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Chances para o Amor


DUOLOGIA O Segredo dos Signos Valentina K. Michael
LIVRO NÃO INDICADO PARA MENORES DE 18 ANOS.
Por conter cenas de sexo e linguagem adulta.

Gênero: Romance Erótico


Copyright © 2016 Valentina K. Michael

Esta é uma obra de ficção. Nomes, personagens, lugares e acontecimentos descritos, são
produtos de imaginação do autor. Qualquer semelhança com nomes, datas e acontecimentos reais é
mera coincidência.

Revisão: Bianca Ferreira Capa: Gabriela Santanna (GR Design) Diagramação Digital: Layce
Design Todos os direitos reservados.
São proibidos o armazenamento e/ou a reprodução de qualquer parte dessa obra, através de
quaisquer meios — tangível ou intangível — sem o consentimento escrito da autora.
A violação dos direitos autorais é crime estabelecido pela lei nº. 9.610./98
e punido pelo artigo 184 do Código Penal.
Edição Digital | Criado no Brasil.
Sumário
AGRADECIMENTOS
PRÓLOGO
UM
DOIS
TRÊS
QUATRO
CINCO
OS DOZE SIGNOS DE ELENA
INÍCIO DOS ENCONTROS
1° ENCONTRO: VIRGEM
2° ENCONTRO: AQUÁRIO
SEIS
3° ENCONTRO: SAGITÁRIO
SETE
OITO
4° ENCONTRO: GÊMEOS
NOVE
DEZ
ONZE
5° ENCONTRO: ÁRIES
DOZE
TREZE
6° ENCONTRO: LEÃO
QUATORZE
7° ENCONTRO: TOURO
QUATORZE
QUINZE
DEZESSEIS
DEZESSETE
8° ENCONTRO - CANCÊR
DEZOITO
DEZENOVE
VINTE
VINTE E UM
VINTE E DOIS
VINTE E TRÊS
VINTE E QUATRO
VINTE E CINCO
VINTE E SEIS
VINTE E SETE
VINTE E OITO
VINTE E NOVE
TRINTA
TRINTA E UM
EPÍLOGO
O Amor do Escorpião
REFERÊNCIAS
OUTRAS OBRAS DA AUTORA:
CONTATO
AGRADECIMENTOS

Ao meu querido irmão Michael que me deu grandes ideias e me ajudou em várias partes, durante
a execução do livro.
Aos meus leitores que desde o início, quando o livro ainda era um projeto, estiveram ao meu
lado, apoiando e desejando mais e mais capítulos. Agradeço a maravilhosa interação que tivemos a
cada capitulo pronto.
A todas as meninas do grupo particular no Facebook e nos grupos no Whatsapp, que estão
constantemente me dando forças, me apoiando e sempre apaixonadas pelos livros.
Em especial, agradeço a Bianca Ferreira, que me ajudou muito na preparação do livro e a
Alexsandra Peres que me animou e me fez continuar batalhando pelos meus sonhos.
PRÓLOGO

Naquela tarde, eu tinha esperado minha mãe sair e convidei uma garota para me fazer
companhia. Para transar, sendo mais direto.
Começamos bem, foda normal: ela chupou meu pau por uns cinco minutos, depois eu a coloquei
de pernas abertas na cama e a chupei com vontade, e após vestir um preservativo eu comecei a me
deliciar.
Tudo estava indo bem demais, já estávamos na terceira posição, a garota de quatro em cima da
cama, e eu por trás sem dar trégua. Ela gemendo enlouquecida, eu todo suado, abrindo-a com meu
pau. Foi então que levantei o rosto e vi na fresta da porta alguém nos olhando boquiaberta e olhos
arregalados.
Elena.
— Quem é ela? — A garota que eu estava comendo gritou. Se afastando, agarrando um lençol
para se cobrir.
— Minha irmã. — Eu respondi já de pé, vestindo uma calça sem nem tirar a camisinha do pau.
— Você não disse que tinha uma irmã! — A garota reclamou.
— Depois eu te explico. — Falo por cima do ombro já correndo porta a fora atrás de Elena. Só
quem é homem sabe como é desconfortável correr de pau duro.
Droga, uma semana antes de eu viajar, ela tinha que ter visto isso? Logo ela?

(…)
Verão de 2005 – Rio de Janeiro, Brasil

Eu nunca pensei em ter que um dia sair do Brasil. Mas tudo veio tão de repente e me pegou de
surpresa. Tenho vinte e dois anos e foi recentemente que minha mãe recebeu uma carta que nos
convocava a uma reunião no escritório de um advogado.
Saí de lá absolutamente perplexo quando descobri que meu pai, o cara que me abandonou aos
cinco anos, tinha acabado de falecer e deixado tudo para mim em outro país.
Eu tinha que viajar o mais rápido possível para impedir que minha madrasta e o filho dela
tomassem posse do que é meu por direito. Minha mãe ainda tentou impedir, pediu que deixasse para
lá e pronto. Mas o orgulho falou mais alto. Se eu tenho direito, então eu vou. Com a cara e a coragem
eu vou enfrentar aquela gente e pegar tudo o que foi do meu pai, aquele maldito que me fez sofrer
tanto. Agora com essa herança, ele não fez mais que a obrigação dele.
— Quin, vamos sentir sua falta, cara. — Esse que fala e me abraça é Edgar, meu melhor amigo.
Acabamos de entrar em um bar e vamos tomar um porre, um bota fora para mim. Me rodeando além
de Edgar, está Miguel e Léo. Os três irmãos. Meus três irmãos de coração.
— Bem que você poderia transferir essas coisas para cá. — Miguel propõe ainda com esperança
de que eu fique.
Olho para o copo de cerveja a minha frente e meneio a cabeça. Na verdade, não dá. É uma
cláusula do testamento. Parece que meu pai quer juntar os dois filhos, o bastardo e eu.
Eu praticamente fui criado na casa desses garotos. Com eles e com a pequena Elena. Ela foi e é
para mim a face da perfeição, não pela beleza, pois ela não tem isso, mas pelo enorme e caridoso
coração.
Quando eu me mudei para essa cidade e passei a frequentar aquela casa, ela era só uma
garotinha de seis anos. E ainda lembro dela tendo birra comigo. O tempo passou, Elena cresceu com
a gente e está se transformando em uma jovem. As vezes eu até sinto pena dela, está começando a
descobrir os prazeres da vida, mas eu e os três irmãos não deixamos ela muito a vontade, por assim
dizer.
Nós sempre estamos no pé dela, sempre a seguimos na casa das amigas, e o pai dela nunca a
deixa dormir fora. Elena é nossa mascote, é tímida, gente boa e temos medo de que algum sem
vergonha se aproveite dela. Já perdemos as contas de quantos colocamos para correr e, em alguns
topetudos já até descemos o braço sem dó. Elena continua intocável.
— Eu ficarei bem, cambada. — Bagunço os cabelos de Léo e falo: — Vou vender aquela merda e
logo estarei de volta. — Não sei se estou tentando confortá-los ou confortar a mim mesmo. Tomo um
gole de cerveja e olho curioso para os três.
— E Elena? Não vem?
Os irmãos se entreolham e dão de ombros.
— Quin, você conhece o papai. Ele jamais permitiria que minha irmã entrasse em um bar. —
Edgar explica.
— É, eu entendo. Ela tem apenas 16 anos.
— Mas pediu que lhe entregasse isso. — Léo tira algo do bolso e me dá. É o Ipod rosa e branco
dela. — Disse que você tem músicas horríveis, é para passar o tempo na viagem.
Fico olhando fixo para o aparelho com fones de ouvidos na minha mão.
Me lembro de quando ela o ganhou e insistiu para que eu ouvisse a seleção dela. Sentamos no
sofá, dividindo os fones. Elena deitou a cabeça no meu ombro e ficamos calados ouvindo I Can’t
Fight this Feeling Anymore. Por muito tempo eu esqueci esse episódio, o dia em que escutei uma
música qualquer com minha irmã de coração. Mas hoje, olhando o mesmo Ipod, lembrando da cena e
sabendo o que a letra da música diz, eu me pergunto se teve algo por trás da música que ela escolheu.
— O que foi? Não gostou do presente? — Um dos irmãos pergunta.
Olho para eles.
— Sim, gostei. Gostei muito.
Na manhã seguinte eu peguei um avião rumo à Nova York. Eu não tinha certeza de nada, do que
eu ia encontrar e como eu iria lidar com tudo. E agora tudo que eu jurava conhecer está meio
balançado.
Elena… magrela, cabelos sempre presos em uma trança comprida, óculos grandes… será que
ela estava mesmo jogando charme para mim? Logo para mim que sou como um irmão? Não consigo
sentir nada por ela. Me dá até calafrios se eu tentar pensar sobre isso.
No avião, pego o Ipod e procuro a música. Acho e coloco os fones de ouvido.
“Eu não consigo mais lutar contra este sentimento
E no entanto, tenho medo de deixá-lo fluir
O que começou como uma amizade tornou-se mais forte…”

A música começa e eu fecho os olhos. Ainda bem que estou indo embora, seria uma pena eu ter
que machucar o coração de Elena.
UM

Assim que desço do avião, sinto logo o cheiro de luxo me dar boas vindas. Não que no Brasil
não tenha lugares luxuosos, mas parece que Nova York cheira diferente. Não sei se foi o meu sonho
acumulado por dez anos, tanta expectativa, tantas reviravoltas, brigas até, por isso acabo vendo isso
como uma vitória pessoal.
Não sei quanto tempo vou ficar, não sei ao certo o que vim buscar aqui. Mas estou de nariz em
pé, com a certeza absoluta de que, vir para cá, foi uma ótima escolha.
Empurrando o carrinho de malas, começo a procurar pelos lados até ver uma jovem que pula
afoita e vem correndo em minha direção.
— Ai meu Deus! — Ela berra sem se importar com as outras pessoas e me cobre com um
abraço, quase me derrubando no chão. — Nem posso acreditar! Você veio mesmo.
— Sim. Eu vim. — Resmungo com dificuldade por causa do aperto dos braços dela. — Só
espero que Edgar não queira me matar. — Suspiro.
— Estou tão feliz que tenha aceitado minha proposta. — Ela se empertiga e olha minhas malas.
— Elena, ele não é capaz de fazer nada contra você. Te garanto, amiga.
— Sei não, Celeste. Ele é meu irmão mais velho. Lembra o que ele e os outros faziam comigo?
— Ele é meu noivo. — Celeste contesta. — Ele não vai querer perder as regalias que tem na
cama comigo.
— Credo! Para de falar isso. Não quero imaginar meu irmão com minha amiga.
Ela envolve meu braço com o dela e começamos a andar.
Celeste é minha amiga desde sempre, nos conhecemos quando eu entrei para o clube musical
que ela já participava, com apenas doze anos. Somos almas gêmeas. Fazíamos tudo juntas, desde
estudar a cantar juntas no coral. Ela é uma morena alta, curvilínea, pele cor de canela e um belo
cabelo negro esvoaçante. No fim, meu irmão mais velho acabou seduzindo minha amiga.
— Anote isso, Elena: se algum daqueles idiotas ousarem te trancar em um quarto mais uma
vez…
— Nem me lembre disso. — Eu interrompo-a tentando não levar minha mente para essa época.
Isso por que eu me lembro de como eu passava raiva. Toda vez que eu começava a me rebelar, os três
se juntavam e me trancavam no quarto dizendo que eu precisava de um tempo para refletir. O que me
deixa mais incomodada é lembrar que as duas vezes que meus irmãos me trancaram, Quin estava
com eles e ficou rindo, enquanto eu chorava humilhada.
Engulo um bolo amargo e balanço a cabeça para afastar esses pensamentos. Não tenho mais
dezesseis anos, sou adulta e ninguém pode me subjugar.
— Menina, você está magnífica. — Celeste resolve esquecer o assunto e diz me olhando de
soslaio. — Olha essas coxas. Whey Protein? — Ela abaixa e bate na minha perna.
— Não. Apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador.
— Cruzes. — Celeste torce o bico e corre para a porta na tentativa de parar um táxi. — Não vim
com meu carro, está na oficina. Como sempre. — Ela explica gritando já lá fora.
Eu a acompanho com meu carrinho de malas.
Enquanto Celeste briga com um homem por um táxi eu respiro fundo e fecho os olhos.
O que estou fazendo aqui, meu Deus? — Pergunto interiormente. Tenho uma vida perfeita no
Brasil, me formei em enfermagem e sou uma boa profissional; conseguia pagar minha própria
comida, o aluguel e as roupas. E do nada venho para um lugar procurar emprego, sem meu irmão
saber… sem Joaquim saber.
Quin…
Alto, forte, olhos instigantes, cinza azulado como dos predadores, cabelos cor de ouro, quase
escuros e um pouco mais claros ao sol. Fios desobedientes caindo-lhe na testa e que lhe dava um
charme delirante quando levantava a mão e os jogava para trás.
Aos vinte e dois anos, trabalhava em uma transportadora no Brasil e adquiriu um corpo atlético,
duro e viril. Hoje ele está mais encorpado e é dono de uma deslumbrante imagem que é mais
apropriada chamar de pecado.
Há dez anos eu não o vejo. No início, quando ele partiu para reivindicar sua herança, falávamos
sempre por telefone, mas a relação foi esfriando e nunca mais o vi, pessoalmente eu quero dizer.
Desde que partiu ele não voltou mais ao Brasil.
Tenho notícias vagas sobre ele pois Edgar, meu irmão mais velho, se mudou há uns três anos
para cá com Celeste, ele é contador da empresa de Quin.
No fundo eu não quero saber nada dele. Dói bastante abrir um site de fofocas ou ver uma revista
americana com ele na capa. As notícias tendenciosas sempre mostrando-o com uma bela mulher. Elas
recebem o nome de dias da semana. Os tabloides não cansam de ser maldosos, tanto com ele como
com as companheiras.
Quin amadureceu e hoje aos trinta e dois anos é um tesão de homem de deixar qualquer uma
pirada. Além do fato de ser rico e badalado aqui em Manhattan. Ele fez de sua herança um império
invejável. Tem espalhado pelos Estados Unidos famosas e luxuosas casas de show e boates. Os
Mafra’s pub são os mais frequentados pela elite.
— Venha, Elena. O táxi é nosso. — Celeste grita e eu acordo dos meus devaneios. Vejo ao longe
o homem entrar em outro táxi e ir embora.
O taxista nos ajuda com minha bagagem e em seguida entramos no carro.
— Elena, mal posso esperar para ver a cara do seu irmão. — Celeste esfrega as mãos e após
pensar mais um pouco adiciona: — Joaquim também vai ficar surpreso.
Tenho um leve arrepio ao ouvir o nome dele. Meu coração acelera pelo reencontro iminente.
— Você… o vê muito? — Tento parecer desinteressada.
— Quase todos os dias. — Celeste mostra os dentes em um sorriso. — Moramos perto. Quase
sempre ele almoça com a gente.
— Hum…
— Continua o mesmo gato de sempre. — Ela comenta sem eu nem ter perguntado.
Olhando a cidade passar fora do carro, eu sinto outro calafrio. Não deixo transparecer, lógico,
mas minha nuca entra em alerta e a eletricidade vai descendo minha espinha. Nem consigo apreciar a
bela vista.
“O mesmo gato de sempre.”
Será mesmo que eu tenho estruturas para reencontrar Quin cara a cara? Eu me preparei para
esse momento, colei uma foto dele na parede do meu quarto e ficava ensaiando o que eu ia falar e
como agir… desinteressada.
— Nunca o achei lá essas coisas. — Digo dando de ombros. Sou uma boa atriz.
— Como não? — Celeste me olha bruscamente. — Quin é um dos solteiros mais disputados de
Manhattan. Toda mulher com neurônios suficientes e que goste de homem sente atração por ele.
— Bom, acho que é por que fomos criados praticamente juntos… — Contraponho sem muita
ênfase. Rolo a fivela da minha bolsa, incerta quanto aos meus pensamentos.
— É. Ele te considera uma irmã. — Celeste concorda e eu me afundo em sofrimento. Aguentei
isso a vida toda. Como é triste se apaixonar pelo cara errado. Não errado em canalhices, mas errado
por que Quin nunca será para mim. Nossa relação seria quase incesto, meus irmãos nunca
aprovariam e ele muito menos. Ou melhor, ele nunca sequer me olhou de outra maneira que não
fosse a bobinha moleca.
— E você Celeste? O que está fazendo da vida? Tirando a astrologia nas horas vagas.
— Eu sou uma astróloga legítima, querida. Apenas trabalho como diretora de departamento nos
tempos livres.
Dou uma risada olhando o nariz empinado dela.
— Também na empresa de Quin?
— Sim, com seu irmão. — Celeste fala e dá um gritinho em seguida que assusta até o taxista. —
Esqueci de te mostrar ao vivo. — Ela estende a mão para mim e um solitário lindíssimo brilha em
seu dedo.
Pego a mão dela e olho. Celeste já tinha me mostrado pelo Skype. Mas agora percebo que é bem
mais lindo. Meu irmão tem bom gosto.
— É lindo, amiga! Como andam os preparativos?
— A mil por hora. O casamento é daqui mais ou menos um mês e estou pra ficar doida. Ainda
bem que você está aqui para me ajudar.
Esse é um bom motivo para eu dizer pelo que vim. Para os meus pais eu disse que viria ficar um
mês com eles para ajudá-los com os preparativos. Fiz minha mãe jurar que não ia ligar para Edgar,
disse que eu queria surpresa. E ela até riu, imaginando a cara dele. O casamento será no Brasil, mas
eles não podem ficar um mês lá preparando as coisas.
Eu serei uma das madrinhas e já estou imaginando não ter ninguém para ir comigo. Com certeza
Celeste encontrará um primo de alguém para ser meu par no altar. Meu primeiro e único namorado
me abandonou por não suportar minha família, meus irmãos para ser mais sincera. Léo e Miguel
bateram nele quando descobriram por acaso, ouvindo minhas conversas, que eu tinha perdido a
virgindade. Chorei por quase uma semana. Estava tão eufórica por ter gostado da minha primeira
vez… foi triste vê-lo cheio de hematomas vindo terminar comigo.
— Edgar é mais feminino que eu. — Mais uma vez celeste me acorda de outro devaneio. — Se
dependesse de mim eu encomendaria mil pastéis e comprava vários refrigerantes. — Eu sorrio
automaticamente para ela.
— Cruzes celeste! Ainda bem mesmo que estou aqui. — Digo e meus pensamentos continuam
em meu passado de Rapunzel, quase presa em uma torre.

(…)
O apartamento de Edgar fica em um belo prédio perto do Central Park. Antes de chegarmos
aqui, passamos pela Madison, e Celeste me mostrou o prédio que Quin mora. Exuberante. Fiquei tão
curiosa em conhecer a nova casa dele. Será que teremos a mesma intimidade? A imagem dele
transando com aquela menina e depois correndo atrás de mim, jamais sairá da minha mente. Queria
poder ser ao menos amiga dele novamente, como antes.
Entrei meio desconfiada atrás de Celeste, olhando tudo em volta. Fui apresentada a todos os
cômodos da casa do meu irmão, e o que eu pesava ser um minúsculo apartamento, acabou se
transformando numa bela casa mesmo. Espaçosa e arejada. Celeste me colocou em um quarto que já
estava preparado. Segundo ela, Edgar achava que ela estava preparando para alguém da família que
viria visitá-la.
— Comprei até um tapete novo, Lena. — Ela diz apontando para o tapete vinho, felpudo.
Me sento na cama e sinto o agradável aconchego dos lençóis.
O quarto é pequeno, mas tem banheiro. Todos os móveis são claros, algo como marfim, as
paredes claras e duas enormes janelas panorâmicas. Dei uma espiada e pude ver a rua nova-iorquina
lá embaixo. Cortinas brancas e leves, como as minhas no Brasil. Além da cama e do armário grande,
há mesinhas de cabeceira, uma cômoda com um espelho enorme, uma poltrona e uma pequena
estante de livros vazia.
— Sei que ama leitura. — Ela aponta para a estante. Fique a vontade para arrumar como quiser.
— Caminha para a porta em seguida.
— Vai sair?
— Sim. Vou ao escritório conversar com Edgar antes que ele descubra que você está aqui, no
flagra. — Celeste abre uma porta, é o banheiro. — Tem tudo o que precisa aqui. Tome um banho, vá
a cozinha e coma o que quiser.
— Não estou com fome.
— Então durma. O voo foi cansativo.
— Farei isso. Volta à noite? — Olho no relógio e são quase duas da tarde.
— Às seis da tarde estarei aqui com Edgar. Quin está viajando só passa por aqui amanhã ou
depois.
— Tudo bem. Estarei segura.
Assim que Celeste sai, eu escolho uma roupa, e vou para a frente do espelho. Trabalhei no visual
antes de vir. Ninguém vem passar uma temporada em Nova York de qualquer jeito.
Meus cabelos antes escuros, agora estão mais claros, cor de chocolate. Comprei umas roupinhas
bacanas e umas maquiagens novas. E eu ainda nem sei o que vim fazer aqui.
Como boa curiosa que sou, abro as gavetas, saio do quarto e dou uma volta pela casa, entro no
quarto principal e fico feliz em ver que meu irmão está progredindo, a casa dele é linda.
Ele merece e minha amiga também. Amo a Celeste.
Tomei um banho relaxado na banheira, vesti uma calça de moletom e uma camiseta enorme de
time que roubei de Miguel, meu irmão, passei uma escova rápida nos cabelos e entrei debaixo dos
cobertores, coloquei o celular para despertar, afinal preciso me arrumar uma hora antes de Edgar
chegar. E pronto. Caí em sono profundo.

(…)
Agora estou de observadora. A minha frente há um sofá preto, imponente, grande e
aparentemente confortável. Não há nada em volta, apenas o sofá.
Levanto meus olhos e vou subindo pelo corpo forte, escultural, duro, do homem que está atrás,
batendo os quadris velozmente contra uma mulher. Tento fechar os olhos, mas não posso, a cena me
hipnotiza. Os cabelos da mulher tampa seu rosto, e não consigo distinguir a aparência do homem.
Ele é forte nas investidas, impiedoso, entra e sai com toda potência. Uma mão grande, com
dedos longos, segura firme na cintura dela e a outra está enrolada nos fios dos cabelos que são
puxados para trás. Olho para o queixo quadrado, e sinto uma pontada no meu seio. Os bicos estão
alvoroçados. Uma gota de suor desce do pescoço dele e vai se aninhar no peito suado. Peitoral forte,
bem definido, com pelos semeados na quantidade certa.
Ele é mais que lindo, é um terrível desespero de tanta virilidade e poder.
Olho para suas pernas, são fortes, os músculos saltados, enquanto ele apoia uma no chão e a
outra dobrada sobre o sofá. Panturrilhas duras, redondas e salpicadas de pelos. Não é algo lisinho,
delicado e amoroso.
Ele tem pelos, cheiro de macho, a bunda é redonda, mas viril; sua pele é bronzeada e sinto o
gosto salgado na minha língua, como se eu a tivesse lambido; ele tem um sorriso dilacerante. Está
sorrindo pervertidamente enquanto soca profundamente na mulher, por trás.
E ela grita, sorrindo também, pedindo por mais, mais fundo, ela quer sentir até as bolas grandes
e firmes dele batendo contra ela, indicando que todos os 20 cm de carne maciça, de pau duro com
veias saltadas, estão recheando-a, mantendo-a apertada, sem nem um espaço para a pequena vagina
aguentar. A cada vez que ele se afasta, ela sente a carne macia do seu interior se relaxar, mas logo em
seguida, a cabeça larga, a truculência gostosa do membro grande e grosso vem abrindo-a novamente,
e ela chora pedindo por mais, pois é a melhor coisa que ela pode sentir. E ela precisa de mais, precisa
se sentir sendo rasgada deliciosamente, precisa sentir os toques angustiantes e ritmados lá no fundo
dela, tocando-a no útero.
E quando a dor suplicante do gozo se aproxima, ele se arranca de dentro, segura todo aquele
mastro e passa de lá para cá contra o sexo fervente dela, bate a cabeça rosada e melada contra o
clitóris e ela chora por sentir o peso daquele pau; está toda encharcada, escorrendo de tão lubrificada,
e não consegue conter as piscadas involuntárias do seu sexo, que acabou de ser brevemente fodido e
quer mais, muito mais; aquilo chama atenção dele e como um animal selvagem, bruto, e muito
apaixonante, ele abaixa, seus músculos se tonificam, os bíceps se mostram inflados e os nervos duros
saltados. Meu coração acelera e eu olho as coxas musculosas, em sintonia com todo o resto do
corpo; O suor cobre seu corpo e alguns fios dourados grudam na testa dele; e então, meio inclinado
ele toca os lábios na vagina rosada dela, inchada, molhadinha e pulsante; lambe o caldo transparente
que escorre e fecha os olhos saboreado. Ela geme, ele dá um tapa forte na polpa da bunda, e eu sinto
uma contração gostosa demais dentro de mim, minhas pernas esfregam involuntariamente e me sinto
em chamas entre as pernas, a cada lambida que ele dá, a cada mordida de leve e chupão no pequeno
clitóris, a mulher geme desvairada e eu me acabo em palpitações e tremores.
Ela pede que ele a coma mais, implora que precisa do pau dele. Senhor do momento, ele abaixa,
puxa os cabelos dela e dá um beijo na boca arfante, e mulher enlouquece segura firme no queixo dele
e chupa vorazmente a língua que sai dos lábios másculos, enquanto ele observa de modo duro e
quando se afasta há um leve salpicar de sangue em seus lábios, ela o mordeu e ele sorri hipnotizado,
compenetrado, o olhar fica mais intenso, vejo notas de paixão dentro daqueles olhos.
Ele traz a cabeça dela para perto do pau dele. Agora é como se eu tivesse vendo de perto. É
grande, grosso, a cabeça é de uma proporção chocante, e eu sinto minha boca salivar e a vagina
suplicar, quando a mulher vem desesperada, cheira o saco dele, lambe em seguida, chupando as bolas
uma de cada vez. Ele segura gentilmente a base do pau, ordena, com uma voz rouca e baixa, que ela
abra a boca e introduz com cuidado nos lábios úmidos que clamam e gemem, ela fala que ele é
delicioso, que tem a maior pica do mundo e ele sorri e fala: — Pode mamar. — Acaricia as
bochechas dela enquanto seu pau enche-lhe a boca — Logo vou te foder bem gostoso de novo, vou
encher sua boceta com minha porra, te deixarei melada, quente e muito bem alimentada. — Ele
levanta o queixo dela, faz com que ela o olhe enquanto o chupa — Vai ter tudo que sempre quis…
Elena.
Dizendo isso, ele olha diretamente para mim, e então consigo ver seu rosto, seus lábios puxados
para cima em sorriso sardônico, dentes lindos, olhos que me queimam.
— Logo vai ter tudo que sempre quis, Elena. — Ele torna a falar, joga a cabeça para trás, cruza
os dedos atrás da cabeça, de olhos fechados ele ruge, seu gemido rouco me deixa alucinada; olho
horrorizada e maravilhada a cena. Os braços se contraem eu fico abobalhada mirando o corpo alto,
musculoso e suado, a mulher, que agora vejo ser eu, ali, de joelhos em frente as pernas dele, chupa o
pau dele com ânsia, e eu começo a sentir meu ventre contorcer, meu sexo inflamar, minha boca está
seca e acho que meus seios vão explodir.
— Goze, Elena. Goze para mim — Ele murmura e…
E eu acordo.
Me sento bruscamente na cama, o coração a mil por minuto, meu corpo ardendo e desesperado
por libertação. Sinto tudo pegando fogo, entre minhas pernas tem um braseiro. Abaixo o rosto nas
mãos e tento recobrar o controle. Caio novamente contra os travesseiros.
Mais um sonho. Fazia tempo que eu não tinha esses sonhos com ele. Acho que voltei a ter esses
sonhos por que estou tão perto novamente. Eu disse a mim mesma que não sonharia mais se eu não
alimentasse minha imaginação, parei de procurar por notícias dele e por imagens na internet…
entretanto, foi só Celeste tocar no assunto para esse sonho voltar.
Olho no meu celular, já são cinco horas e a casa está silenciosa. Ainda não escureceu, raios de
sol entram pela janela.
Bocejo, me espreguiço e ouço um barulho. Viro a cabeça e miro a porta. Parece passos ou voz.
Droga. Edgar chegou.
Pulo da cama, corro nas pontas dos pés até a porta, entreabro e alguém do outro lado empurra e
recebo a madeira com toda força no meu nariz. Cambaleio e caio de costas no chão já com a mão no
nariz.
— Merda. — Resmungo sentindo uma leve tontura.
— Me desculpa… não sabia que tinha gente aqui… — Uma voz grave, tensa, em inglês soa e eu
me arrepio. Fico imóvel no chão com a mão na cara e de relance vejo uma mão perto de mim para
me ajudar a levantar.
— Edgar não me disse que tinha visitas.
Ai Meu Deus! Quin…!
E ele ainda continua falando em inglês.
Fecho os olhos conto até dez e levanto o rosto.
— Oi Quin. — Eu digo. Não sorrindo tipo: “surpresa!” Foi mais tipo: “Que merda que você me
flagrou… logo depois de eu ter um sonho erótico…”
— E… Elena?
Ele arregala os olhos, os lábios entreabrem e há horror em sua expressão lívida. Eu não devo
estar diferente. Afinal estou em uma cena clichê: caída. No chão literalmente. Aos pés de um homem
extremante lindo, dentro de um terno impecável, o mesmo que ainda a pouco estava nu no meu
sonho, me levando a loucura.
DOIS

Eu sei pouco sobre a vida pessoal de Joaquim. Todo conhecimento que tenho sobre ele se
resume ao que Celeste me contava em telefonemas e o que eu lia nas fofocas. Sei que ele é um
homem centrado, esperto e ao mesmo tempo muito vivo, digamos assim.
Segundo uma matéria que li, e o que sei por experiência, Quin veio para Nova York a fim de
comandar um império quase falido que o pai biológico deixou.
Era a mais famosa marca de cerveja dos Estados Unidos, porém foi perdendo poder, e ele
acabou com a marca e transformou o resto da herança em outro império: Casas de shows de todos os
tipos. Boates, galpões enormes para eventos, bares comuns, Pubs modernos, até casas para adultos e
duas direcionadas ao público GLBT.
A rede Mafra’s se tornou o ponto quente de Manhattan e referência entre celebridades ou quem
tenha dinheiro suficiente para gastar por lá em uma noite.
No meio disso tudo, Quin tem uma família aqui. Uma madrasta e um meio irmão. Não sei muito
sobre eles, nem sei como é a relação, mas sei que não moram juntos na antiga mansão, a casa acabou
ficando para a madrasta; e Quin, segundo Celeste, é dono de vários imóveis residenciais na cidade e
fora dela, em até outros países, ou seja: lugar para ele morar não falta.
Sei também que Joaquim estava enrolado com uma australiana. Vi, antes de viajar, como ela é
linda, parece uma princesa, fiquei me sentindo um nada diante daqueles cabelos tão lustrosos, cor de
ouro, como o dele, a pele macia, nada esticada, muito natural, dentes maravilhosos e um olhar
penetrante. Olhando a foto dos dois juntos eu precisei concordar que formavam o casal mais
deslumbrante que já vi. Não é ciúmes o que vou dizer, mas ainda bem que não estão mais juntos. Se
não me engano ela vai se casar com outro.
Quin é reservado demais em relação à mídia, tudo o que se lê provavelmente é suposição em
cima de um flagra de paparazzi. Ele quase nunca dá declarações sobre qualquer situação. Tudo o que
se sabe profundamente é apenas quando ele aparece em algum programa de talk show.
Eu não tenho exatamente uma obsessão por ele, para ficar recortando imagens de revistas e
procurando como uma doida pela internet. Eu apenas tinha atração por ele, tive fantasias que ele seria
meu primeiro homem, e hoje, mais um sonho erótico me apunhalou com força total.
Depois que o susto passou, eu cumprimentei Quin lá no quarto e agora estamos na cozinha, ele
acabou de me dar um saco de gelo para colocar no nariz.
— Celeste disse que você só chegaria amanhã. — Eu falo. Ele está de costas fingindo procurar
alguma coisa na geladeira. Quin não me pareceu tão receptivo, ele me olhou de cima em baixo, com
olhos saltados, cara de pura perplexidade. Enquanto eu me deliciava com toda essa fartura de homem.
Puta que pariu! O homem está muito lindo, desde o queixo quadrado e aristocrático forrado de
pelos claros, aos cabelos meio bagunçados. O terno lhe esconde os músculos, mas posso ver que ele
é dono de uma estatura e virilidade impressionante. Um pensamento pervertido me atingiu: E o pau?
Seria grande? Olhei para as calças dele, bem preenchidas por pernas fortes e bunda bem-feita. Ainda
bem que Quin não estava olhando para mim, ou perceberia que enrubesci.
— Resolvi tudo a tempo. — Responde de modo vago, a voz ainda mostra que está meio tenso.
Ele pega uma caixa de suco e vai para um armário pegar um copo. Fica mais algum tempo de costas.
Como ele não está disposto a me perguntar qualquer coisa, nem mesmo se o voo foi bom, eu
volto a questionar: — Você mora aqui perto? — Ele se vira com o copo de suco entre os lábios.
— Aham.
— Hum… — tiro o saco de gelo do nariz e fico olhando para o saco na minha mão. Sem
levantar os olhos eu digo: — Foi bom te reencontrar, Quin. — olho para ele — me conte como estão
as coisas.
— Antes me explique… você está aqui pelo casamento de Edgar? — Não sei por que, mas notei
um tom meio mandão, como se eu devesse satisfação a ele, como se eu tivesse feito algo errado e ele
estivesse me cobrando. Será que é só impressão?
— Sim e não. — Eu deixo o saco de gelo de lado e cruzo as pernas em um movimento gracioso,
nada de similaridades com a moleca que ele conheceu, faço questão de mostrar. — Vim passar uma
temporada. — Faço uma concha com a mão ao redor da boca e inclino-me na direção dele como se
fosse contar um segredo. — Edgar não sabe da minha visita.
— Não avisou a ele que vinha? — Quin fica mais perplexo. — Celeste está envolvida. Aposto. —
Ele presume.
— Aposta ganha. Celeste tramou tudo. A partir de amanhã vou procurar emprego.
— Como assim procurar emprego? — Ele semicerra os olhos para mim — Acha que aqui é
Brasil que você simplesmente vai chegar e já ser enfermeira?
Outra impressão minha ou isso foi tom de bronca? O cara tá me olhando sério com as mãos na
cintura.
E que cintura!
— Celeste disse que eu poderia usar seu nome. — Brinco com o saco de gelo na bancada.
— Meu nome? Estava pensando em conseguir um emprego às minhas custas?
Sim, estou levando uma bronca. Estou me sentindo em casa, levando bronca do meu pai ou dos
meus irmãos.
— Não é assim Quin. Não é bem às suas custas. É que você é super conhecido por aqui, aí eu
pensei que se falasse que sou sua irmã…
— Você não é minha irmã. Não tenho irmãs. — Ele me cala abruptamente. Acho que fiquei
pálida, não sei. Apenas senti meu sangue fugir do rosto. Por que ele está me tratando assim? Como se
minha presença o insultasse?
Joaquim exala e passa a mão no rosto. Que merda, está irritado?
— Eu sei. Mas…
— Nada de “mas” Elena. Tem noção do que iria fazer com minha vida? Expondo por aí que eu
tenho uma irmã? — Noto o queixo dele enrijecer. Os olhos duros me fitam cruelmente. Ele não deu
um pequeno sorriso desde que me viu. — Sem falar que você seria alvo incansável de paparazzi.
— Tudo bem. — Falo um pouco mais alto já perdendo a paciência. — Não vou usar seu nome.
— Começo juntar meus cabelos nas mãos e faço um rápido coque frouxo. Esse gesto foi bem
analisado pelo olhar dele que por um instante teve um brilho estranho, como dominação. — Pode me
arrumar algo temporário em uma de suas boates?
— Quanto tempo você pretende ficar aqui? Não acho que precise de emprego.
— Eu estou passando uma temporada, Joaquim. Não sei quanto tempo. E lógico que preciso de
dinheiro. Eu não vou viver aqui pedindo esmolas.
— Você tem seu irmão… — ele faz uma pausa e emenda um tom mais baixo: — e a mim.
Olho diretamente nos olhos dele e sinto a antiga fisgada de desejo retornar. Não o amo nem sou
apaixonada por ele. Apenas sinto uma atração sem explicação. Dá um calor, uma inquietação. Os
bicos dos seios duros e tudo mais. Como qualquer outra mulher sentiria.
— Não gosto de depender de ninguém. Pode me arrumar o emprego ou não?
— Não, Elena. Não posso. Não vejo nada que uma enfermeira poderia fazer nos meus pubs.
— Lógico que eu não serei enfermeira lá. Eu posso ser garçonete, cozinheira ou…
— Não. — Sou interrompida por um “não” hostil — Não empurro qualquer um para os cargos
disponíveis. Meus empregados passam por rigorosas entrevistas e precisam de currículos
impecáveis. Não gosto de ter problemas com amadores.
Nossa, ganhei na cara.
— Cruzes. Você está bem azedo hoje. Posso trabalhar no escritório, assistente de alguém, ou
servindo cafezinho apenas.
Antes de Quin responder, com sua cara fechada, ouço meu nome e me viro para ver meu irmão
de pé na porta, com um sorriso glorioso nos lábios. Celeste ao lado dele olha de mim para Quin.
— Edgar! — Grito e dou um pulo correndo para perto dele.
— Meu Deus! Leleca, que loucura foi essa? — Ele pergunta me abraçando ternamente. Pelo
menos dois gostaram da minha visita.
Me afasto e olho para ele.
— Nossa, mas você está gato. Celeste está cuidando bem de você.
— Sempre fui o mais bonitão, mana. — Ele passa o braço no meu ombro e caminhamos de volta
para perto do balcão.
— Voltou cedo, Quin. — Edgar repara.
— É. Terminei mais cedo.
— Viu a Leleca? — Ele aponta para mim. — Olha como está enorme.
— Para de me chamar assim. — Cutuco Edgar, sinto um fisgar de vergonha por ele estar me
chamando assim na frente de Quin, que não é mais o mesmo Quin. É um estranho muito gato.
Levanto os olhos e ele está me fitando. Responde Edgar olhando para mim: — Sim, eu a vi. Não sabia
que Elena viria. — Olhar ainda cravado no meu.
— Nem eu. Foi uma bela surpresa.
— Eu estava falando com Quin que ele poderia me arrumar um emprego enquanto fico por aqui.
— Digo para Edgar.
— Claro, pode trabalhar no escritório comigo. Eu arcarei com seu salário.
— Edgar, esse é um assunto meu. — Joaquim intervém. — Pode deixar que eu a coloco na folha
de pagamento com os outros. — Me lança um olhar como se quisesse me dar umas palmadas.
Cruzes!
Edgar assente e nem percebe o tom ainda rude de Joaquim. Celeste percebeu. Ela franziu o cenho
e ficou olhando dele para mim.
— Bom, tenho que ir. — Quin fala. Olha para nós três e focaliza em Edgar. — Vai me encontrar
depois? Quero resolver algumas coisas da empresa.
— Claro. — Edgar assente. Joaquim olha para Celeste e depois para mim. — Até mais. Foi bom
te reencontrar, Leleca. — Diz ressaltando meu apelido de infância e saindo logo em seguida.
— Ele não deve ter feito bom negócio. — Celeste observa olhando ainda para onde Quin saiu.
— Eu peguei Quin de surpresa. Acho que ele não gosta de surpresa. — Pondero sem olhar para
o rosto de celeste.
— Mulher! — Ela exclama. — Onde estão os fogos de artifício, os confetes e pulos de alegria?
Eu achei que ele iria fazer algo como Quatro de Julho.
— É como você disse, ele não deve ter tido um bom negócio.
— É. — Celeste me encara desconfiada. — É bem provável.
— Elena. — Edgar chama meu nome voltando para a cozinha. Ele para com um sorriso me
olhando admirado. — Meu Deus! Você sempre fazendo loucuras. — Edgar me abraça mais uma vez,
olha meu rosto e me abraça de novo. — Estava com muita saudade de você. — Ele se afasta, senta
numa cadeira e eu me sento na outra.
Celeste coloca água na cafeteira para preparar um café.
— Como estão todos por lá? — Ele indaga.
— Estão bem. Miguel e Léo aprontando como sempre.
— Eles nunca aprendem.
— Pois é. Ah! Mamãe mandou uma caixa de coisas para vocês. Tem feijão verde, queijo de
Minas, linguiça caseira e várias coisas.
— Dona Valquíria é uma peça. — Edgar gargalha.
— Eu já coloquei tudo no congelador. — Celeste avisa de costa para nós dois. — Estou louca
para comer um feijão tropeiro. Vou fazer amanhã e chamar o Quin para almoçar com a gente.
— Não vai dar. — Edgar antecipa. — Joaquim acabou de me dizer que vai fazer uma viagem
amanhã.
Celeste olha para mim e depois encara meu irmão. Um brilho perturbado no olhar.
— Viajar? De última hora? Ele não acabou de chegar de viagem?
Não olhe para mim. Não tenho culpa. — Penso desviando o olhar.
— Quin é de veneta. Decide uma coisa assim, no ato e faz.
Tomamos o café, contei aos dois como estavam as coisas no Brasil, contei novidades e Edgar
chegou a perguntar o que eu estava desviando desde o início.
— Então, pediu férias no emprego? Vai ficar aqui quando tempo?
— Inicialmente um mês. — Eu falo passando o dedo na borda da xícara. Sei que Edgar está me
encarando.
— Um mês? Então não precisa de emprego aqui. Por que não pediu férias remuneradas no
hospital?
— Eu saí do emprego. — Revelo ainda sem encara-lo.
— Foi demitida?
— Ela veio para ficar, Edgar. Elena veio tentar o sonho americano. — Celeste resume já
perdendo a paciência com meus rodeios.
— Como assim, Elena? A mamãe sabe? Onde vai morar?
— Nossa, obrigada por deixar claro que eu não posso morar com você. E mamãe não sabe.
— Eu não disse isso. — Ele olha horrorizado para Celeste. — Sabia disso? Dessa loucura?
— Sim amor, eu sabia, mas…
— Mas nada, Celeste. Como você planeja pelas minhas costas trazer minha irmã inexperiente
para morar num lugar como Nova York?
— Inexperiente? Faça-me o favor, Edgar! Eu tenho minha própria vida no Brasil.
— Mas aqui não é Brasil, poxa! — Ele se levanta exaltado. Edgar dá uma volta em torno de si
mesmo, depois mira Celeste e em seguida eu. — Vai voltar. Daqui um mês eu quero você no avião de
volta.
— Não pode mandar em mim. — Me levanto também.
— Eu vou proibir Quin de te dar qualquer asilo ou apoio financeiro. Você conhece três pessoas
aqui, então não terá escolha. Depois do meu casamento você nem volta, fica lá no Brasil.
Edgar passa por mim e some casa adentro após dar o seu recado.
— Elena, estou horrorizada. Esses seus irmãos nunca vão te ver como uma mulher. Se esse aí
não fosse meu noivo eu juro que tinha jogado essa cafeteira nele. — Olho para Celeste e ela faz uma
carinha de triste.
— Está tudo bem, Celeste. — Abano a mão em um gesto esnobe — Isso não me atinge. Eles já
fizeram coisas piores. Às vezes é tão bom ser a caçula de três irmãos, mas a maioria das vezes é um
porre.

(…)
Depois de um jantar meio tenso, com nós três tentando parecer que nada tinha acontecido, eu me
despedi de Edgar e fui para o meu quarto. Pouco depois, Celeste bateu na porta.
— Entre.
Eu estou na cama desarrumando uma das malas. Ela coloca a cabeça pela fresta da porta e sorri
admirada.
— Sabia. — Celeste entra. — Pressenti que havia assuntos de moda aqui neste quarto.
— Moda? Que nada. Eu só tenho o básico. — Contesto e ela senta na cama. Pega meu vestido
azul dobrado em um saco e olha.
— É para noite? — Celeste aponta para a roupa.
— É. Fiz para minha formatura, daí mandei reformar, encurtar. — Ela abre o saco e olha o
vestido. — Nunca tive oportunidade de usar depois que foi reformado.
Celeste levanta e ajeita o vestido na frente do corpo e se olha no espelho.
— Lena, esse vestido é um arraso.
— É, eu sei.
— Por que nunca usou?
Dou de ombros e volto a tirar as roupas da mala separando em montes para depois arrumar no
armário.
— Eu logo comecei a trabalhar a noite e você sabe que eu nunca saí muito.
Ela volta para a cama.
— Nenhum gatinho de coração partido ficando para trás?
— Que nada! — Abro uma blusa e olho. Por que eu trouxe isso? Me pergunto em pensamento —
Trabalho demais. Não tenho tempo.
— Fala sério né? Ninguém sobrevive tanto tempo sem uma transa básica.
— Eu sobrevivo tá? — Puxo o vestido da mão dela e dobro novamente.
— Então tá senhorita Sobrevivo Sem Sexo. — Ela anui e volta a mexer nas coisas — Meu Deus!
Me diga que isso é maquiagem. — Celeste pega minha maleta preta. Ela abre e minha coleção de
maquiagem aparece. — É maquiagem! — Ela vibra. — Lembra quando nos montávamos com as
maquiagens da sua mãe e fazíamos os shows?
— Lembro.
— Você arrasava como… — ela para e me olha franzindo a testa. — Como era mesmo seu nome
de estrela?
— Lisandra! — Faço uma pose e Celeste gargalha.
— Era mesmo, Lisandra. E eu era Lucrecia.
Continuamos entretidas nas minhas coisas quando meu celular apitou. Olhei de lado e não o
encontrei. Celeste o achou e antes de me entregar olhou na tela.
— Patrick Fuck Hard te chamou para o bate papo. — Ela lê em voz alta, de olhos arregalados.
Eu pulo em cima das coisas, meio desesperada, e tomo o celular da mão dela. — Oh Meu Deus!
Safada! — Celeste já está com um sorriso de chacota — Está em um aplicativo de namoro?
— É só para passar o tempo. — Explico sem olhar para ela. Olho a mensagem que acabou de
chegar.
— Há quanto tempo vem fazendo isso? Fuck hard? Tá de brincadeira né?
— Tá. Eu sempre fiz isso no Brasil. Não sou uma cliente nível platina, mas já consegui dois
encontros.
— Que safada! — Celeste torna a gritar e eu faço sinal para ela falar mais baixo — Olha os
podres sendo revelados. Eu não esperaria isso de você.
— Ah vá! Você também achando que sou santa? Comecei minha vida adulta alguns meses atrás
depois de ir morar sozinha.
— Transou com alguém? — Celeste para de olhar a pilha de roupa que eu já separei e olha com
curiosidade para o meu rosto. — Até ontem, pelas minhas contas você tinha transado uma vez na
vida.
— Um dos encontros foi mais ou menos, conversamos, mas não rolou a química. E o outro foi
super bacana, ele me levou para tomar um chope e depois do segundo encontro, acabamos transado.
Eu diria que foi… — meneio a mão — nota sete e meio.
— Transou com um cara sete e meio? Precisa de mais incentivo nessa sua busca.
— Por isso eu estou agora procurando americanos. — Lanço um olhar sonhador e sugestivo
para ela. — Quem sabe conheço alguém legal e leve no seu casamento para passar na cara da
sociedade?
Celeste se anima vorazmente.
— Me conte isso direito. Quer levar um estranho para meu casamento? Que bafo!
— Sim. Melhor do que ir sozinha. — Jogo meus cabelos em um gesto esnobe, arranco uma
risada de Celeste. — Sem falar que depois desse showzinho de Edgar, eu vou adorar mostrar que
estou no bem bom com um cara.
— Então pelo amor de Deus — faz um gesto de prece com as mãos — me deixe te ajudar. Tem
que ser alguém no mínimo gostoso nível Chris Evans. Me mostre a foto desse Patrick. — Ela estende
a mão pedindo o celular. Abro a tela, toco na mensagem e entro na página.
— Talvez não seja a foto real. — Já antecipo, dando o celular para ela. É um cara bonitão,
mostrando o corpo escultural. Me atraiu assim que o vi. — Tem trinta e dois anos, é arquiteto e mora
aqui em Nova York.
Celeste analisa. Faz zoom na imagem e prende o lábio nos dentes.
— Nem pensar. — Balança os cabelos negando — É bonitão, mas não especifica de que signo é.
Pelo amor de Deus, signo é a primeira coisa que você tem que olhar.
— Nem vem que eu não acredito nessas coisas. — Tomo o celular dela.
— Mas é a pura verdade. Se você escolher pelo signo vai ter cinquenta por cento de chance de
dar certo. Temos que analisar tudo, desde ascendentes, aos planetas que rege cada um dos signos.
— E o que quer que eu faça? Uma seleção?
Ela torce os lábios em um bico pensativo.
— Seria uma boa ideia.
Reviro os olhos e recosto nos travesseiros da cama olhando a foto do cara no celular.
— Elena! — Celeste grita e pula da cama, fica de pé me olhando com olhos saltados de euforia.
Ah não! Lá vem desastre. Celeste sempre pensa em umas coisas nada a ver.
— O que acha disso: Garota solteira procura zodíacos? — Ela lança as mãos no ar, acho que
vendo um letreiro imaginário.
— O que seria isso? Site pornô? — Faço pouco caso.
— Não, sua tola. Eu posso criar uma página para você, em um blog gratuito. Aí convidamos os
caras que querem te conhecer para se inscrever.
— Tipo o site de namoro que estou. — Ignoro a fabulosa ideia dela, ainda mais.
— Sim! Elena! Olhe para mim. — Deixo o celular de lado e olho. — Só que nesse você será a
única candidata sendo disputada por muitos americanos gostosos e famintos.
— Credo! É um site de canibalismo?
Celeste joga uma almofada em mim.
— Chega de piadinhas e me escute. Imagina você ter o poder de escolher 12 homens dos
milhares que se escrever? Loiro, ruivo, negro, asiático…
— Doze? Eu não preciso só de um? — Enrolando uma mecha de meu cabelo no meu dedo, olho
desinteressada para ela.
— Você precisa de um representante para cada signo. — Ela esclarece com aquele velho ar de
astróloga.
— Celeste, não me canse com essa história…
Ela nem liga para eu discordar e fala ainda pensativa, já bolando tudo. Senta ereta na cama, e
olha um ponto fixo na parede.
— Imagina você saindo com o Capricórnio, o Libra, o Escorpião! — Ela grita quando fala
“escorpião”.
— Tá, vamos supor que eu concorde. Como acha que milhões de caras vão clicar na minha
página?
— Fazendo propaganda. — Ela mexe a cabeça balançando os cachos negros.
— Sairemos distribuindo panfletos?
— Não. Eu já tenho uma ideia.
Ela arrasta, pega o celular e digita alguma coisa, em seguida entende o celular para mim.
— O que é isso? — olho para a tela. É um site. E no alto, no cabeçalho, o nome Mafra.
— O site dos pubs do Quin. — Celeste fala quase vitoriosa.
— Eu não entendi…
— Vou acoplar o link da sua página no site dele. Tem noção de quantas visitas o site do Quin
recebe diariamente?
Ela sorri como se tivesse encontrado o segredo da criação do universo e eu estou boquiaberta,
coração batendo rápido.
— Pirou celeste? É como ir assaltar uma delegacia. Quer que o Quin veja minha safadeza? Já
não basta eu ser um bife suculento para milhares de homens famintos?
— Ele não vai ver. Vamos apenas usar o nome dele.
Arregalo os olhos. Quin praticamente surtou quando eu disse que usaria o nome dele para
encontrar um emprego. Imagina se descobrir uma sacanagem dessas? E com o nome dele no bolo?
Eu estarei bem frita.
— Quin não olha a parte das propagandas. Na verdade, ele nem olha o site. Ele tem pessoas que
fazem isso para ele. Farei com que seu site pareça uma propaganda, para os administradores. Ou seja,
Edgar e Joaquim verão apenas propaganda. Outros visitantes, verão um banner chamativo que os
levará à uma página perfeita de encontro.
— Minha página perfeita de encontro? — Agora sim, minha total atenção está nela. Sou doida de
ao menos ouvir uma coisa dessas.
— Sim. Deixaremos isso no ar apenas uma semana, é o tempo necessário para eu e você
fazermos a seleção dos doze e fechar a página.
— Isso existe? Essa coisa do site?
— Claro que existe. Hoje com um bom hacker se consegue tudo.
— Nossa, falando assim parece ser muito fácil. Mas se eu for pega serei extraditada no
compartimento de malas do avião.
— Vai por mim. — ela estende a mão em minha direção. — Em uma semana você terá doze
homens a sua disposição. Aí é só começar a sair com um por semana.
— E levar o título de biscate, não é?
— Relaxa amiga. Tem mulher que transa com muito mais homens do que isso. É uma questão de
perspectiva.
Continuo encarando Celeste. Ela está sorrindo entusiasmada. Isso é com certeza muita loucura.
Mas quem disse que eu não posso fazer uma loucura? Edgar ou Joaquim, ou qualquer pessoa que
ainda se acha no direito de dominar minha vida? Mas e se eu sair das regras uma vez? E se eu me
divertir um mês inteiro aqui e no final ainda levar um cara bem charmoso para o casamento do meu
irmão? Seria épico ver a cara de todos eles.
Sem falar que antes do tal cara charmoso eu terei que passar por 11 outros.
Dou um pulo da cama sem querer cogitar mais nada.
— Vamos fazer isso, Celeste.
— Vamos mesmo?
— Vamos! Não existe Os Doze Trabalhos de Hércules? Aqui será Os Doze Namorados de Elena.
Ela dá uma gargalhada.
— E que vença o melhor! — Ela grita batendo palmas. — Escorpião quase sempre é psicopata,
então eu vou torcer para o Leão.
— E eu para que saia viva dessa.
TRÊS

— Meu Deus! Isso é tão excitante. Já estou nas alturas, Celeste.


— E olha que nem entramos ainda. — Celeste fala e recebe o troco do taxista. O carro sai, eu me
viro e contemplo sorridente o prédio de três andares, estilo contemporâneo, na 5° avenida. Há muita
gente na porta, uma fila enorme e olha que já se passa das 22h. No alto, em letras longas e finas de
um modo elegante, está o nome: MAFRA’S HOUSE. Sinto um arrepio me tomar quando leio. O nome
dele sempre foi assim, escandaloso.
— Oi, Celeste! — Um homem enorme, parado na porta acena assim que nos aproximamos.
— Oi, Stuart. — Celeste acena de volta e aponta para mim: — Esta é Elena, minha cunhada, irmã
do Edgar.
— Olá, Elena. — Ele abre a porta para a gente passar. — Sejam bem vindas.
— Obrigada. — Eu e Celeste respondemos juntas e entramos. Me detenho no mesmo instante
pois é o maior luxo, bem mais do que eu poderia imaginar. Estou diante de um bar exuberante, claro
e bem iluminado. Os lustres são tubos que pendem do teto espalhados por todo o ambiente.
Há pequenos sofás rodeando mesinhas baixas, isso na entrada, como sala de estar. Bem na frente
há um enorme balcão em L e posicionados atrás, homens bem vestidos servem as pessoas. E o
melhor: eles estão de máscaras. Perto do grande bar, tem mesinhas espalhadas. Rodeando por ali, há
garçons com bandejas de petiscos e bebidas. As pessoas que estão nas poltronas da entrada, são
elegantes e bem vestidas.
— A boate fica na cobertura. — Celeste fala apontando para o alto.
— Nossa, é tudo muito lindo.
— E essa nem é a melhor casa de Quin. Você precisa ver a que ele abriu recentemente em
Londres.
Caminhamos para o bar e ocupamos os banquinhos.
— É incrível como o Quin se deu tão bem. Ele saiu sem nada do Brasil.
— Dois Martini. — Celeste fala para o barman. Depois volta a atenção para mim. — Sim, mas
não pense que Quin está sozinho nisso.
— Não?
— Ele tem uma madrasta e um meio irmão, ela é como uma sanguessuga.
— Ah! Sobre isso. — Exclamo atenciosa. — Fiquei mesmo sabendo. Mas eles tem direito nos
bens de Quin?
— Pelo que Edgar me contou, aconteceu assim: Joaquim chegou aqui e trabalhou arduamente
para colocar o império do pai novamente nos eixos, mas quando não conseguiu, ele vendeu tudo, deu
a parte da madrasta e do irmão e fez o próprio pé de meia com o que restou. — O barman nos
entrega as bebidas. — Obrigada. — Celeste diz, toma um gole e completa: — E ele conseguiu todo
esse império em menos de dez anos. O homem é um promissor.
— A outra família de Quin trabalha com ele?
— Sim. O irmão é diretor de marketing.
Eu não pergunto mais nada. Meu celular vibra na bolsa, abro e pego.
— Outro inscrito? — Celeste inclina curiosa.
— Sim, mais um. — clico na mensagem e olho a foto do homem. — É de libra e se chama
Nick27. Bonitinho, parece ser alto. — Mostro para celeste.
— Normalzinho demais. São quantos agora?
— Trinta e sete.
— E a página foi criada em menos de quarenta e oito horas. — Ela cruza as pernas e encosta a
taça aos lábios, dá um gole de modo teatral. — Estamos evoluindo.
Guardo o celular de novo.
— Não podemos começar a escolher? — Bebo também um gole do Martini.
— Não. Vamos esperar encerrar as inscrições. Por enquanto vamos apenas dando atenção a eles.
Estamos falando sobre os Cavalheiros do Zodíaco, como Celeste nomeou. Eu achei estranho,
parece aquela série animada, mas ela disse que era melhor que “Os Signos do Amor”.
Abrimos a página antes de ontem e tudo já está bem encaminhado. Celeste tirou uma foto minha,
fizemos um perfil bonito e agora, já tenho trinta e sete pretendentes. Espero que nenhum desses seja
um psicopata. E nem casado. Entre essas duas classes eu preferiria um psicopata solteiro do que um
“gente boa” casado.
— Não acha que seria melhor eu procurar assim, ao vivo? — Pergunto a Celeste e dou uma
olhada em volta. — Olha o tanto de gato.
— Gatos errados. As coisas serão diferentes se você for atrás deles. Eles vão ficar se achando e
vão querer só pegar você.
— De qualquer forma eu estou indo atrás. Eu fiz o perfil na internet.
— Você se colocou na vitrine, dá o lance quem quer. O poder está com você, querida. Agora
deixe de falar e vamos subir para a boate.
Me levanto com Celeste, passamos pelo pessoal e subimos uma enorme escada de vidro. É a
coisa mais linda que já vi. Parecia cristal.
No segundo andar funciona um restaurante. Daqueles que os cozinheiros ficam atrás de um
enorme balcão. As pessoas podem sentar ali perto e ver a comida sendo preparada, ou nas mesas
espalhadas. Só passamos por ali, Celeste não parou, mas eu pude notar como o luxo é maior. É uma
área aberta, com lustres mais elaborados e mesas negras cobertas com toalhas brancas. O tilintar de
taças e talheres era uma melodia suave combinando com a música de fundo.
Subimos outro lance de escadas e entramos por uma porta fechada, a prova de som. É lá que rola
o perigo. É uma boate de arrancar o fôlego e está em chamas. Não literalmente, claro.
— Celeste, que lugar perfeito.
— Pois é. Venha. — Ela me puxa e vamos andando, nos aproximando da pista onde o povo pula
em sincronia com a música.
Há mais um bar aqui e o barman é mascarado, sem camisa. Um espetáculo. Ele está nesse
momento fazendo um show de malabarismo. Em pequenos palcos individuais espalhados, homens e
mulheres dançam sozinhos, seminus.
— Amei. — Eu dou um gritinho e Celeste me puxa de lado, mas antes de começarmos a dançar
desvairadas acabamos topando em duas garotas e a bebida de uma delas acabou derramando no
vestido.
— Ai meu Deus! Mil perdões. — Eu grito acima da música. Só que em português.
— Uma imigrante. Tinha que ser. — A mulher resmunga limpando o vestido.
— Ela não é imigrante é brasileira e… — Celeste começa a me defender, mas a mulher a faz
parar.
— Eu não falei com você. — Dá uma olhada cínica para Celeste e fala: — Afrodescendente.
— Ah! Isso é verdade. Sou mesmo uma afrodescendente e com muito orgulho! — Celeste grita
pirada. — Assim como Rihanna, Beyonce e Oprah.
As duas mulheres sorriem cinicamente, demonstram superioridade e frieza ao falar.
— Como conseguiram entrar aqui? Dando para os seguranças? Esse lugar não combina com
refugiadas. — A outra mulher fala cheia de sarcasmo.
— O que você disse? — Dou um empurrão nela. — Olhe bem para minha cara, veja se sou da
sua laia. — Agora grito em inglês. Um pouco enrolado, mas dá para entender. — Sou quase irmã do
dono disso aqui.
Eu esperava que as duas ficassem abismadas, de olhos arregalados após minha revelação. Mas
foi ao contrário. Elas gargalham alto.
— Amorzinho, Quin é uma pessoa de nível e é meu namorado, ele não se relaciona com a ralé.
— A morena que teve a bebida derramada rejubila.
— Você tá pedindo um cacete. — Celeste grita e empurra a mulher. Eu puxo o braço de Celeste.
— Me deixe, Elena. Essa piranha tá precisando de uma lição.
Nesse instante, olho para trás das duas e vejo alguém vindo, meio feroz. Alto, imponente e lindo.
Está de cara fechada e me fita sem piscar.
Quin.
Mas ele não estava viajando?
— O que estão fazendo aqui? — Pergunta de olho em mim. Mais uma vez está com aquele olhar
como se eu fosse sua filha, ou irmã mais nova que lhe devo explicações.
— Querido! — A morena se aproxima rápido e segura o braço dele. Quin nem olha para ela.
Ainda está me aniquilando com esses olhos azuis acinzentados, quase sombrios. — Você precisa
tomar uma providência. Essas duas sem noção estão aqui fazendo arruaça. — E Joaquim olha para a
mulher. — São duas caipiras brasileiras que com certeza chegaram aqui em caixotes nos aviões.
— Tem algo contra brasileiros, Sandy? — Ele indaga cruzando os braços e encarando-a.
— Não, não tenho nada contra, mas não quero intimidade com esse tipo de gente. Pelo amor de
Deus, né? Me poupe de me misturar.
— Então vaza daqui. Eu sou brasileiro e essas duas são minha família.
As duas arregalam os olhos para ele e depois em câmera lenta olham para mim e Celeste.
— O que?
— Sandy, apenas se afaste, não me faça colocar seu nome na lista de nomes proibidos de entrar
em qualquer uma das minhas casas. Deixe as garotas em paz.
— Como assim, Quin? Viemos juntos, nós estamos juntos. Como pode me tratar dessa maneira
só por causa de duas…
— Não há mais nada entre a gente. Sou brasileiro, não pode se misturar lembra? Pode ficar à
vontade na boate. É como uma cortesia. — A tal Sandy sabe que para o bem dela não pode contestar.
Nunca poderia imaginar que aquele cara humilde e carismático que convivi no Brasil, se tornou
alguém tão… frio. O semblante carregado e taciturno dele me dá arrepios. Fico olhando as duas
mulheres se afastando. Uma delas com certeza de coração partido. Não sei o que os dois tinham, o
que sei é que foi cruel da parte dele acabar com qualquer que seja o relacionamento, de forma tão
insensível.
— O que vocês estão fazendo aqui? — Agora ele direciona a atenção calculista para nós duas. —
Edgar sabe disso Celeste? — Noto o maxilar anguloso ainda rígido.
— Edgar tem a vida dele para cuidar, Joaquim. Agora me deem licença que preciso pegar uma
bebida. Estou com uma sede destrutiva. — Celeste se afasta e entra pelo meio do povo indo em
direção ao bar.
— Vem comigo. — Joaquim segura no meu braço e praticamente me arrasta dali.
— Quin… eu tenho que esperar Celeste.
Ele não responde. Anda comigo até a porta, dando passadas precisas me fazendo correr com ele.
Saímos da boate, descemos as escadas e chegamos ao restaurante.
— Senhor Mafra. — Um homem de terno preto, cumprimenta respeitosamente assim que
entramos.
— Dois gins tônicos, Liam. — Ele pede ao homem e me conduz até um sofá de canto, eu me
sento e ele senta ao meu lado.
— O que está fazendo aqui, Elena? — Ele questiona, bem perto de mim. Poxa, precisava estar
tão lindo e cheiroso? Quin está usando uma calça preta, cobrindo suas belas pernas fortes e um suéter
cinza, de pano fino por cima de uma camiseta. Ele puxa as mangas do suéter exibindo belos
antebraços e um relógio no pulso esquerdo. Nunca reparei que Joaquim tem mãos tão bonitas. Eu
teria sorte se Quin se inscrevesse no meu perfil na internet, falando nisso qual será o signo dele?
— Você foi muito frio com aquela mulher. Trata suas namoradas assim?
— Elena! Você me ouviu?
— Sim, ouvi. Nossa Quin, isso aqui é muito legal. — Olho em volta — Adorei sua boate. Estou
fascinada.
— É uma boate qualquer. — Ele desdenha.
— Qualquer? Eu e Celeste vamos nos acabar essa noite. — Conto dando um tapinha no braço
dele, como se fossemos amigas fofocando.
Quin abre a boca para responder, mas um garçom se aproxima. Ele coloca as bebidas na
mesinha perto do sofá.
— Mais alguma coisa?
— Não, obrigado. — Joaquim fala. O homem se afasta e eu pego o meu copo para beber um
gole.
— Não vai nada. — ele vocifera e eu o olho por cima do copo — Vocês vão embora. Antes que
eu proíba formalmente que você entre em qualquer uma das minhas casas.
Encarar Joaquin, sem dúvida é uma coisa muito boa de se fazer. Eu não canso de olhar para esse
rosto tão bonito. A barba dele é muito bonita.
Definitivamente Quin está estranho. Ele está se comportando como meu pai e irmãos protetores.
Preciso lembrar a ele que já tenho vinte e seis anos.
— Pirou Joaquim? A minha noite está só começando. — Faço uma cara de safada, inclino para
frente e sussurro como um segredo: — Celeste prometeu me apresentar a uns americanos. Estou
louca de expectativa.
Ele se mexe e fica ereto quando ouve isso. Semicerra os olhos e coça a barba castanho-clara.
— Então veio para Nova York na tentativa de fazer o que quiser? De ser livre e dar pra quem
desejar?
— Isso soou meio ofensivo. Sim, eu vim para me ver livre das amarras e não vou permitir que
ninguém dite o que tenho que fazer.
— Nas minhas boates eu dito.
— Mas não existe só as suas em Nova York.
Ele se recosta no sofá e sorri. Sim, me dá um autêntico sorriso, mas não de humor, nem de
carisma. Qualquer um pode perceber que é um sorriso neurótico, um sorriso de desafio aceito.
— Não vamos entrar nisso de medir forças, não dá certo. — Ele pega o copo dele e bebe um
gole. — Vai acontecer assim: Vou chamar um táxi, você vai embora agora, antes da meia noite e antes
que eu pegue meu celular e comece a fazer umas ligações. — Ele enfia o dedo no copo e fica
mexendo o gelo. Consegue capturar uma pedra e joga na boca. Os lábios estão úmidos e
provavelmente gelados. Engulo seco. Aquela atração de antes está voltando com força total.
— Qual é, Quin? Vai ligar para meu pai? Como um garoto de 15 anos? — Ironizo. Ele me olha
despreocupado, a droga da pedra de gelo dançando de lá para cá na sua boca.
— Não. Com uma ligação eu posso dificultar sua estadia aqui na cidade. Vai ser difícil procurar
emprego, se divertir nas noitadas, fazer coisa normal que as pessoas fazem por aí.
— Está me ameaçando?
— Não. Só estou tentando te ajudar. Você acabou de chegar, vivia cercada de proteção no Brasil,
precisa se acostumar com as coisas antes de sair por aí bebendo e saindo com caras estranhos.
— Joaquim, eu não dependo mais do meu pai e ninguém pode mais me subjugar. — Bebo mais e
aponto o copo para ele. — Faço da minha vida o que eu quiser, e se eu quiser medir forças com
você?
— Elena, me ajude a te ajudar. Não faça de mim um oponente. Edgar já aprontou os papéis para
você trabalhar em um dos meus escritórios. Você é inquilina do seu irmão e eu sou seu chefe. Deve
muita satisfação a nós dois. — Ele entorna todo conteúdo do copo, coloca na mesinha e recosta no
sofá, meio de lado de frente para mim. Estou tensa pela presença tão próxima. Sinto o calor do corpo
grande tão próximo. — Eu exijo muita discrição dos meus funcionários. Você não vê nenhum deles
em baladas e saindo por aí para transar.
— Mas eles têm uma vida normal? Ou são escravos com a etiqueta Mafra?
— Uma vida normal. Você disse certo. Então aconselho ir para casa, dormir e ficar sossegada.
Estamos entendidos?
— Ir pra casa? Jamais. — Celeste fala. Está de pé olhando para nós dois. — Vocês fugiram, tem
noção do tanto que procurei?
— Celeste, Elena decidiu ir embora. — Quin se adianta. — Vou chamar um táxi.
— Você só pode estar brincando, não é? Venha logo Elena. Encontrei dois gatos ali e eles estão
no pique.
Me levanto depressa e entrego meu copo para Quin.
— Até mais, Quin. — Digo e saio quase correndo com Celeste. Nem quero olhar a expressão
dele.
— O que ele queria? — Celeste pergunta me conduzindo para o primeiro andar, o bar.
— Nada. Querendo saber o que viemos fazer aqui e tal. — Reviro os olhos e de longe já posso
ver dois homens acenando para a gente. — Você não disse que não era para pegar os bofes aqui?
— Abri exceção. Claro que eu não vou ficar com nenhum, já que sou comprometida. Os dois
são para você.
— O que? — Freio no mesmo instante.
— Lena, por favor né? Eu não vou trair meu homem. Nem se eu quisesse, adoro ele demais para
pensar em outro cara.
Ela me puxa, os dois homens se levantam e vem até mim.
— Rapazes, essa é a Elena, minha amiga, que falei. — Celeste me apresenta.
— Oi. Sou Harry.
— E eu sou Vince.
Cada um aperta minha mão e me dá um beijinho no rosto.
— Vou deixar vocês três sozinhos, vou rápido ao toalete e volto e dois segundos. — Celeste
anuncia e nem me dá tempo de protestar.
— Quer tomar alguma coisa, Elena? — Um deles pergunta assim que Celeste sai. Cada um
ocupa um banquinho ao meu lado e fico no meio.
— Não, obrigada.
— Ah! Só um drinque. — Vince, o moreno, de cabelos desgrenhados caindo na testa oferece.
Nem espera eu responder, faz um sinal para o barman e pede as bebidas.
— E então, você é brasileira e acabou de chegar?
— Sim. Vim passar uma temporada.
— Já conheceu alguém interessante?
— Ainda não. — Respondo fazendo um breve sorriso.
— O que acha de conhecer nós dois mais… intimamente?
Fico sem fala.
— Morando sozinha? Trabalhando em alguma coisa? — Harry indaga interessado no decote do
meu vestido. Estou sendo bombardeada de perguntas.
— Trabalhando para mim. — Ouço a voz atrás de mim, fecho os olhos e solto um “porra”. —
Ela é minha irmã, venha comigo Elena.
Merda! Merda!
— Porra cara. Foi mal aí. Estávamos só conversando. — Vince afirma olhando para a pessoa
atrás de mim. Nem me dignei a falar alguma coisa. Joaquim me chama de irmã quando lhe é
conveniente. Tenho vontade de gritar dizendo que não sou irmã de ninguém, mas também estou a fim
de sair de perto desses dois.
— Vão se divertir em outro lugar. — Quin fala e os dois homens se levantam no mesmo
instante.
Me viro para ele, ainda continuo sentada. Joaquim está me encarando com essa maldita cara de
deus grego. Mãos na cintura, queixo enrijecido. Pronto para dar uma bronca na irmãzinha de seis
anos que aprontou. Pego minha bolsa no balcão e saio sem falar nada, sei que ele me segue.
— Já vi que essa noite não vou conseguir nada com meu cão de guarda.
— Sabe das coisas. — Ele fala, passa por mim e vai até um homem de terno, na porta.
— Um táxi. Pra ontem. — O homem assente e sai rápido. Quin pega o celular, digita e assim que
a pessoa atende ele fala:
— Elena está indo embora. Continue com essa sua atitude e deixarei Edgar ciente.
Canalha! Ele ligou para Celeste.
Joaquim me fita atentamente. Passa os olhos pelo meu decote e torna a subir para o rosto.
— Você sempre sem noção alguma, não é? — Murmura, o olhar intenso quase me hipnotiza.
— Não enche. — Viro as costas para ele, mas sinto as mãos fortes me segurar.
— Não vá sair até que o táxi esteja aqui.
— Qual é Quin? O que está acontecendo? Por que está se preocupando comigo dessa forma?
Antes de ontem me tratou como se eu fosse uma intrusa, e agora se porta como um troglodita mal-
educado. Não sou sua irmã, vê se me erra, cara. — Apesar de toda essa minha defesa, ele não me
deixa afastar.
O homem de terno chega perto da gente e apenas faz um sinal com a cabeça.
— Vamos. — Joaquim segura no meu cotovelo e me leva para fora. O táxi está parado, ele abre
a porta e praticamente me empurra para dentro. Depois dá uma nota de cem dólares para o motorista
e se debruça na janela, do meu lado. Nossos olhos cravam num olhar compenetrado.
— Durma e esfrie a cabeça. Talvez consiga pensar de sangue frio e ver por que quero te
proteger.
Ele acena para o motorista e o carro sai.
Chego em casa, vou para o meu quarto. Edgar está no escritório, decido não alarmar. Celeste vai
chegar daqui a pouco soltando fogo pelas narinas. Ela vai levar para o lado pessoal e querer se
vingar de Joaquim. Troco de roupa, visto uma camisola estilo camiseta e me sento na cama com o
notebook na mão. Digito minha senha e o meu perfil aparece.
Agora são quarenta e dois inscritos.
Clico em chat público e digito:

“Boa noite, garotos.”

Fico esperando e em pouco tempo as respostas chegam.

“Oi linda.”
“Até que enfim nossa patroa apareceu.”
“Quando podemos conversar, baby?”
“Vamos para o privado.”

Acho que isso vai noite adentro. Com um sorriso bem grande eu começo a digitar respondendo
e me sentindo pela primeira vez livre, dona do meu destino e minhas escolhas. Aqui é meu mundo,
aqui eu dou as cartas e estou no controle de 42 homens. Um lugar em que Quin ou Edgar não podem
me alcançar. E daqui uma semana, não será mais só em computador. Será ao vivo.
E eu já tenho o primeiro escolhido. Se chama Mike. É um Virginiano.

“Olá Mike, me fale sobre você.”

Digito no privado e fico de sorrisinho na cara olhando ele digitar a resposta.


QUATRO

— Você viu a cara do Joaquim hoje no almoço? — Pergunto a Celeste vendo-a analisar a bunda
em frente ao espelho. — Era como se tivesse jiló na comida. — Pensativa, relembro a cena. Desde
dois dias atrás a noite, na boate, eu não o tenho visto. E daí apareceu hoje de repente, com Edgar para
vir comer o feijão tropeiro que eu estava preparando. Quin não estava apenas gostoso nível “pecado
absurdo”, estava calado e ficava a todo instante me encarando. Só um lembrete: odeio vê-lo mastigar,
é muito erótico.
Com os outros na mesa, ele estava bem descontraído, ria das piadinhas de Celeste e Edgar,
entretanto, falou pouco diretamente comigo. Uma das coisas foi quando Edgar perguntou o que ele
achou do meu feijão. Ele limpou os lábios e olhou diretamente para mim. “Está muito bom, Elena.
Muito bom mesmo.” Disse isso e eu sorri agradecida.
— Estou achando que a australiana está atacando de novo. Ou é alguma coisa com a família
adotiva dele. — Celeste fala me fazendo pensar no agora.
— Céus! Aquela mulher é uma princesa. A pele dela é uma coisa que daria inveja a qualquer
bebê. — Comento relembrando a foto que vi da tal australiana.
Celeste deixa a bunda de lado e vem para a cama onde estou jogada folheando uma revista.
— Ela vai se casar com um conde. Tá em todos os jornais. Acho que ela não arriscaria o
noivado voltando para o ninho do Quin. — Encaro Celeste, ela olha pensativa, para o nada,
acariciando o queixo. — Pensando bem, acho que não é ela que está deixando o Quin com cara de
bunda.
— E sobre a família dele? — mantenho meu sutil olhar curioso para Celeste — queria conhecê-
los. — Revelo meu desejo voltando para a matéria na revista. Mesmo sem estar lendo.
— Sério que você nunca viu o Victor Mafra?
— Sim, eu pesquisei sobre ele e a mãe. É um cara bonito.
— Bonito? Aquele cara nasceu para a degustação comunitária. Chega a ser um desrespeito com
a sociedade.
Relembro da foto que vi: alto, moreno e com cara de militar. Apesar de ser executivo.
— Sou mais o Joaquim. — Respondo e depois percebo que dei um fora. Olho para Celeste e ela
parece que não percebeu. Está concordando com um aceno positivo.
— Quin é líder isolado. Estamos falando de pobres mortais, deixe os deuses gregos fora. — Ela
ironiza.
— No caso, deus brasileiro. — Eu corrijo.
— Muito brasileiro. Isso para provar para essas riquinhas americanas que os “Made in Brasil”
dão mais que um caldo.
— Uma sopa completa. — emendo e Celeste cai rindo deitada na cama. — Falando em sopa
completa, o que acha de fechar a página? Não acha que já tem inscritos demais?
— Computador. — Celeste estende a mão pedindo. Entrego o tablet e fico olhando ela mexer.
— Safada. Você já tá na farra aqui hein? — Ela olha e provavelmente está vendo os caras que já
marquei como favorito. É o melhor passatempo ficar olhando foto de homens. É quase tão bom
quanto ver sapatos na vitrine. Os sapatos são piores pois se você não tiver dinheiro vai ficar com
aquela dor de não poder adquiri-lo. E aí eu fiquei olhando cada perfil, sabendo que era só clicar e o
cara seria meu, estavam lá como um banquete, um self service ao meu bel-prazer.
Me sento ao lado de Celeste atenta ao que ela está fazendo.
— Já quer fechar? — Indaga e me olha de relance.
— Sim. Já tenho meus preferidos, ao todo são cento e dezoito homens e eu preciso só de um.
— Errado! — Ela me corrige bruscamente com um grito que me faz sobressaltar.
— Como assim doida? — Pergunto com a mão no peito. — Tô procurando um namorado não
um harém.
— Todas nós precisamos de um harém. — Celeste levanta os olhos sonhadoramente — Seria
tudo. — ela afirma ainda em transe. Às vezes me assusto com certas atitudes dela. — Imagine, brigar
com um cara e ir se consolar nos braços de outro?
— Seria como prostituição, não?
— Tá, vamos colocar os pés no chão e optar pela monogamia mesmo.
— Foi o que eu disse: escolher um desses cento e dezoito.
Ela traz um dedo na minha cara e o balança em sinal de negativo.
— Escolher doze desses cento e dezoito. Foco Elena, não me faça babar de nervoso. Já dei uma
olhada no seu mapa astral e bolei até uma ordem aleatória para você sair com cada signo. Já fiz seus
cálculos e você tem ascendência em gêmeos.
— Eu sou de gêmeos, Celeste.
— Sorte a sua, deu coincidência. Escolhi os que mais tem a ver com você e os deixei por último,
vai começar pelos menos prováveis. — Ela solta todo o ar como se estivesse cansada. — E olha que
nem vou cobrar meus honorários.
— Celeste você sabe que se alguém descobrir minha safadeza eu corro perigo de pegar prisão
perpétua, não é? Vamos fechar logo esse perfil antes que por um azar Quin ou Edgar o descubra.
— Imagina se Quin descobre e se inscreve? — Olho para a cara de perplexidade dela. Tive dois
sustos. Um pelo que ela falou, eu já cogitei isso e outro susto pelo tapa que ganhei no ombro. Odeio
quem conversa batendo e Celeste quando se empolga, bate na gente.
Dou uma risada nervosa para mascarar minha tremedeira.
— Louca. Quin viria me dar uma bronca, não se inscrever.
— É. Você tem razão. Ele é milionário, já foi capa de revistas como Forbes e People, além de
ser super gato e jogar rúgbi. Não precisa encontrar namorada na internet. — Celeste desdenha
jogando os cabelos como uma diva.
— Quin Joga rúgbi? — A pergunta sai tão automática de mim que mais uma vez Celeste não
percebe meu tom.
— Meu. Bom. Jesus. — Celeste bate palma e arregala os olhos. — Não estou falando só do Quin,
estou falando do time inteiro. Edgar também faz parte do time e é a coisa mais excitante que existe.
Nunca viu?
— Ao vivo não.
— Tenho que te levar um dia. Nunca mais vai ver a bunda do seu irmão da mesma forma.
— Ai credo Celeste. Não quero pensar na bunda do meu irmão.
— Pois eu quero. Toda vez que vou vê-los jogar, é o dia que mais me acabo na cama com meu
homem.
— Ah! Tá bom. — Coloco as mãos no ouvido. — Já entendi Celeste.
— Que droga. Ter amiga cunhada é chato demais. Nem posso contar as saliências que faço com
meu noivo.
— Vamos ao foco? — Dou dois tapinhas na perna dela. — Qual signo acha que eu devo
começar?
— Tem algum em mente? Escolha um que não seja Leão, Escorpião e Áries.
— São os que mais têm a ver comigo?
— Sim. Vamos deixar esses três por último.
— Por que Celeste? — Desconfiada, semicerro os olhos para ela. — Os astros quiseram assim
ou você que decidiu?
— Por que, veja bem, imagina você transar com Áries e adorar e não querer experimentar o
resto? Maldade e injustiça com os outros né?
Reviro os olhos e balanço a cabeça. Pego o tablet e deslizo o dedo na tela.
— Eu comecei a conversar com um cara. Ele é virginiano. O que acha?
— Foto. — Ela pede e eu entrego o tablet. Celeste olha de sorrisinho maroto.
— Mike, Virginiano, vinte e nove anos e ensino médio completo. — Ela lê e me devolve. —
Gostei. Comece com ele. Tem uns braços que benzadeus.
— Ah! Quero te mostrar outra coisa. — Passo o dedo na tela do tablet, escolho uma mensagem e
mostro Celeste.
— Esse é o quarto cara que sugere isso.
Ela lê e levanta o rosto me olhando incrédula.
— Fazer sexo de máscara?
— Sim. O que acha?
— Tá aí uma coisa que eu não tinha pensado.
— Eu achei bom também. Eles estão bem eufóricos e sugeriram fazer um encontro às claras,
durante o dia. Um almoço ou um café. E se for para partir para o sexo, que seja de máscara.
— Meu Deus! — Celeste entoa quase cantando — Isso me deu uma ideia. Se arrume, vamos sair
agora.
— Pra onde?
— Apenas vista-se Elena. É hora de trazer os doze homens para sua vida.

(…)
Em um dia arrumamos quase tudo. Primeiro Celeste e eu fomos ao escritório de uma designer
que reformou um antigo galpão e desenhou uma boate de Joaquim. Conversamos com ela e a
levamos ao local que escolhemos.
A melhor forma de esconder alguma coisa de alguém é fazer tudo debaixo das fuças. Quanto
mais escondido for, mais chances têm de dar errado. O perfil na internet foi um parasita na página do
Quin e acabou dando certo, ele nem sonhou que alguma coisa estava acontecendo. Já fechamos as
inscrições e vamos fazer a seleção logo mais. Agora, nos apossamos de uma antiga boate de Quin
que está fechada e o lugar foi colocado para alugar. Celeste providenciou tudo e conseguimos
mascarar o aluguel, primeiro que ela tem acesso aos papéis do escritório onde meu irmão gerencia e
segundo que Meg, a designer, aceitou alugar no nome dela. E hoje mesmo já desenhou o projeto.
Mulheres sempre se ajudam.
É estranho? Muito.
É excitante? Demais.
É ousado? Sem dúvidas.
Estamos desenhando o lugar onde eu vou transar clandestinamente com doze homens. Não ao
mesmo tempo, claro.
Depois de passar o dia fora resolvendo tudo isso, fomos para casa com sacolas cheias de
compras.
Gastei parte das minhas economias fazendo compras. São doze lingeries, super sexy e de
diferentes modelos. Também escrevemos regras enquanto almoçávamos e chegamos à conclusão que
eu teria que tomar anticoncepcional e ainda ser a provedora das camisinhas.
— Isso é muito estranho, Celeste. — Eu contestei de sobrancelhas em pé. — Sou criada por uma
doutrina que não permite que garotas andem com camisinhas na bolsa.
Ela solta uma gargalhada.
— Estou aqui imaginando a cara do Edgar abrindo sua bolsa e vendo milhares de camisinhas
dentro.
— Besta. — Resmungo e bebo um gole de suco.
— E não é só camisinha amiga. Você vai comprar doze cuecas e doze máscaras masculinas.
— O que Celeste? — grito cuspindo suco na mesa.
— Vamos fazer um presentinho para cada um. — Ela fantasia despreocupada — no encontro às
claras, no almoço, você vai dar três camisinhas a cada um deles, uma cueca e uma máscara para usar
na noite com você.
— Celeste! — bato as mãos na mesa — isso está ficando insustentável! O que eles vão pensar da
minha índole quando eu chegar e dar uma cueca boxer e três camisinhas?
— Que índole? Eles estão querendo sua xoxota, não sua índole.
— Ai, que horror.
— Para de drama, Elena. Ninguém aqui tá mandando você se alistar na Marinha. Você vai fazer
uma seleção de homens bonitos e disponíveis — ela começa a contar nos dedos. — Vai sair com doze
deles e em seguida ter uma maravilhosa noite de sexo intenso, coisa que você não tinha no Brasil.
— Só espero não ser acusada de aliciar homens.
CINCO

Eu tinha tantas questões em mente. Como fugir e chegar sem ser percebida em cada encontro
noturno? Essa era minha principal preocupação. Sei que Celeste pode dar cobertura em relação a
Edgar, mas não deixo de sentir que poderia dar merda. Convicções formadas? Não tinha nenhuma no
momento. Fiquei quase a noite em claro, olhando as camisinhas que compramos em um sex shop.
Comprei trinta e seis camisinhas, três para cada encontro. Acho que ninguém gasta mais que isso.
Peguei um pacotinho e olhei. Rosa com o nome do sex shop. Deixei de lado, virei na cama e fiquei
olhando a noite pela janela. A casa em silêncio, já se passava das duas da manhã.
Meu bom Jesus! Vou transar com doze homens. Bem que eu poderia me apaixonar por algum. O
segundo ou terceiro de preferência.
Sabe qual é meu dilema interior? Quero fazer isso, acho muito sexy e ousado, mas não quero,
pois tenho medo. É perigoso, convenhamos. Vou para um encontro noturno e ninguém estará sabendo
a não ser eu, Celeste e ele. Mas apenas nós dois estaremos lá. Pode acontecer qualquer coisa… ruim.
Nesse mundo de hoje… não dá para confiar em ninguém.
Me levanto, vou ao banheiro, abaixo a calcinha e suspendo a camisola. Me sento no vaso
sanitário e fico pensativa ouvindo ao fundo, o barulho do xixi. Tomo uma decisão. Vim a uma cidade
maravilhosa, que não conheço nada. Como assim? eu venho para Nova York e fico querendo
namorar? E a cidade? Antes de me entregar a essa odisséia sexual, acho que mereço um tour pela
cidade.
É isso que eu falo com Celeste quando o dia amanhece. Ela está sozinha na cozinha. De roupão,
o cabelo já pronto; a franja enrolada em um bob grande. Ela termina de passar o café e me olha.
Estou encolhida dentro de um moletom grande do meu irmão, sentada no banquinho.
— Vai adiar com Mike Belos-Braços?
— Olha se não puder me levar em uns lugares bacanas, eu posso sair por aí e conhecer a cidade.
— Não é isso. — Ela abana a mão. — Você vai ficar aqui por um mês. Pense comigo, um mês é
igual trinta dias, você já gastou uns cinco aqui. São doze caras…
— Posso conseguir um grande amor no terceiro cara. — Interrompo a conta de Celeste.
— Não vai experimentar todos os signos?
— Suposição, Celeste. Posso conseguir encontrar a pessoa certa no terceiro ou quarto homem.
Eu nem mesmo acredito nisso de signos. O que vale é a personalidade.
— Que tem a ver com signo.
— Não acho. — Desdenho enrolando meu cabelo no dedo.
— Tudo bem. Acho que você precisa de um tempo. — Ela me serve café e senta em outro
banquinho. — É tudo muito novo para você Lena.
— Pois é. Eu queria conhecer Broadway, Sak’s da quinta Avenida, Times Square, tomar um café
na Tiffany Coffer.
— Ai senhor! Já me prontifico a ser sua guia. Vamos revirar Nova York. Vou pedir licença de
três dias ao chefe.
— Edgar?
— Não. Joaquim. — Ela grita e arregala os olhos para mim. Estou com a caneca na boca,
paralisada. — Elena! Vamos chamar o Quin!
— Pra que?
— Para sair por aí com a gente. Ele entra nesses lugares todos. Não precisaríamos nos
preocupar com nada.
— Não. Recuso. Prefiro enfrentar fila ou ganhar não na cara. Não será nada agradável conhecer
Nova York com o Joaquim na nossa cola.
— Veja bem Lena, ele pode ser muito útil. Ele pode pagar nossas contas, ele pode carregar
nossas sacolas, e tem entrada vip em todo lugar. Vamos chamar ele? Por favor.
— Eu não quero. Queria eu e você apenas. Botar a conversa em dia, falar dos meus planos com
os doze homens, entrar em lojas de sapatos sem precisar me preocupar com um homem a tiracolo,
emburrado por que a gente tá demorando.
— É. Tem razão. Mas ele bem que podia dar um cartão para a gente gastar à vontade.
— Cartão de quem? — Edgar entra na cozinha. Já arrumado. — Bom dia mana. — Beija minha
cabeça.
— Bom dia.
— Amor, eu e Elena vamos dar uma volta por Nova York! — Celeste avisa.
— É? Que legal. Que dia?
— Hoje e amanhã.
— E a doida de sua noiva, está propondo que peçamos um cartão a Joaquim, para gastarmos a
vontade.
— Vocês são doidas. Não vão fazer isso. Mesmo sabendo que se pedir ele dá mesmo o cartão. O
que tem pra comer? — Ele olha em volta.
— Vou pegar. — Ela pega uma vasilha de plástico e mostra. Dentro há muitos biscoitos.
— Não. Agora me lembrei. Sobrou Pizza de ontem. — Edgar abre a geladeira e pega a caixa de
pizza.
— Eu quero também Edgar! — Grito pulando do banquinho. Eles dois riem. Pizza do dia
anterior no café da manhã, sempre foi motivo de briga na minha casa.
Depois do almoço, eu e Celeste vestimos nossas roupas meio chiques sem querer mostrar que
sou uma turista. Algo que tenha a ver como “sou uma Nova-iorquina passeando por aí”. Celeste não
ligou para Quin, pediu para Edgar falar com ele. E acho que meu irmão deu mesmo o recado.
Estávamos na Time Square, eu com água nos meus olhos, tirando fotos de tudo. Das pessoas, de um
homem vestido de homem aranha, os prédios, as propagandas luminosas. Isso a noite deve ser uma
loucura. E então o celular de Celeste tocou e ela começou a resmungar.
— Sim, Quin. É… eu sei. Não, ela não precisa. Estou certa que não. Tchau e beijo.
— Era o Quin? — Voltamos a andar quando ela desligou.
— Sim. Querendo saber se você ficaria bem, se não precisa de dinheiro.
— E não aproveitou para o extorquir?
— Até pensei em fazer isso, mas Joaquim veio com uma conversa muito antipática, ai eu não
aceitei.
— Ele vai vir atrás da gente? — Indago já preocupada. Não sei como proceder com Joaquim na
minha cola no meu dia de conhecer a selva de pedra.
— Quero ver ele nos encontrar em Nova York. — Celeste grita e puxa minha mão. Corremos
enlouquecidas, não correndo literalmente, indo depressa, para que eu entrasse pela primeira vez na
vida na Sak’s. uma extraordinária loja de tudo. Tem ala masculina, sapatos para todo mundo, ala
feminina. Tem de tudo. Eu fiquei besta com os preços em relação as coisas no Brasil. Encontrei luvas
magníficas, luvas longas de seda, sendo que eu nem precisava de luvas. Na verdade, nunca nem usei
esse tipo de luva. Fomos ver os sapatos e sapateei louca quando um par de botas cano curto ficou
magnífica nos meus pés. E quase caí de cima da botinha quando ouvi uma voz: — Ficou ótimo em
você. — Era Joaquim, ali, olhando para mim e atraindo olhares das pessoas ao redor. Muito lindo em
sua calça cáqui e camisa azul escuro, dobrada nos punhos. Celeste revirou os olhos quando eu
murmurei para ela: “O que disse sobre ele não poder nos encontrar? ”
— O que está fazendo aqui Joaquim? — Me sentei para tirar o sapato.
— Vim ser o guia de vocês.
— Eu já sou a guia dela, Quin. Vaza. — Celeste comandou.
— Eu moro aqui a mais tempo. — Ele contesta. Onde mais quer ir?
— Na verdade ainda vamos ficar por um tempo aqui. — Eu digo e tento olhar o preço da
botinha.
— Ok. Vamos levar essa. — Ele fala para uma vendedora que já estava ali, perto
estrategicamente. A mulher sorri para mim e já toma as botinhas.
— E esses aqui também. — Celeste, a esperta, entrega um par de sapatos a mulher. Saímos de lá
felizes. Joaquim correu na frente, passou o cartão dele, que com certeza deve ser daqueles ilimitado;
e carregou todas as nossas sacolas. O que está acontecendo com esse homem? Dias atrás, no almoço
estava com cara de bunda. Hoje já é meu “best friend”. Caso de dupla personalidade?
Joaquim nos levou em mais lojas, eu me senti como uma criança na Disney. E nem impedi que
ele pagasse minhas compras. Ele na verdade nem pedia, já entregava o próprio cartão, ou então
levantada o queixo e dizia: Mande a conta para mim. E foda-se o resto. A pessoa que tinha que ir
procurar endereço e decidi se mandava para a casa dele ou o escritório dele ou um ultrajante email
de cobrança.
Depois fomos a Broadway. Eu com minha câmera na mão, só faltava estar com uma camiseta de
I Love NY. Para todo mundo saber que eu era uma turista enlouquecida tirando foto até das cadeiras
da plateia vazias. Fiquei impressionada de poder entrar lá, só para conhecer, sem nenhum espetáculo
acontecendo. Isso deve ser possível, aberto a visitantes.
— É bem conhecido aqui hein Quin? — O cutuquei enquanto andávamos pela movimentada rua,
indo visitar outros lugares.
— Pois é. — Ele concordou apenas, andando de cabeça baixa, as mãos carregadas de sacola.
Ousei dar uma bisbilhotada de lado, meio despistada. Percorri os olhos pela sua estatura corpulenta,
seus braços bem definidos, os pelos castanhos claros no rosto, e os cabelos jogados casualmente.
Olhei de volta para o chão quando ele me flagrou.
Entramos em outras lojas, e por fim, quando já se passava das sete da noite, Celeste ligou para
Edgar e acabamos nós quatro no Carmine’s, que segundo Joaquim, é uma parada obrigatória aqui em
Nova York. Fica pertinho da Times Square. Tinha até fila, mas rapidamente entramos e nos
acomodamos para experimentar uma deliciosa comida italiana.
A conversa fluiu quase normal. Joaquim continuou tendo mais intimidade com Edgar e Celeste,
enquanto eu ficava só apreciando a comida e a companhia deles.
Olho para o Joaquim e nem sei ao certo o que penso a respeito dele e do que eu sentia anos atrás.
Sei que a atração existe da minha parte, afinal, como Celeste já tinha dito, ele sabe como ser o centro
das atenções, apenas estando parado. Nem precisa se esforçar. Ele olha para mim e vejo seus olhos
brilharem. Joaquim beberica devagar, sensualmente, seu copo de vinho e pressinto que talvez, de
alguma forma, ele saiba que exerce tanta atração em mim e nas várias outras pessoas ao redor. Acabo
decidindo o que fazer da minha vida, nesse exato momento. Aqui, nesse restaurante, com meu irmão
a minha frente. Vou dar para doze caras sim. Talvez em um deles esteja meu grande e verdadeiro
amor e ainda por cima, esqueço de vez do Sr. Mafra; quem vai ter tempo de pensar em alguma coisa
com doze gostosos a disposição?

