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FUNDAMENTOS DE

DIREITO
Maria Tereza Ferrabule Ribeiro
Raquel Helena Hernandez Fernandes

FUNDAMENTOS DE
DIREITO
Reitor Prof. Celso Niskier
Pro-Reitor Acadêmico Maximiliano Pinto Damas
Pro-Reitor Administrativo e de Operações Antonio Alberto Bittencourt
Coordenação do Núcleo de Educação a Distância Viviana Gondim de Carvalho

Redação Dtcom
Análise educacional Dtcom
Autoria da Disciplina Maria Tereza Ferrabule Ribeiro, Raquel Helena Hernandez Fernandes
Validação da Disciplina Luiz Antônio Alves Gomes
Designer instrucional Milena Rettondini Noboa

Banco de Imagens Shutterstock.com


Produção do Material Didático-Pedagógico Dtcom

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Ficha catalográfica elaborada pela Dtcom. Bibliotecária – Vanessa Gabriele de Araújo - CRB 14/1498)

R484f

Ribeiro, Maria Tereza Ferrabule Ribeiro.

Fundamentos de direito / Maria Tereza Ferrabule Ribeiro; Raquel Helena


Hernandez Fernandes. – Curitiba, PR: Dtcom, 2018.

153 p.

Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-93685-41-5

1. Direito I. Fernandes, Raquel Helena Hernandez. II. Título.


CDD 340

© Copyright 2018 da Dtcom. É permitida a reprodução total ou parcial, desde que sejam respeitados os
direitos do Autor, conforme determinam a Lei n.º 9.610/98 (Lei do Direito Autoral) e a Constituição Federal,
art. 5º, inc. XXVII e XXVIII, “a” e “b”.
Sumário
01 Conceito de direito. Evolução do direito. Constituições do Brasil. Direito constitucional:
fundamentos e princípios fundamentais. Direitos e deveres individuais e coletivos.
Cidadania e habeas corpus, habeas data, mandados de segurança e injunção..................7

02 Fontes do Direito e ramos do Direito. Fontes primárias, fontes secundárias.


Ramos do Direito Público e ramos do Direito Privado ....................................................14

03 Hierarquia das normas jurídicas: emendas constitucionais, leis. Instrumentos de


integração do Direito: analogia e princípios gerais do Direito ........................................22

04 Administração Pública – princípios da Administração Pública (LIMPE). Artigo 37 da


Constituição Federal. .............................................................................................................30

05 Contratos Administrativos. Licitação..................................................................................37


06 Sujeitos do Direito: nascimento e fim..................................................................................44
07 Capacidade relativa e absoluta.............................................................................................51
08 Atos Jurídicos. Ato ilícito. Negócio Jurídico.......................................................................59
09 Defeito do Negócio Jurídico..................................................................................................67
10 Contratos: conceito e validade. A compra e venda de imóveis e a locação de imóveis.
Doação e dação em pagamento. Novação. Empréstimo: mútuo e comodato ................ 74

11 Empresário. Regime de bens e abertura de empresa pelo casal. Empresa Individual


e Empresa Individual de Responsabilidade Limitada – EIRELI. Sociedade Limitada
e Sociedade Anônima ............................................................................................................82

12 Responsabilidade dos sócios...............................................................................................89


13 A lei de falência e recuperação.............................................................................................96
14 Noções Gerais da Recuperação Judicial e Extrajudicial............................................... 104
15 Crimes Falimentares............................................................................................................ 111
16 As partes na relação de consumo: consumidor e fornecedor.................................... 118
17 Direitos básicos do consumidor........................................................................................ 125
18 Responsabilidade por vício do produto e do serviço .................................................... 132
19 Práticas comerciais abusivas............................................................................................ 139
20 Vício oculto. Vício redibitório (rescisão do contrato por vício redibitório) ................ 146
TEMA 1
Conceito de direito. Evolução do direito. Constituições
do Brasil. Direito constitucional: fundamentos e
princípios fundamentais. Direitos e deveres individuais
e coletivos. Cidadania e habeas corpus, habeas data,
mandados de segurança e injunção
Maria Tereza Ferrabule Ribeiro

Introdução
A partir de agora você estudará a evolução do Direito, além das Constituições Federais, que
fizeram parte da história brasileira. Também conhecerá informações importantes sobre os Direitos
Individuais e Coletivos, a cidadania e os remédios jurídicos que podem ser aplicados em diferentes
situações para assegurar os direitos fundamentais.

Objetivos de aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• compreender os principais marcos históricos na evolução do Direito;


•• conhecer as Constituições Federais Brasileiras;
•• identificar os princípios fundamentais regidos pela Constituição Federal Brasileira.

1 Breve evolução histórica do Direito


Primeiro, é importante que você conheça o contexto histórico. Os primeiros passos que levaram
à formalização do Direito foram dados com o Código de Hamurabi, na Mesopotâmia. Era um conjunto
de leis criado em meados do século XVIII a.C., pelo rei Hamurabi, que tinha como fundamento o “olho
por olho, dente por dente”, da antiga Lei do Talião (ALTAVILA, 2001, p. 52). Essa expressão trazia a ideia
de que a punição deveria ser igualmente proporcional ao delito cometido. Deste modo, na época, se
alguém perfurasse os olhos de um homem livre, possivelmente, perderia os olhos como pena.

FIQUE ATENTO!
A Lei de Talião podia ser menos indulgente, de acordo com a posição hierárquica da
pessoa acusada do delito, podendo ser concedida ainda uma pena compensatória,
como no caso dos médicos (ALTAVILA, 2001).

– 7 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Figura 1 – As leis

Fonte: BrunoWeltmann/Shutterstock.com

De acordo com os estudos de Altavila (2001), além do Código de Hamurabi, outros ordena-
mentos influenciaram o Direito, como “A Magna Carta da Inglaterra”, de 1215; o livro “Dos Delitos e
das Penas”, de Cesare Beccaria, de 1764; e a “Lei de Declaração Universal dos Direitos do Homem”,
de 1948.

SAIBA MAIS!

Amplie seus conhecimentos sobre as principais legislações que influenciaram o


Direito lendo a obra “Origem dos Direitos dos Povos”, de Jayme Altavila.

Agora chegou o momento de fazermos um breve resumo histórico das constituições brasileiras.

2 As Constituições Federais Brasileiras


Analisando as Constituições Brasileiras, desde a época do Brasil Colônia até os dias atuais,
observamos rupturas significantes de um período para outro (PONTUAL 2013). A primeira delas
foi criada ainda no período colonial, em 1824, e foi extremamente importante para estabelecer a
ordem após a independência do Brasil da Coroa Portuguesa. Depois, em 1891, foi criada a consti-
tuição da República, que descentralizou o poder do monarca e estabeleceu a separação em legis-
lativo, executivo e judiciário.

– 8 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Já em meados de 1934, com o crescimento da economia e a deficiência da política do café-


-com-leite (acordo político firmado entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais, que gerava o
revezamento de escolha do presidente da antiga república), surge uma terceira constituição com
viés social, coletivo. Outorgada por Getúlio Vargas, a Constituição de 1937 possuía um viés fas-
cista, sendo caracterizada como um golpe ao governo democrático.
Em 1946, com o fim da Segunda Guerra Mundial, o Brasil entra em um período de redemocra-
tização, quebrando os ideais ditatoriais deixados por Vargas. É promulgada então a constituição
de 1946, que restabelece a democracia no Estado. Em 1967, o Brasil enfrentava o Regime Militar
instaurado no país, fator que deu causa a constituição deste período. A constituição da ditadura
durou 21 anos; após esse período ocorre a quebra do governo militar e uma nova constituição
estabelecer novamente a democracia do Estado. Em 1988 é criada uma nova constituição, desta
vez com um rol extenso de direitos e garantias, individuais e coletivos, que permanece em vigor
até os dias atuais.

Figura 2 – Constituição Federal do Brasil

Fonte: Alexander Mak / Shutterstock.com

FIQUE ATENTO!

A Constituição Federal de 1988 é considerada como a Constituição Cidadã porque


restabeleceu o Estado democrático brasileiro (BRASIL, 1988).

Vamos estudar, a seguir, os princípios que regem nossa lei máxima.

– 9 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

3 Os princípios fundamentais na
Constituição Federal Brasileira
Como você já sabe, as Constituições Federais brasileiras foram instituídas em diferentes épo-
cas, de acordo com o momento político do país. A atual Constituição, promulgada em 1988, esta-
belece os direitos sociais do povo brasileiro, que fundamenta a sua base democrática e cidadã.
Esses princípios estão dispostos no Título I da Constituição Federal (PONTUAL, 2013).
Vale destacar ainda que a Constituição Federal, em seus artigos 1° ao 4°, estabelece prin-
cípios norteadores para a aplicação do Direito. É importante salientar que estes princípios não
possuem força normativa, ou seja, não têm características de norma positiva, sendo vistos como
valores que limitam a atuação do jurista no momento da interpretação. Podemos dizer, portanto,
que tanto os direitos fundamentais quanto a organização do Estado são valorados e protegidos
por estes princípios.

Figura 3 – Cidadão brasileiro

Fonte: Lazyllama/Shutterstock.com

O artigo 1º da Constituição Federal de 1988 remete aos princípios fundamentais. Dentre eles,
podemos destacar, inicialmente, a “Soberania”, pois concede poder absoluto à República Fede-
rativa do Brasil, e a “Cidadania”, pois está ligada diretamente ao Estado democrático, descrito no
preâmbulo do artigo. Salientamos ainda a “Dignidade Humana”, pois retrata a pessoa como ponto
central, a proteção do ser humano (BRASIL, 1988).

EXEMPLO
Proibir o uso de banheiro durante o expediente é um exemplo de violação à dignida-
de humana, assim como é um caso de violação aos Direitos e Deveres Individuais
e Coletivos o anúncio discriminatório que informa: “Oportunidade de emprego para
homem de 20 anos, boa aparência, estatura alta etc.”.

– 10 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Outros princípios fundamentais são os “Valores Sociais”, interligados à dignidade da pessoa,


tendo como centro o trabalho digno, sem exploração, e a “Livre Iniciativa”, que foca tanto na pes-
soa individual como na empresa, estabelecendo contratos sem intervenção estatal, desde que
observadas as regras legais de proteção. E, por fim, o “pluralismo político”, encontrado na esfera
social, abarcando as diversidades econômica, religiosa, cultural, de comunicação e política, sem
discriminações. (BRASIL, 1988).

4 Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos


Agora que já sabemos do que se tratam os princípios fundamentais, vamos conhecer os
Direitos e Deveres Individuais dos Cidadãos, localizados no Título II – Capítulo I da Carta Magna.
Em se tratando de Direitos Individuais e Coletivos, nossa constituição assegura direitos ine-
rentes ao ser humano, como o direito à vida, liberdade, igualdade, ordem social etc. Os direitos
da coletividade, por sua vez, são importantes para assegurar o direito de outrem, regular a ordem
social, além de limitar os direitos individuais.
Como Direito Fundamental, em relação à cidadania, podemos exemplificar o exercício do
voto. Já o acesso às notícias, que retratam a situação do país, é um exemplo de Direitos dos Indi-
víduos; quanto aos deveres podemos destacar: conhecer e obedecer às leis.

Figura 4 – Direitos individuais e coletivos

Fonte: Viktor88 / Shutterstock.com

O preâmbulo do artigo 5° da Constituição Federal estabelece os princípios constitucionais


fundamentais do estado democrático de direito no Estado brasileiro:

Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos bra-
sileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade,
à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...) (BRASIL, 1988).

– 11 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!
Tenha em mente que os direitos e garantias fundamentais contidos no artigo 5° da
Constituição Federal apresentam-se em 78 incisos e quatro parágrafos. Porém, é
importante destacar que estas garantias são exemplos, e não se esgotam neste rol.

A Constituição Federal de 1988 trouxe, em seu artigo 5º, importantes remédios com a inten-
ção de proteger os direitos fundamentais dos cidadãos, tais como (BRASIL, 1988):
•• Habeas Corpus: instrumento para impedir o constrangimento ilegal. Por exemplo, um
juiz que condena o acusado sem o devido amparo legal.
•• Habeas Data: possibilita informações de pessoas nos bancos de dados governamen-
tais. Exemplo: acesso ao Detran para verificação de multas.
•• Mandado de Segurança Individual: para proteção individual, que não são amparados
por Habeas Corpus e Habeas Data.

EXEMPLO
Após ter sido reprovado em um concurso público devido à característica física não
exigida no edital, como a altura, o concorrente utiliza um Mandado de Segurança
Individual para continuar na disputa pela vaga pretendida.

•• Mandado de Segurança Coletiva: impetrado por partido político, organização sindi-


cal, entidade de classe ou associações legalmente constituídas, funcionando há pelo
menos um ano. Exemplo: sindicato que, a favor dos associados, impetra ação para que
seja aplicado o percentual correto do FGTS.
•• Mandado de Injunção: quando ocorrer falta de norma regulamentadora e forem inviá-
veis os direitos e liberdades constitucionais. Exemplo: apesar de a lei garantir o direito
de greve, ainda não há regulamentação no caso de servidores públicos.

SAIBA MAIS!
Amplie seus conhecimentos sobre os remédios constitucionais lendo o artigo “As
garantias dos direitos fundamentais, inclusive as judiciais, nos países do Mercosul”
(SCHAFER, 1999). Acesse em: <https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/
id/486/r142-17.PDF?sequence=4>.

Portanto, acabamos de conhecer os remédios constitucionais que asseguram os princípios e


direitos fundamentais dispostos na Constituição Federal.

– 12 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• identificar influências na evolução do Direito;


•• relembrar as Constituições Federais do Brasil e seus períodos históricos;
•• conhecer os remédios jurídicos para proteção dos direitos fundamentais dos cidadãos.

Referências
ALTAVILA, Jayme. Origem dos Direitos dos Povos. 9. ed. São Paulo: Editora Ícone, 2001.

BECCARIA, Cesare. Dos Delitos e das Penas. Ridendo Castigat Mores (ed eletrônica). EbooksBrasil.
com. Disponível em: <http://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/delitosB.pdf>. Acesso em: 18 jul 2017.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: Texto constitu-


cional promulgado em 5 de outubro de 1988, com as alterações determinadas pelas Emendas
Constitucionais de Revisão nos 1 a 6/94, pelas Emendas Constitucionais nos 1/92 a 91/2016 e
pelo Decreto Legislativo no 186/2008. Disponível em: <http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/
id/518231>. Acesso em: 04 ago. 2017.

_______. Câmara dos Deputados. Portal da Constituição Cidadã. Constituição Federal: Apresenta-
ção. 1988. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/Constitui-
coes_Brasileiras/constituicao-cidada>. Acesso em: 10 ago. 2017.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Resolução nº 217 A III, de 10 de dezembro de 1948. Decla-
ração Universal dos Direitos Humanos. Disponível em: <https://www.unicef.org/brazil/pt/resour-
ces_10133.htm>. Acesso em: 04 ago. 2017.

PONTUAL, Helena Daltro. Uma breve história das Constituições do Brasil. 25 anos de Constituição
Cidadã. Senado Federal, Brasília (DF), 2013. Disponível em: <http://www.senado.gov.br/noticias/
especiais/constituicao25anos/historia-das-constituicoes.htm>. Acesso em: 10 ago 2017.

SCHAFER, Jairo Roberto. As garantias dos direitos fundamentais, inclusive as judiciais, nos países
do Mercosul. Revista de Informações Legislativa, Brasília, a. 36, n. 142, abr./jun. 1999. Disponí-
vel em: <https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/486/r142-17.PDF?sequence=4>.
Acesso em: 4 ago 2017.

– 13 –
TEMA 2
Fontes do Direito e ramos do Direito. Fontes primárias,
fontes secundárias. Ramos do Direito Público e ramos
do Direito Privado
Maria Tereza Ferrabule Ribeiro

Introdução
Nesta aula estudaremos as fontes do Direito e suas origens, apresentando os ordenamentos
jurídicos e o comportamento das leis, de acordo com sua eficácia e temporalidade. Aprenderemos
ainda sobre as fontes primárias e secundárias, que também são chamadas de mediatas e imedia-
tas. E, finalmente, abordaremos a divisão do Direito em ramos, o Direito Público e o Direito Privado.

Objetivos de aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• compreender os conceitos e as fontes no ramo do Direito;


•• identificar as fontes primárias e secundárias do Direito;
•• entender Direito Público e Direito Privado.

1 Conceitos de fontes e ramos do Direito


Vamos apresentar inicialmente o significado etimológico da palavra fonte, que é derivado do
latim fons e significa “nascente manancial”. Assim, em um sentido amplo, entende-se que se trata
do local em que “nascem ou brotam as águas” (SILVA, 1989, p. 311). No sentido legal podemos
dizer que é a origem do nascimento das leis.

Por “fonte do direito” designamos os processos ou meios em virtude dos quais as regras
jurídicas se positivam com legítima força obrigatória, isto é, com vigência e eficácia no
contexto de uma estrutura normativa. (REALE, 2002, p. 140)

As fontes podem ser dividas em materiais ou formais. Observe a seguir.

•• Fontes materiais
Estão diretamente ligadas ao conteúdo das normas, à integração do fato ao ordena-
mento jurídico, e são construídas ao logo do tempo.

•• Fontes formais
Constituem o conjunto de normas de determinado território. É o mecanismo pelo qual
o Direito se manifesta.

– 14 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Contudo, vale ainda destacar que as fontes podem ser estudadas sob outra perspectiva,
sendo divididas entre fontes primárias e fontes secundárias.

Figura 1 – Fonte

Fonte: Inked Pixels / Shutterstock.com

2 Fontes primárias
As leis são consideradas fontes primárias do Direito. São fontes diretas, principais e possuem
aplicabilidade imediata. As leis são classificadas ainda como formais, pois regulam e “dizem o
direito” a um determinado povo.

Figura 2 – Igualdade

Fonte: Shutterstock.com.

– 15 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!

As leis são de caráter genérico e obrigatório, impostas pelo Estado, e devem ser
obedecidas por todos sem qualquer tipo de distinção.

O artigo 5° da Constituição Federal em seu caput dispõe que as leis são obrigatórias, desta
forma os cidadãos não poderão alegar ignorância ou falta de conhecimento, caso venham a pra-
ticar ato que prejudique qualquer ordenamento jurídico (BRASIL, 1988). Assim, tenha sempre em
mente que na organização administrativa brasileira, a Constituição Federal ocupa o primeiro grau
na hierarquia das leis, seja no âmbito estadual ou municipal (NADER, 2014).

FIQUE ATENTO!

Em relação ao caráter de continuidade, uma norma somente perde a sua eficácia


quando outra a modifica ou a revoga.

Saiba ainda que as leis serão gerais, quando aplicadas para alcançar todos os cidadãos,
como, por exemplo, a Constituição Federal; e especiais, quando este alcance se refere a situações
particulares, como no caso da Consolidação das Leis do Trabalho (NADER, 2014).

Figura 3 – As leis

Fonte: Rafa Irusta / Shutterstock.com

Os ordenamentos jurídicos, como as leis, possuem atributos para validarmos sua existência.
A seguir, vamos destacar esses atributos (NADER, 2014). Acompanhe!

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FUNDAMENTOS DE DIREITO

•• Vigência
As leis podem ser permanentes (quando não houver prazo para a sua vigência) e tempo-
rárias (quando há prazo de vigência). Para que uma lei seja vigorada, ela sofre uma tem-
poralidade, conforme determina o artigo 1° da Lei de Introdução ao Código Civil. “Salvo
disposição contrária, a lei começa a vigorar em todo o país 45 (quarenta e cinco) dias
depois de oficialmente publicada”. Esta vacância da lei é denominada de vacatio legis.

•• Efetividade
Deve ser obedecida tanto por quem se destina a lei, quanto por aqueles que a escrevem.

•• Eficácia
É determinada pela capacidade de produção de efeitos da norma jurídica. Estuda-se a
função social da norma e se esta foi cumprida com sua vigência.

•• Legitimidade
Neste caso, a norma somente será legítima quando criada em conformidade com as
exigências legais.

Por fim, é preciso entender também que os usos e costumes são considerados fonte primária e
classificados como consuetudinários (costume jurídico), ou seja, quando o Direito está intimamente
ligado à cultura da sociedade, sem passar pelo processo formal de criação de leis (DINIZ, 2017).

3 Fontes secundárias
As fontes secundárias são encontradas na forma de doutrina, analogia, jurisprudência e equi-
dade, ou seja, são mecanismos norteadores dos aplicadores do Direito, como as leis serão profe-
ridas em palavras, para facilitar o conhecimento e aplicação pelo órgão competente (DINIZ, 2017).
A seguir, você conhecerá cada uma destas fontes de forma detalhada.

•• Doutrina: são os compêndios escritos por juristas e pesquisadores do Direito, auxiliando


de forma fundamental os operadores do Direito (formados como Bacharel em Direito)
(SARAIVA, 2006).

EXEMPLO

O advogado, ao elaborar sua peça processual, poderá utilizar uma obra de autor
consagrado para fortalecer sua tese acerca do que se pretende provar.

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FUNDAMENTOS DE DIREITO

•• Analogia: é aplicada em casos que possuem certa semelhança. É uma forma de auxi-
liar os juízes na aplicabilidade de determinada sanção, analisando situações análogas
(semelhantes) (GAGLIANO; PAMPLONA, 2012).

EXEMPLO
Sabe-se que a Lei Maria da Penha foi criada para proteger as mulheres, mas o juiz
poderá utilizar medidas protetivas desta lei também para homens, ou seja, utilizan-
do a legislação de forma análoga.

•• Jurisprudência: refere-se às decisões proferidas por um juiz, denominadas decisões


monocráticas ou decisões de vários tribunais, chamadas de acórdão. Quando estas
decisões são reiteradamente semelhantes, elas serão uniformizadas e denominadas
de Súmulas, que significa um resumo de todas essas decisões, e os tribunais passam a
adotá-las em seus julgamentos. Também é uma forma de auxiliar os juízes quando não
localizam os códigos e leis formalmente constituídos (GAGLIANO; PAMPLONA, 2012)

SAIBA MAIS!
Para buscar mais conhecimento sobre jurisprudências, acesse o link de consultas
do Tribunal Regional Federal da 2ª Região: <http://www10.trf2.jus.br/consultas/
jurisprudencia/infojur/>.

•• Equidade: tem suas origens no filósofo Aristóteles, em sua obra “Ética a Nicômaco”. Como
diz o próprio nome, remete à igualdade na aplicação de justiça, procurando auxiliar o Judi-
ciário a se adequar à norma, de forma justa ao caso concreto (ENCARNAÇÃO, 2010).

•• Costumes: dotado de historicidade, os costumes são formados com o passar do tempo


e todo ordenamento recepciona-os, de modo a respeitar os comportamentos lícitos e
não positivados de determinada sociedade, que busca preencher as lacunas da lei.

4 Ramo do Direito Público


Antes de iniciarmos os estudos no ramo do Direito Público, lembre-se de que trataremos
de dois grandes ramos do Direito, o Público e o Privado. O primeiro estará presente, por exemplo,
nos ordenamentos do Direito Constitucional, Administrativo, Financeiro, Internacional Público e
Processual. Então, compreenda que o Direito Público está vinculado às relações que envolvem o
Estado, com o objetivo de executar atividades em favor da população (DI PIETRO, 2014).

– 18 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!

A divisão entre os dois ramos do Direito não é taxativa, uma vez que existe divergên-
cia entre os doutrinadores.

Figura 4 – Servidor público

Fonte: Monkey Business Images / Shutterstock.com

De acordo com o professor Paulo Nader (2014, p. 140), “as investigações que a doutrina
moderna desenvolve sobre o Estado caminham em três direções”. São elas: no campo da Sociologia,
evidenciando o Estado como um ente social; no político, com o Estado promovendo o bem-estar dos
cidadãos, e finalmente no campo jurídico, verificando a estrutura “normativa” do Estado.

5 Ramo do Direito Privado


Vamos compreender agora do que trata o Direito Privado, o ramo que disciplina as relações
legais entre os particulares. Assim, primeiramente, é importante destacar que o Direito Privado
deve obedecer ao Código Civil, que estabelece direitos e obrigações dos cidadãos.
Neste ramo, temos o Direito Empresarial e o Direito do Consumidor, que tratarão das ativi-
dades empresariais na produção ou na circulação de bens ou de serviços, no que concerne às
relações empresariais, comerciais e de consumo, e o que houver dessas relações na legislação do
Direito Público (BITTI, 2008).
No mundo globalizado, também é preciso destacar o Direito Internacional Privado, que tem
como objetivo disciplinar as normas que ultrapassam as fronteiras nacionais. Observa-se que a
Constituição Federal, em seu artigo 4°, inciso IX, estabelece a fonte do Direito Internacional Privado.

– 19 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

SAIBA MAIS!
Leia o texto “Dicotomia Direito Privado x Direito Público” (LEMKE, 2011) para saber
mais sobre os ramos do Direito. Está disponível em: <http://www.egov.ufsc.br/
portal/sites/default/files/anexos/22384-22386-1-PB.pdf>.

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• conhecer os ordenamentos jurídicos e as suas classificações;


•• diferenciar as fontes primárias e secundárias;
•• compreender a diferença entre Direito Público e Direito Privado.

Referências
BITTI, Eduardo Silva. A sociedade em comum no Código Civil Brasileiro. f. 92, Dissertação (Mes-
trado), Direito Empresarial. Nova Lima: Faculdade de Direito Milton Campos, FDMC, 2008. Dispo-
nível em: <http://www.mcamos.br/u/201503/eduardosilvabittisociedadecomumcodigocivilbrasi-
leiro.pdf>. Acesso em: 16 ago 2017.

BRASIL. Presidência da República, Casa Civil. Decreto-Lei n° 4.657, de 04/09/1942. Lei de introdução
às normas do Direito Brasileiro. Redação dada pela Lei n° 12.376 de 2010. Disponível em: <http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del4657compilado.htm>. Acesso em: 6 ago 2017.

_______. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil: Texto constitu-


cional promulgado em 5 de outubro de 1988, com as alterações determinadas pelas Emendas
Constitucionais de Revisão nos 1 a 6/94, pelas Emendas Constitucionais nos 1/92 a 91/2016 e
pelo Decreto Legislativo no 186/2008. Disponível em: <http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/
id/518231>. Acesso em: 04 ago. 2017.

DINIZ, Maria Helena. Fontes do Direito. Tomo Teoria Geral e Filosofia do Direito, 1. ed. Enciclo-
pédia Jurídica da PUCSP, junho, 2017. Disponível em: <https://enciclopediajuridica.pucsp.br/ver-
bete/157/edicao-1/fontes-do-direito>. Acesso em: 11 ago 2017.

DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. São Paulo: Atlas, 2014.

ENCARNAÇÃO, João Bosco da. Que é isto, o Direito? Introdução à Filosofia Hermenêutica do
Direito. 5. ed. Revisada, maio de 2010. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/down-
load/texto/ea000736.pdf>. Acesso em: 13 ago 2017.

– 20 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

GAGLIANO, Pablo Stolze; PAMPLONA, Rodolfo Filho. Novo Curso de Direito Civil. Parte Geral 1. 14 ed.
São Paulo: Saraiva, 2012. Disponível em: <http://www.fkb.br/biblioteca/Arquivos/Direito/Novo%20
Curso%20de%20Direito%20Civil%20-%20Pablo%20Stolze%20Gagliano.pdf>. Acesso em: 22 jul 2017.

LEMKE, Nardim Darcy. Dicotomia Direito Privado x Direito Público. Revista de E-gov, Florianópolis,
p.1-31, 4 mar. 2011. Portal E-gov da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Disponível em:
<http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/22384-22386-1-PB.pdf>. Acesso em:
06 ago. 2017.

NADER, Paulo. Introdução ao Estudo do Direito. 36. ed. Rio de Janeiro: Forense, 2014.

REALE, Miguel. Lições preliminares de direito. 27.ed. São Paulo: Saraiva, 2002.

SARAIVA, Carmen Ferreira. Considerações sobre o Estudo do Direito. Parte integrante da edição
166. Boletim Jurídico, 2006. Disponível em: <http://www.boletimjuridico.com.br/doutrina/texto.
asp?id=1079>. Acesso em: 22 jul. 2017.

SILVA, De Plácido E. Vocabulário Jurídico. v. 2, 11. ed. Rio de Janeiro, Forense, 1989.

______. Vocabulário Jurídico. v. 4, 11. ed. Rio de Janeiro, Forense, 1989.

– 21 –
TEMA 3
Hierarquia das normas jurídicas: emendas
constitucionais, leis. Instrumentos de integração
do Direito: analogia e princípios gerais do Direito
Maria Tereza Ferrabule Ribeiro

Introdução
No Direito as normas jurídicas estão organizadas de forma hierárquica, de modo que possam
interagir sem conflitos entre elas. Para entender essa lógica, vamos conhecer nesta aula a ordem
existente entre as normas, os integradores do Direito e os princípios gerais embasados pela Cons-
tituição Federal de 1988.

Objetivos de Aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• explicar a hierarquia das normas jurídicas;


•• compreender as diferenças entre emenda constitucional e lei;
•• entender a importância dos instrumentos de integração do Direito para os magistrados
na solução dos diferentes casos.

1 Conhecendo a hierarquia das normas jurídicas


Um grande jurista e filósofo que estabeleceu a hierarquia das leis foi Hans Kelsen. Sua obra
teve influência no Brasil e outros países. Ele explica que o Direito “é uma ordem da conduta humana”
(KELSEN, 1998, p. 7).
Para compreender melhor a hierarquia das normas jurídicas, é necessário entender a forma
como se estabeleceu a Constituição Federal, pois algumas foram promulgadas e outras, outorga-
das. Diz-se que é promulgada quando essas normas forem democráticas ou populares, ou seja, é
criada por representantes do povo. E serão outorgadas aquelas estabelecidas por atos autoritários
e impostos pelos poderes governamentais. Deste modo, as constituições brasileiras são divididas
da seguinte forma: as constituições promulgadas de 1891 (primeira república), 1934 (governo Var-
gas), 1946 (redemocratização do Estado) e 1988 (ruptura da ditadura militar e restabelecimento do
Estado democrático de direito); e as outorgadas de 1824 (constituição do Império), 1937 (ditadura
Vargas) e 1967 (regime militar).

FIQUE ATENTO!
Tenha sempre em mente a hierarquia das leis: “A norma que determina a criação de
outra norma é a norma superior, e a norma criada segundo esta regulamentação é
a inferior.” (KELSEN, 1988, p. 181).

– 22 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Podemos utilizar o formato da pirâmide de Kelsen para apresentar o sistema jurídico brasi-
leiro, de acordo com o artigo 59 da Constituição Federal (BRASIL, 1988).

