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ANAIS

ISSN 2178-2245
UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO DO SUL
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ESTUDOS FRONTEIRIÇOS
CÂMPUS DO PANTANAL

Reitor
Marcelo Augusto Santos Turine

Vice-Reitora
Camila Celeste Brandão Ferreira Ítavo

Diretor do Campus do Pantanal


Aguinaldo Silva

Coordenadora do Programa de Pós-graduação em Estudos Fronteiriços


Beatriz Lima de Paula Silva

Coordenação Geral do VII Seminário Internacional de Estudos


Fronteiriços
Edgar Aparecido da Costa - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Rebeca Steiman – Universidade Federal do Rio de Janeiro

Comissão Organizadora

Adriana Dorfman – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil


Alberto Hernández - El Colegio de la Frontera Norte, México
Aguinaldo Silva - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Brasil
Beatriz Lima de Paula Silva - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Brasil
Gustavo de Souza Preussler – Universidade Federal da Grande Dourados, Brasil
Gutemberg de Vilhena Silva – Universidade Federal do Amapá, Brasil
Haroldo Dilla Alfonso – Universidad Arturo Pratt, Chile
Karla Maria Müller - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Brasil
Lucilene Machado Garcia Arf - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Brasil
Marcos Leandro Mondardo - Universidade Federal da Grande Dourados, Brasil
Comitê Científico

Nacional
Adriana Dorfman - Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Aguinaldo Silva - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Alberto Hernández Hernández - El Colegio de la Frontera Norte, México
Alessandra Rufino Santos - Universidade Federal de Roraima
Alexandre Cougo de Cougo - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Alfredo Ricardo Silva Lopes - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Aline de Lima Rodrigues - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Campus Litoral Norte
Ana Carolina Pontes Costa - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Ana Paula Correia de Araujo - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Antonio Firmino de Oliveira Neto - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Beatriz Lima de Paula Silva - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Beatriz Rosália Gomes Xavier Flandoli - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Camilo Pereira Carneiro Filho - Universidade Federal da Grande Dourados
Carlo Henrique Golin - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Cláudia Araújo de Lima - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Divino Marcos de Sena - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Douglas Josiel Voks - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Edelir Salomão Garcia - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Edgar Aparecido da Costa - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Elisa Pinheiro de Freitas - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Elisangela Martins da Silva Costa – Instituto Federal do Mato Grosso do Sul
Erik Luca de Mello - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Fabiano Quadros Rückert - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Fernando Thiago - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Gicelma da Fonseca Chacarosqui Torchi - Universidade Federal da Grande Dourados
Gislene Aparecida dos Santos - Universidade de São Paulo
Gleicy Denise Vasques Moreira Santos - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Gustavo de Souza Preussler - Universidade Federal da Grande Dourados
Gutemberg de Vilhena Silva - Universidade Federal do Amapá
Jones Dari Goettert - Universidade Federal da Grande Dourados
Karla Maria Muller - Unbral Fronteiras/Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Leticia Parente Ribeiro - Universidade Federal do Rio de Janeiro
Liana Amin Lima da Silva - Universidade Federal da Grande Dourados
Lício Caetano do Rego Monteiro - Universidade Federal Fluminense
Lisandra Pereira Lamoso - Universidade Federal da Grande Dourados
Luciana Escalante Pereira - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Lucilene Machado Garcia Arf - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Luis Paulo Batista da Silva – Universidade Federal da Bahia
Luiz Fabio Silva Paiva – Universidade Estadual do Ceará
Mara Aline Santos Ribeiro - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Marcia Regina do Nascimento Sambugari - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Marco Aurélio Oliveira Machado - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Marcos Aurélio Matos Lemões - Universidade Federal de Pelotas
Marcos Leandro Mondardo -Universidade Federal da Grande Dourados
Maristela Ferrari - Universidade Estadual do Oeste do Paraná
Milton Augusto Pasquotto Mariani - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Natalina Sierra Assêncio Costa - Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul
Nathalia Monseff Junqueira - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Rauer Rodrigues - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Rebeca Steiman - Grupo Retis/Universidade Federal do Rio de Janeiro
Regina Baruki-Fonseca - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Rogers Barros de Paula - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Rosângela Villa da Silva - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Silvia Beatriz Serra Baruki - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Tomaz Espósito Neto - Universidade Federal da Grande Dourados
Valéria Peron de Souza Pinto - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Vanessa Catherina Neumann Figueiredo - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
Vera Lucia Spacil Raddatz - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande
do Sul
Waldson Luciano Correa Diniz - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul

Internacional
Bianca de Marchi Moyano - Universidad Mayor de San Andrés, Bolívia
Carlos Piñones Rivera - Universidad Arturo Pratt, Chile
Cristian Ovando Santana - Universidad Arturo Pratt, Chile
Frédéric Lasserre - Université Laval, Canadá
Haroldo Dilla Alfonso - Universidad Arturo Pratt, Chile
Inês Gusman -Universidad de Santiago de Compostela, Espanha
Marcela Tapia Ladino Universidad Arturo Pratt, Chile
Sergio Peña Medina - El Colegio de la Frontera Norte, México
Yenny Vega Cárdenas - Université de Montréal, Canadá

Comissão de divulgação e credenciamento


Bárbara Marcela de Castro Martins (Presidente)
Augusto Azevedo da Silva Santos
Dayane Mayara Chaves Pereira Ferreira
Dayane Romero Martins
Elisângela de Souza Cunha
Erika Luana Lopez Flores
Francisco Rogério Magalhães Messias
Glenda Helenice da Silva Rodrigues
Ianna Louise Araújo Chagas
Jessica Mayara Lima Ramires
Leandro dos Santos Pereira
Marco Antônio Vilalva Rodrigues
Sinara de Oliveira de Arruda
Tayrine Pinho de Lima Fonseca

Comissão de apoio logístico


Elisângela de Souza Cunha (Presidente)
Aguinaldo Silva
Antônio Carlos Oliveira Fonseca Júnior
Bárbara Marcela de Castro Martins
Beatriz Lima de Paula Silva
Emmanuel Alexandre Cavasana Oliveira
Erika Luana Lopez Flores
Glenda Helenice da Silva Rodrigues
Marco Antônio Vilalva Rodrigues
Marcos Antônio Gonçalves Cypriano

Comissão de recepção dos trabalhos


Éder Damião Goes Kukiel
Edgar Aparecido da Costa
Rebeca Steiman

Comitê de articulação das comissões


Elisângela de Souza Cunha
Edgar Aparecido da Costa
Rebeca Steiman

___________________________________________________________________
Anais do VII SEF (Seminário Internacional de Estudos Fronteiriços). Corumbá:
Universidade Federal do Mato Grosso do Sul; Programa de Pós-Graduação Estudos
Fronteiriços, 2019. ISSN 2178-2245 (Anais). 986 p.
___________________________________________________________________

Os textos publicados nesta Revista são de inteira responsabilidade de seus autores.


Endereço: Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – Campus do Pantanal
Mestrado em Estudos Fronteiriços – MEF
Rua Domingos Sahib, 99 – Bairro Cervejaria. CEP 79.300-130. Corumbá-MS
Fones: (67) 3234-6205 – Secretaria de Pós-Graduação
E-mail: ppgef.ufms@gmail.com
Dezembro de 2019
Instituição promotora

Realização

Apoio
VII Seminário Internacional de Estudos Fronteiriços - 2019
Programação

Segunda-feira Terça-feira Quarta-feira


07/10/2019 08/10/2019 09/10/2019
Reunião interna
Credenciamento
9:00h – de pesquisadores
e recepção dos Oficina Atividade de Campo Oficina
12:00h (MEF e
inscritos
convidados)
12:00h –
Almoço
14:00h
14:00h –
Grupos de Trabalho (Eixos Temáticos)
16:00h

16:00h -
Intervalo Cultural / Sessão de Pôsteres
16:30h

Mesa 1 Mesa 3
Fronteiras comparadas: a Desafios para a gestão
experiência latino- pública nas fronteiras Sessão de documentários
americana Over the Wall
Edgar Aparecido da Costa de Luis Mercado
16:30h -
Bianca de Marchi Moyano (UFMS) El Colef
18:30h
(UCB, Bolívia) Maristela Ferrari
Gutemberg Vilhena Silva (Unioeste) Inter-Amazônias – uma
(UNIFAP) Inês Gusman (USC, fronteira Musical
Haroldo Dilla Alfonso Espanha) de Clicia di Micelli
(INTE, Chile) Camilo Pereira Carneiro UNIFAP
Filho (UFGD)
18:30h –
Solenidade de Abertura Intervalo Cultural Intervalo Cultural
19:30h

Mesa 2 Mesa 4 Mesa 5


Mobilidade e migrações IV Colóquio Unbral de Fronteiras em múltiplas
através das fronteiras Estudos Fronteiriços: escalas
Metodologias
Alberto Hernández Cristian Ovando Santana
19:30h – Hernández (El Colef, Adriana Dorfman (Unbral (INTE, Chile)
21:30h México) Fronteiras/UFRGS) Marcos Leandro Mondardo
Alessandra Rufino Santos Karla Muller (Unbral (UFGD)
(UFRR) Fronteiras/UFRGS) Rebeca Steiman (Grupo
Marco Aurélio Machado de Marcos Aurélio Lemões Retis/UFRJ)
Oliveira (UFMS) (UFPEL) Carlos Piñones Rivera
Sergio Peña Medina (El (INTE, Chile)
Colef)
21:30h Lançamento de Livros
Sumário

Apresentação Edgar Aparecido da Costa


16
Rebeca Steiman

Eixo 1 – Aspectos identitários e discursivos nas fronteiras: identidades, gêneros,


diversidades, cultura, arte, literatura, comunicação, saúde, educação, bilinguismo
Título Autores
A invisibilidade na fronteira: uma análise Leonardo Calixto Maruchi;
sobre a “faixa livre” localizada entre Sete 21
Quedas-BR e Pindoty Porã-PY Lidiane Cristina Lopes Garcia de Souza

Compaixão além das fronteiras: narrativas


para a humanização do refúgio de Fernanda Paraguassu 23
indesejáveis
Condutores de carroças em Corumbá, MS
Waldson Luciano Corrêa Diniz 38
- uma abordagem introdutória ao problema
Corpo epistêmico fronteiriço descolonial:
transitando na fronteira da exterioridade Marina Maura de Oliveira Noronha 39
em Mato Grosso do Sul
Do churrasco griego a la Argen(Chi)na: Luiz Felipe Rodrigues;
práticas cotidianas, cartografias 51
transfronteiriças Dalila Tavares Garcia

Fronteira, migração e direitos humanos na Vilmara Crystine Fonseca Gomes;


mídia um estudo sobre a repercussão da 53
imigração venezuelana para o Brasil Camila Maria Risso Sales

Fronteiras do local: por uma leitura de si


Julia Evelyn Muniz Barreto Guzman 71
me permiten hablar na fronteira-sul
Índios guató na fronteira Brasil/Bolívia Danielle Urt Mansur Bumlai 73
Memórias homo-biográficas da
exterioridade: Silviano Santiago e as Pedro Henrique Alves de Medeiros 87
suas/nossas mil rosas roubadas

O entre-lugar como espaço das línguas Mariana Vaca Conde;


89
fronteiriças Lucilene Machado Garcia Arf
Outro calçadão de uma mesma
Copacabana - a celebração da Virgem: um
Gesliane Sara Vieira Chaves 102
diálogo entre a fronteira de Corumbá/BR e
Puerto Quijarro/BO
Possibilidades de atendimento ao
estrangeiro pelos agentes comunitários de Talini Rodrigues;
116
saúde na região fronteiriça de Rafael Oliveira Fonseca
Corumbá/MS – Brasil
Povos indígenas no Brasil: identidade e
Joselaine Dias de Lima 134
cultura entre fronteiras
Avaliação do estado nutricional e do Bruna Fernanda Antonio Clímaco;
consumo alimentar de famílias ribeirinhas 148
residentes na fronteira Brasil/Bolívia Beatriz Lima de Paula Silva

Isabela Faria Berno;


Saúde mental de militares na fronteira
Júlio Ricardo França; 160
Brasil-Bolívia: uma revisão bibliográfica
Vanessa Catherina Neumann Figueiredo
Jornalismo online na fronteira Brasil-
Gesiel Rocha de Araújo 174
Paraguai: periférico e transnacional
A experiência em estágio docência em Janaina Costa Teixeira;
graduação I: a formação do Estado, 176
fronteiras e suas dinâmicas em rede Paola Gomes Pereira

Katicilayne Roberta de Alcântara;


A fronteira que nos separa: os surdos e
Antônio Firmino de Oliveira Neto; 192
suas representações sociais
Izac de Oliveira Belino Bonfim
A implementação do ensino à distância
aos moldes do sistema Colégio Militar do Eduardo Freitas Gorga;
203
Brasil aos residentes na faixa de fronteira Elisa Pinheiro de Freitas
sul-mato-grossense: uma proposta
Bilinguismo na educação de surdos na Lineise Auxiliadora Amarilio dos Santos;
fronteira Brasil-Bolívia: algumas 222
considerações Cláudia Araújo de Lima

Clarice Lispector: por um direito penal Bárbara Artuzo Simabuco;


234
fronterizo Edgar Cézar Nolasco
Eventos rurais: uma análise da prática das Andrea Fernanda Lyvio Vilardo;
instituições públicas de pesquisa 245
agropecuária do Brasil e da Argentina Karla Maria Müller

Jornal impresso na fronteira gaúcha:


Thaís Leobeth e Karla Maria Müller 247
narrativas sobre o rural

Literatura e territorialidade na fronteira Tarissa Marques Rodrigues dos Santos;


249
Brasil/Bolívia: um espaço do ser fronteiriço Lucilene Machado Garcia Arf

Localizando as condições pretéritas e as Tito Carlos Machado Oliveira;


relações correntes na complexa fronteira 251
Brasil-Bolívia Paulo Marcos Esselin

Metodologias para o ensino e Suzana Vinicia Mancilla Barreda;


aprendizagem de línguas nas fronteiras: 253
perspectivas decoloniais Janete Fátima Pará Velasco

At the crossroads of borders and culture:


an analysis of academic production and of Solène Marié 268
networks of concepts and literature
No te pases de la raya: antropofagia
Kathya Milena Morón Tadic 292
cartográfica
O desenvolvimento econômico e social na Wanderson da Silva Batista;
fronteira através de uma escola pública 293
Mara Aline dos Santos Ribeiro
federal: Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia de Mato Grosso do
Sul

O texto literário como constructo de um


Lucilene Machado Garcia Arf 295
espaço transcultural e transnacional
Adriana Dorfman;
Paisagem socioespacial transfronteiriça:
uma proposta de ensino e pesquisa sobre Edgar Garcia Velozo; 297
fronteiras
Luísa Amato Caye
Vithor Amaral Prestes;
Publicações sobre estudos fronteiriços no Débora Pizzio Mendes;
Brasil de 2000 à 2018: um estudo sobre 313
principais periódicos e temáticas Rafael Port da Rocha;
Adriana Dorfman

O corpo sem fronteiras e suas Renata Cardoso Doyle Maia;


315
significações nos ciberespaços Paulo Marcos Esselin
A fronteira no corpo Diego Aparecido Cafola 324
Espaços de fronteira e codificação cultural Luzia Bernardes da Silva;
indígena: a semiotização do código 326
“capitão” Gicelma da Fonseca Chacarosqui Torchi

A desobediência epistêmica em Heloisa


Nathalia Flores Soares;
Buarque de Hollanda e as fronteiras do 345
intelecto Edgar Cézar Nolasco
Ações para saúde e segurança do
Dalton Monteiro de Souza;
trabalho: um estudo no CEREST de 354
Corumbá-MS Fernando Thiago
Eixo 2 – Movimentos de população hoje e no passado: migrações, colonização,
redes, história e memória
Título Autores
A consolidação da fronteira sul-mato- Robson de Araújo Filho;
grossense e as relações com o Paraguai
Camilo Pereira Carneiro Filho; 375
ao longo dos diferentes períodos da
história brasileira Tito Carlos Machado de Oliveira
Francielle Vascotto Folle;
As implicações do reconhecimento da
condição de refugiado para os Nathália Alves de Oliveira; 377
venezuelanos
César Augusto Silva da Silva
Corumbá-MS: o retorno da migração
Alex Dias de Jesus 379
indocumentada de haitianos no Brasil
Gabriela Oshiro Reynaldo;
Dignidade humana sem fronteiras:
Livio Acosta Garcia Gomes; 381
migração e refugiados no Brasil
Lucio Flávio Joichi Sunakozawa

Espacialidades fronteiriças e práticas Marco Aurélio Machado de Oliveira;


solidárias: bolivianas em relações de 398
Milton Augusto Pasquotto Mariani;
vizinhança e de comércio em Corumbá,
MS, Brasil Jéssica Canavarro Oliveira

Notas iniciais sobre o surgimento de


relações transfronteiriças cotidianas entre Aline Kammer;
Pato Bragado e Nueva Esperanza, 417
municípios da zona de fronteira Brasil- Maristela Ferrari
Paraguay

Direito ao desenvolvimento do imigrante Luiz Rosado Costa;


419
no Brasil Tania Regina Silva Garcez
Os reflexos da política externa do governo
Juscelino Kubitschek (1956-1961) nos Thais da Silva Alpires;
330
fluxos migratórios internacionais para Claudia Araujo de Lima
Corumbá/MS
Marco Aurélio Machado de Oliveira;
Presenças de migrantes internacionais na
educação e na assistência social em Renata Miceno Papa de Almeida; 345
fronteira
Mabel Marinho Sahib Aguilar
Luiz Rosado Costa;
Um histórico da política migratória
brasileira a partir de seus marcos legais José Eduardo Melo de Souza; 347
(1808-2019)
Lívia Cristina dos Anjos Barros
Eixo 3 – Territórios e territorialidades nas fronteiras: integração,
desenvolvimento, políticas públicas, urbanização, comércio e desenvolvimento
local
Título Autores
Kamila Madureira da Silva;
As tramas do capitalismo entrelaçando as
Matheus Martins de Araujo Irabi; 349
relações fronteiriças
Alexandre Bergamin Vieira
Brasil e Paraguai: olhares sobre os Midiane Scarabeli Alves Coelho da Silva;
351
sujeitos e situações de fronteira Mirella Lacerda Teixeira de Souza
Cruzar a fronteira internacional Foz do
Iguaçu – Ciudad del Este: adentrando o Matheus Guimarães Lima 363
paraíso do consumo
Fluxos e mobilidades transfronteiriças:
Claudia Vera da Silveira;
uma reflexão a partir dos estudantes
brasileiros de medicina em Pedro Juan Luiz Felipe Rodrigues; 381
Caballero, departamento de Amambay–
Éder Damião Goes Kukiel
Paraguay

Gestão compartilhada de resíduos sólidos Aline Robles Brito;


400
em cidades da fronteira Brasil-Paraguai Fabrício José Missio
Levantamento bibliográfico de estudos Fernando Lara Rocha de Almeida;
sobre direito ambiental comparado de 422
recursos naturais transfronteiriços Luciana Escalante Pereira
Raphaella Elias Pereira;
Ocupações no espaço de fronteira: luta e
Alexandre Bergamin Vieira; 438
resistência
Kamila Madureira da Silva
Inês Gusman;
Os efeitos da cooperação transfronteiriça
nas configurações territoriais estatais: o Juan Manuel Trillo Santamaría; 450
caso do norte de Portugal
Rubén Camilo Lois González
Reconfiguración espacial de la frontera y Sergio Peña Medina;
flujos no documentados entre México y 471
Estados Unidos César M. Fuentes

Três países, várias fronteiras e diferentes


Maria Cristina Lanza de Barros 473
espetáculos
Turismo de compras e paisagem
fronteiriça em Pedro Juan Caballero (PY) Janaína Costa Teixeira 498
e Ponta Porã (BR)
A contribuição jurídica da marinha do
brasil no desenvolvimento econômico, Antônio José de Jesus Júnior;
500
social e proteção ambiental na região dos Lidiane de Brito Curto
municípios de Corumbá e Ladário-MS
Fábio Brito dos Santos;
A territorialidade da rede bancária no
estado de Rondônia: concentração e Décio Keher Marques; 519
dispersão dos agentes financeiros
Edwarda de Paula Soares Ojopi
Ações para saúde e segurança do Dalton Monteiro de Souza;
trabalho: um estudo no Cerest de 521
Corumbá-MS Fernando Thiago

Área de livre comércio no município de Paulo Cesar dos Santos Martins;


Corumbá/MS: potencialidades e impactos 542
socioeconômicos Tomaz Espósito Neto

As experiências de compra de produtos da Leonardo Barbosa Araújo;


agricultura familiar da Base Fluvial de 560
Ladário (BFLA) Edgar Aparecido da Costa

Cooperação internacional e núcleos


urbanos com articulações fronteiriças André Vieira Freitas 578
entre Brasil e Bolívia
Éder Damião Goes Kukiel;
Dinâmicas e espacialidades das feiras
livres nas fronteiras entre Brasil-Bolívia e Érica dos Santos Oliveira; 580
Brasil-Paraguay
Cláudia Veras da Silveira
Edison Di Fabio;
O comércio de hortaliças na fronteira
Alberto Feiden; 582
Brasil-Bolívia
Edgar Aparecido da Costa
Natália Buginga Ramos da Costa
O trabalho do/da assistente social em Sachini; 598
território fronteiriço: possibilidades de ação
Mara Aline dos Santos Ribeiro
Leonardo Barbosa Araújo;
Os bolivianos comerciantes de hortaliças
Elisângela de Souza Cunha; 600
na feira livre de Ladário
Edgar Aparecido da Costa

Políticas públicas na fronteira e o ativismo Alcindo Cardoso do Valle Junior;


601
do Ministério Público Gleicy Denise Vasques Moreira
Regulação e clandestinidade: o comércio
de gasolina no contexto de
Vitorino José Barros da Silva 614
complementaridade econômica da
fronteira Brasil-Bolívia.
Bárbara Regina Gonçalves da Silva
A evasão e o perfil motivacional dos Barros;
estudantes de licenciaturas na fronteira 633
Vanessa Catherina Neumann Figueiredo;
com a Bolívia: campus do Pantanal/UFMS
Luís Fernando Galvão

Caracterização geográfica preliminar da André Zumak Azevedo Nascimento;


652
faixa de fronteira do estado do Amazonas Tatiana Schor e Nicolle Figueira
Eixo 4 – Limites estratégicos: geopolítica, soberania e relações internacionais,
globalização, segurança pública, conflito e violência
Título Autores
Manix Gonçalves dos Santos;
A “grande Corumbá” e os desafios dos
crimes transfronteiriços em face das novas Marcos Sérgio Tiaen; 669
ferramentas virtuais
Luiz Gonzaga da Silva Junior
A questão do gás e suas repercussões na
relação Brasil-Bolívia: uma análise sob a Adriana dos Santos Corrêa;
686
luz da teoria da “interdependência Bruna Letícia Marinho Pereira
complexa”
A segurança na fronteira entre Brasil e
Maurício Kenyatta Barros da Costa 688
Paraguai: é possível cooperar?
Impressões sobre as fronteiras
internacionais de Pedro Juan Caballero Mirella Lacerda Teixeira de Souza;
690
(PY) e Ponta Porã (BR) e de Tijuana (MX) Midiane Scarabeli Alves Coelho da Silva
e San Diego (US)
Comércio ilegal e redes na zona de
fronteira brasileiro-paraguaia: extremo
oeste do Paraná (BRA) limítrofe aos Alan Diogo Schons e Maristela Ferrari 704
departamentos de Canindeyú e Alto
Paraná (PY)

E-spaço e suas fronteiras: o cibernético na Thomás Nery da Silva Teixeira;


718
análise geográfica Adriana Dorfman

Manifestações xenofóbicas nas redes Antônio Rosa da Conceição Junior;


720
sociais na fronteira Brasil-Bolívia Gleicy Denise Vasques Moreira
O estado brasileiro no enfrentamento ao Mateus Moreira de Oliveira;
crime de tráfico internacional de pessoas
Mara Aline dos Santos Ribeiro; 734
na fronteira Brasil/Bolívia: o caso de
Corumbá e Porto Quijarro Caíque Ribeiro Galícia
Panorama das principais iniciativas das
políticas governamentais de fronteiras e Silvana do Valle Leone;
da política nacional de defesa frente aos 736
desafios impostos pela conjuntura Elisa Pinheiro de Freitas
internacional fronteiriça
Polícia e cadeia na fronteira do império
com a Bolívia: Corumbá, anos 1870 e Divino Marcos de Sena 756
1880
Pontos de convergência entre o direito
internacional humanitário e o direito Ádria Saviano Fabricio da Silva;
internacional dos refugiados: a prevenção 776
do deslocamento como mecanismo de César Augusto S. da Silva
sobrevivência
Migrações e globalização: uma análise à
Alex Maciel de Oliveira 778
luz dos humanos dos migrantes
O entorno estratégico brasileiro: análise de
governança ambiental na faixa de fronteira Miguel Dhenin 794
setentrional amapaense (1997-2017)
Camilo Pereira Carneiro Filho;
Segurança e defesa na fronteira Oeste: o
Arco Central e as ameaças nas díades Lisa Belmiro Camara; 805
com Bolívia e Paraguai
Bruna Letícia Marinho Pereira
João Victor Maciel de Almeida Aquino;
Os direitos trabalhistas dos residentes
Fabiano Diniz de Queiroz Pilate; 807
fronteiriços no Brasil
Mozart Victor Ramos da Silveira
Usuário e traficantes de drogas: uma
análise dos processos judiciais por delitos Alexandre dos Santos Cunha;
824
de drogas na zona de fronteira do Brasil Olívia Alves Gomes Pessoa
com o Uruguai
Eixo 5 – A natureza e seus usos: conservação, sustentabilidade, turismo, frentes,
reforma e outras dinâmicas agrárias (assentamentos, agronegócio, agricultura
familiar)
Título Autores
A feira de produtos em transição Mariane Leticia Leite da Cruz Costa;
841
agroecológica do IFMS Corumbá Edgar Aparecido da Costa
Apontamentos sobre as consequências da
mineração em Corumbá-MS: o caso da Sandra Procópio da Silva;
842
comunidade tradicional Antônio Maria Leonardo Calixto Maruchi
Coelho
Aterro sanitário na fronteira Brasil-Bolívia Diego da Silva Ferreira Rosa 858
Evolução do uso e cobertura da terra na Edson Rodrigo dos Santos da Silva; 871
fronteira Corumbá-BR e Puerto Quijarro-
BOL Erivelton Pereira Vick;
Tayrine Pinho de Lima Fonseca
Gestão ambiental das empresas
brasileiras de navegação e dos portos Samuel Ribeiro de Sousa;
887
nacionais que operam na hidrovia do Aguinaldo Silva
Paraguai-Paraná

Pantanal sul-mato-grossense: território e Juliana Cristina Ribeiro da Silva;


889
modo de vida Patrícia Helena Mirandola Garcia
Percepção ambiental da comunidade Jeferson Boldrini da Silva;
acadêmica no campus de Alto Araguaia da 908
Universidade do Estado de Mato Grosso Fernando Thiago
Porto Murtinho (MS): potencialidade do Fernanda Cano de Andrade Marques;
ecoturismo no espaço fronteiriço Brasil- 910
Paraguai Juliana Luquez

Transição agroecológica em um lote de Ianna Louise Araújo Chagas;


assentamento rural na fronteira brasil- 923
Bolívia Edgar Aparecido da Costa

Turismo sexual nas águas do pantanal: o Érica dos Santos Oliveira;


caso da mercantilização sexual em 925
Corumbá – MS Éder Damião Goes Kukiel

A atuação da Conservation International


em áreas protegidas na faixa de fronteira Rhuan Muniz Sartore Fernandes 927
do Brasil
A relevância da faixa de fronteira no
programa áreas protegidas da Amazônia
Cassio do Sul Gonçalves 941
(arpa) e na atuação das três grandes ongs
conservacionistas (WWF, CI e TNC)
Conservação ambiental e geografia Rian de Queiroz Cunha;
política: a atuação do WWF Brasil na faixa 955
de fronteira brasileira Rhuan Muniz Sartore Fernandes

Cleiton Soares Jesus;


A ocorrência de processos erosivos na
Pedro Alcântara de Lima; 971
região Sul de Mato Grosso do Sul
Cleiton Messias Rodrigues Abrão
16

Apresentação

O Seminário Internacional de Estudos Fronteiriços (VII SEF) é um evento


bianual consolidado na agenda acadêmica e um ponto de encontro para
professores, profissionais, estudantes de graduação e pós-graduação que se
interessam por temáticas diversas relacionadas aos estudos fronteiriços. Desde a
primeira edição, o SEF tem recebido pesquisadores de renome nacional e
internacional e gestores com larga experiência em questões fronteiriças, que
contribuem para a ampliação do conhecimento sobre as fronteiras políticas
internacionais a partir de um enfoque interdisciplinar.
A sétima edição do evento ocorreu entre 7 e 9 de outubro de 2019, na
Unidade II do Campus do Pantanal (CPAN) da Universidade Federal de Mato
Grosso do Sul, localizada na cidade de Corumbá. O VII SEF foi organizado pelo
Mestrado em Estudos Fronteiriços da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
(UFMS) em colaboração com diversas instituições nacionais e internacionais, tais
como o Grupo Retis, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Geografia da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGG/UFRJ); o GREFIT da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); o Programa de Pós-Graduação em
Geografia e o Programa de Pós-Graduação em Fronteiras e Direitos Humanos da
Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD); o Programa de Pós-Graduação
em Estudos de Fronteira da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP); o Colegio da
Frontera Norte (El Colef) do México e o Instituto de Estudios Internacionales (INTE)
da Universidad Arturo Prat do Chile. Contou com apoio fundamental da Capes e das
instituições parceiras, além dos recursos financeiros oriundos das inscrições e do
apoio logístico e administrativo fornecido pela UFMS.
A parceria com instituições nacionais e internacionais vem crescendo desde a
primeira edição, culminando na participação de 310 pesquisadores e estudantes de
quase todos os segmentos da Faixa de Fronteira brasileira e de diversos países
vizinhos nas diversas atividades do evento.
O VII SEF trouxe mesas temáticas sobre temas contemporâneos a fim de
estimular o diálogo entre os especialistas e a audiência. O público presente na
abertura superou 350 pessoas. Dentre os gestores públicos, cabe mencionar a

Corumbá/MS, Brasil. 7 a 9 de outubro de 2019. ISSN . 2178-2245


17

presença do prefeito municipal, do presidente da câmara municipal de Corumbá,


vereadores de Corumbá e Ladário, do Cônsul da Bolívia em Corumbá, do presidente
da Associação Comercial de Corumbá, do presidente da CAINCO da província
Germán Busch, SC/Bolívia e vários secretários municipais.
O evento abrigou, ainda, a discussão dos periódicos e das metodologias
relevantes para o campo no IV Colóquio Unbral de Estudos Fronteiriços. Contou
também com a oficina Metodologias visuais aplicadas à pesquisa geográfica das
fronteiras, dois trabalhos de campo, um lançamento de livros e uma sessão de
documentários sobre a zona de fronteira entre México e Estados Unidos e sobre a
zona de fronteira entre Brasil, Guiana Francesa, Suriname e Guiana.
Nesta edição do evento, pela primeira vez, os alunos de iniciação científica
tiveram a oportunidade de aprimorar sua formação, expondo 26 pôsteres, três dos
quais premiados por receberem nota máxima de avaliadores.
A apresentação dos trabalhos completos por pesquisadores, profissionais e
pós-graduandos permitiu compartilhar pesquisas já avançadas nas discussões dos
grupos de trabalho, organizados em torno de eixos temáticos. Foram submetidos
121 trabalhos completos, dos quais 95 foram aprovados pelo comitê científico e 87
foram apresentados nos grupos de trabalho. Cabe mencionar que esta edição
recebeu mais do que o dobro de trabalhos submetidos nas edições anteriores do
evento. Entre os fatores responsáveis por esse notável incremento, pode-se apontar
a intensa divulgação nas redes sociais, a internacionalização do evento e as
parcerias para sua realização. As temáticas apresentadas mostraram a
multiplicidade de abordagens e temas dos estudos fronteiriços trazidos para o
evento (Figura 1).

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Figura 1 – Nuvem de palavras dos trabalhos enviados ao VII SEF, 2019.

Os trabalhos foram classificados em cinco eixos temáticos:


 Eixo 1 – Aspectos identitários e discursivos nas fronteiras: identidades,
gêneros, diversidades, cultura, arte, literatura, comunicação, saúde,
educação, bilinguismo;
 Eixo 2 – Movimentos de população hoje e no passado: migrações,
colonização, redes, história e memória;
 Eixo 3 – Territórios e territorialidades nas fronteiras: integração,
desenvolvimento, políticas públicas, urbanização, comércio e
desenvolvimento local;
 Eixo 4 – Limites estratégicos: geopolítica, soberania e relações internacionais,
globalização, segurança pública, conflito e violência;
 Eixo 5 – A natureza e seus usos: conservação, sustentabilidade, turismo,
frentes, reforma e outras dinâmicas agrárias (assentamentos, agronegócio,
agricultura familiar).

Os Eixos temáticos 1 e 3 concentraram maior quantidade de trabalhos


submetidos, respectivamente 39,7% e 24,8% (Figura 2).

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Figura 2 - Percentual de trabalhos segundo eixo temático no VII SEF

O panorama dos trabalhos submetidos demonstra a participação massiva de


estudantes de pós-graduação, que representaram cerca de 85% dos autores (Figura
3).

Figura 3 – Nível de formação dos autores de trabalhos no VII SEF

Outro fator relevante a apontar é que quase 75% dos trabalhos não contaram
com nenhum financiamento (Figura 4). A despeito das dificuldades, muitos autores
enviaram trabalhos e a maior parte esteve presente no evento nesta edição. Fontes
de financiamento dedicadas aos estudos fronteiriços devem ser concebidas para
que as pesquisas neste campo avancem.

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Figura 4 – Condição de financiamento dos trabalhos do VII SEF.

Todos os trabalhos submetidos foram avaliados por pelo menos dois


avaliadores do comitê científico. Dentre os aprovados, 40 trabalhos com melhor
pontuação foram convidados para publicação na revista GeoPantanal (UFMS) e na
revista Para Onde? (UFRGS).
Agradecemos a colaboração de todos que fizeram do VII SEF um evento
alegre, diverso e repleto de novas interações e conhecimentos. Até o próximo SEF!

Corumbá, 19 de dezembro de 2019.

Edgar Aparecido da Costa Rebeca Steiman


Mestrado em Estudos Fronteiriços Grupo Retis
Universidade Federal do Mato Grosso do Universidade Federal do Rio de Janeiro
Sul

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A INVISIBILIDADE NA FRONTEIRA: UMA ANÁLISE SOBRE A “FAIXA LIVRE”


LOCALIZADA ENTRE SETE QUEDAS-BR E PINDOTY PORÃ-PY
Invisibility at the Frontier: an Analysis of the "Faixa Livre" Located Between Sete
Quedas-BR and Pindoty Porã-PY
La Invisibilidad en la Frontera: an Análisis Sobre la "Faixa Livre" Ubicada Entre Sete
Quedas-BR y Pindoty Porã-PY

Leonardo Calixto Maruchi


Lidiane Cristina Lopes Garcia de Souza

Resumo: Este artigo é fruto de um trabalho de campo realizado pela turma de


mestrandos e doutorandos do PPGG- Programa de Pós-Graduação em Geografia
da UFGD- Universidade Federal da Grande Dourados, durante a disciplina “Tópicos
especiais em Geografia”, ministrada pelo Prof. Dr. Jones Dari Goettert. Nesta aula
de campo, foram realizadas entrevistas com moradores da chamada “faixa livre”,
que é uma zona neutra na fronteira entre Brasil e Paraguai no sul do estado do Mato
Grosso do Sul. A particularidade desse lugar e das pessoas que ali vivem mostra
como a fronteira é um lugar em que as relações se dão de maneira única, e que
apesar de ser um lugar contraditório e com diversos problemas, também é um lugar
de multiplicidades, saberes e vivências únicas.
Palavras-chave: fronteira, faixa livre, multiplicidade.

Abstract: This article is the result of a field work carried out by the group of masters
and doctoral students of the PPGG - Postgraduate Program in Geography of UFGD -
Federal University of Grande Dourados, during the discipline "Special Topics in
Geography", taught by Prof. Dr. Jones Dari Goettert. In this field lesson, interviews
were conducted with residents of the so-called "faixa livre" which is a neutral zone on
the border between Brazil and Paraguay in the southern state of Mato Grosso do Sul.
The particularity of this place and the people living there shows how the border is a
place where relationships occur in a unique way, and despite being a contradictory
place and with various problems, it is also a place of unique multiplicities,
knowledges and experiences.
Key words: border, faixa livre, multiplicity.

Resúmen: Este artículo es fruto de un trabajo de campo realizado por la clase de


maestrandos y doctorandos del PPGG- Programa de Post Graduación en Geografía
de la UFGD- Universidad Federal de la Grande Dourados, durante la disciplina
"Temas especiales en Geografía", impartida por el Prof. Dr. Jones Dari Goettert. En
esta clase de campo, se realizaron entrevistas con residentes de la llamada "faixa


Graduado em Geografia pela Universidade Federal da Grande Dourados. E-mail:
leomaruchi06@hotmail.com

Graduada em Geografia pela Universidade Federal da Grande Dourados. E-mail:
lidcris_@hotmail.com

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livre", que es una zona neutra en la frontera entre Brasil y Paraguay en el sur del
estado de Mato Grosso do Sul. La particularidad de ese lugar y de las personas que
allí viven muestra como la frontera es un lugar en que las relaciones se dan de
manera única, y que a pesar de ser un lugar contradictorio y con diversos
problemas, también es un lugar de multiplicidades, saberes y vivencias únicas.
Palabras clave: frontera, faixa livre, multiplicidade.

* Trabalho completo selecionado para publicação na Revista Para Onde? (UFRGS),


no número referente ao primeiro semestre de 2020.
https://seer.ufrgs.br/paraonde

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COMPAIXÃO ALÉM DAS FRONTEIRAS: NARRATIVAS PARA A HUMANIZAÇÃO


DO REFÚGIO DE INDESEJÁVEIS
Compassion Beyond Borders: Narratives for the Humanization of the Undesirable
Compasión Más Allá de las Fronteras: Narrativas para la Humanización del Refugio
de Indeseables

Fernanda Paraguassu

Resumo: Este artigo analisa a tendência de humanizar o tema do refúgio na


sociedade atual através da narrativa usada pela mídia convencional, a partir da foto
do menino Aylan Kurdi, que morreu afogado em 2015, ao tentar fugir do conflito na
Síria. Por que essa foto foi escolhida para estampar a capa dos jornais e gerou
comoção mundial, tornando-se emblemática da situação dos refugiados? Serão
contempladas aqui a seleção do sofredor na esfera pública, a elaboração social da
responsabilidade e a construção da solidariedade pelo despertar da compaixão,
considerando os valores culturais e a nova linguagem do social na pós-
modernidade. Na sequência, será abordado o desafio de enfrentar a fadiga da
compaixão num contexto em que a moralidade e a competência dos agentes do
Estado são centrais na política contemporânea. A referência será a argumentação
desenvolvida pelo antropólogo francês Didier Fassin em Humanitarian Reason – a
moral history of the present.
Palavras-chave: humanização, compaixão, refugiados, linguagem, criança.

Abstract: This article analyzes the tendency to humanize the theme of refuge in
today's society through the narrative used by mainstream media from the photo of
the boy Aylan Kurdi, who drowned in 2015 while trying to escape the Syrian conflict.
Why was this photo chosen to print the cover of newspapers and generated
worldwide commotion, becoming emblematic of the plight of refugees? The selection
of the sufferer in the public sphere, the social elaboration of responsibility and the
construction of solidarity for the awakening of compassion, considering the cultural
values and the new language of the social in postmodernity will be contemplated
here. Next, the challenge of addressing the fatigue of compassion will be addressed
in a context in which the morality and competence of the state agents are central to
contemporary politics. The reference will be the argument developed by the French
anthropologist Didier Fassin in Humanitarian Reason – the moral history of the
present.
Key words: humanization, compassion, refugees, language, child.

Resúmen: Este artículo analiza la tendencia a humanizar el tema del refugio en la


sociedad actual a través de la narrativa utilizada por los principales medios de
comunicación con la foto del niño Aylan Kurdi, que se ahogó en 2015 mientras
intentaba escapar del conflicto sirio. ¿Por qué se eligió esta foto para imprimir la
portada de los periódicos y generó conmoción mundial, convirtiéndose en un
emblema de la difícil situación de los refugiados? Aquí se contemplará la selección
de la víctima en la esfera pública, la elaboración social de la responsabilidad y la
construcción de la solidaridad para el despertar de la compasión, considerando los

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valores culturales y el nuevo lenguaje de lo social en la posmodernidad. A


continuación, el desafío de abordar la fatiga de la compasión se abordará en un
contexto en el que la moralidad y la competencia de los agentes estatales son
fundamentales para la política contemporánea. La referencia será el argumento
desarrollado por el antropólogo francés Didier Fassin en Humanitarian Reason: la
historia moral del presente.
Palabras clave: humanización, compasión, refugiados, lenguaje, niño.

Introdução
Em setembro de 2015, a foto de um menino deitado numa praia da Turquia
estampou a capa dos principais jornais de diversos países da Europa e das
Américas, espalhou-se pelas redes sociais e tornou-se emblemática da situação das
crianças refugiadas no mundo contemporâneo. Aylan Kurdi, de três anos de idade,
estava de bruços na areia, perto do mar, com camiseta vermelha, short azul e
sapatos pretos... morto. Tentou fugir do conflito na Síria com a família num bote, que
afundou próximo à península de Bodrum, um balneário com resorts de luxo, a
caminho da ilha de Kós, na Grécia, destino buscado por milhares de refugiados que
tentam chegar à Europa.
Vítima, vergonha, tragédia, catástrofe, horror e crise foram algumas das
palavras que ocuparam as manchetes daquele dia junto com a foto do menino, para
demonstrar a complexidade sobre questões do deslocamento forçado de pessoas
que fogem de perseguições e guerras. Em eventos catastróficos como esse, cujas
imagens são divulgadas pela mídia e se disseminam pelo mundo através da internet,
o humanitarismo tornou-se familiar, como defende o atropólogo francês Didier
Fassin, em Humanitarian Reason – a moral history of the present.
Para Fassin, o sofrimento do refugiado e da vítima do desastre não é
simplesmente o produto do infortúnio, é também a manifestação da injustiça. E a
razão humanitária, ao instituir a equivalência de vidas e a equivalência de
sofrimento, permite-nos continuar acreditando – contrariamente à evidência cotidiana
das realidades que encontramos – nesse conceito de humanidade que pressupõe
que todos os seres humanos são de igual valor, porque pertencem a uma
comunidade moral. Assim, “o governo humanitário tem um poder salutar para nós
porque, salvando vidas, salva algo da nossa ideia de nós mesmos e porque, ao
aliviar o sofrimento, também alivia o fardo dessa ordem mundial desigual” (FASSIN,
2014, p. 252).

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O argumento de Fassin é, portanto, que o humanitarismo se tornou uma


força potente do nosso mundo. É um modo de governar que diz respeito às vítimas
do refúgio e de desastres, mas também da pobreza, da falta de moradia, do
desemprego, de fomes, epidemias e guerras – em suma, toda situação
caracterizada pela precariedade. Envolve organizações não governamentais,
agências internacionais, estados e indivíduos. Mobiliza simpatia e tecnologia,
médicos e logística. Seus locais de ação, no caso de refugiados, são campos de
refugiados, uma administração social onde imigrantes não documentados são
recebidos. Assim, Fassin propõe considerarmos o governo humanitário como a
resposta de nossas sociedades ao que é intolerável em relação ao estado do mundo
contemporâneo, sendo que aquilo que é intolerável não é apenas a presença do
trágico, mas a desigualdade em que está inserido.
Atualmente, 70,8 milhões de pessoas foram levadas a deixar suas casas,
sendo que 25,9 milhões ultrapassaram a fronteira em busca de refúgio em outros
países. Crianças representam a metade desse número (ONU, 2019). Entre 2018,
foram reportadas 111 mil crianças refugiadas separadas e desacompanhadas.
A realidade social pós-moderna ganha um novo vocabulário, legitimado por
políticos e cientistas, consolidado gradualmente e sendo assumido como evidente.
Para representar o mundo, sustenta Fassin, há a substituição de desigualdade por
exclusão, e dominação por infortúnio, o que não traz a ideia de derrubar o poder,
mas implica fazer apenas o necessário e remediar aquilo que acontece. Injustiça é
articulada como sofrimento, quando não se trata mais de mudar as condições
sociais, mas individualizar a questão social. Violência é expressa em termos de
trauma, o que significa tratar o sofrimento do indivíduo, no lugar de apaziguar a
sociedade em conflito. Ainda que o velho vocabulário continue vigente, o novo léxico
dos sentimentos morais mascara o anterior e consolida a nova semântica com
efeitos nas políticas e na sociedade em geral. Mais sensíveis à subjetividade e à
experiência da dor e da aflição, essas palavras dão um novo tom ao discurso
político.
Reforçada pelas palavras de manchetes que tentam definir um sentimento em
relação à tragédia, a imagem chocante do menino viralizou na internet com a
hashtag que dizia algo como “a humanidade se choca contra a costa” e causou
comoção mundial, sendo comparada à icônica foto da menina vietnamita correndo

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nua após o bombardeio em 1972. Mas por que a foto de Aylan Kurdi, que morreu
afogado junto com outras 15 pessoas que viajavam no mesmo bote, chamou tanta
atenção em meio a inúmeras outras imagens de vítimas das tragédias atuais? O
objetivo deste trabalho é propor uma reflexão sobre o motivo que levou a foto de
Aylan ser escolhida para estar na capa dos jornais, no contexto da razão
humanitária. E como interpretar o vínculo entre o acontecimento e a audiência, com
o sentimento de compaixão despertado por essa imagem?
Essas são algumas questões que permeiam o trabalho sobre a tendência de
humanização do tema do refúgio na sociedade atual. A metodologia será a análise
de discurso de manchetes de jornais do Brasil e do exterior publicadas no dia 3 de
setembro de 2015 para identificar a seleção de quem sofre no espaço público, a
elaboração social da responsabilidade e a construção da solidariedade pelo
despertar da compaixão. Será considerado ainda o desafio de enfrentar a fadiga da
compaixão num contexto em que a moralidade e a competência dos agentes do
Estado são centrais na política contemporânea. Como referência, será usada a
argumentação desenvolvida por Fassin.

“A criança de alguém” – a seleção do sofredor


O sofrimento é uma invenção recente. É certo que as pessoas sempre
sofreram, mas esse sofrimento permanecia como um assunto essencialmente
privado, ou então como forma de redenção dentro da experiência religiosa do
cristianismo. Portanto, foi há pouco tempo que entrou na esfera pública e se tornou
uma questão política. Assim como a ideia de que condições sociais, como exclusão,
devem ser fonte de frustração, humilhação, angústia ou tormento tornaram-se
familiar para todos. É um sofrimento que pode ser legitimamente descrito e revelado
em si mesmo. “O social (...) faz as pessoas sofrerem e esse sofrimento deve ser
ouvido” (FASSIN, 2011, p. 41). Além de ouvido, consolidou-se a noção de que deve
ser reduzido ao mínimo, por uma questão de respeito.
A análise de como os sofrimentos são expostos no espaço público é uma
estratégia para conceituar a ética e a política contemporânea (VAZ, 2014). Fassin
conta em seu livro que, em 1999, numa reunião durante o 6 o Festival Internacional
de Correspondentes e Fotógrafos de Guerra de Bayeux, um jornalista francês,
comentando sobre mudanças no mercado de reportagens e imagens que relatam e

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ilustram os eventos mundiais, observou que, no lugar de corpos e sangue, o


sofrimento é hoje necessário, particularmente de mulheres e crianças, porque “move
e mobiliza as pessoas com mais facilidade” (FASSIN, 2011, p. 25). Dessa forma, é
como passar da imagem da crucificação para a da Pietà. E a emoção despertada
passou do terror para a da compaixão. Tanto que, no dia seguinte à foto do corpo do
menino, foi publicada a imagem do pai de Aylan, aos prantos, desesperado,
sofrendo, com a frase em destaque: “Ele escapuliu das minhas mãos”.
Na forma narrativa atual, o sofredor tende a ser despersonalizado. “A criança
de alguém” foi a manchete do jornal inglês The Independent para passar a
mensagem de que alguém está sofrendo pela morte dessa criança. O sofrimento
daquele que sofre vale como exemplar e, portanto, “os acontecimentos de sua vida
só importam na medida em que são representativos de uma condição partilhada por
muitos” (FASSIN, 2011). O sofredor representa outros sofredores, com sofrimentos
semelhantes e que foram causados pela mesma condição. “Uma criança é o mundo
inteiro” foi o título de um artigo assinado pelo jornalista Juan Cruz no espanhol El
País. Dessa maneira, o corpo de Aylan Kurdi representou todas as outras crianças
que perderam a vida em travessias marítimas em busca de refúgio quando Cruz diz
que “a morte de uma criança fugindo da guerra é uma afronta, um grito da vida
contra a morte”. Não se trata da singularidade do sofrimento de um determinado
indivíduo, mas de sua exemplaridade para um grupo ou classe (FASSIN, 2011). Ou
seja, é o sofrimento de um conjunto de indivíduos.
Ganham destaque, portanto, na narrativa dos meios de comunicação, os
sofrimentos que revelam como indivíduos inocentes têm sua vida subitamente
transformada. Nos dias que se seguiram à tragédia, foram publicadas fotos do
menino sorrindo com seu irmão, mostrando uma cena de uma infância comum,
interrompida por uma tragédia que poderia ter sido evitada.
Para alguns historiadores, a infância como categoria social é considerada um
fenômeno da história moderna. O francês Philippe Ariès, em Centuries of Childhood
– A Social History of Family Life, diz que, até o século XV, as crianças eram
consideradas pequenos adultos que dividiam tradições, como jogos e roupas. Sua
tese, apesar de ter sofrido críticas severas, baseou-se em desenhos medievais que
retratavam as crianças dessa maneira. Como categoria moral na política é, no
entanto, ainda mais recente (FASSIN, 2014, p. 179). Surgiu na Europa Ocidental e

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na América do Norte no fim do século XIX, com uma legislação contra maus-tratos
de crianças e com a disseminação gradual da proteção infantil. Após a Segunda
Guerra Mundial, a criação do Unicef em 1946 foi considerada outro avanço, assim
como a Declaração sobre os Direitos da Criança em 1959, e mais tarde e a
Convenção sobre os Direitos da Criança em 1989.
Esse desenvolvimento se assemelhava a uma mobilização crescente de
organizações não-governamentais sobre as questões de abuso infantil a partir dos
anos 1970, do trabalho infantil na década de 1980, e pedofilia e incesto a partir de
1990.

A representação da infância subjacente a essa política destaca a


qualidade moral da inocência e a qualidade social da vulnerabilidade.
O primeiro se refere à pureza original, à qual os adultos devem dar
testemunho; o segundo sugere uma necessidade de proteção, pela
qual os adultos devem ser responsáveis” (FASSIN, 2011, p.179).
Soma-se a isso o fato de que, na mesma época do pós-guerra, foi assinada a
Convenção de Genebra como uma resposta da comunidade internacional à
negligência em relação aos 32 milhões de refugiados e pessoas sem Estado durante
os anos 1930 e 1940, seguindo análise de Hannah Arendt (1951) sobre o declínio do
Estado-nação e o fim dos direitos dos homens. Além do objetivo pragmático de
atender às necessidades de pessoas deslocadas e exilados, havia o interesse de
resolver questões demográficas e econômicas ligadas às perdas com a guerra.
Então a criação de condições para uma nova ordem de mundial com a
Declaração dos Direitos Humanos da ONU trouxe, em 1991, uma retórica oficial de
“solidariedade universal”, mas não excluiu os interesses nacionais. Ainda assim, o
novo status internacional dos refugiados e pessoas sem Estado era claramente um
repúdio à violência à qual foram submetidos e a legitimidade política do asilo ganhou
espaço. Os “indesejáveis” se tornaram heróis para alguns, como símbolo da
resistência à opressão, e vítimas para muitos, que são a representação do
sofrimento dos vulneráveis e oprimidos, como é o caso das crianças.
Na pós-modernidade não se aceita mais o sacrifício do indivíduo em nome
do bem comum. Talvez porque não haja mais hierarquia entre o valor do
sofrimento de um e de outro. Não se sofre mais para alguma coisa precisar
acontecer. Porque, para que o sofrimento tenha servido para alguma coisa, é
preciso que ele passe. Mas o sofrimento, como aquele com a perda de um filho,

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não passa. Ainda assim, o pai do menino se agarrou à esperança de que a morte
de seu filho mudasse o mundo, para, um ano depois, admitir que nada mudou:
“Todo mundo queria fazer alguma coisa. A foto do meu filho morto comoveu o
mundo, mas as pessoas continuam morrendo e ninguém faz nada.”

“A humanidade falhou” – a elaboração de responsabilidade


A manchete do jornal canadense La Presse destacou: “A humanidade falhou”.
Para o argentino Clarin, “A imagem que envergonha o mundo” foi a frase de capa, e
o turco Milliyet deu o mesmo tom: “Fique envergonhado, mundo”. O espanhol El País
foi mais específico: “Uma imagem que estremece a consciência da Europa”. O The
Times detalhou: “Europa dividida: líderes políticos paralisados pela crise sobre cotas
de imigrantes; corpos de bebês levados pelas praias”. A busca imediata por um
responsável pela tragédia de setembro de 2015 ficou evidente na capa dos
principais jornais europeus e das Américas. Somos todos, enquanto humanidade,
culpados? O mundo inteiro? Ou apenas os países e seus governantes?
Questões morais despertam mais perguntas, como uma espécie de mea-
culpa da sociedade, de acordo com Fassin (2011, p. 166), ao analisar a vida de
bebês contaminados pelo vírus do HIV e que se encaixam nesse contexto da
tragédia da foto: “Temos o direito de condenar essas crianças à morte quando
poderíamos salvá-las? E nós temos o direito de privar gerações futuras de potenciais
líderes, artistas, pacificadores? Como nação, seremos julgados pelo que está em
nossos corações e pelo que fazemos uns pelos outros, não pelo que está em nossos
arsenais ou nosso déficit orçamentário”. E mais: “Como não se poderia condenar um
governo que estava colocando em risco os mais vulneráveis de sua população?” A
obviedade moral do argumento de salvar vidas está no cerne do humanitarismo.
A elaboração social da responsabilidade implica “o modo como uma cultura
pensa o poder da ação humana individual e coletiva, isto é, o que ela presume que
os seres humanos podem fazer para evitar eventos trágicos” (VAZ, 2014, p.1).
Afinal, conceber o sofrimento como evitável é uma das condições para que o
sofrimento de estranhos venha a se tornar uma questão política, numa sociedade
que já definiu o bem e o mal na universalização da regra moral.
Ao indicar o que deve ser feito para não sofrer, uma cultura
também estipula quem são aqueles que, por falharem, causam

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sofrimento, para si e para os outros. Mesmo quando se


estabelece uma causalidade puramente natural para um
evento trágico, pode haver responsabilização se for suposto
que o processo natural pode ser controlado, no todo ou em
parte (VAZ, 2014, p.1).
O novo lugar da política é o de explicar porque o indivíduo sofre, mesmo
quando é inocente. E a explicação terá a forma da acusação: o governo ou os
políticos são incompetentes e imorais. Assim, “só cabe dizer que o indivíduo sofre
por culpa de outros que teriam o poder de evitar seu sofrimento” (VAZ, 2014, p. 18).
Fassin usa a palavra “governo” em sentido amplo, como o conjunto de
procedimentos estabelecidos e ações conduzidas para gerenciar, regular e apoiar a
existência de seres humanos: o governo excede a intervenção do Estado e inclui
administrações locais, organismos internacionais e outros agentes. De fato, o
humanitarismo tornou-se uma linguagem que vincula valores e afetos, e serve tanto
para definir como para justificar discursos e práticas do governo dos seres humanos.
A partir dos anos 1990, as políticas de imigração europeias se tornaram
progressivamente restritivas, com novos critérios baseados em argumentos
humanitários. O desafio de governos passou a ser conciliar ajuda humanitária aos
refugiados com a recusa à imigração clandestina. Dessa forma, países que prestam
assistência são os mesmos que recusam a entrada em seu território. Fica evidente
que a oscilação entre humanizar e repreender, com o argumento da segurança, deu
espaço para o surgimento de uma “repressão compassiva”, segundo Fassin. O
contexto após o atentado do 11 de Setembro nos Estados Unidos e o
reconhecimento do Estado como responsável pelo bem-estar social foram alguns
dos fatores que explicam esse movimento.

A linguagem do humanitarismo não seria mais do que uma


cortina de fumaça que joga com o sentimento a fim de impor a
lei do mercado e a brutalidade da realpolitik. (FASSIN, 2011, p.
2)
No caso do menino Aylan Kurdi, as manchetes dos jornais deixam claro que a
culpa é do outro. De quem tem o poder de evitá-lo. E, ao assumirem a posição de
culpados, o passo seguinte será buscar a redenção da culpa.

“Poderia ter sido meu filho” – o despertar da compaixão


Poucos são os sofredores que conseguem ter seu sofrimento exibido no
espaço público (VAZ, 2014, p.1). No caso do menino Aylan, o reconhecimento de um

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sofrimento que poderia ter sido evitado e a crença na inocência do sofredor


justificam a seleção da foto, capaz de gerar um mal-estar no espectador em relação
à injustiça da desigualdade, despertar compaixão e indignação moral que, por sua
vez, leva à ação. “Precisamos fazer mais” foi a manchete do canadense Metro. O
impulso para ajudar foi observado logo nos dias seguintes à tragédia, em que
organizações de assistência a refugiados registraram aumento no volume de
doações. Meses depois, porém, as doações voltaram ao patamar de antes.
Outro motivo considerado na interpretação da compaixão despertada pela
imagem, como avalia o diretor de emergências do Human Rights Watch, Peter
Bouckaert, foi a carga de etnocentrismo na reação das pessoas em relação à foto. A
primeira reação de grande parte do público foi pensar: “Poderia ter sido meu filho”.
Tanto que, explicou, semanas antes, fotos de dezenas de crianças africanas mortas
em praias da Líbia não causaram o mesmo impacto.
Jornais justificaram a opção pela publicação da foto. O diretor de fotografia do
francês Le Monde, Nicolas Jimenez, disse que já tinham escrito sobre o tema, mas
nunca tinham mostrado a situação de maneira tão dura. “Mostrar dessa maneira é
um passo importante”. O vice-presidente da agência de imagens Getty, Hugh
Pinney, afirmou que a imagem do menino foi uma maneira de humanizar a crise, que
vinha sendo ilustrada com botes lotados e pontos de fronteira: “Essa foto é um
marco sobre esse tema, quando as pessoas finalmente se dão conta de que se trata
de pessoas reais e sobre o fato de que pessoas arriscam tudo – até mesmo a vida
dos filhos – para atravessar águas abertas”.
No Brasil, o UOL divulgou um texto em que explica a decisão de publicar a
foto, ainda que a imagem pudesse espantar as pessoas em vez de atraí-las. “O
jornalismo existe para informar. E palavras não descreveriam com a força necessária
a dimensão da tragédia em curso na Europa e no Oriente Médio. Não nos compete
suavizar a realidade, mas sim retratá-la com precisão.” O autor da foto, Nilufer
Demir, da agência de notícias turca Dogan, disse que a imagem estabeleceu uma
nova forma de se conversar sobre a crise migratória. Tanto que, depois dela, vieram
outras fotos de crianças que marcaram a narrativa da guerra, como a imagem do
menino sírio Omran, de 5 anos, todo machucado e empoeirado, aparentemente em
estado de choque, depois de ter sido resgatado dos escombros após bombardeio
em Aleppo, em setembro de 2016.

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Mais recentemente, em junho de 2019, a foto de um pai salvadorenho e sua


filha de apenas um ano e 11 meses dentro da camisa dele – mortos abraçados, de
bruços, na beira do Rio Grande, durante a travessia da fronteira do México com os
Estados Unidos – lembrou a vulnerabilidade expressada na foto de Aylan Kurdi, que
chegou a ser citada de novo em alguns textos. Por outro lado, no G1, a matéria dizia
que a foto com a imagem de Óscar Ramírez e a menina Valeira causou empatia e
indignação em igual medida, mas também críticas. Houve questionamentos sobre
até que ponto seria legítimo publicar esse tipo de foto, pois incentivaria um “fascínio
mórbido e discriminação contra as famílias migrantes”. Outros alegam que é uma
forma de mostrar a tragédia dos que tentam chegar à fronteira. Para a autora da
foto, a mexicana Julia Le Duc, a foto com a notícia que viraliza deveria tornar-se um
alerta “para conscientizar os governos sobre o que está acontecendo com os
migrantes, que estão morrendo na fronteira porque não estão prestando atenção a
eles”.
Na compaixão pós-moderna, a distância entre sofredor e audiência é reduzida
ao máximo. Uma das crenças relacionadas à existência da compaixão é o juízo de
possibilidades similares. Mesmo de longe, por ser um observador, quem
experimenta compaixão também experimenta medo. Como destaca Nietzsche, o
sofrimento do outro produz efeitos no espectador:
O contratempo sofrido por outra pessoa nos ofende, nos faz sentir
nossa impotência e talvez nossa covardia, se não acudirmos em seu
auxílio. ... Ou na dor alheia vemos algum perigo que também nos
ameaça, pois ainda que só seja como sinais da insegurança e da
fragilidade humanas, os infortúnios alheios podem produzir em nós
penosos efeitos. Rejeitamos esse gênero de ameaça e de dor e lhe
respondemos por meio de um ato de compaixão, no qual pode existir
uma sutil defesa de nós mesmos e até algum resquício de vingança.
(Nietzsche, 1978, p.133)
Há quem diga que a compaixão nem sempre pode ser uma virtude, já que
a generosidade poderia ser apenas motivada por um receio de que destino
semelhante pudesse recair sobre nós mesmos. E, dessa maneira, na caridade
estaríamos mais pensando em nós mesmos, na tentativa de nos libertar-nos de
um sentimento de dor.
De qualquer forma, sendo a compaixão legítima ou não, é possível afirmar
que, na sociedade contemporânea, em que a desigualdade atinge níveis sem
precedentes, o humanitarismo provoca a fantasia de uma comunidade moral global

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que ainda pode ser viável e a expectativa de que a solidariedade possa ter poderes
redentores (FASSIN, 2011). E assim, por mais efêmera que seja a consciência para
a solidariedade, o humanitarismo não deixa de ter a capacidade de tornar ilusórias
as contradições do nosso mundo, deixando uma sensação de que as injustiças
podem ser suportáveis.

“Uma crise moral” – a fadiga da compaixão


Todo governo humanitário é constituído de uma tensão entre desigualdade e
solidariedade, entre uma relação de dominação e de assistência. Isso pode explicar
a ambivalência observada das autoridades, dos doadores e dos agentes que
trabalham para o bem dos outros. O desgaste de sentimentos morais que chegam a
se tornar indiferença ou até mesmo agressividade contra os outros tem sido
chamado de fadiga da compaixão.
Uma das críticas feitas à compaixão é o fato de pressupor uma relação de
desigualdade entre quem ajuda e quem é ajudado, que, por sua vez, deve ser
humilde e não expressar demandas por direitos. Na condição de vítima, o assistido
teria que ser silenciado, como se apenas sua vida biológica tivesse algum valor,
enquanto sua biografia seria totalmente descartada. A compaixão exercida no
espaço público é sempre dirigida de cima para baixo, do mais poderoso para o mais
fraco, o mais frágil, o mais vulnerável. Assim, o governo humanitário é, de fato, uma
política de vidas precárias (FASSIN, 2011, p. 4).
Nas últimas décadas do século XX, a razão humanitária passou a ser o centro
de uma economia moral. No início do século XXI, a atenção do governo humanitário
é direcionada especificamente ao sofrimento e ao infortúnio. “Se essa mudança
deriva de sinceridade ou cinismo por parte dos atores envolvidos, se manifesta uma
empatia genuína ou manipula a compaixão, é outra questão”, como destaca Fassin
(2011, p.7). Merece registro que essa maneira de ver e fazer estão evidentes.
Em relação aos refugiados, a liminaridade de sua situação e a ambiguidade
da hospitalidade que recebem mostram que a condição contemporânea do imigrante
forçado está condicionada a um estado permanente de docilidade, gratidão e
submissão. Seria, assim, a postura do refugiado que condicionaria o tratamento
recebido como hospitaleiro ou hostil coercitivo. Seriam “pessoas desafortunadas”
sem voz ou “imigrantes ilegais” que evidenciam uma forma de fadiga da compaixão.

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Surge então a pergunta: que tipo de vida está em jogo na intervenção


humanitária? Se todo sofrimento não é merecido, se as vítimas talvez sejam
culpadas apenas sob o olhar de preconceituosos, se qualquer indivíduo feliz pode
subitamente tornar-se uma vítima, que ilusão nos engana a ponto de não termos o
melhor de todos os governos? Se a validade do discurso de sofrimento, a
supremacia da política da compaixão e a redução das pessoas ao status de vítima
não devem ser tomadas como garantidas, como sugere Fassin, é a razão
humanitária a forma mais eficiente de governar num ambiente em que a falha moral
dos fortes tem impactos na atuação sobre a vida dos fracos? Seria conveniente para
os assistidos? Ou seriam mecanismos obscuros que transformam a piedade e a
compaixão em perigosa tecnologia mascarada pelo humanismo?

Considerações finais
A economia moral que define o escopo da biopolítica contemporânea, quando
esta governa as vidas dos indesejados, oscila entre sentimentos de comiseração e
preocupação com a ordem, entre uma política de piedade e políticas de controle.
A presença dos refugiados é inquietante porque revela a persistência da vida
nas sociedades contemporâneas. Sem direitos humanos, podem apenas clamar por
permanecerem vivos. Assim, o humanitário separado do político leva a uma
reprodução do isolamento, sob o qual se baseia a soberania.
O que falta ao governo humanitário é que, além de considerar a vida como
sagrada e valorizar o sofrimento, deve reconhecer o outro como um rosto. E isso
significa também reconhecer um direito além de qualquer obrigação, inclusive de
sujeição às condições impostas.
Ao escolher a foto do menino como emblemática da situação dos refugiados,
a mídia dá uma ênfase afetiva às crianças como vítimas e arrisca afastá-las da
realidade social em que vivem. A emoção acaba por poupar a urgência por medidas
concretas, já que torna os julgamentos morais menos certos e as soluções menos
homogêneas. A mobilização emocional é frágil e ambígua. A criança que pede
refúgio, sozinha ou acompanhada, acaba correndo o risco de tornar-se um fardo
para a sociedade.
É possível afirmar que a foto de Aylan Kurdi ficou para a história. A imagem é
uma das que parecem surgir do inconsciente coletivo da sociedade contemporânea

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quando se trata do tema dos refugiados. O que podemos fazer com isso é o desafio
que temos pela frente. É tempo de avaliar com mais profundidade as perdas e os
ganhos de se usar o sofrimento para falar de desigualdade, de reificar crianças em
tragédias que também atingem adultos “indesejáveis”.
Ainda assim, fotos como essas continuam sendo um convite para um trabalho
de consciência, que vai além de olhar as vítimas e enxergar apenas as diferenças.

Manchetes de jornais em setembro de 2015:


Buenos Aires Herald (Argentina): “Europe’s shame” (A vergonha da Europa)
Clarin (Argentina): “La imagen que avergüenza al mundo” (A imagem que envergonha o
mundo)
La Nación (Argentina): “La crisis migratória – una tristeza sin fronteras” (A crise migratória –
uma tristeza sem fronteiras)
De Morgen (Bélgica): “Er is een kind verdronken” (Há uma criança que se afogou)
Correio Braziliense (Brasil): “A tragédia que desafia o mundo”
Extra (Brasil): “A civilização morreu na praia?”
O Globo (Brasil): “Símbolo de uma tragédia”
La Presse (Canadá): “L’humanité échouée” (A humanidade falhou)
The Globe and Mail (Canadá): “A moral crisis” (Uma crise moral)
The National Post (Canadá): “What the migrant crisis look like” (Como é a crise dos
migrantes)
Toronto Metro (Canadá): “We must do more” (Precisamos fazer mais)
Toronto Star (Canadá): “It’s time for this to end” (É hora de acabar)
El País (Espanha): “Una imagen que estremece la conciencia de Europa” (Uma imagem que
estremece a consciência da Europa)
Daily News (EUA): “The dead sea” (O mar morto)
The Kansas City Star (EUA): “A heartbreaking tragedy” (Uma tragédia comovente)
The Wall Street Journal (EUA): “Amid Europe’s migrant tide, a small horror in Turkey” (Em
meio à maré de migrantes da Europa, um pequeno horror na Turquia)
The Washington Post (EUA): “The little victim of a growing crisis” (A pequena vítima de uma
crise crescente)
Le Monde (França): “Réfugiés: l’Europe sous le choc après un nouveau drame” (Refugiados:
Europa em choque depois de uma nova tragédia)
Daily Mail (Inglaterra): “Tiny victim of a human catastrophe” (Pequena vítima de uma
catástrofe humana)
Daily Mirror (Inglaterra): “Unbearable – a three-year-old boy washed up on a holiday beach
in Turkey... the heartbreaking human face of a tragedy the world can no longer ignore”
(Insuportável – um menino de três anos apareceu em uma praia de férias na Turquia... o
rosto humano de partir o coração de uma tragédia que o mundo não pode mais ignorar)

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Metro (Inglaterra): Europe could not save him (A Europa não poderia salvá-lo)
The Guardian (Inglaterra): “The schocking, cruel reality of Europe’s refugee crisis” (A
realidade cruel e chocante da crise dos refugiados na Europa)
The Independent (Inglaterra): “Somebody’s child” (A criança de alguém)
The Times (Inglaterra): “Europe divided: Political leaders paralysed by crisis over migrant
quotas; Bodies of infants washed up on beaches” (Europa dividida: líderes políticos
paralisados pela crise sobre cotas de imigrantes; corpos de bebês levados pelas praias)
La Stampa (Itália): “La spiaggia su cui muore l’Europa” (A praia em que a Europa morre)
Expressen (Suécia): “Europa räddade inte Aylan, 3” (A Europa não salvou Aylan, 3)
Gulf News (Emirados Árabes): “Humanity washed ashore” (Humanidade lavada em terra)
Haber Ekspres (Turquia): “Iyi bak avrupa!” (Boa olhada na Europa!)
Milliyet (Turquia): “Utan Dünya!” (Fique envergonhado, mundo)
Trouw (Holanda): “Dit is Aylan Kurdi. Hij is drie jaar geworden” (Este é o Aylan Kurdi. Ele tem
três anos de idade)

Referências:

AGAMBEN, Giorgio. Homo sacer I: O poder soberano e a vida nua. Trad.


Henrique Burigo. Belo Horizonte, Editora UFMG, 2007.

ARENDT, Hannah. Origens do Totalitarismo[1950]. Companhia das Letras, 1998.

ARIÈS, Philippe. Centuries of Childhood – A Social History of Family Life


(L’enfant et la vie familiale sous l’ancien régime). Disponível em:
https://monoskop.org/images/d/d0/Ari%C3%A8s_Philippe_Centuries_of_Childhood_
A_Social_History_of_Family_Life_1962.pdf

CAPONI, Sandra. A lógica da compaixão. Trans/Form/Ação. São Paulo, 21/22: 97-


117, 1998/1999.

