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AVISO DO ROMANCE:

Abro uma frente contra o individualismo liberal, que reduz


tudo o que envolve a Humanidade à mera economia, e contra o
totalitarismo que faz desaparecer o individuo dentro da
máquina absorbente do Estado e da Religião, proclamo que
somente numa sociedade com vida própria pode desenvolver-
se a liberdade concreta a que a humanidade tem direito. O
moto “Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est”
(“Igreja Reformada e sempre reformando-se”) continua
vigente. Quero reforçar a sociedade como travão ao Estado e à
Religião, a fim de proteger e promover a liberdade do
Indivíduo. Corresponde ao Estado a função de coordenador
político, para manter a unidade teológica e orgánica do corpo
social, dirigindo, vigiando e impulsionando a vida colectiva.
Through the grace of our Lord YAOHÚSHUA (Jesus), the love
of G-d, and the communion of the ‘Rukha Hol-Hodshúa (Holy
Spirit), I trust in the one triune G-d (YÁOHU ULHÍM), the
Shúam (Name), the Holy One of Yaoshorúl (Israel), whom
alone I worship and serve
(http://gamc.pcusa.org/ministries/pda/).
God comes to us in free and undeserved favor in the person of
YAOHÚSHUA who lived, died, and rose for us that we might
belong to G-d and serve Mehushkhay (Christ) in the world.
Following YAOHÚSHUA, Presbyterians are engaged in the
world and in seeking thoughtful solutions to the challenges of
our time.
Presbyterians affirm that G-d comes to us with grace and love
in the person of YAOHÚSHUA, who lived, died, and rose for
us so that we might have eternal and abundant life in him. As
Mehushkhay’s (Christ’s) disciples, called to ministry in his
name, we seek to continue his mission of teaching the truth,
feeding the hungry, healing the broken, and welcoming
strangers. G-d sends the ‘Rukha Hol-Hodshúa (Holy Spirit) to
dwell within us, giving us the energy, intelligence, imagination,
and love to be Mehushkhay’s (Christ’s) faithful disciples in the
world.

More than two million people call the Presbyterian Church,


http://www.pcusa.org/, (in the U.S.A.) their spiritual home.
Worshipping in 10,000 Presbyterian congregations throughout
the United States (also in other countries and cities like the
city of Braga, Portugal [NOT DIRECTLY CONNECTED BUT
INSPIRED BY]: Apresento-vos, amados santos
(consagrados) do D-us Ela-Ele/Ele-Ela Eterno, formalmente a
MINHA AMADA IGREJA/OHOLYÁO/CONGREGAÇÃO
OFICIAL, no meu
magnífico site/sítio: http://www.wix.com/ViktorMoreno/convit
eavalsa: IGREJA BAPTISTA (PRESBITERANA)
PENTECOSTAL – Vias Prebendas dignas duma lauda ou de
um asteísmo: Rua de S. Martinho, 9 / Rua Manuel Álvares, 9,
Braga; Horários: Terça: 20:30/21:00 (Verão: 21:00); Sábado:
19:00 hrs (Abaixo dos Bombeiros Municipais; em frente da
gasolineira “BP” – Sapadores) C.P./Cidade: 4700 Braga;
Telemóvel oficial do Pastor: 964 803 540, “ESCRITURAS
OFICIAIS”: http://verdadesquelibertam.wordpress.com/as-
escrituras-na-versao-yaohushua-clique-aqui/), they engage the
communities in which they live and serve with G-d’s love.
"O Homem que casou com uma Alma do outro Mundo"
OS BAILUNDOS - KALUMBONJAMBONJA" – TOMO III

KALUMBONJAMBONJA
(O HOMEM QUE CASOU COM UMA ALMA DO OUTRO MUNDO)
ROMANCE – AUTOBIOGRÁFICO
ANGOLA
OS BAILUNDOS
(AS SUAS ORIGENS, AS SUAS TRADIÇÕES E A CULTURA CRISTÃ, OS SEUS BELOS
MITOS E "EXQUISITAS" SUPERSTIÇÕES, OS SEUS PECADOS/CRIMES,
PADECIMENTOS COM AS GUERRAS E A CHEGADA DO EVANGELHO
INTERPRETADO PELA TRADIÇÃO REFORMADA E EVANGELICAL; INCLUI
ALGUMAS PASSAGENS DO MAGISTÉRIO CATÓLICO – A SUA PRESENÇA
MISSIONÁRIA NUM CONTEXTO SINCRÉTICO E A SOLO)
TOMO III
ARMANDO RIBEIRO SIMÕES
(O autor é um cristão reformado metodista que congrega na Igreja Evangélica Metodista de
Braga e congrega como colaborador activo na Igreja Baptista (Presbiterana) Pentecostal
(Regeneração Monergística) de Braga)

