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Sábado | 25 Outubro 2008

Especial
Vinhos
para nos
aquecer
o Inverno
Sumário Check in
4 Planeta vinho O vinho sem
Habituados que estamos a colocar nos píncaros os nossos
vinhos, por vezes esquecemos que a produção nacional não
passa de um ínfimo grão de areia no contexto global. E,
complicómetro
mesmo ao nível da qualidade, vale a pena ter os pés na terra
e olhar para os exemplos de sucesso noutras regiões
mundiais e acreditar que, se são assim tão reconhecidos, é Manuel Carvalho
porque são excelentes. Uma viagem pelo planeta do vinho.
Confesso que me sinto vagamente
angustiado quando, num restaurante,
12 A face do sector alguém me aponta o dedo a dizer que sou
Quanto vinho se bebe por ano em Portugal? E quanto se
produz? Mais branco ou mais tinto? O Alentejo vende mais quem escolho o vinho porque “percebo”.
do que o Dão? O Douro é mais caro que a Bairrada? O retrato E sinto-o porque, apesar de alguns cursos
do vinho que se cultiva, cria e consome no país. e de dezenas de provas, só sei que
“percebo” quais são os estilos de vinho
14 Cada vez melhor dos quais mais gosto. E, vá lá, também
David Lopes Ramos conta a história recente do vinho em “sei” que regiões ou marcas melhor se
Portugal e fala-nos de uma história de sucesso. Ainda que encaixam nas minhas preferências
entre nós sempre tenha havido grandes enólogos e grandes
sensoriais. O que, perante os outros, não é
vinhos, hoje, como nunca, a disponibilidade de boas ofertas
no mercado é incomensuravelmente maior.
garantia de coisa nenhuma: eu que me
delicio com um bom vinho do Dão ou do
Douro com mais de uma década de garrafa
16 As regiões dou por vezes comigo a ver os meus pares
Há quem prefira um alentejano encorpado e vivo, há os que
optam normalmente por um Dão ou um Douro firme mas de mesa a torcerem o nariz e a sonhar com
delicado. O que distingue os estilos das grandes regiões um vinho jovem e exuberante. Quando me
portuguesas? Uma viagem pela complexa realidade das dizem que eu sei escolher, respondo que
denominações de origem conduzida por Rui Falcão. não, que apenas sei beber o que escolho.
O que já é muito.
18 Os enólogos Quero com isto dizer que, nas artes da
Sem grandes vinhas não se fazem grandes vinhos, mas sem intérpretes à enofilia, todos “percebemos” porque
altura desse potencial o que a natureza nos proporciona jamais será todos estamos no mesmo plano de
realizado. Manuel Carvalho conta o que mudou no universo da enologia subjectividade. Se há mestres da prova e
portuguesa e com David Lopes Ramos e Rui Falcão faz o retrato de onze se as suas sugestões nos são indispensáveis
enólogos que mudaram o mundo dos vinhos nacionais.
para descobrir o que há de bom e de novo
no mercado, o que deve contar para nós
são as nossas próprias escolhas. E, firmada
22 As castas esta constatação, tanto se dá que gostemos
A crescente atenção dos consumidores sobre
mais do Alentejo que da Bairrada, porque
a qualidade tornou a conversa sobre os vinhos muito mais
complexa. Neste particular, as castas nacionais são uma
a nossa preferência é o que há de mais
referência obrigatória. David Lopes Ramos explica inabalável na relação que devemos ter
porque faz sentido que assim seja. com o vinho.
Foi com base na ideia que partimos para
24 Os espumantes esta edição da Fugas. Muito mais do
Tradicionalmente associados às festas e ao “pum!” assumir firmar certezas, quisemos abrir
das rolhas a rebentar, os espumantes ganham espaço como caminhos de reflexão. Mostrando que o
um estilo de vinhos indispensável. David Lopes Ramos, “nosso” vinho é apenas uma pequena
um fervoroso adepto da causa, diz-nos que esse é um estrela no firmamento da enologia
caminho incontornável.
mundial e que até chegarmos ao nível da
excelência da Borgonha ou de
28 A prova Champagne, ainda teremos muito que
Escolhemos uma série de vinhos tintos com preços
caminhar. Explicando através da escrita
situados entre os oito e os 12 euros e, entre convidados
e gente da casa, organizámos uma prova cega sábia e experimentada de David Lopes
para saber qual era o melhor. Valeu a pena. Ramos e Rui Falcão como chegámos até
aqui e com que chaves de leitura nos
devemos munir sempre que a conversa
34 O vinho à mesa sobre o vinho deriva para temas como as
David Lopes Ramos jura que vai a um restaurante
principalmente pela causa da comida. Mas não nega a castas, os preços, para as regiões ou para a
importância de uma boa carta ou de copos à altura. indestrutível aliança entre o vinho e a
Felizmente, há muitos restaurantes onde estes comida. Pelo meio fizemos uma prova
pergaminhos são respeitados. Conheça alguns. cega à procura de uma selecção dos
melhores vinhos dentro de uma gama
38 Viagens com vinho dentro média de preços. E porque o vinho é
Andreia Marques Pereira construiu um roteiro ideal para também cultura e património, deixamos
quem quiser associar o vinho ao prazer de viajar. aos nossos leitores uma série de sugestões
Carlos Dias sugere-nos três incursões sobre as rotas dos que lhes permitam tomar conhecimento
vinhos do Alentejo com o fantástico mundo da viticultura em
Portugal.
46 Motores Procurámos, afinal, fazer
Para aqueles momentos em que não bebeu um desta Fugas um
bom vinho, um passeio no novo Renault Laguna Coupé
instrumento útil para
pode ser uma boa alternativa. A Fugas testou ainda o Lancia
Delta, um exemplo do arrojo italiano, que sabe bem como que os leitores possam
conciliar diferença e classicismo. alargar um pouco mais
a sua visão sobre essa
realidade apaixonante
que é o vinho. À
nossa.

Ficha técnica
Fugas - Viagens, Lazer, Prazeres e Motores • Direcção José Manuel Fernandes • Edição Sandra Silva Costa e Aníbal Rodrigues (Motores) • Edição Fotográfica Paulo Ricca, Manuel Roberto • Design Mark Porter, Simon Esterson, Kuchar Swara • Directora de
Arte Sónia Matos • Designers José Soares, Nuno Costa e Pedro Almeida • Infografia Célia Rodrigues, Joaquim Guerreiro e José Alves• Secretariado Lucinda Vasconcelos • Tratamento de imagem Alexandra Domingos, Bruno Esteves, Hugo Pereira, João Pereira,
Paula Paço e Valter Oliveira • Redactores Andreia Marques Pereira; Carlos Dias; David Guimaraens; David Lopes Ramos; Guilherme Rodrigues; Joana Ramos Simões; João Palma; João Pedro Barros; José Augusto Moreira; José Manuel Fernandes; Luís J. Santos;
Manuel Carvalho; Maria Lopes; Raposo Antunes e Rui Falcão • Foto de capa Fernando Veludo/nFACTOS • Fugas Rua de João de Barros, 265, 4150-414 Porto, Tel. 226151000. E-mail: fugas@publico.pt • FUGAS nº 440

Fugas • Sábado 25 Outubro 2008 • 3


O vinho na Terra
O planeta de Baco Em 20 ano
Milhões de he

A cultura da vinha e o consumo do vinho espalhou-se por todo o mundo nos últimos
séculos, mas com especial incidência na era da globalização. Mas, apesar da entrada 1
em cena do Novo Mundo, a vinha e o vinho continuam a ser acima de tudo fenómenos
fundamentalmente europeus

A área mundial de vinha


está a diminuir
Milhares de hectares
8900

8100
7950 7850
7750

1986 a 90 91 a 95 96 a 00 01 a 05 2007*
* Dados provisorios

E a Europa continua a ser


o continente da viticultura
(2007)

Na China, a área da vinha


já é o dobro da nacional
(2007 - dados provisórios)

milhares de hectares

Espanha 1169
56

França 867
52
Itália
800

Turquia 525 47
China 500 45
44
Eua 409 41
Irão 338

Portugal 238

Argentina
34 34
231

Roménia 205

Chile 197

Austrália 174
Luxemburgo França Itália Portugal Eslovénia Croácia Suiça Hungria

4 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


anos as exportações explodiram
de hectolitros

1986 a 1991 91 a 1995 96 A 2000 01 A 2005 2007

44 50 60 72 91

* Dados provisorios

A produção de vinho
recuou ligeiramente
Milhões de hectolitros

305

270 275 270


265

1986 a 90 91 a 95 96 a 00 01 a 05 2007*
Em quantidade, a Itália e a Espanha * Dados provisorios

ultrapassaram a França
(2007 - dados provisorios)

Itália 18,8

Espanha 15,3

França
15,2

Austrália
7,8

Chile
6,1

EUA
4,2

Argentina
3,6

Portugal
3,5

Alemanha
3,4
30 30
29 29 África do Sul
3,1

Moldávia
1,5

Espanha Áustria Grécia Dinamarca Bulgária


1,2
FONTE: OIV

Fugas • Sábado 25 Outubro 2008 • 5


Grandes regiões
Se a imagem celestial pode ser
aplicada a algum vinho, será aos da
Borgonha, brancos ou tintos, de um
vinhedo de estirpe e de ano bem
sucedido. Não por acaso são os mais
caros do mundo à partida de cada
colheita. O tinto de maior preço é o
Romanée-Conti – o 2005 vende-se
actualmente a quase 10.000 euros a
garrafa. Já o Montrachet, de
produtor de primeira linha, entre os
brancos secos de todo mundo não
tem rival em qualidade nem em
preço elevado. A nobreza e a
primazia desses vinhos não é de
hoje. Desde a Idade Média destacam-
se nas mesas das casas reais mais
opulentas da Europa. Comparados a
seus arqui-rivais, os soberbos tintos
de Bordéus, diz-se que os Borgonhas
são etéreos e espirituais, enquanto
os bordaleses são mais intelectuais.
Também não por acaso, os tintos
borgonheses são os melhores
acompanhantes para as aves,
especialmente as aves de caça.
O céu acompanha a Borgonha.
Está inclusive na origem desses
vinhos míticos, que nasceram da
acção, inspirada nos céus, dos
monges e frades, cerca de mil anos
atrás. O grande movimento começou
com a aquisição e doação das
melhores terras vinícolas da região
aos monges beneditinos de Cluny e
também aos Cisterciences. Aliás,
não custa registar que a vinicultura
portuguesa também se beneficiou,
no berço, da acção dos mesmos
frades, trazidos da Borgonha quando
da fundação do Reino. Foram eles
que criaram a Borgonha tal como a
conhecemos hoje. Seleccionaram e
delimitaram os melhores terrenos de uma manta de retalhos. A base do de um Montrachet, por exemplo. cru” ou “premier cru”. Mas convém
para as vinhas e adaptaram-lhes as terreno é a mesma, calcária, mas as Mesma casta, Chardonnay, mesmo não esquecer que a região é vasta e
castas superiores: Pinot Noir para nuances são enormes. Cada produtor e métodos; por exemplo, o abrange outras notáveis sub-regiões,
tintos e Chardonnay para os pequeno pedaço gera vinhos com Domaine Leflaive. Mesma colheita. como o Beaujolais, onde impera a
brancos. Na época das navegações características muito especiais e Mas são bem diferentes. Qual a tinta Gamay; a Côte Chalonnaise; e o
portuguesas, os mais célebres distintas. Os mais notáveis são distância entre os vinhedos ? Mâconnais, terra do célebre Pouilly-
vinhedos da Borgonha já estavam classificados como “grand cru”, Nenhuma, um é quase a continuação Fuissé. Mesmo os Borgonhas mais
perfeitamente delimitados, com o vindo a seguir os “premier cru”, os do outro. Uma carreira de vinhas é simples, tintos ou brancos, desde
perímetro que exibem até hoje. Por “villages” e os comuns. O céu está de um vinhedo, a seguinte, do que bem elaborados, é evidente, são
exemplo, Clos de Tart, Romanée St. nos “grand crus” e em alguns outro. Ocorre o mesmo entre os vinhos suaves, perfumados,
Vivant, Echézeaux, Romanée-Conti, “premier crus”. tintos. Mas cada pedaço desses instigantes, não pesam e são muito
o célebre Clos de Vougeot e assim possui uma estrutura de solo e de agradáveis, sempre entre os
por diante. O suprassumo do terroir subsolo diversificada, daí a melhores do mundo na sua categoria
Numa entrevista recente com O conceito de “terroir” encontra na expressão individual de cada vinha. Voltando à Côte d’Or, vamos ao
Aubert de Vilaine, proprietário e Borgonha sua expressão máxima. Como os membros de uma mesma seu coração, a fantástica cidade
director do Domaine de la Romanée- Um Chevalier Montrachet é diferente família, possuem uma característica medieval de Beaune, com suas ruas
Conti, ele usou uma imagem muito comum, mas cada um, cada vinha estreitas e tortuosas, casario antigo e
interessante para descrever o no caso, tem identidade e bem conservado, o célebre Hospices
milagre dos vinhos da Borgonha. A personalidade próprias. de Beaune, com o telhado colorido
Na verdade, quando falamos dos
maiores vinhos da Borgonha,
automaticamente pensamos nos
grandes da Côte d’Or e em alguns
brancos de Chablis. Todos “grand

Borgonha
Os vinhos celestiais
O céu acompanha a Borgonha, assevera Guilherme Rodrigues, um reputado
jornalista brasileiro que, num texto exclusivo, nos escreve sobre a região. Seja nos
brancos ou nos tintos, nenhuma outra zona vinhateira do mundo se aproxima à
excelência dos seus vinhos etéreos e espirituais
6 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas
crus” são de Pommard (mais cheio e longevos. Provei recentemente um
robusto), Volnay (mais elegante e magnífico Montrachet da DRC, de Obras-primas
perfumado) e Beaune. 1983, que parecia um branco de
Após a colina de Corton, rumo poucos anos de vida. Mas é melhor Duas provas
norte em direção a Dijon, saímos da ter cuidado com brancos mais
Côte de Beaune. Há um espaço sem velhos. Especialmente a partir dos memoráveis
vinhas importantes e logo a seguir meados da década de 1990, muitos
encontra-se a vila de Nuits-St. brancos de estirpe começaram a
Georges, onde começam os apresentar uma tendência para a O vinho da Borgonha é de uma
sumptuosos vinhedos tintos. O Clos oxidação prematura. Excepto alguns grande intensidade, mas ao mesmo
de la Marechale é o primeiro a nomes sólidos e que não fazem tempo possui uma sublime elegância
aparecer. É um “premier cru”, como concessões a modismos ou ao lucro e leveza. Como seda ao vento, o vôo
todos os melhores vinhedos de Nuits fácil, o melhor é não abusar muito de uma ave, uma obra prima de Bach
St. Georges. Interessante notar que com o tempo de guarda desses ou de Mozart. Vamos a duas notas de
como a sua contraparte Beaune, grandes brancos provas, de um tinto e de um branco,
cujo nome baptiza a respectiva sub- Os vinicultores cuidadosos e ambos soberbos, para tentar dar ao
região, não há nenhum “grand cru” diligentes fazem vinhos soberbos. A leitor uma ideia do carácter dos
ao redor da vila. A seguir, Vosne- região, como dissemos, é pródiga sumptuosos vinhos. O branco foi
Romanée, com alguns dos mais em pequenos vinhateiros. Hoje a apontado pelo grande vinhateiro
sumptuosos “grand crus” do percepção desse fenômeno como português Luis Pato como o melhor
planeta, como La Tâche, Romanée- que traz um retorno às práticas branco que já bebeu. Desfrutamos
Conti, La Romanée, Richebourg, consagradas do século XIX. Baixos dele junto a outros amigos aqui no
Romanée-St.-Vivant. Daí em diante rendimentos é uma palavra de Brasil, há cerca de um ano e meio. Já
proliferam os “grand crus” tintos, ordem comum entre os melhores o tinto, foi bebido há um mês. Ambos
em direcção a Dijon, como produtores. Métodos de cultivo os maduros, com vida e vigor ainda pela
Echézeaux, Grands-Echézeaux, Clos mais naturais possíveis, também. frente. Como na Borgonha os grandes
de Vougeot, Musigny, Bonnes Mares, Vinificação primorosa e estágio em brancos são provados após os
Clos de Tart, Clos de Lambrays, Clos barris de carvalho os mais finos e da grandes tintos, comecemos pelo
St. Denis, Clos de la Roche, melhor qualidade possível, tanto tinto:
Mazoyères-Chambertin, Latriciéres- para tintos como para brancos. Nos
Chambertin, Charmes-Chambertin, tintos, o desengace é parcial. Romanée-Conti 1990
Chambertin, Chambertin Clos de Dependendo da colheita, se é muito Provado ao lado dos demais tintos do
Bèze, Griotte-Chambertin, Chapelle- madura, pouco ou nada se DRC da mesma colheita, uma das
Chambertin, Ruchottes-Chambertin desengaça. Ao contrário, se o ano mais gloriosas de sempre. Mostrou-se
e Mazis-Chambertin.Esses pequenos deu maturações deficientes e verdor, acima do La Tâche, se é que é
vinhedos milenares cintilam como desengaça-se bastante ou até 100%. possível esse tipo de hierarquia..
as estrelas de maior grandeza desse Uma nota comum entre os melhores Percebe-se claramente o porquê da
orbe de vinhas. Parafraseando a produtores é afirmarem que a cada fama desse tinto monumental, a
letra de uma das mais célebres colheita os métodos de vinificação se glória da Pinot Noir. Uma sinfonia de
músicas brasileiras, da autoria de modificam, para se conformarem ao aromas e sabores refinados e intensos
Silvio Caldas e Orestes Barbosa, os carácter único de cada ano. Um inunda os sentidos. Frutas maduras,
vinhedos recortados da Borgonha grande Borgonha, como que nos faz como mirtilos, framboesas e
formam um magnífico chão de levitar. groselhas, que se desmancham em
característico da região, a basílica de estrelas. vagas sedosas. Especiarias em
Notre Dame e as muralhas Mas nem tudo são alegrias. O profusão e muito bem arranjadas,
medievais. Os vinhedos cercam-na e diabo também faz de suas artes no como zimbros, noz moscada,
sobem encosta acima. Nesse ponto a meio às criações divinas. Nem pimenta da Jamaica, canela suave,
grande maioria é de uvas tintas, a sempre o nome de um desses levíssimo abaunilhado. “Sous bois”,
Pinot Noir, e não há nenhum “grand grandes vinhedos no rótulo significa rosas brancas, notas minerais
cru”. Os “premier crus”, não que o conteúdo esteja à altura. A cintilantes. Força e frescor para
obstante, são notáveis, cheios, Borgonha é picotada. Os vinhedos muitos anos de vida pela frente.
perfumados, elegantes. A encosta de que falamos acima não são Estrutura imponente e bem
vinhateira, melhor diríamos, meia grandes. Além disso são divididos torneada. Vinho que se revela em
encosta, estende-se a partir de entre diversos proprietários. O facetas, a cada momento uma nuance
Beaune para o norte até encostar em Romanée-Conti, por exemplo, entre diferente. Taninos maduros e
Dijon. Para o sul espraia-se até a vila os menores, tem apenas 1,8 finíssimos, final de prova glorioso,
de Santenay. Os vinhedos ficam a hectares. É um dos poucos está entrando no seu apogeu.
uma altura aproximada de 250m monopólios. Clos de Vougeot, um Elegância, leveza e equilíbrio fora do
acima do nível do mar, com dos maiores, com aproximadamente comum, perfeição e sensualidade
variações pequenas, num intervalo 60 hectares, é dividido em quase 80 engarrafadas. Deixado um pouco no
aproximado de 60 metros de altura. proprietários. Na Côte d’Or existe copo, no dia seguinte ainda estava
um total de apenas 450 ha de em grande forma.
Cuidados na vinha “grand crus”, 80% tintos. E mais
A Côte d’Or divide-se em Côte de 2090 ha de “premier crus”, 75% Domaine Leflaive Puligny
Nuits, no sector norte, e Côte de tintos. São centenas de proprietários Montrachet 1er cru les Pucelles
Beaune, no sector sul. A última tem e produtores. Nem todos, Guilherme Rodrigues é advogado 1992. Demonstração de que um
apenas um “grand cru” tinto, o infelizmente, primam pela mais alta em Curitiba, Brasil e redactor “premier cru” pode algumas vezes
Corton. Em compensação, reina qualidade. É fundamental, portanto, especialista em vinhos da ser melhor do que muitos “grand
entre os brancos, com os soberbos saber a quem se compra um grande revista GULA, a mais prestigiada crus”. Aromas penetrantes e
“grand crus”: Corton-Charlemagne Borgonha. A qualidade do e influente revista de temas “bouquet” riquíssimo, um vinho
(no seu extremo norte); e vinhateiro, seja produtor- gastronómicos brasileira branco inacreditável. Refinamento e
Montrachet, Chevalier-Montrachet , engarrafador, seja “négociant”, é elegância incomuns. Notas florais
Bâtard-Montrachet, Bienvenue- essencial. Também as datas das suaves a rosas, muito bem casadas
Bâtard Montrachet e Criots-Bâtard- colheitas, pois como a Borgonha está com a base de maçãs maduras e favos
Montrachet (no extremo sul). Sem numa região extrema para o cultivo de mel. Pureza cristalina, excelente
falar nos fantásticos “premier cru” da videira, as variações de qualidade frescor, definição e profundidade.
de Meursault, alguns deles ao nível de ano para ano são grandes. Textura deliciosamente amanteigada,
de “grand cru”, como os Perrières, Os grandes tintos das melhores escorrega e exalta os sentidos.
Genevrières e Charmes. Dentre os colheitas envelhecem muito bem. O Minerais dão vida e brilho ao
tintos, os mais famosos “premier apogeu, nesse caso, situa-se em conjunto. Suave e delicioso
torno dos 15 aos 25 anos amendoado, com matizes que
aproximadamente. Mas são muito lembram nozes. A expressão máxima
atraentes desde jovens. Os grandes das palavras refinamento e beleza em
brancos também podem ser vinho .