Corpo de criança refugiada afogada aparece em praia de resort turco. UOL. 2 set.
2015. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-
noticias/2015/09/02/corpo-de-crianca-refugiada-afogada-aparece-em-praia-de-resort-
turco.htm Última consulta em: 1 maio 2019.

CRUZ, Juan. Uma criança é o mundo inteiro. El País. 2 set. 2015. Disponível em:
https://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/02/internacional/1441216415_550941.html.
Última consulta em: 27 jun. 2019.

FASSIN, Didier. Compaixão e Repressão: A Economia Moral das Políticas de


Imigração na França. Ponto Urbe [Online], 15 | 2014, 30 dez. 2014. Disponível em:
http://journals.openedition.org/pontourbe/2467 ; DOI : 10.4000/pontourbe.2467.
Última consulta em: 1 maio 2019.

FASSIN, Didier. Humanitarian Reason – A Moral History of the Present. EUA,


University of California Press. 2011. (trechos extraídos com tradução minha)

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KENNICOTT, Philip. Há quem culpe pai e filha por seu afogamento. The
Washington Post, O Estado de S. Paulo. 27 jun. 2019. Disponível em:
https://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,artigo-ha-quem-culpe-pai-e-filha-
por-seu-afogamento,70002892466. Último acesso em: 27 jun. 2019.

LAURENT, Olivier. What the Image of Aylan Kurdi Says About the Power of
Photography. Time. 4 set. 2015. Disponível em: http://time.com/4022765/aylan-
kurdi-photo/ Última consulta em: 1/5/2019.

NIETZSCHE. Aurora. México: EMU, 1978.

ONU. Tendências globais 2018. Disponível em:


https://www.acnur.org/portugues/dados-sobre-refugio/. Última consulta em: 24 jun.
2019.

Por que publicamos a imagem do menino sírio afogado?. UOL. 2 set. 2015.
Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-
noticias/2015/09/02/por-que-publicamos-a-imagem-do-menino-sirio-afogado.htm
Última consulta em: 1 maio 2019.

Que a imagem sirva para evitar novas mortes, diz fotógrafa que clicou pai e filha
afogados em fronteira. G1. 27 jul. 2019. Disponível em:
https://g1.globo.com/mundo/noticia/2019/06/27/que-a-imagem-sirva-para-evitar-
novas-mortes-diz-fotografa-que-clicou-pai-e-filha-afogados-em-fronteira.ghtml.
Última consulta em: 27 jul. 2019.

VAZ, Paulo. A compaixão, moderna e atual. Jornalismo, cultura e sociedade:


visões do Brasil Contemporâneo (73-98), Porto Alegre: Sulina, 2014.

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CONDUTORES DE CARROÇAS EM CORUMBÁ, MS - UMA ABORDAGEM


INTRODUTÓRIA AO PROBLEMA
Conductores de carretas en Corumbá, MS – un abordaje introductorio al problema
Wagon conductors in Corumbá-MS – an introductory approach to the problem.

Waldson Luciano Corrêa Diniz1

Resumo: A história das cidades é repleta de atores sociais invisibilizados. Através


da História Oral busca-se problematizar esse espaço geográfico rompendo com a
narrativa histórica vigente e inserindo o trabalhador pobre, muitas vezes negro ou
descendente de indígenas na trama histórica. O estudo dos condutores de carroças
aporta uma série de reflexões ao cotidiano e às formas como se organizaram as
relações entre os diferentes setores produtivos. Colabora, portanto, para esclarecer
o valor desse trabalho aparentemente marginal, bem como explica como pensam a
si mesmos, no seu oficio, tais trabalhadores.
Palavras-chave: Condutores de carroças, História Oral, Trabalho.

Abstract: The history of cities is filled with invisible social actors. Throughout Oral
History it is sought to problematize this geographic space breaking with the current
historical narrative as well as inserting the poor worker, most of times black or an
Indian descendant into the historical plot. The study of the wagon conductors provide
a number of reflections towards day-to-day life and to the ways on how the
relationships are organized between the different sectors of production. Therefore, it
collaborates to elucidate the value of this work, apparently marginal, as well as it
explains how these workers think about themselves and about their occupation.
Key Words: Wagon conductors, Oral History, Work.

Resumen: La historia de las ciudades está repleta de actores sociales


invisibilizados. Mediante la Historia Oral se busca problematizar ese espacio
geográfico que rompe con la narrativa histórica vigente e inserta al trabajador pobre,
muchas veces negro o descendiente de indígenas en la trama histórica. El estudio
de conductores de carretas contribuye con una serie de reflexiones al cotidiano y las
formas como se organizan, las relaciones entre los diferentes sectores productivos.
Colabora, por lo tanto, para aclarar el valor de ese trabajo aparentemente marginal,
bien como para explicar cómo se piensan a sí mismos, en su oficio, tales
trabajadores.
Palabras clave: Conductores de carreta, Historia Oral, Trabajo.

* Trabalho completo selecionado para publicação na Revista Para Onde? (UFRGS),


no número referente ao primeiro semestre de 2020.
https://seer.ufrgs.br/paraonde

1
Docente do Curso de História do Campus do Pantanal da UFMS. E-mail: waldson.diniz@ufms.br.

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CORPO EPISTÊMICO FRONTEIRIÇO DESCOLONIAL: TRANSITANDO NA


FRONTEIRA DA EXTERIORIDADE EM MATO GROSSO DO SUL
Epistemic Body of the Decolonial Boundary: in Transit Through the External Borders
in the Mato Grosso do Sul
Cuerpo Epistémico de la Frontera Decolonial: en Tránsito través de las Fronteras
Externas en Mato Grosso do Sul

Marina Maura de Oliveira Noronha1

Resumo: Esse estudo emerge para discutir o corpo fronteiriço da exterioridade,


diferente do corpo já imposto como nosso dividido entre razão e emoção e que,
insistentemente, quer manter-se no universal. Desse modo, a pesquisa se
estabelece através de uma leitura crítica-biográfica fronteiriça (Nolasco, 2015) do
corpo a partir de uma epistemologia da diferença em MS. Para tal, nos valeremos,
do corpo epistêmico fronteiriço para pensar corpos outros que também ensejamos
discutir, tais como os da exterioridade, os docilizados, os fronteiriços etc.
Considerando essas discussões atravessado por corpos outros para pensar o corpo
como conceitos de uma episteme cultural. Entre os teóricos que embasam a
metodologia adotada, sobressaem-se os críticos, como Walter Mignolo, Ramón
Grosfoguel, Edgar Nolasco, Jacques Derrida, Marcos Antônio Bessa-Oliveira, entre
outros. Com o olhar crítico assentado em nosso (bio)lócus sul-mato-grossense,
esperamos romper fronteiras epistemológicas que ainda estabelecem limites dos
corpos nas práticas epistêmica do estado.
Palavras-chave: Corpo epistêmico; Fronteira; Crítica biográfica fronteiriça

Abstract: This study emerges to discuss the frontier body of exteriority, different from
the body already imposed as ours divided between reason and emotion and which
insistently wants to remain universal. Thus, the research is established through a
critical-biographical border reading (Nolasco, 2015) of the body from an epistemology
of difference in MS. For this, we will use the epistemic frontier body to think of other
bodies that we also want to discuss, such as those from abroad, the docile, the
borders, etc. Considering these discussions traversed by other bodies to think of the
body as concepts of a cultural episteme. Among the theorists that support the
adopted methodology, stand out the critics, such as Walter Mignolo, Ramón
Grosfoguel, Edgar Nolasco, Jacques Derrida, Marcos Antonio Bessa-Oliveira, among
others. With a critical eye on our (bio) locus sul Mato Grosso, we hope to break
through epistemological boundaries that still establish body boundaries in the
epistemic practices of the state.
Key-words: Epistemic body; Border; Border biographical criticism.

Resúmen: Este estudio surge para discutir el cuerpo fronterizo de exterioridad,


diferente del cuerpo ya impuesto como el nuestro dividido entre la razón y la
emoción y que insistentemente quiere seguir siendo universal. Por lo tanto, la

1
Mestranda do Programa de pós-graduação em Mestrado de Estudos de linguagens- Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul- Email: marina.m.noronha@gmail.com

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investigación se establece a través de una lectura de borde crítico-biográfico


(Nolasco, 2015) del cuerpo a partir de una epistemología de la diferencia en la EM.
Para esto, usaremos el cuerpo de la frontera epistémica para pensar en otros
cuerpos que también queremos discutir, como los del exterior, la dócil, las fronteras,
etc. Teniendo en cuenta estas discusiones atravesadas por otros cuerpos, hay que
pensar que el cuerpo es un concepto de epistema cultural. Entre los teóricos que
fundamentan la metodología adoptada destacan los críticos, como Walter Mignolo,
Ramón Grosfoguel, Edgar Nolasco, Jacques Derrida, Marcos Antonio Bessa-
Oliveira, entre otros. Con un ojo crítico en nuestro (bio) locus sul mato-grossense,
esperamos romper los límites epistemológicos que aún establecen los límites de los
cuerpos en las prácticas epistémicas del estado.
Palabras clave: Cuerpo epistémico; Frontera; Critica biográfica fronteriza

Introdução
Neste instante, esteja você onde estiver, há uma casa com seu
nome. Você é o único proprietário, mas faz tempo que perdeu
as chaves. Por isso, fica de fora, só vendo a fachada. Não
chega a morar nela. Em casa, teto que abriga suas mais
recônditas e reprimidas lembranças, é o seu corpo
THÈRÉSE. O corpo tem suas razões, p. 11

[...] compete a este tipo de intelectual (crítico) não embarcar


acriticamente nas epistemologias ancoradas numa tradição do
centro. Essa via de mão única que traduz o modo como a
crítica subalterna recebe e hospeda a crítica do centro não
permite que se discuta a relação, por exemplo, entre produção
do saber e o local geoistórico. [...] O problema reside quando
elas (teorias) não são transculturadas, como acontece e vem
acontecendo com a crítica do centro e de fora que aportam
nesse lado da fronteira-sul
NOLASCO. Crítica fora do eixo, p. 38.

Este trabalho, desde o título Corpo epistêmico fronteiriço descolonial:


transitando na fronteira da exterioridade em MS, sinaliza que a discussão está
pautada num recorte epistemológico biográfico-fronteiriço que toma o corpo como
um “corpo epistêmico descolonial” que pode ser posto em diálogo com as práticas
teóricas sul-mato-grossenses. Nesse caso, nossa proposta de discussão vem
ancorada na discussão conceitual que passa pelo conceito de “exterioridade”.
Registra-se que a partir dessa proposta de leitura descolonial, o corpo epistêmico
não vem fixado nos moldes da memória (e da própria razão de corpo) histórica como
assim o defendeu o sistema colonial moderno que regeu toda a discussão. A
proposta, em âmbito geral, partilha da ideia de que é possível compreender e falar
do e a partir do corpo epistêmico para além da ideia moderna que tomou o corpo
como um modelo histórico que podia ser repetido e encenado através dos tempos,
ignorando, por sua vez, que cada corpo histórico traz um bios inscrito e que se

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encena na cultura/local. Logo, o corpo nesta pesquisa vem atravessado por uma
epistemologia outra que privilegia sobremaneira a diferença descolonial dos corpos
na cultura. Desse modo, almejamos, por fim, que o corpo epistêmico perseguido por
nós no decorrer da pesquisa ao final trans-borde para além dos limites, da cultura e
da própria noção de corpo agrilhoado na/pela sociedade.

Uma política do corpo encena na/da fronteira

A diferença colonial do homem que vive na fronteira é que ele


sente a fronteira no próprio corpo. De modo que ela está
incrustada em seu corpo, em sua língua, em seu pensamento,
em seu modo de produzir conhecimento. É a soma de tudo isso
que vai resultar em uma epistemologia específica dos lugares
subalternos. (NOLASCO Perto do coração selbaje da crítica
fronteriza, p. 134)

A justificativa que melhor contempla a relevância deste trabalho pode ser


compreendida a partir de alguns direcionamentos, entre os quais destacamos: 1) O
corpo como condição para pensar as práticas do saberes sul-mato-grossenses, cuja
leitura vem embasada na teoria da Crítica biográfica fronteiriça, visando
compreender, por conseguinte, a importância do corpo epistêmico na produção dos
saberes de Mato Grosso do Sul; 2) a importância para a construção de uma
epistemologia fronteiriça do corpo epistêmico a partir do aporte teórico supracitado;
3) e toda a leitura proposta vem assentada na discussão conceitual que compreende
os conceitos de: fronteira, exterioridade, corpo-politica, memória, arquivo e o lócus
sul-mato-grossense, atravessado ambos pela questão do bios, tanto das práticas,
quanto do próprio pesquisador pensante, com a finalidade maior de contornar com
maior justeza crítica o corpo epistêmico que em cena no discurso epistêmico do MS.

Com base no exposto, acentua-se, por conseguinte, a relevância de tal


estudo, uma vez que tal leitura ainda não foi devidamente realizada no âmbito dos
estudos das práticas epistêmica no lócus fronteiriço de Mato Grosso do Sul. Assim,
além da escolha do objeto que ancora a proposta deste trabalho, ou seja, o “Corpo
epistêmico fronteiriço”, releva-se a importância epistêmica no Ms enquanto uma
produção cultural que põe em discussão a representação da cultura do lugar, com
todas suas nuanças de um lócus fronteiriço.

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A relevância da proposta sobressai quando se pontua que o corpo epistêmico,


com todas suas variações, se inscreve nesta pesquisa como condição necessária
para se pensar as práticas epistêmicas sul-mato-grossense, lembrando, de
antemão, que se tem como base teórica para a discussão proposta, como já
dissemos, as formulações da crítica biográfica fronteiriça, a qual, por sua vez,
partilha da proposição de se levar em consideração na articulação proposta tanto o
bios quanto o lócus de ambos os envolvidos na ação, ou opção descolonial
proposta.

É nessa direção que lembramos como essencial para a discussão proposta a


presença do “lócus de enunciação”, conforme reitera Ramón Grosfoguel: “o
essencial aqui é o lócus da enunciação, ou seja, o lugar geopolítico e corpo-político
do [individuo] que fala” (GROSFOGUEL, 2008, p. 46). Walter Mignolo em Histórias
locais/Projetos globais (2003) partilha e defende a mesma ideia. Nessa mesma
direção, mas com a diferença de pensar do lócus aqui em questão, Edgar Cézar
Nolasco, em seu ensaio Crítica biográfica fronteiriça (2015), sintetiza esclarecendo
acerca da importância do lócus de enunciação:

O lócus geoistórico cultural fronteiriço de onde penso, trabalho e escrevo,


ou seja, a fronteira-Sul que compreende os países Brasil (mais
precisamente o estado de Mato Grosso do Sul), Paraguai e Bolívia, se, por
um lado, marca e situa meu bios no contexto cultural brasileiro, por outro
lado, permite a inserção e a delimitação de meu lócus como condição sine
qua non para as reflexões críticas que proponho a partir desse lugar
fronteiriço. (NOLASCO, 2015, p. 58-59).

Na esteira dessa discussão acerca do nosso objeto, enfatiza-se a importância


para construção de uma epistemologia fronteiriça do corpo epistêmico, exatamente
para melhor contemplar esse lugar do sujeito/objeto atravessado pelo seu biolócus
(bios + lócus), nos deteremos, assim, de modo mais complementar uma leitura
crítica assentada em uma perspectiva crítica biográfica fronteiriça (NOLASCO, 2015)
e, por extensão, os conceitos e as teorizações. Sob esse prisma, e pensando a partir
da exterioridade na produção epistêmica outra do “corpo”, compreende-se fazer “[...]
valer das ideias e narrativas socioculturais como características biogeográficas da[s]
sua[s] constituições [corpo] de quemsoueu” (BESSA-OLIVEIRA, 2018, p. 9).
Portanto, é por meio de reflexões de base epistemológica outra, que é possível que
“o corpo epistêmico fronteiriço”, o qual buscamos, tornar-se (re)existente frente aos
discursos impositivos modernos.

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Dessa forma, entendemos que o objeto desta pesquisa está inserido em um


corpo epistêmico fronteiriço descolonial, cuja produção assenta-se em
argumentações pensadas a partir do próprio lócus como corpos/sujeitos. Tal
discussão se conjuga abrindo caminho para (re)leituras e enfrentamentos políticos,
culturais, sociais, literários e teóricos. Diante disso, buscamos discutir, criticar,
teorizar e refletir sobre “o corpo epistêmico fronteiriço” que se encena no discurso
epistêmico sul-mato-grossense. Tais enfrentamentos são necessários para pensar o
“corpo” como um não-lugar das fronteiras disciplinares comumente conhecidas pela
modernidade e as quais não se sustentam mais. Com isso, entendemos que para
compreendermos melhor “o corpo epistêmico fronteiriço” faz-se necessário que nos
coloquemos nesse espaço “corpo” em estado de fronteira dos saberes e das
culturas. Assentado nessas discussões Bessa-Oliveira corrobora:

Já de uma perspectiva que se quer aqui em evidencia, mais propriamente


dita descolonial e cultural, os “corpos” dos/nos lugares de exterioridades ao
pensamento moderno europeu (séc. XIV/XV) e/ou à globalização
estadunidense (séc. XIX) – ambos hoje compreendidos como propostas e
projetos de universalização e homogeneização de identidades – têm
sempre fronteiras edificadas e emergentes o tempo todo que esbarram seus
processos de circulação/situação. (BESSA- OLIVEIRA, 2018, p. 1).

Nessa direção, ainda sobre a importância do “corpo epistêmico fronteiriço”


que esbarra no projeto da modernidade aqui em voga, nossa teorização vem
sustentando tais discussões para pensarmos em “corpos” outros – enquanto teorias
modernas tentam limitar o corpo aqui analisado, vendo-o apenas como linguagem
descontextualizada das culturas, dos povos, dos sujeitos e das sociedades.
Portanto, entendemos que são corpos que continuam sendo mal-entendidos pelos
discursos do poder, sobretudo naquele suposto lugar produtor do saber. Tomamos,
assim, do corpo epistêmico fronteiriço como uma consciência descolonial do “corpo”,
entendendo que é preciso “aprender a desaprender, a reaprender a cada passo”
(MIGNOLO, 2008, p. 305) com esses corpos outros. Nessa direção, Nolasco sugere
tal reflexão a partir de uma enunciação crítica:

O que deve haver é uma crítica periférica, subalterna por excelência, cujo
pensamento liminar reverta a subalternização dos saberes e a colonialidade
do poder, crítica que proponha um novo modo de pensar no qual as
dicotomias sejam extintas em prol de uma outra episteme que se articule
para além da diferença colonial moderna. (NOLASCO, 2013, p. 87).

Nosso direcionamento embasado na pós-colonialidade, cuja epistemologia


embasa-se na diferença colonial, na exterioridade, assim como a Crítica biográfica

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fronteiriça (NOLASCO, 2015), entre outras vertentes de base descolonial, podem


melhor dar conta de (re)ler “corpos” outros, os quais emergem da cultura, sobretudo
da latino-americana e da brasileira. Assim sendo, a fim de respaldarmos
teoricamente nossa pesquisa, nos valemos, de modo essencial, da Crítica biográfica
fronteiriça para estudar, refletir, teorizar acerca do “corpo” sujeito/objeto aqui já
mencionado.
Nessa esteira defendida por Edgar Nolasco (2013), os corpos/sujeitos fazem
parte de um lócus de enunciação geoistórico e cultural específico. Deste modo, não
podemos mais reforçar o discurso do centro que insiste que esses corpos continuem
sendo “descartes” de um pensamento epistêmico ideológico (histórico e geográfico
privilegiado) que não considera corpos outros como pensantes e capazes de
produzirem conhecimento, saberes e movimentos epistêmicos outros. Atravessado
por essas discussões sobre ser ou não ser, corpo ou sujeito, Nolasco pontua:

Compete à crítica que opta pela opção descolonial exumar essas memórias
e histórias esquecidas e reinseri-las no debate contemporâneo, respeitando
seus lugares e corpos nos quais elas vivem, bem como também não querer
tirá-las de sua condição de exterioridade e querer analisá-las à luz da razão
universal (interioridade do pensamento ocidental). (NOLASCO, 2013, p.
117-118)
Com base nos estudos aqui arrolados acerca da memória subalterna e do
corpo epistêmico, entre outros conceitos descoloniais, queremos nos valer de um
conhecimento outro ligado a “[...] histórias locais e memórias locais subalternas que
caíram no esquecimento por conta ou de memórias estatais ou de memórias
itinerantes vindas dos grandes centros” (NOLASCO, 2013, p. 135). As memórias
subalternas trazem arquivadas em seus “corpos” lembranças, histórias e “marcas”
(DERRIDA) da diferença: estes carregam em seus próprios corpos memórias
detentoras de saberes. Dessa perspectiva, os corpos da diferença colonial vão
contra as memórias cristalizadas advindas dos centros hegemônicos que insistem
em anular corpos para o fortalecimento de um saber universal.

Dessa forma, fica em evidência o quanto a modernidade extinguiu as


memórias subalternas e cujos sujeitos continuam sendo ignorados em seus valores
culturais. Em contrapartida, a proposta crítica aqui encenada faz-se na contramão do
pensamento moderno, pois permite (re)ler “corpos” na sua importância cultural a
partir das sensibilidades biográficas trazidas pela memória desses sujeitos
subalternos e que se formulam distante da visão moderna.

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Por meio desses direcionamentos para pensarmos o corpo epistêmico


fronteiriço descolonial, compreende-se, assim, que “O corpo é lugar de arquivo e
memória” (BESSA-OLIVEIRA, 2018, p. 5). Lembramos aqui que as reflexões acerca
do conceito de arquivo serão tomadas de Mal de Arquivo (2001), de Jacques
Derrida.

Buscamos, assim, fundamentar a importância de se ler o corpo epistêmico


fronteiriço descolonial de Mato Grosso do Sul a partir dos postulados da Crítica
biográfica fronteiriça.

Corpo epistêmico de que lado/ficamos da/na fronteira

Apenas uma epistemologia outra, que aprendeu a escutar o


balbucio das memórias enterradas vivas e das histórias locais,
por se erigir também de uma zona de fronteira, pode abrir o
arquivo das memórias mal contadas pelo outro. Se as
memórias subalternas, por um lado, não sofrem da falta de
arquivo, sofrem, por outro, do mal de arquivo radical.
NOLASCO. Perto do coração selbaje da crítica fronteriza, p.
141-142.

O corpo epistêmico fronteiriço leva a cabo a ideia de experiência vivida pelos


sujeitos a partir do seu bios/lócus sendo o lugar de real situação a que seus corpos
são (ex)postos cotidianamente, neste caso o “corpo-fronteira”, poderíamos dizer
assim para o caso dos corpos-identidades de Mato Grosso do Sul, ocupam ambos
os lados dos discursos que separam e faz-se “[...] a esse entendimento do corpo
[epistêmico fronteiriço] como transeunte entre os lados opostos das fronteiras, mas
que se aproximam e que se tocam sempre” (BESSA-OLIVERIA, 2017, p. 43-86).
Nessa direção, o corpo epistêmico fronteiriço (diríamos indisciplinados) os
“diferentes” - esbarram nos projetos da modernidade, que tenta todo momento
demarcar os corpos que transitam na contramão do modelo e técnicas
historicamente tradicionais e disciplinares.

O corpo epistêmico aqui é visto como condição para pensar as práticas do


saberes sul-mato-grossenses, cuja leitura está embasada na teoria da Crítica
biográfica fronteiriça, que visa compreender a importância do corpo epistêmico na
produção dos saberes de Mato Grosso do Sul. Nessa direção, entende-se o corpo
epistêmico como um espaço/lugar cultural fronteiriço como repertório de saberes
que resulta em variáveis aspectos existenciais, sendo de dimensões culturais,
sociais, étnica, política e outros que podem somar-se em importâncias quando estes

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aprendem a escutar o balbucio dos corpos das diferenças. Poderemos, então,


perguntar: de que lado/ficamos na/da fronteira?

Mas, para tal pergunta, primeiro é importante o entendimento do corpo


epistêmico fronteiriço aqui proposto é preciso (re)visitar as práticas que discutem os
corpos a partir do seu lócus geoistórico – geo-espaço, histórico-tempo – o corpo
epistêmico nas suas variações se inscreve neste trabalho como condição necessária
para pensar as práticas epistêmicas sul-mato-grossenses. Por isso, nos valemos de
uma epistemologia outra que escute os lados da fronteira, para (re)verificar e
(re)significar corpos outros – diferente do corpo já (im)posto a nós, demarcado por
“[...] [histórias] mal contadas pelo outro” (NOLASCO, 2013 p. 141). Diante disso,
penso e sinto que o corpo epistêmico aqui em discurso não se divide entre razão e
emoção é um corpo que pode ao mesmo tempo ser/sentido/entendido como
produtor de conhecimento dentro de suas especificadas em ambos os lados da
fronteira.

Com base nessas reflexões e movimentações do corpo, os corpos aqui si-


movem-se (BESSA-OLIVEIRA, 2017) na/pela fronteira da diferença. Por isso
atentamo-nos, nesse segundo momento, a importância e a necessidade de pensar o
corpo epistêmico fronteiriço transitando nas práticas epistêmicas como produtores
de conhecimento em MS. Nessa condição/situação pensamos em corpos outros,
menos favorecidos e periféricos por excelência, que vivem às margens do poder
hegemônico condenados ao esquecimento e ao fracasso. Deste modo, entende-se
que são corpos que continuam sendo negados, e assim considerados pelos
discursos hegemônicos como corpos não produtores do saberes.

Em contrapartida essas questões dos corpos das diferenças se encaixam na


nossa ideia descolonial, que discute as práticas e o corpo epistêmico fronteiriço
desse prisma, que leva em conta o lócus geoistórico fronteiriço – lugar que emerge
as sensibilidades biográficas dos corpos/sujeitos e no qual, se circunscreve os
corpos neste trabalho, por uma fronteira sul. Por isso, tornam-se importantes nos
valermos de teorizações proposto pela crítica biográfica fronteiriça, que soma
reformulações outras para discutir esses corpos da exterioridade. Nessa visada
crítica a ideia é (re)significar os corpos assim como as práticas de produções do
saberes sul-mato-grossenses a partir do próprio biolócus, em que os sujeitos tomam
para si seus corpos como corpos/lugares produtores de conhecimento, e não corpos

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rechaçados como foram sempre pensados e tratados naquele suposto lugar


produtor do saber por esses corpos não fazerem parte de um padrão de corpo
estabelecido.

Por isso, o corpo epistêmico fronteiriço em questão, ilustrado conceitualmente


pela crítica biográfica fronteiriça e que vem sustentando nossas discussões acerca
desses corpos não reconhecidos, argumentamos pensar a partir do próprio lócus
como corpos/sujeitos que “si-movem-se” (BESSA-OLIVEIRA, 2017) através das
suas especificidades, ou seja, em corpos/lugares que queiram estar e “encenarem”
os seus discursos. Tomamos, por conseguinte, dessa condição dos corpos que se
insinuam nos corpos/lugares que hoje “[...] [devem] suscitar uma desobediência
política e epistêmica” (MIGNOLO, 2008) os corpos outros são embasados, para isso,
no que ainda diz Nolasco, a partir dessa desobediência:

A teimosia crítica do [corpo] fronterizo deve ser aquela de uma


desobediência epistêmica constante. Apenas uma epistemologia salbaje e
fronteriza tem o poder de rechaçar o discurso moderno colonial que
avançou e se perpetuou, por meio da academia sobretudo, nos lugares
subalternos, impondo, por conseguinte, sua lição castradora de Sistema
Colonial Moderno. (NOLASCO, 2013, p.13)
Ainda que o sistema tradicionalista moderno insista em manter os corpos
“obedientes” e silenciados nos seus espaços específicos, como forma de melhor
conduzi-los, a ideia daqueles é manter os corpos reconhecidos como disciplinados.
Assim ficamos entendidos que corpos “educados”, grosso modo, são corpos
imóveis, sem ação e emoção. Corpos que não movem, mas também não comovem
e muito menos si-movem-se (BESSA-OLIVEIRA, 2017), ao contrário do corpo
epistêmico fronteiriço aqui em reflexão: um corpo não disciplinar, (contra)modelo aos
corpos universalistas histórico-moderno que desde o início pensou os corpos
separados entre razão e emoção. E que ainda sim, os corpos das diferenças sofrem
os sintomas dessa se-pa-ra-ção, por isso, não compreendem que no movimentar
dos corpos pensamos e sentimos ao mesmo tempo, por isso sensibilizamos. Assim
Bessa-Oliveira o define:

E são espaços com essa natureza biográfica e geoistórica desconsideradas


por um sistema-mundo que se inscrevem, por conseguinte, sensações,
emoções e experimentos artísticos que os conceitos modernos já não
sustentariam um reconhecimento para além da ideia de corpos (se)parados.
(BESSA-OLIVEIRA, 2017, p. 4386)
Portanto, o corpo que trato neste trabalho não é o mesmo corpo, de razão e
emoção, se-pa-ra-dos, construído pelo pensamento moderno e não é também um

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corpo descartado sem reconhecimento. Pensar no corpo epistêmico fronteiriço por


uma leitura crítica biográfica fronteiriça é exatamente fazer valer uma epistemologia
outra para dar conta de re-formular esses corpos ainda dicotomizados pelo corpo
epistêmico hegemônico ainda (im)posto nós espaços dos saberes. E que,
insistentemente, são corpos diferentes que o pensamento moderno universaliza para
manutenção das suas produções dos saberes, tornando excludentes as práticas
daqueles que não passam pelo mesmo víeis de conhecimento. “[...] porque o
discurso colonial, moderno, não fez outra coisa se não povoar o mundo de
dicotomias” (NOLASCO, 2013, p. 87).

Por isso, a importância para construção de uma epistemologia fronteiriça que


discuti o conceito de corpo epistêmico é exatamente a de (re)discutir e (re)significar
esses corpos negados nas/pelas diferenças coloniais em seus próprios
corpos/lugares dos discursos dos saberes. Logo, o corpo epistêmico fronteiriço é um
corpo pensado fora (da exterioridade) dessa ótica histórico-colonial-moderna para
apreender que outros corpos precisam (re)existir ao/no seu lugar de fala para que
sejam vistos como o corpo negro, corpo indígena, corpo mulher, corpo gênero, o
corpo tatuado, corpo queer e corpos outros que simplesmente desaparecem e que
“[...] tornam-se os sujeitos internos a [eles mesmos] na experiência/vivência do dia a
dia interminável de lutas, perdas e ganhos (NOLASCO, 2013, p. 84).

Pensando nesses corpos outros, bem como as reflexões discutidas que


sustentam os corpos em evidência, como o corpo epistêmico fronteiriço, tomo-o
como (contra)modelo na intenção de (re)discutir os corpos da exterioridade como
forma de produção de conhecimentos no âmbito das tradições. (Re)discutir corpos
outros não é o mesmo que reformular coisas já (im)postas, mas trata-se de ex-por
coisas impostas ao longo de vários séculos na memória da história brasileira.

Deste modo, o corpo epistêmico fronteiriço discutido até aqui se movimenta


“entre” outros corpos/lugares, dando sentidos variáveis a lugares outros que a ele se
atribuem. Neste sentido, é importante o caminho trilhado por esses corpos. O corpo
condicionado dos saberes disciplinares moderno, por exemplo, traz em seu/sua
histórico/memória a rigidez das tradições que ainda são marcados, sincronizados e
sistematizados por uma estrutura homogeneizante. O corpo pensado por uma
epistemologia outra, como o corpo epistêmico fronteiriço, é um “lugar” de
possibilidades outras que sempre podem ser (re)inventadas, sempre aberto para

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novas descobertas e a serem descobertos. Não só as paridades biológicas o


definem, mas fundamentalmente, trazem significados outros que podem nos levar
para o entendimento desse corpo que si-move-se “entre” as diferenças e que
ilustram nossa ideia de corpo epistêmico fronteiriço.

Referências

BERTHERAT, Thérèse. O corpo tem suas razões: antiginástica e consciência de si.


Com colaboração de Carol Bernstein; tradução Estrela dos Santos Abreu. 21ª. Ed.
São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2010.

BESSA-OLIVEIRA, Marcos Antônio. “(Trans)bordar fronteiras: estética bugresca


para descolonizar corpos biogeográficos” . In: Memória Abrace XVI – Anais do
Congresso da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes
Cênicas. Anais... Uberlândia (MG) UFU, 2017. Disponível em
www.even3.com.br/anais/IXCongressoABRACE Acessado em: 29 de junho de 2018.
P. 4.493-4.518.

BESSA-OLIVEIRA, Marcos Antônio. “Corpos” da exterioridade nas artes visuais:


processos criativos barrados por/em fronteiras”. In: _____. Disciplina de Artes
Visuais – texto-tema das aulas de Artes Visuais do 1º ano da Graduação do Curso
de Artes Cênicas – UEMS – Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – UUCG
– Unidade Campo Grande. Campo Grande, MS, 2018, p.1- ∞. (Texto no Prelo)

BESSA-OLIVEIRA, Marcos Antônio. “O corpo que habito: esse não é o corpo da sala
de aula, dos museus, nem o corpo da academia!” In: Acervo do autor. Campo
Grande, MS, 2017, p. 1-15. (Texto no prelo).

GROSFOGUEL, Rámon. “Para descolonizar os estudos de economia política e os


estudos pós-coloniais: Transmodernidade, pensamento de fronteira e colonialidade
global”. Tradução de Inês Martins Ferreira. In: Revista Crítica de Ciências Sociais, 80
/ 2008, p. 41-91. Disponível em: https://journals.openedition.org/rccs/697 - Acesso
em: 18/02/2019.

MIGNOLO, Walter. “Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado


de identidade em política”. In: Cadernos de Letras da UFF. Dossiê Literatura, língua
e identidade, nº 34, p. 287-324, 2008. Disponível em:
WWW.uff.br/cadernosdeletrasuff/34/traducao.pdf. Acesso em: 29 de junho 2019.

MIGNOLO, Walter. Histórias locais/projetos globais: colonialidade, saberes


subalternos e pensamento liminar. Tradução: Solange Ribeiro de Oliveira. 1. ed.
Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003.

NOLASCO, Edgar César. Perto do coração selbaje da crítica fronteiriza. São Carlos.
SP: Pedro & João Editores, 2013. 170 p.

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NOLASCO, Edgar Cézar. Crítica biográfica fronteiriça (Brasil/Paraguai/Bolívia). In:


CADERNOS DE ESTUDOS CULTURAIS: Brasil/Paraguai/Bolívia. v. 7, n. 14. Campo
Grande: Editora UFMS, 2015, p. 47-63.

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DO CHURRASCO GRIEGO A LA ARGEN(CHI)NA: PRÁTICAS COTIDIANAS,


CARTOGRAFIAS TRANSFRONTEIRIÇAS
From Churrasco Griego to la Argen(chi)na: Daily Practices, Cross-Border
Cartographies
Del Churrasco Griego a la Argen(chi)na: Prácticas Cotidianas, Cartografías
Transfronterizas

Luiz Felipe Rodrigues


Dalila Tavares Garcia

Resumo: A partir de trabalho empírico nas cidades de Puerto Iguazú, Foz do Iguaçu
e Ciudad del Este, buscaremos discutir os trânsitos e contatos entre alteridades na
Tríplice Fronteira entre Argentina, Brasil e Paraguai, com o objetivo de constatar
processos cotidianos de transfronteirização que se expressam em diferentes objetos
e ações. A transfronteirização é aqui entendida enquanto um processo, dialógico e
conflitivo, que denota a presença das diferenças em permanente negociação,
interpretação e ressignificação mútuas que se revelam nas diversas interações que
envolvem linguagens, comidas, comércio, hábitos, entre outras práticas cotidianas
em que se constroem hibridismos. Nisso, temos que considerar o papel do atual
contexto da globalização que difunde uma multiplicidade de elementos e signos, e
de como estes se territorializam na dinâmica fronteiriça local, fazendo da reprodução
da fronteira um processo multiescalar.
Palavras-chave: Fronteira; Cultura; Cartografias; Transfronteirização; Identidade.

Abstract: In order to discuss the transits and contacts between alterities in the Triple
Border between Argentina, Brazil and Paraguay, we will build a reflection based in
empirical research in the cities of Puerto Iguazú, Foz do Iguaçu and Ciudad del Este,
with the objective of verifying daily processes of transfrontierization that express
themselves in different objects and actions. Transfrontierization is understood here
as a dialogic and conflictive process, which denotes the presence of differences in
permanent negotiation, interpretation and mutual resignification that are revealed in
the various interactions involving languages, food, commerce, habits, among other
daily practices in which hybridity is built. In this, we must consider the role of the
current context of globalization that diffuses a multiplicity of elements and signs, and
how they are territorialized in the local border dynamics, making the reproduction of
the border a multiscale process.
Key-words: Border; Culture; Cartographies; Cross-border; Identity.


Graduado em Geografia (Bacharelado) pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana
(UNILA), mestre em Geografia pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), e doutorando
em Geografia pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). E-mail:
luiz.felipe.r@outlook.com

Graduada em Geografia (Bacharelado) pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana
(UNILA) e mestranda em Geografia pela Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD). E-mail:
dalila.tavares@hotmail.com

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Resumen: A partir de trabajo empírico en las ciudades de Puerto Iguazú, Foz do


Iguaçu y Ciudad del Este, buscaremos discutir los tránsitos y contactos entre
alteridades en la Triple Frontera entre Argentina, Brasil y Paraguay, con el objetivo
de verificar procesos diarios de transfronterización que se expresan en diferentes
obyectos y acciones. La transfronterización es aquí entendida como un proceso,
dialógico y conflictivo, que denota la presencia de las diferencias en permanente
negociación, interpretación y resignificación mutuas que se revelan en las diversas
interacciones que envuelven lenguajes, comidas, comercio, hábitos, entre otras
prácticas cotidianas en que se construyen hibridismos. Así, tenemos que considerar
el papel del actual contexto de la globalización que difunde una multiplicidad de
elementos y signos, y de cómo estos se territorializan en la dinámica fronteriza local,
haciendo de la reproducción de la frontera un proceso multiescalar.
Palabras clave: Frontera; Cultura; Cartografías; Transfronterización; Identidad.

* Trabalho completo selecionado para publicação na Revista GeoPantanal, v. 14, n.


27, 2019.
https://periodicos.ufms.br/index.php/revgeo

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FRONTEIRA, MIGRAÇÃO E DIREITOS HUMANOS NA MÍDIA: UM ESTUDO


SOBRE A REPERCUSSÃO DA IMIGRAÇÃO VENEZUELANA PARA O BRASIL
Frontier, Migration and Human Rights in the Media: a Study on the Impact of
Venezuelan Immigration to Brazil
Fronteras, Migración y Directores Humanos en los Medios de Comunicación: un
Estudio sobre una Repercusión de la Inmigración Venezolana a Brasil

Vilmara Crystine Fonseca Gomes


Camila Maria Risso Sales

Resumo: Este trabalho busca compreender de que forma as matérias jornalísticas


que a mídia nacional e local tem produzido referente à temática dos migrantes
venezuelanos que vem para o Brasil tem repercutido na construção de imagens
estereotipantes a respeito dos migrantes. O estudo observacional mapeou 5 jornais
de diferentes abrangências e os analisou de acordo com guias para comunicadores
que orientam sobre matérias que envolvam a temática migrante. Os resultados
demonstram a necessidade de problematização da forma como os meios de
comunicação e, em especial a imprensa, informa sobre questões relativas à
migração e aos migrantes.
Palavras-chave: Venezuela, Brasil, Migração, Mídia, Direitos Humanos.

Abstract: This paper intends to understand how the journalistic articles that the
national and local media have produced regarding the issue of Venezuelan migrants
coming to Brazil have had repercussions on the construction of stereotypical images
about migrants. The observational study charted 5 journals of different sizes and
analyzed them according to guides for communicators who advise on issues
involving the migrant theme. The results demonstrate the need to discuss how the
media, and especially the press, report on migration and migrant issues.
Key words: Venezuela, Brazil, Migration, Media, Human Rights.

Resúmen: Este trabajo busca compreender de qué forma los artículos periodísticos
que los medios de comunicación nacional y local han producido referente a los
temas de los imigrantes Venezolanos que vienen para Brasil, há repercutido en la
construcción de imágenes esteriotipadas respecto de los imigrantes. El estudio de
observación mapeó 5 periódicos de diferentes alcances y los analisó de acuerdo con
guías para comunicadores que orientan sobre estúdios que envuelven temáticas de
imigrantes. Los resultados demuestran la necesidad de discutir cómo los medios de
comunicación, y especialmente la prensa, informan sobre la migración y los
problemas de los imigrantes.
Palabras clave: Venezuela, Brasil Migración, Medios, Derechos humanos.


Graduada em Direito pelo Centro de Ensino Superior do Amapá. Mestranda do Programa de Pòs-
Graduação em Estudos de Fronteira da Universidade Federal do Amapá. Email:
vilmaragomes.vg@gmail.com

Doutora em Ciência Política. Professora Adjunta da Universidade Federal do Amapá. Email:
camilarisso@yahoo.com.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-1054-9753

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Introdução
A proposta dessa pesquisa, ainda em fase inicial, é fazer uma análise sobre a
influência da cobertura midiática nacional e local sobre a construção da imagem do
migrante venezuelano no contexto brasileiro, em vista do recente crescimento na
migração destes para o Brasil.
A compreensão dos diferentes atores transformadores da realidade político
territorial dos países e suas regiões é de extrema relevância para o estudo das
relações internacionais que se estabelecem no campo da geopolítica, das
intervenções nacionais, conflitos, arranjos e decisões políticas. Entre estes atores
surge a mídia, em especial a imprensa escrita, nesse caso, com o importante papel
de influenciadora da opinião pública, capaz de trazer visibilidade aos diferentes
sujeitos do processo, contribuir para efetivação e garantia de políticas públicas e
reforço na construção de uma sociedade justa e que valorize os direitos humanos.
A mídia tem relevante papel na sociedade, e até hoje tornou-se capaz de não
apenas influenciar ideias, mas ser instrumento de participação no controle público do
Estado, e mesmo ser parte como autora do processo de desenvolvimento que o
Estado é responsável, pois traz a público conhecimentos necessários para que o
debate político e social no interior da sociedade funcione como veículo de controle
social.
Como objetivo geral desta pesquisa, buscaremos analisar a presença de
algumas construções de sentido referentes a migração de venezuelanos na região
de fronteira entre Venezuela e Roraima, propostas no jornalismo impresso brasileiro,
no ano de 2016.
A presente pesquisa se propõe a refletir sobre a seguinte problemática: como
se caracteriza as matérias jornalísticas que a mídia nacional tem produzido referente
a temática dos imigrantes venezuelanos que vem para o Brasil? Partimos do
pressuposto de que tais matérias refletem o contexto de violação de direitos
humanos que tais migrantes têm enfrentado em sua inserção na sociedade.

Este artigo está dividido em 3 partes além desta introdução e das


considerações finais. Na primeira parte discutiremos conceitos considerados
relevantes para a análise que pretendemos realizar, entre eles, cultura, globalização,
Estado-nação e pertencimento. A segunda parte versa sobre o papel da mídia na
construção de imagens e como isso é relevante do debate público acerca da

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questão migratória. Por fim, fazemos esclarecimentos sobre a metodologia


empregada e breve discussão dos resultados encontrados até aqui.

Cultura, globalização e as relações de pertencimento


Discutir cultura representa entrar no campo de engloba conceitos e debates
sobre identidade, modernidade, nação e relações de pertencimento. Entender
cultura suscita a exploração dos diferentes discussões e teorias e a busca da
compreensão da inserção do indivíduo no seu grupo. Além disso, as diferenças que
precisam ser compreendidas a partir das relações de pertencimento criadas.
Sobre o conceito de cultura:
[...] não vale a pena encarar a cultura como substância, é melhor encará-la
como uma dimensão dos fenómenos, uma dimensão que releva da
diferença situada e concretizada. Salientar este dimensionamento da cultura
em vez da sua substancialidade permite-nos pensar a cultura não tanto
como propriedade de indivíduos e grupos, mas como um instrumento
heurístico ao nosso alcance para falarmos de diferença. (Appadurai, p. 26,
1996)

Appadurai (1996) conclui que cultura como substantivo pode remeter a algo
físico, biologismos, e desta forma remeter a raça, mas o cultural apresentado como
adjetivo, transporta-nos para o reino das diferenças, contrastes e comparações. A
característica principal do termo cultura seria então o conceito de diferença, e este
termo tem como principal virtude, uma heurística útil “capaz de destacar pontos de
semelhança e contraste entre qualquer tipo de categorias: classes, gêneros, papéis,
grupos e nações” (p. 25-27).
A cultura “é uma dimensão penetrante do discurso humano que explora a
diferença para gerar diversas concepções da identidade de grupo”, uma definição
mais perto de etnia (ideia de identidade de grupo generalizada), e não simplesmente
a posse de atributos, mas a consciência deles e a sua naturalização como
essenciais a identidade de grupo. (Appadurai, 1996, p. 27)
As definições apresentadas por Appadurai e outros autores como Stuart Hall
nos mostram diferentes conceitos de cultura. Entre tantos conceitos, o que se
percebe é que há uma diferença significativa entre compreender cultura a partir de
um conjunto especifico de “características convergentes” de um grupo, ou analisá-la
sobre a ótica de um conjunto de diferenças e semelhanças que também podem
representar uma única cultura.

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Isto posto, acredita-se que é relevante analisar sob ótica das características
semelhantes que unem um grupo, pois nos aproximamos de uma política de
identidade construída e incentivada por instituições como o Estado, dentro de um
contexto político-econômico que busca a sua afirmação como nação.
Segundo Stuart Hall (2006) a lealdade e a identificação, que antes eram
dadas as tribos, religiões e regiões, hoje foram transferidas à cultura nacional. As
diferenças regionais e étnicas foram subordinadas às culturas nacionais, compostas
de símbolos e representações, tratando-se de um discurso que modifica tanto as
ações quanto a noção que temos de nós mesmos:
As culturas nacionais ao produzir sentidos sobre a “nação”, sentidos com os
quais podemos nos identificar, constroem identidades. Estes sentidos estão
contidos nas estórias que são contadas sobre a nação, memórias que
conectam seu presente com seu passado, e imagens que dela são
construídas. (Hall, 2006, p.51).
Ser cidadão de uma determinada nação é pertencer a uma cultura específica,
um idioma, uma fronteira geográfica, características que vão compor uma
enunciação em torno de um Estado, uma nação. O Estado-nação europeu, por
exemplo, é um produto cultural, sendo que a unificação em torno de um território,
regras, leis e acessos, costurados por uma única cultura constituem “a base do
sentimento de pertencimento a uma nação”, e as narrativas em torno do estado-
nação proporcionam e exacerbam o sentimento de superioridade e estigmatização
na forma do nacionalismo (Szanforlin, 2011, p.40).
Neste contexto, nasce o culturalismo como uma “política de identidade
mobilizada ao nível do Estado-nação”, usado para designar uma característica dos
movimentos que envolvem “identidades em construção consciente”. No período
moderno foi utilizado por Estados interessados em agrupar suas diversidades
étnicas em grupos fixos e fechados, muitas vezes mobilizados a força ou
conscientemente segundo critérios identitários (Appadurai, 1992, p. 29).
Este Estado se consagra pela capacidade de síntese, de aglutinar diferenças
entre a diversas comunidades encontradas e espalhadas por um território. Surge
então a ideia de nacionalismo como a radicalização desse sentimento de unidade e
que se propõe a fechar os olhos para as diferenças internas e se armar contra as
externas, contra a quebra da harmonia, que precisa sempre ser renovada
(Szanforlin, 2011).
O sentimento de pertencimento a uma nação é o combustível que alimenta o
nacionalismo. O Estado-nação se legitima como a expressão da cultura de um povo,

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e para que esta se torne convincente deve-se reunir e homogeneizar um discurso de


sustentação e harmonização das diferenças em torno de um ideal comum, de um
projeto de sociedade (Szanforlin, 2011).
A nação passar a existir não apenas como uma entidade política, mas “um
sistema de representação cultural”. As pessoas não são apenas cidadãos de uma
nação, mas fazem parte da “ideia” de nação como representação de uma cultura
nacional (Hall, 2006).
Para empreender esta construção de pertencimento em torno do Estado, visto
que todo agrupamento está sujeito as disparidades culturais, é necessário lançar-se
na materialização da comunidade, tendo como motor dessa ideia uma cultura
homogeneizada em torno de “semelhanças construídas e alinhadas pela criação
imaginária a um pertencimento conjunto”. Há um substancial fator imaginativo na
materialização do Estado-nação, e a cultura local é onde se conecta o simbólico e os
sentidos formados em textos e relatos. (Szanforlin, 2011).
A cultura realizaria esta interseção entre a política e a identidade, “construindo
pontes e borrando fronteiras” entre campos distintos e particulares. O Estado-nação
se fundamenta nesta modernidade como principal símbolo de uma unidade
conquistada, de um ideal homogêneo, de uma autoridade paternalista e defensora
de discursos sintetizados em torno de uma história comum. Entretanto, este mesmo
ideal de “nós”, tem sua vulnerabilidade exposta, a partir da ampliação e
complexificação das comunicações de massa e das migrações, e estes últimos
potencializados pelas mudanças proporcionadas pela globalização (Szanforlin,
2011).
A globalização mostra suas duas facetas, pois ao mesmo tempo que integra
mercados, ela representa uma ameaça aos conceitos políticos de Estado-nação,
pois ela quebra os ideais hegemônicos ao mesmo tempo que leva a criação de
novos, incentivando o imaginário na busca por “manter” a segurança perdida.
Partindo destas ideias, segundo Appadurai (2009, p.17) este é o ambiente
propício ao desenvolvimento de pensamentos regionalistas e fundamentalistas
culturais, “parte de um repertório emergente de esforços para produzir níveis antes
não exigidos de certeza sobre identidade social, valores, sobrevivência e dignidade”.
A esse sentido de compreensão da influência da globalização, somam-se
outros fatores capazes de influenciar as migrações, como a dinâmica social e
política de determinados Estados, associados a efetivação de direitos humanos:

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Nos Estados Unidos e nos mais ou menos dez países mais ricos do mundo,
globalização é decerto um jargão positivo para as elites corporativas e seus
aliados políticos. Para migrantes, pessoas de cor e outros marginais (o
chamado sul dentro do norte), porém, é uma fonte de preocupação quanto à
inclusão, empregos e marginalização mais profunda. [...]. Nos demais
países do mundo, os subdesenvolvidos e os verdadeiramente carentes,
existe uma dupla angústia: medo de inclusão, em termos draconianos, e
medo de exclusão, pois esta parece ser a exclusão da própria história.
(Appadurai, 1996, p. 35)
A globalização reconhecidamente tem seus paradoxos em relação aos seus
resultados na sociedade. Em relação à condição dos migrantes é notório que muitos
enfrentam grandes dificuldades em seu processo de saída de seu local de origem, e
inserção no país de destino, todas estas mobilidades de entrada e saída tem
influencias da globalização, tanto através do estímulo da integração global, quanto
na disseminação de informações estereotipantes e algumas vezes até equivocadas
em seus conceitos a respeito dos migrantes que se tornam internacionais.
Sayad afirma que a imigração condena a dupla contradição, trata-se um uma
condição provisória que se gosta de prolongar ou, um estado duradouro com um
intenso sentimento de provisoriedade. Ao mesmo tempo a uma dupla interpretação,
a forma quase definitiva com que se reveste, apenas levando em conta seu caráter
eminentemente provisório, de direito; insiste-se em desmentir o estado oficial do
imigrante como provisória, e este instala-se cada vez mais na sua condição de
imigrante, “tudo acontece como se a imigração precisasse para se perpetuar e
reproduzir, ignorar a si mesma e ser ignorada enquanto provisória, e ao mesmo
tempo, não se confessar enquanto transplante definitivo” (1998, p. 45-46).
São os próprios migrantes que tendo entrado em uma sociedade em que se
sentem hostilizados, precisam convencer a si mesmos que esta condição é
provisória, ela não poderia ser “aquela antinonímia insuportável”, uma situação
provisória, mas que se dá objetivamente de forma definitiva. A própria sociedade de
imigração que estipula um estatuto que o instala com provisório, nega-lhe a uma
presença reconhecida como permanente, ou seja, que exista de outra forma que não
na modalidade do provisório contínuo e de outra forma que não na modalidade de
uma presença apenas tolerada (Sayad, 1998).
Segundo Szanforlin (2011):
Podemos afirmar que, em sua generalidade, as tentativas de compreensão
dos motivos que caracterizam a migração se situam, sobretudo, no âmbito
econômico. Falta de trabalho, ou falta de perspectiva de trabalho e a busca
por aprimoramento das condições materiais, catástrofes naturais, guerras, e
sua conseqüente desestabilização do modo habitual de vida, mudanças
contextuais no modo de produção, como o início da urbanização e do

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crescimento das grandes cidades motivados pela gradual transição entre


economia rural para comercial e industrial, perseguições políticas,
religiosas, disputas por territórios, etc, podem ser apontados, ou
encontrados, em diversos textos que investigam o tema da migração. (p. 61)
Com estas recorrentes ondas de migração, surge a repercussão na mídia
jornalística relacionada a este fenômeno, a livre circulação de migrantes nas regiões
fronteiriças, a clandestinidade, ilegalidade, violências e outras temáticas.
Ocorre que a veiculação de informações através dos meios de comunicação,
no contexto do estudo do discurso, precisa considerar que a mensagem é uma
estrutura complexa de significados, e produzi-la não é uma atividade tão
transparente quanto parece, a recepção também não é tão aberta, e a cadeia de
comunicação não opera de forma unilinear. Os significados podem não ter uma
lógica para decifrá-los ou o próprio sentido ideológico uma grade (para filtrá-los),
mas a compreensão de que o sentido sempre possui várias camadas. (Hall, 2003)
O discurso apresentado pela mídia apresenta um papel relevante no sistema
social de dominação ética que é o racismo. Dependendo do discurso apresentado
este poderá se transformar tanto em uma prática racista discriminatória, quanto em
uma fonte primária e média para aquisição de preconceitos e ideologias racistas.
(Dijk, 2010)
A fala “adquire” então papel central na reprodução do racismo, devido seu
papel intermediário entre as práticas discriminatórias e a cognição social racista é
através da fala que os conteúdos dos modelos mentais preconceituosos podem ser
disseminados na sociedade e adquiridos por novos membros. Devido a esse papel
relevante, é necessário atenção as estruturas e estratégias discursivas que
contribuem para otimizar o processo de reprodução da comunicação (Dijk, 2010).
O imigrante surge neste contexto como uma minoria étnica tipicamente
representada no discurso minado em termos de diferenças, desvios e ameaça a
todas as esferas sociais, como abuso de drogas, crime, violência ou abuso de
assistência social. Tais representações são tratadas como temas centrais de
manchetes, ou em primeiro plano na capa de jornais, fotografias em grandes
estruturas e metáforas de colunas opinativas (Dijk, 2010).
Entre as estruturas semânticas presentes na mídia apresentadas por Van
Dijk, encontramos questões negativas sobre o “outro”, descrevendo-os como
violadores de “nossas” normas e valores, superestruturas com significados negativos
que colocam em posição primeira a irregularidade cometida, por exemplo, nas

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manchetes; estruturas visuais que enfatizam eventos negativos colocando-os em


posição de destaque na página ou no meio, em sua maioria como atores de ações
negativas. Estas são algumas maneiras pelas quais o discurso dominante racista
pode expressar.
Segundo Dijk (2010, p.84):
todas as práticas sociais são fundadas em representações sociais
compartilhadas e, portanto, a maneira como a maioria do grupo trata
membros de grupos minoritários na imigração, admissão, contratação,
demissão, habitação, acesso aos discursos público. as ideologias são
amplamente adquiridas e confirmadas no discurso.
A natureza discursiva da reprodução do racismo, e a fala apresentada como
um dos meios centrais de reprodução ideológica demonstram a importância na
construção semântica e estrutural de artigos e notícias a respeito da migração.
Portando, a construção midiática é especialmente responsável pelas reproduções
discursivas sobre a presença dos migrantes em território nacional.

A imprensa e a construção da imagem do migrante


A UNESCO (2006) afirma que mídia jornalística deve funcionar como
importante aliado no agendamento das questões junto à opinião pública; e um país
como o nosso em que muitas liberdades civis ainda não estão garantidas, a
imprensa pode avançar e influenciar no processo de discussão destes temas junto à
sociedade.
A mídia representa uma forma de poder e na sociedade de massa tem papéis
significativos: influenciar nas agendas públicas e governamentais; intermediar
relações sociais entre grupos distintos; influenciar a opinião de pessoas sobre temas
específicos; participar de contendas políticas em sentido lato (defesa ou veto de uma
causa por exemplo) e estrito (apoio a governos, partidos e candidatos); e atuar como
aparelhos ideológicos” capazes de organizar interesses (FONSECA, 2011).
Entre uma das funções imprescindíveis nas democracias encontra-se o papel
de informar sobre os acontecimentos levando as pessoas a uma gama de dados
que, sem esse serviço, não teriam condição de conhecer outras realidades que as
vivenciadas por pessoas próximas. Os órgãos da mídia fariam também o papel de
fiscalizadores do Estado, exercendo uma forma de “controle social” em relação ao
dinheiro, as ações públicas e outros (FONSECA, 2011).
Van Dijk (apud Cogo, 2011), oferece a compreensão sobre a presença das
migrações no campo midiático, cuja oferta se justifica pela própria intensificação,

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fragmentação e dispersão que assume no contexto da globalização, chama de


“condição natural da experiência humana”.
Cogo (2011) afirma que os transmigrantes repercutem diferentes identidades,
nacionais, raciais e éticas, resistências a situações econômicas e globais, bem como
se ajustam as condições de vida. Sendo assim, a diversidade cultural torna-se o
debate central, e demonstra a coexistência no mesmo espaço social e demográfico
de culturas diversas, resultando em uma complexidade cada vez maior da
multiculturalidade, nesse caso no ocidente.
Um dos exemplos trazidos pela autora diz respeito à perpetuação da
polarização criada no período da conquista e da colonização, e diz respeito à
reprodução da discriminação dos europeus em relação aos latino-americano, e a
relação inversa que tem os latino-americanos de admiração em relação aos
europeus.
Dentro do campo da midiatização das migrações, a partir de uma amostra de
mídias, são perceptíveis as configurações que espelham os fluxos ou as direções
que tomam os movimentos migratórios. Entre eles estão os fluxos migratórios do
Mercosul, reveladores de uma oscilação conjuntural de lógicas e representações de
crise e prosperidade entre as nações e culturas do bloco econômico; as migrações
para o nosso país sob a visão do Brasil como nação hospitaleira e destino
privilegiado de imigrantes no contexto da América do Sul; e também as migrações
de “nações menos desenvolvidas” orientadas aos países pertencentes a
Comunidade Econômica Europeia (COGO, 2011).
Com relação a migração de venezuelanos para o Brasil, acredita-se que a
maioria está motivada pela urgência de sobrevivência mediante a crise econômica e
político-institucional que solapa o país vizinho. Fatores como o desabastecimento de
alimentos, a inflação elevada que reduz o poder de compra do povo, o colapso dos
serviços públicos, contextualizam o recorde histórico de venezuelanos a cruzarem a
fronteira em busca de sobrevivência (AUGUSTO, ISIDORO, 2018).
Entre 2017 e 2018, segundo dados da Casa Civil do governo federal, 127.778
venezuelanos acessaram o país pelo estado de Roraima, e na atualidade esta
migração vem sendo chamada de “migração forçada”, justificada pela debilidade
social, econômica e de segurança que o país vem enfrentando (AUGUSTO,
ISIDORO, 2018).

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Atualmente os grandes meios de comunicação trouxeram notícias a respeito


da presença de venezuelanos no estado de Roraima, com grande concentração na
cidade de Pacaraima, que faz fronteira com a Venezuela. Devido a incidência de
uma crise econômica e política no país em torno do chefe de Estado Nicolás
Maduro, poder judiciário e poder legislativo, um grande contingente de cidadãos
venezuelanos tem migrado para o Brasil.
A abordagem da mídia tem se verificando em diferentes temáticas, desde a
policial, com a presença de venezuelanos em atividades ilícitas na região de
Pacaraima, quanto política, com a exposição constante nos jornais de repercussão
nacional a respeito do contexto político e econômico da Venezuela e suas relações
internacionais com os outros países diante da conjuntura.
As diferentes notícias veiculadas podem ser analisadas sob diferentes
aspectos, entretanto, nesta pesquisa focaremos em analisar as notícias veiculadas a
partir da frequência de determinados termos.

Metodologia, Resultados e discussões


A abordagem desta pesquisa parte da análise dos jornais publicados em
mídia impressa e digital. Serão analisados: em Roraima, a Folha de Boa Vista e o
Portal G1 daquele estado. Nacionalmente recorreremos à Folha de S. Paulo, O
Estado de S. Paulo e O Globo, uma vez que estes são os periódicos de maior
circulação. Cotejar os temas da fronteira e da migração internacional nesses jornais
nos dará a dimensão da relevância nacional da questão.
A fim de se estabelecer um recorte temporal e fatual buscaremos analisar a
cobertura desses órgãos de imprensa sobre os temas em questão no ano de 2016.
O recorte temporal estabelecido para a realização da pesquisa justifica-se em razão
de dar conta de momentos mais iniciais do agravamento da crise venezuelana e o
aumento do fluxo de entrada de cidadãos daquele país no Brasil, principalmente em
Roraima, que segundo dados do Comitê Nacional para refugiados saltou de 1.370
para 3.375 pedidos de refúgio.
Para cumprir os objetivos propostos, tanto os editoriais, colunas e artigos
quanto as reportagens especiais serão objetos de investigação. A metodologia a ser
utilizada é a análise de conteúdo quantitativa, neste primeiro momento. A partir de
uma primeira leitura são selecionados termos que funcionam como unidades de
análise.

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Os dados foram levantados através dos acervos presentes nos sites dos
respectivos jornais, a partir da pesquisa das palavras-chaves “Venezuela”,
“venezuelano” ou “venezuelana”, alterando de acordo com o jornal pesquisado. A
partir da palavra, a pesquisa era refinada pelo período janeiro a dezembro de 2016,
e apenas selecionadas aquelas que tinham as palavras-chaves em seus títulos.
A partir do Guia das Migrações Transnacionais e Diversidade Cultural para
Comunicadores – Migrantes no Brasil, desenvolvido por Denise Cogo e Maria Badet,
e também do Guia para Comunicadores, de autoria do Instituto Migrações e Direitos
Humanos, ACNUR, MIGRAMUNDO e FICAS, termos como migrante, imigrante,
migração ilegal, refugiados, crise migratória, crise de refugiados e estrangeiro foram
tabulados e analisados por meio da frequência absoluta, ou seja, existência/
inexistência.
De acordo com o levantamento realizado foram encontrados no Jornal “O
Estado de S. Paulo”, edição Brasil, acervo digital, no período de janeiro a dezembro
de 2016, 874 ocorrências com o termo “Venezuela”, nos quais 9 reportagens
abordaram a temática dos migrantes nas fronteiras. No acervo digital do jornal
“Folha de S. Paulo” foi operado o mesmo filtro de pesquisa aplicado anteriormente
com o resultado de 1.938 aparições. Dentre estes, 180 foram selecionados para
análise mais detalhada e 4 apresentaram a temática específica relativa à migração
na fronteira, justificado pelo fato das demais notícias, em sua maioria, abordarem a
conjuntura político e econômico da Venezuela.
O Jornal “O Globo”, em seu acervo digital, apresentou 1.053 páginas com o
termo “Venezuela” para o mesmo período, dos quais 4 foram separados para análise
por abordarem a temática de migrantes na fronteira. Os demais dados coletados em
sua maioria abordavam também assuntos mais genéricos sobre a condição político-
econômica daquele país, além de outras informações como esportivas e de
entretenimento.
No jornal “Folha de Boa Vista”, em sua edição “Folha Digital” foram filtrados
95 achados no período estipulado para a pesquisa em que constava o termo
“Venezuela”. De tais edições, haviam algumas repetições na mesma página, essas
descartadas, e das que foram encontradas 61 notícias foram efetivamente
analisadas.
A pesquisa realizada no portal “G1RORAIMA” foi feita através do site de
pesquisa www.google.com, pesquisa avançada, devido o próprio site não fornecer

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arquivos digitais de suas matérias e também ambiente qualificado para uma


pesquisa mais detalhada. Assim, o site do jornal foi inserido no Google e filtrado pelo
período de janeiro a dezembro de 2016 e segundo os termos “venezuela ou
venezuelanas ou venezuelanas”, do quais foram encontradas 31 notícias.
A análise dos dados foi fundamentada nos glossários apresentados no Guia
das Migrações Transnacionais e Diversidade Cultural para Comunicadores –
Migrantes no Brasil. Tais guias apresentam em seu conteúdo um referencial de
termos recomendados aos comunicadores com o objetivo de “contribuir com o
trabalho realizado” na “cobertura das migrações transnacionais no Brasil”, pois “os
meios de comunicação são espaços privilegiados de construção de visibilidade
pública do fenômeno das migrações”, “das demandas e lutas por cidadania e direitos
humanos desses migrantes”.
Entres os termos apresentados serão explorados aqueles que nos
interessam, quais são: migração e variantes como migrante, imigrante, emigrante;
estrangeiro; refugiado e fugitivo como antônimos; crise migratória e crise de
refugiados; imigrante ilegal; imigrante e refugiado como termos diferentes; novos
brasileiros; invasão; e migrantes e refugiados como termos diferentes em suas
interpretações.
Com base nestes termos, segue abaixo quadro em que foi mensurado a
presença relevante destes termos nos jornais que foram levantados. As
porcentagens foram calculadas sob a quantidade de notícias que trouxeram a
temática da migração de venezuelanos para Roraima/Brasil:

Tabela 1 – Total de notícias analisadas por jornal

Jornais Totais
G1 Roraima 31
O Globo 4
Folha de São Paulo 4
ESTADÃO 9
Folha de Boa Vista 61
Fonte: Gomes (2019).

Com base na tabela acima é possível avaliar que os termos mais presentes
nas notícias veiculadas a respeito dos migrantes venezuelanos são “crise”,

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“estrangeiro”, “fuga”, “refugiado”, “ilegal” e “imigrante”. Não obstante a amplitude dos


termos que os guias apresentam, estes termos correspondem aos que aparecem
com mais frequência nas notícias, tanto na descrição dos migrantes como imigrante,
refugiados e/ou estrangeiros, quando na qualificação da sua condição a partir do
termo “crise” que aparece em sua maioria relacionado ao seu contexto econômico.
Gráfico 1 – Taxa de presença de termos específicos nas notícias
90%
80%
70% G1 RORAIMA
60%
ESTADÃO
50%
40% FOLHA SP
30% OGLOBO
20% FOLHA BV
10%
0%
CRISE ESTRANGEIRO FUGA ILEGAL IMIGRANTE REFUGIADO

Fonte: Gomes (2019).

O termo “crise” é empregado nas notícias para descrever a condição que


move o migrante a deslocar-se da Venezuela para o Brasil, sempre motivado pela
“crise econômica” em seu país. O guia produzido pelo IMDH sugere que o termo
crise não seja associado ao migrante, para que este não visto como um problema, o
ideal é que ele seja evitado, pois não “se trata de crise migratória ou de refugiados,
mas, sim, de alguma crise política, econômica ou humanitária no país de origem,
que provoca um deslocamento migratório significativo dos nacionais daquele país”.
(IMDH, ACNUR;2019)
O uso do termo “estrangeiro” como mostrado no gráfico ainda é bem comum
e demonstra porcentagens elevadas entre todos os jornais, entretanto, deve ser
evitado e não mais empregado na descrição do outro, visto ter uma origem
discriminatória. Vale a pena frisar colocação de Cogo e Badet (2013)
Nesse sentido, tanto o substantivo como o adjetivo “estrangeiro” remetem à
construção da “alteridade”. [...] O uso do conceito está estreitamente
conectado com os modos de pertencimento aos quais se opõem a cidadania
e nacionalidade. Segundo o Dicionário de Relações Interculturais, na prática,
a categoria “estrangeiro” tende a ser englobante e sociologicamente
indiferenciada, sendo um princípio de discriminação social de alcance variável
cuja função é separar mais que unir. Ao diferenciar, tende a amalgamar
grupos heterogêneos, uma vez que o termo não considera o país de
nascimento, a trajetória pessoal e social, se migrante econômico ou exilado
político, refugiado ou simples turista. (p.44-45)

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A presença constante também do termo “fuga” que descreve a saída do


migrante de seu país de origem, pode remeter a derivados como fugitivos e outros.
Essa associação errônea em relação aos refugiados, segundo o Guia do IMDH, é
que por serem forçados a fugir de seu país devido ameaças a sua sobrevivência,
teriam cometido também algumas irregularidades e estariam em condição de
fugitivos, portanto, também este termo pode ser evitado, já que é compreensível que
os refugiados são pessoas que não tiveram outra opção e por motivos de
perseguições diversas e violações de direitos humanos tiveram de sair de seus
países. (IMDH, ACNUR;2019)
Ainda que não seja a intenção dos autores, o termo “ilegal” traz uma
conotação carregada de negatividade e depreciativa à notícia em si, bem como afeta
a situação do migrante, pois a palavra por si só dá a ideia de que migrar é uma
atividade ilícita, enquanto que, na verdade, trata-se de um direito de todos de
locomover-se para onde desejar.
O termo “imigrante” não é mais recomendado pelos dois Guias tomados como
base para este trabalho, neste caso, o termo migrante – “entendido como a pessoa
que se transfere se seu lugar habitual de residência para outro lugar, região ou país,
de modo permanente ou transitório” - é o mais aconselhado, pois traduz com
perfeição a dimensão do movimento e transito, temporalidade e motivações que
caracterizam a migração contemporânea (GOGO&BADET,2013, p.43).
É relevante também a compreensão na colocação no termo “refugiado”, pois
segundo Cogo e Badet é necessário que o termo seja explicado ao interlocutor da
mensagem, bem como haja cuidado na exposição destes com imagens, visto que
alguns encontram-se em situação de risco e perseguição. Nas notícias apresentadas
a percepção que se tinha era que todos eram refugiados, pois não havia distinção
entre este e o conceito de migrante, o que atinge a individualidade de cada grupo e
acaba por juntá-los em um só conceito sem considerar suas particularidades.
Por fim, temos que:
Refugiada é a pessoa que foi forçada a deixar seu país de origem e requer
“proteção internacional” devido a fundado temor de perseguição e risco de
violência caso volte para casa. Isso inclui pessoas que são forçadas a fugir
de territórios em guerra. O termo tem suas raízes em instrumentos legais
internacionais, notadamente a Convenção sobre o Estatuto dos Refugiados,
de 1951, o Protocolo de 1967 e a Convenção de 1969 da Organização da
Unidade Africana (OUA).
Os dados apresentados repercutem um contexto nacional, visto que o
discurso é reflexo de um contexto cultural que controla a reprodução e compreensão

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da fala, os termos empregados acima descrevem o imigrante em boa parte das


notícias como pertencente a um grupo separado e em condição desigual. Não
obstante, é razoável que um determinado discurso pode não ter o mesmo significado
segregador que em outro, mas a intencionalidade é passível de exclusão, visto que
em princípio a presença de um discurso segregador é sempre negado.
Cabe ainda salientar o estudo de Van Dijk (2010), sobre a presença sutil de
termos e estruturas que podem expressar ou indicar discursos racistas, sob o olhar
de quem recebe a mensagem e não da intencionalidade do transmissor da
mensagem. Assim, os títulos das notícias podem sugerir algumas novas
interpretações, e entre os títulos da amostra, os seguintes ganham destaque:
“Colapso venezuelano.” (O Estado de São Paulo, 30/10/2016, p. A24)

“Êxodo de venezuelanos já é tratado em Roraima como crise humanitária.”