(…)
Sabe o que me deixa muito nervosa? Homem bonito. Eu simplesmente fico zonza, suando e
gelada. Sem saber como lidar. E hoje foi o ápice do meu sofrimento. Celeste e eu passamos a noite
em claro fazendo a seleção. Foi difícil e fácil ao mesmo tempo.
É uma questão de desejo. Eu não vou ser caridosa nesse momento e escolher alguns feios só por
pena. Coloquem-se no meu lugar: você não conhece o cara, então precisa de algo que chame a sua
atenção. Ou seja, a aparência. Sem dúvidas esse foi o meu critério de escolha. Tinha feios e velhos.
Foquei num limite de idade e fui por beleza. Os caras já sabiam sobre todo o plano, que entre eles eu
escolheria doze para ficar. E já deixei claro desde o início que queria algo sério, ao menos tentar.
— Olha esse Leão! — Celeste exclamou de olhos grandes. — Olha o tamanho desse homem,
Elena. Você tem que escolher!
Olho para a foto do homem sem camisa, exibindo belos músculos, cabelos curtos e pretos. Uma
tatuagem enorme, algo como tribal, cobria parte do seu ombro descendo para o braço. Bem excitante.
Mas tem cara de quem não tá a fim de gastar tempo namorando uma garota da internet. Por esse olhar
sei que ele quer só transar.
— Não. Não gostei. Muito grande. É desproporcional. Sem falar que tem cara de criminoso.
— Os fora da lei são os melhores, vai por mim. — Celeste clica para o próximo perfil.
— Por que diz isso? Meu irmão é a pessoa mais sossegada que conheço.
— Não estou dizendo por experiência própria. Estou falando o que o povo fala por aí.
— Ah tá. — Volto a olhar para a tela do notebook. — Para o leão eu já tenho um pretendente. —
Procuro e clico em um perfil e a foto se abre.
— Nossaaa! Amiga, que espetáculo. — Ela berra.
— Não é? Olha esses cabelos! — concordo abismada. Os cabelos são como de anjos:
encaracolados e claros. Não loiro, algo em tom de mel.
— E essa boca? Deve fazer coisas absurdas. Ai senhor! Estou me sentindo puta em pensamento,
uma adúltera.
— Tem vinte e sete anos, é do Texas e está morando aqui em Nova York para trabalhar com o
tio. Solteiro, e sem filhos.
— Marque ele. — Celeste ordena.
Nesse instante Edgar coloca a cabeça dentro da porta.
— Amor, vamos dormir. — Ele chama celeste. — Desde que Elena chegou você está me
negligenciando.
— Edgar, ela é minha madrinha. Estamos resolvendo coisas sobre o casamento. — mente
descaradamente.
— Pode ir Celeste, eu termino aqui.
Depois que ela saiu, eu fui dormir. Dormi feliz em saber que no dia seguinte já teria o primeiro
encontro. Depois que consegui escolher os doze e mandei uma nota para os outros agradecendo, eu
abri um grupo no Whatsapp. Celeste disse que eu teria que ter um lugar para reunir os doze, um lugar
que não fosse facilmente detectado em qualquer computador. Então, nada melhor que mantê-los em
um grupo privado no meu celular.
OS DOZE SIGNOS DE ELENA

INÍCIO DOS ENCONTROS


1° ENCONTRO: VIRGEM

Quase sempre perfeccionista e gosta das coisas ao seu modo. É argumentativo e gosta de ter a
última palavra. Prático e exigente, antipatiza com muito barulho e caos.
Com medo de depender de alguém, o virginiano não se abre facilmente na cama e conduz o ato de
fazer sexo do seu jeito. Apesar de tímidos no começo, os virginianos são muito meticulosos e, quando
sentem confiança, procuram descobrir todos os pontos de prazer da outra pessoa, buscando o máximo
de tesão na hora do sexo. Muito gentis e sensuais, adoram ouvir sussurros e odeiam as transas
rápidas, procurando prolongar as preliminares na tentativa de descobrir todos os mistérios da outra
pessoa.
(Ref: Taróloga Cléria Peixoto)

NOME: Mikael S. Peterson NASCIMENTO: 12 de Setembro de 1986 (29 anos) SIGNO:


Virgem ESTADO CIVIL: Solteiro NACIONALIDADE: Nova York - EUA
FORMAÇÃO: Ensino Superior – Educação Física PROFISSÃO: Professor de ensino médio.
LAZER: Esportes
FRASE DE VIDA: Espere o melhor, prepare para o pior, aceite o que vier.
FRASE DE TÚMULO: Me tornei o melhor adubo que essa terra já viu.

Eu não quis perder tempo. Estava com a ideia fixa de partir para o combate. Acordei já ligada
total. Eu tinha feito compras, poupei todo meu dinheiro, pois Joaquim pagou tudo, conheci Nova
York, não toda, claro, mas terei tempo de conhecer o restante. Ficarei um mês por aqui, namorando
homens gostosos e andando por aí com minhas roupas novas. Isso deixa qualquer uma feliz.
Já combinei o almoço com Mike, o virginiano, e estou super eufórica. Ele é lindo, educado, e
tem um sorriso mais chamativo que seus belos braços. Enquanto me arrumo adequadamente,
raspando as pernas e tomando um banho demorado de sais, devaneei de olhos fechados e um sorriso
de satisfação. Essa é a loucura mais excitante da minha vida, ou melhor, a única loucura da minha
vida. Eu mesma estou orquestrando, claro que com Celeste por trás, mas não estou seguindo ordens
dos meus pais ou meus irmãos. E nem do meu antigo melhor amigo barra amor platônico.
Escolhi uma roupa, não muito chamativa. É um almoço, mas não abro mão dos saltos. Escolhi
uma saia e uma blusa leve sem mangas e para ficar mais casual, deixei os cabelos num rabo-de-
cavalo. Me olhei várias vezes no espelho, depois dei uma olhada no endereço do restaurante que vou
me encontrar com Mike. Pelo mapa que acabo de ver no meu celular, é aqui perto. Posso ir a pé. Sei
que aqui não é o Brasil, mas acho que não vou me perder nessa área.
Essa minha ideia acabou por terra quando saí e andei um quarteirão. Quando olhei ao redor e vi
Nova York me encarando toda ameaçadora, eu preferi pegar um táxi e chegamos em poucas voltas.
Saltitei para fora do carro, o coração descontrolado de nervosismo. Ajeito meus cabelos, aliso minha
blusa e entro no restaurante. Além de tudo, é a primeira vez que vou colocar meu inglês em prática.
Quer dizer, eu usei mais ou menos no dia que fui a boate de Quin, mas agora sou eu sozinha, em um
lugar estranho com um cara estranho. Ainda bem que tenho minha ligação de segurança, Celeste sabe
onde vou.
A jovem que me atendeu, me levou até uma mesa. Eu preferi esperar meu acompanhante chegar
para pedir alguma coisa. E quando ele chegou, eu suspirei e torci para que não tivesse soprado alto.
Me levantei para recebê-lo. Eu já sabia que ele era professor de educação física, que gostava de
se exercitar, mas nunca achei que era tão enorme e bonito assim. Sério, o cara parecia um
cruzamento entre um atleta com um modelo da Calvin Klein. Ele optou por uma camisa que delineava
seus músculos e um jeans desbotado. Seus cabelos negros parecem um pouco maior que na foto que
ele me mandou. São encaracolados e chega a altura do colarinho da camisa.
Uau! que lábios. — Era o que eu conseguia pensar.
— Elena. — Ele disse apertando minha mão.
— Mikael.
— Mike apenas. Como nas mensagens. — Me corrigiu.
— Ok. Mike apenas. — Sorri e suspirei ao mesmo tempo. Nos sentamos e logo uma garçonete
veio nos atender. Não estranhei por ele não beber refrigerantes e nem cerveja. É um cara que cuida
do corpo, então pediu um suco verde e eu acompanhei, pedi um suco de melancia.
— Você está linda. — Me elogiou. — Quer dizer, você é linda.
— Obrigada.
— Como está a estadia aqui? — Sorri para mim e covinhas aparecem na bochecha. Sinto meu
estômago dar cambalhotas de tão leve — Gostando dessa loucura toda?
— Ah… — abano a mão — não é tão diferente do Rio de Janeiro. Morei em cidade grande,
então… não senti muita diferença. — Tento parecer meio casual, querendo passar a ideia que não me
impressionei com Nova York.
— Já deu umas voltas? Times Square, Broadway…
— Já. Tenho um amigo, que mora há muito tempo aqui. Ele foi meu guia.
— É? Amigo?
— Acho que já ouviu falar. Joaquim Mafra.
— Já sim. Você o conhece?
— Muito.
— Que legal. Gosto das boates dele. Como é conviver com uma celebridade?
— Eu estou na casa do meu irmão, como já te contei. Vejo pouco o Quin, ele sempre está
viajando ou resolvendo problemas.
Ele assente. Me fitando atentamente. Tento fingir que as covinhas nas bochechas dele, são apenas
meras covinhas.
Ficamos nos olhando por um tempo. Inevitavelmente olhei para as mãos dele a procura de uma
aliança ou um sinal dela. Vai saber se ele está mentindo e tem alguém.
— Seu inglês é perfeito. — Ele muda de assunto — Me disse que estava com medo de eu não te
entender.
— Obrigada. — Nos calamos de novo e nossos sucos chegam. Bebo um gole para me refrescar.
— Me conte como é o Brasil. É um dos países que eu gostaria de visitar.
— Vá mesmo. Tem seus defeitos, como qualquer outro lugar, mas é um belo país. Tropical, com
praias lindas, comidas típicas…
— Samba. — Ele completa.
— Odeio samba. — Sorrio de lado.
— Sério? É do Rio de Janeiro e odeia samba?
— Bom, nem todo brasileiro gosta de samba e futebol como os outros países acham. Samba é
um tipo de música que não curto muito.
— Mas tem algum time de futebol?
— Futebol? — Faço um bico e ergo os ombros. — Não muito. Mas sou uma mulher no meio de
três irmãos, acabei tendo mais afinidade por um time brasileiro.
— Aqui, gostamos de futebol Americano ou baseball. Já viu uma partida de algum desses?
— Não. Mas gostaria muito de ver. Meu irmão mora aqui e ele joga rúgbi nas horas vagas.
Ainda não o vi jogar.
— Rúgbi é coisa dos ingleses. — Mike desdenha.
— É. Ouvi falar. Mas os americanos gostam também.
— Sim. Gostamos. Eu já joguei, na faculdade.
— Ah, você tem porte para esse tipo de jogo. — Aproveito e passeio os olhos pelos braços dele.
— É. — Ele sorri e seus olhos analisam pontos em meu rosto e desce para meus seios. Ele acha
que não percebi, mas foi tão nítido que qualquer um perceberia. Homens não sabem mesmo dar uma
espiadela. Minha grande experiência com atitudes masculinas, vinda de anos de convívio com meus
irmãos, me faz ter uma pequena vantagem sobre Mike, mesmo sendo de outro país, homens são
iguais.
O almoço foi maravilhoso. Notei, que como Celeste me alertou, Mike é um virginiano um
pouco perfeccionista, deu para ver enquanto ele comia separando a comida de um jeito esquisito,
como ficava alinhando os copos na mesa. Mas ele foi sincero e as vezes tímido. A conversa fluiu
perfeitamente e teve sim uma atração entre a gente. Uma atração que dava para seguir com o encontro
para a próxima etapa. O encontro às escuras, onde estaríamos de máscaras, no lugar que foi decorado
para isso.
E sabe o que foi o melhor de tudo? Ele me levou a um jogo infantil em uma escola de ensino
fundamental onde ele é técnico. Me sentei na arquibancada e fiquei apaixonada vendo-o interagir com
os meninos no campo da escola. Foi um encontro perfeito.
Marquei o horário, dei a ele a cópia da chave, a máscara que ele usaria e a cueca. Não sei por
que diabos Celeste insistiu para que eles usassem a cueca que eu escolhi. Acho que para levar para
casa com um souvenir ou por causa do símbolo do horóscopo gravadas nelas. Eram bonitinhas.
Nos beijamos no fim. Foi um beijo bom, dentro do carro dele. Bem suave, quente, e tem uma
pegada forte, como achei que teria. Afinal, olha o tamanho do homem.
Entrei em casa saltitante. Louca para contar tudo para Celeste, cheia de calor, precisando de um
banho. Durante todo o tempo que passei no encontro com o virginiano, me senti isolada do resto. No
nosso mundinho.
O esquema estava montado: às oito da noite, eu iria dizer ao Edgar que estava com um pouco de
dor de cabeça e iria tomar um remédio e dormir. Na casa dele tem duas portas e uma delas é a saída
dos fundos que dá para a escada de incêndio. Sai por lá, peguei um táxi e fui para o local marcado.
Por baixo da minha roupa, eu estava com uma lingerie nova, renda preta, elegante e sexy. E
combinava com minha máscara rendada cravejada de cristais. Cheguei, preparei tudo e fiquei
esperando. Morrendo de medo.
Antes de estar aqui, eu só queria chegar e ver o Mike pelado e fazermos sexo, como
combinamos mais cedo. Sexo descompromissado, apenas experimental. Eu descobriria na cama
como age um cara do signo de virgem. Se fosse tão bom como o encontro de hoje mais cedo, eu com
certeza cogitaria fortemente a eleger ele como meu possível namorado pelos próximos meses.
Olhei no espelho, já com a máscara no meu rosto, depois coloquei uma música lenta e apaguei
as luzes deixando apenas as luzes negras que mudavam de cor. Me sentei na cama e esperei. Esperei,
esperei. E a porta não se abriu. Deitei na cama forrada com lençóis de cetim, esperei, esperei e nada.
Então peguei meu celular e vi a mensagem de Mike dizendo que sentia muito, mas ele tinha desistido
de me encontrar. Coloquei a mão no peito e senti a frustração com a vergonha me corroer.
2° ENCONTRO: AQUÁRIO

Tem uma personalidade envolvente, é otimista e honesto. Fala o que tiver de falar. Pode parecer
frio ou pode ser um pouco rebelde, mas é muito original.
Pessoas deste signo adoram uma loucurinha na hora do sexo. Criativos, inovadores e amantes do
que é exótico, eles gostam de transar em lugares impróprios e sempre variam as posições. São muito
curiosos e ficam empolgados quando a transa vai além do clichê. Também são muito românticos na
hora do sexo, revelando um lado doce que é capaz de surpreender. Mas gostam de ir direto ao ponto e
não perdem muito tempo com preliminares.

NOME: Samuel Bradford NASCIMENTO: 23 de Janeiro de 1984 (31 anos) SIGNO: Aquário
ESTADO CIVIL: Solteiro NACIONALIDADE: Nova York - EUA FORMAÇÃO: Ensino médio.
PROFISSÃO: Guitarrista LAZER: Musica.
FRASE DE VIDA: Mais vale um na mão do que dois voando.
FRASE DE TÚMULO: A morte é só o princípio.

Depois do fora que levei, eu estava decidida a não continuar com essa história de signos. Foi
tudo tão lindo, maravilhoso, a maneira como ele sorria, como me beijou e depois deu para trás?
Virginianos fazem isso? Acho que não, tomei como um sinal na minha vida. Um sinal para parar de
vez com essa loucura.
— Mas como assim Lena? Vai desistir de primeira? — Celeste me olha com as mãos na cintura,
parada no meio do quarto eu, deitada na minha cama. Ela está inquieta botando a cabeça para
funcionar e pensar numa saída. Sem olhar nos olhos dela, dei de ombros. A linha solta na almofada
parecia mais interessante.
— É virgem poxa — bate as mãos ao lado do corpo.
— Está dizendo que devo esperar isso de um virginiano? Um pé na bunda?
— Não. Estou dizendo que ele não combina com você. Foi mesmo um sinal, um sinal para você
não escolher o virgem.
— Nada disso Celeste.
Ela se senta na ponta da cama e bate no meu pé. Encolho-o.
— Escuta aqui, pelo que você me contou, já caiu de amores pelo fortão desde o primeiro
momento que ele mostrou os dentes. Imagina se ele mostra outras coisas e você se apaixona?
— Essa não é a intenção? — Reviro os olhos — Eu acabar ficando com um?
— Sim, mas sem passar pelo leão, escorpião e sagitário? Não dá amiga.
Penso um pouco, arranco a linha solta da almofada e tento raciocinar sobre o assunto. Eu seria
meio fresca se desistisse na primeira. Sem falar que Mike me mandou uma mensagem se explicando
e pedindo desculpas. Nem todos serão como ele.
— Tá. Me dá dois dias para eu me acostumar com a ideia e começar a conversar com outro cara.
— Dois dias Elena? Vamos chegar ao fim do mês e você nem montou no touro ainda.
Dou uma gargalhada e taco a almofada na cara dela.
— Safada! Tosca!
— É para seu bem! Quero que minha madrinha de casamento tenha uma trepada digna depois da
festa. Ou antes, sei lá. É para o seu bem.
Eu rio mais alto. Essa Celeste não tem papas na língua.
— Tá bom. Passa esse tablet aí, vamos escolher o próximo da lista.
— Touro! — Ela pula da cama para pegar o tablet.
— Não. Ainda não vou montar em touro nenhum. Vamos ver o capricórnio ou sagitário.
E o escolhido foi Sam do signo de aquário. Eu e Celeste adoramos a foto dele, mas não gostei
muito da conversa, quando estávamos falando ao celular. Mesmo assim, criei coragem e marquei o
encontro. Segundo ele, tem descendência espanhola e me levou em um restaurante maravilhoso que
servia comida típica. Nunca tinha comido e fiquei encantada com o lugar.
O encontro foi um dia depois de eu ter recebido um fora de Mike. Ele não falou mais comigo e
eu acho que foi vergonha. Decidi esquecer isso e ir em frente com minha vida. Afinal, eu tinha que
fazer alguma coisa, ficar me casa o dia todo não dá. Ficando sozinha, eu poderia ter o risco de ficar
pensando muito e acabar desistindo de todo o plano que foi bem elaborado para colocar em prática.
Porra, eu escolhi doze homens lindos. Foram escolhidos a dedo, pelo critério beleza. Então não dava
mesmo para perder tempo.
O encontro com Sam não foi tão ruim, mas eu senti algo quando o vi sentado no balcão bebendo
uma cerveja. Parecia um executivo motoqueiro. Não sei se tive temor ou fiquei curiosa.
Ele vestia uma calça jeans rasgada, botas e um terno por cima da camiseta. Os cabelos loiros
penteados para trás, mas na mão esquerda, uma luva preta com os dedos de fora.
— Samuel? — Decidi não ser tão íntima, logo de cara.
— Ah! Elena. — Ele sorriu e se levantou para me receber. — Sam, apenas.
— Como quiser. — Nos cumprimentamos com beijinhos e sentei com ele no bar.
O assunto inicialmente foi tranquilo. Detectei logo que ele é um cara honesto, calmo apesar de
ser guitarrista de uma banda de rock que eu não conheço. Até ele começar a parecer sincero demais.
Na verdade, ao ponto de chegar a ser indelicado. Isso por que o assunto foi o que eu estou fazendo,
essa coisa dos encontros.
— Não acho certo. — Ele disse, sem olhar para mim. De olho no copo de cerveja.
— Como assim?
— Você sair com doze homens… sei lá. Vai ficar falada.
— Não acho. Você sairia com doze mulheres?
Ele deu uma risada antes de responder.
— Elena, eu sou homem. Pra mim isso é vantagem.
Comecei a ficar irritada. Franzi o cenho para ele.
— Não concordo. Cada um é dono de sua vida. Faz o que quiser dela.
— A questão não é o que você acha ou quer, a questão é o que os outros homens acham de suas
atitudes.
Eu estava boquiaberta apenas olhando para ele. Samuel não se constrangeu e continuou sua
teoria machista: — Eu por exemplo, posso ficar com você. Poderemos transar, afinal você é gostosa,
mas se você for continuar esses encontros, experimentando cada um dos outros que ainda faltam e
depois me quiser, eu não vou aceitar.
— Não vai aceitar? Por que eu transei com outros?
— Sim. Você está aqui para arrumar um namorado, e não apenas para pegar e farrear. Acha que
o último cara da lista vai querer namorar uma mulher que já deu pra outros onze?
Indignada com as palavras, fico sem fala. Sem resposta.
— Ele vai te comer e pronto. Vai sair desse joguinho sem ninguém.
— E como explica as prostitutas que…
— Ah nem vem. — Abana a mão para eu parar — Uma Linda Mulher é a maior baboseira para
iludir mulher. Ou você ver por aí garotas de programa casando com milionários? Veja bem Elena,
nós homens, principalmente os mais afortunados, não vamos querer qualquer uma para passar o
resto da vida, ainda mais uma mulher que teremos certeza que já passou por diversas outras mãos.
Um ou dois dá para relevar. Doze é demais.
— Não é doze. — Fico de pé. — São dez agora, um me deu o bolo ontem e agora acabo de
riscar um da lista.
— Como sempre vocês mulheres não gostam de ouvir verdades.
— Não. O que não gostamos é de arrogância e sermos colocadas como inferiores. Tenha um
bom dia. — Me viro para sair, penso um pouco e volto. — Ou melhor, vá se foder.
— Ouça meu conselho Elena, cancele esses encontros. — Ele ainda disse, como se desse a
última cartada.
(…)
— Vou cancelar, Celeste. — Já em casa, encolhida no sofá, aviso para Celeste. Já contei para ela
toda a história e ela ficou indignada com Sam. — Eu não vou mais continuar com isso. Se dois não
deu certo, é um sinal para eu parar. Acabou.
— Não vai não. Vai ficar firme. Agora é uma questão de honra. Virgem e aquário foram uns
babacas com você, mas precisa mostrar que estava certa. Se cancelar agora, vai simplesmente se
rebaixar àquele machista e acabar fazendo o que ele disse que tinha que fazer.
Penso um pouco e vejo que ela tem razão. Se eu debati com ele, indo contra o que ele disse,
tenho que fazer valer minha palavra.
— Verdade. Vou sim continuar. Marcar para amanhã.
— Isso. Pegue o tablet. Agora vamos escolher um pra fazer a coisa certa.
SEIS

Depois de uma longa pesquisa no perfil de cada um e de conversar um pouco com alguns no
privado, decidimos por sagitário.
Chamei Erasmo, o sagitariano, no privado e concordamos em almoçar juntos. É sábado, o dia
está claro e bonito e sinceramente, Manhattan é o lugar ideal para passar o sábado na companhia de
um cara bacana e bonito. Descobrir um possível amor.
Mas tudo não saiu como eu planejei. Inicialmente tudo deu certo. O táxi parou em frente ao
restaurante. Desci e me deparei com um arraso de homem na calçada, com algumas flores na mão e
um sorriso encantador no rosto. Espero que agora dê certo, com certeza será a melhor escolha da
minha vida. E o melhor de tudo é que aqui estou me sentindo adulta, dona da minha vida, coisa que
nunca senti no Brasil.
— Você é o Erasmo. – Afirmei no meu inglês estudado.
— Sim, sou eu. — Ele deu dois passos em minha direção. — O sagitariano para ser mais
específico. — Rimos e trocamos beijinhos no rosto. — Para você. — Me entrega as flores.
— Oh que lindas. — São mesmo lindas. São brancas com os miolos amarelos — Obrigada.
E nesse momento ele nem teve a oportunidade de responder. Atrás de Erasmo, dois homens
apareceram e um me olhou como se eu estivesse vendendo drogas na porta de escola.
— Elena? — Quin Indagou olhando de mim para Erasmo.
Merda! De todos os homens do mundo, desde Johnny Depp ao Papa que poderiam aparecer aqui
na minha frente, o destino escolheu justamente Joaquim para presenciar meu primeiro encontro. O
outro cara ao lado dele me encarou de maneira desconcertante. Já o conheço por fotos na internet. É
Victor Mafra, meio irmão de Quin.
— Oi Quin. — Respondo com um sorriso modesto. Rapidamente, para tirar o foco de mim, toco
no ombro de Erasmo. — Esse é Joaquim, um amigo de infância. Quase como meu irmão. —
Apresento e Erasmo estende a mão. — Quin, esse é Erasmo, estamos em um encontro. — Falei
mesmo. Somos adultos, temos que encarar a verdade, sem falar que eu não devo satisfação a
Joaquim.
— Olá. Você é bem conhecido por aqui. — Todo sorridente, Erasmo fala.
— Sim, eu sou. — Quin responde de mau gosto fazendo um rápido contato com sagitário. Olho
para Victor.
— Eu sou Victor. Irmão do Quin. — Ele mesmo se apresenta para mim. Vem em minha direção e
dá um beijinho no meu rosto.
— Victor, essa é Elena, irmã de Edgar. — Sem saída, Joaquim teve que me apresentar ao seu
irmão. Não pareceu ser uma coisa que ele tenha apreciado. Mas que droga Joaquim tem ultimamente?
E parece ser só comigo.
— Ah! Você me falou dela. — Victor fala e olha para mim. — Elena, Quin me contou que você
vai trabalhar na boate. — Ele tira um cartão do bolso e me entrega. — Se quiser tenho uma vaga no
meu escritório. — Recebo o cartão e recebo também uma olhada desconfiada de Quin.
Penso em como isso pode ser ótimo. Imagino trabalhar para alguém que não vá pegar no meu
pé. Alguém que me considere uma funcionária e não uma criança.
— Poxa, que legal Victor. É uma ótima proposta.
— Além do salário, você ainda tem direito a plano de saúde, vale transporte e alimentação.
— Ela tem isso tudo trabalhando em qualquer lugar das boates, Victor. — Joaquim interrompe o
irmão. Eu o ignoro e olho para Victor.
— Vou pensar na proposta. Fiquei mesmo interessada. Não acho legal trabalhar para meu irmão.
— Sem dúvidas. — Victor assente sorridente.
— Bem, eu e Erasmo temos que ir. Nos vemos depois, Quin. — Ele não responde, mantém os
olhos frios e mortais paralisados em mim. — Te ligo assim que tiver uma resposta, Victor.
— Me dá um minutinho? — Quin fala com Erasmo, não espera ninguém responder e me puxa
pelo braço. Nos afastamos alguns passos e ele murmura em tom de bronca bem perto de mim: —
Quem é esse cara, Elena? Edgar sabe que está por aí com estranhos?
— Alguém que conheci, Quin. E não, Edgar não precisa saber. — Cruzo os braços olhando séria
para ele.
— Onde o conheceu?
— Por que isso te importa?
— Por que você é uma pessoa imatura. Não vê que pode estar cometendo um erro?
— Eu sou imatura? Por que acha isso? Não convivemos juntos nos últimos dez anos. Você não
me conhece.
— Seu irmão te conhece. Tenho certeza que ele não mentiria.
— Então esteve tricontando com meu irmão a meu respeito? Que delicado. — Reviro os olhos.
— Onde conheceu o cara, Elena? — Quin ignora meu comentário sarcástico e indaga
novamente. Tenho que comentar mais uma vez que Joaquim está um arraso? E nessa pose de braços
cruzados e olhar inquisidor, não ajuda muito a me deixar focada. Esses cabelos bagunçados dele me
dá uma vontade de pentear com os dedos, sem falar que agora só fico pensando nele jogando rúgbi.
— Conheci na boate. Aquela noite.
— Mentira, Elena. Naquela noite você não conheceu ninguém. Estive perto o tempo todo,
lembra? Quem é ele e onde o conheceu?
— Isso não importa, Joaquim. Não importa mesmo. É um cara legal e vamos almoçar juntos.
— Me ouça, Elena. Não tente medir forças comigo. — ele alerta — Me conte o que quero saber,
antes que eu tenha que avisar a Edgar sobre sua imprudência.
Sinto uma raiva tão grande me tomar. Não é possível que fugi do Brasil para ficar longe do meu
pai e dos meus outros dois irmãos para vir cair nas garras de um depravado que me vê como uma
criança de seis anos. E isso é um puta mistério. Ainda não entendi por que ele está agindo assim
comigo.
— Cara, se meta na sua vida. — rosno para ele e me afasto depressa voltando quase correndo
para perto dos dois outros homens.
Joaquim vem atrás e fica parado quase espumando pela boca. Não estou ligando.
Primeiro ele vem e fala que eu não sou irmã dele. Age estranho como se minha presença o
incomodasse e agora fica dando uma de pai da Elena? Comigo você não se cria.
— Victor, foi um prazer te conhecer. Eu acho bem provável que eu vá conhecer seu escritório.
— Sinto Erasmo passar o braço na minha cintura e me sinto muito bem com isso. Ótimo, é bom
mostrar para o Zé Mané Mafra que eu mando na minha vida.
— Vá sim, Elena. Estarei disposto a te mostrar tudo.
— Não sei se você sabe, mas o escritório dele faz parte do grupo Mafra. — Joaquim começa de
novo sendo antipático. — Continuará sendo minha funcionária, Elena.
— Pelo menos não vou ter você ou Edgar pegando no meu pé. — Fuzilo Quin com um olhar. —
Fará isso Victor? — Pergunto ainda mantendo contato visual com Joaquim.
— Lógico que não. A não ser que você não aceite sair para dançar comigo. — ele joga uma
cantada sutilmente.
— Seria um prazer. Pena que já tenho acompanhante. — Olho para Erasmo e trocamos um olhar
cúmplice. Ele abaixa e dá um selinho nos meus lábios. Volto para os dois homens. — Até mais, Quin,
nos vemos por aí. Vá qualquer hora dessa almoçar lá com a gente. — Ainda tenho a cara de pau de
convidar.
— Irei Elena. Pode me esperar. — Sorrio para eles e entro no restaurante com Erasmo. Sinto um
calafrio dentro de mim. A expressão e o tom de Joaquim não foram nada agradáveis. Não foi como
uma promessa, foi como um aviso.
Somos guiados até uma mesa, nos sentamos e eu olho para o belo homem na minha frente. É
hora de limpar a mente e focar no principal. Começa agora meu terceiro encontro. Sagitário, como
Celeste cismou de nomear, para não ficar tão íntimo, segundo ela, eu vou transar com o signo e não
com o homem; só rindo mesmo. Dentro da minha bolsa, um pacote com uma cueca, uma máscara e
três camisinhas. Estou tão eufórica. Me sentindo a Taylor Swift com tantos namorados a minha
disposição.
3° ENCONTRO: SAGITÁRIO

Geralmente é agradável e otimista. As vezes gosta de favorecer o ego, ser orgulhoso. É bonito por
dentro e por fora, divertido, mas não gostam que duvidem dele.
No sexo os homens sagitarianos costumam ser experientes por natureza, vão direto ao ponto e
deixam a parceira à vontade com sua descontração. Gostam do inusitado, e gostam de prender a
parceira em novas formas de prazer.

NOME: Erasmo Blake


NASCIMENTO: 03 de Dezembro de 1987 (28 anos) SIGNO: Sagitário.
ESTADO CIVIL: Solteiro NACIONALIDADE: Houston – Texas – EUA FORMAÇÃO: Ensino
superior. Médico veterinário.
PROFISSÃO: Veterinário.
LAZER: Cuidar do pequeno sítio recém-adquirido.
FRASE DE VIDA: “As loucuras de hoje, são as boas histórias de amanhã. ”
FRASE DE TÚMULO: “Foi bom enquanto durei. ”

— Ah que legal! Você não é daquelas que pedem gim tônico logo de cara. — Erasmo repara
assim que peço um bloody mary ao garçom.
— Manhattan, brunch no sábado, pede uma bebida refrescante.
Ele assente e não fala nada. Fica me estudando atentamente. Me deu até um pingo de desconforto.
— Então conhece o famoso Quin Mafra. — Isso foi mais uma afirmação do que uma pergunta.
Isso é uma droga, não é? No meu terceiro encontro, e quem me aparece? O famosinho do
pedaço.
— Sim. O conheço antes de ele ser famoso. Fomos criados juntos.
— Quase irmãos?
— Quase isso. Ele veio para cá há uns dez anos atrás e ficamos esse tempo sem nos ver. Vim
agora para ajudar com o casamento do meu irmão. Daqui um mês, eles se casam no Brasil.
— E qual é a do loirão? — Erasmo questiona franzindo o cenho. Quase tenho uma crise de riso
quando ele se referiu a Quin como loirão. — Agiu como se fosse seu pai. – ele emenda,
demonstrando que não gostou do que rolou.
— Pois é. Ele é o melhor amigo dos meus irmãos. Sempre tiveram isso de me proteger dessa
forma.
Ele dá um gole no drink dele e me olha atentamente, tentando me desvendar.
— E o que você acha sobre isso? Ser protegida e tal. Espero que não seja virgem. – ergue as
mãos em gesto de defesa, brincando, e eu rio.
— Não. Não sou. E quanto a essa proteção excessiva, sempre me deu muita dor de cabeça. Estou
me desamarrando aos poucos.
— Por isso essa história dos doze caras?
— Não. Isso tem a ver com a mente conturbada da minha amiga, que por sinal é noiva do meu
irmão.
— Sua cunhada está te levando para o mal caminho? — Ainda bem que Erasmo parece relaxado
agora. Posso até respirar aliviada.
— Ela só quer que eu me divirta com uns caras americanos, antes de ir embora de novo.
— Fico feliz em ser um deles. Terceiro, não é?
— É. Espero que dê certo, já que com os outros…
— Já sinto que dará certo.
— Eu fico feliz em ter coragem para fazer isso. — Tomo um gole da minha bebida, cruzo as
pernas e ficamos nos encarando com sorrisinhos fáceis.
— E então? Quer perguntar algo?
— Eu tenho curiosidades sobre o Texas.
— Me fale. — Ele incentiva.
— Eu não conheço. Mas tenho a impressão que todos os caras são vaqueiros e cowboys.
— Por quê? — Ele pergunta rindo. — Eu sou de Houston. E é uma cidade tão fabulosa como
Nova York. Para você ter uma ideia é a mais populosa dos Estados Unidos.
— Eu acho que é por causa dos livros e filmes que assisto.
— Não deixa de ter um fundo de verdade. O Texas é o lugar do bom rancheiro, do homem do
campo. Mas há os modernos e metropolitanos.
— Você se enquadra no metropolitano?
— Nos dois eu diria. Confesso que sou um cowboy nas horas vagas.
Inclino para frente boquiaberta.
— Sério? Preciso ver você de calças apertadas, botas e chapéu de vaqueiro.
— Eu achei que você queria me ver sem roupa. — Ele rebate no mesmo momento com aquele
olhar safado que fez meu ventre tremer.
— Eu queria deixar isso subentendido, mas já que está dizendo…
Erasmo dá uma gargalhada descontraída. E é a coisa mais linda que já vi desde que cheguei aqui.
Mentira, o novo Quin foi a coisa mais linda. Mas Quin não costuma rir ou gargalhar de coisas que eu
falo. Ele ainda não sorriu para mim. Um sorriso deixa uma garota tão à vontade.
E agora estou em um encontro com um cara lindo e descontraído, me lembrando do idiota do
Joaquim. Maldição!
— O que acontece se eu gostar de você e não quiser que continue a experimentar outros signos?
Está procurando algo sério, certo?
Caramba. Foi algo que me deixou sem resposta, apesar de ser mais ou menos o que Samuel, o
aquariano me disse. Paralisada com o copo no ar, entre a boca e a mesa. Reajo rápido, coloco o copo
de volta e jogo o pescoço de lado. Ajeito os cabelos e dou de ombros.
— Sim, estou procurando algo sério. Mas essa é uma conversa prematura. Temos muito a fazer
antes de chegar a um impasse assim.
— Transar, por exemplo? — Ele é bem direito e eu, para passar a ideia de garota moderna, finjo
nem ter me abalado.
— Sim, um encontro íntimo seria boa ideia.
— Eu quero. Gostou de mim o suficiente para querer também?
— Gostei. Claro que gostei. Mas quero te conhecer um pouco mais. Fazer alguma coisa juntos…
Ele anui.
Penso um pouco e até agora ele não quis saber nada sobre mim. O que vê está ótimo, é o que
importa. O cara está doido por sexo. Eu não posso julgá-lo, eu também quero fazer algumas coisas
com ele, mas pensar em não experimentar os outros por causa dele é muito prematuro, como eu
havia pensado.
— Mas agora vamos pedir. E vamos conversar mais durante o resto do dia.
— Boa ideia. — Ele assente. — Estou faminto.
O almoço foi maravilhoso, terminamos, fomos dar uma volta no Central Park e ele segurou na
minha mão. Foi mais do que eu esperava desses encontros. Não esperava algo carinhoso, ele foi
atencioso o tempo todo. Erasmo perguntou sobre mim, sobre o que eu faço, sobre minha família e
minha cidade no Brasil. Ele foi um fofo. A cada vez me senti mais atraída por ele e decidida a dar o
passo seguinte.
No fim do encontro, marcamos nosso segundo encontro, às escuras. Agora ninguém vê nada. É
a hora do sexo. Ele estará mascarado, eu estarei mascarada e será apenas sexo. No fim, somaremos o
dia juntos às claras e a noite às escuras.
Dei ele a máscara, a cueca e uma cópia da chave. Apenas duas pessoas terão acesso ao local. São
apenas duas chaves. A minha e a dele. Torci interiormente para não levar um bolo dessa vez. Juro que
se isso acontecer, eu desisto.
Cheguei em casa quase triunfante. Foi mais um encontro, que eu mesma armei e que ninguém se
intrometeu. Sem pai, sem irmão, sem amigo de infância. Era eu, com eu mesma e um cara lindo. E
pelo que me parece, vai dar certo. Acho que esse encontro, vai adiante.
Essa sensação acabou quando cheguei em casa e dois olhos acinzentados e acusadores pousaram
em mim. Quin estava na sala de Edgar e se levantou assim que entrei. E o mais estranho: onde estava
Celeste e Edgar?
— Oi Quin. — Cumprimento educadamente.
— Vim aqui e não tinha ninguém. Não estava com Edgar? — Ele pergunta e já olha o relógio de
pulso. Como se quisesse dizer: “Olha a hora que está chegando sozinha em casa.” Eu faço uma pose.
— Não. Eu saí cedo. Fui almoçar com um amigo. Você viu.
— Amigo? — Quin sorri. Lembra que eu disse que ele não sorri para mim? Minto, ele sorri,
mas sempre é essa coisa fria e irônica. — Aquele tal cara? Já é amigo?
— Sim, Quin. Ele é amigo. — Cruzo os braços encarando-o. E vai por mim. É uma coisa muito
difícil encarar um homem desse porte, tão lindo, como se fosse nada.
— E isso é tudo? Fica apenas em um dia de almoço? — Sei que ele está se referindo ao sexo, ele
quer saber se eu vou adiante com Erasmo.
— Estamos nos conhecendo. Amanhã iremos sair de novo. Talvez aconteça alguma coisa. —
Vou falando e passo por ele para ir para meu quarto quando uma mão forte me segura e eu me viro
bruscamente para olhá-lo.
— Por que está se portando de maneira tão infantil? Quer chamar atenção de quem? — Puxo
meu braço com força.
— Ficou louco? Não estou querendo chamar atenção de ninguém. Estou vivendo minha vida,
como você faz. — Nesse instante a porta se abre, Edgar entra com Celeste. — Eles chegaram, me
deixe em paz. — Saio correndo em direção ao quarto antes que Edgar comece um questionário.

ENCONTROS ÀS ESCURAS
Olho meu visual impecável no espelho e abaixo os olhos para a máscara, toda cravejada de
lantejoulas e forrada de renda preta, olhando para mim, com vazios no lugar dos olhos. Meu coração
pulsa no ouvido e eu sinto um leve mal-estar se formando no estômago. Pego-a, coloco diante do
rosto e miro minha imagem no espelho.
Sagitário. É assim que me refiro a Erasmo, o terceiro dos doze, e espero que seja meu primeiro
amante.
Ele e eu tivemos dois encontros em um só. Passamos a manhã de sábado juntos, em um brunch
maravilhoso e depois fomos conhecer o Cetral Park e os belos prédios de Manhattan. Eu decidi dar
uma chance a ele e avançar para a noite de sexo. Celeste quer que eu transe com os 12 sem analisar.
Mas eu não vou fazer isso.
Após amarrar a máscara atrás da cabeça, me levanto e passeio ao redor do amplo salão redondo
que Celeste conseguiu. Aqui era uma casa de shows que pertence a Joaquim; alugamos e
redecoramos. Toco em um botão no pequeno Ipod e uma melodia se apossa do ambiente. A tão
conhecida Glory Box, de Portishead. Essa sem dúvidas é a escolha perfeita para relaxar e deixar tudo
fluir naturalmente em uma noite de sexo. A música emana sensualidade.
Esse ambiente que estou, a sala oval, fica no segundo piso e funcionava como área vip. Agora,
está tudo reformado, as paredes são brancas e os móveis que eu arranjei são negros.
Em passos lentos vou até a cama e passo a ponta dos dedos sentindo a maciez do cetim negro.
Não há muita coisa aqui, senão a cama, uma poltrona branca e grande, no meio do quarto bem
posicionada, uma mesa gasta se passando por penteadeira e um armário de duas portas comprido e de
aparência medieval. Eu já sei o que tem dentro, afinal eu mesma comprei tudo o que está ali.
Sento-me na cama e evito baixar os olhos para minha roupa, ou melhor, o maiô que uso. De
renda, preto e nada mais. Respiro fundo e fecho os olhos quando a porta abre.
Ai Senhor! Ele veio! Sinto um arrepio me tomar e meu coração palpita apressado. Nada de
palavras. Tudo que tinha para conversar já foi falado nos encontros. Nada de rostos também. Eu
preciso analisar a pessoa em si, como já fiz no encontro e agora experimentar o sexo como algo
neutro. Sem rostos e palavras. Transando com o signo e não com o homem, como disse Celeste. No
fim eu poderei ter uma decisão baseando no encontro e no sexo neutro.
A porta se fecha e eu levanto os olhos. Sagitário também usa uma máscara. Todas as doze que eu
comprei são únicas e diferentes uma da outra. A dele tampa metade do rosto, deixa apenas a boca para
fora.
Trêmula, aflita e completamente confusa, eu caminho até o interruptor. Quin não sai da minha
cabeça desde que entrei aqui. Eu não devia gostar tanto dele… querer tanto uma atitude dele que
jamais acontecerá. Como um irmão, nitidamente ele queria que eu deixasse esse encontro para lá.
Mas nada fez como homem, para me impedir. Esperei até o último momento, uma atitude qualquer,
um beijo apenas e eu pararia. Mas ele se portou apenas como irmão mais velho protetor… como
sempre foi.
Toco no interruptor, o grande lustre se apaga e três pequenas luzes ao redor, no teto, se acendem
deixando todo o quarto com uma cor diferente a cada vez. Ela vai mudando de cor bem lentamente.
Uma penumbra cobre o ambiente.
Consigo ver a silhueta azulada de Erasmo desabotoando a camisa, ele caminha para a cama onde
estou sentada a sua espera.
Ele senta ao meu lado e eu o olho. Ele abaixa a cabeça e aspira, cheirando meu pescoço. E
Erasmo quebra uma regra. Ele fala. Não devia falar. A voz é baixa, rouca, um sussurro apenas, bem
perto do meu ouvido.
— Até que enfim. — Ele fala com seu sotaque texano. Em seguida toca no meu rosto.
Os dedos passam pela linha do meu maxilar, afagam meu queixo e se afasta. Eu fecho os olhos
sentindo o toque formigar na minha face e um vulto se levanta alto a minha frente. Sim, ele se
levantou e está de frente para mim, engulo seco ao ver as mãos grandes desabotoar de forma precisa
o botão da calça sem cinto e descer o zíper. Parece uma calça preta, ele puxa quadril abaixo e a cueca
aparece.
O ambiente meio turvo não dá para ver nitidamente mas posso ver o contorno do grande volume
sob o tecido. Não é um monte apenas, é o contorno exato de um grande pênis. Os dedos grandes
tornam a tocar meu queixo me fazendo olhar para cima. Agora a luz do quarto é vermelha fazendo-o
parecer uma espécie de cavalheiro sombrio e sensual.
Erasmo enfia os dedos pelos meus cabelos, os penteia para trás e ajeita em um lado do meu
ombro deixando minha orelha descoberta. Suas mãos descem para meu pescoço e ele abaixa em
minha direção. Fecho os olhos e sinto os lábios ali, na minha pele sensível. Quando ele fecha os
lábios contra meu pescoço e sinto os dentes forçando na pele, eu estremeço e esfrego as pernas
sentindo minha boceta salivar de desejo. Meus seios estão fabulosamente doloridos e eriçados, é algo
que nunca tinha sentido.
Os lábios demoraram brevemente ali, pude sentir meu sangue acelerar e minha artéria inchar
contra a boca dele. Mordeu, sugou e beijou. Se afasta de mim, segura minha mão e me faz levantar.
Não reluto. Fico de frente para ele. Céus! Isso é sexy ao extremo. Estamos imersos em uma penumbra
colorida, ouvindo uma música sensual e com essa silhueta absurdamente deliciosa a minha frente.
Engulo seco quando ele segura minha nuca e me puxa para beijá-lo.
Pensei em balões explodindo, milhões de gostos agridoces, maciez extrema e um calor
aconchegante, dilacerante, me tomando por dentro, sacudindo meu corpo, esquentando muito minha
vagina, remexendo meu ventre. Isso tudo por causa de um movimentar de lábios contra os meus e
uma língua quente dançando tranquilamente na minha boca. Em instantes nossos lábios juntos
proporcionou aquele beijo molhando, quente, um beijo com desejo, que ambos abrem a boca para
receber o outro. Eu nem senti quando ele apalpou meu corpo, subiu as mãos pela minha cintura,
passou rápido pelos meus seios e encontrou o zíper frontal do meu maiô.
Com meu corpo nu e meus seios libertos ele não esperou segunda ordem e começou uma tortura
tão devastadora que não consegui deter. Gemi sorrindo com a cabeça jogada para trás. E lá estava eu,
quase gozando, de pé com as pernas trêmulas só com lábios quentes rodeando um mamilo, sorvendo
com calma e prazer.
Dava para ouvir um ruído baixo vindo dele, como um gemido rouco. A língua rolou em um e o
polegar brincou com o outro. Meus dedos enfiaram nos cabelos dele e são mais macios do que eu
imaginei, minha outra mão agarra firme o ombro dele e sentir a pele quente me deixou quase pirada.
Eu não sei como tudo começou, não me dei conta quando ele intensificou as doces torturas. O
que eu sei é que eu estava deitada na cama, de bunda pra cima, uma mão dele segurando meus braços
nas costas e o polegar passando devagar na minha vagina exposta. Gemo sofregamente e ele não
aprofundou o toque, apenas passava de cima a baixo, mexendo despreocupadamente nas bordas e
acariciando o clitóris de leve. Como um gato brinca antes com a comida.
O dedo dele se afastou e ouvi algo como se ele tivesse chupando em seguida rodou a ponta do
dedo na minha entrada e foi enfiando aos poucos. Um bolo se formou na minha garganta, uma
excitação sem tamanho veio subindo, começou a ficar mais gostoso conforme ele aprofundava, tirou,
aprofundou, tornou tirar, chupou o dedo e tornou enfiar.
— Ai! Delícia… oh que gostoso…! — Comecei a gemer e ele deitou em cima de mim, puxou
meu rosto para trás e me calou com um beijo de fazer qualquer um gozar. Depois se afastou e fez: —
Shhh! — Para eu me calar.
Meu corpo estava todo arrepiado, todo sensível, senti necessidade de tocar nos meus seios, mas
ele ainda segurava meus braços. Acabei gozando. Sinceramente não aguentei quando ele abaixou os
lábios e praticamente abocanhou de um jeito perverso e pervertido minha boceta inchada e latejante.
Ele chupou de um jeito tão bom, tão gostoso que me debati, meus nervosos saltaram, minha mente
ficou vazia e eu me contorci com o orgasmo me sacudindo toda. Gritei, gemi e ele não parou. Ficou
com o rosto na minha bunda até eu parar de tremer. Depois não tive mais reação. Ele me puxou, me
fez levantar, foi me empurrando, sem força física, apenas me conduzindo, até a mesa. Em cima
estavam os três preservativos, ele pegou um, não me deixou virar, continuei de costas ouvindo o
pacote ser rasgado, em seguida senti ele se mexer, acho que descendo mais as calças.
Ele afastou minhas pernas com seus joelhos, me empurrou para frente me fazendo debruçar na
mesa. Meu coração bate na garganta, a expectativa me mata, sinto uma sensação incomum dentro de
mim, não está sendo na cama, agarradinhos como imaginei.
E o mais estranho é que nunca imaginei que assim, de pé, de costas seria tão excitante. Em dois
tempos, os dedos dele abandonaram minha boceta e senti uma pressão deliciosa vindo contra minha
carne que pulsava forte, a cabeça larga do pau foi abrindo devagar, me alargando, uma queimação
deliciosa me invadindo conforme ele foi avançando, uma mão segurando meus cabelos e a outra na
minha cintura. E meteu tudo. A sensação é a coisa mais gostosa que existe.
Ele é bem grande, grosso e sinto tocar bem no meu fundo, pensei que ele não poderia mexer
estava bem firme e socado como se minha vagina fosse um punho o segurando, mas então foi
afastando, tirou quase todo, senti aquele vazio que logo foi preenchido novamente por uma socada
macia e constante.
— Meeeerdaaa! — Gemi de mãos fechadas sentindo-o fazer isso várias vezes, até eu estar
acostumada com o tamanho. Ele segurou mais firme no meu cabelo, puxou meu pescoço para trás,
me deu um beijo de arrepiar os cabelinhos da nuca e arremeteu: forte e fundo; vi estrelas. Nem estava
preparada quando ele aumentou o ritmo.
E foi muito delirante. Ele começou a me comer tão vorazmente, me deixando de pernas bambas,
fazendo meu âmago desejar mais, minha vagina piscando de ansiedade, molhada de prazer puxando-
o cada vez mais para dentro. Até o jeito que ele batia forte o quadril contra mim era gostoso. A
dureza e a força dele me mantendo dominada, rendida, debruçada na cômoda com as pernas abertas e
a bunda para trás recebendo as deliciosas investidas.
Levei a mão para trás e toquei nele, toquei nas costelas, desci os dedos pelo abdômen, rodeei e
segurei na bunda enquanto ele não parava, me levando ao mais alto nível do prazer.
Daí pra frente foi loucura pura, usamos os três preservativos. Estávamos como animais, apenas
nos devorando, ele me fez experimentar de vários jeitos, de quatro na cama foi absurdamente
maravilhoso, ele de joelhos atrás de mim segurando minha bunda, e metendo tão fundo e forte que
não teve como não gozar. Foi demais, desencadeou cada ponto nervoso, foi uma eletricidade que me
deixou louca, pirada, suada, gritando de tanto prazer.
Nem precisava mesmo de palavras. Os gemidos roucos dele, os beijos molhados e as mãos me
acariciando já diziam tudo.
Teve um momento que fizemos um papai-mamãe e quase me acabo de tanto gozar.
Ele estava em cima de mim, me beijando e abraçando, o corpo poderoso todo suando, o cheiro
de homem, o cheiro que eu quase nunca senti em outras vezes que fiz sexo, o gosto dele em meus
lábios e a tenacidade do pau me levando a uma altura desesperada.
Todo tempo ele fez sem dó, vinha com tudo, batia as bolas contra mim, afundava forte e úmido
dentro da minha boceta que já estava pegando fogo, escorrendo de tanto prazer. Quando enfim ele
gozou, eu queria poder acender a luz e tirar a máscara para poder ver os olhos dele. E queria mais,
fiquei viciada por mais. Se os outros nove forem tão deliciosos como ele, eu terei uma árdua e
deliciosa tarefa pela frente. Foi tão intenso e delirante que acabei dormindo. Estava exausta e não vi
mais nada.
Quando acordei estava sozinha. Fiquei olhando para o teto com um sorriso bem largo nos
lábios. Ainda posso sentir o cheiro dele impregnado nos lençóis e na minha pele, cheiro de homem,
um cowboy alto e muito saboroso, estou deliciosamente dolorida e me sentindo viva.
Alô vida! Elena chegou.
Me levanto, pego minha bolsa, pego meu celular me jogo contra as almofadas e digito. Celeste
atende no mesmo segundo.
— E então? — Me pergunta afoita.
— Agora eu vou de Gêmeos. Sagitário está aprovadíssimo.
— Safada! — Ela grita e caímos na gargalhada.
Olha só isso papai, irmãos e Quin. Sou uma safada e estou adorando isso.
SETE

Sabe quando a euforia é tanta que a gente nem consegue ficar muito tempo dormindo? Pois é. Eu
pulei da cama cedo, revigorada. Era para eu dormir até as onze, mas acordei e estava com um sorriso
nos lábios, uma sensação deliciosa entre as pernas e o coração batendo descompassado.
Antes de dormir e quando acordei, fiquei pensando se devo ou não continuar. Erasmo é
charmoso, engraçado, carinhoso e muito bom no que faz. Talvez eu devesse parar com tudo e ficar
só com ele. Mas e a curiosidade que não permite? É tipo naqueles programas de namoro que os
primeiros candidatos são facilmente descartados, pois as pretendentes querem ver se tem algo melhor
que vai chegar. Eu estou nessa. Penso no escorpião, leão em peixes e fico me sentindo uma
promíscua safada.
Mas quem liga? Ninguém tá sabendo para me julgar. A única pessoa que sabe é mais louca do
que eu e está me dando apoio total, como se estivéssemos arrecadando doações para entidades
carentes.
Celeste estava com a cara enrugada e ainda descabelada fazendo o café. Ela me olhou espantada
quando me viu aparecer na cozinha.
Passei os olhos pelo quimono dela, nos pés um par de pantufas.
— Bom dia. — Cantarolei.
— O que está fazendo acordada uma hora dessas, Elena? — ela deixa a cafeteira de lado e me
encara — Achei que pela dose que teve ontem iria dormir até amanhã.
— Agitada demais para continuar na cama. — Vou ao armário, pego uma xícara e vou para
perto dela.
— Vai sair? — Ela me olha. Já estou arrumada. Tomei um banho, ajeitei meus cabelos e vesti
algo leve estilo Manhattan. Um vestido de verão curto, na altura dos joelhos.
— Sim, acordei, vi o cartão do irmão do Quin na mesinha e estou indo vê-lo. Mandei uma
mensagem e ele me retornou no mesmo instante. Victor vai me receber às nove. — Olho no relógio
vendo que já são quase oito da manhã. Ela me serve café e eu vou para o balcão. — Edgar já foi?
— Sim. O que está aprontando, Elena? Por que está indo ver o Victor?
— Eu te disse que encontrei com ele e ganhei uma oferta de emprego não é? — Provo o café.
Celeste faz o melhor café que já provei.
— Como assim? Você não vai trabalhar no escritório com Edgar?
— Me poupe né Celeste? É a mesma coisa de assinar atestado de burrice. — Espero ela sair de
dentro da geladeira com um bolo e concluo: — Saí do Brasil para ser prisioneira aqui?
— Ontem você não foi nada prisioneira. — Celeste bate palmas e se senta ao meu lado. — Me
conte tudo sobre ontem. Passei a noite trêmula, tive que tomar água com açúcar de tanta ansiedade.
— Foi sexo apenas como era de se esperar. — Dou de ombros.
— Não foi o que pareceu ontem quando me ligou.
— Ele é tudo de bom. — resolvo deixar a modéstia de lado e grito eufórica.
— Sabia! — Celeste grita na mesma proporção.
— Teve um momento que eu pensei seriamente em parar, eu já tinha tudo que precisava, ele é
engraçado, carinhoso e na cama é um espetáculo.
— Está apaixonada por sagitário? Que insulto, Elena.
— Eu gostaria de repetir a noite de ontem e não mais no escuro e de máscara.
— Nem pense. Você ainda não experimentou os signos compatíveis com o seu. Eu já disse que
torço por leão.
Corto um pedaço de bolo e Celeste parece impaciente esperando eu mastigar. Quer uma resposta
logo. Com certeza essa aí quer ver o circo pegar fogo.
— Só não vou discutir com você, por que eu estou a fim de seguir com o plano. — Pego meu
celular na bolsa, procuro uma foto e entrego o aparelho a Celeste. — Estou de olho em Brian. Que é
ruivo, britânico e de gêmeos. O que acha? Já mandei uma mensagem para ele pedindo que me ligue.
— Nossa. Ele parece uma daquelas coisas renascentistas. É muito lindo. — Celeste analisa e
depois me olha. — Sortuda você. No meu tempo de pegação eu não pensei em algo assim.
— Fala isso como se tivesse quarenta anos e passado vinte na pegação. Meu irmão não foi seu
primeiro namorado?
— Não foi meu primeiro, mas é o último. Nenhuma dessas obras renascentistas do Michelangelo
ganha do meu carioca de sangue quente.
— É verdade. Os brasileiros parecem que tem um fogo mais visível, sei lá. É algo tropical e
único.
— Como o Quin. — Celeste fala distraída jogando o loirão-tudo-de-bom na roda. — Por que
você acha que as americanas morrem para ter uma noite com ele?
Dessa vez eu não fico calada. Estou mais extrovertida depois da noite de ontem. Me sinto no
direito de falar o que quiser.
— Quin é sem dúvida uma exceção pesada. — Pondero recebendo o celular de volta. Olho a foto
de Brian e guardo na bolsa. Celeste se anima e vejo um brilho traquino relancear nos olhos negros
dela.
— Você já sentiu algo por ele? — Indaga em tom de cumplicidade.
— Claro que gosto dele. — Dou a resposta rápida e certeira – Joaquim quase morou na minha
casa. A mãe dele trabalhava o dia todo e ele ficava…
— Não Elena. Eu não quis dizer dessa forma. Eu já tive atração por ele antes de conhecer o
Edgar, quero saber você. Já teve esse sentimento por Quin, como homem e mulher?
Olho para o café na xícara e dou de ombros. Penso em toda minha adolescência que comecei a
me descobrir sexualmente e o primeiro contato masculino sem relação sanguínea foi Quin. Meus
irmãos e eu estudávamos no mesmo colégio, então eu não tinha envolvimento algum com os garotos
da minha idade. Entretanto o loiro alto, de porte atlético, nunca saia da minha casa. Meus irmãos não
sabem, mas acabaram me dando uma fonte de primeiros sonhos adolescente.
— Anda mulher, me conte. Já sentiu ou sente algo por Joaquim?
— Ele é gatão Celeste. Eu seria uma hipócrita se dissesse que não sinto desejo por ele. Se
tivéssemos continuado na nossa vidinha de quase irmãos, talvez eu não teria essa atração. Mas
ficamos longe dez anos e agora ele é praticamente outro cara.
— E o Quin de hoje que deixa você de quatro?
— Não distorça. — Aviso de imediato. — Eu disse que assim como qualquer outra mulher eu
sinto atração por ele.
Celeste não pareceu escutar o que eu disse. Está voando com um sorriso trambiqueiro.
— Para com essa cara. Você já me deu ideias demais desde que cheguei aqui. Cheguei quase
como uma virgem e agora sou uma ninfomaníaca.
— Xiu! — Ela faz um gesto para eu me calar — Não é isso. Algo me veio em mente.
— É. Eu sei que algo veio em sua mente. — Pego minha bolsa e me levanto. — Mas nem quero
saber.
— Elena. — Celeste grita e eu encaro-a. — Deixaria os doze por Quin? — Questiona
interessada.
Penso na velocidade da luz.
Sim, lógico. — Respondo em pensamento.
— Não. Quin é um pilantra que fica com uma a cada dia. Já viu como as revistas nomeiam as
companheiras dele? Segunda-feira, terça-feira e por aí vai. Eu não iria querer ser chamada de, sei lá,
sábado ou domingo.
— Vocês dois formariam um belo par.
— Tá. Beijos. Estou indo ver o irmão do Quin. — Viro as costas e começo a andar.
— Se o Victor Gostosão Mafra te der uma cantada, ignore. Você não pode pegar caras que não
estejam na lista do zodíaco.
— Anotado. — Grito por cima do ombro.
— Essa regra só não vale para Joaquim. Caso você esteja interessada. — Ela completa e eu rio já
perto da porta.
O táxi para no endereço que dei a ele. Descubro que não é muito longe da casa de Edgar. Na
verdade, dava para eu ter vindo a pé. Pago o táxi, e olho para o prédio a minha frente. É aquela coisa
clichê: alto, bonito, todo envidraçado e com uma aparência fria. Bem acima da porta, está a marca do
lugar: Mafra. As letras são elegantes, longas e vermelhas. Sorrio e entro no prédio. Dou um giro
olhando admirada o teto, as paredes e todo ambiente bem decorado. Um belo hall me recebe.
É fantástico. Tem uma parede com um painel preto com nomes de famosas cidades pelo mundo.
Do Brasil são duas: São Paulo e Rio de Janeiro. Na outra parede há rabiscos em vermelhos que fazem
um contraste charmoso com as cadeiras marfim. O hall se abre em uma pequena sala onde há um
balcão e duas mulheres atrás. Uma está dando atenção à fila e a outra sorri para mim.
— Oi. Em que posso ajudá-la?
Olho atrás dela o painel mostrando o que há em cada andar. Todos os andares são do grupo
Mafra. Sinto um arrepio ou ler no topo do painel: Joaquim Mafra – Chairman of the Board
(Presidente do conselho)
Abaixo tem o nome de Victor e consigo ver também o nome do meu irmão abaixo da indicação:
Accounting (Contabilidade)
Isso é muito arriscado. Mas não é de agora que estou sabendo que Quin, Edgar, Celeste e Victor
trabalham aqui nesse prédio, ou seja, não dá para fugir de ninguém. Por isso ele foi insolente ontem e
disse que mesmo se eu trabalhar para Victor, ainda serei funcionária dele.
Uma placa no balcão está informando: “Audições no segundo andar, sala 03”. Perto dessa placa,
as mulheres estão enfileiradas. A primeira delas assina num papel e sai indo em direção ao elevador.
— Eu quero falar com Victor.
— Tem horário marcado? – A recepcionista pergunta prestativa.
— Mais ou menos, ele disse que me espera as nove. Disse que eu poderia vir, que ele tinha um
trabalho…
— Ah! — Ela suspira abrindo os olhos de imediato e me medindo. Depois troca um olhar meio
sugestivo com a outra. Será que ela acha que eu sou apenas uma presa de Victor? — Você precisa
ficar nessa fila, assinar aqui e subir para o segundo andar. Um dos irmãos Mafra vai conversar
pessoalmente com as classificadas.
— Não. — Nego sorridente. — Ele disse que eu poderia conversar com ele…
— Eu sei que ele falou querida. Mas tem que assinar aqui e subir como as outras. Acredite, ele
falou o mesmo com elas.
Eu cogito que pode ser mesmo, o emprego que ele me ofereceu deve ter outras candidatas. Dou
de ombros, vou para o final da fila. Pego o celular e digito uma mensagem.

“Acredita que o Victor me colocou em uma fila e vou ter que passar por um processo seletivo?”

Envio para Celeste. Ela responde dois segundos depois com uma ligação.
— Oi? Que desaforo. Ligue para o Quin ou Edgar. Estou chegando aí daqui a pouco.
— Só pode estar louca né? Daqui a pouco te ligo. Está chegando minha vez. Beijos e tchau. —
Desligo e guardo meu celular, assino na lista, sigo as outras mulheres, entro no elevador e digito
para celeste:
“Te conto tudo depois.”

Somos enviadas a uma sala. Nos acomodamos em uma ampla sala de espera com cadeiras
brancas, móveis de última geração e um rapaz bem-apessoado em uma mesa alta de vidro.
Assim que me sento, pego o celular e mando uma mensagem para Victor. Ele responde que logo
vem aqui me buscar, para eu não sair de onde estou. Respiro mais despreocupada.
— Me preparei a semana toda. — Uma mulher cochicha pra mim. É linda, tem lábios de
Angelina Jolie e cabelos de Gisele Bündchen. Ela não espera eu responder e adiciona: — Victor é
muito rígido. Mas estou com esperanças. E tenho meus truques. – Ela fala mais mexendo a boca do
que sai som. Dá uma piscadinha e passa as mãos nas pernas dando a entender a carta que ela tem na
manga.
Dou um sorrisinho amigável e pego uma revista para ler. Fico sem reação só em pensar que o
que nos espera ali dentro é um teste de sofá. Mas isso é só pra quem aceita. Eu não vou transar com
ninguém pra conseguir uma vaga de emprego.
Fico ali, calada, olhando cada uma ser chamada e entrar por uma porta. Elas não demoram lá
dentro. Não mais de dez minutos cada. Acho que não está havendo sexo ali, é muito rápido. Elas
entram, saem e se sentam novamente. Minha vez chegou, o recepcionista me levou até a porta e
quando entrei tinha ali, um homem e uma mulher.
Eles estão acomodados cada um em poltronas vermelhas de frente para um palco.
— Olá, Elena. — O homem cumprimenta.
— Olá. — Respondo já começando a perceber do que se trata. A minha frente há um microfone
de pedestal e eu estou no pequeno palco na frente deles dois.
— De onde você é?
— Rio de janeiro, Brasil.
— Uau! — ele exclama.
— Caramba. — A mulher também fala perplexa, ambos com um sorriso nos lábios.
— Você tem quanto tempo de carreira?
— Na verdade houve um engano. — Falo com eles. — Eu vim por que marquei uma hora com
Victor e automaticamente fui encaminhada para cá.
— Não veio para a seleção da nova cantora da boate?
Como eu disse: já imaginava do que se tratava.
— Não. Eu… — Começo a falar, mas paro. Eu vou trabalhar sendo assistente de escritório. Não
tenho técnica alguma, nunca trabalhei em escritório. Sem falar que aqui, no prédio, eu terei a
supervisão acirrada de Edgar e Quin.
— Me expliquem como é esse teste.
— Cante alguma coisa para a gente. Queremos alguém, de preferência mulher, que assine
contrato com a empresa para ser nossa atração fixa. Uma artista que faça parte do grupo Mafra.
Penso no meu passado como integrante do coral, minhas apresentações com Celeste e no tempo
de faculdade, que a gente pegava o violão e fazia sarau. Apesar de sempre ter alguém de olho em
mim, eram meus dias favoritos. Celeste e eu formávamos a dupla perfeita e éramos respeitadas. Meus
irmãos estavam em cursos na mesma faculdade em períodos elevados e costumávamos andar com as
turmas deles, para que sempre ficassem de olho na gente. Eu tinha tanta inveja da minha amiga que
desfilava com seu namorado bonitão que é meu irmão.
Há uma música que eu sempre cantava, uma das poucas em inglês. Eu acabei decorando a letra e
eles adoravam me ver cantando quando fazíamos essas reuniões noturnas na praia.
— Posso começar? — Pergunto aos dois sentados a minha frente.
— O palco é seu. — O homem fala.
Pigarreio e respiro pausadamente antes de começar.

“They tried to make me go to rehab, but I said no, no, no”

Começo cantar Rehab, o hino da Amy Winehouse. Eu adorava essa música e relembrando os
anos passados vou cantando me sentindo afinada. E o melhor de tudo é que é à capela, nada de
instrumentos acompanhando. Estou me sentindo uma pop star.
Assim que termino de cantar, eles apenas me agradecem e eu saio da sala. Assim que abro a
porta dou de cara com uma pessoa.
— Elena? — Victor exclama admirado.
— Oi Victor. Eu estava… — aponto para a sala. Noto que as garotas presentes estão animadas só
com a presença dele.
— Veio pela contratação?
— Na verdade eu achava que iria trabalhar sendo sua assistente. Mas acabei aceitando o desafio e
dei uma palhinha.
— Joaquim não me disse que você cantava. Ele me contou que tem formação em enfermagem.
Dou de ombros como se quisesse dizer: “pois é.”
— Gostaria de ser uma das nossas cantoras? Posso arrumar algo para você. — Victor não me
olha nos olhos. Está mais preocupado em dar uma conferida em regiões abaixo do meu pescoço.
Recordo o que Celeste me falou e fico nervosa. Não sei se quero que Victor me passe uma cantada.
Ele é muito gato, mas ultimamente já tenho muitos homens para lidar. Agora são dez e ainda o Quin,
que é só platônico e que já foi casado comigo em pensamento.
— Não posso passar na frente dos outros. Antes preciso saber se tenho talento.
— É o que veremos. — Ele me pega pelo braço e voltamos para dentro da sala onde acabei de
me apresentar.
Eu entrei naquela sala com Victor, sendo Elena e saí sendo Lisandra Montenegro. Sim, meu
nome artístico, o mesmo que Celeste usava quando era criança. Eu não tive medo de contar a eles
sobre meu irmão provavelmente não aprovar a ideia de eu ser cantora de boate. Fui aprovada e
contratada. Claro que não só eu. O processo seletivo com as outras candidatas continuou
normalmente.
Eu cantarei nas sextas, no Mafra Bubble. É uma casa de shows para o público LGBT. Eu que
escolhi cantar lá. Não haverá com o que eu possa me preocupar. Eles não vão dar em cima de mim e
serão um público intenso. As melhores músicas são as que esse público gosta. Poderei cantar Lady
Gaga, Beyonce e Madonna.
Aos domingos das dez às doze Lisandra vai se apresentar no Mafra’s House. Onde eu estive com
Celeste.
— Como está se sentindo? — Victor pergunta caminhando ao meu lado no corredor, em direção
ao elevador.
— Muito eufórica. Eu não imaginava nunca que um dia poderia fazer algo do tipo. Estou
apaixonada com a ideia. — Olho para ele e Victor está sorrindo com esses olhos brilhando em minha
direção. — Vou me empenhar e dar o meu melhor.
— Tenho certeza disso. Volta amanhã para assinar os papéis?
Paramos perto do elevador.
— Sim. Amanhã estarei aqui. Será que pode guardar esse segredo? Tem como esconder do
Joaquim e do Edgar que eu estou sendo contratada para cantar?
— Claro que tem como esconder. Sou eu que cuido dessas coisas. Quin nem fica sabendo. Mas
se quiser posso até te encontrar um emprego falso para mascarar.
— Eu ficarei muito grata. — A porta do elevador se abre e eu volto-me para ele. — Obrigada
Victor. — Estendo a mão e toco gentilmente em seu braço.
— Por nada. Amanhã você já pode subir direto para minha sala. — Eu assinto e noto que ele
levanta os olhos para além de mim. — Oi Quin. — Victor cumprimenta e no meu pensamento eu
penso: “Merda!”
Dou um giro suave, já incorporada. Sorridente e carismática. Sabendo que vou encontrar olhos
questionadores. Dois homens saem do elevador e vão para o outro lado depois de cumprimentar
Victor. Quin já está fora olhando atentamente de mim para seu irmão.
Ele está um arraso. O terno que cobre o belo corpo dele, é uma obra de arte. Preto, sem gravata
e muito bem recortado modelando-o perfeitamente.
— Oi Quin. — Cumprimento.
— Visitando seu irmão? — Ele pergunta. Essa é uma manobra conhecida. Quin poderia ser
direto e perguntar: “O que está fazendo aqui? ” Mas ele foi comedido e quer a resposta de outra
forma. Jogando indireta.
— Elena aceitou minha proposta. Ela veio pela vaga para trabalhar comigo. — Victor intercepta
respondendo para mim.
— Você já tinha duas propostas de emprego. Venha — ele toca no meu ombro — quero falar
com você.
— Até mais Victor. — Eu digo e sigo Quin para dentro do elevador. As portas se fecham e
engulo seco.
— Veio com Edgar? — Ele pergunta. Parado ao meu lado sem olhar pra mim.
— Não.
— Celeste?
— Eu vim sozinha, Quin. — E ele me olha, mas não fala mais nada. Ficamos calados até as
portas se abrirem, eu o sigo para fora e chegamos a uma grande porta de vidro com o nome dele
escrito em uma placa de metal. Atrás de uma mesa uma mulher o cumprimenta, Quin para, conversar
com ela, recebe alguns papéis e faz sinal para eu segui-lo.
A sala dele é obra de outro mundo. Eu imaginava um escritório simples no segundo andar de
alguma boate. Mas o que tenho aqui é algo nível de megacorporação. Fico no meio da sala, de pé
olhando tudo enquanto ele me observa. Caminho até uma parede onde tem uma capa de revista People
emoldurada. É Quin e está ainda bem novo.
— Mafra: The name of Success. — Eu leio em voz alta.
— Eu já tinha saído em outras capas de revistas. Mas essa pra mim foi a mais importante. — Ele
explica. Está atrás de mim.
Não falo nada. Continuo olhando. Chego perto de uma estante e sorrio ao ver uma foto
emoldurada em um porta-retratos. Eu estou nela. Foi o último natal que Quin passou com a gente no
Brasil. Ele, meus irmãos e eu.
Eu não comento nada sobre a foto, só fico muito contente em saber que ele guarda a gente em
um lugar especial. Viro-me para ele e Quin não parece esboçar nenhuma reação. Ando alguns passos
e ocupo uma poltrona branca macia.
— E então? Sobre o que quer falar?
Ele senta na outra a minha frente.
— Então vai mesmo trabalhar com o Victor?
— Sim, eu vou. Amanhã venho assinar a papelada.
— Porque cismou assim? De uma hora pra outra?
— Não é cismar. — Rebato. — Eu só quero ser independente.
Noto as mãos dele fechar em um punho. Como se tivesse nervoso.
— Você não vai ficar aqui por mais de um mês. Pra que quer tanto essa droga de emprego?
— Quem te disse que eu não vou ficar por aqui mais de um mês? Só por que o casamento será
no Brasil não significa que não posso voltar.
Quin não é desses homens que assanham os cabelos, que mexe no colarinho ou demonstra
qualquer outro sinal de irritação. Os sinais dele são muito sutis. Se você não prestar atenção, nunca
saberá se ele está ou não com raiva. Como agora, ele apenas me fuzila com o olhar e comprime de
leve os lábios. É nítido que está contrariado.
Eu não entendo esse comportamento dele. Eu diria que ele está se comportando… sei lá… como
um namorado ciumento. Mas ele já demonstrou que tem aquela repulsa fraternal por mim. É uma
coisa de natureza que os irmãos têm para que um não sinta atração pelo outro. Mesmo assim ainda
existe o incesto e acho que Quin considera incesto estar comigo.
— Quer que eu vá embora Quin? — indago de testa franzida.
— Não seja boba. Eu só não acho que você deve deixar sua vida alicerçada no Brasil para vir
tentar a sorte aqui.
— Que ótimo. É a sua opinião. — Me levanto e pego a bolsa. — Como disse, não é meu irmão.
Então não tem nada que ficar se metendo.
— Será que tem que ficar jogando isso na minha cara a toda hora? Quer que eu seja seu irmão?
— Não. — dou um sorriso cínico. — Sabe o que eu tenho demais? — Aponto para a foto na
estante. — Irmãos. Não preciso de mais um.
— O que Edgar sabe sobre você vir trabalhar com o Victor? — Ele se levanta também. Fica de
mãos na cintura me encarado — Por acaso você sabe quem é esse cara?
— Joaquim, pelo amor de Deus! Não estou indo casar com ele. O cara só me ofereceu um
emprego.
Cantando em uma boate. — Meu inconsciente completa dando risadas e apontando um dedo pra
Quin.
— Edgar te ofereceu um emprego. Eu posso te oferecer um emprego.
— Você negou um emprego pra mim quando cheguei, lembra? Quero distância de você e Edgar.
— Está tentando me ofender?
— Estou tentando tomar conta da minha vida. Fico me imaginando trabalhando aqui com você.
Vai querer escolher até o tipo de carne que vou comer no almoço.
— Talvez por que eu e Edgar queremos seu bem. Já moramos aqui há mais tempo e sabemos o
que é melhor para você.
A resposta está na ponta da língua, mas eu não falo. Meu celular começa a tocar e eu fico de
bochecha rosada por causa da música. É um sertanejo universitário.
— Me desculpe. — Murmuro abrindo minha bolsa rápido e procurando o celular.
— Fique à vontade. — Ele responde e se recosta na mesa. Me afasto um pouco. É Brian, um
novo signo. Ele me ligou. Estou eufórica.
— Oi Brian. — Atendo com uma voz sorridente. — Sim, claro. Agora? — Olho no relógio. —
Adoraria. Conhece um lugar bacana? Hum… — espero ele falar e olho para Quin. Parece que
aproximou um passo. Está me olhando curiosamente. — Tá bom, eu não sei, mas eu consigo chegar
lá. Beijos. — Desligo, jogo o celular na bolsa e olho para Quin.
— Brian? — Ele pergunta.
— É. Amigo de Celeste, ela me apresentou e ele me convidou para almoçar.
— O que está tentando provar com essa sua atitude? Ser independente ou receber o título de
burra?
— O que?
— Burra sim. Tola, inocente.
— Olha aqui…
— Você mal chegou e já fica por aí caçando como se estivesse no cio. — A voz dele vai
aumentando de tom e minha raiva subindo. — Tenha um pingo de compostura, Elena. — termina
quase gritando. Me dando sermão.
— Você não tem direito de falar assim comigo. Eu perdi muito tempo no Brasil e agora quero
ser independente.
— Saindo com um cara por dia? Vai conseguir ser vadia e não independente. — Ele cutuca
sendo sarcástico. Fecho minha cara e me viro para ir embora. Mas as mãos dele me seguram, Quin
me puxa, eu rodo e vou de encontro ao peito dele.
— Vai beijar essa tal Brian?
— Uma vadia faz mais do que beijar. — Empurro-o e consigo alcançar a porta.
— Vá. Saiba que nunca haverá nada mais que meros beijos entre você ou qualquer um desses
fracassados.
Paro com a porta aberta e olho para ele.
— O que quer dizer?
Ele está com um sorriso muito irritante. As mãos nos bolsos da calça e uma expressão superior,
altiva.
— Que talvez você não seja tão dona do seu nariz. Agora vá ao seu almoço. Antes que eu tenha
que convidar seu irmão para participar dessa conversa.
Fico entalada sem resposta. Quin continua me olhando sem falar mais nada e com a mesma
expressão. Viro-me e saio andando rápido.
Que cretino. Não vou deixar esse cara mandar mais em mim. Tenho um novo emprego e um
novo encontro. Vou relaxar, vou ganhar dinheiro e fazer o que quero da minha vida.
Assim que saio do prédio e entro em um táxi, pego meu celular e ligo para Celeste.
— Amiga consegui um emprego e estou indo encontrar Brian. Gêmeos está a minha espera.
— Que tudo! — ela grita do outro lado. — Me conte detalhes.
Começo a falar animada com Celeste enquanto o táxi corta Manhattan indo para o endereço que
dei.
Mas enquanto conto cada detalhe, me sinto desconfortável. O prédio opulento e moderno de
Quin vai ficando pra trás, mas é como se ele estivesse no alto, atrás daquelas janelas enormes
olhando o táxi se afastar. Com aquele mesmo olhar que ele lançou pra mim.
“O que é seu está guardado Elena.” — Foi como uma ameaça que vi no belo rosto.
OITO

