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Cultura e Aprendizagem: a Neurociência encontra a Antropologia

Article · August 2015

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0 134

1 author:

Alba Zaluar
Rio de Janeiro State University
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Desigualdade e Violência: Determinantes, simbolismos e processos sociais View project

Le projet most: transformations économiques et sociales liées au problème international des drogues View project

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ESPECIAL

CULTURA e
APRENDIZAGEM
Uma pesquisa em laboratório, dois grupos de ra-
tos geneticamente muito semelhantes: metade
deles é criada em um ambiente com obstáculos e
brinquedos; os demais, em um local pobre em es-
tímulos. Quando testados em tarefas em que é
preciso aprender algo (como o caminho para chegar
até um alimento), o primeiro grupo apresenta me-
lhor desempenho. Outra linha crescente de estudos
aponta o impacto de experiências estressantes na
infância, como violência física e psicológica, sobre
as redes neurais. O mesmo ocorre com má nutrição
e exposição a poluentes.
Quais as relações desses achados com a edu-
cação? Muitas, a começar pelos impactos que um
baixo índice econômico pode ter sobre a aprendiza-
gem escolar. Por isso, o social não deve ser descon-
siderado quando tratamos do biológico. O primeiro
texto deste especial é resultado da colaboração
entre uma neurocientista e uma antropóloga –
Marília Guimarães e Alba Zaluar – e discute as
complexas relações entre cultura e aprendizagem.
O segundo, assinado por pesquisadoras do Labora-
tório de Estereótipos, Identidade e Pertencimento
(SIBL) da Universidade de Washington e por uma
das maiores autoridades do mundo em desenvolvimento socioemocional de crianças, An-
© ISTOCKPHOTO

drew Meltzoff, aponta os efeitos dos preconceitos de gênero sobre o interesse das meninas
em cursar ciências exatas, oferecendo preciosos insights sobre a origem desses estereótipos
e sobre como a escola pode trabalhar essas percepções. (Da redação).

44 NEUROEDUCAÇÃO
NEUROEDUCAÇÃO 45
ESPECIAL

A neurociência
encontra a
antropologia
Como separar as influências genéticas da experiência
do indivíduo? O velho dilema nature x nurture
(natureza x criação) há muito intriga antropólogos e
neurobiólogos – um diálogo entre essas disciplinas é
essencial para compreender o ciclo perverso de pobreza e
subdesenvolvimento do cérebro

Marília Zaluar P. Guimarães e Alba Zaluar

e m 2015 foram publicados os resultados de uma pesqui-


sa com mais de mil crianças sobre o impacto do baixo
status socioeconômico (SSE) no cérebro. Ao analisarem
as imagens do cérebro dessas crianças, pesquisadores do Hos-
pital de Crianças Los Angeles, na Califórnia, e da Universidade
Columbia observaram que as que vinham de famílias de baixa
renda tinham a área de superfície do córtex – aquela porção
com dobras do cérebro (imagem na pág. ao lado) – 6% menor Córtex: são as camadas superiores
do que crianças de maior renda. Esses dados corroboraram um do cérebro, associadas às funções
estudo anterior que comparava crianças pobres da África com mais “sofisticadas”, como a
linguagem. Um estudo de 2015
crianças da Filadélfia; nesse caso, examinou-se o cérebro de be-
mostrou que a área de superfície
bês de 1 mês. Ou seja, desde muito cedo no crescimento do cortical é 6% menor em crianças de
bebê, talvez ainda dentro do útero, essas diferenças causadas famílias de baixa renda
pelo SSE aparecem.

