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Os quadrantes da vida

http://www.osul.com.br/os-quadrantes-da-vida/

A espiral evolutiva, de Don Beck e Chris Cowan, estabelece uma correspondência


cromática para os graus de evolução. (Foto: Reprodução)
10 de dezembro de 2017 Colunistas, Lair Ribeiro

O ser humano está sempre em processo de evolução. A cada instante, um novo desafio o
impulsiona, forçando-o a buscar novas soluções, novos caminhos. Cada vez que obtém
êxito, o homem se fortalece, conquista novas habilidades e vai adquirindo consciência
sobre o processo de aprendizado e de transformação pessoal.

Verdadeiras transformações costumam ocorrer partir de uma insatisfação, de uma


necessidade não resolvida. O fracasso, na verdade, é uma alavanca para o sucesso. Na
história da evolução do homem, é fácil perceber essas alavancas, pois a partir de
necessidades como alimentação e abrigo e procriação, por exemplo, o homem pré-
histórico chegou ao que é hoje.
Ter consciência dos fatores externos e internos que influenciam o processo de
transformação é essencial para o sucesso de qualquer empreendimento. E para que haja
progresso, é preciso implementar ações em todas as áreas da vida, tendo sempre em
mente o equilíbrio, pois tudo é interligado. A vida é uma só. Não existe profissional sem
pessoal nem corpo sem mente, por exemplo.

A abordagem da vida em quatro áreas distintas, porém não separadas, foi apresentada
por Ken Wilber, filósofo norte-americanos e precursor dos Estudos Integrais. Nesse
estudo, as quatro áreas ou os Quadrantes são denominados: eu, nós, isto e istos. Eu
refere-se ao que está se passando dentro de você, seus pensamentos, suas impressões,
etc. Nós está relacionado ao seu corpo e cérebro, suas sensações, sua saúde etc. Isto
representa a cultura em que você está inserido e Istos reflete a sociedade em que você
vive.

Nessa jornada transformacional, a cada ciclo completado com êxito, há o despertar de


sua consciência e o homem passa a ter uma visão nova e mais abrangente da sua
realidade, passando para outro estágio de consciência.

Existem diferentes graus de avaliação da consciência. Clare W. Graves, professor de


Psicologia do Union College, em Nova York (EUA), descreveu o processo da evolução
do homem em um sistema que ficou conhecido como “modelo gravesiano”, do qual
Ken Wilber valeu-se para desenvolver seu estudo sobre os Quadrantes. Outros autores
também trabalharam com o modelo gravesiano. Don Beck e Chris Cowan, por exemplo,
estabeleceram uma correspondência cromática para os graus de evolução definidos por
Clare Graves e dispuseram as cores (cada uma representando um grau de evolução e de
consciência) em uma espiral, por ser a forma gráfica que melhor permite visualizar o
processo evolutivo.

Assim, a espiral evolutiva começa com o Bege, representando o nível primordial da


consciência humana; vai para o Roxo, que remete à vida em tribos; passa para o
Vermelho, marcando a impulsividade e a forte presença do ego; evolui para o Azul,
mostrando o espírito de sacrifício, obediência e retidão; e prossegue no Laranja, que
revela o gosto pelo poder, a competitividade e a autonomia. Em seguida, temos o Verde,
revelando necessidade de harmonia entre o homem e a natureza; o Amarelo, indicando
flexibilidade para agir diante de situações paradoxais; e o Turquesa, apontando para
indivíduos com um complexo grau cognitivo.

No mundo, convivem simultaneamente pessoas pertencentes a todos os graus da escala


cromática. Mendigos (Bege), índios ou tribos africanas (Roxo), ladrões ou assassinos
(Vermelho), operários ou camponeses (Azul), gerentes ou líderes (Laranja), agentes do
Greenpeace (Verde) e assim por diante — todos encontram-se em processo de evolução.

Comecei este artigo dizendo que o homem é um ser em evolução. Portanto, se você quer
não apenas acompanhar a sua espécie, mas se destacar, invista em seu crescimento,
avalie sua vida pessoal, social e profissional e surpreenda, fazendo a diferença no
mundo!

Arquivo para a Tag ‘Modelo da Espiral Dinâmica’


https://apenastrescoisas.wordpress.com/tag/modelo-da-espiral-dinamica/

Tenho observado em meus círculos de relacionamento, e vejo isso com grande


curiosidade e atenção, e também com alguma preocupação e tristeza, um discurso cada
vez mais frequente que alardeia aos quatro ventos que “Todas as hierarquias são
opressoras” ou “Abaixo todas as formas de hierarquia”. Essas pessoas
aparentemente não se dão conta de que, quando sobem em seu pequeno caixote de
madeira com seu megafone na mão, vociferando palavras de ordem, na verdade estão
pretendendo, de uma maneira hierárquica, se colocar acima das outras pessoas
“inferiores” que não pensam como elas e que ainda não foram esclarecidas pelo sopro
do conhecimento da verdade que só elas detêm. E não se dão conta, também, de que há
pelo menos dois tipos bem diferentes de hierarquias: as “hierarquias de
dominação” e as “hierarquias de crescimento”.