Fugas • Sábado 25 Outubro 2008 • 7


Grandes regiões
O meu primeiro contacto com o pareceu-me que indo para o outro Madeira etc. Na sala de visitas de
mundo do vinho australiano foi com extremo do mundo do vinho poderia uma pequena adega tinha à minha
um jovem enólogo desse país, com aumentar o meu campo de visão e frente uma selecção de diferentes
quem trabalhei numa vindima no ficar mais preparado para enfrentar tipos de vinho de todo o mundo, mas
Douro quando eu tinha 18 anos. A os desafios com que a nossa região se com uma particularidade: todos
forma prática como abordava o deparava. Escolhi então a Austrália feitos numa só região. Tal como aqui,
trabalho despertou-me desde logo para estudar enologia, e ingressei em este cenário repetia-se em muitas das
curiosidade. Roseworthy, Adelaide, onde estive adegas desta e de outras regiões.
Então, nesse ano, após ter obtido durante cinco anos (mas só depois A minha primeira reacção (como
uns resultados desastrosos no liceu, de ter estudado qúimica em europeu) foi sentir que estavam a
lancei-me numa viagem à Austrália Inglaterra para salvar um percurso imitar e a “falsificar” os vinhos
para experimentar uma vindima. O escolar desastroso). europeus. No entanto, rapidamente
meu pai, sempre visionário, não só Regressando à minha primeira me apercebi da elevada qualidade de
me incentivou a ir ver como é que o visita a Austrália, cheguei em Janeiro todos os vinhos produzidos, que
Novo Mundo trabalhava, como de 1985 a Melbourne, com 40ºC e tinham um estilo diferente, mas
também a visitar as suas faculdades fui recebido pelo enólogo australiano eram semelhantes aos seus
de enologia (não só na Austrália com quem tinha partilhado a homólogos europeus. E notei que
como na Califórnia) para tomar uma vindima no Douro. A viagem que nos havia a diversidade de castas
decisão consciente sobre onde levou à adega da famila, R.L.Buller representantes de quase todas estas
“investir” na minha formação. and Son, na região de Rutherglen, regiões. Assim, percebi que para os
Assim, ofereceu-me uma viagem, durou três horas. Esta é a região australianos, um “Claret” (Bordéus)
mas só de ida, para a Austrália – até australiana com mais tradição, tendo era um vinho mais encorpado feito
hoje estou por perceber se me quis Confesso que fiquei impressionado mais de 150 anos dedicados a fazer de Cabernet Sauvignon e Merlot, e
despachar de vez para o outro lado com ambos os países, quer pela sua vinhos e quase sempre vinhos um “Fino Sherry” (Xerês Fino) era
do planeta, ou se queria ver se eu forma de trabalhar, quer pela fortificados. feito a partir da casta Palomino – nos
tinha iniciativa para regressar por maneira como as suas faculdades de O meu primeiro choque deu-se cascos encontrava-se até a “flor”
mão própria a Portugal. enologia estruturavam os seus quando entrei no centro de visitas, e característica deste estilo de vinhos.
Contra todos os prognósticos mais curriculos. O paradigma das me deparei com uma oferta de mais Um Vintage Port era feito para
pessimistas, regressei contagiado faculdades europeias à época de 30 estilos diferentes de vinhos, envelhecer em garrafa, e um Old
com a paixão que todos os centrava-se em tratar as regiões onde característicos das mais diversas Tawny Port era maravilhosamente
australianos têm pelo vinho, mas não estavam inseridas, ao passo que, no regiões da Europa: Xerês Fino, complexo e com as características
sem antes ter também passado uns Novo Mundo, a abordagem era feita a Vermute, Porto Tawny, Porto
meses a trabalhar na Califórnia. todos os tipos de vinho, sem Vintage, Borgonha branco, Borgonha
preconceitos. Assim, no meu caso, e tinto, Bordéus, Moscatel, Tokay,
tendo tido a sorte de ter crescido no
Douro, uma região com séculos de
tradição e conhecimento empírico,

Austrália
O Novo Mundo
que fez acordar
o Velho Mundo
David Guimaraens, enólogo da Taylor´s
Fonseca, fez a sua formação na Austrália
e explica como é que este país ajudou
a Europa a melhorar a qualidade dos
seus vinhos das médias e baixas gamas.
E como abandonou alguns dos saberes
desenvolvidos ao longo de séculos

8 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


típicas de um vinho fortificado Desde 1985 até hoje deu-se um detentores de conhecimentos
envelhecido em cascos. outro fenómeno muito interessante elevadíssimos, que muito me
Esta questão da “falsificação” que podemos comparar com o que ensinaram e dos quais pude tirar
ficava sempre no ar para quem está a acontecer actualmente no muitos proveitos aquando do meu
visitava a Austrália. Mas é importante nosso país. Até à década de 1980, 80 regresso a Portugal. No entanto,
relembrarmos que também nós, há por cento dos vinhos produzidos na actualmente, o entusiasmo pelos
apenas 15 anos atrás, produzíamos Austrália eram fortificados (com a vinhos de mesa fez com que uma
óptimos “Champagne” que agora são adição de aguardente, tipo Portos, geração completa de enólogos tenha
correctamente designados de Madeira, etc). Nessa década, a abandonado a produção de vinhos
espumantes, e que para os produção assistiu a uma fortificados e os seus grandes
australianos esta opção era a única transformação, passando-se a conhecimentos estão-se a perder.
que tinham para poder continuar a produzir vinhos de mesa de elevada Neste momento, vejo no Douro, a
beber os diferentes estilos de vinhos qualidade. Para tornar este sucesso mesma situação a repetir-se. A nova
a que estavam habituados. possível, houve um factor muito geração de enólogos do Douro só
importante: era muito difícil quer fazer vinhos de mesa e a
Saudades da Europa encontrar um vinho que não tivesse tradição e conhecimentos de três
De facto, quando os primeiros qualidade. Foi a esta segurança que séculos a produzir vinho do Porto
colonos ingleses chegaram a os consumidores europeus e poderá ser perdida. Como
Austrália há 200 anos, plantaram as americanos rapidamente se consumidores portugueses,
videiras europeias e começaram a acostumaram. David (aqui com o seu diploma naturalmente orgulhosos dos nossos
produzir os vinhos que eles tanto obtido na Austrália), é o herdeiro vinhos do Porto, a melhor forma de
gostavam da Europa (é bom lembrar Um exemplo para o Douro da dinastia Guimaraens, que contrariarmos esta tendência é
que não existiam os meios de Esta transformação, em que durante um século está à frente da revitalizando o seu consumo,
comunicação actuais e que este país produtores de vinhos fortificados se enologia da Fonseca e, após 1947, passando a bebê-lo não só em
é literalmente do outro lado do viraram totalmente para a produção da Taylor´s. David, descendente de ocasiões especiais, mas tornando
mundo). Com isso, desenvolveram de vinhos de mesa, também se está a um liberal português que emigrou especiais muitas mais ocasiões.
um conhecimento próprio muito verificar no nosso pais, e em especial para Inglaterra em 1832, é um dos A dedicação dos australianos a
elevado, tendo sempre como no Douro. Embora essa mais conceituados criadores de produção de vinhos de qualidade em
referência os originais europeus, e diversificação seja importante para o vinho do Porto da actualidade. toda a gama, independentemente do
que por consequência produzem nosso pais, devemos aprender com o preço, veio também alterar a forma
vinhos de elevada qualidade. Mas que se passou na Austrália. Entre como os europeus produziam os
também é importante reconhecerem 1985 e 1990 conheci nesse país uma seus próprios vinhos.
que nos tempos de hoje devem geração antiga de produtores de De facto, na década de 1990, na
procurar os seus próprio nomes e vinhos fortificados que eram Europa assistiu-se ao fenómeno dos
não os das nossas regiões. Esse “Flying Winemakers”, enólogos
capítulo está hoje fechado; já não australianos que vieram para adegas
chamam aos seus magníficos vinhos no sul de França e revolucionaram a
fortificados, nem Port nem Madeira. sua produção. Pegaram em adegas
grandes que produziam vinhos
muito fracos, e, com o mesmo
equipamento e as mesmas uvas, mas
com uma enologia mais cuidada,
começaram a produzir bons vinhos
comerciais que depois eram
vendidos em grandes quantidades
no mercado inglês. Aliando a este
fenómeno o sucesso dos vinhos da
Austrália nos mercados europeus, a
Europa viu-se “obrigada” a produzir
melhor os seus vinhos mais
económicos, para poderem estancar
a perda de mercado que estavam a
ter para os vinhos do novo mundo.
Termino este relato da minha
experiencia com a Austrália com um
pensamento: “o sector do vinho na
Austrália desenvolveu-se com
enorme sucesso devido à sua
dedicação e à qualidade dos seus
produtos, seja qual for o preço a que
é vendido. Esta qualidade foi atingida
não através de legislação pesada e
controladora, mas sim pela sua
postura responsável e comprometida
com que fabricam os seus vinhos,
estando sempre dependentes da
avaliação do consumidor.
Hoje na minha região do Douro, o
vinho do Porto está a ser
estrangulado por um sistema que foi
concebido noutros tempos, quando
a região só tinha um produto, o
vinho do Porto.
Se, no nosso país, não soubermos
adaptar rapidamente as alterações
do mundo de hoje, temo que o
“nosso” vinho do Porto passe a ser,
como na Austrália, uma recordação
dos velhos tempos.

Fugas • Sábado 25 Outubro 2008 • 9


Grandes regiões

Champagne
Os brutos estão na moda
Raposo Antunes visitou Champagne e teve uma experiência quase mística. Não
apenas pela excelência dos vinhos: também pela sofisticação do marketing ou pelos
preços de um hectare de terra que chega a custar um milhão de euros. Retrato de
uma das mais emblemáticos berços do vinho mundial
Para um leigo, como é o caso, foi produtores para o chamado O champanhe ou “vinho dos reis”, quilo de uvas para o champanhe
uma experiência quase mística: champanhe bruto, com um como começou por ser conhecido, oscila entre os cinco e os oito euros.
provar sete champanhes diferentes baixíssimo teor de açúcar. E é esse foi “inventado” por frades da região Mesmo nos anos em que a produção
criados pela Lanson, depois de uma que acabou por se tornar num de Reims. Foi na catedral dessa não tem qualidade e acabam por
viagem entre o Porto e Reims, que grande negócio a partir da década cidade que todos os reis franceses apodrecer nas videiras, as grandes
durou quase 12 horas, com vários de 70 do século passado. O foram coroados desde o século XIII casas pagam aos agricultores as uvas
sobressaltos pelo meio, fica para o champanhe é um vinho produzido até ao XIX. O acto era celebrado com pelo mesmo preço dos anos
currículo. A prova propriamente num solo gredoso (calcário), sobre champanhe. Nessa época era uma normais. Se não o fizerem, outra
dita permitiu desconstruir uma ideia baixas temperaturas (a média anual coisa turva, imbebível diz Jean-Paul grande marca “vai pescar” esse
feita – o champanhe, os brutos em na região de Reims não ultrapassa os Gandon, chefe das caves Lanson. agricultor.
particular, não tem nada a ver com a 10 graus centígrados) e que nas No final do século XIX, o método Na região de Champanhe há cerca
ideia daquele vinho com picos que versões mais acessíveis ao bolso de produção começou a alterar-se. A de 15 mil produtores que são
se abre no final de uma refeição para mistura três castas (Chardonay, palavra-chave é “degorgement”. proprietários de quase 90 por cento
acompanhar as sobremesas. Ou Pinot Noir e Meunier) e é vendido Durante três a cinco anos, o das vinhas. E é a esses que as 30
então para celebrar a passagem de com um teor alcoólico da ordem dos champanhe fica a fermentar dentro grandes marcas compram as uvas, já
ano. O champanhe é óptimo para 12 por cento. das garrafas, que são colocadas com que a maior delas têm pequenas
acompanhar carnes brancas, mas o gargalo para baixo, praticamente propriedades que são insuficientes
também peixe, assados, mariscos, num ângulo de 60 graus. De tempos para produzirem vinho para o
queijos, aperitivos, praticamente a tempos, as garrafas são mercado.
tudo. reposicionadas mas sempre com a A crescente procura de
O champanhe adocicado já era. O mesma inclinação, para que os champanhe levou os responsáveis
gosto mais comum levou os sedimentos do vinhos se acumulem pela denominação de origem a
no gargalo. Ao fim desse período, a avançar com o alargamento da área
garrafa é aberta e o “depósito” é de vinha de 34 mil hectares para 40
expelido juntamente com a cápsula - mil hectares (um pouco menos do
o chamado “degorgement”. Depois é que a área vitícola do Douro). A
adicionado algum álcool com medida era inevitável, apesar da
açúcar, que lhe dá aquele borbulhar, elevada produção por hectare das
e é engarrafado, com aquelas rolhas vinhas naquela região. Mas coloca
de cortiça (a maioria, de fabrico em crise um dos mais
português) com o formato de nave extraordinários trunfos franceses: o
espacial que salta nos momentos conceito de “terroir”, utilizado para
especiais. tudo quando se trata de destacar as
Jean-Paulo Gandon explica que, qualidades singulares de um
desde o final do século XIX até aos qualquer produto alimentar.
anos 70 do último século, poucas
coisas mudaram. O champanhe só
começou verdadeiramente a ser um
grande negócio a partir dessa altura.
Os brutos passaram a estar na moda.
O marketing ditou novas regras. As
principais casas gastam milhões e
milhões na promoção dos seus
vinhos.
A responsável pelas relações
públicas da empresa GG Mumm,
Laura Sileo-Pavat, recusa revelar os
valores que a sua casa pagou a
Bernie Ecclestone para substituir a
Moet & Chandon nas corridas de
Fórmula 1. “Foram muitos milhões”,
diz Laura, uma professora
universitária de Roma que trocou o
ensino pelas relações públicas da GG
Mumm, em Reims.
No meio desta guerra de
marketing, ninguém pode estranhar
que as verbas envolvidas neste
negócio não tenham nada a ver com
aquilo que, por exemplo, se passa no
vinho do Porto. Um hectare de vinha
na região de Reims custa, no
mínimo, um milhão de euros. Um

10 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


NUNO FERREIRA SANTOS
Bordéus
A capital mundial
do vinho é aqui
Com 57 denominações, a riqueza e qualidade dos vinhos
de Bordéus resulta da tipicidade dos “terroirs” mas
também do saber e arte acumulados ao longo dos séculos,
como constatou José Augusto Moreira
A riqueza, a qualidade e a Para os mais apressados, o
diversidade dos vinhos de Bordéus gabinete de turismo da cidade
resulta da tipicidade dos “terroirs” (www.bordeaux-tourisme.com)
(territórios) mas é também fruto de criou um programa para estadias de
aturados estudos científicos, a que dois dias, ideal para quem queira
se junta a arte de fazer vinho tomar contacto com o essencial da
acumulada ao longo dos séculos. região. Além de duas noites de hotel,
Em termos geográficos, a região o turista tem direito a duas visitas,
divide-se em três grandes áreas, uma pela cidade e outra pela região e uma degustação no edifício do
separadas por dois rios (o Dordogne vitícola e com degustações, um livre- Conselho Interprofissional do Vinho
e o Garonne) que de fundem logo a trânsito para acesso aos principais de Bordéus. Os preços variam entre
seguir a Bordéus. Na chamada “rive monumentos e museus e outro para os 95 e 390 euros, consoante se opte
Ao rótulo de capital mundial do droite”, na margem direita do os transportes urbanos. No final há por um hotel de duas ou de cinco
vinho, Bordéus juntou recentemente Dordogne, ficam as regiões de ainda direito a uma garrafa de vinho estrelas.
a classificação como Património Fonsac, Pomerol e Saint-Emilllion,
Mundial da UNESCO e prepara-se onde se produzem vinhos tintos
também para receber a capital normalmente caracterizados pela
europeia da cultura em 2013. sua potência aromática, elegância e
Consequência da fama dos seus taninos macios. Na “rive gauche”,
vinhos, mas também da que corresponde à margem
atractividade da cidade e das esquerda do Garonne, ficam as
transformações dos últimos tempos, regiões de Medoc, Graves e
Bordéus é hoje um dos destinos Sauternes (a primeira a norte e as
turísticos de França mais segundas a sul da cidade de
procurados. Mais do que a principal Bordéus).
actividade económica da região, o Os vinhos do Medoc, onde
vinho representa para os bordaleses
uma cultura e forma de vida que
lhes é muito própria, fazendo com
que sejam as iniciativa ligadas à
predominam as castas Cabernet-
Sauvignon e Merlot, são tintos
elegantes e com grande aptidão para
envelhecer, enquanto em Graves e
Aposta na
viticultura os grandes eventos anuais
da região. A “Vine Expo”, a feira que
de dois em dois anos junta a nata
Sauternes são famosos os brancos
macios e licorosos, conhecidos pelo
seu “bouquet” e untuosidade, finos
qualidade...
mundial de produtores, e com um notável equilíbrio entre
comerciantes, técnicos e acidez e açúcar. São de facto vinhos
investigadores, que em finais de únicos e de uma qualidade que só
Junho alterna com a “Bordeaux Fête terá mesmo paralelo com os
le Vin” (Bordéus Festeja o Vinho), néctares da Borgonha. A região de
um evento quase mágico que “entre-deux-méres” corresponde,
durante vários dias arrasta para a como a designação indica, à área
zona ribeirinha da cidade milhares situada entre os dois rios, onde são
de pessoas que, de copo na mão, se sobretudo produzidos vinhos
deliciaram com a descoberta e as brancos secos.
provas, as conversas e a Para quem visita a cidade e se
aprendizagem sobre o mundo dos interessa por vinhos, é indispensável
vinhos. uma passagem pela Casa do Vinho,
A região vitícola tem 57 um edifício emblemático ligado à
denominações que se estendem por famosa Escola do Vinho de Bordéus
uma área de 115.000 hectares e (www.ecole.vins-bordeaux.fr), que
representam uma produção média oferece sessões de degustação e
anual de 5,58 milhões de hectolitros aprendizagem básicas. Na versão
e um volume de negócios que atinge mais abreviada (duas horas) ou Casa Ermelinda Freitas
os três mil milhões de euros. Um numa formação mais consistente Fernando Pó - Águas de Moura
mundo complexo é também o (um dia, pelo menos) o visitante tem Telef. 265 988 000 Fax 265 988 004
sistema e as regras de denominação. a possibilidade de perceber as bases E-mail: geral@ermelindafreitas.pt
da enologia e aprender a reconhecer
os vinhos de diferentes castas. Nos
programas de fim-de-semana, a
proposta inclui também visitas a
produtores. Seja responsável. Beba com moderação
Um sector em mudança
O retrato do vinho em Portugal
O sector do vinho em Portugal
conheceu uma revolução
profunda nos últimos 25 anos. Vinha dedicada aos vinhos de qualidade
O Douro deixou de ser apenas
o berço do Porto e passou a É menos de 1/3 da área total
criar tintos de categoria Valores em hectares
mundial; o Alentejo passou do
anonimato para se transformar Dão, Bairrada Dentro desta área,
na mais vibrante região e Beiras os vinhos Verdes
produtora do país; o Dão e a 11.123 e do Douro dominam
Bairrada redescobrem os seus Alentejo
pergaminhos e dão origem a 6.879
vinhos de alta qualidade; os Outros
Verdes sacodem os anátemas 3.541
de outrora e estão firmes na
As contas modernidade. Mas nem só os Área Área
do sector clássicos mostram brilho: total VQPRD
Portugal é hoje um país de 239.951 94.113
Região do Douro muitos, diferentes e bons
tem um peso vinhos.
essencial
Vinho do Porto
entra nas contas Minho
Douro 33.143
Valores em milhares de euros 39.427
relativo ao ano 2007/08 Os portugueses
preferem os tintos
Ano de 2007
Douro e Porto
1.223.404 Brancos
Minho 37% Rosés A produção
Vinhos
3%
Verdes de vinho em Portugal
683.300 1997
Tintos é muito instável
9.712.000

Alentejo
375.576 60% Valores em hectolitros
Península
de Setúbal
79.948 2000 2002
2005 2007
7.859.000

7.790.000

Ribatejo 2004 2006


1996

7.532.000
7.481.000
7.340.000

e Estremadura 7.267.000
7.255.000

129.976 2001 2003


6.709.000

6.677.000

1998
Bairrada,
6.124.000

Dão e Beiras
280.681

Madeira
41.380
O consumo de vinho Mas o volume de 01/02
2000/01

está estagnado negócios está a crescer 1999


4.147.577

Outros
2007/08

11.695 04/05 05/06 06/07


3.750.000

Ano de 2007 (Portugal) 03/04


3.387.728

02/03
3.321.442
3.287.036
3.260.311

3.178.911

Em milhões de litros Em milhões de euros


2.933.717

2.825.960

100 400

372
90,2 356
91,2
85,5 350

Vinhos de qualidade
333 Do total produzido, apenas uma
80 300 parte é dedenominação de origem
2005 2006 2007 2005 2006 2007

12 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


Denominações de origem
Um país rico em variedade
Vinhos do Alentejo são
os mais procurados de vinhos produzidos
Facturação em milhões de euros

Viana do Castelo Bragança


Douro V. Mesa Nacional 2
9,3 8,5
3
Terras do Sado Braga
Alentejo 7,1 4
15,6

Dão
5 VINHOS Vila Real 5
VERDES DOURO
Porto 6 PORTO
Estremadura
2,9 10
BEIRA
Ribatejano Aveiro 7 INTERIOR
1,8
Verdes Regional
16,6 Alentejano Trás-os-Montes
Viseu Guarda
9
25,2 e Duriense 8
DÃO
1,6 BEIRA
BAIRRADA
INTERIOR
Regional
das Beiras 10
Coimbra
1,3
Castelo
Em termos médios, Branco
os mais caros são os do Douro
Preço médio em euros 11

ESTREMADURA 12
Regional Alentejano
32
4,45
14
13 Santarém Portalegre
Verdes Legenda
3,60 15
1 Vinho Verde
17 RIBATEJO
2 Chaves
16
Alentejo 21 3 Valpaços
18 4 Planalto Mirandês
4,93 20 Lisboa 5 Porto e Douro
6 Távora-Varosa
19 23
Douro 7 Lafões
22 Évora
8 Bairrada
5,73 Setúbal
9 Dão
24 10 Beira Interior
V. Mesa Nacional 24 11 a 20 Estremadura
Madeira 21 Ribatejo
ALENTEJO
2,61 22 Península de Setúbal
23 Península de Setúbal
Terras do Sado 29
24 Alentejo
Funchal
25 a 28 Algarve
4,2 29 Madeira
Beja
30 Biscoitos
Dão 31 Pico
32 Graciosa
5,07
Açores
Estremadura 32
Graciosa
3,03
Terceira
Ribatejano 31 ALGARVE

4,47 30
Pico 26 27
25 28
Faro

Fonte: Eurostat; IVV; Anceve

Fugas • Sábado 25 Outubro 2008 • 13


Vinhos em Portugal

Os melhores
intervenção do enólogo era
relativamente pequena. Tinha que
vinificar as uvas que vinham com
misturas de diferentes castas, e isto
só na altura em que o lavrador

são cada vez mais queria apanhar as uvas”.


Estas observações de José Maria
Soares Franco, actualmente
empenhado, no Douro, no projecto
DUORUM Vinhos, com João Portugal
Em Portugal sempre houve grandes vinhos, garante David Ramos, enólogo cujo contributo
para a modernização dos vinhos
Lopes Ramos. Mas nunca como hoje houve tantos grandes alentejanos é reconhecida, são
muito interessantes. É verdade que
vinhos no mercado. A exigência do consumidor aumentou “sempre houve bons vinhos
portugueses”, caso não nos
e arrastou consigo modas e saberes que mudaram em absoluto esqueçamos da existência do Barca
a identidade dos vinhos nacionais Velha, dos Porta de Cavaleiros e
Caves São João, do Tinto Velho de
Rosado Fernandes, dos Aliança, dos
Montes Claros, do Quinta das
Cerejeiras, de alguns Collares, dos
Quinta da Aguieira, dos Buçaco, dos
vinhos do Centro de Estudos de
Nelas (estes fora do circuito
comercial), do Periquita e do
Pasmados e de mais uns quantos,
entre os quais os ribatejanos de
Francisco Ribeiro, um pioneiro dos
monocastas. Mas eram muito
poucos. E os enólogos, como
reconhece José Maria Soares Franco,
tinham pouca influência na sua
elaboração.
A partir dos anos 70/80, e
também por acção dos produtores-
engarrafadores entretanto surgidos,
primeiro na Região dos Vinhos
Verdes, depois no Alentejo, Dão,
Bairrada e por aí adiante, conjugada
com a fúria demarcadora que, nos
anos 90, se apoderou dos políticos
portugueses, o panorama mudou
radicalmente. Nesta conjuntura,
emerge a figura do enólogo, muitos
deles com formação nas grandes
escolas francesas, com destaque
para Bordéus, que desencadearam
uma revolução na viticultura (ver
texto dedicado aos enólogos nesta
revista). E, embora poucos, também
não se pode ignorar a influência de
enólogos estrangeiros no movimento
de renovação dos vinhos
portugueses.
A propósito, penso que foi um
enólogo australiano, Peter Bright,
chegado a Portugal em 1979 para
trabalhar na JP Vinhos a convite de
Estamos em Portugal num tempo em à alteração do estilo dos vinhos âmbito de um trabalho sobre vinhos António Francisco Avillez, quem
que se bebe menos, mas um portugueses. E colocou um ponto realizado pelo PÚBLICO, “sempre primeiro utilizou a madeira nova de
conjunto muito mais alargado de final ao amadorismo até aí existente houve bons vinhos em Portugal. É carvalho para fermentar e estagiar
melhores vinhos. Há três décadas, o no universo dos nossos vinhos. importante chamar a atenção para vinhos brancos e tintos e controlou a
panorama era muito diverso. Os Novos processos de vinificação, isso, porque hoje em dia diz-se temperatura das fermentações. O
consumidores eram menos novas tecnologias, técnicos mais muitas vezes que os vinhos branco Catarina, colheita de estreia
exigentes. O vinho era um consumo bem preparados, muitas novas portugueses melhoraram em 1982, foi o primeiro branco
necessário, por muitos marcas colocaram a questão da espectacularmente e a maior parte fermentado em madeira nova.
considerado um suplemento qualidade dos vinhos em primeiro dos consumidores pode pensar que Seguiu-se o Cova da Ursa, um
alimentar: “Beber vinho é dar de plano. Também já lá vai o tempo em dantes não havia vinhos bons e que Chardonnay, em 1985. Estagiados
comer a um milhão de que as regras eram sobretudo hoje em dia só há bons vinhos. Não em madeira nova, os tintos
portugueses”, propagandeava, nos ditadas pela Natureza, ou seja, pela concordo com isso. Sempre houve
anos 50/60 do século passado, o maior ou menor qualidade da bons vinhos portugueses.
velhíssimo Estado Novo. Agora, o colheita e em que os consumidores Principalmente de quinta. Só que
vinho é um suplemento de alma, queriam era vinho, sem se eram muito poucos. Ou poucos
quer dizer, um prazer. preocuparem com o que torna os litros. Até esse momento, os
A mudança de paradigma obrigou vinhos distintos uns dos outros. enólogos tinham uvas provenientes
Constatada esta situação, deve ter- de vinhas velhas, de boa qualidade,
se em conta que o movimento que as regiões eram boas, o clima era
elevou a qualidade e diversificou a bom, as castas eram boas, mas a
escolha de vinhos portugueses não
nasceu do nada nos anos 70/80 do
século passado. Como fez questão
de sublinhar o enólogo José Maria
Soares Franco, há uns anos, no