46 NEUROEDUCAÇÃO
Córtex
Corpo caloso

Ponte
Cerebelo

Medula

© ISTOCKPHOTO

NEUROEDUCAÇÃO 47
Tais dados devem ser saudados
pelos que acompanharam o de-
bate sobre a suposta inferioridade
intelectual, medida em quociente
de inteligência (QI) por pesquisa-
dores em décadas anteriores, que
terminou em teorias racistas sobre
a inferioridade dos negros. Embora
ainda estejam pesquisando a for-
mação do cérebro humano, esses
pesquisadores de estudos recentes
não se referem ao contingente de
DNA diferenciado entre raças, mas
a possíveis modificações epigenéti-
cas, ou seja, que não alteram a sequ-
ência gênica, mas regulam os genes
que podem ser ativados e desativa-
dos diante de estímulos externos e
internos do organismo.
Comparando a área de superfície
do córtex entre pessoas, neurobió-
logos descobriram que tamanhos
diferentes podem estar correlacio-
nados com o desempenho cogniti- futuro. Se assim fosse, os pobres es- cada vez mais inclinados a suspeitar
vo. O mesmo estudo citado acima tariam diante de um círculo vicioso, que o ambiente tem um papel pre-
mostrou que as crianças de baixo em que crescer em uma família de ponderante nessas diferenças. Outro
SSE têm área menor do córtex e baixo SSE praticamente determina exemplo da importância de medir
apresentam pior performance em que a criança será um adulto per- a atividade neuronal é o estudo do
tarefas de linguagem, tomada de tencente a baixo SSE. A mobilidade sistema auditivo nos contrastantes
decisões e em memória e leitura. social ascendente ou a conquista de contextos socioeconômicos que o
Outro estudo da década de 1990 educação superior e profissão bem afetam diferentemente. A riqueza
nos EUA mostrou que crianças de remunerada seriam impossíveis, o acústica do ambiente interfere na
3 anos criadas por pais “profissio- que é desmentido pelos índices al- habilidade de ouvir e pode, se incre-
nais”, ou seja, com educação supe- tos de mobilidade em vários países mentada, promover a recuperação
rior, falavam em média o dobro de ocidentais e orientais. do processamento auditivo cortical.
palavras diferentes do que crianças Experimentos de neurocientistas Ter ouvido para as notas musicais,
da mesma idade de famílias cujos com animais podem trazer pistas por exemplo, não é algo dependen-
pais recebiam ajuda do Estado, ou mais matizadas sobre a dimensão do te apenas do equipamento genético
seja, eram pobres. papel do que denominam ambiente. individual, mas é capacidade adqui-
Se por um lado esse corpo de Animais isogênicos (geneticamen- rida na aprendizagem advinda do
evidências indica uma relação cau- te muito semelhantes) criados em próprio ato de tocar ou fazer música.
sal entre tais fatores e o desenvolvi- ambientes enriquecidos com obstá- É preciso, pois, cautela ao avaliar
mento do cérebro da criança, por culos, brinquedos etc. têm desem- o desempenho cognitivo diferencia-
outro sugere que essas diferenças no penho em tarefas de aprendizado do de pessoas que vivem em contex-
funcionamento do cérebro predis- muito melhor do que aqueles que tos sociais muito diversificados, os
põem os indivíduos a determinado crescem em locais sem esses estímu- quais não se reduzem à renda das
sucesso socioeconômico e conse- los. Por esses e outros dados expe- famílias das quais fazem parte. Pode
quentemente a determinado SSE no rimentais, os neurocientistas estão ser, por exemplo, que essas crianças
48 NEUROEDUCAÇÃO
ESPECIAL

dade. Há diferenças marcantes entre outro, da ação coordenada de inú-


bairros pobres que devem ser leva- meros genes que podem ser orga-
dos em conta. Nesses jogos e brin- nizados ou entrar em diferentes
cadeiras desenvolve-se a aquisição sinergias conforme o estímulo ex-
de várias linguagens e a descoberta terno e a ação individual. Embora,
de soluções práticas para problemas para os neurocientistas, a função do
concretos que sempre estimularam cérebro seja a de mediador entre o
os humanos, desde os tempos ime- organismo individual e o mundo
moriais, a usar sua massa cinzenta. externo, a dualidade entre a natu-
reza interna e a criação externa não
DIFERENÇAS TEÓRICAS pode ser desfeita, já que são facetas
Esses são exemplos de como é de uma interação persistente que as
O programa mexicano
Oportunidades dá para famílias difícil estudar o cérebro e, em par- torna indissociáveis. O importante
pobres uma ajuda em dinheiro ticular, o comportamento: como é reconhecerem que não basta es-
condicionada à presença separar as influências genéticas tudar apenas o funcionamento do
das crianças na escola e ao das causadas pela experiência do cérebro e que é preciso considerar
comparecimento em unidades de indivíduo? O velho dilema nature o contexto social por que passam
saúde. Em 2008 pesquisadores
x nurture (natureza x criação) há também os catalisadores do reco-
avaliaram o impacto de dobrar
o valor das bolsas: observaram muito intriga os antropólogos (e nhecimento e da recompensa.
© ISTOCKPHOTO