Hierarquias de Dominação X Hierarquias de Crescimento

Uma hierarquia de dominação, como seu próprio nome indica é opressiva, um sistema
de categorias e castas que de alguma maneira domina, explora e oprime as pessoas. E
toda hierarquia que impede o crescimento individual ou coletivo é uma hierarquia
de dominação. O sistema de castas, com a divisão da sociedade indiana em grupos
sociais rígidos, com raízes na sua história milenar e que ordenou a vida dos indianos
por milênios, tendo sido abolido em sua ultima Constituição, mas não dos corações e
mentes de muitas pessoas, é um exemplo desse tipo. O comunismo, com sua ideia
utópica de que é possível eliminar todas as classes, criando uma classe “única” em
uma “ditadura do proletariado” e, é claro, controlada por uma “classe dirigente”
autocrática, é outro exemplo de hierarquia de dominação. Já as hierarquias de
crescimento, também chamadas de hierarquias de realização são, por sua vez, os
próprios estágios ou níveis do desenvolvimento que se pretende alcançar ao longo de
um processo de crescimento e realização de qualquer natureza. No mundo natural, as
hierarquias de crescimento estão espalhadas em todas as partes, sendo a mais comum a
que envolve a transformação de átomos em moléculas, de moléculas em células e de
células em organismos. E nesse caso os níveis mais elevados não oprimem os menos
elevados, mas os abraçam, os abarcam, os incluem, os abrangem. São sempre
hierarquias aninhadas (nidiformes), implicando que cada nível mais elevado
transcende e inclui os seus precedentes.

Dando seguimento ao meu impulso de buscar novas formas de apoiar o


desenvolvimento de pessoas e organizações com as quais estabeleço contato, em
novembro de 2005, em um Curso de Coaching Integral, fui apresentado a uma elegante
estrutura teórica (Modelo Integral) para organizar o mundo e suas atividades em cinco
categorias simples que são, ao mesmo tempo, aspectos de nossa própria experiência: os
Quadrantes, os Níveis, as Linhas, os Estados e os Tipos. Essa abordagem, proposta
pelo filósofo Ken Wilber, nos ajuda a ver a nós mesmos e o mundo que nos cerca de
um modo mais abrangente que inclui as realidades objetivas (Cosmos) e as subjetivas, e
tudo isso de um ponto de vista individual e também do coletivo. Essas realidades estão
associadas a um conceito mais abrangente de Kosmos, palavra grega que significa o
Todo padronizado de toda a existência, incluindo os reinos físico, emocional,
mental e espiritual.
Relendo, nas últimas semanas, trechos de “A Visão Integral” (Editora Cultrix),
“Boomerite” (Editora Madras), “Éden queda ou ascensão?” (Verus Editora) esses
dois últimos brilhantemente traduzidos por meu bom amigo Ari Raynsford, e “A Brief
History of Everything” (Shambhala) vejo novamente que quando analisamos qualquer
situação com o apoio dos quatro Quadrantes propostos por Wilber, podemos perceber
como qualquer evento Físico – Matéria/Energia – ISTO (do quadrante superior
direito) representa apenas um quarto da história. E que as dimensões da Consciência –
EU (do quadrante superior esquerdo) com nossas emoções, estados psicológicos,
imaginação e intenções; da Cultura – NÓS (do quadrante inferior esquerdo) com
nossos valores culturais, religiosos e visão de mundo comuns e dos Sistemas Sociais –
ISTOS (quadrante inferior direito) com nossas estruturas materiais, sociais e
econômicas surgem simultaneamente à ocorrência desse evento e interagem entre si. E
podemos perceber também como esses Quadrantes se desdobram em Níveis de
Consciência, Linhas de Desenvolvimento (Inteligências Múltiplas), Estados de
Consciência e Tipos.

A partir dessas leituras renovadas de parte da obra de Ken Wilber, resolvi fazer um
resumo do Modelo Integral e de sua relação, conforme a percebo, com a questão da
hierarquia. E o faço para mim mesmo, como parte do meu processo de reflexão e, é
claro, para compartilhar com os amigos que também podem se interessar por esses
temas. E, principalmente, como um estímulo para que os interessados possam buscar
mais informações nas fontes originais, cuja leitura recomendo com empenho.

O crescimento, desenvolvimento e evolução que ocorrem em cada um dos quadrantes


se apresentam em alguns tipos de estágios ou níveis, não como os degraus rígidos de
uma escada, mas como ondas que fluem e se desdobram naturalmente e abraçam,
abarcam, incluem e abrangem os níveis antecedentes. E o aumento dos níveis
interiores de consciência vem acompanhado de um aumento de níveis exteriores de
complexidade física do sistema que a abriga. E o mecanismo chave desse
desenvolvimento é o de “transcender e incluir”. O nível de cima “transcende e inclui” o
nível precedente e, como menciona Wilber, traz novas capacidades e ao mesmo tempo a
possibilidade de novos desastres; não só novos potenciais, mas também novas
patologias; novas forças e novas doenças.

No Quadrante Físico – Matéria/Energia – ISTO (quadrante superior direito), em que


se vê qualquer evento individual de fora, no caso de cada um de nós como indivíduos
temos nossos comportamentos físicos, componentes materiais (neurotransmissores,
sistema límbico, neocórtex, estruturas moleculares complexas, células, sistemas
orgânicos, DNA), corpo concreto, e a energia do “isto” se expande
fenomenologicamente de grosseira para sutil e causal. No Quadrante da Consciência
– EU (quadrante superior esquerdo) com nossos pensamentos, emoções, estados
psicológicos, imaginação e intenções, o “eu” passa do estágio egocêntrico para o
etnocêntrico e para o mundicêntrico, ou do corpo, para a mente e para o espírito. No
Quadrante da Cultura – NÓS (quadrante inferior esquerdo) com nossos valores
culturais, religiosos e visão de mundo comuns, o “nós” expande-se do estágio
egocêntrico (“eu”) para o etnocêntrico (“nós”) e para o mundicêntrico (“todos
nós”). No Quadrante dos Sistemas Sociais – ISTOS (quadrante inferior direito) com
nossas estruturas materiais, sociais e econômicas essas estruturas se expandem de
simples grupos, para nações e, finalmente, para sistemas globais.