Assim que saí do prédio, liguei de volta para Brian. Lógico que não vou sair com ele hoje. Eu
acabei de conhecer o Erasmo, transamos na noite passada sem falar que preciso conversar com ele
antes de partir para o encontro. Eu aceitei sair por que estava na frente do Quin e queria mostrar que
posso fazer o que quiser, quando bem entender.
Ele atende no segundo toque.
— Oi Brian.
— Oi.
— Sabe, aconteceu um imprevisto, podemos deixar o encontro para depois?
— Claro. Por mim tudo bem. — Ele responde de imediato e parece que não ficou desapontado.
— Desculpe, estou procurando emprego e acabei de ser chamada para uma entrevista.
— Que ótimo. Boa sorte.
— Obrigada.
— Vamos nos falar mais tarde?
— Sim. Pode me ligar — olho no meu relógio e faço uma base mentalmente. — À noite está
bom para você?
— Ótimo.
— Então está bem. Espero sua ligação. Um beijo.
— Outro.
Ele desliga e eu respiro aliviada. Cutuco o ombro do taxista e peço para ele me levar a algum
shopping. É hora de começar a escolher meu figurino. Quero arrasar na minha primeira
apresentação na boate de Quin.
Sei que Celeste vai querer acabar comigo quando descobrir que eu fui às compras sem ela. Mas
eu queria ter uma ideia minha, sem ninguém me dando palpite. E eu já tenho algo em mente.
Pensem comigo: eu preciso causar na minha primeira apresentação, mostrar a que vim, não
posso ser só mais uma contratada da boate. Ainda nem acredito que vou fazer isso, mas desde que
cheguei aqui estou topando tudo, entrando de cabeça em qualquer loucura. Se é para ficar um mês,
então que aproveite cada dia e cada hora.
Como Lisandra Montenegro, minha alter ego, vai se apresentar na Mafra Bubble e lá o público é
gay, eu devo fazer algo à altura de uma diva. Lady Gaga para ser mais exata.
Peço ao taxista que deixe o shopping de lado e dirija até uma loja de noivas Kleinfeld. É uma
loja enorme, linda e famosa. Passa na televisão, as noivas provando vestidos. Eu vim aqui, porque é
onde Celeste vai comprar o vestido dela. Já temos um dia agendado para ver. Só estamos esperando a
mãe dela chegar do Brasil.
Entrei na loja e fui muito bem atendida, meu pedido foi básico e eles tinham exatamente o que eu
precisava.
(…)
— Um vestido de noiva preto. Vou arrasar em um look sombrio, fazer um penteado super
luxuoso, e colocar uma sutil máscara no rosto. A música em questão é Marry the Night.
— Vai fazer isso tudo para impressionar? — Celeste pergunta abismada quando conto tudo para
ela.
— Pois é. Estou muito ansiosa. Duplamente ansiosa. Primeiro por causa dos encontros com os
doze e segundo por que Victor não me deu só um emprego, me deu uma tremenda aventura pelas
noites de Nova York.
Celeste se ajeita no sofá e me olha com cara de detetive.
— Elena, eu não estou conseguindo assimilar essa nova você. Até ontem você não subiria em
um palco nem se estivesse leiloando o Henry Cavill, aquele pecado de homem. — Ela não deixa de
pontuar os adjetivos do cara. — E agora vai se trabalhar na Lady Gaga e cantar nas boates de Quin
com um nome que se parece com personagem de novela mexicana? Usou mesmo Lisandra, dos
tempos de criança?
— Sim — Me levanto e giro suavemente pela sala – Mascarada e elegante. O povo vai me amar.
— Jogo beijinhos para os lados como se tivesse uma platéia ali.
— E depois você vai desejar ir para o México quando Quin e Edgar descobrirem. — Celeste
sugere.
Volto a me sentar no sofá bem perto dela.
— Vaca. Já falei com Victor, ele prometeu que nenhum dos dois vai ficar sabendo, e qual a
probabilidade de Edgar ou Quin entrar numa boate gay?
— A boate em questão é do Joaquim, então a probabilidade aumenta.
— Quin é o dono. Não tem porque ele ir à uma boate gay.
— Mas você vai cantar nas outras.
— Não sei. — Falo olhando minhas unhas já com um leve desdém de celebridade. — Ainda não
decidi.
— Elena — Celeste chama com um tapa no meu ombro — imagina Quin sair numa noite de
sábado, indo verificar suas boates, lindo em seu carro reluzente, daí ele vai ver se não está rolando
briga de borboletas na Bubble e quando ele entra quem encontra cantando? Elizete, disfarçada de
Lady gaga e com sotaque brasileiro. Eu iria querer ingressos Vips para assistir isso.
— Ai que tédio de você Celeste. Primeiro que nem é Elizete. Quer dizer que posso transar com
doze homens diferentes em um único mês, mas não posso cantar nas boates?
— Quin não sabe que você está fazendo sacanagem. — Ela não espera eu comentar e já emenda
outra coisa — e vamos ser sinceras, ele só não descobre por que não quer. Você está praticamente
transando na cara dele.
— Como assim?
— Ora essa! — Celeste bate as mãos nas pernas. — primeiro fizemos o seu perfil e usamos o
site dele para nos promover e agora alugamos um galpão que pertence a ele, para você fazer as
sacanagens, ele só não descobriu nada ainda por que é meio leso.
Me levanto boquiaberta. Gelada de medo. Tapo a boca com a mão.
— Celeste! E se ele já descobriu? Quin tem se portado muito estranho nos últimos dias.
— Ele não descobriu; relaxa, — ela desconsidera com um gesto de mão — Quin não ficaria tão
sonso se tivesse descoberto.
— Será?
— Lógico, Elena! Quin já teria contado para Edgar ou te dado uma prensa.
— É, talvez. — Pondero ainda assustada e sento na pontinha do sofá, dura de tensão.
— Agora me conte essa história de ele estar agindo diferente. Não notei. — Ela pede animada
por fofoca.
— É só comigo.
— Com você? Agindo diferente como?
Coloco as pernas sobre o sofá e me sento em cima, virada de frente para Celeste.
— Ele fica me olhando de um jeito estranho, fazendo umas ameaças nada a ver.
— Quin te ameaçou?
— Não necessariamente, ele fica falando que eu não posso fazer isso ou aquilo, tentando mandar
em mim, ouviu eu falando com Brian no telefone e insinuou que eu vou ser tachada de vadia se
continuar fazendo isso e falou que é pra eu ir embora para o Brasil por que lá eu tenho uma vida
estruturada e tal.
— Não estou acreditando. O que deu nele? Será que seu irmão pediu pra Joaquim interferir? Eu
mato Edgar se ele estiver tentando enxotar minha madrinha.
— Não acho que seja coisa do Edgar. Meus irmãos nunca mandaram recado quando se trata de
querer me colocar freio. Se fosse coisa de Edgar, já teríamos presenciado um show, com direito ao
meu pai vindo me buscar.
— Então qual é a do Joaquim?
— Não sei. — Dou de ombros — Nada em mente? — Pergunto e ela fica olhando para o nada,
pensativa. Espero por que sei que Celeste está tendo uma ideia. É melhor ter paciência nessa hora.
— Que hora é essa? — ela indaga e eu olho rapidamente no meu celular.
— Sete e quinze.
— Vista-se rápido. Vamos sair.
— Sair? Pra onde?
— Vamos tirar a prova disso que você está falando. Antes eu não percebi nada por que não
estava sabendo. — Celeste já está de pé mais animada que líder de torcida.
— O que quer dizer? Tirar a prova?
Ela faz um sinal para eu esperar, pega o celular, digita e espera um pouco. Depois ela sorri e
mexe as sobrancelhas.
— Oi Quin, ainda está na empresa? — Olho estatelada para ela quando começa a falar. – Não,
não é nada de importante. Acho que Edgar ainda está por lá, vou ligar para ele. Beijos, até mais. —
Ela joga o celular no sofá e faz uma dancinha de vitória.
— O que foi isso? Por que ligou para ele?
— Joaquim está em casa agora. Por que não vamos fazer uma visitinha a ele?
Sem resposta, encaro-a com um turbilhão de emoções me tomando. Ir ver o Joaquim? Agora a
noite e na casa dele? Ele não pareceu muito amigável hoje mais cedo, mas pensando bem sobre esse
assunto, é uma loucura maravilhosa.
— E então? O que me diz? — Celeste indaga eufórica.
— Como eu disse, estou aqui em Nova York para arriscar. Vamos lá.
— É assim que fala garota dos signos. — Ela passa correndo, bate na minha bunda e vai para o
outro lado onde fica o quarto dela. Eu vou para meu quarto com o coração aos pulos, mais que pura
ansiedade me toma. Mas é algo bom que faz meu sangue pulsar mais rápido. Acho que aquelas coisas
que sentia quando adolescente estão voltando com força total, estou mais uma vez atraída por Quin.
Paro no meio do quarto com a mão no peito e algo que se parece um sorriso nos lábios.
Olha como eu estou só por causa da notícia que estou indo vê-lo. Isso era para me deixar
preocupada, ainda mais agora que ele está se portando como um babaca. Entretanto, nem ligo. Corro
para o armário e escolho algo que diga: “sou gostosa e adulta, mas sou sua irmãzinha caçula. ”
Tenho um short muito lindo que minha mãe me deu, mas meu pai não gostava quando eu usava.
Ele não é curto, o tecido é mais firme, de alfaiataria, folgado e vai um pouco acima do joelho. É
verde claro e eu adoro vestir com uma blusa branca de pano fino; coloco-a por dentro, para exibir o
cinto que veio com o short. Calço uma sapatilha e pego uma bolsa de couro dessas transpassadas.
Me olho no espelho e estou como eu queria: estilo irmãzinha, mas com as pernas de fora e a
blusa meio transparente me deixando um pouco “sexy sem ser vulgar”, mas calma, coloquei um sutiã
desses de academia.
— Maravilhosa. — Celeste fala já entrando no quarto. Nem olho para ela, estou de pé curvada
em direção ao espelho, passando um rimel rápido. Ela vem atrás e concerta minha blusa. Depois pega
um batom na minha maleta preta e passa nos lábios.
— Se Quin nos enxotar a gente pode ir em uma boate. — Ela propõe se afastando do espelho.
— E Edgar?
— Edgar está chegando. Já liguei pra ele e disse que estamos indo na casa do Joaquim.
Celeste sai do quarto e eu a sigo. Saímos do apartamento às sete e quarenta e cinco.
Como Celeste tinha falado antes, o prédio que Quin mora fica bem perto, não andamos mais de
dez minutos de táxi. Ele mora na famosa Madison Avenue. Apenas abobalhada, sigo Celeste para
dentro do prédio.
— Oi Karl. — Ela acena para um homem atrás do balcão.
— Senhorita! Está indo…
— Ver o Quin. — Ela completa sem para de andar. Eu vou atrás quase correndo para alcançá-la.
— Quer que eu anuncie sua chegada? — Ele pergunta saindo de trás do balcão e vindo correndo
atrás dela.
— Não é necessário. Quin já está me esperando. — Celeste mente. O elevador já está aberto, ela
entra e me puxa. Dá um tchauzinho para o homem e aperta o botão da cobertura.
— Não fique babando quando vir a casa dele. Haja como se fosse normal para você.
— Fique tranquila que eu não sou dessas. — Resmungo virando-me para o espelho e olhando
meu rosto rosado. Com certeza eu não tenho propensão em babar pela casa, mas pelo dono… aí é
outra história. Estou aqui com “meus botões” pensado em um Mafra caseiro. Como ele estará? De
camiseta e bermuda? Só de calça de moletom? Só de bermuda? Será que estou preparada para dar de
cara com algo assim tão emocionante?
Eu já vi o Quin despojado, quando ele morava no Brasil, e naquela época quando ele aparecia
sem camisa, suado após uma partida de futebol com meus irmãos, já era uma loucura, imagine agora
que se tornou esse pecado de homem, como Celeste classificou o Cavill?
— Não estamos sendo precipitadas em aparecer assim do nada? — Pergunto fazendo da minha
expectativa uma preocupação.
— Quin vai lá em casa sem anunciar. Ele tem uma cópia da chave do Edgar.
— Por quê?
— Joaquim é um homem meio pirado. Há dias que ele simplesmente se apossa de uma vaga lá
com a gente, acho que quando se sente sozinho. Ele não fala nada, inventa alguma coisa. Mas eu sei
que ele só procura um pouco de familiaridade, já que a mãe, sua única família morreu.
— Isso é triste. Não o imagino solitário.
— Pois é. — Celeste dá de ombros como se estivesse acostumada ao isso. — Mas agora ele não
está podendo ir, você pegou o quarto que ele costumava ficar.
Sinto um beliscão entre as pernas e um arrepio tomar meu interior, principalmente o estômago.
Estou dormindo na cama que o Quin dormia? Minhas noites não serão mais as mesmas imaginando-
o naquele quarto, só de cueca ou pelado, deitado, lendo ou assistindo. Ai que calor. Ainda bem que as
portas do elevador abriram.
Saímos do elevador e chegamos num pequeno hall. Celeste aperta um botão ao lado de uma bela
porta marfim e vira-se para mim.
— Você vai adorar.
Esperamos caladas, mais ou menos uns vinte segundos. Celeste estava prestes a apertar de novo
quando a porta se abriu e uma força da natureza chamada Joaquim Mafra me golpeou sem piedade.
Chocada com o que vejo em minha frente, não tenho forças para esboçar um sorriso. Ele está sem
camisa, descalço e vestindo apenas uma bermuda. Rodeando em sua cintura, há uma tatuagem que se
parece um escorpião.
Celeste, entrona como sempre, fala alguma coisa mas eu nem entendo. Joaquim está pior que eu.
Muito pior. Olha de Celeste para mim, seus olhos se mexem em meu corpo, acho que em frações de
segundos me medindo de cima a baixo, depois volta para Celeste. Essa não é a expressão de um cara
que esteja feliz com as visitas.
Acabo percebendo que Celeste disse que estávamos de bobeira e que eu cismei de fazer uma
visita. A bandida colocou a culpa em mim.
Joaquim não fala nada, continua olhando para a gente com essa cara de meio morto.
— Meu Deus! Vamos criar raízes na sua porta. — Celeste reclama e dá um passo entrando. Quin
se afasta para ela passar. Não me resta outra alternativa, eu a segui desde que saí de casa. Olho para
ele e consigo repuxar os lábios. Acho que pareceu com um sorriso.
— Oi. — Eu cumprimento.
— Oi. — Ele responde.
— Você mora bem perto do Edgar.
— É.
— Elena, entre logo. Está esperando um convite impresso? — Celeste grita da sala como se
fosse a dona da casa. Olho para Quin e ele se afasta para eu passar. Entro, ouço a porta se fechar atrás
de mim e volto-me para ele. Eu devia ficar olhando como a sala é majestosamente perfeita. Móveis de
primeira linha, muito espaçosa, janelas enormes, um ar masculino expresso em cada detalhe. Desde o
sofá preto aos quadros na parede.
Joaquim corre, pega uma camiseta jogada no chão e veste acabando com o meu deleite. Ele tem
um corpo firme, grande, peito largo e abdômen trincado. Os braços são perfeitos, juntamente com as
pernas e a bunda.
Droga! Estão vendo? Essa sensação, essa excitação e desejo está voltando de novo, como há dez
anos atrás. Eu não quero ter que passar por aquilo de novo: desejar um homem que me vê como sua
irmã.
— Ai droga! Você tem companhia? Deveríamos ir embora. — Celeste fala e eu acompanho o
olhar dela. No chão perto do sofá tem uma cesta de guloseimas, duas taças de champanhe e no sofá,
no canto, uma bolsa feminina.
— Eu… — ele começa a falar e olha para mim. Coça a cabeça sem jeito. — Por favor, fiquem à
vontade. Querem beber alguma coisa?
O que? Ele nem negou e nem concordou que tem alguém aqui com ele? E porque senti todo meu
sangue fugir do rosto ao saber disso? Eu sei que Quin pega geral por aí, mas ver vestígios da noite
animada dele, é bem ruim.
“Olha quem fala, aquela que está com uma lista de doze homens para transar.” — Minha mente
irônica me detém. Eu respiro fundo e assinto interiormente. É verdade, eu tenho os meus, ele pode ter
as dele.
— Não. — Eu digo rápido. — Não vamos atrapalhar. Só preciso de um pouco de água, por
favor. — Estou tão sem graça por ele estar me olhando assim, tão fixamente — Depois venho com
tempo fazer uma visita. — completo para tentar quebrar o gelo.
— Está indo pra algum lugar agora? — Ele pergunta me olhando mais uma vez.
Sim, pra casa dormir. Penso e olho para Celeste.
— Sim. Estamos indo na…
— Na Mafra House. Elena adorou. — Celeste completa rápido, mentindo.
— De novo? — Ele indaga ainda mirando só eu.
— Pois é. Aquele dia fui embora cedo. — Preciso de algo para corroborar minha mentira, então
minto mais — Lembra do Brian que me ligou hoje? Vamos nos encontrar.
— Hoje? Agora? — Joaquim questiona quase como um grito.
Por que ele está tão interessado se vou ou não encontrar o cara hoje?
— É Quin, ela vai encontrar o Brian hoje, ele é britânico sabia? Edgar vai me buscar e
deixaremos os dois pombinhos se divertirem na noite. — Celeste saltita como uma amiga no baile de
formatura arranjando namorado para a outra — Vou na cozinha pegar a água. Se depender de você
sairemos daqui desidratadas.
Celeste se afasta e Joaquim nem pisca me encarando. Cara, isso é tão desconcertante. Me sinto
uma colegial pega no flagra pelo diretor.
— Você não tinha encontrado com ele hoje cedo?
Dou um giro e me afasto quebrando nosso contato visual.
— Pois é. Desmarquei e decidi sair agora a noite.
— Por quê? — Quin está atrás de mim. Parece muito preocupado. Há uma parede na sala cheia
de quadros de todos os tamanhos. Me posiciono em frente e vejo que são paisagens.
— Ora, eu tinha que resolver umas coisas, sem falar que agora a noite ele e eu podemos sair e ir
direito para algum lugar… mais calmo e íntimo. — Viro-me e Quin está praticamente aterrorizado
com isso. Ele me olha de lábios entreabertos e olhos saltados. Noto um pulsar na mandíbula dele.
Merda! Será que ele pode deixar de ser o irmãozão protetor só um momento? E será que tem como
deixar de ser tão gato? Me deixa boba. — Penso e me afasto dele indo ver uma escultura inca.
O cheiro dele me incendeia, sinto uma vontade de abraça-lo e passar meu nariz em seu pescoço,
mas depois me lembro que ele estava com uma mulher e não penso mais nisso.
— Está insinuando que vai dormir com um estranho no primeiro encontro?
— E o que tem? — aponto com o queixo para dentro da casa. — Tenho quase certeza que você
não teve vários encontros com ela antes de trazer pra cá.
— Eu sou diferente. — Ele contesta no mesmo instante. Se tornando irritante.
— É. Com certeza. É homem né? Homem pode tudo.
— Não foi isso que quis dizer. — Ele dá um passo em minha direção. Afasto outro passo para
trás. O homem cresce de novo para cima de mim. — Você precisa deixar de ser infantil! Pra quem
quer mostrar tudo isso? Que pode, que deve, e que é independente? Precisa…
— Para. — Falo antes de ele terminar o sermão. — Eu não estou tentando chamar a atenção de
ninguém. Será que não posso me divertir?
— Divertir assim? Saindo com um homem por dia?
— E o que você tem a ver com isso? Eu poderia sair com doze, não é da sua conta.
Ele está fervendo de ódio, posso ver em seu rosto vermelho e maxilar rígido. Quin consegue
segurar no meu braço e me puxa forte, como fez hoje cedo.
— Eu já disse para não tentar medir forças. — Dá o recado e me solta. Ele ouve passos, se afasta
e olha para o corredor. Eu acompanho o olhar e não é Celeste que vejo. Uma mulher vem andando
cuidadosamente, e para petrificada assim que me vê encarando-a. Ela está vestindo uma camisa
masculina, as belas pernas de fora, os cabelos loiros bagunçados, mas ainda muito bonitos, ela é
linda, muito bonita. É a australiana ex-namorada dele.
Eu acho que ela não queria ser vista, estava apenas espiando. E uso uma boa discrição, não vou
deixar a mulher mais envergonhada. Ela está noiva de um homem importante, mas ainda rolando
com Quin no ninho dele.
Droga, eu não deveria sentir isso, não deveria sentir nada vendo-a pelada vestindo uma camisa
dele. Como alguém mortal como eu ou qualquer outra pode competir com essa mulher?
— Oi. Sou Elena. — Cumprimento sorridente. Olho para Quin que está com expressão ilegível.
— Quase como irmã do Quin.
A mulher parece um pouco mais calma. Ela acha que eu não a reconheci.
Dá um passo em nossa direção.
— Oi. Quin nunca disse que tem uma irmã.
— Só de consideração. — Ele corrige meio rabugento. — Ela acabou de chegar do Brasil.
— Ai meu Deus! — Celeste quase grita quando sai da cozinha mastigando e trazendo um copo
de água. Ela olha para a mulher e depois para Quin. Está pasma, pena que Celeste não tenha a mesma
sensibilidade que eu tive.
— Você não é aquela Condessa… — Celeste começa a indagar para a mulher. — É você mesmo!
— Ela confirma após dar mais uma olhada na bela mulher.
Nossa! Além de linda, rica ainda tem um título nobre? Lá se vai mais chances de Elena pelo ralo.
— Eu vou deixar vocês a sós. Fiquem a vontade. — A tal condessa australiana prefere nem
responder Celeste. Em dois segundos corre de volta de onde veio.
— Cara você não tem jeito. — Celeste repreende Joaquim e me entrega o copo de água. — De
novo com essa mulher?
— Não é nada sério. — A voz dele quase nem sai ao dizer isso. Agora o safado desvia o olhar.
— Claro que não é sério. Ela vai se casar. — Celeste murmura e depois olha pra mim. — A sem
vergonha terminou com ele por que a união matrimonial com o tal conde congressista iria trazer
benefícios a família dela. E agora não quer largar o osso — ela resume o que aconteceu e olho pra
Quin.
— Ela parece gostar de você.
Ele fica segundos me fuzilando com esses dois olhos que são uma loucura. Depois me ignora.
— Celeste, acho melhor eu ligar para Edgar vir buscá-las.
— Nem pensar. Vamos farrear.
— Celeste, você não pode jogar Elena nas mãos de um homem que nem conhece, em uma noite
em Nova York e ir embora. Ficou louca? — Ele caminha até o sofá, pega o celular e digita. Olha para
nós duas.
— Edgar, Celeste e Elena estão aqui em casa. Já estão de saída, venha buscá-las. Estão com a
ideia bizarra de ir farrear e sabemos que amanhã é dia de trabalho. — Ele desliga e volta pra gente.
— Você é inacreditável. Quantos anos acha que eu e Elena temos? Ou melhor, quando anos você
tem?
— Com certeza não tem idade suficiente para pensar nas loucuras que estão fazendo. Celeste,
você está prestes a se casar e Elena acabou de chegar do Brasil, precisam ir com calma, precisam
relaxar antes de se jogar lá fora como se não houvesse amanhã.
— E você precisa parar de comer a noiva dos outros. Logo a mídia descobre e seu nome está na
merda. Isso que é imaturidade pra mim. Vamos Elena. — Ela já vira com o celular no ouvido falando
com Edgar que não precisa vir buscar a gente, que nós já estamos chegando em casa.
— Então você fala para eu não medir forças mas fica jogando. — Eu sussurro perto dele. —
Talvez eu não seja tão tola como você acha.
Vou andando lentamente e ele sussurra perto: — Pra mim sempre será. Agora vai pra casa
dormir.
Me viro e sorrio de frente para ele, bem perto. O cheiro másculo me atingindo de novo.
— Celeste e Edgar dormem tão cedo, a madrugada é tão longa. — Olho para Celeste do lado de
fora da porta falando com Edgar. Volto-me para Joaquim, que me olha com muita atenção, conserto a
gola da camiseta dele e levanto os olhos na maior cara de pau. — Talvez Brian passe por acaso em
frente ao prédio, sei lá, por volta das uma ou duas da manhã. Você deve saber como é bom fazer sexo
com estranhos, ainda mais ficar a noite inteira para descobrir muitas coisas.
Ele com certeza está mordendo a língua, esse olhar de ódio é o mesmo que meu irmão faria.
Grande idiota. Vai procurar outra para adotar como irmã.
— Você não é dessas. — Ele se conforta com um sorriso. Busca confirmação da minha parte.
— Eu faço qualquer coisa para mostrar que sou adulta, independente, saio quando quiser, com
quem quiser e durmo com quantos quiser. Agora volte para sua linda amante. Tenha uma boa noite.
Viro as costas para sair, ele tenta me segurar mas saio rápido e ando para o elevador. Celeste
sacode os dedos para Quin e ainda continua falando com Edgar.
Quando chegamos lá embaixo, Celeste pede para eu esperar, que Edgar já está chegando e que
vamos comer uma pizza.
Olho para os lados e pergunto: — E aí? O que achou da atitude dele?
Ela dá de ombros.
— Pra mim foi normal. Quin estava surpreso com nossa visita, mas em geral não o vi sendo um
besta com você. A não ser a parte que ele ligou para Edgar. Mas isso ele sempre fez, até mesmo
comigo sozinha.
Ah lógico. Ele só age na surdina. Decido não contestar.
Eu tenho vontade de ligar para Brian e marcar mesmo um encontro de madrugada. Quem sabe?
Assim que eu chegar em casa vou ligar para ele. Dependendo da conversa a gente pode negociar.
Edgar chega, e nós três juntos saímos para comer uma pizza. Celeste conta para ele sobre a tal
condessa e Edgar fica mudo. Sem nenhuma atitude, nem mesmo demonstra surpresa.
— Ah que safado! Você já sabia, não é? — Ela dá um cutucão no braço dele.
— É. — Sabendo que não pode mentir, ele confessa. — Ela voltou a procurá-lo. Joaquim sempre
foi muito mole por ela. Já tem uns dias que eles estão se vendo de novo.
No banco de trás ouvindo a conversa, meu coração se parte.
Droga! Eu sei, estou com uma lista de homens, transei um cara e já vou para o quarto encontro,
mas não tem jeito. Meu coração sempre bombeia mais rápido quando o assunto é Quin.
Olho para fora e fico vendo os prédios, as ruas movimentadas, as luzes de Nova York.
Só acho que ele não precisa ser o amante, o outro, ele merece algo melhor. E eu merecia uma
chance de ser vista como mulher. Caramba, pra que me enfeitar toda se ele sempre vai me ver como a
irmãzinha desprotegida? É um saco isso.
Ao menos eu tenho meu zodíaco para me consolar.
Suspiro e me contento.
4° ENCONTRO: GÊMEOS

Geralmente é Inteligente e engenhoso, vivo e energético, gostam de mudança, e sempre adaptável.


No sexo, os homens geminianos, podem se sentir inseguros no primeiro contato; gostam de fantasiar e
as preliminares dão grande prazer, gosta de fazer e receber caricias com as mãos. São sensíveis e tem
facilidade de se apaixonar.
(Ref. Sexólogo Robson Papaleo)

NOME: Brian Wilkins NASCIMENTO: 24 de maio de 1984 (31 anos)


SIGNO: Gêmeos - Signo do ar regido por mercúrio.
ESTADO CIVIL: Solteiro NACIONALIDADE: Londres - Inglaterra.
FORMAÇÃO: Ensino superior. Arquitetura
PROFISSÃO: arquiteto em uma empresa de arquitetura e designer.
LAZER: esportes radicais FRASE DE VIDA: “se não for hoje, um dia será”
FRASE DE TUMULO: “Só mesmo a terra pra me comer.”

Eu poderia estar me incriminando ou rindo da minha contradição. Eu poderia me xingar por


estar sentindo tudo isso. Mas nada do que eu pensava poderia me deixar mais calma. Eu cheguei em
casa com Celeste e Edgar. Foi uma noite boa, comemos pizza, batemos papo e ficamos à vontade.
Chegando aqui eles foram dormir, eu tomei uma ducha, falei rápido com Erasmo mas ele não
mostrou interesse em me reencontrar e Brian me ligou.
E então começou a raiva de mim mesma.
Droga, eu fiquei mais de uma hora conversando com um cara que só vi por foto, falamos sobre
tudo, eu contei coisas da minha vida ele falou sobre a vida dele. E no fim marcamos o encontro às
claras. Eu fiz isso, eu vou me encontrar com um homem e provavelmente transar com ele, mas por
que não consigo manter Joaquim e sua linda condessa longe da minha mente?
Eu não tenho nada com ele, pode fazer o que quiser de sua vida assim como estou fazendo o que
quero da minha. Esse tinha que ser meu pensamento, óbvio. Mas as horas passavam, eu rolava de um
lado para outro e só conseguia imaginar eles dois juntos na cama.
Levantei, fui a cozinha, abri os armários, mas não encontrei nada que pudesse me acalmar. E só
no banheiro principal que eu encontrei no armário da pia, comprimidos de paracetamol.
Fiz um chá de camomila daqueles de pacotinho, e tomei o chá com um comprimido. Não estou
sentindo dor, mas remédios com finalidade analgésica deixam o corpo mais relaxado.
Terminei o chá e fui para o quarto. Fiquei pensando apenas em Brian. Não tenho nada a ver com
Quin, ele fica com quem quiser. Amanhã será um dia maravilhoso, terei um encontro e passarei o dia
com um cara lindo.
Consegui dormi então. Pensando na condessa; naqueles malditos cabelos dourados esvoaçantes,
lindos como fios de ouro, olhos de uma cor perfeita, pele limpa e super lisa, invejável. Será que
aquela mulher não tem um defeito sequer? Ainda por cima é uma condessa. Oh vida cruel.
No dia seguinte, enquanto me olhava no espelho, verifiquei que estava com olheiras e isso era
horrível já que eu estava indo para um encontro. Sem falar que estava me sentindo cansada e
sonolenta para passar o dia com um cara e a noite irmos farrear transando até no dia seguinte. No
relógio ainda eram sete e meia. Voltei para a cama e dormi mais um pouco. Acordei às nove com
meu celular tocando.
Era Brian. Dizendo que tinha conseguido uma mesa em um restaurante legal e que estaria me
esperando às onze.
A casa está em silêncio. Me sinto como se fosse em minha casa. Até sinto uma nostalgia
relembrando do meu apartamento pequeno, num prédio sem elevador. Batalhei tanto para conseguir
sair de casa e ter meu próprio canto, que aquele apartamento sem área de serviço, era um paraíso.
Tomo um banho relaxante, lavo os cabelos, visto um roupão e enrolo uma toalha na cabeça, vou
para a cozinha comer alguma coisa antes de me arrumar. Coloco a água na cafeteira, pego um pão de
forma e faço duas torradas.
Enquanto a água está no fogo, minha mãe me liga. Ela liga todos os dias para saber como estou.
Eu já falei com ela para ligar uma vez por semana, ou ela vai gastar milhões. Falei sobre Edgar, Quin
e Celeste, enquanto o celular está no balcão em viva-voz, termino o café e ouço alguém entrando.
Pego uma caneca no armário e quando olho quase dou um grito e solto a caneca. Joaquim acaba de
chegar. Refeita do susto de vê-lo parado na porta da cozinha, eu coloco a caneca na mesa e pego o
celular, minha mãe está falando alguma coisa sobre ter cuidado ao pegar metrô, ela prefere que eu
viaje de táxi.
— Mãe, tenho que desligar. Sim, te ligo mais tarde. Tá, eu sei… — olho e Joaquim se aproxima
e senta no banquinho da bancada.
“Estou mandando um beijo. ” — Ele mexe com os lábios.
— Quin acabou de chegar aqui, ele está mandando um beijo. — Falo com minha mãe e me viro
morta de vergonha por estar pelada só de roupão. Desligo o celular, aperto mais as faixas na minha
cintura e viro para ele. Meu Deus, esse cara é o que? Onipresente? Até parece que está na minha cola.
— Oi. — Ele cumprimenta com o sorriso mais inocente do mundo. Joaquim sorrindo pra mim?
Essa é nova.
— Oi. Não devia estar trabalhando?
Quin passa os olhos pelo meu corpo. Como ontem a noite, é algo tão rápido que se eu não fosse
esperta não teria percebido. Acho que ele notou que estou sem nada por baixo.
Como sempre ele está um escândalo de tão gato. Está com um terno impecável azul marinho,
camisa preta por dentro e sem gravata. Os cabelos cor de mel estão penteados de um jeito moderno e
a barba por fazer.
— Sim, estou indo para a empresa. Decidi dar uma passadinha.
Assinto e me viro para o armário. Coloco as torradas num prato e de costas falo: — Edgar não
está.
— Eu sei.
— Café? — Ofereço ainda de costas.
— Sim, por favor.
Pego uma caneca para ele, sirvo o café e coloco a sua frente. Coloco na minha também, pego o
prato com as torradas e puxo um banquinho, decido ficar do outro lado do balcão, meio de frente
para ele.
— E então? Como foi sua louca noite fugindo com um estranho? — ele pergunta com um
humor irônico olhando para a caneca sem provar.
— Não saí com ninguém.
— Não? — Ele me olha surpreso.
— Não. Estou indo agora. Vou almoçar com o Brian. Quer uma torrada? — Aponto para o prato
com duas torradas.
— Não obrigado. Por que ainda vai encontrar outro cara? Aquele outro não foi suficiente?
Semicerro os olhos pra ele.
— Dormiu com ele? Com o cara daquele dia? — Quin pergunta sem me encarar.
— Joaquim, não acho que isso seja da sua conta. — Passo geleia numa torrada e mordo.
— Eu sei. — Ele sussurra com aquele jeito calculista, meio frígido. — Só quero entender por
que precisa sair com outro homem sendo que já dormiu com um antes de ontem.
— Como sabe que eu dormi com um cara antes de ontem?
— Você não negou quando perguntei e vi nos seus olhos.
— E você? Ainda sendo um gentil diplomata e hospedando em sua casa uma condessa
australiana? — Agora é minha vez de alfinetar sarcasticamente.
— Isso não é algo que precisa vir ao caso. — Ele desconsidera logo o assunto — Alexandra é…
algo complicado.
— Então, está respondida sua pergunta sobre eu precisar sair com outro cara. É algo
complicado.
Ele prova o café, eu como mais um pouco da torrada. Quin repara na toalha enrolada nos meus
cabelos.
— O que e a quem quer provar algo? — Ele indaga. — A Elena que conheci não precisaria se
portar como uma vadia para mostrar sua independência.
Uma raiva começa a me tomar, ele com essa cara de sonso sabe mesmo como atingir os pontos
fracos.
— Cara, já é a segunda vez que você insinua que sou uma vadia. — Revolto e deixo isso
explícito na minha expressão.
— Eu não insinuei. Mas é o que vai acabar mostrando se continuar com isso. — Ele segura
minha mão e eu fico gelada no mesmo instante. O toque de Quin me queima, mas de um modo muito
gostoso. — Elena, estou aqui como amigo, ou irmão como você quiser, para te dizer que você é
muito mais que isso. Não precisa ir encontrar com esse tal britânico só para mostrar que é a fodona
independente.
Puxo minha mão e me levanto. Já estou cheia disso. Ele é tão insensível, passa a noite com a
mulher de outro cara, deixando meu coração miudinho, e agora vem pra cá me dar conselhos
querendo ser meu irmão. Vá se foder.
— Joaquim, eu estou de saída. Você deve ir. — Ajeito o roupão e ele assume uma postura séria,
como se tivesse sido contrariado. Tenho a impressão que Quin seja daqueles caras que quer tudo do
seu jeito, se for contrariado, eles não medem esforços para agir, sem piedade.
Ele se levanta também. Os olhos azuis acinzentados, assumem um tom mais negro. Ele está
irritado.
— Eu vim só te aconselhar a parar, mas já que não quer, irei fazer minha parte. — avisa em tom
de ameaça. Um dedo em riste apontado pra mim.
— Que parte? — Cruzo meus braços na frente dos seios. — Fofocar para meu irmão? Vá em
frente. — Enfrento-o sem medo.
— Minha parte consiste em não permitir que você coloque os pés pelas mãos e durma com
homens diferentes a cada dois dias.
Ele dá as costas e começa a ir para a sala. Corro atrás dele.
— Ah, fique com essa irmãozinho: eu já estou colocando os pés pelas mãos. Volte para sua
condessa e me deixe em paz. Ou melhor: mulher de outro cara que você está pegando.
— Eu só vim avisar Elena. — Quin grita por cima do ombro enquanto eu o persigo. – Curta
bastante o britânico, pois o verá agora durante o dia. — Ele abre a porta e dá uma última olhada para
mim.
Eu dou uma risada e Quin franze a bela testa.
— Você é um comediante Quin. E um fracassado em tentar intervir. Há tempos que jura que não
vou ficar com ninguém, que vai tomar uma providência, falar com meu irmão, coisa e tal… e olha só
amigão: o Brian será meu segundo encontro desde que cheguei aqui. Achou que é só você que pode
ter um harém?
Ele ri friamente, um belo sorriso montado, olha pra mim com aquele olhar calculista de novo.
Mas agora tem algo no olhar que é como se quisesse dizer: “Coitada. ”
Fecho a porta e me sento no sofá abismada com o que acabou de acontecer. Que cara foi aquela?
Por que me olhou daquele jeito? Será que ele vai mesmo contar pra Edgar? Agora fiquei com medo.
Se Edgar souber que saí com um homem apenas, ele vai ligar para o Brasil e eu vou passar o maior
constrangimento do mundo com meu pai batendo aqui para me azucrinar.
Mas tudo está igualzinho há dez anos atrás. Era dessa forma que Edgar sempre intervinha em
tudo que eu fazia. Quin e meus irmãos arrebentavam o nariz de qualquer um que cismasse em se
interessar por mim.
Sabe o que reparei? Antes de ir ver Erasmo, Quin veio aqui, me confrontou como hoje.
Por que isso? Por que esses caras acham que vou desmontar se ficar com um homem? Espera só
eles verem o que os aguarda. Me levanto decidida e vou para o quarto.

ENCONTRO ÀS CLARAS
O restaurante que Brian está me esperando fica na Tribeca. O taxista conhecia o endereço e
fiquei maravilhada quando parei em frente ao estabelecimento com uma fachada maravilhosa. O
nome do restaurante, acima, se exibia majestoso. E eu me peguei sorrindo pro nada, como uma tola.
— Oi. Elena? — Abaixo os olhos e me dou de cara com um exemplar vivo do Davi de
Michelangelo. Um cara alto, escondendo um senhor corpo dentro de uma camisa polo e calça preta,
tipo esporte fino. Os cabelos com cachos desalinhados são lindamente vermelhos, a barba tem um
tom mais claro, quase dourada e o sorriso é de enlouquecer. Até agora, contando com esse, quatro
deuses gregos. Se eu não tivesse escolhido eles a dedo, eu não teria acreditado que isso é real.
Eu sei que precisa rolar um clima para irmos para a segunda fase, eu sou daquelas que acredita
no romance e na paixão, entretanto, agora, um motor potente me faz avançar: essa marcação cerrada
de Joaquim em cima de mim. Agora virou questão de honra mostrar que posso sim fazer o que
quiser. Sem falar, é claro, que o cara sendo tão lindo como esse a minha frente, ajuda muito no
processo. Louca para ele ser tão vigoroso como Erasmo.
— Oi. Brian não é? — Nos aproximamos e trocamos beijinhos na bochecha.
— Sim. Uau, você não é nada comparada a foto. — Ele dá uma olhada generosa pelo meu corpo.
— Não?
— Lógico que não. É muito melhor.
A risada foi inesperada. Acho que até soprei de alívio. Um elogio, de um cara lindo assim? Já
estou me sentindo.
— Você também é melhor que na foto.
Muito melhor eu diria. Estou diante de um homem alto, forte e de olhos como água do mar. Tem
como não sentir um clima com um homem assim?
— Obrigado. Venha, vamos beber alguma coisa. — Gentilmente ele coloca a mão nas minhas
costas me guiando para dentro do restaurante. E eu já não lembro mais de Quin, ou melhor, não
quero mais lembrar dele.
Me sentei com ele no bar, escolhemos os drinks que estavam exibidos em belas cartas. Brian
girou no banquinho ficando de frente para mim.
— E então, me fale sobre você. — Ele pede.
— Como eu disse, sou brasileira, já peço desculpas pelo meu inglês.
— Está perfeito. — Ele afirma de imediato.
— Obrigada. Foram quase dez anos de aulas. Bom, acabei de chegar para morar aqui com meu
irmão.
— E procura pelo que? Veio tentar a sorte?
Já disse que o sotaque dele é um charme? E eu achando que o de Erasmo era mais sexy. Sim, o
idioma é o mesmo, mas dá para notar como cada palavra é arrastada de maneira diferente, ao estilo
texano e agora britânico.
— Você veio de Londres para tentar a sorte? — Devolvo a pergunta.
— Não. Minha família mudou pra cá, há uns cinco anos atrás. Eu decidi acompanhá-los. E você?
— ele insiste.
— Sim, digamos que vim tentar a sorte. — Dou de ombros e provo meu drinque. Feito com
vodca e suco de cereja.
— Seu irmão trabalha em que? — Ele indaga e dá um gole no drink azul em uma taça larga.
Brian tem uma elegância inata ao falar, levantar a taça, tirar uma mecha de cabelo vermelho da testa.
Um típico aristocrata, vindo de um país monárquico.
— Já ouviu falar em Joaquim Mafra?
— O cara das boates? Sim. — Balança o pescoço afirmando — É seu irmão?
— Não. Quer dizer, ele é brasileiro e cresceu como meu amigo de infância, quase como irmão.
Meu irmão é o melhor amigo dele e trabalha aqui.
— Trabalha com Joaquim Mafra?
— Sim, começo semana que vem.
— E está se adaptando?
— Totalmente. Eu estou num joguinho dos signos não é?
— É. Estou muito animado. Gostei mesmo de você. Já tem uma briga de times por sua causa?
— Como assim? — Inclino o pescoço de lado e indago curiosa.
— Elena… tipo Helena de Tróia. — Ele compara dando um sorriso lindo — Tão gata como
você é, creio que exista ao menos dois caras se matando por você.
— Ledo engano. — Eu desdenho e dou uma gargalhada. Ele ri comigo e bebe mais me
observando pela borda da taça. — Tenho os doze que ainda não são meus, quer dizer, me restam oito
contando a partir de você, mas vocês não estão se matando por mim.
— Então sem ninguém na vida ou no passado?
Penso nos meus raros namorados e no meu primeiro homem que foi espancado e apareceu com
o nariz quebrado, dizendo que tinha que terminar comigo. Até hoje meu coração dói quando me
lembro daquela cena. Chorei por várias noites seguidas, com ódio e remorso. Meus irmãos não
deveriam ter feito aquilo.
— Elena? – Brian me chama e eu olho pra ele acordando para o presente. Solto o ar pela boca
aliviada.
— Não. Não tenho ninguém. Claro que já tive namorados, mas nada tão durador.
— Estou abismado. É uma mulher muito bela.
— Digamos que fiquei muito tempo estudando e me empenhando na minha carreira.
— Fez faculdade?
— Sim, enfermagem.
— Uma enfermeira. Que sexy! — Me presenteia com um sorriso tão lindo e erótico que fico
sem ar. Olha para mim como se estivesse imaginando eu numa roupa sexy de enfermeira.
— Imaginando algo Brian? — Cruzo minhas pernas de forma provocadora atraindo o olhar
dele.
— Com você nem precisa imaginar muito.
Safado. — Penso e dou um sorriso apenas.
— Agora pare de falar de mim e me conte sobre sua agitada vida masculina.
— O que acha de uma rodada de chope? — Ele indaga.
— Pra de dar coragem?
— Não, é uma história longa, com muitas personagens.
Nossa! Não acredito que ele confessou que teve um monte de mulher. Ao menos é sincero.
Pedimos a rodada de chope e depois mais dois drinques. Conversamos bastante, falamos de
sonhos, de aventuras e de desejos a curto prazo. Depois fomos para uma mesa e tivemos um almoço
maravilhoso, descontraído, relaxado e romântico acima de tudo. Brian sabe como flertar sem parecer
um cafajeste doido para trepar. Ele investe na elegância, na sutileza e no charme. Fiquei encantada.
Mais encantada ainda quando ele me levou a uma peça na Broadway. Eu tinha comentado que fui
visitar, quando estava vazia. Mas quando ele me surpreendeu com dois bilhetes para assistir O
Fantasma da Ópera que estava de volta em cartaz, eu quase tive um treco. Nem avisei Celeste, eu
apenas fui e delirei com o espetáculo.
E depois da peça e trocar alguns beijos no carro, tive certeza que mais delirante, será nossa
noite. Acho que ele é um cara que sabe cultuar uma mulher, que vai com calma, daqueles que fazem
amor ao invés de foder. Ao menos foi isso que me mostrou durante todo dia. Tem como não querer
experimentar?
Não que eu tenha algo a reclamar, mas como eu já tive um momento “foda sacana” com Erasmo,
acho digno eu ter uma noite bem sexy e romântica com um britânico. Nossa, se eu escrevesse um
diário daria um ótimo livro erótico.

ENCONTRO ÀS ESCURAS.

Tudo que eu esperava de Brian foi exatamente ao contrário. Depois do nosso dia juntos, eu me
animei a continuar. Marcamos para a noite. Dei a ele a chave do lugar, uma máscara e a cueca com
um símbolo de signo gravado. Expliquei o que tínhamos que fazer: nada de conversa, nenhuma
palavra, e nem de rostos a amostra. Ele me perguntou por que isso e eu disse que vários caras no
grupo inicial tinham dado essa ideia. Afinal o mistério é muito instigante e tornei a explicar a teoria
de Celeste: durante o dia, conhece o homem e o signo. A noite transa apenas com o signo. Sem apego.
Como sempre eu cheguei antes. Tirei meu vestido e por baixo já estava usando outra roupa,
diferente da que usei com Erasmo.
Essa é de renda, escolhi de última hora já que achava que seria algo bem romântico. Um
conjunto lindo preto. Vesti uma meia calça preta e scarpin salto 15, diferente do estilo mais ousado
que usei com Erasmo.
Diante da penteadeira improvisada, passo um batom vermelho, ficando com aquele bocão
chamativo. Ligo uma música lenta e coloco minha máscara. Me levanto, aperto o interruptor e o jogo
de luzes começa, tênue, meio escuro, nas sombras coloridas. Não demora muito e a porta se abre.
Gêmeos. Meu sangue ferve, de expectativa.
Respiro fundo e fico de pé olhando ele se aproximar. Para a uns passos de distância e começa a
se despir. Eu sorrio por baixo da máscara. A dele é quase como a do primeiro, só que não é de couro,
é algo mais estilo arlequim. Preta e branca, tem só a boca de fora.
Ele fica compenetrado me encarando por detrás da máscara enquanto desabotoa o cinto e o
arranca em um puxão. Arranca os sapatos, a calça junto com a cueca e me toma em dois passos. Ele
não tirou a camisa só desabotoou, e nem me deixou vê-lo direito.
Chegou bem perto, me puxou pela cintura, rodou a mão atrás da minha nuca e encheu os dedos
com meus cabelos. Manteve meu rosto levantado, segurando firme, me fez olhar bem para a máscara.
Uma pegada forte, diferente do que imaginei.
Toquei nos braços dele e… é impressão minha ou ele parece mais forte do que hoje cedo? Bom,
ele estava de roupa. É impressão minha.
Enquanto estou pensando sobre isso, ele me vira de costas para ele, enlaça um braço em mim e
dá um tapa na minha bunda, ele me segura bem forte, esfrega o nariz no meu pescoço e ouço-o
inspirando por detrás da máscara, como um animal prestes a devorar a presa. A mão que me enlaça
sobe, agarra forte meu sutiã e o parte em dois. Sim, ele rasgou meu sutiã de renda e meus seios
saltam com os bicos enrijecidos.
Estou surpresa por ele estar agindo assim, nada romântico. O pau já bem duro esfregando entre
minhas pernas, ele está nu, me encochando forte por trás enquanto uma mão segura meus cabelos e a
outra faz maravilhas pinçando um dos meus seios.
— Ohhh… mer…daa! — engasgada de puro prazer, começo a sussurrar. E quando falo ele
parece enlouquecer. Me joga na cama e vem todo grande e esfomeado para cima de mim. Faz três
coisas muito rápidas me deixando imobilizada e sem pensamentos lógicos.
Primeiro: segura minha garganta.
Segundo: enfia a mão na minha calcinha.
Terceiro: curva para cima de mim abocanhando um dos meus seios.
Todo meu corpo se acende quando a boca quente e grande chupa meu seio tirando-o do
enrijecimento excitante. Levanto minhas mãos e seguro forte nos cabelos dele, atrás na nuca e não
parecem tão grandes como hoje cedo. Ele arranca minhas mãos de lá, e as prende no alto da minha
cabeça.
O cara parece um louco, isso não é nada do que eu esperava daquele gentil cavalheiro britânico,
ele está em cima de mim e percebo pela maneira que me segura, que é quase como se… sei lá, tipo
aqueles caras que gostam de punir. Sim, é como se Brian quisesse me punir usando o sexo.
— Brian… — eu resmungo na intenção de pedir que ele vá com calma, mas é tarde demais.
Um dedo dele aprofunda dentro de mim e eu solto um gemido quase de alívio. Ele vai com
calma, contornando cada dobra e enfiando devagar, chega ao fundo, gira e eu sinto um espasmo,
mete duas vezes seguidas e rápidas, depois tira o dedo, chupa e isso me deixa pirada de prazer. Ele
chupa o dedo olhando para mim, não é nada nítido por causa da luz, mas o vislumbre é arrasador. E
então ele se abaixa. Leva uma mão em cada perna e me abre por inteiro. Me sinto exposta e muito
quente de prazer, minha vagina não para de piscar, meu coração já está acelerado ao limite e a
expectativa está me matando. Como fez com o sutiã, ele rasga a calcinha e volta a segurar minhas
pernas mantendo-as abertas e bate a boca sem dó.
Uma tortura alucinante começa, e isso não tem nada de cavalheirismo, o cara é uma máquina
insaciável e selvagem, ele faz umas coisas com a boca contra meu clitóris e bordas que fico apática
com mil gemidos presos na garganta. Não só lambe, ele movimenta os lábios, chupa cada parte, enfia
a língua e isso é muito diferente do que eu senti com Erasmo, aqui é algo mais urgente, mais carnal.
Depois enfia um dedo, sem parar de chupar, curva o dedo em forma de anzol arrastando-o para
cima, dentro de mim, e não consigo mais aguentar, ele me faz ter um daqueles orgasmos mais que
devastador. Sinto ejacular enquanto estremeço toda e me debato quase inconsciente, só tenho
consciência dos meus gemidos, do prazer que sinto e da boca dele que não desgruda da minha boceta.
Ele não vem para cima de mim, não me beija, não faz nada. Se levanta, afasta da cama. Eu olho e
vejo-o ir até a mesa e pegar um preservativo, como se já soubesse onde estava. Senta em uma
poltrona e segura o pau começando a subir e descer a mão envolta dele. Não é nítido o tamanho e
agora ele afastado consigo ver apenas uma sombra com a mão se mexendo, vagarosamente para
cima e para baixo.
Me sento ainda toda trêmula e ele me chama. De um jeito muito erótico, muito instigante. Ele faz
um sinal com a mão para que eu vá até ele.
Tiro os saltos, me levanto e coloco a mão na minha vagina ainda latejante. Vou andando meio
trôpega, chego perto dele sentado na poltrona. Com o coração aos pulos, nessa esfera de prazer, eu
curvo para beijar a boca dele, mas ele é mais rápido, me segura e me faz abaixar em suas pernas. Fui
quase colocada a força e tive que ajoelhar.
Estou agora vendo bem de perto o pau enorme. Eu não tinha visto o de Erasmo tão de perto; o
de Brian é uma coisa espetacular. Eu nunca achei que fosse ver o órgão masculino dessa forma, com
interesse e me sentindo pegando fogo só em olhar.
Ele está recostado, os braços descansando atrás da cabeça como um Senhor, esperando que eu vá
fazer a coisa certa. Ainda de camisa, mas posso ver os bíceps perfeitos.
Sinto uma necessidade de ver o rosto dele, de ver os olhos azuis quentes de tesão. Mas não faço.
Olho para o pau. Nunca fiz isso, mas eu que procurei essas sacanagens e sabia desde o início que aqui
poderia rolar qualquer coisa com esses caras.
Sem falar que não parece nenhum sacrifício. Estou explodindo de prazer só em pensar nisso.
Levanto a minha mão lentamente, com cuidado, e seguro. Ouço-o arfando. Desço os dedos
sentindo a textura. Está muito duro, mas é bem macio, macio como pele. Desço mais os dedos e toco
nos testículos; não há muitos pelos, são escassos e macios. Ele geme mais. Seguro firme, engulo seco
e abaixo o rosto.
Passo a língua na cabeça e o gosto não é nada desagradável, inicialmente salgado como pele,
passo a língua, puro sabor de homem, passo de novo e de novo, não solto e sem pensar enfio a
cabeça toda na boca e sugo.
Carambaaa! Que loucura. Isso é demais.
Nossa! Não achei que poderia sentir esse prazer fazendo algo nos outros. É bom demais, soa
ousado e pervertido, mas chupar um pau não é nada ruim. Ainda mais um com essas proporções.
Não paro, vou aprofundando, engolindo cada centímetro, sentindo uma mão dele nos meus
cabelos e um filete de baba começando a escorrer do canto da minha boca.
Tiro para fora, começo a lamber sem parar, conhecendo-o todo com a língua, passo ela no saco,
ouço ele rosnar alto, passo de novo provando que ali é mais macio e meus batimentos já ecoam na
minha cabeça. Volto a enfiá-lo na boca e é como se eu já tivesse feito isso a vida toda.
Muitos dizem que precisam de técnica, mas eu estou apenas chupando, fazendo sucção, usando
minhas bochechas e ele parece quase pirado.
Olho para cima, e o que vejo me deixa mais alucinada ainda. Ele pega o pacotinho de camisinha,
rasga no dente, toma o pau da minha boca e em dois movimentos simples veste o pênis. Puxa meu
braço, me ajeita de costas para ele e vem trazendo minha bunda em sua direção, enfia a mão por trás,
alcança minha vagina, enfia um dedo, dá duas socadas rápidas e ajeita a cabeça larga do pau contra a
entrada que escorre lubrificada, e está pegando fogo. Eu sei que ela está ansiosa para receber toda
essa potência recheando por completo. Meu corpo todo implora por isso.
Sinto a mão dele na minha cintura e essa mão vai me puxando para baixo me fazendo engolir o
pau dele. Coforme vou aprofundando, vou gemendo progressivamente até sentar no colo dele. E aí
começa.
Estou de costas, abraçada por trás. Ele se levanta comigo, me joga na parede e começa a me
foder assim. Rápido sem esperar, o quadril batendo forte contra minha bunda. Uma mão segura as
minhas me mantendo presa, para eu só sentir as estocadas potentes sem fazer nada. Como eu disse
antes: algo que se parecesse com sexo punitivo, como se eu tivesse feito algo que ele não tivesse
gostado.
Foi assim durante todo momento que fizemos sexo. Ele foi selvagem, animalesco, me deixando
cambaleante e dolorida. Gritei de pé, tonta de prazer, caindo das pernas enquanto ele socava sem
parar e chupava em várias partes do meu pescoço. Estava deslizando fácil boceta adentro, puxando
rápido pra fora e me preenchendo em seguida novamente, estava tocando meu útero, as bolas batiam
atrás, e as mãos dele faziam coisas absurdas com meu corpo em chamas. Gozei novamente de pé. Ele
não parou, não ouviu meu lamúrio, me fodeu forte e duro, como se eu merecesse aquilo. Depois me
levou para a cama, me ajeitou de lado e ficou atrás de mim. Quase me detonou, as socadas foram tão
fortes e deliciosas que gozei mais uma vez em pouco tempo.
Ele estava me abraçando, bem apertado, por trás, os braços muito fortes, o corpo muito grande,
as pernas também fortes e musculosas e o pau insaciável saía e entrava em uma profusão de tesão
acelerado. Assim que gozei ele rolou para cima de mim. Eu estava exausta, mas ele estava disposto a
me dar uma canseira. Soube disso desde o primeiro momento: ele não ia parar enquanto não me
deixasse acabada.
Tinha gozado três vezes e não foram orgasmos fracos, foi coisa de deixar a pessoa com a visão
turva.
Ele finalizou no estilo papai e mamãe. Não ficamos de rostinho coladinho, para que mesmo
através da máscara eu pudesse vê-lo. Ele enfiou o rosto na curva do meu ombro e bateu o quadril, em
uma dança muito sensual. Meus dedos passaram pelo corpo dele, ainda estava com a camisa, mas
podia senti-lo todo suado, o cheiro dele impregnando todo meu ser e o cheiro é como se eu já o
tivesse sentido antes. Mas estava tremendo demais para raciocinar. Só conseguia pensar no homem
grande e muito gostoso em cima de mim.
Cravei as unhas em sua pele o abracei forte com braços e as pernas envolta do seu quadril até
que gozei mais uma vez e ele também. Enquanto gozava ele não parava de se mexer dentro de mim,
acho que me fazendo sentir os espasmos que ele sentia. E ficamos abraçados, sem desgrudar, sem que
ele tirasse o pau de dentro, apenas nos sentindo ainda tão sensíveis. O corpo dele é grande e forte, e
sentir a pele quente e suada já descansando foi muito bom. Nossas respirações eras as únicas coisas
que eu ouvia, além da música lenta. E eu não vi mais nada. Caí num sono muito pesado.

(…)
Pego meu celular e digito o número dois na discagem rápida. Enquanto Celeste não atende, eu
rolo na cama e olho para o ambiente já claro. Como na noite de Erasmo, eu estou sozinha. Brian
também me abandonou e o mais estranho foi que eu falei isso com ele no nosso encontro. Eu disse
que o fato de Erasmo ter me abandonado sozinha foi estranho e não achei legal. E ele prometeu que
ficaria comigo. Mas não ficou.
Brian apesar de fazer a coisa bem-feita, de ter um senhor corpo e um senhor pau, está fora da
minha lista. Ele parece um grande embuste, se mostra um romântico incurável, carinhoso e tudo mais
durante o dia e quando chega a noite se transforma em um animal faminto. Foi bom, eu experimentei
algo ainda desconhecido que eu só tinha visto em livros. Mas estou dolorida e com marcas. Foi como
se ele fizesse isso de propósito. Eu não vou querer sair com outro cara enquanto tiver com essas
marcas pelo corpo.
São sete da manhã e Celeste grita do outro lado da linha.
— E então? Como foi com o lindo ruivo britânico?
— Foi bom. — confesso lembrando que eu estava com muito tesão e gozei várias vezes — Mas
ele está fora. — decido rápido.
— Como é que é? Sério isso?
— Sim. Gêmeos não vai fazer meu tipo. Ele não foi nada parecido com um dos príncipes, Harry
ou William, filhos da Diva Diana. Foi mais ao estilo conde Drácula. —Lembro dele devorando minha
boceta com a boca e deixando essas marcas no meu pescoço — Pervertido e perverso. Acredita que
nem me beijou?
— Que safado! — Celeste exclama — acha que ele te tratou como uma qualquer?
Não vou mentir que essa hipótese me incomoda.
— Não sei se esse é o estilo de sexo dele, mas senti algo como sexo punitivo.
— Que grande imbecil. Você vai parar?
— Não sei ainda. Mas vou conhecer bastante o cara antes de convidá-lo ao encontro às escuras.
— É assim que se fala, não quero um conde Drácula te acompanhando no meu casamento. Tem
um signo em mente?
— Tem algo para sugerir?
— O que acha do leão?
— É. vou descansar e daqui uns dias eu ligo para ele. Vou antes me concentrar no show que
preciso fazer.
— Venha pra casa e me conte tudo.
— Estou indo.
Desligo e me sento na cama. Respiro fundo e olho tudo em volta. Me levanto e sento diante do
espelho. Estou corada, de olhos brilhantes e cabelos desgrenhados. Um furacão passou por aqui. Um
furacão gostoso e depravado, mas que não é para mim.
Um segredo agora, bem do fundo do meu peito. Sabe o que é pior disso tudo? Sentir uma culpa
pequenina, como se eu tivesse traindo alguém. Senti isso com Erasmo e sinto agora. Eu não tenho
ninguém que eu possa estar traindo, mas a pontinha do meu coração, aquela parte que ainda fantasia
coisas com um certo cara, acha que estou sim sendo malvada e traindo.
Mas Quin é nada mais que irmão ou amigo ou protetor, sei lá o que. Essa sensação é infundada.
NOVE

JOAQUIM

Duas semanas antes, Joaquim chega à casa de Edgar e encontra Elena.


Narração a partir do Capítulo DOIS, visto pelos olhos dele.

(…)
Aqui é uma história, não um currículo para um site de namoro. Portanto não irei gastar tempo e
saliva descrevendo meus atributos físicos. Basta saber que sou homem e me chamo Joaquim Mafra.
Esse nome é como uma chave mestra aqui em Nova York. Tem o poder de abrir qualquer porta e
pernas. É precipitado afirmar isso? Lógico que não. Sinceridade é meu lema, ao menos em alguns
casos. Desde que me alicercei aqui, não há boceta que não posso comer e porta que não posso entrar.
Isso nem de longe é arrogância, e sim confiança. Sabe por que não preciso enumerar as minhas
características inatas que fazem de mim um vencedor? Por que tenho confiança em quem eu sou e sei
que provavelmente você vai ouvir de outras bocas tudo sobre mim. Desde a cor dos cabelos ao
tamanho do pau. Tudo bem, talvez eu mesmo fale o tamanho do meu pau, quando o assunto vier à
tona.
Também tenho confiança em ter o poder de entrar.
Um homem não basta ser rico e influente se ele não sabe se impor. A primeira dica é: queixo
erguido e olhar inalterado, quase árido eu diria; se imponha e o mundo lhe dará o que deseja. Parece
injusto, mas as coisas boas não são para quem merece e sim para quem vai atrás delas.
Há dez anos, eu não era isso tudo. Um soldado novato pode se ferir em uma guerra, mas quando
ele volta ao campo de batalha, já é um veterano e conhece os truques.
Quando cheguei aqui em Nova York há dez anos, fui humilhado, passado pra trás e quase
pisoteado. Minha mãe acabou falecendo e me vi sozinho para lutar pela minha vida e dignidade.
De boa, fui pobre durante vinte e dois anos e a coisa que o pobre faz melhor na vida é lutar.
Não sei se já contaram, mas eu tenho um meio irmão e uma madrasta. A vaca ainda vive, fez da
sua vida a missão de me atormentar, acha que por que casou com meu pai eu ainda lhe devo alguma
coisa. Sabe o que ela faz para me manter no controle? A mídia.
Ela sabe que meu maior inimigo ou de qualquer outro homem poderoso é a mídia. Se a mídia
quiser eles derrubam até mesmo governos. E eu fico puto de verdade com isso. Odeio que me
fotografem, odeio que falem das minhas mulheres, odeio que me rotulem como qualquer tipo de
babaca.
Isso é só mais um detalhe em minha vida que me faz confiante.
Lembra que eu comentei sobre soldados veteranos? A vida dura pode tornar um simples jovem
brasileiro em um empresário frio, controlador, ganancioso e até insolente. Não posso andar com
sorriso largo, sendo amigo de todos, amando todas as mulheres. Ou então ninguém me daria valor.
Preciso impor respeito para me manter no topo.
Durante dez longos anos aqui, reconstruindo o império do meu pai, nada me abalou. Até mesmo
a morte prematura da minha mãe não me fez baixar a cabeça.
Mas hoje algo me deixou momentaneamente sem controle algum. Senti até uma dor na espinha
por não poder controlar a ocasião.
Elena.
A porra da menina tinha que vir me atormentar? Quer dizer, menina não. Mulher. Eu já sabia que
ela está gostosona nível Ômega, vi algumas fotos que Edgar me mostrou e até bati uma punheta
generosa em homenagem a ela. Mas não esperava vê-la na minha frente tão cedo.
“Nossa, ele é apaixonado por ela. Que romântico” nem pensem isso, ou mando ir se ferrar, isso
não existe.
“Então ele sente um desejo desenfreado por Elena. ” — Talvez. Ela é gostosa e vai atrair
qualquer homem hétero que tenha sua libido em dia. No caso, eu não sou diferente.
“Ele sempre sentiu algo por ela, desde antes. ” — Engano total. Eu tinha carinho fraterno por ela.
E pena. Muita pena. Principalmente depois que liguei os pontos e soube que eu era o sonho de
adolescente dela. Coitada. Não tinha chance alguma de merecer o garotão aqui. Sem falar que era
fraquinha e não iria aguentar a primeira bombada.
Entretanto, agora vendo esse par de coxas e essa bunda, tenho certeza de que se ela se esforçar
consegue me aguentar. Mas isso é apenas fantasia. Feia ou bonita, ela é a Leleca, minha caçula, irmã
de Edgar. Intocável. E eu sei meu lugar para manter as coisas desse jeito.
Segundo meus cálculos eu só a veria daqui um mês no casamento de Edgar.
E agora ela está na minha frente com essa doce cara inocente, franzindo a testa pela dor causada
no nariz. É, eu bati a porta na cara dela.
Estamos na cozinha e eu acabei de dar a ela um saco de gelo.
— Celeste disse que você só chegaria amanhã. — Elena fala com um saco de gelo tampando o
nariz. Eu estou de costas para ela fingindo procurar alguma coisa na geladeira. Claro que eu preciso
de tempo para absorver a nova aparência dela.
— Resolvi tudo a tempo. — Respondo de modo vago, decido pegar uma caixinha de suco e
ganho tempo indo ao armário pegar um copo. Estou sem chão de reencontrar Elena. Essa Elena eu
quero dizer. Dizem que o tempo é o pior inimigo da beleza. No caso dela isso não se aplica. Não
sabia que aquela garota magricela, de cabelos sempre trançados poderia se tornar essa mulher.
Mesmo ela vestindo roupas folgadas não ficou imune a minha análise.
Sabia que sensualidade é aquilo que faz o homem enlouquecer precisando ver mais detalhes? Se
a mulher veste mini saia, e um pedaço de tecido cobrindo os seios somente, ela já está entregando o
ouro de bandeja. Não me chame de machista, mas eu sou homem e conheço minha raça; muitos não
levam a sério mulher que se veste desse jeito na noite. Constantemente classificamos mulheres assim
como fáceis ou na ala de “para transar”.
— Você mora aqui perto? — Elena pergunta e eu me viro com o copo de suco entre os lábios.
— Aham.
Paro meus olhos na região do busto dela. Aquilo são seios? Seios grandes? Ela parecia uma
tábua dez anos atrás…
— Hum… foi bom te reencontrar Quin. Me conte como estão as coisas.
— Antes me explique… você está aqui pelo casamento de Edgar?
— Sim e não. — Ela deixa o saco de gelo de lado e cruza as pernas em um movimento gracioso,
nada de similaridades com a moleca que conheci. — Vim passar uma temporada. — Elena faz uma
concha com a mão ao redor da boca e inclina-se como se fosse contar um segredo. — Edgar não
sabe da minha visita.
— Não avisou a ele que vinha? Celeste está envolvida, aposto.
— Aposta ganha. Celeste tramou tudo. A partir de amanhã vou procurar emprego.
Foi quando ela falou isso que tudo começou a desandar. Achei uma grande estupidez ela vir
querer trabalhar em uma das minhas boates. Logo ela que sempre viveu sob asas de proteção? Sem
falar que emprego quer dizer estabilidade, eu não vou querer Elena aqui por muito tempo por dois
motivos: Meu pau e Edgar.
Vocês podem dar uma olhada nessa situação e tentar entender o que estou falando? Ela é como
uma irmã para mim porra, ou assim como o pessoal dela, minha segunda família, acha. Eu não tenho
controle pelo meu pau. Vi o contorno dos peitos, as pernas, os lábios… toda a nova Elena, e fiquei
duro aqui nas calças. Não posso nem imaginar essa tentação por muito tempo perto de mim sem que
eu fira os sentimentos dela e a confiança do Edgar. E agora imagina isso tudo lá, ao meu lado na
empresa?
É para rir. Não poderia imaginar que Edgar aceitasse tão fácil Elena trabalhando na empresa.
Mas tudo bem, ela vai ficar lá no andar da contabilidade e eu na minha sala isolado. Só espero que ela
não comece a usar aquelas porcarias de roupas sexy de executiva.
Meu dia não poderia ter ficado pior. Depois de reencontrar Elena e descobrir que ela está
altamente comível e que pretende trabalhar na minha empresa, eu fui confrontado por Hilary, a
piranha. Minha madrasta. Ela teve a cara de pau de ir a minha sala, onde estava tentando colocar uns
pensamentos em ordem.
Não sei se aquele bunda mole do Victor sabe o que a mãe anda fazendo, mas minha paciência
está no limite e eu vou precisar alertá-lo para frear a mãe ou o ferro vai pros dois.
Hilary disse que precisa de um adiantamento na pensão dela do mês que vem. Dá pra acreditar
nisso? Eu pago uma pensão para ela, pago para ela não ir me expor na mídia, como sempre me
ameaça.
Como eu não queria bater boca, liguei o computador enquanto ela falava sem parar, fiz alguns
cliques, digitei um valor e usando todo meu potencial para formar um olhar gelado, encarei-a.
Hilary é uma mulher de cinquenta anos, mas devido a tantas plásticas, não demonstra ter essa
idade. Seus cabelos bem pretos e a pele esticada só me deixam mais enojado quando penso que meu
pai deixou minha mãe por causa dela.
— Some da minha frente. Já fiz uma transferência para sua conta.
Ela para de falar sobre eu ser um unha de fome e me olha pasma. Pega o celular toca a na tela e
volta a me encarar.
— Que mixaria! Eu te disse que é uma viagem para a Rússia. Sabe quanto é uma viagem para a
Rússia?
Me levanto e bato as mãos na mesa, uma raiva me toma e acho que nem é tanto por ela. Ainda
estou com uma certa jovem rindo com sarcasmo na minha mente.
— Eu sei quando custa para pagar uma pessoa para te dar um ensinamento. Suma da minha
frente. — Hilary é esperta e sabe quais meus pontos fracos, sabe onde tocar. Mas também sabe quando
é momento de recuar.
Ela apenas se vira e sai desfilando nos saltos altos e eu volto a me sentar. Só para constar, sim,
eu tenho contato com pessoas que fazem serviços de avisos e ensinamentos. Cara, sou um empresário
de sucesso, ser respeitado caminha junto com ser temido.
Depois que Hilary saiu e eu a amaldiçoei em três idiomas, veio a terceira cacetada do dia.
Alexandra.
Definitivamente as mulheres viram a oportunidade perfeita para me foder. Elena se mostrando
uma encrenca, Hilary uma pedra no sapato e Alexandra uma página não virada.
Eu já fui um besta doido por ela, aquela mulher é pau pra toda obra, insaciável, gostosona, já me
deu canseira várias vezes. Entretanto, de um dia para o outro ela resolveu me colocar no centro das
atenções, coisa que mais odeio. Decidiu me deixar para ir seguir as tradições da família e isso foi um
prato cheio para revistas de quinta. E agora ela simplesmente liga dizendo que está vindo para Nova
York, que precisa acertar todos os ponteiros antes de se casar.
Traduzindo: ela quer meu pau mais uma vez. Marquei na minha agenda o dia da chegada dela
para me preparar devidamente.
Larguei toda droga de trabalho, peguei minhas coisas e bolsa de viagem, pois eu tinha acabado
de voltar, e fui para casa.
Ficar de cueca, beber um pouco e pensar enquanto zapeio pelos canais na TV. Bem diferente do
temido e imponente dono da rede Mafra, não é? Justamente por isso são poucos que tem acesso livre
a minha fortaleza. Edgar, Celeste Victor e Alexandra apenas. Demonstrar um pingo de fraqueza não é
algo que esteja na minha lista de futuros projetos.
Apesar de tudo meu dia foi legal. Descansei meu corpo e sabem de uma coisa? Acabei
esquecendo que a algumas quadras daqui Elena está residindo, com as suas belas pernas e bunda
empinada.
Pedi almoço, terminei, liguei para minha secretária exigindo que só me ligasse em caso de
última hora, me joguei na cama dormindo até às cinco e meia. Acordei disposto, tomei um banho e
fui levantar uns ferros. Uma fábrica que produz muito não pode deixar as engrenagens enferrujar.
Acabei descolando uma foda de última hora na academia. Sandy é morena, bem gostosa,
malhada não do tipo “transformação para centauro” malhada do tipo coxonas e bunda gostosa.
Fomos para meu apartamento em outro prédio e acabei usando três camisinhas e deixando ela
nocauteada na cama, olhando para mim de olhos gordos enquanto eu saia pelado indo para a cozinha
buscar uma cerveja.
Estava dentro da geladeira comendo umas azeitonas quando ela veio atrás de mim.
— Está disponível amanhã? — Fechei a geladeira e a olhei atentamente. Sandy também está nua.
— Sim. — Ela respondeu rápido arregalando os olhos. Me aproximei dela, passei os nós dos
meus dedos nos bicos dos seios dela, corri minha mão para baixo e dei uma apalpada na boceta. Tudo
sem desviar os olhos da cara dela, tenho muita tara em olhar para o rosto das mulheres, vendo as
emoções causadas por mim.
— Quer me ver amanhã de novo? — Ela murmura quase chocada, demonstrando que estar
comigo é sim um presente dos deuses, diferente do que muita gente acha. Se você nunca esteve
comigo vai me classificar como canalha vacilão. Mas se esteve, vai agir assim, como Sandy, molinha
de desejo.
— Sim. O que acha de voltarmos para cá para eu te comer mais um pouco?
Um sorriso enorme se abre nos lábios dela.
— Sim, eu aceito.
— Muito bem. Vista-se, vou te levar em casa, preciso dormir cedo. — Dei um tapinha nela e me
afastei saindo da cozinha.
Perguntar se ela quer ir ou jogar indireta só iria enrolar mais a situação. Ordenar o que vai
acontecer e vê-la obedecer é o mesmo que subtrair os problemas e ter resultados positivos.
Depois que a deixei em casa e voltei para meu apartamento original, fui dormir. Caí na cama
feito pedra. Dificilmente um problema tira meu sono. Na manhã seguinte, pulei da cama, disposto a
dificultar a estadia de Elena aqui em NY, somente para me preservar. Fiz uma seção de trinta
abdominais e trinta flexões e então algo muito inesperado aconteceu. Inesperado e bizarro pra
caralho. Algo que me deixou de cabelo em pé, com muito ódio principalmente. Já era bem tarde
quando recebi a notícia.
Tomei uma ducha relaxante, fui para a cozinha e preparei uma vitamina para beber antes de ir
me vestir. Não sou desses que ficam bebendo shake ou suplementos. Mas gosto de bater um monte de
frutas com leite e chocolate em pó.
Estava na mesa, com um iPad, vendo as notícias da manhã, bebendo no copo do liquidificador,
quando meu celular tocou. Só pedi a Deus que não fosse Victor ou alguém da empresa relatando
problemas. E era. Alguém da empresa.
Jeffrey, o chefe da computação, mexe com todos os problemas relacionados a isso. Ele e sua
equipe muito eficiente, atualizam meus sites, configuram toda a rede das casas fazem tudo para que
minhas casas sobressaiam no mundo virtual.
— Fala Jeff. — Atendi olhando no relógio, me certificando que ainda não era hora de
expediente. Não são nem sete ainda.
— Senhor Mafra, um dos seus servidores foi invadido. Tentaram derrubar o firewall.
— Resolva isso Jeff. Algo muito grave?
— Não. Nada que eu não possa resolver. Alguém está tentando usar o site da empresa como
hospedeiro, é uma página pirata e parasita.
Bebo mais um gole da vitamina, passo o dedo na tela do ipad pulando para as próximas notícias.
— Apenas resolva. — Peço a ele e me preparo para desligar.
— Ah… senhor… é que… tem mais uma coisa.
— Fale, estou ouvindo.
— Rastreamos o IP do computador que tentou furar o bloqueio.
Deixo o ipad de lado e me concentro na ligação.
— Chegou a alguém que eu conheça?
— Sim. É um computador na casa do Edgar.
Quase engasguei quando ouvi isso.
— O que?
— É. Confirmamos três vezes. As configurações de administrador no site da empresa, foram
alteradas de um notebook. Especificamente o de Celeste.
Mas que porra ela está planejando? Me levanto e ando rápido quase correndo rumo ao quarto. O
celular no ouvido.
— E o que mais descobriu Jeff?
— Está com um computador por perto?
Chego ao meu quarto, e pego o notebook na bolsa de viagem e me sento na cama.
— Sim, estou.
— Entre na sua conta como administrador. Veja você mesmo. É muito bizarro, mas parece que
Celeste está promovendo algo como… prostituição online.
Mas que porra…! — penso assustado, revoltado, precisando de respostas. O que Celeste está
tramando agora?
Mais rápido que posso, consigo entrar na minha conta e vou seguindo as orientações de Jeff, até
que o celular cai da minha mão e eu me levanto aterrorizado olhando para o computador na cama.
Não posso acreditar no que vejo. Estou diante de uma página, algo como o Ashley Madison.
Volto para a cama, pego meu celular e falo com Jeff: — Chego daqui a pouco na empresa. — Digo e
desligo. Olho sem piscar para a tela que mostra uma foto de Elena e embaixo os dizeres: “Os doze
signos de Elena. ”
— Que caralho é esse? — Rosno para o nada. Mas que porra está acontecendo aqui?
Embaixo dos dizeres há instruções, chamando homens para se inscreverem para ter a chance de
ser representante de um dos signos e a conhecer pessoalmente Elena.
Então ela não veio ajudar nos preparativos do casamento. Elena não veio para conhecer a cidade.
Ela já tinha tudo premeditado; ela e Celeste planejaram essa sacanagem antes mesmo de ela chegar
aqui. Safada sem vergonha.
Pego meu celular.
Vou acabar com a vida dela. Vou manda-la de volta para o Brasil sem que ela nem se dê conta.
Melhor: vou fazer a cama dela bem feita para o pai e os irmãos a esperarem no Brasil.
Eu achei que Elena era inocente, doce, uma pluma de tão frágil. Mas está aí se exibindo como
uma prostituta de quinta querendo juntar homens para trepar. Estou engasgado de ódio. Rá rá! Os
Doze Signos de Elena. Antes de ligar para Edgar e pedir que ele me encontre na minha sala, eu sento
na cama e fico olhando para a tela do computador. Desvio os olhos para o celular, penso um pouco e
digito o número de Edgar. Mas não aperto para chamar. O nome e a foto dele estão na tela e eu
olhando.
Todo mundo viu o filme Titanic. Todo mundo sabe que a safada da Rose traiu o noivo com um
fracassado que sabia fazer coisas que o engomadinho não sabia. Quando o desenho dela nua, prova
da traição, foi encontrado pelo noivo, ele estava prestes a rasgar o papel de tanta raiva, mas se
conteve. Pensou com a cabeça fria e resolveu tirar proveito usando as próprias ações da Rose contra
ela mesma.
Apago o número de Edgar e ligo para Jeff. Ele atende rápido.
— Jeff, não exclua a página. Apenas trave-a para que ninguém se inscreva.
— Ok patrão.
— E não deixe que Celeste perceba que vocês descobriram.
— Tudo bem.
— Te encontro daqui a pouco na sua sala. — falo e desligo. Penso em uma segunda coisa. Me
levanto e ando um pouco pelo quarto. Não vou deixar ninguém se inscrever. Mas Celeste e Elena vão
saber que tem algo errado se ninguém se inscrever. Elas precisam de garantias. Passo os dedos pelos
cabelos, me olho no espelho do quarto. Um tesão de homem, que chama a atenção da mulherada. É o
que sou. É o que Elena precisa. Se você vai arrumar uma vitrine, coloca nela coisas bonitas,
chamativas aos olhos.
Pego o celular e digito de novo. A pessoa atende. Norah, uma amiga e ex amante. É diretora de
publicidade de uma revista de moda masculina. Fui capa três vezes e nos tornamos amigos depois de
ela ter frequentado minha cama.
— Quin. O que manda?
— Preciso de um favor.
— Fale.
— Estou precisando de homens de boa aparência que chame a atenção das mulheres.
— Tipo você?
Dou uma risada.
— Sim, tipo eu. — Confirmo e emendo uma explicação: — Vamos fazer uma nova campanha
para minhas casas. — Não falo, mas dou a entender que preciso dos homens para ser os modelos.
— Precisam ser modelos?
— Não. Apenas junte alguns, uns cem mais ou menos, leve-os para seu escritório que eu vou
fazer a seleção. Não quero tumulto de macho no meu prédio.
— Claro, você é o único que pode tumultuar lá. Para quando?
— Arrume ao menos uns dez ou vinte para hoje. Pode fazer isso?
— Querido, na minha lista telefônica eu tenho mais contatos do que você imagina. Hoje às duas
está bom para você?
— Está ótimo.
— No final eu preciso ser recompensada.
— Eu concederei um dos caras para você. — falo em tom de cinismo e ouço o gritinho eufórico
dela.
— Olha que vou cobrar isso mais tarde.
Desligo, me arrumo na velocidade do vento e saio correndo de casa rumo a empresa.
Sabe que eu pensei em confrontar Celeste e obrigá-la a me ajudar? Mas não posso confiar.
Mulheres se protegem, imagino que Celeste sendo como é, nunca aceitaria isso, ou se aceitasse com
certeza abriria o bico pra Elena. Só confie na mulher que for sua mãe.
Enquanto dirijo indo para a empresa, peso todos os fatos. Eu posso estar fazendo uma loucura
pior que a delas, mas ao menos inicialmente Elena está preservada. Imagina se um maníaco ou
psicopata cisma de encontrar com ela e acaba por aí assassinada ou violentada? A garota é uma
cabeça de vento. Não tenho um plano inicialmente, vou apenas contratar uns caras, mandá-los se
inscrever e pronto. Sem encontros, sem que ela saia por aí se exibindo na internet ou indo se
encontrar com homens que ela nem conhece. Enquanto isso, eu vou trabalhando para mandá-la de
volta para o Brasil.
Por que isso? Por que não deixar ela viver a vida dela já que eu não vou satisfazê-la com uma
boa trepada?
Por que se eu não vou comer, não quero ver outro, ou outros comendo.
Elena é meio proibida para mim, o tesão por minha parte existe, e com um único olhar ela me
provoca pra caramba. Sinto sensações animalescas ao relembrar daquelas pernas e daquela boca.
Corro risco de gozar se eu pensar nela chupando meu pau.
Por causa de todas essas sensações que vieram de repente assim que a vi ontem cedo, eu preciso
agir e mantê-la longe de mim, antes que eu faça uma loucura e acabe com a confiança que Edgar tem
em mim.
DEZ

JOAQUIM

Atualmente:

São três da manhã. Elena está ao meu lado, dormindo entre os lençóis pretos de cetim. As luzes
que mudam de cor estão agora vermelhas e banham nossos corpos nus. Passo os olhos pelo corpo
dela, os seios perfeitos, muito deliciosos, as pernas magníficas que me deixam pirado. E a boceta…
ah! Que coisa mais deliciosa, ganha até mesmo de Alexandra, não me canso de comer.
Olho para o rosto dela coberto com uma máscara singela, a minha está jogada do lado, acabei
de tirar. Já tem uns dez minutos que estou olhando-a dormir cansada, completamente acabada.
Passo os dedos no pescoço e desço para o seio dela. Tive que deixar marcas, tive que fazê-la
pensar que essa coisa de continuar encontrando homens por aí é perigoso, joguei toda minha
frustração em cima dela e fodi sem piedade. Minha raiva enfim foi aplacada.
Se eu me sinto culpado por tê-la comido daquela forma? Não, nem um pouco. Foi necessário e
muito gostoso; sem falar que vou ter sossego por enquanto. Ela não vai atrás de outro cara pelos
próximos quatro dias. Será o tempo que preciso para colocar minha situação com Alexandra em
ordem.
Elena consegue me desestruturar, me deixar em fogo vivo, me fazer ranger os dentes, irritado.
Ela me leva do ódio ao amor em dois segundos, gosto de ficar ao lado dela, gosto de vê-la
conversar, mas muitas das vezes sinto uma necessidade imensa de puni-la por ser tão petulante
principalmente comigo. E depois que tive a primeira noite com ela, tudo só aumentou. Sorte a minha
que consigo esconder meus sentimentos perto dela.
Resumindo tudo, eu preciso convencê-la a parar. Dá muita raiva, ela está obstinada, e eu fico
muito puto em saber que ela está disposta a sair com esses caras, mesmo que não transe com eles, a
intenção dela, de dar para doze homens, me deixa muito inquieto.
Por mais que eu esteja doido de tesão por ela, preciso urgente manda-la de volta para o Brasil o
mais rápido possível. Antes que ela descubra o que estou fazendo, antes que alguém acabe comendo-a
de verdade. Depois que provei do bem bom, estou meio apegado, sem querer que outro cara prove.
Sem falar que haverá um dia que eu não vou conseguir segurar as pontas; não posso me disfarçar de
12 caras diferentes, ela vai perceber em algum momento, se eu a beijar, por exemplo, ela poderá
saber que se parece com o beijo do primeiro. Já que pensa que transou com o Erasmo.
Sim, eu estava lá. Tremendo de nervoso, pensando em como ela reagiria se me visse, pensando
em nunca ter beijado Elena na minha vida e agora ir transar com ela, nada parecido com as vezes que
imaginei.
Naquele dia, juro que estava cortando prego com medo de ela perceber alguma coisa. Então eu
tinha que distraí-la. Fazer um sexo gostoso, deixá-la caída de felicidade. Fui firme, forte e
convincente.
— Quin você precisa fazê-la acreditar que sou eu lá. — Disse Erasmo quando nos encontramos
antes do encontro às claras dele com Elena.
— O que sugere?
— Meu sotaque. — Ele falou como se fosse óbvio — Fale alguma coisa imitando minha voz. Ela
está acostumada com você falando em português com ela, o inglês tem um timbre diferente e
adicionado ao sotaque e se for sussurrado, você não será descoberto.
Não consegui segurar um sorriso de contentamento. O cara pensou bem. Decidi dar a ele um
pagamento maior. Ele me ajudou treinando três palavras com sotaque texano. “Até que enfim”.
Mais tarde Erasmo veio, e me passou a cópia da chave, a cueca e a máscara. Eu tenho a chave na
verdade, só quis a dele para que ninguém mais tenha. Assim que Elena entra no lugar que ela alugou,
um carro com os dois seguranças fica na rua vigiando o lugar.
Me levanto da cama, pego os preservativos usados, jogo-os na lixeira, me visto, puxo o lençol
cobrindo-a e saio fechando a porta com minha chave. Lá embaixo há dois seguranças.
— Fiquem de prontidão. — Aviso e saio na rua. — Ela está lá em cima sozinha. — Aponto
discretamente, um dos homens abre a porta de um Bentley parado na rua e eu entro.
— Ok. Boa noite, senhor. — Ele concorda e fecha a porta do carro.
Tenho confiança nesses dois. Sem falar que só quem pode abrir as duas portas sou eu e Elena.
Dirigi sozinho pela madrugada, sentindo ainda no meu corpo a gostosa sensação pós-foda. Pretendo
ir ver Elena no almoço, olhar pra cara dela, sabendo que eu como sem ela perceber. Rir por dentro
de como ela é inocente. Eu avisei desde o início para ela não tentar medir forças.
Convenhamos, cheguem mais perto para um segredinho: ela é meio boba não é mesmo? Como
que transa com um cara sem perceber? Tá certo que armei tudo para me esconder durante as
trepadas, mesmo assim seria fácil perceber.
E como fiz isso?
Foi ideia dos caras. Eles têm me ajudado muito desde que toda essa loucura começou. Eu estava
preocupado. O plano A estava fracassando. Tinha ido o Mike, deu um bolo nela, e mesmo assim ela
quis continuar. Pedi ao Sam para ser um completo cuzão com ela, ele foi cretino com as palavras, e
mesmo assim ela não desistiu. Eu já estava sem saber o que fazer. Apesar de estar tudo preparado
para o plano B, parecia bem arriscado. Saímos um dia para tomar um gole, eu e mais cinco dos caras
que contratei, e eles me atualizaram dizendo que ela tinha voltado a conversar com eles, por
mensagem. Dei uma olhada nas mensagens que eles me mostraram e notamos que Erasmo tinha
chances de ser o terceiro escolhido.
Conversa vai, conversa vem, um deles perguntou se eu não tinha atração por ela, afinal o plano
B seria a melhor solução. Eu afirmei que tinha sim tesão por ela, mas devido a nossa relação, seria
meio estranho eu comê-la; sim, o plano B consistia nisso; antes de tudo eu a faria desistir dos
encontros, como ela não desistiu, daria a ela os tão esperados encontros. Eu poderia me passar por
eles, se o lugar estivesse quase escuro e ainda estivesse usando máscaras. E assim se fez. Como
medida preventiva, já tínhamos jogado essa ideia para Elena, de sexo com as máscaras, e ela tinha
aceitado prontamente.
Inicialmente, a seleção para escolhe-los foi coisa breve. Norah não ficou sabendo o verdadeiro
serviço que eles teriam que fazer. Pedi para conversar com eles e escancarei o plano. Eles seriam
pagos, o preço de um cachê de modelo. Assinariam um contrato e a única coisa que teriam que fazer
era se inscrever na página da Elena e conversar com ela online. Sem encontros. Nada físico.
Pedi Norah que mandasse o resto para meu apartamento, para que eu fizesse a seleção lá. Ela
aceitou, dei a ela um cala-boca depositado em sua conta e pronto.
Elena estava em casa vendo os primeiros candidatos que eu escolhi. Se depender de mim ela vai
ficar aqui em Nova York e vai trepar com quem eu quiser, se eu quiser.
É mesquinho isso? Afinal eu pego geral. Provavelmente, mas convenhamos né? Eu sou homem,
não vamos comparar com uma inocente que passou a vida toda protegida. E que agora é uma
inocente bem gostosa e não é para o bico de qualquer um.
Quando Erasmo me ligou dizendo que seria no dia seguinte, que Elena tinha marcado o
encontro, eu passei a noite pensativo.
Pensando no encontro com Elena e sobre a chegada de Alexandra que já estava na cidade há uns
dois dias. Tínhamos nos encontrado, almoçado juntos e transamos na minha sala e Edgar acabou
vendo nós dois juntos, não transando, só beijando. Sorte que ele é um parceirão e sabe como se
portar com o código masculino.
Alexandra é um caso complicado. Tivemos uma relação bem intensa, formamos um bom par
durante muito tempo. Éramos bons na cama e fora dela. Eu achava que não a perdoaria por ter me
deixado e ido se casar com outro, mas quando ela apareceu, e colocou os peitos na minha cara,
esqueci de tudo.
Só para esclarecer: nós homens conseguimos transar mesmo sem gostar, é o sexo sem
compromisso ou sem apego. Alexandra achou que eu caí de novo na rede dela, mas não vou ser
amante de ninguém, só estou comendo o que está me dando de bom grado.
Depois de estar transando com Alexandra durante dois dias, chegou a vez de Elena provar do
papai aqui. E puta que pariu, foi demais para o senhor Mafra.
Quando me passei por Erasmo, o sagitariano, eu a deixei dormindo e saí dirigindo rindo à toa;
estava bem contente por enfim ter provado de Elena, de como ela é muito gostosa, apertadinha, peitos
durinhos, uma delícia. Agora eu agradeço os irmãos dela por não ter permitido que saísse com
homens, ela está quase intacta, quase não foi degustada, eu parecia um touro, cheio de fome, nunca
fodi tanto na vida. Acordei tarde no dia seguinte, fui trabalhar exaltado, feliz como um pinto no lixo,
dando passinhos da vitória.
Agora, depois de me passar por Brian, chego ao meu apartamento bem exausto, mas no bom
sentido. Quero só deitar e terminar a noite num sono dos justos.
Coloquei o celular para despertar às sete, estava louco para ver Elena e disposto a ir tomar café
com eles. Levantei às sete e meia, fiz minha rotina de flexões e abdominais, tomei banho, modelei a
barba, me vesti e dirigi até a casa de Edgar. E lá estava ela. Linda, sem maquiagem, de pijama e aos
cochichos com Celeste.
— Bom dia meninas. — Cumprimento com um radiante sorriso de quem brincou muito durante
a noite.
— Oi Quin. — Celeste sai de perto de Elena e vai para o outro lado do balcão pegar as xícaras.
— Sente-se estou servindo café para Elena.
— Oi Quin. — Elena responde meu cumprimento e parece meio inquieta quando sento ao lado
dela. Noto que tomou banho, deve ter chegado em casa cheirando a foda e macho. E olha só: eu sou o
macho.
— E Edgar? — Indago.
— Está se arrumando. — Celeste fala. Serve café para mim e Elena, depois para ela e se senta em
um banquinho.
— Minha cafeteira quebrou, tive que vir tomar seu café, Celeste. — Minto, dando uma
explicação fajuta.
— Fique à vontade para aparecer quando quiser. — Ela responde sorridente. Depois ouvimos
Edgar chamando-a lá de dentro e Celeste se levanta sumindo dentro da casa.
— E então? — Olho para Elena. — Achei que já estava trabalhando para Victor.
— Começo semana que vem. — Ela responde escondendo o rosto enquanto toma um gole de
café. Os cabelos estão presos e vejo uma marquinha vermelha no pescoço dela. Minhas bolas
chegaram a doer quando lembrei da gente juntos e eu fazendo essas marcas nela.
Como eu não sou gente que presta, afasto os cabelos dela e toco na manchinha. Elena dá um pulo
e se levanta do banquinho com olhos arregalados. A mão tampando o chupão.
— O que foi? O que é isso? — Pergunto com aquela cara que faço que tenho certeza que a irrita.
O olhar dela suaviza e ela sorri cinicamente.
— Você é adulto, acho que deve imaginar o que é uma mancha no pescoço. — Devolve se
achando a esperta.
— O que seria? Uma abelha?
— Algo bem maior que uma abelha, bem mais quente e vindo lá de Londres. — Ela dá de
ombros me lançando aquele olharzinho prepotente que sempre me irrita. Tenho vontade de segurar
os cabelos dela, dar um beijo desentupidor de pia e falar: eu que te comi, aceite.
Elena está insinuando que transou com Brian. Na verdade, ela acha que foi. Uma hora dessas
Brian já está bem distante com a namorada dele do lado e conta gorda no banco.
— Acha isso bonito? Insinuar que estava nessa libertinagem com homens estranhos? O que acha
que sua família fará quando descobrir? — Dou um sermão.
— Não te acho com cara de fofoqueiro, Quin. Tenho certeza que eles não vão saber.
— Quem vê cara não vê coração. — Eu aviso e me levanto indo pegar alguma coisa para comer.
Volto para o mesmo lugar, ouço os passos de alguém vindo e dou um último recado: Afasto alguns
fios de cabelo da testa dela e sorrio com sinceridade.
— Não vá dizer que eu não avisei. Estou tentando te mostrar o caminho certo.
— Eu escolho meu caminho certo, Quin. Por favor, me deixe em paz. — ela sussurra de volta e
Edgar entra na cozinha.

Assim que saí da casa de Edgar, dando uma carona a ele, cheguei a minha sala e dei sinal verde
para os rapazes continuarem dando corda a Elena. Ela não está com cara que vai ceder e eu também
não vou arregar.
Bem mais tarde, quando eu estava me preparando para ir embora, eles me mandaram os prints
das conversas me mantendo atualizado. Fiquei muito puto de raiva, mas de certa forma me sentindo
bem por ter a chance de transar com ela de novo.
Acabei de saber pelas mensagens, que ela começou a dar muita atenção ao Chris e ao Joslin que
são respectivamente Áries e Leão.
Marquei um encontro com os dois para amanhã, para planejarmos a situação, arrumei minhas
coisas e fui para casa.
Só não sabia que tinha companhia. É, Alexandra. Ela estava deitada na minha cama quando
entrei. Quase não sai do meu apartamento e isso é muito ruim para nós dois. Não acredito que ela
conseguiu entrar de novo.
— Alexandra? — Indaguei e ela se levantou elegantemente. Desfilou o corpo curvilíneo até
mim.
— Quin, estou tão mal. — Começou a choramingar.
— O que houve?
— Me aceite de volta, estamos tão bem, nos entendemos de novo, vamos voltar a namorar?
Me afasto gentilmente dela.
— Não Alexandra. Isso já era. — Arranco minha gravata, e terno, sento na cama e tiro os
sapatos.
— Acontece que não há mais como esconder. — Ela fala e eu encaro. Alexandra corre, pega
uma revista e me entrega. Na capa está nós dois.
Merda! Qual é?
— O que é isso?
— Fomos flagrados juntos.
Me levanto e jogo a revista na cama sem nem querer ver. Termino de me despir, e vou para o
banheiro, ela me segue.
— Nem se importa com o que escreveram?
— Não, Alexandra. Não me importo.
— Mas eu sim! — Ela grita já em lágrimas, saio do chuveiro tiro a água do rosto e encaro-a. —
Ícaro me ligou e terminou comigo. Estamos livres agora Quin. Podemos reatar nosso namoro, não
era tudo que você queria?
Volto para debaixo da água e fecho os olhos. Cacete. Agora eu não sei mais o que quero.
— Ligue e peça perdão, Alexandra. Acaba aqui qualquer coisa entre a gente. — Afirmo e ouço-a
sair do banheiro.
As mulheres que me cercam sabem quando recuar, como a mãe de Victor, minhas amantes e
Alexandra. A única que ainda teima em me confrontar é Elena. E essa picuinha, esse desafio, essas
provocações e as noites de máscara, estão me deixando cada dia mais viciado na situação.
ONZE

ELENA

Em frente ao espelho, respiro três vezes de olhos fechados. Abro e vejo na minha frente a
imagem que eu queria ver. Estou montada, não como uma Drag Queen, mas como uma cantora
anônima, tipo a Sia.
Celeste chapou meus cabelos. Estão bem lisinhos, a franja cobrindo a testa, uma máscara preta
rendada na frente dos olhos e um tom vermelho sangue nos lábios. Estou vestindo o vestido de noiva
preto e na mente, as letras das músicas em inglês que estudei esses últimos dois dias.
Ela aparece de um lado e Victor de outro.
— Está pronta? — Celeste pergunta ajeitando meu vestido.
— Sim. — Soo mais convicta do que pensei que poderia.
— Vai lá e detone. — Victor apoia segurando nos meus ombros.
Durante os dois dias que passei envolvida nisso, ensaiando minha apresentação, acabei me
aproximando mais dele. Victor é totalmente o oposto de Quin. Ele é carismático, humorado e sorri
sempre. Muito bonito e não tem se mostrado apenas um grande amigo. Demonstrou com olhares e
toques que queria algo a mais.
Contei para Celeste que percebi as insinuações dele e ela me aconselhou a focar nos doze
homens. E eu estou focada, sem falar que não senti aquela explosão de desejos com Victor.
Quanto aos homens, estou dando um tempo. Tem dois dias que transei com Brian e ainda me
sinto constrangida ao lembrar como tudo se desenrolou. Não que eu seja uma dessas meninas
sensíveis que não suporta um puxão de cabelo na cama. Mas é por que a gente nem se conhecia
direito para ele ter me tratado daquela forma. Ainda há duas ou três manchas na minha pele, vestígios
daquela noite; e eu vejo como um lembrete que ele deixou em mim. Mas lembrete para o que? Estou
com raiva dele e para completar nem me deu bola depois disso. Celeste disse que talvez ele esteja
envergonhado sem querer falar comigo, achando que eu vou xingá-lo.
Decidi que o próximo será o Chris, Áries, ele é bem legal, começamos a conversar ontem. É
daqui mesmo de nova York mas com descendência italiana, tem trinta anos e é artista plástico. Talvez
alguém sensível com a arte vai me tratar com mais delicadeza.
— Este é o momento? — Pergunto aos dois.
— Este é o momento. — Eles respondem juntos.
Sou guiada até uma porta, um homem com um fone no ouvido abre e eu passo. Atrás de mim
estão os dançarinos super sarados. São três homens e três mulheres vestidos como padrinhos de
casamento. Entretanto, de forma sensual. Eles de calças pretas de couro, sem camisa usando apenas
um colarinho com gravata borboleta. E elas de vestidos curtos.
Conto até três mentalmente, ouço uma voz masculina do outro lado da porta pedindo que
recebam com aplausos, a nova atração exclusiva das casas Mafra.
— Lisandra Montenegro! — Ele grita, eu entro e as luzes se apagam. Faço tudo como foi
ensaiado, há um fecho de luz em mim e outro no piano que começa a entoar a introdução da música.
Caminho até o piano sendo seguida pelo fecho de luz. E apenas com minha voz e o toque macio das
teclas, eu começo a cantar de modo lento a primeira estrofe da música Marry the Night, da Lady
Gaga.

Eu vou casar com a noite


Eu não vou desistir da minha vida
Eu sou uma rainha guerreira
Vivo apaixonadamente esta noite[…]

A plateia vai à loucura com os primeiros acordes. Eles me ovacionam e gritam: “Diva!” e
“Poderosa!”. Nem sei como tenho forças para prosseguir. Apenas faço meio no automático. Eu tenho
uma voz legal e me preparei, vou dar conta.
O piano para, eu paro de cantar e caminho para o meio do palco sob o fecho de luz, os saltos da
bota fazendo um barulho macio no chão. Então o piano dá uma nota, eu puxo meu vestido, ele se abre
ficando mais curto, as luzes se acendem e a banda começa acompanhando minha voz.

