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44 SALVADOR DOMINGO

2/5/2010

DOMINGO, 2 DE MAIO DE 2010 #109


REVISTA SEMANAL DO GRUPO A TARDE

BRILHO ETERNO
Fratelli Vita, os cristais baianos que ficaram famosos em todo o País
SALVADOR DOMINGO
2/5/2010 45
2 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 3
2 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 3
ÍNDICE 2.5.2010 CARTUM GENTIL
ABRE ASPAS José Saja fala sobre os MODA Conectados, fashionistas dão dicas CAPA A história dos cristais Fratelli Vita, gentil@grupoatarde.com.br
grandes desafios da filosofia no século 21 de criação de looks para o próximo inverno que teve a miss Marta Rocha como estrela

12 22

THIAGO TEIXEIRA / AG. A TARDE


18 DIVULGAÇÃO REPRODUÇÃO / MARCO AURÉLIO MARTINS

09 BIO
Vida e arte se misturam
32 MÚSICA
O canto de Aloísio
36 GASTRÔ
Grandes chefs ensinam
40 ORELHA
A literatura do cearense
na trajetória da Menezes dribla as como preparar uma Pedro Salgueiro, que
arquiteta baiana leis do mainstream e ceia muito especial desafia o formato
Rachel Mascarenhas ganha o mundo para o Dia das Mães tradicional do conto

» MAKING OF, VÍDEOS E FOTOS EM REVISTAMUITO.ATARDE.COM.BR.


SUGESTÕES, CRÍTICAS: REVISTAMUITO@GRUPOATARDE.COM.BR

P
SIGA A MUITO EM: TWITER.COM/REVISTAMUITO.

ara toda uma geração de baianos, Fratelli Vita sempre foi sinônimo de
refrigerante. Mas o nome ganhou fama internacional por conta da
produção de cristais, que teve como garota-propaganda a miss Brasil
FUNDADO EM 15/10/1912 FUNDADOR ERNESTO SIMÕES FILHO PRESIDENTE REGINA SIMÕES DE MELLO LEITÃO SUPERINTENDENTE RENATO
Peça da Marta Rocha. O repórter Ronaldo Jacobina conta esta história, que
SIMÕES DIRETOR-GERAL EDIVALDO M. BOAVENTURA EDITOR-CHEFE FLORISVALDO MATTOS EDITORA-COORDENADORA NADJA VLADI EDITORA coleção
KÁTIA BORGES EDITORES DE ARTE PIERRE THEMOTHEO E IANSÃ NEGRÃO EDITOR DE FOTOGRAFIA CARLOS CASAES DESIGNER ANA CLÉLIA
Fratelli Vita
começou com o imigrante italiano Giuseppe Vita nos anos 1920, e os
REBOUÇAS. TRATAMENTO DE IMAGEM ROBERTO ABREU. FALE COM A REDAÇÃO WWW.ATARDE.COM.BR/MUITO E-MAIL: REVISTAMUI-
TO@GRUPOATARDE.COM.BR, 71 3340-8800 (CENTRAL) / 71 3340-8990 (ALÔ REDAÇÃO) CLASSIFICADOS POPULARES 71 3533-0855 / feita planos do herdeiro da marca, Jario Vita, que pretende colocar a fábrica
ATARDE@ATARDE.COM.BR / WWW.ATARDE.COM.BR VENDAS DE ASSINATURAS BAHIA E SERGIPE (71) 3533-0850 REPRESENTANTE PARA TODO O
para Sarah
PAÍS PEREIRA DE SOUZA E CIA. LTDA. / RIO DE JANEIRO 21 2544 3070 / SÃO PAULO 11 3259 6111 PROPRIEDADE DA EMPRESA EDITORA A TARDE de cristais novamente em funcionamento. Antecipando o Dia das Mães, um cardápio
/ SEDE: RUA PROF. MILTON CAYRES DE BRITO, Nº 204 - CAMINHO DAS ÁRVORES, CEP 41822-900 - SALVADOR - BA. REDAÇÃO: (71) 3340-8800, Kubitschek.
PABX: (71) 3340-8500. FAX: (71) 3340-8712/8713. PUBLICIDADE: (71) 3340-8757/8731. FAX 3340-8710. CIRCULAÇÃO: (71) 3340-8612. FAX
3340-8732. REPRESENTANTES COMERCIAIS / SÃO PAULO (SP) RUA ARAÚJO, 70, 7º ANDAR, CEP 01200-020. (11) 3259-6111/6532. FAX (11)
Foto de exclusivo feito por chefs para um almoço ideal, da entrada ao cafezinho. Na entre-
3237-2079 SERGIPE E ALAGOAS GABINETE DE MÍDIA & COMUNICAÇÃO LTDA. RUA ÁLVARO BRITO, 455, SALA 35, BAIRRO 13 DE JULHO, CEP Marco vista, o filósofo José Saja fala com otimismo sobre uma forma nova de ver as coisas,
49.020-400 - ARACAJU - SE - TELEFONE: (79)3246-4139 / (79)9978-8962 BRASÍLIA(DF) SCS, QD. 1, ED. CENTRAL, SALAS 1001 E 1008 CEP
Aurélio
70304-900. (61) 3226-0543/1343 A TARDE É ASSOCIADA À SOCIEDADE INTERAMERICANA DE IMPRENSA (SIP), AO INSTITUTO VERIFICADOR DE
CIRCULAÇÃO (IVC) E É MEMBRO FUNDADOR DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DOS JORNAIS (ANJ) IMPRESSÃO QUEBECOR WORLD RECIFE LTDA Martins com fé e prazer. Boa leitura. Nadja Vladi, editora-coordenadora
ÍNDICE 2.5.2010 CARTUM GENTIL
ABRE ASPAS José Saja fala sobre os MODA Conectados, fashionistas dão dicas CAPA A história dos cristais Fratelli Vita, gentil@grupoatarde.com.br
grandes desafios da filosofia no século 21 de criação de looks para o próximo inverno que teve a miss Marta Rocha como estrela

12 22

THIAGO TEIXEIRA / AG. A TARDE


18 DIVULGAÇÃO REPRODUÇÃO / MARCO AURÉLIO MARTINS

09 BIO
Vida e arte se misturam
32 MÚSICA
O canto de Aloísio
36 GASTRÔ
Grandes chefs ensinam
40 ORELHA
A literatura do cearense
na trajetória da Menezes dribla as como preparar uma Pedro Salgueiro, que
arquiteta baiana leis do mainstream e ceia muito especial desafia o formato
Rachel Mascarenhas ganha o mundo para o Dia das Mães tradicional do conto

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P
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ara toda uma geração de baianos, Fratelli Vita sempre foi sinônimo de
refrigerante. Mas o nome ganhou fama internacional por conta da
produção de cristais, que teve como garota-propaganda a miss Brasil
FUNDADO EM 15/10/1912 FUNDADOR ERNESTO SIMÕES FILHO PRESIDENTE REGINA SIMÕES DE MELLO LEITÃO SUPERINTENDENTE RENATO
Peça da Marta Rocha. O repórter Ronaldo Jacobina conta esta história, que
SIMÕES DIRETOR-GERAL EDIVALDO M. BOAVENTURA EDITOR-CHEFE FLORISVALDO MATTOS EDITORA-COORDENADORA NADJA VLADI EDITORA coleção
KÁTIA BORGES EDITORES DE ARTE PIERRE THEMOTHEO E IANSÃ NEGRÃO EDITOR DE FOTOGRAFIA CARLOS CASAES DESIGNER ANA CLÉLIA
Fratelli Vita
começou com o imigrante italiano Giuseppe Vita nos anos 1920, e os
REBOUÇAS. TRATAMENTO DE IMAGEM ROBERTO ABREU. FALE COM A REDAÇÃO WWW.ATARDE.COM.BR/MUITO E-MAIL: REVISTAMUI-
TO@GRUPOATARDE.COM.BR, 71 3340-8800 (CENTRAL) / 71 3340-8990 (ALÔ REDAÇÃO) CLASSIFICADOS POPULARES 71 3533-0855 / feita planos do herdeiro da marca, Jario Vita, que pretende colocar a fábrica
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para Sarah
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/ SEDE: RUA PROF. MILTON CAYRES DE BRITO, Nº 204 - CAMINHO DAS ÁRVORES, CEP 41822-900 - SALVADOR - BA. REDAÇÃO: (71) 3340-8800, Kubitschek.
PABX: (71) 3340-8500. FAX: (71) 3340-8712/8713. PUBLICIDADE: (71) 3340-8757/8731. FAX 3340-8710. CIRCULAÇÃO: (71) 3340-8612. FAX
3340-8732. REPRESENTANTES COMERCIAIS / SÃO PAULO (SP) RUA ARAÚJO, 70, 7º ANDAR, CEP 01200-020. (11) 3259-6111/6532. FAX (11)
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3237-2079 SERGIPE E ALAGOAS GABINETE DE MÍDIA & COMUNICAÇÃO LTDA. RUA ÁLVARO BRITO, 455, SALA 35, BAIRRO 13 DE JULHO, CEP Marco vista, o filósofo José Saja fala com otimismo sobre uma forma nova de ver as coisas,
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Aurélio
70304-900. (61) 3226-0543/1343 A TARDE É ASSOCIADA À SOCIEDADE INTERAMERICANA DE IMPRENSA (SIP), AO INSTITUTO VERIFICADOR DE
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MUITO MAIS NO PORTAL A TARDE ON LINE


REVISTAMUITO.ATARDE.COM.BR

VINICIOS LIMA / DIVULGAÇÃO

MARCO AURÉLIO MARTINS / AG. A TARDE


ALOÍSIO MENEZES Confira vídeos do GASTRÔ Confira as receitas da ceia
cantor, dividindo o palco com a paulistana especial do Dia das Mães, publicadas nesta
Fabiana Cozza e com outros artistas edição, com dicas de grandes chefs

COMENTÁRIOS
Mande suas sugestões e comentários para revistamuito@grupoatarde.com.br «
THIAGO TEIXEIRA / AG. A TARDE

_Cid Teixeira 1 Parabenizo a


equipe da revista Muito pela excelente
entrevista com o mestre Cid Teixeira. A
cada resposta, era incontrolável o desejo
de fazer comentários entusiasmados. E é
com muito orgulho que digo que fui e, de
certa forma, sempre serei aluno do mais
profundo conhecedor da história da
Bahia. O professor Cid, nas suas aulas,
conseguia nos transportar ao tempo do
qual ele falava, tamanha a sua
“intimidade” com os fatos e personagens.
Elder Fontes Perez

O historiador Cid Teixeira na Muito


_Cid Teixeira 2 Excelente. Este é
o predicativo justo e sincero para o
trabalho de Ronaldo Jacobina na _Andréa Elia Gostei da matéria
entrevista com Cid Teixeira. Ler as com a atriz baiana Andréa Elia, publicada
colocações do mestre foi, sem dúvida, na revista Muito (edição do dia 11 de
uma forma de saciar nossa sede de abril, texto de Tatiana Mendonça). Para
ensinamentos. Cid é o grande mim, Andréa Elia é um exemplo marcante
disseminador de cultura – um verdadeiro do extraordinário teatro baiano, no qual
poço de inteligência – da nossa velha e pontuam grandes nomes, além de ser
querida Salvador. Climério Andrade realmente bonita. Dalton Figueiredo
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Fabiana Cozza e com outros artistas edição, com dicas de grandes chefs

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_Cid Teixeira 1 Parabenizo a


equipe da revista Muito pela excelente
entrevista com o mestre Cid Teixeira. A
cada resposta, era incontrolável o desejo
de fazer comentários entusiasmados. E é
com muito orgulho que digo que fui e, de
certa forma, sempre serei aluno do mais
profundo conhecedor da história da
Bahia. O professor Cid, nas suas aulas,
conseguia nos transportar ao tempo do
qual ele falava, tamanha a sua
“intimidade” com os fatos e personagens.
Elder Fontes Perez

O historiador Cid Teixeira na Muito


_Cid Teixeira 2 Excelente. Este é
o predicativo justo e sincero para o
trabalho de Ronaldo Jacobina na _Andréa Elia Gostei da matéria
entrevista com Cid Teixeira. Ler as com a atriz baiana Andréa Elia, publicada
colocações do mestre foi, sem dúvida, na revista Muito (edição do dia 11 de
uma forma de saciar nossa sede de abril, texto de Tatiana Mendonça). Para
ensinamentos. Cid é o grande mim, Andréa Elia é um exemplo marcante
disseminador de cultura – um verdadeiro do extraordinário teatro baiano, no qual
poço de inteligência – da nossa velha e pontuam grandes nomes, além de ser
querida Salvador. Climério Andrade realmente bonita. Dalton Figueiredo
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Pacto com
THIAGO TEIXEIRA / AG. A TARDE

MUITO INDICA ARTES VISUAIS BIO RACHEL MASCARENHAS

Luz por entre opostos o tempo


Um dos caminhos para apreciar a mostra de Christian Cravo, no
MAM, é o da oposição. Ela está em Testemunho do Silêncio, ins- O primeiro a chegar à porta da casa de Ra-
talação que mistura slides de fotos do Haiti pós-terremoto com chel Mascarenhas é Boris. O cachorro as-
sons de rua gravados no país. Entre os prédios e as pessoas, cria-se susta pelo tamanho, mas logo se deita na
um jogo entre permanência e celeridade, o poderoso e o provi- sala da artista, também uma loja do artista
sório, entre a ameaça de tragédia e a resistência, insistência da plástico Yuri Sarmento. Atrás, fica um ate-
vida. Cravo evidencia o sentimento de precariedade de um país no liê. Nos andares de cima e de baixo, Rachel
qual reside uma crítica perplexa. Já as fotos de Nos Jardins do Éden NOS JARDINS DO ÉDEN
Museu de Arte
propriamente “mora”. Juntar momentos e
são epifânicas. Sua intenção parece ser vencer a separação entre Moderna (Avenida espaços diferentes diz sobre sua formação
sobrenatural e humano, entre preto e branco. As fotos flagram mo- Contorno). Terça a
de arquiteta. Mas também é um modo, ela
domingo, 13h às 19h.
vimentos que levam ao encontro entre o terreno e o superior, e Sábados, 13h às 21h. conta, de “trazer a arte para a vida”. O pri-
recriam a força desses momentos. DIEGO DAMASCENO « Até 16/5. Grátis meiro passo nessa direção foi de dança: fez
balé até os 18 anos, antes de entrar na uni-
versidade. Pensou em trabalhar com res-
tauração (não à toa, ela mora no Carmo).
Ao sair, procurou nas oficinas do Museu de
Arte Moderna da Bahia realizar a vontade
de estudar arte. “Queria trabalhar com o
antigo incorporando coisas novas”. Anti-
gos não são só edifícios. Viaja também na
história, dialogando com artistas como
Klimt, Malévitch e Lygia Clark. As relações
corpo-espaço, porém, é que são seu maior
interesse. Rachel faz gravura, pintura, per-
formance e vídeo. Ideias lhe chegam sem
avisar, sozinha ou quando trabalha com a
fotógrafa Ana Paula Pessoa. Em 2008, am-
bas foram selecionadas pelo 15º Salão da