Figura 1 – Pirâmide de Kelsen

Constituiç
ão Federa
l
Emendas
à Constitu
ição

Leis comp
lementare
s
Leis Deleg
adas

Medidas P
rovisórias

Decretos
legislativo
s

Resoluçõ
es

Fonte: adaptado de BRASIL, 1988.

Então, a Constituição Federal é a lei magna do país. Assim estamos diante da ordem organi-
zacional do Brasil: leis federais, estaduais e municipais.
Agora, vamos estudar como a Constituição Federal pode sofrer emendas.

2 As Emendas Constitucionais Brasileiras


Você saiba que as emendas constitucionais estão no segundo nível da Constituição Federal
da pirâmide kelsiana? Dispostas no artigo 60, seu próprio nome revela o objetivo, que é “emen-
dar” a Constituição Federal, em partes específicas, acrescentando ou retirando textos. Porém, não
podendo alterar ou retirar direitos fundamentais.

SAIBA MAIS!
Você pode conhecer mais detalhes das emendas constitucionais aprovadas entre
1992 e 2017 acessando o link: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/
emendas/emc/quadro_emc.htm>.

– 23 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Figura 2 – Leis magnas

Fonte: Viorel Sima / Shutterstock.com.

Assim, entenda que é possível fazer propostas para emendas à Constituição, desde que obser-
vados os requisitos estabelecidos nos incisos do artigo 60. Este artigo estabelece como podem
ser propostas as emendas constitucionais:
•• pelo Presidente da República - encaminha ao Congresso Nacional;
•• por 1/3 dos deputados federais – encaminha para a Comissão de Constituição, Justiça
e Cidadania (CCJ);
•• por 1/3 dos senadores federais – encaminha para a CCJ;
•• por mais da metade das assembleias legislativas das unidades da Federação – enca-
minha para a CCJ.

A proposta para emenda constitucional será debatida e votada em dois turnos, em cada casa
do Congresso, e será aprovada se obtiver, na Câmara dos Deputados Federais e no Senado Fede-
ral, três quintos dos votos dos deputados (308 votos) e dos senadores (49), também chamado de
quórum qualificado (BRASIL, 2017). Assim, o presidente da República pode apresentar a proposta
de emenda, porém são os deputados e senadores que têm o poder de aprovação.

EXEMPLO
A Emenda Constitucional nº 98/ 2017 “acrescenta § 7º ao artigo 225 da Constitui-
ção Federal, para determinar que práticas desportivas que utilizem animais não são
consideradas cruéis, nas condições que especifica” (BRASIL, 2017).

– 24 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!

Os demais parágrafos do artigo 60 da Constituição Federal estabelecem outros


critérios que devem ser observados para emendas à Constituição Federal.

É importante destacar que o parágrafo 4° do artigo 60 deixa claro que há situações em que
a Constituição não pode ser alterada, pois tratam-se de cláusulas pétreas, denominadas assim
porque não podem ser removidas para garantir a permanência de direitos e garantias individuais.

3 As leis brasileiras
Após o artigo 60, a Constituição Federal aborda na subseção III, do artigo 61 até o artigo 69,
as Leis Complementares e Ordinárias. Vamos conhecê-las.

3.1 Leis Complementares e Leis Ordinárias


O artigo 61, em seu caput, estabelece que as Leis Complementares e as Leis Ordinárias
poderão ser propostas por membros ou comissão da Câmara dos Deputados, Senado Federal,
Congresso Nacional, presidente da República, Supremo Tribunal Federal, bem como os tribunais
superiores, e ainda o procurador-Geral da República e os cidadãos (BRASIL, 1988).

Figura 3 – Legislação

Fonte: Emilia Ungur / Shutterstock.com.

– 25 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!
Os cidadãos poderão manifestar-se, de acordo com o estabelecido no caput do ar-
tigo 61, na forma de iniciativa popular, apresentando projeto de lei na Câmara dos
Deputados.

A Lei Complementar tem o objetivo de complementar a Constituição Federal, de forma a


acrescentar assuntos de âmbito constitucional. As Leis Ordinárias são normas gerais e abstratas,
que tratam de outros temas, como a Lei Orçamentária; para serem aprovadas, necessitam de
maioria simples. Já as Leis Complementares tratam de temas específicos da Constituição Federal,
e para receberem aprovação precisam de maioria absoluta (BRASIL, 1988).

•• Leis Delegadas
As Leis Delegadas estão previstas no artigo 68 da Constituição Federal, que estabelece:
“As leis delegadas serão elaboradas pelo Presidente da República, que deverá solicitar
delegação ao Congresso Nacional” (BRASIL, 1988). Conforme os estudos de Michel
Temer (2008, p. 152), “delegar atribuições para o constituinte, significa retirar parcela de
atribuições de um poder para entregá-lo a outro poder”.

•• Medidas Provisórias
As Medidas Provisórias estão estabelecidas no artigo 62 da Constituição Federal, da
seguinte forma: “Em caso de relevância e urgência, o presidente da República poderá
adotar medidas provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de imediato ao Con-
gresso Nacional” (BRASIL, 1988). Assim, as Medidas Provisórias somente poderão ser
realizadas como o caput explicita, nos casos de relevância ou urgência. Compreenda
que medida provisória não é lei, mas tem “força de lei” (TEMER, 2008, p. 153).

•• Decretos Legislativos
Os Decretos Legislativos são atos normativos de competência exclusiva do Congresso
Nacional, sendo que esses atos e competências se encontram relacionados no artigo 49 e
em incisos, como, por exemplo, “mudança temporária da sede do Governo” (BRASIL, 1988).

•• Resoluções
As Resoluções são tratadas no artigo 68 da Constituição Federal, no parágrafo 2°, e deno-
minadas de “resolução delegativa”, na qual o presidente da República propõe lei delegada,
que vai requerer autorização prévia do Congresso Nacional, por meio de resolução. Assim
que for concedida, terá que especificar o conteúdo da delegação e os seus termos, bem
como a fixação de prazo que irá perdurar o conteúdo da delegação. Exemplo: Lei Delegada
n° 13 de 08/1992. “O Presidente da República, faço saber que, no uso da delegação cons-
tante da Resolução n° 1, de 1992-CN, decreto a seguinte lei [...].” (CHAMONE, 2010, p. 15).

Agora que já compreendemos a organização das leis no Brasil, vamos estudar os instrumen-
tos integradores, que auxiliam os magistrados a suprir as lacunas que surgem no momento de
julgar determinadas situações, oriundas das relações individuais, coletivas e jurídicas.

– 26 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

4 Os Instrumentos de integração do Direito


Você já deve ter estudado alguns dos instrumentos de integração do Direito, tais como analo-
gia, equidade, doutrina e jurisprudência, porém, é necessário apresentar outros integradores, como
os usos e costumes. É por meio deles, por exemplo, que a sociedade tem suas origens arreigadas
em tradições e crenças, que passam a ser condutas sociais reiteradas. E, assim, fazem parte das
fontes secundárias do Direito. Outro integrador são os princípios gerais do Direito, conforme afirma
o professor Wladimir Flávio Luiz Braga: “[...] são enunciados normativos – de valor muitas vezes
universal – que orientam a compreensão do ordenamento jurídico [...].” (BRAGA, s.d).

EXEMPLO
O artigo 4° da Lei de Introdução ao Código Civil afirma que “quando a lei for omissa,
o juiz decidirá o caso de acordo com a analogia, os costumes e os princípios gerais
do direito.” (BRASIL, 2002).

Figura 4 – Justiça

Fonte: Stockshoppe/Shutterstock.com.

SAIBA MAIS!
Leia o artigo “Princípios Gerais de Direito e Princípios Constitucionais” para saber
mais sobre os integradores do Direito. Acesse em: <http://www.emerj.tjrj.jus.br/serie-
aperfeicoamentodemagistrados/paginas/series/11/normatividadejuridica_51.pdf>.

Agora, você já conhece mais sobre os integradores do Direito.

– 27 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• perceber a importância na hierarquia das leis para que não haja conflitos entre os orde-
namentos jurídicos;
•• conhecer a pirâmide de Kelsen e a pirâmide do Brasil na hierarquia das leis.

Referências
BRAGA, Wladimir Flávio Luiz. Princípios Gerais do Direito. Disponível em: <http://fdc.br/Arquivos/
Artigos/14/PrincipiosGeraisDireito.pdf>. Acesso em: 07 ago. 2017.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado
Federal: Centro Gráfico, 1988, 292 p. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/consti-
tuicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 08 ago. 2017.

_______. Lei nº 10406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil: Institui o Código Civil. Presidência
da República, Casa Civil, Brasília-DF, 10 jan. 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/cci-
vil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 17 ago. 2017.

_______. Presidência da República. Emendas Constitucionais. 2017. Disponível em: <http://www.pla-


nalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/emendas/emc/quadro_emc.htm>. Acesso em: 07 ago. 2017.

_______. Senado Federal. Glossário Legislativo. Emenda Constitucional. 2017. Disponível em: <http://
www12.senado.leg.br/noticias/glossario-legislativo/emenda-constitucional>. Acesso em: 21 ago. 2017.

CHAMONE, Marcelo Azevedo. Lei Delegada. Revista Estudos Legislativos. Assembleia Legislativa,
Rio Grande do Sul. 2010. Disponível em: <http://submissoes.al.rs.gov.br/index.php/estudos_legis-
lativos/article/view/49>. Acesso em: 15 ago. 2017.

KELSEN, Hans. Teoria Geral do Direito e do Estado. BORGES, Luís Carlos (trad.), 3. ed. São Paulo:
Martins Fontes, 1998.

MASCARENHAS, Paulo. Manual de Direito Constitucional. Salvador, 2008. Disponível em: http://
www.paulomascarenhas.com.br/manual_de_direito_constitucional.pdf>. Acesso em: 17 ago. 2017.

PAIVA, Eduardo de Azevedo. Princípios Gerais de Direito e Princípios Constitucionais: Normativi-


dade Jurídica. Série Aperfeiçoamento de Magistrados: Curso de Constitucional, Rio de Janeiro,
p. 1-10, 2010. Disponível em: <http://www.emerj.tjrj.jus.br/serieaperfeicoamentodemagistrados/
paginas/series/11/normatividadejuridica_51.pdf>. Acesso em: 21 ago. 2017.

TEMER, Michel. Elementos de Direito Constitucional. 22. ed. São Paulo: Malheiros, 2008.

– 28 –
TEMA 4
Administração Pública – princípios da
Administração Pública (LIMPE). Artigo 37 da
Constituição Federal.
Maria Tereza Ferrabule Ribeiro

Introdução
Nesta aula, vamos estudar as classificações dos entes públicos para compreender a quem
são direcionados os princípios que norteiam a Administração Pública, seja de forma direta ou
indireta. Tais princípios estão no artigo 37 da Constituição Federal e devem ser seguidos pelos
servidores públicos na execução das atividades públicas. Os cinco princípios que estudaremos a
seguir representam o alicerce da Administração Pública, mas não esgotam a relação de princípios
necessários nas atividades públicas.

Objetivos de Aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• compreender os princípios constitucionais aplicados na Administração Pública;


•• identificar e definir os princípios.

1 Os princípios constitucionais aplicados na Adminis-


tração Pública - Artigo 37 da Constituição Federal
Antes de conhecermos os princípios constitucionais, saiba que a Administração Pública pode
ser exercida nas esferas federal, estadual e municipal. De acordo com o artigo 37 da Constituição
Federal, no caput, ela pode ser classificada em direta ou indireta. A primeira é aquela exercida pela
presidência e ministros ou governadores e prefeitos e respectivos secretários. A segunda é reali-
zada por instituições que têm personalidade jurídica própria, mas que foram criadas para exerce-
rem atividades ao governo de forma descentralizada (BRASIL,1988).
Já o Decreto-Lei n° 200, de 25 de fevereiro de 1967, dispõe sobre a Administração Federal
em seu artigo 4° e relaciona as categorias de entidades dotadas de personalidade jurídica própria,
enquanto o artigo 5° e incisos esclarecem sobre a sua organização e personalidade jurídica. Acom-
panhe a seguir (BRASIL, 1967).

– 30 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Figura 1 – Princípios Constitucionais

Fonte: Lotus_Studio/Shutterstock.com.

•• Autarquias – São criadas por lei, com autonomia e gestão administrativa e financeira
descentralizada, adquirem personalidade jurídica própria, bem como receita e patrimô-
nio, objetivando executar atividades inerentes à Administração Pública. Um exemplo de
Autarquia Federal é o Banco Central.

•• Empresas públicas – São criadas por lei, cuja personalidade jurídica será do direito
privado, com o objetivo de exploração de atividade econômica. O governo estabelece
este tipo de entidade por força de contingência ou por conveniência administrativa. Um
exemplo de Empresa Pública é a Caixa Econômica Federal.

•• Sociedade de economia mista – São sociedades anônimas criadas por lei com per-
sonalidade jurídica do direito privado, com o objetivo de explorar atividade econômica,
sendo que a maioria das ações com direito a voto será pertencente à União ou à enti-
dade da Administração indireta. Um exemplo é a Petrobras.

•• Fundações públicas – Possuem personalidade jurídica de direito privado, sem fins


lucrativos, são criadas com autorização legislativa, objetivando o desenvolvimento de
atividades que não exijam execução por órgão ou entidades de direito público. Possuem
autonomia administrativa, patrimônio próprio, sendo que são custeadas por recursos
da União e outras fontes. Um exemplo é o IBGE.

FIQUE ATENTO!

A Administração Pública é regida pelos princípios do artigo 37 da Constituição Fe-


deral, tais como: Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência.

– 31 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

A seguir, vamos apresentar os princípios da Administração Pública, que podem ser lembra-
dos a partir da palavra “LIMPE”, formada pelas letras iniciais de cada um deles: Legalidade, Impes-
soalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência. Todos estão presentes no artigo 37 da Constitui-
ção Federal e incisos.

2 Princípio da Legalidade
O princípio da legalidade estabelece que a Administração Pública deve ter respaldo em lei,
sendo considerado ilícitos os atos práticos sem expressa permissão legal. Logo, a Administração
Pública é subordinada às leis, devendo seus agentes assumirem a posição de dóceis cumpridores
das disposições fixadas pelo legislador. Esse mecanismo de organização, limita o poder do Estado
e passa certa segurança jurídica ao indivíduo. Fundamentado no artigo 37, caput e artigo 5, inciso
II, da Constituição Federal.

Figura 2 – Legalidade

Fonte: Scott Maxwell LuMaxArt/Shutterstock.com.

Essa liberdade de conduta individual encontra proteção em vários dispositivos da Constitui-


ção Federal. Um exemplo é o artigo 5°, inciso X, no qual “são invioláveis a intimidade, a vida privada,
a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral
decorrente de sua violação”. É um princípio da Legalidade consubstanciado com a liberdade dos
cidadãos de proteção à sua intimidade, vida privada, honra e imagem (BRASIL,1988).

– 32 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

SAIBA MAIS!
Leia o artigo de Marcelo Thompson, intitulado “Marco civil ou demarcação de direi-
tos?”, que questiona a adequação do Marco Civil à jurisprudência recente do Supre-
mo Tribunal Federal sobre liberdade de expressão. Acesse em: <http://bibliotecadi-
gital.fgv.br/ojs/index.php/rda/article/view/8856/7678>.

Já conhecemos um pouco sobre o princípio da Legalidade, então vamos saber mais sobre o
princípio de Impessoalidade, conforme estudaremos a seguir.

3 Princípio da Impessoalidade
Vejamos o princípio da Impessoalidade, a letra I, de “LIMPE”. Neste princípio, cabe ao admi-
nistrador público agir com neutralidade em todos os atos governamentais. Assim, ao atuar em
nome do interesse público, como preposto legitimado pelo Estado, o agente segue fielmente os
princípios da Legalidade e da Igualdade, dispostos nos Princípios Fundamentais e nos Direitos e
Garantias Fundamentais.

EXEMPLO
A impessoalidade possibilita que não haja privilégios aos servidores públicos, que
não poderão se autopromover, nem promover outra pessoa. Para a ocupação de
cargos na administração pública o concurso público é obrigatório, possibilitando
que qualquer cidadão participe, desde que atenda as exigências do edital.

Depois dessa breve explicação sobre o princípio de Impessoalidade, vamos saber mais sobre
o princípio da Moralidade.

4 Princípio da Moralidade
O terceiro princípio é o da Moralidade, a letra M, de “LIMPE”. É o princípio de praticar os atos
sob a sua responsabilidade com ética e moral e em consonância com a lei (MORAES, 2007).

FIQUE ATENTO!
O princípio da Moralidade pode estar implícito no princípio da Publicidade, pois os
atos da gestão pública deverão ser públicos para que o particular tenha conheci-
mento de que forma estão sendo utilizados os erários (recursos) públicos.

– 33 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

EXEMPLO
Do agente público são exigidas lisura, transparência e publicidade de seus atos, ao
invés da utilização do cargo para tirar ou criar vantagens, sob pena da prática de
tráfico de influência ou ato de improbidade administrativa.

Assim, saiba que o princípio da Moralidade pode trazer grande contribuição para o serviço
público. Se, após uma investigação, o agente público for condenado pela prática de crime no exer-
cício de suas funções, poderá ser responsabilizado para a devolução dos valores subtraídos, como
diz o artigo 37 da Constituição Federal no parágrafo 4°: “Os atos de improbidade administrativa
importarão a suspensão dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos
bens e o ressarcimento ao erário, na forma e gradação prevista em lei, sem prejuízo da ação penal
cabível” (BRASIL, 1988).

Figura 3 – Transparência

Fonte: Nonnakrit/Shutterstock.com.

Portanto, fica claro que o agente público, além da perda de privilégios decorrentes do cargo,
e também financeiros, terá que responder perante a lei penal.

5 Princípio da Publicidade
O P, de “LIMPE”, diz respeito ao princípio da Publicidade, sendo que “A publicidade, como prin-
cípio da administração pública, abrange toda atuação estatal, não só sob o aspecto de divulgação
oficial de seus atos como, também, de propiciação de conhecimento da conduta interna de seus
agentes” (MEIRELLES, 2000, p.89). Um exemplo são as publicações realizadas via Diário Oficial.

– 34 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Figura 4 – Divulgação de Dados

Fonte: Jakub Krechowicz/Shutterstock.com.

SAIBA MAIS!
Confira mais sobre o princípio da Publicidade lendo “Princípio da publicidade, pre-
sunção de inocência e intimidade nos processos eletrônicos”, que relata a nova
relação com os meios eletrônicos. Acesse em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/
index.php/rda/article/view/8440/7188>.

Agora que já conhecemos os quatro primeiros princípios constitucionais, vamos ao último, o


princípio da Eficiência, o E, de palavra “LIMPE”, formando então, o alicerce da base jurídica brasileira.

6 Princípio da Eficiência
A eficiência do servidor público tem como atributos fundamentais, no desempenho de suas
atividades, trabalhar com imparcialidade, neutralidade, transparência, eficácia, desburocratização
e atendendo ao cidadão com qualidade, ética e educação (MORAES, 2007).

FIQUE ATENTO!
É exigido que a Administração Pública seja realizada com presteza, atingindo os
fins sociais, visando a satisfação das necessidades da comunidade e de seus
membros como um todo.

Este princípio, conforme Moraes (2016), explica, legitima ao Ministério Público que proceda
com a tutela necessária aos particulares em detrimento ao poder Estatal, conforme o artigo 129,
inciso II, da Constituição Federal: “Zelar pelo efetivo respeito dos poderes públicos e dos servi-

– 35 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

ços de relevância pública aos direitos assegurados nesta Constituição, promovendo as medidas
necessárias a sua garantia.” (BRASIL, 1988).
Assim, foi possível conhecer os cinco princípios que norteiam a administração pública, e que
são extremamente importantes na gestão pública, trazendo ações positivas para a sociedade.

Fechamento
Nesta aula você teve a oportunidade de:
•• compreender a organização da Administração Pública;
•• identificar a forma como os princípios constitucionais atuam em prol da sociedade;
•• conhecer os cinco princípios que devem ser obedecidos pelos servidores públicos na
execução de suas atividades.

Referências
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado
Federal: Centro Gráfico, 1988. 292 p.

______. Decreto-lei nº. 200, de 25 de fevereiro de 1967. Dispõe sobre a organização da Admi-
nistração Federal, estabelece diretrizes para a Reforma Administrativa e dá outras providências.
Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 27 de fevereiro de 1967. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del0200.htm>. Acesso em: 08 ago. 2007.

______. Emenda Constitucional n° 19, de 04 de junho de 1998. Modifica o regime e dispõe sobre
princípios e normas da Administração Pública, servidores e agentes políticos, controle de despe-
sas e finanças públicas e custeio de atividades a cargo do Distrito Federal, e dá outras providên-
cias. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 04 de junho de 1998. Disponível
em: <http://www.camara.gov.br/sileg/integras/688521.pdf>. Acesso em: 08 ago. 2017.

JÚNIOR, Walter Nunes da Silva. Princípio da publicidade, presunção de inocência e intimidade nos
processos eletrônicos. Revista de Direito Administrativo, Rio de Janeiro, v. 255, p. 289-326, set.
2010. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rda/article/view/8440/7188>.
Acesso em: 03 ago. 2017

MORAES, Alexandre. Direito Constitucional. 32. ed. Revista e atualizada até a EC n° 91 de 18 de


fevereiro de 2016. São Paulo: Atlas, 2016.

MORAES, Antonio Carlos Flores de. Legalidade, Eficiência e controle da Administração Pública.
Belo Horizonte. Fórum, 2007.

THOMPSON, Marcelo. Marco civil ou demarcação de direitos? Democracia, razoabilidade e as fen-


das na internet do Brasil. Revista de Direito Administrativo, Rio de Janeiro, v. 261, p. 203-251, set.
2012. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rda/article/view/8856/7678>.
Acesso em: 08 ago. 2017.

– 36 –
TEMA 5
Contratos Administrativos. Licitação
Maria Tereza Ferrabule Ribeiro

Introdução
Os contratos administrativos e as modalidades da licitação são importantes ferramentas da
Administração Pública para estabelecer a forma de compra de bens e serviços, bem como realizar
obras. Vamos estudá-los e conhecer os princípios estabelecidos para a execução de uma licitação.

Objetivos de aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:
•• compreender o conceito jurídico de contratos administrativos e licitação;
•• conceituar as modalidades de licitação;
•• entender as normativas legais administrativas para a contratação de compras públicas.

1 Lei geral de contratos administrativos e licitação -


Lei 8.666/1993
Primeiro, vamos entender que a Lei 8.666 foi criada com o objetivo de regulamentar o artigo
37, inciso XXI da Constituição Federal, que estabelece normas para licitações e contratos da Admi-
nistração Pública e destaca que as licitações objetivam a contratação de obras, serviços, compras
e alienações, buscando a igualdade de condições dos interessados e transparência, com cláusulas
que preveem obrigações de pagamento e cumprimento de exigências na qualidade técnica.
A partir deste inciso, você já pode perceber a intenção do legislador em estabelecer critérios e
formas para que o administrador público contrate serviços e bens mediante licitações públicas ou
de outras formas, desde que com previsão legal, conforme o artigo 2° da Lei 8.666/1993.

Figura 1 – Contratos Públicos

Fonte: dreamtime/Shutterstock.com.

– 37 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Veja que a Lei 8.666/1993 foi criada por tratar de um tema complexo, e a legislação detalha,
então, como deverão ser realizadas essas contratações, sendo que as regras valem para todos os
órgãos da Administração Púbica, sejam da Administração direta ou indireta (BRASIL,1993).
Os contratos da Administração Pública que devem obedecer à Lei 8.666 abrangem os que
forem estabelecidos entre entes públicos, bem como os de âmbito do Direito Privado.

FIQUE ATENTO!

A Lei 8.666/93 estabelece no artigo 2°, § único, que contrato é o ajuste estabelecido
entre órgãos ou entidades da Administração Pública e particulares.

É importante compreender as diferenças que regulam o contrato administrativo público e o


contrato do Direito Privado, como distingue De Pietro (2014):

•• Direito Privado: irá regular os contratos de compra e venda, bem como aqueles que são
a título gratuito, como a doação e o comodato, regidos pelo Código Civil.

•• Contratos Administrativos públicos: na esfera administrativa serão geridos pelo Direito


Público, como os contratos de concessão de serviços e que exigem aplicação das
modalidades de licitação, conforme o caso. Destacam-se também os contratos que
podem ser públicos ou privados, mas que serão regidos pelo Direito Público, como os
contratos de empreitada.

Agora, vamos conhecer as modalidades de licitação.

2 Conceito e Modalidades de licitação


A licitação é um processo designado à seleção da melhor proposta dentre as apresentadas
por aqueles que visam contratar com a Administração Pública. Segundo Marinela (2010, p. 315),
“esse instrumento estriba-se na ideia de competição a ser travada, isonomicamente, entre os que
preenchem os atributos e as aptidões, necessários ao bom cumprimento das obrigações que se
propõem assumir”.

FIQUE ATENTO!
A eficiência é a forma de cumprir a atividade da maneira certa, enquanto que eficá-
cia vai além de somente cumprir a atividade, mas de certificar-se de que o objetivo
foi atingido e resolveu a situação.

– 38 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Figura 2 – Busca da Eficiência

Fonte: dockstockmedia/Shutterstock.com.

A licitação compreende as seguintes modalidades, conforme o Tribunal de Contas da União


(2010), sendo que a diferenciação por valores está disposta no artigo 23º da Lei 8.666/1993:

•• Concorrência – pode ser realizada entre quaisquer interessados, para contratos de


valores acima de R$ 1,5 milhão (obras e serviços de engenharia), outros bens e servi-
ços, que não os de engenharia, nos valores superiores a R$ 650.000,00 (seiscentos e
cinquenta mil reais).

•• Tomada de preços – realizada entre quaisquer interessados, exige aprovação do cadastro


do interessado. Para contratos de valores médio, de até R$ 1,5 milhão (obras e serviços de
engenharia). Para outros bens e serviços, que não os de engenharia, valores superiores a R$
80.000,00 (oitenta mil reais) até R$ 650.000,00 (seiscentos e cinquenta mil reais).

•• Convite – para convidados da Administração Pública em número mínimo de três. Com


valores de até R$ 150 mil (obras e serviços de engenharia) e até R$ 80 mil (serviços e
compras).

•• Pregão – usado na compra de bens dos serviços realizados pela União, Distrito Federal,
Estados e municípios. Os interessados devem atender requisitos mínimos de qualifica-
ção exigidos no edital, e é feito em sessão pública, presencial ou eletrônica.

•• Concurso – faz a escolha de trabalhos científicos, artísticos e técnicos, no qual haverá


previsão de premiação.

•• Leilão – aberto a qualquer interessado, é uma forma de colocar à disposição bens


móveis de valor módico, ou seja, avaliados em quantia não superior a R$ 650.000,00
(seiscentos e cinquenta mil reais).

– 39 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

EXEMPLO
Quando os donos de carros apreendidos pelo departamento de fiscalização de
trânsito não demonstram interesse em recuperá-los, os veículos são leiloados e os
recursos, revertidos ao erário público. Para isso, o órgão precisa fazer uma licitação,
na modalidade leilão.

SAIBA MAIS!
Para mais detalhes sobre as modalidades de licitação e suas aplicações, leia o
artigo de Lucas Rocha Furtado intitulado “Contratos Administrativos e Contratos de
Direito Privado celebrados pela Administração Pública”. Acesse em: <http://revista.
tcu.gov.br/ojs/index.php/RTCU/article/viewFile/934/998>

Agora que já conhecemos as diversas modalidades de licitação, entenderemos como fun-


ciona a contratação de compras públicas, a partir do Sistema de Registro de Preços ou SRP.

3 Contratação de compras públicas –


Sistema de Registro de Preços - SRP
Um aspecto importante é que em relação às compras na Administração Pública, a Lei
8.666/1993 estabelece que, sempre que possível, deverão “ser processadas através de sistema
de registro de preços” (BRASIL, 1993). Este sistema tem como objetivo proporcionar economia
nas compras públicas, sendo uma forma de manter o preço contratado, quando tiverem que fazer
novas contratações, como se fosse uma tabela de preço. Este sistema somente poderá ocorrer
nas modalidades de concorrência ou pregão, conforme estabelece o artigo 11 da Lei 10.520, de 17
de julho de 2002 (BRASIL, 2002).

Figura 3 – SRP

Fonte: Mariusz Szczygiel/Shutterstock.com.

– 40 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Além do SRP, as licitações precisam obedecer alguns requisitos para que possam ser oficia-
lizadas. A seguir, vamos conhecer alguns desses aspectos.

4 Os aspectos da formalização da licitação


Quando falamos em licitação, tenha em mente também que é obrigatória a formalização
desse processo em todas as esferas da Administração Pública, conforme determina o artigo 4° da
Lei 8.666/1993. Essa formalização se dará, por exemplo, por meio de publicação de edital para o
chamamento dos interessados em participar da respectiva modalidade licitatória.

Figura 4 – Licitação

Fonte: Shutterstock.com.

A licitação será iniciada pela abertura do processo administrativo devidamente autuado,


protocolado e numerado, conforme previsto no artigo 38 da Lei 8.666/1993. Portanto, trata-se
do momento da formalização interna. Já a criação do respectivo edital deverá seguir obrigatoria-
mente a sequência estabelecida no artigo 40 da legislação.

FIQUE ATENTO!

Lembre-se de que licitação tem como significado “lançar em leilão, dar preço, ofere-
cer lanço” (DE PLÁCIDO, 1989, p. 88).

Já a etapa externa está baseada no artigo 3°, parágrafo 3°, que estabelece a publicidade da lici-
tação para que o público tenha acesso ao seu conteúdo no momento da abertura (ADRIANO, 2013).

5 Dispensa de licitação
Por outro lado, saiba que a licitação pode ser dispensada diante de situações elencadas na
Lei 8.666/1993, como os casos de interesse público, estabelecidos no artigo 17, como a aliena-
ção de bens, ou seja, a transferência voluntária de um bem, seja móvel ou imóvel. O artigo 24° da
mesma lei dispõe de outros casos em que pode haver dispensa de licitação (BRASIL,1993).

– 41 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

EXEMPLO
O inciso III do artigo 24º prevê a dispensa de licitação na ocorrência de guerra ou
grave perturbação da ordem. Outra situação de dispensa é em relação a valores,
quando este for inferior aos limites estabelecidos (BRASIL,1993).

Portanto, são diversas as situações em que o ente público pode deixar de utilizar as modalida-
des licitatórias. Porém, é preciso ressaltar que, caso o faça sem amparo legal, pode ser punido com
detenção e multa, conforme determina o artigo 89 da legislação específica.

SAIBA MAIS!
Leia o artigo do doutor em Direito Ivan Xavier Filho, que trata sobre a responsabilidade
penal do particular diante da dispensa de licitação. Acesse em: <http://www.
editoraforum.com.br/ef/wp-content/uploads/2017/04/artigo-dispensa-licitacao.pdf>.

