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UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Comunicação oral
FERRI E O BATISMO DA PSICOLOGIA COLETIVA

Maristela Bleggi Tomasini

Esta fala reflete um pequeno recorte de minha pesquisa de pós-doutorado que é


supervisionada pela Prof. Ana Maria Jacó-Vilela e que se intitula A psicologia coletiva
como resposta ao problema da criminalidade das multidões: uma perspectiva
histórica.
Como o tempo é limitado, dividi o assunto em seis pontos. Em primeiro lugar,
apresentar o grande culpado de eu estar aqui agora falando de psicologia coletiva...
Depois, vou explicar o contexto da pesquisa, mostrando nela que lugar ocupa este
recorte que vou apresentar. Em terceiro lugar, falar sobre o contexto histórico, final do
século XIX e início do XX. Por fim, falar de Ferri e da famosa nota à qual se deve,
muito provavelmente, o batismo dessa psicologia coletiva e, finalmente, do grande
desafio multirreferencial implicado em sua abordagem.
Minha relação com tema pesquisado ― psicologia coletiva ― surgiu a partir de
um comentário que fiz com Rogério Centofanti. Isso deve ter acontecido entre 2004 e
2008. Comentei com ele que me viera às mãos um livro de Scipio Sighele, La foule
criminelle. Essai de psychologie collective, editado em Paris, pela Alcan, 1901. Um dos
capítulos deste livro foi construído a partir de correspondência mantida entre Scípio
Sighele, Gabriel Tarde, Silvio Venturi, onde aparece uma nota de Enrico Ferri.
No meio da conversa, disse a Rogério que o batismo da expressão psicologia
coletiva era reivindicado por Enrico Ferri, e que essa reivindicação constava do livro,
porque o próprio Sighele fizera questão de registrar o criador da expressão que dava
nome ao seu livro. Trata-se de uma longa nota escrita por Ferri e que começa assim:

A psicologia coletiva, – como eu a batizei desde a 2ª edição de Nuovi


orizzonti [I nuovi orizzonti del Diritto e della Procedura penale (1884)], –
recebeu uma organização muito vigorosa pelos estudos geniais, e com justiça
louvados, de meu muito querido amigo Sighele; e ele responde muito bem à cor
dos tempos que evidenciam, de maneira sempre crescente, as dores como as
forças benfazejas e malfazejas da coletividade humana, por não se prestarem, na
variedade infinita de seus elementos e de suas manifestações, a uma grande
diversidade de observações e de induções, mesmo para aqueles que estão em
completo acordo sobre as teorias fundamentais (Ferri apud Siguele, 1901, p.
177)1.

Rogério então me disse que não acreditava que o povo psi soubesse disso e que eu
deveria escrever a respeito, já que eu fazia parte do povo dos data venia.
Mas eu não escrevi.
Apesar disso, já naquela época, eu estava envolvida com antropologia criminal,
por conta de traduções que fazia e que deveriam ser contextualizadas. Isso me levou a
explorar essa literatura, fruto do século XIX, início do XX, quando um pequeno grupo
de homens acabou mudando a história, seguramente, ao menos do ponto de vista do
Direito, sem falar nas políticas criminais que esse complexo conjunto de
acontecimentos envolveu.

O CONTEXTO DA PESQUISA E DO RECORTE


Desse grupo de homens, três são figuras exponenciais. O primeiro é Cesare
LOMBROSO, médico, autor de O homem delinquente, cuja 1ª edição italiana aparece
em 1876 e a 5ª e última edição em 1896 e 1897. Desse livro nasce a Antropologia
Criminal. O segundo personagem, RAFFAELE GAROFALO (1851-1934). ―
criminólogo e político ―, publica sua Criminologia em 18852, e dá nome a essa então
nova ciência. Por fim, ENRICO FERRI (1856-1929), advogado, jurista, político, a
quem se atribui também a criação da Sociologia Criminal, também se une a grupo e
forma assim o triunvirato que origina a chamada Escola Positiva de Direito Penal que
se pauta sobre a Antropologia Criminal.
O cerne dessa discussão toda acabou resumido de forma bruta na afirmativa de
que o criminoso seria uma fatalidade biológica e que, como fruto dessa fatalidade, ele
não disporia de livro arbítrio, na verdade, o fundamento da pena (direito penal, de pena,
punição). Ferri e Lombroso propuseram a adoçao, pelosistema penal, de um método
experimental positivo, inerente às ciências naturais, o que implicou em uma ruptura

1
Sighele, S. (1901). La foule criminelle. Essai de psychologie collective. Paris: Alcan.

2
A criminologia pontuou os famosos Congressos Internacionais de Antropologia Criminal, que
aconteceram até a Guerra (1914) em Roma, 1885  Paris, 1889  Bruxelas, 1892  Genebra, 1896 
Amsterdã, 1901  Turim, 1906  Colônia, 1913
epistemológica na instância penal, com o objetivo de neutralizar os infratores e impedir
o crime.
E se o próprio fundamento da aplicação individual das penas estava
epistemologicamente abalado, como considerar então os crimes cometidos pelas
multidões?