14 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


(Bacalhôa, Tinto da Ânfora e Má abordagens diferentes. A viticultura tempo considerado “o celeiro de
Partilha), e fermentados, na mesma é o segredo da apanha das uvas na Portugal”, o vinho e o seu êxito
madeira nova, os brancos, os vinhos melhor altura, da lotação mais junto dos consumidores veio ajudar
provocaram alguma polémica no adequada, ou seja, da mistura das a alterar essa ideia. A gentileza e a
meio, mas foram bem aceites pelo castas ou não, conforme a decisão macieza frutada da generalidade dos
público. De tal maneira que, no seja fazer vinhos de uma só casta ou vinhos alentejanos tornou-os nos
início dos anos 80, não havia festa de várias. mais procurados e vendidos.
ou refeição que se pretendesse À mudança nos vinhos não é Fica então claro que os vinhos
requintada que não fosse igualmente alheia a mudança do agora à disposição dos portugueses
abrilhantada pelo branco João Pires, perfil dos consumidores, que se são melhores e são muitos mais do
feito com uvas Moscatel, ligeiro e mostram cada vez mais exigentes em que há duas/três décadas atrás. E o
gentil, muito frutado, o que o relação à qualidade dos produtos, à movimento de criação de novas
afastava da generalidade dos respectiva relação preço/prazer, empresas e de novas marcas de
brancos existentes, em geral bem como à ligação do vinho à vinhos, embora registando
pesadões, alcoólicos e sem notas de respectiva origem. O vinho deixou ultimamente algum abrandamento,
fruta fresca e pelo tinto Quinta da de ser um produto anónimo ou ainda não parou. O vinho também
Bacalhôa, a que o estágio em pouco menos, ostentando apenas a tem um lado de moda, de “social”, e
madeira nova de carvalho tinha marca e o nome da firma que o há por aí dinheiro a circular que
transmitido notas tostadas e engarrafou, para se tornar numa precisa de “pedigree”. Mas, os
abaunilhadas. coisa com currículo, história, local apreciadores têm toda a vantagem,
de nascimento, de tais e tais vinhas num mundo tão diverso, de não se
A importância da viticultura com as castas xis e ípsilon, criado ou fixarem num estilo de vinho. Este é
Contemporâneos da revolução vinificado pelo enólogo fulano de massa do sangue, mas, se vejo bem, um mundo plural, há o “velho” e há
enológica são os avanços na área da tal. Há também quem eleja como o tema é irrelevante. o “novo”. Vale a pena ter em conta
viticultura portuguesa, embora a tema de conversa (o bom vinho solta O que já me parece importante os dois e manter o espírito e as
inovação nesta área se desenvolva muito as línguas...) a questão de sublinhar é, e o facto é papilas abertos e disponíveis para,
num ritmo mais lento. “O vinho faz- saber se foram os novos vinhos que particularmente relevante na região de cada um deles, colher os
se na vinha”, dizem os técnicos. A contribuíram para a educação e do Douro, o aparecimento de uma melhores frutos. Ou seja,
importância da viticultura é sofisticação do gosto dos nova geração de enólogos que, ao desarrolhar as melhores garrafas.
reconhecida por todos os actores do consumidores ou se foram estes que contrário da prática anterior, se
sector dos vinhos, por permitir aos passaram a exigir mais dos decidiram a ir para lá, organizando
enólogos escolher melhor e de produtores. A retórica está-nos na aí a sua vida. O Douro deixou de ser,
forma mais segura a qualidade, apenas, a região onde se produz o
seleccionando as castas de forma vinho do Porto, para passar a ser
mais competente, vindimá-las na também o lugar onde se elaboram
altura ideal, de trabalhar a vinha de alguns dos nossos melhores vinhos
forma diferente, com mais técnica, de mesa. No Alentejo, durante muito
porque cada casta tem uma
individualidade própria que exige

Fugas • Sábado 25 Outubro 2008 • 15


A vanguarda do sector
São quatro das mais conceituadas equilibrada e melodiosa, tarda em vinhos fáceis, de consumo rápido, nome Bairrada! O sangue não se
denominações de origem comprová-lo na prática com os vinhos adaptados aos gostos e renova e o umbigo é demasiado
portuguesas. São as quatro mais vinhos que coloca no mercado. Se anseios do “consumidor moderno”. valorizado. A obsessão quase
individualizadas, mais fáceis de no Dão e Douro a mecanização é Mas o Alentejo não está isento de doentia com a casta Baga é outra das
caracterizar, que melhor se quase impossível, na Bairrada, e dificuldades e contrariedades. Como grandes dificuldades da Bairrada.
distinguem e que mais se sobretudo, no Alentejo, a e onde se vai vender tanto vinho, Quem já teve a grata oportunidade
singularizam no imenso caudal de mecanização é desejável, e, por milhões de litros das dezenas de de provar bons Bairrada clássicos, os
vinhos indiferenciados que circulam vezes, palpável. O que diferencia e novos projectos que começam agora realmente interessantes, sabe que
no Mundo. Mas as diferenças entre caracteriza cada denominação? a dar frutos, é um mistério de esta região pode oferecer vinhos
elas são abissais. Se o Alentejo O Alentejo é, seguramente, a resposta imprevisível. Que a incomparáveis. Vinhos difíceis sim,
representa, por si só, quase metade região nacional mais próxima dos enologia seja demasiado mas sempre vinhos de carácter!
do volume de vinho consumido em ideais e práticas do Novo Mundo. Os interventiva, demasiado tecnológica, Poucas regiões portuguesas têm um
Portugal, a Bairrada não preenche investimentos abundam e o nome é um perigo e um inconveniente. potencial tão elevado para fazer
mais que um por cento desse mesmo Alentejo ainda está na moda, o Que a imagem externa seja vinhos brancos de excepção. Mas, e
mercado. Se o Alentejo é a marca investimento estrangeiro é rotineiro, inexistente é assustador. a realidade é sempre incómoda:
mais reconhecida e valorizada no o clima é favorável, a extensão e A Bairrada é provavelmente a quantos brancos bairradinos de
mercado interno, fora de fronteiras orografia propícias a economias de região mais conservadora e fechada referência me conseguem apontar?
é um absoluto desconhecido, um escala e mecanização. As vinhas são aos estímulos externos. Como O Dão é uma referência nacional e
nome indecifrável e obscuro para maioritariamente jovens, a denominação pode ser estimulante, internacional. Tem potencial e
consumidores e crítica mentalidade idem, a vontade de com capacidade para produzir aptidão para poder oferecer muito,
especializada. Se o Douro tem uma experimentar ibidem. Os vinhos extraordinários, como muitíssimo mais, do que
imagem externa justificadamente rendimentos são elevados, pelo poucas outras regiões portuguesas. actualmente oferece. Por definição e
esplendorosa, se oferece vinhos menos para a realidade portuguesa, Mas é indigesta e irritante porque tradição proporciona vinhos de
notáveis no segmento superior, a a tecnologia é modelar e o raramente o faz! São sempre os elevado potencial de guarda, vinhos
qualidade média é francamente movimento associativo funciona mesmos a fazer os grandes vinhos... de elegância extrema, vinhos sisudos
desmotivante, quase confrangedora. como em nenhuma outra parte do e alguns dos melhores até fogem do e austeros, vinhos com os quais
Se o Dão é potencialmente a melhor país. O estilo de vinhos, apesar de facilmente me identifico. Vinhos de
denominação portuguesa, a mais diversificado, aponta para o acidez elevada e corpo intenso que
paradigma de vinhos redondos, prometem alegrias presentes e um
álcool vincado, taninos suaves, leve futuro radioso. No Dão nascem
doçura residual e fruta madura. alguns dos melhores vinhos
Concepções filosóficas que implicam nacionais. Mas, tal como na
Bairrada, são sempre os mesmos a
PAULO RICCA apresentar os bons vinhos. A
renovação tarda, o sangue não se
renova e o intervalo qualitativo entre
os melhores vinhos e a média é cada
vez mais dilatado. A viticultura
continua a ser um dos calcanhares
de Aquiles do Dão. A
imprevisibilidade do clima beirão
acentua este estigma, estabelecendo
flutuações qualitativas de difícil
digestão e compreensão para os
consumidores.
O Douro tem a fortuna de poder
apresentar muitos estilos e muitas
identidades. A muleta do Porto
serviu num momento inicial e foi
decisiva para a afirmação
internacional do Douro. Ainda hoje
o vinho do Porto é fundamental para
subsidiar artificialmente a vinha,
com o amparo do benefício. Quantas
explorações do Douro seriam viáveis
sem o expediente do benefício? O
Douro conquistou um lugar próprio
e autónomo, um feito
impressionante se nos recordarmos
que a história do vinho de mesa no
Douro é um acidente relativamente
recente. Em tão pouco tempo,
pouco mais de uma década, o Douro
assumiu a liderança interna e
externa, não na quantidade, mas sim
nos vinhos de qualidade. É, de
longe, a região portuguesa mais
conhecida e reconhecida
internacionalmente, e é de lá que
nos chegam os melhores vinhos
Alentejo, Bairrada, Dão e Douro, reconhece Rui Falcão, nacionais. Infelizmente, ainda
representam uma ínfima proporção
simbolizam as quatro denominações de origem mais dos vinhos produzidos. Como região
o seu potencial é tremendo. Milhões
enraizadas no subconsciente colectivo português. O que as de exposições, diferentes altitudes,
castas excepcionais e um imenso
une e separa, em que direcção correm e quais são os vinhos património de vinhas velhas que o
mais emblemáticos de cada uma? vinho do Porto preservou. O
crescente reconhecimento
internacional de Portugal, não

O quarteto fantástico tenhamos ilusões, advém do Douro.


Quatro regiões, quatro realidades.
O sol quando nasce, não é
necessariamente igual para todos...

16 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


Tendências Estilos que definem uma região
Portugal Ramos Quatro tintos emblemáticos
e Esporão
O Esporão Garrafeira 2004, do tinto superior, um vinho
no Douro Alentejo, é um vinho de perfil complexo e rico... mas
autenticamente alentejano com simultaneamente discreto e
alguns desvios ao estilo novo conservador. Um vinho para
É sintomático que duas grandes mundo, visíveis na fruta entusiastas, um vinho de fato
referências do Alentejo, como o omnipresente, no coco e e gravata, um vinho para
Esporão ou a João Portugal Ramos tostados da madeira, no cacau e agora e para o futuro, uma
Vinhos, tenham sentido necessidade chocolate, nas especiarias, mas referência para a região.
de investir no Douro. A forte e também no agradável fundo O Duas Quintas Reserva
prestigiada imagem internacional do vegetal e floral que refresca o 2005, um clássico do Douro,
Douro obriga a que, hoje, quem nariz. Frutado e quente na é um tinto frutado, austero,
quiser conquistar espaço e boca, viril e autoritário, fresco sóbrio, muito levemente
visibilidade externa necessite de em virtude de uma acidez bem rústico. É um tinto
exibir no catálogo pelo menos um composta, musculado e genuíno, autêntico na
vinho do Douro. Que mudanças irão másculo, é o espelho fiel dos expressão monumental
resultar desta investida sulista no vinhos da grande planície. do Douro. Na boca não
vale? A entrada dos dois gigantes irá, O Quinta da Dona 2003, da consegue, nem quer,
previsivelmente, agitar práticas e Bairrada, recorda bolo de esconder alguma da
tradições. Sobretudo na lavoura, nos passas, canela, cereja passa e rudeza do Douro,
preços da uva e na relação com as ameixa. Impressiona pela visível nos taninos
centenas de pequenos viticultores generosidade e potência que, severos e na acidez
que fornecem uvas às grandes casas. felizmente, nunca escorrega generosa, evidente no
Irá o vinho do Porto sofrer com o para os excessos. Fresco e final másculo e
súbito aumento da procura? Mas, potente, generoso e austero, assertivo.
acima de tudo, espera-se que a mostra taninos firmes, acidez
entrada de dois campeões das boas intensa e final longo.
relações qualidade/preço sirvam O Vinha Paz Reserva 2006, do
como estímulo e farol para um Dão, é um tinto austero, como é
aumento substancial da qualidade apanágio da casa, delicado e
média dos vinhos do Douro. O Douro floral, suavemente frutado,
agradece e só tem a ganhar com este musculado mas aveludado. É um
súbito interesse alentejano.

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Enólogos
O padrão médio da qualidade dos jovens turcos foi-se construindo uma metade dos anos 80 foi a cena. Os enólogos tinham-se
vinhos portugueses alterou-se nova imagem para a profissão. Nos generalização do sentimento que o transformado em “criadores”, na
radicalmente nos últimos anos e é dias de hoje, um grande enólogo tem vinho português podia aspirar a feliz expressão de Luís Pato.
impossível compreender a acesso directo à fama e à glória tornar-se um caso internacional e O universo dos enólogos
profundidade da revolução sem se como qualquer celebridade de que o empirismo deveria ceder ao portugueses de hoje não é
atender ao papel desempenhado outras áreas. rigor e à procura da excelência. homogéneo, felizmente. Em comum
pelos enólogos. Sem a geração de É difícil situar exactamente o Com a entrada no mercado dos entre a novíssima geração e os
João Portugal Ramos, José Maria início do processo e é injusto primeiros licenciados em enologia profissionais mais experimentados
Soares Franco, Luís Pato ou de João considerar que a enologia moderna da Universidade de Trás-os-Montes, há a capacidade que têm em poder
Nicolau de Almeida nunca se teriam em Portugal nasceu de geração as empresas mais avançadas situar o que fazem no contexto dos
dado os passos essenciais para que a espontânea (ver texto de David puderam então deitar mãos à obra. grandes vinhos do mundo. Embora
qualidade dos vinhos deixasse de ser Lopes Ramos nas páginas 14 e 15). Os primeiros vinhos de qualidade alguns sejam fiéis à tradição,
excepção para se tornar numa Há décadas que o sector do vinho do média-alta produzidos em enquanto outros apostem em vinhos
exigência fundamental. Mas a Porto venera nomes míticos como quantidades significativas chegaram mais austeros e com maior potencial
geração que veio a seguir não se John Smithes, há muito tempo que aos supermercados. As feiras de de longevidade. Outros preferem
limitou a entrar nas portas abertas no Dão se fazem grandes tintos com vinhos vulgarizaram-se e vinhos vinhos mais intensos e aromáticos
pelos mestres e deu origem a uma enorme potencial de como o Esteva da Sogrape, o Duas para se aproximarem dos gostos
multidão de estilos e gamas de envelhecimento, há mais de meio Quintas da Ramos-Pinto ou o Casa mais em moda. Há quem goste de
qualidade que pareciam impossíveis século que Fernando Nicolau de de Santar entraram nos hábitos de trabalhar castas internacionais, há
há poucos anos. Entre o papel dos Almeida mostrou que sem ciência, compra de milhares de
senadores do vinho e a acção dos ousadia e imaginação não há lugar consumidores. Depois, foi a vez de
para vinhos supremos como o seu vinhos de alta gama entrarem em
Barca Velha. O que entretanto
aconteceu algures na segunda

A culpa é (quase toda) deles


Duas gerações de enólogos bastaram para alterar radicalmente o perfil do vinho
em Portugal. Manuel Carvalho explica as causas e consequências do seu trabalho
e lembra que, sem a acção de enólogos como os que aqui nos servem de exemplo,
o vinho jamais seria o objecto de adoração que é hoje entre nós
CARLOS BARRIA/REUTERS
quem acredite que o potencial das todo o país. Foi um dos enólogos que de curso, Peter Bright, mas só em
variedades nacionais ainda não está João Portugal mais contribuiu para a imagem de 1982 se instalou definitivamente em
explorado. Muitos lideram empresas prestígio do Alentejo. Começou por Portugal. Poucos se recordam, mas
consultoras que trabalham para Ramos Talentoso fazer azeite na herdade do Paço dos as Caves Aliança foram o seu
várias empresas em várias regiões,
mas há quem prefira dedicar-se a
e empresário Infantes, para logo de seguida
concentrar os seus interesses e
primeiro poiso. Chegou ao Douro,
ao vinho do Porto, onde dedicou
um projecto numa casa de prestígio. energias no vinho do Alentejo, onde dois anos à Croft, seguidos de mais
Alguns dedicam-se a produzir construiu um imponente centro de oito anos no grupo Symington.
marcas com centenas de milhar de vinificação em Estremoz, no qual Acima de tudo, com a experiência da
garrafas, outros apostam em “vinhos começou a fazer vinhos seus em escola australiana, revolucionou as
de garagem” para exprimir em dois 1997. Mas já era autor de vinhos práticas de análise e laboratório,
ou três mil exemplares a excelência próprios desde 1992. A decisão embutindo uma nova cultura de
de um terroir. deste lisboeta de viver no Alentejo rigor e precisão. Foi responsável por
Cultos, viajados e abertos, remonta a 1988, ano em que fez um muitos dos projectos mais célebres
dominam o marketing e o negócio, a belo tinto no Paço dos Infantes. do Douro, estando presente no
biologia e a química, as vinhas e o Actualmente, além do Alentejo nascimento dos vinhos de mesa da
sentido do gosto dos nichos do (Marquês de Borba, Quinta da Viçosa Quinta de la Rosa e da Quinta do
mercado. São muitos e muito e Vila Santa, na qual integrou os seus Crasto, onde se manteve,
talentosos. São, afinal, o principal monocastas, são as suas marcas mais respectivamente, até 2000 e 1998.
rosto do vinho que se faz em famosas), João Portugal Ramos faz Entretanto, em 1992 já tinha
Portugal e não é por sua causa que o vinhos no Ribatejo (Conde de rumado ao Sul para comandar a
sector nacional não conseguiu nos Vimioso), nas Beiras (Quinta Foz de enologia da Herdade do Esporão,
últimos anos números de “Não temos que ganhar sempre, mas Arouce) e, desde 2007, no Douro expoente máximo da pujança
crescimento explosivos como a temos que estar sempre na primeira (DUORUM), com o seu amigo e alentejana. É difícil idealizar uma
Austrália ou o Chile. divisão”, disse, um dia, ao PÚBLICO, também enólogo de méritos crónica mais bonita que o Esporão,
Nesta edição da Fugas, decidimos o enólogo João Portugal Ramos. reconhecidos José Maria Soares produtor que, sob a batuta
proporcionar o retrato de alguns. Falava de vinhos e a imagem Franco. D.L.R. experiente de David Baverstock, se
Sabemos que corremos riscos, futebolística serviu-lhe para explicar transformou num dos maiores e
temos a certeza de que o curto
espaço editorial de que dispomos
o que o motiva como enólogo e
autor de alguns dos mais apreciados
David mais prestigiados produtores de
Portugal. Hoje, para além do
não nos poupa a injustiças. Mas os e consumidos vinhos portugueses. Baverstock Um Esporão, é ainda responsável pela
nomes que destacamos não Houve uma altura da sua vida em enologia de Azamor (Alentejo),
procuram constituir uma espécie de que, à excepção das ilhas, do Douro australiano Adega do Cantor (Algarve), e por um
selecção nacional (apesar de serem
11), mas antes exemplos de duas
e da Região dos Vinhos Verdes, João
Portugal Ramos, através da sua
nacionalizado novo projecto intimista em
irmandade com um amigo, o
gerações de profissionais sérios e empresa Consulvinhos, os fazia em Australiano de nascimento, é, Howard’s Folly. David μ
competentes que transformaram seguramente, o enólogo estrangeiro
por completo o cenário do vinho em mais português de sempre. Chegou
Portugal. em 1979, pelas mãos do seu colega

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Enólogos
± Baverstock acrescentou uma assinando dezenas de vinhos um espumante, Formal (50% por carreira como consultor
frescura e rejuvenescimento de nacionais, apadrinhando dezenas de cento de Bical, 50% de Touriga independente, emprestando a sua
ideias fundamentais para a reforma projectos arrumados pelo Portugal Nacional), fermentado em madeira, experiência a diferentes projectos
da enologia portuguesa. R.F. continental e insular. Se no início da um topo de gama. Além disso, no Alentejo, Ribatejo e Dão. Mas é
sua actividade profissional ainda passará o seu tinto de fantasia, o no seu Ribatejo natal e no Alto
conseguiu manter o vínculo ao célebre Baga Pé-Franco, até agora Alentejo, em Portalegre, que se
Anselmo Mendes universo académico de que é
oriundo, na Universidade de Évora,
Beiras, a Bairrada já na colheita de
2008. Luis Pato, que concluiu há
sente mais em casa. Foi em
Portalegre que começou e foi em
Dos Verdes para cedo percebeu que os dois mundos três semanas a sua 25ª vindima, Portalegre que constituiu a sua
dificilmente seriam inconciliáveis... prepara-se para a comemorar à sua empresa pessoal, a casa dos seus
todo o país por absoluta falta de tempo. maneira. Quer dizer, em grande vinhos, o seu sonho de juventude.
Comandou e comanda o fado estilo. D.L.R. Primeiro sozinho, com o Terrenus
enológico do Mouchão, onde de vinhas velhas da Serra de S.
ganhou a justa notoriedade que o
catapultou para as bocas do mundo.
Luís Duarte Mamede (e o Tributo ribatejano em
homenagem ao pai), e mais tarde,
Projecto atrás de projecto, foi Boas ideias para numa segunda empreitada, em
ganhando uma reputação regional compita com Richard Mayson,
que o converteu no enólogo mais muitos projectos célebre escritor e crítico de vinhos
desejado e solicitado do Alentejo. Nascido em Lobito, Angola, a inglês, no projecto “Pedra Basta”.
Hoje assessora mais de uma vintena Revolução de Abril de 1974 trouxe Pelo caminho ainda tem tempo de se
de projectos, na quase totalidade Luís Duarte para Trás-os-Montes. A responsabilizar por um dos vinhos
alentejanos, para além de dirigir os sua especialização marcou-lhe novo mais recomendáveis do Dão, o
destinos do seu projecto, os vinhos rumo, o Alentejo, onde, em 1987, Quinta dos Roques, bem como de
Paulo Laureano. E a sua empresa, começou a construir o prestígio dos assegurar a enologia de um produtor
depois da compra de uma adega e vinhos Esporão, fixando residência Argentino, Fabre Montmayou... e de
de uma vinha imensa, é muito mais em Reguengos de Monsaraz, onde fazer um colheita tardia austríaco
que um passatempo de fim-de- ainda se mantém. Tinha então 21 em pareceria com Michael Wenzel,
As raízes e o coração enológico de semana. Paulo Laureano, para além anos e o diploma do primeiro curso um dos gurus mundiais do estilo, o
Anselmo Mendes estão na Região das consultorias prestadas, produz de enologia ministrado em Portugal, que o torna num dos enólogos mais
dos Vinhos Verdes, em particular na mais de 600.000 garrafas que levam na Universidade de Trás-os-Montes e internacionais de Portugal. Isto
sub-região dos Alvarinhos, de onde é o seu nome estampado. R.F. Alto Douro (UTAD), onde teve claro, além de assegurar a enologia
natural, mas a sua rota profissional professores que qualifica como da Casa Cadaval, Monte da
passa também pelo Douro, Alentejo “óptimos”: Nuno Magalhães, José Ravasqueira, Lima Mayer, Herdade
e Dão pelo menos. Comemorou há
pouco tempo os seus 10 anos de
Luis Pato Maria Soares Franco, Jorge Dias,
Nuno Cancella de Abreu...
do Gamito e Paço do Conde. R.F.

enólogo e tudo indica que O mister Baga Este homem discreto, na casa dos João Nicolau
continuará a espalhar o seu talento 40 anos, deu mostras de ser capaz
pelas várias regiões vinícolas de “lançar novas ideias e fazer de Almeida
portuguesas. crescer projectos”. Que é o que
Apesar da rede de vitivinicultores actualmente faz na Herdade dos O esteta
a que dá assistência, isto sem Grous, em Albernôa, perto de Beja,
esquecer que faz os seus próprios num Baixo Alentejo que muitos
vinhos, Anselmo Mendes não é um consideravam pouco vocacionado
desses enólogos que “cheira as uvas para vinhos. Enganaram-se. Mas a
pelo telefone”, como disse, actividade do autor dos tintos 23
corrosivo, Jonathan Nossiter, Barricas e “Moon Harvested” não se
realizador do filme Mondovino. O fica por aqui. Por enquanto só no
autor, entre outros, dos Alvarinho Alentejo (alimenta o sonho de, um
Muros Antigos, Muros de Melgaço e dia, fazer um vinho no Douro), Luís
Anselmo Mendes (este feito à moda Duarte dá consultoria à Quinta do
antiga, numa homenagem à Mouro, Herdade da Malhadinha,
memória enológica da sua região Herdade de D. Maria, Herdade de
materna) ou, ainda na Região dos São Miguel, Herdade Grande, Monte
Vinhos Verdes, dos Quinta de San das Servas e Monte dos Cabaços.
Joanne, dos Douro das quintas de Mas há novidades. Em Março de
Domingos Alves de Sousa, com O bairradino Luis Pato é um dos 2007, Luís Duarte anunciou à
destaque para os Gaivosa, criadores de vinhos portugueses revista Blue Wine que, este ano, dos Nas suas frequentes viagens ao
Abandonado e Vinha do Lordelo, do com mais notoriedade tanto cá 10 hectares de vinha que plantou Douro, João Nicolau de Almeida
Dão Quinta da Vegia e do Alentejano dentro como lá fora. No estrangeiro, em Reguengos de Monsaraz fará o gosta de ouvir música erudita. O
Grou, no Cabeção, conhece bem as sobretudo nos países anglo- seu primeiro vinho com assinatura hábito não destoa da atitude que há
vinhas e as adegas onde faz os saxónicos ou influenciados por esta própria. O vinho já tem nome: muitos anos manifesta em relação à
vinhos. O seu nome está ainda ligado cultura, Luis Pato é o “mister Baga”, “Rubrica” e será sempre criado em região e aos seus vinhos. Entre o
ao um projecto, o Azul Portugal, cognome que confirma o êxito que conjunto com alguém que tenha pragmatismo com que gere a vinha e
sobretudo vocacionado para a teve ao definir como objectivo marcado, de alguma forma, a sua o lagar, vislumbra-se uma ponta de
elaboração de vinhos para a estratégico, nos anos 80 do século vida. D.L.R. sensibilidade poética; a ciência
exportação. D.L.R. passado, tornar-se a referência laboratorial que aprendeu em
mundial da Baga. Os seus topos de Rui Reguinga Bordéus não dispensa o saber
Paulo Laureano gama tintos, Vinha Pan, Vinha
Barrosa e Quinta do Ribeirinho Pé- Um dos mais
empírico; o prazer pela inovação
coexiste com o respeito pelos
O enólogo vezes n Franco, são elaborados apenas com
internacionais hábitos ancestrais da região. Os seus
uvas da casta Baga. vinhos durienses exprimem estas
Paulo Laureano será, porventura, o Cerebral, inteligente, informado e Foi em 1991 que tudo começou, no complementaridades: são elegantes
mais prolífico enólogo português, viajado, Luis Pato assume, sempre Alentejo, como seu assessor das mas não escondem poderosas
um dos mais considerados, que considera que tal se justifica, múltiplas consultorias que João estruturas de taninos, são modernos
respeitados e reconhecidos. De posições polémicas, uma vez ou Portugal Ramos à época mantinha. sem ceder ao imediatismo do
forma consciente, ou involuntária, outra com laivos provocatórios. Há Durante nove anos, Rui Reguinga consumo rápido. Uma das suas mais
transformou-se na imagem uns anos atrás, uma medida política teve oportunidade de percorrer recentes ousadias consistiu em
materializada do enólogo consultor, do Governo que considerou ininterruptamente o país, de Norte a recriar a enologia dos vinhos de pé
atentatória do prestígio da Bairrada, Sul, de ganhar uma tarimba que lhe que se faziam em Lamego já no
fê-lo abandonar a região, iniciando acrescentou uma experiência
agora o caminho do regresso, mas notável. Em 2000 começou a sua
para, de novo contra a corrente,
tentar abrir caminhos novos. E
regressou, já está engarrafado, com