» LEIA MAIS SOBRE RACHEL MASCARENHAS EM


Bahia com o trabalho Trajetos... trajetó-
rias, que lhes rendeu uma bolsa na Funda-

WWW.REVISTAMUITO.ATARDE.COM.BR
ção Armando Álvares Penteado (Faap),
São Paulo. Trocando de cidade, elas cap-
tam sons e imagens de trajetos que, antes
de formar a obra, vão para um blog. A for-
mafinalunirácorpos,tempo,espaçoecria-
ção: “Será um calendário multimídia”.

presentes contemporâneos Texto DIEGO DAMASCENO ddamasceno@grupoatarde.com.br Foto THIAGO TEIXEIRA thiagoteixeira@grupoatarde.com.br

Rua Rio São Pedro – Graça


71 3245-6228 | w w w. p a p e l e f o r m a . c o m . b r
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MUITO INDICA ARTES VISUAIS BIO RACHEL MASCARENHAS

Luz por entre opostos o tempo


Um dos caminhos para apreciar a mostra de Christian Cravo, no
MAM, é o da oposição. Ela está em Testemunho do Silêncio, ins- O primeiro a chegar à porta da casa de Ra-
talação que mistura slides de fotos do Haiti pós-terremoto com chel Mascarenhas é Boris. O cachorro as-
sons de rua gravados no país. Entre os prédios e as pessoas, cria-se susta pelo tamanho, mas logo se deita na
um jogo entre permanência e celeridade, o poderoso e o provi- sala da artista, também uma loja do artista
sório, entre a ameaça de tragédia e a resistência, insistência da plástico Yuri Sarmento. Atrás, fica um ate-
vida. Cravo evidencia o sentimento de precariedade de um país no liê. Nos andares de cima e de baixo, Rachel
qual reside uma crítica perplexa. Já as fotos de Nos Jardins do Éden NOS JARDINS DO ÉDEN
Museu de Arte
propriamente “mora”. Juntar momentos e
são epifânicas. Sua intenção parece ser vencer a separação entre Moderna (Avenida espaços diferentes diz sobre sua formação
sobrenatural e humano, entre preto e branco. As fotos flagram mo- Contorno). Terça a
de arquiteta. Mas também é um modo, ela
domingo, 13h às 19h.
vimentos que levam ao encontro entre o terreno e o superior, e Sábados, 13h às 21h. conta, de “trazer a arte para a vida”. O pri-
recriam a força desses momentos. DIEGO DAMASCENO « Até 16/5. Grátis meiro passo nessa direção foi de dança: fez
balé até os 18 anos, antes de entrar na uni-
versidade. Pensou em trabalhar com res-
tauração (não à toa, ela mora no Carmo).
Ao sair, procurou nas oficinas do Museu de
Arte Moderna da Bahia realizar a vontade
de estudar arte. “Queria trabalhar com o
antigo incorporando coisas novas”. Anti-
gos não são só edifícios. Viaja também na
história, dialogando com artistas como
Klimt, Malévitch e Lygia Clark. As relações
corpo-espaço, porém, é que são seu maior
interesse. Rachel faz gravura, pintura, per-
formance e vídeo. Ideias lhe chegam sem
avisar, sozinha ou quando trabalha com a
fotógrafa Ana Paula Pessoa. Em 2008, am-
bas foram selecionadas pelo 15º Salão da

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Bahia com o trabalho Trajetos... trajetó-
rias, que lhes rendeu uma bolsa na Funda-

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São Paulo. Trocando de cidade, elas cap-
tam sons e imagens de trajetos que, antes
de formar a obra, vão para um blog. A for-
mafinalunirácorpos,tempo,espaçoecria-
ção: “Será um calendário multimídia”.

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0800 41 3011 Visite nossa loja virtual www.boticario.com.br
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Mais de 2.800 lojas esperando por você


ATALHO KIBERIA

Kibes da vovó para todos


Há quase um século, na década de 20 do século 20, uma imigrante síria chamada Maria
chegava ao Brasil. Na bagagem, entre peças de roupa e lembranças da terra natal, estava
uma receita familiar de kibe. “Ela sempre preparava para o pessoal de casa e as visitas”,
conta o neto de Maria, o escritor e músico Ricardo Cury. A fama do kibe se espalhou – e as
encomendas começaram a chegar. “Das cinco filhas de minha avó, minha mãe foi a única
que aprendeu a receita. Aí, nos anos 1990, ela começou a preparar o kibe para ganhar
dinheiro, fornecendo para diversos bares e restaurantes”. Agora, Ricardo e sua irmã, Ju-
liana,abriramumlocalexclusivoparaosapreciadoresdopetisco.“Minhamãeestásempre KIBERIA: Rua Barão de Itapuã, 145, Barra.
por aqui, supervisionando, para garantir a qualidade e a fidelidade à receita original”, Segunda a sábado, das 11 às 18h30.
DESTAQUE: o twitter da Kiberia, com
garante. Tem o kibe tradicional (que já é meio picante), o de soja, com mussarela, queijo pequenas histórias tão saborosas quanto
cremoso e o kibe apimentado, além dos doces mamul e beleua, de sobremesa. « seus kibes: twitter.com/kiberia Do seu coração para a sua mãe.
No dia 9 de maio, dê Floratta Coleção Tesouros.
Texto CHICO CASTRO JR. ccastrojr@grupoatarde.com.br Fotos THIAGO TEIXEIRA thiagoteixeira@grupoatarde.com.br
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Há quase um século, na década de 20 do século 20, uma imigrante síria chamada Maria
chegava ao Brasil. Na bagagem, entre peças de roupa e lembranças da terra natal, estava
uma receita familiar de kibe. “Ela sempre preparava para o pessoal de casa e as visitas”,
conta o neto de Maria, o escritor e músico Ricardo Cury. A fama do kibe se espalhou – e as
encomendas começaram a chegar. “Das cinco filhas de minha avó, minha mãe foi a única
que aprendeu a receita. Aí, nos anos 1990, ela começou a preparar o kibe para ganhar
dinheiro, fornecendo para diversos bares e restaurantes”. Agora, Ricardo e sua irmã, Ju-
liana,abriramumlocalexclusivoparaosapreciadoresdopetisco.“Minhamãeestásempre KIBERIA: Rua Barão de Itapuã, 145, Barra.
por aqui, supervisionando, para garantir a qualidade e a fidelidade à receita original”, Segunda a sábado, das 11 às 18h30.
DESTAQUE: o twitter da Kiberia, com
garante. Tem o kibe tradicional (que já é meio picante), o de soja, com mussarela, queijo pequenas histórias tão saborosas quanto
cremoso e o kibe apimentado, além dos doces mamul e beleua, de sobremesa. « seus kibes: twitter.com/kiberia Do seu coração para a sua mãe.
No dia 9 de maio, dê Floratta Coleção Tesouros.
Texto CHICO CASTRO JR. ccastrojr@grupoatarde.com.br Fotos THIAGO TEIXEIRA thiagoteixeira@grupoatarde.com.br
12 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 13

ABRE ASPAS JOSÉ SAJA


FILÓSOFO

«A finalidade
do homem
é a luta»
Se o tempo é de crise, esta não acua o filósofo José Saja. Ao contrário,
o estimula. “Uma velha ordem agoniza, e uma nova parece não ser
capaz de nascer“. Diante da constatação, ele propõe revoluções: na
comunicação humana, na relação com a natureza e com a arte, nas
cidades, nas escolas. “Patologicamente otimista”, o professor da
Universidade Federal da Bahia não vê nos problemas do País um
obstáculo à esperança. Saja também é coordenador do Memorial
Milton Santos. Além do geógrafo baiano, sua proposta de mudança
apoia-se em Albert Camus, Fernanda Montenegro, Sartre e Glauber
Rocha. E ainda recorre aos versos do poeta Thiago de Mello: “mes-
mo fazendo escuro / eu canto / porque o amanhã há de chegar“.

Texto DIEGO DAMASCENO ddamasceno@grupoatarde.com.br


Fotos THIAGO TEIXEIRA thiagoteixeira@grupoatarde.com.br
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ABRE ASPAS JOSÉ SAJA


FILÓSOFO

«A finalidade
do homem
é a luta»
Se o tempo é de crise, esta não acua o filósofo José Saja. Ao contrário,
o estimula. “Uma velha ordem agoniza, e uma nova parece não ser
capaz de nascer“. Diante da constatação, ele propõe revoluções: na
comunicação humana, na relação com a natureza e com a arte, nas
cidades, nas escolas. “Patologicamente otimista”, o professor da
Universidade Federal da Bahia não vê nos problemas do País um
obstáculo à esperança. Saja também é coordenador do Memorial
Milton Santos. Além do geógrafo baiano, sua proposta de mudança
apoia-se em Albert Camus, Fernanda Montenegro, Sartre e Glauber
Rocha. E ainda recorre aos versos do poeta Thiago de Mello: “mes-
mo fazendo escuro / eu canto / porque o amanhã há de chegar“.

Texto DIEGO DAMASCENO ddamasceno@grupoatarde.com.br


Fotos THIAGO TEIXEIRA thiagoteixeira@grupoatarde.com.br
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Qual o desafio filosófico do século 21? A filosofia voltou às escolas em 2008. além do Capital, (o filósofo húngaro que ninguém me acompanhe por- to, que questiona todo modelo de O que a sociedade perde hoje sem a crí-
Nesses últimos séculos, atingimos o Sem ela, o que os alunos perdem? István) Mészáros diz que a gente não que eu não sou novela. Proponho pensamento ocidental. Acredito que tica de arte?
esplendor da técnica. Mas, em ter- Vou aceitar essa provocação com tem que reformar, tem que mudar que seja um espaço para que a gente seja exatamente por isso. Não esta- Ah, a sociedade perde a sua alma. Eu
mos de comunicação, o homem ja- muito carinho. A filosofia é o exercí- esse modelo. E o modelo muda na possa agir em concerto. Acho que o mos em uma época de cortesia. E o vou lhe citar uma grande amiga mi-
mais atingiu um patamar tão baixo. cio da possibilidade de ser livre. É medida em que a cidade se transfor- momento é esse, que a gente possa pensamento de Milton Santos não é nha, falarei o nome dela em pé (le-
A filosofia vem para ajudar a com- “fazer” pessoas que possam anali- ma em uma grande escola. O que sentar à mesa de forma civilizada. O de cortesia. O questionamento seria vanta-se). Fernanda Montenegro
preender que só essa revolução tec- sar e criticar isso que está aí. Eu creio quer dizer a escola? A escola é o lu- lugar onde a gente tenha o objetivo o de que é importante que a gente disse: “Se você me mostrar o que es-
nológica não nos apresenta as saí- que os alunos têm o direito de poder gar de o homem exercitar a sua hu- de fazer este mundo melhor. É um repense o homem. Esse cara abre o tá acontecendo nos palcos de uma
das. Que também se precisa de uma ter clareza na mente, as luzes da in- manidade, a sede de desestranha- exercício que proponho. livro (Por uma nova geografia: da crí- cidade, eu lhe digo que cidade é es-
revolução filosófica. Uma revolução teligência, para que a gente possa mento. Pois a sala é o lugar da pro- tica da geografia a uma geografia crí- sa”. Eu tive a oportunidade, recen-
das formas de ver as coisas. A filoso- descobrir o sentido da vida. (O filó- fecia, da clarividência. Se o professor Por que um homem como Milton Santos tica ) dizendo “o destino do homem temente, de presenciar um recital de
fia, e sobretudo a arte, pode contri- sofo e escritor francês Albert) Camus não consegue emocionar o aluno, se não tem a popularidade de um Gilberto é a liberdade”. Com esta frase, eu Yumara Rodrigues. Rapaz! A gente
buir muito na criação de um novo ho- diz que só há uma pergunta filoso- não consegue fazer com que o aluno Freyre ou de um Darcy Ribeiro? respondo. É um pensamento profé- precisa daquilo para viver. Se você ti-
mem. Sou patologicamente otimis- ficamente séria: “Será que a vida va- sinta pulsações de liberdade, não é Eu acredito que o pensamento de tico, profecia não como aquele que ra aquilo, tira a noção de cidadania,
ta. A filosofia pode nos ensinar a le realmente a pena ser vivida?”. A professor, é impostor. homens como Milton Santos é pro- adivinha, mas como aquele que a noção de cidade. Daqui a pouco
aprender a ver o mundo, a construir filosofia é perguntar isso. E a sala de fundo, questionador e de alto teor compreende o presente e pode in- vou chorar aqui. Cidades deveriam
uma nova gramática, novas pala- aula não é uma cela de aula. A sala Criou-se uma ideia de que é imprescindí- exclusivo, no sentido de alto impac- ventar o futuro. ser construídas em torno de teatros,
vras para novos tempos. Acho que de aula é o lugar mais livre que a hu- vel passar pela universidade.
chegará o tempo em que a filosofia manidade conseguiu produzir. Mas, Isso não é assim, não é? Esses mo-
será o pão cotidiano. A gente vai ter para que ela seja uma sala, é neces- delos, nós temos que superar. É dis-
de volta a pólis, entendida como lu- sário o exercício do cidadão. Se não so que fala Mészáros. São essas bo-
gar de todos. Creio nisso. Creio que a for assim, é cela. E deve ser denun- bagens, esses penduricalhos de que
filosofia e a arte podem criar isso, es- ciada como tal. nós temos que nos livrar. Tem que ti-
se espaço de discussão. rar essas amarras, esse determinis-
Como vê a expansão da Ufba? mo de que você fala. Claro que a pos-
Com tantos livros de autoajuda, que se Devíamos transformar a cidade toda sibilidade de fazer doutorado deve
alimentam da filosofia, há um risco de em uma grande escola. Tem que ex- estar aberta a todos. Mas isso não
vê-la vulgarizada? pandir mesmo. Agora, com a maior significa de fato que todos tenham
“Eles passarão, eu passarinho”, pa- qualidade. Para mim, a tragédia da de fazer.
ra citar Mário Quintana. Acredito sala de aula é botar 50, 70 pessoas.
que faz parte da nossa época, é um Eu não consigo. Acho que a sala de A que vem o Memorial Milton Santos?
sofrimento humano. Isso mostra aula é intimidade. No livro Para Qual a proposta?
que – fico até comovido em falar – Eu vim com esse sonho de trazer pa-
todo mundo sofre, e nós precisamos ra cá a discussão do modelo civiliza-
aprender a abrir mão desse sofri- tório. Para mim, é importante discu-
mento. É um sofrimento civilizatório
nesse sentido. Eu vejo essas coisas
«Camus diz que só tir o número de carros na rua, o des-
tino da água, do lixo. Nós estamos
como um pedido de socorro mesmo, há uma pergunta vivendo em uma época na qual uma
demonstra uma fragilidade que nós
temos, uma necessidade de compai-
filosoficamente velha ordem agoniza, e uma nova
ordem parece não ser capaz de nas-
xão, compartilhamento, solidão. séria: ‘A vida vale a cer. Acredito que o memorial vai ser
Nós não nascemos para ser sós. O
homem, antes de ser racional, é um
pena?’. A filosofia é um centro de doutrinamento, de fa-
zer a cabeça das pessoas. Não tenho
ser relacional. perguntar isso» um mundo na cabeça, eu não quero
14 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 15