CONTEXTO DA ÉPOCA
É justamente aí que entra em cena a psicologia coletiva, e mesmo a obra de
Sighele da qual falamos. Se figurarmos o século XIX como o tempo de ascensão de
uma classe que acumulava capital lado a lado a uma população que nada tinha além da
força de trabalho, veremos que o antigo modelo do Direito Penal Clássico, que olhava o
delito e não o delinquente, começava a tornar-se inoperante.
As grandes cidades começaram a concentrar um número cada vez maior de
operários empobrecidos, e a maré dos delitos aumentava. Era preciso, pois, sanear esses
redutos. Desse modo, as fórmulas lombrosianas encontram receptividade, estímulo e até
simpatia. Multiplicavam-se, por outro lado, os crimes coletivos, onde não era possível
apontar um autor, e isso consistia (ainda consiste) em um grande problema.

MAS QUEM FOI FERRI, AFINAL?


Enrico Ferri nasceu em San Benedetto Po, comuna italiana da região da
Lombardia, província de Mântua, Itália, em 25 de fevereiro de 1856. Formou-se em
direito na Universidade de Bolonha em 1877 e publicou a tese sobre L'imputabilità
umana e la negazione del libero arbitrio (1877, publicada 1978) [A imputabilidade
humana e a negação do livre arbítrio], sob orientação de Pietro Ellero. Definiu crime
como fenômeno originado por fatores antropológicos e sociais, de onde ser injusto
considerar o delinquente como o único responsável. Em 1881 publicou a 1ª ediçao de
sua Sociologia Criminal. A segunda edição italiana desta obra ― I nuovi orizzonti del
Diritto e della Procedura penale (1884)3, Nicola Zanichelli, 1884, 574 páginas ―, traz
a famosa nota que veremos a seguir, assim como as subsequentes traduções: a edição
inglesa, Criminal Sociology, T. Fisher Unwin, 1895, página 94, a francesa de 1914, La
Sociologie Criminelle, p. 251, pela Alcan e outras, certamente. Catedrático de direito
penal, reeleito deputado sucessivas vezes desde 1886, Ferri dirigiu o jornal socialista
Avanti! de 1900 a 1905. Em 1921 publicou o Progetto di codice penale italiano, que
3
A primeira edicão é de 1881, Nicola Zanichelli, com 150 páginas.
influenciou sensivelmente a legislação penal brasileira. Morreu em Roma, em 12 de
abril de 1929.

ENFIM A FAMOSA NOTA

Há, todavia, algumas diferenças entre as manifestações da atividade de um grupo


de homens e aquelas de uma sociedade inteira. Eis a razão pela qual eu penso
que, entre a psicologia, que estuda o indivíduo, e a sociologia, que estuda
uma sociedade inteira, deva existir um elo que as una no que se poderia
chamar psicologia coletiva. Os fenômenos inerentes a certos grupos de
indivíduos são regrados por leis análogas, mas não idênticas àquelas da
sociologia, e variam conforme os próprios grupos sejam uma reunião acidental
ou [uma reunião] permanente de indivíduos; assim a psicologia coletiva tem seu
campo de observação em todas as reuniões de homens mais ou menos
adventícias: vias públicas, marchas, bolsas, oficinas, teatros, comícios,
assembleias, colégios, escolas, casernas, prisões, etc. As aplicações práticas que
se pode extrair desses fatos são numerosas, como veremos, por exemplo, no
capítulo IV, falando do júri segundo as leis da psicologia, e como Sighele,
desenvolvendo este pensamento (que expressei em minha primeira edição, 1881,
p. 57), provou-o muito bem por seus trabalhos de psicologia coletiva, ou seja, de
psicologia própria a um grupo de homens visível e limitado, e por isso mesmo
intermediário entre a psicologia individual e a psicologia social ou
völckerpsychologie4 propria a uma sociedade inteira ou a uma classe sem limites
visíveis de extensão. (Ferri, 1914, p. 251).

A afirmativa, assim como a reivindicação, é clara. Tratava-se da psicologia


coletiva como ele a batizara. Resta saber até que ponto se poderia estar autorizado a ver,
na pessoa de Enrico Ferri, o fundador da psicologia coletiva, que teria assim berço
jurídico. A psicologia coletiva, — a que Ferri não conferiu estatuto de ciência, observe-
se ―, desponta, com a Criminologia, em tempos de dramáticas mudanças, inaugurando
o reinado de novos saberes que influirão profundamente nas ciências sociais, marcando
a década de 1880 como instituidora de uma verdadeira cruzada biológica e eugênica.

4
Wundt.
DO DESAFIO MULTIRREFERENCIAL
Como vocês podem ver, o conceito psicologia coletiva é multirreferencial. Sua
inegável pertinência à psicologia torna-o hóspede de Clio. Sua aplicação sociológica
desloca-o para o campo da sociologia, mas o seu nascimento e batismo o colocam junto
ao Direito, especialmente porque nasce em um compêndio de Processo Penal, obra esta
que só a partir de sua segunda edição adota o nome de Sociologia Criminal. E não basta.
Porque a psicologia coletiva não circula apenas nesses três campos do saber, como
ainda se aventura pela literatura, em especial quando as multidões se fazem
protagonistas, sobrepondo-se às individualidades.
A história da construção desse conceito é o objetivo de minha pesquisa.
Contudo, nesta fala, está um de seus alicerces básicos, que desponta no mundo
do Direito Penal, mas que daí prossegue por outros campos do saber, dentre os quais, a
Psicologia e a sua história, razão de eu estar aqui.
Obrigada.