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Alberto Eiguer

A. Carel — E Andr&Fustier E Aubertel — A. Ciccone R. Kaës


C.O
A TRANSMISSÃO DO PSIQUISMO ENTRE GERAÇÕES
enfoque em terapia familiar psicanalítica
Tradução: Lucia Helena Siqueira I3arbosa Revisão técnica: Uraci Simões Ramos
São Paulo
Unjnwco Editora
19
Título original: Le Générationnel. Approche en thérapie familiale psychanalytique
© Dunod, Paris, 1997
Ficha Catalográfica
A transmissão do psiquismo entre gerações : enfoque em te rapia familiar psicanalítica /
Alberto Eiguer ... [ al.J
Lúcia Helena Siqueira Barbosa. São Paulo : Unímarco
Editora, 1998.
248 p.
Bibliografia.
ISBN 85-86022-18-7
1. Psicoterapia familiar 2. Psiquismo 3. Psicanálise 1.
Eiguer, Aberto
CDD 616.89156
Diagramação e capa: Marcia Cristina de Souza Gornes
Revisão: Luiz Paulo Rouanet
Unimarco Editora
Av. Nazaré, 900
04262-100 — São Paulo — SP
Te!. (011) 274-5711
Email:unimarco@server.smarcos.br
Diretor Executivo
Marcelo Perine
Conselho Editorial
Jorge Cunha Lima, Cássio Mesquita Barros, Roberto Gírolia, Mvriam Augusto da Silva
Vilarinho, Luiz Gonzaga Bertclli, João Rodarte, Paulo Nathanael Pereira de Souza, Luiz
Paulo Rouanet, Claudia Negrão Balbv
Unimarco Editora
© 1998

Introdução
OS DISPOSITIVOS PSICANALÍTICOS
E AS INCIDÊNCIAS DA GERAÇÃO
RENÉRAES
Q interesse suscitado pela transmissão da vida psí quica entre gerações testemunha, há
alguns anos,
a tentativa de elaborar a crise multidimensional que afeta, hoje, os fundamentos e as
modalidades da vida psíquica: estruturação do aparelho psíquico, processo e for mações do
inconsciente, identificações, formas de represen tação e de interpretação. Crise na
inteligibilidade dos sofri mentos e das organizações patológicas, de um lado suscita das e,
sem dúvida, entretidas pelas transformações profun das das relações sociais e culturais,
cujas estruturas torna ram-se opacas e incertas. Crise nas formas de tratamento, e
conseqüentemente, nas condições de conhecimento da pró pria vida psíquica.
Em todas as dimensões desta crise, a questão da prece dência do outro e de mais de um
outro — de alguns outros
— rio destino do indivíduo persiste como uma espécie de desafio à compreensão da vida
psíquica a partir dos únicos limites daquilo que a determina de maneira interna: a ques tão
do sujeito define-se, cada vez mais necessariamente, no espaço intersubjetivo, e mais
precisamente, no espaço e no tempo da geração, do familiar e do grupal, ali onde, exata
——
A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
mente— segundo a formulação de P. Aulagnier — “o Eu pode vir a ser” ou, tem
dificuldade de constituir-se.
O que é que me vem do outro, que me é transmitido, e que eu transmito — ou transfiro —,
a que me submeto, do qual me beneficio, ou que mc arruina, do qual posso ou não me
constituir herdeiro? E o que mc vem de alguns outros? Como reconhecer entre o que eu
lhes atribuo como sendo da realidade psíquica que me conduz a isto, e o que, impon do-se
entre eles e eu, organiza, nesta realidade psíquica par tilhada, minha própria subjetividade?
Que exigências do tra balho psíquico transmitido impõem-se a seus protagonistas? O debate
inscreve-se no cerne de inclutáveis oscilações en tre a ilusão individual, que sustenta a
fantasia de uma autoprodução, scnão de uma autarquia da vida psíquica, e a ilusão grupal,
que entretém mutuamente seus indivíduos, imaginando coincidirem cm um espaço
perfeitamente com plementar e, cm uma causalidade de engendramento recí proco.
A ocorrência deste debate é contemporânea do nascimen to da própria psicanálise. Mais
uma vez, quero lembrar (R. Kães, 19931)) algi aspectos do interesse de Freud pela
transmissão da vida psíquica, seja na questão recorrente da transmissão da neurose, seja na
mais geral e especulativa, transmissão da vida psíquica entre as gerações. A primeira insiste
nas dificuldades da cura: a partir deste questio namento suscitado pela clínica psicanalítica,
a questão da transmissão é logo indissociável da questão da transferên cia. A segunda
exprime-se na hipótese da transmissão filo- genética, solução que Freud manterá bem além
de sua utili dade especulativa. E esta insistência sublinha, de fato, o quanto a questão da
transmissão da vida psíquica, entre as gerações e entre OS contemporâneos, tem para ele
um al cance epistemológico geral: uma preocupação constante de reconhecer a base
intersubjetiva da vida psíquica individual.
Assinalarei, brevemente, alguns aspectos deste interesse, de tal forma que as contribuições
contemporâneas, desen
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volvidas pelos colaboradores desta obra, dêem ao ass a medida, e permitam reconhecer a
continuidade e os trope ços da herança. Em Totem e Tabu, Freud distingue entre a
transmissão por identificação aos modelos parentais e a trans missão genérica, constituída
por traços mnemônicos das relações com as gerações anteriores, O primeiro processo
refere-se à história, o segundo à pré-história do indivíduo. Inclui-se, na pré-história, a
transmissão dos objetos perdi dos por aqueles que nos precederam, e que nos são transmi
tidos enlutados, mesmo que parcialmente. Podemos incluir também os significantes pré-
formados, que nos precedem, e particularmente, os significantes congelados, enigmáticos,
brutos sobre os quais não foi realizado um trabalho de simbolização.
Para Introduzir o Narcisismo coloca o acento nos investi mentos e nos discursos de
antecipação, isto é, sobre as de signações de lugar e de predisposição significantes no pro
cesso da transmissão: o infante é o depositário, o servidor e o herdeiro dos sonhos e dos
desejos não realizados dos pais; ele é quem dará lugar e sentido a estas predisposições que
o precedem, que o violentam, mas que são as condições de sua concepção propriamente
psíquica.
Em Psicologia Coletiva e Análise do Ego, Freud nos mos tra como se efetua a passagem de
um objeto “individual” a um objeto comum a todos os membros de uma instituição:
o que se transmite é esscncialrnente feito pela via das iden tificações. Este processo implica
em um outro: o abandono dos ideais individuais e a colocação, no seu lugar, do ideal de ego
de um outro, o objeto ideal comum ligando os membros de um grupo ou de uma instituição
nas suas identificações imaginárias mútuas. Freud propõe um exemplo notável des te
processo, o que propus chamar de efeito Ilolofernes: logo que o general da armada assíria
foi decapitado por Judith, um dos soldados grita: “O general perdeu a cabeça!” e todos se
desagregam O pânico produz-se no súbito desagrupa mento das identificações e das
formações do ideal que o sus-
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/
A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
tenta, uma vez que a cena da fantasia se petrifica, e as re presentações das palavras faltam
para pensar o risco.
Todas essas preocupações — vê-se, originalmente — as seguram a pertinência do conceito
de transmissão desde que se trate de tomar conhecimento da realidade psíquica que se
transporta, desloca-se ou transfere-se de um indiví duo a outro, entre eles ou através deles,
ou nos vínculos do conjunto, ainda que a matéria psíquica transmitida se trans forme ou
permaneça idêntica nessa passagem. No léxico e no conjunto de conceitos freudianos, a
questão da transmis são é expressamente homologada como uma dimensão mai or da
problemática psicanalítica’, mas, ainda tendo muito a construir.
As proposições de Freud são, essencialmente, especula ções e observações empíricas. Elas
ficaram muito tempo sem serem colocadas à prova, tanto que permanecem indisponí ‘eis às
formas apropriadas, diferentes das da cura individu al, mas estabelecidas a partir de
requisitos do dispositivo original.
O objetivo desta obra inscreve-se precisamente neste pro jeto, visando colocar à prova, isto
é, contribuir para validar ou para anular as hipóteses de Freud sobre a transmissão psíquica,
de modo similar às que, depois ele, foram elabora das a partir da situação da cura
psicanalítica clássica. Com base em dispositivos metodológicos novos (psicodramas psi
canalíticos, análise e psicoterapia psicanalítica de grupo, psicoterapia familiar
psicanalítica), derivados do paradig ma da cura, mas rearranjados nas funções de objetivos
perti ncntes com as novas configurações de objetos psíquicos (ca sais, grupos, famílias),
nós podemos, hoje, pensar mais pre cisamente naquilo que se transfere e se transmite de um
çt: as inúmeras referências ao pensamento de Freud e aos termos utili zados por ele, ria
minha contribuição: “Introdução ao Conceito de Trans missão Psíquica no Pensamento de
Freud” in I(a R., Faimbcrg II. e eol., Transrviission de la vie psvchique entre générations,
Paris, Dunod. 1993.

espaço psíquico a outro: essencialmente, são as configura ções de objetos psíquicos (afetos,
representações, fantasias). isto é, objetos munidos de seus vínculos, incluindo sistemas de
relação de objeto. Propus considerar a identificação como o processo maior da transmissão
(R. Kaës, 1993b). Nesta perspectiva, A. Ciccone (1995a) elaborou um novo modelo de
inteligibilidade sustentando que a natureza do objeto determina seu modo de transmissão e
que, correlativamente, o modo de transmissão é constitutivo da natureza do objeto.
Podemos, assim, de outra maneira, fazer representações de alguns processos de
transmissão. Acentuei, repetidas ve zes, que uma propriedade notável destes objetos de
trans missão é a de serem marcados pelo negativo. O que se trans mite, seria então,
preferencialmente, aquilo que não se con tém, aquilo que não se retém, aquilo de que não se
lembra:
a falta, a doença, a vergonha, o recalcamento, os objetos perdidos, e ainda enlutados. Tais
são as configurações de objetos e de seus vínculos intersubjetivos transportados, projetados,
depositados, difratados nos outros, em mais de um outro: eles formam a matéria e o
processo da transmis são, O que se transmite não é só o negativo, é também aqui lo que
ampara e assegura as continuidadcs narcísicas, a manutenção dos vínculos intersubjetivos, a
conservação das formas e dos processos de conservação e de complexidade da vida: ideais,
mecanismos de defesa, identificações, certe zas, dúvidas. E por isso que as situações
analíticas plurisub jetivas, como os grupos, são os “receptáculos” disto e, em algumas
condições, formas de transformação notáveis.
O objetivo exato deste livro é de contribuir para a evolu ção do debate sobre a questão da
transmissão da vida psíqui ca, especificando a contribuição própria da terapia familiar
psicanalítica no conhecimento dos processos e dos conteú dos desta transmissão.
Falar de contribuição própria a um método é inscrevê-la em uma perspectiva de
comparação: sabe-se que este ponto de vista é ainda quase ausente no debate psicanalítico.
Ele é,
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—A
A transmissão do psiquismo entre gerações
contudo, essencial, e ultrapassa a simples questão operató ria das indicações. Não
nos devemos perguntar, apenas, quais os problemas psíquicos que a cura individual,
o psicodrama psicanalítico, a psicoterapia familiar psicanalítica, a análise de grupo
ou a psicoterapia de grupo têm como tarefa tratar especificamente: já será um
progresso distinguir o que cada uma destas proposições considera ser, em caso
contrário, inacessível e com o que elas não podem se ocupar. A questão é de uma
outra ordem: a investigação comparativa inspira se em um princípio de economia
geral da pesquisa e da prá tica; ela se pergunta a que espécies de objetos de conheci
mento e de transformação está vinculado um dispositivo me todológico; que
inteligibilidade ele autoriza quanto à expe riência que mobiliza, e em que ele
modifica a representação que tínhamos da organização e do funcionamento destes
objetos? Se se admite que trabalhos recentes, fundamenta dos nestes dispositivos
derivados da cura, fizeram avançar a pesquisa sobre OS conteúdos e as modalidades
da transmis sao da vida psíquica, teremos como resultado, evidentemen te, algumas
conseqüências nas concepções teóricas que a psicanálise, como teoria geral dos
efeitos do) inconsciente, formou da vida psíquica e do sujeito do) inconsciente.
Assim, a questão principal da investigação comparativa, quanto à crise evocada no
início desta introdução, é de ordem epistemológica.
É preciso, então, constatar que o estudo daquilo que cada dispositivo explora,
especificamente, é um programa de pesquisa que ainda é preciso promover. Alguns de nós
começaram a se arriscar, mas nada ainda foi publicado. É que o problema é complexo: não
se trata somente de qualificar a pertinência e as contribuições específicas de tal dispositivo
para compreender a problemática da transmissão psíquica inconsciente, e para tratar a sua
patologia. uma teoria dos processos e das formações psíquicas, que aí se encontram
mobilizadas, é necessária para que as observações adquiram sentido. Não proporei aqui
senão um esboço do que poderá vir a ser um projeto de investigação e de debate, limitando-
me às características metodológicas de três dispositivos psi canalíticos.
A cura individual encontra, necess por princí pio do método, podemos dizer, a questão da
transmissão de seus objetos e de seus processos: ela O encontra através de modalidades
transferenciais pelas quais se repetem e se cons tituem as estruturas intrapsíquicas e
intersubjetivas que predispuseram as formações da neurose ou da psicose. A transferência é
a expressão metodológica deste enunciado epistemológico fundamental da psicanálise: a
transferência é transmissão. O mesmo termo é Utilizado por Freud para nomear um e outro:
die Ubertragung. Correlativamente, os objetos da transmissão são descobertos na
transferência atra vés de seus desenvolvimentos na situação psicanalítica, tais como estão
organizadas as vicissitudes da história psicossexual do indivíduo. A cura psicanalítica
“individual”, pela trans ferência e por sua análise, dedica-se a desvendar se e como, o
indivíduo está em condições de pensar e de interpretar o sentido do lugar real e imaginário
que ele ocupa, ou que lhe é destinado nas estruturas e nas dificuldades da transmis são. Só a
transferência para o analista indicadora das rela ções do analisando com o seu estatuto de
sujeito na trans missão: elo da cadeia à qual ele está sujeito, é servidor, be neficiário e
herdeiro. Os trabalhos de N.Abraham e M. Torok,
M. Enriquez, I Faimberg, J. Kristev J.-J. Baranes, J. Guillaumin, J. Guvotat e S. Tisseron
colocaram em evidên cia as dimensões e os conteúdos originais da transmissão. Eles
contribuem para distinguir esta problemática, e os re sultados de suas pesquisas são
tributários das condições do dispositivo da cura.
Para determinar o que a prática e a teoria psicanalíticas grupais nos ensinam quanto à
transmissão da vida psíquica, é necessário descrever a especificidade metodológica do
dispositivo psicanalítico grupal. Derivado do paradigma metodológico da cura, ele consiste
em uma situação plurisubjeti va organizada para que se manifestem os efeitos do incOns
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ciente nas transferências e nos enunciados associativos de seus membros.
As características morfodinâmicas destes grupos são no táveis e dizem respeito a todos os
elementos plurisubjetivos e, por conseqüência, às psicoterapias familiares. A primeira
característica é a centralidade dos analistas instituídos no lugar imaginário de fundadores do
grupo. Desta particulari dade vão decorrer algumas conseqüências maiores: os analistas e o
grupo são os objetos que os participantes têm em comum, enquanto são um e outro objetos
de investimento e de representações.
A pluralidade é uma segunda característica. Cada um dos membros do grupo será
confrontado com um encontro múl tiplo, intenso e, com vários outros indivíduos, objetos de
investimentos pulsionais e de representação: pode-se supor que uma coexcitação interna e
mútua produzir-se-à e entre ter-se-à, ol)rigafldo cada um a se defender contra uma força e
uma intensidade que escapam a toda tentativa de localiza ção e de controle. A situação de
grupo desenvolve, assim, se os elementos para-excitantes são insuficientes, situações de
tensão potcneialmente traumatogênicas. Alguns desses ele mentos são exatamente o
trabalho exigido de cada um para formar grupo e estabelecer vínculos. Algumas condições
que concorrem para a formação do inconsciente originário são assim reunidas, se se admite
a hipótese de Freud segundo a qual o originário Constitui-se, provavelmente, na ocasião da
ruptura da para-excitação. Essas condições estão reunidas em um dispositivo que permite
conhecer e, especialmente, tratar OS efeitos nas suas dimensões intrapsíquicas e inter
subjetivas,simultaneamente.
O grupo é o lugar da incidência de configurações parti culares da transferência: esta é uma
conseqüência de suas duas primeiras características. As transferências são multi laterais,
elas são difratadas sobre o conjunto de objetos do grupo: analistas, membros, grupo, extra-
grupo. Elas formam a matéria dos processos de aparelhagem dos vínculos
intersubjetivos. Não se trata então de uma diluição da trans ferência, mas de uma difração
ou de uma nova atualização das conexões das transferências. Esta característica das
transferências em situação de grupo qualifica uma das contribuições específicas da
aproximação grupal à compreen são da transmissão psíquica: o desenrolar sincrônico, na
transferência, dos nós diacrô nicos. Dir-se-á, então, que a es pecificidade da transferência
no dispositivo de grupo permi te difratar, por conseqüência, representar-figurar- (re)
atualizar a cena sincrônica e, as conexões de objetos de transferência constituídas na
diacronia e suscetíveis de serem aí transformadas.
Os processos associativos e suas modalidades específicas, na situação de grupo, são uma
terceira característica do método. A exigência de falar é aqui submetida a condi ções
particulares: a sucessão de enunciados singulares, determinados pelas representações-alvo e
pelas vigas de ligação de cada um, produz um conjunto discursivo original que leva à
inscrição dos efeitos do inconsciente. Portanto, em situa ção de grupo, os processos
associativos se organizam a par tir de uma fonte tríplice de recalcamento: aquilo que é
próprio de cada indivíduo considerado na singularidade de sua estrutura e de sua história;
aquilo que é produzido pelos próprios analistas nas suas relações em situação de grupo;
aquilo que os membros do grupo produzem para constituir o grupo. Estes conteúdos do
recalcamento têm sua origem própria, mas eles se unem, de uma maneira singular, em cada
indivíduo e eles voltam nos avatares e nas vissicitudes do trabalho associativo, por meio
das vias de retorno do recalcado que são próprias a cada um, e segundo as proibi ções e as
aberturas (a abertura de vias) que o grupo exerce sobre o processo.
Muitos de nós tentaram qualificar a contribuição especí fica do grupo sobre a compreensão
dos processos de trans missão, e eu a resumirei assim: o que é recalcado ou recusa do, para
os psicanalistas, transmite-se e representa-se no
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grupo de participantes e o organiza simetricamente (A. Missenard); o que não é analisado
(recalcado, não pensado), e constitui o que é “deixado em silêncio” no grupo (J.-C.
Rouchy) é objeto de uma aliança inconsciente para que os sujeitos de um vínculo sejam
assegurados de nada saberem sobre seus próprios desejos (R. Kaës). Penso que é através
destas alianças inconscientes que se efetua a transmissão. As alianças inconscientes são, por
função e por estrutura, destinadas a permanecer inconscientes, e a produzir a in consciência.
Sobre as funções de (co)recalcamento e, mais geralmente, as (co) defensivas constitutivas
do inconscien te, minha hipótese de base é a seguinte: em todo vínculo intersubjetivo, o
inconsciente inscreve-se e se manifesta, muitas vezes, em múltiplos registros e, em várias
línguas, de cada indivíduo e do próprio vínculo. O corolário desta hipó tese é que o
inconsciente de cada indivíduo leva a marca, na sua estrutura e nos seus conteúdos, do
inconsciente de um outro, e mais precisamente, de mais de um outro. Uma ou tra
perspectiva pode ser sublinhada: se o que é mantido re cusado e recalcado para os analistas
funciona em situação de grupo como funciona o recalcado originário dos partici pantes, por
aí abrem-se perspectivas sobre a formação e a transmissão do originário e dos significantes
enigmáticos (ou arcaicos) não somente nos grupos, mas também nas fa mílias e nas
instituições.
A família como matriz intersubjetiva do nascimento da vida psíquica é particularmente
solicitada em toda pesquisa sobre esta passagem obrigatória da transmissão da vida
psíquica entre as gerações. A psicoterapia familiar psicanalíti ca, ainda nomeada cura
familiar psicanalítica, vem se tor nando, ao longo destes últimos anos, um dos dispositivos
aprovados de conhecimento da vida psíquica, e do tratamento do sofrimento e da
psicopatologia em ação na família. Qual é a sua contribuição específica para o
conhecimento e o tra tamento dos problemas da transmissão da vida psíquica en tre as
gerações? Respostas diferentes serão, sem dúvida, propostas por André Ruffiot, por Jean e
Evelvne Lemaire,
por Alberto Eiguer ou por Évelyne Granjon, pioneiros, na França, neste domínio de
pesquisa. Em todo caso, nesta obra está colocada a questão inscrita na continuidade de ao
me nos duas outras publicações e à qual tenta responder, par ticularmente, Alberto Eiguer,
assim que avalia a contribui ção dos analistas da família quanto ao conhecimento do
problema da transmissão. Eiguer explicita com muita convic ção a sua própria contribuição,
propondo seu conceito de objeto de transmissão da vida psíquica entre gerações, e
mostrando como ele funciona na representação mítica (a genealogia dos Atridas) e na
clínica familiar (o caso de Alice e de sua família).
Limitar-me-ei, ainda, a inscrever estas pesquisas em al gumas interrogações preexistentes.
A psicoterapia familiar psicanalítica postula uma realidade psíquica da família: qual é a
consistência, a organização e a lógica próprias dessa su posta realidade, e esta pode existir
independentemente de seus indivíduos constituintes? Quais vínculos estabelecer entre a
realidade psíquica “do grupo familiar” e aquela que atravessaria cada um de seus
indivíduos considerados na sin gularidade de sua história e de sua estrutura? Explicitemos:
o que os constituiria como tais, isto é, como sujeitos do inconsciente? Estas questões
excedem, bem entendido, sua ocorrência neste dispositivo; elas valem também pelos
conjuntos intersubjetivos: casais, grupo, instituição.
O que motiva a psicoterapia familiar psicanalítica é, exa tamente, o que desequilibra a
constituição, os indivíduos, na singularidade de sua história, e que só prevalece em uma
estrutura familiar repetitiva cuja história não se conhece e, portanto, na qual os indivíduos
não são conhecidos. Mas, até onde tal proposição pode ser sustentada? Se estamos de
acordo ao pensar que a questão fundamental é definir e tornar
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inteligível em que consiste a realidade psíquica no grupo familiar e, como se liga a
realidade psíquica de seus indiví duos, é preciso admitir, ainda, a heterogeneidade dos
espaços psíquicos intrapsíquicos e grupais. Não deixei de ressal tar que eles não são
redutíveis um ao outro, exceto nas ilusões isomórficas ou metonímicas, e que nós temos
como tarefa pensar suas articulações e seus defeitos de articula ção. E por isto que podemos
considerar, como central, a interrogação que percorre as contribuições desta obra: ela trata
das condições do “vir-a-ser sujeito”.
Conhecemos de perto a resistência que os vínculos ima ginários da família e do grupo
opõem ao conhecimento da realidade psíquica do outro e dos outros. Esses vínculos visam
abolir a distância vital que cada indivíduo tem quanto à diferença de sexo e de gerações.
Parece-me ser exatamente para este ponto que se deve dirigir a análise, isto é, para aquilo
que entrava o processo de subjetivação e de revelação da psique do grupo familiar; aquilo
que dificulta o reconhe cimento dessas diferenças.
Nesta articulação, parece-me importante deduzir o du pio eixo estruturante da posição do
indivíduo e da organiza ção do grupo familiar: o eixo da aliança horizontal com o mesmo,
sustentado pelas identificações mútuas à imagem do semelhante; o eixo da filiação e das
afiliações que inscrevem o indivíduo singular e os grupos na sucessão dos movi mentos de
vida e de morte entre as gerações. É no ponto obscuro destes dois eixos que surge a
questão do narcisismo e de suas ramificações na formação dos ideais e do Superego. As
contribuições de André Carel e de Albert Ciccone renovam as reflexões neste ponto. André
Carel, introduzin do os conceitos de fixação de geração e de transmissibilidade da forma
conflituosa e, mostrando como se impõe o recurso à solução de transmissão de geração
psíquica, face à potencialidade traumática no nascimento e na traumatose perinatal. Albert
Ciceone, trabalhando os conceitos de superposição “imagóica”, de transmissão traumática e
de fantasias de transmissão. Começamos esta psico-análise,
especificamente, para compreender melhor o problema psí quico fundamental no grupo
familiar, e a levamos a cabo mesmo que justifique uma psicoterapia psicanalítica do
conjunto. É que estes espaços não são diferenciados e trata-se de os desatar de suas formas
patológicas para devolver ao indivíduo a sua capacidade de se pensar como um Eu no
conjunto.
Se, como propus, em todo vínculo intersubjetivo o incons ciente se inscreve e se manifesta,
muitas vezes, nos vários registros e, em várias linguagens, a psicoterapia familiar
psicanalítica tem como objeto específico tratar aquele que está sofrendo com o vínculo de
geração — na transmissão entre geração — para retomar aqui o conceito genérico proposto,
nesta obra, por A. Carei: Ela trata, mais radicalmente , do sofrimento que nasce dos defeitos
da geração ao for mar as condições do “melhor dos recalcamentos” e, dos defeitos do
sistema narcísico que sustenta todas as configura ções de vínculos intrapsíquicos e todos os
vínculos intersubjetivos anteriores.
Com relação às interrogações sobre o modelo de inteli gibilidade da realidade psíquica que
a psicoterapia familiar psicanalítica propõe, é preciso questionar o elemento clíni co-
metodológico com que ela opera. Um progresso considerável na conceitualização do
dispositivo da psicoterapia fa miliar psicanalítica foi realizado logo que E. Granjon cha
mou a atenção para os efeitos da presença do psicoterapcuta e, afortiori, de um conjunto de
terapeutas sobre o grupo familiar: este é desafiado a tratar sua abertura para um con junto
que comporta, doravante, uma heterogeneidade em relação a si mesmo. De toda maneira, o
que é introduzido aqui, na estrutura do vínculo intersubjetivo familiar, é a ques tão e a
função do terceiro. Esta situação é diferente da situ ação da cura ou da terapia dita
“individual”, ela é também muito diferente da que funciona em uma estrutura de grupo.
Mas, restam numerosas questões: muitas vezes, interroguei meus colegas sobre as
condições de possibilidade de
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escuta do processo associativo em uma família. Eu diria, hoje, que se trata, talvez, menos
de saber se se pode escutar, psi canaliticamente, o discurso familiar, e mais de compreender
sua organização de tal forma que sejam audíveis os dis cursos singulares que encontram aí
sua sustentação e que, no melhor dos casos, chegam a se destacar.
Tratar desta questão permitiria definir o objeto, as modalidades, as condições e os limites
da interpretação em psico terapia familiar psicanalítica. Para avançar nesta direção, seria
preciso, sem dúvida, explicitar a natureza e os conteú dos das transferências e das
resistências no tratamento psicoterapêutico que as famílias desenvolvem enquanto gru po
instituído. André-Fustier e E Aubertel abordam alguns aspectos em um capítulo desta obra,
onde expõem, de ma neira clara e precisa, os elementos metodológicos necessários para
constituir um dispositivo de tratamento do sofri mento familiar. Entretanto, não se trata
somente de acolher as resistências específicas das ft mas também dos mecanismos de
defesa que lhe são próprios e, sublinho, ne cessários para que o conjunto familiar seja
mantido na sua função psíquica estruturante para seus indivíduos. E o que quis descrever
distinguindo a função defensiva e a função estruturante do pacto de negação. Desta
maneira, ao me nos, coloca-se a questão dos limites do trabalho psico terapêutico com as
famílias, uma vez que elas constituem o quadro meta psíquico dos processos individuais.
O desenvolvimento das pesquisas sobre a transmissão da vida psíquica a partir de novos
dispositivos psicanalíticos implica em um novo modelo de inteligibilidade da formação dos
aparelhos psíquicos e de sua articulação entre os sujeitos do inconsciente Estas pesquisas
criticam as conexões estritamente intradeterminadas das formações do aparelho psíquico e
as representações solipsistas do indivíduo. Os trabalhos apresentados nesta obra, bem como
os trabalhos psicanalíticos sobre o grupal, nos encorajam a integrar, no campo da
psicanálise, todas as conseqüências teórico- metodológicas que derivam do levar em
consideração a cxi ge do trabalho psíquico que impõe à psique sua inscri ção na geração e
na intersubjetividade.
Comecei a esboçar um quadro geral para precisar esta proposição no meu livro Le gi-oupe
et 1€’ su/et clu grou pe. Elérnents pour une th psvchancilvtique du groupe, Paris, Dunod,
1993. Esta obra tem como complemento um estudo sobre a contribuição da abordagem
psicanalí tica grupal à teoria e à clínica da psique “individual”. (Un singidierpluric!, a ser
lançado por Dunod) -
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SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
Os Dispositivos Psicanalíticos e as Incidências da Geração
René Kaës 05
CAPÍTULO 1
A Parte Maldita da Herança
Alberto Eiguer 21
1. A Contribuição dos Analistas da Família 23
2.0 Conceito de Objeto de transmissão psíquica entre
gerações 26
3. A Genealogia dos Atridas 40
Conclusões 81
JAPÍTULO 2
A Posteridade da Geração
André Carel 85
1. A fixação de geração 87
2. A potencialidade traumática do nascimento 95
3. Identificação e transmissão entre gerações 104
4.OParadoxoeageração 110
5. O trabalho do superego 126
CAPÍTULO 3
A Transmissão Psíquica Familiar pelo Sofrimento
Francine André e E Aubertel 129
1. A terapia familiar psicanalítica 130
2. A questão da transmissão psíquica na terapia familiar .. 136
3. A especificidade do dispositivo de terapia familiar
psicanalítica 143
4. A clínica da transmissão psíquica entre gerações 148
CAPÍTULO 4
A Superposição Imagóica e a Fantasia de Transmissão
Albert Giccone 181
1. Transmissão traumática e fantasia de transmissão 183
2. Elementos e processo da transmissão 187
1
A transmissão do psiquismo entre gerações
3. Transmissão e enquadre familiar 195
4. Superposição imagóiea 201
Conclusão 220
BlBLIocrt 223
INDICE REMISSIVO 239
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Capítulo /
A PARTE MALDITA DA HERANÇA
ALBERTO EIGUER
Q s caminhos da transmissão da vida psíquica entre
gerações foram minuciosamente explorados nestes
últimos anos, e com excepcional eficácia. Numero sos autores puderam descobrir conceitos
e sinais clínicos, propor técnicas de aplicação doravante utilizadas por um grande número
de clínicos, dentre os quais raros são os que ignoram a importância do segredo, dos lapsos
de memória e dos lutos inumados. Graças à transgeração, os conceitos an tigos foram
definidos de outra maneira ou melhor definidos:
a identificação, a recusa, a clivagem, o negativo (Baranès J. J., 1989), o impensável, o
irrepresentável, o superego, o sim bólico, o sentimento inconsciente dc culpa (Cournut J.,
1991). A idéia da intersubjetividade familiar saiu daí refor çada, porque doravante
interroga-se, mais freqüentemente, sobre o lugar dos desejos imaginários de cada um dos
pais, inspirados na representação de seus antepassados e sobre sua disponibilidade quanto à
criança, que encontra neles um modelo de identificaçâo.
Idéias novas disputam o estatuto de conceito: a cripta e seu portador, o fantasma, os
choques entre gerações, a dele gação, a soma dc dívidas e de méritos. Os sonhos mais ou
menos típicos foram arrolados. Eles parecem preceder ou acompanhar as revelações
inesperadas a respeito dos ances
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A transmissão do psiquismo entre gerações
trais, revelações estas ligadas aos traumatismos até então inconfessáveis. Tal é o caso dos
sonhos onde a situação de segredo, de escondido, está diretamente representada: ga vetas,
chaves reencontradas, tesouros enterrados; ou pulsões vorazes que evocam a incorporação
sem um verdadeiro tra balho psíquico: animais carnívoros, predadores, às vezes, mortos,
dissecados (ou seres humanos). (Cournut J., 1983).
Novas técnicas mediadoras foram inventadas e aplicadas:
o genograma, o desenho e o mapa da família... Todo um mé todo de trabalho clínico é
reconhecido nas idéias sobre a transmissão da vida psíquica entre gerações, observada com
prioridade e considerada como a causa da perturbação. Pen so em 1. Boszormenvi-Nagy
(1973), que propôs a noção uni versal de dívida para com os pais pela vida doada. Dívida
experimentada, e que se inscreveria, paralelamente, tão bem na culpabilidade edípica
quanto no desejo de reparação (Klein M., 1934) ou na disposição à solicitude ÇWinnicott
D., 1963).
Um novo jargão nasceu: falar-se-á de “luto frio”, de “trau matismo submerso”, de “legado”
psíquico. Os caracteres pa tológicos foram descobertos: o intelectual hiperativo que busca
encher o vazio depressivo de uma mãe remotamente enlutada (mãe morta de A. Green,
1983), o “falido” e o “desértico” de J. Cournut (op. cit.). Contudo, essas pesqui sas e essa
cultura da transmissão da vida psíquica entre ge rações não foram bastante atentas em
relação à esta última no interior da hereditariedade psíquica, exceto talvez, os trabalhos de
R. Kaës (1993), na distinção entre representa ções estruturantes e desestruturantes e,
igualmente, na sig nificação, central para mim, da cena de amor que concebeu o indivíduo,
e que definiu o setor correspondente à heredita riedade física separada da hereditariedade
psíquica. A transgeração apareceu, muito freqüentemente, como o des mancha-prazeres
portador da desordem de uma transmis são que, contudo, tem as mesmas raízes ancestrais.
1. A CONTRIBUIÇÃO DOS ANALISTAS DA FAMÍLIA
Dentre os analistas, os que se ocupam das famílias são, talvez, aqueles que mais insistiram
nesses dois caracteres da transmissão, com suas interferências e suas modifica ções... A
transmissão da vida psíquica entre gerações não seria estudada por esses analistas como
uma exceção, mas enquanto uma rearticulação universal. Dito de outra manei ra, eles
insistem na vertente organizadora da mensagem da transmissão psíquica entre gerações.
Esta designação cria dorii de sentido e de amor está implícita, em verdade, na proscrição
paterna mais absoluta que é a castração que, in terditando à criança o acesso ao objeto
sexual, coloca o cam po sexual no coração do psiquismo. (EiguerA., 1983, 1985, 1989b.)
Eventualmente, é a proibição de saber que provoca mais violência, e que se opõe a essa
mensagem simbólica: quer se estabelecer o impasse destas violências concernentes a anti
gos traumatismos, proscreve tanto o saber quanto o questionamento a respeito deste saber.
(Tisseron S., 1991.) Recebendo todos os membros de uma família, o analista da família tem
ocasião de escutar os dois parceiros do casal e também de estudar as duas genealogias, o
que lhe permite apreciar o papel de um dos pais, acentuando ou, ao contrá rio, atenuando a
violência na transmissão da vida psíquica entre gerações transmitida pelo outro pai. Todo
sistema pode revelar-se modificado segundo o sexo do pai mais atingido pelos antigos
traumatismos e segundo o sexo da criança. A parte do vínculo amoroso do casal, onde se
entrecruzam as representações de objeto e os afetos, mostra-se essencial para compreender
o ancestral... As representações entre gerações organizariam, por exemplo, a escolha de
objeto dos pareci ros: o tipo de família que se desejajundar, e a educação que se pensa ser a
melhor e a mais conforme com o ideal famili arjá são pressentidos aí. Os objetos ancestrais
podem, even tualmente, estar associados ao outro ou aos objetos inter nos deste outro.
Atração, em um caso, curiosidade, desejo
Enfoque_em_terapia familiar psicanalítica
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A transmissão dc) psiquismo entre gerações
Enfoquc cm terapia familiar psicanalítica
de reparação, em outro. As analogias são, algumas vezes, impressionantes. Os ancestrais
falecidos jovens nas duas li nhagens, os abandonos de criança, nascimentos ilegítimos;
antecedentes de loucura, de delinqüência, de criminalidade ou de gestos “heróicos”. A
complementaridade entre as re presentações ancestrais em cada cônjuge não é excepcio na!,
e responde a uma lógica particular: um deles vem de uma família modesta, mas está
animado por um desejo de ascensão social que o outro aprecia e aceita porque cor responde
à sua cultura familiar (mito da criança salva das águas ou o da salvação do pobre). Em
todos estes casos, a escolha de objeto responde ao entrecruzamento de duas ten dências: o
parceiro remete ao que está “mais distante” de si mesmo (escolha exogâmica) e ao que está
“mais próximo” (escolha endogâmica), e isto dentro de proporções variá veis. A primeira
tendência inspira-se na castração; a segun da, ao contrário, na sedução ou no narcisismo. A
atração que a representação da transgeração de um exerce sobre o outro traz uma vantagem
em relação aos objetos parentais que intervêm também na escolha amorosa: ela passa, mui
tas vezes, despercebida. (Eiguer A., 1984a, 1986a, e.)
Assim, desenha-se o caráterfundador da família que é o vínculo do casal. Véremos aí uma
espécie de cena primitiva, uma matriz de prazer que tece os outros vínculos, que deli mita
as diferenças, que define, pela concepção da criança, o nascimento da família.
Para OS analistas de famílias, a transmissão psíquica en tre gerações veicula, igualmente, o
modelo do parentesco, o mesmo que ordena atrações e rejeições, prescrições e pros crições,
que distribui o lugar de cada um dos i da família. Ele está na origem da transmissão dos
mitos, dos ideais. Ele modula OS projetos de vida, como também inter vém na organização
do superego individual. Isto pode nos explicar que, se as falhas na transmissão, ligadas à
violência da transmissão psíquica entre gerações, interferem com seu aspecto organizador,
as insuficiências do superego, muito
lábil, muito severo ou muito invadido, aparecem; o indiví duo instituindo-se, neste último
caso, como um inquisidor de seus próximos. (Granjon E., 1987.)
Eis uma outra característica da apreensão familiar gru pai. Observa-se que na teoria de A.
Green (A mãe morta, 1983) ou na de A. de Mijolia (Les Visiteurs du moi, 1981), a idéia de
segredo vergonhoso f N. e Torok M., 1978) não aparece, mas ela será como que substituída
pela idéia de desinvestimento materno. A conduta do objeto de luto não é aqui,
forçosamente, condenável, o sentimento de cul pa não é, entretanto, evidente; o que
predomina nestes mo delos é uma afetividade negativa, essenciaimente impensávei. De
uma teoria do fato social escandaloso, com conotações morais para os pacientes e para os
analistas ou para o públi co que reage horrorizado diante do crime ancestral, passa- se a um
fato econômico.
Será que estas teorias tratam de situações excludentes? Eu não penso assim. De fato, todas
estas posições são exa tas, porque nós nos encontramos diante de situações clíni cas
diferentes e, contudo, próximas: representação incons ciente de um ancestral, presença de,
ao menos, três gera ções. Mas, essas teorias, por sua diversidade, nos ensinam que, desde
que se trate de disfunção, seria preferível falar em representações da transmissão entre
gerações no plural. Haveria nisto diferentes “tipos” de ancestrais e diferentes interjogos
possíveis. Eu descobri pelo menos quatro: 1. O objeto-fantasma impensável. 2. O objeto do
ancestral im postor e não necessariamente escamoteado. 3. O objeto do ancestral
idealizado. 4. O objeto edípico superinvcstido por um dos pais. (Voltarei a este ponto.)
Sugeri, acima, que a presença dos pais facilita a evocação dos ancestrais. Observa-se,
correnteinente, que a terapia familiar psicanalítica é um lugar em que a transgcraÇã() ad
quire relevo, e permite encontrar as fontes (ou uma das fon tes) da perturbação. O fato de
que duas gerações (ou mais) estejam reunidas em uma sessão mostra o sentimento de
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que pode existir continuidade entre os dois elos e aqueles que lhes precede até a origem da
descendência. Não é só o quebra-cabeças imaginário que poderá ser reconstruído aí, mas
também o quebra-cabeças genealógico, com as peças contidas no inconsciente parental.
Que o pai precede a cri ança implica que o próprio foi precedido por outros pais que lhe
legaram herança, e assim por diante. Por ocasião da fun dação da terapia familiar
psicanalítica, o critério da presen ça bi-geração nas sessões foi formulado sem que se perce
besse que 9 seu efeito na memória ancestral seria tão marcante. E posterior à experiência o
aparecimento claro deste fato. Não é raro, hoje, vermos os membros das famílias proporem,
espontaneamente, desenhar um genograma. Este gesto marca uma reviravolta singular na
cura, cheio de sur presas e dcâehados retumbantes; mas, é nas perlaborações, nas novas
narrativas, até mesmo deformadas, e sucessivas que o verdadeiro trabalho será feito,
especialmente por suas inscrições transferenciais e contra-transferenciais. Lembro que o
protocolo da terapia não prevê uma duração fixa e que o ritmo das sessões é aproximado:
todas as semanas qu cada duas semanas.
2. O CONCEITO DE OBJETO l)E TRANSMISSÃO PSÍQUICA
ENTRE GERAÇÕES
Gostaria agora de explorar o conceito de objeto trans- geração, através do qual dei minha
contribuição ao estudo desta questão. Ele fala de uru ancestral, um avô (antepassado) ou um
outro parente direto ou colateral de gerações anteri ores, que suscita fantasias, provoca
identificações, intervém na constituição dc instâncias psíquicas em um OU em vários
membros da família. Algumas observações e esclarecimen tos se impõem.
A representação, o objeto
A fórmula “representação de objeto da transmissão psí quica entre gerações” lembra que,
no inconsciente, um ob
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
jetO inscreve-se na sua representação, ela própria mantendo referência nas representações
de palavras e de coisas; me lhor ainda, a representação de objeto seria o produto de uma
combinação articulada destes dois tipos de representações. Ainda que a coisa remeta à
imagem visual, à qual vincular- se-á, com facilidade, o objeto, a imagem sonora com base
na palavra possui um papel organizador rico em fantasias e, em associações de idéias. A
Coisa é, com evidência, rica em ana logias e em deslocamentos, ao passo que a palavra
remete, mais firmemente, aos sentidos e às sínteses, às relações sintagmáticas e
paradigmáticas, dito de outra maneira, ao que une e, ao mesmo tempo, ao que cria uma
ruptura. (Eiguer A., 1987b, e.)
A origem da libido
O objeto de transmissão psíquica entre gerações — obje to de investimento — apresenta,
entretanto, a peculiarida de de se colocar como objeto de um outro e não como obje to
suporte direto da descarga pulsional. Este investimento “transita” pelo psiquismo de uma
outra pessoa, antecipada mente crotizada. Mas, como é que se pode admitir a idéia de
investir um objeto jamais conhecido? Reconheço que isto constitui uma dificuldade
conceptual de primeira ordem. Qual é o papel da palavra do pai, enquanto fonte de “repre
sentação” para a criança? Qual é a parte do amor materno pelo objeto, à qual a criança
sentir-se-á identificada ou pela qual, por sua vez, seu coração palpitará?
Se admitimos esta idéia, poderá ser produzida uma distorção na teoria analítica, cujas
conseqüências seriam encaradas como a líbido da criança descobrindo sua fonte não
somente na vida pulsional, mas ainda, na libido de sua mãe. Alguns analistas como S.
Ferenczi (1932) e J. Laplanche (1987), acabaram aceitando esta idéia. O psiquismo da mãe
atrai, orienta, desembaraça a pulsão da criança, ela indica o caminho do sexual, afastando o
que não é; ela ajuda a trans formar a excitação c sensação, como o faz com a perecp
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A transmissão do psiquismo_entre gerações
Enfoqucem terapia familiar psicanalítica
ção e a fantasia simbólica. Esta maneira de compreender o objeto-fonte libidinal representa
um interesse importante para o que se refere ao investimento do objeto de transmis são
psíquica entre gerações, que se inscreveria, afinal de contas, em um investimento já ativo, o
da mãe por seu obje to, mesmo se sua intensidade ou se sua natureza não sejam expostas
abertamente. Sua atração viria do fato de que ele se coloca, à primeira vista, como
representação de lingua gem e que, em vez de ser representado em termos visuais, o é em
termos de escuta, com tudo o que contém de fragilida de, mas também, de riquezas. (Cf.
também Ferminne M., 1994, sobre as transferências de erotismos.)
O vazio e o irrepresentável
Isto explica como a representação do objeto de transmis são da vida psíquica entre gerações
seja reunida, nos nossos debates teóricos, à falta dc representação, ao vazio, ao bran co, ao
oco. E que o desinvestimento materno, dito de outra maneira, a queda do interesse libidinal
da mãe (por oõasião dc um luto, por vergonha, por culpa...), faça nascer no bebê ou na
jovem criança um espaço de não-representação, isto é, o irrepresentável, que será tanto
mais insuportável quan t() a criança não se permitir qualquer compreensão sobre a natureza
ou a origem deste desinvestimento.
A teoria clássica da relação de objeto fala de cctrga-des praxere declescarga-prazcr; ou
depulsão dc morte que trans torna o investimento para marcá-lo com a repetição, o ódio OU
a perda dc tensão; fala da natureza e do objetivo pulsionais, ou dc particularidades do
objeto, etc. A teoria da relação dc objeto dc transmissão psíquica entre gerações falará da re
presentação e do irrepresentável (noção que, na sua radi calidade, pode estar sujeita à
caução, à medida em que na clínica um irrepresentável não é concebido senão na falta dc
uma representação que um dia se conhecerá). (Cf. Eigucr A., 1994b, 1995a.)
As paixões “clivadas”
Gosto de acentuar que estes irrepresentáveis, vindos seja de uma proibição de conhecer,
seja de um desinvestimento materno, não são jamais absolutos, porque, no primeiro caso, a
paixão que fará com que a mãe guarde seu segredo, que impeça a curiosidade de se
desenvolver, não veicula, ao me nos, uma carga e, no segundo caso, o investimento prece
dente ao choque traumático — há sempre uma tempestade antes da calmaria — pode ser
registrado pela criança. Será que ao lado do frio desinvestimento não haveria uma cor rente
subterrânea muito investida e, eventualmente, pode rosa? Como explicaremos nós, de outra
maneira, o renas cimento, no paciente em análise, de capacidades de trans formação, cujos
sinais premonitórios puderam ser figuras de linguagem, como homofonias, alossemas,
paronímias, eriptônimos, enquanto expressões de vivências secretas? (EiguerA., 1992a; J.
Cournut, 19911.)
Seria, mais exato, pois, falar em impensávcl do que em irrepresentável (ou em
irrepresentável relativo, por oposi ção a um irrepresentável absoluto e primordial, próximo
do ineognocível de que fala \V Bion (1962), e da “falta”, que ocupa o lugar que se sabe na
teoria lacaniana e na de A. Green (1993): o negativo que persiste e que trabalha...). Em
algum lugar, uma representação-coisa busca exprimir- se, encontrar um autor-analista, mas
ela não é, contudo, ina tiva. Eu diria mesmo que ela exerce urna atração segura.
Variantes
Os objetos de transmissão psíquica entre gerações não veiculam somente a vergonha que
aparece, cssencialmente,
1 Alossema é uma palavra que tem uni significado diferente daquele que o indivíduo quis
dar. Fala-se em honiotonia para as palavras que parecem semelhantes ao serem ouvidas (ef.
cortes de palavras OU recomposições dc palavras ou de sílabas). Um parônimo é uma
palavra foneticamente vizinha dc uma outra. Criptônimo: um substantivo próprio está
escondi do em unia outra expressão.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
quando se trata de um fantasma, cuja manifestação estrutu ral é a cripta, uma geração mais
tarde.(Nachin Cl., 1993.) A vergonha leva ao narcisismo no sofrimento, tanto mais im
portante quanto deficitário.
A idéia do indizível evoca a proibição que atinge a pala \Ta, a do inominável, a exclusão do
Nome do Pai (Kaës R., 1989). A idéia doimpensável evoca um espaço inapreensível, com
paredes escorregadias, às quais a criança tem dificul dade de se agarrar. No nível da
família, o inominável acaba por colocar em questão apertinência: a recusa ou a forciusão do
ancestral dos pais ou de um dos pais engendra confusão entre as gerações, distorções de
papéis e dos lugares que cada um ocupa. O caso da família de Geraldo é particular- mente
esclarecedor a este respeito. (Cf. Iltistração 2.)
Encontramos a vergonha, principalmente, nafainília nar císica, ali mesmo onde se localiza
uma criança psicótiea. (Eiguer A., 1986b, 1987a.) Em compensação, encontramos um
objeto de transmissão psíquica entre gerações que ins pira culpabilidade e idealização nas
famílias que vivem luto prolongado, inacabado e não necessariamente oculto. En contramos
um objeto de transmissão psíquica entre gera ções que inspira sentimentos edípicos nas
famílias neuróti cas (edipianas), enquanto aquele que desperta a admiração por sua
capacidade de infração da lei encontra-se nas famí lias perversas (onde se pode observar
uma criança toxicô mana, às vezes, alcoólatra ou bulímica). (Ferminne M, 1991; Eiguer A.,
1993b, 1994a.)
O lugar do auto-erotismo
Insistimos sobre o comércio impossível de relações com o objeto ancestral. E preciso, pois,
admitir que sua econo mia é fundamentalmente auto-erótica, auto-erotismo retro
alimentado pelo erotismo dos pais ou de um dos pais, e que engendra passagens como: da
excitação à sensação, da per plexidade à exaltação, da angústia ao afeto... Mas, qual será,
então, a sua “zona” erógena? A zona “oral”? O equivalente
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
da devoração imaginária convida a esta idéia (devoração que empurra às vezes para uma
ingurgitação “maciça e não digerida”, como na incorporação, passando além da menta
lização). A aproximação com o canibalismo justifica-se na medida em que se trata de morte
e de luto, pois, a única saída provisória para o indivíduo seria a apropriação imagi nária do
corpo no “triturar mastigatório” pelo controle in terno, na falta de poder “acalmar” suas
exigências, seu para sitismo, em resumo, seu rancor. Não podendo enterrá-lo, de uma vez
por todas, come-o. A tanatofihia não está excluída quando se observam, nestas situações, os
ritos funerários repetitivos, as exumações, a limpeza de ossos.
A porta permanece bem aberta, então, para que o acesso do patológico, em um dos
membros da família, venha execu tar um arrombamento no percurso monótono da
existência familiar.
A armadilha do conceito de luto
O objeto de investimento, o objeto-representação, o ob jeto de identificação e o objeto de
transmissão psíquica en tre gerações não deveriam ser reduzidos, entretanto, ao pro cesso
de luto, mesmo que a pesquisa tenha podido estabele cer seu interesse enquanto objeto, cujo
luto é inumado ou “oficial” e consciente, O objeto de transgeração recorta tam bém as
situações mais próximas da normalidade. De fato, é neste domínio que há uma função
universalmente organiza dora. (EiguerA., 1987b, 19
Pensar no luto, contudo, leva-nos a lembrar que é por este trabalho fundamental, de 1915,
que Freud se viu conduzido a reconsiderar o conceito de objeto. Essa pesquisa é essenci al,
e mostra o quanto é difícil não se considerar, simultane amente realidade exterior e
realidade interior. A perda de uma pessoa próxima excita os sentidos, desperta a dor, e
coloca na ordem do dia a antiga gestação da re-presentação que se acreditava
definitivamente adquirida. (Eiguer A., 19 Por esta razão, notemos como os analistas
kleinianos,
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A transmissõ() do psiquismo entre gerações
os mais inclinados a centralizar o funcionamento psíquico em uma única fantasia, são
levados, pelo viés do interesse pelo luto e pelas descobertas relativas à posição depressiva,
a fazer trabalhar a impressão que deixam nos indivíduos as separações e as perdas reais e,
mais especialmente, no paci ente, as ausências de seu analista.
