i a en m e d i o de
los v i e n t o s p r i m i g e n i o s ; a n t e s de habe r c o n c e b i d o su futura
morada terre nal, antes de habe r concebido su futuro
fi r m amento, su f u t u r a t i e r r a que o r i g i n a r i a m e n t e surgieron.
Í09

El C o l i b r i le refrescaba la boca; el que sustentaba a


N a m a n d u i con p r o d u t o s dei P a r a í s o , fué el C o l i b r i . Nuestro
A' /
P a d r e Namandu, el Primero, a n t e s de h a b e r c r e a d o , en el
curso de su evo luci ón, su futuro Paraíso, El no vió
tinieblas: aunque el Sol aún no existiera, El existia
i l u m i n a d o por el r e f l e j o de su p r o p i o c o r a s o n ; hacia que le
s i r v i e s e de Sol la s a b i d u r i a c o n t e n i d a d e n t r o de s u a propia
divinidad..."

0 Ayvy Rapytá (C ado gan, 1953;í£3-í3a) fala do


s u r g i m e n t o da l i n g u a g e m humana, entendido pelos Hbyá como
e s p i r i t o do ser humano que será enviado à terra para
encarnar-se. Cadogan (19 53: 128 ), de a c o r d o c o m a declaracáo
de s e u s i n f o r m a n t e s no Para g u a i , define o termo Ayvu Rapytá
como; "El f u n d a m e n t o dei l e n g u a j e h u m a n o es la palabra-alma
originaria, la que n u e s t r o s p r i m e r o s p a d res, al e n v i a r sus
numerosos hijos a la morada terrenal para erguirse, les
repartirian". Citaremos alguns fragmentos que tratam
e s p e c i f i c a m e n t e do m o m e n t o em que s u r g e o espirito humano
(antes do aparecimento da Terr a ) e da criaçao do sol,
K uar ahy, considerado um deus de importância central na
c u l t u r a Hbyá:

"El v e r d a d e r o P a d r e Nam a n d ú , el primero, de una


pequena porcion de su propia divinidad, de la sabiduria
contenida en su propia divinidad, y en virtud de su
s a b i d u r i a c r e a d o r a , h i j o que se e n g e n d r a s e n llamas y tenue
neblina. H a b i e n d o s e e r g u i d o ( a s u m i d o la f o r m a h u m a n a ) , d e la
s a b i d u r i a c o n t e n i d a en su p r o p i a divinidad, y en v i r t u d de
su s a b i d u r i a crea d o r a , concibió el origen dei lenguaje
humano... Antes de e xis t i r la tierr a, en medio de las
tinieblas primigenias, a n t e s de t e n e r s e c o n o c i m i e n t o d e las
cosas, creó a q u e l l o que s e r i a el f u n d a m e n t o dei lenguaje
h u m a n o (o: el f u n d a m e n t o dei futuro lenguaje humano)...
Habiendo reflexionado profundamente, de la sabiduria
contenida en su propia divinidad, y en virtud de su
ííd>
^ /
s a b i d u r i a c readora, creo al (a los) Namandu de corazon
grande. Lo creó simultáneamente con el reflejo de su
s a b i d u r i a (el Sol). A n t e s de e x i s t i r la tierra, en m e d i o de
^ t
Ias tinieblas primigenias, creo al Namandu de corazón
/

grande . Para p a d r e de sus futuros numerosos hijos, para


verdadero padre de Ias palabras-almas de sus futuros
n u m e r o s o s hijos, c r e o al N a m a n d u de c o r a z o n g r a nde. . ." .

Estes dois mitos, que formam a Ne'eng Pori


Teno ndé , as t r a d i ç õ e s o r a i s s a g r a d a s Mbyá, f ora m totalmente
e v i t a d a s por n o s s o s i n f o r m a n t e s , d u r a n t e a p e s q u i s a . Os M b y á
se r e t i r a v a m c o m uma c e r t a v i o l ê n c i a , em c o n t r a s t e ao seu
temperamento constantemente sere n o , toda vez que
i n t e r r o g a d o s s o b r e e s t a s " P r i m e i r a s B e l a s Pala v r a s " .

Cadogan (1954:37-46) também registrou entre os


M b y á do P a r a g u a i , o mito da p r i m e i r a terra, Yvy T e n o n d é . 0
início deste t e xto trata de importantes momentos da
cosmovisão desses Guarani, que fala do surgimento da
“p r i m e i r a terra", sustentada por cinco palmeiras, uma
ocupando o centro e as o u t r a s q u a t r o no s p o n t o s cardeais:
Karaí=leste, Tup i = o e s t e , ventos bons=norte e tempo
originário=sul. Pierre Clastres (1 990:35), comentando o
mito, diz que t r a t a - s e da p a l m e i r a pindó, "...nas quais se
p o d e subir, dado que s e u tronco não tem e s p i n h o s " . Estas
palmeiras, diz o áutor, tê m g r a n d e i m p o r t â n c i a e c o n ô m i c a ; em
seu t r o n c o são talhados os arcos; s u a s folh a s cobrem as
casas; das f i b r a s são f e itas c o r d a s ; seu palmito serve como
alimentação. Surgem a serpente originária; o primeiro
h a b i t a n t e da terra; é c r i a d o o m u n d o a q uát ico; as s a v a n a s ; o
mundo subterrâneo; a noite; o dia; Namandií d e f i n e as f u n ç õ e s
dos deuses: K a raí g u a r d i ã o d a s chamas, fogo s o l a r e calor;
Jakai rá, a b r u m a é c o m p a n h e i r a da ch am a, assim como a fumaca
do c a c h i m b o é companheira do tabaco consumido; T up ã, ao
in v e r s o de Karai, reina sobre o mundo aquático e suas
diversas manifestações, a água, mar e r i o s (P. Clastres,
ííí

Í990:37-4Í). A ú l t i m a p a r t e d e s s e m i t o fala do s u r g i m e n t o do
homem, após a terra a p r e s e n t a r as necessárias condiçoes.
N a m a n d ú d e c l a r a no final, que os M b y á n a s c e m co m as normas
que d e f i n i r ã o seu modo de existir (tekó) enquanto um a
c o m u n i d a d e de "el eitos ", "...as nor mas , vocês as s a b em";
a d v e r t i n d o que as m e s m a s nao p o d e r ã o ser esquecidas (P.
Clastres, 1 9 9 0 : 4 0 e 45). B a s e a d o n e s t e mito, Pierre Clastres
(1 990:£3) c o m e n t a a i n d a a crenca Mbyá de p a r e n t e s c o entre
eles e s e u s deuses, que os l e v a r i a a tentarem abolir a
diferença entre o humano e o divi n o , a t r a v é s de dedicada
prática religiosa. D í h o autor, que os h i n o s c a n t o s e p r e c e s
r e p e t e m ess e p e d i d o ao s de uses: "facam-nos semelhantes a
v ó s . . ." .

0 desenvolvimento do lado a n imal do espírito


Guarani representa a disjunção do h u m a n o com o divino,
i m p l i c a n d o no fim de Yvy Tenon dé, a t r a v é s de um d i l ú v i o (Yvy
Ru'u ). Como coloca Pierre Clastres (1990 :46 ), é criada uma
f r o n t e i r a e n t r e a h u m a n i d a d e e os deuse s, "Imagem simbólica
da s e p a r a ç ã o , ao mesmo tempo obstáculo real do r e t o r n o em
d i r e ç ã o ao n ã o - s e p a r a d o : a g r a n d e água, o mar, cujas margens
o p o s t a s a b r i g a m d o r a v a n t e de um lado a T e r r a s em Mal, morada
d i v i n a da v i d a ete rna ; e de outro , a t e r r a feia, morada
terrestre demais dos que ainda se querem eleitos". 0
p a r e n t e s c o do G u a r a n i c o m os d e u s e s nã o é neg ado ; po rém, "ü
fim da primeira terra é a certidão de nascimento da
humanidade". 0 lado " s e l v a g e m " do h o m e m s o b r e p u j o u o d i v i n o ,
a t r a v é s de uma g r a n d e transgressão, o " i n c e s t o “. S e g u n d o o
mito, "0 flu xo do d e s e j o que t o m a c o n t a de Karaí J e u p i é e a
irmã de seu pai desencadeia o dilúvio universal, e a
primeira terra desaparece sob a água" ( P i erre Clastres,
1990:47). Curiosamente, os ú n i c o s sobreviventes são Karaí
Jeupié e sua esposa, que d e d i c a m - s e ao c a n t o e à dan ça,
conseguindo, d e s t a forma, d i v i n i z a r e m - s e (J eu p i é t o r n a - s e um
Kara í). Curt N i m u e n d a j ú (1987:153-156), comenta este mito.
ííe
/V » ^

on de a p a r e c e m as p a l a v r a s p r o f é t i c a s de Nan deru, que podem


esta r l i g a d a s à apatia no trabalho e pessimismo Hbyá;
"Dancem, p o i s tudo irá m u i t o mal s o b r e a terra... Ag ora,
vocês não devem mais trabalhar!"

0 m i t o d e n o m i n a d o " C i c l o do s G ê m e o s " ou o m i t o da
c r i a ç ã o da s e g u n d a t e r r a (Yvy Pyahú, literalmente, "terra
nova" - C a d o g a n , i946:i5), c o m u m a t o d o s os G u a r a n i (Meliá,
1 9 8 9:326), foi transcrito pela primeira vez em idioma
G u a r a n i por N i m u e n d a j ú , em 1914, com o t í t u l o "As l e n d a s da
c r i a ç a o e d e s t r u i ç ã o do m u n d o c o m o f u n d a m e n t o s da religião
dos A p a p o c ú v a - G u a r a n i " ; i n f e l i z m e n t e p u b l i c a d o em p o r t u g u ê s ,
s o m e n t e em 1987. 0 M i t o d o s Gêmeos, que c o n s t i t u i importante
p a r t e d a c o s m o l o g i a Gu ara ni, fala das a v e n t u r a s de P a 'í R e t é
Ku arahy, o Sol, "o herói da raça divinizada" (Cad o g a n ,
1946:36) ; e de seu irmão Jacy-râ, a Lua. Sã o e s t e s heróis,
segundo Meliá (1 989:325), que " G u a r a n i z a r am" o m u nd o;
criando toda natureza v e g e t a l e a n i mal. Analisando este e
o u t r o s mitos , Cadogan (1950:235 e 1959:202) d e c l a r a se r o
Culto Solar o fundamento da r e l i g i ã o Guarani, "El Culto
S o l a r ... c o n s t ituye la p i e d r a a n g u l a r de la r e l i g i ó n de los
Jeguaká-va". E s t e m i t o é c o n s t i t u í d o de d u a s p a r t e s b á s i c a s ,
s e g u n d o N i m u e n d a j ú (1987): Inypyrú (Princípio), que c o m t é m o
m i t o da o r i g e m do fogo; e o final, c o n t e n d o t a m b é m o m i t o do
dilúvio.

P i e r r e C l a s t r e s (1990 :57 ), falando sobre o evento


da s e g u n d a terra, c o n t i d o no " C i c l o d o s G êmeos", coloca que
e s t a " n ã o s a b e r i a repe t i r a p r i m e i r a , pois não é uma segunda
versão da i d a d e do ouro, n ã o pode existir senão no modo
i m p e rfeito: t e r r a dos h o m e n s e não m a i s d o s deuses, t e r r a de
onde será banida a totalidade acab a d a , t e r r a do mal e da
i n f e l i c i d a d e ...Os G u a r a n i l e m b r a m sem c e s s a r a s e u s d e u s e s a
d í v i d a que c o n t r a í r a m em r e l a ç ã o a eles, na o r i g e m de um
m u n d o p a r a qual não foram feitos. E l e s n ã o s u p l i c a m u m f a vor
r e i v i n d i c a m um d i r e i t o ... 'Vocês são d i v i n o s e bem s a b e m que
ii3

s o m o s s e u s s e m e l h a n t e s ' “. Seria a b u s c a à Yvy M a r a Ey (o


p a r a í s o m í t i c o gua ran i - t e m a que s e r á a b o r d a d o a s e g u i r ) , a
t e n t a t i v a dos M b y á de r e t o r n a r e m a s e u lugar de o r i g e m ?

D u r a n t e n ossa e s t a d a em Brac uí, o Cacique Merá


Mirim relatou-nos p arte do Mito dos Gêm eos: “Foi as sim.
Primeiro Nanderú fez a luz que c l a r i o u o tempo pra ele
tr a b a l h a r . Então, fez o mundo sobre o popyguá, pegando um
p u n h a d i n h o de t e r r a e a u m e n t a n d o p r a a c a b a r . C o m e ç o u lá no
Para g u a i , lá c o m e ç o u o mundo, ali é o m e i o da terra. Lá tem
á g u a que sai b e m do c e n t r o do mundo, do c h ã o até o céu. Do
céu pro o u t r o céu, 12 km, foi a s s i m que me c o n t o u vovó,
vovô. D e p o i s de mil anos, o m u n d o a c a b o u co m água. A chuva e
o mar c o b r i u tudo. Uma p a r t e m or re u, a maior; m e n o r p a r t e se
escapou, foi Deus. A g o r a sabemos porque fic ou u m a pa rte,
p o r q u e nã o morreu. Sobrou índio e juruá, fazendo o barc o .
J u n t a r a m tudo a bichara da, aí di z que v e i o a á g u a e cobriu.
Só s o b r o u e s t e barco. Não sei a o n d e foi, p r a lá, ninguém
s a b e onde. Aí tiijha a araponga, saiu, ficou sabendo da
terra, depois voltou e foram todas atrás dela. E s t a foi a
p r i m e i r a t e r r a que acabou; d e p o i s c o m e ç o u outra, este mundo
agora. Ai di z que N a n d e r ú t i n h a d o i s filhos, K u a r a h y e Jacy ,
gêm eos. Então o Deus foi descansar e passou pros filh os.
E x p l i c o u me u vovô; N a n d e r ú disse, 'toma filho, agora você
que vai r e s o l v e r o p r o b l e m a da terra, da c r i a ç ã o ' , e deu um
mond é l p r a o f ilho acabar com a onça, a q u e l e b i c h o b r avo.
hl.p.nd é.l.£.....S.inÃ.l.d e. ,Xn d i o , se qu is er d e s c o b r i r tem que ir lá
no P a r a g u a i . Ele disse, 'tudo b e m pai, eu v o u lá f azer o
o u t r o mundo'. Aí, d e p o i s de fazer o m u n d o foi que Kuarahy,
fez Tupã. D e p o i s é que fez Jacy, a lua. Aqui da m i n h a pa rte,
minha comunidade, não m a t a g ê m e o s q u a n d o nasce, n e m um, nem
dois; mas lá no Par a g u a i matam, às v e z e s a t é os dois. Não
sei po rque, n ã o sei".

J o ã o da S ilva s e g u e contando o Mito dos Gêmeos


i n c l u i n d o uma p r o f e c i a que a n u n c i a o final da s e g u n d a ter ra:
ÍÍ4

" E n t a o tem K u a r a h y pra de dia; e Jacy p r a de noite, nem o


j u r u á s a b e a s s i m direito. Kuarahy, o Sol, fez tudo; o mato,
os bi chos, tudo, tudo foi El e que fez. Q u a n d o for acabar
e s s e mundo, primeiro a acontecer é Kuarahy, o Sol, apaga ;
m e i o d i a t u d o escuro, não vai e n x e r g a r n e m a mão. Aquele que
vai se s a l v a r do escuro, se salva; o que n ã o vai, tem que
m o r r e r tudo, não tem jeito. Tudo isso a c o n t e c e em três
horas, quem me d i s s e foi f i n a d o m e u vovô. E l e d i s s e p r a mim,
'você vai ver, o m u n d o vai a c a b a r e v o c ê vai e n x e r g a r ' ; ano
d o i s mil vai ser. Eritão ele me c o n t a v a a e s t ó r i a d o p r i m e i r o
mundo, eu n ã o sei bem, mas me e x p l i c o u assim . 0 primeiro
mundo, q u e m fez foi n o s s o Deus, N a n d e r ú Guaç ú, fez sozinho.
D u r o u mil a n o s só. No p r i m e i r o já n ã o sei c o m o fez p r a c r i a r
os b i c h o s e a s árvores. Esse aqui já e o segundo m u n d o ; o
p r i m e i r o já se foi. Então os filhos do Deus, Adão e
Sebastião; p e r g u n t o u ao pai, 'será que o s e n h o r t e m coragem
de r e n o v a r e s s e mundo?', mas E l e p a s s o u p r o f i l h o que veio
fazer o n o v o mundo. E s t u d o u muito , sof reu. Então disse pr o
Pai, 'vou p r e c i s a r de c o m p a n h i a ' , e m a n d o u S ã o Sebasti'áo, o
m a i s novo. E n t ã o eles t r a b a l h a r a m muito, fizeram o mundo
tudo, as á r v o r e s , os b i c h o s da ter ra, o mato, o campo . A
t e r r a f i c o u ch eia, feliz; mas h o j e t á a c a b a n d o “.

V e r á M i r i m r e l a t o u t a m b é m o m i t o da o r i g e m do fogo
(que p e r t e n c e ao C i c l o dos G ê m e o s ) , de f o r m a m u i t o s i m i l a r a
Cadogan (19 5 4 ; 3 4 ) , c o m a d i f e r e n ç a de que p a r a e s t e a u t o r o
animal d e t e n t o r do fogo é o corvo; e n q u a n t o que a v e r s ã o do
Cacique coincide com o mito apresentado por Nimuendajú
(1 987 :147), o n d e os m e s t r e s do fogo sã o os u r u b ú s : "Antes,
não tinha nada, nem fogo. 0 ú n i c o que tinha fogo era o
urubú. E n t ã o K u a r a h y disse, 'como é que vai p e g a r fogo, c o m o
é que vai f a z er?' E n t ã o pediu ajuda pro sapo dizendo, 'nós
v a m o s lá n a estrada , eu vou morrer; o senhor espera bem
pertinho, q u a n d o o u r u b ú c heg a r p o c ê p e g a o fo go e g u a r d a na
boca'. Aí, d i z que Ku arah y morr e u , f i n g i u morto . 0 sapo
ÍÍ5

d i s s e pro u r u b ú que t i n h a c a r n e e que t i n h a que fazer fogoj


n ã o dá pra co mer assim. Então veio o u r u b u c o m fogo, fo go
grande. K u a r a h y se l e v a n t o u e b a t e u palma; o sapo pensou que
p e g o u br asinha. 0 deus perguntou, 'pegou?', ele d i sse, o
sapo, 'peguei', 'então v a m o s ver'. Abriu a boca e nada!
D i s s e Kuarah y, 'eu vou fazer novamente, fic a bem firme,
desse jeito vamos ficar se m fogo'. E n t ã o foi n o v a m e n t e , e
no v a m e n t e ; mas nada, o s a p o n ã o pegou. E n t ã o el e p e d i u m u i t o
pro sapo, 'por favor s á p i n h o , esta v e z se pe rde r, pronto.
Não pode e s c a p a r n o v a m e n t e ' ; d i s s e o deus. Ai, o sapo pegou
e fizeram o fogo, assim. Pra nós, sapo muito valo r,
c o n s e g u i u fogo do urubú. N ã o é p r a matar, nem pra j u d i a r " .