20 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


Super
século XVI, com pisas prolongadas -
o Duas Quintas Reserva Especial.
Filho de Fernando Nicolau de
Almeida e sobrinho de José Ramos
Pinto Rosas, João é herdeiro de uma
longa linhagem de gente ligada ao
vinho. Mas o seu papel na criação
dos grandes Duas Quintas e nos
Porto de classe mostra que ele é por
mérito próprio um dos grandes
David
Guimaraens Um
devoto ao Porto
O pai fazia vinhos do Porto, a tia-avó
fazia vinhos do Porto, o bisavô fez
vinho do Porto durante mais de 50
anos. Não admira que David
AÇORES
enólogos nacionais e um dos Guimaraens faça vinho do Porto e
principais responsáveis pela responda com algum desdém aos
modernidade dos vinhos do Douro. que lhe perguntam pelo dia em que
Foi aliás esse reconhecimento que há-de fazer um vinho de mesa
levou a revista Wine and Spirits a duriense. Não admira também que
considerá-lo um dos 50 enólogos pelas obras-primas que elaborou nos
mais influentes do mundo, em 1998. últimos anos, a começar pelo mítico
M.C. vintage de 1994, o seu ano de
estreia, ou pela dedicação exclusiva
Francisco à causa David Guimaraens seja visto
por muitos como a figura de
Albuquerque referência da enologia do vinho do
Porto.
O senhor Madeira Não se podendo dizer em absoluto
que David é o autor dos melhores
vintage ou dos melhores blends de
tawny do sector (nesta guerra
entram as marcas dos Symington,
entre outras), ele é seguramente
autor de vinhos que se situam no
patamar superior das cotações do
vinho do Porto nos mercados mais
exigentes. Os seus vinhos são obras
de arte plenas de densidade e poder.
Que se erguem a partir de uma
selecção da produção de vários
terroirs durienses que a Fonseca
conhece e domina há décadas e que
Será um nome desconhecido para David tratou de desenvolver e
muitos portugueses do continente, aperfeiçoar. M.C.
mas dificilmente escapará ao
reconhecimento e louvor de todos
os madeirenses. Francisco
José Maria Soares
Albuquerque é a face mais vibrante Franco
do rejuvenescimento do vinho da
Madeira, do ressuscitar do interesse A fidelidade
por este vinho tão extraordinário e
emblemático. Francisco
de princípios
Albuquerque nasceu e vive na Meio alentejano, meio lisboeta, José
Madeira, ilha que conhece como Maria Soares Franco acabaria por se
ninguém. Sabe onde ir buscar as confirmar como um dos enólogos
melhores uvas, das mais pequenas mais emblemáticos da renovação do
produções, onde por vezes compra sector numa das mais conceituadas
pouco mais que uma caixa de uvas
excepcionais. Foi durante o seu
reinado que nasceu um dos estilos
mais surpreendentes e importantes
firmas do vinho do Porto, a Ferreira.
Depois de concluir os seus estudos,
entrou em 1978 na empresa e
trabalhou lado-a-lado com o mestre
Aqui mergulha-se.
do vinho da Madeira, o Colheita, Fernando Nicolau de Almeida, que
acrescentando novidades contínuas, ainda hoje é para si uma referência.
motivos de visita e de retorno Dele herdou métodos, inspiração e a Partidas diárias de Lisboa e Porto até 15 Dezembro.
constante à Madeira. Foi também o árdua tarefa de manter o Barca
Inclui: avião + 2 noites em APA + Hotel The Lince
criador do Alvada, uma pedrada no Velha nos mais altos patamares de
imobilismo da Madeira, na imagem excelência do vinho português. Sem
Azores + transfers + seguro multiviagens + taxas de
jovem e na junção de duas castas descurar a atenção da casa aos aeroporto, segurança e combustível (€ 82), sujeitas a
nobres, algo nunca visto no vinhos do Porto, JMSF esteve alterações legais. Desde:

322
conservadorismo da região. obviamente ligado ao enorme Exclui: despesa de reserva (€ 29 por processo e não
Felizmente, a revolução que pôs em desenvolvimento dos vinhos do por pessoa) e suplementos.
prática tem merecido um
reconhecimento universal, patente
nos muitos troféus que tem
Douro, que ganharam um especial
impulso após a conclusão da Quinta
da Lêda. Actualmente desenvolve

preço por pessoa em duplo
recebido. O mais mediático, pela um projecto em parceria com João
dimensão e pelo insólito feito de o Portugal Ramos, o Duorum, mas o
ter recebido por três anos perfil profissional desenvolvido ao
consecutivos, foi a eleição longo de quase 30 anos não se
internacional como “Enólogo do ano alterou: uma profunda ligação à
de vinhos generosos” outorgado vinha, uma procura de lotes que
pelo prestigiado concurso “Wine balancem a concentração com a
Chalenge”! Para nem mencionar o frescura e o design de vinhos com
troféu “Len Evans” que premeia a enormes aptidões para reforçarem a
consistência de qualidade na alma na garrafa. Conservador? Para
produção por mais de cinco anos quê mudar quando se está perto da
consecutivos. Poucos enólogos no excelência? M.C.
mundo se podem gabar de possuir
tal troféu... R.F.

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Castas
CORTESIA IVDP
lavradores do Douro falavam desta
casta: produzia pouco, era muito
susceptível às doenças e não servia
para nada, dizia-se.”.
No início dos anos 90 do século
passado, prosseguem, surgiram os
primeiros varietais de Touriga e
ficou claro que se estava perante
uma casta de grande gabarito. Os
produtores aperceberam-se do facto
e não havia contra-rótulo de vinho
que não indicasse que, na
composição do lote, entrava a
Touriga Nacional, mesmo que
fossem uvas apenas de meia dúzia
Touriga Nacional de cepas. Dizia-se então que, no
Douro, a casta era a mais plantada
nos contra-rótulos. Mas a situação
Touriga Francesa mudou com rapidez. Trabalhou-se
para contrariar o excesso de vigor da
casta, para se obterem mostos de
qualidade. Segundo o texto citado,
“nem todos estes primeiros passos
foram dados na direcção certa mas,
nestes quase 20 anos de
experimentação, foi possível
concluir que a casta tem muitas
virtudes mas que é preciso conhecê-
la melhor e não abrandar no
estudo”.
Dados publicados no artigo de
João Afonso e João Paulo Martins
Tinta Barroca Tinta Roriz permitem concluir que há Touriga
Nacional plantada em todas as

Há mais
regiões vinícolas portuguesas. O
Douro vai à frente com uns 1500
hectares; no Alentejo estarão
plantados uns 300 hectares. No Dão,
que reivindica para si o privilégio de

vinhos ser o berço da Touriga Nacional


(Tourigo, designação antiga na
região), a casta passou dos 106
hectares em 1982 para os actuais

para lá dos
1153. No Dão a casta mais plantada
continua a ser a Jaen (há alguns
produtores, por exemplo João
Tavares de Pina (vinhos Torre de
Tavares e Terra de Tavares), que a

Touriga
estão a trabalhar muito bem, seguida
pela Tinta Roriz, mas, nos últimos
anos, o que mais se planta é Touriga.
Os dois mais influentes críticos de
vinhos portugueses concluem o seu

Nacional texto com a observação de que a


Touriga Nacional “tende a originar
vinhos um pouco unidireccionais”,
daí que nenhum dos 47 vinhos
estremes da casta provados os tenha
A exclusividade das castas deixado “esmagados”. Acrescentam:
“A Touriga parece bem mais
portuguesas é um dos principais vocacionada para compor um lote
com outras castas onde, aí sim,
trunfos dos vinhos nacionais Tinto Cão poderá brilhar, com aromas frescos
e florais, de violetas e bergamota,
nos mercados externos. Mas, diz conferindo elegância e frescura. No
Castas de uvas, em Portugal, é a de fazer o que é necessário no entanto, 20 anos são pouco tempo
David Lopes Ramos, ainda há Touriga Nacional e o resto é respeitante ao estudo das nossas na vida de uma casta”. E concluem:
muito caminho para as descobrir paisagem? Vamos lá a ver. Nada de
exageros, nem de desvalorizar uma
castas de uvas, com destaque para as
brancas.
“Este é o quadro típico de uma nova
casta num país novo. É preciso
e não se pode cair na tentação das características mais marcantes e
originais da nossa viticultura, que é
No número de Setembro deste ano
da Revista de Vinhos, num texto
tempo, é preciso paciência.
Acontece que a casta é velha e o país
de as encarar em exclusivo a da existência de muitas e muitas introdutório a um painel de prova de é velho, mas a Nova História vínica
dezenas de castas indígenas, umas 47 tintos Touriga Nacional de todo o portuguesa não tem apenas 25
que dão melhores vinhos do que País, João Afonso e João Paulo anos?”
outras, mas que devem todas Martins, redactores da nossa mais
merecer alguma consideração dos influente publicação especializada As castas de elite e as outras
produtores e, sobretudo, estudo dos sobre vinhos, anotavam que “a Como já se deixou escrito atrás, há
técnicos da especialidade. É Touriga Nacional tem modificado a vinho para além da Touriga
geralmente reconhecido que o paisagem vitícola portuguesa. Os Nacional. O alemão Hans Jörg Böhn,
sector vinícola nacional está longe começos no Dão e no Douro já são que se apaixonou por Portugal e
tão longínquos que nos esquecemos pelos nossos vinhos, tornando-se,
da importância que já teve naquelas em Montemor-o-Novo, num
regiões. Bem mais recente, e digno
de registo, é o desagrado com que os

22 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


CARLOS BARRIA/REUTERS
viveirista de projecção
internacional, publicou um livro Pequeno glossário
indispensável a quem se interesse Cabernet Sauvignon Casta
pelo tema: Portugal Vinícola – O tinta plantada em todo o mundo,
Grande Livro das Castas (Chaves é emblemática da grande região
Ferreira Publicações). francesa de Bordéus, mas
No capítulo dedicado às Castas de sobretudo das sub-regiões do
Portugal, divide-as em quatro Médoc e de Graves. Só os solos
grandes categorias: “de elite”; “de secos e magros lhe convêm. Os
grande expansão”; de “média cachos são pequenos, bem como
expansão”; e “com expansão vitícola os bagos, envolvidos por uma
entre 1 e 100 hectares no película dura e espessa, de cor azul
Continente”. As castas de elite são escuro. Dá vinhos carregados de
20, brancas e tintas, a saber: cor, taninosos, que envelhecem
Alfrocheiro; Alvarinho; Antão-Vaz; bem, desenvolvendo um delicado
Aragonez; Arinto; Baga; Castelão; “bouquet” de violetas. Mal madura,
Encruzado; Fernão Pires; Gouveio; a casta desenvolve um intenso
Loureiro; Rabigato; Sercial; Tinta- aroma vegetal, a pimentos verdes,
Barroca; Tinto-Cão; Touriga-Franca; desagradável.
Touriga-Nacional; Trincadeira; Casta Variedade de uva. Um
Verdelho e Viosinho. Quanto às “de dos elementos determinantes
grande expansão”, por haver mais na caracterização de um vinho e
de 500 hectares plantados com cada respectiva tipicidade. A mesma
uma delas, são 25. As outras variedade, em solos e climas Cabernet Sauvignon
categorias contribuem com mais diferentes (o “terroir”), origina
181 castas. A que há que juntar 37 vinhos difrenciados, embora haja doce, que lembra o da esteva. grande vinho nasce na vinha e daí
castas estrangeiras e 29 de uvas de componentes aromáticas que se No Dão, sobressaem as notas a importância da viticultura. É a
mesa. Tudo isto, e provavelmente mantenham. aromáticas de bergamota e de chá matéria em que o vinho português
mais umas quantas, plantado no Chardonnay Casta branca Earl Grey. mais precisa de progredir.
pouco terreno existente em francesa, uma das mais finas de Viticultura – Ciência que estuda
Portugal. todas, cultivada em todo o mundo. o conjunto de processos de Fontes: FUGAS com Vinhos de
Num mundo inundado de vinho, Mas os seus lugares de eleição instalação e manutenção da vinha. Portugal 2008 – Notas de Prova,
afogado em Chardonnay, Sauvignon são a Borgonha e Champagne. As Cada vez mais se percebe que o de João Paulo Martins (Livros
Blanc, Cabernet Sauvignon, Pinot encostas argilo-calcárias são os d’Hoje, Publicações Dom Quixote);
Noir e Merlot, parece pouco seus terrenos preferidos, exposição e O Grande Livro das Castas,
prudente tentar cativar os mercados este ou sudeste. Dá origem a vinhos de Jörg Böhm (Chaves Ferreira
internacionais com vinhos de uma fragância e elegância Publicações)
portugueses feitos com estas castas. ímpares.
Porque os nossos vinhos, em geral, Enologia Ciência que estuda
ficam longe dos mais categorizados os processos de transformação
vinhos estrangeiros elaborados com de uvas em vinho. Existe uma
as castas enunciadas. Jornalistas estreita ligação entre a enologia
internacionais influentes, como os e a viticultura, uma vez que sem
britânicos Jancis Robinson, Charles boas uvas não se faz bom vinho,
Metcalfe, Oz Clark, os norte- Muitas vezes o enólogo é também
americanos Joshua Green e James especialista em viticultura.
Suckling, entre outros, que Jaen Casta originária de Espanha,
conhecem bem o panorama dos “nacionalizada” no Dão, onde
vinhos portugueses e gostam muito também é conhecida por Fernão
de alguns deles, têm enviado Pires Tinta, Jaen Galego e Gião.
mensagens muito claras aos nossos Reconhece-se pela folha adulta
produtores: valorizem as vossas com página inferior glabra (sem
castas, estudem-nas melhor, apurem pelos), entrenós curtos. Videira de
as vossas técnicas vitícolas e maturação precoce. Boa resistência
enológicas, façam vinhos topo de à seca, elevada produtividade
gama e promovam-nos bem nos com qualidade excepcional e
mercados com mais apetência para aromática em certas regiões, mas
o consumo, como é o caso do norte- normalmente apresenta fraca
americano e do britânico. acidez natural, por isso origina
Isto não quer dizer que não haja, vinhos sem longevidade. De aroma
no nosso país, lugar para vinhos intenso, com sugestão de amoras e
elaborados com castas estrangeiras. mirtilos.
Tanto mais que há alguma tradição Touriga Nacional Casta
da sua plantação, nomeadamente do de máximo valor enológico
Pinot Noir, na Bairrada, antes da (casta-piloto) em zona quente,
praga filoxérica e início do século com elevada intensidade das
passado, e do Cabernet Sauvignon, componentes de cor, aroma e
no Alentejo, no caso os Montes elevadíssima complexidade.
Claros, de Borba, dos anos 50 e 60 Reduzida qualidade no caso de
do século passado. Mas, talvez seja insuficiente insolação, ou de
mais lógico usar as variedades falta de disponibilidade hídrica.
estrangeiras como “castas Escaldão no caso de excessivo
melhoradoras”, expressão ‘stress’ hídrico. Alguns dos
entretanto caída em desuso, depois clones recentes mostram elevada
de ter sido muito citada no início produtividade, sobretudo nos
deste movimento de renovação dos primeiros anos, influenciando
vinhos portugueses, e não como negativamente a regularidade da
variedade única de novos vinhos. produção e o vigor da planta, a
médio prazo. No Douro desenvolve
um aroma quente e macio,
redondo, com notas de frutos
vermelhos escuros, quase pretos,
muito maduros, com notas florais,
sobretudo de violeta e um perfume

Fugas • Sábado 25 Outubro 2008 • 23


Espumantes

Uma das
Há quem, com ironia, goste de os espumantes são, em Portugal,
sublinhar o lado frívolo dos sobretudo bebidas comemorativas.
espumantes naturais, vinhos Servem-se e bebem-se geralmente
especialíssimos, sobretudo se em baptizados, casamentos, pela
pensarmos no membro mais nobre Páscoa e no Natal. Nada a opor, mas

melhores da família, o distintíssimo


“champagne”, que, pelo som que faz
na boca, só pode ser francês. Já lhe
chamaram tudo: ouro bebível,
é pouco. Além disso, entre nós os
espumantes são quase sempre
servidos à sobremesa, o que também
podendo ser - caso se goste de

companhias dos ambrósia das noites loucas, vinho


lustral, quinta essência da
frivolidade. Jeanne Antoinette
Poisson, marquesa de Pompadour,
vinhos meio secos ou doces --, é
muito redutor. Isto porque os
espumantes naturais mais ricos de
aromas e sabores são os “bruto”, ou

apreciadores senhora culta e requintada, amante


de Luís XV, de França, garantiu que
o “champagne” é o único vinho que
torna mais belas as mulheres que o
seja, os mais secos, e estes são é
óptimos aperitivos ou excelente
companhia de carnes assadas no
forno. Estou, é claro, a lembrar-me
bebem. Porém, como nem todas têm do leitão assado à moda da Bairrada,
David Lopes Ramos, um convicto a cultura enológica da francesa, mas não são de desdenhar um bom
algumas há que, perguntadas qual o lombo de vaca ou de porco, um
adepto dos grandes espumantes, vinho da sua preferência, frango de campo, pato ou coelho –
explica as razões da sua devoção e respondem que, de vinho, não
gostam, só de “champagne”.
no caso do láparo melhor se
recheado com azeitonas pretas.
guia-nos pelo fantástico mundo Fascinante bebida, o champanhe é
um vinho de espuma cremosa e
O que encanta nos vinhos
espumantes naturais de mais
deste vinho delicado e complexo evanescente, de linda cor ouro qualidade é o facto de,
pálido, aroma finíssimo e elegante, desarrolhadas as garrafas – e nada de
macio e fresco. É uma das melhores as abrir a estourar, deixe-se isso para
companhias de um apreciador. A os vencedores das provas de
qualquer hora do dia e em qualquer ciclismo, de motos e de
circunstância da vida. Infelizmente, automobilismo, mas dominemos a
rolha deixando a garrafa apenas
soltar um suspiro –, logo que o
líquido chega à “flûte”, se formar
uma aura de espuma cremosa e, no
fundo do copo estreito e alto, nascer

NELSON GARRIDO

Uma escolha pessoal


Os Murganheira

Os espumantes portugueses meus


preferidos são os da Murganheira.
Porquê? Porque são os que me dão
mais prazer a beber. Porquê? Por
serem os mais finos, mais frescos, de
aromas mais definidos e sofisticados,
com melhor fruta, conjunto mais
harmonioso, de bolha mais fina e
“mousse” mais delicada. Os tintos
vinificados em branco, como é o
caso do portentoso Cuvée Reserva
Especial Bruto 1995, que estagiou
10 anos em cave e é de uma frescura
que impressiona, não têm rasto de
cor, o que revela a grande maestria
técnica do seu autor, Orlando
Lourenço.

24 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


PAULO RICCA
uma fonte de bolinhas João José Le Cocq, em castelo de
pequeníssimas, finíssimas que se Vide, se foi José Maria Tavares da
desfazem à superfície. Quanto mais Silva, na Bairrada, ou José Teixeira
fininha e delicada é a bolha, melhor Ribeiro Júnior, em Lamego. Sabe-se,
é a qualidade do vinho. pelos registos existentes, que
Não é por milagre que estes surgiram praticamente todos ao
vinhos ganham a tal espuma mesmo tempo. Mas deixe-se o tema
cremosa e as bolinhas, mas sim pela para os especialistas e anote-se que,
intervenção do homem que, neste hoje em dia, é na região de Lamego,
caso, ajuda o trabalho da Natureza. (nas Caves Murganheira, na Abadia
Foi nos finais do século XVII, em Velha, Ucanha, concelho de
França, na dispensa da abadia de Tarouca), no Douro, espumantes
Hautvilliers, que o monge Dom Vértice, e na Bairrada, (Caves São
Pérignon se apercebeu que, chegada Domingos, Quinta das Bágeiras, Luis
a Primavera, os vinhos brancos da Pato, Caves Aliança, entre outras) e
região, de forma natural, se na Quinta de Loridos, no Bombarral,
tornavam efervescentes, Oeste, que se fazem os mais
característica então considerada conhecidos e melhores vinhos
defeituosa. Ou seja, provavelmente espumantes portugueses. Mas, em
resquícios de açúcar do mosto não anos recentes, surgiram
transformados em álcool durante a onde os vinhos, antes da chamado “clássico”, antigamente concorrentes, com destaque para a
primeira fermentação, atacados por “champagnisation”, são, em geral, dito “champanhês”, começou nos Região dos Vinhos Verdes (casta
leveduras do vinho, provocavam muito ácidos e desagradáveis, finais do século XIX. Há uma outra Alvarinho e não só), mas também no
uma segunda fermentação criadora porque as uvas amadurecem com forma de fazer espumantes, pelo Dão, em Bucelas, no Ribatejo e
de espuma e bolinhas. Estava dificuldade. Mas são vinhos sem método “contínuo”, em cuba Alentejo, que merecem a atenção
desvendado o mistério e os defeitos e muito bem feitos. Ao fechada, que dá origem a vinhos dos apreciadores. Os espumantes de
franceses, na sua posse, com muito contrário do que, ainda não há menos finos. Discute-se se o pioneiro vinhos Verdes, em que o
trabalho e talento, criaram, nos muito tempo, sucedia com alguns da espumantização à francesa foi pioneirismo foi assumido pela Casa
séculos seguintes, o “champagne”, produtores portugueses de da Tapada, de S. Miguel de Fiscal,
que transformaram no vinho mais espumantes naturais, que os Amares, sendo, em geral, menos
famoso e caro do mundo (ver página elaboravam com vinhos de menor complexos que os seus congéneres
10). E isto numa região, Champagne, qualidade. de outras regiões, são, pela sua
Em Portugal, a espumantização de leveza, amabilidade e acidez,
vinhos feitos segundo os cânones óptimos aperitivos.
franceses, ou seja pela segunda
fermentação em garrafa, método

continuam a ser o emblema maior

O Millésime Bruto carácter e garra. É preciso


2002 encanta-me pela aprender a gostar deste estilo.
frescura e vivacidade das O Loridos Branco de
notas citrinas, com destaque brancas Extra bruto 2000
para as de maçã verde. espelha o talento do enólogo
Quanto ao Vintage Bruto Vasco Penha Garcia.
2002, gosto dele porque sim e Elaborado com uvas
por ser de uma delicadeza e Chardonnay, tem uma bela
finura encantadoras. cor de ouro, é um espumante
Os Vértice, de Celso gordo com notas citrinas
Pereira, gosto deles para muito frescas, que dá muito
abrir uma refeição exigente, prazer a beber.
quer dizer, em que o prato O que fica atrás está longe
principal seja caça ou uma de esgotar o rol das minhas
carne assada no forno. E preferências. Dos vinhos
deste Vértice Super verdes, o Muros Antigos,
Reserva 2005 gosto do o Quinta de San Joanne,
seu aroma fino e o Soalheiro ou o Coto de
complexo e do seu Mamoelas são
corpo harmonioso e espumantes a ter em
seco. conta. Como, na
O Lopo de Freitas Bairrada, o Borga, de
2005, um bairradino Campolargo, o
das Caves S. Aliança Particular, o
Domingos, tem o Touriga Nacional de
contributo de uvas Luis Pato. No Dão, o
Chardonnay, que lhe rosé de Cabriz, mas,
conferem sobretudo o rosé da
sofisticação. Quinta dos
O Bágeiras Grande Carvalhais, assinado
Reserva 2001, um por Manuel Vieira.
“puro sangue”
bairradino,
impressiona pela
austeridade do perfil
aromático e de boca. É
um vinho cheio de
Preços
NELSON GARRIDO
Há muito que os sinais económicos
prenunciavam a aproximação de