Portanto, agora já sabemos como a Administração Pública realiza os contratos públicos para
garantir prestação de serviços com qualidade e eficiência para a sociedade.

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• compreender a preocupação do legislador em estabelecer regras para a Administração


Pública realizar compras.
•• identificar as diferentes modalidades de licitação e suas aplicações.
•• diagnosticar a necessidade ou não de dispensar a licitação, segundo a legislação vigente.

Referências
ADRIANO, Paulo Roberto Ienzura. Processos Licitatórios: Legislação e Formalização. 2013. 152
f. Dissertação (Mestrado) - Curso de Pós-Graduação em Planejamento e Governança Pública,
Universidade Federal Tecnológica do Paraná, Curitiba, 2013. Disponível em: <http://repositorio.
utfpr.edu.br/jspui/bitstream/1/588/1/CT_PPGPGP_M_Adriano, Paulo Roberto Ienzura_2013.pdf>.
Acesso em: 09 ago. 2017.

DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Direito Administrativo. 27. ed. São Paulo: Atlas, 2014.

BRASIL. Decreto n° 7.892, de 23 de janeiro de 2013. Regulamenta o Sistema de Registro de Pre-


ços previsto no art. 15 da Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993. 2013. Disponível em: <http://www.
planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2013/decreto/d7892.htm>. Acesso em: 05 ago. 2017.

– 42 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

________. Lei n° 8.666, de 21 de junho de 1993. Regulamenta o art. 37, inciso XXI, da constituição
Federal, institui normas para licitações e contratos da Administração Pública e dá outras provi-
dências. 1993. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8666cons.htm>. Acesso
em: 05 ago. 2017.

________. Lei n° 10.520 de 17 de julho de 2002. Institui, no âmbito da União, Estados, Distrito Federal
e Municípios, nos termos do art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal, modalidade de licitação
denominada pregão, para aquisição de bens e serviços comuns, e dá outras providências. 2002. Dis-
ponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10520.htm>. Acesso em: 05 ago. 2017.

FILHO, Ivan Xavier Vianna. Dispensa ou inexigibilidade de licitação e a responsabilidade penal do


particular. R. de Dir. Público da Economia – RDPE, Belo Horizonte, ano 14, n. 54, p. 77-90, abr./jun.
2016. Disponível em: <http://www.editoraforum.com.br/ef/wp-content/uploads/2017/04/artigo-
-dispensa-licitacao.pdf>. Acesso em: 05 ago. 2017.

FURTADO, Lucas Rocha. Contratos Administrativos e Contratos de Direito Privado Celebrados pela
Administração Pública. R. TCU, Brasília, v. 31, n. 86, out/dez 2000. Disponível em: <http://revista.
tcu.gov.br/ojs/index.php/RTCU/article/viewFile/934/998>. Acesso em: 30 ago. 2017.

MARINELA, Fernanda. Direito Administrativo. 4. ed. Niterói: Impetus, 2010.

SILVA, De Plácido e. Vocabulário Jurídico. v. 4. 11. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1989.

TRIBUNAL DE CONTAS DA UNIÃO. Licitações e Contratos. Orientações e Jurisprudência do


TCU. 4. ed., Brasília, 2010. Disponível em: <http://www.tcu.gov.br/Consultas/Juris/Docs/LIC_
CONTR/2057620.PDF>. Acesso em: 05 ago. 2017.

WAHLBRINCK, Marco Luciano. Modalidades licitatórias. Univates, 2006. Disponível em: <https://www.
univates.br/media/graduacao/direito/MODALIDADES_LICITATORIAS.pdf>. Acesso em: 05 ago. 2017.

– 43 –
TEMA 6
Sujeitos do Direito: nascimento e fim
Raquel Helena Hernandez Fernandes

Introdução
A existência humana contempla dois grandes e significativos eventos: vida e morte. Esses
dois eventos são caracterizados por peculiaridades importantes para a vida em sociedade e, con-
sequentemente, para o meio jurídico. Eles trazem aspectos essenciais ao estabelecimento de direi-
tos e deveres de uma pessoa.

Objetivos de Aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• identificar e interpretar a pessoa para o Direito Civil.


•• entender as relações jurídicas que permeiam a trajetória de vida desde o nascimento
até a morte da pessoa natural.
•• compreender as consequências da comoriência.

1 A pessoa natural para o Direito Civil


Inicialmente, vamos compreender o conceito de pessoa natural (ou pessoa física), que é o ser
humano com vida, com sua estrutura biopsicológica (considerando os aspectos físico e psicológico).
Podemos entender que a pessoa natural é a causa para que o ordenamento e os sistemas jurídicos
existam, pois, a ciência jurídica é feita pelo homem e para o homem (FARIAS, ROSENVALD, 2011).
Esse pensamento surge porque a pessoa natural é um ser de relações sociais, ou seja, rela-
ciona-se com família, amigos, clientes, prestadores de serviços, entre outros. Assim, o Direito
regula essas relações por meio de normas e sistemas jurídicos.
Depois de entendermos quem é a pessoa natural para o Direito Civil, vamos conhecer o con-
ceito de sujeito.

2 Conceito de sujeito de Direito


Por meio da atribuição da personalidade jurídica são estabelecidos os sujeitos de direito.
Assim, é importante lembrar que não são detentores de direitos e deveres somente as pessoas
naturais, mas, também, as pessoas jurídicas, devido à atribuição de personalidade.
Entendido o conceito essencial de sujeito de Direito, é necessário entendermos quais são as
caracerísticas desse sujeito para o âmbito jurídico.

– 44 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

3 Personalidade jurídica a partir do nascimento


Personalidade é o conjunto de características da pessoa natural, ou seja, são as característi-
cas corpóreas e não corpóreas, como nome, estado civil, qualidade de cidadã, patrimônios, entre
outros. Nesse sentido, dizemos que a personalidade jurídica é objeto de direito porque o ordena-
mento jurídico a protege (TARTUCE, 2016).
Desta forma, a personalidade jurídica se inicia a partir do nascimento, ainda que seja seguido
da morte. Porém, saiba que a personalidade começa com o nascimento com vida; porém, a lei
resguarda os direitos do nascituro desde a concepção (BRASIL, 2002).
E quando se fala sobre o nascituro, ele já tem personalidade? É considerado pessoa? Diante
dessas questões, temos três posicionamentos: o dos natalistas, o dos concepcionistas e o dos
teóricos da personalidade condicional.

Figura 1 – Nascimento

Fonte: noBorders – Brayden Howie/Shutterstock.com.

Para os natalistas, a personalidade tem início a partir do nascimento com vida. Já os concep-
cionistas entendem que a personalidade tem início a partir da concepção. O Código Civil não deixa
claro o seu posicionamento, pois, embora afirme que a personalidade civil começa a partir do nas-
cimento da vida, diz que o nascituro tem os direitos resguardados, de encontro à teoria concepcio-
nista. Percebe-se, portanto, que não há consenso sobre o assunto, embora o posicionamento majo-
ritário dos tribunais e de doutrinadores tem sido voltado à teoria concepcionista (TARTUCE, 2016).
A teoria da personalidade condicional afirma que a personalidade civil surge com o nasci-
mento de uma pessoa com vida. Porém, menciona que somente alguns direitos são protegidos,
como, por exemplo, o direito à vida (TARTUCE, 2016). Já outros direitos só serão garantidos após
o nascimento com vida, como, por exemplo, direitos patrimoniais.

– 45 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

SAIBA MAIS!
Sobre a prevalência da teoria concepcionista em nossos sistema e ordenamento
jurídicos, sugerimos a leitura do Informativo n. 547 do Superior Tribunal de Justiça,
nas páginas 9 e 10. Disponível em: <http://www.stj.jus.br/SCON/SearchBRS?b=INF-
J&tipo=informativo&livre=@COD=%270547%27>.

Depois de conhecermos os três posicionamentos sobre o surgimento da personalidade,


vamos inteira-se sobre os direitos da personalidade, afinal, eles são alvo de proteção do Direito.

3.1 Direitos da Personalidade


Agora, saiba que os direitos da personalidade representam os direitos mais íntimos e funda-
mentais do ser humano, conforme Tartuce (2016). Assim, “com exceção dos casos previstos em
lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício
sofrer limitação voluntária” (BRASIL, 2002). Tenha em mente que não há uma lista específica dos
direitos da personalidade. Portanto, eles podem ser entendidos como o direito à vida, à liberdade,
à integridade, à saúde, entre outros.

SAIBA MAIS!
O Projeto de Lei 699/2011 pretende alterar o artigo 11 do Código Civil, explicitando
direitos da personalidade e suas classificações. Para conhecer mais, acesse em: <http://
www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=494551>.

As classificações dos direitos da personalidade causam divergências entre juristas. Para fins
didáticos, “os direitos da personalidade são intransmissíveis, irrenunciáveis, extrapatrimoniais e
vitalícios” (TARTUCCE, 2016, p. 162). Nesse sentido, atente à seguinte classificação (BRASIL, 2011):

•• Direitos inatos, ilimitados e absolutos:


“Os direitos da personalidade são considerados inatos por serem inerentes à pessoa
humana, ou seja, pertencem ao sujeito de forma originária” (TARTUCE, 2016, p. 164).

Figura 2 – Liberdade

Fonte: studioarz/Shutterstock.com.

– 46 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Quanto a serem ilimitados e absolutos, existem algumas polêmicas, pois os direitos da per-
sonalidade, em alguns casos, podem sofrer limitação voluntária e não podem ser exercidos com
abuso de direito pela pessoa titular (BRASIL, 2012).

•• Direitos intransmissíveis e indisponíveis:


Não cabe cessão dos direitos da personalidade, ou seja, não podem ser objeto de aliena-
ção, não são disponíveis. Entretanto, a doutrina vem trazendo a ideia de que os aspectos
patrimoniais podem ser transmissíveis e disponíveis quanto ao uso (TARTUCE, 2016).

EXEMPLO
O caso de uma pessoa que, por meio de registro em cartório, dispõe de seu corpo
gratuitamente após a morte para alguma universidade, para fins científicos, é um
exemplo de disponibilidade relativa dos direitos da personalidade (BRASIL, 2002).

•• Direito irrenunciáveis:
Não é possível renunciar aos direitos de personalidade, ou seja, não é possível abando-
nar o seu direito.

•• Direitos imprescritíveis:
Não têm prazo para existirem, assim como não se extinguem pela inércia referente ao uso.

•• Direitos impenhoráveis e inexpropriáveis:


Não podem ser perdidos por limitação judicial e nem retirados da pessoa enquanto vive.

4 O fim da personalidade da pessoa


Agora, saiba que o fim da personalidade da pessoa se dá com a morte. Entretanto, é impor-
tante ressaltar que alguns direitos do falecido permanecem. Assim, ficam resquícios da personali-
dade civil de cujus (do falecido). Isso acontece porque pessoas ligadas ao falecido podem se sentir
lesadas pelo uso da imagem e pleitearem indenização (BRASIL, 2002).
Existem três tipos de mortes para o Direito Civil:

•• Morte real: o fim da personalidade da pessoa natural ocorre pela morte. Nesse sentido,
morte real é a morte cerebral (BRASIL, 2002). Será confirmada por médico, por meio de
laudo, documento essencial à elaboração do atestado de óbito.

– 47 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Figura 3 – Morte

Fonte: Willen Havenaar/Shutterstock.com.

FIQUE ATENTO!

A morte cerebral é a morte real, ou seja, somente quando o cérebro da pessoa para
de funcionar é declarada a sua morte real.

•• Morte presumida sem justificação (declaração de ausência): é caracterizada por


desaparecimento de corpo de pessoa em perigo de vida ou envolvida em guerra, por ser
militar ou prisioneira, não sendo encontrada até dois anos após o término da mesma.
Tenha em mente que somente após esgotados os meios de buscas do corpo é que
haverá a declaração de morte (BRASIL, 2002).

EXEMPLO

São exemplos de morte presumida sem justificação: desastre, acidentes e catás-


trofes naturais, de acordo com o artigo 7º, inciso I, do Código Civil (BRASIL, 2002).

•• Morte presumida com declaração de ausência: quando a pessoa desaparece e está


em local incerto e não sabido, configurando o LINS (Lugar Incerto e Não Sabido).

– 48 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!

A presunção das mortes presumidas com e sem declaração de ausência são relati-
vas, podendo ser afastada se a pessoa tida como morta aparecer com vida.

Aqui, então, foi possível conhecermos que a personalidade jurídica se extingue com a morte
do sujeito de Direito.

5 A comoriência e as suas consequências.


A comoriência diz respeito ao momento da morte de duas ou mais pessoas, da mesma famí-
lia e com direitos sucessórios entre si, e não tenha sido possível averiguar qual das pessoas fale-
ceu primeiro. Nesse caso, elas serão presumidas mortas simultaneamente (BRASIL, 2002).

Figura 4 – Tempos simultâneos

Fonte: Africa Studio/Shutterstock.com.

A consequência prática da comoriência se dá nos efeitos da sucessão dos bens dos como-
rientes (falecidos). Assim, se os comorientes forem herdeiros uns dos outros, não haverá transfe-
rência de bens e direitos entre eles; um não sucederá o outro. (TARTUCE, 2016)

FIQUE ATENTO!

Na comoriência, a presunção de morte é relativa, pois pode ser afastada caso se


comprove que as mortes não foram simultâneas.

Portanto, note que a comoriência é um acontecimento advindo da morte.

– 49 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• saber o que é pessoal natural para o Direito Civil.


•• compreender que a personalidade jurídica surge a partir do nascimento.
•• entender que a morte caracteriza o fim da personalidade jurídica.

Referências
BRASIL. Jornadas de direito civil I, III, IV e V: enunciados aprovados/coordenador científico Ministro
Ruy Rosado de Aguiar Júnior. Brasília: Conselho da Justiça Federal, Centro de Estudos Judiciários,
2012. Disponível em: <http://www.cjf.jus.br/cjf/CEJ-Coedi/jornadas-cej/enunciados-aprovados-
-da-i-iii-iv-e-v-jornada-de-direito-civil/compilacaoenunciadosaprovados1-3-4jornadadircivilnum.
pdf/view>. Acesso em: 04 set 2017.

_________. Lei 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Institui o Código Civil. Presidência
da República, Casa Civil. Brasília-DF, 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 18 ago. 2017.

_________. Projeto de Lei nº 699, de 15 de março de 2011. Altera o Código Civil, instituído pela Lei nº
10.406, de 10 de janeiro de 2002. Pl 699/2011: Altera o Código Civil, instituído pela Lei nº 10.406,
de 10 de janeiro de 2002. Portal da Câmara de Deputados, DF, 2011. Disponível em: <http://www.
camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=494551>. Acesso em: 21 ago.
2017.

_________. Informativo de Jurisprudência nº 547, Superior Tribunal de Justiça. Brasília/DF, 08/10/2014,


páginas 9 e 10. Disponível em: <http://www.stj.jus.br/SCON/SearchBRS?b=INFJ&tipo=informati-
vo&livre=@COD=%270547%27>. Acesso em: 12 set. 2017.

FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito Civil: Teoria Geral. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2011.

TARTUCE, Flávio. Direito Civil, v. 1: Lei de introdução e parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 2016.

– 50 –
TEMA 7
Capacidade relativa e absoluta
Raquel Helena Hernandez Fernandes

Introdução
Você já deve saber que a vida em sociedade exige que as pessoas tomem decisões sobre
as mais variadas situações, realizem negócios, dentre outras atividades. Agora, para o Direito, em
determinadas situações, não basta a personalidade jurídica, pois é necessário que se comprove
que a pessoa tenha noção sobre as suas atitudes e suas consequências.
Vamos abordar conceitos e contextos sobre capacidade de Direito, tais como as capacidades
relativa e absoluta e a emancipação.

Objetivos de Aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• estabelecer a distinção das capacidades relativas e absolutas.


•• empreender uma análise sobre os efeitos da emancipação.

1 Conceito de capacidade de Direito


Agora, vamos entender o significado do conceito de capacidade no Direito. Então, saiba que a
capacidade civil integra a pessoa natural, sendo um elemento da personalidade, e é caracterizada,
de acordo com o artigo 1º do Código Civil, como a aptidão da pessoa para exercer direitos e arcar
com deveres na vida civil (BRASIL, 2002).
Assim, existem duas classificações para a capacidade civil: capacidade de direito e capa-
cidade de fato. A capacidade de direito é inerente a toda personalidade, a todo ser humano. Já a
capacidade de fato é relacionada com a aptidão para exercer ou não os atos da vida civil (TAR-
TUCE, 2016).
Figura 1 – Fluxograma

Capacidade civil

Capacidade de direito Capacidade de fato

Fonte: elaborada pela autora, 2017.

– 51 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Portanto, toda pessoa tem capacidade de direito, mas nem toda pessoa tem a capacidade de
fato. Isso acontece porque algumas pessoas não possuem consciência, seja por transtornos men-
tais, deficiências intelectuais ou condições de saúde que comprometam a lucidez, temporárias ou
permanentes, como doenças neurológicas.
Nesse sentido, vale destacar que a capacidade de direito não pode ser negada às pessoas
(TARTUCE, 2016). Assim, quando uma pessoa tem as capacidades de fato e de direito, ela tem a
capacidade civil plena.

1.1 Diferença de legitimação e de legitimidade


Agora, quando falamos sobre capacidade civil, surgem os conceitos de legitimação e legiti-
midade, que são muito confundidos. Assim, saiba que legitimação é a condição para celebrar um
ato ou negócio jurídico. Já a legitimidade é ligada ao processo civil, sendo uma das condições da
ação (TARTUCE, 2016).

EXEMPLO
No caso de venda de imóvel, se o vendedor for casado, será necessária a autoriza-
ção do cônjuge para a venda, ou seja, a legitimação. Já a legitimidade é relaciona-
da ao processo judicial. Assim, uma pessoa precisa estar ligada ao processo, seja
como autora ou ré. Para isso, ela precisa ter interesse de agir, ou seja, a situação
que deu origem ao processo deve estar ligada à pessoa. Não havendo essa legiti-
midade, a ação deverá ser julgada extinta sem resolução de mérito, conforme art.
485, VI, do CPC.

Figura 2 – Capacidade civil plena

Fonte: ASDF_MediaShutterstock.com.

Agora que já conhecemos o conceito de capacidade de Direito e compreendemos a diferen-


ciação entre legitimidade e legitimação, vamos estabelecer a distinção das capacidades relativas
e absolutas.

– 52 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

2 Capacidade relativa
Então, vamos tratar a respeito de uma das capacidades limitadas, a incapacidade relativa.
Essa incapacidade é referente às pessoas que, desde que assistidas, podem praticar atos da vida
civil. Assim, necessitam de alguém para exercer a representação. (TARTUCE, 2016).
Se não houver assistência para a pessoa relativamente incapaz em um negócio jurídico, este
poderá ser anulável, o que dependerá da iniciativa da pessoa com quem o negócio foi celebrado,
conforme os artigos 171, inc. I, e 178, ambos do Código Civil (BRASIL, 2002).

Figura 3 – Assistência

Fonte: Yurii Andreichyn/Shutterstock.com.

O artigo 4º do Código Civil traz uma lista específica (rol taxativo) sobre quem é considerado
relativamente incapaz, sendo: os maiores de 16 e menores de 18 anos (inc. I); os alcoólatras e os
dependentes de drogas ilícitas (inc. II); pessoas que não puderem manifestar sua vontade, seja
por causa temporária ou permanente, em decorrência de alguma doença, doença neurológica ou
transtorno mental (inc. III) e os pródigos (inc. IV), como são chamadas as pessoas que gastam
todo o patrimônio, sem qualquer moderação.
Assim, os maiores de 16 anos e menores de 18 anos são denominados menores púberes
e só podem praticar certos atos da vida civil desde que estejam assistidos, como abrir conta em
banco e comprar e vender imóvel. Entretanto, alguns atos só podem ser praticados mediante auto-
rização familiar ou judicial, a depender do caso concreto, como o ato de se casar, elaborar testa-
mento, servir como testemunha de atos e negócios jurídicos, ser empresário e mandatário por
mandato extrajudicial.

– 53 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Figura 4 – Jovem

Fonte: Minerva Studio/Shutterstock.com.

No caso do casamento, o menor necessita apenas de autorização dos pais ou representan-


tes e, para ser empresário, é necessário que tenha autorização. (TARTUCE, 2016).

FIQUE ATENTO!
É importante saber que caso o comprometimento seja definitivo, ainda assim a
pessoa será considerada relativamente incapaz, ou seja, a sua capacidade de fato
será limitada.

No caso dos pródigos, eles podem ser interditados, com nomeação de um curador, e ficam
privados de atos que comprometam seu patrimônio. É importante lembrar que, em todos esses
casos, há necessidade de que haja um processo de interdição ou um processo próprio de curatela,
para que, então, o juiz analise a situação e veja se há necessidade de nomeação de um represen-
tante da pessoa (TARTUCE, 2016).

SAIBA MAIS!
Nos casos de pessoas com deficiência ainda não há consenso sobre a ação judicial
cabível, se interdição ou processo próprio de curatela. O Projeto de Lei 757, em trâmi-
te no Senado Federal, pretende esclarecer essas situações. Para conhecer o projeto,
acesse: <https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/124251>.

Agora que aprendemos sobre a relatividade da capacidade civil, vejamos o que trata o con-
ceito de capacidade absoluta.

– 54 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

3 Capacidade absoluta
Podemos entender que o indivíduo que possui capacidade absoluta é aquele que não possui
nenhuma das condições dos relativamente incapazes e não é menor de 16 anos. Já a incapaci-
dade absoluta é referente somente aos menores de 16 anos, conforme o artigo 3º do Código Civil
(BRASIL, 2002). Assim, os absolutamente incapazes devem ser representados, embora possuam
direitos (capacidade de direito). Entretanto, não possuem capacidade de fato.

SAIBA MAIS!
O Código Civil de 2002, no artigo 3º, continha os incisos II e III, que traziam a ideia de que
absolutamente incapazes não eram só os menores de 16 anos, mas, também, pesso-
as com doença ou deficiência mental, que não tivessem discernimento da realidade e
não pudessem manifestar vontade (inc. II), mesmo que essa situação fosse temporária
(inc. III). Entretanto, a Lei 13.146/2015, conhecida como Estatuto da Pessoa com De-
ficiência, revogou esses dois incisos. Sugerimos a leitura da referida lei. Acesse em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm>.

É importante se atentar ao fato de que o atual Código Civil demonstra que não existem mais
condições de incapacidade absoluta para maiores de idade e, conforme vimos anteriormente,
mesmo as pessoas com severos transtornos ou doenças mentais, que comprometem o discerni-
mento, são consideradas relativamente incapazes (BRASIL, 2002).

FIQUE ATENTO!
Esse novo olhar do Direito Civil em relação aos maiores de 16 anos e aos que têm
a capacidade de fato comprometida de forma temporária ou definidamente, sendo
deficientes ou pessoas com transtornos mentais, traz a inclusão social e passa a
valorizar a liberdade.

Diante dos conceitos de capacidade, agora vamos aprender sobre a emancipação.

4 Emancipação
Entenda que emancipação é o ato jurídico que antecipa os efeitos da maioridade ao menor
antes de ele atingir 18 anos e, consequentemente, proporciona capacidade civil (TARTUCE, 2016).
Assim, a emancipação faz com que o menor deixe de ser incapaz para os limites do Direito Pri-
vado. Entretanto, ele não deixa de ser menor na esfera criminal, não podendo responder por atos
dessa natureza pois a emancipação envolve apenas fins civis ou privados.

– 55 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

EXEMPLO
O menor emancipado não pode entrar em locais proibidos para menores de idade,
não pode tirar carteira de motorista e não pode consumir bebidas alcoólicas. Essas
restrições existem por conta da área penal.

O artigo 5º, parágrafo único do Código Civil estabelece as situações em que a emancipação
poderá ocorrer, sendo elas (BRASIL, 2002):

•• emancipação voluntária parental: o menor deve ter, no mínimo, 16 anos completos. É


concedida pelos pais ou por um deles quando o outro for falecido ou desconhecido. É
necessária a homologação perante o juiz.

•• emancipação judicial: ocorre por sentença judicial quando um dos pais concorda com
a emancipação e o outro não, por exemplo.

•• emancipação legal matrimonial: ocorre por meio do casamento do menor. A idade núbil
para homens e mulheres é 16 anos, sendo necessária a autorização dos pais. Condi-
ções como viuvez, divórcio e anulação do casamento não remetem à incapacidade.

Figura 5 – Casamento

Fonte: Alexey Fursov/Shutterstock.com.

•• Emancipação legal, por exercício de emprego público efetivo: ocorre quando o menor
é nomeado de forma definitiva para cargos ou empregos públicos, não valendo cargos
comissionados.

– 56 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

•• Emancipação legal, por colação de grau em curso de ensino superior reconhecido: o


menor tem que ter curso de ensino superior, o qual deve ser reconhecido pelo Ministério
da Educação. Emancipação legal, por estabelecimento civil ou comercial ou pela exis-
tência de relação de emprego, obtendo o menor as suas economias próprias, de modo
a ter a sua subsistência. Nesse caso, o menor deve ter pelo menos 16 anos e há um
questionamento sobre o menor poder ou não firmar recibo. Assim, o menor só pode fir-
mar recibo se for emancipado para obter economias próprias para sobrevivência. Caso
contrário, ainda necessitará de alguém que o represente em recibo.

FIQUE ATENTO!
Existem seis tipos de emancipação e cada uma delas tem causas diferentes. É
importante reparar que algumas possuem a palavra “legal” no nome. Isso ocorre
porque elas têm previsão legal no Código Civil.

Portanto, conhecemos as capacidades e suas peculiaridades, pois, conforme você deve ter
percebido, em nosso dia a dia, lidamos com elas o tempo inteiro e na área jurídica também.

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• saber que a capacidade civil faz parte da personalidade jurídica.


•• perceber que a capacidade civil é dividida em capacidade de fato e em capacidade de
direito e que esta última é inerente a todos os seres humanos.
•• entender que o nosso ordenamento jurídico prevê situações sociais em que pessoas
não terão capacidade de fato e deverão ser representadas por outras pessoas.
•• conhecer a emancipação, que promove a maioridade de jovens que têm, no mínimo,
16 anos.

– 57 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Referências
BRASIL. Lei nº 10.406 de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Institui o Código Civil. Presidência da
República, Casa Civil, Subchefia de Assuntos Jurídicos. Brasília-DF, 2002. Disponível em: <http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 28 ago. 2017.

________. Senado Federal. Projeto de Lei Complementar PLC 757/2015. Altera a Lei nº 10.406, de 10
de janeiro de 2002 (Código Civil), Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015 (Estatuto da Pessoa com Defi-
ciência), e a Lei nº 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil), para dispor sobre
a igualdade civil e o apoio às pessoas sem pleno discernimento ou que não puderem exprimir sua
vontade, os limites da curatela, os efeitos e o procedimento da tomada de decisão apoiada. Dispo-
nível em: <https://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/124251>. Acesso em:
13 set. 2017.

________. Presidência da República. Lei nº 13.146, de 6 de julho de 2015. Institui a Lei Brasileira de
Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência). Disponível em: <http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2015/lei/l13146.htm>. Acesso em: 13 set. 2017.

FARIAS, Cristiano Chaves de; ROSENVALD, Nelson. Direito Civil: Teoria Geral. Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2011.

TARTUCE, Flávio. Direito Civil, v. 1: Lei de introdução e parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 2016.

– 58 –
TEMA 8
Atos Jurídicos. Ato ilícito.
Negócio Jurídico
Raquel Helena Hernandez Fernandes

Introdução
Vamos agora conhecer os fatos, atos e negócios jurídicos, ou seja, situações que o Direito
considera relevantes, já que elas estabelecem relações sociais e jurídicas com ações e efeitos. Os
conceitos que aqui serão apresentados são de interesse para o Direito em geral.

Objetivos de aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• identificar a distinção entre atos e fatos jurídicos;


•• conhecer os fundamentos de atos ilícitos e dos negócios jurídicos.

1 Conceito de fatos jurídicos


Fatos são quaisquer ocorrências que interessam ou não no âmbito jurídico. Os fatos podem
ser não jurídicos ou jurídicos. Os fatos não jurídicos não são de interesse para o âmbito jurídico, já
os fatos jurídicos são de interesse para o Direito, pois tratam-se de ocorrências com repercussões
para o mundo jurídico (TARTUCE, 2016).
Vamos, então, ficar atentos aos fatos jurídicos, os quais podem ser subdivididos em fatos
naturais e fatos humanos. Os primeiros são aqueles que independem da atuação humana, já os
fatos jurídicos humanos dependem dessa atuação (TARTUCE, 2016), como apresenta o fluxo-
grama a seguir,

Figura 1 – Tipos de fatos jurídicos

Fatos jurídicos

Fatos Jurídicos Naturais Fatos Jurídicos Humanos

Independem da atuação humana Acontecem pela atuação humana

Fonte: elaborada pela autora, 2017.

– 59 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

1.1 Fatos jurídicos naturais


Os fatos jurídicos naturais produzem efeitos jurídicos de forma a criar, alterar ou extinguir
direitos e deveres. Eles podem ser ordinários ou extraordinários.
Os ordinários são aqueles eventos naturais, previsíveis e comuns, que sofrem influência do
tempo, como o nascimento e a morte de pessoas. Os extraordinários são os famosos casos for-
tuitos e de força maior, que também decorrem da natureza. Ainda há grande discussão doutrinária
sobre a diferença entre eles, pois alguns teóricos acreditam que esses eventos são sinônimos,
enquanto outros creem que não (TARTUCE, 2016). Nesse sentido, para efeitos didáticos, vamos
adotar o posicionamento de Flávio Tartuce (2016). Segundo ele, o caso fortuito é um evento total-
mente imprevisível. Já a força maior é um evento previsível, embora inevitável.

EXEMPLO
Um exemplo de caso fortuito seria a invasão de dragões na cidade do Rio de Ja-
neiro. Já força maior seria um forte terremoto na cidade de Tóquio, pois, embora
previsível, destruiria boa parte da cidade.

Figura 2 – Terremoto: força maior

Fonte: Antonio Nardelli/Shutterstock.com.

1.2 Fatos jurídicos humanos


Como vimos, os fatos jurídicos humanos decorrem da vontade humana. Conforme Tartuce
(2006), eles se subdividem em atos jurídicos em sentido amplo (atos lícitos) e atos ilícitos. Atos
jurídicos em sentido amplo são atos voluntários e podem ser observados sob a perspectiva do
negócio jurídico, se houver composição de interesses das partes, ou ato jurídico em sentido estrito.

– 60 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

1.3 Ato-fato jurídico


Nesse caso, também há controvérsia, pois alguns teóricos afirmam a existência do
ato-fato jurídico, que é caracterizado por um ato humano, decorrente de uma vontade não
relevante para o mundo jurídico. Nesse caso, relevante é o resultado do ato, que pode ter
repercussão jurídica (TARTUCE, 2016).