Fantasias originárias
Reaparecendo no indivíduo através da fantasia originá ria, a mensagem filogenética reaviva
a fantasia secundária pela reatualização de um traumatismo acontecido na ori gem da
humanidade, especialmente se a experiência infan til não tiver sido determinante para o
sujeito; dito de outra maneira, ela preenche “as lacunas da verdade individual” (Freud S.,
1915-1917). Freud aplica este mesmo raciocínio ao temor da castração se a criança não
conheceu ameaça parental real. “Os resíduos psíquicos destas épocas primiti vas
constituíram uma herança que, a cada nova geração, não precisou ser reconquistada, mas
restituída à luz.” (Freud S., 1938, p.l77.) Os vestígios evoeam gestos como o incesto, o
assassinato do pai primitivo, a instauração das proibições, mas o essencial desta mensagem
deveria residir na culpabi lidade de nossos ancestrais mais longínqüos experimentada em
seguida ao assassinato do pai, e que ressoa no flO5SO pró prio inconsciente (Gillibert J.,
1974; Eiguer A., 1991e).
Curiosamentc, no interior da concepção freudiana de ar caico, todos os dados da
transmissão dc geração têm encon tro marcado: o traumatismo que precede a vida dos
genitores, a designação dc uma lei, a transmissão inconsciente através de mensageiros
intermediários. O ancestral arcaico coinci diria com o outro do pai, o avô mais próximo, e
quando OS pais evocam seus gestos inspiram-se nele, eles fazem renas cer sua lembrança
do temor da violência primitiva: dito de outra maneira, na reatualização das quatro fantasias
origi nais: ilação pré-natal, sedução, castração e a cena primitiva. Precisaríamos, enfim,
perguntar se temos necessidade’
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
hipótese biogenética para explicar que todo humano reviverá tais cenas, mesmo que, então,
uma criança ouça, com gran de freqüência, o testemu-nho sobre as cenas ancestrais. Pen
semos também nas histórias alegóricas, nos contos, nas nar rações fabulosas que alimentam
o imaginário da criança e cujos heróis a farão associar a seus objetos de transmissão
psíquica entre gerações.
A dupla paternidade e o ancestral
Examinemos, agora, a representação do objeto de trans missão psíquica entre gerações em
relação à constelação de papéis simbólicos dc) pai, da mãe e da criança, no lugar ou na
função correspondente a cada um deles, sabendo que cada membro da família pode,
segundo o vínculo, encontrar-se em lugares diferentes: um pai será, igualmente, o cônjuge
de sua esposa, o irmão de sua irmã, o filho dc seus pais e o tio de seu sobrinho. Estas quatro
possibilidades sendo as úni cas, não se poderá certamente atravessar a barreira entre os
sexos. O lugar pode igualmente permanecer vago ou ser ocu pado por qualquer outro que
não aquele que o retomaria como seu titular. O olhar do(s) outro(s) conta muito para que o
papel se desenrole e seja assumido.
Convém observar que o ancestral se apresenta como um outro (do) pai, que as relações com
a criança, caracteriza das pelo investimento de pais interpostos, a colocam fora dos
circuitos passionais do Edipo.
Nas trocas do átomo de parentesco (Lévi-Strauss C., Les structures élémentaires dela
parerité, Paris, PUF, 1949), este lugar corresponde ao do tio materno, especialmente, nas
etnias matrilincares: o agente da educação e da proteção da criança. Mais perto de nós, cm
algumas comunidades rurais tradicionais, este lugar volta, às vezes, ao avô paterno, ao
chefe do lar (Fine A., 1987) cujo prenome será escolhido para nomear o primogênito de
seus filhos ou o primogênito dos irmãos. Dois outros personagens são tomados, geralmen
te, para a escolha dc) prenome: o padrinho (ou a madrinha)
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Enfoque em terapia_familiar_psicanalítica
A transmissão do psiquismo entre gerações
ou um morto próximo, esta última escolha interferindo no trabalho do luto. Mesmo que o
padrinho não dê o seu preno me à criança, ele a nomeia por ocasião do batismo, desig
nando-a, de alguma forma, “seu filho espiritual”. Em outros casos, a escolha do prenome,
segundo o santo do dia do nas cimento, evoca os vínculos entre o ideal, representado por
uma figura ancestral, e o projeto desejado para a criança. O prenome protege, tem
qualidades propiciatórias, é fonte de identificação. Aqueles que têm o mesmo prenome, em
algu mas regiões, reconhecem-se como tendo traços semelhan tes...
Estabelecendo uma continuidade entre a fonte da des cendência e o mais jovem de seus
representantes, objeto de identificação e de investimento de pulsões inibidas, o objeto de
transmissão da vida psíquica entre gerações revela-se como um mensageiro do parentesco,
da cuïtura e da lei, e, por esta razão, ele se apresentará como o quarto persona gem familiar.
Poder-se-á igualmente refletir sobre as correspondências entre o vínculo adotivo (real ou
imaginário) e o vínculo que reata a criança a seu objeto de transmissão psíquica entre
gerações, que não é mais o seu genitor. (Eiguer A., 1995b.) Se a fantasia da história
familiar representa um papel tão vital no mundo psíquico da criança, isto é devido, em gran
de parte, ao fato de que ele sugere a diversidade; a história familiar autoriza uma dupla
filiação, situação que tornará mais tolerável, no momento oportuno, a aceitação da ascen
dência vinda de um mestre e de alguma outra figura pater na. Entretanto, a posição de um
outro pai imaginário genitor da criança (que seria o produto dos amores clandestinos da
mãe), supervalorizado, muitas vezes, coloca questões que dizem respeito à necessidade,
neste caso específico, de sabê lo seu herdeiro biológico: transmissão corpo-a-corpo, aspi
ração todo-poderosa que se inscreveria no soma.
Lembremo-nos que, nas tribos onde a família é matrilinear, o pai biológico é francamente
relegado, na verdade, d
lorizado, e tem pouco a ver com a educação da criança Algumas destas culturas ignoram até
a relação entre coito e fecundação por um homem. A criança pode ser “o espírito de um
ancestral da matrilinearidade que se reencarna no corpo da mãe.” (Citado por Handman M.-
E., 1994, a propó sito dos Trobiandeses, tribo matrilinear e de virilismo, o ca sal morando
perto da família do pai.)
Para os Nuer;
“E...] uma criança pode ter como pai social um morto ou uma mulher. Para eles, contudo, o
genitor é conhecido, já que é, muitas vezes, um servidor membro de uma outra etnia
considerada inferior, que recebe como agradecimento por seus serviços a dádiva de uma
vaca, “preço do engendramento”, cada vez que se casa uma das filhas que ele engen drou.
Aliás, este homem pode ter vínculos afetivos com as crianças que concebeu, ele é ao menos
tra tado e considerado por eles como um servidor, e jamais agirá contra eles como faz um
“pai” nesta sociedade.
“Quanto às sociedades poliândrieas o “pai” é o primogênito do grupo de irmãos, ou do
conjunto de maridos da mãe, ou ainda o irmão da mãe como para os Nuer. Neste último
grupo, um homem pode, se tem boas razões para pensar que é a sua, manter com uma
criança relações afetuosas: “Pode lhe dar pequenos presentes, brincar com ela quando de
suas visitas e mesmo oferecer-lhe seus conselhos quando crescer. Entretanto, não tem
qualquer di reito de intervir na educação da criança, e esta, não tem qualquer obrigação
habitual para com este pai. Se este homem deixa de manter relações com a mãe, deixa
também de tê-las com a criança.” (Gough, 1962, p. 364, tradução.) [ [ que nós
2 “Pai biológico” deve ser compreendido como uma fantasia, isto é, como aquele que
acredita ou pensa ser o genitor.
—34 —
—35 —
A transmissão do psiquismo entre gerações -
acabamos dc dizer a propósito da diferenciação que se instaura, em numerosos casos, entre
a paterni dade biológica e a paternidade social, podemos também estendê-lo para a
maternidade, porque mater e genitrix são, muitas vezes, separadas] (p. 68.) A mãe que
educa a criança pode também ser a mulher com a qual a família reside, uma co-esposa da
genitora” [ uma mulher do irmão do pai, seja uma mulher do avô]. “ não importa qual
mulher pode reclamar a criança: toda mãe adotiva deve ter ultrapassado a idade da
menopausa...” (Zonabend F., 1986.)
Em muitas famílias patrilineares, o pai biológico está em primeiro plano na família,
enquanto o tio materno ocupa uma posição dc “reserva”, de alternativa na educação, estabe
lecendo uma relação muito próxima e permissiva com seu sobrinho.
É, certamente, muito arriscado estabelecer correlações entre a procriação e a posição de
cada um dos pais nas nos sas sociedades, o outro pai podendo ora ser imaginado como
proeriador (história familiar), ora como não-procriador (o ancestral, o padrinho). Um fato,
parece evidente: indepen dentemente da hereditariedade biológica, a função do pai tem um
caráter psíquico. Freqüentemente, o pai guia ou interditor não é o mesmo que o pai modelo
de identificação. Importa explicitar que o pai genitor pode ser um ou outro, jamais os dois.
Tabela 1
1-listória familiar e objeto de transmissão psíquica
entre gerações
Na história
familiar
Objeto
“transge racional”
Pai biológico o
outro pai o
P genitor
Pai cultural
pai
“educador” (rival)
ancestral
(pai-modelo de
identifiea
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Enfoque em terapia familiar psicanalítica
O que a pesquisa antropológica constata é que a filiação é designada pelo grupo social, cuja
vontade tem força de realidade. Ela determina a parte da identidade da criança que retoma
um ou outro dos pais. Poderíamos aplicar esta idéia no nosso domínio da família nuclear: o
pai, aquele que deveria ser reconhecido, aceito e respeitado como tal, de pois seguido como
modelo, é aquele que o contexto imedia to, especialmente a mãe, designa como pai. Em
contrapar tida, o registro onde se tecem e se transmitem os vínculos de parentesco é legado
pela descendência ancestral; consti tuir-se-á na referência principal à qual os pais se
identificam e que transmitem às crianças.
Que a criança imagine seus pais biológicos como diferen tes dos pais que a educaram,
dependerá muito da represen tação que estes últimos fazem de sua capacidade de procri ar e
de seu direito ao prazer erótico. Da mesma maneira, se a criança imagina que seu genitor
foi o amante de sua mãe, a maneira em que a mãe vive e apresenta sua vida sentimen tal
contará muito. Ao lado das designações manifestas, a vivência dos pais designará,
indiretamente, quem será pater e quem será genitor, quem será mater e quem será genitora.
A história familiar da criança torna-se a vertente mítica dos vínculos de parentesco, ele os
confirma e... os fomentará, igualmente.
Erotismos
Gostaria de introduzir uma outra noção: o erotismo. Acon tece que o pai genitor é aquele
que partilha (geralmente) o prazer com a mãe, então, o pai educador abster-se-á. O quar to
personagem é imaginado fora dos circuitos do Edipo, no limite, temido, o que interdita,
então, em condição de não suscitar paixões, mas de produzir proteção. Seria tentado a
associar os dois pais com as duas faces do erotismo fálico genital; um, o pai sedutor, para a
mãe, e o outro, o pai da castração, para a criança, embora esta associação não subli nhe a
dimensão “função paterna” senão sob o ângulo do in terdito.
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A
A transmissão do psiquismo entre gerações ___________
Em todas estas elaborações, o(s) pai(s) se destaca(m) como objeto de investimento na
idealização ou na deprecia ção, no erotismo ou na abstinência, na função genitora ou na
função educativa; ao passo que a situação inversa, onde o pai investiria a criança destes
mesmos afetos e funções (Ou de outras) não foi suficientemente considerada, especialmen
te, no caso dapedofilia, no do pai erótico, ou mesmo perver so, sedutor da criança, menino
ou menina. A hipersexua lização parental não representa um papel menos importan te na
patologia. Os avôs sedutores estão no centro dos se gredos vergonhosos, que tornam o
imago do pai, particular- mente, inconsistente, corrompido pela parte maldita. Volta rei a
isto, mais longamente, no parágrafo seguinte.
Tabela 2
Expectativa social e diferentes desvios das perturbações
funcionais do vínculo pai-filho
Expectativa social
Perturbações funcionais
i
Pai-9 Filho
FiIho— Pai
.
de
+
-
Delírio de
autoen
gendramento
história
familiar
+
+
Tendência
,
na rc is ie a
elevada
-
-
+
Incesto
homossexual
+
Incesto
homossexual
+
.
-
+
-
Parentesco
-
Parentesco
+
da criança
-
da criança
+ = sim: - = não; O = não necessariamente
Enfoque cm terapia familiar psicanalítica
Pode-se deduzir que o vínculo ao objeto de transmissão psíquica entre gerações assegura
uma função de regulação, de tampão ou de alternativa, por exemplo, quando o vínculo pai-
filho é funcionalmente perturbado.
Kaës (1994) chega a conclusões semelhantes por uma outra via quando aborda a questão da
fantasia de transmissão:
“ construção psíquica inconsciente que o indivíduo efetua de sua posição no vínculo de gera
ção.” Esta fantasia permite-lhe atribuir as causas do que lhe acontece à geração que o
precede — propõe R. Kaës — e, mesmo se ele as recusa estaria na direção de seu desejo. A
fantasia de transmis são... “organizar-se-ia para que possal represen tar a sua própria
posição de sujeito da geração”. Pouco importa o “conteúdo” deste legado, o indiví duo se
define ai e é o que conta. A importância mediadora desta fantasia faz-se sentir quando a
transmissão “tropeça para encontrar uma represen taÇã() psíquica. A transmissão não se
elabora [ como fantasia, na medida em que os elementos psí quicos e as funções do pré-
consciente que a tor nam possível não foram metabolizados na geração precedente. Esta
distinção faz a diferença en tre a transmissão bruta, sem fantasia de transmis são, e a
transmissão transicional. A primeira pode ser qualificada como traumática porque não trans
formada, ela está fadada à repetição do mesmo atra vés das gerações: neste caso a repetição
é a dos objetos psíquicos não acolhidos pela função simbo lizante da palavra. Na segunda, é
o jogo da transi cionalidade que torna possível ao indivíduo intro duzir um Eu metafórico,
onde os elementos de sua própria história, que recebe sem saber. são rein ventados por ele,
reencontrados e criados, como se ele fosse sujeito. E é porque pensa em ser sujeito que se o
torna, e que pode fazer sua parte nas coi sas para transformá-las em palavras vivas.”
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoquc cm terapia familiar psicanalítica
O quarto vínculo de parentesco
Conviria considerar, em suma, o investimento do objeto de transmissão psíquica entre
gerações como um vínculo, como uma relação recíproca dc objeto. Da mesma maneira que
a criança representa inconscientemente o ancestral, este último “representa” a criança, não
diretamente, por si só, mas pela fantasia do pai. O vínculo ao objeto de transmissão da vida
psíquica entre gerações pode assim, reivindicar um lugar ao lado do vínculo do casal (da
aliança), o de filiação e o de eonsangüinidade (fraternal). Estes três últimos teriam também
uni estatuto essencialmente imaginário: o das rela ções sustentadas numa vivência, do
modo que cada um ima gina que o outro representa seu vínculo e seu lugar; o dos
movimentos afetivos e ativos.
Pelas instâncias grupais, como a censura familiar (Fustier André E; Aubertel F., 1994), a
família determinará os limi tes dc cada um destes vínculos, as proibições incestuosas, os
deveres, mas também, os movimentos interativos autoriza dos, na verdade, desejados.
Para a família, o vínculo da transmissão psíquica entre gerações veicula um legado
organizador, uma herança bené vola, reparadora, ao lado da qual mora uma parte maldita
com a qual o indivíduo tentará coexistir ou lutar. Parte mal dita nos diferentes sentidos do
termo: portadora de maldi ção e de fatalidade, parte vergonhosa, fardo pesado e de obs
trução. “Mal-dita” parece-me mais pertinente que “não-dita”. Palavra mal enunciada,
desgarrada, ruidosa.
3. A GENEALOGIA DOS ÁTRIDAS
Uma leitura das representações vivenciadas pelas cinco gerações que separam Tântalo dc
Orestes permitir-nos-á
Tonto emprestado dc G. Bataillc, livremente, a expressão para designar esta parte da
herança que drena o mais excitante e o mais sórdido. OU mesmo o mais mortal.
imhrineando-os entre si.
localizar o modelo de transmissão que parece deduzir-se, des de que se considere a
dimensão da transmissão psíquica en tre gerações. Rica em desenvolvimentos épicos, esta
genea logia mítica é marcada por um retorno trágico do crime não pago: cada descendente
consagrando sua existência à vin gança de um crime cometido contra um parènte próximo.
Mas, longe de lavar a ofensa, a vingança gera outras vingan ças. Estrangeiros traídos por
membros da descendência pro feriram maldições que cedo ou tarde se cumprirão. Os cri
mes dizem respeito ao que é mais horrível: canibalismo, es tupro, incesto ou equivalentes,
parricídio, matricídio, infan ticídio. Somente o aparecimento do “superego evoluído”,
representado por uma lei tolerante, à qual se referiram os juizes do primeiro tribunal da
história, pôde parar este ciclo de vinganças e de crimes. Voltarei a isto.
Pode-se avançar a hipótese do “retorno do ancestral”, recalcado ou recusado; dito de outra
maneira, do reapare cimento, uma ou duas gerações mais tarde, do que se acre ditava
definitivamente apagado ou resolvido.
Pode ser que o exemplo que tomamos, pitoresco e, às vezes, poético, ultrapasse as
considerações teóricas ligadas ao nosso tema; também, ele não serve sempre para deduzir
um modelo, mas, simplesmente uma metáfora, uma analo gia ou uma ilustração. Mas o seu
ângulo de observação é excepcional: diferentemente da clínica, onde reconstruímos (muitas
vezes incompletamente e nos engajando em rela ções causa/efeito muito fantasiosas;
Pédinielli J.-L., 1994), vemos nestes mitos como a origem ancestral da delegação
configura-se e porquê.
Pedofagia ou pedofilia
Neto direto de Cronos e de Réia (segundo uma variante) por sua mãe e filho de Zeus (ou de
Timolos), Tântalo, acredi tando que tudo lhe seja permitido, inflige duas ofensas gra ves
aos deuses: de um lado, trai os segredos de Zeus, rouban do a comida divina para partilhá-la
com seus amigos mor-
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Atransmissõo do_psiquismo entre gerações
tais; e, de outro, convida todos os deuses para um grande banquete onde ele serve, como
refeição, seu filho Pélope cortado em pedaços; isto a fim de por à prova sua onisciên cia.
Evidentemente, os deuses percebem e ficam horroriza dos. O desafio de Tântalo é
severamente punido: ele é sus penso em um galho de uma árvore frutífera sem poder tocá
la, inclinado sobre um lago sem poder beber a água. Este eterno suplício é tanto mais
penoso quanto os frutos esti mulam seu apetite, e as ondas molham seus pés por um pe
queno instante.
O gesto de Tântalo lembra o hábito dos antigos morado res da Grécia, que faziam oferendas
humanas, o que os Helenos, recentemente chegados do Norte, reprovavam. Se gundo
alguns mitólogos, Tântalo foi, por sua vez, um Titã do Sol e o rei de um país arborizado.
(Graves R., op. cit., p. 27.) Os Titãs pré-olímpicos eram antropófagos, como Cronos, avô
materno de Tântalo, que comia as crianças que Réia lhe dava. Com efeito, á contra ele que
se revolta, posteriormente, Zeus. Este último, representa o novo deus triunfante das antigas
divindades-mães, de onde emerge Tântalo como um porta- bandeira irreverente. A
abstinência imposta a Tântalo mar ca a recusa da carne humana e o espírito de contenção.
Não tendo introjetado esta lei, ele será obrigado a suportar, re petidamente, a proibição de
comer: primeira lei da oralidade, que prescreve o leite, mas proscreve o seio, em uma não
realização do desejo, cuja única saída fica sendo a fantasia (antagonismo punição-
culpabilidade, Freud S., 1915-1916). A devoração do seio seria correlativa ao
infanticídio/parada dc geração, uma levando à outra. Preferindo honrar seus hóspedes, cuja
presença à mesa o lisonjeia, Tântalo recusa- se a proteger sua progênie; contradição, pois,
entre o soma que, pela incorporação da criança, aspira à eternidade, e a reprodução da
espécie — que é, afinal de contas, uma ma neira de nos tornar eternos —, mas Tântalo não
se preocupa com isso.
Depois dc haver punido Tântalo, Zeus ressuscita Pélope, recompondo seu corpo, ao qual
falta o ombro comido por
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_________ Enfoque em terapia familiar psicanalítica
Deméter. Ele é substituído por um ombro de marfim. Os deuses ficam encantados.
Possêidon o leva pelo Olimpo, toma o como companheiro de cama, torna-o seu escanção e
lhe ensina as artes hípicas.
Convém sublinhar que estes desenvolvimentos do mito são infiltrados e inspirados pelas
mudanças culturais intro duzidas pelos Helenos. A oferenda de sacrifício da criança é
recusada pelos recém-chegados, e como que trocada pela pedofilia, uma oferenda da
criança ao deus que irá formá-lo espiritualmente (ef. o rapto de Ganimedes por Zeus), para
anexá-lo ao imaginário homossexual que ressoa em toda re lação mestre-aluno. Os Flelenos
instauraram um parentesco patrilinear e patriarcal transtornando os dados anteriores, os de
uma família matrilinear. (Cf. Bril J., 1983.) A homos sexualidade grega é primeiro atribuída
aos deuses que, cm seguida, a teriam partilhado com os humanos, não sem evo car a
ascendência de um pai triunfante, que quer retirar a criança da mãe e representar, para ele,
um papel erótico.
Em outros numerosos pontos, este mito lembra o triunfo dos Helenos sobre os habitantes
primitivos da Grécia: a in trodução de técnicas mais avançadas, o arado, a estrada, a
carruagem, e, quando das invasões ulteriores, o ferro, que substitui o bronze. A incineração
dos mortos é substituída pelo sepultamento. O cavalo introduzido pelos Helenos vai
progressivamente servir às tarefas agrícolas, e à guerra (até então, o arado e a carruagem
eram puxados pelos asnos). O aparecimento do patriarca traduz-se pelo culto dos pais; o
calendário solar substitui o calendário lunar. Pouco a pouco os helenos desenvolvem os
esportes, as competições atléti cas e hípieas, o teatro, as assembléias citadinas e os tribu
nais.
O superpoder dos pais é marcado neste mito: ainda é Zeus que faz renascer Pálope no
caldeirão mágico, substituto do útero. O grupo substitui a cena primitiva: Zeus, como chefe
unisexuado, á ajudado por Flermes, que reúne os fragmen tos de Pélope, por meio de Cloto,
uma das Parcas, que os
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A
A transmissão do psiquismo entre gerações
analit
coloca no lugar, por meio de Deméter, que transporta o ombro em marfim, e por Réia, que
lhe insufla a vida, bem como, mais tarde, Deus insuflará o pneuma em Golem mo delado
em argila por Maharal de Praga. Curiosa sobrevivên cia do mito até nossos dias por esta
bela expressão “soprar em cima”, muito propagada hoje em uma grande parte da Europa
mediterrânea, (que] evoca o modo de transmissão de dons. A fada-madrinha dos contos
populares dá, assim, à criança, no nascimento, as qualidades essenciais que lhe permitem
sair de todas as emboscadas da existência.” (A. Fine, op. cit., p.866.)
O renascimento de Pélope, por partenogênese masculi na, seria então como que um
segundo parto, pelo pai (ci. outros mitos de robôs e dc ressurreição). Seria preciso, como
conseqüência, ler esta parte do mito como o primeiro ato, onde a conclusão será o rapto
homossexual por Possêidon:
um engendramento masculino que desemboca na paterni dade e no princípio educativo
Grandezas e misérias da sedução paterna
Entretai por este superpoder acrescido de traços fe mininos e maternais, o pai educador,
interditor e protetor é ofuscado em proveito do pai sedutor e pedófilo. Isto vem de
113. Scrgent (1984) observa que os mitos dc homossexualidade inieiátiea são, geralmente,
fundadores da cidade, da dinastia, tal como os habitan tes de urna região poderiam mantê-
los. NOS mitos de Pélope, a versão “caldeirão” (os dois caldeirões, o de Tântalo e o de
Zeus) não aparece nos mesmos autores como a versão do rapto. Para B. Sergent (p82), estas
duas versões significam, contudo, “a mesma coisa: a reclusão iniciática; urna, está no
coração do simbolismo — a morte mística e a ressurreição —, a outra, utiliza a forma —
Possêidon é o niestre e o erasteu de Pélope. Nota-se que, inversamente, se as tomamos
conjunta- mente, urna versão engloba a outra: a seqüência desenvolvida seria, com efeito:
rapto de Pélopc; estada na fortaleza viril, com educação e honios sexualidade; saída da
virilidade: ressurreiçzio” (Gf igualmente Athanassiou C., 1993.)
uma certa representação que os gregos se faziam do pai, infantil, incapaz de moderação,
profundamente invejoso da juventude de seu filho, da qual ele queria “se apoderar” (Ei
guerA. , 1989a). Isto nos convida a fazer três observações.
1. A associação com o pai sedutor e perverso do histérico vem à mente; este mesmo pai que
S. Freud reconhece logo como sendo aquele que chega com o escândalo da histeria,
escândalo científico também, porque em seguida Freud muda de orientação para falar de
fantasia do desejo incestuoso no paciente histérico. Freud recusa-se a pensar iio incesto
real, mais ainda no incesto homossexual pai-filho... Freud acantona esta idéia a qualquer
culto diabólico fenício, e passa, rapida mente, a outro, ao passo que, helenista fino, ele
deveria co nhecer esta parte do mito... (Carta a Fliess, citado por Bokanowski Th., 1993.)
De fato, a criança, por suas perspectivas vitais e de eman cipação, colocava em causa o
narcisismo deste pai, que lhe oferece seu erotismo para evitar esta dupla evolução: recur so
ao domínio do erótico, isca a serviço de sua homossexua lidade, de um pai ciumento da
ilação exaltadora, da mesma forma que entre a mãe e seu bebê.
A scxualidadc da criança é aqui super-estimulada, ao pas so que, o narcisismo padece. E
preciso ver neste exemplo a forma extrema de toda uma série de situações em que uma
grande confidência do adulto provoca na criança super erotização (tornar-se parente).
Entretanto, as incoerências lógicas do pai causarão mais desordens do que as atitudes
desmedidas. O que acontecerá com o auto-erotismo, do qual se duvida poder, nestas
condições, expandir-se? Por mais que o seu narcisismo primário se ancora, que ele o fará
em detri ment() do narcisismo secundário. Neste contexto, organizam- se as abusivas
representações da transmissão psíquica entre gerações: será o descendente que entenderá
OS gritos e a fúria destas cenas proibidas.
2. O pai hiperviril e perseguidor não será menos excitado pelas pulsões homossexuais,
mesmo que elas não tomem a
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque_em_terapia familiar psicanalítica
via manifesta, uma vez que deseja exercer — pela sua pre sença aterrorizante — um
domínio total sobre a pulsão de seu filho (cf. o pai de Schreber).
3. Enfim, quando parece entravada quanto ao seu objeti vo, isto é, não descarregada, a
sedução adulta, mesmo se ela está desviada quanto ao objeto, não intervém menos na tro ca
emocional com a criança, captando a necessidade eróti ca desta última, desenvolvendo-a e
orientando-a. O pai sedu tor se servirá, talvez, de sua homossexualidade inconsciente para
atrair a criança para si, para tornar evidente o seu po der, na firmeza e na ternura
A parte maldita da homossexualidade
Uma vez no trono, Pélope torna-se um conquistador te mido, o rei grego originário da Asia
Menor, que decide ins talar-se na Grécia. O episódio seguinte narraria um capítulo da
expulsão das dinastias cretenses do Peloponeso (Graves,
R. p. 34). Pélope, apaixonado por Hipodâmia, filha do rei Enômao, serve-se de Mírtilo,
condutor de earruagens, para obtê-la como esposa. Provavelmente apaixonado por sua fi
lha, Enômao desafia cada pretendente a uma corrida de car ruagens a cavalo. Ele vence os
doze primeiros candidatos, que mata. Esforçando-se por separar pai e filha incestuosos,
Pélope vai executar um ato heróico que afirma sua heteros sexualidade, mas sua
homossexualidade terá retorno, de al guma forma. Mírtilo, a quem Pélope prometeu passar
sua
Os mitos de Pélope evocam o sacrifício de lsaac, que Javá exige dc Ahraão. Em troca da
morte, Deus, lisonjcado pela devoção dc Abraão, pede-lhe a circuncisão da criança. Somos
tentados propor a seguinte fórmula: o que a pedofagia foi para a pedofilia nos gregos, o
infanticídio foi para a circuncisão nos hebreus Aqueles que poderão estar choeados com
esta relação, eu lembrarei que, por ocasião da circuncisão, o rabino toma o pênis do bebê
entre seus lábios para parar a hemorragia com sua saliva, a qual possuiria qualidades
hemostáticas. Poderemos nós ver nis to um resíduo da homossexualidade antiga? A
oferenda da criança a Deus, nos dois casos, relacionaremos à oferenda à cultura.
noite de núpcias com Hipodâmia, e lhe dar a metade de seu reino em troca de sua ajuda,
introduz clavilhas de cera nos eixos da carruagem de Enômao no lugar da clavilha dc me
tal. Produto biológico, a cera irá fundir-se com o calor da fricção da roda, como a cera se
funde ao calor do sol na lenda de Icaro. A mesma fragilidade da imitação, da preten são.
Pélope ganha a corrida, mas Enômao maldiz Mírtilo antes de morrer. Quando este último
vem pedir seu débito, o di reito à noite de núpcias, Pélope o lança ao mar. Mírtilo, por sua
vez, maldiz Pélope e sua descendência.
Diretamente ligada à traição de Pélope, esta maldição irá “desencadear” os fatos trágicos
ulteriores. Ela se dirige para a homossexualidade do príncipe, homossexualidade à qual se
referirá Jean Genet, par sinistro da homossexualida de iniciatória. Fazer acreditar na
fidelidade do companhei rismo e depois traí-lo, retraça, deslocado na duração, o du plo jogo
da clivagem perversa. Primeiro, exaltação da nobre za do empreendimento, em seguida, o
aparecimento do des mentido: não houve generosidade ou solidariedade. O triun fo final é o
triunfo da impostura, tal é o falo materno, que é simplesmente uma miragem. Se Pélope
ganhou a corrida, Mírtilo foi o artesão de sua vitória. Falo ereto, depois des montado.
O abuso de Enômao não parece, contudo, tão grave quanto o abuso feito a Mírtilo, ao
menos pelos gregos que aceita ramo ardil no jogo como sinal de inteligência (cf. Destienne
M. e \Ternant J.-P, 1974).
Pélope traiu um infiel que acreditou um instante na pala vra de um amigo. Zeus havia
acreditado na hospitalidade obsequiosa de Tântalo. Trata-se de provar que só a duplicidade
reina. O homem cede à cobiça; mais ética quando se lhe promete sexo ou poder, desta
maneira, Tântalo quis vcrificá la nos deuses. A duplicidade homossexual de Pélope inspira
se menos na sua própria experiência, na qualidade da paixão de Possêidon, do que na
astúcia de seu pai.
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A transmissão do_psiquismo entre gerações
Enfociuc cm terapia familiar psicanalítica
S. André (1993) acentua, precisamente, este
“ideal de santidade por abjcção”, celebrado por J. Genet. “Dc fato, o santo de Genet, longe
de iden tificar-se com o guilhotinado, opõe-se a ele como em uma escala invertida: não se
pode medir a per feição do condenado senão pela infâmia sem limi tes daquele que escolhe
a via da abjeção, isto é, da covardia, da traição e da delação. Sem dúvida esta oposição está
presente cm Jouhandeau, onde ela liga a elevação de Deus ao abaixamento do santo; sem
dúvida também encontraremos cm Genet, como em Jouhandeau, a idéia de uma apologia
do macho que passa por uma apologia do mal. Mas a estética dc Genet, contrariamente à de
Jouhan deau, é primeiro dirigida contra a estética, em todo caso contra a estética da imagem
narcísica. Genet não se apoia em uma opinião preconcebida de ser admirável, mas muito
mais na de ser ignóbil. E...] Genet, afundando-se na indignidade e na baixeza provoca a
repulsa.” (Op. cit., p. 239.)
A baixeza moral tomará ainda uma outra via, a do crime impune. O sucesso de Pélope não
fugiu a esta regra. Dupli cação também do crime paterno. De fato, Pélope não irá curar-se
jamais por ter sido abandonado por Tântalo, e ele reproduzirá a situação que o conduziu a
se tornar um objeto sexual equivocado, recusando Mírtilo. O ombro de marfim, símbolo da
dinastia das Pclópidas, falsa-aparência, substitu to da carne e dos ossos (o ombro está aí
senão para lembrar as formas femininas redondas), autoriza a impostura no des cendente.
A parte maldita cia homossexualidade (a abjeção, a trai ção) tornar-se-á a parte maldita ckt
herança.
A terceira geração
Filho de Pélope e dc Flipodâmia, Crisipos é, por sua vez, seduzido por Laios. que se torna
assim, o primeiro mortal
pederasta. Acolhido, quando exilado, pelo rei, preceptor de Crisipos, ele lhe ensina,
precisamente, a arte de conduzir carruagens; em seguida, o conquista. O adolescente suici
da-se, dc vergonha. Três transgressões de Laios são observa das: a da homossexualidade, a
da imitação dos deuses e a da lei da hospitalidade, mas os gregos condenam, sobretudo, esta
última transgressão.
Em uma versão diferente, Crisipos é um filho bastardo que Pélope concebeu com a ninfa
Astioche. Temendo que o rei o faça seu herdeiro, Hipodâmia parte para Tebas, onde Laos
havia levado Crisipos, e o mata durante o sono. Nesta versão, pode-se reconhecer a
rivalidade de uma madrasta que é, igualmente, a representante do culto das densas-mães,
contra o filho investido como descendente da linhagem mas culina.
Postas em paralelo, estas duas versões opõem os dois si nais principais da filiação: o
infanticídio ou pedofilia, per manecer dentro (pedofagia) ou exílio educativo, de certa
maneira salvador. Outras confrontações entre o primogênito (Atreu, Agamenon, Orestes) e
o caçula (Tieste, Egísto) (fi gura 1) surgiram, posteriormente, nesta família, como o retorno
do recalcado genealógico da confrontação inicial entre os pré-olímpicos e os olímpicos,
entre as leis maternas e paternas, entre a pedofagia e a pedofilia. Oposições estas que são
resolvidas por ocasião do processo de Orestes. Nes se meio tempo, quanto sangue ainda irá
correr.. .E como se a vingança, o sangue derramado quisessem lavar infrutuo samente a
traição, porque um crime engendra o seguinte.
Filho primogênito de Pélope, Atreu irá afirmar seu poder sobre Micenas, onde os notáveis o
escolheram como rei, porque era um bom guerreiro, e adquiriu a “afeição do povo” (Graves
R., op. cit.). Mas, a felicidade não parece atingir esta descendência. Querendo vingar seu
filho Mírtilo, Flermes faz com que Aerope. a mulher de Atreu, se apaixone louca- mente
pelo caçula dos filhos de Pélope, Tieste. Este “con sente” em tomá-la como amante com a
condição de que ela
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A transmissão do psiquismo entre gerações
lhe entregue o velo de ouro escondido por Atreu. Assim, Tieste realiza, uma geração mais
tarde, o que Mírtilo não pode obter de seu pai Pélope: partilhar o leito com Hipodâ mia.
Mais ainda, Tieste exige o trono micênico de seu irmão, o qual faz valer seu direito à
primogenitura, porque possuía o cordeiro do velo de ouro. Tieste aceita o desafio. Depois
de ter provado a posse do velo de ouro, furtado pela mulher infiel, ele é nomeado rei. Mas,
Atreu, com a ajuda de Zeus, lança um outro desafio a Tieste. Se víssemos evoluir o sol do
oeste para leste, ele deveria ceder-lhe novamente o trono.
“Zeus, então, com a ajuda de Hera, reverte a ordem das leis da natureza, que até então,
haviam sido imutáveis. Hélos, já na metade de sua corrida, fez meia volta na sua carruagem
e virou seus cava los na direção da aurora. As sete Plêiades, e todas as outras estrelas,
refizeram seu percurso ao inver so, por simpatia; e, nesta tarde, pela primeira e úl tima vez,
o sol se pôs no leste. Assim, a traição e a cobiça de Tieste tendo sido reconhecidas, Atreu
sucedeu ao trono de Micenas e o baniu” (Graves R., op. cit., II, p. 42.)
Ainda insatisfeito de ter reconquistado o trono de Micenas, porque ciumento, ao saber que
Tieste havia tomado Aeropc como amante, Atreu comete um outro crime: em um ban
quete, simulacro de reconciliação, oferece a Tieste, para comer, seus próprios filhos.
Tieste é, então, levado a cometer a pedofagia contra sua vontade. Reprodução da
transgressão de Tântalo, seu avô paterno. Revoltado por tal ignomínia, ele vai, novamente.
transgredir a lei tomando, à força, sua filha Pelopia, que se tornara sacerdotisa. Este último
ato lembra, estranhamente, o de seu avô materno, Enômao. O poder de Tieste seria re
conquistado por intermédio de uma mulher: tendo seus fi lhos desaparecido, ele deseja ter
um descendente macho.
—50 —
-.4
______ Enfoque cm terapia familiar psicanalítica
de seu futuro. Dando-lhes a vida, eles se imaginam na posi ção de perdedores. (Ver, mais à
frente, as ilustrações das terapia familiares de Alice e de Geraldo.)
Eu me pergunto se um bom número de atitudes parentais ambíguas não são inspiradas neste
receio de que a criança esteja arriscada a descobrir este paradoxo, caso sua curiosi dade
intelectual desperte.
Em todo caso, o desejo infanticida está bem ancorado nas memórias coletivas,
complemento hediondo do parricídio. e cunhado, com mais ou menos felicidade, por todas
as fa mílias — psicótieas ou não — sob a forma de transação, em que, finalmente, o exílio
educativo representa a possibilida de, uma das possibilidades, de sobrevivência psíquica.
Agamenon e seus fjlhos
O assassinato dc Atreu será vingado por Agamenon, que, fiel à “tradição” familiar, matará
Tieste, depois o substitui rá no trono de Micenas. Ele declarará guerra a um de seus primos.
Após tê-lo eliminado, obrigará sua viúva Clite minestra a esposá-lo. Desta união, nascerão
Orcstes, Electra, Ifigênia e Crisostemis.
Para nossa grande sorte, o acaso permitiu que as obras escritas pelos três grandes trágicos
gregos, neste capítulo da genealogia, chegassem até nós. Eles introduziram varia ções, cada
um sublinha um outro aspecto do mito. Depois da Renascença, novas versões foram
propostas por outros escritores. Lembrarei a evolução dos episódios, de maneira sucinta,
acentuando alguns pontos.
Enquanto Agamcnon e Menelan partem para a guerra dc Tróia, Egisto vê chegar a hora de
vingar seu pai Tiestc. Ele seduz Cliteminestra — como seu pai havia outrora seduzido sua
cunhada Aerope —, que mantinha um verdadeiro rancor contra Agamenon: ele havia
matado o recém-nascido de seu primeiro casamento. sacrificado Ifigênia (os deuses haviam
pedido este sacrifício para que permitissem a partida da fro
—53 —
A transmissão do psiquismo entre gerações
ta dos gregos impedida pela falta de ventos). No retorno de Tróia, Cliteminestra e Egisto,
novo rei de Micenas, assassi nam Agamenon, bem como sua companheira Cassandra (cf.
Esquilo, Agamenon).
“ Agamenon morre de uma estranha manei ra — observa R. Graves (op. cit., II, p. 52): com
um filete jogado na testa, um pé ainda na banheira, mas o outro pé posto no soló, e em uma
constru ção anexa reservada aos banhos — isto é, “nem vestido nem desvestido, nem na
água nem na terra firme, nem no seu palácio nem fora dele” —, sua situação lembra a
morte, no meio do verão, no Mabinogion, do rei sagrado Llew Llew, pelos bra ços de sua
pérfida esposa Blodenwedd, ajudada por seu amante Gronw. Uma lenda semelhante, conta
da por Saxo Grammaticus, na História da Dinamar ca do fim do século XII, indica que
Cliteminestra, talvez, também tenha dado uma maçã para Agamenon comer e que o tenha
matado no mo mento em que ele a levou aos lábios: assim, ele não estava “nem no período
de jejum nem no período de farra” (La Déesse Bianche, p. 308 e 401.) Pois,
fundamentalmente, trata-se aqui do mito familiar do rei sagrado que morre no meio do
verão, da deu sa que o mata, do alterego que lhe sucede, do filho que o vinga.”
Vimos exposto assim, o trabalho do mitólogo, que desco bre o costume ritual que precede,
habitualmente, a apari ção do mito. O modo de partilha do poder entre três “cônju ges”
criaria, necessariamente, uma rivalidade ciumenta en tre o rei sagrado e seu “alterego” que
lhe sucederia no trono esposando sua mulher. O mito, de formação posterior a esta prática,
marca as conseqüências dramáticas. E toda série de temas míticos lembra que este tipo de
partilha de poder dava preeminência à princesa herdeira: o rei era estrangeiro “sem pre
traído pela mulher-deusa”(p. 59), a Mãe sendo o suporte
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Enfoque em terapia familiar psicanalítica
do reinado. A continuação da lenda mostrará o desfecho desta “guerra dos sexos” m que o
pai acabará por impor-se.
Um complexo da feminilidade
Como eles temiani o retorno de Orestes, Egisto e Clitemi nestra têm sombrios
pressentimentos, enquanto que Electra vive ensimesmada esperando sua hora, a hora em
que sua fidelidade para com o pai traído será, finalmente, recom pensada.
Electra inspirou um bom número de artistas. Hugo von Hofmannsthal (1908) mostra-a
apaixonada, próxima da lou cura, sombria quando a esperança enfraquece, luminosa
quando o crime será vingado por seu irmão. Crisotemis, no oposto, é apresentada como
uma mulher que se prepara para as doçuras da vida conjugal. Este contraste realça a idéia
de um complexo de Electra, que C.G. Jung (1913) propôs como aversão feminina dc
complexo de Edipo: fidelidade para com o pai morto que leva à renúncia, ao ostracismo, e
ao êxtase na ascese. S. Freud (1931) diz-se reticente diante da idéia de um complexo
feminino simétrico do masculino, porque a representação da mãe parece, para a
meninazinha bem como para o menino, de iaÍcio, positiva. Freud postula a inveja do pênis
originário para os dois sexos. Hoje, contudo, seria pre ciso interrogar-se, depois de uma
leitura comparada da len da de Electra, sobre o significado da castração que ela se inflige
como privação do pênis e da proibição da gestação, castração uterina, em que a clínica
feminina é rica em exem plos, O ódio de Electra para com sua mãe, que fez desapare cer o
pai, não acontece sem evocar “o afastamento” do pai na primeira infância, ou ainda a
reprovação da meninazinha atribuindo a falta do pênis à mãe.
Então, por que Electra regride tão profundamente? Ques tão cuja resposta permitirá
compreender melhor seu com plexo. Eu veria aí duas causas.
1. Renegando e atacando sua mãe ela se desfaz da repre sentação da mãe primeira e
suporte. O objeto bom desaparece.
——
II
A tranSrniSSõo do psiquismo entre gerações
Erifoque em terapia familiar psicanalítica
2. Electra fl parece dispor de um imago ancestral ma terno, o de uma mãe eventualmente
substituta. Ao contrá rio, a representação do pai é exaltante.
Ainda que Electra não tenha tido contato carnal com seu pai (como Edipo com sua mãe), o
fato de tratar-se do pai morto desloca o erotismo em direção ao pólo desejante, e para a
representação imagóica. O longo percurso do pai, desde o pai pedofágico, depois pedófilo,
resulta no desfecho trágico da Orestíade, do pai, enfim, abstinente e suscetível, assim, de
vir a ser uma imago. Electra não tem um comércio erótico com um pai sedutor e perverso
OU no recalcamento (ef. Jocasta), mas ela entretém um vínculo psíquico com um pai forte,
idealizado porque valente, idolatrado porque não mais está lá, heróico porque não teve
tempo de viver sua glória.
O casal “incestuoso” Electra-Agamenon lembra o inces to dc Tieste-Pelopia, o de Enômao
e Hipodâmia, que Pélope vai arrancar de seu pai: retorno do genealógico que marca ria a
polissemia do “Edipo feminino” e, entre outros eixos, o do sacrifício masoquista que a filha
pode se impor.
Narrações lendárias e literárias descreveram o casal Egis to-Clitemincstra sob cores
sinistras. Egisto esfalfado por medos assustadores, marginalizado, submisso à sua mulher
que não experimentava qualquer remorso, e vigiava as réde as do poder sobre Micenas.
Com o seu retorno, Orestes irá precipitar o fim do casal real; momento dc hesitação para
ele: trata-se de matar sua mãe, ato gravíssimo. Na variante trágica de Esquilo (As
Coéforcts), a responsabilidade dc Orestcs é partilhada com Apolo, o “verdadeiro”
instigador, como para atenuar o hor ror do ato. Algumas versões fazem de Orestes o
matador de Egisto. ao passo que Cliteminestra é condenada por um tri l)unal, mas Orestes
torna-se culpado porque, não a defen dendo, falha para com o dever filial. Uma outra lenda
repre senta Cliteminestra como adoradora de divindades antigas, provocando a cólera dos
novos deuses, que desejam sua mor-
te. No seu conjunto, estas versões fazem ressaltar uma apro ximação entre o poder da
rainha e o poder matriarca Cliteminestra sendo de origem cretense, como Hipodâmia e
Aerope... Os cretenses estiveram entre os primeiros habi tantes da Grécia. Electra
reivindica, ao contrário, sua as cendência patcrna.
Dando um papel preponderante a Electra e à sua rivalida de com a mãe, Sófocles e
Eurípedes, autores mais recentes, ressaltam que o móvel do crime se inscreve menos em
uma perspectiva anti-feminina do que em favor da patrilinearidade e do pai idealizado que,
transmitindo seu poder ao filho, autorizaria na mesma ocasião o acesso da filha ao estatuto
de mulher.
Dois indícios permitem a Electra compreender que Ores tes está de retorno. Ela encontra
um tufo de cabelo perto do túmulo de Agamenon. Comparando-o com os seus, vê que são
semelhantes. E depois, ninguém senão um filho faria a oferenda de seus cabelos ao antigo
rei. O contato de Eleetra com os cabelos de Orestes é sensual, sensações que ela expe
rimenta, em seguida, colocando seu pé sobre a marca dos pés de Orestes. Mesma
constatação de um ar de família, mesma alegria e felicidade. Um pouco mais tarde, ela reco
nhece o tecido bordado por ela sobre as vestes de seu irmão.
Orestes dirige-se logo ao palácio fazendo-se passar por um mensageiro que anuncia “sua
morte”. Como prova, ele leva uma urna com “as cinzas de Orcstes”. Efeito dramático
surpreendente, cuja alegoria queria assinalar que um certo Orestes desapareceu, o da
infância. O crime irá transformá lo ainda, mas ele não chegará a tornar-se ele próprio antes
de introjetar o pai.
O acesso ao superego edípico
Orestes mostrar-se-á como sujeito em seguida a um OU tro exílio, e a duras penas.
Perseguido pelas Eríncas, que lhe reprovam o matricídio, o crime mais horrível, o de seu
pró
—: 1
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
prio sangue, ele vai vagar durante um ano. Guardiãs do res peito pela mãe, as Eríneas são,
pela sua origem, associadas à ordem pré-olímpica: elas nasceram do esperma de Urano,
fecundando a terra, em seguida à sua emasculação por Cronos. No seu clamor, verei o do
superego primitivo, ligado à mãe arcaica impiedosa, tenebrosa, ameaçando de aniqui
lamento.
M. Klein (1960) compara a atitude de Agamenon, que causou a morte de Ifigênia e de
numerosos troianos durante a guerra, à atitude de Orestes. Mostrando-se arrogante, in
vejoso, sedento de vitórias, impregnado dehybris, Agamenon não experimenta
culpabilidade, ao passo que Orestes sofre, sente-se ao mesmo tempo cm falta e perseguido
(dike, ins trumento da justiça). Segundo M. Klein, seria acometido de uma dor interior, pois
ele é o único a ver Eríneas. “ E próprio do superego implacável não perdoar [ desejo] de
destrutividade”, acrescenta a autora. (Cf. figura 2).
“Mas as cruéis Eríneas são também associadas a este aspecto do superego que está baseado
nas figuras danificadas e queixosas”, observará M. Riem mais tarde no seu texto. “Nós
diremos que seus olhos e seus lábios distilam sangue, o que revela que elas também sofrem
com suas torturas [ mentos], O bebê vive suas figuras danificadas como vingativas e
aterrorizantes, e ele tenta clivá-las e afastá-las. Entretanto, elas se incorporam às suas
angústias precoces e aos seus pesadelos, e inter vém em todas as fobias. Pois que Orestes
danificou e matou sua mãe, esta se transformou em um des tes objetos danificados de quem
o bebê teme a vin gança.”
Retenhamos este duplo imago, que é o de um objeto ator mentado por remorsos em relação
a seu objeto interno. Será que isto o torna ainda mais temível, e cauciona as repri mendas
endcreçadas ao indivíduo que cometeu más ações
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indesculpáveis? Será que a tortura interna do objeto preen che a função de lei?
Quando Orestes, aconselhado por Apolo, refugia-se em Atenas, o processo a que está
sujeito no tribunal o conduz à sua transformação definitiva. Ao mesmo tempo, a cidade vê a
instauração de uma nova lei. O tribunal traz também novi dades, é um tribunal de sábios
que assistem a um debate contraditório. Orestes sofreu muito e meditou sobre seu gesto; a
escuta de seu inconsciente o libera, dá-lhe a reser va. Durante o processo, Apolo o defende.
(Ésquiio, op. cit.) Seu discurso de defesa está em ressonância com sua trajetó ria: o deus
teve de vencer Píton, filho da Terra, a fim de se impor a Delfos e de instaurar aí seu
domínio, fundando mé todos divinos que seriam justos e asseguradores. Apoio de fende a
idéia de que se pode desculpar um criminoso.