0 C a c i q u e s e g u e p r o f e t i z a n d o o fim do atu al mundo


p e l o fogo, relacionando-o à Usina Nuclear (An gra I, próxima
à sua aldei a): "0 primeiro terminou c o m água; este aqui
m a r c a r a m pra ser c o m fogo; Deus vai r e s o l v e r o momento
certo, nós não sabemos, el e que sabe tudo. 0 branco,
es tudou, s a b e escr e v e r , já s a b i a que o m u n d o vai a c a b a r com
fogo, e n t ã o disse, 'vamos fazer a Usina Nuclear o quanto
a n t e s pr a tudo terminar lo go c o m fogo'. Essa Usina é a
f á b r i c a do branco, n ã o de Deus. E n t ã o D e u s s a b i a que o j u r u á
i ria ac abar com o mundo f a z e n d o Usina. Ele f a l o u que vai
'deixar assim. "'O' branco não conhece a terra do índio,
con stru iu^ U s i n a ónde- p e d r a n ã o é firme, Itaorna. E n t ã o se o
D eus quer que nós m o r r a t u d o no Brasil, e n t ã o vai deixar,
vai acon t e c e r ; não adianta co rr er. Então o índio fica
tra n q ü i l o , não tem m a i s medo; os que t ê m m e d o já correram
tudo, f o ram lá pr o E s p í r i t o Santo. Eu n ã o t e n h o medo, pra
qu e? 0 Luiz, V i c e - c a c i q u e , n ã o tem m e d o do fogo, tá até
f u m a n d o ( r i s o s ) . Da qu i à cinco anos o s e n h o r vai ver, vai
tremer a s s i m o mar, m u i t o b a r u l h o , vai t r e m e r tudo, á g u a vai
fazer barulho, roncar bastante. Então vai vim guarda,
p o l í c i a c o m a r m a m e n t o , mas n ã o vai a d i a n t a r nada. Tem muito
que vai d i z e r pra mim, 'esse C a c i q u e v e l h o tá louco'; mas é
ÍÍ6

certo, o q u 0 que nós v a m o s f a z e r ? N e m casa, e d i f í c i o , vai


a dia ntar; nem avião, nem navi o. O u t r o s vão dizer, 'esse
C a c i q u e tá louco, trouxe parente pra perto da Usina!'
N a n d e r ú d i s s e pr a Kuarahy, 'tá certo , e s s e m u n d o tá pron t o ;
a g o r a vai e m b o r a que eu vou a c a b a r t u d o com fogo' . Talvez
p o d e dar pra consertar fábrica novamente. 0 i n dio tem que
r eza r bas tant e, tem que se preparar. V e m m u i t o í n d i o lá do
P a r a g u a i e da Arge n t i n a , mas o n o s s o g o v e r n o p a r e c e que nã o
reco n h e c e , não p e r g u n t a por que veio. 0 índio n u n c a falou,
m a s e l e v e i o Por ___c;..aus.a..d-Q..mar.., p o r q u e o mundo vai acabar.
A g e n t e não s a b e qual é o mato, qual é a serra que vai
ac abar, nós não sabem os; aí tem que ficar p e r t o do mar pr a
s a b e r se vai ter muita água. Não tem pro ble ma, se Deus
qu iser que es cape, po de ficar perto do mar. Se o Deus
e n x e r g a r que o b r a n c o n ã o é b o m p r o índio, nã o tem amizade,
aí vai cas ti gar, o j u r u á vai t u d o morrer" .

0 V i c e - c a c i q u e fala do atu al p e s s i m i s m o dos Mbyá,


e d e c l a r a que o fim do m u n d o a c o n t e c e r á no ano 2000; "Hoje,
í n d i o tem v e r g o n h a de ser índio, n ã o quer mais tembe t á , não
fuma t á n t o o p e t y n g u á no s i s t e m a an tigo; tá t u d o acabando
p r a nós, não tem mais jeito. S e m s i s t e m a do Mbyá, vai a c a b a r
tudo. Q u a n d o v i m pr a cá t i n h a muito medo da U s ina, hoje
a’
c ostumou. Até o pessoal b r a n c o f a l a m u i t o d e s s a u s ina. Diz
que se est o u r a r q u a l quer c o i s a ass im, a c a b a com p e d a c o do
Bras il. Se e x p l o d i r Deus quer, eu a c h o assim. é. Usina
atrapalha, dá um p o u c o de medo; não penso em sair daqui
ainda. Minha família d e s e j a ser p u r a pra sempr e, não quer
v i v e r c o m o branco; mas c o m i d a tá a c a b a n d o , como vamos viver?
Eu até a c h a v a melh o r ac abar t u d o logo. T oda a vida, t o d a s as
coisas estão cada vez mais piorando, mais pro índio; pra
g e n t e r i c a tá bom. Nós índi o G u a r a n i , s a b e m o s que o mundo
vai d ura r até a n o 2 0 0 0 só, p r a lá n ã o passa. Vai ser com
fogo. A n t e s foi água; a g o r a vai ser o fogo que vai derrotar
o pes so al . Vai c o m e ç a r um fogo no chão. Tem branco que
í Í7

estud a que o m u n d o nao acaba; mas nós s a b e m o s que só dura


mais d e H anos. E n t a o tem que rezar muito, não pecar, n ão
■Fazer baile, pra se sal var . Has a c h o que ninguém mais se
salva, não vai pro p a r a í s o e vai morr e r t u d o mesmo. Esta
usin a p o d e e stourar, e aj udar a a c ab ar com o mundo. Tem
go ver nador, o F‘
residente, p r o m e t e que vai ajudar o índio;
p r o m e s s a toda v i d a -Foi grande, mas não sei! G u a n d o c h e g a na
hora de mandar no Brasil, e s q u e c e t u d o que pr om e t e u . Pobres
vão c o n t i n u a r pobres, que nem o índio. Eu não sei, o p o v o tá
tudo c o n t r a a usina; ma s o g e r e n t e da u s i n a não quer que
tire e l a de lá p o r q u e tá -Fazendo dinhei ro, Quem trabalha lá
ganha. Se ac abar como é que vai ganhar d i n h e i r o ? Vai -Ficar
sem n a d a ? Isso aí que eu t ava pe ns ando , não v ã o -Ficar s e m o
dinhe iro . A go ra se todo j u r u á sair c o r r e n d o de lá da üsina,
n i n g u é m vai ficar mais ali, e ntão eu vou c o r r e n d o tamb é m ,
não vou ficar espe r a n d o . Aqui se e s t o u r a r o que vai fazer?
não tem carro! Os índ ios tão com medo. 0 C a c i q u e nã o te m
medo, tá com Deus. T o d a s as a rmas não vã o p oder a j u d a r nada,
o m u n d o está no fira".

0 C a c i q u e e x p l i c a a i n d a que os Hby á r e z a m t o d a s as
noites, para s a l v a r e m - s e q u ando c h egar o fim; e fala também
da p o s s i b i l i d a d e da e x i s t ê n c i a de uma t e r c e i r a terra, após o
ca tac lismo: " Tudo vai acabar, vai te rminar; se rezar
b a s t a n t e pode se salvar, vai pro par ai so. Se r ezar o mundo
pode a t é não acabar; ma s é difícil. Has tem que se lembrar
de Deus, aí Deus salva; p o r q u e tudo é de Deus, juruá, índio.
Não tem um que não s e j a de Deus na terra. Então o índio reza
todas as n o i t e s pra não acontecer n e n h u m mal. Te m muita
c r i ancinha, preocupa bast a n t e , então tem que pensar em
Nanderú, a g r a d e c e r esta terra. Se rez ar b a s t a n t e , seguir o
sistema, e ntão vai se livrar. Se t e r m i n a r a T e r r a a n o 2000,
fica um pedaco, não sei p o r q u e é assim, de c e r t o D e u s que
quiz, Nan de rú. Nã o vai ac abar pra t o d o mundo, conforme a
ÍÍ8

pe sso a. A coisa não é pra brincar agora, a gente vai


b r i n c a n d o q u a n d o vi bum mm!, a c a bou, já n ã o t e m m a i s jeito".

E t n ó l o g o s dos G u a r a n i (como N i m u e n d a j ú , 1987:67-71


e Meli á, 1 989 :344) c o m e n t a m que o p e s s i m i s m o d e s s e s p o v o s é
componente essencial de seu estar-no-mundo (t e k o ) . Os Mbyá
(e o u t r o s Gu ara ni , como vimos) f a l a m de c a t a c l i s m o s e o u t r a s
catástrofes como fome e epidemias (m ba'é meg uã, ou seja,
coisas nefastas e perniciosas). Nossos informantes falaram
t a m b é m do i m i n e n t e d e s m o r o n a m e n t o da t e r r a p e l a f a l t a de seu
su p o r t e , o popyguá (v a r a - i h s í g n e a ) ; e conseqüentes
terremotos, d i l ú v i o s e de um g r a n d e i n c ê n d i o que a v a n ç a do
ocidente para o ori ente, o Yvy Okái. Para os G u a r a n i de
B r a c u í t u d o isto está r e l a c i o n a d o à n ã o o b s e r v â n c i a de suas
leis g r u p a i s por p a r t e da p r ó p r i a c o m u n i d a d e , ao acelerado
p r o c e s s o de e m b r a n q u e c i m e n t o de s u a c u l t u r a , e a destruição
de t e k o á (am biente, terra Guarani). 0 C a c i q u e e x p l i c o u que o
t i p o de mal que tentam evitar com s u a s rezas, são todos
e s s e s c a t a c l i s m o s d e r i v a d o s da d e s t r u i ç ã o do m e i o natural,
d e s f l o r e s t a m e n t o dos mo ntes, c e r c a s das g r a n d e s p r o p r i e d a d e s
que invadem sua s reservas, do egoísmo e falta de
r e l i g i o s i d a d e dos b r a n c o s que q u e r e m t o d a s as t e r r a s para
si. M e l i á (19 87: 344 ) fala a i n d a da invasão das trevas,
também relatada pelo Cacique de B r a cuí, e de outras
professias prestes a acontecerem, que " d e s - c o s m i z a m ” o m u n d o
Guarani. 0 c a o s cult u r a l está diretamente relacionado ao
p e s s i m i s m o Mbyá. Os fatos acim a, poré m, n ã o p o d e m ser v i s t o s
como puramente naturais ou e c o l ó g i c o s ; mas "teko-lógicos",
pois o tekó porã, o bom m o d o de ser, e o tekó marangatú,
m o d o de ser rel igioso, e s t ã o se d e t e r i o r a n d o ; d a n d o luga r a
t e k ó vai ou m a l d a d e (Meliá, 1989:345). 0 fim do m e i o n a t u r a l
i m p l i c a r i a no d e s a p a r e c i m e n t o da cultura e do h o m e m Mbyá
(que, c o m o foi v ist o anteriormente, se identificam e são
identificados por outras etnias, como sendo "gente da
f 1o r est a " ).
í Í9

Concluindo, os M b y á c o n s i d e r a m que n a s c e m c o m as
n o r m a s que de-Finirão se u m o d o de exist i r , enquanto uma
c o m u n i d a d e de ele ito s, afirmando p a r e n t e s c o com os deuses.
Segundo o Mito dos Gê m eos, os d e u s e s Kuarahy (divindade
sola r ) e Jac y (a lua) sã o responsáveis pela difusão da
c u l t u r a Gua rani, que t r a z a h u m a n i d a d e à T e r r a (pois, para
os Mbyá, ser h u m a n o é ser G u a r a n i ) . Eiesta forma, o o c a s o de
sua cultura atravéu da acão predatória do c o n t a t o com a
c i v i l i z a ç ã o qcid e n t a l ; a n u n c i a o fim do m u n d o que sucumbirá
à terriveis cataclismos, como grandes incêndios gerados pela
U s i n a Nuc l e a r , no an o d o i s mil. Os M b y á justificam seu
p e s s i m i s m o da s e g u i n t e forma,- ". . .tá t u d o cada vez mais
p i o r a n d o p r o índio que quer c o n t i n u a r puro...hoje o índio
tem v e r g o n h a de ser índ io" (lembranco que os Mbyá se
c o n s i d e r a m "í ndio puro", ou "Guarani"). Parece-nos que a
i d é i a c e n t r a l dos M b y á é que o m u n d o n ã o s o b r e v i v e r i a s e m a
C u l t u r a G uara ni. No Mito do F o g o o homem abandona sua
c o n d i ç ã o ani mal, alcançando a cultura através da p o s s e do
fo go ( r o u b a d o por K u a r a h y ) . S e m fogo não h a v e r i a diferença
e n t r e g e n t e e fera, p o i s t o d o s c o m e r i a m c a r n e crua. 0 fogo,
em ú l t i m a aná li se , simbolizaria paradoxalmente a ascensão e
q u e d a da humanaidade. 0 fogo t r o u x e a c u l t u r a ao mundo; porém
c o m o d e s a p a r e c i m e n t o do s i s t e m a G u a r a n i , o fogo d e s t r u i r á o
mundo; o fogo da " f á b r i c a do b r a n c o " , o fogo do final dos
tempos.

0 Cacique relata como surgiu o mal (que tem


caráter ambíguo para os Mbyá); "Nanderú criou Anã, o que
s o p r a o v e n t o e sai v o a n d o tudo. Entã o, te m o bem, Nanderú;
e o mal. Anã, que quer fazer o b e m e o r u i m ao m e s m o tempo .
Anã tentou destruir tudo desde o com eço ; mas Deus ia
aumentando". V e r á M i r i m liga o fim do m u n d o à f i g u r a de Anã,
s e g u n d o ele, responsável pelos grandes cataclismas. Para o
Cacique, Anã toma c o n t a quando ocorre o desequilíbrio no
mundo, g e r a d o pelo fim de t e k o á e tekó. Então, sobrevêem as
Í20

catástrofes, furacões, tempestades, grandes incêndios,


i nun d a ç õ e s , d e s g r a ç a s de t o d o gênero, sob fo rma de mortes
por d o e n ç a s incuráveis, fom e e mal-estar social. Meliá
<Í989:346) relaciona o a tu al quadro cat ac 1 i s m á t i c o e
p e s s i m i s t a às inte n s a s m i g r a ç õ e s Guara ni, que e s t a r i a m v e n d o
tal s i t u a ç a o como "uma p r o g r e s s ã o de m a les que p a r e c e nã o
ter fim ne m limite. 0 pior de t o d o s os m a l e s c o l o n i a i s será
s i m p l e s m e n t e n e g a r - l h e s (aos G u a r a n i ) a terra. Ir p a r a o n d e ?
0 migrante e, port anto, frequentemente trans-terrado, o
Guarani nunca a ntes h a v i a sido um d e s - t e r r a d o . Agora em
b u s c a da t e r r a - s e m - m a l , só t e m e o dia era que só h a v e r á mal
s e m terra. Seria o desterro total."
9 - AS HIGRACSES HB Y Á E YVY MARA EY

"Filhos do sol, KÏe dos viventes. Encontrados e asados feroEncnte, coa toda
a hipocrisia da saudade, pelos iiigrantes, pelos traficados c pelos touristes. Ho
país da cobra grande”. (Oswald de Andrade - Manifesto Antropófago)

As migrações guarani iniciaram-se antes ds.


colonização, segundo Heliá (19 89:2 94) que decla r a ; "Os
movimentos de migração, originados na b acia amazônica,
ter-se-iam intensificado m o t i v a d o s talvez, por um notável
a u m e n t o d e m o g r á f i c o n u m a é p o c a que c o i n c i d e c o m o c o m e ç o de
nossa era, há uns 2000 anos atrás. Esses grupos que
conhecemos como guarani passaram a ocupar as selvas
s u b t r o p i c a i s do Alto Paraná, do Paraguai e do Uruguai
médio...os guarani continuarão s ua e x p a n s ã o m i g r a t ó r i a at é
os t e m p o s da i n v a s ã o e u r o p é i a no Rio da P r a t a (na d é c a d a de
1520) e a i n d a em p l e n o s t e m p o s h i s t ó r i c o s a t é n o s s o s dias. A
migr a ç ã o , como história e c o m o proj eto , constitui um traço
característico dos guarani, embora m u i t o s de seus grupos
t e n h a m p e r m a n e c i d o por s é c u l o s num m e s m o t e r r i t ó r i o e nunca
r e a l i z a d o urtia m i g r a ç ã o e f e t i v a " .

Meliá (1989:294), Pierre Clastres (1982:110-117),


Nimuendajú (19 87 :97 :108), Schaden (1974 :161-179) e Hélène
Clastres (1978:60-68); trabalharam a q u e s t ã o das migrações
tupi-guarani; sendo que algumas delas forara objeto de
estudos pormenorizados, não cabendo aqui r e t o r n a r a este
t i p o de análise. Hélène Clas t r e s , fala que m u i t a s destas
migrações tiveram c o m o fim exclusivo a T e r r a se m Mal, o
paraíso mítico Guarani. A autora cita a mais antiga destas
m i g r a ç õ e s que se te m c o n h e c i m e n t o , que se d e u "por v o l t a de
1539, impelindo milhares de t u p is do Bras i l até o Perú"
(1978:60-61). Essa migração durou c e r c a de d e z anos, sendo
que apenas trezentos indivíduos conseguiram chegar a
C h a c h a p o y a s n o Perú, onde foram capturados pelos habitantes
d e s t a cida d e " . Schaden ( 1 9 7 4:170), também falando sobre o
a ssu n t o , d i z que "Hoje o g r u p o em que o m i t o do Paraíso
Í EE

d e s e m p e n h a pape l m a i s i m p o r t a n t e p a r e c e ser o dos M b y á “, que


atualmente, s e g u n d o o autor, são os ú n i c o s a m i g r a r e m p a r a a
região litorânea. Os G u a r a n i se d e f i n e m c o m o tapé d j á , ou
seja. o p o v o de p e r e g r i n o s e v i a n d a n t e s (Schaden, Í974; í74) ,

Dias Martinez ( 1 9 8 5 : Í58), em seu trabalho sobre


m i g r a ç õ e s Mbyá, c r i t i c a N i m u e n d a j ú (19 87:102), que, segundo
ela, " i n t e r p r e t o u ao pé da le tr a a fuga dos Apapocúva" e
r e d u z i u as m i g r a ç õ e s g u a r a n i , a e v e n t o s c a u s a d o s por m o t i v o s
unicamente religiosos. A autora d e c l a r a que no mito do
dilúvio, Nanderuvucú, vem à terra para avisar a Guyraypoty,
que era p r e c i s o da ncar, p o i s o m u n d o iria a c a b a r p e l o oeste;
então eles partem para leste. C o m o v i m o s a n t e r i o r m e n t e , na
c a t a c 1 i s m o l o g i a guara ni, encontra-se referências a um grande
incêndio que avançaria de o e st e para leste. Martinez,
propondo uma outra leitura dos mitos, justifica estas
m i g r a ç õ e s c o m o s e n d o a fuga dos guar ani , a n t e ao " v a n d a l i s m o
do s o c i d e n t a i s " representado pelas guerras ocorridas dos
séculos dezoito e dezenove, em seus t e r r i t ó r i o s , como: a do
Paraguai, Tríplice Aliança,_e a destruição das re du ç õ e s .
S e r i a o f o g o do g r a n d e i n c ê n d i o da catac 1 i s m o l o g i a guarani,
s í m b o l o da d e s t r u i ç ã o p r o v o c a d a por e s t e s c o n f l i t o s ; estaria
el e relacionado ao clarão dos canhões do s exércitos
combatentes? Esta poderia ser u m a l e i t u r a que os proprios
guarani fize ram, e a i n d a fazem, p a r a s e u s mitos, a partir
destes eventos históricos.