Trabalharam como revisores deste trabalho de autor:


José Júlio Vieira Fernandes (Encontra-se já na Intimidade [Seio] da Deidade. E no seu Seio
está a ver-nos; vide info adicional: Diácono José Júlio Vieira Fernandes)
(Ex-Diácono da Igreja Evangélica Metodista de Braga)
Braga, 26 de Fevereiro de 2.009 AD
Luís Manuel da Silva Magalhães
(Élder [Ancião de orientação Baptista Particular e calvinista] congregante da Igreja Baptista
Pentecostal (dependente da Regeneração Monergística) de Braga)
Braga, 12 de Maio de 2.010 AD

TOMO III: Começamos com o capítulo: "O MODO DE VIVER DOS BAILUNDOS ANTES
DOS BRANCOS CHEGAREM A ESTA ZONA DE ANGOLA" (Esta é uma continuação de
http://www.scribd.com/magcalcauvin/shelf; NB: Pode aceder aos outros excelentes e notáveis
volumes: Tomo I e II em http://www.scribd.com/doc/34716696/KALUMBONJAMBONJA-
TOMO-1; para o tomo II é favor aceder a uma viagem mística em crescendo:
http://www.scribd.com/doc/35712838/KALUMBONJAMBONJA-TOMO-II)

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TOMO III: "Conheci um fumbelo (empresário/comerciante) que viveu até ao meu tempo, que
me contou que certa ocasião organizou uma grande caravana a fim de transportar
mercadorias da região de Nganguela para Benguela. No regresso a caravana trazia muita
carga de fardos de panos, angoretas, barris de pólvora e armas de fogo. No segundo dia de
viagem de Benguela para Nganguela chegaram a um acampamento antigo, e como era lugar
geralmente habitado por leões, fortificaram ainda mais o campo, construindo cercas de paus
grandes à volta das palhotas. Durante a noite ouviram ao longe o rugir do leão, e para o
afugentar começaram a fazer muito ruído com o que pudessem, batendo nas panelas e
queimando farrapos, mas, sem de todo se aperceberem, já uma leoa estava perto do
acampamento. Durante a noite foram ouvindo os rugidos, e tal como se fosse um sinal dos
animais entre si, a leoa saltou a cerca, entrou no acampamento, e tomando um irmão do
fumbelo atirou-o para fora do cercado, ferrado pela nuca e arrastado por entre a escuridão da
noite. Já de manhã, muito cedo, o fumbelo disse aos seus carregadores: - "Se vocês quiserem
seguir viagem podem fazê-lo, porém eu só o farei depois de ver o local onde o meu irmão foi
devorado. Armou o seu canhangulo (arma defensiva) com algumas cargas e seguiu o rasto do
irmão, que entravam pela mata fechada. Continuou sem desalentar, e às tantas lá viu, pelas
pegadas, que o animal com a sua presa havia saltado um precipício e tinha-se dirigido a um
morro. Quando ali chegou, encontrou uma caverna onde estavam os sinais da leoa e os restos
do seu irmão. Entrou na caverna onde encontrou quatro filhotes da fera e parte do corpo do
seu irmão, mas o animal não estava lá; provavelmente tinha ido à caça. Tirou o seu
machadinho da cinta e matou as quatro crias da leoa. Depois foi em busca de ramos de
árvores com os quais tapou a entrada da caverna, ficando ele dentro esperando pelos leões.
Logo que eles apareceram, logo disso se apercebeu com os seus rugidos. Preparou-se para os
defrontar, e logo que a fêmea começou a desimpedir a entrada, o fumbelo disse: - "Já que
mataste o meu irmão, também te vou liquidar." - Disparou o canhangulo, acertando na testa
da leoa, que logo caiu morta. O macho vendo a fêmea estendida no chão lançou-se para dentro
da caverna mas, ao tentar puxar os ramos também apanhou um tiro no peito, morrendo. O
negociante ainda esperou mais algum tempo para ver se haveria mais algum outro animal,
mas estava tudo calmo, nenhum mais apareceu.

Saiu da caverna chorando pela morte do irmão onde o deixou abandonado. cortou as duas
caudas do leão e levou-as para o acampamento, onde o esperavam os outros, e onde foi
recebido em apoteose.