Qual o desafio filosófico do século 21? A filosofia voltou às escolas em 2008. além do Capital, (o filósofo húngaro que ninguém me acompanhe por- to, que questiona todo modelo de O que a sociedade perde hoje sem a crí-
Nesses últimos séculos, atingimos o Sem ela, o que os alunos perdem? István) Mészáros diz que a gente não que eu não sou novela. Proponho pensamento ocidental. Acredito que tica de arte?
esplendor da técnica. Mas, em ter- Vou aceitar essa provocação com tem que reformar, tem que mudar que seja um espaço para que a gente seja exatamente por isso. Não esta- Ah, a sociedade perde a sua alma. Eu
mos de comunicação, o homem ja- muito carinho. A filosofia é o exercí- esse modelo. E o modelo muda na possa agir em concerto. Acho que o mos em uma época de cortesia. E o vou lhe citar uma grande amiga mi-
mais atingiu um patamar tão baixo. cio da possibilidade de ser livre. É medida em que a cidade se transfor- momento é esse, que a gente possa pensamento de Milton Santos não é nha, falarei o nome dela em pé (le-
A filosofia vem para ajudar a com- “fazer” pessoas que possam anali- ma em uma grande escola. O que sentar à mesa de forma civilizada. O de cortesia. O questionamento seria vanta-se). Fernanda Montenegro
preender que só essa revolução tec- sar e criticar isso que está aí. Eu creio quer dizer a escola? A escola é o lu- lugar onde a gente tenha o objetivo o de que é importante que a gente disse: “Se você me mostrar o que es-
nológica não nos apresenta as saí- que os alunos têm o direito de poder gar de o homem exercitar a sua hu- de fazer este mundo melhor. É um repense o homem. Esse cara abre o tá acontecendo nos palcos de uma
das. Que também se precisa de uma ter clareza na mente, as luzes da in- manidade, a sede de desestranha- exercício que proponho. livro (Por uma nova geografia: da crí- cidade, eu lhe digo que cidade é es-
revolução filosófica. Uma revolução teligência, para que a gente possa mento. Pois a sala é o lugar da pro- tica da geografia a uma geografia crí- sa”. Eu tive a oportunidade, recen-
das formas de ver as coisas. A filoso- descobrir o sentido da vida. (O filó- fecia, da clarividência. Se o professor Por que um homem como Milton Santos tica ) dizendo “o destino do homem temente, de presenciar um recital de
fia, e sobretudo a arte, pode contri- sofo e escritor francês Albert) Camus não consegue emocionar o aluno, se não tem a popularidade de um Gilberto é a liberdade”. Com esta frase, eu Yumara Rodrigues. Rapaz! A gente
buir muito na criação de um novo ho- diz que só há uma pergunta filoso- não consegue fazer com que o aluno Freyre ou de um Darcy Ribeiro? respondo. É um pensamento profé- precisa daquilo para viver. Se você ti-
mem. Sou patologicamente otimis- ficamente séria: “Será que a vida va- sinta pulsações de liberdade, não é Eu acredito que o pensamento de tico, profecia não como aquele que ra aquilo, tira a noção de cidadania,
ta. A filosofia pode nos ensinar a le realmente a pena ser vivida?”. A professor, é impostor. homens como Milton Santos é pro- adivinha, mas como aquele que a noção de cidade. Daqui a pouco
aprender a ver o mundo, a construir filosofia é perguntar isso. E a sala de fundo, questionador e de alto teor compreende o presente e pode in- vou chorar aqui. Cidades deveriam
uma nova gramática, novas pala- aula não é uma cela de aula. A sala Criou-se uma ideia de que é imprescindí- exclusivo, no sentido de alto impac- ventar o futuro. ser construídas em torno de teatros,
vras para novos tempos. Acho que de aula é o lugar mais livre que a hu- vel passar pela universidade.
chegará o tempo em que a filosofia manidade conseguiu produzir. Mas, Isso não é assim, não é? Esses mo-
será o pão cotidiano. A gente vai ter para que ela seja uma sala, é neces- delos, nós temos que superar. É dis-
de volta a pólis, entendida como lu- sário o exercício do cidadão. Se não so que fala Mészáros. São essas bo-
gar de todos. Creio nisso. Creio que a for assim, é cela. E deve ser denun- bagens, esses penduricalhos de que
filosofia e a arte podem criar isso, es- ciada como tal. nós temos que nos livrar. Tem que ti-
se espaço de discussão. rar essas amarras, esse determinis-
Como vê a expansão da Ufba? mo de que você fala. Claro que a pos-
Com tantos livros de autoajuda, que se Devíamos transformar a cidade toda sibilidade de fazer doutorado deve
alimentam da filosofia, há um risco de em uma grande escola. Tem que ex- estar aberta a todos. Mas isso não
vê-la vulgarizada? pandir mesmo. Agora, com a maior significa de fato que todos tenham
“Eles passarão, eu passarinho”, pa- qualidade. Para mim, a tragédia da de fazer.
ra citar Mário Quintana. Acredito sala de aula é botar 50, 70 pessoas.
que faz parte da nossa época, é um Eu não consigo. Acho que a sala de A que vem o Memorial Milton Santos?
sofrimento humano. Isso mostra aula é intimidade. No livro Para Qual a proposta?
que – fico até comovido em falar – Eu vim com esse sonho de trazer pa-
todo mundo sofre, e nós precisamos ra cá a discussão do modelo civiliza-
aprender a abrir mão desse sofri- tório. Para mim, é importante discu-
mento. É um sofrimento civilizatório
nesse sentido. Eu vejo essas coisas
«Camus diz que só tir o número de carros na rua, o des-
tino da água, do lixo. Nós estamos
como um pedido de socorro mesmo, há uma pergunta vivendo em uma época na qual uma
demonstra uma fragilidade que nós
temos, uma necessidade de compai-
filosoficamente velha ordem agoniza, e uma nova
ordem parece não ser capaz de nas-
xão, compartilhamento, solidão. séria: ‘A vida vale a cer. Acredito que o memorial vai ser
Nós não nascemos para ser sós. O
homem, antes de ser racional, é um
pena?’. A filosofia é um centro de doutrinamento, de fa-
zer a cabeça das pessoas. Não tenho
ser relacional. perguntar isso» um mundo na cabeça, eu não quero
16 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 17

Eu nem sei se é verdade, mas diz-se sonho de liberdade do homem. A mamente revolucionária e nós não
que dois meses por ano os paulistas gente pode criar um tempo novo. temos sensores para perceber isso.
passam parados no carro no engar- Claro que estamos vivendo uma des-
rafamento. Aí é uma pergunta que Tanto otimismo não é contraditório no crença nas instituições políticas e re-
eu gostaria de fazer: será que existe Brasil? ligiosas, mas eu me nego a crer, co-
vida antes da morte? Eu entendo isso, não só entendo co- mo Sartre diria, que o homem é uma
mo concordo, e é por isso que eu paixão inútil. Existe sim a capacida-
Umberto Eco disse, em entrevista, que há acredito. Milton Santos dizia: “Con- de da esperança e não é o sentimen-
um risco em transferir o conhecimento do fio nos de baixo”. Acredito que existe to dos tolos, fracos. Sou a favor do
homem para o computador. uma força incandescente que está “mesmo fazendo escuro, eu canto,
Estamos muito deslumbrados com dentro da terra e dos de baixo. Eu porque o amanhã há de chegar“, co-
tudo isso. Precisamos ter um pouco creio que existe neste meu otimismo mo diria Thiago de Mello. O homem
de calma. Acho que o homem vai sa- uma constatação de algo no ar, on- tem uma finalidade: é a luta. É a des-
ber manejar essas coisas. Eu confio, de as rupturas já estão acontecendo coberta do trabalho. Então, o que
sou patologicamente otimista com com os de baixo. Eles têm uma prá- você está me dizendo, existe um país
relação ao destino. É uma constata- tica civilizatória de solidariedade a ser construído. Há um mundo a ser
ção histórica. Acredito na força do que está acontecendo agora, extre- construído, então vamos lá. «

de galerias, que é o que faz viver, o


que faz pulsar.
«A sala de aula não é uma cela de aula.
A sala de aula é o lugar mais livre que
A arte no centro da vida social.
A obra de arte não tem a função de
a humanidade conseguiu produzir»
divertir. A obra de arte tem uma fun-
ção curativa, civilizatória do ho-
mem. Como ser o mesmo depois de Falando em vida, o senhor pensa na ve- força da grana que ergue e destrói
ter visto Fedra (tragédia do francês lhice? coisas belas. Existe uma perversida-
Jean Racine) com Fernanda? Como Penso (pausa). O tempo, na mitolo- de sem parar. Considero que o que
ser o mesmo depois de Graciliano gia grega, é Cronos. Cronos devora se está fazendo aí não é música, não
Ramos, meu amigo? Como ser o seus filhos, distrai seus filhos para é arte. Citando Denise Stoklos, nem
mesmo depois de Glauber (Rocha)? poder devorá-los. Mas existe parale- tudo que acontece nos palcos é tea-
A minha ligação com os artistas não lo a Cronos a ideia de Cairós. Cronos tro. Mas esse tipo de indignidade, a
é uma ligação de elogio, de cortesia. dá a ideia de cronologia, onde o história se incumbirá de derrubar.
É que eu devo a eles a minha vida. tempo corrói. Mas eu acredito no Porque é indignidade transformar
Estou lhe falando a verdade. Então, Cairós, na eternidade do tempo. as pessoas no que há de pior.
quando se perde a arte, quando se Acredito que nada se perde, nada se
perde a crítica de arte, quando se es- ganha, tudo se transforma. Nós não Estamos preparados para lidar com tanta
tabelece um mundo de cortesias, se somos coisas que têm prazo de va- informação que se oferece?
mata a alma da sociedade. Há zonas lidade. Estou bem. A vida é que é Não é a espada que mata, mas a
em você que você só sente, que só problemática, não é a velhice. mão que a segura. Isso quem diz são
existirão no palco do teatro. Há ne- os orientais. O problema é meu uso
cessidade de o homem ser mais do Como observa a vulgarização do corpo? da tecnologia. A gente tem que re-
que ele mesmo, e isso só a arte dá. Acho que o capitalismo é assim. A pensar o mundo, nossas escolhas.
16 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 17

Eu nem sei se é verdade, mas diz-se sonho de liberdade do homem. A mamente revolucionária e nós não
que dois meses por ano os paulistas gente pode criar um tempo novo. temos sensores para perceber isso.
passam parados no carro no engar- Claro que estamos vivendo uma des-
rafamento. Aí é uma pergunta que Tanto otimismo não é contraditório no crença nas instituições políticas e re-
eu gostaria de fazer: será que existe Brasil? ligiosas, mas eu me nego a crer, co-
vida antes da morte? Eu entendo isso, não só entendo co- mo Sartre diria, que o homem é uma
mo concordo, e é por isso que eu paixão inútil. Existe sim a capacida-
Umberto Eco disse, em entrevista, que há acredito. Milton Santos dizia: “Con- de da esperança e não é o sentimen-
um risco em transferir o conhecimento do fio nos de baixo”. Acredito que existe to dos tolos, fracos. Sou a favor do
homem para o computador. uma força incandescente que está “mesmo fazendo escuro, eu canto,
Estamos muito deslumbrados com dentro da terra e dos de baixo. Eu porque o amanhã há de chegar“, co-
tudo isso. Precisamos ter um pouco creio que existe neste meu otimismo mo diria Thiago de Mello. O homem
de calma. Acho que o homem vai sa- uma constatação de algo no ar, on- tem uma finalidade: é a luta. É a des-
ber manejar essas coisas. Eu confio, de as rupturas já estão acontecendo coberta do trabalho. Então, o que
sou patologicamente otimista com com os de baixo. Eles têm uma prá- você está me dizendo, existe um país
relação ao destino. É uma constata- tica civilizatória de solidariedade a ser construído. Há um mundo a ser
ção histórica. Acredito na força do que está acontecendo agora, extre- construído, então vamos lá. «

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que faz pulsar.
«A sala de aula não é uma cela de aula.
A sala de aula é o lugar mais livre que
A arte no centro da vida social.
A obra de arte não tem a função de
a humanidade conseguiu produzir»
divertir. A obra de arte tem uma fun-
ção curativa, civilizatória do ho-
mem. Como ser o mesmo depois de Falando em vida, o senhor pensa na ve- força da grana que ergue e destrói
ter visto Fedra (tragédia do francês lhice? coisas belas. Existe uma perversida-
Jean Racine) com Fernanda? Como Penso (pausa). O tempo, na mitolo- de sem parar. Considero que o que
ser o mesmo depois de Graciliano gia grega, é Cronos. Cronos devora se está fazendo aí não é música, não
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mesmo depois de Glauber (Rocha)? poder devorá-los. Mas existe parale- tudo que acontece nos palcos é tea-
A minha ligação com os artistas não lo a Cronos a ideia de Cairós. Cronos tro. Mas esse tipo de indignidade, a
é uma ligação de elogio, de cortesia. dá a ideia de cronologia, onde o história se incumbirá de derrubar.
É que eu devo a eles a minha vida. tempo corrói. Mas eu acredito no Porque é indignidade transformar
Estou lhe falando a verdade. Então, Cairós, na eternidade do tempo. as pessoas no que há de pior.
quando se perde a arte, quando se Acredito que nada se perde, nada se
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mata a alma da sociedade. Há zonas lidade. Estou bem. A vida é que é Não é a espada que mata, mas a
em você que você só sente, que só problemática, não é a velhice. mão que a segura. Isso quem diz são
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18 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 19

REDE DE
MODA POLYVORE
O polyvore.com é um portal de moda, estilo e tendências

ESTILO
onde, mensalmente, cerca de seis milhões de pessoas
exercitam a criação de looks que misturam peças de rou-
pa, sapatos e acessórios de todo mundo com referências
de arte, design e fotografia. Inspirados por esta imensa
rede de fashionistas, convidamos quatro baianos e as-
síduos frequentadores do site a mostrar sua visão de mo-
da para a temporada na cidade.