Martinez (1985:150) diz a i n d a que Nimuendajú e


C a d o g a m d e r a m m u i t a ê n f a s e às id éias r e l i g i o s a s no problema
das m i g r a ç õ e s , criticando a leitura de Yvy M a r a Ey c o m o um
paraíso mítico abstrato; " H o j e é p r e c i s o a n a l i s a r os mi tos",
p r o p õ e a a u t o r a (198 5 : 1 5 7 ) . é n e c e s s á r i o entã o, r e t o r n a r ao
estudo dos mitos Guarani, no sentido de uma nova
interpretação; b u s c a n d o o u t r a l e i tura p a r a e s t a s migrações.
A m i g r a ç ã o de oeste para leste é o retorno às t e r r a s dos
seus ancestrais, é uma lenta circulação para suas terras
ÍE3

originais; já que -Foram e x p u l s o s delas, ou seja, d o litor a l ,


pelos colonizadores. 0 G u a r a n i é um povo circulante, "foule
circulante", diz H a r t i n e z ( 1 9 8 5 ; Í60); a c r e s c e n t a n d o que a
divindade, s i m b o l i z a d a p e l o sol, vem do l e s t e em direçrão a
oeste, e retorna a les te p e l o céu, também. "0 s i m b o l o se
c o n c r e t i z a e se c o m p l e t a no m o v i m e n t o " . Hartinez ( 1 9 8 5 ; Í49)
declara também que o nomadisme Mbyá, anteriormente
ec o n ô m i c o , transformou-se em p o I ítico-ideológico, pela
r e t o m a d a de seu território (tekoá). A autora (1985;161),
entao, i n t e r p r e t a Yvy Mara E y , c o m o " s o l o i n t á c t o gue nuncs
foi c o n s t r u í d o "; ou, "so lo virgem onde a civilização
nã o t o c o u " (como; Caa m a r a e y = f l o r e s t a o n d e n ã o foi tirada
madeira, v i r g e m - M a r t i n e z ,1985 ;164) .

S e g u n d o H. Clastres ( 1 9 78;30), a expressão Yvy


Mara Ey representaria para os Guar a n i , um lugar
privilegiado, indestrutível, em que a t e r r a p r o d u z por si
m e s m a os frutos, e não há morte. Analisando a expressão;
yvy, s i g n i f i c a t e r r a (Nim u e n d a j ú , 1987 :38 ; e Cadogan, 1949,
"La L e n g u a M b y á - g u a r a n i " ) ; ey, negação, "sem"; e ma ra, que
gera controvérsia entre certos autores, pelas suas múltiplas
interpretações: "doença, maldade, calú n i a , luto - t r i s t e z a ,
mal, fim". Para Cadogan (1949:658) a expressão "mara ey”
significa divinidade, indestrutibi1idade. A Terra Sem Mal,
p e l a i m p o r t â n c i a do tema, tem s i d o foco de e s t u d o po r parte
de v á r i o s autores. H. Clastres (1978 ) dedica uma obra
especificamente sobre este assunto. 0 antropólogo A.
Bartolomeu (197 7 : 8 3 ) , f a l a n d o da s i n g u l a r i m p o r t â n c i a que as
c o n c e p ç õ e s de paraíso e T e r r a se m Mal p o s s u e m dentro da
sociedade Guarani; declara que ”a m b a s nociones tienden
generalmente a confundirse como probable resultado de la
t e m p r a n a i n f l u e n c i a e v a n g e l i z a d o r a ”.

Meliá (1989 :34 7), citando Montoya, diz que a


e x p r e s s ã o Yvy H a r a Ey, s i g n i f i c a s i m p l e s m e n t e " s o l o de onde
n ã o se r e t i r o u m a d e i r a n e m foi c e r c a d o " . Este autor declara;
Í24

" E n t r e t a n d o nã o há contradições entre busc a r uma terra


economicamente c â n s i a por uma t e r r a pro f é t i c a . Uma não
e x c l u i a outra ... N ã o s e r i a a tual b u s c a do Guaran i, com seus
r i t u a i s de migração e seus deslocamentos, quando ainda
acontecem, o recurso p a r a m a n t e r um tipo de espaço, desta
ve z um e s p a ç o t a n t o ' e c o n ô m i c o qu-í:nto r e l i g i o s o e político?
Os d a d o s contidos no s depoimentos dos Mbyá de B r a cu í,
apontam para a p o s i ç ã o c o l o c a d a por Heliá; ou seja, estes
G u a r a n i p r o c u r a m um lug ar c o n c r e t o o n d e s e j a p o s s í v e l viver
de a c o r d o com su a c u l t u r a ; e, ao m e s m o tempo, buscam seu
p a r a í s o mítico. Porém, como vimos, se m viv er dentro dos
p a d r õ e s cul t u r a i s , e com a p o s s i b i l i d a d e de uma catástrofe
nucle a r , este p r o j e t o fica c a n c e l a d o .

Os p r i n c i p a i s motivos que levaram centenas de


G u a r a n i a m igrarem, s e g u n d o r e l a t o de n o s s o s i n f o r m a n t e s em
Bracuí (o Mbyá n ã o £ , de um lugar d e f i n i d o ; e sim, está em
um d a d o local, que a b r a n g e t o d o se u t e r r i t ó r i o em termos
hi s t o r i c o - g e o g r á f i c o s ) , são ; busca de uma terra "melhor"
p a r a mor ar (pl anta ção , boas florestas), procurar fi car p e r t o
do s p a r e n t e s m a i s p r ó x i m o s , e v i t a r á r e a s o c u p a d a s por o u t r o s
g r u p o s étnicos, não se e s t a b e l e c e r e m em locais que possam
facilitar o acesso a estranhos, e b u s c a de Yvy H a r a E y .

Huit os G u a r a n i s a e m de s u a s a l d e i a s em b u s c a de
t r a b a l h o fora; e n t r e t a n t o , a maioria deles demonstra grande
resistência pois não gostam de s e r v i r ao "juruá". Domingos
B e n i t e s de Bracuí, d i z que "l á na r e s e r v a que m o r a v a antes
t a v a m u i t o dif íci l de a r r u m a r comi d a ; não t i n h a artesanato,
e n t ã o fui t r a b a l h a r na s e r r a r i a " . D o m i n g o s falou t a m b é m que
já t r a b a l h o u em l a v o u r a e c o l e t a de palm i t o ; além, é c l aro,
da v e n d a do a r t e s a n a t o . Em B r a c u í c o n s t a n t e m e n t e p e r c e b í a m o s
a m o v i m e n t a ç ã o de M b y á c h e g a n d o de o u t r a s a l d e i a s (Ubatuba,
Guarita, Bar ragem, Araponga, Boa Esperança do Espírito
Santo, Itariri, etc.); ou p a r t i n d o de Bracuí para estas e
í£5

o u t r a s áreas. Muitos deles comentavam que e s t a v a m só de


p a s s a g e m , p o i s t i n h a m que ac abar a l g u m " s e r v i ç o fora".

As a l d e i a s de o n d e são p r o v e n i e n t e s os M b y á de
Bracuí, são: C o t i n g a , Ibirama, Barr a g e m , Boa E sperança no
E s p í r i t o Santo, B o a V i s t a em Ubatub a, Araponga e Guarita no
Ri o G r a n d e do S u l . E s t a s o u t r a s são as á r e a s o n d e n a s c e u a
m aio r p a r t e dos M b y á de Bracuí: C h a p e c ó e I b i r a m a em Santa
Catarina; Barragem e Boa V i s t a ( Ubat uba) em São F‘
aulo;
G u a r i t a e O s ó r i o no Rio G r a n d e do Sul; Cotinga (Paranaguá),
M a n g u e i r inha e F'almeirinha no F‘
araná.

C i t a r e m o s aqui relatos de h i s t ó r i a s de vida e


v i a g e n s de n o s s o s i n f o r m a n t e s de Bracuí. V a l d o m i r o da Silva
(41 anos) v e i o p a r a Bracuí, p a r t i n d o da a l d e i a do M o r r o da
S aud ade, Barragem (A ldeia Mbyá de 2 6 , 3 0 ha), São Pau lo.
"Nasc i na Guar i t a , moro agora na B a r r a g e m ; mas n u n c a parei
m u i t o t e m p o em lugar nenhum. De lá de G u a r i t a eu saí de
m e n i n o e meu p a r e n t e ficou lá. 0 João, e s s e que tá aqui, o
C aci q u e , e s s a f a m í l i a t u d o meu parente; o pai d e l e é irmão
dá m i n h a mãe: Saí s o z i n h o com meu tio, a n d a n d o , andando, até
c h e g a r por S ã o Paulo. No litoral te m m u i t a a l d e i a de Hbyá
tamb ém, te m Itari ri, tem Ba nanal, n ó s a n d a m o s t u d o por lá;
ma s não gost a m o s , m u i t o m o s q u i t o ( r i s o ) . N ã o se acostumamos
ficar m o r a n d o lá c o m Xiripá, tem a l g u m que é que n e m G u a r a n i
ta mbém. Xiripá não é bem Guarani, mas f a l a quase o mesmo
c o m o n o s s a língua, um pouco diferente. A moradia deles é
q u a s e a mesma, é q u a n d o o G u a r a n i vã o na aldei a, t r a t a m bem;
só que quando vinha do Paraná, em P a l m e r i n h a onde morei
ta mbém, e chega na a l d e i a Xiripá, n ã o se a c o s t u m a . En tão,
v o l t a m o s pro P a r a n á e d e p o i s a r r u m a m o s u m l u g a r z i n h o lá na
B arr a g e m . Em P a l m e r i n h a m o r a m o s b a s t a n t e tempo, dois anos.
Lá nós vivia p l a n t a n d o só, n ã o vendia artesanato, naquele
t e m p o só r e s e r v a mesmo, não tinha cidade perto. Era mais
fácil que agora. D e p o i s fomos pr a B a r r a g e m . E ss as criançada
nasceu tudo lá mesmo (apontando para seus filhos). Na
Í26

B a r r a g e m os índio só faz a r t e s a n a t o mesmo, vende pra viver


assim, comprando mantimento, sal. Lá é m u i t o p e q u e n o , aqui
tem t e r r a s o b r a n d o mesmo. Aqui é melhor, t e m b a s t a n t e terra,
tem m a t e r i a l pra fazer artesanato, plantação, pra tudo
assim, á r e a grande. ín dio na c i da de não p o d e dar cer to. Has
o G u a r a n i é a s s i m mesmo, faz o que quer, aí s e m p r e v i a j a n d o .
Eu v i a j a v a m u i t o p o r q u e nã o t inha o lugar c e r t o p r a morar ,
e n t ã o n ó s p a s s a v a a n d a n d o sempr e. Não é que g o s t a s s e assim,
só a n d a n d o e a r r u m a n d o lu gar pra morar, e d e i x a e vai pra
outro a vida toda. Outra reserva é do índio Xiripá,
Kaingang, Xokleng; tudo índio bravo, não gosta muito do
Guarani. 4rea mesmo do H b y á bem pouquinho, então tem que
ficar p r o c u r a n d o , é assim. A g ora t e m aqui, tem Araponga.
R e s e r v a b o a m esmo só aqui (Bracuí); Barragem muito perto do
B ranc o. N ó s tudo, índi o do Brasil; só m i n h a a v ó argentina.
A g o r a v i e m o s pra cá na c a s a do n o s s o parente, tá um pouco
estragada, m a s não c h o v e dentr o, dá pra ficar. A q u i é bom,
dá p r a f a z e r reza, lá (na Barragem), não t i n h a jeito, tinha
que rez ar, incomodavam muito porque tinha estrada que
p a s s a v a p e r t o da alde ia ,, t i n h a vila p e r t o c o m m o r a d o r , nã o
tinha quase mato. A vila que tem lá perto é que chama
Barragem, a a l d e i a m e s m o é H o r r o da Sald a d e , lá m o r a trinta
e s e i s f a m í l i a s , m a i s de d u z e n t a s pessoas. Lá p e r t o ain da,
tem a vila Colônia, Panelero, tipo cidadezinha. Lá faz
baile , b e b e m muito-, sai briga , acho p e r i g o s o , ruim ".

A v i d a do H b y á é a h i s t ó r i a de s u a s v i a g e n s pelas
aldeias onde moraram, e onde estão seus parentes. A
cronologia desses Guarani é marcada pelos períodos de
p e r a m b u l a c ã o nas e stradas, em c o n t r a p o s i ç ã o às p a r a d a s na s
aldeias. 0 V i c e - c a c i q u e de Bracuí, fala de s u a s viagens.
"Sou L u i z Eusébi o, meu pai I n á c i o E uséb io , m o r a a q u i també m.
N a s c i e m H a n g u e i r i n h a no Par aná, di a v i n t e de n o v e m b r o í95S.
H i n h a e s p o s a T e reza da Si lva, filha da D. Júlia, irmão do
Cacique, n a s c e u na Gua rita, Rio G r a n d e do Sul, e m d o i s de
í £7

j a n e i r o 1951. T e n h o seis fil hos, t r ê s n a s c e r a m em Chapecó,


um em Ibirama , um em Cotinga. e outro aqui (Bracuí). Horei
em P a l m e i r i n h a , lá fiquei t r ê s anos, os meus irmao me
contaram. Aí eu fui no c o l o da m ã e p a r a Chapecó. Lá eu
fiquei muito tempo, 14 anos. Lá em Chapecó terra de
Kaingang, muito branco casado com índio, morando perto .
D e p o i s f omos p r a Ibirama, fi quei t r ê s a n o s lá, d e p o i s v o l t e i
pra C h a p e c ó c o m v i n t e e p o u c o s anos, só pr a casar. Fiquei lá
mais sete anos. Lá em Chapecó dava mais planta que em
Ibira ma, t e m e s t r a d a pra vender plantação, feijão, bat a t a ,
banana, é difícil pra nós fica r b e m p e r t i n h o da cid a d e ,
p o r q u e te m que t r a b a l h a r fo ra da reserva, de e m p r e g a d o na
plantação e serraria do branco, com família e tudo. 0
Guarani tem também o costume de f i car na a l d e i a da mulher,
p o r q u e pegar, casar e já levar longe da f a m í l i a a s s i m pra
nós já fica ruim, não faz. H a s n ã o d a v a p r a ficar p e r t o do
Kaingang, ele é d i ferente, ele civiliza muito, é muito
civilizado, é mais de d e ixar s i s t e m a que G u a r a n i . Essa é a
diferença que tem. A língua é diferente, não dá pra
entender. Do X i r i p á dá; K a i n g a n g não. 0 Xiripá é Guarani
também; o K a i n g a n g não é. 0 s i s t e m a do K a i n g a n g é d i f e r e n t e ,
m ist u r a , hoje quasetttdõ caboclo. A diferença é que o
Guarani quer s e g u r a r o sist e m a , os j o v e n s ta mbém, o Kaingang
não, X i r i p á também; o Hbyá é diferente. A reza deles é
d i f e r e n t e també m. Nã o dá p r a f ic ar j u n t o deles, te m que
ficar p e r t o do parente, não pode misturar, assim acaba nossa
nação. E n t ã o f i c a m o s viaj a n d o , procurando. D e p o i s de I b i r a m a
p a s s e i p r a Cotin ga. Ibirama tinha m u i t a briga, bebedeira,
outro índio e bran c o perto; não dava quase pra rezar de
noite. I b i r a m a é r e s e r v a do b o t o c u d o (Xo k l e n g ) , í n d i o bra vo.
Em C o t i n g a n ã o n a s c i a pla nt a, tinha pescador muito per to,
s a í a briga. D e p o i s p a s s a m o s p r a cá ( Bracuí). Lá n a C o t i n g a o
que f a l t a v a e r a água, ilh a m u i t o p e q u e n a , só d a v a m a n d i o c a e
b a t a t a - d o c ê , a t err a rião e r a boa. A q u i é melh or, t e r r a s ó do
Mbyá, d á p r a rezar soss e g a d o , outro não aparece; só o c r e n t e
í£8

e católico, mas pouco. Dois anos e pouco e s t o u m o r a n d o aqui>


é b e m ca lmo. T o d o m u n d o t r a t a b e m o índio, t e r r a boa, nasce
plantinha, tem que bot ar mais adubo, e n t ã o nã o -Falta comi da.
H ó s já t a m o s f a z e n d o p l a n o de fazer p l a n t a ç ã o me lhor . Tem
e s t r a d a e m a t e r i a l pra a r t e s a n a t o . Aqui e s t o u s a t i s f e i t o " .

L u i z s e g u e seu r e l a t o c o n t a n d o m a i s d e t a l h a d a m e n t e
u m a das v i a g e n s que fez de C h a p e c ó a Ibirama. "Nós, pai,
mãe, irmão, s a í a assim, fazendo v i a g e m a pé de C h a p e c ó pra
Ib irama. E r a m t r i n t a pess o a s . Pr a comer, n ó s l eva v a farinha,
um p o u c o de feijão, sal. Acampava na b e i r a da estrada.
D o r m i a s e m n a d a p o r q u e e s s a viagem, eu me l e mbro b e m que deu
m u i t a sor t e , nós não p e g a m o s n e n h u m a c h u v a na estrad a. Não
tem p r o t e ç ã o ; se c h o v e m o l h a v a t u d o (riso). Essa viagem pra
I b i r a m a n ó s n ã o g a n h a m o s n e n h u m a chuva, (iuando eu v o l t e i pra
C h a p e c ó fui de ônibu s, me u pai ficou em Ibirama. Depois
v o l t e i n o v a m e n t e pr a I b i r a m a de ônibus, eu pa guei; às vezes
o c h e f e d o p o s t o dava a l g u m dinh e i r o , mas n ã o sem pre ; tinha
que se vir ar, foi assim".

