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Freirinha - M.

Delly
Biblioteca das Moças
Volume 61
Freirinha
Tradução revista por ERNANI R. DE LIMA
14ª edição
Companhia Editora Nacional
Do original francês: La Petite Chanoinesse
Proibida a reprodução, embora parcial,
e por qualquer processo, sem autorização expressa dos editores.
Direitos para a língua portuguesa adquiridos pela
COMPANHIA EDITORA NACIONAL
- São Paulo, SP - Brasil
1983 - Impresso no Brasil

Digitalização e revisão: Zaira


08 de abril de 2008

"Nem a distância, nem a morte


podem romper o verdadeiro amor,
que tanto mais se vai entranhando
no coração quanto mais se vê privado
de expansão exterior".
Lacordaire

CAPÍTULO I

NAQUELA tarde de setembro, os hóspedes de Ogier de Chancenay tomavam chá no convés do seu iate,
ancorado num portozinho italiano. De lá via-se a aldeia, com as casas espalhadas em pitoresca
desordem, os jardins meio ocultos pela folhagem de enormes figueiras carregadas de frutos, os seus
bosques de oliveiras e laranjeiras acariciados pelo sol, que declinava. Barcos de velas pandas
avermelhadas vinham regressando, cheios de peixes e guarnecidos por homens de tez morena, que
saudaram, de passagem, aos estrangeiros, indo fundear ao largo do porto, onde as mulheres de cabelos
castanhos, meio encobertos por um lenço escarlate, já aprestavam para carregar o o produto da pesca.
Crianças, tão morenas como os pais e as mães, corriam de um lado para outro, descalças, perseguindo-se
umas às outras, com gritos estridentes, como gralhas, em tardes de verão.
William Horne, jovem inglês, de fisionomia inteligente e viva, disse então ao vizinho, o rotundo barão
de Pardeuil:
— Bela aldeia, hein?
O outro estirou o beiço, num trejeito que certamente supunha do mais agradável efeito:
— Bela?... Ora! Todas se parecem!... Para mim, como sabe, a natureza...
E castanholou com os dedos.
William, reprimindo usm sorriso brejeiro, perguntou-lhe:
— Por que aceitou então o convite de Chancenay para este cruzeiro? Você vai entediar-se
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profundamente, uma vez que a vista destas deliciosas paisagens nada lhe desperta.
— Oh!! não me entediarei! Come-se admiravelmente em casa de Chancenay! Tem um cozinheiro, que é
verdadeiramente um artista!. . . Além disso, como achar longo o tempo em tão amável companhia?
E o barão passeou o olhar pelos convidados masculinos, detendo-o sobre uma linda cabecinha loura,
muito elegante, que se balouçava numa cadeira e falava pelos cotovelos com os vizinhos.
Dificilmente lhe atinaríamos com a idade, tal a frescura do rosto, entretida com muita arte. E não menos
indeciso se tornaria o seu estado civil, caso algum curioso encaminhasse suas pesquisas para esse lado.
Dizia-se francesa, viúva de um húngaro, e fazia-se apelidar por condessa Doucza. Calculava-se todavia
que, tendo uma filha de vinte anos, deveria estar na casa dos quarenta. De inteligência mediana, mas
insinuante e hábil, sabendo adaptar-se a todos os ambientes, conseguira — muito embora pertencesse,
como é costume, a um meio social «indefinido», muito cosmopolita e pouquíssimo escrupuloso quanto
ao capítulo da moral, — fazer-se recebida, mais a filha, na melhor sociedade devido à usual tolerância
mundana de nosso tempo.
Fora assim que Ogier de Chancenay as havia conhecido, alguns meses antes, numa festa de caridade,
organizada pela tia, a viscondessa de Challanges, onde ele comprara algumas flores à bela Sari Doucza.
Havendo esta dado a entender que simpatizava enormemente com ele e que não seria difícil conquistá-la,
Ogier tornara a vê-la de bom grado, pois achava-a interessante e não lhe seria desagradável, de modo
algum, mais essa fantasia que amanhã sacudiria de si como já o havia feito a tantas outras.
Aliás, o juízo que formava da mãe e da filha resumia-se claramente no fato de serem a senhora Doucza e
Sari as únicas senhoras que figuravam entre os conhecimentos masculinos, mais ou menos íntimos,
convidados para esse cruzeiro.
Como ninguém imaginava concorrer como rival do conde de Chancenay, todas as homenagens,
desviando-se da segunda, confluíam para a bela viúva, que as recebia com amável serenidade, dando
todavia alguma preferência ao senhor de Pardeuil que se desfazia em gentilezas.
Só William Horne permanecia insensível. Com sua fleuma britânica, entretinha-se a estudar o caráter
dos companheiros de bordo, acompanhando com olhar tranquilo o namoro do primo Ogier com Sari
Doucza.
— Ei-los de volta, Chancenay e a jovem Doucza! exclamou ele.
Todos os olhares se dirigiram para o porto. O escaler do iate ia-se a pouco e pouco afastando da terra,
banhado pela luz do poente, que lhe arrancava cintilações dos metais, e envolvia com seus raios ainda
quentes os dois jovens sentados à popa.
Sari havia retirado o chapéu, que depusera sobre os joelhos. O sol acariciava-lhe meigamente os cabelos
louros, um tanto ruivos, tomados em grandes bandos, que apenas permitiam ver-se-lhe o rosto de feições
delicadas, a pele fresca e os olhos cinzentos-escuros muito expressivos, nesse momento inteiramente
ocupados no senhor de Chancenay... Era em verdade linda, essa jovem cosmopolita, visivelmente
enamorada do sedutor fidalgo, sentado a seu lado, esse belo Ogier de Chancenay, cuja atenção era
solicitada pelas mundanas mais em vega.
— Estão-se tornando escandalosos... segredou ao ouvido de William Home o senhor de Pardeuil, cioso
do seu hospedeiro.
O inglês, dando ligeiramente de ombros, replicou, algo desdenhoso:
— Oh! Há muito já que ela acabou de se comprometer!... Já agora, pouco mais, pouco menos...
A senhora Doucza, abanando-se, dirigiu um olhar interessado para os que ocupavam o escaler. Ã luz do
ocaso, desenhava-se, nítida, a silhueta do senhor de Chancenay: rosto de traços firmes, a fronte um tanto
altiva. Vincava-lhe o canto dos lábios uma ruga de contrariedade; mas os olhos belíssimos, de reflexos
alaranjados, consideravam, complacentes, a bela a quem pareciam fascinar. Afinal, sorriu-se satisfeita,
sorriso que ainda mais se acentuou a esta reflexão de um dos vizinhos:
— Sua encantadora filha, minha senhora, parece agradar extremamente ao senhor de Chancenay!
Ao que a viúva replicou modesta:
— Realmente, é muito gentil a minha Sari, e agrada-me ver que o nosso hóspede a aprecia como ela o
merece.
Aproximava-se do iate o escaler, deixando atrás de si uma esteira luminosa. Finalmente abordou,
dirigindo-se imediatamente os dois jovens para o convés, onde Sari, logo ao chegar, exclamou com ar
trágico:
— Adivinha, mamãe, a desgraça que nos sucedeu!
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— Desgraça?!... Que desgraça, meu anjo?
— O senhor de Chancenay acaba de receber na posta-restante um telegrama de avô comunicando-lhe
haver falecido, lá para os lados do Jura, ou não sei onde, uma de suas velhas parentas... É necessário que
ele siga para lá, a fim de tratar das exéquias, e pôr em ordem os negócios dela, pois a herdeira é a
marquesa de Chancenay...
— O pôr em ordem os negócios, interrompeu Ogier, poderia ser adiado; mas as exéquias, essas não
podem ser adiadas. Assim, pois, esta noite o iate nos conduzirá a Nápoles, onde tomarei o primeiro trem;
mas meu primo fica encarregado de lhes fazer as honras da «Libélula», como se fora eu mesmo. Logo
que souber quando poderei voltar, telegrafarei para uma das escalas preestabelecidas, onde os senhores
me aguardarão.
Houve exclamações e palavras de pesar... A senhora Doucza, porém, náo pôde dissimular uma real
consternação.
— Mas não poderá o senhor mandar substituir-se por alguém?... exclamou ela. Por outro parente
qualquer?...
Ogier franziu ligeiramente a testa, ao mesmo tempo que respondia em tom breve:
— Ninguém. A mim é que cabe esse dever, e não tenho nenhum motivo sério para subtrair-me a ele.
Sari deixou-se cair numa poltrona, enviesando à mãe um olhar de descontentamento. Ambas
perceberam, ao mesmo tempo, que o senhor de Chancenay não suportaria semelhante ingerência nos
seus negócios de família, ou em outros quaisquer.
Ogier, sentando-se ao lado do primo, tirou de um dos bolsos algumas cartas, entregando-lhas.
— Aí tens, são para ti, Willy.
— Obrigado... Foi a senhora de Valheuil quem morreu ?
— Foi. Com ela extingniu-se esse ramo da família, estabelecido no Condado desde cerca do século
XVI. Eu nunca a vira, e dela só conhecia o que me havia dito minha avó. Era, ao que parece, uma
criatura muito original. Enviuvando muito moça, sem grandes bens de fortuna, vivia há cinquenta anos
retirada num velho solar, ocupando-se exclusivamente em obras de devoção e caridade. Minha avó
mantinha apenas com ela relações por escrito, e isso mesmo uma vez por ano.
— Então, disse William com um meio sorriso, a sua herança não aumentará sensivelmente os teus
cabedais...
Ogier sorriu por sua vez, estendendo a mão para apanhar um cigarro de cima da mesa, colocada ao seu
lado.
— Sim... Um casarão em ruínas, ninho provavelmente de ratos, e uns magros rendimentos. .. E esses
mesmos talvez estejam destinados, por testamento, a obras pias. Aliás, a pobre senhora tinha razão para
assim proceder, pois sabia muito bem que nem meus avós nem eu estamos passando necessidades...
Houve uma risadinha, à volta dele, entre as quais a de Sari, algo estridente.
A moça, enterrando-se numa funda poltrona com seu vestido de branco, divertia-se em fazer saltar,
lentamente, na ponta dos dedos, de unhas muito polidas, a pequena forma de palha fina, guarnecida de
um imenso tope de plumas cor-de-laranja, que lhe servia de chapéu. Por baixo das pálpebras
semicerradas, não desviava, porém, o olhar de Chancenay, que fumava displicente, como distraído,
lançando de quando em quando uma palavra na conversação, enquanto um raio de sol lhe beijava os
cabelos, de um louro carregado, macios e ondeados, e lhe incendiava os belos olhos castanhos, nos quais
Sari, ao invés da paixão que desejava ver, apenas lobrigava, sob a meiguice encantadora do olhar, muito
de ironia... E, de si para si, dizia a moça, ainda uma vez, com certa cólera: «Há nele alguma coisa que
me escapa, e que eu receio me escapará sempre...»
Pouco antes do jantar, entrou Sari no camarote da mãe. Esta, já toda preparada, estava a compulsar umas
cartas postas em sua frente, sobre a secretária. À inopinada aparição da filha, não pôde aquela reter um
movimento de contrariedade, chegando até a fazer um gesto para esconder as cartas na gaveta.
Sari, porém, pôs-se a rir:
— Oh! mamãe! Não sei por que ocultas de mim a tua correspondência! Eu não ignoro que estás
encarregada de ministrar informações a certas potências, que desejam engolir, mais dias menos dias, a
França, e, com esta, toda a Europa. É o teu ofício, que eu não condeno absolutamente, tanto mais quanto
esse teu traficozinho nos permite levar esta vida mundana, que tanto apreciamos. . .
Mesmo falando em voz baixa, a mãe fez-lhe sinal para que se calasse, segredando-lhe em seguida:
— Ninguém sabe... É preciso muita prudência...
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— Está bem! Serei prudente.. . Mas, já sabes, se algum dia eu chegar a ser condessa de Chancenay,
cumpre deixar de vez esses negócios...
— Naturalmente! Aliás, já não teremos então necessidade ... E, a propósito, como vai isso ? Vai indo
conforme os teus desejos ?
Sari sacudiu a cabeça. Nos olhos, que se tornaram quase negros, brilhou um clarão de contrariedade...
Pondo um dos joelhos no divãzinho colocado ao pé da secretária, apoiou no espaldar de veludo os braços
nus, muito alvos, a lhe saírem das mangas muito curtas de gaze cor-de-rosa.
— Como? Não vai bem? perguntou, inquieta, a senhora Doucza.
— Não, não vai como eu quisera... É sempre muito senhor de si... Divirto-o eis tudo. Sou apenas uma
simples distração, que no próximo inverno será substituída por outra...! É uma natureza cujo ponto fraco
ainda não surpreendi, e que por isso não acho duro onde morder... Mas é preciso que o consiga... oh!
sim, é necessário que eu me torne sua esposa! Porque, ainda que o ame por ele mesmo, desejo-lhe
também o nome e a fortuna!
— Também penso assim, querida! aprovou a mãe. E creio-te hábil demais para o conseguires.
— Assim espero... murmurou Sari, fitando os olhos no vácuo. Não será, porém, coisa fácil, porque é
muito orgulhoso... Orgulhoso do nome, orgulhoso de tudo... Demais...
Interrompeu-se, es lábios contraídos.
— Demais?... repetiu a senhora Doucza.
— Creio que nos despreza! rugiu Sari, entre dentes.
— Oh! que idéia! Por que dizes isso? E Sari, dando de ombros:
— Porque são assim os homens! Depois que certa mulher se comprometeu por eles, depois de aceitarem
o amor que se lhe ofereceu, o que nos reservam em troca é tão-somente o desprezo... A estima deles vai
para as almas virtuosas, para essas que denominam «mulheres irrepreensíveis».
— É muito natural. . . confirmou a mãe, com ligeiro sorriso. Mas que te importa isso, se conseguires
que ele te ame bastante para te oferecer o nome?
Sari teve um ímpeto de cólera:
— É justamente por isso que ele não oferecerá... Sim, eu bem o sinto! Sob aquela aparência de
mundano, de folgazão elegante, há alguma coisa que não posso definir. .. Certa reserva, ou desdém.. .
— Pois bem muda de tática: finge-te a convertida, finge que lamentas as leviandades passadas... Isso, às
vezes, dá ótimo resultado...
O olhar sombrio de Sari irradiou por instantes.
— Sim... Aí está uma idéia que não é para desprezar ! Sempre poderei experimentar... Vale a pena,
realmente, que nos aborreçamos durante alguns meses, a simular remorsos, a minar a menina honesta —
e até afetar alguma devoção... — Que te parece ?
— Decerto. Os homens gostam muito que as mulheres tenham religião. De resto, faz-se muita conta
disso nas rodas frequentadas pelo senhor de Chancenay... Sim, minha filha; vê se pões em prática esse
novo plano quando ele regressar. Creio que surtirá efeitos magníficos.

CAPÍTULO II

Eram quase dez horas quando, no dia seguinte, Ogier desceu do trem, que parara na estaçãozinha de
Gouxy.
Na plataforma, já o aguardava o criado, que, chegado na véspera, lhe fora levar, a mandado do avô, as
roupas necessárias para a cerimónia. O senhor de Chancenay, entregando-lhe a maleta, perguntou:
— Como estão o senhor marquês e a senhora marquesa, Celestino?
— Muito bem, senhor conde.
— Bom... Vamos lá! Fica longe daqui essa aldeia?
— Cerca de um quarto de hora, senhor conde... Eu bem que procurei uma carruagem; mas, nesta terra,
só existem carriolas, ou então traquitanas que datam de Matusalém, como a do velho castelo!
E Celestino apertou, desprezivelmente, os lábios.
— Não é preciso carruagem; gosto muito mais de andar a pé.
Saindo da estaçãozinha, Ogier pôs-se a caminho, seguido pelo criado. A manhã estava úmida e sombria.
Sobre os bosques, estendia-se uma bruma, que pairava por cima dos prados e da torrentosa ribeira, que
desicia das montanhas, que a custo se via através desse véu cinzento. Recordando-se do belo sol que
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acabara de deixar, Chancenay sentiu um arrepio de aborrecimento. «Não me demorarei aqui!» disse
entre si. «Logo que terminem as exéquias, vou de novo ao encontro da «Libélula» e dessa Sari, que é
realmente encantadora».
Enquanto caminhava, ia evocando a silhueta viva e delicada da bela húngara, as suas finas feições, muito
móveis, os seus olhos ternos, que buscavam sempre os dele, revelando-lhe ousadamente o amor que ele
lhe inspirava. Qualquer que fosse a opinião que Ogier pudesse ter a respeito das mulheres, em geral, e de
Sari Doucza, em particular, lisonjeava-o ver-se o objeto desses apaixonados sentimentos, aos quais
entretanto não correspondia. Bem o adivinhara ,Sari, ao dizer que não passava para ele de um
divertimento, uma distração de momento. A Ogier era-lhe, porém, por demais agradável essa distração,
para
que agora lhe sentisse as saudades, e desejasse recuperá-la o mais depressa possível.
A uma curva da estrada, viu-se subitamente diante da aldeia, Dominava-a um velho castelo, antiga
construção de aparência pesada e triste, erguido ao pé de uma larga torre quadrada.
Voltando-se para o criado, que o seguia a curta distância, Ogier perguntou, designando o velho solar:
— É aquela a residência da senhora de Valheuil?
— Não, senhor conde. Aquele é o castelo de Prexeuil, onde residem três senhoras, conhecidas aqui
pelas «três freiras», muito amigas da senhora de Valheuil. A casa da senhora viscondessa, o «Prado-
Bento», como a denominam, fica entre o castelo e a aldeia.
Assim informado, continuou a avançar o senhor de Chancenay, sob essa luz cinzenta, pela estrada que
subia agora sensivelmente. Chegou afinal à aldeia, passando por diante da igreja, velha e acachapada,
esverdeada na base pelo limo, que se insinuava por entre as velhas pedras. Das janelas, debruçavam-se,
curiosas, algumas cabeças; no limiar das portas surgiam mulheres e crianças, para ver o estrangeiro, o
parente da senhora de Valheuil; e muitos exclamavam ou diziam: «Belo rapaz!»
Na estrada, que continuava para além da aldeia, sempre em aclive, desenhou-se um vulto escuro, que o
senhor de Chancenay logo reconheceu como o de um padre. Ao aproximar-se, viu-se ele em frente de
um moço, robusto, fisionomia serena e inteligente.
Cruzaram-se os olhares de ambos, e o padre, indo ao encontro de Ogier, perguntou-lhe:
— O senhor é o conde de Chancenay?
— Sim, senhor padre.
—_Sou o cura de Gouxy. Venho justamente de rezar pela senhora de Valheuil, sua santa parenta,
senhor conde. Foi uma virtuosa senhora em toda a extensão da palavra, cuja morte é uma grande perda
para esta paróquia.
— Eu apenas a conheci de nome, senhor cura. Há muito tempo já que minha avó a não via... De que
morreu ela?
— De um colapso cardíaco, já previsto pelo médico. Encontraram-na, pela manhã, já sem vida. Achava-
se, porém, preparada para morrer, a santa criatura... Há, senhor conde algum inconveniente em que as
exéquias sejam celebradas amanhã, às dez horas?
— Nenhum, senhor cura... Absolutamente nenhum; pelo contrário, é isso mesmo o que eu desejo.
— Muito bem, estamos pois combinados neste ponto. Serão muito modestas, conforme os desejos da
falecida... Se V. Excia. tiver ainda algumas instruções complementares a dar, peço-lhe que tenha a
bondade de comunicar durante o dia.
— Perfeitamente, senhor cura. Confio, porém, inteiramente em V. Revma., que está a par dos costumes
da terra e das vontades da senhora de Valheuil.
— Fiz tudo do melhor modo que pude, auxiliado pelas senhoras de Prexeuil, essas excelentes amigas da
falecida... Então, até amanhã, senhor conde.
E, apertando a mão que lhe estendia o senhor de Chancenay, retirou-se, enquanto Ogier continuou a
subir a estrada até uma bifurcação, de onde um caminho mais estreito o conduziu até uma grande casa
vermelha, de altas chajminés, a que precedia um pátio fechado por simples cancela de madeira.
Todas as persianas das janelas estavam descidas, dominadas estas por umas cabeças de mulheres
esculpidas em granito. A porta, porém, estava inteiramente aberta, sobre o limiar alto, apenas de dois
degraus... Penetrando no vestíbulo, um tanto escuro, Ogier viu uma mulher já idosa, vindo ao seu
encontro, que se apresentou por si mesma:
— Sou, senhor conde, a criada da senhora de Valheuil... Rosália... Se o senhor conde quiser entrar...
O senhor de Chancenay entrou para o salão, cujas cortinas estavam cerradas, e apenas iluminado pelos
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círios que ardiam ao redor do ataúde, forrado de preto, sobre o qual se definhavam flores sem perfume.
Numa poltrona estava assentada uma senhora ainda moça, de olhos tranquilos, rezando no seu rosário.
Erguendo o rosto um tanto pálido, correspondeu ela, com uma inclinação de cabeça, à saudação do
conde.
Ogier espargiu sobre o caixão umas gotas de água benta, conservando-se por instantes de pé, em postura
respeitosa, contemplando disfarçadamente a desconhecida. Esta, de olhos baixos, continuava a desfiar
por entre os dedos as contas de marfim. Os cabelos castanhos formavam-lhe nas fontes dois bandós
muito lisos. Trajava um vestido preto e simples; uma larga fita azul caía-lhe sobre o peito, prendendo
uma cruz de ouro esmaltada.
O senhor de Chancenay intimamente pensou: «Celestino falou-me de três freiras... E, evidentemente,
esta senhora é uma das tais... E, de certo, também uma das amigas da falecida, nomeadas pelo cura...»
Esperava que a desconhecida lhe dirigisse a palavra; como, porém, continuasse a rezar, os olhos sempre
baixos, o senhor de Chancenay se retirou da sala, indo encontrar no vestíbulo com a criada que o
aguardava.
— Quer o senhor conde subir para o seu quarto?
— Sim, sim. .. Mas, diga-me cá. . . E, baixando a voz: Quem é aquela moça ?
— A senhora condessa Bathilde de Valromée, uma das damas do castelo. Eram muito amigas, todas
três, da pobre senhora viscondessa; têm todas vindo velar-lhe o corpo, nestes dias, e prestado grandes
serviços.
— É freira, essa que ali está?
— Sim, senhor conde, freira de um cabido austríaco, como a tia, a senhora condessa Antonieta de
Prexeuil, e a sobrinha, a jovem Elys. .. quero dizer a senhora Elys de Valromée... Custa-me muito
chamar-lhe senhora.. .
Dando alguns passes para a escada, que elevava, ao fundo do vestíbulo, os seus largos degraus de
carvalho bem encerados, perguntou ainda o senhor de Chancenay:
— Tem então essa condessa Bathilde uma sobrinha já em idade de ser freira?
— É como diz, senhor conde. A senhora Bathilde há de ter bem os seus quarenta; a senhora Elys
completou há pouco os seus dezoito, e o cabido a recebera aos dezesseis anos.
— Que idéia extravagante! comentou Ogier em voz alta.
No primeiro andar, introduziu-o Rosália num grande quarto mobiliado de carvalho antigo, forrado de
crepes cor-de-granada, no qual Celestino já havia preparado a instalação do amo. Este, depois de ter
mudado os seus trajos de viagem, despediu o criado e, acendendo um charuto, aproximou-se de uma das
janelas, que abriu.
Desse lado, começava o jardim, formado de estreitas platibandas, todas floridas, plantadas de arbustos
cuidadosamente aparados. À direita, pendia um salgueiro tristemente os seus ramos, de que começavam
a cair as folhas. Pouco mais além, erguia uma velha cisterna, acima dos bordos desmoronados, a sua
curiosa ferragem do século XVI.
Atraiu a atenção de Ogier um vulto feminino, que andava por uma das alamedas. À proporção que este
se foi aproximando, percebeu o conde que era o de uma moça, e ainda muito jovem. Esbelta, não muito
alta, vestida de preto, caminhava com andar elegante, harmonioso, apertando de encontro ao seio flores
de vários matizes. Chancenay distinguia-lhe agora o delicado oval do rosto, a delicada alvura da tez, os
finos lábios purpurinos, os cabelos castanhos penteados em bandós, que se ondeavam de cada lado da
frente bem modelada... Notando-lhe em seguida os longos cílios negros, disse entre si, vivamente
interessado: «Desejaria ver os olhos dessa deliciosa criatura!»
Nesse momento, saiu da casa um cão Terra-Nova, correndo ao encontro da menina, latindo alegremente.
— Não, não.. Liau! exclamou uma voz de timbre puro. Não, meu rico. hoje não se brinca!
Mas o cão, que não pensava do mesmo modo, ergueu-se nas patas traseiras para apoiar as dianteiras nos
ombros da moça. Esta, porém, desviou-se com o corpo, ao mesmo tempo que se inclinava um pouco, a
fim de resguardar as flores, que amparava com ambas as mãos. Ogier viu-lhe então sobre o peito,
suspensa de uma fita azul-rei, uma cruz idêntica à que trazia a senhora Bathilde de Valromée.
— Oh! murmurou, é a terceira das freiras!. . . Elys de Valromée... Mas essa é encantadora!...
Embaixo, chamava a moça:
— Rosália! Por favor, venha buscar Liau, que me faz cair as flores!
Apareceu então a criada, que agarrou o cão pela coleira, levando-o consigo, ao mesmo tempo que ia
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dizendo:
— É que a menina o mima tanto, a este ruim Liau. .. Entrando em casa, a linda freirinha desapareceu, e o
jardim recaiu de novo em silêncio. Entrementes, dizia consigo Chancenay: «Espero que não obrigue ao
voto do celibato esse cabido, pois seria realmente um crime!...»

CAPÍTULO III

À tarde, Ogier travou conhecimento com a condessa Antonieta de Prexeuil.


Ela viera rezar junto ao esquife de sua amiga, e o senhor de Chancenay. que havia dado ordem de o
prevenirem, desceu a cumprimentá-la.
Viu-se pois em frente de uma velha dama, alta e forte, cujas feições conservavam ainda traços de beleza.
Trazia também, sobre o vestido preto, as insígnias do cabido, a que pertenciam ela e suas sobrinhas.
Enquanto durou a conversa com Ogier, aliás muito breve, não se lhe adoçou, sequer por um instante, a
fisionomia severa e fria... Teve algumas palavras de elogio e saudade para a senhora de Valheuil,
perguntou se o senhor de Chancenay aprovava as disposições tomadas, e, por fim, declarou:
— Vou passar uns momentos junto à minha pobre amiga. Esta noite há de ficar de vigília minha
sobrinha, em companhia de Rosália e da senhora Dambry, a mãe do nosso cura,
E estendeu ao rapaz os dedos engelhados, algo deformados pelo reumatismo. Como ele, porém, se
curvasse para os roçar com os lábiosI a freira os recolheu, num movimento rápido;
— Não, não, senhor. É inútil!... Não se dê a esse incômodo... pois não é agradável o beijar a mão às
velhas...
A voz era breve, surdamente irônica, e no olhar com que envolveu o senhor de Chancenay podia
entrever-se hostilidade.
Ogier, que se não deixava facilmente embaraçar, revidou, não sem alguma altivez:
— Nunca imaginei, senhora, pudesse parecer desagradável um ato de cortesia, a que me acostumaram
desde menino.
— Sim, bem sei; o senhor é um perfeito fidalgo como todos de sua raça..., como os de outra... o que não
lhes impediu de serem...
Cortou em meio a frase, e, inclinando um pouco a cabeça, para se despedir do rapaz, regressou à sala,
«Mulher singular!... pensou Ogier. Não é gentil evidentemente. Talvez a idade lhe haja transtornado as
idéias... Deve ter sido muito orgulhosa outrora, para que ainda se dê esses ares altaneiros de grande
dama. A essa, sim, vai às maravilhas o título de freira ou cônega... Mas à sua linda sobrinha, não, não!»
Deu alguns passos pelo salão da biblioteca, onde acabava de se passar a cena com a senhora Antonieta
de Prexeuil; em seguida, murmurou, com sorriso algo escarninho:
«Naturalmente, reverendíssima senhora cônega, eu sentiria muito mais prazer em beijar as encantadoras
mãozinhas entrevistas por mim esta manhã!... Eh! Quer-me parecer que essa tia deve velar como um
dragão por aquela pessoazinha!...»
Interrompeu-lhe estas reflexões a entrada de Rosália, que vinha informá-lo de que o notário acabava de
chegar e desejava falar ao senhor conde.
Ao senhor de Chancenay, comunicou o senhor Boudard — homenzinho de tez amarelada, com uma cara
sofredora — que a falecida legara à prima marquesa de Chancenay, a casa do «Prado-Bento», com os
móveis e algumas jóias de família. Quanto ao dinheiro — uma centena de mil francos —t distribuíra-o
por obras diversas, à paróquia de Gouxy e à velha criada Rosália. No final do testamento, mandara
acrescentar a senhora de Valheuil: «Desejo que o meu leque do século XVIII, encerrado na minha caixa
de jóias, seja entregue à minha cara amiguinha Elys de Valromée, que foi a alegria da minha velhice.»
Ao terminar o tabelião essa leitura, Ogier disse-lhe num tom aprovativo:
— Muito bem! O senhor liquidará isso por correspondência com minha avó, não é assim ? Eu parto
amanhã, pois tenho amigos à minha espera.
— Perfeitamente, senhor conde. Nada mais simples.
E o homenzinho contemplava maravilhado esse elegante fidalgo, que não tivera sequer o menor gesto de
contrariedade ao saber que a fortuna da sua parenta ia passar a estranhos... que até aprovava tudo,
espontaneamente. .. Mestre Boudard, muito avarento, não podia compreender, sentindo-se penetrado de
beata admiração ao pensar que tal soma, considerável aos seus olhos de modesto tabelião provinciano,
parecia bagatela ao senhor de Chancenay.
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Quando depois de muitos e diferentes rapapés, o notário se afastou, Ogier foi passear pelo jardim, a fim
de espairecer o tédio, ansiando pelo dia seguinte, para retomar o trem, pois era-lhe indiferente a morte
dessa parenta desconhecida. Essa viagem, essa breve estada no «Prado-Bento», e a cerimónia da
manhã seguinte, tudo isso representava para ele uma maçada da qual desejava, quanto antes, ver-se livre.
Demais, o tempo detestável não lhe podia proporcionar uma impressão favorável da aldeia, de modo a
fazer-lhe esquecer a «Libélula», o sol da Itália, os olhos meigos de Sari...
«Se ao menos aqui estivesse a linda freirinha...», dizia ele entre si, medindo a passos largos os estreitos
arruamentos do jardim. «Eu quisera ver-lhe os olhos. Talvez venha esta noite com a tia...»
Mas, não. Quando, cerca de nove horas, tornou a entrar no salão, para tomar o seu lugar nessa fúnebre
vigília, viu que lá estava somente a senhora Bathilde em companhia de uma criada...
Desta vez, porém, trocou ela algumas palavras com Ogier; mas, timidamente, com um olhar de
constrangimento ou receio. Sem ser bela, era contudo de fisionomia simpática, os olhos bem rasgados,
serenos e meigos; e a voz, de timbre um tanto grave, não era desagradável. No seu vestido muito fora da
moda, mantinha ela essa mesma distinção da tia, que já havia impressionado ao senhor de Chancenay,
com a qual, aliás, em nada se parecia.
Ogier fez vigília até meia-noite, hora em que se recolheu de novo aos seus aposentos. No vestíbulo do
primeiro andar, encontrou-se com Rosália, que viera buscar um xale para a mãe do cura. Afastou-se
respeitosamente a criada, desejando ao senhor conde muito boa noite. Ele, porém, plantou-se-lhe diante,
perguntando-lhe:
— Parece-me que Elys de Valromée não veio hoje?
— É como diz, senhor conde; não veio hoje.
— Extraordinário!... Você me disse que ela tem vindo todos estes últimos dias, não é verdade ?
— Sim, senhor conde, todos estes últimos dias. . . E a mulherzinha hesitou, antes de acrescentar:
— É que hoje, o senhor conde está aqui. . .
— Que tem isto ? Não vejo razão para que não venha hoje, como o tem feito, rezar com as tias ao pé do
corpo da velha amiga...
— Perdão, senhor conde. Há sim, uma razão, quando alguém tem as idéias de dona Antonieta...
— Como?... Que idéias?
— Que a menina Elys não deve casar, como não casou também dona Bathilde.
— Ah! ah!... Então a tia proíbe-lhe que se aviste com os homens a fim de evitar que ela se apaixone por
algum deles ?
— Sim, senhor conde, tanto quanto possível... Principalmente com um rapagão como o senhor...
Ogier conteve a custo um sorriso ante o olhar admirativo da velha criada.
— Oh! mas é terrível essa senhora cônega!... Aliás, eu já desconfiara... Mas que motivo terá para assim
detestar os homens?
— É que uma irmã mais moça, educada por ela como filha, foi horrivelmente infeliz com o casamento, a
ponto de morrer de desgostos. O sobrinho, irmão de dona Bathilde, foi também mau marido. Então a
senhora de Prexeuil, que já havia impedido a sobrinha de casar-se, deliberou consigo que outro destino
teria a jovem Elys.
— Mas isso é odioso!... exclamou o senhor de Chancenay. Ela não tem esse direito... E que diz, quanto a
isso, essa pobre moça?
Rosália ergueu os olhos para o conde.
— Não conhece ainda o mundo, não sabe ainda o que é a vida... Em Prexeuil e aqui, a vida corre sempre
a mesma, muito tranquila. Visitam apenas alguns vizinhos que têm filhos muito crianças, ou não têm
nenhum; os que os têm, são postos à margem... Sim, senhor conde, ainda não conhece nada do mundo; e
é preferível que seja sempre assim, se for possível, porque dona Antonieta é de uma vontade que se não
dobra e jamais mudará de idéias!...
— Pois é muito original essa madre cônega de Prexeuil! Creio, porém, que a sobrinha terá, de futuro,
energia bastante para sacudir de si esse despotismo... Boa noite, Rosália!
* * *
Na manhã seguinte, ao entrar na câmara ardente, pouco antes da hora prefixada para a cerimónia, o
senhor de Chancenay encontrou ali as três freiras, que haviam acabado de chegar. Dona Antonieta,
estendendo-lhe a mão, que ele se contentou desta vez em apertar, explicou:
— Nós desejaríamos rezar, pela última vez, em louvor de nossa amiga, antes que chegassem os
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convidados.
Ogier inclinou-se diante de dona Bathilde e de Elys, que se conservara de pé, ao lado da tia... Ao erguer
a cabeça, encarou rápida e discretamente a moça — o bastante para verificar que nunca olhos mate belos
haviam iluminado feições mais encantadoras.
Profundamente impressionado, pôde a custo refrear o desejo de renovar logo o seu exame. Lá estava
porém essa terrível tia, que lhe não perdia de vista os movimentos...
Dirigindo-ise, pois, a ela, pediu-lhe Ogier cortesmente:
— Quer ter a senhora a bondade, já que é uma das amigas da casa, de apresentar-me aos convidados,
que me são completamente desconhecidos?... E mais, auxiliar-me em fazer as honras do repasto, que, ao
que parece, é costume oferecer-lhes?
Aquiesceu gentilmente, mas sem cordialidade, a senhora de Prexeuil... Depois do que Rosália lhe havia
dito na véspera, compreendeu o senhor de Chancenay a atitude de tal dama, e explicava agora o
profundo desprezo que se continha no gesto do dia anterior, quando lhe recusara a mão ao beijo cortês e
atencioso. Sentia-se, à conta do seu sexo, englobado no geral anátema, que a condessa de Prexeuil
lançava a uma parte da humanidade... Disso1 aliás, pouco se lhe daria, se não fora essa encantadora
freirinha, que o capricho da velha não lhe permitia admirar à sua vontade.
Começaram a chegar os convidados; castelões dos arredores, rendeiros, Camponesas, que vinham
espargir sobre a mortalha algumas gotas de água benta. Em seguida apareceu o cura, com o sacristão e o
acólito. Pronunciadas as orações da encomendação do corpo, acercaram-se do féretro quatro robustos
aldeões, levantaram-no e levaram-no. Seguiram-no Ogier e os convidados, a conversarem em voz baixa
uns com os outros.
Coava nesse dia a manhã, por entre as nuvens, uns fracos raios de sol. Os bosques, agora libertos da
bruma, destacavam-se nítidos pelas encostas das serranias. Dos prados, que marginavam o rio, vinha um
perfume de erva fresca e terra úmida... A agreste beleza dessa paisagem, a luz algo velada dessa manhã
agradaram a Ogier, que, sob aparência cética e frívola, ocultava uma alma impressionável de artista.
Sentiu-se, pois, para logo, muito mais bem disposto para com as pessoas e coisas de Gouxy... Além
disso, estava ali a interessante castelãzinha, condenada ao celibato, cuja beleza tão profundamente o
havia impressionado. Enquanto caminhava maquinalmente, ia ele refle-tindo: «Que cor terão os seus
olhos? Pareceram-me azuis, muito azuis... Sim, devem ser azuis. São eles que dão tanto encanto a essa
fisionomia, que eu apenas pude entrever ... Assistirá ela ao almoço ? Com certeza a tia não lhe
permitirá... Todavia, eu bem que o desejaria, pois que destarte teria ensejo de contemplá-la à vontade...»
Na capelinha, um tanto escura, foi o esquife deposto, entre círios, em cima de um cavalete. Do lado dos
homens, via-se Ogier sozinho, no primeiro plano; do outro, haviam-se colocado as três cônegas.
Voltando um pouco a cabeça, via o senhor de Chancenay o severo perfil de dona Antonieta, o seu busto
corpulento, que quase lhe ocultava inteiramente a senhora Bathilde de Valromée e a sobrinha. Ouvia ele
distraidamente os cantos litúrgicos, executados com melhor vontade do que apuro musical, passeando o
olhar pelas velhas abóbadas, pelo altar adornado de flores, dispostas com delicado gosto, pelas estalas de
carvalho e pelo tapete já gasto do coro. Havia muitos anos que a alma se encontrava na indiferença, fruto
de sua educação demasiado mundana, onde a religião era considerada como simples acessório e não
como fundamento da própria vida. Respeitador das crenças de seus pais, Ogier afastava-as da sua
própria existência, que ele queria livre e descuidada. Se, por vezes, algumas reflexões tentavam incutir-
se-lhe no espírito, este para logo arrojava de si a rápida impressão que elas aí haviam deixado.
Por uma estrada em aclive, alcançou o cortejo o cemitério. Prenunciadas as derradeiras preces, foi o
senhor de Chancenay eolocar-se em uma das alamedas, a alguns passos da capela funerária,
edificiozinho ogival, todo cor-de-cinza à luz dessa manhã soalheira. Davam-lhe os convidados, de
passagem, os seus pêsames, indo em seguida cumprimentar as senhoras de Prexeuil, que se conservavam
um pouco afastadas... Terminado o desfile, voltou Ogier a cabeça e deu alguns passos para o sítio em
que elas se achavam. Mas conteve a custo um gesto de contrariedade, ao perceber que eram apenas duas.
Dona Antonieta havia mandado a sobrinha para lugar seguro, longe desse perturbador espécime do sexo
detestado. Disse-lhe, porém, a velha dama com fria polidez:
— Quer o senhor conde tomar lugar em nossa carruagem? Chegaremos assim mais depressa ao «Prado-
Bento», onde temos de receber os seus hóspedes.
— Muito agradecido. Não quero, porém, incomodá-las. Caminhando depressa, em pouco tempo, lá
estarei.
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— Não, senhor conde, não nos incomoda absolutamente. A carruagem é espaçosa...
«E a bela Elys está escondida...», concluiu, no seu íntimo, o senhor de Chancenay.
Tendo por descortesia o escusar-se ainda uma vez ao convite, aquiesceu Ogier, acompanhando as
cônegas até fora do cemitério. Ã sombra, estacionava a carruagem de Prexeuil, que excitara o desdém de
Celestino, velha caleça, velhos cavalos, velho cocheiro, velha libré preta com alamares brancos... Tinha,
todavia, esse conjunto um aspecto de antiga aristocracia, que bem se casava com a aparência das
castelãs.
Durante o trajeto, referiu-se dona Antonieta à falecida, louvando-lhe a caridade, a discreta bondade, e
terminou por perguntar:
— Julga o senhor conde que a senhora sua avó conserve esta casa?
— Tenho as minhas dúvidas, porquanto não lhe seria de nenhuma utilidade.
— Acreditava, contudo, a senhora de Valheuil que não a venderiam, uma vez que faz parte do
património da família desde o século XVI, época de sua construção.
— Em todo caso, não posso dizer com certeza o que dela fará minha avó. Sim, é possível que a
conserve...
Mas, ao mesmo tempo, dizia ele consigo: «Eu tenho certeza que não!...» E evocava mentalmente as
feições ainda moças, mercê de alguns artifícios, os cabelos sempre louros, o porte elegante e
desempenado de sua frívola avó. Ã senhora de Chancenay não preocupavam absolutamente os
sentimentos graves, o culto do passado. Parecia-lhe evidentemente o cúmulo do absurdo conservar um
velho solar, lá num rincão de província, só porque durante quatro séculos vinha sendo habitado por
membros da família.
Depois de curto silêncio, continuou a senhora de Prexeuil:
— O senhor conde não tenciona, de certo, demorar-se aqui muito tempo, não é verdade?
— Oh! não, minha senhora! Tencionava até partir hoje mesmo, à noite; mas talvez espere até amanhã de
manhã, a fim de altcançar um trem mais cómodo. Tenho alguns amigos à minha espera, pois achava-me
justamente realizando um cruzeiro pelas costas da Itália, quando me chegou a notícia do falecimento...
Nos olhos azuis, algo amortecidos, da velha senhora, brilhou um lampejo de satisfação. Notou-lhe o
senhor de Chancenay, e disse entre si: «Está satisfeitíssima com a minha rápida partida... Eh! senhora
cônega! Não sei onde estou, que lhe não arme alguma para que a senhora madre saiba que me não deixo
colher nas malhas do seu maquiavelismo!... »
Idéia esta que ainda mais se lhe aferrou, no correr do almoço. Afeito, desde criança, a fazer prevalecer a
sua vontade, levava sempre a mal os obstáculos que se lhe deparavam, comprazendo-se em os derribar
quando lhe surgiam pela frente. Ora, a si mesmo prometia Ogier que essa tia aristocrática, que o tolhia
de ver a encantadora Elys, não levaria a melhor! Haveria certamente de achar modo de oncontrar-se
amiúde com a menina, falar-lhe dar-lhe a conhecer o que era uma admiração masculina. Neste
pressuposto, demorar-se-ia ainda por alguns dias ali no «Prado-Bento»...
Mas a «Libélula», e os amigos, e Sari?... Ora! vê-lo-iam um pouco mais tarde, eis aí! Willy continuaria a
fazer as honras do iate notificando aos hóspedes do primo que este ainda se via retido, à conta dos
negócios da sucessão. Já nessa mesma tarde, Ogier lhe escrevia a respeito, dando-lhe instruções.
Quando, pouco depois, lhe apresentou dona Antonieta as suas despedidas, dizendo-lhe: «Com que então,
senhor conde, devo dizer-lhe adeus?» respondeu ele, dissimulando um sorriso:
— Sim, minha senhora, adeus!