As pessoas desta região efectuavam muitas destas viagens do Moxico para Benguela. Os
caminhos estavam sempre cheios de homens e mulheres. Quando chegavam a Benguela
acampavam ao ar livre, em virtude de não haver muitos materiais para fazer as palhotas,
onde permaneciam por algum tempo. Ali comiam e bebiam, plenos de satisfação por terem
chegado ao local onde podiam tratar dos seu negócios.

Durante a noite iam para um lugar especialmente escolhido onde dançavam uma dança
chamada ombenguela, que ainda hoje se dança. É do nome desta dança que se originou a
palavra Benguela. Depois vendiam as suas mercadorias que levavam do Moxico, mas o
negócio mais lucrativo era o tráfico de escravos.

Entre os bailundos os tios, do lado materno, tinham mais poder sobre os seus sobrinhos que os
seus próprios pais. Se um filho fosse rebelde ou praticasse maus actos, como o de raptar ou
violar mulheres alheias, o seu tio materno propunha aos pais a sua venda como escravo.
Assim, quando se preparassem para mais uma viagem de negócios a Benguela, o rebelde era
convidado para carregar a carga dum fumbelo qualquer, mas muito longe de suspeitar do seu
destino. Tratavam-no com todo o cuidado e carinho. No dia de regressar ao Bailundo, iam à
loja onde propunham o negócio da venda do moço. Selado o negócio, o rapaz era levado
àquela loja, onde, sem o saber, era mostrado ao negociante com gestos apenas de olhos. Em
seguida o branco mandava-o ao seu quintal em busca de alguma coisa onde ficava preso e
escravo. Depois o preço era estipulado em função da idade do jovem. A título de exemplo, um
rapaz com a idade entre os vinte e os vinte e cinco anos era muito oneroso e, geralmente, os
vendedores recebiam por ele cinco fardos de peças de pano, cinco armas, quatro ancoretas
com aguardente, dois barris de pólvora e outras coisas mais.
No fim do negócio voltavam ao acampamento, comiam qualquer coisa; depois, com as suas
bagagens, faziam o regresso, passando por o Lobito, antes conhecido por Upito, que significa
passaagem, que mais tarde foi aportuguesado para Lobito.

Estas viagens eram constantes e, como tal, era usual, ver as pessoas que iam e as outras que
voltavam.

Quando regressavam a Benguela, por vezes sofriam ciladas da tribo dos Quissangue
constituída por grandes salteadores, caluniadores e intriguistas. Era muito frequente, quando
as caravanas passavam, um homem ou uma mulher ficarem junto ao caminho,
completamente nus, com metade de excremento no ânus, fingindo-se de morto. Quando quem
viajava passava junto daquela pessoa exclamava: - "Está alguém aqui morto!" - O "morto"
ou "morta" então despertava e dizia: - "Como é, vocês dizem que eu estava morto, se apenas
estou a descansar" - Depois levantava-se e corria para se queixar ao soba (líder operativo) da
região, que organizava um grande contigente de homens armados para atacar os viajantes
bailundos e os despojar de tudo o que transportassem.

Outras vezes estas ciladas eram feitas com com uma pasta abandonada no caminho. Quando a
caravana ali passava e alguém pegasse nela, aparecia de imediato, um quissangue, e dizia que
tinha deixado ali a pasta com muito dinheiro. Isto era o suficiente para que estes viajantes
ficassem despojados dos seus bens. Outras vezes os quissangues ficavam escondidos na
floresta, e quando a caravana passava atacavam o último carregador e, assim que este caia, o
salteador pegava no ekupa (fardo de panos) e desaparecia com ela na mata. Houve vezes, e
não poucas, que os bailundos travaram lutas renhidas contra os quissangues. Os perigos
estavam sempre à espreita, pois assim que deixavam a área de Quissangue entravam na zona
dos leões, sobretudo na área de Louduimbali, ou Luimbale para os portugueses, a sessenta e
cinco quilómetros do Bailundo.

Quando chegavam aos quimbos, uma parte das mercadorias eram guardadas nos celeiros,
enquanto que o restante era levado para o Moxico, onde adquiriam mais mercadorias que,
mais tarde, eram levadas para Benguela, que naquela época se chamava Mbaka. Estas
viagens eram o pão de cada dia para os bailundos. era raro haver uma conversa em que não se
referissem a Mbaka ou Nganguela, que é o Moxico. Inclusivamente havia algumas adivinhas,
tais como: "Okanjo kanje kobela vo Nganguela!" - Quem souber decifrar responderá: -
"Esala." - Cuja tradução é: "A minha casinha branca no Nganguela o que é? É o ovo.