Face ao Corifeu, que acha que o assassinato de uma mãe é mais impiedoso do que o de um
marido, porque este últi mo não é do mesmo sangue de sua esposa, Apoio replica:
o leito onde o destino une o homem e a mulher, sobre a qual vela a Justiça, é mais venerá
‘el do que um julgamento.” E para defender a su premacia do pai, ele lembrará diante dos
juizes uma das teorias sexuais dos gregos: “Não é a mãe que engendra aquele que nomeia
sua criança: ela só é quem alimenta o gérmen que concebeu. Quem engendra, é o macho;
ela, como uma estrangeira,
‘Ncste estudo póstumo sobre Orcstes, onde a autora dá um lugar impor tante ao paterno, o
que é raro em sua obra, M. RIem (op. cic.) observará que Orestes não está só excitado por
um Edipo negativo, mas também, por um Edipo positivo: quando a mãe implora a sua
piedade, lembrando- lhe que ele dormiu em seu seio. Mas, Orestes reencontra sua
determina ção assassina quando Cliteminestra se enternece sobre o cadáver dc Egisto (rival
deslocado). Orestes: “ Morra então, e durma com ele, pois tu amas este homem e tu odeias
aquele que deverias amar.” (Esquilo, op. cit., p199.)
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j
A transmiss5o do_psiquismo entre gerações ___________
conserva o jovem rebento, quando um deus não lhe alcança. E eu vou te dar uma prova
disto que afir mo: é que se pode vir a ser pai sem a ajuda de uma mãe: testemunha a deusa
aqui presente, a filha de Zeus olímpico [ que não foi alimentada nas trevas dõ um seio
materno, e é contudo um tal des cendente que nenhuma deusa saberia produzir.” (Esquilo,
op. cit., p. 226.) (“A transmissão só pelo pai” é a definição mesma da patrilinearidade.)
Depois de dar autoridade ao tribunal, “sentinela viva para guardar a cidade adormecida”,
dizendo que a lei deve ser temida e respeitada, “pois qual mortal permanece justo se ele
nada receia? “, Atena exprime as razões de seu voto que permitirá absolver Orestes: ela não
teve mãe a quem “deva a vida”; a causa do pai é sagrada porque ele protege o lar (p.
228).
Uma vez decidida a sentença de absolvição, Atena ofere ce às Eríncas ofendidas a
hospitalidade da Cidade, onde elas serão veneradas pelos cidadãos honrados. Assim, as
Eríneas transformam-se em Euniênides (Benévolas). Este gesto está marcado pelo desejo de
reparação e pelo espírito de tolerân cia, O pai genital é fundamentalmente democrático. Ao
mesmo tempo que Orestes será libertado de sua carga, as Eríneas, que representavam o
superego arcaico, evoluirão para um superego protetor. (Figura 2.) Seu ascendente não viria
mais do terror que inspiram, mas de sua segurança tu telar. Evoluindo, o superego confirma
seu estatuto inte riorizado: a verdadeira proibição é mais confiável, é incons ciente.
O vir-a-ser sujeito e o deslocamento do mito familiar
Orestes será o último assassino da genealogia: a vingan ça que fez tantas vítimas não
excitará mais o espírito desta fam íl ia.
A dor de Orestes terá absorvido todos os suplícios que lhe atingiram depois do de Tântalo.
E ele se torna “sujeito”, no
sentido que eu quis dar a este conceito em uma comunica ção ao Relatório apresentado por
R. Cahn em 1991 (“Du Sujet”).
“Penso que ‘o sujeito’ não deveria ser senão a conseqüência formidável da confrontação
com a função paterna. Não mais, mas tudo isto. Confron tação que implica ruptura, e
lembrança de todas as faltas de um indivíduo que, por existir, desfaz-se de si, e aliena-se.
Mas, na sua ambição de ruptura, o indivíduo só deve levar em conta a lei, e a fazê-la sua,
apesar de si. Utilizando minha própria lingua gem, direi que o indivíduo é a testemunha e o
ator de formidáveis processos que arrancam a parcela de enquadramentO de cod do
superego so cial e que viriam estruturar as relações do supere go com o resto do aparelho
psíquico. O indivíduo é a lembrança permanente da inexistência do ser, de sua pequenez
face ao humano. Ele provoca e en tretém uma crise no narcisismo, uma machucadu ra no
destino do ego. Se ele não o admite, estará confrontado com um outro efeito de
aniquilamen to ainda mais sideral. Resulta que o indivíduo é, ao mesmo tempo. testemunha
da introjcção da lei e uma de suas conseqüências. Eu o consideraria, então, como o
interlocutor privilegiado cio supere go, e não do objeto, como o quer a gnosiologia. Em
análise, o interlocutor do objeto é o ego, um ego- conceito, isto é, que o formula, que o
investe, que o concebe [ ctimologial. As revoltas do indivíduo far-se-ão no máximo sob a
bandeira do outro do objeto contra este último. Seu apetite de originali dade lembra ao
parente que ele próprio está ins crito) em uma cadeia de geração, dito de outra maneira,
designando-O como ser castrado.” (Eiguer A., 1991h, p. 1718.)
Foram necessárias cinco gerações para que a mensagem de Zeus fosse integrada: punindo
Tântalo, ele traçou o linii
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Enfoquc em terapia familiar psicanalítica
te entre o impulso e o desejo. Isto é, assim que o “retorno da genealogia” age,
essencialmente, ele está singularmente tra balhando ali onde a vida imaginária torna-se rara.
Notemos a introdução, no último capítulo desta genea logia, de casais de irmãos
sentimentalmente próximos e que asseguram a marca do paterno, do qual acabo de acentuar
os efeito benéficos: na tragédia de Esquilo, Apolo-Atena; na de Sófocles e Eurípedes,
Orestes-Electra. Será um reveza mento harmonioso do casal atormentado Agamenon-Clite
minestra? Ver a este propósito a invariável oposição consan güinidade/aliança no átomo do
parentesco, de Lévi-Strauss (1948), oposição que vela sua dupla paternidade.
Será que a precedência do casal de irmãos e do Édipo feminino obteve efeito de
reconversão da tendência homos sexual tão impregnada na traição de Pélope e na querela
Atreu-Tíeste? Será que ela “lava” os estupros, os incestos, as traições, as infâmias, os
crimes?
Deixemos um instante estas questões. Uma série de con seqüências metodológicas têm de
ser acentuadas.
1. O interesse que existe em pensar “genealogicamente”, isto é, na polissemia, na variedade
e na riqueza das desco bertas.
2. A vantagem que existe em localizar os vínculos, em confrontá-los, em vê-los como
geradores de sentido e trans missores de mensagens organizadoras.
3. Este olhar mais estrutural ajuda-nos a situar o traba lho dos conjuntos grupais, sua
posição primeira (aqui, o “mito familiar coletivo”: a abjeção deve ser lavada com san gue).
4. A transmissão, que é um trabalho de vínculos, contém talvez um pedido de elaboração
daquilo que pode ser pensa do (a parte maldita) na geração seguinte. Ela solicita um
devaneio (o mito, a narração legendária são exemplos), para que seja restituída na geração
anterior ou legada à seguinte de maneira menos condensada e abrupta.
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A transmissõo do psiquismo entre gerações
Ilustração 1: O caso de Alice e de sua família
Esta terapia familiar permitiu-nos esclarecer a disfunção ligada aos objetos de transmissão
da vida psíquica entre ge rações evocados, depois elaborados, nas sessões. Este traba lho
ajudou a estreitar os vínculos primitivamente muito frag mentados. (Os cinco membros da
família nuclear partici pam. A.E. é o terapeuta.) -Como muitas famílias que têm expressão
psieótiea, os membros desta se maltratam e dis putam de maneira dura, experimentando
rancores que o tem po não resolveu. A primeira hospitalização de Alice, aos dezessete anos,
é vivida como “um eletrochoque”, no dizer de um dos pais (ela tem atualmente vinte e dois
anos). E a última filha, a mais mimada e protegida de urna irmandade de três (uma irmã e
um irmão). Progressivarnente, ela se fechou em casa, parece triste, exprime idéias
pessimistas, mas pode tornar-se muito violenta se contrariada. Em al guns momentos, sua
angústia é insuportável e eta comunica isto aos outros, que se desesperam com seu estado.
Ela aca ba por explicar que aos quinze anos sofreu um estupro cole tivo depois que lhe
deram LSD e outras drogas que não co nhece. A partir deste momento, queLxa-se dos maus
odores exalados por seu corpo. Ela sente a podridão.
A “trajetória” familiar está marcada pela viagem e insta lação da família rio Oriente Médio,
antes dc) nascimento de Alice. Na SCSS o pai evocou, com nostalgia, este período dc
expatriação nos termos dos contos das Mil e urna noites:
conforto material, prazeres do corpo e da mesa. Mas, no momento cm que a mãe ficou
grávida de Alice, ela decidiu retornar para dar à luz em um “bom hospital”. O casal per
maneceu separado durante alguns anos, e o pai não pode se desembaraçar de suas
c)hrigações profissionais — explicam muito friarnente.
O pai vem de uma família numerosa, onde uma mãe, “abandonada” quando ele era
adolescente, reina como aman te inconteste. Mas é uma mulher magoada: t) avô paterno de
Alice partiu com uma outra mulher, o que seu filho não per
Enfoque cm terapia familiar psicanalítica
doa. Ele dedica uma grande parte de sua existência, e mes mo depois de seu casamento, a
proporcionar segurança e afeição a esta mãe sobrecarregada pelos filhos e pelas tare fas
materiais. Mais tarde, quando se torna “mimada”, ele ainda se ocupa com ela, e isto não faz
muito tempo. Ele ia vê-la todos os dias na saída do trabalho, remoendo sua raiva contra os
irmãos e irmãs menos disponíveis. Mas, para ele, era um dever, e era preciso enfrentá-lo.
Sua mulher “com preendeu muito bem”, pois também foi filha devotada à sua própria
família.
Contudo, o pai era bastante ausente da casa, e isto se acrescentou aos longos anos em que
ele permaneceu no es trangeiro sem participar da vida comum. Quando reencon trou os
seus, confessa que não sabia nem como eles esta vam, mas rapidamente, uma disputa por
algo “comum” vi nha colocá-lo no centro das trocas. Ele preferia ser “o ogre ao pato da
história”.
A infância da mãe, por sua vez, foi marcada por um ambi ente triste de uma casa
consagrada de corpo e alma a seu irmão mais velho deficiente motor. “Tudo girava em
torno de meu irmão”, não era esquecido um instante, não se podia nem gritar, nem fazer
barulho, nem cantar, nem rir. Claro, a “rua nos era proibida, pois era preciso sempre fazer
alguma coisa em casa”. Aos 18 anos, seu casamento liberou-a dessa atmosfera opressiva.
Ela viu nele sua única escapatória. En tretanto, sua alegria não durou muito tempo: grávida,
dois anos mais tarde, suas angústias e seus tormentos voltaram sob uma forma tanto mais
penosa, que ela jamais contou a ninguém, até hoje: ela temia dar nascimento a uma criança
disforme, como seu irmão. Ela imagina, em silêncio, mil monstruosidades: se ela adotasse
uma posição desconfortável durante o sono, se ela se agitasse, se suas roupas fossem muito
apertadas, a criança, no seu ventre, poderia sufocar. Em cada uma de suas três gestações,
foi parecido; e aliás, foi o que a fez retornar à metrópole para dar à luz a Alice.
Durante uma sessão ulterior, ela irá me dizer do seu re conhecimento por ter-lhe
proporcionado a ocasião de reve
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque cm terapia familiar psicanalítica
lar esse segredo, tanto tempo guardado. Ela associará com a morte de seu próprio pai, da
qual tomou conhecimento no seu retorno do Oriente Médio; sua família de rigcm não lhe
havia dito nada porque alguns membros consideravam que sua partida havia enchido o
velho homem de desgosto e isto “iria matá-la”.
Seu pai era um homem distante e autoritário, acrescenta
a mãe, “como meu marido, veja você”. Ela acabou por se
habituar, “agarrando-se a seus filhos”. O menino havia sido
educado como uma menina; ele é raquítico e tímido, atento
a ela e até mesmo inquieto ao vê-la infeliz.
A “verdadeira” demanda
De fato, o que motivou a pedir a terapia familiar — acres centam eles mais tarde — foi a
homossexualidade deste ra paz, que ele acaba de confessar ao pai porque espera que seu
amigo seja recebido em casa como o é o marido da filha mais velha. Mas o pai é intratável
a esse respeito. Ele se sen te ofendido, humilhado, profundamente decepcionado, ex
plicando com tristeza que não terá netos que levem o seu nome... Levará alguns meses
antes de reconhecer que teria abandonado os seus, negligenciando seu filho que tinha fal ta
de uma referência paterna sólida. Ele “vinha recolher, aos sessenta anos, o fruto da árvore
que não havia plantado”. (Fantasias de exclusão paterna e de partenogênese materna,
partilhada por todos os membros da família, mesmo o pai?)
A mãe e as três crianças formavam em bloco contra o pai, sempre reticente (“Eu não posso
admitir, moralmente e nem fisieamente: não é uma recusa, há uma rejeição em mim, é mais
forte que eu”); este último solicitava-me com meias palavras para que eu tomasse posição
como “profissional” e como “homem”. Aliança entre homens — pai e avô — para defender
a causa...
Eu fiquei um pouco embaraçado, pois mesmo que à pri meira vista me dissesse que a
posição autoritária não eon
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duziria senão a um agravamento de posições inconciliáveis, o desespero desse homem me
tocava. Eu ouvia seu clamor, sua confissão de boa fé, entrevia seu desejo de exercer uma
pressão sobre o filho para que voltasse ao “caminho certo”, abandonando sua
homossexualidade, mas eu sentia que toda “tomada de posição” de minha parte arriscaria
ser mal en tendida. A resignação de um lado, a intolerância de outro.
Pouco importa o que encontrei como resposta — direi assim mesmo, logo a seguir — o que
espero acentuar aqui é esta tensão solicitante pela qual eu estava em uma armadi lha, e onde
a benevolência deslizava em direção ao imobi lismo, e a autoridade ao autoritarismo. Como
intervir sem que isto seja tomado como prescrição? Será que eu não de via trabalhar no
sentido de uma maior integração do pai marginal, correndo o risco de uma rigidez de
posições, uma vez que ele tinha uma palavra e um lugar?
Em uma de minhas interpretações, acentuei o longo silên cio entre pai e filho, e entre o pai
e as três mulheres. Acen tuei também que eles se proibiam a troca, porque tomavam todo
diálogo seja como uma caução, seja como uma deci são. Eles pareciam de acordo em não se
falarem. Em outra intervenção, relatei minha impressão de que eles queriam resolver tudo,
e rápido, sem levar em consideração que tan tos anos de ignorância recíproca pesavam
sobre eles. Era para o pai também como um voto de fechar a porta aberta pela confissão da
homossexualidade do filho, e para este úl timo, como um voto de impor ao pai, o que ia
contra as convicções do pai e daquilo que ele pensava ser melhor para seu filho. Quanto às
três mulheres, pareciam querer me mostrar o quanto o pai era “uma carta fora do baralho”.
O erotismo a serviço do ancestral
Após alguns meses de terapia, chegamos a relacionar to das as vivências de pais ausentes
na descendência, que dei xaram as mães despojadas e ofendidas. A homossexualidade do
irmão de Alice parece assim, ligada à partida do avô paterno:
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4
A transmissão do psiquismo entre gerações
era preciso que ele vivesse como mulher para atrair o homem ausente para casa; mas tudo
isto, uma geração mais tarde.
O comportamento provocador de Alice não deixará de inquietar os pais no período que se
seguiu; ela desaparecia durante horas, às vezes dias, depois telef para que o pai viesse
buscá-la; ela era “perseguida por jovens suspei tos”. O medo do estupro tornou-se uma
obsessão. Logo um outro problema de natureza sexual complicou a tomada de decisão: as
idéias erotomaníacas em relação a um vizinho. Tomando ao pé da letra as interpretações
que sua filha lhe dava sobre as insinuações e os gestos equívocos do vizinho, o pai acabou
por interpelá-lo com violência.
Um apaziguamento produz-se quandcf eu acentuo que o pai era idealizado por sua filha
desejando que ele a defendes se. As duas outras crianças pareciam também vivê-lo como
um ideal.
Parecia enfim, que as crianças procuravam atrair para casa figuras interpostas, o homem-
pai, cujo estranho afasta mento não havia produzido senão desgosto e sentimento de
inutilidade. Da mesma forma que a homossexualidade do irmão, o sintoma erotomaníaco de
Alice consistia em tenta tivas de fazer um apelo ao paterno pelo sexo. E quanto mais o pai
tentava reparar os efeitos de sua ausência, mais ele abrigava um sentimento de que, entre o
pai sedutor e o pai protetor, não há grande diferença. Mas, em razão da lassi dão do vínculo
filial, onde o pai se investia sempre como de “alhures”, ao passo que os objetos de
transmissão psíquica entre gerações atraíam todos os investimentos, a reintro dução do
paterno não poderia passar sem um transdor damento erótico ou autoritário, reatualização,
em última instância, da parte maldita da herança.
Ilustração 2: O caso Geraldo. Uma criança vinda de longe
Nós localizamos um bom número de dificuldades da es trutura de parentesco na terapia
familiar de Geraldo e de seus pais. O paciente apresentava um delírio de filiação: por
Enfoque cm terapia familiar psieanalítiea
ocasião de uma estadia lingüística em Viena, dois anos an tes, ele acreditou ter visto Jesus,
depois descobriu que seus pais eram Adolf Hitler e Eva Braun. Ao voltar, realizou uma
fuga, horrorizado por não mais reconhecer seus pais que, sem cessar, repetiam-lhe ser seus
genitores. Eles o encon traram mudado, os olhos exorbitados, a face deformada. O drama
estendeu-se aos outros membros da família, Geraldo não reconhecia mais as pessoas
(exceto um tio paterno, um “ser adorável”). No momento em que ele nos fala, o pai se
desmorona: “não reconhecia a avó paterna, que tanto fez por ele.”
Instaurada a terapia familiar (somos três terapeutas, M. M. Malart, a Srta J. Orcolaga e eu
mesmo), ele “mudará” de genitores: será filho do rei Albert 1 e de uma de suas prince sas
(efeito de transferência?).
Um elemento da infância do pai vem logo trazer alguma luz a esta estranha escolha do
filho: criança dotada para o canto, o pai teve a chance de percorrer a Europa ocupada, ir à
Alemanha com seu coral. Ele ficava muito contente de deixar o meio familiar. Sentia-se
livre, honrado, nos disse, sorrindo pela primeira vez, talvez, na terapia. As simpatias da
família do pai para com os países do Eixo pareciam evi dentes.
Este foi o único período feliz da vida do pai, mas ele ja mais exprimiu revolta contra seus
pais. Ele professa, ao con trário, uma admiração sem limites para com eles; foi uma criança
preferida de sua própria mãe. E ele acha que esta mãe, ocupa um lugar muito importante na
vida de Geraldo. Os pais residiram, logo que se casaram, no mesmo imóvel que os avós
paternos. A mãe de Geraldo o confiava a eles, muitas vezes, mesmo depois que decidiu
parar de trabalhar. As relações entre a mãe de Geraldo e sua sogra foram muito tensas; esta
teve — segundo ela — de se conter muito. Os conflitos com respeito à educação da criança
e ao sentimen to desta avó dominadora lhe impunham obrigações familia res totalmente
injustas. Geraldo sentia duramente esses con
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A transmissão do psiquismo entre gerações
fitos, que o deixavam perplexo diante das fidelidades exigidas por essas duas mulheres.
“Nunca fol preciso dizer à minha mãe que eu estava contente na casa de minha avó, e o
inver so também não”, ele nos dirá mais tarde, quando melhor.
No colégio, “Eu me tornei a cabeça de Tuico, sobretudo quando discuti com meu
companheiro Geraldo. Quando cri ança, conheci um outro Geraldo. Dizem que só os
Geraldos me interessam.”
A mãe se mostra viva, estênica, respondendo no lugar do pai, que reage pouco às
observações ác do filho. Ele pa rece triste, atordoado. O discurso dos três membros da fa
mília é fatual, tudo é explicado pelos acontecimentos reais, raramente pelas vivências.
Geraldo reprova o pai por men tir, mas imediatamente depois diz que vai morrer logo ou
que vai se transformar: não terá o mesmo olhar nem o mes mo nome. Assim, ele adota
sucessivamente pontos de vista opostos, anulando o que acaba de enunciar.
O medo da função
A infância da mãe de Geraldo está marcada por separa ções e por aflições. Com dez meses,
última de três filhas, perde seu pai militar. Exatamente antes tinha vindo em li cença. Ela vê
surgir uma grande silhueta. Com um passo hesitante, vai em sua direção, vai cair, mas o pai
precipita-se e a segura. E sua única lembrança dele. Depois de sua mor te, a mãe a coloca
em diferentes lugares, particularmente, com sua avó. Ela falará pouco deste período, a não
ser para dizer de seu sentimento de desenraizamento. Fica feliz quan do sua mãe a toma de
volta, aos dezesseis anos, no momento em que se casa de novo. “Tenho, enfim, um pai”, diz
a si mesma.
Esses sucessivos abandonos a marcaram bastante, dando- lhe a impressão de não mais saber
educá-la, que ela não pre cisava expressar nada, não falar do seu desespero ou da sua raiva
por temer que a perda se reproduzisse. O que é que Geraldo pode sentir com esta mãe
hesitante, pouco disposta
Enfoque em terapia familiar psieanalít
ica
a se dar a ele e por ele, insegura na sua capacidade de esta belecer um vínculo de
descendência?
É como se, deixando Geraldo com sua sogra, houvesse procurado junto a esta mulher o
modelo de uma mãe que ela não possuiu; depois, cheia de remorso, atribui-lhe projetivame
o desejo de monopolizar a criança, ela havia tentado compensar seu abandono arrancando-
lhe a criança.
Esses movimentos, por sua violência, não deixaram espa ço para o desejo de Geraldo. A
natureza quase incestuosa da relação avó/pai não podia escapar-lhe, mas uma forte proi
bição o impedia mesmo de se colocar em questão, tanto mais que a guarda da avó parecia-
lhe um sinal manifesto. Poder- se-ia dizer que uma geração foi apagada, a dos pais, o
delírio de filiação emergia como uma escapatória.
Essa história familiar teve repercussões na nossa contra- transferência. Em ocasiões
diferentes, Geraldo parava seu discurso, dizendo que preferia calar-se quanto às coisas que
sabia; em outras, ele tratava o pai como “segredista” e “men tiroso”. Nós, os coterapeutas,
começamos a imaginar que a criança poderia ter uma outra origem, mas a observação das
semelhanças físicas entre ele e seu pai veio embotar nossa imaginação.
No caso Geraldo, nós encontramos as características evocadas na história familiar psieótiea
(Eiguer A., 1994e):
— Anacronismo: os genitores de Geraldo são imaginados como perteneentes a uma outra
época, a do seu avô; sua escolha se faz por consenso ideológico.
— Achatamento de uma geração: os pais são absorvidos pelo casal de avós paternos no que
se refere ao cuidado da crian ça.
—A mãe recusando a descendência primitiva da criança e a inscrição na sua linhagem, que
parece rejeitada.
— A relação pai/avó paterna imaginada como incestuosa.
— A deformação e a ransformaçã0 corporais são alucinadas
aqui, pelo paciente, no nível de seus avós.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
o
“Nós quisemos uma criança única porque um irmão ou uma irmã o teriam contrariado”,
explicam os pais. De fato, uma segunda criança, acredito, teria a*ida reativado o con flito
de pertinência, ele “seria” a criança da avó. Mas uma outra razão complementar é
desvendada à medida em que as sessões acontecem. A mãe era a últTima criança; o pai, o
filho “preferido”, o segundo entre cinco crianças. Os pais confessam ter suportado mal seus
irmãos e irmãs; era preci so evitar a Geraldo os ciúmes e os conflitos. Entretanto, convém
notar que, ao “excluir um segundo e um terceiro nascimentos, crianças mais novas, eles
desdizem suas pró prias concepções. Para “melhor fazer”, como pais, eles se eliminam
como sujeitos-crianças de uma irmandade. Em seu lugar surge, para a mãe e também para o
pai, uma impres são caricatural de recusa. As fontes da “recusa” da filiação de Geraldo já
estão aí, nesse auto-aniquilamento dos pais; o pai, simples instrumento que oscila de sua
mãe à sua mu lher, segundo suas fidelidades mal assumidas; a mãe de Ge raldo, recusando
sua raiva contra a “má”, sua mãe que aban dona, mas deslocada sobre sua sogra... Para
evitar a separa ção, vivida como perda irreparável, o “sacrifício” da cena primitiva parece-
lhe uma saída.
Um delírio de Geraldo, expresso no retorno das primei ras grandes férias, iria também neste
sentido. Ele teria vivi do sobre um outro planeta onde cada habitante usa uma máscara, e
realiza múltiplas viagens intersiderais. Ele esta ria morto, depois ressuscitado; seu corpo
transformado te ria enfrentado operações, mas sua mulher o esperaria “alhu res”. Apesar de
suas mudanças corporais, ela saberia reco nhecê-lo. Geraldo teria também participado de
uma guerra de estrelas; como os condenados do inferno, teve contatos com o diabo, que
parece ter vários nomes. Ele “sabe” que estará melhor no dia em que os condenados
desaparecerem para sempre.
Nós, os três coterapeutas, permanecemos perplexos di ante desse relato schreberiano e
pensamos nas diferentes
Enfoque em terapia familiar psieanalítiea
imagens de Geraldo: hiper-lúcido quando se trata de acentu ar os “defeitos” dos pais e tão
louco e irracional em outros momentos. O caráter provocador de ciúmes invejosos desse
delírio não nos escapa: ele se coloca fora do alcance quando debocha da sexualidade de
seus pais. Estes o confirmam:
subitamente, eles “entram” no delírio. A mãe dirá: “É a ‘eles’ que você ama, teus pequenos
extraterrestres, e não a nós!”
O delírio abria, entretanto, uma brecha exótica nas tro cas das sessões muito monótonas.
Enquanto o pai nos conta o discurso do comentarista da televisão, Geraldo, que vê al guém
sentado ao lado, relata-nos sua loucura.
No fim de algum tempo, os membros dessa família apre sentam-nos seus primeiros sonhos,
momento interessante na evolução de toda terapia familiar. Geraldo vai nos contar um
sonho que aconteceu, exatamente, antes do aparecimen to de seus sintomas: ele está em um
carro com seu pai e sua mãe; o pai recusa a “prioridade à direita”. Então, para evitar
chocar-se com outro carro, ele vai entrar na vitrine de uma loja, onde tudo se quebra,
“explode tudo”. E exatamente antes do aparecimento dos sintomas que ele sonha este sonho
fi gurativo, já uma espécie de fenda que traduz um ego enfra quecido e prestes a se
fragmentar. O desejo do sonho seria de advertência ao sonhador. Além disso, este sonho
revela um mecanismo freqüente em Geraldo. Para evitar “chocar- se”, provoca ainda mais
estrago. Neste sonho, pode-se ler um sentimento nascente de oposição edípica, inscrito na
transferência, que confirma o sonho da mãe. Ela explica que seus sonhos são repetitivos:
sua mãe morre, depois ela fica com seu sogro. O pai não sonha, mas tem pesadelos que o
acordam no meio da noite: vê acidentes e objetos que se quebram. Isto lhe dá muito medo.
Nestas associações, Geraldo nos coloca a seguinte ques tão: “Será que é normal as
mulheres roncarem?” Ele havia compreendido, por si só, que o roncar era característico dos
homens. E o que acontece que sua mãe ronca durante a noi te? (Risos.) Nos nossos
comentários, um de nós (M.M.) asso cia Vitrine com a Trindade — o Pai, o Filho e o
Espírito San-
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A transmiss?jo do psiquismo entre gerações
to. Um outro (J.O.) antecipa a idéia de Vitrine como tesouro de igrejas onde se encontram
relíquias e restos de santos, de ancestrais. (Ainda uma vez, pensamos no mundo dos anjos.
Geraldo fala do prazer da mãe.) Imedjatamente, eles irão falar das crises de sonambulismo
de Geraldo, durante sua infância. Ele pegava uma almofada, ia em direção à porta de
entrada e, não podia abri-la, dormia ali mèsmo. Eles se lem bram de que a bisavó materna
tinha, igualmente, crises de sonambulismo; esta avó representou um papel importante na
vida da mãe do paciente: ocupou-se dela, peqi na idade de dez meses até dezesseis anos,
momento em que a mãe a retoma... mas, por um curto período.
Relaciono o fato de que a mãe viveu, ela própria, a experi ência de ser deixada com uma
avó, materna :flO caso, como o pequeno Geraldo. Qual é a importância destas duas situa
ções na história de Geraldo em relação a seu delírio de filia ção? A mãe acrescenta, durante
a sessão seguinte: “Eu ten tei ser uma boa mãe, não sou, em nada, uma mãe possessi va”
(isto é, ela teria recusado a função materna).
Isto nos remete a esta condição de sustentação ideal, definida por D. Winnicott (1966): a da
mãe suficientemente boa. Proponho também refletir sobre um outro caso especí fico, talvez
igualmente muito freqüente: a mãe insuficiente- mente boa, ou insuficiente porque muito
boa, porque muito antecipadora, porque devastadora, sempre e todo o tempo, dos desejos
da criança; a mãe que domina e diz saber tudo, mas que impede, de fato, a iniciativa da
criança. Tratar-se ja, em suma, dc uma formação reativa a uma incapacidade de inscrever
seu filho na sua descendência.
Comentários
A genealogia renovou nossa pesquisa sobre as cenas dc amor fundadoras. Será que se pode
dizer que a fantasia ori ginária da cena primitiva encontra aí sua confirmação? Como o
fizeram escolher entre pais genitores e avós “educadores”, que só faziam atligir-se entre si,
conduzindo o pai a uma verdadeira partilha-deteriorada de identidade, Geraldo pre
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
feriu escolher genitores célebres, horríveis ou exóticos. Se ele não construiu uma história
familiar neurótica, é porque as condições não lhe foram oferecidas: isto é, descender de uru
casal de pais que pudesse pensar claramente a diferença de gerações, oferecer um
identidade.
A dívida parece impedir a descendência funcional.
Ilustração 3: O caso Gregório. A parte abençoada
Trata-se da análise de um paciente que se perguntava por que a mulher parecia tão
enigmática, para ele? a mãe, de origem alemã, silenciosa, distante, fazia-se ignorar por to
dos. Ele próprio, não tinha lembrança de um contato cari nhoso com ela. O pai, nascido na
França, de pais italianos, encontrou a mãe na Alemanha, quando da ocupação das tro pas
francesas. Ela permaneceu, mais ou menos ligada a seu primeiro noivo alemão, um jovem
oficial da aeronáutica, morto em missão no fronte russo... Gregório tem um irmão mais
velho, Francisco, e uma irmã mais jovem, Teodora
As sessões que vou reconstituir trazem elementos que permitem esclarecer estes pontos
obscuros. Elas acontece ram três anos e meio após o início da cura.
Sonho. “É o adeus da visita a Siena.” Gregório parte no carro que, saindo da cidade, volta a
subir uma crista rocho sa. Chega a um bairro periférico onde se encontra a estação dc
tratamento de esgotos, e constata que o carro regressou em vez de se distanciar. Mas, a
parte baixa da cidade asseme lha-se a Florença. Ao longe, ele percebe alguns companhei
ros com suas famílias. Associações. Quando de sua visita a Florença, tomou um carro com
amigos que viajava por toda parte. Ele se lembra de uma bela vista de um porto, barca ças.
Eu lhe proponho uma interpretação. Esta cidade que ele deixa, depois reencontra, remete à
idéia de partir e de vol Tive a ocasião dc evocar este paciente cm outros momentos de sua
cura, em 199 la, d, 1994a 1995a
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A transmiss do psiquismo entre gerações
tar. Contei-lhe minha impressão de que esse sonho fala “do retorno às fontes”.
Por ocasião de uma outra sessão, entre suas associações, ele dirá que seu pai e o aviador (o
primeii noivo) seriam para a mãe o mesmo personagem, intetcambjáveis. “Eu aca bo de
perceber que seu sobrenome, Eiguer é um sobrenome alemão!”
Durante a sessão seguinte, ele evoca um novo sonho: al guém que viajou “por toda parte”,
mais longe que ele.. .lhe fala do Marrocos, aconselhando-o entusiasticamente a ir vi sitar “a
Nação berbere”. Eu restituo algumas associações. O que aqui é dito prenuncia as revelações
da próxima sessão.
O paciente pensa que, para ele, o desenho vem a ser uma atividade essencial, e lhe dá
marcas.
A. Eiguer: “Marcas.. .semelhança com berbere, pai-pai. Duas vezes o pai...ou o pai do pai.”
A partir deste momento, ele fala de religião, de sua pró pria decisão de tornar-se ateu, o que
exasperou seu pai, do ecumenismo deste último, escolhendo uma mulher protes tante e
referindo-se muitas vezes à confissão como a um exame de consciência, preferindo as
Epístolas de São Paulo, ao passo que sua mãe relê o Apocalipse, etc.
No final, o paciente faz um jogo de palavras com Berlin guer e Eiguer (guer-guerra) e com
Berlin-Strasse, uma das ruas da cidade de sua mãe, e Berlin-Strafe: a punição.
Na sessão seguinte, ele evoca um sonho. “Acabo de falar aqui dc RudyDutschke. O senhor
(A. Eiguer) tomou-me pelo braço e me disse: “Você sente nostalgia, tem desgostos.” No
imóvel, há barulhos como o de uma britadeira.” Ele olha pela janela e observa galerias de
lojas, terraços, escadas que as ligam.
Associações. Rudy “O-Vermelho” o faz pensar em sua mãe que tem um chapéu vermelho.
Britadeira: a guerra, as trin cheiras (interrupção). “Nunca lhe disse que o avô [ foi
intoxicado com gás letal durante a Primeira Guerra? (com
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
emoção). Foi do lado das trincheiras francesas. Ao passo que meu outro avô encontrava-se
do outro lado das trincheiras. Ele também recebeu gás mostarda, mas pôde voltar para casa.
Mais, tarde, ele concebeu minha mãe, e assim mesmo, morreu jovem, do que se disse serem
as conseqüências do gás mostarda.” Os dois avós tiveram este destino em comum, sofrerem
os efeitos do gás. Esta lembrança muito significa tiva aparece em outras, no período que se
segue a esta ses são.
Na Alemanha de antes da guerra, a avó materna será tra tada como louca porque faz
compras nos mercados dirigi- dos por judeus. Somente um louco poderia agir assim sob o
domínio do nazismo.
Sua mãe vive intensamente a adolescência, torna-se “cam peã” de natação, adere às
Juventudes Nacional-socialistas e escapa por pouco, no fim da guerra, dos bombardeios da
estação de Ulm pelos aviões americanos.
Outros membros deste ramo familiar sofreram bombar deios por gás fosfórico e só puderam
se salvar atirando-se no rio: se seus corpos permanecessem em contato com o ar, pegariam
fogo.
Novas associações (sessão seguinte):
Ele fala muito do reencontro dos pais após a guerra, nes te clima tão bem descrito por
Malaparte. Lembrança da ado lescência: uma noite, o pai apavorado desceu, de repente, até
a adega, acreditando, em delírio, em um bombardeio. Ele havia ouvido a sirene dos
bombeiros.
Em urna de minhas intervenções, eu lhe assinalo que me pede (a Eiguer) para evitar-lhe a
guerra, para lhe proteger de situações limites, da loucura.., pelo que passaram os membros
da família (as guerras).
Comentários. Eu sou associado a Berlin-guer (um diri gente): um deslocamento se opera na
palavra Strafe (puni ção). E na noite seguinte a esta sessão que ele sonha comigo
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A transmissão do psiquismo entre gerações
o acompanhando, tomando-o pelo braço. Eu lhe dei uma in terpretação: “Você sente
nostalgia, tem c o que o conduz à inexorável revelação de dramas secretos que trans
tornaram sua mãe e seu pai. Compreende-se, posteriormen te, o sentido dos sonhos
“Retorno às fontes” e “ele me acon selha a visitar a nação berbere (o pai do pai)”. O
significante “britadeira” mergulha-o no ambiente histórico destas lem branças: as guerras,
as trincheiras, o gás. Emerge então, o paradoxo que une suas duas descendências. Estranhas
uma à outra, pertencendo a nações inimigas, os dois avós sofrem o efeito do “gás
mostarda”. Assim, diante da paranóia cole tiva, que é a guerra, sobra o único refúgio, a
loucura da avó materna. Os atos sensatos, tolerantes, humanos, são qualifi cados como
loucos. O paciente fala da loucura, da destru tividade e do desinvestimento na história de
sua mãe que viveu os lutos, provavelmente, longos e vergonhosos, expli cando-nos melhor
esta alguma coisa imperceptível da repre sentação da mãe, e de seu desapego.
O seio flácido e o músculo
Algumas confidências testemunharão, no ano que se se guirá a esta sessão, a dificuldade
materna de viver seus lu tos: por exemplo, o bombardeio da estação de Ulm. Em uma
primeira versão, a mãe afirma que partiu exatamente antes da chegada dos aviões. Em
seguida, ela confessa a seu filho que se encontrava lá, no momento do bombardeio; viu os
ferídos, os agonizantes, as cenas de horror. Outra versão, dois anos mais tarde, desvendará
inteiramente uma outra imagem dela. A questão colocada pelo paciente: como ela pôde se
salvar?, a mãe dirá, em lágrimas, que teve de fazer coisas terríveis, caminhar sobre os
corpos picados, atacar feridos, afundar em ventres enfraquecidos, repelir outros que, como
ela, queriam sair do inferno... Ela justifica penosamente seu gesto, esta violência
fundamental, inspirada no seu de sejo de sobrevivência (Bergerct J.,1984). O desejo de
sobre vivência pairava igualmente no reencontro com o pai.
Se Gregório vive com tal intensidade o sórdido universo anal, é porque ele é super pela
insuficiência da ancoragem oral ao seio de uma mãe ainda enlutada, por seus próprios
dramas pessoais. Será que ela não permaneceu cri ança única após a morte prematura de
seu pai? Posso propor a seguinte construção: a mãe investiu seu filho primogênito de
maneíra diferente em relação ao segundo. O pai também permaneceu criança única. Suas
mães tiveram uma criança, depois um marido morto... Para os pais de Gregório, então, a
primeira criança foi como uma duplicata, ao passo que a segunda concentrou sobre si a
representação dos dois pais mortos: Gregório não foi a criança da alegria. Em seguida, ele
viveu o seio materno na atonia, o mamilo oco, o olhar da mãe desviado, seus braços frágeis,
suas carícias mornas. Sen tado sobre o ramo da analidade, ele carrega, posteriormefl te, seu
olhar distante sobre a floresta da oralidade. Uma ora lidade, na qual procura,
desesperadamente, os sinais de afe to. A apatia do seio foi ontra pela hipertensão do
músculo anal.
Gregório, interessado, excítado mesmo, vai investir ma ciçamente na história da mãe (“a
descida à adega”), estudá la, descortiná-la, olhá-la de todas a partes. Ele quer encher este
vazio com o saber: juntar-se ao desejo de sua mãe. Uma das primeiras descobertas da
análise foi que este desejo es tava colocado alhures, sobre o noivo aviador; a nova luz mos
tra sua mãe às voltas com o amor como evasão e como so brevivência face ao horror, horror
que emergiu com seu nas cimento.
Durante o sexto ano de análise, a busca de Gregório, que não parou depois destas sessões,
leva-o a intcrrogar.Se sobre as condições de vida durante o após-guerra. Ele abrange seu
fértil interesse pela obra de Curzío Malaparte, narrador cáus tico de um mundo macabro e
impíedoso. Do bombardeio da estação de Ulm, passa-se ao período de privações de alimen
tos. Oferecer seu corpo, oferecer-se parece lógico; a moral tem vida curta diante da fome.
Quando o filme de Liliana Cavani, A pele (Cinecittà, Itália, 1981), aparece nas telas
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Atransmissãodo psiquismo entre gerações ______
parisienses, o paciente fica fascinado. O confronto dos ame ricanos com a miséria
napolitana (em 1944) o excita. Ele acredita que vê seu pai no soldado americano que se
apaixo na por “prostitutas”; ele se vê como Malapart pelo lado cáus tico. Por que e como
estes seres de origem tão diferentes encontram-se um diante do outro e se amam?
(Observemos a intervenção: C. Malaparte é o pai-criador dos personagens em questão.)
Uma associação vem confortá-lo no seu prazer de reunir seus pais: seu pai teve de fazer
como o seu avô italiano (paterno) que voltou ao país (ele era trabalhador imigrante em
Paris), a Itália, para procurar uma mulher. O pai também foi procurar uma mulher alhures...
Uma outra interpretação, mais no sentido da escolha do objeto homos sexual, via o pai ir
buscar uma mulher na Alemanha, do lado da fronteira onde morreu seu pai. Na’obra de
Malaparte, o pai da “prostituta” virgem cobra para mostrar o hímen de sua filha, alegoria
cínica da Virgem Maria.)
O nome de Curzio Malaparte sugere-lhe jogos de pala vras: Malaparte com Bonaparte (a
escolha deste pseudôni mo foi deliberada, no escritor), a parte má, seu lado tene broso, dele
Gregório. Curzio evoca Kurtz, Corte, Corto, e depois a personagem de Corto Maltese,
inventada pelo dese nhista de histórias em quadrinhos ítalo-argentino Hugo Pratt. O herói
nasce de pais de origem disparatada, compreende façanhas entre as duas guerras onde se
misturam o sonho, o fantástico e a ação violenta. O paciente identifica-se com o detetetive-
herói que descobre os ancestrais e os faz reviver.
A frase “Meu avô italiano foi intoxicado por gás letal por ocasião da Guerra de 14”, contém
condensadas quase todas as representações que irão se deduzindo a seguir: a inicia ção à
pesquisa do lado dos avós para explicar as primeiras trocas com sua mãe, a tristeza desta
última, o medo do leite tóxico, sufocante e corrosivo (gás mostarda), do mesmo modo o
desejo de intoxicar, por sua vez, sua mãe pelo gás anal. O representante gás mostarda
recepta as duas fendas:
o buraco anal e o buraco inerte no lugar do mamilo, e seus dois produtos: o gás anal fétido e
o leite amargo. O bastão
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
fecal é reencontrado no cadáver deste mesmo avô soterrado na trincheira (reto).
Duplas narcísicas
Algumas observações sobre este caso: o ancestral apare ce como uma criança morta que
pode revezar-se com um outro morto. Gregório seria como esta criança identificada com os
dois avós mortos. Seus ancestrais dissimularam uma parte da libido materna destinada
normalmente ao indiví duo. Este desinvestimento suscita um desinvestimento do indivíduo,
aliás, um buraco. Em torno do ancestral um cír culo nada absorvido, impensável.
Como a lembrança não é a conseqüência de um retorno do recalcado, mas a abertura de
uma brecha, isto é, a fenda de uma clivagem rígida, a estrutura narcísica é profunda mente
transtornada. O paciente sente-se perplexo, recusa esta identidade entre ele e o ancestral,
mas a estranheza o incendeia , etc. Em um segundo tempo, o narcisismo assim abalado
tende a fabricar um duplo, um gêmeo imaginário; para Gregório, Curzio Malaparte ou
Corto Maltese.
É a transferência que, em última instância, recolherá as representações ancestrais, suas
arrogâncias idealizadas ou suas ralés perturbadas; o excesso-de designações abusivas ou o
excesso-de vazio do impensável; o excesso-de-frio do desinvestimento ou o excesso-de-
calor das paixões inomi náveis. Ver a este respeito os belos jogos de palavras com os quais
Gregório me honra: Eiguer/a punição e Eiguer/as guerras.
CONCLUSÕES
Gostaria de responder a três questões.
1. Seria possível localizar um mito que simbolize a trans missão psíquica entre gerações,
como o de Edipo ofaz com seu complexo, e o de Narciso com o narcisismo? (Cf. tam bém
Eiguer A., 1995a.)
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A transmissão do sjquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
Eu responderia: tal complexo acha seu modelo mítico na genealogia dos Átridas, onde se
localiza upia compulsão à transmissão e à ação... cujo efeito emerge uma ou muitas
gerações mais tarde.
Trata-se, ao longo de cinco gerações, da constituição da parte maldita, de sua transmissão,
do voto de “lavá-la com sangue”, mas isto gera outros crimes e vinganças; enfim, trata-se
da resolução deste ciclo estereotipado pela introjeção da lei, a continuação de um superego
edípico e o vir-a-ser do sujeito.
Deve-se assinalar tendências libidinais opostas: o retorno do ancestral, a libertação do
mandato de sujeição e das dife rentes variações da repetição inconsciente.
a) O descendente reproduz a conduta de seu ascendente de maneira impulsiva, automática,
em um registro menos mentalizado. Por exemplo, Pélope engana e trai Mírtilo como
Tântalo o fez com Zeus.
Meus pacientes Geraldo e Alice deslizam por situações repetitivas semelhantes. Geraldo
reproduz no seu delírio de filiação a recusa de seus pai e mãe. Alice, quando seu irmão
desenvolve sintomas (erotomania, homossexualidade) “en dereçados” ao avô paterno. Sua
identidade está a serviço do ancestral.
b) O descendente reproduz o gesto do ascendente de ma neira ainda mais abjeta. Como seu
avô Tântalo o fez com Pélope, por ocasião do banquete oferecido a Zeus, Atreu dá de
comer a Tieste as crianças deste. Ao passo que com Tântalo há o escárnio colocado em
questão, com Atreu há o cálculo:
ele quer eliminar os rivais em potencial. Quer também vin gar o adultério, ato que não
merece, certamente, uma puni ção tão severa.
e) O descendente compreende o ato que o ancestral não pôde executar. Por exemplo, Tieste
“partilhando” a mulher e o reinado de Atreu, ao passo que Mírtilo não pôde fazê-lo.
d) O descendente reproduz a conduta do ascendente, mas ele é menos determinado.
Posteriormente, ele parece lastimá
lo. Como seu pai, Egisto “partilha” a mulher e o reinado de Agamenon, mas,
diferentemente de seu pai, experimenta remorso, etc.
e) O descendente introduz a dimensão do desejo ali onde o ascendente havia agido. Por
exemplo, Electra ama seu pai, mas ela não se une a ele como Pelopia. Diferentemente de
todos estes ascen-dentes que cometeram um assassinato, Orestes se sente culpado. Gregório
(ilustração 3) tenta re solver a dor e o “erro” maternos; ele a poupa, depois super- investe na
analidade e na busca intelee-tual.
2. Qual é a contribuição dos analistas de famílias para a transmissão da vida psíquica entre
gerações? Estes analis tas insistem sobre a importância do casal como revezamento inter-
imaginário; sobre a necessidade de estudar a herança estruturante da mesma maneira que a
herança desestrutu rante, essa parte maldita; sobre a diversidade de situações em que os
objetos se encontram, as economias e os tópicos individuais e familiares específicos.
Dois outros elementos confirmam esse interesse. O pri meiro é prático. A lembrança dos
ancestrais em terapia fa miliar analítica destaca-se como um dos momentos mais
emocionantes, solene, de vergonha ou de horror, às vezes, de achados freqüentemente.
Quaisquer que sejam as revela ções e as conclusões sobre o ancestral, a família sai
fortalecida. O selfgrupal é melhor delimitado; o “nós” fami liar é revivido. A função de
representação, cujo desabro chamento interessa ao terapeuta com prioridade, é estimu lado
nela. Algumas sessões depois, os membros da família voltam-se sobre os objetos de
transmissão psíquica entre gerações; eles acrescentam detalhes, novas lembranças, di
ferentes, modificam mesmo integralmente os dados, os afe tos evoluem. O próprio processo
transferencial pode ser balizado e construído por estas associações e construçõeS.
O segundo é teórico, O ancestral reformula a problemáti ca do parentesco. O ancestral
aparece como um outro do pai, então, como o pai espiritual e simbólico. Ele veicula os
mitos de origem estruturando a família. Portador do amor,
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—83 —
A transmissão do psiquismo entre gerações
que lhe professam a mãe e o pai, ele infiltra o amor na gravi dez (recinto) familiar, os
projetos e a pertinência. O desejo da criança define-se em relação a este desejo.
3. Será que a idéia do objeto de transmissão da vida psí quica entre gerações pode aspirar
ao estatuto de conceito? Eu tentei confirmá-lo, aplicando os pontos de vista meta-
psicológicos.
Economia. O objeto de) transmissão psíquica entre gera ções tira sua força da libido dé um
outro, muitas vezes trans bordante se se pensa na paixão que experimenta o parente em
relação a ele.
Dinâmica. O objeto de transmissão psíquica entre gera ções está na base de distúrbios.
Fruto de fidelidades contrá rias, um conflito conduzido por compromissos sob a forma de
sintomas, de iden-tificações, de dificuldades de caráter. Nós já evocamos a oposição
mensagem simbólica/violência da transmissão da vida psíquica entre gerações. Mas, uma
outra forma de conflito pode ser assinalada: aquela que con fronta o ancestral com o desejo
do indivíduo, que tenta exis tir por si mesma e sem o peso do “passado composto”. Pul são
contra objeto de transmissão psíquica entre gerações.
Tópica. Diz respeito à organização do aparelho psíquico. O ego é marcado por clivagens e
por espaços vazios. Desde o momento em que o ancestral impõe o silêncio o narcisismo é
particularmente perturbado, depois afetado quando os se gredos são revelados. Parece-me
enfim, que o superego é melhor compreendido se se vêem as relações objeto/outro em ação
na sua constituição.
Nota do autor: Em memória de Gktdvs Swain (1945-1993), psiquiatra de vanguarda, com
quem tive o prazer de conduzir uma terapia familiar
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Capítulo 2
A POSTERIDADE DA GERAÇÃO
MDRÉ CARa
Q estudo psicanalítico do processo de transmissão
psíquica entre gerações, cuja clínica da cura in dividual e familiar mostrou a complexidade,
faz
emergir uma série de questionamentos que abordarei apoi ando-me, particularmente, na
minha experiência da cura familiar pai-mãe-bebê. Minha reflexão articula-se com e apóia
se sobre a contribuição teórico-clínica, constantemente ela borada por S. Lebovici (1980,
1983, 1984a, 1994b, 1995) em torno da mesma temática: como se organiza, no inter-
psiquismo do vínculo primário e no intraps dos indi víduos, a herança de geração, “a
alegoria genealógica”, se gundo um movimento permanente em que domina a efetividade
psíquica na posteridade? No modelo de Lebovici, com respeito “ao vir-a-ser parente e à
filiação”, à referência à neurose infantil, à estrutura edípica e ao funcionamento do
superego, esta herança de geração ocupa um lugar cen tral, e assume uma função
organizadora do crescimento psí quico da criança na família. Voltarei a isto rio decorrer do
texto.
A primeira questão diz respeito aos elementos psíquicos da transmissão. O que é que se
transmite? Sobre o quê incli na-se a herança? O afeto, a fantasia, o mito, as modalidades
defensivas.., a bem dizer, toda a vida psíquica participa do
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psieana1ítie
impulso para transmitir. Mas seguirei a pista superegoica, pois não há dúvidas de que o
superego é o condutor vivo dos processos entre gerações. M. Proust, em A Prisioneira, já fa
zia a seguinte observação: “Em nossa vida, tudo se passa como se entrássemos nela com a
carga de obrigações con tratadas em uma vida anterior.” Esta afirmação entra em
ressonância, com o intervalo de alguns anos, com as afirma ções bem conhecidas de S.
Freud (1932): “E assim que o superego da criança não se edifica, de fato, segundo o mode
lo dos pais, mas segundo o superego parental; preenche-se com o mesmo conteúdo, torna-
se portador da tradição, de todos os valores à prova do tempo, que são perpetuados, desta
maneira, de geração em geração. [ A humanidade jamais vive inteiramente no presente; nas
ideologias do superego, o passado continua a viver.” Desenvolverei a proposição se gundo
a qual o superego perpetua algo do passado transmi tindo sua própria forma e um modelo
de gestão do conflito interno.