CAPÍTULO IV

Ora, no dia seguinte, o senhor de Chancenay subia radiante a estrada que ia do «Prado-Bento» ao castelo
de Prexeuil, levando na mão um longo porta-jóias de pele, outrora branco, hoje muito amarelecido,
dentro do qual se continha um velho e magnífico leque do século XVIII. Era o pretexto. Na véspera,
havia ele comunicado a dona Antonieta esse legado feito à sobrinha, acrescentando que o senhor
Boudard ficaria encarregado de lho transmitir sem demora. Mas foi sempre lícito mudar o homem de
idéia. Julgou, pois, mais gentil fosse a transmissão efetuada pelo próprio neto e mandatário da
herdeira. .. Sim, quanto a isto, nada teria realmente que opor a respeitável madre cônega!...
Sim, tudo iria às mil maravilhas, contanto que ele visse a encantadora Elys. Mas bem podia ser que a tia,
logo que lhe anunciassem o terrível visitante, lembrasse de enviá-la para longe dali. . .
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Urgia pois surpreendê-las... Todavia, não lhe era permitido introduzir-se sub-repticiamente em casa
delas!
Esta dificuldade, interposta ao seu desejo pelo que ele chamava «a idéia fixa de uma solteirona
rancorosa», irritava-o como em geral sucede àqueles acostumados a ver apressar-se toda a gente, mais
ou menos servilmente, derredor sua riqueza e posição social. E, para si mesmo, dizia, num misto de
satisfação e desafio: «Se alguma vez encontrar sozinha a vossa Elys, senhora de Prexeuil, hei de fazer-
lhe a corte e ensinar-lhe que nem todos os homens são esses demônios vilões com que a vossa
imaginação lhes representa!»
Ora, justamente nesse momento, caiu-lhe o olhar num atalhozinho, que corria mais baixo que a estrada, e
eis se lhe depara Elys, que vinha por ali caminhando com seus passinhos miúdos e ligeiros. Como trazia
na mão o chapéu, acariciava-lhe o sol livremente os cabelos castanhos de suaves reflexos sedoscs.
Moldava-lhe a curva harmoniosa das espáduas a blusa branca, de talhe elegante, mas sem os apuros da
moda. bem como a saia preta de graciosas pregas, deixando ver as delicadas presilhas dos pezinhos
arqueados.
Com um brilho de triunfo nos olhos, contemplou-a Ogier, por momentos. Mas refletiu logo: «Esse
caminho vai, com certeza, desembocar na estrada, não muito longe provavelmente do castelo... Urge,
portanto, que eu chegue primeiro».
Lépido e rápido, avançou picando o passo estrada acima. Para um esportista como ele, isso era apenas
um brinquedo. Dentro em pouco, alcançava a encruzilhada do caminho, a alguns metros da alameda de
nogueiras, que conduzia ao castelo...
Quase no mesmo instante apareceu Elys.
à vista do estrangeiro, teve um movimento de surpresa. Lançou-lhe Ogier um olhar; ela, inclinando
ligeiramente a cabeça, para corresponder-lhe a saudação, continuou a caminhar.
Ogier deu então alguns passos ao seu encontro:
— Perdoe-me, senhorinha, se a interrompo... Mas venho justamente para lhe entregar a lembrança
legada pela senhora de Valheuil à sua cara amiguinha... A senhora sua tia já lhe falou, decerto, a respeito
?...
— Sim, meu senhor... Pobre e querida senhora de Valheuil!
Ah! desta vez, ele bem que os via, esses lindos olhos da freirinha! Eram azuis, de um maravilhoso azul-
violeta, aveludado, por sobre os quais flutuava a sombra dos longos cílios castanhos... Nesse momento,
eles se marejaram de lágrimas, à recordação da boa amiga desaparecida, e esse doce brilho lhes
aumentava ainda mais a beleza.
— Aqui o tem, senhorinha...
E Ogier estendeu-lhe o escrínio, que ela recebeut agradecendo, ao mesmo tempo que um ligeiro rubor
lhe carminava a cútis delicada.
— Não quer vir até o castelo? perguntou-lhe, timidamente. Minha tia gostaria, sem dúvida, de poder
agradecer-lhe também...
Como era linda essa jovem castelã, com esse rubor, esse olhar orvalhado, algo comovido, esses
labiozinhos trêmulos! O prazer de melhor admirá-la, e ouvir-lhea voz de timbre encantador, pagava bem
a pena de uma visita a dona Antonieta!
— Oh! sim. senhorinha! Sentir-me-ia muito feliz em poder apresentar os meus respeitos à senhora sua
tia, mas receio ir incomodá-la...
— Oh! não, senhor conde, absolutamente!
E a moça continuou seu caminho, acompanhada agora pelo senhor de Chancenay... Parecia um tanto
embaraçada, a linda freirinha. Evidentemente, não estava afeita a ser acompanhada por jovens e
elegantes cavalheiros como esse... Quem sabe se talvez não passara a lembrar-se de súbito do
descontentamento provável da tia?!
Porém, a fim de colocá-la à vontade, Ogier começou logo a falar-lhe da falecida amiga. E viu então
levantarem-se de novo para ele esses olhos magníficos, iluminados da mais pura luz, olhos que
denotavam uma alma magnânima, inteiramente cândida. Em poucas e delicadas palaras,disse-lhe Elys o
afeto que consagrara à senhora de Valheuil, e o quanto esta era boa, prestativa, serviçal. Emprestava-lhe
a comoção um brilho ainda mais ardente ao olhar, que, por momentos, se baixaxa tímido sob o do rapaz,
atencioso e encantador. O rubor continuava, todavia, a lhe tingir as faces, cuja alvura acetinada não
tinham conseguido alterar o sol e o ar do campo. Caminhava com porte harmonioso ao lado de Ogier,
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que diminuía o passo à proporção que iam se aproximando do extremo da alameda... pois queria
contemplar, o mais demoradamente possível, essa admirável e encantadora freirinha! Nunca mulher
alguma no mundo o impressionara tanto como essa! De parte a rara beleza, adivinhava-a Ogier muito
diferente, pela alma e pela educação, das demais senhorinhas, com que até ali havia conversado.
Essa graça delicada esse recato e essa timidez acrescentavam-lhe à beleza um encanto extraordinário.
«Nunca vi nada mais delicioso!...» dizia consigo Ogier diminuindo ainda mais os passos, falando de
Gouxy e seus arredores, que ele desejava conhecer melhor...
Elys amava estranhamente esse recanto do mundo para além do qual apenas saíra, como dissera a Ogier,
para ir duas ou três vezes a Besançon, e poucas mais a Pontarlier. Ao que, sorrindo, exclamara o senhor
de Chancenay:
— Mas é extraordinário, nesta época!... E a senhorinha nunca sentiu vontade de ver outros horizontes,
mudar um pouco os seus hábitos?
E ela, simplesmente, com um sorriso discreto e meigo disse:
— Sim às vezes; mas não me detenho muito em tais pensamentos, sabendo, icomo sei, irrealizável tal
desejo, uma vez que minhas tias não querem deixar Prexeuil... Aqui é que eu também hei de passar toda
a minha vida...
— Oh! não fale assim! Nada é menos certo do que isso!
Ergueu a moça para ele um olhar admirado. Então, percebendo que imprimira ao seu protesto mais
vivacidade do que fora conveniente, Ogier acrescentou:
— Sim, ninguém sabe do futuro que o aguarda... E estou certo de que a senhorinha, como os demais,
também o ignora...
— Oh! não! O meu, sei eu qual há de ser! disse, com tranquila gravidade.
Ogier pensou logo, com estranho sentimento de inquietação : «Dar-se-á o caso fazerem as associadas
desse cabido voto de celibato ao entrar para a irmandade?» E como desejasse sabê-lo aventurou
contrafazendo um sorriso:
— A senhorinha é muito criança ainda para ter essa certeza quanto ao seu futuro! Se, por exemplo, como
em geral sucede com as outras vier a casar...
Lançou-lhe de novo Elys um olhar admirativo, corou ainda mais, e disse-lhe com a meáma gravidade:
— Mas não casarei nunca.
— Oh! quem sabe ?... A menos que não seja isso contrário à regra do cabido, ao qual pertencente a
senhorinha...
Ela agitou negativamente a cabeça:
— Não, senhor; as freiras de Santa Edwiges não fazem voto de celibato.
Ogier teve uma sensação de alívio... E, com um alegre sorriso nos lábios, disse, inclinando-se um pouco
para a moça:
— Esse título de freira é muito pesado para os seus dezoito anos, senhorita... E há de perdoar-me o não
lhe chamar «senhora», como o devera ter feito em obediência ao protocolo.
Encontraram-se os olhares de ambos. O de Elys, confuso, algo comovido, baixou-se logo, ao mesmo
tempo que um ligeiro frémito lhe correu pelo semblante encantador... A moça apressou o passo, tanto
mais quanto o castelo acabava de surgir diante deles, grande mole pardacenta de majestosa aparência, a
que precedia um pátio lajeado. Ogier parou alguns momentos, a fim de observá-lo melhor; pediu
algumas informações a respeito, sem deixart contudo, de admirar a ruborizada freirinha, visivelmente
ansiosa de não prolongar por mais tempo semelhante colóquio.
Em seguida, atravessou com ela o pátio, por entre cujas lajes o capim crescia; penetrou no grande
vestíbulo abobadado, guarnecido de troféu de caça, sendo afinal introduzido numa grande sala, que
deitava para o jardim, e na qual se achavam trabalhando as senhoras Antonieta e Bathilde, sentadas uma
em frente da outra.
— Minhas tias, — anunciou-lhes a voz algo comovida de Elys — aqui está o senhor conde de
Chancenay, que se quis dar ao incômodo de vir em pessoa trazer-nos a lembrança legada pela nossa
querida amiga, a senhora de Valheuil...
As duas senhoras ergueram as cabeças. A senhora de Prexeuil estremeceu, lançando ao intruso um
olhar de irritada surpresa.
Ogier curvando-se diante dela, explicou então, com um leve sorriso nos lábios.
— Como vê, minha senhora, ainda não parti. Refleti ontem à noite, que seria preferível aguardar carta de
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minha avó, a fim de saber o que ela decide quanto ao prédio. Caso queira vendê-lo, entender-me-ei a
respeito com o notário antes de deixar Gouxy... Julguei então de meu dever, pois que ainda sou
momentaneamente o hóspede do
Prado-Bento, vir apresentar-lhe as minhas homenagens, trazer-lhes os meus agradecimentos pela
assistência com que ontem houveram por bem honrar-me.
Tudo isto, como se vê, era perfeitamente cortês e plausível. Contudo, não se desensombrou o semblante
contrariado da velha senhora, que estendeu apenas a mão ao senhor de Chancenay, sem grande
empenho, e, com algumas palavras mais secas que cordiais, designou-lhe uma poltrona. Enquanto ele se
assentava, Elys desaparecia. Teria obedecido a algum sinal da tia? Ou se teria, de si mesma, eclipsado?
Não o saberia dizer Ogier, que não a viu mais enquanto durou a sua curta visita a Prexeuil, pois dona
Antonieta apenas lhe testemunhava a indispensável cortesia. Quanto a dona Bathilde, essa não disse
três palavras, durante esse quarto de hora, os dedos sempre cruzados sobre o bordado, os olhos meigos e
pensativos pregados no recém-vindo; no entanto sentiu Ogier que, entre ela e ele, se estabelecia uma
corrente de simpatia.
Logo que a porta se fechou atrás do visitante, a senhora de Prexeuil, levantando-se, atravessou a sala e,
abrindo outra porta, gritou para dentro:
— Elys! Estás aí?
— Sim, minha tia, estou aqui.
Entrou então a cônega numa grande sala mobiliada de estantes e arcas antigas. Sentada a uma mesa,
estava Elys ,com um livro nas mãos. Dona Antonieta, caminhando um passos pesados, à conta da idade
e corpulência, foi direito à sobrinha, interpelando-a:
— Não me explicarás o caso de logo seres tu quem havia de introduzir aqui o senhor de Chancenay?
A voz vibrava-se-lhe seca e áspera. Ao olhar perscrutador da tia, as faces da moça tingiram-se de rubor,
mas respondeu com tranquila sinceridade:
— Encontrei-o lá embaixo, minha tia, no começo da alameda. Entregou-me o leque. Agradeci-lho...
Julguei depois conveniente convidá-lo a vir até aqui... E, como aceitasse, não: podia, é claro, deixá-lo
acolá, para subir sozinha ao castelo...
O olhar, reto e puro, não se curvou ao da velha dama... a qual assentiu, com algum esforço:
— Sim, é claro, tu não podias... A ele é que cumpria...
Hesitou um momento... Evidentemente acudiam-lhe aos lábios outras perguntas... Que haveria dito a
Elys o senhor de Chancenay?. .. Mas dona Antonieta julgou de bom aviso afetar que não dava
importância ao incidente, posto que aos seus olhos ele a tivesse, e muita, com respeito sobretudo à
sedutora personalidade do estrangeiro...
— Enfim — disse, após curto silêncio — não há nada de mais nesse teu proceder. O senhor de
Chancenay, sim, é que andou mal, dirigindo-se a ti; mas, como parece provável, não tornaremos a vê-lo;
partirá dentro em breves dias, e o «Prado-Bento», ainda mesmo que não seja vendido, não terá por certo,
nunca mais, a honra de o hospedar. É casa por demais modesta, onde ele morreria de tédio, sem o seu
luxo, as suas distrações habituais, o seu principesco modo de vida. As tradições, as recordações que a ela
estão ligadas?. .. Que é isso para esses entes que na vida nada mais vêem que o prazer, e calcam aos pés
todos os deveres?
A voz da velha dama traduzia um profundo desgosto, um violento desprezo. . . Os belos olhos, que se
fitavam nela, nublaram-se, por instantes, de uma inquieta tristeza...
— Pobre «Prado-Bento»!... exclamou, pensativa, Elys. — Triste coisa, se o virmos habitado por
estranhos!
— Sim, muito triste. Mas não podemos fazer nada... E, de qualquer modo, agora que já lá não está a
nossa amiga, essa é uma casa fechada para nós.
Quando a tia saiu da biblioteca, retomou Elys maquinalmente o livro; o pensamento, porém, voava-lhe
muito longe dali: voltara à alameda das nogueiras, onde, de par com Elys de Valromée, caminhava um
belo e elegante rapaz, que lhe falava com voz bem timbrada, singularmente agradável ao ouvido. Esse
jovem tinha o semblante expressivo, o sorriso levemente irónico, mas sedutor, os olhos magníficos...
Elys estremeceu ligeiramente, corando, ao recordar-se do olhar ardente que, por momentos, se havia
encontrado com o dela...
O livro caiu-lhe das mãos sobre a mesa... Com os dedos enclavinhados, permaneceu assim, imóvel,
algum tempo... Elys, a prudente Elys, a piedosa Elys, devaneava... Já agora, bem podia vigiá-la dona
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Antonieta! Para todo o sempre, em sua vida solitária jamais se apagaria da memória da freirinha Elys de
Valromée a lembrança desses olhos de reflexos vivamente alaranjados que se haviam fitado nos dela
com tão cálida admiração... talvez com amor...
Porque, nessa noite, refletindo sobre o caso, Ogier teve de o confessar a si próprio: estava positivamente
enamorado dessa encantadora Elys.
Seria isso, por ventura, o raio ?... Ele, o cético, ele, de quem diziam os amigos: «Chancenay? Qual! Esse
não quer grilhões! Permite, sim, que o amem, mas reserva para si toda a independência!»
Sim, até esse dia, ainda não havia amado. Por sua vida apenas tinham passado alguns caprichos, que lhe
haviam deixado tão-somente recordações indiferentes, tanto ou quanto desdenhosas... Sim, ainda aí, bem
o adivinhara Sari: ele menosprezava as mulheres que o haviam inspirado, mantendo-as à margem da
lembrança, onde só penetrava quando ele bem queria.
Agora, porém, era outra coisa. Cumpria confessar, só, em face de si mesmo, que, de fato, Elys lhe havia
causado uma impressão profunda, desconhecida até então... Essa beleza, essa cândida e encantadora
criança vencia-lhe a indiferença, lançava por terra o projeto que fizera de se não casar senão daí a quatro
ou cinco anos. Sim, valia bem a pena, por essa deliciosa freirinha, que ele se deixasse prender, antes do
tempo, nas malhas do casamento!...
A grande dificuldade estaria na oposição da tia. Mas ao senhor de Chancenay antolhava-se
inadmissível que, de seu próprio jus, condenasse a senhora de Prexeuil a sobrinha ao celibato. Seria
talvez difícil fazê-lo mudar de opinião; contudo, sentia-se Ogier com assaz vontade para o conseguir,
principalmente se Elys o auxiliasse atuando, por seu lado. no ânimo da velha senhora.
Para isso, era mister que ele se fizesse amar. Logo, urgia que se tornasse a avistar com a moça... Mas
como ? O acolhimento que lhe fizera dona Antonieta fora em verdade demasiado frio, para que pudesse
pensar em renovar a visita ao castelo de Prexeuil. Só lhe restava, por conseguinte, envidar esforços, para
se fazer, de quando em quando, eneontradiço com Elys.. . Assim
devaneava Ogier, sentado numa poltrona, forrada de esmaecida tapeçaria, ao pé de uma porta-janela da
pequena biblioteca, que deitava para o jardim. Liau, o Terra-Nova, que se insinuara até ali, jazia-lhe
estendido aos pés. A aragem fresca, um tanto úmida, invadia o aposento, guarnecido de sólidos móveis
antigos, tapeçaria de tons avelhentados, cadeiras pesadas, mas confortáveis. .. Esse
quadro, tão diverso dos a que Ogier estava habituado, aparecia, nessa noite, a uma luz nova àquele que
até então o considerara com indiferença. Nessa casa, bem como no suntuoso castelo de Sarjac, solar
patrimonial dos Chancenay, pairava a sombra dos avoengos, a recordação de gerações extintas. Aqui,
porém, a evocação era mais íntima, na simplicidade nobre e tranquila dessa residência provincial, onde a
senhora de Valheuil levara a mesma vida retirada e piedosa de muitas de suas antepassadas. Porque o
«Prado-Bento» fora principalmente o refúgio das viúvas, na família de Chatelbray, da qual era agora a
derradeira descendente a marquesa de Chancenay.
Talvez também visse Ogier, nessa noite, com olhos mais indulgentes, esse velho solar, só porque nessa
tarde lhe havia dito uma boquinha de lábios delicadamente purpurinos :
— Eu gosto muito do «Prado-Bento».
Ergueu-se, dirigindo-se para o salão vizinho, grande peça artesoada onde Rosália acendera dois
candeeiros. Afinal aí estavam, ao pé da janela, a ampla poltrona da falecida, a sua mesinha de trabalho,
de pau-rosa, um açafate de vime com novelos de lã branca e cinzenta. À direita do fogão, resplandecia
na penumbra o mogno de um velho pano. Ao centro da sala, estendia-se uma mesa oval, coberta de um
mantel de veludo desbotado, sobre a qual se achavam, arrumados, vários livros e álbuns com
fotografias... Dela se aproximou Chancenay maquinalmente, abrindo com mão distraída um desses
álbuns...
Esta jovem, gentil e graciosa, era a senhora de Valheuil. Ogier reconheceu-lhe logo os traços,
relacionando-os com o retrato a óleo, trabalho de um hábil artista, que lhe fora mostrado na véspera pela
Rosália, em uma das salas do primeiro andar. Depois, ainda ela, já idosa, fisionomia lhana e serena.
Adiante, o visconde de Valheuil, belo tipo enfatuado, que quase arruinara a esposa antes de perecer num
duelo. Ao lado, o único filho do casal, falecido aos seis anos de idade, cuja morte tornara a mãe
inconsolável, — como dissera a Ogier a velha criada.
Voltou a página o senhor de Chancenay... E a fisionomia iluminou-se-lhe, numa expressão de vivo
contentamento. .. É que essa linda criança risonha e de grandes madeixas, era Elys! E era ainda ela
essa outra pouco adiante, já moça, a mão pousada na enorme cabeça de Liau... Uma fotografia de
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«amador», mas muito bem trabalhada. Elys tinha nos lábios um sorriso de criança, que lhe animava, ao
mesmo tempo, os belos olhos profundos. Esse sorriso parecia dirigir-se a Ogier, que murmurou :
— Sim, és ideal minha linda freirinha!
Deu alguns passos pela sala, tornando de novo ao álbum, que ficara aberto. Ainda uma vez, contemplou
demoradamente a fotografia... Tinha nesse momento a sua fisionomia uma expressão meiga, algo
comovida, que lhe não era habitual. O amor por essa criança, pura e encantadora, fazia vibrar uma fibra
até então ignorada desse homem, o qual, por culpa dos que o haviam educado, se transformara num
elegante folgazão e despreocupado egoísta, mas cuja alma conservara por assim dizer a nostalgia da
existência útil e nobre, que poderia ter sido a sua.
E o senhor de Chancenay disse então entre si: «Vou arranjar as coisas de modo que ainda me demore por
aqui algum tempo... Mas o absolutamente indispensável, é que eu a torne a ver».

CAPÍTULO V

Na manhã seguinte, recebeu Ogier uma carta. Decla-rava-lhe a senhora de Chancenay que, não tendo
nenhuma intenção de conservar esse velho solar, se entendesse com o notário, a fim de que o mesmo
fosse vendido.
«Mas, principalmente, não te incomodes com isso, meu caro!» acrescentava ela. «Dá simplesmente as
tuas instruções, e vai depressa ao encontro dos teus amigos, — entre os quais, decerto, se encontra
algum belo palminho de cara, que te não há de ser indiferente...»
Ao ler esta última frase deu Ogier ligeiramente de ombros. Sari?... Oh! já a havia esquecido
completamente! A imagem de Elys impunha-se-lhe agora com demasiada força ao espírito, para que
tudo mais se lhe dissipasse como fumo.
Ficou alguns momentos pensativo, ensimesmado, olhos fitos na carta aberta diante dele. Depois,
tomando uma folha de papel, escreveu:
«Não, querida vovó, não vendas o «Prado-Bento». Dá-mo, antes se não o queres. Agrada-me esse velho
solar, e, demaisz pertenceu sempre ao Chatelbray. Como sabes, o meu aniversário natalício cai no mês
que vem: não busques outro presente. Concordas, não é verdade ?
«Agradou-me muito este sítio, e, além disto, é ao que me dizem, abundante em caça. Hei de, com
certeza, ainda voltar aqui e, pois, conservarei no «Prado-Bento» o pessoal que nele assiste, vale dizer, a
velha criada de quarto e a cozinheira.
«Tenciono partir dentro de breves dias, a fim de continuar o cruzeiro iniciado. No tocante ao belo
palminho de cara, de feito, existe, sim; mas esqueço-o facilmente quando quero.
«Aguardo, pois, querida vovó, a tua resposta; mas, como já sei qual será ela, vou, desde já, proceder
como legítimo senhor, comunicando esta minha decisão à pobre Rosália, a camareira, que se põe a
olhar-me às vezes com uns olhos de inquieta interrogação. Com certeza, pergunta a si mesma se terá de
deixar esta casa, onde passou grande parte de sua vida e onde viu morrer a sua patroa de tantos anos.
«Beijo-te respeitosamente as mãos, querida vovó. Até breve, pois hás de ver-me em Sarjac, logo que eu
regresse da Itália.»
Acabando de escrever esta carta, Ogier fez soar a campainha, chamando Rosália, a qual apareceu logo,
caxingando, pois era reumática. Entregou-lhe a carta, que acabara de fechar.
— Faça o favor2 Rosália, de entregar isto ao carteiro, quando ele tornar a passar daqui a pouco.
— Sim, senhor conde. Não há de tardar por aí; raramente sobe até Prexeuil, pois essas senhoras não têm
correspondências.
E fez menção de retirar-se. Ogier, porém, deteve-a com um gesto.
— Olhe.. . Se eu ficar com o «Prado-Bento», está você disposta a continuar aqui, mais a Melita?
— Ah! O senhor conde vai ficar com a casa?... Oh! E eu que temia que... Mas, de certo, que fico, senhor
conde! E Melita também!
— Então estamos combinados. Você ficará tomando conta da casa. Quanto ao ordenado, falaremos
depois...
— Oh! senhor conde, eu não preciso de nada, graças a Deus! A minha boa patroa deixou-me o
suficiente para eu viver. O que desejo somente é não deixar esta casa!
— Não, Rosália; costumo pagar sempre os serviços que me prestam. Mas, repito, quanto a isto,
falaremos depois...
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A criada retirou-se depois de muitos agradecimentos. Já agora, podia dormir tranquila: o «Prado-Bento»
não seria vendido!... Muitas e muitas vezes, quisera ela inquirir sobre este ponto o senhor conde, mas
nunca tivera coragem de o fazer. Intimidava-a o senhor de Chanicenay com o seu ar um tanto altivo e
aquele olhar, que mantinha os estranhos a distância. Mais de uma vez, nesses dois dias, dissera ela entre
si, depois de ter ouvido o Celestino a respeito da existência mundana do amo: «Não será esse belo rapaz
que se há de interessar por este velho solar!...» Enganara-se, como se vê. O que não podia supor, a boa
Rosália, era que Elys de Valromée entrasse por muito nesse súbito interesse do senhor de Chancenay
pelo «Prado-Bento»...
Ogier arquitetara um plano a fim de tornar a ver a encantadora freirinha. Contava partir nesses dois dias,
a terminar o cruzeiro iniciado, como escrevera à avó: mas, depois, ao invés de permanecer em Sarjac,
aonde começariam a chegar os primeiros convidados para as caçadas, regressaria inesperadamente ao
«Prado-Bento» e procuraria meios e modos de tornar a avistar-se com a senhorinha de Valromée, antes
que dona Antonieta soubesse que ele estava na terra e tomasse, por conseguinte, as devidas precauções.
O amor, o desejo de triunfar na luta com a velha tia autocrata, conspiravam para inspirar a Ogier a
vontade de superar os obstáculos e conquistar Elys, embora a custo de grandes dificuldades. Destarte,
quanto mais esforços, tivesse que despender para alcançá-la, tanto mais, de futuro, a amaria... Além
disso, tinha lá para consigo que a senhora de Prexeuil não seria inexorável se visse, de fato, a sobrinha
apaixonada pelo conde Ogier de Chancenay, e havia de reconhecer o erro em que caíra, ao pretender
condená-la à vida solitária, semelhante à que ela mesma vivia.
No dia seguinte ao em que recebera a carta da avó, dirigiu-se Ogier a Gouxy, a fim de assistir à missa
cantada de domingo, pois na antevéspera, e incidentemente, lhe havia dito Rosália que Elys de Valromée
tocava harmônio e, às vezesx cantava na igreja. Era, pois, para vê-la e ouvi-la que o senhor de
Chancenay, desde tanto tempo esquecido do dever dominical, assentara consigo ir até a velha capelinha
da aldeia.
Lá chegando, colocou-se de modo que pudesse ver o harmônio, sem ser visto de dona Antonieta. Sem
dar conta da atenção com que o olhavam os fiéis, aguardou impaciente a aparição das cônegas... Estas,
ao entrar, encaminharam-se para o banco de carvalho esculpido, colocado à frente dos demais, no qual
tomaram assento as senhoras de Prexeuil e de Valromée, enquanto Elys se dirigia para o harmônio.
Ainda uma vez, admirou a elegância natural da moça, sua graça aristocrática, naquele vestido já fora da
moda, mas cuja sobriedade parecia encantadora e de bom gosto aos olhos de Ogier, fatigados das
ridículas extravagâncias e loucuras absurdas do trajar contemporâneo. Era, em verdade, uma fidalga,
essa descendente dos Prexeuil e dos Valromée. Dela podia orgulhar-se, por todos os modos, o marido
que lhe caísse em sorte.
Via-a Ogier sentada ao harmónio, e extasiava-se em contemplar-lhe o perfil. Ao redor dela, agrupavam-
se algumas raparigas da aldeia entre as quais Melita, a cozinheira do «Prado-Bento», sobrinha de
Rosália. Cantavam todas com melhor vontade que talento, sob a direção da formosa castelã, cuja voz, de
quando em quando, se fazia ouvir. Essa voz, posto não cultivada, era de um timbre encantador, cujo tom
se diria diminuído, de indústria, pela moça, a fim de que não dominasse a voz das companheiras.
Se bem que preocupada com o seu papel de organista e diretora dos coros sentia-se que Elys estava
concentrada, visivelmente penetrada de tranquilo fervor. Quando, nos raros momentos de intervalo, o
seu olhar se dirigia para o altar, onde se celebrava o divino sacrifício, adivinhava-a Ogier genuflexa em
espírito adorando a Deus e orando de toda a sua alma...
Então, surgiu-lhe no espírito uma dúvida atroz.
Não teria ela, por desventura dele, vocação religiosa?... Não seria justamente por isso que parecia tão
certa do futuro que a aguardava?
Ela lhe havia dito: «Minhas tias não querem deixar Prexeuil... Aqui é que eu também hei de passar toda
a minha vida».
Sim; talvez assim fosse, enquanto vivessem as senhoras Antonieta e Bathilde. Mas, depois? Sozinha e
livre, não poderia ela seguir a sua vocação ?...
O senhor de Chancenay tentou em vão afastar do espírito esse novo receio, que o tornou a assaltar nas
horas que se seguiram, quando regressava ao «Prado-Bento», e, mais tarde, enquanto passeava a fumar
pelo jardim, seguido de Liau, que lhe havia ganho afeição.
E pensava, algo surpreso, a troçar de si mesmo: «Mas eu estarei, realmente, apaixonado dessa jovem
Elys? Todavia, sempre julguei que o amor, chegado a esta altura, fosse um trambolho, do qual seria
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prudente desvencilhar-nos... Mas caí no laço... e muito depressa!... É ridículo!»
Contudo, não tentou lutar contra esse sentimento já poderoso, que despertava nele uma emoção
desconhecida até ali. Deparava-se-lhe Elys como a realização de um ideal até então mui vagamente
tconcebido. Primeiro, ideal físico, pela sua rara beleza, pelo encanto puro de sua expressiva fisionomia;
mas também ideal moral, porquanto Ogier, tendo apenas encontrado em seu caminho muitas
consciências femininas frágeis ou perversas apreciava a delicadeza de alma e coração, sempre que esta
se lhe deparava... Ora, ele o havia percebido como um reflexo {muito vivo, nesses olhos cor-de-violeta,
nesse olhar de sincera candura. Observador mui sutil dos que o cercavam, sabia às maravilhas
reconhecer numa mulher a faceirice, as manhãzinhas, as ambições ocultas; nada disso vira na fisionomia
de Elys, perturbada unicamente pelo olhar com que ele a frechara, nesse colóquio de dois com um rapaz
sedutor, que lhe concedia toda a atenção...
Fora por isso, por instintivo respeito para com essa pressentida inocência, que o senhor de Chancenay
refreava as palavras de ardente admiração, que lhe haviam subido aos lábios.
Agora, porém, consciente de suas intenções honestas, queria fazer-se amar de Elys, a fim de que esta se
lhe tornasse diligente auxiliar na luta inevitável que iria empenhar com a vontade de dona Antonieta.
Aliás, não seria isso o mais difícil da tarefa. Bem sabia que lhe não resistiam ao encanto pessoal, ao
fascínio de Ogier de Chancenay. E se a essa magia se aliasse o amor, o ardente desejo de conquista,
certo a freirinha ver-se-ia, logo, enleada, enfeitiçada para sempre.
Quando pela décima vez, media a passos largos o jardim onde já começavam a cair algumas folhas
amarelecidas, Ogier fixou o ouvido a um som de sinos. Tocavam as vésperas na igreja de Gouxy...
Recordou-se então da visita que planejara fazer ao cura, antes da partida; ato esse de elementar polidez,
principalmente se tencionava ser o futuro proprietário do. «Prado-Bento». Ademais, esse padre poderia
também ser-lhe um auxiliar precioso, caso a velha cônega teimasse em mostrar-se inflexível.
Consultou, pois, o relógio. . . Uma hora, quando muito, para as vésperas. .. Ãs quatro horas pôr-se-ia a
caminho do presbitério, depois de ter dado uma volta por essa campanha pitoresca, cuja beleza agora
tanto apreciava.
Como atravessasse o vestíbulo, cruzou com Melita, a jovem cozinheira, — bela rapariga, morena e
esbelta, quase sempre de olhos baixos, a qual relanceou ao novo patrão um olhar disfarçadamente
admirativo, que ele interceptou de passagem. Rasgando os lábios num leve sorriso irónico, reflexionou
Ogier: «Olhos baixos, olhos arrogantes, todos se equivalem. A alma, essa sim é que cumpre lhes
façamos leal e forte, a todas essas filhas de Eva!»
E rindo silenciosamente, começou a subir os degraus de carvalho da velha escadaria...
«Eis-me agora feito moralista! Fica-me muito bem! Hei de contar tudo isto qualquer dia a Willy, que há
de achar muita graça».