Em nossa trajetória de elevação do nosso Nível de Consciência, podemos fazê-lo


também em cada uma das diversas Linhas de Desenvolvimento ou Inteligências
Múltiplas de que somos dotados de maneira potencial e que podemos desenvolver e
explorar. Diversos pesquisadores respeitados realizaram trabalhos notáveis de
estabelecimento das características de cada estágio ou nível que poderia ser alcançado
em cada Linha de Desenvolvimento. Abraham Maslow explorou a Linha de
Necessidades e demonstrou que as pessoas tendem a se mover através de uma
sequencia crescente de necessidades (Fisiológicas; Segurança; Pertencimento;
Autoestima; Realização Pessoal; e Transcendência de si mesmo) e com a satisfação de
cada uma tende a surgir outra mais elevada; Jean Gebser explorou a Linha de Visões
de Mundo (Arcaica; Mágica; Mítica; Racional; Pluralista; Integral; e Transcendência de
si mesmo); Michael Commons & Francis Richards, Jean Piaget e Sri Aurobindo
exploraram suas respectivas ideias a respeito da Linha Cognitiva [Sensório-motora;
Pré-operacional (Simbiótica); Pré-operacional (Conceitual); Operacional concreta
(Mente regra/papel); Operacional formal (Mente racional); Mente pluralista (Mente
Meta-sistêmica, Mente planetária); Baixa Visão-lógica (Paradigmática); Alta Visão-
lógica (Transparadigmática, Mente global); Mente intuitiva, Meta mente; Mente
iluminada, Para-mente; Mente transcendental (Overmind); e Supermente]. Robert
Kegan explorou as Ordens de Consciência (Ordem 0; Ordem 1; Ordem 2; Ordem 3;
Ordem 4; Ordem 4,5; e Ordem 5). Loevinger e Cook-Greuter exploraram a Linha de
Auto-identidade (Simbiótica; Impulsiva; Autodefensiva; Conformista; Conscienciosa;
Individualista; Autônoma; Ciente do seu papel (Integrada); Consciente do Ego; e
Transpessoal). E Clare Graves, Don Beck & Christopher Cowan, e Wade
exploraram a Linha de Valores [Sobrevivência (Bege, Arcaico-Instintivo); Espírito de
Agregação (Roxo, Mágico-Animista); Deuses de Poder (Vermelho, Egocêntrico); Força
da Verdade (Azul, Absolutista, Ordem Mítica); Instinto de Luta (Laranja, Multiplista);
Vínculo Humano (Verde, Relativista); Flexibilidade e Fluidez (Amarelo, Sistêmico);
Visão Global (Turquesa, Sistêmico); Transcendente; e Unidade].

Deixo de incluir neste resumo a abordagem de aspectos relacionados a Estados de


Consciência e Tipos, para não tornar o texto ainda mais extenso, e em virtude de que
esses aspectos, mais propriamente os Tipos, têm menos a ver com a questão da
hierarquia.

E o que tudo isso que foi anteriormente mencionado tem a ver com a questão da
hierarquia?

Para responder a essa pergunta, uma vez que desenvolvi minha própria abordagem de
Coaching Centrado em Valores em grande medida a partir da Linha de
Desenvolvimento de Valores conhecida como o Modelo da Espiral Dinâmica de Don
Beck e Christopher Cowan, apresentarei a seguir, com base em alguns conteúdos dos
livros citados anteriormente, um breve resumo de cada um dos Níveis de
Desenvolvimento que emergiram desses estudos e com os quais estou um pouco mais
familiarizado. Lembrando sempre que:

a) O Modelo da Espiral Dinâmica é baseado no trabalho pioneiro de Clare Graves


que, procurando identificar o que seria um adulto psicologicamente saudável, trouxe à
luz o seu Modelo Gravesiano (modelo emergente, cíclico, de hélice dupla, do
desenvolvimento de sistemas biopsicossociais adultos);
b) O modelo é emergente porque ninguém nasce com ele completo, mas apenas em
potencial. Ele vai emergindo, surgindo na vida das pessoas. A ontogenia
(desenvolvimento do indivíduo desde a fecundação até a maturidade para reprodução)
recapitula a filogenia (gênese e história evolucionária das espécies);
c) O modelo é cíclico porque os níveis alternam ciclos de preocupações individuais
(auto-expressão, com referencial interno) com os de preocupações coletivas (sacrifício
pelo bem geral, com referencial externo). É como um pêndulo que oscila do “eu”
para o “nós” e de volta do “nós” para o “eu”, indefinidamente, de um lado para o
outro.
d) O modelo é de hélice dupla porque em cada nível são identificadas novas condições
de vida que estimulam o surgimento de uma nova estrutura de resposta (capacidade
mental/cerebral, psiconeurológica) formando binômios distintos (condição de vida-
estrutura de resposta);
e) O modelo é de desenvolvimento de sistemas biopsicossociais adultos porque
depende do desenvolvimento de fatores biológicos, psicológicos e sociais em pessoas
adultas considerando a maturidade inerente a cada ser humano; e
f) O nível de cima “transcende e inclui” o nível precedente.

Níveis de Primeira Camada:

Sobrevivência (Bege, Arcaico-Instintivo, Eu)


“Nível básico de sobrevivência; alimento, água, abrigo, sexo e segurança são
prioritários. Usa hábitos e instintos apenas para sobreviver. A individualidade está no
início do despertar e quase não se sustenta. Reúne-se em bandos de sobrevivência para
perpetuar a vida. Onde é encontrado: primeiras sociedades humanas, recém-nascidos,
pessoas senis, pessoas em estágio avançado do Mal de Alzheimer, moradores de rua
mentalmente doentes, massas famintas, pessoas com traumas de guerra.
Aproximadamente 0,1% da população mundial adulta, 0% de poder.”