[…]Eu vou casar com a escuridão


Vou fazer amor com o decidido
Eu sou um soldado para o meu próprio vazio
Eu sou uma vencedora

Eu vou casar com a noite […]

Minha vida estaria mudando radicalmente a partir daqueles primeiros passos coreografados, e
eu tinha ciência disso. À minha frente a plateia estava alvoroçada e eu fiz disso meu combustível para
cantar mais alto e melhor. Desinibida. Como nunca achei que seria. No fim eu estava sorrindo
enquanto dançava e levava a plateia a loucura.
O público homossexual é ótimo. Mas com eles é tudo ou nada. Ou você os agrada e eles te
erguem até o topo, ou não agradam e você fica à deriva.
A enfermeira recatada lá do Brasil, estava agora se transformando numa cantora de boate. Com
codinome e tudo, igualzinho eu fantasiava quando tinha doze anos. E eu estava adorando tudo o que
eu podia fazer nessa nova cidade, com minha nova vida. Dormir com quem eu quero e ser o que eu
bem entender. Foi inevitável não pensar em Joaquim, em querer ver a expressão dele ao me ver assim
num palco dando um show.
Quando enfim me despedi, eu já tinha feito três trocas de roupa e cantado cinco músicas. Fiz
cover de Lady Gaga, Beyoncé e Katty Perry. Cantei sentada em cima do piano, beijei o pianista, cantei
com o microfone de pedestal, e terminei com mais uma coreografia.
— Você arrasou. — Celeste grita assim que volto para o camarim. Está louca batendo palmas e
sem eu esperar ela levanta o celular e tira uma foto minha quando acabo de arrancar a máscara.
— Estou trêmula de euforia. — Grito indo correndo abraçar Celeste.
— Meu Deus! Você é uma pop star, Elena. Vai cantar no meu casamento.
— Que brega. — Eu berro ainda pulando com ela.
— Será que é muito pop star para aceitar jantar comigo? — Me afasto de Celeste e olho para
Victor que acaba de entrar no camarim.
— Ah… Oi Victor. — Automaticamente, ajeito a franja para o lado, tirando-a da testa, deixando
Lisandra de lado.
Ele se aproxima e não consegue desviar os olhos do meu decote farto. Noto as pupilas dele
descerem rápidas para minhas pernas e sobem de novo para meu rosto.
— Você foi genial. E posso atestar que será um jantar de negócios.
— Muito obrigada. — Agradeço e olho de lado para Celeste que presta atenção na gente.
— Então, eu assisti sua apresentação e estou disposto a levar você para se apresentar em mais
lugares. Quero te apresentar a um amigo que é produtor musical.
— Sério? Poxa Victor, eu não sei se estou preparada para algo mais profissional.
— Você é profissional. — Ele adianta.
— Mas achei que estava apenas fazendo um bico aqui na boate. — Contesto. De relance noto
Celeste ir se sentar com uma taça de alguma bebida. Como se estivesse assistindo a conversa de
camarote.
— Você foi contratada, Joaquim assinou sua contratação. Faz parte da equipe de funcionários da
casa e agora…
— Espera aí! — Eu o detenho imediatamente. Ouço celeste tossir engasgada, acho que ela
também se chocou com o que acaba de ouvir — Disse que Joaquim assinou minha contratação? Você
contou pra ele que eu iria cantar aqui?
— Não. Claro que não. São muitas contratações e demissões para ele assinar rotineiramente. Ele
lê por alto e não quer saber quem é Lisandra Montenegro.
— Ele contrata alguém para cantar nas boates dele e nem ao menos assiste um vídeo de
demonstração?
— É por que aqui somos divididos em diversas seções. Ele confia na equipe que seleciona cada
tipo de funcionário. Essa parte artística cabe a mim, e ele sabe que eu não traria qualquer coisa para
as atrações noturnas.
— Foi como eu — Celeste fala e eu a olho. — Quando vim trabalhar aqui, Joaquim me fez
passar por uma entrevista como todos os outros funcionários.
— Não o julgue. Ele fez o mesmo comigo. — Victor também comenta e dá de ombros. — É
necessário para o bom funcionamento da empresa.
Respiro pesadamente mostrando que estou cansada, preciso de um banho e cama. Cansa mais
quando o assunto envolve Joaquim. Victor percebe minha exaustão.
— Bom, o que acha de vir jantar comigo e com o Tony, no próximo sábado? Ele não está em
Nova York, temos que esperar ele chegar.
— Por mim tudo bem. — Aceito com um sorriso convicto.
— Fica certo assim. Agora vou deixar você descansar. Está de parabéns mais uma vez.
— Obrigada. — Agradeço, ele vem em minha direção e me dá um beijo na bochecha, bem perto
da boca. Consegui sentir o cheiro da colônia dele. O cara é muito cheiroso.
Victor sai, Celeste se levanta e vem para perto de mim. Eu ainda fico olhando para a porta,
sentindo ainda o toque dos lábios dele na minha bochecha.
— Síndrome da calcinha molhada? — A doida pergunta ao lado.
— Oi? — Viro bruscamente para Celeste. Ela estende uma taça para mim.
— O charme do Victor te fez molhar a calcinha? — Ela ainda tem a cara de pau de repetir, como
se fosse a coisa mais normal.
— Para com isso. — Alerto-a — Não te dei liberdade. — Caminho e me jogo no sofá. Celeste
vem e senta ao meu lado.
— E quanto aos caras? Arregou ou vai continuar?
— Ai amiga, não sei. Depois de Brian estou meio receosa. Comecei a conversar com Chris, ele é
de Áries, e …
— Áries é ótima escolha. Pode se jogar, quase não tem erro. — Ela concorda.
— Como eu dizia: ele parece boa pessoa, mas o Brian também era boa pessoa e a noite se
mostrou um selvagem.
— Selvagens são bons. — Celeste me avisa com um dedo apontado. Pensa um pouco e sorri de
canto. — Seu irmão ultimamente está fazendo umas coisas… ai ai, selvagem é muito bom. — Olho
chocada para ela, enquanto Celeste sorri safadamente.
— Comentário desnecessário, Celeste. Será que podemos ir embora? Estou doida por uma cama.
— Vamos, preciso estudar um pouco esse tal Chris de Áries.
Nos levantamos e eu me sento na frente do espelho para limpar a maquiagem. Junto meus
cabelos atrás da cabeça e faço um rápido coque.
— Ele é um lindo Celeste. Tem uma barba que me tirou o fôlego.
— Tipo lenhador? — Celeste pergunta deixando a taça de lado e olhando a seleção de
maquiagem.
— É. Moreno, cabelos lindos e pelas fotos que ele me mandou, tem corpo monumental.
— Já estão nessas de trocar fotos pelados? — Celeste seleciona um pó compacto e escolhe um
pincel.
— Não é pelado. — Despejo a loção de remover maquiagem, em um algodão e começo a passar
no rosto. — Ele me mandou uma foto de sunga. É um deus vivendo entre humanos.
— Elena, você está tão desvirtuada ultimamente.
— Foi ideia sua, cachorra. E quer um segredo? — Paro de passar a loção para encará-la —
estou adorando o fato de ainda ter oito homens para meu prazer.
— Vacona safada! — Ela me cutuca – E, por favor, faça amizade logo com leão, touro e
escorpião. — Celeste fica ao meu lado, curvada para frente no espelho com um pincel de pó
compacto, pincelando as bochechas — Vamos ver se homens desses signos são mesmo o que o povo
fala.
Quando cheguei em casa, tomei um banho, vesti meu pijama largo confortável e fiquei até tarde
com Celeste falando dos caras. Aprovou totalmente o Áries. E pela análise astrológica de Celeste ela
me garantiu que ele seria um cavalheiro. Que o Gêmeos foi meio louco por causa da dualidade
interna que algumas pessoas desse signo podem carregar. Decidi acreditar nisso, a ficar cogitando
bobagens.
Celeste foi dormir quando Edgar veio chamá-la e agradeci por meu quarto ser longe do quarto
principal. Sem falar que é comum aqui nos Estados Unidos, as construções serem planejadas com
paredes a prova de som.
Eu conversei com Chris até altas horas. Ele é um fofo, sabe o que falar, as respostas são tudo que
eu queria ler. E olha que conversamos por ligação, depois desligamos, e voltamos a nos falar por
mensagens. Os áudios me fizeram voltar para ouvi-los novamente. Tem uma voz grave, rouca,
bonita.
Dormi encantada, cheia de expectativa, sem lembrar de Brian ou Quin. Não vi Quin durante
quase dois dias e senti certo alívio por isso. Eu estava meio mexida pela noite com Brian, e Joaquim
tinha aparecido do nada naquela manhã, me encontrando toda nervosa e marcada de chupões. Ele viu
um chupão. Que droga! Eu quis morrer aquele dia. Quis deitar no chão e ficar lá encolhida. Vi nos
olhos dele que ele soube o que era, então juntei forças e me fiz de forte e até irônica ao afirmar o que
ele já desconfiava.
Joaquim é o único capaz de me tirar do sério e de me fazer ter reações diferentes. E sabe que ele
resolveu me tirar do sério mais uma vez? Só que dessa vez não sendo um babaca. Eu e Celeste
ficamos pasmas com ele.
Eu acordei tranquila, descabelada e com o rosto amassado. Escovei os dentes, passei uma água
no rosto e saí do quarto arrastando as pantufas e encontrei na cozinha, um lindo homem alto, de
cabelos cor de mel, jogados para cima, um queixo quadrado forrado de pelos também dourados, a
barba um pouco maior. Quin estava rindo, e eu fiquei ali parada, viajando no lindo sorriso.
Deus! Ele está muito apetitoso. Ele sempre me fará sentir essa coisa no estômago? Que droga!
— Ah! Elena. — Edgar me olha e eu decido sair do meu estado de inércia e ir para perto deles.
— Bom dia pessoal. — Cumprimento, vou até a cafeteira, pego café e me recosto no balcão da
pia, de frente para Joaquim. Cubro minha boca com a caneca e tento não ficar olhando muito para ele.
— Já começou a trabalhar para o Victor? — Joaquim indaga. Eu olho para Celeste e Edgar.
— Sim, comecei ontem.
— Ah! Não vai hoje? — Ele passa os olhos pelo meu pijama.
Engulo seco.
— Dia sim, dia não. — Celeste intervém.
— Está do jeito que ela gosta. — Edgar completa. — Essa menina, só come e dorme.
— Apropriado. — Quin fala com um belo sorriso me dissecando.
— Bom, temos que ir. — Edgar fala olhando no relógio. — Vai me dar carona? — Pergunta
para Joaquim que se levanta.
— Elena, quer ir num restaurante jantar comigo hoje a noite? — Joaquim pergunta na maior
mansidão. Minha reação imediata é deixar a caneca cair no chão. Mas seguro-a forte. Olho para
Edgar e ele nem liga, está me olhando esperando a resposta. Nada nos olhos que revele desconforto.
Joaquim logo explica: — Desde que chegou aqui só fica dentro de casa, esse cara não te leva
para lugar nenhum. — Ele dá um mini soco no braço de Edgar. O que está acontecendo com
Joaquim? Sorrindo pra mim, me chamando pra sair.
— Bom… — eu olho o café, coloco uma mecha de cabelo atrás da orelha e olho para Celeste
que está sendo uma cretina com esse olhar irônico.
— Claro que deve conhecer outro lugar que não seja uma de minhas boates. — Joaquim reforça
— e se vocês quiserem pode nos acompanhar. — Ele ainda estende o convite a meu irmão.
— Claro que Leleca vai. — Edgar reforça já se decidindo por mim — ninguém melhor que o
Quin para mostrar a cidade.
— E ninguém melhor para proteger minha caçula. — Acreditem, Joaquim falou isso. Ele me
chamou de caçula; ele tinha que me lembrar que eu não passo de sua irmãzinha e que esse jantar é só
socialização? E Edgar deu um grande sorriso de aprovação.
— Passo as oito para te pegar — Quin fala e em seguida olha para Edgar. — Pode ficar
despreocupado, trago-a antes das onze.
— Nem pensar em se atrasar um segundo. — Ele concorda; os dois já tomando decisão para
mim. Edgar não espera eu falar nada, na verdade nenhum dos dois esperou eu responder se quero ou
não ir. Edgar vai para dentro pegar suas coisas e Quin o segue já conversando outra coisa.
— Olha quem conseguiu um encontro com Joaquim Mafra. Estou passada com sua agilidade em
capturar milionários. Muitas precisam de muito mais que um pijama velho para conseguir a atenção
do Mafra. — Celeste me zoa.
— Não estou acreditando — Resmungo pasma.
— Joaquim tem dessas coisas. Ele deve estar querendo se remediar por ter sido um grosso com
a gente lá na casa dele.
— Acha que eu devo ir? — Mordo o lábio, pensativa.
— Você o ouviu. — Celeste dá de ombros. — Esteja pronta às oito, querida.
E lá estava eu arrumada, às oito, sentada diante do espelho enquanto Celeste dava o último
retoque na parte de trás do meu cabelo.
Eu poderia ter batido o pé, sido determinada e falado: não vou. Mas a quem eu quero enganar?
Estou louca para passar um tempinho com ele. Ainda mais agora que ele está meio paz e amor. Se
não posso beijar aquela boca sensual, posso pelo menos ser amiga dele.
A porta se abre e Edgar coloca a cabeça.
— Leca, Quin está aqui.
Me levanto, dou uma última olhada, pego minha bolsa e me viro olhando minha bunda no
espelho. Escolhi um vestido de seda azul, bem ajustado na parte de cima e meio rodadinho na saia.
Nem comprido nem curto. Calcei saltos altos e celeste me fez uma leve maquiagem.
— Bela bunda, vai logo. — Celeste me empurra pra fora.
Saio do quarto com Celeste e Joaquim está na sala de pé, conversando com Edgar. Está um
charme, de jeans, camiseta preta e um casaco social preto por cima contornando os belos braços.
Ele me olha e sorri.
— Pronta?
— Sim. Vamos. — Falo e para descontrair eu digo: — estou morta de fome. — Edgar e Quin
riem.
Dou um até mais para Celeste que faz uma cara sugestiva e eu reviro os olhos. Desde cedo que
ela está insinuando que Joaquim pode estar querendo dar uns beijos em mim.
O carro dele é lindo. É baixo, estilo esportivo e acinzentado. Ele abre a porta, entro e respiro
fundo exalando pela boca. Quin se ajeita atrás do volante, dá a partida e saímos pela noite.
Santo Cristo! Me chacoalhe que estou desencarnada. Estou num carro com Joaquim, indo para
um jantar. Como eu queria que fosse um jantar com segundas intenções.
— Eu estive viajando. — Ele começa a falar. — Gostaria de ter visto você no primeiro dia de
trabalho.
— Foi tranquilo. — Eu reflito lembrando do show.
— Victor colocou você em que?
— Assistente dele.
— Cuidado com o Victor. — Quin alerta, não espera eu responder e sorrindo fala: — sei que é
esperta para saber das malícias humanas.
— Sim, sei quando um cara está com segundas intenções.
— Ótimo. Espero que saiba como sair dessas situações. Mas de qualquer modo, não fique
constrangida em me contar. Sou o chefe lá. Chefe do Victor.
— Portanto, meu chefe também. — Eu concluo e ele assente olhando rápido para mim e
voltando a atenção para a rua.
O restaurante que Joaquim me trouxe, é magnífico. Fiquei até sem graça achando que não estava
arrumada o suficiente. Um cara abriu a porta para mim, eu desci e Quin já estava do lado de fora,
lindo, alto, grandioso, me recebeu segurando minha mão dentro da dele, os dedos se fecharam de
leve e quase tive um pequeno início de AVC. Nossas mãos se encaixam e o toque é como se eu já o
conhecesse, mas nunca tinha segurando a mão dele dessa forma.
De mãos dadas, começou a andar dando um pequeno sorriso e aceno na direção de um homem
bem vestido que nos recebeu na entrada.
— Senhor Mafra, por aqui. — O homem nos precede e nos leva a uma mesa de canto, onde
podemos ver todo o ambiente sem sermos o centro das atenções.
É um lugar fino, mas descontraído. Pequeno e tem um delicioso cheiro, com um ar
aconchegante, bem íntimo eu diria. Tem um contraste entre o marfim, marrom e tabaco. O chão
apesar de ser madeira, é bem lustroso, o teto é rebaixado e escuro para poder dar foco nas luzes. É
uma coleção de lustres caídos em conjuntos de lágrimas.
Chegamos à mesa e as cadeiras são em forma de poltronas.
— Adorei o lugar.
— Eu sabia que ia gostar. — Joaquim fala comigo e depois vira-se para o homem, faz um sinal e
este lhe dá um cardápio.
— Toma vinho? — Quin me pergunta.
— Sim.
— O que sugere? — Ele pergunta ao homem.
Fico olhando o homem explicar sobre o vinho, depois Quin assente e o homem sai.
— E então? Tem se encontrado de novo com o tal britânico? — Ele pergunta voltando a atenção
para mim. Recosta na cadeira e fica com esses lindos olhos me analisando.
— Não. Brian não fez meu tipo.
Ele anui.
— Gosto disso em você. Em perceber rápido quando o cara não lhe faz bem.
— E você já achava que ele não era pra mim sem nem mesmo o conhecer. — Aponto
formalmente o fazendo sorrir.
— Por que eu te conheço, Elena. E sei que não é para qualquer um.
— Joaquim, você e meus irmãos tem que entender uma coisa: Não sou tão especial assim. Não
sou de porcelana.
— Você está muito bem. Bonita demais. Melhor que uma porcelana.
Oi? Isso foi um elogio fraterno ou uma cantada? Será que esse cara nunca se tocou que eu
arrastei um bonde por ele? E que não pode ficar falando essas coisas para não me dar possíveis
esperanças?
Eu não respondo, olho para os lados acho que rosada de vergonha. Graças aos céus o cara do
vinho se aproxima. Ele mostra o vinho para Joaquim e fala algo.
— Não. Pode servir. — Quin ordena. — Deixe a garrafa. — Pede em seguida.
Com a taça em mãos, acho algo para me distrair. Provo, acho delicioso e tomo um gole maior.
— Não é muito de beber, certo? — Levanto os olhos para Joaquim que me observa atentamente.
— Socialmente.
— Do jeito que era há dez anos eu duvidava que você um dia poderia fazer alguma coisa. — Ele
aponta nada sutil, trazendo a Leleca do passado para a mesa.
— É. Meu pai me controlava demais.
— De certa forma isso foi bom. Não acha?
— Sim. Apesar de não ter sido na medida, eu adquiri independência com o tempo. — Mexo a
taça e o líquido roda no fundo. Bebo mais um gole.
— Só para constar, ficar saindo com caras diferentes, não é ser independente, é ser…
— Com isso de novo Joaquim? — indago com expressão de tédio.
Ele bebe um gole bem grande de vinho. Empurra um cardápio para mim.
— Ok. Vamos escolher?
— Sem brigas. Gostei. — Falo e pego o cardápio. Passo os olhos antes de tudo pelos preços. E
não há preços. Já fico apreensiva. Olho de relance e Joaquim analisa o cardápio dele. Sopro
sofregamente e começo a ler traduzindo os pratos.
— Quer dividir comigo o cordeiro na brasa com molho de laranja? — Ele fala e eu abaixo o
cardápio.
— Por quê? É uma porção grande?
— Sim. É uma porção grande. – Joaquim continua com os olhos no cardápio — e de entrada
podemos pedir a salada com marinado de pescado.
Fecho o cardápio. Ele já escolheu o que vou comer, ele conhece o lugar e sabe o que é bom para
pedir.
— Vem muito aqui? — Pergunto quando os cardápios são fechados e um outro cara vem
recolher e anotar os pedidos.
— Sim. E sim, também, acompanhando. — Ele morde o lábio me estudando seriamente.
— E está acostumado a escolher o que elas vão comer? — Pego minha taça pela haste e bebo
mais.
— Elas sempre preferem assim. — Quin dá de ombros e serve mais vinho pra gente.
— Por que me trouxe aqui Joaquim? — Faço enfim a pergunta que guardei o dia todo.
— Por que gosto do lugar. Preferiria ir a outro restaurante?
— Não estou falando do lugar. Estou falando em ter me chamado para sair.
— Eu não posso te chamar para sair? — Ele devolve com outra pergunta.
Jogo de perguntas bonitão? Então segure essa: — Sua namorada não se importa de vê-lo com
outras garotas?
— Não tenho namorada. — Afirma me fuzilando com os olhos cinza.
— Amante ou o que quer que seja. — Gesticulo a mão, com pouca importância.
— Se estiver falando da Alexandra, eu não tenho nada com ela. Sexo não quer dizer
compromisso.
Nossa, levei uma apunhalada. Ele confessar que fez sexo com ela, me deixou cambaleando. Eu já
sabia, eu sei, e eu fiz sexo com dois homens diferentes, mas soa tão ruim…
— Dá pra notar. Ou você seria preso por bigamia. — O sorriso dele chega aos olhos. Mas há
algo estranho, algo como malícia.
— E você não? — Ele insinua de novo sobre os caras que saí.
— Dois é diferente de dois mil. — Revido. Decido omitir os outros dois encontros, Mike e Sam,
que deu errado.
— Boa. — ele esconde o riso com a taça.
— Então, por que me trouxe aqui?
Ele dá de ombros. Pega algo no bolso do casaco e fica segurando em cima da mesa.
— Primeiro que queria passar um tempo com você, trazer você em outro lugar que não seja
minhas boates…
— Me trazer num restaurante que traz suas namora… — balanço a cabeça — quer dizer,
parceiras de sexo. — Corrijo.
— O mundo dá voltas, e se um dia nos tornarmos parceiros de sexo? Ou acha que seria incesto?
Levo a mão na boca e arregalo os olhos prendendo a respiração ao ouvir isso. Joaquim Mafra,
meu protetor máster, meu irmão postiço guardião, está dizendo que poderia ser meu… parceiro de
sexo?
— Estou brincando. — Ele avisa depressa. Me recupero a tempo de não deixar isso passar e
questionar o que sempre tive curiosidade.
— Por quê? Não faço seu tipo?
— Eu faço o seu? — Ele me devolve outra pergunta.
— Eu perguntei primeiro. — Tomo outro gole de vinho para me dar mais coragem. Sinto minha
mão tremer e coloco a taça rápido na mesa, para ele não perceber.
Deus! Estou feito gelatina, estou trêmula e gelada em estar conversando sobre isso com ele. Na
verdade, eu já estava nervosa desde que cheguei aqui, só por estar com ele.
— Você faz o tipo de qualquer cara. — Foi evasivo. Como eu achei que seria.
— Me baseando no que vejo por aí, acho que você também faz o tipo de qualquer uma.
Ele assente, sem conseguir tirar do rosto um sorriso galanteador. Não fala nada e eu estou
coçando querendo levar esse papo adiante.
— Já que um faz o tipo do outro, por que você estaria brincando? Eu sou maior de idade e não
tenho ligação sanguínea nenhuma com você. — Jogo a verdade na mesa.
— É difícil, Elena. Muito difícil.
— Difícil? O que poderia ser difícil? Fala Joaquim.
Ele bebe todo o vinho, fica me olhando sério um bom tempo e sorri para mim. mas não fala
nada.
— Um dia você vai entender. Eu prometo. Será logo se depender de mim.
— Ok. — aceito a resposta dele.
— Eu tenho algo para você. — ele empurra o que tinha antes tirado do bolso. Eu olho em cima
da mesa e vejo uma chave. De carro.
— O que é isso?
— Eu notei que você anda por aí de táxi. Já que é minha funcionária agora, eu estou lhe cedendo
um carro.
— O que? — Coloco a mão no peito. — Está me dando um carro?
— É da empresa. Use enquanto trabalhar lá. Só não quero saber que está por aí pegando táxi e
metrô.
— Eu… não…
— Pegue. É seu, já está no estacionamento do prédio de Edgar. Divirta-se.
— Posso sair por aí pela noite com uns caras atrás?
Ele para surpreso e depois fecha a cara quando sorrio e ele sabe que foi uma piadinha.
— Não abuse da minha bondade garota.
Me dá um aviso e eu fico imaginando o Quin no modo malvado. Deve ser uma delícia de se ver.
Minha mãe tem um ditado que diz: “É igual gato, comendo e miando”. Assim sou eu. Tenho um
banquete de homens lindos maravilhosos, mas, não consigo deixar Joaquim de lado.
As entradas chegam. Pego a chave, guardo na bolsa.
Isso está me saindo muito bem. Não achei que ele poderia ser tão agradável, não achei que
poderíamos nos dar tão bem. Joaquim está diferente, me dando uns olhares cobiçosos. Eu penso na
teoria dele de podermos ser parceiros do sexo. Como seria fazer sexo com ele? Penso enquanto
mastigo devagar, sentindo o sabor da comida. Esse corpo, esses lábios, os cabelos provavelmente
macios.
Ah como eu queria que tivesse sido Joaquim nas duas vezes, e não Erasmo e Brian.
Tomo um gole de vinho e paro olhando-o. Ele me encara e trocamos um sorriso. Sim, eu
gostaria muito de ter feito com ele, segurando os cabelos dele, beijando os lábios dele e sentindo
tudo que ele é capaz de fazer para deixar esse tanto de mulher enlouquecida.
Mas, querer não é poder. Volto a comer e me contentar com meus doze homens, ou seis agora.
5° ENCONTRO: ÁRIES

Confiante e entusiasmado, o ariano é alguém que você vai querer passar bastante tempo em sua
companhia. Entretanto pode perder o interesse rápido demais. Na cama, é competitivo. Embora goste
de ser caçado, o ariano prefere assumir o comando e decidir que é ele quem toma as iniciativas. Seu
beijo é muito envolvente.

NOME: Chris Hamilton


NASCIMENTO: 05 de Abril de 1985 (30 anos) SIGNO: Áries - Signo do fogo regido por
Marte.
ESTADO CIVIL: Solteiro NACIONALIDADE: Nova York - EUA
FORMAÇÃO: Ensino superior. Artes plásticas.
PROFISSÃO: Dono de uma galeria - pintor.
LAZER: Pintar e ler.
FRASE DE VIDA: “Sempre existem coisas melhores no futuro do que qualquer outra que
deixamos para trás.”
FRASE DE TÚMULO: “Minha Vida foi uma arte”

Eu não sei se isso acontece apenas comigo, mas há momentos que eu deito para dormir e fico
com um sorriso enorme nos lábios. Não importa que posição eu deite, se estou com ou sem sono. O
sorriso sempre vai estar lá; satisfeita, me sentindo a tal.
Foi assim quando passei no vestibular, foi assim quando mudei da casa dos meus pais, foi assim
na minha primeira noite de sexo, foi assim uma noite antes de eu viajar para Nova York e está sendo
assim agora por que passei a noite com Quin.
Claro que eu já me encontrei com Quin desde que cheguei aqui, já tive a companhia dele para o
tour pela cidade e almoço e quase sempre café da manhã. Quin não é mais novidade pra mim. Mas
hoje ele era o Quin que eu costumava ver no Brasil. Descontraído, engraçado, e o melhor, não me
tratando como se eu fosse uma incapaz de 11 anos.
Sem falar que ganhei um carro. Contei pra Celeste e ela me olhou com uma cara de incrédula.
Mas não se opôs. Descemos o elevador e corremos para o estacionamento para constatar que era um
belo carro branco, uma Mercedes, um modelo compacto e menor, na cor branca. Eu fiquei por um
longo tempo sem fala enquanto Celeste estudava a situação.
Juro que até me esqueci dos doze homens enquanto eu contava para Celeste sobre o maravilhoso
jantar. Estava feliz em ter o velho Quin de volta.
Entretanto, Joaquim não é tudo, e antes de dormir eu voltei minha atenção para o celular e olhei
as mensagens não lidas do grupo dos doze. Conversei com eles, ficamos até quase duas da manhã,
falando em conjunto. Lá estavam Erasmo e Brian. E o cachorro do Brian, agindo como se nada
tivesse acontecido. Depois decidi entre Leão e Áries. E optei por Áries, que é o Chris. Estou muito
ansiosa para encontrá-lo pessoalmente. Já conversamos em particular por várias vezes, ele já até
ligou para mim. Marcamos o encontro e acabei deitada, com o sorriso nos lábios, mas não tinha nada
a ver com Chris e sua bela barba.

Quando acordei, eu fiquei meio temerosa, presa no quarto olhando o relógio. O encontro é às
onze, mas estou pensando que Quin pode aparecer do nada como fez nos outros dois. Por que ele faz
isso? Eu não tenho uma resposta. Mas é como se ele percebesse que eu tenho um encontro. Penso bem
e lembro que ele não apareceu antes do encontro do Mike e Sam. E ambos deram errado.
Sentada na cama eu fico olhando para a televisão desligada achando meio estranho esse
comportamento dele. Às vezes eu fico pensando que Joaquim descobriu sobre o site e sabe dos caras,
mas não sei se ele ficaria tão passivo se tivesse mesmo descoberto.
Espero dar nove horas para sair do quarto. Coloco só a cabeça para fora, escuto, olho e nada.
Respiro fundo e saio do quarto divando dentro do meu pijama folgado.
Tem dias que um café bem tomado está sendo adiado, hoje, sozinha, me empanturrei e foi nesse
momento que descobri algo chocante. Que me deixou de boca aberta e trêmula de medo.
Enquanto saboreava a última xícara de café, peguei o tablet de Celeste e fui dar uma futricada
nos sites com as primeiras notícias da manhã. E eis que nas fofocas de celebridades do TMZ, estava
uma foto de Joaquim e o título dizia: “Mafra e o gosto pela arte.” Porém minha atenção não estava
em Quin e sim no homem ao seu lado, ambos saindo de uma galeria de arte. Era Chris, meu
encontro, o Áries.
— Eu não sei, Celeste. Não sei o que pensar. — Estou quase aos gritos já falando com Celeste no
celular.
— Elena, não surta. Ele não está sabendo de nada. Acha mesmo que se Joaquim soubesse que
você está nessa safadeza toda ele iria ficar quieto, te chamando para jantar de te dando carro?
— E o que ele está fazendo na rua com o Chris?
— O Chris é dono de uma galeria, não foi isso que me falou?
— Sim.
— Então tá explicado. Se arrume e vá ao seu encontro. Quin deve estar apenas olhando alguns
quadros.
— E se por acaso Chris comentou sobre mim?
— Por que ele comentaria? Estou vendo a notícia aqui e não parece que eles têm intimidade. Vai
por mim Lena, fica tranquila.
Desliguei, fiquei pensativa olhando a foto na página do site. Acho que Celeste tem razão, é só
uma coincidência.
Voltei para o quarto, teclei com os rapazes disponíveis até às dez. Chris não estava online.
Escolhi algo casual, um jeans slim, botas pretas de salto e uma camisa sem manga, muito
lindinha, com os botões dourados. Deixei os cabelos soltos, passei uma maquiagem básica e peguei
minha bolsa com a chave do carro. Será minha primeira volta nele. Estou eufórica.
Quer saber? De óculos escuros, cabelos soltos e dirigindo um carro novo em Nova York, estou
me sentindo Lisandra, a poderosa espanhola cantora que marca um encontro com um boy a cada três
dias. Tô no lucro. Nunca pensei que sairia do Brasil para ser diva tão rápido aqui.
E já que o tolo do Joaquim acha difícil, muito difícil, ser meu parceiro de sexo, quem perde é
ele. Dou uma risada do meu pensamento.

ENCONTRO ÀS CLARAS

Chris me convidou para conhecer um restaurante que fica no outro lado do Rio Hudson, há
algumas quadras da casa de Joaquim. O lugar serve grelhados e defumados. E ele afirmou que lá
tinha o melhor hambúrguer da cidade.
Eu não estou com fome, pois comi como uma condenada no café. Mas o lugar e o cheiro que me
recebem me deixam com vontade de provar alguns desses pratos.
E falando em provar um prato, fico abobalhada quando vejo o homem no balcão virado para
mim com um belo sorriso nos lábios.
Jesus! Ele é lindo. E é bem grande. Na verdade, eu percebi, que até agora, todos os homens são
mais ou menos da mesma altura e mesmo corpo.
Chris se levanta e vem me receber.
— Elena. — Ele fala e tem a iniciativa de me abraçar. Devolvo o abraço e depois fecho minhas
mãos em seus bíceps. Dessa vez não vou ficar louca, imaginando coisa como foi com Brian.
— Oi Chris. — Afasto, olho mais um pouco para ele e o sigo para onde ele estava sentado.
— Aceita um convite para beber alguma coisa? — Ele pergunta e eu olho para o copo dele.
— O mesmo que o seu, por favor.
Espero ele pedir e quando Chris volta a me encarar, seu olhar passa rápido pelo meu corpo, ou
pelo menos na parte de cima.
— Cara, você é demais ao vivo. — Ele fala ainda mantendo o sorriso. Me deixando encantada.
Ele é muito deslumbrante.
— Obrigada. Você também é demais.
— Mais do que Brian, Erasmo, Mike e Samuel?
Apesar de deslumbrante, continua sendo um inveterado macho querendo saber da concorrência.
— Vocês meninos e o senso de competição. Não podemos falar dos outros, Chris. — Levo na
esportiva.
— Ah, por favor. Eu preciso saber se gostou muito deles.
— Sim, eu gostei. E espero que me faça esquecê-los.
— Ah gata, se você decidir ir comigo na noite, nem vai perceber a surpresa que te aguarda. —
Ele elabora uma voz rouca, super sexy.
Recebo minha bebida, dou um gole e olho sorridente para ele.
— Por quê? Gosta de fazer algo específico?
— Talvez. Gosto muito de cuidar do momento, de dominar. Lembrando que precisa ser algo que
os dois lados apreciem.
Uau! Fiquei curiosa.
— Com certeza. Então, você é daqueles caras que tem costumes na cama?
— Sim e não. Eu curto um bom sexo, mas também gosto de umas coisinhas extras. — Ele
explica e depois conclui: — Todo mundo gosta.
— Nunca experimentei. Do que se trata?
— Chicotes e vendas. — Ele toma um gole de bebida e ergue a sobrancelha — O que acha?
— Nos livros parece ser muito excitante.
— Bom, se não gostar basta dizer não.
Anuo e tomo um gole da bebida. Também dou uma analisada pelo corpo dele. Ele é alto, forte,
meio como os outros. Como eu disse, escolhi homens quase semelhantes em estatura e peso.
— Acho que está cedo para falarmos de sexo. Eu estou querendo saber uma coisa sobre você.
— Fique à vontade para perguntar.
Balanço a cabeça e cravo meus olhos nos dele.
— Conhece Joaquim Mafra?
Chris é um cara muito expressivo. Fácil de ler, e vi que minha pergunta foi algo como um soco.
Ele me olhou meio pasmo e então eu explico: — Vi hoje cedo num site de fofoca, vocês dois juntos.
— O semblante dele relaxa e vejo até um sorriso.
— Pois é. Ele é um dos meus clientes. Gosta dos meus quadros.
Fico mais aliviada. Foi como Celeste falou.
— Por quê? Conhece o Joaquim?
— Não. Foi só curiosidade mesmo. Agora me conte sobre você, Chris. Quanto durou seu mais
longo relacionamento?
— Três anos. Terminamos, pois odeio ciúme excessivo.
— Nossa! Não suporto ciúmes assim. Ela pegava no seu pé?
— Pois é. Eu sou um artista, eu viajo, atendo todo tipo de cliente. E ela não entendia.
— Isso é terrível. Posso imaginar. — Digo e penso no ciúme que meus irmãos sentiam de mim,
ciúmes ou bestagem mesmo. — Adorei saber que é um artista plástico. Me conte como é? — antes
que ele responda, eu explico: — Bom, como eu sou a disputada, tenho que fazer a entrevista.
— Eu tenho duas galerias de arte aqui em Nova York, como falei.
— Expõe seus trabalhos apenas?
— O de outros artistas também. Como minha galeria é famosa também em Milão, Paris e Madri,
o artista precisa ter nome para vender as obras comigo. — ele esnoba.
— Nossa, um grande empreendedor. – Elogio vendo-o morder o lábio; sinto um arrepio
gostoso.
— No fim eu acabo vendendo mais dos outros do que as minhas. — Ele vira o pescoço de lado e
com um sorriso esnobe explica: — não por que não há interesse, ao contrário, as minhas são as mais
procuradas e como são poucas as vezes que exponho, acabam sendo mais valiosas, raras.
— Que legal, Chris. Gostaria de ver de perto algum dia.
— Está convidada.
— Não podemos ir lá hoje? — Quase dou um berro animada — Após o almoço?
Foi algo que o pegou de surpresa. Notei que ele ficou meio pálido e surpreso, recobra rápido o
controle e sorri.
— Hoje eu não prometo. É o dia de manutenção. Por isso que eu estou livre hoje.
— Ah! Entendo.
— Me fale agora de você. — Ele pede, faz um sinal para o barman pedindo mais bebidas.
— Bom, não há nada de mais. Eu já contei tudo. Acabei de chegar do Brasil e estou curtindo
Nova York.
— E dá pra curtir morando com o irmão?
Dou um sorriso e jogo a cabeça de lado, intrigada.
— Como sabe que eu moro com meu irmão?
Chris começa a se abalar mas se recupera rápido.
— Você. Em uma das nossas conversas.
— Ah…! — resmungo, bebo mais um pouco, tentando relembrar que momento foi esse. Eu
devo mesmo ter deixado escapar. Já que comentei o mesmo com Mike e Erasmo.
— O que acha de irmos para uma mesa, para você provar a carne grelhada que eles fazem aqui?
Ou prefere sentar perto da grelha? — Ele aponta para o outro lado, algo como um balcão, há pessoas
sentadas perto e do outro lado dois homens uniformizados fazem malabarismo com carnes e
legumes, na grelha.
— Que legal! Vamos sentar lá perto.
E sabe que acabou sendo um encontro melhor que o dos outros? Me diverti muito, a comida foi
mais visual do que paladar. Estava muito gostosa, mas ver sendo preparada foi o melhor. Depois do
almoço, Chris e eu fomos em uma galeria, não a dele, já que está em manutenção, fomos em uma
galeria onde os clientes podem pintar a tela no mesmo instante, a partir de um professor que fica a
frente pintando um quadro. O do Chris ficou muito bom, no final ele me deu o quadro que pintou.
No fim do dia, eu decidi seguir em frente e partir para o segundo encontro. Expliquei tudo a ele,
dei a máscara, a cueca e a cópia da chave. Combinamos de nos encontrar a partir das nove.
Chris queria saber se ele tinha liberdade de tentar novas coisas comigo e eu disse que sim. E
quando nos despedimos, tomei uma decisão louca, de momento. Chris tem uma boca muito sensual, e
eu queria quebrar todos os tabus, então avancei, segurei a camisa dele e o beijei. Eu tomei a atitude,
não esperei acontecer, como foi com Brian. Chris ficou muito surpreso, ficou paralisado com os
lábios travados, mas depois cedeu e me beijou como eu gostaria, de língua, com a boca toda
envolvendo a minha. Foi um beijo que me deixou de xoxota quente! Nossa, só perde para o de
Erasmo na nossa primeira noite de sexo. Estava muito eufórica quando enfim o encontro acabou e fui
correndo para casa me preparar.

(…)
Como das outras vezes, eu tenho que enganar Edgar. Contar com a ajuda de Celeste para me dar
cobertura. É só eu dizer que estou caindo de sono e preciso ir me deitar. Ela tem a missão de entreter
Edgar e eu saio escondida.
Cheguei do encontro com Chris, sorrindo pros quatro cantos. Me sentindo desejada, mulher,
adulta. E então quase tropecei quando entrei e vi que tínhamos visita. Joaquim.
— Olá pessoal. — Cumprimentei os três. Estavam todos de pé na sala.
— Oi Elena. Por favor, não me diga que Victor estava te mantendo até agora trabalhando. —
Joaquim fala muito amigavelmente.
— Não. Saí mais cedo do escritório e fui dar umas voltas.
— Que bom. — ele assente, colocando as mãos nos bolsos. Está lindo em uma calça cáqui e uma
camisa branca de mangas arregaçadas. E muito mais gato por causa da barba crescendo — Falar em
dar umas voltas, eu tenho um ingresso para um show, quer ir comigo? — Ele oferece. Tornando a me
convidar para sair.
Oho para Edgar e Celeste. Meu irmão está com cara de besta. E Celeste me olha maliciosa.
— Show de quem? — Volto minha atenção para Quin.
— Sam Smith.
— Oi? Tem ingressos para um show do Sam Smith?
Joaquim dá de ombros, um sorriso presunçoso banha seus lábios.
— Cortesia.
Como assim gente? Eu amo o Sam Smith. É muita tentação, e será bem pior se eu recusar. Mas é
muito romântico para ir com Joaquim.
— Bom, é daqui uma semana ainda, dá tempo você se decidir. — Ele fala, pega uma bolsa no
chão e coloca a alça no ombro. É uma bolsa de viagem.
— Está indo viajar?
— Sim. — Quin olha no relógio. — Saindo agora. Visita rápida a Miami.
Nem pisco encantada, olhando-o. Droga, por que sinto essa coisa estranha em saber que ele está
indo viajar enquanto eu vou dormir com outro cara? Sem falar na ideia desse show. Mas quer saber?
Não temos nada, eu preciso me convencer disso. Ele vai viajar, se encontrar com belas mulheres na
Flórida. E tudo bem. Semana que vem talvez ele leve alguma dessas ao show. Devo me afastar de
Joaquim e não me aproximar.
Ele se despediu, eu fui para meu quarto e depois de pensar nisso tudo, show, viagem dele,
minhas travessuras com os homens e ainda a nova maneira que Quin está me tratando, minha cabeça
começou a doer e eu decidi me distrair arrumando uma roupa, para me preparar para a noite
ENCONTRO ÀS ESCURAS
Já vestida, linda e poderosa, saí de casa às nove e fui levada por um táxi até o ponto de encontro.
O lugar fica numa área movimentada eu não tenho tanto medo. Entrei e preparei o ambiente, como de
costume.
Tirei minha roupa, ficando com a lingerie. Coloquei a máscara, deixei só a luz especial acesa,
que muda de cor. O ambiente fica escuro, mas colorido. Tudo está vermelho no momento.
A porta se abre, eu vejo a silhueta alta e forte de Chris. Sorrio e nem pisco enquanto ele se
aproxima. Devagar, ainda submerso nas sombras.
E mesmo assim, a estranha sensação de que ele está diferente. Não sei explicar, eu não consigo
vê-lo direito, mas parece que sua silhueta está muito diferente.
A primeira coisa que vejo, é a máscara prateada que agora tem reflexos vermelhos, ele pega
alguma coisa no bolso, chega perto de mim e me vira com brusquidão de costas para ele.
— Chris… — eu murmuro. Ele não responde.
Prende minhas mãos nas minhas costas e eu sinto algo ser colocado em volta dos meus pulsos,
como uma pulseira, e depois faz um “clic” metálico. Forço as mãos e percebo que fui algemada.
Tento me virar para encará-lo mas Chris me mantêm de cara para a parede enquanto passa sua mão
grande na minha bunda, enfia os dedos na renda da calcinha e afaga, subindo e descendo
sensualmente na minha vagina, os dedos vindo por trás.
Solto o ar pela boca e tento me acalmar. Ele gosta dessas coisas, vou deixar rolar, apesar de
estar meio medrosa hoje.
Só agora estando aqui amarrada e com um cara me dominando, eu sinto medo. Estou sozinha e
sem defesa, mesmo que já me encontrei com ele, eu não o conheço de verdade.
Sacudo meus braços.
— Chris… eu não consigo.
— Shhh. — Ele faz perto do meu ouvido. Me pedindo pra calar. Meu coração acelera quando
sinto o toque úmido dos lábios dele na parte de trás do meu pescoço.
Uma mão continua afagando, sem pressa o interior da minha calcinha. Ele vai me acalmando,
me mantendo excitada, puxa um seio para fora do meu sutiã e a mão o toma todo, o toque de sua pele
me envolve, os lábios roçando meu pescoço e nuca e agora um dedo enfiando lento dentro de mim.
Ele roda o dedo lá dentro, passa pelas dobras, acaricia meu clitóris com o polegar e mete de
novo, deslizando despreocupado até o fim. Fica com o dedo todo socado, me fazendo gemer, e
arquear a bunda pra trás, precisando de mais. São reações espontâneas; estou quente e ensopada de
tanto tesão.
Agora são dois dedos, entrando e saindo rápido, um braço me rodeando, o cheiro característico
dele, o mesmo perfume que usou hoje cedo, me inebriando, e a boca mordendo meu ombro.
E se não bastasse tudo isso, ele se abaixa de repente, me mantendo ainda virada para a parede,
abre minhas pernas, e agacha atrás enfiando a cara na minha bunda e dando uma lambida tão
generosa na minha vagina melada, que quase me desintegrou.
Céus! O cara é muito bom, claro que os outros dois também fizeram isso, e parece a mesma
coisa com todos os homens, eles fazem igual, entretanto o que sinto agora é o que importa.
Foi meu primeiro orgasmo da noite, não como eu gostaria. Eu queria beijá-lo, sentir aqueles
lábios de novo contra os meus. Estou querendo transar como foi com Erasmo, coladinhos, na cama,
eu podendo beijar e apalpar cada parte do corpo másculo.
Eu ainda estava sentindo os espasmos do orgasmo, quando ele se levantou atrás, ouvi o zíper da
calça se abrir. Eu percebo o que vem agora, tropeço indo até a mesa. E não consigo dar três passos,
ele me segura, me joga com a cara na mesa e acho que pega um pacotinho de preservativo.
— Me solta. Preciso…! — Peço e ele atende. Abre as algemas e automaticamente, levo as mãos
para trás e seguro no pau dele. Apalpo e foi como se reconhecesse algo. Sim, eu não vi muitos pênis
na vida, mas tinha a impressão de que varia de homem pra homem, segurando esse é como se eu
tivesse segurando o do Brian.
Solto e tento virar para encará-lo, mas Chris me domina, empurra minhas pernas com o joelho
dele e já está me penetrando, alargando de um jeito que estou acostumada. De um jeito que
reconheço, é quase como se fosse Brian de novo.
Sinto as algemas de novo. Ele torna me prender, segura meus seios e após se ajeitar melhor,
começa a foder numa tortura mortal. Não é aniquilador como foi Brian. Apesar de me manter presa,
é lento e carinhoso, me degustando devagar.
A mim, não resta nada mais que só gemer sentido o pau afastar e avançar em doces preenchidas;
senti minhas pernas cada vez mais bambas, senti meu ventre se contorcer de prazer e a boceta
implorar por mais, quero muito mais, está tão gostoso, o entra e sai vagaroso e firme, que eu não
consigo parar.
Ele volta a me morder no pescoço, as socadas aumentam um pouco, sinto ondulações em todo
meu corpo e eu gozo fortemente, ele não sai, continua socando, mesmo eu tremendo, e contorcendo,
Chris chega bem ao fundo, já sinto suas bolas batendo na entrada, e então ele me abraça forte, se
enrijece todo, e começa a gozar.
Eu não posso tocá-lo mas sinto o toque dele, o braço dele me envolvendo, e pelo que posso
sentir disso tudo, noto que ele é mais alto do que eu tinha notado.
Chris sai bem devagar de dentro de mim, já gozou; ouço ele arrancar o preservativo. Depois ele
me pega no colo, e me coloca deitada de barriga pra baixo na cama, com a cara contra os lençóis de
cetim.
— Chris. Não mais. Tire as algemas. — Peço bem séria.
— Shhh. — Ele torna a me mandar calar e senta em cima da minha bunda.
— Chris, por favor, estou falando sério.
Ele não me ouve, continua percorrendo meu corpo com a mão e chega aos meus cabelos.
Segura-os com firmeza, quase puxando, e vai aumentando a força e começo a sentir dor. Um medo
me toma, medo dele me violentar, medo de que algo possa acontecer.
— Chris, me solte. — Eu grito e ele sai de cima de mim. Olho e ele já está de costas vestindo a
calça. — Chris, espere. — peço e ele nem me olha — fico deitada, algemada vendo-o se vestir. Ele
termina rápido, vem até mim, abre apenas um lado da algema, joga a chave na cama e sai levando os
sapatos nas mãos.
(…)
— Ele me deixou sozinha, Celeste. — Já estou sentada na cama, trêmula com o celular no
ouvido falando com Celeste. Ainda não é uma da manhã.
— Elena, esse pessoal dominador não gosta de ser contrariado, eles se irritam facilmente,
querem tudo do jeito deles, e preferem que as mulheres só aceitem o que eles tem a oferecer.
— Celeste, eu fiquei com medo. Pela primeira vez, além de uma coisa bem estranha que venho
percebendo.
— Entranha tipo o que? — Ela está falando baixinho, acho que para Edgar não ouvir.
— É como se fosse o mesmo cara. Hoje quando eu consegui tocar no Chris, foi como se eu
tivesse tocando no Brian e no Erasmo, eu não sei muito de pênis, mas pelo meu tato pareciam iguais.
Celeste ri do outro lado.
— Elena, isso é só ilusão da sua mente. Olha o ambiente que vocês fazem sexo, é o mesmo, tem
os mesmos componentes, a música, a luz, então acho que é normal sua mente achar que o homem é o
mesmo.
Penso nessa possibilidade. Faz sentindo. Faz todo sentido.
— Tem razão, amiga. Eu só estou ficando neurótica. Não dei chance pro Chris mostrar mais, ele
ficou furioso e foi embora.
— Venha pra casa, vou fazer um chá para você me contar mais coisas.
— Tá legal.
Desligo, e começo a me vestir. Olho o preservativo usado no chão e me sinto mal pelo que
aconteceu. Me sento desolada na cama. Isso não está dando certo. Preciso mudar todo esse plano.
Preciso de uma nova estratégia.
O celular toca e fico surpresa ao ver o numero do Chris.
Atendo e ele já fala:
— Elena, me desculpe. Eu não consegui continuar, eu só tinha que sair. — Desabafa.
— Está tudo bem, Chris. De verdade.
— Ok. Não está brava?
— Não. Lógico que não. Eu sabia que você tinha costumes na cama, deveria ter relaxado e
experimentado.
— É. — Ele concorda, faz uma pausa e depois fala no ímpeto: — Quer saber? Você é uma garota
de ouro.
— Obrigada.
— Vou falar algo que não deveria, mas gostei muito de você e peço que não deixe as pessoas te
usar. Você tem potencial pra ser o que quiser e no mundo existem muitos aproveitadores.
— Obrigada, Chris.
Fico sem entender o que ele quis dizer. Será que ele está insinuando que me usou?
— Nos vemos por aí?
— Claro. Beijos.
Desligo o celular e deito na cama, pensativa, intrigada. O coitado está se sentindo culpado. Mas
algo que ele disse me fez pensar. Se eu continuar com isso, sempre vou acabar me sentindo usada, e
usando esses caras. Preciso de mais identidade nessas relações, preciso saber o que estou tocando e
preciso julgar por características diferentes. Se eu continuar nos escuro e de máscara, no fim todos
os caras parecerão um só.
Antes de sair, olho em volta, cada detalhe, cada coisa. Fecho tudo, saio e entro no táxi que já
chegou.
Em casa, Celeste me espera na cozinha. Sento no balcão e quando ela me pede pra contar eu
conto sobre a decisão que acabo de tomar.
— Celeste, eu pensei muito e só vou continuar com esses encontros sob uma condição. —
Recebo a xícara da mão dela. Celeste senta perto de mim atenta.
— Que condição?
— Acaba hoje essa coisa de máscaras e lugar escuro. Quero olhar nos olhos, quero ver
expressões, preciso sentir algo diferente em todos eles, nada de ficar a mercê de ninguém. Preciso,
acima de tudo, conversar, ter diálogos.
— É a melhor decisão que tomou. Aprovo totalmente.
— Acha que eles vão aceitar?
— Se não aceitar, azar o deles.
— É. Agora é tudo cara a cara. E então eu saberei escolher qual homem combina comigo.
— E você ainda tem sete chances para o amor. — Ela sorri eufórica e batemos uma xícara na
outra brindando minha nova ideia.
DOZE

JOAQUIM

Já dentro do meu jatinho, voando para Flórida, descanso a taça de champanhe na mesa a minha
frente. Ao lado, pego a máscara que usei essa noite e encaro. É daquele plástico laminado que imita
metal. Viro-a de cara pra mim, como se eu encarasse esses buracos vazios nos lugar dos olhos. Eu sei
que posso estar fazendo errado, na verdade internamente, não vejo problema algum em estar
comendo Elena sem que ela saiba, mas mulher arruma confusão em tudo não é mesmo?
É bem capaz de ela querer me assassinar se descobrir.
Para nós, homens tudo é mais fácil. Eu não iria começar a terceira Guerra Mundial se
descobrisse que uma garota está se disfarçando para transar comigo, desde que ela tivesse boas tetas
e seja bem gostosa. Claro que eu só não seria tão tolo de não perceber que se trata da mesma pessoa.
Entretanto, há algo que acho que eu não aprovaria mesmo se fosse comigo: alguém tentar acabar
com meus planos.
Eu achando ruim ou não, o plano de Elena dormir com doze caras, é uma coisa dela, um desejo
dela e nisso, reconheço, estou sendo meio tosco em impedir que ela consiga algum resultado.
Agora peço uma coisa: nada de julgar o velho e bom Joaquim aqui. Cara, Elena não pode ficar
dando por aí adoidado, eu seria um cretino se permitisse isso. É melhor ela foder comigo, que a
conheço, do que fazer coisas que não quero nem pensar com desconhecidos. Reconheço que de
alguma forma estou errado, mas é uma pena; reconhecer é a única coisa que posso fazer, não disse
que vou parar.
Guardo a máscara, a terceira da minha coleção. Sabe o que vou fazer? Quando completar o
restante das fodas, vou colocá-las na parede do meu escritório, já vou ter contado para Elena e tudo
ficará bem.
Termino de tomar meu champanhe, me levanto e vou para uma porta onde fica um pequeno
quarto privativo.
— Só me chame quando for pousar. — Aviso para um dos homens que sempre viajam comigo.
Sei que de jatinho, a viagem é num pulo, algo em torno de duas horas, não dá tempo nem mesmo cair
no sono. Eu não quero dormir mesmo, só quero deitar e relembrar minha breve foda com Elena.
Não foi acidental eu ter deixando-a assustada, fiz por que quis, por que tinha que ser feito. Elena
não pode mais me tocar ou me beijar, preciso mantê-la entretida e o mínimo de tempo me olhando.
Eu já tinha planejado tudo com Chris e disse que daria um toque pra ele assim que saísse, e foi o
que fiz. Ele ligou para ela e retornou para mim dizendo que Elena estava bem e que o desculpou.
Ótimo, Erasmo, Brian e Chris estão fora. Não estou apenas transando com ela, estou destruindo cada
um deles, para obrigar Elena a excluí-los.
— Chris. — Falo o nome ao invés de pensar. O cara discutiu comigo. Ele não tem nada que se
meter nos meus negócios, ele foi contratado, ele sabia desde o início do que se tratava, só tinha que
almoçar com Elena e pronto.
— Eu acho isso uma puta falta de respeito. — O desgraçado cresceu pra cima de mim quando foi
me entregar a máscara e a cópia da chave. — Elena é uma mulher maravilhosa, e você um tremendo
filho da puta por estar fazendo isso. — jogou na minha cara.
Me aproximei dele, fiz meu olhar matador e avisei:
— Fique fora do meu caminho. Ganhe seu dinheiro e dê o fora, antes que eu tenha que tomar
medidas drásticas.
O ameacei e ele decidiu fazer o que é melhor: continuar com o plano. Se eu tive medo de ele
contar pra Elena? Lógico que não. Eles assinaram um contrato que deixa claro que se um contar para
ela, esse um vai ter que pagar 12 vezes o preço que eu pago para eles atuarem.
Estou pensando em chamar todos eles e falar de homem para homens: “Façam apenas o que tem
que fazer. ” Que porra! Era o que me faltava, algum deles se encantar pela Elena.
Arranco minha camisa e volto a deitar, olhando o nada.
E o que é isso tudo? Eu me importo com ela! Ninguém percebeu isso? Eu me pergunto por que
diabos eu sinto ciúmes de uma pessoa que há umas duas semanas atrás eu vi como uma ameaça aqui.
Agora ficou meio estranho pensar em Elena deixando Nova York e voltando para o Brasil.
Por isso vou me aproximar dela por fora, conquistar como homem, como eu já comecei a fazer
no jantar e agora levarei ela ao show do cara que ela mais gosta. Foi difícil conseguir ingressos de
última hora.
Se eu fizer certo, quando ela descobrir, já estará bem caída por mim, sendo o Joaquim de
verdade.

Acabo caindo no sono e acordo um pouco depois com alguém batendo na porta dizendo que
vamos pousar. Me levanto, espreguiço, me visto e vou me ajeitar na poltrona com o cinto.
Assim que o jatinho pousa no aeroporto, um carro já me espera. Saio já vestindo um casaco e
luvas, pois é madrugada e está bem frio. Dois homens vêm atrás de mim e um na frente. O motorista
abre a porta de trás, eu entro e um dos seguranças senta na frente.
— Para o hotel, senhor?
— Sim. — O carro sai do aeroporto, pego meu celular ligo e vejo as mensagens. Nenhuma
importante. Uma da mãe de Victor dizendo que está voltando da Rússia e quer marcar um brunch para
eu comparecer. Outra mensagem de Edgar dizendo que resolveu um problema que estávamos tendo
numa das casas e outra de Betsy dizendo que já está no hotel me esperando.
Por isso que pedi para me levar para o hotel e não para minha casa de praia aqui em Miami.
Quando chegamos, mais uma vez sou escoltado enquanto saio do carro e entro no luxuoso hotel.
Na recepção um homem digita rápido no computador e sorri assim que me vê. Me aproximo e
ele empurra a chave no balcão.
— Seja bem vindo, senhor Mafra.
— Obrigado.
— A senhorita Collins o aguarda.
— Fez como eu pedi?
— Sim, senhor. Foi tudo muito discreto. Quer que eu mande uma champanhe?
— Não, obrigado. — Saio e já caminho para o elevador. Um dos meus homens já o chamou e as
portas já estão abertas me esperando.
Eu comecei a optar pela segurança quando fui assaltado certa vez. Agora que consegui uma
grande fortuna e um nome de peso, preciso pensar em mim, já que sou sozinho no mundo, sem
ninguém de ligação sanguínea para deixar meus bens se algo me acontecer. Exceto é claro o Victor,
mas ele não é um dos maiores beneficiários do meu testamento.
Chego ao quarto e Betsy vem me receber com um grande sorriso nos lábios e uma lingerie roxa
cobrindo seu belo corpo.
Betsy é uma das minhas acompanhantes mais antigas. E quando se trata de acompanhantes, não
pego qualquer uma, já tenho as fixas, tenho três que eu pago mensalmente para me acompanhar nos
lugares. Há viagens de última hora, como essa de hoje, que eu não tenho tempo de procurar alguém
para me entreter. E acreditem, eu preciso de alguém para me entreter quando viajo.
Hoje a coisa é diferente, essa viagem é armada. É algo como um álibi, para Elena nunca
desconfiar que eu estive com ela. E Betsy é só o reforço do álibi. Amanhã sairei com ela por aí, serei
fotografado e pronto. Posso voltar tranquilo para Nova York mostrando que eu não estava lá
enquanto Elena transava com um mascarado.
— Oi Quin, achei que não vinha mais. — Ela enrola os braços no meu pescoço, e encosta os
lábios nos meus. — Pediu uma champanhe para a gente?
— Não, Betsy. Estou com muito sono. — Tento passar, me afastar dela.
— Não mesmo. Comprei essa lingerie nova para meu gatinho dourado. Quero estrear agora. —
Passo os olhos pelo corpo dela. Incrível, gostosa pra cacete, só perde mesmo para a mulher que eu vi
na noite mais cedo, quando estava mascarado.
Olho de volta para o rosto dela e respiro fundo. Por tanto tempo eu me esbaldei nesse corpão.
Mas eu ainda estou com as lembranças da noite com Elena muito frescas na cabeça e não estou
sentindo nada por Betsy. E tomara Deus que meu tesão por outras mulheres voltem pela manhã.
— Eu realmente preciso descansar, gata. — Dou um beijinho rápido na boca dela e me afasto.
— Vi boatos que você tinha voltado com a azeda. É sério? — Betsy pergunta vindo atrás de mim,
se referindo a Alexandra. Começo a me despir, mas não olho para ela.
— Como você disse, são boatos.
Já descartei o casaco e a camisa, Betsy se aproxima e desabotoa meu cinto, puxa-o e joga no
chão, depois desabotoa minha calça.
— Joaquim, minha mãe sempre disse que o povo aumenta, mas não inventa.
Percebo o que ela quer dizer e dou de ombros. Tiro os sapatos e só de cueca, deito na cama.
Betsy me olha acho que ainda querendo uma resposta.
— Conhece a Alexandra não é, Betsy? Quando ela implica com uma coisa…
— Ela implicou com seu pau e você teve que dar? — Indaga com sarcasmo.
— Lógico. Sou homem, vou negar uma foda para uma gata como ela? — Zombo e vejo raiva
nos olhos azuis da morena.
— Por que me chamou aqui Quin? — ela cruza os braços na frente dos seios. — Você não está
com intenção de transar comigo não é?
— Eu tenho um trabalho para você, estou te pagando muito bem, agora seja uma boa menina e
venha deitar comigo para eu te abraçar e dormir em paz.
— Cara, eu e as meninas gostamos de você, mas você prefere dar valor a mulheres como
Alexandra.
— Betsy, não vamos discutir agora. Venha deitar comigo. Alexandra vai se casar, ela voltou para
Austrália.
Essa notícia faz o semblante taciturno de Betsy aliviar e me olha surpresa.
— Sério?
— Gata, você sabe como eu sou com essas coisas da mídia e Alexandra pisou na bola. Fiz ela ir
embora.
Betsy arranca os saltos e o sutiã e pula na cama comigo, me cobre de beijos. Essa mulher tem
uns peitos que me deixa piradão.
— Isso. Deite aqui. — Eu digo e apago a luz, ela se ajeita na minha frente e eu a abraço por trás.
Não sei ela, mas eu não demorei a dormir. O sono veio pesado feito pedra. Eu fechei os olhos e
imaginei como seria dormir assim com Elena, já que transar com ela é muito bom. Mas vai dar tudo
certo, eu vou cativar e conquistar Elena, quando ela souber da verdade já vai estar muito apaixonada.
Mas quando eu acordo a história é outra.
Betsy me cutuca e murmura: — Quin, seu celular não para de tocar. — Abro os olhos e noto que
raios de sol forte entram pela janela, já deve ser umas dez da manhã. Me sento, Betsy está com um
lençol cobrindo-lhe a cabeça por causa do sol. Pulo da cama, pego o celular e vou para o banheiro. Já
parou de tocar.
Deixo-o na pia enquanto estou urinando. Ele não toca de novo. Decido tomar uma ducha rápida
antes de ver quem estava ligando. O celular volta a tocar, pego um roupão visto e atendo. É Peter, um
dos doze caras.
— Fala.
— Cara, tem horas que estamos tentando falar com você. Ferrou aqui pra você. — De olhos
arregalados me olho no espelho do banheiro. Será que Chris teve a coragem de contar para Elena? É
a única coisa que me vem a mente.
— O que houve?
— Elena acaba de fazer um comunicado oficial no grupo. Ela disse que a partir do próximo
homem, ela só vai transar em um local claro e sem máscaras, ela quer encarar o sujeito. Acho que
acaba aqui pra você, chefe.
— Te retorno. — Eu digo antes de desligar e me inclinar na pia, um bolo tampando minha
garganta. O ambiente ficou pequeno e sufocado para mim de uma hora para outra. Estou com um
puta sentimento de perda. Só agora me dou conta do tanto que quero Elena e só para mim.
Caralho! Tô fudido. Na verdade estamos fudidos. Há alguns homens entre os doze que não vão
poder transar com ela, tem casados no meio. Sem falar que não quero pensar na ideia de outro cara
transando com ela.
Merda! Merda! Que bosta Elena foi fazer? Por que tinha que pensar numa coisa dessa? Estou
coberto de raiva e de tensão, sem uma ideia no ato para pensar. Posso persuadir os caras a dar um
bolo nela, mas todos os sete que faltam? Será bem estranho. O que eu vou fazer agora?
Pego meu celular e ligo de novo para Peter.
— Escute, junte todos vocês e tente fazê-la mudar de ideia. — Digo quando ele atende. — Vai dar
ruim para todos nós se ela continuar com essa ideia escrota.
— Cara, estamos desde cedo tentando fazer ela mudar de ideia. A garota é teimosa, colocou na
cabeça que não quer mais saber de homens mascarados.
Cacete! Que droga. Faço uma pausa e penso um pouco. Vou ter que pensar a longo prazo, esfriar
a mente e raciocinar.
— Então tá. Sabe quem pode ser o próximo?
— Joslin, leão. Ele tem quase certeza que será ele.
— Peter, continue como estão, aceite a proposta dela. Fale com os outros que deixem de discutir.
Vou pensar em alguma coisa.
— Tudo bem. Só queremos ter certeza que sua parte será cumprida.
— Claro que sim. Vocês receberão a grana conforme for encontrando com ela.
— Tá, valeu. — Ele desliga e eu respiro fundo várias vezes. Minha cabeça zoa e sinto uma puta
raiva de Elena. Sorte que estou um passo a frente, vou poder pensar em alguma coisa.
Digito um número e impaciente espero a pessoa atender. Estou ligando para um paparazzi que
conheço. É hora de reforçar meu álibi antes de ir embora e consertar a bagunça que Elena está
fazendo. Combino com o cara que estou saindo com Betsy e que ele precisa estar preparado.
Acertamos tudo, digo que um dos meus homens vai pagá-lo e pronto. A matéria tem que estar numa
revista amanhã no máximo.
Corro para o quarto, me visto e chamo Betsy.
— Levanta rápido, aconteceu um imprevisto e tenho que voltar.
Ela me olha incrédula.
— Como assim? — ela se senta na cama — Não vamos fazer nada?
— Fica pra próxima vez, gata.
— Joaquim! Eu comprei a lingerie para você! Me olha ao menos.
— Betsy, eu não vou falar duas vezes. Levante-se e vista-se. — ordeno e saio do quarto correndo
indo para a sala onde está minha bolsa. Pego uma camisa limpa, dobrada em um saco plástico, abro,
visto e volto para o quarto. Betsy está vestindo o sutiã, com a cara de poucos amigos.
— Pode, por favor, não me ligar mais? — Ela resmunga.
— Você que sabe. — Revido enquanto cato minhas coisas para voar daqui de Miami. Ainda não
sei o que vou fazer, só quero ir e ver Elena, sei lá, conversar com ela, talvez eu consiga fazê-la
mudar de ideia e desistir desses caras.
— Enquanto você se arruma, vou fazer uma ligação. — Falo com Betsy e corro com meu
celular para fora. Antes eu clico em um aplicativo e verifico a localização do carro que dei a Elena. É
claro que eu não perderia a chance de colocar um GPS bem foda no carro dela. Posso encontrá-lo em
qualquer lugar que ela esteja.
A resposta vem logo. Ela está na empresa. Está trabalhando, ainda bem. Saio do aplicativo e ligo
para Joslin.
— E ai Quin, já está sabendo? — Ele pergunta logo de cara. Me sento no sofá de cabeça baixa
com o celular no ouvido.
— É, Peter me ligou. E aí, o que acha?
— Cara, não tenho ideia do que fazer. Sua garota está decidida. Acho que agora você deve contar
toda a verdade.
— Não! Ainda não. — Descarto essa ideia.
— Eu vou adiantando que não posso transar com ela. — Joslin avisa depressa. — Sou casado
cara, meu bebê acabou de nascer.
— É, eu sei. Eu não ia te pedir isso. — Joslin é um cara muito bacana tenho certeza que Elena vai
gostar dele, e com certeza vai querer ir mais adiante, ele é um cara que muitas garotas idealizam para
um namoro sério, sorte a minha que ele é certinho demais e não quer saber de transar com ela. Ele
morre de medo da mulher dele descobrir sobre esses encontros.
— Faça com que Elena te escolha, você é minha próxima jogada.
— O que pretende? — Ele questiona preocupado.
— Você vai simplesmente dar um bolo nela. Apareça no almoço, mas não a noite, como o Mike
fez.
— É muita canalhice. Por que não fala a real com ela? Mulher não gosta de ser enganada.
— Vou falar, mas vou antes conquistá-la, estou começando a sair com ela, vou levar num show
romântico e quando eu contar ela vai compreender. Ao menos eu espero.
— Então está bem, farei como me pediu. Vou começar uma marcação acirrada para que Elena
me escolha.
— Joslin, me ligue se tiver qualquer imprevisto. — Digo e desligo. Fico pensando com a cabeça
abaixada e o rosto nas mãos. Até que ouço os saltos de Betsy vindo para a sala.

(…)
Eu e Betsy acabamos ficando para o almoço. Só depois eu a deixei no hotel, com um dia de
cortesia tudo pago e fui embora. Ela ficou feliz por eu ter ficado para o almoço e ter dado um pouco
mais de atenção a ela. Demos uns amassos no banco de trás do carro antes de ela sair para o hotel e
eu seguir para o aeroporto. Betsy estava suspirando louca pra foder, mas entendeu que eu tinha que ir
embora logo.
Quando o avião pousou em Nova York, eu peguei logo meu celular e rastreei o carro de Elena,
vendo que ela estava em casa. Voei para lá. São duas e meia da tarde e ela deve estar de saída para o
trabalho.
O carro para na porta do prédio de Edgar.
— Podem ir, vou ficar por aqui. Ligo quando precisar. — Aviso para o segurança e saio do
carro.
Estou cheio de expectativa, vou dizer que vim de táxi e vou pedir uma carona à Elena para a
empresa. Estou torcendo para que Edgar e Celeste já tenham ido. Elena pode ter ido também com eles
e deixado o carro aqui, é melhor acreditar que ela está em casa.
Quando saio do elevador, paro em frente a porta, dou uma sacudida nos braços, aperto a
campainha e espero. Um pouco depois a porta se abre Elena está a minha frente.
— Quin? — Ela toma um susto ao me ver. — Achei que estivesse viajando.
— Acabei de chegar. — Mostro a bolsa.
— Ah… — ela murmura mas continua com a porta entreaberta me olhando, está muito tensa.
— Não tenho mais passagem livre na casa? — Indago e faço questão de mostrar um olhar
divertido.
Ela tenta sorri, mas não faz.
— Entre, por favor. — eu entro, Elena fecha a porta e meio constrangida avisa: — Eu… tenho
visita.
Agora eu que fico surpreso. Quem está aqui com ela? A visita é dela ou de Edgar? Vou andando
atrás dela até chegarmos a sala. Sabe quando assistimos a um filme e no final descobrimos quem é o
assassino ou o culpado de tudo? Ficamos com uma cara de bunda, olhando pasmo para a TV sem
acreditar no que está vendo. Acho que estou mais ou menos assim.
Foi como um soco bem dado na cara quando entrei na sala e vi Chris sentado no sofá de Edgar.
— Chris? — Escuto minha própria voz e noto como está esganada, quase um som grotesco.
— Oi Joaquim. — Ele coloca o copo de suco na mesinha e se levanta.
— Ah! Vocês já se conhecem. — Elena fala aliviada. — Chris, o Quin é meu amigo, quase como
meu irmão.
Recobro rápido meu controle. Eu e Chris estamos nos encarando, nos fuzilando com os olhares.
O que esse desgraçado está fazendo aqui? Que porra está acontecendo?
— Veio vender uma de suas obras, Chris? — Indago sem deixar de ser irônico.
— Chris saiu comigo ontem, Quin.
— Certo. — Murmuro olhando-o sem piscar — Estão namorando então?
— Não. — Elena fala rápido.
— Eu meio que pisei na bola com ela e vim apenas me desculpar. — Chris explica para mim,
nos olhos tentando falar que eu pisei na bola com ela. Me acusando abertamente. Vou acabar com a
raça desse mané.
— É uma ótima iniciativa. — Eu falo.
— Bom, eu estou de saída. — Ele olha para Elena e sorri. — Vamos sair qualquer hora dessas?
Ela fica sem jeito, olha para mim e depois para ele. Tenho vontade de pegar o Chris pela gola e
jogar pela janela. Mas não quero pegar prisão perpétua. Vou acabar com ele de outra forma.
— Eu vou pensar. Te ligo caso eu decida. – Ela fala. Fico de braços cruzados olhando ele
assentir. Depois vai para perto de Elena e planta um beijo nos lábios dela. O cara perdeu mesmo o
medo de morrer. Eu apenas sorrio e passo a mão na barba de modo psicótico. Estou com o coração
pulando no pescoço. Doido de raiva.
Elena vai levá-lo até a porta e quando volta está pálida. Ela mal consegue me encarar. Me sento
no sofá e fico olhando-a sem piscar.
— Aceita um pouco de suco? — Ela oferece.
— Recebe homens aqui enquanto seu irmão não está? — Alfineto.
— Para Quin, por favor. — ela pede em um fio de voz. — O Chris só está sendo um fofo vindo
tentar consertar o que fez ontem.
— E o que ele fez ontem?
Enfim ela me olha. Quando Elena vê como estou compenetrado, com um olhar nada agradável
esperando uma resposta ela murcha toda.
— Eu não gostei de algumas atitudes dele. — fala baixando os ombros.
— Você vai continuar saindo com ele? — Ela não responde, ou melhor, eu não espero ela
responder, completo: — Sabe que esses caras estúpidos sempre voltam a fazer tudo de novo não é?
Se ele fez alguma coisa que você não gostou, ele pode pedir desculpas agora, mas vai fazer tudo de
novo quando estiverem sozinhos. É isso que você quer?
Ela parece assustada, calada, tenho certeza que lembrando o que houve na noite anterior. Solta
um longo exalar. Abaixa a cabeça e passa os dedos por dentro dos cabelos.
— Você tem toda a razão Quin. Se ele está arrependido, é por que sabe que o que fez não foi
legal.
— Não se encontre mais com ele. Há tantos caras legais por ai. — Faço uma voz muito mansa e
um olhar cúmplice, quase de coitado. — Não ligue mais para ele, não dê mais oportunidades para
caras assim.
— Não farei mais isso. — ela afirma.
— Eu conheço o Chris apenas profissionalmente, mas conheço a fama dele de sedutor barato e
manipulador. — Claro que estou inventando isso, Chris nem mesmo é artista plástico.
— Fico aliviada em saber disso enquanto ainda é tempo. — Ela se levanta — Vamos para a
cozinha, vou fazer um café para você.
— Que maravilha. É a única cois que quero nesse momento. — Nos levantamos, deixo minha
bolsa no sofá e no caminho, abraço Elena enquanto andamos. Ela passa o braço na minha cintura
enquanto eu abraço o ombro dela.
Sinto a mão dela apalpar a lateral do meu corpo e depois ela me olha. Paramos de andar. Elena
sobe a mão e toca meu peito. Com olhos incrédulos, olha para mim de novo.
— Você é bem… alto… forte e…
Droga. Assim tão perto e ainda me tocando ela pode acabar desconfiando de algo.
— Pois é, mas é tudo meu. Nada de suplementos. — Respondo, volto a caminhar e mudo de
assunto: — decidiu se vai ao show comigo? — Elena passa por mim e vai para a cafeteira.
— Sim, decidi. — Ela me olha rápido e está sorrindo. Ufa, esqueceu sobre eu ser alto, forte e
muito parecido com as três últimas transas dela. Tenho que lembrar de evitar mais contato com ela e
beijar, nem sonhar, não por enquanto. — Eu quero ir. — Ela fala.
— Ótimo.
— Estou muito eufórica, Quin. Esse é o melhor presente que eu poderia ganhar.
— Melhor que o carro?
— O carro não é meu, é da empresa; estou adorando muito poder ir ao show do Sam.
— Sim vamos ao show. Você vai adorar. — Eu afirmo olhando-a de costas enquanto Elena faz o
café. Sabe que fiquei com saudade dela? Vendo-a assim é bem melhor do que ter visto Betsy com
todo aquele corpo a mostra. Estou gostando mesmo dela, mais do que eu queria gostar.
Estou disposto a protegê-la o máximo que eu conseguir. Vou começar a agir daqui a pouco,
tenho certeza que Chris está fora, aquele cagão de merda. Ainda vou acertar as contas com ele.
Também tenho Joslin do meu lado e depois vejo como vou elaborar mais coisas.
Enquanto isso eu aprecio a bela companhia de Elena. Minha Elena.
TREZE

ELENA

Telefone público, área do Queens - Nova York – quinta-feira, 17hs20min


— Alec? Chris Hamilton falando.
— Oi Chris. O que manda?
— Estou querendo ajudar uma amiga e preciso de você.
— Se eu puder… diz o que é.
— É mamata, coisa fácil. Você só precisa fazer Elena te escolher como o próximo encontro.
— O que? Esse favor tem a ver com ela? Quin sabe disso?
— Não. E nem precisa saber. É coisa minha e sua, coisa de parceiro. O código de honra
masculino, como Quin falou.
— Cara, não estou disposto a me envolver com o chefe. Ele é barra pesada. Você tá ligado do
tanto que tem que pagar se vacilar com ele?
— Não vai se envolver com ele, você vai agir naturalmente, ele não vai nem desconfiar, é tudo
dentro da regra do jogo.
— O que eu tenho que fazer?
— Só ir no lugar do Joslin. Seja o próximo a ser escolhido.
— E o que vai acontecer com o Joslin?
— Disso cuido eu, sei que ele está indo hoje em um lugar. Posso contar contigo?
— Por que eu?
— Por que sei que de nós todos, você é o mais atraído pela Elena. E ai? Topa?
— Não sei…
— Cara, imagina só. Vingamos do Mafra, colocamos ele no devido lugar e de quebra você ainda
come ela.
— E se ela não quiser…
— Vai querer. Elena está disposta a dar pra valer. Você será o primeiro dos doze a transar com
ela.
— Beleza.
— Não conte para os outros. É coisa nossa, tá legal?
— Certo.
— Fique ligado. Quando eu te der o toque, você ataca.
— Fechado.
Upper East Side - Nova York – quinta-feira, 17hs30min
Estou no quarto, me decidindo com que roupa vou ao jantar sábado com Victor e o celular não
para de tocar. Eu queria só um segundo em paz, sozinha, quieta pensando comigo mesma. Sem
Celeste me dando opiniões ou Quin tentando controlar minha vida.
Desanimada, olho para o aparelho. Desisto de ignorar e vou atender. É por isso que eu coloco
uma música como toque, pois se eu não quiser atender, fico ouvindo a música.
— “Tó namorando todo mundo, noventa e nove por cento anjo…” — vou cantarolando a
música que escolhi como toque e pego o celular. Fico estatelada quando vejo no visor o nome de
Chris e suspiro ponderando se atendo ou não. Como eu sei que ele pode bater aqui na casa de Edgar
de novo, eu atendo.
— Oi Chris.
— Oi Elena. Que bom que atendeu. Ainda muito brava comigo?
— Claro que não. — Me sento na cama. — Só fiquei surpresa por você ter vindo aqui e Quin
presenciado.
— E tem algum problema ele ter presenciado? Não é nada seu.
— É melhor amigo do meu irmão. Fico sem jeito.
— Eu entendo. Vamos deixar Joaquim Mafra de lado; quero te convidar para dar uma volta aqui
no quarteirão, a pé, apreciando o fim do dia.
Acho que ele deve ter ouvido meu exalar angustiado. Por que é tão difícil para mim falar não?
— Por favor, Elena.
— Chris, você sabe que não posso me encontrar com você tantas vezes, é desleal com os outros.
— Mas não haverá nada entre a gente, prometo.
— Eu sei, mesmo assim.
— Elena, acho que já estamos cientes que não dará certo nem com Brian e nem comigo. Já
estamos cientes que estamos eliminados. O que custa sermos amigos?
— Brian te contou alguma coisa?
— Sim. Ele também ficou arrependido pela noite de vocês. Disse que foi tosco.
— Eu fico feliz que vocês tenham se tornado ao menos colegas de bate papo.
— Sim, somos. Podemos ir? Sei de um lugar onde tem uma exposição de arte a essa hora.
Penso e até sorrio. Que mal tem? Serão lugares públicos. Acho que Chris está querendo mesmo
se redimir. Além do mais ele é um cara famoso por ser artista, não vai fazer nada a uma mulher na
rua e manchar sua reputação.
— Tá. Desço daqui quinze minutos. — Decido e ele vibra.
— Estarei esperando.
Eu desligo e corro para o banheiro. Após um rápido banho e uma maquiagem urgente, visto um
jeans, uma camiseta, pego uma jaqueta e minha bolsa e saio correndo.
Chris já está me esperando na recepção quando saio do elevador. É tão estranho, como se ele já
tivesse aqui quando me ligou.
Ele está um charme. Olho como a calça delineia as coxas musculosas e a camiseta está definida
pelos músculos do peito e dos braços. os cabelos negros, farto, estão penteados, e a barba grande,
bem recortada. Ele vem andando em minha direção com um belo sorriso, tira os ósculos escuro
enganchando-o na gola da camiseta e curva-se para me beijar no rosto.
— Oi. Que bom que aceitou vir. — Ele fala, coloca a mão nas minhas costas e começamos a
andar.
— Onde vamos?
— Podemos pegar um táxi? — Ele pergunta. Andamos lado a lado para fora do prédio. Dou de
ombros e concordo. Ele bate a mão para um táxi e fala para mim: — Vim de carro, mas vamos ao
nosso destino de táxi, para você se sentir mais a vontade. Um encontro casual.
Ao menos ele tem sensibilidade e está fazendo de tudo para que eu não me sinta desconfortável.
Sei que precisaria ficar longe de Chris, como Quin falou, mas ele é muito gentil, não se parece nada
com o cara que fez sexo comigo dias atrás.
— Está ainda tentando se redimir? — Indago. O táxi dá a partida indo para o endereço que Chris
deu. — Saiba que não tenho rancor.
— Mas não quer mais saber de mim, não? — Ele retruca.
Suspiro ponderando, pesando opções.
— Está tudo bem. Vamos deixar isso pra lá.
Ainda bem que não precisei responder. Ele percebeu minha resposta nos meus olhos. Ainda é
cedo para dizer se tenho sentimentos por alguém.
Chris me leva a uma bela praça que eu já tinha visto quando vou para a empresa, mas nunca tinha
vindo. Fica perto, como ele tinha falado. Olho em volta admirada enquanto andamos devagar,
calados. Chris olha para os sapatos enquanto caminha.
— Posso te perguntar uma coisa? — Ele pede.
— Claro. — Levanto o olhar para Chris.
— Sente algo por Joaquim?
Sinto com um soco no estômago. Engulo a saliva e tento parecer convincente.
— Sinto, fomos criados praticamente…
— Não sobre isso Elena. — Ele me interrompe — Você entendeu o que eu quis perguntar.
Passo os dedos nos cabelos jogando-os para trás, paro de andar e olho para os lados; o lábio
preso nos dentes.
— Eu percebi muitas coisas no nosso último encontro. — Ele volta a falar, provavelmente
reforçando a sua suspeita — Eu vi como ele me olhou; fez uma cara de marido que chega em casa e
encontra esposa com outro cara.
— Você está viajando. — Aviso sem nenhum pingo de convicção. Me sento em um banco e ele se
senta comigo.
— Então não sente nada por ele? Atração física quero dizer.
Olho fixamente nos olhos de Chris. Um vento sopra e eu tiro rápido cabelos dos olhos. Penso
em falar que sim, que sempre tive uma paixãozinha pelo Quin, mas penso que Chris tem Joaquim
como seu cliente e pode querer fazer alguma coisa para se redimir, contando que eu gosto dele.
— Não. Eu não sinto isso por ele.
Chris não sorri, fica me olhando serio, muito sério. Depois desvia, olha para a frente e fica
perdido no nada, como se estivesse digerindo algo. Vejo seu maxilar se contrair e os lábios
formarem uma linha de tensão, como se ele estivesse com raiva.
— Venha, quero te mostrar um belo lugar. — Ele se levanta e eu olho sem me mexer. — É um
bar bem bacana. — Ele sorri, acho que para me deixar mais tranquila.
Me levanto e caminho ao lado dele. Ficamos parados na calçada, no sinal vermelho, junto com
várias pessoas, esperando para atravessar a rua. Olho para o símbolo do bonequinho ainda vermelho
e desvio o olhar rápido quando Chris fala: — Aquele ali não é o Joslin?
Olho em volta procurando, até ver onde ele está apontando. O símbolo fica verde e nós
começamos a andar juntos com as pessoas, eu de olho no homem andando segurando algo nos
braços e abraçado com uma mulher. Eles entram em algo que se parece uma loja. Já na outra calçada,
fico olhando sem piscar.
— É ele. — Murmuro.
— Não é possível. — Chris fala e começa a andar.
— Onde vai? — O sigo.
— Não pode ser o Joslin.
Chegamos a loja e paramos na vitrine olhando para dentro. É sim Joslin, é uma loja infantil, e o
que me deixa mais horrorizada é o bebê nos braços dele, e uma mulher, acho que atendente, fala:
“Que lindo, é a sua cara.”
Me viro e corro rápido para o outro lado. Só ando sem saber para onde ir. Eu não tenho nada
com ele, mas me sinto traída além, é claro, de ter a sensação de que sou uma vadia destruidora de
lares. Será que esse desgraçado pretendia dormir comigo tendo esposa e um bebê?
— Elena, espere. — Chris consegue me acompanhar.
— Quero ir embora, Chris. Sem clima para barzinho.
— Calma. — Ele me puxa me fazendo parar.
— Calma nada! — Grito de olhos arregalados, depois percebo que ele não tem culpa de nada e
me controlo — meu Deus! Estou me sentindo uma vadia que quase acabou com um casamento. Que
espécie de homem ele é? Que canalha!
— Tem que pensar com calma…
— Como eu posso continuar um encontro com um cara assim Chris? Possivelmente casado!
— Você pode saltá-lo e escolher outro. — Chris opina pensativo — o encontro seria no
domingo, dá tempo.
— Como sabe que eu ia encontrá-lo no domingo?
— Joslin falou no grupo, ele está feliz em ter sido o quarto escolhido.
— Ele está se vangloriando? — Indago chocada.
Chris faz cara de suspense e apenas balança a cabeça mostrando que sim.
Uma raiva me toma.
Merda! Estou me sentindo indo comprar renda e voltando com tule. Totalmente enganada. Mas
eu não sou dessas que descobre canalhices de homens e fica por isso mesmo. Nunca me deparei com
um canalha, confesso, mas agora que estou diante de um, minha única vontade é me vingar. Ainda
mais de um homem que conta vantagem para os outros. E pensar que eu tinha escolhido um lindo
loiro de cabelos encaracolados, par representar o leão, mas como era texano como Erasmo, decidi
optar por outro, daí veio o Joslin.
— Eu vou esculachar com aquele safado. — Rosno ferozmente.
— O que? — Ele indaga, pois acabei falando em português.
— Eu disse que vou acabar com ele.
— Não. Não diga nada. O melhor seria se você deixasse ele achar que é o próximo e começar a
conversar com outro, em segredo. Na última hora, tipo quase na hora do encontro você desmarca
com Joslin e vai com outro. O que acha?
Fico olhando para Chris pensando na ideia dele. Sem dúvidas seria uma ótima vingança, deixar
acreditar que tem o doce, depois tirar e dar para outro.
— E já tenho alguém em mente que pode ser o substituto. — Chris adianta sem me deixar pensar,
ou me induzindo a aceitar a ideia dele.
— Quem? — Pergunto e volto a andar.
— Alec, signo de touro. Eu o conheço, é um cara legal, comece a conversar com ele, veja o que
acha e posso te garantir que é solteiro.
Chego em casa e digo a Edgar e Celeste que fui andar um pouco. Vou tomar um banho e ficar
sozinha para pensar. Deito na banheira com água morna e espuma e pego meu celular. Amanhã
vamos cedo ao aeroporto buscar a mãe de Celeste que está vindo para ver a prova definitiva do
vestido que elas compraram há uns seis meses atrás. Eu vi por foto e estou louca para vê-lo
pessoalmente.
Percebo nesse instante, que estou tentando pensar coisas legais para esquecer esses patifes que
escolhi para serem pretendentes a namorado. O casamento é daqui a menos de quinze dias e eu não
tenho ninguém para levar e esfregar na cara da minha família. Eu não quero apenas um par para
sermos padrinhos, eu não quero um dos meus irmãos ou até mesmo Joaquim. Eu quero alguém que
seja meu namorado, um americano seria ideal.
Penso um pouco, entro no aplicativo e clico no contato de Alec.
É bonito, moreno e pasme: tatuado. Sim, o segundo tatuado que eu posso escolher, o primeiro
era Erasmo que eu não sabia que tinha, mas na nossa noite, me deparei com um vulto de algo negro
em sua pele, no escuro não dava para ver mas parecia uma tatuagem, na área da costela e abdômen,
pareciam duas se não me engano, ou um draga que começa nas costas rodeando sua cintura.
Acho homens tatuados tão sexy, amo os desenhos nos lugares certos e na quantidade certa. Quin,
por exemplo, tem tatuagem. Uma só, rodeando as costelas e indo para o abdômen. Vi de perto uma
vez, mas ainda não consegui entender que desenho é, no dia, achei que era um escorpião. Penso um
pouco e franzo a testa ao constatar que Quin e Erasmo têm tatuagens no mesmo lugar. Mas essa
constatação logo desaparece quando o celular apita. É Alec respondendo minha mensagem.
Me animo e começo a digitar com ele. Depois de me secar e pular na cama só de roupão, fico
abobalhada quando ele atende meu pedido e me manda uma foto do seu corpo sem camisa, lindo,
tatuado, um espetáculo.
Conversamos até Celeste desistir de me deixar sozinha e vir saber da minha vida. E eu conto
tudo para ela, sobre Joslin e sobre o que Chris me aconselhou a fazer.
— Que patife! Vai deixar barato, Elena?
— Lógico que não. Vou deixá-lo achar que vamos ter um encontro e de última hora dou um pé
na bunda dele e escolho outro.
— Como assim? Não vai ter encontro com leão?
— Não dá né? — faço uma cara de “óbvio” — Não estou disposta a fazer papel de meretriz e me
envolver com homem casado.
— E se ele não for casado?
— Celeste! — estalo os dedos na cara dela — Não há possibilidade de eu pensar em dormir com
Joslin. Acabou.
Ela me encara horrorizada.
— Você não pode ficar sem Leão. E se justamente o signo do Leão for sua alma gêmea?
— Com certeza não é. Não me enganando já no início. Temos apenas um representante para cada
signo, e com Joslin, está fora.
— Eu posso arrumar alguém de emergência. Victor, Quin…
Dou uma sonora gargalhada de ironia.
— Só penso na cara do Quin quando eu disser: “oi Quin quer substituir um dos meus doze
homens e ser o leão?” — franzo a testa para ela — Ao menos ele é leonino?
— Não. É de aquário se não me engano.
— Sei não. Pelo que me lembro Quin é de novembro ou Dezembro. Não seria escorpião?
— Quin um escorpiano? — Celeste fica pensando um pouco e depois anui — Faz sentido.
Faz todo sentido. Penso isso sem falar com Celeste. Desde que coloquei os pés aqui nessa casa,
Quin tem se mostrado estritamente controlador, como se tivesse ciúme de mim. Isso vindo de um
possível escorpiano, não é novidade.
— Dizem que são pessoas possessivas e sedutoras, não é? — pergunto a Celeste que entende
dessas coisas.
— Sim, grande possibilidade. — Celeste concorda imediatamente — Eles também costumam
guardar rancor, vingança para eles é um prato que se come frio, e lambem os lábios depois, então
aqui vai um conselho: um pé atrás com um cara desse tipo, nunca irrite demais um escorpiano.
Penso em Joaquim. Em como ele ficou todas as vezes que eu o irritei. Eu podia ver a raiva
palpável em sua cara nada amigável. Sorte que nunca rolou contato físico, não sei o que ele poderia
fazer comigo em um daqueles dias que eu o provoquei.
— Mas o assunto não e escorpião. — Pego meu celular e escolho uma das fotos que Alec me
mandou. — Touro, meu próximo pretendente. Leão perdeu a vez.
— Jesus! Que homem é esse? — Celeste para de olhar o celular e me encara. — Elena, você é
uma grande sortuda, esses caras são lindos, tesudos que até parecem ter sido escolhido a dedo.
— É. Eu os escolhi a dedo. — Tomo o celular dela e pulo da cama. — Hora de dar o fora, estou
com sono e amanhã é dia de apresentação.
Ela se levanta, e caminha para a porta.
— Já tem um novo repertório?
— Sim. Os ensaios estão deliciosos.
— Já pensou se Quin ou Edgar descobre? — Ela pergunta antes de sair na porta.
— Não vão fazer nada. Sou maior de idade e estou contratada por Victor.
— Assim que se fala, vacona. — Celeste fala, joga beijinho para mim e sai do quarto. Eu me
preparo, deito na cama e fico olhando o teto. Já sem rancor de Joslin, apenas deixei passar.