Produção e estilo MAYRA LINS mayralins@gmail.com

NINE
www.polyvo-
re.com/cgi/profi-
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Bermuda jeans R$ 217,80.
Inverno, ainda Tênis R$ 990. Relógio R$
108. Chapéu R$ 342. Óculos
que em Salvador, escuros Preço sob consulta.
é quando a Cachecol R$ 504. Camisa
R$ 72. Camiseta Preço sob
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nosso Preço sob consulta
guarda-roupa sai
do claustro. Para
mim, é mais café,
mais casaco e
mais sapato MAURÍCIO
fechado. Deus www.polyvore.com/cgi/profile?id=1326334
salve o inverno! Já que no inverno de Salvador impera o contraste muita chuva x calor, optei pela
combinação de peças clássicas, como o chapéu, o cachecol, a camisa xadrez e os
óculos; com outras mais atuais, como o relógio, a camisa estampada, a bermuda
Camiseta R$ 133,20. Blazer R$ 169,20. Saia Preço sob consulta. Bota R$ 72. Colar R$ 176. rasgada e o tênis de cano alto. Para não provocar aquele calor chato quando a
Chapéu R$ 72. Bolsa Preço sob consulta. Óculos escuros Preço sob consulta chuva começa, nada esquenta demais e há versatilidade num mesmo look.
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20 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 21

SIRC HEART
www.polyvore.com/cgi/profile?id=1312682

O meu look retrata bem o que eu sou, coisas que amo fazer,
ouvir, e coisas que eu amaria ter. No inverno de Salvador, não
podemos exagerar muito nos casacos ou em peças mais pesadas
e precisamos contar sempre com as mudanças de temperatura,
mas, quando um friozinho aparece, a alegria toma conta e posso
tirar do guarda-roupa minha amada meia-calça e outras boas
surpresas escondidas.

Regata R$ 149. Calça R$ 810. Tênis R$ 97,20.


Bolsa R$ 192,60. Cachecol R$ 176.
Guarda-chuva R$ 46,80. Casaco Preço sob
consulta. Brincos Preço sob consulta
8,64. Tênis R$ 133,20. Saia R$ 52,20. Camiseta
Colete R$ 271,80. Legging R$ 246,60. Arco R$

R$ 30,60. Relógio R$ 176. Bolsa R$ 32,40

DAYANE
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Para sair à vontade no inverno de Salvador, eu acabo escolhendo duas


AGRADECIMENTOS
peças-chave: jeans e moleton. A calça skinny evita o look volumoso das peças de À parceria na produção de Dayane Cairo, Marília
inverno, e a camiseta básica por baixo do casaco é importante para os momentos Pacheco (www.polyvore.com/cgi/profile?id=1312759),
Maurício Ribeiro, Nine Quentin e Sirc Heart
de calor da cidade. Tênis ainda é a melhor pedida, o All Star nunca sai de moda,
não tenha medo de sujar o seu num dia de chuva. Os acessórios ajudam a definir ONDE COMPRAR
e elaborar o seu estilo; o glamour do inverno pede conforto sem exageros. www.polyvore.com
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22 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 23

Memória de Carlos Calixto

CRISTAL
de Abreu
(agachado).
Aos 10 anos,
ele começou
na lapidação

Texto RONALDO JACOBINA rjacobina@grupoatarde.com.br Produzidos até 1962, os cristais Fratelli Vita
ainda dominam os antiquários. Herdeiro da
marca, Jario Vita quer reativar a fábrica na Bahia

O
ELÓI CORRÊA / AG. A TARDE / 19.1.2004

prédio em estilo inglês está em ruínas. No alto da


fachada, plantas já começam a cobrir o letreiro
esculpido na parede frontal, onde ainda é pos-
sível enxergar a logomarca da antiga fábrica. A
vegetação, fatalmente, se encarregará de apa-
gá-la definitivamente. No entanto, o sabor dos
refrigerantes Fratelli Vita, que foram produzidos ali até os anos
1970, deve permanecer, ao menos por mais algum tempo, na me-
mória dos baianos que já passaram dos 40.
Dois anos após o encerramento da produção, a marca de re-
frigerantes foi vendida para a Brahma, atualmente Ambev, que
tempos depois parou de fabricá-los. Já a dos antigos cristais pro-
duzidos no mesmo prédio da Rua Barão de Cotegipe, no bairro de
Roma, Cidade Baixa, até 1962, e que ganharam fama internacio-
nal, continua com a família. As peças em cristal de quartzo pro- A fachada da
duzidas pela Fratelli Vita se tornaram sinônimo de requinte e con- velha fábrica, na

ACERVO PESSOAL
tinuamencantandoomundo.Nãoapenaspelabelezaedelicadeza Cidade Baixa,
incomparáveis, como por terem se tornado raras. hoje em ruínas
22 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 23

Memória de Carlos Calixto

CRISTAL
de Abreu
(agachado).
Aos 10 anos,
ele começou
na lapidação

Texto RONALDO JACOBINA rjacobina@grupoatarde.com.br Produzidos até 1962, os cristais Fratelli Vita
ainda dominam os antiquários. Herdeiro da
marca, Jario Vita quer reativar a fábrica na Bahia

O
ELÓI CORRÊA / AG. A TARDE / 19.1.2004

prédio em estilo inglês está em ruínas. No alto da


fachada, plantas já começam a cobrir o letreiro
esculpido na parede frontal, onde ainda é pos-
sível enxergar a logomarca da antiga fábrica. A
vegetação, fatalmente, se encarregará de apa-
gá-la definitivamente. No entanto, o sabor dos
refrigerantes Fratelli Vita, que foram produzidos ali até os anos
1970, deve permanecer, ao menos por mais algum tempo, na me-
mória dos baianos que já passaram dos 40.
Dois anos após o encerramento da produção, a marca de re-
frigerantes foi vendida para a Brahma, atualmente Ambev, que
tempos depois parou de fabricá-los. Já a dos antigos cristais pro-
duzidos no mesmo prédio da Rua Barão de Cotegipe, no bairro de
Roma, Cidade Baixa, até 1962, e que ganharam fama internacio-
nal, continua com a família. As peças em cristal de quartzo pro- A fachada da
duzidas pela Fratelli Vita se tornaram sinônimo de requinte e con- velha fábrica, na

ACERVO PESSOAL
tinuamencantandoomundo.Nãoapenaspelabelezaedelicadeza Cidade Baixa,
incomparáveis, como por terem se tornado raras. hoje em ruínas
24 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 25

Até então, fadados a permanecer restri-


tos a museus, colecionadores e antiquá-
O projeto para colocar a fábrica de cris-
tais novamente em funcionamento já está
Jario cresceu dentro da fábrica, sabo-
reando generosas doses de guaraná em «A beleza, a sutilidade, o som e a luz que
rios, os cristais Fratelli Vita devem voltar a pronto. No momento, o herdeiro seleciona copos de cristal fino. Foi seu pai, Miguel Jo- vêm dos cristais Fratelli Vita são como a
ser produzidos na Bahia. Dono do maior
acervo dos produtos criados pelo avô, o ita-
investidores para viabilizar a implantação.
Além da expertise, Jario conta com o apoio
sé Vita, morto em 2002, o sucessor de Giu-
seppe. “Quando chegavam as férias, nós
harmonia que faz a expressão artística de
liano Giuseppe Vita, o herdeiro da marca, e de Carlos Calixto de Abreu, o Branco, con- íamos, eu e meu irmão, José Mário, traba- um trecho musical. Ou melhor, o cristal é
das mais de 240 fórmulas, o administrador
de empresas Jario Vita, 66, pretende trazer
siderado o mago da lapidação na Bahia e
um dos mais experientes ex-funcionários
lhar no empilhamento das grades de refri-
gerante. Era trabalho duro, mas muita di-
um instrumento de música. Fratelli Vita
de volta a unidade fabril. da extinta Fratelli Vita. versão também”. não fabrica cristais, compõe música»
Destavez,emoutrolocal,jáqueaantiga “Temos tudo para colocar a fábrica em
sedenãopertencemaisàfamília.Oprédio, funcionamento de novo. Quero encerrar a ACERVO Ary Barroso, texto escrito pelo cantor e compositor em 1956
que hoje é propriedade de uma faculdade, minha carreira lá, pois foi onde aprendi o Mas o herdeiro da marca não guarda
nãopodeserdemolido.PoriniciativadeJa- que sei”, planeja o mestre lapidador, que apenas as lembranças dos tempos de in-
rio, a velha sede foi tombada pelo Instituto começou a trabalhar na empresa dos Vita fância, quando vibrava com os sons emi-
do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia aos 10 anos. Branco hoje está com 76 e tidos pelos cristais. Conservou também um
(Ipac) em 2003. muita disposição. enorme acervo. No apartamento em que
Peça única de cristal, feita
exclusivamente para a família mora, no bairro do Chame-Chame, Jario e dos cristais da Boêmia, os magníficos cris-
MARCO AURÉLIO MARTINS / AG. A TARDE

a mulher, Maria Isabel, convivem com mi- tais Fratelli Vita, que tomavam uma forma
lhares de peças. Dezenas delas únicas, fei- caracteristicamente baiana, num tempo
tas exclusivamente para a família. Muitas em que normalmente os cristais eram im-
estão expostas na sala principal, outras portados da França e da Itália”.
guardadas em armários espalhados pelos
diversos cômodos. LUXO E REQUINTE
São vasos, poncheiras, copos, taças, cin- E era exatamente assim. Os cristais pro-
zeiros, fruteiras, cremeiras e os famosos duzidos na Cidade Baixa tornaram-se sinô-
lustres, que ajudaram a dar ainda mais nimo de luxo e requinte. Não apenas para
prestígio à marca baiana. O acervo, no en- as tradicionais famílias baianas, como para
tanto, não fica restrito aos Vita. De tempos fidalgos das mais diversas partes do mun-
em tempos, as peças são expostas em mu- do que visitavam a Bahia. Enquanto esteve
seus mundo afora. Entre novembro de em atividade (1920 a 1962), raro era o ar-
1999 e março de 2000, por exemplo, parte tista ou a autoridade que vinha à Bahia e
deste valioso material foi exposta no Mu- não quisesse visitar a fábrica.
seu Carlos Costa Pinto, na Vitória. No livro de ouro da fábrica, conservado
No mesmo ano, a curadora Zélia Bastos, por Jario até hoje, estão depoimentos de
a convite do então diretor da Pinacoteca de artistas consagrados daquela época, como
SãoPaulo,EmanuelAraújo,hojenoMuseu Ataulfo Alves, Ângela Maria, Ary Barroso e
Afro-Brasil, levou a mesma exposição, in- Bidu Sayão. Isso sem contar as misses, en-
titulada Cristais Fratelli Vita, o esplendor do tãofigurasimportanteseinfluentes.Marta
vidro, à capital paulista. No catálogo da Rocha, por exemplo, chegou a ser garo-
mostra, Araújo escreveu: “Ai da família ta-propaganda da marca. O marketing,
burguesadaBahiaquenãotivesse,aolado aliás, era uma das outras habilidades do vi-
Jarro de cristal pertencente de seu aparelho de jantar, de fina porce- sionário Giuseppe. Foi a Fratelli Vita a pri-
Jario Vita, neto do fundador da fábrica de cristais e dono da marca Fratelli Vita, pretende retomar a produção em Salvador ao acervo de Jario Vita lana, as taças e jarras lapidadas ao sabor meira empresa a patrocinar o trio Dodô &
24 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 25

Até então, fadados a permanecer restri-


tos a museus, colecionadores e antiquá-
O projeto para colocar a fábrica de cris-
tais novamente em funcionamento já está
Jario cresceu dentro da fábrica, sabo-
reando generosas doses de guaraná em «A beleza, a sutilidade, o som e a luz que
rios, os cristais Fratelli Vita devem voltar a pronto. No momento, o herdeiro seleciona copos de cristal fino. Foi seu pai, Miguel Jo- vêm dos cristais Fratelli Vita são como a
ser produzidos na Bahia. Dono do maior
acervo dos produtos criados pelo avô, o ita-
investidores para viabilizar a implantação.
Além da expertise, Jario conta com o apoio
sé Vita, morto em 2002, o sucessor de Giu-
seppe. “Quando chegavam as férias, nós
harmonia que faz a expressão artística de
liano Giuseppe Vita, o herdeiro da marca, e de Carlos Calixto de Abreu, o Branco, con- íamos, eu e meu irmão, José Mário, traba- um trecho musical. Ou melhor, o cristal é
das mais de 240 fórmulas, o administrador
de empresas Jario Vita, 66, pretende trazer
siderado o mago da lapidação na Bahia e
um dos mais experientes ex-funcionários
lhar no empilhamento das grades de refri-
gerante. Era trabalho duro, mas muita di-
um instrumento de música. Fratelli Vita
de volta a unidade fabril. da extinta Fratelli Vita. versão também”. não fabrica cristais, compõe música»
Destavez,emoutrolocal,jáqueaantiga “Temos tudo para colocar a fábrica em
sedenãopertencemaisàfamília.Oprédio, funcionamento de novo. Quero encerrar a ACERVO Ary Barroso, texto escrito pelo cantor e compositor em 1956
que hoje é propriedade de uma faculdade, minha carreira lá, pois foi onde aprendi o Mas o herdeiro da marca não guarda
nãopodeserdemolido.PoriniciativadeJa- que sei”, planeja o mestre lapidador, que apenas as lembranças dos tempos de in-
rio, a velha sede foi tombada pelo Instituto começou a trabalhar na empresa dos Vita fância, quando vibrava com os sons emi-
do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia aos 10 anos. Branco hoje está com 76 e tidos pelos cristais. Conservou também um
(Ipac) em 2003. muita disposição. enorme acervo. No apartamento em que
Peça única de cristal, feita
exclusivamente para a família mora, no bairro do Chame-Chame, Jario e dos cristais da Boêmia, os magníficos cris-
MARCO AURÉLIO MARTINS / AG. A TARDE