mudanças significativas nas neurobiólogos) sem que encontrem Porém, há abordagens teóricas
habilidades cognitivas e melhora uma resposta definitiva para essa divergentes entre a neurociência e
dos indicadores de saúde tensão, que sempre retorna na vida a antropologia, visto que na última
não se põe o indivíduo num ambien-
te previamente organizado do qual
NÃO BASTA ESTUDAR APENAS O recebe estímulos, mas em redes de
FUNCIONAMENTO DO CÉREBRO: É PRECISO interação social em que, como resul-
tado das trocas simbólicas e mate-
CONSIDERAR O CONTEXTO SOCIAL POR riais entre as pessoas nelas presentes,
o ambiente pode ter significados ou
ONDE PASSAM OS CATALISADORES DO
cenários diferentes. Partindo-se do
RECONHECIMENTO E DA RECOMPENSA ponto de vista comum de que o cé-
rebro (ou a mente, termo mais usa-
do por antropólogos) é o mediador
dessa interação entre o organismo
que têm vocabulário inferior sejam dos seres humanos em diversas cul- individual (ou a pessoa, expressão
mais capazes de lidar com situações turas. Antropólogos admitem a en- também mais frequente na antro-
práticas surgidas na convivência so- trada do que um deles chamou “o pologia) e o ambiente (ou com o
cial na sua vizinhança. Jogos sociais convidado inesperado”: o espírito contexto social, idem) que possibi-
e esportivos, assim como brinca- humano, o cérebro, cujos mistérios lita o tráfego bidirecional que nos
deiras infantis, que desenvolvem a não conseguiram desvendar. constitui como humanos, há claras
coordenação motora e habilidades Já na neurociência, é factu- diferenças teóricas que precisam ser
variadas, também são estímulos im- al a ideia de que o cérebro está no mais bem discutidas.
portantes para o desenvolvimento centro da interação entre a pessoa Sem dúvida, a atividade neural
do córtex cerebral. Sendo assim, é e o mundo, do qual se torna o me- depende tanto do organismo indi-
preciso ir além da renda e pesquisar diador. Por um lado, sabemos que vidual quanto do ambiente socio-
em que vizinhanças essas crianças grande parte do desenvolvimento cultural. Mas é preciso esclarecer
pobres moram e quais são os equi- do cérebro depende das experiên- como se conceitua cada um deles e
pamentos e espaços de conviviali- cias vividas pelo indivíduo e, por como se concebe a interação bidi-
NEUROEDUCAÇÃO 49
recional entre eles. No debate atual A estimulação
na neuroantropologia, ainda fazem cognitiva em
sucesso as teorias antropológicas já casa parece
associada
pouco usadas do estruturalismo, do ao número
culturalismo e do funcionalismo. Na de livros,
antropologia contemporânea, não computadores,
se faz mais comparação reduzida viagens e
a poucos traços entre o que seria a comunicação
cultura ocidental (individualista) e a parental
cultura oriental (relacional e coleti-
vista). Ao contrário, as culturas não
são sistemas rígidos ou definidos
com limites claros, mas arranjos di-
nâmicos de ordens e de conflitos, de
acordos e de tensões constitutivas,
como a tensão entre os interesses e
paixões individuais e os bens cole-
tivos. As formas de recompensa no
cérebro individual são, portanto,
múltiplas e contextuais, surgindo da
interação interpessoal e social.
Também não se põe mais o indi-