Porque há
tempos difíceis, tempos de incerteza
e apreensão. Com maior ou menor
intensidade, a crise assomou de vez,
despontando como uma evidência

tantos vinhos de consequências imprevisíveis. Sem


se perceber, esta é uma verdade que,
por ora, parece querer escapar ao
entendimento do mundo do vinho,

tão caros? esse microcosmos de condutas e


práticas tão peculiares.
Nunca o vinho esteve tão caro em
Portugal! Na verdade, se se quiser
entreter pesquisando e analisando
Nos vinhos acima de 40 euros, preços nas prateleiras de garrafeiras
e supermercados, vai ficar
onde começa a qualidade e acaba o surpreendido com os incontáveis
exemplos de vinhos propostos a
marketing? O preço elevado é garante preços quase demenciais. De
repente, num simples pestanejar de
automático de qualidade? Nada disso, olhos, a barreira mágica dos 40
euros transformou-se no referencial
avalia Rui Falcão. Muitas vezes, os mínimo “qualitativo” para dezenas
produtores deliram e colocam-se entre de produtores. A escolha de
palavras, referencial mínimo
o autismo e a megalomania “qualitativo”, não é fortuita e
reflecte de forma rude, mas
objectiva, a lógica viciada do
mercado. Infelizmente, a propensão
para criar uma associação directa
entre preço exorbitante e qualidade
elevada é uma tendência humana
que nós, latinos, gostamos de
valorar. Como se um vinho, só por
ser caro, ganhasse de imediato, e
por inerência, um estatuto de
qualidade e originalidade
caucionado. Como se o preço, por si
só, fosse garante de qualidade!
O que, evidentemente, não obsta
que alguns vinhos tenham de ser
caros... ou mesmo, sendo
politicamente incorrecto, que alguns
mereçam ser caros. Por vezes, e em
casos pontuais, os preços elevados
são mais que justificáveis e
inevitáveis. Estão nesta condição os
vinhos de produção difícil e muito
limitada, vinhos de uma vinha
excepcional e singular, vinhos de
qualidade inexcedível e
universalmente reconhecível, vinhos
de qualidade marcante e constância
histórica palpável, vinhos com um
elevado potencial de guarda,
previsto ou documentado, vinhos
que provaram o seu valor e
consistência ao longo de muitos
anos, muitas colheitas.
O que certamente não se
compreende é que vinhos sem
história, sem passado, sem um
registo mínimo de consistência e
qualidade, sejam de imediato
posicionados na fasquia dos 40
euros; o que é certamente
inconcebível é que vinhos de vinhas
demasiado jovens, possam ser
propostos a preços proibitivos e
indecorosos; o que é certamente
ininteligível é que vinhos
artificialmente condicionados para
apresentarem pequenas produções,
de tiragem limitada por opção
própria, de produções diminutas
por estratégia de mercado, sejam
oferecidos a preços obscenos e
inibitórios; o que é certamente
inexplicável é que, num esforço
inglório para justificar preços tão
elevados, se cometam tantos
excessos e atropelos de enologia,
tanta extracção, tanto peso, tanto

26 • data?????????????? • Fugas
Escolhas
Talvez o leitor não saiba, mas é preocupação. Seriam eles capazes sisudos e sem se permitir que a uma pontuação final entre 0 e 100.
muito frequente nas provas de vinho de avaliar os 13 vinhos em causa fadiga do palato tomasse conta dos Uns foram severos nas notas, outros
mais ou menos organizadas falar-se sem cometerem erros crassos? sentidos dos provadores. Não houve bem mais benevolentes. David
sobre as suas vantagens e, ainda Se houve alguma conclusão além também muitas definições Lopes Ramos considerou o Quinta
mais frequentemente, sobre os seus da pontuação dos vinhos é a complicadas sobre cada um dos do Crasto como o melhor, Rui Falcão
limites. Na sexta-feira dia 11 de conclusão de que todos os que exemplares em cima da mesa. Rui elegeu o Dão de Álvaro de Castro,
Outubro, numa prova cega de vinhos gostam de vinho são bons Falcão foi quase sempre o mais Odete Patrício o Quinta das Bageiras,
tintos portugueses situados numa provadores e que o excesso de rigor rápido, Odete Patrício a mais Lobo Xavier e João Vieira Pinto o
gama de preços entre os oito e os 12 profissional na forma como as aplicada, João Vieira Pinto o mais Meandro. Mas se a vitória absoluta
euros, os cinco provadores provas se organizam podem afastar interessado em absorver informação coube a um Douro, o Alentejo
convocados pela Fugas não fugiram os que se querem iniciar nos seus de todos, Lobo Xavier o mais colocou todos os seus
à regra. David Lopes Ramos e Rui rituais. João Vieira Pinto, por descontraído – apesar de mais um representantes na escala superior da
Falcão estão tão habituados a exemplo, só bebe vinho ao almoço e dia nas bolsas para esquecer. Cada tabela.
sessões como aquela que já pouco os ao jantar e apenas com amigos, mas um teve ao seu dispor uma ficha de
pode intimidar, ainda que o sentiu-se capaz de enfrentar a avaliação para cada vinho, onde
primeiro garanta que, cada vez mais, dureza da avaliação sem prevaricar e após as várias análises se estabelecia
prefere um bom combate entre o foi até capaz de identificar na prova
vinho e a comida do que uma prova cega o Quinta de La Rosa, um dos
profissional onde só o pão e as seus preferidos; Lobo Xavier, que
bolachas têm lugar garantido. Mas não consegue usar a cuspideira, o
para João Vieira Pinto, ex-jogador de que lhe confere um grau de
futebol e actual comentador aproveitamento máximo da sessão,
desportivo, António Lobo Xavier, chegou ao fim com a certeza de que
advogado e dirigente do CDS/PP e pontuou melhor os melhores vinhos;
Odete Patrício, administradora da Odete Patrício dedicou-se com toda
Fundação de Serralves, aquela mesa a seriedade à análise olfactiva e
do restaurante Degusto, em gustativa dos vinhos em prova e,
Matosinhos, cheia de copos, com quase sempre em silêncio, concluiu
garrafas tapadas e um ambiente de que o melhor mesmo nestas coisas
alguma solenidade pareciam, no dos vinhos é encará-los com espírito
mínimo, causar alguma aberto – de resto, elegeu como
melhor um Bairrada, uma região que
não aprecia por aí além.
Com momentos de maior
concentração e outros que
convidavam a divagações sobre o
vinho, desde a arte dos “blends” ao
perigo das cuspideiras e dos
respingos de vinho nas camisas, a
prova desenrolou-se sem ares

Uma prova
entre
as palavras
e o vinho
A Fugas reuniu cinco pessoas num
restaurante em Matosinhos para uma
prova de 13 tintos com preços entre
os oito e os 12 euros. O vencedor foi
o Meandro 2006, um duriense, mas
os alentejanos ficaram sempre acima
da média. As fotos são de Fernando
Veludo/nFACTOS

28 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


No final, o objectivo da Fugas
estava conseguido. Juntando
provadores experientes com pessoas
em tese mais próximas da
sensibilidade média dos
consumidores, conseguiu-se um
“blend” de opiniões capaz de servir
como indicação aos nossos leitores.
Mas, como se provou durante as
quase três horas em que o painel
esteve junto, o melhor mesmo é
cada um seguir a sua própria A prova
sensibilidade. Que isto do vinho é A selecção dos vinhos em prova
como tudo o resto na vida: o que teve como parâmetro principal
conta são as nossas próprias uma gama de preço (oito a 12
sensações. euros). Procurou-se dar uma visão
transversal dos vinhos que se
fazem neste leque qualitativo.
A prova foi cega e cada um
dos provadores foi convidado
a formular uma avaliação dos
diferentes aspectos de cada vinho
entre o zero e os 100 pontos. No
final, a média ponderadade cada
provador foi diluída na soma
global. Para efeitos de cálculo da
pontuação final, foram eliminadas
as notas mais baixas e mais altas
de cada vinho.

Classificação final
Meandro, Douro 2006 – 85.33
Quinta das Baceladas, Bairrada 2005 – 83.33
Herdade dos Grous, Alentejo 2006 – 80.66
Herdade do Sobroso, Alentejo, 2006 – 80.33
Herdade Grande, Alentejo 2005 – 78.00
Quinta da Terrugem, Alentejo 2006 – 77.33
Álvaro Castro, Dão 2005 -76.66 (ex-aequo)
Quinta das Bágeiras, Bairrada 2005 – 76.66
(ex-aequo)
Quinta do Crasto, Douro 2006 – 76.66
(ex-aequo)
Vinha Paz, Dão 2006 – 75.66
Duas Quintas, Douro 2006 – 74.66
Quinta de La Rosa, Douro 2006 – 73.00
Chocapalha, Estremadura 2006 – 69.00

Os preços*
Meandro, Douro 2006 – 11.95
Quinta das Baceladas, Bairrada 2005 – 11.50
Herdade dos Grous, Alentejo 2006 – 9.45
Herdade do Sobroso, Alentejo, 2006 – 8.95
Herdade Grande, Alentejo 2005 – 10.95
Quinta da Terrugem, Alentejo 2006 – 11.50
Álvaro Castro, Dão 2005 – 8.20
Quinta das Bageiras, Bairrada 2005 – 7.95
Quinta do Crasto, Douro 2006 – 9.75
Vinha Paz, Dão 2006 – 11.35
Duas Quintas, Douro 2006 – 7.99
Quinta de La Rosa, Douro 2006 – 8.59
Chocapalha, Estremadura 2006 – 10.25
*Preços indicativos no retalho, em euros.
IVA incluído
Escolhas
O painel
da prova
A Fugas convidou três
personalidades de diferentes áreas
da vida pública e com eles formou
um painel onde entraram também
David Lopes Ramos, Grande
Repórter do PÚBLICO, e Rui Falcão,
que é colunista especializado na
área dos vinhos nesta revista. Sem a
experiência da gente da casa, os
convidados, como se pode ler
abaixo, não são propriamente
iniciados nas andanças da enofilia.

Odete Patrício
53 anos, economista, directora-
geral da Fundação de Serralves

frugais dos tempos de futebolista.


Mas agora que o futebol, enquanto
Gosta de vinho mas diz-se uma praticante, está definitivamente
completa “amadora” quanto à sua posto de parte, diz que tem vindo a
liturgia. O que não significa que não aprender a apreciar cada vez mais, e
seja criteriosa quando se trata de cada vez melhor, um bom vinho. A
escolher um vinho para acompanhar sua preferência vai para os maduros
uma refeição. E quando isso tintos, com o Douro (Quinta de la
acontece, os vinhos do Douro são Rosa) e o Alentejo (Esporão) como as
sempre a primeira escolha, e com regiões que mais procura, quando se
preferência para os tintos – por trata de escolher – por exemplo,
exemplo, para acompanhar um para um arroz de cabidela, um dos
bacalhau com broa. A directora- seus pratos preferidos, opta sempre
geral de Serralves confessa que tem por um Douro. Gostou de ter
um Barca Velha em casa, guardado experimentado uma prova de vinhos
para momentos especiais, que – o que fez também pela primeira
implicam sempre ter companhia, vez –, apesar de admitir poder ter
porque beber um bom vinho é cometido “alguns pecados”. Mas a
sempre “um momento de partilha”. seriedade (e sinceridade) da sua
Quando está sozinha, prefere beber prestação foi confirmada pelo facto
champanhe. Nesta prova, situação de, mesmo “às cegas”, ter apontado
em que participou pela primeira um Quinta de La Rosa (um dos seus
vez, Odete Patrício acabou por ver
João Vieira Pinto favoritos) como um dos melhores António Lobo
confirmada, “às cegas”, a sua vinhos sobre a mesa.
tendência para os vinhos do Douro. 37 anos, comentador desportivo e Xavier
empresário
Normalmente, o ex-nº 8 da Selecção 48 anos, advogado e gestor de
Portuguesa e campeão pelo Benfica empresas
e pelo Sporting não bebe vinho em Vê-se que é alguém já muito
casa. Mantém os hábitos alimentares experimentado nestas “cerimónias”
vinícolas. Até porque também é
produtor, na sua quinta de família
em Penafiel. Engarrafa normalmente

30 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


O produtor da prova
Ricardo Nicolau
de Almeida
62 anos, empresário

Para escolher os vinhos e produzir o


indispensável regulamento, a Fugas
convidou Ricardo Nicoulau de
Almeida, um homem tão
experimentado nestas andanças que
até diz que nasceu “dentro de uma
pipa”, como aconteceu com os seus
sete irmãos. A afirmação não
causará surpresa se lembrarmos que
Ricardo é filho de Fernando Nicolau
de Almeida, o mítico criador do
Barca Velha e uma referência na
história da enologia no nosso país, e
a mãe era da família Ramos Pinto e o
irmão João é o enólogo mestre da
Casa Ramos Pinto. Mesmo depois de
ter saído de dentro da pipa, Ricardo
Nicolau de Almeida continuou a
viver e a trabalhar com os vinhos,
que para ele são “uma paixão”.
Presentemente, detém uma empresa
de distribuição, a Vinicom, numa
“joint venture” com a espanhola
Freixenet. Sobre as suas escolhas,
umas 10 mil garrafas por ano, um diz que as fez com o cuidado e com a
Verde branco com a marca Casa de convicção de que este é um trabalho
Gazalho (Trajadura e Loureiro). que, finalmente, “vale a pena a fazer
Provas de vinho, fá-las desde há no nosso país”, onde, nos últimos 15
vários anos, com amigos ou anos, “o vinho entrou na dieta dos
correspondendo a desafios que lhe portugueses”, e as pessoas já
são feitos. Como consumidor, diz começaram a escolhê-lo com algum
que bebe vinho com regularidade, e critério. Sérgio Costa Andrade
que procura “beber sempre o
melhor possível”, em qualidade e
em moderação. Este gestor ex-
dirigente do CDS/PP e também
conhecido como comentador
político (é um dos vértices da
“Quadratura do Círculo”, na SIC)
considerou “muito bom” o nível
médio dos vinhos agora provados. E
o alinhamento da sua votação
coincidiu com os três primeiros
classificados finais. “Mas tratei mal
alguns vinhos de amigos”, lamentou,
contudo, no final.
SEJA RESPONSÁVEL. BEBA COM MODERAÇÃO.
Estilo

Toque de génio
Escolha de escanções exigentes há
décadas, este clássico saca-rolhas
Château Laguiole é feito à mão em
aço inoxidável e chifre de touro
Aubrac. Perfura a rolha tão bem
como parece e vem num estojo
de pele castanha. É melhor dizer
ao seu sogro que não se abrem
garrafas de champanhe com um
saca-rolhas. Mas com jeitinho…
> Aprox.: € 100
> www.amazon.com

Para profissionais Quebra-cabeças


Concebida em aço inoxidável, Convide os seus amigos para um

Mime
vidro e alumínio, a vinoteca jantar e alicie-os com um vinho
Gaggenau IK 360 está equipada de reserva. De seguida, coloque
com prateleiras de alumínio e a garrafa neste saca-rolhas e,
faia. Tem também um compressor quando os convivas chegarem,
silencioso que assegura uma baixa desafie um a preparar o vinho. E

o seu vinho
vibração, para o vinho não ficar aí é que a diversão começa, uma
“nervoso”, um ecrã muito “hi- vez que será necessário resolver
tech” e avisos visuais e sonoros o puzzle para conseguir aceder
para o caso de a temperatura e abrir a garrafa. Totalmente
estar demasiado alta. E para concebido em madeira, o Bottle
acompanhar vinhos de classe, Puzzle funciona com o tamanho
nada melhor que um sofisticado considerado standard em garrafas
queijo ou charutos. A pensar nisso, de vinho. Mas atenção: convém
Seja um Château Lafite de 1787 ou a IK 360 integra uma área para
queijo com um sistema de controlo
que o anfitrião já tenha resolvido,
pelo menos, uma vez o puzzle,
um Barca Velha de 1981, o seu vinho de odores e uma outra zona com
capacidade para 50 charutos com
caso contrário a diversão pode
tornar-se desespero...
merece ser tratado com todo o um distribuidor de humidade, de > Aprox.: € 20
maneira a que a temperatura se
respeito. Preparámos para si cinco mantenha uniforme.
> Preço sob consulta
sugestões que, para além de mimarem > BSHP: 21 425 06 00
o vinho, vão deixá-lo perfeito para ser > www.gaggenau.com

degustado. Quanto à escolha do néctar,


deixamo-la ao seu critério

32 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


Pequena gigante
Esta pequena vinoteca é uma
gigante quando o assunto é vinho.
Galardoada com um prémio de
design, a VinoThek acomoda
32 garrafas nas suas prateleiras
ajustáveis em altura. Mais: a
temperatura oscila entre os 6º e
14º e o sistema Touchlight permite
que, ao tocar na porta, o interior se
ilumine.
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Fresco ou morno?
O Electro Thermo-Peltier
tanto mantém o vinho branco
tão perfeitamente fresco
que, se alguém lhe pedir um
cubo de gelo, tem a nossa
autorização para ficar zangado,
como conserva os tintos
adequadamente mornos.
Mas atenção: este recipiente
segura a garrafa num ângulo
extremamente inclinado.
> € 75 (aprox.)
> www.conranshop.co.uk

Em parceria com a revista T3 www.t3.com.pt


O vinho nos restaurantes
Não sou dos que sobrevalorizam o inventaram uma palavra para os directamente da adega para a mesa e jantar, no renomado restaurante
serviço de vinhos nos restaurantes. nomear: “enochatos”. Bem achado. estão gelados, dar-lhes um choque madeirense Xôpana, que me
Os vinhos numa refeição, para mim, Isto dito, admito que aprecio um térmico, mergulhando-os em água pareceu pretensioso e novo-rico, vi o
são um complemento, nunca o serviço de vinhos categorizado, quente ou expondo-os ao jacto que simpático e barato tinto bairradino
protagonista. Esse papel reservo-o embora não avalie da mesma sai da máquina de fazer café, para os Entre II Santos (à volta de quatro
para a comida. É por ela que maneira casas de comer com perfis chambrear. O que neste caso se euros a garrafa no supermercado) a
frequento restaurantes. Causa-me diferentes. Exigir a uma tasca que justifica é ter uma pequena “adega 34 euros! Chiça!
irritação a tendência que existe sirva vinho da pipa em copos “xpto” do dia”, com a temperatura Prefiro, é claro, que um vinho,
entre alguma clientela para o não passa pela cabeça de ninguém devidamente controlada e seja um espumante, um branco, um
endeusamento do vinho, dos copos sensato. Mas no Eleven ou no adequada, para responder às tinto, um generoso, me seja servido
em que é servido, do respectivo Gemelli ou no Degusto, por solicitações da clientela. em copos capazes, transparentes,
serviço. Trata-se, em muitos casos, exemplo, é disso que se vai à espera. A questão do preço também idealmente de pé alto e formato
de recém-convertidos aos prazeres E, já agora, é isso que se encontra. O deveria ser abordada, mas fica para adequado. Mas já a exigência de um
do vinho, que tresandam aos mesmo vale para a tão falada e, em próxima. Apenas uma observação: modelo de copo especial, às vezes
tugúrios do “fast food” onde geral, muitas vezes mal resolvida, há restaurantes que, pelo preço que único, para tal e tal vinho, de tal e tal
formaram o gosto, pois questão das temperaturas a que os cobram pelas garrafas, parece que casta, parece-me mais uma bem
frequentemente descaem-se em vinhos são servidos. É absurdo não querem vender vinho. Dou um montada operação de venda de
confidências saudosas sobre “big defender-se, como por vezes sucede, exemplo. Recentemente, num copos do que a porta de entrada
mac’s”, gelados, tartes e outras que, no Verão, e numa sala de jantar para o desfrute e prazer do vinho.
“iguarias” do mesmo jaez que lhes com a temperatura ambiente a 25ºC Que é disso que se trata, de prazer. O
apuraram o palato. Os brasileiros ou mais, se insista em servir os tintos vinho é para isso que serve. Para ser
“à temperatura ambiente”. Também
não tem sentido nenhum, no
Inverno, sobretudo em terras do
interior, quando os tintos saltam

Já não precisamos
de candeia que nos guie
A qualidade de serviço e as listas de vinhos disponíveis em muitos
restaurantes portugueses garantem hoje níveis de satisfação muito aceitáveis.
David Lopes Ramos explica-nos porquê e onde tirar a prova
MANUEL ROBERTO

O Doc, nas margens do Douro

34 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


bebido e dar-nos o máximo de Almoços das 13h00 às 15h00, de 2ª jantares das 19h30 às 23h00
prazer. Melhor se na companhia de a 6ª feira; jantares: de 2ª a sábados Encerra aos domingos e feriados
pessoas de quem gostamos. Sempre das 20h00 à meia noite (sob consulta)
a uma mesa bem atoalhada e bem Encerra sábados ao almoço e É um privilégio beber vinho a
posta, a acompanhar comida domingos todo o dia desfrutar do panorama que se
confeccionada com produtos de Estacionamento difícil, mas há avista das mesas do Eleven. A
máxima qualidade, bem apurada, parques nas imediações escolha de vinhos é incomum e
mais ou menos sofisticada. As Augusto Gemelli, além de a cozinha de Joachim Koerper
sardinhas e o caviar ou o toucinho cozinheiro talentoso, é um grande acompanha-a.
curado e a perdiz do monte podem conhecedor e apreciador de vinhos.
ser, em diferentes circunstâncias, Daí o destaque que eles têm no seu Restaurante do Hotel Ritz Four Restaurante Horta dos Brunos
“manjares dos deuses”, que são, restaurante. Seasons Rua Ilha do Pico, 27, Lisboa
como se sabe, os mais capazes de Rua Rodrigo da Fonseca, 88, Lisboa Telefone: 213 153 421; telemóvel:
satisfazer os apetites humanos. Restaurante Degusto Telefone: 213 811 400; fax: 213 831 919 322 510. Almoços das 12h30 às
Em Portugal, já não precisamos de Rua Sousa Aroso, 540-544, 783. Cartões: aceita. Almoços 15h00; jantares das 19h30 às 23h00
uma candeia que nos guie na busca (buffet) das 12h30 às 15h30; jantares ou mais tarde. Cartões: aceita
de restaurantes onde o vinho é (à carta) das 19h30 às 22h30 Encerra sábados ao almoço
tratado com a consideração que Aberto todos os dias. e domingos todo o dia.
merece, isto de Norte a Sul e regiões Estacionamento em parque Estacionamento difícil, mas há
autónomas atlânticas. Aí ficam oito privativo uma garagem para guardar os
deles, mas podia, sem grande É um prazer ser aconselhado e automóveis
esforço, juntar mais uma mão bem Comida portuguesa bem
cheia de outros. apaladada, petisqueira bem
seleccionada, vinhos dos
Restaurante Vincent melhores, copos à altura e
Estrada da Fonte Santa Almancil, Matosinhos uma disponibilidade para
Telefone: 229 364 363; fax: 229 364 abrir qualquer garrafa sem a
364. E-mail: degusto@vinhoecoisas. obrigatoriedade do seu consumo
pt; site: www.vinhoecoisas.pt total. É assim este despretensioso
Cartões: aceita Horta dos Brunos, mais algumas
Almoços das 12h30 às 15h00; peculiaridades polémicas do seu
jantares das 19h30 às 23h00, de servido pelo mais discreto e um dono, Pedro Filipe.
domingo a 5ª; e das 19h30 à meia dos mais competentes escanções
noite, 6ªs e sábados portugueses, Licínio Carnaz, Restaurante Galito
Bar de vinhos abre às 18h00 (ver responsável pelo serviço de vinhos
Bar Aberto, nas páginas 44/45) do Ritz. O grande João Pires deixou
Algarve; Telefone/fax: 289 399 093; Aberto todos os dias continuador à altura.
vincent@iol.pt. Só serve jantares Estacionamento difícil
das 19h00 às 22h30. Reserva de O restaurante de uma loja de vinhos Restaurante DOC
mesa obrigatória. Cartões: aceita. da categoria da Vinho&Coisas só os Estrada Nacional 222, Folgosa
Encerra aos domingos. poderia tratar a um altíssimo nível. (Armamar)
Estacionamento fácil Assim sucede. Impressionante a Telefone: 254 858 123; e-mail: doc@
Uma das melhores garrafeiras e um oferta de vinhos estrangeiros. arisdouro.com
dos melhores serviços de vinhos Cartões: aceita
do país. A cozinha de Vincent Restaurante Eleven Aberto todos os dias. Rua da Fonte, 18-D, Carnide, Lisboa
acompanha a excelência dos Rua Marquês de Fronteira, Jardim Estacionamento fácil Telefone: 217 111 088
vinhos. O chefe de cozinha do DOC, o Almoços do meio dia às 16h00;
autodidacta Rui Paula, aponta jantares das 19h00 às 22h00
Restaurante Gemelli o caminho ao Douro: qualidade, Cartões: aceita. Encerra aos
Rua Nova da Piedade, 99 (esquina sofisticação, sensatez, tendo domingos e feriados e 1ª quinzena
como protagonistas os melhores de Setembro para férias
produtos regionais, vinhos O que fez e faz a fama deste Galito
incluídos. é a comida alentejana apurada
de dona Gertrudes, uma avó de
paladar privilegiado. Mas começa
a ser altura de reparar nas dezenas
Amália Rodrigues, Lisboa de vinhos servidos a copo, em bons
Telefone: 213 862 211; e-mail: 11@ copos, às temperaturas adequadas
restaurenteleven.com; site: www. e bem conservados. E não são só
restauraneleven.com alentejanos.
com a Rua de S. Bento, por cima do Cartões: aceita
mercadinho municipal), Lisboa Almoços das 12h30 às 15h00;
Telefone: 213 952 552; telemóvel:
934 952 553. E-mail: reservas@
augustogemelli.com; site: www.
augustogemelli.com
Cartões: aceita
Crónica
Verde, maduro
e a oportunidade
perdida...
Diferenciar entre verde ou maduro é
uma das incongruências mais absurdas
do vinho português. Mas esse é o estigma
que acompanha a denominação desde a
sua criação. Vinho Verde que se presta a
perder uma oportunidade histórica...
Ribatejo, Setúbal e tantas outras.
Com a diferença que esta se
intitula Vinho Verde. Sim, o nome
não é feliz, ao propiciar e potenciar
a confusão, mas foi romanticamente
adoptado por qualificar de forma
figurativa a paisagem do Minho, a
região mais verde de Portugal, a de
Rui Falcão maior índice pluviométrico, a mais
fresca e viçosa do Portugal
Prefere verde ou maduro? Quantas continental. Faz tanto sentido
vezes, ao pedir vinho no restaurante discriminar entre Vinho Verde e
ou junto de amigos, já recebeu, ou maduro, como entre Douro e
mesmo proferiu, esta interrogação? maduro! Se não nos passaria pela
De tão enraizada na nossa cultura cabeça esta última diferenciação,
popular, de tão assumida e aceite, porquê insistir na separação entre a
transformou-se num comentário região do Vinho Verde e as restantes
recorrente no universo da denominações de origem? Tal como
restauração, rotineiro nos nossos em todas as outras denominações de
usos e costumes. Esta distinção, origem, na região do Vinho Verde
entre verde e maduro, faz parte das podem-se fazer vinhos brancos,
convicções inabaláveis da nossa rosados, tintos, espumantes,
cultura, uma certeza do nosso colheita tardia e licorosos.
imaginário colectivo, uma evidência Que os vinhos apresentam um
dos nossos saberes empíricos. estilo único e diferenciado é uma
Seguramente que todos, sem evidência que apenas certifica os
excepção, já fomos confrontados fundamentos para a criação da
com esta interpelação de resposta região demarcada. Os brancos são,
pronta e segura, sem hesitações por regra, leves, frescos, acídulos,
quanto à substância. Dependendo pouco alcoólicos, pouco
das circunstâncias, umas vezes encorpados, florais, particularmente
estaremos mais inclinados para um bem adaptados ao calor do Verão.
verde, outras para um maduro... Nos melhores exemplos,
E no entanto, nada disto faz particularmente no caso dos
sentido! A pergunta é absolutamente Alvarinhos, são vinhos notáveis na
descabida e sem qualquer elegância e harmonia, e, ao
fundamento racional que a possa contrário do que a sapiência popular Infelizmente, só um pequeníssimo vontade? Imobilismo e inércia?
sustentar. Tal distinção, entre atesta, vinhos com boa capacidade grupo, uma dúzia de produtores, Como se pode deixar passar uma
maduro e verde, é coisa que de envelhecimento. Os tintos, esses percebeu o tremendo potencial da ocasião soberana para impor o
simplesmente não existe. E é um por regra são demasiado acídulos, região do Vinho Verde, oferecendo Vinho Verde nos mercados
comentário que se revela injusto e taninosos, agressivos e rústicos, de os vinhos que correspondem aos internacionais, na altura em que
atroz para com os vinhos nascidos aproximação absolutamente desejos e anseios do mercado esses mesmos mercados desesperam
na região do Vinho Verde porque, impossível para os que não tiveram a internacional. Como é assustador, e por vinhos com estas características?
implicitamente, sugere que os fortuna de nascer no Minho. Vinhos simultaneamente incompreensível, Felizmente, há quem perceba e
vinhos provenientes da distintos na personalidade? Sim! que o Vinho Verde possa perder uma conheça o potencial do Vinho Verde,
denominação Vinho Verde são Vinhos de estilo inconfundível, com oportunidade única como esta, quem apresente vinhos originais e
elaborados com uvas que não brancos que retratam com correcção numa conjuntura internacional que, belíssimos. Um dos melhores
atingiram a plena maturação. Não, a região de origem? Sim! Vinhos preocupada com os excessos de exemplos é a Quinta do Ameal,
não e não! Vinho Verde não é um leves e refrescantes? Sim! Mas todos álcool e de calorias, pretende vinhos berço dos dois melhores exemplos
estilo de vinho mas sim o nome de eles vinhos maduros, feitos de uvas mais neutros, minerais e leves, da casta Loureiro. Na versão mais
uma denominação de origem, uma sãs, em bom estado de maturação, vinhos de conjugação fácil e intuitiva cristalina, estagiada em inox, ou na
DOC (denominação de origem vinhos modernos e recomendáveis com uma cozinha saudável e versão “Escolha” que beneficia do
controlada), igual nos fundamentos que não devem nada aos restantes dietética? Desatenção? Falta de tirocínio em barricas de carvalho
às regiões do Alentejo, Bairrada, vinhos portugueses. francês. O Quinta do Ameal Loureiro
Acima de tudo, por serem leves e 2007 é um branco fresco e jovial,
frescos, pouco alcoólicos, frutados e profundamente citrino e especiado,
florais, austeros e discretos, discretamente floral, com um
correspondem ao perfil que o
mercado internacional demanda.