EXEMPLO
Um exemplo de ato-fato jurídico é o de uma pessoa que encontra um tesouro. Em-
bora ela não tenha tido intenção de encontrá-lo, receberá uma parte dele, de acordo
com o artigo 1.264 do Código Civil.

Entenda melhor no quadro a seguir, que explica os fatos jurídicos.

Quadro 1 – Fatos Jurídicos

Fatos Jurídicos Ordinários


FATOS JURÍDICOS

Naturais Extraordinários

Atos Ilícitos

Fatos Jurídicos Ato Jurídico em sentido estrito


Ato Jurídico em
Humanos Ato-fato Jurídico
sentido amplo
Negócio Jurídico

Fonte: elaborada pela autora, 2017.

No próximo tópico, vamos conhecer uma das subdivisões do ato jurídico em sentido amplo.

2 Atos jurídicos em sentido estrito


Os atos jurídicos em sentido amplo possuem três espécies, e uma delas são os atos jurídicos
em sentido estrito, os quais são caracterizados por terem manifestação de vontade das pessoas
e pelo fato de que as consequências desses atos não estão previstas nas vontades, mas na lei,
desde que não haja acordo entre as partes para que as consequências previstas em lei não ocor-
ram (TARTUCE, 2016).
Podemos pensar no caso de um pai que reconhece um filho biológico. A vontade do pai é
reconhecer o filho biológico, e esse reconhecimento traz efeitos legais, como o direito de o filho
usar o sobrenome do pai, o dever de alimentos, entre outros. Assim, os efeitos advindos do ato não
dependem da vontade do pai, de modo que o pai não pode limitar esses efeitos.

– 61 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!
É importante que você não confunda fato jurídico em sentido estrito e ato jurídico
em sentido estrito. O primeiro é fato natural, que independe da atuação humana. O
segundo é proveniente do ato jurídico em sentido amplo, sendo este constituidor
dos fatos jurídicos humanos.

A seguir, vamos saber o que são atos jurídicos ilícitos.

3 Atos jurídicos ilícitos


Atos jurídicos ilícitos são condutas voluntárias ou involuntárias que ocorrem de forma a violar
o ordenamento jurídico. Os atos ilícios podem ser penais, administrativos e cíveis. Existem muitas
controvérsias entre os teóricos, pois muitos acreditam que ato ilícito não pode ser considerado ato
jurídico, já que ato jurídico deve ser necessariamente lícito.

SAIBA MAIS!
Para entender mais sobre as controvérsias acerca do ato ilícito ser considerado ou
não ato jurídico, recomendamos a leitura do subcapítulo 6.1 (“Fatos, Atos e Negó-
cios Jurídicos. Conceitos Iniciais”) do capítulo 6 (“Teoria do Negócio Jurídico”) do
livro “Direito Civil”, Lei de introdução e parte geral, de Flávio Tartuce.

Agora, vamos aprender a respeito dos negócios jurídicos e todas as suas complexidades.
Acompanhe!

4 Conceito de negócios jurídicos


Podemos dizer que negócios jurídicos são ações humanas, de autonomia privada, por meio
das quais as partes regulam por si os próprios interesses, formando um acordo de vontades, com
conteúdo lícito (TARTUCE, 2016). Uma forma de negócio jurídico é o contrato.

4.1 Classificações dos negócios jurídicos


As classificações dos negócios jurídicos visam demonstrar a natureza deles. As principais
classificações estão descritas no quadro a seguir.

– 62 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Quadro 2 – Classificações dos negócios jurídicos

• Unilaterais: a declaração de vontade advém de apenas uma pessoa.

Quanto às • Bilaterais: duas declarações de vontade que coincidem sobre objetos ou


manifestações de bens jurídicos.
vontade dos envolvidos • Plurilaterais: mais de duas partes, com interesses coincidentes no plano
jurídico.

• Gratuitos: sem obrigação de contraprestação.

Quanto às vantagens • Onerosos: envolvem contraprestação e vantagens patrimoniais.


patrimoniais para os • Neutros: não há atribuição de contraprestação (não são gratuitos nem
envolvidos onerosos).
• Bifrontes: gratuitos ou onerosos, depende das partes.

• Inter vivos: produz efeitos durante a vida dos negociantes.


Quanto aos efeitos no
• Mortis causa: os efeitos ocorrem somente após a morte de determinada
sentido atemporal
pessoa.

Quanto à necessidade • Formais/solenes: obedecem a uma forma ou solenidade prevista em lei.


ou não de formalidades
e solenidades • Informais/não solenes: admitem forma livre.

• Principais/independentes: não dependem de outro negócio jurídico.


Quanto à autonomia • Acessórios/dependentes: têm existências subordinadas a outros negó-
cios jurídicos.

Quanto às condições • Impessoais: não dependem de qualquer condição especial dos envolvidos.
pessoais especiais dos
negociantes • Personalíssimos: dependem de uma condição especial dos envolvidos.

• Causais/materiais: motivo consta expressamente do seu conteúdo.


Quanto à causa
• Abstratos ou formais: a razão decorre do conteúdo, embora não se
determinante
encontre nele.

• Consensuais: os efeitos ocorrem a partir do momento do acordo de


Quanto ao momento de
vontades entre as partes.
aperfeiçoamento
• Reais: os efeitos ocorrem a partir do momento da entrega do bem ou objeto.

• Constitutivos: geram efeitos a partir da sua conclusão (ex nunc).


Quanto à extensão dos
• Declarativos: geram efeitos a partir do momento do fato que constitui o
efeitos
seu objeto (ex tunc).

Fonte: elaborada pela autora, 2017.

– 63 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

SAIBA MAIS!
A herança é um negócio jurídico mortis causa< porque só tem efeitos após a mor-
te da pessoa que a deixou (art. 426 do Código Civil), não existindo herança de pes-
soa viva. Nesse sentido, recomendamos a leitura do Acórdão do Agravo Interno
no Recurso Especial nº 1341825/SC, do STJ. Pode ser acessado em: <http://www.
stj.jus.br/SCON/jurisprudencia/doc.jsp?livre=heranca+de+pessoa+viva&b=A-
COR&p=true&l=10&i=1>

4.2 Elementos constitutivos do negócio jurídico


Os negócios jurídicos possuem elementos essenciais, naturais e acidentais, os quais tam-
bém são elementos do contrato. Para estudarmos esses elementos, é primordial conhecer a teoria
criada por Pontes de Miranda (1974), que estruturou esses elementos em três planos, de forma
bastante didática. Vamos conhecê-los!
•• Plano da existência: são os elementos mínimos de um negócio jurídico: agente; von-
tade; objeto e forma.

•• Plano de validade: são características dos elementos essenciais: capacidade do agente;


liberdade de vontade ou consentimento; licitude, possibilidade e determinabilidade do
objeto e adequação das formas.

•• Plano de eficácia: são os elementos constituintes das consequências jurídicas e práti-


cas. Esses elementos são condição; termo; consequências do inadimplemento nego-
cial (multas, juros e perdas e danos); e os efeitos do negócio.

4.2.1 Elementos essenciais do negócio jurídico

Vimos que elementos essenciais são os que fazem parte do plano da existência. As caracte-
rísticas desses elementos formam o plano da validade, sendo, portanto, a capacidade do agente;
objeto lícito, possível, determinado e determinável; vontade ou consentimento livre; forma prescrita
ou não defesa em lei (TARTUCE, 2016).

FIQUE ATENTO!

Os elementos essenciais do negócio jurídico são os elementos do plano de validade


e as respectivas características deles.

– 64 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

4.2.2 Elementos naturais ou identificadores do negócio jurídico

Como o próprio nome diz, os elementos naturais do negócio jurídico são aqueles que o iden-
tificam e são originários dos efeitos comuns dele. Temos como exemplo de elemento identificador
o aluguel em um contrato de locação (TARTUCE, 2016).

4.2.3 Elementos acidentais do negócio jurídico

Os elementos acidentais são a condição, o termo, o encargo (ou modo), contidos dos artigos
121 ao 137 do Código Civil. São adicionados aos negócios jurídicos pelas partes e tem o objetivo
de alterar as consequências naturais. Além disso, estão diretamente ligados ao plano da eficácia.
Importante ressaltar que o negócio pode existir mesmo que não contenha elementos acidentais. 

FIQUE ATENTO!

É importante que você lembre que as peculiaridades dos negócios jurídicos são
aplicadas aos contratos.

Até aqui, você pôde perceber como os negócios jurídicos são repletos de detalhes e requisitos.

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• compreender que os atos jurídicos naturais independem da ação humana, podendo ser
ordinários e extraordinários;
•• verificar que os fatos jurídicos humanos acontecem da ação humana e podem ser atos
ilícitos e ato jurídico sem sentido amplo.
•• constatar que o ato jurídico sem sentido amplo ainda se divide em três espécies.

– 65 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Referências
BRASIL. Lei 10.406 de 10 de janeiro de 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
leis/2002/L10406.htm>. Acesso em 14 ago. 2017.

_______. Superior Tribunal De Justiça. Agravo Interno no Recuso Especial nº 1341825/SC, publicado
em 10/02/2017, Rel. Min. Raul Araújo, Quarta Turma. Disponível em: <http://www.stj.jus.br/SCON/
jurisprudencia/doc.jsp?livre=heranca+de+pessoa+viva&b=ACOR&p=true&l=10&i=1>. Acesso em:
28 de set. 2017.

PONTES DE MIRANDA, Francisco Cavalcanti.  Tratado de direito privado. 4. ed. São Paulo: RT,
1974. t. II.

TARTUCE, Flávio. Direito Civil, v.1: Lei de introdução e parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 2016.

– 66 –
TEMA 9
Defeito do Negócio Jurídico
Raquel Helena Hernandez Fernandes

Introdução
Muitas relações sociais pautam-se em negócios jurídicos. Nesse sentido, há classificações e
requisitos para que existam e sejam válidos. Entretanto, há defeitos do negócio jurídico que podem
torná-lo nulo ou anulável e ter repercussões jurídicas. Aqui, iremos abordar esses defeitos.

Objetivos de aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:
•• entender o conceito de defeito no negócio jurídico;
•• evidenciar as diferenças entre inviabilidade, nulidade e anulabilidade do negócio jurídico.

1 Conceito de defeito do negócio jurídico


É preciso entender que defeitos do negócio jurídico são vícios que violam o ato jurídico cele-
brado. Esses vícios podem ser de vontade (do consentimento) ou sociais e invalidam o negócio
jurídico, sendo que essas invalidades podem acarretar em inexistência do negócio jurídico, nuli-
dade absoluta ou nulidade relativa (anulabilidade).
A inexistência do negócio jurídico, a nulidade absoluta e a nulidade relativa possuem diferentes
características e diferentes efeitos. Assim, é importante que você esteja atento a essas peculiaridades.

2 Invalidade do negócio
A invalidade do negócio jurídico se dá quando ele não produz os efeitos desejados pelas par-
tes envolvidas, sendo, desta forma, ineficaz. É o Código Civil que traz as situações de invalidade
do negócio jurídico, e você pode buscar pelo assunto entre os artigos 166 e 184 (TARTUCE, 2016).
É importante mencionar que a expressão “invalidade do negócio jurídico” abarca três situações:
inexistência de negócio jurídico; nulidade do negócio jurídico (absoluta) e anulabilidade do negócio jurí-
dico (nulidade relativa), e todas essas situações tornam o negócio jurídico inválido (TARTUCE, 2016).

FIQUE ATENTO!
Invalidade do negócio jurídico se refere a três situações: inexistência do negócio
jurídico; nulidade do negócio jurídico (absoluta) e anulabilidade do negócio jurídico
(relativa).

– 67 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

2.1 O que é nulidade?


A nulidade é a penalidade imposta pela lei diante da desobediência da norma jurídica e con-
siste na privação dos efeitos jurídicos do negócio. Essa penalidade acontece quando os requisitos
mínimos para a existência válida do negócio não foram preenchidos. Como você viu, há duas
espécies de nulidade: absoluta e relativa (anulabilidade) (TARTUCE, 2016).

2.2 Inexistência do negócio jurídico


Entenda que há uma grande discussão entre juristas sobre a inexistência do negócio jurídico.
Para alguns, o inexistente é aquele que não gera efeitos no âmbito jurídico, já que não preencheu
os requisitos de seu plano de existência (os mínimos): partes, vontade, objeto e forma. Já outros
juristas alegam que o Código Civil não trata da inexistência do negócio jurídico, pois nele não há
previsão legal. Para esses, a falta de requisitos mínimos se enquadra em nulidade absoluta do
negócio jurídico, que estudaremos a seguir.

3 Nulidade do negócio
Vamos tratar da nulidade absoluta do negócio jurídico, a qual é a consequência da ofensa às
normas de ordem pública (ofensa às leis) e, assim, torna o negócio absolutamente inválido. Neste
sentido, o art. 166 do Código Civil apresenta as hipóteses de nulidade absoluta. Sendo assim, é
nulo o negócio jurídico quando:

•• Celebrado (pessoalmente) por absolutamente incapaz, sem representação (inciso I), ou


seja, por menores de 16 anos;

Figura 1 – Criança: absolutamente incapaz

Fonte: Poznyakov/Shutterstock.com.

– 68 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

•• O negócio for ilícito, impossível, indeterminado ou indeterminável (inciso II): é aquele


que tem como objeto algo que viola a lei. O negócio é impossível quando ele não existe;
assim, não há negócio jurídico sem objeto. O negócio é indeterminado ou indeterminá-
vel quando o objeto não é identificável, detectável;

•• O motivo determinante do negócio, para ambas as partes, for ilícito (inciso III): neste
caso, a intenção das partes é ilícita. O motivo está na intenção. Não se confunde, por-
tanto, com a causa negocial;

EXEMPLO
Como exemplo de ilicitude do motivo determinante do negócio, podemos pensar no
caso de uma pessoa alugar a sua casa a outra pessoa que busca abrigar menores
para escravizá-los, sendo que a primeira pessoa sabia da intenção da segunda.

•• O negócio não se revestir na forma prescrita em lei ou quando não for seguida alguma
solenidade considerada essencial para a sua validade (incisos IV e V): a solenidade é
uma espécie de forma. Neste caso, se a lei prevê uma forma em que o negócio jurídico
deve ser celebrado, ele deve seguir essa forma;

•• O negócio tiver como objetivo fraudar a lei imperativa (inciso VI): este caso não se con-
funde com a ilicitude do objeto, pois há violação indireta da norma proibitiva;

Figura 2 – Negócio jurídico impossível: compra do sistema solar

Fonte: Maciej Es/Shutterstock.com.

•• A lei declarar expressamente o negócio jurídico nulo (nulidade expressa ou textual) ou


proibir a sua prática, sem cominar sanção (nulidade implícita ou virtual) (inciso VII).

– 69 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

EXEMPLO
A proibição da doação universal de todos os bens do doador sem reserva mínima
à sua sobrevivência é um exemplo de nulidade textual. Já um exemplo de nulidade
virtual seria: a herança de pessoa viva não pode ser objeto de negócio jurídico. Nes-
te caso, há apenas a vedação do ato, mas não há previsão de sanção.

Além dessas situações, o negócio jurídico simulado também é nulo e, nesse caso, subsiste
apenas o que se dissimulou. Assim, simulação é um desacordo entre a vontade declarada ou
manifestada e a vontade interna (TARTUCE, 2016). A simulação pode ser alegada por terceiros que
não estão envolvidos no negócio e pelas partes envolvidas.
Outro caso de nulidade absoluta é o de coação física, considerada vício de vontade. De acordo
com Tartuce (2016), caracteriza-se pela pressão física exercida sobre o negociante, para obrigá-lo
a assumir uma obrigação que ele não quer.

FIQUE ATENTO!

Tenha em mente que os negócios jurídicos eivados de simulação e coação física


sofrem os efeitos da nulidade absoluta.

Figura 3 – Herança de pessoa viva: negócio jurídico nulo

Fonte: fabio fersa/Shutterstock.com.

3.1 Efeitos e procedimentos decorrentes


da nulidade absoluta
Quando há nulidade absoluta, a ação declaratória de nulidade deve ser proposta, por meio de
procedimento comum, disponível no Código de Processo Civil de 2015. Há forte discussão doutri-
nária e jurisprudencial sobre a possibilidade ou não da prescrição ou decadência nessa ação. Um
ponto que merece atenção é que a sentença que declara a nulidade absoluta tem efeito contra
todos (erga omnes) e os seus efeitos são retroativos (ex tunc).

– 70 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

É importante que você saiba que as nulidades absolutas podem ser alegadas por qualquer
pessoa ou pelo Ministério Público e também devem ser declaradas de ofício pelo juiz, embora
não possam ser remediadas por ele, já que envolvem ordem pública (TARTUCE, 2016). Por fim,
é importante saber que a conversão do negócio nulo em outro negócio é possível. Para que isso
aconteça, a lei exige que os contratantes queiram outro negócio. Assim, é necessário que as partes
manifestem suas vontades no sentido de celebrar novo negócio jurídico e este deve ter requisitos
mínimos do outro negócio.

4 Anulabilidade do negócio
Agora vamos estudar a anulabilidade (ou nulidade relativa), que envolve regras de interesse
das partes e, por isso, é de ordem privada, diferindo da nulidade absoluta (TARTUCE, 2016).

FIQUE ATENTO!

Não esqueça de que a nulidade absoluta envolve preceitos de ordem pública, e a


anulabilidade envolve preceitos de ordem privada.

As situações de anulabilidade estão contidas no artigo 171 do Código Civil, sendo elas:
•• quando o negócio for celebrado por relativamente incapaz, sem assistência;
•• diante da existência de vício que pode macular o negócio jurídico, como dolo, erro, coa-
ção moral ou psicológica, lesão, estado de perigo ou fraude contra credores;
•• nos casos especificados de anulabilidade.
•• Nos casos de incapacidade relativa, devemos lembrar do artigo 4º do Código Civil. Nos
casos especificados de anulabilidade, não há uma lista específica.

SAIBA MAIS!
Sobre casos em que o negócio jurídico for celebrado por relativamente incapaz,
sugerimos a leitura do acórdão nº 2017.0000574234, do Tribunal de Justiça do Es-
tado de São Paulo, publicado no DJE dia 08/08/2017, disponível em: <https://esaj.
tjsp.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdAcordao=10670983&cdForo=0>

Sobre os casos de vícios, veja cada um (TARTUCE, 2016):

•• Dolo: é a atitude ardilosa utilizada para enganar alguém, visando ao benefício próprio.
Se o dolo for a causa do negócio jurídico, ele é anulável.

•• Erro: é um engano em relação ao objeto do negócio, a um direito ou a uma pessoa que


prejudica a vontade de uma das partes do negócio jurídico. O erro precisa ser substan-
cial para que o negócio se torne anulável.

– 71 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

•• Coação moral: é uma forte pressão psicológica que causa medo de dano que se aproxima
e considerável ao negociante, à sua família, à pessoa de contato próximo ou aos seus bens.

Figura 4 – Coação moral

Fonte: Shutterstock.com.

•• Lesão: configura situação em que uma pessoa, por necessidade ou inexperiência, obri-
ga-se à situação de cúmulo de onerosidade.

•• Estado de necessidade/perigo: situação em que o negociante, pessoa de sua família


ou amigo próximo está em perigo conhecido da outra parte do negócio, e esta se apro-
veita da situação para celebrar negócio.

•• Fraude contra credores: é caracterizada pela intenção do devedor em dispor de seu


patrimônio a fim de prejudicar credores.

SAIBA MAIS!
Sobre casos em que o negócio jurídico for anulável por estado de necessidade, suge-
rimos a leitura do acórdão nº 812872, do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo,
publicado no DJE dia 22/08/2014, disponível em: < https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/getAr-
quivo.do?cdAcordao=4931640&cdForo=0>.

4.1 Efeitos e procedimentos decorrentes da anulabilidade


A anulabilidade deverá ser reconhecida por meio da ação anulatória, que em geral segue o rito
ordinário. Por ser de direito privado, a ação anulatória tem efeito inter partes, isto é, somente entre
os envolvidos na relação jurídica. Nesse caso, há efeito ex nunc, quer dizer, não é possível retroagir.

– 72 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Por fim, é importante saber que a boa-fé objetiva prevalece: mesmo o negócio sendo anulável,
se confirmado pelas partes, será mantido. Nesse caso, a confirmação das partes deve conter a
substância do negócio celebrado e a vontade expressa de mantê-lo. Caso o negócio já tenha sido
cumprido, a confirmação não será necessária (é tácita). Nesses casos, extingue-se a possibilidade
de requerimento posterior de anulabilidade do negócio.

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• entender o conceito de defeito no negócio jurídico;


•• conhecer a diferenças entre inexistência, nulidade e anulabilidade do negócio jurídico;
•• perceber que a nulidade e a anulabilidade possuem causas e efeitos distintos.

Referências
BRASIL. Lei 10.406 de 10 de janeiro de 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/cci-
vil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 14 ago. 2017.

SÃO PAULO. Acórdão nº 812872. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, 28 ago. 2014. Dis-
ponível em: <https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdAcordao=4931640&cdForo=0>. Acesso
em: 23 set. 2017.

SÃO PAULO. Acórdão nº 2017.0000574234. Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, 8 ago. 2017.
Disponível em: <https://esaj.tjsp.jus.br/cjsg/getArquivo.do?cdAcordao=10670983&cdForo=0>. Acesso
em: 23 set. 2017.

TARTUCE, Flávio. Direito Civil, v. 1: Lei de introdução e parte geral. Rio de Janeiro: Forense, 2016.

– 73 –
TEMA 10
Contratos: conceito e validade.
A compra e venda de imóveis e a locação
de imóveis. Doação e dação em pagamento.
Novação. Empréstimo: mútuo e comodato
Raquel Helena Hernandez Fernandes

Introdução
As manifestações de vontades em negócios jurídicos podem ser formalizadas por meio de
contratos. Assim, vamos conhecer as peculiaridades dos contratos e conhecer alguns contratos
em específico, como o contrato de compra e venda de imóveis, contrato de locação de imóveis,
a diferença entre doação, dação em pagamento e novação, bem como contrato de empréstimo.

Objetivos de aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• compreender a necessidade da formalização dos contratos jurídicos e a distinção entre


tácito e formal;
•• diferenciar os vários tipos de contratos na compra e venda de imóveis;
•• entender a diferença entre dação e doação.

1 Os Contratos: conceito e validade


Sabemos que as relações sociais exigem algumas formalizações, não é mesmo? Partindo
desse pensamento, o contrato são exatamente essas formalizações de vontades entre as partes.
Assim, o contrato é um ato jurídico que envolve duas ou mais declarações de vontade. O objetivo
do contrato é criar, alterar ou extinguir direitos e deveres patrimoniais, de forma a constituir um
negócio jurídico (TARTUCE, 2017).
Para existir e ser válido, o contrato necessita ter requisitos básicos, que, segundo Tartuce
(2017), são: haver o objeto ou conteúdo lícito, a boa-fé, a não violação ao ordenamento jurídico, a
função social e econômica e os bons costumes.
Indo mais à fundo, podemos entender que os requisitos para a existência e validade do con-
trato são: a manifestação de duas ou mais vontades e capacidade genérica dos contraentes; a
aptidão específica para contratar e o consentimento; objeto do contrato, que deve ser lícito, possí-
vel, determinado ou determinável (CC, art. 104, II); com relação à forma, as partes podem celebrar
o contrato por escrito, verbalmente, a não ser nos casos em que a lei, para dar maior segurança e
seriedade ao negócio, exija a forma escrita, pública ou particular. O consensualismo, portanto, é a
regra, e o formalismo, a exceção.

– 74 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Nesse sentido, temos alguns princípios que norteiam os contratos, sendo que um deles é o
princípio da autonomia. Esse princípio traz a ideia de que as pessoas são livres para contratar o
que quiserem e com as partes que quiserem, desde que não haja violação do ordenamento jurídico
(GONÇALVES, 2016). Importante ressaltar que esse princípio é limitado pelo Princípio da Função
Social dos Contratos, o qual estabelece que deve ser promovido sempre o bem-estar social.

SAIBA MAIS!
O princípio da boa-fé exige que as partes se comportem com bom senso e de
maneira correta nas tratativas, na formação e no cumprimento do contrato
(GONLAÇVES, 2016, p. 54). Assim, conforme preceitua o art. 422 do Código Civil:
“Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como
em sua execução, os princípios de probidade e boa-fé”.

Nessa mesma esteira, o princípio pacta sunt servanda ou da força obrigatória dos contratos é
um dos mais conhecidos e característicos dos contratos. E qual é a orientação de tal princípio? Ele
leva em consideração a autonomia das partes e, por isso, traz a ideia de que o contrato deve ser
cumprido, de forma que as partes arquem com suas obrigações (GONÇALVES, 2016).

1.1 Elementos que constituem o contrato


Os elementos que constituem os contratos são os mesmos que constituem os negócios
jurídicos. Dessa forma, é importante relembrarmos da Escada Ponteana (TARTUCE, 2017, p. 16).
A Escada Ponteana possui três planos, você saberia dizer quais são suas respectivas carac-
terísticas? Vejamos: plano de existência: agente, vontade, objeto e forma; plano de validade: capa-
cidade do agente, liberdade da vontade, objeto possível, lícito e determinado e adequação das
formas; plano de eficácia: condição, termo, encargo, consequências do inadimplemento negocial
e outros elementos.

Figura 1 – Formalização de contrato

Fonte: Gajus’s/Shutterstock.com.

– 75 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Dessa forma, sempre que você realizar um negócio jurídico e, consequentemente, um con-
trato, os requisitos da Escada Ponteana devem ser observados, de forma a não tornar o negócio
inexistente, nulo ou anulável.
Continue a leitura, vamos agora aprender sobre contratos de compra e venda de imóveis.

2 A formação dos contratos de


compra e venda de imóveis
Um dos contratos clássicos é o contrato de compra e venda de imóveis. Esse contrato é
caracterizado por ter o vendedor se obrigando a transferir o domínio de bem imóvel, mediante
preço. Nesse caso, a propriedade do imóvel é transferida por meio de registro do contrato no Car-
tório de Registro Imobiliário (CRI).
Quais seriam os elementos da compra e venda de imóvel? Vamos conhecê-los: partes (compra-
dor e vendedor), com vontades livres, sem vícios e com consenso; imóvel e preço (TARTUCE, 2017).

Figura 2 – Compra e venda de imóvel

Fonte: Alexander Raths’s/Shutterstock.com.

É importante que você saiba que existem algumas situações de restrições na compra e venda de
imóvel, sendo elas: quando o ascendente vende imóvel ao descendente e não há consentimento dos
demais descendentes e do cônjuge (art. 496 do CC); quando os cônjuges vendem entre si bens que
fazem parte da comunhão (art. 499 do CC); venda de bens que estão sob administração de tutores,
curadores, testamenteiros, administradores, servidores públicos, juízes, serventuários, leiloeiros e seus
prepostos, dentre outros (art. 497 do CC) e venda de bens ou de coisa comum em condomínio, ou seja,
venda de bens do condomínio a pessoas estranhas ao condomínio (art. 504 do CC) (BRASIL, 2002).

FIQUE ATENTO!

Lembre-se de que a transferência da propriedade do imóvel se dá por registro do


contrato no Cartório de Registro Imobiliário (CRI).

– 76 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Existem, ainda, cláusulas especiais da compra e venda. Saiba que essas cláusulas condicio-
nam os contratos a acontecerem em evento futuro e incerto. Nesse sentido, são estas as cláusu-
las: de retrovenda (arts. 505 a 508 do CC); de venda a contento e de venda sujeita à prova (arts. 509
a 512 do CC); de preempção ou preferência (arts. 513 a 520 do CC); de venda com reserva de domí-
nio (arts. 521 a 528 do CC) e de venda sobre documentos (arts. 529 a 532 do CC) (BRASIL, 2002).
Vamos continuar, temos muito a aprender!

3 Os contratos de locação de imóveis


Os contratos de locação de imóveis são caracterizados por terem como objeto o uso e posse
de bem imóvel. Assim, uma das partes compromete-se a fornecer à outra, mediante aluguel e por
certo tempo, o uso e a posse do imóvel urbano ou rural (TARTUCE, 2017).

Figura 3 – Locação de imóvel

Fonte: Onur ERSIN’s/Shutterstock.com.

É importante que você saiba que a Lei 8.245/91, conhecida como Lei de Locação, é essencial
para regular os negócios jurídicos referentes à locação de imóveis.

SAIBA MAIS!
Recomenda-se a leitura integral da Lei de Locação, Lei 8.245/91, por meio dela,
você ficará por dentro das leis que regulam a locação de imóveis! Disponível em: <
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8245.htm>.

Locador é quem fornece o imóvel, e locatário é quem aluga o imóvel. Nesse sentido, os arts.
22 e 23 da Lei de Locação trazem direitos e deveres para locador e locatário. Para ilustrar, trouxe-
mos dois deveres do locador: responder por defeitos que existiam antes da locação do imóvel e

– 77 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

fornecer informações minuciosas ao locatário sobre o estado do imóvel. Em relação ao locatário,


entre seus deveres, dois são: pagar pontualmente o aluguel acordado entre as partes e devolver o
imóvel no estado em que recebeu.
O tempo de locação é de trinta meses ou menos, devendo isso ser acordado entre as partes,
de forma escrita (formal), tácita (subentendido) ou verbal.

FIQUE ATENTO!

Tenha em mente que o tempo de locação é de trinta meses ou menos, de acordo


com o que for a vontade das partes.

Ainda sobre os contratos de locação, fato interessante é que o art. 27 da Lei de Locação traz
o direito de preferência do locatário caso o locador queira vender o imóvel.
A seguir, vamos aprender sobre os contratos de doação e dação em pagamento.

4 Contratos de doação e dação em pagamento


É de extrema importância que você saiba a distinção entre contratos de doação e dação em
pagamento, pois são situações totalmente diferentes.

4.1 Dação em pagamento


A dação em pagamento consiste em uma obrigação. Ela ocorre quando o credor aceita que
o devedor dê fim à relação de obrigação entre eles através da substituição do objeto da prestação.
Assim, o devedor paga a prestação com outro objeto que não estava originalmente na obrigação,
extinguindo-a (VENOSA, 2016).

EXEMPLO
Mário é devedor do Banco A por conta de um empréstimo. A dívida já está no valor
de R$ 500.000,00. Mário não consegue quitar o empréstimo e, então, oferece um
imóvel como quitação do empréstimo/dívida. O Banco A aceita e, assim, extingue-se
a obrigação.

Assim, a dação em pagamento extingue a obrigação.

– 78 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

4.2 Novação
A novação é uma forma de cumprir uma obrigação, substituindo-a por uma nova obrigação
(VENOSA, 2016, p. 306).