CAPÍTULO VI

Uma hora depois, o senhor de Chancenay puxava pela campainha à porta do presbitério.
Veio abrir-lha o cura, introduzindo-o em seguida num pequeno parlatório ladrilhado, que tinha por
mobília uma mesa, um armário de cerejeira e algumas cadeiras de palhinha, já usadas.
Ao comunicar-lhe Ogier que o «Prado-Bento» não seria vendido, manifestou-lhe o padre o seu vivo
contentamento.
— Sim, senhor «conde. Nós outros os pastores tememos sempre a intrusão de algum elemento nefasto
entre as nossas ovelhas, já de si pouco fáceis de trilharem o bom caminho. Mais vale ter fechada essa
casa do que a eventualidade moral de uma venda, que traria talvez para cá alguma família estranha, de
moralidade mais ou menos duvidosa.
— Compreendo o seu receio, senhor cura. Fique, porém, descansado, pois o «Prado-Bento» há de
«continuar na família a que sempre pertenceu. Deixo encarregadas de zelarem por ele a Rosália e a
sobrinha, as quais zelarão ao mesmo tempo pela sepultura da senhora de Valheuil.
Com um olhar, misto de simpatia e saudade, perguntou o padre:
— E o senhor «conde dar-nos-á por ventura o prazer de o termos por cá, algumas vezes?... Bem sei que
é muito triste, na sua solidão, esse velho solar; mas o sítio é aprazível e a caça abundante, se o senhor
conde é caçador.
— Apaixonado caçador, como todos Chancenay, senhor cura. Mas a caça, grande e pequena, aguarda-
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me igualmente nos nossos domínios de Sarjac, no Béarn... O que não quer dizer que eu não venha, ainda
assim, passar aqui algum tempo, mais para o futuro, agora que sou o proprietário...
Habilmente, fez o senhor de Chancenay derivar a conversa para os arredores pitorescos de Gouxy, vindo
a falar do castelo de Prexeuil.
— Um solar interessante, sob aquele seu aspecto um tanto rude... Fui até lá, anteontem, fazer uma visita
a essas senhoras e entregar à menina de Valromée uma lembrançazinha que lhe legara a amiga.
— Sim, sim; a senhora de Valheuil amava com extremo a essa criança, que se mostrava para com ela
muito filial, sendo como é, de natureza afetiva, delicada, sabendo aliar a mais infantil alegria à gravidade
e aos bons modos, tanto que a deu muitas vezes como exemplo às minhas jovens paroquianas. Havia
entre as duas, muito mais afinidade do que as que existem entre ela e as tias, principalmente com a
senhora de Prexeuil.
— Compreendo.. . Esta pareceu-me. .. de vontade inflexível.
O cura sorriu:
— Sim, para os que a não conhecem bem... A mim, porém, parece-me antes um pouco rígida. Sofreu
muito, porque tinha o coração ardente, muito orgulhoso, que se revoltava ante as miseráveis traições
humanas, e não soube ver acima dessas misérias as compensações divinas, reservadas aos que as sofrem
cem espírito de sacrifício.
— Rosália falou-me de uma irmã que foi muito infeliz...
— Sim, a senhora de Valromée, mãe de dona Bathilde, que se recolheu a Prexeuil para morrer, fugindo
assim ao indigno marido. Depois, foi o filho Jacques de Valromée, o qual, seguindo as pegadas do pai,
arruinou a esposa e morreu não sei onde, no estrangeiro. A pobre esposa veio então refugiar-se em
Prexeuil com a filhinha Elys, mas não sobreviveu muito ao marido a quem amava com extremos ... Eis
aí como a senhora cônega de Prexeuil se viu o único arrimo da sobrinha segunda, ambas órfãs e sem
bens de fortuna, depois de ter visto morrer de desgostos a irmã e a jovem viúva de seu mal-aventurado
sobrinho.
— Isto explica a... prevenção — e valho-me, parece, de um termo muito suave — a prevenção, que
nutre a senhora de Prexeuil contra o sexo masculino...
O cura Dambry esboçou meio sorriso, vendo a fisionomia levemente irôniea do senhor de Chancenay.
— Já lho deu a entender, senhor conde?
— Sim, sim2 em meias palavras... E asseguro-lhe que não fui recebido por ela de braços abertos...
— Compreendo. .. compreendo.. . murmurou o cura, sacudindo a cabeça.
Depois de curto silêncio, perguntou o senhor de Chancenay:
— É exato que ela proibiu a sobrinha de casar-se?
— Ignoro se, realmente, lho proibiu; mas, em verdade, creio bem que lhe deve ter representado os
homens a uma luz tal e o casamento como uma tão terrível aventura, que será preciso à pobre menina
muita coragem para transpor o valo... É uma boa criatura a senhora de Valromée, muito devota, muito
meiga, e caridosa; seu caráter, porém, demasiado passivo, não a predispõe evidentemente a libertar-se da
influência da tia.
— E a sobrinha segunda? Será essa também assim tão dócil? Porque, pelo que me disse Rosália, tem ela
igualmente já traçado o seu futuro, na mesma vida celibatária, pela onipotente dona Antonieta...
— Não lho sei dizer... Já me falaram também nisso; mas, até hoje, o problema ainda não foi posto em
discussão, porque a jovem de Valromée ainda não está em idade de pensar em casar-se. Contudo,
conhecendo, como conheço, as idéias da senhora de Prexeuil, inclino-me a crer que esta queira obrigar a
isso a sobrinha-segunda... Aliás, vejo o prólogo de tais projetos nesse título de cônega, que ela já fez
tomar à jovem, ainda criança, — como, antes desta, já o fizera à senhora Bathilde.
— É realmente, em nossos dias, uma idéia extravagante. Enfim, como nesse cabido não fazem as
associadas voto de celibato, nada impede que, de futuro, a jovem de Valromée venha a casar. Talvez
tenha mais energia que a tia para subtrair-se às idéias respeitáveis decerto, mas algo despóticas de dona
Antonieta.
O padre sacudiu de novo a cabeça:
— Sim energia não lhe falta; é de uma natureza diferente da de dona Bathilde. Mas deve tudo à tia; é-
lhe, por isso, muito reconhecida e tem-lhe grande afeição. Assim, pois, quero crer que nunca se insurgirá
contra a vontade de dona Antonieta, ainda que isso importe para ela um grande sofrimento.
Tais palavras impressionaram desagradavelmente o senhor de Chancenay, o qual, sem o demonstrar,
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observou todavia:
— Não lhe parece, senhor cura, que tal vontade tem um quê de duro e injusto nessa sua autocracia?...
— Decerto. E creia que não concordo, nesse ponto, com a senhora de Prexeuil. De fato, como bem diz o
senhor conde, são respeitáveis as suas idéias enquanto traduzem o temor de que a essa criança venham a
cair também em sorte as dolorosas provações, que traz às vezes consigo o casamento. Ela, porém, vai
longe demais, ampliando essa suspicácia do particular para o geral... E irá, sobretudo, ainda mais longe,
se proibir formalmente a sobrinha de casar-se, caso seja esta a sua vocação.
Ogier disse entre si: «Tenho já aqui um aliado, caso seja necessário». E, aproveitando-se do ensejo que
lhe deparava a última frase do cura, procurou elucidar-se acerca do ponto que o inquietava, observando:
— O modo de vida que leva a jovem de Valromée, as sugestões da tia, não acabarão por lhe infundir o
gosto pela vida religiosa?
— Não sei. . . Pelo menos, até agora, nada o demonstrou... É ainda muito criança, por vezes até quase
infantil... E era isso, exatamente, o que tanto aguardava à senhora de Valheuil.
A conversação derivou novamente para a pessoa da falecida. Pouco depois, o senhor de Chancenay
despedia-se cordialmente do cura que, de pé, à porta do presbitério, ficou ainda a seguir com o olhar o
novo proprietário do «Prado-Bentc». Em seus olhos cismadores, lia-se uma simpatia algo melancólica
por esse rapaz... E, sacudindo a cabeça, murmurou:
— Gostei do seu olhar. Sente-se que esse mancebo sabe querer... Pena, é que um ser tão bem dotado
ande a estragar a vida como provavelmente o faz!...
* * *
No dia seguinte, recebia o senhor de Chancenay o seguinte telegrama: «É teu o «Prado-Bento».
Não duvidara ele, sequer por um instante, do consentimento da avó. Esta e o marido, em sua idólatra
ternura por esse único neto, timbravam ambos em satisfazer, às vezes até antes que as exprimisse, todas
as fantasias de Ogier, menino, adolescente e rapaz. Ele mesmo, por vezes, dizia a si próprio, nas suas
horas de reflexão, que, com semelhante sistema de educação, ser-lhe-ia muito difícil tornar-se um santo,
ou sequer, simplesmente, um homem grave...
No dia imediato deixou Gouxy, tendo o cuidado de nada dizer a Rosália quanto ao seu projetado
regresso.
Aguardava-o a «Libélula» em Nápoles, onde foi recebido com entusiasmo pelos amigos, que viam nele
o camarada facilmente liberal, o gentil anfitrião, cuja hospitalidade franca e luxuosa era por todos muito
elogiada... Sari, porém, experimentou amarga surpresa. O seu alegre entusiasmo para com o senhor de
Chanicenay encontrou da parte deste uma frieza algo desdenhosa, que repulsava para longe todos os seus
ambiciosos planos...
Que haveria, pois, passado durante essa curta ausência?
Não podendo indagá-lo do próprio Ogier, buscou habilmente informar-se com os demais convidados.
Mas em vão. Ogier dissera muito pouco de sua estada em Gouxy, aldeia que parecia não lhe ter causado
outra impressão exceto a indiferença.
Sari, porém dizia à mãe:
— Tenho a certeza de que há por aí rabo de saia. Já lhe tenho observado, às vezes, nos olhos, uma vaga
expressão de sonho; iluminam-se então de um brilho ardente... como o que eu quisera ver quando olha
para mim! Sim, ele ama, tenho disso a certeza! E eu já não sou nada para ele... não passo de um
brinquedo quebrado, a quem damos as costas!
— Mas, meu amor, nem tudo ainda está perdido! Trata de fazer que ele esqueça essa outra... se é que ela
existe. Talvez que isso nada mais seja que uma fase de hipocondria, que tu acabarás por dominar.
Sari sacudiu, descrente a cabeça. Mais esperta que a mãe havia lobrigado uma nova orientação no
espírito de Ogier.
Todavia, não se considerava ainda de todo derrotada, pois era grande o seu amor, e, além disso, formava
de sua pessoazinha um excelente juízo, que fazia que ela intimamente considerasse possível a
recondução do senhor de Chancenay.
Mas todas as suas galantes manobras continuavam sem resultado. Ogier trouxera de Gouxy uma
recordação por demais encantadora que o tornava todo indiferente aos meigos encantos da bela húngara.
Depois de ter contemplado a fotografia de Elys, que havia retirado do álbum do «Prado-Bento», depois
de ter admirado esse delicado semblante, esses olhos de misteriosas e virginais profundezas, essa
boquinha sorridente e alegre, — o rapaz experimentava uma como desdenhosa irritação, que a custo
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dissimulava, ao tornar a ver Sari com aquele seu sorriso equívoco, aquele olhar traiçoeiro, arrogante ou
meigamente terno, consoante as ocasiões, aqueles seus modos muito desenvoltos...
«Certo — dizia consigo — é muito interessante e incontestavelmente bela. Mas é criatura sem alma, que
segue simplesmente os seus instintos... Inteligente, ou melhor, esperta. Não será, porém, comigo que há
de ver satisfeitos os seus planos ambiciosos. Não, Sari Doucza, nunca hás de ser condessa de
Chancenay!»
Assim, pois, considerado esse estado de espírito e o ardente desejo que tinha Ogier de regressar quanto
antes ao «Prado-Bento», foi com imensa satisfação que viu terminar o cruzeiro, uns dez dias depois.
Despediram-se dele a senhora Doucza e a filha, demonstrando-lhe ambas calorosa simpatia, que não
encontrou correspondência no coração de Ogier. Posto se mostrasse com elas mui cortês, mantinha-se o
senhor de Chancenay numa tal ou qual reserva, pois não desejava de modo algum ver continuadas essas
relações de puro acaso, principalmente se se tornasse, como esperava, o marido de Elys de Valromée.
Em companhia do primo William Horne, Ogier partiu a caminho de Sarjac. No velho castelo da família,
recebiam todos os anos o marquês e a marquesa de Chancenay, muitos convidados, que ali iam
participar das caçadas de montaria e das várias diversões, que sabiam muito bem organizar a senhora de
Chancenay e algumas das suas jovens parentas. Ogier auxiliava então os avós na recepção dos hóspedes.
Apaixonado, como os seus antepassados, dos nobres prazeres da caça, trazia perfeitamente aparelhado
todo o trem de caça dos Chancenay considerado um dos primeiros da França. Prezava-se como grande
honra o poder usar-lhe alguém o botão distintivo, honra esta que o senhor de Chancenay não concedia a
qualquer... E todas as belas convidadas sonhavam de se tornar o flerte do jovem castelão, enquanto
durasse a sua permanência em Sarjac.
A marquesa de Chancenay caiu das nuvens, quando, logo no dia seguinte ao de sua chegada, Ogier lhe
comunicou que iria passar algum tempo no «Prado-Bento».
— Hein ?! No «Prado-Bento» ?!
E olhava-o com tanto pasmo, que fez o neto rir.
— A vovó parece que me ouviu dizer a coisa mais assombrosa do mundo!...
— Decerto!... Que vais fazer no «Prado-Bento» ?
— Visitar a região, que me agradou muito, caçar.
— Caçar!... Mas se podes caçar aqui!
— Sim posso; mas... quero mudar um pouco de horizonte... Demais, suponha a minha querida vovó que
é uma fantasia, uma originalidade, o que a vovó quiser...
Tinha no canto dos lábios um sorrizinho de ironia, muito conhecido da avó, e que parecia querer dizer-
lhe: «É inútil procurar saber mais».
Contudo, ainda tentou uma objeção:
— Mas que irão dizer os nossos convidados?
— A vovó lhes dirá que me acho preso lá por uns negócios... Demais, não tenciono demorar-me muito.
Pode ficar tranquila...
O marquês de Chancenay, que ouvia o diálogo, sem dizer palavra e a fumar charuto, piscou
maliciosamente o olho ao neto:
— Ora, vamos. Madalena, não insistas... Há com certeza por lá alguma linda carinha. .. E há de ser, de
fato, excessivamente bela, para que o nosso Ogier se abalance a ir enterrar-se nesse velho pardieiro e
nessa longínqua aldeia!. . .
Ogier esboçou de novo o seu enigmático sorriso, mas conservou-se calado.
Não mais que aos outros, — tirante o primo William, cujo caráter, sério e discreto, ele muito apreciava,
— não confiava Ogier os seus segredos a esses frívolos e gentis avós, que lhe inspiravam apenas ligeiro
afeto, por vezes indulgente, ao qual, de quando em quando, se misturava certa impaciência ou vaga
animosidade.
Maud Dornley, uma das suas primas inglesas, que muito o amava, mostrou-se-lhe inutilmente surpresa e
contrariada por vê-lo destarte afastar-se por tempo indeterminado. Mas apenas obteve, como resposta,
estas palavras ligeiramente escarninhas:
— Mas, querida, eu não vou demorar-me lá todo o outono! Longe disso, quero até encontrá-la ainda
aqui. quando voltar.
— O que não impede que sejam dias furtados aos nossos amigos!...
— Oh! grande desgraça! Não me julgo assim tão indispensável à felicidade deles, posto pareça a prima
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querer fazer-me acreditá-lo...
— Contudo, nós todos lhe queremos muito bem... como você não o ignora.
Tinha uns olhos belíssimos esta lady Maud, olhos claros e altivos, nos quais dava a ler todos os seus
sentimentos àquele que, sem o cuidar, se lhe havia apoderado do coração, até ali insensível. Nesse
momento diziam, com franqueza esses olhos: «Sim, você bem sabe como é amado!»
— Evidentemente. Nós jamais o ignoramos, quando temos a boa sorte de agradarmos; mas é sempre
delicioso ouvi-lo dizer por uma priminha encantadora como você...
Isto não passava de leve gracejo.
Lisonjeava-lhe, sim, o amor-próprio o saber-se amado dessa bela Maud, assaz orgulhosa e difícil de
contentar; ele, porém, não correspondia a esse amor, porque lhe era indiferente... E; nesse mesmo
instante, enquanto ela o contemplava, evocava ele uns olhos cor-de-violeta, aveludados, profundos,
tímidos... um tanto receosos do amor, do amor, que Elys adivinhara talvez sob os traços desse jovem
desconhecido, ao lado de quem, pela alameda de Prexeuil, ela havia caminhado alguns momentos...
Tendo assim cortado cerce as objeções da avó, e dado a entender a Maud a inutilidade de sua insistência,
partiu no dia seguinte o senhor de Chancenay para Gouxy, desta vez em automóvel, e sem prevenir a
ninguém da sua chegada.

CAPÍTULO VII

Duas vezes na semana, Elys costumava, em companhia de dona Bathilde ir visitar alguns pobres e
enfermos, nos arredores de Prexeuil, levando-lhes socorros, muito menos abundantes do que ambas
desejavam, porquanto os viscondes de Valromée, pai e filho, após dilapidarem os próprios bens de
fortuna, haviam largamente entrado pelos dos Prexeuils de modo que às três cônegas apenas restava o
suficiente para viverem num relativo conforto, e conservarem mais ou menos em bom estado o castelo,
ou melhor, a parte dos aposentos que habitavam.
Elys prezava muito essas visitas, pois o seu coração delicado aspirava sempre a devotar-se e derramar-se
pelos demais. A senhora de Prexeuil agradava imensamente semelhante propensão, dizendo de boa
mente a si mesma: «Creio que a minha querida Elys inclina-se para a vocação religiosa. Tanto melhor,
pois assim não teria o desgosto de lhe contrariar outra qualquer, que ela se lembrasse de escolher».
Ora, a tia enganava-se. Por mais profundamente piedosa que fosse Elys, esta já não desejava seguir a
vida conventual. Até àqueles últimos tempos não tivera, de feito, a jovem outra perspectiva que a de
passar toda a sua existência em Prexeui e aí envelhecer no celibato, como fizera dona Antonieta como
continuava a fazê-lo dona Bathilde. E assim pensava, porque, desde a infância, incutira-lhe no espírito a
cônega de Prexeuil que tal vida seria a mais invejável para a sobrinha, e a única que ela podia esperar,
acaso não a solicitasse o estado religioso.
De casamento jamais se falara. A senhora de Prexeuil, ocupando-se ela mesma da educação e instrução
de Elys, havia tido o cuidado de envolver este assunto num véu de desdenhosa indiferença, ou
apresentar-lho a uma luz desfavorável, — o melhor meio, pensava ela própria, para desviar desse
caminho uma alma sensível e honesta, como a da sobrinha. Naturalmente, nunca o mais inocente dos
romances caíra sob as vistas de Elys, e a custo reprimia a cônega um esgar de náusea sempre que nos
livros dos mais graves autores se versava a questão do amor.
«Ah! se tivessem, como eu, sofrido o que sofri por amor desse maldito, certo não se refeririam a ele
tão de boa mente!» dizia ela entre si, tomada de grande cólera.
Havendo assim educado a sobrinha, mantendo-a afastada do mundo, e quase sem relações, nesse
solitário solar de Prexeuil, contava dona Antonieta, atendendo sobretudo à natureza e aos gostos de Elys,
que esta aceitaria, sem pensar, a existência que lhe estava preparando a tia, que lhe fizera as vezes de
mãe. Tal como as moças nobres de outrora, que, não podendo ou não querendo contrair,matrimônio, não
se sentiam, todavia, atraídas para a vida do claustro, Elys, obedecendo à direção da tia, solicitara a sua
admissão num cabido ou irmandade austríaca, provando possuir os muitos e necessários costados de
nobreza. Destarte, pensava a senhora de Prexeuil, teria ela uma situação honorífica usando o título de
condessa, e continuaria, depois das tias, a cumprir dignamente os deveres de castelã, esquecendo-se de
que era solteirona.
Ora, todos estes planos tinham apenas um defeito: fundavam-se no completo desconhecimento do
caráter de Elys e das aspirações, então apenas conscientes, dessa alma jovem, que acabava de sair da
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adolescência.
Dona Antonieta tinha a sobrinha em conta de uma criança inteligente, dócil, que aliava aos seus gostos
honestos uma pura e tranquila alegria. Sim, era Elys, tudo isto; mas existia ainda outra coisa nesse
temperamento de moça, — um delicioso mistério, que o senhor de
Chancenay, enamorado, para logo lobrigava nesse olhar cândido, repleto de profundos pensamentos.
Elys tinha o coração ardente, a imaginação entusiasta; na melancólica solidão em que a encerrava a
vontade da tia, entrava ela amiúde a devanear, às vezes, quase inconscientemente. Em quê? Com quem?
Ao seu espirito não se lhe deparava nada de preciso. Evocava a lembrança das antigas castelãs, que
haviam passado em Prexeuil toda ou parte de suas existências; que haviam sido jovens casadinhas mães
ainda moças, muitas vezes felizes, como o atestava o «Diário de Família», em que haviam anotado os
sucessos importantes de suas vidas, e em cujas páginas havia frasezinhas como estas:
«Hoje, aniversário do nosso casamento, assistimos à missa, para agradecer a Deus estes dez anos de
felicidade.»
«Terça-feira de Páscoa, batizou-se na capela de Prexeuil nosso filhinho João-Maria Francisco. Graças,
Senhor, pela bela coroa de filhos, que dás aos teus servos!»
«Neste dia da festa dos apóstolos Pedro e Paulo, receberam-se em casamento, e foram abençoados, nossa
filha Elys e Luís-Benigno de Varzon, marquês de Sommelles. Bem-aventurado Apóstolo, rogai por estas
crianças que se adoram, jovens e confiantes, a fim de que saibam cumprir, sem desfalecimentos, todos os
seus deveres».
Sim, a cônega de Prexeuil, que tivera todo o cuidado de afastar da sobrinha os romances de fantasia, e
até expurgar, para uso da jovem, textos de história ou de literatura, dera-lhe, porém, a ler o «Diário de
Família» dos avoengos, como era tradição da família, logo que as moças atingiam es quinze ou dezesseis
anos, a fim de que se edificassem, ante a piedade, as virtudes e a vida forte e simples das antigas damas
de Prexeuil.
Dona Antonieta, que era todavia mulher de inteligência muito lúcida, não pressentira o perigo que
encerravam — até certo ponto — semelhantes evocações, às vezes breves e quase secas, das alegrias,
dos sofrimentos, da vida íntima de uma família, cujos membros haviam sido, em geral, muito unidos, se
haviam amado, rejubilando-se ou entristecendo-se uns com os outros... E, portanto, fora ao ler o «Diário
de Família», que Elys começara a sonhar com imprecisas alegrias, — que nunca poderia gozar, se
abraçasse a existência que a tia lhe havia destinado...
Atraía particularmente a atenção da moça essa Elys de Prexeuil, que se casara com Luís-Benigno de
Varzon, marquês de Sommelles. Buscava representá-la mentalmente, imaginava-a -com seus próprios
traços fisionómicos, por isso que lhe usava o mesmo nome... E Luís-Benigno? Como seria ele ?... E Elys
divertia-se em compor-lhe espiritualmente o retrato, tal como a si mesma o figurava... Alto, louro,
aparência distinta e grave, olhos altaneiros, mas que se poderiam tornar meigos...
Senhora cônega de Prexeuil, os «diários de famílias» também podem infundir nas moças idéias
românticas!... Por não ter pensado nisto, quantos cuidados daí adviriam a ela!
Essas inocentes fantasias com as quais, de resto, Elys não gastava muito tempo, teriam talvez
permanecido estacionárias, se a moça não houvesse conhecido Ogier de Chancenay.
Era este justamente louro, como o Luís-Benigno dos sonhos dela, de um louro carregado, tal como ela o
preferia, alto, esbelto, porte elegante. Tinha os olhos altaneiros — olhos soberbos, que se tornavam
meigos... mais que meigos...
Essa meiguice do olhar de Ogier, ela, Elys, não a podia esquecer. Ao recordá-lo, sentia a jovem
descompassar-se-lhe o coração de virgem. Mais de uma vez, desde o encontro com o senhor de
Chancenay, surpreendera-se a si mesma a rememorar as poucas palavras trocadas com ele, a caminhar
ao seu lado, pela alameda de nogueiras... Perturbada, inquieta, tentava evadir-se a esses transvios da
imaginação; mas, dentro em pouco, esse altivo perfil masculino, esses olhos de ardentes clarões
alaranjados, esse sorriso de ironia, muito leve, encantador, se lhe representavam de novo ao espírito,
infundiam-lhe novamente no jovem coração um profundo sobressalto, que outra coisa não era senão o
amor. Sim, ela já amava a Ogier, sem o cuidar, com admiração ingénua, a que se mesclava tal ou qual
temor, porque dona Antonieta não descontinuava, todas as vezes que se lhe apropositava ensejo, de lhe
mostrar os homens sob cores sombrias...
A senhora de Prexeuil não percebia, porém, esse estado de espírito, que exteriormente se não denotava, a
não ser talvez por uma mudança de humor da sobrinha, agora menos alegre, algo sonhadora. Satisfeita
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com a rápida partida do senhor de Chancenay, e não imaginando pudesse jamais voltar — ao menos por
enquanto — ao silencioso solar do «Prado-Bento», dizia entre si que, no caso de haver ele causado
alguma impressão no cerebrozi-nho de ElySi tal impressão deveria apagar-se depressa numa natureza
tão prudente, razoável, discreta, e nada romântica ...
Assim, pois, aparentemente, nada havia mudado na existência da jovem freirinha. Ocupava-se todos os
dias, diligentemente, pelo interior da casa, do bem-estar das tias; trabalhava para os pobres, adornava a
capela, e, nas horas vagas, desenhava ou estudava música, arte esta em que tivera por mestra a senhora
de Valheuil e, auxiliada de suas disposições naturais, se tornara abalizada executante.
Dona Antonieta gostava de ouvi-la tocar antigas árias num cravo, que se conservava, religiosamente, em
Prexeuil. Elys possuía algumas delas, reunidas em delicados cadernos, todos encadernados em carneira
já desbotada, e em cujas capas se viam gravadas as armas dos Prexeuil. Certa noite, ao arrumá-los, notou
a falta de um desses cadernos. Depois de o ter em vão procurado, lembrou-se de que o havia deixado no
«Prado-Bento», justamente na véspera da morte da senhora de Valheuil. O triste acontecimento lhe
fizera esquecer essa circunstância.
— Pois bem, disse a senhora de Prexeuil, vai amanhã ao «Prado-Bento» e pede a Rosália que o procure.
É fácil reconhecê-lo, pois tem gravado o nosso brasão e inscrito o teu nome.
— Ou então eu lhe direi, ao sairmos da missa, e ela mandará Melita trazê-lo aqui.
— Como quiseres minha filha... Compreendo que te seja penoso transpor, agora o limiar daquela casa,
onde já não existe a nossa excelente amiga. Fala, pois, com Rosália simplesmente já que te encontras
com ela todas as manhãs.
Mas, no dia seguinte, na capela, notou Elys a ausência da velha criada, que tinha por costume assistir à
missa todos os dias.
Ao saírem da igreja, disse à cônega de Valromée:
— Quer-me parecer que Rosália está cansada ou talvez doente. Vou, pois, ao «Prado-Bento» saber o que
há, e trarei ao mesmo tempo o caderno que me falta.
— Pois sim, meu anjo. E eu continuo, porque vou à casa do velho Matissou. Tu irás ter comigo.
Separaram-se as duas, à saída da aldeia, continuando a moça o seu caminho, para subir ao «Prado-
Bento».
Como lhe dissera a tia, custava muito a Elys o transpor agora os umbrais desse solar, onde apenas
subsistia a recordação da boa e lhana senhora, extremamente inteligente sob grosseira aparência, e que
tanto bem quisera a Elys de Valromée. O tornar a ver esses objetos, que ela havia tocado, todo esse
quadro familiar, em que a sua querida amiga havia passado a última parte de sua vida, parecia à moça,
amorável e tão delicadamente impressionável, uma como verdadeira provação.
Ao aproximar-se da casa, como visse abertas todas as janelas do primeiro, andar, disse entre si: «Rosália
aproveita o sol para arejar os aposentos; e tem razão, porque não teremos talvez por muito tempo este
bom sol, assim tão quente».
Impeliu o portão de madeira, e entrou no pátio. Nesse momento, Liau, saindo dos fundos da casa,
dissimulados por trás de um bcsquete, atirou-se para ela, latindo de alegria.
A moça acariciou-lhe a enorme cabeça buscando moderar os entusiasmos do Terra-Nova.
— Bom dia, meu velho!... Bom dia, Liau!... Bom, agora, deixa-me... Vamos deixa-me!
Assim falando, seguiu direito à porta da casa, que abriu como costumava. Entrou no vestíbulo... e
estacou, estupefata, as faces subitamente ruborizadas.
No limiar da biblioteca, acabava de aparecer, em elegante trajo matinal, o senhor de Chancenay, que a
cumprimentou, deixando trair no olhar, com que encarou a moça, uma grande surpresa e um vivíssimo
contentamento.
— Perdão, senhor... — balbuciou Elys. Eu não sabia que... Vinha pedir a Rosália...
— Oh! senhorinha, por quem é! Não se perturbe absolutamente com a minha presença!... Cheguei ontem
à noite, inesperadamente, o que desorientou algum tanto a pobre da Rosália... Mas faça o favor de entrar,
que eu vou chamá-la.
E, abrindo a porta do salão, afastou-se, para deixar passar a moça.
Elys, recobrando então um pouco de sua presença de espírito, disse-lhe com tímida hesitação:
— Mas, já que o senhor aqui está, parece-me que é ao senhor conde que me devo dirigir...
— E que manda a este seu criado?
Ela explicou em poucas palavras o que ali a levava.
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— Sim, sim, disse Ogier sorrindo. Rosália nada tem que ver com isto. Sou eu que lhe peço, senhorinha,
faça todas as pesquisas que quiser e me permita também auxiliá-la.
Elys corou ainda mais, e, balbuciando um agradecimento, entrou para o salão, seguida do senhor de
Chancenay, que abriu logo as janelas. O sol, invadindo a grande sala de usado mobiliário, iluminou em
cheio o semblante comovido de Elys. o seu vestido cinzento, de pregas elegantes e a sua cruz de cônega
pendente da fita azul-de-rei.
— Agora tenha a bondade de me dizer o lugar em que julga possa estar esse caderno... porque esta casa
a senhora a conhece melhor do que eu...
Designou-lhe ela então uma arca, que o senhor de Chancenay abriu e dentro da qual logo se deparou a
Elys o que buscava, — infelizmente muito depressa,, no sentir de Ogier.
Mas, já que a tinha ali consigo, não a deixaria ir-se assim tão rapidamente, essa bela freirinha!... Hoje —
à conta talvez do amor, que lhe ganhara, durante essa ausência, em que não se fartara de contemplar a
fotografia de Elys — ela lhe parecia ainda mais bela. Considerava-a com meiga ternura, enquanto a
moça folheava o caderno, por entre cujas páginas se haviam metido outras, desprendidas de outro
volume... E o seu coração se comovia ainda mais profundamente ante essa beleza, esse encanto juvenil e
puro, essa cândida sedução do lírio, ignorante ainda no seu perfume perturbador...
Erguendo então a cabeça, disse Elys, com o seu fino sorriso, nesse momento um tanto tímido:
— Sim, é este... Muito agradecida, senhor conde. Queira perdoar-me o ter vindo incomodá-lo...
— Oh! absolutamente! Incômodo nenhum, senhorinha! Sinto-me, pelo contrário, satisfeitíssimo, por me
ter achado aqui, a ponto justamente de substituir Rosália... Porque guardo ainda na lembrança as
melhores recordações da senhora cônega Elys de Prexeuil, posto que apenas a tenha visto alguns
instantes...
E um sorriso de suavíssima ironia entreabriu-lhe os lábios, animando-lhe o olhar, cuja ardente carícia
envolvia ternamente Elys.
A moça corou ainda mais, baixando um pouco os cílios castanhos, que lhe tremiam os bordos das
pálpebras...
Ogier prosseguiu, num tom de leve e meigo gracejo:
— É interessante esse título de cônega, usado por uma moça como a senhora. . . Felizmente, isso nada
significa; pois, sem dúvida, dentro em breve, há de deixá-lo para casar-se...
De novo os olhos violetas se fitaram nele num misto de surpresa e comoção profunda.
— Para casar... Mas eu nunca me casarei!...
— Oh! isso é fácil de dizer... — tornou Ogier, com um risinho brejeiro. Sente-se então de tal modo
resolvida a seguir o exemplo de suas tias?
Elys não respondeu. Tomara-a de repente um mal-estar, uma comoção muito forte, ao quente olhar desse
rapaz que lhe falava de um futuro, que nunca até ali ninguém lhe havia feito imaginar.
Com um gesto maquinal, Elys pôs a mão, um tanto trêmula, sobre a cabeça de Liau que se aproximara.
Ogier sorriu sem insistir. Não lhe passou despercebida a perturbação da moça, o que lhe revelava que a
freirinha entrevia agora horizontes novos, que lhe não desagradavam talvez...
Depois de um curto silêncio, prosseguiu com uma graça encantadora.
— Eu me sentiria muito feliz se a senhorinha escolhesse entre estas músicas, como recordação da sua
velha amiga, as que mais lhe agradassem. Eu lhas mandaria levar a Prexeuil, com permissão da senhora
sua tia...
— Oh! muito obrigada, senhor conde!... Mas eu não quisera que... Creio que minha tia...
Sentia-se cada vez mais vexada a linda freirinha — e tão perturbada, tão deliciosamente comovida!
— Pois bem, irá perguntar à senhora de Prexeuil se o permite, não é assim?
— Sim, sim, isso mesmo...
Deu alguns passos para a porta, passeando demoradamente o olhar por essa sala, que lhe era tão familiar.
Depois, parou; os olhos súbito marejados se dirigiram para o vão da janela, onde ainda se conservavam a
grande poltrona estofada, a mesinha de trabalho de pau-rosa, a cestinha atulhada de novelos de lã branca
e cinzenta.
— Está pensando na sua pobre amiga? perguntou Ogier.
— Sim... Quantas vezes não me sentei aí aos pés dela! Conversavamos e ela me dava então os seus
conselhos — bons e ternos conselhos, que eu nunca mais hei de esquecer. Depois, lia-lhe algumas coisas
dos seus livros prediletos, que ela me ensinou a querer.
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— Que livros eram esses ?
— Obras, sobretudo religiosas, principalmente os livros dos padres da Igreja, traduzidos ou
comentados, excertos dos nossos autores clássicos... Racine, sobre todos, era o seu autor predileto; dele,
porém, nunca me deu a ler senão Ester e Atalia, bem como algumas passagens de Andrômaca.
— Sim, compreendo... disse Ogier com leve sorriso irónico. Racine, de parte essas peças, que acaba de
citar, não é autor que se dê a ler às freirinhas de dezoito anos... Poderia fazer-lhes nascer idéias que elas
não devem ter... pelo menos até nova ordem...
De novo, baixou Elys as pálpebras, ao mesmo tempo que pelo semblante encantador lhe passava um
frémito de comoção. Oh! como se fitavam nela esses olhos... esses belos olhos castanhos! Os lábios,
esses ainda tinham um não sei quê de ironia... mas os olhos!... Que coisas novas e maravilhosas lhe
diziam eles!...
Deu outra vez um passo para a porta... Ogier, porém, como se não desse por isso, continuou, com a
mesma voz cálida e uns suaves de gracejo:
— Sabe a que eu a comparo?... A um encantador objeto antigo, perdido neste nosso mundo de agora
todo arte-nova, cujo objeto, sendo descoberto por um sagaz colecionador, este dele logo se apodera,
antes que outros o descubram...
Elys, erguendo as páipebrasz irradiou um olhar de inquieta supresa, de trêmula comoção, o qual foi
encontrar-se com o de Ogier, ardentemente apaixonado.
— ... Esse feliz possuidor faria de tal objeto o mais precioso ornamento de sua casa, a mais cara
preocupação de sua vida, porquanto à sua alma até então indiferente, se deparou o que secretamente
ansiava quase sem o cuidar...
Inclinando-se, tomou-lhe Ogier a ardente mãozinha, acrescentando:
— Já compreendeu que a amo, não é verdade, Elys? Irei, sem perda de tempo, pedir à senhora de
Prexeuil esta linda mãozinha; antes, porém, desejo saber a resposta que posso esperar de sua parte,
Elys... e se lhe não sou de todo indiferente...
Antes que Elys tivesse podido articular qualquer palavra, já ele lhe havia lido nos olhos o amor ingénuo,
a irradiante alegria, a trêmula hesitação daquela alma inocente, a quem se acabava de patentear uma face
da vida, que até então se lhe ocultara.
— Não sei... Nunca pensei nisso... balbuciou a moça, com um tremorzinho na voz.
Ogier sorriu, profundamente comovido, porquanto essa cândida criança fazia despertar nele sentimentos
de um amor delicado e terno, de que ele mesmo não se acreditava capaz.
— Pois bem, pense agora... Quer? Mas diga-me, ao menos, se lhe não desagrado.
— Oh! certo que não...
O olhar porém, respondia mais eloquentemente que os lábios tímidos.
— Aceitaria então o tornar-se minha esposa, uma vez que a senhora sua tia nisso conviesse?
— Cumpre refletir. . . Eu não lhe posso dizer...
— Não... não é verdade?...
— Oh! certamente!...
E um sorriso iluminou-lhe os lábios finamente desenhados, de um lindo e palpitante carmim — sorriso
discreto, que dava a perceber suficientemente ao senhor de Chancenay qual seria a resposta esperada.
— Posso então, esta tarde, ir falar à senhora de Prexeuil?
— Sim, senhor conde.
E, num movimento rápido, para evadir-se ao perturbador império desses olhos ternamente apaixonados,
dirigiu-se Elys apressadamente à porta, dizendo:
— Agora, não posso demorar mais. Minha tia Bathilde está à minha espera...
Ogier, porém, reteve-a com um gesto...
— Suplico-lhe ainda um instante... Quer ter a bondade de nada dizer a respeito à sua tia, antes que eu
lhe tenha falado?
Estampou-se na expressiva fisionomia de Elys uma surpresa um tanto inquieta.
— Não dizer nada à minha tia?... Por quê?
— Porque tenho motivos para crer que a senhora de Prexeuil alimenta mui fortes prevenções contra o
casamento. Advertida do móvel de minha visita, talvez se recuse a receber-me; ao passo que,
apresentando-me inesperadamente, saberei pleitear a minha causa, ela terá de ouvir as minhas razões!
Uma sombra de ansiedade nublou o olhar de Elys...
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— Sim — disse a moça, pensativamente, — é verdade que minha tia sempre me deixou entrever que eu
era destinada à vida de celibato, tal como a tia Bathilde e ela mesma... Nunca se falou de outra coisa...
— E sempre se lhe apresentava ensejo, dizia mal dos homens, não é verdade?
Sorriu-se Elys, num enleio encantador:
— É talvez como o senhor diz... Eu, porém... sempre pensei que ela exagerava um pouco...
Depois, voltando rápido o rosto ruborizado, e desviando os olhos, que denotavam a discreta confissão do
seu amor acrescentou:
— Eu só falarei, à noite, à minha tia. depois da sua visita... Todavia, devo dizer-lhe que falei com o
senhor esta manhã.
— Sim, não poderia proceder de outra maneira. .. Mas, neste caso, ela a interrogará talvez, e de modo
tal que se verá obrigada a lhe relatar toda esta nossa conversa ... Olhe, diga-lhe somente que estou aqui,
que me falou acerca desse volume, e que eu lhe prometi ir em pessoa levar-lho a Prexeuil. Se for preciso,
nós lhe explicaremos depois, mais tarde, as razões deste silêncio, e estou certo de que ela perdoará.
— Oh! sim, que ela é muito boa, a tia Antonieta, sob aquelas suas frias aparências... Muito boa, muito
delicada. Eu lhe sou muito reconhecida por me ter educado e cercado de cuidados e carinhos!
— Mas quer-me parecer que a menina se abria mais com a senhora de Valheuil do que com ela, não é
verdade?
— Sim, é verdade... e também com a tia Bathilde. Parece que a tia Antonieta sofreu muito, e, por isso,
se tornou um pouco rígida...
«Serve-se da mesma expressão do cura», disse entre si Ogier.
— Mas é muito boa — refletiu Elys, em tom convicto — muito boa, como o senhor há de ver.
— Então, até logo?... Tornarei a vê-la talvez em Prexeuil, logo mais à tarde?
— Talvez... Até logo, senhor conde.
Estendeu a branca mãozinha ao senhor de Chancenay. Este, tomando-a, curvou-se respeitoso, depondo
meigamente os lábios nos dedinhos afusados, trémulos, ardentes.
Elys retirou-a logo, num gesto amedrontado. E, rápida, saiu da sala, deixando a casa, levando consigo a
visão daqueles olhos sorridentes e amorosos, belos olhos de feiticeiro, que acabavam de se fitar nos dela
com tanta meiguice e ternura.
Tornando ao salão, deu Ogier alguns passos pelo aposento ... Sentia-se dominado de uma profunda e
ardente comoção. Em verdade, já amava extremamente essa querida Elys! Só em imaginar que a tia
poderia levantar obstáculos... talvez recusar-se obstinadamente, sacudia-o um arrepio de cólera e terror. .
.
Mas, não! Haviam de conseguir, ambos, dobrar aos seus desejos essa cônega autoritária, hipnotizada
pela desgraça da irmã e da sobrinha? E feito isto, ele lhe provaria que nem todas as mulheres são esposas
mártires... Sim, porque estava disposto a amar fidelissimamente essa deliciosa Elys de olhos cor-de-
violeta, de alma pura e ideal. Ao lado dela, na atmosfera dessa delicada ternura e fina inteligência, que
ele adivinhava sob o recato da criança, esqueceria de bom grado o seu ceticismo, sem que lhe deixasse
saudades ,a sua passada existência.
Ainda havia pouco, ao entrarem os dois naquela sala, não tivera a intenção de lhe falar já dos
sentimentos que ela lhe inspirava... Mas as palavras lhe haviam subido aos lábios, irresistivelmente, ante
essa encantadora beleza, essa graça virginal de flor imaculada...
Parando no limiar de uma das portas-janelas, que se achavam abertas, olhou maquinalmente em frente,
para o jardim inundado de sol. Deitado numa das alamedas, espiava Liau com mansidão um gato branco,
que arriçava o dorso2 a alguns passos de distância. De volta do pomar, Rosália e Melita traziam, cada
qual a sua, uma giga cheia de pêras. Ao passarem por ele, disse-lhe a velha criada:
— Há muitas este ano, senhor conde... Oh! gostava tanto delas a pobre patroa!...
E, suspirando, entrou em casa.
Ogier, interrompido assim no seu sonhar, reatou-o logo. Nesse momento, em que se preparava para
fundar um lar, surgiam-lhe diante as imagens de seus pais, falecidos na flor da idade. E recordava-lhes a
triste história: a jovem senhora de Chancenay, morta num acidente de carruagem, João de Chancenay,
inconsolável, pois se amavam loucamente, definhando de dor, indo, alguns anos depois, encontrar-se
com ela na sepultura de Sarjac... Ele, Ogier, órfão, educado pelos avós. . .
Lembrava-se do pai, oficial de caçadores, semblante austero e meigo, sempre melancólico depois da
viuvez. Da mãe, não se recordava; mas possuía-lhe o retrato, absolutamente fiel, no dizer dos que
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haviam conhecido Anabel de Chancenay: feições de traços delicados, boca cismadora, tudo iluminado
por um olhar profundo e límpido, denotando uma alma enérgica e delicada, alma que sustivera, guiara, e
arrastara para o bem João de Chancenay, o jovem esposo dessa distintíssima senhora.
E Ogier, mais de uma vez, pensara consigo mesmo que, educado por esse pai e essa mãe, conheceria
hoje, sem dúvida, a satisfação de levar uma vida útil, cumprindo os seus deveres, sendo enfim outra
coisa mais que uma simples personagem em evidência na alta roda, e um elegante esportista, cujas
cavalariças, a matilha, o iate, nada deixavam a desejar.
Comumente não se demorava em tais pensamentos. Nessa manhã, porém, estes se lhe impunham ao
espírito com mais força e persistência. Cravava-se no coração um pesar, — pesar de não ser agora esse
homem, que dele teria feito a educação materna, destarte, mais digno da moça intimorata, que ele
amava. Imaginava então esse Ogier, oficial ccmo o pai, sério e grave, consciente de seus deveres,
nobremente submisso a uma disciplina moral. Esse não teria, de certo, a desagradável impressão de, por
momentos, se desprezar um pouco aos próprios olhos.
O rapaz deu de ombros, contrariado. Dava-se sempre pressa de afastar de si estas intempestivas
icensuras de uma consciência, que a sociedade, a vida mundana de prazeres não tinha podido aniquilar...
Sim, ele se prometia a si mesmo que essa encantadora Elys havia de ser feliz, muito feliz. Que lhe
importava, pois, o resto... todo esse passado, a que agora dava as costas com absoluta indiferença ?
E pensava: «Certamente, minha mãe a amaria também ... e aplaudiria com prazer esta minha escolha...»
E o coração descompassou-se-lhe num pulsar mais apressado, ao recordar as lindas faces ruborizadas, os
olhos cheios de luz, nos quais havia surpreendido tão doces promessas de amor...