36 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


PAULO PIMENTA
História vinícola da
O mundo dos vinhos Casa Branca “online”
Joana Ramos Simões
Barack Obama é descrito como
Instituto dos Vinhos membro do clube do queijo e do
do Douro e Porto tem vinho. John McCain raramente
novo presidente bebe. As preferências alcoólicas
dos candidatos à presidência dos
O ex-presidente da Comissão Estados Unidos da América (EUA)
Interprofissional da Região o estado de saúde dos escolhidos. foram reveladas recentemente
Demarcada do Douro, Vilhena Os investigadores compararam, através de um questionário
Pereira, é o novo presidente nos homens que tiveram cancro colocado “online”. No “White House
do Instituto dos Vinhos do do pulmão, o nível de exposição Wine Quiz” (algo como questionário
Douro e Porto (IVDP). Na ao fumo, assim como os hábitos de vinho da Casa Branca), os
vice-presidência do Instituto, de consumo de álcool. Após a jogadores têm de responder a
até agora liderado por Jorge análise chegaram à conclusão que questões sobre os hábitos dos
Monteiro, ficará Paulo Meneses os homens que bebem vinho tinto candidatos e de presidentes dos
Osório, director de marketing regularmente, tanto os fumadores EUA, mergulhando assim na
e vendas da cooperativa Caves como os não fumadores, corriam história vinícola da Casa Branca.
Vale do Rodo. Luciano Vilhena um risco menor de sofrer de cancro De acordo com o questionário, os
Pereira, advogado, é licenciado do pulmão. Apesar da descoberta, democratas são bastante mais
em Direito pela Universidade de os investigadores insistem que liberais quanto ao vinho do que os
Coimbra e presidiu à Comissão a melhor maneira de reduzir as republicanos. Para quem quiser
Interprofissional da Região probabilidades de vir a ter cancro responder ao questionário aqui
Demarcada do Douro em 2004, do pulmão é deixar de fumar. Isto fica o “link”: www.wineteasers.
depois de, entre 1999 e 2001, ter sido porque o risco dos fumadores com/whitehouse/.
vice-governador civil do Porto. O que bebem dois copos de vinho Fonte: decanter.com
novo presidente do IVDP é membro por dia é maior do que o dos não
honorário da Sociedade Portuguesa fumadores. “Um componente anti-
de Viticultura e Enologia e oxidante que existe no vinho tinto
membro fundador da Confraria pode proteger o corpo do cancro
dos Enófilos e Gastrónomos de do pulmão, especialmente entre
Trás-os-Montes e Alto Douro. Paulo os fumadores”, defendeu um dos
Meneses Osório é licenciado em investigadores responsáveis pelo
Agronomia e, juntamente com estudo.
lavradores do Douro, empresários Fonte: winespectator.com
do sector vitivinícola, enólogos
e outros especialistas das áreas
de viticultura, marketing e
gestão criou, em 2000, a empresa
“Lavradores de Feitoria - Vinhos de
Quinta SA”.
Fonte: agência Lusa

“Sopranos” também é
nome de vinho
A série norte-americana sobre
uma família de mafiosos de New
Jersey, “Os Sopranos”, inspirou o
lançamento de uma nova linha de
vinho por parte de uma produtora
italiana. Os vinhos são feitos em
três adegas italianas, duas na
Toscana e uma no Veneto. A linha
inclui Chianti, Pinot Grigio e Pinot
Noir, vendidos entre os 7,50 e os
9 euros. No topo da linha está um
Chianti Clássico, que custa 18 euros,
encanto campestre difícil de igualar. e um Chianti Clássico Reserva,
É um branco irrequieto e tabelado a 22 euros. Os vinhos
irreverente, complexo e atraente, de Sopranos chegam este mês aos
frescura omnipresente. Termina Estados Unidos.
longo e com promessas de poder Fonte: decanter.com
envelhecer bem. No Quinta do
Ameal Escolha 2007, a madeira
encaixa-se na perfeição com o
Vinho tinto diminui
perfume diplomático da casta risco de sofrer de
Loureiro, uma associação proveitosa cancro do pulmão
e simbiótica, sem agressões, sem
conflitos, sem protagonismos. A Beber um copo (ou dois) de
casta Loureiro ganha assim uma vinho tinto por dia pode ajudar
complexidade e profundidade os homens, especialmente os
colossais, uma opulência aromática fumadores, a reduzirem o risco
que ultrapassa a eloquência verbal de ter cancro do pulmão, de
tradicional da casta. Amplo e acordo com um estudo divulgado
entroncado, fresco e vibrante, recentemente. Os investigadores
enorme na boca, está um Escolha analisaram cerca de 84 mil
tremendo que espelha o potencial casos, de uma base de dados
da denominação. composta por 850 mil criada por
pesquisadores californianos entre
2000 e 2003, em que foi examinado

Fugas • Sábado 25 Outubro 2008 • 37


Enoturismo
ADRIANO MIRANDA
ar livre, compras de vinhos e
produtos típicos da região,
propostas de circuitos culturais,
muitas vezes em sinergia com outras
entidades locais e integradas nas
rotas de vinho. A Fugas fez uma
selecção de alguns hotéis onde se
“respira” vinho e deixa a sugestão.

Casa da Calçada
Tem séculos de história e alguns
pergaminhos: a quinhentista Casa da
Calçada foi palácio dos condes de
Redondo, incendiada durante as
Invasões Francesas e, no século XX,
tornou-se numa das maiores
produtoras de vinhos da Região do
Vinho Verde. Desde 2001 é um hotel
de charme (30 quartos e suites de
luxo), bem no centro histórico da
cidade de Amarante, mantendo seis
hectares de vinha, que produzem os
vinhos Quinta da Calçada. Os vinhos
podem ser adquiridos no hotel ou
experimentados em provas (é
necessário marcar) e, mensalmente,
são organizados jantares vínicos (o
restaurante recebeu, em 2005, uma
estrela Michelin). Para quem prefere
outros prazeres, o hotel possui duas
piscinas, rodeadas de vinhas e
jardins seculares, e um solário - os
aficionados do golfe têm um “green“
próximo à disposição.

Casa da Calçada Relais &


Châteaux Largo do Paço, 6. 4600-
017 Amarante. Tel. 255 410 830

Lugares onde
Fax. 255 426 670. E-mail: reservas@
casadacalcada.com
www.casadacalcada.pt
Preços: quartos entre €155 e €500
Menu de degustação: €55 (vinhos

o vinho se respira sugeridos pelo “sommelier “€25)

Quinta
Do Norte ao Sul de Portugal, são cada vez mais os turistas do Vallado
que fazem do vinho um pretexto para conhecer o país.
Andreia Marques Pereira mostra porquê e revela dez
opções que deve ter em consideração
Não é por acaso que na zona optimistas 12 por cento, uma vez de organização e divulgação dos
histórica de Gaia abrirá em breve um que sendo um sector ainda pouco vinhos de uma determinada região
hotel de luxo, The Yeatman. desenvolvido tem mais margem de demarcada. Mas, sob diferentes
Rodeado pelas caves de vinho do crescimento. formas, é incontornável que, nos Na Quinta do Vallado encontramos
Porto, o novo hotel vai ser É verdade que o enoturismo está últimos anos, o investimento no a história vinícola do Douro ou não
“temático” - The Yeatman quer ser na moda (um pouco como esteve o enoturismo tem aumentado. Há tivesse sido uma das propriedades
para Gaia/Porto o que o Vintage ecoturismo) e que em Portugal está vários complexos a serem criados de de dona Antónia Adelaide Ferreira
House foi para a zona do Alto Douro ainda a aprender a andar, apesar de raiz, enquanto outros sofrem (a mítica “Ferreirinha“). A quinta é,
Vinhateiro (quando abriu, em 1998, o país ter todas as condições (uma “upgrades” consideráveis, e porém, anterior a esta (a casa data
foi uma pedrada na apatia em que o tradição vinícola com dois mil anos, surgiram vários projectos de 1716) e chegou até hoje como
enoturismo português vivia). É uma as 31 denominações de origem transfronteiriços - o mais notável é a um dos emblemas do enoturismo
aposta que vai de encontro às espalhadas um pouco por todo o Rota Internacional do Vinho duriense - a que ajuda a reputação
prioridades estabelecidas pelo Plano território e a reputação dos vinhos) VinDuero/VinDouro (RIV). dos seus vinhos, produto de 64
Estratégico Nacional do Turismo para entrar na onda deste segmento Hotéis boutique ou alojamento hectares de vinha (incluindo 26
(PENT), de 2006: entre os dez turístico em que o vinho, os seus rural em propriedades vinícolas com mais de 60 anos). Quem lá for
produtos turísticos portugueses sabores e aromas, a sua história e (quase sempre em tom rústico- não se sentirá defraudado: comece
privilegiados encontra-se a produção ocupam o lugar central - chique com muito charme), é por percorrer os vinhedos, siga
“Gastronomia e Vinhos“, com a mas que vai muito além deste. De comum a oferta destas unidades de para as adegas (nova e velha) e as
previsão de que esse mercado facto, o enoturismo está associado a enoturismo não se reduzir sequer ao caves e pare no pequeno museu.
registará nos próximos anos um um conceito de lazer que cruza o vinho e estender-se a actividades ao Sente-se para uma prova de vinhos
incremento entre sete e 12 por vinho com a gastronomia, cultura, e não parta sem visitar a loja. Se
cento ao ano no mundo inteiro - a história e a natureza das regiões desejar refeições, não deixe de
previsão para Portugal são uns onde é produzido. reservar (para um mínimo de seis
A face mais óbvia do enoturismo pessoas).
português são as rotas do vinho,
criadas em 1993 como instrumentos

38 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


Quinta do Vallado enoturismo. Na verdade, depois de
Vilarinhos dos Freires. 5050-364 anos de abandono, a actividade Palace Hotel
vinícola (produção de vinhos do
Peso da Régua. Tel: 254 323 147
Fax 254 324 326 Dão) foi retomada, modernizada e do Bussaco
www.quintadovallado.com exponenciada, com a criação de O cenário é quase de conto de fada: o
vallado@mail.telepac.pt estruturas enoturísticas, que natural - a luxuriante Mata Nacional
Preços Alojamento: quartos incluem alojamento em dois do Buçaco, envolvendo conventos
duplos entre €85 e €105; suite apartamentos (ou na casa toda), antigos, miradouros, cascatas - e o
entre €105 e €125 (época baixa, além das visitas às adegas e construído - o Palácio do Bussaco,
Novembro-Outubro) (pequeno- garrafeiras e das provas. A Casa de delírio neo-manuelino em atmosfera
almoço incluído)Prova de vinhos: (desde cano-raft a passeios a cavalo) Darei apresenta-se como uma boa sumptuosa, quase de museu. O
€7,50 e passeios de barco pelo Douro. base para descobrir o rico palácio é agora hotel (64 quartos),
património paisagístico e histórico mas continua a dormir-se com (e
Casa das Pipas Casa das Pipas . Quinta do Portal
Celeirós do Douro, Sabrosa
da região. Quem preferir ficar em
“casa”, pode usufruir da praia fluvial
como) a realeza (a memória dos
últimos reis de Portugal perdura) e
A pouca distância está a estação do Tel. 259 937 000/ 259 937 104 privada (material para canoagem e com a história (a conferir no vizinho
Pinhão e há aldeias que contam os Fax. 259 937 009 pesca à disposição) ou perder-se em Museu Militar). E com a tradição
anos por séculos, mas na Casa das E-mail: reservas@quintadoportal.pt caminhadas ou passeios de bicicleta. vinícola, ou não fosse a adega do
Pipas o mundo só entra se www.quintadoportal.com hotel lendária pela qualidade dos
quisermos. Está protegida por 15 Preços Alojamento: quartos Casa de Darei. Darei. 3530 vinhos - todos vinhos do Bussaco,
hectares de vinha plantados bem no duplos €100 e €120 (época baixa); Mangualde. Tel. 232 613 200 produzidos com castas típicas da
interior da Região Demarcada do €120 e €150 (época alta); aluguer Fax 252 640 989. Tlmv.: 918712 499 Bairrada e do Dão. No Palace Hotel
Douro, dentro da Quinta do Portal, da casa €1134 (época baixa) e €1377 E-mail: mail@casadedarei.pt efectuam-se provas de vinho, visitas,
que dá nome a uma sociedade que (época alta) (inclui pequeno-almoço www.casadedarei.pt embora com limitações, à adega
possui mais três quintas e produz e visita à adega e prova de vinhos) Preços Alojamento: em (mais cave, os vinhos só repousam
vinhos DOC Douro tintos e brancos, Provas de vinho: entre €5 e €12 apartamentos - até seis pessoas ali) e, até ao final do ano, há um
e ainda espumantes, moscatéis e Visitas à adega: €5 por pessoa, €120; até oito pessoas €145; casa pacote vínico à espera de ser
portos. Aqui, tudo gira em torno do incluindo uma prova de vinhos toda (até 20 pessoas) €405. Cama- desfrutado neste ambiente mágico,
vinho: organizam-se visitas guiadas à Menu gourmet: com vinhos €30; extra €10. Preços por noite para a ali a dois passos das termas do Luso,
adega, provas e os vinhedos estão sem vinhos €25 (por pessoa) “época normal“ (excluindo Verão, quase às portas de Coimbra. No
ali, para passear ou observar os Natal, passagem de ano, carnaval e restaurante há sempre menus de
trabalhos (ou, na altura das
vindimas, para arregaçar as
Casa de Darei Páscoa).
Visita à adega e vinhas: €60
degustação e pratos regionais (como
o leitão da Bairrada).
mangas). Para alojamento, a Casa É uma propriedade agrícola “tout Visita à adega e prova assistida:
das Pipas tem 10 quartos, decoração court”: em 150 hectares na região entre €70 e €82 Palace Hotel do Bussaco
temática (os vinhos falam mais alto) de Mangualde desenvolve-se Mata do Buçaco. 3050-261 Luso
e uma magnífica sala com vista exploração florestal, agro-pecuária, Tel. 231 937 970 / 969 524 526
panorâmica sobre as vinhas. A vinicultura - e agro-turismo e Fax. 231 930 509 . E-mail: bussaco@
pedido podem organizar-se almeidahotels.com
actividades de natureza e aventura www.almeidahotels.com μ
Enoturismo
± Preços Alojamento: singles oito participantes) Cursos de Quinta do Falcão
a partir de €90; duplos de €120; provas: €48 cada módulo Menu 2070-653 Vila Chã de Ourique
suites de €390 .Provas de vinhos: enogastronómico: €60 Tel. 243 789 428
entre €12 e €35 por pessoa; provas Fax. 243 789 757
de vinho na adega sujeitas a pré-
reserva e limitadas a um máximo
Quinta do Falcão Tlmvl. 913 462 550
E-mail: quintafalcao@iol.pt
de 15 pessoas (para hóspedes Há quase oito séculos, D. Afonso www.quintadofalcao.pt
suplemento de €5) Henriques passou por ali quando Preços Alojamento: €80 em quarto
Pacote vinícola: €390 para duas Portugal ainda era um sonho duplo. Visita à adega e provas: €20
pessoas/duas noites ou €195 por recente. Agora, a Batalha de Ourique por pessoa (mediante reserva)
noite (inclui pequeno-almoço, um mensagens dos sentidos”; há um é história e campo de batalha é palco
jantar, prova de vinhos, clássica,
tratamento de vinoterapia (para
“faça você mesmo”, que transforma
o visitante num enólogo de ocasião,
de trabalhos agro-industriais e de
lazer em plena lezíria. A Quinta do
Herdade do
uma pessoa) e visita ao Museu da com acesso a tudo o que necessita Falcão tem 20 anos e duas unidades Sobroso
Vinha e do Vinho) para criar o seu vinho; há, claro, as turísticas que funcionam em torno
Proposta gourmet: €110 por pessoa provas e há ainda os menus do agro-enoturismo, permitindo aos São 1600 hectares de pura
(mínimo duas, hóspedes do hotel): enogastronómicos (sete pratos, sete visitantes usufruírem do contacto serenidade no meio do Alentejo,
inclui visita à adega, aperitivo com vinhos), capazes de contentar os com a vida rural - culturas de com a albufeira do Alqueva como
espumante da Bairrada, menu enófilos e os gastrónomos mais regadio, olival, pomares, criação de vizinha e a Serra do Mendro como
degustação com cinco serviços e exigentes, asseguram-nos. A quinta cavalos e vinhas. É na Quinta da pano de fundo. A Herdade do
vinhos do Bussaco reserva oferece ainda cinco quartos duplos Fonte Bela que se situa um moderno Sobroso abriu recentemente e
para quem quiser prolongar a centro de vinificação/adega, criado oferece enoturismo em contexto de
Quinta de experiência bucólica do lugar.
Quinta de Catralvos
de raiz com o propósito de produzir
vinhos de qualidade internacional -
turismo rural. As vinhas e adegas
estão abertas a visitas e as provas de
Catralvos Estrada Nacional 379 - Azeitão fazem-se visitas e provas de vinhos vinho da herdade (Sobro e Herdade
2925-708 Azeitão (com reserva). É também na Quinta do Sobroso) são indispensáveis.
À sombra da Serra da Arrábida, Tel. 212 197 610 de Fonte Bela (de 1897) que se Quem ficar convencido, tem uma
entre 25 hectares de vinha e muita Fax 212 197 619 localiza a unidade de turismo rural pequena loja onde se adquirem os
consciência ambiental, a Quinta de E-mail: geral@quintadecatralvos. (cinco quartos), excelente base para vinhos e outros produtos locais. As
Catralvos é uma espécie de com explorar os arredores - o Cartaxo e actividades da herdade não se ficam
universidade aberta de vinhos. www.quintadecatralvos.com Santarém são próximos. Com o Tejo por aqui: uma das apostas é a caça,
Vejamos: há visitas à vinha e adegas; Preços Alojamento: single entre a poucos quilómetros, há desportos para o que dispõe de uma reserva,
há cursos de vinhos com oito €60 e €80; duplo entre €70 e €90 náuticos e cruzeiros à espera. mas há ainda a pesca, desportos
módulos distintos onde aprendemos Provas de vinho: entre €3 e €6,50 náuticos, BTT - e cursos de cozinha
a ler um rótulo ou “os mecanismos e (mínimo de 10 participantes) alentejana. Para alojamento, a
Provas de vinho com visita à herdade oferece duas casas de
adega: entre €6 e €9,50 (mínimo campo (cinco quartos e cinco
de 10 participantes). Crie o seu apartamentos com “kitchenette”),
vinho: €280 por grupo (até

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com uma decoração elegante onde castas características da ilha. O hotel
cabem o Alentejo, África e o Oriente. Herdade desenvolveu, por isso, uma série de
A piscina abre-se sobre o sobrado e actividades ligadas ao enoturismo,
convida a longas horas de ócio, com dos Grous com especial atenção às provas de
o tempo suspenso na tranquilidade vinhos, organizadas três vezes por
absoluta da paisagem. Para quem gosta de vinho, a semana na adega. Além disso, há a
Herdade de Grous já é uma possibilidade de fazer uma visita
Herdade do Sobroso referência. No que se refere ao pelas vinhas (guiada pelo director
Pedrógão Apartado 61 . 7960-909 enoturismo também. Na herdade geral) e, todos os anos, enólogos são
Vidigueira. Tel. 284 456 116 alentejana, tudo está pensado para convidados para ministrar um curso
Fax. 284 456 412 . E-mail: geral@ proporcionar a melhor experiência Preços Alojamento: quartos de vinhos. O hotel tem 39 quartos e
herdadedosobroso.pt vínica ao visitante, seja ele “expert” duplos €125; suite (duas pessoas) a quatro suites e dispõe de várias
www.herdadedosobroso.pt ou simples apreciador. A descoberta partir de 157; suite (quatro pessoas) comodidades, como piscina
Preços Alojamento: suite €125; começa na vinha, passa pela adega €220 - pequeno-almoço incluído. aquecida, sauna e ginásio.
quarto duplo €95; apartamento (com direito a explicação sobre as Meia pensão €32; pensão completa
dois quartos €160; apartamento mais modernas técnicas de €45. Provas de vinho Herdade dos Hotel Quinta do Furão Achada do
um quarto €95 (pequeno-almoço viticultura e enologia aqui usadas) e Grous (Colheita Branco, Reserva Gramacho. 9230-082 Santana
incluído) (tarifas até 31 de Março termina com uma prova de vinhos - Branco, Colheita Tinto, 23 Barricas Tel. 291 570 100 . Fax 291 573 560
de 2009, de domingo a quinta-feira, e pode ser complementada nos Tinto, Moon Harvested Tinto, www.quintadofurao.com
excluindo feriados, pontes e épocas restaurantes ou na loja. Para quem é Reserva Tinto): entre €3,50 e €20 info@quintadofurao.com
festivas) indiferente ao vinho, a beleza Preços Alojamento quartos
Wine Tour I (visita guiada das paisagística do baixo Alentejo é um single €120; duplo €130; suite
adegas e vinhas, prova comentada,
curso de iniciação à prova e
trunfo nada menosprezável da
Herdade dos Grous, onde
Quinta do Furão €180; villa €195. Suplemento meia
pensão €24,50 Tour e prova de
degustação): €40; Wine Tour encontramos várias maneiras de Empoleirado numa falésia, a 40 vinhos - grátis. Curso de vinhos
II(visita das adegas e vinhas, viver a natureza: cavalos, moto 4, minutos do Funchal, o Hotel Quinta (inclui uma noite em quarto
prova e degustação): €12 (sujeito balonismo, desportos náuticos (na do Furão surpreende antes de mais duplo com pequeno-almoço, oito
a marcação e número mínimo de barragem de 98 hectares)... Mas há pela vista privilegiada: da costa Leste horas de curso, programa para
participantes) também piscinas, matraquilhos ou da ilha até ao Porto Santo e, mesmo acompanhante, um almoço e um
Refeições: €25 (bebidas não “apenas” o silêncio da planície. A ali, as paisagens luxuriantes da jantar gourmet para dois) - €250
incluídas) herdade tem 24 quartos (duplos e Floresta Laurissilva. Mas há mais do (por casal), €150 (individual)
suites) - todos com lareira. que a vista na Quinta do Furão: há
jardins exuberantes que convivem
Herdade dos Grous Albernôa . com uma exploração agrícola (cinco
7800-001 Beja. Tel. 284960000 hectares) convictamente biológica,
Fax 284960072 . E-mail: info@ onde se encontram algumas das
herdadedosgrous.pt
www.herdadedosgrous.com