© ISTOCKPHOTO
víduo ou o seu self no centro da re-
flexão justamente porque os selves
sociais, de um mesmo indivíduo,
são múltiplos e contextualmente de-
finidos ou negociados na interação. esses fatores ambientais poderiam se comunicarão tanto verbalmen-
Essa busca insaciável pela ordem ser divididos em: pré-natais, cuida- te e tenderão a ser mais abusivos e
e organização simbólica está bem do parental, estimulação cognitiva agressivos. O exemplo do número
mais relativizada nos tempos da in- etc. O desenvolvimento pré-natal de palavras faladas por crianças de
certeza, da desagregação social, da incluiria fatores como: nutrição da 3 anos reflete bem isso: as crianças
precariedade do emprego e do pro- mãe, cuidados médicos, uso de dro- de baixo SSE, nessas condições que
cesso de globalização, que também gas de abuso, maior estresse durante não se reduzem à baixa renda, são
é cultural. A pobreza hoje está mar- a gravidez, maior chance de infec- expostas a menos palavras por não
cada por todos esses processos que ção, partos prematuros e menor ta- haver tanta comunicação entre elas
tornaram a vida na família e na vi- manho fetal (os dois últimos mais e seus cuidadores. Já a estimulação
zinhança mais desagregada, menos frequentes na população de baixo cognitiva em casa parece ser in-
estimulante e mais estressante para SSE nas condições atuais da preca- fluenciada pelo número de livros (e
pais e filhos. riedade no emprego e maior frouxi- outras fontes literárias), computado-
dão nos laços sociais). A questão do res, viagens e comunicação parental.
VIOLÊNCIA NA INFÂNCIA cuidado parental é bem complexa e No entanto, não se pode desprezar o
A neurociência pode ter um pa- difícil de ser mensurada para com- papel dos genes associados a alguns
pel crucial na definição de quais são provar hipóteses. Segundo estudos fenótipos comportamentais nem da
os contextos sociais que mais pre- já feitos, pais mais estressados, de- interação entre esses genes e o am-
judicam o desenvolvimento do cé- primidos e que trabalham muitas biente, pois experiências similares
rebro, especialmente entre os mais horas terão menor interação com podem produzir diferentes efeitos
pobres. No que se refere às capa- os filhos e, consequentemente, não dependendo da pessoa. Esses efeitos
cidades escolares de aprendizado, serão consistentes na disciplina, não possíveis adicionam mais um nível
50 NEUROEDUCAÇÃO
ESPECIAL

melhor distribuição de renda que se


CULTURAS NÃO SÃO SISTEMAS RÍGIDOS, espalha por toda a população não é
MAS ARRANJOS DINÂMICOS DE ORDENS suficiente. Será preciso atacar as di-
mensões da pobreza que mais afetam
E DE CONFLITOS, DE ACORDOS E DE as relações nas famílias e vizinhanças
com estratégia eficiente para rever-
TENSÕES CONSTITUTIVAS ter os malefícios do baixo SSE, que
sempre se manifestam em várias di-
mensões além da renda familiar. Por
de complexidade ao estudo de como nos em parte, ser revertidos. Progra- exemplo, as intervenções direciona-
o comportamento é modulado pelas mas de estimulação cognitiva além das às crianças, como videogames
experiências precoces. do horário escolar podem melhorar para melhorar funções executivas, a
Na última década, pesquisas muito o desempenho em testes de complementação do horário escolar,
apontam para os efeitos de repeti- proficiência escolar, portanto em au- assim como mudanças no currículo
das e duráveis experiências estres- mento de renda. O programa Opor- escolar para torná-lo menos esque-
santes na infância, especialmente as tunidades, no México, dá para famí- mático, rígido e desinteressante por
que envolvem a exclusão e a ameaça lias pobres uma ajuda em dinheiro não ter a ver com a vida das crianças
ou concretização de violência física, condicionada à presença das crian- e dos jovens.
que têm impacto nas redes neurais ças na escola e ao comparecimento É inegável que a pesquisa neuro-
devido ao agudo estresse que pro- em unidades de saúde para check- científica necessita de certo nível de
vocam. Tanto a má nutrição quan- -ups periódicos e complementação simplificação para ser viável e, mais
do a exposição a poluentes e drogas nutricional, entre outras medidas. ainda, quantificável. Por outro lado,
durante os períodos pré e pós-natal Em 2008 pesquisadores avaliaram há um grande corpo de informa-
têm também resultados significa- o impacto sobre as famílias se fosse ções minuciosas nas ciências sociais
tivos para o estudo da pobreza in- dobrado o valor das bolsas. O que que nos revela a extrema riqueza da
fantil. Tais estudos podem ajudar a eles observaram foram mudanças experiência humana e as sutilezas
desenhar as intervenções para esti- significativas nas habilidades cogni- de como essas experiências afetam
mular o desenvolvimento de com- tivas das crianças, como memória diversamente cada pessoa ou cada
petências cognitivas, expressivas e de curto e longo prazo, além de elas comunidade. Portanto faz-se mister
socioemocionais das crianças mais apresentarem indicadores de saúde um diálogo entre essas disciplinas
pobres. São necessárias mais pes- melhorados, como altura e índice de para que se possa compreender o
quisas sobre como mudar o funcio- massa corporal. ciclo perverso de baixo SSE e sub-
namento neuronal após a experiên- Conclui-se que confiar apenas desenvolvimento do cérebro e nele
cia adversa e o papel da epigenética nos efeitos macroeconômicos da interferir mais eficientemente. ◗
em dar forma às redes neurais. Por
outro lado, será preciso comparar
os diferentes contextos de interação AS AUTORAS
social e de intervenção: casa, vizi- Marília Zaluar P. Guimarães é neurocientista, professora do Instituto de Ciências
nhança e escola. Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Alba Zaluar é antropóloga, professora do Instituto de Estudos Sociais e Políticos
QUEBRAR O CICLO da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Portanto nem todas as notícias
são más e pessimistas. Há vários LEITURAS SUGERIDAS
exemplos de intervenções que con- Strengths and weakness of neuroscientific investigations of childhood
poverty: future directions. S. J. Lipinae e M. S. Segretin. Frontiers in Human
seguem eficientemente quebrar esse Neuroscience 9:53, 2015. Doi: 10.3389/fnhum.2015.00053
ciclo. A ideia é que os danos causa- Socioeconomic status and the brain: mechanistic insights from human
dos pelos vários fatores relacionados and animal research. D. Hackman, M. Farah e M. Meaney. Nature Reviews
ao baixo SSE podem, sim, pelo me- Neuroscience, vol. 11, págs. 651-659, 2010.