A segunda questão volta-se para as modalidades da trans missão, as mediações pelas quais
se organiza o interpsiquismo de uma geração à outra: como isto se transmite? Certamen te,
através de mediações verbais e não verbais, qualquer que seja o nível tópico de onde
“parte” a mensagem: inconscien te, preconsciente e consciente. B. Cramer e E Palacio-
Espasa (1993) propuseram, como resposta a esta interrogação, ex traída das terapias mãe-
bebê, o conceito de “seqüência interativa sintomática”, que visa conectar, precisamente, a
representação que o terapeuta faz de uma fantasia inconsci ente da mãe e do funcionamento
mental do bebê com a cons trução que suscita a observação de uma seqüência interativa, de
uma troca repetitiva, na sessão, entre mãe e bebê e o terceiro terapeuta. Como é que
funciona, então, “o apare lho para interpretar”, segundo a hipótese formulada por Freud
(1912), face a esta complexidade de comunicação, desde o início dos vínculos? Veremos
que o dispositivo da cura familiar, focalizada na tríade pai-mãe-bebê, trabalha esta
problemática de maneira particularmente viva.
A terceira questão diz respeito ao grau de transíormaçã com que opera a psique de cada
indivíduo e de cada “apare lho psíquico familiar” sobre o legado genealógico, a fim de se
apropriar dele. R.Kaës (1993a) propõe fazer oscilar “ trabalho de transmissão psíquica”
entre dois pólos: um, isomórfico, da “transgeração”, o outro, homomórfico, da
“intergeração”. Mesmo que, como penso, a transmissão seni transformação seja um
conceito limite — pois cada psique e cada aparelho para interpretar é singular, em um
contexto cada vez mais diferente — a idéia de uma dupla polaridade dá conta da
heterogeneidade de graus de metabolização da herança, e sugere a metáfora de uma
transmissão em mo saico. De minha parte, empregarei o conceito de “geração” (como se
pode dizer, “o sexual”) para designar o que, na psique é relativo à transmissão-
transformação, aos graus in finitamente variáveis, aos elementos psíquicos entre os indi
víduos de gerações sucessivas, O destino do superego de ge ração, da repetição da
lembrança, reterá minha atenção.
Quanto à posteridade, ela está no coração desta trans missão-transformação. Mas, como
pensar a posteridade no vínculo precoce pai-mãe-bebê, isto é, como articular a pos teridade
como processo intrapsíquico segundo o mode’o freudiano, e a posteridade como processo
interpsÍquico? Argumentarei a partir do trabalho do luto e do superego, e do que uma certa
escuta na cura familiar permite compre ender da “posteridade da geração”.
1. A FIXAÇÃO DE GERAÇÃO
Pode a fixação ser eficiente, quanto ao destino da instân cia superegoica, no âmago da
psique individual e do apare lho psíquico familiar? Os trabalhos teóricos relativos à tralis
missão psíquica entre gerações dos elementos psíquicos já responderam positivamente a
esta questão, mas de maneira implícita, sem recorrer, pelo que sei, ao conceito de fixação.
Uma etapa importante, na obra freudiana, para a consi deração da transmissão psíquica
entre gerações de unia fi
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A transmissão do psiquismo entre gerações
xação, é, evidentemente, Totem e Tabu (1910), baliza impor tante neste percurso
centralizado no vir-a-ser do superego na descendência, tal como a terapia familiar
psicanalítica, particularmente, permite reconstruí-lo na posteridade da cura. O superego, à
procura do autor, direi eu, para designar uma das molas que preside o vir-a-ser da instância
supe regoica, a saber, a oscilação entre o imago designado, porta dor do enunciado
interditor, e a mensagem anônima, em imperativo categórico: “Não faça isto, e ponto final.”
Este percurso fará aparecer uma segunda oscilação: a oscilação da censura entre o superego
pós-edípico e a pseudo-lei de talião.
A fixação, como um modo de inscrição de alguns conteú dos represeitativos no
inconsciente, será então considera da segundo uma concepção genética, ao mesmo tempo
indi vidual e da geração, como Totem e Tabu nos convida a obser var. Com efeito, o estudo
comparativo em relação à ambiva lência, ao sistema do tabu socialmente transmissível e à
doença da sujeição-compulsão individual, leva S. Freud a for mular, a respeito da proibição
do toque, uma definição da fixação que me parece ao mesmo tempo simples e heurística
para o nosso propósito, mesmo se, à época, Freud não dispu sesse ainda do conceito de
superego. No combate entre o desejo e a proibição do toque, “levando em conta a consti
tuição psíquica primitiva da criança, a proibição não conse gue abolir a pulsão. O resultado
da proibição foi somente o de, recalcar a pulsão, o desejo de tocar e de bani-la para o
inconsciente.”
Observemos que Freud faz coexistir, neste enunciado, três termos: recalcar, banir e abolir,
como algumas figuras nega tivas. Ele prossegue: “A proibição e a pulsão subsistiram uma à
outra 1... 1. Uma situação não resolvida, uma fixação psí quica criada e, todo o resto
decorre, desde então, do confli to persistente entre a proibição e a pulsão. Nenhum com
promisso, que põe fim à oposição de duas correntes, pode ser atingido por um caminho
curto, pois, o que podemos
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
dizer, é que elas estão localizadas de tal maneira na vida psíquica, que não podem se
encontrar. A proibição torna-se altamente consciente, o desejo de tocar é inconsciente.”
Freud, de maneira condensada e alusiva, aos nossos ouvidos atuais, indica as duas direções
pelas quais pode evoluir o conflito entre as forças antagônicas: seja o compromisso na
solução neurótica normal, seja o dilema na solução parado xal, do que voltarei a falar. E
mais, podemos entender a fun ção da tópica e de sua desestruturação sob a evocação do
problema da localização de forças na incidência de uma ou de outra destas duas soluções:
compromisso ou dilema.
Martin, o bebê ancestral totemizado
Examinarei, agora, com a ajuda de uma situação clínica, brevemente exposta, e pertencendo
ao registro do vínculo primário pai-mãe-bebê, de que maneira a fixação do conflito de
geração entre as forças antagônicas pode efetuar-se. Mar tin, com cinco meses, segunda
criança de uma irmandade de dois meninos, vem acompanhado de sua jovem mãe, de seu
pai e de seu irmão mais velho, durante algumas entrevis tas familiares recomendadas pela
psicanalista da mãe, tra tada há muito tempo por causa de uma anorexia mental antiga, em
recaída após o nascimento de Martin.
Desde a primeira entrevista mãe-criança, a Sra G. trans mite seu extremo desassossego face
a este bebê, de quem ela não chega a se sentir mãe: “Eu encontrei dificuldade em ver que
ele existe e ele próprio não me olha, ele só olha seu pai.” De fato, aqui, seus olhares não se
cruzam, e Martin ora está petrificado na sua carapaça muscular, na sua “segunda pele”; ora
está agitado pela crise de hiper-extensão do seu eixo, em busca do “objeto em segundo
plano”, ainda que segurado nos braços endurecidos da mãe. Entretanto, per cebo atrás de
suas máscaras trágicas a espera de uma comu nicação calorosa que lhes proponho pelo
sorriso, por pala vras de acolhimento e por gestos na direção da criança, o que produz um
primeiro relaxamento: a criança me sorri,
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A transmissão do psiquismo entre eraçõcs
Enfoqucem terapia familiar psicanalítica
por sua vez, e se joga discretamente para mim. A mãe deixa então entrever seu apego
através da barreira da proibição do toque, físico e psíquico, manifesto: “Eu tenho vontade
de estar próximo de Martin como estou do primogênito. Não quero ser como meus pais,
angustiados, distantes.” E neste momento que Martin escolhe pegar com a boca a mão ma
terna, que havia se aproximado de seu rosto, e sugá-la, para surpresa emocionada da mãe,
que exclama: “E a primeira vez que ele faz isto!” Dirijo-me, então, à criança com uma
mensagem destinada a ela própria e à sua mãe: “Você come, experimenta, aprecia sua boa
mamãe”, mensagem que con tém o reconhecimento do investimento recíproco, bem como o
da pulsão oral inibida quanto ao objeto.
Passaremos então, a uma segunda etapa importante, gra ças à conjugação de uma série de
fatores favoráveis: a mãe já tem uma longa reflexão psicodinâmica que a familiarizou com
o seu mundo interno; o pai, caloroso e colaborador, pertence a uma família numerosa vivida
como unida; a aber tura psíquica, própria à gravidez e ao tempo perinatal, ain da está
próxima. Descobrimos uma das identificações (in conscientes, preconscientes?) de
gerações, fonte da am bivalência materna muito forte em relação a Martin. Quan do de uma
entr em que o pai, a mãe e as duas crianças estavam presentes, foi dito que os pais haviam
esperado, por ocasião desta última gravidez, uma filha, que teria levado o nome de
Clementina. Esta evocação suprime, então, uma amnésia materna. Clementina é o nome da
avó paterna da Sra G., que havia recalcado o vínculo de identificação furti vamente
estabelecido durante a gravidez, entre sua futura criança e a ancestral jamais conhecida. A
avó paterna da mãe, Clementina, era então uma jovem mãe solteira faleci da com a idade de
20 anos, somente dois meses depois do nascimento do seu primeiro filho, o futuro pai da
Sra G. Bebê, cujo pai genitor, então, (avô paterno da Sra G.) havia permanecido em
segredo.
L’ma dupla referência acentua, segundo a Sra G., sua identificação com esta avó paterna.
Uma consciente: quan
do a Sra G. era bebê, diz a lenda familiar, era considerada pela família “exatamente o
retrato de Clementina”. Outra inconsciente, que o trabalho psicoterapêutico individual já
havia revelado: a Sra. G. iniciou sua anorexia mental aos vinte anos, idade do falecimento
desta avó paterna. Ela pode então, completar o enunciado relativo ao vínculo de identi
ficação de geração: “Penso agora, diz ela, que querer cha mar esta segunda criança de
Clementina talez tenha desper tado toda essa história.” Enuncio, então, a hipótese segun do
a qual a mãe, estando feliz de ter tido um segundo meni no, Martin, faz reprimendas a si
própria, e o faz a ele, por não ter podido permitir a ela, a mãe, dar a seu pai uma pe quena
filha, que teria levado o nome da mãe desta. “Sim, responde ela, eu teria desejado dar-lhe
este prazer.”
Esta intervenção visava aliviar a exigência do superego e do ideal de ego da mãe: dar, via
criança, uma mãe a seu próprio pai, o que é uma fantasia de engendramento, revi rando a
ordem de geração. A intervenção contribuiu, ainda, para desfazer a coação da ambivalência
materna para com o bebê Martin, pois as semanas seguintes foram marcadas pelo
desaparecimento das perturbações do olhar e do tônus da criança, e da descoberta, pela
mãe, de seu apego afetuoso ao bebê. A imagem do bebê Martin havia se dissociado um
pouco de alguns imagos ancestrais, sem que, por isso, ou tras descendências associativas
identificatórias tivessem sido exploradas: por exemplo, teria sido Martin destinado para o
lugar de seu avô materno, antigo bebê abandonado por uma mãe falecida e por um pai
desconhecido?
Nesta breve seqüência clínica esquematizada, o alívio da desqualificação praticada pela
mãe, suas próprias compe tências, no vínculo primário, e a supressão do tabu do toque
físico e psíquico do qual o bebê é o objeto, emprestam, prin cipalmente, duas vias através
das quais a fixação de forças em conflito começa a mobilizar-se.
A primeira é a do registro da “ação da fala” (P.-C. Raca mier), da interpretação pelo ato: o
terapeuta “toca” o bebê
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A transmissão do psiquismo entre gerações
com seu olhar, suas palavras, seus gestos, este se deixa tocar por ele, e abre, através desta
atividade pragmática da comu nicação, uma oportunidade de identificação que irá aliviar o
rigor da censura materna, O terapeuta é, na transferência, o autor designado, aqui e agora,
para uma personificação do superego que enuncia, em substância, o que se segue: “Toca- se
um bebê”, e permite assim ao ego materno comprome ter-se melhor no encontro com a
criança. A segunda via se adianta, ao longo das identificações inconscientes de gera ções,
em busca de uma “culpabilidade emprestada” (Cournut J., 1983) transmitida à revelia de
cada um; de superego em superego, relativa ao vínculo primário pai-mãe-bebê. Culpa
bilidade esta que pôde fixar-se em torno de uma fantasia do tipo “o bebê apaga pai e mãe”,
onde se reconhece “a violên cia fundamental” (Bergeret J., 1984) do cenário edípico,
fantasia ativada pela narração da história familiar, que a Sra G. (re)constrói.
A mãe ancestral, Clementina, é Clementina grávida de um homem declarado desconhecido,
depois falecida aos vin te anos, dois meses após o nascimento de seu filho, futuro avô
matérno de Martin, o qual Martin é, então, inconscien temente identificado por sua mãe a
Clementina, via desgos to de não ter sido filha e mãe, filha-mãe. Da mesma forma que a Sra
G. havia se identificado vinte anos atrás com Clementina, sua avó paterna também se
deixara deperecer por uma anorexia mental. Agora, no pós-parto, o desânimo atinge a mãe
e o vínculo mãe-criança.
Mortificar, magoar, punir consciente e inconscientemen te a si, ao outro, a seu outro, para
fazer viver, reviver incons cientemente o ancestral idealizado, “esquecido pelo bebê”,
segundo o enunciado da suposta fantasia. O ancestral Janus tem uma face aclarada na
sessão, a de Clementina, ao passo que a outra permanece obscura, o pai desconhecido,
anôni mo. Compreendemos então, que em um mesmo movimen to, o ancestral, a mãe e o
bebê puderam ser totemizados. O tabu caía sobre seu vínculo, o tabu do toque físico e
psíqui
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
co. O peso deste tabu vinha de uma ambivalência intensa em relação ao imago do bebê, ao
imago materno, e para com a cena de sedução mãe-bebê, na qual o imago paterno é
atenuado. Podemos então utilizar os termos empregados por S. Freud para qualificar os
afetos condensados no tabu em relação ao totem primitivo: o bebê é “sagrado e impuro, ve
nerado e abominado”. A redescoberta do vínculo de identifi cação entre Martin, sua mãe, o
avô materno de Martin e a ancestral Clementina desagrega os elementos do complexo
conflituoso fixado. Ela produz uma nova modificação na qua lidade do superego materno,
cujo processo poderemos ex plorar mais adiante. Digamos desde já que a maleabilidade, a
cura do superego, consuma-se, no caso atual, através dos reencontros com o objeto perdido
de geração, um dos auto res-fundadores figuráveis do destino do superego: que aqui é
“Clementina”. O movimento melancólico que se instalou — a sombra do objeto
Clementina racaía sobre o ego mãe-bebê
— esboça sua queda de nível em favor da mutação do supe rego, mutação promovida pelo
acesso ao humor interno (Carel A., 1993) que reinstaura o trabalho psíquico familiar. E é a
mutação superegoica, fosse ela efêmera, que permite ao ego apropriar-se subjetivamente, e
transformar em pou co mais o que, da herança, era tratado como invariante.
É preciso considerar, agora, as nuanças que esta formula ção contém do realismo de
geração e da temporalidade line ar. Nós estamos, certamente, bem fundamentados ao conce
der crédito ao potencial traumático do acontecimento ou trora ocorrido: uma bisavó
solteira, morta aos vinte anos em seguida ao parto. Acontecimento este que condensa nas
cimento e morte, vida e morte, ainda mais que, no presente caso, a criança nasceu de pai
desconhecido ou melhor, se creto. Mas, este traumatismo só adquire sua efetividade psí
quica na temporalidade da posteridade, via funcionamento mental inconsciente de
indivíduos sucessivos da descendên eia que irão interpretar, construir uma fantasia, uma
teoria, na verdade, um delírio. Formulo a hipótese de que esta cons trução, cada vez mais
original, esboça-se a partir de uma
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Atransinissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
invariante formal ou de um “significante enigmático” for mal. Uma invariante que conteria
o traço do acontecimento histórico (aqui a contigüidade nascimento-óbito) produzin do a
confusão representativa vida-morte, ela própria geran do uma forma psíquica inconsciente
do tipo: “toda vitalida de sexual é passível de morte”, ou então, mais lapidar ainda:
“mudar é morrer”, ou ainda, colocando o acento no ritmo:
“variar se precipitar”. Esta formulação repousa na hipótese de um processo de tipo
“traumatismo, fixação e posteridade de gerações”, cuja transmissibilidade seria assegurada
pelas regras familiares que regem a gestão do patrimônio supe regoico.
A transmjssjb ii idade da forma conflituosa
Proponho desenvolver esta hipótese da seguinte manei ra. Uma situação traumática familiar
— em que uma das formas típicas é a coincidência temporal nascimento-óbito, gerando a
condensação representativa entre a vida e a mor te (J. Guyotat, 1980) — desorganiza o
sistema de valores: o desespero é vivido como desordem do mundo. A figura do pai torna-
se m específica para J. Guyotat (1995). A instância superegoica não tem, desde então, a
mesma ca pacidade reguladora para com as pulsões. A relação entre “as forças
antagônicas”, entre o que é da pulsão de vida e de morte, e o proibido não se estabelece
mais de maneira mo derada, “como antes”, um bom compromisso neurótico. Esta relação
tende a tornar-se um dilema e um “paradoxo” de uma violência fundamental: a vida ou a
morte, a pulsão ou a proibição, um ou outro. Examinarei mais tarde os fatores de
exacerbação desta problemática eontida — moderato — em toda organização edípica, como
argumentou li. Faimberg (1993) a partir da figura de Laios, considerada “metáfora do pai
narcísico filicida”.
Na conjuntura traumática, a regressão do superego, correlata da qualidade mínima de
trabalho do ego, contri bui para a transmissibilidade da fixação: “LTma situação não
regulada, uma fixação psíquica 1...], um conflito persistente
entre proibição e pulsão [ qualquer compromisso que ponha fim à oposição das duas
correntes”, escreve S. Freud (1912), comparando tabu social e tabu individual do toque. Tal
fixação constitui uma forma estável, um estilo de gestão do conflito que fornece um modelo
de identificação, uma matriz de comportamentos interativos para os indivíduos da
descendência, sobretudo quando se apresenta uma nova conjuntura existencial, como o
nascimento de uma criança, suscetível de atualizar novamente na posteridade esta for ma
antecedente de gestão do conflito.
No exame da transmissibilidade dos elementos psíquicos acentuo menos os conteúdos,
mesmo se alguns deles possu em uma eficiência particular, do que a forma estável do con
flito de instâncias que esses elementos geram.
A questão do toque, explorada por S. Freud em Totem e Tabu, adquire um valor
paradigmático se se considera que o toque — no sentido amplo, físico e psíquico — está no
cen tro do modelo do processo de vineulação e de sua transmis são de geração (Lebovici S.,
1989) e no coração do vínculo de filiação corpo a corpo (Guyotat J., 1995). Antes que se
estabeleça secundariamente “a proibição do toque” (Anzieu D., 1985), é necessário que um
certo tipo dc toque, regula do pelo superego pós-edípico materno, tenha podido forne cer as
mediações aptas a instaurarem a sedução organizadora do vínculo precoce.
A situação puerperal e o nascimento possuem uma efici ência particular para a (des)
organização, na posteridade, de traumatismos de geração. Examinarei, agora, três conjun
turas cuja comparação mostrará ser preferível falar em potencialidade traumática no
nascimento do que em trau matismo do nascimento.
2. A POTENCIALIDADE TRAUMÁTICA DO NASCIMENTO
O projeto de engendramento, o nascimento de uma cri ança e o serviço genealógico
rompem o efêmero equilíbrio
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A transmissão do psiquismo entre gera
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
narcísico-objetal do casal conjugal; J. Bosch o representa no apogeu da curva, em uma
bolha, ao abrigo dos tumultos do mundo.
Liberado um instante, mesmo que ilusoriamente, da li nhagem dos ascendentes, e não ainda
engajado na dos des cendentes, cada indivíduo do casal paira como uma sobre carga
genealógica.
Este momento fecundo do narcisismo objetal a dois pre ludia a crise maduradora do
engendramento de um terceiro que, em um novo ciclo bio-psico-socjaj, fundamenta a famí
lia. Uma das tarefas desta última é o crescimento psíquico do novo indivíduo no grupo-
família. Falo em “Grupo-famí lia” mais do que em “grupo familiar” para acentuar a dupla
identidade deste conjunto. E um grupo com seu limite, em homomorfja com o do corpo e
do ego. E uma família teori camente ilimitada, dada a associatividade da filiação e das
alianças, em homomorfia com o sem fim associativo dos re presentantes das pulsões na
psique.
O surgimento de uma nova forma da família, com a che gada de uma nova criança irá,
então, renovar o equilíbrio anterior, e lançar novamente na posteridade a dinâmica da
psique individual e do aparelho psíquico familiar.
A época do nascimento de um recém-nascido, da chega da de um estranho na família,
constitui então, uma prova, sem dúvida, potencialmentc traumática, segundo as circuns
tâncias de sua inscrição na diacronia e na sincronia do eco sistema familiar, mas, não
traumática em si. A clínica faz pensar que, em condições ordinárias, e quando a preocupa
ção parental primária é suficientemente boa, o recém-nas cido possui o equipamento
neurobiológico apto a metabolizar esta prova. Entretanto, a conjunção, em período
perinatal, da regressão psíquica normal, que põe os pais em contato com sua infância, e da
realidade da vulnerabilidade biológi ca e psíquica da mãe e da criança, submete a dura
provação a psique dos pais, e assim, o conteúdo psíquico que irá aco lher o novo ser. E
desta maneira que pode haver uma situa-
ção traumática para o bebê, o traumatismo do nascimento, na brecha de riscos de seu
ambiente humano e de sua pró pria vulnerabilidade sômato-psíquica.
As ocorrências perinatais só podem fornecer seu contin gente ao desencadeamento do
traumatismo familiar em fa vor de uma nova atualização de distúrbios infantis na psique
dos pais. A cena do nascimento fornece, então, um terreno fértil para a reincidência de
angústias primitivas dos pais que irão encontrar, na ocasião, seja a (re)significação cons
trutiva, seja, ao contrário, a desestrução do “continente es trutural edípico”.
Esta última expressão merece uma observação casual que será desenvolvida em outras
circunstâncias. O trabalho psi canalítico na cura familiar, centralizado no bebê, levou-me a
uma representação dc que tanto o terapeuta quanto o pai teriam, para elaborar tal
experiência, de pôr em ação: um quadro interno feito da articulação, ou melhor, da
oscilação entre dois registros de funcionamento mental. Um, regre dido, cm identificação
com as modalidades arcaicas da psi que dos indivíduos (o bebê real, o bebê no adulto), para
es tar à escuta das angústias potencialmente catastróficas, e dos movimentos defensivos que
lhe seguirão. O outro, neu rótico edípico, que abriga e sustenta, de alguma maneira, o
contato íntimo entre as interioridades de cada um, pelas emoções, pensamentos, palavras e
atos, a salvo da proibição da passagem ao ato, enunciada pelo superego pós-edípico do
adulto. Este duplo registro utilizado com flexibilidade constitui o que define melhor, na
minha visão, as condições propícias para a evolução neurótica normal do bebê. Passo a
estudar agora alguns riscos.
A prova existencial
A situação mais freqüente para o clínico, no fundo, é re presentada pela passagem, na
ocasião do nascimento, por provas dramáticas que, no entanto, não desencadeiam a neu
rose traumática parental, no sentido psicanalítico do termo, e não impedem a
individualização harmoniosa da criança.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
Assim, Fabiano, com um ano de idade, apresenta-se, a despeito de uma discreta
hemiparesia, como um garoto de sabrochado, diferenciado de sua mãe e confiante em
relação a ela. Ela me consulta porque sente que experimenta uma angústia e uma
culpabilidade excessivas a uma simples re presentação de eventual separação de seu filho,
ainda que sinta uma certa prostração, depressiva, mas calorosa, ao fim das provações que
acabam de atravessar. Fabiano apresen tou uma asfixia perinatal, depois uma meningite
complica da por hidrocefalia, precisando de uma intervenção cirúrgi ca, de maneira que
esteve hospitalizado durante quase três meses. Os pais ouviram, por diversas vezes, o an de
que Fabiano iria morrer ou permanecer com seqüelas neu rológicas gravíssimas. E então,
esta mãe, amparada pelo pai, mobilizou todo o seu capital libidinoso para investi-lo em
Fabiano, fazer-lhe visitas, superar legítimos desejos consci entes de morte em relação a ele,
e então, oferecer-lhe o ambiente psíquico adequado. O problema para ela e tam bém para a
criança é, agora, de desinvestir parcial e pro gressivamente o imago excessivamente sedutor
de parente heróico e de criança vulnerável a proteger e a salvar sem cessar. Em resumo,
assegurar a transição entre uma situa ção excepcional e a vida comum de uma família.
Mas, seguindo em nosso propósito, é ainda mais interes sante tal qualidade de vínculos
intrapsíquicos e interpessoais para com uma criança gêmea, que pode coexistir na psique
parental, então clivada, em uma posição de desligamento maciço do outro gêmeo.
Encontrei esta configuração (Carel A., 1993) por diversas vezes. Os pais estão identificados
com o gêmeo danificado, a quem foi reservada a ternura, ao pas so que o gêmeo sadio,
representado como o agressor, é fada do a uma não identificação. Os movimentos das
pulsões cm sua direção chocam-se com os contra-investimentos maci ços e repetitivos, na
medida em que o imago deste gêmeo sadio e agressor condensa-se aos objetos internos
odientos dos pais e com alguns imagos de gerações, fontes de violên cia. Na cura familiar,
o trabalho com o ódio e a condensação
imagóica contribui para instaurar novamente a ternura ma terna para com o gêmeo sadio,
suposto agressor.
Estas configurações clínicas mostram em que ponto a po tencialidade traumática da
chegada de uma criança é bem mais dependente de movimentos de investimento e de iden
tificação inconscientes dos pais do que de fatores da realida de exterior.
A neurose traumática e o luto inacabado
Neste caso, o equilíbrio dos investimentos pulsionais, entre
o pólo objetal e o pólo narcísico, para cada indivíduo e para
o grupo-família, só é moderadamente modificado pelo nas cimento de uma criança. Esta é
identificada preconsciente mente a um objeto perdido da mãe, cujo trabalho de luto
permaneceu inacabado.
Assim, Bernardo tinha a idade de cinco meses quando a mãe o trouxe depois do fracasso
dos tratamentos pediátricos. Este bonito bebê, já visivelmente bem construído psiquica
mente para a sua idade, vomita sem qualquer razão, desde a idade de dois meses, e acorda
urrando, muitas vezes, duran te a noite. O vínculo mãe-filho logo me parece de boa quali
dade, mas, em alguns momentos, com conotação de um ex cesso de excitação recíproca,
que se propaga pela pré.trans ferência positiva a respeito do terapeuta. A mãe me explica
sua alegria, apesar de alguns incidentes por ocasião do par to, ao ter este menino após duas
filhas nascidas de um pri meiro casamento. Ela foi bem amparada por seu segundo marido e
pelas duas famílias materna e paterna. “Este meni no seria muito bonito para a Sra? “,
pergunto eu. Ela asso aia, lembrando de suas angústias sucessivas: que o bebê morresse no
seu ventre, que ele sufocasse na cama durante a noite, de maneira que ela não parava de
vigiar seu sono; que ele se perdesse durante o dia, se bem que ela não ousas se deixá-lo
com terceiros. Ela construiu para si um esboço de teoria da causalidade dos sintomas: Será
que Bernardo não estava “traumatizado” por uma atitude muito brusca
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
do pai para com o bebê? Depois acrescenta, com certa ver gonha, que vasculha todas as
fezes do bebê à procura de sangue. Minha inquietação diante desta atitude compulsiva da
mãe, confiada a mim no final da primeira entrevista, dá lugar ao espanto durante a segunda,
duas semanas mais tarde.
O pai, muito presente psiquicamente, acompanha Ber nardo e sua esposa que, na hora, me
diz que os sintomas se atenuaram bastante. Eu constato, com efeito, que cada um deles,
hoje, está calmo e atento, bem como Bernardo. A mãe explica que tomou consciência da
raiva e do rancor que a invadiram quando aceitou, sob a insistência de seu futuro marido, e
a dcspeito de sua culpabilidade, uma interrupção voluntária de gravidez, três anos antes.
Este reconhece, na entrevista, que esta criança vinha muito cedo, uma vez que ele, o futuro
pai, restabelecia-se de uma grave amebíase que havia ocasionado uma colectomia. Então, a
mãe associa a extrema culpabilidade experimentada quando viu bater, na ecografia, o
coração do feto, o futuro Bernardo. Ela disse:
“E muito bonito, vão tirá-lo de mim ou ele vai ser anormal.” Depois começou a pensar,
após o parto, que o pai poderia ter sido muito malvado com Bernardo e ter provocado os
sintomas. Então, faço a relação entre o exame compulsivo das fezes da criança pela mãe e,
o medo do contágio da amebíase proveniente do pai. Acrescento que as reprovações para
com o pai relacionam-se mais, na realidade, com o IVG imposto do que com a atitude
paterna para com o filho. A mãe fala de novo para dizer, com uma nova emoção, que era a
preferida de seu pai, morto quando ela tinha dez anos, somente quinze dias depois do
nascimento de seu irmão mais novo, O pai evoca, por sua vez, o câncer intestinal que sua
mãe, atualmente, apresenta.
Durante a terceira entrevista, as duas irmãs, nascidas do primeiro casamento da mãe,
juntaram-se ao resto da famí lia. Bernardo dorme e não vomita mais. Sua mãe não vascu lha
mais as fezes e não o vigia mais durante a noite. A at mosfe iliar está apaziguada. A mãe,
amparada pelo
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grupo-família, começou novamente a internalizar seu traba lho de luto inacabado, seu
conflito ambivalente. Bernardo pode prosseguir seu caminho pessoal para a individualiza
ção, mais desembaraçada, agora, do excesso sedutor da soli citude materna.
Nesta família, o traumatismo do nascimento permanece moderado e não desmancha os
organizadores intrapsíqui cos e familiares. Em particular, o organizador edípico per manece
em função, e permite o encontro emocional entre os indivíduos, ao abrigo do recalcamento
de fantasias de desejo e de fantasias destrutivas, O equilíbrio narcísico objetal vacila, mas
permanece presente apesar do conflito, da ambivalência, da culpabilidade e do luto
inacabado. Mais ainda, poder-se-ia dizer que o conflito atinge um excesso do superego
consolador materno, excesso este que promove a atenção sedutora da mãe com relação ao
seu bebê. A inde pendência auto-erótica da criança acha-se atingida, daí um cortejo de
sintomas por uma nova sexualização das funções do corpo e do ego que haviam começado
a se desembaraçar da sustentação da mãe e de sua sedução concomitante.
Nesta família, a terapia pode rapidamente fazer emergir relações verbais afetivas que, com
rapidez, revelam associa tivamente os imagos antes muito condensados; relações es tas com
respeito ao bebê, aos pais e aos avós. A criança esta va bem inscrita na filiação e em
identidade relativa com os imagos do grupo familiar dc geração, com as semelhanças e as
diferenças em conflito. Ele era a fonte de uma culpabili dade temperada, e não de um susto,
como a situação de “traumatose”.
A traumatose perinatal e a solução de geração
A mãe vive sua gravidez em um estado de desassossego intenso, que atinge a sideração
imaginária. As percepções quase alucinatórias do ventre vazio ou do bebê grandioso são
freqüentemente relatadas. A aproximação da data do parto, a angústia amplia-se até um
sentimento de morte
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A transmissão do psiquismo entre gerações
iminente. Paralelamente, o pai pode começar um mo to de regressão na rivalidade narcísica
com o bebê. Ele se desorganiza ou se exclui, não mais representando, então, o papel do
terceiro que emoldura a díade mãe-criança. Cha mo traumatose este estado de angústia da
catástrofe, da confusão, da desorganização interna, no qual o indivíduo sente sua vida física
e psíquica ameaçada. Sabe-se que este estado não pode durar muito tempo. O indivíduo
deve en contrar arranjos defensivos para lidar com o afluxo da exci tação. Na falta deles,
sente-se ameaçado pelos maltratos da descompensação psicótica, psicossomátjca ou
psicopática.
LTm fato clínico, freqüentemente encontrado nesta con juntura, faz pensar que a mãe, com
a afluência tácita do pai, coloca em ação, dentre as defesas possíveis, uma que me parece
poder ser qualificada como “solução de geração”. Ela é destinada a vincular, cm
identificação isomórfica, o imago do bebê a tal imago ancestral para lidar com as angústias
de catástrofe geradas na posteridade das agonias primitivas, vividas pela mãe quando era
bebê em relação a seus pais, eles próprios em desespero. A solução entre geração, então,
contém, como a solução delirante, um fragmento de verda de-realidade histórica
deformada, relativa à transmissão entre gerações dos estados de desespero.
A mãe, depois do nascimento do bebê, atravessou um breve período, algumas horas ou
alguns dias, durante o qual pen sou que este bebê não era o seu. Uma crença delirante fun
damentada na renegação de filiação que se instaura, passa geiramente, e depois se atenua.
Parece então, que o bebê ocupa um lugar particular na economia interna dos pais. Ele não é
mais objeto do delírio que, de alguma forma, abor tou. Ele está melhor situado no âmago de
um pesadelo acor dado Os vínculos são mantidos, mas em grande sofrimento porque os
movimentos da pulsão reativam a angústia catas trófica e a culpabilidade tirânica. Os
movimentos de prazer e de ternura experimentados pelos pais, no encontro com a criança,
da mesma forma que os movimentos auto-eróticos
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
deste ou os seus empenhos interativos, são percebidos e in terpretados como algumas
realizações mágicas incestuosas de fantasias do desejo. De forma semelhante, os movimen
tos agressivos normais da criança e do pai, mas também as rejeições são interpretadas como
uma ameaça de realização de fantasias assassinas. A psique do pai cai sob o domínio do
pensamento mágico.
A solução entre geração atua, freqüentemente, aliás, ao se esboçar a renegação de filiação.
O recém-nascido é maei çamente identificado com tal ancestral, qualificado como mau, do
qual torna-se senão a reincarnação ao menos o re trato perfeitamente semelhante, em
identidade quase abso luta. Então, no momento em que o indivíduo e o grupo-famí lia
nuclear são ameaçados de desmoronamento narcísico e de desvineulação, um membro da
família genealógica, e de preferência, de uma só descendência, é convocado com ur gência
para reconstituir a trama e o invólucro do indivíduo e do grupo-família. Este movimento
defensivo contribui para forjar o que J. Guyotat chamou de filiação narcísica.
A representação da criança na psique dos pais torna-se, desde então, prisioneira desta
transmissão genealógica ima ginária. A criança não “se parece” com tal ancestral, ela é tal
ancestral. Um dos eixos importantes do trabalho em te rapia familiar será encontrar os elos
associativos que permi tem aos pais fazerem uma representação da criança não mais como a
reduplicação de tal ancestral, mas como a de um ser novo dotado de semelhanças e de
diferenças em relação a alguns membros da descendência. Encontraremos aí, via
condensação imagóiea muito firme amparando o bebê, o pro cesso pelo qual ele, na psique
dos pais, se totemiza e torna- se fonte de uma fobia do pensamento e de um tabu do to que,
às vezes física e psíquica, que se opõem à troca da ter nura e da instauração de
recalcamentos necessários. Em seu lugar, vemos instalar-se a censura arcaica cruel
acoplada a um ego ideal tirânico que, pouco a pouco, encerra os pais e a criança em uma
série de entraves que se aplicam a todos
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A transmissõo do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
os registros da vida psíquica, aos prazeres do funcionamen to do ego, às atividades de
adaptação, tanto quanto ao regis tro sexual.
Só se pode ficar impressionado com o rigor das proibi ções inconscientes e, então, com as
desqualificações que os pais se impõem a si próprios, que eles impõem ao bebê, e que este,
em alguns casos, internaliza e reproduz por sua própria conta. A censura invasiva das
funções do ego parental e do infante perpetua-se, então, e arrasta progressivamente os
indivíduos em uma espiral interativa, negativa, que pode chegar ao fim desde que outros
fatores de vitalização não interfiram na desanimação da pulsão. Examinarei adiante como
esta série processual faz a cama da paradoxalidade. Agora, vou centralizar minha atenção
sobre os movimentos de identificações entre gerações.
3. IDENTIFICAÇÃO E TRANSMISSÃO ENTRE GERAÇÕES
A transmissão entre gerações, o trabalho do luto e o de identificação entretêm relações de
comensalidade, tanto mais verdadeiras quanto “os outros em nós”, os ascendentes da
linhagem, continuam a freqüentar nossa casa como “visi tantes do Ego” (Mijola, A. de
1981), ou encriptam-se, tal como fantasmas Abraham N., Torok M., 1987). E a proble
mática torna-se complexa se, no vértice inter-subjetivo, com respeito às relações entre os
indivíduos de uma geração à outra, se articula um segundo vértice, o que leva em conta o
conjunto familiar, “o objeto-família” (Caillot J.-P. e Decherf G., 1982), isto é, “a fantasia
da família como objeto [ no sentido de correlato da pulsão” e “do parentesco imagina rio”
(Eiguer A., 1987).
Que ensinamentos se pode extrair da experiência da cura familiar, pai-mãe-bebê, quanto à
transmissão do jogo de iden tificação e a seus efeitos sobre a qualidade do vínculo preco
ce? Convém continuar a reflexão, comparando duas confi gurações clínicas, próximas ou
derivadas dc situações des critas anteriormente como “na neurose traumática” e “no
medo da neurose traumática”. A primeira, encontra-se em um contexto de depressão
neurótica materna correlativa de um trabalho de luto inacabado e no de um jogo de identifi
cações de negação e de recalcamento. Na segunda, a depres são materna, e muitas vezes,
também paterna, mais em es tado-limite, é sustentada por mecanismos de recusa e de
clivagem que alteram a qualidade do trabalho de luto e do jogo de identificação.
O jogo de identificação e denegação
Ainda que a clínica da depressão neurótica normal ma terna possa se encontrar com uma
grande diversidade de estados clínicos da criança pequena, estudarei aqui o mode lo que
representa, para a transmissão, a conjunção entre a depressão neurótica normal da mãe e as
perturbações funci onais da criança, do tipo perturbações do sono, mais preci samente.
Seja então, uma mãe neurótica normal, ligeiramente de primida, que leva à consulta um
bebê que não dorme após alguns meses. O bebê Bernardo evocado anteriormente é um
exemplo. A experiência mostra que a perturbação do sono passa rapidamente, às vezes, até
na mesma noite, de pois que se pode diseernir e nomear o motivo que conduzia a mãe a
deslocar seu conflito interno para a função do sono do bebê, e a exportá-lo para a cena
interativa. Quando o bebê é novamente introjetado na psique materna, este con flito não
excita mais o sono da criança, que encontra sua homeostase. Na minha experiência, este
motivo de exporta ção se deve, muitas vezes, como vimos, ao trabalho do luto normal
inacabado no conflito de ambivalência moderada para com um objeto perdido ao qual a
criança é preconscien temente identificada. A cadeia semântica é do tipo: dormir partir-
morrer-gozar. Nesta situação, o superego materno, no vínculo primário, permanece em
relativo equilíbrio com o proibido e o consolo. Ele pende, mais, para o lado do exces so de
solicitude (eo)excitante. Mas os “significantes enig
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque cm terapia familiar psicanalítica
máticos” estão lá na psique da criança, “bons para a meta bolização simbolizante”, segundo
a formulação de J. Laplan che (1987). O gesto psíquico que permitiu diferenciar nova
mente a auto-conservação da criança e a pulsão da mãe é, essencialmente neste caso, um
trabalho sobre o sentido e sobre a associatividade da identificação, segundo o modelo do
sonho. Este trabalho chega a instaurar novamente a fun cionalidade psíquica da denegação:
dormir não é gozar e morrer, o bebê não é o objeto perdido, tomar cuidado com seu sono
não é sexual. A censura, então, não deve ser aí apli cada excessivamente.
Nesta configuração clínica o imago do bebê está inscrito em uma cadeia associativa de
identificações que importa caracterizar melhor. O imago da criança na psique materna está
em equivalência simbólica com alguns outros imagos parentais e ancestrais e,
particularmente, com um objeto perdido. Dito de outra maneira: a criança é como se fosse...
ela se assemelha a um tal. A identificação implica aqui na manutenção da difercnçà entre os
dois imagos. Eu diria, apoiando-me no trabalho de J. Guillaumin (1993), que a mãe
procurou colocar o bebê atual, da realidade exterior, em iden tidade de percepção com os
traços mnemônicos relativos ao objeto perdido, e isto, em função de um certo número de
analogias, segundo o processo primário. Mas, correlativamen te, o processo secundário,
segundo a lógica da identidade de pensamento, continua a funcionar: o bebê não é mais o
obje to perdido, ainda que se pense assim. J. Guillaumin observa que o operador da
negatividade, no caso da denegação, or ganiza, dc alguma maneira, uma barreira de contato
no âmago da rede representativa: barreira que fecha, contato que abre o caminho do sentido
e dos afetos correlatos, pode- se acrescentar, à maneira do canal da membrana que abre e
fecha a passagem entre o dentro e o fora da célula no seu meio, segundo as necessidades da
homeostase.
Neste tipo de campo simbólico a articulação entre o pro cesso primário e o processo
secundário, entre ligações e desli
gamentos, faz com que a criança represente bem simbolica mente o objeto perdido que não
é mais. Isto pressupõe uma qualidade suficiente do preconsciente e do campo transicional.
Acrescentarei, como já argumentei antes (Ca rel, A. 1992), a hipótese segundo a qual este
tipo de funcio namento mental opera na experiência do brincar com os limites do jogo entre
mãe e filho. Um jogo que se fundamen ta na troca intersubjetiva antes que ela seja
internalizada. Tal jogo entre dois parceiros, um grande e um pequeno, uma mãe e seu filho,
supõe que seja funcional o superego pós edípico no grande, que proíba de um lado e que
console, que protele de outro, graças ao humor interno. Este tipo de po sição inter e
intrapsíquica permite, a meu ver, empregar o conceito metafórico de “bebê neurótico
normal”: um bebê cujo funcionamento mental, na identificação histérica pri mária, modele-
se no da mãe. (Criança que deverá, aliás, nos momentos de desespero, apelar aos processos
defensivos ar caicos.) Vou mostrar brevemente uma segunda ilustração clínica.
Hugo, primeira e única criança, com um ano de idade, apresenta perturbações do sono do
tipo comportamento auto-calmante: ele apalpa a cabeça para dormir e durante o sono. E,
aliás, um belo garoto cuja grande vitalidade fatiga a mãe, não sem suscitar nela um grande
orgulho. Após uma gravidez descrita como idílica, ela sentiu-se claramente de primida por
volta do quinto mês pós-parto. Contentar-me-ei em indicar aqui um dos caminhos do
trabalho realizado em consulta terapêutica. Ficou claro que esta jovem mulher, terceira filha
de uma irmandade de três moças, ficara nos tálgica pela falta do garoto que ela havia sido
na realização do suposto desejo de seus pais dc que ela fosse o menino não concebido.
Flugo estava, na psique materna, em forte cqui valência simbólica com aquele menino. Vê-
se ai que o objeto perdido ou a perder, é, primeiro, um imago, um objeto fictí Cio que
deveria ter existido, segundo o ideal de ego mater no. O luto deste objeto interno, o menino
que faltou, havia começado a ser feito no encontro amoroso da feminilidade
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
da jovem mulher com seu futuro marido, mas ele permane ceu inacabado quando Hugo
nasceu. Este foi objeto de uma forte ambivalência: amado, admirado por seu pênis, por sua
vitalidade, por sua força, mesmo que fosse retornada contra si-mesmo no sono. Este
menino, a mãe se orgulhava ao apresentá-lo a seus pais. Mas, ele era igualmente detestado,
criticado, sob o pensamento de que pudesse tomar, na psi que destes (os avós maternos da
criança), o lugar do menino que ela não era. Um movimento de inveja, misturado à an
gústia de castração, obrigava-a, então, a tomar uma distân cia psíquica excessiva para com
a criança, por represar a compulsão da idéia de bater. Pode-se construir a hipótese de que o
sintoma da criança, bater-se, leva o traço do conflito materno, do compromisso encontrado,
traço transmitido segundo procedimentos intcrpsíquicos, que mereceriam pre cisão.
O trabalho de descondensação entre o imago de hugo e a do menino que faltava pode-se
fazer muito facilmente na medida em que, a meu ver, estes dois imagos estavam em
equivalência simbólica, na medida em que também a mãe havia conservado a capacidade
de brincar, no seu prccons ciente, com o jogo da diferença-semelhança.
O sofrimento identificador e recusa
Nas configurações clínicas, em depressão neurótica nor mal, a problemática da censura
parental é circunscrita em tal ou tal setor do funcionamento bio-psíquico da criança. Nestas
que estudarei agora, domina a depressão em estado- limite; a censura tende a se difundir
sobre o conjunto da pessoa do bebê, e a instaurar um vínculo primário pai-mãe bebê
marcado pela recusa de uma situação paradoxal de mais OU menos constrangimento.
Falaremos disto no parágrafo seguinte.
Clinicamente, a depressão materna em estado-limite é muitas vezes atenuada, mascarada,
dc fato, essencial. E so bretudo, seus riscos ainda que precedentemente transpor tados
(sobretudo, a transportação do luto recusado), são
externalizados no vínculo pai-mãe-bebê. A criança pode re sistir muito bem a esta
depressão, mas ela pode desenvolver não somente perturbações funcionais, mas também,
uma desarmonia mais ou menos durável.
No plano da metapsicologia do vínculo mãe-filho (isolado arbitrariamente do conjunto
psíquico familiar, pelo método de exposição) podemos dizer que o imago da criança, na
psique materna, é tratado em equilíbrio, ora no modo sim bólico acabado, ora no modo pré-
simbólico da “equação sim bólica”, segundo a formulação de Hanna Segal (melhor se ria
dizer: em simbolização primária).
Neste segundo modo, a saber, a equação, o trabalho de identificação perde sua
flexibilidade. Não existe mais distan ciamento do jogo entre um imago e outro. O imago da
cri ança é isomórfico, idêntico ao imago da mãe ou a tal objeto seu interno. Entretanto, a
criança não é ainda a encarnação no real como nós encontramos no delírio. O processo
transi cional precário, ainda que presente, normalmente assegura o preconsciente e a
articulação entre o processo primário e o processo secundário. A mãe pode brincar bem
menos com o pensamento latente de que seu bebê é, e não é seu pai, sua mãe, seus
ascendentes. Aqui o imago do bebê é então:
— Ora colado ao dc sua mãe, cm equação isomórfica com um de seus objetos internos em
uma maneira quasi-alucina tória: “No nascimento do bebê eu vi minha mãe”, diz uma delas.
— Ora clivado radicalmente em relação aos outros imagos. O bebê não se parece com
ninguém. Ele repousa cm uma alteridade alienante, sem ligação com as figuras da história
familiar, fonte então de uma estranheza muito inquietante. As vezes mesmo, esboça-se uma
breve renegação da filiação, um fl engendramento furtivo, mas eficiente na dinâmica
familiar, como notamos no estudo da trauma-tose.
A denegação-recalcamento da equivalência simbólica dá lugar à recusa-clivagem da
equação simbólica, na transmis são entre geração das identificações.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
Faltou, de alguma maneira, uma oscilação temperada e de formação intermediária no
compromisso entre as duas polaridades de identificação (colada-clivada). A oscilação
violenta de uma polaridade à outra parece-me conectar-se com a questão da “posição
narcísica paradoxal” descrita por J.-P. Caillot e G. Decherf (1982). Pois, o esmagamento do
preconsciente e do transicional provoca o corte entre o pro cesso primário e o processo
secundário. Cada um tomado isoladamente, torna-se, de alguma maneira, desregulado. A
identidade de percepção do primário torna-se fonte de con fusão durável quanto ao
processo secundário que, regido pela lógica da contradição, impõe pensar que a não é b,
que a criança não é a mãe, de tal maneira que a comunidade sub jetiva como invólucro é
recusada, e que a ilusão primária do tratamento é contra-investida.
Este regime de identificação como recusa parece, então, contribuir para a produção de um
sofrimento no vínculo precoce, em que um dos arranjos defensivos é o paradoxal,
observado agora, partindo da história de Laura.
4. O PARADOXO E A GERAÇÃO
Os olhos de Laura
Laura é a primeira criança de seus pais e está com três meses de idade, quando eles me
consultam porque se inqui etam, a bem dizer, sobretudo a mãe, com perturbações do olhar
que lhe fazem temer a instalação de uma síndrome autista. Laura, com efeito, evitará
durante alguns meses o olhar e a escuta, apresenta uma hipersonia bem como per turbações
posturais-motoras, desde a época em que foi se. gurada nos braços da mãe. Isto justifica a
realização de uma terapia familiar, de fato uma terapia mãe-filho associada a um trabalho
em psicomotricidade
1 Na base dc uma sessão por semana co-animada por Rut Epstcin e por
André Gare!.
2 Duas sessões por semana, com Gatherine Besson.
Por razões de discrição só poderei expor esquematica mente alguns temas diretrizes deste
trabalho.
Esta jovem mulher, com capacidades marcantes de ela boração psíquica, requalificada
incessantementc e bem am parada pelo marido, o qual não quer se inquietar muito. Con
tudo, ela diz ter sido invadida por uma convicção, que apare ceu durante a gravidez, de que
teria uma criança autista. Desde então, ela não pôde impedir-se de observar seu bebê, de
interpretar a atitude deste e a sua própria, segundo esta hipótese básica. A criança, desde o
segundo dia de vida, apre senta dificuldades mínimas de sono e de sucção que são in
terpretadas pela mãe como sinais anunciadores do autismo. As perturbações do olhar, da
escuta e da postura, só irão confirmar esta convicção. A mãe diz-se responsável, culpa da:
uma culpabilidade que diz respeito às raias da vergonha. O destino se consumou, ela irá
carregar a sua cruz. Uma cruz tripla, pois, à infelicidade de ter um bebê autista acres centa-
se o fardo de ser a causa íntima e pessoal disto, e ain da o dever de reter para sempre o
papel de cuidar. Não servi rá de nada tentar acabar com a culpa, simplesmente,
reassegurando a mãe. Ela nos diz, substancialmente, o quanto se sente desajeitada, artificial
por e desarmônica com Laura. Aliás, tanto ela quanto nós podemos observar isto. Laura,
por sua vez, certamente ressente-se, acrescenta ela, do esta do (interno) desta mãe, de
maneira que se encolhe, isola-se, recusa estender os braços e a responder ao chamado do
nome. Assim então, mesmo que Laura não tenha nascido autista, ela virá a sê-lo em virtude,
se ouso dizer, deste constrangi mento materno de pensar-se e representar-se como uma mãe
de criança autista, e isto, apesar da profunda afeição que devota à filha.
Pressentimos essa paixão como a máscara de um movi mento depressivo que alguns
determinantes irão pouco a pouco esclarecer, à medida em que o trabalho decorra.