(O Estado de São Paulo, 12/10/2016, p. A14)

“Invasão venezuelana gera caos em Roraima.” (Folha de S. Paulo,


20/11/2016, p. A15)

“Venezuelanos inundam cidade de Roraima.” (Folha de S. Paulo,


22/07/2016, p. A10)

“RR decreta emergência na Saúde por causa da imigração de


venezuelanos.” (G1Roraima, 07/12/2016)
As notícias acima mencionadas pertencem a jornais de abrangência nacional
e os termos “colapso”, “êxodo”, “invasão”, “inundam” e “emergência (..) por causa da
imigração de venezuelanos”, abordam a temática do migrante sob a perspectiva de
que estes representam um problema, ainda que não seja a intenção dos autores,
porém o uso destas expressões tem caráter racista, mesmo implícita, há muitas
formas indiretas e sutis subjacentes de representações racistas que influenciam na
construção da imagem do migrante pelos destinatários da mensagem.
Segundo Van Dijk (2010), há uma complexidade discursiva através da qual,
de inúmeras formas, o discurso racista pode se manifestar: o uso de estruturas
semânticas, ou seja, significados e referências nos textos, que aparecem sob a
forma de questões negativas; níveis de descrição, grau de completude; implicações
negativas; orçamentos; denominações (os termos analisados no gráfico); bem como
expressões e estruturas formais como a colocação da notícia através de uma
superestrutura que valoriza o aspecto negativo. Nesse sentido, imagens
depreciativas de destaque na página, estruturas sintáticas das sentenças que
através do uso da voz ativa enfatizam a agência negativa do migrante, o uso de

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movimentos retóricos, como hipérboles, repetições, enumerações, eufemismos que


tem significados negativos, entre outros.
Vejamos abaixo:
“Pacaraima sofre com apagões e assaltos feitos por venezuelanos”. (Folha
de Boa Vista, 10/05/2016, CAPA)

Pacaraima vira “favela venezuelana”. (Folha de Boa Vista, 08/09/2016, p.


06)

“Mais índios venezuelanos chegam para engrossar número de pedintes”.


(Folha de Boa Vista, 26/11/2016, p. 05)
As manchetes acima foram retiradas do noticiário veiculado pelo Jornal “Folha
de Boa Vista”, jornal local, de abrangência estadual. Em comparação com as
notícias veiculadas nacionalmente, este parece utilizar estruturas textuais que
salientam o caráter negativo do processo migratório, através do uso de termos que
enfatizam o migrante como violador de nossas normas e valores.
Van Dijk (2010) afirma que a análise do discurso do racismo não é
necessariamente intencional, pois não é uma categoria do ator, mas do observador
ou receptor. A análise perpassa pelo contexto, em que surgem as ideologias
subjacentes dos oradores, a situação institucional, a ação em que estão envolvidos
e outras propriedades que podem explicar neste estudo a diferença de colocações
entre os jornais nacionais e o jornal local. Este último utiliza termos segregadores
mais explícitos, e até ofensivos, o que reafirma o argumento de Van Dijk, de que “as
pessoas tendem a ter menos autocontrole entre outros membros de seus próprios
grupos”. (p.79, tradução nossa)
Assim, ainda analisando os títulos das notícias veiculadas, temos por último
as seguintes:
“Governo de RR inicia estudo sobre venezuelanos em cidade na fronteira.”
(G1Roraima, 30/08/2016)
“PF deporta 450 venezuelanos sem documentação legal em Roraima.”
(G1Roraima, 09/12/2016)
“Este ano, 388 venezuelanos já pediram refúgio para ficar no estado de
Roraima”. (Folha de Boa Vista, 23/06/2016, p. 12)
Verifica-se a presença de dados estatísticos para aferir a presença dos
migrantes, o que é comum na maioria das notícias analisadas. Ocorre que, o que
aparentemente é informativo, segundo Cogo (2001, p.21) contribui para “a
construção de um enquadramento objetivo e conclusivo da experiência imigratória
(..), para o predomínio de uma perspectiva econômica na compreensão do
fenômeno”.

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Assim, tendo em vista os dados apresentados, e partindo do entendimento


que a mídia tem grande influência na formação ideológica entende-se que há
necessidade de mudança nos conceitos empregados pelos comunicadores. Ainda
que incipiente, no ano de 2016 já havia um panorama da lógica empregada na
construção da imagem do migrante venezuelano que adentrava o país, portanto,
importante a continuação da pesquisa para compreender se estas tendências ainda
permanecem, mas também uma conscientização a respeito da relação da
comunicação e sua influência na repercussão da realidade do migrante.
Considerações finais
A partir do entendimento de que cultura abrange este dinamismo de interação
entre grupos, e que a própria globalização ao mesmo tempo que incentiva esta
interrelação também afasta, compreendemos que existe uma complexidade de
conceitos que não podem ser reduzidos para que haja entendimento dos aspectos
que envolvem cultura e identidade.
É neste contexto que surgem os migrantes como participantes do espaço
intercultural, capazes de mudá-lo, superando a ideia do igual, do correto e do
natural. Trata-se de um estímulo à ideia de igualdade, e do entendimento de que
todos tem direitos de permanência e residência, bem como direitos sociais, como
educação, saúde e trabalho.
As notícias veiculadas, entretanto, abordaram o migrante a partir de seu
contexto político e econômico, como fugitivo muitas vezes; as mulheres surgem nos
textos apenas na condição de “moças que por necessidade de comida prostituiam-
se”; termos como “pedintes”, “indigentes” surgem descrevendo imigrantes em
condições subumanos; em outros textos a migração aparece como “invasão”,
“avalanche”, “onda”, mais especificamente em um texto como “favela venezuelana”
para descrever a presença dos migrantes nas ruas das cidades fronteiriças.
Podemos dizer, assim, que permanece no jornalismo a difusão de imagens
estereotipadas e estereotipantes dos migrantes. O fenômeno aparece
frequentemente vinculado às noções de crise e ilegalidade e ainda, o termo
estrangeiro pode ser visto com frequência, mesmo que os manuais de boas práticas
do jornalismo aplicados à questão da imigração não recomendem o uso de
determinadas palavras e termos pelo menos não sem as devidas explicações e
contextualizações. A falta de detalhamento atinge principalmente os textos que

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relaciona os migrantes à condição de refugiados, é notável o uso desta terminologia


sem o que o contexto adequado seja também apresentado.
Nesse sentido, os resultados desta pesquisa, mesmo que inicial, indicam a
necessidade de problematização da forma como os meios de comunicação e, em
especial a imprensa, informa sobre questões relativas à migração e aos migrantes.

Referências

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peias, trad. Telma Costa com revisão científica de Conceição Moreira, Lisboa: Ed.
1996.

AUGUSTO, Isabel Regina; ISIDORO DE MORAIS, Vângela Maria. Brasil profundo: a


identidade nacional a partir da recepção midiática da interiorização dos imigrantes
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COGO, Denise. O Outro migrante: das estratégias de midiatização das migrações


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Pós-graduação em Cinema e Audiovisual, [S.l.], n. 10, jan. 2011. ISSN 1519-0617.

COGO, Denise. Mídia, imigração e interculturalidade: mapeando as estratégias de


midiatização dos processos migratórios e das falas imigrantes no contexto brasileiro.
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COGO, Denise; BADET, Maria. Guia das migrações transnacionais e diversidade


cultural para comunicadores–Migrantes no Brasil. Bellaterra: UAB/IHU, 2013.

FONSECA, Francisco. Mídia, poder e democracia: teoria e práxis dos meios de


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HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. TupyKurumin, 2006.

Mídia & Direitos Humanos. ANDI-SDH-UNESCO. Org: Vivarta, Veet; Canela,


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SAYAD, Abdelmalek. Imigração ou os Paradoxos da Alteridade, A. Edusp, 1998.

VAN DIJK, Teun. Análisis del discurso del racismo. Crítica y emancipación, v. 3, p.
65-94, 2010.

ZANFORLIN, Sofia. Etnicidade, migração e comunicação: etnopaisagens


transculturais. 2011. Tese de Doutorado. Tesis.

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FRONTEIRAS DO LOCAL: POR UMA LEITURA DE SI ME PERMITEN HABLAR


NA FRONTEIRA-SUL
Local Borders: by a Reading of Si me Permiten Hablar Southern Border
Fronteras Locales: por una Lectura de Si me Permiten Hablar en la Frontera Sur

Julia Evelyn Muniz Barreto Guzman

Resumo: Este trabalho tem como objetivo uma leitura da obra ‘Si me permiten
hablar...’ testimonio de Domitila, una mujer de las minas de Bolivia (1999) transcrito
e organizado pela brasileira Moema Viezzer a partir do conceito de fronteira. Para a
leitura, me utilizo de uma metodologia bibliográfica pautada na Crítica biográfica
fronteiriça, um estudo centrado nos Estudos Pós-coloniais e Crítico-biográficos.
Assim, a partir de minha condição de sujeito que escreve e vive na fronteira
proponho fazer uma leitura outra do testemunho de Domitila Chungara, que
contemple meu bios e lócus permitido por meio da Crítica biográfica fronteiriça.
Ademais, procuro estabelecer interrelações entre o meu bios e o de Domitila, desde
nossos discursos de sujeitos da exterioridade, além de pensar e escrever a partir de
loci subalternos eu na/da fronteira-sul do Brasil e Domitila Chungara de um
acampamento mineiro na Bolívia.
Palavras-Chave: Domitila Chungara, Si me permiten hablar, Fronteira,
Exterioridade.

Abstract: This paper aims at a reading of the work ‘Si me permiten hablar...’
testimonio de Domitila, una mujer de las minas de Bolivia (1999) transcribed and
organized by the Brazilian writter Moema Viezzer from the concept of border. For
reading, I use a bibliographic methodology based on Crítica Biográfica Fronteiriça, a
study centered on Postcolonial Studies and Critical-biographical Studies. Thus, from
my condition as a subject who writes and lives on the border, I propose to take
another reading of Domitila Chungara's testimony, which contemplates my bios and
locus allowed through the border biographical critique. In addition, I seek to establish
interrelationships between my bios and Domitila's, since our speeches on the
condition of subjects of exteriority besides thinking and writing from subaltern loci in/
of southern border of Brazil and Domitila Chungara from a camp miner in Bolivia.
Key Words: Domitila Chungara, Si me permiten hablar, Border, Exteriority.

Resúmen: El objetivo de este trabajo es una lectura de la obra ‘Si me permite


hablar...´ testimonio de Domitila, una mujer de Bolivia (1999) transcrita y organizada
por la brasileña Moema Viezzer desde el concepto de frontera. Para la lectura, utilizo
una metodología bibliográfica basada en la Crítica biográfica fronteiriça, un estudio
centrado en Estudios poscoloniales y Crítico-biográficos. Por lo tanto, desde mi
condición de sujeto que escribe y vive en la frontera, propongo una lectura otra del
testimonio de Domitila Chungara, que contempla mi bios y locus permitidos a través


Mestranda do Programa de Pós-graduação Mestrado em Estudos de Linguagens – UFMS – E-mail:
juhguzman@gmail.com

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de la crítica biográfica fronteriza. Además, busco establecer interrelaciones entre mi


bios y la de Domitila, a partir de nuestros discursos de la exterioridad, así como
pensar y escribir desde lugares subalternos en / desde la frontera Sur de Brasil y
Domitila Chungara desde un campamento minero en Bolivia.
Palabras clave: Domitila Chungara, Si me permiten hablar, Frontera, Exterioridad.

* Trabalho completo selecionado para publicação na Revista GeoPantanal, v. 14, n.


27, 2019.
https://periodicos.ufms.br/index.php/revgeo

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ÍNDIOS GUATÓ NA FRONTEIRA BRASIL / BOLÍVIA


Guató Indians on the Brazil / Bolivia Border
Indios Guató en la Frontera Brasil / Bolivia

Danielle Urt Mansur Bumlai1

Resumo: Este trabalho propõe expor a literatura existente sobre os Índios Guató que
vivem na região da fronteira do Brasil com a Bolívia, delineando um caminho desde
as primeiras descobertas retratadas por Hércules Florence, no século XIX; as
realizadas pelo etnólogo alemão Max Schimidt, no início do século XX; a história de
“extinção” e “redescoberta” do povo guató; seu modo de vida; a linguagem poética
de Manoel de Barros e a cinematográfica por Pizzini (2004) no filme “500 Almas”,
chegando às representações dos dias atuais, buscando trazer uma reflexão sobre a
literatura indígena, como forma de conhecimento, compreensão, valorização,
construção e fortalecimento da cultura e identidade do índio Guató.
Palavras-chave: Guató; Fronteira, Línguas Indígenas; Cultura; Literatura

Abstract: This paper proposes to expose the existing literature on the Guató Indians
living in the border region of Brazil with Bolivia, outlining a path from the first
discoveries portrayed by Hercules Florence in the 19th century; those made by the
German ethnologist Max Schimidt in the early twentieth century; the story of
“extinction” and “rediscovery” of the guató people; your way of life; the poetic
language of Manoel de Barros and the cinematic language by Pizzini (2004) in the
movie “500 Souls”, to the present day representations, seeking to bring a reflection
on indigenous literature, as a form of knowledge, understanding, appreciation,
construction and strengthening of the culture and identity of the Indian Guató.
Key-words: Guató; Border, Indigenous Languages; Culture; Literature

Resúmen: Este trabajo tiene como objetivo exponer la literatura existente sobre los
indios Guató que viven en la región fronteriza de Brasil con Bolivia, delineando un
camino desde los primeros descubrimientos retratados por Hércules Florencia en el
siglo XIX; los realizados por el etnólogo alemán Max Schimidt a principios del siglo
XX; la historia de "extinción" y "redescubrimiento" del pueblo guató; tu forma de vida;
el lenguaje poético y cinematográfico de Manoel de Barros de Pizzini (2004) en la
película "500 almas", hasta a las representaciones de hoy en día, buscando traer
una reflexión sobre la literatura indígena, como una forma de conocimiento,
comprensión, apreciación, construcción y fortalecimiento de la cultura e identidad del
indio Guató.
Palabras clave: Guató; Fronteras, lenguas indígenas; Cultura; Literatura

1
Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Linguística e Língua Portuguesa da Faculdade de
Ciências e Letras – Câmpus de Araraquara - Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita
Filho”/ UNESP. Bolsista CAPES. Graduada em Letras com habilitação em português/inglês pela
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul–Câmpus do Pantanal. Mestre em Estudos Fronteiriços
pelo Programa de Pós-Graduação de Estudos Fronteiriços da Universidade Federal de Mato Grosso
do Sul–Câmpus do Pantanal. Com experiência em Estudos Fronteiriços, ênfase na Educação
Intercultural e fatores culturais-Identitários, nas escolas de fronteira Brasil x Bolívia. Atua em
pesquisas sobre Revitalização Linguística, Documentação e Estudos do Léxico.

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Introdução
A população indígena brasileira de acordo com dados da Secretaria Especial
de Saúde Indígena (SESAI, 2019) é de 818 mil, sendo 732.262 indígenas
distribuídos em 5.614 aldeias, e 274 falantes de línguas diversas, distribuídos em
688 terras indígenas (60,4 % regularizadas), os quais ocupam 12,6% do território
brasileiro.
O estado de Mato Grosso do Sul possui a segunda maior população indígena
do país e crescimento de 42% em 10 anos, ficando apenas atrás do Amazonas, o
qual 183 mil são declaradas indígenas. Esses dados foram atualizados no ano de
2016 e são referentes ao censo demográfico de 2010, realizado pelo Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A Fundação Nacional do Índio (FUNAI)
reconhece que no estado do Mato Grosso do Sul encontram-se sete etnias: guarani,
terena, kadiwéu, guató, ofayé, kinikinawa e atikum.
Este trabalho propõe descrever a literatura existente sobre os índios Guató
que vivem na Aldeia Uberaba, localizada na região do alto pantanal na Ilha Ínsua, no
estado de Mato Grosso do Sul, fronteira do Brasil com a Bolívia e, delinear um
caminho desde as primeiras descobertas retratadas pelo pintor francês Hércules
Florence no século XIX; as realizadas pelo etnólogo alemão Max Schimidt, no início
do século XX; a história de “extinção” e “redescoberta” do povo guató; seu modo de
vida; a linguagem poética de Manoel de Barros e a cinematográfica por Pizzini
(2004) no filme “500 Almas”, chegando às representações dos dias atuais, buscando
trazer uma reflexão sobre a literatura indígena como forma de conhecimento,
compreensão, valorização, construção e fortalecimento da cultura e identidade do
índio Guató.
O povo Guató, em sua maioria, encontra-se no estado de Mato Grosso do Sul
na Terra Indígena Guató, e uma pequena parte em Mato Grosso, na Baía Guató,
terra declarada Indígena. Conforme dados da SIASI/SESAI (2014) os dois estados
possuem o número total de 419 índios. São conhecidos na literatura como índios
canoeiros do Pantanal, pois constroem suas canoas e saem para pescar e caçar,
possuindo tais habilidades desde crianças, tendo como cenário para sua
sobrevivência as águas do Pantanal. Se concentram entre as lagoas Uberaba e
Gaíva, no Pantanal sul-mato-grossense, podendo estar também na Bolívia e em
outras cidades da região. A Aldeia Uberaba, está situada na Ilha Ínsua, banhada

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pelas lagoas Uberaba, Gaíva (ou Gaíba) e Rio Paraguai. A Ilha é conhecida também
por Bela Vista do Norte e, está localizada a aproximadamente 350 km do município
de Corumbá-MS, na região de divisa entre os estados de Mato Grosso e Mato
Grosso do Sul, fronteira com a Bolívia.
No estado do Mato Grosso não existem falantes da língua. Os dois últimos
falantes da língua Guató se encontram na região do Pantanal: Eufrásia Ferreira e
Vicente Manoel. Eufrásia vive no município de Corumbá, em Mato Grosso do Sul, na
fronteira do Brasil com a Bolívia, e Vicente Manoel vive na região da Barra de São
Lourenço, parte baixa da planície pantaneira, aproximadamente 300 km da cidade
de Corumbá2.
As primeiras informações dos índios Guató na literatura foram feitas no século
XIX, por viajantes e cronistas. Foram contatados pela primeira vez por Martinez
Deirada, em 1543, no antigo Mato Grosso e entre Uberaba e Gaíva na cidade de
Corumbá. O primeiro encontro foi registrado por Álvar Nuñes Cabeza de Vaca em
1555, e Díaz Guzman (s/d) os localizou na Baía de Cáceres entre Puerto Suárez, na
Bolívia, e em Corumbá, no Brasil, também no século XVI.
De 1825 a 1829 aconteceu a Expedição Langsdorff, comandada pelo Cônsul
e Barão Russo Georg Heinrich Von Langsdorff, tendo o desenhista e pioneiro da
fotografia franco-brasileiro Hércules Florence como integrante da expedição, o qual
registrou belíssimos e memoráveis desenhos dos Guató no século XIX. A expedição
teve duas partes, na segunda parte, em 1826, passou além de outros lugares pela
cidade de Corumbá-MS e seguiram para Cuiabá-MT, localizando os Guató vivendo
às margens dos rios Paraguai e São Lourenço. Langsdorff registrou em seus diários
todos os acontecimentos ocorridos na expedição, e por anos esses escritos
estiveram desaparecidos, sendo no ano de 1930 encontrados na Rússia. Desse
modo, todos os conhecimentos sobre a Expedição Langsdorff tinham o diário de
Hercules Florence como única publicação.
Florence (1876), em suas anotações diárias, descreveu que havia
aproximadamente trezentos índios Guató na região do Alto Paraguai, porém, sem

2
Corumbá, é a terceira cidade mais populosa do estado de Mato Grosso do Sul, localiza-se na região
Centro-Oeste do Brasil, à margem direita do Rio Paraguai, no Pantanal Sul-Mato-Grossense, sendo a
última cidade brasileira da região, fazendo divisa com a Bolívia. É conhecida por Cidade Branca e
como Capital do Pantanal.

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acesso à lagoa Gaíva não tinha como calcular o número exato e acreditava que
poderiam existir aproximadamente dois mil índios. Descreveu o dia a dia dos Guató,
relatando a colheita de arroz selvagem, as famílias Guató em canoas navegando no
Pantanal, nos seus hábitos alimentares e diários como: caça, pesca, e agricultura
com plantações de milho e algumas raízes.
Castelnau, em 1845, refez os caminhos da Expedição de Langsdorff,
registrando as habilidades dos índios canoeiros e retratando-os em seus desenhos,
revelando suas peculiaridades como o casamento poligâmico entre os índios Guató
naquela época. Descreveu características físicas dos índios revelando que
possuíam aspecto caucasiano e traços exatos, perfeitos. Em 1851, escreveu o
vocabulário de variadas línguas indígenas, incluindo a língua Guató e, registrou
uma lista de 164 palavras.
Apesar, dos primeiros apontamentos da língua guató terem sido realizados
por Castelnau em 1851, foi o alemão e etnólogo Max Schmidt quem desenvolveu as
primeiras pesquisas sobre o povo e a língua guató, as quais tiveram publicações em
espanhol e alemão.
Max Schmidt, no século XIX, cumpriu a maior expedição etnográfica, com a
realização de estudos na região do Pantanal sobre o povo indígena Guató, sua
história, seus costumes e sua língua, em três expedições. A primeira foi em 1901, o
qual fez um mapeamento das famílias e apontou quarenta e seis índios Guató na
Ilha Ínsua. Elaborou um vocabulário da língua com 507 palavras monossilábicas, 39
frases relacionadas à fauna e flora, aos verbos, e outros elementos que faziam parte
da vida cotidiana dos índios Guató, além de apresentar uma descrição sobre
padrões silábicos, como explica Postigo (2004). Em 1910 realizou a segunda
expedição, e em 1928 sua terceira e última expedição, identificando famílias Guató
que moravam às margens do rio Paraguai, e registrando dados que resultaram em
mais uma lista de palavras e frases que se encontram em Schmidt (1942b). Os
registros feitos por Schmidt são considerados e estudados muito até os dias atuais,
a fazer referência à obra Estudos de Etnologia Brasileira, publicada em 1942.
A primeira tradução do livro de Schmidt (1905) foi realizada por Catharina
Baratz Cannabrava (Schmidt 1942a), e Balykova (2018) apresentou uma tradução
do capítulo 9 sobre a língua Guató, apontando a necessidade de uma nova
tradução, pois na tradução anterior de acordo com a autora, constam algumas
inconsistências relacionadas à tradução.

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Rondon (1938) descreveu o encontro com os índios Guató na década de


1930, revelando os acontecimentos no caminho entre Corumbá no Mato Grosso do
Sul e Cáceres no Mato Grosso, e contando com três informantes Guató, o qual
originou uma lista com 80 palavras e 15 frases em Guató.
Oliveira apresentou uma bibliografia comentada, com a coleta e a
sistematização de dados objetivando a construção de um acervo cultural referente
aos Guató. Em sua obra intitulada “Guató: Argonautas do Pantanal”, 1995, aborda a
cultura material, e o modo da organização social dos Guató, a citar outras obras de
Oliveira (1994, 1995, 1996a, 1996b, 1996c, 1997a, 1997b, 1997c).
Os estudos, de modo geral, centravam-se em aspectos históricos, de caráter
etnográfico, retratando a cultura e o modus vivendi do povo, havia pouca
preocupação com a língua, que aos poucos se perdia por influência de contato com
outras línguas, em sua maioria pelo português e pelo espanhol, devido a sua
localização fronteiriça.
Com relação às questões Linguísticas, a língua Guató foi estudada por
Palácio (1984), que divulgou suas pesquisas fazendo referência aos estudos de
Rodrigues (1966), defendeu a tese de doutorado “Guató, a língua dos índios
canoeiros do rio Paraguai”. Entre outros trabalhos da autora, vale destacar Aspects
of the morphology of Guató (1986), Guató: uma língua redescoberta (1987), Sistema
numeral em Guató (1996), Situação dos índios Guató em 1984 (1998) e Alguns
aspectos da língua Guató (2004).
Após os estudos de Palácio (1984), Postigo (2009) iniciou seus estudos sobre
a língua dos índios Guató, os quais foram discutidos em sua em sua dissertação de
mestrado, intitulada “Fonologia da língua guató”, e outras publicações: Os ditongos
em Guató: uma proposta de análise (2008); Aspectos linguísticos e históricos da
língua guató (2007); Padrão silábico e ressilabação em Guató (Macro-Jê) (2008);
Nasalidade e assimilação nasal em Guató (Macro-Jê) (2008); Alguns apontamentos
bibliográficos sobre a língua guató (Macro-Jê|) (2009); Estudos fonológicos da língua
guató (Macro-Jê) (2010); Apontamentos fonológicos sobre as listas de palavras
guató (Macro-Jê) (2011); Segmentos fonológicos e convenções ortográficas da
língua guató (Macro-Jê) (2017).
Destaca-se também o “Pequeno dicionário da língua Guató” que teve
iniciativa dos representantes do povo guató, foi resultado de pesquisa de oito anos
da própria comunidade guató no município de Corumbá/MS, e produzido pelo

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Governo do Estado de Mato Grosso do Sul. Trata-se de 170 entradas, entre


palavras e algumas frases, contêm uma Apresentação e um Breve Perfil dos Guató.
As entradas lexicais estão em ordem alfabética e em versão bilíngue: Guató-
Português e Português-Guató. Foram distribuídos 300 exemplares para a
comunidade guató na tentativa de preservar a cultura e sua língua, a saber, que sua
confecção não teve a participação de especialistas, linguistas ou antropólogos, mas
sim do próprio povo Guató.
Seguindo o panorama linguístico foi localizada a tese de doutorado “Dando a
palavra aos Guatós: alguns aspectos sóciolinguísticos”, de Lima (2002) e a
dissertação de mestrado “Língua, cultura e sociedade Guató: universo léxico-
semântico da fala indígena”, de Costa (2002). Os estudos mais recentes são: Um
relato etnográfico de uma experiência de revitalização e documentação do Guató,
nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, por Franchetto e Godoy (2017);
O sistema numeral da língua Guató, por Alves (2017); uma narrativa Guató descrita
por Eufrásia Ferreira, na língua Guató, por Balykova, Godoy e Ferreira (2018); O
Guató como língua tonal: uma análise acústica de pares opositivos por Silva (2018);
Guató: a língua por Max Schmidt e tradução de Balykova (2018); Expressão de
propriedades no Guató e no Wa'ikhana, Balykova(2019).

Expulsão e volta dos índios Guató para suas terras


Conforme Oliveira (1995), entre a década de 40 e 50, os índios Guató foram
obrigados a se retirar de suas terras, pois naquela época os fazendeiros do Pantanal
juntamente com os negociantes de peles de animais não os queriam por perto,
fazendo de tudo para que fossem expulsos de suas próprias terras. De acordo com
dados do Instituto Socioambiental (ISA), os Guató se sentiram perseguidos, e assim
deslocaram-se para outros lugares da região do Pantanal, como o município de
Corumbá, Ladário, Aquidauana, Poconé, Cáceres, Barão de Melgaço, podendo
terem ido para a Bolívia, país que faz fronteira com os estados de Mato Grosso e
Mato Grosso do Sul, permanecendo apenas algumas famílias na ilha Ínsua.
Martinelle (2012) aponta que com toda essa movimentação os Guató foram
tidos como extintos pelo Órgão Indigenista Oficial, perdendo todos os seus direitos,
deixando de “existir”. Contudo, em 1976, a irmã Ada Gambarotto, missionária da
Pastoral Indigenista, juntamente com o apoio de outros órgãos e apoiadores a incluir
a linguísta Adair Palácio, identificaram índios Guató vivendo nos arredores do

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município de Corumbá, iniciando-se dessa forma um processo de identificação,


reconhecimento e fortalecimento identitário, clamando pela ação da FUNAI para que
suas terras pudessem ser reconhecidas como Terras Indígenas Guató.
Dessa forma, o Instituto Socioambiental (ISA) aponta que foram realizadas
três Expedições da Equipe Indigenista de Corumbá, juntamente com a FUNAI a ilha
Ínsua, a primeira e a segunda aconteceram em 1977, com apenas alguns meses de
diferença, e a terceira em 1978, as quais permaneceram por dez dias com os Guató.
Em 1984, a FUNAI mapeou o município de Corumbá e toda região do
Pantanal e foram encontrados 382 Guató vivendo espalhados com suas famílias,
porém, somente depois de muitos acordos, dez anos depois, em 1994, a ilha Ínsua
foi reconhecida como Terra Indígena Guató, de acordo com Martinelli (2012).
Vinte quatro anos após o reconhecimento da Terra Indígena Guató, muitos
deles não voltaram e escolheram viver no município de Corumbá e seus arredores,
os que voltaram para a ilha Ínsua constituem-se em grupos familiares e autônomos,
e cada família desenvolve seu próprio cultivo, uma particularidade que os faz
diferentes da organização de outras Aldeias.
Schmidt (1942) relatou que as famílias viviam isoladas uma das outras e que
as tarefas eram divididas entre os homens, que confeccionavam os elementos,
realizavam a coleta, a caça e a pesca e a preparação de alimentos; e as mulheres
faziam as panelas e outros utensílios de barros, levavam as canoas nos rios e
teciam; as crianças, de acordo com o gênero, ficavam com o pai ou com a mãe.
Abordou sobre a poligamia, explicou o ritual de passagem para a vida adulta,
relatando que a cada onça que o Guató caçava dava direito a ter uma esposa,
quanto mais onças, mais esposas, era uma forma de mostrar quanto o Guató era
corajoso, e dessa forma, provava que podia prover a sobrevivência de sua família.
Os Guató têm a sua ocupação e mobilidade relacionada a três fatores
culturais, conforme explica Oliveira (1995): distribuem-se em famílias autônomas;
possuem grande mobilidade nas águas; e no período de cheia (dezembro à maio) as
famílias ficam em áreas protegidas de inundação, e no da seca (junho à novembro),
as famílias se estabelecem nas margens dos rios. Para se protegerem contra a ação
das águas do Pantanal plantam acuri, espécie de palmácia de grande valor para os
Guató.
De acordo com Martinelli (2012), cada pedaço de terra ocupado pertence a
uma família e é conhecido pelo nome de seu líder, como o exemplo do “Aterro João

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Quirino”, e como completa o autor, caso ocorra a morte do líder quem assume é seu
descendente. Essas habitações foram descritas pelos viajantes e cronistas como
lugares rústicos.
Como apresenta Martinelli (2012), a casa tradicional é feita de madeira
coberta com acuri e entrelaçadas com variados tipos de cipó, e as que serviam
como acolhimentos provisórios são construídos com madeira de menor qualidade, e
algumas casas de pau-a-pique, com madeiras na vertical fixadas ao solo, com
bambu amarrada com cipó e preenchida com barro.
O modo de sobrevivência Guató é a caça, que utiliza espingarda, e a pesca,
com arco e flecha; a coleta de arroz selvagem colhido no período de cheia do
Pantanal; a agricultura, principalmente o acuri que serve para a confecção de
utensílios, como fruto na alimentação e cobertura das casas; e o cultivo do milho,
mandioca, abóbora, banana, algodão, cana-de-açúcar, fumo, entre outros, como cita
Martinelli (2012). O ciclo da lua é estimado, e existem luas favoráveis para cada
afazer, sendo também verificada a ação do vento, essencialmente na época de
caça.
Oliveira (1995) evidencia que a cultura material está fundamentalmente ligada
a sobrevivência dos Guató, como a confecção de arco e flecha, zagaias, remos e
zingas (utilizada em lugares de pouca profundidade), porrete para pesca, objetos
confeccionados em madeira, cerâmica (principalmente panelas pequenas, pratos,
bilhas d’água), couro, trançados (atividade masculina, com palha da palmeira acuri)
e tecelagem. O autor relata que as festas são regadas de vinho de palmeira de
acuri, o qual é denominado chicha, e cururu como dança típica acompanhado de
viola de cocho e do caracaxá.
Conforme relata Oliveira (1995), os mortos eram enterrados em valas
estendidas sobre uma esteira, e o luto era limitado apenas às mulheres, que com a
morte do marido cortavam o cabelo bem curto, e a de um filho o corte era feito pela
metade.
A canoa é o principal meio de transporte dos índios Guató, sendo construída
com madeira apropriada, geralmente cambará, tendo a proa uma forma cônica e a
popa mais larga servindo de assento, sendo utilizados remos grandes com
aproximadamente dois metros e meio, como descrito por Schmidt (1942).

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No período da Piracema (novembro a março) é permitida somente a pesca de


subsistência, assim, como meio de sobrevivência cuidam das roças e realizam a
coleta de mel para a venda.
Nesse mundo revelado pela literatura, Manoel de Barros (1916-2014)
consolida a história dos Guató de forma poética e brilhante, conta que jogava bola
com os meninos Guató na sua infância em Corumbá, e segundo ele “... a língua dos
índios Guatós é murmura: é como se ao dentro de suas palavras corresse um rio
entre pedras...”. No longa metragem “500 Almas” de Joel Pizzini, Manoel de Barros
revela seu encantamento pelo tom da língua e o modo de viverem na beira dos rios,
nas águas do Pantanal e recita “O mundo não foi feito em alfabeto” o qual retrata o
universo como um todo, e fala do convívio com os Guató, no poema "Sombra-Boa"
de "O livro das ignorãças", 1994.
O mundo não foi feito em alfabeto.
Senão que primeiro em água e luz.
Depois árvore.
Depois lagartixas.
Apareceu um homem na beira do rio.
Apareceu uma ave na beira do rio.
Apareceu a concha.
E o mar estava na concha.
A pedra foi descoberta por um índio.
O índio fez fósforo da pedra e inventou o fogo pra gente fazer bóia.
Um menino escuta vão verme de uma planta, que era pardo.
Sonhava-se muito com pererecas e com mulheres.
As moscas davam flor em março.
Depois encontramos com a alma da chuva que vinha do lado da Bolívia – e
demos no pé. (Rogaciano era índio guató e me contou essa cosmologia.)

Sombra-Boa tem hora que entra em pura decomposição lírica: "Aromas de


tomilhos dementam cigarras.” Conversava em Guató, em Português, e em
Pássaro.”
Me disse em língua-pássaro: "Anhumas premunem mulheres grávidas, 3
dias antes do inturgescer".
Sombra-Boa ainda fala de suas descobertas: "Borboletas de franjas
amarelas são fascinadas por dejectos." Foi sempre um ente abençoado a
garças. Nascera engrandecido de nadezas.
Toda essa riqueza do universo Guató foi tema do longa-metragem “500
Almas”, de Joel Pizzini, o qual retrata o processo de reconstrução da memória e da

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identidade dos índios Guató. O documentário traz informações sobre o


(re)surgimento dos Guató, traçando uma linha desde o ínicio do seu descobrimento
por Cabeza de Vaca, no século XIV, como quando foram retratados pelo pintor
francês Hércules Florence, da expedição do embaixador russo, o barão de
Langsdorff, no século XIX, e como foram estudados pela primeira vez a fundo, pelo
etnólogo alemão Max Schimidt, no início do século XX, como apontado na literatura,
até o século XXI, período em que o filme foi produzido.
O documentário teve a participação dos índios Guató; da linguísta Adair
Palácio, que mostra um pouco do trabalho de elicitação de palavras, construindo
admiráveis representações sonoras que complementavam as cenas nas águas do
rio Paraguai; do historiador e arqueólogo Jorge Eremites de Oliveira que discorre
sobre terras, subsistência, cultura material; da irmã Ada Gambarotto, pessoa
importante no processo de etnogênese e luta pela posse da Ilha Ínsua, o que foi
alcançado na década de 1990.
As imagens mostram o relevo do Pantanal, as águas brilhantes e repletas de
vida, os sons que misturam murmúrios de vozes com os sons da natureza e dos
emitidos pelos índios, como o som da onça, sinalizando total interação com a
natureza e o modo de viver do povo Guató, índios pescando com arco e flecha,
rituais festas, construção de canoa, a manifestação cultural por meio da viola de
cocho, a água e sua ligação com a alma, revelando uma construção poética,
representada por símbolos, imagens, fenômenos acústicos.
Ao final do documentário é retratada uma conversa entre quatro falantes
Guató: Júlia, José, Veridiano e Vicente, a última família a usar a língua no seu dia a
dia, já bem idosos na época e hoje três deles já falecidos, restando somente o seu
Vicente, que vive até hoje nas águas do Pantanal, e é um dos últimos falantes da
língua Guató. Pizzini apresenta também as irmãs Josefina e Negrinha, que moravam
no município de Corumbá, hoje já falecidas.
Pizzini (2004) consegue transmitir a luta de um povo por meio do ecoar das
vozes, das pausas, dos silêncios da natureza, das histórias contadas, da vida que
habita nas águas, e revela através do cinema, toda vitalidade do universo Guató, em
um movimento de imagens surreais, onde captura a beleza recolhida entre as águas
do Pantanal.

Considerações finais

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Assim, esse “passeio” pela literatura Guató traz uma aproximação sobre os
modos de expressão indígena, como forma de conhecimento, compreensão e
valorização da cultura do outro, e contribui para criação de uma consciência com
mais e maior responsabilidade, transformando não apenas a si próprio, mas todo o
meio em que se vive. Valorizar uma cultura é preservar a língua e com ela toda
história de vida de um povo.

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MEMÓRIAS HOMO-BIOGRÁFICAS DA EXTERIORIDADE: SILVIANO SANTIAGO


E AS SUAS/NOSSAS MIL ROSAS ROUBADAS
Homo-biográficas Memories of Exteriority: Silviano Santiago and His/Our Mil Rosas
Roubadas
Memorias Homo-biograficas de la Exterioridad: Silviano Santiago y Sus/Nuestras Mil
Rosas Roubadas

Pedro Henrique Alves de Medeiros

Resumo: Este trabalho tem por objetivo (re)ler o romance Mil rosas roubadas (2014)
de Silviano Santiago a partir, essencialmente, do conceito de memória não enquanto
lembrança, mas como esquecimento. Para isso, me utilizo de uma metodologia
eminentemente bibliográfica assentada na Crítica biográfica fronteiriça que, em
linhas gerais, congrega tanto os Estudos Pós-coloniais quanto os Crítico-biográficos.
Proponho, nesse sentido, trabalhar as discussões memorialísticas com base não no
ato de lembrar, mas no de esquecer ao passo que me valho das minhas/nossas Mil
rosas roubadas para ilustrar as reflexões corroboradas. Ademais, procuro
estabelecer interrelações entre o meu bios e o de Silviano na medida em erigimos
nossos discursos atravessados por uma condição homo-biográfica da exterioridade
além de, sobretudo, pensarmos e escre(vi)vermos a partir de loci subalternos e
marginalizados: o Brasil, a fronteira-sul e as Minas Gerais
Palavras-chave: Silviano Santiago; Mil rosas roubadas; Crítica biográfica fronteiriça;
Memória; Exterioridade.

Abstract: This work aims to (re)read Silviano Santiago's novel Mil rosas roubadas
(2014) based, essentially, on the concept of memory not as a remind, but as
forgetfulness. For this, I use an eminently bibliographical methodology based on the
Frontier biographical critique, which, in general terms, brings together both
Postcolonial Studies and Critical-biographical. I propose, in this sense, to work on
memorialist discussions based not on the act of remembering, but on forgetting,
while I use my/our Mil rosas roubadas to illustrate the corroborated reflections.
Moreover, I try to establish interrelations between my bios and that of Silviano insofar
as we erect our discourses crossed by a homo-biográfica condition of the exteriority
beyond, above all, to think and to escre(vi)ver from subaltern and marginalized loci:
Brazil, the southern border and Minas Gerais.
Key-words: Silviano Santiago; Mil rosas roubadas; Frontier biographical critique;
Memory; Exteriority.

Resúmen: El objetivo de este trabajo es (re)leer la novela de Silviano Santiago Mil


rosas roubadas (2014), basada esencialmente en el concepto de la memoria no
como un recuerdo, sino como un olvido. Para ello, utilizo una metodología
eminentemente bibliográfica basada en la Critica biografica fronteriça, que, en
términos generales, reúne a ambos Estudios Postcoloniales y Crítica-biográfica. En
este sentido, propongo trabajar en discusiones conmemorativas basadas no en el


Mestrando em Estudos de Linguagens pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, UFMS,
pedro_alvesdemedeiros@hotmail.com.

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acto de recordar, sino en olvidar, mientras uso mis/ nuestras Mil rosas roubadas para
ilustrar las reflexiones corroboradas. Además, trato de establecer interrelaciones
entre mi bios y el de Silviano en la medida en que erigimos nuestros discursos
atravesados por una condición homo-biográfica de la exterioridad más allá, sobre
todo, de pensar y de escre(vi)ver desde loci subalternos y marginados: Brasil, la
frontera sur y Minas Gerais.
Palabras clave: Silviano Santiago; Mil rosas roubadas; Critica biografica fronteriça.
Memoria; Exterioridad.

* Trabalho completo selecionado para publicação na Revista GeoPantanal, v. 14, n.


27, 2019.
https://periodicos.ufms.br/index.php/revgeo

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O ENTRE-LUGAR COMO ESPAÇO DAS LÍNGUAS FRONTEIRIÇAS


The Between-Place as a space of Border Languages
El Entre-Lugar como Espacio de las Lenguas Fronterizas

Mariana Vaca Conde1


Lucilene Machado Garcia Arf 2

Resumo: Este artigo tem por objetivo propor um estudo sobre as línguas presentes
na região fronteiriça compreendida entre Corumbá - Brasil e Puerto Quijarro -
Bolívia. Tem como ponto de partida o estudo das línguas presentes na região e
como cenário a fronteira, território este que recebe um fluxo intenso de migrações.
Esses movimentos humanos permitem que as línguas que não são originárias do
lugar se instalem no espaço fronteiriço com seus componentes culturais e sociais,
propiciando a interação e encontro de diversas tradições e construção de novas
identidades no entre-lugar, o que permite refletir conceitos, competências, e explicar
o lugar geograficamente fronteiriço com todas suas singularidades. Para a
construção deste estudo investigativo utilizou-se a metodologia de pesquisa
documental de campo e entrevistas a colaboradores locais.
Palavras-chave: fronteira Brasil-Bolívia; entre-lugar; línguas na fronteira; identidade;
imbricamento cultural.

Abstract: This article aims to propose a study on the languages present in the
border region between Corumbá - Brazil and Puerto Quijarro - Bolivia. Have as a
starting point the study of the languages present in the region, and as backdrop the
border as a territory that receives an intense flow of migrations. These human
movements allow the languages that are not Originating from the place to settle in
the border space In the border space with its cultural and social components,
enabling the interaction and encounter of different Traditions and the construction of
new identities in the between-place, that allow to reflect concepts, competences, and
to explain the geographically border place with all its singularities. For the
construction of this investigative study we used the methodology of documentary field
research and interviews with local collaborators.
Key words: Brazil-Bolivia border; between-place; languages at the border; identity;
cultural imbrication.

Resumen: Este artículo tiene como objetivo proponer un estudio sobre las lenguas
presentes en la región fronteriza entre Corumbá - Brasil y Puerto Quijarro - Bolivia.
Tiene como punto de partida el estudio de las lenguas presentes en la región y como

1
Graduada em Letras. Mestranda do programa de Mestrado em Estudos Fronteiriços- CPAN/UFMS.
E-mail: mariana.conde.777@hotmail.com
2
Graduada em Letras. Mestra em Estudos literários - Universidade Federal de Mato Grosso do Sul –
UFMS. Doutora em Teoria Literária pela UNESP/São José do Rio Preto. Professora Adjunta da
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, atuando no Programa de Pós-Graduação Mestrado em
Estudos Fronteiriços - MEF. E-mail: lucilenemachado@terra.com.br

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escenario la frontera, territorio que recibe un intenso flujo de migraciones. Estos


movimientos humanos permiten que las lenguas que no son originarias del lugar se
instalen en el espacio fronterizo con sus componentes culturales y sociales,
permitiendo la interacción y el encuentro de diferentes tradiciones y la construcción
de nuevas identidades en el lugar intermedio, lo que permite reflejar conceptos,
competencias y explicar el lugar geográficamente fronterizo con todas sus
singularidades. Para la construcción de este estudio de investigación, utilizamos la
metodología de investigación documental de campo y entrevistas con colaboradores
locales.
Palabras clave: frontera Brasil-Bolivia; entre-lugar; lenguas en la frontera; identidad,
imbricación cultural.

Introdução
Quando se fala de espaço fronteiriço, deve-se considerar sob que significado
se usa o seu conceito. Por um lado, existe a perspectiva da fronteira como uma
delimitação jurídico-política, que se refere à mesma como um marco territorial
limitado ao Estado-nação. Por outro, pode-se ver o espaço fronteiriço como uma
dimensão cultural que é construída socialmente. Estudar esta zona incute
compreensões diversas, pois, está associada à noção de limite, barreira ou marcos
de divisão, impossibilitando a compreensão de sua abrangência, dinâmica,
significados, porosidade e, ao mesmo tempo, complexidade.
O imbricamento cultural é construído dia a dia nesta fronteira Brasil-Bolívia.
No lado brasileiro estão localizadas as cidades de Corumbá e Ladário, situadas ao
extremo oeste do estado de Mato Grosso do Sul, distanciando-se da capital do
estado pouco mais de quatrocentos quilômetros. No lado boliviano, pouco mais de
cinco quilômetros das cidades brasileiras, estão as cidades de Puerto Quijarro e
Puerto Suárez, situadas na província Germán Busch, no extremo oriente do
Departamento3 de Santa Cruz de la Sierra.
Este contexto sociocultural propicia a interação e encontro de diversas
culturas, bem como a construção de novas identidades nesse entre-lugar, já que se
diferencia do restante do estado e implementa uma fronteira imaginária, também
com o território regional onde Corumbá está inserida. Em se tratando de linguagem,
essa faixa territorial proporciona uma efervescência de trocas que incluem
português, espanhol, línguas indígenas e línguas faladas por imigrantes que

Neste estudo consideramos que o Departamento equivale a estado, embora tenha suas
3

singularidades.

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encontram neste espaço geográfico as condições favoráveis para se fixarem e


usufruírem de suas culturas, sobretudo a linguística.
Este artigo versa investigar as línguas que circulam na fronteira como um
entre-lugar linguístico-cultural em que vive o habitante da fronteira, considerando o
grande fluxo de pessoas que trafegam entre os países diariamente, seja a trabalho,
relações comerciais, estudo, turismo, lazer, entre outros, como afirma Sturza (2006)
“as fronteiras geográficas são preenchidas de conteúdo social”. Para a elaboração
deste estudo foi desenvolvida uma ampla pesquisa bibliográfica e documental
acerca do tema, pesquisa de campo e entrevistas a colaboradores locais.

Fronteira e identidades: a questão do entre-lugar


A fronteira vai além de demarcações territoriais entre países, ao mesmo
tempo em que separa, une pessoas e culturas distintas. Possui vários contrastes,
pois, nela as pessoas se movimentam diariamente, interagindo em torno da
economia, da política, da gastronomia, da religião, da língua, enfim, da cultura.
Albuquerque (2006, p.5) salienta que as fronteiras são fluxos, misturas e
separações, integrações, obstáculos e tumultos, domínios e subordinações porque
“representam espaços de poder, de conflitos variados e de distintas formas de
integração cultural.” Para Ernesto Guhl (1991), a fronteira adquire diferentes olhares,
formas e maneiras, conforme a atitude e instância em que se lança o olhar e por
quem é lançado. Ela é vivenciada e percebida de forma diferente por cada sujeito, a
depender de suas experiências, sempre inigualáveis. O que se supõe que, para
entender uma fronteira é necessário entendê-la não só como um lugar, mas como
um espaço de vivência.
Segundo Pesavento (2001), a fronteira é caracterizada por um “ir-e-vir” que
por meio da interação social possibilita o advento de algo diferente e novo, cheio de
possíveis interpretações e diversos significados, chamado de entre-lugar. A
expressão entre-lugar é um termo formulado por Homi Bhabha que analisa diversos
fatores históricos e referências feitas aos contatos interculturais pós-coloniais e
configura um elemento intersticial onde as diferenças se movimentam, significantes
e significados se encontram, concebendo novos sentidos. Pode ser compreendido
como um pensamento liminar construído nas fronteiras, lugar onde as identidades,

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conhecimentos, práticas e modos de vida se encontram em debate, ou seja, em


construção.
Para Hanciau (2005, p.1), o conceito de entre-lugar possui multiplicidade de
vertentes culturais que circulam na contemporaneidade e ultrapassam fronteiras,
fazendo do mundo uma formação de entre-lugares, surgindo assim, novas práticas
linguísticas, novos discursos, sujeitos diferentes, bem como, novas identidades
formadas por processos culturais que são gerados a partir da interação entre dois
povos. Esse encontro com o “novo” possibilita ao sujeito assumir uma relação de
alteridade, ou seja, a ideia de diferença entre o “eu” e o “outro” no lado oposto à
linha limite, tendo papel primordial em relação à configuração das relações sociais
que ocorrem na fronteira. Um espaço, como aponta Bhabha (1998, p. 264) que se
abre “continuamente e contingentemente”, zona de contato em que se negociam e
se reconfiguram de forma conflituosa as identidades da diferença cultural, as
fronteiras. Como observa Ferraz:

O entre-lugar, (...), é um conceito que aponta para um determinado arranjo


espacial que se caracteriza por ser fronteira, ou seja, ao mesmo tempo em
que separa e limita, permite o contato e aproxima. É local daqueles que
estão de passagem e em movimento buscando os afetos e as razões para
se enraizar e permanecer. É lugar de estranhamento e ao mesmo tempo
potencializador de identidades. É onde se manifesta de forma mais
dinâmica a diversidade de ideias e valores, por isso é propulsor de unidades
de posturas. É o lugar cujo horizonte sempre está mais além e aquém, mas
é também onde o vazio de significados cobra o estabelecimento de sentidos
possíveis. É sombra e luz e algo mais. (FERRAZ, 2010, p.30)
Esse arranjo pode ser presenciado em Corumbá e Puerto Quijarro, visto que
é um lugar de passagem, é grande a quantidade de núcleos itinerantes que habitam
temporariamente as cidades. Por estarem na fronteira, há uma mobilização de
integrantes do exército, marinha e aeronáutica que exercem o papel fiscalizador de
estado, além de outros órgãos da federação como polícia e mesmo os órgãos
judiciais que estão sempre em movimento nessa área. Afora isso, há as imigrações
que fazem desse contexto o início de uma nova possibilidade de vida fixando-se por
tempo indeterminado ou até que conheçam melhor o país e possam fazer uma
escolha mais acertada. Alguns fincam suas raízes e passam contribuir para a
transculturação e miscigenação do lugar, que tem na língua um dos fenômenos mais
visíveis de congregação cultural, já que atribui valor central às propriedades formais
das relações. Ou seja, toda relação está permeada pela língua que circunda a
inesgotável riqueza de múltiplos valores.

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As línguas no entre-lugar
A linguagem é inseparável do homem e o segue em todos os seus atos, por
meio dela, os sujeitos se identificam com seus semelhantes, constroem suas
culturas, tornando-se um refúgio do próprio pensamento. A língua deixa de ser
somente um meio de comunicação e passa a ser um instrumento de construção
cultural e identificação, que engloba princípios, valores, normas, saberes e
conhecimento, sistemas de comunicação, entre outros âmbitos da vida social. o
instrumento pelo qual o homem modela o seu pensamento, seus sentimentos, suas
emoções, seus esforços, além de sua vontade e ações. Pela linguagem, ele
influencia e é influenciado, é marca de sua personalidade, da nação e do lugar onde
reside.
A coexistência de línguas em um mesmo território é uma realidade que faz
parte da maioria das comunidades do mundo. Cada vez mais tem-se estudos
dedicados ao contato entre elas, devido em parte ao aumento das comunicações
entre as pessoas, o que facilita a coexistência de culturas, raças e línguas de
origens diferentes. Tal fato oferece complexas e diversas situações de contato de
uso de uma, duas ou mais línguas, destacando-se mais nas regiões de fronteira.
Para García Marcos (1999) o contato entre línguas não é um fenômeno individual,
senão social, tornando-se um lugar propício para observar as relações entre língua e
sociedade, principalmente quando se trata de grupos étnicos ou sociais que dividem
o mesmo espaço geográfico e político, inter-relacionando-se e, tendo na língua sua
identidade.
A convivência de sociedades e de línguas dão lugar a fenômenos que afetam
a todos os níveis linguísticos, desde os mais superficiais aos mais complexos,
podendo ocorrer o contato linguístico entre línguas de prestígio semelhante, línguas
nativas ou como resultado da migração. Sturza (2016) diz que por meio do contato
das línguas, os sujeitos que habitam as fronteiras se significam na e pela língua,
seja esta diferente ou semelhante. Louis Hjelmslev em Prolegômenos de uma teoria
da linguagem assegura que:
O linguista deve se interessar tanto pelas semelhanças como pelas
diferenças das línguas; esses são dois aspectos complementares do
mesmo fenômeno. A semelhança entre as línguas reside no próprio

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princípio de suas estruturas; a diferença entre elas provém da execução in


concreto desse princípio. (HJELMSLEV, 2006, p. 79)
De acordo com o artigo 13 da Constituição Federal Brasileira (BRASIL, 1988),
no capítulo sobre a nacionalidade, lê-se: "A língua portuguesa é o idioma oficial da
República Federativa do Brasil". Há também a Língua Brasileira de Sinais (Libras)
que é reconhecida como meio legal de comunicação e expressão entre as
comunidades de pessoas surdas. Além do Brasil ter duas línguas oficiais, existem as
línguas minoritárias que são faladas em todo o país. Conforme levantamento do
Censo Demográfico (IBGE, 20104), 274 línguas são faladas por indígenas de 305
etnias diferentes. Pesquisas mostram que há 56 línguas faladas por descendentes
de imigrantes que vivem no Brasil há pelo menos três gerações.
Nesse espaço, sobressaem o português e espanhol a priori como línguas de
contato. No caso do Brasil com a Bolívia, há uma inversão do que seria a língua de
maior prestígio em nível internacional. O espanhol como idioma mundial é uma
língua com muito mais poder e mais bem-conceituada no ranking das mais faladas.
Porém, a política da língua está atrelada à política econômica, o que confere ao
idioma português um melhor lugar na hierarquização da língua, isso é, processos
ideológicos que contribuem para a manutenção desse status quo.
Com um olhar mais atento, observa-se que há uma pluralidade de línguas,
resultado da presença de povos nativos, migrantes e imigrantes que constituem este
espaço sociolinguísticamente complexo e peculiar. No lado brasileiro, a cidade de
Corumbá possui diversas peculiaridades, sendo algumas específicas das regiões de
fronteira, tornando-se um local privilegiado. Após a guerra do Paraguai, tornou-se
importante centro atrativo de estrangeiros que se radicaram no local e contribuíram
para a construção da cidade, cada qual com sua importância cultural,
socioeconômica e política.
De acordo com Costa (2015) esta era (e ainda é) uma região ocupada por
etnias indígenas inseridas no que hoje são territórios do Brasil e da Bolívia e que já
transitavam, há muito tempo, por esta região fronteiriça. Além das duas línguas
nacionais e os idiomas indígenas, estão presentes as línguas dos imigrantes sendo
considerada abundante a mescla linguística, o que resulta do cenário socio-histórico
de formação desta localidade, fruto da migração de distintos povos.

4
Dados retirados do site: https://indigenas.ibge.gov.br/estudos-especiais-3/o-brasil-indigena/lingua-
falada. Acesso em: 12 de jul. de 2019.

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Sendo parte da Bacia Platina, após a Guerra do Paraguai (1864-1870),


Corumbá tornou-se importante centro atrativo de estrangeiros. Para ali se
deslocaram imigrantes de diversas nacionalidades, como: italianos,
portugueses, espanhóis, franceses, sírios, libaneses entre outras.
(OLIVEIRA, 2014, p.96)

Esses imigrantes trouxeram consigo suas próprias culturas, religiões e


línguas, tornando grande a mescla linguística, fruto da migração de povos diversos.
Conforme Censo (IBGE, 2010 5 ), verifica-se a marcante presença de diversas
nacionalidades na cidade de Corumbá. Os dados registrados informam que corumbá
é a terceira cidade do estado com mais estrangeiros, representando 0,70 % da
população da cidade.
Por outro lado, tem-se do lado da Bolívia grande riqueza linguística, um país
multilíngue e multicultural, sua população é composta por povos mestiços, indígenas
e afro-bolivianos que, de acordo com a zona geográfica, deixam transparecer
através das roupas, costumes, tradições, mitos, danças, ritmos, línguas, a cultura
viva do seu povo. No país existem 36 diferentes nações ou povos indígenas
originários e campesinos, reconhecidos pela Constituição Política do Estado
Plurinacional que reconhece o espanhol e os idiomas dos povos indígenas como
oficial, como lê-se:
São idiomas oficiais do Estado o castelhano e todos os idiomas das nações
e povos indígena originário campesinos, que são o aymara, araona, baure,
bésiro, canichana, cavineño, cayubaba, chácobo, chimán, ese ejja, guarani,
guarasu’we, guarayu, itonama, leco, machajuyai kallawaya, machineri,
maropa, mojeño-trinitario, mojeño-ignaciano, moré, mosetén, movima,
pacawara, puquina, quechua, sirionó, tacana, tapiete, toromona, uru-
6
chipaya, weenhayek, yaminawa, yuki, yuracaré e zamuco. (BOLIVIA, 2009)

Ao estudar mais a fundo as línguas nesta região fronteiriça, percebe-se que


no lado boliviano há algumas línguas originárias ou nativas que se destacam. O
linguista boliviano Callisaya Apaza (2012) em sua tese de doutorado, afirma que
essas línguas são faladas por quatro milhões de pessoas, sendo o quechua e o
aimará os idiomas com o maior número de falantes. Ainda, segundo o autor, as

5
Dados retirados do site: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ms/corumba. Acesso em: 20 de abr. de
2019.
6
No original: “Son idiomas oficiales del Estado el castellano y todos los idiomas de las naciones y
pueblos indígena originario campesinos, que son el aymara, araona, baure, bésiro, canichana,
cavineño, cayubaba, chácobo, chimán, ese ejja, guaraní, guarasu’we, guarayu, itonama, leco,
machajuyai kallawaya, machineri, maropa, mojeño-trinitario, mojeño-ignaciano, moré, mosetén,
movima, pacawara, puquina, quechua, sirionó, tacana, tapiete, toromona, uru-chipaya, weenhayek,
yaminawa, yuki, yuracaré y zamuco. (2009)

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outras línguas minoritárias estão distribuídas, em sua maioria, nas terras baixas da
Bolívia, sendo difícil determinar com precisão o número de pessoas falantes dessas
línguas.
Conforme dados do Censo Nacional de Población y Vivienda (INE, 2012), os
três idiomas mais falados do país são de fato o castelhano, o quechua e o aimará,
que juntos representam quase 94% dos habitantes do país. Os registros dos
entrevistados neste censo, na área rural e urbana concluíram, que o castelhano é
utilizado por 69,4% dos habitantes da Bolívia e o quechua por 17,1%. O aimará
ficou como o terceiro idioma oficial mais utilizado no país com 10,7% de falantes, o
guarani com 0,5% e os resto dos outros idiomas com 0,2 %. Ainda de acordo com o
Censo, os idiomas principais falados pela população de seis anos ou mais, no
Departamento de Santa Cruz de la Sierra, na ordem decrescente são: castelhano,
quechua, aimará, guarani, guarayu, bésiro e zamuco. (INE, 2012).
Ao realizar as leituras do Censo (INE, 2012), observa-se que a migração
interna ao Departamento de Santa Cruz foi de 2,2 % chegando a ser o segundo
departamento que mais recebeu migrantes, ficando atrás apenas de Pando com
14%, ambos localizados em região de fronteira. Duas de cada cem pessoas que
residem atualmente na cidade, nos últimos cinco anos, viviam em outros lugares da
Bolívia. Essas pessoas que migraram internamente, acabaram se dispersando nas
quinze províncias do Departamento. De acordo com o Atlas sociolinguístico de
povos indígenas em América Latina (2009), esse processo migratório interno se deu
principalmente a partir dos anos 90, com um grande fluxo da população andina vindo
em direção às terras tropicais de colonização.
Conforme o Plano Estadual de Desenvolvimento de Santa Cruz de la Sierra
7
(2015) e o Plano Territorial de Desenvolvimento Integral de Santa Cruz de la Sierra
– PTDI (2016) 8 , há cinco povos que estão fixados no Departamento que são:
guarayo, mojeño, chiquitano, ayoreo e guarani. Dentre eles, dois estão localizados
na Província German Bush onde está localizada a cidade de Puerto Quijarro, que
são os chiquitanos e os ayoreos.
Os chiquitanos, povo indígena que habita a região da Gran Chiquitania,
grupo mais numeroso e estendido no território do Departamento, ocupam a maior

7
No original: “Plan Departamental de Desarrollo de Santa Cruz de la Sierra”
8
No original: Plan Territorial de Desarrollo Integral - PTDI

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parte da Província. Antes da chegada dos espanhóis formavam um conjunto de


povos numerosos, dispersos em várias regiões com suas próprias culturas e línguas.
Destacam-se o trabalho artesanal, a dança, a música e a devoção à fé católica. Os
chiquitos conformavam uma família linguística muito ampla de modo que se
diferenciavam entre si, tendo como base os dialetos. Os jesuítas impuseram uma
língua única para poder se comunicar entre os diferentes grupos que se
estabeleceram nas missões, chamada de bésiro-chiquitano.
Os ayoreos são povos nômades, divididos em clãs. Para o antropólogo Milton
Eyzaguirre (2013), os membros destes povos se autodenominam “ayoreode”, que na
sua língua, o zamuco, significa “homem da selva, nós”. De acordo com o explorador
francês D’Orbigny, essa língua tem doçura na sonoridade das palavras, sendo
chamanda de italiano do deserto.
Conforme dados da Confederação Nacional de Nacionalidades Indígenas e
Nativas da Bolívia9 - CNNIOB (2004), há cerca de 3.100 habitantes distribuídos em
pequenas comunidades na província.10 No Plano de Ocupação Territorial do Estado
Autônomo de Santa Cruz de La Sierra (2012) 11 há informações que eles têm
construído bairros nas cidades de Puerto Quijarro, Puerto Suárez, Roboré e San
José. Acredita-se que nos últimos anos, eles migraram para esta região devido à
construção da ferrovia que liga a Bolívia ao Brasil.
Em pesquisa documental realizada na Prefeitura Municipal de Puerto Quijarro
e conversa marcada com o Secretario Administrativo e Financeiro, nos foi informado
que o que era antes chamado de Plano de Desenvolvimento Municipal (PDM) 12 ,
agora chama-se Plano Territorial de Desenvolvimento Integral (PTDI) 13 . Este
documento tem vigência 2016-2020 e, é atualizado a cada cinco anos. Reúne
dados sobre o município nas diversas áreas como: desenvolvimento social e
territorial, educação, economia, saúde, metas, projetos, entre outros. De acordo
com o documento, os idiomas mais falados no município são o castelhano,
português, e em menor proporção o idioma originário ayoreo e bésiro. Uma fração
da população fala o quechua e o aimará devido a migração interna proveniente do

9
No original: Confederación Nacional de Nacionalidades Indígenas y Originarias de Bolivia - CNNIOB.
10
Retirado do Site: https://www.educa.com.bo/etnias/los-ayoreos. Acesso em: 23 de jun. de 2019.
11
No original: Plan de Ocupación Territorial del Departamento Autónomo de Santa Cruz de La Sierra
12
No original: Plan de Desarrollo Municipal – PDM
13
No original: Plan Territorial de Desarrollo Integral -PTDI

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ocidente às zonas fronteiriças. No documento, há uma parte em que fala que o


município foi influenciado pelo português, como consequência do contato na
fronteira.
As línguas de povos indígenas, assim como todas as outras línguas, são ricas
em histórias vivas, em um tempo quase perdido ou esquecido, precisariam ser
transmitidas por todas as gerações, em um processo contínuo de fortalecimento
identitário, dentro e fora do grupo, pois, pensar no desaparecimento de uma língua é
gerar um enorme vazio na história de um povo. Por isso, a revitalização linguística
das línguas, ao mesmo tempo preserva o saber cultural e identitário, bem como, os
direitos humanos, além de garantir outros direitos que se fizerem necessários. Na
província Germán Bush, o bésiro-chiquitano foi incluído no currículo das escolas
como língua originária obrigatória na Educação Básica de Puerto Quijarro, de acordo
com a nova Lei da educação boliviana Avelino Siñani – Elizardo Pérez que define a
educação como intracultural, intercultural e plurilíngue, comunitária, produtiva e
descolonizadora. Com o intuito de aprimorar o ensino de línguas originárias, o
governo boliviano implementou programas de formação complementaria para os
professores de todas as etapas da educação.
Observa-se com esses dados que os movimentos humanos permitem que as
línguas que são faladas na região se instalem no espaço fronteiriço e, com isso,
tragam consigo suas práticas culturais e sociais. Em entrevista marcada realizada na
cidade de Puerto Quijarro, no Mercado Municipal, concedida por uma vendedora de
verduras e frutas, esta nos relatou que veio da cidade de Cochabamba há cinco
anos, estimulada pela informação de que na fronteira haveria melhores condições de
vida e oferta de melhores empregos. A história dela se assemelha a de outros, que
veem a fronteira como um espaço mais lucrativo para o comércio.
Os migrantes que se mudam para as para cidades de Puerto Quijarro e
Puerto Suárez, são oriundos de várias regiões da Bolívia. Em sua maioria, eles vêm
em busca de uma melhor condição de vida, com a perspectiva de conseguirem um
emprego melhor remunerado, destacando-se no âmbito comercial. Alguns deles
moram no lado boliviano e atravessam a fronteira diariamente, seja para estudar
e/ou trabalhar. Com eles, também atravessa a bagagem cultural que aos poucos vai
se mesclando com a local, formando a identidade fronteiriça.

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Considerações finais
Conforme foi visto ao longo deste trabalho, nesta região fronteiriça
compreendida entre Corumbá/BR e Puerto Quijarro/BO constatou-se que há uma
pluralidade de línguas, resultado da presença de povos nativos, migrantes e
imigrantes que constituem este espaço sociolinguísticamente complexo e peculiar.
Os habitantes desta fronteira estampam traços próprios que os caracterizam
nesses espaços compartilhados e de interação, e as mesmas línguas que os
aproximam também os distinguem. Foi constatado que os povos que vieram para
esta região, seja na cidade de Corumbá ou Puerto Quijarro, trouxeram consigo suas
bagagens cultuais que se acabam se mesclando com a local formando a identidade
fronteiriça. Tal deslocamento geográfico contribui de forma acentuada para o cenário
sociolinguísticamente complexo desta fronteira.
Esse contato diário com o “outro” estabelece relações distintas, tendo as
línguas que circulam na região como fortes elementos constituintes, criando as
situações de plurilinguismo nas zonas limítrofes.

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http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/270606/1/Sturza_ElianaRosa_D.pdf
> Acesso em: 20 de mar. de 2019.

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OUTRO CALÇADÃO DE UMA MESMA COPACABANA - A CELEBRAÇÃO DA


VIRGEM: UM DIÁLOGO ENTRE A FRONTEIRA DE CORUMBÁ/BR E PUERTO
QUIJARRO/BO
Another boardwalk of a same Copacabana - The celebration of the virgin: a dialogue
between the border of Corumbá / BR and Puerto Quijarro / BO
Otro paseo marítimo de un mismo Copacabana - la celebración de la virgen: un
diálogo entre la frontera de Corumbá / BR y Puerto Quijarro / BO

Gesliane Sara Vieira Chaves

Resumo: Este resumo é fruto de um projeto de Doutorado (2019-2023) aprovado no


PPGG/UFGD. Que propõe analisar os territórios da celebração à Virgem de
Copacabana entre a fronteira de Corumbá/BR e Puerto Quijarro/BO, e no que eles
contribuem no entendimento do modo de como as sociedades fronteiriças se
relacionam. O objetivo desta pesquisa é compreender como esses territórios
religiosos colaboram nas relações sociais e culturais compostas de aproximações e
afastamentos entre brasileiros e bolivianos. Para realização deste estudo será
desenvolvida uma pesquisa de cunho qualitativa, compreendida como: descritiva e
explicativa. Para tal, o trabalho de campo contribui, para a observação, descrição e
análise da referida celebração à Virgem, desde as suas preparações, perpassando
os rituais e festejos. A partir, do trabalho de campo, serão colhidas as percepções
dos devotos, através de entrevistas e registros imagéticos. A finalidade desta
comunicação é dialogar o objeto da pesquisa com os campos teóricos e
metodológicos dos estudos culturais.
Palavras-chave: Virgem de Copacabana, Corumbá, Puerto Quijarro.

Abstract: This summary is the result of a Doctoral Project (2019-2023) approved by


the PPGG / UFGD. It proposes to analyze the territories of the celebration of the
Virgin of Copacabana between the Corumbá / BR and Puerto Quijarro / BO borders,
and what they contribute to the understanding of the way in which border societies
relate. The aim of this research is to understand how these religious territories
collaborate in social and cultural relations composed of approximations and
distances between Brazilians and Bolivians. For this study will be developed a
qualitative research, understood as: descriptive and explanatory. To this end, the
fieldwork contributes to the observation, description and analysis of this celebration
to the Virgin, from its preparations, passing through the rituals and celebrations.
From the fieldwork, the perceptions of the devotees will be collected through
interviews and imagery records. The purpose of this communication is to dialogue
the research object with the theoretical and methodological fields of cultural studies.
Key-words: Virgin of Copacabana, Corumbá, Puerto Quijarro.


Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Grande
Dourados, geise_sara@hotmail.com.

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Resúmen: Este resúmen es el resultado de un Proyecto de Doctorado (2019-2023)


aprobado por el PPGG / UFGD. Propone analizar los territorios de la celebración de
la Virgen de Copacabana entre las fronteras Corumbá / BR y Puerto Quijarro / BO, y
lo que contribuyen a la comprensión de la forma en que se relacionan las
sociedades fronterizas. El objetivo de esta investigación es comprender cómo estos
territorios religiosos colaboran en las relaciones sociales y culturales compuestas de
aproximaciones y distancias entre brasileños y bolivianos. Para este estudio se
desarrollará una investigación cualitativa, entendida como: descriptiva y explicativa.
Con este fin, el trabajo de campo contribuye a la observación, descripción y análisis
de esta celebración a la Virgen, desde sus preparativos, pasando por los rituales y
celebraciones. A partir del trabajo de campo, las percepciones de los devotos se
recopilarán a través de entrevistas y registros de imágenes. El propósito de esta
comunicación es dialogar el objeto de investigación con los campos teóricos y
metodológicos de los estudios culturales.
Palabras clave: Virgin de Copacabana, Corumbá, Puerto Quijarro.

Introdução
O município de Corumbá fica localizado na porção oeste de Mato Grosso do
Sul. Entre a morraria do Urucum, ao sul; a margem direita do Rio Paraguai, ao norte;
tendo como enclave territorial o município de Ladário e fronteira com a Bolívia.
Corumbá faz fronteira, mais propriamente com Arroyo Concepcón, distrito de Puerto
Quijarro, na província de German Bush, do departamento de Santa Cruz, ou seja,
Corumbá/Puerto Quijarro são cidades-gêmeas.
Oliveira (2008) considera um caso de semi-conurbação devido ao fato dos
municípios não serem ligados de forma contigua. Diferente de Costa, que não
considera a fronteira Corumbá/Puerto Quijarro uma conurbação.
Não se trata de uma conurbação fronteiriça, pois não existe uma
continuidade urbana, ou seja, o formato de um único (aparente) sítio
urbano. [...] Suas interações fronteiriças são intensas, porém nem tanto
quanto cidades conurbadas como Ponta Porã (Brasil)/Pero Juan Caballero
(Paraguai) ou Santana do Livramento (Brasil)/Rivera (Uruguai) [...] (2012, p.
25-26).
Costa (2015) em seu trabalho intitulado “Os bolivianos em Corumbá-MS:
conflitos e relações de poder na fronteira” narra sobre algumas discordâncias e
disputas entre os fronteiriços e o desinteresse do Estado em urbanizar a divisa entre
Corumbá a Puerto Quijarro. Isso ocorre, segundo o autor, porque os terrenos estão
na maioria em áreas militares ou estatais e as últimas construções na linha de
fronteira de Corumbá são o Clube Recreativo de Subtenentes, Sargentos (Cresse),
Receita Federal e a Polícia Federal. O que impossibilitaria o processo de
conurbação entre Corumbá a Puerto Quijarro.