EXEMPLO
Um vendedor de frutas deveria entregar 1.000 maçãs ao comprador. Entretanto,
faltaram as maçãs. Assim, as partes convencionaram a entrega de 50 sacas de
arroz. Extinguiu-se a obrigação das maçãs, mas foi originada a nova obrigação, a
das sacas de arroz.

Assim, a obrigação anterior é extinta e é gerada uma nova obrigação.

4.3 Contratos de doação


A doação é um contrato previsto entre os arts. 538 e 564 do CC. Na doação, o doador (aquele
que doa) transfere do seu patrimônio, bens ou vantagens para o donatário (aquele que recebe a
doação), sem qualquer pagamento (TARTUCE, 2017, p. 341). Trata-se de ato de liberdade, unilate-
ral e gratuito (BRASIL, 2002).

Figura 4 – Doação

Fonte: ProStockStudio’s/Shutterstock.com.

A doação pode ser revogada, ou seja, cancelada. Nesse sentido, o art. 555 do CC indica que
a revogação pode acontecer por dois motivos: ingratidão do donatário (art. 557 do CC) ou pela
inexecução do encargo ou modo.

– 79 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

5 Contratos de Empréstimo: mútuo e comodato


O contrato de empréstimo é um negócio jurídico em que uma pessoa entrega à outra coisa
fungível (bem móvel que pode ser substituído por outro de igual espécie, qualidade e quantidade)
ou infungível (bem que não pode ser substituído por conta de suas características únicas), gratui-
tamente, de forma que a pessoa que recebe se compromete a devolver a coisa emprestada ou
outra da mesma espécie e quantidade. Assim, o contrato de empréstimo é um exemplo de con-
trato unilateral e gratuito (TARTUCE, 2017, p. 525). Existem duas espécies de contrato de emprés-
timo: comodato e mútuo.

FIQUE ATENTO!
Bens infungíveis são aqueles que não podem ser substituídos, pois possuem ca-
racterísticas que os tornam únicos. Bens fungíveis são móveis e podem ser substi-
tuídos por outros, desde que os substitutos sejam da mesma espécie, qualidade e
quantidade (art. 85 do CC).

O comodato é caracterizado por ser empréstimo de bem que não pode ser substituído nem
consumido. Assim, o bem emprestado deverá ser devolvido quando o contrato terminar. O Código
Civil prevê o comodato entre seus arts. 579 e 585 (TARTUCE, 2017, p. 525).
Já o mútuo é caracterizado por ser empréstimo de bem que pode ser substituído e consu-
mido. Assim, o bem emprestado desaparece e outro de mesma espécie e quantidade deve ser
devolvido, havendo substituição (TARTUCE, 2017, p. 525). O Código Civil prevê o mútuo entre seus
arts. 586 e 592. Nesse sentido, um exemplo clássico de contrato de mútuo é o empréstimo de
dinheiro, que é um bem fungível.
Esses contratos acontecem com a entrega da coisa e possuem prazo determinado.

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• conhecer e entender o conceito de contrato, bem como seus requisitos e os elementos


para validade;
•• conhecer algumas espécies de contratos, como o contrato de compra e venda de imó-
vel, contrato de locação de imóveis, contrato de doação e dação em pagamento e con-
trato de empréstimos, todos com as suas devidas peculiaridades.

– 80 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Referências
BRASIL. Lei 10.406 de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Diário Oficial da União. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 14 ago. 2017.

______. Lei 8.245 de 18 de outubro de 1991. Lei de Locação. Diário Oficial da União. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8245.htm>. Acesso em: 1 set. 2017.

GONÇALVES, Carlos Roberto. Direito civil brasileiro: contratos e atos unilaterais. v.3, 13. ed. São
Paulo: Saraiva, 2016.

TARTUCE, Flávio. Direito civil: teoria geral dos contratos e contratos em espécie. v.3, 12. ed. Rio de
Janeiro: Forense, 2017.

VENOSA, Sílvio de Salvo. Direito civil: Obrigações e Responsabilidade Civil. v.2, 17. ed. São Paulo:
Atlas, 2016.

– 81 –
TEMA 11
Empresário. Regime de bens e abertura
de empresa pelo casal. Empresa Individual
e Empresa Individual de Responsabilidade
Limitada – EIRELI. Sociedade Limitada
e Sociedade Anônima
Maria Tereza Ferrabule Ribeiro

Introdução
Nesta aula, estudaremos sobre empresas, seus representantes legais e a constituição dos
diversos tipos de sociedade individual e empresarial.

Objetivos de aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:
•• definir e estabelecer a distinção entre as diferentes relações empresariais;
•• conhecer os regimes de bens e as suas consequências na abertura de empresa;

1 O empresário e a sociedade empresarial


Ao iniciarmos nosso estudo, é importante conhecermos o conceito de empresário. De acordo
com o artigo 966 do Código Civil (BRASIL, 2002), no Livro II (“Do Direito da Empresa”) e no Título I
(“Do Empresário”), é empresário aquele que exerce uma atividade econômica de forma profissional
e organizada, voltada à produção ou à circulação de bens e serviços.

Figura 1 – Empresária

Fonte: Shestakoff/Shutterstock.com

– 82 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Precisamos ressalvar que estão fora da condição de empresários, conforme o parágrafo


único do artigo 966, todos aqueles que desenvolvem atividades de profissão intelectual, de natu-
reza científica, artística, literária, bem como os auxiliares, colaboradores e produtores rurais, con-
forme expresso no artigo 971 do Código Civil, a menos que o exercício profissional constitua ele-
mento de empresa (BRASIL, 2002).
Já o conceito de empresa não está presente no Código Civil. Porém, perceba que existe uma
relação com o conceito de empresário. Para ficar mais claro, observe o quadro a seguir,

Quadro 1 – Exercício profissional X Exercício empresarial

EXERCICIO PROFISSONAL EXERCICIO EMPRESARIAL

Habitual e Pessoal. Atividade Econômica Organizada


Exemplo: o artigo 2° da Consolidação das Leis do Trabalho (Atividade Econômica = Lucro)
conceitua empregador como: “Considera-se empregador a
Produção
empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da
atividade econômica, admite, assalaria e dirige a prestação
pessoal de serviço”. Circulação de bens ou de serviços

Fonte: adaptado de COELHO, 2011.

Podemos dizer que as empresas ou organizações econômicas são formadas com o objetivo
de satisfazer as necessidades mais básicas da sociedade (alimentação, saúde, educação e segu-
rança), além daquelas relacionadas a conforto e lazer. Para isso, mantêm a produção e a circulação
desses bens e serviços produzidos de forma estruturada. Essa circulação significa reunir recursos
financeiros (capital), humano (mão de obra), materiais (insumo) e tecnológicos, que viabilizem
oferecê-los ao mercado consumidor a preços e “qualidade competitivos”. (COELHO, 2011, p. 22)
E qualquer pessoa pode exercer a atividade empresarial? Sim, pode ser exercida por qualquer
pessoa em pleno gozo da capacidade civil e que não seja legalmente impedida, conforme o artigo
972 do Código Civil (BRASIL, 2002). Mas, atenção: para que possam adquirir personalidade jurídica,
as empresas individuais e as sociedades empresariais deverão estar inscritas na Junta Comercial.
Já as Sociedades Simples terão que arquivar seus atos e constituição no Cartório de Registro Civil
de Pessoas, pois não são consideradas atividades econômicas organizadas. As Sociedades Coo-
perativistas, por sua vez, são classificadas como sociedades simples, e, por serem regidas por lei
especial, deverão ser inscritas na Junta Comercial (BRASIL, 2002).

FIQUE ATENTO!

A Junta Comercial é o órgão responsável pela formalização, registro e regularização


das empresas, sendo que existe uma Junta Comercial em cada estado do Brasil.

Até aqui, conhecemos conceitos iniciais de empresário e de empresas. E quando a sociedade


é estabelecida por um casal? É isso que vamos estudar a seguir.

– 83 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

2 Regime de bens e abertura de empresa pelo casal


É possível a um casal estabelecer uma sociedade, como prevê o artigo 977 do Código Civil.
Porém, essa possibilidade deixa de existir se houver comunhão universal de bens ou regime de
separação obrigatória (BRASIL, 2002). A comunhão universal de bens é um regime no qual todos
os bens adquiridos, antes ou depois do casamento, serão comuns ao casal, conforme dispõe o
artigo 1.667 do Código Civil (BRASIL, 2002).

Figura 2 – Casamento

Fonte: paultarasenko/Shutterstock.com

EXEMPLO
Em sociedades estabelecidas por casais, se um dos cônjuges possui uma empresa
antes de casar, no caso de uma separação, no futuro, o que não tinha parte nessa
empresa terá direito na partilha.

O regime de separação obrigatória de bens vem disciplinado no artigo 1.641 do Código Civil, e
tem como objetivo proteger aqueles com mais de 70 anos, e os que querem casar, mas dependem
de suprimento judicial, ou seja, dependem de outros para sobreviverem (BRASIL, 2002).

EXEMPLO
O suprimento judicial ocorre em caso dos relativamente incapazes, como aqueles
que têm entre 16 a 18 anos de idade. Caso os pais não autorizem o casamento, eles
terão a obrigatoriedade de sustentar os filhos até alcançarem a maioridade legal.

Outro tipo de regime de casamento é o de participação final nos aquestos, composto tanto
pela separação total, como parcial dos bens, sendo que os bens somente vão se comunicar ao
final do casamento.
Vamos conhecer, agora, as características da empresa individual.

– 84 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

3 Empresário Individual
Uma empresa individual pode ser de quatro tipos diferentes. Vamos conhecê-los.

•• Empresário Individual (EI): pessoa física, sem personalidade jurídica e que objetiva a
exploração econômica, não sendo necessário capital social. A Lei Complementar n° 123,
de 14 de dezembro de 2006, estabelece as empresas individuais ou sociedades empre-
sariais, orientando que as abreviaturas ME ou EPP devem ser acrescentadas ao nome da
respectiva empresa, para que possam se enquadrar no Simples Nacional (BRASIL, 2006).

SAIBA MAIS!

Para conhecer mais a respeito do Simples Nacional, um regime tributário diferenciado,


acesse o link: <http://www8.receita.fazenda.gov.br/SimplesNacional/>.

•• Microempresa (ME): a receita bruta deve ser igual ou inferior a R$ 360 mil em cada
ano-calendário. (BRASIL, 2006).
•• Empresa de Pequeno Porte (EPP): no caso da empresa de pequeno porte, aufira, em cada
ano-calendário, receita bruta superior a R$ 360.000,00 (trezentos e sessenta mil reais) e
igual ou inferior a R$ 3.600.000,00 (três milhões e seiscentos mil reais) (BRASIL, 2006).

Figura 3 – Microempresário

Fonte: sheff/Shutterstock.com

•• Microempreendedor Individual (MEI): são unidades produtivas autônomas, trabalhando


individualmente, ou com auxílio de até um funcionário ganhando um salário mínimo, ou
um salário piso de categoria, e atuando economicamente, geralmente de forma virtual.

– 85 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!
A Lei Complementar 123/2006, no parágrafo 4° do artigo 3°, relaciona os casos
em que o empresário não poderá se beneficiar de tratamento jurídico diferenciado
(BRASIL, 2006).

Vamos continuar conhecendo os tipos de empresas. Acompanhe!

4 Eireli – Empresa individual de responsabilidade Ltda.


Há, ainda, mais um tipo de empresa, a Eireli ou Empresa Individual de Responsabilidade Ltda.
Ela foi incorporada ao ordenamento jurídico pela Lei n° 12.441, de 11 de julho de 2011, acrescen-
tando ao Código Civil o inciso VI do artigo 44 e o artigo 980 ao Livro II da Parte Especial, e alterando
o parágrafo único do artigo 1.033 (BRASIL, 2011).
Este tipo de empresa é constituído por um único titular que terá a totalidade do capital social
devidamente integralizado, ou seja, o dinheiro que deve ser destinado para a empresa. Este capital
não poderá ser inferior a cem vezes o maior salário mínimo em vigor no País, no ato da abertura
da empresa.

FIQUE ATENTO!
Tenha em mente que a Empresa Individual de Responsabilidade Ltda (Eireli) tam-
bém é uma empresa individual, porém de responsabilidade limitada (exigindo capi-
tal social).

Agora vamos conhecer as empresas de sociedade limitada e anônima.

5 Sociedade Limitada e Sociedade Anônima


Em relação às sociedades, o Código Civil (BRASIL, 2002) afirma que podem ser Limitadas
(capítulo IV), Anônimas (capítulo V), Sociedade em Nome Coletivo (artigos 1.039 ao 1.044) e Socie-
dade em Comandita por Ações (artigos 1.045 ao 1.051).
Uma das diferenças entre as Sociedades Limitadas e de Ações é que na primeira ocorrerá a
limitação na responsabilidade dos sócios, regulada de acordo com a quota de participação que
possuem. Já nas sociedades por Ações a responsabilidade dos sócios é restrita ao valor da ação
que detêm. O Código Civil e a Constituição Federal estabelecem diversos impedimentos para
aqueles que não poderão ser sócios ou terão impedimentos parciais.

– 86 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

SAIBA MAIS!
O Manual de Registro Sociedade Limitada oferece mais informações sobre as
sociedades do tipo Limitadas e Anônimas. Você pode acessá-lo em: <http://www.
institucional.jucesp.sp.gov.br/downloads/anexo2_ltda.pdf>.

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• compreender as diferentes formas de constituição de empresas, sejam individuais ou


coletivas;
•• identificar as consequências oriundas do tipo de regime de casamento, que podem
impedir os cônjuges de serem sócios.

Referências
BRASIL. Decreto n. 8.538, de 06 de outubro de 2015. Decreto N° 8.538 de 06 de outubro de 2015:
Regulamenta o tratamento favorecido, diferenciado e simplificado para as microempresas, empre-
sas de pequeno porte, agricultores familiares, produtores rurais, pessoa física, microempreende-
dores individuais e sociedades cooperativas de consumo nas contratações públicas de bens, ser-
viços e obras no âmbito da administração pública federal. Brasília, DF, 06 out. 2015. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2015/Decreto/D8538.htm>. Acesso em: 15
ago. 2017.

______. Lei n. 10406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil: Lei de Introdução às normas do Direito
Brasileiro. Brasília, DF, 10 jan. 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/
L10406compilada.htm>. Acesso em: 15 ago. 2017.

______. Lei n. 12.441 de 11 de julho de 2011. Lei Nº 12.441 de 11 de julho de 2011: Altera a Lei nº
10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), para permitir a constituição de empresa individual
de responsabilidade limitada. Brasília, DF, 10 jan. 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12441.htm>. Acesso em: 15 ago. 2017.

______. Lei Complementar n. 123 de 14 de dezembro de 2006. Lei Complementar Nº123 de 14


de dezembro de 2006: Institui o Estatuto Nacional da Microempresa e da Empresa de Pequeno
Porte; altera dispositivos das Leis n. 8.212 e 8.213, ambas de 24 de julho de 1991, da Consolidação
das Leis do Trabalho - CLT, aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943, da Lei no
10.189, de 14 de fevereiro de 2001, da Lei Complementar no 63, de 11 de janeiro de 1990; e revoga
as Leis no 9.317, de 5 de dezembro de 1996, e 9.841, de 5 de outubro de 1999.. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LCP/Lcp123.htm>. Acesso em: 15 ago. 2017.

– 87 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

_______. RECEITA FEDERAL. Simples Nacional. 2006. Disponível em: <http://www8.receita.fazenda.


gov.br/SimplesNacional/>. Acesso em: 15 ago. 2017.

______. Secretaria Especial de Micro e Pequena Empresa da Presidência da República. Departa-


mento de Registro Empresarial e Integração. Manual de Registro: Sociedade Limitada. 2017. Dis-
ponível em: < http://www.institucional.jucesp.sp.gov.br/downloads/anexo2_ltda.pdf >. Acesso em:
15 ago. 2017.

COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de Direito Comercial. Direito de Empresa. 23. ed. São Paulo: Saraiva,
2011.

– 88 –
TEMA 12
Responsabilidade dos sócios
Maria Tereza Ferrabule Ribeiro

Introdução
Nesta aula, estudaremos os direitos, deveres e a responsabilidade dos sócios nas sociedades
empresariais.

Objetivos de Aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• definir os deveres e as responsabilidades dos sócios;


•• conceituar e estabelecer a responsabilidade dos empresários na Eireli.

1 Deveres e responsabilidade dos Sócios


Ao começarmos, é importante definir que as sociedades e empresas trata-se de reunião de
pessoas que tem como objetivo exercer profissionalmente atividade econômica organizada para
a produção ou circulação de bens ou serviços, visando o lucro, que deve ser compartilhado, sendo
que esse vínculo irá resultar em direitos, deveres e responsabilidades entre as partes interessadas.
(ALMEIDA, 2012).

Figura 1 – Sócios

Fonte: Michael D Brown/Shutterstock.com.

– 89 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Para entender melhor, observe no quadro a seguir quais são os direitos e os deveres que os
sócios irão contrair, a partir da assinatura do contrato social e até o seu término, caso não seja
fixada outra data. Haverá, então, a extinção da sociedade, cessando as responsabilidades sociais
adquiridas durante o período do contrato (BRASIL, 2002).

Quadro 1 – Direitos e deveres dos sócios

DEVERES DIREITOS

Cooperação recíproca entre os sócios. Receber os lucros a que tiver direito durante a vigência
da relação contratual.

A formação e administração do capital social. Participar da partilha da “massa residual”, após o


encerramento do contrato social.
Responsabilidade para com terceiros.

Fonte: adaptado de ALMEIDA, 2012.

Existem, ainda, obrigações inerentes a todos os empresários, como o dever de registrar a


empresa antes de iniciar o empreendimento; a escrituração dos livros obrigatórios por lei (exceto
os microempresários e empresários de pequeno porte, desde que tenham optado pelo Simples
Nacional), o levantamento do balanço patrimonial e o resultado econômico auferido anualmente
(COELHO, 2011).

FIQUE ATENTO!

O Código Civil passou a tratar a respeito das empresas no Livro II, “Direito das em-
presas”, que antes de 2002 estava previsto no Código Comercial.

Vamos compreender de forma mais detalhada os deveres e as responsabilidades nos princi-


pais tipos de sociedades e empresa? Então, acompanhe!

2 Responsabilidade dos sócios na sociedade limitada


A sociedade empresária limitada está descrita dos artigos 1052 a 1087 do Código Civil. As
matérias que não são tratadas neste capítulo são regidas pelas regras da Sociedade Simples
(tópico anterior). Sua constituição se dá por meio de contrato - o Contrato Social - que pode ser
público ou privado, observando-se as regras do art. 997 do mesmo diploma, em que consta os inte-
resses recíprocos dos sócios, e, assim como as outras, deverá ser registrado na Junta Comercial.

– 90 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!

Saiba que mesmo após a saída de um sócio da empresa, ele ainda responderá pe-
las obrigações que tinha frente à sociedade e a terceiros pelo período de dois anos.

•• Os sócios são obrigados a cumprir com as contribuições estabelecidas no contrato


social, sob pena de responderem pelo dano emergente de mora, se não o fizerem no
prazo de 30 dias da notificação realizada pela sociedade, ou seja, aquele dano pecuniá-
rio que pode causar prejuízo imediato à empresa que está sendo constituída.

•• O sócio que, a título de quota social, transmitir domínio, posse ou uso, responde pela
evicção (direito de outrem pedir indenização) e pela solvência do devedor, aquele que
transferir o crédito.

•• O capital social representa o “montante de recursos que os sócios disponibilizam para


a constituição da sociedade”, isto é, dinheiro e bens necessários para que a pessoa
jurídica possa dar início as suas atividades.

•• Participação nos lucros e perdas, conforme o percentual de suas quotas, e o que con-
tribui com serviços participará dos lucros, de acordo com a proporção média no valor
das quotas. Em consenso, situações diferenciadas podem constar no contrato social.

Figura 2 – Contrato social

Fonte: Sttokete/Shutterstock.com.

•• Não terá validade, mesmo que esteja estipulada no contrato social, a exclusão da parti-
cipação do sócio nos lucros e nas perdas.

– 91 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

•• Se for verificado que houve distribuição de lucros por ações ilegais ou falsas, os admi-
nistradores responderão de forma solidária, e também os sócios que vierem a receber
benefícios decorrentes destes atos.

EXEMPLO

A empresa de Águas Ouro Fino Ltda. é um exemplo de empresa de sociedade limi-


tada e se trata de uma empresa familiar.

Agora vamos saber quais são as obrigações dos sócios na sociedade anônima.

3 Responsabilidade dos sócios na sociedade anônima


O funcionamento das sociedades anônimas está disciplinado no Código Civil, no capítulo V,
e na Lei n° 6.404, de 15 de dezembro de 1976 (BRASIL, 1976), que “Dispõe sobre as Sociedades
por Ações”. Este tipo de sociedade caracteriza-se pelo capital dividido em ações, e os acionistas
responderão no limite do preço de emissão das ações subscritas ou adquiridas. Essas ações
somente poderão ser emitidas pela empresa com a devida autorização da Comissão de Valores
Imobiliários (BRASIL, 1997).
O artigo primeiro da Lei das Sociedades Anônimas (Lei 6404/76) preceitua que esta terá o
seu capital dividido em ações, e que a responsabilidade dos sócios bem como dos acionistas
ficará limitada ao preço das emissões das ações subscritas que vierem a ser adquiridas.

FIQUE ATENTO!

A Lei 6.404/1976 recebeu alterações a partir da Lei 9.457/1997, no que se refere


ao mercado imobiliário, criando a Comissão de Valores Mobiliários (BRASIL, 1997).

É importante destacar que as sociedades anônimas serão regidas pelo estatuto social e
pelas respectivas leis que definirão o objeto e irão regular as obrigações entre os acionistas. Essas
empresas podem ser de capital aberto ou de capital fechado.

SAIBA MAIS!
Não deixe de ler a pesquisa realizada por Patricia Maria Bortolon e Annor da Silva
Junior sobre governança corporativa e o fechamento do capital de companhias
abertas. O trabalho está disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rcf/2015nahead/
pt_1519-7077-rcf-201500910.pdf>.

– 92 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Nesse tipo de sociedade o capital social poderá ser modificado, observando-se a Lei
n° 6.404/1976 (BRASIL, 1976) e o estatuto social, que poderá ser alterado em assembleia devi-
damente convocada e com a presença mínima dos titulares.

EXEMPLO

A rede de lojas Magazine Luiza S.A. é uma sociedade anônima, pois trata-se de uma
Companhia Aberta de Capital Autorizado.

A Lei 6.404/76 (BRASIL, 1976) estabelece os deveres do acionista controlador, bem como
dos demais administradores e acionistas.
Saiba que o acionista controlador pode ser uma única pessoa ou um grupo de pessoas, vin-
culadas por acordo de voto ou sob controle comum. Este sócio controlador será titular de direitos
assegurando, de forma permanente, a maioria dos votos nas deliberações da assembleia-geral,
bem como terá o poder de escolher a maioria dos administradores da companhia, e ainda usar
este poder para dirigir as atividades sociais e orientar o funcionamento dos órgãos da companhia.
O acionista controlador responde pelos danos causados por atos praticados com abuso de
poder e que venham a prejudicar os acionistas, sendo eles (BRASIL, 1976):
•• orientação que não seja objeto do estatuto social;
•• ato lesivo ao interesse nacional;
•• favorecimento indevido de outras sociedades, seja brasileira ou estrangeira;
•• liquidação de companhia próspera ou transformá-la com incorporação, fusão ou cisão
de companhia com interesses próprios, a fim de obter vantagens;
•• promover alterações no estatuto social sem que haja interesse da companhia;
•• eleger administrador ou fiscal que sabe que não tem condições morais e técnicas para
o cargo.
•• induzir ou tentar induzir o administrador ou fiscal na prática de ato ilegal.
•• contratações para fins particulares.
•• aprovação ou fazer aprovar contas irregulares.

A lei 6.404/1976 (BRASIL, 1976), em seu artigo 109, § 3o, concede a essas sociedades de
ações o uso da arbitragem em caso de divergências entre os acionistas e a companhia ou entre os
acionistas controladores e os minoritários.

4 Responsabilidade do empresário na Eireli


Agora, vamos saber quais são as obrigações do titular de Empresa Individual de Responsa-
bilidade Limitada ou Eireli.
Este tipo de empresa será constituída por uma única pessoa titular da totalidade do capital
social, devidamente integralizado, que não será inferior a 100 (cem) vezes o maior salário-mínimo
vigente no País.

– 93 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Figura 3 – Empresa

Fonte: Rawpixel.com/Shutterstock.com.

Esse tipo de empresa terá as mesmas regras previstas para as sociedades limitadas, con-
forme estabelece o parágrafo 6° da Lei 12.441/2011 (BRASIL, 2011). E o empresário da Eireli res-
ponderá por deveres e responsabilidades conforme a lei das sociedades limitadas.

SAIBA MAIS!
Leia o artigo “Os direitos e as Obrigações do Titular do Capital Social da Empresa
Individual de Responsabilidade Limitada (EIRELI)” para saber mais sobre esse tipo
de sociedade. Acesse em: <http://www.scielo.br/pdf/seq/n66/13.pdf>.

Estudamos, portanto, direitos e responsabilidades daqueles que pretendem abrir uma


empresa ou formar uma sociedade. E, apesar das diferenças que as regulam de acordo com a
complexidade do empreendimento, a ética e a moral devem reger a prática dessas atividades.

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• verificar os direitos e as responsabilidades dos empresários.


•• diferenciar os tipos de sociedade de acordo com seus direitos e deveres.

– 94 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Referências
ALMEIDA, Amador Paes de. Manual das Sociedades Comerciais. Direito de Empresa. 20. ed. São
Paulo: Saraiva, 2012.

BRASIL. Lei n° 6.404 de 15 de dezembro de 1976. Dispões sobre as Sociedades por Ações. Pre-
sidência da República, Casa Civil, Brasília-DF, 1976 Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/cci-
vil_03/leis/L6404consol.htm>. Acesso em: 11 ago. 2017.

_________. Lei n° 9.457 de 05 de maio de 1997. Altera dispositivos da Lei nº 6.404, de 15 de dezem-
bro de 1976, que dispõe sobre as sociedades por ações e da Lei nº 6.385, de 7 de dezembro de
1976, que dispõe sobre o mercado de valores mobiliários e cria a Comissão de Valores Mobiliários.
Presidência da República, Casa Civil, Brasília-DF, 1997. Disponível em: <https://www.planalto.gov.
br/ccivil_03/Leis/L9457.htm>. Acesso em: 12 ago. 2017.

_________. Lei nº 10406, de 10 de janeiro de 2002. Código Civil: Institui o Código Civil. Presidência
da República, Casa Civil, Brasília- DF, 10 jan. 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/cci-
vil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 17 ago. 2017.

___________. Lei n° 12.441 de 11 de julho de 2011. Altera a Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002
(Código Civil), para permitir a constituição de empresa individual de responsabilidade limitada.
Presidência da República, Casa Civil, Brasília-DF, 2011. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12441.htm>. Acesso em 17 ago. 2017.

COELHO, Fábio Ulhoa. Manual de Direito Comercial. Direito de Empresa. 23. ed. São Paulo: Saraiva,
2011.

BORTOLON, Patrícia; SILVA, Anoor Junior. Fatores Determinantes para o Fechamento do Capi-
tal de Companhias Listadas na BM&FBOVESPA. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rcf/
2015nahead/pt_1519-7077-rcf-201500910.pdf>. Acesso em: 25 set. 2017.

PUGLIESI, Fábio; MAYERLE, Daniel; MACHADO, Andrey Ricardo. Os direitos e as Obrigações do


Titular do Capital Social da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada (EIRELI). Sequência
(Florianópolis), n. 66, p. 305-326, jul. 2013. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/seq/n66/13.
pdf>. Acesso em: 12 ago. 2017.

– 95 –
TEMA 13
A lei de falência e recuperação
Maria Tereza Ferrabule Ribeiro

Introdução
Nesta aula, vamos estudar os princípios e fundamentos da Lei de Falência, bem como a alter-
nativa de recuperação judicial, a fim de preservar a empresa, impedindo a falência.

Objetivos de Aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• conhecer os princípios e os fundamentos da Lei de Falência;


•• interpretar a recuperação judicial em falência.

1 Princípios e fundamentos da Lei de Falências


(Lei n° 11.101/2005)
Inicialmente, vamos lembrar que empresários contraem direitos, deveres e responsabilidades
legais e sociais a partir do momento em que as organizações ganham personalidade jurídica, por
meio dos órgãos responsáveis, como, por exemplo, a Junta Comercial, no caso das sociedades
limitadas. Porém, instabilidades econômicas, que muitas vezes assolam o País, podem levar esses
empresários à falência.

Figura 1 – Falência

Fonte: Mmaxer/Shutterstock.com.

– 96 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

A falência gera várias consequências negativas à sociedade e àqueles que trabalham para a
empresa. Assim, a Lei 11.101/2005 (BRASIL, 2005), além de tratar sobre a falência, traz como um
dos princípios fundamentais a possibilidade da preservação da empresa por meio de sua recu-
peração por meios judiciais. O artigo 47 da referida lei dispõe que a recuperação judicial tem por
objetivo superar situações de crise econômica do devedor com a intenção de preservar a função
social da empresa, o emprego e os interesses dos credores, e dar estímulo à atividade econômica.
Assim, evita-se a falência.

FIQUE ATENTO!

A palavra falência deriva-se do latim fallere, que tem como significado “falha, defei-
to, carência, engano ou omissão”. (DE PLACIDO, 1989, p. 264).

A Constituição Federal (1988), no artigo 5°, inciso XXIII, estabelece como garantia fundamen-
tal que “a propriedade atenderá a sua função social”, entendendo que a propriedade se encontra
consubstanciada também na propriedade empresarial (BRASIL, 1988).
Saiba que há outras leis específicas que tratam a respeito das empresas. Elas também regu-
lam questões relacionadas dos que se tornam credores, e a forma de recuperação dos respectivos
créditos no âmbito judicial ou extrajudicial.

SAIBA MAIS!
Para compreender melhor, leia “Lei de Falências e de Recuperação de Empresas”,
publicado pelo Centro de Documentação e Informação, Edições Câmara, de Brasília.
O texto pode ser acessado em: http://bd.camara.gov.br/bd/handle/bdcamara/2443.

É necessário salientar que a Lei 11.101/2005 (BRASIL, 2005) exclui as empresas públicas
e as sociedades de economia mista e instituições com atuação no segmento financeiro, sejam
públicas ou privadas. Para essas há uma lei específica.

EXEMPLO
É importante destacar, conforme o artigo 2° incisos I e II, a relação das empresas
que estão excluídas da aplicação da referida Lei: nas empresas públicas e nas so-
ciedades de economia mista, bem como em instituição financeiras, sendo elas pú-
blicas ou privas, consórcios, entidade de previdência complementar, sociedade de
plano de assistência à saúde, sociedade seguradora, de capitalização e outras que
estejam legalmente equiparadas a estas relacionadas.