Espírito de agregação (Roxo, Mágico-Animista, Nós)


“O pensamento é animista; espíritos mágicos, bons e maus, fervilham pela Terra
trazendo bênçãos, maldições e encantamentos que determinam os acontecimentos.
Reúnem-se em tribos étnicas. Os espíritos existem nos antepassados e aglutinam a tribo.
Parentesco e linhagem estabelecem vínculos políticos. Aparenta ser “holístico”, mas na
verdade é atomístico: Há um nome para cada curva do rio, mas nenhum nome para o
rio. Onde é encontrado: crença em maldições do tipo vodu, juramentos de sangue,
mágoas antigas, amuletos de boa sorte, rituais de família, superstições e crenças étnicas
mágicas; forte em comunidades do terceiro mundo, gangues, equipes esportivas e
“tribos” corporativas; também em crenças mágicas da New Age, cristais, tarô,
astrologia. 10% da população, 1% de poder.”

Deuses de poder (Vermelho, Egocêntrico, Eu)


“Primeira emergência de um eu distinto da tribo; poderoso, impulsivo, egocêntrico,
heroico. Espíritos, arquétipos, dragões e feras místicos. Deuses e deusas arquetípicos,
seres poderosos, forças com que se pode contar, tanto boas quanto más. Senhores
feudais protegem os súditos em troca de obediência e trabalho. A base dos impérios
feudais – poder e glória. O mundo é uma selva cheia de ameaças e de predadores.
Conquista, engana e domina; aproveita ao máximo, sem pena ou remorso; aqui e agora.
Onde é encontrado: Os “terríveis dois” (referência aos dois anos de idade, quando a
criança “nasce” realmente para um “eu” com emoções e sentimentos separados, o seu
nascimento psicológico), juventude rebelde, mentalidades limítrofes, reinos feudais,
heróis épicos, vilões de James Bond, líderes de gangues, soldados mercenários, astros
de rock pesado, Átila rei dos Hunos, “Senhor das Moscas” (Romance de William
Golding que descreve em detalhes a transição de um bando de crianças da civilização
para a barbárie), envolvimento mítico. 20% da população, 5% de poder.”

Força da Verdade (Azul, Absolutista, Ordem Mítica, Nós)


“A vida tem significado, direção e propósito, com eventos determinados por um ‘Outro’
ou ‘Ordem’ todo-poderosos. Esta Ordem justa impõe um código de conduta baseado em
princípios absolutos e invariáveis de certo e errado. A violação do código ou das regras
apresenta severas, e talvez permanentes repercussões. A obediência ao código gera
recompensas para os fiéis. Base das nações antigas. Hierarquias sociais rígidas;
paternalista; um, e apenas um, modo correto de pensar sobre tudo. Lei e ordem;
impulsividade controlada através da culpa; crença concreto-liberal e fundamentalista;
obediência à regra da Ordem; fortemente convencional e conformista. Frequentemente
religioso no sentido mítico-fundamentalista; Graves e Beck referem-se a ele como o
nível ‘religioso/absolutista’, mas pode ser também uma Ordem ou Missão secular ou
ateísta. Onde é encontrado: América Puritana, China Confucionista, Inglaterra
Dickensiana, disciplina de Singapura, totalitarismo, códigos de cavalaria e de honra,
obras de caridade, fundamentalismo religioso (por exemplo, cristão e islâmico),
Escoteiros e Bandeirantes, maioria moralista, patriotismo. 40% de população, 30% de
poder.”

Instinto de Luta (Laranja, Conquista Científica, Multiplista, Eu)


“Nesta onda, o indivíduo escapa da ‘mentalidade de rebanho’ do nível azul e procura a
verdade e o significado em termos individualistas e científicos. O mundo é uma
máquina racional, bem lubrificada, com leis naturais que podem ser aprendidas,
controladas e manipuladas visando a interesses próprios. Altamente orientado para a
conquista de objetivos; especialmente na América para ganhos materiais. As leis da
ciência regulam a política, a economia e os acontecimentos humanos. O mundo é um
tabuleiro de xadrez onde partidas são jogadas e os vencedores conquistam superioridade
e privilégios em detrimento dos perdedores. Alianças de mercado; manipulação dos
recursos naturais visando a ganhos estratégicos. Base dos estados corporativos. Onde é
encontrado: No Iluminismo, ‘A Revolta de Atlas’ Romance de Ayn Rand em que um
homem diz que pararia o motor do mundo – e o faz, Wall Street, classe média
emergente em todo o mundo, indústria de cosméticos, caça a troféus, colonialismo,
Guerra Fria, indústria da moda, materialismo, capitalismo de mercado, auto-interesse
liberal. 30%da população, 50% de poder.”

Vínculo humano (Verde, O Eu Sensível, Relativista, Nós)


“Comunitário, sensibilidade ecológica, operação em rede. O espírito humano deve se
livrar da ganância, dos dogmas, das divergências; sentimentos e cuidados substituem a
fria racionalidade; acalentar a Terra, Gaia, a vida. Contra hierarquias; estabelece
vínculos e ligações laterais. Eu permeável relacional, inter-relacionamento de grupos.
Ênfase no diálogo e nos relacionamentos. Base das comunidades coletivas (isto é,
afiliações, baseadas em sentimentos comuns, escolhidas livremente). Decide através da
reconciliação e do consenso (lado negativo: ‘processamento’ interminável e
incapacidade de chegar a decisões). Renova a espiritualidade, cria harmonia, enriquece
o potencial humano. Fortemente igualitário, anti-hierárquico, valores pluralistas,
construção social da realidade, diversidade, multiculturalismo, sistemas de valores
relativos; esta visão de mundo é frequentemente denominada de ‘relativismo pluralista’.
Pensamento subjetivo, não linear, demonstra um alto grau de calor humano,
sensibilidade e cuidado pela Terra e por todos os seus habitantes. Onde é encontrado:
ecologia profunda, pós-modernismo, idealismo holandês, terapia rogeriana, sistema de
saúde canadense, psicologia humanista, teologia da libertação, cooperativismo,
Conselho Mundial de Igrejas, Greenpeace, eco psicologia, direitos dos animais, eco
feminismo, pós-colonialismo, Foucault/Derrida, o politicamente correto, movimentos de
diversidade, tema de direitos humanos. 10% da população, 15% de poder.”