" N asci em Chap e c ó , depois fui p r a Hangueirinha,


fiqu e i c i n c o a n o s d e p o i s v o ltei p o r q u e n ã o deu certo, por
c a u s a qu e o í n d i o lá era m u i t o ladrão", c o n t a I n á c i o E u s é b i o
( como v i mos, o mais v e l h o da al de ia), pai de Luiz. "índio
G u a r a n i mesm o, n o s s a raca. Lá em H a n g u e i r i n h a tem Kaingang
u m a parte, o u t r a Guar a n i . Naquele tempo entrou muito juruá
a r r e n d a t á r i o na res erva, e fazia roça pra e n g o r d a de porco,
aí n ã o d a v a m a i s certo. G u a r a n i n ã o fica b e m p e r t o a s s i m do
juruá, do o u t r o í n dio Ka ing ang; então vai p r o c u r a r outro
cantinho. Isso faz b a s t a n t e tempo, quáse q u a r e n t a anos. Daí
voltei pra Chapecó e m elhorou. Lá é luga r m u i t o bom de
plan ta. D e p o i s t e m posto, e s t r a d a nã o fic a m u i t o perto, não
vai o c a t ó l i c o rezar, e n t ã o índ io reza t r a n q u i l o . D e p o i s fui
p r a Ibirama. N ã o t a v a bom, só por c a u s a da v e n d a da m a d e i r a ,
f i c o u t u d o r u i m s e m o mato, árvore. 0 X o k l e n g s e m p r e d a v a um
p e d a c i n h o da areazinha, só p r a nós vive r. Agora, índio
ÍE9

-Guarani n a o quer que v e n d e as m a d e i r a s , e n t ã o não d e u mais


certo . Guarani não v i v e sem o m a t o puro. Aí o Xokleng
r e s o l v e u m atar os G u a r a n i por c a u s a da madei r a , então foi
t u d o p r a Cotin ga. G u a r a n i c h a m a o X o k l e n g de 'tupi', n ã o sei
por que. F i q u e i três anos em C o t i n g a d e p o i s que saí de
I birama . Fui co m o C a c i q u e Silv a. M a s lá em C o t i n g a n ã o tem
lugar de plan ta, muito pequena e depois, b a s t a n t e indi a rada,
n ã o tem jeito. Aí FU NA I de u u m a a j u d i n h a e p a s s e m o s t u d o pra
cá (Bracu í). Cacique João veio pra cá, p r o c u r o u re serva.
D e p o i s c o n t o u pra nós. Daí que t i n h a m e s m o e s t a á r e a só p r o s
Guarani, Mbyá puro. F UNAI deu embarcação pra t i rar a
i n d i a r a d a da ilha, depois ônibus pra t r a z e r pra cá pra
Brac uí. Três ônibus cheio s. Aqui eu tô g o s t a n d o bastante,
faco a p l a n t i n h a , tem criação. Ibirama, meio cidadezinha,
que nem Angra; lá trabalhava fora pros caboc lo, os
brasileiros, a l e m ã e s também. Em I b i r a m a n ã o vo u p o r q u e saí
de r a i v a mesmo, de r a i v a do Xokleng. B o t o c u d o í n dio muito
bravo , tem que cuida r ! "

0 C a c i q u e de B r a c u í r e l a c i o n a n d o a f i g u r a do líder
G u a r a n i c o m o f e n ô m e n o das m i g r a ç õ e s ; c o n t a que o m o t i v o da
s a í d a dos G u a r a n i do Paraguai, foi a Guerra; "o Guarani
fugiu da G u e r r a do Paraguai, fugiu de Sol a n o Lopes, que
matou nosso último Caci q u e - p a j é , o F r a n c i s c o Felipe. Matou
tam bém , antes, outro Pajé, o ma io r; c h a m a v a Cehíro, era o
n o m e dele; este morreu também nesse temp o; então toda
i n d i a r a d a f u g i u do P a r a g u a i por c a u s a do n o s s o Pajé. Agora
M b y á tá s e m p r e vi aja ndo , procurando".

J o ã o da S i l v a fa la d e m i g r a ç ó e s Mbyá, vindas do
P a r a g u a i e Arge n t i n a , para o Brasil: "Sei que v i e r a m pelo
mato, e s s e eu me lembro, os de R i o G r a n d e d o Sul; e s s e veio
d e lá e da A r g e n t i n a depo is. Pablo Verá era o Cacique, me
lembro; eu e r a guri n e s s e t e m p o ain d a . Finado meu pai se
lembrava dessa história do problema do Cacique lá do
Paraguai. Quando Cacique-pajé Cehíro morreu, passou pr o
Í30

Garay, S n g e l o Garay, e pr o Cacique Verá p a r ece. Esse eu


c o n h e c i s ó mal e mal. V e r á v e i o p r o Bra sil, lá p r a Guarit a.
Garay, p a r e c e que ficou no P a r a g u a i , nao sei ce rto".

Os M b y á a r g u m e n t a m que; g u i a d o s por s e u s l e g í t i m o s
líderes. C a c i q u e s ou g r a n d e s Paj és; m i g r a m em b u s c a de t e r r a
de s o l o fértil e mata virgem, onde seja possível v ive r de
a c o r d o c o m as normas e v a l o r e s de sua cultura; rezando e
p r a t i c a n d o os exercícios espirituais necessários para se
alcançar o paraíso. Segundo colocaram alguns de n o s s o s
i n f o r m a n t e s ; t a n t o faz que e s t e s e j a um lugar c o n c r e t o aqui
na terra; ou p a r a í s o m í t i c o a l é m - m a r (ou no céu). De acordo
co m e s t a visáo ; poderia a T e r r a sem Mal ser (atualmente)
s í m b o l o de um e s p a ç o ideal p a r a a realização de tekó, a
d e s p e i t o de s u a c o n c r e t i c i d a d e ? H e s t e c o n t e x t o , Yv y M a r a Ey
p o d e ser c o m p a r a d a a uma remota e nostálgica tekoá (como
vimos, l u gar n e c e s s á r i o p a r a r e a l i z a ç ã o de tekó ). Todav ia,
para a maioria de nossos informantes, a Terra se m Mal
tornou-se um sonho impossível, p r i n c i p a l m e n t e em f u n ç ã o do
p r o c e s s o de " e n t r o p i a " que a t u a l m e n t e se e n c o n t r a t e k o á (a
terra de tekó). Sendo os Mbyá, "filhos legítimos de
Nanderú", q u a n d o b u s c a m a T e r r a s e m Males, estão procurando
o e l o c o m o s d e u se s, seu s p a r e n t e s , há m u i t o t e m p o per dido.
M e s m o ass im, os M b y á migram à procura de um lugar onde
possam saltar para esta Terra Sagrada, é deste ponto de
vista (novamente fri sando, que, em nossas análises,
procuramos partir do discurso dos informantes) que nos
p r o p u s e m o s a e n c a r a r o f e n ô m e n o d a s m i g r a ç õ e s e n t r e os Mbyá,
e a q u e s t ã o da b u s c a de Yvy M a r a E y .

A mitologia Mbyá faz referência a heróis


d i v i n i z a d o s que a l c a n ç a r a m a i m o r t a l i d a d e . Um d e s s e s vultos
é " C a p i t ã o Chik ú " , que c o n s e g u i u tal proeza após seguir a
risca certas regras , dedicando-se aos cantos sagrados,
dan ças, jejum e oraço es. 0 jejum c o n s i s t e em se alimentar
a p e n a s de mel, caguyjy e outras "comidas do mato "; se
Í3Í

a b s t e n d o de q u a l q u e r a l i m e n t o de o r i g e m e u r o p é i a , carne ou
alimento vegetal pes ado, conforme Nimuendajú <Í987;6Í).
Segundo a saga de Chikú: " C a p i t á n C h i k ú se e n c e r r o en su
casa, r o g a n d o a l c a n z a r el e s t a d o de i n d e s t r u c t i b i 1 idad . Oró,
cantó, danzó; adquirió f o rtal eza, se inspiro de f e rvor
religioso; se a l i m e n t o e x c l u s i v a m e n t e de h a r i n a d e ma iz. A
los t r e s m e s e s r o c i o c o m e n z ó a m a n a r l e de las p a l m a s de las
manos, p r e c u r s o s de las 1 lam as (1 l amas s a g r a d a s que a n u n c i a n
la p e r f e c c i ó n )" (Cadogan, 19 46 :46) .

Nimuendajú (19 87: 61) faz r e f e r ê n c i a s a casos de


P a j é s que i n s p i r a d o s por s o n h o s ou a p a r i ç õ e s , afastaram-se
de seus grup os, passando a viver uma vida solitária,
d e d i c a n d o - s e à b u s c a de agu ajé , a perfeição, ou plenitude;
condição necessária p a r a se alcançar kandire, ou seja, a
i m o r t a l i d a d e que leva ao p a r a í s o m í t i c o Guarani, Yvy Mara
Es. C o m o c o l o c a M e l i á ( 1 9 89:34 3), para o Guarani existe uma
relação direta entre a terra sém males e a
p e r f e i ç ã o / i m o r t a l i d a d e da pessoa; "o c a m i n h o de u m a l e v a à
ou tra". De a c o r d o c o m P i e r r e C l a s t r e s (199 0 : 4 6 ) , o e s t a d o de
ag uyjé, ou "totalidade acabada", não é definitiva; "Para
m a n t e r - s e nele, é preciso esforço, é preciso a semelhança
d o s deuses-, e r g u e r - s e , sob p e n a de c a i r em o u t r a t o t a l i d a d e ;
a d i f e r e n ç a a b s o l u t a da f o r m a an im a l , na qual a t r a n s g r e s s ã o
c o n d e n a os culpados a se m e t a m o r f o s e a r e m . Do divino ao
an imal: e s t a é a v i a g e m d o s ho mens".

No M i t o do Dilúv io, e no Ciclo dos Gêmeos, fica


c l a r a a i d é i a de que é i m p o s s í v e l v i v e r n e s t a t e r r a má, "Na
t e r r a a m o r t e é o fim de vocês. N ã o v o l t e m p a r a lá, fiquem
agora aqui!", pede Nandecy a seus filhos Kuarahy e Jacy
(Nimuendajú, 19 87:151). "Procurem dançar, a terra quer
piorar!", disse Nanderuvuçu (Nan d e r u ) a Guyraypoty
(Kuar ahy ), conforme Nimuendajú (1987:155). Como declara
Hélène Clastres (19 78:90), "...sem respeitar as leis
sociais; n ã o se p o d e ser ao m e s m o tempo, h o m e m e deus. Mas é
Í32

p o s s í v e l ser, s u c e s s i v a m e n t e , u m a c o i s a e o u t r a ... D o r a v a n t e ,
homens e deuses viverão separados, em suas terras
respectivamente, mas os primeiros continuarão com a
p o s s i b i l i d a d e de r e c o n q u i s t a r o paraíso perdido; serão os
porangue'i, os eleit os, a q u e l e s a quem os d e u s e s permitiram
fica r e r etos na nova terra, os portadores da palavra
divina".

é impo s s í v e l a t i n g i r Yvy M a r a E y , sem p a s s a r por


a g u y d j é e kandire, ou seja, p e r f e i ç ã o e i m o r t a l i d a d e . Este
p a r a í s o p o d e r i a ser a l c a n ç a d o a n t e s da morte, " H o r a d a do s
ancestrais, sem dúvida, a T e r r a s e m Hal t a m b é m era um lugar
a c e s s í v e l aos vivos, onde er a p o s s í v e l , 'sem p a s s a r pela
p r o v a da morte', ir de c o r p o e alma", conforme Hélène
C l a s t r e s (i978;3i). Esta autora a c r e s c e n t a que "0 conceito
d e K a n d i r e t r a d u z i a a p o s s i b i l i d a d e de a l g u é m c o n t i n u a r v i v o
e - ao m esmo t e m p o - t o r n a r - s e imor tal n ã o a p a r e c e a p e n a s na
e t i m o l o g i a da p a l a v r a e na sua e x p l i c a ç ã o p elos mb iás, ma s
t a m b é m no uso que os m i t o s f aze m d e l a " (i978;89>, citando
tamb ém, o m i t o do d i l ú v i o ( v e r s ã o de C a d o g a n - A y v ú Ra ptá),
o n d e o " i n c e s t u o s o N h a n d e Ru Papari, q u a n d o este, por haver
c a n t a d o e d a n ç a d o s e m parar, c o n s e g u i u t o r n a r leve s e u c o r P O
e e l e v a r - s e a c i m a d a s á guas até a T e r r a s e m H a l . alcançando
a i m o rtalidade".

Os Hbyá de Bracuí, relataram ca sos de muitos


Guarani, que no p a s s a d o c o n s e g u i r a m c h e g a r à T e r r a s e m Hal.
S e g u n d o n o s s o s info r m a n t e s ; um g r u p o de G u a r a n i " p u r o s " d e v e
f icar a g u a r d a n d o a c h e g a d a de N a n d e r ú , que vem de b a r c o até
a b e i r a do mar, p a r a levar a Yvy H a r a Ey s o m e n t e os que
realmente alcançaram a perfeição, a g u y d j é (que t a m b é m pode
ser t r a d u z i d o c o m o "vitór ia" , s e g u n d o Schade n, 1974;164).
A p e n a s e ste s e m b a r c a m , os o u t r o s d e v e m tent a r n o v a m e n t e em
o u t r a ocasião, "não estavam bons ainda para ir", diz o
Vice-cacique. Os " e s c o l h i d o s " s ã o a q u e l e s que p a s s a r a m por
todo um processo de preparação espiritual; rezando e
cantando horas ininterruptas, praticando a abstenção sexual,
v i v e n d o etn s u a s a l d e i a s de a c o r d o c o m as leis de s e u g r upo,
t o r n a n d o s e u s c o r p o s m a i s l e v e s a t r a v é s da d a n c a e do jejum
(abolindo radicalmente a "comida de juruá"). Nossos
informantes deram alguns exemplos de p a r e n t e s p r ó x i m o s , ou
c o n h e c i d o s que c h e g a r a m ao p a r a í s o ; "meu ti o dançou, dançou,
r e z o u muito, a t é que um d i a foi p a r a d e p o i s do mar"; relata
um i n f o rmente, falando t a m b é m do velho Pajé da I l h a s das
Peça, P a r a n a g u á (p erto da Ilha da Cotinga), que foi morar
n e s t e local p a r a p o d e r ficar p e r t o de Yvy liara E y , " e l e e s t á
se p r e p a r a n d o há muito tempo p r a ir p a r a lá". M u i t o s dos
m o r a d o r e s de Bracuí informaram que o Cacique Uerá Mirim
t a m b é m e s t á t e n t a n d o ir a Yvy M a r a E y . L u i z E u s é b i o d i z que
em Paranaguá, "muita gente foi; algum voltou, não
conseguiram atravessar o mar. Deus não retirou eles",
a c r e s c e n t a n d o que a v a n t a g e m de se ir p a r a a T e r r a s e m Mal,
é que não se morre, "vai com o corpo inte i r o " . Poré m ,
atualmente a busca de Yvy M a r a Ey é v i s t a pelos Mbyá co m
grande pessimismo, "Nós sabe que n ã o vai. porque temos
c e r t e z a que vai mor rer , a i n d a tem e s s a Us ina; a g e n t e não
tem m a i s t e m p o de fazer isso. A gente quer ir; m a s e u não
sei, é m u i t o d i f í c i l " , c o m p l e t a Luiz.

A p a r í c i o da Silv a, referindo-se à questão acima,


d e c l a r a que hoje é muito difícil alcançar este paraíso
mí tico, "em U b a t u b a tem m u i t a g e n t e se p r e p a r a n d o , rezando,
p a r a ir p a r a essa terra depois do mar. P r i n c i p a l m e n t e os
m a i s vel hos, e l e s t ã o l u t a n d o pra conseguir essa Terra sem
Males, como o pessoal fala. Hoje é difícil porque nós usamos
t u d o do bra nco ; óleo, sal, arro z. A n t e s só podia comer
c o m i d a natur a l , do mato, o milho, a caça. Então é difícil
c o n s e g u i r e s s a coisa, tá t u d o a c a b a n d o . Estou muito triste,
a c h o que v o u d e i x a r o Br asil. Se n ã o tem jeito, aí v o u pr a
o u t r o país, p r a Es pan ha, d e p o i s do mar; aí já f i c o mais
aliviado".
Í34

Os G u a r a n i de B r a c u i em gérai , declararam que


n e s t a t e r r a q u a s e nao se p o d e m a i s v i v e r c o n f o r m e as regras
sociais de seu gru po, por causa da interferência da
s o c i e d a d e bra nca , desde a colonização. "Yvy M a r a Ey é terra
sem fim, terra eterna, onde nunca term i n a ; fica d e p o i s de
tudo, no fim. Este é o nosso para í s o , paraíso do Hbyá.
Q u a n d o G u a r a n i m o r r e vai p r a lá; tem a l g u m que n ã o precisa
nem morre", declarou o Vice-cacique.

Júli a,, irmã do C a c i q u e , falando sobre a Terra sem


Hal, di z que; "Tem que r e z a r m u i t o p r a N a n d e r ú v e m l evar nó s
tudo p r a d e p o i s do mar, Iguaçu Porã, Yvy Guaçu J ú . Aqui
a i n d a n i n g u é m fez, t e m que r ezar muito. Pra ir por outro
lado do mar e l e n ã o m o r r e mais, não morre; m a s t e m que; r e z a r
bem cert i n h o , então é difícil pra morr e r , nem que venha
fogo, n e m água, não mo rr e. Nanderú vem na b e i r a da praia,
bu sc ar pro para i s o , Yvy H a r a Ey, lev a c o r p o junt o , não
p r e c i s a m o r r e r mais. J u r u á até p o d e ir também; mas tem que
ficar long e do G u a r a n i , é ass im" . Quando perguntamos aos
H b y á de Brac u í s o b r e o d e s t i n o da alma, a maioria respondeu
que "uma p a r t e vai para o paraiso, Yvy M a r a Ey", que eles
t r a d u z i r a m como; " t e r r a o n d e n u n c a ac ab a", "terra sem fim",
ou " t e r r a s e m ma l". D i s s e r a m que só um l ado do e s p í r i t o , e
apenas alguns seres humanos conseguem chegar neste paraíso
mítico, ou “m o r r e r l e v a n d o o c o r p o junto". Afirmaram também
nossos informantes, que e r a m t r ê s as p o s s i b i l i d a d e s q u a n t o à
localização deste paraíso; depois do mar (corno v i m o s no
d e p o i m e n t o acima ), no c é u ou no P araguai.