CAPÍTULO VIII

Elys apressava o passo a fim de chegar quanto antes no casebre do velho campônio, aonde fora em
piedosa visita dona Bathilde. Sentia-se a moça um tanto aturdida, perguntando por vezes a si mesma se
não estaria a sonhar... se, realmente...
E estremecia a um tempo de alegria e temor... mas, sobretudo, de alegria. Ao recordar-se dos olhares,
das palavras de Ogier, sentia-se tão feliz... tão feliz, que quase a afogava tão grande felicidade.
Ah! ele desejava que ela se tornasse sua esposa! Dissera-lhe que a amava! Esses olhos ternos e ardentes,
como lhe haviam falado, eles também, nesse instante!... corno se sentia apaixonada deles!... E tão
depressa!
Já agora o seu coração pertencia todo a esse estrangeiro, muito embora compreendesse, instintivamente,
que, doravante, tinha Ogier de Chancenay o poder de fazê-la sofrer, ou torná-la a mais feliz das
mulheres! Sim, esse homem, que ela apenas conhecia, e de quem, em suma, nada sabia...
Nesse ponto começou a sentir tal ou qual inquietação. Não teria andado mal em dar-lhe ouvidos?... Não
deveria, logo, confidenciar tudo isso às suas tias?
Não! À tia Antonieta, não!. .. Bem se recordava Elys da animosidade que esta havia manifestado a
respeito do novo proprietário do «Prado-Bento». Aliás, a moça já lhe havia percebido, mais de uma vez,
os preconceitos para com os representantes do sexo masculino. Se, prevenida, ola não quisesse receber
o senhor de Chancenay?....
Todavia, a este assistia o direito de explicar-se, pleitear a sua causa... Depois do quê, sim, a senhora de
Prexeuil decidiria...
à idéia de que a tia poderia recusar o seu consentimento, ou levantar algum obstáculo, sentiu Elys um
demorado calafrio de terror...
Chegou afinal à choupana, onde a senhora Bathilde se esforçava por convencer o seu protegido, o qual
se recusava obstinadamente a ser internado num hospital. Desejava, dizia ele, morrer ali em sua casa.
— Mas, meu pobre Mateus, você aqui não pode ser tratado convenientemente! Fica todo o dia ao
desamparo, sozinho, porque seus filhos vão para o trabalho, e, demais, eles se mostram muito carinhosos
para com você...
— Não importa, minha senhora. Eu quero morrer aqui, como a minha defunta.
Elys, por sua vez, nada conseguiu. Cansadas de tão grande teimosia, despediram-se do pobre homem as
duas senhoras, fazendo-se de volta ao castelo.
Caminharam, primeiramente, em silêncio... Depois, erguendo os olhos para a sobrinha, perguntou dona
Bathilde:
27
— Viste Rosália?
— Não, titia. .. Fui recebida pelo senhor de Chancenay...
E um ardente rubor tingiu as faces de Elys,
— O senhor de Chancenay?... Como?... repetiu, surpresa, a senhora de Valromée.
— Sim, chegou ontem, ao que parece, sem prevenir ninguém.
— Ah!... E foi ele então quem te recebeu?... Foi a ele que pediste a autorização para trazer o caderno?...
Mas, não! Não trazes o caderno?...
— Não, titia; ele mesmo o levará a Prexeuil... E ao mesmo tempo...
A moça estacou na estrada, inclinando-se para a senhora ae Valromée, que encarava, pasmada, aquelas
feições comovidas, aqueles olhos brilhantes...
— Oh! tia Bathude! Se soubesse o que ele me disse... o que ele me pediu!...
Nos olhos tranquilos da cônega fuzilou um clarão de puro assombramento.
— O que ele te disse?! Que te disse ele minha filha?
— Que desejava casar comigo... Que irá hoje à tarde pedir a minha mão à tia Antonieta...
— Ele vai pedir a tua mão?. ..
E um verdadeiro pasmo descompôs a fisionomia de dona Bathilde.
— À tia Antonieta?!... E tu não lhe disseste que... seria... inútil?
Apertou-se, inquieto, o coração de Elys.
— Inútil?. .. Por que, titia?
— Mas... minha filha... não vês que a tia Antonieta julga preferível, para tua felicidade, que não penses
em casamento ?
Com um gesto, a moça protestou energicamente:
— Para a minha felicidade? Pelo contrário, eu creio que...
Sobressaltou-se a senhora de Valromée à vista do frêmito que sacudiu o lindo semblante ruborizado da
sobrinha e do brilho ardente que lhe chispava nos belos olhos aveludados.
Então, enfiando o braço no de Elys, perguntou com hesitante meiguice, algo ansiosa:
— E tu quererias casar?... Gostas desse moço?
— Sim, titia...sim... Creio...creio que seria muito feliz.
— Minha filha, minha querida filha! receio que a tia Antonieta...
— Oh! exclamou Elys, juntando as mãos. Não me diga que ela recusará!... Sim, não me diga isso, tia
Bathilde!... Você — não é verdade? — você me compreende! Você não diria, logo, «não», por simples
preconceito, não é assim?
— Oh! de certo, filhinha! Refletiria... Colheria informações... Verdade é que o casamento... faz que
muitas de nós soframos cruelmente...
— Quer me parecer, titia, que sofremos sempre, qualquer que seja o estado em que nos vejamos...
— Sim, sim... Demais, nós vimos a este mundo para sofrer... Uns mais, outros menos, mas todos
sofremos... Somente lá no céu é que havemos de gozar...
Sacudiu a cabeça, murmurando em seguida:
— Mas a tia Antonieta se interessa pela vida daquelas a quem ama... Sim, porque outras já passaram por
duríssimas provações, que acabaram matando-as...
Neste ponto, continuaram o caminho as duas senhoras, subindo com passo igual a íngreme estrada que
levava a Prexeuil. Lá embaixo, pela encosta, estendia-se uma luz clara, banhando as árvores, que o
outono já começava a vestir de suntuosa ramagem. No flanco das cumeadas a bruma matinal acabava de
desaparecer num halo de ouro, pondo a descoberto a folhagem variegada das matas de um amarelo-
pálido, cor-de-rosa e cor-de-laranja muito vivo.
Sentia-se Elys cada vez mais inquieta, vendo perigar a sua esperança, toda a sua alegria... Dona Bathilde
parecia acreditar que nada demoveria das suas idéias a tia Antonieta... Era, todavia, impossível que esta
recusasse, por simples animosidade, aceder ao casamento da sobrinha-segunda, sem ao menos desejar
saber o que valia o
pretendente ...
Ao cabo de longo silêncio, disse a moça:
— Você não dirá nada à tia do que eu lhe contei, não é assim, tia Bathilde? O senhor de Chancenay
deve vir, como lhe disse, esta tarde, e não convém que ela se faça invisível, para não recebê-lo.
— Sim, compreendo... E, com certeza, é o que sucederia...
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Com os lábios trémulos, murmurou Elys:
— Oh! tia Bathilde, tia Bathilde, você me está fazendo medo!...
A senhora de Valromée soltou um fundo suspiro ao mesmo tempo que lançava à sobrinha um olhar de
compassiva ternura.
Em seguida, após curto silêncio, observou:
— Mas, querida, tu apenas conheces esse homem... não sabes absolutamente quem ele é... Tem, de
certo, muito boa aparência, é muito gentil... mas, na vida, isso não basta...
— De certo!... confirmou Elys. Mas eu só peço à tia Antonieta que não diga «não», que espere, a fim de
que o conheçamos melhor... Parece-me que isto é muito razoável...
— De fato. Demais, és uma moça de muito bom pensar, a despeito de tua pouca idadet para que não
reflitas tu mesma acerca de tão grave eventualidade... Mas o senhor de Chancenay não procedeu bem,
em te falando logo à primeira vista. Não, não andou bem... E certamente, se a tia Antonieta o sabe...
Elys corou de novo; mas o seu belo olhar não se desviou do da cônega, que encarou a sobrinha.
— Sim, teria talvez feito melhor se... Me, porém, queria saber a minha opinião, antes de tentar esse
primeiro passo junto da titia...
— E que lhe respondeste?
— Que eu não podia decidir já... mas que iria refletir...
Soltou dona Bathilde outro suspiro.
Mais bem instruída que a sobrinha acerca das razões de dona Antonieta, bem sabia ela sobre qual
decisão iria embater o coração de Elys. Já, de antemão, sofria do golpe próximo que aguardava a jovem
— tanto mais quanto, de si mesma, havia conhecido coisa semelhante, quando, moça também e graciosa,
de vinte anos, sonhadora, algo romântica, se apaixonara de um gentil vizinho, que a senhora de Prexeuil
logo afastara, declarando que já lhe bastava ter visto morrer de desgosto duas damas de Valromée.
Ao chegarem ao castelo, foram dona Bathilde e Elys encontrar dona Antonieta ocupada em verificar as
contas que lhe prestava o seu rendeiro. Declarava este que, havendo o ano transcorrido muito mal, não
lhe podia pagar senão dois terços da importância devida... De tal colóquio, saíra a senhora de Prexeuil de
rosto mal humorado, confidenciando, durante o almoço, os seus cuidados às sobrinhas.
— Receio que esse Bardilasse não me esteja a sair um patifório... Sem embargo do que diz, ele sempre
há de ter feito os seus negociozinhos... Não sei como havemos de sair disso, com esta diminuição de
rendas, pois a nossa receita orça com a despesa... E devemos ainda os consertos, que tive de mandar
fazer na ala esquerda, para que esta não desabasse completamente.
Tais cuidados preocuparam tanto a cônega que esta nem pensou de informar-se se Elys havia passado
pelo «Prado-Bento», a reaver o caderno de música. Com o que muito se alegrou a moça, pois receava
demonstrar a sua comoção ao ter de lhe falar do senhor de Chancenay.
Depois do almoço, pôs-se a senhora de Prexeuil a rever as contas em companhia de dona Bathilde,
enquanto Elys, tomando de um trabalho qualquer, subiu para o seu quarto, onde se sentou junto à janela,
para ver chegar Ogier de Chancenay.
Oh! Como se sentia a freirinha ansiosa e comovida! Quantos pensamentos, desejos e temores não lhe
tumultuavam revoltos no espírito... Ela, tão diligente, tão laboriosa, deixara a todo momento cair sobre
os joelhos o trabalho começado, e punha-se a sonhar, olhos vagos no espaço, perturbada, o coração
palpitante...
Soavam-lhe ainda nos ouvidos as palavras ditas por essa voz de tão cálidas inflexões: «Já compreendeu
que a amo, não é assim, Elys?» Revia ainda esse olhar iluminado, por uma chama muito viva...
Amava-a esse estrangeiro, esse primo, jovem e encantador, da boa senhora de Valheuil... O amor... Até
ali, nunca ouvira Elys falar em semelhante coisa! Agora, porém, que ele se lhe revelara súbito, achava-o
delicioso, inebriante...
Fora ele, de certo, que unira outrora Elys de Prexeuil e Luis-Benigno de Varzon, marquês de
Sommelles... Agora, vinha ele ao encontro dela ali, naquela solidão... vinha trazer-lhe... alegria, sim, mas
também, e ao mesmo tempo, um não sei quê de comoção, de temor...
Um raio de sol, descendo até a moça, veio beijar-lhe os cabelos sedosos, o rosto pensativo e palpitante, a
fronte de uma delicada alvura de rosa nacarada. De olhos baixos, pálpebras descidas, contemplava a
freirinha os seus dedos afusados, os seus lindos dedos de patrícia; e o rubor lhe carminava as faces,
fazendo-a vibrar de comoção, ao recor-dar-se do ardente contacto dos lábios sanguíneos, que se haviam
pousado um instante sobre eles...
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Levantando os olhos, viu, de repente, ao longe, caminhando pela alameda, a esbelta silhueta de Ogier. E
o coração entrou a bater-lhe descompassado, ao mesmo tempo que, tomada de angústia, dizia para si
mesma: «Queira Deus que o ouça minha tia!... Que ela não diga «não» sem querer primeiro refletir!»

CAPÍTULO IX

Via-se agora o senhor de Chancenay face a face com a velha cônega, visivelmente surpreendida com
semelhante reaparição. Depondo o caderno de música sobre a mesa, explicou então Ogier:
— Cheguei ontem à noite, tendo vindo aqui a negócios ... Aqui está o volume pertencente à senhorinha
de Valromée...
— Oh! senhor, não era preciso dar-se a esse incômodo ... Eu não sabia que minha sobrinha tinha passado
pelo «Prado-JBento»...
— Pois passou, minha senhora, e eu tive até o prazer de cumprimentá-la. Queria ela mesma trazê-lo mas
eu disse-lhe que o traria comigo, pois tinha de subir hoje a Prexeuil... a fim de fazer-lhe um pedido...
— Um pedido? repetiu dona Antonieta, já desconfiada.
Ogier prosseguiu no mesmo tom tranquilo, posto que, no íntimo, se sentisse vivamente comovido:
— Sim, minha senhora, um pedido. É que eu não pude ver a senhorinha de Valromée sem experimentar
por ela a maior admiração, e amá-la no mesmo instante. É pois a mão dela que eu venho solicitar... Fora,
evidentemente, mais correto que de tal pedido se encarregasse meu avô. Mas, como sabe, sou órfão
completamente livre...
Atalhou-o com um gesto breve a senhora de Prexeuil, cujas feições se descompunham e se
congestionavam um pouco, ao mesmo tempo que os olhos, duros e brilhantes, se fitavam no senhor de
Chancenay...
— Vem então pedir-me a mão de Elys de Valromée?... Depois de tê-la visto?... Quantas vezes?...
Duas?... Três?...
— Não se faz necessário vê-la muitas vezes, para sabermos o quanto ela vale, minha senhora...
A cônega deu uma risadinha surda.
— Sim! Isso apenas lhe bastou, para verificar que ela seria uma linda vítima a torturar, tendo, além
disso, bastante inexperiência, para se deixar trair sem protestos, pelo menos durante algum tempo...
— Senhora!
Ela envolveu-o num olhar de desprezo.
— Julga pois que não adivinho quem o senhor é?... Rico, ocioso, gentil cavalheiro, qual tem sido até
hoje a sua vida? Poderá dizer-mo?
Pasmado um instante ante a violência do assalto, o senhor de Chancenay, que se não deixava facilmente
desarmar, respondeu, contendo a custo a impaciência:
— De feito, minha senhora, eu não pretendo achar-me isento de qualquer censura. Mas poderá
informar-se a meu respeito, e verá que lhe hão de dizer que Ogier de Chancenay procedeu sempre de
acordo com as leis da honra...
— Sim, sim... Como meu cunhado, Aymard de Valromée, como meu sobrinho Jacques... cujas pobres
esposas se finaram de dor, abandonadas, depois de terem sofrido todos os insultos! Eis aqui, em verdade,
magníficas precedentes a urgirem comigo para que eu lhe conceda a mão de minha sobrinha, senhor de
Chancenay!
Empertigou-se agressiva, a velha dama, as feições congestas por mal contida indignação.
— Mas, minha senhora — objetou Ogier, com forçada serenidade — não se compõe o mundo apenas de
lares infelizes, como esses! A união, por exemplo, de meu pai e minha mãe foi a mais perfeita possível.
E, pelo que me diz respeito, tenho a certeza de que hei de fazer a felicidade da senhorinha de Valromée,
e poupar-lhe qualquer surpresa desagradável, porque a amo mui sincera e profundamente.
— «Eles» também diziam a mesma coisa antes de se casarem... Não, senhor! Eu sei muito bem o que
isso é!... Tenho a experiência, uma dura experiência pessoal. Eis porque não quero que Elys afronte as
eventualidades dessa terrível aventura, que é o casamento. Sim, há lares felizes, não serei eu quem o
negue; mas o fato é que, nestas últimas gerações, foi muito mal sucedida a nossa família no tocante a
matrimónios... Vi sofrer muito minha mãe, eu mesma sofri muito... Depois, minha irmã; depois a mulher
de meu sobrinho... Não, senhor! Basta! Quero preservar a minha Elys de semelhante sorte, como já o fiz
com minha sobrinha Bathilde. Se ela seguir os meus conselhos, não se há de casar, em todo caso, eu não
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darei nunca esta criança inocente ao homem que o senhor deve ser...
Ogier pôs-se de pé, dizendo-lhe num tom, que denotava a cólera que lhe rugia no peito:
— Espero, contudo, que a senhora reflita, antes de assentar de vez essa sua decisão... Aliás, há de
também ser ouvida a senhorinha de Valromée, porque é do futuro dela que se trata, o qual a senhora quer
arriscar assim...
— Assumo toda a responsabilidade. Pode perder toda esperança... Elys é uma moça bem comportada e
de muito bom senso; há de compreender, de certo, as razões desta minha recusa, caso eu julgue
necessário comunicar-lhe esta sua tentativa. Mas, diga-me uma coisa, já lhe havia falado sobre isto?
— Sim, minha senhora; dei a conhecer esta manhã à senhorinha Elys — mas tranquilize-se, fi-lo muito
corretamente! — os sentimentos que ela me inspira, e o meu ardente desejo de fazê-la minha esposa.
Fuzilou no olhar da cônega um clarão de contrariedade.
— Ah! Realmente!... E ela nada me disse... Buscou então o senhor aliciá-la, tomando de assalto esse
pobre coração, para fazer dele, ao pé de mim, um seu aliado, não é verdade? Pois bem senhor, hão de lhe
sair errados os cálculos! Não espere que hei de tornar atrás nesta minha recusa, qualquer que seja a
impressão que o senhor haja produzido em minha sobrinha.
— Neste caso, só me resta retirar-me, pedindo-lhe que me releve o ter vindo importuná-la.
E despediu-se, sempre muito cortês, posto que a alma lhe fervesse de raiva.
Quando ele desapareceu, levantou-se a senhora de Prexeuil, que ficara um instante imóvel, o rosto
contraído de ansiedade.
Depois, em passos pesados, saiu da sala, subiu a escadaria de pedra, e entrou no quarto de Elys.
A moça, que estava pensativa, as mãos cruzadas sobre o trabalho, teve um ligeiro sobressalto, e o rubor
tingiu-lhe as faces.
A senhora de Prexeuil, aproximando-se, tomou de uma cadeira, sentando-se ao lado da sobrinha. Fitou o
olhar nos olhos comovidos da moça, os quais, contudo, não se baixaram.
— Elys, por que me ocultaste que havias estado esta manhã com o senhor de Chancenay?
— Eu esperava dizer-lhe ainda, titia... Aliás, tia Bathilde já o sabia, por lho haver dito logo eu mesma...
como também lhe disse... o que «ele» me pedira... isto é, que não falasse à titia antes da visita que
tencionava fazer-lhe...
— Sim, por que receava que eu o não recebesse, não é verdade?... E tu? Fizeste o que ele te pediu, esse
desconhecido, que te soprou com certeza essas palavras douradas, que «eles» sabem tão bem
prodigalizar, para deitar a perder os pobres cérebros das mulheres... Foste culpada de dissimulação para
com a tua velha tia, que te educou com todo o carinho, e quer afastar de ti essa desgraça...
— Titia!
E, curvando-se, apertou a moça a mão da cônega:
— Perdoe-me! Eu não tinha a intenção de lhe ofender, tia Antonieta!
— Bem sei... mas cedeste um instante às sugestões do senhor de Chancenay. Creio que, felizmente,
tudo agora está acabado. Não falaremos mais sobre isto...
Neste ponto, Elys se levantou, ao mesmo tempo que empalidecia.
— Quê?. . . Então. . . a titia. . . recusou-lhe o pedido?...
Tremeram ligeiramente as faces da velha dama.
— De certo!... Era a única resposta que eu tinha para dar-lhe.
—. Por quê?
Animavam-se os olhos de Elys de uma ardente expressão de angústia, enquanto a voz lhe soava quase
imperativa.
Estremeceu de novo dona Antonieta, dizendo asperamente :
— Ah! Começavas a te deixar prender no laço, como ingênua e inocente criaturai que és? Só porque é
moço, de fisionomia simpática, porque sabe lisonjear, mentir com bonitas palavras, eis transtornado para
logo o teu juízo! Ah! minha filha! Felizmente, aqui estou eu, para velar por ti, para dizer-te: «Urge que o
esqueças...»
— Por quê ? repetiu Elys, com os lábios trémulos.
— Porque esse homem não é digno de ti. — E como sabe a titia?
— Eu tinha essa impressão... E ele mesmo acaba de, implicitamente, reconhecê-lo.
Elys empalideceu ainda mais, abaixando lentamente as pálpebras sobre os olhos, pelos quais passava um
clarão de sofrimento.
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Seguiu-se um longo silêncio... Num gesto autoritário, passou a senhora de Prexeuil os dedos nodosos de
reumatismo por sobre a mão gelada da sobrinha.
— Ouve, Elys... Eu só desejava tratar deste assunto daqui a dois ou três anos; mas, já que se fez mister,
falemos hoje mesmo.
Elys não se moveu, nem levantou as pálpebras.. .
— Eu já estou velha — prosseguiu a cônega — posso, de um momento para outro, ser chamada à
presença do Senhor. Ver-te-ás então sozinha com tua tia Bathilde. Ela, porém, é fraca, incapaz de te
guiar. Ora, eu quisera deixar-te a salvo das surpresas de tua fantasia, dos arrebatamentos de teu
coração... Elys, tua mãe, tua avó tiveram com o casamento as mais dolorosas das existências. Eu as vi
sofrer tanto, que jurei a mim mesma premunir-te contra semelhante sorte. Eis por que, minha filha, como
provavelmente já não existirei daqui a alguns anos, eis por que te peço o seguinte: promete-me que hás
de repelir sempre todos os pedidos de casamento que te forem feitos depois de minha morte...
Conservando sempre os olhos baixos, disse Elys em voz quase extinta:
— Ê muito grave o que exige de mim, minha tia.
— Eu não exijo; peço-te somente consideres que sempre tive em vista o poupar-te a sofrimentos...
Viverás aqui com tua tia Bathilde, continuarás com as tuas obras de caridade, de que já te ocupas; e,
quando te vires só no mundo, te recolherás como pensionista a um convento, caso não queiras continuar
em Prexeuil...
Elys, imóvel, pareceu meditar um instante. Depois, erguendo os olhos para dona Antonieta, disse
tranquilamente:
— Prometo-lhe, titia2 cumprir o que me pede.
E havia na sua voz, nos seus olhos, uma como indiferença dolorosa, que comoveu a cônega. Fugira-lhe
das belas faces o sangue, e os próprios lábios pareciam lívidos.
Inclinando-se, dona Antonieta beijou a sobrinha na testa.
— És de bom pensar, minha filha. Bem sabes que o que eu desejo é que te aproveite a minha dura
experiência. .. Vamos, esquece quanto antes este episódio, refreia a tua imaginação de jovem ainda
ignorante da vida, das suas desilusões, das suas torpezas,
— Sim, minha tia, tentarei esquecer... murmurou Elys, com a mesma serenidade.
Retirou-se a cônega do aposento. Vincava-lhe a fronte uma ruga de contrariedade. Essa criança louca era
bem capaz de sofrer por algum tempo... Ah! maldito amor... Era-lhe forçoso vir buscar, até naquela
solidão, a freirinha de Valromée, para lhe dar a provar o seu maléfico poder! ... Felizmente, ele ainda
não tivera tempo de fazer grandes estragos no coração da moça, e pois, a pouco e pouco, se lhe iria
apagando da memória a lembrança encantadora do belo Chancenay...
No seu quarto, Elys ainda permanecia imóvel, mãos cruzadas sobre os joelhos, olhando maquinalmente
o retrato da mãe, colocado diante dela: delicado semblante de olhos meigos e sorriso alegre, pois a
fotografia representava a viscondessa de Valromée, muito moça ainda, pouco depois do casamento.
De uma cesta saiu um gato que veio manso e manso até a janelax saltando-lhe ao parapeito, a miar a fim
de atrair a atenção da jovem. Elys, porém, não se moveu. Dizia consigo mesma: «Por que fiz eu tal
promessa à minha tia?... Uma vez que não nos podemos casar, ele...»
Percorreu-lhe os membros um arrepio de dor, e pelas faces deslizaram-lhe duas lágrimas, seguidas logo
de outras e outras, todas ardentes e grossas, vindas daquele coração alanceado, que já se havia dado
inteiro, com todo o cândido entusiasmo de sua inocência de menina e moça...