A seguir, trataremos a respeito da possibilidade da recuperação da empresa por meio judicial.

– 97 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

2 Da recuperação judicial
Como vimos, a recuperação judicial é uma ação que tem como objetivo reorganizar a empresa
para superar os momentos de crises, podendo, assim, cumprir com a sua função social, estimu-
lando à atividade econômica.
Desta forma o bom devedor que preencher as exigências requeridas pela Lei, poderá propor e
negociar com os credores um plano de recuperação extrajudicial e requerer a homologação judicial.

Figura 2 – Recuperação Judicial

Fonte: Andrey Burmakin/Shutterstock.com.

SAIBA MAIS!
Leia o “Guia Prático Recuperação Judicial de Empresas”, publicado pelo Ministério
da Justiça, Brasília, em 2011. Está disponível em: <http://www.cfa.org.br/servicos/
publicacoes/cartilha/arte_final_cartilha_16_WEB.pdf>. Acesso em 26 set. 2017.

Antes do advento da recuperação judicial, utilizava-se a chamada concordata, que poderia


ser solicitada de formas preventiva e suspensiva. Ambas foram substituídas, pois a concordata
exigia do empresário a solvência de suas dívidas mediante critérios rigorosos e prazos exíguos,
que acabavam culminando em falência (BRANCHIER; TESOLIN, 2006).

– 98 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!

A recuperação judicial tem por objetivo dar publicidade a quem tem interesse de
contratar o devedor.

Agora, saiba que a recuperação judicial poderá ser transformada em falência, conforme vere-
mos a seguir.

3 Da convolação da recuperação judicial em falência


Ao falarmos em convolação, ou seja, na mudança da situação de recuperação judicial para o
estado de falência, que é feita por um juiz, tenha em mente que há algumas condições. Elas estão
previstas no artigo 73 da Lei 11.101/05. Vamos identificar os casos em que a convolação é possí-
vel: por decisão dos credores em assembleia geral;

•• quando o devedor não apresentar plano de recuperação no prazo de 60 dias;


•• quando o plano de recuperação tiver sido rejeitado;
•• quando houver descumprimento de qualquer obrigação consignada no plano de
recuperação.

Figura 3 – Mudança

Fonte: Andrey Burmakin/Shutterstock.com.

O artigo 74 desta mesma lei informa que na mudança do estado de recuperação judicial para
o de falência, os atos de administração, endividamento, oneração ou alienação, praticados na recu-
peração judicial, são considerados válidos desde que realizados na forma da lei (BRASIL, 2005).

– 99 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Agora, vamos entender o significado de falência e outras situações que podem ocorrer para
a extinção de uma empresa.

4 Da falência
A intenção com a falência é afastar o devedor das atividades, preservar a otimização dos
bens ativos e os recursos produtivos, inclusive os intangíveis (que não podem ser trocados), como
a marca da empresa, por exemplo. A situação de falência está prevista na seção I das disposições
gerais da Lei 11.105/2005 (BRASIL, 2005), do artigo 75 ao 82.

FIQUE ATENTO!
Em sentido amplo, falência é sinônimo de insolvência comercial, também conheci-
da como “quebra” ou “bancarrota”, no qual o Ministério Público possui amplo poder
de atuação, devido ao relevante interesse social.

Figura 4 – Declínio

Fonte: alphaspirit/Shutterstock.com.

E uma empresa pode deixar de existir? O Código Civil prevê, no capítulo X, de que forma isso
pode ocorrer. Uma empresa pode ser extinta por transformação, incorporação, fusão, cisão, dis-
solução ou liquidação, segundo o capítulo X do Código Civil (BRASIL, 2002). Vamos conhecer em
mais detalhes.

•• A transformação não impõe que a empresa seja dissolvida ou liquidada, porém neces-
sita do consenso dos sócios, seguindo atos regulatórios (contrato social ou estatuto
social) e os objetivos pelos quais foi criada.

– 100 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

EXEMPLO

Quando uma empresa que é sociedade limitada se torna sociedade anônima, te-
mos um exemplo de transformação (ALMEIDA, 2012).

O parágrafo único do artigo 1.115 do Código Civil destaca que, em caso de falência de
empresa transformada, os efeitos somente alcançarão os sócios que estavam sujeitos
a esta condição na empresa original se os credores anteriores à transformação assim
o pedirem, conforme (BRASIL, 2002).

•• A incorporação ocorrerá quando uma ou várias sociedades são absorvidas por outra.
Assim, a incorporadora se tornará a titular dos direitos e obrigações das empresas
incorporadas.
•• A fusão tem como característica extinguir as sociedades que serão unidas, e formando
uma nova, sendo que esta nova sociedade será a responsável por todos os direitos e
obrigações das que foram extintas.

•• A cisão encontra-se amparada na Lei das Sociedades Anônimas, a Lei 6.404/76 (BRA-
SIL, 1976), artigo 229. “A cisão ocorre quando uma companhia transfere parcelas do
seu patrimônio para uma ou mais sociedades, que foram criadas para esse fim ou
já existentes. E, assim como ocorre na fusão, a companhia cindida será extinta, caso
ocorra a transferência de todo o patrimônio, ou haverá ainda a possibilidade de ser par-
cial na divisão do patrimônio” (ALMEIDA, 2012, p. 47).
O artigo 1.122 do Código Civil (BRASIL, 2002), no parágrafo 3°, estabelece que se ocor-
rer a falência da incorporadora no prazo de 90 dias após a publicação dos atos que tor-
nou possível a incorporação, fusão ou cisão, qualquer credor anterior a esta alteração
pode requerer a separação dos patrimônios, para possibilitar que os créditos sejam
pagos pelos bens das respectivas massas.

•• A dissolução ocorre de acordo com as causas contidas no artigo 1.033 do Código Civil
e no caso da declaração da falência. Assim, a sociedade poderá ser dissolvida nas
seguintes ocorrências (BRASIL, 2002): vencimento do prazo de duração; por consenso
unânime dos sócios; deliberação dos sócios, neste caso por maioria absoluta, cuja
sociedade não tinha prazo de duração; falta de pluralidade dos sócios e extinção de
acordo com a lei.
A sociedade também poderá ser dissolvida por ato judicial, a pedido de qualquer sócio,
nas seguintes ocorrências: por anulação da sua constituição; e quando extingue-se o
fim social que a objetivou, e quando verificada a sua “impossibilidade material ou legal”,
que venha a impedir a sua execução processual ou a prática de ato jurídico, por exem-
plo, bens que não poderão ser penhorados (DE PLACIDO, p. 464).

– 101 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

•• A liquidação da empresa, conforme o artigo 1.102 do Código Civil, poderá ser de forma
“amigável ou judicial”. Liquidar significa “transformar o ativo em dinheiro”, os devidos
pagamentos de passivos e a partilha do saldo remanescente. Após a conclusão dos
pagamentos, serão realizados a dissolução da empresa, a averbação e o arquivamento
na respectiva Junta Comercial, conforme os artigos 1.108 e 1.109 do Código Civil
(ALMEIDA, 2012) (BRASIL, 2002).

Assim, você pôde entender as outras formas possíveis de extinção de uma empresa.

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• conhecer o princípio fundamental, que rege a Lei 11.101/2005, que é o da preservação


das empresas;
•• identificar as outras formas por meio das quais uma empresa deixa de existir.

Referências
ALMEIDA, Amador Paes de. Manual das Sociedades Comerciais. Direito de Empresa. 20. ed. São
Paulo: Saraiva, 2012.

BRANCHIER, Alex Sander; TESOLIN, Juliana Daher Delfino. Direito e Legislação Aplicada. 3. ed.
Curitiba: Ibpex, 2006.

BRASIL. Lei n° 6.404 de 15 de dezembro de 1976. Dispões sobre as Sociedades por Ações. Presi-
dência da República, Casa Civil, Subchefia de Assuntos Jurídicos. Brasília-DF, 1976. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L6404consol.htm>. Acesso em: 22 ago. 2017.

_______. Lei n° 10.406 de 10 de janeiro de 2002. Código Civil. Institui o Código Civil. Presidência da
República. Casa Civil. Subchefia de Assuntos Jurídicos. Brasília-DF. 2002. Disponível em: <http://
www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 22 ago. 2017.

_______. Lei n° 11.101 de 09 de fevereiro de 2005. Regula a recuperação judicial, a extrajudicial e a


falência do empresário e da sociedade empresária. Presidência da República, Casa Civil, Subchefia
de Assuntos Jurídicos, Brasília-DF, 2005. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_
ato2004-2006/2005/lei/l11101.htm>. Acesso em: 22 ago. 2017.

_______. Lei de falências e de recuperação de empresas. Brasília: Câmara dos Deputados, Edições
Câmara, 2009.

Comentários à Lei de recuperação de empresas e falências: Lei 11.101/2005. Coordenação Fran-


cisco Satiro de Satiro de Souza Junior, Antônio Sérgio A. de Moraes Pitombo. São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2007.

– 102 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

GARDINO, Adriana Valéria Pugliesi. A falência e a preservação da empresa: compatibilidade, tese


(doutorado em Direito Comercial). Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, 2002.

MARINHO, Sarah Morganna de Matos, A segurança jurídica nas relações de crédito e a recu-
peração judicial de empresas. Disponível em: http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=-
2201611d7a08ffda Acesso em: 22 ago. 2017.

SILVA, De Plácido. Vocabulário jurídico. v. II, 11. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1989.

– 103 –
TEMA 14
Noções Gerais da Recuperação
Judicial e Extrajudicial
Maria Tereza Ferrabule Ribeiro

Introdução
Nesta aula, iremos estudar a respeito da recuperação judicial, tanto no âmbito judicial quanto
no extrajudicial. Ela é um dispositivo legal importante para os empresários devedores que querem
evitar que seja de imediato decretada a falência da empresa.

Objetivos de aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:
•• entender a classificação dos créditos na falência.

1 Noções gerais da recuperação judicial


A recuperação judicial encontra-se no Capítulo III, da Lei 11.101/2005, Seção I, entre os arti-
gos 47 e 50. Quem pode se valer desse recurso? Esse instituto poderá ser utilizado pelo empresá-
rio individual e pelas sociedades empresariais, por meio de ação judicial específica. Mas existem
condições. Vamos conhecê-las?
Para que o devedor possa se socorrer dessa ação, deverá atender aos seguintes requisitos:
exercer atividade empresarial há mais de dois anos, não ser falido e, caso já tenha sido, essa ação
deve estar extinta, não cabendo mais recurso. Além disso, o empresário não poderá ter utilizado a
recuperação judicial no período de cinco anos nem ter sido condenado pelos crimes falimentares
relacionados na lei em questão (BRASIL, 2005).

Figura 1 – Recuperação judicial

Fonte: Valeri Potapova/Shutterstock.com.

– 104 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

E caso o empresário devedor venha a falecer, poderá ser requerida a recuperação judicial?
Sim, pelo cônjuge, herdeiros, inventariante ou sócio remanescente.
O art. 49 dessa lei orienta que todos os créditos existentes a partir do processo de recupera-
ção judicial e ainda não vencidos estarão sujeitos à recuperação judicial.
Os credores titulares terão direitos e privilégios contra os coobrigados, avalistas, fiadores e
obrigados de regresso.

EXEMPLO

O banco (credor) que executa um avalista em contrato de crédito bancário é um


exemplo de coobrigado.

SAIBA MAIS!

Leia mais sobre os credores titulares e seus direitos e privilégios no capítulo 6 da


obra “Direito de Empresa” (ROVAI, 2007).

De acordo com artigo 6°, §4°, da Lei 11.101/2005, da data que o juiz deferir o processo de
recuperação judicial, ficarão suspensas as execuções contra o devedor pelo prazo de 180 (cento
e oitenta dias), exceto as execuções fiscais. Após esse prazo, os credores poderão dar início ou
continuar com as ações de execução.
Agora, vamos conhecer recuperação extrajudicial.

2 Da recuperação extrajudicial
Neste tópico, você estudará sobre a recuperação extrajudicial, que tratará do acordo entre o
devedor e seus credores fora dos trâmites judiciais e seguirá os ditames dos arts. 161 ao 167 da
Lei 11.101/2005.
Assim como no âmbito judicial, o devedor deverá estar há dois anos no exercício empresarial para
que possa negociar diretamente com os credores e propor o plano de recuperação (BRASIL, 2011).
O devedor poderá homologar perante a Comarca competente o plano de recuperação – que,
nesse caso, será extrajudicial – com as assinaturas dos credores que aderirem ao plano, e será
necessário três quintos de todos os créditos de cada espécie para obrigar a todos os credores a
fazerem parte do plano de recuperação (BRASIL, 2011).

– 105 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

EXEMPLO
Imagine que um devedor de uma empresa procura espontaneamente os credores,
os quais concordam previamente com um acordo, assim, o devedor abre a ação
judicial no foro competente requerendo a homologação do acordo.

FIQUE ATENTO!
Para homologar o plano de recuperação extrajudicial, será declarado como com-
petente o juiz do local do principal estabelecimento empresarial do devedor e, até
mesmo, de filial que se encontre fora do Brasil (BRASIL, 2005).

Na categoria extrajudicial, ficarão excluídos do plano os créditos de natureza tributária cujas


origens sejam trabalhistas ou decorrentes de acidente do trabalho.
A Lei 11.101/2005 também prevê créditos que não serão exigidos, conforme veremos a
seguir.

3 Inexigibilidade de alguns créditos


Você sabia que alguns créditos não podem ser exigidos do devedor na recuperação judicial?
Segundo o art. 5º, da Lei 11.101/2005, obrigações que sejam a título gratuito, como doações de
bens, e as despesas dos credores para tomarem parte na recuperação judicial, como honorários
advocatícios, não podem ser reivindicados (BRASIL, 2005).

Figura 2 – Créditos

Fonte: ElenaR/Shutterstock.com.

– 106 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!

Saiba que, na doação, “o doador transfere do seu patrimônio bens ou vantagens para
o donatário, sem a presença de qualquer remuneração” (TARTUCE, 2014 p. 257).

Ressalta-se que, de acordo com o art. 7°, §1°, deverão os credores se habilitarem em seus
créditos no prazo de 15 dias da publicação do edital, não observado o prazo, esses serão recebi-
dos como retardatários, exceto os créditos trabalhistas, e tem-se como consequência a perda do
direito a voto nas deliberações da assembleia geral de credores (BRASIL, 2005).
No próximo item, vamos conhecer os créditos trabalhistas que são considerados preferenciais.

4 Dos créditos trabalhistas


Em relação aos créditos que o devedor terá como obrigação sanear, ocorrerá a classificação
dos créditos, conforme se observa no art. 83, da Lei 11.101/2005, sendo os primeiros da lista os
créditos trabalhistas, limitados a 150 (cento e cinquenta) salários mínimos por credor, e os decor-
rentes de acidente do trabalho (BRASIL, 2005).

SAIBA MAIS!
Sobre créditos trabalhistas, leia o artigo “Efeitos da recuperação judicial e da Falên-
cia sobre o processamento dos feitos na Justiça do Trabalho”, de Júlio Bernardo
do Carmo. Disponível em: <https://www.trt3.jus.br/download/artigos/pdf/255_efei-
tos_recuperacao_falencia.pdf>.

Figura 3 – Créditos Trabalhistas

Fonte: Shutterstock.com.

– 107 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

A Lei 11.101/2005 ainda determina que o empresário devedor deverá constar no plano de
recuperação judicial o pagamento dos créditos que sejam de natureza salarial e que estejam venci-
dos há três meses antes do pedido de recuperação judicial, estando limitados a até cinco salários
mínimos no prazo de 30 dias, e os demais créditos oriundos da legislação trabalhista deverão ser
quitados no prazo de 12 meses.
Agora, vamos entender como será o plano de recuperação desses créditos.

5 Plano de recuperação judicial


O plano de recuperação judicial é um documento que exigirá do devedor alguns requisitos
para que não seja convolada a falência da empresa, devendo seguir as orientações legais estabe-
lecidas no art. 47, da Lei 11.101/2005, que diz que o devedor deverá apresentar o referido plano no
prazo de 60 (sessenta) dias.

Figura 4 – Plano de recuperação

Fonte: Feng Yu /Shutterstock.com.

Assim, o plano de recuperação deverá conter, de forma discriminada, os meios de recupera-


ção, devendo ser observadas as seguintes situações relacionadas no art. 50 da mesma lei:
•• prazos e condições especiais para que seja honrado as obrigações que estiverem ven-
cidas e as que vierem a vencer;
•• as ocorrências de cisão, incorporação, fusão ou transformação da sociedade e demais
situações que estão estabelecidas no inciso II do referido artigo;
•• quando ocorrer modificações no que concerne o controle societário;
•• se houver alterações, seja total ou parcial, em relação aos administradores do devedor,
bem como dos respectivos órgãos administrativos;
•• no caso dos credores receberem concessões para o direito de eleições em separado
de administradores, e ainda recebendo o poder de não aprovar matérias que o plano de
recuperação venha a discriminar;
•• se ocorrer aumento no capital social;

– 108 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

•• na ocorrência de transferência de titularidade ou nos casos de arrendamento do esta-


belecimento, mesmo que tenha sido constituído pelos próprios empregados;
•• em situações de reduções salariais, por meio de acordos coletivos ou convenções sin-
dicais de compensações de horas e reduções da jornada de trabalho;
•• nos casos de substituições dos bens, ou novação de dividas do passivo, situação que
poderá ocorrer sem que haja garantia própria ou de terceiro;
•• quando houver constituição de sociedade de credores;
•• na ocorrência da venda parcial do bem;
•• se ocorrer o equilíbrio nos encargos financeiros referente aos débitos, seja ele de qual-
quer natureza;
•• quando houver usufruto da respectiva empresa;
•• se concordarem em administração compartilhada;
•• nos casos de emissão de valores mobiliários;
•• na formação de sociedade com o objetivo específico para se comporem judicialmente
referente aos pagamentos dos créditos, os ativos do devedor.

A lei 11.101/2005 (BRASIL, 2005) exige que o plano de recuperação contemple a sua viabi-
lidade econômica e a relação dos bens do devedor, sendo que estas informações terão que ser
produzidas por um profissional habilitado. Enquanto os credores, conforme estabelece o artigo 7°,
§ 2°, após a homologação do plano pelo respectivo juiz, deverão indicar um administrador judicial,
a partir de 15 (quinze) dias da data da publicação, que por sua vez terá o prazo de 30 dias para
manifestar-se ao juiz caso haja contradições no plano de recuperação apresentado pelo devedor
(SALOMÃO; SANTOS, 2012).
Evidenciado contradições o juiz notificará os credores para fins de assembleia, não podendo
esta reunião ultrapassar o prazo de 150 dias contados do deferimento do processamento da recu-
peração judicial, onde serão verificadas todas as contradições e créditos desde os mais simples
até os privilegiados, como os relacionados à parte trabalhista. (SALOMÃO; SANTOS, 2012).

FIQUE ATENTO!

O credor quirografário é aquele que não terá garantia para receber seus créditos, ou
seja, não tem preferência ou privilégios (PLÁCIDO, 1989, p. 15).

As microempresas e empresas de pequeno porte têm disciplinado o plano de recuperação


judicial da Lei 11.101/2005 entre os artigos 70 e 72, que seguem basicamente o roteiro de plano
estabelecido para as outras categorias de empresas, porém de forma mais simplificada devido ao
seu porte.
Assim, conforme analisamos, o plano exigirá uma série de requisitos a serem cumpridos pelo
devedor para que não ocorra a convolação da recuperação judicial em falência.

– 109 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• verificar a importância da recuperação judicial e extrajudicial;


•• compreender as obrigações dos devedores e dos credores;
•• observar os prazos estipulados pela Lei 11.101/2005.

Referências
BRASIL. Lei n° 10.406 de 10/01/2002. Aprova o Código Civil. Disponível em: <http://www.planalto.
gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 11 ago. 2017.

_____. Lei n° 11.101 de 09 de fevereiro de 2005. Regula a recuperação judicial, a extrajudicial e a


falência do empresário e da sociedade empresária. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11101.htm>. Acesso em: 14 ago. 2017.

______. Recuperação Judicial de Empresas: Guia Prático. Ministério da Justiça, Brasília: 2011. Dis-
ponível em: <http://www.cfa.org.br/servicos/< publicacoes/cartilha/arte_final_cartilha_16_WEB.
pdf>. Acesso em: 04 out. 2017.

CARMO, Júlio Bernardo do. Efeitos da recuperação judicial e da falência sobre o processamento
dos feitos na justiça do trabalho. Tribunal Regional do Trabalho. Disponível em: <https://www.trt3.
jus.br/download/artigos/pdf/255_efeitos_recuperacao_falencia.pdf>. Acesso em: 1 out. 2017.

ROVAI, Armando Luiz. Direito de Empresa. Rio de Janeiro: Elsevier, 2007.

SALOMÃO, Luis Felipe; SANTOS, Paulo Penalva. Recuperação judicial, extrajudicial e falência.
Teoria e prática. Rio de Janeiro: Forense, 2012.

SILVA, De Plácido. Vocabulário Jurídico. 4v. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1989.

SILVA, Renaldo Limiro da. A recuperação judicial comentada artigo por artigo (Lei 11.101/2005).
Belo Horizonte: Del Rey Editora, 2015.

TARTUCE, Flávio. Direito Civil 3. Teoria Geral dos Contratos e Contratos em espécie. 9. ed. São
Paulo: Editora Método, 2014.

– 110 –
TEMA 15
Crimes Falimentares
Maria Tereza Ferrabule Ribeiro

Introdução
Nesta aula, iremos estudar a respeito dos crimes que são cometidos pelos empresários deve-
dores e demais agentes envolvidos no trâmite dos processos de falências e as suas respectivas
consequências nas esferas cíveis e criminais.

Objetivos de Aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• entender a tipificação dos crimes falimentares estabelecidos na Lei de Falências (Lei


11.101/2005);
•• identificar os sujeitos dos crimes falimentares.

1 Conceito e história dos crimes falimentares


Os crimes falimentares existem desde a antiguidade, e as leis que os regem têm raízes no
direito romano, de onde advém a denominação “bancarrota” (quebra). No direito romano arcaico,
o devedor pagava dívidas tornando-se escravo ou, até mesmo, com a vida quando encontrava-se
inadimplente. No ano 326 a.C., com a Lex Poetelia Papiria, essa forma de pagamento foi subs-
tituída por meio do patrimônio do devedor, “deixando de ser puramente material para se tornar
jurídico” (COSTA, 2000, p. 144).

Figura 1 – Roma

Fonte: Gregory Albertini’s/Shutterstock.com.

– 111 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!

Saiba que a escravidão imposta como pena devido às dívidas contraídas pelo cam-
ponês encontra-se na Lei das Doze Tábuas (JOLY, 2017).

Já no Brasil, a falência foi inicialmente regida pelas denominadas ordenações Afonsinas,


Manuelinas e Filipinas de origem portuguesas. Posteriormente, em 1850, houve a promulgação do
Código Comercial do Império do Brasil, que tratava “Das Quebras”. Após ter passado por diversas
outras leis, finalmente, houve o advento da Lei 11.101/2005 (OLIVEIRA, 2010).
Vamos agora estudar as questões jurídicas e sociais enfrentadas por aqueles que cometem
os crimes falimentares, que são tipificados na Lei n. 11.101/2005, a partir do artigo 1.

2 O sentido social e jurídico dos crimes falimentares


A Lei 11.101/2005 teve como objetivo prover meios para que a empresa possa recuperar-se
cumprindo com os objetivos a que se propõe como a exploração de atividade econômica, tendo um
papel social ao propiciar empregos e produção de bens e serviços para a sociedade (SOUSA, 2005).

Figura 2 – Empresa e Sociedade

Fonte: Ollyy’s/Shutterstock.com.

SAIBA MAIS!
Para aprofundar seu conhecimento sobre recuperação judicial, leia o artigo “A nova
lei de falências brasileira: primeiros impactos”. Disponível em: <http://www.scielo.
br/pdf/rep/v29n3/a11v29n3.pdf >.

– 112 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Os crimes falimentares, para serem caracterizados, se faz necessário que ocorram de forma
concreta, para fins da declaração de falência, por meio de sentença declaratória da falência, con-
forme estabelece o art. 180, da Lei 11.101/2005. A partir dessa decretação, serão verificadas as
consequências da respectiva condenação para o empresário conforme o art. 181 da mesma lei e
seus incisos, sendo a mais rigorosa o impedimento para gerir novos empreendimentos empresa-
riais durante o prazo de 5 (cinco) anos após decorrida a extinção da punição recebida, ou por meio
de reabilitação penal, conforme § único da referida lei e artigo.
A seguir, estudaremos os sujeitos ativos e passivos nas esferas jurídicas.

3 Os sujeitos ativos e passivos nos crimes falimentares


Os crimes falimentares estão dispostos dos artigos 179 ao 182, na Lei 11.101/2005, sendo
considerados como agentes ativos os que praticarem condutas delituosas na falência e na recu-
peração judicial e extrajudicial, e passivos os sujeitos que tem seus direitos suprimidos por atos
fraudulentos praticados pelo sujeito ativo da relação (SCALZILI; SPINELLI; TELLECHEA, 2016).

Figura 3 – Credores e Devedores

Fonte: Maryna Pleshkun’s/Shutterstock.com.

A Lei 11.101/2005 tratará de forma especial, no Capítulo VII, os crimes denominados de


Fraude a Credores, ou seja, quando o devedor ou demais interessados, por meio de ações fraudu-
lentas, trouxer prejuízo aos credores que foram devidamente constituídos para receberem os seus
respectivos valores.

EXEMPLO
O devedor tem uma determinada dívida e, para não a saldar com a sua moto, que é
o seu único bem, transfere esta de forma gratuita para o seu primo. O credor poderá
solicitar a anulação do ato, pois este se configura como fraude contra o credor.

– 113 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

É possível observar que todos os envolvidos nos processos de recuperação judicial e


extrajudicial, se cometerem os crimes tipificados na Lei 11.101/2005, responderão de acordo com
o delito cometido, sendo que a prescrição terá o efeito de extinguir a punibilidade nos crimes fali-
mentares com início no dia da decretação da falência, da concessão da recuperação judicial ou da
homologação da recuperação extrajudicial.

FIQUE ATENTO!

A prescrição representa a perda legal de reclamar os seus direitos, devendo os inte-


ressados ficar atentos aos prazos e condições estabelecidos em cada esfera jurídica.

No próximo tópico, vamos conhecer esses sujeitos de forma detalhada.

4 Dos crimes falimentares e suas punições


Como vimos no item anterior, as punições serão aplicadas de acordo com a Lei 11.101/2005
e também pelo Código Penal. Já no âmbito do Código Civil (2002), o juiz competente da respectiva
falência utilizará como prova para a tipificação do crime o que for trazido aos autos pelas partes,
enquanto que, no juízo criminal, por se tratar de interesse público, o juiz investigará outras instân-
cias para a aplicação da pena.

FIQUE ATENTO!
No âmbito civil, o foco é restituir o prejuízo gerado pela ação fraudulenta e, no âm-
bito criminal, foca-se a punição restritiva de liberdade ou multas em conformidade
com o ato praticado.

Figura 4 – Fraude

Fonte: Aleksandra Voinova’s/Shutterstock.com.

– 114 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

A Lei 10.101/2005, do art. 168 até o 172, dispõe os diversos delitos que cometidos ensejarão
penas e multas. Vamos conhecê-las?
A prática de crimes de fraude contra credores terá como punição a pena de reclusão de três
a seis anos e multa. Sendo que a pena poderá ser aumentada de 1/6 (um sexto) a 1/3 (um terço),
se o fraudador praticar as seguintes condutas (BRASIL, 2005):
•• apresentar escrituração contábil ou balanço com dados inexatos;
•• deixar de informar dados que deveriam constar na escrituração contábil ou no balanço;
•• corromper ou destruir dados contábeis informatizados;
•• simular capital social;
•• destruir, ocultar ou inutilizar, de forma parcial ou total, documentos de escrituração
contábil.

A pena do devedor ainda poderá ser aumentada em 1/3 (um terço) até 1/5 (um quinto), se
verificado que manteve ou movimentou recursos e valores em paralelo sem a devida contabiliza-
ção legal, conforme a Lei 11.101/2005.
São exemplos de crimes falimentares previstos na LFR:
•• Fraude a credores (art. 168);
•• Violação de sigilo profissional (art. 169);
•• Divulgação de informações falsas (art. 170);
•• Indução a erro (art. 171);
•• Favorecimento de credores (art. 172);
•• Desvio, ocultação ou apropriação de bens (art. 173);
•• Aquisição, recebimento ou uso ilegal de bens (art. 174);
•• Habilitação ilegal de crédito (art. 175);
•• Exercício ilegal de atividade (art. 176);
•• Violação de impedimento (art. 177).

EXEMPLO

Suponha que uma empresa deixou de contabilizar determinados valores para se


eximir de pagar tributos, tal ação é também chamada de caixa dois e é crime.

A mesma lei ainda estabelece que a pena será aplicada para aqueles que foram coniventes
com o ato delituoso como contadores, técnicos contábeis, auditores e outros profissionais, que de
alguma forma concorreram para as condutas apresentadas. Sendo a conduta ilícita praticada por
mais de uma pessoa, o ato será denominado de concurso de pessoas (BRASIL, 2005).
Haverá redução da pena de reclusão de 1/3 (um terço) a 2/3 (dois terço) ou, até mesmo,
substituição, se falência ocorrer na microempresa ou em empresa de pequeno porte, quando as
condutas criminosas não forem habituais por parte do falido (BRASIL, 2005).
A lei em análise também apresenta uma série de outros delitos praticados pelo credor e por
terceiros interessados que possam agravar a situação econômica financeira do devedor ou obter
vantagem ilícita. Esse agente cumprirá determinadas penas ou multas, que seguem descritas no

– 115 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

quadro a seguir, sendo que a pena de reclusão pode ser cumprida em regime fechado, semiaberto
ou aberto, e a detenção, em regime semiaberto ou aberto.

Quadro 1 – Dos crimes em espécie

CONDUTA PENA

Violação de sigilo profissional.

Divulgação de informações falsas.

Induzir a erro ou prestar informações falsas para o juiz,


o Ministério Público, os credores, a assembleia geral de cre-
dores, o comitê ou o administrador judicial.

Desvio, ocultação ou apropriação de bens do devedor.


Reclusão de dois a quatro anos e multa.
Aquisição, recebimento ou uso ilegal de bens.

Habilitação ilegal de crédito.

Na ocorrência de especulação de lucro, por parte daqueles


que de alguma forma tenham atuado no processo, como o
juiz; Ministério Público; administrador judicial; perito; avalia-
dor; escrivão; oficial de justiça, leiloeiro e outros.