A T e r r a s e m Mal é t e m a polê m i c o , não só entre os


etnólogos, como também entre os próprios Guarani. "As
o p i n i o e s dos p a j é s c o m p e t e n t e s d i v e r g e m u m pouco no q u e diz
r e s p e i t o ao lugar o n d e e s t e p a r a í s o d e v e ser b u s c a d o ... M a s a
m a i o r i a e s m a g a d o r a d o s p a j é s p r i n c i p a i s b u s c a v a Yvy M a r a Ey
no leste, a l é m do mar" (Nimuendajú, 1987:97-98). Verá Mirim
fa l a n d o s o b r e uma polêmica que e x i s t i u e n t r e os Caciques
Í35

 n g e l o G a r a y e P a b l o Verá, do P a r a g u a i , c i t a d o s por C a d o g a n
(1960:135-6), quanto à localização p r e c i s a do p a r a í s o ; diz
que Ângelo Garay, decidiu fic ar no Paraguai porque
c o n s i d e r a v a que o p a r a í s o s i t u a v a - s e no c e n t r o da t e r r a (que
está localizado no P a raguai). Enquanto que Pablo Verá
i n i c i o u um a g r a n d e m i g r a ç ã o do o e s t e (Paraguai) para leste,
no sentido mencionado no Hito do Dilúvio, citado por
Nimuendajú (1987:155 ). Este autor diz que o mar vai
d e s e m p e n h a r papel de d e s t a q u e no m i t o do d i l ú v i o universal,
onde é mencionada a S e r r a dò Mar, "qu e se ergue como uma
p a r e d e logo a t r á s do litoral sul do B r a s i l " (19 87:98). Os
Guarani referem-se à S e r r a do Mar como P a r a n a p i a c a b a , que
Nimuendajú ( 1987:99) t r a d u z por "dique do mar". 0 autor
a c r e s c e n t f a i n d a que, "é c u r i o s o que o mar r e p r e s e n t e papel
tão r e l e v a n t e p a r a um povo que v i v e nas p r o f u n d e z a s mais
r e m o t a s do continente, cujo m o d o de vida é integralmente
interiorano", concluindo que " . . . a marcha para leste do s
G u a r a n i não se d e v e u à p r e s s ã o de t r i b o s i n i m i g a s ; tampouco
à e s p e r a n ç a de e n c o n t r a r m e l h o r e s c o n d i ç õ e s de v i d a d o o u t r o
lado do Para ná; ou ainda ao desejo de se unir mais
intimamente à civilização - ma s e x c l u s i v a m e n t e ao medo de
d e s t r u i ç ã o do m u n d o e à e s p e r a n ç a -de i n g r e s s a r na T e r r a sem
Mal" ( 1 9 8 7:108). Isto explica , em parte, os argumentos do
C a c i q u e V e r á Mirim, que r e l a c i o n a a presença dos Mbyá no
lito ral ao fim do m u n d o e ao c r e p ú s c u l o da c u l t u r a Guarani.
As m i g r a ç õ e s seriam, então, a t e n t a t i v a de se b u s c a r em Yvy
Mara E y , como uma terra prometida, a l i g a ç ã o com o s d e u s e s e
a r e t o m a d a de sua cultura. Não se c o n s e g u i n d o v i v e r c o n f o r m e
tekó, b u s c a - s e ao m e n o s m o rrer na s a g r a d a tekoá, que seria
a t u a l m e n t e Yvy Mara E y . Segundo Schaden (1974:162), este
t r a ç o r e v e l a que a s i t u a ç ã o de p e n ú r i a c u l t u r a l decorrente
do contato , já se firm o u como problema na consciência
coletiva do Guarani. 0 sol nascente su rg e, entã o , no
horizonte Mbyá apontando a d i r e ç ã o do último reduto onde
Í36

p o d e ser p o s s í v e l a e x i s t ê n c i a da c u l t u r a G u a r a n i , ou seja,
em Yvy M a r a E y .

Quando tentamos esclarecer algumas contradiçoes


surgidas nas explicações de n o s s o s informantes, sobre a
q u e s t ã o da T e r r a sem Mal e o f e n ô m e n o d a s m i g r a ç õ e s ; Inácio
Eusébio declarou, " i s s o p o r q u e o b r a n c o n ã o e n t e n d e o índio.
C a b e ç a do í n d i o m u i t o d i f e r e n t e ; então, j u r u á p e n s a que s a b e
de tudo; que í n d i o é bobo, não s a b e nada. Iss o t e m que ser
assim, assim! E l e que nã o p o d e e n t e n d e r o G u a r a n i , por isso
a c a b a m c o m tudo; é t r i s t e me sm o". Em suma, s e n d o atualmente
q u ase i m p o s s í v e l e n c o n t r a r um lugar o n d e p o s s a m v i v e r como
a u t ê n t i c o s s e r e s Fiumanos (ou seja, c o m o Guarani), os Mbyá
b u s c a m e s t e e s p a ç o em Yvy M a r a Ey, e s t e j a el e n e s t e mundo,
ou em um p a r a í s o m í t i c o a l é m da Terra.
i0 - CO NTRASTE, C O N F L IT O E A N T R O P O F A G IA

“Perguntei a ui hoaea o que era Direito. Ele ee respondeu que era a


garantia do exercício da possibilidade. Esse hoaec chaaava-se Galli Kathias.
Coii-o....Só se interessa o que não é leu. Lei do hoeei. Lei do antropófago”. (OsKaId
de Andrade - Manifesto Antropófago)

Os Mbyá, como vimos anteriormente, c o m p a r t i l h a m há


muito tempo o espaço de o u t r o s grupo s, como o Xokleng
(Ibira ma) , Kaingang (Ibirama e Chapecó) e Nandéva (em v á r i a s
a l d e i a s da R i o Santos). A relação c o m c a d a um d e s s e s é, na
maioria d as vezes, marcada por conflitos diretamente
relacionados a diferenças étnicas. Os K a i n g a n g c o n s i d e r a m os
M b y á c o m o i n t r u s o s em s u a s a l d e i a s (Baldus, í95 2 ;487). Maria
L í g i a M. P i r e s ( i 980:í84) a p o n t a que a s i t u a ç ã o da i n t e r a ç ã o
G u a r a n i / K a i n g a n g , em p a r t i c u l a r , surgiu e tomou forma como
d e c o r r ê n c i a da expansão da sociedade brasileira; e que
provavelmente, sem estas p r e s s õ e s tal s i t u a ç ã o de contato
nunca teria acontecido. S e g u n d o a a u t o r a , . f r e ntes pioneiras
teriam empurrado estes grupos p a r a á r e a s c a d a vez menores,
até s e r e m o b r i g a d o s a compartilhar o mesmo território com
grupos tradicionalmente inimigos (como no caso
G u a r a n i / K a i n g a n g ). P i r e s a f i r m a que e s t e s g r u p o s a n t a g ô n i c o s
viram-se forçados a desenvolver mecanismos e processos de
a r t i c u l a ç ã o socia l, a t r a v é s d o s q u a i s p u d e r a m se relacionar
uns com os outro s, e entender a t é que ponto a sociedade
regional interfere neste processo. A reserva de
Mangueirinha, o n d e a a u t o r a a c i m a r e a l i z o u sua p e s q u i s a , foi
citada muitas vezes por n o s s o s colaboradores, pois está
dividida entre Mbyá e Kaingang. Esta área inicialmente muito
maior, foi c o m p r a d a por c o l o n o s da reg ião , restando apenas
um a p e q u e n a f r a ç ã o aos d o i s gr upos, que e r a m l a n ç a d o s uns
c o n t r a os o u t r o s por e s t e s p i o n e i r o s (Pires, 19 80:1 90).

Os K a i n g a n g v ê e m os G u a r a n i de s u a s r e s e r v a s como
inferiores, "bichos do mato"; assumindo os valores do
bran co, negando suas características e conseqüentes
Í38

e s t e r e ó t i p o s (Pires, í980;2i6-7). Ao m e s m o t e m p o os K a i n g a n g
a f i r m a m uma i d e n t i d a d e " i n d í g e n a " para garantirem o espaço
da res erva. Os Gua ran i, então, são minorias depreciadas por
brancos, k a i n g a n g e Xokl eng . A l g e m i r o da S i l v a a f i r m a que os
Hbyá sofreram grandes dicriminaçoes nos estados do sul do
Bras il; " e s t á v a m o s no ô n i b u s de X a n x e r ê p a r a C h a p e c ó ; então
e n t r o u um grupo de homens e mulheres cl aro s, jeito de
i t a lianos, que taparam o nariz quando nos viram. Depois
r i r a m m u i t o de nós, f a l a n d o de m a u c h e i r o . A q u i em A n g r a dos
Reis nunca aconteceu isto, todo mundo t r a t a bem o Guarani
aqui. Em São P a u l o t a m b é m é assim. Em S a n t a C a t a r i n a o j u r u á
e o X o k l e n g n ã o g o s t a m m e s m o do G u a r a n i " .

Em curiosos depoimentos, alguns de nossos


i n f o r m a n t e s em Br ac uí a c u s a r a m o u t r o s g r u p o s da p r á t i c a de
a n t r o p o f a q i á . S e g u n d o Diaz H a r t i n e z (i985:í59), existe clara
referência à antropofagia no liito d o s Gê me o s , onde "deixa
s u b t e n d i d o uma r e l a ç ã o de d o m i n a ç ã o d a p a r t e dos t i g r e s que
poderiam muito bem representar uma outra tribo...". A
a c u s a ç ã o de a n t r o p o f a g i a p o d e r i a e s t a r l i g a d a a. i d é i a de que
a p e n a s os Mbyá-Guarani possuem, segundo eles mesmos, as
q u a l i d a d e s n e c e s s á r i a s pa ra s e r e m "humanos" ( d e n t r o de sua
própria definição do termo) e que os " o u t r o s índios" (e
brancos) estariam automaticamente excluídos, por estarem
d e s p r o v i d o s de tais q u a l i d a d e s culturais. Ser h u m a n o é ser
libyá, pois e l e s são os ú n i c o s a v i v e r e m sob " t e k ó " Guarani;
eles são os "Jeguaká Tenondé Porã-gué í" ("Primeiros,
principais, ou v e r d a d e i r o s h o m e n s b e l o s " ) .

Um de n o s s o s i n f o r m a n t e s de Bracuí, que residiu


m u i t o t e m p o em Ibirama, decl a r o u ; "o X o k l e n g de I b i r a m a m a t a
gente, já m a t o u um n a q u e l e tempo, m a t o u e comeu; o Xokleng
m a t o u e c o m e u o Guarani. ___Lâmb.éjn. Isso G u a r a n i não faz, nó s
n ã o c o m e gente, não dá pra comer. Nós não semo bicho como
fala crente. Diz que e l e s também pode matar e comer o
branco. Me u pai diz que lá em Papanduva quando matava
Í39

br anco, o B o t o c u d o (Xoklen g) l e v a v a na s costas pra comer


d epoi s, o K a i n g a n g nã o sei; mas o Xokleng c o m e me smo. 0
botocudo é diferente do Guarani, Xiripá q uase igual, o
s e n h o r sabe, o b r a n c o sabe bem. 0 b o t o c u d o r o u b a nós, por
isso que n ó s nao g o s t o u e s a i u de lá de Ibir ama, veio pra
cá. é v e r d a d e que p r i m e i r o de lá é a q u e l e índ io mesm o, é
direito porque nasceu primeiro, é de lá mesmo; mas eles
c o m e m q e n t e . G u a r a n i não. 0 b r a n c o c h a m a o índio, o Guarani,
de bugre; i s t o m u i t o ruim, a g e n t e não gosta. 0 Xokleng que
é o bugre, que é tupi c o m o se chama; e l e s que c o m e m carne
crua, carne de gente. 0 kaingang nós gosta mais um
pouquinho, n ã o j u d i a v a m m u i t o do Guara ni, mais bonsinho; mas
a l g u m q u a n d o bebe, sim. Lá em Ibirama, Chapecó, muita briga
co m i n d i a r a d a brava, não e r a bom".

J o ã o da Silva afirmou certa vez que " t e m muito


b r a n c o que tem medo de í n dio c o m e d o r de juruá, com reza
estranha. Então el es gritam; 'índio sujo, feio'; mas o
G u a r a n i a q u i da m i n h a parte, eu garan to, n ã o c o m e gent e ! não
pode, de j e i t o nenhum! 0 Kaingang e o botocudo já pode
comer". J ú l i a da S i l v a di z que t a m b é m s a i u de I b i r a m a por
c a u s a do Xokleng , " í ndio brabo , tupi; por is so vim p r a cá".
E s t a i n f o r m a n t e que morou muito tempo n e s t e local declara
a i n d a que os M b y á se r e f e r i a m a o s X o k l e n g c o m o "jag u á " , ou
s e j a cães; " Q u a n d o Guar a n i c h a m a b o t o c u d o d i z assim, 'tupi';
m a s t am bé m, 'jaguá' (risos). E l e c o m e c a r n e de gent e; Hbyá
não. H b y á já quer dizer i ndio mesmo, gente. 0 k a i n g a n g de lá
de I b i r a m a só t r a t a v a mau q u a n d o e s t a bêbado; se não, trata
bem. A g o r a e s t á t e r m i n a n d o m a d e i r a por lá, o X o k l e n g índio
b r a v o tá, d e r r u b a n d o todo mato; e n t ã o o que v a m o s f a z e r ? Tem
que sair sempre, procu r a r o u t r o l u g a r z i n h o novo".

Os Xok leng destroem a natureza e a terra , que


r e p r e s e n t a a v i d a e a p o s s i b i l i d a d e de e x i s t ê n c i a da c u l t u r a
Hbyá. 0 Hbyá, então, afirma su a identidade enquanto
c o n t r a s t e e n t r e o ideal de h u m a n i d a d e , que é v i v e r sob os
Í40

d e s í g n i o s da c u l t u r a Guarani e a a u s ê n c i a da m e s m a nestes
o u t r o s g r u p o s que n ã o p r e s e r v a m o m e i o natur a l ; o que afeta
t o d a s o c i e d a d e Hbyá.

A l g u n s de n o s s o s c o l a b o r a d o r e s de B r a c u í falaram
também de uma "nação de índi o s com rabo" vivendo no
Para g u a i . Segundo eles, os " A v á h u g w á i " sã o semelhantes a
maca c o s , p o i s a l é m de p o s s u í r e m r a b o v i v e m s o b r e as á r v o r e s ,
" . . .dizem que t a m b é m c omem o u t r o índio. Não sã o n e m muito
gente, nem muito bichoj mas é í ndio ta mbém", esclarece
O n ó r i o da Silv a. 0 Antropólogo M. B a r t o l o m é , que esteve
p e s q u i s a n d o e n t r e os G u a rani no P a r a g u a i , declarou-nos que
a c r e d i t a que os M b y á e s t e j a m se r e f e r i n d o aos G u a y a k i . Estes
últimos seriam "seus inimigos mortais" (dos Mbyá) , segundo
Jehan Vellard (Í933;3Í 3).

Luiz Euséb io, o Vice-cacique, fala sobre a


n e c e s s i d a d e de s e g u i r as r e g r a s de s u a cultura: "Se o Hbyá
d e i x a r a r e l i g i ã o dele, a língua; vai c o m e ç a r a bebe r , faz
baile; tem b r i g a c o m parente, c a s a com b r a n c o e d e s a p a r e c e a
nação; m o r r e o índio. 0 ú n i c o que quer v i ver a s s i m no mato,
que quer fazer p 1a n t a ç ã o z i n h a dele, quer s e g u r a r costume,
língua, t radição, é o Hbyá. índio. Guar a n i , já é p o u q u i n h o ;
s e m i s t u r a r a c a b a tudo. Agora, os o u t r o índio, o Xokleng, já
quer viver c o m o bra nco; são índ io bravo, mas q u e r e m viver
igual ao bra nco. T e m índio que finge que é branco, quer se
p a s s a r de j u r u á (r i s o s ). De us fez o índio pobre e sujo pra
v i v e r no mato; o j u r u á já fez l impo e rico, este tem que
v i v e r n a ci dade. S ó que, o b r a n c o te m o que tem s ó p r a ficar
cont e n t e ; tem que ter a tele v i s ã o , carro, rádio, gravador.
H a s o b r a n c o n u n c a sati s f e i t o , quer o p o u q u i n h o que o índio
a i n d a tem. Desde o t e m p o que o branco chegou no B r a s i l é
assim. Nós que s o m o s índio p u r o s o f r e m o s muito; quanto mais
p u r o mais sofre, m a i s o b r a n c o e o o u t r o í ndio judia. Porque
s e r á que o b r a n c o n ã o d e i x a o H b y á q u i e t i n h o no c a n t o dele?
H b y á quer ficar e m paz, o b r a n c o p o d i a até p e n s a r que não
Í4Í

te m mais, que o M b y á tudo já mor reu. Assim, a c h o que G u a r a n i


v i v e m a i s -Feliz e tran q u i l o ; s o z i n h o no mato, como era antes
do j u r u á a p a r e c e r " .