"Nda pika iputa pike, nda enda vo Nganguela, siti ndi tiuka omo votokela!" - E alguém
responde: "Olondungo." - Tradução: "Fiz pirão bem feito, fui a Nganguela, e quando voltei o
mesmo pirão ainda continuava quente. É o gindungo (espécie de pimenta, muito picante, ou
piri-piri). [N.B.: Vamos agora mudar de narração já a seguir:]

Na Missão Evangélica (N.B.: esta Missão tinha um lema baseado na Confissão Belga, que
postula: a Igreja verdadeira tem três marcas ao menos: uma doutrina sólida, a correcta
ministração dos sacramentos e o imperativo da disciplina) do Bailundo havia em tempos um
professor da aldeia chamado Damasco Chango. Certo dia este docente foi visto a namorar
(violando o código deontológico da docência e da Missão evangelical) e de forma imprópria
(feriu a ética cristã) com uma rapariga, sendo por isto expulso do quimbo.

Não satisfeito, o referido professor requereu para ser professor do estado. O pedido lhe foi
deferido mas, para o seu pesar inicial, foi colocado na mesma aldeia, visto que de momento o
governo português havia decidido estender o sistema de ensino aos indígenas. Mas este
docente decidiu logo não seguir a mesma senda nocente. O que entendo como uma decisão
sábia; já, com muita dor e espanto, considero a acção operativa do estado como imprudente
ao permitir que ele continue a lecionar. Mas adiante. Ele como professor do estado era bem
pago e, como tal, comprou uma moto, vivia bem e nada lhe faltava. Assim todos diziam: - "U
wa lilogisa wa ssoka lacindele. Eci u lula osapato, ko Mbaka kutunda asikasa colosapato" -
Tradução: "O instruído é como um branco; se alguém o descalçar, de Mbaka virá uma grande
caixa de sapatos".

Com a chegada do Evangelho aos bailundos, os onjangos foram subvertidos, transformando-


se a partir daí em cozinhas. Recorde-se que no passado os onjangos eram uma "instituição"
onde se reunia muita gente que aprendia muita coisa sobre os seus antepassados bem como
outros conhecimentos necessários à sobrevivência da comunidade. Entre os bailundos, na
sociedade tradicional, as mulheres são as responsáveis pela cozinha. Devido ao dote, a mulher
casada é submetida a uma grande pressão: trabalha mais que o homem, sobretudo em
actividades que exigem grande esforço físico. Nas lavras, depois do trabalho, e mesmo com o
marido ao lado, ela é obrigada a transportar à cabeça uma quinda grande cheia de milho,
batata-doce, folhas de mandioqueira, lenha para o fogão e outras coisas mais. E como se não
bastasse, uma criança às costas. O marido deixa, normalmente, a lavra quase de mãos vazias.

Uma vez vi uma criança já crescida a mamar e perguntei-lhe porque, com a idade que tinha,
ainda mamava. Então respondeu-me: - "Estou a mamar graças ao dinheiro de meu pai." -
Isto ilustra como as crianças já sabem que para se ter uma mulher é necessário comprá-la.

Mesmo em casa, quando voltam da lavra (do trabalho) a mulher continua a trabalhar.
Enquanto o marido se senta a comer a mandioca e a descansar, ela vai ao rio buscar água e
descasca o milho no almofariz. Depois tira-lhe o farelo, lava-o, e o põe numa grande panela de
barro que repousa junto ao lume. Por fim varre a cozinha, lava a loiça e começa a preparar a
ceia. Põe no lume a panela, e quando a água começa a ferver deita a fubá dentro da panela,
pega no luiko (colher de pau comprida) e mexe e remexe o pirão, devido a esta diversidade de
tarefas, entre os bailundos, é usual ironizar-se que, logo que a mulher faz pirão ouve-se o
ruído de luiko: - "Epata kundu, epata kundu, epata kundu." - Tradução: "Liquidarei a
família, liquidarei a família." Num canto, a filha, com doze anos de idade, mais ou menos, na
gamela amassa o gindungo e tendo na mão a ponta de um outro luiko responde: - "Tulikua,
tulikua, epata kundu, epata kundu." - Tradução: "Seguirei o teu exemplo, mãe, quando casar
também liquidarei a família".

Feito o pirão, a mulher tira a panela do fogo e o distribui pelos pratos ou em pequenas
quindas, utilizando o ochito, um utensílio semelhante a uma concha. Mete o ochito na panela,
enche-o de pirão que depois despeja no prato, mete-o na água para alisar o pirão, e por cima
põe mais um ochito cheio de pirão, e assim sucessivamente. Ao chefe da família cabe-lhe três
ou quatro ochitos generosos, pois cada membro da família ordinária tem o seu número
correspondente de ochitos. O conduto não se distribui com o ochito. Comem todos do mesmo
recipiente na cozinha sem mesa e sem colheres.