CAPÍTULO X

Durante a sua curta entrevista com a cônega, havia o senhor de Chancenay apelado para toda a sua
educação de homem de sociedade, a fim de conservar-se ícalmo e conter o seu desespero ante a vontade
rígida e assentada, que se opunha aos seus desejos. Se não discutiu mais com a velha dama, é que
adivinhou a inutilidade de tal insistência ante semelhante prevenção. Ao retirar-se de Pre-xeuil, dizia
entre si: «Jamais cederá!...» E a esta idéia, tomava-se de uma surda cólera. Então porque essa solteirona
se empedrava numa idéia fixa, ele se veria forçado a renunciar à encantadora Elys, a única mulher que
lhe havia tão fundamente tocado o coração?... Não, não podia ser! Não se confessava de modo algum
vencido, e muito se enganava a senhora de Prexeuil se acreditava que, assim derrotado, ele deixaria
agora Gouxy! Ele também tinha uma vontade que se não dobrava facilmente ante os obstáculos. Haveria
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de ver a velha cônega!
Na manhã seguinte, fez-se o senhor de Chancenay a caminho do presbitério, e teve com o cura uma
longa conversa. Por volta do meio-dia, o abade Dambry subiu até Prexeuil. Depois de uma curta troca de
palavras insignificantes, ventilou ele o assunto, que era o fim de sua visita, e sem circunlóquios, portanto
conhecia demais o caráter de dona Antonieta, para saber que, com esta senhora, de nada serviam tais
rodeios.
— Estive esta manhã com o senhor de Chancenay. Contou-me o pedido que lhe fizera e a resposta que a
senhora lhe deu.
Ensombrou-se logo a fisionomia da velha senhora.
— Ah! fez-lhe as suas confidências?... Sem dúvida, agora que se lhe falhou o golpe, prepara-se para
deixar Gouxy?...
Com um quê de severidade na voz, o padre continuou:
— A senhora exagera, permita-me que lho diga. Estou convencido de que esse rapaz se sente mui
lealmente atraído não só pela beleza, mas também pelas encantadoras virtudes da menina Elys.
A cônega deu uma das suas risadinhas.
— Sim, sim senhor cura! Também assim o creio. Uma mulher virtuosa, é tudo o que eles desejam, esses
belos senhores! Conheço isso muito bem, senhor cura! Ah! Custou-me caro o conhecê-lo!... O que,
porém, mais me admira é que se faça o senhor cura embaixador de um indivíduo que o senhor não sabe
quem seja. .. de quem deveria até desconfiar muito, a considerarmos o gênero de vida que tem levado...
— Não venho aqui como embaixador, minha senhora. O que desejo é fazer-lhe apenas algumas
observações... Será exato que deu a entender ao senhor de Chancenay que estava decidida a desviar do
matrimónio sua sobrinha-segunda, qualquer que fosse o pretendente?
— É exato, confirmou em tom firme a senhora de Prexeuil. E obtive dela a promessa de que jamais se
casaria.
— Oh! exclamou o padre, num vivo movimento de protesto. Mas a senhora não tinha o direito de
arrancar tal promessa a uma jovem inexperiente, que, por gratidão, nada lhe pode recusar!
— Não tenho o direito!?... Mas se assim procedo é para o bem dela! Eu não quero que se arrisque a
sofrer o que já sofreram outras ao redor de mim... o que sofri eu mesmo!... Sim, senhor cura! Não creia
que me conservei solteira por vocação! Oh! Não! Eu também fui noiva, eu também amei... Amei muito!
Mas o miserável, ao mesmo tempo que me fazia os mais ardentes protestos de amor, traía-me com
outras... Ao sabê-lo... recebi um golpe tão cruel que, ainda agora, à simples evocação desses momentos,
sinto que se me confrange o coração...
Calou-se, os lábios trémulos, olhar coruscante.
Contemplava-a comovido o abade Dambry.
Bem lhe queria parecer que essa mulher sofrera na vida uma grande decepção sentimental, que
repercutira profundamente naquela natureza, orgulhosa e apaixonada. Aí estava a génese dessa violenta
hostilidade contra o sexo masculino, em geral, e os rapazes solteiros, em particular.
Ao cabo de curto silêncio, continuou a cônega, esforçando-se visivelmente por falar com muita calma:
— Infelizmente, esse mui sedutor Chancenay conseguiu impressionar o cérebro de Elys... Tão somente
o cérebro, tenho a certeza, porque o coração, esse não se inflama assim tão depressa. ..
Calou-se, de novo, tomada de um ligeiro tremor. Recordava-se talvez de que, outrora, num baile, deixara
uma bela menina que lhe tomassem de assalto o coração ardente, e que, desde essa noite muito teria ela
sofrido se lhe dissessem: «Não penses mais nele... Esquece-o».
Pensativamente, replicou-lhe o cura:
— Assim também o espero, por amor dessa moça, que é ainda uma criança, para conhecer já decepção
desse gênero.
— Sim, senhor cura... Foi uma desgraça a vinda desse Chancenay! Que ele parta, agora, quanto antes!...
Que se vá daqui, e que o esqueçam!
O padre sacudiu a cabeça:
— Receio, porém, que o não esqueçam facilmente! E a senhora de Prexeuil, friamente:
— É preciso, todavia.. . Queira o senhor cura repetir ao senhor Chancenay o que já ontem lhe declarei:
não alimente nenhuma esperança, porque nunca, ainda mesmo depois de minha morte, jamais poderá
Elys ser sua esposa!
— Mas, minha senhora, não se pode admitir essa recusa sistemática!... Note bem que não lhe quero, de
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modo nenhum, aconselhar, por enquanto, o seu beneplácito a esse casamento. O senhor de Chancenay
— como aliás ele mesmo o reconheceu em conversa comigo, e confesso-o, com uma lealdade que muito
me agradou, — o senhor de Chancenay tem até agora vivido como vivem em geral a maior parte dos
rapazes, que dispõem de grande fortuna, e aos quais deita a perder a culposa condescendência dos pais.
Contudo, notei nele, ao mesmo tempo, acentuada lealdade e energia... bem como, ao que me pareceu,
certo desdém, em estado latente pela sua existência atual de mundano, de elegante ocioso. Uma mulher
como a menina de Valromée, crente convencida, alma honesta e nobilíssima, poderia talvez ser o
instrumento de transformação desse homem, muito inteligente, admiravelmente dotado sob todos os
aspectos... Ela, porém, é ainda muito criança, para semelhante missão; ele, um desconhecido, cujo
caráter deverá ser estudado e posto à prova... E aqui está o que lhe desejava dizer, minha senhora: por
que não vai adiando a sua resposta para daqui a um ano, dois anos, até, sob pretexto da pouca idade de
sua sobrinha? Entrementes, buscará a senhora informações fidedignas, e ao cabo, exigirá desse homem,
caso continue a pretender a mão da menina de Valromée, repare ele os erros do passado,
comprometendo-se, daí por diante, a levar vida mais útil, mais nobre. .. Seria isso verdadeira prova, onde
a senhora lhe aferiria o caráter sem que, mais tarde, houvesse de se censurar a si mesma de ter,
sistematicamente, prejudicado o futuro, contrariando a vocação de sua sobrinha... Secamente, atalhou-o
a senhora de Prexeuil:
— Basta, senhor cura! Não falemos mais em tal assunto, porquanto V. Rvma. não vingaria, fazer que eu
mudasse de pensar. Esse belo rapaz, ainda que se torne ermitão, não será nunca o esposo de Elys! Sim;
eu os conheço a todos, sei o que valem os seus protestos de arrependimento, de reparação, de vida bem
regrada! Assim procedeu comigo, assim procedeu com a esposa o meu sobrinho Jacques!... Oh! esses
senhores!... É quase ódio o que sinto por eles!
E empertigava-se, as feições contraídas, os olhos reluzentes de rancor feroz...
— Palavras não são essas de cristã, minha senhora! retrucou-lhe, severamente, o padre. Vejo que nada
perdoou!
A cônega, passando a mão trêmula pela testa orvalhada de suor, murmurou em voz surda:
— Parece-me que não... Ah! Asseguro-lhe, senhor cura, que tenho feito esforços para consegui-lo!...
Mas não posso!... Oh! meu Deus, quando penso... quando penso...
E, juntando as mãos engelhadas, apertava-as convulsivamente. ..
— Aliette, a minha querida Aliette, que tanto sofreu! ... E Teresa, a mulher de Jacques... «Eles»
tripudiaram sobre as ilusões delas, sobre os seus jovens corações, cheios de amor e confiança... E quer
V. Rvma, que eu consinta em que tente essa terrível aventura a minha inocente Elys?! Não, não! Nunca!
O senhor de Chancenay — nem ele, nem nenhum outro, — terá o prazer de fazer dessa alma o joguete
de sua fantasia. Quanto a isto, temos pois conversado não é assim, senhor cura? Levantou-se,
lentamente, o padre:
— Talvez reflita ainda melhor, minha senhora... O que lhe repito é que de parte a personalidade do
pretendente — eu não posso convir nessa sua recusa sistemática, nesses embargos que a senhora opõe à
vocação dessa jovem.
— Seja! Assumo inteira responsabilidade dos meus atos como já o disse ao senhor de Ghancenay. Mais
tarde, quando aos ouvidos de Elys chegarem esses ecos tristíssimos da vida, ela há de compreender que
era eu quem estava com a razão...
Vendo, por enquanto, inútil qualquer insistência de sua parte, despediu-se o abade Dambry e retirou-se.
De passagem, entrou no «Prado-Bento», para comunicar ao senhor de Chancenay o resultado da sua
missão.
Ao lhe dizer o padre que a cônega fizera a sobrinha lhe prometer que jamais se casaria, Ogier deu um
salto de pura indignação.
— Oh! Não! Isso é demais!... Mas eu buscarei modo de me avistar com Elys de Valromée, a fim de
convencê-la de que a tia não tem o direito de lhe extorquir semelhante promessa!
— Não, senhor conde, não perturbe ainda mais o coração dessa pobre moça! Vendo-se, ao mesmo
tempo, solicitada entre a inclinação pelo senhor e a afetuosa gratidão para com a tia, ela seria muito
desgraçada! Aguarde um ano, ou dois... Entrementes, faça por merecê-la... Depois, então, tentaremos,
mais uma vez, demover a senhora de Prexeuil de suas obstinadas prevenções.
— E, se, nesse intervalo, morrer a cônega?... Julgar-se-á então a senhorinha de Valromée, mais do que
nunca, obrigada à sua promessa! Não, não! Eu não posso convir num prazo tão longo, repousando em
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esperança tão frágil!... Por amor dessa moça que adoro, eu esperaria, sim... esperaria, guardando-lhe
fidelidade absoluta; mas, quisera poder esperar por outra coisa mais que a simples mudança de idéias
numa velha senhora, que pode morrer, de um dia para outro, empedrada na sua teimosia até o derradeiro
suspiro!... Sacudiu o padre a cabeça.
— Olhe, quer que lho diga com franqueza? Julgo melhor o senhor conde desistir...
Ogier fez um gesto altivo de protesto, ao mesmo tempo que o olhar fuzilou relâmpagos:
— Desistir?!... V. Rvma. não me conhece, senhor cura! Para mim, os obstáculos só têm forças para me
incitar à luta! A despeito, e sem embargos da tia há de a senhorinha de Valromée tornar-se minha
esposa.
— Que tenciona fazer?... inquiriu, vivamente, o padre. Que pretende fazer, senhor conde?...
Entreabriram-se num riso breve, algo irónico, os lábios de Ogier.
— Não sei ainda... Mas nada receie senhor cura, que eu tenho por ela o mais profundo respeito. O que
eu quisera era poder vencer a vontade inflexível dessa velha tia... Mas como?
Retirou-se o abade Dambry um tanto inquieto, pois a ardente resolução que acabara de ler no olhar do
moço lhe revelara bem o sentimento apaixonado de que Elys era objeto.
De feito, ao senhor de Chancenay as dificuldades aumentavam a força desse amor que, já agora, nele,
tudo dominava. Sem embargo do que lhe havia dito o cura, Ogier queria tornar a ver Elys, falar-lhe,
obter dela que lhe prometesse envidar esforços junto da tia, a fim de mudar as idéias desta.
Mas a dificuldade estava, em poder encontrá-la sozinha.
Durante os dias que se seguiram, espreitou-a o senhor de Chancenay, pelas cercanias de Prexeuil.
Enxergara-a, sim, algumas vezes; mas sempre acompanhada de dona Bathilde. Vira-a também na
capelinha, e notara-lhe a palidez e uma ruga de tristeza nos cantos dos lábios... Seria disso causa a
obstinação da tia? A esta idéia, sentia Ogier uma impressão de cólera. Essa teimosa cônega empedrada
no seu rancor, fazia ao mesmo tempo sofrer duas criaturas... Ele, porém, jurara a si mesmo que ela não
levaria a melhor!
Correram assim oito dias, sem que alcançasse o desejado resultado. Certo, sabendo que Ogier estava na
aldeia, deveria ter-se acautelado a senhora de Prexeuil, impedindo a sobrinha de sair sozinha.
Entretanto, escrevia ao neto a senhora de Chancenay: «Quando queres então voltar? Todos aqui o
perguntam. Maud já perdeu toda alegria...» E a própria Maud dizia numa carta ao primo: «Sarjac, sem ti,
parece-me horrivelmente triste».
A tais leituras, dava de ombros Ogier, rasgando as cartas com impaciência. Teve a mesma sorte uma
cartinha de Sari Doucza, que se achava agora em Biarritz, em companhia da mãe. Exceto Elys de
Valromée, tudo para ele era indiferente... E certo, Sarjac não o tornaria a ver, antes que houvesse
atingido o alvo dos seus desejos!
Certa tarde, oito dias volvidos após a ida do abade de Gouxy a Prexeuil, viu o senhor conde de
Chancenay entrar-lhe na biblioteca, onde lia os jornais, a velha criada de quarto, um tanto constrangida,
algo hesitante...
— Que há, Rosália? perguntou.
— Peço perdão ao senhor conde de vir incomodá-lo... Mas eu queria dizer-lhe uma coisa...
— Pois dize logo, Rosália.
— É o seguinte, senhor conde... O criado do senhor conde anda a arrastar a asa à Melita... e eu vejo que
esta se vai deixando embeiçar... E então lembrei-me que o senhor conde poderia dizer uma palavrinha ao
Juliano, a fim de impedir que...
Fazendo um gesto de impaciência, Ogier atalhou rápido a velha criada:
— Pouco me importam essas coisas, mulher! A ti é que compete velar por tua sobrinha... e quer-me
parecer que a deves trazer de olho... A despeito daqueles olhos sempre no chão, daqueles modos muito
recatados, é uma grande namoradeira — namoradeira e sonsa, é o que é! Ah! Só aos homens é que
sabem lançar os anátemas! Como se, desde que o mundo é mundo, não tivesse havido mulheres a lhes
oferecer o fruto proibido... Eis em que deveriam meditar bem certas pessoas demasiado parciais, que
condenam, sem remissão, toda uma parte do gênero humano!
Como Rosália surpreendida por estas palavras e pelo tom áspero, quase violento do amo, continuasse
imóvel a encará-lo com olhos estupefatos, acrescentou secamente o senhor de Chancenay:
— Sim, vê se te arranjas lá com o Juliano, pois eu, de mim, nada tenho que ver com isso. Ou então
reenvia Melita aos pais, e toma outra cozinheira, enquanto aqui eu estiver: mas, por favor, não me
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azucrines com essas questões...
Retirando-se a criada, Ogier levantou-se da cadeira e tomou o chapéu. Queria fazer ainda uma última
tentativa, para ver a sua Elys. Seu caráter voluntarioso e enérgico não recuava ante a audácia de
semelhante decisão.
Fez-se, pois, a caminho de Prexeuil, por essa clara e luminosa tarde soalheira. Os bosques, já libertos da
bruma, estadeavam as primícias de seu esplendor outonal. E quando Ogier penetrou na alameda das
faias, que precede o castelo, calcaram seus pés as folhas mortas, que já se haviam desprendido das
árvores, como outros tantos prenúncios desse fim de ano.
Chegando à cerca de Prexeuil, dirigiu-se o senhor de Chancenay por um caminho que perlongava
exteriormente o velho muro, revestido de parasitas, que o iam carcomendo a pouco e pouco. Esse muro,
a uns cem metros de distância, diminuía sensivelmente de altura e mostrava mais numerosas fendas.
Uma destas, em certo pontoa se alargava de tal sorte que formava verdadeira brecha, ao pé do velho
portãozinho, que dava para o pomar e de onde a vista podia abranger os estreitos arruamentos que se
alinhavam por entre macieiras, carregadas de frutos, cerejeiras e ameixeiras, em parte desnudadas pela
aproximação do outono, pereiras cujas folhagens amarelecidas deixavam ver, pendentes e pesadas, pêras
magníficas.
Na véspera, de volta do jardim do «Prado-Bento», aonde fora à busca de um derradeiro cabaz de pêras,
dissera Rosália ao senhor de Chancenay, o qual, ao vê-la passar, lhes notara a beleza:
— Existem da mesma qualidade, mas ainda maiores, no pomar de Prexeuil. Dona Antonieta — é uma
das suas manias — quer que somente as colham pela Santa Brígida¹. E é a jovem Elys quem se
encarrega de tal tarefa, pois bem sabe o quanto a senhora condessa faz empenho de que esses belos
frutos não apodreçam.
(1) Esta santa é celebrada aos 8 de outubro.
Ogier dissera maquinalmente:
— Ah! sim, lembra-me ter visto essa pereira, ao passar um dia pelo caminho que contorna Prexeuil.
Vemo-la muito bem, pela fenda do muro.
Mas, pouco depois, dissera entre si: «Mas Santa Brígida é amanhã!... Se Elys for sozinha ao pomar,
poderei vê-la, talvez falar-lhe...»
Eis aí por que, nessa tarde, estava ele ao pé da brecha. Num olhar, certificou-se de que as frutas ainda
estavam na pereira... Só lhe restava, pois, ter paciência e esperar, porquanto, para comprazer com a
mania da tia, Elys de Valromée viria, de certo, dentro em pouco, proceder à colheita nesse dia — o prazo
fatal.
E Ogier dizia consigo, inquieto e impaciente: «Deus queira que venha sczinha!»
Esteve assim quase meia hora... Senão quando, no extremo de uma das alamedas, surgiu um vulto de
mulher, o vestido cinzento, uma fita azul sobressaindo-lhe no corpete de pregas, sem guarnições.
Era Elys. Caminhava em passinhos ligeiros, trazendo na mão, a balançar, uma grande cesta. O sol,
irradiando-Ihe nos cabelos de suaves e acetinados reflexos, projetava-lhe uma ardente claridade sobre a
cútis delicada, sobre os olhos tristes, sonhadores...
Atrás dela, caminhava uma criada, conduzindo a escada e outra cesta. Por último, acompanhava-as um
gato em passos lentos e macios, ondulando o corpo elástico.
Pararam as duas mulheres junto da pereira; a criada, apoiando-lhe no tronco a escada, subiu por esta, a
fim de colher os frutos, que se achavam mais no alto. Em pouco tempo, encheram assim um dos cabazes.
Então Elys, que segurava a escada e dirigia a operação, disse para a criada:
— Agora, podes ir, Maria Luiza. Eu me encarrego de colher as outras, que estão ao alcance do meu
braço.
Retirou-se a criada, levando consigo o cesto cheio. Elys continuou cuidadosamente a colheita. A certa
altura, como erguesse a mão para colher um dos frutos, fê-la voltar-se rumor de passos, que lhe feriu o
ouvido... E abafou um grito, vendo surgir-lhe diante o senhor de Chan-cenay.
— Sim, senhorinha — disse ele, descobrindo-se — sou eu, que preciso muito falar-lhe. Bem sei que o
modo como o faço não é lá muito correto, mas não podia escolher outro... Desejo ter com a senhorinha
uma explicação... pois não posso absolutamente submeter-me à recusa, que me opõe a senhora sua tia.
Elys, trêmula e com as faces incendiadas de rubor, recuou alguns passos.
— Desculpe-me, senhor, mas eu não devo ouvi-lo... Já no outro dia, andei mal...
__ Andou mal?... Foi a senhora de Prexeuil quem a convenceu disso? Contudo, é muito natural que —
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conhecendo principalmente as disposições da senhora sua tia queira eu saber, em primeiro lugar, a sua
opinião...como também é natural que eu saiba, hoje, se a senhorinha se curva cegamente à decisão
arbitrária, de que foi objeto.
— Por caridade não insista!... disse Elys em voz quase extinta.
Num movimento rápido, apoderou-se Ogier da mão da moça, antes que esta tivesse tempo de se
defender... E, inclinando para ela, os olhos incendiados e ansiosos cravados nos dela perguntou-lhe
imperiosamente:
— É verdade que lhe prometeu que nunca se casaria?
— Sim, é verdade.
— Mas isso é odioso! Ela não tinha o direito de exigir-lhe semelhante promessa!... Nem a senhorinha
devia fazer-lha! Na sua idade! E amando-me, Elys!... Sim, porque eu sei que me ama!
A moça, baixando o rosto trémulo, coberto de ardente rubor, e desviando os olhos cheios de icomoção,
nos quais buscava ler o olhar apaixonado de Ogier, murmurou em voz convulsa:
— Deixe-me, senhor!... Parta imediatamente!
— Sim, mas com a minha Elys!... Vamos!... Eu a levarei à Itália, a uma linda cidade que eu conheço,
onde nós nos casaremos...
Elys fez pé atrás, num movimento tão rápido que Ogier não teve tempo de reter a mãozinha gelada e
trêmula, que ele apertava entre as suas.
E nesses olhos cor-de-violeta, cujo límpido fulgor tanto admirava, estampou-se uma cândida
estupefação, um indignado protesto:
— Senhor! Eu não compreendo que...o senhor me julgue capaz de...
— Sim... Perdoe-me Elys... É impossível, bem sei! Mas prometa-me, pelo menos, ter como não
feita essa promessa, que lhe arrancaram pela pressão exercida sobre a sua vontade, prometa-me que
procederá respeitosamente, sim, mas com energia, junto da senhora de Prexeuil a fim de que ela mude de
pensar!
Elys recuou ainda mais, sacudindo negativamente a cabeça. O círculo escuro que lhe orlava os olhos
cheios de tristeza e angústia volveu-se-lhe mais profundo.
— Não... Devo muito à minha tia, para não fazer de boa mente o sacrifício que ela me pede. E
demais. ..
— Demais?
Cresceu de tal modo o rubor à moça, que hesitou, dizendo afinal, com trémulo enleio:
— Não creio seja eu a esposa que lhe convém.
— Ou melhor, «deram-lhe» a entender que eu não sou o marido que lhe convém?... Não responde?... É
que então adivinhei! E aproveitaram-se do ensejo para lhe arrancar essa promessa, que tranquilizaria
para sempre a senhora de Prexeuil.
— Não ma exigiu minha tia; comunicou-me tão somente esse desejo, e eu fiz-lha livremente.
— Então, perguntou Ogier, com mal contida cólera, — a senhorinha aceita de boa mente a sorte que
assim lhe preparam?
— Que me importa a mim! murmurou Elys, com um gesto de indiferença.
— Como?! Que lhe importa?... Mas a senhorinha não dizia isso lá na sala do «Prado-Bento»! Pelo
contrário, parecia até muito disposta ao casamento e sentia-se realmente feliz...
Ela desviou dele o olhar... E Ogier, caminhando-lhe ao encontro e tomando-lhe de novo a mão, disse
imperativamente :
— Olhe bem para mim, Elys!... Seria porque a persuadiram de que tal casamento comigo era impossível,
o que a levou a fazer tão facilmente semelhante promessa? Que eu seria, em qualquer tempo, indigno de
sua pessoa?
Ela retirou a mão e, olhando-o bem de frente, com firmeza, posto estremecesse até a medula:
— Sim, é verdade, disseram-mo... Agora cumpre-lhe esquecer-me... esquecer-me e partir...
— Esquecê-la! Ah! não, não! Hei de apelar da sentença que me condenou...
— Não, senhor! Por quem é! suplicou Elys de mãos postas. Por que me faz sofrer assim? Não! Nunca,
nunca renegarei essa promessa... e ainda mesmo que a não houvesse feito, jamais daria à minha tia o
desgosto de me casar contra a vontade dela.
— Mas eu?... eu?... Não pensa então no que sofro, no quanto sofrerei? Porque eu a amo, Elys!... Depus
na sua pessoa todas as minhas esperanças de felicidade!
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Falava com ardor apaixonado, quase súplice, enquanto nos olhos lhe revia flagrante a violenta comoção
que lhe agitavam a alma, por tanto tempo indiferente...
— Urge esquecer... balbuciou Elys. Eu também... E, rodando sobre si mesma, seguiu por uma das
alamedas que o sol iluminava.
Não a chamou Ogier, nem sequer a seguiu. Bem sabia que essa criança leal, de alma pura e enérgica, não
falsearia jamais o seu dever de gratidão para com aquela que lhe servira de mãe.
Por momentos, permaneceu ainda ali, chumbado ao solo, a olhar o estreito arruamento, onde o gato,
estirado ao soalheiro, encarava o desconhecido. Ogier sentia dentro de si despedaçar-se-lhe o coração.
Passou lentamente a mão pela fronte, murmurando:
— Sim, tem razão... Cumpre esquecer... Depois, tornando à fenda, saiu do pomar inundado de sol e
perfumado dos aromas do outono. E começou a descer para o «Prado-Bento», sem se voltar, uma vez
sequer, para lançar um derradeiro olhar a Prexeuil, onde a cônega Elys de Valromée aceitara viver para
todo o sempre solitária, encerrando aí a sua mocidade e a sua beleza...

CAPITULO XI

No dia seguinte, Ogier deixou o «Prado-Bento»1 retomando o caminho de Sarjac.


No castelo, animado pela presença de numerosos hóspedes, foi ele recebido com entusiasmo. Censurou-
o gentilmente Maud Dornley, a icujas censuras, apenas concedia distraída atenção. Notaram que parecia
preocupado, às vezes até quase triste... Outras vezes1 mostrava-se de uma alegria forçada, ou então de
uma ironia mordaz, que entravava logo quaisquer tentativas de flerte, até as de Maud, por mais ousada
que fosse a jovem inglesa com relação ao primo.
— Realmente, Ogier está agora irritado, depois dessa estada lá na aldeia! dizia ela à senhora de
Chancenay. Que lhe terá acontecido?
A avó sacudia a cabeça. Sabia tanto quanto Maud, pois o neto não lhe fazia confidências; mas, como o
marido, dizia consigo que, com certeza, havia aí alguma aventura amorosa, que não saíra ao agrado do
rapaz.
Tentou ainda Maud inquirir William Horne, primo comum dos dois, e que ela sabia o mais íntimo amigo
de Ogier. Ele, porém, alegou que ainda não dera pela mudança do humor do primo. Chancenay, dizia,
fora sempre um tanto enigmático. Era, atualmente, o que sempre havia sido eis aí — hoje, muito gentil,
enleando a que mais lhe agradasse nas malhas feiticeiras de um namoro; amanha, quase indiferente,
parecendo apenas recordar-se do que o entretivera na véspera. E Maud, como as demais, nao escapava a
esses saltos de humor.
A moça, porém, negava, sacudindo a cabeça:
— Não, aí há com certeza outra coisa! Um cuidado muito sério, uma grave preocupação...
E William, levantando os ombros:
— Oh! como vocês, as mulheres, se crêem entes de razão, quando trazem alguém de olho!...
Mas a verdade é que ele sabia tudo, pois Ogier lhe havia dito sumariamente:
— A cônega de Prexeuil recusa dar-me a sobrinha... Não me resta nenhuma esperança.
Sem que lhe fosse necessário dizer mais, William, que o conhecia melhor que ninguém, adivinhara logo
a dor oculta que mordia o coração do amigo. Mas não se admirou. O afeto quase fraternal, que dedicava
ao primo, as suas finas qualidades de observador, já lhe haviam de há muito feito adivinhar naquele um
caráter muito superior às aparências. Julgava-o bem capaz de um sentimento profundo, duradouro, que
lhe fizesse mudar de vida. Por isso, segundo a descrição que o senhor de Chancenay lhe fizera de Elys
de Valromée, quando da primeira vez regressara de Gouxy, experimentara ele uma viva satisfação à
idéia de que Ogier encontraria, sem dúvida, nessa moça a companheira que, moralmente, o elevaria até
ela e lhe faria da vida uma existência útil... Agora, lastimava de todo o coração o irremediável revés, que
parecia tê-lo profundamente acabrunhado.
Recordando-se da fotografia que o primo lhe havia mostrado certa vez, dizia o moço entre si:
«Compreendo! É uma criatura deliciosa! Há um mundo de coisas naquele olhar... Sim, este pobre amigo
não a esquecerá tão cedo!»
Uma tarde, ao passear com William peio parque de Sarjac, disse-lhe Ogier:
— Sabes, Willy? Estou com vontade de partir para as Índias. O maharajah de Cawor já por várias vezes
me tem convidado a ir visitá-lo. Meto-me na «Libélula», e vou até lá. . . contigo, se quiseres ir também.
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— Fazes questão da minha companhia?
— Faço; é a única que me é agradável no estado de espírito em que me encontro.
— Pois aceito com todo o prazer o convite, porque desejo que esqueças, quanto antes, esse teu sonho
desfeito, meu amigo.
— Esquecer?
Ogier sorriu amargamente, acrescentando:
— Não será fácil!
Mas passou logo a falar de outras coisas. E William compreendeu que o amigo desejava que o silêncio
pesasse sobre a recordação de Elys....
* * *
Cinco meses depois, regressa a Paris o senhor de Chancenay, após uma longa estada nas Índias, que lhe
não havia contudo trazido o desejado esquecimento.
Não se lhe apagava da lembrança o belo perfil de Elys. Dir-se-ia que a distância e o obstáculo invencível
aumentavam ainda mais as forças desse amor, que se apoderara inteiramente de Ogier. Nada lhe pudera
distrair daí o pensamento, e William mais de uma vez pensara consigo mesmo: «Quer-me parecer que
esta viagem será absolutamente inútil, quanto ao fim que ele procura».
Reaparecia, pois, Ogier em Paris, em plena estação mundana. Retomou logo os seus hábitos com
indiferença. Parecia-lhe que tinha a alma vazia, e que nunca mais, nada no mundo lhe poderia fazer
vibrar.
Em casa de sua tia de Challanges, teve a surpresa de encontrar-se de novo com Sari Doucza, tratada ali
como íntima — uma Sari algo mudada, já sem os modos provocantes, nem roupas caríssimas, referindo-
se compungida a cerimônias religiosas na Madalena ou em Santo Agostinho; ocupando-se dignamente
de obras patrocinadas pela senhora de Challanges.
À vista de Ogier, demonstrou ela um discreto contentamento. Ele, polido e frio, pediu-lhe notícias da
mãe, e não se ocupou mais com ela nesse dia.
Pouco depois, achando-se a sós com o sobrinho, dizia a este a senhora de Challanges:
— É realmente encantadora esta Sari!... Inteligente, muito hábil!... A mãe também é muito gentil... Elas
já me haviam dito, meu caro, que te conheciam, e foi, principalmente por isso, que aceitei a colaboração
da filha nas minhas obras de caridade, do que aliás não me arrependo absolutamente.
— Ah! perdão, titia, não confundamos! Eu não me faço, de modo algum, fiador da honorabilidade
dessas senhoras Doucza. E advirto-a até com franqueza, que sempre a existência de ambas —
principalmente a da mãe — é algo equívoca.
Mostrou-se consternada a senhora de Challanges.
— Que me dizes!... E eu que a introduzi no círculo das nossas relações!... Todavia, parece tão boa
pessoa, tão honesta, essa jovem!...
Ogier continuou com ironia:
— Isso prova que minha tia não é observadora. Com esta reflexão se mostrou melindrada, a senhorade
Challanges, pois, pelo contrário, ela se conferia a si própria essa qualidade.
Embaraçada, replicou:
— Conheço muitas moças de nossa sociedade que poderiam, com proveito, regrar os seus modos de
proceder pelos dessa moça.
— Em primeiro lugar, isso prova que tais moças não são nenhum modelo... E segundo, sempre lhe direi,
minha tia, que os modos de Sari Doucza eram algo diferentes o ano passado, quando eu a conheci.
— Como?... Já a conhecias?
— Sim, como um flerte muito interessante! informou Ogier, dando uma risadinha. É bela, tem o seu
sainetezi-nho de estrangeira... e sei que não lhe sou de todo indiferente...
— Sim, sim, compreendo. .. Que pena que não tenhas aparecido aqui mais cedo! ter-me-ias prevenido
em tempo; já agora, será difícil afastá-la...
O senhor de Chancenay, que parecia achar graça nos modos aborrecidos da tia, sentenciou com um
sorriso meio irónico:
— Aí está um dos resultados da facilidade com que hoje em dia se travam relações com qualquer
pessoa. Uma vez que essa pessoa traje com elegância, tenha um vocabulário ousadamente mundano e se
atribua — real ou falsamente — o conhecimento de algumas importantes personagens, é para logo
admitida em nossa intimidade, e, até... às vezes, consentem que as filhas se afeiçoem cegamente a essa
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pessoa, — sim, pois tenho observado que Paula parece tratá-la com íntima...
— Sim, sim, atalhou impaciente, a senhora de Chal-langes. Minha filha gosta muito dela... Mas, que
aborrecimento !... Que grande aborrecimento!...
Não era a primeira vez que Ogier via em semelhantes palpos de aranha a boa tia, pessoa de muito boa fé.
Bastava que alguém se chegasse, com doces palavras, simulando zelos e alegando recomendações, cuja
autenticidade ela, sempre apressada, sempre ocupada, jamais tinha tempo de verificar — para que fosse
bem acolhido e logo introduzido nas comissões de obras pias, a que pertencia — ambição esta mui
comum nas senhoras que se querem dar a aparência de uma honorabilidade, que já perderam. Em tais
manobras, primava a senhora Doucza, com o que Sari não se havia também dado mal, pois conseguira
tornar-se persona grata para a senhora de Challanges.
Ogier sorriu de novo, considerando a fisionomia preocupada da tia.
— E agora? disse ele, com ar levemente irônico. Como se vai haver a minha querida tia para sair-se
desse embaraço ? Previno-a que ela é hábil, tenaz, não se dando até por achada ante a frieza, as
insinuações, mais ou menos gentis, que a titia possa fazer-lhe.
— Tem graça!... Mas tu farias melhor se me alvitrasses um conselho em vez de estares para aí a
escarnecer de mim, homem cruel!
— Um conselho?... Mas para que quer conselhos, titia? Só lhe cumpre aguardar que mude de idéias a
senhorinha Doucza — o que talvez não demorará muito, pois não há de representar indefinidamente o
papel de convertida...
Nessa mesma noite, no clube, viu o senhor de Chancenay vir-lhe ao encontro o obeso barão de
Pardeuil...
— Teremos amanhã o prazer de ver o meu caro Chan-cenay na reunião literária organizada por minha
mãe ?
— Farei o possível de, pelo menos, passar lá alguns momentos. . . Com que então, sempre bem
disposta, sempre alegre, sempre ocupada a senhora de Pardeuil?
— Ê verdade! Ela agora se fatiga um pouco; mas é admiravelmente auxiliada por Mme. Doucza... Que
mulher amável e inteligente, meu caro!... E de uma bondade!... Minha mãe está encantada! Quanto a
mim...
Aqui, deu-se o barão uns ares de importância, acariciando lentamente o queixo escanhoado:
— ... confesso que me agrada enormemente... É recíproco este sentimento...
— Dois namorados, então ?... ironizou Ogier, com ar entre risonho e sério, que lhe era às vezes natural!
Meus parabéns!... É então amiga íntima da senhora de Pardeuil?
— Muito íntima! Minha mãe aprecia-lhe imensamente o tato, a inesgotável gentileza... Como também
gosta muito de Sari, que é muito meiga, muito engraçada... Mas, a quem o estou a dizer!... A pobre Sari,
que, ainda o ano passado, flertava deliciosamente com o senhor conde Ogier de Chancenay... Mas, já
não é a mesma: tem agora uns modos graves, fala de religião, de sociologia, etc...
O barão casquinou uma risada, que lhe estremeceu os largos ombros, e acrescentou:
— Impagável!
— Como!... Não a toma você a sério? perguntou Ogier.
— Absolutamente, meu caro!... Todavia, a mãe afiança que a filha é sincera... E ela, Berta, é mulher
muito franca!. .. Nada de circunlóquios, é a própria simplicidade. . .
Entrementes, dizia entre si o senhor de Chancenay: «Ah! meu paspalhão, como te deixar embrulhar por
essa criatura, que te faz tomar o preto pelo branco... Franca, Mme. Doucza! Tanto quanto Sari essa
gatinha toda astúcia...»
Daí a pouco, ao regressar ao palacete Chancenay, onde ocupava um pavilhão independente, dizia
consigo Ogier, ao rememorar a conversa que tivera com o senhor de Pardeuil: «E se eu me divertisse em
arrancar a máscara, que afivelou ao rosto essa Doucza? Prestaria assim um serviço à minha tia, que se vê
agora em apertos para se desembaraçar dela, depois de havê-la acolhido de braços abertos».
Em seguida, com um sorriso mesclado de amarga ironia, murmurou:
— Talvez isso até me distraísse.
O barão de Pardeuil, viúvo havia alguns anos, morava com a mãe, que lhe educava o filho único. Tinha a
senhora de Pardeuil, por parte de sua família, numerosas relações nas rodas políticas. Como a senhora de
Chancenay, ocupava-se, também, com a atividade pelo menos igual à daquela, de várias obras pias mas
de rótulo muito «leigo», geralmente patrocinadas por personagens da governança, ou em perpétua
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expectativa de ascenderem até essas alturas. Como, de outro lado pertencesse a família de seu defunto
marido à nobreza conservadora, era o seu salão
um como terreno neutro, onde essa hábil senhora conseguiu manter a harmonia dos partidos.
Ogier, muito aristocrático, considerava semelhante aliança. Como nem sempre podia recusar os convites,
com que o bombardeava a senhora de Pardeuil, arianjava as coisas de modo a fazer, uma ou outra vez,
simples ato de presença, o que lhe permitia não acotovelar por muito tempo pessoas, cujas maneiras ou
opiniões lhe desagradavam.
Assim ele procedeu nessa tarde, quando, por volta das cinco horas, penetrou nos salões do belo
apartamento, ocupado pela baronesa, à avenida do Trocadero.
Estava terminando a sessão literária: mas haviam organizado umas danças para entretenimento dos
convidados jovens, numerosos... Deixara Sari Doucza o seu lugar, para aceitar o braço do filho de um
ministro, quando, súbito, cruzou com o senhor de Chancenay. Fulgiram-lhe, magníficos, os olhos ao
corresponder sorrindo à saudação do rapaz.
Ao seu par — gentilíssimo, alias — pareceu-lhe a dama singularmente distraída, respondendo a custo
aos seus galanteios mui bem torneados, — que de mestre na arte se vangloriava ele!... Acabou, porém,
por advertir, não sem despeito que a atenção da encantadora criatura se concentrava inteira no senhor de
Chancenay, o qual entretanto conversava animadamente com a irmã mais moça do senhor de Pardeuil,
moça muito elegante e muito em evidência, cujo divórcio, no ano precedente, levantara algum rumor.
Como Sari acabava de sentar-se, despedindo com gracioso agradecimento o «filho do papai», que se ia
tornando algo insolente, viu que Ogier se encaminhava para ela. Apressou-se logo Sari em estender-lhe a
mão, finamente enluvada:
— Oh! Até que enfim, ei-lo de volta dessa interminável viagem!... Ter-se-ia tornado globe-trotter, por
ventura?
— Quem sabe ? Tudo pode acontecer!... Tenho disso a prova em sua pessoa.
— Como?...
— Porque, ao que parece, venho encontrá-la em plena fase de conversão... Minha tia de Challanges fez-
me o seu elogio... E se bem me recordo, ouvi-lhe outro dia, em casa dela, falar de obras pias, de sermões
a que assistira...
Tomou de uma cadeira, sentando-se ao lado de Sari. Como esta baixasse modestamente os olhos, não
pôde, por isto, ver o brilho sarcástico que fuzilou no olhar do seu interlocutor.
— Sim... Deixamo-nos arrastar pelo mundanismo... Mas chega afinal um momento em que refletimos...
— E esse momento já chegou para a bela Sari ?... Surpreende-me!
Desta vez, erguendo a cabeça, viu Sari a incredulidade irônica estampada nas pupilas de reflexos
alaranjados, com as quais, durante esses cinco meses, tanto havia devaneado.
Com um faceiro movimento da sua bela cabeça de cabelos ruivos, murmurou em tom de censura:
— Parece-me que está pensando que... que...
— ...que está representando uma comediazinha... que não surtirá nenhum efeito comigo, pode ficar
certa.
— Oh! Ora essa!... E por que não acredita o senhor que eu haja, realmente, mudado de idéias, grande
cético?
Um sorriso de ironia entreabriu os lábios de Ogier.
— Porque a conheço muito bem, Sari... Olhe, lá recomeçou a orquestra. Se as suas resoluções de vida
nova não vão até ao ponto de suprimir os prazeres mundanos, eu a convido para esta valsa... A menos
que, por penitência, haja decidido nunca mais me aceitar por seu cavalheiro.
— Que terrível irónico é o senhor! murmurou Sari, erguendo para ele um olhar meigo.
Ainda uma vez, sentia-se descoberta.
Decididamente, não era dos que se deixavam facilmente colher nas malhas da rede esse belo Chancenay,
do qual, mais do que nunca, se sentia agora apaixonada, ao tornar a vê-lo depois dessa tão demorada
ausência. «Tanto pior!» pensava ela, deixando-se arrebatar pelo cavalheiro ao ritmo da valsa. «Afinal, é
muito mais agradável se lhe convenho assim, pois já me vai aborrecendo extraordinariamente, com suas
obras pias, essa senhora de Challanges!». ..

CAPÍTULO XII

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Havia o inverno passado lento em Prexeuil, sem que a freirinha de Valromée conseguisse esquecer-se de
Ogier.
Emagrecera-lhe um pouco o belo semblante, enquanto os olhos, que pareciam agora de uma cor mais
carregada, se lhe desenhavam emoldurados nos círculos ligeiramente oscuros que as insônias lhe
cavavam.
Como antigamente, continuava Elys a desempenhar as tarefas habituais, visitando os pobres da aldeia,
cuidando do bem-estar das tias e dos pequenos trabalhos caseiros, tudo isso de modo tranquilo e pontual,
com semblante calmo e olhos em que se lia um cismar grave e melancólico...
Já se lhe não ouvia agora o riso álacre, esse belo riso de criança feliz, de que tanto gostava a senhora de
Valheuil. O seu sorriso tinha mesmo algo triste, constrangido, que fazia as pessoas do lugar dizerem:
— Como Elys está mudada!
Estes sintomas de uma dor secreta — pois Elys nunca mais se referira a Ogier — não escaparam
absolutamente a dona Antonieta, que se entristecia e inquietava. Não fosse agora a pobre moça adoecer!
Mais do que nunca, malqueria agora a cônega ao amor, ao senhor de Chancenay e todos os hereges da
mesma casta.
Mas, por maior que fossem os seus cuidados, a dona Antonieta, nem por um instante, ocorrera a idéia de
reformar a sua decisão. Elys, pensava ela, tinha conhecido muito pouco esse rapaz, para que dele
conservasse inesquecível lembrança. A pouco e pouco, se lhe iria enfraquecendo essa dor, que seria
substituída pelo esquecimento... Até lá, haveria, sim, horas difíceis que passar, mas o trabalho e as
orações a auxiliariam eficazmente nessa luta íntima com a imaginação — porque a cônega continuava a
pensar que o coração da moça não fora profundamente atingido.
Desde o incidente, começara a tia a misturar alguma ternura ao afeto, até então aparente e algo frio, que
dedicava à sobrinha, posto que, no íntimo, sempre tivesse amado muito a encantadora criança. Elys, de
sua parte, não lhe tinha nenhum rancor pela recusa que lhe truncara o belíssimo sonho. Compreendia que
a senhora de Prexeuil assim procedia para seu bem, no desejo de lhe poupar os grandes sofrimentos, que
haviam atribulado a mãe e a avó de Elys de Valromée. Porém, que havia ido muito longe, a moça de fato
estava convencida, sem que lamentasse a promessa que fizera de se conservar solteira. Seu coração, todo
palpitante de amor profundo, pertencia ainda a Ogier, se bem que tudo fizesse para esquecer, para varrer
do pensamento essa imagem tão querida.
Pouco tempo depois da partida do rapaz, a cônega dissera certo dia à sobrinha:
— Como faço questão que julgues por ti mesma a impossibilidade de semelhante casamento, pelo que já
te expus, escrevi há dias à nossa prima de Baillan, a fim de que, por intermédio dos seus parentes de
Paris, colhesse informações a respeito do senhor de Chancenay. Recebi hoje a resposta, a qual vem
confirmar o meu juízo e o que ele mesmo, como já te disse, implicitamente, reconhecera quanto à sua
própria pessoa. A vida que leva não oferece nenhuma garantia para a felicidade de uma mulher, muito
pelo contrário. É melhor que te persuadas, meu anjo, de que tua velha tia afastou de ti o doloroso
martírio de uma malfadada união, a qual te reservaria atrozes decepções.
Um ligeiro arrepio percorreu Elys, ao mesmo tempo que ela respondia com voz algo estrangulada:
— Se assim é, fez muito bem, minha tia.
E desde esse momento, nunca mais entre elas foi pronunciado o nome de Ogier de Chancenay.
Agora, permanecia fechado o «Diário da família». Em uma de suas páginas Elys escrevera:
«Prometi hoje à minha tia que não me hei de casar nunca.»
Depois, tornou a fechar o livro, para sempre, pensava ela, pois acabava de encerrar dentro dele toda a
sua cstuante vida de mocinha, cujos protestos corajosamente abafava.
* * *
Assim como Elys, Ogier também não conseguia esquecimento.
Esforçava-se em vão para envolver também a moça no mesmo ressentimento profundo que sentia por
dona Antonieta, «porque, dizia ele, se me amasse, não deveria revoltar-se para obter a todo custo o
consentimento dessa velha e autoritária? Derrubar todos os obstáculos como ele estava decidido a
fazer?...» Mas, muito acima do seu rancor, pairava a imagem encantadora de Elys. Não seria isto, em
parte, devido a que Elys possuía uma alma muito nobre, delicadamente leal, que soubera despertar nele
sentimentos até então não suspeitados, que ao seu coração cétiso pareciam muito estranhos, muito
suaves?
Procedesse ela como em semelhante conflito teriam procedido outras, e, certo, o seu amor teria mudado
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de natureza, perdido essa flor delicada de estima e confiança, que continuava ainda hoje a perfumar esse
amor.
Mas, se Elys permanecia inacessível, para que então torturar o espírito com a sua lembrança? Cumpria-
lhe, a todo custo, afastar de si essa lembrança... A fotografia, trazida do «Prado-Bento», fora encerrada
numa gaveta, que nunca mais abrira. De resto, já o tomava de novo a corrente das distrações mundanas,
nas quais procurava aturdir-se, libertar-se dessa visão que o perseguia por toda parte.
Então, buscava aparentemente interessar-se pela graça astuciosa de Sari, pelas suas partidas engraçadas,
que tanto o haviam divertido o ano anterior. Mas, no íntimo, a bela húngara deixava-o indiferente. Aliás,
ela não se deixava enganar, e dizia à mãe:
— Sinto-lhe sempre tão longe de mim! Para ele, continuo a ser apenas uma distração momentânea e
nada mais, — um lindo brinquedo, com que se distrai, para um belo dia atirá-lo a um canto quando se
sentir aborrecido.
— Que queres, meu bem ? ponderava a senhora Doucza, sacudindo os ombros. É preciso que, afinal,
tomes algum partido! Como bem te dizia uma vez, o senhor Chancenay, sob aquela gentileza de
mundano, é fidalgo muito orgulhoso, que nos olha do alto de sua grandeza. Receio muito que não
conseguirás fazê-lo mudar, minha querida, a despeito de toda tua habilidade.»
— Disso estou convencida agora!... O que eu quisera saber é em que, ou melhor, em quem ele pensa,
quando o olhar se torna distante, e toma uma expressão inteiramente nova — expressão de tristeza, de
desejo ardente... Em tais momentos, é que se tornam mais belos os seus olhos!... Mas, logo que lhe falo,
pronto! — foi-se o encanto! E torno a encontrá-lo irónico, às vezes mordaz, mas sempre espirituoso e
encantador, que se deixa amar — mas que não ama nunca.
Ouvia-lhe a mãe os queixumes, com impaciência a custo dissimulada. Havia já algum tempo, sentia-se
muito nervosa, visivelmente preocupada. Quando a filha lhe perguntava: «Que tens mamãe?», respondia
com evasivas... Sari, de sua parte, não insistia demasiado preocupada também pela redobrada atenção
com que a tratava agora o senhor de Chancenay, para que se tomasse de cuidados pelos atos e gestos da
mãe.
Certa noite de julho, Ogier, acedendo ao convite da senhora Doucza, foi passar alguns momentos no
claro e elegante salão da bela húngara, onde se achavam reunidas umas vinte pessoas, entre as quais uma
romancista em voga, uma jovem atriz, amiga de Sari, uma adiposa aenhora vizinha no mesmo andar
ocupado pelas senhoras Doucza, a qual trazia toda uma exposição de belíssimas jóias sobre o ofuscante
corpete cor-de-laranja.. . O elemento masculino era representado por uma alta personagem política, um
especialista em laringologia, que, sedento de renome, procurava insinuar-se em toda a parte, um
jornalista, um velho oficial reformado, cujo filho exercia elevadas funções no estado-maior... e,
naturalmente, o senhor de Pardeuil, sempre assíduo ao lado da bela viúva.
Sari atraíra Ogier para um canapé, colocado em um dos ângulos da sala, o qual, com uma mesinha e
algumas cadeiras, formava, por trás de altas plantas verdes, como que uma saleta dentro do grande salão.
Aí fingindo uma carinha amuada, abriu-se em confidências, enquanto, a alguns metros de distância,
prosseguiam as conversas das demais pessoas.
— Imagine que a mamãe decidiu ontem, de repente, que partiríamos para Biarritz por estes dias! Não sei
que idéia foi essa que lhe passou pela cabeça, pois havíamos combinado ficar aqui até 4 ou 5 de agosto.
Diz que se sente fatigada, que precisa respirar os ares marinhos...
Enfim, eu não me importaria se não me visse assim privada de sua companhia...
E apoiou a cabecinha ruiva no ombro de Ogier. Este, num gesto distraído, tomou-lhe os dedinhos um
tanto curtos, de unhas polidas e brilhantes, fazendo deslizar por eles os elegantes anéis que os
guarneciam, ao mesmo tempo que dizia displicente:
— Se ainda estiverem em Biarritz nos princípios de setembro, irei talvez até lá passar alguns dias, ao
voltar de Dinard e antes de ir instalar-me em Sarjac.
— Ah! boa idéia! Até lá, vou viver somente dessa esperança... O tempo vai parecer longo!...
— Mas não se alegre muito com a idéia... Porque, se tivermos a guerra, como alguns... pressentem...
— Oh! não! Que guerra!... A França nunca a aceitaria! Antes, para evitá-la, ela se submeterá a tudo!...
— Quem lhe meteu isso na cabeça? disse o senhor de Chancenay, com vivacidade um tanto ríspida. A
França é, de fato, porfiadamente pacifista; espero, porém, que, no momento decisivo, saberá lembrar-se
do seu magnífico passado de honra!
— Oh! sim, sim!... Não é isso o que eu quero dizer... O que digo é que, antes de chegar a declaração de
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guerra, ela esgotará todos os meios para persuadir...
— É possível... Mas quem é esse idiota, que está aí dizendo tantas bobagens?
Era o político que, respondendo a uma pergunta da dona da casa, derramava-se em digressões acerca das
relações exteriores da França. Tal falação não era enfadonha à senhora Doucza, embora não fosse
habitual nele pelo menos até esse ponto... Impacientei Ogier disse:
— Que necessidade tem esse imbecil de contar a todas essas pessoas semelhantes coisas?...
Sari pôs-se a rir.
— Ora, que importância isso pode ter? Aqui só se acham reunidos bons franceses, ou amigos da
França...
— Assim creio, porque...
Nesse instante, ouviu-se a voz calma e astuciosa da senhora Doucza:
— Oh! meu caro senhor, como são interessantes esses pormenores para todos nós, patriotas de coração!
Eles nos mostram bem a força que a França representa — força moral e também força material. .. Não é
verdade, comandante, que tudo se acha a postos, para repelir o invasor, caso ouse cometer essa loucura?
Ogier estremeceu ligeiramente. Por que lhe produziria, nesse instante, essa voz, tantas vezes ouvida por
ele, uma impressão tão desagradável?... Descobria-lhe agora uns tons singularmente falsos, que
despertavam nele uma vaga desconfiança.
«Estes indivíduos são muito linguarudos!» dizia com certa irritação, ouvindo o comandante entrar em
algumas minúcias, no tocante às lacunas existentes no exército. «A senhora Doucza diz-se, é verdade,
francesa... mas o fato é que ninguém sabe o que ela é. E demais, não é prudente desconfiarmos sempre, a
menos que não estejamos absolutamente certos, quanto à discrição dos nossos interlocutores?»
Aliás, nessa noite, tudo o impacientava, — tudo, até os olhares amorosos de Sari. Por isso, não se
demorou muito tempo no salão claro, apesar da insistência de Mlle. Doucza e das atenciosas e gentis
censuras da mãe. A Sari, que lhe perguntou: Antes da nossa partida nos veremos, não é verdade?
distraidamente Ogier respondeu: Sem dúvida...» Mas, na realidade, cortara de vez essas relações, que lhe
desagradavam profundamente. Um instinto o advertia de que a bela viúva e a filha — esta
conscientemente ou não — estavam armando uma cilada... Com que fim? «Espionagem, talvez?...»
pensava ele. «É possível. Nós estamos infestados por essa raça. .. Mas, neste caso, talvez fosse melhor
continuar a visitá-las, para me inteirar da verdade, e desmascará-las...»
Depois, murmurou:
«Mas, para quê? Admitindo que eu esteja com a verdade, elas não se hão de ver mais incomodadas que
outros, cujo procedimento suspeito é benevolamente tolerado, — quando não protegido».
* * *
Depois de dez dias, Ogier, no seu uniforme de sargento de dragões, despedia-se dos avós. Era o segundo
dia da mobilização. O rapaz partia, tomado de uma espécie de alegria triunfante, como para uma festa. A
bravura hereditária dos Chancenay, o gosto pelas armas, pelas gloriosas aventuras da guerra, agitavam-
se nele, substituindo a indolência do espírito e do coração, fruto dessa vida de elegante ocioso e de
homem muito adulado. Despertava-lhe, ardido e impetuoso, o patriotismo sempre vivaz mas um tanto
adormecido, devido a uma ambiência demasiado frívola. À senhora de Chancenay, que se lamentava,
respondeu :
— Mas, vovó, este é o dia mais belo de toda a minha vida!
E acrescentou, depois de curto silêncio, com um sorriso um tanto amargo nos lábios.
— Se por lá ficar, é preferível que seja eu e não outro. Pelo menos, terei assim prestado algum serviço
ao meu país.
Levava na carteira a pequena fotografia de Elys. Antes de aí colocá-la, havia contemplado
demoradamente o meigo semblante de olhos sorridentes, cheios de profunda candura, e murmurava
apaixonadamente:
— Roga por mim, Elys, minha sempre bem-amada... minha única bem-amada! Indo em defesa da
França, é a ti também que eu defendo, minha querida francesinha, em prol de quem nada mais posso
fazer, já que nos não consentem sermos um do outro!