Favorecimento dos credores. Reclusão, de dois a cinco anos, e multa.

Exercício ilegal de atividade para a qual foi incapacitado por Reclusão, de um a quatro anos, e multa.
decisão judicial.

Omissão dos documentos contábeis obrigatórios. Detenção, de um a dois anos, e multa, se


o fato não constitui crime mais grave.

Fonte: adaptado de BRASIL, 2005.

SAIBA MAIS!
Para aprofundar seus conhecimentos sobre os procedimentos que serão realiza-
dos nos crimes falimentares, leia o texto, de Rogério Tadeu Romano, “Procedimento
criminal nos crimes falimentares”. Disponível em: <https://www.jfrn.jus.br/institu-
cional/biblioteca-old/doutrina/doutrina250_ProcedimentoCriminalNosCrimesFali-
mentares.pdf>.

Foi possível verificar que os agentes delituosos além de responderem com o patrimônio tam-
bém responderão na esfera criminal.

– 116 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• identificar as condutas delituosas que poderão ocorrer no trâmite da recuperação judi-


cial, extrajudicial e falência.
•• conhecer os sujeitos que figuram nos crimes falimentares.

Referências
ARAUJO, Aloisio. FUNCHAL, Bruno. A nova lei de falências brasileira: primeiros impactos. Brazilian
Journal of political Economy, v. 29, n. 3 (115), 2009. pp. 191-212.

BRASIL. Decreto-Lei n° 2.848 de 7/12/1940. Código Penal. Disponível em: <http://www.planalto.


gov.br/ccivil_03/decreto-lei/Del2848compilado.htm>. Acesso em: 29 ago. 2017.

______. Lei n° 10.406 de 10/01/2002. Aprova o Código Civil. Diário Oficial da União. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 11 ago. 2017.

______. Lei n° 11.101/2005. Regula a recuperação judicial, a extrajudicial e a falência do empresário


e da sociedade empresária. Diário Oficial da União. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/
ccivil_03/_ato2004-2006/2005/lei/l11101.htm>. Acesso em: 29 ago. 2017.

COSTA, Álvaro Mayrink. Crime Falimentar. Revista da EMERJ, v.3, n.12, 2000. Disponível em:
<http://www.emerj.tjrj.jus.br/revistaemerj_online/edicoes/revista12/revista12_143.pdf>. Acesso
em: 28 ago. 2017.

JOLY, Fábio Duarte. A Escravidão na Roma Antiga. 2. ed. São Paulo: Alameda, 2017.

OLIVEIRA, Gleik Meira. Falência: Conhecendo a história para se construir um futuro pautado na
certeza. Revista Dat@venia V.2 9 jul/dez Paraíba, 2010. Disponível em: <http://revista.uepb.edu.br/
index.php/datavenia/article/view/49-56>. Acesso em: 28 ago. 2017.

OMANO, Rogério Tadeu. Procedimento criminal nos crimes falimentares. Portal da Justiça Federal
do Rio Grande do Norte. Disponível em: <https://www.jfrn.jus.br/institucional/biblioteca-old/dou-
trina/doutrina250_ProcedimentoCriminalNosCrimesFalimentares.pdf>. Acesso em: 7 out. 2017.

SOUSA, Cláudio Calo. A Atribuição e competência criminais na nova Lei de Falência – Lei n°
11.101/2005 – breves reflexões. Disponível em: <http://www.femperj.org.br/pesquisas/artigos.
php>. Acesso em: 28 ago. 2017.

– 117 –
TEMA 16
As partes na relação de consumo:
consumidor e fornecedor
Raquel Helena Hernandez Fernandes

Introdução
Temos visto que a vida do ser humano é baseada em relações sociais. Nesse sentido, uma
das relações sociais que permeiam o nosso dia a dia é a relação de consumo. Assim, vamos abor-
dar conceitos iniciais e essenciais para o entendimento das relações de consumo.

Objetivos de aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• compreender o Código do Consumidor e as suas relações com o exercício de cidadania;


•• identificar as partes nas relações de consumo.

1 O Código do Consumidor e a cidadania


Para falarmos sobre o Direito do Consumidor e Código de Defesa do Consumidor (CDC),
é necessário que, primeiramente, saibamos o que é cidadania. Nesse sentido, segundo Dalmo
Dallari (1998, p. 14):

A cidadania expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar


ativamente da vida e do governo do seu povo. Quem não tem cidadania está marginalizado
ou excluído da vida social e da tomada de decisões, ficando numa posição de inferioridade
dentro do grupo social.

Figura 1 – Representação de cidadania

Fonte: Antonio Scorza/Shutterstock.com.

– 118 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Assim, é possível entendermos que cidadania constitui direitos das pessoas para representa-
ção perante o Estado e, assim, fazerem valer seus direitos.
E foi no contexto de luta pela cidadania e pelo seu reconhecimento que, em 1988, a Constitui-
ção Federal foi promulgada, tendo ela trazido a ideia de direitos do consumidor em seu artigo 5º,
inciso XXXII, onde dispõe: “O Estado promoverá, na forma da lei, a defesa do consumidor” (BRASIL,
1988). Assim, nasceu o CDC, instituído pela Lei 8.078/90, de forma a trazer normas para a defesa
dos direitos do consumidor, sendo este considerado vulnerável negocial (TARTUCE; NEVES, 2017).

SAIBA MAIS!
É importante que você conheça o Código de Defesa do Consumidor. Assim,
sugerimos a leitura integral da Lei 8078/90, que originou o CDC. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078.htm>.

É possível, então, entendermos que os direitos do consumidor são uma forma de exercer
a cidadania, fazendo com que o consumidor seja respeitado e não fique desprotegido em suas
relações consumeristas.

1.1 Princípios do Direito do Consumidor


Existem alguns princípios que norteiam o Direito do Consumidor. Assim, é necessário que
você os conheça alguns desses princípios:

•• Princípio do Protecionismo do Consumidor: esse princípio está contido no art. 1º da


Lei 8078/90. Esse artigo afirma que o CDC traz normas de ordem pública e interesse
social.

EXEMPLO
A Lei 12.291/2010 afirma que todo estabelecimento comercial é obrigado a exibir
um exemplar do CDC, sob pena de multa de R$ 1.064,10. Esse fato é exemplo de
norma pública e de interesse social (BRASIL,2012).

Além disso, esse princípio traz três consequências que jamais podem ser esquecidas,
sendo elas: as regras da Lei 8.078/90 (CDC) não podem ser afastadas da relação con-
sumerista mesmo que as partes assim desejem; o Ministério Público sempre pode
intervir em questões que envolvam problemas nas relações de consumo; o juiz deve
conhecer de ofício toda a proteção que o CDC traz, podendo declarar nula eventual
cláusula abusiva.

– 119 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

•• Princípio da Vulnerabilidade do Consumidor: o consumidor é visto como vulnerável nas


relações consumeristas, e tal visão fica muito clara no art. 4º, inciso I, do CDC. Porém, é
importante destacar que a vulnerabilidade de uma pessoa enquanto consumidora não
pode ser aplicada em outras situações nas quais aquela não é consumidora (TARTUCE;
NEVES, 2017).

•• Princípio da Hipossuficiência do Consumidor: hipossuficiência não pode ser confun-


dida com vulnerabilidade. A hipossuficiência não diz respeito somente às desigualda-
des política, econômica e financeira, mas também ao fato de o consumidor desconhe-
cer características particulares do produto ou do serviço (TARTUCE; NEVES, 2017).

•• Princípio da Boa-Fé Objetiva: esse princípio está presente no inciso III, do art. 4º, do
CDC, e traz a ideia de que nas relações consumeristas deve haver justo equilíbrio, ou
seja, deve haver uma harmonia entre as partes, as quais devem estar bem-intenciona-
das na relação de consumo.

Figura 2 – Boa-fé objetiva

Fonte: Monkey Business Images/Shutterstock.com.

A boa-fé objetiva saiu do plano psicológico e intencional, que seria a boa-fé subjetiva, e
passa para o plano da ação humana (TARTUCE; NEVES, 2017, p. 39).

FIQUE ATENTO!

Saiba que a boa-fé objetiva é ligada à ação humana; enquanto que a boa-fé subjeti-
va é ligada às intenções e aos pensamentos humanos.

Podemos dizer que o princípio da boa-fé objetiva é o centro do Direito do Consumidor


(TARTUCE; NEVES, 2017, p. 39).

– 120 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

•• Princípio da Transparência ou da Confiança: esse princípio traz a ideia de que as infor-


mações sobre produtos e serviços devem ser transparentes. Ele está presente no art.
4º, caput, e art. 6º, inciso III, ambos do CDC (TARTUCE; NEVES, 2017, p. 43).

•• Princípio da Função Social do Contrato: esse princípio tem por característica o objetivo de
afirmar que o contrato deve ser realizado e interpretado de acordo com o contexto social,
de modo que não haja abusos para com o consumidor (TARTUCE; NEVES, 2017, p. 51).

Figura 3 – Função Social

Fonte: baranq/Shutterstock.com.

•• Princípio da Equivalência Negocial: por esse princípio, a todos os consumidores deve


ser garantida a igualdade nas negociações e na celebração de relações consumeristas.
Assim, de acordo com o art. 6º, inciso II, do CDC, é regra que todos os consumidores
sejam tratados de maneira igual, com exceção daqueles que necessitam de proteção
especial, como idosos, portadores de deficiências, entre outros (TARTUCE; NEVES,
2017, p. 59).

FIQUE ATENTO!

Lembre-se de que todo consumidor deve ser tratado de maneira igual, não impor-
tando condições econômicas, origem social, etnia, entre outros fatores.

A seguir, conheça as relações jurídicas de consumo e os elementos que as constituem.

– 121 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

2 As relações jurídicas de consumo


Você sabe quais são as características da relação jurídica de consumo? Bem, ela deve pos-
suir: a existência de uma relação entre um sujeito ativo, titular de um direito, e um sujeito passivo,
que tem dever jurídico; poder do sujeito ativo sobre a prestação do serviço ou do bem (mercadoria)
adquirido e fato que gera consequências para o plano jurídico (TARTUCE; NEVES, 2017, p. 77).

EXEMPLO
Considere uma pessoa que vende sapatos para outra pessoa. O sujeito ativo é a
pessoa que compra os sapatos, e o sujeito passivo é a pessoa que vende os sa-
patos. O sujeito ativo tem o poder sobre os sapatos, no sentido de exigir o que foi
convencionado entre as partes na hora da compra e o que está estabelecido no
CDC. E esse fato de compra e venda de sapatos gera consequências para o mundo
jurídico, no sentido de obrigações e tutela de direitos.

A relação jurídica de consumo possui seus elementos subjetivos, prestador/fornecedor e


consumidor; e elementos objetivos, produto e serviço (TARTUCE; NEVES, 2017).
Sobre os elementos objetivos, o produto é qualquer bem móvel ou imóvel, que pode ser mate-
rial ou imaterial, colocado no mercado de consumo, conforme art. 3º, §1º, do CDC (BRASIL, 1990).
Sobre os serviços, o art. 3º, §2º, do CDC, estabelece que são quaisquer atividades fornecidas
no mercado de consumo, por meio de remuneração, com exceção das atividades provenientes de
relações de trabalho (BRASIL,1990).
Vamos agora tratar especificamente dos elementos subjetivos.

3 O consumidor
Conforme dispõe o artigo 2º do CDC, “Consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire
ou utiliza produto ou serviço como destinatário final” (BRASIL, 1990). Outro aspecto importante é
que alguns doutrinadores entendem que a vulnerabilidade de pessoa jurídica pode ser relativa, ou
seja, os casos devem ser analisados para se averiguar se a pessoa jurídica realmente estava em
posição de vulnerabilidade (TARTUCE; NEVES, 2017, p. 85).

SAIBA MAIS!
Sobre a discussão acerca da vulnerabilidade ou não da pessoa jurídica, sugerimos
a leitura do julgado RMS 27.512/B, da terceira turma do STJ, de 23.09.2009, que
está disponível em: < https://ww2.stj.jus.br/processo/revista/documento/media-
do/?componente=ITA&sequencial=905277&num_registro=200801579190&da-
ta=20090923&formato=PDF>.

– 122 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

O consumidor ainda pode ser ente despersonalizado, como condomínios edilícios (condomí-
nios de prédios e casas, por exemplo).

FIQUE ATENTO!

Saiba que ente despersonalizado também pode ser considerado consumidor.

Há forte discussão doutrinária sobre o que significa “destinatário final”. Nesse sentido, são
três as teorias que existem: teoria finalista, que entende que o consumidor é aquele não utiliza o
produto para lucro e que ninguém mais depois dele irá adquirir o produto; teoria maximalista, que
entende que o consumidor é sempre associado ao consumo, independentemente de que finali-
dade ele atribuíra ao produto/serviços adquirido; e a teoria finalista mitigada, muito aplicada pelo
STJ, que não observa apenas a destinação do produto ou serviço, mas também a vulnerabilidade
do adquirente em relação ao fornecedor (TARTUCE; NEVES, 2017).

4 O fornecedor
Como podemos definir fornecedor? Para Tartuce e Neves (2017), fornecedor é entendido
como aquele que fornece produtos e prestador de serviços.
Já o caput do art. 3º do CDC, dispõe que:

Fornecedor é toda pessoa física ou jurídica, pública ou privada, nacional ou estrangeira,


bem como os entes despersonalizados, que desenvolvem atividade de produção, monta-
gem, criação, construção, transformação, importação, exportação, distribuição ou comer-
cialização de produtos ou prestação de serviços (BRASIL, 1990).

Figura 4 – Fornecedor

Fonte: Dmitry Kalinovsky/Shutterstock.com.

– 123 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Um elemento essencial para caracterizar o fornecedor, além dos contidos no caput do art. 3º
do CDC, é a habitualidade. Assim, não se pode enquadrar como fornecedor ou prestador pessoas
quem vendem/fornecem pela primeira vez ou esporadicamente coisas/serviços.
Outro fator de importante consideração é que a atividade desenvolvida pelo prestador/fornece-
dor deve ser profissional e com objetivo de lucro ou vantagens indiretas (TARTUCE; NEVES, 2017).

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:
•• conhecer e entender a forte influência da cidadania na origem dos Direitos do
Consumidor;
•• conhecer as relações jurídicas de consumo, com seus elementos objetivos e subjetivos.

Referências
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Diário Oficial da União. Disponível em:
<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 14
ago. 2017.

______. Lei 8078 de 11 de setembro de 1990. Código de Defesa do Consumidor. Diário Oficial da União.
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078.htm>. Acesso em: 7 set. 2017.

______. Lei nº 12.291, de 20 de julho de 2010. Torna obrigatória a manutenção de exemplar do Código
de Defesa do Consumidor nos estabelecimentos comerciais e de prestação de serviços. Diário
Oficial da União. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/
L12291.htm>. Acesso em: 4 nov. 2017.

_____. Superior Tribunal de Justiça. Recurso em Mandado de Segurança nº 27.512 – BA


(2008/0157919-0), Min. Rel. Nancy Andrighi, Data do Julgamento 20/08/2009, Data da Publicação
23/09/2009.

DALLARI, Dalmo de Abreu. Direitos Humanos e Cidadania. São Paulo: Moderna, 1998. p. 14.

TARTUCE, Flávio; NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual do Direito do Consumidor: Direito
Material e Processual. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2017.

– 124 –
TEMA 17
Direitos básicos do consumidor
Raquel Helena Hernandez Fernandes

Introdução
As relações de consumo envolvem consumidor, fornecedor e o produto ou serviço, e pos-
suem características peculiares. Nesta aula, você verá alguns entendimentos sobre o consumo e
proteções do Direito do Consumidor.

Objetivos de aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:
•• entender as necessidades da prática de consumo equilibrado;
•• compreender a natureza jurídica de proteções do Código de Defesa do Consumidor (CDC).

1 O consumo equilibrado
A humanidade tem vivido um excesso de consumo (VIEIRA; COSTA, 2015). Você saberia dizer o
porquê? Por conta do desenvolvimento econômico e das facilidades para consumir, mais pessoas pas-
saram a ter acesso a bens e serviços, o que traz melhoria de vida e sentimento de satisfação. Assim,
a felicidade foi associada à posse de bens materiais, o que estimula o consumismo (OLIVEIRA, 2012).
Com isso, você deve ter percebido que o consumo está relacionado ao bem-estar. Por outro
lado, o consumo desenfreado compromete os recursos naturais e o equilíbrio ecológico, pois, para
produzir bens, o ser humano precisa intervir no meio ambiente (VIEIRA; COSTA, 2015).

Figura 1 – Consequência do excesso de consumo

Fonte: J. Bredlove/Shutterstock.com

– 125 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Diante dessa realidade, o desenvolvimento sustentável visa viabilizar as satisfações de con-


sumo e economia da geração atual sem comprometer as futuras, de forma a preservar o meio
ambiente (VIEIRA; COSTA, 2015). Essa preservação é tão importante que, inclusive, está prevista
na Constituição Federal, no artigo 170, inciso VI (BRASIL, 1988). Devemos, então, pensar no con-
sumo equilibrado.

SAIBA MAIS!
Para conhecer mais sobre consumo equilibrado e desenvolvimento sustentável, leia
o artigo “Consumo Sustentável”, publicado em 2012 na Revista Veredas do Direito
por João Carlos Cabrelon Oliveira, disponível em: <http://domhelder.edu.br/revista/
index.php/veredas/article/view/255>.

O artigo 6º do CDC, em seu inciso II, afirma que é direito do consumidor “[...] a educação e a
divulgação sobre consumo adequado dos produtos e serviços, asseguradas a liberdade de esco-
lha e a igualdade nas contratações” (BRASIL, 1990, s.p.). Nesse sentido, existe uma preocupação
em primar pelo consumo equilibrado, o qual objetiva transformar o comportamento da sociedade
em relação ao consumo exacerbado, pressupondo que o consumidor esteja consciente sobre os
impactos que suas escolhas de consumo trazem para o meio ambiente (VIEIRA; COSTA, 2015).

Figura 2 – Equilíbrio ambiental

Fonte: natrot/Shutterstock.com

O papel de educação sobre o consumo equilibrado é de responsabilidade dos próprios consu-


midores, dos fornecedores e do Poder Público, este último responsável pela elaboração e implanta-
ção de políticas públicas referentes à defesa e preservação do meio ambiente (VIEIRA; COSTA, 2015).

– 126 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!

O Poder Público tem papel primordial na elaboração e implantação de políticas pú-


blicas para defesa e preservação do meio ambiente.

Perceba que também é nossa obrigação, enquanto consumidores, fazer melhores escolhas
ao comprarmos um produto ou serviço, procurando saber se o fornecedor tem compromisso com
a preservação do meio ambiente, e repensar a necessidade de adquirir tantos bens. É assim que
contribuímos com o desenvolvimento sustentável.

2 Proteção à saúde e segurança


A Seção I, intitulada “Da Proteção à Saúde e Segurança”, do Capítulo IV do CDC, traz os deve-
res do fornecedor e os direitos do consumidor no que diz respeito à proteção à saúde e segurança
do consumidor. Assim, o artigo 8º determina que os produtos e serviços colocados no mercado
não podem trazer riscos à saúde e segurança de quem os consome, exceto aqueles que apresen-
tam riscos em níveis considerados normais e previsíveis (BRASIL, 1990).

EXEMPLO
Podemos pensar em produtos de limpeza que fazem mal à saúde por serem corro-
sivos à pele e terem fortes odores. Embora prejudiciais, tais características já são
esperadas.

Quando um fornecedor sabe que certo produto ou serviço tem alto grau de nocividade ou
periculosidade à saúde ou segurança do consumidor, não deve colocá-lo no mercado, como dis-
põe o artigo 10. E se o produto já estiver circulando e seus riscos só forem descobertos posterior-
mente? Nesse caso, o fornecedor deve informar tais perigos às autoridades competentes e aos
consumidores, por meio de anúncios publicitários (BRASIL, 1990).
Perceba, então, a presença do Princípio da Boa-Fé Objetiva, ou seja, espera-se que os for-
necedores tenham condutas leais e honestas em relação aos produtos e serviços que oferecem
(TARTUCE; NEVES, 2017).

FIQUE ATENTO!

A proteção à saúde e segurança do consumidor está diretamente ligada ao Princí-


pio da Boa-Fé Objetiva.

– 127 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

3 Informações dos produtos


Informações são essenciais nas relações de consumo. É por isso que o inciso III do artigo
6º do CDC determina que é direito básico do consumidor: “[...] a informação adequada e clara
sobre os diferentes produtos e serviços, com especificação correta de quantidade, características,
composição, qualidade, tributos incidentes e preço, bem como sobre os riscos que apresentem”
(BRASIL, 1990, s.p.).

Figura 3 – Informações nos rótulos

Fonte: Monkey Business Images/Shutterstock.com

Desse modo, os produtos e serviços devem sempre estar acompanhados de todas as infor-
mações sobre as suas características, inclusive os impostos, geralmente descritos no cupom/
nota fiscal.

FIQUE ATENTO!

Os produtos e serviços devem vir acompanhados de informações sobre os impos-


tos que incidem sobre eles.

Também é importante informar o consumidor sobre a nocividade dos produtos. Como vimos,
o produto ou serviço colocado no mercado não pode apresentar riscos à saúde e à segurança do
consumidor, com exceção dos riscos esperados e considerados normais. Nesses casos, quando,
por sua natureza, o produto ou serviço é nocivo ou perigoso à saúde e à segurança do consumidor (a
soda cáustica, por exemplo), o artigo 9º do CDC dispõe que o fornecedor deve informar, de maneira
evidente e adequada, as informações sobre sua nocividade e periculosidade (BRASIL, 1990).
Concluímos, então, que o Princípio da Transparência deve estar presente nas relações de
consumo.

– 128 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

4 Indenizações
Indenizações estão relacionadas com a reparação de danos, o que envolve o Princípio da
Reparação Integral dos Danos, previsto no inciso VI do artigo 6º do CDC, segundo o qual o consu-
midor tem direito à “[...] efetiva prevenção e reparação de danos patrimoniais e morais, individuais,
coletivos e difusos” (BRASIL, 1990, s.p.).

Figura 4 – Reparação de danos

Fonte: arka38/Shutterstock.com

A prevenção dos danos ocorre por meio das informações que devem ser prestadas ao consu-
midor. Já sua reparação é obrigação perante a Responsabilidade Civil, ou seja, o fornecedor deve
arcar com os danos que tenha causado ao consumidor por meio de produto ou serviço que tornou
disponível no mercado (TARTUCE; NEVES, 2017).
Se o consumidor tiver danos materiais (prejuízo material), deve ser indenizado de forma inte-
gral. Já os danos morais (ou extrapatrimoniais), isto é, quando o produto ou serviço viola os direi-
tos da personalidade do consumidor, podem ocorrer de três modos: individual, coletivo e difuso.
O dano individual ocorre somente com um caso em particular, e o consumidor deve ser inde-
nizado integralmente. Lembre-se de que ele pode ser indenizado por danos materiais e morais em
uma mesma situação, desde que estes se originem do mesmo fato (TARTUCE; NEVES, 2017).

SAIBA MAIS!
Sobre a cumulação de indenização de danos, a Súmula 37 do Superior Tribunal
de Justiça (STJ) dispõe que: “São cumuláveis as indenizações por dano material e
dano moral oriundos do mesmo fato” (BRASIL, 1992, p. 3.172).

– 129 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

O dano coletivo é aquele que atinge, ao mesmo tempo, direitos da personalidade de várias
pessoas ligadas a um mesmo fato, sendo determinadas ou determináveis. Nesse caso, os consu-
midores também podem ser indenizados integralmente. Já o dano difuso tem a característica de
atingir pessoas indeterminadas que estão ligadas a uma mesma circunstância de fato que causa
lesão à sociedade. Nesse caso, o causador do dano pode ser multado e/ou ter que arcar com
valores de indenizações, destinados ao Fundo de Defesa dos Direitos Difusos, que é vinculado ao
Ministério da Justiça (BRASIL, [20--]).

EXEMPLO
Pense em mulheres que adquiriram pílulas anticoncepcionais falsas de um mes-
mo laboratório. As pessoas lesadas são essas mulheres, que são determináveis,
portanto, trata-se de um dano coletivo. Já no caso de uma indústria que polui o ar,
não é possível determinar exatamente o público atingindo, embora se saiba que a
sociedade em geral é afetada. Logo, tem-se um dano difuso.

Todos esses danos são passíveis de indenizações, que ocorrem, na maioria das vezes, por
meio financeiro (TARTUCE; NEVES, 2017).

Fechamento
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• conhecer o consumo equilibrado como um forte influente no meio ambiente e no


desenvolvimento responsável;
•• entender que ter acesso à informação sobre produtos e serviços é um dos direitos do
consumidor e que esse direito traz garantia de saúde e segurança;
•• conhecer as possíveis indenizações em caso de lesão do consumidor e da sociedade.

Referências
BRASIL. Presidência da República. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário
Oficial da União, Brasília, 5 out. 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/consti-
tuicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 14 ago. 2017.

______. Presidência da República. Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. Diário Oficial da União,
Brasília, 12 set. 1990. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078.htm>.
Acesso em: 7 set. 2017.

_______. Superior Tribunal de Justiça. Súmula n. 37. São cumuláveis as indenizações por dano
material e dano moral oriundos do mesmo fato. Diário da Justiça, Brasília, 17 mar. 1992.

– 130 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

______. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Direitos Difusos. Ministério da Justiça, Brasí-
lia, [20--]. Disponível em: <http://www.justica.gov.br/seus-direitos/consumidor/direitos-difusos>.
Acesso em: 20 out. 2017.

OLIVEIRA, João Carlos Cabrelon. Consumo Sustentável. Veredas do Direito. Belo Horizonte, v.9,
n.17, p.79-108. 2012.

TARTUCE, Flávio; NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual do Direito do Consumidor: Direito
Material e Processual. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2017.

VIEIRA, Gabriella Castro; COSTA, Beatriz Souza. A prática do consumo consciente para a efeti-
vação do direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. Direito Ambiental e sociedade,
Caxias do Sul, v. 5, n. 2, p. 261-282, 2015.

– 131 –
TEMA 18
Responsabilidade por vício
do produto e do serviço
Raquel Helena Hernandez Fernandes

Introdução
Você já adquiriu um produto ou contratou um serviço que não era exatamente como o espe-
rado ou apresentou algum problema? Saiba que as relações de consumo podem ser abaladas por
defeitos e vícios que os produtos ou serviços podem apresentar. Por isso, o consumidor precisa
de proteção, proporcionada pelo Estado, e a Responsabilidade Civil vigora nos casos de reparação
de danos.

Objetivos de aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• entender a proteção do Estado nas relações de consumo;


•• identificar defeito e vício na esfera jurídica;
•• conhecer a Responsabilidade Civil no Código de Defesa do Consumidor (CDC).

1 A proteção do Estado nas relações de consumo


Segundo o artigo 5º, inciso XXXII da Constituição Federal de 1988, “[...] o Estado promoverá,
na forma da lei, a defesa do consumidor” (BRASIL, 1988, s.p.). A partir dessa disposição, foi elabo-
rado o CDC.

Figura 1 – Proteção do consumidor

Fonte: Jirsak/Shutterstock.com

– 132 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Na prática, isso significa que o Estado é responsável por proteger o consumidor, intervindo no
Poder Legislativo, na formulação de normas jurídicas relacionadas ao consumo; no Poder Execu-
tivo, de forma a implementá-las; e no Poder Judiciário, no intuito de solucionar os conflitos oriun-
dos de relações de consumo (SIMÃO, 2003).
A quem recorrer, então, quando alguém se sente lesado? A possibilidade mais próxima do
consumidor é o Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon), um órgão público, repre-
sentativo do Estado, pertencente ao Poder Executivo municipal, estadual ou do Distrito Federal,
cujo objetivo é proteger e defender os direitos e interesses do consumidor (RIO DE JANEIRO, [20--]).

SAIBA MAIS!
O Portal do Consumidor traz informações sobre direitos do consumidor e as atitudes
que ele deve ter quando tiver seus direitos violados nas relações consumeristas.
Visite o site: <http://www.portaldoconsumidor.gov.br/>.

Existe, também, é o Ministério Público Estadual, ao qual é permitida a intervenção em pro-


blemas de consumo (TARTUCE; NEVES, 2017). Por fim, temos a Defensoria Pública do Estado,
cujo objetivo é oferecer aos cidadãos de baixa renda, integral e gratuitamente, orientação jurídica,
promoção de direitos humanos e defesa, judicial e extrajudicial de direitos individuais e coletivos
(SÃO PAULO, [20--]), o que inclui a defesa dos direitos do consumidor.

2 Conceito de defeito na esfera jurídica


e sua reparação
Quando falamos de defeito, logo pensamos em algo que esteja danificado, não é mesmo?
Na esfera jurídica, o defeito, também conhecido como fato, também traz essa ideia, mas com
algumas peculiaridades.

FIQUE ATENTO!

O defeito também pode ser chamado de fato.

O defeito pode ser de produto ou de prestação de serviços e acarreta outros problemas além dele
mesmo. Em outras palavras, o defeito ocorre se o problema extrapola os limites do produto ou serviço.

EXEMPLO
Um consumidor compra um ferro de passar roupas, que explode e o machuca duran-
te o uso. Como o dano extrapolou qualquer problema restrito ao mau funcionamento,
uma vez que feriu a pessoa que o estava utilizando, dizemos que existe um defeito.

– 133 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Figura 2 – Consumidor machucado por defeito de produto

Fonte: Ronald Sumners/Shutterstock.com

O defeito pode originar danos morais (violação dos direitos da personalidade), materiais (pre-
juízo material) e estéticos (decorrem de ofensa à integridade física de uma pessoa. (TARTUCE;
NEVES, 2017). Caso exista nexo causal, isto é, se for comprovado que o defeito do produto ou
serviço tiver causado tais danos ao consumidor, deve ser reparado por meio de indenizações.

3 Conceito de vício na esfera jurídica e sua reparação


Sabe aquele problema que está no próprio produto ou no serviço? Para o Direito, ele é cha-
mado de vício. Sendo assim, o vício está presente quando o dano fica restrito ao produto ou ser-
viço, ou seja, não extrapola os limites destes (TARTUCE; NEVES, 2017).

EXEMPLO
Um encanador não consegue sanar um problema no encanamento de um cliente.
Essa situação não traz outros danos para a pessoa que contratou os serviços do en-
canador e nem para a casa. Assim, não extrapola os limites do problema. Nessa situ-
ação, dizemos que há um vício do serviço, pois o dano ficou restrito ao encanamento.

E como reparar os consumidores nesse caso? Diferentemente do defeito, que é reparado por
meio de indenização, o vício demanda substituição.