NEUROEDUCAÇÃO 51
52 NEUROEDUCAÇÃO
ESPECIAL

Sobre meninas e
ciências exatas
Estereótipos culturais podem afastar mulheres
do universo da computação. A escola pode
ajudar a desconstruir percepções que interferem
negativamente no interesse por essa área

Allison Master, Sapna Cheryan e


Andrew N. Meltzoff

p or que na maioria dos países há muito mais rapazes do que


garotas cursando ciências da computação? Muitos, superfi-
cialmente, atribuem isso a uma falta de interesse “natural”,
ignorando o peso de fatores sociais, particularmente este-
reótipos culturais sobre esse campo profissional. Essas percepções,
mesmo que não sejam precisas, podem moldar as escolhas acadê-
micas das meninas, que recebem mensagens subjetivas sobre “o
lugar a que pertencem”. Culturalmente determinados, porém, pre-
conceitos são maleáveis. Desconstruí-los pode ser uma forma de
atrair estudantes do gênero feminino para a ciência da computação,
beneficiando assim a sociedade como um todo.
Nos Estados Unidos, mulheres representam menos de 20% dos
graduados na área, diferentemente de outros campos da ciência,
© ISTOCKPHOTO

como a biologia, na qual são maioria. Podemos destacar pelo me-


nos duas razões pelas quais as disparidades de gênero na ciência da
computação são problemáticas.

NEUROEDUCAÇÃO 53
por tecnologia e com inte-
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resses considerados mas-