CAPÍTULO XIII

Na tranquila aldeiazinha de Gouxy a notícia da guerra e da mobilização havia como que lançado por
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toda parte a angústia e o terror. Os rapazes haviam partido, todos animosos, cheios de esperanças. O
abade Dambry, arrolado como maqueiro, deixava a humilde paróquia, onde apenas ficavam os velhos, as
mulheres e as crianças. A estes incumbia o dever de recolherem a safra, a fim de salvarem o pão da
França. E ei-los pondo já mãos à obra, com denodo, ao sol ardente desses longos dias de verão, que, lá
em nossas fronteiras iluminavam tantos espetá-culos de horror...
Em Prexeuil, dona Antonieta, de raça lorena pelo lado materno, fremia de ardente esperança à idéia de
que Metz tornaria a ser francesa; dona Bathilde, pessimista, reconfortava-se com as suas fervorosas
orações; Elys, essa, pensava na França ameaçada, na sua tão querida França, nos soldados arrebatados
aos seus lares, para lhe erguerem com os corpos uma muralha invencível — pensava sobretudo em um
deles, cuja lembrança lhe fazia descompassar apressado o coração.
Jovem vigoroso, fora ele, certamente, um dos primeiros a partir!... Viveria mesmo ainda? Diziam que já
haviam caído tantos, nesse período inicial das hostilidades !...
A esta idéia, a moça ficava possuída de terror. E ela, que se havia imposto a si mesma, como um dever
afastar de si, tanto quanto pudesse, a lembrança de Ogier, se recordava dele agora, todos os dias, numa
prece especial, «para que lhe conserves a vida, Senhor!» ela rezava «mas, sobretudo, para que a sua
alma, se é culpada, se converta à tua lei!»
Agora, já não traziam as três castelãs de Prexeuil as suas insígnias de cônegas. Logo, no primeiro dia da
guerra, disse Elys a dona Antonieta, num tom de vibrante indignação:
— Retirei, titia, a minha fita e a minha cruz, porque nada mais quero ter de comum com esse cabido,
que pertence à nação sem honra, aliada aos nossos piores inimigos.
Ao que respondera a senhora de Prexeuil:
— Tens razão, minha filha, fizeste muito bem. Eu também retiro-as... E tu, Bathilde ?
Sem hesitar um instante, retirara igualmente a senhora de Valromée a fita azul-rei e a cruz de ouro
esmaltada. E dona Antonieta prometeu a si mesma que, logo que fosse possível, enviaria ao cabido
austríaco essas insígnias com a tríplice demissão.
Mui diligentemente, ocupavam-se dona Bathilde e a sobrinha dos que haviam ficado na aldeia,
substituindo assim, no que podiam, a ausência do pastor, que os deixara desprovidos de socorros
espirituais. Auxiliadas pela mãe do cura, boa senhora cheia de zelo, as duas ensinavam o catecismo às
crianças, iam visitar enfermos, e, todos os dias, à tarde, reuniam na igrejinha de Gouxy parte da pequena
população, para que todos orassem juntos pelos vivos, pelos mortos, pela França invadida, violada pelo
estrangeiro. Nesses dias de terrível incerteza, conheceram essas boas
francesas todas as angústias das almas patriotas, dando graças afinal ao céu quando o inimigo se viu
paralisado pelos heróicos soldados da França, no momento em que iam atingir o alvo: de suas ambições,
Paris, a cidade onde esses filhos do sanguinário Odin já se prometiam despojos magníficos e realizariam
todos os seus sonhos de orgia à alemã... Depois, seguiam-se os longos dias, os longos meses de
expectativa. Chegara o inverno, A senhora de Prexeuil, a quem a idade e os frequentes insultos
reumáticos impediam de seguir as sobrinhas nesse caritativo e piedoso ofício para com a pequena
população desprovida de auxílio espiritual, tricotava sem descanso para os valentes defensores da
França, e os seus dois velhos cavalos laboravam nas terras dos agricultores, privados dos seus pela
requisição. E quando alguém tinha necessidade de um conselho, um estímulo, era à Prexeuil que logo se
dirigia, para falar às «senhoras», principalmente à linda menina Elys, que tinha sempre nos lábios
meigos, confortadoras palavras.
Todas as manhãs, quando regressavam de Gouxy, a moça punha-se a ler o jornal para a velha tia ouvir.
Ouvia-a em silêncio a senhora de Prexeuil, reservando para depois os comentários, sempre judiciosos,
não raro sublinhados de dolorosa indignação. Às vezes, na lista dos mortos gloriosos, nas citações de
ordens do dia encontravam-se nomes conhecidos — nomes de antigos amigos, ou de parentes distantes,
com os quais, desde que se encerrara naquele seu retiro, as relações, a principio espaçadas, se haviam a
pouco e pouco, definitivamente rompido. Escrevia então algumas palavras de simpatia e conforto
reatando os laços afrouxados ou rotos no correr dos anos felizes...
Um dia, em dezembro, dona Bathilde e Elys, que regressavam da aldeia, entraram no «Prado-Bento», de
visita a Rosália, muito alquebrada havia já algum tempo. Não era sem um aperto de coração que a pobre
moça transpunha o limiar dessa casa, que lhe recordava não somente a velha e querida amiga, que se
fora para sempre, mas ainda a doce e triste lembrança da confissão de amor, curtos momentos de
felicidade que ali gozara, no grande salão em que Ogier lhe havia dito: «Já compreendeu que a amo, não
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é verdade, Elys?» Contudo, não hesitava nunca, sempre que se fazia mister trazer algum conforto, algum
auxílio a Rosália, agora mal cuidada pela sobrinha, «que se tornara insuportável desde que o criado de
quarto do senhor conde lhe havia dado volta ao miolo», como dizia a pobre velha.
Nesse dia, foram as duas caridosas visitantes encontrá-la de cama, muito doente, mas sem se lamentar,
«porque, minhas senhoras, é preciso que todos soframos um pouco nestes tempos que correm».
Referiram-se elas então a uma família da aldeia, que acabava de saber da morte de um filho, na Bélgica.
Ao que, Rosália, sacudindo a cabeça, acrescentou:
— Talvez o senhor de Chancenay tenha também ficado por lá... Não lhes parece, minhas senhoras, seria
conveniente escrevesse eu umas palavrinhas à senhora marquesa, a fim de saber notícias do senhor
conde ?
— De certo — respondeu dona Bathilde, você deve mesmo fazê-lo, Rosália.
E mudou logo de conversa, pois vira correr um frêmito pelas faces pálidas da sobrinha.
Tornando ao castelo, Elysi depois de ter mudado os trajes de passeio, tomou do jornal, vindo a sentar-se
ao pé de dona Antonieta, para lhe fazer a costumada leitura. Depois dos comunicados, dos artigos de
fundo e das notícias diversas, chegou às citações das ordens do dia... Súbito, hesitou, a voz de timbre
puro tremeu...
«De Chancenay, tenente do... regimento de dragões. Oficial de bravura e inteligência pouco vulgares.
Admirável comandante. Em várias circunstâncias, tem mostrado, tal audácia e sangue-frio, que lograram
restabelecer situações difíceis. Ferido quando carregava à frente dos seus soldados, tornou ao fogo logo
depois de medicado. Tem sempre solicitado para si as missões mais perigosas».
Durante alguns instantes, calou-se a menina embargada pela mais violenta comoção.
A senhora de Prexeuil, essa continuou a tricotar tranquilamente, como se a brilhante citação dissesse
respeito a um desconhecido. Mas um observador sagaz teria notado que os lábios, subitamente, se lhe
contraíram, — sinal evidente de grande contrariedade.
Elys prosseguiu finalmente a leitura. A vez tremia-lhe ainda, e sobre as faces estendia-se-lhe um ardente
rubor, enquanto o coração lhe batia apressado, vertiginoso.
Dona Antonieta, que observava de viés esses sintomas, disse consigo: «Foi o demo que lhe fez ver
isso!... Pois não será, de certo, esse prestígio de herói que lhe fará diminuir a força da lembrança que ela
ainda lhe conserva, como o demonstram a persistente melancolia e alteração de sua saúde, desde esse
malfadado incidente!»
De fato, no coração de Elys, ao amor sempre vivaz vinha agora juntar-se esse secreto entusiasmo, essa
profunda admiração — e também todos os cuidados, que a faziam tremer, ao pensar nos perigos sem
número a que se via exposto o jovem mundano de ontem, hoje um desses heróicos oficiais, que, já agora,
enriqueceriam magnificamente o glorioso patrimônio da França.
E assim passou o inverno, longo e triste. Mesmo estando cada vez mais fatigada, Elys, que nunca se
queixava, continuou a acompanhar dona Bathilde, auxiliando-a ao mesmo tempo nos cuidados para com
a senhora de Prexeuil, sempre torturada pelo reumatismo. Viviam as castelãs quase pobremente, pois
sobre elas pesavam agora graves preocupações financeiras. A rendeira, ainda que houvesse recolhido a
safra em boas condições e vendido por alto preço parte do seu gado, recusava-se a pagar-lhe a renda,
pretextando achar-se mobilizado o marido. As senhoras de Prexeuil encontravam-se, assim, em sérios
embaraços, e foram obrigadas a socorrer-se de umas magras economias, amealhadas por dona Antonieta.
Mas que seria delas quando se esgotassem essas reservas?
A senhora de Baillans, sua parenta, que sempre se mostrara para ela uma excelente amiga, e à qual
comunicara a senhora de Prexeuil a aflitiva situação em que se achavam, enviara-lhe a seguinte resposta:
«Venham depressa vocês três para nossa boa terra do Béarn. Ofereço-lhes a todas hospitalidade, não em
minha «vila», que transformei em sanatório para os nossos caros feridos, mas no pavilhão do parque,
onde habitamos, eu, minha filha e as crianças. Vida simples, sossegada, como convém nestes dias de
luto. Ares puríssimos, reconstituintes, que hão de fortalecer a nossa Elys, cuja saúde
parece que te dá algum cuidado. Além disso, ela e Bathilde encontrarão aqui em que empregarem a sua
atividade — toda a sorte de trabalho, pois sendo como somos, muito poucas, temos muito que fazer, para
que nada falte aos nossos caros pensionistas.
«Quanto à questão financeira, falaremos disso aqui, em família. Há quatro anos que eu as convido para
virem, e vocês nunca se decidiram a atender ao meu desejo! Desta vez, eu as intimo, e sem condições!
Depois, não será preferível nestes tempos calamitosos reunirmo-nos quando o podemos fazer?»
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à leitura desta carta, ficou perplexa a senhora de Prexeuil.. . Sim, era bem verdade que lhe dava muito
que pensar a saúde da sobrinha. Talvez lhe fosse favorável, física e moralmente, uma mudança de ares...
Mas, à outra parte, a velha senhora, habituada a não deixar nunca Prexeuil, via sem entusiasmo a
perspectiva dessa viagem ao outro extremo da França.
Ao comunicar às sobrinhas o oferecimento da prima, declarou imediatamente dona Bathilde:
— Isso havia de fazer muito bem a Elys. A titia deve aceitar.
— Não, não! contraveio Elys, sacudindo a cabeça. Per minha causa, não! Tenho aqui uma tarefa que não
posso desamparar — a assistência a esta pobre gente.
— Sim... Mas se não temos como viver em Prexeuil, nem podemos pagar aos criados, indispensáveis a
uma grande easa como esta ?... Enfim, refletiremos ainda sobre o caso.
Pouco tempo depois, pelos fins de março, Elys caiu doente com uma forte gripe, cujo caráter assaz grave
exigiu a vinda do médico. Este, ao despedir-se da enferma, depois de lhe haver feito um exame rigoroso,
disse à senhora de Prexeuil:
— Esta moça precisa, quanto antes, de um tratamento sério. Felizmente, a sua constituição é perfeita, e
não tem
nenhum órgão especialmente lesado; mas acho-a muito fatigada, muito anêmica... Se fosse possível uma
mudança de ares, eu lhe aconselharia, minha senhora, que a experimentasse, mas com repouso, muito
repouso. O que não convém, de modo nenhum, é que ela passe aqui o próximo inverno; o clima é
demasiado rude para uma saúde tão abalada.
— Talvez seja possível, doutor... Uma de minhas parentas, residente em Béarn, há muito que insta
conosco para que vamos lá passar algum tempo. Parece-lhe ao doutor que esse clima conviria à minha
sobrinha?
— Perfeitamente!... Leve-a para lá logo que ela se restabeleça desta gripe, que espero dominar em
poucos dias.
E, depois de um curto silêncio, acrescentou:
— Não existirá também uma causa moral para esse depauperamento?... Ainda há pouco, uma palavra
dessa jovem deu-me a perceber que ela não faz muito empenho de viver...
A senhora de Prexeuil estremeceu, mas disse francamente:
— Sim, doutor, parece-me que há qualquer coisa... Um casamento impossível...
— Ah!... É de lamentar! Cumpre então distraí-la, fazer-lhe esquecer...
«Isso é fácil de dizer!» disse entre si dona Antonieta, depois que o médico partiu. «Estas moças
românticas não esquecem assim com tanta facilidade... principalmente a um feiticeiro como esse de
Chancenay».
Só nos cemeços de maio, achou-se Elys suficientemente forte para empreender essa viagem, a que
somente se decidira, depois que a senhora de Prexeuil formalmente declarou que, por enquanto, só a
preocupava a saúde da sobrinha. Partiram afinal as duas, ficando em Gouxy dona Bathilde, que se
instalou no presbitério, a fim de continuar com a senhora de Dambry a sua missão junto dos pobres
aldeões, privados de pastor... Sacrifício penoso essa separação, tanto para ela como para a tia e a
sobrinha, mas que todas três aceitavam de bom grado, julgando-o de pouca monta em comparação com
os terríveis transes que ensanguentavam a França.
Deixaram, pois, Prexeuil por uma esplêndida tarde de maio... Na estação de Besançon, comprou Elys um
jornal e, na sala de espera, desdobrou-o, a fim de o ler, ligeiramente.
Não era sem tal ou qual apreensão, que lia agora os nomes dos oficiais caídos para sempre no campo de
honra. Sempre que o fazia, ela pensava: «Irei ler o dele?...» Por isto, foi ainda com o coração aos
trancos, que, nessa tarde, leu a lista dos mortos... Em seguida, caíram-lhe sob os olhos as nomeações
para a Legião de Honra... E o coração agitado cessou de bater alguns segundos...
«De Chancenay, capitão do... de infantaria. Oficial do mais alto valor. Pediu transferência da cavalaria
para a infantaria. Exerce sobre os seus comandados extraordinário prestígio moral, conduzindo-os para
onde quer. Ferido gravemente no correr de um assalto, brilhantemente levado a efeito, foi trazido por um
dos seus soldados sob um chuveiro de balas. Tem-se portado sempre como herói».
Resvalou-lhe das mãos tremulas o jornal, ao mesmo tempo que as pálpebras lhe desciam sobre os olhos,
anuviados, e o busto declinava, flácido. .. A senhora de Prexeuil teve apenas o tempo de receber nos
braços a sobrinha desfalecida.
Mas foi somente uma ligeira síncope. Elys reabriu logo os olhos, esboçando um sorriso, a fim de
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tranquilizar a tia. Esta, agradecendo às pessoas que haviam acorrido em seu auxílio, acomodou a jovem
em uma das poltronas da sala de espera de primeira classe, onde se conservaram ambas, quase
silenciosas, até a chegada do trem, que as devia conduzir.
Em viagem, enquanto Elys, ainda muito pálida, passava por um ligeiro sono, tomou dona Antonieta o
jornal, percorrendo-o febrilmente com os olhos... Súbito, arrugaram-se-lhe as sobrancelhas, enquanto
murmurava consigo mesma:
— Bem me queria parecer que eram ainda negócios do senhor de Chancenay!...

CAPÍTULO XIV

A dois quilómetros da cidadezinha pirenaica de Ursau, a senhora de Baillans possuía uma enorme
«vila», confortável mas sem luxo, que ela havia oferecido, no começo da guerra, para que aí instalasse o
governo um hospital auxiliar. Tendo, porém, a administração militar julgado preferível utilizar para esse
fim outra propriedade situada na, mesma Ursau, a «vila» Branca fora aceita como sanatório para oficiais
feridos, e a sua direção confiada à filha da ofertante, a senhora Jarmans, que possuindo já o diploma de
enfermeira, exercia agora as funções, auxiliada pela mãe e sob a chefia de um médico. Com a senhora de
Baillans e suas duas filhas (o marido caíra prisioneiro logo que se romperam as hostilidades), ocupava
ela um grande pavilhão, sito no pequeno parque da «vila». Foi aí que apareceram, certa manhã, a
senhora de Prexeuil e a sobrinha, ambas alquebradas de fadiga.
A senhora de Baillans, tão expansiva quanto era a filha comedida, exclamou logo que se viu a sós com a
prima:
— Mas é adoravelmente linda a tua Elys, minha boa Antonieta!... Está, sim palidazinha, muito
fraquinha... mas é encantadora! Já agora, não me admira que o senhor de Chancenay morra de amores
por ela!... E a propósito, parece que foi gravemente ferido... Acreditam até que não poderá mais voltar
para o front...
Atalhou-a logo dona Antonieta:
— Pelo amor de Deus, Fabiana, não pronuncies nunca diante dela esse nome... Ainda ontem, teve um
desmaio, ao ler no jornal que ele fora mal ferido...
— Oh! coitadinha!. . . Não o esqueceu então ? Não admira, dizem todos que é encantador!... E agora
com essa auréola de glória e de martírio... Seria um casamento magnífico se não fora esse teu receio de
fazeres dela uma infeliz! São nababescamente ricos os Chancenay!... Os seus domínios de Sarjac, a vinte
quilómetros daqui, são soberbos — a mais bela propriedade da região... Pertencem agora a esse Ogier,
pois o avô faleceu o mês passado. Mas, não te aflijas, minha boa amiga, terei o cuidado de não aludir
jamais a ele diante da nossa querida Elys, que havemos de restabelecer completamente o mais breve
possível.
— Sim; porque, em verdade, a sua saúde me preocupa muito, muito... Mas, mas... não te parece,
Fabiana, que a presença desses oficiais... Sim; porque, sem dúvida, eles devem passar pelo parque...
— Decerto, pobres rapazes! Mas o pavilhão tem saída independente para a estrada e para o bosque de
pinheiros. Irás alojar-te lá com Elys, para respirar os bons ares, a Gabriela há de pedir-lhe que leve a
passear as crianças... Entretanto, se os meus pensionistas se apaixonarem por ela, o que é mais certo, não
a poderão raptar nunca!... Demais, se ela ainda conserva tão profunda lembrança do senhor de
Chancenay, nada há de que recear pelo seu coração, não te parece?
A despeito de tais afirmativas, semelhante vizinhança não agradou absolutamente à senhora de Prexeuil.
Mas teve de resignar-se, pois era impossível evitar esse inconveniente.
Desde o primeiro momento, acharam-se tia e sobrinha inteiramente à vontade, como em sua casa, nessa
hospitaleira morada. Gabriela Jarmans, inteligente e honesta, agradou logo a Elys, que ainda a não
conhecia; e suas duas filhinhas, Tereza e Lúcia, tomaram-se logo de repentino entusiasmo pela «linda
priminha», da qual ja não se separavam.
— Oh! querida que grande serviço o que me prestas! dizia Gabriela a Elys que logo se prontificara a
lecionar as duas priminhas. Ocupada, como estou sempre na «vila», tenho descurado muito da instrução
delas. Demais, assim em tua companhia hão de achar mais curto o tempo que passam longe da sua
mamãe.
Da rouparia, trouxe-lhe ainda a senhora Jarmans um trabalho de agulha para Elys e alguma lã, que dona
Antonieta diligentemente tricotava. Sentavam-se tia e sobrinha à sombra de um pinheiral mui próximo
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do pavilhão, e punham-se ali a trabalhar, ao mesmo tempo que vigiavam as crianças, que folgavam ao
redor delas.
Várias vezes na semana, Gabriela levava a passeio as filhas e a priminha. A princípio não foram muito
longe, para que Elys não se fatigasse... E não poucas vezes, de volta detinham-se em Ursau, em casa de
uma amiga da senhora de Baillans, que habitava um casarão coberto de velhas telhas, não mui distante
da branca igrejinha do lugar.
A senhora Salbert, velha e gentil dama, ainda lépida, tomou-se logo de viva simpatia por Elys, «um
verdadeiro mimo!», como dizia ela à senhora de Baillans, a quem visitava sempre.
Em frente da casa erguia-se um vasto edifício de pretensiosa elegância, precedido de um pátio
ensaibrado e ornamentado de floridos alegretes. Pertencia a um indivíduo, natural do lugar, Jerónimo
Bignard, rico industrial, que se tornara, havia alguns anos, personagem influente nos centros políticos. A
mulher e a filha haviam estabelecido nessa sua residência de Ursau uma ambulância, onde, com o
auxílio de algumas enfermeiras, tratavam de uma centena de feridos.
— Há muito desperdício ali dentro! dizia a senhora Salbert, sacudindo a cabeça. Essas senhoras não se
entendem absolutamente... E demais, duas ou três das enfermeiras não têm os modos gue seriam para
desejar... Uma principalmente... uma estrangeira, que dizem ser
rumena... Linda, linda demais até para essas funções, sobretudo com os modos que tem... Mas dizem que
é muito recomendada, e como Bignard não quer ficar mal com o governo, há de provavelmente
conservá-la aqui enquanto ela quiser...
Uma tarde, como a senhora Salbert acompanhasse até o limiar da porta da rua as suas visitantes, viram
elas sair da casa de Bignard uma jovem enfermeira. Elys pôde então apreciar um bela semblante e uns
cabelos cor-de-fogo acamados em fartos mantos ondeados sob a touca branca, caprichosamente
colocada. Durante alguns segundos cruzou-se com o dela um olhar curioso. Em seguida, passou-lhe por
diante a jovem personagem, a pregar garridamente na blusa um lindo ramo de pequenas rosas
encarnadas.
— Olhem, lá vai ela, a tal moça Doucza... disse em voz baixa a senhora Salbert. Traz sempre ao peito
flores, como essas, sem dúvida para chamar mais a atenção sobre a sua pessoa. Mas quem será?
Provavelmente, ninguém o poderá dizer, e os Bignards sabem tanto como os outros. Parece-me grande
imprudência o consentirem que assim se introduzam em nossas ambulâncias sanitárias umas
estrangeiras, cujos antecedentes todos ignoramos.
— Imprudência que pode até sair-nos cara — corroborou a senhora Jarmans. Aliás, antipatizei logo à
primeira vista com essa menina, e, só pelo seu aspecto, eu a teria despedido delicadamente, se ela se
houvesse lembrado de oferecer-me os seus serviços.
— Ah! mas a sua casa, Gabriela, é uma casa-modelo!. .. Por isto, não admira que esses senhores façam
os maiores elogios ao modo como são aí tratados, aos cuidados de que você os cerca...
— Faço o que posso, para o bem desses defensores de nossa amada França, irmãos de armas do meu
querido André. Aliás, são todos muito corteses, e em geral, muito simpáticos.
— São realmente!... E essa Doucza fica à espreita, ao que parece... É bem desagradável a presença de
semelhante namoradeira, em nossa cidade!
— Certamente, muito desagradável... Mas não podemos fazer nada, minha boa amiga.
E, com isto, despediram-se da senhora Salbert as duas primas, tomando o caminho da «vila», precedidas
pelas crianças. Na estrada cruzaram com um grupo de jovens oficiais convalescentes que as
cumprimentaram respeitosos, lançando todavia uns olhares admirativos para Elys. Começavam já a
conhecê-la, a linda jovem do pavilhão, tão bela e altiva, mas algo triste. Chegara doente, ao que diziam...
Mas já se ia tornando mais forte, o aspecto era melhor, os olhos iam perdendo aquela expressão de
cansaço, ainda que guardassem uma certa melancolia.
De fato, Elys sentia que as forças iam volvendo, mas não as recobrava tão depressa como sem dúvida
aconteceria se não fora o seu constante pensamento, sempre voltado para o glorioso ferido, que desejava
saber se havia nobre vivido, ou se...
E sentia um calafrio à idéia de que, a essa hora, poderiam talvez estar cerrados para sempre esses belos
olhos ardentes, que a haviam contemplado com tão grande paixão...
— Não sei o que há de ser dessa pobre Elys! dizia à filha a senhora de Baillans. Traz dentro de si
alguma coisa que a martiriza... Sem dúvida, esse amor pelo senhor de Chancenay! Mas, admitindo
mesmo que escape aos graves ferimentos, jamais Antonieta descerá das suas prevenções!
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— Contudo, mamãe, hás de convir que as informações que te ministraram não eram absolutamente
satisfatórias...
— Sim, sim... não eram... Mas deve ter mudado... As provações por que tem passado, a morte, a todo
momento, suspensa sobre a cabeça...
— Sim para alguns, assim é; outros, porém, apenas experimentam com isso um efeito muito
superficial... Mas, dizes bem: há um obstáculo moral ao completo restabelecimento de Elys.
Infelizmente, se é o que suspeitamos, não podemos fazer nada...
— Eu, se fosse Antonieta, ao invés de me obstinar em não querer que ela se case, ao contrário, colocava-
a em contato «com rapazes distintos — que sempre há ainda assim, diga o que disser! Procuraria, desse
modo, fazê-la esquecer o senhor de Chancenay.
A senhora de Jarmans sacudiu negativamente a cabeça:
— Elys não é das que esquecem. Estou persuadida de que pertence ao número das que dificilmente
amam duas vezes. Demais, a idéia de que talvez esse moço esteja enfermo, sofrendo, só pode aumentar o
afeto num coração como o seu, tão ardente, tão entusiasta, feito para os grandes devotamentos, os
grandes sacrifícios.
Observadora, como era, havia Gabriela adivinhado perfeitamente o que se passava no coração de Elys.
Também a senhora de Prexeuil bem sabia o motivo da persistente melancolia que nublava aqueles belos
olhos cismadores.
Assim passaram junho e julho. Recebiam amiúde boas notícias de dona Bathilde, sempre muito ocupada.
Por ela, soube-se em Ursau que o abade Dambry, atingido por um estilhaço de granada, quando
levantava os feridos no combate, tivera de amputar a perna esquerda. A mãe acabava de partir para
Toulouse, onde o haviam hospitalizado.
Em fins de julho, dona Antonieta foi acometida de uma crise de reumatismo tão violenta, que se viu
forçada a ficar acamada. Ora, enquanto ela lá estava presa no leito de dores, sofrendo corajosamente, e
desveladamente tratada por Elys, chegava à «vila» Branca novo comboio de convalescentes. Entre eles,
vinha um jovem capitão de infantaria que trazia o braço direito suspenso de uma
tipóia. A esse belo rapaz, esbelto, porte elegante, traços acentuadamente aristocráticos, assentava
maravilhosamente o azul-pálido do uniforme de guerra. O rosto de linhas nítidas e viris, dessangrado
pelos aturados sofrimentos, iluminava-se ao fulgor de uns olhos magníficos, de um castanho-alaranjado
e expressão enérgica, mas ardentemente sonhadora... Ao vê-lo a senhora Jarmans, que recebia os recém-
vindos à descida da carruagem: «Que bela fisionomia de soldado, de comandante!...» E quando pouco
depois, o oficial se nomeou «capitão de Chancenay», a custo reprimiu um movimento de surpresa e
comoção. Sorrindo, observou ao oficial:
— Oh! Esta é sua terra, capitão!... Porque Sarjac não fica muito longe daqui...
— Sim, minha senhora, respondeu, sorrindo por sua vez. Foi um acaso feliz, que me enviou para cá lá
do hospital de Bordéus, para onde eu fora internado há já alguns meses — acaso, ou então diligências
feitas por minha avó sem o meu conhecimento.
— Se neste momento estiver em Sarjac, a senhora de Chancenay poderá vir mui facilmente vê-lo em
Ursau.
— E efetivamente está. Espero até receber-lhe a visita um destes dias.
Depois de acomodar convenientemente os seus novos pensionistas, a senhora Jarmans teve uma breve
conferência com a mãe, a quem já havia comunicado o nome do belo oficial, cujo aspecto havia também
fortemente impressionado a senhora de Baillans.
Ambas chegaram à conclusão de qne não deviam ocultar à dona Antonieta a presença do antigo
pretendente de Elys. Agora ou depois a velha senhora viria a saber, - principalmente se o senhor de
Chancenay se demorasse algum tempo na «vila» Branca — e ficaria, sem dúvida, magoada, sabendo que
as suas parentas lhe haviam ocultado semelhante fato.
— Elys, no estado em que se acha, não pode ainda retirar-se, acrescentou a senhora de Baillans. É
necessário que saiba que eles podem se ver novamente — que se encontrarão, com certeza... E, quem
sabe, Gabriela, se as coisas não caminharão trazendo felicidade para a nessa querida Elys?... Ah! sim,
agora que já vi esse moço, compreendo, compreendo!... Que soberba fisionomia!... E um olhar em que
se lhe estampam a distinção, o encanto, a inteligência!... Sim, a nossa Elys tem razão de estar
apaixonada; e não seria eu que teria coragem de a censurar por isso, pois logo à primeira vista simpatizei
extremamente com esse conde de Chancenay!...
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Também essa era a impressão da senhora Jarmans, que procurou ela refrear o entusiasmo da mãe. Era
necessário ter precaução, com dona Antonieta, para que ela não percebesse a simpatia que Ogier de
Chancenay inspirava às parentas dela. Depois, estudariam melhor esse rapaz, e veriam então se,
realmente, era digno de que ambas procurassem mudar as idéias da velha tia em favor dele. Tudo isso,
porém, exigia muita prudência, tato, muita paciência... «nessas coisas todas, Gabriela, és mestra»,
concluiu a senhora de Baillans, que deveria mostrar completa indiferença para com o jovem, oficial,
quando a respeito dele falassem à prima.