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Para além de áreas de “conflitos e relações de poder”, se as fronteiras podem


ser percebidas como marcos de disparidades culturais entre populações fronteiriças,
podem também ser de trocas materiais e simbólicas (ALBUQUERQUE, 2009).
Pensando a fronteira, podemos caracteriza-la em zona de fronteira e faixa de
fronteira, embora pareçam termos semelhantes, não são iguais. No Brasil, a faixa de
fronteira corresponde a 150 km e na Bolívia a 50 km.
A zona de fronteira é composta por 'faixas territoriais de cada lado do limite
internacional, sendo sua extensão geograficamente limitada a algumas
dezenas de quilômetros a ambos os lados da linde. (grifos do autor) [...] A
faixa de fronteira trata-se de uma extensão maior em relação a anterior
(zona de fronteira), mas seu papel é restrito a cada Estado-Nação, ou seja,
o programa das ações conjuntas se define para ser aplicado às jurisdições
políticas internas de cada país (SILVA, 2008, p. 08-09).
Os diálogos entre os estados territoriais na zona de fronteira se revelam
continuamente por meio da relação social e cultural, aderindo mutuamente
costumes, crenças, valores e vocábulos idiomáticos, específicos e diversos dos
municípios fronteiriços, separadas por um limite estabelecido, que criam um elo de
interação próprio, percebido nesses espaços geográficos. (RETIS, 2005).
Conforme Albuquerque (2010, p. 42) “as fronteiras são fenômenos sociais,
plurais e dinâmicos”. Na mesma linha de pensamento Costa e Dias afirmam que:
Perceber a fronteira como um elo de integração não pressupõe a
inexistência de conflitos, tampouco a uniformização de culturas, mas
reconhecer nessas diferenças as possibilidades de trocas e crescimento faz
da fronteira um lugar especial (2015, p. 228).
Se existem conflitos e disputas nas fronteiras, também existem as
permeabilidades e porosidades. A partir das permeabilidades, os Estados não são
capazes de evitar o fluxo de pessoas, culturas, valores e princípios. Marcos
Mondardo se refere à fronteira na dimensão cultural:
Surgem perspectivas em torno das identidades, das etnias, das
nacionalidades, das territorialidades, em contexto de fronteira. Essas
abordagens visam analisar grupos minoritários, subalternos e de migrantes
que vivem por entre fronteiras sociais e territoriais ou estão situados nos
conflitos (ou questões) chamadas de fronteira (2018, p. 58) (grifos do autor).
Ainda sobre a problemática da fronteira na dimensão cultural, o autor
descreve “[...] espaço mais aberto e poroso para que outros sujeitos ganhem
visibilidade, tornem-se protagonista e construam outra hegemonia, de “baixo para
cima”, pelo caminho da resistência [...]” (Idem).
Sobre a temática Behyaut afirma que:
Por isso, insistimos na ineficácia da noção de fronteira como autêntica
barreira para a integração cultural. O elemento popular é fundamental nessa
integração, quando a mesma se opera em profundidade. Neste sentido,
nem a fronteira servira para ilhar, nem a origem popular será um elemento
de bloqueio (1994, p. 194).

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Desse modo, pensando a integração cultural entre Corumbá e Puerto


Quijarro, para esse projeto propomos analisar a celebração à Virgem de
Copacabana. Santa padroeira da Bolívia, abraçada pelos Corumbaenses, e
festejada tanto em solo brasileiro, quanto em solo boliviano.
Conforme Costa e Dias, “de um modo geral se pode afirmar que o migrante
boliviano convive amigavelmente com a população Corumbaense” (2015, p. 231). É
nesse território fronteiriço que a pesquisa buscara compreender como o papel da
devoção a Nossa Senhora de Copacabana influencia nas aproximações e
afastamentos entre brasileiros e bolivianos.

Justificativa
A história da Virgem de Copacabana1 narra à devoção de um descendente
inca, catequisado pela igreja católica espanhola, Francisco Tito Yupanqui. Os
relatos narram que ele queria que a imagem de Nossa Senhora estivesse no altar da
Capela de Copacabana. A primeira escultura teria ficado feia, mas Yupanqui
estudou as técnicas de arte sacra e escultura e reproduziu uma imagem de Nossa
Senhora da Candelária, que acabou sendo adotada pela sua cidade, com seu
próprio nome: Copacabana.
A fama milagrosa da Virgem de Copacabana se espalhou pela América,
dando nome para um dos bairros e praia mais conhecidos do Brasil e do mundo,
Copacabana:
A primeira versão faz referencia à língua quichua, falada no antigo Império
Inca. [...] significa “lugar luminoso”, “praia azul” ou “mirante do azul”.
Outra hipótese diz que o termo é de origem aimara, língua que era falada na
Bolívia. O significado é “vista do lago”. Na Bolívia, Copacabana é o nome
dado a uma cidade situada às margens do Lago Titicaca, fundada sobre um
antigo local de culto inca. Ha relatos de que nesse local, antes da chegada
dos colonizadores espanhóis, ocorria o culto a uma divindade chamada
Kopakawana. Essa divindade protegeria o casamento e a fertilidade das
mulheres.
No século XVII, comerciantes bolivianos e peruanos de prata [...] trouxeram
uma réplica da imagem de Nossa Senhora de Copacabana para a praia do
Rio de Janeiro. Sobre um rochedo, construíram uma capela em
homenagem à santa. (DIARIO DO RIO DE JANEIRO, 2016).
Tanto no caso brasileiro, como no boliviano, é possível perceber o caráter
simbólico atribuído à celebração da Virgem de Copacabana. Os desfiles, missas e
celebrações iniciam em Corumbá, atravessam a fronteira e continuam em Puerto

1
Texto retirado da História da Virgem de Copacabana. Disponível em:
<https://cruzterrasanta.com.br/historia-de-nossa-senhora-de-copacabana/31/102/#c>. Acesso em 08
out. 2018.

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Quijarro. Essa celebração faz parte de um extenso calendário religioso,


representando importantes manifestações culturais dos dois lados da fronteira.
No lado brasileiro (Corumbá/Ladário) são comemoradas as festas de São
Sebastião (20 de janeiro), Nossa Senhora da Candelária e Nossa Senhora dos
Navegantes (02 de fevereiro), São Jorge (23 abril), Divino Espírito Santo no distrito
Albuquerque (21 de maio), Santo Antônio (13 de junho), São João (24 de junho),
São Pedro e São Paulo (29 de junho), Nossa Senhora do Carmo padroeira do
distrito de Forte Coimbra (16 de julho), Virgem de Copacabana (06 de agosto),
Virgem de Urkupiña (16 de agosto), São Cosme e São Damião (27 de setembro),
Nossa Senhora dos Remédios padroeira de Ladário (14 de outubro), festa de
Iemanjá (31 de dezembro).
No lado boliviano (Puerto Quijarro/Puerto Suarez) são realizadas as festas de
Virgem de Copacabana (originalmente 02 de fevereiro, transferida para 06 de
agosto, data em que também se comemora a Independência da Bolívia), São João
(24 de junho), Nossa Senhora do Carmo na comunidade El Carmen de la Frontera
(16 de julho), Virgem de Urkupiña (16 de agosto), Nossa Senhora de Cotóca (08 de
dezembro), entre outras. Como percebemos ambos os municípios celebram
santos/as do Brasil e bolivianas. No lado brasileiro, comemora-se Virgem de
Copacabana, Nossa Senhora de Cotóca e Virgem de Urkupiña. E no lado boliviano,
no dia 24, a festa de São João em Puerto Quijarro e Puerto Suarez (FIGUEIREDO;
COSTA; PAULA, 2011) e na comunidade El Carmen de la Frontera, Nossa Senhora
do Carmo (SABATEL, 2013).
Esses eventos religiosos envolvem um significativo número de moradores
brasileiros, bolivianos e visitantes. É possível perceber as especificidades das
comemorações religiosas no Brasil e na Bolívia, mas também é possível perceber
seu caráter dialógico. É o que se verifica, por exemplo, nas celebrações da Virgem
de Copacabana, Virgem de Cotóca e na Virgem de Urkupiña que fazem parte do
calendário de eventos de Corumbá2.
Segundo Costa e Dias (2015, p. 233) “existe nas tradições bolivianas uma
mistura entre religião, música e dança. Dentre essas, se destacam as festividades
em homenagem às Virgens de Cotóca, Copacabana e Urkupiña”, desencadeando

2
Em diálogo (01 de outubro de 2018) com servidor da Fundação de Cultura de Corumbá, José
Gilberto Rozisca, o mesmo relata que as celebrações as santas fazem parte do calendário de
eventos, porém não recebem aporte financeiro, como ocorre no São João, por exemplo.

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celebrações e devoções às Virgens bolivianas, por brasileiros e bolivianos de


Corumbá e Puerto Quijarro.
Um exemplo é a presença de uma imagem da Virgem de Cotóca no terreiro
de Candomblé3 de Pai Clemilson, Babalorixá do Instituto Afro-religioso Cultural Axé
Lakum. Pai Clemilson relata que tem filhos de santos bolivianos, devotos da santa,
portanto mantém em seu altar, junto de outras santas católicas4.
Outro exemplo destacado por Costa e Dias são as celebrações à Virgem de
Urkupiña realizadas em Corumbá, por bolivianos e brasileiros, com novenas,
celebrações e desfiles.
Existem muitos locais de festa, sempre nas proximidades de aglomerações
de moradores bolivianos. Numa delas, dentre as mais tradicionais, a festa
se inicia com a celebração de uma missa em uma das igrejas locais e,
posteriormente a imagem da santa é transportada em altar permanente
localizado onde era Feira BRASBOL (2015, p. 233).
Se as celebrações da Virgem de Urkupiña representam importantes
atividades no município de Corumbá e Puerto Quijarro, o mesmo ocorre com a
Virgem de Copacabana, que atravessa as fronteiras, sejam elas materiais e/ou
simbólicas.
Uma característica das festividades em louvor à Virgem de Copacabana é
acontecer nos dois lados da fronteira entre Brasil e Bolívia. Ao lado
brasileiro, são reservadas as partes religiosa (missa) e folclórica (entrada),
com o desfile de devotos em grupos de danças tradicionais pelas ruas da
cidade; e ao lado boliviano, a festa com mais dança, comida e bebida
(PREFEITURA DE CORUMBÁ, 2017).
Conforme Ramalho Junior, sobre as aproximações e afastamentos entre
brasileiros e bolivianos, o mesmo destaca a relevância desta manifestação religiosa
para as aproximações e afinidades entre estes grupos.
No ano de 2011, foi realizado um grande evento em homenagem à Virgem
de Copacabana. Este evento ocorre há vários anos, no entanto, em 2011
ganhou outra dimensão. O evento se estendeu pelas ruas de Corumbá e
caminhou até Puerto Quijarro, contou também com uma missa na Igreja
Matriz de Corumbá, celebrada em espanhol, além do grupo de dança
Caporales, que veio da cidade boliviana de Cochabamba. Através do
comparecimento ao evento foi possível perceber que a religiosidade e as
expressões artístico-culturais apresentavam-se como elementos que
aproximam, causando reações amistosas (2012, p. 52) (grifos do autor).

3
Casa religiosa de matriz afro-brasileira.
4
Entrevista (20 de maio de 2018) concedida pelos/as festeiros/as de São João, pesquisa, em
andamento realizada para o IPHAN, por pesquisadores da UFMS/UFGD.

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Figura 1: Virgem de Copacabana e o menino Jesus.

Fonte: Chaves, 2019.

Conforme a imagem capturada na missa do dia 06 de agosto de 2019, é


possível perceber o caráter dialógico entre as nações. As bandeiras da Bolívia e do
Brasil cobrem o altar reservado às imagens da Virgem de Copacabana e do menino
Jesus. Evidenciando essa integração religiosa entre os países.
A celebração à Virgem de Copacabana tem início na igreja do centro de
Corumbá5. O processo tem início:
Com missa e tradicional procissão, os bolivianos comemoraram nesta
segunda-feira, 06 de agosto, o dia da Virgem de Copacabana, em Corumbá.
Essa parte da festa é realizada em solo brasileiro há 17 anos. A
homenagem à santa, que acontece na mesma data da Independência do
povo boliviano (193 anos em 2018), teve início com uma Missa, celebrada
no Santuário de Nossa Senhora Auxiliadora, pelo padre Jacinto Ortiz,
pároco da Igreja Imaculada Conceição, no Distrito de Albuquerque. Filho de
bolivianos, o padre falou da satisfação e da importância da manutenção
desse vínculo com o povo da fronteira (DIARIO CORUMBÁENSE, 2018).
Conforme o registro acima, a comemoração ocorre em Corumbá (agora em
2019) há 18 anos, ressaltando a relevância da celebração para o povo boliviano,
conforme relata o padre Jacinto Ortiz, filho de bolivianos.

5
Antigamente era realizada na Igreja Nossa Senhora da Candelária e atualmente na igreja Nossa
Senhora Auxiliadora.

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Outra narrativa que evidência a magnitude da integração entre fronteiras e


culturas é da Diretora da ONG Instituto Moinho Cultural Sul-Americano, Marcia
Rolon. Segundo ela:
A festa de Nossa Senhora de Copacabana, em Corumbá, é a maior
manifestação cultura de integração fronteiriça de nossa região. Ela já
mescla entre brasileiros, bolivianos tanto residentes aqui como do outro lado
da fronteira e por isso já demonstra influências que lhe dão um caráter
singular”, analisou a diretora-presidente que é mestre em Estudos
Fronteiriços pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
(AQUIDAUANA NEWS, 2014).

Figura 2: Cortejo à Virgem de Copacabana

Fonte: Chaves, 2019.

A foto acima permite observar as vestimentas, cantos, danças e rituais


religiosos, característicos da sociedade boliviana, devotos e/ou bailarinos desfilando
pelas ruas de Corumbá, proporcionando uma clara demonstração dessa identidade
territorial. Rogério Haesbaert narra que a identidade territorial:
Partimos do pressuposto geral de que toda identidade territorial é uma
identidade social definida fundamentalmente através do território, ou seja,
dentro de uma relação de apropriação que se dá tanto no campo das ideias
quanto no da realidade concreta, o espaço geográfico constituindo assim
parte fundamental dos processos de identificação social (1999, p. 172).

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Desse modo, a pesquisa propõe analisar os palcos e cenários das


celebrações à Virgem de Copacabana, e no que eles contribuem no entendimento
do modo de como as sociedades fronteiriças desses dois países se relacionam.
Para além, como se estabelecem as relações sociais entre o “Eu e o Outro” que,
segundo Mondardo (2018, p. 66) são “um meio de comunicação e construção de
novas identidades/territorialidades” através de aproximações e afastamentos.

Metodologia
A metodologia a ser utilizada, é aqui compreendida como: descritiva e
explicativa que acontecerá num cenário heterogêneo, a zona de fronteira, que
abrange Corumbá e Puerto Quijarro. Milton Santos (2012 p. 18) menciona que
“descrição e explicação são inseparáveis. O que deve estar no alicerce da descrição
é a vontade de explicação, que supõe a existência prévia de um sistema”.
Através dessa abordagem, será buscada a forma como esses grupos
(bolivianos e brasileiros) vivenciam as celebrações religiosas e, de forma especial, a
devoção à Virgem de Copacabana. Para além, de como os atores as vivenciam,
através de um processo performático (LANGDON, 1996). Dessa forma,
compreender a teia de significados nos quais esses grupos se compreendem e
celebram (GEERTZ, 2008).
Para realização deste estudo será desenvolvida uma pesquisa de cunho
qualitativa. Segundo Minayo (1994) a pesquisa qualitativa não se baseia em critérios
numéricos. Para tal, será realizada uma observação de campo, da referida
celebração à Virgem de Copacabana, desde as suas preparações, perpassando
pelas celebrações e pós-celebrações. Nesse período serão colhidas as percepções
dos atores dessa manifestação religiosa, através de entrevistas. Para além serão
analisados registros imagéticos, já existentes, como também os produzidos pela
pesquisa.
Quanto à pesquisa de campo, se recorrerá a “descrição densa”, constituindo-
se junto das vivências da pesquisa, campo e teoria. Assim,
[...] praticar a etnografia é estabelecer relações, selecionar informantes,
transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário,
e assim por diante. Mas não são essas coisas, as técnicas e os processos
determinados, que definem o empreendimento.
O que o define é o tipo de esforço intelectual que ele representa: um risco
elaborado para uma "descrição densa", tomando emprestada uma noção de
Gilbert Ryle (GEERTZ, 2008, p. 4).
Ainda sobre “descrição densa”, Maria Geralda Almeida argumenta que:

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[...] a etnogeografia busca penetrar na intimidade de grupos culturais, o


vivido pelos homens, concretizado em crenças, valores e visão de mundo.
Esta cultura vivida é, ademais, o objeto de estudo da etnogeografia (2008,
p. 332).
Ainda sobre isso, o geógrafo Álvaro Luiz Heidrich afirma que:
O sociocultural é captado mediante o envolvimento do pesquisador com o
contexto da pesquisa. É preciso lidar com oralidade e posteriormente
destrinchar os significados e sentidos. É para isso que se recorre aos
levantamentos e pesquisas qualitativas, que permitem manejar informações
textuais (2016, p. 22).
Portanto, entende-se que para a realização da descrição densa, o
pesquisador deve manter relações constantes e intensas com os sujeitos do
trabalho, anotações regulares ao diário de campo, observação aos rituais, falas,
línguas, símbolos, performances (SCHECHNER, 2011), cores, sons e cheiros. Para
que seja realizada á arte da descrição.

Considerações preliminares
A presente pesquisa encontra-se em fase inicial, ocorrendo revisões
bibliográficas sobre os conceitos e temas aqui propostos, que buscam a
compreensão de como os territórios6 da celebração à Virgem de Copacabana,
contribuem nas relações socioculturais, compostas de aproximações e afastamentos
entre brasileiros e bolivianos, na fronteira entre Corumbá-BR e Puerto Quijarro-BO.
Para isso, o “descer a campo” (WINKIN, 1998) no dia da festividade, fora o
caminho para a primeira observação dos ritos de devoção e celebração à Virgem.
Isso ocorreu na primeira semana de agosto de 2019, quando é comemorada a
independência da Bolívia e celebração à Virgem.
O boliviano Limbert Escarela Mendonza assumiu a celebração na semana
anterior a festividade, devido a problemas particulares do possível pasante7 deste
ano.
A ritualística iniciou com uma missa no lado brasileiro, no Santuário Nossa
Senhora Auxiliadora8. A missa foi celebrada no dia 06 de agosto as 14:00 horas,
pelos padres Jacinto Ortiz9 e Marco Aurélio10.

6
Para isso, propomos analisar os territórios de cunho simbólico-culturais (BONNEMAISON, 1999;
HAESBAERT, 2006), os territórios religiosos (ROSENDAHL, 2005) e territórios de trânsito
(MONDARDO, 2018).
7
O passante é o devoto responsável pela organização da celebração.
8
A missa em anos anteriores acontecia na igreja Nossa Senhora da Candelária. Em virtude de uma
reforma, nos últimos dois anos a missa de celebração á Virgem de Copacabana foi transferida para a
referida igreja.
9
Boliviano, Padre na Igreja Imaculada Conceição, do distrito de Albuquerque.
10
Responsável pela Pastoral do Imigrante, na Igreja Nossa Senhora de Fátima.

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Logo após a missa o pasante conduziu o desfile da Virgem, acompanhado de


blocos de dançarinos, banda, antigos pasantes, devotos e simpatizantes. O cortejo
saiu de frente do santuário, percorrendo a Rua Dom Aquino até a Rua Luiz Feitosa
(cerca de 950 metros).
Esse percurso dançante, dura em média 3 horas. Todo o trajeto é feito ao
som da banda e os bailarinos dançando. Muitas pessoas acompanham esse cortejo,
fotografam e observam a homenagem à Virgem. Ao concluírem essa rota (Rua Dom
Aquino até a Rua Luiz Feitosa), ônibus, carros e motos deslocam-se para a fronteira
(Corumbá/Puerto Quijarro), onde os festejos continuam.
Já na fronteira, o pasante junto dos bailarinos, banda, simpatizantes e
devotos atravessam o Posto Fiscal da Receita Federal (por volta das 19:00 horas), e
seguem até a frente do Banco Union S.A.
Na frente do banco, uma tenda com altar é montada para receber a santa,
que permanece no altar, enquanto os blocos de dança chegam. Com a chegada dos
bailarinos, esse desfile prossegue até o Clube 4 de novembro.
No Clube 4 de novembro, o cortejo chega por volta das 21:00 horas. Já no
clube uma equipe prepara a comida, cuida da decoração e os cantores contratados
passam o som e verificam os instrumentos, enquanto aguardam o cortejo chegar ao
clube.
O cortejo ao chegar ao clube segue com o Virgem até um altar, montado
especialmente para a mesma. Os devotos vão até a Virgem pedir graças ou
agradecer as preces realizadas. Ao final do cortejo, os presentes no clube vão
comer/beber, dançar e conversar até o amanhecer.
Essa celebração demonstra as relações espaciais, culturais e sociais entre os
simpatizantes e devotos da Virgem. A festa, que há 18 anos é feita por devotos
bolivianos, valoriza o lado brasileiro, com a missa e parte do cortejo. Demonstrando
a relação de pertencimento dos bolivianos para com o Brasil.

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POSSIBILIDADES DE ATENDIMENTO AO ESTRANGEIRO PELOS AGENTES


COMUNITÁRIOS DE SAÚDE NA REGIÃO FRONTEIRIÇA DE CORUMBÁ/MS -
BRASIL
Possibilities of Care for Foreign Affairs by Community Health Agents in the Border
Region of Corumbá/MS – Brazil
Posibilidades de Atención de Assuntos Extranjeros por Agentes de Salud
Comunitários em la Región Fronteriza de Corumbá/MS – Brasil

Talini Rodrigues
Rafael Oliveira Fonseca

Resumo: O Agente Comunitário de Saúde (ACS) é um profissional do Sistema


Único de Saúde (SUS) responsável pela prevenção de doenças e promoção da
saúde por meio de ação domiciliar e/ou comunitária, individual e/ou coletiva. Numa
região fronteiriça como em Corumbá/MS, os ACSs enfrentam situações envolvendo
elementos de saúde pública relacionados aos estrangeiros. Nesse cenário, visamos
compreender o cenário de ação dos ACSs no SUS em Corumbá/MS e a
complexidade da atuação nesta região. Para tanto, foi realizada uma revisão
bibliográfica através de livros, artigos científicos e documentos oficias estatais.
Verificamos que o serviço de saúde em Corumbá constantemente se depara com a
demanda de estrangeiros e a Lei do Imigrante garante o acesso à saúde destes.
Concluímos que apesar do cenário complexo, os ACSs buscam sempre acolher,
orientar e ajudar os estrangeiros no acesso aos SUS de forma que eles tenham a
garantia à vida e à saúde.
Palavras-chave: Estrangeiro; Agente Comunitário de Saúde; Sistema Único de
Saúde; Corumbá; Fronteira.

Abstract: The Community Health Agent (ACS) is a professional of the Brazilian


Single Health System (SUS) responsible for the prevention of diseases and health
promotion through a home or community and individual or collective action. In a
border region such as Corumbá / MS in Brazil, an ACS face situations involving
elements of public health related to foreigners. In this context, we aim to understand
the scenario of action of the ACSs in Corumbá and the complexity of the action in
this region. Therefore, a literature review was conducted through books, scientific
papers and official documents, It was verified that the health service in Corumbá is
faced with a constantly demand of foreigners and the Immigrant Law ensures access
to the public health service for them. We conclude that despite the complex scenario,


Graduada em Odontologia pela Universidade Federal Fluminense (UFF), mestranda em Estudo
Fronteiriço pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (PPGEF/CPAN/UFMS). E-mail:
talinirodrigues@id.uff.br

Graduado, Mestre e Doutor em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP). Docente da
Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS) e do Programa de Pós-Graduação em
Estudos Fronteiriços da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (PPGEF/UFMS). E-mail:
rafaelfonseca@uems.br

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the ACS always seek to welcome, guide and help foreigners in accessing SUS in a
way that guarantees life and health.
Key-words: Foreign; Community Health Agent; Single Health System; Corumbá;
Border.

Resúmen: El Agente Comunitario de Salud (ACS) es un profesional del Sistema


Único de Salud (SUS) responsable por la prevención de enfermedades y la
promoción de la salud a través de la acción domiciliar o en la comunidad, así como
también de forma individual o colectiva. En una región fronteriza como Corumbá /
MS - Brasil, los ACS enfrentan situaciones que involucran elementos de salud
pública relacionados con los extranjeros. En esta realidad, nuestro objetivo es
comprender el escenario de las acciones de ACS en Corumbá / MS y la complejidad
de la acción en esta región. Para ello, se realizó una revisión bibliográfica a través
de libros, artículos científicos y documentos públicos oficiales. Verificamos que el
servicio de salud en Corumbá constantemente enfrenta la demanda de extranjeros y
la ley de Inmigrantes garantiza el acceso a la salud de ellos. Llegamos a la
conclusión de que, a pesar del complejo escenario, los ACS siempre buscan dar la
bienvenida, guiar y ayudar a los extranjeros en el acceso al SUS para que tengan la
garantía de vida y salud.
Palabras clave: Extranjero; Agente Comunitario de Salud; Sistema Único de Salud;
Corumbá; Frontera.

Introdução
O Agente Comunitário de Saúde (ACS) é uma profissão instituída em 2002
através de Lei Federal1 , sendo o âmbito de atuação exclusiva do Sistema Único de
Saúde (SUS) , regido pelo Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e
seguindo as normas e diretrizes da Política Nacional de Atenção Básica (PNAB)
(BRASIL, 2002), logo, pode ser compreendido como um instrumento de política
pública.
O profissional ACS caracteriza-se pela atuação na prevenção de doenças e
promoção da saúde por meio de atividades domiciliares ou comunitárias, individuais
ou coletivas, desenvolvidas conforme as diretrizes da PNAB e do SUS, sob
supervisão do gestor local deste.
Além disso, para exercer a função de ACS, o indivíduo precisa preencher três
requisitos: residir na área da comunidade em que atuar; ter concluído com
aproveitamento curso de qualificação básica para a formação de Agente
Comunitário de Saúde e ter concluído o ensino fundamental (BRASIL, 2002).

1
Profissão criada pela Lei Federal nº 10.507, de 10 de julho de 2002 (BRASIL, 2002), revogada pela
Lei Federal nº 11.350, de 5 de outubro de 2006 (BRASIL, 2006a), em vigor.

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Ademais, são consideradas atividades do ACS: utilizar instrumentos para


diagnóstico demográfico e sociocultural da comunidade de sua atuação; executar
atividades de educação para a saúde individual e coletiva; registrar, para controle
das ações de saúde, nascimentos, óbitos, doenças e outros agravos à saúde;
estimular a participação da comunidade nas políticas públicas como estratégia da
conquista de qualidade de vida; realizar visitas domiciliares periódicas para
monitoramento de situações de risco à família; participar ou promover ações que
fortaleçam os elos entre o setor saúde e outras políticas públicas que promovam a
qualidade de vida; desenvolver outras atividades pertinentes à função do Agente
Comunitário de Saúde (BRASIL,2002).
A atuação do ACS dentro do SUS é definida da seguinte maneira: este
profissional faz parte de uma Equipe de Estratégia de Saúde da Família (ESF), essa
equipe é composta, no mínimo, por médico, preferencialmente da especialidade
medicina de família e comunidade, enfermeiro, preferencialmente especialista em
saúde da família; auxiliar e/ou técnico de enfermagem, além do Agente Comunitário
de Saúde. Podendo fazer parte da equipe ainda o agente de combate às endemias
(ACE) e os profissionais de saúde bucal: cirurgião-dentista, preferencialmente
especialista em saúde da família, e auxiliar ou técnico em saúde bucal. O número de
ACS por equipe deverá ser definido de acordo com base populacional, critérios
demográficos, epidemiológicos e socioeconômicos, de acordo com definição local
(BRASIL,2017b)
A respeito da estrutura onde funciona a assistência ofertada pela equipe da
ESF, a Unidade Básica de Saúde (UBS), que é o contato preferencial dos usuários,
a principal porta de entrada e centro de comunicação com toda a Rede de Atenção à
Saúde, é instalada perto de onde as pessoas moram, trabalham, estudam e vivem e,
com isso, desempenha um papel central na garantia de acesso à população a uma
atenção à saúde de qualidade. Na UBS, é possível receber atendimentos básicos e
gratuitos em Pediatria, Ginecologia, Clínica Geral, Enfermagem e Odontologia. Os
principais serviços oferecidos são consultas médicas, inalações, injeções, curativos,
vacinas, coleta de exames laboratoriais, tratamento odontológico, encaminhamentos
para especialidades e fornecimento de medicação básica (BRASIL, 2019b).
Esse conjunto de atendimento de saúde básica foi concebido para todo o
país, incluindo a sua área fronteiriça, no âmbito das políticas públicas de saúde. O
Brasil faz fronteira com dez países da América do Sul, sua faixa de fronteira

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corresponde a aproximadamente a 27% do território nacional (11 estados e 588


municípios) e reunindo cerca de 10 milhões de habitantes (GADELHA, COSTA,
2007).
É necessário pensar na fronteira como um lugar único que possui identidade
particular, que é definida pelo fato da convivência entre duas ou mais nações que
compartilham sua história, cultura e nacionalismo. Portanto, a fronteira deve ser
interpretada através da compreensão que seus habitantes possuem dela e de como
se relacionam com seus vizinhos, reconhecendo ainda que o outro lado tem outra
lei. Assim, considera-se que a vida em comum com o “outro” seja uma referência
identitária na construção do lugar e do “ser fronteiriço” (NOGUEIRA, 2007).
Desta maneira, em regiões fronteiriças como na área que abrange Corumbá,
no estado de Mato Grosso do Sul, e os municípios bolivianos de Puerto Quijarro e
Puerto Suárez, a globalização atribuiu novos conceitos para fronteiras que englobam
as interações econômicas e a conexão entre os Estados, por conta de
consequências econômicas, sociais e políticas resultantes. Assim, as tradicionais
fronteiras esbateram-se e adquiriram uma multiplicidade de significados que
ultrapassam a definição convencionada pelo plano político (SANTOS,2002).
Neste contexto, o Agente Comunitário de Saúde de certa forma se posiciona
como um relevante instrumento de política pública no âmbito do SUS com a função
e o desafio de adequar seu trabalho dentro da comunidade, inclusive no caso de
uma comunidade transfronteiriça como Corumbá/MS, enfrentando situações
cotidianas que envolvem não apenas elementos de saúde pública, mas também
questões políticas, econômicas e culturais em relação ao estrangeiro.
Assim, o objetivo deste trabalho é compreender as possibilidades de atuação
do Agente Comunitário de Saúde no atendimento ao estrangeiro dentro da região
fronteiriça de Corumbá/MS (Brasil).
Para tanto, como metodologia de pesquisa, foi realizada uma revisão
bibliográfica por meio de livros e artigos científicos, bem como em documentos
oficias estatais.
Logo, o conteúdo a seguir apresenta-se de forma a discutir primeiramente as
políticas públicas e o seu desenvolvimento na área da saúde a partir do SUS. A
seguir, aponta-se a complexidade existente em uma região fronteiriça, para então,
discutir os desafios e possibilidades da atuação dos Agentes Comunitários de Saúde

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na região de Corumbá/MS. Por fim, desenvolve-se algumas considerações finais


sobre a temática.

Resultados e discussões
Antes de discutirmos sobre a atuação do ACS na área de fronteira, faz-se
necessário entender um pouco sobre as políticas públicas e Programas estatais que
regulamentam e influenciam no cotidiano desta profissão.
Para compreender com mais exatidão o que seria uma política pública,
podemos recorrer inicialmente à língua inglesa na definição do termo “política”, pois
o conceito de política pública tradicional foi no passado amplamente debatido na
literatura anglófona (Public Policy). Ao buscarmos a tradução do termo “política” da
língua inglesa para a língua portuguesa, temos, em geral, as seguintes
denominações: 1. Politics. 2. Policy (OXFORD, 2009).
Contudo, na língua inglesa Politics e Policy não são sinônimos. Politics é
definido como ‘’as atividades associadas com a governança de um país ou área,
especialmente o debate entre as partes que têm poder”. Enquanto que Policy é
compreendido como “curso ou princípio de ação adotado ou proposto por uma
organização ou indivíduo. As atividades associadas com a governança de um país
ou área (OXFORD, 2009).
Assim, de acordo com as duas definições do temo “Política”’ existente na
língua inglesa, verifica-se que o conceito da palavra “Policy” é o que se encaixa ao
sentido da palavra “Política” quando nos referimos a Política Pública, logo em inglês
Public Policy.
A origem da área de conhecimento da política pública surgiu como área de
conhecimento e disciplina acadêmicas primeiramente nos Estados Unidos,
rompendo com uma tradição europeia, que focava na análise do Estado e suas
instituições, direcionando, assim, o estudo de políticas públicas para as ações dos
governos (SOUZA,2006).
Logo, a análise de política pública pode ser concebida a partir de:
[...] uma teoria geral da política pública implica a busca de sintetizar
teorias construídas no campo da sociologia, da ciência política e da
economia. As políticas públicas repercutem na economia e nas
sociedades, daí por que qualquer teoria da política pública precisa
também explicar as inter-relações entre Estado, política, economia e
sociedade. Tal é também a razão pela qual pesquisadores de tantas

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disciplinas – economia, ciência política, sociologia, antropologia,


geografia, planejamento, gestão e ciências sociais aplicadas –
partilham um interesse comum na área e têm contribuído para
avanços teóricos e empíricos (SOUZA, 2006).
Ressalta-se que não existe uma única ideia para definir o conceito de política
pública. Segundo a definição clássica, política pública seria a própria ação da
autoridade pública, desta maneira, o Estado é entendido como um organismo
isolado da sociedade por conta do seu monopólio de gestão (MASSARDIER, 2003).
Já Muller (2000) considera que Política Pública é um processo de mediação
social que tem o objetivo de se encarregar dos desajustes relacionais.Enquanto
Souza (2006) estabele a política pública como o campo do conhecimento que busca,
concomitantemente, colocar o governo em ação e/ou avaliar essa ação e, quando
preciso, propor mudanças no rumo ou curso dessas ações .
Salienta-se ainda que política pública é um conceito ligado ao Estado
moderno em que o poder público é entendido como uma instância sob cuja
responsabilidade são tomadas decisões de acordo com os princípios da democracia,
estando, assim, associadas aos processos de decisão vinculados aos governos, ou
seja, são ações regulares, institucionalizadas, visando objetivos e fins determinados
(BURSZTYN; BURSZTYN, 2012)
Porém, segundo Steinberger (2013) a política pública não deve ser uma
prerrogativa exclusiva do Estado, mas de toda a sociedade, cabendo-lhe, portanto, a
tarefa de oficialização bem como de coordenar as ações. Portanto, o planejamento
atual não pode ser mais simplesmente normativo, as políticas públicas devem ter um
planejamento compartilhado entre Estado e sociedade com o objetivo último de
promover transformação social (STEINBERGER, 2006).
Nesse contexto complexo que envolve as políticas públicas e seus
respectivos instrumentos temos o Sistema Único de Saúde (SUS), como o sistema
público de saúde universal do Brasil. O SUS surgiu em um momento de crise do
modelo de saúde vigente na década de 1980 através da 8ª Conferência Nacional de
Saúde em 1986. Esta gerou debates que contribuíram também para a construção da
Constituição Federal de 1988 e um novo conceito de saúde pública em nosso país
(LIMA et al., 2005).

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Este conceito2 passa a considerar a saúde como um direito de todos e dever


do Estado, destacando as ações e os serviços públicos de saúde como uma rede
regionalizada e hierarquizada que constitui um sistema único, organizado de acordo
com as diretrizes da descentralização, do atendimento integral e da participação da
comunidade. Elementos que desde então devem nortear as bases gerais de todas
as políticas públicas voltadas para a saúde no Brasil (BRASIL, 1988).
Posteriormente, em 1990 foi estabelecido por meio de Lei Federal (BRASIL,
1990a) os objetivos, princípios, diretrizes, gestão, funcionamento, financiamento e
planejamento desta política do SUS. No mesmo ano, outra Lei Federal (BRASIL,
1990b) regulamentou elementos sobre a participação da comunidade na gestão do
SUS e sobre as transferências intergovernamentais de recursos financeiros, além de
outras decisões. Portanto, juntas, essas Leis Federais de 1990 definiriam os
ordenamentos institucionais e assim, moldaram o processo de implantação do SUS.
Dessa maneira, o SUS foi regulamentado em 1990 e, desde então, existe
como um dos maiores e mais complexos sistemas de saúde pública do mundo e
enquanto política pública, abrangendo desde o atendimento básico para avaliação
da pressão arterial através da Atenção Básica, até o transplante de órgãos,
garantindo acesso integral, universal e gratuito para toda a população do país
(BRASIL,2019a).
Referente a Atenção Básica de Saúde (ABS), esta é um conjunto de ações,
de caráter individual ou coletivo, situadas no primeiro nível de atenção dos sistemas
de saúde, voltadas para a promoção da saúde, prevenção de agravos, tratamento e
reabilitação (BRASIL, 1998)..Complementarmente, a ABS é considerada a principal
porta de entrada para os serviços do SUS e tem por finalidade o acolhimento, escuta
e resolutividade da maioria dos problemas de saúde da população (FIGUEIREDO,
2012).
No setor da Atenção Básica de Saúde, houve marcos, durante o passar dos
anos, que foram alterando e regulamentando o SUS além da atividade do ACS,
componente essencial da ABS (BRASIL, 1998).
Primeiramente, deve-se destacar o PACS (Programa de Agentes
Comunitários de Saúde), criado em 1991 pelo Ministério da Saúde. Por meio deste,
deu-se início no Brasil a atuação profissional do Agente Comunitário de Saúde

2
Definido por meios dos artigos nº 196 e nº 198 da Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1998).

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(ACS). Este Programa revela o trabalho em saúde com enfoque na família, não mais
no indivíduo isolado, de modo preventivo e assistencialista, a fim de entender melhor
o processo de saúde e doença na comunidade (VIANA, POZ, 2005).
Adiante dentro da Atenção Básica, houve a criação do Programa de Saúde da
Família (PSF) em 1994 que trouxe consigo a proposta de reorganização e
municipalização do SUS. Logo mais, em 1998, o PSF foi extinto e surgiu a
“Estratégia de Saúde da Família” (BRASIL, 1998).
Quanto a PNAB (Política Nacional de Atenção Básica), esta surgiu em 2006
por meio de uma Portaria do Ministério da Saúde (2006b) que estabeleceu a revisão
de diretrizes e normas para a organização da Atenção Básica para o Programa
Saúde da Família (PSF) e para o Programa Agentes Comunitários de Saúde
(PACS). Esta política passou a guiar as ações da atenção básica em saúde
passando por novas publicações com adaptações em 2012 e 2017 (BRASIL, 2006b,
2012, 2017b).
Assim, pode-se dizer que dentre as políticas de saúde existentes no Brasil, a
mais importante e conhecida é o próprio Sistema Único de Saúde (SUS) além da
Política Nacional de Atenção Básica (PNAB), como já mencionados. Dessa forma, o
Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), a ESF (Estratégia de Saúde
da Família), dentre outros, se coloca como instrumentos fundamentais para garantir
sua consolidação e cumprimento de seus objetivos.
Nesse contexto, entende-se que Sistema Único de Saúde (SUS), como um
instrumento de política pública deve ser construído através da constante
participação da comunidade junto ao Poder Público adequando funções, metas,
dentre outros elementos necessário ao seu melhor desempenho junto à saúde da
população brasileira. Cenário que se torna mais complexo em uma região
transfronteiriça.
Logo, em relação ao conceito de fronteira, este remete ao latim front, in front,
ou seja, às margens. Foucher (1992) afirma que a origem do nome fronteira deriva
de front, la ligne de front, ou seja, da guerra. Esta última derivação resultado de uma
construção histórica que associa a fronteira a divisão de soberanias, disputa de
poder, defesa do território nacional, limite das leis do Estado (NOGUEIRA,2007).
A criação de uma faixa de fronteira, no Brasil estabelecida atualmente em
150km de largura paralela à linha divisória terrestre do território nacional, foi
motivada por ser esta uma área estratégica para a segurança nacional (BRASIL,

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1979), resultante desta ideia de fronteira como sendo uma peça fundamental para a
defesa, com características de imposição de barreiras às ameaças externas e
estabelecimento de limites nas relações com os países vizinhos (GADELHA,
COSTA, 2007).
Entretanto, atualmente a finalidade do Estado não é mais a conquista de
território, nem a colonização, sendo preconizado a construção de Estados de direito
democrático, social e ambiental no âmbito interno e Estados abertos, amigáveis e
cooperadores no plano externo (CANOTILHO, 2003)
Para mais, com a globalização, a mobilidade do homem se tornou mais
comum. Considerando o fato de ser uma fronteira, esse fluxo é ainda mais intenso
(BRANCO, TORROTENGUY, 2013). Este fato ocorre principalmente em cidades
gêmeas que são definidas (BRASIL, 2014) como:
[...] municípios cortados pela linha de fronteira, seja essa seca ou fluvial,
articulada ou não por obra de infraestrutura, que apresentem grande
potencial de integração econômica e cultural, podendo ou não apresentar
uma conurbação ou semi-conurbação com uma localidade do país vizinho,
assim como manifestações "condensadas" dos problemas característicos da
fronteira, que aí adquirem maior densidade, com efeitos diretos sobre o
desenvolvimento regional e a cidadania (BRASIL, 2014).
Neste contexto, a cidade de Corumbá – Brasil e Puerto Quijarro – Bolívia são
consideradas cidades gêmeas e a dinâmica de relação entre elas faz com que elas
tenham um grande potencial de integração econômica e cultural. Vale ressaltar que
as cidades de Puerto Suárez – Bolívia e Ladário/MS, por conta da proximidade
geográfica também participam de todo esse contexto relacional (Figura 1) (BRASIL,
2014).

Figura 1 - Imagem via satélite da região de fronteira entre as cidades de


Corumbá-MS, Ladário-MS, Puerto Quijarro - Bolívia e Puerto Suárez- Bolívia

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Fonte: Google maps. Adaptado pelos autores.

Um dos maiores elementos incentivadores de fluxos transfronteiriço em


cidades gêmeas são os serviços de consumo coletivo como saúde, educação,
saneamento, etc. Esse fluxo ocorre justamente por conta da diferença de oferta de
serviços com dominância de fluxos dirigidos ao Brasil, sendo que a maior parte deles
se relaciona aos serviços de saúde (BRASIL, 2014).
Por conta de o sistema de saúde pública brasileiro ser universal, esse fluxo é
intensificado e os secretários de saúde relatam que quando existe o atendimento
dessa livre demanda estrangeira, esses dados não são computados na base de
cálculo dos recursos provenientes do SUS. Esta situação, muitas vezes, gera má
vontade e preocupação em atender essa demanda, afinal, o recurso financeiro do
serviço público está associado ao ‘’per capita’’, ou seja, ao número de habitantes
residentes no município, excluindo estrangeiros e brasileiros que moram no outro
país (BRANCO, TORROTENGUY, 2013).
Neste contexto, o Agente Comunitário de Saúde, considerado porta de
entrada do SUS, necessita dar assistência para os estrangeiros. Afinal, este
profissional possui uma dimensão técnica, política e de assistência social no
trabalho, definidas respectivamente pelo monitoramento no saber epidemiológico e
clínico da população; orientação, discussão de problemas e fortalecimento da
cidadania; e as tentativas de resolver questões ligadas à saúde (CHIESA,
FRACOLLI, 2004).
Sobre sua função, o ACS, que compõe a equipe multiprofissional da ESF, se
faz essencial por ser o elo entre a comunidade e equipe de saúde da família, afinal,
é um trabalhador que faz parte da realidade da região adscrita pela ESF e que
orienta a população a cerca de questões da saúde, além de realizar outras
atividades dentro da estratégia (FERRAZ, AERTS, 2005).
Entretanto, seu papel como Agente vai além de elo, este profissional se torna
a voz da comunidade dentro dos serviços de saúde, conceito definido como
empowerment (empoderamento). Afinal, ele escuta a comunidade e transporta os
questionamentos da população para a equipe de saúde. Este processo de trabalho
para dar voz a comunidade passa pelo agir comunicativo, pela criação de novas
formas de assistir à população, como os espaços de fala e escuta, que promovem

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vínculo afetivo com a comunidade (FERREIRA et al, 2009; NASCIMENTO,


CORREA, 2008).
Segundo as ACS’s do município de Pacaraima, durante a visita domiciliar,
que é uma atividade diária, existe a oportunidade de orientar a população com
relação aos serviços oferecidos pelas Unidades Básicas de Saúde, além de se
conhecer um pouco mais daquele núcleo familiar, seus modos, rotinas e quais são
as situações vulneráveis que necessitam de mais atenção (DIAS, 2019).
Ainda, a afetividade em relação aos imigrantes venezuelanos é uma realidade
vivenciada entre as Agentes Comunitários de Saúde de Pacaraima. Os imigrantes
que fogem da crise de seu país chegam ao Brasil em extrema fragilidade. Esta
situação faz criar nestes profissionais a vontade de ajudar, seja através da doação
de alimentos ou roupas, porém, ao mesmo tempo, gera um sentimento de
impotência e sofrimento nos ACS’s por terem consciência de que a ajuda será
momentânea e não solucionará o problema real (DIAS, 2019).
É nítida, portanto, a posição privilegiada deste profissional na dinâmica do
processo de saúde como um forte impulsionador do trabalho em saúde ou como um
criador de barreiras neste processo de promoção da saúde (NUNES et al.,2002).
Adentrando especificamente na região de fronteira, como é o caso da cidade
de Corumbá-MS, existe o atendimento aos estrangeiros, que possuem outra língua,
outra cultura, dentre outras situações como o uso de documento de brasileiros para
cadastro no SUS por parte de estrangeiros, negação da nacionalidade para usufruto
do SUS, sendo necessário, portanto, preparação do ACS para a assistência dessa
demanda (SILVA, 2010).
Segundo Dias (2019, p.50):
A limitação em resolver as situações dos moradores acaba por trazer à tona
sentimento de frustração, tanto para o morador que depositou sua
esperança no ACS como para o próprio profissional, que se sente incapaz e
desmotivado por não conseguir dar a solução tão aguardada por aquele
morador de sua área, principalmente diante da grande demanda que se
estabeleceu com a vinda maciça dos imigrantes venezuelanos. As ACS
relataram que com a chegada dos novos moradores a situação se agravou
ainda mais, já que os serviços de saúde estão sobrecarregados e não
conseguem absorver nem metade das novas necessidades advindas dos
imigrantes. Referiram o colapso dos serviços de saúde tanto de Pacarima
como do estado roraimense todo.
Ademais, estrangeiros expuseram que foram atendidos no SUS, porém
passaram por situações de desrespeito por parte de profissionais de saúde como
fala alterada e agressões físicas (WALDMAN, 2011). Outra circunstância relatada foi

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a dificuldade na compreensão de orientações médicas (FLAMIA, 2018, MARTES,


FALEIROS, 2013)
Essa falta de compreensão em relação a língua portuguesa pode ser uma
barreira no momento de entender sobre a doença, o tratamento, além de interferir na
maneira como o estrangeiro expressa suas emoções com os profissionais de saúde.
Todo esse cenário gera um ambiente de insegurança para este indivíduo
(CHUBACI, MERIGUI, 2002; FLAMIA, 2018)
Embora o Agente Comunitário de Saúde se esforce ainda existe uma barreira
muito grande no entendimento de determinadas situações, nas orientações a serem
prestadas ou nos momentos de sanar dúvidas sobre os cuidados com a saúde
(DIAS, 2019).
Portanto, numa comunidade de fronteira como Corumbá-MS, o serviço de
saúde tem de atuar com a comunidade local, mas constantemente se depara com a
demanda de outro país, os bolivianos, além de haitianos, venezuelanos, dentre
outros, que em diversos contextos usufruem dos serviços de saúde na rede de
atenção básica. O ACS, sendo a porta de entrada da ABS, tem de intermediar essas
situações e trabalhar junto a equipe de saúde para oferecer o melhor atendimento a
este indivíduo que procura o SUS.
Na fronteira de Corumbá, o serviço de saúde pública conta com 179 Agentes
Comunitários de Saúde distribuídos em 27 Estratégias de Saúde da Família (ESF),
conforme exposto na Tabela 1.
Historicamente, a Lei Federal nº 6815 (BRASIL, 1980) não previa o acesso do
estrangeiro aos serviços de saúde. Portanto, neste período, não existia um marco
regulatório único para tratar do direito do estrangeiro ao SUS, com exceção de
alguns acordos locais definidos por alguns países dependendo da relação existente
entre eles, o que fazia com que alguns municípios atendessem essa demanda e
outros simplesmente se recusassem a ofertar atendimento. Quem decidia a conduta
a ser adotada era o gestor local, tendo poder discricionário, que se entende por:
diante do caso, ele tem a possibilidade de decidir segundo critérios de oportunidade
e conveniência as opções, todas válidas para o direito. Assim, o gestor local tinha a
opção de decisão, afinal não havia jurisprudência do direito do estrangeiro ao SUS,
nem recursos em nível estadual ou federal para que o município atenda essa
demanda (BRANCO, TORROTENGUY, 2013).

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Entretanto, atualmente, o artigo nº 4 da Lei da Imigração (BRASIL, 2017a),


assegura ao migrante acesso a serviços públicos de saúde e de assistência social e
à previdência social, nos termos da lei, sem discriminação em razão da
nacionalidade e da condição migratória. Assim, o estrangeiro que buscar
atendimento na rede pública de saúde será atendido, em caráter de primeira
consulta, a fim de receber a assistência em saúde.
Tabela 1- Distribuição dos Agentes Comunitários de Saúde nas Estratégias de
Saúde da Família

Quantidade de ACS que


Estratégia de Saúde da Família (ESF)
integram a Equipe
ESF ANGÉLICA ANACHE 7
ESF BEIRA RIO 10
ESF BRENO DE MEDEIROS 1 6
ESF BRENO DE MEDEIROS 2 7
ESF DR. WALTER VICTÓRIO 7
ESF ÊNIO CUNHA 1 7
ESF ÊNIO CUNHA 2 7
ESF FERNANDO MOUTINHO 6
ESF GASTÃO DE OLIVEIRA 1 7
ESF GASTÃO DE OLIVEIRA 2 5
ESF HUMBERTO PEREIRA 7
ESF JARDIM DOS ESTADOS 6
ESF JOÃO FERNANDES 7
ESF LÚCIA MARIA 1 7
ESF LÚCIA MARIA 2 7
ESF LUIS FRAGELLI 7
ESF MATO GRANDE 1 7
ESF MATO GRANDE 2 /ALBUQUERQUE 4
ESF NOVA CORUMBÁ 6
ESF PADRE ERNESTO SASSIDA 7
ESF PEDRO PAULO 1 5
ESF PEDRO PAULO 2 7
ESF POPULAR VELHA 7
ESF RANULFO DE JESUS 7
ESF SÃO BARTOLOMEU 7
ESF TAMARINEIRO 0
ESF TAQUARAL 12
TOTAL 179

Fonte: Secretaria Municipal de Saúde – Gerência Geral de Operações da saúde da cidade


de Corumbá-MS. Adaptado pelos autores.

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Caso o paciente estrangeiro necessite de um acompanhamento mais


específico no SUS após seu primeiro atendimento em solo brasileiro, este processo
torna-se inviável sem a sua regularização junto a Polícia Federal no nosso país.
Afinal, para receber a assistência em saúde continuada ofertada pelo SUS é
necessário que o estrangeiro possua o cartão do SUS e não é possível fazer esse
cartão sem alguns dados que só podem ser obtidos após sua regularização no Brasil
como o RNM (Registro Nacional Migratório)3 (GADELHA, COSTA, 2007).
Por fim, para um estrangeiro fazer seu cartão do SUS é necessário além do
RNM, comprovante de residência e CPF. Assim, é possível garantir o atendimento
integral fornecido pelo SUS a este indivíduo 4.

Considerações finais
Com base na discussão desenvolvida neste trabalho, verifica-se que no
Brasil, em relação ao atendimento à saúde, os estrangeiros devem ser tratados com
a mesma atenção dada aos cidadãos nativos, afinal, o Estado deve garantir a essas
pessoas o direito à vida e à saúde, como no caso de regiões de fronteira como
Corumbá/MS em que há um consequente fluxo internacional e, consequentemente,
a busca por serviços públicos de saúde por não-brasileiros.
Porém, verifica-se que apesar da legislação vigente, ainda existem problemas
ligados ao atendimento ao estrangeiro na área da saúde pública, no âmbito do SUS,
relacionados, por exemplo, a não regularização desses indivíduos perante a Polícia
Federal, acarretando, por vezes, no impedimento da emissão do Cartão do SUS,
que dá direito ao atendimento desde a Atenção Básica até procedimentos de alta
complexidade. Além de situações mais complexas que envolvem desde a
falsificação ideológica (uso de documento de brasileiros por eles para cadastrar no
SUS), desrespeito por parte de profissionais da saúde ao estrangeiro e dificuldades
na comunicação por conta das diferenças nos idiomas.
Apesar de todas as situações relatas, o fato é que o estrangeiro regularizado
na Polícia Federal, e que, portanto, possuidor de um RNM (Registro Nacional
Migratório), junto a outros documentos como comprovante de residência e CPF, é
capaz de conseguir realizar o seu cadastro no sistema público de saúde brasileiro e

3
Informação fornecida pelo Setor de Imigração da Polícia Federal de Corumbá/MS e pelo Setor de
cadastramento do Cartão SUS da Prefeitura de Ladário/MS.
4
Idem 3

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obter o Cartão do SUS. Dessa maneira, este estrangeiro tem garantia ao todos os
serviços de saúde ofertados pelo sistema, tendo direito, assim, a um atendimento
em nível integral.
Neste contexto, a atuação do Agente Comunitário de Saúde se torna mais
complexa, mas ainda mais vital, pois é fundamental no auxílio ao atendimento em
saúde dos estrangeiros desde o acolhimento deste indivíduo, orientando o mesmo
sobre questões legais (como fazer sua regularização na Polícia Federal para obter o
cartão do SUS) e realizando a entrada e assistência em saúde em um primeiro
momento do estrangeiro na Unidade Básica de Saúde (BRASIL, 2017b). É uma
orientação que extrapola por vezes aspectos de saúde abordando elementos
relacionados a legalidade do processo de migração.
Dessa forma, o Agente Comunitário de Saúde deve orientar o estrangeiro
nestes processos e em quaisquer outros como de caráter político, econômico,
cultural, etc. Sua função junto ao estrangeiro é dar a assistência em saúde
necessária para a garantia do direito à saúde deste indivíduo e toda sua família em
solo brasileiro.
Por isso, concluímos que apesar do cenário complexo, os ACSs buscam
sempre acolher, orientar e ajudar os estrangeiros no acesso aos SUS de forma que
eles tenham a garantia à vida e à saúde. Tendo um papel fundamental, fazendo
muitas vezes a primeira interligação entre o paciente estrangeiro e a respectiva
equipe de saúde responsável.

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POVOS INDÍGENAS NO BRASIL: IDENTIDADE E CULTURA ENTRE


FRONTEIRAS
Indigenous People in Brazil: Identity and Culture Between Borders
Pueblos Indígenas en Brasil: Identidad y Cultura Entre Fronteras

Joselaine Dias de Lima Silva

Resumo: A pesquisa apresenta a questão relacionada a identidade indígena, com o


foco na dimensão essencialmente política de um reconhecimento étnico na qual
aborda as fronteiras a serem transpostas no atual contexto relativas aos aspectos
culturais. A proposta é promover uma reflexão referente as lutas dos povos Guarani
e Kaiowá no Mato Grosso do Sul em defesa de suas terras e apontar a necessidade
de considerar que os povos indígenas tenham autonomia em sua organização social
e cultural. No primeiro momento buscaremos considerar o conceito de fronteira e
cultura, na sequência, a identidade étnica no contexto do direito.
Palavras-chave: Indígenas; Identidade; Fronteiras culturais; Direito.

Abstract: The research presents the issue related to indigenous identity, focusing on
the essentially political dimension of an ethnic recognition in which it addresses the
boundaries to be crossed in the current context, related to cultural aspects. The
proposal is to promote a reflection regarding the struggles of the Guarani and Kaiowá
people in Mato Grosso do Sul in defense of their lands, and to point out the need to
consider that indigenous people have autonomy in their social and cultural
organization. In the first moment we will try to consider the concept of frontier and
culture, then, the ethnic identity in the context of the law.
Keywords: Indigenous; Identity; Cultural borders; Right.

Resumen: La investigación presenta el tema relacionado con la identidad indígena,


enfocándose en la dimensión esencialmente política de un reconocimiento étnico en
el cual aborda los límites a ser cruzados en el contexto actual, relacionados con
aspectos culturales. La propuesta es promover una reflexión sobre las luchas de los
pueblos Guaraní y Kaiowá en Mato Grosso do Sul en defensa de sus tierras y
señalar la necesidad de considerar que los pueblos indígenas tienen autonomía en
su organización social y cultural. En el primer momento trataremos de considerar el
concepto de frontera y cultura, luego, la identidad étnica en el contexto del derecho.
Palabras clave: Indígena; Identidad; Fronteras culturales; Derecho.


Graduada em Letras pela Faculdade Integrada de Naviraí - FINAV. Mestra em Integração
Contemporânea da América Latina, pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana -
UNILA. Doutoranda em História na Universidade Federal da Grande Dourados - UFGD. E-mail
Joselainesilva_9@hotmail.com

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Introdução
O presente artigo ampara-se em contribuições bibliográficas, trazendo
elementos que contribuem com o tema: Povos indígena no Brasil: Identidade e
culturas entre fronteiras. Nesse intuito, parto do ponto das caravelas, no qual iniciou-
se um processo de grandes transformações na vida dos ameríndios. O homem
denominado como “bom selvagem” conhecido como nativo cujos primeiros contatos
pressupunham uma aproximação pacífica na forma de troca de presentes e
alimentos. Foram acusados de não serem civilizados e não terem alma, iniciando a
exploração e catequização obrigatória nas tribos, onde seguiu um extenso período
de conflitos, lutas e resistências. Por muitos anos, o olhar das ciências sociais e
humanas sobre a questão indígena, percorreu a discussão em torno das
possibilidades de assimilação cultural, dos conflitos territoriais e principalmente da
posse da terra. Em conjunto com essas questões, surgem discussões referentes aos
processos culturais, a língua, as relações produzidas em regiões próximas ou
vizinhas. O contato do homem indígena com o homem branco.
Inicialmente refletimos as palavras do autor Guarani-Kaiowá Tonico Benites
(2012), esclarecendo que os nativos são celebrados desde o período imperial como
modelos éticos e estéticos acompanhando o processo de construção da identidade
nacional. Na República, políticas paternalistas e tutelares com serviços estatais
específicas criados para exercer a tutela. Estas situações deram origem aos
processos reivindicatórios dos territórios ancestrais dos povos Guarani e Kaiowá no
Mato Grosso do Sul cujos inúmeros conflitos fundiários têm envolvido suas vidas em
um processo de disputa por recursos naturais.
Em relação ao assunto, é necessário ressaltar o tempo histórico no qual o
artigo está sendo produzido, meio aos turbulentos ataques aos direitos indígenas.
Recentemente vivenciamos grandes ataques em relação aos direitos conquistados
através da Constituição Federal de 1988. Tomamos portanto a história presente em
nosso dia-a-dia, nos alertando para a condição de sujeitos históricos no qual o ponto
referente as fronteiras culturais, possui significado amplo e relaciona-se à
compreensão do conceito de fronteira e cultura.
Nessa perspectiva buscamos considerar o conceito de fronteira e de cultura
no qual antropólogos e historiadores manifestam interesse por essa área do
conhecimento. A expressão cultura, possui um extenso percurso nas ciências
humanas, sociais e jurídicas. Desse modo, adotamos por cultura na interpretação de

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Santos (2006) todos os aspectos de uma realidade social, pois diz respeito a tudo
aquilo que caracteriza a existência social de um povo de uma nação ou de grupos
no interior de uma sociedade. Compreendemos que a cultura diz respeito à
humanidade como um todo e ao mesmo tempo a cada um dos povos. “Cada
realidade cultural tem sua lógica interna, a qual devemos procurar conhecer para
que faça sentido as suas práticas, costumes, concepções e as transformações pelas
quais estas passam.” (SANTOS, 2006, p.8).
Cabe ressaltar, em relação à cultura Guarani, que faz parte da mesma os
valores, costumes, crenças e práticas que compõem o modo de vida da
comunidade. A educação Guarani é o ñande reko1 produzido dentro da tekoha2 que
mantém a tradição cultural através da oralidade e da memória viva dos Guarani.
Averiguamos o termo fronteira, abordada com Pesavento (2002) na qual a
autora conclui que fronteiras antes de serem marcos físicos ou naturais, são
sobretudo simbólicas. “São marcos, que guiam a percepção da realidade.
Capacidade mágica de representar o mundo por um mundo paralelo de sinais por
meio do qual os homens percebem e qualificam a si próprios, ao corpo social, ao
espaço e ao próprio tempo”. (PESAVENTO, 2002, p. 35).
A partir dessas considerações, a expressão fronteiras culturais pode ser
entendida como uma realidade transcendente, acima da geopolítica e que contempla
o caráter plural do termo cultura. Logo, a fronteira cultural afirma na verdade um ato
de conhecimento, como todo poder simbólico. Nesse contexto, diversos fatores tem
demarcado as fronteiras, possibilitando repensar na revisão dos valores que movem
a sociedade como um todo e a inserção do indígena, já que a fronteira é uma zona
de articulação entre diferentes culturas, etnias, povos e modos de vida que deseja e
enseja o contato. A sua riqueza consiste em possibilitar os processos de
intercâmbios entre os homens e o meio em que vivem.
Nessa perspectiva, o trabalho propõe uma discussão sobre o exercício
jurídico das políticas direcionadas para a auto identificação da identidade dos povos
indígenas no Brasil, partindo da realidade de que, no referido país, a autonomia

1
Ñande reko diz respeito ao modo de ser, o modo de viver dos Guarani, que está relacionado ao
comportamento, a língua, a religião e a organização social. (SILVA, 2016)
2
O tekoha é entendido pelos Guarani como aldeia, lugar onde realizam seu modo de ser “teko”: a
cosmovisão, a cultura, os costumes e “há”: espaço onde se realiza o teko. “Seu território, o solo que
se pisa, é o tekoha, o lugar físico, o espaço geográfico onde os Guarani são o que são, onde se
movem e onde existem” (SILVA, 2016,p.12, apud AZEVEDO, et al. 2008, p.7)

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desses grupos étnicos não estão sendo cumpridas, de modo que infringe o que
determina a Constituição Federal de 1988 e a Convenção nº164, da Organização
Internacional do Trabalho (OIT), política essa de âmbito internacional.
Observando de que modo o Estado reconhece a democracia representativa
e participativa do povo, a proposta é promover uma reflexão e apontar a
necessidade de considerar que os povos indígenas no Brasil tenham autonomia
para a organização das suas comunidades, a resolução de conflitos de acordo com
seus valores culturais. O reconhecimento do direito à sua identidade, visa o
cumprimento das leis, de modo que não permaneçam apenas em normas estatais e
em um poder centralizado. A pesquisa está organizada em três tópicos do qual
procede a presente introdução abordando o assunto referente as fronteiras culturais;
o segundo uma análise sobre o conceito de identidade étnica; e no terceiro a
reflexão sobre o reconhecimento ao Direito étnico, territórios e leis estatais.

Conceito de Identidade étnica


A identidade é construída ao longo do tempo, por meio dos elementos de
contato que cada ser humano traz consigo, seja pelas formas de comunicação ou
convívio mútuo com a comunidade. A noção de identidade contém duas dimensões:
a pessoal (individual) e a social (coletiva). Ao mesmo tempo em que é particular de
cada pessoa, se forma com o meio em que o indivíduo se encontra inserido na
sociedade, e está ligada a existência numa sucessão de episódios. A identidade
pessoal e social estão interconectadas. No mundo da contemporaneidade, a
modernização vai construindo novos sujeitos sociais, mudando a forma de vida e
práticas cotidianas. Estabelecendo novas condutas sociais, políticas e organizações
de vida.
Nas discussões sobre Identidade e Diferença, Silva (2008) traz as
contribuições de Jonathan Rutherford, especialista em estudos culturais que afirma
que a identidade marca o encontro de nosso passado com as relações sociais,
culturais e econômicas nas quais vivemos agora, pois ela é a intersecção de nossas
vidas cotidianas com as relações econômicas e políticas de subordinação e
dominação, porque “ter uma identidade é ter uma memória própria. Por isso a
recuperação da própria história é um direito fundamental das sociedades”. (CUNHA,
1992, p. 20).

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Quanto à etnia, Stuart Hall define-a "pelas características culturais — língua,


religião, costumes, tradição, sentimento de 'lugar' - que são partilhadas por um
povo". ( HALL,1997. p. 67). Alerta porém, que a identidade étnica é um processo de
identificação e vai se reconstruindo e reconfigurando ao longo do processo histórico.
Ao nos referimos a “identidade” ou identidades” atentamos ao fato, que trata-se de
um tema que envolve comportamentos, sentimentos, o modo de ser e de viver de
cada um. Todos esses processos são carregados de uma história de vida, dentro de
um determinado contexto social, com laços familiares e afetivos específicos,
recheada de crenças e valores peculiares.
Ao abordar a questão da identidade étnica se faz necessário compreender
seu conceito discutida por Fredrik Barth (1969) nas palavras de Roberto Cardoso de
Oliveira (1976), o qual o grupo étnico é um tipo de organização, ou seja, uma
unidade portadora de cultura, ligada aos meios biológicos, valores culturais e ao
campo de comunicação e interação. A identidade étnica é irredutível às formas
culturais e sociais altamente variáveis ou como diferentes formas de organização,
sendo que o aspecto crítico da definição passa a ser aquele que se relaciona
diretamente com a identificação étnica, a saber, a característica de auto atribuição
por outros. Na medida em que os agentes se valem da identidade étnica para
classificar a si próprios e os outros para propósitos de interação.
Na disputa pela identidade está envolvida uma disputa mais ampla por outros
recursos simbólicos e materiais da sociedade. Para Barth (1969), a cultura, a língua
e os aspectos físicos de um povo são dinâmicos, mas as formas de identificar-se são
construídas de acordo com a interação com os outros, e é a partir dela que se
organizam como grupo étnico, uma vez que a determinação de um grupo étnico é a
identificação por parte de seus membros e por outros, como constituinte de uma
categoria diferenciada na relação com outras do mesmo tipo.
As fronteiras sobre as quais devemos concentrar nossa atenção são
evidentemente fronteiras sociais, ainda que possam ter contrapartida
territorial. Se um grupo mantém sua identidade quando seus membros
interagem com outros, disso decorre a existência de critérios para
determinação do pertencirnenro, assim como as maneiras de assinalar este
pertencimento ou exclusão. Os grupos étnicos não são apenas ou
necessariamente baseados na ocupação de territórios exclusivos; e as
diferentes maneiras através das quais eles são mantidos, não só as formas
de recrutamento definitivo como também os modos de expressão e
validação contínuas devem ser analisadas. Além disso, a fronteira étnica
canaliza a vida social. Ela implica uma organização, na maior parte das
vezes bastante complexa, do comportamento e das relações sociais.
(BARTH, 2000, p. 34)

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Com isso, podemos dizer que a identidade étnica se estabelece pelo


conjunto agregado de ações, como em redes ativas e ocupam diferentes nichos
econômicos e políticos, e o contato de grupos étnicos minoritários com uma
sociedade hegemônica, geralmente é competitivo pela terra, trabalho, dentre
outros. Sobre o assunto, Chamorro & Combès (2015, p. 52) constata que “a
etnicidade é o receptáculo de todos os elementos que sintetizam a identidade étnica
e, portanto, é constantemente comunicada pelos membros de uma mesma
sociedade, a fim de dotar seu universo de sentido.”
A reflexão de identidades étnicas e seu processo de reconhecimento se
manifesta especialmente em situações de interculturalidade nas quais ocorre o
encontro de atores sociais que defendem interesses opostos. O processo de
reconhecimento étnico envolve, sobretudo, a autoidentificação de grupos étnicos
politicamente organizados, uma vez que, ao afirmar uma identidade se produz
automaticamente a diferença, seja em relação a nacionalidade, a étnica ou ao
gênero.
Em Silva (2014), nos seus estudos sobre Identidade e diferença, podemos
constatar que ao criar a identidade, cria-se também a diferença, já que, o individuo
ao afirmar aquilo que é, entra em oposição com aquilo que não é. Tomamos por
exemplo a questão de afirmar que o individuo é brasileiro, automaticamente esta
dizendo que não é argentino, chines ou outros. Porém, a relação da diferença só faz
sentido, quando compreendida com relação de afirmação à identidade. Na verdade,
a firmação da identidade e anunciação da diferença possuem uma estreita ligação
de poder.
Um indivíduo ou grupo indígena afirma a sua etnia contrastando-se com
uma etnia de referência, tenha ela um caráter tribal, ou nacional. O
certo é que um membro de um grupo indígena não tem sua
pertinência tribal a não ser quando posto em confronto com
membros de outra etnia. Em isolamento, o grupo tribal não tem
necessidade de qualquer designação específica (CARDOSO DE
OLIVEIRA, 1976, p.36).

Ao afirmar uma identidade, significa demarcar fronteiras, ao mesmo tempo


em que afirmam e reafirmam relações de poder. Com isso, levando em consideração
a situação social e política, dos grupos envolvidos e seus interesse, tendo em vista
as relações de índios e não índios no contexto da interculturalidade, passamos a
perceber de que forma o Estado-nação pode contribuir na emergência dos grupos

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étnicos, e o processo de interação cultural, que no caso dos indígenas culminou com
a garantia de direitos a partir da década de 80.