O ajuntamento familiar compõe-se, geralmente de três cubatas: o dormitório, ao lado deste


fica a tulha, ou celeiro, uma pequena cubata construída por cima das forquilhas; a terceira
cubata é a cozinha que também serve de sala de estar, refeitório e sala para os serões, e que
agora também funciona como onjango.

O lume é armado no centro da cozinha, com três ou quatro pedras, que têm o nome de atea,
estas pedras servem para susterem as panelas por cima das chamas. Geralmente repousam na
cozinha outros utensílios como sejam as panelas, pratos, recipientes de barro para uma bebida
chamada chissangua, quindas, almofarizes e vários bancos.

Depois da ceia, junta-se muita gente na cozinha, especialmente jovens, para fazerem serões
que, por vezes, se prolongam para lá da meia-noite; o que outrora era feito nos onjangos
passou a ser feito aí, tal como a narração da história dos antepassados, contos de fábulas,
jogos e outras distracções.

Os serões em nossa casa passavam-se na cozinha do nosso cozinheiro para onde diariamente
nos dirigiamos à noite. Sentávamo-nos em redor do lume e ele contava-nos tudo o que sabia.
Ele tinha assistido à chegada dos primeiros missionários ao Bailundo, e também havia ido,
várias vezes, a Benguela vender borracha e escravos.

Numa noite ele resolveu falar-nos da sua vida:

- "O meu pai foi morto por uma alma do outro mundo!" - Tossiu e cuspiu na cinza do lume.
"Mas antes disto", prosseguiu, "assistiu-se à morte de todos os meus irmãos. Por isso, ao
nascer, e para não morrer, foi-me dado o nome muito feio de Chifuanda, a fim de desencorajar
os cazumbis a me eliminarem. E cresci assim. Mas quando tinha mais ou menos quinze anos
de idade morreu a minha mãe. Fiquei só eu e o meu pai. Tempos depois o meu pai conheceu
uma mulher muito nova, que havia ficado viúva poucos meses após o casamento. Quando o
meu pai a pretendeu para casamento foi fortemente desaconselhado de o fazer por muita
gente, que alegavam que aquela mulher, de nome Nangueve, fora oki lambi wa (pessoa
perseguida por uma alma do outro mundo). Mas o meu pai gostava muito dela e não havia
razões para menos, pois ela era uma mulher de muita beleza. De modos que, disse, depois do
casamento iria ter com o kimbandeiro (curandeiro ou feiticeiro) a fim de escorraçar a alma
que a tem perseguido.

O meu pai preparou-se para o casamento que foi realizado no dia marcado conforme
mandava a Tradição. Nesse mesmo dia, o meu pai teve de deixar a esposa em casa para ir
enxotar os periquitos que às tardes e manhãs bem cedo comiam o milho fresco da sua lavra.
Ao chegar à lavra encontrou grandes bandos destes pássaros e se pôs a enxotá-los dizendo em
altos brados: - "Ho! Ho! Ho!"

Os periquitos levantavam-se em bandos do milheiral e fugiam. Quando o meu pai gritava um


outro homem abaixo da lavra o imitava. O meu pai não se incomodou e continuou a espantar
as aves, julgando estar a ouvir o eco que vinha de outra lavra, a sul.