a mulher, Maria Isabel, convivem com mi- tais Fratelli Vita, que tomavam uma forma
lhares de peças. Dezenas delas únicas, fei- caracteristicamente baiana, num tempo
tas exclusivamente para a família. Muitas em que normalmente os cristais eram im-
estão expostas na sala principal, outras portados da França e da Itália”.
guardadas em armários espalhados pelos
diversos cômodos. LUXO E REQUINTE
São vasos, poncheiras, copos, taças, cin- E era exatamente assim. Os cristais pro-
zeiros, fruteiras, cremeiras e os famosos duzidos na Cidade Baixa tornaram-se sinô-
lustres, que ajudaram a dar ainda mais nimo de luxo e requinte. Não apenas para
prestígio à marca baiana. O acervo, no en- as tradicionais famílias baianas, como para
tanto, não fica restrito aos Vita. De tempos fidalgos das mais diversas partes do mun-
em tempos, as peças são expostas em mu- do que visitavam a Bahia. Enquanto esteve
seus mundo afora. Entre novembro de em atividade (1920 a 1962), raro era o ar-
1999 e março de 2000, por exemplo, parte tista ou a autoridade que vinha à Bahia e
deste valioso material foi exposta no Mu- não quisesse visitar a fábrica.
seu Carlos Costa Pinto, na Vitória. No livro de ouro da fábrica, conservado
No mesmo ano, a curadora Zélia Bastos, por Jario até hoje, estão depoimentos de
a convite do então diretor da Pinacoteca de artistas consagrados daquela época, como
SãoPaulo,EmanuelAraújo,hojenoMuseu Ataulfo Alves, Ângela Maria, Ary Barroso e
Afro-Brasil, levou a mesma exposição, in- Bidu Sayão. Isso sem contar as misses, en-
titulada Cristais Fratelli Vita, o esplendor do tãofigurasimportanteseinfluentes.Marta
vidro, à capital paulista. No catálogo da Rocha, por exemplo, chegou a ser garo-
mostra, Araújo escreveu: “Ai da família ta-propaganda da marca. O marketing,
burguesadaBahiaquenãotivesse,aolado aliás, era uma das outras habilidades do vi-
Jarro de cristal pertencente de seu aparelho de jantar, de fina porce- sionário Giuseppe. Foi a Fratelli Vita a pri-
Jario Vita, neto do fundador da fábrica de cristais e dono da marca Fratelli Vita, pretende retomar a produção em Salvador ao acervo de Jario Vita lana, as taças e jarras lapidadas ao sabor meira empresa a patrocinar o trio Dodô &
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não era apenas a sonoridade que chamava

REPRODUÇÃO MARCO AURÉLIO MARTINS / AG. A TARDE


a atenção. O trabalho de lapidação e a de-
licadeza dos desenhos eram primorosos.
Foi isso que chamou a atenção da então pri-
meira-dama do País, Sarah Kubitschek, que
fez uma enorme encomenda, depois can-
celada, para o Palácio da Alvorada quando

REPRODUÇÃO MARCO AURÉLIO MARTINS / AG. A TARDE


da inauguração de Brasília.

RARIDADE
Os padrões decorativos eram também
um diferencial da marca baiana. O design
arrojado para a época foi criado pelo pai de
Jario, Miguel. Foi ele quem, aproveitando
seu conhecimento de engenharia e dese-
No auge, o prédio, em estilo inglês, onde funcionou a fábrica de refrigerantes e cristais, era visitado por artistas famosos nho, desenvolveu um catálogo com os pa-
drões das peças. Assim, a fábrica passou a
produzir, sempre artesanalmente, as li-
Osmar, nos anos 1950. Foi ele também um garrafas foi suspensa, o que levou o italiano a produzir os seus nhas Bandeirante, Borboleta, Girassol, Lin-
dos primeiros empresários a divulgar sua próprios vasilhames. Foi o know-how adquirido como vidreiro que coln, Amazonas, Xadrez, Costalino, Brasí-
marca na fachada do Elevador Lacerda. o levou a sonhar com a fabricação de cristais. lia, Diplomata, Guanabara e Rotary.
A cantora lírica Bidu Sayão escreveu nu- Autodidata, Giuseppe passou a buscar, nos livros, informações Destes, o mais raro é o Brasília. Como a
ma das páginas: “Deixo aqui a minha ad- sobre como construir fornos que suportassem temperaturas de até encomenda foi cancelada pelo governo fe-
miração e entusiasmo pelo que vi”. Já o 1.500 graus centígrados sem desagregar, a fim de produzir o mais deral, restaram apenas alguns exemplares
compositorAryBarroso,exaltouotrabalho puro cristal. Começaram enfim os experimentos. Os próximos de- de copos, taças, jarras e cálices, todos bor-
feito ali em forma de música. “Meu Brasil safios do empresário seriam a composição das fórmulas e a des- dados a ouro com o brasão da República.
brasileiro, etc. A beleza, a sutilidade, o som coberta da mão-de-obra. A decoradora Sizininha Simões lembra
e a luz que vêm dos cristais Fratelli Vita são A perseverança era tamanha que, segundo Jario, o avô chegou que os cristais da marca eram o presente
como a harmonia que faz a expressão ar- a passar semanas dormindo numa rede junto aos fornos, só para mais fino que existia até os anos 1960.
tística de um trecho musical. Ou melhor, o acompanhar suas experiências. O resultado das primeiras peças “Quando uma moça casava, era quase que
cristal é um instrumento de música. Fratelli produzidas na fábrica surpreenderam até os especialistas euro- obrigatório ter um conjunto da Fratelli Vita
Vita não fabrica cristais, compõe música”. peus, devido à sonoridade dos cristais criados a partir do quartzo no seu enxoval. Quando não, muitas vezes
ELÓI CORRÊA / AG. A TARDE / 19.1.2004

queGiuseppemandavavirdosmunicípiosbaianosdeJaguaquara, se juntavam três, quatro pessoas para di-


IMIGRANTE DE VISÃO Senhor do Bonfim e Castro Alves. vidir o valor do presente, que era alto, e da-
A história da Fratelli Vita começou a ser Jánoprimeiroanodeatividade,oscristaisFratelliVitaatingiram vam aos noivos”, conta.
desenhada no começo de 1899 pelo imi- graus de sonoridade acima dos produzidos na cidade de Baccarat, Jario afirma que o que diferenciava os
grante italiano Giuseppe Vita. Ex-pastor de na França. Enquanto os franceses produziam 27 vibrações por se- cristaisbaianoseraoperfeccionismodoseu
ovelhas, ele vagou pelo interior da Bahia gundo, os baianos chegaram a atingir 37. E, dependendo do teor avô na produção das peças. Este mesmo
até chegar a Salvador, onde iniciou a fabri- ONDE TUDO de chumbo, podiam alcançar até 81 vibrações por segundo, o que cuidado foi herdado por Miguel Vita. “Meu
cação de refrigerantes e gasosas com sa- COMEÇOU chamou a atenção dos europeus nas exposições internacionais on- pai costumava circular pela fábrica e olhava
Abaixo, garrafa da
bores de pera, cereja, guaraná e morango, marca Fratelli Vita, de a marca se fez presente. até a parte interna dos objetos. Se visse
entre outros. Para ajudar, mandou buscar primeiro produto De acordo com Jario, o segredo era a quantidade de chumbo uma bolhinha sequer, mesmo por dentro,
criado por Giuseppe
o irmão, Francesco, na Itália. Durante a Pri- e produzido em
usada na fabricação das peças. “Enquanto o comum era utilizar pegava a peça e jogava no chão”.
meira Guerra Mundial, a importação das Salvador e Recife 25% de chumbo na composição, o meu avô utilizava 40%”. Mas As peças da Fratelli Vita continuam sen- A baiana Marta Rocha, a miss Brasil 1954, foi garota-propaganda dos cristais
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não era apenas a sonoridade que chamava

REPRODUÇÃO MARCO AURÉLIO MARTINS / AG. A TARDE


a atenção. O trabalho de lapidação e a de-
licadeza dos desenhos eram primorosos.
Foi isso que chamou a atenção da então pri-
meira-dama do País, Sarah Kubitschek, que
fez uma enorme encomenda, depois can-
celada, para o Palácio da Alvorada quando

REPRODUÇÃO MARCO AURÉLIO MARTINS / AG. A TARDE


da inauguração de Brasília.

RARIDADE
Os padrões decorativos eram também
um diferencial da marca baiana. O design
arrojado para a época foi criado pelo pai de
Jario, Miguel. Foi ele quem, aproveitando
seu conhecimento de engenharia e dese-
No auge, o prédio, em estilo inglês, onde funcionou a fábrica de refrigerantes e cristais, era visitado por artistas famosos nho, desenvolveu um catálogo com os pa-
drões das peças. Assim, a fábrica passou a
produzir, sempre artesanalmente, as li-
Osmar, nos anos 1950. Foi ele também um garrafas foi suspensa, o que levou o italiano a produzir os seus nhas Bandeirante, Borboleta, Girassol, Lin-
dos primeiros empresários a divulgar sua próprios vasilhames. Foi o know-how adquirido como vidreiro que coln, Amazonas, Xadrez, Costalino, Brasí-
marca na fachada do Elevador Lacerda. o levou a sonhar com a fabricação de cristais. lia, Diplomata, Guanabara e Rotary.
A cantora lírica Bidu Sayão escreveu nu- Autodidata, Giuseppe passou a buscar, nos livros, informações Destes, o mais raro é o Brasília. Como a
ma das páginas: “Deixo aqui a minha ad- sobre como construir fornos que suportassem temperaturas de até encomenda foi cancelada pelo governo fe-
miração e entusiasmo pelo que vi”. Já o 1.500 graus centígrados sem desagregar, a fim de produzir o mais deral, restaram apenas alguns exemplares
compositorAryBarroso,exaltouotrabalho puro cristal. Começaram enfim os experimentos. Os próximos de- de copos, taças, jarras e cálices, todos bor-
feito ali em forma de música. “Meu Brasil safios do empresário seriam a composição das fórmulas e a des- dados a ouro com o brasão da República.
brasileiro, etc. A beleza, a sutilidade, o som coberta da mão-de-obra. A decoradora Sizininha Simões lembra
e a luz que vêm dos cristais Fratelli Vita são A perseverança era tamanha que, segundo Jario, o avô chegou que os cristais da marca eram o presente
como a harmonia que faz a expressão ar- a passar semanas dormindo numa rede junto aos fornos, só para mais fino que existia até os anos 1960.
tística de um trecho musical. Ou melhor, o acompanhar suas experiências. O resultado das primeiras peças “Quando uma moça casava, era quase que
cristal é um instrumento de música. Fratelli produzidas na fábrica surpreenderam até os especialistas euro- obrigatório ter um conjunto da Fratelli Vita
Vita não fabrica cristais, compõe música”. peus, devido à sonoridade dos cristais criados a partir do quartzo no seu enxoval. Quando não, muitas vezes
ELÓI CORRÊA / AG. A TARDE / 19.1.2004

queGiuseppemandavavirdosmunicípiosbaianosdeJaguaquara, se juntavam três, quatro pessoas para di-


IMIGRANTE DE VISÃO Senhor do Bonfim e Castro Alves. vidir o valor do presente, que era alto, e da-
A história da Fratelli Vita começou a ser Jánoprimeiroanodeatividade,oscristaisFratelliVitaatingiram vam aos noivos”, conta.
desenhada no começo de 1899 pelo imi- graus de sonoridade acima dos produzidos na cidade de Baccarat, Jario afirma que o que diferenciava os
grante italiano Giuseppe Vita. Ex-pastor de na França. Enquanto os franceses produziam 27 vibrações por se- cristaisbaianoseraoperfeccionismodoseu
ovelhas, ele vagou pelo interior da Bahia gundo, os baianos chegaram a atingir 37. E, dependendo do teor avô na produção das peças. Este mesmo
até chegar a Salvador, onde iniciou a fabri- ONDE TUDO de chumbo, podiam alcançar até 81 vibrações por segundo, o que cuidado foi herdado por Miguel Vita. “Meu
cação de refrigerantes e gasosas com sa- COMEÇOU chamou a atenção dos europeus nas exposições internacionais on- pai costumava circular pela fábrica e olhava
Abaixo, garrafa da
bores de pera, cereja, guaraná e morango, marca Fratelli Vita, de a marca se fez presente. até a parte interna dos objetos. Se visse
entre outros. Para ajudar, mandou buscar primeiro produto De acordo com Jario, o segredo era a quantidade de chumbo uma bolhinha sequer, mesmo por dentro,
criado por Giuseppe
o irmão, Francesco, na Itália. Durante a Pri- e produzido em
usada na fabricação das peças. “Enquanto o comum era utilizar pegava a peça e jogava no chão”.
meira Guerra Mundial, a importação das Salvador e Recife 25% de chumbo na composição, o meu avô utilizava 40%”. Mas As peças da Fratelli Vita continuam sen- A baiana Marta Rocha, a miss Brasil 1954, foi garota-propaganda dos cristais
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THIAGO TEIXEIRA / AG. A TARDE

Considerado o mago da lapidação na Bahia, aos 76 anos, Carlos Calixto sonha voltar a trabalhar com os cristais Fratelli Vita

«Temos tudo para do consideradas sonhos de consumo. En-


contrar um conjunto completo da marca é
Ela diz que há cristais mais em conta,
mas que, nos últimos anos, houve um au-
colocar a fábrica em algo raro. Por isso, os preços destes cristais mento muito grande da demanda pela

funcionamento. são tão altos. No antiquário San Martin,


por exemplo, é possível encontrar um con-
marca. “Como ficaram raros, os objetos da
Fratelli Vita, nos últimos anos, passaram a
Quero encerrar junto com 87 peças da linha Girassol por R$ ser mais valorizados até do que os da mar-

minha carreira na 4,5 mil. Um conjunto menor, com apenas


18 peças, da linha Borboleta pode ser ad-
ca francesa Baccarat”.
Ainda há grande demanda, portanto,
Fratelli Vita, onde quirido por R$ 540. pelos cristais da marca. Sempre houve,

aprendi o que sei» Mas são os lustres de cristal as peças da


Fratelli Vita mais cobiçadas hoje no merca-
aliás. Quando fechou, em 1962 – em fun-
ção dos altos custos trabalhistas e de pro-
do de antiquários. San Martin possui, na dução–,afábricatinhapedidosparaoscin-
Carlos Calixto de Abreu, lapidador
sua loja da Rua Ruy Barbosa, Centro, mais co anos seguintes. Enquanto não reabre a
de 50 delas. O preço de um desses raros fábrica, os cristais Fratelli Vita continuam
exemplares pode chegar a R$ 15 mil, se- fazendo história. Já os refrigerantes, fica-
gundo a vendedora Eliana Primo, 52. rão apenas na lembrança. «
28 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 29

THIAGO TEIXEIRA / AG. A TARDE

Considerado o mago da lapidação na Bahia, aos 76 anos, Carlos Calixto sonha voltar a trabalhar com os cristais Fratelli Vita