Características dos Níveis de Primeira e de Segunda Camada:

Quando as pessoas fazem seu centro de gravidade e se identificam com o conjunto de


crenças e valores dominantes em cada um desses estágios de primeira camada (do
nível bege até o verde) apresentados anteriormente, acreditam firmemente que seus
valores sejam os únicos verdadeiros e corretos e que todos os outros estejam
profundamente equivocados; reagem negativamente quando desafiadas e agridem,
usando suas armas, quando se sentem ameaçadas.

É como se esquecessem, como se não conseguissem sequer perceber a existência,


quando estão em um determinado nível, que de fato já percorreram e se identificaram
fortemente, em algum momento do passado, com os níveis precedentes em resposta a
alguma condição de vida: não se lembram de que em situações de emergência ativamos
impulsos vermelhos poderosos; que em resposta ao caos, temos necessidade de ativar a
ordem azul; que ao procurar um novo emprego, precisamos de impulsos laranjas de
conquista; que no casamento e com amigos, buscamos os laços íntimos verdes. “E na
verdade a ordem azul se sente extremamente desconfortável tanto com a impulsividade
vermelha quanto com o individualismo laranja. O individualismo laranja pensa que a
ordem azul é para trouxas e o igualitarismo verde é para fracos e frescos.” Ou ainda: “O
igualitarismo verde não consegue aguentar facilmente a excelência e a classificação
de valores, grandes imagens, hierarquias ou qualquer coisa que pareça autoritária;
portanto, o verde tende a bater no azul, no laranja e em tudo que for pós-verde”.

“De maneira bem objetiva: qualquer nível de primeira camada contribuirá para
impedir a paz mundial.”

“Tudo, entretanto, começa a mudar com o pensamento de segunda camada que


será apresentado a seguir. Porque a consciência de segunda camada está
completamente ciente dos estágios anteriores de desenvolvimento; ela se recorda de que
já pensou assim, dá um passo atrás e capta a imagem global, percebendo, portanto, o
papel necessário que cada nível desempenha para que se possa avançar. A consciência
de segunda camada pensa em termos da espiral completa de desenvolvimento, e
não, simplesmente, em termos de um nível específico. Daí, com a consciência de
segunda camada, o mundo passa a fazer sentido, a transformar-se como um todo, a
tornar-se consistente pela primeira vez. Enquanto o nível verde – o mais elevado dos
estágios de primeira camada – começa a perceber a rica diversidade e o maravilhoso
pluralismo das diferentes culturas, o pensamento de segunda camada dá um passo
adiante, um salto quântico. Ele procura por elos que liguem e juntem essas diferentes
culturas e, portanto, considera esses sistemas separados e começa a abraça-los, incluí-
los e integrá-los em espirais holísticas e malhas integrais. Ele é fundamental para
passarmos do pluralismo para o integralismo.”

Operando-se com a consciência de segunda camada, como diz Wilber, abre-se,


convidativa, no horizonte, a possibilidade de paz genuína.

Níveis de Segunda Camada:

Flexibilidade e fluidez (Amarelo, Sistêmico, Eu)


“A vida é um caleidoscópio de sistemas fluentes, inter-relacionados. Flexibilidade,
espontaneidade, e funcionalidade têm a máxima prioridade. Diferenças e pluralismos
podem ser integrados em fluxos naturais interdependentes. Igualitarismo é
complementado por graus naturais de excelência, distinções e julgamentos
qualitativos. Conhecimento e competência devem substituir posição, poder, status
ou grupo. A ordem mundial prevalecente é resultado da existência de diferentes
níveis de realidade (ou Memes) e dos inevitáveis padrões de movimento para cima
e para baixo na Dinâmica da Espiral. Um bom governo facilita a emergência de
entidades por meio dos níveis de crescente complexidade (hierarquia nidiforme). 1%
da população, 5% de poder.”

Visão Global (Turquesa, Sistêmico, Nós)


“Sistema holístico universal, ondas de energias integrativas; une sentimento e
conhecimento; múltiplos níveis interconectados num sistema consciente; a base da
totalidade extensiva. Ordem universal, mas de modo vivo e consciente, não baseado
em regras externas (azul) ou vínculos de grupo (verde). É possível uma “grande
unificação” ou uma grande imagem em teoria e na prática. Algumas vezes envolve a
emergência de uma nova espiritualidade como uma teia de toda a existência.
Pensamento turquesa é totalmente integral e usa a espiral completa; vê múltiplos níveis
de interação; detecta harmônicos, as forças místicas e os estados de fusos de fluxos que
permeiam todas as organizações. 0,1% da população e 1 % do poder.”

E, depois do nível turquesa, desde que novas condições de vida sejam percebidas e
sejam favoráveis, o pêndulo da evolução desenvolve novas respostas em termos de
estruturas psiconeurológicas e inclina-se mais uma vez na direção de um “eu” com um
nível de desenvolvimento ainda mais elevado do que aquele dos níveis amarelo e
turquesa, cujos contornos em termos de conjunto de crenças e valores ainda não foram
suficientemente definidos.
Condições de Vida

E vale a pena tecer algumas considerações a respeito do que Graves se referia quando
falava de condições de vida. Condição de vida é o meio em que vive o ser humano.
Seu estudo leva em conta fatores interdependentes tais como: tempo histórico, espaço
geográfico, condições sociais e circunstâncias econômicas. Portanto, não existe apenas
uma condição de vida, mas inúmeras! E isso também não significa que uma pessoa,
ao ativar um novo sistema de crenças e valores, tenha abandonado suas antigas visões
de mundo. Ela simplesmente as incluiu e transcendeu. E antigos modos de pensar
podem ser reativados em caso de degradação das condições de vida. Um hipotético
professor de filosofia residente no Haiti, anteriormente operando no nível de
consciência turquesa, pode estar operando agora a partir de um conjunto de crenças e
valores roxo e/ou vermelho, quando tem que disputar com outras pessoas uma ração de
água e comida para levar para sua família e para o próprio consumo, nos postos de
distribuição assistencial organizados pela Força de Paz da Organização das Nações
Unidas, no espaço geográfico, social e econômico seu país ainda devastado, depois do
terrível terremoto de 2010.