CAPÍTULO XV

Ao saber que Ogier de Chancenay era agora hóspede da «vila» Branca, a senhora de Prexeuil
testemunhou um visível sentimento de consternação e mau humor.
— Realmente, não faltava mais nada!... Elys já estava restabelecendo aos poucos... mas, agora, se torna
a vê-lo, voltarão os problemas...
— Mas, que queres, minha pobre Antonieta! Eu nada posso fazer! dizia a senhora de Baillans. Não
posso pôr na rua esse glorioso oficial, que foi crivado de ferimentos e cujo braço direito, parece, ficará
paralítico... Além disso, pode ser que Elys não o veja...
— Seria um caso inaudito!... O que devo fazer é retê-la aqui dentro de casa a maior parte do tempo...
— Isso não Antonieta! Ela tem necessidade de exercícios moderados, mas regulares.
— Sim, sei... Mas, então, que faremos?
— Confiar na Divina Providência, que saberá, melhor do que nós, combinar as coisas de modo que
revertam em bem para a nossa boa e piedosa Elys.
A senhora de Prexeuil sacudiu a cabeça... Certo, acreditava firmemente na ação da Divina Providência!
Mas o orgulho inato, e sempre vivaz, levava-a frequentemente a colocar em primeiro plano as suas
idéias pessoais. Assim procedera sempre no tocante à vocação de Elys; e agora, seria difícil convencê-la
de que essa mesma Providência bem podia ter querido conduzir de novo ao encontro de Elys o senhor de
Chancenay.
Como quer que fosse, era impossível retirar-se dali. Primeiramente, imobilizava-a por algum tempo o
reumatismo; depois, o médico havia recomendado que não passasse Elys o inverno em Prexeuil. Além
disso, não dispondo dona Antonieta dos meios necessários para estabelecer-se em outro lugar, nem
sequer para afastar-se dali momentaneamente, tinha que se resignar ao inevitável.
E assim foi. Mas com que cuidado e surda impaciência! Ficava imaginando um modo de impedir que a
sobrinha tornasse a ver Ogier, e não encontrava nenhum! Sem dúvida, mais dias menos dias os dois se
encontrariam... E, então, a ingênua moça seria arrebatada de novo pela imaginação...
Elys soube da presença do senhor de Chancenay logo no domingo seguinte.
Na missa das oito horas, os soldados ocupavam do hospital de Ursau os bancos colocados diante da teia
do coro, enquanto os oficiais da «vila» Branca tomavam lugar nas estalas, ou no corpo mesmo da igreja,
à vontade de cada um. Orai aconteceu que tendo chegado cedo, Elys de Valromée passeava
maquinalmente o olhar pelos assistentes, quando, súbito, estremeceu, sentindo que o coração lhe parava
um momento dentro do peito...
«Ele!» Sim, era ele!... Pálido mais magro, mas tão belo como outrora... Ogier dirigiu-se para uma das
estalas, ajoelhou-se apoiando a fronte na mão; minutos depois ergueu-se, ficando de pé, face voltada
para o altar, onde começava o santo sacrifício.
Elys, trêmula de profunda alegria, pensou consigo: «Estará mudado?... Acreditará agora em outra
vida?»
Nessa manhã perturbavam frequentes distrações as ardentes preces e ações de graça da ex-freirinha de
Prexeuil... Quase sem perceber olhava para o jovem oficial, observando seu ar grave, concentrado, sem
afetação. A guerra transformara-o com as suas terríveis provações... Agora, a tia Antonieta já não
poderia fazer objeção.
Por momentos, a alma de Elys iluminou-se de deliciosa esperança. Mas logo com um calafrio de terror,
pensou: «Ah! mas prometi que nunca me casaria!... Talvez ele já nem pense em mim... Já se passaram
dois anos!...»
Sim, dois anos; mas como ainda o amava!... E agora, mais do que nunca, porque o via nimbado pelo
heroísmo, pelo sofrimento!... E sentia-se afogar por violenta comoção ao pensar que, daí a pouco, talvez
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se encontrassem ambos na passagem, e ela tornaria a ver então esses mesmos olhos, onde já lera outrora
toda a força de um imperioso amor...
Mas a senhora de Baillans, julgando melhor aguardar outra ocasião, arranjou as coisas de modo que
saíssem da igreja depois de o grupo de oficiais ter-se afastado. Fora, encontraram a senhora Salbert, que
as esperava. Bastante intrigada, — a curiosidade era o seu defeitozinho! — indagou a velha senhora:
— Quem é esse belo capitão, ferido no braço, cuja presença tanto impressionou esta manhã todas as
mulheres?
— Não sabe?... O capitão de Chancenay... o conde de Chancenay, castelão de Sarjac...
— Ah! sim... O que teve tantas citações, a legião de honra, e tudo o mais que se pode granjear na
guerra, sem falar dos sofrimentos!... Olhe lá, minha amiga! E o que ele está pensando fazer aqui de bom
e bonito entre o nosso mundo feminino?...
Interrompeu-a a senhora de Baillans:
— É, realmente, um rapaz encantador, sob todos os pontos de vista: muito inteligente, muito gentil e
parece também que muito distinto.
Com a voz um tanto trêmula, e esforçando-se debalde para que o rubor não lhe subisse às faces,
informou Elys:
— Nós o conhecemos em Gouxy há dois anos, quando ele foi lá por ocasião do falecimento da prima, a
senhora de Valheuil, nossa amiga.
Como se somente agora lembrasse desse fato, a senhora de Baillans declarou:
— Ah! sim é verdade, lembra-me agora que Antonieta me escreveu a esse respeito, dizendo até que a
marquesa de Chancenay é quem herdaria o «Prado-Bento»... Nessa ocasião, estávamos bem longe de
supor que nos veríamos reunidos em tais circunstâncias...
Ao regressarem à «vila» Branca, a senhora de Baillans, enfiando o braço no de Elys, e afagando-lhe a
mãozinha, perguntou-lhe com meiguice olhando fixamente para a meça:
— Então, querida, é esse o senhor de Chancenay, que desejava casar contigo, e sobre o qual me pediu
outrora tua tia algumas informações?
— Sim, prima, é ele, — respondeu Elys, corando de novo.
— Ah! ah!... E ele não era indiferente a ti, não é verdade?
E sorriu ante a perturbação da moça. Esta, com tremor na voz, respondeu:
— Eu estava pronta a aceitar... Mas disse-me a titia que ele não era digno de mim...
— Sim, nesse tempo, ele não era lá... digamos... Hoje, porém, talvez já esteja outro... E se já não
continuar fazendo objeção, tua tia não terá agora motivo para insistir na recusa.
No braço da senhora de Baillans, estremeceu a mãozinha de Elys.
— Ela, porém, me fez prometer-lhe que não me casaria nunca.
— Quê!?... exclamou a senhora de Baillans, estacando, pasmada. Na tua idade, querida, e encantadora
como és!... Não, não pode ser! É preciso que ela reconsidere...
Elys sacudiu a cabeça:
— Ah! a titia é muito tenaz nas suas decisões.
— Pois havemos de ver!... Olha, querida, eu e Gabriela tomaremos a nosso cargo saber de fonte limpa o
que vale o senhor de Chancenay. E se ele realmente mudou, se corresponde, moralmente, ao seu físico
tão simpático, afianço-te que faremos com que a tia Antonieta mude de opinião!
Como não havia ninguém na estrada, Elys inclinou-se para beijar a excelente senhora.
— Oh! querida prima!
Lançando um olhar malicioso ao belo semblante, já reanimado pela esperança, perguntou a senhora de
Baillans:
— Então o amas ainda? — Não o esqueceste, querida?
— Oh! não! murmurou Elys, com tremulo sorriso. Como se aproximassem do pavilhão, perguntou a
jovem à companheira:
— Parece-lhe, prima Fabiana, deva eu dizer à titia que vi o senhor de Chancenay?
— Sim, será melhor. Antonieta não veria com bons olhos estes nossos segredinhos. Demais, ela já
sabe que ele está aqui, e bem conhece a quase impossibilidade do vocês não se verem e se encontrarem.
Assim, pois, minha filha, fala-lhe francamente.
Atendendo a isto, logo que se encontrou com a tia, disse-lhe Elys esforçando-se por não tremer a voz:
— Parece que o senhor de Chancenay é um dos convalescentes chegados nestes últimos dias. Vi-o hoje
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na igreja com os outros oficiais da «vila».
— Ah! exclamou simplesmente dona Antonieta.
E não se falou mais do novo hóspede da «vila» Branca.
Nesse mesmo dia, à tarde, aconteceu passar o senhor de Chancenay próximo do pavilhão em companhia
de um dos seus camaradas de regimento, o tenente Blavet, que se achava na «vila» Branca, onde chegara
havia um mês.
— É ali que moram a senhora Jarmans e a mãe? perguntou Ogier, indicando a graciosa habitação
guarnecida de trepadeiras.
— Sim, depois que cederam a «vila» aos feridos... Com elas reside também atualmente uma prima
dessas senhoras... criatura encantadora! Sim, encantadora! O que eu tenho visto de mais belo em minha
vida!
— Que entusiasmo, meu amigo! disse Ogier sorrindo.
— Afianço-lhe que bem o merece a jovem de Valromée!
Num movimento abrupto, parou súbito o senhor de Chancenay.
— Hein?!... A jovem de Valromée?
— Ela mesma... Conhece-a ?
Mas já o outro havia dominado a comoção.
— Conheci pessoas desse apelido... Ela era, realmente, muito bonita.
— Provavelmente, é a mesma. Aliás vê-la-emos um destes dias, pois sai amiúde a passeio com dona
Gabriela ou com a senhora de Baillans.
— Ê parenta dessas senhoras? indagou Ogier, simulando indiferença.
— Parece que sim. Está com ela uma velha tia. Vieram ambas do Jura, onde residem, por causa da
moça, que está com a saúde algum tanto abalada.
E com um sorriso, o tenente acrescentou:
— Como vê, nestas terras pequenas, estamos a par de tudo!... Demais1 todos nós, rapazes solteiros,
naturalmente nos interessamos muito por essa deliciosa criatura. Ela, porém, é um tanto altiva, um pouco
triste, e não tem nada de namoradeira... É a antítese de uma enfermeirazinha do hospital de Ursau, linda
também, mas menos do que esta, e de outro gênero, a qual procura muito dar nas vistas dos rapazes que
aqui estão. Quer-me até parecer que cuida mais de angariar admiradores, que de tratar dos feridos.
E designava com o dedo o telhado da casa Bignard, que, do sítio em que estavam, se via além, por entre
as árvores.
— Sim, vê-se disso às vezes! comentou Ogier maquinalmente, pois o pensamento já lhe fugira de novo
para Elys.
Estava ali a sua muito amada freirinha!... Iria tornar a ver aquela que fora para ele uma tão pura, tão forte
égide nesses dias de provações ? Inundava-lhe o coração uma profunda alegria; ouvia, por isso, distraído
a conversa do companheiro.
Mas ali estava também a velha tia... Contudo, talvez fosse possível convencê-la da mudança que se
operara nele, Ogier de Chancenay, desde o momento em que lhe pedira, pela primeira vez, a mão da
sobrinha... No sangue de suas feridas, na dedicação pelos seus comandados, no arrependimento sincero
do crente, fizera Ogier desaparecer as máculas de sua existência passada. Era outro homem agora,
consciente dos seus deveres, das suas responsabilidades, para sempre incapaz de voltar a desperdiçar sua
vida, como procedera antes da tormenta, quando sua alma havia iconhecido a verdadeira luz,
purificando-se no sofrimento, no heroísmo, que lhe jorrava de todo o ser, como fonte por longo tempo
represada.
Não! Agora, ele não se julgava indigno de Elys do Valromée... Mas como convencer disto mesmo a
senhora de Prexeuil?...
Assim conversando, haviam os dois oficiais alcançado Ursau. Outros soldados feridos saudavam-nos
quando eles se cruzavam no caminho... Um desses, estacando de repente, levou a mão ao quepe,
exclamando com alegria:
— Oh! meu capitão!
— Olá, Paulet! Estás internado aqui neste hospital?
— Sim, meu capitão, há já quinze dias... Fui ferido pela segunda vez, mas não tão gravemente quanto
da primeira, onde de certo teria ficado2 se o capitão não me houvesse salvado!
Enquanto o senhor de Chancenay dirigia algumas palavras carinhosas ao ferido, dobrou a esquina da rua,
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ao pé deles, uma enfermeira, que deixou escapar esta exclamação :
— Oh! o senhor de Chancenay!
Ogier voltou-se retendo a custo um movimento de viva contrariedade, e dizendo com surpresa glacial:
— Ah! a senhorita Doucza!
— Que inesperado encontro! Acha-se então na «vila» Branca ?
E estendia-lhe falando, a mãozinha, que ele apertou com a ponta dos dedos... enquanto os olhos
esverdeados se fitavam nos dele com apaixonado interesse.
— im, senhora, há já alguns dias...
— Foi ferido gravemente?... Mas agora já está melhor, não é verdade?
— Muito melhor... afora o braço, que ficará sem ação.
E saudou-a, como para despedir-se. Reteve-o, porém, Sari:
— Pois aceite os meus parabéns!... Portou-se como herói, ao que dizem...
E Ogier, friamente:
— Oh! minha senhora, há tantos heróis no exército francês! Eu não tenho o direito a essas singulares
felicitações, porquanto nada mais fiz que o meu dever.
— Ccmo é modesto!... Conhece o nosso Paulet, não é verdade?
E designava o soldado, que continuava perfilado, não sabendo se deveria, ou não, retirar-se.
— ... Ele já contou a todos no hospital, como o seu capitão arriscou a vida, para salvar a dele.
— Paulet é um bravo rapaz, cuja gratidão o torna gentil... Vá visitar-me um destes dias à «vila» Branca,
meu amigo.
— Sim, senhor meu capitão, com muito prazer!
E, corando de orgulhosa alegria, apressou o soldado o passo, a fim de alcançar os camaradas.
Com o mais meigo dos seus sorrisos explicou então Sari:
— Esse homem tem pelo senhor um verdadeiro culto! E não é para menos, porque lhe deve muito,
como ele mesmo nos contou.
— É um dever tão fácil o mostrar-se a gente bom e caridoso para com esses pobres rapazes... Mas,
senhorita, estamos aqui a retê-la...
E, com altiva polidez, saudou-a, despedindo-se e retirando-se com o colega.
— Conhece então a senhorita Doucza? perguntou o tenente.
— Sim, conheci-a há tempos... Quer-me parecer que era a ela que você se referia há pouco?...
— Justamente!
Ogier esboçou um sorriso de desprezo:
— Não me causa espanto...
E, após curto silêncio, continuou:
— Dizia-se húngara, por parte do pai; quanto à mãe, que pretendia ser francesa, creio seria conveniente
indagar-lhe da verdadeira nacionalidade... Mas, como se explica o fato de ser admitida num hospital
francês, uma estrangeira que pertence a uma das nações nossas inimigas?
— Ah! meu caro! Isso entra na categoria de certos mistérios perturbadores, que não incumbe a nós
outros elucidar!... Aliás, a senhorita Doucza diz-se agora romena...
— Ah! Bom!... Verdade é que existem romenos na Hungria, o que torna plausível essa transformação.
E, sacudindo os ombros, acrescentou:
— Sim, sim, bem a estou reconhecendo; sempre a mesma, astuciosa, habilíssima... E a mãe, que é feito
dela? Seria interessante sabê-lo.
— Dizem que está residindo em Bíarritz. Já veio duas vezes ver a filha... Ê uma linda criatura, loura,
muito elegante...
— ... que me parece deve estar prestando bons serviços aos nossos inimigos. Veio-me esta idéia pouco
antes da guerra... Essa senhora procurava então granjear influentes relações nos meios políticos, o que
lhe valeu sem dúvida, depois, livrar-se do campo de concentração... Com certeza, serviu-se a filha dessas
mesmas relações, para insinuar-se em um dos nossos sanatórios.
— Ah! Mas então isso é muito grave!
— Se é!... Mas que havemos de fazer? Você sabe tão bem quanto eu, que há olhos que voluntariamente
se fecham para não ver...
Semelhante encontro contrariou demais ao senhor de Chancenay. Conhecia muito bem essa Sari Douza,
para suspeitar que ela buscaria meios e modos de reatar com ele as relações interrompidas pela guerra.
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Muito tenaz, ela não se deixaria desanimar, senão após muitas e vãs tentativas ... as quais, num vilarejo
como esse, naturalmente não passariam despercebidas.
Ora, tal perspectiva era muito desagradável para Ogier, principalmente considerando que a senhora de
Prexeuil e a sobrinha podiam ouvir falar em semelhantes relações. Que fervedouro de intrigas não
seriam essas atoardas!... E dona Antonieta seria, decerto, a primeira a não acreditar que o senhor de
Chancenay — o animal imundo de outrora — ignorasse as avançadas dessa linda criaturinha...
Todavia, se ela pudesse ver o abismo que se cavara entre o senhor de Chancenay de antigamente e o de
agora, — alma enérgica, refletida, de todo orientado para uma nova vida! Por si mesmo, claro é que ele
nada receava de Sari, a quem desprezava mais do que nunca!... Ademais, que mulher haveria no mundo
capaz de lhe fazer esquecer, sequer por um instante, essa Elys bem-amada, que ali estava, tão perto
dele... que ele iria talvez tornar a ver dentro em breve?
CAPÍTULO XVI

No dia seguinte, Ogier recebeu a visita da avó, que viera de Sarjac em automóvel.
A viuvez e os cuidados pelo neto não lhe haviam modificado a frivolidade de espírito. Continuava a
tingir os cabelos, tornando-os louros, a se arrumar com muita arte, a trajar um luto elegante sabiamente
combinado.
Essa garridice de velha dama irritava Ogier, que a muito custo conseguia dissimular a impressão
desagradável, que não condizia com o respeito devido à avó. Às vezes, porém, deixava explodir a
impaciência quando, por exemplo, a fútil marquesa lhe fazia uma reflexão deste gênero:
— Como te vai bem, meu filho, esse uniforme! Se houvessem escolhido de propósito, não te assentaria
tão bem!
Ou então, com um sorriso malicioso:
— Não te hão de ter faltado admiradoras, hein, meu lindo e gentil oficial!
Ao que o neto replicava com involuntária secura:
— Deixemos essas ninharias, vovó! Tudo isso não passa de bagatelas e tolices... Quanto às admiradoras,
tenho mais que fazer e em que pensar!
Tais visitas não eram muito desejadas por Ogier. Entristeciam-no essas dissonâncias entre as suas duas
almas, o vácuo moral que existia nessa senhora que o amava, mas futilmente, sobretudo porque isso
lisonjeava o amor-próprio dela. E entristecia-se tanto mais quanto o seu coração, agora regenerado,
desprendido do ceticismo de outrora, aspirava encontrar uma afeição inteligente e forte, em que pudesse
confiar e vazar os seus cuidados.
Nessa tarde, deu-lhe a senhora de Chancenay notícias da parentela, na qual já se haviam aberto alguns
claros... Entre outros, William Horne, que se alistara logo no começo da guerra, fora morto em Flandres,
no último inverno.
Ogier tirou da algibeira uma carta, que ofereceu à avó.
— De Maud... Esteve um pouco adoentada, e só agora pôde reassumir as suas funções de enfermeira.
— Oh! essa querida Maud!... Jovem encantadora... inteligente... Sempre pensei, Ogier, que fosse ela a
mulher ideal, de que precisas...
— Pois, enganou-se, vovó. Existe, sim a mulher ideal, de que preciso, mas não é Maud.
A senhora de Chancenay lançou um olhar interrogativo à fisionomia um tanto irônica do neto.
— Tens então alguma em vista?
— Tenho.
— Quem é?
— Permita-me vovó, que ainda não lhe responda à pergunta.
Apesar da grande curiosidade, a marquesa não procurou insistir. Bem sabia, por experiência, que isso
seria inútil, pois Ogier nunca dizia mais do que queria dizer.
Pouco depois, ao levantar-se para se despedir do neto, disse-lhe ainda:
— Tive ultimamente notícias de Pardeuil pelo nosso primo Veuillaumont. Reformado como cardíaco,
divide o tempo entre Paris e Biarritz, onde tem sido visto constantemente em companhia de uma tal
senhora Doucza...
— Ah! isso então continua?... Pois será bom que ele tome cautela, o idiota, pois parece que essa senhora
se ocupa de negócios um tanto equívocos, que fariam ficar em apuros quem está a servi-la, caso a polícia
se decidisse a ver claro nesse assunto.
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— Conheces, então, essa senhora?
— Sim, um pouco... É uma dessas cosmopolitas que os franceses acolhem com demasiada facilidade.
Pardeuil apresentou-a nas rodas que a mãe frequentava, onde ela fez algumas relações, que lhe podem
ser muito úteis hoje em dia.
Assim conversando, o senhor de Chancenay e a avó saíram da «vila». No pátio, aguardava-a o
automóvel... Ogier, porém, propôs-lhe:
— Vamos caminhar um pouco a pé ? A vovó tomará depois o carro...
— Vamos, meu querido! O tempo está belíssimo e a tarde não está quente... e o médico recomendou-me
que fizesse exercícios, para não engordar.
Ogier deu ordens ao chofer, e, transpondo com a marquesa o portão da «vila», ganharam a estrada num
passo vagaroso... A senhora de Chancenay falava, com o seu modo superficial, enquanto o neto lhe
respondia distraidamente...
Súbito, ele estremeceu... Vinham vindo pela estrada duas senhoras... Numa delas reconheceu
imediatamente a senhora Jarmans... A outra... antes mesmo que lhe pudesse distinguir os traços, já a
havia reconhecido o coração.
Com voz, que se esforçava por conservar tranquila, comunicou o oficial:
— Vou apresentar-lhe, vovó, a senhora Jarmans, nossa excelente diretora e enfermeira.
— Ah!... Qual delas?
— A mais alta... A outra é uma prima que reside com as tias no castelo de Prexeuil, em Gouxy; essas
senhoras eram as amigas da senhora de Valheuil.
— Ah! sim... É curioso encontrá-la aqui!...
Elys, tomada de comoção, avançava automaticamente ao lado da senhora Jarmans. Também ela, de
longe, havia logo reconhecido aquele que, mais do que nunca, lhe ocupava o pensamento... Iam-se
encontrar de novo, depois de se haverem julgado separados para sempre!
Como Gabriela, discretamente, passasse por eles, mais a companheira, correspondendo apenas à
saudação do oficial, este a deteve, dizendo-lhe:
— Permite-me, minha senhora, que eu apresente minha avó à nossa dedicada enfermeira?
Acrescentou ainda algumas corteses palavras de gratidão, às quais, gentilmente, se associou a senhora de
Chancenay ... Mas enquanto falava, o rapaz via somente Elys, que, toda ruborizada, buscava desviar os
olhos... em vão, pois os olhares de ambos se encontraram, e ambos leram nos olhos um do outro que a
separação, o sofrimento, todos os dissabores apenas tinham podido tornar mais forte, mais ardente,
indestrutível, o amor de ambos.
E, dirigindo-se a Elys:
— Dizia eu agora mesmo à minha avó que vocês foram as amigas fiéis de nossa prima de Valheuil...
— Sim, nós lhe queríamos muito, à nossa querida senhora de Valheuil tão boa, tão dedicada!...
— Tenho muito prazer em conhecê-la... disse a senhora de Chancenay, estendendo a mão à moça, e,
envolvendo-a num olhar curioso, acrescentou:
— ... Havíamos perdido de vista uma a outra, minha prima e eu. Correspondíamo-nos, de quando em
quando, pois essa pobre Valentina acreditou de seu dever encerrar-se de vez na solidão...
— Queria muito à nossa aldeia, à qual prestou grande serviços. E afianço-lhe, minha senhora, que ela
nunca se aborreceu com isso.
O senhor de Chancenay observou:
— Nunca nos aborrecemos quando tornamos útil a nossa vida... !É essa uma doença, que a senhorinha
também, creio, não conhece...
E entreabria-lhe os lábios um sorriso — dulcíssimo sorriso, que lhe dava novo encanto à fisionomia. Foi
a senhora Jarmans quem respondeu:
— Elys é uma tão infatigável trabalhadora que, às vezes, precisamos forçá-la a descansar, porquanto
necessita poupar-se, estando desde há dois anos com a saúde um tanto abalada.
No belo semblante ruborizado pousou um quente e curioso olhar.
— Está doente, a senhorinha?... Mas creio que não será nada de grave?
— Oh! não! Sinto-me até muito melhor depois que aqui cheguei.
— Espera demorar-se aqui por muito tempo?
— Talvez até a próxima primavera. O médico não quer que eu passe o inverno em Prexeuil, pois diz
que é muito frio.
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— E tem razão!... Estão também aqui as senhoras suas tias?
— Somente minha tia Antonieta. A tia Bathilde ficou em Gouxy, ocupando-se dos pobres com o auxílio
da mãe do nosso cura.
— Ah! Pobre abade Dambry! Soube por um dos seus colegas, que lhe haviam amputado uma das
pernas. Simpatizei muito com ele, e terei muito prazer em tornar a vê-lo, quando eu voltar ao «Prado-
Bento».
— E o senhor?... Como vai do seu braço? Ogier sorriu, erguendo com a mão esquerda o braço inerte,
ainda na tipóia.
— Este não me servirá para nada mais! Preciso acostumar-me a ser canhoto... E ainda fui muito feliz
por ter ficado com um deles!
— Oh, querido, cala-te! Nem quero pensar no que poderia ter acontecido!
— Sim, vovó! Mas é preciso pensar, a fim de dar graças a Deus por lhe haver devolvido o neto não de
todo inválido.
Enquanto assim falava, Ogier não tirava os olhos do lindo semblante de Elys, cujos belos olhos cor-de-
violeta, brilhantes de uma comoção dificilmente reprimida, se haviam baixado um instante sobre as
gloriosas condecorações que ornavam a túnica do oficial. Quando se ergueram de novo, Ogier pôde ler
neles o vibrante entusiasmo, a casta e profunda ternura da cândida enamoradazinha.
Ao se separarem, minutos depois, sabiam ambos que, pelo coração e pelo desejo, se pertenciam um ao
outro para sempre — e mais do que nunca!
Continuando a caminhar de braço dado com o neto, observou a senhora de Chancenay:
— Muito simpática, essa senhora Jarmans... sobretudo, muito distinta... Quanto à moça, é
deliciosamente linda!... Que belos olhos aveludados, de um azul tão raro!... É morena, ainda por cima!...
Bem vestida, pode ter a certeza de que ninguém a eclipsará, onde quer que apareça!
Ogier, que parecia sair de um sonho, disse em tom irônico:
— Bem vestida... quer dizer enroupada nas criações de uma costureira elegante, ou de uma afamada
modista, que se empenharia em fazer desaparecer-lhe a beleza sob o ridículo da moda! De mim,
confesso que a prefiro mil vezes com esses vestidinhos simples, mas elegantes, e esse modesto
chapeuzinho, que a torna encantadora.
— Sim, sim... é linda, de qualquer modo... até vestida num saco... O que não impede que...
Ogier ouvia, distraído, as considerações desenvolvidas pela avó, e respondia em frases curtas às
perguntas que esta lhe fazia acerca da senhorinha de Valromée, das tias, e da vida que levavam em
Prexeuil... Porque, por menos observadora que fosse a senhora de Chancenay, ela havia, contudo,
aproximado estes dois fatos: a presença dessa linda criatura em Gouxy, e o interesse que Ogier
demonstrara durante algum tempo, pelo «Prado-Bento».
«Quis, sem dúvida, flertar com ela... mas as tias cortaram-lhe as asas. Eis aí por que regressou de lá, mal
humorado...»
Tais eram as explicações que a marquesa de Chancenay, não ousando pedi-las ao neto, se dava a si
mesma.
E concluiu:
«Vai, com toda a certeza, reatar aqui o idílio interrompido. Pobre rapaz, isso talvez o distraia!»
Não ia, porém, a sua clarividência até o ponto de pensar que essa moça sem bens de fortuna, educada
modestamente, longe da sociedade, na solidão, fosse a de quem lhe havia dito Ogier: «Existe, sim, a
mulher ideal, de que preciso...»
Depois que, tendo posto a avó na carruagem, se viu sozinho experimentou o senhor de Chancenay uma
sensação de alívio. Apressando o passo, fez-se de volta à «vila». O coração saltava-lhe dentro do peito
invadido de felicidade, grave e concentrada... Porque o obstáculo, representado pelo tenaz propósito de
dona Antonieta, continuava a existir como antes. Todavia, sentia-se agora como que apercebido de uma
nova arma, para lutar contra a velha dama. Era esse seu passado de um ano, passado todo feito de
bravura, de sacrifício, de conversão, que apagava o outro, que desaparecera pela graça divina.
Além disso, Ogier conseguira sem o saber, preciosas aliadas na senhora de Baillans e sua filha.
Estudavam-no ambas discretamente, e cada dia mais lhes aumentava a simpatia por ele.
Ãs maneiras de oficial gentil-homem, aliava o capitão Chancenay uma perfeita bondade, afora a alma
generosa, ardente, leal, — disso se convenceu Gabriela no decurso das conversas, a que às vezes o
provocava.
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O tenente Blavet fez-lhe um dia o mais entusiástico elogio do amigo.
— Não há palavras que possam definir-lhe o heroísmo e o sangue-frio... Valente com as armas, nos
eletrizava a todos! Ah! é um oficial admirável!... Muito bom para os subordinados, posto que enérgico,
sem esforço, porque é querido de todos eles. Também por isso foi recompensado, pois foi um deles que
o salvou com risco da própria vida.
De outra feita conversando Blavet com a senhora Jannans acerca do hospital de Ursau, que dava ensejo a
que o murmurassem na região, observou o tenente:
— Sem uma direção enérgica e inteligente, não se pode conter o pessoal nos limites da moralidade, pois
todo ele é recrutado nas mais diferentes camadas.... Antes de virmos para cá, passamos, Chancenay e eu,
algum tempo num hospital auxiliar das cercanias de Bordéus. Em sua maior parte, portavam-se bem
essas senhoras; mas havia lá duas ou três que se mostravam diabolicamente namoradeiras ...
E acrescentou sorrindo:
— Principalmente com Chancenay. Oh! se ele tivesse querido!... Ele, porém, conservou-se sempre
friamente polido, indiferente... É um rapaz muito sério... extraordinariamente sério!
Todas estas informações e outras mais, que ia recolhendo, reservava-as Gabriela para dar a conhecer à
senhora de Prexeuil, logo que se lhe apresentasse ensejo. Quanto a ela, desde logo se convencera do
seguinte: nenhum homem no mundo era mais digno do que Ogier de Chancenay «dessa pérola de Elys»,
como dizia a senhora de Baillans.
A moça, à vista da indiferença anteriormente afetada por dona Antonieta, não lhe havia «comunicado o
seu encontro com Ogier... Mas a velha senhora adivinhou sem custo que eles se haviam avistado, logo
que observou mais vivacidade nos movimentos de Elys e um brilho não habitual nos olhos da sobrinha...
Como sair desse passo difícil? A velha senhora, por mais que procurasse, não achava saída... Porque,
obstinada na sua decisão, não admitia sequer por um instante o pensamento de uma capitulação. Mas,
por outro lado, inquietava-se à idéia de que a cura da sobrinha, de si já muito demorada, pudesse
ressentir-se de novas comoções.
Um dia, perguntou à senhora de Baillans — e era a primeira vez que lhe tornava a falar do jovem oficial:
— Ainda se demorará aqui por muito tempo o senhor de Chancenay?
— É provável que sim; o braço e dois dos ferimentos exigem ainda séries cuidados. O major está
aplicando um tratamento elétrico... Com certeza, ainda aqui estará no começo do inverno.
E, dissimulando não ver a consternação da prima, aproveitou o ensejo a senhora de Baillans para
insinuar um discreto elogio ao capitão de Chancenay.

CAPÍTULO XVII

Entrara o mês de setembro, belo e quente ainda nesse país de Béarn. Ogier, muito enfraquecido, devido
aos seus sofrimentos, ia rapidamente recuperando as forças, empreendendo com o seu amigo Blavet
longos passeios pelos arredores. Atravessavam campos e prados, seguindo com olhares de inveja o vôo
das aves, ou a ligeira corrida de uma lebre, porquanto eram ambos grandes caçadores...
— Depois da guerra, Ogier dizia, você há de ir verme em Sarjac, Blavet; e, então matará por mim a
minha caça, porque eu agora...
— Sim, sim... replicava o tenente, se eu voltar... Porque, uma vez curado, tornarei a partir
imediatamente... O doutor prometeu-me que, dentro de um mês, já estarei bom para servir de alvo aos
inimigos.
— Pois eu ainda tenho muito que esperar... Demais, com este maldito braço, não quererão, de certo,
recolocar-me à frente dos meus bravos rapazes...
Durante esses passeios, Ogier tinha por vezes o desgosto de encontrar-se com Sari, a qual, como ele
previra, fazia todo o possível para se avistar com o capitão de Chancenay. Mas uma altiva frieza
respondia aos seus sorrisos e aos seus olhares de inusitada admiração... Sem dúvida, a tenaz criaturinha
não desistia.
«Nunca deixei de amá-lo», escrevia ela à mãe, «e amo-o cada vez mais! Por isto, farei tudo, tudo, para
vencer a indiferença dele!... Não te disse ainda que está agora muito mudado que, segundo dizem, se
tornou católico praticante e está disposto a queimar o que tanto adorava, isto é, a existência mundana e a
vida dos prazeres! Mas, ora! são idéias que hão de passar... Em todo o caso, para mim, é inútil que eu
simule devoção e zelo religioso, porque ele não me acreditaria mais do que outrora».
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Mas também Ogier tivera, por duas vezes, o prazer do outro encontro; o de Elys, que acompanhava
Gabriela e as filhinhas desta. Detinham-se apenas os dois grupos alguns minutos, trocando algumas
palavras; isso porém bastava a esses jovens, para trocarem entre si um discreto olhar de amor, cuja
ardente ternura lhes inundava de alegria o coração.
Oh! como Elys amava esse olhar de Ogier! Havia nele uma força, um concentrado calor, que não
existiam no de Chancenay de antes da guerra. A energia, as nobres qualidades, em germe, latentes nessa
alma de homem, mas não desenvolvidas pela educação, haviam magnificamente
irrompido em meio do perigo, das privações, sob a influência da responsabilidade. Dessa fornalha saíra
um novo ser, cuja tranformação se afirmava no olhar, sedutor como outrora, mas diferente.
Pobre dona Antonieta! Como bem previra, o capitão de Chancenay, ferido, aureolado pelo prestígio dos
heróis, conservando ainda nos olhos soberbos o reflexo das horas terríveis que vivera, e dos altos
pensamentos que nunca sublimavam a alma, tornava-se, mais do que nunca, o senhor absoluto desse
jovem coração, que já lhe pertencia todo inteiro!
Ela percebeu tudo, sem que fosse necessário que Elys lhe comunicasse ter-se encontrado com o moço
oficial: adivinhou-o logo, quando a sobrinha entrou em casa. Esse luminoso olhar denotava-lhe todas as
impressões da alma... E a velha senhora, compreendendo a sua impotência, deixava-se levar por um
triste fatalismo, entrecortado por acessos de secreta rebeldia. Teria então de ceder? Teria de dar a sua
querida Elys a esse Chancenay, por quem a senhora de Baillans e Gabriela pareciam tão ridiculamente
enfeitiçadas?... Estava convertido, diziam!... Histórias! Pois não fingira também seu sobrinho Jacques
haver-se tornado um santinho, quando foi do casamento dele?
Cumpre dizer que o orgulho entrava em grande parte nos sentimentos de hostilidade de dona Antonieta
para com Ogier. A idéia de uma capitulação, do triunfo desse homem, a quem outrora havia tão
energicamente recusado a mão da sobrinha, era-lhe por demais pesada e, por isso, reagia com todas as
suas forças.
As primas, porém, continuavam habilmente os seus trabalhos. Precisavam ter precaução, atendendo a
esse caráter autoritário, facilmente parcial, porque demasiadamente apaixonado em suas idéias.
Mas, dizia Gabriela, à mãe:
— A afeição que dedica a Elys há de acabar por abrandá-la. Sim, será somente por aí que nós a
venceremos.
Uma tarde, em que a moça não pudera sair, Elys conduziu Teresa e Lúcia a um curto passeio pelas
cercanias. Enquanto Lucinha dava prudentemente a mão à prima, a mais velha, criança travessa de seis
anos, exuberante de vida, corria daqui para ali, seguida de um cãozinho dos Pirinéus, tão folgazão
quanto ela. Em vão Elys tentou contê-la; mas a menina, clausurada durante os dois dias precedentes, em
vista de uma chuva torrencial e ininterrupta, — parecia nesse dia um verdadeiro animal em liberdade.
Ora, numa dessas corridas, prendeu-se-lhe o pé entre duas pedras, e rolou no chão, soltando um grito de
dor.
Quando Elys, ajudando-a a levantar-se, quis pô-la novamente de pé, a criança soltou outro grito....
Então, descalçando-lhe o sapatinho e a meia, verificou a moça que o tornozelo inchava rapidamente.
Precisava buscar socorro no pavilhão porquanto a criança era pesada demais para a transportar no colo.
Mesmo com receio de deixar sozinhas as duas crianças, não havia outra alternativa.
— Lúcia, recomendou ela, vais ficar aqui junto de tua irmã, enquanto eu vou correndo até a casa buscar
Melânia, para que me ajude a carregar Teresa.
— Não, prima Elys, gemeu a criança, amedrontada. Não me deixes agui sozinha, pelo amor de Deus!
— Mas, assim é preciso, meu bem. Não demoro muito... Nada tens que recear.
E, rápida, enfiando por um atalho, que devia conduzi-la mais depressa ao pavilhão, largou a correr, indo
quase esbarrar com dois oficiais, que vinham em sentido contrário.
— Que lhe aconteceu, senhorinha? perguntou inquieto um deles.
Ela corou, reconhecendo o senhor de Chancenay, a quem acompanhava o tenente Blavet.
— Uma das minhas priminhas torceu o pé, e eu vou depressa ao pavilhão chamar alguém que me ajude
a transportá-la.
— Não é preciso, nós nos oferecemos para isso... não é verdade, Blavet?
— Claro!
— Eu não queria incomodá-los.
— Incômodo, senhorinha?... Diga antes prazer! Sentimo-nos felizes em poder ser-lhes úteis.
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E Ogier acrescentou sorrindo:
— Há de ver que o meu único braço ainda pode servir para alguma coisa... Conduza-nos aonde está a
criança, que nós nos encarregaremos de levá-la ao pavilhão.
Alguns instantes depois, os dois oficiais carregavam a Teresa, satisfeita de tão pronto socorro. Seguia-os
Elys e Lúcia, a primeira muito comovida e algo inquieta. Justamente nessa tarde, a senhora de Prexeuil,
que melhorara desde alguns dias, fora sentar-se no jardim. Para transportar Teresa ao pavilhão, era
preciso que o grupo passasse diante de dona Antonieta... Que acolhimento ela faria ao senhor de
Chancenay?
A princípio, a velha senhora viu apenas Teresa nos braços dos oficiais, cujas feições não pôde logo
distinguir. Levantou-se, não obstante as dores que sentia, e, dando alguns passos para o grupo,
perguntou, assustada:
— Que aconteceu?
— Não se aflija, minha senhora... Não foi nada grave, apenas uma entorse... respondeu o tenente Blavet.
A velha deitou um olhar àquele que assim lhe falava, e encarou depois o companheiro. Tremeram-lhe
então as faces... Desviando os olhos do olhar sereno de Ogier, disse com voz ligeiramente agitada:
— Oh! senhores, que incômodo! Darem-se a este trabalho!... Elys, chama as criadas!...
— Não vale a pena, senhora, incomodar ninguém. Nós mesmos levaremos a criança até ao quarto, se
a senhora o consentir.
— Como queira, senhor.
Já Elys precedia os oficiais, guiando-os para a entrada do pavilhão... Depois de terem deixado Teresa
sobre a cama, despediram-se ambos da criança acarieiando-lhe a face. Ao desceremi encontraram-se de
novo com a senhora de Prexeuil, que os aguardava, a fim de agradecer-lhes. Ao mesmo tempo, chegava
a senhora de Baillans, que muito se admirou de ver o senhor de Chancenay rosto a rosto com dona
Antonieta. Informou-se do incidente; depois, sem querer atender às discretas desculpas dos rapazes,
instou com eles para que tomassem chá.
No íntimo, exultava com o incidente, pois que a entorse não oferecia gravidade como ela mesma
verificara, indo ver a netinha, a quem Elys friccionava o tornozelo dolorido. Entretanto, via-se a senhora
de Prexeuil obrigada a achar-se de novo em presença desse detestado Chancenay, falar-lhe, ouvi-lo... Era
já um grande passo — um passo de gigante, pois a personalidade do rapaz impunha-se para logo à
atenção e simpatia dos que o ouviam.
Dona Antonieta, como senhora bem educada, interrogou os dois oficiais sobre seus ferimentos,
chegando até, no decorrer da conversa a elogiar discretamente a bravura de ambos. Ao vê-la agora,
ninguém diria que o senhor de Chancenay já era seu antigo conhecido... Ele também não fazia nenhuma
alusão a Gouxy... A conversa girava em torno das generalidades do momento. Mas, ainda aí, como em
tudo mais, dava mostras Ogier de sua grande inteligência, da elevada concepção de dever, do seu
vibrante patriotismo, pronto sempre a todos os sacrifícios... A senhora de Baillans considerava a prima,
olhando-a de viés. Notava-lhe o olhar de interesse, que se fitava de contínuo na bela fisionomia enérgica
e leal, desviando-se em seguida, com tal ou qual impaciência... Sim, a coisa caminhava bem, muito
bem!...
Depois que os oficiais se despediram, a senhora de Baillans disse com ar de pura satisfação:
— São encantadores esses rapazes!... Encantadores! Que te parece, Antonieta?...
— Sim... encantadores...
E, depois de curto silêncio, acrescentou dona Antonieta, num tom, algo irritado:
— Desconfio, Fabiana, que andas favorecendo as pretensões desse moço e o afeto que lhe dedica...Elys.
— Minha boa amiga, — declarou francamente a prima, — se admiti que recusasses o senhor de
Chancenay, tal como ele era há dois anos, hoje, eu não poderia compreender que te não sentisses feliz e
orgulhosa de dar Elys ao homem de alto valor em que ele se tornou.
A senhora de Prexeuil deu uma risadinha de escárnio.
— Sim, sim... O que não o impediria de fazer das suas, logo que lhe desse na telha...
Desta vez, quase se zangou a senhora de Baillans:
— São terríveis as tuas prevenções, Antonieta! Não posso discutir contigo, uma vez que o senhor de
Chancenay continua a ser hostilizado pela tua obstinação.
E retirou-se, para ir ver Elys, deixando a senhora de Prexeuil entregue às suas reflexões, o que seria,
pensava ela, o melhor meio de proceder para com esse espírito orgulhoso, firme no seu temor e na sua
60
animosidade.
Os dois oficiais regressaram vagarosamente à «vila». Ogier, todo absorto na recordação dos seus
queridos olhos cor-de-violeta, deixava o companheiro falar. Este, depois de ter notado o ar imponente e
a inteligência de dona Antonieta, entrou a exaltar a beleza da senhorinha de Valromée...
— Uma maravilha!... Que fisionomia encantadora!... Ah! se eu não fosse um mísero plebeu, alistava-me
desde já no número dos seus pretendentes! Sim, porque eu não me atreveria...
— Sim, meu amigo, seria inútil. O coração de Elys de Valromée já não é livre desde há dois anos.
— Ah! Que me diz? Como sabe, Chancenay? E o tenente fitava pasmado Ogier.
— A você!... Você? Então já a conhecia?...
— Já... Olhe, aqui tem o nosso romance em duas palavras: a senhora de Prexeuil recusou-me a mão da
sobrinha, porque — com razão, aliás, bem o reconheço agora — ela me julgava um ruim demonio, para
poder fazer a felicidade dessa jovem. Desde então, não nos vimos mais.
— Ah! bom, bom!... Fez bem em prevenir-me, Chancenay, porque, já agora, é inútil que eu dê largas à
imaginação... e me deixe tomar de amores...
— Não preciso recomendar-lhe segredo sobre confidência?...
— Sem dúvida... Mas agora,já não terá a tia motivo para manter a sua recusa!
— De fato... Eu porém não posso reiterar o pedido, porque agora estou inválido...
— Oh!, um inválido como você!... Mas se ela o ama... Enfim, compreendo muito bem o seu escrúpulo;
é preciso que essa jovem, de si mesma, faça compreender a você que a intenção dela não mudou...
— Mas é isso, justamente, o que jamais há de fazer, porquanto prometeu à tia que nunca se casaria.
— Oh!
— Então, vê, meu amigo, que só a senhora de Prexeuil pode resolver a situação.
— Sim. E ela quer?
— Não sei... É muito orgulhosa, muito teimosa... Contudot espero ainda que Deus me conceda essa
grande felicidade!
— ... que você bem merece! — acrescentou calorosamente Blavet, cujo generoso coração não se
ressentia de nenhum ciúme do amigo.
O senhor de Chancenay não falara nunca à senhora de Baillans ou a Gabriela sobre seus sentimentos,
nem da recusa oposta outrora ao seu pedido. Foi a senhora Jarmans quem, um dia, se referiu a isso.
Ogier apresentou-lhe as mesmas objeçoes que já apresentara ao amigo, adiantando :
— Como quer que seja, a senhorinha de Valromée há de ser sempre, para mim, o meu amor.
— Pois bem, capitão, pode ter muitas esperanças quanto à mudança de idéias da nossa autoritária prima.
Desde algum tempo já, que eu e minha mãe trabalhamos para isso, porque — digo-lhe com toda a
franqueza — a nossa simpatia pelo senhor, a grande estima em que temos o seu caráter, fazem-nos
considerar esse casamento como um presente do céu à nossa querida Elys.
— Pois que, senhora! Eu então tinha sem o saber tão grandes aliadas? Como lhes sou reconhecido!...
Julga então que a senhora de Prexeuil possa qualquer dia renunciar à decisão tomada?
— Tenho quase a certeza. Será duro, muito duro, para ela; mas há de fazê-lo, pois receia de ver
ressentir-se com isso a saúde de Elys... O que é preciso, naturalmente, é que o senhor tenha paciência!
Não chegaremos, num só diaf a esse resultado; mas o senhor não deixará tão cedo a «vila» e a nossa
prima, por várias razões, é obrigada a passar aqui o inverno... Não há, pois, necessidade de precipitar as
coisas,.. E daí — quem sabe? — talvez a senhora de Prexeuil se decida a ceder mais cedo do que o
supomos. Tenha confiança, capitão, e fique certo de que a sua gloriosa invalidez seria, pelo contrário,
um motivo a mais para atrair a simpatia de minha prima, uma ardente patriota, sob aqueles seus modos
frios, e muito admiradora da bravura heróica.