culinos, como videogames.
O trabalho na área é visto
por muitos como algo iso-
lado e relativamente sepa-
rado de objetivos comuns,
como ajudar a sociedade e
interagir com outros. Esses
estereótipos são bastan-
te difundidos nos Estados
O seriado The Big Bang Theory retrata os Unidos e em outras socie-
cientistas como homens, brancos e obcecados dades ocidentais. E grande
por tecnologia. Uma vizinha, loira e pouco parte dos estudantes en-
inteligente, é a principal personagem feminina dossa essas ideias – aproxi-
madamente 67% dos uni-
Primeiro: elas perdem a oportu- rais relacionadas com a identidade e versitários americanos citaram pelo
nidade de ter empregos lucrativos, os estereótipos. menos um estereótipo quando solici-
de alto prestígio e que podem render Apontamos três campos em que tados a descrever um profissional do
vários benefícios. Segundo: áreas di- os clichês culturais podem ser trans- setor. Obviamente, muitos cientistas
versificadas têm maiores chances de mitidos: mídia, pessoas da área e da computação não se encaixam nes-
produzir instrumentos que atendam ambientes. Propomos a ideia de que ses clichês. Mas acreditar nisso é sufi-
adequadamente uma ampla popu- esses preconceitos podem colaborar ciente para afetar atitudes e escolhas,
lação. Muitos acreditam que, se as com disparidades de gênero em re- mesmo que essas percepções sejam
mulheres decidem livremente não se- lação ao interesse de entrar na ciên- desconectadas da realidade (veja
guir a área, talvez nada possa ser feito cia da computação, mesmo antes da quadro ao lado).
– afinal de contas, é sua opção. Nossa faculdade, já entre estudantes do en- Estereótipos sobre essa área são
pesquisa, porém, evidencia as barrei- sino médio. Embora ideias ultrapas- percebidos, em grande parte, como
ras sociais que interferem nessa deci- sadas sejam poderosas, são também incompatíveis com qualidades valo-
são, mostrando que as escolhas não bastante maleáveis. Transformá-las rizadas em mulheres, como a femini-
são tão livres como se pode imaginar. pode ajudar a incentivar meninas a lidade e a preocupação com pessoas.
Um dos problemas são ideias ul- ingressar na área(sem dissuadir os Quando essas ideias ganham força,
trapassadas sobre a cultura da ciên- meninos). Defendemos a ideia de que a tendência é que elas, mas não os
cia da computação. Iniciamos com os rótulos funcionam como “guardi- homens, tendam a acreditar que são
dados dos Estados Unidos, onde ões”, restringindo a passagem. A boa muito diferentes das pessoas da área.
fizemos a maior parte do estudo. notícia é que algumas intervenções Além disso, a ter menor “sentimento
Embora tenhamos investigado pre- podem ajudar a ampliar a represen- de pertencimento”, a sensação de que
conceitos STEM (sigla que engloba tação cultural da ciência da computa- se encaixam na cultura da área. Quan-
ciência, tecnologia, engenharia e ção e atrair maior diversidade. to menos um aluno sente que faz parte
matemática) em países asiáticos e de uma área, menor é a probabilidade
valorizemos as perspectivas inter- LUGARES-COMUNS de insistir nela. Alterar essas ideias,
culturais, não realizamos pesquisas O que há por trás dos estereótipos porém, pode permitir que meninas e
com estudantes brasileiros. Com na área da ciência da computação? mulheres acreditem que são bem-vin-
essa limitação em mente, procura- Boa parte dos alunos do ensino mé- das na ciência da computação.
mos discutir os resultados com base dio ou universitários, quando pensa Os efeitos dos estereótipos? Entre
em alunos do ensino médio e uni- sobre um profissional desse campo, estudantes do ensino médio, as meni-
versitários americanos, consideran- imagina uma figura clichê, alguém nas tendem, em relação aos meninos,
do semelhanças e diferenças cultu- socialmente desajeitado, apaixonado a participar menos de aulas de pro-
54 NEUROEDUCAÇÃO
ESPECIAL

gramação ou a manifestar interesse mos três meios principais de expo- te e antissocial. Alunos do ensino
em carreiras na ciência da compu- sição a estereótipos: mídia, contato médio relatam que suas ideias sobre
tação. Com isso, a área perde uma com profissionais da área e sensação as características que esses profissio-
grande população feminina que não de pertencimento. nais devem ter são mais influencia-
chega sequer a estudar inicialmente o das pela mídia do que por qualquer
tema, quem dirá escolhê-lo para cur- O QUE ESTÁ NA MÍDIA outra fonte. Para investigar até que
sar a faculdade. Fechar essa lacuna Nos Estados Unidos, filmes popu- ponto a exposição aos canais de co-
de gênero demandará medidas para lares e programas de televisão, como municação interferem nos interesses,
atrair as meninas para esses campos. The Big Bang Theory e Silicon Valley, pedimos a universitárias que lessem
A maioria dos estudantes do en- costumam retratar os cientistas da um entre dois artigos científicos fal-
sino médio não frequenta aulas so- computação como homens, brancos, sos. O primeiro afirmava que cien-
bre ciência da computação e não tem socialmente inábeis e obcecados por tistas da computação se encaixavam
experiência direta na área. Assim, o tecnologia. A exemplo do persona- nos estereótipos atuais, enquanto o
que muitos conhecem sobre a área é gem Sheldon, do primeiro seriado: outro mostrava que os profissionais
baseado no senso comum. Destaca- excessivamente metódico, inteligen- da área mudaram e já não seguiam o