0 C a c i q u e de B r acuí r e l a t o u - n o s o "Descobrimento
do Brasil", mostrando que d e s d e o c o m e ç o do c o n t a t o entre
brancos e "índio s", o conflito e a violência estiveram
presentes. S e g u n d o Verá Mirim, a c o n q u i s t a da A m é r i c a do Sul
p e l o s c o l o n i z a d o r e s e uropeus, teve como c o n s e quência a fuga
dos Guarani em direção a oeste do c o n t i n e n t e : "Vovô me
contava estórias do que aconteceu sobre o primeiro que
d e s c o b r i u Br asil, o Pedro Cabral. Nã o sei se é ce rto, di z
que n a q u e l e t e m p o nós índ io nem c o n h e c i a o br anco . E n t ã o diz
que um d i a a p a r e c e u um b a r c o g r a n d e que v i n h a c h e g a n d o . 0
índio sentiu mêdo, p e n s o u que f osse bicho e atirou com
flecha; n a q u e l e t e m p o o G u a r a n i t i n h a flecha. F l e c h a n ã o faz
nada, b a t e e vo a por cim a do barco, que q u a n d o e n c o s t o u na
praia, aí s a i u gente. Então o índio conheceu o br an co. 0
índio atirou porque nunca tinha visto antes aqui l o ; mas
quando viu branco sair do barco, aí parou . Então o outro
chegaram, vi u índi o e b a t e u foto. G u a r a n i f icou c o m m ê d o e
c o m b i n a r a m de correr, fugir pro mato. N a q u e l e tempo, mil
anos atrás quase, t i nha m u i t o mato; não era como agora,
í n d i o v i v i a m u i t o bem. Aí, di z que c o r r e u m u l h e r c o m c r i a n ç a
nas c o s t a s , correndo no m e i o da m a t a de susto quando viu
barco do b r a n c o che gando. E n t ã o lá no m e i o do m a t o cipó
s o l t o u d a s c o s t a s da m u lher e a criança caiu e morreu. At é
agora ninguém sabe, nem o branco sabe direito o que
a c o n t e c e u c o m o índio, p o r q u e fugiu. A s s i m que me c o n t a r a m a
estória. 0 índi o c o r r e u pro interior e fez outra aldeia
novamente, e ficaram lá q uie t i n h o s , tranquilos ninguém
perturba, bem lá no fundo do mato. Derrepente o branco
a p a r e c e u n o v a m e n t e a s s u s t a n d o t o d a in di a r a d a , 'Deus o livre,
o juruá estão chegando novamente, v a m o s m a i s p r o fun do!' Aí
se r e u n i r a m com o Cacique e c o m b i n a r a m de se escapar do
Í42

branco, 'vamo s c o rrer tudo', e c o m b i n a r a m as sim. Deixaram


tudo. Daí o br anco, que é esperto , sabe escrever, tomou
c o n t a e c o m e ç a r a m a dar o nome, 'esse v a m o s c h a m a r G u a r a n i ' ,
c h a m a r a m os l u g a r e s de Ri o Karaí, Bracuí, Ubatuba, Para t i ,
I t a p emirim; -foi assim. Deu n o m e p r o s índio, lugar, aldeias;
e s t e s n o m e s foi o b r a n c o que de u p e g a n d o do G u a r a n i , pegou a
t e r r a que e r a do índ io e d e u n o m e t a m b é m do í n d i o (riso s). 0
branco sabe como c h amar o indio. Tem Xiri p á , Botocudo,
Kaingang, Pataxó, Xingu ... 0 índio não dá o nome, é o branco
que poe. D e p o i s , o branco c o l o c o u b e b i d a na b o c a do índio,
ensinou o baile, a briga, morte; por isso a i n d i a d a t á tudo
v i r a d a hoje. Então começou mistura e acabou sumindo muito
índio, é as sim. Naquele tempo do Cab ral, na m a t a n ã o tinha
briga, tudo j u n t o feliz. H o j e i n d i a d a tá com medo, mas não
tem jeito, m u i t o beb end o, b r i g a n d o , misturando. Nós semo bem
pouq u i n h o , se m i s t u r a a c abar tudo".

S e g u n d o V e r á Mirim, o a p a r e c i m e n t o da e s c r i t a , que
teria sido ensinada por Jesus, separou os homens
(civilizados) dos animais e "índios "; "Deus l e v a n t o u toda
criaçã o; a n t e s só t i n h a o homem, o Guarani. Depois criou o
juruá, só depois a mu lher, tava faltando pra fazer
comunidade, assim tava er rado. Então pediu pro homem, por
favor, n u n c a m a l t r a t a r mu lher. Daí então, a u m e n t o u , filho,
filha, neto. A n t e s os b i c h o s f a l a v a co m a gent e, gato, pato,
galin ha, mico, onça, tudo. Só no começo, no p r i m e i r o mund o,
v i v i a t u d o igual c o m o índio. 0 branco ne m s a b i a escrever
nada, só na cabe ç a , foi ind o assim. Depois veio o Jesus pra
en s inar a e s c r e v e r . Aí s e p a r o u tudo, mico, onça, galinha,
fica tudo b i c h o ; e n t ã o fico u t u d o pr o mato, bem selvagem,
igual a índio. Deus sabe de tudo, então ele tem poder;
q u a n d o fez o h o m e m s e p a r o u t o d a s as nação; e s t e é o b r a nco,
e s t e o índio, este o kambá. 0 índio fica no m a t o p o b r e ; o
J u r u á fica n a cidade, no limpo, fica rico, é assim".
Í43

J o ã o da S i l v a r e l a c i o n a a f i g u r a de T u p ã a Jesus
que t e r i a p a r t i c i p a d o da c r i a ç ã o do n e g r o (= ka mbá): "Depois
que v e i o Jesus, Tupã, é que a p a r e c e u o br an co. Ele veio no
m u n d o par a e n s i n a r o índi o e o br anco. T e m m u i t o que sabe,
que r e c o n h e c e Tupã, o Jesus,- tem m u i t o que trata como o
diabo. J e s u s foi de c a s a em casa, ensinando, explicando e
curando. El e c h e g o u n u m a casa que t i n h a c r i a n ç a d a . 0 d o n o da
casa olhou e dis se , 'o J e s u s ve m vin do' , aí disse pras
crianças, 'o J e s u s v e m cheg and o, vai se e s c o n d e r t u d o aqui ',
e e n t o u t u d o no f o r n o pra não e n x e r g a r o Jesus. Eles eram
t u d o j u r u á antes . Então Jesus percebeu e m a n d o u tira r , a
c r i a n ç a d a t a v a t o d a p retinha; e n t ã o d i s s e p r a lavar no rio.
Mas só lavou o pé e a mão, r e s t o f icou t u d o p r e t i n h o . Aí que
c o m e ç o u o kamb á. K a m b á já não c o m e gente". Os M b y á d e B r a c u í
mantêem relação muito amistosa com a população negra da
a d j a c ê n c i a de sua ald eia.

Eduardo Viveiros de Castro ( 1 9 8 6:694), falando


sobre a questão da a n t r o p o f a g i a , afirma que o canibalismo
n ã o d e v e ser t o m a d o de forma literal, mas s i m b ó l i c a , "...a
a n t r o p o f a g i a n ã o e r a a l i m e n t a r mas ritual. Ritua l alimentar
entretanto - e implicando um a a n i m â l i z a ç ã o 'simbólica'". 0
a utor ( 1 986:641) t r a b a l h a a q u e s t ã o c o l o c a n d o que a porção
anim a l da P e s s o a e s t á a s s o c i a d a ao c o n c e i t o de T U P I C H ú A . ou
seja "espírito animal" que a c o m p a n h a o homem regendo seus
a p e t i t e s (como foi a n a l i s a d o a n t e r i o r m e n t e ) ; também chamado
de " boca f a n t a s m a l " . S e g u n d o León Cadogan , 1962:81-2), "Para
os Mbyá, tupichúa seria um espírito maligno que,
e n c a r n a n d o - s e em um h o m e m c u l p a d o de t r a n s g r e s s õ e s às r e g r a s
s oci ais, o converte em... devorador de carne humana".
Cadogan acrescenta que tupichúa seria a " al ma da carne
h umana" , ou seja, aquilo que se e n c a r n a d o na pessoa que
c o n s u m i r a c a r n e d e s t a forma (Cadogan, 19 65:7).

Viveiros de Castro (1 986: 644) refere-se ao


problema acima como sendo a "regressão a natureza, . . .
Í44

submissão à porção tcrrestre-animal da Pessoa, produzida


pela infração das n o r m a s da Cul t u r a (n o t a d a m e n t e ; u s o do
fo go de co zinha, reciprocidade alimentar, temperança
sexual), contrap5e-se uma ética ideal (grifos meus) da
as cese, p e l a a b s t i n ê n c i a de carn e, c o n t i n ê n c i a sexual, uso
a b u n d a n t e de tabaco, generosidade absoluta, c anto e d a n ç a
f o r m a s i m é t r i c a de t r a n s c e n d e r a c o n d i ç ã o humana, isto é, a
cozinha, a sexualidade, a reciprocidade, de modo a, t o r n a n d o
le ve o corpo, sublimar integralmente a carne e alcançar a
transfiguração-maturação (o aguyje) e a
imortalidade-imputrescibilidade (o Kandire). Como observou
H. C l astres, trata-se aqui de uma dupla ética - a
s i m p l e s m e n t e hum ana, de r e s p e i t o às n o r m a s , que b u s c a e v i t a r
a r e g r e s s ã o animal, e a é t i c a da s a l v a ç ã o i n d i vidu al, do
r e n u n c i a d o r que busca superar a condição humano-mortal,
progredindo à divindade".

V i v e i r o s de C a s t r o ( Í 9 8 ó ; ó 9 ó > e n c e r r a d i z e n d o que
" . . . o s h u m a n o s se distinguem dos ani m a i s por t e r e m fogo e
leis; s e m fogo os a n i m a i s s ã o omófagos, c o m e d o r e s de cru:
s e m just iça , são a l e l ó f a g o s , e n t r e d e v o r a m - s e " ; o que remete
ao Mito do F o g o (a b u s c a da h u m a n i d a d e a t r a v é s da posse
fogo) e aos c ó d i g o s de c o n d u t a grupai, responsáveis pela
i n t e g r i d a d e da P e s s o a Guarani .

V i m o s que os M b y á c o n s i d e r a m os Xokleng "índio


b ravo ", "tupi", a c u s a n d o - o s de antropofagia. Vimos também
que os M b y á v ê e m os " b o t o c u d o s " como "índios civilizados"
que q u e r e m v iv er como "jur uá", com automóveis e outros
" l u x o s de branco"; abandonando, d e s t a forma, sua o r g a n i z a ç ã o
s oci a l g r u p a i . E s t a n e g a ç ã o das r e g r a s s o c i a i s que c o n t r a s t a
c o m o c o n c e i t o de h u m a n i d a d e da v i s ã o d o s Mbyá; implicaria
no despertar da fisionomia animalesca (o lado animal,
c o m e d o r de gente, p a s s a então a dominar a personalidade
h u m a n a ) a t ribuíd a, neste caso, aos Xokleng. 0 "botocudo",
"tupi", é "índ i o bravo ", e canibal; pois, destrói as
Í45

f l o r e s t a s e d e v o r a a c u l t u r a Guar a n i , e x p u l s a n d o os M b y á de
I b i r a m a o n d e v i v e r a m por t a n t o tempo; criando seus f i l hos,
fazendo suas oracoes, enterrando s e u s mortos, construindo
suas casas e plantações. 0 X o k l e n g " c ome gente", pois perdeu
sua humanidade através do a b a n d o n o das regras sociais; em
c o n t r a s t e com o ideal Hbyá . Para nossos informantes; o
c o n t a t o traz a b e b i d a que l e v a à desorganização social, a
exogamia e, finalmente, à morte. Desta forma, o
distanciamento é fundamental na c o n t i n u i d a d e da sociedade
Hbyá. A q u e s t ã o da b u s c a da Yvy M a r a Ey p ode constituir-se
como a retomada da p e r s o n a l i d a d e total (divina) dos Mbyá,
a t r a v é s da p r o c u r a de um espaço (tekoá) onde s e j a possível
tekó. Na t e l e o l o g i a do mito do p a r a i s o Guarani, estaria
sendo invocado o lado perdido da personalidade Mbyá,
c o l o c a d o em o p o s i ç ã o ao c a n i b a l i s m o que s i m b o l i z a r i a o ato
c o m e t i d o por o u t r o s g r u p o s ( como os X okleng), que destroem
ou d e v o r a m a cultura Guarani, a t r a v é s da expropriação e
e x p l o r a ç ã o c o m e r c i a l da t e r r a ( v i r g e m e fértil) fundamental
p a r a sua s o b r e v i v ê n c i a .

"Aqui nós s o m o s t u d o Guar a n i , p u r o Hbyá; por isso,


nunca podemos abandonar costume, casa r co m outro índio e
bran co. Não p o d e m o s v iver c o m o branco, long e do m a t o e da
n e b l i n a da manhã. M b y á só quer v iver no m a t o c o m o se nunca
t i v e s s e e n x e r g a d o o br anco. M b y á s e g u r a nação, costume, reza
s empr e, nunca esquece de De us. Hbyá só quer um lugarzinho
dele, longe do juruá e d o o u t r o índio; d e n t r o do costume
puro do Gua ran i, criando plantinha, vendo a criançada
c r e s c e r be m e brincando sobre o chão da nossa terra";
e n c e r r a J o ã o da S i l v a de B r a c u í . Estas palavras finais do
C aci q u e , expressam tudo aqui l o que os H b y á pensam deles
mesmos; do contato co m o u t r o s grupos e bra nc os ; e seus
a n s e i o s quan t o a um ideal d e v i d a d e n t r o da c u l t u r a G u a r a n i .
i í - REPRESENTAÇÕES É T N IC A S

"Has não lorai cruzados que vieraa. Forai fugitivos de usa civilização que
estasos coaendo, porque soaos fortes e vingativos coio o Jabuti". (OsKaId de Andrade
- Hanifesto Antropófago)

No s i s t e m a de c l a s s i f i c a ç a o de c a t e g o r i a s étnicas
apresentadas pelos Mbyá de Bracu í, aparecem representações
de "si m e s m o " (auto-definição) e dos diversos "outros" com
os q u a i s m a n t ê m (ou m a n t i v e r a m ) c o n s t a n t e contato. Pertencer
a u m a c a t e g o r i a é t n i c a impl i c a em ser c e r t a c l a s s e de p e s s o a
c o m d e t e r m i n a d a i d e n t i d a d e bá sica, s e g u n d o Barth ( 1 9 7 6 : í6).
As distinções étnicas apontam processos de exclusão e
incl usão, pois estão embasadas no status étnico em
dicotomia. Em o u t r a s pal avras, as d i f e r e n ç a s se fundamentam
na int e r a ç ã o ; como bem coloca Barth (19 76:10), pois é no
contato que surge a distinção e, consequentemente, a
identidade, que em ú l t i m a análise, é uma expressão simbólica
i n d i v i d u a l i z a d a do m u n d o social. D e s t a forma, a etnicidade
d e v e ser vista aqui como um fenômeno de identificação,
e n q u a n t o c a r á t e r cul t u r a l . Inicialmente, devemos abordar as
c a t e g o r i a s de ide n t i d a d e , a p a r t i r do e n t e n d i m e n t o de n o s s o s
informantes (conforme foi proposto no início deste
trabalho), para posteriormente analisá-lás.

Os Mbyá, a nível de c o n t r a s t e , faz em distinção


entre índios e brancos "civilizados" (= jur uá) . Nossos
informantes de Bracuí demonstraram ter consciência da
relação de poder implícita na dicotomia índio/branco,
através da posição desigual nas situações de contato
provocada pelo colonização européia. "índio fica no mato
pobre, sujo; o j u r u á fica na cida d e , limpo, fica r i co". Não
obstante, as r e p r e s e n t a ç õ e s é t n i c a s d o s M b y á e s t ã o marcadas
pela ambiguidade, principalmente no que diz respeito a
auto-imagem, d e c o r r e n t e da c u l t u r a d e conta t o ; ou se ja, "ser
ín dio" no mundo do branco é ser subalterno, significa
p r i n c i p a l m e n t e ser e x p r o p r i a d o de s u a a u t o - c o n s c i ê n c i a .
Í47

Segundo Carlos R. Brandão (Í 986;55), "viver a


s i t u a ç ã o de c o n t a t o com o b r a nco, s i g n i f i c a ... a p r e n d e r às
p r e s s a s o que f i n a l m e n t e é 'ser índio ', no m o m e n t o em que a
d e s c o b e r t a da p r ó p r i a i d e n t i d a d e f r e n t e à do i n v asor emerge
q u a n d o ela e s t á a m e a ç a d a de se p e r d e r p a r a o índio".

Os G u a r a n i de Bracuí, c o m o o u t r a s et nias, através


do lon go c o n t a t o com a sociedade ocidental, acabaram por
i n t e r n a l i z a r a v i s ã o do branco, p r o c e s s o que c o n s t i t u i hoje
o f u n d a m e n t o s i m b ó l i c o da f o r m a ç ã ó de s u a i d e n t i d a d e étni c a .
Em o u t r a s pala v r a s , nossos informantes enquanto minorias
d i s c r i m i n a d a s são e s t i g m a t i z a d o s (ver B r a n d ã o , í 9 7 6 : 43-4 5 )
pela introjeção de p r e c o n c e i t o s do b r a nco, criando assim
r e c a l q u e s que sã o interiorizados pelo Mbyá. Esta operação
m u i t o bem d e n o m i n a d a por Brandão (Í976:Í38) "ver-se com os
o l h o s do bran c o " , i m p l i c a na a c e i t a ç ã o da r e p r e s e n t a ç ã o que
o branco, enquanto etnia dominante, tem do índio. Este
último aceita como sendo "as s u a s maneiras próprias de
p e n s a r o m u n d o e p e n s a r - s e no m u n d o " .

As c a t e g o r i a s de a u t o - r e p r e s e n t a ç ã o contidas no
d i s c u r s o do s Hbyá, apontaram uma s é r i e de características
que d e f i n e m a pessoa e humanidade. Os p r i n c i p a i s fatores
adscritivos necessários para "ser Hbyá", são: i- n a s c e r e
v i v e r em uma a l d e i a Hbyá; 2- praticar endogamia unindo-se
somente a membros de u m a das f a m í l i a s que constituem a
p o p u l a ç ã o d e s s a s aldeia s; 3- falar o i d i o m a n a t i v o u t i l i z a d o
por t o d o s os i n d i v í d u o s da c o m u n i d a d e ; 4- j a m a i s abandonar
as leis e r e g r a s s o c i a i s ("e tho s") c o n t i d a s era s e u sistema
cultural "tekó"; 5- Não cometer violência contra seus
" p a r e n t e s H b y á " ou q u a l q u e r e s t r a n h o ; 6- H b y á p u r o d e v e ser
enterrado no cemitério da ald eia; 7- Hão abandonar a
r e l i g i ã o do grupo, praticando diariamente a oração noturna;
8- P r e s e r v a r e m u n e a e x p l o r a r c o m e r c i a l m e n t e a t e r r a e seus
r e c u r s o s natu r a i s , pois o "ma to nossa casa" (lembrando
t a m b é m que a Terra para o Mbyá é um ser vivo dotado de
Í48

v e g e t a ç ã o que são seus "pel os" ; 9- p r o c u r a r a l i m e n t a r - s e c o m


" c o m i d a do mato", evitando produtos industrializados e,
p r i n c i p a l m e n t , bebidas alcoólicas; Í0- Sempre seguir ao
C a c i q u e da aldeia, c u j a s p a l a v r a s d e v e m ser o u v i d a s t o d a s as
v e z e s que e s t e as p r o f e r i r . ^

0 "outro", a quem se r e f e r e m os H b y á de Bra cu í, é


s e m p r e o: Kaingang (pongue), Xokleng (botocudo), Nandeva
(Xiripá), J u r u á (b r a n c o - c i v i 1 i z a d o , i n c l u i n d o o " i t a l i a n o " e
o " a lemão"), Juruá-kambá (n e g r o - c i v i 1 i z a d o ), cr ente,
cató l i c o , caboclo (nativo do litoral e / o u f i l h o de branco
com "índ i o " ) e o p e scador . Encontramos alguns brancos e
A/

n e g r o s nas aldeias Nandéva da R i o - S a n t o s , que não eram


c o n s i d e r a d o s "outro" e s i m "nós" p e l o s "Xir i p á " , pois viviam
como Guara ni.

