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FESTIVAIS DOS MORTOS: TRADIÇÃO OU CONTRADIÇÃO

Por Jan Duarte


Publicação original em inglês: Cauldrons&Broomsticks

Qual será o significado real dos festivais dos mortos, que podem ser encontrados em todas as
culturas e em qualquer região do Planeta? Haverá nesses festivais uma contradição latente, que
envolve a crença em reencarnação? O fato de esses festivais serem celebrados sempre após a
época das colheitas, ou início do inverno, tem alguma ligação com a sua simbologia?

Muitas pessoas que, hoje em dia, travam um primeiro contato com o paganismo, têm a
impressão que determinadas crenças ou práticas, embora remontem a um passado longínquo,
são originais ou exclusivas de determinadas sociedades, em especial aquelas que se
estabeleceram na Europa Ocidental pré-cristã. Isso é um engano comum, fruto do próprio
costume de nossa mente ocidental, que usurpou uma série de crenças e as revestiu com uma
capa de originalidade. Na verdade, a maior parte dos ritos (e mitos) ligados ao paganismo atual
é universal, e refletem a própria religiosidade original do ser humano.

Lançando nossos olhos, portanto, para o passado longínquo da humanidade, veremos que todas
as concepções originais de espiritualidade possuíam um caráter reencarnacionista. Uma vez
estabelecido o conceito de alma, tido como a essência que permeava os corpos, lhes animava, e
sobrevivia após a morte destes, era natural o pensamento que as almas retornavam, de alguma
maneira, e voltavam a animar outros corpos. Esse padrão, na verdade, é encontrado ainda hoje
entre as sociedades indígenas que conservam os costumes de milhares de anos atrás.

Um exemplo interessante nos é relatado por Malinowski: os nativos das ilhas Tobriand, no
Pacífico Sul, acreditam que as almas de seus mortos habitam na ilha de Tuma, e levam aí uma
existência normal, durante um determinado período. Se morrerem ainda jovens, esse período era
mais longo, mas se já eram idosos, esse período era mais curto. Na verdade, é como se as
almas completassem o seu período de existência em Tuma, até o momento que, já por demais
envelhecidas, banhavam-se no oceano, livrando-se de sua pele, e transformava-se na alma de
um não-nascido, que ia fertilizar uma das mulheres vivas de seu clã. Todo esse processo é tido
como natural, e não há nenhuma menção à julgamentos, recompensas, punições ou mesmo à
intervenção dos deuses nele. Simplesmente um fato da vida, uma vez que a morte era
considerada parte da vida.

No entanto, entre esses mesmos nativos, é celebrado anualmente o festival chamado Milamala.
Nesse festival, que pode durar mais de uma semana, são construídas plataformas especiais
para recepcionar os espíritos dos ancestrais, banquetes são preparados para eles, e as danças
rituais sucedem-se, alguma inclusive com um cunho notadamente sexual.

Seria por demais extenso relatar aqui toda a ritualística e todos os mitos envolvidos nessa única
celebração, mas pelas linhas gerais apresentadas, já se desenha aqui a aparente contradição
que citamos, no início: se acredita-se que os espíritos dos mortos voltam a vida, de forma mais
ou menos rápida, quais seriam esses espíritos ancestrais recepcionados nas festividades?
Para se entender o real significado dessa crença, é necessário buscarmos a própria origem da
crença em almas. Segundo Durkheim e outros, a noção de alma não pode originar-se do medo
da aniquilação, já que o ser humano primitivo não teme a morte, mas a encara como parte
natural do processo da vida. Não pode, também, originar-se da necessidade de preservação da
individualidade após a morte, já que entre os primitivos essa noção é escassa e mesmo
indesejável: o indígena anseia por ser membro de uma coletividade, e não um ser individual.
Dessa forma, o conceito de alma parece ter surgido, sim, da necessidade de preservação das
tradições grupais, ou do clã, em face da morte de seus membros, e da própria necessidade de
explicação do processo de fertilização.