«Temos tudo para do consideradas sonhos de consumo. En-


contrar um conjunto completo da marca é
Ela diz que há cristais mais em conta,
mas que, nos últimos anos, houve um au-
colocar a fábrica em algo raro. Por isso, os preços destes cristais mento muito grande da demanda pela

funcionamento. são tão altos. No antiquário San Martin,


por exemplo, é possível encontrar um con-
marca. “Como ficaram raros, os objetos da
Fratelli Vita, nos últimos anos, passaram a
Quero encerrar junto com 87 peças da linha Girassol por R$ ser mais valorizados até do que os da mar-

minha carreira na 4,5 mil. Um conjunto menor, com apenas


18 peças, da linha Borboleta pode ser ad-
ca francesa Baccarat”.
Ainda há grande demanda, portanto,
Fratelli Vita, onde quirido por R$ 540. pelos cristais da marca. Sempre houve,

aprendi o que sei» Mas são os lustres de cristal as peças da


Fratelli Vita mais cobiçadas hoje no merca-
aliás. Quando fechou, em 1962 – em fun-
ção dos altos custos trabalhistas e de pro-
do de antiquários. San Martin possui, na dução–,afábricatinhapedidosparaoscin-
Carlos Calixto de Abreu, lapidador
sua loja da Rua Ruy Barbosa, Centro, mais co anos seguintes. Enquanto não reabre a
de 50 delas. O preço de um desses raros fábrica, os cristais Fratelli Vita continuam
exemplares pode chegar a R$ 15 mil, se- fazendo história. Já os refrigerantes, fica-
gundo a vendedora Eliana Primo, 52. rão apenas na lembrança. «
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PRIMEIRA
ação social que essa galera do axé music já 2006. ”Quando ele abriu a boca, fiquei es-
fez aqui na Bahia, quem mais ganha di- tupefata. Era como se uma voz ancestral,
nheiro com essa coisa? E tem gente botan- queeuconheciajáháanos,serevelasseali,

GRANDEZA
do projetos no governo federal sem ter tra- pra mim“, lembra Fabiana.
balho social; R$ 2 milhões, R$ 3 milhões Depois, ela convidou Aloísio algumas
para botar um bloco na rua e botar uma vezes para se apresentar em São Paulo no
corda para jogar o pobre lá no canto?“ espetáculo idealizado pelo escritor Marce-
lino Freire, com base em seu livro Contos
DA NOITE E DE FESTIVAIS negreiros. ”Em todas as apresentações, as
O cantor baiano Aloísio Depois de vencer festivais, como o dos pessoas ficam de queixo caído. Aloísio é,
Menezes tem uma colégios Sartre e Teresa de Lisieux, Aloísio para mim, um de nossos elos contempo-
coleção de fãs célebres começou a cantar na noite, que considera râneos com nossa ancestralidade africana.
e será a voz do projeto uma faculdade. Começava às 11h, no Base Sua voz é uma bênção e embala todos os
Xirê Reverb, com cantos de Stella e ia até altas horas no Base do Fa- meus risos e dores, ele sabe disso”.
rol, na Barra, quando deu início à cultura
de candomblé
dos isopores na rua. O tráfego travava com DIAMANTE VERDADEIRO
tanta gente que ia ouvi-lo. Por aqui, cantando para o povo ou em
Texto MARCOS DIAS
mdias@grupoatarde.com.br Aloísio pensa que, se aquilo que viveu eventos indoor, Aloísio brilha, diamante
Foto THIAGO TEIXEIRA fosse hoje, quando há olheiros querendo verdadeiro, como intitulou um dos seus
thiagoteixeira@grupoatarde.com.br
produzir, estaria numa situação diferente. shows, premiado com o Troféu Caymmi
Achando que não estava sendo reconheci- nos anos 1999/2000. A promoter Licia Fa-
do na noite, apesar do retorno que dava, bio tem apresentado ao seu público o ta-
decidiu fazer teatro. Integrou o Bando de lento de Aloísio, embora considere que “in-
Teatro Olodum e foi um dos autores do tex- felizmente não é bem aproveitado na Ba-
to original da peça Ó paí, ó, criação dos ato- hia”, até por ser uma das vozes mais belas

N
res. E, depois de outras experiências nos O cantor no que já ouviu. “Sou grande admiradora do
a constelação de astros da Masamúsicajáestavadentrodele,bem palcos, decidiu voltar para a música. Santo Antônio: trabalho dele e gostaria de vê-lo no melhor
música baiana, Aloísio antes, direto da fonte mágica do candom- Em 2006, um dia depois que um bar que recursos vocais que a música pode dar a uma pessoa”.
Menezes, 47, brilha a blé. Criança, morava no Garcia, e a avó o havia aberto há pouco tempo com amigos e integridade Tudo tão diferente da vez em que, con-
anos-luz dos apelos, dos levava aos terreiros, onde ele não gostava sofreu um incêndio, isto é, desespero total, vidado para o lançamento das atrações de
esquemas e da falta de de ir. E não era pelo ritual. Sabe lá o que é lá estava Aloísio no palco do Theatro XVIII, um bloco, foi barrado na porta da boate
substância que costuma voltar da Liberdade ou da Suburbana a pé participando de um sarau sobre negritude. Steel, no Rio Vermelho, porque o proprie-
incorporar nos artistas do mainstream. para o Garcia? Era assim. ”Foi o show mais emocionante da minha tário não queria negros por lá. “Isso a gen-
Basta ele soltar a voz para se perceber a in- FilhodeOgum-Xoroquê,hojeseindigna vida”, lembra ele, que ainda tinha as ima- te tira de letra. Agora, não discrimine nin-
tegridade entre vida e obra. Inacreditável com a ação do tráfico de drogas em relação gens vivas das labaredas e cantou sublime- guém perto de mim, porque vou comprar
que não tenha um CD gravado. às comunidades religiosas. “Acho que es- mente.Quemestevealisabequeseucanto briga, até porque já chega, não é? Já so-
“Antes de morrer, não, logo, logo quero tão cometendo o maior erro, porque estão foi elevado à enésima potência. fremos demais. Até quando?”
fazer um disco cantando música popular destruindo o povo deles. E também se co- O mesmo acontece, hoje, por exemplo, Enquanto isso, estão vivas dentro dele
brasileira”, diz ele, que se tornou conheci- loca em relação à alienação de artistas con- quando é convidado pela cantora paulista as memórias de quando cantava na noite,
do ainda jovem, quando estudava no Ed- sagrados à realidade social (“o crack está Fabiana Cozza, para quem ele é, ”há anos, ou no bloco As Acadêmicas, na ópera Lídia
gard Santos e venceu o Festival Secunda- destruindo o Brasil“). uma das vozes mais importantes e lindas de Oxum (em que foi regido por Júlio Me-
rista de Artes Integradas, com uma música Embora respeite os colegas de profissão do cenário nacional”. Ela o conheceu du- daglia), ou na fundação do Cortejo Afro,
que havia composto dois dias antes, Pro- e diga tirar o chapéu para os trabalhos de rante uma canja num show de Marienne onde ficou oito anos e foi o primeiro cantor.
messa aos orixás. Carlinhos Brown, questiona: “Qual é a de Castro na Lavagem do Bonfim, em Atualmente, ao lado da sua carreira, de-
32 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 33

PRIMEIRA
ação social que essa galera do axé music já 2006. ”Quando ele abriu a boca, fiquei es-
fez aqui na Bahia, quem mais ganha di- tupefata. Era como se uma voz ancestral,
nheiro com essa coisa? E tem gente botan- queeuconheciajáháanos,serevelasseali,

GRANDEZA
do projetos no governo federal sem ter tra- pra mim“, lembra Fabiana.
balho social; R$ 2 milhões, R$ 3 milhões Depois, ela convidou Aloísio algumas
para botar um bloco na rua e botar uma vezes para se apresentar em São Paulo no
corda para jogar o pobre lá no canto?“ espetáculo idealizado pelo escritor Marce-
lino Freire, com base em seu livro Contos
DA NOITE E DE FESTIVAIS negreiros. ”Em todas as apresentações, as
O cantor baiano Aloísio Depois de vencer festivais, como o dos pessoas ficam de queixo caído. Aloísio é,
Menezes tem uma colégios Sartre e Teresa de Lisieux, Aloísio para mim, um de nossos elos contempo-
coleção de fãs célebres começou a cantar na noite, que considera râneos com nossa ancestralidade africana.
e será a voz do projeto uma faculdade. Começava às 11h, no Base Sua voz é uma bênção e embala todos os
Xirê Reverb, com cantos de Stella e ia até altas horas no Base do Fa- meus risos e dores, ele sabe disso”.
rol, na Barra, quando deu início à cultura
de candomblé
dos isopores na rua. O tráfego travava com DIAMANTE VERDADEIRO
tanta gente que ia ouvi-lo. Por aqui, cantando para o povo ou em
Texto MARCOS DIAS
mdias@grupoatarde.com.br Aloísio pensa que, se aquilo que viveu eventos indoor, Aloísio brilha, diamante
Foto THIAGO TEIXEIRA fosse hoje, quando há olheiros querendo verdadeiro, como intitulou um dos seus
thiagoteixeira@grupoatarde.com.br
produzir, estaria numa situação diferente. shows, premiado com o Troféu Caymmi
Achando que não estava sendo reconheci- nos anos 1999/2000. A promoter Licia Fa-
do na noite, apesar do retorno que dava, bio tem apresentado ao seu público o ta-
decidiu fazer teatro. Integrou o Bando de lento de Aloísio, embora considere que “in-
Teatro Olodum e foi um dos autores do tex- felizmente não é bem aproveitado na Ba-
to original da peça Ó paí, ó, criação dos ato- hia”, até por ser uma das vozes mais belas

N
res. E, depois de outras experiências nos O cantor no que já ouviu. “Sou grande admiradora do
a constelação de astros da Masamúsicajáestavadentrodele,bem palcos, decidiu voltar para a música. Santo Antônio: trabalho dele e gostaria de vê-lo no melhor
música baiana, Aloísio antes, direto da fonte mágica do candom- Em 2006, um dia depois que um bar que recursos vocais que a música pode dar a uma pessoa”.
Menezes, 47, brilha a blé. Criança, morava no Garcia, e a avó o havia aberto há pouco tempo com amigos e integridade Tudo tão diferente da vez em que, con-
anos-luz dos apelos, dos levava aos terreiros, onde ele não gostava sofreu um incêndio, isto é, desespero total, vidado para o lançamento das atrações de
esquemas e da falta de de ir. E não era pelo ritual. Sabe lá o que é lá estava Aloísio no palco do Theatro XVIII, um bloco, foi barrado na porta da boate
substância que costuma voltar da Liberdade ou da Suburbana a pé participando de um sarau sobre negritude. Steel, no Rio Vermelho, porque o proprie-
incorporar nos artistas do mainstream. para o Garcia? Era assim. ”Foi o show mais emocionante da minha tário não queria negros por lá. “Isso a gen-
Basta ele soltar a voz para se perceber a in- FilhodeOgum-Xoroquê,hojeseindigna vida”, lembra ele, que ainda tinha as ima- te tira de letra. Agora, não discrimine nin-
tegridade entre vida e obra. Inacreditável com a ação do tráfico de drogas em relação gens vivas das labaredas e cantou sublime- guém perto de mim, porque vou comprar
que não tenha um CD gravado. às comunidades religiosas. “Acho que es- mente.Quemestevealisabequeseucanto briga, até porque já chega, não é? Já so-
“Antes de morrer, não, logo, logo quero tão cometendo o maior erro, porque estão foi elevado à enésima potência. fremos demais. Até quando?”
fazer um disco cantando música popular destruindo o povo deles. E também se co- O mesmo acontece, hoje, por exemplo, Enquanto isso, estão vivas dentro dele
brasileira”, diz ele, que se tornou conheci- loca em relação à alienação de artistas con- quando é convidado pela cantora paulista as memórias de quando cantava na noite,
do ainda jovem, quando estudava no Ed- sagrados à realidade social (“o crack está Fabiana Cozza, para quem ele é, ”há anos, ou no bloco As Acadêmicas, na ópera Lídia
gard Santos e venceu o Festival Secunda- destruindo o Brasil“). uma das vozes mais importantes e lindas de Oxum (em que foi regido por Júlio Me-
rista de Artes Integradas, com uma música Embora respeite os colegas de profissão do cenário nacional”. Ela o conheceu du- daglia), ou na fundação do Cortejo Afro,
que havia composto dois dias antes, Pro- e diga tirar o chapéu para os trabalhos de rante uma canja num show de Marienne onde ficou oito anos e foi o primeiro cantor.
messa aos orixás. Carlinhos Brown, questiona: “Qual é a de Castro na Lavagem do Bonfim, em Atualmente, ao lado da sua carreira, de-
34 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 35