(…)
No dia seguinte muitas coisas aconteceram, fomos buscar a mãe de Celeste, depois fomos as três
ver o vestido de noiva e almoçamos num restaurante. Me emocionei pra caramba ao ver Celeste linda
com seu belo vestido de gola alta, todo bordado majestosamente. Ela ficou divina modelada com
aquele corpete.
Como na casa de Edgar tem apenas dois quartos, alguma coisa teria que ser feita; como a mãe
dela iria ficar apenas alguns dias, decidi que seria melhor eu ir para um hotel. Mas iríamos esperar
Edgar chegar para decidir. Entretanto eu não poderia esperar.
Hoje, sexta-feira, tenho duas apresentações, em casas de shows diferentes. Uma de nove às dez e
a outra de onze à meia-noite. Então decido sair de lá e ir para o hotel, arrumo uma pequena bagagem,
com mudas de roupas, meus pertences necessários e tudo que vou precisar para passar alguns dias,
uma semana talvez, no hotel.
— Celeste quando Edgar chegar, dê o endereço do hotel que vou ficar. — Peço a ela, trazendo
minhas bolsas para fora do quarto.
— Minha nossa. Não precisa sair, Elena. Podemos dividir o mesmo quarto. — A mãe de Celeste
fala toda preocupada. Olho para Celeste e ela percebeu no meu olhar; não posso dividir quarto com
ninguém, eu saio nas noites escondida para ir a encontros.
— Mãe, está tudo bem, Elena as vezes chega tarde do trabalho e ela precisa de privacidade.
— Mas é a casa do irmão dela.
— E a casa da sua filha. — Eu digo, vou até ela, me despeço com um beijinho no rosto. — Nos
vemos em breve dona Janete.
Celeste me leva até lá embaixo, conversamos sobre as últimas preparações para meus shows e
ela pede desculpa por não poder ir, para não levantar suspeita com Edgar e a mãe dela.
Sabe que eu fico até aliviada? Em poder pela primeira vez ficar por conta própria na cidade, vou
poder sair despreocupada para os encontros e ensaiar as músicas ou faltar a empresa sem precisar
dar satisfação a ninguém.
Entretanto, esse alívio dura pouco. Eu fui pega desprevenida quando eu tinha terminado as
apresentações.
Eu fui para a primeira boate bem cedo. Me arrumei e deu tempo ensaiar mais uma vez com a
banda antes de subir no palco. O público estava eufórico e quando comecei a cantar me senti não a
Elena, mas a própria Lisandra. A cada aplauso, assovio e grito, eu me inflava mais, me soltava mais e
conseguia passar isso para eles. Terminei o show com seis músicas, me troquei, retoquei a
maquiagem e fui escoltada para os fundos da boate onde um carro já me esperava para levar ao
próximo local, que também é uma casa de show de Quin.
E foi quando eu acabei o segundo show que o impensável aconteceu. Eu cheguei ofegante, suada
e descabelada ao camarim e meu celular estava tocando nesse instante. Abri uma garrafa de água
mineral e me sentei no sofá. Victor veio e eu fiz sinal para ele esperar um pouco. Era Celeste no
celular.
— Oi amiga! Dois shows na noite foi um sucesso. — Aviso para ela dando um gritinho de
alegria.
— Elena, você deve correr. Ir o mais rápido possível para o hotel. — Celeste cochicha, meio
ofegante.
— O que? Por quê?
— Joaquim acaba de sair daqui de casa. Ele está indo te buscar.
Engasgo com água no mesmo instante. Após uma convulsão de tosse eu pergunto por entre os
soluços:
— Indo me buscar? Por quê? — Sinto pulsadas barulhentas nos meus tímpanos. Meu coração
está mais assustado que eu.
— Por que Edgar não ficou satisfeito com sua ida para o hotel, foi lá e não te encontrou. Tentou
te ligar e você não atendeu. E então Quin chegou aqui e seu querido irmão perguntou ao Joaquim se
você poderia ficar esses dias na casa dele.
Dou um pulo do sofá e a garrafinha de água cai da minha mão. Tampo a boca horrorizada. Isso
é o impensável, meu maior pesadelo: dormir na mesma casa, sozinha com Joaquim. Como tem gente
por perto, inclusive Victor, saio correndo e entro no banheiro. Me sento trêmula no vaso sanitário.
— Celeste, como assim? — ouço o som estranho da minha própria voz e se fosse em outro
momento eu iria rir.
— Você conhece seu irmão. Ele disse que não vai permitir que você fique por conta própria
sozinha, aqui em Nova York sendo que tem ele e Quin por perto, ainda mais saindo sem dar notícias.
— Mas eu não estarei sozinha. Será apenas para dormir. — Grito tentando explicar. Tentando
encontrar uma defesa.
— Elena, não é hora de discutir. Você perdeu pontos com Edgar quando ele ligou milhões de
vezes e você não atendeu. Corre para o hotel agora, antes que Quin chegue. — Ela desliga e eu não
tenho tempo para cogitar. Saio correndo, junto minhas coisas e nem olho para Victor ao falar: —
Victor, preciso ir. Nos encontramos amanhã no almoço.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. Está tudo bem. Só preciso ir, meu irmão não sabe que eu canto e está preocupado.
— Claro. — ele fala — venha, eu te acompanho até o carro. — Ele me guia até a saída onde um
carro já me espera. Não deu tempo tirar a roupa da apresentação. Nem tirar a maquiagem. Dentro do
carro, amarro os cabelos num coque e visto um quimono de cetim por cima do maiô que estou
usando. E sei que Deus é mais e vai fazer o carro de Joaquim ficar preso no trânsito. Olho na rua e
me pergunto: que trânsito? É meia-noite, a cidade está calma.
Pego na minha bolsa o pó compacto, abro e olho meu rosto no espelhinho. Acendo a luz da
parte de trás do carro e começo a retirar, com um algodão e loção, a maquiagem.
Sei que o hotel fica perto, mas também fica perto da casa de Edgar. Estou num beco sem saída.
Sem maquiagem e com o cabelo preso eu fico longe de parecer Lisandra. O carro para em frente ao
hotel, há outros carros, mas não vejo o Bentley de Quin por perto, entro voando levando minha bolsa
grande de couro, com todos os apetrechos de Lisandra.
“Tudo vai ficar bem. ” Sim, tenho certeza. Vai ficar bem. — recito mentalmente, me otimizando.
Aperto mais algumas vezes o botão do elevador olhando sempre para trás, e então a porta se abre,
corro para entrar mas paro abruptamente, provavelmente amarela de susto e quase morta de horror. E
a expressão de Joaquim dentro do elevador não é nada agradável quando passa os olhos pelo meu
corpo me vendo de bolsa grande, quimono de cetim e salto alto.
— Elena? — ele murmura pasmo. Depois a surpresa vira algo como… raiva? — Eu subi e não
tinha ninguém no seu quarto… Onde estava a essa hora, vestida assim?
Sabe o que eu ouvi dizer sobre astrologia? Que há uma frase que irrita um escorpiano, e se eu
estiver certa, Joaquim é portador desse signo. A frase sai automática para a pergunta dele: — Não é
da sua conta. — Pela cara foi o mesmo que ter recebido um tiro. Tá, eu fui grossa, mas ele está me
olhando como se eu o devesse explicações. Isso me irrita.
As sutis transformações no corpo dele são quase imperceptíveis. Noto o nervo pulsar no
maxilar, as sobrancelhas se abaixarem lentamente e uma soprada de búfalo pelo nariz.
— Vamos pra casa. — Ele me pega pelo braço e já me leva.
— Ei. Me larga, Joaquim! — me solto dele e ele para.
— O que está querendo? Seu irmão passou a tarde toda preocupado. — Ele já começa a falar
alto. — Já que não é da minha conta, é da conta dele saber como você chegou aqui.
Tenho um arrepio quando ouço isso. Edgar faria um inferno na minha vida.
— Para! Não precisa contar nada para ele. Eu só estava… — tento ser mais controlada para não
dizer que estou provocando.
— Vou contar, sim. Seu comportamento está de mimado a imprudente. Está nua por baixo disso?
— Ele indaga muito furioso. Está vidrado e o brilho nos olhos é ódio.
— Não estou pelada, e você não precisa contar nada a ninguém! — grito de volta — deixa de ser
cretino!
— Vamos Elena. Não estou querendo fazer cena. Não me obrigue a isso.
Oi? Isso é coisa de um amigo de infância dizer? Um amigo de infância pode agir assim? Nem se
ele fosse meu namorado.
— Escute aqui Joaquim eu não…
— Escute você. — ele se inclina para mim rosnando. — Esse tipo de comportamento não é
adequado a uma pessoa que está de alguma forma ligada a mim. Você é minha funcionária, seu irmão
é meu funcionário, não me faça ter que dar um jeito na situação. — Ele volta a segurar no meu braço.
— Vamos, depois mando buscar suas coisas.
— Quin, eu preciso…
Ele não me ouve. Me arrasta para fora do hotel. E ele não está no Bentley, está numa SUV preta
que nem notei do outro lado da rua.
Não trocamos uma palavra até o carro parar em frente ao prédio dele e a gente descer. Subimos
calados, eu trêmula de raiva. Por que só agora eu fico querendo dar umas tiradas, pensando numas
respostas boas e com raiva de mim por ter cedido? Eu poderia bater o pé. Joaquim morre de medo de
impressa, ele não iria fazer cena no hotel me arrastando. Eu estava segura lá. Além do mais estou
morrendo de medo pois as coisas de Lisandra estão aqui comigo.
Ele abre a porta, espera eu entrar e fecha. Corre e acende as luzes. Depois olha para mim. Estou
paralisada, encolhida abraçando minha bolsa contra meu corpo.
— Venha, vá tomar um banho enquanto eu providencio roupas adequadas para você. — parece
mais calmo.
— Por que está agindo assim Joaquim? Qual seu interesse comigo? — Tenho toda seriedade
para perguntar, de modo severo.
— Não se pergunta a intenção da pessoa quando essa pessoa está lhe fazendo bem, Elena. Venha.
— ele começa a andar. Fecho os olhos com vontade de gritar. Respiro fundo e o sigo.
Joaquim me mostra um belo e bem mobiliado quarto. É de cor neutra, um azul piscina em uma
parede, os móveis são contemporâneos e novos.
— No banheiro tem tudo que você precisa. Tome um banho. Vou ver se tenho algo que te sirva.
— Não me faça vestir roupas de outras mulheres. — Digo, me viro e vou para o banheiro
batendo a porta.
Meu banho não foi demorado. Me senti limpa e revigorada. Penteei meus cabelos, troquei a
roupa que estava, vesti um roupão e saí do quarto deixando a bolsa no cantinho no banheiro.
Joaquim está no quarto quando saio. Há roupas dobradas na cama e ele está sentado numa
poltrona. Não se move, continua ali, como Freud, manso e analisando.
— Ali tem uma camiseta limpa minha e uma samba-canção nova que comprei por engano, é
tamanho P, não serve em mim.
Assinto e continuo encarando-o.
Joaquim não desvia o olhar. Ele passa a mão no rosto, está inquieto agora. Inquieto e muito gato.
Ele trocou de roupa, está de camiseta e bermuda.
— Com quem você estava Elena? E por favor, não diga que não é da minha conta.
— Quin, saia do quarto, preciso dormir. — Peço em um murmúrio.
Noto que ele puxa o ar tentando ficar em paz.
— Eu sei que fui meio grosso lá no hotel, só quero saber, estava com um homem?
Bom já que ele quer saber, então vou mentir.
— Sim, com um homem. O Victor.
Os lábios dele se repuxam brevemente. Os olhos brilham e ele se levanta. Se aproxima, vem
andando. Dou um passo atrás e ele continua andando, alto, musculoso, bem grande me tampando com
todo seu tamanho.
Achei que ele ia gritar e chantagear, mas fala mansamente.
— Posso demitir você e Victor por justa causa. Não permito romance entre funcionários. Vai
contar a verdade ou vai preferir ser a culpada pelo meu irmão perder o emprego?
— Não faria isso. — contesto sem desviar os olhos dos olhos dele.
— É, pode ser que não. Mas Edgar teria que ficar sabendo por que eu demiti a irmã dele.
Vejo que ele sabe meu calcanhar de Aquiles. Edgar é meu ponto fraco.
— Não era o Victor. Não era ninguém. Por favor, saia.
Ele acredita que não era Victor, mas não acredita na parte do “não era ninguém.”
— Tudo bem. Tenha uma boa noite. Amanhã terei as respostas de qualquer jeito. Eu sempre as
tenho. — Ele se vira e se afasta deixando seu cheiro super agradável me rodeando. Quin ameaçador e
controlador, não devia ter me deixado arrepiada de desejo.
Corro e passo a chave na porta. Volto e desabo na cama que deve ser coisa de primeira, porque é
o melhor colchão que já experimentei. Inquieta e ainda amedrontada, eu fico medindo meu medo.
Não sei se tenho mais medo de Quin descobrir sobre Lisandra ou sobre os doze homens.
O que diabos eu poderei fazer para sair daqui, domingo a noite sem ser vista? Como eu poderei
ir ao encontro?
Uma luz brilha na minha cabeça, pego meu celular e digito rápido. Chris atende imediatamente.
— Chris, desculpe estar te incomodando, mas preciso da sua ajuda.
— Diga, o que é.
Conto a ele toda a história, e digo que estou sem saber o que fazer para poder sair para os
encontros.
— Elena, fique tranquila, estou pensando em algo, deixe comigo.
— O que pode fazer? Quin é cheio de truques, ele tem contatos, ele consegue qualquer coisa. Ele
pode me descobrir.
— Fique tranquila. Vou cuidar do Joaquim. Domingo você estará livre para o encontro a noite.
Chris não me contou o que está pensando, mas nesse momento ele é meu único aliado, já que me
separaram de Celeste. Momentaneamente, fico um pouco mais calma, tendo a esperança que ele pode
fazer algo para me ajudar.
Agora é só fechar os olhos e tentar dormir com tudo isso na mente, sem falar na ideia que
Joaquim está à poucos metros daqui, deitado em sua cama, provavelmente só de cueca.
Saco!
6° ENCONTRO: LEÃO

Muito organizado na vida. Gosta de limites e ter o bem-estar nos trilhos. Fazer a coisa certa é
importante; e extrovertido, generoso e sensível.
Na cama, o leonino está sempre envolvido em uma aventura amorosa mesmo que seja na sua fértil
imaginação. Eles curtem fantasiar e são cheios de ideias e propostas inusitadas na hora do sexo. Eles
gostam de alternar beijos com palavras de amor e sacanagem. Mas engana-se quem pensa que o
leonino é só safadeza: eles adoram carícias e afagos.

NOME: Joslin J. Larry


NASCIMENTO: 23 de julho de 1982 (33 anos) SIGNO: Leão ESTADO CIVIL: Solteiro
NACIONALIDADE: Nova York - EUA
FORMAÇÃO: Ensino superior. Direito.
PROFISSÃO: Advogado
LAZER: TV e jogos online
FRASE DE VIDA: Carpe Diem FRASE DE TUMULO: “Vim do pó, cheirei o pó e me tornei
em pó”

Domingo, 11:00hs da manhã

Quando chego ao restaurante que marquei com Joslin, a raiva que sinto me dá coragem para
seguir rápido. O lugar é lindo, vejo-o ao longe sorrindo para mim, o homem é lindo, alguém que eu
adoraria conhecer e passar o tempo. Ele iria me enganar certinho.
Não ando, desfilo, mexendo os quadris, meus cabelos balançando, meus lábios vermelhos em
um sorriso raso. Ele se levanta, eu chego perto e sussurro: — Vá. Se. Foder.
— O que?

UM DIA ANTES…

Como eu tinha dito, o colchão da casa de Joaquim é coisa de primeira, nunca vi nada tão macio e
delicioso. Afundada em travesseiros de penas de ganso, lençóis brancos não-sei-quantos-mil-fios e
um edredom quente e confortável, eu me espreguiço respirando a nova manhã de sábado. Viro-me e
levanto o rosto. Tateio na cabeceira e encontro meu celular.
São sete e vinte. Me sento passando as mãos nos cabelos e olhando para a roupa dobrada no pé
da cama. Do mesmo jeito que Quin deixou.
Isso me faz pensar na noite passada. Tensa. Nem acredito que estou aqui, na casa do Joaquim
passando não só uma noite, mas vários dias que se seguirão e só Deus sabe o que vai rolar.
Bem que eu queria que rolasse algo bem depravado. — Minha inconsciência safada e obsecada
por Quin sopra bem alto na minha mente e eu sacudo os cabelos em negativa.
Como eu não tenho nada aqui comigo, minhas coisas ficaram no hotel, eu visto a enorme
camiseta dele e a cueca samba-canção, que para mim ficou como um short. Me olho no espelho e
estou nanica dentro das roupas enormes de Quin.
O banheiro é super de capa de revista. É de mármore, e tem uma banheira gloriosa, armários
grandes que dei uma olhada e encontrei mil coisas femininas que o sacana deixa estocado ali. Tudo
lacrado: hidratante corporal, sabonete esfoliante, condicionador e água de banho.
Após escovar os dentes com uma escova nova que encontrei, e amarrar os cabelos em um rabo
de cavalo, saio do quarto olhando atentamente antes de tomar coragem e prosseguir pela casa
silenciosa.
Quin já deve ter ido. Vejo ao longe a porta do quarto dele no fim do corredor. Está fechado. De
pés descalços, vou para a cozinha. Não há bilhete e nem sinal de que alguém levantou antes e fez café.
Me amarrota que estou passada com essa cozinha. Parece uma daquelas de programas culinários.
Ela é uma mistura preta com partes de aço inoxidável. Há uma pequena TV de plasma acoplada no
enorme armário e uma ilha enorme no meio da cozinha.
Para quem não sabe, ilha é uma bancada culinária, um balcão largo com banquinhos ao redor e
que tem acoplado fogão e pia. O de Quin tem uma grelha e uma pia. O fogão fica do outro lado,
embutido no armário, é preto, automático, cheio de botões. A geladeira também preta, abre em duas
partes. Uma parte tem só bebidas. Champanhe, cerveja, suco e leite. E na outra parte há uma variedade
enorme de alimentos industrializados. Mas também posso ver iogurte, queijo e alguns tipos de carnes
industrializadas.
— Pode ficar a vontade, sinta-se em casa. — Ouço a voz atrás de mim e dou um grito assustada
deixando um potinho de iogurte cair. Ainda bem que estava fechado.
Me viro e vejo Quin mexendo na cafeteira. Céus! Isso não é de Deus! Ainda bem que ele está de
costas e não está me vendo babar na bunda dele. Joaquim está com uma calça de flanela e uma
camiseta regata branca. E a roupa é tão aderida ao corpo dele que não deixa nada oculto.
Abaixo e pego o potinho de iogurte no chão.
— Onde ficam as colheres? — Pergunto. Joaquim aponta para uma gaveta. Me sento em um dos
banquinhos, ainda com o coração aos pulos.
— Hoje você não trabalha, não é? — Pergunto lambendo o plástico laminado do pote.
Quin já ajeitou a cafeteira e vira-se para me olhar, recostado no armário de braços cruzados.
— Mais tarde irei resolver uns problemas. Dormiu bem?
Deus! Não quero olhar para o rosto dele, para os cabelos despenteados, para esse corpo grande
e sexy.
— Muito bem, tem uma casa muito confortável, senhor Mafra. — Coloco duas rápidas colheres
de iogurte na boca. Para me distrair.
— Não está mais brava comigo?
— Adianta eu guardar rancor? — Olho em fim para ele, uma explosão de beleza natural
masculina matutina na minha cara. — Você vai acabar fazendo as mesmas coisas depois.
— Está conformada?
— Por enquanto. — Olho apenas o iogurte — Vou achar um jeito de exorcizar você da minha
vida. É chato querer ser meu tutor.
Ele ri, abre uma parte do armário e pega um pote marrom escrito coffee.
— Acho meio difícil me tirar por completo da sua vida. Enquanto estiver aqui em Nova York,
Edgar e eu somos responsáveis por você. — Ele ressalta. Me viro no banquinho, com cenho franzido.
— Quem te contou essa mentira? Eu estou trabalhando, posso me manter por conta própria. Só
não me rebelei ainda por que não vi um motivo suficiente. Ele não responde, fica esperando a água
do café, ferver. De costas para mim. só depois que resolver me instigar: — Primeiro, está
trabalhando para mim…
— Para Victor. — Corrijo-o.
— Que é meu funcionário. — Ele retruca com um odioso ar bonachão.
— Está ameaçando me demitir? — Já terminei o iogurte e raspo o restinho.

— Não. Só quero dizer que depende de mim. Como eu disse anteriormente. — Ele está tão
seguro de si que parece um jogador de xadrez dando repetidos lances certeiros.
— Mesmo assim eu tenho tudo que eu não tinha no Brasil. Já saí com três caras diferentes —
minto, na verdade foi com cinco — já comecei a…
— E acha isso bonito? — Balbucia com sarcasmo me interrompendo — Sair com três caras
diferentes? — Está de costas terminando o café. Serve em duas canecas e trás uma para mim. — Isso
prova que você não se dá o valor, não se respeita.
— Olha quem fala. Se for contar o número de amantes que você já teve, chega quase a
população de Nova York.
— Não é tanto. Metade eu diria. — Ele ergue uma sobrancelha sugestiva. Olho-o por cima da
caneca sentindo algo como repulsa e ciúme. — Sem falar que eu sou homem. — Completa meio
empolgado.
— Sim. É homem. Percebi. E o que isso tem a ver?
— Nunca ouviu a teoria da chave e fechadura?
— O que?
— Pense numa chave mestra. — Ele se mostra tão presunçoso que o olhar dele me irrita. — Essa
chave pode abrir qualquer porta, e todo mundo quer ela. Agora pense numa fechadura comum, que
qualquer chave possa abri-la. Dificilmente alguém vai querer uma fechadura dessas.
— Eu não entendi sua parábola. — Gesticulo olhando-o de olhos semicerrados.
— O homem é a chave. Quanto mais rodado ele for, fica mais experiente e bom de cama; as
mulheres vão correr atrás dele e sonhar em levá-lo ao altar. A fechadura é a mulher. Quanto mais
rodada ela for, passou por várias “chaves” ela vai perdendo valor e um dia nenhum homem vai
querer…
— Nem termine. — Eu ralho revoltada. — Que droga de machismo!
— Não é machismo. É a realidade. Se a mulher tem fama de rodada, ela vai…
— Ai meu Deus! — Grito colocando as mãos no ouvido. — Joaquim, estamos no século vinte e
um.
— E boceta ainda continua sendo boceta. Eu por exemplo não quero me casar um dia com uma
catraca de metrô, em que todos já passaram a mão. Sou milionário, gata, posso escolher.
— Ah tá. Com certeza vai casar com cinquenta anos e querer uma de dezenove e virgem ainda.
Idiota. — Detalhe, apenas sussurro o “idiota”.
— Não tanto assim. Não me dou bem com virgens. Sou bem dotado se é que me entende, e já
gosto de partir para o bate-coxa. Não tenho mais paciência de ensinar ninguém.
Olho boquiaberta para ele e inevitavelmente meus olhos abaixaram. Que droga! Olhei para o
pênis de Joaquim. E acho que o safado percebeu. Está com um sorriso libidinoso na cara.
— Não fique falando essas coisas comigo. — Repreendo virando o rosto, sentindo o sangue
chegar a minhas bochechas. — Sou mulher e não seus amiguinhos depravados.
— Então me fale sobre você. Gosta dos mais experientes? Esses caras que você se encontrou,
são bons o suficiente?
Ah! Tripudiar. Agora sim posso olhar para ele. Por que vou falar dos atributos de outros
homens e isso, tenho certeza, fere qualquer um.
— Eles são ótimos na cama, bonitos e bem grandes — afasto as mãos e mostro mais ou menos
um tamanho — se é que você me entende. — Pisco para ele.
— Ah como eu entendo. Você nem imagina. — Ele está zombando de mim? Que tolo.
Reviro os olhos e bebo mais café.
— Amanhã tenho um novo encontro. – Revelo, para provocá-lo e tentar tirar essa expressão de
senhor das picas grossas.
— É? — Ele pergunta ironicamente.
— Sim. Ele é lindo, educado e…
— Espero que não seja casado. — Joaquim ironiza mais. Mas que saco? Onde estão as
indagações, a cara fechada, o maxilar rígido? Por que ele está agindo como se não importasse?
Meu celular apita em cima do balcão. Pego-o e vejo uma mensagem de Celeste.

“Espero que não tenha se infiltrado na cama de Joaquim.


Veja as notícias da manhã.”

Reviro os olhos e olho em volta. Há um iPad perto.


— Posso usar rapidinho? — Aponto para o aparelho e Joaquim anui.
Pego, ligo e começo a navegar. Não foi difícil encontrar. Estava lá em um site de fofocas.

“CANTORA LATINA MASCARADA, AGITA NOITE DE NY NAS BOATES MAFRA.”


A foto sou eu no palco, foi tirada de longe, não é nítida. Graças a Deus.
— Conhece ela? — Joaquim pergunta e só então noto que ele está bisbilhotando, de pé atrás de
mim.
— Celeste me mandou uma mensagem falando sobre essa mulher. Me chamando para ir ver um
show dela. — Saio da página e desligo o iPad.
— É uma das cantoras que Victor contratou. — Ele comenta ainda de pé. Eu me pergunto até
onde Joaquim sabe sobre Lisandra. Se ele desconfiasse que sou eu, ele já teria jogado uma indireta.
— Será que é boa? — Pergunto dando uma de sonsa.
— Não sei. Mas Victor é bem rigoroso. Se ela está cantando nas minhas boates, é por que tem
talento. — Vejo que ele se afastou e está dentro da geladeira. — Quer um sanduiche?
— Vai fazer?
— Sim.
— Então eu quero. Seu café não é bom.
— Eu sei. Sou bom em outras coisas. — Joaquim alfineta e eu abano a cabeça.
Joaquim tinha ligado antes para o hotel e minhas coisas já estavam na sala. Depois de tomarmos
café, tomei um banho, me vesti e peguei uma carona forçada com ele. O defeito dele é não aceitar o
NÃO.
Não sei se é só comigo ou com todo mundo, mas Joaquim precisa parar e rever seus conceitos.
Ele nem cogitou minha escolha de pegar um táxi, pois antes eu queria passar em um lugar. Era
mentira, eu não queria passar em lugar nenhum, só queria ir sozinha. Não quero ficar desfilando por
aí com Joaquim e acabar com um nome da semana em um site de fofoca. Ser chamada de Sábado é
fim de carreira.
Mas esse não é nem de longe o principal motivo. Olho para ele enquanto dirige. Joaquim é tudo
que um dia eu quis, é ainda quem eu quero. Mas ele não sente o mesmo, e ficar nessa aproximação,
acaba enganando meus sentimentos.
— Não fique com essa cara. É chato pacas você ficar emburrada a todo instante. — Ele fala
enquanto entra com a SUV no estacionamento do prédio dele.
— Você poderia uma vez na vida ouvir a minha vontade.
— Elena, deixe de birra. Por que eu deveria deixar você pegar táxi sendo que posso te trazer?
Você está mal-acostumada demais, mimada demais. — Ele para o carro na vaga dele, tira o cinto e
olha para mim. Estou mais furiosa do que nunca. — Vai almoçar comigo? Posso pedir alguma coisa
pra gente.
— Não. Vou almoçar com Victor. — Desafivelo meu cinto e tento abrir a porta. Joaquim a
travou. — Dá para abrir a porta?
— Almoçar com Victor? Por quê?
— Eu não preciso te dar satisfação.
— Precisa. Está passando uns dias comigo, além de ser funcionária da minha empresa.
Revoltada, passo a mão nos cabelos, impaciente, solto o ar pela boca e olho para ele.
— Por que eu sou a assistente pessoal dele. E ele tem um almoço importante hoje. Satisfeito?
Agora deixe eu sair. Se eu não aparecer na sua casa a noite, para dormir, é por que consegui um lugar
de emergência.
— Se você não aparecer, eu e Edgar teremos que fazer uma busca pela cidade. — Ele estala a
língua tipo “tsc” e faz uma cara de preocupado. — Seria tão trágico seu irmão ficar decepcionado.
Reviro os olhos, consigo abrir a porta e saio do carro. Caminho bem rápido para ficar a frente
dele, e consigo. Joaquim não me segue.
Eu fui direto para a sala de Victor. Ele estranhou eu ter chegado cedo, em pleno sábado.
Tínhamos marcado esse horário, para falarmos sobre os shows de Lisandra. Eu expliquei minha
situação e ele me ajudou a continuar a farsa de ser assistente dele.
Victor é um homem em um milhão, bonitão por fora e lindo por dentro. Descobri por Celeste
que ele já foi casado, mas a mulher o largou por causa da mãe dele; eu não conheço a madrasta de
Quin, mas sei que é uma oportunista.
Celeste também comentou que Victor passa grande parte do tempo tentando agradar o irmão e
Joaquim ainda tem muita resistência para baixar a guarda e manter um laço mais íntimo com ele. Pois
para Quin, Victor é o fruto da traição do pai.
Depois de passar a manhã ajudando Victor com pequenas coisas, saímos juntos para almoçar e
Joaquim apareceu de repente como uma ave de rapina, como se estivesse espreitando por ali a
amanhã inteira.
— Já estão indo? — Perguntou tentado parecer amigável, mas notei como ele olhou fulminando
o coitado do Victor.
— Oi Quin. — Victor cumprimenta. — Vejo que Elena já te contou.
— Sim. Me contou. — Responde friamente. — Sabe como eu prezo a discrição e prudência. —
Avisa sutilmente.
— Claro que sei. — Victor dá um sorriso largo. — Até mais. — Voltamos a andar deixando
Joaquim ainda parado nos olhando.
O almoço foi delicioso e um sucesso. Na verdade, para mim foi “O” almoço, Victor levou um
empresário, Ryan, que me viu no show e queria me fazer uma proposta. Ele quer que Lisandra se
apresente em outros lugares que não sejam apenas boates. E me propôs uma viagem para Londres e
Madri, onde eu poderia me apresentar em um festival. Será pouco depois da data do casamento de
Celeste e Edgar.
Inicialmente fiquei em dúvida, afinal essa coisa de Lisandra Montenegro era para ser apenas
uma distração. Mas Ryan me disse que em três apresentações, eu já alcancei destaque na mídia e
atenção do público. Que se eu quiser posso seguir uma brilhante carreira. Então eu aceitei a proposta
dele. Daqui quinze dias, pouco depois do casamento, eu voarei com Ryan e Victor para minha
primeira apresentação que não seja em boates.
Só voltei a realidade quando recebi uma mensagem de Joslin todo charmoso me dizendo que a
noite me liga, que já conseguiu reservas num restaurante de primeira.
Me despedi de Victor e Ryan e corri para a casa de Edgar. Celeste precisa me emprestar os
ouvidos para eu desabafar.
E acreditem só: Joaquim foi me buscar.
Sim, como se fosse meu marido ou pai. Eu, celeste e a mãe dela estávamos na sala, fazendo os
últimos planos do casamento. Falta pouca coisa: Bebidas e Buffet já foram preparados lá no Brasil.
Toda decoração e as flores naturais já estão devidamente encomendadas e os convites enviados.
Nesse momento, a porta se abriu e Edgar entrou com Joaquim.
— Boa noite, garotas. — Edgar cumprimentou. Beijou Celeste e se jogou no sofá ao lado dela.
Joaquim também nos cumprimentou e sentou em outro. Eu estava no chão, me sentei rápido e
coloquei uma almofada no colo, pois meu short de algodão é muito curto. Short de ficar dentro de
casa.
Sabe o que mais me deixa indignada nisso tudo? É não ter poder de fogo algum para brigar com
Joaquim, ele sempre consegue uma reviravolta espetacular com essa cara de bom moço.
Vejam só como tudo aconteceu: Antes de eles chegarem, eu e Celeste planejamos que eu
dormiria aqui. Há um colchonete e eu iria dormir na sala. É melhor para mim, amanhã tenho
encontro o dia todo e mesmo Chris prometendo me ajudar, eu preciso ter uma rota de fuga para sair
da casa de Quin.
Então, eles dois chegaram, ficamos conversando, colocamos Edgar a par de tudo o que ainda
faltava.
Abrimos cervejas e refrigerantes, depois Celeste trouxe um vinho. Quin estava bem
descontraído, todos nós estávamos. Daí às dez da noite, ele se levantou e espreguiçou.
— Bom pessoal. Acho que é hora de eu ir.
— Está cedo, Quin. — Edgar interferiu. Joaquim pegou o terno e a bolsa e olhou para meu
irmão.
— Estou bem cansado cara. No caminho de casa, vou pedir um hambúrguer e capotar em
seguida.
— Vem almoçar conosco amanhã? — Edgar perguntou e Celeste arregalou os olhos. Fiz um
gesto para ela se acalmar. Vai dar certo. Eu só vou precisar despistar todos no almoço e fugir. Isso se
eu não der a louca e falar com Edgar que estou indo almoçar com um cara.
— Pode ser. — Quin aceita o convite e olha para mim. Quem vê essa cara acha que é o santo.
Um santo manipulador, observem só o poder que ele tem.
— Está pronta Leleca?
Estão vendo? — Ele usou meu apelido para ganhar força e mostrar que é meu irmãozão.
— Quin, eu não vou precisar ir para sua casa. Eu vou fazer uma cama aqui na sala e dormir.
— Ai não! Pelo amor de Deus! — A mãe de Celeste grita. — Eu durmo na sala. Não quero te
tirar do quarto.
— Não, está tudo bem, eu fico aqui… — falo rápido com medo de ela colocar tudo a perder.
— Por que quer dormir no chão sendo que lá em casa você tem um quarto inteiro? — Joaquim e
sua falsa inocência.
— Também acho Elena. — Edgar concorda — Pega suas coisas e vai com Joaquim. — ordena.
— Eu estou bem gente, sério. — Bato o pé.
— Não gostou de algo lá em casa? — Quin pergunta. Agora com cara de falso coitado.
— Não. Eu adorei. A cama é excelente Quin.
— Então por que prefere um chão? — Edgar já pergunta nervoso.
— Ah! Venha Leca, faça companhia para mim. Curti muito nosso papo hoje de manhã. —
Joaquim pede todo humilde — Ter alguém para conversar é ótimo. — Agora ele é o falso solitário.
Reviro os olhos e procuro em Celeste uma ajuda. Ela dá de ombros.
— Vai logo Elena. Joaquim não tem a noite toda. — Edgar fala dando o assunto por encerrado.
Perdi feio.
E eu fui. Me deixei levar.
Sabe que bem no fundo eu gosto de estar com ele? E sabe que de uma forma bem doida acho que
Joaquim também gosta de estar comigo? Eu fico pensando em que talvez ele esteja sentindo algo por
mim, e se isso acontecesse… sem dúvidas daria uma chance para ele.
Quando chegamos a casa dele, fui para o quarto me trocar, vesti meu pijama largo e velho.
Joaquim pediu comida pra gente e quando terminei saí do quarto para ouvir ele ao telefone.
— Sim Alexandra, eu sei. não… nem tente. — Ele estava falando com a tal Condessa. Quando
me viu se despediu logo. — Tenho que desligar logo. Não, não estarei disponível. — Ele desliga e
joga o celular no sofá.
— Os hambúrgueres chegaram. Venha. — Diz e eu o sigo para a cozinha.
— Qual é a de vocês dois? — Indaguei. Lógico que eu não ia deixar passar. Estou bem chateada
em saber que eles ainda mantêm contato. Qual é! Tem milhares de mulheres, ele não precisa catar
mulher dos outros. Ela o deixou para se casar. Onde está o orgulho de Quin quando ele deve usar?
Quin pega uma lata de Coca na geladeira e me entrega. Para ele, uma cerveja.
— Não temos mais nada. Alexandra vai se casar.
— Mas não consegue te deixar de lado, não é?
— Fazer o que né? Sou o melhor do mercado.
— Presunçoso. — Murmuro antes de dar uma mordida no meu hambúrguer.

(…)
Como eu fui ao encontro? Saí cedo. Bem cedo. Antes de Joaquim acordar. Eram sete e meia e
isso para domingo é bem cedo. Escolhi minha roupa, coloquei numa bolsa e fiquei no lugar que eu
aluguei para o sexo com os homens.
Fiquei lá presa, até as onze horas quando saí e fui me encontrar com Alec. Ele estava me
esperando e quando eu o vi…
Puta que o pariu!
O cara é um escândalo. Bem alto, forte e ironicamente tem cabelos meio aloirados. Ele tem uma
boca bonita que dá vontade de beijar. Fiquei embasbacada só olhando-o.
Mandei uma mensagem para Victor, pedindo que confirme que estou almoçando com ele, se
Edgar ligar. Depois mandei uma mensagem para meu irmão dizendo que estava com Victor, para não
se preocupar.
E agora estou aqui, no restaurante. Alec ficou no carro me esperando. A raiva que sinto me dá
coragem para seguir rápido. O lugar é lindo, vejo-o ao longe sorrindo para mim, o homem é lindo,
alguém que eu adoraria conhecer e passar o tempo. Ele iria me enganar certinho.
Não ando, desfilo, mexendo os quadris, meus cabelos balançando, meus lábios vermelhos em
um sorriso raso. Ele se levanta, eu chego perto e sussurro: — Vá. Se. foder. — sibilo.
— O que? — Ele indaga perplexo, sem entender.
— Eu te vi na rua com mulher e filho. Vai negar? — Questiono e ele arregala os olhos se
denunciando.
— Pois é. Você está fora. Tenho dó da sua esposa. — Falo, me viro e saio dali. E ele não me
segue. Chego ao carro, respiro fundo e olho sorrindo para Alec.
— Vamos? — Pergunto.
— Vamos. — Ele concorda, dá partida e saímos dali. Agora sim começa o verdadeiro encontro.
QUATORZE

JOAQUIM

Ah, domingo! Novo dia. Acordo de pau duro. Pelo motivo fisiológico em si e claro por tesão. Já
é a segunda noite que durmo duro, excitado, por que sei que Elena está há poucos metros daqui.
Não é segredo pra ninguém que estou bem doido por ela. As nossas noites de sexo misterioso só
me deixou mais viciado naquela mulher. Ela sabe ser gostosa pra caramba e já tem bons dias que eu
não provo aqueles peitos e aquela delicia de boceta. Tem como não ficar de pau duro?
Ontem de manhã quase mandei tudo pra merda, quando a vi na cozinha com minha cueca. Eu
podia sentir o cheiro dela, o delicioso cheiro de mulher pela manhã. Estava mesmo quase colocando
tudo a perder e comendo Elena ali na cozinha, mostrar para ela o quanto estou vidrado nela.
Por isso que eu tive que trazer ela de volta. E agora que descobri que é legal ela ficar aqui
comigo, não sei se vou libertar Elena tão cedo. Estou pensando num plano: vou partir pra cima,
comer Elena na cara dura, como Joaquim mesmo. Daí ela vai perceber de tudo, eu vou contar a
verdade, ela vai ficar furiosa, mas furiosa na minha casa, não vou deixar ela sair. Daí eu fodo ela
mais uma vez e fazemos as pazes. Só não posso pensar em perder Elena. Não depois de ter avançado
tanto.
Já são mais de dez da manhã. Me recuso a bater uma breve punheta enquanto tomo uma ducha.
Sei que hoje não haverá sexo para mim, pois Joslin vai dar um bolo nela na segunda parte do
encontro.
Eu acho que Elena já deve ter saído para ir ao almoço. Após vestir apenas um short de futebol,
vou verificar o quarto e confirmo minhas suspeitas. Respiro aliviado e vou tomar um café. Hoje a
noite Elena vai estar tão magoada que vai precisar de um ombro amigo. Eu estarei aqui para ela.
Duvido que depois do bolo que levar, vai querer marcar outro encontro tão cedo.
Começo a ler as notícias do domingo, enquanto tomo no copo do liquidificador uma vitamina
poderosa. A tal latina que Victor contratou está de novo em uma página.
Segundo a notícia, ela acaba de deixar subtendido que pode marcar presença em um festival na
Europa daqui um mês. Não há foto da cantora.
Busco no Google imagens e as fotos são ilegíveis. Também não há uma página na Wikipédia. A
única rede social dela é um twitter e a foto de perfil é ela de costas no palco. Tem trinta mil
seguidores. E isso tudo prova que ela não é uma artista antiga, ganhou peso cantando nas minhas
boates.
A mulher trabalha para mim, preciso conversar com ela. Achei que era exclusiva das casas
Mafra. Eu sempre pedi isso a Victor, por que se alguém fizer sucesso, eu ganharei mais com a
exclusividade; afinal quem quiser ver a atração, precisa ir até um dos meus estabelecimentos. Preciso
conversar seriamente com Victor e rever o contrato.
O interfone toca, deixo o iPad de lado e vou para o fone na parede.
— Senhor Mafra, a senhorita Alexandra quer vê-lo. — É a voz do segurança. Eu dei ordens que
não queria que Alexandra subisse direto.
— Não posso receber agora, Bill.
— Eu não vou sair daqui, Quin. — Alexandra grita e eu dou um breve soco na parede, de raiva.
— Mande subir. — Ordeno.
Termino a vitamina, jogo o copo na pia e vou para a sala. Abro a porta e Alexandra está parada
me olhando mordendo os lábios e com uma malícia safada nos olhos. Volto para dentro e ouço ela
fechar a porta.
— O que quer Alexandra? Já não disse para sumir?
Ela me alcança e me abraça por trás. Suas mãos passam pelo meu peito, ela aperta forte enquanto
a outra mão desce e enfia no meu short.
— Quero você. Não consigo ficar longe. — Alexandra beija minhas costas, sinto um arrepio e
fecho os olhos suspirando enquanto ela massageia meu pau. Me viro de frente para ela e seguro em
seus ombros.
— Alexandra, você tem que ir embora. Já te disse para se afastar de mim.
— Por que está fazendo isso? — ela choraminga.
— Eu estou fazendo isso? Quem acabou tudo?
— Mas podemos continuar… sendo amantes. — Ela sussurra e beija meu peito, vai arrastando a
língua, devagar, até chegar em um dos mamilos e chupa-lo.
— Alexandra… — Eita cacete.
A mão dela ainda está dentro do meu short dando uma massagem gostosa demais nas minhas
bolas. Já estou duro feito rocha. Meu pau já aparece todo duro atrás do tecido fino do short.
Ela vai subindo a língua, pelo meu pescoço, dá um chupão forte ali. Agarro-a e começamos a
nos beijar.
Eu não sou de ferro né pessoal? Estou com Elena dia e noite na cabeça, mas temos que separar
as coisas. Uma coisa é sexo gostoso para aliviar o tesão, outra coisa é ter sentimentos por alguém.
Eu não sinto mais nada por Alexandra, mas tenho que aceitar que uma loira gostosa como ela,
segurando meu pau e me beijando assim, bem em uma época que estou há dias sem foder, é difícil
aguentar.
Vou empurrando-a até espremê-la contra a parede. Alexandra sorri enquanto me beija e abaixa
meu short passando a mão na minha bunda.
— Que delícia Quin. Me coma, estou pirada de tesão.
Enfio a mão por baixo da saia dela e noto que está sem calcinha. A safada já veio preparada.
Passo meus dedos na boceta dela e já está no ponto, molhadinha.
— Camisinha. — Digo e saio correndo. Vou ao quarto, abro a gaveta e encontro um pacotinho.
Só quando volto que noto que é um dos preservativos que peguei de Elena, nas noites de sexo.
Quando vou rasgar o pacote, meu celular toca.
— Não atenda. — Alexandra pede me puxando.
Mas já era tesão. Lembrei-me de Elena e foi como uma descarga broxante acertando direto no
meu pau. Elena é minha, disso ninguém tem dúvidas, mas meu corpo está começando a achar que eu
sou apenas dela, ao menos se ela soubesse disso… eu entregaria meu corpo para ela se esbaldar.
O nome de Edgar está piscando na tela e eu recobro o fôlego. Posso foder outra hora, com outra
mulher. Alexandra não; é chave de cadeia. Puxo o short pelas minhas pernas e me sento no sofá já
atendendo o celular.
— Fala Edgar.
— Elena não acordou ainda? Vocês já estão vindo?
— Elena não está aqui.
— Como assim não está?
— Eu acordei e ela já tinha saído. Achei que estava aí.
Na verdade eu sei onde Elena está. Daqui a pouco vou mandar uma mensagem para Joslin
perguntando se está tudo bem.
— Para onde ela foi? — Edgar exclama preocupado.
— Celeste não sabe? — indago na maior cara de pau. O que posso dizer? Sou um bom fingidor.
— Não sabe. Você está vindo?
— Sim. Estou a caminho. — Desligo e olho para Alexandra.
— Vaza. — Falo e empurro-a em direção a porta.
— Quin…
— É urgente Alexandra, você viu que estávamos quase lá, mas surgiu uma emergência e sabe
que eu odeio rapidinhas. Sexo pra mim tem que ser demorado, para eu aproveitar.
Seguro na cintura dela, subo minha mão e dou uma apalpada generosa no seio dela, olhando nos
olhos vendo-a suspirar. Me aproximo e dou uma mordida no queixo dela e ela me beija
desesperadamente. Estou fazendo isso para convencê-la que eu até queria, mas que preciso sair para a
tal emergência. Sei lidar com ela. Se for na brutalidade, hoje eu não terei paz.
Ela aceita aparentemente, me dá mais um beijo e sai com a promessa de voltar.
Assim que ela sai, corro, me visto e saio as pressas para acalmar Edgar. Das outras vezes ele
nem ficou sabendo dos encontros pois era durante a semana. Não sei por que Elena adiou de sexta-
feira para hoje.
Na casa de Edgar, ele me recebe aparentemente aliviado. Disse que Elena acabou de mandar uma
mensagem avisando que está almoçando com Victor. Ele ligou para Victor e meu irmão confirmou.
Elena já nas tramoias.
Eu gosto pra caramba de passar o tempo com Edgar. É meu melhor amigo, o único que me
entende e com certeza a única pessoa que posso contar aqui nessa cidade.
Tenho um meio irmão que é mais um babacão. Eu já percebi a jogada de Victor: vive tentando
me bajular. Provavelmente para conseguir aumentar sua renda.
Enquanto estou na mesa com Edgar a minha frente, penso no que ele diria se descobrisse meu
lance com Elena. Tá, meu lance secreto com Elena. Me mataria com certeza. É uma tremenda traição
com meu amigo. Comer a irmã dele sem que ela saiba. Assim que eu me resolver com ela, que
colocar tudo em pratos limpos, eu vou chamar ele no canto e bater a real. Edgar vai entender. Com
Elena do meu lado, ele vai entender.
Sinto meu celular vibrar. Deixo, deve ser Alexandra. Vibra de novo. E de novo e mais uma vez.
— Um minutinho pessoal. Preciso atender. — Digo e saio da mesa. Vou para o banheiro e leio a
mensagem. De Joslin.

“Deu treta. Elena descobriu que sou casado, veio aqui e acabou com o encontro.”

“Ótimo. Melhor ainda. Valeu cara, te devo essa.”

Digito e envio. Vejo que há mensagens de Peter.


Ia sair do banheiro e deixar pra lá. Mas decido e toco em ler. Quase caio para trás.

“Quin, Elena mudou de encontro de última hora. Chris acabou de me falar. Pediu-me
segredo.”

Não respondo por mensagens. Ligo para ele.


— Que porra é essa, Peter? — Já estou aflito no banheiro.
— Não sei, cara. Chris me disse que Elena descobriu que Joslin é casado e armou de última hora
um encontro.
— Com quem?
— Não sei. Chris disse que também não sabe.
— Como assim não sabe? Sabe onde eles estão almoçando?
— Não.
— Tudo bem. Não pergunte ao Chris. Vou ligar para os que acho prováveis.
— Ok. Qualquer coisa estamos aí.
— Valeu. — Desligo e tento o número de Doug. Cai na caixa de mensagens. Ligo para outros
três. Um me atende e disse que não está com ela. Então já posso excluir vários. Mike, Sam, Brian,
Erasmo, Chris, Joslin, Peter, e Jeremy que acabou de me dizer que não é ele. Faltam quatro. Ligo para
Alec, dá caixa de mensagens.
Tudo bem. Nada de desespero. Apoio as mãos na pia e fico de cabeça baixa pensando. Qualquer
um deles, sabem todos os procedimentos. Eu não combinei com eles para dar o bolo nela, mas assim
que Elena pedir que façam sexo sem máscara qualquer um deles, vai dar o fora.
Olho no relógio e é quase meio-dia. Eles devem estar em algum restaurante, não tem como eu
encontrá-los e não posso ligar para Elena. Como eu vou descobrir quem é o cara para dizer que não
vá ao encontro a noite?
Sento no vaso sanitário e fico pensando. Peter e Joslin que estão sabendo. E Chris…
Um lapso toma minha mente e eu tenho um sobressalto. Ligo para Joslin.
— Cara o que houve?
— Não sei Quin. Elena apareceu furiosa e me dispensou.
— Peter acabou de me dizer que ela trocou de encontro. Ela estava acompanhada?
— Não. Sozinha.
— Contou alguma coisa a alguém? — Questiono.
— Não. Para ninguém, acabou de acontecer.
— Merda! — Resmungo com muita raiva. O desgraçado do Chris. — Tá legal Joslin. — Desligo
e saio rápido do banheiro.
Celeste sabe de toda essa safadeza de Elena, então preciso disfarçar, para que ela não ligue para
a amiga. Volto tremendo de ódio, mas com um sorriso calmo no rosto.
Eu vou matar ele. Sei que vou. Sei que tem dedo do Chris nisso. Eu vi aquele olhar no dia que eu
o coloquei em seu lugar. Aquele fracassado de merda ficou com peninha de Elena e me viu como
vilão.
Sei que aqui nos Estados Unidos, homicídio acaba em prisão perpétua. Mas não importa. Vou
matar o Chris. — Com esses pensamentos tomando minha mente, me tornando friamente psicopata,
corto com calma cirúrgica o suculento rosbife e mastigo devagar, como Hannibal saborearia um
pedaço de carne humana.
Eu ainda não decidi se vou atirar primeiro no pau dele ou se estrangulo aquele filho da puta.
Numa falsa tranquilidade necessária, eu termino o almoço e finjo que há outra ligação.
— Droga! Pessoal, vou dar um pulinho na empresa. É coisa rápida. — Explico para eles me
levantando.
— Aconteceu alguma coisa Quin? — Edgar quer saber preocupado.
— Não. Victor me pediu para ir até lá dar uma olhada em um probleminha no sistema. O técnico
está lá me esperando.
— Ok. Você volta?
— Talvez. — Bato a mão para eles e saio as pressas.
Saio do elevador lá embaixo e já com o celular no ouvido, espero Peter atender.
— Manda chefe. — Ele fala.
— Descubra com quem Elena está. Interrogue cada um deles. E se for você, não iria querer estar
em sua pele.
— Confie em mim Quin. Vou agora mesmo procurar quem é o fura olho do Joslin.
Ligo o carro, acelero e saio com os pneus cantando no asfalto.
Vou para a empresa, entro na minha sala e abro o cofre pegando o contrato com os doze. Olho o
endereço de Chris e saio correndo. O maldito vai falar tudo que quero ouvir.
Enquanto dirijo fico de olho no relógio. Tem muito tempo ainda para eu descobrir quem é o
sujeito e onde eles estão almoçando. Diminuo a velocidade para não acabar num acidente e quinze
minutos depois chego ao prédio de Chris.
Digo ao porteiro quem eu sou e com quem quero falar. Ele interfona e logo me olha dizendo
que Chris vai me receber, que eu posso subir. Das duas uma: ou ele é bem manso ou é inocente e não
tem ideia do que eu estou fazendo aqui.
— Quin? — ele me olha curioso quando abre a porta. — Aconteceu alguma coisa?
— Isso você que tem que me falar Chris. Quem está com Elena e onde eles estão?
— Como assim cara? Hoje não é o dia do Joslin? — Ele ainda resiste com essa cara de porra
dele. Já descobri. Chris é manso. Ele acha que eu sou tolo.
Resgato interiormente toda a civilização que preciso.
— Chris, não há nenhum besta aqui. Peter me contou que você sabe. E como Joslin não contou
para ninguém… alguém deve ter te contado isso. Quem?
A aparência inocente dele desaba e o Chris corajoso aparece.
— O que queria Joaquim? Continuar enganando Elena? Olha o que está fazendo cara, pare e
pensa um segundo. — Me aconselha.
Voo para cima dele segurando-o no colarinho. Entro com ele no apartamento e jogo-o com toda
força em um sofá. Chris cai de olhos arregalados.
— Elena é minha garota ouviu?
— Sua? Ela ao menos sabe?
— Com quem ela está? — Pergunto tentando me manter mais calmo. Ele se levanta.
— Com algum dos caras que você arrumou para ela. — ele ironiza.
— Chris… não me faça perder a paciência, apenas diga o nome para que eu vá embora e deixe
você em paz.
— Elena não merece ser enganada. — Ele murmura tentando ser o herói.
— Foi você não é? Que armou tudo e contou para ela sobre Joslin. Como você fez?
Ele dá uma gargalhada de merda.
— Eu só usei seu plano contra você mesmo, Joaquim. Agora saia da minha casa antes que eu
tenha que chamar os seguranças e os paparazzi.
— Com prazer. — falo e usando toda força no braço, dou um gancho de direita nele que o faz
cair longe.
— Isso é só um aviso para não entrar mais no meu caminho. Fique fora Chris, será melhor para
você, não me faça mandar alguém te dar uma lição, como eu já prometi. — Caminho para a porta e
rosno sem me virar: — Bundão filho da puta.
Agora estou na bosta. Não sei para onde ir. Ou que rumo tomar. Estou na estaca zero. Vou
dirigindo sem deixar de olhar ao acaso os restaurantes. Minha última esperança é Peter. E ele enfim
não demora em ligar.
— Descobriu algo? — Pergunto logo.
— Sim. Estou entre três. Nenhum deles atende o celular.
— Quem são?
— Philip, Daniel e Alec.
— Obrigado Peter. — Desligo e vou para meu apartamento. Agora é esperar. Não posso fazer
mais nada. Vou ficar lá, pois pode ser que Elena chegue.
Entro, tiro a roupa, fico só de cueca e vou para a frente da TV beber umas cervejas. Nada me
acalma, a sensação de que algo está acontecendo, o pressentimento que talvez ela esteja com alguém
que pretende ir adiante a noite. Mas isso não vai acontecer. Não vou deixar. Elena não fica com mais
ninguém que não seja eu. O tempo vai passando, já são três da tarde e nada de Elena. Pego o telefone
e ligo para Edgar perguntando se ela chegou bem. Algo desinteressado. E ele fala que ainda não.
E a partir de então tudo fica quase ao ponto de um enfarte. Eu liguei para cada um dos três caras.
Blake atendeu e disse que estava de boa, que não era ele. Falta o viado do Philip e o Alec cuzão. Um
dos dois está querendo tocar no que é meu.
Sabe o que sempre dizem? Que mãe e igual a energia, a gente só dá falta quando perde. Estou
sentindo isso com Elena. Eu poderia ter impedido-a de outra forma, eu poderia ter proposto um caso,
mas fiquei em dúvida se eu a queria mesmo e sem saber se ela me queria.
Agora é uma via de mão única. Estou sem saída. Vou esperar a noite chegar, e ir ao local do
encontro secreto. Não sei ainda o que vou fazer ao chegar lá. Estou pensando em fazer de conta que
peguei Elena no flagra. Vou dar um sermão nela, fazê-la se sentir mal e trazê-la de volta para casa.
Depois que a poeira baixar, eu conto a verdade.
Fico de prontidão até dar oito da noite. Visto uma calça preta, camiseta preta e jaqueta preta. só
sei que quem estiver com ela vai levar uns safanões.
Saio escoltado pelos seguranças, vou no banco de trás enquanto o motorista me leva ao local
que Elena sempre vai para o sexo. Não sei como consegui sobreviver o dia todo com essa porra de
angustia.
O pior de tudo é que ela não tem culpa. Ela está fazendo o que pensa ter feito as outras três vezes.
Mesmo se Elena dormir com outro cara, coisa que não vou permitir, eu não poderei cobrar nada
dela. Terei que agir como se nada tivesse acontecido. Pois ela não sabe da verdade.
Quando eu chego ao local, entro o mais rápido que posso. Correndo em tensão total. Abro a
porta com minha chave e paro ao ver o ambiente todo escuro. Acendo a luz e tudo está silencioso,
sem nenhum sinal de que houve gente por aqui. Pasmo, olho em volta e dou um passo para o meio do
quarto.
— Não! Droga, Elena! — Olho no relógio e são quase nove. — Cacete! Não é possível. — Pego
o celular, ligo para Joslin.
— Cara. Elena não está aqui no quarto do sexo. Ligue para ela por favor.
— Ela não vai me atender, Quin.
— Tente ao menos poxa. — Berro.
— Tudo bem. Espere um minuto.
Ele desliga e eu me sento na cama, vendo tudo que fizemos aqui. Ou melhor, o que eu fiz, pois
ela não via a situação como sendo nós.
Minutos depois Joslin liga.
— E então? — Atendo meio toque depois.
— Ela me atendeu. Cara, ela está com alguém.
— Com quem porra e onde?
— Não sei, Quin! Ela não falou. Eu perguntei e ela disse que está muito bem acompanhada e que
a noite está só começando.
— Caralho! — Dou um grito muito alto e jogo o celular com toda força na parede. — Porra! —
Começo a dar voltas como uma barata tonta. Ela não vai fazer isso. — Elena não vai conseguir. Ela
não pode fazer isso! — Grito como um animal.
Sem ter o que fazer eu encosto a testa na parede e fico pensando, tentando encontrar uma
solução. Eu poderia rastrear o celular, mas no momento preciso de contatos e até conseguir isso, o
caldo já vai ter entornado.
Não vou conseguir pregar o olho essa noite. Estou tremendo de raiva, muita raiva. Com vontade
de amarrar Elena.
Quase meia-noite, meu celular toca mostrando que ainda funciona. É Edgar perguntando se
Elena está em casa comigo. E para não colocá-lo nessa confusão, eu falo que sim. Essa ligação foi só
mais uma prova de que ela está por aí em algum lugar com outro homem.
Me jogo na cama, deito esperando. Com a esperança de que ela chegue. Mas não vem. Ninguém
aparece. As horas se arrastam bem devagar, me levanto e vou embora.
Na sala do meu apartamento, com as enormes janelas panorâmicas viradas para o Central Park,
eu observo o sol banhar aos poucos a sala. Fiquei lá, deitado no sofá só esperando e esperando. Até
ver que já são sete da manhã, me levanto e vou para o quarto.
Pouco depois ouço a porta abrir. Sei que é ela. Mas não saio, continuo deitado olhando o teto,
ouvindo ela entrar no outro quarto e fechar a porta. Eu saí da sala pois sabia que ela estava chegando
e se eu ficasse ali não iria aguentar vê-la chegar após passar a noite com um homem.
É muito ruim. Ruim pra caralho. Estou em sentindo traído.
7° ENCONTRO: TOURO

Geralmente é resistente. ser sólido, seguro de si. É determinado e costuma expressar


emocionalmente. Pode ter acessos de raiva se for contrariado. Os taurinos amam sem pressa e com
eles as preliminares serão bastante demoradas e muito excitantes. Tenha calma, porque a pessoa de
Touro muda de humor se for pressionada. Ela se entregará muito mais, se você der tempo a ela. Touro
vai escolher muito bem a hora e local para o sexo: “De preferência com lençóis macios e em um
ambiente aconchegante. Se pretende um lance mais maluco, como barracas, banco de carro e outros
lugares desconfortáveis, pode esquecer”

NOME: Alec Maddox NASCIMENTO: 26 de Abril de 1981 (34 anos)


SIGNO: Touro ESTADO CIVIL: Solteiro NACIONALIDADE: Phoenix - Arizona - EUA
FORMAÇÃO: Ensino médio.
PROFISSÃO: Dono de oficinas de carros. Mecânico.
LAZER: Dirigir sem rumo.
FRASE DE VIDA: As coisas boas vêm com o tempo, as melhores de repente.
FRASE DE TUMULO: “Era uma vez eu…”

DOMINGO

Central Park. Daqui posso ver ao longe, do outro lado, o prédio do apartamento de Quin.
Estamos no Loeb Boathouse. Um delicioso restaurante no Central Park às margens do lago. Um lugar
ideal para um brunch. Uma vista espetacular da natureza. Tem aluguel de barcos, muitos pássaros e
borboletas. Muito romântico.
E sabe o que também é uma vista espetacular? Esse homem ao meu lado. Estou muito atraída por
ele, é tudo que uma mulher pode querer. Fisicamente pelo menos.
Apesar disso tudo eu ainda estou meio tensa, pelo que aconteceu com o encontro com Joslin. Eu
já tinha digerido a ideia que ele não é quem diz ser. É um canalha que estava prestes a me usar como
se eu fosse apenas seu brinquedinho.
Sabe, pensei sobre isso a noite toda, quase nem dormi lá na casa de Quin. Eu fiquei arrasada ao
me dar conta de que talvez todos esses caras estão mesmo mentindo para mim, e talvez a maioria
esteja me tratando como objeto.
É tudo tão fácil para eles. Ficam em suas vidas, sem compromisso, esperando o dia que a garota
bonitinha vai escolhe-los para ser o próximo a transar. Que homem não quer isso?
Cogitando e analisando tudo isso, não tem como eu não lembrar de Quin e de como ele fica
tentando me fazer entender. Ele é homem, sabe das coisas que outros homens pensam e eu deveria
ouvi-lo.
— Bebe um pouco. — Alec me serve um pouco de vinho. — Está tensa. Precisa relaxar.
— Obrigada. — Agradeço e dou um gole no vinho. — É tanta coisa. Primeiro tem o fato de eu
ter descoberto a cachorrada do Joslin e tem o fato de que a partir de hoje não haverá mais máscaras.
— Foi a sua melhor escolha banir as máscaras. — Ele afirma categoricamente.
— Por que acha isso? — Inclino de leve, o pescoço de lado.
— Não há nada melhor que fazer amor olhando nos olhos do outro. Saboreando cada expressão.
— Com um sorriso charmoso, exibindo covinhas ele fala com uma voz cantante, sedutora.
Decido me fazer de madura e fingir não importar.
— Sim, concordo com você. — Sorrio para dar credibilidade ao que digo.
— Me conte por que decidiu vir para os Estados Unidos?
— Sabe, lá no meu país, tem a cena histórica de quando o Imperador foi lutar pela liberdade do
Brasil e gritou: independência, ou morte…
— Está me dizendo que bateu de frente com alguém para poder ter sua liberdade?
— Não. Eu não tive tanta coragem de partir para a luta como o Imperador fez. Eu vim com uma
desculpa, de ajudar no casamento do meu irmão.
— Como você tinha dito, pais controladores e irmãos sufocantes. — Ele analisa — Não tem
ninguém te sufocando aqui?
Encaro Alec e faço um gesto de descaso.
— Sim há. Meu irmão e o melhor amigo dele ainda não perceberam que eu cresci.
— O tal amigo famoso? Não vai mesmo me dizer quem é? — Pergunta de cenho franzido e
depois de forma humorada completa: — espero que não seja Johnny Depp, ou terei que pedir um
autógrafo.
Dou uma risada. Eu já tinha contado para Alec mais ou menos da minha vinda em uma de nossas
conversas.
— Não é o Johnny Depp. Tá, eu não vejo por que esconder. É o Joaquim Mafra.
— O baladeiro? — Alec se anima.
— Esse.
— Legal. Deve ter passe livre em todos aqueles pubs maneiros.
— Há males que vem para bem não é? — dou de ombros. — Sem falar que estou passando uns
dias na casa dele.
Alec fica visivelmente abalado. Como se eu tivesse dito que Johnny Depp é um ator horrível.
— Como assim? Está morando com o Joaquim Mafra?
— É só por alguns dias. A sogra do meu irmão chegou… tive que ceder o quarto em que eu
estava.
— Hum…
— Agora quero que me fale sobre você. — Proponho para tirar o foco de mim. Temos que
lembrar que nesses encontros eu que tenho que conhecê-los melhor.
— Bom, não sou casado, como o Joslin.
— Isso é importante.
Alec acena e um garçom vem. Ele pede uma cerveja e me olha em tom atencioso, me estudando.
— Eu não nasci aqui. — ele recosta e começa a relatar — Sou do Arizona, como disse em uma
de nossas conversas.
— Muito tempo de Nova York? — Indago; ele espera o garçom abrir a latinha de cerveja e
colocar num copo. O homem afasta e Alec me encara.
— Sim. Mais de vinte anos. Vim com minha mãe quando ela se divorciou.
— Sério? O que houve com seus pais? Desculpe pela pergunta indiscreta.
— Tudo bem. — ele bebe um gole da cerveja — meu pai deixou minha mãe por uma mulher que
era amiga dela.
— Oh! Que safado. — exclamo e depressa adiciono: — desculpa.
Ele ri antes de concordar.
— Pois é. Mamãe até hoje não se conforma. Ela se culpa por ter apresentado a mulher a ele. —
Alec suspira pensativo. — Ela o amava demais. — Completa de modo profundo.
Com os dedos cruzados embaixo do queixo, supercompenetrada na história, penso como ela não
teve mesmo como superar. Sei como é gostar de uma pessoa e essa pessoa nem aí. E ainda por cima
ter que engolir o sujeito com outra.
— Eu acho bem exemplar da sua parte querer vir com sua mãe. Ou não teve escolha?
— Sim eu tive. Eu tinha doze anos e meu pai brigou pela minha guarda no tribunal. E quase
levou. Ele era dono de tudo que tínhamos, minha mãe estava sozinha e sem nada na vida.
— E aí? — Pergunto concentrada, como se estivesse assistindo um filme.
— E aí que minha mãe foi muito esperta e conseguiu juntar o que ele deixou passar. As provas
da traição e dos desvios da conta conjunta. O ano era noventa e quatro e ele foi autuado por fraude e
ainda teve que pagar metade de tudo que tinha, para mim. Resumindo, tínhamos dinheiro suficiente
para vir para o outro lado do país.
— Não o viu mais depois disso?
— Sim. Ele veio aqui duas vezes me ver. Disse que eu tinha um irmão, mas me recusei conhecê-
lo. Meu pai está morto e enterrado no Arizona. — Ele termina confessando sem muito abalo.
— Poxa! Eu sinto muito.
— Está tudo bem. Isso já faz uns anos. – Ele faz um gesto dispensando minhas condolências.
Dou um sorriso cúmplice. Não digo a ele, mas não deixo de pensar que essa história se parece
um pouco com a de Quin. Decido deixar esse assunto de lado.
— Quando decidiu ser mecânico?
— Eu confesso que nunca gostei muito de escola. Meu negócio era desmontar e montar coisas.
Comecei sendo empregado e logo depois comprei a oficina do meu patrão. Hoje tenho várias
espalhadas por aí.
Alec bebe toda a cerveja assim que um garçom vem nos avisar que nossa mesa está pronta. Lá
fora, com o belo lago como maravilhosa vista. E claro, o prédio de Quin podendo ser visto aqui. É
como se ele pudesse me ver.
— E você Elena? O que mais ama no Brasil. E não diga o Cristo, é clichê.
— Não. Apesar de adorar o Cristo Redentor, eu não ia dizer.
— Mas você já o visitou, não é?
— Claro. É o mesmo que você nunca ter visitado a Estátua da Liberdade.
— Sim, eu já fui.
Arregalo os olhos encantada.
— Eu morro de vontade de ir.
— O que? Não vai me dizer que o ricaço Mafra nunca te levou lá?
— Não. Infelizmente. Mas não podemos culpa-lo, meu irmão que deveria ter me levado.
— Tem vontade de ir? Ou melhor, quer ir?
— O que? Hoje? — Tampo a boca com as duas mãos, maravilhada.
— Comigo, depois que almoçarmos.
— Adoraria. — Bato palminhas — Muito mesmo. Espero que meu celular esteja bem carregado
para eu tirar fotos perfeitas.
O almoço foi maravilhoso. Tudo contribuiu para algo fascinante, coisa que ainda não tinha
sentido com os outros. O lugar é lindo, a comida perfeita e o acompanhante, maravilhoso.
Quando saímos de lá, já era por volta da uma da tarde. Mandei uma mensagem para Celeste
dizendo onde estava indo e deixei isso claro para Alec. Apesar de termos conversado tanto, eu não
conheço de verdade ele. É sempre bom a gente deixar claro a um estranho, que alguém sabe onde
estamos e com quem.
Para irmos até a Liberty Island, é necessário pegarmos uma balsa no Battery park.
Alec aproveitou para abraçar meus ombros enquanto viajávamos vendo a água por baixo. Eu
admirei tanto o contato físico com ele, quanto nossa ligação silenciosa. Sim, estou mesmo meio
ligada a ele, atraída de forma estranha, não sexual tipo: “quero dar pra esse cara agora. ” É mais
gostar mesmo. Sem falar que o cara é cheiroso demais. Desde Joaquim, eu não tinha me interessado
tanto pelo perfume de um homem.
A visita a Estátua foi tudo o que esperei que seria. A vista da cidade lá de cima me deixou
emocionalmente chocada. Em delírio completo. Alec soube que nem deveria falar muito para não
quebrar aquela sensação que me possuiu.
Desde que eu comecei com os 12 homens, não tivemos muitos passeios. Nós passávamos um
tempo juntos e só. A noite nos encontrávamos no quarto do sexo e pronto.
Mas quando estávamos voltando, já ao entardecer, Alec dirigia e me propôs conhecer mais da
vida dele.
— Por que não vem comigo ao meu apartamento? Modéstia a parte fica num ponto alto da
cidade, você vai se encantar.
Eu fiquei em dúvida e ele coagiu:
— Fica na Madison e depois podemos ir juntos ao local do encontro noturno. E você pode
mandar uma mensagem para alguém dizendo onde e com quem está.
Eu até gostei da ideia. Hoje é domingo, ir embora para depois voltar a noite será arriscado.
Ainda mais que eu estou dormindo na casa de Joaquim. Mas algo que me chamou a atenção e me
deixou bem incomodada foi: ele mora na mesma Rua de Joaquim? Como assim? Quanto mais isso
pode ser irônico? Meu irmão mora praticamente a duas quadras da casa do Alec.
Mas não foi isso que me fez dar pra trás. Mandei uma mensagem para Celeste falando, ela
adorou a ideia e prometeu manter o bico fechado. Disse que Joaquim tinha almoçado lá e saído as
pressas para resolver algo na empresa. Menos mal.
O apartamento de Alec fica em um prédio um pouco afastado do de Quin. É menor e bem mais
íntimo. O de Joaquim é bem decorado, com pitada de algum designer. Já o de Alec é bem a cara dele.
Com um sofá alto, de couro marrom, uma calota de carro, bem brilhante, presa a parede, há até uma
guitarra na sala.
Ele abriu as persianas, tirou os sapatos e disse para eu fazer o mesmo, pois iríamos deitar nas
almofadas no tapete.
Enquanto desamarrava minhas sandálias, observava ele escolher um vinil. Sim, me levantei para
ver, pois ele tinha um sistema de toca disco acoplado ao seu moderníssimo aparelho de som.
Uma voz grave e deliciosa começou a encher a sala em uma melodia antiga.
— Heart of Gold, Johnny Cash. — Alec apresentou e caminhou para uma porta. Fiquei de frente
para a estante olhando as coisas dele. As fotos de vários lugares: esquiando, escalando, com uma
mulher que supus ser sua mãe. Várias seleções de discos, desde Elvis a Janis Joplin. Há raridades
aqui.
Havia um cubo mágico todo completo, emoldurado em uma caixinha de vidro. Havia também
uma nota de supermercado também emoldurada. Fiquei sem saber o que era aquelas coisas.
— São coisas raras que me aconteceram. — Ele explica já perto de mim.
— Como assim? — me viro e recebo o copo. Ele serve vinho para mim e depois para ele.
Descansa a garrafa na mesinha e volta-se para perto de mim.
— O cubo mágico eu consegui completar depois de uma semana tentando.
— E como vou saber se você completou ou comprou um pronto e colocou aí?
— Não vai saber. O importante é eu saber.
— Boa. — admito levantando meu copo como se fosse um brinde e bebendo um gole.
— O bilhete é por que foi a primeira vez que tive a oportunidade de ser alvo do mistério onze
onze. Eu comprei algumas coisas e fiquei besta quando a mulher do caixa disse: “onze dólares e onze
centavos. ”
— Hum. — Semicerro os olhos e vejo o valor, como ele disse. — Já ouvi falar. — caminho e
me sento no tapete. — Acredita nessas coisas? Onze e onze, portal de outros mundos e tal?
— Onze Onze não quer dizer apenas portal de outro mundo. — Alec pega um controle remoto e
senta ao meu lado. — Existem várias interpretações. Eu prefiro acreditar naquela que diz que a pessoa
quando se depara com o fenômeno está em equilíbrio. Emocional e espiritual.
— Nossa, não sei quando estarei em equilíbrio. — Reflito mais para mim do que um
comentário.
— Não? Por quê?
— Não sei. Emocional eu quero dizer. Há muitas pendências dentro de mim. — Paro de falar,
bebo mais vinho e olho para o nada pensando em Joaquim. Ele é uma pendência que jamais vou
superar.
Alec acabou sendo um parceiro improvável. Quando eu o olhei de primeira, achei que seria
aquele cara movido a safadeza, que quisesse logo partir para a cama. Celeste já tinha me adiantado
que os loucos por sexo são os escorpianos não taurinos. E para provar que Celeste estava correta,
Alec vem durante o dia todo me tocando de forma gentil, me seduzindo sutilmente. Me beijou na
volta da visita a Estátua e eu fiquei totalmente entregue. Ele beija bem, muito bem. Só ainda não foi
melhor que Erasmo. Esse, está até agora no topo, mas é um babaca, não parece estar querendo algo
comigo.
Só com Erasmo eu senti uma profusão de sentimentos me dilacerando enquanto transava com
ele. Foi carinhoso, foi gostoso, foi intenso.
Alec me mostrou dois grandes álbuns de fotos. Ele disse que ainda é do tempo da foto de papel,
e adorei ver cada uma de suas fases da vida. Desde pequenino, até a primeira oficina que ele
comprou.
Depois, levantamos e fomos para a cozinha. Alec disse que gosta de cozinhar, mas sempre acaba
queimando as coisas. Fizemos nosso jantar.
Foi outro nível, outro patamar. Nem estávamos nos importando se faríamos sexo ou não.
Conversávamos enquanto eu temperava a carne e ele cortava batatas.
Depois do jantar, fomos de novo para a sala. E a parte boa começou.
Foi tudo automático e rápido, ele arrancou a camiseta e me puxou para colar em seu corpo.
Começamos a nos beijar, eu estava bem tensa com a situação, mas a língua dele, quente e possessa
começando a afundar na minha boca, comecei a querer também.
Alec foi me empurrando e acabei deitada no sofá com o corpão dele por cima. O cara é uma
delícia, gostoso de pegar, abraçar; bem forte, firme, musculoso. O cheiro e o gosto também são
bons, mas então abri os olhos, me vi na casa de um homem que conheci hoje, sem a aura de sedução
e mistério do quarto escuro e as máscaras. Não consegui. Empurrei Alec, e fiquei sentada, quase sem
fôlego me desculpando horrores. Prometi a ele que continuaríamos mais tarde, na cama, quando eu
estivesse mais relaxada.
Agora com uma garrafa de champanhe, tocava Suspiciuos Minds do rei Elvis. Linda música.
Uma melodia perfeita.
— Mentes desconfiadas. — Falo o nome da música refletindo. — É ciumento Alec?
Ele se ajeita e senta contra um monte de almofada.
— Acho que todo homem é. E o ciúme normal é um termômetro para você medir o quanto uma
pessoa gosta de você. Gosta o suficiente para não deixar que seja tocada por outro.
— Concordo com você. Eu gosto do meio termo. Sou contra o excesso, aquele ciúme doentio,
mas também não suporto pensar em algo como swing. Não sei o que faria se um namorado ou
marido meu, resolvesse me dividir com outro cara e querer pegar outra mulher.
— Mas o swing não funciona dessa maneira. Naquele núcleo, onde os casais se encontram, não
há problema. Pessoas que gostam disso também sentem ciúmes, se o parceiro for procurar fora do
núcleo do swing.
— Mesmo assim, Alec. Não gosto de pensar no assunto.
— Quer contar segredos? — Ele propõe. Agora está deitado, lindamente, exibindo seu
maravilhoso corpo viril.
— O que? Verdade ou desafio?
— Sim. Tipo isso.
— Tá. Comece. — Eu falo me animando. Ele vem, serve mais champanhe para nós dois e aperta
um botão pulando para a próxima música.
— Eu já participei de swing. — Ele confessa me encarando, esperando minha reação. Arregalo
os olhos e me sento.
— Não me olhe assim — exclama já rindo — Era bom. Tínhamos as festas e deixávamos rolar.
Todos ali estavam cientes do que estava acontecendo.
— Ela era sua namorada? — Indago sobre a companheira que ele levava.
— Sim. E eu era o mais cobiçado das noites. — Com um ar esnobe ele declara.
— Ridículo. — Abano os cabelos rindo dele — Não deu mais?
— Não. A esposa de um dos membros se apaixonou por mim.
— Nossa! Que trágico.
— É. Eu fui banido. Agora me conte um segredo seu.
— Ah…! Eu fico querendo ouvir suas histórias.
— De jeito nenhum. É sua vez.
— Tá. — Penso um pouco, bebo mais, olhando para cima. — Eu nunca assisti a um filme pornô.
— Revelo voltando a atenção para Alec.
— Sério? — Alec berra rindo.
— Sim. Já li romances eróticos, mas nunca um filme.
— Eu tenho alguns. Vou escolher um bem baunilha e mandar para seu e-mail.
— Eu gostaria. Depois de ter dormido com homens mascarados, por que não assistir filmes?
— Tem razão. Mais? — ele oferece mais champanhe. Estendo meu copo aceitando.
— Agora é sua vez. Conte alguma coisa. — peço.
— Não. Esse segredo seu não valeu. Quero ouvir algo bem cabeludo.
Assinto e fico olhando séria para ele. Algo me vem a mente, mordo o lábio pensativa.
— Sabe o Joaquim Mafra? — Coloco uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Sim. — Ele fica sério também, acho que prevendo que vou falar algo importante.
— Passei grande parte da minha vida apaixonada por ele. — Confesso e Alec fica abalando por
milésimos de segundos. Deixou isso escapar em seus olhos.
— Ainda é? — é notável o interesse dele.
— Não mais quer dizer… eu desejo não ser mais. — Eu tento me convencer. Afinal Joaquim
ainda me balança horrores. Mais do que eu espero. — As pessoas crescem, Alec. Quin não me vê
como uma mulher, ele me trata como se fosse sua irmã. Ele não tem atração alguma por mim e acho
que nunca vai ter.
Ficamos calados. Depois Alec abre a boca, eu noto que ele quer contrapor, mas acaba deixando
pra lá e bebendo um gole de champanhe.
— Não lamente isso, Elena. — ele fala enfim, de cabeça baixa, um murmúrio — ele é um
estúpido. Mafra não merece alguém como você.
— Está tudo bem, não fique contra ele. Eu nunca disse diretamente que gostei dele.
— Por isso a causa desses encontros? Dessa coisa dos doze? Quer provar algo a esse cara?
Quando ele fala isso, sinto meu coração falhar e só então meus olhos se abrem para a realidade.
Olho para Alec e tento sorrir ou negar, mas o que faço é ficar mais abalada.
Eu não disse nada a Alec, entretanto, por dentro eu só afirmei o que já sabia há muito tempo.
Não estou em busca de liberdade transando com esses caras. Estou só tentando provar a mim mesmo
que Joaquim não me interessa mais.
Quando acordei, já era dia. Conversamos e bebemos até eu cair no sono. Não houve sexo e eu
me arrependi de não ter feito. Mas foi um domingo memorável. Eu estava deitada, de roupa na cama
dele, abraçada a ele. Nem vi Alec me levando para a cama.
Quando Alec me deixou as sete em ponto em frente ao prédio de Quin eu me senti leve e pela
primeira vez atraída de verdade. Nem toda a delícia do sexo com Erasmo conseguiu vencer o ótimo
dia com Alec.
A casa estava silenciosa quando entrei. Mas acreditei que Joaquim já deveria estar acordado,
afinal já eram sete. Acabei dormindo demais na casa do Alec. Fui para o quarto, tirei a roupa
enquanto corria para o banheiro. Tomei uma rápida ducha, vesti um vestido as pressas, amarrei os
cabelos e sai correndo para a cozinha. Tentando dar a impressão de que tinha acabado de acordar.
Sei que Joaquim não é besta. Ele deve ter percebido que desapareci o dia todo e que a noite eu
não estava aqui e nem na casa de Edgar. Deve ter ficado com a pulga atrás da orelha mas ele já sabe
que eu estou saindo com uns caras, então não preciso me preocupar.
Ontem de manhã conversamos sobre isso. Eu falei dos dotes dos homens e Quin agiu com
naturalidade, sem falar que ele nem tem por que falar nada. Não é nada meu.
Termino o preparo do café e falando com Celeste no celular, começo a preparar dois
sanduíches. Sei que Joaquim adora sanduíche prensado.
— Ai amiga, eu sei. Podia ter aproveitado. Mas de qualquer forma foi ótimo. — Falo. Contei
brevemente a ela tudo que aconteceu. As imagens do passeio e da nossa noite estão dançando lindas
na minha mente.
— Mas ainda vai ter a noite de sexo? — Celeste quer saber. O celular está preso entre o ouvido e
o ombro.
— Claro. Marcamos para nos encontrar de novo amanhã a noite.
— Safada. — Ela grita rindo — Pode ficar preparada, tem que relaxar, ele pode ser o escolhido.
— Sim. Com certeza. — Espalho fatias de peito de peru e queijo cheddar em cada pão já
lambuzado de creme cheese. — A noite com Alec foi maravilhosa e minha expectativa está a mil com
esse novo encontro. — Pego o pote de picles na geladeira e quando me viro dou um grito e deixo o
celular e o pote cair. Joaquim está parado na porta da cozinha me olhando.
Abaixo rápido, pego o celular.
— Celeste, te ligo daqui a pouco.
— O que foi Elena? Uma barata?
— Não. Te ligo daqui a pouco. — Desligo e olho para ele. — Quin, estou preparando um
sanduíche. — Joaquim não se mexe. Já está arrumado e me olha como se eu fosse uma bandida
invadindo a casa dele. Pego o pote que por milagre não quebrou. — Olha só! Não quebrou. — Grito
rindo, mas ele continua muito carrancudo.
— Seu irmão sabe que passou a noite fora? — Ele indaga. É quase um rosnado.
Paro de sorrir e engulo em seco.
— Eu não passei a noite… — tento negar, mas ele me interrompe ferozmente: — Acha que sou
sonso como você? — Além da raiva há muito sarcasmo sádico em seus olhos — Você é uma
tremenda hipócrita, Elena. — Ele cospe as palavras rudes na minha cara e simplesmente vira as costas
e sai. Eu fico boquiaberta sem saber o que está acontecendo.
Como é que é? Ele vai falar isso e sair do nada? Sem explicar por que está agindo assim, sendo
que já sabe que essa não é a primeira noite que passo fora de casa. Saio correndo e o alcanço na sala,
perto do portão.
— Por que está agindo assim? Você não tem anda com minha vida. — grito quase histérica.
— Você transou com alguém? — Ele se vira já perguntando.
— Sim. Transei. — Furiosa eu minto, vejo algo como dor e ódio brilhar rápido nos olhos dele.
— E daí? Não pode fazer nada.
— Com certeza não posso. Você não seria tão deslavada se fosse alguma coisa minha. — Ele
mais uma vez me ofende e sai. E dessa vez eu não corro atrás dele. Fico recostada na parede com o
som da porta que ele bateu, ainda ecoando na minha cabeça.
Mas que droga! Caminho devagar e desabo no sofá tentando compreender esse ataque grosseiro
de Joaquim. Algo cutuca minha bunda e eu passo a mão por baixo verificando o que é.
Agora sim estou assustada, perplexa. Olho o pacotinho de preservativo.
Existem milhões por aí. No Brasil, os postos de saúde oferecem de graça. É muito barato e está
ao alcance de todos. Porém, há os diferentes, alguns mais caros, outros personalizados.
Comprei os meus em um sexy shop. Os pacotinhos são rosa e com o nome do sexy shop e a
marca da camisinha.
Qual a chance de Joaquim ir ao mesmo sexy shop comprar preservativos e escolher justamente a
essa cor, sendo que lá tinha varias outras cores?
Qual a chance de Joaquim ir a um sexy shop?
Aperto o pacotinho na mão, olhando sem piscar para a frente.
Alguma mulher veio ontem aqui e ela trouxe. — Minha consciência elabora essa resposta. É meu
único chute, afinal, se esse é um dos meus, o que ele estaria fazendo no sofá do Joaquim?
QUATORZE

JOAQUIM

Estou com uma carga acumulada há dias. Nunca fiquei tanto sem transar. E tudo devo a Elena
que chegou na minha vida virando tudo de pernas para o ar e deixando meu saco com mais ou menos
meio litro de leite acumulado. E agora estou cego de ódio. Ouvi quando ela falava com Celeste, sei
quem foi o desgraçado.
Quem acha que ontem eu estava no limite, se enganou. Hoje eu estou afogado em pura raiva
maciça. Chris não é nada perante o que sinto por Alec, minha vontade de matá-lo lentamente faz meu
sangue correr gelado nas veias.
Ninguém achou que eu deixaria essa história passar em branco não é? Sou homem, e caso não
saibam, homens não gostam que mexam em seus carros e em suas mulheres. E aquele desgraçado
tocou em Elena. O pior erro da vida insignificante dele.
O prédio que Alec mora fica na minha rua, um pouco mais afastado. Não tem porteiro, tem
interfone. Já pesquisei o endereço dele e quando desço do carro bato o dedo no botão 306; um toque
ininterrupto.
— Mais que porra! — Ouço Alec murmurar antes. — Oi.
— Sou eu, Mafra. Abre aí.
Faz uma pausa. Posso ouvir a respiração dele. Depois o portão se abre.
Subi os quatro lances de escada num pulo. Ele mora no segundo andar. De punho fechado, dou
dois breves murros na porta ignorando a campainha; a porta se abre e Alec me olha nenhum pouco
arrogante. Subalterno, como deve ser. Está vestido com o macacão cinza, pronto para trabalhar. Entro
sem pedir licença. Ele fecha a porta.
— Quin. O que faz aqui tão cedo?
— Você sabe Alec. — Ficamos frente a frente. — Não acha que me deve explicações?
— Não vejo como. — Ele se faz de desentendido.
— Não vê como. — Ironizo dando até um sorriso. — Você ao menos leu o contrato ou também
não viu como?
— Joaquim, se estiver falando sobre eu e Elena, saiba que eu cumpri o que havíamos
combinado. Peguei Elena, fomos a um encontro e…
— Você comeu ela?
— O que…?
— Não me faça perguntar de novo, minha raiva cresce cada vez mais.
— Por que se importa? Elena não merece ser enganada…
— Você não é ninguém para decidir isso! — Berro tão alto que sinto minhas veias saltarem no
pescoço.
— E quem é você para decidir com quem ela transa ou não? — Ele grita também no mesmo tom.
— Acha que pode…
— Não acho! EU POSSO! — Grito indo para cima dele. Seguro Alec pela gola jogando-o
contra a parede. Todos os caras, os doze, são do meu tamanho, e mais ou menos do meu corpo. Eu
escolhi assim, já que antes de tudo, meu plano B, consistia em me infiltrar nos encontros e Elena não
poderia perceber. Entretanto, não tive medo do Chris e nem tenho medo do Alec. Vou colocar cada
um deles em seu devido lugar. — Você tocou em Elena? — torno a perguntar. Agora rosnando, entre
os dentes. Ele ri. Ri da minha cara antes de dizer: — Sim. Eu toquei nela. A gente passou a noite toda
trepando. Aqui no sofá, na minha cama, na cozinha. Aquela boceta nunca mais será a mesma depois
do meu pau.
Eu solto ele. Sinto meus olhos brilharem de ira. Meu corpo todo treme, meu coração bate a mil;
sei que ele está ávido aos meus gestos. Sei que ele está pronto para se defender se eu tentar agredi-lo.
Mas Alec não contava com minha destreza, e meus constantes treinamentos na academia. Além é
claro de ser um exímio jogador de rúgbi.
Faço tudo muito rápido. Primeiro uma menção de soco de direita, ele defende como eu previ e
deixa o outro lado livre. Usando toda força do outro braço, acerto um certeiro nas costelas dele, Alec
foi pego no susto se curva brevemente mas já o acerto com uma sessão rápida de um soco no queixo
e uma joelhada no estômago, ele cai no chão e eu dou dois chutes seguidos nas costelas e estômago.
— Filho da puta. — Xingo ele, mas não espero quando ele rapidamente roda no chão, e dá uma
chave de pernas nos meus tornozelos me derrubando. Bato as costas com força no chão e ele vem
para cima de mim. Desfere um soco no meu rosto, vem com o próximo e eu o paro; forço uma
cotovelada, e o agarro-o como faço com os caras no campo de rúgbi e forço-o para tentar bater as
costas dele no chão.
Estamos presos, ele segura forte meu braço e eu consigo dar um mata leão. É quase um MMA.
Não sei como ele se solta, se põe de pé. O lábio sangra, eu também fico de pé e como se desse a
largada começamos a trocar socos, o cara é grande, mas não é dois. Dou mais um chute no estômago
dele, Alec cai contra sua estante e suas coisas desabam. Uso esse momento pra cair dentro matando,
sem dó. Acerto em cheio mais uma vez a cara dele e uma sessão de soco nas costelas que já bati antes.
Ele reage, me dá também uma série de socos no rosto me deixando tonto. Acabamos nós dois
jogados no chão, ofegantes e doloridos.
— Não se aproxime mais dela. – me arrasto, levanto e o ergo pelo colarinho. Alec se debate. —
diz que me entendeu Alec.
— Miserável. — Ele rosna.
— Se eu sonhar que você olhou para Elena, você já era. Uns caras vão fazer uma visitinha a
você.
Fico de pé, ajeito minha roupa.
— Covarde. — Ele se arrasta e recosta perto do sofá. — Precisa de capangas para brigar por
você? Não tem culhões?
— Você não vai ter culhões se olhar para Elena de novo. É nisso que os caras são especializados.
O desgraçado me acertou em cheio. Olho meu rosto no retrovisor do carro e limpo o sangue do
corte, antes de dar a partida. Vou imediatamente para casa, ver se ainda consigo pegar Elena lá.
Eu me excedi com ela. Não devia tê-la tratado assim, afinal o maior culpado disso tudo é o
merda do Alec. Eu devia continuar com meu jogo de boa vizinhança, começar a encanta-la, começar
a conquistar Elena para que quando tudo viesse a tona ela não sentisse tanto.
Agora o que temos? Nada. Eu e ela não temos nada como base que possa sustentar uma possível
catástrofe.
E para completar, o desgraçado tinha que dormir com ela.
Ao pensar nisso, dou vários socos no volante, possesso de tanta fúria. Eu não devia ter
descontado nela. Agora tenho que suar para conseguir consertar tudo. Sem falar nesses fracassados
que estão começando a se unir contra mim. Primeiro o Chris, agora o Alec.
Olho de relance no relógio e vejo que já são oito e meia da manhã. Elena deve estar em casa
ainda.
Dessa vez não optei pela escada, já que moro na cobertura e não no segundo andar como Alec.
Estou com mil coisas na mente, doido para me desculpar com ela. Elena me ama, ela vai me
desculpar pelo modo como agi. Depois seguirei em frente, no dia do show eu dou o bote.
Abro a porta. Elena não está na sala. Mas ainda está em casa. Vejo uma mala pequena perto do
sofá.
— Elena. — chamo. Vou adentrando, indo em direção ao quarto que ela está hospedada. —
Elena…! — chamo mais uma vez. E ela aparece na porta do quarto me olhando curiosa.
— Olha Joaquim se veio me… — ela para de falar, mas para quando olha para meu rosto. — O
que houve com você? Há um corte acima do seu olho.
— Acerto de contas. Posso dizer que o cara ficou pior que eu.
— Joaquim! Estava brigando? Como adolescente? — Elena está perplexa.
Olho para dentro do quarto e vejo as coisas dela arrumadas.
— Para onde está indo?
Elena olha também para as coisas arrumadas, ela anda para dentro do quarto, eu a sigo. Ela vai
ao banheiro e volta com uma caixinha branca.
— Sente-se aí. Deixe-me limpar isso.
— Não precisa. — Nego instantaneamente.
— Sou enfermeira, pode confiar. Sente-se.
Me sento na cama, ela abre a caixinha e começa a escolher umas coisas. Ela pega um pacotinho
limpo de gaze, abre e escolhe duas, embebeda em soro fisiológico e começa a passar no ferimento
feito pelo punho de Alec.
— Você não vai embora. — Eu aviso franzindo a cara por causa da pequena dor.
— Eu ganhei nome de hipócrita e deslavada. Não vou continuar aqui. — ela faz um olhar
apurado para minha ferida. Depois toca o canto do meu lábio. — A briga foi feia. Por que brigou? Ou
melhor, com quem brigou?
— Para com isso. — Tento me levantar já desconfortável com a situação de ela querer ir
embora.
— Quieto. — Ela me faz ficar sentado.
— Eu estava nervoso quando disse aquelas coisas… — começo a me desculpas mas ela
interrompe com uma coisa nada a ver: — Acho que não precisa de ponto. Vou colocar um band aid.
Espero calado ela terminar. Depois Elena sai dizendo para eu não me mover, e volta com
algumas pedras de gelo em um pano.
— Pressione isso contra a boca.
Seguro o gelo contra o lábio.
— Alterne entre o lábio e o olho.
Faço o que ela pede.
— Encontrei um preservativo no sofá. Recebeu alguém? — Ela fala como se não importasse,
banalmente. Nem mesmo olha para mim, como se fosse um assunto casual.
Eu me toco de imediato. Puta que pariu! Esqueci da camisinha. Sei que ela pode ter reconhecido
e está querendo sondar. É hora de improvisar.
— O Chris. Ele apareceu aqui outro dia e suponho que tenha caído do bolso dele. Nunca vi
daquele tipo antes. Parece até coisa de veado. Sempre desconfiei do Chris.
Elena dá uma risada. Noto pela expressão aliviada dela, que aceitou minha explicação. Ela se
levanta.
— Estou falando sério. Não quero que vá embora. — Torno a tocar no assunto.
Ela arruma as coisas do curativo, leva a caixinha de volta para o banheiro e quando volta se
recosta, de pé, na cômoda, de braços cruzados.
— Quer me explicar que loucura toda foi aquela? — Elena pede, provavelmente se referindo ao
meu surto pouco antes, mais cedo.
Me recuso a encara-la. Fico de olho em uma manchinha no assoalho.
— Me desculpe, fiquei nervoso por você ter… passado a noite com outro cara.
— Não estou falando disso Quin. Acho que já deu. Depois que você saiu, eu pensei em todo tipo
de suposição, mas depois de analisar seu comportamento em relação a mim, só tenho algo a te
perguntar.
Olho enfim para ela. Elena está me encarando seriamente.
— Você sente algo por mim? Você quer uma relação amorosa ou simplesmente sexual comigo?
Droga! Pressionado. Agora ferrou. Se eu não assumir agora, não vou mais ter o direito de tentar
controla-la.
— Responde Joaquim. — Elena fala em um tom mais alto. — Que droga é essa? Nem meu
irmão está se importando com minha vida, eu não estou aguentando mais sua marcação cerrada. Quer
alguma coisa comigo? Quer transar comigo, ou me beijar ou sei lá o que? Responde. Por que se você
disser que não, então não tem o direito de ficar regulando meus passos.
Elena solta o ar pela boca, como se estivesse aliviando, colocou tudo pra fora.
Caramba, nunca achei que esse momento chegaria, mas estamos aqui, cara a cara, não há mais
por que esconder.
— Sim. Eu quero você. — compenetrado, confesso e ela fica brevemente muito abalada. Ficou
lívida, de olhos saltados, lábios semiabertos.
Mas agora estou cortando prego. Estou na beira do abismo, pois se Elena resolver corresponder,
ela vai perceber tudo. Tenho pra mim que no momento que ela me beijar, vai saber que nunca transou
com Erasmo, Brian e Chris. Entretanto, todos nós sabemos o meu poder de persuasão. Assim que ela
descobrir, farei com que ela deixe esse assunto pra lá e começaremos um romance de cara limpa.
Ela caminha devagar e senta ao meu lado. Está de cabeça baixa.
— Se tivesse me falado antes… — é quase um balbuciar. Olho para ela e Elena limpa uma
lágrima. — Eu passei por tanta coisa Quin… medo, tristeza… não gostei de te ver com aquelas…
mulheres…queria tanto que tivesse falado antes.
— Elena…
— Não, espere. — ela me interrompe e me olha chorosa — eu preciso te contar. Me desculpe,
eu… fiz uma coisa… eu tenho uma lista de doze homens para sair com eles, e transar com cada um.
Mordo meu lábio dolorido apenas escutando. Sinto o sangue ecoar na cabeça.
— Não vai falar nada? — ela indaga, fiquei tão surpreso com a confissão que nem encenei uma
situação que ela esperaria do intenso Joaquim.
— Sim, quero saber por que fez uma loucura dessas. — Na verdade quero mesmo saber o que a
levou a fazer isso.
— A princípio foi uma ideia louca de Celeste, para que eu experimentasse um homem de cada
signo.
É, disso eu já sabia. — Penso.
— Mas que porra! — Exclamo como se não soubesse.
— É, eu sei. Eu pensei que fazendo isso, assinaria minha independência. Você sabe como passei
minha vida sendo controlada.
— Elena, você não precisa de homem para mostrar sua independência. Não precisava fazer isso.
— Por que não jogou a real para mim quando fui sair com o primeiro cara? Eu fiquei torcendo
para que você dissesse que queria alguma coisa comigo…
Droga. Acabou, vou jogar as cartas na mesa.
— Elena, eu também preciso te contar uma coisa…
— Você não está bravo comigo?
— Eu…
— Eu dormi com outros caras. Esse da noite passada não foi o primeiro. — Ela me olha
atentamente, acho que buscando a explosão de hoje cedo. Não demonstro reação, balanço a cabeça.
— É eu sei.
— Não conte nada para meu irmão…
— Não vou contar. — Afirmo.
— Então você… me perdoa por ter agido assim?
— Eu… sim… claro que sim.
Nos calamos. Estamos parados, nos olhando, bem perto. Ela levanta a mão e toca meu rosto;
afasta de imediato. Depois desce o olhar pelo meu corpo e toca no meu antebraço.
— Muitas mulheres se encantam com bíceps, peitoral. O seu é perfeito, não vou negar, mas eu
sempre gostei de olhar essa parte. — Os dedos suaves de Elena fazem uma carícia e desce para minha
mão. Os olhos dela voltam a encontrar os meus e ela pousa a mão na minha. Nossos dedos se
entrelaçam. — Me beije Joaquim. — ela pede e eu engulo seco.
Tá, eu sei que fui um pouquinho inconsequente, mas bem que podia receber uma ajuda divina
agora e Elena não perceber nada quando me beijar.
— Venha aqui. — Puxo-a e grudo meus lábios nos dela. Não lembro exatamente como eu a
beijei me fazendo passar por Erasmo, mas tento fazer diferente, começo superficial, provando sem
devorar, sentindo primeiramente cada parte da boca dela; ela me abraça, e solta um gemido de alívio.
Meu tesão está a mil e me deixo levar. Senti muita saudade da boca dela. Os lábios bem macios, o
gosto quente e adocicado. Para um homem como eu, sentir o pau estourar as calças por causa de um
beijo, é por que a coisa é foda pra cacete.
Sinto a mão dela atrás na minha nuca, mergulhada nos meus cabelos de trás, e então ela para. Se
afasta e me olha. Não diz nada.
Puxo-a de volta, na intenção de não dar tempo para ela raciocinar, agora ela está no meu colo, se
esfregando na minha mala dura. Elena afaga meus cabelos, me beijando ferozmente, depois suas
mãos descem pelos meus braços e agora é como se ela investigasse. Ela aperta meus músculos e se
afasta de novo. Agora ela dá um pulo e fica de pé me olhando intrigada.
— O que foi? — pergunto, ainda sem querer contar a verdade.
— Não sei… o que está acontecendo…?
— Elena…! — tento puxa-la de volta para meu colo.
Ela puxa a mão e fica pensando, me olhando séria. Sem eu esperar, ela vem para perto de mim e
começa a desabotoar minha camisa.
— Elena. — tento para-la.
— Tire a camisa Joaquim. — pede ofegante.
Ela não espera eu decidir e já vai desabotoando depressa.
— Levante-se agora. — não é um tom de ordem, é mais um desespero, puramente chocada.
— Elena… não estou entendendo.
— Eu que não estou entendendo. Levante-se.
Faço o que ela pede. Quando estou de pé, Elena arranca minha camisa, e fica me olhando. Tampa
a boca e faz uma expressão de choro. O dedo temeroso encosta na minha tatuagem de escorpião e ela
começa a contornar o desenho. Ele começa na virilha e sobe para a lateral, nas minhas costelas. Elena
dá um passo, fecha os olhos e me abraça. Começa a passar a mão pelo meu corpo, sentindo cada
pedacinho, sente os braços, meu peito, não só com a mão, com o rosto também, como ela fez quando
transou comigo achando que era Erasmo. E depois já está em lágrimas. Está pasma e incrédula.
— Joaquim… que droga está acontecendo?
Pronto. Ela descobriu.
QUINZE