Uma das pistas da reflexão, que se desenrola em rede, tem início no exame de uma
contradição que começa a aba-
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
lar a convicção relativa ao autismo. Laura vira-se para a mãe quando esta cantarola seu
nome, mas, permanece indiferen te ao apelo quando este é angustiado, imperativo, e que se
faz “experiência” ou injunção a responder. Da mesma forma para o olhar: Laura sustenta
bem melhor OS olhos doces que a acariciam do que os grandes olhos que perscrutam, olhar
aliás, super-investido em detrimento do toque, que lhe pare ce mais proibido. Portanto,
Laura é muito sensível à quali dade emocional da comunicação, qualquer que seja o canal;
muito sensível também às contradições contidas em um conjunto dc mensagens
simultâneas: por exemplo, olhar que atrai e gestos que afastam, ou mesmo olhar que atrai,
cha ma ao mesmo tempo em que julga, e que repele
A colocação das contradições cm palavras permite à mãe reconhecer melhor o olhar
complexo que ela tem agora (apoi ada na sua própria escuta e no nosso próprio olhar) de
seu vínculo com Laura; a distância entre a imagem pré-formada que a habita, e a realidade
psíquica móvel de sua menina e de si mesma. Ela também toma consciência de que é excita
da por uma severidade que não lhe deixa repousar e que lhe proíbe alegrar-se com os gestos
de ternura e de auto-erotis mo a dois que, entretanto, passam pelas malhas do filete serrado
da censura. Ela não pode, sem um movimento de repulsa, deixar Laura mordiscar-lhe o
pescoço ou sugar seu dedo, por causa das associações muito sexualizadas de que toma
consciência na sessão, e que a assaltam. Vàmos conectá las com o imago de um pai, o avô
materno de Laura, que transmite sua própria fantasia sexual por excesso de censu E.Fivaz-
1)epeursinge (1987) mostrou que o vínculo paradoxal mãe-bebê
poder-se-ia instaurar por intermédio de mensagens contraditórias. não verbais, levadas por
vários canais de comunicação. Em nossa situação clínica, o paradoxo instala-se no âmago
de um OU dc outro dos canais:
olhar, voz, toque etc. Pois, uma mesma mensagem, por exemplo, o apelo do nome pode
transmitir tanto o desejo do vínculo como a censura des te desejo, por exemplo, se o tom, a
musicalidade da voz, torna-se monocórdia e inafctiva.
ra. Ela seria uma menina leviana, uma mulher perdida, se conhecesse a felicidade com seu
marido e com seu bebê. A censura do prazer incestuoso recaiu sobre o regozijo da ter nura.
Pelo excesso de severidade identifica-se com seu pai. Mas, por assim fazer, ela recusa a
herança superegóica: mui ta lei mata a lei. A fantasia da criança-autista aparece como
resultante de uma culpabilidade edípica subvertida pelo seu próprio excesso.
Mas, a intensidade da reviveseência de fantasias edípicas até o temor de sua realização
incestuosa no vínculo primá rio não deixa de nos interrogar. De fato, uma segunda pista irá
se abrir, inaugurada por um agir e sua confissão: a con sulta a um terceiro confere. Laura
tem então, seis meses de idade, ela já está melhor, mas a inquietação materna perma nece,
quanto ao autismo: não serão precisos exames, quem sabe hospitalização? O material
associativo fará então, apa recer a ameaça do retorno das angústias da queda, do des
moronamento depressivo primário, já vividos quando a mãe, criança pequena e depois
adolescente, havia estado confron tada com movimentos melancólicos de sua própria mãe e
com as ameaças de suicídio a dois. Um imago de mãe clivada reconstrói-se, às vezes, como
calorosa/possessiva e fria/aban donada. Provavelmente, esta clivagem, que se atenua, teria
contribuído para organizar a estrutura paradoxal da comu nicaçã() mãe-bebê feita de uma
mistura sutil de aproxima ção e de distanciamento.
Por volta dc) sexto mês, a troca de olhares faz-se muito mais “fraseada”, ao passo que as
mãos, os braços da criança e da mãe permanecem ainda um pouco tomados e retidos. Elas
não ousam, verdadeiramente, ainda, se tocarem, se pe garem, apoderarem-se uma da outra.
E nesta idade, igual mente, que vem à tona a teoria do espírito. A mãe se pergun ta se Laura
pensa nela: “Eu não sei se estou na sua cabeça. Não! eu não estou na sua cabeça ela não me
reconhece como sua mãe.” Da mesma forma ela precisa estar permanente mente presente
ao lado do bebê e estimulá-lo para fazer exis
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
tir nele a mãe. Esta dificuldade de constituir a capacidade de estar só na presença do objeto,
suposto pensar no indiví duo que pensa no objeto, será vinculada ao imago materno
— “mãe-morta” melancólica — (A. Green) projetado em Laura, então percebida como
autista de maneira quasi. alucinatória.
Assim, o traumatismo da “mãe morta”, alucinada, a des peito de ter podido ser
suficientemente simbolizada, produz no vínculo primário um super-investimento defensivo
do vi sual. Pode-se formular a hipótese de que este esforço para dominar a ameaça de
retorno da catástrofe melancólica, projetada no bebê assim identificado com sua avó
materna, produz mensagens no vínculo primário, que levam o traço deste risco, O imago da
Laura autista estaria, neste nível, em metonímia com a cruz a carregar: o objeto avós-mater
nos para vivificar e para mortificar. A sombra do objeto in terno do objeto cai sobre o ego
da criança.
Dito isto, o trabalho, que leva seus frutos, coloca um pro blema técnico, na verdade, ético,
complexo. Como tomar em consideração a maneira pela qual a mãe, psiquicamente, em
função de seu mundo interno e de sua história pessoal e de geração, auto-entretém uma
certa disfunção do vínculo, sem que, no entanto, entre com ela em uma comunidade de
recusa em relação aos outros atores do vir-a-ser: o pai e sua família, a própria Laura? Esta
recusa reforçaria a teoria in fantil da mãe quanto à sua culpabilidade e quanto à sua cau
salidade psíquica. O método consiste cm perseguir a perla boração dos movimentos de
identificação via transferência e a contratransferência, pois nós somos, nestas paragens,
suporte, por sua vez, do julgamento severo, na verdade, sem piedade, extraído dos dois
imagos parentais da mãe.
A separação das férias irá fixar a problemática da hostili dade até aqui fortemente contra-
investida, sobretudo a hos Fixar significa “impregnar (um tecido) de um fixador para
impressão
ou tintura”, o fixador, do qual se trata aqui, sendo uma substância utili zada na tintura para
fixar o corante na fibra.
tilidade que a mãe coloca em palavras em relação a nós, que as deixamos sem socorro.
Quanto a Laura, ela organizou a angústia e, também, a angústia do que é estranho. Este con
texto permitirá formular a hipótese segundo a qual Laura, nos momentos em que se
ensimesmou exprimiu, assim, sua recusa hostil em responder a uma troca que não lhe
agrada. A angústia do que é estranho, não familiar, é igualmente para ser compreendida
aqui como a posteridade organizadora dos ensimesmamentos anteriores em presença da
mãe, ensimesmamentos estes que a colocam em posição de estra nha-familiar.
Assim, o movimento de ensimesmamento (fobo-obsessão primária mais do que pré-
autismo) e os movimentos sensó rio-motores de evitamento seriam o sinal da instauração
prematura da diferenciação ego/não ego, de uma perda da ilusão primária muito precoce. A
mãe seria então, aos olhos da criança um não-eu, uma estrangeira, da mesma maneira que a
criança adquire prematuramente aos olhos da mãe, antes do nascimento, o estatuto de
estrangeira, “de criança autista”, que submete a duras provas a comunidade narcísi ca
primária. Entretanto, e esta precisão é capital, esta in quietante estranheza recíproca, esta
luta contra a sensação oceânica, não é mais do que dos momentos da relação mãe- filho,
momento em que o super-investimento atenua, aos olhos da mãe, todos os momentos de
familiaridade e de ter nura partilhados até agora, dos quais somos, como o pai, as
testemunhas, na verdade, os (eo)autores.
Mas, graças ao trabalho realizado por uns e por outros, graças também ao potencial de
desenvolvimento de Laura, que na interação fortifica a confiança materna, a boa dife
renciaçã() familiar-estranho, correlata do dentro e do fora, do ego e do não-ego, não se
estabelece mais da comunidade intersubjetiva.
Um dos eixos do trabalho de diferenciação de identidade apóia-se na supressão da amnésia
relativa às identificações entre gerações. Correlativamente, tornam-se localizáveis e
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A transmissão do psiquismo entre gerações
enunciáveis alguns traços de formações superegóicas e de ideais transmitidos pelo jogo de
identificação.
Uma outra linha associativa de identificação irá abrir-se, com efcito, na direção do imago
dos avós (lado paterno) da mãe.
É o período em que o olhar e a fisionomia da Laura, com nove meses de idade, são
atualmente carregados de múlti plas nuanças, quando retoma o contato conosco, no início
da sessão: surpresa, leve inquietação, reprovação discreta, desejo. A mãe, por sua vez, um
pouco deprimida, está, en tretanto, mais serena e a sua convicção do autismo se afas ta.
Laura é, então, dotada de pensamentos e de afetos, “ela diz sim, ela diz não, ela resiste”, de
acordo com seu humor e o de seu ambiente. Correlativamente, a mãe complica a nar ração
que faz de sua própria história com Laura e nós discer nimos nisso um esboço da atuação
da história familiar. Duas versões entrecruzam-se: uma qualificante, narcísica, outra ainda
muito crítica, na verdade, desqualificante: “Eu não fui fonte de admiração para minha
filha”, queixa-se. Assim fa zendo, descobre ou re-descobre um novo imago de seu pai,
terno com o bebê que ela foi, antes de ser severo com a menina pequena que se tornou.
Mais uma vez, interrogamo nos sobre a força da exigência ideal da mãe que jamais pôde
alegrar-se com a felicidade presente, pois está convencida de que é o prelúdio da desgraça:
este ideal é herdado de seu pai Um pai, informa-nos ela, e é assim que conta sua histó ria
para si própria e para nós, nascido de uma jovem mãe solteira e de pai desconhecido.
Educado por sua avó mater na, não conseguiu aprender a ler na escola e se mostrou
ambicioso, exigente com sua progenitura. Ele espera ser o fundador de uma família ilustre;
tende a negar a sua ascen dência, declarando a sua mulher e a seus filhos que eles são sua
única família. Este enunciado, que leva a marca, mesmo
A questão da articulação do FOCCS5O dc aliança, conjugal, familiar (com seus pactos,
contratos etc. cf Ka R.. 1993), com o processo da filiação falta ser explorado.
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
que discreta, de um processo de não engendramento, logi camente antecedente ao processo
de auto-(re)engendra mento.
Vê-se aí que a questão do autismo problematiza-se nova mente, vira fantasia, na história
familiar. Para sua mãe, Laura tornar-se-á, então, a criança que resiste, com orgulho de afir
mar sua autonomia precoce. A história terapêutica coloca em ressonância os movimentos
“auto” da criança, agora narcísicos, com a lenda do auto-engendramento da descen dência
materna a partir do avô materno de Laura.
Os indícios de transformação da qualidade do vínculo mãe- filha aparecem então na sessão.
A mãe diz-se agora admira da com sua menina, a quem olha com fineza e compreensão, e
de quem percebe melhor a riqueza mental e o humor.
Assim, um questionamento substituiu progressivamente a convicção inicial, convicção que
era o inverso do enigma da mãe, enigma de seu ideal, podemos dizer. Enigma proje tado,
transmitido para a criança que ela foi, pelo fato da recusa paterna sobre as origens: “minha
única família”. Enig ma agindo na geração seguinte, na posteridade, no vínculo primário
entre a mãe e o bebê Laura. Enigma repetido en fim, no movimento de
transferência/contratransferência da cura. Aí, o enigma chega a tornar-se intriga, uma
intriga que coloca em cena as personagens da história familiar cujo mistério formula-se,
então, segundo uma nova versão da his tória familiar.
O conflito gerado entre as pulsões e a censura, inicial- mente, segundo a lógica paradoxal,
como um dilema, desen rola-se mais agora, segundo a lógica neurótica normal, como
compromisso: a mãe, e correlativamente, a criança encon tram compromissos bem
melhores na regulação de seu vín culo. Percebemos, mais tarde, que o momento mutativo
mais importante na cura foi a ação da descoberta do vínculo de identificação entre Laura,
suposta autista e o imago de sua avó materna melancólica, vínculo de identificação oculto
durante muito tempo, por recusa.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
O paradoxo e a estrutura do superego
Quando tentamos reconstituir o quebra-cabeças, alguns acontecimentos psíquicos e alguns
processos parecem re presentar um papel determinante no estabelecimento do pa radoxo.
J. Guyotat (1980) estudou de maneira profunda, de um lado, os efeitos desorganizadores
localizáveis da coincidên eia nascimento-óbito e, de outro lado, os efeitos do contra-
investimento desta coincidência: a confusão vida-morte e a confusão dos afetos correlatos.
A violência fundamental ex cessiva desta situação tende a ser escondida por um meca
nismo de vingança genealógica: a recusa das origens (o pai da mãe de Laura declara não ter
tido ascendência, a fim de, supomos, não ser invadido pelo desgosto, a vergonha e a rai va
de ter nascido de pai desconhecido e de mãe muito jovem para criá-lo). Então, esta recusa
promove a fantasia/não-fan tasia, uma coisa em si, do tipo não cngendramento, depois auto-
(re)engendramento (Racamier, 1992). Vimos que um dos rebentos desse trabalho do
negativo é constituído, na solução de geração, pelo imago ancestral super-idealizado e/ou
persecutório, condensado com o imago do recém-nas cido totemizado, assim ameaçado por
causa do enfraqueci mento do vínculo e da agonia primitiva que, por sua vez, descobrirá
figurar-se mais tarde, na posteridade, pelo super- investimento da coincidência nascimento-
óbito.
A coincidência nascimento-óbito, e mais ainda a confu são vida-morte, tem um outro efeito
psíquico: o indivíduo tende a construir uma interpretação segundo a qual não há mais
tempo que se escoe entre o nascimento e a morte para ele próprio e para o outro. A
temporalidade linear em pro cesso secundário — um dia depois do outro — é subvertida
pela temporalidade em processo primário, descasado do pre cedente. O tempo precipita-se
ou petrifica-se (Houzel D. e Catoire G., 1994). Por extensão, toda mudança na vida atu
aliza novamente esta ameaça, esta condenação à morte. O progresso compreendido também
na cura carrega em si a
ameaça de realização deste desligamento absoluto: daí uma forma de reação terapêutica
negativa e de organização de uma neurose de destino.
Parece-me que se pode localizar aí um dos motivos da regressão-fixação entre geração da
estrutura do proibido. Com efeito, o proibido no superego pós-edípico, idealmente
transmitido pelo jogo de identificação com a figura paterna e pelo contexto grupal-social, é
varrido da pseudo-lei de talião, em proveito de talião, instado pelo tirano. A vida e o desejo
são pensados como devendo ser destruídos como vingança. Pois, a coincidência
nascimento-óbito e a agonia primitiva são interpretadas pela psique como enfraquecimento
da fun ção paterna do superego, que protege e que proíbe. Então, o arbitrário temperado
pela lei é interpretado como arbitrá rio absoluto, alienante, de maneira que a lei é recusada.
Da mesma forma, o acaso multideterminista mas in cognoscível, que para muitos preside o
vir-a-ser do indiví duo, é recusado enquanto causa possível de investimento narcísico, pois
que produziu a coincidência nascimento-óbi to, fonte de pavor, O acaso anônimo, vivido
como passível de não subjetivação, então, tende a ser novamente personifica do sob os
traços de um figurante tirânico da mitologia fami liar, o que permite ao indivíduo
reinscrever-se no grupo do qual sentiu-se excluído.
Este movimento de apelo ao campo grupal-familiar entra em ressonância com o processo
interno, segundo o qual a (co) excitação violenta, gerada pela coincidência nascimen to-
óbito, acha-se ligada, via sadomasoquismo moral, sob a forma da pseudo-lei de talião.
Aqui, o indivíduo representa- se como vítima de um castigo merecido, na medida em que
os acontecimentos da vida e da morte, no exterior, são con fundidos com a fantasia do
incesto e do assassinato, no inte rior, por causa do rompimento dos invólucros e do colapso
tópico. O talião é sem dúvida, apesar de tudo, uma salva guarda contra o desastre, e é neste
contexto que pode emer gir o imago do tirano.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Assim, a versão traumática do processo torna mais inteli gíveis as mudanças de estrutura da
censura. Ela funcionaria no momento 1, descrito como neurótico normal, no supere go pós-
edípico, associando proibição e proteção consoladora, superego amparado pelo imago de
um pai inscrito no seu casal e no seu grupo e enunciando o imperativo categórico ao qual
ele próprio se submeteu. A censura torna-se, no momento 2, “pós-traumática”, talião,
pseudo-lei de talião associada ao imago do tirano que impõe o arbitrário violen to de uma
coação que ele infringe. A pseudo-lei de talião repulsionaliza o proibido: olho por olho,
sexo por sexo. En tão, não há mais diferença de organização entre as forças em conflito, o
proibido e a pulsão. A pseudo-lei de talião é incapaz de proteger e de consolar.
Veremos como a conjunção entre a regressão da estrutu ra do superego e a recusa das
origens (não engendramento, depois auto- promove a solução para doxal do conflito.
O bebê e a água cio banho
Vou explorar esta realidade após um desvio destinado a tomar em consideração o valor
eurístico da primeira teoria freudiana das pulsões, que diferencia e articula a auto-con
servação e a pulsão sexual de vida e de morte, segundo a terminologia de J. Laplanche
(1987).
Lembrem-se de que S. Freud, em “A Perturbação Psico gênica da Visão” (1910), mostra
que o conflito intrapsíquico entre a censura e o desejo sexual de ver desloca-se sobre o
terreno da auto-conservação, da visão. Mas a auto-conserva ção, insiste J. Laplanche, não é
parte do conflito, é o terreno e o risco do conflito entre as forças presentes, que se deslo
cam sobre ela. Ela é alterada por esta invasão, donde a ce gueira histérica. A censura, então,
tem confundido o sexual e a auto-conservação do indivíduo. Ela como que censurou, jogou
o “bebê” da auto-conservação — a função visual — com a “água suja do banho”— o olhar
sexualizado. Bem, um
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Enfoque em terapia familiar psicanalítica
processo dessa mesma ordem irá se desenrolar no vínculo primário entre a mãe e o bebê,
desta vez: o bebê é ameaçado de ser jogado pela mãe com a água do banho.
Tomemos uma mãe em grande desespero, para não colo car a etiqueta nosológica precisa.
As ameaças maciças de catástrofe interna, geradas na posteridade pelo encontro com o
bebê, podem acompanhar-se, então, de uma sideração de competências maternas- A
censura nesta situação, já disse, não funciona mais no superego pós-edípico, mas na pseudo
lei de talião: cruel, tendo perdido toda a capacidade do jogo humorístico, ele quer abolir os
movimentos da pulsão susci tados pelo estabelecimento dos primeiros vínculos. Desde
então, é a vitalidade da comunicação, dos jogos de acordos recíprocos, da troca de afetos na
ligação mãe-filho, que é banida. E o campo auto-conservador relativo aos vínculos que é
alterado por esta censura, vínculos cujo valor tende a ser desqualificado, recusado.
Esquematicamente, o contato pelo olhar, pela palavra ou pelo gesto são fobicamente evita
dos, como se fossem assassinos. Da mesma forma toda recu sa, todo distanciamento são
igualmente censurados como se fossem assassinos. De alguma forma é incestuoso ligar-se,
e é mortal desligar-se. Mãe e bebê são pegos, então, nos mo vimentos oscilatórios reativos,
violentos e imprevisíveis en tre intrusão e deixar-cair, a menos que as coisas se petrifi quem
e que a criança se totemize.
O trabalho sobre o sentido está há muito tempo fora de alcance. E o modelo do cuidado, no
sentido restrito do ter mo e, com referência ao cuidado primário mãe-bebê “emol durado”
pelo pai, que irá prevalecer sob a forma de aten ções, de atos de cuidar. Pois, o ato de
cuidar, compreendido aí na sua realidade concreta (por exemplo, sustentar o olhar do bebê,
sorrir-lhe, sorrir para a mãe que olha seu bebê), vale como uma interpretação. Para a mãe
significa que esta va auto-desqualificada, que a ternura nos cuidados e o vín culo, assim
como a recusa, são bons para a vida, e não são para serem censurados. Em seguida,
suceder-se-á somente,
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfo em terapia familiar psicanalítica
se possível, o trabalho sobre o significado e a historicidade. Melhor: é primeiro na psique
do terapeuta, e durante muito tempo, que o trabalho sobre o sentido e sobre a tradução dos
significantes enigmáticos poder-se-á efetuar.
Será que não podemos dizer aqui que o superego do terapeuta (de tipo superego pós-edípico
com seu jogo inter no de humor) é como que emprestado à mãe e à criança com o fim de
encontrar os dois registros do funcionamento psíquico, auto-conservação e pulsão sexual,
com sua dife renciação e sua articulação? Tratar-se-ia, de alguma forma, de reabilitar a
ajuda., O superego do terapeuta diria a este casal mãe-criança: “E permitido e possível que
uma certa quantidade de sexual emerja do vínculo, do cuidado auto- conservador, sem que
haja catástrofe nisto”. Tratar-se-ia tam bém dc novamente qualificar o vicário: “E permitido
e pos sível amparar o vínculo, o cuidado, por uma certa quantida de de sexual sem que haja
nisto catástrofe.” Se faço questão de mostrar como a censura se exerce violentamente tanto
contra a auto-conservação no vínculo primário, quanto con tra o sexual da vida e da morte,
é para acentuar que tal pro cesso contribui para engajar a mãe e a criança na via das defesas
paradoxais e da perversão narcísica, com suas recu sas quanto ao valor dos indivíduos
(Racamier, 1992).
Lógicas cio conflito
É preciso agora tentar ir mais longe na exploração do modo de gestão do conflito no âmago
do paradoxo e do pa pel que aí representa a fixação precoce, individual e de gera ção.
Lembrem-se da definição de paradoxo por P.-C. Racamier (1980): “um paradoxo é uma
formação psíquica ligando indissoluvelmente entre si, e encaminhando uma à outra duas
proposições ou injunções inconciliáveis, entretanto não pas síveis de oposições.” Proponho
considerar que as proposi ções inconciliáveis, em questão, encaminham, em última
instância, para o conflito de base entre o proibido e a pulsão sexual de ida-morte. Conflito
este não regulado, fixado, como
diz S. Freud em Totem e Tabu, sem compromisso possível. As forças em questão são
entretanto, não opostas, ao menos em “direito psíquico”, na medida em que elas pertencem
a espaços diferenciados da tópica intrapsíquica, a menos que, justamente, esta seja
desestruturada pelo traumatismo e sua repetição.
D. Anzieu (1975) enuncia os principais elementos cons tituintes da “lógica do paradoxo”,
opondo-o à “lógica da neurose”. Apoiando-me na sua argumentação enunciarei o que se
segue. Na neurose, o conflito entre as forças antagô nicas, a pulsão e o proibido, chega a
uma solução do tipo formação de compromisso, e isto graças a uma série dc fato res: a
persistência da diferenciação tópica (permitindo ao julgamento, em processo secundário,
discernir os riscos do problema), a ambivalência, a predominância econômica da ligação
sobre o desligamento, uma nova sexualização mode rada do superego. No paradoxo, o
conflito entre as forças antagônicas é radicalizado. Não há compromisso possível, resta
apenas um dilema entre a pulsão e o proibido, entre Caribde e SeiTa, entre a hvbris do
transbordamento pulsional e o desmedido de sua abolição. O dilema pode perdurar em uma
oscilação entre os dois pólos, insustentáveis tanto um quanto outro, ou fixar-se, petrificar-se
em um ponto de sideração dolorosa, de inanição psíquica. Entre os fatores desta solução
paradoxal do conflito D. Anzieu restabelece, contudo, de um lado, a predominância da
destrutividade sobre as forças de ligação, o que conecta com a intensidade da inveja
destruidora, e de outro lado, a confusão tópica e seu correlato, a subversão do processo
secundário pelo processo primário, e não mais sua articulação; ao que se acrescenta a
regressão da estrutura do superego.
O exame desta modificação do equilíbrio entre o proces so primário e o processo
secundário leva a interrogar-se mais sobre os efeitos da censura do tipo talião e sobre o
funciona mento mental lúdico. No vínculo primário normal a mãe coloca à disposição do
bebê, desde o início das relações, sua
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A transmissão do psiquismo entre gerações
EnfoQue em terapia familiar psicanalítica
capacidade de brincar e de humor, seu preconsciente, sua transicionalidade, a fim de que o
bebê atualize e desenvolva seu próprio potencial lúdico inato. Assim, coloca-se em ação o
prelúdio para sua vida imaginária e para a sua transiciona lidade. No vínculo primário
regido pela prevalência da cen sura à maneira de talião, não acontece o mesmo porque — é
uma observação recorrente em terapia familiar — o jogo, o faz de conta entre mãe e bebê é
particularmente inibido. Não se saberia, na verdade, dizer sem espanto, pois o jogo e o
humor supõem o superego pós-edípico. Ora a ambigüida de fecunda do jogo (uma coisa é e
não é uma outra coisa) suportável, passível de investimento, enquanto os limites do jogo
permanecem psiquicamente efetivos, torna-se ao con trário uma ameaça de confusão desde
que estes limites não sejam mais eficientes. Na situação considerada, que é a da censura à
maneira de talião, vimos que a lei, a regra, o limi te é pseudo, por assim dizer. Dito de outra
maneira: a ambi güidade própria do lúdico é, então, percebida como ameaça de retorno da
confusão traumática. E por esta razão que o jogo seria o objeto de um evitamento fóbico
particularmen te intenso. Inversamente na cura, ocorre a reposição do modelo do jogo dos
afetos organizadores, particularmente vivos, sobre a qualidade do vínculo primário.
Uma seqüência paradoxal reconstruída
O paradoxo, como conflito, sem compromisso entre as forças pulsionais e a censura,
manifesta-se, então, no víncu lo primário, segundo uma série processual, verbal e não ver
bal, inter e intrapsíquica, que pode decompor-se esquemati camente segundo os elementos
da seqüência seguinte.
1. A mãe deseja exprimir sua ternura, sua afeição, sua ligação com seu bebê e responder ao
engajamento interativo deste, mesmo que se trate de uma necessidade auto-conser vadora
no sentido clássico do termo, a fome; ou de uma mci tação ao acordo nas relações, e lúdico;
ou ainda, de um ato auto-erótico a dois, por exemplo, deixar o bebê sugar o dedo
de sua mãe. Postular este tempo primeiro do processo, ma nifestando a vitalidade da auto-
conservação e da pulsão se xual é essencial para a compreensão do processo e para o
trabalho terapêutico.
2. Este movimento presta-se, normalmente, a ser regula do pelo superego materno de
qualidade pós-edípica, que pro tege, consola e proíbe, a fim de que o encontro entre mãe e
bebê se engaje com o tato, a disereção e a empatia que per mitem a integração. O bom
proibido permite o toque pri mário antes que a proibição do toque secundário se instau re,
mais tarde.
3. Mas, a iminência deste encontro reativa na posterida de os traços mnemônicos, na psique
materna, da catástrofe já vivida: enquanto indivíduo que foi outrora, criança, con frontada
com a agonia primitiva e/ou enquanto portadora de traços de uma catástrofe ocorrida nas
gerações anterio res, particularmente, do tipo coincidência óbito-nascimen to/confusão
morte-vida. Sustentamos a hipótese segundo a qual esta situação psíquica faria a cama da
mutação da cen sura do superego pós-edípico em pseudo-lei de talião. Doravante, o conflito
entre a pulsão e a censura tende não mais a se resolver em compromisso, mas a produzir o
dile ma paradoxal e a inanição psíquica. Tal fixação do conflito parece ter uma disposição
particular para se transmitir de uma geração a outra, ainda que com um certo número de
transformações. Flá sempre uma tal forma de censura em uma parte clivada da psique que
conduz a interpretar todo gesto de ternura como incesto, e toda colocação de limites como
assassinato, de maneira que estes eixos diretores do encontro interpsíquico vejam sua
legitimidade abolida.
4. Esta parte clivada e recusada obriga a interromper o gesto engajado, o seu e o do bebê.
As mãos afloram, mas não acariciam nem tomam; os olhos vêem, mas não olham nem
refletem o olhar do outro etc. A intencionalidade, a afeti vidade desertam a ação. Esta
censura inconsciente provoca um esgarçamento pulsional, um desligamento, um grande
sofrimento materno que tende a ser evacuado na criança.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
5. A criança, então, é confrontada com uma dupla prova cuja saída dependerá de múltiplos
fatores: seu temperamen to, sua idade, suas experiências anteriores, o ambiente ex terno.
Prova esta simultaneamente da dupla mensagem de ligação e de desligamento. Prova da
projeção do recusado. A angústia gerada pelo encontro produz na criança diversas defesas,
por exemplo, a inibição, o evitamento da relação, a auto-contenção, o super-investimento
de terceiros...
6. Do lado materno, a percepção desta fuga defensiva na criança fixar’ o desejo ou a
compulsão do vínculo, que toma rá uma forma mais penetrante, na verdade, intrusiva, a
qual aumenta, por sua vez, o mal entendido e o sofrimento recí proco.
7. Uma disritmia interpsíquica pode então duravelmente instalar-se, a menos que a
evolução natural da relação mãe- bebê e da família, e/ou do trabalho terapêutico não consi
gam restaurar uma qualidade suficiente para o vínculo pri mário.
5. O TRABALHO DO SUPEREGO
A cura familiar psicanalítica leva a interrogar-se sobre o lugar da estrutura edípica — no
sentido em que A. Green (1977-1992) fala de modelo edípico — no funcionamento do
vínculo primário pai-mãe-bebê e no crescimento da psi que infantil. As condições ótimas de
holcling e do funciona mento “alfa”, parecem preenchidas quando a complexidade edípica,
novamente atualizada pelo processo de tornar-se parente, estima organizar-se sob o
primado de um superego cumprindo uma dupla tarefa: proibir e proteger-consolar, e isto em
perlaboração do superego parental transmitido de uma geração a outra. A psique parental,
no vínculo primá rio, e a do terapeuta na cura, encontram nesta qualidade superegoica o
organizador de uma latência de ativações
pulsionais, eróticas e destrutivas que geram o encontro com o bebê. Esta latência graças ao
superego, lado parente, ali menta a capacidade de sonhar parental e a protege dos ex cessos
de investimento e/ou de contra-investimento. Ela mantém o vínculo na zona temperada
propícia ao surgimento, lado criança, da oscilação narcísica-objetal precoce, e dos
processos de simbolização.
Mas, trata-se somente de um esquema teórico ideal cujos múltiplos riscos a clínica
demonstra. Acentuei as configura ções traumáticas e suas posteridades de geração, que dão
uma certa possibilidade de leitura às manifestações de sofri mento no grupo-família. A
desestruturação e a (re)qualifi cação das competências superegóicas esclarecem o fato de
que o superego, como o ego, trabalham. Convém então sus tentar a idéia de um trabalho do
superego.
A perda do objeto e sua dor constituem um modelo parti cularmente fecundo da prova do
equilíbrio da instância superegoica. Neste sentido, o trabalho do luto e o trabalho do
superego acham-se intimamente ligados, essencialmen te, no processo de geração. Que
caminhem juntos, e o vín culo primário encontrará como se desenvolver da melhor maneira
possível. Ao inverso, a recusa da perda, correlata com a não construção superegoica,
instaura a potencialidade de uma disfunção do vínculo primário na posteridade da ge ração.
Assim, podemos subscrever a hipótese segundo a qual o trabalho de simbolização da psique
infantil, no grupo-fa mília, inscreve-se na matriz da estrutura edípica de geração, que exerce
uma função de origem.
‘Ver nota 4 da página 114.
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-I ___

Capitulo 3
A TRANSMISSÃO PSÍQUICA FAMILIAR
PELO SOFRIMENTO
F. ANDRÉ-FUSTIER E F. AEBERTEL
“O que se transmite é o que resta do sofrimento na própria trans missão...”
R. Kaês (1986)
Q dispositivo grupal da terapia familiar visa reco lher e permitir a inscrição, na mesma
cadeia
associativa do grupo de terapia, dos traços da quilo que ficou de sofrimento na elaboração
da transmissão psíquica familiar. Estes traços, efeitos prováveis de contra- investimentos
originários face a um excesso traumático, man têm cada indivíduo da família na
impossibilidade de fazer sua “qualquer coisa” mantida grupalmente fora de sua psi que e
que, contudo, o afeta. R. Kaês (1986) propõe a idéia de uma transmissão de destino que
toma a forma de uma inclutável compulsão a transmitir. O inelutável diz respeito a uma
mensagem inconsciente transmitida sem transforma ção de geração em geração; a
descendência, na verdade, al guns descendentes podem vir-a-ser depositários forçados,
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A transmissão do 9siquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
agentes à revelia de um destino implacável. É nas modalida des da transmissão entre
gerações que vamos focalizar nos so interesse; aquelas que organizam os processos de trans
missão psíquica entre as gerações, e que irão desenrolar-se no espaço da terapia.
1. A TERAPIA FAMILIAR PSICANALÍTICA
A terapia individual e a terapia familiar
Com a cura psicanalítica individual, que se dirige mais especialmente ao tratamento da
neurose, estamos no regis tro do intrapsíquico, formalizado por Freud através do con ceito
de aparelho psíquico. São as modalidades da relação de objeto que irão se desenrolar no
dispositivo dual da cura, e que serão analisadas no âmago da dinâmica transferencial
instaurada.
O tratamento analítico das neuroses é baseado na hipó tese de que a neurose resulta de
conflitos infantis não resol vidos, que continuam a se manifestar sob a forma de sinto mas.
O sofrimento psíquico traduz-se nas organizações sin tomáticas, que aparecem como
formações de compromis entre o desejo inconsciente e as exigências da realidade e do
superego. O sofrimento psíquico é pensado como estando no interior do jogo entre as
diferentes instâncias do apare lho psíquico.
Mas a referência aos conflitos intrapsíquicos será sempre suficiente para compreender e
tratar o sofrimento psíqui co? E o indivíduo passível de ser superposto na totalidade ao seu
modo intrapsíquico, em resumo, à parte mais organiza da de seu universo psíquico?
Os trabalhos de Bleger (1970), por exemplo, acentuam a existência no indivíduo de
formações não integradas ao psiquismo individual, que são depositadas em todos os vín
culos, e postas em jogo em todo grupo. Estas formações não integradas ao psiquismo
provêem de restos de vínculos
simbióticos primitivos não elaborados (vínculos simbióticos com a mãe, a família, o
ambiente social e cultural). Estas formações fazem parte da identidade de todo indivíduo,
mas devem permanecer mudas, clivadas, para garantirem uma segurança de base suficiente
para permitir o funcionamen to de formações psíquicas mais elaboradas, isto é, as do ego. O
bom funcionamento do aparelho psíquico individual e as condições de individualização
psíquica dependeriam da sor te destas formações não integradas, mas sustentáculos do
psiquismo. Essas formações não integradas ao psiquismo individual seriam de natureza
grupal: elas precederiam, e depois sustentariam a individualização psíquica.
A. Ruffiot propôs, há alguns anos, esta metáfora: “Se é tecido antes de ter nascido”, e,
desde 1979, formulava a hi pótese de um aparelho psíquico familiar preexistente, gené tica
e estruturalmente, à organização do aparelho psíquico individual. No caso de
funcionamento neurótico prevalecen te em um indivíduo, estas formações grupais
tornaram-se suficientemente mudas para que o trabalho psíquico efetua do, na cura
individual dirija-se essencialmente às formações intrapsíquicas e a seus conteúdos
submetidos aos processos de recalcamento. No caso de funcionamentos psicóticos,
anoréxicos, psicossomáticos e psicopáticos pareccm mais predominantes a deficiência das
estruturas do ego, e de con tinentes do psiquismo.
A terapia familiar psicanalítica dirige-se, particularmen te, para estes últimos
funcionamentos, e se interessa pelas condições que tornam possível o processo de
subjetivação. Então, ela levará em conta estas formações psíquicas não integradas ao
psiquismo individual ou, para dizer de outra maneira, este tecido grupal que precede a
individualização psíquica, e permite o seu surgimento. Tentaremos mostrar como a terapia
familiar psicanalítica, propondo um enqua dre analítico de grupo para a família, instaura as
condições de um espaço no qual irão se desenrolar as formações psí quicas diferentes das
observadas e tratadas na cura indivi
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Atransn-iissão do psiquismo entre geracões
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
dual: as formações grupais familiares serão observadas e tra tadas neste enquadre, espécie
de “tecido” grupal que pree xiste a todo psiquismo individual, e depois continua a servir-
lhe de sustentação. É este aparelho psíquico familiar, na sua dimensão grupal, que será
levado em consideração.
A hipótese de um aparelho psíquico familiar
A idéia de um aparelho psíquico familiar, proposta por A. Ruffiot em seguida à
conceitualização de R. Kaës de um apa relho psíquico grupal, oferecia desde 1979 um
suporte teó rico-clínico que permitiria uma primeira formalização da natureza e do
funcionamento destas formações grupais pré- individuais. O trabalhos de R. Kaês sobre os
grupos e as pes quisas teórico-clínicas de terapeutas de famílias, depois de 1980,
permitiram expandir as hipóteses sobre a natureza destas formações grupais e sobre o
funcionamento do apa relho psíquico familiar.
O aparelho psíquico familiar poderia ser rapidamente definido como uma aparelhagem
psíquica comum e parti lhada pelos membros de uma família, cuja função é de arti cular o
funcionamento do “estar junto familiar” com os cionamentos psíquicos individuais de cada
um dos membros da família. Mas, é preciso acentuar que, estrutural e geneti camente, o
aparelho psíquico familiar funciona sempre como uma matriz de sentido, que serve de
invólucro e de sus tentá culo primários às psiques dos indivíduos que nascem no seio de
uma família. A. Ruffiot havia, desde a origem, salientado esta característica “isomórfica”
do aparelho psíquico fami liar que o distinguia das aparelhagens grupais descritas por R.
Kaës, particularmente, nos grupos não familiares.
As funções do aparelho psíquico familiar
As funções do aparelho psíquico familiar são funções de continência, de ligação, de
transformação e de transmissão. E, com efeito, uma das funções do aparelho psíquico fami
liar (tanto em um plano genético quanto em um plano es trutural) conter e metabolizar as
angústias arcaicas de todo lactente e, posteriormente, o mínimo de todo indivíduo para
permitir-lhe a construção de um mundo interno sólido e coerente.
É uma aparelhagem psíquica, de início externa que vai permitir ao lactente transformar suas
experiências sensori ais em vivências psíquicas progressivamente relacionáveis entre si, e
representáveis no interior de um ego em constan te diferenciação.
A função de continência das angústias arcaicas corres ponde à função de para-excitação,
depositária de elementos simbióticos, e de sustentáculo das experiências brutas do lactente.
A função de transformação diz respeito ao trabalho psí quico assegurado pelo ambiente
familiar da criança que aco lhe as experiências sensoriais do bebê, e lhe restitui vivências
psíquicas.
A função de ligação, tanto intrapsíquica quanto intersubje tiva, corresponde ao fato de que
o recém-nascido poderá utilizar estas vivências psíquicas para, progressivamente, auto-
conter-se e organizar sua própria psique, bem como estabelecer relações objetais no seio de
seu grupo familiar, e depois no exterior.
A função de transmissão, na sucessão de gerações, reme te à maneira pela qual cada família
irá dar à criança as cha ves de acesso ao mundo. Com efeito, cada família transmite ao
recém-nascido sua maneira de apreender o mundo exte rior e de organizar o universo
interno. E a partir destes uten sílios psíquicos de decodificação que cada criança construi rá
seu mundo interno, colorido por suas fantasias pessoais. Com a função de transmissão
psíquica, acha-se introduzida a dimensão histórica do aparelho psíquico familiar. Este ar
ticula, com efeito, duas dimensões estruturais da família:
— uma dimensão intragu pai (atual), que é definida pelo gru po pais/crianças;
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfociue cm terapia familiar psicanalítica
— uma dimensão de geração (histórica), que remete à su cessão de gerações e à
transmissão psíquica entre elas.
O indivíduo não pode construir completamente sua pró- - pria história: ele se ancora em
uma história familiar que o precede, da qual vai extrair a substância de suas fundações
narcísicas, e tomar um lugar de sujeito. Uma herança psí quica lhe é transmitida pelas
gerações precedentes (Granjon
E., 1990):
— uma herança intergeração, constituída de vivências psí quicas elaboradas: fantasias,
imagos, identificações... que organizam uma história familiar, uma narração mítica da qual
cada indivíduo pode extrair os elementos necessários à constituição de sua história familiar
individual neurótica;
— uma herança transgeração, constituída de elementos bru tos, não elaborados, transmitida
tal qual, oriunda de uma história lacunar, marcada por vivências traumáticas, de não- ditos,
de lutos não elaborados. Por não terem sido elabora dos pela ou pelas gerações precedentes,
estes elementos bru tos irrompem nos herdeiros, atravessam seu espaço psíqui co sem
apropriação possível.
Entretanto, parece importante precisar que a herança transgeração compreende igualmente
elementos que perma necem em instância de representação, sem ser no entanto, de natureza
traumática: o conceito de negatividade relativa proposto por R. Kaës (1989) poderia dar
conta destes aspec tos da transmissão transgeração, não patológica.
Evocamos anteriormente as formações não integradas ao psiquismo, acentuando que elas
seriam provenientes dos vín culos simbióticos não elaborados, podemos acrescentar que
elas são, de um lado, referentes à transmissão psíquica en tre gerações na família.
R. Kaës (1989) lembra que as alianças inconscientes or ganizam a criação de todo vínculo.
Assim, toda família é fundada sobre as relações de aliança que os indivíduos da filiação
deverão levar em conta para construírem sua pró pria identidade de sujeito individual e de
sujeito do grupo.
Todo membro da família e, afortiori, toda criança que vai nascer, é obrigada a encarregar-se
de diferentes níveis da alianças inconscientes (contrato narcísico e pactos de nega ção)
sobre os quais se fundamentou o encontro entre seus dois pais e suas duas descendências.
O aparelho psíquico familiar, articulando o eixo de gera ção e o eixo intragrupal, irá
delimitar um espaço psíquico grupal no interior do qual o que é vivo, o que se experimenta
na atualidade, irá poder inscrever-se em uma cadeia de sen tido tanto familiar quanto
individual. Mas, pode-se produzir uma quebra nesta cadeia de sentidos, uma alteração nas
capacidades de elaboração ligadas ao funcionamento do apa relho psíquico familiar:
— seja por uma impregnação muito grande de modalidades de transmissão transgeração
que proíbem à criança (às últi mas gerações) um trabalho de elaboração psíquica sobre um
material mantido fora da mentalização, fora da psique.
— seja por um engavetamento entre um “acontecimento atual” (deficiência, acidente,
morte...) e um “acontecimen to” do passado, não posto no passado, com o qual entra em
colisão, repetindo a ruptura das funções de para-excitação familiares, e impedindo um
trabalho de elaboração tanto familiar quanto individual.
O sintoma
Em alguns casos, o sintoma não aparece mais, unicamen te, como a resultante de uma
formação de compromisso intrapsíquico, ele pode igualmente ser encarado em relação com
a repetição de um enfraquecimento da mentaliza ção extraída de gerações precedentes.
Então, ele seria entendi do como a expressão de um sofrimento familiar.
Queremos chamar a atenção para o fato de que, se a re petição não pode ser compreendida
sempre em relação à economia psíquica do indivíduo, ela encontrará esclareci mentos
possíveis na compreensão do que liga o indivíduo (à
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A transmissão do psiquismo entre_gerações
Enfoquc em terapia familiar psicanalítica
sua revelia) a seu grupo familiar. Podemos formular esta hi pótese: a compulsão à repetição
estaria relacionada com uma falha de simbolização transmitida pelas gerações preceden tes,
constrangendo o indivíduo a retomar sem que ele possa elaborar qualquer coisa, que está,
aliás, no fundamento do vínculo familiar e de seus próprios embasamentos narcísicos.
O sintoma pode aparecer, em alguns casos, como uma forma muito investida do vínculo
familiar narcísico, que ali ás, torna precário todo acesso individual, pois todo indiví duo,
antes de ter para si seu próprio fim, é membro de um grupo que o situa na sucessão de
gerações. Cada indivíduo é, então, submetido a uma dupla destinação, mas a família,
enquanto grupo, é confrontada com a necessidade de inte grar a vinda do novo indivíduo,
mantendo um equilíbrio de identidade. As vezes, este equilíbrio pode ser mantido às
expensas do processo de individualização dos sujeitos.
2. A QUESTÃO DA TRANSMISSÃO PSÍQUICA NA TERAPIA FAMILIAR
As missões da família
A família é um grupo específico, caracterizado por víncu los de aliança e de filiação; pelas
proibições que regem estes vínculos (proibição do incesto e do assassinato). Ela articu la as
relações entre estes diferentes membros e entre as di ferentes gerações, e isto em função da
história e dos mitos próprios. Mas ela também pertence a um conjunto social e cultural, e
desta forma, deve articular o lugar de cada indiví duo da família com seu lugar no conjunto
social.
A tarefa da família é, então, de articulação mas também de perpetuação:
— ela deve perpetuar-se, isto é, prolongar-se para além da
morte dos indivíduos, e então, integrar as mudanças ligadas
à morte individual;
— ela também deve conservar-se idêntica a si mesma, ape sar dos riscos inevitáveis de
alianças com outras famílias,
pelo viés da exogamia;
— enfim, ela deve procurar, permanentemente, o equilíbrio do grupo nuclear e a
estabilidade da identidade familiar.
Essas tarefas são colocadas em questão, sem cessar, por causa e por ocasião da sucessão de
acontecimentos que ba lizam toda vida familiar. Acontecimentos felizes ou infeli zes, são
todos rompimentos, na verdade, traumatismos, na medida em que atacam a para-excitação
familiar e pertur bam o equilíbrio preexistente. Se alguns são portadores de esperança, e
constituem uma projeção para o futuro e uma mudança para um melhor ser, outros são
mortais, recondu zindo em direção a um paraíso perdido, ou repetindo indefi nidamente os
traumatismos anteriores.
A maneira pela qual a família vive esses “traumatismos” depende, naturalmente, do próprio
acontecimento, mas tam bém, e sobretudo, do sentido dado a esse acontecimento, e de sua
inscrição possível na história familiar. O resultado da elaboração dos traumatismos está,
então, subordinado às capacidades de continência do aparelho psíquico familiar. Esta
continência passa pela aceitação da mudança, pela pos sibilidade de “pôr no passado” os
acontecimentos, isto é, pela capacidade de a família efetuar um trabalho de luto. Dito de
outra maneira, o que é traumático para uma família não o será, obrigatoriamente, para uma
outra; o vir-a-ser do “traumatismo” parece ligado a uma pluralidade dc fatores e não a uma
causalidade direta.
O traumatismo ocasiona um sofrimento que põe à prova o funcionamento psíquico familiar.
A resposta imediata é um reforço do vínculo familiar como defesa contra o abati mento. O
tratamento do traumatismo faz-se sempre, em pri meiro lugar, na atualidade: com efeito, o
caráter principal do traumatismo é ser traduzido como uma vivência imedia ta de
aniquilamento, vivido pela condensação na atualidade, e pelos aniquilamentos anteriores,
não colocados no passa do. O trabalho de acabar com a condensação, que recoloca os
acontecimentos na sua sucessividade histórica, e lhes dá um sentido, vem em um segundo
tempo.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoquc em terapia familiar psicanalítica
A família: um berço psíquico
A família tem como tarefa fazer nascer os indivíduos para a vida psíquica, perpetuando a
espécie. Para que um recém- nascido construa seu psiquismo, para que ele organize seu
mundo interior, é vital que possa apoiar-se no funcionamen to psíquico das pessoas que
constituem seu primeiro ambi ente, isto é, seus pais, sua família (irmãos e irmãs, avós...).
Geralmente, é a mãe que preenche esta função de assegu ramento para com o lactente. Ela
própria é ajudada e ampa rada pelo seu cônjuge e pelas diferentes pessoas da família. E a
mãe que está presente junto ao berço do lactente, mas, ela é também a porta-voz de todo o
grupo familiar que irá conceder um lugar ao novo que chega: lugar na família atual e lugar
na sucessão de gerações. Os membros da família trans mitem ao recém-chegado suas
maneiras de experimentar o mundo, de pensar, suas vivências e sua narração da história da
família, e, nesta base, a criança construirá sua própria individualidade.
O nascimento de uma criança é, em si, um acontecimen to traumático, como mostrou A.
Gare! (1988). O bebê é um “corpo” biologicamente familiar, mas também, radicalmen te
estranho (separado) e estranho, porque não familiar. A família tem como tarefa incorporar
este objeto no corpo imaginário familiar. Mais ainda, este corpo é dotado de um psiquismo
potencial que deve vir-a-ser uma cadeia no víncu lo familiar atual e de geração. A família
deve, então, efetuar um trabalho de conhecimento do estranho, e de reconheci mento do
familiar no novo que chega. Ela deve identificá-lo, no duplo sentido desta formulação.
O berço psíquico familiar que acolhe a criança tem suas características próprias; estas
organizam o funcionamento interno do grupo familiar, que está em volta, e carrega o
recém-nascido. Elas definem uni certo tipo de vínculo, mo delam os códigos e os canais de
comunicação utilizados, e determinam os conteúdos psíquicos que serão transmitidos ou
não à criança.
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Á
As alianças inconscientes
Cada sujeito é um indivíduo com seu mundo interno, seu próprio psiquismo, mas está
incluído em um conjunto
familiar e social — que define seu lugar de indivíduo, e que concorre para formar uma
parte de sua identidade. De res to, cada indivíduo contribui para manter o funcionamento
desste conjunto.
A criança, que nasce em uma família, herda parte da fun ção de recomposição desta família
a partir da aliança das duas descendências de onde ela é oriunda: ela deve conser var o
conjunto e alimentar-se desta herança. O contrato narcísico, descrito por P. Aulagnier
(1975), corresponde aos deveres que a criança terá de preencher em troca do investi mento,
do qual será objeto, pela família. Ela terá a missão de perpetuar a cadeia de geração, de
assegurar a perenidade da identidade familiar, de fortificar seu narcisismo. Ela terá como
carga retomar e transmitir os enunciados históricos e familiares, às vezes, às expensas de
sua própria coerência psíquica, uma vez que estes enunciados estejam em contra dição com
suas próprias percepções internas e externas. A questão da transmissão psíquica, a cada
nova geração, en tão, vai ser central tanto do ponto de vista do novo indivíduo quanto do
ponto de vista da família.
Todo indivíduo chega sempre dentro de uma história que preexiste, da qual ele é, às vezes,
herdeiro e prisioneiro. Diz- se: um indivíduo não pode, com efeito, inventar totalmente sua
própria história, ele se ancora naquela que lhe foi legada por seus predecessores; é a partir
destes dados que irá cons truir sua identidade de sujeito, e tomar lugar no conjunto familiar.
Dentre os legados que a criança recebe como heran ça a história e os enunciados são
organizados de maneira a preservar uma certa imagem da família e uni certo tipo de
vínculo: a pertinência ao grupo cria deveres de reserva, na verdade, de recusa, em relação a
alguns fatos, prescreve a proibição de abordar alguns indivíduos e, isto, de maneira
totalmente inconsciente. Esta comunidade do que é obriga
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A transmiss do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
do, mantido em segredo, constitui uma forma de relação grupal muito poderosa, que R.