senvolve o projeto Afro-Batá, com o amigo Stroeter lembra que, para paulistas co- Morador do Santo Antônio Além do Car-
e cantor Portela, fundindo música afro com mo ele, que admiram Caymmi acima de mo, ele diz que mesmo se ganhar muito
candomblé e santeria cubana. qualquer coisa, Aloísio faz parte dessa tra- dinheiro, não vai sair de lá. Cheio de outros
Para o cantor e compositor Gerônimo, dição. “Sempre fiquei impressionado com dons, também dá show com o que chama
Aloísio é um dos maiores intérpretes da Ba- a voz dele, porque tem a potência do canto de “comida de senzala”, entenda-se: sara-
hia na atualidade e admira o grande artista popular e ao mesmo tempo é muito téc- patel, moqueca e feijoadas. Fã de Woody
que é. “Sua voz é inconfundível. Canta nico. E isso é muito difícil. Ele tem as duas Allen, tem certa preferência por A rosa púr-
blues e samba como ninguém, e seu reper- coisas, com um timbre poderosíssimo”. pura do Cairo, em que realidade e ficção
tório é magnífico. Ele faz a coisa clássica”. não se distinguem. No fundo, a vida é isso
Não à toa, gravou para a TV Cultura o COMIDA DE SENZALA mesmo. A dele, como diz, entre risadas au-
programa Mosaico – A arte de Dorival A jornalista e apresentadora Astrid Fon- tênticas, ia virar best-seller.
Caymmi. E ainda não é seu CD pessoal, mas tenelle diz entender, tecnicamente, por “Sou um vencedor. Já catei comida na
ainda neste semestre será lançado o CD Xi- que o Brasil ainda não conhece Aloísio. feira, peguei pão em supermercado, mas
rê Reverb – HB Tronix, com composições de “Salvador viveu uma tragédia com as chu- só teria vergonha se tivesse roubado, me
candomblés keto, que mistura sons acús- vas e o Brasil não sabia, já a mídia baiana prostituído ou traficado”. Recentemente,
ticos e eletrônicos, produzido pelo músico cola na do sul. Agora, se a gente já acha descobriu uma hérnia de disco. Herança do
e produtor paulista Guga Stroeter, e é de nossa música incrível, imagine se as pes- tempo que levava latas d’água na cabeça
Aloísio a voz do projeto. soas conhecessem Aloísio?” no Garcia. Sim, é um vencedor. «
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senvolve o projeto Afro-Batá, com o amigo Stroeter lembra que, para paulistas co- Morador do Santo Antônio Além do Car-
e cantor Portela, fundindo música afro com mo ele, que admiram Caymmi acima de mo, ele diz que mesmo se ganhar muito
candomblé e santeria cubana. qualquer coisa, Aloísio faz parte dessa tra- dinheiro, não vai sair de lá. Cheio de outros
Para o cantor e compositor Gerônimo, dição. “Sempre fiquei impressionado com dons, também dá show com o que chama
Aloísio é um dos maiores intérpretes da Ba- a voz dele, porque tem a potência do canto de “comida de senzala”, entenda-se: sara-
hia na atualidade e admira o grande artista popular e ao mesmo tempo é muito téc- patel, moqueca e feijoadas. Fã de Woody
que é. “Sua voz é inconfundível. Canta nico. E isso é muito difícil. Ele tem as duas Allen, tem certa preferência por A rosa púr-
blues e samba como ninguém, e seu reper- coisas, com um timbre poderosíssimo”. pura do Cairo, em que realidade e ficção
tório é magnífico. Ele faz a coisa clássica”. não se distinguem. No fundo, a vida é isso
Não à toa, gravou para a TV Cultura o COMIDA DE SENZALA mesmo. A dele, como diz, entre risadas au-
programa Mosaico – A arte de Dorival A jornalista e apresentadora Astrid Fon- tênticas, ia virar best-seller.
Caymmi. E ainda não é seu CD pessoal, mas tenelle diz entender, tecnicamente, por “Sou um vencedor. Já catei comida na
ainda neste semestre será lançado o CD Xi- que o Brasil ainda não conhece Aloísio. feira, peguei pão em supermercado, mas
rê Reverb – HB Tronix, com composições de “Salvador viveu uma tragédia com as chu- só teria vergonha se tivesse roubado, me
candomblés keto, que mistura sons acús- vas e o Brasil não sabia, já a mídia baiana prostituído ou traficado”. Recentemente,
ticos e eletrônicos, produzido pelo músico cola na do sul. Agora, se a gente já acha descobriu uma hérnia de disco. Herança do
e produtor paulista Guga Stroeter, e é de nossa música incrível, imagine se as pes- tempo que levava latas d’água na cabeça
Aloísio a voz do projeto. soas conhecessem Aloísio?” no Garcia. Sim, é um vencedor. «
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C
MARCO AURÉLIO MARTINS / AG. A TARDE

omidinha de mãe sempre GASTRÔ DIA DAS MÃES da, mas também como um prato principal,

Amor
ocupará um lugar de desta- seaopçãoforumarefeiçãomaisleveesau-
que no nosso repertório de dável”, sugere Isael Santos. Outro detalhe
sabores, isto é fato. Mas tão bacana é que o próprio recipiente, uma
prazeroso quanto ser servi- cestinha feita com batata e queijo ralados,
do por quem nos trouxe ao também é comestível.
mundo é pedir o avental emprestado e pu-

à mesa
xar a cadeira para dar a ela um lugar de SETE GRÃOS
honra à mesa. Mainha é do tipo que faz questão de um
Trocar o entra-e-sai dos shoppings por prato quente para dar aquela sustância?
um passeio no supermercado é tudo o que AlexandreVickinãotedeixanamão.Ochef
você precisa para fazer aquele dengo extra corporativo da rede de hotéis Pestana na
no segundo domingo de maio (8/5!) e su- Bahia sugere codorna assada com sete ce-
bir ainda mais no conceito da mamma. reais, receita que ele criou especialmente
Para te ajudar nesta empreitada, fomos para esta edição da Muito.
atrás de profissionais que indicaram cinco Chefs trazem sugestões especiais para incrementar Para quem já está pensando na traba-
passos certeiros para chegar ao coração o cardápio daquele almoço especial em família, que lheira que deve dar, ele tem uma boa no-
dela pelo paladar. Eles nos ajudaram a tícia. “Parece que não, mas é fácil de fazer”,
inclui entrada, prato principal, sobremesa e cafezinho
montar uma refeição completa, da entra- garante. “A codorna nada mais é do que
da ao café, e não deixaram brecha para Texto DANIELA CASTRO dcastro@grupoatarde.com.br um franguinho que não deu muito certo na
ninguém reclamar – as principais receitas vida”, brinca o chef.
desse cardápio especial estão disponíveis Não há mesmo motivos para pânico. A
no nosso blog, veja lá como são práticas. ave pode ser encontrada no setor de con-
gelados dos principais supermercados da
PARA O CORAÇÃO THIAGO TEIXEIRA / AG. A TARDE cidade, vendidas pelos mesmos fabrican-
O consultor gastronômico Isael Santos tes dos “franguinhos”. O preparo também
nos recebeu na cozinha da Perini para mos- não difere muito e inclui passos básicos, co-
trar sua sugestão de entrada. Ele preparou mo marinar e levar ao forno.
uma salada de frutos do mar e frutas que, Os sete cereais também são fáceis de
garante, “faz bem ao coração da mãe”. avistar nas prateleiras, e já vêm juntos na
Embora o sabor seja um verdadeiro afa- mesma embalagem. Arroz selvagem, ar-
go, não se trata apenas de uma metáfora. roz integral, soja e linhaça costumam estar
A salada leva vinho em sua composição, presentes na mistura, que pode variar de
além da própria uva, nas versões verde e acordo com a marca.
roxa. Ou seja, ingredientes ricos em tani- Depois de cozidos, os grãos ganham
no, substância bem-vinda na diminuição uma aparência semelhante à de um risoto,
das taxas de LDL, o tal colesterol ruim. com cores, formatos e texturas variados.
Maçã, manga e abacaxi reforçam o time Mas Vick lembra que também é possível
das frutas, que combinam superbem com optar por um único tipo de arroz – os aro-
o mix de camarão, mexilhão, ostra, lula e máticos são os mais indicados, de acordo
kani kama. A receita deixa o filho mes- com o chef. Seja qual for a escolha, incre-
tre-cuca livre para fazer adaptações e conta Acima, salada com frutos do mar do chef Isael mentar com tomate-cereja, alho-poró, da-
com a vantagem de ser um coringa. Santos. Ao lado, codorna assada com sete masco e castanha-de-caju ajuda a dar
“A salada pode ser servida como entra- cereais, do chef Alexandre Vicki aquele toque final.
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C
MARCO AURÉLIO MARTINS / AG. A TARDE

omidinha de mãe sempre GASTRÔ DIA DAS MÃES da, mas também como um prato principal,

Amor
ocupará um lugar de desta- seaopçãoforumarefeiçãomaisleveesau-
que no nosso repertório de dável”, sugere Isael Santos. Outro detalhe
sabores, isto é fato. Mas tão bacana é que o próprio recipiente, uma
prazeroso quanto ser servi- cestinha feita com batata e queijo ralados,
do por quem nos trouxe ao também é comestível.
mundo é pedir o avental emprestado e pu-

à mesa
xar a cadeira para dar a ela um lugar de SETE GRÃOS
honra à mesa. Mainha é do tipo que faz questão de um
Trocar o entra-e-sai dos shoppings por prato quente para dar aquela sustância?
um passeio no supermercado é tudo o que AlexandreVickinãotedeixanamão.Ochef
você precisa para fazer aquele dengo extra corporativo da rede de hotéis Pestana na
no segundo domingo de maio (8/5!) e su- Bahia sugere codorna assada com sete ce-
bir ainda mais no conceito da mamma. reais, receita que ele criou especialmente
Para te ajudar nesta empreitada, fomos para esta edição da Muito.
atrás de profissionais que indicaram cinco Chefs trazem sugestões especiais para incrementar Para quem já está pensando na traba-
passos certeiros para chegar ao coração o cardápio daquele almoço especial em família, que lheira que deve dar, ele tem uma boa no-
dela pelo paladar. Eles nos ajudaram a tícia. “Parece que não, mas é fácil de fazer”,
inclui entrada, prato principal, sobremesa e cafezinho
montar uma refeição completa, da entra- garante. “A codorna nada mais é do que
da ao café, e não deixaram brecha para Texto DANIELA CASTRO dcastro@grupoatarde.com.br um franguinho que não deu muito certo na
ninguém reclamar – as principais receitas vida”, brinca o chef.
desse cardápio especial estão disponíveis Não há mesmo motivos para pânico. A
no nosso blog, veja lá como são práticas. ave pode ser encontrada no setor de con-
gelados dos principais supermercados da
PARA O CORAÇÃO THIAGO TEIXEIRA / AG. A TARDE cidade, vendidas pelos mesmos fabrican-
O consultor gastronômico Isael Santos tes dos “franguinhos”. O preparo também
nos recebeu na cozinha da Perini para mos- não difere muito e inclui passos básicos, co-
trar sua sugestão de entrada. Ele preparou mo marinar e levar ao forno.
uma salada de frutos do mar e frutas que, Os sete cereais também são fáceis de
garante, “faz bem ao coração da mãe”. avistar nas prateleiras, e já vêm juntos na
Embora o sabor seja um verdadeiro afa- mesma embalagem. Arroz selvagem, ar-
go, não se trata apenas de uma metáfora. roz integral, soja e linhaça costumam estar
A salada leva vinho em sua composição, presentes na mistura, que pode variar de
além da própria uva, nas versões verde e acordo com a marca.
roxa. Ou seja, ingredientes ricos em tani- Depois de cozidos, os grãos ganham
no, substância bem-vinda na diminuição uma aparência semelhante à de um risoto,
das taxas de LDL, o tal colesterol ruim. com cores, formatos e texturas variados.
Maçã, manga e abacaxi reforçam o time Mas Vick lembra que também é possível
das frutas, que combinam superbem com optar por um único tipo de arroz – os aro-
o mix de camarão, mexilhão, ostra, lula e máticos são os mais indicados, de acordo
kani kama. A receita deixa o filho mes- com o chef. Seja qual for a escolha, incre-
tre-cuca livre para fazer adaptações e conta Acima, salada com frutos do mar do chef Isael mentar com tomate-cereja, alho-poró, da-
com a vantagem de ser um coringa. Santos. Ao lado, codorna assada com sete masco e castanha-de-caju ajuda a dar
“A salada pode ser servida como entra- cereais, do chef Alexandre Vicki aquele toque final.
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MARCO AURÉLIO MARTINS / AG. A TARDE

ce (azedo?) pode ser feito com antecedên-


cia e esperar o grande dia na geladeira.

IN VINO, VERITAS
A dedicação aos comes, claro, não pode
deixar de lado a preocupação com os be-
bes.ÉRudyLibhaber,donodaimportadora
de vinhos Zahil, quem nos orienta a esco-
lher bons vinhos para harmonizar com ca-
da fase da refeição.
“Para a entrada, vou de vinho branco.
Comacodorna,quetemumsabormaisen-
corpado, podemos usar um tinto leve”, in-
dicaoespecialista.Háaindaasbebidasque
podem ser harmonizadas com as sobre-
mesas. Se falta experiência, garanta uma
garrafa do clássico vinho do Porto. Libha-
Torta de cupuaçu com chocolate: sugestão de Cristina Rocha para a sobremesa ber só alerta para não confundir com licor.
“Este é para depois do café”, ensina.
THIAGO TEIXEIRA / AG. A TARDE
E, por falar em café, não deixe de ter
E qual é a mamãe que resiste a uma so- uma carta na manga, se a sua mãe ainda
bremesa? Está aí outra oportunidade de nãoestiversatisfeitadepoisdasobremesa.
mostrar seu imenso carinho por ela. Para Parasurpreender,sendosimples,dispense
diminuir a chance de erro, a empresária a cafeteira e faça um cafezinho coado no
Cristina Rocha, dona da torteria Casa do pano, aquele com gostinho de infância,
Café, sugere algo com chocolate. Mas lem- que ela conhece bem. Mas se quiser algo
brando que nem toda mulher tem compul- mais sofisticado, nada mal.
são por açúcar, ela teve a ideia de unir o OCaféDonutsdáumaforça,oferecendo
doce feito do cacau à polpa de um parente opções irresistíveis, como o Menta e o Con-
próximo, o cupuaçu. densado. Estes são difíceis de reproduzir
“Acho que tem tudo a ver com o Dia das em casa, a menos que se tenha uma má-
Mães, justamente porque tem o contraste. quina de café expresso. Mas dá para arris-
Toda mãe tem seu lado azedo, não tem, car uma versão do Frozenccinno.
não?”, diverte-se Cristina, mãe de dois fi- A bebida mistura capuccino gelado com
lhos já adultos. É ela mesma quem nos pre- calda e raspas de chocolate, além de uma
para a torta-pavê que, além da polpa de Dica de café do Donuts: quase um doce generosa cobertura de chantilly. A suges-
cupuaçu e do chocolate, leva ingredientes tão é de Lúcio Thé, que é sócio da franquia
simples, como leite condensado, creme de baiana com Rodrigo Araújo.
ONDE ENCONTRAR
leite e biscoitos champanhe. Ateliê Perini R. Maranhão, 64, Pituba, (71) Ele ainda dá uma dica que pode trans-
Mas é bom ficar atento a duas dicas pre- 3346-9999. Pestana Hotels & Resorts Rua Fonte formar o café num belo e inesquecível dois
do Boi, 216, Rio Vermelho, (71) 2103-8000.
ciosas: use produtos de boa qualidade e... Torteria Casa do Café Av. Oceânica, 551, Edifício em um: “Servimos com canudo, mas algu-
bom, tenha paciência. O preparo passa por Barra Center, Barra, (71) 3359-2370. Zahil Rua da mas pessoas preferem a colher. Assim, po-
Paciência, 54, Rio Vermelho, (71) 3334-0630. Café
quatro fases até o momento da monta- Donuts Rua Rubens Guelli, 135, Shopping Paseo
dem comer como se o café fosse uma so-
gem, num refratário. O consolo é que o do- Itaigara, (71) 3013-7047 bremesa”. Melhor impossível. «
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MARCO AURÉLIO MARTINS / AG. A TARDE

ce (azedo?) pode ser feito com antecedên-


cia e esperar o grande dia na geladeira.