üs H b y á d e f i n e m t o d o s e s t e s o u t r o s g r u p o s étnicos
como "diferentes", ou " n ã o - G u a r a n i "; p o i s nenhum deles se
e n q u a d r a de f orma integ ral ao seu c o n c e i t o de pessoa e
humanidade. Es te é o " e t n o c e n t r i s m o " ao qual se refere
Lévi-Strauss (í98i:í2), pois n e n h u m outro é humano (ou tão
hu m ano) quanto o Hbyá; nenhum outro tem todas as
características necessárias para ser humano (descritas
aci ma). Finalmente, nenhum outro é tão Guarani quanto os
Hbyá o são; pois, ser G u a r a n i é ser automaticamente e
i n t e g r a l m e n t e humano, em t o d o s os s e n t i d o s que e l e s possam
a t r i b u i r ao vern á c u l o . Ser G u a r a n i é ter o m a i o r nível de
s o c i a b i l i d a d e que um ser v i v o p o d e a l c a n ç a r ; l e m b r a n d o aqui,
o " H i t o d o s Gêmeo s", onde o deus Guarani, Kuarahy, rouba o
fogo, que pode simbolizar a passagem do hom em, do mundo
animal para humanidade (pois, c o m o foi vi sto, s e m fo go o
h o m e m t e r i a que co mer cru c o m o os animais). Desta forma,
Kuarahy "guaraniza o mun do", i m p e d i n d o que os Hbyá, seus
fi lh os e a u t ê n t i c o s s eres h u m a n o s , se c o m p o r t e m c o m o a n i m a i s
d e v o r a d o r e s de c a r n e humana.
Í49

Em c o n t r a p a r t i d a , a civilização cristã ocidental


(que t a m b é m se c o n s i d e r a ú n i c a e v e r d a d e i r a ; promovendo por
e s t e m o t i v o o p r o c e s s o de c o l o n i z a ç ã o ) , trouxe a escrita, a
religião e as p a l a v r a s de um deus estrangeiros, a estes
"selvagens". A escrita, que segundo o Cacique, teria
s e p a r a d o os h o m e n s dos a n i m a i s e í n dios (ao c o n t r á r i o do que
fez K u a r a h y a t r a v é s do fogo), c o l o c o u os "índ i o s " no mesmo
nível e x i s t e n c i a l dos an imais, p o i s "os b i c h o s f icou n o m a t o
bem s e l v a g e m que nem índio".

A escrita para estes G u a r a n i d e m o n s t r a que o ato


"civi 1 i z a t ó r i o ” ( r e a l i z a d o por h e r ó i s míticos, c o m o Jesu s,
no caso dos bran c o s ) é a f r o n t e i r a e n t r e o " m u n d o do ín dio"
e o "m undo do bra nco ", o que leva os M b y á a q u e s t i o n a r e m a
v a l i d a d e da e s c o l a dos b r a n c o s em s u a s aldei as. 0 contato
e n t r e esse s d o i s mundos é marcado desde o princípio pelo
conflito (reportando à narrativa do Cacique sobre o
" D e s c o b r i m e n t o do Bra sil" ). 0 fato dos a n i m a i s t e r e m ficado
no m a t o "bem s e l v a g e n s c o m o o índio", pode d e m o n s t r a r mais
uma vez, a a m b i g ü i d a d e g e r a d a pela i n t r o j e ç ã o da v i s ã o do
branco, pel os Hbyá.

N e s t e q u adro surge a U s i n a Nuclear, símbolo do


p e r i g o em p o t e n c i a l g e r a d o p e l o contato; p ois constitui-se
c o m o forte m a r c a cultural de o p o s i ç ã o aos Hbyá, que ligam
e s t a " f á b r i c a do branco", ao fim do mundo, consequentemente,
ao o c a s o do s i s t e m a Guara n i . A U s i n a de A n g r a dos Reis,
r e p r e s e n t a o fogo que irá d e s t r u i r o m u n d o até o a n o dois
mil (con f o r m e a c r e d i t a m os Hbyá); ironicamente o fogo que
criou a humanidade, o G uarani.

0 contato trouxe outro importante símbolo de


d e s a g r e g a ç ã o social , a bebida alcoólica. Em s e u s discursos,
os H b y á demonstraram grande preocupação em responder a
a c u s a ç õ e s f e itas pelo bra nco , q u a n t o ao p r o b l e m a da bebida
e n t r e os índios; quan d o declaram que "índ io puro mesm o.
i50

Guarani, nao bebe ". Neste contexto, os miscigenados e/ou


civilizados são os v e r d a d e i r o s detentores destes estigmas
( l e m b r a n d o que os M b y á a p o n t a r a m os Kain g a n g , como sendo
todos caboclos e bêbados). A q u e s t ã o da p u r e z a e n t r e os M b y á
e também marcada pela ambiguidade; pois i m p l i c a na a c e i t a c ã o
de e s t e r e ó t i p o s c o m o " í n d i o bobo"., "selvage m", etc.; imagem
que os b r a n c o s tê m do índio, i n t e r i o r i z a d a p e l o s Mbyá.

Nossos informantes Guarani demonstraram ter


c o n s c i ê n c i a de outros e s t e r e ó t i p o s (como: "índio pobr e " ,
"sujo", "mau", "f eio", " a t e u ”, etc.), a t r e l a d o s ao conceito
"índio". Esta consciência pode ter s u r g i d o a partir do
m o m e n t o em que os M b y á se v i r a m p r i v a d o s de s e u s direitos
m a i s básico s, como a p o s s e da terra, reli gião, liberdade,
etc., no contato com a sociedade nacional. Estas
representações étnicas são o d i s c u r s o dos Mbyá para os
brancos, ou seja, é d i r i g i d o ao " o u t r o g e n e r a l i z a d o " . Nestas
falas os H b y á r e c o n h e c e m s u a i n d i a nidade; porém negam que
são in feri ores, at eus, bêbados ou canib ais . Os Hbyá sã o
a p e n a s d i f e r e n t e s do p a d r ã o d i t a d o pela c i v i l i z a ç ã o cristã
oc ident al .

Os G u a r a n i de B r a c u í se c o n s i d e r a m "a m a i s s i m p l e s
naçãozinha", pelo fato de quererem viver no interior da
floresta, seguindo suas leis; ao contrário dos brancos
"civilizados". Os M b y á s a b e m por este mot iv o, que f o r a do
seu meio s e r ã o depreciados e discriminados, terão até sua
humanidade negada pelos outros grupos étnic os. Os "outros
índ ios" a f i r m a m que os M b y á sã o " í n d i o mais a t r a s a d o , nunca
sai do matoi que n e m bic ho". C o m r e l a ç ã o aos b r a n c o s , este
t i p o de complexo de i n f e r i o r i d a d e está simbolizado pela
idéia de que o " M b y á é b u g r e . . .comedor de juruá, com reza
e s tranha", conforme declarou o Cacique de Bracuí, que
a c r e s c e n t o u ain da ; "então, e l e s gritam, 'índio feio, sujo'".
L e m b r a m o s aq ui tamb é m , o episódio narrado pelo filho do
Caci que , o n d e um g r u p o de b r a n c o s de o r i g e m i t a l i a n a , tapou
Í5Í

o n a r i z ao se d e p a r a r cotn os H b y á que v i a j a v a m no mesmo


ô n i b u s que eles, no i n t e r i o r do e s t a d o de S a n t a C a t a r i n a .

A nível mais inclusi vo, distinguem nossos


informantes '’
Mbyá/nao-Mbyá" . Nestes últimos, ou seja,
náo-Hbyá, e s t a o i n c l u í d o s os X o k l e n g (B ot o c u d o s ) e Kaingang
(Pongué); com os q uais os Mbyá travaram contato quando
viveram j u nto a estes dois grupos, em suas reservas
(Hangueirinha, Ibira ma, etc.). A interação entre Mbyá e
Xokleng-Kaingang, é marcada por conflito e assimetria,
frutos, principalmente, de serem todos forçados a
c o m p a r t i 1h a rem o m e s m o e s p a c o (que, c o m o vimos, nunca é do
Mbyá). Segundo os nossos informantes Guarani, as únicas
a l d e i a s e x c l u s i v a s de M b y á no Brasil, a l é m de B r a c u í ; são,
Araponga (RJ.) e Boa Esperança (ES..K Todas as o u t r a s do
litoral norte p a u l i s t a p e r t e n c e m aos Nand éva, que t a m b é m se
v ê e m for çad os a c o m p a r t i l h a r e m seus e s p a ç o s co m os Hbyá, que
são s e m p r e c o n s i d e r a d o s m a r g i n a i s , sofrendo assim c o n s t a n t e s
d i s c r i m i n a ç õ e s por p a r t e d o s o u t r o s grupos.

Na categoria “Mbyá", definida por nossos


i n f o r m a n t e s co mo “g e n t e “, “pessoa", “í n dio puro do mato",
“Gua rani"; e s tão incluídas t o das as aldeias (mesmo
localizadas no interior das áreas de outros grupos)
identificadas necessariamente como s e n d o Hbyá. Os grupos
Hbyá residentes nestas aldeias , sã o q uase sempre
constituídos pelas m e s m a s fa mílias, também encontradas em
Bracuí (Silva, Be nite, Duarte, Eusébio,...), s e n d o que, como
v i m o s acima, o casamento somente é permitido entre seus
membros (caracterizando a endogamia). 0 limite exato en t r e a
c a t e g o r i a “H b y á / n ã o - H b y á “, é a o b r i g a t o r i e d a d e da r e s i d ê n c i a
n u m a d e s s a s al deias, fora das quais os H b y á e s t ã o s e m p r e de
p a s s a g e m “Hbyá puro tem que mora r na aldeia, junto dos
parentes; se sair não é mais índio". Residir na aldeia
i m p l i c a na a c e i t a ç ã o da s r e g r a s s o c i a i s do grupo, que m a r c a m
os limites e controlam a circulação interétnica. São os
Í 5E

meios pelos quais as minorias conservam seus reduzidos


espaços sociais, d i a n t e do a v a n c o da sociedade nacional.
Aceitar estas le is s i g n i f i c a em " j ogar o m e s m o jogo", ou
seja, falar a m e s m a língua do gr upo, crer no m e s m o deus,,
s e g u i r as r e g r a s soci ais , etc..

Nossos i n f o r m a n t e s de Bra c uí, reivindicam para si


a identidade de autênticos Guarani, equivalente a ''puro
tibyá", d e s t a f o r m a n a o há d i s t i n ç ã o e n t r e os dois termos.
Entretanto, os Nandéva, também Guarani, sáo c o n s i d e r a d o s
p e l o s Hbyá, como s e n d o "quase G u a r a n i " ou "m eio Guarani",
r e l e g a n d o - o s a uma c a t e g o r i a t a m b é m a m b í g u a de i d e n t i d a d e , o
que imp lica , dependendo da situação de cont ato, em
distinção. Estes "Xiripá" não são incluídos na categoria
Guarani, pois, apesar da língu a ser parecida.; b e b e m muito
( t a m b é m d u r a n t e a reza) e misturam-se com brancos e outros
índios. D e s t a f or ma os Nandéva d e m o n s t r a m que seu " s i s t e m a e
diferente", segundo nossos i n f o r m a n t e s .

É importante ressaltar que dependendo da


c a t e g o r i a que e s t á em oposição, nossos informantes podem
utilizar para se auto-designarem, os t e rmos "ín dio ",
"Guarani", ou "Mbyá". E st es c o n c e i t o s a p a r e c e r a m na mesma
intensidade em seus dis cursos. A este nível, quando
i n t e r r o g á v a m o s um Nandéva s o bre os "autênticos Guarani",
estes atribuíam o conceito a si mesmos; como fizeram os
Hbyá. Estes últimos por sua ve z eram apontados pelos
" X i r i p á " c o m o s e n d o não- G u a r a n i , "Kainguá" (ou seja, "gente
do ma to"), "índios inferiores e atrasados"; pois só v i v e m no
mato, c a s a m - s e e n t r e si, etc..
rJ

Os N a n d é v a , se o contexto assim exigir, podem


e x c e p c i o n a l m e n t e t a m b é m ser c l a s s i f i c a d o s como G u a r a n i , numa
o p e r a ç ã o de i n c l u s ã o e/ ou conversão do "ou tro" em "nós".
Isto d e p e n d e r á do nível de a s s i m i l a ç ã o em que se encontram
estes grupos com relação à s o c i e d a d e re gi onal ; ou seja,
Í53

qu an to m a i s d i s t a n t e dos b r a n c o s em t e r m o s c u l t u r a i s , mais
fs j

os N a n d é v a p o d e r ã o ser c o n s i d e r a d o s iguais, ou "Guarani’


',
p e l o s Mbyá. Em contrapartida, em a l d e i a s onde existe alto
grau de convertidos a outras religiões, onde se fala
português internamente, onde. se pratica a exog a m i a ; os
X i r i p á s e r ã o v i s t o s c o m o n ão-Gu.ar an i . N a t u r a l m e n t e , t o d o s os
outros grupos étni c o s estão totalmente excluídos d esta
operação, pois estas categorias (principalmente o branco
" c i v i l i z a d o " ) são i r r e v e r s i v e l m e n t e a n t a g ô n i c a s c o m relação
ao Hbyá A principal c a r a c t e r í s t i c a da r e p r e s e n t a ç ã o étnica
"índio/branco", g e r a d a p e l o contato, é a i r r e d u t i b i 1 idade de
uma à. outra.; pois, o "índ i o " que d e s e j a v i v e r c o m o "juruá",
não p o d e r á d o r a v a n t e ser c o n s i d e r a d o "índio".
r>J
E n q u a n t o os N a n d é v a v e e m os M b y á coir-o " atr a s a d o s " ,
os Mbyá consideram os Xokle ng, belicosos., predadores da
natureza e civilizados (poi-s n ã o s e g u e m s u a s r e g r a s sociais
tradicionais). Os "Botocudos", por estas características,
não sã o s e r e s h u m a n o s d i a n t e d o s o lhos d o s Hbyá, que os viem
c o m o " a n i m a i s d e v o r a d o r e s de c a r n e hum a n a " . Estas e outras
acusações, como roubo e assassinato, marcam o limite preciso
entre homem e animal, entre o G u a r a n i - H b y á e os "outr os" .
Por t u d o isto, os Xok l e n g são c h a m a d o s de " t u p i " p e l o s Mbyá,
t e r m o que c o r r e s p o n d e a tupichuá (como vimo s, a " alma da
c a r n e crua " ) . Os Mbyá também usaram o termo "jaguá" (ou
seja, cão), p a r a se r e f e r i r e m a o s B o t o c u d o s , por e s t e s s e r e m
a c u s a d o s de come r carne crua (pois os c ã e s comem c ar ne
crua).

Os K a i n g a n g são c o n s i d e r a d o s p e l o s Mbyá, bêbe dos ,


ladrões e também destruidores da natureza; "sistema
d i f e r e n t e ... d e r r u b a árvo r e , não respeita a
n a t u r e z a ...k a i n g a n g é mais de deixar sistema, civiliza
muito, h o j e q u a s e tudo c a b o c l o " . Todas e s t a s c a r a c t e r í s t i c a s
também excluem os Kaingang da visão de humanidade
d e m o n s t r a d a por n o s s o s i n f o r m a n t e s . Isto t o r n a a c o n v i v ê n c i a
Í54

entre estes dois grupos, quase impossível. Maria Lígia H.


Pires (1980:204) trabalha este problema e aponta a questão
da b u s c a do isolamento dos Mbyá em reservas Kain g a n g ;
declarando que os mesmos estao tentando delimitar seu
território visando à maior a u t o n o m i a , e também procuram
evitar a competição d e n t r o da rese r v a . Nossas pesquisas
d e m o n s t r a r a m que o d e s l o c a m e n t o dos Hbyá para regiões mais
remot a s , n ã o só em á reas Kaingang, como t a m b é m de outros
grupos ; visa principalmente à preservação de sua cultu ra,
a t r a v é s da t e n t a t i v a de c o n t r o l a r a c i r c u l a ç ã o interétnica.

Nossos informantes declararam também que se a


c u l t u r a G u a r a n i d e s a p arecer, o homem inserido nesta culturs.
s u c u m b i r á da m e s m a forma; pois os H b y á nã o s ã o como os
rJ
Xokl e n g , Kaingang e Nandév.a,. que b u s c a m a civilização em
detrimento de suas c ulturas. Esses grupos aceitam e
c o m p a r t i l h a m os v a l o r e s dos b r a n c o s , fator r e s p o n s á v e l pela
provável d e s t r u i ç ã o do m u n d o d o s í n d i o s e p e s s i m i s m o diante
do c o l a p s o da s o c i e d a d e G u a r a n i . S e g u n d o c o l o c a r a m os Hbyáj
" q u e r e m o s v i v e r c o m o puro Mbyá, Guarani; s e g u i n d o o sistema ,
v i v e n d o no mato, fa lando na língua, r e z a n d o p a r a n o s s o deus.
Não p o d e m o s a b a n d o n a r costume. Não queremos viver como o
bra nco . H b y á só quer l u g a r z i n h o d e l e p r a v i v e r em paz".