Kaês (1989) descreveu a par tir do conceito de pacto de denegação.
Assim, o que é transmitido ao indivíduo cria uma coação que limita o inventário possível
dos destinados, e o bebê, último elo da cadeia, é, então, prisioneiro de sua pré-histó ria:
estes legados “alienantes” dizem respeito a um material psíquico não elaborado, mais
freqüentemente traumático, do que seus pais, na verdade, seus avós ou seus ancestrais, não
puderam simbolizar, mas que se transmite tal qual, não transformado. Se as últimas
gerações acham-se presas a um irrepresentável familiar muito significativo ou pregnante,
cada indivíduo torna-se preso, na impossibilidade de fazer sua qualquer coisa mantida fora
de seu pensamento. Só res ta, à disposição dos indivíduos, um discurso ideológico fa miliar
que tenta ligar, à força, o que não pode ser objeto de um trabalho de ligação psíquica, e isto,
sem levar em conta as diferenças individuais (ligadas à diferença de sexo e de geração).
Ideologia e censura familiares
A ideologia familiar, que um de nós Aubertel, E 1990) teorizou anteriormente segundo os
trabalhos de R. Kaës (1980), é uma meta-organização familiar que tem diferen tes funções.
— Uma função de ídentfficação: ela propõe/impõe uma ima gem da família, imagem
marcada pelo ideal e inscrita em uma história, emblema mobilizador e de identificação.
— Uma função de organização: ela delimita papéis, lugares e estatutos, gerencia as troca e
os contlitos de maneira a preservar a imagem idealizada da família, e a assegurar uma
espécie de inatingível do vínculo e do real.
— Uma função de continência: ela delimita um fora e um dentro, e instaura um espaço de
refúgio.
— Uma função defensiva: ela impõe a prevalência de meca nismos de defesa familiares, às
custas das organizações de-
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fensivas individuais, quando aparece um perigo de abatimen to; ela sempre tende a reforçar
o vínculo de fusão.
— Uma função de representação: ela fornece os elementos de construção de um neo-real,
preservando a definição da família e a proteção de sua imagem. A ideologia opera uma
seleção na sua tradução da realidade. O que é proposto/im posto à criança para alimentar
sua própria construção re presentativa, e a todos os membros da família, quando do
desenrolar da história familiar, é objeto, desde o início, de uma filtragem, que chamamos
censura familiar (E André Fustier, E Aubertel, 1994) e age deste lado do trabalho de
triagem operado pelo recalcamento individual.
A censura familiar organiza, então, uma matriz de sig nificações, designando e situando o
novo membro em um conjunto familiar e social. Esta matriz dá à criança as cha ves de
acesso ao real, que B. Penot (1989) assinala não ser apreensível e não poder significar
qualquer coisa para a crian ça, senão através das primeiras figuras parentais, e do dis curso
de que são o suporte originário.
A censura familiar tem igualmente uma função de prote ção do vínculo familiar e ela
intervém, muito particularmen te, na transmissão do negativo. Na definição do seu discurso
sobre a realidade, na transmissão da história familiar, no investimento da criança e do lugar
que lhe é dado, e na inter pretação do que se experimenta e se vive na família, o dis curso
carrega marcas de uma censura que preservou os não- ditos, as recusas e os “mantido
escondidos”. A retomada deste discurso como tal significa a pertinência ao vínculo familiar
e a adesão a uma certa forma de crença. A patologia pode vir, aqui, selar as alianças
psicotizantes, no sentido em que é proibido pensar, ou mais precisamente, é obrigatório
pensar o pensamento do outro (Aulagnier, P. 1975).
J
O sofrimento familiar e a angústia de perda do vínculo
O sofrimento familiar seria a manifestação de uma falta de metabolização, transmitida na
geração, e que mantém
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A transmissão do psiquismo entre aerações
Enfoqueem terapia familiar psicanalítica
na atualidade um excesso de angústias de desmoronamento, impedindo cada indivíduo
deste grupo familiar de acedet a mecanismos neuróticos individuais estáveis (um equilíbrio
estabelece-se, às vezes, ao preço de uma clivagem da parte em sofrimento projetada sobre
um membro da família, en tão porta-voz deste sofrimento).
O sofrimento familiar seria compreendido como um tra balho psíquico impossível ligado a
uma ruptura catastrófica do vínculo (nas gerações anteriores) que, atualizada nova mente na
ocasião de um “acontecimento atual “, ultrapassa as funções de para-excitação familiares, e
mantém na famí lia modalidades grupais defensivas, visando preservar um vínculo familiar
indiferenciado. Esta indiferenciação seria o último recurso contra o temor do
aniquilamento, agora, uma impossibilidade ou uma proibição de pensar, o pensamento
sendo por excelência correlato da perda e do trabalho de luto.
É porque a família não chega a metabolizar experiências muito fortes, a transformá-las em
emoções e em sonhos, que estes ficam no registro da excitação e do quantitativo. Mas,
também é verdade dizer que a defesa contra estas experiên cias transbordantes consiste em
não elaborar para perma necer na indiferenciação e verificar, assim, na atualidade, a
concretude de um vínculo adesivo. Vê-se aqui como uma fa mília pode ficar presa ao
paradoxo de ter de elaborar mais, do que ela se protege, preservando um vínculo de tipo
adesi vo, O funcionamento familiar é mantido aquém de um tra balho de representação,
contudo necessário à transforma ção do quantitativo em qualitativo.
3. A ESPECIFICIDADE DO DISPOSITIVO DE TERAPIA FAMILIAR
PSICANALÍTICA: UM ESPAÇO DE (RE)ASSEGURAMENTO E DE
(RE)PRESENTAÇÃO
Os objetivos da terapia familiar
As famílias nos levam a zonas do impensável, e nos obri gam a elaborar novas ferramentas
para pensar as condições de tal trabalho psíquico (E. Granjon, 1990). O que teremos de
compreender, pois, no espaço da terapia, não é tanto o que os membros de uma família
podem nos dizer verbal mente, mas como eles estâo na impossibilidade de dizer e de
simbolizar, na falta de mecanismos de transmissão ade quados, mas que mesmo assim, eles
nos transmitem ainda que, de maneira bruta. Nosso trabalho como terapeutas de famílias
será de sermos receptivos a estas modalidades de funcionamento, muitas vezes aquém do
verbal, de estarmos atentos aos elementos esparsos impensados, que eles veicu iam.
Nosso objetivo será de permitir a retomada de um funci onamento familiar no qual a
família possa organizar, no re gistro da representação, o que permaneceu bloqueado no da
experiência. E a partir de uma melhor circulação de elemen tos representativos que cada um
poderá dispor do material necessário para a sua construção subjetiva, graças ao traba lho de
recalcamento individual tornado possível.
O trabalho psíquico, em terapia familiar, consiste em res tabelecer as condições do
pensamento, da nientalização, mais do que trabalhar os conteúdos imaginários que, quando
po dem emergir, permanecem propriedade do indivíduo, e são tratáveis, quando necessário,
em um outro enquadre terapêutico.
O dispositivo
No plano concreto, poderíamos descrever o dispositivo da terapia familiar psicanalítica, tal
como nós a praticamos, da seguinte maneira.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque cru terapia familiar psicanalítica
Recebemos as famílias para sessões com duração de uma hora, cada quinze dias. As
famílias são convidadas a dizer o que lhes vem à cabeça durante a sessão, entendendo-se
que, se tudo pode ser dito, é também permitido a cada um guar dar para si mesmo o que não
deseja comunicar. Esta indica ção, dada explicitamente às famílias, por ocasião do enunci
ado das regras, visa diferenciar, ao menos potencialmente, os espaços psíquicos individuais
e grupais desde o início. De resto, as crianças podem desenhar e suas produções são con
sideradas e tratadas como parte do material terapêutico, da mesma forma que as palavras
trocadas.
A equipe de coterapeutas é constituída, via de regra, por três a quatro pessoas, sendo um
terapeuta principal, que intervém de maneira mais freqüente, que abre, e que termi na a
sessão. As notas manuscritas são tomadas durante as sessões, e indica-se às famílias que
estas notas, cobertas pelo segredo terapêutico, estarão à sua disposição para consulta
durante as sessões. Só as palavras, os comportamentos mui to definidos (saídas, choros...) e
os comentários sobre os desenhos são anotados.
Após a saída da família é que começa a pós-sessão, que reúne os coterapeutas. E, em
primeiro lugar, um tempo de distanciamento, de “recuperação” psíquica, e, em seguida, de
comparação e de elaboração. Este tempo de pós-sessão parece-nos fundamental em nosso
trabalho, o que tentare inos mostrar com ilustrações clínicas.
Escuta grupal e cadeia associativa familiar
Receber a família em um dispositivo de terapia familiar e escutar, psicanaliticamente, a
associatividade familiar que se desenrola, levanta um certo número de questões ao mes mo
tempo coneeituais e metodológicas. Lembraremos mui tas recomendações prévias à escuta
grupal da família.
A escuta grupal
Escutar grupalmente uma família é receber no seu con junto os diferentes níveis de
expressão da família, contê-los
(“fazê-los manter-se juntos”, apesar de sua incoerência ma nifesta), a fim de investi-los
como objetos passíveis de um sentido.
to:
Esta escuta familiar repousa sobre um duplo pressupos
— um pressuposto teórico, segundo o qual será considerado como familiar o que aparece
no nível de funcionamento mais arcaico; é aí que a disfunção se estabeleceu, onde se instala
ram as defesas grupais “radicais” (recurso às [ ciações primárias tais como a recusa da
diferença humano/ não humano, vivo/não vivo, a recusa da diferença dos seres e a recusa
da temporalidade);
— um pressuposto metodológico, tudo o que é dito ou produ zido por cada um, na sessão, é
considerado como vindo do conjunto da família.
A associatividade em terapia familiar
Em terapia familiar, escuta-se a associatividade familiar na multiplicidade de suas
manifestações. Não se trata de uma cadeia associativa verbal imaginária, como nós enten
demos comumente na cura individual André-Fustier E e Aubertel, E 1991), e isto, por duas
razões.
1. Com efeito, levando em conta a presença de indivíduos de idades e, portanto, de
maturidades diferentes em uma família, a comunicação desenrola-se segundo os níveis de
elaboração diferentes e de formas de expressão variadas: pa lavra, desenho, jogo,
comportamento, manifestações corpo rais... Estes níveis de expressão estão, naturalmente,
pre sentes em toda família, mas, seremos sensíveis, na sessão, ao grau de coerência no
aparecimento destes diferentes ní veis: podem ser produzidas rupturas, tanto nos
enunciados quanto na enunciação (passagem do verbal à ação ou ao com portamento, por
exemplo).
Os terapeutas sistêmicos, depois de muito tempo, acen tuaram a importância da coerência
entre a comunicação analógica e a comunicação digital nas famílias, bem como
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
as disfunções observadas nos casos de incoerência. Não é de se espantar que encontremos
esses elementos em nossa prá tica, mesmo se os trabalhamos de outra maneira.
2. A sucessão destas diferentes modalidades de comuni cação não traduz sempre (longe
disso) , então, o desenrolar de uma cadeia associativa imaginária, mas freqüentemente e, às
vezes, essencialmente, traduzem a irrupção de traços significantes que não podem ser
elaborados e nem integráveis tais quais na cadeia associativa grupal. Estas modalidades de
comunicação não traduzem um sentido, mas traduzem, uma experiência que ainda não tem
um nome, e que deve transitar por uma outra psique, a fim de ser aí previamente
metabolizada. E este trabalho de mentalização que vamos fazer no nível do grupo de
coterapeutas.
No campo da transferência e da contratransferência, in vestir essas modalidades de
expressão como portadoras de sentido parece-nos uma das possíveis vias para sua retoma
da na cadeia dos sentidos familiares, e isto em sustentação ao grupo terapêutico que a
família e os terapeutas reunidos formam, neste dispositivo grupal.
O que uma família procura, parece-nos, é ser contida, isto é, poder experimentar, pensar,
elaborar em um espaço terapêutico seguro, que garanta uma perenidade suficiente do
vínculo. Nesta condição, o processo de colocar em repre sentação, de colocar em
pensamento, não aparecerá mais como ataque da defesa arcaica que constitui o recurso à
indiferenciação. Trata-se, como propõe um de nós (E Auber tel, 1994), de instaurar
novamente, no espaço da terapia familiar, um vínculo transicional, isto é, um vínculo cujas
qualidades de continência e de segurança de base não pos sam ser alteradas pelos
necessários ataques ligados aos pro cessos psíquicos de individualização e do vir-a-ser
autônomo.
O trabalho originário no nível da transmissão
A tarefa da família é de fazer nascerem indivíduos para a vida psíquica. Nascer para a vida
psíquica, é, ao mesmo tem-
po, construir sua integração psique-soma e sua integração na vida psíquica familiar. A
integração psique-soma, segun do Winnicott (1949), corresponde à habitação no corpo, à
ligação das experiências corporais com seus representantes psíquicos. Esta integração
psique-soma é assegurada pela preocupação materna primária e, mais geralmente, pelo
ambiente materno.
P. Aulagnier (1975) mostra que a construção do sistema representativo da criança organiza-
se a partir de seus en contros com o mundo exterior. A criança encontra-se com este mundo
exterior de um lado, pelo seu próprio corpo, de outro, pelo psiquismo daqueles que o
cercam. Lembremos que P. Aulagnier postula a existência de três registros de
representação:
O nível originário corresponde a uma representação pic tórica em que a representação e o
afeto são indissociáveis; esta representação pictórica é a imagem da coisa corporal quando
do encontro com o objeto que estimula a zona sen sorial.
O nível primário corresponde à representação imaginá ria, à encenação dos afetos e das
representações.
— O nível secundário é o registro da encenação, da ascen são ao EU e ao simbólico.
O trabalho psíquico na terapia familiar dedica-se, mais especificamente, às distorções da
transmissão no registro originário. Para a criança, os primeiros atos de representa ção de
seus encontros com o mundo exterior são sustenta dos e guiados pela função alfa familiar.
Os mais próximos da criança co-experimentam com ela suas vivências primárias e, na
medida em que a criança é investida, eles interpretam este encontro para ela e para eles
mesmos, no tempo e no lugar em que ele se produziu. Esta interpretação deve nor
malmente levar em conta, ao mesmo tempo, a experiência atual da criança, da cultura
familiar e do investimento par ticular do qual esta criança é o objeto, em geral e neste
momento preciso da relação e da história.
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-w
A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
A experiência atual da criança, ou mais precisamente, do infans que ainda não acedeu à
palavra, só pode ser inferida e interpretada a partir dos sinais emitidos. Estes sinais po dem
ser mais ou menos explícitos, compreensíveis e identificáveis. Eles manifestam, em geral,
uma necessidade corporal rapidamente entendida igualmente como um ape lo, marcando a
integração do recém chegado no vínculo fa miliar. As modalidades de resposta derivam de
diversas vari áveis: de um lado, da cultura familiar, isto é, da maneira como se ocupam das
crianças nesta tal família (como se lhes fala, como se lhes cuida, com quais objetos, quais
ritos, com quais objetivos educativos...), de outro lado, do que se co- experimenta
familiarmente neste momento. Se a vivência do encontro é integrável pela função alfa
familiar, a resposta comportamental e a tradução interpretativa (imaginária e verbal)
corresponderão à colocação à disposição da criança de uma psique de prótese. Se a vivência
do encontro trans bordar as capacidades de continência e de metabolização familiares, as
respostas comportamentais e as traduções interpretativas serão a marca de uma reação
defensiva face a algo não integrável e perturbador para a família. Estas co- experiências
serão objeto de um contra-investimento defen sivo que impede sua inscrição psíquica
individual. Estas co- experiências serão reatualizadas na terapia familiar.
4. A CLÍNICA DA TRANSMISSÃO PSÍQUICA ENTRE GERAÇÕES
Nas famílias “doentes”, podemos formular a hipótese de que o acesso às condições de
representação não se dá ou se dá mal. Falamos em condições de representação e não de
representação pois, neste caso, parece-nos que as condições pelas quais cada membro da
família pode construir suas pró prias representações não estão reunidas.
O trabalho em terapia familiar consiste, então, em pri meiro lugar, em localizar as
disfunções dos processos de ati vação do pensamento no grupo familiar. Na atualidade da
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sessão, estas disfunções aparecem e irão ser tratadas, pro gressivamente.
Diferentemente de nossos colegas sistêmicos, não traba lhamos com as dificuldades de
comunicação entre os ele mentos discretos, separados, de um combinatório. Situamos
nossas intervenções aquém dos processos de individualiza ção, o que nos leva a postular
que as clivagens, os conflitos e os paradoxos não funcionam somente entre os membros da
família, mas igualmente, e mais freqüentemente, de manei ra trans-individual.
No nosso trabalho terapêutico, apoiamo-nos, essencial- mente, em nossas sensações ou em
nossas reações ao conta to com o funcionamento familiar; estes são os primeiros in dícios
contratransferenciais. Nossas experiências de sofri mento podem ser físicas e/ou psíquicas:
dores corporais (do res de cabeça ou de barriga, vontade de dormir), excitação, experiências
de sideração do pensamento, sensações de pros tração ou de impotência, de violência ou de
perda da razão, sensações de distanciamento e de queda. Estas experiências comunicadas a
nós pela família, e que ela nos faz experimen tar são, primeiro, para ser contidas, isto é, a
nossa primeira tarefa consiste em identificá-las como efeitos da transferên cia, para que
possamos resistir aos movimentos defensivos, às vezes violentos, que podem nos excitar.
Podemos, com efeito, ser tentados a agir, a intervir no real, saindo de nossa posição de
neutralidade terapêutica. Também, podemos querer interpretar “brutalmente” o sen tido:
esta interpretação seria violenta, na medida em que ela aqui viria com o objetivo de
salvaguardar nosso próprio psiquismo, e não com o de ajudar a família. Muito provavel
mente, neste momento, a família ainda é incapaz de apro priar-se de tal interpretação que
não leva em conta seu pró prio nível de funcionamento psíquico.
Podemos também ser arrastados a um mergulho fusional na família:
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À transmissão do psiquismo entre gerações
— seja porque estamos fascinados pelo conteúdo do discur so familiar (por exemplo, estas
famílias com histórias extra ordinárias têm a arte de seduzir os “psi”),
— seja por um movimento violento de empatia ou de au mento da excitação.
Em ambos os casos, arriscamo-nos a naufragar na ilusão grupal-familiar: os terapeutas
passariam, então, a funcionar como se fossem membros da família, perdendo assim, a dis
tância necessária a todo trabalho terapêutico.
Podemos ainda ser tentados a fazer aliança com o que nos parece ser, naquele momento, a
parte sadia da família, a que funciona melhor ou que alimenta melhor nossas fantasi as.
Assim fazendo, deixamos de lado os outros, na verdade, nós os atacamos. Em todo caso,
não tratamos, então, do sofrimento familiar, que é precisamente atualizado nesta clivagem
ou neste distanciamento.
A família de João Paulo: um elo terapêutico
em experiências erráticas
Queríamos formalizar o início de uma terapia familiar com a intenção de evidenciar a
maneira pela qual algumas modalidades da transmissão da vida psíquica entre gerações
aparecem no dispositivo da terapia familiar. Considerar este trabalho, transmiti-lo,
apresenta uma certa complexidade na medida em que o que é prevalente refere-se às
modalida des infra-verbais de transmissão no interior da sessão, mais do que aos conteúdos
das próprias trocas verbais. Veremos que o essencial do trabalho, na primeira parte desta
terapia, efetua-se no interior do vínculo co-terapêutico, na pós-ses são. Apresentaremos os
primeiros passos de uma terapia fa miliar.
A família A. é composta pelos pais, ambos aposentados, e por três filhos:
— um filho mais velho, Norberto, morto há dois anos após os golpes e ferimentos
recebidos durante uma briga familiar,
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
— um filho caçula, João Paulo, trinta e nove anos, foi hospi talizado várias vezes por causa
de surtos delirantes de cará ter místico; uma depressão tenaz torna difícil sua inserção
profissional;
— uma filha, Martina, trinta anos, casada há um ano, descri ta como pouco expansiva.
Os três filhos tiveram dificuldades nas suas relações sen timentais.
O Senhor A. era garagista, sempre trabalhou muito, e apresentou problemas de saúde
diversas vezes. A Senhora A. ficou sem profissão, com o fechamento dos negócios da fa
mília, há vinte anos. Nessa época, ela caiu em grave depres são, acompanhada de distúrbios
obsessivos importantes, que persistem ainda hoje.
Formamos um grupo de três coterapeutas para recebê-los.
O contra-investimento do pensamento e do ressentimento
Quando a terapia começa, a depressão de João Paulo é destacada por ele próprio e pelos
pais. Alguns elementos atraem nossa atenção: muito rapidamente, colocaram-nos a par de
uma história familiar dolorosa e, ao mesmo tempo, muito ide pelos descendentes ilustres
que se arruina ram, perderam raízes, e se tornaram objetos de discrimina ção. Mas
encontramos muita dificuldade para compreender o que nos foi dito, e nos surpreendemos,
no trabalho pós- sessão, tentando, em vão, mas com constância, reconstituir a lógica das
informações fornecidas pela família. Um enig ma sobre a origem da família foi-nos
transmitido implicita mente. A família descreve-se da seguinte maneira: aqueles que
apresentam falhas de memória, e os que são guardiões dos traços do passado (narrações,
acontecimentos, fotos...). Este caráter enigmático, parece-nos, tem um efeito excitan te que
tentamos circunscrever nas nossas “elucubrações genealógicas” na pós-sessão.
Um sentimento pesado, de imobilidade, do irremediável, impregna nossa
contratransferência, ao mesmo tempo que
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Enfoque em terapia familiar psieana1ítie
A transmissão do psiquismo entre gerações
nos preocupamos com o estatuto enigmático dc um ances tral. Este aspecto enigmático
ocupará nossas primeiras pós. sessões, para progressivamente ser substituído por um sen
timento de discordância: sabemos que acontecimentos difí ceis, e mesmo traumáticos,
sobrevieram nesta família, con tudo, nos perguntamos o que os leva a estar nas sessões.
Durante os primeiros meses de terapia, são tra zidos elementos mais descritivos com
relação à vida da família, suas experiências recentes contrastam com uma narração
nostálgica da infância das crian ças.
O presente é descrito como embaciado e petri ficado. Durante estas sessões, o senhor, a
Senhora A e João Paulo parecem estar siderados com o peso da realidade dos
acontecimentos familiares, que eles apresentam sob a forma de uma queixa passi va, e de
uma dificuldade de viver o presente. A Se nhora A. tende a preencher, de maneira maníaca,
por jatos de palavras, uma vida temida. O Senhor A., permaneceu mais freqüentemente
silencioso e ensimesmado. As dificuldades profissionais, de re lações e afetivas, de João
Paulo, são apresentadas, mas elas desencadeiam poucas associações ou pou co afeto. João
Paulo tenta mostrar sua angústia e seu desespero que, ainda que percebidos, não po dem ser
entendidos de maneira emocional e com identificação. Seus pais, preocupados com ele, ten
tam animá-lo de forma bem operatória: quando ele evoca seu sentimento de terrível solidão,
sua mãe o invade com questões: “Você saiu? Foi ver seu ami go? Falaram do quê? Vocês
puderam organizar...” Quanto a seu pai, liga a solidão de seu filho à sua depressão atual, e
sustenta que, se ele trabalhasse dias inteiros, como outrora, não teria tempo de torturar o
espírito.
Não pensar, não sentir, aparecem como mecanismos de sobrevivência psíquica. Face ao que
experimentamos como
“deixar pra lá”, diante desta dificuldade de identificação dos pais, só podemos suportar o
movimento defensivo que, pro vavelmente, protege o vínculo familiar de um desmorona
mento mais radical, acentuando unicamente a preocupação de cada um para com os outros
membros da família.
A primeira interrupção das sessões:
experiência de uma violência que pode ser contida
Logo que acontece a primeira separação, devi do às férias de verão, as associações da
família evo cam o tempo que passa, o envelhecimento, a perda das ilusões, a necessidade de
se adaptar para so breviver. Desenvolve-se uma crítica das exigências familiares e
religiosas que pesaram na educação dos pais. São relatadas as desavenças internas na
família; as preocupações giram em torno da tenta tiva de conciliar a coerência das opções e
dos dese jos individuais com as coações familiares e sociais. Esta primeira interrupção,
reativando provavelmen te rupturas passadas, parece mobilizar muita vio lência, mas
parece-nos prematuro ligar o que se vive, na ocasião desta interrupção, a estes trauma
tismos do passado familiar. Nós nos contentaremos em permitir, a cada um, exprimir, na
sessão, seu ressentimento passado, em suficiente segurança, permitindo uma retomada não
excessivamente pe rigosa dos afetos violentos. “Digo estas coisa por que estamos aqui para
falar tudo o que jamais se disse”, dirá a Senhora A. A morte de Norberto e a impotência por
não poder impedi-lo, voltam em primeiro plano. A raiva contra o assassino que traiu a
confiança familiar e, em filigrana, contra nós que os abandonamos para as férias. Os
terapeutas acen tuarão o quanto o sofrimento expresso está vivo, e o quanto também é
difícil colocar em palavras os acontecimentos trágicos. “E é sempre difícil, e está longe de
terminar!”, dirá o Senhor A.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
Esta terapia experimenta, então, sua primeira interrupção na sexta sessão, durante a qual os
in vestimentos, as alegrias de cada um, presentes e passadas, são retomados como
constitutivos de coisas boas que se podem guardar no interior de si mesmo. Boas coisas
poderão ser guardadas duran te o tempo das férias, marcando assim a continui dade do
vínculo psíquico: “Passará rápido, o tempo passa tão depressa”, retoma a Senhora A.
A dependência de e a ident com um objeto enfraquecido: o desacordo intergeração
Eles anularão a entrevista de retorno, e serão necessários muitos encontros para que um
traba lho de associação seja retomado. As sessões que acontecerão por volta do período da
festa de Todos os Santos oferecerão oportunidade de retomar o trabalho de elaboração em
torno da morte de Norberto.
O clima ainda é extremamente tenso e pesado; João Paulo tenta mostrar sua solidão e sua
depres são, que, progressivamente, permitem aparecer as dos outros membros da família: a
depressão grave da Senhora A. (vinte anos antes) retorna, e faz pen sar que uma grave crise
familiar se produziu nessa época. O Senhor A. teve de ocupar-se psíquica e materialmente
da família, e dá a entender, sem poder formular, o quanto este período foi pesado e
doloroso. Muitos ressentimentos são exprimidos sem poderem entrar em conflito de forma
dinâmi ca: cada um coloca em ação o desesper no qual o puseram as doenças físicas ou
psíquicas que atin giram os membros da família, em diferentes mo mentos da vida familiar.
As lembranças destas difi culdades passadas suscitam raiva, raiva contra aque le que
abandonou os outros e se retirou da vida familiar para se cuidar, raiva daqueles que ficaram
doentes e se sentiram incompreendidos, e mesmo
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atacados, por causa de sua doença. Aqui, aparece a inveja destruidora contra um objeto que
sempre parece fugir, e do qual não se pode prescindir.
A identificação com o desespero do outro não é possível, pois ela ecoa no desespero de
cada um, ativando uma vivência de dependência vital para com um vínculo que não “resis
te”, e faz com que o outro sofredor a vivencie como quem desestabiliza o vínculo familiar.
A vivência do desespero só pode, então, permanecer em estado de co-experiência de
desmoronamento, e não pode ser identificada como emoção ou como sentimento de
sofrimento, O desespero cria uma angústia insuportável, super-excitante, que leva ao
contra- investimento todas as representações e emoções, que seri am, contudo, necessárias à
sua elaboração familiar e indivi dual. Eo registro da violência fundamental (Bergeret, 1984)
que é mobilizado: eu ou o outro, ainda que o outro seja ne cessário à sobrevivência do seu
próprio ego (ou mais exa tamente, de si próprio). Os ataques ao outro ou a reviravol ta
contra si parecem as únicas saídas energéticas possíveis. Este funcionamento familiar
ilustra o que J.-P. Gailiot e G. Decherf (1982) descreveram sob o nome de posição narcísi
ca paradoxal e que formulam assim: “Viver juntos nos mata, separar-nos é mortal.”
Sentimos os indicadores desta violência através do peso e do abatimento que vivemos
nestas sessões, e através da per cepção deste desacordo emocional que, progressivamente,
descobrimos. Durante as pós-sessões, passamos muito tem po tentando reconstruir uma
história deste vínculo familiar, que nos é dado a experimentar. Esta defesa “neurótica” (fan
tasiar para não ficar na vivência do vazio psíquico) faz parte do nosso trabalho como
terapeutas, com a condição de com preendermos que nossas construções psíquicas
permitem- nos fazer face à angústia que nos é transmitida. Estas cons truções não têm como
objetivo, evidentemente, o seu retor no para a família sob forma de interpretações de
sentido, o que seria completamente prematuro e, então, recebido como
À
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
uma recusa em co-experimentar o sofrimentro familiar. Esse trabalho da pós-sessão
organiza as premissas do trabalho de investimento psíquico necessário à nova ancoragem
do fun cionamento psíquico da família que, por hora, é marcada pelo contra-investimento
do sentimento de desespero e, das re-presentações aí ligadas.
O aparecimento das primeiras diferenciações
Por ocasião de uma sessão (a décima terceira) João Paulo tomará a palavra por longo tempo
e, pela primeira vez, não será interrompido. Ele evocará a tristeza que o invade, sua
necessidade de ser escutado, suas decepções repetitivas nas relações sociais. Explica-nos o
quanto espera das relações, mas sua avidez nelas o fazem temer impor-se e o mantém em
espera passiva. Ele liga esta tristeza a outros momentos em que viveu experiências
depressivas acompanhadas de angústias de morte e de idéias suicidas; toda referência in
terna parece abolida. Nada oferece apoio seguro; até Deus, depois da morte de Norberto,
parece não mais constituir uma possível via de esperança. Só subsiste a revolta contra um
destino implacável e irrepresentável. Seu pai permanece silencioso e ensimesmado, sua
mãe intervém pouco, contra riamente à sua atitude habitual; ela dirá somente que “seu filho
está melhor atualmente, está no bom caminho, pois recuperou uma boa análise das coisas.”
Nesta pós-sessão, ficamos, às vezes, emocionados diante da expressão de tanto sofrimento
e, ao mesmo tempo, pela primeira vez, nós nos permitimos (será este o termo exato?)
exprimir uma certa agressividade para com as queixas de João Paulo diante dos fracassos
de suas esperas por relacio namentos. Imaginamos, por exemplo, que ele poderia inte
ressar-se pelos outros um pouco mais por si próprios, e pa rar de se lamentar pela sua
incapacidade de estabelecer re lações.
A sessão seguinte causar-nos-á um certa “perturbação”, na medida em que João Paulo
começa assim:
—156 —
João Paulo: acabo de amedrontar meus pais, eu passei para o delírio, tive de retomar os
medica mentos. Falei disto para o meu terapeuta. Posso lhes explicar.
Terapeuta: Você tem aqui a possibilidade de di zer o que quiser, mas também pode guardar
para si o que lhe parecer pessoal.
João Paulo: Até o momento esta terapia tem sido um peso para mim. Tive a impressão de
os importunar com minha miséria, e depois, minha mãe falava tanto, e meu pai falava
pouco. Eu não queria perder o fio daquilo que queria exprimir. Tinha a amargura no
coração, e a impressão de um vivo fracasso. Depois, chamei meu terapeuta e tam bém meu
amigo Alain.
Senhora A.: Você queria explicar-nos o que ha via compreendido de suas crises de
angústia.
João Paulo: Obrigado por retomar o fio da mea da. Então, eu os chamei e as coisas se
inverteram. Dei-me conta de que o que eu vivia como um fra casso não era mais um
fracasso. Vi meu ambiente com outros olhos, e vi que eu era capaz de comuni car-me com
os outros. Alain me amparou muito...
João Paulo conta como, durante uma refeição na família, sentiu-se tocado com a tristeza de
uma de suas tias, e como ele interviu, com muita ternura, para escutá-la e consolá-la.
Seguindo a sessão, novamente, haverão acontecimentos relativos a algumas desavcnças
familiares, a valores religio sos familiares e a dificuldades de conciliar diferentes posi ções
filosóficas ou religiosas com as suas próprias percep ções e seus desejos.
Senhor A.: Estamos neste mundo para viver e trabalhar e não para refletir.
Terapeuta: Talvez você tenha receio, aqui, do perigo de pensar as coisas da vida sem saber
a quê isto pode levá-lo?
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
João Paulo: Não é importante para você saber o que os outros pensam?
Senhor A.: Não é preciso sentir muito.
João Paulo: Se você não sente as coisas, então! Você não vai me dizer que é uma pedra!
(Volta-se para o pai, tocando-lhe o braço)
Senhor A.: Talvez, uma pedra mole.
Terapeuta: Talvez, cada um tenha coisas difíceis para dizer aos outros, mas, isto pode ser
feito quan do julgarem possível. Aqui, podemos dispor de tem po.
João Paulo: Muitas coisas eu não disse, há mui to tempo. Penso que Norberto também não
dizia as coisas, e que isto está em ligação com essas cri ses delirantes.
Senhora A. (para seu marido): Você nunca fala.
Senhor A. : Você pode se exprimir com qualquer outra pessoa, mas, de qualquer maneira,
nunca se tem tempo para isto!
Durante a pós-sessão, discutimos, demoradamente, ten tando compreender nossa
“perturbação” diante da modifi cação da posição psíquica traduzida por João Paulo, na ses
são. Ela faz eco com a nossa própria cena imaginária da pós- sessão precedente. Nós
havíamos operado um escoamento da identificação em relação à queixa de João Paulo,
escuta da, longamente, por seus pais e por nós. Em um cenário colorido por uma leve
“agressividade” havíamos antecipa do, para ele, um lugar de sujeito. João Paulo retoma,
com efeito, uma posição mais ativa para com as suas dificuldades psíquicas: fala de sua
crise dc angústia, entre duas sessões, que causou medo a seus pais, e esta fala nos é
implicitamen te endereçada. Formula seu sentimento de que nos “impor tuna”. Algo de sua
própria violência toma forma em um ce nário de relações, no seio do qual ele ocupa um
lugar mais
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subjetivado: fala-nos de seus dons de comunicação e descre ve sua identificação emocional
com a tia, a qual é capaz de acolher em um movimento de empatia.
Mas, ao mesmo tempo, o grupo de terapeutas está dividi do: uma parte do grupo tem o
sentimento de que é a primei ra sessão em que as trocas familiares estão em maior acordo
emocional, mesmo que as resistências familiares continu em, evidentemente, a se
manifestarem; esta sessão parece mais “povoada” e a família parece mais viva. A outra
parte do grupo, ao contrário, é sensível ao peso das angústias que aí se desenrolam: a
inquietação diante da vertente maníaca pela qual João Paulo se exprime, e as resistências ao
afeto expressas pelo Senhor A., parecem prevalecentes.
É a primeira vez que os efeitos de uma clivagem apare cem na pós-sessão em inter-
transferência. Pode-se formular a hipótese de que esta clivagem, localizada na contratrans
ferência, revele e constitua uma primeira formação desta vivência de discordância, que as
trocas familiares nos havi am feito perceber. Isto constitui uma primeira representa ção
psíquica do que o sofrimento familiar atualiza no grupo terapêutico.
Ainda haverá muitos receios na família quanto aos efei tos da palavra, mas, pode-se pensar
que uma certa tensão conflituosa está em ação, traduzindo que o vínculo transfcrencial
adquiriu uma certa segurança.
Nossas intervenções durante as sessões seguintes deve rão amparar este movimento: cada
um tem, provavelmente, coisas difíceis a dizer aos outros, mas isto se fará quando eles o
julgarem necessário: talvez seja ainda muito cedo. Teremos de retomar, na transferência,
suas interrogações quanto à nossa capacidade de entender as coisas que poderi am fazer
mal. Para isto também temos tempo: os terapeutas introduzem aí a possibilidade de um
afastamento entre o que é vivenciado e o que se desenrola em um espaço de re presentação.
Com efeito, a violência da pulsão condensa, em uma vivência paroxística, diferentes
vivências traumáticas
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
antigas, engavetadas no que se atualiza na sessão. Os tera peutas garantem a continuidade
do vínculo terapêutico, eles acusam a recepção de vivências traumáticas, e nomeiam os
sentimentos e as emoções que sustentam esta violência, sem, entretanto, cederem à pressão
para responder ou para agir imediatamente. Esta é a condição para criar o espaço neces
sário ao trabalho psíquico.
Vemos que a cadeia associativa grupal, que se desenrola no interior de cada sessão e na
sucessão de sessões, não diz respeito somente aos conteúdos imaginários recalcados de
cada membro da família. Cada um é pego, à revelia, em moda lidades do vínculo que unem
os membros da família e man tém um “não elaborável”, que pode se aproximar do que R.
Kaës descreveu sob o termo de negatividade obrigatória Neste início dc terapia, repete-se,
através das modalidades de transferência, a proibição de pensar para proteger o vín culo
familiar do desmoronamento. Cada um é pego na difi culdade ou impossibilidade de
subjetivar os termos de seu sofrimento individual para proteger o vínculo familiar, do qual
ele tem absoluta necessidade.
A presença real dos membros da família, no dispositivo da terapia familiar, é a ocasião para
(re)presentar (no senti do de apresentar de novo), de tornar presente na atualidade das
sessões, o “berço psíquico grupal familiar” que prece deu a constituição da subjetividade de
cada um: o investi mento das vivências sensoriais de todo futuro indivíduo de pende da
interpretação que lhe fornece seu grupo familiar, do qual seus predecessores e,
particularmente, seus pais são os porta-vozes. É a maneira de estar junto da família (que
será sua maneira de estar junto conosco) que lembraremos quando nos propusermos um
quadro terapêutico para a fa mília no qual nossa escuta será centralizada nas modalida des
mais arcaicas de seu funcionamento psíquico. Este enfoque teórico e metodológico suporta
a possibilidade de regressão do funcionamento psíquico grupal da família, ao qual
manteremos vigilância para não atacar com interpreta-
ções prematuras ou interpretações individuais relativas à colocação em conflito edípico.
O (re)asseguramento no vínculo coterapêutico
Na situação apresentada, tentamos tomar conhecimento dos fenômenos psíquicos ligados à
transmissão intergeração, à qual a presença conjunta dos membros de uma família nos
permite aceder. No início, a família está prisioneira das modalidades de comunicação e de
transmissão que impe dem a construção de uma história, porque os acontecimen tos
irrepresentáveis, então, não integráveis na cadeia de sen tido, sideram as capacidades de
elaboração da família. Ela está com dificuldade de se auto-conter e o asseguramento do
vínculo coterapêutico, na transferência, irá oferecer o primeiro suporte para o trabalho
psíquico.
O asseguramento leva ao apoio dado às figuras parentais, enquanto asseguram à criança
suas bases vitais. Entretanto,
R. Kaës (1984) mostrou que o asseguramento representa um papel principal na estruturação
do psiquismo individual. Com efeito, para além do suporte dado, a sustentação ofere ce
uma base para o modelo de funcionamento e os conteú dos do psiquismo futuro, que o
indivíduo poderá progressi vamente retomar por sua conta, à medida de sua conquista de
autonomia psíquica. O apoio, a conquista do modelo e a retomada são os três componentes
do asseguramento.
Em nossa apresentação clínica poderíamos recuperar este trabalho de asseguramento
através do que constitui, para nós, uma construção progressiva do que faz esta família so
frer:
— um depósito maciço de dificuldades psíquicas, onde são justapostas, em desordem, a
história familiar com seus ele mentos enigmáticos e seus acontecimentos traumáticos, a
depressão e as perturbações obsessivas da Senhora A., as somatizações graves do Senhor
A., as crises delirantes de Norberto e as de João Paulo, a morte violenta de Norberto, os
episódios depressivos de Martina...
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
— uma vivência pesada e de discordância que a família nos transmite, e que nós
partilhamos com ela através da co-ex periência na atualidade das sessões. Podemos
localizar aí, provavelmente, o nível originário do encontro com o objeto tal como nós
havíamos apresentado anteriormente: só deixa traço a vivência do encontro mais próximo
da experiência corporal vivida. Não se constituem, neste nível, traços memo rizáveis
utilizáveis pela psique, porque este encontro com o objeto não pode ser investido como
suficientemente bom;
— o trabalho de observação desta experiência vivida de de sacordo leva-nos, nas pós-
sessões, a tentar transformar, para nós, em hipóteses, em pensamentos, em emoções, aquilo
que, naquele momento, não é possível ligar no comporta mento psíquico grupal da família.
Este trabalho de ligação operado pelos terapeutas, constitui uma tentativa de ampa rar,
acompanhando-os, os mecanismos defensivos da famí lia. A identificação com os
movimentos regressivos e defen sivos da família é facilitada, é claro, pela experiência psica
nalítica dos terapeutas, mas também, por este dispositivo de coterapia que permite uma
reorganização psíquica mais rápida, no fim do “mergulho” na sessão;
— a incidência de um afeto “agressivo” neurótico (e não da ordem da minimização da
violência fundamental) aparece na contratransferência, testemunha do vínculo que se tece
entre família e terapeuta ao longo das sessões; este vínculo repousa sobre a segurança de
uma certa continuidade e ad quire uma segurança maior. Do lado dos terapeutas, a atua ção
da cena imaginária traduz um descolamento psíquico possível no interior de um vínculo
vitalmente adesivo, e an tecipa a efetivação de um afastamento de geração, repre sentável
para os terapeutas. João Paulo pode autorizar-se, pelo fato do asseguramento do vínculo
terapêutico, a se des moronar entre duas sessões, reorganizando um posicio namento
psíquico interno. João Paulo serve como porta-voz das angústias familiares, enquanto ativa
as condições de uma reconciliação emocional e de identificação: entre agarrar e
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“deixar cair” se delineia o resultado de uma experiência depressiva suportável. Mas este
trabalho de investimento de afetos depressivos ainda está balbuciando, e a clivagem que
encontramos na contratransferência o mostra. Ainda estamos longe de uma restauração
suficiente do funcionamento psí quico da família que permitiria construir um sentido, uma
história, na qual cada indivíduo poderia tomar lugar.
Contudo, o aparecimento dessa “clivagem” na maneira de sentir e de dar sentido ao que foi
vivido na sessão pelos terapeutas, marca um início de funcionamento psíquico mais
elaborado do que anteriormente, quando nós co-experimen távamos “em bloco” o que a
família nos fazia sentir. Esta forma de vínculo de co-experiência não permitia pensar; a
clivagem do afeto traduz uma primeira partição do que é experimentado: estas posições dos
terapeutas, diferentes e interrompidas, abrem um espaço para o pensamento, e para a
elaboração, que a colagem da identificação não permitia. Acontece uma identificação com
o desespero na colagem que abole toda diferença de geração (a experiência de peso e de
inquietação diante da posição ativa de João Paulo, que só é percebida na vertente
“maníaca”, e nas resistências ao sentimento, por parte do Senhor A.) e há lugar para uma
identificação com o desespero na posição de geração (nossa fantasia de que João Paulo
pode ser ator na sua depressão). O distanciamento entre estes dois posicionamentos de iden
tificação vem da complexidade do pensamento e introduz o espaço da fantasia.
Constataremos o quanto, em início da terapia, o funcio namento psíquico da família está
incluído na função de con tenção dos terapeutas. O vínculo de transferencia é forte mente
sustentado pelo vínculo coterapêutico, que oferece a matriz necessária para a reorganização
psíquica da família. Algumas experiências traumáticas marcaram a vida famili ar, alguns
traços não elaborados na transmissão psíquica intergeração alteraram as capacidades
continentes do apa relho psíquico familiar. Esse trabalho de continência coube
Á
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
aos terapeutas, ao mesmo tempo que eles estão submetidos a essas modalidades
patogênicas da transmissão. Quisemos mostrar como eles tentam, em um primeiro
momento, captá las experimentando os efeitos psíquicos, e mesmo físicos, destes traços não
mentalizados. Nós acentuamos como, em um segundo momento, fazem um trabalho de
tecelagem da contra-transferência que oferece um elo no qual poderão se agarrar algumas
experiências erráticas na família. A discor dância de identificação que experimentamos, e
descobrimos através dos desacordos dos movimentos interpulsões famili ares, constitui uma
das modalidades de aproximação destes traços intergerações inacessíveis logo de início.
Os movimentos interpulsões familiares
Nós já nos apoiamos em um artigo precedente (André Fustier, E Grange-Ségéral, E. 1994),
sobre os trabalhos de O. Avron (1987, 1991) relativos à interpulsão nos grupos e na emoção
grupal rítmica.
O. Avron (1987) descreve, a partir da clínica do psico drama, uma emoção grupal rítmica
que corresponde a uma “expressividade primária que não seria ainda ligada ao obje to e a
suas representações, mas já em busca do objeto”. Tra ta-se de uma ação rítmica energética
que organiza as trocas grupais aquém de conteúdos psíquicos diferenciados. A re lação não
se opera com base nas emoções e nas representa ções, mas faz-se “por uma excitação
excitante” que liga cada um a cada um. Este tipo de ligação inscreve-se em uma “per
cepção cêniea participativa” (Avron, O. 1991) emocional que dá conta da maneira pela qual
os participantes de um grupo reagem, através de mensagens sensório-emocionais e cines
tésicas, à configuração de relação da unidade grupal.
O. Avron acentua, primeiro, o fundamento energético da troca, espécie de trama de relações
sobre as quais a relação libidinosa e a palavra virão articular-se. Sua hipótese apóia se em
algumas reflexões de Freud com respeito às pulsões, que constituem as premissas da
atividade psíquica antes que
ela esteja ligada aos riscos da relação libidinosa e do recal camento. “Neste nível psíquico,
ainda indeterminado, supo nho que esta atividade constante, incitante, sem objeto, en contre
uma primeira forma de auto-organização espontâ nea no nível até mesmo de sua expressão
energética, unin do-se com a atividade psíquica, de qualquer outra fonte de pulsão, em um
ritmo de atividade e de receptividade. Esta articulação inter-individual realiza-se fora da
toda consciên cia do prazer, e não precisa do trabalho de elaboração da relação libidinosa.
Ela é anônima, mas a relação libidinosa personalizada extrairá daí sua força vital.” (1991,
p.74)
É a própria pulsação da vida psíquica que está em jogo e que logo se inscreve no filtro da
censura familiar da qual falamos acima. Este primeiro trabalho de ligação opera-se, então, a
partir do investimento e dos contra-investimentos da atividade da pulsão da criança pelo
seu ambiente famili ar. O contra-investimento de algumas manifestações da pul são da
criança, e a recusa emocional consecutiva, determi nam sua inscrição enquanto membro do
grupo familiar, mas podem alterar sua capacidade de subjetivar, por si próprio, alguns
aspectos de sua vida psíquica. Lembremo-nos que o contra-investimento é o mecanismo
único do recalcamento originário, e que proviria de rupturas e de falhas das quali dades
continentes do aparelho psíquico familiar às voltas com os excessos quantitativos.
Havíamos formulado a hipótese André-Fustier, E Grange Ségéral, E. 1994) de que algumas
modalidades interpulsões familiares funcionariam em discordância, e manteriam um tipo de
vínculo energético manifestando-se por uma colagem reativa. Este vínculo fusional com a
co-excitação trava o aces so à vias mais representativas no seio da família.
No caso da família A., parece que o desacordo interpulsão traduz os movimentos
defensivos familiares. Estes movimen tos defensivos são descobertos a partir dos contra-
investi mentos emocionais, que impedem que um afeto se ligue a uma representação
atingida pela proibição, pois estão em
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Atransmissõo do psiquismo entre gerações _______________
relação com a vergonha ou com o desmoronamento. Então, o que é perceptível são os
movimentos interpulsões, entre os membros da família, tendo como objetivo drenar a exci
tação proveniente de afetos “problemáticos”, deixados de lado quanto a seu tratamento
psíquico. Nesta família, os afe tos problemáticos parecem dizer respeito aos afetos da de
pressão. Afetar-se com a depressão do outro é encher-se dela, é experimentar o
enfraquecimento de um vínculo que não “mantém”, e que retorna sobre o outro, por
identificação projetiva, a vivência de abatimento. Esta falta de continente psíquico, na
família, leva a contra-investir os afetos depressivos, e mantém um tipo de vínculo fusional,
no inte rior do qual o trabalho de diferenciação e de perda não é possível.
Progressivamente, estes traços, pelo que eles fazem os terapeutas experimentarem (vazio,
peso, discordância, de pois agressividade), encontram um estatuto psíquico na psi que dos
terapeutas, e se tornam apropriáveis pela família. Eles serão ligados à história familiar, na
qual tomarão um sentido apoiados na posição de geração dos terapeutas, que ocupam
imaginariamente uma posição de avós.
Vê-se, então, o quanto a presença real dos membros da família fornece o acesso a uma
interpulsão significante que não seria diretamente acessível.
A família de Colin: uma transmissão por clivagem
Nós só falaremos poucas coisas desta família, na medida em que nosso objetivo é
apresentar aqui uma forma de tra balho terapêutico, e não o desenrolar de um processo de
longo curso.
Tomemos o exemplo desta sessão de volta, após uma se paração devido às férias. Esta
família, cujo pai é de origem irlandesa, compreende quatro pessoas: o pai, a mãe, uma filha
de dez anos, Alice, e um menino de oito anos, Colin. Do lado paterno, ressalta-se uma
história muito dolorosa de perda das raízes. A família veio à consulta em seguida a um
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ii
_______________ Enfoque em terapia familiar psicanalítica
abuso sexual, cuja vítima foi Colin, da parte de um tio-avô materno. Este traumatismo, ao
mesmo tempo despertou e revelou, por ricochete, as relações incestuosas da mãe com seu
próprio pai.
A terapia começou em um clima de extremo sofrimento, manifestado por um grande
desespero, mas também, por uma excitação intensa, levando a descargas violentas, sobre
tudo por parte de Colin e de sua mãe. Violências estas das quais a mãe se sente muito
culpada, mas que não chega a represar, e o pai é impotente para contê-las.
Ao cabo de dois anos, eles encontraram uma certa segu rança, graças, sobretudo, ao efeito
de sustentação não exci tante do quadro terapêutico: com efeito, levando em conta o clima
incestuoso, é preciso cuidar para que jamais se dei xe instaurar uma proximidade muito
grande, que seria rapi damente experimentada como uma intrusão de tipo perver so. A
família pode começar a pensar em alguns momentos difíceis da vida familiar, mas tratam-se
de momentos pontu ais, que são “explicados”, “analisados”, de maneira suficien temente
operatória, deixando, particularmente, pouco lu gar para o espaço psíquico do outro.
Mas, sobretudo, estes embriões de pensamento não são jamais ligados aos traumatismos
maiores da família: a perda das raízes e a morte, do lado do pai; as relações violentas e
incestuosas, do lado da mãe. Ao passo que, parece-nos evi dente, nas narrações dos choques
no quotidiano da família, que a carga maior destes está ligada aos traumatismos fami liares
das duas descendências; os vínculos associativos não são fatos, para a família. O saldo de
nossas tímidas tentati vas são fracassos, que assinalam a repetição dos choques e a
manutenção do sofrimento. Esses traumatismos permane cem em estado, não pensados, não
trabalhados, e por conse qüêneia, não relegados ao passado e repetitivamente experi
mentados na atualidade.