Como ideias preconcebidas se relacionam


Alunos alimentam preconceitos associados à cultura da ciência da computação; as
meninas, especificamente, costumam deparar com estereótipos negativos sobre suas
capacidades. Ambas as ideias indicam para elas que a informática não é seu lugar

ESTEREÓTIPOS
CULTURAIS

Sobre pessoas
socialmente isoladas e focadas em
tecnologia

Em relação ao trabalho ESTEREÓTIPO


não colaborativo, uma área que não se DE GÊNERO
preocupa em ajudar meninas têm menos
habilidade do que meninos
Valores
interesses masculinos,
“genialidade”

Participação das
meninas nas ciências
da computação
© ISTOCKPHOTO

NEUROEDUCAÇÃO 55
licenciatura na área) e os dividimos

© ISTOCKPHOTO
em dois grupos. Então, pedimos que
cada turma se dirigisse a uma sala
de aula de ciência da computação. O
primeiro ambiente havia sido deco-
rado com objetos clichês associados
à ciência, como cartazes do filme
Star Trek, livros de ficção científica e
latas de refrigerante; o segundo, com
pôsteres de natureza, revistas neu-
tras e garrafas de água. Observamos
que mulheres que entraram nesse úl-
timo ambiente demonstraram maior
interesse no campo do que aquelas
que visitaram a sala cheia de figuras
mesmo padrão. As mulheres estereotipadas. Esses elementos não
que entraram em contato com afetaram os homens. O mesmo pa-
esse último se mostraram mais drão foi observado em relação a au-
interessada no campo do que las virtuais. Por que o lugar com ob-
aquelas que leram o primeiro ou as
que não receberam nenhum artigo. GEEK OU NERD: O DICIONÁRIO
Transformar a imagem que fazemos
desse campo pode, portanto, ajudar a OXFORD DEFINE OS TERMOS COMO
aumentar o interesse delas.
SINÔNIMOS – PESSOAS QUE NÃO SABEM
PROFISSIONAIS REAIS SE COMPORTAR EM SITUAÇÕES SOCIAIS
Cientistas da computação que
personificam esses estereótipos po- E SE INTERESSAM POR COMPUTADORES
dem desencorajar as mulheres a
entrar na área. Pedimos a algumas
universitárias que conversassem bre- sobre seu grau de interesse na área. jetos clichês desestimulou mais elas
vemente em uma sala com atores ou Resultado: as que interagiram com do que eles? As mulheres tiveram
atrizes contratados por nós que afir- aqueles com comportamento clichê menor sensação de pertencimento
mavam ter licenciatura em ciência da se mostraram menos interessadas nesse ambiente em relação ao outro.
computação. As conversas giraram em ciência da computação do que Diferentemente, os homens, na sala
em torno de informações básicas (por as que conversaram com os outros com conteúdo associado à ciência,
exemplo, idade, profissão, hobbies). participantes, independentemente demonstraram igual ou maior sen-
Metade dos atores e atrizes in- do sexo. Os efeitos permaneceram sação de pertencimento.
terpretou os cientistas da maneira por duas semanas. Logo o que mais Alunos do ensino médio, sob
mais estereotipada possível, tanto na as influenciou não foi o gênero, e sim o mesmo contexto, também mos-
aparência como nas ideias: usavam o grau de adesão aos estereótipos. tram efeitos semelhantes em rela-
óculos e camisetas com frases como ção ao interesse. As meninas eram
“Codifico, logo existo” e comenta- SENSAÇÃO DE PERTENCIAMENTO mais propensas a escolher uma sala
vam animadamente jogos de vide- Lugares que retratam a área como de aula sem estereótipos (68%), en-
ogame. A outra parte não: vestiam mais compatível com características quanto os meninos não mostraram
jeans, roupas básicas e diziam gostar relacionadas aos homens tendem preferência (48%). Assim como suas
de sair com os amigos. Em seguida, a atrair menos mulheres. Selecio- colegas de faculdade, as garotas sen-
as participantes foram questionadas namos outros universitários (sem tiram que se enquadravam menos do
56 NEUROEDUCAÇÃO
ESPECIAL

EM UM ESTUDO, ALUNAS REVELARAM os clichês para se sentir pertencentes.


