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Faculdade de Educação - Unicamp

ED 007 - Cultura, Imagem e Educação.


Giovana Spoladore Amaral
13 de novembro de 2018

Quando a fé move montanhas, rumores e afetações

Entre a paisagem de areia, um dedo aponta a escolha de uma duna.


À distância, dois dedos medem a sua proporção. Enfim, um terceiro dedo
dimensiona um pico mais alto. Está demasiado alto! O que estamos
procurando?1 Um latido estridente de cachorro se funde ao agudo de flautas
ameríndias: paisagem sonora para as imagens do percurso por um vilarejo
em meio a um deserto latino-americano.

Assim inicia o vídeo “Quando a fé move montanhas”, de Francis Alÿs,


com participação de Rafael Ortega e Cuauhtémoc Medina. Um projeto que
iniciou suas pesquisas em outubro do ano de 2000 e foi executado em abril
de 2002, com apoio da Bienal de Lima. Entre a pesquisa de campo até a
apresentação em vídeo do trabalho, muitos processos aconteceram. Além
de seu vasto estudo sobre a História da Arte, a qual constantemente é
revisitada pelo desenvolvimento de outras estratégias e procedimentos;
Alÿs sempre cria pinturas para visualizar suas ideias, antes de realizá-las,
aquilo que ele confere o nome de roteiro.

Quando Richard Long realizou suas caminhadas no


deserto peruano estava propondo um conceito
contemplativo, mas se distanciava do contexto social.
Quanto Robert Smithson construiu a Spiral Jetty em Salt
Lake, estava convertendo a engenharia civil em
escultura e vice-versa. Aqui, estávamos tentando uma
espécie de Land Art para os “sem-terra” e, com a ajuda
de centenas de pessoas e pás, construímos uma
alegoria social. Este relato não é validado por um rastro
físico ou um agregado à paisagem. É quase um processo

1
Fragmento de fala do vídeo When faith moves mountains - Francis Alÿs. Ver link na bibliografia.
de alquimia que converte um roteiro em uma ação, uma
ação em uma fábula e uma fábula em um rumor, graças
à multiplicação de seus narradores. Francis Alÿs (2005
apud KONRATH, 2017, p. 177)

Cerca de 500 voluntários foram ao deserto na periferia de Lima,


munidos de pás e roupas brancas. Ao pé de uma duna de cerca de 500
metros de comprimento, criaram uma extensa linha branca na paisagem,
para mover conjuntamente 10 cm de areia. Com o objetivo de angariar os
voluntários, a equipe se dirigiu a duas universidades da capital peruana
para convidar os jovens a participar da ação. A partir do título, a primeira
impressão seria de um feito insano de deslocamento de uma enorme rocha.
Porém, com o envolvimento do projeto e entendimento efetivo do que se
tratava a ação, o rumor entre os universitários se espalhou e acometeu
outros círculos populares. Através de um rumor, do convite oral de um
conhecido a outro, a alegoria se tornou possível.

No dia anterior, quando estávamos testando as pás, o monte parecia


enorme, mas havia apenas 10 de nós. Porém, quando cheguei e vi a fila de
400 pessoas esperando lá... a duna ficou bem menor, realmente. 2