Direito, Território e Identidade


No Brasil, o direito à identidade desses grupos étnicos abarca principalmente
a necessidade da legislação proteger as terras que lhes pertencem, uma vez que a
preservação dos seus espaços territoriais é importante no aspecto cultural. Nesses
locais é que se torna possível reviver e rememorar toda cultura, nele a identidade é
representada, significada e reproduzida. A questão da territorialidade assume
grande proporção, na medida em que o território tradicionalmente habitado é
fundamental para uma vida que agrega valores com o seu modo de ser e de viver.
Na busca de resguardar os direitos desses grupos, o que acaba sendo mais sensível
nessa relação política do Estado e a emergência de identidades étnicas é o território
que se reivindica em consequência do reconhecimento étnico.
Para Siqueira & Machado (2009) os direitos dos povos indígenas são
fundamentados atualmente em três pilares básicos que é a Fundação Nacional do
Índio (FUNAI) como órgão executor da política indigenista brasileira, o Estatuto do
Índio e a Constituição Federal de 1988. Porém, somente a partir da promulgação da
Constituição da República de 1988 é que o indígena passou a ter seus direitos
culturais pelo menos escritos respeitado no Brasil. Antes da Carta Magna o objetivo
era localizá-lo e inseri-lo à sociedade, onde no entendimento da época, este deixaria
de ser índio, silvícola e menos desenvolvido. Esta realidade é deparada no artigo 1º
da lei nº 6.001, de 19 de dezembro de 1973 que dispõe a respeito do Estatuto do
Índio3.
Na atualidade o Direito no Brasil mais especificamente a Constituição, garante
aos povos indígenas condições de sobrevivência física, cultural e de organização
social, onde podem manter seus costumes e tradições com base em suas
especificidades étnicas, mas também terem o direito de ter acesso a outros meios
de informações, culturas e recursos. Apenas com a Constituição de 1988, e o

3
Esta Lei regula a situação jurídica dos índios ou silvícolas e das comunidades indígenas, com o
propósito de preservar a sua cultura e integrá-los, progressiva e harmoniosamente, à comunhão
nacional.

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reconhecimento de direitos territoriais e culturais aos povos indígenas, ao menos no


plano formal, permitiu rever o horizonte integracionista e assimilacionista.
Outro elemento fundamental, é a conquista de direitos no plano internacional,
com destaque a Convenção nº 169 da OIT, a qual deu novo fôlego a
organização das minorias étnicas. Com o Decreto Legislativo nº 143 a partir de 2003
o Brasil passou a fazer parte dos países que aderiram à Resolução 169 da OIT, com
isso os indígenas deveriam ter sua autonomia governamental, podendo vetar
quaisquer interferências externas prejudiciais à manutenção, preservação e
permanência em seus espaços. O território, a cultura e a identidade indígena
somente poderiam ser adentrados e/ou explorados com autorização destes.
Os povos indígenas, dentro de sua territorialidade expressam-se como
“nação” com direitos e deveres próprios. A autodeterminação dos mesmos foi
aprovada em 1989, durante a 76ª Conferência da Convenção 169 da Organização
Internacional do Trabalho (OIT), ficando exposto que, sempre deverão ser
consultados antes da adoção de medidas legislativas ou administrativas de qualquer
natureza, incluindo obras de infraestrutura, mineração ou uso de recursos hídricos.
Também foi determinado nesta Convenção o direito a reparação pelo furto de suas
propriedades no âmbito cultural, intelectual, religioso ou espiritual, a não violação à
suas normas tradicionais e o direito de manterem suas culturas. “A Convenção foi o
primeiro documento internacional a adotar o termo ‘povos’ para referir-se às
populações indígenas e ‘tribais’ como sujeitos de direito. Tal noção é usada para
caracterizar coletivos com identidade e organização política e social próprias, e
formas especificas de relacionamento com o território.” (SILVA & COSTA, 2018,
p.109).
Quanto a Constituição Federal de 1988, além do reconhecimento dos diretos
territoriais, ocasionou importantes inovações aos direitos indígenas, quando pela
primeira vez, apontou o direito à diferença. Em seu Capítulo VIII – “Dos Índios”, no
artigo 231, determina que as terras tradicionalmente ocupadas pelos índios
destinam-se à sua posse permanente, cabendo-lhes o usufruto exclusivo das
riquezas do solo, dos rios e dos lagos nela existentes, reconhecendo a estes, o
direito a uma organização social própria, com a manutenção de seus costumes e
tradições, permitindo a gestão das terras que tradicionalmente ocupam.
Os artigos 231 e 232 da Constituição representam a maior força jurídica
dentro do direito indígena no Brasil, e essa condição permite que haja o respeito à

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identidade de tais povos, mas na prática, é apresentada outra realidade, uma vez
que há um ataque a esses direitos em todo o território brasileiro.
[...] a questão indígena tem sido omitida, mascarada, como uma clara opção
do Estado, e vem se repetindo desde a época da colonização. E o Poder
Judiciário, que seria o responsável pela aplicação e fiscalização desses
direitos tem grande parcela de culpa na situação, seja pela dificuldade de se
chegar até ele, seja pelas deficiências do próprio corpo que se encontra
despreparado e desconhecedor das questões indígenas, seja pela falta de
vias processuais adequadas (SIQUEIRA & MACHADO, 2009 p. 27).
Exemplo desse descaso e agressão, na tentativa de destruir a construção
identitária desses povos é o que acontece com os índios no Mato Grosso do Sul,
como relata o Relatório dos Direitos Humanos a terra, Território e Alimentação “a
difícil situação dos indígenas no Mato Grosso do Sul se insere num cenário nacional
de expropriação territorial. Inclusive é um processo que percorre toda a América
Latina, numa disputa por recursos naturais” (Relatório, 2014, p. 11).
Observar os conflitos entre Estado e indígenas é constatar a multiplicidade
das relações de poder que advém do reconhecimento da realidade complexa, e de
que esta realidade é produto de um mundo em que “o fim do colonialismo não
acarretou o fim da colonialidade enquanto relação social, enquanto mentalidade e
forma de sociabilidade autoritária e discriminatória” (SANTOS, 2001, p. 8). Diante
desse entendimento, compreendemos que não se trata apenas de lutar por
efetividade de direitos, uma vez que é muito mais que incorporar a dimensão cultural
ao Estado há a necessidade de revê-lo. Assim, no discurso eurocêntrico não se
reconhece que a diferença cultural indígena pressupõe formas diferenciadas de crer,
de produzir e transmitir o saber que é comum ao seu povo.
Atualmente o Estado do Mato Grosso do Sul, possui a segunda maior
população indígena do país. Nesse mesmo Estado tem ocorrido constantes conflitos
territoriais em relação da posse das terras indígenas. Segundo Cavalcante (2014), a
situação atualmente vivenciada pelos Guarani e Kaiowá no Mato Grosso do Sul em
relação aos seus direitos territoriais, são verdadeiramente preocupantes pois vivem
sob ameaças.
A respeito do assunto, Silva (2016) esclarece que mesmo os Guarani
estando na região desde os primeiros contatos com os colonizadores, ainda na
época das encomendas espanholas e reduções jesuítas, atualmente ocorre
situações de violência, por conta das reivindicações e retomadas de terras
ancestrais.

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No entanto, as sociedades indígenas “vêm mostrando que sua resistência


não está centrada na possibilidade de elas absorverem ou não elementos da cultura
dominante, mas sim na forma como esses elementos podem ser rearticulados
positivamente por elas”. (CHAMORRO, 2008, p. 54). Apesar dos inúmeros
problemas os Guarani e Kaiowá, compreendem e aceitam a existência desta outra
sociedade, que margeia a sua, percebem-se como parte dela, mas precisam
demarcar as diferenças entre elas. Por isso, vêm organizando uma resistência para
manter vivo seu modo de viver, engajando-se em movimentos e ações para
recuperação de sua autonomia e autodeterminação.
Neste contexto, para assegurar o cumprimento das cláusulas constitucionais
e fazer valer o direito indígena e o reconhecimento de sua identidade étnica,
consiste em um desafio que está posto a todos nós, principalmente respeitar a
Constituição Federativa do Brasil, assegurando os direitos plenamente consagrados
nos trechos da Lei. Os indígenas, as universidades, entidades de apoio, Ministério
Público e toda sociedade brasileira devem ser responsáveis pela promoção da
diversidade cultural indígena. (SILVA & COSTA, 2018). A identidade indígena está
vinculada à permanência territorial, preservação e reprodução de sua cultura, uma
vez que, para estes, terra, território, povos e cultura se entrelaçam e se tornam
singulares, tais povos poderiam usufruir de forma exclusiva da sua terra e riquezas,
preservando suas tradições.

Considerações finais
No Brasil, o indígena passou a ser reconhecido como uma categoria
etnicamente diferenciada sendo um desafio ao Estado garantir o direito desses
povos. Atualmente a emergência étnica tem uma relação direta com a política
estatal. Além de reconhecer aos índios o direito à diferença, o que rompeu – na
letra da lei – com a tradição assimilacionista do indigenismo brasileiro, o texto da
Constituição Federal de 1988, trouxe mudanças importantes no que diz respeito aos
direitos territoriais indígenas. A principal delas foi o reconhecimento da
“originalidade” do direito dos índios às terras de ocupação tradicional, o que ampliou
a compreensão do que vinha a ser terra indígena.
A cultura da população indígena está vinculada a vida com a comunidade e
com a terra, mas não como posse individual e sim meio de sobrevivência coletiva.
Entendem que a terra não os pertence, e sim eles são os que pertencem a terra. A

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falta de compreensão, desse universo, fez com que desde o período da colonização
esses grupos sofressem com o desrespeito, humilhações e desvalorização de sua
cultura. No entanto, muitos mantiveram-se perseverantes nas lutas pelo direito à
língua, à terra, à autodeterminação e à preservação de sua identidade. Esse direito
refere-se além do territorial e cultural, a outros conexos, como o direito à vida,
liberdade, religião, saúde, família, educação e moradia.
Examinando a legislação a respeito do assunto, verifica-se que nas últimas
décadas ocorreram avanços consideráveis tanto a nível nacional quanto
internacional nas leis direcionadas aos povos indígenas, e apresentam-se como um
avanço no campo teórico, mas na prática, tais leis nem sempre são efetivadas. Fica
evidente que o aparato jurídico precisa ser cumprido plenamente, já que não é
apenas uma questão de obter direitos, mas uma melhor interpretação e aplicação
dos mesmos, visto que, a questão indígena ainda é desvalorizada e desrespeitada.
Nesse cenário, é preciso compreender o modo como a questão indígena vem
sendo abordada nos processos políticos recentes e assim, romper com as
fronteiras do Estado-Nação, entendendo que os Guarani- Kaiowá em sua
organização propõe um modo de vida e política própria.
Juntamente com as leis e o direito à terra, está a questão primordial que é
compreendermos como os povos originários tem sido representados e permanecem
no imaginário da sociedade nacional, bem como nos espaços educacionais. É
fundamental que seja superada a perspectiva eurocêntrica e seja contata a história
indígena do tempo presente, bem como seus conhecimentos e saberes.
De forma alguma o assunto se esgota aqui, mas permite abrir novas
possibilidades de análises, relacionadas ao tema, envolvendo a questão da
autogestão, que implicaria uma reavaliação do reconhecimento da identidade dos
indígenas. No âmbito geral da sociedade brasileira, salta aos olhos a questão do
reconhecimento dos direitos atribuídos a grupos etnicamente diferenciados,
inseridos em um contexto social pluriétnicos.

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AVALIAÇÃO DO ESTADO NUTRICIONAL E DO CONSUMO ALIMENTAR DE


FAMÍLIAS RIBEIRINHAS RESIDENTES NA FRONTEIRA BRASIL/BOLÍVIA
Assessment of the Nutritional State and Food Consumption of River Families
Resident on The Brazil/Bolivia Border
Evaluación del Estado Nutricional y Consumo de Alimentos de las Familias
Ribereñas que Viven en la Frontera entre Brasil y Bolivia

Bruna Fernanda Antonio Clímaco


Beatriz Lima de Paula Silva

Resumo: O objetivo é identificar o estado nutricional e o consumo alimentar de


famílias ribeirinhas residentes no Pantanal Sul-Mato-Grossense. Método: Estudo
piloto descritivo, realizado com 26 ribeirinhos, residentes em uma comunidade
tradicional, na faixa de fronteira Brasil/Bolívia. Foram coletados dados
socioeconômicos, de antropometria e do consumo alimentar. A análise qualitativa da
alimentação foi classificada segundo o Guia Alimentar da População Brasileira; e o
estado nutricional pelos critérios adotados pela World Health Organization .
Realizou-se análise estatística descritiva e os dados foram apresentados em Média,
Desvio Padrão e Frequência absoluta e relativa. Resultados: em relação ao estado
nutricional, 61,5% estão com peso adequado, 30,8% acima do peso e 7,7% com
baixo peso. A frequência alimentar semanal de hortifrutis se encontra insuficiente e
com pouca variedade. Conclusão: São necessárias estratégias de educação
alimentar e nutricional sustentável, que possibilitem os ribeirinhos do Pantanal a
construírem hábitos alimentares mais saudáveis dentro do seu contexto ambiental e
socioeconômico.
Palavras – Chaves: Fronteira; Pantanal; Ribeirinhos; Frequência alimentar; Estado
nutricional.

Abstract: Objective: To identify the nutritional status and food consumption of


riverside families living in the Pantanal Sul-Mato-Grossense. Method: A descriptive
pilot study was conducted with 26 riverside dwellers living in a traditional community
in the Brazil/Bolivia border region. Socio-economic, anthropometric and food
consumption data were collected. The qualitative analysis of food was classified
according to the Brazilian Population Food Guide; and the nutritional status
according to the criteria adopted by the World Health Organization. Descriptive
statistical analysis was performed and the data were presented as mean, standard
deviation, and absolute and relative frequency. Results: Regarding nutritional status,
61.5% were of adequate weight, 30.8% overweight and 7.7% underweight. The
weekly feeding frequency of hortifrutis is insufficient and with little variety.
Conclusion: Sustainable food and nutrition education strategies are needed to


Nutricionista. Mestranda em Estudos Fronteiriços - UFMS/Campus Pantanal. E-mail:
bfa.climaco@gmail.com

Engenharia Cartográfica. Doutora em Geociências e Meio Ambiente - UFMS/Campus do Pantanal.
E-mail: beatrizlpaula@gmail.com

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enable riverside dwellers in the Pantanal to build healthier eating habits within their
environmental and socioeconomic context.
Keywords: Border; Pantanal; Riverine; Food frequency; Nutritional status.

Resumen; Objetivo: Identificar el estado nutricional y el consumo de alimentos de


las familias ribereñas que viven en el Pantanal Sul-Mato-Grossense. Método: Se
realizó un estudio piloto descriptivo con 26 ribereños que viven en una comunidad
tradicional de la región fronteriza entre Brasil y Bolivia. Se recopilaron datos
socioeconómicos, antropométricos y de consumo de alimentos. El análisis cualitativo
de los alimentos fue clasificado de acuerdo con la Guía de Alimentos de la Población
Brasileña; y el estado nutricional de acuerdo con la Organización Mundial de la
Salud. Se realizó un análisis estadístico descriptivo y los datos se presentaron como
media, desviación estándar y frecuencia absoluta y relativa. Resultados: En cuanto
al estado nutricional, el 61,5% tenía un peso adecuado, el 30,8% un sobrepeso y el
7,7% un peso inferior al normal. La frecuencia de alimentación semanal de la
hortifrutis es insuficiente y con poca variedad. Conclusión: Se necesitan estrategias
sostenibles de educación alimentaria y nutricional para que los habitantes de las
riberas del Pantanal puedan desarrollar hábitos alimenticios más saludables dentro
de su contexto ambiental y socioeconómico.
Palabras clave: Frontera; Pantanal; Ribereños; Frecuencia de comida; Estado
nutricional.

Introdução
O rio Paraguai tem nascente em território brasileiro com uma região
hidrográfica que abrange uma área de drenagem de 1.095.000km², sendo 33% em
território no Brasil e o restante na Bolívia, Paraguai e Argentina; e apresenta-se
como uma bacia transfronteiriça. A Região Hidrográfica do Paraguai corresponde no
lado brasileiro, a uma área de 362.259 km², sendo 52% no Mato Grosso e 48% no
Mato Grosso do Sul. Cerca de 1,9 milhão de pessoas vivem na região, sendo 15,3%
em áreas não urbanas (CALHEIROS; OLIVEIRA, 2010).
De acordo com Almeida e Silva (2011) os ribeirinhos apresentam total
dependência e identificação com o rio, pois é por meio dele que se garante a
provisão humana, desde a lavagem da roupa e utensílios, higiene pessoal à
sobrevivência e atividade econômica: à coleta de isca e pesca. Os autores ainda
relatam que a fachada das casas é construída de frente para o rio porque é nele
onde se desenrola a vida pública e se estabelecem as relações sociais.
Estudos que avaliaram o cotidiano e modo de vida de famílias ribeirinhas do
Pantanal Sul-Mato-Grossense revelaram uma vida ‘’sofrida’’, cheia de
vulnerabilidades: precárias condições de moradia, de trabalho, baixa escolaridade,
renda familiar insuficiente, indisponibilidade de serviços públicos básicos na região,

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sendo destaque a falta de atendimentos a saúde (ALMEIDA; SILVA, 2011;


AMANCIO et al., 2010; SIQUEIRA, 2015).
O hábito alimentar de um indivíduo é o principal determinante para a
manutenção de saúde. Atualmente os principais problemas de saúde estão
relacionados e são desencadeados por práticas alimentares inadequadas. A
carência acarretando deficiência de vitaminas e minerais e o excesso ao
desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), tais como, o
sobrepeso, obesidade, hipertensão arterial, colesterol alto, câncer (MOLINARI,
2017). E, cerca de 70% das causas de morte no Brasil são desencadeadas por
essas doenças, que atingem, principalmente, a população mais carente, devido a
sua maior exposição aos fatores de risco e ao menor acesso aos serviços de saúde
(MARIOSA et al., 2018; MOLINARI, 2017).
De acordo com a World Health Organization (WHO, 2003), os oito principais
fatores de risco para as DCNT são: tabagismo, alcoolismo, baixo consumo de frutas
e vegetais, sobrepeso e obesidade, hipertensão arterial sistêmica,
hipercolesterolemia, sedentarismo e diabetes mellitus. Além desses fatores, o nível
de escolaridade, o local e a situação da moradia também são fortes influências
sobre a prevalência das DCNT na população (BARROS et al., 2006).
Por serem enfermidades em geral de longa duração, estão entre as doenças
que mais demandam ações, procedimentos e serviços de saúde. Dessa forma
pesquisas de natureza populacional, são fundamentais, pois possibilitam o
monitoramento de ocorrências, para futuras elaborações de programas de
prevenção e promoção da saúde (BRASIL, 2005).
Sendo assim, o presente estudo teve como objetivo identificar o estado
nutricional e o consumo alimentar de famílias ribeirinhas, residentes no Pantanal
Sul-Mato-Grossense.

Metodologia
Trata-se de um estudo piloto descritivo, realizado com ribeirinhos de ambos
os sexos, com idade igual ou superior a 5 anos de idade, residentes em uma
comunidade tradicional localizada no Pantanal Sul-Mato-Grossense, na faixa de
fronteira, entre Brasil e Bolívia. Foram convidados a participar pelo menos um
integrante adulto de cada família. Os indivíduos com idade inferior a 5 anos de

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idade, gestantes e aqueles que apresentaram impossibilidades para realizar a


avaliação antropométrica (ex: amputados) não foram incluídos no estudo.
A coleta de dados ocorreu na própria comunidade durante o mês de fevereiro
de 2019. As entrevistas foram definidas a partir da disponibilidade de tempo do
participante, e tiveram duração média de 25 minutos por pessoa. Aplicou-se um
questionário semiestruturado a fim de coletar informações sobre: identificação
pessoal, sexo, estado civil, número de pessoas que moram no domicílio, valor
mensal gasto com alimentação, disponibilidade de alimento na propriedade, estado
de saúde e histórico familiar de doenças crônicas não transmissíveis.
O perfil do consumo alimentar das famílias foi verificado a partir da aplicação
do Marcador de Consumo Alimentar do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional
(SISVAN), no qual identificou a frequência alimentar de diferentes alimentos nos
últimos sete dias, sendo aplicado apenas nos indivíduos maiores de 18 anos de
idade. A frequência alimentar foi classificada de acordo com as recomendações do
novo Guia Alimentar para a população brasileira (Quadro 01). Sendo considerado
“satisfatório” ou “insuficiente” se a frequência de consumo dos alimentos in natura ou
minimamente processados se apresentou superior ou inferior, respectivamente, a
cinco dos sete dias da semana e “excessivo” se a frequência dos alimentos
processados e ultraprocessados for maior que cinco dias na semana.

Quadro 01 – Classificação dos alimentos e recomendações do Guia Alimentar


para a população brasileira versão 2014.
Classificação por Grau de Processamento Recomendações
Alimentos In natura ou minimamente Devem ser a base da alimentação
processados
Ex: Legumes; verduras; frutas; sucos de frutas e sucos pasteurizados sem adição de outras
substâncias; raízes, tubérculos e cereais; leguminosas; oleaginosas sem sal ou açúcar; especiarias e
ervas frescas ou secas; carnes e pescados; leite; iogurte natural; ovos e água potável.

Alimentos Processados Devem ter um consumo Limitado


Ex: Alimentos preservados em salmoura ou em solução de sal e vinagre; extratos de tomate; frutas
em calda e cristalizadas; carne seca e toucinho; sardinha e atum enlatados; queijos;

Alimentos Ultraprocessados Devem ser Evitados


Ex: Biscoitos, sorvetes, balas e guloseimas em geral; sopas, macarrão e temperos ‘instantâneos’;
salgadinhos “de pacote”; refrescos e refrigerantes; iogurtes e bebidas lácteos adoçados; produtos
congelados e prontos para aquecimento; pizzas, hambúrgueres salsichas e embutidos; pães feitos
com gordura vegetal hidrogenada e outros aditivos.
Fonte: BRASIL, 2014.

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Para identificação do estado nutricional, o peso corporal (kg) foi aferido em


balança eletrônica digital de plataforma, portátil, calibrada, com capacidade máxima
de 200 kg. O participante foi orientado a se posicionar em pé, no centro da balança e
descalço. Para a verificação da estatura (m) foi utilizado um estadiômetro portátil
com amplitude de uso de 100 cm até 210 cm. No momento da aferição os
participantes encontravam-se descalços, em posição ereta, com os braços
estendidos ao longo do corpo; os calcanhares e ombros em contato com o aparelho;
e a cabeça, de acordo com Plano de Frankfurt, posicionada de modo a exibir o maior
eixo que se possa traçar do crânio. A medida da circunferência da cintura (CC),
traçada apenas na população adulta, foi determinada com o auxílio de uma fita
métrica flexível, na região abdominal mais estreita entre o tórax e o quadril no ponto
médio entre a última costela e a crista ilíaca, sendo a leitura realizada no momento
da expiração. A medida da CC foi utilizada como preditor de risco aumentado para o
desenvolvimento de doenças metabólicas, pela classificação da obesidade
abdominal. Os pontos de corte para CC elevada, em adultos, foi de ≥ 94 cm para
homens e ≥ 80 cm para mulheres (WHO, 2000).
A partir das medidas de peso corporal e estatura determinou-se o Índice de
Massa Corporal (IMC), que corresponde ao peso atual (kg) dividido pela estatura²
(m). Os adultos e os idosos foram classificados de acordo com as recomendações
da World Health Organization (WHO, 1995) e da Organización Panamericana de la
Salud (OPAS, 2002) (Quadro 02). As crianças e os adolescentes foram classificados
de acordo com os índices de Estatura para Idade (E/I) e IMC para idade (IMC/I)
conforme os pontos de corte da World Health Organization (WHO, 2006) (Quadro
03).

Quadro 02. Classificação do estado nutricional de adultos e idosos segundo o


Índice de Massa Corporal.
ADULTOS IDOSOS
2
IMC (kg/m ) Classificação IMC (kg/m²) Classificação
< 16,0 Magreza grau III <23 Baixo Peso
16,0 – 16,9 Magreza grau II 23-27,9 Normal
17,0 – 18,4 Magreza grau I 28 – 29,9 Sobrepeso
18,5 – 24,9 Eutrofia ≥ 30 Obesidade
25,0 – 29,9 Sobrepeso
30,0 – 34,9 Obesidade grau I

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35,0 – 39,9 Obesidade grau II


≥ 40,0 Obesidade grau III

Fonte: World Health Organization (WHO, 1995); Organización Panamericana de la Salud (OPAS,
2002).

Quadro 03. Pontos de corte para classificação de estado nutricional de crianças e


adolescentes.
Ponto de Corte Índices antropométricos
Escore – Z IMC para Idade (IMC/I) Estatura para idade (E/I)
< -3 Muito baixo IMC para a idade Muito baixa estatura para idade
≥ -3 < 2 Baixo IMC para a idade Baixa estatura para idade
≥-2e≤+1 Vigilância para baixo IMC para a
idade
>+1e≤+2 IMC adequado para idade Estatura adequada para a idade
>+1e≤+2 Vigilância para IMC elevado para a
idade
>+ 3 Excesso de peso
Fonte: World Health Organization (WHO, 2006).

Todos os dados foram digitados em planilha eletrônica do software Excel do


Oficce Microsoft 2010 para a realização da análise estatística descritiva. Os dados
foram apresentados em Média, Desvio Padrão e Frequência absoluta e relativa.

Resultados
Participaram do estudo 26 ribeirinhos, integrantes de nove famílias, sendo 10
(38,5%) do sexo feminino e 16 (61,5%) do sexo masculino. E, desse total, 13
(50,0%) eram crianças e adolescentes; 12 (46,2 %) adultos; e um (3,8%) idoso
(Tabela 01). A idade mínima e máxima entre os participantes foi de 6,5 e 66,4 anos
de idade, respectivamente, com uma média de 24 ± 14,8 anos. O número médio de
pessoas que moram na casa da família foi de 5,6 ± 2,2 integrantes, sendo composta
por pai, mãe, filhos (as), esposo (a) e irmãos. Foi verificado que 7 (63,6%)
participantes possuíam filhos, com média de 4,6 ± 3,9 filhos por família.
A aquisição de alimentos da zona urbana é realizada pela maioria das
famílias num intervalo de 60 dias, o menor e maior valor gasto com a compra dos
gêneros alimentícios nesse período foi de R$ 350,00 e R$ 1000,00 reais,
respectivamente.

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Tabela 01. Número total dos ribeirinhos participantes por sexo e fase de vida.
Corumbá, 2019.
Sexo T F M
n (%) n (%) n (%)
Total 26 (100) 10 (38,5) 16 (61,5)
Crianças e Adolescentes 13 (50) 5 (38,5) 8 (61,5)
Adultos 12 (46,2) 5 (41,7) 7 (58,3)
Idosos 1 (3,8) 0 1 (100)
T= total de participantes; F= Sexo Feminino; M=Sexo Masculino.

Em relação a disponibilidade de alimentos na própria comunidade, todos os


participantes relataram produzir alimentos na sua propriedade para consumo
próprio. Os principais alimentos cultivados foram: mandioca, abóbora, cebolinha,
pimentão, tomate, milho, banana da terra, banana 3 quinas, mamão, goiaba,
melancia e manga.
Quando questionados sobre o estado de saúde individual, foi identificado
entre os adultos e idosos, que 5 (38,5%) apresentavam doenças diagnosticadas pelo
médico, dentre elas: hipertensão arterial sistêmica (HAS), colesterol alto e rinite. Em
relação ao histórico familiar de doenças crônicas não transmissíveis, 11 (84,6%)
confirmaram que o pai, a mãe e/ou avós apresentavam alguma dessas doenças:
HAS, colesterol alto, diabetes mellitus (DM) e doença arterial coronariana (DAC).
Pela classificação do IMC pode-se constatar que a maioria dos ribeirinhos, 16
(61,5%), encontravam-se eutróficos; 8 (30,8%) acima do peso; e 2 (7,7%)
apresentaram baixo peso. Foi verificado entre os adultos maior prevalência de
excesso de peso entre as mulheres, com uma média de IMC de 36,3 ± 9,7 kg/m².
Assim como o risco para desenvolvimento de doenças metabólicas pela CC elevada,
identificado apenas nas ribeirinhas do sexo feminino, com uma média de 109 ± 24
cm. Dois adultos se negaram a realizar a avaliação da CC, sendo um do sexo
masculino e outro feminino. O baixo peso foi identificado em dois participantes,
sendo um adulto e outro adolescente, integrantes da mesma família (Tabela 2).

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Tabela 02. Estado nutricional de ribeirinhos adultos e idosos de uma


comunidade no Pantanal Sul-Mato-Grossense de acordo com a classificação
do índice de massa corporal e risco metabólico por sexo. Corumbá, 2019.
Estado Nutricional T F M
n (%) ME ± DP n (%) ME ± DP n (%) ME ± DP
IMC (kg/m²)
Baixo Peso 1 (7,7) 16,3 0 0 1 (12,5) 16,3
Eutrofia 6 (46,2) 23,5 ± 1,2 1 (20) 21,14 5 (62,5) 23,9 ± 0,6
Acima Peso 6 (46,2) 33,4 ± 8,7 4 (80) 36,3 ± 9,7 2 (40) 27,6

Risco Metabólico
pela CC (cm)
Sem Risco 8 (72,7) 78,1 ± 9,1 1 (25) 70 7 (100) 79,2 ± 9,2
Com Risco 3 (27,3) 109 ± 24,5 3 (75) 109 ± 24,5 0 0
T = total de participantes; ME = média; DP = desvio padrão; F = Sexo Feminino; M = Sexo Masculino.

Entre as 13 crianças e adolescentes avaliados, 10 (76,9%) estavam


eutróficas, 2 (15,4%) apresentaram vigilância para IMC elevado para a idade e 1
(7,7%) apresentou baixo IMC para a idade. Foi identificado que a criança e o
adolescente que apresentaram peso elevado são integrantes da mesma família, que
apresentou excesso de peso e risco para desenvolvimento de doenças metabólicas
entre os adultos. Em relação à estatura para idade foi verificado que 12 (92,3%)
crianças e adolescentes estão adequados, no entanto um adolescente apresentou
baixa estatura para a idade (Tabela 03).

Tabela 03. Estado nutricional de crianças e adolescentes ribeirinhos de uma


comunidade no Pantanal Sul-Mato-Grossense de acordo com a classificação
do índice de massa corporal para idade e estatura por idade por sexo.
Corumbá, 2019.
Estado T ME ± DP F ME ± DP M ME ± DP
Nutricional N (%) N (%) N (%)
IMC (kg/m²)
Baixo Peso 1 (7,7) 17,9 0 0 1 (12,5) 17,9
Adequado 10 (76,9) 19,9 ± 2,7 4 (80) 21,1 ± 3,4 6 (75) 19 ± 2,1

Elevado 2 (15,4) 20,5 ± 3,1 1 (20 22,6 1 (12,5) 18,3

E/I(cm)
Baixa 1 (7,7) 154 0 0 1 (12,5) 154
Adequada 12 (92,3) 153,6 ± 15,7 5 (100) 153 ± 18,3 7 (87,5) 155 ± 14,9

T = total de participantes; ME = média; DP = desvio padrão; F = Sexo Feminino; M = Sexo Masculino;


E/I= estatura para idade.

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De acordo com a aplicação do marcador de consumo alimentar foi identificado


que a frequência alimentar semanal de famílias ribeirinhas se encontra insuficiente e
com pouca variedade dos grupos de alimentos protetores à saúde (Tabela 04).

Tabela 04- Frequência alimentar semanal de famílias ribeirinhas residentes em


uma comunidade no Pantanal Sul-Mato-Grossense. Corumbá, 2019.
Consumo alimentar nos Não 1 2 3 4 5 6 7
últimos 7 dias comeu dia dias dias dias dias dias dias
GRUPO DE ALIMENTOS n (%) n (%) n (%) n (%) n (%) n (%) n (%) n (%)

1. Vegetal cru (alface, 12(92,3) 1(7,7) 0 0 0 0 0 0


tomate, cenoura,
repolho...).

2. Legumes e verduras 3(23,1) 3(23,1) 5(38,5) 2(15,4) 0 0 0 0


cozidas
(couve, abóbora,
chuchu...)

3. Frutas frescas 5(38,5) 0 2(15,4) 4(30,8) 0 0 0 2(15,4)

4. Feijão 1(7,7) 0 2(15,4) 2(15,4) 2(15,4) 1(7,7) 0 5(38,5)

5. Leite ou iogurte 7(53,8) 1(7,7) 2(15,4) 2(15,4) 0 0 0 1(7,7)


natural

6. Batata frita, batata de 9(69,2) 1(7,7) 1(7,7) 1(7,7) 0 0 0 1(7,7)


pacote e salgados fritos.

7. Hambúrguer e 9(69,2) 4(30,8) 0 0 0 0 0 0


embutidos (salsicha,
mortadela, salame,
presunto, linguiça...).

8. Bolachas/biscoitos 7(53,8) 1(7,7) 2(15,4) 2(15,4) 0 0 0 1(7,7)


salgados ou salgadinhos
de pacote.

9. Bolachas/biscoitos 7(53,8) 1(7,7) 2(15,4) 2(15,4) 1(7,7) 0 0 0


doces ou recheados,
doces balas e chocolate.

10. Refrigerantes 5(38,5) 5(38,5) 1(7,7) 0 0 0 0 2(15,4)

TOTAL: 13 ribeirinhos
n= número de participantes.

Entre os alimentos protetores, in natura e minimamente processados, que


contemplam os grupos alimentícios 1, 2 e 3 e devem ser à base da nossa
alimentação, 12 (92,3%) integrantes responderam que as famílias não consumiram

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nenhum dia da semana os alimentos do grupo 1; e um participante relatou o


consumo desses alimentos em apenas um dia da semana.
Em relação ao grupo 2, 5 (38,5%) participantes relataram o consumo de dois
dias na semana; no entanto ao identificar qual o legume ou verdura cozida se
referiam foram verificado o consumo apenas da abóbora e mandioca. Essa última
não podendo ser considerada nesse grupo pelo seu valor nutricional.
Apenas dois participantes relataram o consumo diário de frutas do grupo 3; 4
(30,8%) consumiram três dias na última semana; e 5 (38,5%) não comeram nenhum
dia. Entre as frutas relatadas destacaram-se a goiaba, manga, laranja e melancia.
Um indicador positivo foi o consumo de feijão, do grupo 4: 5 (38,5%) dos
participantes relataram ter consumido todos os dias da semana a leguminosa. Já os
alimentos lácteos do grupo 5, 7 (53,8%) não consumiram nenhum dia da semana;
Apenas um participante relatou consumo todos os dias.
Entre os alimentos processados e ultraprocessados, grupos 6, 7, 8, 9 e 10
verificou-se que, 9 (69,2%) participantes não consumiram nenhum dia da semana,
os alimentos dos grupos 6 e 7; e 7 (53,8%) os grupos de alimentos 8 e 9. Sendo
relatado pelos ribeirinhos ser muito difícil o acesso a esses alimentos.
Já em relação ao grupo 10, a maioria relatou o consumo de refrigerantes pelo
menos uma vez na semana; e dois participantes consumiram todos os dias da
semana.

Discussão
São poucos os estudos referentes ao estado nutricional e consumo alimentar
de famílias ribeirinhas especialmente do Pantanal Sul-Mato-Grossense. O presente
trabalho permitiu identificar maior prevalência de excesso de peso e risco de
doenças metabólicas pela CC entre as mulheres, resultado semelhante ao estudo
realizado com outras populações ribeirinhas no Brasil (BEZERRA et al., 2018). No
estudo de Mariosa et al. (2018) também foi verificado que os ribeirinhos do sexo
feminino, com idade acima de 40 anos, apresentaram maior risco para o
desenvolvimento de Hipertensão Arterial Sistêmica.
Em relação ao consumo alimentar, apesar de todos os ribeirinhos adultos
terem relatado o cultivo e disponibilidade de alguns legumes, vegetais e frutas na
propriedade, a frequência de consumo desses alimentos foi inferior a 3 vezes na
semana. O estudo de Costa et al. (2016) realizado em outra comunidade ribeirinha

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do Pantanal Sul-Mato-Grossense, localizada no Passo do Lontra, também identificou


o baixo consumo dos hortifrutis entre os participantes, sendo relatado pelos mesmos
que as condições ambientais, financeiras e o difícil acesso são os principais fatores
que justificam esse resultado. De acordo com a Organização Mundial de Saúde a
ingestão diária de frutas e hortaliças deve ser de pelo menos 400 gramas, o que
equivale, aproximadamente, ao consumo de cinco ou mais porções diárias de
frutas e hortaliças. Esse consumo deveria ocorrer em cinco ou mais dias da
semana (WHO, 2003).
Em contrapartida como marcador de alimentação não saudável entre os
ribeirinhos, o consumo do ultraprocessado “refrigerante” se apresentou excessivo,
principalmente nos indivíduos que apresentaram alteração no peso. No estudo de
Botelho et al. (2015) o consumo do refrigerante também foi identificado entre os
ribeirinhos de Coari/AM, durante o período da seca. De acordo com Bezerra et al.
(2018), o excesso de peso em famílias em insegurança alimentar é justificado pela
compra de alimentos mais baratos, industrializados, processados, ultraprocessados
e pobres nutricionalmente.
A comunidade ribeirinha pode ser considerada uma população em risco
nutricional, tanto pela falta de uma alimentação completa e variada, pelas baixas
condições socioeconômicas e sazonalidade dos alimentos na região quanto pela sua
localização distante da zona urbana.

Conclusão
A maioria dos ribeirinhos avaliados, residentes no Pantanal-Sul-
Matogrossense, apresentou o estado nutricional adequado, no entanto foi prevalente
o excesso de peso e risco metabólico entre as mulheres. Assim como o histórico
familiar de doenças crônicas não transmissíveis na comunidade. Um alerta, pois o
peso acima do recomendado também foi identificado entre as crianças e
adolescentes integrantes das famílias diagnosticadas. Em contra partida também
foram identificados ribeirinhos com baixo peso, integrantes de uma mesma família.
Foi verificado que o consumo semanal de legumes e vegetais foi muito pouco
e insuficiente. As frutas frescas consumidas na semana são frutas da época, e se
depende não apenas da sazonalidade desses alimentos, mas das condições
climáticas no pantanal para usufruí-las.

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Todavia também foi identificado o consumo excessivo de alimentos


industrializados, com alto valor calórico, que deveriam ser evitados principalmente
entre os indivíduos com sobrepeso e obesidade, tal como, refrigerante.
Os expostos indicam a necessidade de estratégias de educação alimentar e
nutricional sustentável, e também de controle do peso corporal que possibilitem as
famílias ribeirinhas do Pantanal a construírem hábitos alimentares mais saudáveis
dentro do seu contexto ambiental, cultural e socioeconômico, levando promoção da
saúde e melhorando a qualidade de vida na comunidade.

Referências

ALMEIDA, M. A.; DA SILVA, C. J. As comunidades tradicionais pantaneiras Barra de


São Lourenço e Amolar, Pantanal, Brasil. História e Biodiversidade. v. 1, n 1. 2011.

AMÂNCIO, C. O. G.; COSTA, K. P. C.; ARRUDA, P.; ZERLOTTIS, P. Zoneamento


Socioeconômico da população ribeirinha do Pantanal: Comunidade do Castelo,
Corumbá/MS, 2010.

BARROS, M. B. A.; CÉSAR, C. L. G.; CARANDINA, L.; TORRE, G. D.


Desigualdades sociais na prevalência de doenças crônicas no Brasil, PNAD – 2003.
Ciência & Saúde Coletiva, v. 11 n. 4, p. 911-926, 2006.

BEZERRA, D. P.; SILVA, D. G. K. C.; SILVA, J. P. C. Perfil nutricional e consumo


alimentar de pescadores. J Health Sci Inst, Santa Cruz – RN, v. 36, n. 1, p. 129 –
135, 2018.

BOTELHO, W. C. G.; FALCÃO, C. M.; CUSTÓDIO, T. V. O.; GRIJÓ, E. L. Avaliação


do hábito alimentar nos diferentes regimes de chuvas (vazante e cheia) das famílias
residentes na comunidade São José do Saúba no Município de Coari- AM. Saber
Científico, Porto Velho, v.4, n.1, p. 34 – 39, jan/jun, 2015.

BRASIL. Ministério da Saúde. A vigilância, o controle e a prevenção das doenças


crônicas não transmissíveis: DCNT no contexto do Sistema Único de Saúde
brasileiro / Brasil. Ministério da Saúde – Brasília: Organização Pan-Americana da
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SAÚDE MENTAL DE MILITARES NA FRONTEIRA BRASIL-BOLÍVIA: UMA


REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
Military Mental Health on the Brazilian-Bolivian Border: a Bibliographic Review
Salud Mental de Militares en la frontera Brasil-Bolivia: una Revisión Bibliográfica

Isabela Faria Berno


Júlio Ricardo França
Vanessa Catherina Neumann Figueiredo

Resumo: Os militares que trabalham na região fronteiriça Brasil-Bolívia vivenciam


pressão constante de treinamento, tensão e sobrecarga ao atuarem em diferentes
operações de Segurança Nacional, além das peculiaridades institucionais das
organizações militares. Este artigo objetiva identificar a produção científica sobre
saúde mental de militares na fronteira Brasil-Bolívia. Por meio de uma revisão
integrativa na literatura utilizando os descritores: “saúde mental” e “militares” na base
de dados SciELO, sem corte temporal. Sete pesquisas encontradas foram
categorizadas de acordo com os coletivos de trabalho. Os estudos indicaram a
ocorrência de transtorno mental comum, transtorno mental e comportamental,
doenças como etilismo, tabagismo e presenteísmo. Salienta-se que a escassez de
estudos sobre as vivências subjetivas no trabalho das forças armadas que atuam
nas fronteiras do país demonstra a urgência da realização de mais pesquisas que
possam contribuir para o desenvolvimento de uma assistência psicológica e
manutenção da qualidade de vida desses profissionais.
Palavras-chave: militares, saúde mental, fronteira, forças armadas, psicodinâmica
do trabalho.

Abstract: Military personnel working in the Brazilian-Bolivian border region


experience constant pressure from training, stress and overload in different National
Security operations, beyond the institutional peculiarities of military organizations.
This article aims to identify the scientific production on mental health of military
personnel on the Brazil-Bolivia border. Through an integrative review in the literature
using the descriptors: “mental health” and “military”; in the SciELO database, without
time cut. Seven researches found were categorized according to the collective work.
The studies indicated the occurrence of common mental disorder, mental and
behavioural disorder, illnesses such as alcoholism, smoking, and present-day
smoking. It should be stressed that the lack of studies on subjective experiences in
the work of the armed forces operating on the country’s borders demonstrates the


Graduada em Psicologia. Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. E-mail:
isabelafberno@gmail.com

Graduado em Enfermagem, mestre em Estudos Fronteiriços. Marinha do Brasil. E-mail:
enf.infecto.j@gmail.com

Graduada em Psicologia, mestre em Sociologia, doutora em Saúde Coletiva. Universidade Federal
do Mato Grosso do Sul. E-mail: vanessa.figueiredo@ufms.br

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urgency of carrying out more research that can contribute to the development of and
maintenance of the quality of life of these professionals.
Key- words: military personnel, mental health, border, armed forces,
psychodynamics of work.

Resúmen: Los militares que trabajan en la región fronteriza Brasil-Bolivia


experimentan presión constante de entrenamiento, tensión y sobrecarga al actuar en
diferentes operaciones de Seguridad Nacional, además de las peculiaridades
institucionales de las organizaciones militares. Este artículo tiene como objetivo
identificar la producción científica sobre salud mental militar en la frontera Brasil-
Bolivia. A través de uma revisión integradora utilizando los descriptores: “salud
mental” y “militar” en la base de datos SciELO, sin corte temporal. Categorizaron
siete investigaciones según los grupos de trabajo. Los estudios indicaron la
ocurrencia de trastornos mental común, trastornos mental y conductual,
enfermedades como alcoholismo, tabaquismo y presentismo. Se destaca que la
escasez de estudios sobre las vivencias subjetivas del trabajo de las fuerzas
armadas que operan en las fronteras del país demuestra la urgencia de realizar más
investigaciones que puedan contribuir al desarrollo de una asistencia psicológica y
mantenimiento de la calidad de vida de estos profesionales.
Palabras clave: personal militar, salud mental, frontera, fuerzas armadas,
psicodinámica del trabajo.

Introdução
O atual cenário político nas américas coloca em primeiro plano a questão da
Segurança Nacional nas fronteiras territoriais, evidenciando tanto no Brasil quanto
nos Estados Unidos a adoção de políticas externas calcadas na ideologia
armamentista, pronta a acionar as forças armadas no caso de conflitos em suas
fronteiras com a Venezuela e com o México, respectivamente. Atualmente, o Brasil
possui um contingente operacional de segurança na faixa de fronteira de 87
organizações militares (OMS) do exército, 14 OMS da marinha e 38 OMS da
aeronáutica (NUNES, 2018; BRASIL, 2012 ) para cobrir um território de
aproximadamente 17.000 km.
No que tange à fronteira Brasil-Bolívia, a sua extensão de 3.423 km envolve
quatro estados, estando delimitado o Mato Grosso do Sul pelos municípios
brasileiros de Corumbá e Ladário, localizados no Pantanal Sul, e a Bolívia pelas
cidades de Puerto Quijarro e Puerto Suarez (FIGUEIREDO; COSTA; PAULA; 2011).
Por sua vez, as forças armadas que atuam na região são referentes ao Comando do
6º Distrito Naval (Marinha do Brasil) de Ladário, ao Comando da 18º Brigada de
Infantaria de Fronteira e ao 17º Batalhão de Fronteira (Exército Brasileiro) de

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Corumbá, sendo que até julho de 2019 duas operações tinham sido noticiadas e
executadas na região.
Em fevereiro, sob a coordenação do 6° Distrito Naval e com o apoio de vários
órgãos da região, a Marinha do Brasil (MB) e o Exército Brasileiro (EB) iniciaram a
Operação Ágata VIII na fronteira de Corumbá com a Bolívia, com o intuito de
aumentar e intensificar as fiscalizações de combate e repressão aos delitos
transfronteiriços, como o tráfico de pessoas, drogas, armas e munições, evasão de
divisas, além dos crimes ambientais. (CABRAL, 2019). Já em maio de 2019 foi
noticiado o alcance da operação Ágatha Pantanal VIII, por meio da qual foram
realizadas 1.270 vistorias em veículos terrestres e embarcações fluviais em
Corumbá, Bodoquena, Ladário e Porto Murtinho, cidades do estado de Mato Grosso
do Sul, abrangendo aproximadamente 750 km de linha de fronteira. A operação
contou com a participação de cerca de dois mil militares da MB, do EB e de agentes
dos Órgãos de Segurança Pública e Fiscalização (CABRAL, 2019).
Conforme Gonzaga (2019), entre 12 e 22 de março de 2019 ocorreu em
Cáceres (MT) a operação Celeiro IV. Bem diferente do que a MB e o Corpo de
Fuzileiros Navais (CFN) estavam habituados a realizar, o treinamento efetuado em
uma área ribeirinha simulava uma operação de infiltração, utilizando aviões de
ataque e helicópteros da MB que apoiavam as tropas do CFN, embora a missão da
tropa nesses locais fosse a de proteger as instalações fluviais da Marinha, por meio
de pequenas unidades de fuzileiros em alguns rios de fronteira. Apesar do Brasil não
possuir nenhum tipo de problema com os países fronteiriços demarcados por
grandes rios ou mesmo pelo Pantanal (Argentina, Paraguai e Bolívia), para Gonzaga
(2019) o treinamento realizado provavelmente teria como alvo a Venezuela, cuja
fronteira é banhada por vários rios. Ainda, sobre tal acontecimento, a MB emitiu um
comunicado pronunciando que o referido treinamento estaria visando a operações
de infiltração e resgate de tropas, assim como atuação em casos de evacuação aero
médicas. O portal defesanet (2019) também notificou a operação Celeiro IV,
afirmando que na data de 22 de março de 2019 um ataque noturno realizado a alvos
terrestres teria ocorrido em pleno Pantanal Sul, próximo da fronteira do Brasil com a
Bolívia.
As atividades de Segurança Nacional nas fronteiras brasileiras são fonte de
pressão por treinamento, gerando tensão e apreensão diante dos riscos pessoais,
fatores estressores e sobrecarga vivenciada na efetivação das atividades

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ocupacionais. Estudos realizados em militares das forças armadas constataram a


associação entre o estresse no trabalho e a ocorrência de transtornos mentais
comuns (MARTINS; LOPES, 2012), assim como o consumo abusivo de álcool, tendo
como fatores significativos as condições de trabalho inapropriadas, o confinamento
por vários dias nos navios, locais apertados e abafados, submetidos a ruídos e
vibrações e a organização do trabalho insatisfatória (divisão do trabalho, tempo,
ritmo, duração da jornada e estrutura hierárquica), com submissão às normatizações
ditadas para o trabalho naval (prontidão para cumprir missões em dias e horários
variados, nos feriados e nos finais de semana, afastamento do meio social e familiar,
e movimentações para diferentes organizações navais no território nacional)
(HALPERN; LEITE, 2014).
Os trabalhadores das forças armadas, os militares da polícia militar, do corpo
de bombeiro e da polícia civil são regidos pelo cumprimento da disciplina e respeito
à hierarquia, devendo se submeter a ordens mesmo que sejam contraditórias ou em
desacordo com seus pensamentos e ideais. A obediência e a submissão ao poder
hierarquicamente estabelecido devem ocorrer em todas as circunstâncias de vida
dos militares da ativa, da reserva remunerada ou dos reformados, implicando em
sobrecarga física, cognitiva e emocional, dada a exigência da disponibilidade e
dedicação à instituição, à priorização do trabalho em detrimento das relações
familiares, aos riscos físicos e psicológicos e ao acúmulo de funções.
A organização prescrita do trabalho militar, caracterizada pela rigidez, divisão
do trabalho, conteúdo da tarefa, comando, relações de poder e responsabilidade,
não permite com que os ideais pessoais sejam postos em prática (DEJOURS, 2015),
constituindo um espaço favorável à servidão e ao adoecimento, dada a necessidade
subjetiva de aceitação e objetiva de um salário. A impossibilidade e os limites em
expressar e colocar em prática projetos e ideias individuais que nem sempre
caminham na mesma direção do preestabelecido pela instituição impede a livre
expressão da subjetividade e a ressignificação do sofrimento ocasionado pelas
pressões e desafios, limitando o uso da criatividade e o desenvolvimento.
De acordo com a Psicodinâmica do Trabalho (PDT), o trabalhador sempre irá
sofrer em decorrência de seu trabalho, porém, o sofrimento pode ser ressignificado e
transformado a partir do uso da inteligência prática (sofrimento criador), pois
fundamentado no uso da inventividade e da criatividade é possível o
desenvolvimento a partir do sofrimento, tornando-se importante para a construção

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da identidade do sujeito ao ser reconhecido na sua contribuição pelo coletivo


profissional. (DEJOURS, 1996). Todavia, o contrário também pode acontecer e o
trabalho acaba funcionando como mediador da fragilização da saúde, quando não
há mais espaço para liberdade e transformação (sofrimento patogênico),
aumentando com isso o risco de desestabilização psicossomática e uso de
estratégias coletivas defensivas (DEJOURS, 1996).
O sofrimento patogênico compactua com o silêncio e a retirada do
investimento subjetivo, tornando o trabalho robotizado, o que ao longo do tempo
instala e dessensibiliza para as patologias sociais compartilhadas e para os
adoecimentos.
[...] Nossa proposição é que esses sintomas estão na base da maior parte
das patologias do trabalho. O imperativo “a sua satisfação no trabalho será
plena e absoluta se atender à demanda a qualquer custo” subjaz a essas
patologias. A instauração dessas patologias vai, aos poucos,
enlouquecendo o sujeito que cala, sujeito sem fala, distante do trabalhar e
de uma existência ético-política. (MENDES, 2018, p.56)
Para Mendes (2018), a forma como a organização do trabalho se estrutura e
seu discurso capitalista colonial produz sintomas sociais como aceleração, virilidade,
servidão e a patologia da indiferença, criando efeitos colaterais como a
intensificação de formas neuróticas de funcionamento para se conseguir trabalhar de
acordo com a demanda solicitada.
A saúde mental para a PDT coloca-se entre a patologia e a normalidade, e
resulta dos modos como os sujeitos-trabalhadores reagem e agem frente ao
sofrimento originado nos constrangimentos impostos pela organização do trabalho.
O sofrimento é, paradoxalmente, o modo como o trabalhador consegue evitar a
patologia e ao mesmo tempo o modo como chega a ela.
O objetivo deste trabalho é identificar a produção científica sobre saúde
mental de militares na fronteira Brasil-Bolívia, por meio de uma revisão integrativa da
literatura sem corte temporal.

Metodologia
Foi realizada uma revisão integrativa da literatura sem corte temporal, o que
permitiu verificar o volume de produção e reconhecer os pesquisadores em
determinado assunto. Este método de pesquisa proporciona o aprimoramento e
atualização profissional.

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A coleta de dados foi realizada na base de dados Scientific Electronic Library


Online (SciELO) e buscou responder a seguinte questão norteadora: informações
referentes ao estado de saúde mental da classe de trabalhadores dos servidores
militares que atuam nas fronteiras brasileiras. Utilizando-se os seguintes descritores:
“militares”, “saúde mental” e “fronteira”. Porém, como não se constatou nenhum
artigo com todos os descritores estabelecidos, optou-se pela análise da questão
norteadora que buscou artigos sobre saúde mental da classe de trabalhadores dos
servidores militares, a partir dos descritores: “militares” e “saúde mental”.

Figura 1. Diagrama de fluxo dos artigos encontrados na base Scielo.


• Para a coleta dos artigos, utilizou-se inicialmente o descritor
"militares" sendo encontrados 44 artigos.

• Ao inserir os descritores "militares" e "saúde mental" foram


localizados 09 artigos. Tendo sido 02 artigos excluídos por não
tratarem coletivos de trabalho específicos de militares.

• Ao incluir o descritor “fronteira" na busca não foi encontrado


nenhum artigo.

Fonte: Diagrama produzido pelos autores para descrever a coleta dos artigos na base de dados.

Para realizar a etapa de análise e resultados obtidos, os artigos foram lidos na


íntegra e analisados para posteriormente serem agrupados de acordo com o grupo
de trabalhadores.

Resultados e Discussão

Os artigos foram analisados e agrupados de acordo com o grupo de coletivo


de trabalho, conforme ilustra a tabela 1.

Tabela 1: Publicações resultante da pesquisa bibliográfica com os descritores


“militares” e “saúde mental” na base de dados Scielo sem corte temporal.
Coletivo Periódico
Títulos Autores Objetivos Método de (vol., nº,
Trabalho pág., ano)

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Estudar a
prevalência de
Prevalência de Transtorno Mental e
transtorno mental Comportamental em Psicologia:
LIMA, F. P; Estudo
e comportamental Policiais Militares em Ciência e
BLANCK, V. epidemiológico
em policias Licença para Polícia Profissão,
L. G; descritivo de
militares/SC, em Tratamento de Militar Brasília, v.35,
MENEGON, corte
licença para Saúde (LTS), da n.3, p.824-
F. A. transversal.
tratamento de região metropolitana 840, 2015.
saúde de Florianópolis/SC,
casos notificados
pela Junta Médica.
Investigar os dados
sobre as relações
entre a organização
do trabalho da Estudo de
Soc. São
O processo de Polícia Militar e a caráter
SILVA, M. B. Paulo, São
trabalho do militar Saúde Mental de qualitativo do Polícia
da; VIEIRA, Paulo, v.17, n.
estadual e as seus profissionais tipo Militar
S. B. 4, p.161-170,
saúde mental quando no exercício exploratório-
2008.
de sua atividade fim descritivo
(policiamento
ostensivo) na cidade
de João Pessoa-PB
Uso de tabaco e
álcool, Analisar as
comportamento frequências de uso
sexual e de tabaco e álcool,
transtornos comportamento São Paulo
PEREZ, A. Estudantes
mentais comuns sexual e transtornos Estudo Med J, São
de M.; militares da
entre estudantes mentais comuns observacional, Paulo, v.133,
BENSEÑOR, Academia
militares na entre estudantes transversal n.3, p.235-
I.M. de Polícia
Academia de militares de acordo 244, 2015.
Polícia, São com gênero, ano,
Paulo, Brasil. Um grau e a duração da
estudo vida militar.
transversal
Fatores Identificar a
AZEVEDO, Rev. bras.
associados ao prevalência do uso
D. S. da S. Pesquisa Epidemiol,
uso de de ansiolíticos e
de; LIMA, E. transversal de Bombeiros Rio
medicamentos conhecer os fatores
de P.; base militares Grande, v.22,
ansiolíticos entre associados ao
ASSUNÇÃO, censitária E190021, jul.
bombeiros consumo em
A. da A. 2019.
militares bombeiros militares.
Estimar a
Prevalência de Jovens
prevalência de
transtornos brasileiros
transtornos mentais Ciência &
mentais comuns recém-
comuns (TMC) e Saúde
em jovens MARTINS, Estudo de incorporado
identificar os fatores Coletiva, Rio
brasileiros recém- L.C.X.; desenho s ao
a estes associados de Janeiro,
incorporados ao KUHN, L. seccional serviço
em jovens brasileiros v.18, n.6, p.
Serviço Militar militar
recém-incorporados 1809-1816,
Obrigatório e obrigatório:
ao serviço militar 2013.
fatores os recrutas.
obrigatório: os
associados
recrutas.

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Investigar o papel
das crenças de auto-
Auto-eficácia
eficácia como Cad. Saúde
como mediadora Cadetes
mediadora da Pública, Rio
da relação entre o SOUZA, L. militares da
relação entre o bem- Pesquisa de Janeiro, v.
bem-estar A. S. de. et polícia e
estar subjetivo e quantitativa 30 n.11, p.
subjetivo e saúde al. dos
saúde geral de 2309-2319,
geral de cadetes bombeiros.
cadetes militares 2014.
militares
(polícia e
bombeiros).
Fatores Analisa quanti-
Estudar a qualidade Cad. Saúde
associados ao tativamente de
de vida e as Pública, Rio
sofrimento parte dos
SOUZA, E. condições de saúde Polícia de Janeiro,
psíquico de dados de uma
R. de, et al. e de trabalho dos militar v.28, n.7,
policiais militares pesquisa de
policiais militares do p.1297-1311,
da cidade do Rio corte
Rio de Janeiro 2012.
de Janeiro, Brasil. transversal
Fonte: Produzido pelos autores a partir dos dados coletados dos artigos selecionados na busca
eletrônica.

Como a tabela 1 ilustra, cada artigo corresponde a variados autores, das


regiões sul, sudeste e nordeste brasileiro, a maioria dos artigos refere-se ao coletivo
de trabalho da polícia militar, um concerne exclusivamente aos bombeiros militares e
outro engloba cadetes (militares em formação para se tornarem oficiais) da polícia e
dos bombeiros. Pode-se notar também que apenas um artigo pesquisado diz
respeito ao coletivo de trabalho das forças armadas, o que trata sobre os recrutas.
Visualiza-se que os artigos em sua maioria são recentes e se concentram nos anos
de 2012 a 2015.
Sobre a relação entre saúde mental e trabalho, o artigo sobre os policiais
militares licenciados da região metropolitana de Florianópolis-SC constata o
sofrimento psíquico, sendo verificado o diagnóstico de Transtornos Neuróticos
relacionados ao estresse e somatoformes, seguidos por Transtornos do Humor e
episódios depressivos. Segundo Lima, Blank e Menegon (2015, p.833), “O
sofrimento psíquico está diretamente relacionado à saúde mental destes
profissionais, às condições de trabalho relacionadas ao constante estado de alerta e
a disponibilidade às situações de riscos que a profissão exige”. Outra constatação
do estudo foi a correlação entre o número de licenças e a hierarquia, observando
que quem mais se afasta devido ao adoecimento psíquico são a classe de praças.
Já o segundo artigo busca relacionar a organização da polícia militar de João
Pessoa-PB com a saúde mental dos profissionais policiais. O fato de a polícia militar
se basear na hierarquia e na disciplina colabora na resistência à mudança e faz com
que a instituição esteja preparada para a guerra. Segundo Silva e Vieira (2008),
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essa forma de estruturação do trabalho aliada às particularidades da função de


policial – exposição constante ao risco de morte – e à organização do trabalho –
precarização, sobrecarga, falta de capacitação e desproporção salarial – fazem com
que os policiais sejam uma categoria vulnerável a terem sua saúde mental
comprometida.
Perez e Benseñor (2015) analisaram o uso de tabaco e álcool, o
comportamento sexual e a ocorrência de Transtornos Mentais Comuns (TMC) na
população de estudantes da polícia militar de São Paulo, constatando a importância
da cultura militar no aumento do tabagismo e encorajamento do uso de álcool,
alertando também para a necessidade de prevenção para Doenças Sexualmente
Transmissíveis e TMC ao longo do curso. A constatação de que a cultura militar
aumenta o tabagismo e encoraja o uso do álcool pode ser interpretada para a PDT
como uma estratégia defensiva utilizada por esses profissionais para lidar com o
estresse laboral que a profissão exige, e até mesmo para corresponder à imagem
criada pelas crenças sociais, de que esses profissionais são heroicos, bravos e
corajosos.
Azevedo, Lima e Assunção (2019) verificaram a alta prevalência de uso de
ansiolíticos em bombeiros militares da cidade de Belo Horizonte -MG, sugerindo ser
tal uso devido ao fenômeno do presenteísmo, estratégia usada para comparecer ao
serviço apesar de algum problema físico ou psicológico. O uso de ansiolíticos pode
ser pensado como uma estratégia de defesa para se manter no trabalho, apesar do
sofrimento psíquico. Esse mecanismo defensivo, assim como o uso do álcool e
tabaco também pode ser analisado como uso da virilidade. Ele exprime uma das
formas encontradas por esse coletivo de trabalho para conseguir demonstrar que
“dão conta”, “aguentam”, e assim, mostrar-se forte e viril diante das intempéries do
trabalho.
A ocorrência de TMC nos jovens ingressantes no serviço obrigatório foi o
quinto estudo pesquisado. Os transtornos mentais comuns são diagnosticados
quando o indivíduo não preenche os critérios formais para diagnósticos de
depressão e/ou ansiedade, apresentando sintomas que trazem uma incapacidade
funcional comparável ou pior do que quadros crônicos, sendo uma das principais
causas de incapacidade (MARTINS; KUHN, 2013). O resultado encontrado pelos
autores mostrou uma prevalência de TMC de 43,6%, indicando razões de
prevalência de 4 a 5 vezes maiores entre os ingressantes que apresentavam

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distúrbios do sono – dificuldade para adormecer e acordar durante a noite e ter


dificuldade de voltar a dormir -, a prevalência de TMC também se apresentou bem
maior nos recrutas do que em jovens da população em geral. “Estes achados
parecem indicar que as situações vivenciadas pelos recém-ingressos podem estar
casualmente associadas à ocorrência de TMC”. (MARTINS; KUHN, 2013, p.1814)
O sexto artigo encontrado aborda a auto eficácia, uma crença que o indivíduo
tem em sua capacidade cognitiva, motivacional e afetiva de reunir recursos
comportamentais necessários para atingir um determinado objetivo ou para executar
uma tarefa. Souza et al (2014) afirmam que certas atividades de trabalho, devido às
suas características, expõem os indivíduos às várias contingências que podem levar
a um maior sofrimento físico e mental em comparação com outras profissões, sendo
este o caso dos policiais e bombeiros militares, que são colocados em risco de
violência e morte, além de lidarem com más condições de trabalho. Esses fatores
podem causar doenças específicas da ocupação, bem como determinar o estado de
saúde geral dos trabalhadores. Nesse contexto, a pesquisa buscou investigar o
papel das crenças de auto eficácia como mediadora entre o bem-estar subjetivo e a
saúde em geral dos cadetes militares da polícia e dos bombeiros. Os resultados
corroboraram com a hipótese inicial sobre a importância da auto eficácia no poder
preditivo de bem-estar sobre esse grupo.
O último artigo encontrado na revisão retoma uma pesquisa anterior realizada
pelos autores entre 2005 e 2007 com policiais militares do Rio de Janeiro, e analisa
dados socioeconômicos, sobre a saúde mental e trabalho, incluindo o sofrimento
psíquico, a qualidade de vida (moradia, capacidade de reagir a situações difíceis e
satisfação com a vida como um todo, apoio emocional, apoio de informação,
interação positiva, apoio material e apoio afetivo), as condições de saúde (atividade
física regular, colesterol, lesões permanentes causadas pelo trabalho, problema no
aparelho respiratório, problemas no coração e aparelho circulatório, problemas
digestivos, problema nos músculos, ossos e pele, problemas glandulares, problemas
no sistema nervoso, problemas no aparelho urinário, problemas de visão, audição e
fala, doenças transmissíveis e consumo de substâncias) e as condições laborais
(tempo de serviço, situação de vida após entrar na polícia, ser treinado para o
trabalho que executa, trabalhar além do horário, exercer outra atividade fora da
polícia, exercer atividade policial onde mora, relacionamento com as outras pessoas
do trabalho, percepção de risco, estresse no trabalho e vitimização). De acordo com

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Souza et al. (2012), o estudo constatou que fatores como capacidade de reagir a
situações difíceis, grau de satisfação com a vida, comprometimento da saúde física
e mental, carga excessiva de trabalho, exposição constante ao estresse e a
vitimização propiciam o desenvolvimento de sofrimento psíquico nos policiais
militares do Rio de Janeiro.
Considerando a teoria da PDT, observa-se que os resultados encontrados
pelas pesquisas acima mencionadas corroboram com a afirmativa de Dejours (2015)
de que a primeira vítima do sistema não é o aparelho psíquico; mas, sim, o corpo
dócil e disciplinado, entregue às dificuldades inerentes à atividade laborativa, visto
que quatro estudos constataram ocorrência do uso de tabagismo, etilismo e
ansiolíticos como forma de ´anestesiar´ e ´não pensar´ no cotidiano laboral. Pensar e
discorrer sobre esse silenciar do trabalhador é importante, porque ele representa
estratégias e mecanismos de defesa utilizadas, como a virilidade, pelos
trabalhadores para conseguir continuar seu ofício. Porém, a instalação dessas
estratégias coletivas pode decorrer em doenças, na propulsão de patologias sociais
(sobrecarga, servidão voluntária e assédio moral) e na anestesia do sofrimento ético,
o que acaba por comprometer ainda mais a saúde mental.
A maior parte das pesquisas ponderou sobre transtorno mental e
comportamental e transtorno mental comum e não buscou discorrer sobre a
subjetividade afetada, atendo-se à definição psicopatológica, somente mencionando
a relação dos coletivos ocupacionais com quadros subclínicos de ansiedade,
depressão e estresse. Porém, o uso de ansiolíticos, de tabaco e álcool não pode ser
dissociado da vivência em uma cultura organizacional que propaga a negação do
adoecimento e o presenteísmo a qualquer preço, observáveis no uso sem prescrição
de receitas de ansiolíticos ou na cultura de encorajamento do uso de álcool.

Considerações finais
Como demonstrado pelo resultado da pesquisa, a organização do trabalho
dos militares propicia o desenvolvimento de patologias como: transtornos neuróticos
relacionados ao estresse e somatoformes, psicossomáticos, do humor, depressivos,
de ansiedade, mentais e comportamentais relacionados ao uso de álcool,
relacionados ao tabaco e relacionados a sedativos, hipnóticos ou ansiolíticos.
De acordo com a PDT, o trabalho sempre é permeado pelo sofrimento, já que
nenhuma previsão contempla o real (LANCMAN; SZNELWAR, 2011), entretanto, a

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ocorrência do conflito entre a organização do trabalho e a subjetividade do servidor


militar não precisa necessariamente suceder em adoecimento, uma vez que o
sujeito é ativo na relação com as adversidades, pode mobilizar sua subjetividade e
ressignificar o sofrimento advindo do trabalho, dando um novo sentido e lugar para
ele em sua vida.
Para isso, é importante compreender a relação estabelecida entre as defesas
e estratégias coletivas utilizadas pelos militares frente a organização do trabalho das
forças armadas. No caso dos trabalhadores localizados na fronteira Brasil-Bolívia,
resta entender como acontece a especificidade da correspondência entre o estado
de prontidão, obediência ao quadro hierárquico, respeito à disciplina e a postura de
subserviência que coloca esse trabalhador disponível 24 horas para as pressões e
atividades prescritas pela organização do trabalho em função do risco de vida
presente nas operações de Segurança Nacional.
Levando em conta que os estudos no país com essa população específica,
militares que trabalham na fronteira do país, são escassos, e que a própria servidão
à hierarquia e à disciplina são fatores que podem comprometer o levantamento dos
dados, já que ser combativo e não aparentar fragilidade é uma das exigências
psicológicas para fazer parte das forças armadas, o resgate de informações
referentes ao estado de saúde mental da classe de trabalhadores dos servidores
militares que atuam na região da fronteira Brasil-Bolívia pode contribuir para a
elaboração-desenvolvimento de uma assistência psicológica e para a manutenção
da qualidade de vida.

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JORNALISMO ONLINE NA FRONTEIRA BRASIL-PARAGUAI: PERIFÉRICO E


TRANSNACIONAL
Online Journalism on the Brazil-Paraguay Border: Peripheral and Transnational
Periodismo Online en la Frontera Brasil-Paraguay: Periférico y Transnacional

Gesiel Rocha de Araújo

Resumo: A fronteira do Brasil com o Paraguai (Ponta Porã e Pedro Juan Caballero)
abriga sites de notícias que expressam as marcas fronteiriças mais viscerais: tensão,
conflito, contradição, improviso, amadorismo e narrativa do grotesco, mas também
cooperação, mescla social e cultural, intercâmbio informacional e esforço para
informar a qualquer custo. Dessa leitura inicial parte este trabalho, resultado de uma
pesquisa de campo em âmbito de mestrado que buscou compreender alguns
aspectos operacionais e editoriais desses veículos, tais como estrutura, modelos
empresariais e métodos de trabalho no contexto local e transnacional.
Palavras-chave: Jornalismo online, sites de notícias, imprensa fronteiriça, fronteiras
transnacionais, Brasil-Paraguai.

Abstract: The Brazil-Paraguay border (Ponta Porã and Pedro Juan Caballero) hosts
news sites which express the most visceral borderer marks: tension, conflict,
contradiction, improvisation, amateurism and grotesque narrative, but also
cooperation, social and cultural mixture, informational exchange and effort to inform
at any cost. This paper arises from such initial view, as a result of field research for a
master degree that sought to understand some operational and editorial aspects of
that border media, such as structure, business models and working methods in the
local and transnational context.
Key-words: Online journalism, news sites, border press, transnational borders,
Brazil-Paraguay.

Resumen: La frontera de Brasil con Paraguay (Ponta Porã y Pedro Juan Caballero)
alberga sitios de noticias que expresan las marcas de frontera más viscerales:
tensión, conflicto, contradicción, improvisación, amateurismo y narrativa de lo
grotesca, pero también la cooperación, la mezcla social y cultural, el intercambio de
información y el esfuerzo para informar a cualquier costo. Desde esta lectura inicial,
este trabajo es el resultado de una investigación de campo de maestría que intentó
comprender algunos aspectos operacionales y editoriales de estos medios
fronterizos, como la estructura, los modelos de negocios y los métodos de trabajo en
el contexto local y transnacional.
Palabras clave: Periodismo online, sitios de noticias, prensa fronteriza, fronteras
transnacionales, Brasil-Paraguay.


Doutorando do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (PPGCOM-UFRGS); integrante da Pesquisa Unbral Fronteiras, do Grupo de Pesquisa
Espaço, Fronteira, Informação e Tecnologia (GREFIT) e do Projeto de Extensão “Em dia com a
Pesquisa” (UFRGS); jornalista e mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Mato Grosso
do Sul (UFMS). E-mail: gesiel.pro@gmail.com.

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* Trabalho completo selecionado para publicação na Revista GeoPantanal, v. 14, n.