FESTIVAL
NACIONAL DE
GASTRONOMIA

CASA DO CAMPINO
SANTARÉM
13 DE OUTUBRO A
2 DE NOVEMBRO 2008
Alentejo
Quem diria que na bucólica em que está transformada a
paisagem alentejana, associada pelo albufeira de Alqueva, passa por
senso comum às extensas searas de Mourão, Moura, Vidigueira, Alvito e
trigo e às terras ressequidas pelo Viana do Alentejo e os barros de
calor tórrido e exauridas de água, a Beja. Neste último concelho estão a
cultura da vinha viesse a adquirir a ter lugar as mais recentes
sua actual exuberância? A história implantações da vinha na planície.
da vinha no Alentejo é antiga. Da
herança romana subsistiram até aos
nossos dias diversas práticas e
Rota de
utensílios, como a talha de barro São Mamede
que ainda é utilizada nas pequenas
adegas particulares da região e Caracterização
também por alguns produtores Situada no Alto Alentejo, a “Rota de
engarrafadores. Mas foi apenas nas São Mamede” exibe, em contraste
últimas décadas que a região cedeu com as secas planuras do outro
parte do seu ancestral estatuto de Alentejo, estreitos vales e solos leves
“celeiro de Portugal” para se tornar e bem drenados amenizados por um
numa das mais ousadas e bem microclima atlântico que
sucedidas marcas da viticultura e da proporcionam vinhos com
enologia do país. características diferenciadas dos
No Alentejo aproveitaram-se afinal provenientes das outras regiões
as vantagens oferecidas pelas alentejanas.
condições edafoclimáticas Sugere-se o itinerário com início em
acentuadamente mediterrânicas e a Portalegre, seguindo posteriormente
existência de várias zonas de para Marvão (vila situada a 862 m de
microclima continental. O altitude, a mais alta de Portugal) e
conhecimento adquirido ao longo de Castelo de Vide “cidade medieval”,
séculos na adaptação de castas onde pode desfrutar da paisagem
permitem hoje combinar a tradição natural vincada por impressionantes
e a modernidade na produção relevos graníticos. Segue-se o
vitivinícola. Embora se distingam interior alentejano, designadamente, Produtores
oito sub-regiões de produção, os Crato, Alter do Chão, Benavila, Avis Tapada dos Chaves, Sociedade Rota Histórica
seus vinhos possuem características e Casa Branca, finalizando o circuito Agrícola, Lda. Tapada do Chaves-
muito semelhantes. Para conhecer em Sousel. Frangoneiro. Portalegre. Tel. 245 Caracterização
toda a riqueza desta imensa e São os vinhos tintos que 201 973. Email:tapada.do.chaves@ O segundo itinerário pelos vinhos do
magnífica da região os produtores e predominam nesta região, obtidos a mail.telepac.pt. Adega: Visitas Alentejo resulta de uma perfeita
os enólogos alentejanos partir das castas Aragonez, Grand guiadas (gratuitas) comunhão entre o enoturismo e o
estabeleceram três itinerários: a Noir, Periquita e Trincadeira, às Prova - 12 euros/pessoa turismo histórico-monumental. A
“Rota de São Mamede” que quais se associam em menor Venda directa de vinhos ao público paisagem entre vinhedos é
coincide, em parte, com a área proporção as castas Alicante preenchida de pedreiras fundas de
abrangida pelo Parque Natural da Bouschet e Moreto. Os vinhos Fundação Abreu Callado onde se extrai mármore, uma das
Serra de São Mamede e inclui brancos são obtidos a partir das Travessa Abreu Callado grandes riquezas regionais, e casario
algumas das mais bonitas e típicas castas Arinto Galego, Roupeiro, Benavila (Avis) pintado a branco. Alguns dos mais
cidades e vilas alentejanas, como Assario, Manteúdo e Fernão Pires. Telefone: 242 430 000 belos exemplares da arquitectura
Portalegre, Marvão, Castelo de Vide, Email:facallado@mail.telepac.pt barroca marcam o percurso por
Crato, Flor da Rosa, Alter do Chão, Página Web: http://www. Estremoz, Borba, Vila Viçosa,
Avis e Sousel. abreucallado.com.pt Redondo, prosseguindo por Évora,
A “ Rota Histórica”, a mais extensa Adegas: Visitas guiadas Montemor-o-Novo, Arraiolos e
do Roteiro dos Vinhos do Alentejo, Provas: Venda de vinhos Reguengos de Monsaraz. É nesta
contempla nada menos que 29 Vinhas visitáveis região do Alentejo que se encontra a
adegas, numa área triangular maior parte da produção vinícola
definida por vértices em Elvas, Vinhos da Cavaca Dourada, SA regional.
Montemor-o-Novo, e Reguengos de Herdade do Mouchão. Casa Branca As castas tintas Aragonez, Periquita
Monsaraz e engloba Arraiolos, 7470 - 153 Sousel. Telefone: e Trincadeira estão associadas a
Estremoz, Borba, Vila Viçosa e 268 539 228. Email:mouchao@ outras castas como o Alfrocheiro,
Redondo. mouchaowine.pt Alicante Bouschet, Grand Noir e
A “Rota do Guadiana” que Adegas:- Visitas Guiadas Moreto, que asseguram a qualidade
estabelece percursos pelas margens Provas e Venda de Vinhos dos seus vinhos tintos. Para a
do Guadiana e o imenso mar interior Vinhas Visitáveis produção de vinhos brancos as
castas recomendadas são o Perrum,
Rabo de Ovelha, Roupeiro e

As vinhas que
mudaram a planície
No espaço de uma geração, o Alentejo deixou de ser em exclusivo um celeiro e
passou a exibir algumas das mais belas vinhas de Portugal. Oportunidade para
conhecer um mundo novo e exaltante através das sugestões de Carlos Dias

42 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


Perrum, Rabo de Ovelha e Roupeiro. Prova- 7,5 euros/pessoa

PAULO RICCA
Produtores Venda directa de vinho ao público
Adega Cooperativa da Visita guiada às vinhas
Vidigueira, Cuba e Alvito, C.R.L
Bairro Industrial/Vidigueira Cooperativa Agrícola de Granja
Tel. 284 437 240. Email: Baldio de Granja/Mourão
acvidigueira@mail.telepac.pt Tel. 266 570 010
Adega: Visitas guiadas (serviço Adega: Visita guiada (gratuita)
gratuito). Prova- 2,5 euros/pessoa Prova: o valor a cobrar depende de
Venda directa de vinhos ao público negociação prévia
Venda directa de vinhos ao público
Casa Agrícola João & António Visita guiada às vinhas (gratuita)
Pombo,S.A . Herdade do Meio/
Portel. Tel. 266 667 300 Herdade dos Grous
Email:contacto@herdadedomeio.pt Albernôa/Beja
Adega: Visita guiada (gratuita) Tel. 284 960 000
Prova- 5 euros/pessoa Email:herdadedosgrous@
Venda directa de vinho ao público vilavitaparc.com
Visita guiada às vinhas (gratuita) Adega: Visita guiada (reserva
prévia para grupos a partir de 12
Herdade da Calada-BCH,S.A pessoas)
Estrada de Évora-Estremoz - Km Prova- Preços entre 2,5 euros e 10
12/Évora. Tel. 266 470 030 euros. Venda directa de vinhos ao
Email:geral@herdadecalada.com público. Restaurante- Quarta-feiras
Adega: Visitas guiadas (todos os e quinta-feiras 12h30 às 18h00
dias com marcação prévia) Sexta-feira a domingo e aos
Prova- preço a pagar depende do feriados 12h30 às 22h00
número de pessoas e dos vinhos
em prova. Venda directa de vinhos Herdade da Malhadinha Nova,
ao público. Tem visita guiada às Sociedade Agrícola e Turística
vinhas (gratuita) S.A. Herdade da Malhadinha Nova-
Tamarez. Visita às caves com prova de Albernôa/Beja
Produtores vinhos (mínimo 6 pessoas) Sociedade Agrícola Gabriel F. Tel. 289 510 460
Quintas Aliança Alentejo, Prova- Entre 3.5 euros e 12.5 euros Dias e Irmãos. Lda Email:rsoares@malhadinhanova.pt
Sociedade Agrícola, S.A mais IVA . Venda directa de vinhos Courela do Guita/Montemor-O-Novo Adega: Visita guiada (gratuita)
Quinta da Terrugem-Borba ao público. Almoço e jantares Tel. 266 892 682 Prova- Preços variados
Tel. 268 658 110 -Todos os dias Email:couteiromor@sapo.pt Venda directa de vinhos ao público
Email:joao.chamorro@caves- Adega: Visitas guiadas mediante Visita guiada às vinhas (gratuita)
alianca.pt Ervideira, Sociedade Agrícola, marcação prévia
Adega: Visita guiada (marcação Lda . Herdadinha-Vendinha/
prévia e gratuita) Reguengos de Monsaraz
Prova- Sujeita a marcação Tel. 266 950 010
Venda directa de vinho ao público Email:ervideira@ervideira.pt
Visitas guiadas às vinhas Adega: Visita guiada (5 euros/
(marcação prévia) pessoa). Prova- 5 euros/pessoa
Venda directa de vinhos ao público
Quinta do Zambujeiro-Produção Visitas guiadas às vinhas com
e Comércio de Vinhos Unipessoal, marcação prévia
Lda Monte do Zambujeiro-Rio de
Moinhos/Borba. Tel. 268 801 431
Email:quintadozambujeiro@sapo.pt
Adega: Visita guiada (gratuita)
Rota do
Prova- 8 euros/pessoa Guadiana
Venda directa de vinho ao público
Visitas guiadas às vinhas Caracterização
(marcação prévia) Com características bem diferentes
dos outros itinerários, mas não
Roquevale, S.A Herdade do Monte menos atractiva, a Rota do
Branco/Redondo. Tel. 266 989 290. Guadiana, que atravessa Viana do
Email:carlos@roquevale.pt Alentejo, Alvito, Mourão, Moura,
Adega: Visita guiada (gratuita) Vidigueira, e Beja é um convite a
Prova- 6,20 euros/pessoa todos os que privilegiam o contacto
Venda directa de vinhos ao público com a natureza. Zona
* Informações e marcações através predominantemente rural,
da Rota dos Vinhos do Alentejo distingue-se pela paisagem típica
que já foi da seara mas agora está a
Monte Seis Reis Herdade dos ser ocupada pela monocultura do
Casarões. Santa Maria-Estremoz olival. A passagem pela região é
Tel.268 322 221. Email:loja@seisreis. ainda valorizada pelos roteiros
com gastronómicos onde predominam os
Adega: Visita guiada (gratuita) petiscos e pratos regionais.
Prova- 5 euros/pessoa As castas tintas dominantes são a
Venda directa de vinhos ao público Alfrocheiro, Moreto, Periquita, Tinta
Visita guiada às vinhas e Grossa e Trincadeira. Os vinhos
participação nas vindimas brancos provêm essencialmente das
Seja responsável. Beba com moderação.

(gratuita). Refeições (com marcação castas Antão Vaz, Manteúdo,


prévia)

Herdade do Esporão-Finagra,S.A
Reguengos de Monsaraz
Tel. 266 509 280
Rua S. Bartolomeu, 46 - 7150-162 BORBA
Email:enotur@esporao.com Tel.: 268 894 210 - Fax: 268 894 394
Adega: Aberta todos os dias ALENTEJO - PORTUGAL
E-mail: sovibor@mail.telepac.pt
(máximo 25 pessoas por horário)

Fugas • Sábado 25 Outubro 2008 • 43


Bar aberto

Vinho bom
em pedra
dura
De uma Mãe d’ Água, parte
do Aqueduto de Águas Livres,
nascia, à Praça da Alegria
lisboeta, uma enoteca de culto,
templo de sapiência enófila que
faz as delícias dos apreciadores
dos vinhos de qualidade. Luís
J. Santos (texto) e Cláudia
Andrade (fotos) ergueram os
seus copos ao Chafariz do Vinho

Enoteca Chafariz A conjunção é única: um início ligado à sua gestão, suspeita ampla abertura em amplo pé alto há aparelhos a tratar dessa mania),
do Vinho monumento de sólida história em que a razão era mesmo que deixa respirar tudo até o vinho. ideal para momentos mais íntimos e
Rua da Mãe d’ Água (à Praça pedra gravada com um ambiente desconfiança: “as pessoas não Uma robusta plataforma divide o até românticos, perfeita para
da Alegria). 1250 Lisboa quase religioso, um bar de vinhos tinham confiança na qualidade de bar: ao nível da entrada temos um partilhar segredos dos vinhos e
Tel..: 213422079 conceptual e moderno onde se busca um vinho aberto”. Agora, por fim, espaço central, onde grupos outros (há até mesas de canto a
www.chafarizdovinho.com rigor e qualidade em cada detalhe, parece que o vinho a copo já está a maiorzinhos têm mais espaço. Deste oferecer um cenário alcovado); ao
clientes@chafarizdovinho. da carta ao serviço. Haverá amante conquistar o seu merecido lugar, piso, observa-se uma caleira por centro desta salinha, um tanque
com de vinhos ou curioso que entre neste permitindo a muita gente ter acesso onde antes corria água (e não, agora acolhe uma instalação de caixas de
Horários: De terça a ex-líbris da cidade e da cultura a vinhos de alta qualidade e, pelo não corre vinho: está sequinha) e vinho tão simples quanto
domingo das 18h00 às enófila sem sentir uma ventura de menos, prová-los. Até porque, como que acompanha uma escadaria até à eficazmente artística.
02h00 elevação? O edifício de finais do séc. aqui, há equipamentos que zona onde descansa a garrafeira. Qualquer ponto dos três níveis do
Preços: Os preços mínimos XVII mostra por fora sinais de permitem manter o líquido (o No piso superior, um corredor Chafariz garante conforto suficiente,
do vinho a copo (1/8 l) clausura, quase conventual: ergue-se tranquilo e o espumante) em boas mais aéreo com diversas mesas, sempre em ambiente tertuliano, para
rondam os €2,25 a €3 e vão como um perfeito cubo de pedra a condições para servir vinhos de alta algumas delas encaixadas nas dedicarmo-nos a esmiuçar a longa
subindo aos €18/20. Porto meio da colina, com grandes janelas qualidade a copo. E se há sítio onde janelas. Mas não se espere grandes carta de vinhos, composta por um
(5cl) desde €2,5. Os petiscos gradeadas sob as quais três bicas se pressente que o vinho é realmente vistas. É que aqui não é preciso mais conjunto de vinhos velhos e algumas
andam em volta dos €6 a lançam frustradas promessas de bem tratado é mesmo nesta Mãe d’ paisagem que a interior – e leia-se raridades gloriosas, a que se juntam
€10 e sobremesas a €3/4. água. A beleza do cenário antes água Água que nos dá vinho. A instituição duplamente esta paisagem interior: a “novas marcas, regiões menos
Menus degustação (quatro /vinho agora é tão manifesta que do bar deve-se a dois sócios: uma do edifício e a dos copos. faladas e longe das modas”. Serão
vinhos & quatro pratos) €32 ninguém consegue escapar ao sumidade da enofilia, João Paulo No piso inferior, uma sala quase mais de duas centenas de
ou €48 (menu especial) inevitável contraste poético. Martins, conceituado jornalista e subterrânea, onde a Mãe d’Água faz referências, que vão mudando
Fumar: apenas na O Chafariz do Vinho, que começou crítico de vinhos, autor de anuários menos poupanças à humidade (mas conforme as circunstâncias, com em
esplanada (depende do a correr há uma década, marcou o pelos aromas e sabores das obras- redor de duas dezenas delas abertas
clima a abertura desta, advento dos bares de vinhos a sério primas; e Pedro Rodrigues, também (mas abrem qualquer garrafa desde
naturalmente) no nosso país que, estranhamente, um reputado senhor da restauração, que garantido o consumo de dois
apesar da sua vitivinicultura, actualmente à frente do louvado copos). A produção nacional faz
continuava com uma relação de restaurante VírGula em Lisboa. E quase o pleno (até porque, diz-nos
distância com a cultura dos vinhos e assim fica provado que os pilares Kleinhans, não há grande procura
só nos últimos anos é que tem visto deste Chafariz são mesmo sólidos. por vinhos estrangeiros) mas há
estas tavernas do século XXI Para além destes factores, o lugar para outras proveniências
alastrarem-se. Manfred Kleinhans, Chafariz, é, indubitavelmente, na sua (França, Alemanha, Chile, Argentina,
nosso guia pelo Chafariz e desde o simplicidade monumental, um dos Espanha ou Itália). O Chafariz
mais bonitos e singulares bares da trabalha com pequenos “stocks” e
cidade. Mas entremos, que o vinho aposta numa grande rotação, sendo
nos espera. Basta cruzar um certo que nunca faltarão pequenas
pequeno átrio onde um balcão nos
encaminha para um templo de uma

44 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


213600900 | www.jeronimos8.com Binhoteca
Referências Rotas Horários: Rua das Padarias, 16 – SINTRA |
Estrelas Num real hotel de design não Tel.: 219240849 |
Entre as estrelas da carta actual é poderia faltar um real bar de www.bar-do-binho.com
difícil escolher; entre elas, Frei João Degusto Tapas & Wine Bar design... E, neste caso particular, Horários: Diariamente das 14h00
Reserva 1963 (Bairrada, €85), Barca Rua Sousa Aroso, 540 – 544 | com bónus: é um bar de vinhos às 22h00
Velha 1999 (Douro, €150), Porta dos Matosinhos | Tel.: 229364363 | www. “cool”, de linhas limpas e No centro histórico de Sintra,
Cavaleiros Reserva Seleccionada degusto.pt cosmopolitas, que põe à disposição uma concorrida enoteca, ligada à
1966 (Dão, €70), Batuta 2001 (Douro, Horários: das 18h00 às 23h00 “os extraordinários vinhos decana garrafeira Bar-do-Vinho
€125) e 2004 (€110), Charme 2002 Buçaco, da lendária garrafeira do sintrense (célebre por preciosos
(Douro, €150) e 2005 (€125) ou Pêra Palace Hotel do Bussaco”. Nem Porto, daí o V pelo B...), que os
Manca 2003 (Alentejo, €125). De mais. Acresce ainda uma vasta turistas que acorrem à vila trazem
além-fronteiras, há pérolas, como selecção de vinhos portugueses, nas suas notas. Servem a copo de
de França Château Margaux Grand espumantes e champanhes, além entre umas boas duas centenas de
Cru Classe 1994 (Bordéus, €330) ou dos necessários “snacks”. vinhos, naturalmente incluindo
Château d’Yquem 1976 (Sauternes, todas as grandes referências mas
€500). Garrafeira Alfaia também descobertas e pequenas
Bom vinho, boa companhia Rua do Diário de Notícias, 125 produções. Acompanhamentos
A ementa oferece iguarias várias e – LISBOA | Tel.: 213433079 | www. bem pensados para os vinhos
que integram também os menus de O afamado e premiado restaurante transglobalsite.com/preview/ e um ar de taberna antiga mas
degustação: entre outros, Cerviche Degusto, ligado à empresa Vinhos alfaiagarrafeira sofisticada com mesas-barricas.
de Salmão e Maçã, Carpaccio de & Coisas e conhecido pela sua Horários: 2.ª a 6.ª das 14h00 à
Bacalhau Fumado, Queijo Chèvre especializada união entre vinhos e 01h00, sábado das 16h00 à 01h00. O Tasco Wine Bar
sobre Tosta com Tomate Seco gastronomia mediterrânea, reabriu Uma opção dentro do Bairro Alto. Caldas de Monchique
e Aromas Silvestres, Morcela este Verão o Tapas & Wine Bar. Pertence ao restaurante Alfaia (está – MONCHIQUE | Tel.: 282910910 |
de Arroz com Grelos, queijos e Num ambiente de design sóbrio, mesmo ao lado) e é um pequeno www.monchiquetermas.com
fumados vários. garante petiscos de luxo e, claro, mundo com uma carta de vinhos
Prova e horas felizes vinhos que lhes façam justiça (e recheada, repleto de garrafas e com
Das 18h00 às 20h30, há “happy vice-versa). Sendo parte de uma das um ar de moderna tasca antiga, ao
hour” com diversas propostas e/ou maiores distribuidoras nacionais, jeito do bairro. Aposta nos tintos e
provas (copo com 2,5 cl) de Porto fica decretada a extensão da carta. no Porto, com pérolas em ambos, e
(quatro em simultâneo – €13), prova Semanalmente, vinhos a copo entre não faltam petiscos.
especial de Ruby e Tawny (quatro, cerca de 40 referências.
€25) ou Cem Anos de Porto (quatro Néctar
vinhos de 10, 20, 30 e 40 anos: €30). Cafeína Fooding House Wine Bar Rua dos Douradores, 33 – LISBOA |
Traga a sua garrafa! Rua do Padrão, 152 (Foz) – PORTO | Tel. 210938180 / 912633368 | www.
Pode trazer o seu vinho especial Tel.: 226180602 / 916005100 | nectar-winebar.com
e usufruir de serviço correcto. www.foodinghouse.blogspot.com Horários: 12h30/15h00 – 18h00/ E que tal juntar água e vinho?
Disponível das 18h00 às 20h30. Nasceu no Verão esta Cafeína, que, 23h00 (de 2.ª a 5.ª; à 6.ª fecha às Será, decerto, dos mais calmos
Custos: €2,5 por pessoa e por apesar de o nome chamar mais 00h00, ao sábado abre só das wine bars do país: o Tasco, na
garrafa. para o cimbalino, está estruturada 18h00 às 00h00) zona histórica da Villa Termal das
Reserve numa devoção ao vinho, português Caldas de Monchique permite um
Especialmente às sextas e sábados ou estrangeiro. Diversas escolhas ambiente acolhedor no seu estilo
à noite é arriscado ir sem reserva, para vinho a copo e a promessa de gruta/refúgio em pedra envolvido.
mais vale prevenir. dar a conhecer constantemente Petiscos regionais à disposição.
novos néctares. As tapas, petiscos
e companhia fazem jus à cultura Vinho em Qualquer
grandes descobertas ou os enológica. E também tem espaço de Circunstância
produtores venerados. Se não é um mercearia fina. Estrada de Fátima, 15 – BATALHA |
estudioso do vinho, é só pedir ajuda: Tel.: 244768777 |
há sempre alguém aqui para dar Vinologia – La Maison des Porto www.circunstancia.com.pt
bons conselhos. R. São João, 46 – PORTO | Tel.: Horários: De 2.ª a 6.ª feira e feriados
E a carta, na verdade, são duas: 222052468 / 936057340 | www. Num prédio pombalino da Baixa das 17h00 à 24h00, sábado das
uma inclui os espumantes, os lamaisondesporto.com | Vinologia@ lisboeta, vale a pena descobrir 12h00 à 01h00, domingo das 12h00
brancos e especialmente, claro, gmail.com este bar-restaurante de vinhos, às 16h00
muitos tintos; a outra uma rica Um pequeno bar no centro que, pela sua localização, é das Vizinho do mosteiro da Batalha, é
selecção de vinhos do Porto. E, as histórico do Porto com ambiente mais centrais fugas à azáfama um monumento moderno ao vinho,
cartas vêm sempre acompanhadas acolhedor, propriedade de Jean da capital. O espaço, moderno, onde o conceito de espaço e design
da amiga ementa. Sim, porque, Philippe Duhard, para uma visão oferece uma vasta selecção de contemporâneos num grande
como sabemos, o vinho pede boas francófona de grandes vinhos vinhos nacionais, entusiasmada salão em dois pisos onde madeiras
companhias. Facto: a enoteca não é da região, apostando em peças por obras de pequenos produtores e transparências se conjugam e
um restaurante mas esmera-se nos de pequenos produtores e duas e néctares menos conhecidos. A dividem para criarem a atmosfera
petiscos e pratos, estruturados para centenas de garrafas de Porto lista a copo muda todas as semanas de introdução cultural e dedicação
sublinharem os néctares. Porque abertas. É loja e bar com garrafas e há iguarias regionais e petiscos ao néctar. Está tudo no nome deste
aqui o mandamento nunca muda, do néctar por todo o lado (até no caseiros para apreciar. cubo mágico: tem restauração
como remata o senhor Kleinhans: tecto) e funcionamento até tarde. mas o vinho é que é a espinha
“Em primeiro lugar, está sempre o dorsal numa carta profunda para
vinho”. Bussaco Wine Bar ser apreciada em bar e lounge.
Hotel Jerónimos 8 | Rua dos Com loja, incluindo gourmet e
Jerónimos, 8 – LISBOA | Tel.: acessórios, e clube enófilo.
Seja responsável. Beba com moderação.
Teste
A Lancia parece querer recuar no um sublinhado inferior de díodos em LED, conferem-lhe um ar estranhar, por isso, que na lista de
tempo quase 30 anos, ao tempo em LED, naquilo que a marca chama de deveras futurista e ao mesmo tempo equipamento se encontre, por
que o nome Delta se começou a luzes diurnas. A traseira, com linhas distinto. A imagem geral do Delta exemplo, faróis de xénon
pronunciar com respeito pelo seu mais direitas que o resto do carro, transpira cuidado: por um lado pela adaptativos, o aviso de transposição
espírito inovador e desportivo. O tem um ar encorpado. Os originais atenção ao design, por outro pelo de faixa, função hill hold (que segura
currículo dessa geração é farolins, como que modelando os cuidado com a funcionalidade – a o carro em desníveis) ou sistema de
impressionante, com meia dúzia de ombros sobre as rodas, também eles zona inferior da carroçaria tem uma parqueamento semi-automático. A
vitórias no Campeonato do Mundo espécie de gola em plástico negro, tal lista, no entanto, tem demasiados
de Ralis em outros tantos anos parecendo proteger o carro. opcionais para os níveis de
consecutivos (1987-1992). Agora a No interior, nota-se algum cuidado equipamento mais baixos. Seria bom
marca italiana quer voltar às bocas com os acabamentos embora – e isto que a marca optasse por dar alguns
Barómetro do mundo, já não tanto pela fama de é uma opinião pessoal – não parece rebuçados aos clientes... No campo
+ Design exterior, devorador do asfalto, mas desta feita ter havido o mesmo cuidado no
espaço dos com uma carga de sedução pelo desenho dos bancos. Estes, com a
bancos traseiros, design e elegância. Não que a antiga insígnia “Poltrona Frau”,
consumo, direcção versão de Giugiaro ficasse a dever à supostamente uma referência
em cidade elegância... – na altura em que as reservada aos modelos de gama alta
- Interior pouco linhas dos carros eram bem mais da marca, não são tão confortáveis
imaginativo, baixa direitas, o Lancia Delta seria um dos como se esperaria tendo em conta a
altura ao solo, lista
Céu dobrado
expoentes desse design. A janela para o céu azul lá no alto restante envolvente. Os encostos de
de equipamento O Delta – único modelo totalmente cabeça são estreitos, duros e um
chama-se GranLuce. Na realidade
de série curta em novo que a marca lança em cinco nadinha curvados para a frente, o
são dois tectos: um de abrir (sobre o
alguns níveis anos – é uma aposta do grupo Fiat que obriga a uma posição de
para aquilo que pretende que seja a
condutor e passageiro), outro ape-
condução demasiado rígida. Apesar
Arrumado
nas para tornar o habitáculo bem Tendo em conta o exterior, espe-
insígnia da Lancia no futuro, mais luminoso e atenuar o efeito disso, a nota positiva tem que ser
rava-se mais do desenho interior
marcada pela elegância e conforto. A de clausura que os passageiros dada ao espaço que têm.
do Delta. A explicação talvez esteja
avaliar pela actual oferta, este carro do banco traseiro possam sentir. O motor turbodiesel de 1,6 litros
em restrições orçamentais, fazendo
ambiciona dar cartas no segmento Já o conjunto formado por toda a com 120cv serve na perfeição um
com que o habitáculo, não sendo
médio. A imagem fala por si: o zona envidraçada (os vidros das carro leve (pouco mais de 1400 qui-
banal, esteja ligeiramente abaixo
trabalho dos designers foi bem feito, portas do banco traseiro são los), com uma direcção fácil de
das expectativas. Reconhece-se, no
é incontornável. A sua personalidade escurecidos), desde o pára-brisas à domar. Não será para reviver o espí-
entanto, que a escolha dos mate-
e charme vêm ao de cima quando se tampa da mala, incluindo todo o rito desportivo do mítico Delta, mas
riais e os acabamentos foi feita com
escolhe um carro com uma cor tecto foi baptizado pela marca de chega para fazer o gostinho ao pé se
algum cuidado. Não sendo possível
clara, fazendo um contraste entre a Flying Bridge, uma espécie de assim se entender. Dadas as suas
perceber na imagem, há ali um
zona envidraçada e a de chapa. É ponte suspensa em vidro. características, afigura-se um motor
pequeno botão muito útil para a
quase como se se juntassem dois com um desempenho bastante equi-
condução em cidade e que mini-
conceitos de carro distintos: um librado. Por outro lado, esta motori-
miza as dimensões generosas do
mais normal até à linha de cintura zação tem a vantagem de ser poupa-
Delta (iguais às carrinhas do seg-
( já de si alta) e outro completamente dinha: se bem que é impossível con-
mento). Activado, faz com que a
em vidro, bem mais futurista, seguir os consumos oficiais (4,9
direcção se torne imediatamente
abarcando todas as janelas e o tecto. l/100 km), é perfeitamente normal
muito mais leve, permitindo mexer
Tem uma frente chamativa, atingir valores um litro acima para
mais facilmente o carro em sítios
proeminente, com a grelha em uma condução calma. Embora
quase impensáveis.
forma de cesto e faróis grandes, com sendo um bloco a gasóleo, está bem
insonorizado. A caixa de seis veloci-
dades é curta e certinha.
O tal caminho da nova Lancia
inclui também umas piscadelas de
olho à tecnologia. Não é de