ELENA

Eu sempre achei que o dia que enfim beijasse Joaquim, eu veria explosão de fogos de artifícios.
Seria diferente de tudo que já provei, seria saboroso, intenso e ficaria sempre impregnado nos meus
lábios. Era o beijo que eu sonhei desde quando tinha dezesseis anos.
Mas do nada não era o Joaquim. O beijo não surtiu o efeito que eu esperava, por que era um
beijo que eu já conhecia. De olhos fechados, abraçando-o, sentido seus lábios me provocando,
sentindo seus músculos me apertando, era como se eu estivesse com Erasmo.
E agora, estou aqui, parada diante dele, com os olhos ardendo das lágrimas. Como eu pude ser
tão tola? Olha o tamanho dele, a textura dos cabelos, eu apalpei cada parte, e fechei os olhos e era
como se fosse o Erasmo.
Agora tudo vem a minha mente, respostas tão rápidas.
Não consigo ficar perto dele e saio correndo do quarto.
O preservativo.
A foto de Joaquim com Chris.
A tatuagem igual a de Erasmo.
O jeito como o sexo com Brian e Chris foi grosseiro e quase sempre de costas.
A pouca importância que Joaquim deu quando eu falei que dormi com os outros, mas surtou
quando eu disse ter dormido com Alec. E posso apostar que sei quem fez isso no rosto dele.
Corro desgovernada, vou para o fim do corredor e chego ao quarto dele. Ouço Joaquim me
chamar, mas não paro. Com a visão turva olho em volta. Nunca tinha entrado aqui. É um quarto
masculino enorme. Grande mesmo. Quarto de luxo, sem nada fora do lugar; passo pela enorme e alta
cama, e encontro o vasto armário com portas de vidro. Vejo as gavetas e começo puxa-las.
— Elena. — Joaquim está ao meu lado tentando me parar. Mas estou focada, empurro a mão dele
e encontro o que eu procurava. A gaveta das cuecas.
— Elena. Me escute, olhe para mim. — ele pede; não olho. Vou jogando as peças longe até ver,
lá no canto, o que eu procurava. Caio sentada já em prantos, com a testa descansando na madeira.
Nem precisei pegar para saber que eram as cuecas que eu escolhi e eu comprei para que os rapazes
usassem. Estão juntas, as três dobradas, como um troféu. Um troféu bizarro do jogo de Joaquim.
Sinto ele se agachar perto de mim e suas mãos em minhas costas e meus braços.
— Eu ia te contar. — Ele fala. — eu tive que fazer isso, você estava sem controle, é perigoso e
eu não me perdoaria se algo acontecesse com você. — a voz dele é mansa, quase um sussurro. — Me
perdoe Elena.
Ainda sentada, me viro para ele e recosto na porta do closet. Limpo as lagrimas.
— Quer dizer que… aquelas noites… era você?
Ele se ajoelha perto de mim.
— Desde que coloquei os olhos em você eu senti uma atração enorme. Eu tentei fazer você
entender que não podia ficar aqui. Eu queria que você fosse embora para que eu não caísse em
tentação.
— Isso não justifica! — Dou grito e me levanto. Joaquim se levanta também. — Foi Celeste? Ela
que te contou?
— Elena, vocês criaram um site parasita na minha rede. Acha que eu não descobriria? — Até
mesmo nesse momento ele não deixou de dar um sorrisinho presunçoso, como se quisesse dizer:
“Oi, sou Joaquim Mafra, acha mesmo que pode esconder algo de mim? ”.
Eu não consegui me controlar, não consegui suportar pensando o quão fui iludida, até
humilhada. Joaquim estava numa boa, continuando com sua vida enquanto ia a noite desfrutar da
minha burrice. Até nisso ele me controlou e por causa de toda essa traição, levanto minha mão e
acerto em cheio a cara dele. Não foi tapa de palma, foi com as costas da mão.
— Desgraçado!
— O que você queria que eu fizesse? — Ele explode gritando bem alto, roxo de raiva. — Você
estava querendo dar para doze caras que não conhece!
— Isso nunca foi da sua conta. — Devolvo no mesmo timbre.
— Sempre foi. Eu sempre quis você, quis estar com você e pensava numa maneira de encontrar
um caminho; até você cismar de se expor na internet para que qualquer criminoso possa ter alcance.
— Eles não são criminosos!
— Por que eu escolhi. — Joaquim vocifera batendo no peito — Eu solicitei e contratei cada um
dos caras. — Agora sim o soco no estômago foi definitivo. Mais lágrimas descem dos meus olhos;
estou aterrorizada. — Acha mesmo que eu iria deixar algo acontecer com você? — Ele fala baixinho,
com a voz trêmula. — Me dói pensar que outro cara tocou em você. Eu não estou arrependido de ter
intervido desde o início.
— E tinha que ser assim? Ir me tratar como um pedaço de carne, transar comigo sem eu saber
me tratando como uma put…
— Não! — Ele berra me interrompendo. — Nunca te tratei assim. Será que não vê o quanto isso
tudo foi imaturo?
— Conversasse, merda! Diálogo Joaquim.
— Com você? — ele dá uma risada nervosa — Eu tentei. Várias vezes tentei te alertar sobre sair
com desconhecidos. Se você tivesse me ouvido não teria tido nem a primeira noite.
Com as mãos dentro do meu cabelo, ando de lá para cá. Todos contratado por Quin. Inclusive
Alec que se fez de santo, o Chris. Todos. São apenas funcionários de Joaquim. Tenho vontade de ir
embora. Chorar no meu antigo apartamento, suar nos meus turnos noturnos e me matar de trabalhar
no hospital. Nada mais faz sentindo para mim aqui em Nova York.
— Por favor, não fique brava comigo. — ele pede tentando tocar em mim — eu quero tanto
você, vamos apagar tudo isso e começarmos como Joaquim e Elena. Só nós dois. Sem precisar de
contrato ou de…
— Acha mesmo que quero alguma coisa com você? — Dou uma olhada como se ele me
causasse asco. — Depois de tudo, estou enojada. — Falo e saio rápido do quarto dele. Pego minhas
coisas já prontas no quarto.
Com a visão turva, sem mais lágrimas, mas com o coração batendo na garganta, eu corro para a
porta, sem saber para onde ir, sem saber que rumo tomar. Eu só paro quando ele entra na minha
frente e me agarra forte.
— Elena, você precisa me escutar. – Me segura pelos ombros e eu desvio o olhar – Por favor,
droga, me deixe explicar.
Tento me afastar, sem falar, nada sai mesmo da garganta. Empurro-o mas Quin é alto e forte e
me mantém em seus braços. Estou imóvel como uma boneca de pano enquanto ele me abraça.
— Elena, eu errei, mas podemos conversar e resolver isso. Juntos.
E então eu desabo. Simplesmente não aguentei e o choro veio como um rio. Ele me aperta mais
forte, apertando meu rosto contra o peito. A pele dele quente é reconfortante, os músculos me
aninham e me recuso a aspirar o cheiro dele, o cheiro que sempre me deixou derretida.
Minhas mãos se fecharam com muita força segurando os braços dele e tudo que consigo sentir
nesse momento é raiva. Muito ódio de mim, de como eu fui burra, me sentindo traída, enganada, pela
pessoa que mais admirei, que desejei quase minha vida toda, a pessoa que sonhei em estar sempre ao
lado.
Sinto nele uma necessidade abrasiva de me confortar de se desculpar e de alguma forma apagar
tudo. Sinto desespero nas suas mãos trêmulas. Joaquim com emoções a flor da pele. Quem diria?
Nunca o vi dessa forma. Em desespero eu diria.
Não sei quando tempo ficamos assim, de pé, eu chorando e ele me acolhendo em seus braços. E
a cada vez que eu respirava e sentia o cheiro dele, eu ficava mais revoltada, relembrando de que
enquanto eu achava que estava sendo livre, não passava de uma marionete nas mãos de Quin. Como
sempre fui para e meus irmãos.
Ele continuou a vida dele, ele continuou me jogando coisas na cara, continuou dormindo com a
condessa enquanto me tratava como uma vadia a noite.
Sem ele esperar, sem nem eu mesma esperar, dou um empurrão tão forte que consigo me ver
livre. Ele me olha abalado.
De um jeito desleixado, limpo minhas lágrimas, meus dentes doem do tanto que estão trincados,
fecho tanto meus dedos num punho que minhas unhas começam a furar a pele das minhas palmas.
— O que você queria que eu fizesse poxa? — Ele fala alto batendo as mãos na cintura. — Tem
noção do que queria fazer? Transar com caras que você nem conhecia. — E lá vem ele de novo com
essa ladainha.
Não digo nada, continuo fuzilando-o com o olhar.
— Elena, eu estou aqui te pedindo para me perdoar, eu estou disposto a fazer o que quiser, eu só
quero que fique comigo, vamos nos dar uma chance, vamos fazer isso certo.
Ainda não falo nada. Eu acho que meu cérebro nem está processando o que ele diz. Ou melhor,
eu processei uma parte: “fique comigo.” — foi tudo que eu sempre quis escutar ele dizer. Desde os
meus dezesseis anos. E agora parece só uma piada.
— Eu tomo a frente de tudo, eu falo com seus irmãos. — Joaquim continua, achando que estou
ponderando sobre o que está falando e ganha força para se aproximar. Com a voz mansa e
manipuladora ele continua. — Não consigo pensar mais em outra mulher.
Abano a cabeça e luto para não chorar.
— Você sempre gostou de mim, eu sei, eu percebi. — Ele sussurra — A música no ipod, a
maneira como você me olhava, o abraço que me deu quando vim embora. Eu sei que você sente o
mesmo que eu sinto. Vamos deixar essas coisas para lá e…
— Saia da minha frente. — Consigo enfim dizer. Olho para o chão, vejo minha bolsa. Pego-a,
passo a alça no ombro e o encaro.
— Não fique brava comigo. Por favor, vamos conversar.
— Eu só preciso ficar longe de você. Me deixe passar.
— Elena, para de ser teimosa poxa. Pelo menos uma vez deixe a teimosia de lado e…
Pronto. Elena foi sedada e outra pessoa baixou em mim. Não vi a hora que surtei.
— Teimosa? – Grito a plenos pulmões. — Eu teimosa? Olha o que você me fez! Você passou
por cima do que eu sentia, você passou por cima dos meus medos e desejos, você me colocou mais
baixo do que uma vadia.
— Não… — ele tenta negar, mas hoje é dia de Joaquim Mafra ficar calado.
— Você não só me desrespeitou como atirou na lama o respeito que meus irmãos têm por você.
Toda minha família te venera e você me usou, você me manteve presa como uma cadelinha, enquanto
ria de mim, continuava sua vida, continuava com suas amantes e…
— Você não está apta a falar de respeito quando foi a primeira a desrespeitar todos nós. Você
sabia o apresso que sinto por você e ficava fazendo questão de jogar na minha cara que estava
ficando com vários homens.
— E o que você tem a ver com minha vida porra? Se quisesse alguma coisa comigo viesse me
falar na cara, batesse a real como uma pessoa normal, como um homem de caráter faria. Se quisesse
me ver longe dos caras, conversasse e eu pararia. — Limpo mais lágrimas, mas não dou pausa —
Porra Joaquim! Se dissesse que queria tentar algo, eu juro que teria parado, por que você sabe que
apesar de tudo foi o único homem que fui verdadeiramente apaixonada e pisou nisso, sabia da minha
paixão por você e não se importou.
— Por favor, me perdoe… podemos…
— Não podemos. Nada. Nada de plural que envolva eu e você Joaquim. O grande, o onipotente.
O poderoso bilionário que tem qualquer coisa ou qualquer uma. Com exceção da idiota aqui.
— Para de falar isso. O que temos é maior que…
— Para de me colocar no plural com você! Não temos nada porra! — Aponto um dedo para a
cara dele — E juro por Deus que se você me seguir, eu acabo com sua reputação de merda seu
desgraçado. — Saio correndo porta a fora, aperto o botão do elevador várias vezes e quando menos
espero, sou praticamente jogada contra a parede. Joaquim me agarra me espremendo entre seu corpo
forte e a parede.
— Não vou recuar. — Ele avisa; nada mais do homem se humilhando. Vejo agora algo como
dominação brilhar em seus olhos, o mesmo brilho que vi hoje cedo quando ele me confrontou. —
Estarei perto — ele promete, sibilando — não vou permitir que você faça qualquer loucura.
— Você não pode querer mandar em todo mundo. Você não vai mandar em mim Joaquim.
Afaste-se e me deixe passar. — Peço bem educadamente, ele se afasta e eu entro no elevador.
— Eu disse desde o início para não bater de frente comigo. — Joaquim simplesmente vira as
costas entra no apartamento e bate a porta, antes mesmo do elevador se fechar. Que cara atrevido!
Posso apostar que está quebrando as coisas da própria casa. Mas isso agora é problema dele.
Demorou poucos minutos para eu decidir que rumo tomar. Queria gritar, correr, me debulhar
em lágrimas. Mas apenas vi os prédios, e carros e pessoas passarem enquanto o táxi atravessava
Manhattan. Não vou para casa de Edgar, o casamento dele está perto e decido, para o bem de todos,
abafar o caso. Joaquim será padrinho de honra dele. Não vou estragar isso.
— Celeste.
— Oi Lena. — Ela atende animada.
— Joaquim sabe de tudo. — falo logo.
— O que? — Celeste grita — de tudo o que?
— Sobre os doze.
— Deus! Elena. Ai meu Deus, Edgar vai querer me matar. Ele vai contar para seu irmão?
— Não, não vai. Fique tranquila. Vou te contar tudo depois. Ele não descobriu agora, sabe de
tudo desde o início.
— Oi?
— Pois é. Eu estou indo para um hotel, depois te envio o endereço. Eu preciso muito ficar
sozinha.
— Claro. Vai ficar bem? Vocês brigaram?
— Não quero vê-lo na minha frente tão cedo.
Me despeço dela, desligo. Faço uma nova ligação e acabo decidindo não ir a um hotel. Desligo o
celular e arranco a bateria. Sei do que aquele traste é capaz. Não vou deixar ele rastrear meu celular.
Quando paro em frente ao prédio, pego minha pequena mala e subo após informar minha
presença. No elevador eu sinto o choro na garganta. Nem acho que foi tão grave assim. O que me
deixa mais revoltada é o sentimento de traição, de ser enganada sendo que podíamos estar juntos.
Minhas pernas fraquejam, meus olhos lacrimejaram e quando a porta abre eu desabo. As
lágrimas vieram com toda mágoa, minha garganta estava tampada e eu só conseguia soluçar.
— Elena…!
Eu o abracei tão forte, muito forte, como se o abraço pudesse limpar tudo, e tirar de alguma
forma minha dor. Não há nada pior que isso, me sentindo mais que traída, e pela pessoa que mais
venerei.
— Por favor… me deixe ficar. — Balbucio entre o choro. Os braços fortes me circundam e eu
enfio o rosto no peito largo.
(…)
Victor é a única pessoa que conheço aqui, na cidade, que podia nesse momento me acolher.
Depois que descobri tudo sobre as sacanagens de Joaquim, foi o único lugar em mente que eu tive.
Ele ficou assustado quando me viu naquela situação, mas não fez grandes questionários como
tenho certeza que Edgar faria. Sem falar que na casa de Edgar eu não teria meu próprio quarto, para
me isolar e chorar minhas dores.
Mas isso durou uma noite apenas. Na manhã seguinte eu já estava de pé, disposta a começar a
cuidar da minha vida.
Victor já estava de pé, na cozinha, preparando o café quando desci meio envergonhada.
— Oi. — Ele cumprimenta. — Melhor agora?
— Sim. Bem melhor.
— Sente-se. Café cura qualquer coisa. — Ele se apressa em me servir uma caneca de café.
— Adorei sua casa. Obrigada por ter me deixado ficar.
— Você é sempre bem vinda. Quer me contar o que houve?
— Homens. — Digo por alto revirando os olhos. Ele sorri.
— Bom, nada melhor que um cara para curar outro. Não é assim que dizem?
Sei o que ele está sugerindo. Dou um sorriso trocando um olhar cúmplice com Victor. Ele se
senta comigo para tomar café. Será que está passando uma cantada em mim? Eu tenho o que? Mel
pelo corpo? Victor é um homem deslumbrante. Lindo demais. Seria um escândalo começar a ficar
com ele. Mas não vou usar o coitado só para colocar ciúmes em Joaquim.
— Estou querendo sair da casa de Edgar, eles perdem a intimidade, vão se casar e merecem
viver sozinhos. Sabe onde posso encontrar um apartamento legal?
— Aqui no prédio. Vou te levar a imobiliária e você faz a visita a um dos apartamentos.
— Ótimo. Posso ficar aqui até resolver esses problemas?
— Sim. — Ele fica algum tempo calado apenas me olhando.
— Pode perguntar. — Eu digo sabendo que ele tem uma pergunta.
— Quin e Edgar. Brigou com eles?
— Não. Você sabe como eles são controladores. Vão querer tomar conta de mim se me vir
assim.
— Verdade.
Victor demonstra que acreditou e eu o peço que mantenha sigilo. Eu liguei para Edgar e disse
que estava viajando como assistente. Só quero me enclausurar por uns três dias, para recobrar os
sentidos, depois do nocaute que recebi.
DEZESSEIS

ELENA

Perto o suficiente para iniciar uma guerra


Tudo o que eu tenho está no chão
Só Deus sabe o porquê de estarmos lutando
Tudo o que eu digo, você sempre diz mais

Eu não posso acompanhar as suas reviravoltas


Controlada por você, não consigo respirar
(Turning Tables – Adele)
Estou cantando. De cabeça levantada. A plateia lotada a minha frente. Foi um show de
emergência. Eu queria cantar e hoje, em plena quinta-feira, Lisandra Montenegro está de coração
sangrando cantando Adele.
Três dias. Foram três dias longe de todos. Nem mesmo com Celeste me encontrei. Não queria,
eu não podia me encontrar com ninguém. Foram os dias que precisei para me resetar. Para olhar no
espelho e ver que já não tenho mais dezesseis anos, liguei para Edgar e contei que estava em uma
conferência com Victor. Com meu irmão quero conversar tranquilamente, expondo minha nova eu.
Se há uma nova eu? Pode apostar. Já olhei um apartamento para eu alugar. Mais um contrato
para Lisandra chegou e quem disse que eu preciso de algum homem, sendo ele pai, irmão ou amigo
para sobreviver?
Logo me mudarei da casa de Victor. Fui para lá na segunda-feira. No início pensei em pegar um
avião e fugir para o Brasil. Eu seria apenas uma covarde se fizesse isso.
Naquela manhã, eu contei para ele que tinha brigado com um cara que eu estava saindo e não
queria que meu irmão me visse naquele estado, pedi a Victor para confirmar com Edgar que eu viajei
com a equipe dele.
Victor é um cara em um milhão. Não é só lindo de morrer, ele é atencioso, charmoso,
engraçado. E não escondeu em seus olhos que está interessado em mim. Agora sou uma nova mulher,
e talvez dar uma chance a ele, seja uma boa saída.
Quanto a Joaquim? Não para de me ligar. O celular está desligado, mas quando eu o ligo a noite
antes de dormir, tem várias e várias ligações e mensagens.
Algumas mensagens de voz me fazem chorar na calada da noite. Ele me implora para que eu o
perdoe e volte para a casa dele. Diz que está ferrado por dentro, sentindo uns trecos estranhos e fica
sem conseguir dormir. Promete mil coisas e depois fica bravo e fala que eu devia ao menos ter a
decência de respondê-lo.
Eu respondo com o silêncio.
“Eu não posso dar o que você pensa que você me deu
É hora de dizer adeus a essas reviravoltas
Reviravoltas…”

Termino de cantar e o pessoal aplude. Esssa foi a última música da noite. Saio do palco me
sentindo aliviada.
Assim que chego ao camarim me deparo com Celeste.
— Oi amiga.
— Oi. — Corro e a abraço.
— Victor me ligou dizendo para vir te ver. — Ela explica.
— Eu sei. — Arranco a máscara e a peruca.
— Joaquim está enlouquecido atrás de você. — Ela comunica. — Não me deixa mais em paz.
Está pronta para me contar tudo que aconteceu?
Antes de eu falar sim ou não a porta se abre, e quase desabo ao ver Joaquim. Em seguida Victor
chega correndo atrás dele. Ninguém fala nada, ele nem pisca olhando para mim. Passa os olhos pelo
meu corpo, pelo meu vestido volumoso e as luvas compridas.
— Eu sabia que seguir você, era a melhor escolha. — Ele fala para Celeste, olhando-a de
relance. Volta-se para mim com um olhar de vitorioso e predador. Algo que faria a velha Elena
tremer e temer, mas não a Lisandra Montenegro.
Estou prontinha para qualquer embate.
Tudo cai por terra. Celeste foi sonsa, ela não podia ter vindo diretamente para cá. Não com um
milionário enlouquecido dando uma de perseguidor. Joaquim está inconformado, ele não para de me
mandar mensagens e ligar.
— Celeste e Victor, podem, por favor, nos dar licença? — Quin pede, no seu tom mandão, de
olhar árido, fixado em mim, como se pudesse me perder de vista — Preciso conversar com Elena.
— Só se for outra Elena, não comigo. — Dou as costas para ele, ignorando-o, pego uma bolsa e
entro no banheiro. Lá dentro me olho no espelho e surpreendente não me encontro apática de olhos
arregalados. Estou bem. Estou incrivelmente bem. Mesmo que ele possa ter descoberto que eu sou a
Lisandra. E daí? Como ele mesmo diz: Caguei para a opinião alheia. Não é só uma hipótese, eu não
sou mesmo a mandada de antes.
Tiro todo o visual da Lisandra, visto minha roupa e saio do banheiro com os cabelos enrolados
num coque e sem maquiagem.
Joaquim está sozinho. Nada de Celeste e Victor.
— Cadê todo mundo? — Indago.
— Eles me obedeceram e deram um tempo para eu falar com você.
— Eles te obedeceram, eu não. — Pego minhas coisas e caminho para a porta. Mas como eu
devia saber, está fechada. Me viro para ele.
— Ok. Eu estou cansada e preciso ir para casa, pode abrir a porta?
Joaquim nem liga. Olha ao redor, mexe nas coisas sob a penteadeira, olha a porta que leva ao
corredor do palco e depois olha para mim.
— Mas que porra está acontecendo aqui?
— Isso não é da sua…
— É da minha conta sim. — o tom de voz dele aumenta — Isso tudo aqui é meu, esqueceu?
— Vá se danar Joaquim. Abra essa porta antes que eu tenha que ligar para a polícia e fazer o
maior escândalo, colocando seu nome na merda.
— Elena, se isso for o que estou pensando… você estará muito ferrada.
Dou uma risada cáustica. Ele fecha a cara.
— Tentando me colocar medo, Quin?
— Advertindo. Você ainda não me viu nervoso.
— E o que vai fazer estando nervoso? — Olho para a roupa dele. Tudo preto, até de jaqueta
preta. — Cometer um assassinato?
— Que droga é essa Elena? — ele berra. — Você está cantando, você é a tal…
— Ah Joaquim, não enche.
— Você é uma inconsequente Elena! — ele está transtornado, acho que ainda sem querer
acreditar que eu sou Lisandra. — Por que tem que fazer tudo errado? Não vê que está só…
— Já disse para não encher. Você não tem nada a ver com minha vida. Abra essa maldita porta.
— Grito bem alto.
— Onde você estava esses dias? — ele usa a tática de falar mais manso, dá um passo em minha
direção — Por que não quer falar comigo?
— Quer dizer que não sabe mesmo? Dando uma de sonso? Achei que eu era a única.
— Devia me agradecer por ter te protegido. — Ele sugere com um olhar tenaz.
— Cara, você contratou doze homens para me iludir, e se passou por três deles. —Tento
relembra-lo do que fez. Joaquim dá de ombros.
— E daí? Você estava lá para transar não era? Não fiz nada que você não quisesse. — E ainda
tem coragem de me olhar com essa cara zombeteira. Cínico.
— Abra a porta Joaquim. — grito histérica, preste a voa na jugular dele.
— Elena, vamos parar de conversinha mole. Você gosta de mim, você me quer, eu te quero.
Vamos começar um caso, quero transar com você, olho no olho. Da maneira certa.
Fosse dias atrás eu morreria apaixonada e pularia nos braços dele. Mas ainda estou com muito
rancor. Não dá. Me sento despreocupadamente, de pernas cruzadas e expressão esnobe.
— Sabe o Victor? Estou morando com ele. E começamos um caso. Sinto muito Joaquim, está
três dias atrasado. Estou comprometida no momento.
E como resposta vem uma sonora gargalhada. Ele se recosta e cruza os braços. Mas posso ver
que essa minha afirmação o deixou mais furioso ainda.
— Ficando com o fracassado do Victor e tentando ser uma cantora?
Arregalo os olhos para ele.
— Você não acreditaria que eu fosse tão tolo e não percebesse, não é? Que porra acha que está
fazendo? Você é a famosinha Lisandra Montenegro? Já está demitida.
Nesse instante Victor começa a bater na porta.
— Elena, temos que ir.
Me levanto, pego minhas coisas e encaro Joaquim.
— Não foi você que me contratou Joaquim.
— Essa merda é minha Elena. Está demitida e ponto. Não vou compactuar com essa loucura.
— Não existe só sua boate aqui. — grito tremendo de raiva.
— Mas sabe que eu sou poderoso o suficiente para não deixar que você cante em outras. Saia
daqui, volte para a casa do seu irmão. Não quero saber de você morando com Victor.
Dou uma risada cínica, como a dele.
— Querendo exigir alguma coisa? Quero ver você tentar.
— Estou tentando te proteger. Não trabalha mais nas minhas boates.
— É o que veremos, tenho o público ao meu favor, tenho ainda quatro caras lindos e gostosos
para me encontrar, tenho seu irmão maravilhoso que está disposto a me dar asilo e sexo se eu quiser.
— Encaro-o em tom de briga.
— Quer medir forças? — Vejo a raiva dançar nos olhos dele. Está puto da vida.
— Quero. — Levanto o nariz — Agora é uma questão de honra cantar. Nem que for sozinha
debaixo da ponte do Brooklin.
Ele balança a cabeça assentindo e me puxa num ímpeto, trombo contra o corpo dele, forte,
quente, cheiroso. Tento sair as pressas, mas acabo imobilizada e com a boca dele na minha. Joaquim
é bem alto e facilmente consegue me segurar e a boca toda já me devora com uma voracidade
excitante. Eu não quero estar entregue a ele e o que posso fazer é morde-lo. Ele se afasta rápido e
olho o lábio sangrando. Mas não fica bravo. Sorri.
Pega a chave no bolso e vai para a porta.
— Como eu suspeitava, nada mudou. — Ele destranca a porta e sem me olhar diz: — Espere
minha próxima jogada.
— Estarei ansiosa esperando.

Ok. Eu estou mesmo muito revoltada.


Se eu ainda gosto do Joaquim? Claro, muito. Essas coisas não desaparecem de uma hora para
outra, mesmo ele sendo um canalha, essa atração ainda está muito bem costurada no meu peito; a
coisa boa é que no momento a raiva prevalece, deixando esse sentimento por Joaquim, adormecido.
Eu poderia sim continuar os encontros com os outros caras. Vi como isso atingiu aquele cretino
do Joaquim. Eu já percebi qual é a dele: dominação, possessividade, deve ser mesmo um escorpiano.
Ele colocou na cabeça que eu sou dele, e morre doido ao pensar em outro cara me tocando.
Ele, de uma forma obsessiva, gosta de mim, Joaquim não é homem que precisa implorar ou
perseguir mulher. Se ele não estivesse afim, ele simplesmente me deixaria de lado.
Mas eu não quero ser uma trouxa e voltar para encontrar aqueles trastes que são todos
teleguiados Mafra. Eu não vou dar o gosto de Joaquim controlar meus próximos passos.
Será que ele ainda não se deu conta que precisa fazer mais que ameaçar uma mulher para
conquista-la? Até agora não vi ninguém se humilhando ou provando seu valor.
Eu digo a Celeste que irei na casa deles amanhã e contarei tudo. Victor deixa ela em casa e me
leva para a casa dele. Meu novo apartamento deve ficar pronto daqui uma semana. Bem na época que
estaremos no Brasil para o casamento.
— Joaquim parecia bem revoltado. — Victor comenta.
— Joaquim acha que é meu pai. Só preocupado por eu não ter dado notícias.
— Ele descobriu sobre Lisandra. Acha que você vai ter problema? — Victor indaga, me sento no
sofá, ele fica de pé me olhando.
— Eu queria saber isso de você Victor. Joaquim pode ser um problema?
— Que tipo de problema? — Após um semicerrar de olhos, Victor inclina o pescoço de lado,
sem entender.
— Ele pode interferir? Já que as boates são dele, ele pode me demitir certo?
— Não sem uma justa causa. Quin morre de medo de escândalos, ele não pode pegar um
processo se demitir alguém sem motivo.
— E isso seria um prato cheio para a mídia certo?
— Se a pessoa o delatasse a imprensa seria sim.
— O que poderia fazer com que ele me demitisse por justa causa?
— Joaquim quer te demitir? — Atencioso, e querendo saber mais do assunto, Victor se senta.
— Ele disse que cantar em boate não é para mim e que vai me demitir.
— Você teria que estar envolvida em um caso de assédio na empresa, ou ser acusada de algum
crime de desvio de dinheiro ou não cumprir as normas do contrato. Faltar ao trabalho, atrasar
sempre, não ajudar no andamento do ciclo da empresa.
— Mas eu não tenho possibilidade de nada disso. Eu só canto.
— No caso você teria que ser violenta ou desrespeitosa com o público. Algo que causasse mal
estar nas boates. — Ele constata sorrindo, demonstrando que sabe que isso é algo que eu jamais farei.
No momento, Victor me conhece mais que Joaquim. Aquele descarado.
— Então eu estou bem.
— É, pode ficar despreocupada.
Armada com essas afirmações de Victor eu vou dormir tranquila. Joaquim ligou para mim umas
três vezes, mas eu o ignorei e ele mandou uma mensagem.

“Não durma com Victor. Podemos resolver isso conversando.”

Vai achando que uma simples conversa vai me fazer esquecer o que aconteceu. Não respondo.
Decido agir como se não tivesse lido a mensagem.
Na manhã seguinte, vou cedo para a casa de Edgar. Preciso pegar todos no pique. Vou fazer um
pronunciamento e me preparei muito para isso.
O táxi para na porta do prédio, desço e caminho tranquila para o elevador até ouvir uma voz
praticamente do meu lado.
— Celular quebrado? — Olho e Joaquim está andando comigo. Reviro os olhos. Paro e aperto o
botão do elevador. Ignorar Mafra, meu mais novo foco.
— Você poderia ao menos escrever um “tudo bem” como resposta. É falta de educação não
responder as pessoas.
— Comigo não é falta de educação, é opção mesmo. — Olho para ele. Está arrumado para o
trabalho. Entramos no elevador e eu fico trêmula na expectativa. Se ele me pegar aqui já era. Decido
distraí-lo.
— Está me seguindo Joaquim? Levar o rótulo de stalker não deve ser bom para seus negócios.
— Se não sou eu para te proteger, quem vai fazer?
— Uma mulher com vinte e seis anos e que se chama Elena. Sei me proteger.
— Lisandra Montenegro. — Ele reflete. — Quem diria que seria você. Vi um vídeo ontem
depois que cheguei. Até que você tem talento.
— Obrigada.
— Não me agradeça. Vai ter que largar essa carreira.
— Se dane.
— A não ser que você deixe as mágoas no passado e volte a morar comigo. Minha cama é
enorme e estou louco para dividi-la com você. Se aceitar minha proposta eu não contarei ao Edgar o
que a irmãzinha dele está aprontando.
— Com ameaças você não vai conseguir nada. — Aviso, o elevador se abre e saímos.
Sabe que é ótimo Joaquim está aqui? É hoje que vou rasgar o verbo. Falar tudo que eu sempre
quis. É hoje que vou ver Edgar cuspir fogo. Eu não fiquei três dias com Victor apenas chorando no
travesseiro. Eu fui a luta, eu estou criando minha independência nessa cidade.
Joaquim acha que tem um trunfo contra mim, que eu vou tremer e implorar para ele não contar
nada. É hora de arrancar esse trunfo das mãos dele.
A porta se abre e Celeste olha curiosamente para nós dois. Ela fica intrigada olhando de um para
o outro e simplesmente afasta para a gente passar, sem perguntar nada.
— Já tem café pronto Celeste? — Pergunto enquanto ando, sabendo que ela está atrás de mim. E
como sei que Joaquim também está atrás, umas reboladinhas não faz mal.
— Sim. Venha, nos contar o que esteve aprontando.
Chegamos a cozinha e Edgar está lá sentado tomando café. Nem sinal da mãe de Celeste. Acho
que ainda dormindo.
— Elena! — Ele exclama atônito quando me vê. Vou até ele e o cumprimento com um beijo na
bochecha.
— Oi mano, sentiu saudades?
Ele olha Joaquim.
— Oi Quin. — Depois volta a atenção para mim. — Onde esteve todo esse tempo? Fiquei muito
preocupado.
— Estive com Victor. — Me sento e inevitavelmente Joaquim ocupa o lugar ao meu lado. Que
droga, ficamos parecendo um casal; chegando juntos, sentando juntos.
Celeste entrega canecas para nós dois e empurra uma garrafa térmica. Está nos olhando com
muita suspeita.
Eu sirvo para mim; Joaquim empurra de leve a caneca dele. Sutilmente pedindo que eu lhe sirva.
Eu tive criação refinada. Não vou jogar o café na cara dele. Sirvo o café.
— Estava em viagem com Victor? — Joaquim pergunta, dando uma de desentendido. Ele se
mostra um anjo na frente das pessoas, principalmente na frente de Edgar.
Não respondo. Minha resposta será agora. Vou revelar como será de agora para frente.
— Edgar, Victor está me ajudando a encontrar um apartamento para mim.
Espero meu irmão se situar. Ele olha seriamente para mim. Não deixo de olhar para Mafra e ele
está engasgado. Coisa boa de se ver.
— Porque precisa de um apartamento? Tem duas casas de pessoas conhecidas que pode ficar. —
Sabe quem disse isso? Adivinhe. Não foi meu irmão ou Celeste.
— Quin tem razão, Elena. Não é necessário você alugar apartamento, sendo que tem minha casa
e a dele. Sem falar que sua estadia em Nova York é temporária. Logo estará de volta ao Brasil.
— Quem te contou essa lorota? — Indago cinicamente. — Não estou com planos de voltar.
— Como não?
— Edgar, eu estou trabalhando. Eu consegui um emprego que eu gosto. — Faço uma pausa de
suspense, suspiro e conto tudo — Eu sou a nova cantora das boates do Joaquim, Lisandra
Montenegro. Ir embora, não está nos meus planos.
Edgar está inerte, Celeste abaixa a cabeça com medo de sobrar para ela e Joaquim sabe que
acaba de perder o trunfo. Ele não pode mais me chantagear.
— Você está louca Elena? — Edgar esbraveja. — Você sabia disso? — Ele se volta ao amigo de
infância. Joaquim, pálido e sem fala.
— Sim. Quin e Victor sabiam. — Eu o entrego de bandeja.
— Como pode aceitar isso Joaquim? Eu confiei em você para me ajudar com ela, como pode
contratar minha irmã para ser cantora de boate?
Briga entre os dois? Preciso de pipoca para assistir isso.
— Cara, ela deu um olé em todo mundo. Ninguém sabia que Lisandra era Elena. Descobri a
pouco. — Em uma reviravolta, Joaquim consegue tirar o dele da reta.
— Onde está com a cabeça de criar uma alucinação dessas Elena? — Edgar já está de pé furioso.
— Vai voltar para o Brasil amanhã mesmo. — ele ordena como o irmão mais velho que sempre foi.
Não me abalo. Termino meu café e o encaro.
— Vai me levar desacordada ao avião ou será um sequestro?
— Como? — Ele questiona sem entender.
— É a única forma de me tirar daqui querido irmão.
— Basta eu ligar para o papai e ele…
— Vai vir me buscar de cinto? — Completo a frase dele antes de terminar — Cara, se toque, eu
tenho vinte e seis anos, sou mulher, eu mando na minha vida.
— Elena isso é loucura, o que a nossa família vai pensar quando descobrir?
— Que se dane o que a família pensa Edgar. Estou pouco me lixando. Se você quiser ainda sua
irmã como madrinha do seu casamento, engula minha nova vida, minhas novas escolhas e fique
pianinho. Espere Celeste dar luz a uma menina para você mandar nela.
Olho para Joaquim ele está pasmo me encarando. Na verdade, o olhar dos três se parecem
muito. Estão surpresos.
— Gente, vocês três são as pessoas que mais amo. E espero que me apoiem. Já estou com vários
shows marcados, minha carreira está decolando e estou adorando muito tudo isso. Mas se não
apoiarem… só lamento.
— Não posso deixar você se enveredar nesse caminho Elena. — Edgar afirma ainda truculento.
Ele olha para Joaquim. — Estou me sentindo traído. Faça algo já.
Joaquim encontra o que precisava, uma aprovação para poder interferir na minha vida.
— Pode deixar Edgar. Vou…
— Você não vai nada, Joaquim. — Interfiro. — Victor conseguiu um visto de seis meses no meu
passaporte. Ele é um cidadão americano legítimo, assinou meu contrato e ainda o pedido de
permanência.
— Elena, eu acho que nesse momento, você está de cabeça quente e deveria ouvir seu irmão.
Queremos só o seu bem. — Joaquim intromete com sua voz de seda; fosse só eu e ele, estaria me
segurando e rosnando. — Talvez não seja boa coisa você continuar nessa vida noturna de…
— Joaquim, você tem uma vida tão agitada para dar conta. Cuide dela. — volto-me para Edgar.
— Nem ouse pedir a esse aqui que me demita. Não rola. Já procurei um advogado e precisa de um
motivo justo para a demissão. — Olho sorrindo para Joaquim. — E nosso querido amigo não vai
querer o nome dele em primeira página, metido no rolo com Lisandra. Não é Quin?
Vejam esse olhar. Edgar se sentou, vencido. Celeste sorri para mim; acho que querendo bater
palmas e Joaquim está com olhos em chamas. Ele me encara pronto para me arrastar e trancar no
primeiro quartinho que encontrar, como eles faziam quando eu tinha quinze anos.
Olha que bela visão, esse maxilar enrijecido, esses lábios em uma fina linha de raiva. Joaquim
está sem nenhuma carta que pode utilizar contra mim.
Olho para a caneca dele e noto o café intocável.
— Oh Quin, seu café esfriou. — Pego a caneca e me levanto. — Deixe que eu troco. — Jogo o
frio na pia e sirvo mais para ele.
— Ah Edgar, quero dizer que já tenho alguém para ir comigo ao seu casamento.
— Vai me dizer quem é ou será uma surpresa? — Ele responde de mal humor.
— Victor. — Anuncio e Celeste e Joaquim tossem ao mesmo tempo. Aproveito a deixa e mando
um recadinho do coração para o loirão perplexo: — Nós mulheres somos delicadas, somos
românticas e esperamos o máximo vindo de um cara que quer nos conquistar. Se ele não for sensível
e romântico, ao menos que tente. Ninguém trabalha sobre pressão, e incrivelmente, Victor sabe como
fazer uma mulher se sentir amada. — Dou uma piscadinha para Mafra, ele captou meu recado, posso
ver o brilho nos seus olhos. Os lábios dele se curvam levemente e acho que ele pegou isso como uma
segunda chance para tentar alguma coisa comigo. Deixe ele sonhar que será fácil.
Com minha independência conquistada, tendo um bom dinheiro no banco e um aliado como
Victor, não haverá outra escolha para Joaquim a não ser ceder e rastejar muito.
— Você e Victor estão tendo um caso? — Edgar engrossa a voz.
Me levanto e pego minha bolsa.
— Estamos nos conhecendo, Edgar. Ele é um cara legal. — Olho para Celeste. — Amiga, venha
comigo rapidinho, preciso conversar com você.
— Elena, não terminamos. — Edgar vocifera.
— Você está enganado maninho. Falo com você mais tarde. Venha Celeste.
Joaquim abaixa a cabeça e fica mexendo no celular. Celeste se levanta e meu irmão está com a
cara de bicho me encarando. Meu celular vibra e eu pego. Acabei de receber uma mensagem de Quin.
Olho para ele e o safado finge que não teve nada a ver com isso.
Toco em ler.

“Conseguiu uma bela carta de alforria hein? Parabéns, meu tesão por você triplicou. ”

Arf! Idiota. Saio da cozinha com Celeste deixando os dois se virar por lá.
DEZESSETE

JOAQUIM

Tamborilo os dedos na mesa olhando fixamente, usando meu olhar de dar medo, para os doze
homens parados a minha frente. Todos vieram. Até mesmo Alec e Chris que me olham com
petulância.
— Obrigado por ter vindo senhores. — Me levanto. – Seis de vocês, cumpriram o contrato
rigorosamente, mesmo com algumas rebeldias não é senhor Hamilton? — Olho de relance para
Chris e ele apenas concorda com um levantar de ombros. — Você sabe que já estamos quites. Seu
pagamento já foi depositado. Eu chamei vocês aqui, porque o jogo mudou, e tudo por culpa do Alec.
— acuso olhando feio para ele.
— Minha culpa? Você faz a merda e a culpa é minha?
— Sim. Depois que Elena esteve com você, tudo mudou.
— Você deveria definir prioridades Joaquim. Acha mesmo que pode ir empurrando tudo com a
barriga?
— Maddox, eu não chamei você aqui para discutimos sobre o que é bom ou não. Você entrou
nessa sabendo que não podia tocar nela.
— Alec pegou Elena? — Brian quer saber. Todos os outros olham para ele.
— Tivemos uma noite. — Alec revela orgulhoso. Eu vou para cima dele pronto para amassar a
cara do desgraçado, mas três deles entram no meu caminho e me segura.
— Ok, me solte. — Eu falo e eles me soltam. Ajeito meu terno; Alec não fala mais nada está de
cara feia, acho que esperando a briga. — Não me queira como seu inimigo Alec. — alerto-o, vou
para a mesa e aperto o interfone para falar com minha secretária.
— Ava, veja se Elena já chegou no andar do Victor. Se já chegou, peça para vir a minha sala.
— Sim senhor.
Pois é. Antes dos rapazes chegarem eu liguei seriamente para Elena e pedi que ela viesse para a
empresa que precisamos conversar. O que quero com isso? Que ela me veja com eles e tome raiva de
cada um, sabendo que é tudo farinha do mesmo saco.
Olho de volta para os rapazes.
— Então amigos, eu os chamei aqui porque Elena descobriu tudo.
— Descobriu? — Uns quatro falam ao mesmo tempo. Cada um exibe uma expressão perplexa.
— Como? — Chris já está com um sorriso de idiota. — Iluminação divina?
Eles riem e eu faço sinal para que calem e me escutem.
— Houveram várias coisas. — Começo a narrar — Durante o sexo no dia do Erasmo eu a beijei,
daí dias atrás eu a beijei de novo, como Joaquim, e ela percebeu. Ela viu um dos preservativos no
meu sofá, viu as cuecas na minha gaveta e pronto; fui aniquilado.
— Então agora ela sabe que não fui eu que a tratei mal naquela noite. — Brian fala aliviado.
— É. Também estou aliviado. — Chris concorda.
— Não fiquem achando que ela acha vocês os mocinhos. Eu chamei vocês porque eu estou quase
certo que Elena vai querer mostrar que é a poderosa independente e vai querer continuar com os
encontros só para me ferir.
— E ela vai conseguir te ferir assim? — um deles indaga com cara de besta.
— Lógico né porra! Não quero que esse tanto de marmanjo toque nela. Vocês sendo homens
sabem do que estou falando.
— Então vai barganhar com a gente?
— Sim. — pego uma pasta em cima da mesa, e começo a entregar um papel a cada um —
Chamei vocês aqui para negociar um novo contrato. Vão ganhar o que já está definido, e uma nova
quantia, o que acham?
Ficam uns segundos calados, lendo o papel. Alec não parece ler. Olha para mim ainda sem
perder a pose.
— E se não aceitarmos? — Alec, o merda máster, provoca.
— Cara, você já fez cagada demais, teria que ser o primeiro a aceitar, para se redimir comigo.
Sem falar que ficaria sem a grana.
Ele assente, está me encarando e agora parece a porra de um promotor.
— Elena se sentiu muito bem comigo. Fizemos coisas normais que ela espera de um cara.
— Não quero saber. — Corto-o imediatamente. Mas ele é um cara que se parece muito comigo,
ele não tem medo e continua: — Fomos à Estátua da Liberdade, andamos pelo Central Park e depois a
levei para minha casa. Fizemos o jantar juntos e nos conhecemos, eu ouvi o que ela tinha para falar.
Se você gosta tanto dela, deveria ao menos ouvi-la ao invés de armar para ter tudo do seu jeito.
Por que eu o deixei falar tanto sem a interrupção de um soco na boca? Por que ele está me dando
dicas perfeitas para eu conquistar Elena. Alec não vê resistência em mim, então continua: — Sabe o
que é pior disso tudo para mim? — Ele não espera eu responder e revela: — gosto de verdade dela.
Queria tentar algo sério com Elena, mas não importa onde eu a tenha levado ou se cozinhamos
juntos. Elena sempre vai gostar apenas de você.
Engulo seco, agora eu que pareço ter levado um soco. Será que ela falou alguma coisa de mim
para esse cuzão?
Ele dá alguns passos em minha direção, está com um olhar mordaz, um sorriso maldoso.
— Quer que eu te deixe mais ferido? — Indaga e de novo não espera eu responder. — Toda essa
história de encontros era só uma forma inconsciente de ela chamar sua atenção. Era como se
dissesse: “Olha Mafra, eu já sou mulher, eu posso transar, preste atenção em mim. ” E você nunca deu
um olhar que a fizesse se sentir desejada, enquanto por trás, comia ela sem se importar com o que
Elena sentia por você guardado todos esses anos. Como acha que ela está se sentindo agora?
Estou calado. Querendo dar uma resposta esperta, querendo insultá-lo. Mas só ouvi verdades. E a
verdade dói pra caramba. Me sento de volta e todos os outros estão calados, há um climão na sala.
Um climão de machos. É estranho.
Alec vem até a mesa, pega uma caneta e assina o papel que eu lhe dei. Todos os outros, calados,
o seguem, assinando.
Nesse instante a porta se abre e atrás da minha secretária, Elena aparece. Meus olhos cegam
tamanha beleza. É uma mulher magnífica, linda, nos seus sapatos de salto, os cabelos bem penteados
e arrumados de uma forma perfeita. A imagem de durona desaba assim que ela vê os outros caras.
Agora eu me sinto mal de ter promovido esse encontro.
Ela dá um passo temeroso. Está arrasada olhando para eles. Já estou de pé enquanto Elena encara
Alec por alguns instantes, depois sua atenção vem para mim.
— O que quer de mim Joaquim? Chutar cachorro morto, mostrando que sempre teve tudo sob
controle? — Ela aponta sutilmente para eles com um gesto de queixo.
Eu não respondo. Falar o que?
Ela vira as costas para mim e começa a dar uns passos bem lentos, olhando cada um deles.
— Como eu não desconfiei? Todos muito bonitos, qual a chance de cento e tantos homens e
nenhum feio no meio? Todos da mesma altura e mesmo corpo. — Elena analisa. — Sem nenhum
negro. Na verdade não teve um negro desde o início. — Ela me olha com um falso sarcasmo. —
Afinal tinham que imitar mais ou menos o chefe. — Ela volta para os homens. Olha para Joslin, está
de frente para ele. — Mentiram sobre o estado civil, pois não importava muito, desde o início sabiam
que não haveria sexo, não é?
— Eu tentei te avisar. — Chris adianta e Elena o fuzila com o olhar. Isso me deixa satisfeito.
— Mentiram sobre mais coisas? A vida, histórias emocionantes, empregos… — ela indaga
olhando especificamente para Alec.
— Nada do que te contei foi mentira, Elena. — Ele afirma se explicando.
— Isso não tem importância agora né Alec? Me enganou como todos os outros.
Não teve como eu não dá um sorriso de chacota olhando para ele receber uma tirada. Mas então
Elena virou e me flagrou sorrindo. Paro de sorrir na hora.
— Pra que me chamou aqui Joaquim? — Elena tem sua atenção voltada para mim.
— Para dar adeus a eles. Eu os chamei aqui e cada um deles acabou de assinar um termo de
comprometimento, que os encontros acabaram.
Ela assente e olha para eles.
— Foi boa a ilusão que tive. Que esse tanto de homem bonito estava mesmo afim de mim.
— Eu estava. — Chris se adianta.
— Eu também. — Alec concorda.
Eu também. — Sam levanta a mão e emenda: — mas tive que me portar como uma babaca para
você desistir dos encontros.
— Se eu não fosse casado… quem sabe? — Joslin dá de ombros meio envergonhado.
— De qualquer forma, eu não os culpo. A mente por trás de vocês que é o culpado. E como
prova de que eu não os culpo, quero convidar todos para amanhã a noite na boate do Quin.
— Aceitamos. — Eles consentem, um acordo unânime. Até Jeremy e Peter. Esses traidores de
merda.
— Como assim? — berro pronto para matar um — vocês acabaram de assinar um documento
que não pode mais se encontrar com ela.
— Não é um encontro com Elena. — ela fala com um enorme sorriso nos lábios, sorriso
desafiador — É com Lisandra Montenegro.
— Ah fala sério! — exclamo batendo as mãos na cintura e ela dá de ombros.
— Rapazes, eu sou Lisandra Montenegro, canto nas boates, fui contratada por Joaquim sem ele
saber que estava contratando a inocente Eleninha. Quem quiser ir me ver, ficarei feliz. Podemos
tomar alguma coisa depois.
— Caralho! Que doido! — Um deles fala exaltado com um sorriso enorme.
— Mandou bem demais Elena. — Eles fazem uma roda em torno dela, parabenizando. Bando de
mela cueca. Será que se eu os matar aqui posso alegar legítima defesa?
— Foi passado pra trás Joaquim, como se sente? — Chris resolve me provocar.
— Não ferra Chris.
— Cara, então quer dizer que eu posso transar com Lisandra? O contrato não abrange isso
certo? — Doug provoca.
— Elena, você sabe que não transei com você, posso te mostrar como é um geminiano, de
verdade na cama. — até o Brian não deixa passar.
— Eu também quero minha oportunidade de volta. — Erasmo concorda com o geminiano
britânico veado. Elena não interfere, fica só com esse sorrisinho miserável nos lábios.
— Eu já estou na frente. — Alec exclama. — Quero repetir a noite. — Pisca para Elena, ela pisca
de volta e meus punhos se fecham numa força assombrosa.
— Fico feliz em saber que ainda tenho chance; você é uma gata Elena. — Peter se declara todo
serelepe.
— Saiam daqui. Todos! — Grito com eles. Elena parada com a expressão que me deixa mais
puto de ódio. A ovelhinha, não é mais tão ovelhinha assim. — Não faça eu querer foder a vida de
cada um.
— Eu não tenho nada a ver com isso. — Joslin se defende.
— Sumam da minha frente. Todo mundo.
Eles acenam para Elena e quando ela vai sair eu seguro no cotovelo dela.
— Você fica.
Assim que todos foram embora Elena me encarou.
— Por favor, sente-se. — fecho a porta e indico o sofá preto pequeno. Elena senta-se e fica ereta
me encarando duramente. Eu sento ao lado dela, no outro sofá pequeno.
— Hoje eu não vou pedir para você me escutar. Eu quero te escutar. — Digo a ela pegando
carona no que Alec falou. O trouxa acabou abrindo meus olhos de como devo fazer a coisa certa.
Isso deixa a pequena Elena pasma, foi pega de surpresa e parece desarmada.
— Não tenho nada para te falar.
— Tem. Sabemos que tem.
Ela me fita por alguns segundos depois desvia o olhar. Eu espero. Olhar para ela não é nenhum
sofrimento; essa gostosa.
Vou contar uma curiosidade: já vai completar oito dias que não dou uma trepadinha
restauradora. E quer saber outra curiosidade? Não sei se vou suportar mais dias. Só torço para que
Alexandra não apareça esfregando os peitos na minha cara. Terei que ter mais força de vontade que
minha porra acumulada.
— Sabe que teve certa vez que desejei que aquelas noites de sexo misteriosos fossem com você?
— ela me olha bem nos olhos — E isso me deixa mais magoada, porque era você. Mas usou da sua
posição e poder para fazer o que quiser.
— Eu estou bem arrependido de ter feito…
— Não está, Quin. Eu sei que você ainda está jogando para te favorecer. Não consegue suportar
a ideia de perder, não é?
— Por que diz isso? — faço um tom meio abismado, até injustiçado.
— Essa sua demonstração recente. Mandou me chamar e quando chego encontro todos eles aqui
no seu escritório. — Ela analisa mansamente, com a voz suave — Acha que sou tola? Só fez isso por
que eu te disse que iria continuar com os encontros. Você queria me mostrar que os caras são seus e
não meus, que você comanda a situação e eu não tenho escolha.
— Mas que droga Elena. — não consigo ficar calmo e me levanto já passando a mão nos
cabelos. — Eu sei que foi errado, mas podemos tentar algo legal, começar do início. Eu já pedi
perdão.
Ela se levanta, ajeita a alça da bolsa e balança a cabeça negando. Me fitando atentamente.
— Você poderia tentar, se tivesse uma chance. Mas não tem.
— Não vai me dar uma chance? — Vou para perto dela e seguro-lhe a mão. Elena olha para
nossas mãos e depois volta os olhos para os meus. — Jante comigo algum dia desses, vamos ir com
calma, nos conhecer, conversar antes de tomar qualquer decisão.
— Joaquim, não. — ela puxa a mão.
— Por favor, volte ao menos lá para casa. Estou sozinho e me sentindo estranho, me sinto mal
por ter feito isso com você.
Ela ri e vai para a porta. Elena com cara irônica? Acho que a coisa está mesmo séria.
— Você sempre morou sozinho. Me deixe em paz.
— Quer saber? Estou tão puto com essa sua ideia de cantar. Tenho vontade de te trancar num
quarto até desistir disso. — Ela vira para me olhar. — É isso mesmo, estou muito zangado por causa
disso. Eu não queria que você cantasse, que fosse alvo desses caras pervertidos. — Corro atrás dela.
— Olha quem fala em perversão.
— Eu não quero ver você saindo com eles Elena, por favor, vamos encarar os fatos que nós dois
gostamos um do outro e será muito gostoso fazermos muita coisa juntos.
— Joaquim, entenda: você não tem que querer nada. Tem apenas que aceitar. Te cuida. — Ela
responde e sai. Eu não corro atrás. Olho minha ampla sala e dou uma respirada longa; guardo os
contratos com os caras e sirvo um tiquinho de uísque. Vou para a janela, ver a cidade e pensar.
Quer saber outra curiosidade? Gosto de Elena. De verdade; pode chamar de paixão se quiser.
Desde que comecei com essa história do sexo dos signos as coisas se intensificaram mais. Entretanto
não posso correr atrás dela mostrando gestos românticos. Seria uma traição para Edgar, eu teria ao
menos que já estar comendo Elena, ter algo sólido com ela para poder contar a ele. Algo que ela
estivesse participando de bom grado.
Vou começar a pensar em abordagens sutis. Não posso me afastar, tenho que impor minha
presença a todo instante. Elena vai me ver tanto que vai acabar deixando essa mágoa de lado. E outra
coisa é começar a me exibir sem ser apelativo será a primeira escolha. E para isso vou precisar de
Edgar.

Sábado 08:00 da manhã

Já estou de pé desde a seis. Quando temos jogo eu durmo cedo, levanto cedo, faço meia hora de
preparação, dando umas porradas no saco de areia depois de correr ao nascer do sol.
Também estou muito animado, pois Edgar vai ao jogo e ontem na empresa eu comentei que ele
poderia convidar Elena, seria uma forma de ela se distrair. Lembra da exibição sutil que eu estou
planejando? Pensem comigo: Elena gosta de mim, e mostrar a ela minha virilidade e força vai fazê-la
molhar a calcinha. Tenho certeza.
O casamento é semana que vem. Estou puto com a ideia de Elena querer levar Victor como
acompanhante dela, sendo que eu serei o padrinho par dela. Mas ela nem imagina que tenho uma carta
na manga, que com certeza fará meu irmãozinho fazer tudo que eu pedir.
Eles vão antes no meu jatinho. Edgar, Celeste e Elena partem na segunda-feira, depois de
amanhã. Victor iria com eles, mas hoje eu arrumei algo para nós dois fazermos. É uma reunião bem
importante em outra cidade e teremos que ir amanhã.
Mando uma mensagem para Edgar e ele diz que já está saindo de casa e que vai passar para
pegar Elena. Ele acabou soltando que ela conseguiu um apartamento no prédio de Victor. Menos mal,
aparecerei por lá qualquer hora dessas.
O lugar que nos reunimos sempre para jogar, é um clube privado bem refinado. Só os tops são
sócios aqui. Eu entrei em sociedade há uns três anos atrás quando fiz amizade com um jogador
profissional de rúgbi. Em consequência, levei comigo Edgar quando ele veio para Nova York. Vários
dos doze caras também são sócios. Estou doido para que Alec esteja jogando hoje, para eu acabar
com a cara de merda dele.
Vou direto para o vestiário, troco de roupa e sei que Elena chegou quando vejo Edgar vindo
todo feliz. Para minha sorte, ou tédio, não vejo Alec. Ele deve ter criado vergonha na cara ou está
mesmo com medo de aparecer e ser trucidado.
Entramos em campo para o início de jogo. Há bastante pessoas esperando para assistir o que no
Brasil seria uma pelada de final de semana. Jogamos para nos aliviar apenas. Rúgbi pode parecer
algo mortal, violento e truculento, mas homens do meu porte conseguem aguentar a pressão e se
sentir relaxado ao fim do jogo.
Fico de olho em Edgar, esperando ele olhar para o local exato onde está Elena. E ele faz isso,
para e manda um beijo para um lado e eu vejo Celeste e Elena. Ela olha diretamente para mim. Eu a
ignoro e corro para perto do pessoal.
Quando o jogo começa eu vou com tudo. Hoje preciso dar tudo de mim, mostrar para alguém
ali na plateia toda essa gostosura aqui que ela está simplesmente descartando.
De maneira rápida vou resumir o que fazemos num jogo de rúgbi: alguém pega a bola e tenta
atravessar o campo com ela nas mãos. O pessoal protege o jogador e o time adversário tentar
derruba-lo e tomar a bola. No final, os caras estão arranhados, suados e cobertos de lama.

“Vai Quin!” “Gostoso!” “Mafra, Mafra!”

Sabe o que é isso? Gritos das gatinhas que estão descabelando nas arquibancadas. Olho para o
grupo de garotas e mando um beijo. Se eu as conheço? Claro. Eu que pedi Ava, minha secretária,
para arranjar umas quatro garotas para me ovacionar durante a partida. Só para mostrar que se Elena
não me quiser, sozinho eu não fico.
Resumindo: nosso time ganhou. Lógico. Eu levei alguns tackle, que é quando um jogador
derruba o que está com a bola. Mas consegui fazer dois try; correr com a bola, superar os jogadores
e tocar com ela no chão após a linha adversária.
— E aí pessoal. — Cumprimento chegando perto de Edgar, Celeste e Elena. Olha só como ela
não consegue desviar os olhos de mim. Claro que antes de me aproximar, arranquei minha camiseta,
limpei o rosto com ela a deixei no ombro.
— Jogou bem Quin. Parabéns. — Celeste me parabeniza.
— Obrigado. Pena que não pode dizer o mesmo do seu noivo. — Provoco Edgar que me dá um
leve soco. Celeste ri e dá um beijinho em Edgar.
— E então Elena, já tinha visto um jogo de rúgbi? — Pergunto e ela fica um instante sem fala. Já
percebi que desde que me aproximei ela não consegue ficar olhando só para meu rosto. Já passou os
olhos diversas vezes pelo meu corpo. Exibição sutil. Era disso que eu estava falando.
— Não. Só pela TV. — Ela responde tentando demonstrar indiferença. Mas essas coisas a gente
percebe, quando uma pessoa quer mostrar que não está nem aí, mas na verdade está ruborizada, e
esfregando os dedos.
— O que achou do seu irmão jogando?
— Bem.
Nesse instante, as meninas que eu paguei chegam correndo.
— Quin! Tira uma foto com a gente!
Olho para elas e depois para Edgar, Celeste e Elena que arregalou os olhos brevemente.
— Me dê um segundo. — Digo a eles e me volto para as garotas.
Elas pulam em cima de mim, me abraçando, tirando fotos e uma implora que eu dê a minha
camiseta para ela.
— Não gata. Essa é minha camiseta da sorte.
— Então um beijo. — Ela grita e me agarra tascando um beijo na minha boca.
— Tá bom, já chega. — Reclamo educadamente. — Valeu garotas, mas preciso ir agora.
— Espera. — uma delas tira algo como uma canetinha e escreve no meu braço. — É meu
número, me ligue gato. — Ela se vira e vai embora com as outras. Fico olhando elas se afastar e
volto para olhar especificamente Elena que me fuzila com um olhar duro.
— E aí Edgar? Almoço na sua casa? — indago me auto convidando.
— Não tem nada pronto. — Celeste adianta. — Mas podemos pedir alguma coisa. Vamos?
— Tô dentro. — concordo. Eles dois começam a andar e eu vou de passos bem lentos, para ficar
pra trás com Elena.
— E o que achou de me ver jogando? — Questiono e ela levanta o rosto para me olhar.
— Normal.
— Normal apenas? Vi vestígios de desejo no ar. — Elaboro um sorriso malicioso — Pode
confessar que ficou com muito tesão no papai aqui.
— Não seja ridículo. Não sou dessas menininhas que escrevem número no seu braço e que
provavelmente você ligará mais tarde só para ter sexo garantido.
— Está com ciúmes do seu homem? — retruco num tom irônico.
Elena volta-se chocada e para de andar me encarando.
— Você não é meu homem.
— Nos meus pensamentos você é minha garota.
Ela cruza os braços e semicerra os olhos. Está com expressão incrédula.
— Por que isso agora Joaquim? Antes era como se eu fosse invisível. Agora fica na minha cola.
— Agora que você já sabe que transou comigo três vezes, não há por que eu esconder que estou
pirado querendo repetir muitas e muitas vezes.
— Isso não vai acontecer. — ela afirma veemente — é nítido como você tem milhões de opções,
basta estalar os dedos que estará bem servido de mulheres. — Ela volta a andar e eu a acompanho.
— Pode falar a verdade. Você gostou. Meu pau, meus braços, minha boca. Aposto que você sente
saudades. Durma lá em casa hoje, vamos resolver nosso impasse.
— Quer saber? Rasteje. E ainda será pouco. — ela apressa o passo mas tenho certeza que ainda
pôde ouvir eu dizer: — Só não ache que isso que estou sentindo dura para sempre. Esperar cansa,
Elena.
Eu estou de verdade frustrado. Sei que errei, mas ela não precisa fazer isso. Quem ela quer
enganar? Eu ela não consegue. Vejo como tudo nela reage quando está perto de mim. Mas o orgulho
é grande demais para deixar ela tomar uma atitude.
Pensar em ficar com outra que não seja essa implicante, me deixa desconfortável. Logo eu que
comia de tudo, agora estou de dieta. Nada de boceta e peitos. E todos nós sabemos que um homem
não dura para sempre sem isso.
Ando rápido, chego perto deles e falo: — Não vou almoçar com vocês. — Não espero eles
perguntar “o porquê” já explico: — Tenho que resolver umas coisas de última hora. — Olho para
Elena. — Tenham um bom dia.
É hora de me afastar um pouco e ver se ela sente minha falta tanto como eu sinto falta dela.
8° ENCONTRO - CANCÊR

Muitos têm mania de acha-lo mal-humorado. É sensível e emocional e por isso costuma magoar
facilmente. Na cama, os cancerianos são bastante apaixonados. Criativos na hora do sexo, seus beijos
são recheados de romantismo. Também gostam de abraços demorados e longas e deliciosas
preliminares. Uma dica para deixar os cancerianos excitados é tocá-los levemente com os dedos,
passando pela nuca e barriga. Um ambiente adequado, cheiroso e arrumado é fundamental. “Um
clima mais de penumbra será adequado. Muita luz o deixa tímido e ele pode se sentir muito exposto”

NOME: Jeremy Taylor NASCIMENTO: 03 de Julho de 1987 (28 anos) SIGNO: Câncer.
Elemento: Água. Regido pela lua.
ESTADO CIVIL: Solteiro NACIONALIDADE: Nova York – EUA FORMAÇÃO: Ensino
superior.
PROFISSÃO: Especialista em computação.
LAZER: esportes FRASE DE VIDA: Não espere um momento perfeito, pegue um momento e o
faça perfeito.
FRASE DE TUMULO: Morto feat enterrado
Aplausos.
Assovios.
Gritos chamando: “Lisandra! Lisandra”
Eu sei que ele está aqui. Fui avisada a pouco por Victor que Joaquim estava na plateia para ver
meu show. Nos últimos dias minha fama correu depressa, a marca Mafra está investindo pesadamente
na propaganda e eu já estou sendo visada por outras casas de shows.
— Com vocês, nessa noite de sábado… — estou de olhos fechados, parada na porta esperando
me anunciar: — Lisandra Montenegro!
Dou os primeiros passos para o palco e gritos me recebem. Olho para a plateia. Hoje a casa está
lotada. Sei que ele está aí em algum lugar. Encosto no pedestal do microfone e canto uma parte a
capela:

“Acho que finalmente já tive o bastante


Acho que talvez eu pense demais
Acho que acabou para nós (sopre-me um último beijo)”

Por que eu escolhi uma música da Pink? Por que essa, especificamente, tem uma parte que será
como meu recado. Dois bailarinos só de calça vêm para perto de mim, arrancam meu vestido e eu
fico no costumeiro estilo Lisandra. Maiô. Esse é branco com cristais bordados.
A banda entra dando os primeiros acordes da música agitada e eu começo meu show como se
não tivesse ninguém aqui, só ele, Joaquim.
Cantei todas as músicas, finalizei o show e não o encontrei. Talvez ele não estivesse ali. Mas
assim que fui para o camarim ele estava conversando com Victor. Olhou para mim com uma cara
estranha, estávamos tipo a um metro de distância. Retirei a máscara, recebi uma toalhinha e uma
garrafinha de água de alguém que me entregou e continuei na pose, esperando as farpas dele. Que
não vieram. Quin se despediu de Victor, disse para mim: “Belo show” virou e saiu.
Fiquei longos segundos esperando alguma gracinha, esperando ele voltar, com o vazio que ele
deixou. Por que eu me senti frustrada por ele não ter me provocado?

(…)
— Como assim vai continuar com os encontros? Ficou louca Elena? — Celeste me olha
assustada enquanto de cabeça baixa eu penso no que acabei de confessar. — Nunca pensei amiga.
— Chris me ligou. — explico — Ele disse que não posso deixar Joaquim fazer o que quiser
comigo. Que eu devo tomar as rédeas da minha vida.
— Amiga, olhe para mim. — ela vem e senta ao meu lado no sofá. Olho para ela. — Você diz
que está independente, que Joaquim e Edgar não mandam mais em você. Entretanto ainda está
deixando outras pessoas pensar por você. Me diga, o que seu coração quer? O que a Elena quer?
Meus olhos saltam brevemente fixados em Celeste e tenho quase certeza que meu olhar é
sofrido. O que eu quero? O que meu coração sempre quis independente de tudo?
— Joaquim. — murmuro — Quero muito ele. Achei que meu ódio duraria a vida toda, mas
agora eu…
— Então se jogue. Fique com ele.
— Não. — me levanto quando penso em me entregar de bandeja para aquele safado — Ele não
está merecendo. Joaquim não me ajuda a ajudá-lo, ele é arrogante e mesquinho a todo instante. Se eu
me entregar ele vai ter o que sempre teve: facilidade. Mulheres caindo aos seus pés.
— Então por causa do orgulho, vai recomeçar com os encontros? Para que?
— Não sei. Talvez eu encontre alguém certo ou só para esfregar na cara de Quin que eu faço o
que quero. — Encaro Celeste tentando ver o que ela pensa sobre isso.
— E o que aconteceu com a chance que você disse que daria ao Victor?
— Desisti. — Volto a sentar — Victor gosta mesmo de mim e ele é um cara bem legal. Não
quero dar falsas esperanças a ele sendo que o único que faz meu sangue ferver é o imbecil canalha e
gostoso Joaquim.
Celeste dá uma gargalhada e bate palmas.
— Quin te pegou de jeito hein? Mesmo ele sendo babaca você ainda sente isso por ele…
Curvo-me para frente com o rosto nas mãos; dessa maneira confesso com a voz abafada: —
Amiga, tenho que te confessar uma coisa: os momentos de babaquices dele, tipo ontem quando ele
ficou se exibindo depois do jogo, são os momentos que meu corpo mais queima de tesão. Não devia
ser assim. Isso me deixa com tanta raiva daquele cretino… raiva de saber que ele sempre consegue
me tirar do sério.
— Claro que devia ser. Muitas mulheres abominam caras que se acham ou que são uns patifes.
Mas não deixam de sentir as calcinhas encharcarem por causa dos trogloditas.
Levanto o rosto, jogo os cabelos para trás e recosto no sofá olhando para o teto.
— Romance é crucial. Você fala isso por que Edgar é perfeito.
— Isso por que você nunca namorou com ele. Eu odiava seu irmão quando o conheci. Era o cara
mais insuportável que eu tinha conhecido. Ele conseguia me provocar de todas as formas já cheguei a
jogar meu celular na cara dele e semana que vem vamos nos casar.
— Mas ele te trata bem não é?
— Sim. E mesmo sendo um safado filho da mãe, o Joaquim também não costuma tratar mal uma
mulher. O único problema dele é a confiança excessiva que não deixa ele ter um lado mais humano.
Um típico escorpiano.
— E por causa disso ele precisa mostrar algum valor.
— Eu acho que Joaquim já está mostrando algo que não é do costume dele. — Celeste dá a dica.
Faço um olhar intrigado.
— Como?
— Lena, eu convivi de perto com ele para saber que o disputadíssimo Quin Mafra nunca correu
atrás de ninguém. Você é a primeira.
— Celeste! Ele foi um malandro fazendo o que fez comigo.
— É; pensando sobre isso, devo relevar. Joaquim foi um estúpido. Se Edgar sonhar com isso eu
nem sei a miséria que pode acontecer.
— E com o casamento chegando… — começo a ponderar.
— Deus me defenda! — Celeste bate na madeira. — Deixa ao menos Edgar dizer sim; depois ele
pode descobrir o que quiser.
— É, hoje em dia perder um casório é fim de carreira. — Concordo com os olhos parados no
nada.
Está chegando a hora de ir ao Brasil. Não sei como será, não sei o que Edgar vai falar com meus
pais, não sei se vou voltar para cá.
Sem falar que junto com todas essas coisas tem o Joaquim, que será meu par. Celeste se despede,
vai embora, e eu volto-me solitária pensando no assunto.
Vou levar Victor comigo para o Brasil, mas Joaquim que estará no altar comigo. A gente está
andando nessa desavença e nem sei como serão as coisas até a hora do casamento.
Sei que ele não vai com a gente. Acredito que ele esteja retardando a volta ao Brasil por motivos
pessoais. É o lugar onde ele lembra da infância, da mãe, da época que ainda tinha o pai. Por isso essa
história de não querer ir com a gente na segunda. Ele chegará com Victor, um dia antes do casamento.
Agora, estou arrumando minha mala e pensando na cara de Joaquim ontem depois do show,
cogitando sobre o que ele está aprontando, quando o interfone toca.
Já estou na minha nova casa e por enquanto só quem sabe que moro aqui é Celeste, Edgar e
Victor. Ou melhor, só Joaquim não sabe.
Por enquanto.
Abro a porta e me deparo com ele. Sabia que o sujeito não iria ficar muito tempo longe.
E ele não está sozinho. Olho para suas mãos e vejo um enorme buquê de flores. Muito lindas por
sinal.
— Posso entrar? — Quin pede com um sorriso glamouroso.
— Como descobriu onde moro? — Indago antes de deixá-lo entrar.
— Victor me contou. Posso entrar?
Afasto e deixo ele passar. Joaquim deixa seu delicioso perfume quando passa por mim. Fica no
meio da sala olhando para as poucas coisas que há aqui. Um tapete com almofadas e uma TV em
cima de uma pequena estante.
— Você não tem quase nada. — Joaquim analisa absorto — está precisando de algo? — indaga
tentando ver a outra sala.
— Não. Eu trabalho, posso comprar minhas coisas. — Estou de braços cruzados olhando
seriamente para ele. Na verdade minha cara está bem fechada. Vem gracinhas por aí, posso pressentir.
— Pra você. — ele estende as flores e uma caixa. Não recebo.
— Diga o que quer, Joaquim.
Ele olha para as flores, vê que eu não faço questão de receber e volta a abraça-las. Pensem num
gato; hoje Joaquim fez questão de arrasar mais do que os outros dias. Não dá para desviar o olhar.
— Sabe que eu disse a mim mesmo que te deixaria de lado para ver se você sentia minha falta
e…
— Não senti. — Adianto.
— Eu sei. — ele dá um sorriso amarelo — o tiro saiu pela culatra e eu senti muita falta de você.
— continuo inflexível, apesar de estar muito atraída por ele — Eu pensei bastante sobre o que você
disse ontem, sobre eu ter que rastejar. — Minha boca abre para eu rebater, mas ele estende a mão
pedindo que eu o deixe prosseguir. — Eu não sei como fazer isso. Eu estou tentando demonstrar que
estou arrependido e que gostaria muito de estar com você. — Ele dá uns passos e coloca as flores na
pequena estante, ao lado da TV. — Eu nunca tive, ou melhor, nunca precisei demonstrar romantismo e
por isso não faço ideia do que tenho que dizer ou fazer para rastejar. Eu não estou mais com
ninguém, pois eu quero muito apenas você e por isso trouxe as flores e essa caixa de chocolates e…
— ele faz uma pausa, tira do bolso uma caixinha e fica meio temeroso se estende ou não para mim.
Nunca vi Joaquim assim, inseguro, parece que está suando um pouco. — É uma joia. — Ele abre a
caixinha e estende para mim. Recebo e olho o pingente dentro. Uma gota de ouro com um ponto de
diamante. Volto a olhar para ele.
— Acha que me comprando com presentes vai me fazer esquecer? — Revido.
— Não. Como eu disse, nunca precisei, na minha vida toda, ser romântico. Até ontem eu achava
que o que eu estava fazendo, correndo atrás e tramando para ter você, era o necessário.
Sem pensar, eu começo a agir de imediato. Fecho a caixinha com o pingente e entrego a ele.
— Precisa de mais Joaquim. Não está nem perto. Pode sair da minha casa, por favor?
— Fique com os chocolates ao menos.
— Não quero.
— Tá. Eu imagino como você deve estar se sentindo. Eu não devia ter feito aquilo, eu devia ter
deixado você andar com próprias pernas, transar com os doze caras, deixar que qualquer um pudesse
se inscrever.
— É isso mesmo! — Grito para ele. — Por que não saiu do meu caminho?
— Por que acabou comigo imaginar outros caras tocando em você. Me deixou sem batimentos
ao pensar que algo poderia dar errado e algo acontecer com você. Já vi tantos casos de garotas que
vem para Nova York e acaba… — ele desvia o olhar, passando a mão na barba rala. — nossa, eu não
sei o que seria de mim se algo te acontecesse e eu não tivesse feito nada para impedir.
— Isso não cabia a você decidir. É minha vida! Ouviu?
— Sim. Alguém me aconselhou a compreender, que o que importa não é o que eu estou sentindo
e sim você. Só não sei de verdade como rastejar.
Eu estou muda. Olhando pasma para ele. Não sei o que dizer. Perdi as respostas espertas. Fico
achando que ele vai me abraçar, tentar me beijar, essas coisas que patifes fazem.
— Eu estarei viajando daqui a pouco. Nos vemos lá no Brasil. — Ele diz, caminha para a porta e
vai embora.
E por causa dessa visita inesperada, eu não consegui prosseguir com o encontro com Jeremy.
Sim, podem ficar pasmos olhando para minha cara lambida em dizer isso: Joaquim, mesmo
inconsciente se colocou entre eu e mais um encontro. O que eu posso fazer gente? As palavras dele
agiram como aquelas músicas chiclete que não deixa a gente em paz; fica martelando na mente,
naquele bate e volta o dia todo.
Quatro da tarde Jeremy veio me buscar; eu já estava pronta. Na minha bolsa, uma peruca e uma
máscara que costumo usar como Lisandra; eu, Jeremy e os outros que ainda faltam, chegamos a uma
conclusão de que para burlarmos o contrato de Joaquim, quem deve se encontrar com eles é a
Lisandra Montenegro.
Pulamos o almoço, ele disse que iria me levar em um passeio de moto. Era para ser
maravilhoso, mas eu ficava a todo instante lembrando de Joaquim dizendo que não estava com
ninguém e que queria estar apenas comigo.
Me pergunto se ele fez isso justamente para eu me sentir assim. Será que ele sabe que vou
retomar os encontros? Não acho que ele seria tão de boa se tivesse descoberto. E quer saber uma
coisa? Eu nem mesmo quero estar com outro homem. Vou sentir falta de Joaquim por todos esses
dias.
Jeremy sentiu que eu estava tensa, abreviamos o encontro e viemos para meu apartamento. Foi
legal, se não fosse o capacete deixando meu cabelo desarrumado tudo ficaria melhor.
— Você não devia beber. Está pilotando afinal. — Eu aconselhei quando ele se serviu de mais
vinho na minha sala.
— Talvez eu não precise ir embora. Nada de me oferecer abrigo? — Jeremy deu a indireta com
um sorriso malicioso.
Deixei todas as urucas de lado, e os pensamentos ruins e entrei na dele. Dei um sorriso.
— É, quem sabe?
Jeremy é muito sexy. Bonito, novo e muito inteligente. Falamos sobre todo tipo assunto;
descobri que ele é um especialista de informática. Trabalhava em casa mas depois de sobressair no
mundo online, tem sua própria empresa.
Joaquim não escolheu só na beleza. Ele escolheu homens que não são atrativos apenas na
aparência, mas que são bem-sucedidos. Fico pensando se ele não tivesse intervido, que tipo de gente
teria se inscrito.
— Eu não saí ainda com você, mas está muito avoada. Costuma ser assim ou tem algo te
preocupando? — Ele percebeu minhas indagações interiores.
— Não. Está tudo bem.
— Então por que não me mostra seu quarto? — ele pediu todo faceiro. Cheio de malícia.
Eu estava indo longe demais? Não mesmo. Tecnicamente eu ainda tenho mais quatro encontros.
Então me levantei das almofadas e pedi a Jeremy que me seguisse.
Ele arrancou a jaqueta, já estava sem os sapatos. Ficou com uma camiseta branca exibindo
braços sarados, e veio atrás de mim com um copo de vinho pois eu não tenho taças.
— Eu ainda estou decorando a casa. Mudei ontem. — Explicava enquanto acendia as luzes.
— Então isso é uma dica de que não pretende voltar para o Brasil?
— Gosto de estar aqui como Lisandra. — Entramos no meu quarto e Jeremy olha tudo ao redor.
— Sem falar que estou amando poder tomar conta de mim mesma sem a intromissão de Edgar ou
Joaquim.
— Cara mais sinistro. Bateu no Alec e no Chris. — Ele comentou de costas para mim, passando
os dedos nos cabelos, se olhando no espelho.
— O que? — Indaguei pasmada.
— É isso aí. Joaquim é um fracassado bundão que acha que você é só dele. Alec daquele
tamanho e ainda apanhou do playboy.
Fiquei meio incomodada ao ouvir isso. Quer dizer, mais incomodada. Porque de alguma forma
eu queria Joaquim só para mim e se ele bateu em Alec foi por que achou que tínhamos dormido
juntos. Ciúmes; uma prova de que uma pessoa gosta de outra.
— O homem é pirado Elena. Ele está nessa empreitada diabólica desde o início, por que diz que
gosta demais de você.
— Ele não gosta de ninguém. — tentei me convencer e Jeremy assentiu.
— Também acho. É egoísta e mesquinho. Mas vamos deixar isso pra lá. — Jeremy arrancou a
camiseta, bebeu todo o conteúdo do copo e veio para perto de mim. Me deu um puxão me prendendo
em seus braços — Não vai se arrepender de ter me escolhido para colocar aquele filho da mãe no
chinelo.
— Oi? — Murmurei afastando meu rosto e impedindo-o de me beijar.
— Nesses encontros você só transou com Joaquim. É hora de provar coisa melhor meu anjo. —
Dizendo isso, Jeremy me empurrou e cai deitada na cama. Ele não se deitou. Resolveu começar um
showzinho, mordendo os lábios, passando a mão pelo corpo sarado, e retirando o cinto em uma
suavidade desnecessária. Eu só conseguia pensar em Joaquim, em como ele estava hoje cedo e nessa
nova notícia que acabei de ficar sabendo, sobre ele ter ido bater no Alec e Chris.
Jeremy desabotoou a calça, desceu o zíper exibindo um pacote enorme e veio para cima de mim.
E começamos a nos beijar. Nem deu tempo eu colocar a máscara e a peruca de Lisandra, como eu
afirmei que faria.
Me senti mais calma, me senti mais confortável enquanto o abraçava e o beijava. Senti seu calor,
o cheiro cada nervo tensionado nos músculos e no abdômen que ondulava.
Senti minha blusa subindo, ele levantou meus braços e tirou a peça pela minha cabeça. Suspirei
de olhos fechados enquanto Jeremy estava em cima de mim, mordendo meu pescoço, com a mão nos
meus cabelos e a outra retirando um dos meus seios do sutiã. Eu não olhei nada, o tempo todo de
olhos fechados. Logo ele caiu de boca e ao invés de sentir um tesão bom demais, senti desconforto.
Minha mente estava pesada, cheia de pensamento, e o que mais me atormentava era Joaquim dizendo
que não estava com ninguém pois eu era a única que ele queria.
Eu sentada sozinha no escuro da sala, com a TV ligada e o celular brilhando com o número de
Joaquim. Foi assim que terminou minha noite.
Eu fiz Jeremy se levantar de cima de mim e pedi muitas desculpas dizendo que não estava ainda
pronta que poderíamos tentar outro dia. Ele não brigou. Pegou o celular que estava jogado bem perto
de mim e começou a se vestir. Foi embora e eu fui afundar as mágoas.
Estou há minutos a fio olhando o número de Quin e nem sei por que. O primeiro impulso foi
ligar e pedir desculpas. Mas eu não devo desculpas a ele. Eu não devo nada a ele. Sem falar que ele
está viajando e pode ficar com mulheres desconhecidas e ninguém ficar sabendo.
Joaquim não vai deixar o estilo de vida dele. E eu não posso ficar pensando nele toda vez que
for transar. Essa já é a segunda falha. Estou tentando ser independente, mas ainda imatura.
Vou escolher escorpião. Só um escorpião para me fazer esquecer o outro. Mas isso só depois
que eu voltar do Brasil. Pois eu vou voltar com certeza.
DEZOITO

JOAQUIM

Estamos em novembro. É um mês que acho maneiro de verdade. Ainda mais aqui em Londres,
onde estou nesse momento. Não por causa de estações ou de climas mais agradáveis e essa lorota
toda. Apenas porque o final do ano está chegando. Festas de fim de ano me deixam mais animado e
mais rico. É tempo de confraternizações; fodas fáceis e dinheiro mais fácil ainda.
Só não está sendo melhor, por que estou na companhia do meu irmão predileto e sem nenhuma
distração noturna também conhecida como mulher. Eu conseguiria uma fácil, em qualquer lugar, mas
meu pau está meio controlado pela minha consciência ultimamente.
Deixei os Estados Unidos ontem após uma conversa amigável com Elena. Sim, fiz tudo que o
otário do Alec me instruiu a fazer.
Alec? Que Alec? Vocês devem estar se perguntando. Alec o merda máster. O signo de touro.
Vocês sabiam que aquela frase do “mantenha os inimigos por perto” é verídica? Eu não posso
ficar batendo de frente com Chris e Alec sabendo que eles podem armar contra mim. Não posso
deixar lados para Elena escolher. Eliminar qualquer tipo de concorrência.
E como e por que ele me ajudou?
Eu vesti minha pele de cordeiro que costumo usar em ocasiões especiais, comprei um bom
vinho caro e bati na porta dele.
— Joaquim? — ele exclamou incrédulo quando me viu.
Ele não esperava encontrar um cordeirinho ferido em sua porta.
— Posso entrar cara? — pedi em uma voz baixa e lamentosa.
— Eu não tenho visto a Elena. — ele se adiantou depressa.
— Eu sei; tenho um minuto do seu tempo? — pedi e ele me deixou entrar.
— Toma. — Estendi a garrafa. — É um pedido de desculpas, de trégua. Estou bem arrependido
por aquela desavença.
— Tá na bosta? — Alec indagou pegando a garrafa e olhando o nome do vinho.
— Sim. Percebeu?
— Com essa cara das duas uma: ou perdeu grana ou levou um toco.
— É. Um homem sabe analisar o outro.
Ele vai até um pequeno bar na sala e serve uma garrafa de Jack Daniel’s em dois copos.
— Bacana o bar. — Eu digo reparando. Se quiser ganhar a confiança de uma pessoa, elogie ela,
ou um dos seus bens. No caso dos homens, elogios em bens materiais nos deixam mais orgulhosos.
— É. muito legal. — Ele concorda — Mandei fazer. Em mogno, com frigobar e adega
acoplados. — Alec faz a apresentação meio inflado. Me entrega um copo e faz sinal para eu me
sentar.
— O que quer aqui? — pergunta na lata.
Essa é uma pergunta que metade do mundo deve estar se fazendo. O que eu quero aqui? Sugar
um pouco da experiência em romantismo que Alec demonstrou ter.
Estou mesmo bem concentrado na minha conquista a Elena e estou disposto a fazer tudo para
que ela me perdoe. Não sabia por onde começar, minhas mulheres sempre foram muito fáceis, na
verdade eu sempre fui o conquistado, elas que tinham que suar para atiçar algum interesse em mim;
nunca foi ao contrário. Agora Elena vem com esse papo de rastejar. Perguntei sutilmente a Edgar o
que significava e ele me disse: “É fria irmão. Procure outra. ”
Se ele soubesse que a irmã dele está mandando eu rastejar, acho que a frase seria a mesma.
E então, num estalo, me lembrei do Alec falando verdades na minha cara. Eu sou cara de pau,
além do mais ele é tecnicamente meu funcionário. Não pensei duas vezes antes de vir.
— Tudo foi um erro cara; o que fiz com Elena. Eu poderia ter deixado-a fazer do jeito dela,
escolhido os próprios homens.
— Nós dois sabemos todos os perigos que existe nessa loucura dela. — ele constata.
— Acha que fiz certo?
— De uma maneira torta, você tentou preserva-la.
— Ela não quer me ver nem pintado de ouro. Já fiz de tudo…
— Será que fez mesmo Joaquim? Nessas circunstâncias, pedir desculpas apenas, não adianta
muito.
Estão vendo como ele é bom nessas coisas? Fiz certo em baixar a cabeça e vir até aqui.
Pigarreio e tomo um gole do uísque antes de elaborar algo bem convincente.
— Eu não tenho muita gente aqui na cidade para pedir uns toques. Tem o Edgar que é irmão dela
e o Victor; mas você foi o único que passou um dia e uma noite com ela. Por mais que doa dizer isso,
foi o encontro que ela mais aproveitou. Foi o primeiro que eu não estava lá para transar com ela.
— Então acha que eu posso te dar umas dicas? Pra isso que veio aqui? Ele não se mostra
ofendido nem horrorizado. Parece até que já esperava por isso.
— Alec, vou direto ao ponto — me ajeito no sofá, ele apoia os cotovelos nas coxas, como se
para ficar um pouco mais perto — Elena disse para eu rastejar. E sinceramente? Não sei como fazer
isso. Eu sou um homem rico e popular. Tem minha cara estampada em revistas e comerciais. Pegar
mulher é mais fácil que beber um copo de água. E nunca precisei rastejar para conseguir alguma
coisa.
— Elena é diferente das que você pega. Já devia saber isso. — ele me corta para avisar, como se
eu não soubesse.
— É, eu sei.
Alec recosta no sofá, mantendo uma perna dobrada sobre a outra.
— Rastejar não significa exatamente se humilhar, em alguns casos extremos sim. Você precisa
engolir seu ego e suas vontades e pensar nos sentimentos dela. Dar o valor que ela merece, ser gentil
e garantir que ela não vai precisar se preocupar com possíveis escapadelas. Mulheres odeiam homens
fracos que não conseguem controlar o pau.
— Eu não transei com mais ninguém depois do encontro de Elena com Chris. — Confesso
imediatamente.
— Não precisa dizer isso a ela. Em uma conquista você não pode apenas falar o quanto está de
saco dolorido querendo trepar. Ela vai achar que é só isso que você quer. Mostre a Elena que você
quer ficar com ela pelo que ela é. Que você gosta de ouvi-la conversar, que você gosta dos cabelos
dela, do cheiro e do sorriso. Nesse momento crítico, deixe o assunto foda de lado.
Balanço a cabeça assentindo. Anotando tudo em pensamento.
Ficamos calados bebendo. Eu penso em como fiz tudo errado desde agora. Como eu disse,
mulher para mim era apenas uma boceta com um corpo ao redor, essa história de correr atrás é
novidade.
— Eu sempre deixei claro o que quero com as mulheres que pego. — Pondero e Alec balança a
cabeça.
— Aquela velha frase: seja sexy sem ser vulgar. A mulher se derrete com um cara galanteador,
humorado e que deixa sutis dicas que quer sexo com ela. E pelo amor de Jeová, não se enalteça perto
dela. Fale dos valores dela, não dos seus, deixe que ela perceba seus atributos e deixe claro, também
de forma sutil, que você conhece todas suas vantagens: beleza, riqueza, virilidade.
— Então ela me acha um babaca?
— Com toda certeza. — Ele bate na perna soltando o ar, como se eu tivesse entendido sua
charada — Ela deve te achar arrogante, prepotente e manipulador. Para as garotas que você pega, isso
não importa. Mas para Elena que tem muitas fantasias envolvendo o Mafra perfeito, ser um babaca,
não dá certo.
Ele não está rodeando. Alec está deixando claro que sabe de coisas sobre Elena. Aquela porra de
encontro deles, foi minha desgraça.
— Ela disse alguma coisa, não é? Sobre mim, no encontro de vocês.
Ele termina de beber e fica viajando, olhando para o nada, especificamente para o copo vazio.
Depois da um sorriso cínico, com um arranhar de garganta.
— Por que acha que estou te entregando-a de bandeja? Eu gosto dela, deveria passar por cima
dos seus contratos de merda e ir a luta. — Ele me olha nos olhos, vejo consternação na cara dele —
Mas Elena não gosta de mim, nem do Chris nem de qualquer outro cara. Só tem olhos para você. —
ele balança a cabeça negando, desgostoso com isso que acabou de dizer — Estou te dando dicas por
ela, não por você. Chega de saber que Elena está moribunda e triste pelos cantos por que o cara que
ela gosta não dá valor a ela.
— Eu dou valor a ela. — antecipo.
— Então mostre a ela, cacete, não fale comigo.
Depois disso, fui a casa de Elena. Eu tinha pouco tempo, afinal o voo estava marcado para as três
da tarde. Alec disse para começar com abordagens simples. Como não sei se ela é daquelas que
preferem joias, chocolates ou flores, eu decidi comprar os três.
Eu sabia que ela não ia me receber de braços abertos só por que levei flores para ela. Mas é um
começo. Um começo para mostrar que eu realmente estou querendo ficar com ela.
Deixarei Elena pensar por quase uma semana inteira no assunto; esfriar a cabeça. Sei que ela não
vai ficar com ninguém enquanto isso, portanto, será o tempo que ela precisa para espairecer; e talvez
quem sabe, sentir minha falta.
Não vou para o Brasil com eles por que não sei se quero passar tanto tempo por lá. Minhas
previsões é chegar lá um dia antes do casamento e vir embora dois dias depois.
Eu não sei explicar muito bem por que não quero passar tanto tempo lá. A cidade, o lugar,
sempre vai me lembrar nostalgicamente da minha infância, minha mãe, e minha antiga casa.