27, 2019.
https://periodicos.ufms.br/index.php/revgeo

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A EXPERIÊNCIA EM ESTÁGIO DOCÊNCIA EM GRADUAÇÃO I: A FORMAÇÃO


DO ESTADO, FRONTEIRAS E SUAS DINÂMICAS EM REDE

The Experience of the Undergraduate Teaching Internship I State Formation,


Borders and their Network Dynamics

La experiencia de la pasantía de enseñanza de pregrado I Formación estatal,


fronteras y su dinámica de red

Janaina Costa Teixeira

Paola Gomes Pereira 

Resumo: Esse artigo versa sobre a experiência do Estágio docência em graduação I


em que foram ministradas aulas da disciplina de Geografia Política para a turma de
1º semestre do curso de Relações Internacionais. No plano de estudos que
preparamos estavam previstos exercícios, debates sobre os temas propostos e
exposição de aspectos relevantes para o aprofundamento dos conceitos
fundamentais que dão o suporte teórico para a geopolítica e para a Geografia. Ao
longo de dois meses de elaboração de planos e aulas expositivas podemos fazer
algumas observações importantes para os estudos geográficos em relação ao
ensino e suas consequências na formação do pensamento crítico. Confeccionamos
práticas que nos auxiliaram a identificar padrões de entendimento e interação com
determinados tipos de informação, conjunto de argumentos e metodologias de
fixação de conhecimento. Por meio de conceitos como: Território, Estado, Fronteiras
e redes percebemos que a necessidade de produzir aprendizados a partir destas
categorias de análise nos propõem novos desafios; pois, a medida em que, os
espaços sociais tornam-se mais interligado por redes digitais e virtuais de
comunicação em distintas formas de poder. Por esse motivo, cabe a nós professores
fazermos a sistematização dessas interações: ora locais, ora extra locais, mas
sempre com um caráter dinâmico, no que tange às escalas territoriais e de suas
representações.
Palavras-chave: Ensino, Estágio docência, Conceitos fundantes em geografia.

Abstract: This article deals with the experience of the undergraduate teaching
internship I in which classes of Political Geography were taught for the first semester
of the International Relations course. The study plan we prepared included exercises,
debates on the proposed themes and exposure of relevant aspects for the deepening
of the fundamental concepts that provide the theoretical support for geopolitics and


Graduado bacharel e licenciada em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). Mestre e doutoranda em análise territorial pela mesma universidade. E-mail:
janart@terra.com.br

Graduada licenciada e bacharel em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul
(UFRGS). Mestre e doutoranda em ensino de Geografia pela mesma universidade. Mestre em
Educação ao ar livre pelas Universidades de Marburg (Alemanha), de Cumbria (Reino Unido). Mestre
pela Escola Norueguesa de Esportes (Noruega). E-mail: geografia.paola@gmail.com

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geography. Throughout two months of elaboration of plans and lectures we can


make some important observations for geographical studies in relation to teaching
and its consequences for the formation of critical thinking. We make practices that
help us identify patterns of understanding and interaction with certain types of
information, set of arguments and methodologies of knowledge fixation. Through
concepts such as: Territory, State, Borders and networks we realize that the need to
produce learning from these categories of analysis presents us with new challenges;
therefore, as social spaces become more interconnected by digital and virtual
communication networks in different forms of power. For this reason, it is up to us
teachers to systematize these interactions: sometimes local, sometimes extra local,
but always with a dynamic character, regarding the territorial scales and their
representations.
Key-words: Teaching, Internship, Fundamental concepts in geography.

Resúmen: Este artículo aborda la experiencia de la pasantía docente de pregrado I


en la que se impartieron clases de Geografía Política para la clase del primer
semestre del curso de Relaciones Internacionales. El plan de estudio que
preparamos incluyó ejercicios, debates sobre los temas propuestos y exposición de
aspectos relevantes para la profundización de los conceptos fundamentales que
brindan el soporte teórico para la geopolítica y la geografía. A lo largo de dos meses
de elaboración de planes y conferencias, podemos hacer algunas observaciones
importantes para los estudios geográficos en relación con la enseñanza y sus
consecuencias para la formación del pensamiento crítico. Realizamos prácticas que
nos ayudan a identificar patrones de comprensión e interacción con ciertos tipos de
información, conjunto de argumentos y metodologías de fijación del conocimiento. A
través de conceptos tales como: Territorio, Estado, Fronteras y redes, nos damos
cuenta de que la necesidad de producir aprendizaje a partir de estas categorías de
análisis nos presenta nuevos desafíos; por lo tanto, a medida que los espacios
sociales se vuelven más interconectados por redes de comunicación digital y virtual
en diferentes formas de poder. Por esta razón, depende de nosotros los profesores
sistematizar estas interacciones: a veces locales, a veces extra locales, pero
siempre con un carácter dinámico, con respecto a las escalas territoriales y sus
representaciones.
Palabras clave: Enseñanza, prácticas, conceptos fundamentales en geografía.

Introdução
A disciplina do Estágio docência em graduação I, realizado na Universidade
Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), no curso de pós-graduação em Geografia.
Por meio da disciplina de Geografia Política no primeiro semestre de 2019. Esse
destina-se ao desenvolvimento do pós-graduando nas práticas pedagógicas no
escopo do ensino no âmbito das geociências, análise territorial e socioeconômicas
relacionadas às ciências da Terra.

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Durante as quatro aulas ministradas são apresentados os conceitos


norteadores que dão significado aos temas tratados e auxiliam nos
encaminhamentos de análise e de qualificação por meio da avaliação dos
conhecimentos adquiridos. Nesse sentido, destaca-se a importância de ensinar
geopolítica com base em seus conceitos essenciais tais como: fronteira, Estado;
assim como a ideia de sistemas em rede, que influencia nas relações sociopolíticas
e econômicas em escalas micro e macro.
Procuramos, ao articular esses conceitos com os alunos, uma melhor
explanação das distintas realidades, as quais compõem o cenário geopolítico, a fim
de instrumentalizá-los. Com o intuito de que se tornem críticos sobre os distintos
processos de regionalização estruturados sobre um sistema de relações
sociopolíticas e culturais que geram estranhamentos geopolíticos.
No entanto, essa conjuntura de multiterritorialidades também permite as
trocas e oportunidades de outras formas de conviver em sociedade. Visando ao
fortalecermos os nossos argumentos buscamos referencial teórico que contribui para
o entendimento da proposta de ensino.
Apresentamos textos de Lia Osório Machado (1998), (2000), que trata tanto
dos conceitos de fronteiras quanto dos sistemas em rede de interconexões. Também
com uma profunda investigação sobre a sociedade da informação intercruzada pelos
avanços tecnológicos, Manuel Castells (1998) contribui para suscitar debates nas
aulas. A obra de Iná de Castro (2005) nos ajuda, na medida em que, a sua escrita
sobre a formação dos Estados nacionais, enquanto espaço de disputa de poder, no
contexto de sua evolução e importância na consolidação das sociedades modernas,
é essencial.
As autoras franco-belgas, Fabienne Leloup e Sylvie Considère (2017)
apresentam em seus trabalhos uma percepção mais contemporânea sobre as
representações fronteiriças. E acerca das novas multiterritorialidades propostas no
conceito de Borderscapes e de landescapes das autoras. Assim podemos contribuir
com as práticas de ensino na Geografia Política, pois, compartilhamos saberes e, ao
mesmo tempo, sermos influenciados por esses aprendizados.

Objetivos
Apresentar a experiência do Estágio Docência em graduação I, destacando a
importância do ensino do pensamento em Geografia Política e Geopolítica, visando:

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A compreensão dos principais conceitos e teorias para os estudos dos


problemas contemporâneos relativos às questões do território em seus contextos
nacionais e internacionais; planejar e aplicar aula de geopolítica no estágio docente;
definir referencial teórico de suporte; aplicar as práticas planejadas; avaliar como os
alunos aprenderam.

Metodologia
A metodologia deste trabalho visa a apresentação dos passos que deram
origem a esse artigo. O propósito de difundir o conhecimento dos conceitos
fundantes do pensamento geográfico e produzir uma discussão para além da sala
de aula. Compartilhar a metodologia aplicada e fazer reverberar impressões desse
campo de pesquisa, pouco difundido, que é a escrita acadêmica e científica, a partir
das trocas e experiências adquiridas nas práticas de aula.
Para compor esse artigo, partimos do plano de aulas que foi ministrada no
Estágio Docência em Graduação I, das aulas aplicadas nos dias 14/05, 21/05, 11/06
e 18/06 de 2019. E dos resultados obtidos a partir das aulas expositivas, dos
debates e respostas aos questionários e avaliação final.
O levantamento bibliográfico e a escolha das obras contaram com o auxílio da
titular desta disciplina professora Drª. Adriana Dorfman, que colaborou para a
elaboração do plano técnico e no refinamento dos textos selecionados. Partimos do
propósito de que trabalharíamos com alguns textos clássicos de base conceitual e
estrutural. Mas também, quisemos apresentar um olhar mais contemporâneo às
temáticas a macroestrutura do Estado-nação com foco nas relações internacionais.
Destacando as dinâmicas em redes tendo como exemplo: as diferentes
formas e usos de novas tecnologias, comunicação e a emergência de um
capitalismo informacional globalizado. Os textos forneceram embasamento teórico e
suporte na elaboração dos exercícios de debates. Além de operar como facilitadores
na escrita dos apontamentos pelos alunos.
Segmentadas em momentos de explanação e discussão sobre os principais
conhecimentos compartilhados, as aulas são uma proposta de construção coletiva,
por meio das análises sobre os conceitos de Estado e Fronteira, sua relevância para
as práticas políticas locais e globais na atualidade. Assim como, nas perspectivas
para o desenvolvimento da fronteira com o apoio do Estado no papel de um
interlocutor nas relações internacionais.

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Entre uma das práticas aplicadas está a discussão das múltiplas faces da
fronteira, na visão de diferentes autores. A fim de propiciar aos alunos elementos
teóricos para a análise de questões socioespaciais relacionadas a essas
perspectivas epistemológicas.
Essas aulas culminaram com uma atividade prática, elaborada a partir do
trabalho de Sylvie Considère e de Fabienne Leloup com título Comment interroger la
frontière par les répresentations sociales (2017), com o tema das paisagens
fronteiriças na contemporaneidade utiliza imagens de fronteiras.
Nesse os alunos responderam sobre as suas impressões sobre os aspectos
estruturais, geopolíticos, sociais da fronteira. Desta forma, foi possível detectar como
esses percebem a fronteira, assim como seu nível de aproximação, interesse e
conhecimento sobre o tema, no caso questionamos sobre a fronteira Brasil /
Paraguai; traremos de forma mais detalhada nos resultados obtidos deste artigo. O
intuito era propiciar aos alunos um entendimento mais abrangente o papel do Estado
e do quanto esse influenciou na formação de limites territoriais, que por vezes são
confundidos com a ideia de fronteira.
No entanto, entendemos que a paisagem de fronteira está mais associada a
espaços de trocas, de vivências, de experiências e de alteridade. Como forma de
avaliação foram aplicados questionários sobre a temática da fronteira, registros em
apontamentos referente à formação dos Estados modernos e debates em aula sobre
as dinâmicas das redes e dos processos estruturantes da geopolítica no contexto
das relações internacionais.
Ao final do semestre foi aplicada uma avaliação individual, na qual os alunos
responderam a prova dissertativa sobre os temas trabalhados em aula.
Com sete questionários sobre fronteiras da turma de 1º semestre do curso de
Relações Internacionais, aplicamos o mesmo exercício em 14 alunos do 8º semestre
de Geografia, para verificar se haveria alguma discrepância em suas respostas.
Dadas as características das turmas de cursos e períodos distintos as respostas dos
alunos de Geografia tenderiam a ser mais coesas e concisas, ainda que às duas
turmas foi apresentado o mesmo referencial teórico.
Nesse sentido, entende-se que os alunos das duas turmas, ainda que em
momentos distintos, tiveram a oportunidade de ter contato com uma discussão
teórica e conceitual sobre o tema proposto na atividade.

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Em relação ao referencial teórico apresentamos os textos de DORFMAN


(2013) A Condição Fronteiriça diante da securitização das fronteiras do Brasil. E
ainda, com MACHADO (1998) em seu texto sobre Limites, Fronteiras, Redes. As
duas turmas tiveram contato com essas autoras durante a sua formação acadêmica.

Materiais e Métodos.
Considerando o contexto das práticas apresentadas e o referencial teórico
construído com os alunos, foram aplicadas atividades que permitiram identificar as
construções realizadas pelos discentes na disciplina e possíveis representações
sociais desses sujeitos. As atividades propostas foram fundamentadas nas
metodologias desenvolvidas por Considère e Leloup (2017), como já indicado
anteriormente.
Dialogamos também com o conceito de representações sociais pensado por
Guareschi (2005), que nos traz que as representações sociais buscam superar
dicotomias entre o individual e o coletivo, entre o objetivo e o subjetivo, dessa forma,
temos presente a ideia de que esse conceito estabelece uma linha muito tênue entre
construções individuais e coletivas. Nos parece necessário destacar que os
exercícios a seguir são bastante diretos e que não permitem uma clareza no que
define as representações sociais dos grupos presentes.
No entanto, pensamos que é um aprendizado inicial para identificar
indicativos dessas representações e que em outros momentos nos permitirá
estabelecer distintas metodologias para trabalhar com os grupos. E também pensar
novas práticas docentes para a temática. A seguir apresentamos alguns aspectos
relevantes dos conteúdos das atividades realizadas.
Após as aulas expositiva-dialogadas foram entregues atividades que os
alunos deveriam preencherem, os enunciados orientavam os alunos que estes
escolhessem, entre as imagens na sequência (Figura 1), aquela que no
entendimento deles melhor caracterizaria a ideia de fronteira justificando sua
escolha. Por meio da seguinte pergunta: “4. Questões: Escolha a (s) foto (s) que
você acha que representam a fronteira e explique o porquê 1.”.

1
Sylvie Considère (University of Artois) and Fabienne Leloup (UCLouvain). How teaching the border studies at
the University? Some experiences at the Franco-Belgian border (2017).[Tradução nossa].

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Figura 1. Imagens de Fronteiras.

Fonte: CONSIDÈRE, Sylvie; LELOUP, Fabienne. Comment interroger la frontière par les
répresentations sociales (2017).

Ao analisarmos as respostas dos alunos, percebemos uma prevalência


destacada da fotografia que apresenta uma cerca feita de arame farpado para
representar a fronteira, considerando nossa leitura e do referencial que nos levou as
reflexões construídas até então, nos parece indicar que na visão dos alunos a
fronteira é algo belicoso, perigoso e com presença de rivalidades, aspecto que
converge para a ideia de fronteira construída por diversos meios de comunicação.
Todavia, outro questionamento pediu-se que os alunos respondessem dentre
uma escala de “Discordo totalmente” e “Concordo totalmente” sobre as suas
percepções sobre políticas aplicadas às fronteiras e de como os alunos se
posicionam em relação às proposições, através da seguinte pergunta: “3. Qual o seu
nível de concordância com as seguintes frases”. Conforme tabela na sequência:
Fizemos a contagem bruta das respostas, da tabela, em uma avaliação ampla
ambas as turmas procuram responder de forma ponderada. Ao concordar
parcialmente ou discordar parcialmente das proposições. Percebe-se um
posicionamento inclinado à neutralidade por parte dos alunos do 8º semestre de
Geografia.
Ao passo que os alunos de Relações Internacionais tendem a discordar
totalmente em mais momentos; como quando são questionados se a fronteira
garante segurança e poder, se a fronteira se conecta para construir novos territórios.

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Figura 2. Tabela com questionário.

Fonte: CONSIDÈRE, Sylvie; LELOUP, Fabienne. Comment interroger la frontière par les
répresentations sociales (2017).

Contudo; em uma das perguntas ambas as turmas discordam totalmente de


que as fronteiras teriam o papel de proteger os fracos dos fortes, sendo que na
turma de Relações Internacionais o número de alunos que discordam parcialmente
ainda é um pouco maior. Esse entendimento reforça a ideia de que as fronteiras se
prestam muito mais a segregar e dificultar acessos e fluxos de pessoas do que
efetivamente aparato de segurança e proteção.
Observando as respostas percebe-se que o consenso de uma territorialidade
fronteiriça é algo mais presente no entendimento dos alunos da Geografia do que
nas respostas dos alunos de Relações Internacionais.
Ao analisarmos as respostas referente a pergunta: “ O apagar das fronteiras
garante que uma área pode se desenvolver”, de acordo com boa parte das
respostas dos alunos de Geografia, os quais discordam totalmente, indica que isso
não necessariamente pode se concretizar.
Porém, para os alunos de Relações Internacionais essa é uma hipótese
plausível, visto que suas respostas se concentram entre “discordo parcialmente” e
“concordo parcialmente”. Analisar essas respostas e ver que são poucas aquelas
que destoam da maioria demonstra que os alunos são muito atravessados por
contextos sociais, pelas redes sociais de comunicação. E consequentemente,
acabam reproduzindo o que denominamos de geografias imaginárias, que são
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aquelas formadas a partir das informações que nos chegam por meio de terceiros e
de conceitos prontos.
Entendemos que, este está carregado de um sistema de representações
sociais. As atividades descritas foram aplicadas com duas turmas diferentes, uma do
1º semestre do curso de Relações Internacionais e uma do 8º semestre de
Geografia. Ao analisar o conteúdo produzido pelos alunos, podemos observar
alguns aspectos relevantes. Na pergunta “Qual a sua própria definição de Fronteira?
” As respostas foram contabilizadas através da ferramenta de WordCloud, do
website Mentimenter (Figuras 3 e 4).
Identificamos diferentes graus de compreensão de conceitos estruturantes da
Geografia (e também da Geopolítica). Nos alunos de 8º semestre do curso de
Geografia percebemos que conceitos como Região, Território e Estado foram muito
mais prevalentes nas respostas dos alunos.
Já para a turma do 1º semestre de Relações Internacionais, notamos que os
conceitos geográficos são empregados, seguidamente, como sinônimos e não com
o significado que realmente se aplica. De modo que, num contexto Geopolítico, os
alunos querem expressar a ideia de uma área, mas usam termos como território,
região, lugar, país como se não tivessem semânticas diferentes.

Figura 3 - Word Cloud da turma de 8o semestre do curso de Geografia.

Fonte: WordCloud, do website Mentimenter. Elaboração: Janaina Teixeira & Paola Pereira, 2019.

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Figura 4 - Word Cloud da turma de 1º semestre do curso de Relações


Internacionais.

Fonte: WordCloud, do website Mentimenter. Elaboração: Janaina Teixeira & Paola Pereira, 2019.

Ao observarmos as respostas dos alunos do curso de Geografia, notamos a


presença de noções mais bem elaboradas dos termos utilizados, o que indica uma
leitura mais aprofundada dos temas. Pois, utilizam as palavras num sentido mais
propositivo e contextualizo. Com frequência surgem as noções de política,
administração e legislação internacionais. Outro aspecto foi a presença destacada
do uso da palavra cultura, que agrega a ideia de fronteira uma rede de novos
significados e representações.
A etapa seguinte desta atividade consistia em perguntar aos alunos, palavras
que eles relacionavam ao Paraguai (uma vez que, durante a disciplina uma série de
exemplos relacionados ao país foram apresentados aos alunos).
Nas Figuras 5 e 6 podemos visualizar as palavras que apareceram com maior
prevalência nas turmas que responderam ao questionamento. Mais uma vez, os
resultados apresentam alunos do curso de Geografia (8º semestre) e do curso de
Relações Internacionais (1º semestre). É importante destacar que o tamanho das
palavras tem relação apenas com a prevalência das mesmas no próprio grupo, não
sendo possível estabelecer uma relação de tamanho entre as palavras das duas
Figuras.

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Figura 5 - Word Cloud da turma de 8º semestre do curso de Geografia.

Fonte: WordCloud, do website Mentimenter. Elaboração: Janaina Teixeira & Paola Pereira, 2019.

Ao analisarmos as figuras 5 e 6 percebemos que algumas palavras são


igualmente frequentes nos dois grupos tais como: fronteira, pirataria, guerra.
Contudo; são citações que representam resquícios de memórias que se
perpetuaram no tempo e constituem imaginário da fronteira, como a região marcada
pelos conflitos e pela violência.
Mas notamos também, que emerge um outro aspecto da fronteira Brasil e
Paraguai, que vem ganhando terreno na construção psíquica dos alunos. Na turma
de Relações Internacionais é possível identificar de forma recorrente as palavras
comércio, espanhol e produtos falsificados caracterizando uma paisagem cujos
mecanismos de trocas e interações estão fortemente vinculados ao comércio ao
idioma e aos produtos que circulam entre esses espaços. Isto é, observamos um
enfraquecimento das ideias de uma paisagem de medo, que é moderadamente
substituída por uma região em que as mercadorias circulam e que o espanhol
perpassa as relações com naturalidade. Assim, percebemos que existe uma ótica
que acompanha os movimentos de transformação da paisagem e que está a todo o
momento tentando reinterpretar essa paisagem que se modificou.

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Figura 6 - Word Cloud da turma de 1º semestre do curso de Relações

Internacionais.
Fonte: WordCloud, do website Mentimenter. Elaboração: Janaina Teixeira & Paola Pereira, 2019.

Ao passo que, os alunos do 8º semestre de Geografia ainda representam o


Paraguai como o lugar do contrabando, do comércio de eletrônicos e do tráfico.
Essas são respostas formadas com base em uma visão generalista do senso
comum. Partindo-se das respostas mais citadas nesse universo de investigação em
sala de aula. Uma vez que, no imaginário dos alunos esse cenário é algo concreto
que desperta sentimentos de distanciamento nas diferentes escalas de julgamento.
Os alunos do curso de Geografia associam muito a ideia de comércio ao
contrabando e consequentemente ao tráfico, consideravelmente citado no exercício.
O que paralelamente reforça a impressão de se estar vivendo em um território em
constante estado de guerra. Reforçamos que essa é uma análise sobre as escolhas
dos alunos, que nos leva a pensar que a fronteira Brasil e Paraguai oscila entre a
região dos fluxos comerciais, do turismo de compras e dos Free Shops, até aquele
ideário, quase mítico de “terra de ninguém” onde tudo é permitido e não há
regramento social ou jurídico.
Portanto, esse exercício nos propícia fazer uma leitura das possíveis
representações humanas sobre a fronteira a partir de suas formas de ser enxergada

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por meio de vieses muito distintos, com uma série de anteparos culturais, que
alteram seus contornos e remetem ao imaginário para suprir as lacunas dos
elementos, que nos escapam devido a essas barreiras/ resistências entrepostas por
nós mesmos.
Como forma de receber um feed back sobre as aulas elaboramos uma
pequena enquete com o formato de pesquisa de opinião para identificarmos o nível
de aprendizado e relevância do conteúdo abordado nas aulas e o grau de relevância
para seu aprendizado. Por meio da seguinte enquete:

Figura 7. Pesquisa de opinião enviada por mensagem eletrônica pela


Plataforma Moodle UFRGS.

Elaboração: Janaína Teixeira e Paola Pereira, 2019.

O propósito desta pergunta é identificar se os objetivos do plano de aula


foram alcançados. Com foco no entendimento do conteúdo e dos objetivos
destacados nesse artigo, buscamos quantificar nos alunos suas impressões, nessa
escala investigativa do quanto essas aulas foram válidas. Destinamos espaço para
as respostas com justificativas, no sentido de identificarmos os aspectos mais
destacados nas respostas dos alunos. Das respostas a que mais se destacou foi a
letra ‘B’ o que ressalta a importância das aulas de Geografia Política para os alunos

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na graduação com um conteúdo que desperta o interesse, é de suma relevância


para os alunos e que contribui para o aprofundamento do seu aprendizado.
Foi muito gratificante contabilizar respostas contendo avaliações positivas em
relação à metodologia aplicada a partir do plano de estudos. Perceber que alunos do
curso de Relações internacionais foram receptivos à proposta destas professoras –
pesquisadoras ao participarem da enquete de forma espontânea após o final do
semestre de 2019/1.

Considerações Finais
Entendemos que as aulas presenciais contribuem para o debate e às trocas
de ideias sobre os temas fronteira, transfronteiridades, formação dos Estados
Nacionais e o sistema de redes no contexto do ensino da geopolítica mundial.
Ambas as turmas apresentam conhecimento oriundo das mídias de comunicação,
mas, principalmente, das redes sociais.
Os exercícios são importantes, pois trazem informações acerca dos seus
entendimentos sobre os distintos e complexos processos que envolvem o conceito
de fronteira, que está fortemente associado à ideia de Estado e território com o
pressuposto de posse e, sobretudo; como exercício de controle e domínio. Nesse
sentido, foram constantes as citações tais como: limite, delimitar, separar territórios,
áreas, países vizinhos.
A experiência de aplicar essa atividade a dois grupos com graus de
conhecimento distintos, ressalta a necessidade de trabalhar esses conceitos em
seus diversos aspectos. E em toda a construção teórica desses alunos, no sentido
de capacitá-los para argumentar e interpretar essa temática com maior apropriação
intelectual.
Percebemos, que além da bibliografia apresentada, são necessários mais
exercícios variados para que os alunos possam fazer definições conceituais mais
consistentes e mais bem embasadas a partir do seu conhecimento adquirido
associado a suas representações geoespaciais próprias.
Nos perguntamos de que forma os alunos poderiam apresentar noções mais
claras dos conceitos trabalhos? Como trabalhar para que as representações sociais
das regiões de fronteira sejam repensadas e retrabalhadas. Entendemos que o
conceito de representações sociais é algo muito profundo na compreensão dos

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grupos, mas acreditamos ser possível e relevante a busca pela transformação


dessas representações.

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Link da reportagem / vídeo. Disponível em:


https://gauchazh.clicrbs.com.br/economia/campo-e-lavoura/noticia/2019/04/a-
receitaque-transformou-o-paraguai-no-principal-destino-de-investidores-na-america-
do-sulcjud2gzr701cq01rtuqtkfoxh.html. [12/04/2019 - 05h00min Atualizada em
12/04/2019 - 12h13min]. Acesso em 20 de maio de 2019.

SOUZA, J. A. C. No soy de aqui, ni de allí. Yo soy! Identidade territorial na


fronteira entre Pedro Juan Caballero - Paraguai e Ponta Porã - Brasil. 2018. 120
f. Dissertação (Mestrado em Geografia) – Universidade Federal da Grande
Dourados UFGD, Dourados-MS, 2018.

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A FRONTEIRA QUE NOS SEPARA: OS SURDOS E SUAS REPRESENTAÇÕES


SOCIAIS
The Border Which Separates us: Deaf People and their Social Representations
La Frontera Que nos Separa: los Sordos y sus Representaciones Sociales

Katicilayne Roberta de Alcântara


Antônio Firmino de Oliveira Neto
Izac de Oliveira Belino Bonfim

Resumo: Este artigo busca analisar como ocorrem as representações sociais dos
surdos, desde a sua visibilidade até o reconhecimento da Libras, a construção de
sua identidade e cultura. A discussão se faz em torno de uma fronteira, que não se
limita ao físico, territorial, mas principalmente por ser simbólica, estereotipada pelos
ouvintes. Apontaremos ainda, como é importante o sujeito se reconhecer como
agente de suas representações sociais e participante dos segmentos sociais em que
está envolvido. A metodologia constitui-se de uma revisão da bibliografia acerca do
tema discutido, que corrobora as construções teóricas presentes neste artigo, com a
finalidade de apresentar como os surdos resistem ao longo dos anos, conquistam
seus espaços e adquirem o direito à comunicação através de sua língua.
Palavras-chave: Fronteira; Surdos; Representações sociais; Libras; Visibilidade.

Abstract: This article seeks to analyze how social representations by deaf people
occur, from their visibility to the acknowledgement of Libras, the construction of their
identity and culture. The discussion is developed on a border, which is not limited to
physical or territorial aspects, but mainly to be symbolic, stereotyped by listeners. It
will be also pointed out how important it is for the subject to recognize him/herself as
an agent of his/her social representations and a participant of the social segments in
which he/she is involved. The methodology is constituted of a bibliographical review
on the topic discussed, which corroborates the theoretical constructs in this article, in
order to present how deaf people resist over the years, conquer their spaces and
acquire the right to communication through their language.
Key-words: Border; Deaf people; Social representations; Libras; Visibility.

Resúmen: Este artículo busca analizar cómo ocurren las representaciones sociales
de los sordos, desde su visibilidad hasta el reconocimiento de la Libras, la
construcción de su identidad y cultura. La discusión se hace alrededor de una


Graduada em Letras/Libras – UFGD; Mestranda em Estudos Culturais pela Universidade Federal de
Mato Grosso do Sul (Campus de Aquidauana/UFMS). E-mail: katyroberta@gmail.com

Professor do Campus de Aquidauana da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS e
docente permanente dos programas de pós-graduação em Estudos Fronteiriços (Campus do
Pantanal/UFMS) e Estudos Culturais (Campus de Aquidauana/UFMS). E-mail:
firmino.oliveiraneto@gmail.com
***Graduado em Turismo – Faculdades Integradas Curitiba (2002); Mestrado e Doutorado em
Geografia pela UFPR. Docente da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (CPAQ/UFMS). E-
mail: izac.bonfim@ufms.br

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frontera, que no se limita al físico, territorial, sino principalmente simbólicas,


estereotipadas por los humanos. Asimismo, señalaremos cuán importante es que el
sujeto se reconozca como agente de sus representaciones sociales y participante de
los segmentos sociales en los que está involucrado. La metodología se constituye
con una revisión de la bibliografía sobre el tema discutido, que corrobora con las
construcciones teóricas presentes en este artículo, con el fin de presentar cómo los
sordos resisten a lo largo de los años, conquistan sus espacios y adquieren el
derecho a la comunicación a través de su lengua.
Palabras clave: Frontera; sordos; Representaciones sociales; Libras; Visibilidad.

Introdução
Como objetivo principal deste artigo, analisam-se as questões relacionadas às
representações dos surdos, tendo como ponto de partida a relação entre as
fronteiras e seus diferentes sentidos. No caso dos surdos, será destacada como
fronteira a língua de sinais, que por vezes é incompreendida no processo de relação
entre surdos e ouvintes. A língua de sinais é reconhecida e compreendida como
língua natural utilizada pelas comunidades surdas por todo o planeta (QUADROS;
KARNOPP, 2004).

Em seguida, tratar-se-á das fronteiras que se encontram até a visibilidade dos


sujeitos surdos, objetivando a análise do processo de reconhecimento da Língua
Brasileira de Sinais (LIBRAS). Por meio da Lei 10.436, de 24 de abril de 2002 e da
regulamentação do Decreto 5.626, de 22 de dezembro de 2005, assegurou-se o uso
e a difusão da língua de sinais na construção da identidade e cultura dos sujeitos
surdos, permeando ações e envolvendo o modo de comunicação,
predominantemente visual.

É importante o reconhecimento dos sujeitos enquanto agentes de suas


representações sociais, considerando os elementos que compõem a cultura, como
língua, valores, crenças, símbolos, modos de agir e pensar de um sistema social,
que transformem esses sujeitos. Desse modo, os discursos se apresentam e são
reconhecidos no meio social em que as pessoas vivem; e no caso dos surdos,
promovem a Libras e suas questões de acessibilidade nas diversas esferas sociais.

A abordagem metodológica deteve-se nos seguintes procedimentos e


técnicas: revisão bibliográfica primária e secundária e, posteriormente, técnicas de
observação qualitativa não estruturada. A opção deu-se pelo fato da compreensão

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da facilidade da interpretação da Libras em um grupo de sujeitos surdos da cidade


de Campo Grande, no Estado de Mato Grosso do Sul.

De acordo com Bechker (1972), a observação seria uma solução para o


estudo de fenômenos complexos e institucionalizados, quando se pretende realizar
análises descritivas e exploratórias ou quando se tem o objetivo de inferir sobre um
fenômeno que se remeta à certas regularidades, passíveis de generalizações. A
observação participante é interpretada e utilizada por pesquisadores de várias
maneiras, principalmente nas Ciências Sociais e áreas correlatas, quando se busca
desvelar as representações sociais de um grupo específico como os surdos. Assim,
procurou-se dialogar o cotidiano desses sujeitos com as referências bibliográficas
pertinentes na busca por entender o seu senso comum, o seu universo e as suas
representações sociais.

A fronteira e os sujeitos
Falar de fronteira perpassa a discussão entre limites, demarcações e
diferenças. Para Souza (2014, p. 476), ao discutir este conceito é necessário ir além
do dicionário e pressupor um espaço cultural e social, de sujeitos que se constroem
em suas relações. Por séculos, e mesmo atualmente, as discussões sobre este mote
vêm se aprimorando no sentido de esclarecer sobre o espaço da fronteira como
meio de diferenciação territorial e temporal; mas além disso, a fronteira ser
entendida em diversos sentidos.

O Estado cria estratégias para a manutenção da soberania territorial das


fronteiras e, por vezes, cria opressão sobre o lugar. Como destaca Pesavento (2002,
p. 36)

[...] as fronteiras a partir de uma concepção que se ancora na territorialidade


e se desdobra no político. Neste sentido, a fronteira é, sobretudo,
encerramento de um espaço, delimitação de território, fixação de uma
superfície. [...] Com isso podemos ver que, mesmo nesta dimensão de
abordagem fixada pela territorialidade e pela geopolítica, o conceito de
fronteira já avança para os domínios daquela construção simbólica de
pertencimento a que chamamos identidade e que corresponde a um marco
de referência imaginária que se define pela diferença.
Isso se perpetua com negatividade nas pessoas, que passam a entendê-lo
como um lugar de conflito, de violência, do ilícito, do descontrole, ou ainda, de
sofrimento em seu entorno, servindo como espaço de separação entre dois povos.

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O homem, no caminho da sua evolução e desenvolvimento, foi além dos


territórios, tornando-se independente dos limites físicos que o prendiam, tornando-se
independente. Segundo esclarece Pesavento (2002, p. 36) “a fronteira é um limite
sem limites que aponta para um além”.

Nesse sentido, a fronteira possibilitou o contato com o outro, como


representação de uma realidade de produção de sentidos culturais, onde seus
limites se direcionam para a construção de identidades. Trazendo para a discussão,
buscando, neste artigo, compreender os sujeitos surdos, será utilizada a ideia de
Lopes (2017, p. 223), que afirma:

[...] estar no front é uma alternativa, uma escolha, mas também uma falta de
opção, uma violência. Se por um lado, revela uma potência, uma condição
de possibilidade, uma vida nova, um devir criança, um devir animal e um
devir louco, por outro, evidencia a maneira colonial de tratar essa população
em muitos gradientes de normatividade que transforma a condição de
diferença numa profunda desigualdade.
O embate entre os sujeitos surdos e ouvintes se estabelece a partir de
relações sociais, começando pelo respeito da língua daqueles. Gesser (2009)
destaca que na década de 1960 foi conferido à língua de sinais o status linguístico e
ainda hoje, continuamos a afirmar e reafirmar essa legitimidade, principalmente no
Brasil, que teve a Libras reconhecida no ano de 2002.

O fato de afirmar e reafirmar a língua dos surdos vai além disso, uma vez que
na sociedade contemporânea as fronteiras que separam as pessoas, atravessam o
sujeito produtor de seus discursos, que realizam suas experiências por meio de
contatos com seus pares. De acordo com o ponto de vista de Brah (2006, p. 360), a
“experiência é um processo de significação que é a condição mesma para a
constituição daquilo a que chamamos de realidade”.

Da invisibilidade para a visibilidade dos surdos


Pensar em sujeitos ignorados, subalternizados, excluídos e marginalizados,
significa atentar-se para o fato de eles estarem buscando formas que “garanta voz a
sujeitos que anteriormente não tiveram direito a voz” (PRYSTHON, 2001, p. 33).
Significa também, contribuir para a visibilidade no tocante as suas experiências, de
maneira que contribua para a formação social, civil e política enquanto sujeito,
abrindo espaço para novas formas de conhecer o outro e de ser reconhecido.

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Os surdos e a língua de sinais, por longos anos, sofreram discriminações,


preconceitos, no que se refere à escolarização, vida social, vida religiosa e saúde.
Conforme Strobel (2016, p. 120) nos espaços em que se encontram surdos e
ouvintes houve, ao longo da história, a ocorrência de situações que dizem respeito à
dominação dos sujeitos surdos.

Uma das situações mais traumáticas que podemos elencar sobre esse grupo
é o processo de normalização com a “cura” da surdez. Como comenta Gesser
(2012, p. 84) “[...] os surdos eram todos vistos como débeis mentais, criminosos,
loucos, [...] os sinais eram tidos como formas obscenas e pecaminosas.” Diante
dessa ideologia e reforçando a relação de poder e exclusão social, onde a grande
maioria dos ouvintes não conhece a língua de sinais. Por isso, a Libras foi
considerada por tantos anos como mímica, gestos, entre outras formas
preconceituosas no uso da comunicação.

O texto de Hartog (2004), que explica a relação entre os gregos e os bárbaros


na Grécia antiga, permite uma analogia sobre essa relação conflituosa entre surdos
e ouvintes:

Entre os gregos e os outros, a nova fronteira é, desde então, antes de tudo


política – ensinam as Histórias. [...] Desde então estrangeiros à cidade,
excluídos desse espaço comum, “fora da cidade” (ápolis), em sentido
próprio, o tirano e o rei são, de uma certa maneira, bárbaros, ou se põem do
lado do bárbaro. O que será retomado por Aristóteles, no começo de sua
política: se o homem é um animal político, quem é por natureza ápolis é ou
menos ou mais que homem; [...] fornecem com o par grego/bárbaro, uma
visão política da alteridade. (HARTOG, 2004, p. 101 - 102)
Apenas no ano de 2002, após décadas de lutas e pesquisas que
contemplaram os surdos, sua educação e o seu reconhecimento linguístico, como
pertencentes às minorias linguísticas, é que houve o reconhecimento oficial da
Língua Brasileira de Sinais/Libras como primeira língua das pessoas surdas do
Brasil (Lei 10.436 de 24 de abril de 2002). A partir daí, enfatizou-se o uso
comunicativo da Libras nas comunidades surdas pelo Brasil. Em dezembro de 2005,
foi criado o Decreto 5.626, que assegura a presença de tradutores/intérpretes nas
instituições privadas e públicas, principalmente nos sistemas de ensino federal,
estadual e municipal e em diversos espaços e serviços sociais, para o uso e difusão
da Libras.

Essas ações trouxeram ganhos para a comunidade surda, ao valorizar a


Libras como um sistema social, pois estabeleceu-se um vínculo que “valoriza a

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diferença, estabelece uma espécie de valor positivo para sociedades culturalmente


mais heterogêneas”. (PRYSTHON, 2001, p. 43). Com esse marco para a
comunidade surda brasileira, as línguas de sinais passaram a ser “consideradas
línguas naturais e, consequentemente, compartilham uma série de características
que lhes atribui caráter específico e as distingue dos demais sistemas de
comunicação [..], portanto, [...] não como um problema do surdo ou uma patologia da
linguagem” (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 30). Assim, a defesa da língua de
sinais assegura aos seus usuários o direito a um mundo coletivo e social,
entrelaçando as identidades e o seu pertencimento nas mais variadas culturas.

O conceito corriqueiramente utilizado para cultura é o de práticas simbólicas


de um determinado grupo, como literatura, música, língua, dança, religião, teatro e
vestuários, dentre outros. Segundo Geertz (2012), “cultura seria uma teia de
significações compartilhada por um grupo de humanos”. Entende-se assim, cultura
como os discursos proferidos a partir dos grupos em contato com a sociedade e seu
conhecimento.

Para Geertz (2012, p. 4) a cultura ainda pode ser uma vertente para a criação
de novas ideias, atos, emoções e valores, a partir das ações do grupo que a cerca.
Dessa forma, é possível compreender a existência de uma cultura surda, onde são
compartilhadas língua, experiência visual, tradução cultural, entre outros meios que
fundamentam as relações entre os sujeitos surdos.

Para entendermos melhor a cultura surda, Strobel (2016, p.29), esclarece que
ela também pode ser compreendida como “o jeito de o sujeito surdo entender o
mundo e de modificá-lo a fim de torná-lo acessível e habitável, ajustando as suas
percepções visuais”. É importante destacar que a cultura surda se entrelaça aos que
compartilham de um interesse comum, seja por normas, comportamentos e valores.

Então, concluímos a partir de Strobel (2016) que a cultura surda é


demonstrada nas ações que envolvem o seu modo de comunicar
predominantemente visual, e por meio da língua de sinais. Ela também reconhece a
luta do grupo e suas produções, como a literatura, poesia visual, teatro, uso das
tecnologias, vida social e esportiva.

Com isso, a busca por espaços e por representatividade se faz mais forte,
como cita Hartog (2004, p.23), “a fronteira se encontra no próprio movimento de

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fechamento e abertura, espaço entre dois, em que os viajantes-tradutores podem


agir, para o melhor ou o pior”. A analogia ao raciocínio do autor, demonstra que os
surdos podem ocupar o seu espaço, mesmo que não seja entendido dentro do
sistema normativo, hegemônico, considerado como padrão pela sociedade. Assim,
em consonância a essa reflexão, Pesavento (2002, p.37) afirma:

Se a fronteira cultural é trânsito e passagem, que ultrapassa os próprios


limites que fixa, ela proporciona o surgimento de algo novo e diferente,
possibilitado pela situação exemplar do contato, da mistura, da troca, do
hibridismo, da mestiçagem cultural e étnica. [...] a fronteira como conceito
possibilitador para se encontrar novos sujeitos, novas construções, novas
percepções do mundo.
Dessa forma, nota-se o rompimento de uma fronteira que se confronta na
alteridade, na relação entre os outros em relação a “nós” e vice-versa, na promoção
do grupo social e de suas interações, trocas, ações, entre outros.

A construção das representações por intermédio da Libras


A partir das perspectivas pós-coloniais e dos discursos dos grupos
minoritários presentes na sociedade, é possível perceber a voz dos sujeitos que
deles fazem parte. Por isso, a construção de representações dos sujeitos surdos se
faz a partir do momento em que eles se tornam agentes de suas representações por
meio da Libras, de suas produções, de suas experiências, e também, na sua
formação enquanto sujeito, reformulando a questão de agentes participantes, que
segundo Brah (2006) pode ser entendido como:

O “eu” e o “nós” que agem não desaparecem, mas o que desaparece é a


noção de que essas categorias são entidades unificadas, fixas, e já
existentes, e não modalidades de múltipla localidade, continuamente
marcadas por práticas culturais e políticas cotidianas. (BRAH, 2006, p. 361).
Essa modificação de estado dos sujeitos com relação à agência no sentido,
conforme argumentado por Brah, começa a partir do momento em que eles mudam
seus próprios pensamentos e de seus pares. Spivak (2010, p.41) cita que “a
transformação da consciência” começa a partir do momento em que esses sujeitos
discutem temas relacionados às suas experiências e buscam estratégias para
construir narrativas coletivas, manifestando-se de forma cultural, por exemplo.
Abaixo, pode-se complementar esta ideia associada à fala de Jodelet (1989, p. 34):

Partilhar uma ideia ou uma linguagem é também afirmar um vínculo social e


uma identidade. A partilha serve à afirmação simbólica de uma unidade e de
uma pertença. A adesão coletiva contribui para o estabelecimento e o
reforço do vínculo social. (apud FEIX, 2017, p. 5)

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199

A identidade não é algo pronto, mas é um processo em constante


transformação, que se constrói pela diferença, influenciada pela subjetividade, no
modo em que o sujeito atua no mundo. Um conceito relacionado intrinsicamente ao
de identidade é o da representação, uma visão consciente, presente na mente das
pessoas ou de um grupo.

Nessa ótica, as representações sociais são explicadas por Moscovici (2010)


como sendo um conector à facilitação comunicacional entre os sujeitos de um
mesmo grupo que partilham desse universo social, gerando, a partir de então, uma
unidade nos seus discursos, como um saber sobre fatos sociais. Por isso, deve-se
levar em consideração os elementos que compõem a cultura como linguagem,
valores, crenças, símbolos, modos de agir e pensar de um sistema social que
compõe e transforma esses sujeitos.

Ainda podemos perceber que Moscovici (1978) menciona que as


representações sociais são entidades que circulam, cruzam-se e cristalizam-se, por
intermédio de uma fala, da linguagem, um encontro no universo cotidiano dos
sujeitos, constituindo assim, uma modalidade de conhecimento comum que tem por
função a elaboração de propagar um determinado tipo de pensamento,
comportamento e comunicação entre pessoas.

O mesmo autor (1978) esclarece que existem no mundo dois universos, o


consensual e o reificado. No universo consensual, a sociedade é uma criação
visível, contínua, com sentido e finalidade. Já no universo reificado, a sociedade é
vista como um sistema engessado, desprovido de identidade e os sujeitos não são
vistos como um grupo, mas isoladamente. As representações sociais são parte da
realidade de um determinado grupo social, ou seja, de uma coletividade de pessoas
que interagem e têm determinados comportamentos.

Como já citado anteriormente, os sujeitos surdos necessitam se expressar por


meio de sua língua e seus direitos precisam ser respeitados, como para tantas
outras minorias existentes na sociedade. Segundo Brah (2006, p. 337), “é importante
que o Estado seja sensível à pluralidade de necessidades entre seus cidadãos. Mas
precisamos estar atentos à maneira como as ’necessidades’ são construídas e
representadas em vários discursos”. Isso demonstra para o cuidado na visão em
atendê-los de maneira heterogênea.

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200

O sistema capitalista estimula a produção de mercado, reforça o consumo e


determina o modo de vida dos indivíduos. Em consonância, as transformações
tecnológicas midiáticas promovem um efeito multiplicador cada vez mais acelerado,
no que diz respeito as mediações entre as pessoas. “A esfera midiática introduziu
inúmeras modificações na apresentação dos problemas que magnetizam a
sociedade [...] alterou-se a relação entre os fatos que afetam a todos os cidadãos
[...]” (SARLO, 2016, p. 123).

Deste modo, para Sarlo (2016) a relação de ideologias transmitidas por essas
tecnologias e meios de comunicação em massa atribuem representações e sentidos
para suas significações, reforçando aspectos culturias que se encontram com os
pensamentos e as ações dos sujeitos.

A comunicação, aliada às representações sociais, conecta os significados


entre os sujeitos, principalmente no caso dos sujeitos surdos, que necessitam ser
vistos, com o desenvolvimento de resistências para a comunicação e a
acessibilidade com artefatos1 materiais da vida cotidiana, conforme comenta Sarlo
(2016):

[...] a democracia de opinião é invocada pelos meios audiovisuais que


precisam dela como sustento, ao mesmo tempo que reproduzem suas
condições de emergência, e ela é convocada como antídoto das falhas da
democracia representativa e como socorro da opinião pública (SARLO,
2016, p.124).
A linguagem transmitida nos meios audiovisuais apresenta formas rápidas e
icônicas da comunicação, servindo como instrumentos de trocas culturais, ampliação
do léxico tanto em língua portuguesa como em Libras e acesso às informações e
comunicações que auxiliam na construção dos sujeitos. Assim, Sarlo (2016) nos
ajuda a compreender que os meios, pelos quais os sujeitos se comunicam, são os
espaços provilegiados cercados pela democracia de opinião. Um exemplo muito
utilizado pelos surdos, são as redes sociais como Facebook, Youtube, WhatsApp,
chats da internet, ICOM.

Além dos artefatos utilizados para a comunicação dos surdos, nos indagamos
como eles tem acesso nos espaços sociais comuns, como em congressos,
faculdades, shows, teatros, bares, igrejas, cinemas, julgamentos, entre outros.
Alguns desses casos contam com a presença de tradutores intérpretes de Libras.
1
Artefatos não se refere apenas a materialismos culturais, mas se refere àquilo que na cultura constitui
produções do sujeito que tem seu próprio modo de ser, ver, entender e transformar o mundo (Strobel, 2016).

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201

Porém, quando não há essa disponibilidade de profissionais que atendam os direitos


dos surdos, percebemos uma lacuna que não é preenchida, assim como finaliza
Almeida (2006) que a influência do hegemonismo ouvinte deixa os surdos sem
condições de serem informados, instruídos e de se divertirem.

Considerações finais
O homem é um ser de relações intersubjetivas, sociais e históricas, sendo
construído e extremamente influenciado pela sua trajetória histórico-cultural, mas
não incapaz de desenvolver seus próprios discursos. A partir das discussões
apresentadas, é possível perceber que, ao longo dos anos, os sujeitos surdos,
diante da subalternização imposta pelos ouvintes, criaram maneiras de poderem ser
vistos e ouvidos pela sociedade nas diferentes partes do mundo.

Os avanços tecnológicos lhes proporcionaram a difusão e o uso da Libras no


Brasil, logo oportunizando uma aproximação maior com seus pares, ampliando o
acesso às informações que, de modo mais rápido, criou uma maior autonomia e
participação social.

No entanto, o reconhecimento das necessidades comunicacionais dos surdos


ainda é algo que apresenta barreiras, uma vez que, por trás de todos os contextos
envolventes ainda existem interesses sociais e econômicos que freiam as políticas
públicas no atendimento dos direitos e das necessidades do acesso à cultura para
os surdos.

Referências

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diferenças. In: Comunicação & Informação, v. 9, n.1, p. 53-61, 2006.

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202

________. Decreto 5.626 de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei 10.436 de


24/04/2001 e o artigo 18 da Lei no 10.098, de 19 de dezembro de 2000. Diário
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203

A IMPLEMENTAÇÃO DO ENSINO À DISTÂNCIA AOS MOLDES DO SISTEMA


COLÉGIO MILITAR DO BRASIL AOS RESIDENTES NA FAIXA DE FRONTEIRA
SUL-MATO-GROSSENSE: UMA PROPOSTA
The Implementation Of Distance Education By Brazilian Military College Systems For
Residents In The South Mato-Grossense Border Band: A Proposal
La Implementación De La Educación A Distancia Por Los Sistemas De Los Colegios
Militares Brasileños Para Los Residentes En La Banda Fronteriza Mato-Grossense
Del Sur: Una Propuesta

Eduardo Freitas Gorga


Elisa Pinheiro de Freitas

Resumo: O presente artigo tem por finalidade, com foco no ensino médio, na faixa
de fronteira do estado de Mato Grosso do Sul (MS), apresentar uma proposta de
implementação do Ensino à Distância (EAD), aos moldes do Sistema Colégio Militar
do Brasil (SCMB), aos civis da área em questão. Nessas condições, o referencial no
MS é o Colégio Militar de Campo Grande (CMCG), pois dentre as escolas 100
primeiras colocadas do MS, apenas 32 públicas foram destacadas pela média dos
seus alunos no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), ficando o CMCG em
primeiro lugar. Tal fato atesta que o foco dos investimentos educacionais deve ser
voltado para o interior (com destaque para os municípios fronteiriços), de forma que
prosperem aos moldes da capital. Com isso, o resultado esperado, através do EAD,
busca aproximar a qualidade do ensino da faixa de fronteira ao da capital, Campo
Grande.
Palavras-chave: Ensino Público, Educação à Distância, Sistema Colégio Militar do
Brasil, Fronteira sul-mato-grossense.

Abstract: This article aims, focusing on high school, in the border strip of the state of
Mato Grosso do Sul (MS), to present a proposal for the implementation of distance
learning (EAD), in line with the Brazilian Military College System (SCMB) for civilians
in the area concerned. In these conditions, reference in MS is the Campo Grande
Military College (CMCG), because among the first 100 schools of the MS, only 32
public were highlighted by the average of their students in the National High School
Exam (ENEM), leaving the CMCG in first place. This fact testifies that the focus of
educational investments should be directed towards the interior (with emphasis on
the border municipalities), so that they thrive in the way of the capital. With this, the
expected result, through Distance Learnig (EAD), seeks to approximate the quality of
teaching in the border area to that of the capital, Campo Grande.


Especialista em Ciências Militares e mestrando do Programa de Pós-Graduação em Estudos
Fronteiriços (PPGEF) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) – Campus do
Pantanal (CPAN). E-mail: efg983@gmail.com.

Docente e pesquisadora do Curso de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Estudos
Fronteiriços (PPGEF) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) – Campus do
Pantanal (CPAN). E-mail: elisa.freitas@ufms.br.

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Key-words: Public Education, Distance Education, Military College System of Brazil,


Mato Grosso do Sul border.

Resúmen: Este artículo tiene como objetivo, centrándose en la escuela secundaria,


en la franja fronteriza del estado de Mato Grosso do Sul (MS), presentar una
propuesta para la implementación del aprendizaje a distancia (EAD), en la línea del
Sistema de Colegio Militar Brasileño (SCMB) a civiles en la zona en cuestión. Bajo
estas condiciones, el referente en el MS es el Colegio Militar de Campo Grande
(CMCG), porque entre las 100 mejores escuelas ubicadas en la MS, solo 32
escuelas públicas fueron destacadas por el promedio de sus estudiantes en el
Examen Nacional de Escuelas Secundarias (ENEM), siendo el CMCG en primer
lugar. Este hecho atestigua que el foco de las inversiones educativas debe
orientarse hacia el interior (especialmente los municipios fronterizos), para que
prosperen en la línea de la capital. Con esto, el resultado esperado, a través del
aprendizaje a distancia, busca aproximar la calidad de la educación de la franja
fronteriza a la capital, Campo Grande.
Palabras clave: Educación pública, Educación a distancia, Sistema de Colegio
Militar de Brasil, Frontera del estado de Mato Grosso do Sul.

Introdução
Quando falamos no estado do MS, de imediato pensamos em exuberantes
paisagens pantaneiras, ecoturismo e lazer. Contudo, não só em dicionários da
língua portuguesa que a palavra “educação” vem antes de “lazer”, mas também em
nossa Constituição Cidadã, de 1988:
Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho,
a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a
proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na
forma desta Constituição. (BRASIL, 1988)

O Brasil, em sua faixa de fronteira Oeste, sempre foi abundante em fauna,


flora e riquezas minerais, despertando o interesse turístico, de nacionais e
estrangeiros que trafegam nesta majestosa região, em busca de lazer. O Pantanal
vem sendo o principal destino de visitantes europeus: “Mato Grosso do Sul é
destaque na Feira Internacional de Turismo de Berlim, maior feira de turismo do
mundo, como referência no ecoturismo e aventura.” (ASA, 2013)
Costumeiramente, relacionamos “fronteira” com o alcance do poderio de uma
Nação, seja este militar ou referente ao seu limite territorial. Segundo OLIVEIRA
(2005), “a fronteira vai muito mais além do fato geográfico que ela realmente é, pois
ela não é só isso. Para compreendê-la, é preciso retornar à expressão “regere fines”
que significa traçar em linha reta as fronteiras, os limites.”
Dessa maneira, a imensidão do espaço geográfico da nossa fronteira Oeste e

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os seus limites territoriais, não definem o potencial brasileiro como Nação. Os seus
recursos naturais e a infraestrutura turística não se bastam para o atual
desenvolvimento imposto à Região. Em termos de investimento, a cidade de Bonito
e seu turismo sustentável são priorizados em políticas governamentais, deixando em
segundo plano outras áreas, conforme segue: “A cidade recebe há 11 anos,
consecutivos, prêmios como melhor destino sustentável do Brasil.” (ASA, 2013)
Por outro lado, o planejamento estadual deve priorizar a temática
educacional, segundo um ex-governador do MS destaca:

“O ex-governador Pedro Pedrossian afirmou hoje (8), durante sessão


especial em comemoração aos 20 anos da UEMS (Universidade Estadual
Mato Grosso do Sul), que a educação ainda precisa ser prioridade no
Estado, para que haja crescimento e desenvolvimento local.” (ROCHA,
2014)
Em estudo atinente ao desenvolvimento econômico regional, na Zona de
Fronteira, verifica-se o número de estabelecimentos de ensino (nos diversos níveis)
como parte da composição das variáveis do potencial econômico regional.
O peso para o desenvolvimento local e sub-regional da infraestrutura
técnico-tecnológica foi descrito a partir das seguintes variáveis: (a) número
de estabelecimentos de ensino médio; (b) número de estabelecimentos de
ensino superior (público e privado); (c) estabelecimentos de educação
profissional (do tipo CEFET e outros); (d) estabelecimentos de ensino
técnico básico; (e) unidades de treinamento de mão de obra em área
urbana; (f) unidades de treinamento de mão de obra rural. (OLIVEIRA,
2005, pág. 102)

Assim, com pessoal qualificado por meio dos ensinos técnico-profissional e


superior, não resta dúvida que a região Centro-Oeste prosperará exponencialmente
no campo do desenvolvimento econômico regional e em âmbito nacional. Dessa
forma, o EAD cresce amplamente no país, tornando-se uma potencial ferramenta
alternativa de complementação do ensino.
“No Brasil, a desigualdade está ligada à infraestrutura das escolas”, afirma
Daniel Cara, coordenador-geral da Campanha Nacional pelo Direito à
Educação. “Redes maiores, com estruturas adequadas, laboratórios e
bibliotecas e professores com melhor formação, são mais eficientes”, diz.
(ÉPOCA, 2015)

Nesse sentido, para a busca da excelência de ensino público na fronteira


Oeste, com vistas a redução da desigualdade supracitada, este artigo apresentará o
SCMB. Tal consagrado sistema é referência nacional em EAD para ensino
fundamental e médio, conforme exposto:
O Curso Regular de Educação a Distância - CREAD, do Colégio Militar de
Manaus, recebeu o Prêmio Destaque Nacional do Institute for Learning &
amp - Performance Brasil, em reconhecimento ao trabalho que vem sendo

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realizado, no Brasil e no exterior, nesta área da educação. A cerimônia foi


realizada pela Empresa MicroPower, no dia 28 de agosto de 2017, em São
Paulo – SP […] (BRASIL, 2017)

Atualmente, o Colégio Militar de Manaus (CMM) franqueia educação a


distância aos “jovens, com idade entre 10 e 17 anos, que estejam cursando do 6º ao
9º Ano (Ensino Fundamental II) e de 1º ao 3º Ano do Ensino Médio regulares, cujos
responsáveis sirvam no exterior e em áreas pioneiras da Amazônia e Centro-Oeste”.
(DEFESA, 2017, pág. 8)
Colocar o Brasil numa posição de destaque, no que se refere à qualidade
em educação, requer dedicação à pesquisa. O SCMB, embora apresente
um modelo de gestão tradicional, revela-se como uma organização que se
mantém atualizada, o que interfere positivamente no índice de
desenvolvimento da educação básica no país. A proposta pedagógica do
SCMB segue o que dita a instituição mantenedora, o Exército Brasileiro.
(SOUZA, 2013, pág. 1)
Diante do quadro apresentado, o estudo em questão analisará a lacuna
existente no sistema educacional fronteiriço, propondo que o ensino a distância
chegue aos civis, para que o processo de ensino-aprendizagem seja o vetor chave
do desenvolvimento regional.

Fundamentos do EAD
O EAD vem sendo praticada há anos ao redor do mundo. Diversas gerações
e teorias trazem definições abrangentes sobre esta forma de ensino. Nesse sentido,
o EAD pode ser híbrida, empregando paralelamente ensino presencial e atividades à
distância. Em termos práticos, o EAD busca a autonomia do aluno em escolher os
seus horários e locais de estudo, adequando sua rotina e sua disponibilidade de
tempo ao conteúdo a ser estudado. Então, segundo Gazetta (2015, pág. 09),
Educação a Distância pode ser definida da seguinte forma:
O EaD tem sido definida como instrução através de mídias impressas e
meios de comunicação. Os termos amplos incluem aprendizagem a
distância, aprendizagem aberta, aprendizagem em rede, aprendizagem
flexível, aprendizagem distribuída e aprendizagem conectada. Tem como
característica a apresentação de estratégias híbridas, podendo combinar
atividades à distância e presenciais. A partir de Keegan (1986), González
(2005, pág. 33) costuma identificar o EaD a partir de três elementos: 1.
Professor e aluno estão separados no espaço e/ou tempo; 2. O controle do
aprendizado é realizado mais intensamente pelo aluno do que pelo instrutor
(professor/tutor) distante no espaço; 3. A comunicação entre alunos e
professores é mediada por documentos impressos ou alguma forma de
tecnologia.

No passado, a primeira geração de EAD foi caracterizada pelo emprego de

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correspondências para a comunicação entre aluno e professores, sendo conhecida


como geração textual, segundo Gazetta (2015, pág. 15):
Há muitos anos são desenvolvidos cursos por correspondência, televisão e
rádio; por exemplo, em 1800, a Universidade de Chicago lançou o primeiro
e maior programa de correspondência dos Estados Unidos, no qual
professores e alunos estavam em espaços geograficamente diferenciados.

Uma segunda fase do EAD, conhecida como geração analógica, destacou-se


pelo uso de televisão e rádio. E, por fim, a terceira e atual geração, digital e
integrada com recursos de telecomunicações, que emprega meios diversos de
informática, desde desktops, passando por notebooks e tablets, até smartphones e
smart tvs de última geração.

Segundo bem salienta Gazetta (2015, pág. 17): “a geração atual tem como
jargão anytime, anyhere, ou seja: a qualquer tempo, em qualquer lugar”. Como
resultado, cresce de relevância a interação entre os atores do EAD: o aluno, o
professor e o tutor.
1
No Brasil, o EAD surgiu com cursos de qualificação profissional. O registro
mais remoto data de 1904, com um anúncio nos classificados do Jornal do
Brasil de um curso de datilografia (para usar máquinas de escrever) por
correspondência. Na década de 1920, o Brasil já contava com os primeiros
cursos transmitidos pelas ondas do rádio, a novidade tecnológica da época.
Os estudantes utilizavam material impresso para aprender Português,
Francês e temas relacionados à radiodifusão. Nas décadas de 1940 e 1950
começaram os cursos mais formais, sobre temas profissionalizantes,
liderados pelo Instituto Monitor, depois pelo Instituto Universal Brasileiro e
pela Universidade do Ar, patrocinada pelo SENAC e pelo SESC. Até hoje
algumas dessas instituições permanecem ligadas à formação profissional
através de cursos a distância.

Por isso, hoje em dia, em EAD, a atribuição de responsabilidade pela


aprendizagem ao aluno constitui uma característica desejável pelos estudantes que
buscam essa modalidade. Em consequência, tal premissa permite a flexibilidade
necessária para que o discente possa organizar o seu tempo e a forma como
conduzirá o estudo, concorrendo para uma maior autonomia para aperfeiçoar o seu
aprendizado.
Por sua vez, o tutor tem grande parcela de comprometimento na dinâmica de
ensino. Dessa forma, ele deve direcionar o aluno quanto aos objetivos propostos e a
maneira como esses deverão ser atingidos, gerando o vínculo fundamental para
estimular o seu aluno no processo de ensino-aprendizagem.

1. Disponível em: <https://www.ead.com.br/ead/como-surgiu-ensino-a-distancia.html >. Acesso em 02


de julho de 2019.

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Em virtude disso, para o tutor, a excelência do processo em questão é


baseada no planejamento das atividades, nos prazos para a realização das mesmas
e nos materiais de apoio que serão disponibilizados. Já para o aluno, a
responsabilidade de aprender a aprender, a autonomia de escolha de como se dará
o seu aprendizado e a busca pela interação com o tutor e outros colegas constituem
peças fundamentais para o bom andamento do programa de EAD.
Diante desse quadro, Valente (2003) entende que o aluno ativo e autônomo, é
o responsável por sua aprendizagem. Em decorrência, é importante ressaltar que a
aprendizagem é assimilada através dos estímulos, como, por exemplo, a visão, a
audição e o tato, provocando que o professor saiba implementar os módulos de
estudos para que atinjam um maior número de estímulos.
Nessas condições, no EAD, a autonomia do aluno permite que este assuma
um protagonismo no processo ensino-aprendizagem, uma vez que o mesmo tem a
responsabilidade pela sua aprendizagem, corroborando com a sua capacidade de
organizar e gerir seu tempo para atingir, com a mediação do Tutor, os objetivos de
um determinado conteúdo.
Em fim, de acordo Bissoto (2012), a Educação, quando se utiliza da
tecnologia, não é somente uma experiência de “como fazer”, mas uma experiência
do “saber por qual motivo fazer”. Esta última é mais significativa, pois se relaciona
fundamentalmente ao ato humano de criar novos conhecimentos. Assim, cabe ao
tutor, por meio de sua ação mediadora e em contato direto com os alunos, indicar as
matérias que contribuam para a compreensão do conteúdo, acarretando na
interação entre os alunos, tirando possíveis dúvidas e motivando a todos na busca
da aprendizagem colaborativa do grupo.

A Implementação do EAD, aos moldes do SCMB, aos residentes da faixa de


fronteira sul-mato-grossense: Uma proposta
A criança, desde cedo, deve ser adequadamente preparada para os desafios
da vida adulta. Dessa maneira, a preocupação dos pais com um ensino de qualidade
requer atenção redobrada, objetivando que o cidadão possa concorrer em condições
de igualdade com os demais, no futuro mercado de trabalho.
Nessa voga, um dado ilustrativo e alarmante caracteriza as limitações do
ensino fundamental, conforme segue: “Mais de 65% dos alunos brasileiros no 5º ano

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da escola pública não sabem reconhecer um quadrado, um triângulo ou um círculo.


[...]” (ÉPOCA, 2015) Diante desse quadro, nos ensino fundamental II e médio,
apresenta-se como alternativa viável o SCMB.
O SCMB é composto por 13 (treze) colégios, assim distribuídos: Porto Alegre,
Santa Maria, Curitiba, Rio de Janeiro, Campo Grande, Juiz de Fora, Brasília, Belo
Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza, Belém e Manaus. Tais estabelecimentos de
ensino, em suas regiões de abrangência, são referência no setor educacional,
atendendo aos dependentes de militares e aos civis selecionados por concurso
público.
2
A educação assistencial remete à gênese e à justificativa do próprio SCMB:
a busca do equacionamento das vicissitudes inerentes à profissão militar, das
dificuldades impostas à família castrense que impactam o moral da tropa.

É neste cenário que se inserem os Colégios Militares, educandários


fortemente ancorados nos valores éticos e morais, nos costumes e nas
tradições cultuados pelo Exército Brasileiro. É deste somatório que emerge
a identidade do Sistema, o diferencial capaz de gerar vínculo, apego e
sentimento de pertença aos Colégios. Como estabelecimentos de ensino
filiados aos códigos do Exército, os Colégios Militares sustentam-se sobre
os mesmos pilares: a hierarquia e a disciplina. Esta peculiaridade, que os
distinguem no todo maior da educação nacional, reforça a imagem que os
Colégios Militares vieram lapidando ao longo de mais de cento e vinte anos:
sua marca particular.

Em termos de Educação a Distância, o Colégio Militar de Manaus (CMM) foi o


pioneiro.
3
O ano de 2002 marcou o início das atividades do Projeto de Educação a
Distância do Colégio Militar de Manaus (EAD/CMM) quando beneficiou 59
alunos em todos os Estados atendidos pelo Comando Militar da Amazônia.
Com a evolução do Projeto EAD, a Seção de Educação a Distância
(SEAD/CMM) expandiu seus limites de atuação para além da jurisdição do
CMA, passando a atender parte do estado do Mato Grosso do Sul (região
de fronteira), sob jurisdição do CMO, e o exterior, o que representou um
salto quantitativo na ordem de quase dez vezes o número de alunos
atendidos, chegando ao ápice de 553 alunos em 2016. Em 2017, 445
alunos foram atendidos pela SEAD/CMM.

De maneira inovadora, soube estabelecer um padrão de excelência em que o


sucesso foi o fruto do comprometimento das Organizações Militares apoiadoras, da
ação dos orientadores e da efetiva participação dos pais dos alunos.

2. Disponível em: <http://www.ead.cmm.eb.mil.br/his.html>. Acesso em 16 de junho de 2019.


3. Disponível em: <http://www.ead.cmm.eb.mil.br/his.html>. Acesso em 09 de julho de 2019.

Corumbá/MS, Brasil. 7 a 9 de outubro de 2019. ISSN. 2178-2245


210

4
Público-Alvo: Filhos e dependentes de militares das Forças Armadas
Brasileiras, com idade entre 10 e 17 anos, que estejam cursando, em
caráter regular, do 6º Ano do Ensino Fundamental ao 3º Ano do Ensino
Médio, cujos responsáveis estejam servindo em áreas pioneiras da
Amazônia ou no Exterior.
Assim sendo, como fator motivador aos pais e alunos que ingressam no
SCMB, as médias dos Colégios Militares, anualmente, são as mais destacadas no
ensino público federal, no ENEM.
Em 2012:
5
Em 2012, 11.239 escolas e 683.389 estudantes participaram do exame,
com destaque para 06 (seis) colégios militares que apresentaram média
geral nas provas objetivas (nas áreas das linguagens, na Matemática, nas
ciências da natureza e nas humanas) dentre as 20 melhores escolas
públicas do país.
6
No dia 26 de novembro, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas
Educacionais Anísio Teixeira (INEP) divulgou o ranking de classificação das
escolas no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) 2012 e, mais uma
vez, o Colégio Militar de Santa Maria (CMSM) foi destaque. O Colégio
passou da 18ª posição para a 8ª, envolvendo as escolas públicas no Rio
Grande do Sul. Esse resultado é muito comemorado, pois representa um
salto de 20 pontos que alavancou o Colégio da 5ª para a 3ª posição no
âmbito das escolas públicas, em comparação com o resultado alcançado
em 2011.

Em 2013:
Em 2013, 14.715 escolas participaram do exame. Dentro do SCMB, dois
Colégios Militares constam da lista das cem melhores do país, entre escolas
da rede pública e privada: Juiz de Fora e Belo Horizonte. No âmbito das
escolas públicas, os Colégios Militares de Juiz de Fora, Belo Horizonte,
Porto Alegre e Salvador apresentaram média geral entre as 20 melhores do
país. Os Colégios Militares de Curitiba, Campo Grande, Fortaleza, Brasília e
Manaus obtiveram o 1º lugar dentre as escolas públicas de seus estados.

Reiterando que a educação é um direito garantido pela Constituição Federal


de 1988, torna-se senso comum que elevar a qualidade do ensino público no Brasil
é uma necessidade imperativa frente aos desafios do desenvolvimento do sistema
educacional.

4. Disponível em: <http://www.ead.cmm.eb.mil.br/his.html>. Acesso em 07 de julho de 2019.


5. Disponível em: <http://www.eb.mil.br/noticias/-/asset_publisher/jWOqZAEImyZg/ content/sistema-
colegio-militar-do-brasil-scmb-se-destaca-no-enem2012/16541?inh eritRedirect=false>. Acesso em 09
de julho de 2019.
6. Disponível em: <http://www.eb.mil.br/exercito-brasileiro?p_p_id=101&p_p_lifecycle=0&p_p
_state=maximized&p_p_mode=view&_101_struts_action=%2Fasset_publisher%2Fview_content&_10
1_returnToFullPageURL=%2F&_101_assetEntryId=3906900&_101_type=content&_101_groupId=114
25&_101_urlTitle=colegio-militar-de-santa-maria-terceiro-lugar-no-ranking-doenem&_101_redirect=ht
tp%3A%2F%2Fwww.eb.mil.br%2Fexercito-brasileiro%3Fp_p_id%3D3%26p_p_lifecycle%3D0%26
p_p_state%3Dmaximized%26p_p_mode%3Dview%26_3_redirect%3D%252F%26_3_cur%3D%26_3
_keywords%3DENEM%26_3_advancedSearch%3Dfalse%26_3_groupId%3D0%26_3_delta%3D20%
26_3_resetCur%3Dfalse%26_3_andOperator%3Dtrue%26_3_struts_action%3D%252Fsearch%252F
search&inheritRedirect=true#.W 1TbJzpKj cc>. Acesso em 11 de julho de 2019.