Lancia Delta Platino 1.6 JTD 120cv

O regresso do sedutor
Diferente e único: a Lancia finalmente lançou um modelo
realmente novo e definiu um objectivo ambicioso. O Delta será o
ponto de partida para a renovação da marca. Maria Lopes,
que o experimentou, diz que a aposta no glamour e na distinção
tem quase tudo para ser ganha

Motores
46 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas
da segurança, o carimbo verde veio há
um mês do concórcio Euro NCAP, Ficha técnica Equipamento
com resultados bem interessantes: Mecânica Segurança
cinco estrelas para a protecção de Cilindrada 1598cc ABS Sim
adultos (elogiada até como brilhante), Potência 120cv às 4000 rpm Airbags frontais Sim
três estrelas para as crianças e duas Binário 300 Nm às 1500 rpm Airbags laterais Sim
para os peões. Cilindros 4 em linha Airbags de cortina Sim
Válvulas 16 Airbag de joelho para condutor
Alimentação turbodiesel de Opção (100 euros)
injecção directa por conduta Controlo de tracção Sim
Ligado ao mundo comum, turbo de geometria Programa Electrónico de
Depois dos CD, tomadas para MP3, variável e intercooler Estabilidade (ESP) Sim
bluetooth e etc., chegou a altura Tracção dianteira Vida a bordo
das ligações à internet móvel no Caixa manual, de 6 velocidades Vidros eléctricos Sim
próprio carro. Esta permite que se Suspensão Independente, do tipo Fecho central Sim
possa ligar dispositivos como um McPherson, à frente; eixo de torção Comando à distância Sim
PDA ou até um computador portá- atrás; amortecedores telescópicos e Direcção assistida Sim
til. Pode-se, por aqui, ligar equipa- barra estabilizadora à frente e atrás Retrovisores eléctricos Sim,
Espaçoso mento de navegação por GPS. Mas Direcção pinhão e cremalheira com rebatíveis
É um elogio curto, mas é o elogio assistência eléctrica Dual-drive Ar condicionado Sim,
o acesso está, aparentemente,
possível: os bancos podem não ser Travões discos ventilados à frente; automático bi-zona
reservado aos passageiros da
muito confortáveis, mas pelo discos atrás Abertura do depósito interior Não
frente, já que a ligação encontra-se
menos os engenheiros da Lancia Dimensões Abertura da mala interior Não
instalada no ponto de ligação da
souberam aproveitar bem a longa Comprimento 452 cm Bancos traseiros rebatíveis Sim
consola central ao tablier, à frente
distância entre eixos que o carro Largura 179,7 cm Jantes em liga leve Sim
da alavanca das mudanças. O sis-
tem. Os bancos traseiros têm um Altura 149,9 cm Rádio Sim, com CD
tema Blue&Me, com acesso ao tele-
assento grande, que sustentam as Peso 1410 kg Volante regulável em altura Sim
fone, tem activação com
pernas mesmo até aos joelhos, Pneus 225/45 R17 Volante regulável em
reconhecimento por voz.
ficando depois quase um palmo Capac. depósito 58 litros profundidade Sim
livre até às costas dos bancos da Capac. mala 380 litros Volante multifunções Opção (para
frente. Além de ter um (largo) apoio Prestações Blue&Me, 25 euros)
de braços reclinável, o banco tra- Velocidade máxima 194 km/h Computador de bordo Sim
seiro é praticamente um verda- Aceleração 0 a 100 km/h 10,7s Aviso transposição de faixa
deiro três lugares, para o que o Consumo misto 4,9 litros/100 km Opção (500 euros)
assento quase liso muito contribui. Emissões CO2 130 g/km Alarme Opção (300 euros)
Preço Bancos dianteiros eléctricos
30.300 euros Opção (com aquecimento,
(versão ensaiada 32.580 euros) 1500 euros)
*Dados do construtor Bancos dianteiros aquecidos
Opção (250 euros)
Estofos em pele Opção (1000 euros)
Tecto de abrir Sim, panorâmico
Barras no tejadilho Não
Navegação por GPS Opção (entre
550 e 1400 euros)
Telefone Bluetooth Sim
Telefone integrado Não
Regulador de velocidade Sim
Sensor de chuva Sim
Lava-faróis Opção (200 euros)
Sensor de luminosidade Sim
Sensor de parqueamento
Sim, traseiro
Sensor pressão de pneus
Opção (280 euros)
Faróis de xénon com AFS
Opção (600 euros)
Faróis de nevoeiro Sim, com
função de luz de berma

Fugas • Sábado 25 Outubro 2008 • 47


O carro de Novidades
Armindo Araújo
Porsche 911
Opel Insignia
Paixão por
desportivos A dança de véus
Para um piloto pro- O processo de lançamento do Insignia, o veículo do segmento
fissional, que passa
grande parte da sua D que é o símbolo da renovação da Opel, tem sido como
vida “cercado” por
automóveis, a esco-
uma dança de véus: pouco a pouco, vão-se revelando os seus
lha de um veículo
para uso diário pode não gerar
segredos. Agora foi a vez de João Palma o poder conduzir
grande entusiasmo. È esse o caso de
Armindo Araújo, actualmente a dis-
putar o Campeonato do Mundo de
Ralis de Produção, ao volante de um
Mitsubishi Lancer Evolution IX. “Já
liguei muito mais aos carros com
que ando”, confessa. Mas isso não o
impede de ser, sem surpresa, um
“adepto dos desportivos”.
O tetracampeão português de
ralis até costuma fazer uso do
mesmo carro que guia em competi-
ção, numa versão convencional.
Aliás, como piloto da marca nipó-
nica, Araújo tem tido ao seu dispor
viaturas de serviço, pelo que anda
“muito pouco” em carros particu-
lares.
Mas, antes de ser piloto oficial, o
portuense teve de abrir os cordões à
bolsa para satisfazer a sua paixão
por desportivos. O mítico Porsche
911, em produção desde 1964, foi o
que mais o marcou. “Já tive dois. É
um carro que, apesar de desportivo,
permite andar no dia-a-dia com bas- Poucos carros terão tido um lança-
tante comodidade”, observa. mento preparado com tanto cuidado Ficha técnica
Armindo Araújo adquiriu o seu pri- como o Opel Insignia. Em Janeiro,
meiro 911 (um cabriolet, de meados foi o sistema de iluminação que o Motorizações Veloc. Máx. Consumo Médio Emissões CO2 Preço
dos anos 1980) na sequência da carro vai estrear. Em Julho, a apre- 1.6 MT6 (115cv) 192 km/h 7,6 l/100km (gasolina) 179 g/km a definir
vitória no Troféu Saxo Rallye/Total, sentação estática e, neste Outubro, 1.8 MT6 (140cv) 207 km/h 7,8 l/100km (gasolina) 184 g/km a definir
em 2001: “O prémio foi um Citroën os ensaios dinâmicos. A quarta e 2.0 Turbo MT6 (220cv) 242 km/h 8,9 l/100km (gasolina) 208 g/km a definir
Saxo, e fiz um negócio com ele para última parte desta dança de véus 2.0 Turbo AT6 (220cv) 240 km/h 9,6 l/100km (gasolina) 225 g/km a definir
ter o Porsche”, refere. O segundo será o início da comercialização, em 2.0 CTDI MT6 (160cv) 218 km/h 5,8 l/100km (gasóleo) 154 g/km a definir*
Porsche 911 (versão 996 coupé) foi Fevereiro de 2009. 2.0 CTDI AT6 (160cv) 215 km/h 6,7 l/100km (gasóleo) 177 g/km a definir*
comprado a um amigo, ainda “semi- O Insignia estará à venda em Com sistema 4x4 adaptativo**
novo”. Portugal no próximo ano e os 2.0 Turbo MT6 (220cv) 240 km/h 9,2 l/100km (gasolina) 215 g/km a definir
Entre os dois modelos, o piloto contornos da oferta vão-se 2.0 Turbo AT6 (220cv) 237 km/h 9,8 l/100km (gasolina) 229 g/km a definir
notou grandes avanços em termos definindo. Dos sete motores que 2.8 Turb.V6 MT6 (260cv) 250 km/h 10,9 l/100km (gasolina) 256 g/km a definir
de “assistência à condução, poder podem equipá-lo, quatro a gasolina 2.8 Turb.V6 AT6 (260cv) 250 km/h 11,6 l/100km (gasolina) 272 g/km a definir
de travagem e acabamentos”, mas e três a gasóleo, devem ficar * Existem mais 2 versões do propulsor a gasóleo 2.0 com os mesmos consumos e emissões de CO2, mas
encontrou “os mesmos genes” e um excluídas à partida as versões menos com 110cv e 130cv de potência, que possivelmente não serão comercializadas em Portugal.
acentuado espírito estradista. “Fui potentes do 2.0 a gasóleo. É que, ** No futuro também estará disponível nos motores a gasóleo mais potentes
várias vezes do Porto a Lisboa ou ao com iguais cilindradas, consumos e MT6 – Caixa manual de 6 relações
Algarve no 911. Com a mala à frente emissões de CO2, a diferença de AT6 – Caixa automática de 6 relações
e o banco de trás rebatível, dava per- preços prevista entre 110cv ou
feitamente para duas pessoas irem 130cv e a versão de 160cv torna equipamento: Edition, Sport e iluminação dinâmica em curva.
de férias”, sublinha. esta de longe mais apetecível. Cosmo. Outra novidade é o Opel Eye, uma
Hoje, Armindo Araújo já não tem Comum a todas as motorizações é a O Opel Insignia apresenta em câmara dianteira que lê e memoriza
nenhum dos Porsche, e é imprová- caixa manual de 6 velocidades; os opção o novo sistema de Iluminação os sinais de trânsito e detecta se o
vel que volte à marca alemã tão mais potentes também podem ter Dianteira Adaptativa AFL+, que carro sai inadvertidamente da faixa
cedo, porque vai ter outro “brin- uma caixa automática de 6 relações. inclui luzes de condução diurna por de rodagem, avisando o condutor.
quedo” à disposição: o novíssimo Todos os motores cumprem com a LED, com faróis bixénon e nove fun- Ainda no capítulo da inovação, o
Mitsubishi Evolution. “É um carro norma Euro 5 e os a gasóleo têm ções: luz de máximos (diferente em Insignia dispõe de um sistema
extremamente eficaz e agressivo, em filtro de partículas. Está prevista estrada ou em cidade), sistema auxi- adaptativo da suspensão, FlexRide,
que estou a fazer os primeiros quiló- uma versão ecoFLEX do 2.0 diesel liar de luzes de máximos (comuta com três opções: Standard (normal),
metros, e penso que pode propor- de 160cv, com menores consumos e automaticamente de máximos para Tour (mais suave, para viagens
cionar bastante adrenalina”, prevê. emissões de CO2. médios e vice-versa em função do longas) e Sport.
João Pedro Barros No que toca a preços, embora tráfico), luz de cidade (abaixo dos Por fim, o Insignia pode ter um
ainda não estejam definidos, a Opel 50km/h), luz de área dos peões, luz sistema de tracção integral automá-
promete valores competitivos para de cruzamentos, luz de estrada tico, Adaptative 4x4, de momento
as duas variantes de carroçaria, com secundária (entre 50 km/h e 100 apenas disponível nas motorizações
dois e três volumes (está prevista km/h), luz de auto-estrada (acima turbo a gasolina e que mais tarde
também uma versão carrinha, dos 100 km/h), luz de mau tempo e também poderá equipar o 2.0, a
Sports Tourer) e três níveis de gasóleo, de 160cv. Este sistema, de
acordo com o modo de condução e
condições da estrada, regula e opti-
miza continuamente a distribuição
do binário às quatro rodas.

48 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas


Arrojo
Renault Laguna Coupé Na frente, o capot é
sobrelevado, nervurado
Tecnologia diferente para enfrentar a concorrência a meio, e os enormes
faróis (bi-xénon, de
série) são mais altos
Dois, três e quatro. São os números de gência, as rodas viram também até que o capot, como olhos
referência do novo Renault Laguna 3,5 graus e o sistema retarda a arregalados. A grelha
Coupé, ainda que não necessaria- entrada do Controlo de Estabilidade parece uma boca aberta
mente por esta ordem. A inovação para tornar as manobras de con- para engolir o asfalto. A
deste coupé é o chassis 4Control de torno de obstáculos mais suaves. linha do capot/tejadilho/
quatro rodas direccionais, estreada na Quatro. Ainda que importante – e bagageira é suave,
versão GT da berlina e da carrinha. se deva tirar o chapéu à marca fran- terminando num spoiler
Estará disponível de série nas versões cesa -, o 4Control sabe a pouco em aerodinâmico, “entalado”
GT do Coupé comercializadas em Por- termos de tecnologia num modelo entre duas enormes
tugal. O chassis 4Control permite uma que pertence ao topo de gama do ilhargas, e que serve
condução mais precisa, torna o carro construtor gaulês, e que vem con- de remate à minúscula
mais reactivo e ao mesmo tempo mais correr num segmento difícil. Os tampa da mala (a boca
seguro, pois facilita mantê-lo na trajec- equipamentos disponíveis de série é estreita, mas tem 423
tória correcta em caso de percalço. ou em opção são relativamente litros de capacidade). Os
Na condução em cidade e em banais, entre o GPS, Bluetooth, som faróis são minimalistas:
estradas sinuosas, permite uma con- Bose, MP3, sensor de estaciona- duas linhas vermelhas
dução mais dinâmica e vivaça, como mento ou acesso sem chave. Terá com um palmo de altura
se fosse muito leve, e fica mais que se bater com rivais de peso Ficha técnica e mais de meio metro de
manobrável (tem um baixo ângulo como o VW Passat CC, Audi A5, Peu- comprimento, rasgando
de viragem). Rolando até 60 km/h, geot 407 Coupé, Mercedes CLK Motor Veloc. máxima Consumo médio EmissõesCO2 Preço quase toda a traseira.
as rodas traseiras viram no sentido Coupé e o BMW série 3 Coupé. 2.0 T 16v (205cv) 232 km/h 8,2 l/100 km 194g/km 37.000 euros * O interior é confortável,
oposto às do trem dianteiro, com um O Laguna Coupé mede 464,3cm 2.0 dCi (150cv) 210 km/h 6,0 l/100 km 157g/km 39.400 euros com bom espaço para os
ângulo máximo de 3,5 graus, facili- (menos 5 cm do que a berlina) de 2.0 dCi GT (180cv) 222 km/h 6,5 l/100 km 172g/km 45.000 euros quatro passageiros. Há
tando as manobras. comprimento, 181,1 cm de largura * (41.500 euros para o GT) embutidos de alumínio
Acima dos 60 km/h, as quatro (igual), e tem 140 cm de altura (é escovado, estofos em
rodas viram na mesma direcção e mais baixo 4 cm). Os 1428 quilos em outros mercados ficando, pelo versões GT (41.500 euros). Usa um couro, poucos plásticos
em simultâneo, optimizando a esta- tornam-no 15 quilos mais pesado do menos para já, reservada aos 2,0 turbo que ajuda a reduzir os tempos mas com bom toque. O
bilidade – quase como se se tratasse que a berlina, aumento que se litros. de resposta – acelera dos 0 aos 100 bom gosto do design
de um automóvel sobre carris – a explica, por exemplo, pelas altera- Três. A escolha a gasolina limita-se km/h em 7,8s, faz 232 km/h. Custa exterior também lavrou o
imagem é da própria Renault. Por ções introduzidas na transmissão, ao 2.0 Turbo, com 205cv e 300 Nm 37 mil euros e é a versão de entrada. habitáculo.
outro lado, em situações de emer- entre outros retoques. de binário, unidade optimizada para Nos diesel, existem os 2.0 dCi de
Dois. A gama de motores disponí- o chassis 4Control que equipa as 150cv ( 340 Nm) e 180cv, na versão
veis em Portugal, a partir de 15 de GT (400 Nm). Maria Lopes
Novembro, será mais curta do que

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Fugas • Sábado 25 Outubro 2008 • 49


Check out

Quando um “terroir” vale mais


do que uma urbanização
vinte anos, custou-me a crer que melhores enólogos não conseguem
José Manuel Fernandes
estivesse na morada certa. Não há extrair das uvas a mesma excelência.
Châteaux Haut- vinhas no meio das cidades – ou eu É assim em Haut-Brion, é assim
Brion. O nome julgava que já não havia vinhas que em Ausone, um dos dois vinhos de
talvez seja menos tivessem conseguido resistir à excepção da zona de Saint-Émilion,
conhecido do que o voragem do imobiliário. Estava cujas caves visitei alguns anos
de alguns dos outros enganado. Em Bordéus o “terroir” depois, é seguramente assim em
grandes nomes da de um grande vinho é muito mais todas propriedades da região de
região de Bordéus. Um Petrus, um valioso no curto, médio e Bordéus onde o prestígio de uma
Margaux ou um Mouton Rothschild longuíssimo prazo que a melhor das marca não se construiu nas últimas
talvez sejam mais conhecidos do urbanizações. E é o caso da meia décadas mas se consolidou ao longo
grande público, mas a verdade é que dúzia de hectares onde se produz o Vindo se um país onde, de séculos.
a vistosa propriedade onde que se Châteaux Haut-Brion. na década de 1980, ainda Vindo se um país onde, na década
cultivam, desde 1423, as vinhas Não deverá haver muitos outros se acreditava produzir os de 1980, ainda se acreditava
deste “Premier Grand Cru Classé” locais onde a noção de lugar único melhores e mais baratos produzir os melhores e mais baratos
tem a mais improvável das associado a um pequeno pedaço de vinhos do planeta, terra onde ainda
localizações, pois estão rodeadas terra tenha sido elevado à grandeza
vinhos do planeta, o eram raros os que tentavam seguir
pelas urbanizações da capital da quase mística do “terroir” de um penetrar no mundo pelos trilhos abertos por Fernando
Gironde, bem dentro de um anel grande vinho como em Bordéus. Até grandioso daquele Nicolau de Almeida e o seu “Barca
rodoviário que poderíamos pelo seu carácter quase impossível Châteaux foi mais do que Velha”, o penetrar no mundo
comparar com a CRIL, em Lisboa. de definir: o “terroir” é muito mais uma revelação: foi uma grandioso daquele Châteaux foi mais
Quando lá cheguei, já lá vão quase do que uma área com solo do que uma revelação: foi uma
particular, é também a forma como
verdadeira iniciação verdadeira iniciação. Não que a
esse solo potencia a maturação das minha guia tenha aberto qualquer
vinhas ou a sua exposição ao sol e garrafa preciosa, “pronta a beber e a
aos ventos dominantes. Uma desfrutar”, mas porque me levou a
centena de metros para Este ou para testar as provas de barrica,
Oeste já não é a mesma coisa, já os ensinando-me – ou procurando
ensinar-me... – como se podia
perceber o potencial daqueles
mostos densos, opacos, ainda muito
agressivos ao passarem o teste do
nariz e da boca.
Era ainda demasiado imberbe e
inculto (e continuo a ser) para tirar
PATRICK BERNARD/AFP
todo o partido daquela
oportunidade, mas quando anos
mais tarde pude provar, já
arredondados pelo tempo, alguns
destes grandes vinhos, só lamento
não ter podido, na altura, comprar
uma das muitas caixas da colheita de
1982 que, por causa da crise nos
Estados Unidos, tinham ficado na
adega. É que hoje é uma das
colheitas míticas da velha casa que
não se consegue comprar por menos
de uns mil euros a garrafa, e quem o
tem bebido ultimamente diz estar no
ponto.
Enfim, com um “terroir” capaz de
fazer nascer pérolas como esta, até o
mais lusitano dos “pato-bravo” era
capaz de ir tirar um curso de
enologia...

Vindima em Haut-Brion

50 • Sábado 25 Outubro 2008 • Fugas

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