– 134 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Produtos de consumo duráveis ou não duráveis podem ter vícios de qualidade ou quantidade
que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo ou lhes diminuam o valor, ou por conterem
informações contraditórias e errôneas em seu recipiente, embalagem, rotulagem ou mensagem
publicitária. Nesses casos, conforme o artigo 18 do CDC, o consumidor pode requerer que as par-
tes viciadas sejam substituídas (BRASIL, 1990).

Figura 3 – Produto com vício

Fonte: Gertjan Hooijer/Shutterstock.com

Conforme o parágrafo 1º desse artigo, se o vício não for sanado no máximo em 30 dias, o
consumidor pode escolher apenas uma das opções disponíveis, por exemplo, a troca do produto
por outro da mesma espécie, em perfeitas condições de uso. Esse prazo, entretanto, é flexível.
Segundo o parágrafo 2º, as partes podem transigir sobre sua redução ou ampliação, desde que o
combinado não seja inferior a sete e nem superior a 180 dias (BRASIL, 1990).

FIQUE ATENTO!

O prazo de 30 dias pode ser modificado pela vontade das partes, desde que haja acor-
do entre elas e o novo limite não seja menor do que 7 e nem maior do que 180 dias.

Caso a substituição das partes viciadas traga comprometimento da qualidade ou caracterís-


ticas do produto ou diminuí-lo, o consumidor poderá fazer uso de uma das opções que o parágrafo
1º do artigo 18 dispõe. Caso a substituição do produto não seja possível, o consumidor pode pedir
a troca por outro de espécie, marca e modelo diferentes, inclusive com a devolução de eventual
diferença de preço.
E se o vício estiver na prestação de um serviço? Nesse caso, o artigo 20 do CDC determina
que o fornecedor tem a obrigação de responder pelos vícios de qualidade que os tornem impró-
prios para o consumidor ou que causem diminuição em seus valores (no sentido de desvaloriza-
ção do serviço), de forma que o consumidor poderá exigir à sua escolha e de forma alternativa (isto
é, apenas uma opção) algumas opções contidas nos seus incisos. Por exemplo, é possível exigir

– 135 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

a reexecução dos serviços por meio de terceiros capacitados, deixando os gastos e riscos sob
responsabilidade do fornecedor que primeiro executou os serviços (BRASIL, 1990).

SAIBA MAIS!
O parágrafo 6º do artigo 18 do CDC traz um rol dos produtos impróprios ao uso e
ao consumo, e o parágrafo 2º do artigo 20 dispõe que são impróprios os serviços
que sejam inadequados para os fins a que se destinam e os que não seguem as
normas necessárias.

4 A Responsabilidade Civil e o Código do Consumidor


Antes de falarmos sobre a Responsabilidade Civil no CDC, é importante conhecermos seu
conceito. A Responsabilidade Civil aparece quando há descumprimento de alguma obrigação, não
cumprimento de alguma regra estabelecida em um contrato ou quando uma pessoa deixa de cum-
prir com alguma obrigação que regula a vida (TARTUCE, 2017). Dessa forma, quem pratica esses
atos deve arcar com os danos decorrentes deles.
E como aplicar a Responsabilidade Civil às relações de consumo? Segundo o CDC, os forne-
cedores de produtos e serviços têm Responsabilidade Civil Objetiva, aquela em que não é neces-
sário comprovar a culpa, e solidária, isto é, fabricante, fornecedor e comerciante respondem juntos
pelos danos que o produto ou serviço causaram (BRASIL, 1990). Isso significa que o consumidor
não tem a obrigação (ônus) de comprovar a culpa dos fornecedores nas hipóteses de defeitos ou
vícios. Entretanto, é importante saber que há exceção nesse regramento, de forma que, se o for-
necedor for um profissional liberal, terá Responsabilidade Civil Subjetiva, isto é, sua culpa deve ser
apurada, conforme o artigo 14 (BRASIL, 1990).

Figura 4 – Consumidores

Fonte: Pressmaster/Shutterstock.com

– 136 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!

Na relação consumerista, o profissional liberal tem Responsabilidade Civil Subjetiva.

O CDC traz quatro formas de Responsabilidade Civil Objetiva, cada uma com seu respectivo
tipo de solidariedade:
•• responsabilidade pelo vício do produto: solidariedade entre fabricante e comerciante;
•• responsabilidade pelo vício do serviço: solidariedade entre todos os envolvidos na pres-
tação do serviço;
•• responsabilidade pelo defeito do produto: responsabilidade direta do fabricante e res-
ponsabilidade subsidiária do comerciante;
•• responsabilidade pelo defeito do serviço: solidariedade entre todos os envolvidos na
sua prestação (BRASIL, 1990).

Perceba que todos os envolvidos no fornecimento de produtos ou na prestação de serviços


respondem pelo vício ou defeito.

Fechamento
Agora, você já sabe o que fazer ao adquirir um produto ou serviço com problemas. Nesta aula,
você teve a oportunidade de:

•• saber como o Estado protege os direitos do consumidor;


•• diferenciar defeitos e vícios de produtos e serviços;
•• entender a reparação dos defeitos e vícios dos produtos e serviços como consequência
da Responsabilidade Civil no CDC.

– 137 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Referências
BRASIL. Presidência da República. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário
Oficial da União, Brasília, 5 out. 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/consti-
tuicao/constituicaocompilado.htm>. Acesso em: 14 ago. 2017.

______. Presidência da República. Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. Diário Oficial da União,
Brasília, 12 set. 1990. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078.htm>.
Acesso em: 7 set. 2017.

______. Portal do Consumidor. 2017. Disponível em: <http://www.portaldoconsumidor.gov.br/


quemsomos.asp>. Acesso em: 30 ago. 2017.

RIO DE JANEIRO. Instituição/histórico. Programa de Proteção e Defesa do Consumidor do Estado


do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, [20--]. Disponível em: <http://www.procon.rj.gov.br/index.php/
main/historico>. Acesso em: 30 ago. 2017.

SÃO PAULO. Quem somos. Defensoria Pública do Estado de São Paulo, São Paulo, [20--]. Dispo-
nível em: <https://www.defensoria.sp.def.br/dpesp/Default.aspx?idPagina=2868>. Acesso em: 30
ago. 2017.

SIMÃO, José Fernando. Vícios do produto no novo Código Civil e no Código de Defesa do Consu-
midor. São Paulo: Atlas, 2003.

TARTUCE, Flávio. Direito Civil: Direito das Obrigações e Responsabilidade Civil. 12. ed. rev., atual. e
ampl. Rio de Janeiro: Forense, 2017. Volume 2.

______; NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual do Direito do Consumidor: Direito Material e
Processual. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2017.

– 138 –
TEMA 19
Práticas comerciais abusivas
Raquel Helena Hernandez Fernandes

Introdução
As relações de consumo envolvem práticas comerciais que possuem algumas peculiarida-
des, as quais conheceremos ao longo desta aula.

Objetivos de aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• entender o conceito de práticas comerciais;


•• identificar a oferta;
•• diferenciar publicidade abusiva e enganosa;
•• identificar a cobrança de dívidas e a inserção dos dados em bancos de dados.

1 Conceito de práticas comerciais


Práticas comerciais são formas pelas quais o fornecedor coloca no mercado os seus produtos
ou serviços. Segundo Benjamin (1998 apud EFING, 2004, p. 183-184), “[...] são procedimentos, meca-
nismos, métodos e técnicas utilizados pelos fornecedores para, mesmo indiretamente, fomentar,
manter, desenvolver e garantir a circulação de produtos e serviços até o destinatário final”.
O Código de Defesa do Consumidor (CDC) apresenta as práticas comerciais em seu Capítulo
V, sendo elas: oferta, publicidade, práticas comerciais abusivas, cobrança de dívidas e banco de
dados (BRASIL, 1990). E quem são seus alvos? Os consumidores, conforme o artigo 29 do CDC,
que os define como todas e quaisquer pessoas determináveis ou não que estejam em situações
de práticas comerciais.

2 Da oferta
É importante que você não confunda promoção com oferta. A promoção é um desconto de
preço, produto ou serviço que o fornecedor concede ao consumidor.

FIQUE ATENTO!

Para o Direito, oferta e promoção são diferentes.

– 139 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Já a oferta é a forma de comunicação que o fornecedor tem para seduzir ou atrair o consu-
midor para que este adquira bens ou serviços, o que inclui informações sobre o produto e preço.
Entre essas estratégias para atrair o consumidor, está a oferta de descontos.

Figura 1 – Oferta de produto/serviço

Fonte: creo77/Shutterstock.com

O CDC traz os regramentos da oferta nos artigos 30 a 35 e dispõe que: “Toda informação
ou publicidade, suficientemente precisa, veiculada por qualquer forma ou meio de comunicação
com relação a produtos e serviços oferecidos ou apresentados, obriga o fornecedor que a fizer
veicular ou dela se utilizar e integra o contrato que vier a ser celebrado” (BRASIL, 1990, s.p.). Lendo
e refletindo sobre esse artigo, percebemos a presença dos princípios da boa-fé objetiva, o da trans-
parência e o da vinculação. Este último traz a ideia de que há vínculo entre os produtos e serviços
e a informação e publicidade sobre eles.

EXEMPLO
Como funciona, na prática, o princípio da vinculação? Suponha que uma oferta in-
forma que certo brinquedo acompanha mais três peças. Se algum consumidor ad-
quirir o brinquedo, ele também deve receber essas três peças.

E como deve ser o conteúdo da oferta? O CDC responde a essa pergunta no artigo 31:

A oferta e apresentação de produtos ou serviços devem assegurar informações corretas, cla-


ras, precisas, ostensivas e em língua portuguesa sobre suas características, qualidades, quanti-
dade, composição, preço, garantia, prazos de validade e origem, entre outros dados, bem como
sobre os riscos que apresentam à saúde e segurança dos consumidores. (BRASIL, 1990, s.p.).

Assim, o consumidor deve ser informado completamente sobre o produto ou serviço que
está adquirindo, de modo que não tenha dúvidas. Portanto, o conteúdo da oferta deve ser de fácil
compreensão (TARTUCE; NEVES, 2017).

– 140 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Em relação à Responsabilidade Civil do fornecedor na vinculação da oferta, ela é de natureza


objetiva (TARTUCE; NEVES, 2017), ou seja, não há necessidade de se comprovar a sua culpa.
A oferta inclui a publicidade, que é o principal artificio para oferecimento de produtos ou servi-
ços (TARTUCE; NEVES, 2017). A seguir, conheceremos seu conceito e suas peculiaridades.

3 Da publicidade
A publicidade é qualquer forma encontrada para transmitir informações com o objetivo de
provocar a aquisição de produtos ou serviços no mercado de consumo (TARTUCE; NEVES, 2017).
Mas você já percebeu que publicidade, muitas vezes, é usada como sinônimo de propaganda? Isso
está incorreto, pois são dois conceitos diferentes.

FIQUE ATENTO!

Publicidade e propaganda não são sinônimos!

A publicidade tem por objetivo promover a circulação de produtos e serviços, com intuito de
lucro. Já a propaganda visa circular ideias políticas, ideológicas ou sociais, sem intenção de lucrar.

EXEMPLO
Um fabricante de sabonetes promove a circulação de seu produto por meio de pu-
blicidade transmitida por televisão. É diferente da propaganda política, por exemplo,
que não divulga produtos e não tem objetivo de lucrar.

Segundo Tartuce e Neves (2017), a publicidade é regida por três princípios fundamentais:
•• Princípio da Identificação: veda a publicidade mascarada (simulada ou dissimulada) ou
clandestina;
•• Princípio da Veracidade: veda a publicidade enganosa;
•• Princípio da Vinculação: os produtos e serviços anunciados estão vinculados à oferta,
portanto, devem ser obtidos integralmente pelo consumidor que adquiri-los.

Na prática, o que isso significa? Para o Direito, a publicidade mascarada (também conhecida
como simulada, dissimulada ou clandestina) não quer demonstrar a sua real intenção de ser publi-
cidade. Como exemplo, podemos pensar no merchandising quase imperceptível que acontece em
programas de TV (TARTUCE; NEVES, 2017). Esse tipo de publicidade é vedado pelo artigo 36 do CDC.

– 141 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Figura 2 – Publicidade

Fonte: Syda Productions/Shutterstock.com

E quanto à publicidade enganosa? Primeiramente, é preciso entender a distinção entre publi-


cidade enganosa e publicidade abusiva. A primeira traz informações falsas que induzem o consu-
midor ao engano e é proibida pelo parágrafo 1º do artigo 37 do CDC. A segunda é ilícita por trazer
conteúdo com abuso de direito (TARTUCE; NEVES, 2017). Como exemplo, podemos pensar nas
publicidades que agridem valores morais e éticos.

4 Das práticas abusivas


Antes de conhecer as práticas abusivas, é necessário que você conheça o abuso de direito,
conceituado pelo artigo 187 do Código Civil (CC) como qualquer prática executada pelo titular de
um direito que exceda manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico e social, pela
boa-fé ou pelos bons costumes (BRASIL, 2002). Assim, podemos entender que o abuso de direito
é um ato ilícito.
O CDC entende as práticas abusivas como abusos de direito e, em seu artigo 39, lista em
seus incisos alguns que constituem práticas abusivas nas relações consumeristas. Para compre-
ender melhor, vamos conhecer e interpretar o seu inciso I.: ““Art. 39. É vedado ao fornecedor de pro-
dutos ou serviços, dentre outras práticas abusivas: (Redação dada pela lei 8.884/94):I - condicionar
o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto ou serviço, bem como,
sem justa causa, a limites quantitativos; “

– 142 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Figura 3 – Práticas Abusivas

Fonte: elwynn/Shutterstock.com

De acordo com esse inciso, um exemplo de prática abusiva é condicionar o fornecimento de


determinado produto ou de serviço ao de outro ou a certos limites quantitativos sem justa causa
(BRASIL, 1990). Interprete o inciso e responda: você já ouviu falar em venda casada? Venda casada
ocorre quando o consumidor só consegue adquirir um produto ou serviço condicionando a aquisi-
ção conjunta de outro produto e/ou serviço. É o caso, por exemplo, de cinemas que não permitem
a entrada de pessoas com pipoca diferente da fornecida pelo próprio estabelecimento. Em relação
aos limites quantitativos, fica claro quando pensamos no exemplo de um lojista que faz promoção
de “leve 3 e pague 2”. A promoção é legal e válida só se o consumidor tiver a opção de adquirir os
produtos separadamente (TARTUCE; NEVES, 2017). Assim, limite quantitativo ocorre quando o
fornecedor exige que o consumidor adquira algo da mesma qualidade em quantidade maior.

SAIBA MAIS!

Para conhecer outros exemplos de práticas abusivas, leia o artigo 39 do CDC,


disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078.htm>.

5 Cobrança de dívidas e o cadastro em banco de dados


Provavelmente você já ouviu alguém falar que está com o nome sujo e não consegue crédito
no mercado. Isso ocorre por causa dos bancos de dados nos quais os consumidores podem ser
incluídos. Segundo o parágrafo 4º do artigo 43 do CDC, os cadastros e bancos de dados de consu-
midores são entidades de caráter público que armazenam informações sobre eles (BRASIL, 1990).
Entretanto, são práticas diferentes.

– 143 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

O banco de dados armazena informações do consumidor sem seu consentimento, que


podem ser transmitidas à terceiros, ou seja, a divulgação é externa (TARTUCE; NEVES, 2017). Um
exemplo é justamente o dos bancos de dados de consumidores inadimplentes.

SAIBA MAIS!
Para conhecer melhor os bancos de dados de consumidores, visite o site da Serasa
Experian, disponível em: <https://www.serasaexperian.com.br/>, que mantém ban-
cos de dados de inadimplentes.

Já o cadastro é efetuado com o consentimento dos consumidores para orientar negociações


entre eles e as empresas. Diferentemente do banco de dados, portanto, os dados não são divul-
gados externamente e utilizados apenas pela empresa que o mantém (TARTUCE; NEVES, 2017).
Como exemplo, podemos pensar em instituições bancárias que possuem informações sobre con-
sumidores que são devedores e, diante delas, decidem se concedem ou não empréstimos.

FIQUE ATENTO!

Banco de dados e cadastro de consumidores são práticas diferentes!

Vimos que consumidores que têm dívidas podem ser incluídos em bancos de dados e cadas-
tros. Mas como cobrá-los? Isso só pode ser feito se as dívidas realmente existirem.

Figura 4 – Dívidas

Fonte: Joachim Wendler/Shutterstock.com

– 144 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Suponhamos que um fornecedor insere o nome de determinado consumidor em um banco


de dados, mas sua dívida é inexistente. Nesse caso, o parágrafo 3º do artigo 43 do CDC determina
que ele deverá retirar o nome do consumidor no prazo de cinco dias úteis (BRASIL, 1990). Caso
isso não ocorra, o fornecedor precisará pagar indenizações de ordem moral, uma vez que há viola-
ção de um direito da personalidade (TARTUCE; NEVES, 2017).
O mesmo ocorre se a dívida existir, mas for quitada pelo consumidor. Assim que o valor
devido é pago, o fornecedor deve retirar o nome do consumidor do banco de dados no mesmo
prazo (TARTUCE; NEVES, 2017). Se isso não ocorrer, a situação também ensejará indenização de
ordem moral.
Por fim, o que acontece se um consumidor for cobrado indevidamente de uma dívida e pagá-
-la? O artigo 42 do CDC determina que ele tem direito a receber do fornecedor o dobro do valor
pago, configurando repetição de indébito.

Fechamento
Conhecemos um pouco sobre as normas que regem as práticas comerciais no Brasil. Nesta
aula, você teve a oportunidade de:

•• conhecer o conceito de práticas comerciais;


•• entender que oferta, publicidade e propaganda são práticas comerciais distintas;
•• saber o que são práticas abusivas;
•• entender a diferença entre banco de dados e cadastro de consumidores e suas respec-
tivas peculiaridades.

Referências
BRASIL. Presidência da República. Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. Diário Oficial da União,
Brasília, 12 set. 1990. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078.htm>.
Acesso em: 7 set. 2017.

______. Presidência da República. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Diário Oficial da União,
Brasília, 11 jan. 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.
htm>. Acesso em: 5 out. 2017.

EFING, Antônio Carlos. Fundamentos do Direito das relações de consumo. 2. ed. Curitiba: Juruá,
2004.

SERASA EXPERIAN. 2017. Disponível em: <https://www.serasaexperian.com.br/>. Acesso em: 10


out. 2017.

TARTUCE, Flávio; NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual do Direito do Consumidor: Direito
Material e Processual. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2017.

– 145 –
TEMA 20
Vício oculto. Vício redibitório
(rescisão do contrato por vício redibitório)
Raquel Helena Hernandez Fernandes

Introdução
Algumas vezes, os produtos e serviços vêm acompanhados de vícios, que são problemas intrín-
secos a eles, que não extrapolam seus limites, não causando outros danos ao consumidor. Mas você
sabia que existem dois tipos de vícios? São o oculto e o redibitório, que estudaremos a seguir.

Objetivos de aprendizagem
Ao final desta aula, você será capaz de:

•• diferenciar vício oculto do redibitório;


•• entender os prazos para reclamar e a rescisão contratual.

1 Conceito de vício oculto e redibitório


nas relações jurídicas
Você já adquiriu um produto e percebeu só um tempo depois que ele não funcionava como
deveria? É um vício oculto, que não é aparente e se manifesta com o decorrer do tempo, tor-
nando o produto ou serviço impróprio ou diminuindo seu valor (TARTUCE; NEVES, 2017; CAVA-
LIERI FILHO, 2014).

Figura 1 – Vício oculto no aparelho de TV

Fonte: g-stockstudio/Shutterstock.com

– 146 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

O vício redibitório é considerado um vício oculto, mas das relações contratuais e atinge o
objetivo do negócio. Assim, ele também tona o bem impróprio para uso ou diminui o seu valor, mas
é considerado grave e contemporâneo, isto é, existente já no momento da celebração do contrato
(TARTUCE; NEVES, 2017; CAVALIERI FILHO, 2014).

FIQUE ATENTO!

Vício oculto e vício redibitório são diferentes.

Perceba, então, que o vício oculto está ligado às relações de consumo, prevalecendo o Código
de Defesa do Consumidor (CDC), enquanto o vício redibitório está ligado à esfera contratual e ao
CC, podendo ser oculto ou aparente.

EXEMPLO
Imagine uma pessoa que comprou um liquidificador. Após um certo tempo de uso, o
motor do liquidificador falha devido a uma peça que foi mal encaixada na fabricação,
o que ilustra um vício oculto. Perceba que existe uma relação consumerista. Como
exemplo de vício redibitório, podemos pensar em um indivíduo que recebeu um carro
como pagamento de uma dívida. Um dia, em uma subida, ele descobre que o motor
aquece nas subidas, inviabilizando o uso do veículo. Esse aquecimento sempre exis-
tiu, mesmo antes da celebração do negócio jurídico. Perceba que, nesse caso, existe
uma relação contratual, e não consumerista. Além disso, o vício já existia na época da
celebração do negócio jurídico (recebimento do carro como pagamento).

Para que você compreenda melhor cada tipo de vício, veja a seguir quais são os requisitos
para caracterizá-los, iniciando pelo vício oculto.

2 Requisitos fundamentais para configuração


do vício oculto
Como saber se um vício é oculto? Existem alguns requisitos. O vício oculto só aparece um
tempo após a aquisição. O consumidor percebe a sua existência, mas não sabe a causa, algo que
só um olhar técnico consegue diagnosticar. Além disso, o CDC não especifica se ele precisa ser
grave (CAVALIERI FILHO, 2014). Outro fator importante é que o vício oculto não se confunde com
o desgaste natural do bem devido ao seu uso (TARTUCE; NEVES, 2017).

– 147 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

FIQUE ATENTO!

O vício oculto não pode ser confundido com o desgaste natural do produto.

Figura 2 – Vício oculto em um notebook

Fonte: sukiyaki/Shutterstock.com

E como responsabilizar o fornecedor? Em casos de vício oculto, conforme o CDC, a Respon-


sabilidade Civil é objetiva, isto é, sua culpa não precisa ser comprovada (BRASIL, 1990).
Quando ao vício redibitório, não há solidariedade entre fornecedores, ou seja, só quem cele-
brou o contrato tem responsabilidade, pelo Princípio da Relatividade dos Efeitos Contratuais (TAR-
TUCE; NEVES, 2017). Além disso, o artigo 444 do CC dispõe que o alienante (quem vende o produto
ou serviço ao celebrar o contrato) permanece responsável pelo produto ou serviço caso pereça por
vício oculto mesmo já em poder do alienatário (aquele que adquire o bem).

FIQUE ATENTO!

Nos casos de vícios redibitórios, a Responsabilidade Civil não ultrapassa o alienante.

– 148 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

3 Requisitos fundamentais para configuração


do vício redibitório
O vício redibitório é caracterizado por ser vício oculto de bens móveis ou imóveis, duráveis e
não duráveis, que foram recebidos por meio de uma relação contratual, sendo contratos comutati-
vos (CAVALIERI FILHO, 2014; BRASIL, 2002).

SAIBA MAIS!
Contratos comutativos são aqueles que formalizam negócios jurídicos que não
apresentam riscos em relação às prestações, pois essas são certas e determina-
das. Um contrato de compra e venda, por exemplo, é um contrato comutativo, uma
vez que o vendedor já sabe qual valor será pago, e o comprador, qual coisa será
entregue (TARTUCE, 2017).

Além disso, o vício redibitório é grave, de forma que inviabilizaria o contrato se fosse conhe-
cido antes da sua celebração. Outra característica fundamental é que ele deve ser contemporâneo
ao momento da celebração do contrato, ou seja, já existir anteriormente (CAVALIERI FILHO, 2014).

Figura 3 – O vício redibitório está relacionado a relações contratuais

Fonte: eans/Shutterstock.com

Agora, você pode estar se perguntando: o que fazer ao descobrir um vício em um produto? É
o que veremos a seguir.

– 149 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

4 Dos prazos para reclamar e a rescisão contratual


O vício oculto está consagrado no CDC, que traz, em seus artigos 18, 19 e 20, alternativas
para o consumidor caso o vício não seja sanado no prazo máximo de 30 dias. Esse período pode
ser reduzido ou ampliado em comum acordo ente as partes, desde que não seja inferior a sete dias
e nem superior a 180 (BRASIL, 1990).

Figura 4 – Prazo mínimo: 7 dias

Fonte: TZIDO SUN/Shutterstock.com

Você se lembra, entretanto, que o vício oculto só é descoberto um tempo após a aquisição do
produto, correto? Então, quando começa a contagem desse prazo? A resposta está no parágrafo
3º do artigo 26 do CDC: “Tratando-se de vício oculto, o prazo decadencial inicia-se no momento em
que ficar evidenciado o defeito” (BRASIL, 1990, s.p).
Os mesmos prazos para reclamar de vícios aparentes, contidos nos incisos I e II do artigo
26, também valem para os vícios ocultos, desde que comecem a contar a partir do momento em
que ele foi constatado: 30 dias para produtos e serviços não duráveis e 90 para duráveis. Como
exemplo, podemos pensar no caso de uma pessoa que adquire um aparelho de TV (bem durável)
e após um certo tempo de uso constata que o aparelho desliga sozinho e por vício de fabricação.
Logo, o consumidor tem prazo de 90 dias para reclamar esse vício.
Esses prazos do artigo 26 do CDC são conhecidos como garantias legais, ou seja, prazos
estipulados em lei para que o consumidor reclame dos vícios (SÃO PAULO, 2017).

– 150 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

SAIBA MAIS!
Para entender melhor o vício oculto e garantias, leia o texto “Você sabe o que é vício
oculto?”, do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), disponível em: <ht-
tps://www.idec.org.br/consultas/dicas-e-direitos/voce-sabe-o-que-e-vicio-oculto>.

E quanto ao vício redibitório? O artigo 442 do CC afirma: “Em vez de rejeitar a coisa, redibindo
o contrato (art. 441), pode o adquirente reclamar abatimento no preço” (BRASIL, 2002, s.p.). Ou
seja, quem obteve o produto tem a opção de pedir o abatimento do preço, ao invés de rescindir
(redibir) o contrato.
O artigo 443 do CC prossegue: “Se o alienante conhecia o vício ou defeito da coisa, restituirá
o que recebeu com perdas e danos; se o não conhecia, tão-somente restituirá o valor recebido,
mais as despesas do contrato” (BRASIL, 2002, s.p.). Assim, se o alienante sabia da existência do
vício, deverá restituir o que recebeu e ainda incluir valores referentes a perdas e danos. Em caso
de desconhecimento, precisará somente devolver o valor que recebeu e incluir despesas oriundas
do contrato.
E quando reclamar nesses casos? Segundo o artigo 445 do CC, o adquirente tem até 30 dias
para requerer seu direito de obter a redibição (rescisão contratual) por via judicial ou o abatimento do
preço se a coisa for móvel. No caso de ser imóvel, o prazo é de um ano. Em ambas as situações, os
prazos contam a partir da entrega efetiva do produto ou serviço. Caso a coisa já esteja na posse do
adquirente, o prazo começa a contar a partir da alienação, sendo reduzido à metade (BRASIL, 2002).

EXEMPLO
Duas pessoas celebram contrato de compra e venda de uma máquina que produz
adesivos, mas, logo após a aquisição, o comprador percebe que ela está borrando
os adesivos, devido a um vício de uma peça da máquina. Esse vício já existia no
momento da celebração do contrato, logo, o prazo para o comprador rescindir o
contrato ou requerer abatimento no preço da máquina é de 30 dias a partir do mo-
mento que ele descobriu o problema.

E se, por sua natureza, o vício só for descoberto mais tarde? Nesse caso, o parágrafo 1º do
artigo 445 do CC estabelece que o prazo começa a ser contado do momento que o adquirente sou-
ber do problema e é de, no máximo, 180 dias para bens móveis e um ano para imóveis. Nesse caso,
podemos pensar em situações nas quais o vício não é identificável pelo simples uso. Como exem-
plo, podemos pensar em uma casa repleta de goteiras, que só aparecerão em época de chuva.
Lembre-se de um detalhe importante: a garantia. O alienante pode fornecer ao adquirente
prazo de garantia. Assim, determina-se um certo período em que o alienante se responsabiliza pelo
aparecimento de qualquer vício no bem móvel ou imóvel. Nesse sentido, todos os prazos mencio-
nados não correrão durante a validade dessa garantia, mas o adquirente deve informar o defeito
ao alienante nos 30 dias seguintes ao seu descobrimento, mesmo estando no prazo de garantia,
de acordo com o art. 446 do CC (BRASIL, 2002).

– 151 –
FUNDAMENTOS DE DIREITO

Por fim, perceba que o CDC traz mais proteção ao consumidor em casos de vícios ocultos
do que o CC traz ao adquirente em casos de vícios redibitórios (CAVALIERI FILHO, 2014). Isso se
constata por meio dos prazos e alternativas que o consumidor e o adquirente possuem.

Fechamento
Vimos os tipos de vícios e por quais regimentos legais cada um está regulamentado.
Nesta aula, você teve a oportunidade de:

•• conhecer o vício oculto e o vício redibitório e diferenciá-los;


•• perceber que o vício oculto está relacionado às relações consumeristas, enquanto o
vício redibitório está relacionado às relações contratuais;
•• conhecer os prazos para reclamar dos vícios e a possível rescisão contratual em caso
de vício redibitório.

Referências
BRASIL. Presidência da República. Lei n. 8.078, de 11 de setembro de 1990. Diário Oficial da União,
Brasília, 12 set. 1990. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078.htm>. Acesso
em: 7 set. 2017.

______. Presidência da República. Lei n. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Diário Oficial da União,
Brasília, 11 jan. 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/L10406.
htm>. Acesso em: 5 out. 2017.

CAVALIERI FILHO, Sérgio. Programa de Direito do Consumidor. 4. ed. Rio de Janeiro: Atlas, 2014.

INSTITUTO BRASILEIRO DE DEFESA DO CONSUMIDOR. Você sabe o que é vício oculto? Instituto
Brasileiro de Defesa do Consumidor, 19 maio 2014. Disponível em: <https://www.idec.org.br/con-
sultas/dicas-e-direitos/voce-sabe-o-que-e-vicio-oculto>. Acesso em: 16 out. 2017.

SÃO PAULO. O que é garantia legal? Orientações de consumo: perguntas frequentes: prazo. Funda-
ção Procon-SP, São Paulo, [20--]. Disponível em: <http://www.procon.sp.gov.br/texto.asp?id=2860>.
Acesso em: 18 out. 2017.

TARTUCE, Flávio. Direito Civil: teoria geral dos contratos e contratos em espécie. 12. ed. rev., atual.
e ampl.. Rio de Janeiro: Forense, 2017. Volume 3.

TARTUCE, Flávio; NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Manual do Direito do Consumidor: Direito
Material e Processual. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2017.

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