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—a
À transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
Uma experiência de clivagem e de isolamento psíquico
A sessão começa com considerações sobre esta retomada após as férias. Com uma certa
recusa quanto à separação, a família exprime que tudo vai melhor, pois não houve dificul
dades durante as férias. Só o pai fala de sua fadiga.
Começa, então, um jogo das crianças, que se instalam no chão, atrás das poltronas. Nós nos
interessamos por ele, en quanto a mãe, como de hábito, fala dos pequenos incidentes da
vida quotidiana, e da análise que ela faz deles. Convida mos Colin a explicar seu jogo:
Colin: É um banco.
Terapeuta: O que é que se deposita nele?
Colin: Papéis, onde está escrito qualquer coisa. Pode-se depositar, e depois, retirar. Há
papéis ex plícitos. Se se quer depositar palavras, é no papel que vou dar. E você Alice?
Alice: Eu também.
Perguntamos aos pais o que podem associar a este jogo. O pai propõe a idéia do fortim, da
busca de proteção. Este senhor é alguém que, quando criança, e atualmente, sempre teve
enormes problemas de comunicação. A mãe conta da dificuldade das crianças, e de maneira
simples, falarem logo as coisas. Elas tomam caminhos tortuosos. Segue-se uma série de
exemplos do quotidiano, que a mãe analisa com bastante sutileza, e que nos interessa.
Mas, durante esse tempo, as crianças prosseguem seu jogo que, igualmente, chama nossa
atenção, uma vez que nos faz pensar na questão das palavras e das representações das ex
periências.
Nós nos sentimos, na verdade, bem rapidamente ultra passados, pois não nos é possível
seguir estas duas cenas e, ao mesmo tempo, elaborar um pensamento sobre elas. Isto nos
irrita, nos excita e nos faz experimentar um sentimento de impotência; uma certa violência
aumenta em nós. Tenta-
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mos, então, reunir esses elementos esparsos, perguntando às crianças, sem sucesso, o que
elas pensam a respeito do que os pais dizem. Estes, por sua vez, continuam sua refle xão,
um pouco intelectualizada, sobre as dificuldades da fa mília, lastimando que as crianças não
os escutem. A tensão aumenta entre pais e filhos: os pais chamam à ordem, as crianças
fazem mais barulho.
Recuperação da função de para-excitação dos terapeutas
Então, compreendemos que o que é, precisamente, para conter aqui não é da ordem do
significado, mas, muito mais da ordem da experiência de isolamento, e da sideração do
pensamento. Há, pelo menos, duas séries de coisas para se pensar, ao mesmo tempo, no
aqui e agora da sessão, mas, tanto a família quanto nós, terapeutas, estamos tomados pela
impossibilidade de as juntar entre si. Impossível, com efeito, operar este trabalho de
ligação, de um lado, por cau sa da superexcitação, que ataca as capacidades de continên cia
e de metabolização, de outro lado, por causa do meca nismo da censura, no qual estão
presos a família e os terapeutas: a família, enleva-se em uma escalada de excita ção
esfuziante, os terapeutas estão siderados, e coagidos por um ensimesmamento sobre uma
posição defensiva.
Neste nível, não se pode definir se é o caráter traumático da experiência atualizada, e a
engrenagem do extravasamento da para-excitação que ataca a capacidade de pensar, ou se é
a ação do que havíamos conceitualizado sob o nome de cen sura familiar, que impede o
início da representação para proteger o vínculo familiar nesta momento crueial. Definiti
vamente, só podemos atuar este estado de fato, que resulta do sofrimento, da sideração, da
violência. Mas, isto, ao me nos, todos nós experimentamos, e isto nos reúne. Então,
verbalizamos esta experiência:
Terapeuta: Sua família busca dizer-nos alguma coisa, mas, de tal maneira que não podemos
com preender. Os pais dizem alguma coisa, as crianças
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A transmissão do psiquismo entre feracões
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
também querem dizer algo através do jogo, e nós, nós não conseguimos pensar em tudo isto
ao mes mo tempo. Este sofrimento, sem dúvida, é o que vocês vivenciam na família. Sem
dúvida, é preciso tempo para compreender.
Esta intervenção não é interpretativa: ela simplesmente comunica à família que é possível
permanecer vivo psiquica mente, conter, sem explodir, alguma coisa quantitativamente
muito forte (qualidades dc para-excitação), sem obrigatori amente compreender o que aqui
acontece. Neste mesmo movimento, fazemos com que se experimente que, desta maneira, é
possível assegurar uma posição relativa ao pai e à mãe, que ampara o outro no seu
sofrimento psíquico, sem pedir-lhe reciprocidade ou compensação.
Parece-nos, com efeito, que a principal característica da função parental é uma disposição
psíquica de acolhimento, espécie de stand by, de escuta e de continência potenciais
oferecidas no momento e no lugar em que o “outro, imatu ro”, e em estado de vir-a-ser
psíquico, necessite vitalmente. Ofertas, isto é, que aquele que ocupa a posição parental não
peça “pagamento” imediato, nem sob a forma de continên eia psíquica recíproca, nem sob a
forma de encargo, pela criança, da excitação corporal do pai.
Esta disposição psíquica de acolhimento seria uma ante cipação da futura construção
psíquica do outro. Esta hipó tese poderia ser aproximada da noção de alucinação negati va
de A. Green ( a alucinação negativa construiria a estrutura de enquadre proposta pela mãe a
seu filho, e pela qual ela traduz seu investimento para com ele. A alucinação negativa
organiza as premissas de um continente represen tativo, no seio do qual o psiquismo em
vias de ser da criança pode projetar-se: seus embriões de construção representati va
encontram aí um primeiro suporte psíquico.
A posição psíquica parental supõe, então, imperativamen te, um afastamento. Este
afastamento é, infalivelmente, ata cado, e mesmo abolido, em uma situação traumática,
sobre-
tudo se esta situação fizer eco para aquele que deverá ocu par uma posição parental, com
uma situação que ele pró prio viveu e não superou. Veremos, aliás, que estes são ele mentos
que dizem respeito ao reaparecimento de uma posi ção parental, e que surgirão no fim da
sessão.
Em busca de uma posição parental adequada
Tentando fazer com que a família saia deste funcionamen to paradoxal, pedimos que
relatem suas lembranças dos so nhos, em uma busca da transicionalidade. Nenhum sonho
foi trazido. Em compensação, a mãe conta uma anedota a respeito de um sonho de Colin:
ao acordar, ela havia pergun tado a Colin se ele sonhara. Este a mandou passear, pois queria
ter tempo de acordar. Sua mãe o havia deixado e, em seguida, havia sido reprovada por ele,
por não tê-lo escuta do.
Nesta seqüência, percebemos que o apelo aos sonhos é prematuro, e que nosso timing de
concordância com a famí lia é ruim. Com efeito, enquanto falamos “em ter tempo”,
precipitamos, defensivamente, as coisas. Os pais evocam, aliás, o fato de que as mensagens
com Colin não acontecem, o que entendemos na transferência.
Então, pedimos aos pais suas lembranças relativas à ma neira pelo qual as mensagens
aconteciam nas suas famílias, quando eram crianças.
Pai: Quanto a mim, isto carburava sem proble ma. (O pai é mecânico! Mas por trás do
humor da resposta, há uma defesa operatória muito podero sa contra o afeto.)
Mãe: Tenho a impressão que, na minha família, não era proibido falar. Para alguns
indivíduos, fal tavaru palavras. Jamais, para eles, havia palavras para as emoções. Não era
proibido, mas era o aces so que não se dava; era preciso passar muito de pressa por
qualquer coisa dolorosa.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar_psicanalítica
Começamos, então, a poder reunir os pedaços desta ses são, a poder juntar, para nós, o jogo
das crianças, “o banco de palavras” e a incapacidade dos pais em acolher as emo ções que
poderiam fazer ligação entre as vivências atuais e os traumatismos passados, em uma
verbalização subenten dida por uma imaginação. Esta tomada de consciência é possível
porque já experimentamos, numerosas vezes, esta tipo de funcionamento familiar, e porque
pudemos trabalhá lo durante as pós-sessões precedentes: assim, o terapeuta principal pode
organizar, mais rápida e mais eficazmente, seu pensamento, sustentando-se no trabalho
psíquico do grupo de terapeutas.
Essas duas cenas atualizam uma forma particular de clivagem intrafamiliar, atuada na
sessão e, então, perceptí vel graças à presença real dos protagonistas: não existe solu ção de
continuidade entre um nível originário de funciona mento e uma verbalização secundária
não adequada. Poder- se-á descobrir o originário naquilo que se atualiza no encon tro super-
excitante entre “o adulto/pai” e a “criança”, quando há um clima de incesto: longe de
observar uma posição de abstinência que permitiria à criança sentir-se contida, e de passar
para um nível de funcionamento psíquico da ordem do imaginário, o pai pede uma
“compensação” da ordem do real, exigindo da criança que se encarregue do excesso de
excitação do adulto. A verbalização parental, que acompa nha este encontro, é uma espécie
de diversão operada face a pedido da criança, pedido que ela rejeita em vez de acolher. A
ausência de comunicação, ao mesmo tempo que a escala da ao espelho, indica uma forma
particular de intcrpulsão:
em vez de cada um investir alguma coisa do outro, para en riquecer-se sem risco de ser
destruído, aqui, cada um, con tra-investe o outro para não ser destruído. Estas posições são
eminentemente simétricas e só podem ocasionar uma escalada para um círculo vicioso.
Terapeuta: Estas mensagens, difíceis de fazer passar, são o sofrimento de sua família. E
difícil porque não há palavras para dizer algumas coisas.
Pode-se dizer, aqui, as coisas que fazem mal ou que fazem medo, e estaremos aí o tempo
que for preciso.
A reincidência do parentesco
Então, a mãe exprime seu medo de dizer coisas que ma goam, sobretudo, à sua própria mãe.
Ela fala também de seu sentimento permanente e insuportável de ser acusada, de seu
sentimento de que tudo é sempre sua culpa. Pensamos, certamente, nas suas relações
incestuosas com o pai, mas não se trata aqui de um trabalho individual, isto é, nós não
fazemos interpretações individuais. O pai fala, por sua vez, de suas dificuldades de
comunicação com seus pais. Ele não procurava, nunca, intercambiar seu sofrimento ou seus
pro blemas, pois, ele estava persuadido, de qualquer maneira, de não ser entendido.
Contudo, recentemente, ele pôde vivenciar que seus pais puderam, mesmo assim, ampará-
lo. Pergunta mos em que ocasião.
Pai: Quando eles souberam por Colin. Juntos, discutimos um pouco. Pudemos dizer um
pouco as coisas. Uma vez e nesta ocasião a que me refiro.
Mãe: Eles mudaram muito de atitude para conosco depois disto tudo. Muito mais
atenciosos, muito mais calorosos.
A sessão terminou nesta experiência do vínculo assegura do, experimentado na
transferência, e encontrado na rela ção com os pais do pai, a respeito do traumatismo de
Colin. A evocação deste traumatismo não faz somente um vínculo co-experimentado
catastroficamente, mas, torna-se também ocasião de experimentação de sustentação filial:
sem dúvida devemos ver aí o esboço da re-construção do que E.Granjon (1986) nomeou o
invólucro genealógico.
A transmissão psíquica familiar pelo sofrimento
Quisemos analisar a maneira com que tentamos juntar e colocar trabalhando psiquicamente
aquilo que, da transmis
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
são psíquica intergeração, permanece como sofrimento. O termo sofrimento deve ser
entendido no duplo sentido de dor, de um lado, e de estado de alerta para transformação, de
outro. A transformação pode operar-se por várias razões:
— porque o processo ainda não foi iniciado (o que R. Kaës descreve como negatividade
relativa),
— porque este processo de transformação é proibido (negatividade obrigatória descrita por
R. Kaës),
— porque o processo de transformação torna-se impossível por causa de um
extravasamento da excitação que desman tela as qualidades de para-excitação do aparelho
psíquico familiar.
O que ressalta do sofrimento familiar, e que procuramos tratar na terapia familiar,
corresponde ao que permanece bloqueado em modalidades de transmissão inadequada alte
radas pelo proibido ou pelo extravasamento.
O que resulta em sofrimento, nessas situações, permane ce no registro quantitativo, e não
pode ligar-se aos elemen tos de ordem qualitativa que são os afetos e as representa ções
organizadas nas cenas imaginárias. Assim, duas carac terísticas fundamentais afetam a
transmissão psíquica pelo sofrimento:
— ela é da ordem do muito, do excesso;
— ela está em êxtase, e constitui uma figura do inelutável. Ela está à espera de modalidades
de transformação mais adaptadas. Pode-se, com efeito, pensar que uma transmis são
psíquica adequada deveria, ao contrário, permitir a apro priação para fins individuais, sem
alteração das qualidades do vínculo familiar.
O dispositivo terapêutico adequado para acolher e tratar a transmissão psíquica pelo
sofrimento deve poder:
— fornecer a possibilidade de juntar e de observar estas modalidades inadequadas in situ:
conter o excesso na “atua lidade” das modalidades interpulsões do vínculo;
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— funcionar como para-excitação de prótese para acolher o excesso;
— dar a possibilidade de experimentar novos modos de trans missão. A este respeito, o
acolhimento psíquico destas expe riências constitui, pelos terapeutas, uma via de passagem
entre as modalidades do tipo originário e sua tradução para os registros primário e
secundário.
A presença real
A presença real dos membros da família é uma caracte rística do dispositivo da terapia
familiar. Este permite tor nar observáveis os acontecimentos simultâneos, concretos e atuais
que constituem a dinâmica originária da cadeia associativa familiar. Com efeito, temos
assinalado que o que mantém um sofrimento familiar ressalta da imobilização das
capacidades de elaboração familiar e, por conseqüência, indi viduais. Não estamos no
registro da fantasia e do inter-ima ginário, mas muito mais na do que é (eo)experimentado,
familiarmente, como estado de alerta da transformação psí quica. E porque o que é
depositado na sessão não é da or dem do pensamento que não é possível trabalhar alhures.
No enquadre da terapia individual, um indivíduo pode ser levado a fazer um trabalho
psíquico sobre sua família, mas trata-se da família internalizada por ele; isto supõe que um
trabalho de representação suficiente tenha podido organi zar as relações objetais, o que é
geralmente o caso das pro blemáticas neuróticas. Quando as dificuldades psíquicas
apresentadas ressaltam dos enfraquecimentos das estrutu ras do ego (estados-limites,
psicoses, patologias psieossomá ticas, psieopátieas, anoréxicas), são os continentes psíqui
cos que estão em questão, continentes psíquicos que orga nizam o acesso ao trabalho da
representação. Para tomar uma imagem, é como se, para tratar um bebê em sofrimen to
psíquico, se trabalhasse a relação mãe-bebê sem a mãe!
O nível do trabalho psíquico, na terapia familiar, diz res peito aos próprios fundamentos dos
processos de represen
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
tação reatualizados na transferência, no enquadre da tera pia. Graças à observação (ou
melhor, graças à percepção tornada possível por este dispositivo) das trocas concretas,
simultâneas e atuais, estamos em condições de vivenciar os efeitos dos processos de contra-
investimento, e de investir nestes traços significantes, não elaborados como transmis sores
de sentido.
Duas características justificam a utilização de tal dispo sitivo:
— a presença real dos membros da família, na sessão, dá-nos acesso à modalidades de
estar-junto, cujo nível não deve ser confundido com o das relações objetais: estamos aqui
na presença de modalidades sincréticas do vínculo, que J. Bleger lembra que não estão
integradas ao psiquismo individual, mas constituem o embasamento; só o face-a-face
efetivo permite ativar e, então, observar essas modalidades de vín culo;
— de resto, o que se atualiza na sessão corresponde aos ele mentos de transmissão psíquica,
aquém de toda subjetivação:
sua memorização não foi possível na medida em que os tra ços permanecem no nível
originário co-experimentado do encontro. O que se atualiza no vínculo deve, então, ser tra
tado no próprio tempo do encontro, e não diferentemente, ou na lembrança deste encontro.
Com efeito, é mesmo no tempo do encontro que a ocasião é oferecida, aos terapeutas, para
co-experimentarem com a família e favorecer, com sua posição psíquica, a diversificação
das modalidades de trans missão, e a abertura para novas vias de elaboração. Neste sentido,
pode-se dizer que o espaço da terapia é um espaço de (re)apresentação: nova apresentação
que permite o aces so à representação.
A cotera pia
A coterapia institui um dispositivo grupal que permite o acolhimento e a coleta destas
modalidades de transmissão da vida psíquica entre gerações.
O grupo de coterapeutas oferece uma segurança de sus- tentação face ao extravasamento
quantitativo, às vezes side ral, que toma vida na sessão. O fato de pertencer a este gru po
terapêutico proporciona, assim, um certo recuo a cada terapeuta, e permite acolher de
maneira menos defensiva as experiências brutas projetadas pela família. Enquanto gru po,
os coterapeutas podem se deixar levar por uma regres são aos níveis de funcionamento
arcaicos, nos quais a famí lia os entretém, ainda mais que a pós-sessão oferece a possi
bilidade de uma restauração psíquica para cada um dos terapeutas, e talvez particularmente
para o terapeuta prin cipal, mais submetido à urgência e à necessidade de gerenciar a
dinâmica econômica. Assim, o grupo dos terapeutas pode constituir-se como suporte das
identificações projetivas do grupo familiar, tão fragmentadas quanto estejam, freqüen
temente experimentadas em estado bruto. Os terapeutas utilizam a pós-sessão para tratar
destas projeções, e trans formá-las em experiências psíquicas mais elaboradas, em cenas
mais neurotizadas, primeiro, por sua própria conta e, em seguida, pela da família. Com
efeito, a regulação que se opera no grupo, nesta ocasião de após-sessão, irá garantir o
restabelecimento do funcionamento psíquico dos terapeutas, maltratados pelos
extravasamentoS da excitação, proveni entes da família. Esta válvula de segurança grupal
previne o risco do contra-investimento que os terapeutas poderiam acionar para se
defenderem da invasão dos excessos quanti tativos (excessos de vazio, de angústia, de
excitação...).
O trabalho psíquico a partir do infraverbal:
a anterioridade da representação
Em terapia familiar, a associatividade apresenta-se, mais freqüentemente, como a
justaposição de enunciados, na qual a enunciação se faz sob a forma de contigüidade
espacial:
antes de ser introjetada na sua dimensão psíquica, o espaço da terapia é, antes de tudo, o
enquadre concreto da sala de terapia com suas paredes e seus objetos, que irão servir como
—176—
—177 —
A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfo em terapia familiar psicanalítica
primeiro continente para a família. Ali, irão se desenrolar as modalidades concretas do
vínculo familiar (a maneira de ser junto): as disposições, os deslocamentos no espaço da
tera pia em contigüidade com os enunciados verbais, os silênci os, as mímicas... serão uma
atualização, no tempo da ses são, de um (co)experimento do vínculo — vínculo dos mem
bros da família entre si, mas também, eonosco.
Nosso trabalho, sobretudo no início da terapia, será de apontar essas eontigüidades, de
acompanhar os movimen tos familiares com verbalizações de asseguramento, prova
velmente de “sonhar” no sentido de Bion, em relação ao que partilhamos com a família:
esta será nossa maneira de inves tir as modalidades de expressão familiares — de transmis
são — cuja significação nos é inacessível, como humanas e portadoras de sentido (sensatas
e não loucas ou monstruo sas).
Então, somos levados a acolher, psiquicamente, tudo o que nos é dado a experimentar
sensorialmente: ver, sentir, ouvir, constituem modalidades de encontro com o estar-jun to
familiar, da mesma forma que o que é considerado oriun do do “material” clínico clássico
(palavras, desenhos). A vida quotidiana de toda família repousa sobre estas modalidades
sensoriais de encontro, tão significativas quanto as palavras trocadas. De acordo com os
momentos da vida da família, um ou outro nível prevalece. Conhece-se a importância dos
rituais familiares, as maneiras de fazer, de dizer, de expri mir, de trocar, as especificidades
dos objetos, dos lugares, das formas, de sons privilegiados. Esses objetos, lugares,
maneiras... ocultam partes da identidade sincrética freqüen temente muito inumadas ou
muito crípticas. A família “car rega” para o enquadre terapêutico todo OU parte deste cli
ma e somos levados a experimentar aí as suas qualidades.
Não se trata da questão de interpretar este tipo de mate rial como se procurássemos um
sentido latente sob uma expressão de comportamento ou corporal manifesta. Em
compensação, acolhendo o conjunto deste material clínico
como potencialmente significativo para afamília, nós ante cipamos uma rede de
representações possíveis, suscetíveis de organizar as trocas no nível das relações. Mesmo
que o que nos é liberado pela família traduza um vínculo adesivo do tipo indiferenciado, no
seio do qual a comunicação se faz mais por contágio ou por para-excitação, imaginamos, so
nhamos, no sentido de Bion, um nível de organização de relações de nível superior.
Então, as intervenções sempre se farão sob a forma de proposições, que constituem a
colocação à disposição do grupo de um pensamento possível, em relação ao que é vivi do
ali. O encargo de tomar ou de deixar de lado esta propo sição é deixado para a família e
para os indivíduos. A liberda de de “tomar” ou de “deixar” dada à família marca o distan
ciamento entre a família e os terapeutas: ela sustenta uma elaboração psíquica possível, mas
de maneira não proibitiva e não ideológica. A intervenção terapêutica apóia-se, em
definitivo, sempre sobre uma concepção do vínculo terapêutico que não imponha pensar o
“pensamento” dos terapeutas para continuar a se beneficiar de seu asse guramento. A
família, apoiando-se no enquadre terapêutico, restaura suas capacidades de elaboração para
tratar de acon tecimentos de sua história nas construções, freqüentemen te afastadas das
imaginadas pelos terapeutas nos primeiros momentos do encontro.
Nosso papel como terapeutas será de participar do traba lho de elaboração psíquica destas
experiências, primeiro, contendo-as sem contra-investi-las, depois integrando-as
progressivamente na construção do vínculo terapêutico te cido na terapia, e que se tornará,
progressivamente, histó ria. A família retomará, in situ, sua própria construção re
presentativa, a partir dos materiais oriundos de sua histó ria, de sua cultura, e cada um será
livre para extrair o mate rial representativo necessário à construção de sua história familiar
individual.
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—179—
Capítulo 4
A SUPERPOSIÇÃO IMAGÓICA E A FANTASIA
DE TRANSMISSÃO
POR ALBERT C!CCONE
O s numerosos trabalhos destes últimos anos sobre a transmissão — inter- e transgeração
— nem sem
pre levaram em conta a perspectiva da fantasia de transmissão, como já assinalou René
Kães (1994). Deve- se abrir um debate em torno da questão da relação entre a transmissão e
a fantasia de transmissão. O estudo da trans missão intersubjetiva ou trans-subjetiva deve
conter o estu do da fantasia de transmissão, na sua dupla dimensão, ou na sua dupla função,
tal qual enunciada por R. K função defensiva contra a angústia de vir-a-ser sujeito de seu in
consciente, e função representativa da posição do indivíduo na geração, “no mesmo
movimento que conduz [ sujeito 1 a não reconhecê-la”, na verdade, subjetivá-la.
Tomemos, por exemplo, os trabalhos de Nicolas Abraham e de Maria Torok (1978) e sua
noção de “fantasma” freqüen temente retomada. Tanto as noções menos citadas de cripta
(formação do inconsciente, efeito do segredo inconfessável partilhado com um objeto de
luto, tendo tido função de ide ai) quanto à de ident endocríptica (que se pode com preender
como uma identificação projetiva com o objeto incorporado encriptado) levantam poucos
problemas, e são
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
muito úteis na clínica. Aquelas, como também a noção de fantasma (que seria extraída da
transmissão da cripta, cons tituída pelo efeito da transmissão inconsciente deste segre do
em uma segunda geração e mais) não podem deixar de conduzir-nos a interrogações sobre
os efeitos da suposta ino cência do indivíduo, sobretudo quando se lê Abraham e Torok,
que insistentemente fazem de tal fantasma uma formação totalmente estranha ao indivíduo,
cuja única salvação resi de na “ejeção” deste corpo estranho perturbador. Até que ponto
pode-se sustentar que tal objeto possa ser tão estra nho ao indivíduo? Será que não há
ganho em considerar a fantasia de transmissão, que sustenta tal enunciado relativo à
transmissão, se possa qualificar, alías, como traumática? A fantasia de transmissão, e aqui
está seu aspecto parado xal, permite ao indivíduo defender-se surpreendendo-se com algo
que lhe pertence e que, ao mesmo tempo, lhe é estra nho.
Então, para o indivíduo, a fantasia de transmissão tem uma função de inocentar, entretendo
a ilusão de que tudo o que lhe acontece vem de um outro, de um ancestral, de uma geração
anterior, o que livra o indivíduo de toda responsabi lidade face ao acontecimento, ou ao
objeto transmitido, so bretudo quando estes se inscrevem em um contexto trau mático. Se
tal fantasia compromete, aparentemente, o mo vimento de apropriação subjetivante da
história, que parece impor-se como uma história sempre estranha, contudo, é também por
tal fantasia que o sujeito tenta e realiza uma apropriação, quando aquela entra em falência
pelo trauma tismo.
Proponho-me a deduzir o peso e a função da fantasia de transmissão nas situações em que a
transmissão tenha sido traumática, e onde o traumatismo se transmite. Qual é o peso da
transmissão inter-subjetiva e da fantasia de trans missão, na transmissão traumática?
Quando a história im põe acontecimentos traumáticos, transmitidos, e transmi tidos de
maneira traumática, como é que esta história pode ser subjetivada e como o indivíduo pode
apropriar-se dela?
Em seguida, descreverei uma noção que pode dar conta da conjunção entre uma
transmissão traumática atual ou passada e a constituição de uma fantasia de transmissão:
trata-se do que chamei superposição imagóica, ou contami nação imagóica. Esta noção
descreve, ao mesmo tempo, uma relação traumática para com um objeto de transmissão e
uma modalidade defensiva face à uma situação de ruptura traumática no processo de
transmissão.
Nesta contribuição, discutirei, também, algumas perspec tivas pelas quais a especificidade
do enquadre terapêutico familiar permite abordar estas questões.
1. Ti TRAUMÁTICA E FANTASIA DE TRANSMISSÃO
O que é transmissão traumática? A transmissão traumá tica, ou a transmissão do que é
traumático, pode ser conce bida se se retém a acepção freudiana de traumatismo como
resultante de uma falência de para-excitações. Esta falência de para-excitações supõe ou
equivale a uma falência da simbolização: dito de outra maneira, o objeto é transmitido sem
transformação, o objeto não é ou é pouco transforma do. O traumatismo é gerador de uma
transmissão sem ou com pouca transformação.
Os indicadores de tal transmissão traumática podem ser ressaltados, por exemplo, em
situações clínicas correntes como as que dizem respeito a pacientes com discurso muito
secundário, muito polido, e que, em alguns momentos, sur preendem pelo emprego,
aparentemente anódino, de formu lações brutas, carregadas de imagens muito cruas, e que
têm um efeito disruptivo no seu discurso, aliás, muito elabo rado. Estes enunciados
disruptivos podem ser considerados como reveladores de “objetos brutos”, no sentido em
que fala Evelyn Granjon’ . Esses objetos brutos testemunham uma transmissão traumática à
revelia das para-excitações, da qual
‘Cf. Granjon E. e Guérin C., 1985; Granjori E., 1987, 1989.
—183 —
—182— j
A transmissão do psiquismo entre gerações
estes pacientes, em sua história, têm sido, freqüentemente, objeto da parte de um ambiente
não suficientemente prote tor. As histórias dos pais destes pacientes são, muitas vezes,
marcadas pelos acontecimentos particularmente traumáti cos, e que foram transmitidos
brutalmente, provocando um excesso de excitações. Estas, são as palavras brutais que a
criança ouve a respeito dos acontecimentos traumáticos (ou a ausência brutal de palavras)
que têm um efeito traumáti co. A brutalidade da transmissão é mais traumática do que o
próprio traumatismo.
Um enunciado da mesma ordem pode aplicar-se, por exem plo, às situações de violência
suportadas por um indivíduo inflingidas pelo outro, e quando este outro recusa seu movi
mento violento (caso da perversão narcísica, tal como fala P.-C. Racamier, 1986, 1987):
mais do que a violência sofri da, é a recusa da violência que é traumática para o indiví duo.
Pode-se dizer da transmissão traumática que, se ela trans mite brutalmente objetos não
transformados, e dificilmente transformáveis para o ego, ela impõe também ao ego uma
experiência brutal de alteridade. A transmissão é traumáti ca quando o objeto (transmitido)
impõe-se na sua alteridade; o objeto conserva assim, um caráter de estranheza, e per
manece dificilmente apropriável pelo ego, pois o traumatis mo deixa mal os processos
transicionais. Ora, o que pode atenuar a experiência de alteridade, como lembra freqüen
temente René Roussilion, são os processos de transi cionalidade.
Uma paciente do mesmo tipo que evoquei acima assina lava em que ponto sentia-se
estranha na sua história: sentia- se herdeira de uma história que não lhe dizia respeito; sen
tia-se habitada pela lembrança de acontecimentos antigos que lhe eram estranhos, e que não
havia vivenciado, mas que estavam ancorados nela como se os houvesse vivido, dizia. Ela
experimentava um sentimento enigmático de estranhe za e de repulsa face a tudo o que
havia podido lhe ser trans-
—184 —
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
mitido de sua história traumática, e que havia sido transmi tido com brutalidade, o que eu
dizia acima. Ela entretinha um vínculo problemático com uma mãe desqualificante e com
um pai autoritário, e havia faltado afeição e reconheci mento aos quais uma criança pode
aspirar. Ela tomava como um dever não repetir com suas crianças a relação de fracas so que
havia conhecido com seus próprios pais, e sofria ao fracassar freqüentemente na realização
deste voto Ora, ela descobriu um dia que uma palavra que acreditava ter inven tado para
nomear seu filho, que representava um bom vín culo pais-filhos cheio de amor e de ternura
(isto é, o oposto do que ela própria havia conhecido quando criança), esta palavra, então,
pertencia ao vocabulário de uma avó benevo lente que ela havia perdido na sua tenra
infância. Esta pala vra, que acreditava ter criado, ela a havia encontrado. O que havia criado
para si e para seu filho transportava-lhe a uma história que a havia precedido e que lhe dizia
respeito. Ela apropriou-se e recriou alguma coisa — bom vínculo com o objeto — que lhe
havia sido transmitido. A transmissão — não traumática — operou pelo processo de
transicionalidade.
Assim, a transmissão traumática faz-se à revelia das para- excitações, sem palavras ou com
palavras brutas em torno dos acontecimentos traumáticos da história. Esta, tem efei tos de
um quisto, de alienação e de domínio. A transmissão traumática esmaga os processos
transicionais, impede seu desenvolvimento por causa desta coação exercida sobre o
indivíduo. A transmissão traumática coloca o indivíduo em sofrimento pela apropriação. E
um ponto difícil retomar, por conta própria, o que lhe é transmitido e, assim, tornar-se
sujeito de sua história. Tal coação pode mesmo ter os efeitos (primários) de um quisto no
narcisismo primário, o que con duzirá o indivíduo, como diz René Roussillon (1991), a tra
2 aliás (1995d), muitas proposições para tentar compreen der esta repetição do fracasso das
relações pais/filhos, este fracasso do ego na sua tentativa dc reparar uma relação pais/filhos,
fracassada.
—185 —
À
A transmissão do_psiquismo_entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
tar o que é de um outro como se lhe pertencesse, ou melhor, como se isto o constituísse.
A transmissão não traumática respeita a ilusão do “acha do-criado” (René Kães o assinala
assim). O objeto é posto pelo ambiente de tal maneira que o indivíduo acredita tê-lo criado.
O objeto da transmissão criada para a apropriação do indivíduo — ou de sua relação com a
criança, como no caso evocado — é herdado do discurso de um conjunto que o precede, e o
indivíduo “esqueceu” que este objeto foi en contrado. A transmissão não traumática usa os
processos da transicionalidade. O objeto a transmitir só perde seu pontencial traumático, se
puder fazer a prova da transicio nalidade.
A partir do momento em que tal experiência de transicio nalidade pode se desenrolar, o
processo terapêutico faz apa recer e se desenvolver um trabalho de subjetivação e de apro
priação. A transmissão pode, então, pouco a pouco, ser con siderada uma fantasia, um mito;
mito segundo o qual tudo acontece sem que se possa ser o sujeito de seu desejo. A fantasia
de transmissão tem uma função defensiva contra a angústia de ser o sujeito de seu desejo,
como evoquei acima, retomando proposições de René Kães (tal movimento, abre, contudo,
o campo dos desejos sexuais infantis). Mas a fanta sia de transmissão tem também uma
função de apropria ção, de subjetivação, graças aos processos transicionais que a
fundamentam, e que ela produz, processos pelos quais são recompostos os objetos ou
acontecimentos traumáticos ex teriores.
O que estou tentando descrever aqui, a partir de conside rações a respeito de alguns trechos
de um tratamento indi vidual, é uma teoria do desenvolvimento de uma fantasia de
transmissão. Isto me leva a formular a seguinte observação:
a experiência mostra que, se a situação dc tratamento indi vidual é sempre propícia ao
estudo de fantasias (de trans missão), a situação grupal de tratamento familiar parece
conduzir melhor a conceitualizações relativas à transmis
são real (de fantasias, por exemplo). Evidentemente, há uma diferença entre um paciente
que tem fantasias e temores de ter sido objeto de uma transmissão traumática e um pacien
te que corretamente percebeu que, efetivamente, foi vítima de transmissão traumática. Mas
tudo parece passar-se como se o enquadre da relação dual favorecesse a perspectiva da
fantasia (de transmissão), ao passo que o enquadre de escu ta familiar favoreceria a
reconstrução de modalidades de transmissão real (da fantasia ou do traumatismo).
Mas, antes de avançar nesta questão, é preciso dizer algu mas palavras com relação à
transmissão, que é do que se trata aqui.
2. ELEMENTOS E PROCESSO DA TRANSMISSÃO
Em um trabalho recente (1995a), propus modelos de inteligibilidade dos processos de
transmissão psíquica incons ciente e de suas relações com as modalidades de identifica ção.
Considerei a identificação, em geral, como uma via real de transmissão, e a ident projetiva,
em particular, como modalidade central de transmissão psíquica inconsci ente. A
identificação produz a transmissão, mas é também um efeito dela.
A noção de identificação projetiva — cuja pertinência já tive ocasião de assinalar para
analisar um grande número de situações intra e intersubjetivas — reúne um conjunto com
plexo de processos diferentes, mas apresentando todos eles uma característica comum, a de
articular, por definição, um pólo projetivo e um pólo de identificação. A identificação
projetiva descreve o conjunto de processos que permitem explorar o objeto, depositar
alguma coisa no objeto, ou to mar alguma coisa do objeto. Ela é, assim, realizadora de trans
missão, e é criadora de identidade, mas, com uma condição:
que o indivíduo possa fazer um retorno sobre si mesmo. Se
Cf. Cieeone A. e Lhopital M., 1991.
—186 —
—187 —
A transmissão do psiquismo entre gerações ___________________
este retorno não é possível, seja porque o indivíduo perma nece cativo do objeto, seja
porque o objeto não tem mais espaço mental, no sentido em que fala Salomon Resnik
(1994), de permitir o jogo, então, abrem-se as vias da pato logia e da alienação.
Os objetos psíquicos (da transmissão) podem ser descri tos a partir dos processos de
identificação que os constitu em: a identificação projetiva, da qual acabei de falar, mas
também, a identificação adesiva e a identificação introjetiva. Pode-se, assim, reter três
categorias de objetos psíquicos: os objetos autistas, constituídos pela identificação adesiva,
os objetos incorporados, constituídos pela identificação proje tiva, e os objetos internos
introjetados, constituídos pela identificação introjetiva.
Pode-se dizer que o objeto autista que descrevi a partir das concepções pós-kleinianas do
mundo do autismo — é um objeto periférico no espaço psíquico, bidimensional, sem afeto,
sem pensamento, sem interioridade. Algumas formas de mimetismo, de automatismo
mental, de comportamen tos “vazios” podem explicitar, fenomenologicamente, tais objetos.
O objeto autista iria da alucinação de uma sensa ção até uma representação-coisa da
sensação. O objeto autista, se não se transmite como tal (pois, não partilhável, muio
idiossincrático), resulta da mutilação do objeto psí quico de um outro, aliás, não
forçosamente percebido como outro. Mas, o que se transmite como objeto autista, apesar de
tudo, é o que seria preciso chamar de “objetos autistas normais”, constituídos pela
identificação adesiva “normal” (da qual fala, freqüentemente, Geneviève Haag), não tóxica:
trata-se, entre outros, do que Tobie Nathan (1990), reto mando as concepções de
DidierAnzieu (1987), designa sob os termos de “continentes formais”, e que descrevem as
modificações do corpo, dos movimentos rítmicos corporais, etc. A percepção destes
elementos adesivos normais, trans mitidos essencialmente pelas vias da cinestesia e da
cenestesia, realiza o que Donald Meltzer (1985), tomando
—188—-
______________________ Enfoque em terapia familiar psicanalítica
emprestado o termo de Bion (1961), chama uma experiên cia protomental geradora de um
simbolismo primitivo. As sim, as primeiras imitações do bebê, o que Piaget (1945) chama
de “imitações esporádicas”, primeiro reproduzem, adesivamente, a forma do objeto, o
contorno do objeto cujo sentido permanece enigmático. A identificação adesiva nor mal
constituí o sentido edificando inicialmente o contorno do objeto: a identificação adesiva
patológica destitui o obje to de seu sentido e o rebaixa sobre seus contornos.
Um objeto constituído pela identificação projetiva encon trar-se-á no espaço psíquico sob a
forma incorporada. O fal so self, os pseudo estados analisam uma identidade que deri va de
uma identificação com tal objeto. Essa identificação (projetiva) é constituída por tal objeto,
e, ao mesmo tempo, tal objeto gera ou entretém essa modalidade de identifica ção projetiva.
As noções de “cripta”, de “fantasma” (N. Abraham e M. Torok) descrevem tais objetos.
Acontece da mesma maneira com os objetos alucinatórios, delirantes. Também podem ser
considerados como objetos incorpora dos, por exemplo, as representações (coisas)
veidadeiros corpos estranhos intraprísquicos, efeitos no inconsciente da criança dos
“significantes enigmáticos” (Laplanche J., 1987). Em um outro pólo dessa categoria de
objetos podemos colo car os “imagos incorporados” (como, por exemplo, o imago da “mãe
morta” — Green, A. 1983 —‘ ou outros) Acima, falei da transmissão traumática, dos
objetos não transfor mados: pode-se dizer que o objeto incorporado não é (ou é pouco)
transformado pela transmissão, mas tranforma o in divíduo; o objeto interno introjetado, ao
contrário, é transfor mado pelo indivíduo.
Um objeto interno constituído pela identificação intro jetiva é constitutivo da identidade do
indivíduo, e de seu
1 Para um desenvolvimento mais completo dos OCCSSOS de identifica ção projetiva — e,
sobretudo, sobre a relação entre a identificação projetiva e a incorporação —, ef. Ciecone
A. e Lhopital M., 1991.
—189—
Á,
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
A transmissão do psiquismo entre gerações
sentimento egoico. Ele está integrado à sua estrutura inter na, não alienante
A modalidade de identificação constitutiva do objeto psí quico pode-se considerar como
uma modalidade de trans missão de objeto, e pode-se dizer, assim, que a natureza do objeto
a transmitir já determina seu modo de transmissão. O estudo da transmissão contém, assim,
o estudo dos proces sos de identificação, dos processos de interiorização dos objetos.
A situação familiar grupal oferece um cenário para o de senvolvimento desses processos,
possível de se apreender do ponto de vista de seus efeitos de comunicação intersubjetiva,
ou trans-subjetiva. A ídentifieação adesiva, por exemplo, na sua vertente fenomenológica,
apresenta efeitos conhecidos como ecolalia, ecopraxia e mimetismo (ainda que o
mimetismo possa também ser expressão de um processo de identificação projetiva), etc. —
falei, acima, das imitações adesivas dos bebês. A identificação projetiva, no que diz res
peito ao aspecto desse processo que tende a gerar uma co municação não verbal ou
infraverbal, produzirá efeitos con trários, de indução, de sugestão. Assim, por exemplo, é a
indução comportamental, da parte do paciente, da atitude
Estes processos de transformação têm lugar no ego. O termo “indiví duo” tem um duplo
sentido. Pode designar, tiO sentido comum, a pes soa, sua personalidade (é neste sentido
que o indivíduo transforma o objeto — introjetado — ou é transformado pelo objeto -
incorporado). Pode também designar o ego-sujeito, isto é, aquilo que do ego foi
sUl)jetivado, tornou-se sujeito (de sua história, dc seu desejo...): pode-se dizer, então, que
quando o objeto é transformado pelo ego, ele produz o ego-sujeito; ao contrário, quando o
objeto transforma o ego, ele aliena o ego-sujeito.
6 Pode-se, com efeito, distinguir três tipos de prOCeSSO designados pelos termos de
identificação projetiva: a comunicação dos estados afetivos ou das emoções, a evacuação
de um conteúdo mental perturbador. e a penetração dc um objeto para degradá-lo, tomar
posse OU emprestar identidade (sob o efeito da inveja, de temores de separação, etc.).
interior projetada, que irá permitir distinguir a identifica ção projetiva da simples projeção.
Refiro-me aqui, às proposições de Otto Kernberg (1988) sobre a diferenciação entre a
identificação projetiva e a sim- pies projeção. Kernberg assinala a relação de empatia que,
nos casos de identificação projetiva, é mantida com a parte projetada, e que conduz o
indivíduo a induzir no outro, por manobras interativas, a atitude interior projetada, e a con
trolar o outro para controlar esta parte do individuo com a qual ele deseja continuar em
ligação (este aspecto de con trole estando, aliás, bem descrito, por exemplo, por Hanna
Segal — cf. 1967) Na simples projeção, ao contrário, o indivíduo não tem empatia pelo que
é projetado, ele não quer saber de mais nada do que é projetado, torna-se estra nho ao
objeto para acabar com o esforço defensivo. Pode-se dizer que esta noção de empatia
mantida com a parte proje tada descreve o caráter simbiótico do vínculo com o objeto que
supõe a identificação projetiva e sua fenomenologia, in cluindo todas as figuras do vínculo
simbiótico, desde a simbiose mais normal até a simbiose mais destrutiva.
As modalidades da ação sobre o outro, correlatos feno menológicos da identificação
projetiva na parte deste pro cesso que supõe o engajamento de interações psíquicas, inter ou
trans-subjetivas —, dizem respeito não somente ao com portamento ou às atitudes, mas
também, à linguagem, à palavra, enquanto a linguagem pode, por si só, ser apenas um
comportamento. Quando a linguagem visa exercer uma ação sobre o outro, quando utiliza
palavras para mostrar seu lado-coisa mais do que seu lado-palavra, é uma modalidade de
indicação ou de confirmação da identificação projetiva, e então, de indicação de
transmissão. Acima, falei sobre o que a linguagem do paciente poderia indicar como uma
trans-
A em patia, tal como é aqui considerada, só leva em consideração o apego de si à parte de
si projetada. ela não compreende a natureza deste apego. E preciso assinalar isto, senão o
termo “empatia” não serve.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
missão passada (transmissão traumática geradora dc obje tos brutos). Trata-se aqui do que a
linguagem pode testemu nhar de uma transmissão ativa atual entre dois ou mais indi
víduos.
Se se transmitem objetos, tais como os defini, transmi tem-se, também, processos (os
processos de constituição de objetos, enquanto objetos psíquicos), transmitem-se fanta sias
(que organizam, contcxtualizam, ligam os objetos), e transmite-se, enfim, o conjunto desta
situação (objetos cons tituídos segundo os processos organizados nas fantasias) extraído de
um sentido: transmite-se o sentido das situa ções — este sentido podendo ser negativo, a
situação po dendo apresentar-se como falta de sentido, e a transmissão relacionar-se ao que
permanece enigmático.
É preciso assinalar, entretanto, que o enunciado segundo o qual se transmitem objetos ou
fantasias é um enunciado abusivo (pois não se transmitem pedaços de psiquismo),
enunciado abusivo este, que se pode guardar, por comodida de de linguagem, com a
condição de tornar preciso o seu sentido. O que é que se estuda quando se estuda a transmis
são dc objetos, ou a transmissão de fantasias, por exemplo, de um pai para uma criança?
Estuda-se, de fato, a maneira com que a fantasia, que determina, cobre, modula a relação, é
indicada à criança; estuda-se a maneira com que o pai indica à criança o lugar que ele
ocupa na cena imaginária que organiza as modalida des de seu investimento e de seu
vínculo com a criança, e a maneira pela qual o pai permite ou não permite a apropria ção
subjetivante, pela criança, da experiência na qual se re presentam o vínculo ao pai e a
fantasia que o organiza. Essa apropriação realiza-se, em parte, através do jogo, atividade
principal da simbolização. Eis em que consiste, de fato, o estudo da transmissão de objetos
ou dc fantasias, por trás desse enunciado abusivo. Realizei alguns apanhados destas
indicações, relativos aos processos de identificação, produ tores e efeitos da transmissão.
Falei da identificação em geral, e da identificação projetiva em particular, como a via real
de transmissão psíquica in consciente. Que representação pode ser dada da maneira pela
qual se realiza, concretamente, a transmissão desses elementos psíquicos que acabo de
descrever?
Pode-se dizer que a transmissão se realiza pelos efeitos do inconsciente, efeitos verbais
(efeitos da palavra), mas, mais particularmente, pelos efeitos não verbais, infraverbais. O
inconsciente se “transmite” no infraverbal, na maneira de falar mais do que fala em si
mesmo. Ele se transmite pelo não-verbal, pelo comportamento, atitudes, gestos, sinais que
compõem a comunicação e aos quais a criança, sobretudo a mais jovem, é muito sensível.
O inconsciente se transmite pelo discurso não verbal, e muito particularmente, quando a
mensagem não-verbal con tradiz a mensagem verbal. Estamos aqui na comunicação
paradoxal, noção que deu dias de glória à escola de Pato Alto. Pode-se facilmente observar
os indicadores de mensa gens paradoxais e, sobretudo, a maneira pela qual um com
portamento patológico de uma criança é induzido pelo pai. Uma mãe pede uma coisa a seu
filho pelo discurso verbal e consciente e, com seu discurso não-verbal e inconsciente, pede-
lhe outra coisa. A criança ou é siderada pela mensa gem paradoxal, ou responde,
preferenciabmente, ao pedido inconsciente — ela o responde diretamente ou então atra vés
da produção de um sintoma
A transmissão de objetos, de desejos e de fantasias in conscientes de um pai a um filho
realiza-se pelas mensagens infraverbais e pelos paradoxos que revelam.
Tais transmissões entre um pai e uma criança jovem, um bebê, realizam-se, ou em todo
caso, podem ser observadas
Como diz S. Resnik (1994), se não há acordo entre o que é dito e o que é sentido (pelo
analista, pelo pai), o outro (o paciente, a criança) introjctará uma imagem dissociada.
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A. transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
mais particularmente por ocasião das interações, das trocas interativas entre o pai e o bebê.
Bertrand Cramer, por exem pio, descreve como as configurações maternas, as fantasias
maternas são veículos para a criança pelo viés de seus correlatos, a partir da observação —
sem dúvida, às vezes, um pouco muito “objetivante” -, nas situações de psicoterapia mãe-
bebê, de coincidências entre um enunciado materno e sua materialização na troca interativa
As situações clíni cas com lactentes e seus pais oferecem numerosos exem plos em que se
pode ver como um pai induz na criança o comportamento, do qual ele se queixa; como um
pai em interação com a criança diz a ela aquilo que ele teme e, ao mesmo tempo, indica-lhe
o que ele espera dela, ou seja, que atue sob o comportamento temido.
Vê-se em ação a identificação projetiva, que rege os com portamentos não-verbais. O
indivíduo projeta uma fantasia e age sobre o objeto “receptáculo” da projeção, por manipu
lações, para que este se conduza em equação com a parte projetada do indivíduo. O sintoma
apresenta-se, então, como o fruto de um verdadeiro contrato inconsciente, ligando a criança
ao pai e, imposto à criança pelo pai. Este contrato que o pai impõe, aqui, à criança é um
contrato de repetição, visando tratar como paradoxo uma zona ou uma experiên cia
traumática.
Assim, o próprio sintoma (de um dos indivíduos) pode ser considerado como indicador de
transmissão, enquanto testemunha de uma aliança inconsciente, um pacto assina lando a
transmissão de um impensado. O sintoma concreti za a aliança inconsciente que o
fundamenta. Ao mesmo tem po que revela a transação, que testemunha, o sintoma a de
nuncia. Ele é revelador daquilo que fracassou na contratação. O sintoma mantém juntos
tanto a realização do pacto quan to o seu fracasso.
9 B. Cramer, 1990; B. Cramer e F. Palcio-Espasa, 1993.
A transmissão de objetos, de fantasias inconscientes de um pai para seu filho realiza-se,
então, pelas mensagens infraverbais, pelos paradoxos que revela e pelos sintomas que
geram, mas também, pelo que a linguagem tem como fun ção infraverbal, função de não
comunicar uma informação, mas de exercer uma ação sobre o Outro. Disse, acima, que a
linguagem, mais naquilo que ela contém como procedimen tos de ação sobre o outro do que
naquilo que ela veicula como sentido ou como mensagens verbais, é, também, uma
modalidade de indicação da transmissão, de indicação do objeto e da fantasia a transmitir. E
a maneira de falar, mais do que a fala, que qualifica a transmissão’°.
3. TRANSMISSÃO E ENQUADRE FAMILIAR
O que é que o enquadre do tratamento familiar permite observar destas transmissões, desta
realidade psíquica, inter e trans-subjetiva, e o que permite analisar? Quais são os li mites
deste trabalho de desenvolvimento e de construção?
i.Jm primeiro limite diz respeito à escuta clínica em si, da qual sabemos a que ponto a
observação representa o primei ro tempo fundamental Esta escuta realiza, sob o efeito da
contratransferência, uma seleção (uma segunda seleção po dendo intervir por ocasião de
uma eventual tomada de no tas); só um certo número de elementos é retido, a experiên cia
real sempre ultrapassa muito, isto é inevitável, o que a observação retém.
Além disso e como outro limite, é preciso marcar o da própria linguagem e, de uma certa
maneira, o da transmis “‘Cf. também, sobre esta questão, A. Ciccone, 1996h.
“Refiro-me aqui à concepção psicanalítica da observação tal qual é pre conizada por Esther
Bick (1964) — ef. também a esse respeito as propo sições de Bion (1967a, 1967b, 1970,
1974-77), ou de Rosenfeld (1987). Trata-se de uma observação a serviço da atenção, da
receptividade, da abertura, da atuação de pensamentos, e não de uma observação a servi ço
dc uma objetivação.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar_psicanalítica
são. Como diz Donald Meltzer (1984), “não há linguagem que possa apreender,
perfeitamente, a significação dos pen samentos nascentes que se busca capturar [ A transfor
mação de um pensamento nascente, em qualquer lingua gem que seja, é cheia de
distorções.” A linguagem possui seus próprios limites de representação; sempre há um ar de
intimidade emocional que nada saberia comunicar’
Um outro limite relaciona-se com a observação em si e, mais particularmente, com a
observação de comportamen tos. A observação de comportamentos, quando é utilizada, só
representa um elemento da observação. Mas, farei uma consideração sobre este elemento,
com relação aos limites da observação no trabalho de “objetivação da subjetivida de”,
pode-se dizer, se se concebe que a observação — direta
— pode acrescentar alguma coisa à representação ou à cons trução da subjetividade do
outro’ O que é que, de fora, é observável com respeito à subjetividade? O que é observável
na relação intersubjetiva entre duas pessoas (ou muitas) em relacionamento, e o que é que
fica, de fato, sem ser observa do?