IN VINO, VERITAS
A dedicação aos comes, claro, não pode
deixar de lado a preocupação com os be-
bes.ÉRudyLibhaber,donodaimportadora
de vinhos Zahil, quem nos orienta a esco-
lher bons vinhos para harmonizar com ca-
da fase da refeição.
“Para a entrada, vou de vinho branco.
Comacodorna,quetemumsabormaisen-
corpado, podemos usar um tinto leve”, in-
dicaoespecialista.Háaindaasbebidasque
podem ser harmonizadas com as sobre-
mesas. Se falta experiência, garanta uma
garrafa do clássico vinho do Porto. Libha-
Torta de cupuaçu com chocolate: sugestão de Cristina Rocha para a sobremesa ber só alerta para não confundir com licor.
“Este é para depois do café”, ensina.
THIAGO TEIXEIRA / AG. A TARDE
E, por falar em café, não deixe de ter
E qual é a mamãe que resiste a uma so- uma carta na manga, se a sua mãe ainda
bremesa? Está aí outra oportunidade de nãoestiversatisfeitadepoisdasobremesa.
mostrar seu imenso carinho por ela. Para Parasurpreender,sendosimples,dispense
diminuir a chance de erro, a empresária a cafeteira e faça um cafezinho coado no
Cristina Rocha, dona da torteria Casa do pano, aquele com gostinho de infância,
Café, sugere algo com chocolate. Mas lem- que ela conhece bem. Mas se quiser algo
brando que nem toda mulher tem compul- mais sofisticado, nada mal.
são por açúcar, ela teve a ideia de unir o OCaféDonutsdáumaforça,oferecendo
doce feito do cacau à polpa de um parente opções irresistíveis, como o Menta e o Con-
próximo, o cupuaçu. densado. Estes são difíceis de reproduzir
“Acho que tem tudo a ver com o Dia das em casa, a menos que se tenha uma má-
Mães, justamente porque tem o contraste. quina de café expresso. Mas dá para arris-
Toda mãe tem seu lado azedo, não tem, car uma versão do Frozenccinno.
não?”, diverte-se Cristina, mãe de dois fi- A bebida mistura capuccino gelado com
lhos já adultos. É ela mesma quem nos pre- calda e raspas de chocolate, além de uma
para a torta-pavê que, além da polpa de Dica de café do Donuts: quase um doce generosa cobertura de chantilly. A suges-
cupuaçu e do chocolate, leva ingredientes tão é de Lúcio Thé, que é sócio da franquia
simples, como leite condensado, creme de baiana com Rodrigo Araújo.
ONDE ENCONTRAR
leite e biscoitos champanhe. Ateliê Perini R. Maranhão, 64, Pituba, (71) Ele ainda dá uma dica que pode trans-
Mas é bom ficar atento a duas dicas pre- 3346-9999. Pestana Hotels & Resorts Rua Fonte formar o café num belo e inesquecível dois
do Boi, 216, Rio Vermelho, (71) 2103-8000.
ciosas: use produtos de boa qualidade e... Torteria Casa do Café Av. Oceânica, 551, Edifício em um: “Servimos com canudo, mas algu-
bom, tenha paciência. O preparo passa por Barra Center, Barra, (71) 3359-2370. Zahil Rua da mas pessoas preferem a colher. Assim, po-
Paciência, 54, Rio Vermelho, (71) 3334-0630. Café
quatro fases até o momento da monta- Donuts Rua Rubens Guelli, 135, Shopping Paseo
dem comer como se o café fosse uma so-
gem, num refratário. O consolo é que o do- Itaigara, (71) 3013-7047 bremesa”. Melhor impossível. «
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ACERVO PESSOAL / DIVULGAÇÃO


É possível ensinar a escrever? Acredito TRILHAS ANINHA FRANCO
muito que exista uma capacidade inata aninha.franco@grupoatarde.com.br
para apreender o mundo ao redor e
transportá-lo para o papel; assim como
acredito também que sem um esforço de Finalmente,
elaboração, de suor, de tentativas várias,
não se consiga desenvolver um texto de
valor maior. O que mais te atrai no
de volta
P
conto? O desafio de tentar dizer tudo o ensei em invadir a Colômbia, comentar a
que se tem em mente com pouquíssimas eleição pós-uribista de junho, falar de Anta-
linhas, de contar uma história ou sen- nas Mockus, candidato do Partido Verde,
sação sem ter que matar com palavras as que está amarelando os concorrentes e seduzindo o
entrelinhas. Como escreveu o argentino eleitorado com projetos de educação, saúde, rela-
Cortázar, o escritor de contos tem de ções honestas com a natureza e um pouco de lou- cordas, os cordeiros, os camarotes, a axé-music,
ganhar a luta de boxe por nocaute, com cura, quando Petúnia entrou no papo do Facebook Guanaes estrila, a algazarra acaba e a hibernação
um golpe certeiro. Já o romancista pode e propôs um tempo na fazenda. – Fazenda, Petú- traz de volta esse silêncio estrondoso. E bovino. O
muito bem se contentar em vencer por nia? Faltam Cuba, Venezuela... Atrações fatais, ma- silêncio da fazenda é sólido de cortar com faca cega.
pontos. Minimalismo é escolha estética luca! Tio Chávez e os vovôs Castro enlamearam a É tão perfeito que os espetáculos de teatro são mu-
ou dogma? É tendência inata, não es- greve de fome, a mais nobre das resistências, e pre- dos. Eventualmente emergem vaias, bombas atô-
colhi escrever contos curtos com uma sos políticos não são pontos turísticos atrativos! nitas que empolgam a patuleia, mas... – É silêncio
consciência teórica, sempre fui lacônico, demais, Petúnia! – Quer movimento? As academias

U
calado, casmurro... tudo o que é der- m negócio bom é desfrutar do ócio da fa- funcionam e tem, também, tiroteios, helicópteros
ramamento sempre me enfadou muito.
ORELHA PEDRO SALGUEIRO zenda no período de hibernação. – Mas? – que voam baixo e mortes do caixa dois, não com-
Qual o ponto em comum dos autores da Não tem mas, tem mais: o Carnaval pas- putadorizadas. – Vigi!

Escrever para
Geração 90? Eu nunca consegui ver uma sou, as chuvas de março caíram em abril, no São

P
identidade comum entre os muitos au- João todo mundo foge dos cacetes armados de Leo- ara os insones, os sonâmbulos, a poesia de
tores, eu mesmo sempre me senti um nelli e pronto... Em sete meses, as festas de Oyá, de Ruy Espinheira, as críticas de André Setaro,
peixe fora d’água dessa turma toda, pois Oxum, de Oxalá começam, os tropicalistas se ins- reunidas em livro, que garantem que Go-
faço contos ambientados em cidades

nocautear
talam na cidade, a imprensa discute o Carnaval, as dard, o chato, é um gênio, e que podem engordar
pequenas, quando a maioria é bem

» MAIS TEXTOS DO AUTOR EM REVISTAMUITO.ATARDE.COM.BR


conversa... As vozes de Mariella Santiago e Ana Pau-
urbana. Talvez o que pareça mais comum la Albuquerque, o CD de Mateus Aleluia, a Rumpi-
seja a falta de traços comuns! O que foi lezz, as loucuras de Fernando Guerreiro e os restau-
marcante na literatura nos anos 00? rantes. A moqueca de miolos do Porto Moreira, o
Acho muito cedo para que se analise até rodízio japa do Aice Zushi, a prancha de mariscos do
Integrante do time de escritores que ficou conhecido no Brasil mesmo a minha geração, que hoje é La Figa, a baianidade do Dona Mariquita, com as
como Geração 90, o cearense Pedro Salgueiro, 45, dedica-se ao composta por tios grisalhos e barrigu- batidas de Diolino, vivas ainda lá para o conforto da
conto. Parafraseando Julio Cortázar, ele compara as narrativas dinhos. Que obra dita grandiosa você nossa embriaguez baudelairiana. É comer e dormir!
leu e achou ruim? A primeira vez que li os
curtas a uma luta que deve ser vencida com golpe certeiro – Voltei para casa mesmo, porque antes das festas
contos de Juan Carlos Onetti achei um de dezembro tem eleições. «
Texto BRENO FERNANDES bfernandes@grupoatarde.com.br saco, monótonos. Eu estava impregnado
de García Márquez e seu turbilhão de

LIVROS PUBLICADOS: Talento cearense em contos (Antologia, 1996), Peso do morto


imagens, não poderia gostar mesmo
naquele momento. Tempos depois, me
«O silêncio da fazenda é tão perfeito
que até os espetáculos são mudos»
(1997), O espantalho (1996), Brincar com armas (2000), Geração 90: manuscritos de
computador (Antologia, 2001) tornei fanático pelo uruguaio. «
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ACERVO PESSOAL / DIVULGAÇÃO


É possível ensinar a escrever? Acredito TRILHAS ANINHA FRANCO
muito que exista uma capacidade inata aninha.franco@grupoatarde.com.br
para apreender o mundo ao redor e
transportá-lo para o papel; assim como
acredito também que sem um esforço de Finalmente,
elaboração, de suor, de tentativas várias,
não se consiga desenvolver um texto de
valor maior. O que mais te atrai no
de volta
P
conto? O desafio de tentar dizer tudo o ensei em invadir a Colômbia, comentar a
que se tem em mente com pouquíssimas eleição pós-uribista de junho, falar de Anta-
linhas, de contar uma história ou sen- nas Mockus, candidato do Partido Verde,
sação sem ter que matar com palavras as que está amarelando os concorrentes e seduzindo o
entrelinhas. Como escreveu o argentino eleitorado com projetos de educação, saúde, rela-
Cortázar, o escritor de contos tem de ções honestas com a natureza e um pouco de lou- cordas, os cordeiros, os camarotes, a axé-music,
ganhar a luta de boxe por nocaute, com cura, quando Petúnia entrou no papo do Facebook Guanaes estrila, a algazarra acaba e a hibernação
um golpe certeiro. Já o romancista pode e propôs um tempo na fazenda. – Fazenda, Petú- traz de volta esse silêncio estrondoso. E bovino. O
muito bem se contentar em vencer por nia? Faltam Cuba, Venezuela... Atrações fatais, ma- silêncio da fazenda é sólido de cortar com faca cega.
pontos. Minimalismo é escolha estética luca! Tio Chávez e os vovôs Castro enlamearam a É tão perfeito que os espetáculos de teatro são mu-
ou dogma? É tendência inata, não es- greve de fome, a mais nobre das resistências, e pre- dos. Eventualmente emergem vaias, bombas atô-
colhi escrever contos curtos com uma sos políticos não são pontos turísticos atrativos! nitas que empolgam a patuleia, mas... – É silêncio
consciência teórica, sempre fui lacônico, demais, Petúnia! – Quer movimento? As academias

U
calado, casmurro... tudo o que é der- m negócio bom é desfrutar do ócio da fa- funcionam e tem, também, tiroteios, helicópteros
ramamento sempre me enfadou muito.
ORELHA PEDRO SALGUEIRO zenda no período de hibernação. – Mas? – que voam baixo e mortes do caixa dois, não com-
Qual o ponto em comum dos autores da Não tem mas, tem mais: o Carnaval pas- putadorizadas. – Vigi!

Escrever para
Geração 90? Eu nunca consegui ver uma sou, as chuvas de março caíram em abril, no São

P
identidade comum entre os muitos au- João todo mundo foge dos cacetes armados de Leo- ara os insones, os sonâmbulos, a poesia de
tores, eu mesmo sempre me senti um nelli e pronto... Em sete meses, as festas de Oyá, de Ruy Espinheira, as críticas de André Setaro,
peixe fora d’água dessa turma toda, pois Oxum, de Oxalá começam, os tropicalistas se ins- reunidas em livro, que garantem que Go-
faço contos ambientados em cidades

nocautear
talam na cidade, a imprensa discute o Carnaval, as dard, o chato, é um gênio, e que podem engordar
pequenas, quando a maioria é bem

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conversa... As vozes de Mariella Santiago e Ana Pau-
urbana. Talvez o que pareça mais comum la Albuquerque, o CD de Mateus Aleluia, a Rumpi-
seja a falta de traços comuns! O que foi lezz, as loucuras de Fernando Guerreiro e os restau-
marcante na literatura nos anos 00? rantes. A moqueca de miolos do Porto Moreira, o
Acho muito cedo para que se analise até rodízio japa do Aice Zushi, a prancha de mariscos do
Integrante do time de escritores que ficou conhecido no Brasil mesmo a minha geração, que hoje é La Figa, a baianidade do Dona Mariquita, com as
como Geração 90, o cearense Pedro Salgueiro, 45, dedica-se ao composta por tios grisalhos e barrigu- batidas de Diolino, vivas ainda lá para o conforto da
conto. Parafraseando Julio Cortázar, ele compara as narrativas dinhos. Que obra dita grandiosa você nossa embriaguez baudelairiana. É comer e dormir!
leu e achou ruim? A primeira vez que li os
curtas a uma luta que deve ser vencida com golpe certeiro – Voltei para casa mesmo, porque antes das festas
contos de Juan Carlos Onetti achei um de dezembro tem eleições. «
Texto BRENO FERNANDES bfernandes@grupoatarde.com.br saco, monótonos. Eu estava impregnado
de García Márquez e seu turbilhão de

LIVROS PUBLICADOS: Talento cearense em contos (Antologia, 1996), Peso do morto


imagens, não poderia gostar mesmo
naquele momento. Tempos depois, me
«O silêncio da fazenda é tão perfeito
que até os espetáculos são mudos»
(1997), O espantalho (1996), Brincar com armas (2000), Geração 90: manuscritos de
computador (Antologia, 2001) tornei fanático pelo uruguaio. «
42 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 43

PAREDE TIAGO LIMA


www.flickr.com/photos/tiagolima/

O baiano Tiago Lima é o convidado da seção Parede neste mês.


Suas imagens, neste ensaio, têm em comum pessoas. A foto, feita
na Praia dos Algodões (Bahia), mostra a verve do artista: cores
fortes, iluminação elaborada e um olhar de esteta

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42 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 SALVADOR DOMINGO 2/5/2010 43

PAREDE TIAGO LIMA


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O baiano Tiago Lima é o convidado da seção Parede neste mês.


Suas imagens, neste ensaio, têm em comum pessoas. A foto, feita
na Praia dos Algodões (Bahia), mostra a verve do artista: cores
fortes, iluminação elaborada e um olhar de esteta

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44 SALVADOR DOMINGO
2/5/2010

DOMINGO, 2 DE MAIO DE 2010 #109


REVISTA SEMANAL DO GRUPO A TARDE

BRILHO ETERNO
Fratelli Vita, os cristais baianos que ficaram famosos em todo o País
SALVADOR DOMINGO
2/5/2010 45

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