A mensagem principal de nossa pes-
MENOR INTERESSE POR TECNOLOGIA DA quisa é: variabilidade é fundamental.
Em vez de retratar a ciência da
INFORMAÇÃO DEPOIS DE VISITAR UMA computação como uma área
SALA DECORADA COM CLICHÊS NERDS, estreita, facilmente estere-
otipada – e que, portanto,
COMO CARTAZES DO FILME STAR TREK pode levar muitos estu-
dantes a acreditar que não
E LIVROS DE FICÇÃO CIENTÍFICA se enquadram no campo,
o que pode afastá-los –,
propomos alterar a for-
que os rapazes. Elas demonstraram nicação. Indicamos ma como a cultura des-
© ISTOCKPHOTO

também maior tendência a serem também diversificar se setor é representada


dissuadidas de um ambiente clichê aqueles que representam esses para os jovens. Ampliar a
(mas não de um comum) de infor- campos. Não é preciso que as imagem mental deles sobre
mática. Assim, muitas acabam op- pessoas deixem de ser nerds. o que significa ser um cientista
tando por outros campos, em parte, Criar culturas inclusivas pode da computação pode ajudar não
devido à inibição que pode ser cau- ser uma abordagem mais bem-suce- só a atrair mais meninas como
sada por estereótipos, que, não raro, dida. Assim, os alunos que pensam também esclarecer detalhes sobre
retratam a ciência da computação de em trabalhar nessas áreas não têm a área e identificar quais estudantes
uma maneira que não corresponde de acreditar que é preciso incorporar têm potencial para seguir carreira. ◗
ao modo como elas se enxergam.
Apresentar a elas imagens que não OS AUTORES
sejam clichês pode ajudá-las a diluir
a sensação de intimidação e, assim, Allison Master e Sapna Cheryan são doutoras em psicologia do desenvolvimen-
aumentar a curiosidade sobre a área, to e em psicologia social, respectivamente. São pesquisadoras do Laboratório de
Estereótipos, Identidade e Pertencimento (SIBL) do Departamento de Psicologia
sem reduzir o interesse dos meninos. da Universidade de Washington.
Muitos alunos são atraídos para
Andrew Meltzoff é codiretor do Instituto para Aprendizagem & Ciências do Cére-
esses campos justamente por causa bro da Universidade de Washington e professor do Departamento de Psicologia
do estereótipo. Nos estudos sobre o da instituição.
ambiente, observamos que algumas
mulheres (em geral, menos de 25%) LEITURAS SUGERIDAS
optaram por salas clichês, e alguns Cultural stereotypes as gatekeepers: increasing girls’ interest in computer
science and engineering by diversifying stereotypes. S. Cheryan, A. Master
homens preferiram lugares neutros.
e A. Meltzoff. Frontiers in Psychology, 6, 49, 2015.
Em vez de tentar reformular os este-
Cognitive consistency and math-gender stereotypes in Singaporean
reótipos atuais, uma estratégia mais children. D. Cvencek, A. Meltzoff e M. Kapur. Journal of Experimental Child
eficaz pode ser diversificar a imagem Psychology, 117, 73-91, 2014.
desses campos para que os alunos The stereotypical computer scientist: gendered media representations
não precisem acreditar que devem se as a barrier to inclusion for women. S. Cheryan, Plaut, V. C., Handron, C. e
ajustar a um molde específico para Hudson, L. Sex Roles, 69, 58-71, 2013.
se sentir à vontade. Classrooms matter: the design of virtual classrooms influences gender
disparities in computer science classes. S. Cheryan, A. Meltzoff e S. Kim.
Computers & Education, 57, 1825-1835, 2011.
DIVERSIFICAR E INCLUIR
Math–gender stereotypes in elementary school children. D. Cvencek, A.
Propomos alterar a imagem este- Meltzoff, A. Greenwald. Child Development, 82, 766-779, 2011.
reotipada dos alunos com a ajuda de Ambient belonging: how stereotypical cues impact gender participation
intervenções relativamente simples in computer science. S. Cheryan, V. Plaut, P. Davies e C. Steele. Journal of
no ambiente e nos meios de comu- Personality and Social Psychology, 97, 1045-1060, 2009.

NEUROEDUCAÇÃO 57

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