O trabalho parte de uma metáfora bíblica e desloca o conceito


arbitrário da fé individual, para a potência da realização efetiva de um

2
Fragmento de fala do vídeo When faith moves mountains - Francis Alÿs. Ver link na bibliografia.
coletivo organizado. Pode-se compreender a potência política dessa
imagem, ao suscitar movimentos de afeto e desejo capazes de articular um
grande número de pessoas. Ela torna-se uma plataforma alternativa para
a possibilidade de participação, a qual resgata o direito à apropriação da
urbe por seus habitantes. Principalmente no que concerne às grandes
metrópoles, as pessoas vivem em sistemas cada vez mais complexos e
embutidos de vigilância e controle da vida privada e social, o tempo fica
fragmentado entre as atividades programadas, as narrativas são
completamente influenciadas pela ideologia do êxito e do espetáculo, que
acabam por tornar irrisórias as múltiplas subjetividades e criam
mecanismos de falsa participação em grupo. Enfim, uma estrutura
dominante à qual parece esgotar qualquer contingência de escape. É
possível, portanto, compreender a preocupação do artista em realizar
trabalhos coletivos, principalmente em países em desenvolvimento, sob a
ótica da tessitura cultural. Algumas perguntas de Félix Guatarri a respeito
de como opera o conceito de cultura em suas variadas formas de
expressão, fazem repensar de que maneira Alÿs articula os discursos e
práticas sobre o espaço público urbano.

Como fazer para que esses diferentes modos de


produção cultural não se tornem unicamente
especialidades, mas possam articular-se uns aos outros,
articular-se ao conjunto do campo social, articular-se ao
conjunto dos outros tipos de produção (...)? Como abrir
- e até quebrar - essas antigas esferas culturais
fechadas sobre si mesmas? Como produzir novos
agenciamentos de singularização que trabalhem por
uma sensibilidade estética, pela mudança de vida num
plano mais cotidiano e, ao mesmo tempo, pelas
transformações sociais a nível dos grandes conjuntos
econômicos e sociais? (GUATARRI, 1996, p. 22)

Neste sentido, vale trazer atenção sobre a escolha do locus para a


ação. Ao realizar o vídeo na periferia de Lima, o artista busca explorar o
contraste do efeito entre aproximação e afastamento, inclusão e exclusão
dos centros, em seus aspectos físicos e simbólicos.
Quando chegamos ao topo e começamos a descer, prestei mais
atenção nas casas, nas pessoas que moram na favela. Eu senti... não digo
um lamento, mas me fez pensar.3

Alÿs parece expandir a percepção do que é urbano para além dos


limites da cidade, estendendo-o para todos os espaços onde existe
condensação de processos sociais e relações de produção. Ultrapassar ou
transpor tais limites podem demandar um esforço hercúleo, considerado
absurdo, mas as imagens mostram como ampliar o raio de um
acontecimento público é possível em um coletivo movido pelas diferentes
percepções da realidade e principalmente pela ativação dos afetos.

O que parece faltar é a faculdade de perceber, a


capacidade de produzir a partir de um acontecimento
preciso uma petição de realidade. O que nos falta
portanto, politicamente, hoje, é uma construção
coletiva das condições da percepção.(...) A miséria é
uma miséria dos afetos, cuja privatização acarreta uma
desvalorização das possibilidades de vida (...) O
problema é antes o bloqueio dos afetos e a inércia das
afetações. (MERANGE apud PELBART, 2009, pp. 38 e
39)

Assim, ao criar uma fábula que se pulveriza através de inúmeras


narrativas, que alarga as percepções e afetações, o artista instaura um
continuum que se debruça sobre a realidade capaz de “abrir um campo de
possíveis. (...) É quando ocorre uma mutação subjetiva, redistribuem-se os
afetos, redesenha-se a fronteira entre o desejável e o interesse, abre-se
um campo de possíveis.” (PELBART. 2009, p.36).

3
Fragmento de fala do vídeo When faith moves mountains - Francis Alÿs. Ver link na bibliografia.
Para tornar possível essa abertura, é preciso deixar cair por terra
todos os clichês que turvam a primeira visão sobre a narrativa dessas
imagens. O que Pelbart chama de clichês que mediam “nossa relação com
a realidade, ou conosco mesmo.”

De fato, insiste Zourabichvili, se já não acreditamos no


mundo em que vivemos, é porque vivemos através de
clichês, sobre o que é viver, pensar, indignar-se, ser
feliz etc. Já nada parece poder acontecer, pois tudo
parece já visto, já ouvido, já lido, já sentido, já feito,
em suma, tudo é preexistente, até mesmo nossas
reações diante do mundo. (PELBART. 2009, p. 37).