Quando escureceu, os periquitos deixaram de comer o milho, e o meu pai pôs-se a partir
algumas maçarocas para a ceia no ochipundo (palhota das lavras) onde iria dormir, para no
dia seguinte continuar com a tarefa. No entanto, quando partia as maçarocas, alguém também
fazia o mesmo. Ele, pensando que fosse um ladrão, dirigiu-se para o local donde vimha o
ruído e encontrou alguém a cortar os milheiros com uma faca, sem no entanto ver a pessoa
que o fazia. O meu pai não compreendia aquele estranho fenómeno. Ao chegar ao ochipundo
acendeu a fogueira e pôs-se a assar as maçarocas que tinha consigo arrumando-as à volta da
fogueira. Quando uma delas ficava pronta comi-a grão a grão. De repente apareceu um
homem alto e forte, vestido com um pano preto da cinta aos pés. Vestia também um casaco
preto e um grande chapéu na cabeça. Pôs-se à porta do ochipundo, com um onjambi
(maçarocas de milho em molho) numa mão, e na outra um molho de folhas frescas para fazer
a cama. O meu pai apanhou um grande susto. O estranho pediu permissão para entrar, e
quando o fez espalhou no chão as folhas, e depois de se ter sentado num pequeno tronco que
ali estava disse: - "Eu venho de Ulindi e vou para Kalilongue, mas fez-se tarde, e quando o sol
se escondia vi o fumo a sair deste ochipundo e então resolvi vir até aqui para passarmos junto
a noite".
Dito isto, pegou no seu onjambi, tirando de lá uma espiga de milho que se pôs a assar. Na
altura era já noite profunda. O meu pai não se sentia à vontade, pois o homem metia-lhe
muito medo.
Depois de ter assado e comido todas as espigas, arrumou as folhas num canto do ochipundo e
disse que tinha de deitar-se cedo para poder madrugar e prosseguir com a sua viagem. O
homem fez a cama, tomou o pano para se cobrir e deitou-se. O meu pai continuava ao lado do
fogo a aquecer-se. De repente o estranho começou a ressonar. Momentos depois, meu pai,
estarrecido de medo, mal podia conter o seu espanto ao ver o homem que ressonava ao seu
lado transformar-se em esqueleto no seu leito, com a caveira a mover-se para a frente e para
trás. Meu pai continuava cada vez mais assustado, e a imagem tornava-se mais clara com a
luz provocada pelas labaredas de fogo. Foi então que gritou cheio de medo: - "A Tate we, nye
ndimola ndeti?" - Tradução: "Ó meu pai, que é isto que estou a ver?" - Os bailundos, quando
se deparam com algum perigo sempre evocam os seus pais.
Este grito fez despertar o homem que lhe disse com um ar muito severo:
- "É um mau costume incomodar alguém que dorme em paz; dorme tu também", ordenou.
Meu pai que tinha ficado sem sono, teve de fazer tudo por tudo para adormecer. Arrumou as
suas folhas no chão e dormiu de cara virada para trás, com a fogueira entre os dois. De
repente volta a ouvir o homem a ressonar. O meu pai queria aproveitar esta oportunidade
para abrir um buraco no ochipundo e fugir; pensava nisto quando o homem voltou a acordar
e disse:
- "Nem penses em fugir! Dorme!"
O meu pai embora sem sono, meteu-se de novo na cama e pensou: "Que homem é este que
chega a descobrir os meus pensamentos? Certamente que deve ser o ex-marido de Nangueve,
pois me tinham aconselhado a que não me casasse com ela, para não ser perseguido por ele".
Mais uma vez o pensamento do meu pai fez despertar o estranho homem, que exclamou: - "Se
tu sabes que eu sou o marido de Nangueve porque te casaste com ela? Na verdade ela me
pertence até eu resolver os problemas que tenho com ela. Por saberes quem eu sou, e pelo teu
atrevimento, vou matar-te".
Quando o estranho quis levantar-se para liquidar o meu genitor, ouviu-se uma voz vinda de
fora do ochipundo, na escuridão da noite:
- "Ó Sachilombo, deixa em paz o meu irmão Lutukuta. Ele não casou com a Nangueve de
graça. Ele gastou muito dinheiro com ela".
Entretanto o estranho começou a perseguir meu pai transformando-se em remoinho de vento
com o intuito de o matar. No entanto, fora do ochipundo estavam os irmãos do meu genitor
que já haviam falecido e, também sob a forma de remoinhos de vento, puseram-se no encalço
do homem e o retiveram. o meu pai a correr viu que havia sido detido.
Já não havia remoinho algum. O meu pai correu até à sua casa onde chegou muito cansado e
quase fora de si. Nangueve notou que o marido estava mal e, por isso, pensou que algo de
muito grave tinha acontecido na lavra. Mas ele nada de estranho lhe contou.
Quando amanheceu, Nangueve dirigiu-se à lavra para saber o que na verdade se havia
passado. Ao chegar encontrou o ochipundo quase destruído. Tinha uma abertura nas
traseiras, tinha a porta aberta, e viu a arma do marido no chão. Tomou-a e levou-a para casa.
Depois voltou a perguntar ao marido o que se havia passado. Meu pai, que gostava muito
dela, não lhe disse nada do acontecido por temer que ele se fosse embora. Nesse dia ele já não
foi afugentar os periquitos. Ficou em casa o dia todo.
À meia-noite desse dia, os lobos invadiram o curral dos porcos levando um consigo. O meu
genitor, quando se apercebeu, tomou a sua arma e disparou contra os lobos, mas quando o
fazia os lobos riam-se dele. Apesar disso ele continuou a disparar a arma, carregava-a e
voltava a disparar. Mas os lobos em nada se amedrontavam e continuavam a rir-se dele. Mais
tarde um dos lobos falou e disse:
– Não gastes a tua pólvora em vão!
Deixou então de disparar, e deu-se conta de que não se tratava de lobos mas sim dos
cazumbis do antigo marido de Nangueve e seus irmãos. Ao amanhecer o meu Pai
seguiu o trilho por onde os lobos tinham passado com o seu porco, e foi ter a uma cova
de um onjimbo num cemitério muito antigo.
[Onjimbo – Conhecido por “porco da terra”, mas vários dicionários chamam-no de
“orieterope”. Em relação a este animal, convém esclarecer que ele vive nos buracos que ele