Corumbá/MS, Brasil. 7 a 9 de outubro de 2019. ISSN. 2178-2245


211

A qualidade do sistema de ensino público, com foco no ensino médio, na faixa


de fronteira do Mato Grosso do Sul e a carência educacional nos municípios
da faixa de fronteira do MS
O Estado do Mato Grosso do Sul está localizado na porção Centro-Oeste do
Brasil. Possui ao norte limite com o estado do Mato Grosso, a nordeste com Goiás e
Minas Gerais, a sudeste com São Paulo e ao sul com o Paraná. Em seu setor leste,
encontra-se sua faixa de fronteira que é composta por 44 municípios7, tendo como
vizinho o Paraguai e a Bolívia.
A qualidade do sistema de ensino público encontra sua primeira barreira na
quantidade elevada de Escolas existentes na região. Segundo o site da
transparência pública do MS, em 2016, existiam 1.745 estabelecimentos de ensino
no estado. Destes, 1.304 eram públicos, ou seja, administrados pelo governo
federal, estadual ou municipal, quer sejam na área urbana ou rural, segundo dados
extraídos do supracitado sítio eletrônico (Tabela 1), conforme segue:

Tabela 1 – Estabelecimentos de ensino no MS


TOTAL GERAL FEDERAL ESTADUAL MUNICIPAL PRIVADA
Total Urbana Rural Total Urbana Rural Total Urbana Rural Total Urbana Rural Total Urbana Rural

1.745 1.497 248 11 9 2 368 315 53 925 737 188 441 436 5
Fonte: Disponível em: <http://www.sed.ms.gov.br/numero-de-escolas-de-mato-grosso-do-sul/>. Acesso
em 12 de julho de 2019

Na grande região fronteiriça, o governo não consegue dar assistência integral


aos seus jovens. Tal carência de ensino público, dentre outros fatores, pode ser
atestada pelo resultado do ENEM8.
O exame foi criado pelo INEP, em 1998, com o objetivo de avaliar o
desempenho do estudante ao fim da escolaridade básica. Os alunos
concludentes do Ensino Médio foram submetidos a provas objetivas, por
áreas do conhecimento, além de uma redação.

7. Disponível em: <http://www.sudeco.gov.br/municipios-faixa-de-fronteira>. Acesso em 17 de junho


de 2019.
8. Disponível em: <http://www.eb.mil.br/noticias/-/asset_publisher/jWOqZAEImyZg/ content/sistema-
colegio-militar-do-brasil-scmb-se-destaca-no-enem-2012/16541?inheritRedirect=false>. Acesso em 08
de julho de 2019.

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212

O artigo em questão contemplou a coleta de dados, via rede mundial de


computadores, das seguintes Escolas Estaduais do MS (Tabela 2):

Tabela 2 – Pontuação das Escolas do MS

Classificação Cidade Escola Pontuação


(ENEM)
26º Amambai EE Dom Aquino Correa 571,68
55º Dourados EE Presidente Vargas 534,18
70º Rio Brilhante EE Fernando Correia da Costa 515,15
76º Três Lagoas EE Fernando Correia 510,94
77º Coxim EE Viriato Bandeira 510,67
78º Naviraí EE Eurico Gaspar Dutra 510,12
80º Fátima do Sul EE Senador Filinto Muller 509,26
82º Amambai EE Dr. Fernando Correia da Costa 508,90
86º Dourados EE Antônia da Silveira Capilé 506,25
93º Dourados EE Prof. Alicio Araújo 503,75
95º Dourados EE Ramona da Silva Pedroso 503,49
96º Glória de Dourados EE Profª. Eufrosina Pinto 502,53
97º Aquidauana EE Cândido Mariano 501,86
99º Guia Lopes da EE Salomé de Melo Rocha 501,57
Laguna
100º Amambai EE Vespasiano Martins 500,89
Fonte: Disponível em: <http://g1.globo.com/mato-grosso-do-sul/noticia/2016/10/veja-100 -escolas-de-
ms-com-maiores-medias-no-enem-2015.html>. Acesso em 04 de julho de 2019.

Dentre as 100 escolas, do MS, primeiras colocadas no Exame, 84 foram do


ensino privado e, além das 15 escolas públicas supracitadas, o CMCG classificou-se
em 7º lugar com 638,41 pontos. Portanto, entende-se que para alavancar o
desenvolvimento do estado, partindo do interior, deve-se propiciar uma melhor
qualidade de ensino público aos jovens.
Paralelamente aos resultados em tela, o governo estadual lançou o Plano
estadual de Educação (PEE-MS/ 2014 - 2024)9: “... de forma a estabelecer um
planejamento sistematizado para a próxima década, ...”, segundo as palavras do

9. Disponível em: <http://www.sed.ms.gov.br/wp-content/uploads/sites/67/2015/05/pee-ms-201 4.pdf>.


Acesso em 14 de julho de 2019.

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213

Governador André Puccinelli e coerente com o Plano Nacional de Educação (PNE) –


Lei n. 13.005, de 25 de junho de 2014.
10
Art. 2º São diretrizes do PNE que orientam as metas e estratégias do
PEE-MS: I - a erradicação do analfabetismo; II - a universalização do
atendimento escolar; III - a superação das desigualdades educacionais, com
ênfase na promoção da cidadania e na erradicação de todas as formas de
discriminação; IV - a melhoria da qualidade da educação; V - a formação
para o trabalho e para a cidadania, com ênfase nos valores morais e éticos
em que se fundamenta a sociedade; VI - a promoção do princípio da gestão
democrática da educação pública; VII - a promoção humanística, científica,
cultural e tecnológica do País; VIII - o estabelecimento de meta de aplicação
de recursos públicos em educação como proporção do Produto Interno
Bruto (PIB), que assegure atendimento às necessidades de expansão, com
padrão de qualidade e equidade; IX - a valorização dos profissionais da
educação; X - a promoção dos princípios do respeito aos direitos humanos,
à diversidade e à sustentabilidade socioambiental.

Dentre as estratégias do PEE-MS para o aproveitamento eficaz do EAD em


âmbito estadual, destaca-se:
11
8.1 garantir aos estudantes em situação de distorção idade-série,
programas com metodologia específica, acompanhamento pedagógico
individualizado, recuperação e progressão parcial, visando à continuidade
da escolarização, de forma a concluir seus estudos, utilizando-se também
da educação à distância, a partir do segundo ano de vigência deste PEE;

9.4. assegurar a oferta gratuita da Educação de Jovens e Adultos (EJA) a


todos que não tiveram acesso à educação básica na idade própria,
utilizando-se, também, da educação a distância, na vigência do PEE-MS;

9.10. assegurar a oferta da EJA, nas etapas do ensino fundamental e do


ensino médio, às pessoas privadas de liberdade nos estabelecimentos
penais, garantindo formação específica dos(as) professores(as) e a
utilização inclusive da educação a distância, até 2019;

9.12. desenvolver e apoiar, técnica e financeiramente, projetos inovadores


de EJA, com a utilização da educação a distância, que atendam às
necessidades específicas desses(as) estudantes, em parceria com
instituições da sociedade civil organizada, na vigência do PEE-MS;

9.13. promover a articulação com empresas públicas e privadas para oferta


das ações de alfabetização e programas permanentes de EJA nessas
empresas, com o apoio das tecnologias de informação e comunicação e da
educação a distância e a flexibilidade na oferta de acordo com o ritmo do(a)
estudante, no prazo de dois anos de vigência deste PEE;

9.20. utilizar os recursos e metodologias da educação a distância,


atendendo os padrões de qualidade e a legislação vigente, na oferta de
cursos de EJA, a partir da vigência deste PEE-MS;

10. Disponível em: <http://www.sed.ms.gov.br/wp-content/uploads/sites/67/2015/05/pee-ms-20


14.pdf>. Acesso em 13 de julho de 2019.
11. Disponível em: <http://www.sed.ms.gov.br/wp-content/uploads/sites/67/2015/05/pee-ms-20
14.pdf>. Acesso em 15 de julho de 2019.

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214

10.2. fomentar, a partir do primeiro ano de vigência do PEE-MS, integração


da educação de jovens e adultos com a educação profissional, em cursos
planejados, inclusive na modalidade educação a distância, de acordo com
as características do público da educação de jovens e adultos e
considerando as especificidades das populações itinerantes e do campo,
povos das águas e das comunidades indígenas e quilombolas;

11.3. oferecer cursos de educação profissional técnica de nível médio, na


modalidade educação a distância, com a finalidade de ampliar a oferta e
democratizar o acesso à educação profissional pública e gratuita, com
padrão de qualidade, a partir do primeiro ano de vigência deste PEE; e

11.6. oferecer cursos de ensino médio gratuito integrado à educação


profissional para as populações do campo, comunidades indígenas e
quilombolas, povos das águas e para a educação especial, por meio de
projetos específicos, incluindo a educação a distância, com vistas a atender
os interesses e as necessidades dessas populações, a partir do primeiro
ano de vigência deste PEE.

Além dos incentivos estaduais elencados nas estratégias supracitadas, para


investimento em EAD, decorre que no Brasil a Organização das Nações Unidas para
a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) apontou, em 2015, a má qualidade
como principal problema da educação12, corroborando com a precariedade da
situação do interior do MS.

Apontado diversas vezes como exemplo positivo, o Brasil conseguiu atingir


as metas de "educação primária universal" e "habilidade de jovens e
adultos", mas ainda precisa avançar para melhorar a qualidade do ensino e
diminuir os índices de analfabetismo. Treze milhões de brasileiros não
sabem ler nem escrever, o que faz do Brasil o oitavo país com maior
número de analfabetos. "O grande nó crítico do país é a qualidade da
educação, especialmente em relação ao aprendizado. O aluno está na sala
de aula, mas não aprende. É uma exclusão intraescolar: 22% dos alunos
saem da escola sem capacidades elementares de leitura e 39% não têm
conhecimentos básicos de matemática. De qualquer maneira, não podemos
negar os grandes avanços que o Brasil apresentou", afirma Maria Rebeca
Otero, coordenadora de educação da UNESCO no Brasil.

Diante do exposto, será apresentada uma proposta de implementação da


Educação a Distância na rede pública, da faixa de fronteira sul-mato-grossense, aos
moldes do SCMB, contribuindo para a busca pela excelência do processo de ensino-
aprendizagem, na região em tela.

12. Disponível em: <https://www.terra.com.br/noticias/educacao/unesco-aponta-ma-qualidade-como-


principal-problema-da-educacao-no-brasil,6a8520cd9b3d3410VgnCLD2000000dc6eb0aRCRD.html>.
Acesso em 11 de julho de 2019.

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215

Uma proposta de implementação de EAD, aos moldes do SCMB, aos civis da


faixa de fronteira do Mato Grosso do Sul
O Colégio Militar de Manaus (CMM) abrange um efetivo de mais de 500
alunos, conforme o sítio eletrônico do estabelecimento de ensino, em 08 (oito)
estados do território brasileiro.13Ainda, no exterior, recebe filhos de militares que
servem nas diferentes missões do Exército Brasileiro.
Com o modelo em questão, do SCMB, especificamente do CMM, será
apresentada a proposta de EAD, para o ensino público e para o emprego em nível
estadual, aos civis residentes na faixa de fronteira do MS, com foco no ensino
médio.
No CMM, o material didático é fornecido aos alunos impresso, remetido pelos
Correios, e em mídia, com um chip tipo cartão SD/MMC/MS para inserção em
Desktops e Notebooks. Ainda, no Ambiente Virtual de Aprendizagem (AVA), no site
do Colégio, por meios de vídeos e outros materiais digitais, além da interação com
os tutores e professores via fórum de dúvidas, Skype e por e-mail. Simultaneamente,
o contato telefônico abrange mais uma possibilidade de contato.
Conforme destacado anteriormente, o trinômio interativo aluno-professor-tutor
é de grande importância e salientado junto aos Fóruns14, conforme destacado na
sequência, e desta maneira procura-se obter o máximo rendimento escolar. Além
disso, o constante contato entre pedagogos e pais beneficia a transparência no
andamento dos objetivos escolares, por parte dos filhos e dependentes.
Fórum - essa é uma atividade muito importante, que tem por objetivo a
apresentação e socialização dos discentes do curso. Faça sua
apresentação pessoal e conheça os demais alunos, inclusive os
tutores/professores, pois eles irão auxiliá-lo nas suas dúvidas, no decorrer
do ano letivo de 2018. Também pode ler as mensagens dos outros alunos,
e se quiser faça um comentário. Ao final de cada mensagem, aparecem 4
links, cada um deles irá levá-lo(a) para uma condição diferente. Não se
preocupe, clique sem medo, pois não irá apagar nada.

A carga horária semanal do Ensino Médio é de 26 horas e abrange as


seguintes matérias:
a. Língua Portuguesa: 5 horas (1º ao 3º ano); b. Literatura: 2 horas (1º ao 3º
ano); c. Matemática: 5 horas (1º ao 3º ano); d. História: 2 horas (1º ao 3º
ano); e. Geografia: 2 horas (1º ao 3º ano); f. Biologia: 4 horas (1º ao 3º ano);

13. Disponível em: <http://www.ava.cmm.eb.mil.br/eadcmm/pluginfile.php/2447/mod_resource


/content/1/Palestra%20EAD.pdf>. Acesso em 07 de julho de 2019.
14. Disponível em: <http://www.ava.cmm.eb.mil.br/eadcmm/pluginfile.php/2425/mod_resource
/content/3/Orientacao%20e%20Instrucoes%20para%20inserir%20FOTO%20e%20participar%20de%
20FORUM.pdf>. Acesso em 07 de julho de 2019.

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g. Física: 3 horas (1º ao 3º ano); h. Química: 3 horas (1º ao 3º ano); i.


Inglês: 2 horas (1º ao 3º ano); j. Filosofia: 1 hora (1º ao 3º ano); e l.
Sociologia: 1 hora (1º ao 3º ano).

Visando comprovar o nível de aprendizagem do aluno, as avaliações são:


AVALIAÇÃO PARCIAL (AP): Avaliação online elaborada com conteúdos
específicos e serve como preparo para a Avaliação de Estudo. AVALIAÇÃO
DE ESTUDO (AE): Avaliação escrita, realizada ao final do trimestre letivo,
elaborada com conteúdos específicos e que exigem maior preparo para
realização, pois considera todo o conteúdo estudado no período.
RECUPERAÇÃO DA APRENDIZAGEM (RA): Avaliação online, paralela e
contínua, realizada após a consolidação das AP, com a finalidade de
recuperar a aprendizagem daqueles que, eventualmente, não tenham
atingido a necessária para aprovação.

A aprovação é considerada caso o aluno atinja média de nota final ou nota


final recuperada igual ou superior a 5,0 (cinco) (Quadro 1).

Quadro 1 – Cálculo de Notas

Fonte: Defesa (2017, p. 46).

No processo de ensino em questão é de suma importância destacar o papel


do Ambiente Virtual de Aprendizagem que engloba não só o material didático, como
a possibilidade de interação entre os diversos atores do curso, a realização das
avaliações online supracitadas e a respectiva sala de aula virtual.
De fato, hoje em dia, o grande desafio do estudante a distância é dinamizar e
organizar o seu tempo. Nesse aspecto, avulta de relevância a tal autonomia do
aluno em EAD, abordada no capítulo anterior deste artigo:
15
O primeiro grande passo para quem quer melhorar seus estudos é
reorganizar o seu tempo. Tempo para brincar, para se reunir com os
colegas e amigos, para usar a internet e tantas outras coisas. Tudo isso

15. Disponível em: <http://www.ava.cmm.eb.mil.br/eadcmm/pluginfile.php/2446/mod_resource/con


tent/1/Guia%20de%20Estudos%20do%20Aluno%20-%202018.pdf>. Acesso em 09 de julho de 2019.

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sem se esquecer do mais importante: aproveitar cada instante com sua


família e para estudar. A maneira mais prática de “descobrir” tempo para
estudar consiste em fazer uma tabela com os dias, horas e as atividades
que você possui. A partir daí, você reserva os seus horários, priorizando os
seus estudos.

Além disso, o ensino nacional assumiu um caráter assistencial e vem


combatendo o fracasso escolar, sendo inclusivo e utilizando a ferramenta de ensino
por competências, especialmente no SCMB. Isso resulta, no CMM, em orientações
específicas por disciplina e área do conhecimento, conforme discriminado nas
Normas de Funcionamento do Curso Regular de Educação a Distância do Colégio
Militar de Manaus16:
9.1. CIÊNCIAS FÍSICAS E BIOLÓGICAS, BIOLOGIA, QUÍMICA E FÍSICA:
1) Deverá ser buscada a contextualização dos conteúdos aprendidos por
meio de práticas laboratoriais (laboratório virtual), palestras e visitas. 2)
Dever-se-á possibilitar ao aluno maior compreensão dos fenômenos
naturais, com vídeo aulas teóricas, fixação dos conteúdos com exercícios
ou outros recursos disponíveis e práticas relacionadas ao conteúdo do ano;
e 3) Deve-se buscar um melhor aprendizado enfatizando conhecimentos
que ampliem o horizonte na inter-relação desta ciência com outras e sua
aplicabilidade no cotidiano;
9.2. GEOGRAFIA E HISTÓRIA: 1) O estudo da história do Brasil deve ser
aproveitado para a compreensão das diferenças regionais, reforçar o
orgulho por nosso passado, valorizar os nossos heróis e os nossos feitos,
avaliar o nosso imenso potencial de recursos naturais, razão da confiança
no futuro, valorizar a democracia em contraposição a qualquer regime
totalitário, compreender as contribuições das diferentes culturas e etnias
para a formação do nosso povo. 2) Todas as oportunidades devem ser
aproveitadas para destacar os vultos e os feitos do Exército Brasileiro,
assim como para ressaltar a participação da Força na História do Brasil,
remota e recente, enaltecendo a contribuição da Instituição à consolidação,
preservação e manutenção da integridade do nosso território e da
integração nacional, e mostrar a permanente identificação com os legítimos
anseios do povo brasileiro. 3) Além disso, procura a utilização de
modelismo; a realização de pesquisas na rede mundial de computadores; o
aproveitamento de meios audiovisuais; um programa de visitas a sítios
históricos, museus, monumentos, bibliotecas e exposições e apresentações
culturais que possam fazer encenações e simulações de fatos históricos.
Todas essas atividades podem servir de instrumentos para avaliações. 4)
Os alunos devem ser estimulados a utilizar os atlas geográficos e históricos,
para permitir compreender o significado de certos termos empregados e
saber buscar as informações nos documentos. 34 5) Deverá haver o
cuidado com temas polêmicos, caso a abordagem não seja feita de acordo
com as diretrizes da DEPA, o que poderá causar algum constrangimento ao
entrar em proselitismo político e ideologias partidárias.
9.3. LÍNGUA ESTRANGEIRA MODERNA (Inglês): 1) As avaliações serão
confeccionadas integralmente na língua estrangeira, sendo vetado o uso de
questões ou respostas em língua portuguesa. 2) No que tange às
Avaliações de Estudo (AE), o modelo de avaliação Escolar deverá ser mais
flexíveis quanto à formatação das provas, de forma a aproximá-las do tipo

16. Disponível em: <http://www.ava.cmm.eb.mil.br/eadcmm/pluginfile.php/179/mod_resource/con


tent/6/Normas%20para%20Funcionamento%20do%20CREAD%20-%202018.pdf>.Acesso em 10 de
julho de 2019.

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de trabalho desenvolvido no material didático.


9.4. LÍNGUA PORTUGUESA E REDAÇÃO: a. Máxima prioridade deve ser
dada ao desenvolvimento da capacidade de leitura e de produção textual,
bem como da expressão oral. b. Tanto a escrita quanto a reescrita devem
ser valorizadas. A reescrita não pode se transformar em um texto do
professor. O aluno deve ser conduzido a reescrever a redação, e não
meramente a transcrever as correções apontadas. Por isso, é importante
que, logo no início do ano letivo, os alunos tomem conhecimento dos
parâmetros de correção e comecem a aprender o que é coesão, coerência
e gramaticalidade, bem como o que é fuga ao tema, má apresentação e
ausência de texto. c. aproveitar todas as atividades curriculares e
extracurriculares (feiras de ciências, olimpíadas, visitas a sítios históricos,
PCI, formaturas, solenidades, datas festivas, dentre outras) para estimular
os alunos à leitura e à produção de textos sobre esses eventos, propondo
os temas com antecedência para facilitar a pesquisa, caso ocorram e,
sendo sempre de forma voluntária, informando ao SEAD/CMM.
9.5. MATEMÁTICA: 1) A utilização de meios auxiliares deve ser estimulada
para despertar no aluno o gosto pela disciplina, enfatizando, assim, o ensino
contextualizado, o qual visa atenuar a dificuldade do aprendizado dos
alunos com menor habilidade com números e /ou com dificuldades na visão
espacial e que apresentem menor grau de abstração. 2) A utilização de um
laboratório virtual de matemática será buscada para dinamizar as aulas e
facilitar o processo de ensino-aprendizagem da disciplina. 35
9.6. SOCIOLOGIA/FILOSOFIA: 1) Especial atenção deverá ser dada ao
ensino dos temas relacionados às disciplinas Filosofia e Sociologia, pois,
caso a abordagem não seja feita de acordo com as diretrizes da DEPA,
poderá causar algum constrangimento ao entrar em proselitismo político e
ideologias partidárias. Contudo, nas disciplinas que trabalham as Ciências
Humanas, isto é comum, pois tratam de assuntos caros à própria existência
humana. Assim, é fundamental que o tutor discuta o texto em seu devido
contexto, problematizando a escrita didática de acordo com o sentido de
verdade proposto pelo texto, tendo o cuidado para não serem levantados
temas polêmicos. 2) Estas disciplinas devem proporcionar aos alunos uma
formação conceitual que potencialize suas capacidades cognitivas,
permitindo-lhes avaliar e julgar a realidade na qual estão inseridos, bem
como incentivar o desenvolvimento das suas competências e habilidades. 3)
Os tutores de filosofia e sociologia deverão, visando a enriquecer o
aprendizado, indicar filmes que estejam relacionados aos temas a serem
estudados.

Desta maneira, para que a dinâmica de ensino exposta seja fator de sucesso
no ensino público, é necessário o comprometimento do Diretor de ensino da Escola,
devendo: “Acompanhar o desenvolvimento do curso e o desempenho do aluno por
meio de informações prestadas pelo Coordenador e orientador designado”; do
Coordenador Pedagógico, “Recebendo as publicações, provas e outros documentos,
acusando o recebimento e distribuindo ao orientador.”; do Orientador, como: “O
responsável, perante a escola, pela condução das atividades administrativas e
pedagógicas”; do Tutor, que é “O professor que atua na tutoria de educação a
distância”; e do Pai responsável, através do incentivo e estímulo ao jovem nas
ocasiões em que a sua autonomia requerer maior dedicação e organização para
atingir os objetivos impostos pelos professores.

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Nesse diapasão, com os relevantes e já consagrados modelos apresentados


em funcionamento no âmbito federal, com o SCMB, bastaria o Governo Estadual
adquirir o know how necessário para implementar um projeto piloto nos munícipios
menos assistidos da fronteira sul-mato-grossense. Tal projeto, no mesmo sentido do
PEE-MS, poderia visar o EJA mencionado nas Estratégias para até 2019, do mesmo
documento. Ademais, não obstante o EAD, poderiam ser aulas de caráter híbrido,
combinando ensino presencial e a distância, como já consagrado em
estabelecimentos de ensino particulares, em que um professor ministra aula por
videoconferência para estudantes, do ensino semipresencial, espalhados em
diversos polos distantes geograficamente. Paralelamente, com fulcro de redução de
custos, as questões atinentes à distribuição do material didático poderiam ser
facilmente sanadas por meio da ferramenta Google Docs, em que bastaria que o
estudante tivesse um endereço de e-mail do Gmail para acesso as pastas de
conteúdos preparadas pelos Tutores, conforme as matérias do respectivo ano letivo.
Com isso, foi proposta uma eficaz solução ao ensino público do MS, de
renomada qualidade, através de um modelo consagrado pelo CMM, cuja extensão
permitirá atender estudantes do ensino médio, da faixa de fronteira sul-mato-
grossense, cujo sucesso dependerá do comprometimento coletivo com os alunos.

Considerações Finais
De forma efetiva, foi evidenciada a gradual diferença de rendimento escolar,
conforme o ENEM, do SCMB e das Escolas do MS. Foi destacado que o CMCG
figurou como a 5ª melhor Escola Pública, no resultado por escolas de “grande porte”
e “muito alto” nível socioeconômico, do ENEM 201517. Destas, 14 estão na faixa de
fronteira18, de acordo com o Programa de Promoção do Desenvolvimento da Faixa
de Fronteira, e serviram para compor este estudo.
Verificou-se que o EAD no Brasil surgiu no início do século XX e, atualmente,
encontra-se em plena difusão. Nesse sentido, o trinômio aluno-professor-tutor impõe
uma mútua relação para maior aproveitamento e rendimento escolar, com desta
para a aprendizagem colaborativa. Tal fato, na atual era digital, em que combinamos

17. Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_basica/enem/enem_por_escola/2015


/apresentacao_enem_por_escola_2015.pdf>. Acesso em 02 de julho de 2019.
18. Disponível em: <http://www.mi.gov.br/c/document_library/get_file?uuid=e5ba704f-5000-43df-bc8e-
01df0055e632&groupId=10157>. Acesso em 03 de julho de 2019.

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informática com meios de comunicações, além de aulas presenciais e a distância,


cresce de importância para que a interação construtiva ocorra no ambiente virtual.
Observou-se que os Colégios Militares, anualmente, obtêm posições
destacadas junto ao ENEM, em comparação com escolas públicas e privadas, tanto
em âmbito regional quanto nacional. Além disso, o pioneirismo do Colégio Militar de
Manaus no EAD, dando assistência aos dependentes de militares residentes nas
faixas de fronteira, consolida a proposta apresentada neste artigo, desde que exista
o comprometimento das Escolas, dos pais dos alunos e de seus orientadores
(tutores).
Não obstante, ainda no que concerne a questão do crescimento educacional
no país, por região, o Centro-Oeste, historicamente, ocupa posição intermediária
entre os estados do eixo Sul-Sudeste e do Norte-Nordeste. Diante do exposto, foi
demonstrado com o PNE e o PEE-MS que, para a política de ensino atual, a
Educação a Distância, em âmbito nacional e, consequentemente, regional, possui
elevado prestígio e priorização, em termo de planos e estratégias até 2024.
Em síntese, este artigo apresentou um EAD, em nível médio e de alta
qualidade, visando alavancar o MS como referencial no ensino público brasileiro.
Paralelamente, o artigo concluiu sobre a qualidade do sistema de ensino público do
MS, com foco no ensino médio, na faixa de fronteira. Ainda, apresentou uma
proposta de implementação de EAD, conforme o SCMB, aos civis, abrindo as portas
para um ensino de qualidade na Região.
Por fim, por meio deste artigo e da proposta apresentada, ficou comprovado o
possível benefício que a adoção do EAD, aos moldes do SCMB trará para a Região
fronteiriça do MS, no aspecto do crescimento educacional, culminando em médio
prazo com o desenvolvimento regional, contrastando positivamente em relação aos
demais estados brasileiros.

Referências

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Disponível em: <https://sirireporter.wordpress.com/2013/03/07/turismo-sul-mato-
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Disponível em: <http://epoca.globo.com/ideias/noticia/2015/01/bo-ensino-publico-no-
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Disponível em: <http://www.anpae.org.br/IBERO_AMERICANO_IV/GT1/GT1_
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junho de 2019.

VALENTE, J. Armando. Aprendizagem continuada ao longo da vida: o exemplo


da terceira idade. São Paulo: Cortez, 2001.

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BILINGUISMO NA EDUCAÇÃO DE SURDOS NA FRONTEIRA BRASIL-BOLÍVIA:


ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Bilisguism in Deaf Education on the Brazil-Bolivia Border: Some Consideration
Bilingüismo en Sordos Educación sobre la Frontera Brasil-Bolivia: Algunas
Consideraciones

Lineise Auxiliadora Amarílio dos Santos


Cláudia Araújo de Lima

Resumo: Este artigo aborda o bilinguismo na educação de surdos na fronteira


Brasil–Bolívia. Apesar dos avanços históricos na educação de surdos no que diz
respeito ao reconhecimento e valorização da língua de sinais e da adoção da política
linguística bilíngue observamos aspectos ainda não efetivados na educação
bilíngue. Este estudo pretende analisar o contexto formal de aquisição da Língua de
Sinais e da Língua Portuguesa como segunda Língua nas escolas de Corumbá. É
um estudo bibliográfico e documental onde discutiremos as categorias Bilinguismo,
Fronteira, Surdez e Língua de Sinais – AEE.
Palavras-chave: Bilinguismo –Fronteira – Língua de Sinais – Surdez – Atendimento
Especializado.

Abstract: This article approaches bilingualism in the education of the deaf in Brazil -
Bolivia border. Despite the historical advances in the education of deaf people
regarding the recognition and valorization of sign language and the adoption of
bilingual linguistic politics, we have observed aspects not yet effective in bilingual
education. This study intends to analyze the formal context of acquisition of the Sign
Language and Portuguese Language as the second Language in the schools of
Corumbá. It is a bibliographic and documentary study where we will discuss the
categories Bilingualism, Border, Deafness and Sign Language.
Keywords: Bilingualism - Frontier - Sign Language – Deafness.

Resúmen: Este artículo aborda el bilingüismo en la educación de sordos en la


frontera entre Brasil y Bolivia. A pesar de los avances históricos en la educación de
las personas sordas con respecto al reconocimiento y la valorización del lenguaje de
señas y la adopción de políticas lingüísticas bilingües, hemos observado aspectos
que aún no son efectivos en la educación bilingüe. Este estudio pretende analizar el
contexto formal de adquisición de la lengua de signos y la lengua portuguesa como
segunda lengua en las escuelas de Corumbá. Es un estudio bibliográfico y


Graduada em Pedagogia, especialista em Tradução Interpretação e Docência em Libras. Professora
Formadora da Coordenadoria Regional de Ensino de Corumbá e Ladário. E-mail:
lineiseamarilio@yahoo.com.br

Graduada em Pedagogia, especialista em Processos Educacionais na Saúde com ênfase em
Tecnologias. Mestre e Doutora em Saúde Pública. Professora da Universidade Federal de Mato
Grosso do Sul –Campus do Pantanal no Programa de Pós-Graduação em Educação – Área de
Concentração: Educação Social. Coordenadora e Pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas
Interdisciplinares em Políticas Públicas, Direitos Humanos, Gênero, Vulnerabilidades e Violências –
NEPI/ Pantanal. E-mail: claudia.araujolima@gmail.com

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documental en el que discutiremos las categorías Bilingüismo, Frontera, Sordera y


Lenguaje de Señas.
Palabras-Clave: Bilingüismo - Frontera - Lenguaje de Señas – Sordera.

Introdução
Historicamente o bilinguismo na educação de surdos surgiu em oposição às
filosofias Oralista e de Comunicação Total nas décadas de 1960 e 1970, onde a
primeira tentava impor a comunicação oral às pessoas surdas e a segunda era uma
mistura de ambas, ou seja, da fala e dos sinais. Estas filosofias representaram o
pensamento da maioria ouvinte, e a concepção clínico-terapêutica da surdez que
efetivamente, não atenderam às especificidades das pessoas surdas ocasionando-
lhes inúmeros atrasos no seu desenvolvimento.
A adoção do bilinguismo na década de 1980 no Brasil, foi decorrente da
organização e luta da comunidade surda que não aceitou que a educação de surdos
fosse parte da política da Educação Inclusiva, passando a exigir o reconhecimento
da língua de sinais, a valorização da cultura e identidade surda.
Pesquisas linguísticas como a de Ferreira-Brito (1993), contribuíram
significativamente para a valorização da língua de sinais para a comunicação entre
pessoas surdas e ouvintes assim como para a valorização da cultura e da identidade
surda.
A Lei 10436/2002, conhecida popularmente como Lei de Libras, oficializou a
língua de sinais no Brasil e o Decreto Nº 5626/2005, regulamentou esta lei e apontou
caminhos para a efetivação da política bilíngue, na medida em que definiu
atribuições às instituições de ensino pertencentes às três esferas governamentais,
no que diz respeito à formação de professores bilíngues; profissionais
especializados entre os quais tradutores intérpretes de libras e instrutores surdos;
Atendimento Especializado aos estudantes surdos com a oferta da Língua de Sinais
como língua de instrução, e da Língua Portuguesa escrita na modalidade de
segunda língua nas instituições de ensino desde os níveis mais elementares.
O Relatório sobre a Política Linguística de Educação Bilíngue – Língua
Brasileira de Sinais e Língua Portuguesa (BRASIL, 2014) também corroborou na
definição dessa política linguística reiterando as estratégias e ações necessárias
para a sua efetivação no que diz respeito à valorização da língua da identidade

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surda e da cultura, difusão da língua de sinais na sociedade, formação de


profissionais especializados para atuar nesse contexto.
É inegável que houve avanços históricos no que diz respeito à política
educacional das pessoas surdas, apesar dos retrocessos quanto ao reconhecimento
da língua de sinais, da cultura e identidade das pessoas surdas, a exemplo do
Congresso de Milão, na Itália, que em 1880, proibiu o uso da língua de sinais por
praticamente um século no mundo todo.
No Brasil, apesar desse aparato legal e decorrido quase duas décadas da Lei
Nº 10436/02 e do Decreto Nº 5626/05, observamos aspectos ainda não efetivados,
apesar da mobilização nacional para implantar esses instrumentos indispensáveis à
efetivação da política bilingue. Podemos citar alguns deles entre os quais: inclusão
da disciplina de Libras no currículo dos cursos de formações professores nos cursos
de Licenciatura e Fonoaudiologia nas Instituições Federais de Ensino; exames de
Certificação Nacional de Proficiência em Libras (PROLIBRAS); criação dos Centros
de Capacitação de Profissionais da Educação e de Atendimento às Pessoas com
Surdez (CAS) que corroboraram para a efetivação da política de formação, assim
como as Associações representativas da comunidade surda entre outros. Em Mato
Grosso do Sul isso ficou evidenciado na medida em que acompanhei de perto o
percurso da educação de surdos, por estar atuando nesse contexto e participar da
comunidade surda de fronteira.
O objetivo deste trabalho é analisar o contexto formal de aquisição da Língua
de Sinais e da Língua Portuguesa como segunda Língua nas escolas de Corumbá.

Metodologia
Esta pesquisa utilizou ferramentas pesquisa documental e bibliográfica.
Conforme Reis (2016, p.60) a análise documental representa uma fonte natural de
informação, que pode ser revisado pelo pesquisador dando mais estabilidade aos
estudos. É uma pesquisa qualitativa e exploratória, onde além da pesquisa
documental foi feita uma análise bibliográfica de artigos e dissertações que abordam
a temática sobre o bilinguismo na base de dados Scielo e Redalyc.

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Bilinguismo na educação de surdos na fronteira Brasil-Bolívia


Inicialmente é necessário considerar que o bilinguismo na Bolívia iniciou no
ano de 2010 a partir do reconhecimento da LSB – Lengua de Señas Boliviana pelo
Decreto Supremo nº 0328, pelo presidente Evo Morales Ayma, sendo implantada a
educação bilíngue- bicultural dos surdos. Bolívia (2010)
Conforme o Decreto Nº 0328 no artigo 3:
“Se reconoce la Lengua de Señas Boliviana como médio de comunicación
de las personas sordas, que les permite participar activamente em los
diferentes niveles de la sociedade, dentro del marco legal y el derecho a la
inclusión en su conjunto y aceder a información.”

A partir dessa lei um breve percurso histórico pela educação de surdos da


Bolívia evidencia avanços semelhantes aos do Brasil, como surgimento Centro de
Investigação de Lengua de Señas Boliviana. Anteriormente, a partir do ano de 1932
foi criado o primeiro Centro para Sordos assim como associações de intérpretes de
Lengua de Señas, em cidades como Cochabamba, Sucre, Santa Cruz e La Paz
entre outras.
O Decreto Supremo nº 0328 também define a educação bilingue–bicultural e
estratégias necessárias para a implantação da educação de surdos:
“Crear condiciones lingüísticas y educativas en la escuela,
involucrando en el proceso desde el portero hasta el director.•
Promover el uso de la LSB en todos los estamentos de la comunidad
educativa.• Involucrar a los familiares en todo el proceso educativo.•
Definir y dar significado al papel de la LSB.• Apoyar el
empoderamiento de los Sordos.• Crear recursos didácticos visuales.•
Involucrar a los Sordos en todo el proceso educativo (co-
responsabilidad).• Preparar a los docentes en educación bilingüe,
teórica y prácticamente.• La educación bilingüe - bicultural debe estar
inscrita en el Plan Educativo Institucion”. BOLÍVIA (2010).

Esses instrumentos necessários à construção da educação bilíngue-bicultural,


também estão presentes na proposta bilíngue para a educação de surdos do Brasil.
Dito isto, podemos considerar que a proposta de Educação Bilingue é um
caminho a ser construído pelos países vizinhos Brasil-Bolívia.
QUADROS (2006 p. 13) afirma que o contexto bilingue da criança surda é
marcado pela coexistência da língua brasileira de sinais e da língua portuguesa.
Na fronteira Brasil-Bolívia pode-se considerar que a identidade e cultura surda
foram construídas historicamente na convivência entre os usuários da língua de
sinais nos contextos escolar e social, conforme ainda salienta Stroebel (2008, p.19):
“que um ser humano, em contato com o seu espaço cultural, reage cresce e

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desenvolve, a sua identidade, isto significa que os cultivos que fazemos são
coletivos e não isolados”.
Para o espaço da fronteira Brasil-Bolívia que nesse ponto, direciono o olhar,
considerando que as relações aqui existentes, são de proximidade em diversos
espaços, o que caracteriza a própria ambiguidade que o conceito de fronteira traz
em si. Apesar da divisão territorial entre os países é observado que existe uma
aproximação entre os integrantes da comunidade surda. A fronteira, portanto, é
contraditória na medida em que aproxima e separa.
A afirmação de Costa & Oliveira (2012), onde a fronteira é de fato, vivida por
seus habitantes como um espaço contínuo de tráfego de pessoas, mercadorias,
conhecimentos e tradições, ou seja, são coletividades que se vinculam através da
linha divisória entre os países, contextualiza esse aspecto.
Isso se evidencia nos indivíduos pertencentes à comunidade surda da região
de fronteira que constantemente adentram o território brasileiro e boliviano, de
acordo com a necessidade e interesses comuns: frequentar escolas, trabalho, lazer,
convivência com os seus pares.
Na fronteira Brasil-Bolívia, faz parte do cotidiano do aluno boliviano estudar
em escolas brasileiras principalmente pela existência do Acordo Bilateral entre o
Governo da República Federativa do Brasil e o Governo da Republica da Bolívia,
aprovada internamente pelo Decreto Legislativo n. 64, de 18 de abril de 2006, e
promulgado pelo Decreto n.64, de 18 de abril de 2006, e promulgado pelo Decreto n.
6737, de 12 de janeiro de 2009, estabeleceu as normas para:
“permissão de residência, estudo e trabalho a nacionais fronteiriços
brasileiros e bolivianos” e que permite em seu art. 1º, “o ingresso,
residência, estudo, trabalho, previdência social e concessão de documento
especial de fronteiriço a estrangeiros residentes em localidades fronteiriças”.
O documento necessário para o ingresso e permanência legal de bolivianos
no Brasil é conhecido como “documento especial fronteiriço”, que propicia a
figura legal do “cidadão fronteiriço” e possibilita que ele estude e/ ou
trabalhe na cidade de Corumbá, no Brasil.

Os estudantes surdos residentes em Puerto Quijarro, a aproximadamente


cinco quilômetros de Corumbá, aprendem a Libras em escolas de Corumbá e no
convívio comunidade surda local.
HANNERZ (1997), nos traz os conceitos de Fronteiras e Limites como um
espaço de contatos e interações, ao invés de marcar culturas isoladas, assim como
o conceito de Híbridos que nos possibilita enxergar a realidade fronteiriça como uma
fenômeno original de transculturação, “tornando mais complexa a tendência

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essencialista de ver a cultura apenas como marcador de grupos, separando-os de


forma absoluta.”
Partindo dessa afirmação, podemos considerar que essa proximidade
linguística e cultural entre os surdos brasileiros e bolivianos não é dissipada pela
divisão territorial, pois essa proximidade emerge cotidianamente na estreita relação
nos contextos escolar e social. Os usuários da língua de sinais poderão apresentar
diversas identidades em diversos momentos da sua vida estando às mesmas
ligadas ao processo de aquisição da língua de sinais, a proximidade com a
comunidade surda e ouvinte assim como diversos outros fatores.
Como o bilinguismo se evidencia no espaço formal de aquisição das duas
línguas: a Língua de Sinais e a Língua Portuguesa como segunda Língua?
O Decreto Nº 5626/2005, no art.22 do capítulo VI, já discorre sobre as
escolas e classes bilíngues. Posteriormente, o espaço bilíngue está definido no
documento do MEC (2007), que orienta o atendimento especializado (AEE), na
perspectiva da Educação Inclusiva para a pessoa surda. Esse atendimento deve
acontecer nas Salas de Recursos Multifuncionais. O AEE deve prever três diferentes
momentos de aprendizado nesse contexto: O ensino em Libras, o ensino da Libras e
o ensino da Língua Portuguesa escrita para os estudantes surdos. Segundo este
documento os atendimentos devem ocorrer em sala de ensino comum, no
contraturno, assegurando aquisição de todos os conhecimentos dos diferentes
conteúdos curriculares, o conhecimento dos diversos conteúdos curriculares e as
especificidades da língua de sinais.
O ensino em Libras e o ensino da Libras, previsto no documento sobre o
AEE, enfatizam a prioridade para o professor/instrutor surdo. Além desses tempos
de aprendizagem, orienta-se que a organização didática deve privilegiar os recursos
visuais, pois estes favorecem a abstração dos estudantes surdos, o planejamento
em conjunto por todos os profissionais que trabalham com os surdos, assim como
propostas pedagógicas que atendam as diferenças.
A aquisição da Língua Portuguesa na modalidade escrita pelo estudante
surdo prevista na educação bilingue, apresenta um grau de dificuldade semelhante
ao de uma língua estrangeira. Essa dificuldade justifica-se por ser ela de uma
modalidade diferente da língua gestual-visual. Todavia o estudante surdo tem
condições de desenvolver-se e produzir um texto com coerência desde que tenha
pleno conhecimento da língua de sinais. Para que isso ocorra, o processo de

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aquisição da primeira língua, a Língua de Sinais, deve iniciar desde a primeira


infância.
O percurso histórico educacional dos surdos na fronteira Brasil-Bolívia
evidencia que a maioria deles ingressou tardiamente na escola. Atualmente já
encontramos estudantes surdos inseridos na Educação Infantil, o que há bem pouco
tempo atrás não ocorria.
Observa-se aí a importância das crianças surdas terem contato com uma
língua em que possa se expressar, sendo a língua de sinais o instrumento para o
seu desenvolvimento emocional, psicológico e social. Conforme Santana (2015), “ a
língua de sinais, por sua modalidade gestual-visual, é a língua propícia para o surdo
estabelecer relações sociais, manifestar-se culturalmente e construir sua própria
identidade”.
É necessário enfatizar que a grande maioria das crianças surdas nasce numa
família de ouvintes. A recomendação é que a criança surda esteja inserida em um
ambiente linguístico que favoreça a aquisição da Língua de Sinais
Segundo (BOTELHO, 2005 p.111) “[...] a educação bilingue para surdos
propõe a instrução e o uso em separado da língua de sinais e do idioma de seu país,
de modo a evitar deformações de uso simultâneo.
De acordo com Lodi (2013),
“Trabalhar com a abordagem bilíngue para surdos pressupõe o
conhecimento aprofundado das duas línguas envolvidas no
processo; porém, é importante não o reduzir apenas às questões
gramaticais e estruturais dessas línguas. Devemos dar a elas a
importância que cada uma tem na construção de conceitos e
formação social da mente.[...] O bilinguismo é muito mais do que a
exposição a duas línguas: é parte de um projeto maior de
empoderamento do surdo e propicia que o papel da escola seja
cumprido na construção de conhecimento e na constituição
autônoma dos estudantes.”

Portanto é fundamental que haja profissionais bilíngues atuando nesse


contexto e de preferência profissionais surdos, para que identidade cultural surda
seja referência aos estudantes e não apenas o aspecto gramatical da língua de
sinais.
Fernandes (2006) apud Santana (2015) esclarece que a educação
bilíngue impõe a necessidade de um novo olhar sobre o surdo, assim como a
transformação “da situação monolíngue da escola, fundada na língua portuguesa”,
representando ainda um projeto utópico para a maioria das escolas.

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O município de Corumbá em Mato Grosso do Sul, conta com esses


espaços de aprendizado a partir do ano de 2005 a 2010, onde foram instalados nas
escolas públicas estaduais e municipais. Segundo o Plano Municipal de Educação
de Corumbá (2015-2025), as SRM foram implantadas para apoiar a oferta do AEE
mediante parceria entre a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização,
Diversidade e Inclusão (SECADI) e os municípios mediante envio de recursos
pedagógicos e acessibilidade a equipamentos tecnológicos para equipar a SEM.
De acordo com o Plano Municipal de Educação de Corumbá/MS (2015 a
2025) existem dezesseis distribuídas nas Redes Estadual e Municipal de Ensino,
sendo sete salas na Rede Estadual e nove na Rede Municipal. Nesse espaço os
estudantes surdos devem adquirir a Língua de Sinais (L1) e a Língua Portuguesa
(L2). No ano de 2018, foi verificado que a Rede Estadual de Corumbá dispõe de
duas Salas de Recursos Multifuncionais (SRM). A Rede Municipal de Ensino dispõe
de sete salas.
Os estudantes surdos brasileiros e bolivianos residentes nas cidades de
Corumbá, no lado brasileiro e Puerto Quijarro, do lado boliviano, que estudam nas
escolas do lado brasileiro e que frequentam o AEE, aprendem a Língua de Sinais
(Libras) e a Língua Portuguesa escrita, prevista na proposta educacional bilíngue.
As escolas públicas da região atendem a uma população culturalmente
diversa e respeitando os princípios da inclusão, deverá ofertar uma educação de
qualidade a todos os estudantes indistintamente.
Como a escola deve trabalhar esse estudante de forma que ele construa a sua
identidade surda? A identidade surda fronteiriça marcada pelo estreitamento de
laços culturais e identitários, que ultrapassa no espaço fronteiriço, as linhas
delimitadas pela divisão territorial dos dois países.
Carvalho, 2008 apud Sá (2011), considera que o princípio inclusivo ressalta o
respeito à singularidade e à diversidade de cada sujeito na sociedade, bem como a
qualidade da educação oferecida a todos, pois, como constatamos nas estatísticas,
muitos são os excluídos, além dos portadores de deficiência.
Nesse contexto, a escola deve valorizar a diversidade sob uma ótica
multicultural. De acordo com Fernandes (2008)
O multiculturalismo dentro da educação vem como decorrência de se ter
alunos pertencentes a diferentes universos na sala de aula, do ponto de
vista cultural, social, linguístico e religioso e de se ter o desafio de
transformar o espaço escolar em um espaço democrático, que possa

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oferecer igualdade de oportunidades, dando por isso mesmo condições de


atendimento educacional diferente a alunos diversos. (p.93)

Kelman apud Fernandes (2008) considera que o Multiculturalismo pode ser


definido de várias formas:
Trata-se de estabelecer níveis de responsabilidade e garantia de igualdade
de direitos humanos às pessoas com diferentes origens, crenças, etnias,
gêneros; uma convivência pacífica entre os membros pertencentes aos
grupos minoritários e os grupos majoritários de uma comunidade social,
sem qualquer discriminação. (p.91)

Convém pontuar que a língua de sinais americana (ASL) influenciou a Lengua de


Señas Boliviana (LSB) bem como a língua de sinais francesa influenciou a língua de
sinais brasileira (LIBRAS). As línguas de sinais não são universais. Apesar de
pertencerem à modalidade gestual visual, cada país tem a sua Língua de Sinais,
podendo esta sofrer variações de região para região.
Entre as línguas de sinais ocorre similaridade no léxico, quando falamos de
um único país. Essa similaridade acontece em determinadas regiões, como se
observa no Brasil por exemplo. Entretanto de país para país a estrutura lexical
apresenta diferenças.
A Lengua de Señas Boliviana (LSB), a princípio é a primeira língua para os
surdos. Todavia na fronteira Brasil-Bolívia a Libras, torna-se a língua de instrução de
surdos residentes na cidade Puerto Quijarro.

Considerações finais
Podemos considerar que as escolas do lado brasileiro da fronteira Brasil-
Bolívia acolhem estudantes surdos e ouvintes brasileiros e bolivianos. A relação
histórica de proximidade entre estes países também assegurada legalmente e está
evidenciada nos diversos contextos sociais do espaço da fronteira.
Inserido no contexto educacional, o estudante surdo residente em Puerto
Quijarro, que frequenta o AEE, adquire a Língua Brasileira de Sinais e a Língua
Portuguesa escrita na modalidade segunda língua, apesar da Lengua de Señas
Boliviana (LSB) ser instituída no país vizinho.
Apesar dos avanços históricos na educação de surdos e da legalização da
proposta bilingue no Brasil há quase quatro décadas, ainda encontramos aspectos
não efetivados.
Na fronteira Brasil-Bolívia ainda não observamos a atuação efetiva do
professor surdo no serviço especializado - AEE, mesmo que legalmente este

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profissional tenha prioridade no ensino para os estudantes surdos, pelos aspectos já


abordados neste estudo. Apenas no ano de 2016 contamos com uma professora
surda atuando neste serviço em uma escola no município de Corumbá.
Atualmente os profissionais que atuam no AEE são profissionais Tradutores
Intérprete de Libras (TILS) com formação - cursos, Especialização em Libras e que
passam por avaliação de aptidão em LIBRAS no CAS/MS para atuar como professor
do AEE. Foi verificado que no ano de 2019 apenas a Rede Municipal de Ensino
atende o estudante surdo no AEE.
Na fronteira Brasil-Bolívia a Libras é utilizada pelo povo surdo e pela
comunidade surda nos diversos espaços sociais sendo que a Lengua de Señas é
conhecida por uma minoria de surdos adultos que mantém contato com surdos de
outras regiões da Bolívia e tem algum conhecimento desta língua, todavia a Libras é
a língua em uso nesta fronteira.
A Língua de Sinais Brasileira (Libras) torna-se a língua de instrução e o
instrumento de aquisição da Língua Portuguesa, ambas consideradas a princípio,
línguas estrangeiras para o surdo residente na Bolívia.
Conforme Dorziat (2015), não há estrangeirismo que faça estranha a sua
própria família [...] a pátria brasileira dos surdos não possui as mesmas fronteiras
dos ouvintes, porque sua fronteira é imaterial e existe onde estiver viva a Língua de
Sinais, onde houver surdos interagindo de forma natural.

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CLARICE LISPECTOR: POR UM DIREITO PENAL FRONTERIZO


Clarice Lispector: por um derecho penal fronterizo
Clarice Lispector: for a fronterizo penal right

Bárbara Artuzo Simabuco


Edgar Cézar Nolasco

Resumo: Com base em uma epistemologia biográfico-fronteiriça, objetivamos


demonstrar relevância de Clarice Lispector enquanto intelectual cujo direito faz parte
do bios, tendo em vista a politicidade de sua obra, seu olhar sensível ante as
questões humanas e a discordância em relação ao sistema penal brasileiro. Para
ilustrar a discussão, utilizamos como base o ensaio “Observações sobre o direito de
punir” (1941), no qual Lispector tece comentários sobre o Estado e o direito/poder de
punir, demonstrando seu olhar desobediente e fronterizo. A metodologia utilizada é
essencialmente bibliográfica.
Palavras-chave: Clarice Lispector, Crítica biográfica fronteiriça, desobediência
epistêmica, direito.

Abstract: Based on a biográfico-fronteiriça epistemology, this essay aim to


demonstrate the relevance of Clarice Lispector as an intellectual whose right is part
of her bios, in view of the politicity of his work, his sensitive view of human issues and
disagreement about Brazilian penal system. To illustrate the discussion, we use the
essay “Observações sobre o direito de punir” (1941), in which Lispector comments
on the State and the right/power to punish, demonstrating his disobedient and
fronterizo way to see that questions. The methodology used is essentially
bibliographic and some of the theoreticians and biographers.
Key-words: Clarice Lispector, Crítica biográfica fronteiriça, epistemic disobedience,
right.

Resúmen: Utilizando nos de una epistemología biográfico-fronteiriça, nuestro


objetivo es demostrar la relevancia de Clarice Lispector como intelectual cuyo
derecho es parte de su bios, en vista de la politicidade de su trabajo, su visión
sensible de los problemas humanos y su desacuerdo sobre lo sistema penal
brasileño. Para ilustrar la discusión, usamos el ensayo "Observações sobre o direito
de punir" (1941), en el que Lispector comenta sobre el Estado y el derecho/poder


Graduanda do sexto semestre do Curso de Letras na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul
(UFMS), graduada em Direito pelo Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (CEUNSP). E-
mail: basacademica@gmail.com

Graduado em Letras pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, mestre em Teoria da
Literatura pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), doutor em Literatura Comparada pela
Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), professor dos cursos de Graduação e Pós-
Graduação nível Mestrado da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). E-mail:
ecnolasco@uol.com.br

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235

para castigar, demostrando su aspecto desobediente y fronterizo. La metodología


utilizada es esencialmente bibliográfica.
Palabras clave: Clarice Lispector, Crítica biográfica fronteiriça, desobediencia
epistémica, derecho.

Introdução
A proposta do presente trabalho é demonstrar a relevância de Clarice
Lispector enquanto intelectual cujo direito faz parte do bios, uma vez que a escritora
ingressou no Curso de Direito da Universidade do Brasil (atual Universidade Federal
do Rio de Janeiro) em 1939. Durante a graduação, demonstrou interesse especial
pelo direito penal (GOTLIB, 1995), tendo publicado, nesse período, o ensaio
“Observações sobre o direito de punir” (1941).

No referido texto, utilizado como base para discussão, Lispector tece


comentários sobre o Estado e o direito/poder de punir, demonstrando seu olhar
desobediente (MIGNOLO, 2015) e fronterizo (NOLASCO, 2013). O estudo leva,
igualmente, em consideração, a politicidade da obra clariciana, seu olhar sensível
ante as questões humanas e a discordância em relação ao sistema penal brasileiro.
Ao mencionar um olhar desobediente, remetemos a desobediência epistêmica e a
opção descolonial de Walter Mignolo:

[...] a opção descolonial significa, entre outras coisas, aprender a


desaprender (como tem sido claramente articulado no projeto de
aprendizagem Amawtay Wasi, voltarei a isso), já que nossos (um vasto
número de pessoas ao redor do planeta) cérebros tinham sido programados
pela razão imperial/ colonial. (MIGNOLO, 2008, p. 290)
Efetuar uma opção descolonial é ir contra a diferença colonial, “[...] o local ao
mesmo tempo físico e imaginário onde atua a colonialidade do poder” (MIGNOLO,
2003, p. 10). Ainda de acordo com o autor, a diferença colonial é a responsável por
hierarquizar seres humanos, nesse aspecto, Lispector posiciona-se na contramão do
projeto hegemônico moderno, conforme exploraremos adiante.

A metodologia utilizada é essencialmente bibliográfica, nesse sentido,


iniciaremos com a contextualização da experiência de Lispector enquanto estudante
de direito, em seguida relacionaremos a escritora com o direito penal
contemporâneo, considerando nosso lócus e nosso bios. Tal aproximação é possível
por meio da crítica biográfica, teorização que permite a inserção do crítico ao efetuar
a leitura pretendida.

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Em outras palavras, A relação entre obra e autor é contemplada pela crítica


biográfica tornando a invenção de biografias literárias possível, devido à natureza
criativa presente nos procedimentos analíticos. A literatura deixa de ser o único
corpus de análise, assim as relações culturais possíveis são ampliadas,
possibilitando, inclusive, a inscrição do sujeito teórico “[...] como ator e personagem
de uma narrativa em construção”. (SOUZA, 2002, p. 111)

Por meio dela, produções não consideradas como literatura, como a cultura
de massa e as biografias, são trazidas para a discussão, uma vez que a pós
modernidade é marcada pela “[...] democratização dos discursos e a quebra dos
limites entre a chamada alta literatura e a cultura de massa”. (SOUZA, 2002, p. 112),
deixando os valores fechados adotados pela crítica literária tradicional.

Por fim, alguns dos teóricos e biógrafos que dialogam com a epistemologia
adotada são: Walter Mignolo (2013; 2015), Edgar Cézar Nolasco (2013), Eneida
Maria de Souza (2002), Silviano Santiago (2014) e Nádia Batella Gotlib (1995).
Dentre as obras norteadoras da pesquisa estão: CADERNOS DE ESTUDOS
CULTURAIS, Crítica cult (2002), Habitar la frontera (2015) e Clarice: uma vida que
se conta (1995)

A estudante de direito desobediente

[...] O que escrevo é mais do que invenção, é minha obrigação


[...] Porque há o direito ao grito. Então eu grito. Grito puro e
sem pedir esmola.
LISPECTOR, 1999, p. 13
Em Habitar la frontera (2015), Walter Mignolo aponta que a diferença colonial
“[...] atua convertendo as diferenças em valores e estabelecendo uma hierarquia de
seres humanos, ontologicamente e epistemologicamente”.1 (MIGNOLO, 2015, p. 41).
Dentre os marginalizados pela hierarquia ditada projeto moderno há aqueles tão
invisíveis quanto Macabéa, a personagem principal de A hora da estrela, no qual o
direito ao grito é reivindicado, quais sejam, os apenados, popularmente conhecidos
pela alcunha de “marginais”.

1
[…] La diferencia colonial actúa convirtiendo las diferencias en valores y estableciendo una jerarquía
de seres humanos, ontológicamente y epistémicamente. (Tradução nossa)

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De acordo com Nádia Batella Gotlib (1995, p. 146-149) Lispector ingressou no


curso de direito da Faculdade de Direito da Universidade do Brasil em 1939 nutrindo
o sonho de reformar as penitenciárias. Dentre as disciplinas, Clarice nutria especial
interesse pelo direito penal, talvez porque este remete a situações humanas que
envolvem o crime.

Durante o terceiro ano da graduação, Lispector percebe que não se daria bem
com papeis, todavia, conclui o curso, e alguns anos mais tarde (na década de 50)
cola grau, pois uma de suas amigas a acusou de ser uma pessoa que inicia várias
coisas, mas não termina nenhuma. Embora tenha dito em entrevista que a faculdade
não a ajudara sequer a resolver questões de direitos autorais este período faz parte
de seu bios e de sua formação enquanto intelectual

Reconhecida pela crítica de sua época devido ao uso da linguagem de forma


criativa e, por vezes, hermética (BAILEY, 2007), Lispector renuncia aos jargões do
meio jurídico em seu texto “Observações sobre o direito de punir”, publicado em
1941, durante a graduação. No texto, Lispector deixa clara a insatisfação com o
sistema penal, comparando a pena a um medicamente paliativo, incapaz de
reintegrar o detento a sociedade (LISPECTR, 2005).

Distante de ser alienada e apolítica, no tocante aos problemas vivenciados


pelo Brasil, sendo, em verdade, consciente a ponto de confidenciar a amiga Olga
Borelli que não havia o que dizer, mas apenas fazer em relação as questões sociais
do país (SANTIAGO, 2014), Lispector pensava de forma desobediente, uma vez que
discordava das normas impostas pelo Estado em um momento no qual as mulheres
dedicavam-se quase exclusivamente às prendas do lar, sendo a formação
universitária, em especial em direito, direcionada a homens, brancos e abastados.
(MONTEIRO; MANZO, 2005)

Com o intuito de demonstrarmos a relevância da experiência de Lispector


enquanto estudante de direito, utilizamos uma epistemologia de caráter biográfico-
fronteiriço (NOLASCO, 2013) ao tratar do referido período. É importante destacar
que a fronteira da qual falamos não é apenas física, mas também epistemológica.
Assim, longe de instituir binarismos e ante a necessidade do Brasil deixar de adotar
teorias vindas de fora como o único meio para ler suas produções e, por analogia
(SOUZA, 2012) seu direito penal, a crítica biográfica fronteiriça nos permite criar
teorizações de caráter fronterizo.
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De acordo com Nolasco (2018), em seu “Descolonizando a pesquisa


acadêmica: uma teorização sem disciplinas”, pesquisas com bases periféricas,
subalternas ou fronteiriças necessitam, além da inserção do bios e do lócus, ser
pensadas a partir da exterioridade, ou seja, fora do pensamento moderno. Isso não
significa excluir o pensamento outro, mas efetuar uma opção de na qual pensamos
melhor a partir de onde estamos alocados:

[...] Minha opção pela vida inclui como condição pensar melhor o outro, a
vida desse outro, passando, como condição necessária, por nós mesmos,
os pesquisadores envolvidos na ação. Desse modo vamos desbaratando
um cientificismo estéril que ainda grassa nos modelos de pesquisa
acadêmica, e fazendo se levantar, por conseguinte, uma pesquisa que, nas
palavras de Mignolo, não ignora mas preza a vida. (NOLASCO, 2018, p.
16).
Optamos por utilizar, como base para a discussão proposta, o ensaio
“Observações sobre o direito de punir”, pois nele Clarice tece argumentos com o
intuito de justificar a inexistência de um direito de punir, efetuando uma breve
recapitulação do que fora a origem desse direito e, em seguida, tecendo uma crítica
em relação à suposta imparcialidade dos aplicadores e executores da punição
advinda do Estado, em outras palavras, a escritora discorda com as regras que nos
foram impostas.

A proposta da jovem não é a ausência de Estado e a instauração da anarquia,


mas nos fazer sentir a “dor de dentes [...] [que] deu uma fisgada profunda em nossa
boca” (LISPECTOR, 1999, p. 11) sentida de forma mais cruel por aqueles
“marginais” em situação oposta aos que produzem e executam as leis no país com
uma das maiores populações carcerária do mundo (ESTADÃO, 2019).

Por um direito penal fronterizo

[...] A américa Latina institui seu lugar no mapa da civilização


ocidental graças ao movimento de desvio da norma, ativo e
destruidor, que transfigura os elementos feitos e imutáveis que
os europeus exportam para o Novo Mundo. [...] Sua geografia
deve ser uma geografia de assimilação e de agressividade, de
aprendizagem e de reação, de falsa obediência.
SANTIAGO, 2019, p. 17-18.
Clarice Lispector considerava-se um ser livre e sensível (GOTLIB, 1995, p.
148), a liberdade de espírito e sua sensibilidade fazem da escritora um ser estranho
e discordante alocado na América Latina, capaz de pensar o direito, em especial o
penal, de forma fronteiriza e desobediente, sem endossar o distanciamento do
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direito das questões humanas, por vezes, tomadas como subjetivas em um mundo
dominado pelo projeto moderno.

Nesse sentido, em “Notas sobre a crítica biográfica” (2002), Eneida Maria de


Souza pontua a possibilidade de “[...] interpretação da literatura além de seus limites
intrínsecos e exclusivos por meio da construção de pontes metafóricas entre o fato e
a ficção” (SOUZA, 2002, p. 112) proporcionada pela crítica biográfica, elementos
necessários para melhor compreender a estudante de direito.

O vislumbre das questões sociais também constitui parte do bios da escritora,


deixando marcas no decorrer de sua trajetória intelectual, tomemos como exemplo a
leitura efetuada por Joice Alves, destacando que o livro A descoberta do mundo
possui diversas crônicas nas quais o problema da fome é tratado “[...] seja a fome de
comida ou a fome de respostas para as perguntas da cronista” (ALVES, 2008, p.
94).

De acordo com a pesquisadora, Clarice não tratou a população


desprivilegiada como invisíveis ao abordar a doença social em seus escritos, em
verdade, ao direcionar seu olhar na contramão da cultura da invisibilidade existente
em sua época, Lispector abre espaço para que os gritos subalternos sejam ouvidos.

[...] Um povo faminto não tem forças para reivindicar direitos morais e
intelectuais. [...] A subalternização de saberes impulsionada pelo projeto
cultural moderno limitou a capacidade das pessoas no que se refere à
compreensão de que o pouco que se tinha não era suficiente. Por isso, a
cronista engajada provoca a consciência do leitor de modo tímido, mas
ousado, no sentido de fazê-lo reconhecer-se como parte deste constructo.
[...] O que vincula humaniza, e o que humaniza sugere a ruptura com a
subalternização de conhecimento e reconhece a diferença [...]. (ALVES,
2002, p. 96-97)
A fim de contemplar o olhar humanizador da intelectual, a crítica biográfica
possibilita, igualmente, “[...] a reconstituição de ambientes literários e da vida
intelectual do escritor, sua linhagem e a sua inserção na poética e no pensamento
cultural da época”. (SOUZA, 2002, p. 112), nesse sentido, o período vivenciado na
faculdade, que passou quase despercebida pela academia e pela crítica, é aqui
resgatado e entrelaçado ao bios clariciano. Assim, a estudante inicia seu primeiro
texto jurídico defendendo:

[...] Não há direito de punir. Há apenas poder de punir. O homem é punido


por seu crime porque o Estado é mais forte que ele, a guerra, grande crime,
não é punida porque se acima dum homem há os homens acima dos
homens nada mais há. (LISPECTOR, 2005, p. 45)

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Lispector, cuja família fugiu da Ucrânia para o Brasil durante a Primeira


Guerra Mundial e a Revolução Russa (GOTLIB, 1995), relaciona a inexistência de
um direito de punir à guerra, pois a Organização das Nações Unidas (ONU), fora
constituída apenas em 1945 pelos países hegemônicos com a finalidade de
fomentar a paz entre os Estados-nação. Todavia, a criação da ONU não solucionou
o problema, pois os países ricos continuam promovendo a guerra na
contemporaneidade.

Além disso, a estudante destaca a subjetividade da definição de crime “[...]


porque a própria representação de crime na mente humana é o que há de mais
instável e relativo” (LISPECTOR, 2015, p. 45). O conceito de crime varia de acordo
com a cultura e a época vivida, no Brasil, um dos exemplos mais clássicos é o crime
de adultério, revogado pela lei 11.106/2005. Tal crime, de origem bíblica, destoa da
constituição de 1988 a qual declara a laicidade do Estado.

Lispector prossegue efetuando hipóteses quanto ao surgimento e evolução do


direito de punir. No início, o próprio ofendido exercia a punição (lei de talião), porém,
em determinado momento, os mais fracos uniram-se instituindo os direitos como
meio de defesa. Assim, inicia-se um acordo no qual as leis seriam cumpridas, os
interesses considerados como proibidos pela sociedade não seriam desobedecidos
e, caso fossem, haveria a punição advinda da coletividade, restando ao “marginal”
defender-se de toda a sociedade:

[...] uma vez que todos estavam em condições mais ou menos iguais, difícil
seria a defesa, para manter a inviolabilidade das leis fizeram titular do direito
toda a coletividade, adversário forte; [...] Atualmente, em verdade, não é de
punir que se tem direito, mas de se defender, de impedir, de lutar.
(LISPECTOR, 2005, p. 47)
O problema no quadro apresentado reside no seguinte fato: em um país como
o nosso, no qual a cultura do nepotismo, da concentração do poder aquisitivo nas
mãos de poucos e com os legisladores e aplicadores da lei em situação econômico
social inversa à população carcerária, como pode o apenado defender-se?

Ante a um sistema penal com bases assentadas na diferença colonial


(MIGNOLO, 2015), cujo próprio sentido de “humano” não se enquadra em nossa
população, uma vez que esta nomenclatura tem como base um padrão falocêntrico
e europeu (MIGNOLO, 2011) excluindo os índios e os negros (MIGNOLO, 2015, p.

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241

69), Clarice Lispector (re)pensa a legitimidade do Estado, desobedecendo o projeto


moderno. De acordo com Mignolo:

[...] uma desobediência epistêmica e política consiste em apropriar-se da


modernidade europeia no tempo em que se vive na casa da colonialidade.
Dessa experiência. A experiência de habitar a exterioridade, ou seja, a casa
da colonialidade, surge a epistemologia e o pensamento fronteiriço.
2
(MIGNOLO, 2015, p. 65)
A estudante de Direito, que publicaria Perto do coração selvagem (1943)
pouco tempo depois, nos direciona à necessidade de um direito penal fronterizo, que
atenda às especificidades do Brasil, cuja massa carcerária é composta
predominantemente por pessoas negras, de baixa renda e escolaridade precária.
Nesse sentido, Nolasco (2013) ensina:

[...] Por priorizar, diferentemente da razão moderna, as sensibilidades


biográficas e a localização, a teorização pós-ocidental/colonial, ou melhor, a
razão subalterna “revela uma mudança de terreno em relação à própria
fundação da razão moderna como prática cognitiva, política e teórica.”
Advinda da prática da razão pós-subalterna, a epistemologia fronteriza
subverte a razão moderna. (NOLASCO, 2013, p. 13)
Lispector subverte a razão moderna ao comparar a instituição da pena a um
remédio paliativo, uma vez que esta não impede a reincidência e o cometimento do
mesmo crime por outras pessoas (LISPECTOR, 2005, p. 48-49). Taxada como
sentimental por um de seus colegas, Lispector esclarece “[...] que o direito penal
move com coisas humanas por excelência. Só se pode estudá-lo, pois,
humanamente”. (LISPECTOR, 2005, p. 48-49).

Ao relacionar o direito penal às causas humanas Lispector reinventa e traz o


conceito de “humano” para onde estamos alocados, nas margens dos centros
hegemônicos do poder e do conhecimento, incluindo àqueles que são destituídos de
seu nome, assim como Clarice fora destituída do seu (Haia), carregando, na vida e
na alma, a alcunha de “marginais”, mas que na verdade são pais, filhos, tios e
sobrinhos, amados e queridos por suas famílias e amigos, assim como amamos e
somos amados pelos nossos.

Considerações finais

2
[…] una desobediencia epistémica y política que consiste en apropiarse de la modernidad europea al
tiempo que se habita en la casa de la colonialidad. De esa experiencia, la experiencia de habitar la
exterioridad o sea la casa de la colonialidad, surge la epistemología y el pensamiento de fronteras.
(Tradução nossa)

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242

[...]
- Desculpe mas acho que não sou muito gente.
- Mas todo mundo é gente, Meu Deus!
- É que não me habituei.
LISPECTOR, 1999, p. 48.
Com base no exposto verifica-se a pertinência e a contemporaneidade da
experiência de Clarice Lispector enquanto estudante de direito tendo em vista sua
capacidade de manter “[...] fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as
luzes, mas o escuro.” (AGAMBEM, 2009, p. 63). A estudante percebeu o que poucos
conseguiram, qual seja, a ineficácia da pena. Ela o faz não de forma a tornar os
crimes ainda mais indefensáveis pelos apenados, mas no sentido de elaborar uma
pena capaz de reintegrar o detento à convivência cotidiana.

Assim como Macabéa não se habituou a ser gente, como muitos daqueles
que carregam a alcunha de marginais, desacostumados ao convívio fora dos muros
das prisões (alguns detentos passam décadas vivendo nos presídios), também não
se habituaram. Estes reincidem, uma vez que se sentem incapazes de viver junto à
sociedade e ao Estado que lhe impuseram a pena. Algumas vezes, ocorre a
sensação de incapacidade de realocar-se profissionalmente, temendo um novo
julgamento, desta vez por meio dos antecedentes criminais solicitados pelos
empregadores.

Desobedecendo a visão eurocêntrica adotada pelo direito penal brasileiro,


Lispector questiona o sistema prisional desde o que seria considerado o início da
instituição da pena, pontuando uma suposta subjetividade em sua aplicação bem
como a situação econômico-social dos legisladores e aplicadores do direito/poder de
punir cujo Estado detém a legitimidade inversa àqueles que recebem a punição.