CAPÍTULO XVIII

Pouco a pouco, via-se dona Antonieta forçada a recuar ante esta perspectiva/ desagradável para o seu
amor-próprio: desligar a sobrinha da promessa que ela lhe havia quase imposto.
Desde o incidente da entorse, Teresa e Lúcia tornaram-se grandes amigas do capitão de Chancenay e do
tenente Blavet. Quando os dois oficiais iam ao parque, viam muitas vezes as duas crianças correr para
eles, que as divertiam. Lúcia, mais meiga, mais carinhosa que a irmã mais velha, brincava com Ogier...
«E depois, prima Elys, falamos de ti» dizia ela, de volta, à moça.
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Elys ficava emocionada, e a senhora de Prexeuil, que ouvia isso, contraía um pouco os lábios.
Certo dia, Gabriela Jarmans convidou os dois amigos a virem até ao pavilhão, a fim de lhes mostrar um
curioso cofre do século XVI, obra-prima de cinzeladura, preciosamente conservado na família. Em
seguida, serviu-lhes chá. Desta vez, Elys estava presente, deliciosamente bela no seu vestido branco,
muito simples, feito por ela mesma. E dona Antonieta teve de, ainda uma vez, acolher esse terrível
Chancenay, mais sedutor do que nunca — como era forçoso confessar... Fê-lo, aliás, sem lhe mostrar
visível má vontade... Ouviu até com evidente interesse o jovem oficial, que falava dos seus soldados, do
bem que era fácil fazer em favor deles, dos clarões de bondade moral que, por vezes, descobrira sob
essas rudes aparências.
— É um apostolado magnífico para quem sabe compreendê-lo... e também um prazer, posso afirmá-lo.
— E esse apostolado, o senhor o exerceu? perguntou dona Antonieta.
— Fiz, pelo menos, o que podia — respondeu ele simplesmente.
Dona Antonieta contemplou, por momentos, a bela fisionomia leal e enérgica, e não disse mais nada
enquanto durou a conversação.
Quando os dois rapazes se retiraram, a senhora Jarmans observou, apertando o laço azul que prendia os
cabelos de Lúcia:
— É muito interessante ouvir esse senhor de Chancenay falar.
— Sim, muito interessante... — respondeu a senhora de Prexeuil. — Não se pode negar que é de
inteligência acima do comum. Quanto às suas idéias, — se é sincero, — parecem-me excelentes.
Elys, ao ouvir estas palavras, sentiu bater-lhe radiante o coração.
Até que enfim sua tia fazia alguma justiça a Ogier... E como poderia ela resistir à soberba lealdade desse
homem, cuja alma lhe irradiava do límpido olhar?
Pouco depois, achando-se sozinha com Gabriela Jarmans, disse-lhe dona Antonieta em tom
constrangido:
— Se tu e tua mãe são de opinião que Elys deve casar-se, acho bom que decidamos logo isto de uma
vez... Mas o senhor de Chancenay ainda deseja casar-se com ela?...
— Sim! Mas, por um sentimento de delicadeza, ele não renovará o seu pedido, devido, à sua invalidez.
— Pois é ela, justamente, o que me impele a decidir tão depressa. Já que ele não hesitou em sacrificar a
vida pela pátria, já que foi um dos heróicos defensores das mulheres, dos velhos, das crianças e dos
nossos lares ameaçados, eu já não tenho o direito de lhe recusar a minha querida Elys, que há de fazer a
sua felicidade.
Gabriela, tomando a mão da velha senhora, apertou-a demoradamente:
— Ah! prima! Eu bem sabia que não haverias de ser sempre inexorável!... Hás de ver que ele também
saberá fazer feliz a tua Elys!
— Sim, agora é possível... Já não tem o mesmo olhar... Vemos bem que sofreu, meditou, e deu à sua
vida um fim mais elevado...
Calou-se um momento, e depois acrescentou:
— Diga a ele que o autorizo a vir pedir-me a mão de Elys, se esta tem ainda a seu respeito as mesmas
disposições.
— Amanhã, prima?
— Sim, amanhã, se ele quiser... Mas previne-o de que ela é pobre, e que, ao menos por agora, é
impossível constituir para ela sequer um pequeno dote.
— Oh! prima! E eu não creio que ele se preocupe com isso!
Nessa mesma noite, Gabriela comunicou ao senhor de Chancenay a feliz notícia, que lhe causou grande
admiração.
— Eu não esperava esse resultado tão cedo!
— Nem eu, confesso-lhe... Ainda que essas reviravoltas sejam muito naturais em semelhantes situações,
sinceras em suas próprias injustiças, mas que, uma vez abertos os olhos, não podem resistir por muito
tempo às solicitações da consciência.
E, sorrindo, Gabriela acrescentou em seguida:
— Aliás, capitão, acho que o senhor a conquistou de vez... E afianço-lhe que não era coisa fácil!
Ao que ele replicou alegremente:
— Oh! Eu o sei por experiência!... Entre as mais desagradáveis recordações de minha vida, está o
acolhimento que ela me fez em Prexeuil.
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No dia seguinte, pelas duas horas da tarde, Ogier de Chancenay chegava ao pavilhão.
Foi imediatamente introduzido no salão, onde já o aguardavam dona Antonieta e a sobrinha. Enquanto
ele se inclinava diante delas, a velha senhora disse-lhe com impassível dignidade, temperada de
comoção:
— Parece, capitão, que o senhor não acredita que acrescentou por si mesmo uma nova glória ao seu
nome e que uma mulher, entre todas, possa orgulhar-se de usar esse nome?...
— Senhora!... Eu não posso esquecer que, já agora, sou para sempre um inválido...
Elys, num impulso de entusiasmo, adiantou-se, os olhos radiantes, estendendo-lhe a mão:
— Sim, senhor, diz muito bem minha tia. Sentir-me-ei muito feliz e orgulhosa de unir para sempre a
minha vida à desse glorioso inválido!...
Ogier, apoderando-se da mãozinha e depondo nela um demorado beijo, murmurou:
— Oh! Elys... Elys!
Foi tudo o que ele pôde dizer nesse momento. Um instante, os dois jovens se fitaram mutuamente, com
apaixonada alegria... E dona Antonieta, sentindo que a comoção lhe estrangulava a garganta, esforçava-
se por conservar uma atitude impassível.
Ogier, sem deixar a mãozinha trêmula, que se entregava à dele, perguntou sorrindo:
— Tem, então, minha senhora, muita confiança em mim agora, por isto que me concede o seu precioso
tesouro ?
— Sim, e espero... creio mesmo, que o senhor será sempre digno dela.
— Oh! isso lho prometo eu por minha honra de fidalgo e de soldado. Cavou-se um abismo entre o
Chancenay, que fui, e o em que me tornei. Certo, desde o momento em que pedi a minha querida Elys,
estava disposto a fazê-la feliz tanto quanto em mim coubesse; reconheço, porém, que a minha vida de
mundano e ocioso deviam inspirar-lhe alguma desconfiança. Hoje, felizmente, já não é mais assim,
porque, entretanto, adquiri a consciência de todas as minhas responsabilidades, compreendi o que deve
ser a vida, depois que vi a morte ceifar largamente em torno de mim, ameaçando a todo momento
arrebatar-me deste mundo.
Regressando à «vila» Branca, depois de ter passado uma hora no pavilhão, o senhor de Chanisenay
telefonou à avó:
— Venha cá amanhã, para um negócio importante.
— Que negócio, meu filho? perguntou a senhora de Chancenay.
— Um pedido de casamento.
— Um. .. pedido?.. . Para ti?
— Sim, para mim... Elys de Valromée... Recorda-se ?
— Essa linda menina, com quem nos encontramos quando aí estive?
— Essa mesma.
— Que estás dizendo?!... Será possível?... Mas, parece-me que não tem bens de fortuna!
Ogier reprimiu seu mau humor. Era o que lhe faltava agora!...
— Pois tanto melhor! replicou ele. Tenho o bastante para os dois... e até mesmo para uma dúzia de
filhos...
— Uma dúzia?... Estás gracejando!... Enfim, irei amanhã... se estás a falar a sério nesse casamento...
— Creio que estou falando sério!... Até amanhã, vovó... Ah! Olhe traga-me umas flores das estufas de
Sarjac... brancas, naturalmente, porque são para oferecer à minha noiva.
— Está bem!... Mas tu me espantas...
Aqui se interrompeu súbito a comunicação. Ogier, não desejando continuar a conversa, recolheu-se ao
quarto, dizendo entre si, com irritação.
«Não cansam nunca de falar no dinheiro! Se o homem não se casa com uma fortuna, pelo menos igual à
sua, é considerado pelos demais como um fenô-0meno... Ah! mas se minha avó me supõe partidário
dessas idéias, engana-se redondamente!»
No dia seguinte, domingo, as moradoras do pavilhão, ao saírem da missa, detiveram-se um momento a
conversar com o senhor de Chancenay e o tenente Blavet. Elys e Ogier trocaram a meia voz algumas
palavras, com apaixonados olhares. Precisamente, nesse instante, passavam duas enfermeiras, que eles
não viram, tão absorvidos estavam um com o outro. Uma delas envolveu-os num rápido olhar, e
surpreendendo os jovens namorados, sentiu um ligeiro tremor ao mesmo tempo que os olhos
esverdeados se incendiavam... A companheira observou:
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— É um belo rapaz esse capitão de Chancenay!... É encantadora a menina, com quem está a conversar!
— É... disse simplesmente Sari. E em seguida, após curto silêncio: — Sabe quem ela é?
— Provavelmente, uma das parentas hóspedes da senhora de Baillans... Não estou a par... mas parece-
me ter ouvido a senhorita Robin falar de uma moça muito bonita...
Regressou Sari ao hospital num estado de tão grande irritação, que a muito custo conseguia dissimular.
De passagem, pediu à diretora que, por achar-se atacada de forte enxaqueca, houvesse por bem
dispensar-lhe os serviços essa manhã... «Sim, sim, querida», respondeu a senhora Bignard, sem se
admirar com isso. Sari Doucza era considerada como uma enfermeira original, que escolhia as tarefas
segundo os seus gostos ou seu capricho, sem o menor cuidado de prestar realmente serviços aos feridos.
Bastava-lhe prestar ao namoro e vestir os trajes de enfermeira, que ela sabia lhe assentavam muito bem...
Mas, como dissera, havia tempos, a senhora Salbert a Elys e a Gabriela Jarmans, protegiam-na ocultas
influências, de modo que a senhora Bignard não se atrevia a fazer-lhe polidamente compreender a
inutilidade de sua presença ali.
Recolhendo-se ao seu quarto, sentou-se Sari alguns instantes, os cenhos carregados, os lábios contraídos.
«Quem será essa moça?...» perguntava ela a si mesma: «Sua noiva, talvez? Olhavam-se com tanto
amor... Ah! compreendo agora por que não faz caso de mim!»
E crispava os punhos, ao mesmo tempo que os olhos despediam clarões de ódio.
Para acalmar os nervos superexcitados por esse incidente, deixou o hospital, indo espairecer pelo campo,
que ficava para além da rua principal de Ursau. De caminho, pôs-se a ler uma carta da mãe, que lhe
chegara às mãos nessa manhã. Dizia a senhora Doucza:
«Vem ter comigo a Biarritz, meu amor. Preciso que estejas a meu lado neste momento — bem sabes por
quê. Em caso de alarma, pode ser difícil, ou mesmo impossível, telefonar-te ou telegrafar-te... Isto não
quer dizer que eu receie alguma coisa: pelo contrário, vai tudo muito bem, quase bem demais, diria eu,
se fosse supersticiosa. Acabo de sair-me às maravilhas de um negócio, que me valeu muitos
cumprimentos vindos de muito alto e transmitidos pelo nosso amigo B..., que ainda está instalado em
San Sebastian. Continuo a ir vê-lo de quinze em quinze dias, mais ou menos, a fim de receber as
necessárias instruções relativas aos nossos negócios que, repito, vão «muito bem».
«É, pois, unicamente por excesso de prudência, que eu desejaria ter-te ao pé de mim. Mas não creio
absolutamente que correspondas a este meu desejo, agora que o senhor de Chancenay se encontra aí
onde estás. Conheço muito bem a tenacidade da minha Sari, para não duvidar de que ela fará todo o
possível para atrair a atenção desse belo capitão e dele se fazer amar. Aliás, isso não me desagradaria,
porque ele poderia ser-nos muito útil. Quer-me, porém, parecer que a coisa não será tão fácil,
principalmente se, como dizes, o senhor de Chancenay está agora convertido».
Ao terminar a leitura desta carta, Sari rasgou as folhas em inúmeros pedacinhos, que ela espalhou pelo
mato, à proporção que avançava. Depois, dando de ombrcs, murmurou em tom irritado:
— Eu também creio que há de ser difícil!... Sobretudo agora, se, de fato, existe o que eu suspeito...
Ia ela descendo por estreito caminho à beira de um declive relvoso, que descia em escarpa suave até uma
torrente de um belo verde cintilante, cujas águas borbulhavam ao passar por sobre grandes rochedos,
chatos, alvadios e polidos pelo contínuo atrito da corrente. Sobre as ondas fugidias, inclinavam as
árvores os seus ramos, cujas folhas a aragem suave fazia ramalhar... E Sari estacou
súbito, ao mesmo tempo que os belos olhos irradiavam um clarão de alegria....
Sobre a relva da margem, com um livro nas mãos, estava sentado um oficial, que ela logo à primeira
vista reconheceu. Com uma agilidade de cabra, saltando para o declive, que desceu em alguns segundos,
achou-se ela junto de Ogier antes que este pudesse fazer qualquer movimento.
— Então! Já não dá a menor atenção a esta mísera Sari, a quem outrora achava muito interessante?
Deixou-se cair sobre a relva, inclinando para Ogier a cabecinha ruiva com o mais terno dos seus olhares.
Mas o oficiai, afastando-a, com um gesto de irritada impaciência, pôs-se logo de pé, e lançando-lhe um
olhar de desdém, replicou:
— Poupe-me a recordação de um tempo que já vai longe. Esqueça-se de que me conheceu; é o melhor
que tem a fazer, pois que eu já não me recordo da senhora.
E, rodando nos calcanhares, afastou-se.
Sari, porém, ergue-se de um salto e, alcançou-o:
— Ogier, não me trate assim com menosprezo! Deixe-me ao menos falar-lhe...
Voltando-se, e medindo-a com olhar altivo, o moço respondeu:
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— Não compreende então quanto é ridícula e humilhante para a senhora essa sua insistência? Lamento
ser obrigado a dizer...
E deu-lhe de novo as costas, afastando-se.
Desta vez, Sari permaneceu imóvel, as feições contraídas num afluxo de cólera. Lera demasiado
desprezo e indiferença no olhar de Ogier, para que ainda conservasse a mais leve esperança de vê-lo um
dia interessar-se por ela.
Mas invadiu-lhe o coração uma onda de ódio, e, estendendo o punho para o oficial, murmurou entre
dentes:
— O senhor de Chancenay me pagará caro!... E comecemos por saber o que ele é, de fato, para aquela
moça com quem conversava esta manhã...

CAPÍTULO XIX

Na tarde desse mesmo dia, fez a senhora de Chancenay o pedido de casamento à dona Antonieta. De boa
vontade, ela concordava em que Ogier dificilmente encontraria mulher mais encantadora, e por isso
podia ter a fantasia de casar com uma moça pobre.
— Todavia, de mim mesmo, eu jamais teria tido semelhante idéia, meu querido, — concluiu ela.
Dona Antonieta, com seu ar de grande dama, pareceu-lhe uma velha senhora decorativa. Devido à
diferença de caráter dessas duas senhoras, é claro que não podia existir simpatia entre elas. Contudo, a
senhora de Chancenay mostrou-se muito gentil, e dona Antonieta suficientemente afável, para que a
pequena reunião tomasse logo um caráter de cordialidade. Quanto aos noivos, afastando-se um pouco
dos demais, ao cabo de alguns instantes, conversavam a meia voz, relembrando como se haviam
conhecido, como se tinham amado quase desde o primeiro olhar:
— Sim, quando te vi ao pé do caixão de minha prima Valheuil, e os nossos olhares se cruzaram um
instante, desde esse momento eu só tive um desejo: o de tornar a ver-te, minha Elys.
— E eu... eu pensava também em ti muitas vezes, desde esse momento — confessou ela, corando.
Ogier beijou-lhe demoradamente a mão. Depois, contemplando um instante o semblante encantador,
algo emagrecido, perguntou em tom de meigo interesse:
— Foram os dolorosos sucessos do ano passado a esta parte que te combaliram a saúde, te
enfraqueceram?
— Sim... mas antes eu já me sentia um pouco fraca, adoentada...
E corou mais ainda. Ogier compreendera. Inclinando-se para ela, murmurou com a voz trêmula de
comoção:
— Por minha causa, Elys? Por causa da recusa da senhora de Prexeuil?
Ela sacudiu afirmativamente a cabeça. Inclinando-se mais ainda, Ogier depôs-lhe um beijo nos sedosos
cabelos.
— Meu amor!... Agora, porém, hás de te restabelecer depressa, pois estamos reunidos e noivos. Vamos
nos casar dentro de um mês ou seis semanas, e iremos para Sarjac... A menos que prefiras o «Prado-
Bento»...
— Oh! sim! o «Prado-Bento»! Boa idéia!... A casa dessa velha e querida amiga, onde me pediste que
fosse tua esposa...
— Onde eu disse que te amava!
Trocaram um longo olhar de ardente ternura... E Elys continuou, depois de curto silêncio:
— Pobres das minhas tias, que vão ficar sozinhas!... A tia Antonieta tem envelhecido muito depois
dessas crises reumáticas.
— Havemos de fazer as coisas de modo que estaremos frequentemente junto delas. É provável que me
julguem agora incapaz para servir como oficial; estarei, por conseguinte, livre, uma vez terminada a
convalescença e decretada a reforma. Eu deveria ficar ainda alguns meses aqui na «vila» Branca; mas o
restabelecimento se realiza mais depressa do que julgavam. Por isso, obterei, com certeza, uma licença
por ocasião do nosso casamento; em seguida, irei a exame na comissão de reforma, que decidirá do meu
destino.
Depois de alguns momentos de silêncio, acrescentou, os olhos chamejantes de patriotismo:
— Contudo, ainda quisera poder continuar a servir à minha pátria!
— Sim, mas já a serviste magnificamente, Ogier! Agora, hás de fazê-lo de outro modo, é o que é.
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— Sim, sim, querida Elys, porque não hei de ser mais o ente inútil de outrora, podes ficar certa... Vi de
perto a bela missão — bela e difícil — que nos cumpre realizar ao pé desses homens de cérebro inculto e
idéias falsas, mas cuja alma contém, em alguns, ainda muitas virtudes domésticas e alguns resquícios da
religião que lhes ensinaram; em outros um desejo latente, instintivo, de algo mais elevado, mais
consolador que o acaso, o destino, o nada e outras tantas caraminholas.
A promessa que lhe fazia Ogier, sobre as tias, tirou ao espírito de Elys uma grave preocupação. Na
antevéspera, depois que dona Antonieta lhe fora perguntar: «Estás disposta a casar com o senhor de
Chancenay, apesar de sua invalidez?» e que, estupefata e trêmula de alegria, em que a custo acreditava,
respondera espontaneamente: «Oh! sim, titia! Mais do que nunca!» — apresentara-se logo ao espírito da
jovem uma objeção que ela imediatamente formulara em voz alta:
— Mas, titia, se me casar eu deverei deixá-la?
— Certamente... Mas não te preocupes! Nós nos arranjaremos, eu e Bathilde. Pedirás somente a teu
marido que te leve, para nos visitar de quando em quando. Além disso, minha filha, é assim a vida: vão-
se os moços, os velhos ficam sós... E ainda eu não sou das mais infelizes, pois terei comigo Bathilde,
que ainda é moça e tem saúde. Podes, pois, aceitar esse casamento, sem nenhum escrúpulo, minha Elys.
Todavia, sob a aparência tranquila do tom e da fisionomia, sentira a jovem o profundo pesar que a
perspectiva de tal separação causara na tia.
Por isso, logo que tornou a achar-se sozinha com dona Antonieta, apressou-se em lhe comunicar a
promessa do senhor de Chancenay.
— É ser muito gentil, declarou a senhora de Prexeuil, tanto mais quanto não deve ter guardado boas
recordações de mim... Acredito-o, porém, de caráter muito leal, muito bem educado, incapaz de longos
ressentimentos, e sabendo compreender os motivos que me faziam proceder como procedi, recusando-
lhe a mão da minha querida Elys.
Tais palavras muito valiam na boca de dona Antonieta, orgulhosa, mas sincera: provavam a mudança
que no espírito da velha senhora se havia produzido a favor de Ogier de Chancenay.
* * *
Logo se soube em Ursau do noivado do capitão de Chancenay e Elys de Valromée. E, como em toda
cidadezinha que se preza, foi isso inesgotável assunto das conversas, de considerações sem fim, de
informações ministradas por pessoas «que conheciam de perto» as famílias dos noivos, os seus bens de
fortuna, as suas predileções. No fim do dia, atribuíam a Ogier uma riqueza colossal, quase igual à de um
milionário americano, enquanto que Elys não passava de uma pobre moça sem bens, inteiramente a
cargo de suas primas do pavilhão.
Como nessa ocasião havia poucos pensionistas no hospital, as senhoras, mais ou menos desocupadas,
conversavam também sobre essa novidade. Foi assim que, nesse mesmo dia, soube do fato a senhorinha
Doucza.
«Bem me queria parecer!...» disse ela a si mesma. E a cólera da antevéspera, ainda não de todo
acalmada, subiu de intensidade.
Recolhendo-se ao seu quarto, abriu um cofrezinho de onde retirou um envelope, contendo três cartas —
cartas que Ogier havia outrora dirigido a Sari Doucza. Escritas em tom despreocupado, espirituoso, no
estilo habitual da sua correspondência, não encerravam nada de muito terno ou muito apaixonado;
testemunhavam apenas que nem sempre a senhorinha Doucza lhe fora uma estranha.
Releu-as Sari; depois, com um sorriso diabólico nos lábios, meteu-as noutro envelope, sobre o qual, com
a sua esguia caligrafia, escreveu o seguinte endereço:
Senhorita Elys de Valromée
Pavilhão de «Vila» Branca.
Fechou a sobrecarta e saiu para colocá-la no correio.
No caminho, encontrou-se com a filha da senhora Bignard, que lhe entregou um telegrama.
— Acabam de trazê-lo!
«E esta?!... Que será?... Queira Deus não nos tenha acontecido alguma!» pensou logo Sari, um tanto
inquieta...
E, continuando o caminho abriu e leu:
«Teu tio te chama. Vai encontrar-se com ele em San Sebastian.
DUPONT».
Este telegrama, aparentemente pouco inquietador, devia ter para Sari um sentido terrível, pois
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empalideceu ao mesmo tempo que o papel azul lhe tremeu nas mãos.
Lançando rápido a carta no correio, regressou apressadamente ao hospital, onde explicou com a voz
ligeiramente alterada:
— Fui avisada de que um de meus tios, chegado há poucos dias a San Sebastian um pouco adoentado,
deseja que cu vá vê-lo por alguns dias. Vou tomar o primeiro trem, às três e vinte, não é?
— Sim, às três e vinte... Leva a sua mala, senhorita?
— Não, apenas uma valise. Será o bastante, pois não pretendo demorar-mc muitos dias. Logo que meu
tio melhore, voltarei imediatamente.
E foi preparar apressadamente a maleta. Estava insegura, e a fisionomia, agora que já não era observada,
traía uma expressão de angústia.
— Queira Deus que eu ainda tenha tempo! murmurou. E que ainda não tenham me localizado!
Antes de partir, queimou cuidadosamente alguns papéis de apontamento, lançando fora as cinzas.
Foi, em seguida, dar um rápido adeus às senhoras Bignards e a algumas enfermeiras, subindo depois
para o ônibus, que a devia conduzir à estação.
Ao ver-se na plataforma à espera do trem, tentou acalmar o seu estado nervoso. Mas a presença de dois
policiais parecia-lhe muito desagradável, porque se conservou do lado oposto ao em que eles estavam,
voltando-lhes sempre as costas.
Afinal, chegou o trem. Sari subiu para um compartimento de segunda, que estava vazio, indo instalar-se
a um canto, a fim de evitar que alguém a reconhecesse e viesse sentar-se junto dela. No estado de
inquietação em que se achava, ser-lhe-ia impossível manter qualquer conversação.
Ao cabo de dez minutos, partiu de novo o trem. Sari soltou então um suspiro de alívio... Mas, ao mesmo
tempo, disse para consigo mesma: «Ainda não passou o perigo... Até à fronteira, há muito perigo...»
Ao deixar a estação de Ursau, a estrada ia margeando prados e pomares; depois, vencendo uma
elevação, dominava um pouco os jardins das casas e o parque da «vila» Branca, do qual se viam as
árvores e as paredes de tijolos do pavilhão... Sentados num banco, viu de mãos dadas um oficial em
uniforme azul-pálido e uma moça vestida de branco...
Foi uma rápida visão; reconheceu-os logo. Recostan-do-se no canto do compartimento, murmurou
baixinho, com um brilho de ódio nos olhos:
— Amanhã ela receberá as cartas. Então, há de ver que o seu belo Ogier nem sempre foi o santinho que
hoje parece ser...
* * *
Mas Sari Doucza ignorava isto: Elys de Valromée, mesmo aos vinte anos, tinha o costume — agora de
todo obsoleto — de não abrir nunca as cartas que lhe eram dirigidas, sem que previamente as entregasse
a uma das suas tias.
Foi, pois, a senhora de Prexeuil quem abriu e leu as cartas, com ar severo e silenciosamente. Terminada
a leitura, colocou as cartas no bolso, dizendo à sobrinha:
— É engano. Não são para ti.
Nessa tarde, aproveitando-se de um momento em que Elys se afastara, dona Antonieta disse a Ogier,
estendendo-lhe as cartas:
— Recebi isto esta manhã. Vinham dirigidas a Elys. O senhor de Chancenay tomou-as, e, lançando-
lhes um olhar, disse em voz surda:
— Ah! miserável! Que audácia!... A Elys!
— Minha sobrinha não as leu, pois fui eu quem abriu o envelope... Mas quem as teria enviado de
Ursau?
— A pessoa a quem escrevi outrora estas cartas é atualmente enfermeira no hospital. É uma estrangeira,
Sari Doucza, que imaginou vingar-se assim da completa indiferença que eu lhe tenho desde que cheguei
aqui, e do modo como lhe dei a entender, outro dia, que eram inúteis e ridículas todas as tentativas desse
gênero... Estas cartas, minha senhora, pertencem a um passado, que já vai longe, muito longe. Depois
disso, recomecei uma vida inteiramente nova. Reconheço agora, com toda a lealdade, mi lououraa de
outrora que eu lamento de toda a minha alma e peço-lhe que não tome em consideração estes miseráveis
papéis, escritos quando procedia erradamente.
— É justamente o que faço, meu filho.
E tomando as cartas das mãos do rapaz, rasgou-as, acrescentando:
Agora, o senhor merece toda a minha confiança.
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— Oh! Minha senhora! exclamou Ogier, com comovido reconhecimento. Como lhe agradeço!
Dona Antonieta estendeu-lhe a mão. Como ele apenas a apertasse, inclinando-se respeitoso, disse a
velha senhora com um dos seus raros sorrisos, que lhe suavizavam a fisionomia :
— Autorizo-o agora a beijá-la, meu futuro sobrinho, em sinal do perfeito acordo que existe atualmente
entre os adversários que fomos um do outro...

CAPÍTULO XX

Dez dias depois, um dos automóveis de Sarjac conduzia ao antigo solar patrimonial dos Chancenay a
senhora de Prexeuil, Elys e Ogier, o qual desejava mostrar à noiva a futura residência de ambos. Em
companhia dele, Elys visitou os magníficos aposentos, decorados com um luxo aristocrático, os jardins e
o parque, atravessado por saltitante regato... «Que beleza!» exclamou Elys, enquanto Ogier lhe ia
comunicando os seus projetos, diferentes do que teria feito o Chancenay de outrora. Procurariam, os
dois, ajudar todos os pobres, que um punhado de dinheiro e muita bondade podem tornar a vida menos
amarga. Não lhes minguaria, decerto o campo para essas sementeiras da caridade, porquanto o terrível
flagelo deixaria após si inúmeras ruínas, aflições físicas e morais, dores inconsoláveis!...
Tornando a entrar no castelo, os noivos encontraram aí a conversar com as senhoras de Chancenay e de
Prexeuil um dos mais próximos vizinhos de Sarjac, importante industrial da terra, que viera visitar a
castelã. Depois de o apresentar a Elys, e enquanto se assentavam a moça e os dois homens, disse a
senhora de Chancenay:
— Sabes, Ogier, o que acaba de me dizer o senhor Varzeil?... Pardeuil escapou um destes dias de se ver
envolvido num processo de espionagem!
— Sim?!... Como foi isso?
E o senhor de Varzeil explicou:
— É uma história que abafaram logo, porque algumas personagens conhecidas seriam acusadas, e
convencidas, pelo menos, de imprudência culposa, em vista da indulgente proteção, que dispensavam a
essas estrangeiras. .. Porque são senhoras, mãe e filha. ..
— As senhoras Doucza, talvez... disse vivamente Ogier.
— Elas mesmas!... Conhece-as ?
— Sim, conheci-as. Gozavam de fama pouco lisonjeira, introduziam-se em toda parte. Encontrei até a
filha como amiga íntima de minha tia de Challanges e de minha prima Paula, que lhe queriam muito
bem. Ocupavam-se então de obras de caridade, simulando até, ao que parece, piedade. Minha tia sentiu-
se um tanto embaraçada — ela, quo julga ter um faro extraordinário! — quando lhe fiz ver o mesquinho
valor moral daquela a quem chamava a «sua encantadora Sari». Quanto à mãe, estava muito amiga dos
Pardeuil, contando mesmo na pessoa do barão um dos seus maiores admiradores. Reunia em sua casa
muitas personagens políticas, militares, financeiras... então foi acusada de espionagem?
— Sim; mas prevenida a tempo, safou-se para a Espanha, bem como a filha, que era, dizem, enfermeira
no hospital de Ursau... Mas, noto agora, talvez o senhor conde a tenha visto por lá...
— De fato. Soube ontem, por acaso, que ela havia partido... sem dúvida, para ir encontrar-se com a
mãe.
— Oh! sim, provavelmente. A esta hora, hão de estar em segurança na Espanha. A mãe, principalmente,
teria que prestar apertadas contas, se a polícia a tivesse apanhado! Quanto à filha é acusada de haver
tentado obter — muito habilmente so que parece, — informações quanto a operações militares, a
alteraçoes nas disposiçoes dos efetivos, etc., junto de oficiais e soldados, — com certeza, dos que se
acham no hospital de Ursau.
— Sim, evidentemente. É uma aventureira e muito esperta... Quanto à senhora Doucza, eu havia tido,
antes da guerra, a intuição do papel que ela representava. É pena, realmente, que hajam podido escapar!
Creio que a presa não teria sido má... Mas, que tem que ver com tudo isso o nosso Pardeuil?
— Ora, essa! Pardeuil era íntimo amigo da senhora Doucza, e — mais por vaidade estou certo, pois
conheço-o muito bem — servia-lhe de intermediário junto das pessoas de quem ela desejava obter
esclarecimentos importantes. Parece que está aterrado com a aventura, sem saber como demonstrar a sua
boa fé, na qual, repito, não tenho a menor dúvida em acreditar.
— Penso também como o senhor. É apenas um idiota, um bobalhão, como lhe chamava o pobre de meu
primo, William Horne, que gostava de lhe ouvir às vezes algumas bobagens interessantes. De resto,
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muito vaidoso, — logo, excelente instrumento nas mãos de uma mulher hábil como essa... Mas, afinal,
qual a verdadeira nacionalidade dessa dama? Conseguiram saber?
— Oh! Alemã, senhor conde, alemã! O pai havia-se naturalizado francês, o que não impediu educar os
filhos no ódio à França... Sim, porque essa senhora tem irmãos e irmãs, que vivem na Áustria e na
Alemanha. Um deles estabeleceu-se na Espanha antes da guerra; era a este que a espia ministrava as
informações que ia obtendo... O marido, já falecido, era húngaro. Tudo isso, eu soube ontem, de pessoa
autorizada, ainda que deste negócio se fale muito pouco, pois, como lhe dizia, procuram abafar o
processo. É justamente a isto que Pardeuil deve não ter conversado mais demoradamente com a justiça...
Vão, com certeza, pôr uma pedra em cima disso, e não se falará mais em tal processo...
— Todavia, essas bobagens, — admitindo que sejam somente bobagens, — nós as pagamos com o
nosso sangue, assim como os mexericos, as indiscrições semeadas um pouco por toda a parte pela
imprudência e estupidez, mas que caem o mais das vezes em ouvidos suspeitos... Voltando, porém, às
senhoras Doucza, sinto-me satisfeito por saber que o solo da França já se desembaraçou, pelo menos,
dessas criaturas!
E mentalmente, concluiu:
— E eu também!
* * *
Um mês depois, o senhor de Chancenay, já definitivamente desobrigado de todo dever militar, conduzia
a Sarjac a ex-freirinha de Valromée, com a qual acabava de casar-se na igrejinha branca de Ursau.
O abade Dambry, hospitalizado em Toulouse, de lá viera especialmente para abençoar esse casamento.
Daí, partira para o Jura, onde a necessária reforma, obtida pela aua gloriosa mutilação, lhe permitiria
retomar o santo ministério,
Debateu-se longamente a questão de saber se dona Bathilde que viera também assistir ao casamento,
regressaria, ou não, a Gouxy. Dona Antonieta opunha-se a que a sobrinha permanecesse com ela,
alegando que lá, na aldeia, prestaria aquela mais serviços. Elys, não residindo muito distante, estaria
perto dela sempre que necessário.
Finalmente, todos concordaram que a senhora de Valromée passaria ainda dois meses no pavilhão,
partindo em seguida para Gouxy. Em abril, dona Antonieta tornaria para Prexeuil, acompanhada de Elys
e Ogier, que se instalariam por toda a primavera no «Prado-Bento».
Mas um imprevisto veio derrubar todos estes projetos. Uma tarde de outubro, sentia-se a senhora de
Prexeuil muito ansiosa; à noite a paralisia a atacou. Viveu ainda alguns dias, em perfeito juízo, havendo
recuperado a palavra, que perdera por momentos. Tranquila, firmemente resignada, ela via com
serenidade aproximar-se a sua hora... Uma tarde, disse a Elys, que a não desamparara
um instante, envolvendo a moça num olhar de profunda ternura:
— Quisera eu poder ver ainda o teu filhinho, minha querida! Deus, porém, não o quer. Faça-se, pois, a
sua vontade! Ê um sacrifício, que eu lhe ofereço em expiação do meu orgulho.
— Oh! tia Antonieta! exclamou Elys, inclinando-se e beijando-lhe demoradamente a fronte macilenta.
E a senhora de Prexeuil continuou, murmurando:
— Fiz-te sofrer, não é verdade, minha filha ?... Mas eu supunha que assim procedia para teu bem... e
creio aliás ter tido razão, nesse momento... Agora, porém, tens nele um verdadeiro apoio, um amor
sincero e fiel. Podes orgulhar-te, minha filha, do marido que possuis, e eu entrego-te a ele com toda a
confiança. Sejam sempre muito amigos, cumprindo os deveres, na simplicidade compatível com a vossa
posição. Lá em cima, eu rogarei por vós e pelos vossos filhos!
Certa manhã, a velha senhora extinguiu-se docemente, suavemente... Elys e Ogier acompanharam-lhe o
corpo, até Gouxy, onde o depositaram no jazigo da família. Demoraram-se ainda uns quinze dias no
«Prado-Bento» com dona Bathilde, que preferiu instalar-se ali, por ser o antigo solar menos afastado,
menos triste e também menos frio que Prexeuil. No salão, onde ainda os móveis familiares conservavam
os seus antigos lugares, tais como os havia deixado a senhora de Valheuil, reviveram os recém-casados a
cena de outrora, quando Ogier fizera a Elys a confissão do seu amor, e lera nos belos olhos cor-de-
violeta que era também amado...
O perfume do outono invadia também agora a grande sala, entravam pelas portas-janelas abertas sobre o
jardim. E esse aroma de folhas mortas e frutos maduros reavivou em Ogier outra recordação. Apertando
em seus braços a esposa, que apoiava a cabeça no ombro dele, perguntou:
— Lembras, querida, de como me fugiste, tal qual uma cabritinha montesa, no pomar de Prexeuil,
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aonde me introduzira para falar à linda freirinha, que me haviam recusado impiedosamente?
— Se me lembro!... Oh! quanto sofri nesse dia, Ogier!... Olha, vou até mostrar-te uma coisa...
Dirigindo-se a uma secretariazinha, tomou um velho livro encadernado em couro desbotado, tornando
com ele para o lado do marido.
— É o «diário» de nossa família. Eu também escrevi nele algumas linhas... Olha! Vê aqui esta data... o
dia em que a titia me disse que eu não podia casar contigo...
Inclinada sobre Ogier, sustinha o livro aberto diante dele, numa página cuja tinta ainda não ganhara o
tom amarelado das linhas anteriores... E leu:
«Prometi hoje à minha tia que não me hei de casar nunca».
— Vê como me tremia a mão quando escrevi isso. Tinha a impressão de que enterrava a mim mesma
num sepulcro.
Ogier depôs um longo beijo na fronte que lhe roçava quase os lábios.
— Oh! meu amor!... E que escreveste em seguida ?
— Ah! isso é outra coisa... Lê! E ele leu ainda:
«Minha tia desligou-me da promessa. Casei-me esta manhã com o conde Ogier de Chancenay, ferido em
combate pela França. Que Deus nos abençoe e nos conserve sempre no bom caminho!»
Sorrindo, disse Ogier:
— Dentro em breve, será preciso mencionar aqui outra coisa, Elys: o nascimento de nosso filhinho...
Uma viva comoção brilhou nos belos olhos aveludados e um sorriso de felicidade entreabriu os lábios
trémulos da moça. Apoiando a face no ombro do marido, Elys murmurou num tom de jubiloso
recolhimento:
— Oh! sim, o nosso filhinho!... o nosso filhinho, a quem já amo tanto!
Passados nove meses, Ogier escrevia mo “diário de familia”, sob o olhar radiante da jovem mãe:
«Veio ao mundo hoje o nosso primogênito Jacques de Chancenay. Que o Senhor o conserve, e nos
conceda a graça de uma prole numerosa!»
Com o olhar de amor para o entezinho adormecido no berço a seu lado, Elys disse de mãos postas:
- E pensar meu querido Ogier, que eu poderia permanecer toda a minha vida a freira de Valromée! Toda
a vida, sem ti, sem ele, sem o nosso filhinho!

FIM

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