2 Este limite é o mesmo assinalado por Meltzer, sempre, com relação à interpretação dc um
sonho, ou com relação ao que ele chama formula ção de um sonho, pois prefere este termo
dc formulação ao de interpre tação, para considerar este processo dc transformação de uma
forma simbólica para uma outra, dc uma forma essencialmente visual cm lin guagem
verbal. Longe dc acrescentar significação, tal OCCSS() impõe um empobrecimento: “A
‘dicção poética’ do sonho, diz Meltzcr, é redu zida a uma prosa psicanalítica.”
Conhecem-se, por exemplo, as reservas de André Grccn (1992) em relação à observação
direta (de bebês OU dc crianças) e do que elas poderiam acrescentar à psicanálise.
Observarei, entretanto, que André Grcen confunde tipos de observação, cujas metodologias
e objetivos são, fundamentalmente, estranhos. As observações dc Daniel Stern, por exem
plo, não têm nada em comum, do ponto de vista da metodologia e do estado de espírito,
com as dos pós-klcinianos, alunos de Esther Biek ou de seus seguidores.
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A idéia da “fenomenologia” tal como a concebeu José Bleger (1971) permite, em parte,
considerar esta questão. Bieger considera a observação fenomenológica como “aquela que
se realiza a partir do interior dos fenômenos, tais como são percebidos, experimentados, e
vividos ou organizados por aqueles que são parte integrante do fenômeno”. Bleger
distíngue o ponto de vista fenomenológico e o ponto de vis ta naturalista.
Um exemplo que diz respeito a uma situação banal, e que todos podem experimentar, irá
permitir considerar essa dis tinção. Trata-se de uma seqüência com uma menina de oito
meses que encontrei com seus pais, por ocasião de uma con sulta. Nesta seqüência,
primeiro, eu agachei perto da crian ça que estava sentada no chão, preocupada com os
objetos dispostos perto dela, e que tentava agarrar. Não há interação nem movimento de
relação dirigido a mim neste momento, e eu sou levado a pensar, ao cabo de algum tempo,
que mi nha presença é indiferente, que ela não é sensível ao contato humano. Levanto-me
para voltar para perto de seus pais, e a criança chora. Retorno para perto dela, e tento
entabular algumas palavras com respeito aos afetos que ela teria podi do experimentar com
relação à minha saída: impressão de ser deixada muito só, de ser abandonada, de deixar
cair, pois eu me havia levantado sem nada dizer-lhe etc. Mas, eu não estou convencido do
bom fundamento da interpretação que dei. Continuo a falar-lhe, e não obtenho nenhuma
resposta, nenhum olhar, nenhum indício “observável” que pudesse fazer pensar que ela está
afetada pela minha saída e que ela sentiu-se “deixar cair”. Com efeito, ela continuou seu
jogo solitário sem se preocupar, aparentemente, comigo. Ao cabo dc um momento, levanto-
me de novo, a criança volta a cho rar. Desta vez, minha hipótese confirma-se.
Se permanecêssemos na observação de uma ausência de interação, ou de uma ausência de
resposta à solicitação, poder-se-ia concluir, do ponto de vista naturalista, por uma ausência
de relação com o objeto no espaço intra ou inter
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A transmissão do psiquismo entre gerações
subjetivo. Ora, o conjunto da seqüência observada mostra o inverso. Mas é a mudança do
“enquadre”, a modificação do ambiente durante a seqüência observada, e não a observa ção
em si mesma, do comportamento ou da interação, que informou sobre o estado do vínculo,
do ponto de vista fenomenológico. Se eu não tivesse me levantado, e isto acon teceu duas
vezes, um observador de fora teria podido con cluir haver uma ausência de relação ou uma
relação carre gada de indiferença. A natureza do vínculo não era “observável” de fora.
Eu dizia que a observação direta de comportamentos não representa, quando ela é utilizada,
senão uma parte da ob servação. Por exemplo, o que é observado é, freqüentemen te, a
congruência entre o discurso verbal e o comportamen to. Falei, acima, da indução
comportamental da parte do paciente (ou da parte do pai), da atitude interior projetada no
analista (ou projetada na criança), como indicadora de identificação projetiva e indicadora
de transmissão. Este tipo de atenção, este tipo de observação da congruência entre discurso
verbal e comportamento não é novo nem específi co. As observações etológicas ou
sistêmicas procedem, em grande parte, assim. A diferença reside na consideração da
realidade psíquica inconsciente. O que é observado é não somente a congruência entre o
discurso verbal e o compor tamento, mas também os efeitos destes discursos na reali dade
psíquica e na realidade dos acontecimentos; o acesso à realidade psíquica estando aberta
pelas vias dos sintomas, dos sonhos, das associações, etc. Por exemplo, se digo em uma
observação: “O paciente me seduz” ou: “O paciente me controla”, este enunciado contém a
junção de um conjunto de elementos perceptivos e interpretativos: o desejo do pa ciente,
consciente ou inconsciente; as fantasias; os enuncia dos do paciente; as induções
comportamentais, presentes ou ausentes, segundo a sedução ou o controle me digam
respeito ou então digam respeito a um objeto interno do paciente que me representa; a
contratransferência, que pode
P
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
informar sobre a natureza projetiva do conteúdo psíquico, segundo eu me sinta ou não
seduzido ou controlado, etc. Em resumo, poder-se-ia dizer que, tal enunciado, suposto ser a
apreensão de uma situação observada, atinge na grade de Bion (1963) o nível de conceito
ou de sistema dedutivo científico (linha F ou G), isto é, de um enunciado que consi dera a
junção estável de um certo número de elementos. E, então, algo diferente do que um
simples acontecimento ob servado em tal situação.
Assim, então, o que se observa em uma situação familiar grupal põe em cena diferentes
indivíduos ligados por víncu los ou por fantasias singulares, e interagindo com seu co
nhecimento ou à sua revelia; carrega os traços da transfe rência e da contratransferência. O
“material” extraído do espaço do encontro que representa a intimidade da relação
terapêutica, bem como seu tratamento, são modelados pela transferência e pela
contratransferência. Nesta situação, ali ás, prefiro os termos empregados por Salomon
Resnik, que falam de dupla transferência (1986, 1994).
Toda observação, por mais neutra que seja, carrega as marcas da dupla transferência; toda
transmissão de uma observação, de uma experiência, contém, no seu enunciado, mesmo
entre outros, as seleções que ela supõe, os efeitos desta dupla transferência.
Acima, eu mostrava a diferença entre a observação natu ralista da observação
fenomenológica, retomando as formu lações de Bleger. Pode-se dizer, como lembra René
Kães que o terceiro nível de observação é o da transferência, ou da dupla transferência, isto
é, o que a observação permite considerar que cada indivíduo representa para cada um dos
indivíduos do grupo, e do que o próprio grupo representa para cada um dos indivíduos
atores do tratamento familiar.
Comunicação pessoal.
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em
Eu dizia que as situações de tratamento individual favo recem a perspectiva das fantasias de
transmissão, e que a situação de tratamento familiar favorece a consideração das
transmissões reais (de fantasias, por exemplo). É claro, as fantasias de transmissão podem
aparecer, descobrir-se, es tudar-se também em situação familiar: não faltam exemplos onde
os enunciados dizem respeito às transmissões interge rações (de sintomas, de angústias, de
fobias, etc.), são reco nhecidos como organizados pelas fantasias de transmissão (por
hereditariedade, ou por contágio, por contaminação) tendo uma função defensiva contra
outras fantasias, como fantasias de sedução traumática, elas próprias podendo recobrir, por
exemplo, fantasias de morte materna, etc. Tam bém, é claro, a transmissão real pode ser
apreendida, estu dada no enquadre do tratamento individual, por exemplo, na maneira como
o paciente usa, na transferência, induções comportamentais, tais como as evoquei acima, ou
bem na maneira como o paciente utiliza um objeto para desembara çar-se de uma parte
indesejável de si próprio, ou bem na maneira como ele leva na sessão, presentificando o
objeto ao qual ele está identificado projetivamente. Falei, com rela ção à transmissão
traumática, da maneira como alguns “sin tomas” do discurso verbal de um paciente podem
testemu nhar uma experiência de transmissão traumática.
Se o enquadre de cuidados familiares parece propício às reconstruções das transmissões
intersubjetivas de trauma tismos ou de fantasias, pode-se dizer também que a situação da
terapia familiar permite observar e viverin statu nascendi as transações relacionadas às
fantasias de transmissão organizadoras das relações e das trocas. São tais observa ções, em
que se cruzam uma dimensão histórica de recons trução imaginária das transmissões
traumáticas, e uma di mensão atual de ralização de transações transmitindo o trau mático,
que me conduziram a evidenciar OS processos que propus designar sob os termos de
superposição ou de conta mina ção imagóica.
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4. SUPERPOSIÇÃO lMi\GÓICA
As duas situações — extraídas de terapias familiares psi canalíticas — que evocarei para
considerar esta noção de superposição imagóica dizem respeito a famílias cuja crian ça é
portadora de uma deficiência: epilepsia em um caso, enfermidade motora cerebral, no
outro. O encontro com a deficiência de uma criança é uma experiência traumática para os
pais e para a família. Ele revive os traumatismos anteriores e exacerba os sentimentos de
culpa.
Tive a ocasião de discutir os efeitos traumáticoS do en contro com a deficiência e,
sobretudo, de diferentes tipos de culpabilidade que geram ou confirmam a deficiência
(1991 a 1996c). A culpabilidade que se pode chamar “pós-traumá tica” (culpabilidade de
ter dado a vida a esta criança, de ter desejado sua morte) gerará “fantasias de culpa”,
através das quais o indivíduo tratará a culpabilidade constituindo teori as etiológicas
imaginárias (mesmo quando a etiologia orgâ nica é conhecida e reconhecida) visando
justificar o trau matismo, tentando responder à questão de saber porque tal acontecimento
traumático aconteceu com o indivíduo. A fantasia dramática da culpabilidade testemunha
— tanto quanto a fantasia de transmissão — um movimento de subjetivação, de
apropriação pelo indivíduo de um aconteci mento traumático, e tanto mais traumático
quanto exterior ao indivíduo, que o indivíduo não tem nenhum controle, que é totalmente
inocente. O aspecto traumático do traumatis mo, seu aspecto mais injusto e o mais
escandaloso é assim, paradoxalmente atenuado, se o indivíduo tem alguma coisa a ver com
ele. Estas fantasias de culpabilidade primária são organizadas pelo revestimento das
experiências de culpa muito mais antigas: culpabilidade secundária (depressiva ou edípica),
dc um lado, devido à ambivalência, e culpabilida de, de outro lado, tal como descreve René
Roussilion (1991), culpabilidade devida ao nó de confusão sujeito/objeto resul tado de uma
não-adaptação suficiente do ambiente na épo ca do narcisismo primário, e responsável por
uma profunda
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A transmissão do psiquismo entre gerações
convicção segundo a qual o indivíduo não pode criar o mal, pois ele é, fundamentalmente,
mau.
A culpabilidade pós-traumática irá conectar-se às culpa bilidades secundárias, na verdade
primárias, e a estas pode rão responder, como veremos, os processos de superposição
imagóica.
Apresentarei e comentarei agora essa duas situações
A transmissão da culpabilidade. O filho do erro.
Arnaldo tem dois anos quando o encontro pela primeira vez. Ele apresenta uma
comicialidade que apareceu nos pri meiros meses de vida, bem estabilizada pelo tratamento
anticomicial e não comprometendo seu desenvovimento psicomotor e intelectual. Ao
contrário, o encontro com este “deficiente” foi particularmente traumático, sobretudo por
causa da mãe, senhora T., e, diante da ferida e do abatimen to maternos, a criança instalou-
se em uma posição onipre sente, sádica e tirânica em relação à mãe. Arnaldo tem um irmão
mais velho com seis anos, com boa saúde, mas que apresenta um retardo na linguagem.
Muito rapidamente, durante a sessão apresentou-se a questão etiológica, com um forte
componente de angústia e dc culpabilidade. O pai da mãe (o avô materno de Arnaldo) tinha
uma tia doente mental. Esta havia sido internada cm hospital psiquiátrico desde a idade de
vinte e três anos até quarenta anos, idade em que morreu de caquexia (ela recu sava a
alimentar-se), há mais ou menos cinqüenta anos. Esta história era vergosnhosa, tabu na
família. No momento cm que Arnaldo teve seus problemas, a mãe da senhora T. lem brou-
se de que seus sogros lhe haviam contado esta história. Ela fez pesquisas, encontrou a
clínica cm que havia sido in ternada (escondida) esta tia-bisavó dc Arnaldo e, assim, co
nheceu o contexto de sua morte. Os sogros haviam dito que essa pessoa havia caido da
bicicleta aos dezoito anos, e que tudo vinha daí.
Enfoque em terapia familiar psieanalítiea
A família se pergunta, então, se Arnaldo, de alguma ma neira, tem alguma coisa a ver com
essa história, se esta tia- bisavó não era epilética (daí a queda da bicicleta), etc. E isto, tanto
mais que Arnaldo se parece muito com seu avô paterno. E regularmanente, ao longo das
sessões, aparece rão comportamentos, traços de caráter, réplicas de compor tamentos ou
traços de caráter do avô: Arnaldo não é limpo, recusa o pinico, esconde-se para fazer cocô,
semelhante ao avô quando criança; Arnaldo aprecia todos os alimentos menos queijo, como
o avô; Arnaldo é muito ciumento, sua mãe também e seu avô também, etc.
Do lado do pai, após um período de negação, ficamos sa bendo rapidamente do
falecimento, há alguns anos, de um primo com a idade de trinta anos, gravemente
deficiente, e que também era escondido, posto em uma instituição. Seus próprios irmãos
jamais o conheceram. Ele era objeto de ver gonha. A senhora T. apressa-se em dizer que
isto não tem nada a ver com Arnaldo.
A transmissão é uma representação investida sem muita dificuldade pela família. A questão
da hereditariedade é cen tral, alimentada pela doença mental da tia-avó da mãe e pela
deficiência do primo do pai. De resto, a doença de Arnaldo começou, pelas reconstruções
familiares, por ocasião da contaminação da mãe: o irmão de Arnaldo tinha uma angi na, ele
a transmitiu para a mãe, que contaminou, por sua vez, Arnaldo, o qual, então, começou a ter
as crises convul sivas.
As representações clássicas, que aqui se desenrolam, di zem respeito, então: à transmissão
hereditária, à loucura, à vergonha, à contaminação, à culpabilidade.
A temática do ciúme introduzirá a elaboração progressi va do complexo edípico materno.
Arnaldo é descrito como muito ciumento, ele se interpõe quando a senhora T. se ocu pa
com o irmão ou com o pai (o que ele demonstra na sessão interrompendo, sem cessar, a sua
palavra). O ciúme é “de família”: a própria senhora T. é excessivamente ciumenta
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Atransmissõo do psiquismo cntre gerações __________________
(de um ciúme quase paranóico), e seu pai também. Nada se pode fazer sobre isto, pois,
“está nos gens”.
Por ocasião de uma sessão, e em seguida às sessões cen trais sobre ciúme, a senhora T.
contará dois sonhos (o mari do está ausente). Primeiro sonho: ela está em um açougue; seus
dois filhos esperam do lado de fora; o açougueiro é muito lento para servir; ele quer,
absolutamente, dar à senhora T. uma coxa de javali; ela está congelada, “feia e fedida”, a se
nhora T. não a quer, diz a ele para se apressar; aparece, en tão, um rolo compressor, a
senhora T. grita, e acorda bem antes que ele esmague as crianças.
A senhora T. conta que quando era adolescente, sonhava que alguém a perseguia. Ela
tentava correr, mas não podia ir para a frente. Tentava gritar, mas, não se ouvia nenhum
som. A senhora T. diz.se muito angustiada, freqüentemente tem “cãibra flO estômago”...
Segundo sonho: ela está em uma ponte, sobre um rio, com sua mãe e seus filhos; seu
marido está no meio da água, rio teto do carro; o nível da água sobe, o marido se afoga; os
bombeiros vêm buscá-lo, colocam-no sobre uma maca; ela o vê estirado sobre a maca com
uma sunga na cabeça.
A senhora T. diz ter pesadelos freqüentes, contrariamen te a seu marido, que é “otimista”.
Ele sempre sonha que está em uma ilha deserta, e que está sendo massageado por belas
moças.
A senhora T. diz estar sempre angustiada. Ela fala, então, das mortes que soube (tios, avós),
e conta o falecimento de sua bisavó, quando tinha seis anos. Era alguém muito im portante.
Esta avó materna do pai da senhora T. havia edu cado o pai dela, pois sua mãe não o
amava, o havia rejeitado. Esta pessoa tinha a pele muito morenà, como o pai da se nhora T.,
e como Arnaldo. Quando Arnaldo nasceu, “ele era preto”. A senhora T. disse a si mesma:
“De onde ele vem, para ser preto assim?” Arnaldo tem, então, a tez morena, como seu avô e
como a bisavó de sua mãe, e tem, aliás, uma mancha, embaixo nas costas, “característica
das pessoas do
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Sul”. Isto remonta à época da “invasão dos hunos”, diz a senhora T. Ora, a avó materna do
pai da senhora T. era do Sul.
A senhora T. diz que deveria fazer uma árvore genealógica. Ela nunca esteve tão
interessada em genealogia quanto por ocasião da chegada de Arnaldo; porque com ele
“muitos gens reviveram”.
Então, interrogo a senhora T. sobre a sua relação com o próprio pai, e ela conta a que ponto
era “terna” com ele. Mesmo depois de grande, sentava-se nos seus joelhos até quando
conheceu seu marido. O pai ficou muito ofendido por ela se afastar para se casar. Hoje, há
um muro entre eles. Ele a desqualifica, diz que ela não sabe cuidar dele. Arnaldo, que,
enquanto a senhora T. se exprimia, havia feito um dese nho, um velhote, vem mostrá-lo à
sua mãe: “Ele é feio”, diz- lhe ela. Ele volta ao desenho sem demonstrar nada dos efei tos
deste acolhimento, e a senhora T., muito triste, diz que ela não foi feita para ter crianças.
Bern que sua mãe lhe havia dito para parar no primeiro filho. Ela havia tido com ele urna
experiência muito boa, gratificante. Mas, na ‘erda de, a senhora T. queria bebês. “E muito
difícil ocupar-se com crianças que crescem.”
Esta sessão termina com o esclarecimento da necessida de de bebês que consolem a
depressão materna, sobre a “se dução” materna. Mostrei, alhures (1995b), como esta confi
guração repetia o fracasso da relação primitiva do pai com seus próprios objetos infantis.
A sessão começa com um sonho “cru” (o sonho do açou gue). E um pesadelo, então, um
fracasso do sonho. O tema pode fazer pensar que a senhora T. sente-se culpada por al guma
“obscenidade”. De resto, o pesadelo repetitivo da ado lescência, que ela associa, pesadelo
em que ela se vê perse guida sem chegar a correr, nem gritar, é um pesadelo típico, cujo
caráter sexual Freud (1900) mostrou bem. Mas o esma gamento, a fuga impossível, a
sufocação dos gritos que não saem, testemunham também angústias arcaicas, vivências
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claustrofóbicas que podem ser ligadas a experiências primá rias, as quais não considerei
aqui, mas, que apareceram em algumas sessões, levando à representação de um imago ma
terno esmagador e sufocante.
O segundo sonho refere-se ao ciúme. O carro com a água que sobe em volta pode
representar a ilha deserta com a qual o marido sonha, onde se faria massagear por belas mo
ças. “Você tem pensamentos eróticos? Ah! então morra”, parece dizer-se a senhora T. A
sunga sobre a cabeça, a cabe ça como órgão genital, pode ser colocado em relação com a
epilepsia da criança, a epilepsia como equivalente do orgas. mo’ Pode-se também
compreender a epilepsia como uma dramatização corporal da falta de para-excitações, da
falta de continente de para-excitação. Os indicadores desta falên cia manifestam-se na
rudeza do material onírico, nas deman das erotizadas endereçadas pela mãe à criança, como
tam bém por seu próprio pai sedutor, que ela traiu, que se “emparedou” e que a desqualifica
como ela desqualifica seu próprio filho (“seu desenho é feio”, “você não me preen che”...).
Numerosos comentários poderiam ser feitos ainda, e o material poderia ser ainda mais
trabalhado em torno destes temas sexuais e edípicos, e em torno de sua modalidade de
aparecimento na transferência. Mas interesso-me mais par ticularmente pela questão da
transmissão propriamente li gada às questões precedentes.
Primeiro é preciso observar novamente como o recurso à transmissão da vida psíquica entre
gerações representa um processo de inocentação (“Eu não sou assim por nada, isto vem de
um ancestral”). O que volta, são “os muitos gens”, e com eles, nós o veremos cheio de
genes (no sentido de cons trangimento)*, cheio de fantasias (dai as “fantasias de iden ‘ a
Claudc Janin por mc haver sugerido estas interpretações.
Gêncs, no original, de gêner, envergonhar, embaraçar, constranger (N.E.)
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tificação” — termos de A. de Mijolia, 1985), cheio de obje tos para calar: a loucura, a
vergonha. Esta, é ligada a uma cena primitiva culpada: a fantasia (originária) é uma fanta
sia de que foi através de um estupro que a tara foi transmiti da. Com efeito, a avó do avô
transmite a “mancha”, que vem da invasão dos hunos. A mancha, inscreve a tara. Os “gens”
que “voltam” por ocasião da expressão manifesta da defici ência carregam, na fantasia, a
culpabilidade primitiva do ato fundador, o estupro inaugural, a sujeira original (cf. o sonho
do açougue, “as obscenidades que fedem”...).
O recurso à transmissão psíquica entre gerações pode ser motivado por uma necessidade de
inocência, por uma angústia de vir-a-ser sujeito de seus desejos inconscientes. Pode
também apresentar-se como uma defesa, como uma recusa da dúvida a respeito da filiação:
“Exatamente como seu avô” significaria: “É de fato meu filho?”, “Sou de fato a filha de
meu pai?”(a senhora T. havia se perguntado de onde saíra aquele ali...) A tara é, então,
paradoxalmente, uma su tura na ruptura do vínculo de filiação.
Os comportamentos, os traços de caráter da criança são percebidos como réplicas exatas de
comportamentos e de traços de caráter de um ancestral: o avô materno. Da mes ma maneira
que a criança foi objeto, na reconstrução dos pais, de uma contaminação pela mãe, que
provocou a doen ça, pode-se dizer que ele foi e que é o objeto de uma conta minação do
imago paterno da mãe projetada. Esta identifi cação forçada da criança a um ancestral (ou a
muitos ances trais), esta “captura de identificação” (Faimberg, H. 1987) é realizada por um
excesso de superposição de representa ções dos pais sobre o espaço psíquico da criança,
superpo sição segundo um modelo tátil de contágio, de contamina ção.
Esta superposição imagóica responde tanto à necessida de de construir uma fantasia de
transmissão suscetível de tratar a culpabilidade edípica revivida pelo encontro trau mático
com o deficiente, quanto à necessidade de restaurar
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A transmissão do psiquismo entre gerações
Enfoque em terapia familiar
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A transmissão do psiquismo entre gerações ____________
o vínculo de filiação. Este processo considera ao mesmo tem po a inflação da dimensão
narcísica do vínculo de filiação (Guyotat, J. 1980, 1991), e a defesa pelas fantasias de trans
missão contra as fantasias infantis culpáveis, que a deficiên cia vem reanimar, apresentando
ele próprio como que a dramatização de uma medida de retorsão ou de expiação.
A transmissão/repetição da decepção originária
Guilherme tem seis meses quando encontro pela primei ra vez os seus país, senhora O. e
senhor M.J. Ele é o filho único do casal, nascido depois dc dois abortos espontâneos.
Apresenta uma deficiência motora de origem cerebral, na forma de hipertonia espasmódica,
que afeta de maneira gra ve os dois membros inferiores, e de certa maneira um pouco
menos severa o membro superior direito. Esta perturbação é consecutiva a um sofrimento
cerebral por anóxia, por oca sião do nascimento prematuro. No nascimento, o prognósti co
vital era muito sombrio.
Os pais ficaram, como sempre, traumatizados, profunda mente transtornados, feridos com o
encontro com um defi ciente. O pai tem um filho de seu primeiro casamento, Juliano, em
boa saúde, o que torna a mãe invejosa e ainda mais desesperada.
Ao longo do trabalho com esta família, só verei o pai cin co ou seis vezes. Ele é engenheiro
nuclear e se desloca mui to, na França e para o exterior, durante longos períodos.
Guilherme fará alguns progressos, mas fica muito emba raçado com sua motricidade. Ele
balhucia, diz algumas pa lavras, mas não diz “mamãe”. Há onze meses, um médico de
reeducação funcional anunciou aos pais que a criança não andaria, provavelmente, antes da
idade de quatro ou cinco anos, e com aparelho. E um novo choque para os pais, uma
catástrofe.
A mãe se pergunta se a criança será inteleetualmente normal. Ela tem medo do dia em que
ele se der conta de que
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Enfoque_em terapia familiar psicanalítica
é diferente, que tem um problema motor. Ela tem medo da rejeição com a qual deverá,
seguramente, defrontar-se.
Logo que a questiono com relação a este sentimento de rejeição e do medo que ele gera, a
senhora O. explica que isto vem de longe. Ela conta que seu pai perdeu seus própri os pais
quando criança, e os avós maternos deste pai, únicos sobreviventes, então o rejeitaram, pois
ele se parecia muito com seu próprio pai e não o suficiente com sua mãe. Seu pai (o avô
paterno da senhora O.) era mineiro, ao passo que sua mãe era professora, e ele era, assim, o
objeto de um grande desprezo da parte de seus sogros. O pai da senhora O., en tão, foi
posto, ainda criança, em um orfanato na Alemanha. Por ocasião do seu serviço militar,
naquele país, ele deserta para engajar-se na tropas francesas, e perde um braço na guerra.
Ora, apesar disto, quando a senhora O. era criança, foi rejeitada na escola, onde a tratavam
de “alemã suja” (seu nome tem uma consonância alemã).
A senhora O. volta-se para a deficiência de seu pai: ele não tem mais a articulação do
cotovelo, em seguida a uma ferida de guerra. Ela diz que os médicos estavam muito pes
simistas e, se seu pai tivesse dado ouvidos a eles, seu braço estaria “condenado”. Ele nunca
havia perdido a esperança, saiu-se bem “com força de vontade”, e até mesmo construiu sua
casa sozinho, apesar da deficiência. Esta é, sem dúvida, a mesma esperança que ela precisa
ter em relação a Gui lherme.
Quando Guilherme tinha dezesseis meses, a senhora O. e M.J. decidem ter outra criança. A
senhora O. sabe que ma terialmente a vida será difícil, pois Guilherme talvez não ande.
Mas, para ela será melhor. Ela suportará melhor a de ficiência de Guilherme, bem como a
boa saúde de Juliano.
A senhora O. fica grávida pouco tempo depois. Ela está muito contente, mas, ao mesmo
tempo tem muito medo. Desde este momento, ela fala de Guilherme como de uma criança
muito mais viva: “Ele é dinâmico”; “Ele tem estados dc alma e os exprime”; ‘Antes ele
estava sempre um pouco
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A transmissão do psiquismo entre gerações
adormecido, tinha humor constante”, etc. E depois, sobre tudo, fala “mamãe”.
Durante esta nova e recente gravidez, os pais contaram me seu encontro bem como os
traumatismos que o próprio M.J. sofreu. A ex-mulher de M.J. partiu com um outro ho mem
quando seu filho, Juliano, tinha um ano, O casal pouco a pouco se desfez. Antes de Juliano,
eles haviam perdido um bebê de dois meses, de morte súbita”
No fim do terceiro mês de gravidez, a senhora O. aborta. Ela fica muito deprimida. “Eu
nunca faço nada como os ou tros”, ela diz.
Eu relevo na sessão a necessidade de confirmação da mãe. A deficiência provoca uma
terrível ferida narcísica, que acen tua dramaticamente a sua necessidade de confirmação: es
pera ser reconhecida como mãe pela criança (ele diz “ma mãe”). Curiosamentc, é quando
ela se sentirá prestes a tor nar-se mãe de novo (infelizmente, a realidade não virá ao
encontro), ela própria se reconhecerá como mãe possível, que a criança a nomeará
“mamãe”. E neste momento tam bém que, no discurso da mãe, a criança se humanizará.
Serei sensível, aliás, ao longo das sessões e, mais particu larmente, até a sua nova (breve)
gravidez, às atitudes de superposição da mãe a respeito do espaço psíquico da crian ça,
superposição tal como fala Winnicott (1958). Ela lhe deixa pouco espaço, é pouco atenta a
seu ritmo. Suas solicitações e demandas para com a criança são carregadas de uma exi
gência de resposta imediata, e quando esta não pode sa tisfazê-la ela responde no seu lugar
e passa logo em seguida a outra coisa. Esta superposição é justificada pelas defesas
maníacas e pelo distanciamento dos afetos depressivos (es tes últimos inflacionários,
considerando os traumatismos atuais e os traumatismos que levam à experiência do pró-
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
prio pai). O relaxamento (temporário) destas superposições, pelo investimento em um
futuro bebê, abrirá um espaço de reconhecimento, de palavra e de humanização.
Ficarei por aqui quanto ao tema da rejeição, pois ele in troduz as representações da
transmissão. Guilherme será rejeitado, diz a senhora O. Aos elementos de realidade jun tar-
se-ão a experiência projetada da mãe, experiência de cri ança rejeitada, e o apelo a
acontecimentos da transmissão da vida psíquica entre gerações: o bisavô foi rejeitado por
seus sogros; o avô perdeu seus pais e foi rejeitado por seus avós maternos (Únicos
sobreviventes); a mãe era rejeitada na escola. O traumatismo atual é, então, ocasião de trans
missão, ou o revelador da transmissão de decepções passa das, de decepções históricas da
transmissão psíquica entre gerações. O traumatismo atual revela os traumatismos da
história e da pré-história familiares. De resto, a deficiência, pela inflação narcísica que
produz, favorece a representação de uma sucessão de acontecimentos traumáticos ligados
magicamente, tomados por uma lógica do destino, marcadas por uma sorte, etc. A
problemática edípica da mãe também é manifestada através da imagem de seu pai,
deficiente he róico, herói desconhecido, que vem colar-se à imagem da criança. Mas a
criança real não corresponde a este imago heróico, e Guilherme não poderá jamais honrar
tal “contra to narcísieo”. Este imago realiza também uma superposição para com a criança,
pelo viés da identificação projetiva ma terna. A mãe espera (defensivamente, em
ressarcimento) da criança (da imagem da criança) o que a criança (real) não pode dar. Esta
não poderá viver senão novos “abandonos” depois do abandono originário devido à
decepção inaugural.
Ele só poderá reproduzir esta decepção originária, nós o ‘e remos na narração de uma
sessão, quando Guilherme tinha vinte meses.
Com a idade de vinte meses, Guilherme fez alguns pro gressos que a senhora O. apreciou.
Sente-se um pouco re compensada, mas freqüentemente invejosa das outras
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Depois da perda dc um bebê, é freqüente que OS casais se separem.
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nsmissãodopsiqujsmocntregcraçôes
mães Também constata que, com ela, desde que Guilher me fracassa cm uma atividade, não
persevera e joga tudo para o alto. Com os outros, ele aceita montar jogos, quebra- cabeças
que recusa fazer com ela. Quando espera alguma coisa dele ele opõe uma recusa. A senhora
O. aceita a idéia de que ele tem talvez, medo de não satisfazer sua expectati va, de
decepcioná-la, de deixá-la triste. Ela acrescenta que, quando ela lhe diz não, lhe envia um
beijo, não só para se fazer perdoar, como também para consolá-la do sentimento de cólera
ou dc tristeza que ele possa tê-la feito viver.
Vou agora descrever em detalhes uma sessão com Gui lherme e a senhora O., que ilustrará
como o vínculo entre a mãe e o filho está marcado, mesmo no seu quotidiano mais banal,
pela ferida, pela dor, decepção e desespero dos pais, e como a criança repete esta decepção
originária. Esta sessão ocorre quando o pai se ausenta por mais de cinco semanas.
Guilherme tem vinte meses e meio.
A senhora O. senta-se e coloca Guilherme sobre seus joe lhos, as costas contra sua barriga.
Sua caixa de jogos é colo cada sobre a mesa. “Diz alguma coisa!”, pede-lhe ela muito
energicamente. Guilherme responde: “Ah”, depois: “Isso aí”, designando um pequeno
cavalo do qual se apodera. “Colo que-o de pé, diz a senhora O., assim ele anda”. Guilherme
resolve agir. Depois ele pede um carro: “Toto.” A senhora tira os carros da caixa, até que
não fique nenhum. Ela os faz rodar. Mas Guilherme mostra com o dedo outras caixas. A
senhora O. diz-lhe não, e ele propõe colocar um velhote no carro. Guilherme desinteressa-
se dos carros e quer descer do colo da mãe para ir explorar uma caixa de jogos disposta no
chão, perto de um espelho. A senhora O. diz-lhe: “Não,
Tanto que a questão da inveja em relação aos pais completos não foi elaborada pelos pais
das crianças portadoras dc deficiência, o trabalho de luto e o processo de investimento da
criança real ficam comprometi dos.
________________ ________ Enfoque em terapia familiar psicanalítica
seu teimoso, fique conosco.” Depois ela se levanta, vai pegar um grande carro na caixa, e
propõe a Guilherme colocar os velhotes dentro. Guilherme protesta. A senhora O. instala-o
em uma cadeira ao seu lado. Ele pega um velhote para colocá lo dentro do carro, mas
guarda-o muito tempo na mão antes de largá-lo, os olhos fixados no carro. Quando ele
colocou o velhote no carro, disse: “Toto”, com um ar de contentamen to.
A senhora O. explica-me que Guilherme, rastejando, es folou os dedos. De fato, eu havia
observado os arranhões no dorso de sua mão direita. A senhora O. diz que sua mão arrasta.
Os joelhos, tudo bem, ela coloca joelheiras, mas as mãos se esfolam. Ela me explica que ele
não se manifestou em nada: “Ele não sente muito. Não é muito sensível.”
Guilherme olha sua mãe com um lance de olhos sedutor, e dirige-lhe um sorriso. Depois,
então, quando passei a mão nos cabelos, observei que ele fez o mesmo gesto, olhando me.
A senhora O. pede-lhe que brinque com ela. Mas é comi go que ele quer brincar. Envia os
carros para mim fazendo- os rodar sobre a mesa e eu devo devolvê-los. “Você não quer
jogar comigo?”, pergunta a senhora O. Ela me faz observar como ele devolve o carro bem
no sentido correto, após tê-lo recebido, para me enviá-lo de novo. Um velhote que estava
no carro cai durante o lançamento, e a senhora O. intervém imediatamente: “Recoloque-o!”
Eu observo que, cada vez que Guilherme me lança o car ro, ele não rue olha, seus olhos
parecem fixar um ângulo do teto, na minha direção, mas no ar.
Guilherme pede em seguida os animais. A senhora O. pega uma vaca na caixa e a coloca de
pé diante dele: “Ela anda”, diz-lhe. Mas esta vaca tem uma pata quebrada e, então, não para
de pé. A senhora O. afasta a vaca, apanha um cavalo e refaz o gesto. Mas Guilherme
apodera-se da vaca com a pata quebrada. A senhora O. propõe-lhe os porcos, mas Guilher
me os afasta e conserva a vaca. “Ela não pode ficar de pé, ela
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A transmissão do psiquismo entre gerações
tem dor nas pernas”, diz a senhora O. Depois, ela tira os animais da caixa e os reagrupa por
famílias. Guilherme toma o bebê urso e bate na mesa com ele, ar ausente, o olhar na direção
da janela. Depois, retoma a vaca, falando em gíria. A senhora O. assinala que ela não
compreende o que ele diz, e ela repete muitas vezes: “Ela tem dor nos pés.”Depois, um
pouco irritada, ela lhe pede para colocar a vaca. Ela me faz então observar que ele pode
conter um objeto com sua mão direita, mas que não dá os objetos, diretamente, com a mão
direita, ele sempre o passa primeiro para a mão esquerda. Eu concordo. Guilherme fala
gíria. A senhora O. diz, com um ar desolado, que ele conversa o dia todo, mas, “não é
claro”. Neste momento, sinto-a cheia de tristeza. Guilher me se ausenta de novo, o tronco
pendido, a cabeça quase pousada na mesa, fazendo ir e vir um carro com a mão direi ta. A
senhora O. chama-o à ordem: “Fique direito!”
Então, falo da dificuldade de Guilherme ficar direito, de ficar de pé, de seus pés que não
andam, como a pata quebra da da vaca, e como isto pode ser doloroso, tanto para ele como
para sua mãe.
A senhora O. me explica, então, que ele fez progressos em sua maneira de brincar, e
também, em sua motricidade:
ele avança agora engatinhando. Mas, sua perna direita o freia. “Ele cai. Deixa-se cair”.
Durante esse tempo, Guilherme se olha no espelho situado à sua direita. Ele faz caretas,
olha sua imagem e a de sua mãe. A senhora O. o solicita, com ar enternecedor: “Você se
olha no espelho? Dê um beijo para a mamãe!”Guilherme bate, então, um carro contra a
mesa. “Não pode bater!” diz a mãe, decepcionada porque ele não respondeu à sua
expectativa.
A senhora O. fala ainda dos progressos de Guilherme, do que ele faz em casa. Enquanto ela
fala, ele faz muitos gestos com seus braços e sua mãos. Guilherme olha no espelho e parece
querer fazer gestos semelhantes, falando gíria: “Ta ta-ta.”
_____ Enfoque em terapia familiar psicanalítica
A senhora O. me explica que Guilherme gosta muito de livros, que ele quer que lhe
contemos histórias, que se no meiem os objetos desenhados e que designa com o dedo. Ela
diz que ele é muito sensível às mudanças, que observa as mínimas coisas novas, que as
mostra com o dedo, com insis tência.
Eu pergunto se há mudanças neste momento. Ela me diz que, depois que seu pai voltou, por
alguns dias (fazem cinco dias), Guilherme não quer mais separar-se dela. Chora mui to
quando o deixa na creche. E preciso segurar-lhe a mão, mesmo quando come. “Ele está
muito triste”. “Guilherme fica contente de rever seu pai, mas isto o chateia.” Se seu pai
abraça a senhora O., Guilherme fica com ciúme, ele diz:
“E eu?” “Ele tem medo que o amemos menos.” Guilherme não quer nem mesmo que seu
pai lhe dê a comida ou de beber, tem de ser sua mãe. Aliás, só dá beijos em sua mãe; para o
pai ele simplesmente estende a face.
Depois, a senhora O. explica que seu marido partiu nova mente, para a Espanha, por um
período de três meses. Ela e Guilherme encontrá-lo-ão dentro de quinze dias. Ela se queixa
de sua solidão, lastima que toda sua família esteja longe (na Alsácia).
A única vez que sua família veio aqui, foi quando ela deu à luz. A senhora O. conta, então,
as circunstâncias do nasci mento: o bebê prematuro, a cesariana de urgência, a trans
ferência da criança para reanimação, o choque no anúncio do prognóstico. Ela tem lágrimas
nos olhos. “Meu marido recebeu uma martelada. O seu mundo desmoronou.” O pe diatra
predisse o pior. Depois, ela diz que compreendeu qual era a política do serviço: “Anunciar
o pior, é mais fácil para depois dizer o que saiu melhor do que o previsto.” Depois ela me
explica que um outro pai, que estava na mesma situ ação, quase jogou o médico pela janela.
“Temos um bebê depois de duas horas, e aí falam cruamente de coisas horrí veis, é
insuportável.”
Ela volta a falar, em seguida, dos progressos de Guilher me, como ele se recupera, como se
ela tentasse distanciar
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A transmissão do psiquismo entre gerações
se destes pensamentos dolorosos. Depois, fala de uma outra criança: o projeto está sempre
em andamento. Mas, no mo mento, não anda.
Guilherme, que permaneceu um pouco ausente, durante a evocação deste período
traumático, anima-se. Ele fala gí ria, agita o carro, bate na mesa rindo, sorri para mim, bem
como para sua mãe.
Está na hora. Guilherme protesta para vestir-se. “\ é muito caprichoso!”, diz-lhe a senhora
O.
O resumo desta sessão poderia ser objeto de numerosos comentários. Farei apenas alguns,
primeiro para assinalar o fato de que a senhora O. coloca de imediato, desde o come ço da
sessão, seu desespero, sua decepção: ela se mostra irri tada com seu filho que não diz nada,
com seus braços ou suas pernas que se “arrastam”. Vêem-se também as atitudes da senhora
O., eu as de chamava de superposição, que não pode deixar seu filho fazer o que ele quer,
fazer sozinho.
Aliás, quando a senhora O. a solicita, a criança se desvia; ela se desvia para jogar comigo.
A mãe desqualifica, então, o jogo comigo, objetivando os atos da criança e mostrando seus
progressos. Pode-se dizer que, se a criança se desvia da mãe para investir um outro objeto,
esta sente-se abandona da e abatida. Ela anula, então, imediatamente toda percep ção de um
afeto depressivo, objetivando o corpo da criança. Várias vezes, a senhora O. chamará
minha atenção para os progressos motores de Guilherme, no momento em que toma contato
com um afeto depressivo, seguindo um movimento de recusa habitual nela.
Esta recusa é prescrita para a criança, vemo-la através da seqüência com a vaca da pata
quebrada. A mãe não quer saber de nada desta “dor nas pernas”. Mas, é esta questão que a
criança traz. Examinemos a seqüência:
— A mãe propõe uma vaca com a pata quebrada.
— A criança aproveita esta ocasião como para dizer/brincar com algo que diz respeito a
isto.
Enfoque cm terapia familiar psicanalítica
— A mãe percebe o dano, ela afasta esta representação da
deficiência.
— A criança insiste. Diante da ausência de resposta mater na a esta questão, da tomada cm
consideração pela mãe des ta questão, que lhe diz respeito, a criança bate o bebê (urso)
contra a mesa: ele devolve a violência que acaba de sofrer,
ele a volta não contra si, mas, contra um “representante
dele” (o bebê urso), sua própria violência desencadeada. Ao
mesmo tempo, ele se ausenta da relação.
— A criança insiste.
— A mãe o desqualifica (não compreende o que ele diz),
depois, irritada, impõe que recoloque o objeto.
— Ela objetiva, então, os progressos da criança (em um mo vimento de recusa).
— A criança se ausenta novamente.
— A mãe mostra-se, então, intrusiva (“Fica direito!”).
Vê-se, então, como a mãe não segue o ritmo da criança, não entra em contato com a vida
psíquica da criança. Quan do me faço de porta-voz da parte ferida em um e em outro,
chamando a atenção para as emoções da criança e da mãe, a relação dolorosa que os une
(falo das pernas que não an dam...), a mãe de novo toma posição de objetivação do cor po
(recusa dos afetos) — ela poderá, em seguida, na última parte da sessão, elaborar um pouco
esses afetos depressivos.
A criança lança-se, em seguida, a um jogo auto-erótico (com o espelho). A mãe endereça-
lhe, neste momento, um pedido (uma “beijoca”).
A criança não responde, ou responde por um gesto vio lento, e a mãe fica decepcionada. Aí
ainda, a mãe é superposição: não respeitou o auto-erotismo da criança. A mãe não respeita
e não proteje o espaço psíquico da criança e suas atividades transicionais.
Vê-se, então, como esta mãe, que se debate com a depres são, usurpa, em prejuízo, o espaço
da criança, recusa sua
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smissão do psiquismo entre gerações
vida psíquica, não responde às questões essenciais que ela tenta representar. Pode-se dizer
que ela cria condições, para a criança, de repetição da decepção. Quando ela faz um pe dido
(de amor, de confirmação da ligação), a criança o rejei ta. A criança rejeita-a da mesma
maneira que é rejeitada. Faz com que a mãe viva aquilo que ela lhe faz (identificação com o
agressor).
Poder-se-ia, aliás, falar que, da parte da mãe, há ident cação com a vítima, em um contexto
de fracasso, de repeti ção transgeração da rejeição.
Pode-se dizer, também, que quando a criança se ausenta, ao deixar de encontrar um objeto
compreensivo que conte nha sua questão, sua confusão, seu desespero, ela se ausenta
quando interroga a mãe sobre uma questão que lhe diz res peito, encontra uma mãe ausente
(rejeição da questão, objetivação defensiva, recusa, desqualificação). E, neste momento,
neste movimento próximo da identificação ade siva e do desmantejamento’s que se
transmite, que se pode considerar, como um imago de pais ausentes ou de pais dest ruídos.
Transmite-se, então, tanto a urgência para repetir a de cepção, quanto os efeitos
destruidores da decepção traumá tica.
Em relação à identificação adesiva, pode-se observar vá rios indicadores desta modalidade
defensiva primitiva: o lon go tempo para largar um objeto tido nas mãos; o mau conta to do
olhar (Guilherme fixando um canto do teto por oca sião das trocas na brincadeira), seqüela
de um mau contato primário com um ambiente arrebentado, deprimido; a imi tação
mimética furtiva dos gestos (da mãe ou meus) reali zando o que evoquei da transmissão de
Continentes formais. O que se transmite, é, então, “uma-mãe-desti-uídaquetem a-cabeça-
alhures”.
Cf. D. Mcltzer e cois., 1975.
Enfoque em terapia familiar psicanalítica
Dito de outra maneira, uma decepção originária traumá tica, não simbolizável, tem um
efeito destruidor sobre os pais. Estes transmitem o objeto interno destruído e, ao mes mo
tempo, indicam à criança a necessidade de repetir a si tuação traumática originária.
Quando a criança real está deteriorada isto tem como efeito deteriorar os objetos internos
dos pais. A criança her da, então, este objeto interno danificado, dos pais, ela iden tifica-se
com tal objeto e torna-se a criança decepcionante aos olhos do ideal do ego, repetindo a
situação originária. Sua identidade constrói-se pela interiorização do objeto de teriorado dos
pais. Ela se torna uma criança incapaz, para sempre, de satisfazer o ideal dos pais.
Esta repetição é reforçada aqui pela superposição ima góica da qual a criança é objeto.
Como no caso de Arnaldo, o imago paterno heróico da mãe de Guilherme, projetado na
criança, mantém-no em uma genealogia ameaçada, ameaça a culpabilidade edípica
materna, mas, pelo próprio fato de ela impor um ideal grandioso, impossível, ela condena
tam bém a criança a repetir a decepção originária, e a confirmar a culpabilidade primária
dos pais.
Aliás, a superposição imagóica produz também efeitos na transferência, opera nela,
transferência pela qual, aqui, ao sabor da oscilação da família entre uma posição maníaca e
uma posição melancólica, eu serei alternadamente coloca do no lugar do avô heróico
salvador, ou bem da criança im potente e decepeionante. Pode-se dizer que a superposição
imagóica é uma modalidade alienante de transferência, ou que ela representa o movimento
alienante ou potencialmen te alienante do processo transferencial, sob o efeito da iden
tificação projetiva
‘ as reflexões de Claude Janin sobre outros contextos dc superposição psíquica entre
paciente e analista (1990).
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A transmissão do psiquismo entre eraçõcs
cemter
CONCLUSÃO
A contaminação ou a superposição imagóica designa o processo pelo qual um imago dos
pais (um objeto psíquico dos pais) impõe-se ou é imposto como objeto de identifica ção da
criança (a criança é identificada como reencarnação do imago) e como objeto de
identificação para a criança (a criança deve identificar-se com o imago). Este processo uti
liza as vias da ident projetiva mútua: do ponto de vista dos pais, o imago é projetado e
identificado na criança; os país usando manobras na relação interativa visando con firmar
esta identificação; do ponto de vista da criança, o imago ou é cativante, ela, então, é
penetrada e geradora de um falso self ou é persecutória, ela é, então, rejeitada, e fon te de
lutas incessantes, visando controlar e manter distân cia. Em ambos os casos, o imago é
alienante, priva a criança de um reconhecimento, e de um desabrochamento de sua
identidade própria, porque ela a priva de autonomia face a seus objetos psíquicos. O espaço
mental “invadido” pela imagem de um outro (ou pelo imago — objeto psíquico — de um
outro) vê o indivíduo privado de liberdade de pensa mento, de liberdade de ser, de
liberdade, simplesmente
A superposição imagóica é uma medida defensiva contra as angústias catastróficas, as
angústias depressivas e perse cutórias. E um processo que pode ser ativado pela transfor
mação de um objeto ideal (a criança sonho realizado, porta dor do narcisismo dos pais) em
objeto persecutório (a crian ça deteriorada, decepcionante, danificando os objetos inter-
nos dos pais, revivendo os traumatismos anteriores e as de cepções oríginárias). Esta
contaminação ou esta impiedade pode responder a um traumatismo afetando
profundamente o narcisismo, e provocando uma ruptura na filiação. A superposição
imagóica permite, então, uma recuperação de fensiva do objeto (a criança) em uma filiação
(a criança identificada com um ancestral escapa à “(de)ge(ne)ra ção” uma filiação narcísiea,
mas cujo componente nar císico pode também recobrir a cena edípiea dos pais culpa dos (a
criança incestuosa, filho da vergonha, etc.). Esta reins crição da criança na filiação
reinscreve também o pai na filiação (a criança, réplica do ancestral ou herdeira do an
cestral, confirma o pai na sua descendência e na sua aseen
dência.
Assim, se o processo de superposição imagóica participa, como vimos, de uma transmissão
atualmente traumática, ela também é parte constituinte de uma fantasía de trans missão, na
sua dupla função de representar a posição dos indivíduos na geração, e de defender o
indivíduo contra a angústia de viver uma experiência de ruptura catatrófica na sua filiação,
mas também, contra a angústia de vir-a-ser su jeito de sua história. A fantasia de
transmissão realiza, no mesmo movimento, uma apropriação e uma desapropriação da
história traumática. Ela apresenta assim, um caráter transicional e, como evoquei a respeito
dc) traumático na transmissão, ela contém ou cria de alguma maneira — ao mesmo tempo
que revela — as condições de uma transmis são não traumática.
20 Este OCC5SO de contaminação e de superposição imagóieos encon tram seu lugar entre
uni certo número de processos transgerações des critos por diferentes autores, e podem ser
ligados, sobretudo, às pertur bações de identificação efeitos da fantasia de inversão da
ordem das gerações (E. Jones, 1913), no trabalho tóxico dos objetos transgerações (A.
Eiguer, 1987, 1991). nas identificações alienantes por captura de identificação e por
engavetamento de gerações (H. Faimberg, 1987, 1988).
21 Termo da fisiologia do século XVIII (ef. G. Vigarelio, 197$), que reto mo aqui em unia
perspectiva diferente, para considerar o distanciamento entre um indivíduo e sua
descendência de geração, tal como impôs a deficiência.
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