Diante da diferença colonial, instituidora de hierarquias entre seres humanos,


devolver a “humanidade” aos “marginais” situados às margens das margens dos
centros hegemônicos do poder, devolvendo-lhes os direitos mais básicos é a forma
encontrada pela estudante de direito para desobedecer epistemicamente o direito
penal canônico e reivindicar o direito ao grito e a um direito penal fronteirizo, cujos
seres humanos sejam também latinos, negros, indígenas, múltiplos e,
principalmente, detentores de seu nome.

Corumbá/MS, Brasil. 7 a 9 de outubro de 2019. ISSN . 2178-2245


243

Referências

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Corumbá/MS, Brasil. 7 a 9 de outubro de 2019. ISSN . 2178-2245


245

EVENTOS RURAIS: UMA ANÁLISE DA PRÁTICA DAS INSTITUIÇÕES


PÚBLICAS DE PESQUISA AGROPECUÁRIA DO BRASIL E DA ARGENTINA
Rural Events: An Analysis of the Public Agricultural Research Institutions Practice in
Brazil and Argentina
Eventos Rurales: Una Análisis de la Práctica de Instituciones Públicas de
Investigación Agrícola en Brasil y Argentina

Andrea Fernanda Lyvio Vilardo


Karla Maria Müller

Resumo: O cone sul da América Latina é uma região estratégica para a


agropecuária, um dos pilares da economia brasileira e dos países vizinhos, que
podem enfrentar os mesmos desafios de produção. Dessa forma, a necessidade de
gerar informação e tecnologias para o setor é sempre urgente. As instituições
públicas de pesquisa agropecuária têm essa função e desempenham um papel
fundamental na transferência de tecnologias, utilizando a promoção de eventos
como uma das estratégias para isso. Este trabalho é resultado de um breve
levantamento dos eventos realizados pela Empresa Brasileira da Pesquisa
Agropecuária (Embrapa), do Brasil, e pelo Instituto Nacional de Tecnologia
Agropecuária (INTA), da Argentina, buscando uma aproximação inicial para
entender como tais organizações se relacionam com os sujeitos do setor. O número
expressivo de eventos promovidos por ambas as instituições evidencia o caráter
estratégico conferido a esse recurso pelo setor agropecuário.
Palavras-chave: agropecuária, Cone Sul, instituições de pesquisa, transferência de
tecnologia, eventos rurais.

Abstract: The Southern Cone region of Latin America is strategic for agriculture, one
of the pillars of Brazilian and neighboring countries economy, which can face the
same production challenges. Thus, the need to generate information and
technologies for the farming sector is always urgent. Public institutions for agricultural
research have such duty and play a key role in technology transferring, using the
promotion of events as one of the strategies to do so. This paper is the result of a
brief survey about events held by the Brazilian Agricultural Research Agency


Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (PPGCOM/UFRGS); Relações Públicas, especialista em Gestão estratégica da
Comunicação Organizacional e em Administração de Marketing pela Universidade Estadual de
Londrina. Membro do Programa de Extensão “Em dia com a pesquisa” (UFRGS). Analista de
Comunicação da Embrapa Soja. E-mail: deavilardo@gmail.com.

Doutora em Ciências da Comunicação; Mestre em Comunicação; Relações Públicas, Jornalista e
Publicitária. Professora pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGCOM/UFRGS); Coordenadora da pesquisa “Mídia e
Fronteiras: cartografia dos estudos no Brasil”; Vice-coordenadora da Pesquisa “Unbral Fronteiras -
Portal de Acesso Aberto das Universidades Brasileiras sobre Limites e Fronteiras”; Membro dos
Grupos de Pesquisa no CNPq “Espaço, fronteira, informação e tecnologia”, “Comunicação e práticas
culturais”, e “História da Comunicação”; Coordenadora do Programa de Extensão Em dia com a
pesquisa (PPGCOM/UFRGS); Assessora Ad Hoc do CNPq e da CAPES. E-mail: kmmuller@ufrgs.br.

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246

(Embrapa), from Brazil, and by the National Institute of Agricultural Technology


(INTA), from Argentina, aiming an initial approach to understand how those
organizations relate to the subjects of the sector. The significant number of events
promoted by both institutions shows a strategic feature given by the agricultural
sector to such resource.
Key words: agriculture, Southern Cone region, research institutions, technology
transferring, rural events.

Resumen: El cono sur de América Latina es una región estratégica para la


agricultura, uno de los pilares de la economía brasileña y los países vecinos, que
pueden enfrentar los mismos desafíos de producción. Por lo tanto, la necesidad de
generar información y tecnologías para el sector siempre es urgente. Las
instituciones públicas de investigación agrícola tienen esta función y cumplen un
papel clave en la transferencia de tecnología, utilizando la promoción de eventos
como una de las estrategias para esto. Este trabajo es resultado de una breve
encuesta de eventos realizada por la Corporación Brasileña de Investigación
Agrícola (Embrapa), de Brasil, y el Instituto Nacional Argentino de Tecnología
Agropecuaria (INTA), de Argentina, buscando un primer enfoque para comprender
cómo se relacionan estas organizaciones con los sujetos del sector. El expresivo
número de eventos promovidos por ambas instituciones muestra el carácter
estratégico que el sector agrícola otorga a este recurso.
Palabras clave: agricultura, Cono Sur, instituciones de investigación, transferencia
de tecnología, eventos rurales.

* Trabalho completo selecionado para publicação na Revista GeoPantanal, v. 14, n.


27, 2019.
https://periodicos.ufms.br/index.php/revgeo

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JORNAL IMPRESSO NA FRONTEIRA GAÚCHA: NARRATIVAS SOBRE O


RURAL
Newspaper at the Gaucho Border: Narratives About the Rural
Periódico Impreso en la Frontera Gaucha: Narrativas Sobre lo Rural

Thaís Leobeth
Karla Maria Müller

Resumo: Realidade social peculiar, as regiões de fronteira internacional constituem


instigante ambiente de pesquisa. Nesse sentido, provocaram a investigação sobre a
abordagem atribuída a notícias dedicadas à temática rural. A pesquisa1 teve como
objetos empíricos os jornais A Plateia (Sant’Ana do Livramento, fronteira com o
Uruguai) e Cidade (Uruguaiana, fronteira com a Argentina). Em termos
metodológicos, trata-se de Estudo de Caso, para o qual foram acionadas Pesquisa
Bibliográfica e Exploratória, e Análise de Conteúdo. A noção de rural identificada
como abordagem mostrou fatores econômicos e culturais, a construção histórica
local e regional, problemáticas comuns e interações que se sobrepõem à existência
do limite estatal em diferentes níveis.
Palavras-chave: Jornal impresso, Narrativa jornalística, Mídia local, Fronteira
internacional, Rural.

Abstract: A peculiar social reality, the international frontier regions constitute an


exciting research environment. In this sense, they provoked research into the
approach attributed to news devoted to the rural theme. The research had as
empirical objects the newspapers A Plateia (Sant'Ana do Livramento, border with
Uruguay) and Cidade (Uruguaiana, border with Argentina). In methodological terms,
it is a Case Study, for which Bibliographic and Exploratory Research, and Content
Analysis were triggered. The notion of rural identified as an approach showed
economic and cultural factors, local and regional historical construction, common
problems and interactions that overlap with the existence of the state boundary at
different levels.
Key-words: Newspaper, Journalistic narrative, Local media, International border,
Rural.

Resúmen: Una realidad social peculiar, las regiones fronterizas internacionales


constituyen un entorno de investigación emocionante. En este sentido, provocaron


Graduada em Jornalismo, mestra em Comunicação e Informação, doutoranda em Comunicação e
Informação. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Bolsista Capes. E-mail:
thaisleobeth@gmail.com

Graduada em Relações Públicas, Jornalismo e Publicidade e Propaganda, mestra em
Comunicação, doutora em Ciências da Comunicação. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E-
mail: kmmuller@ufrgs.br
1
A pesquisa completa pode ser conferida na dissertação intitulada “O rural na mídia impressa local
fronteiriça: diferentes formas de abordagem”, de Thaís Leobeth (2018), produzida no Programa de
Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/173162.

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investigaciones sobre el enfoque atribuido a las noticias dedicadas al tema rural. La


investigación tuvo como objetos empíricos los periódicos A Plateia (Sant'Ana do
Livramento, frontera con Uruguay) y Cidade (Uruguaiana, frontera con Argentina).
En términos metodológicos, es un Estudio de Caso, para el cual se activaron
Investigación Bibliográfica y Exploratoria, y Análisis de Contenido. La noción de rural
identificada como enfoque mostró factores económicos y culturales, construcción
histórica local y regional, problemas e interacciones comunes que se superponen
con la existencia de la frontera estatal en diferentes niveles.
Palabras clave: Periódico impreso, Narrativa periodística, Medios locales, Frontera
internacional, Rural.

* Trabalho completo selecionado para publicação na Revista GeoPantanal, v. 14, n.


27, 2019.
https://periodicos.ufms.br/index.php/revgeo

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LITERATURA E TERRITORIALIDADE NA FRONTEIRA BRASIL/BOLIVIA: UM


ESPAÇO DO SER FRONTERIÇO
Literature and Territoriality in the Brazil/Bolivia Border: a Space of Frontier Being
Literatura y Territorialidade en la Frontera Brazil/Bolívia: un Espacio del ser
Fronterizo

Tarissa Marques Rodrigues dos Santos


Lucilene Machado Garcia Arf

Resumo: Este artigo propõe a reflexão da literatura como um meio de aproximação


de culturas que circulam no território fronteiriço Brasil-Bolívia, de como é vista a
fronteira e como sentir-se parte dela. O uso da literatura serve tanto para ensinar a
ler e a escrever quanto para formar culturalmente um indivíduo. Para dar
sustentação teórica a este estudo, escolheu-se alguns conceitos essenciais acerca
de território, territorialidade e fronteira a partir de autores como Raffesttin (1993),
Saquet (2007) Nogueira (2007), Guhl (1991) e Hissa (2002), com o fim de colocar
em debate a importância da literatura como construção de identidades de um povo e
sensibilizar a comunidade com relação ao papel social de cada um na
espacialização fronteiriça.
Palavras-chave: literatura, fronteira, identidade, território, espacialização.

Abstract: This article proposes to reflect the literature as a means of approaching


cultures that circulate in the border territory of Brazil-Bolivia, how the frontier is seen
and how to feel part of it. The use of literature serves both to teach reading and
writing and to form a culturally individual. To give theoretical support to this study, we
chose some essential concepts about territory, territoriality and border from authors
such as Raffesttin (1993), Saquet (2007) Nogueira (2007) e Guhl (1991). In order to
put into debate the importance of literature as the construction of identities of a
people and sensitizing the community in relation to the social role of each in the
border spatialization.
Key words: literature, border, identity, territory, spatialization.

Resúmen: Este artículo propone reflejar la literatura como un medio para acercarse
a las culturas que circulan en el territorio fronterizo de Brasil-Bolivia, cómo se ve la
frontera y cómo sentirse parte de ella. El uso de la literatura sirve tanto para enseñar
a leer y escribir como para formar un individuo cultural. Para dar apoyo teórico a este
estudio, elegimos algunos conceptos esenciales sobre territorio, territorialidad y
frontera de autores como Raffesttin (1993), Saquet (2007) Nogueira (2007) e Guhl


Graduada em Pedagogia, Mestranda do Mestrado em Estudos Fronteiriços-MEF da Universidade
Federal de Mato Grosso do Sul. E-mail: tarissa_jr_rodrigues@hotmail.com.

Graduada em Letras, Mestra em Letras, Doutora em Teoria Literária pela UNESP/São José do Rio
Preto. Professora da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, atuando no Programa de Pós-
Graduação Mestrado em Estudos Fronteiriços-MEF. E-mail: lucilenemachado@terra.com.br.

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(1991). Con el fin de poner en debate la importancia de la literatura como la


construcción de identidades de un pueblo y sensibilizar a la comunidad en relación
con el papel social de cada uno en la espacialización fronteriza.
Palabras clave: literatura, frontera, identidad, territorio, espacialización.

* Trabalho completo selecionado para publicação na Revista Para Onde? (UFRGS),


no número referente ao primeiro semestre de 2020.
https://seer.ufrgs.br/paraonde

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LOCALIZANDO AS CONDIÇÕES PRETÉRITAS E AS RELAÇÕES CORRENTES


NA COMPLEXA FRONTEIRA BRASIL-BOLÍVIA
Locating Preterit Conditions and Current Relations of the Complex Brazil-Bolivia
Border
Localización de Condiciones Preteritas y Relaciones Actuales de la Frontera
Compleja Brasil-Bolivia

Tito Carlos Machado Oliveira*


Paulo Marcos Esselin

Resumo: A fronteira Brasil-Bolívia, na parte mais ao sul, teve papel importante no


abastecimento do oeste brasileiro através dos rios da Bacia do Prata no início do
sec. XX, nos anos cinquenta ensaiou um processo de industrialização, até́ se
transformar em uma rica fronteira vibrante no final do século. Repleta de
ambiguidades, porosidades e deslizamentos a fronteira conurbada de Corumbá́ -
Ladário-Puerto Quijarro-Puerto Suárez tem demonstrado um rico processo de
integração socioeconômica e uma complexa rede de relações sociais e
institucionais. Este texto tem a intenção de localizar as condições pretéritas da
fronteira Brasil-Bolívia e contextualizar as relações cotidianas daquela conurbação
fronteiriça, sob a tutela metodológica da historiografia e da categoria território da
ciência geográfica. É parta do projeto de pesquisa “Polos geográficos de ligação”
com financiamento da Fundect e do CNPq até́ 2016.
Palavras-chaves: Fronteira Brasil-Bolívia, Conurbação fronteiriça, Integração.

Abstract: The Brazil-Bolivia border, in the southernmost, played an important role in


western Brazil supply through La Plata River Basin in the early 20 th century,
attempted an industrialization process in the fifties to become a rich vibrant border at
the end of century. Full of ambiguities, porosities and slipping the frontier conurbation
of Corumbá/Ladário-Puerto Quijarro/Puerto Suárez exhibited a valued process of
socioeconomic integration and a complex network of social and institutional relations.
This text intends to find preterit conditions of Brazil-Bolivia border and contextualize
daily relations that frontier conurbation, under methodological regard of the
historiography and territory class of geography science. It is part of the project
“Connections geographical poles” with funding from Fundect and CNPq to 2016.
Keywords: Brazil-Bolivia border, Frontier conurbation, Integration.

Resúmen: La frontera entre Brasil y Bolivia, en el extremo sur, jugó un papel


importante en el suministro del oeste de Brasil a través de la cuenca del río La Plata
a principios del siglo XX, intentó un proceso de industrialización en los años
cincuenta para convertirse en una frontera rica y vibrante a fines de siglo. Lleno de
ambigüedades, porosidades y deslizamientos de la conurbación fronteriza de
Corumbá/Ladário-Puerto Quijarro/Puerto Suárez exhibió un valioso proceso de
integración socioeconómica y una compleja red de relaciones sociales e
institucionales. Este texto tiene la intención de encontrar condiciones pretéritas de la

*
Professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. E-mail: tito.machado@ufms.br

Professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. E-mail: paulo.esselin@gmail.com

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frontera entre Brasil y Bolivia y contextualizar las relaciones cotidianas que afectan la
conurbación fronteriza, bajo la consideración metodológica de la clase de
historiografía y territorio de la ciencia de la geografía. Forma parte del proyecto
"Polos geográficos de conexiones" con financiación de Fundect y CNPq para 2016.
Palabras clave: Brazil-Bolivia border, Frontier conurbation, Integration.

* Trabalho completo selecionado para publicação em Revista não parceira do


evento.

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METODOLOGIAS PARA O ENSINO E APRENDIZAGEM DE LÍNGUAS NAS


FRONTEIRAS: PERSPECTIVAS DECOLONIAIS
Methodologies for Language Teaching and Learning at Borders:
Decolonial Perspectives
Metodologías para la Enseñanza y Aprendizaje de Lenguas en las Fronteras:
Perspectivas Decoloniales

Janete Fátima Pará Velasco


Suzana Vinicia Mancilla Barreda

Resumo: Este trabalho apresenta as discussões iniciais que abordam a aplicação


de metodologias de ensino e aprendizagem de línguas em contexto escolar de
fronteira. As práticas docentes observadas durante a realização dos estágios do
curso de Letras da UFMS/Campus do Pantanal em escolas públicas de Corumbá-
MS evidenciam a recorrência de concepções tanto da situação e uso das línguas
em circulação nesse âmbito, quanto do processo de ensino e aprendizagem
destas, pautados em paradigmas considerados “tradicionais”. A proposta é
desenvolver estudos que tenham em vista uma reconceituação das metodologias
em uso pelos docentes na área de línguas, com o uso da Pesquisa-Ação e
considerando a perspectiva decolonial a partir das reflexões do colonialismo interno
(CUSICANQUI, 2010).
Palavras-chave: Fronteira, Metodologias de ensino e aprendizagem de línguas,
Decolonialidade.

Abstract: This paper presents the initial discussions that approach the application of
language teaching and learning methodologies in a border school context. The
teaching practices observed in the Spanish language internship, carried out by
students of the course of Letters of UFMS / Campus do Pantanal in municipal
schools of Corumbá-MS show the recurrence of conceptions of both the situation and
use of languages in circulation in this area, as well as the process teaching and
learning, based on paradigms considered “traditional”. The proposal is to develop
studies that propose a reconceptualization of the methodologies in use by language
teachers, considering the decolonial perspective from the reflections of internal
colonialism (CUSICANQUI, 2010). The applied methodology is from Action Research
(THIOLLENT, 2009).
Key-words: Border, Methodologies for language teaching and learning, Decoloniality


Graduada em Letras português-espanhol. Professora concursada da SEMED – Corumbá/MS. E-
mail: janeteisis@hotmail.com

Graduada em Letras, mestre em Educação, doutora em Educação. Professora adjunta do curso de
Letras português-espanhol CPAN/UFMS. E-mail: suzanamancilla@yahoo.es

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Resumen: este trabajo presenta las discusiones iniciales que abordan la aplicación
de metodologías de enseñanza y aprendizaje de lenguas en contexto escolar de
frontera. Las prácticas docentes que se observaron durante la realización de las
pasantías del curso de Letras de la UFMS/Campus del Pantanal en escuelas
públicas de Corumbá-MS evidencian la recurrencia de concepciones tanto de la
situación y uso de las lenguas en circulación en ese ámbito, como del proceso de
enseñanza y aprendizaje de estas, pautados en paradigmas considerados
“tradicionales”. La propuesta es desarrollar estudios que tengan en vista una
reconceptualización de las metodologías en uso por los docentes en el área de
lenguas, mediante el uso de la Investigación-Acción y considerando la perspectiva
decolonial a partir de las reflexiones del colonialismo interno (CUSICANQUI, 2010).
Palabras clave: Frontera, Metodologías de enseñanza y aprendizaje de lenguas.
Decolonialidad.

Introdução
Localizado no município de Corumbá – estado de Mato Grosso do Sul – o
Campus do Pantanal (CPAN) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul
(UFMS) inaugurou em 2007 o curso de Letras com habilitação em português e
espanhol. A formação de professores nessa língua estrangeira (ou segunda língua)
nesse centro previa atender as disposições da Lei Federal 11.161/2005 que tratava
da oferta do ensino de espanhol na educação básica e a formação de corpo
docente para atender tal medida.
A condição fronteiriça de Corumbá já havia promovido o Decreto da Lei
Municipal nº 1.322 de 1993 que orientava o ensino de espanhol no sistema
educativo de Corumbá, disposição que não teve uma implementação efetiva,
porquanto, tendo sido realizadas consultas aos pais no momento da matrícula dos
seus filhos, estes se mostraram contrários à aprendizagem de espanhol como
língua estrangeira, preferindo manter a língua inglesa1.
No período em que a primeira turma dos discentes de Letras precisou
cumprir o estágio obrigatório supervisionado em língua espanhola, três escolas
estaduais ofertavam o espanhol como língua estrangeira moderna (LEM). Os
alunos que não conseguiram realizar o estágio nessas escolas, cumpriram essa
disciplina obrigatória na forma de projetos, oferecidos no contraturno das aulas
regulares, com a participação voluntária dos alunos.

1
Esta informação, obtida em conversa informal, foi contestada por alguns pais que manifestaram não
ter sido consultados quanto à possibilidade dos seus filhos estudarem espanhol. Não encontramos
registros que formalizem essa situação relatada por informantes voluntariamente.

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Devido à ambiguidade apresentada na redação da Lei 11.161/2005 e sua


difícil implantação na escola regular (RODRIGUES, 2010), o ensino do espanhol
passou por uma tímida expansão em nível nacional. Em Corumbá o campo da
prática foi direcionado às escolas municipais, com o ensino do espanhol nos anos
iniciais da educação básica. Entretanto, conforme a matriz curricular de Letras, os
formandos nesse curso teriam habilitação para os últimos anos do ensino
fundamental e médio. Assim, esse recente campo de atuação trouxe desafios que
repercutiram na inclusão – em 2015 – da disciplina Prática de ensino de
espanhol para anos iniciais na graduação em Letras.
Atualmente os estágios de língua espanhola ocorrem nos anos iniciais das
escolas municipais de Corumbá e, com muita dificuldade no ensino médio, visto
que com a promulgação da Lei Federal13.415/17, a língua inglesa vem sendo
priorizada como LEM na educação básica, o que implica no reduzido número de
escolas públicas que ofertam o espanhol nesse nível.
Durante algumas experiências práticas foram evidenciadas atitudes
linguísticas de alunos frequentes às escolas em que os estágios se realizavam
para as quais os estagiários não se sentiram preparados. As escolas em que os
alunos de origem boliviana são quantitativamente expressivos marcam um cenário
sociolinguístico complexo e diverso que exige práticas docentes específicas nas
aulas de língua espanhola. Paralelamente, os professores de espanhol dessas
escolas sentiram-se instigados ao perceber que seus alunos de origem boliviana
apresentavam muita dificuldade na aprendizagem do português, situação revelada
nas aulas de espanhol.
Esses antecedentes, entre outros, promoveram a concepção desta pesquisa
que tem por objetivo abordar o tema da Metodologia de ensino e aprendizagem de
línguas, em especial do espanhol como língua estrangeira 2, em duas escolas
municipais de Corumbá, uma urbana (CAIC) e outra rural (EUTRÓPIA). Ambos os
professores de espanhol destas, ao exercer sua docência, sentiram-se desafiados
por uma série de questionamentos sobre sua prática docente – assentada em

2
Seguimos a denominação de “espanhol língua estrangeira” (ELE), conforme é designada nas
instituições escolares, entretanto, consideramos o status linguístico do espanhol em Corumbá, está
na ordem de uma segunda língua ou L2, vista a presença de falantes de espanhol, em sua grande
maioria bolivianos, que transitam especialmente na área urbana do município, uma vez que não é
raro escutar essa língua em diversos lugares públicos.

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paradigmas “tradicionais” – interpelada perante a composição pluricultural e


plurilinguística presente nessas escolas.
A pesquisa se inicia com um levantamento bibliográfico dos métodos de
ensino de línguas que neste trabalho denominamos “tradicionais” (ALMEIDA
FILHO, 1993, 2005; LEFFA, 1988), bem como novas propostas emergentes do
multiletramento (ROJO, 2012) e do letramento crítico (SOARES, 2013).
Propõe-se aplicar a metodologia da Pesquisa-ação, porquanto vincula
atividades coletivas orientadas a alcançar a resolução de questões que tenham em
vista uma transformação (THIOLLENT, 2009). Na concepção de David Tripp
(2005), a pesquisa-ação repercute em uma prática aperfeiçoada pela variabilidade
entre a ação e a investigação: “Planeja-se, implementa-se, descreve-se e avalia-se
uma mudança para a melhora de sua prática, aprendendo mais no correr do
processo, tanto a respeito da prática quanto da própria investigação.” (TRIPP,
2005, p. 446).

O contexto e as práticas docentes


Conforme mencionado na introdução, este estudo tem como lugar de
pesquisa a escola CAIC, em etapa posterior serão desenvolvida a investigação na
Escola Eutrópia Gomes Pedroso, localizada muito próxima à linha de fronteira
internacional.
O expressivo quantitativo de alunos de origem boliviana motivou a escolha
dessas duas unidades educativas, fator que determinou a pergunta principal deste
estudo: as questões metodológicas no ensino de línguas nesse ambiente
plurilinguístico e pluricultural apontam à necessidade de aplicar estratégias próprias
para o ensino de espanhol como LEM?
Em busca de responder essa questão, inicia-se a descrição do espaço da
pesquisa com o Centro de Atendimento Integral à Criança CAIC – Pe. Ernesto
Sassida e CEMEI – Catarina Anastácio da Cruz, localizados na rodovia Ramon
Gomez no bairro Dom Bosco, essas instituições atendem crianças, jovens e adultos
oriundos dos bairros mais próximos, são eles: Cervejaria, Dom Bosco, Aeroporto e
Generoso, além dos alunos procedentes das cidades de Puerto Suarez3 – Bolívia

3
Embora o PPP assinale Puerto Suárez, como a localidade da qual são oriundos os alunos, na
prática constata-se que estes são, na sua maioria, procedentes de Puerto Quijarro, município
localizado na linha de fronteira do lado boliviano.

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257

que, na maioria das vezes provêm de famílias de baixa renda. (PROJETO


POLÍTICO PEDAGÓGICO CAIC, 2018-2020)
Dentre esse grupo de alunos de origem boliviana, encontram-se aqueles
fluentes no uso da língua espanhola que ingressam à escola para ser alfabetizados
em português, entretanto, muitas das vezes não a utilizam como meio de
comunicação. Com o intuito de traçar um perfil aproximado desse público, foi
indagada sua procedência, encontrando-se as seguintes situações:
 Alunos que nasceram e moram na Bolívia e estão matriculados legalmente na
escola com a apresentação de uma autorização permiso emitida pela Polícia
Federal4.
 Alunos nascidos em Corumbá que moram na cidade de Puerto Quijarro
(Arroyo Concepción)/ Puerto Suárez, Bolívia.
 Alunos que são brasileiros tendo a mãe e/ou o pai de origem boliviana além
de outros parentes.
As situações são diversas e por vezes, as informações obtidas tendem a
retratar situações fictícias, concebidas para mostrar uma realidade familiar
imaginária que se pretende manter para dar segurança aos mais jovens. Nessa
mesma linha, a autoidentificação tem se mostrado bastante instável, pois pode
mudar conforme a circunstância. Para exemplificar uma situação semelhante, é
transcrito o diálogo a seguir:
1
El diálogo se da en la “feirinha” en Arroyo Concepción con uno de los jovencitos
que cuidan los autos, muchos de ellos bilingües, uno de ellos se me acercó y me
preguntó:
- Dona, você é boliviana?
- Sí, soy ¿y vos?
- Soy los dos...
- ¿Cómo es eso?
- Cuando estoy “aquí” soy boliviano, cuando estoy “allá” soy brasilero…
- Sí, eres los dos…
Observa-se que diante de uma situação complexa, emergem as identidades
adquiridas ou assimiladas consciente ou inconscientemente. Bauman (2004) se
refere à identidade líquida e a possibilidade de assumir uma identidade que
responda a um dado contexto, de tempo e lugar. Isto suscita uma indagação: os
alunos a priori denominados neste trabalho de “alunos de origem boliviana” não
podem se considerar ao mesmo tempo bolivianos e brasileiros – com diferentes
níveis de autoidentificação?

4
Informação obtida na secretaria da escola.

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258

Por outro lado, coloca-se em questão, a quem interessa o reconhecimento e


delimitação de suas identidades nacionais e com qual propósito? É conjecturada a
hipótese de que a importância dessa definição e reconhecimento identitário muitas
vezes é dos procedimentos legais que necessitam identificar os alunos pertencentes
a uma nacionalidade e nos estudos ao pesquisador que não consegue submergir na
abstração de duas ou mais identidades nacionais que expressam uma gama de
sentidos que expõem diferentes nuances de habitar a fronteira.
As reflexões originadas no fato da(s) identidade(s) é um tema que será
desenvolvido nesta pesquisa quando associado à(s) língua(s) em uso no contexto
escolar em estudo.
No que tange ao ensino das LEM, no CAIC a língua espanhola passou ser
ofertada a partir do ano 2000 desde a pré-escola até o 5º ano do ensino
fundamental, com uma carga horária de 2 aulas na pré-escola e 1 aula do 1º ao 5º.
Nos demais anos do ensino fundamental a LEM é o inglês.
Considerando a proficiência em espanhol de um número significativo de
alunos no CAIC e o ensino de língua espanhola como língua estrangeira (ou
segunda língua) nesse ambiente escolar, é essencial considerar a mediação
intercultural nesse processo de aprendizagem que inclua também pressupostos do
português como língua estrangeira ou segunda língua essa é a hipótese que orienta
este trabalho.

Diversidade linguístico-cultural no ambiente escolar do CAIC


Devido as diferenças das características étnicas e culturais, a comunidade
escolar está centrada na pluralidade cultural, isto é, a diversidade de etnias, crenças,
costumes e valores a serem trabalhados com todos os educandos, conforme
identificado no último Projeto Político Pedagógico da escola:
A escola desenvolve em seus projetos pedagógicos a diversidade de valores e
crenças oriundas de suas raízes, pela localidade do município por se tratar de
cidade fronteiriça. As crianças, jovens e adultos são participativos, receptivos,
altivos, gostam de estar próximo às pessoas e são capazes de interagir e aprender
com eles de forma que possam compreender e influenciar seu ambiente. (PPP,
2018-2020).
Partindo da diversidade cultural presente no CAIC, na qual a cultura boliviana
se destaca, as aulas de língua espanhola são planejadas de modo que além de
ensinar a própria língua, permitam também ser trabalhados conteúdos relacionados
à cultura dos países que têm como idioma oficial o espanhol. Com esse

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procedimento pretende-se tornar evidente o preconceito que muitos estudantes


carregam consigo devido à falta de valorização da relação com os bolivianos.
Alguns professores da escola identificam no cotidiano escolar essas atitudes
perante a comunidade boliviana, entretanto é necessário registrar que também é
perceptível uma atitude de desvalorização dos próprios bolivianos ou descendentes
de bolivianos com relação a sua origem, segundo expressa uma das professoras
responsáveis pelo ensino de espanhol no CAIC:
Já ouvi de alunos brasileiros dizerem que não apreciam o idioma por acreditarem
que “espanhol é língua de boliviano”, e esse preconceito quanto aos bolivianos, o
que é evidente, leva alguns alunos a não terem nenhum interesse pelo ensino do
espanhol como língua estrangeira. Com isso, muitos alunos que são falantes de
espanhol se calam para que não sejam alvos de chacotas ou apelidos
constrangedores, atitudes comuns, não só na escola.
Esse cotidiano de embates repercute no posicionamento identitário dos
alunos, fomentando uma hierarquização construída com base no preconceito,
conforme aponta Rivera Cusicanqui (2010), a diversidade cultural na perspectiva do
multiculturalismo pode se tornar um mecanismo de encobrimento de identidades,
uma vez que a inclusão que o sistema educativo preconiza é uma inclusão
condicionada a certas normas previamente estabelecidas, uma delas é o uso das
línguas em um ambiente escolar plurilinguístico, quando uma delas é privilegiada,
promovem-se cidadanias recortadas e identidades subalternizadas. Nesse sentido,
ainda não foram formuladas políticas linguísticas para esse tipo de espaços
escolares, em que se possa usufruir da pluralidade presente e se formem alunos
não somente usuários de mais de uma língua, mas principalmente alunos
culturalmente competentes.
Diante desse cenário, algumas iniciativas pontuais são formuladas e
realizadas tendo em vista o público que compõe o CAIC. Uma das professoras de
espanhol depõe a esse respeito:
No início do meu trabalho na escola, ensinava aos alunos apenas o conteúdo que
era sugerido pelo Sistema da Rede Municipal de ensino de Corumbá. Porém, foi
necessário desenvolver projetos pedagógicos com o objetivo de as crianças
entenderem sobre a importância de aprender um segundo idioma e a respeitar os
costumes de outros países. Afinal, vivem em uma sociedade onde há um encontro
com outros costumes, principalmente a boliviana.
A seguir mencionamos algumas reflexões recolhidas da realização desses
projetos desenvolvidos por uma das professoras de espanhol do CAIC. Essas
experiências estão descritas em detalhe na forma de relato de experiência 5.

5
No prelo.

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No segundo semestre de 2018, por motivo da celebração da Independência


da Bolívia, foi realizado o Projeto As raízes bolivianas do CAIC. Na ocasião alunos
do 1º ao 4º ano foram indagados sobre a comemoração do dia 6 de agosto, dos 15
alunos presentes, cinco souberam responder e o fizeram em espanhol.
No 4º ano o conteúdo trabalhado foi de receitas típicas da Bolívia. Em roda de
conversa, os alunos foram convidados a responder se conheciam alguma comida
típica boliviana. De 20 alunos presentes, dois alunos brasileiros começaram a
descrever como eram os pratos, pois não sabiam os nomes. Três alunos de origem
boliviana, com muita timidez, participaram dizendo os nomes dos pratos.
Observou-se que entre os alunos do 1º ano a participação foi mais
espontânea, enquanto que entre os alunos do 4º ano foi percebido um
comportamento mais reservado, aparentando uma forma de proteção a julgamentos
e eventuais situações constrangedoras.
Em 2019 por ocasião da organização de uma representação teatral do Chavo
del ocho6, a professora em busca de alunos que soubessem espanhol e que
pudessem ajudar seus colegas na pronúncia das falas dos personagens indagou
com os alunos do 4º ano duas questões, como relata a seguir:
1 – Quem é boliviano aqui?
De 20 alunos, 5 levantaram as mãos.
2 – Quem sabe falar em espanhol?
10 alunos levantaram a mão.
Percebe-se uma mudança positiva na atitude dos alunos bolivianos quanto à
identificação e quanto ao uso da língua espanhola, visto que em ocasiões anteriores
prevalecia o silêncio. Tais respostas são um indicativo de que a nacionalidade é um
item que mobiliza menos os alunos, se comparada à reação que os alunos tiveram
no tocante ao conhecimento da língua espanhola. Tais indícios promovem a reflexão
sobre as abordagens metodológicas junto aos “alunos bolivianos”, isto se
consideramos apenas a identificação com o espanhol (ou boliviano, como é
denominado em muitas situações na escola) como língua de comunicação entre
esses alunos.
É necessário considerar que outras línguas são de uso e circulação entre
alguns “alunos bolivianos”, a exemplo do quéchua e do aimará, línguas identificadas
nas observações extra-sala. Essa questão de fundo, neste trabalho denominada
“substrato cultural”, aponta que a complexidade linguística é apenas o reflexo

6
Traduzido na televisão brasileira por Chaves.

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261

daquele, isto é, para adentrar nos estudos culturais, linguísticos, identitários, torna-
se necessário pensar em perspectivas decoloniais que envolvam a intraculturalidade
e a interculturalidade como práticas (RIVERA CUSICANQUI, 2010, p. 62):
No puede haber un discurso de la descolonización, una teoría de la
descolonización, sin una práctica descolonizadora. El discurso del
multiculturalismo y el discurso de la hibridez son lecturas esencialistas e
historicistas de la cuestión indígena, que no tocan los temas de fondo de la
descolonización; antes bien, encubren y renuevan prácticas efectivas de
colonización y subalternización.
A perspectiva decolonial que se propõe neste trabalho implica em pensar em
práticas didáticas que impulsionem mudanças entre os atores sociais na escola e
entre os professores em formação, que ampliem as formas de conceber e
experimentar o contexto que os acolhe.
Vivenciar um contexto plurilíngue pode induzir a pensar em um ordenamento
linguístico, recurso existente ao longo do tempo que outorga e retira importância às
línguas em uso em determinado cenário. É plausível associar políticas linguísticas à
formação de professores de línguas e ao uso de metodologias aplicadas ao ensino
destas? No próximo item busca-se refletir sobre esses três aspectos.

Políticas linguísticas, formação de professores e metodologias aplicadas ao


ensino de línguas
Tomando como base o ensino e aprendizagem de espanhol, parte-se do
estudo de três âmbitos que segundo Fernandez (2018, p. 9) estão reunidos no
campo das políticas públicas:
La enseñanza y aprendizaje de español en la educación regular en Brasil ha
estado, a lo largo del tiempo, marcada por las determinaciones impuestas
por las políticas públicas vigentes en cada momento, sean las políticas
lingüísticas, las de formación docente o de enseñanza de idiomas.
Neste trabalho é dada especial atenção ao ensino e aprendizagem de
idiomas e às metodologias aplicadas para essa finalidade, a busca por desenvolver
um estudo nesse campo provém da prática de professores de espanhol que atuam
no ensino fundamental em escolas de Corumbá os quais são egressos do Curso de
Letras do Cpan/UFMS. As metodologias estarão, portanto, inseridas no item ensino
de idiomas.
No que tange às Políticas linguísticas, estas são abordadas na perspectiva
do ordenamento que o estado organiza no currículo escolar. O conceito de Política
linguística é complexo, visto que pode ter pelo menos duas interpretações,
conforme Lagares (2013, p. 181) expõe:

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language policy, faz referência às atitudes e aos planos de ação relativos à


língua, compreendendo, por tanto, os acontecimentos prévios à decisão
política. A segunda Language politics, se refere à própria decisão política,
que implica já um determinado “ato de poder”.
Rajagopalan (2013, p. 20) avalia que a confusão sobre o conceito de
política linguística está no fato de que “linguística” ocupa a função de adjetivo,
portanto significa: “relativa à língua” isto é, “política relativa à(s) língua(s)”,
entretanto o autor afirma que política linguística pertence ao ramo da política e que
o cenário ideal para seu estudo é a ciência política. O estudioso justifica esse
pressuposto da seguinte forma:
A melhor prova disso é que quando traduzido para uma língua não
românica como o inglês a palavra linguístic dá lugar para language e o
resultado é “language polítics” ou “politics of language” (e não “linguistic
politics”). De forma análoga, ‘planejamento linguístico’ se traduz
geralmente como ‘language planning’.
Uma questão notória é o caráter prescritivo que o planejamento linguístico
expressa, visto que está associado à ingerência do estado nas determinações que
mudam o caminho de uma ou mais línguas em determinados contextos, situação
que leva alguns linguistas a apoiar esses estudos na perspectiva descritiva e não
prescritiva. Para o sociólogo Calvet (2007, p. 61) a política linguística e o
planejamento linguístico na prática podem ser entendidos a partir de mudanças
propostas considerando duas situações linguísticas:
[...] a situação linguística inicial (S1) que depois de analisada é
considerada como não satisfatória, e a situação que se deseja alcançar
(S2). A definição das diferenças entre S1 e S2 constitui o campo da
intervenção da política linguística, e o problema de como passar de S1
para S2 é o domínio do planejamento linguístico. (Destaques do autor)
Destaca o autor que embora pareça uma fórmula simples, há diferenças que
constituem as situações linguísticas e a preocupação sobre a capacidade do
estado como interventor das políticas linguísticas e os efeitos dessas atitudes.
No tocante ao ensino de LEM, constatamos que a intervenção do estado se
dá no ambiente escolarizado. Após a publicação da lei 11.161/05 o moroso
processo de inclusão na grade escolar do espanhol como LEM é interrompido pela
reforma da educação básica, publicada em 2017, que implanta novamente o inglês
como língua única. A continuação apresenta-se um comparativo entre a LDB
9394/96 e a Lei 13.415/07, no ensino e aprendizagem das LEM nesse ambiente da
educação básica:

Quadro 1 – Comparativo entre a LDB 9394/96 e a Lei 13.415/07.

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263

LDB 9394/96 Lei n° 13.415/20177


Art. 26 - § 5 trata das línguas
estrangeiras
Na parte diversificada do currículo será No currículo do ensino
incluído, obrigatoriamente, a partir da fundamental, a partir
quinta série, o ensino de pelo menos do sexto ano será
uma língua estrangeira moderna, cuja ofertada a língua
escolha ficará a cargo da comunidade inglesa.
escolar, dentro das possibilidades da
instituição.
Fonte: Elaboração das autoras.

Esse gesto político que institui a Lei 13.415/2017 é precedido pela


derogação da Lei 11.161/2005 com implicações no currículo escolar e
consequentemente na formação inicial dos professores de espanhol, incluindo a
restrição de vagas para os docentes dessa área.
O campo diretamente afetado na formação inicial no curso de Letras do
CPAN/UFMS é o das práticas na escola, ou seja no estágio obrigatório que,
conforme o Regulamento, é preferentemente realizado nas escolas públicas de
Corumbá e Ladário. As metodologias aplicadas ao ensino de língua espanhola,
objeto de interesse neste estudo, são abordadas nas seguintes disciplinas
semestrais: Fundamentos de ensino de espanhol, Prática de ensino de língua
espanhola e Prática de ensino de língua espanhola para anos iniciais. A aplicação
prática é desenvolvida nos três estágios realizados nas etapas do ensino
fundamental I (anos iniciais), ensino médio (primeiro e segundo ano) e no terceiro
ano do ensino médio. Foi retirado o segundo ciclo do ensino fundamental, pois
nesse período não há escolas públicas que ofereçam o espanhol.
O curso de Letras com habilitação em português e espanhol é relativamente
novo no Campus do Pantanal, tendo sido inaugurado em 2007, em 2010 teve a
primeira turma de professores egressos com dupla habilitação. O campo de prática
para o desenvolvimento do estágio naquela época estava restrito a algumas
escolas de administração do estado, com aulas destinadas ao ensino médio.
Conforme a matriz curricular vigente à época, a formação dos licenciados estava
direcionada ao exercício do ensino do espanhol no fundamental II (quinto ao oitavo
ano) e do ensino médio.
Com a abertura de concursos para docentes de espanhol em 20128 no
município de Corumbá, estes foram encaminhados para o exercício profissional

7
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13415.htm

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nos anos iniciais do ensino fundamental. Esse novo campo de trabalho exigiu uma
reorganização nas disciplinas do Curso de Letras a serem ofertadas para atender a
demanda local. Assim, a identidade do Curso que estava em processo inicial de
construção, passou por uma reconfiguração ao incluir a disciplina de Prática de
ensino de espanhol para anos iniciais, objetivando formar docentes sensíveis à
docência com esse público infantil.
A medida que os discentes desenvolviam o estágio de Língua Espanhola I,
em algumas escolas emergiram questões relacionadas ao contexto escolar,
constatou-se um número significativo de alunos de origem boliviana – falantes de
espanhol e em alguns casos de outras línguas nativas como o quéchua, aimará e
guarani, entre outras – que frequentavam as escolas de Corumbá9, tal situação
plurilinguística y pluricultural também foi relatada pelos docentes de espanhol.
Essa nova conjuntura conduz a um reposicionamento das práticas
tradicionais, em que se requer repensa-las na perspectiva das práticas didático-
pedagógicas decoloniais, isto é, fora dos padrões tradicionais já pré-estabelecidos
e que não respondem às peculiaridades dos contextos socioculturais complexos.
Na perspectiva da aprendizagem de línguas, Almeida Filho (1993, p. 13)
define cultura de aprender como:
[...] maneiras de estudar e de se preparar para o uso da língua-alvo
consideradas como ‘normais’ pelo aluno, e típicas da sua região, etnia,
classe social e grupo familiar, restrito em alguns casos, transmitidas como
tradição, através do tempo, uma forma naturalizada, subconsciente e
implícita. (Com destaque no original)
No cenário em que se encontra o CAIC, é relevante considerar que a LEM
alvo é constituída essencialmente pelas variedades do espanhol boliviano, entre as
quais se destacam o espanhol dos vales e o espanhol andino e o espanhol camba,
esse último com significativos acréscimos das migrações internas em direção
especialmente a Santa Cruz de la Sierra e às fronteiras bolivianas com o Brasil 10.

8
Com a publicação da Lei Nº 2282 de 20 de dezembro de 2012 foi instituido o Plano Municipal de
políticas para a promoção da igualdade racial em Corumbá, em cujo artigo 20 efetiva-se a adoção do
espanhol como segundo idioma nessa fronteira com a Bolívia e o Paraguai. Disponível em:
https://leismunicipais.com.br/a/ms/c/corumba/lei-ordinaria/2012/228/2282/lei-ordinaria-n-2282-2012-
institui-o-plano-municipal-de-politicas-de-promocao-da-igualdade-racial. Acesso em: 8 jun. 2019.
9
Mais detalhes em: https://www.campograndenews.com.br/cidades/interior/para-dar-escola-a-659-
bolivianos-corumba-gasta-rs-1-4-milhao-por-ano. Acesso em: 9 jun. 2019.
10
Segundo os dados da migração interna no último Censo boliviano de 2012, Santa Cruz de la Sierra
é o município receptor com maior saldo positivo. Puerto Quijarro recebe em números absolutos, 6.428
migrantes, dos quais 3.977 são procedentes do mesmo departamento, enquanto 2.451 procedem de
outros departamentos. Esses números são indícios de que a diversidade social presente na fronteira
conta com um quantitativo considerável de migrantes procedentes de outros lugares, com outras

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Na formação inicial em Letras com habilitação em português e espanhol,


essa realidade sociolinguística regional tem sido incorporada paulatinamente às
disciplinas de língua espanhola, e àquelas que abrangem a prática de ensino de
espanhol. Entretanto tais acréscimos são ainda muito tímidos no que tange à
formação desses docentes, seria necessário que o Projeto do curso legitimasse
esses procedimentos, trazendo uma discussão curricular a mais áreas de
conhecimento, não cabendo apenas à língua espanhola a sensibilização desses
discentes que estão em processo de formação profissional e futuramente ocuparão
as salas de aula.
A experiência dos estágios nessas escolas também tem evidenciado que os
pedagogos responsáveis pelo ensino nos anos iniciais deveriam ter uma formação
que considere o contexto sociocultural e sociolinguístico com a diversidade em
destaque neste trabalho. Assim, o que muitas vezes se considera um entrave,
poderia ser aproveitado como um enriquecimento no repertório linguístico e cultural
dos alunos, professores e todos os envolvidos nesse processo de formação.
No início desta pesquisa, foi enfocado primordialmente o uso de
metodologias de ensino de línguas estrangeiras ou segundas que procurassem
quebrar os padrões naturalizados e muitas vezes descontextualizados. Na prática
constatamos que esse é apenas um item de uma questão maior. Seguindo essa
linha, Fernández (2018, p. 11) amplia a extensão das atitudes didático-pedagógicas
dos docentes às políticas de ensino de idiomas:
El problema estriba en que, en la práctica, esos tres ámbitos – políticas
lingüísticas, políticas de formación de docentes y políticas de enseñanza de
idiomas – poco dialogan, de tal forma que cada una de esas políticas sigue
por caminos a veces independientes o, incluso, antagónicos. Una de las
consecuencias de esa falta de conexión entre las diferentes políticas es una
enseñanza que no siempre atiende a las expectativas y necesidades del
alumnado, incluso porque muchas veces los objetivos que se pretenden
alcanzar no están claramente definidos.
O exercício de reflexionar sobre a metodologia de ensino de línguas nas
escolas neste contexto de fronteira possibilita revisar, além dos processos
inerentes ao ensino e aprendizagem, os conceitos de construção identitária dos
alunos, enquanto aprendizes e dos professores enquanto formadores.

Seguimentos

variedades de espanhol na conformação do espanhol falado nesse espaço fronteiriço. Disponível em:
http://www.udape.gob.bo/portales_html/docsociales/migra.pdf. Acesso em 18 jun. 2019.

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Esta primeira etapa em que se encontra este trabalho evidencia que a


complexidade sociocultural nas escolas alvo é um indicativo de que no contexto
fronteiriço corumbaense é necessário discutir e procurar novos rumos para o
ensino de línguas de um modo geral e para o ensino de espanhol de um modo
particular, visto o lugar de língua segunda que ocupa. Pensar a metodologia de
ensino de línguas na escola regular obriga a ampliar essas questões ao âmbito de
formação inicial dos docentes da área, bem como a determinações que passam
pelo ordenamento linguístico dos órgãos gestores no município.
Seguir uma perspectiva decolonial implica em repensar os conceitos e ter
um reposicionamento das práticas instituídas, muitas das quais estão
descontextualizadas e não respondem às demandas que se evidenciam no
contexto escolar os quais extrapolam à vida social.
Os resultados deste estudo pretendem evidenciar com mais detalhe as
peculiaridades do ensino de línguas nas escolas localizadas na fronteira, bem
como contribuir com a formação inicial dos docentes do curso de Letras do
Cpan/UFMS.

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268

AT THE CROSSROADS OF BORDERS AND CULTURE: AN ANALYSIS OF


ACADEMIC PRODUCTION AND OF NETWORKS OF CONCEPTS AND
LITERATURE
Na Encruzilhada entre Fronteiras e Cultura: uma Análise da Produção Acadêmica e
das Redes de Conceitos e Literatura
En la Encrucijada entre Fronteras y Cultura: un Análisis de la Producción Académica
y de las Redes de Conceptos y Literatura

Solène Marié*

Resumo: A literatura de Estudos Fronteiriços aponta que, apesar de ser um objeto


de pesquisa multidisciplinar, fronteiras são estudadas dentro de várias disciplinas;
usando diferentes conceitos e metodologias; e chegando a conclusões variadas
sobre os determinantes dos processos fronteiriços. Além disto, a literatura se baseia
em estudos de caso individuais, com um desequilíbrio entre a produção sobre casos
no Norte e no Sul. Com base nessa observação e focando especificamente na
produção acadêmica na encruzilhada entre os temas de fronteiras e cultura, o nosso
objetivo é responder às seguintes perguntas: Como se caracteriza essa produção
em cada língua? Existem diferenças reais de volume, abordagem e objeto? Existe
uma ligação entre certos conceitos e disciplinas ou agendas de pesquisa? Para
responder às perguntas, essa bibliografia foi extraída da base de dados do Web of
Science. Ela foi analisada e apresentada em gráficos de redes sociais a partir da
ferramenta VOSviewer.
Palavras-chave: Fronteiras, cultura, análise bibliométrica, redes, conceitos

Abstract: Border studies literature points out that, despite their multidisciplinarity as
research objects, borders are studied within distinct disciplines; using a range of
concepts and methodologies; and reaching various conclusions as to the
determinants of border processes. Furthermore, literature is based on individual case
studies and the production on Northern borders is greater than that on Southern
borders. Based on this and focusing specifically on academic production at the
crossroads of the themes of borders and culture, our aim is to answer the following
questions: What are the main features of this production in each language? Are there
actual differences in volume, approaches and objects? Is there a relation between
certain concepts and disciplines or research agendas? In order to answer these
questions, this bibliography was extracted from the Web of Science database. It was
analysed and presented as network data maps produced with VOSviewer.
Keywords: Borders, culture, bibliometric analysis, networks, concepts

Resúmen: La literatura de Estudios Fronterizos señala que, a pesar de ser un objeto


de investigación multidisciplinar, las fronteras son estudiadas dentro de varias
disciplinas; utilizando diferentes conceptos y metodologías; y llegan a conclusiones
diversas sobre los determinantes de los procesos fronterizos. Además, la literatura
se basa en estudios de casos individuales, con un desequilibrio entre la producción

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sobre casos en el Norte y en el Sur. Siguiendo esta observación y con un foco


específicamente en la producción académica en la encrucijada entre temas
fronterizos y culturales, nuestro objetivo es responder las preguntas siguientes:
¿Cómo se caracteriza esta producción en cada idioma? ¿Existen diferencias reales
en volumen, enfoque y objeto? ¿Existe una relación entre ciertos conceptos y
disciplinas o agendas de investigación? Para responder a estas preguntas, esta
bibliografía se extrajó de la base de datos de la Web of Science. Fue analizada y
presentada en gráficos de redes sociales utilizando la herramienta VOSviewer.
Palabras clave: Fronteras, cultura, análisis bibliométrico, redes, conceptos

Introduction
One of the difficulties which border scholars face is the diversity of possible
approaches to their object of study and the profoundly interdisciplinary nature of
border scholarship: it spans geography, history, economy, anthropology, ethnology,
political science, law, psychology, sociology and other social sciences (NEWMAN;
PAASI, 1998).
As pointed out by Pesavento (own translation, p. 36):
There is, without a doubt, a tendency towards thinking about borders based
on a conception which is built on territoriality and unfolds in politics. In this
understanding, a border is, above all, the closure of a space, the delimitation
of a territory, the establishment of a surface area. Essentially, a border is a
mark which sets a limit and separates and points to socialised meanings of
recognition. Based on this, we can see that even in the sense of an
approach based on territoriality and geopolitics, the concept of border
already moves over to the realms of the symbolic construction of belonging
which we call identity and which corresponds to an imaginary framework
i
which is defined by difference.
We can therefore see how various outlooks are cast on borders and how they
are intrinsically multi-faceted research objects.
Beyond the diversity of disciplines within which borders are studied
(NEWMAN; PAASI, 1998; STAUDT, 2017; KOLOSSOV; SCOTT, 2013); scholars
use different definitions, perspectives and methodologies (PAASI, 2011); and reach
different conclusions as to the determinants of border processes (BRUNET-JAILLY,
2005) and cross-border integration. Culturally embedded explanations by
geographers and historians emphasise the role of local communities; political
scientists insist on the role of institutions; and rationalist explanations developed by
economists identify economic processes as fundamental, linked to the structural role
of the border as a divider between two markets. Yet other explanations emphasise

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the role of language and ethnicity, the role of local actors, of central governments and
of religion (BRUNET-JAILLY, 2010).
Some theorists attempt to create models (for example: BRUNET-JAILLY,
2004; BRUNET-JAILLY, 2005), others border theories (for example: NEWMAN,
2003), whilst others argue that theorisation is impossible (for example: AGNEW,
2006 apud PAASI, 2013) or that it should not focus on borders but rather on
boundary producing practices (for example: Ó TUATHAIL; DARBY, 1998; PAASI,
2011).
As pointed out by Paasi (2013), scholars seem to be “travelling forward in
different trains”. According to a study conducted by Pisani, Reyes and García Jr, of
all articles published in the Journal of Borderlands Studiesii between its creation in
1986 and 2008, 13% of all published articles and 44.9% of all multi-authored works
derived from multidisciplinary research teamsiii. This percent is relatively low given
that this journal explicitly states its multidisciplinary orientation since its creation.
Beyond the limits linked to discipline-specific explanations and to divergences
in approaches, border literature is often the result of single-case empirical studies
conducted in research centres situated in the North. Pisani, Reyes and Garcia’s
study shows that 72.7% of the articles included in the study had been written by
researchers based in North America (USA and Canada) and 18.5% in Europe iv. This
leaves 8.4% of the publications for other parts of the world v. Scholarship from Latin-
America originates exclusively from Mexico, with 4.7% and Venezuela, with 0.4%
(PISANI; REYES; GARCÍA JR, 2009).
As the study of borders relies on case studies and “many topics do not lend
themselves to random samples (i.e., informality), the lack of generalizable research is
a weakness” (PISANI; REYES; GARCÍA JR, 2009, p. 12). Amongst the publications
included in the aforementioned study, approximately half can be categorized as
applied research whilst one quarter is conceptual/theorizing and the rest presents a
mix of both (PISANI; REYES; GARCÍA JR, 2009). This shows the preponderance of
an applied approach within the field.
More specifically, “research in border studies has relied mainly on
generalisations from cases in the US-Mexico borderlands” (STAUDT, 2017, p. XXV).
As it is the border which has traditionally been the most studied and therefore has
many university departments specialised in the theme, publications on borders
originate mainly from that region – the first nine universities which contributed the

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most to the Journal of Borderlands Studies in 2008 were from that region-vi
(BRUNET-JAILLY, 2010). Consequently, border models and general border
scholarship tend to be greatly influenced by the specific configuration of that border.
This has various consequences (STAUDT, 2017). Firstly, these studies lack
generalisability. Secondly, research tends to assume that the State is strong. Thirdly,
it tends to assume that borders will develop towards integration. Fourthly, the lack of
studies conducted in other border regions leads to a lack of views from Southern
borders and a lack of cross-regional analysis. As pointed out by Staudt (2017, p. 9).,
“It is […] extremely important that we become aware of borders in other world
regions, comparing their similarities and differences”.
This statement, coming from English-language scholar and book, points
towards an apparent lack of studies coming from academic centers others than North
America and Europe and a possible lack of dialogue between scholars. Thinking
about this issue from a South American viewpoint, it appears that even compared to
other regions in the South, the literature on Southern American borders is scarce.
Works in English language focusing on rarely studied or Southern borders include
few examples from this region (STAUDT, 2017; ALPER; BRUNET‐JAILLY, 2008).
Summing up, there have been few theoretical propositions to date which
would bring together discipline-specific knowledge and explanations as well as think
about how concepts could travel from one field of study to another.
Rather than exploring the field of border studies as a whole, we will
concentrate our analysis on academic production on a specific subject: the
crossroads of borders and culture. This will enable us to explore its caracteristics in
more depth and detail.
Based on these observations, our aim in this article is to tackle the following
questions: What characterizes the production on this subjectvii in each language? Are
there real, demonstrated differences in volume and approaches/objects? Are some
concepts used more in one language or another? What questions does this pose in
terms of translation? Furthermore, what is the significance of the subject in
International Relations compared to other disciplines? What are the hubs for this
research object?

Methodology

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In order to offer a contribution towards the construction of an answer, a


bibliometric analysis was conducted based on the academic production which is at
the crossroads of the two themes of our research: culture and borders.
In order to conduct such an analysis, the bibliographic production on the
subject was extracted from the Web of Science database and analysed the following
way: with the Web of Science’s analysis tool and through the production of network
data maps with VOSviewerviii.
The purpose of the production of network maps (sometimes referred to as
graphs in the literature)ix using such software is to calculate and present visually
three elements. First, they present items (sometimes called nodes) which are the
objects under study. Second, they exhibit the links between these items (sometimes
referred to as edges). Thirdly, they represent visually the strength of those links
based on a chosen criterion (bibliographic coupling, co-authorship or co-occurrence).
Finally, it is possible to group items within clusters (sometimes called communities)
which are calculated on the basis of a computer algorithm. A colour is assigned to
each cluster in order to present visually the grouping of the items on the map (VAN
ECK; WALTMAN, 2019).
The following results are based on a Web of Science advanced search
conductedx with the query “TS=cultur* AND border”. The aim was to select all articles
mentioning the words border, borders, borderlands, borderlanders, culture, cultures
and cultural, specifying that the search should cover published articles, proceedings
papers and book chapters in all languages, since 1945 and that it should include all
the citation indexes included in the Web of Science’s core collectionxi.
Based on the result of this search, it was possible to produce a number of
graphs and tables which enable us to analyse the bibliographic production which
corresponds to the specified criteria.
Following the presentation of the methodology, it is important to acknowledge
that, though this strategy constituted the strongest option for bibliometric analysis, it
is not flawless. Firstly, using an English-language database implies some bias
towards English-language academic production, even though all languages were
included in the language field when conducting the research. Furthermore, though
the Web of Science includes various citation indexes (as per detail included in
previous footnote), it is important to acknowledge that some journals are not
catalogued in these databases and thus do not enter this data.

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Another search was conducted in order to better put into perspective


academic production in Portuguese in relation to production in English without the
risk that a search with the word “border”, though in theory open to all languages,
might not include all the production. It was based on the search query “TS=(cultur*
AND fronteir*)”, the aim being to include all articles mentioning the words “cultura”,
“culturas”, “cultural”, “fonteira”, “fronteiras”, “fronteiriço/a/s”xii. Whilst the first query
had generated 5,689 results (after refining the results to the humanities, social
sciences and applied social sciences in a broad sense), the second one, with the
same criteria, generated only 5 resultsxiii. Furthermore, when a graph was produced
based on these results (see figure 1), the keywords were divided into five different
and distant clusters, showing weak links between publications. Thus, we concluded
that these results were not interpretable and based all the subsequent study on the
results of the English-language query.

Figure 1 - Co-occurrence network of terms: cultur* AND fronteir*

Source: Produced by the author with VOSviewer

Borders and culture: bibliographic production


Based on the results of our query, a number of figures, tables and graphs were
produced. The following two figures represent visually the countries/regions and the
languages in which the articles corresponding to the criteria were produced; and two
tables give the full details of the results.

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Figure 2 - Tree map of main countries/regions.

Source: Produced by the author with Web of Science tool

Figure 3 - Tree map of main languages

Source: Produced by the author with VOSviewer

Table 1 - Countries, based on (co-)author institutions of affiliation


Countries/Regions [1] Number of records [2] Percentage of total records (4361)
USA 951 21.8
United Kingdom [3] 357 8.2
Russia 276 6.3
Germany 204 4.7
Canada 202 4.6
People's Republic of China 151 3.5
Spain 150 3.4
Australia 149 3.4
Italy 128 2.9
Romania 108 2.5
France 100 2.3
Turkey 98 2.2
Brazil 96 2.2
Netherlands 79 1.8
Poland 74 1.7
Czech Republic 71 1.6
Mexico 69 1.6
Finland 67 1.5
Slovenia 67 1.5
South Africa 66 1.5
Sweden 51 1.2

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Israel 48 1.1
Belgium 45 1.0
Argentina 44 1.0
Austria 42 1.0
Chile 42 1.0
Norway 39 0.9
Switzerland 34 0.8
Denmark 33 0.8
Portugal 33 0.8
South Korea 33 0.8
Colombia 30 0.7
Hungary 30 0.7
Croatia 29 0.7
Estonia 28 0.6
India 27 0.6
New Zealand 26 0.6
Ukraine 26 0.6
Taiwan 24 0.6
Lithuania 23 0.5
Ireland 22 0.5
Singapore 22 0.5
Bulgaria 21 0.5
Slovakia 20 0.5
Thailand 19 0.4
Greece 17 0.4
Iran 17 0.4
Japan 17 0.4
Malaysia 15 0.3

[1] 61 Countries/Regions value(s) outside display options.


[2] 230 records (5.3%) do not contain data in the field being analysed.
[3] Combined results of England and Scotland
Source: Produced by the author with data collected on Web of Science

Firstly, these results confirm the preponderance of the USA as the first
producer of research on the subject, with nearly 22% of academic production. All the
other countries have a production which is below 10%, amongst others 8.2% for the
United Kingdom, 6.3% for Russia, 4.7% for Germany, 4.6% for Canada, 3.5% for
China.

Table 2 - Language of the publications


Languages Number of records Percentage of total records (4361)
English 3233 74.1
Spanish 267 6.1
Russian 229 5.3
German 129 3.0
French 96 2.2
Portuguese 88 2.0
Italian 44 1.0
Slovenian 44 1.0
Turkish 38 0.9
Czech 29 0.7
Croatian 28 0.6

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Polish 22 0.5
Romanian 21 0.5
Slovak 18 0.4
Chinese 15 0.3
Lithuanian 12 0.3
Estonian 8 0.2
Dutch 7 0.2
Swedish 7 0.2
Ukrainian 6 0.1
Hungarian 5 0.1
Serbian 4 0.1
Bulgarian 3 0.1
Malay 3 0.1
Catalan 2 0.0
Norwegian 2 0.0
Afrikaans 1 0.0
Arabic 1 0.0
Source: Produced by the author with data collected on Web of Science

The division of languages demonstrates an even more polarized scenario:


74.1% of the publications are in English. This figure exceeds the simple sum of the
production from English-speaking countries and we can see that while publications
from Russia, France and Brazil represent 6.3%, 2.3% and 2.2%, respectively,
publications in Russian, French and Portuguese represent 5.3%, 2.2% and 2%. This
shows that part of the production from these countries is published in other
languages, most probably in English. These results are in line with publishing trends
in terms of language, but are significant when analyzing questions related to the use
of concepts.

Figure 4 - Number of publications per year (1994 to 2018)

Source: Produced by the author with VOSviewer

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This third figure details the number of publications at the crossroads of the
subject of culture and of borders, between 1994 and 2018. It demonstrates a relative
stability in amount of publications between 1994 and 2004, with only slight increases
and decreases. Between 2005 and 2014, there was a steady increase in publications
year after year, followed by a strong increase of 64% between 2014 and 2015. Since
then, the level of publications demonstrates only slight variations. It appears that the
subject gained significant interest in 2015 and is relatively new as a field of research:
before that year, the number of publications per year had never exceeded 600.

Figure 5 - Research areas

Source: Produced by the author with VOSviewer

Table 3 - Research area of the publications


Research Areas Number of records [1] Percentage of total records (4361)
History 464 10.6
Education - Educational research 449 10.3
Arts - Humanities other topics 446 10.2
Literature 373 8.6
Social Sciences other topics 355 8.1
Government Law 325 7.5
Geography 324 7.4
Anthropology 279 6.4
Sociology 258 5.9
Linguistics 245 5.6
Area Studies 229 5.3
Cultural Studies 180 4.1
Communication 151 3.5
Psychology 150 3.4
Archaeology 133 3.1
Ethnic Studies 109 2.5
International Relations 103 2.4
Religion 93 2.1
Demography 86 2.0

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Asian Studies 83 1.9


Philosophy 81 1.9
Art 70 1.6
Music 64 1.5
Architecture 63 1.4
Women's Studies 58 1.3
Theatre 51 1.2
Film - Radio - Television 49 1.1
Public Administration 43 1.0
Urban Studies 39 0.9
History - Philosophy of Science 33 0.8
Social Work 31 0.7
Development Studies 20 0.5
Classics 4 0.1
Dance 4 0.1
Geology 1 0.0

[1] 7 records (0.161%) do not contain data in the field being analysed.
Source: Produced by the author with data collected on Web of Science

Firstly, we can observe that this subject is covered by researchers of many


fields, as the records presented in the table above show 35 different research areas,
with a maximum of 10% of publications for the main fields. Three fields present this
share of publications of approximately 10%: History; Education-Educational
Research; Arts – Humanities other topics. Surprisingly, we can see that Cultural
Studies arrive in 12th position with 4.1% of records despite one of the query keywords
being “cultur*”. Also, International Relations are in 17th position with 2.4% of records,
after areas such as Government Law (7.5%), Geography (7.4%), Anthropology
(6.4%) and Sociology (5.9%). This positioning is counter-intuitive but can be
explained by questions of disciplinary agendas built around a number of issues and
which affect research on the long term.

Figure 6 - Main event titles

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Source: Produced by the author with VOSviewer


This figure mainly points towards two observations. Firstly, we note the
preponderance of multidisciplinary events and events linked to Educational Research
(in line with the findings related to areas of research). Secondly, we note that
amongst the events which indicate the number of the edition, only 5 of the 25 events
have an edition number of 10 or above, whilst the other 16 have a number inferior to
10. This suggests that this type of work is presented at relatively young congresses,
seminars and other events.

Figure 7 - Main organisations

Source: Produced by the author with Web of Science tool

This graph represents the main organisations to which the authors of the
production corresponding to our criteria are attached. Though the data is not usable
for detailed analysis as all the organisations are not isolated based on the same
criteria (some are universities, some are groups, some are national research

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systems), the above graph does in any case corroborate the fact that universities
from border cities, regions and states are significantly represented. 10 of the
organisations included in the graph correspond to this criteria: University of California
System; University of Texas System; California State University System; University of
Toronto, University of British Columbia; Pennsylvia Commonwealth System of Higher
Education; State University of New York System; University of Texas El Paso;
University of Primorska, University of Tartu; University of Texas Austin; University of
Wisconsin System.

Borders and culture: co-occurrence networks of terms


Based on the previously described bibliographic data extracted from the Web
of Science, a co-occurrence network of terms was created using VOSviewer. Co-
occurrences are the simultaneous use of two keywords in one single publication,
based on the title, abstract and keyword list (VAN ECK; WALTMAN, 2014).
The following map is a two-dimensional network which, according to the
graph-based approach, puts an emphasis on the visual representation of: the
strength of the links between the items; and the most important items (those which
have most links). The distance between two items does not necessarily represent
their relatedness. However, items are grouped by clusters which are represented by
colours (VAN ECK; WALTMAN, 2014; 2019).

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Figure 8: Co-occurrence network of terms: cultur* AND border

Source: Produced by the author with VOSviewer

One first comment which can be made upon visualising this network generally
is that within the three most visible labels on the map, only one of the two keywords
included in our original bibliographic search is present: it is the keyword “culture”. The
keyword “border” does not seem to display as many links. Along with the keyword
“culture”, the other two most visible keywords are “migration” and “identity”. The
importance of this second keyword may demonstrate a strong relatedness between
research on culture and on identity within this bibliography, possibly due to the use of
an anthropological conception of culture.
Thereafter, we conducted visualisations of isolated keywords linked to three
groups of keywords: those linked to culture, those linked to borders and those linked
to cooperation.

Figure 9 - Visualisation of the network for the term “border”

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Source: Produced by the author with VOSviewer

Figure 10 - Visualisation of the network for the term “frontier”

Source: Produced by the author with VOSviewer

Figure 11 - Visualisation of the network for the term “borderland”

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Source: Produced by the author with VOSviewer

Figure 12 - Visualisation of the network for the term “boundary”

Source: Produced by the author with VOSviewer

A number of observations can be made based on the juxtaposition of these


four graphs. Firstly, the keyword “borderland” is the only one which displays no links
with the keyword “border”. This, along with the link it displays with the keyword
“regions” may suggest that the type of research which employs this concept is more
focused on spatial aspects than on political ones. This is corroborated by the links
displayed with the keywords “identity” and “memories”. The visualisation of the

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keyword “frontier” also displays links with the keyword “identity” whilst the keyword
“boundary” displays links with the keyword “culture”. The keyword “border” displays
links with both “culture” and “identity”. In terms of disciplinary uses, the keyword
“boundary” displays links with the keywords “political geography” and
“transnationalism”, which seems to suggest a use in the field of political geography.
The term borderland displays an apparent link to economics. The keyword border,
though it is potentially linked to various fields of research, displays explicit links only
with the discipline of geography, present as a keyword, as well the keyword
“cartography”.

Figure 13 - Visualisation of the network for the term “cooperation”

Source: Produced by the author with VOSviewer

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Figure 14 - Visualisation of the network for the term “institutions”

Source: Produced by the author with VOSviewer

Figure 15 - Visualisation of the network for the term “cross-border”

Source: Produced by the author with VOSviewer

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Figure 16 - Visualisation of the network for the term “cross-border


cooperation”

Source: Produced by the author with VOSviewer

The juxtaposition of these four graphs enables us to make the following


observations. Firstly, this category of keywords is the one which displays the
strongest links with issues linked to the European Union: “Cross-border cooperation”
displays links to the keyword “European Union”; “cooperation” to the keyword
“Europe”; and “Cross-border cooperation” and “cross-border” to the keyword
“territorial cohesion”. We can also note a strong presence of the regional aspect, with
both “Cross-border cooperation” and “cooperation” displaying links to the keyword
“region”. Finally, the keyword “cooperation” displays links to the keywords “lines” and
“frontiers” whilst the keyword “Cross-border cooperation” appears linked to those of
“border” and “borderlands”.

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Figure 17 - Visualisation of the network for the term “culture”

Source: Produced by the author with VOSviewer

Figure 18 - Visualisation of the network for the term “cultural integration”

Source: Produced by the author with VOSviewer

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Figure 19 - Visualisation of the network for the term “cultural borders”

Source: Produced by the author with VOSviewer

Figure 20 - Visualisation of the network for the term “cultural identity”

Source: Produced by the author with VOSviewer

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Figure 21 - Visualisation of the network for the term “identity”

Source: Produced by the author with VOSviewer

Figure 22 - Visualisation of the network for the term “cultural diversity”

Source: Produced by the author with VOSviewer

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The juxtaposition of the visualisation of the networks of these 6 concepts


related to culture enable us to make the following comments. The keyword
“interculturality” display a link to the keyword “cultural diversity” and so does the
keyword “cultural borders” along with “ethnicity”. This suggests a possible link to an
anthropological approach. Whilst the keywords “cross-border”, “cooperation” and
“cross-border cooperation” from the previous group of visualisations displayed