próprio cava com as suas afiadas unhas. Cada buraco deve ter cerca de meio metro de
diâmetro e vinte a trinta metros de profundidade. Não se alimenta de vegetais mas de
formigas, salalé e outros bichos que se encontram em baixo da terra. Para os matar é costume
fazer-lhes uma emboscada junto da entrada da toca onde vive, pois só costuma sair dela por
volta da meia noite. Dizem que pouco antes de sair, ouve-se um grande ruído dentro do
buraco, e saem muitas borboletas e outros insectos. Algum tempo depois saem seres do
tamanho de crianças com esteiras na cabeça. Estes seres, costuma dizer-se, são as almas das
crianças.
Antigamente o onjimbo não aparecia muito, mas agora multiplicaram-se e aparecem várias
vezes. Este bicho gosta muito de cavar as sepulturas nos cemitérios, tirando para fora os ossos
que ali se encontram.
Os onjimbos têm caudas muito grossas. Se alguém matar um deles é obrigado a levar a cauda
ao soba. Os seus excrementos são difíceis de encontrar e valem muito dinheiro, pois são
utilizados em feitiçarias de roubos, que faz com que vítima caia num sono muito profundo a
ponto de não dar pela presença dos ladrões. Basta queimar parte destes excrementos junto da
janela ou da porta, para que a pessoa a ser roubada durma profundamente, conforme uma
ocasião presenciei, a ponto de tirarem o dormente da cama para o chão para lhe tirarem os
lençois.
Dizem que cada buraco de onjimbo dá acesso ao outro mundo, o das almas penadas]. O
cemitério era tão antigo que quase se não via nenhuma outra campa. Apenas se viam pedras
grandes e árvores. Foi então aí, num esconderijo de onjimbo, onde os lobos esconderam o
porco. Isto intrigou de tal maneira o meu Pai, pois ele sabia que os lobos vivem em cavernas e
não nas tocas dos onjimbos. Depois subiu a uma árvore onde fez um assento com paus,
chamado utala. Quando dse fez noite, pegou na sua arma, foi até à sua utala e sentou-se à
espera que os lobos saíssem para os matar um por um. Era noite de lua cheia.
De repente, o meu Pai viu uma rapariguinha sair do buraco com um pau onde ela batia ao
mesmo tempo que gritava:
– Mã, mã, mã!
Esta é, geralmente, a forma de se chamarem os porcos. Foi então que ele viu dois
onjimbos, correndo em direcção à rapariga, ela deu-lhes comida e desapareceu.
O meu pai observou aquilo tudo mas não teve coragem para disparar, visto que só
esperava que saíssem os lobos que haviam roubado o seu porco. No entanto, ao invés
de saírem lobos, saiu um homem que deveria ser o Muechalo, o homem que costuma
transportar o banco do soba, trazendo, sim, um banco de pele de boi que colocou no
chão próximo da toca, e de lá viu também sair muitas pessoas que se sentaram à volta
da mesma. Depois disto apareceu um homem idoso que se sentou no ochalo, e logo que
se sentou, todos os presentes levantaram as pernas no ar, e um deles pôs-se a assobiar
ao mesmo tempo que dizia:
– Pelompe pali oku miña (Na corte come-se carne).
O meu Pai compreendeu logo que aquele era o soba da aldeia, que era o cemitério. Ia
tratar-se de um julgamento.
Depois de todos se sentarem, o soba pediu que o queixoso dissesse o que se havia passado, este
levantou-se e disse:
– Eu vim queixar-me do sékulo chitumda que me matou há já bastante tempo, deixando
viúva a minha mulher e os meus filhos a padecerem. Assim, peço diante de vós para
irdes buscar esse Chitunda, para que, tal como eu venha para cá e também deixe a sua
família como eu deixei a minha.
Este Chitunda era o vizinho do meu Pai. O soba queria responder, mas foi logo interrompido
por uma mulher que tinha saído do buraco do onjimbo e que disse:
– Vocês estão aqui entretidos com o ekanga (julgamento), e não vêm, por acaso, o homem
que está em cima daquela árvore?
Todos os presentes, ao darem-se conta de que havia alguém em cima da árvore, puseram-se
precipitadamente em fuga, metendo-se no buraco como ratos. O soba foi o primeiro a
desaparecer. O meu Pai viu aquilo tudo como se fosse um sonho. Quis descer da árvore para
regressar a casa, mas apareceu-lhe uma velha que dirigindo-se à árvore onde ele estava disse-
lhe:
– Ó Lutukuta, foste muito atrevido e imprudente ao te casares com a Nangueve. O
marido dela, que vive cá, não a deixará sem primeiro resolver alguns problemas que
tem com ela. Hoje tiveste muita sorte por o não teres encontrado aqui. O soba
incimbiu-o para ir em busca de um feiticeiro. Se o tivesses encontrado cá de certeza
que não saírias daqui vivo. Ele anda muito zangado contigo. Eu na qualidade de tua
bisavó, aconselho-te a deixar a Nangueve e a arranjares uma outra mulher. Há tantas
outras mulheres no mundo e, por isso, não vale a pena insistires em ficar com ela, o que
poderá significar a morte certa para ti. Segue este meu conselho, pois eu, como tua
bisavó, avó de teu pai, não quero que morras. Quando vim para aqui, o teu pai nem
sequer havia nascido. Agora desce dessa árvore antes que o teu rival chegue. Vai-te
embora e expulsa a Nangueve de casa.
O meu Pai quis responder, agradecendo o conselho da sua bisavó, mas esta disse-lhe para que
se calasse, pois quando uma alma do outro mundo fala não se lhe deve responder.
Momentos depois o meu Pai desceu da árvore e foi para a sua casa. Quando lá chegou, ao ver
a esposa, disse-lhe:
– Querida, como sabes, tenho sido perseguido pelo teu ex marido que procura matar-me.
Por isso, acho melhor que amanhã, logo ao amanhecer, tomes as tuas coisas e voltes
para a casa da tua mãe.
Quando amanheceu, Nangueve, antes de partir, quis ouvir novamente a ordem de expulsão.
Mas o meu Pai, que gostava muito dela, não teve a coragem de repetir novamente a ordem de
a expulsar. Ele então comeu alguma coisa, tomou o seu machado e saiu pela mata fora para
fazer um “onde” (colmeia de abelhas).