E o que pode ser um entrave para esse desejado salto quântico da humanidade dos
níveis de primeira camada para os de segunda camada? Excluindo-se situações de
degradação das condições de vida, ou seja, supondo-se que as condições evoluam de
maneira favorável, ainda assim temos o seguinte: o fundamentalismo religioso (azul)
frequentemente sente-se afrontado pela segunda camada, na qual vê uma tentativa de
derrubar sua Ordem instituída; o egocentrismo (vermelho) também ignora a segunda
camada; o mágico (roxo) lança um feitiço contra ela; e o verde acusa a consciência de
segunda camada de ser autoritária, hierárquica, patriarcal, marginalizadora,
opressora, racista e sexista. Exatamente o fato de que o nível de consciência verde, o
mais elevado da primeira camada, ele próprio ser ainda um nível de primeira camada,
com suas novas capacidades com relação ao nível laranja e, ao mesmo tempo, com a
possibilidade de novos desastres; não só novos potenciais, mas também novas
patologias; novas forças e novas doenças. E é essa “doença” do nível verde que Ken
Wilber chama de Boomerite.

O Conceito de Boomerite

Os Boomers nascidos após a Segunda Guerra Mundial – a geração Baby Boom –


formam a primeira geração a crescer nesta aldeia global: um tempo em que todas as
culturas estão disponíveis umas para as outras. Isto nunca aconteceu antes no planeta
Terra. Como nos aponta Wilber:
“Desde alguns milhões de anos até agora uma pessoa nascia numa cultura que não sabia
praticamente nada sobre nenhuma outra. Você nascia chinês, crescia chinês, casava com
uma chinesa, seguia uma religião chinesa e muitas vezes vivia na mesma cabana a vida
inteira, num espaço de terra em que seus ancestrais se fixaram havia séculos. Uma vez
ou outra, este isolamento cultural era interrompido por uma estranha e grotesca forma
de Eros conhecida por guerra, onde culturas se uniam violentamente por meios brutais
de violação, embora o resultado misterioso sempre fosse um tipo de relacionamento
cultural erótico. As culturas passavam a conhecer-se num sentido bíblico – um feliz
sadomasoquismo oculto que norteou a história até a presente aldeia global. Das tribos e
bandos isolados aos pequenos povoados, às cidades-estados antigas, aos gloriosos
impérios feudais, aos vastos estados internacionais, até a atual aldeia global: muitos
ovos foram quebrados para se fazer essa extraordinária omelete global.”

E quando reli esse parágrafo não resisti à tentação de rabiscar no rodapé do livro:

ovos quebrados,
na omelete global:
sangue derramado…

E como nos aponta Wilber:

“E nesta aldeia global – a única que temos – sobreviveremos juntos ou nos


destruiremos.”

E não se trata de forçar uma uniformidade comunista tentando nivelar ou eliminar todas
as maravilhosas diferenças existente mas, isso sim, no sentido de se buscar uma
unidade-na-diversidade, de se vivenciar crenças e valores comuns, apesar de nossas
diferenças: substituindo rancor por reconhecimento mútuo, hostilidade por respeito,
convidando a todos a estabelecer e compartilhar um espaço do entendimento mútuo.
Não há necessidade de se concordar com tudo que é dito mas, pelo menos, de se
procurar entender o que é dito por cada uma das pessoas em cada um dos níveis de
consciência. Entender que cada nível é crucialmente importante para a saúde de toda a
espiral, devendo ser abraçado e tratado com carinho.
Voltando a abordar alguns aspectos dessa doença que pode acometer a geração Baby
Boom, os Boomers responsáveis pelo desenvolvimento do nível de consciência verde, a
primeira geração verde da história, Wilber às vezes usa outra terminologia que tomou
emprestada de um romance de Edwin A. Abbott “Flatland: A Romance of Many
Dimensions” que é uma história do Século XIX sobre um mundo de duas dimensões
inspirado particularmente na geometria. Flatland é a crença de que a realidade é
plana, que não há níveis de consciência. E nos lembra que “não podemos sequer falar
em ajudar as pessoas a crescer e desenvolver-se através dos níveis de consciência se
elas, em primeiro lugar, não souberem que existem níveis de consciência.”

“Os Boomers moveram-se além do tradicionalismo dos azuis e do modernismo


científico dos laranjas e foram os primeiros de uma compreensão multicultural,
pluralista, pós-moderna – o nível verde e o eu sensível. Exatamente por isso os Boomers
lideraram os direitos civis, as preocupações ecológicas, o feminismo e a diversidade
multicultural. Esta é a parte ‘alta’ da mistura, a parte verdadeiramente comovente da
geração Boomer e das revoluções explosivas dos anos 60, o amplo movimento do azul
para o laranja, até o verde.”

“Mas todo nível tem seu lado negativo, sua sombra, sua possível patologia e, no caso do
verde, seu lado negativo foi que ele realmente transformou-se num imenso ímã para o
narcisismo – eu faço o meu, você faz o seu, com ênfase em ‘eu’ e ‘meu’. E este é o lado
desastroso da equação dos Boomers, a parte ‘baixa’ da mistura, a parte que causou
quase tantos danos quanto a parte alta causou benefícios.”