Naquela mesma tarde, que fui visitar Elena e logo depois, viajei com Victor para Londres.
Tínhamos assuntos para resolver e essa viagem veio a calhar. Foi no momento mais oportuno. Elena
está colocando na cabeça levar Victor para o Brasil. Se ela o levar eu não terei chances de ficar
sozinho com ela. Então vou dar ao meu irmão tudo que ele sempre quis de mim: atenção.
Sei que Victor não é ganancioso como a mãe dele. Ele faz por merecer na empresa, ele trabalha
arduamente para conseguir me mostrar seu valor.
Por que ele faz isso?
Acha que de algum jeito pode limpar o que nosso pai fez.
E por muito tempo, mantive distância dele justamente por isso. Não tinha como eu olhar para
Victor e não ver a safadeza do meu pai. Ele tinha outro filho e outra família enquanto eu e minha mãe
padecíamos no Brasil. Mas no fim, a consciência do velho pesou e ele deixou tudo para o
primogênito. Ao menos teve a decência.
Eu tinha certeza que Victor era carta fora do baralho. Não é mesmo um oponente a minha altura
e o próprio Victor teria o maior prazer de sair da jogada.
Quer ver como?
Tivemos um jantar de negócios, com clientes que tem boates de strepper e encontros. Tudo deu
certo, acabou sendo uma fusão promissora. Como bons clientes que são, eles nos deram cortesias que
em outras palavras significa mulheres. Nos deram um cartão com um endereço de um de seus bares
exclusivos, para experimentarmos, já que estamos fazendo uma fusão de empresas com eles. Sugeri a
Victor que fossemos ao bar do hotel antes de sair para a noitada, eu queria dar uma palavrinha com
ele. Ele aceitou prontamente e quando estávamos em uma mesa com copos de drinques a nossa frente
eu comecei a falar.
— Victor, durante todos esses anos tivemos uma relação meio conturbada. — Olhando nos olhos
dele, falei sério e em tom moderado.
— Desculpa Quin. Sei que odeia quando minha mãe perde o controle. — Como sempre, o cara
acha que vou dar um sermão nele e já está buscando justificativas.
— Não é sobre ela. É sobre a gente mesmo. Eu e você, como irmãos.
Vi o semblante dele mudar. Algo como se tivesse iluminado. Me olhou apático e claramente
surpreso.
— Eu sempre quis acreditar que você não é culpado pela safadeza do nosso velho. Ele fez
escolhas erradas, nós dois não temos nada a ver.
— Sim, lógico. — Assente depressa — O papai era um mulherengo de primeira.
Concordo com um aceno. Sei que ele não traiu apenas minha mãe. A mãe de Victor no caso, não
se importava. Se ainda tivesse o dinheiro para ela gastar, então estava tudo bem.
Soube depois pelo advogado e melhor amigo dele, que meu pai nunca mais foi feliz depois que
abandonou minha mãe e eu. Ele viveu uma vida arrependido do que fez ao saber que a amante nada
mais queria que seu dinheiro. O cara se afundou em dívidas, causadas pelo jogo, mulheres e bebidas.
Descobri também, mais tarde, que ele nunca deixou por completo minha mãe. Ela que me fez
pensar que sim. Ele tentou se reaproximar a todo custo e nunca deixou de mandar cheques que nunca
foram creditados; todos devolvidos e guardados como uma lembrança. Minha mãe faleceu sem saber
que eu descobri essas coisas. Não fazia sentido confronta-la no leito de morte.
— Quin. — Ouço Victor me chamar e olho. Ele está olhando para o lugar que eu estava de olho
enquanto viajava no passado. Acordei para a realidade e o encarei.
— Victor eu quero te propor uma coisa.
— Diga, estou a disposição.
— Eu estou gostando muito de uma mulher. Elena. — Revelo na lata e ele não parece pasmado
com a noticia. Anui.
— Eu desconfiei. — Afirma recostando na cadeira. — O que eu posso fazer por você?
Pronto. Agora vou usar o calcanhar de Aquiles dele. Vou dar a Victor tudo que ele sempre quis:
minha consideração como legítimo irmão.
— Quero apagar toda essa aparência negativa entre a gente. As coisas do nosso pai. Quero que
tenhamos uma relação estável, de irmãos.
Ele tenta parecer sério, mas noto o canto dos olhos dele franzir com o sorriso. Eu sei que isso é
tudo que ele queria.
— É tudo que espero da gente Quin.
— Eu também acho que é o momento de ficarmos unidos, de sermos os irmãos Mafra que
teríamos que ter sido há mais tempo. — falo e ele sorri mais. Parece preste a gritar “viva!”
— Eu só preciso que não vá ao Brasil para acompanhar Elena. É só isso que te peço.
— Não estou no seu caminho. — Ele afirma convicto — Fique despreocupado. Elena está fora
de cogitação para mim.
— Sério?
— Muito sério. Não vou colocar nossa consideração e amizade em risco por causa de mulher.
Fico feliz que tenha vindo falar comigo.
— E eu agradeço por compreender. — Me levantei, ele também e demos um rápido aperto de
mãos seguido de um abraço de brother.
E depois dessa conversa, vendo que minha jogada deu certo, parti para meu quarto e Victor foi
curtir a cortesia que nossos clientes concederam. Na madrugada, voei para o Brasil.
(…)
Eu tenho uma casa aqui no Brasil. Não a que morei com minha mãe e que é perto da casa dos
pais de Elena. Comprei outra. Fica numa bela área para os lados da Tijuca. Mandei reforma-la do
meu gosto assim que soube que viria para o casamento de Edgar. Quero ter um momento de sossego,
ficar isolado enquanto o pessoal está alvoroçado pelo casamento.
Antes eu imaginava trazer Elena para cá. Agora duvido muito. Mesmo assim, não custa nada
tentar não e?
Cheguei em casa às duas da tarde de uma quinta-feira. Tomei uma ducha, liguei para Edgar
falando que tinha chegado e que dormiria um pouco antes de ir ver todo mundo. Depois engoli a
vontade de mandar uma mensagem para Elena. Faria uma surpresa a ela.
O jet lag me nocauteou. Foram dez horas de voo de Londres até aqui, e acabei dormindo por
seis horas seguidas. E só acordei por que meu celular não parava de perturbar. Era Edgar me
convidando para jantar com eles.
Me arrastei para fora da cama, tomei um banho demorado, vesti um jeans e camiseta e peguei
estrada. Rumo ao lugar onde passei parte da minha vida. Tomei um analgésico para dor de cabeça
numa tentativa fracassada de me dar coragem, eu acho.
Devia ter tomado umas cervejas antes, pois quando estacionei o carro alugado na minha antiga
rua, as lembranças vieram como um borrão e foram enchendo minha mente até se tornarem tão
nítidas que chegavam a incomodar.
Minha mãe passou os últimos anos dela nos Estados Unidos comigo. Depois que eu tinha saído
daqui não voltei mais. Foram dez anos sem pisar os pés aqui. Minha mãe não foi enterrada em solo
brasileiro. Eu não moro aqui e não queria deixa-la sozinha.
A coloquei no mesmo túmulo que meu pai está enterrado. No fundo sei que era isso que ela
gostaria. No último momento eu os coloquei juntos.
Esse na porta, com um sorriso gigante é o Leo, irmão de Elena. Ele e Miguel foram algumas
vezes em Nova York me ver. Sempre mando passagens para eles ir passar o natal ou ação de graças
com a gente.
Apenas Elena nunca tinha ido.
Leo vem me receber com um abraço apertado.
— Cara, achei que tinha dado o bolo na gente. Isso tudo é medo da dona Mercedes? — Indagou
apontando para uma casa do outro lado. Ele está se referindo a viúva que ficava atrás de mim quando
eu tinha vinte anos.
Dou uma risada nostálgica.
— Cadê sua bagagem? — Olha curioso para minhas mãos.
— Estou lá na minha casa, Leo. Vocês estão recebendo muita gente.
— Para de frescura. Enricou demais para dividir um quarto com seus amigos?
— Que nada cara. Sei que você nem mora aqui para começo de conversa.
— É verdade. Venha — ele abre o grande portão me levando para dentro — o noivo já está
quase bêbado. Vamos apostar se ele cai primeiro ou Celeste derruba ele.
Foi a maior festa quando entrei. Esse pessoal é de verdade minha única família. Os três irmãos
me abraçaram, e num segundo, já estava com uma cerveja na mão brindando alguma coisa que eles
gritavam em coro.
Elena, ao longe, me olhava de olho torto. Me senti nos velhos tempos, que estava nós quatro
juntos, os rapazes e ela ficava de longe louca para se aproximar, mas não era bem vinda pelos
irmãos.
Hoje, eu fui até ela.
— Oi Elena. — cumprimentei. Vi nos olhos dela, faíscas de desejo. Quem ela pode enganar?
Essa garota me ama. O dia abençoado que dormirmos juntos, ela não vai conseguir se livrar jamais.
— Oi Quin. Fez boa viagem? — Tenta parecer civilizada.
— Sim.
Ela olha para além de mim. um semicerrar de olhos e aparentemente de dentes trincados.
— Cadê o Victor? Ele viria com você.
— Victor decidiu de última hora. Tinha coisas para fazer me pediu para ser portador de suas
desculpas.
Ela absorve a notícia com um respirar longo. Passa os olhos pelo meu corpo, engole seco e
tenta parecer indiferente. Mas sei que ela está em pânico por que será meu par durante toda a festa no
sábado. Lógico que será a oportunidade perfeita para não me desgrudar dela.
Pelo visto o jantar seria servido do lado de fora da casa, onde o quintal estende bem grande,
com uma enorme parte de cerâmica e um belo jardim ao redor. Há varais de luzes improvisadas
penduradas acima. Uma mesa enorme posta no meio e o pessoal circulando, conversando em
grupinhos ou perto da enorme churrasqueira. É um jantar familiar tipicamente brasileiro.
Vejo Celeste do lado de dentro tentando fazer Edgar entender alguma coisa, ele nega veemente
com a cabeça. Olho em volta, puxo uma banqueta e me sento ao lado de Elena.
— Como você está? Ainda muito brava comigo?
— Não vem com essa história aqui no Brasil, Joaquim. Vim descansar. — Ela rebate sem olhar
para mim.
— Sabe que passei todos esses dias doido para te encontrar? — Bebo um gole de cerveja. Estou
olhando para os rapazes conversando, mas minha atenção está nela — Sinto falta do seu cheiro, algo
como baunilha, rosas e Elena. — Isso não é coisa que Alec mandou eu fazer, de verdade estou
sentindo essas coisas me deixando inquieto noite e dia. — Também sinto falta da sua risada e do jeito
que você fica pensativa olhando para o nada. Assisti dezenas de vezes os vídeos da Lisandra. — Olho
de lado e Elena está me encarando.
— Devia ter chamado a condessa para tentar se aliviar. — Ela palpita com um ar irônico.
— É, eu devia. Mas não dá. Simplesmente não dá. Nós homens costumamos pensar com a cabeça
de baixo, mas quando gostamos mesmo de uma garota, a cabeça de baixo não tem vez.
— Acha mesmo que vai me conquistar com essa ladainha de quinta? — Mais uma vez ela
ironiza. Engulo um bolo amargo.
— Nem sei se um dia vou conseguir te conquistar, Elena. — desvio meus olhos dela e bebo mais
um pouco.
— Já quer jogar a toalha? Se for, nunca me mereceu.
— Não canso fácil. — Dou uma piscadinha para ela — Você vale mesmo a pena.
— Pois devia ter sido homem o suficiente para vir falar comigo antes. Agora perdeu a chance,
seu cretino. — Ela fala grosseiramente, se levanta e vai para o outro lado. No meio do caminho o
celular toca e ela corre para dentro da casa para atender.
Foi duro escutar essas coisas. Fiquei com vontade de contar tudo para os irmãos dela. Tudo
mesmo dos doze caras. Mas não vou ferrar com esse momento e ainda por cima colocar um climão
no casamento de Edgar. Isso tem que ser resolvido entre ela e eu.
Me levanto, passo despercebido por todos e entro na casa, vejo Elena num canto da outra sala,
num lugar meio escuro, falando baixinho no telefone. Chego perto e sem que ela me veja, posso
ouvir: — Estou no Brasil, Edgar e Joaquim estão aqui, então pare de me importunar. Quando chegar
aí conversaremos.
Saio antes que ela me veja.
Com quem Elena está falando? Alec ou Chris, com certeza. Estou tremendo de raiva, sinto
minhas costas arderem de ódio desses dois. Será que Alec seria tão pé no saco assim? Acabamos de
conversar amigavelmente, acho que deve ter uns três dias e ele já está me traindo? Não, com certeza
deve ser o babacão do Chris.
Fico com isso batucando na cabeça, enquanto converso com todo mundo, enquanto tiramos
fotos (pois no Brasil, toda confraternização, jantar ou almoço de família, tem que ter fotos) e
enquanto nos sentamos para jantar. Não consigo deixar de pensar nesse maldito telefonema. Assim
que o pessoal começar se dispersar, eu vou arrastar Elena para algum lugar e ela vai ter que me falar.
Eu não sei se sou homem de agir mansinho, rastejando, sempre ouvindo, nunca opinando. Não
dá, simplesmente sou sangue quente, pra porra com essas dicas de Alec.
Sinto meu sangue ferver, pronto para me deixar em ação total. Vou coloca-la no canto,
pressionar e falar: “quero ficar com você, gosto de verdade de você, se me quiser é assim que sou.”
Mas então tudo muda completamente. Meu celular vibra, estamos todos na mesa jantando e
conversando ao mesmo tempo. Rindo, falando do tempo antigo. Ignoro o celular e continuo
conversando com a galera, mascarando minha revolta. Elena de frente para mim. Meu celular vibra
de novo. Pego-o e por baixo da mesa olho. São duas mensagens.
Ambas de Jeremy. Que porra? Jeremy? Câncer se não me engano.
Clico para ler e me deparo com uma foto. Abro a foto e quase caio da cadeira. Elena está deitada
numa cama, sem blusa, de olhos fechados e lábios entreabertos como se estivesse gemendo; enquanto
Jeremy, sem camisa, acaricia os seios dela e olha para a câmera.
Tremendo mais que tudo, sentindo meu sangue fugir do rosto, olho a segunda mensagem.

“Não fique bravo, chefinho. Essa não é a Elena, é a Lisandra.”


Lentamente, levanto meus olhos. Chocado. Apunhalado. Não sabia que doía assim, estou quase
sem fôlego. Muito mais do que quando Alexandra me deixou para casar com outro. Elena está me
olhando, nossos olhares se conectam, e ela sabe que há algo errado; está paralisada me encarando.
Me levanto bruscamente da mesa.
— Pessoal, preciso ir. — Digo, todo mundo para de conversar e eu já estou saindo.
— Quin. — ouço Edgar gritar. Continuo andando rumo a saída. — Quin, espere. — Ele me
alcança. — O que houve? Está passando mal? Você está amarelo.
— Foi uma leve tontura. Acho que por causa do voo. Amanhã estarei bem. — tento tranquiliza-
lo, reparo na minha voz entrecortada.
— Espere que eu vou te levar. — Ele volta correndo, recosto na parede e fecho os olhos. Estou
recobrando minha respiração quando ouço uma voz.
— Está se sentindo mal? — Abro os olhos e vejo Elena. Sinto minha raiva pulsar dentro de mim;
nunca achei que eu pudesse sentir isso por outra pessoa.
— Estou me retirando, Elena. — Sussurro. — Está livre. — Encaro ferozmente. — Conseguiu
me afastar de vez.
— Joaquim… — ela balbucia meu nome, muito assustada.
— Pelos meus cálculos, depois do Jeremy, ainda tem quatro homens para você aproveitar. Boa
sorte. — Ela fica sem fala, Edgar volta e juntos saímos. Nem olho mais para trás. Se não fosse o
casamento, eu iria embora agora mesmo.
DEZENOVE

ELENA

São quatro madrinhas. Eu, a irmã mais nova de Celeste, a namorada de Leo e a de Miguel. O
cronograma está todo pronto. Sairemos às oito para o SPA, almoçaremos na casa de Celeste, iremos
ao salão fazer o cabelo e as cinco da tarde deveremos estar na porta da Candelária para entrar com
Celeste.
Mas não estou preocupada com nada disso, meu vestido está ali no cabide, meus sapatos na
caixa, mas nem penso em casamento. Eu mal dormi a noite. Ou melhor, eu não dormi nada a noite.
Minha cabeça está pesada e meu corpo trêmulo. Ainda não sei o que aconteceu ontem.
As palavras daquele traste não saem da minha mente.
Como assim? Ele desistiu de mim? Eu devia nem me importar, devia ter dormido cedo e
acordado disposta e feliz. Mas ele é o traste que eu gosto; por isso não preguei os olhos. Aquela
expressão de Joaquim foi a mesma que ele usou quando eu passei a noite com Alec; e isso me deu um
pânico muito grande. Um sentimento de perda momentâneo. Eu queria enfim abraça-lo e dizer que eu
não estava mais zangada. Mas pela cara dele, meu abraço não seria bem vindo.
Ele falou sobre Jeremy e quando entrei para meu quarto minhas suspeitas se confirmaram.
Jeremy teve a cara de pau de dizer que talvez ele tenha deixado escapar para Joaquim que transamos,
isso por que ele ligou mais cedo para mim e eu o dispensei; foi uma retaliação. Gritei com ele,
esbravejei e ele desligou na minha cara.
Nem chegamos a fazer nada naquela noite. Que ódio daquele imbecil. Tentei falar com Joaquim.
Liguei umas duzentas vezes, mandei mensagem, mas ele me ignorou a noite toda. O meu maior medo
é que ele fosse procurar companhia já que estava puto comigo; sei que acharia aos montes, muitas
garotas estariam dispostas a acabar com o celibato dele; celibato que ele fez por mim; e isso me
corroeu tanto, o ciúme quase me fez pegar um táxi e ir para a casa dele.
Não me restou nada a fazer, senão deitar de roupão em posição fetal, colocar os fones de ouvido
e ir ouvir meia hora de Adele para tentar superar. Mas o segredo é que ninguém supera quando ouve
Adele. Faz é piorar a situação.
Ela fica cantando coisas depressivas no ouvido e a melodia é tão linda que a gente não tem
forças para arrancar o fone e ir ouvir um rock pesado.
Ouvi Someone like you, Turning tables, Set fire to the rain e quando chegou a vez de Hello eu já
estava apática, abatida, com os olhos lacrimejantes. Eu não devia me sentir culpada por nada, mas
Hello me fez sentir culpada, principalmente quando diz:

“Devo ter ligado umas mil vezes


Para dizer que sinto muito
Por tudo que fiz…”

Fiquei louca para correr atrás dele e pedir perdão, dizer que foi um mal entendido. Sou fraca?
Claro. Posso ser independente, ter meu próprio emprego, percorrer o mundo sendo Lisandra. Mas
Joaquim sempre será meu ponto fraco.
Como eu não dormi quase nada, tomei uma ducha bem cedo. Me vesti adequadamente, no estilo
Lisandra comportada: sexy mas romântica. Passei uma breve maquiagem e amarrei meus cabelos
num belo rabo-de-cavalo, tudo com a intenção de ir falar com Joaquim.
Entretanto, me olhei no espelho, ganhei um puxão de orelha da Lisandra Montenegro e desisti.
Se ele não rastejou por mim, por que eu tenho que fazer na primeira birra que ele dá? Por que ele não
veio conversar comigo e me perguntar se era verdade? Joaquim mais uma vez não quis dialogar. Não
vou fazer nada. Mesmo que eu sofra achando que ele dormiu com alguém… não vou fazer nada.
Oito horas em ponto, a limusine com Celeste e as garotas passou aqui. Não teve como segurar
Edgar. Ele entrou no carro mesmo sob protestos de todas nós.
Segundo ele, iria só até a porta e voltaria. Ele e os rapazes sairiam para resolver algumas coisas.
Celeste deu mil e uma advertência para ele ir pegar os ternos na loja e chegar a igreja antes da cinco.
Para o bem da nação ela teria que chegar e o noivo já estar esperando.
Depois de saber sobre isso aliviei um pouco. Eu estaria o dia ocupada, mas Joaquim também
estaria, na companhia dos rapazes; sem tempo para formular bobagens, coisa que ele é especialista.
— Nunca pensei que teria um dia de rica. — Celeste gritou recebendo a taça de champanhe das
mãos de Edgar. Ele distribuiu para cada uma e pegou uma taça para si.
— Você merece tudo minha rainha! — Meu irmão berrou dando um beijo de champanhe nela
fazendo nós quatro gritar e bater palmas. Estávamos numa limusine, cortando a cidade em plena
manhã de sexta-feira e tomando champanhe.
Apesar dessa alegria contagiante, eu queria arrastar Celeste para um canto, só por alguns
minutos. Estou seca de vontade de desabafar, pedir um conselho. Estou numa tensão que nem uma
garrafa inteira de champanhe é capaz de me tranquilizar.
Chegamos ao SPA no maior pique. Celeste e Edgar entraram como divos na frente. De óculos
escuros, narizes em pé e mãos dadas.
— Mal posso esperar para ver você de noiva, amor. — Ele disse segurando o rosto dela e dando
um beijo na frente de todos.
— Eu também, meu tudão. Vou desmaiar quando te ver todo gato me esperando no altar.
— Gato eu já sou todos os dias. — ele da uma piscadinha convencida, e beija a ponta do nariz
dela, os dois rindo. Depois ele vira para as duas jovens atrás do balcão. — Cuide bem da minha
noiva. Quero que ela receba tratamento de rainha. As duas sorriram medindo Edgar de cima a baixo
depois olhando para Celeste com sorrisinhos amarelos.
Ele foi embora, nós fomos encaminhadas para dentro do lugar, mas tudo acabou dando errado.
Essa reserva foi feita com quase um mês de antecedência. Era o lugar que Celeste cobiçou por meses.
Mas por ironia do destino a coitada acabou ouvindo o que não queria. Eu me senti tão culpada…
poderia ter deixado para contar as minhas coisas mais tarde, sem falar que Celeste nem está no pique
de ouvir problemas dos outros. É o dia dela, teria que ser perfeito.
Enquanto as outras meninas estavam se trocando, eu puxei Celeste para contar minhas dores e
dissabores e então, perto da recepção ouvimos as jovens do balcão dizer:
“Mas você não viu a cara dela? Com certeza é macumbeira. Onde uma negra iria conseguir um
deus grego daquele? De olho azul ainda por cima?”

Eu e Celeste ficamos paralisadas nos encarando, ouvindo esses absurdos. Me deu vontade de
tampar o ouvido dela e a arrastar dali. As duas riram e continuaram.

“Devia ser proibido né? Negra tinha que ir procurar seus negões pra lá.”

“Pois é. Não me conformo. O cara é lindo demais. Me deu vontade de tentar abrir os olhos dele
para a realidade.”

Celeste saiu de perto de mim, nitidamente estava cega de ódio; foi até o balcão, bateu a mão e
falou alto: — Quem é o gerente disso aqui?
As duas empalideceram. Abri a boca para falar alguma coisa, mas ela me cortou.
— Traga as meninas aqui, Elena. — depois virou de novo para as atendentes — Anda, estou
esperando. Quem é o gerente? Quero meu depósito de volta.
— Celeste, não temos outro lugar agendado. — Tentei cochichar.
— Não estou nem ligando Elena. Eu tomo banho no banheiro de casa antes de ir casar, mas aqui
não fico mais um segundo.
Uma senhora veio depressa, acho que foi chamada. Ela estava assustada olhando para a gente. A
mulher muito elegante estava pálida, pois o lugar é de luxo. Eu fiquei parada sem saber o que fazer.
Mas eu nem precisava, Celeste estava fazendo tudo.
Ela pegou um bloquinho em cima do balcão e anotou algo e deu para a mulher.
— O número da minha conta. Quero o dinheiro hoje ainda.
— Mas o que houve?
— Pergunte a elas. Eu sou negra demais e meu noivo branco demais. Esse é o problema. —
Celeste saiu correndo e eu fiquei dando explicações rápidas para a mulher. Eu contei bem
resumidamente o que se passou e saí com as meninas. Encontrei Celeste correndo entre os carros.
Não adiantava eu gritar para ela esperar, ela só corria. Corria muito. Até parar numa loja e sentar no
alpendre da vitrine. Já em prantos.
— Como eu vou conseguir lidar com essas coisas sempre? — ela balbuciou. Sentei ao lado dela
e a puxei para meu ombro.
— Amiga, você sempre soube lidar. Você nunca importou para esses comentários infelizes.
Ela continua soluçando com o rosto abafado no meu ombro. Olho para as meninas.
— Deem um jeito, temos que arrumar outro SPA.
— Elena, é meio impossível com esse horário.
— Não é impossível. — Retruco — Tentem. Liguem para Leo e Miguel e veja o que eles
conseguem. Peça para não deixar Edgar desconfiar.
Cada uma pega um celular para ligar. Dinah, a irmã mais nova de Celeste senta do outro lado
dela.
— Deixe isso pra lá Elena. Não tenho mais condições de ir a SPA. — Chorosa, Celeste fala.
— Nem a pau vou deixar você perder seu dia, todo programado por causa disso.
— Estou me sentindo tão humilhada. Às vezes as pessoas me fazem acreditar que eu não mereço
o Edgar. — Ela murmura olhando para o chão.
— Claro que merece. Vocês se amam, é o que importa.
— É Celeste. Elena tem razão. Você nunca ligou para essas coisas. — Dinah fala e Celeste
levanta a cabeça limpando as lágrimas.
— Tem razão. Eu tenho um casamento maravilhoso me esperando. Eu tenho um vestido que
comprei em Nova York e vou casar na igreja da Candelária com o homem que amo. Nada vai
estragar minha felicidade.
As meninas balançam a cabeça dizendo que não conseguiram nada com as ligações. Sem pensar
duas vezes, pego meu celular na minha bolsa e digito uma mensagem.

“Problemas com a noiva. Me retorne.”

Penso um pouco, tomo coragem e envio para Joaquim. Espero que ele tenha a decência de
responder ao menos com uma carinha; triste, com raiva, ou chorando, sei lá. Cinco segundos depois
meu celular toca. Isso prova que ele viu minhas outras mensagens pedindo desculpas, pedindo para
me ligar, e dizendo que tudo não passou de um mal entendido. Joaquim acha mesmo que vou rastejar
atrás dele? Está redondamente enganado.
— Preciso que encontre um SPA. O nosso deu rolo. — Digo assim que ele atende. Nem espero
ele falar nada.
— O que houve? — Joaquim indaga preocupado.
— Apenas faça isso, por favor, não deixa Edgar ficar sabendo.
— Tá. Te retorno se conseguir alguma coisa.
— Ligou para quem? — Celeste pergunta quando desligo o celular.
— Quin. — digito novamente e ligo para o motorista da limusine vir buscar a gente. Ele fala que
chega em dez minutos.
E tudo acabou dando certo. Joaquim retornou minutos depois dizendo que tinha excelentes
contatos aqui no Brasil e conseguiu reserva em um SPA para a gente. Ele não pediu explicações e
nem disse mais nada. Nem mesmo um tchau ele me deu. Estava frio e distante. E meu inconsciente que
agora atende pelo nome de Lisandra Montenegro, ficava soprando furiosa: “Não caia nesse teatrinho
dele. Força Elena. ” — E eu só esperava que fosse mesmo um teatrinho apenas.
Depois de ir para o outro SPA, ter esquecido do contratempos e feito parte do cronograma,
formos para o salão nos arrumar. Achei que Joaquim estaria na casa dos pais de Celeste almoçando
com a gente. Mas ele não foi. Fiquei um pouco mais tranquila quando Edgar comentou que ele e
Miguel tinham ido resolver um problema elétrico no bar da festa.
Celeste está uma diva, o vestido é uma coisa de tirar o fôlego; com um formato de ampulheta
modelando o corpo dela e abrindo embaixo como um mar branco, um busto todo trabalhado na
renda e pedraria, o vestido atrai olhares.
Ela teve um ataque de noiva, chorou de novo. E dessa vez pelo cabelo.
Ela disse que se sentia culpada de não ter deixado o cabelo ao natural, cacheado. Pietro, o
cabeleireiro quase chorou junto com ela, ele queria a todo custo atender o pedido dela, mas não dava
mais tempo. Estava lindo o cabelo dela, com o véu, a tiara e o vestido, ela estava maravilhosa.
Ficamos um tempo mudas olhando para ela e tive um momento combustão de lágrimas, alegria, de
tanta emoção. Eu cresci com Celeste. não tive uma irmã e desde sempre ela me apoiou em tudo,
esteve ao meu lado em tudo, se fossemos irmãs, talvez não seriamos tão unidas. Fiquei emocionada e
abraçamos com Pietro gritando para não chorarmos e borrar a maquiagem.
As madrinhas também não ficaram para trás. Com belos vestidos românticos, na cor carmim, na
altura dos joelhos, pousamos ao redor da noiva para as fotos, antes de entrarmos na limusine e
voarmos para a igreja.
O relógio dizia que estávamos dez minutos atrasadas.
— Celeste! — chamei e ela me olhou de olhos arregalados. — Seja uma estátua. Sem choro, sem
rir, sem falar. Até chegarmos a igreja. Vai dar tudo certo.
Ela respirou fundo, fechou os olhos e assentiu.
— Vai dar tudo certo. — Repetiu para si própria.
Eu tinha certeza que tudo daria certo para ela. Esses eram apenas medos de noiva. Mas não
conseguia deixar de pensar no meu rolo com um dos padrinhos. Eu queria tanto discutir com
Joaquim. Expor minhas verdades e mostrar que ele está errado. Não posso deixa-lo virar o jogo
dessa forma.
Como se estivesse lendo meus pensamentos, Karen, a namorada de Leo cortou o silêncio.
— Quem é o bonitão que veio com vocês? — Quando ela fez a pergunta eu acordei dos
pensamentos no mesmo momento.
— Você não se lembra dele. É daqui do Brasil, foi embora há uns dez anos. — Celeste explicou.
— Sério? Que legal. É rico?
— Rico? É quase bilionário.
— O que ele faz? — Dayse a namorada de Miguel entrou na conversa. Eu estou muda, apenas
ouvindo.
— É dono de uma rede de casas noturnas lá nos Estados Unidos. — Celeste já olha desconfiada.
— Casado? Viúvo, enrolado, divorciado? — Karen volta a perguntar.
Celeste olha para mim com aquele olhar de “o que eu digo?”
Dou de ombros sutilmente como resposta.
— Solteiro.
— Não creio! — Karen berra. — Será que ele está procurando alguma diversão?
— Karen! Arrumando homem na frente da irmã do seu namorado? — Celeste vocifera.
— Não é para mim sua doida. — Ela olha para mim. — Eu amo seu irmão Lena. — Balanço a
cabeça anuindo. — Minha amiga viu as fotos do jantar ontem e está louca pelo bonitão. Vou
apresentar os dois depois do casamento.
Quase abro a porta do carro e me jogo. Tive um leve e súbito mal estar. Queria dizer a ela que
mandasse a amiga dela ir ciscar em outro terreiro que ele tem dona sim. Mas sabemos que isso não é
verdade.
Levanto os olhos e vejo Celeste me encarando, muito preocupada. Olho e Karen está digitando
no celular.
— Ele se chama Joaquim não é?
— É. — Celeste murmura.
Ela sorri e continua escrevendo.
— A doida mandou um áudio. — Ela fala e estende o celular no alto para a gente ouvir.

“Amiga! Agora fiquei louca. Será que rola alguma coisa hoje à noite? Meu Deus! Já estou de
calcinha molhada só de pensar naquele gostoso todo pelado numa cama comigo. Hoje ele não me
escapa. (Muitos risos).”

— As meninas ouviram seu desespero por homem. — Karen fala mandando um áudio.

“Oi noiva e madrinhas! Vocês me entendem né? Foi paixão à primeira vista com aquele senhor
delícia.”

Não sei por que, mas estou reconhecendo essa voz. Eu iria perguntar quem é a amiga, mas a
limusine encostou. Chegamos. Karen se despediu da amiga, nos ajeitamos e descemos primeiro que
Celeste.
Algumas pessoas estavam em frente a igreja. Dois fotógrafos perto tirando fotos da gente, e
como obra do destino, vi os padrinhos vindo em nossa direção. Edgar já estava lá dentro. Tremi mais
que casa velha em noite de tempestade.
Meu Deus! Ele está um pecado de homem. Joaquim está lindo no seu terno. A silhueta alta e
máscula, bem modelada pelo corte impecável do terno. Os cabelos bem penteados, mas sem perder o
charme, não muito alisadinhos, um pouco esvoaçante.
Os olhos acinzentados, como sempre estavam com aquele brilho malicioso, e fiquei louca para
ver o sorriso presunçoso de fazer descer calcinhas. Engoli seco e fiquei estática esperando ele vir até
mim. Enquanto vinha em minha direção, não parecia muito abalado por me ver.
— Oi. — Disse assim que chegou perto.
— Oi. — Respondi nervosa. Fiquei esperando, mas não veio mais nada. Nenhuma provocação,
nenhuma gracinha e nenhum sorriso perverso, cheio de si. Eu queria que ele fosse presunçoso, que
viesse de ego grande para cima de mim, eu sei lidar com isso. Mas com desprezo eu não sei lidar.
Joaquim mal estava olhando para mim.
— Olha. Ela chegou. — Karen grita e sai correndo de perto de nós ao encontro de um povo que
está chegando.
— Não sei o que Jeremy inventou, mas é mentira. — Sussurro sabendo que ele está ouvindo.
— Ele não disse nada. — Joaquim murmura de volta. Antes de eu respirar aliviada ele
completou: — Ele me mostrou a prova. E quer saber? Não vou acabar com ele, não vou fazê-lo
pagar. Que se dane.
Levanto os olhos para ele. O rosto inexpressivo.
— Como assim ele te mostrou?
Ele enfia a mão no bolso, mexe no celular e me mostra. Senti minhas pernas fraquejarem e meu
salto balançar quando vi a foto. Um nó torceu minha garganta me deixando sem ar.
Quando ele tirou isso? Pela foto está parecendo que estamos transando.
— Isso… É… nós não seguimos adiante. Eu não consegui. Eu não consegui transar com ele. —
Começo a me explicar com aquela pressa na voz, a respiração pesada. Joaquim olha interessado para
mim, mas aí nossa comunicação é interrompida. Karen chega com a amiga dela.
— Oi pessoal. Gente, essa é minha amiga Helen.
Mas que porra! Alguém muito poderoso, o destino talvez, ou os deuses do Olimpo, está tentando
me ferrar. Sabia que conhecia aquela voz. Helen, a garota mais popular, mais linda e mais disputada
na época que eu estudava. Foi o foco de atenção de Leo e Miguel por muito tempo, e parece que
Karen não sabe disso. Odeio essa metida.
— Oi Joaquim, quero te apresentar minha amiga. — Karen aponta para Helen que sorri como
uma hiena. Joaquim dá uma analisada rápida pelo corpo dela e sorri.
— Oi Helen. Tudo bem? — Fecho os olhos para não ver os três beijinhos no rosto.
— Oi, tudo bem. Melhor agora que finalmente te conheci.
— Eu acho que vocês têm muito o que conversar depois. — Karen fala. — Combinam
perfeitamente. — Ela vira-se para a amiga. — Tchau Helen.
— Tchau gente. — olha Joaquim com olhos gordos. — Quero te conhecer melhor depois. —
Depois me olha de relance — Oi Elena. A quanto tempo.
— É. — resmungo.
Ela se afasta e nós nos posicionamos para entrar. Estou com a boca seca, estou quase sem
respirar. Eles dois são tão bonitos juntos. Como ele e a condessa, loiros e lindos. Que droga!
O casamento foi perfeito. Celeste entrou linda e sorridente pelo vasto corredor ao lado do pai
dela. As pessoas sorriam, havia elegância e acima de tudo uma grande felicidade flutuando sobre
todos. Os lustres, os arranjos de flores naturais na cor branca, tudo estava perfeito. Foi emocionante.
Olhei para o outro lado e Joaquim, de pé com os outros rapazes, estava bem sério. Então ele
levantou os olhos e me flagrou olhando-o. Não desviei o olhar. Queria que ele visse que estou aqui, e
que temos assuntos pendentes.
Eu decidi pensar numa maneira de fazer o foco dele voltar para mim. Ainda não sabia como,
mas não iria deixar barato. Ele se intrometeu na minha vida, impedindo que eu ficasse com os caras.
Pois agora é minha vez de se intrometer na vida dele.
Mas nada foi como eu esperava. Depois que fomos para a recepção, a tal da Helen grudou nele.
Na verdade, saíram juntos da igreja, no carro de Joaquim. Isso quase me matou. Ele estava sorrindo,
estava com o braço na cintura dela. E essas aproximações duraram a festa toda.
Eu como madrinha devia estar radiante, mas acabei sozinha, com os pés doloridos, de pé
olhando, como uma ave de rapina, enquanto ele se interagia com todos na festa, revendo velhos
amigos. Helen sempre ao lado. Não dançamos juntos, como eu imaginei que ele iria querer fazer, mal
tiramos fotos de padrinhos, Joaquim se desligou completamente de mim.
Ele se guardou, ficou sem sair com mulher todo esse tempo por que me queria. E de repente ele
descobre que eu não tive o mesmo zelo e estava transando com um cara, pelo menos acredita nisso.
Isso para um homem doido e possessivo como ele, é muito para engolir.
— Ei, que cara é essa? — Olhei para o lado e vi Celeste.
Passei o dia querendo um segundo a sós com ela para contar tudo.
— Celeste, acho que sou uma lástima. — Choramingo com a testa enrugada. — Perdi tudo.
Victor não veio, não consegui trazer nenhum dos signos para o Brasil e Joaquim está me ignorando
abertamente. Estou dura de ciúmes e não sei se vou aguentar se ele sair daqui com essa oferecida.
— Elena! Pare com isso! — ela me dá uma bronca — Você resolveu ser independente, corajosa
e poderosa. Acha que Lisandra faria isso? Ficaria nos cantos enchendo a cara de champanhe enquanto
vê o boy dela sendo pescado por uma sem vergonha?
— Meu boy? Até parece. — Reviro os olhos sem muita convicção — Joaquim está me odiando.
Jeremy mandou uma foto comprometedora para ele.
— Como assim? Que foto?
— Eu fiquei com Jeremy, não fomos até o fim e nem vi quando ele tirou a maldita foto.
— Eu sabia! — Ela bate o punho na mão aberta — Eu te disse para desistir daqueles caras. A
partir de agora, o jogo deles é mostrar para Joaquim que pode fazer o que quiser. É treta de homens,
sai de baixo amiga.
— Agora não tem mais jeito. — Tomo um gole de champanhe na tentativa de me refrescar.
Acaba me deixando com a garganta mais seca ainda — Ele me odeia, ele disse que desistiu e me deu
boa sorte com os quatro que resta.
— Está me dizendo que depois de tudo que o malandro te fez ele está te mandando passear? —
Encaro Celeste e ela está abismada, com uma expressão injustiçada.
— Sim.
— O safado mal rastejou atrás de você. Elena, chegou a hora de usar a carta na manga.
— O que? Que carta?
— O que você acha que seus irmãos achariam de um cara que te usou e jogou para escanteio?
Fico pensando por um instante. Até que num estalar entendo o que ela quer dizer.
— Não Celeste. Nunca, jamais. Não vou estragar seu casamento.
— Como assim amore? Eu já estou casada — ela mostra a aliança — de barriga cheia e preste a
ir para a lua de mel com meu marido. Não há mais o que você possa estragar.
Olho para as pessoas felizes. Meus pais, meus irmãos, o pilantra do Joaquim…
— Acha que devo fazer isso?
— Sim. Joaquim merece. Vai para o banheiro e volte a Lisandra. Estarei ali, assistindo de
camarote. Só não deixe ele sair por cima da carne seca.
Dou um sorriso glamouroso, olho ao longe vendo Joaquim sentado na mesa com uma galera.
Helen perto. Entrego a taça de champanhe para Celeste.
— Ai que aflição! — Celeste berra sorrindo. — Até que enfim um pouco de ação nessa festa.
Eu corro para o banheiro, tiro minhas maquiagens da bolsa de mão. Adeus batom clarinho.
Capricho no bocão vermelho, passo o rimel e solto meu cabelo do coque perfeito que Pietro fez. Por
causa do spray fixador, ele está meio duro e foi até mais fácil fazer um topete e deixar os cachos
modelados cair pelas costas. Respiro fundo e imagino que estou preste a entrar no palco como
Lisandra. Sim, eu sou ela. A força que tenho nos palcos, posso ter na vida real.
Saio do banheiro, andando imponente e com ar de diva no meu salto quinze. Caminho cega para
a mesa, o destino me preparou o banquete perfeito. Ou foi Celeste mesmo que levou o novo marido
dela, também conhecido como meu irmão, para senta-se com Joaquim.
Chego a mesa, com cara de poucos amigos, bato a bolsa e imediatamente ele olha para mim.
Joaquim sabe que há algo errado após dar uma breve estudada no meu rosto. O safado percebeu que
Elena se foi, e ele está preste a lidar com Lisandra. Ele não desvia o olhar. Helen ao seu lado,
segurando o braço dele.
— Então é isso? — Rosno um pouco alto para meus irmãos prestar atenção em mim. — Me
deixou de lado como se eu fosse uma qualquer? — Joaquim fica pálido, de olhos arregalados. Todos
estão me olhando sem entender. Mantenho meu olhar fixo nele.
Com lágrimas de crocodilo eu continuo, é para ser maldosa? Que seja. Hoje ele não fica com
ninguém. Não foi assim que ele agiu me impedindo de ficar com os caras? Agora estou olhando para
Edgar.
— Eu cheguei aos Estados Unidos e ele me usou. — Aponto para Joaquim, mas olhando para
meu irmão. — Me enganou e iludiu. Fale para eles Joaquim. Fale como você me enganou para eu ir
para sua cama.
Edgar levanta num pulo, Celeste se aproxima como se não soubesse de nada; todos estão
boquiabertos. Joaquim sem fala, completamente aterrorizado, começando a querer gaguejar.
— Isso é verdade? — Edgar, com ar traído olha para o melhor amigo.
Joaquim se levanta.
— Edgar…
— Isso é verdade caramba? — Ele fala mais alto.
— Hoje ele nem sequer me olhou, porque encontrou essa safada aí, estou me sentindo usada. —
Acuso com tom de choro. Olho de lado e Celeste está com um sorriso enorme.
— Edgar, não aconteceu dessa forma, eu ia te contar. — Joaquim adquire uma postura de
advogado de defesa.
— Tratou minha irmã como se fosse uma de suas vadias? Eu te acolhi como um irmão e você
aprontou com ela?
— Não é assim cara, eu e Elena estávamos nos entendendo. — Furioso ele vira-se para mim —
Conte a ele Elena, o que você estava aprontando. — Vejo uma súplica muda brilhando nos olhos dele.
— Foi por que eu comecei a cantar Edgar. — Explico humildemente.
— Não é só isso… teve os doze…
Antes de ele continuar eu antecipo: — Sim, mais de doze vezes que ficamos juntos.
Ele para de falar sabendo que eu estou jogando, está de cenho franzido me encarando; ele é
esperto e viu na minha cara. E nem teve mesmo o que falar. Foi atingido com um soco tão violento
que caiu contra as pessoas. Em um salto pulei para trás enquanto Leo dava um chute nele e Edgar
montava em cima para bater mais. Joaquim apenas tentava se defender, ele é grande e forte e
consegue evitar todos os golpes. Depois veio Miguel também e os três começaram a descer a porrada
nele.
— Gente, ajude! — Começo a gritar. E em instantes alguns homens vem e conseguem tirar
Joaquim do meio. Ele está ofegante, com sangue no rosto, a roupa toda amassada.
Com uma cara de bicho ruim, ele me olha, limpa a boca e dá um recado com o olhar: “Isso não
vai ficar assim”
Vira as costas e sai deixando todo mundo para trás. Inclusive Helen.
Depois que ele saiu, a festa ficou um climão estranho. Era oito da noite e o povo começou a se
dissipar. Helen tinha ido embora, Karen veio me pedir desculpas, disse que não sabia, e por fim
Celeste e Edgar entraram na limusine.
Eu disse a ele que não precisava se preocupar, que eu iria conversar com Joaquim e resolver
entre a gente. Ele ficou mais furioso disse para eu nunca mais olhar para aquele idiota e que eu não
iria voltar para Nova York.
Achando que estava no controle, Edgar foi para a lua de mel. Mas é claro que eu não iria
obedecê-lo. Pelos meus cálculos, Joaquim não ficaria com ninguém essa noite. Então amanhã farei
uma visita a ele.
Decidi ir para casa descansar, já que não tinha dormido nada a noite e tomado muita champanhe
na festa. Estava esperando minha mãe quando alguém me deu um recado de que um homem estava me
esperando fora do salão de eventos.
Joaquim. — Pensei já sorrindo. Sai correndo e não o vi por perto. Ao longe, perto de um carro
preto alguém acenou para mim. Ele, com certeza.
Sozinha fui para perto.
— Quin? — Chamei tentando ver por trás dos vidros escuros.
E então, alguém veio por trás, colocou algo no meu nariz e me segurou bem apertado. Me
debati, tentei gritar mas comecei a ficar tonta, perder as forças e logo caí em uma escuridão
inconsciente.
Já estava amanhecendo quando abri os olhos. Eu podia sentir o cheiro da manhã e uma claridade
tênue. Acho que a coisa que cheirei adicionado com a falta de sono e o champanhe, me fizeram
dormir demais. Ainda estou com a roupa da festa. Mas sem os sapatos. Estou numa cama e o quarto é
bem pequeno. É luxuoso, mas pequeno. Levanto a cabeça e olho em volta, não vejo ninguém. Nem
sinal de que eu esteja com alguém.
— Olá! — Chamo com a voz fraca. Minha mente rodando e minha boca seca de sede. Deus! Eu
fui sequestrada. Pego minha bolsa e vejo que meu celular desapareceu.
Me levanto descalça e noto que o quarto está balançando. Como assim? Balançando? Vou
tateando e alcanço a maçaneta da porta. Abro e me deparo com um corredor estreito. Branco. Quem
me trouxe para cá não se preocupou em me trancar.
— Oi! — Chamo e não ouço resposta. O corredor também balança. É algo como uma tontura ou
balançar de ondas. Vou escorando nas paredes, caminhando ainda meio trôpega e chego a uma
escada. Subo-a e saio numa plataforma que se parece… se parece não, é um navio. Ou melhor, um
iate. Bem grande, luxuoso. Abraço meu corpo e vou andando devagar, olhando em volta. O céu ao
redor mostra que deve ser cinco ou seis da manhã. Dormi demais. Acho que tomei muito champanhe.
Bem ao longe posso ver a cidade. O Rio de Janeiro ficou para trás. Ao redor do iate é só água.
Ainda escura por causa do dia não amanhecido.
— Passou da hora de resolvermos nossas pendências. — Ouço a voz atrás de mim e me viro não
muito surpresa.
Joaquim está de calça social e camisa por fora. Com as mãos nos bolsos me olhando seriamente.
— Você me sequestrou. — Falo em um sussurro.
— E você fez seus irmãos brigarem comigo. Não vai sair daqui até resolvermos isso entre a
gente.
Olho o mar ao redor e sei que ele tem razão. Não irei sair daqui tão facilmente. E pensando bem,
não acho que quero sair. Prevejo uma trouxa muito grande de roupa suja para a gente lavar.
VINTE

ELENA

Segurando a barra de proteção da proa do iate, eu fecho os olhos, um pouco ofegante, passo
minha língua nos lábios para umidifica-los. Incrivelmente ainda não estou bem. Será que o enjoo é
por causa do mar?
— Tome, beba. — Abro os olhos e fito Joaquim me entregando um copo com água, gelo e
rodelas de limão. Minha boca enche de água, estou sedenta. — Procure se hidratar na próxima festa
quando for tomar um porre e armar um show.
Recebo o copo da mão dele e olho o mar à frente. Começo a beber e sentir a água bem gelada
molhar minha garganta e refrescar tudo dentro de mim. Suspiro por causa da boa sensação. Nesse
momento, o balanço está calmo, o iate está parado, ancorado. Não sei bem em que lado do Rio
estamos.
— Eles vão me procurar, vão a polícia e você estará ferrado… senhor Mafra. — Falo
calmamente, sem olha para ele. Sinto minhas costas queimando e sei que é o olhar de Joaquim atrás
de mim.
— Você não acha mesmo que vim sozinho para o Brasil, não é? Tenho um terço da minha
equipe aqui comigo.
Olho com muita ironia para ele.
— A menos que tenha um promotor e um advogado na sua equipe, eu não sei em que isso te
ajudaria a se safar.
Joaquim sorri também. É o sorriso do poderoso empresário que me irrita e me encanta ao
mesmo tempo. O tal sorriso insolente e preguiçoso, que chega aos seus olhos o deixando mais gato
ainda. Dá alguns passos em minha direção e recosta na grade, perto de mim.
— Enquanto um dos meus homens te convencia sutilmente a vir me encontrar, eu estava fazendo
minha parte. — ele espera eu olhar bem nos olhos dele para continuar — Fui atrás de Edgar, pedi
desculpas, e disse que nós dois, eu e você, estamos namorando e que você não queria revelar nada
ainda, que você não quis que eu me aproximasse na festa para não chamar a atenção e que você bebeu
demais para armar aquilo.
Nesse momento estou olhando horrorizada para o sorriso vitorioso dele. O safado foi
manipular minha família enquanto eu estava desacordada no carro dele? Isso é caso de polícia.
— Leo e Miguel estavam por perto… — Joaquim pondera com um olhar provocador — e
disseram que isso é tipicamente comportamento seu. Eles ainda não engoliram nosso caso, como
Edgar que ficou feliz; mas com Leo e Miguel, eu sei lidar. E eu pedi autorização do seu pai e a Edgar
para que deixe você passear de iate comigo por alguns dias. Eles sabem onde estamos Elena.
Volto a olhar para o mar. Joaquim é caso perdido. Eu não posso esperar que num passe de
mágica ele passe a ser o cara romântico e passivo, que espera as coisas acontecerem naturalmente.
Ele já mostrou diversas vezes que as coisas — principalmente relacionamentos — são
resolvidos da maneira dele. Esse cara não é homem de esperar coincidências e obras do destino. Ele
tem poder e muita força de vontade para abrir seu próprio caminho. E está fazendo isso comigo
desde que nos vimos em Nova Iorque.
Posso dar um chute no saco dele, pular nessa água e tentar ir embora com minha dignidade a
salvo? Provavelmente. Posso esquecê-lo, arrumar outro cara e seguir minha vida? Infelizmente não.
— Nem sente remorsos por isso, não é? — indago bem baixinho. Sei que ele está perto para
ouvir.
— Eu mentiria se falasse que sim. O que queria que eu fizesse? — Ele pergunta e eu levanto os
olhos para encara-lo. Estamos lado a lado, debruçados na grade da proa olhando o dia amanhecer na
nossa frente. O mar balança lento. — Queria que eu fosse chorar no quarto escuro, beber cerveja e
ver meus melhores amigos me odiando? Você me conhece Elena.
— Acha que vai conseguir alguma coisa manipulando todos ao seu redor? O que é isso
Joaquim? Apenas ego inflado? Puro capricho?
— Sobrevivência. — Ele volta a olhar para frente. O semblante taciturno. — Quando você entra
no ramo do mundo dos negócios, você precisa aprender a dormir com um olho aberto, precisa
desconfiar de todos, precisa planejar sempre e ter uma carta na manga. Demorei para descobrir isso,
pois eu era apenas um jovem brasileiro inexperiente que confiava em todos, era tolerante com todos
e acatava ordens.
— Está me dizendo que os negócios fizeram você ser frio e mecânico?
— Gata, não sou nada mecânico. Se eu não tivesse um coração eu estava cagando para o que
seus irmãos e você pensam de mim. — Joaquim respira fundo me encarando. — Nunca duvide que
vocês são as únicas opiniões que me importa.
Olho para ele, nossos olhares cravados. Depois voltamos a mirar o mar e ficar em silêncio.
— Não pense também que não sei reconsiderar, que não sei engolir o orgulho, não pense que o
grande Mafra não se arrepende.
— Arrepende de alguma coisa? — Pergunto e ele ri. Não por que achou engraçado. Foi mais um
som de ironia.
— Arrependo de muitas coisas, principalmente de não ter dado valor a algumas pessoas na
minha vida.
Fico desanimada. Com certeza esse é um papinho clichê; ele vai falar que devia ter me dado
valor, só para eu ficar mansinha.
— Victor. — Joaquim sopra o nome me fazendo virar o pescoço tão rápido que meus cabelos
voaram no meu rosto. Lanço um olhar interrogador para ele — Eu cheguei a Nova Iorque mal
sabendo falar good morning. Victor não sabia sobre mim, sobre a outra família que nosso pai tinha.
Ele sempre foi o garoto rejeitado. Meu pai dava mais importância a amantes e a vida noturna, e
achava que tudo que ele fazia era pouco e a mãe dele só queria saber de si mesma. Victor viu em mim
o irmão que sempre quis. Ele achou que seriamos os melhores amigos, que eu faria parte da família
dele e mesmo eu virando as costas muitas vezes, o moleque estava lá, ao meu lado. — Joaquim dá um
sorrisinho nostálgico — Com dezoito anos e eu com vinte e dois. Quando tudo veio a baixo e a
fábrica de cerveja começou a ruir, ele me ajudou nos negócios, formamos uma dupla. Para mim era
apenas meu estagiário, para ele, estava ajudando o irmão mais velho. Me ajudou no inglês e a
conhecer e entender sobre negócios.
— Mas o Victor tem um lugar privilegiado na empresa eu achei que vocês… — tento entender
isso direito, é como se Joaquim estivesse dizendo que Victor foi descartado, quando na verdade isso
parece o contrário.
— Sim, hoje ele tem tudo, mas não duvide, é tudo do suor dele. Sempre trabalhou muito pela
empresa, sempre esteve ao meu lado reerguendo cada tijolo.
— Você não acreditava no potencial dele?
Joaquim balança a cabeça negando. Está com um sorrisinho nos lábios.
— Muito pior. Eu o odiava.
— Por quê? — Exclamo espantada.
— Por que eu via nele a traição do meu pai. Para mim, ele era o fruto da ruína dos meus pais.
— Mas você mudou esse pensamento? — Aproveito que ele está se abrindo e tento tirar todas
minhas dúvidas.
— Sim. No dia que minha mãe faleceu e ele me aconselhou a enterra-la com meu pai. — Quin se
vira, recosta o quadril na grade, de costas para o mar e de braços cruzados, me olha. — Ele abriu
mão de você por minha causa, Elena.
— Como é que é? — estou paralisada. Primeiro por que ele está um tesão, todo despojado, de
cabelos ao vento, e desarrumado, segundo que a declaração me pegou de surpresa.
— Contei a Victor que eu estava gostando de você. E ele decidiu sair fora. Disse que não queria
nada entre nossa amizade. Eu vim para o Brasil disposto a fazer as coisas diferentes com ele e com
você.
— Comigo? O que você sempre fez comigo foi me colocar para baixo, me usar, me tratar com
um pedaço de…
— Me escute Elena! — ele rosna revoltado. — Sempre te preservei mais que qualquer coisa. Não
fui eu que mandou foto de você nua para Deus sabe onde.
— Como?
— Agradeça a Deus para que aquele miserável tenha mandado só para mim. Se ele resolveu
colocar na internet, você já era. — Vejo um tom ameno de pouca importância na sua voz, como se eu
pelada na internet não fosse da conta dele.
Sinto uma raiva grotesca por ele não estar louco pedindo explicações ou dando explicações,
temos assuntos pendentes. Joaquim só confessou coisas de sua vida, como se estivesse fechando um
ciclo comigo. Isso me deixa pirada.
— Você está enganado. — Aumento o tom de voz. — O único que joga e faz essas armações
ridículas é você. Jeremy estava apenas querendo te importunar.
Não estou defendendo Jeremy para ver se ele se enfurece, apenas apontando a realidade. Mas me
olha com um rancor que me faz dar um passo para o lado.
— Sabe que no início ele conseguiu? — Joaquim solta um lamento meio baixo, depois pragueja
e bate o punho na grade. Sem me olhar. — Mas então pensei que se você é tão traiçoeira a ponto de
transar com outro só para tentar me humilhar, não merece meu empenho.
Oi? Isso aqui não foi empenho dele? Me sequestrou para que? Tricotar?
— Não foi para te humilhar! — Grito nervosa.
— Então por quê?
Prendo minha respiração. Estou de olhos arregalados e meu cérebro ou Lisandra interior, não
conseguem uma resposta esperta diante da cara de mal dele.
— Se não foi para me atingir então por que Elena? — Agora ele está gritando, muito
transtornado. — Já que você sabe que eles são tão culpados como eu, por que decidiu transar com
aquele idiota? Cada um deles assinaram um contrato sabendo o que estava acontecendo. E então eles
merecem perdão e merecem sexo, mas eu sou o diabo por ter te comido?
— Você poderia ao menos ter me dado valor. — Cerro meus punhos e o encaro.
— E eles te deram valor? Que porra! — Ele grita mais alto e bate as mãos na cintura. — Quando
foi que eu te humilhei? Você estava lá, naquelas noites mascarada para transar! Nunca fiz nada a força
e desde sempre eu tentei abrir seus olhos e estou tentando me redimir. Por que acha que não te dei
valor?
— Você passou por cima das minhas vontades. Você não se importou com o que eu sentia. —
Levanto a voz no mesmo timbre apontando o dedo para ele.
— E o que você sentia? — Joaquim afasta e recosta na grande, fala mais baixo agora — O que?
Me diz? Por mim acho que nunca sentiu nada, já que não veio me contar desde o início. Preferiu abrir
uma página no meu site para atrair homens de toda espécie.
— Agora eu sou a culpada? Eu? — coloco a mão no meu peito — Você fez a lambança, você
veio se intrometer onde não devia e quer que eu me sinta culpada?
— Eu poderia ter te pegado, e beijado e mostrado o quanto eu a queria. Mas tinha tanta coisa
envolvida, tinha seu irmão, o casamento chegando, tinha você mesma que eu nunca soube se
realmente gostava de mim.
Dou uma gargalhada bem alta que pode ouvir mar a fora.
— Então não sabia se eu gostava de você aí ao invés de conversar o que fez? Se fantasiou e veio
transar comigo mascarado. — Bato palmas de um jeito bem teatral. — Tão coerente senhor Mafra.
Ele não me xinga, nem mesmo me olha. Está olhando o mar; o dia já está bem claro, o sol
começa a dar os primeiros sinais de vida. Meu estômago ronca.
— E você não ficou para trás. — A voz de Joaquim voltou a ser baixa, rouca, um barítono bem
sexy. — Ao invés de conversar, se fantasiou e foi disposta a dar pra doze caras que nunca viu na vida.
Solto uma lufada de ar pela boca e tomo todo o resto da água. Ele tem um pouco de razão. Nós
dois erramos, nenhum de nós dialogamos, e fizemos escolhas erradas. Eu fiz muitas escolhas erradas
na minha busca por independência. Ele fez a partir do momento que se intrometeu no que não era da
sua conta. Não importa se foi na melhor das intenções.
— Você ficou com ela? Com aquela oferecida? — Fico com raiva da minha voz de fraca. Soou
meio medrosa, acho que medo de ouvir a verdade.
Me sento achando a vista a minha frente tão bela como olhar para ele. Joaquim continua de pé de
costas para mim. Já comentei que ele tem um traseiro de respeito? Olha como preenche a calça com
uma elegância abençoada; as coxas eu nem falo. Vi de um ângulo privilegiado no dia do jogo e
aquela imagem nunca saiu da minha cabeça.
— Sou eu que tenho que fazer perguntas aqui Elena. — ele resmunga.
Ah tá! Esqueci que ele reverteu o jogo e é o Senhor Vítima Da Maldosa Elena. Ponha na minha
conta querido. Eu poderia aceitar numa boa, mas quem respirou formol, ou seja, lá o que foi aquilo,
e foi arrastada para um carro por um marmanjo fui eu não ele.
— Você se esfregou naquela fuleira Joaquim? — Torno a perguntar ignorando o que ele falou.
— Acho que não fui tão longe como você foi com Jeremy. — Ele me dá uma tirada. Eu tenho
duas opções: deixa-lo pensar que isso aconteceu e ver ele me jogar no mar, ou dizer que nada
aconteceu e ter que aguentar a cara de vitória de macho alfa dele. Vou ficar no meio termo.
— Então confessa que rolou alguma coisa com ela?
— Te devo explicações? — Ele me olha enfim.
— E eu? Te devo explicações. — Acho que consegui pegar o escorpião pelo rabo. Olha a cara
que ele está fazendo. Aí vem resposta bem pensada. Para meu desespero, Joaquim senta ao meu lado,
no acolchoado redondo cheio de almofadas. Rodeando perto da gente, há um acento branco.
A proa do iate é aquela parte da frente. Onde as pessoas deitam para tomar sol, onde tem uma
vista fabulosa, onde Jack e Rose se conheceram no Titanic, e que mais tarde se penduraram abraçados
para dizer que estavam voando.
— Estamos aqui para as verdades Elena. — Ele começa a dizer. Perto demais, cheiroso demais,
quente demais. — O que sente se eu disser que fiquei com a Helen?
Estamos nos encarando. Olho no olho. Bem sérios. Respiro fundo e Joaquim olha para meus
seios subir e descer. Fica tempo desnecessário olhando para eles, e quando me encara de volta está
com uma expressão estranha. Olhos brilhando e lábios entreabertos, como se ofegasse baixinho.
— Diga a verdade. — Ele pede durante minha demora de responder.
— Eu iria querer matá-la — Respondo baixinho depois de algum tempo. — e matar você depois.
— Pelo menos concordamos numa coisa. Foi justamente isso que senti quando recebi aquela
mensagem. Queria torcer o pescoço de Jeremy. — Ele confessa.
Sem resposta para dar. Olho para o sol nascendo.
— Droga Elena! — Joaquim coloca as mãos nos olhos — Você parecia estar gostando. Acaba
com minhas horas de vida pensar no quanto você gostou de transar com ele.
Merda! Conte a ele Elena. — Penso aturdida. Estou morta de pena, dá para ver o sofrimento nos
olhos dele. Joaquim é um homem que se garante e que se apega, ciumento, não gosta mesmo de
dividir.
— Não devemos explicações um ao outro Joaquim. — É o que eu digo. E me arrependo ao ver o
rancor dele se intensificar. Cada vez mais só me afundo no meu próprio orgulho.
Demora duas eternidades até ele falar novamente. Engasgado.
— Eu não fiquei com ela. Nem nos beijamos. — Ele sussurra. — Mas agora eu gostaria de ter
feito. Eu fiquei tão puto quando você transou com Alec, mas superei, ele é gente boa, estava apenas na
hora errada e no lugar errado e gosta mesmo de você. Mas Jeremy não; ele é coisa minha, fez tudo
só para me mostrar. Só para mostrar que pode comer a mulher que estou de olho e eu não poderei
fazer nada.
Sinto meu corpo gelar.
“É treta de homens Elena…” — essa é a voz de Celeste soprando na minha mente. Só agora que
me dei conta de que não tenho provas para minha inocência. De que talvez Joaquim nunca venha a
acreditar em mim. É minha palavra contra a prova concreta de Jeremy.
— Quin… — murmuro e seguro na mão dele, ali do lado, descansando o peso do corpo. Ele
olha para minha mão, meus dedos sobem pelos braços dele, ele segue minha mão, depois olha para
mim. Começamos a nos encostar, fecho os olhos e suspiro, vou aproximando e consigo sentir os
lábios dele tocando os meus. Mas o beijo não se aprofunda. Ele para e balança a cabeça. Se levanta
num pulo.
— Foi um erro. — Ele fala. — Foi um erro ter te sequestrado. Vamos voltar.
— O que?
— Droga. Não dá! — ele fala sem parar de andar. Me levanto e corro atrás dele. Puxo sua
camisa.
— Não dá o que?
— Eu te olho e lembro da foto. Não vou esquecer aquela maldita foto.
— Mas você ficou com a condessa. — Tento balancear a situação.
— Uma vez. — ele grita. — Desde quando foi a vez do Chris eu só desejei você.
— Então é isso? Vamos embora, você vai ficar com uma vagabunda qualquer, e depois quando
estivermos quites, aí você volta?
— Não. — ele abana a cabeça. — Mesmo se eu dormir com todas as mulheres, não vou
conseguir esquecer da mensagem que você quis passar para mim.
— Eu? — coloco a mão no meu peito horrorizada — não fui eu que te mandei a foto.
— Mas sua mensagem chegou até mim Elena. Sejamos sinceros droga! Você só quis continuar
para mostrar que eu não podia controlar sua vida, que você transaria com o mundo e o fundo e eu
não poderia fazer nada. E não posso mesmo. Não posso te impedir. Você não me aceita como homem,
não aceita minhas atitudes e não consigo muda-las, eu não sei rastejar, eu não sei ser submisso.
Joaquim Mafra é assim: gosto de comandar.
— Que homem não sabe respeitar uma mulher? Dar valor, ouvir os sentimentos dela e…
— O que você sente droga? — Ele grita muito alto. — Você só sabe apontar, eu já deixei claro
que quero você acima de qualquer outra, mas você continua batendo na tecla que eu devo respeitar o
que sente. Me fale o que você sente?
— O que eu sinto? Desde quando? Parte da minha vida foi dedicada a você. Me apaixonei desde
o início. Tudo se intensificou quando cheguei em Nova Iorque, e o que acontece? Você me ignorou
todo esse tempo.
— Talvez eu não seja vidente. — Ele dá de ombros. — Por que não me disse antes?
Balanço a cabeça sem falar, olhando o chão.
— Ainda sente algo por mim Elena?
Ajeito meus cabelos, levanto o rosto, mas não olho para ele. Mordo forte meu lábios e abraço
meu corpo.
— Nunca deixei de sentir. — Sussurro. Ficamos calados.
Sem que eu ou ele esperasse avanço e o abraço. Aperto o corpo alto e forte de Joaquim, colo
meu rosto no peito dele e aspiro fundo, o cheiro natural dele me deixa calma.
— Não aconteceu nada Joaquim. Eu não consegui ir até o fim com Jeremy. Não consegui por
que você sempre esteve na minha mente como uma infecção. Eu estava lá, deitada, sem a blusa, de
olhos fechados tentando me concentrar, não estava gostando como você achou. Nem vi ele tirar
aquela foto. Desgraçado!
Ele levanta os braços e me segura em um abraço confortável e quente. Seu queixo no alto da
minha cabeça. Ficamos parados no iate, sentindo a brisa da manhã com cheiro de mar. As águas
fazem um barulhinho gostoso, o vento sopra gostoso, e continuamos pregados, no abraço.
Até ele se afastar, passa o polegar no meu queixo, percorre minha bochecha com os dedos e
encosta a testa na minha.
— Quer um café? — Sussurra.
— Depois de tudo me oferece café? — Murmuro sarcasticamente.
— Aham. — Ele assente, segura minha mão e começa a andar em direção a entrada. Eu o freio.
— Quin, você acredita em mim?
— Acho que essa é minha primeira prova de que dou valor a você e a sua palavra, mais que
qualquer prova de Jeremy. Estou feliz em saber que você não conseguiu ir em frente com ele. — Ele
abraça meu ombro e eu enlaço o braço na sua cintura. Bem juntinhos voltamos a andar em direção a
entrada do iate.
Será que enfim, terei tudo que sempre quis todos esses anos?
VINTE E UM

JOAQUIM

Eu disse que acreditei em Elena. De certa forma acreditei mesmo. Pelo timbre ou a verdade
expressa nos olhos. Entretanto, para um homem como eu, isso não é prova o suficiente. Preciso de
mais, não da parte dela, mas preciso olhar nos olhos do desgraçado e tirar dele, a verdade, a força.
Todavia, no momento é isso que tenho para aguentar e não explodir de ciúmes. Vou me tranquilizar e
acreditar que ela não deu para aquele filho da puta.
Entramos na cozinha do iate. Elena arregala os olhos ao ver como o lugar é grande e luxuoso. O
iate é alugado, mas é menos imponente do que o que tenho nos Estados Unidos. Na verdade tenho
dois. Um em Nova Iorque e outro maior em Miami. Eu gosto de as vezes passar um ou dois dias em
alto mar, em paz com uma companhia gostosa.
— Nossa, isso aqui é puro luxo. Por que um barco precisa de uma cozinha desse tamanho? —
Ela indaga como eu achei que faria. Olho de relance e Elena analisa tudo com cuidado. Os aparelhos
monocromáticos e o acabamento em madeira branca.
— É um iate moderno. Tem quatro cabines e um salão para pequenas festas. Vou te levar para
conhecê-lo depois. — Abro a geladeira e vejo o que posso preparar para o café. Pego ovos, leite e
manteiga. Penso em fazer um típico café americano.
Elena fica de pé olhando em volta.
— Você ainda não está bem. — aponto após uma rápida estudada na expressão dela — Diga
Elena, a conversa ainda não acabou.
Ela meneia a cabeça. Me envia um olhar irônico.
— Me trouxe para tomar café, achei que o assunto estava encerrado.
— Eu estou com fome na verdade. Alguém aí quer linguiça e ovos? — Levanto as sobrancelhas
sugestivamente, ainda dentro da geladeira. Faço uma tentativa de relaxa-la. — Adianto que minha
linguiça é deliciosa.
— Odeio seu ego inesgotável. Por que não pode ser humilde uma vez? — murmura sem olhar
para mim. Está de costas olhando a sua volta.
— Por que deixaria de ser eu. — acendo o fogão e coloco a frigideira — E todos nós sabemos
que a minha falta de modéstia faz você molhar a calcinha.
— Está vendo? — Vira pra mim e dá um passo para mais perto, ainda de braços cruzados —
Tão arrogante… — Ela murmura e senta no banquinho do balcão.
— Acho que isso vai te ajudar a relaxar. — Digo, e vou para um painel na parede. Mexo em
alguns botões, escolho uma playlist que preparei antes e coloco pra tocar. É um moderníssimo
aparelho de som. A música pode ser ouvida em todos os cômodos do iate. Elena para de enrolar uma
mexa de cabelo e me olha enquanto caminho de volta para o fogão.
— Lana Del Rey?! — Foi mais uma afirmação do que uma pergunta. Elena está apontando para
o painel na parede. — Tá me stalkeando Joaquim?
— Por causa da música? — Com um gesto de cabeça, aponto também para o painel.
— Ahãm. — Ela balança a cabeça. Olho para os dedos dela tamborilando no balcão,
provavelmente no ritmo da música. De cabeça baixa ela dá uma risadinha. — Não acha que a música é
meio estranha para nós dois ouvirmos?
Devolvo o sorriso que ela me deu. A música é Vídeo Game.
— Por que é uma declaração de amor?
— Isso.
Pego o controle remoto e aperto vindo a próxima faixa. Blue jeans.
Volto ao que estava fazendo e ao assunto anterior.
— Digamos que fiquei sabendo de uns fatos sobre sua vida. — Dou de ombros respondendo a
nossa pauta anterior. Pego a manteiga para jogar na frigideira.
— Sam Smith, Lana Del Rey… você tirou mesmo dois minutos do seu tempo para me stalkear.
— ela constata. Esses são os artistas americanos que Elena mais gosta.
— E nacionais? Quais? — Pergunto.
— Não sabe? — noto um sorriso incrédulo como se ela soubesse que eu sei. Sim, eu sei. Mas
prefiro que ela fale.
— Não. — afirmo. O bom é que sei mentir.
“Eu te amarei até o fim dos tempos; eu esperarei um milhão de anos…” — Lana Del Rey canta
com sua voz rouca, preguiçosa e muito sexy. Só eu acho que transar ouvindo ela deve ser puro tesão?
— Sou meio piranha de música. — Elena dá uma risadinha do que acaba de falar e continua: —
Não faço distinção exceto rap e funk, ouço de tudo um pouco. Sertanejo universitário, Ana Carolina,
Roupa Nova, Nando Reis… e você?
— Sou mais típico. No Brasil não tem muito rock então… — dou de ombros.
— Prefere as bandas internacionais. — Ela tenta completar minha frase.
— Clássicos antigos. — Olho depressa para ela e volto a mirar a frigideira — Vi na casa do
Alec uma coleção de vinis bem top de linha. Tenho mais ou menos aquele gosto. — E isso foi
verdade. O dia que fui pedir uns conselhos a ele, acabamos bebendo e jogando conversa fora. Ele me
mostrou os discos, fiquei fascinado. Alec tem uma mina de ouro em casa.
— Você esteve na casa do Alec? — o timbre dela soa bem interessado.
— Sim. Duas vezes. — Uma para esmagar a cara dele e a outra para pedir ajuda. Apenas penso
isso. Ficamos calados por uns instantes. Só o barulho do bacon fritando numa panela e os ovos em
outra, misturado com a música é o que enche o ambiente.
— Quer ajuda? — Ela pergunta.
— Venha preparar o café. Adoro seu café.
Elena liga a cafeteira, eu mostro onde fica os ingredientes e ela começa o preparo. Enquanto
Elena estava desacordada eu mapeei todo o iate, olhando as coisas, aprendendo sobre tudo, com a
ajuda do responsável. Depois que tinha tudo abastecido em ordem, eu parti.
— Como conheceu eles? Os doze? São seus amigos de longa data?
— Não. — estou concentrado nos ovos fritando, de costas para Elena. — Pedi a uma amiga que
encontrasse uns caras que chamam a atenção feminina. Daí eu os contratei. Me dê esse prato ai. —
Peço apontando um prato grande no balcão. Ela pega e fica perto olhando eu retirar as frituras do
fogo.
— Até que o cheiro está bom. — comenta olhando para o prato, depois levanta os olhos pra
mim. — Você é muito tosco. Ainda tem a cara mais lavada de me confessar que fez tudo isso só para
transar comigo?
— Não. Inicialmente não era pra transar.
— Não?
— Como eu disse, quis apenas manter você longe de confusão. — Vou para o armário procurar
o pacote de pão de forma que vi aqui mais cedo. — A ideia veio dos caras. A ideia de sugerir as
máscaras e o quarto escuro, só para me esconder. Mas isso era um plano B. o plano inicial era fazer
você desisti dos encontros. Por isso os dois primeiros não deram certo. Ai como você não desistia,
tive que entrar em ação.
Elena não fala, fica olhando dentro dos meus olhos. Depois ela vira as costas e vai preparar o
café.
Será que ganhei um pontinho por ter contado a verdade e jogado a culpa naqueles filhos de uma
égua?
Ela está concentrada no café, mas posso ver seus lábios mexendo junto com a música: “Prometa
que se lembrará de que você é meu…” — Elena está cantarolando Blue jeans.
O café fica pronto, sem mais conversas. Ligo a torradeira meio inquieto esperando que ela fale
mais. Ela parece sentir minha necessidade e fala: — Eu fiz de tudo para não ficar sozinha na festa. Fui
para Nova York, queria procurar um namorado, mas você interferiu de todas as formas possíveis.
Nem mesmo Victor você permitiu que viesse. Eu, a madrinha, acabei sozinha olhando a felicidade do
povo, parecendo uma tia solteirona. — Ela me olha. — Me senti tão mal enquanto você era a atenção
da festa… com sua acompanhante.
E agora eu me sinto mal. Eu sei, sou bem idiota as vezes.
— Fez tudo aquilo para não ficar sozinha no casamento? — semicerro os olhos em tom irônico.
Sei como isso é importante para as mulheres, mas estou usando o sarcasmo para mascarar minha
raiva de ela querer trazer outro cara. — Baby, você poderia ter me contado. Não só seria meu par,
como teria direito a uma dançar e a uma foda muito gostosa mais tarde. Estou com uma vontade de
acabar com você na cama, Elena. Soou presunçoso? Sim, que se dane. É a verdade.
— Minutos atrás disse que não conseguia tocar em mim. — ela aponta como se me julgasse.
— Eu estava puto achando que você tinha transado com Jeremy. — Aponto a faca suja de
manteiga para ela. — Não abuse da minha boa vontade. Estou te dando um ponto de confiança e
conseguir confiança completa de um Mafra, não é para qualquer um.
Ela me olha intensamente, acho que agora é como uma necessidade que eu acredite nela.
— Não fiquei com Alec também. — ela confessa. Viro-me bruscamente e Elena está me
encarando. Os olhos tristes, voltou a sentar no banquinho. — Sou uma tola apaixonada Joaquim. —
ela limpa uma lágrima solitária — Homens conseguem dividir sexo amoroso com sexo casual,
mulheres são diferentes. Não consegui com Alec por que me senti em um encontro real e não com a
aura da sedução dos encontros dos signos. E tentei com Jeremy por que quis provar a mim mesma
que eu poderia seguir em frente com um cara bonitão e esquecer qualquer vestígio de você.
Deixo tudo que estou fazendo, jogo o guardanapo na bancada e vou para perto dela. Puxo os
pulsos de Elena e ela se levanta, aproximo e meu corpo fica bem perto dela. Sou bem mais alto e ela
precisa olhar para o alto para me encarar.
— Estou muito feliz em ouvir isso. — passo os dedos no maxilar dela e acaricio seu queixo. —
Quero que saiba que também não consegui transar com Alexandra por que pensei em você. —
Nossos lábios estão bem próximos, Elena está ofegante. Tonta de desejo; desse jeito, faria qualquer
coisa que eu mandasse, e eu da mesma forma.
— Sério? Quando foi?
— No mesmo dia que você saiu com Alec. A camisinha que você encontrou… — ergo os
ombros — desculpa, peguei para fazer sexo, mas quando vi que era sua eu não consegui.
— Quin… tudo bem, eu…
— Foi errado. — Falo e ela abana a cabeça.
— Mas já passou, esqueça. — As mãos dela estão grudadas em mim, fechadas na minha camisa.
— Por que não fazemos as pazes? Vamos ficar aqui mais um dia, nadar, bater papo e transar a
maior parte do tempo. Começar do zero.
— Sim. Te quero muito. — ela confessa.
— Não mais do que eu te quero. — Libero um sorriso satisfeito e ela sorri de volta. Minha mão
agarra o pescoço dela de leve, encosto meus lábios nos dela, mas não beijo, tampando com minha
mão, sua garganta e com a outra mão já pousada embaixo do vestido dela. Elena joga a cabeça para o
lado e fecha os olhos com os lábios em “O”.
— Assim que eu te comer, te olhando nos olhos, você não vai querer mais nada nem ninguém.
Está certa disso?
— Sim… Quin… sim estou.
— Então me diga, preciso ouvir Elena.
Ela aperta meus braços; puxo-a mais para perto e esfrego contra seu ventre, meu pau muito duro
por baixo da calça.
— Eu não quero mais ninguém. Só você. — Ela confessa.
Sorrio sentindo meu sangue bombear orgulhoso, ela abre os olhos e se depara com meu sorriso.
Ofega e tenta me beijar. Afasto o rosto, mas mantendo-a bem imobilizada, presa nos meus braços.
— Eu não vou mudar minha maneira de agir, você será só minha. Gosto das coisas do meu jeito.
— Aviso. Estou falando bem baixinho no ouvido dela, meus dedos já afastaram o tecido da calcinha e
passo o indicador de lá para cá, sentindo o sexo dela, pulsar, quente e molhado. — humm…
molhadinha, só para mim. Você é uma delícia. — Tiro o dedo e chupo-o, sentindo o sabor na minha
língua. Ela me olha atenta, mordendo o lábio, as sobrancelhas se juntam implorando silenciosamente;
Dou uma risada e ataco. Beijo-a com muita vontade, nossos lábios se chocam explosivos, fazendo
minha língua rolar pelos lábios macios e afoitos, Elena treme e me agarra bem forte, me beijando
quase em desespero, ela geme enquanto me beija e isso me deixa louco.
— Que boca gostosa. — Ela murmura contra meus lábios, arranha minha barba e volta a me
devorar, calorosa e necessitada. Abraço-a e suspendendo seu corpo ajeito-a sentada no balcão.
Corro meus dedos pelas suas coxas, de lá para cá, subindo o vestido no processo.
— Ah! Passei a festa toda querendo levantar esse vestido e te chupar todinha. — Estou
entorpecido, sentado no banquinho olhando para as pernas dela abertas, o vestido embolado acima.
Lana Del Rey ainda continua cantando e meu coração rosna feroz ouvindo os sons. Sinto o calor
selvagem, masculino, a coisa de macho chegar ardendo nas minhas costas, irradiando pelo meu
estômago e deixando meu pau bombadão. A calcinha dela foi descartada, e encosto meu rosto ali.
— Cacete! Que saudade. — Falo antes de abaixar a passar minha língua, em toda a extensão, de
fora a fora. Absorvendo o gosto viciante dela e o cheiro gostoso de mulher. Meus instintos se
triplicam. Não há pau que não babe com esse cheiro.
Meu pau reclama irritado, mas eu me controlo. Encosto meus lábios e chupo. O gosto vem em
toda minha boca e eu me lambuzo. Seguro as duas pernas de Elena, mantendo-as abertas, com a
boceta exposta, para mim; e Elena geme profundamente misturando os sons com a voz de Lana. É
coisa de doido.
“Maria reza um rosário para minha mente doentia… eu digo para não se preocupar.” — A
música entoa e eu estremeço completamente psicótico.
Não me demoro o quanto eu gostaria. Afinal estou há tempos guardando munição. Enfim
chegou o momento de botar tudo pra fora. Da maneira que imaginei que fosse. Elena geme se
balançando, tremendo e ondulando. O corpo dela é pura gelatina. Meu pau já está esticado além do
limite. A dor gostosa me deixa mais excitado pra caralho, em um ponto quase insuportável.
Tiro os lábios rápido e me afasto desabotoando minha calça e a abaixando com a cueca.
— Quin… — ela me chama, está com a mão acariciando a boceta. Afasto a mão dela.
— Não se toque. Quero que goze com meu pau. — Assim que fico pelado, ajudo-a a se despir
também, tiro-a do balcão e de pé, vou empurrando-a até um sofá circular branco.
Body eletric está tocando; essa sim é a escolha perfeita. Uma melodia perfeita para foder muito.
Sentado, com o pau duro apontando pra cima, puxo Elena e faço com que se sente no meu colo.
Passo a cabeça da rola na boceta dela, esfregando as dobras e acariciando o clitóris com meu pau
babado, ela geme enfiando as unhas nos meus braços.
— Joaquim…
— Diga… olhe para mim e diga.
— Me coma. Logo. — Implora sem desviar o olhar.
Deixo meu pau atolar devagar, a cabeça entra me fazendo recordar dessa maravilhosa ensopada
e quente. Ainda estamos de olhos cravados. Elena tem uma boceta gostosa demais. Estou tão duro de
tesão ao pensar que eu fui o único que ela provou depois do imbecil que tirou a virgindade dela.
Elena é só minha, sentiu muito só meu pau, e vai continuar sentindo só ele, de mais ninguém.
Fazer o que? Nós homens gostamos demais de mulheres que não provou quase nada. Para que
possamos ser a estrela do filme.
Ela tem dificuldade de chegar até a base do meu pau. É, pois é, ele é bem grande.
— Nossa, que deliciaaaa! — Ela choraminga, tentando ir mais fundo, engolindo meu pauzão.
Com as mãos em sua cintura, faço-a levantar e descer de novo. Elena grita de prazer.
— Olhe pra mim. — Peço e ela abre os olhos. Faço mais uma vez para ouvir de novo e ela
repete o grito. Puxo-a para me beijar, seus seios ficam pressionados no meu peito enquanto eu
impulsiono os pés no chão começando a socar forte, não rápido, mas indo até o fim, tocando-a no
fundo, no útero, preenchendo-a deliciosamente. Ela morde meu ombro, se balança toda, tremendo de
tesão, e grita mais; não dou trégua, continuo impulsionando, gemendo junto, sentindo meu pau sair
até a metade e ser sugado de novo.
As unhas dela agarram meu peito, a boca sobe e lambe meu pescoço, subindo e alcançando meu
queixo para em seguida chupar vorazmente meus lábios.
— Delícia… você me deixa pirado Elena. Você é minha perdição.
Me levanto com ela, as pernas enroladas na minha cintura, minhas mãos sustentando a bunda e o
pau ainda entrando e saindo bem depressa, quase virando a vagina dela pelo avesso; os peitos lindos,
rosados, com bicos durinhos, viram alvo da minha boca e eu os chupo enquanto a levo para a parede
mais próxima.
A música me enche de tesão, a voz e a melodia me eleva e eu fico doido. Segurando Elena de
costas contra a parede, ela me agarrando apertado e nos beijamos enlouquecidos, coloco toda
pressão do meu pau contra ela, indo agora até o talo, bem forte, as bolas batendo depressa, minhas
pernas abertas meios trêmulas.
Foder em pé judia de qualquer ser humano. Não tem perna que aguente. Mas a sensação é a
melhor.
Ela grita, sei que vai gozar, a boceta pisca faminta, quente, escorrendo. Meu pau não tem dó,
continua batendo ritmado. Atacando-a, duro e grosso. Delícia boa demais.
— Não goze ainda. — consigo rugir.
— Não dá… — ela exclama.
— Não ainda Elena. Segure. — Meto com vontade, produzindo um som úmido. Pau melado
entrando e saindo, bolas batendo, corpos suados.
— Quin…
— Quando eu disser! — Grito e continuo firme até sentir meus pés formigarem, minha virilha
se contrair e bem no fundo uma sensação delirante me tomar. Vem vindo. Seguro-a firme contra meu
corpo suado, Elena me agarra e grita, meu saco contrai, uma pressão forma na base do meu pau e a
porra grossa vem arrebentando tudo.
— Venha comigo Elena, agora. Goze.
E ela grita contra meu pescoço enquanto se convulsiona nos meus braços. Nós dois nos
debatendo, suados e no mar da inconsciência. A boceta dela suga até a última gota do meu esperma
me deixando mais doido ainda.
Quase não há como respirar. Nos abraçamos bem forte para nos acalmar, ficando um bom
tempo assim, agarrados. Dou vários beijinhos na bochecha dela, descendo para o pescoço e chupando
ali. Ela enfia as mãos nos meus cabelos e respira rápido. Meu pau ainda duro e todo socado.
Puxo-o lentamente sentindo meu esperma escorrer assim que ele fica livre.
Passo a mão na vagina dela, dou um tapinha e a levo para o sofá. Me deito e Elena se ajeita
enrolada no meu corpo, com as pernas entre as minhas e os braços me apertado como se eu fosse
fugir.
— Me diga que está usando anticoncepcional. — Murmuro sem conseguir tirar isso da cabeça.
Acaricio os cabelos dela com as pontas dos dedos.
— Não estou. — ela responde no mesmo timbre, preocupada.
— Pode acreditar que não tenho problemas. Sei me cuidar. — Eu falo me referindo a DST.
— Eu sei. — Ela assente. — Levanta o rosto e beija meu peito. Sobe os lábios beijando e morde
superficialmente meu mamilo.
— Não fique preocupado. Existe pílula do dia seguinte.
Sorrio aliviado e passo as costas dos dedos na bochecha dela.
— Então temos que voltar, para você tomar logo.
— Posso toma-la amanhã. Por isso que se chama “pílula do dia seguinte”.
— Então hoje podemos zoar a vontade transando sem camisinha? — Abraço-a em cima do meu
corpo, minha mão desce nas costas e estaciona na bunda. Acaricio devagar, sentindo a pele e
contornando a curva acentuada.
— Não sei. Acho que sim. — ela deixa esse assunto pra lá e vem até meus lábios me beijar.
Lento, carinhoso, mantendo os lábios juntos e depois afunda devagar a língua na minha boca.
— E então? Está satisfeita?
Elena levanta o rosto de novo. Agora me olha sorrindo.
— Sim. Bem feliz, mas ainda não satisfeita. — Ela passa os dedos pela minha barba fica olhando
bom tempo para minha boca.
— Com um pau delicioso como o meu, quem não ficaria feliz?
— Imbecil. — Ela ri e deita a cabeça de novo. — Agora fiquei com fome. Você me chamou para
tomar o café e até agora não vi nada.
— Chamei para tomar café, mas acabou tomando leite. — Não perco a oportunidade. Elena
consegue me dar um tapa e se levanta. Pega a calcinha no meio da cozinha, veste e olha em volta a
procura do sutiã. Meu pau acorda com a visão dela só de calcinha e com os seios de fora. Vê-la vestir
a calcinha foi impagável. Quase gozei de novo.
Me levanto, mal acreditando que enfim consegui. Mas não era segredo; todos sabiam que eu
conseguiria em algum momento. Pego minha cueca, visto e volto para terminar de preparar as coisas
para a gente comer.
Estou colocando os pães na torradeira quando sinto braços envolverem minha cintura. Elena me
abraça por trás e encosta o rosto nas minhas costas.
— Vai me ligar no dia seguinte Mafra?
Me viro e a abraço de frente.
— Lógico que não. — falo e beijo o nariz dela. — você estará na minha cama no dia seguinte.
— O que acha que o pessoal vai falar quando voltarmos?
— Nada. Eu já ajeitei tudo. Sua família considera o presente de Deus, o fato de você ter me
escolhido como seu homem.
— Claro, você foi manipula-los. — Ela faz uma breve cara de raiva — Duvido que pensaria
assim se soubesse a verdade.
— Mas ninguém vai contar não é? Celeste é cúmplice e não vai querer brigar com o marido, eu
nem penso nisso, e você não vai querer arriscar ficar sem sua foda gostosa.
— Está me dizendo que se eu contar, você vai me deixar? — Ela semicerra os olhos de modo
investigativo.
— Não. Estou dizendo que se você contar, muita gente vai entrar pelo meio. E não queremos
empatas fodas não é?
— Não mesmo. — ela sorri — E os doze?
— Deixe que deles eu cuido. Não quero ver você ao menos falar mais o nome deles. Seu signo
está aqui olha: — pego a mão dela e coloco na minha tatuagem. — Seu escorpião.
Ela ri e me beija docemente.
— Escorpião convencido.
— E venenoso. — Completo. — Agora vamos comer. Estamos famintos e temos que aproveitar
o sol da manhã, lá fora na proa.
— Vamos tomar sol?
— Vamos nos bronzear enquanto trepamos até arrancar o couro. Você vai ver como é bom
tomar sol e transar ao mesmo tempo.
Ela se afasta, os olhos brilhantes. A bochecha rosada, os cabelos esvoaçantes e um sorriso
incontrolável em seu rosto. Isso sim é uma cara de mulher que recebeu um tratamento digno.
Estou feliz pra caralho que tenhamos nos resolvido. Agora é só curtir. Outras questões, penso
mais tarde.
VINTE E DOIS