A relação dicotômica "índio/branco" é marcad a,


c o m o vim os , por um antagonismo irreconciliável, po is, para
serem aceitos pelos brancos, os Mbyá sabem que t e r ã o que
deixar-se "civilizar", terão que d e i x a r de ser "índio".
Entretanto, c o m o bem c o l o c a A l c i d a R. R a m o s (1985: 1 0 5 ) " m e s m o
que ele queira não pode deixar de ser índio porque os
b r a n c o s n ã o deixa m, n u n c a lhe perdoando sua indianidade".
C o m o v i m o s nas p á g i n a s a n t e r i o r e s , os M b y á d e i x a r a m de usar
o tembetá e a p i n t u r a facial ("marcas de índio"), por
v e r g o n h a do branc o. Nossos informantes declararam também
ocultar seus " n omes G u a r a n i " peío mesmo moti v o , ou seja,
m e d o de s e r e m discriminados e perseguidos. Os m a i s jovens
f r e q ü e n t a m as f e s t a s n o t u r n a s das p e q u e n a s c i d a d e s próximas
à aldei a, o c a s i a o em que p r o c u r a m p a s s a r - s e por b r a n c o s . As
m u l h e r e s b u s c a m um c a s a m e n t o c om "juruá" (como a moca do
c a p í t u l o ci nco, que s e p a r o u - s e do s e u e s p o s o e p a s s o u a ir à
n o i t e da c i d a d e para "d ancar com o juruá . . .agora ela quer
c a sar só c o m jur u á " ; como d e c l a r o u s e u e x - m a r i d o ) pelo mesmo
motivo anterior. Na c i dade o Hbyá procura esconder sus.
o r i g e m é t n i c a por ter v e r g o n h a de ser índio entre brancos,
manipulando sua imagem no s e n t i d o de se a p a r e n t a r ao seu
opressor. Todavia, este projeto torna-se invi á v e l , pois
mesmo tentando camuflar os elementos estéticos que os
identificam como pertencendo à outra cultura, os Kbsá
c o n t i n u a m s e n d o a p o n t a d o s c o m o tal, pelos brancos

Vimos que os Mbyá compartilham os espaços de


o u t r o s g r u pos. 0 contato entre estes G u a r a n i e os "outros
índios" é marcado por contrastes em diversos níve i s .
Seguindo o modelo sugerido por Pires (1980:236-7), as
identidades expressas pelo s conceitos "Hbyá/Xiripá", sáo
sociais e culturais, pois m a r c a m a d i f e r e n ç a ou a oposicáo
aos m a i s importantes costumes grupais. Enquanto que na
representação de oposição H b y á / X o k 1eng e Hbyá/Kaingang,
e x i s t e uma r e l a ç ã o de poder m a r c a d a p e l o a n t a g o n i s m o ; pois
os " B o t o c u d o s " e os "Pong ué" t e n t a m s u b j u g a r p o l i t i c a m e n t e e
negar etnicamente os Hbyá. é claro qu e há relações
assimétricas e antagônicas também entre os dois subgrupos
Guarani, entretanto não necessariamente uma relação de
poder.

No p r o c e s s o de a r t i c u l a ç ã o i n t e r t r i b a l no Brasil,
a n a l i s a d o por R a m o s e P i res (1980), c a d a g r u p o se apresenta
ao o u t r o c o m o f o r n e c e d o r de t i p o s de b e n s e / o u s e r v i ç o s , e
certa especialização que caracteriza essas relações como
i n t e r d e p e n d ê n c i a e sim biose. Neste contexto, segundo Pires
( 1 9 8 0:237), os Kaingang emergem como grupo "superior" ao
Guar a n i , mostrando uma c l a r a assimetria, e caracterizando
Í5é

r e î a c ô e s de h i e r a r q u i a . A relação Kaingang/Guarani, descrita


por Pires, é s i m i l a r à s i t u a ç ã o e n t r e X o k 1e n g / M b y á , r e l a t a d a
por n o s s o s i n f o r m a n t e s de Bra cuí.

Os M b y á c o n s t i t u e m a t u a l m e n t e o que p o d e m o s c h a m a r
de um dos e x e m p l o mai s bem s u c e d i d o s de preservação da
i d e n t i d a d e m e d i a n t e às p r e s s õ e s da s o c i e d a d e n a c i o n a l para
abandonarem sua etnicidade e cultura. A possibilidade desses
G u a r a n i de r e s i s t i r e m e n q u a n t o g r u p o é t n i c o d i s t i n t o , parece
estar l i g a d a à c a p a c i d a d e de m a n t e r e m v a l o r e s fundamentais
d e n t r o de seu s i s t e m a c u l t u r a l que são em suma; a língua,
r e l i g i ã o e o r g a n i z a ç ã o socia l. Somados a estes fa tores, está
a n e c e s s i d a d e de d i s t a n c i a m e n t o g e o g r á f i c o , que se a p r e s e n t a
como r e c u r s o f u n d a m e n t a l p a r a a s o b r e v i v ê n c i a dos Hbyá. Suas
fo rmas de resistirem a q uase q u i n h e n t o s a n o s de contato,
e s t ã o I x g a d a s ao s e n t i m e n t o c o l e t i v o de "ser e permanecer
índio", segundo Brandão <Í 9 8 6 ;í03-4), que acrescenta,
. . .uma i d e n t i d a d e p r ó p r i a se preserva,, e os d r a m a s vividos
no c o n t a d o com o homem branco p o d e m até mesmo agucá-la,
enquanto a tribo de a l g u m a f orma conserva e reorganiza
(grifo s meus) as suas estruturas s ociais". A identidade
é t n i c a é, enfim, " ... u m a t e n s a adscricão de indicadores
sociais de diferença/igualdade diante de uma etnia
dominante..." (Brandão, Í986 ; i £ i ) . é interessante
a c r e s c e n t a r aqui, que o sentimento de inferioridade por
p a r t e do "índ io" com r e l a ç ã o ao s branco, pode ajudar a
acentuar valores e t n o c ê n t r i c o s .

As c a t e g o r i a s é t n i c a s a p r e s e n t a d a s p e l o s H b y á são
fr uto s da r e o r g a n i z a ç ã o de f a t o r e s c u l t u r a i s , no s e n t i d o de
absorver novos símbolos e, desta forma, preservar
importantes valores diante da violenta interação com a
s o c i e d a d e o c i d e n t a l s o f r i d a ao l o n g o dos s é c u l o s . 0 contato
é inevitáve l, os Mbyá bem o sabem; contudo, buscam o
i s o l a m e n t o t e n t a n d o ma nter s e u " m u n d o índio". A procura de
um e s p a ç o o n d e s e j a possí v e l sua cultura (tekó), é o maior
Í57

d e s a f i o que se a p r e s e n t a h o j e aos Hbyá; que i n s i s t e m em s u a s


migrações a procurar essa "terra prometida". Neste contexto,
seria atualmente a mítica Yvy M a r a E y , uma alegoria que
s i m b o l i z a r i a a b u s c a dos H b y á à o n í r i c a te koá?

Os conceitos de pessoa e humanidade é uma


c o n s t r u ç ã o s i m b ó l i c a de s i g n i f i c a ç õ e s que os h o m e n s f a z e m a
r e s p e i t o de si próp r i o s , conforme Brandão (198 6:4 3); é uma
idéia que n a s c e nas representações empíricas do h o m e m em
soci e d a d e . Segundo E. Erickson, citado por Brandão
(1986:45), " . . . s i t u a ç õ e s que c o m p r o m e t e m a t r a n s f e r e n c i a de
um a i d e n t i d a d e grupai de uma geração pa ra outra, criam
f i n a l m e n t e c r i s e s na formação pessoal de sentimentos e da
c o n s c i ê n c i a de si". As i d e n t i d a d e s grupai e s o cial estão
ligadas ao c o n c e i t o de p e s s o a e h u m a n i d a d e que e m e r g e m de
um a dada cultura, em o u t r a s palavras, a identidade é uma
c o n s t r u ç ã o cult ural. A " c r i s e de i d e n t i d a d e " é um a d a s mais
graves consequências da r e l a ç ã o de d o m i n a ç ã o gerada pelo
contato entre "índios" e "civilizados". Como coloca Brandão
(1986 :45 -6) , a c r i s e de i d e n t i d a d e p o d e o c o r r e r quando "dois
m u n d o s e n t r a m em c o n t a t o e as r e l a ç õ e s políticas, econômicas
e culturais entre eles são desiguais e tanto a vida quanto a
identidade do grupo dominado ou colonizado precisam
s u b m e t e r - s e ao controle dos símbolos i m p o s t o s de vida e
i d e n t i d a d e do d o m i n a d o r ou c o l o n i z a d o r " .

Esta crise de identidade é gerada pela


expropriação despótica dos direitos e oportunidades no
r e l a c i o n a m e n t o co m o "ou tro ", o n d e o c o r r e a c o n t r a p o s i ç ã o de
valores e outros significados sociais (Brandão, 1986:69). Ü
r e s u l t a d o d i s t o é a d e s a r t i c u l a ç ã o da o r g a n i z a ç ã o s o c i a l , e
outros graves problemas do âmbito dos relacionamentos
i n t e r p e s s o a i s que visam à socialização dos indivídos do
g r u p o e a f o r m a ç ã o de sua p e r s o n a l i d a d e . Nossos informantes
de B r acuí d i s s e r a m que os j o v e n s não acreditam mais nos
r e m é d i o s feit os p e l o s P a j é e Caci q u e ; e além disso declaram,
Í58

■'os mais n o v o s não q u erem t r a b a l h a r na p l a n t a ç ã o p o r q u e são


preguiçosos". Estariam os jovens Mbyá procurando outros
s í m b o l o s p a r a se i d e n t i f i c a r e m em d e t r i m e n t o a sua “m a r c a de
índio", r e s p o n s á v e l por tantas discriminações s o f ridas por
e l e s ? U m a das for mas é a b u s c a do c a s a m e n t o co m o b ra nc o,
que l e v a r i a o "índio" a se t o rnar "civilizado“ como o
"juruá". Como coloca Brandão (i98é: í39 ), "neste sentido,
'ser como' p o d e r i a ser o o p o s t o l ó g ico de 'ser o'". 0 aut or
explica ainda que isto poderia representar simbolicamente
a l g o que se o b t é m do m u n d o dos bra nco s, fazendo-o per der ,
por consequência, o seu poder de expropriar o índio,
r e s o l v e n d o a s s i m a q u e s t ã o da d i f e r e n ç a m a t e r i a l e política
e n t r e as duas s o c i e d a d e s .

S e g u n d o S. Devis, c i t a d o por B r a n d ã o (Í986;54.), "a.


o r g a n i z a ç ã o soc ial e a. vida cerimonial dessas tribos foram
rompidas..., os sistemas de subsistência nativos foram
minados". P a r a este autor, os g r u p o s que s o f r e r a m contato
com a s o c i e d a d e naci o n a l brasileira, viram-se forcados a
p a r t i c i p a r e m das várias economias do país. Estes fatores
alienígenas à economia, do grupo, podem ter c o n c o r r i d o de
forma a levarem os j o v e n s Mbyá a se interessarem pelo
t r a b a l h o fora de s u a s ald ei as, abandonando assim costumes
c o m o plantar. H o j e os Mbyá, em t e r m o s de s u b s i s t ê n c i a , foram
obrigados a trabalhar para o "outro", branco, Xokleng,
Kaingang, etc.. A quem recorrer no sentido de tentar
amenizar os efeitos dessa l a m entável situação?,
perguntou-nos o Vice-cacique de Bracuí. Darcy Ribeiro
(Í979:ÍÓ9) comenta a ação de entidades burocratas e
eclesiásticas, p o s s í v e i s m e d i a d o r a s da questão,- "Sendo ambas
paternalistas (i n t e r m e d i a d o r a s protecionistas), tanto o
burocrata como o s a c e r d o t e têm a p r o p e n s ã o de desenvolver
nos índios, m e s m o nos m e l h o r e s casos, a t i t u d e s de a p a t i a e
desengano, que correspondem a quem é tratado sempre como
incapaz e como infan til ". As leis brasileiras, no q u e diz
i59

r e s p e i t o à tut ela das p o p u l a ç o e s indí g e n a s , est ao embasadas


nesta visão estereotipada, r e f e r i d a p e l o a u t o r acima.

Sobre a q u e s t ã o da subsistência, Assis Carvalho


(1981;7-8) d e c l a r a que p e l a s a t i v i d a d e s e c o n ô m i c a s mantidas
p e l o s índ ios nas reservas (agricultura de subsistência,
relacoes assalariadas) os índi o s estariam tangencialmente
articulados às relacoes capitalistas, mantendo pelas
relacoes étnicas uma identidade contrastiva à sociedade
naci ona l; porém a desagregação cultural e o etnocídio
i n v i a b i l i z a r a m a p r e s e r v a ç ã o de s e u s v a l o r e s não e n c o n t r a n d o
n e x o com a r e a l i d a d e . 0 trabalho assalariado desarticula a
e c o n o m i a c o o p e r a t i v a familiar, individualizando a forca de
trabalho, tornando vulnerável à penetração d-a sociedade
branca. Essa situação parece inverter a dicotomia
"índio/branco", porque a produção do g r u p o passa a ser
g a r a n t i d a por uma r e l a ç ã o soci a l e x t e r n a e não m a i s pelas
unidades familiares. E s t e s i t u a ç ã o se e n q u a d r a p e r f e i t a m e n t e
à realidade atual dos Mbyá, que vivem um processo de
pa u p e r i z a ç ã o , onde a compra de p r o d u t o s industrializados,
principalmente no referente à alimentação, passa a
d e s e m p e n h a r papel cada ve z mais importante. D e s t a forma, o
H b y á t o r n a - s e p r o g r e s s i v a m e n t e d e p e n d e n t e das determinações
gerais que comandam a lógica da exploração do mundo
“c i v i l i z a d o " , principalmente pelo fat o não disporem de
terr a s s u f i c i e n t e s . Logo, a subsistência, p a r e c e ser um dos
pontos mais sensíveis à p e n e t r a ç ã o de f a t o r e s e x t e r n o s , em
função da l a m e n t á v e l s i t u a ç ã o de p o b r e z a em que se encontra
este g rupo ét nico.

Neste con texto , a manutenção das categorias


dicotômicas “í n d i o / b r a n c o " , “Hbyá.-guar an i/Xok 1 eng " ,
*
“M b y á - g u a r a n i / K a i n g a n g " , “M b y a - g u a r a n i / N a n d é v a " , em ultima
t ^ t

análise, “n ó s / o u t r o s “; é condição necessária para a


p r e s e r v a ç ã o d o s Hbyá, que nã o a n s e i a m ser iguais, e sim, ter
os m e s m o s d i r e i t o s dos br anc os.
Í60

Por fim c o l o c a m o s a s e g u i n t e qu est ão; o conflito


interétnico, consequente da imposição cultural e da
d o m i n a ç ã o e c o n ô m i c a por p a r t e dos b r a n c o s , p o d e r á levar os
M b y á ao extermínio; ou eles continuarão encontrando uma
f orma de r e s i s t i r e m e r e o r g a n i z a r e m sua s o c i e d a d e , de a c o r d o
c o m os novos símbolos i m p o s t o s de fora? C e r t a m e n t e estes
Guarani aguardam atônitos o que o f u t u r o lhes d e s t i n a ; se
houver f u t u r o p a r a eles.
í E - c o n s i d e r a ç õ e s F I N A I S

Não pretendemos retornar a u m a a n á l i s e do s dados


desta dissertação. N osso o b j e t i v o aqui ( c o n s i d e r a n d o que o
capítulo onze tem cará ter conclusivo) é apenas salientar
questões gerais mais importantes. Como vimos, os Mbyá
t i v e r a m que se a d a ptar ao m o d e l o "bra nco", p r i n c i p a l m e n t e em
termos econômicos, para s o b r e v i v e r e m ao v i o l e n t o c o n t a t o com
a sociedade nacion al. Os Mbyá, extremamente pobres.,
perambulam pelas estradas do sul do Brasil, usando roupas
o c i d e n t a i s em p é s s i m o e s t a d o de c o n s e r v a ç ã o ; negando, sempre
que p o s s í v e l , a trab a l h a r para os brancos. Um dos efeitos
disto é a 'afr ib uicão de estereótipos, como "índios
vagabundos, sujos, a c u l t u r a d o s ". 0 Mbyá muda; mas não
desaparece, o que demonstra a fort e etnicidade deste
s u b g r u p o Guaran i.
i

C o m o r e s u l t a d o da s i t u a ç ã o de c o n s t a n t e contato,
m u i t a s das c a r a c t e r í s t i c a s dos Mbyá descritas por outros
autore s, foram perdidas ou modificadas (considerando a
c u l t u r a c o m o a l g o dinâmico, de a c o r d o c o m o que foi d e f i n i d o
na i n t r o d u ç ã o d e s t e trabalh o). Porém, os M b y á conseguiram
manter importantes fatores cult u r a i s . São eles,
p r i n c i p a l m e n t e ; o c ulto à Yvy M a r a E y , as o r a c ô e s n o t u r n a s e
a "língua sagrada". E ssas i n f o r m a c o e s são interditadas a
estranhos. A língua, a endogamia, e o distanciamento; são
o u t r o s i m p o r t a n t e s fator es d i a c r í t i c o s o s t e n t a d o s por n o s s o s
i n f o r m a n t e s c o m o sendo t í p i c o s do Mbyá.

Atualmente, os principais problemas enfrentados


pelos Mbyá, são a falta de te rras, pobreza, doenças,
subnutrição (consequentemente, a mortandade infantil),
alcoolismo e a desagregação social. As constantes
movimentações (em b usca de m e l h o r e s terras, subsistência e
parentes) são t a m b é m p r e p o n d e r a n t e s c a r a c t e r í s t i c a s Mbyá.
ÍÓH

Nossos colaboradores definiram-se em termos de


e t n i c i d a d e da s e g u i n t e forma; o M b y á é " g e n t e da floresta",
ou seja, nao p odem viver longe da n a t u r e z a , em cidades; não
bebem; nã o d e i x a m a reli giã o; n ã o se m i s t u r a m com b r a n c o s ou
o u t r o s índios; não c o m e m ^gente ( c o n c e i t o de humanidade);
falam a l í n g u a própria; plantam e vendem artesanato. Em
termos de cultura mate ria l, o petynguá (c achimbo), o
t e t y m a k u á (corda de cabelo para amarrar na s pernas), o
popyguá (b astão de reza) e a adjaká (cesto), são símbolos
c o n c r e t o s de sua cultura.

Perc e b e m o s , f in a l m e n t e , a necessidade de
retornarmos a campo, por um p e r í o d o mais longo, com o
o b j e t i v o de d e s e n v o l v e r m o s m e l h o r n o s s o s d a d o s e esclarecer
c e r t a s dúvid as. é fundamental, todavia, acentuarmos que
n e n h u m dos a s s u n t o s a b o r d a d o s n e s t e t r a b a l h o foi e s g o t a d o , e
nenhuma afirmativa fechada; pois nossa proposta inic ial ,
como vimos, é m o s trar dados ( étnicos) considerados
importantes, principalmente por se u caráter atual.
Pretendemos futuramente fazer a etnografia do grupo, e
melhor contextuaiizá-1o em t e r m o s políticos e econômicos,
d e n t r o da sociedade brasileira. Desta forma, acreditamos
p oder c h egar a um e n t e n d i m e n t o m a i o r e mais abrangente da
cultura Mbyá-guarani.
JUndxJô

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