“Pluralismo, igualitarismo, e multiculturalismo, no que têm de melhor, provêm de uma


postura desenvolvimentista muito elevada – o nível verde – e desta posição de
integridade e preocupação, o nível verde tenta tratar todos os níveis anteriores com igual
atenção e compaixão, um intento verdadeiramente nobre. Mas porque ele abraça um
intenso igualitarismo, falha em ver que sua própria postura – que é a primeira capaz de
igualitarismo – é muito elitista (algo em torno de 10% da população mundial). Pior, o
nível verde nega ativamente os estágios que o produziram, em primeiro lugar, o próprio
nível verde, porque deseja visualizar todos os níveis igualitariamente. Mas o
igualitarismo verde é produto, como já vimos, de pelo menos seis principais estágios de
desenvolvimento, um desenvolvimento contra o qual se volta e nega agressivamente em
nome do igualitarismo!”

“Sob a nobre aparência do pluralismo, todas as ondas prévias de existência, não importa
quão superficiais, egocêntricas ou narcisistas, são encorajadas a ‘serem elas mesmas’, já
que nenhuma delas é considerada, intrinsecamente, melhor que as outras. Mas se o
‘pluralismo’ for realmente verdadeiro, então devemos convidar os nazistas e a Ku Klux
Klan para o banquete multicultural, pois supõe-se que nenhuma postura seja melhor ou
pior que as outras e, portanto, todas devem ser tratadas de uma maneira igualitária –
neste ponto, a autocontradição do pluralismo vem à tona de maneira gritante.”

“Assim, o ponto de vista extremamente elevado do pluralismo – o produto de pelo


menos seis estágios de transformação – vira-se de costas e nega-se o próprio caminho
que produziu sua nobre postura. Abraça igualitariamente todas as posturas, não importa
quão superficiais ou narcisistas. Desse modo, quanto mais o igualitarismo é
implementado, tanto mais ele convida, na verdade encoraja, a cultura do Narcisismo. E
a Cultura do Narcisismo é a antítese da cultura integral, o oposto de um mundo em
paz.”

“No dicionário, a definição de narcisismo é ‘interesse excessivo em si mesmo, em sua


importância, em sua grandeza, em sua capacidade; egocentrismo.’ Os terapeutas
nos explicam que o estado interior de narcisismo é, frequentemente, o de um eu vazio e
fragmentado, que tenta, desesperadamente, preencher o espaço inflando seu ego e
desinflando o dos outros. A disposição emocional é: ‘Ninguém vai me dizer o que
fazer!’”

“Em resumo, a postura relativamente elevada do pluralismo transforma-se num super-


ímã para o estágio relativamente baixo de narcisismo egóico. E isso nos leva
diretamente a Boomerite.”

“Boomerite é, simplesmente, pluralismo infectado por narcisismo: é a estranha


mistura de capacidade cognitiva muito elevada (o nível verde e o pluralismo nobre)
infectada por narcisismo emocional bem baixo (níveis roxo e vermelho) –
exatamente a mistura que vem sendo notada por tantos críticos sociais. O eu
sensível, tentando honestamente ajudar, exagera excitadamente em sua própria
importância.”

A Falácia Pré-Pós ou Pré-Trans

Tendo sito definidos os contornos de Boomerite, ou do “pluralismo infectado de


narcisismo”, e de como as coisas podem dar errado ao longo do desejável processo de
desenvolvimento de consciência – de egocêntrico, para etnocêntrico, para globocêntrico
– como nos sugere Wilber, vemos que uma fonte de narcisismo é, simplesmente, a falha
no crescimento e evolução.

“Particularmente, no difícil crescimento de egocêntrico para etnocêntrico, aspectos da


consciência que recusem esta transição podem ficar ‘empacados’ nos domínios
egocêntricos, com dificuldades de adaptação às regras e papéis da sociedade. É lógico
que algumas dessas regras e papéis não merecem respeito; podem apresentar uma
necessidade muito grande de crítica e rejeição. Mas essa atitude pós-convencional – que
verifica, reflete sobre e critica as normas sociais – somente pode ser atingida passando
primeiramente pelos estágios pré-convencionais, porque as capacidades obtidas nesses
estágios são pré-requisitos para a consciência pós-convencional. Em outras palavras,
alguém que não consiga superar os estágios convencionais fará, não uma crítica pós-
convencional da sociedade, mas uma rebelião pré-convencional. ‘Ninguém vai me
dizer o que fazer!’”

“Os críticos concordam que os Boomers foram uma geração notoriamente rebelde. Parte
dessa rebeldia, sem dúvida, surgiu de indivíduos pós-convencionais, sinceramente
engajados em reformar aspectos errados, injustos ou imorais da sociedade. Mas tão
certo quanto isso – e há suficientes evidencias empíricas – uma alarmante fatia dessa
atitude rebelde partiu de impulsos pré-convencionais que apresentavam muita
dificuldade de crescer para as realidades convencionais.”
E algumas de suas palavras de ordem, que ecoam desde os anos 1960, podem ser:
“Combatam o sistema”; “Questionem a autoridade”; “Todas as hierarquias são
opressoras” ; “Abaixo todas as formas de hierarquia”.

“O estudo de caso clássico são os protestos estudantis de Berkeley no final dos anos 60
– protestos especialmente contra a Guerra do Vietnã. Os estudantes afirmavam, em
uníssono, que estavam agindo de uma elevada posição moral. Mas quando foram
aplicados testes reais de desenvolvimento moral, a larga maioria foi enquadrada em
níveis pré-convencionais, não pós-convencionais (houve poucos tipos convencionais ou
conformistas porque, por definição, eles não são muito rebeldes). Obviamente, a
moralidade pós-convencional e globocêntrica da minoria dos participantes do protesto
deve ser aplaudida – não necessariamente suas crenças, mas o fato de chegarem a elas a
partir de um raciocínio moral altamente desenvolvido. Entretanto, o egocentrismo pré-
convencional da vasta maioria dos participantes do protesto deve ser igualmente
reconhecido.”