A escolha pela análise desse vídeo se dá justamente pela inquietação


que as imagens propõem. Elas são um interlúdio para o clichê linguístico “a
fé move montanhas”. Pensar com as imagens no movimento de entendê-
las como aproximações com a fabulação. Como fabular um mundo que
ainda não existe, um mundo desprovido desses clichês? Mesmo que, vezes
ou outra, o vídeo é permeado por depoimentos que elucidam algum
procedimento ou experiência e configuram um aspecto documentário ao
trabalho, eles, ainda assim, se distanciam do clichê primeiro. São falas
amalgamadas à outras inúmeras camadas visuais, sonoras e sensoriais que
resgatam as potencialidades possuídas no gesto de subir o monte de areia,
para depois descê-lo.
Pode-se dizer que, diferentemente de um clichê linguístico e visual,
estamos como que diante de uma “experiência fotográfica”, como sugere
Bejamin, revisitado por Didi-Huberman (2012).

Se, ao contrário, se está ante uma experiência deste tipo, a


legibilidade das imagens não está dada de antemão, posto que
privada de seus clichês, de seus costumes: primeiro suporá
suspense, a mudez provisória ante um objeto visual que o deixa
desconcertado, despossuído de sua capacidade de lhe dar sentido,
inclusive para descrevê-lo; logo, imporá a construção desse silêncio
em um trabalho de linguagem capaz de operar uma crítica de seus
próprios clichês. Uma imagem bem olhada seria, portanto, uma
imagem que soube desconcertar, depois renovar nossa linguagem, e
portanto nosso pensamento. (DIDI-HUBERMAN, 2012, p. 216)

Parte-se da mudez provisória, do desconcerto e da ausência de


sentido instaurados pelo vídeo, para a tentativa de criticar os próprios
clichês que compõem a inércia das existências puramente individualizadas.
Pessoas alinhadas, trabalhando em marcha, a exaustão nos rostos e nos
gestos; pronunciam a situação da América Latina: realizar o máximo de
esforço e conquistar o mínimo de efeito. Pronunciam a vida cotidiana dos
latinos. Muito esforço embaixo do calor do sol a pino, para carregar
pouquíssimos grãos de areia. Proporcional ao tamanho da duna, o efeito de
carregamento é muito pequeno. No entanto, o que resulta das imagens não
é o feito maquínico de moções de areia, e sim a instauração de um
movimento de coletividade. A capacidade de realizar ações políticas
aparentemente impossíveis, se forem considerados apenas como clichês de
linguagens, sem transpor os limites óbvios das metáforas inalcançáveis.

BIBLIOGRAFIA
ALYS, Francis. When faith moves mountains. Vídeo com duração de
15”06’, 2002. Acesso pelo endereço eletrônico em 12.11.18:
https://www.youtube.com/watch?v=4eNuqLnFaYA&t=502s

DIDI-HUBERMAN, Georges. Quando as imagens tocam o real. Traduzido do


espanhol, do endereço eletrônico:
http://www.macba.es/uploads/20080408/Georges_Didi_Huberman_
Cuando_las_imagenes_tocan_lo_real.pdf. Tradução de Patrícia Carmello e
Vera Casa Nova, 2012.

GUATTARI, Felix; ROLNIK, Suely. Micropolítica: Cartografias do desejo. São


Paulo: Editora Vozes. 12ª ed. 2013 Cap. I – Cultura: um conceito
reacionário? (p. 21-31).

KONRATH, Germana. Às vezes fazer algo poético pode se tornar político e


às vezes fazer um ato político pode se tornar poético: a ocupação do tempo
e do espaço na poética urbana de Francis Alÿs. Dissertação de Mestrado,
Universidade Federal do Rio Grande do Sul/UFGRS, 2017.

PELBART, Peter Pál. Imagens do (nosso) tempo. In: FURTADO, Beatriz.


Imagem Contemporânea – cinema, tv, documentário, fotografia, videoarte,
games... Volume II. São Paulo: Hedra, 2009.

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