ELENA

Estou tão feliz que nem consigo comer direito. Meu estômago está leve, como uma bexiga de ar,
não consigo parar de sorrir. É assim que eu queria ter me sentido todo esse tempo. Foi algo assim
que eu buscava quando quis transar com doze homens diferentes. Mas eu estava bem errada, nenhum
deles seria capaz de provocar meu corpo e mente como Quin faz.
Não consigo desviar os olhos dessa visão gloriosa. Ele está ao meu lado, comendo como um
condenado. Vestindo apenas cueca, exibindo seu corpão delicioso. Joaquim é tudo e um pouco mais.
Estou apaixonada, muito apaixonada, estou de quatro por esse homem. Mas isso não é novidade para
ninguém…
Ele olha para mim e para de falar. Está falando alguma coisa sobre música.
— Não vai comer mais? — Ele olha para meu prato.
— Não estou com muita fome.
— Mas vai comer. — Soa como um decreto. — Você não comeu quase nada na festa. — Ele
explica em seguida.
Volto a olhar para os ovos mexidos e belisco a torrada. Algo está na minha mente desde quando
começamos a transar.
— Como será quando sairmos daqui? — Intercepto deixando o assunto “comida” de lado e
expondo o que está me deixando meio tensa.
— Vai ficar comigo, lógico. — Dá de ombros em um gesto descomplicado.
Solto o ar cansada. Não sei se será tão fácil.
— Eu tenho meu apartamento em Nova York. — Contesto sem muita convicção. Não posso
negar que gosto da ideia de dormir e acordar com Joaquim.
— Aquilo? Nem sofá tem. Você agora é minha, Elena. Tem que ficar comigo.
Limpo meus lábios, esvazio a xícara de café em um gole e faço uma cara de sarcasmo.
— Não sou de ninguém, querido.
— Ahãm. Pode se iludir. — Joaquim sorri de lado. Um belo sorriso cheio de si. Não teve como
segurar meu suspiro loucamente apaixonado. Esse homem me faz perder a cabeça. Ele estica o braço
e pega meu prato para comer o resto.
Me levanto e ando pela cozinha. Olho com calma cada coisa; Joaquim se concentra em comer.
Abro a geladeira e noto que está bem abastecida.
— Teve quanto tempo para preparar tudo?
— Depois do vexame que você me fez passar na festa? Pouco menos de duas horas. — Ele
termina de comer e fica me olhando.
— Você mereceu aquilo. — Sorrio me lembrando do episódio. — Eu estava com tanto ódio de
você.
— E eu de você. — Joaquim se levanta e vai para o painel trocar de música. — Eu queria te
arrastar para um banheiro e fazer o serviço completo. — Ele comenta numa boa. Eu nem tenho tempo
de ficar horrorizada. E além do mais eu nem devia ficar. Esse é ele. Fala o que dá na telha, não manda
recado.
— Eu preciso de roupas. — Pego meu vestido de madrinha todo amassado num canto.
— Pra que se vestir? Vai ter que tirar tudo daqui a pouco. — Sinto um friozinho na barriga
quando ele fala isso. Estou louca por mais.
Quin vem, toma o vestido da minha mão e o joga no chão de novo. Como se fosse um grande
imã, eu dou um passo e me encosto nele. Meu Deus! Ele foi criado para ser abraçado. Seu braço passa
na minha cintura e a outra mão enfia nos meus cabelos. Ele faz uma lenta massagem com os dedos e
joga meus cabelos para o lado.
— Acho que estou te devendo uma dança. — Quin sussurra passando a barba na minha bochecha
levando os lábios para minha orelha.
— Sim, me deve. — Murmuro toda arrepiada. Ele aperta um botão no controle, joga-o no balcão
e segura na minha mão e me puxa para fora da cozinha. Saímos ao ar livre, e noto que já amanheceu.
O sol brilha trazendo um vento gostoso e um cheiro de mar que me faz fechar os olhos. Isso é de
pirar qualquer uma. Estar num lugar como esse, nos braços de um homem desse… meu coração não
aguenta. De repente uma voz soa numa caixa acústica e eu olho intrigada para Quin.
— Sam Smith? O que está tentando fazer? — Não consigo parecer séria. Não consigo parar de
sorrir olhando para ele.
— É o que parece. — Beija a ponta do meu nariz — Estou tentando ser bem legal.
— Quero que seja você mesmo Quin…
— Acontece que não sou eu mesmo quando estou com você. Viro um bicho.
— Fazer o que? Também tenho meus problemas. — Encosto o rosto no peito dele, nos
embalando de leve ouvindo a música. Ficamos mudinhos, bem coladinhos acompanhando a música.
— Bem sugestiva. — Analiso a letra.
— Foi de propósito. — Ele murmura e beija o alto da minha cabeça. — Eu só quero que fique
comigo Elena. — Termina cochichando num fio de voz, e a música de Sam Smith canta essas
palavras: “Stay With Me”.
Ele se afasta, segura na minha mão e gira meu corpo. Puxa-me de volta para ele e canta junto
com a música: “Oh, por que você não fica comigo? Pois você é tudo o que eu preciso…” está
sorridente, me deixando fascinada. Me entrego ao beijo quando ele reivindica meus lábios. Nos
abraçamos bem apertado nos beijando. Entre meus lábios ele murmura:
— Diga que vai ficar comigo.
— Sim…já estou…
Ele sorri satisfeito e antes de voltar a me beijar falar: “Minha Elena.”
Rose e Jack não sabia que melhor que fingir estar voando na proa de um navio, é transar
enlouquecidos sentindo o cheiro e o barulho do mar.
Eu mal pude esperar para puxar a cueca de Joaquim, fiquei sem ar enquanto minha mão corria
pelas suas costas, passava pelo traseiro firme e vinha para a frente, onde o pênis dele começou a
crescer na minha mão.
— Uau! — o som escorrega da minha boca. Olho para baixo abismada em como Joaquim é belo
nas partes de baixo. Volto a olhar para seu rosto e como não poderia deixar de faltar, lá está o sorriso
presunçoso. Ele viu meu olhar pasmo; sabe que fiquei abobalhada com o pau. Acaricio os pelos
loiros escuros, que estão ralos mostrando que ele os mantém aparados.
— Aproveite o tanto que quiser. — Joaquim balbucia cada palavra, meio ofegante. — É todo seu.
— Sua mão pousa na curva do meu seio, sem toma-lo todo, apenas fica ali parada. Nós dois olhando
para baixo enquanto acaricio bem devagar, com as costas dos dedos, o pênis duraço dele. Joaquim
geme e morde o lábio.
Não faça isso homem. Quer me matar do coração?
Estou petrificada olhando essa potencia masculina, inclinado meio para trás, mordendo os lábios
e com linhas de expressões na testa. Gostoso é pouco para esse pecado em forma de homem.
— Só meu? — minha voz tem mais libertinagem do que eu precisava; adorei meu tom.
— Apenas seu. — Ele afirma, em seguida me pega no colo e caminha meio sem jeito pois a
cueca está abaixada abaixo de sua bunda. Com uma gentileza um tanto tosca, Joaquim consegue nos
deitar na parte acolchoada da frente do iate.
— Acho que o corpo de bombeiro vai ter que vir resgatar a gente. — Ele fala todo sensual,
deitado em cima de mim, se esfregando, me envolvendo com braços musculosos. Antes de eu
perguntar por que, Joaquim responde: — será maratona de trepada. Não vamos conseguir andar. —
Já termina de dizer na minha boca, puxando meu lábio com os dentes e fazendo o pau passar contra
minha calcinha já toda encharcada.
Estou de pernas bem abertas, aconchegando-o no meio, usando minhas mãos para mapear cada
pedacinho dessa pele quente, com o delicioso cheiro dele; percorro as costelas, arranho as costas e
apalpo a bunda. Joaquim para de me beijar para sorri.
— Safada. — Ele murmura, e puxa um dos meus seios para fora do sutiã. — Linda. —
abobalhado, elogia. Se ergue e fica ajoelhado em cima de mim com o pau descansando para fora da
cueca, bem em cima do meu ventre. Seus olhos brilham famintos quando o polegar dele começa a
brincar com meu mamilo duro, dolorido de prazer.
— Quer dar uma aliviada? — Indaga de modo presunçoso. Belisca de leve meu mamilo e
minhas costas tenta se erguer do chão.
— Oh! Muito. — Peço ofegante. Ele diz que “não” com um movimento de cabeça. Faz os
mesmos procedimentos com o outro seio e quando tento tocar nele, precisamente no maravilhoso
abdômen definido, Joaquim segura minha mão ao lado do meu corpo.
— Relaxa… quero te analisar com cuidado. — Agora as duas mãos brincam com meus seios e
antes de me soltar ele ordenou: “mãos para baixo”.
Sou tão inquieta para aguentar uma tortura dessas. Sinto o sol fraco bater no meu rosto e fecho
os olhos só sentindo o delicioso desconforto que ele faz em mim. Desconforto por que preciso de
mais estímulo para saciar meu tesão. Está no meio termo, me inflamando e me deixando neutra.
Preciso toca-lo, senti-lo todo dentro de mim. Bem fundo, com toda sua espessura, me deixando bem
apertada e escorrendo de felicidade.
Mas ele se preocupa em voltar a deitar em cima de mim, distribuindo o peso, chupando
despreocupadamente cada um dos meus seios. Intercalando-os com a boca. Aperta gentilmente um
como se fosse uma bolinha de pelúcia e chupa o outro, movendo sua língua quente e sugando com os
lábios molhados.
— Merda… não vou pedir. — Grito indignada. Chega de só nós mulheres ficamos gritando:
“por favor!” Joaquim está excitado mas parece muito controlado.
— Se não pedir não saberei o que tenho que fazer. — Ele sorri todo glamoroso, dando uma de
desentendido, como se nem estive ligando pelo fato de eu já estar acabada de tremores. O pênis nesse
vai e vem lento entre as minhas pernas me deixa simplesmente destruída.
— Pede. — Joaquim comanda contra meus lábios. Os dedos pinçando meus seios. — O que quer
de mim, Elena? Peça. Peça para mim o que sempre quis todos esses anos, quero ouvir, não me canso
de ouvir. — Ele lambe meu lábio e sussurra quase carinhoso: — peça. — Me arrepio toda. Minha
vagina responde junto com o estômago.
Olho bem nos olhos dele. Vejo uma intensidade que me manipula abertamente, os olhos dele são
como os da Medusa. Não há como me safar. Sou dele, totalmente entregue e nem posso contestar.
— Quero você dentro de mim. Todo. Agora. — choramingo, me rebelo e o agarro com meus
dedos aflitos.
Ele pega minhas duas mãos, planta no alto da minha cabeça. Seu peito forte toca meus seios.
Joaquim lambe meu queixo, eu arfo, ele sobe chupando meu maxilar e sorri quando dou um gemido
irritado.
— Quer que eu te coma assim? Do nada? Sem nem mesmo ter chupado sua boceta antes?
— Agora Joaquim…! — rosno entre dentes e isso faz ele rir. Após um beijo daquele de me
deixar atordoada, me fazendo sentir sua língua e boca inteira, ele se levanta rápido puxa minha
calcinha, me ajuda com o sutiã e nem arranca direito sua cueca. Volta a deitar em cima de mim, afasta
minhas pernas com o joelho e enquanto passa o pau de lá para cá em mim, ele me beija e segura
minhas mãos com uma única dele. Estou deliciosamente rendida, bem segura e quase em pane.
Sinto uma pressão gostosa demais, que faz meu ventre se contrair e todo meu sangue ferver. A
cabeça do pau dele força de leve a entrada e passa me alargando de leve. Ele morde meu lábio e eu
solto um rugido feroz enquanto ele soca por inteiro.
Aperto meus olhos e sopro: “senhooor que bom…!”
Ficamos de testas grudadas, minhas mãos presas e ele mexendo o quadril de um jeito suave,
sexy, muito delirante. Está metendo aos poucos, chegando ao fim, circulando e se ajeitando, como um
parafuso. Me fazendo receber toda sua extensão grande, grossa, muito dura. Vejo estrelas e nem é de
noite. Joaquim toca bem no fundo, afasta um pouco, dá uma rebolada breve se ajeitando, tira um
pouco e mete profundo novamente.
— Caceeeteee! — Ele cerra os dentes. Está um tesão sentindo tesão. — Tudo bem? — indaga
com um beijinho casto nos meus lábios.
— Estou em choque. Você é enorme, uma delicia. — Declaro aturdida.
— Não é sua primeira vez comigo. Fizemos há pouco… — ele contrapõe com uma voz pesada,
noto que está se segurando muito para não começar a se mexer rápido.
— Meu corpo ainda está se adequando ao seu. Comece. — Imploro. Disse que não pediria, mas
já estou toda possuída.
— Não quero te machucar… — ele sussurra.
— Não vai. — Contesto tentando beija-lo. Joaquim solta minhas mãos, eu o abraço; ele apoia o
peso do corpo num braço e começa a entrar e sair devagar. Tira quase todo, deixando só a cabeça e
volta com tudo. Sempre me olhando nos olhos, bem compenetrado, os olhos nem estão mais
acinzentados, está quase todo preto, dilatados. Ele sempre se segurando, é nítido seu controle quase
caindo por terra.
— Me dê tudo Joaquim, como lá dentro a pouco. — peço. Agarro firme nos seus braços (minha
parte favorita) ele me leva a um nível muito maior. O papai e mamãe turbinado. Em plena proa de um
iate, com as primeiras horas do dia no auge, parados em alto mar.
Nos batemos rápidos, bem agarrados e gemendo o tanto que conseguíamos. Eu poderia gritar,
unhá-lo e morde-lo. Do jeito que eu quisesse. Ninguém poderia escutar nossa transa livre.
Quando enfim ele perdeu o controle, deu três socadas fundas e brutas, gozamos juntos. Sim, eu
comecei e lá veio Joaquim me acompanhando todo enrijecido, com nervosos pulsantes, despejando
jorradas quentes dentro de mim. E mesmo depois de expelir até a última gota, ele repousou em cima
de mim e continuou mexendo bem de leve, entrando e saindo sentindo meu interior todo melado do
nosso gozo recente.
Me fez lembrar de novo da pílula do dia seguinte.
— E pensar que desperdiçamos tanto tempo. Você estava na minha casa e eu dormindo de pau
duro no quarto ao lado. — Ele comenta. Estamos deitados de barriga para baixo, um ao lado do
outro, com os traseiros para o sol e o melhor de tudo: pelados.
— Não pense que para mim foi diferente, ficava molhada só em pensar em você nu no quarto ao
lado. — Confesso. Ele sorri me olhando de relance.
— Isso soa como confissões de namorados. — Ele observa.
— Sim é.
Ficamos calados. Joaquim vira-se deitando de barriga para cima. coloca o braço nos olhos para
tampar do sol.
— Estamos namorando? — Questiona sem me olhar.
— Namorando? — Repito fazendo cover de papagaio.
— Eu quero. — Ele rola ficando em cima das minhas costas; suspiro de olhos fechados, pois é
muito delicioso senti-lo me abraçando por trás. A perna grande e musculosa, se envolve dentro das
minhas e o pinto se espreme contra minha coxa. Passa o nariz nos meus cabelos me deixando
arrepiada e trêmula, de novo. — O que acha? — Quin insiste pela resposta.
— Não sei. Vamos chegar em terra firme e ver o que acontece. — Ele tira meus cabelos jogando
para o outro lado, deixando meu ombro e nuca livres. Sinto a boca dele se aproximar e um beijo ser
depositado antes de uma mordidinha sacana.
— Não me quer?
— Quero…
— Então pronto. Somos namorados. — Ele decreta e eu não contesto. É o que eu quero, afinal.
Mas há algo em minha mente que martela bem de leve. Sei que minha palavra foi bem convincente,
mas existem provas concretas contra mim, e um homem que vê uma foto daquela que Joaquim
recebeu, não esquece fácil.
— Confia em mim o suficiente para ser meu namorado? — Viro o rosto para trás, tentando
olha-lo.
Joaquim não responde. Ele fica paralisado em cima de mim. Acho isso bem estranho, afinal ele
aceitou minhas explicações sobre Jeremy e Alec.
— Joaquim… responda. — Peço numa voz ressabiada — Por mais arrogante e sem noção que
você seja, eu confio em você. Confia em mim também?
— Eu quero confiar Elena. — ele sai de cima de mim, senta e olha em volta. Me sento também,
fico olhando ele pegar a cueca e vesti-la.
— E o que te impede? — Jogo meus cabelos para trás e olho bem interessada. Joaquim evita
contato visual.
— Não precisamos falar sobre isso. — Ele pula ficando de pé estende a mão para me ajudar a
levantar. Recuso sua ajuda, me levanto sozinha. Ele não confia. Posso sentir isso.
— Eu te contei a verdade sobre não ter transado com ninguém. Você foi o único desde que
cheguei aqui. — explico mais uma vez.
— É o que espero. — Ele exala profundamente. É impressão minha ou até mesmo através desse
sorriso, posso ver uma fria armadura de prepotência? Prefiro acreditar que não. Sei que ninguém
muda em duas horas, mas espero que ao menos comigo, ele seja mais compassível, carinhoso e
atencioso. Tudo que eu quero e espero num namorado.
— Acabamos de firmar namoro. — Ele me segura, me puxando para o corpo dele. Joaquim
cheira a sexo e algo fresco, amadeirado. É um ponto fraco, derrotando minhas poucas barreiras. —
Não vamos entrar nesse tipo de conversa.
Acaricio o peito dele, subo minhas mãos para seus ombros e beijo ali.
— De verdade, não iria conseguir tendo você me minha mente. Não consegui com Alec e nem
com Jeremy e depois de hoje, não conseguirei com mais ninguém. Só quero você. — Sei que é meio
cedo para me declarar, sei que alguns homens geralmente relaxam e acabam sendo mais presunçosos
quando uma mulher se declara, ainda mais dizendo que não vai conseguir com nenhum outro
homem. Mas fiz isso para que ele acredite em mim.
— Eu sei. — ele murmura. Eu fico em duvida, se esse “eu sei” ele quis dizer que sabe que eu não
ficarei com nenhum outro homem por que só tenho olhos para ele, ou se ele sabe que eu não transei
com Jeremy e Alec.
— Então me diga, preciso ouvir. — Peço; ele sorri acariciando minha bochecha com os dedos.
— Eu acredito em você. Mas Jeremy vai me pagar.
— Está com ciúmes? — Indago já animada.
— Muito. — vejo um brilho poderoso tomar seus olhos, algo bem intenso, com uma pitada de
certeza. — Muito mesmo Elena. Não Será fácil comigo. Não aliviarei para você. Saiba disso.
Dou uma risada meio cínica e encosto meu rosto no peito dele. Imediatamente Joaquim começa
a acariciar meus cabelos, os dedos massageando meu couro cabeludo.
— Acho que posso domar um escorpião. — Murmuro e agora ele ri.
Me pega no colo e me encara, bem satisfeito.
— Não aguenta cinco minutos de cama comigo e quer me domar? Vamos logo para o chuveiro
que eu vou te mostrar mais uma vez a picada do escorpião.
— Sem vergonha. — Grito enquanto ele me leva nos braços. — Meu sem vergonha.
— Seu. — Ele repete. — Nunca tenha dúvidas disso. — Completa enquanto cruzamos a cozinha e
avançamos pelos corredores do iate.
VINTE E TRÊS
JOAQUIM

Por mim, nós ficaríamos isolado no iate por uns três dias. Mas Elena cismou de ir embora, disse
que estava em pânico de passar a noite ancorados no meio do mar, sem ninguém por perto. Coisas
ruins acontecem, isso é real.
Depois do almoço, dormimos um pouco antes de partir de volta para a cidade. Nos vestimos,
Elena se arrumou e veio ficar ao meu lado enquanto eu conduzia o iate na sala de comando. Curvei-
me para ela e dei um beijo em seus lábios.
— Você me cega com essa beleza. — Sussurrei e Elena se derreteu aparentemente.
Começamos a nos entender hoje, fizemos as pazes e tudo está foda demais. Nossa pegação não
tem limites, Elena quer dar pra mim na mesma intensidade que quero come-la. Assim que chegarmos
em terra, eu vou leva-la para minha casa e ficaremos lá por pelos menos 24 horas, pelados e jogados
na cama, vegetando e transando apenas.
Eu sempre apostei no otimismo. Eu não penso: “E se acontecer alguma coisa?” Eu gosto de
levar a vida adiante sem me preocupar com nada. Sei que haverá alguns pequenos empecilhos, mas
nada que vá nos matar. Um deles é Lisandra Montenegro.
Ainda não falei nada disso com Elena, e nem vou tocar no assunto por enquanto. Estamos muito
bem e foi difícil eu conseguir que ela me perdoasse depois da cagada que fiz. Nada de mexer no
vespeiro por agora senhor Joaquim. — Aconselho a mim mesmo.
Mas todo mundo há de concordar comigo que chega dessa palhaçada que ela Victor arrumaram
não é?
Eu assisti a um show dela, morrendo de raiva. Eu fiquei com tanto ódio em ver minha garota
dançando quase seminua, deixando aqueles marmanjos com pensamentos de merda. Porcaria! O
público dela é a maioria homens que vão mesmo só para ficar de olhos cumpridos. Não aguentei
ficar, saí antes e fiquei esperando-a no camarim. Só não a prensei na parede e a levei para minha casa
por que Victor estava lá, zoando o momento, empatando como ele sempre fez.
O mundo que me perdoe, não posso mudar o que sou e o que sinto por ela. Duvido que tenha
algum cara que aceitaria isso, ficando de boa com cara de bunda olhando a sua garota dançar em uma
boate. Elena pode ser o que quiser, trabalhar onde quiser, mas cantar em boates já é um pouco demais.
Terei um enfarte fácil se ela continuar.
Será uma conversa tranquila, quando chegarmos à Nova Iorque; quando ela se mudar para
minha casa. Eu vou expor meus motivos e pedir que ela deixe essa carreira de lado. Sei que Elena vai
aceitar.
Atracamos em um lado mais quieto da Praia do Arpoador. Quando estava quase chegando, liguei
para o dono do iate nos esperar nesse ponto específico. Também liguei para o meu pessoal e quando
saí do iate com Elena, um dos homens já me esperava para me guiar ao meu carro.
Entrego e ele meu terno e a gravata da noite anterior.
— Te ligo daqui a pouco. Vou caminhar. — Anuncio, ele assente e se afasta.
Tomo a mão de Elena na minha e começamos a andar pela praia. Em minha opinião é a praia
mais maneira do Rio. Sei que tem gente que prefere Copacabana ou outras, mas essa tem história para
mim.
Por isso que eu atraquei aqui.
Estou numa nova fase. Consegui a mulher que eu queria, e ela não vai a lugar algum, não pelo
meu gosto e nem pelo dela, claro. Quero que Elena faça parte de todas as coisas da minha vida. Tudo
mesmo. Estou doido para passar uma primeira noite completa com ela, acordarmos juntos,
tomarmos café juntos, coisa que antes eu achava frescura, que antes não me fascinava.
Não canso de tê-la ao meu lado, de ouvi-la rir ou sentir seus braços ao meu redor. Ela tem o
melhor cheiro que consigo lembrar, a pele é macia e quente, gosto tanto de morde-la, beijar e
lamber; degustar cada pedacinho dela. Gosto de soterra-la com meu corpo e abraçar bem apertado, as
vezes pergunto se estou machucando-a, como essa tarde que dormimos juntos, então ela fala que
adora que eu abrace. É tão animador que pareço eu mesmo aos dez anos abrindo meus Kinder Ovo.
— O que foi? — Ela indaga me olhando com um meio sorriso.
— Oi? — Como se acordasse de um sonho, eu olho para ela.
— Está sorrindo olhando para o nada. — Elena constata e eu solto o ar bem ligeiro. Estava
pensando nela, sendo que ela está ao meu lado. Obcecado ou viciado? Ainda não decidi. Alguns dirão
que é paixão mesmo.
— Faz uns dez anos que não venho por essa parte. — Comento observando como o lugar é
maravilhoso e claro mascarando o que de verdade estava me fazendo sorri para o vento como um
bocó. — Relembro dos meus tempos de juventude que eu vinha de bicicleta pra cá com seus irmãos.
— Faz dez anos que você não vem sequer ao Brasil.
— Circunstâncias. — Dou de ombro.
— Só por causa da sua mãe? — Ela levanta os olhos para me encarar enquanto andamos de
mãos dadas, em passos lentos.
— Não. Sabia que você sempre me causou medo Elena? — Digo revivendo o momento que eu
desconfiei que possivelmente Elena pudesse estar gostando de mim.
— O que? — Ela dá uma risada incrédula. Largo a mão dela e passo um braço pelos ombros.
Rapidamente Elena abraça minha cintura.
— O dia do iPod, eu sabia que você estava de olho nas coisas boas da vida.
— Oi? — Ela para de andar e franze a testa me olhando com uma cara cética. Abraço-a, e
voltamos a andar.
— De olho em mim. As coisas boas da vida. Estava se descobrindo e optou logo pelo melhor
que tinha no mercado.
— Até para relembrar o passado você precisa ser arrogante?
— É o que me move. — Olho de lado com os cantos dos lábios curvados e lanço uma piscadinha
fazendo ela sorrir abanando a cabeça. Como se pensasse: “Caso perdido” — Continuando, eu fui
embora sabendo que você queria alguma coisa comigo. Eu tinha um código de conduta masculino
com seus irmãos, eu não poderia tocar em você, nós vivíamos caçando os caras que tentavam se
aproximar de você. Eu seria um bastardo filho da puta se te comece as escondidas.
— Como fez recentemente. — Não deixa de dar um cutucão.
— Em circunstâncias diferentes. — Lembro-a. — Já que você estava dando pra galera, eu furei a
fila e peguei todas as fichas, que eu não sou besta.
— A conduta masculina deixou de existir do nada?
— Não. Você completou maioridade. Lembro o dia que chegou a casa de Edgar. O dia que bati a
porta na sua cara.
Ela ri se lembrando também do dia em questão.
— Aquele dia você foi grosso comigo. — Ela recorda fazendo uma voz chateada.
— Pois é. Queria te afastar urgentemente. O medo me tomou quando eu vi suas pernas, e que
estava com uns peitos de repeito. E eu ainda pensava que existia a porra da conduta masculina. Saiba
que foi difícil eu tomar a decisão de te pegar na espreita. Comer ou deixar os outros comerem? Foi
minha questão.
— Não fale desse jeito. — Ela me corta meio tensa me dando bronca. — Você sempre se lembra
do assunto como se eu tivesse sido um prêmio a ser ganho.
E era na verdade. Não digo isso, pois não estou querendo levar um chute nas bolas. Na época,
foi um jogo bem gostoso. Transar com ela sem que ela percebesse. Fui foda, tenho que reconhecer.
— Desculpa. — Para ela eu falo isso, expor meus pensamentos é perigoso. — Acima de tudo eu
estava te salvando.
— Não, estava me viciando em você. — Ela me corrige.
— E consegui? — Indago me aproximando e dando um beijinho sorrateiro nos lábios dela. Ela
tenta resistir, mas acaba sorrindo. Não responde, mas pelo brilho dos olhos e o sorriso luminoso,
sim, eu consegui vicia-la só em mim. E isso trás um certo alívio, como eu já tinha comentado. É
muito bom saber que eu fui o único desde que ela perdeu a virgindade. Coisa de homem, talvez seja
melhor não tentar entender nossa mente.
Caminhamos por mais alguns metros, saímos da praia e seguimos passando pelas ruas. Já é mais
seis da tarde.
— Vamos entrar em algum lugar e comer alguma coisa? — Ela propõe.
— Comida brasileira? Claro. — vejo a nossa frente um bar/restaurante. Corremos juntos
atravessando a rua e entrando no estabelecimento.
A essa hora ainda está meio vazio. Bem lá na frente, há um palco baixo de madeira, onde uns
caras afinam instrumentos. Vejo uma sanfona e me animo.
O ambiente tem uma cara rústica, mas elegante ao mesmo tempo. As mesas têm toalhas brancas
e o chão é de madeira bem polida. As cadeiras são altas e de madeira escura. Do outro lado, tem
mesas altas com banquinhos, apenas para beber, e tem uma sinuca onde vários homens estão ao
redor, jogando e bebendo.
— Meus pés estão me matando. — Ela resmunga. — Vai pegar algo para bebermos, vou me
sentar. — Deixo Elena numa mesa tirando os sapatos e olhando a situação dos pés, enquanto vou ao
balcão ver o que eles servem aqui. Não entendo por que estão doendo, já que para andar na praia ela
tirou os sapatos; nem entendo por que ela teve que tira-los para andar na areia. Se dói tanto por que
usar algo tão alto que corre o risco de cair?
— Boa noite. — O homem das bebidas me cumprimenta.
— Isso aqui vai lotar? — Aponto para a banda com um gesto de cabeça.
— Sim. Às oito estará entupido.
— Então queremos comer e dar o fora. — Aponto para Elena que está mais interessada no
celular. — Ela está cansada. Dia longo.
— Certo. — Ele faz sinal para um garçom que vem até mim. — Atenda o casal; o prato da casa?
— Volta-se para mim e eu faço uma cara de “não sei”. — Moqueca. — Ele esclarece; minha boca
enche de água.
— Pode ser. — Faz uns mil anos que não como uma moqueca de verdade. espero ter entrado no
lugar certo, por que não é todo lugar do Brasil que faz moueca de qualidade. Volto para a mesa com
uma cerveja e um coquetel de champanhe e frutas para Elena.
— Come peixe? — Indago quando me sento.
— Pediu peixe? — Ela recebe a taça enorme e suga um pouco no canudinho.
— Moqueca. Se não quiser podemos pedir outra coisa.
— Não. Está ótimo. — Elena cruza os dedos abaixo do queixo e me olha sorrindo. — Estava
com saudade de comer essas coisas?
— Você nem imagina como. Arroz com pequi, carne de sol com mandioca, dobradinha. É muita
coisa. Acho que eu teria que passar um mês aqui só para comer.
— Eu posso cozinhar algumas coisas para você lá em Nova Iorque, só preciso levar os
ingredientes. — Ela se prontifica voltando a beber no canudinho.
— Sabia que eu tinha acertado em cheio ao te propor namoro. Sou sortudo.
— Vindo de você, achei que iria dizer que eu era a sortuda por estar com o magnânimo Joaquim
Mafra. — Ela desdenha com ironia.
— Também, mas sua sorte é bem pequena perto da minha. Onde eu poderia encontrar alguém
que me conhece desde sempre, que fala minha língua, que tem uma beleza enorme por dentro e é uma
delícia por fora? Você é tudo o que eu precisava, Elena.
Seguro a mão dela por cima da mesa, ela me olha com cara de ursinha apaixonada. Parece tão
nova, uma menina, com seus vinte e seis anos, na sua pequena e delicada estatura, Elena é minha
fraqueza. Reconheço.
— Superaremos juntos, nossas cagadas. — Digo e ela assente.
— Sim, juntos. — Concorda.
Claro que não senti o mesmo gosto da moqueca que eu comia quando morava aqui no Brasil.
Mas essa não deixou de ser muito boa. Eu pedi uma porção para dois e veio uma panela enorme de
barro. O caldo estava borbulhante e o cheio era divino. Elena comeu o tanto que o estômago pequeno
e feminino dela aguenta e eu mandei ver no resto.
— Você comeu uma panela de moqueca e uma de arroz. Vai passar mal. — Ela alertou me
assistindo comer.
— Vou passar mal se não comer. — Arrematei em seguida com uma cerveja de latinha. — Estou
satisfeito. — Bati na barriga e recostei na cadeira, relaxado.
— Eu ficaria assustada se você ainda não tivesse satisfeito.
Ficamos algum tempo na mesa, descansando antes de partir. Estava prestes a pegar meu celular e
ligar para virem nos buscar quando a banda começou a tocar. Um forró gostoso de ouvir. Uma
música que era do meu tempo.
— Eita que já entrei em enrascada nas noites de forró na casa do seu Augusto. Lembra dele? —
pergunto e Elena dá uma risada.
— Claro. Fui uma vez e meus irmãos armaram confusão quando me viram dançando.
— Verdade. — Bato na mesa. Se ela soubesse que eu que dei um toque em Edgar para ele
colocar Elena pra correr…
— Garanto que suas confusões eram por causa de mulher. — Ela sugere.
— Basicamente. — Meneio a cabeça não querendo aprofundar o assunto. — Mas eu era o
melhor pé de valsa das redondezas. Ganhava fácil de Edgar.
— Mentira. — Elena fica boquiaberta quando dou essa declaração.
— Sério. Tem coragem de levantar aqui e agora e ir ali arrastar pé comigo?
Após me olhar de lado, sem querer acreditar, Elena exclama perplexa: — Você? Joaquim Mafra,
o temido empresário de Nova York, o que chamou atenção de uma condessa, o que já estampou capas
da Forbes e People, quer dançar forró num bar?
Fico de pé e estendo a mão para ela. Uma música de Falamansa começa a tocar.
— Está com medo de ser humilhada Leleca?
Elena morde os lábios, semicerra os olhos e se levanta. Descalça. Ela segura na minha mão e eu
a levo para perto do palco onde algumas pessoas também estão dançando.
— Estou meio enferrujado. Tem uns anos que não danço. — Aviso ficando de frente para ela.
— Está de desculpinhas Quin?
Seguro uma mão dela, coloco a mão nas suas costas e trago-a bem para perto. Colada no meu
corpo.
— Sinta a pegada do carioca. — Rosno de modo pachorrento contra os lábios dela. Elena ri e eu
começo a nos embalar conforme a música “100 Anos” de Falamansa que está sendo interpretada pela
banda.
É uma dança sensual e bem excitante. Minha perna já está dentro das dela enquanto Elena rebola
colada ao meu corpo. Tem como não ficar de pau duro?
O segredo do forró é nunca deixar de se tocar totalmente. É uma dança bem íntima, até mesmo
nas piruetas uma das mãos deve estar ligada. Elena gira, volta para meu corpo abraçando minha
cintura, torno a gira-la acochando por trás, esfregando meu quadril em sua bunda e trazendo-a de
volta a ficar de frente para mim. Está sorrindo quando ficamos de frente remexendo com a música.
— Você dança bem. — Ela constata.
— Como faço outras coisas bem. — Pontuo e ela ri jogando a cabeça para trás.
— Quais coisas?
— Pense nessa dança. Agora elimine as roupas e nos coloque em uma cama. — murmuro no
ouvido dela, sentindo-a estremecer e morder o lábio fechando os olhos momentaneamente.
Continuamos a dançar e em determinado momento eu estou cantando junto com a música: “Eu quero
viver mais uns cem anos… pra reparar os danos e um dia te encontrar por aí.” — Paro de cantar pois
ela levanta os pés e ataca minha boca em um beijo afogueado.
Me agarra forte, ainda se remexendo lentamente me fazendo babar na cueca. Essa mulher me
mata. Penso na boca dela embaixo, no meu pau e sinto um calafrio. É demais para qualquer homem.
— Doida para ir embora. — De lábios úmidos, meio ofegante, ela confessa, ainda bem perto.
Sinto o calor da fala dela. Me arrepio todo.
O salão começa a encher, já está escuro. O lugar está ficando barulhento e eu acho que é hora de
irmos dançar sozinhos.
— Vamos. — Eu digo e a puxo pela mão. Ligo para que meu motorista venha nos buscar, acerto
a nossa conta e saímos para esperar do lado de fora.
Já começamos a nos pegar dentro do carro, na parte de trás. Elena tentou me parar, mas do jeito
que eu estava não conseguia me lembrar nem meu nome. Nessas horas, a rola é quem domina o
corpo. Foi um amasso meio comedido por que ela estava envergonhada pelo motorista. Quando
enfim paramos na minha casa, eu a segurei na sala mesmo. Só deu tempo acender a luz.
— Para o quarto. — ela pediu ofegante usando a voz por dois segundos já que minha boca não
dava trégua.
Me lembro que ainda não transamos na cama desde que nos acertamos. Eu consigo um pingo de
controle, pego-a no colo e corro para o quarto. Juro que quase parei na escada e mandei o bom senso
se danar.
— É o seu quarto? — Ela pergunta quando eu chuto a porta e entro doido.
— Sim. — Arranco minha camisa e desabotoo o cinto bem rápido. Vou para deitar, mas ela me
para. Está sentada na cama segurando na minha cintura. Tão desesperada como eu, ela dá um puxão e
a cueca desce nas minhas pernas, meu pau salta bem duro e ela o agarra.
— Elena…
— Shhh. Relaxe Quin. — Ela murmura e passa o polegar na cabeça do meu pau espalhando o
líquido transparente do pré-gozo que sai do buraquinho. Meu corpo da um solavanco e ela ri,
morrendo de tanto gostar da situação. Não sei se aguento uma chupada. Só de pensar já estou quase
esporrando na cara dela.
— Elena…
— Peça Joaquim.
— Oi? — Abro meus olhos e encaro-a. Ela dá um sorriso maléfico.
— Se não pedir eu não sei o que fazer. — O brilho dos olhos dizem o que ela pensa. É como se
estivesse me dando o troco. — Peça Quin. Apenas me peça. — A safada usa uma voz melodiosa,
como se estivesse me tentando.
— Quero… você. — resmungo me sentindo passado pra trás.
— Seja mais específico. — Ela pede punhetando de leve meu pau e mordendo o maldito lábio.
Tento avançar, mas ela me impede. — Peça. — Como eu fiz com ela.
— Me coloque em sua boca! Me faça gozar Elena…!
Ela assente.
— Se é assim que você quer…
Ela se aproxima, lambe os lábios e passa a língua em torno da minha glande. Fecho meus dedos
em punho e trinco os dentes. Ela torna a lamber e agora a língua desce em toda a extremidade, quente
e úmida, puxando minha alma pela minha rola.
Chega ao saco, dá uma lambida única e volta e agora chupa a cabeça. Chupa como ela fez com o
canudinho do coquetel, me torturando, a maldosa. Suga com delicadeza e firmeza, os lábios se
fechando delicados e macios ao redor do meu pau, abocanhando-o cada vez mais.
Estou em êxtase. Estou quase caindo. Seguro na cabeça dela, penteando-lhe os cabelos enquanto
ela não dá trégua e eu gemo abertamente.
— Porraaa! Que delícia! Elena…
Ela segura nas minhas bolas e chupa meu pau com uma fome desgraçada. Sem aquela coisa
louca de engasgar. Apenas chupa, degustando, de olhos fechados como se apreciasse o sabor, sinto
um arrepio quente me tomar, todo meu corpo responde quando a combustão interior começa a subir,
quando olho e vejo que ela está de pernas abertas se tocando com os dedos enquanto me faz o melhor
boquete de todos.
Minhas pernas tremem, sinto vim rasgando tudo dentro de mim, esticando mais ainda meu pau.
— Oh Caralho! Vou gozar caceteee! — Aviso mas ela não para.
— Elena! — tento puxar da boca dela.
— Nem ouse. — Ela resmunga e não há mais o que eu fazer. Curvo levemente meu corpo para
trás enquanto meu pau dentro da boca dela, sendo ainda chupado começa a expelir jatos de esperma
quente e cremoso. Quase enlouqueci. Não aguentei ficar de pé quando terminei. Ela me deixou de
pernas bambas e visão turva. Me joguei na cama olhando o teto.
Elena arrancou o vestido, ficou pelada e subiu em cima de mim. Esperou eu me reanimar.
Ficamos nos esfregando pelados, nos beijando por longos minutos.
— Agora é minha vez. — incrivelmente meu pau já estava animado novamente quando ela me
empurrou para dentro da boceta macia e bem ensopada. Não tinha nada que eu queria mais. Me
domou como se eu fosse um touro. Cavalgou gemendo, me unhando e mordendo cada pedaço da
minha pele.
Foi nossa primeira transa numa cama. Ainda eram nove da noite quando terminamos e caímos
quase desfalecidos, suados e ofegantes.
— Cinco vezes só hoje. Temos que maneirar. — Ela fala já com a voz rouca, meio sonolenta.
— E esse nem é meu recorde. — Comento. Ela me olha feio e tenta se afastar. Sabe que estou
falando de outras mulheres.
— Não. Volte aqui. — abraço-a bem apertado. Ela não se debate mais, fica ali, encolhida nos
meus braços.
— Está gostando de ser minha namorada? — enfio o rosto nos cabelos dela e aspiro
profundamente. Elena esfrega o corpo no meu e ronrona manhosa.
— Nem imagina o quanto. — Ela levanta a cabeça e olha ao redor.
— O que foi?
— Minha bolsa.
— Está ali no chão. Vamos dormir.
Ela volta a deitar relaxada.
— Por um instante achei que estava esquecendo de algo.
— O melhor está aqui com você. Não esqueceu de nada. — falo e dou um beijo nos cabelos dela.
Elena se ajeita nos deixando numa posição perfeita de conchinha, pelados, bem enrolados. Não tem
coisa melhor. Ela vai relaxando até eu perceber que caiu no sono. Também começo a ficar tonto e
acabo me sucumbindo ao sono. Foi um dia puxado mesmo. Tanto sexo assim cansa.
Entretanto, antes de dormir completamente eu lembro do que Elena pensou ter esquecido.
A pílula do dia seguinte.
Não me preocupo, ela disse que é do dia seguinte. Amanhã eu compro e tudo fica bem.
VINTE E QUATRO

ELENA

Tem gente que sonha em acordar pela manhã e se deparar com uma vista esplendorosa de um
belo jardim ou paisagem perfeita que pode ser vista da janela. Eu confesso que é bom mesmo. No
apartamento que morei quando saí da casa dos meus pais, ficava no terceiro andar e a janela dava
para a rua. Não era uma vista da natureza, mas eu gostava. Eu ficava na cama, ainda sonolenta,
olhando o movimento do dia começando. A janela ficava rente a minha cama.
Mas nada se compara a essa visão matutina, que acabei de ver: Senti a claridade nos meus olhos
fechados e sabia que já era dia. Ainda de olhos fechados e sorrindo, eu me espreguicei e rolei para o
lado em busca de um aconchego quente, procurando o corpo de Joaquim. Mas ele não estava ao meu
lado. Tateei do outro lado e abri os olhos. Estava sozinha na cama. Uma decepção.
Fiquei olhando para o teto, me despertando aos poucos e então ouvi um barulho como
respiração ofegante. Olhei em volta e foi então que vi, ali no chão do quarto, com uma bunda
exemplar recheando uma boxer branca, meu novo namorado. E ele está fazendo flexões.
Quem acorda e vai fazer flexões? Eu nunca. Mal me exercito durante o dia veja lá de manhã.
— O que está fazendo? — Indago apoiando a cabeça no cotovelo e tendo uma visão privilegiada
do corpo grande e forte subindo e descendo. Os bíceps estão saltados enquanto ele coloca força para
se erguer e abaixar.
Joaquim para e olha para mim. Dá um belo sorriso e deita de frente. Agora começa abdominais.
Uma perdição esse homem fazendo abdominais de cueca.
— Estou preso a essa rotina. — Ele explica com a voz entrecortada por causa dos rápidos
movimentos. — Por não ter muito tempo para academia eu acostumei a malhar quando acordo.
Agora meu corpo acostumou.
Nossa. Me belisca. Isso tudo é meu? — Penso com um sorriso malicioso. Que vista perfeita, não
consigo desgrudar os olhos do volume na cueca dele. Era dessa vista que eu estava falando. Quem
quer ver árvores e pássaros quando pode ver esse monumento?
— Seu olhar está me deixando de pau duro. — Ele avisa e continua se erguendo do chão, com os
braços atrás da cabeça. Os músculos se mexem e oscilam perfeitos, até o sovaco do homem é bonito.
Depois de pensar que o sovaco dele é bonito, eu rio, abano a cabeça e me sento juntando meus
cabelos, penteando com as mãos. Os lavei no banheiro do iate, nada de condicionador, está uma
lástima. Preciso dar um tempo de atenção especial a ele.
Joaquim fica de pé e vem andando para a cama, no caminho arranca a cueca e joga de lado,
completamente nu, sobe na cama e vem em minha direção. Me empurra para que eu deite de novo e se
ajeita em cima de mim. Eu o abraço e aspiro profundamente sentindo o cheiro dele.
— Estava me olhando e sentindo tesão? — Ele pergunta passando o nariz nos meus seios. Seus
dedos fazem círculos leves no meu ventre.
— Sim… foi uma visão e tanto. — Seguro firme nos cabelos despenteados dele.
— Eu nem preciso olhar para sentir tesão por você. — ele fala e já começa a se esfregar
sensualmente em cima de mim. Seu pau já ereto passando de lá para cá, de um jeito torto, entre
minhas pernas. Abro-as mais e abraço Joaquim enquanto passo meu nariz e boca na pele dele.
— Como diz a diva Lana Del Rey, você se encaixa em mim, melhor que meu moletom preferido.
Ele levanta o quadril, passa os dedos na minha vagina, provocando meu clitóris e assim que
começo a gemer de olhos fechados e sorriso relaxado, ele substitui os dedos pelo pênis. Passa a
ponta pincelando e depois começa a pressionar, firme, deslizando aos poucos, me olhando enquanto
se aprofunda, observando sem piscar cada uma de minhas expressões.
— Encaixando assim? — Joaquim solta um sorriso carinhoso e dá um beijinho no canto da
minha boca, outro nos meus lábios e outro na minha testa. Está todo aconchegado dentro de mim e
parado, sem mover, me fazendo sentir seu peso acompanhado de seu grande pau me consumindo
mesmo sem o vai e vem.
— Que delícia Quin… se encaixa em todos os sentidos. Todos.
— Encaixar é a expressão perfeita. — Ele murmura, me beija e começa a mexer a bunda: indo e
voltando, se afundando macio dentro de mim.
Fizemos um sexo maravilhoso, lento e profundo; tem muita vantagem em ter Joaquim deitado
em cima de mim. Não canso de apalpá-lo, de morde-lo e sentir cada pedacinho dele me dando prazer;
mas então ele se virou e me deixou em cima dele. Ainda não escolhi qual a melhor posição.
Eu começo a cavalga-lo devagar, ele segura meus seios e eu fico louca. O melhor é quando ele
me puxa para deitar sobre ele, me abraça, nos beijamos e com as pernas meio dobradas ele
impulsiona para frente me preenchendo por completo: rápido e forte.
Gozamos horrores. Juntos, como sempre. Nem sei quanto tempo ficamos agarrados, ainda nos
sentindo, eu ainda sentindo-o pulsando dentro de mim.
Depois nos levantamos e corremos para um banho completo. E claro, não foi apenas um banho.
Estávamos novamente lá, nos batendo ferozmente, eu com as costas na parede enquanto Joaquim me
sustentava em seu corpo.
Sexo matutino no chuveiro: não tem preço.
— Vamos almoçar na casa dos meus pais. — Eu comunico enquanto preparo o café. Joaquim
está sentado olhando as últimas notícias de Nova Iorque, para saber como estão seus negócios.
— Hum… estava pensando em ficarmos o dia todo sozinhos. Amanhã a gente vai. O que acha?
— Ele responde ainda concentrado no tablet em sua mão.
— Teremos todo tempo do mundo. Que dia você vai voltar para Nova York?
— Depois de amanhã, talvez. — Joaquim meneia a cabeça, mas continua concentrado lendo. —
Você vai comigo. — comanda em seguida.
Eu não contesto. Claro que vou com ele. Quero mesmo ir com ele. Termino o café, esquentei
uns pães de ontem que encontrei no armário e assei um bolo rápido, de massa pronta. Sirvo duas
canecas de café e empurro uma para Joaquim sentando ao seu lado. Ficamos em silêncio bebendo, ele
ainda lendo. Inclino o pescoço olhando o que ele está lendo.
— Fofocas? — Indago curiosa ao ver que é site de celebridades.
— Sem importância. — Ele fala e tenta sair da página; mas eu sou mais rápida e tomo o tablet.
Joaquim tenta me deter mas eu consigo escapar dos braços grandes dele, dou um pulo e fico de pé
olhando a tela.
— Eu não tenho nada a ver com isso. — Ele declara pegando um pedaço do bolo e comendo, de
olho em mim, como se eu fosse um gato preste a voar na sua comida. Sento novamente ao seu lado.
Abaixo os olhos e vejo o título em inglês: “Broken Alliances!” (Alianças Quebradas) Abaixo a
pergunta meio tendenciosa também em inglês; algo como: “Estaria Mafra, o rei das noites de Nova
York por trás disso?
Começo a ler e vejo uma foto de Joaquim e a condessa juntos, elegantes, sorridentes,
maravilhosos. Fico cheia de ciúmes. Morta mesmo, vontade de quebrar o tablet. Engulo o choro
como quando sempre fiz quando via essas fotos, e continuo a ler.
A notícia é sobre o fim do casamento de Alexandra e o Conde Mitchell e colocando Joaquim
como possível pivô da separação. Tudo que leio são suposições.
Quem fez a reportagem está ligando os fatos; fico boquiaberta ao descobrir que aquela mulher
bela daquele jeito já tem trinta e oito anos, mais velha do que Quin. Também há entre aspas uma fala
dela, que deu seu parecer: “A vida é feita de escolhas, eu escolhi minha felicidade. ” E abaixo há mais
uma foto de Joaquim e Alexandra saindo do seu apartamento; abaixo há a data da foto.
Eu já estava na loucura dos doze, ele já estava transando comigo e ainda assim estava saindo
com ela. Disso eu já sabia, eu vi naquela noite no apartamento dele. Mas agora, que ele é oficialmente
meu namorado, isso me deixa bem puta. Só agora percebo como Joaquim pôde ser frio comigo.
Deixo isso de lado. Beberico o café, nem olho para ele. Não sei como está minha expressão, mas
estou tentando mostrar indiferença. Sei que são boatos, mas a raiva aperta minha garganta.
— Diga alguma coisa. — ele pede. Olho para ele e Joaquim está atento, ereto de olho em mim.
Ajeito meus cabelos atrás da orelha e abraço meu corpo. Estou usando um roupão dele.
— Eu sei como são as fofocas sobre gente famosa. — Falo e corto um pedaço de bolo. Queria
na verdade está cortando o belo e assimétrico nariz daquela condessa de bosta e anciã.
— Eu não tenho nada a ver com isso. — ele afirma em tom categórico.
Mastigo o bolo, com calma antes de sussurrar: — Eu sei. — engulo um gole grande de café e
queimo minha língua. Engulo a dor com a raiva.
— Então não precisa ficar com essa cara, eu estou aqui, estamos juntos… — ele começa a falar
depressa.
— Eu sei. — interrompo.
— Elena…
— Será que posso digerir isso quieta? — Falo bravo e em alto som. Ele se retesa. — Eu não
quero brigar no nosso segundo dia de namoro. — Continuo, agora em tom mais baixo — Apenas me
deixe pensar.
— Foi como me senti quando vi você e Jeremy…
Meu olhar o faz parar de falar no mesmo instante. Como se ele pudesse ver uma ameaça
assassina estampada nas minhas pupilas.
— Vai se danar Joaquim. — grito e me levanto. — Imbecil. — Corro para fora da cozinha. Mas
ele me alcança me prendendo entre a parede e seu corpo.
— Não venha colocar Jeremy ou Alec ou quem quer que seja nisso. — grito com ele; empurro
seu peito e ele se afasta. — Eu estou passando por maus bocados desde o início, você não precisou
fazer nada para que eu te perdoasse, não deixou a arrogância de lado e age como se fosse um
presente dos céus para a humanidade, tenha ao menos um pingo de sensibilidade, não venha tentar me
deixar culpada.
— Você disse que não se importava com a notícia tendenciosa. — Ele revida baixinho, meio
temeroso. — Por que essa raiva?
— Por que quando eu olho para essa mulher, eu vejo você ali, com ela, enquanto me enganava
nas noites. Dando valor a ela e me mantendo como um reservatório de esperma.
Joaquim volta a me segurar, aperta meus ombros e faz um olhar indignado.
— Não fale essa baixaria. Se escute.
— Estou me escutando. Vai negar que não foi assim? Que não transou com ela enquanto estava
me enganando nas noites?
— Não vamos voltar com essa história Elena. Estamos tão bem. Não quero ver Alexandra nem
pintada na minha frente.
Me afasto dele e penteio os cabelos com os dedos jogando-os para trás.
— Eu acho melhor irmos ver meus pais. Preciso conversar, espairecer…
— Não vamos resolver isso? — ele volta a segurar meu pulso.
— O que tem pra resolver? Sou louca por você e já engoli tudo isso, todas essas suas merdas. Eu
já te desculpei, já empurrei tudo para baixo do tapete só para ficarmos bem. Mas não posso deixar de
sentir raiva dela e sentir ódio de mim por ser tão fraca.
— Eu também sou louco por você. Não quero te perder…
— Não vou a lugar algum. — Tranquilizo-o — E pode ficar tranquilo, não sou como você que
quando vê uma foto e fica com ciúmes, vai atrás de outra pessoa. Eu sei lidar com isso sozinha,
passei muito tempo fazendo isso.
Dou as costas e vou andando bem rápido em direção ao quarto. Ele vem também e começamos a
nos vestir, calados, como se vestir a roupa fosse uma tarefa de uma gincana que precisasse de
concentração.
Estou com a mesma roupa desde sexta-feira, com o mesmo vestido do casamento. Joaquim veste
um jeans, calça tênis e sem camisa começa a ajeitar os cabelos no espelho do quarto, ao meu lado
onde eu já estou tentando domar os meus cabelos. Ele, como sempre está uma perdição, não há como
esse homem ficar feio. Ele fez careta para mim ontem e ficou espetacular.
Agora está muito cheiroso e eu reviro os olhos sabendo que ele está apenas tentando uma
aproximação comigo.
Depois ele vai ao armário, pega uma camiseta preta e veste. Ela se adere muito bem ao corpo
musculoso, ressaltando peito e os bíceps. Eu finjo não perceber; mesmo ele parado atrás de mim, eu
finjo que estou sozinha terminando de amarrar os cabelos num rabo-de-cavalo. Me viro, desvio o
olhar e saio do quarto resmungando um “Vamos”.
Estou com a cabeça cheia. É estranho como eu tenho mais raiva dela do que dele. Mulheres são
assim, ficam com mais raiva da fulana. Sem falar que eu não tenho por que ficar indignada. Ele está
aqui comigo, e o que conta é a partir de agora, que firmamos namoro.
Saímos de casa e entramos no carro alugado Essa casa dele é muito perfeita. Ele ajeitou tudo
sem precisar vir ao Brasil. Comprou a casa, reformou e tudo, quando Edgar e Celeste marcaram a
data do casamento. Na igreja que ela escolheu, precisa marcar com muitos meses de antecedência.
Ainda bem que tudo deu certo e Celeste está curtindo horrores em Fernando de Noronha.
Mandou uma foto ontem pra mim, me matando de inveja.
Joaquim está tenso enquanto dirige. Posso ver seus dedos apertarem com força o volante.
Estamos sérios e mudos. Ele sabe que não é o momento de falar. Preciso refletir.
Quando o carro para em frente a casa dos meus pais, Quin segura meu braço antes de eu descer.
— Estamos bem não é? — Agora, a aflição é nítida nos olhos acinzentados dele.
— Estamos. — Confirmo e saio do carro. Ele também sai, e me acompanha quando chego ao
enorme portão. Meu pai tem uma Kombi de estimação de 93 se não me engano, por isso, na casa
deles tem dois portões grandes. Um para o carro normal e outro para a Kombi. Vai entender.
Minha mãe abre e já dá um gritinho, como uma fã que vê o casal que ela “shippa”, juntos, ao
vivo.
Elaboro um sorriso como o dela e deixo que a mão de Joaquim escorregue segurando a minha.
Olho de relance e ele está sorrindo também.
— Vocês dois… que lindos! Meus bebês. — Minha mãe choraminga e me puxa me abraçando. —
Onde se meteu filha? Desde aquela loucura no casamento eu quero ouvir tudo sobre como vocês se
entenderam.
— Como eu disse, fugimos uns dias. — Joaquim fala com seu timbre encantador. — Elena não
resistiu ao meu convite.
— Pode ir baixando sua bolinha. — Ela avisa a Joaquim. — Lúcio quer ter uma conversa séria
com você. — Reviro os olhos. Lúcio é meu pai. Não vai adiantar de nada. Isso tudo é só fachada, eles
adoram Joaquim. Papai vai conversar e sair mais apaixonado ainda da conversa. Quin tem o poder de
encantar.
— Venha aqui. — Ela abraça Joaquim. Ele precisa se curvar, pois minha mãe é quase uma Smurf
de tão baixinha. — Olha como está gigante. — Ela observa o tamanho de Joaquim. — Essa bunda dá
duas da minha.
— Mãe! — Eu grito horrorizada enquanto Quin gargalha. Ela vira-se e vai andando para a porta
de entrada da casa.
— Só digo verdades.
Estou rosada de vergonha. Não acredito que minha mãe fez referências a bunda do meu
namorado. Namorado esse que ela praticamente criou. Queria estar morta.
Nós dois a seguimos para dentro de casa e já na sala nos deparamos com meu pai ponderando
em sua poltrona exclusiva. Ele está concentrado no nada. A televisão ligada, mas ele olha para um
ponto na parede.
Meu pai se aposentou cedo por causa de um problema na perna. Mas não pense que é ocioso. Ele
quase nunca para em casa. Faz caminhada com minha mãe, vão juntos a uma academia onde tem aulas
de hidroginástica e ainda faz bicos nas redondezas com sua Kombi antiga. Sempre faz viagens para
uma empresa de turismo. Os gringos amam.
Assim que entramos ele acorda do transe, seu rosto se ilumina quando eu entro, mas logo se
fecha quando vê Joaquim.
— Oi pai! — Vou rápido até ele e consigo meu abraço.
— Oi Leleca, deixou a gente aqui sem notícias. Isso não se faz. — Já recebo minha bronca
básica.
— Achei que Joaquim tivesse avisado. — Essa minha frase foi melhor que dizer: “Joaquim me
sequestrou. ”
— Ele veio com uma historinha pra boi dormir. Mas você sabe que banana e bolo engana os
tolos, bolo e banana não me engana. O que aconteceu? — Joaquim já está perto da gente, com um
braço possessivo no meu ombro.
— Foi o que eu contei. Elena passou da conta na bebida e acabou capotando no meu carro…
Desacordada. — Quin mente perfeitamente bem e depois olha para mim — Não foi Lena?
— É, foi. Estava desacordada, como se alguém tivesse me sedado. — Concordo, mas sem deixar
de lado a menção ao sequestro.
— Como você some com minha filha para Deus sabe onde, sem que ela leve ao menos uma
roupa? Meu pai continua o interrogatório, depois olha para mim. — Miguel está no fundo. — Ele
aponta, se levanta e vira para Joaquim. — você vem comigo. — Nem espera alguém dizer nada, já
caminha para uma porta que leva a um corredor onde sei que fica uma sala que minha mãe sempre
usou como biblioteca. Antes era nossa salinha de estudos. Agora ela passa tardes ali, lendo.
Não restou outra opção a Joaquim, senão seguir meu pai.
— Pode ficar tranquila, você não vai perder o namorado. — Minha mãe caminha para o fundo
da casa e eu a sigo.
— Como sabe? Eu nunca trouxe namorado aqui.
— Seu pai ensaiou esse momento desde quando descobriu que eu esperava uma menina. Eles vão
beber uma dose de alguma coisa, Joaquim vai prometer que jamais te fará mal e estará certo que se
isso acontecer ele pode fugir para o inferno que será pego.
Então se meu pai sonha o que Joaquim já aprontou… Ele está ferrado.
Chegamos a cozinha e posso ouvir risadas lá na área do fundo. Meus primos estão aqui. Corro e
cumprimento cada um deles e fico sob o olhar de águia de Miguel. Ele olha para dentro esperando
alguém vir, sei quem ele está esperando.
— Quin já vem. Está conversando com papai. E você cuide de sua vida. — aviso-o de imediato.
— Vou tomar um banho e me trocar. — Mando beijinhos para eles e corro para meu quarto.
O dia foi fantástico. O almoço maravilhoso e divertido. Leo se encrespou para cima de Joaquim,
que não ficou para trás e quase saiu murro. Dizem que dois bicudos não se bicam, os dois se
merecem.
Miguel estava na boa até Joaquim falar com Leo: “Ela está com o cara certo. Fique na sua.”
Meu pai veio e gritou com eles e disse que o bate boca estava encerrado. Todos se calaram e eles
foram beber juntos.
A casa é enorme, tem quase cem anos que foi construída pelo meu avô; tem dois pavimentos e
quartos até dizer chega. O quintal é enorme, tem algumas árvores frutíferas como manga e acerola.
Coisas que dificilmente se vê nos Estados Unidos.
Depois do almoço, cada um procurou um lugar para se encostar, ajudei minha mãe a arrumar a
cozinha e fui me deitar numa rede de dormir que fica na área e tem uma bela vista do quintal e do céu
cheio de nuvens.
Fico me recordando quando eu estava aqui dois anos atrás, chorando por não poder ter meu
próprio apartamento.
Sinto a rede se mexer e abro meus olhos. É Joaquim. Não trocamos mais que duas palavras
desde que chegamos aqui. Flagrei-o me encarando umas vezes, mas só isso.
Ele está sem sapatos, vem e deita comigo, ele me abraça e eu respiro fundo o abraçando de
volta.
— Me desculpa, de novo, pela história dos signos. — Ele pede. Seus lábios estão bem perto da
minha cabeça.
— Já o perdoei. — Murmuro.
Ficamos calados, ele acariciando meus cabelos. E eu decido colocar pra fora meu real medo,
desde que vi a noticia.
— Eu sempre via fotos de vocês dois na internet. E quando eu cheguei à Nova Iorque e o Edgar
comentou que você gostava muito dela, eu fiquei tão mal. Queria com todas minhas forças transar
com os doze, apenas para tirar aquele peso de mim. — Joaquim não fala nada. Me abraça mais
apertado. Sinto sua respiração pesada acima da minha cabeça. — Então hoje quando vi a notícia,
fiquei com tanto medo que você esquecesse tudo da gente e corresse para Nova York. A Condessa
está livre agora, e eu não quero deixar ela te pegar de volta.
Ele se mexe e fica meio em cima de mim, para que nossos olhares se encontrem.
— Eu não posso te prometer que vou virar santo. Errarei mais algumas vezes e vamos errar
juntos e superar juntos. Mas posso te prometer, que ela é um erro que jamais repetirei. Acredite em
mim.
Dou um sorriso aliviado. Quando ele começou a falar eu achei que ele iria dizer que não podia
prometer que não pode ficar sem encontrar ela. Puxo-o para um abraço. Enterro meu rosto na curva
do pescoço dele.
— Edgar tinha razão. Eu gostava dela. — a voz dele começa abafada — Até o dia que fui trocado
por outro que tinha um título. — Joaquim volta a olhar nos meus olhos. — Até tentei, tentei mesmo.
Mas cada vez que eu tentava, ela se parecia mais uma puta que se vende ao preço mais alto. Acredita
em mim?
Penso no meu rolo com Jeremy. Eu quis que Joaquim acreditasse em mim, e de certa forma ele
acreditou. Não sei se confia cem por cento, mas acreditou.
— Foi o mesmo que pedi sobre Jeremy. Não quero outra pessoa. Quero você.
— E agora eu entendo. Eu acredito em você. — ele afirma, vejo a mesma afirmação em seus
olhos e então eu o beijo.
Só bem mais tarde quando já estávamos de volta na casa dele, eu caí em desespero. Era mais de
duas da manhã. Tínhamos assistido a um filme e depois fomos para a cama. Fizemos amor mais uma
vez e quando estávamos agarrados, suados, ele ainda dentro de mim, Joaquim resmungou no meu
ouvido: — Adoro sentir sua boceta quando acabo de gozar.
Ah Meu Deus! A pílula. Amanhã cedo completa 48 horas que transamos sem camisinha. O que
farei se um mini Mafra começar a crescer dentro de mim? Como eu pude ser tão distraída? Aperto
forte minhas unhas nos braços dele, quase me levanto já me descabelando quando paro e fecho os
olhos.
Mas talvez…
Sei lá, Alexandra solta por ai…
Um mini Mafra poderia ser meu trunfo. Droga, isso é coisa de biscate. O golpe da barriga.
Ele sai de dentro de mim, rola para o lado e eu me arrasto para me aconchegar ao corpo dele.
Nos abraçamos pelados, prontos para dormir. Nossa segunda noite juntos.
Seja como for, a decisão vai ficar para amanhã.
VINTE E CINCO

JOAQUIM

— Porra Elena! — Grito e me levanto da cama num pulo. É de manhã e acabamos de acordar.
Ela me contou que se lembrou da pílula ontem antes de dormirmos e só agora me fala. Cato minha
calça no chão e trotando pelo quarto começo a vesti-la sem cueca mesmo.
— Porra Elena por quê? — Ela levanta com um lençol em volta do corpo enquanto eu me visto
apressado.
— Como que funciona essa merda de pílula? — Indago calcando o tênis sem nem me sentar.
Olho de relance e ela está em ponto de briga, me olhando de olhos semicerrados.
— Porra Elena por que Joaquim? — ela aumenta o tom de voz. — Que eu me lembre, eu não te
amarrei e te molestei, muito menos transei sozinha.
Droga! Ela tem razão. Sem falar que eu também negligenciei.
Jogo a camiseta com força na cama e me sento passando as mãos no rosto.
— Me desculpe. — Sei que ela está atrás, de pé me analisando. — Eu também lembrei ontem e
acabei me esquecendo de novo.
— Joaquim, preste atenção numa coisa: se eu engravidar e você vier pra cima de mim com essa
sua modesta truculência, me culpando, será uma coisa que jamais perdoarei, nem que rasteje por anos
a fio. Está entendido?
— Eu estou apavorado poxa. — Tento dar minha explicação.
— Eu não tenho culpa! Fizemos sexo juntos, eu te avisei sábado de manhã. Se tivesse mesmo
apavorado tinha vindo comprar. Não gostei que gritou comigo. — Ela vocifera e vai para o banheiro
batendo a porta. Pego minha camiseta, a carteira e saio como um foguete. Já são quase dez da manhã.
Pelos meus cálculos hoje faz 48 horas que transamos sem camisinha pela primeira vez. Estou fodido.
Ela já deve estar grávida, muito bem grávida, por que eu não duvido da minha potência.
No carro, ligo o GPS e vou para a farmácia mais próxima. Estou com o cu na mão de medo. Eu
e Elena não temos estrutura nenhuma para ter um filho. Dinheiro eu tenho de sobra, mas ainda
estamos nos entendendo, precisamos de muito tempo sozinhos.
E nem ferrando que eu vou deixar um filho meu por ai. Terei que me casar nem que seja com
Elena amarrada e amordaçada, criar um contrato que a deixe ao meu lado até nosso filho completar
dezoito anos.
Mal paro o carro em frente a farmácia e já desço correndo.
— Bom dia. — Um cara moreno de cabelo raspado, com um jaleco vê meu desespero e já vem
para o balcão para me receber.
— Bom dia. — Cumprimento e pigarreio. — Estou com um probleminha. Me fale um pouco a
respeito da pílula do dia seguinte.
O cara dá um sorriso cúmplice, percebendo por que estou nessa fadiga toda. É um sorriso de
parceiro, ele me entende.
— Sexo desprotegido? — Em um tom profissional, ele quer saber. — Ou houve um acidente? —
Ele faz sinal de aspas com os dedos.
— Desprotegido.
— Quando foi? Essa noite?
— Não. — coço a cabeça meio constrangido — sábado de manhã. Esquecemos, lembramos
agora.
Cabelo raspado franze o cenho e passa a mão na barba.
— Quarenta e oito horas? Arriscado. A pílula tem uma validade de até 72 horas depois do sexo
desprotegido. Mas a partir das vinte e quatro horas ela pode não ser totalmente eficiente.
— Merda! Não posso pensar em gravidez agora. — Murmuro. É uma alto-reflexão, como se eu
estivesse falando comigo mesmo.
Ele se afasta e volta segundos depois com uma caixinha.
— Essa marca é a melhor e é dose única. Lembre-se que isso aqui é de emergência, não é pra
ficar usando como meio contraceptivo.
— Foi um deslize. — Explico. — Vou levar.
— Peça a ela para tomar o mais rápido possível. Vocês já perderam tempo demais. Se o ciclo
dela atrasar, tem que fazer o teste de gravidez. — Ele recomenda e meu corpo congela, só na hipótese
de isso acontecer; ainda quero curtir minha namorada, um filho pode nos distanciar. — E a partir de
agora evite sexo desprotegido. Não é por que vai tomar a pílula que pode cair na farra
despreocupado. — Ele dá uma leve bronca em tom de brincadeira.
— É eu sei. Vou levar umas camisinhas também.
Não quero usar camisinha com ela, mas até ela passar num ginecologista, tenho que fazer esse
sacrifício.
— Ali. — Cabelo Raspado aponta para uma prateleira. Saio de perto do balcão e vou escolher.
Não tem a marca que costumo usar, já que sempre compro lá em Nova York. Escolho três pacotes e
levo para o balcão. Ele me dá uma nota, agradece, eu pago no caixa e vou embora. Voando no carro,
como cheguei.

Quando piso o pé dentro de casa já sinto o cheiro de café. Elena é igual a mim, café nos move.
Ao menos ela não está tão enfurecida com o fora que dei. O susto quando ela me contou, me fez abrir
a boca e falar coisa que não devia.
Entro na cozinha, meio temeroso e ela levanta os olhos para mim. Está sentada, com uma calça
de moletom e camiseta, bebendo café e lendo algo no tablet. Ela deixa o aparelho de lado e presta
atenção em mim.
— Agora é torcer para dar certo. Me sento ao seu lado e entrego a caixinha a ela.
Ela fica olhando a caixinha; de lábio entre os dentes ela me olha.
— Cogitei engravidar para te segurar. Sou uma vergonha, não é? — Revela numa voz fraca e
rouca. Tento não parecer chocado, mas acho que falho, posso sentir minha garganta apertar e o
sangue fugir do meu rosto. Quase sofri um golpe? Eita caralho!
— Cogitou?
— Ontem quando eu lembrei da pílula. Fiquei pensando antes de dormir. Estou com medo, sua
ex está aí solta e fiquei com medo de… sei lá… me desculpe.
Então foi só um surto. Elena é honesta demais para fazer esse tipo de coisa. Por isso está
confessando. É mais um motivo para eu confiar cegamente nela.
— É um medo infundado. Elena, eu quero você, sem falar que sou homem o suficiente para não
aceitar ser corno conformado. Ela me trocou por outro e isso é o mínimo dos motivos.
Elena vem para perto de mim, e eu a puxo tirando-a da cadeira para sentar no meu colo. Ela me
abraça com força e encosta a cabeça no meu peito.
— Eu não quero engravidar agora. Temos tanto a descobrir juntos. E meu medo maior não é da
sua parte, confio em você Quin, mas não confio nela.
— Deixe que eu cuido disso. Ela não vai aprontar.
Ela vira para mim, me dá um beijo e desce do meu colo. Pega água na geladeira e volta para
onde está a caixinha. Ficamos calados, meio tensos, o instante é tenso, o clima pesado; Elena pega a
cartelinha com um único comprimido e antes de joga-lo na boca ela olha para mim. Minha cabeça se
move um instante apoiando-a.
— Parecemos dois adolescentes na nossa primeira vez. — Ela comenta, com um brilho risonho
nos olhos. Dou um sorriso raso também, olhando fixamente para o comprimido na mão dela. — Vai
dar certo. — Elena me tranquiliza.
Balanço a cabeça assentindo. Ela joga o comprimido na boca, bebe a água e eu a abraço em
seguida.
— Pronto, passou. — Ela se afasta dos meus braços e levanta. Joga o café frio fora e coloca
mais na caneca para ela e em outra para mim. Recebo a caneca da mão dela puxo-a de volta para meu
colo. — Vamos tomar café e aproveitar nosso dia. — Elena se mostra animada e confiante. Pego a
sacola da farmácia e despejo os pacotes de camisinhas perto da gente.
— O que é isso?
— Vamos passar o dia fazendo muita sacanagem. Mas dessa vez prevenidos, até você começar a
usar anticoncepcional.
— Que safado! — ela pega um pacotinho e olha. — São seis camisinhas em cada pacote. E você
comprou três. Dezoito preservativos, Joaquim?
— E ainda acho pouco. O que acha de irmos ali usar umas duas?
— Você ainda me mata de prazer. — Ela me beija com os lábios mornos e com gosto de café.
Revido com minha língua faminta e o que começou lento acaba se tornando muito quente. Elena vira
no meu colo ficando de frente para mim.
— Não estamos nem nos alimentando direito. — Ela contesta. — Não canso de querer mais de
você. Merda, que vício gostoso. — Fala com um olhar parado, fixo nos meus lábios, hipnotizada.
Faço um sorriso charmoso, desses que apenas um canto dos lábios curva–se para cima.
— Não tem Touro, Leão ou Áries quando o assunto é um Escorpião Mafra.
— O Alec é um oponente de peso. — Elena observa, apenas me provocando.
— Alec? Aquele merdinha que bate como uma menina? — Dou uma gargalhada. — É boiola
Elena, acorda.
— Pelo menos ele combina com meu signo. — Ela me olha indiferente, ainda defendendo
“tourinho”.
— Quem te contou essa mentira? Você é de gêmeos não é? Escorpião é seu par.
— Virou astrólogo Quin?
— Não preciso ser astrólogo, basta saber que sua boceta foi feita como molde para meu pau.
Além do mais sou outro nível diante dos doze. Eu devia ser proibido. As gatinhas piram e… — antes
de eu terminar, Elena coloca a mão na minha boca.
— Tava bom demais, até o ego inflar. A humildade mandou um olá.
— Mesmo se eu não tivesse falado, você sabe não é? — dou vários beijos nela. Elena tenta me
afastar e eu continuo passando minha boca em seu queixo e no pescoço, atiçando-a. — Sou gostoso
mesmo, sou safado mesmo…
— Isso é letra de música. — Ela comenta e também começa a me beijar, seus dedos passam pelo
meu peito, descem para meu abdômen e agarra minha camiseta.
— Tira isso. — ela pede já ofegante, arranco minha camiseta e a dela em seguida. Os seios
ficam livres, diante de mim, são na medida certa, naturais, ainda rosados. Já estou duro de tesão.
— Nossa, sem sutiã. Minha vida está completa! — Exclamo e abocanho um dos seios dela,
segurando nos dois. — Você é muito gostosa, me faz ovular. — Falo durante as chupadas nada
modestas. Elena ri.
— Ovular foi ótimo. — ela exclama e para de falar para gemer, segurando com força meus
cabelos. Meu rosto no lugar mais delicioso do planeta, se esbaldando nos peitos dela.
Não demorou muito para já estarmos pelados. Elena deitada no balcão, com as pernas abertas,
só tive tempo de descer as calças, pegar uma camisinha e mandar ver. Mas ficou meio desconfortável
por causa da altura do balcão, então ela desceu ficou de pé, eu a empurrei para frente, para que ela se
deitasse na superfície, com a bunda empinada para mim; e vim por trás.
Elena estava toda meladinha, passei os dedos, senti sua boceta implorar, inchada e quente.
Pincelei, bati o pau e deslizei fundo.
— Porra! — Gritei começando a bater meus quadris forte, segurando na cintura e no ombro
dela, tomando um impulso gostoso demais, minhas bolas batiam e imprensavam contra a pele dela
me levando a um patamar quase de inconsciência. Ela começou a gemer gritando, e eu metendo
firme, vendo meu pau sair e socar até o fim novamente.
— Oh merda! Que deliciaaa! Você é demais…! — Ela grita me enchendo de mais vigor.
Puxo-a para mim, Elena fica de pé, com a bunda encostada no meu quadril, as costas
pressionadas no meu peito. Meu pau todo atolado. Ela vira o pescoço para trás, e eu capturo seus
lábios, seguro firme nos seios e a outra mão desce para o meio das pernas dela.
Aqui atrás, abro minhas pernas, apoio ela no meu braço e começo a meter em um vai e vem
gostoso demais, assim de pé, matando nós dois de tanto tesão.
Meus dedos manipulam o clitóris dela enquanto meu pau não para. E ela goza. Estremece, grita e
eu vou junto. Sinto os jatos deixando meu pau e enchendo a camisinha. Levo-a para se recostar no
balcão novamente e caio por cima das costas dela.
— Escorpião é ou não é o melhor signo? — Provoco tirando os cabelos dela do rosto e olhando
para sua expressão divertida. Ofegante, rosada, mas com um sorriso enorme de satisfação.
— O que seria da arrogância se Joaquim não existisse? — Elena murmura, entrecortado.
Arranco a camisinha, jogo-a na lixeira da cozinha e pego Elena no colo e uma camisinha no
balcão. Atravesso a casa e chegamos ao quarto. Jogo-a na cama e já caio por cima.
— Vamos ter mais? – Elena se enrola em mim, como uma cobra. Suas pernas entrelaçadas nas
minhas, nossos rostos bem pertos. O ar da nossa respiração se misturando quente.
— Sim, daqui a pouco vamos sair, comer num restaurante bacana e curtir o dia e depois voltar
para gastar o resto das camisinhas.
— Nossa, mal posso esperar. — Ela fala. Voltamos a nos beijar. Agora bem de mansinho,
gostoso, beijo de deixar qualquer camarada de pau duro.

(…)
Viajamos de volta para Nova York na quarta-feira. Edgar e Celeste vão semana que vem. Eu
prometi aos pais de Elena que viríamos de seis em seis meses visita-los, agora eu tenho um motivo
bem forte para vir ao Brasil. Embarcamos a noite, no meu jatinho. Só ela e eu.
Nesses dias que se passaram, eu me vi cheio de felicidade por pequenas coisas. Como quando ela
senta ao meu lado, ou quando deita a cabeça nas minhas pernas para assistir, quando estamos
conversando com alguém e ela fica brincando com meus dedos.
São coisas que nunca percebi em outras mulheres, namorei quase dois anos com Alexandra e
nunca tive essa sensação boa que tenho quando Elena apenas chega perto de mim.
Agora no avião, ela está recostada na poltrona com um romance nas mãos.
Está compenetrada na história. Os dentes mordendo uma pontinha dos lábios rosados.
Passo os olhos por ela. É pequena, mas esbelta. Tem um belo corpo que agora está coberto por
um vestido simples. Está sentada sob suas pernas dobradas de um jeito delicado e descontraído.
— Fui deixado de lado. — Murmuro e ela levanta os olhos para mim. Sorri e coloca o marcador
na página.
— Nossa, que livro ótimo. É uma autora brasileira. — Estendo a mão e pego o livro. Leio a
sinopse atrás e devolvo a ela.
— Incrível como vocês mulheres se apaixonam várias vezes pelas mesmas histórias.
— Como assim mesmas histórias? - Elena se ajeita na poltrona para me olhar.
— Autores desse gênero, sempre usam os mesmos recursos para compor o romance. São
truques clichês que nem mesmo elas percebem que estão usando.
— Gato, preste atenção. Os relacionamentos na vida real são clichês. O casal se conhece,
interage, brigam, voltam e ficam assim até viverem juntos eternamente ou se divorciarem. O que as
autoras fazem é escolher o melhor desses relacionamentos e narrar.
— Já leu algum que o casal não fica junto?
— Hum… Já. Três. Odiei e amei. — Ela conclui pesarosa — As histórias são perfeitas, mas a
dor no peito de quem ler, não sai tão facilmente. E incrivelmente os três viraram filmes. Isso mostra
como as pessoas gostam de sofrer, por que mesmo sabendo que um deles morre, vai e faz fila no
cinema.
— Opta por livrinhos água com açúcar então?
— Não. Amo os hots. — Ela dá uma piscadinha — Amo livros eróticos.
— Pornográficos; você quer dizer, não é? A maioria dessas sinopses são as mesmas usadas em
filmes pornôs. Essa aí, por exemplo — aponto para o livro na mão dela — Secretária em apuros e
patrão fodão. Tão batida na indústria pornográfica.
Elena arregala os olhos como se eu estivesse insultando ela, ou se ela fosse a autora.
— Joaquim, você não sabe de nada. Um romance erótico não precisa ter palavras de baixo calão
para torna-lo erótico. Tem gente que acha que precisa descrever uma cena de sexo cheia de detalhes,
de cinco páginas e tudo mais, entretanto, há varias autoras que conseguem colocar o erotismo na
situação, com apenas um parágrafo, um momento do livro. Tem escritoras que em poucas linhas
conseguem molhar a calcinha da leitora. Por que imaginamos o clima do momento, a sensualidade e
a provocação. Esse é o melhor do erotismo. Não aquela coisa rasa, cheia de sexo em todas as
páginas.
— Por que não vamos ali na cabine para eu te mostrar o melhor erotismo?
Elena sacode a cabeça rindo.
— Estávamos debatendo Joaquim!
— Cansei de debater. — Me levanto e estendo a mão para ela.
— Você não cansa dessas safadezas? — Ela me olha ainda sentada, a diversão brinca em seus
olhos — Já fizemos umas três vezes hoje.
— Trepar nunca matou ninguém. Vamos transar enquanto voamos, já consigo te levar nas
nuvens quando estamos no chão, imagina aqui? — Elena para de resistir, fica de pé e vai comigo para
a cabine.
Se esses livros que ela lê, tiver metade da nossa putaria, então é pornografia mesmo.
Chegamos na cidade de madrugada. Eram mais ou menos umas três da manhã. Fomos direto
para meu apartamento, mandei uma mensagem para Victor dizendo que tinha acabado de chegar e
caímos na cama. Só deu tempo tirar a roupa, caímos pelados já dormindo.
Quando enfim despertei, um barulho estridente me deixou confuso. Abri os olhos lentamente
sentindo a cabeça pesar, como se eu tivesse de ressaca. Elena está dormindo ao meu lado.
Olho em volta, coloco as coisas em ordem na mente e abro os olhos. Onze da manhã. Me dei
conta então que o barulho nem é tão estridente assim. É meu celular e ao mesmo tempo batidas fortes
na porta de entrada.
Me sento e Elena se mexe, mas não acorda. Desmaiada é pouco.
As batidas continham, mas meu celular para de tocar. Saio rápido da cama, pego uma calça de
flanela no closet, visto e vou correndo abrir a porta.
Quase tenho um treco quando a mulher loira, toda elegante pula em cima de mim, me abraçando
e beijando meu rosto e lábios.
— Ah Quin! Que saudade. — Alexandra murmura afobada.
Sou mais alto e forte e logo consigo afasta-la de mim. Mas que merda! Mal chego e já vem
encrenca. Deixo-a em uma distância segura; morto de medo de Elena acordar.
— O que está fazendo aqui? — olho para a mala grande de rodinhas que ela está puxando —
como soube que cheguei? — Torno a mirar o rosto sorridente de Alexandra.
— Tenho meus informantes. — Ela tenta me abraçar de novo. — Estamos livres agora. Eu nunca
consegui te deixar para trás Quin, terminei o casamento, vamos voltar a ficar juntos, foi um erro eu
ter arruinado nosso namoro, trouxe minhas coisas, quero morar com você, como antes.
— Morar com nós dois, você quer dizer não é? — Ouço a voz atrás de mim, sinto minha alma
deixar meu corpo por milésimos de segundo, como se eu tivesse uma morte momentânea seguida de
uma ressurreição súbita; me viro vendo Elena com olhar de morte para mim e Alexandra. — O
quarto de hóspedes está desocupado, mas não estamos alugando. — Ela fala, me lança mais um olhar
de fúria, vira as costas mostrando muita raiva e volta para o corredor em direção ao quarto. — vou
me arrumar Joaquim, preciso ver umas coisas. — Ela grita antes de bater a porta.
— O que está acontecendo aqui, Joaquim? — Alexandra grita me dando tapas. — Quem é essa
vagabunda?
Seguro os pulsos dela e consigo afasta-la mais uma vez.
— É minha namorada. Você precisa ir embora Alexandra.
— Como assim namorada? Eu sou sua namorada. — bate no peito fazendo o colar balançar — a
mídia ama a gente, somos o casal favorito das…
— Éramos Alexandra! — Corto-a falando mais alto — Éramos até você se vender pelo preço
mais alto.
— Até poucos dias atrás estávamos bem, mesmo eu estando noiva você ainda me aceitou na sua
cama.
Dou meu sorriso sacana de deixar o povo com raiva.
— Nunca te falaram que homens transam sem sentimento? Ainda mais com vadias?
— O que?
— Aprenda: você é bonita, cheia de ajuste. — Indico os seios dela com o queixo. — Se você
chega na casa de um cara solteiro oferecendo-se, ele vai te comer, mas não te pedir em casamento.
— Seu miserável! — Ela bate a bolsa em mim — Eu acabei com minha vida por sua causa! —
ela grita desesperada.
— Eu não pedi! — Grito no mesmo tom. — Você fez por que quis, aliás, tudo você fez por que
quis. Arruinou com a gente e agora acha que vou sujar meu nome e largar a mulher que amo para
voltar com você?
— Você a ama? — Ela pergunta de rosto pálido. Pálido e sofrido. Acho que foi a única coisa que
ela captou. Ouço um clique atrás de mim e passos bem lentos.
— Você me ama? — É a voz baixa de Elena. Fecho meus olhos e respiro fundo. Cedo demais,
cara. Merda, tinha que ter a porra de um filtro na minha boca.
Me viro e vejo Elena ainda enrolada no lençol, o que mostra que ela não estava se vestindo coisa
nenhuma, estava ouvindo atrás da porta.
— Venha cá. — chamo e ela vem em passos meio constrangidos. Alexandra arregala os olhos,
acho que reconhecendo-a.
— Você disse que ela era sua irmã! Seu filho da mãe!
— Alexandra, essa é Elena, eu a conheço desde sempre e agora ela é minha namorada, estamos
apaixonados e esperando um bebê. — Falo baixo, compassado, nada de gritos — Me entenda, por
favor.
— Um bebê? — Rosna incrédula — Você disse que nunca quis um filho…
— Mas agora quero.
Elena não fala nada, fica ao meu lado. Alexandra fica olhando para nós dois de um para outro
por um tempo, depois parece ter se resolvido. Ergue o rosto e dá um sorriso.
— Sei seus pontos francos, Joaquim. Eu simplesmente não posso deixar você na vida perfeita
enquanto estou na merda.
— Por que você escolheu. Eu não pedi para você acabar seu casamento.
— Sei que você odeia exposição na mídia. — Ela fala ainda sorrindo, ignorando o que eu disse.
— Vai embora Alexandra. Você é uma mulher de respeito na sociedade, não precisa se rebaixar e
me expor na mídia. Vamos seguir nossas vidas.
— E quem disse que eu farei isso? — Ela dá mais um sorriso gracioso, pega a mala e abre a
porta, dá uma última olhada em Elena e fala: — Confia mesmo nela?
Deus! É como se essa mulher soubesse das dúvidas que passei nos últimos dias até chegar a
conclusão que confio sim em Elena. Por que ela disse isso?
Reviro os olhos e fecho a porta assim que ela sai.
— Doida. — Resmungo e vou para perto de Elena prendendo-a nos meus braços.
— O que ela quis dizer com isso? E por que disse que vamos ter um bebê? — Elena fica olhando
para cima, direto nos meus olhos.
— Ela é maluca Elena. Não pode fazer nada contra mim. E achando que vamos ter um filho, ela
fica longe. E se jogar isso na mídia será pior para ela, eu e você poderemos nos tornar o casal mais
queridinho. — Abaixo meu rosto e beijo-a. Afasto e noto que ela está levemente maquiada.
Olho intrigado, passo o dedo na bochecha dela e olho já sorrindo.
— Se maquiou?
Ela da de ombros.
— Ah… ela é linda e eu estava um bagaço. Descabelada, de rosto amassado… queria estar a sua
altura, você é sempre bonitão.
Abraço-a muito apertado.
— Você é linda Elena, sua beleza não é comprada, é natural. Perfeita para mim ou qualquer
outro. — Seguro o rosto dela em minhas mãos — Não quero que se rebaixe assim. Venha para meu
time e seja um pouquinho convencida.
Ela dá uma risada espontânea. Olha só como o sorriso dela é perfeito, como uma mulher assim
pode se achar inferior?
— Talvez eu tente um dia. — Ficamos abraçados no meio da sala, sorrindo um para o outro até
o sorriso dela ir morrendo, ela abaixa a cabeça e mexe nos pelos ralos do meu peito.
— Falou sério sobre estar… apaixonado? — Ela pergunta levantando brevemente os olhos e
voltando a olhar meu peito.
— Acredita que foi sério? — devolvo a pergunta.
— Sim, pois eu também sinto o mesmo.
— Então estamos no mesmo barco, não é? Entendemos um ao outro.
— Sim. — Ela concorda e me beija levantando os pés para alcançar minha boca. Pego-a no colo
e levo-a de volta para o quarto.
Não há nada o que temer. Nem mesmo Alexandra. Sempre estarei a um passo a frente dela.
VINTE E SEIS

ELENA

A pior parte da viagem é a volta, quando precisa desfazer as malas. Essa também é a segunda
pior coisa no mundo; a primeira é limpar banheiro. Odeio desfazer mala e limpar banheiro.
As vezes quando eu viajava, deixava minha mala ainda cheia por quase um mês quando voltava.
Mas eu não estou na minha casa, não posso deixar. E sem falar que não é só as roupas que trouxe do
Brasil. Aqui estão todas minhas coisas. Joaquim foi irredutível, foi teimoso e me trouxe pra cá sem
nem me escutar.
Inicialmente ele foi carinhoso e disse: “Fique comigo. ”
Ai eu disse: “Não. Já tenho três meses de aluguel adiantado. ” (Eu queria ficar sozinha, pois
Lisandra precisa ensaiar; se bem que os ensaios oficiais são com a banda e bailarinos, na boate.) “Eu
te reembolso. ” — Ele insistiu.
“Não Joaquim. Não é sobre dinheiro. Está cedo demais para morarmos juntos. ”
“Claro que não. Nos conhecemos desde sempre. Não vou aceitar passar as noites sozinho. Você
vem comigo. ”
Eu só não protestei muito por que eu amo estar perto dele. Então eu aceitei na boa.
Já faz três dias que voltamos do Brasil. Três dias que aquela mulher apareceu na casa do meu
namorado, nos ameaçando. E três dias que ela não deu mais notícias. Joaquim rastreou os passos dela
e fontes confiáveis deixaram claro que ela voltara para Austrália. Há inclusive fotos de Alexandra
chegando ao aeroporto de Sidney. Sim, acreditem, ela foi embora depois de ter jogado a bomba na
mídia como ela prometeu que faria.
Alexandra não tinha nada para