“O ponto mais fascinante dessa pesquisa é algo geralmente definido como situações
‘pré’ e ‘pós’ – pois, uma vez que tanto pré-X quanto pós-X são não-X, frequentemente
são confundidos. Isto é, tanto pré-convencional quanto pós-convencional são não-
convencionais, estão fora das normas e regras convencionais, e, assim, são muitas
vezes confundidos e até mesmo igualados. Em tais situações, ‘pré’ e ‘pós’
frequentemente usarão a mesma retórica e a mesma ideologia, mas, de fato, estão
efetivamente separados por um imenso abismo de crescimento e desenvolvimento. Nos
protestos de Berkeley, praticamente todos os estudantes afirmaram agir de acordo com
princípios morais universais – por exemplo, ‘A Guerra do Vietnã viola direitos humanos
universais e, portanto, como um ser moral, recuso-me a lutar nessa guerra.’ Porém,
testes provaram inequivocamente que somente uma minoria – menos de 20% – agia de
acordo com princípios morais pós-convencionais; a grande maioria dos estudantes agia
seguindo impulsos egocêntricos pré-convencionais: ‘Ninguém vai me dizer o que
fazer!’; Pegue essa guerra e desapareça.’”

“Parece que nesse caso ideais genéricos muito nobres foram usados para apoiar, de fato,
impulsos muito desprezíveis. A estranha semelhança superficial de estágios de
desenvolvimento ‘pré’ e ‘pós’ permite esse subterfúgio – permite, em outras palavras,
que o narcisismo pré-convencional frequente os salões daquilo que é ruidosamente
aclamado como idealismo pós-convencional. Esta confusão entre pré-convencional e
pós-convencional, porque ambos são não-convencionais, é chamada de falácia pré-pós
e parece que pelo menos parte do idealismo dos Boomers deve ser interpretada ou
reinterpretada sob esse enfoque mais severo. Quase todo mundo notou, naquela época,
que quando cessou a convocação para a guerra, os protestos perderam muito da sua
intensidade – chega de moralidade, não é?”

“Este é um ponto crucial, pois alerta-nos para o fato de que, não importa quão generosa,
idealista e altruísta uma causa possa parecer – da ecologia para a diversidade cultural,
para a espiritualidade, para a paz mundial – o simples falar da boca para fora em apoio à
causa não é suficiente para determinar por que, de fato, a causa está sendo abraçada.
Muitos críticos sociais simplesmente assumiram que, se os Boomers clamavam por
‘harmonia, amor, respeito mútuo e multiculturalismo’, eles se moviam nesse rumo
idealista. Entretanto, em muitos casos, não só os Boomers não estavam se movendo
naquela direção, em termos do seu crescimento interior, como estavam abraçando,
espalhafatosamente, uma perspectiva idealista, precisamente para esconder sua postura
egocêntrica. A hipocrisia aqui é absolutamente impressionante!”

O Imperativo Moral do Desenvolvimento de Consciência

A título de conclusão desse Resumo da Abordagem Integral, em que procurei


enfatizar os diversos aspectos da hierarquia de crescimento dos nossos níveis de
consciência, que penso ser a direção do desenvolvimento de um adulto
psicologicamente saudável, apresento em minha tradução livre o conceito que Ken
Wilber denomina “Intuição Básica Moral” (“Basic Moral Intuition”) que ele acredita
ser a verdadeira forma e estrutura da intuição espiritual.

“… quando intuímos o Espírito, nós O estamos intuindo como aparece nos quatro
quadrantes (porque o Espírito se manifesta nos quatro quadrantes – ou de maneira
simplificada no Eu, no Nós, e no Isto/Istos). Portanto, quando estou intuído claramente
o Espírito, eu intuo sua preciosidade não apenas em mim mesmo, na minha própria
profundidade, no meu domínio do Eu, mas igualmente O intuo no domínio de todos os
outros seres, que compartilham comigo o mesmo Espírito (em sua própria
profundidade). E portanto desejo proteger e promover esse Espírito, não somente em
mim mesmo, mas em todos os seres possuindo esse Espírito, e sou movido, e intuo
claramente esse Espírito, no sentido de implementar esse desdobramento
Espiritual em tantos seres quanto seja possível: intuo o Espírito não somente como
Eu, e não somente como Nós, mas também como um impulso para implementar essa
realização como Fatos Objetivos (Isto) no mundo.”

“Assim, precisamente porque o Espírito realmente se manifesta como todos os quatro


quadrantes (ou como Eu, Nós e Isto), então a intuição Espiritual, quando claramente
apreendida, o faz como um desejo para estender a profundidade do “Eu” para a
abrangência do “Nós”, como Fatos Objetivos (A verdade), “Istos” no mundo…
Assim, protegendo e promovendo a maior profundidade na maior abrangência
possível.”

“A ideia é que, na tentativa de promover a maior profundidade na maior


abrangência, devemos fazer julgamentos objetivos sobre diferenças de valor
intrínseco e sobre o grau de profundidade que eventualmente destruímos, nas
tentativas de atender às nossas necessidades vitais.“

Colocando essa conclusão em minhas próprias palavras, como tenho feito em diversas
oportunidades, e particularizando nossas ações como indivíduos em cada uma de nossas
sociedades:

“Devemos pensar, falar e agir de maneira congruente, procurando contribuir para


a elevação do nível de desenvolvimento de consciência de todas as pessoas, cada
uma a seu tempo.”