Ao dizer que a essência do antepassado reencarnava no recém-nascido do mesmo clã, nossos


longínquos antepassados, antes de qualquer coisa, reivindicavam a manutenção dos costumes e
tradições familiares, essenciais para a manutenção do modo de vida e da própria sobrevivência
da tribo. Ao mesmo tempo, davam ao sexo o cunho de união. Embora este pudesse ser
relacionado à reprodução, era como gerador do corpo físico, mas não do princípio vital. Ele
agrupava as famílias, ou as construía, mas não transmitia a herança cultural dos antepassados.

Por fim, essa forma de crença em reencarnação explica, de uma forma cíclica, uma espécie de
princípio de conservação da energia aplicado às almas, considerando que as tribos acreditavam
que as almas eram incriadas. Elas nasceram com o Universo (ou eram simplesmente
individualizações do seu princípio vital), acumulavam conhecimento ao longo da vida física e
transmitiam esse conhecimento ao longo das gerações da família. trazendo esses conceitos para
os nossos tempos, quando sabemos que a população do mundo está constantemente
crescendo, e que os costumes mudam constantemente, poderíamos dizer que as almas seriam
porções individuais de uma Grande Inteligência (chamada por algumas tribos de Grande Espírito
ou Grande Mistério), que evolui conforme suas partes evoluem.

Ao celebrar os festivais dos mortos, portanto, o que era buscado era a garantia que aqueles
espíritos que ainda não haviam reencarnado retornassem ao seio de sua família, ao fazê-lo. Dar
mostras de alegria, de fartura, era dizer para aquele que se fora que ele seria bem recebido ao
retornar, que o seu modo vida seria preservado.

As famílias, clãs ou tribos que negligenciassem esses ritos, ao contrário, estariam dando
mostras que não eram capazes de conservar a tradição, não sendo portanto merecedoras do
retorno dos seus antepassados e da perpetuação dos seus costumes. Destas, era dito que
seriam abandonadas pelos seus antepassados, o que era considerado uma maldição.

O fato de essas cerimônias ocorrerem após as colheitas possui alguns aspectos a serem
analisados. Estes devem ser considerados, no entanto, traçando um paralelo com a festividade
que ocorre na face oposta do ano, os festivais de plantio. Mudando o nosso eixo geográfico ou
mesmo avançando no tempo, podemos comparar aqui as características de Beltane e Samhain.

Ambos os festivais têm o caráter de transição da coletividade para a individualidade, e a


perspectiva do retorno. Em Beltane, a tônica é a passagem para a vida adulta: deixa-se a
proteção da família para encarar as responsabilidades individuais, mas a conseqüência desse
ato é a formação de um novo núcleo familiar, com o casamento. Em Samhain, a tônica é a morte:
deixa-se a coletividade para adentrar sozinho os portões do grande desconhecido, mas a
conseqüência é o retorno à tribo, através da reencarnação. Por um outro lado, no Beltane, o
grão que fazia parte da planta é enterrado (sozinho) para dar origem a uma nova planta,
enquanto no Samhain o grão que veio da planta individual foi colhido (e individualizado) para
alimentar a comunidade.

Essa passagem, essa transição, no entanto, apenas pode se dar em momentos de relativo
repouso, quando as tarefas estão cumpridas. Após a semeadura, resta aguardar o momento da
colheita, bem como após a colheita, e com o advento do inverno, não se pode ainda começar a
preparar a terra para um novo plantio. Há aqui, portanto, ainda a noção do respeito ao ciclo
natural, ao tempo necessário para que as transições se processem - o verdadeiro tempo fora dos
tempos. O grão precisa de tempo para germinar, a natureza precisa de tempo para se recompor
do inverno. Da mesma forma, o jovem precisa de seu próprio tempo de irriquietude para encarar
os desafios da vida adulta, e o velho de seu tempo de sabedoria para encarar a morte.

Neste Samhain, portanto, ao realizarmos os ritos costumeiros, tenhamos em mente que o que
celebramos, antes de qualquer coisa, é a preservação de um modo de vida. Ao chamarmos à
nossa presença aqueles que nos deixaram, estamos criando um elo com o nosso passado e
desejando garantir a sobrevivência daqueles valores que nos foram legados. O espírito de
nossos pais vive em nós e, em seu devido tempo, viverá em nossos filhos e netos, participando
da construção de um tempo de maior sabedoria, maior respeito pelos ciclos naturais e maior
integração com nossa Grande Mãe Terra.