Ao chegar a determinado lugar da mata cortou uma árvore, e preparou o tronco que iria
servir de onde. Rachou-o ao meio e abriu uma fenda numa das partes. De súbito, apareceu um
homem com um machado na mão que ao o ver lhe disse: “Segundo o nosso ditado antigo,
quando encontrares alguém a soprar fogo, sopra-lhe no ânus, pois o que sair daquele fogo será
comido pelos dois. – E assim, o estranho, pegou na outra parte do onde e com o seu machado
se pôs a trabalhar. Tá, tá, tá…, e em pouco tempo a colmeia estava pronta.

Ao ver aquele fenómeno, o meu Pai abandonou o seu machado e fugiu daquele lugar, pois
sabia que estava de novo perante o seu rival. Correu, mas aquele homem transformou-se em
remoinho de vento para o perseguir. Mas as almas dos irmãos do meu Pai apareceram em seu
socorro, só que desta vez o seu rival também trouxe os seus irmãos já falecidos, e todos se
juntaram ali na forma de um grande remoinho, travando uma grande luta.
Por fim, um dos irmãos do falecido marido de Nangueve conseguiu alcançar o meu Pai, bateu-
lhe nas costas com um burrinho e disse: “Pronto, já o liquidei!”
Repentinamente todos os remoinhos desapareceram. Passado algum tempo, o meu Pai
começou a vomitar sangue devido à forte pancada, acabando mesmo por morrer.
A partir deste momento fiquei sem Mãe e sem Pai. Então fui recolhido pela comunidade e
passei a viver no onjango e sustentado pelos habitantes da aldeia.
Quando me tornei rapaz, como era um pouco alto, aconteceu que um dia chegou ao nosso
quimbo um branco, transportado numa tipóia, que deveria ser um explorador português e
que trazia consigo muitos carregadores transportando as suas bagagens. Ele queria substituir
os seus carregadores, pois os que tinha já estavam muito cansados. Eu fui indicado para ser
um dos novos carregadores desse branco. Em todos os lugares a que chegássemos, o branco
montava a sua tenda e nós faziamos palhotas para nós. Fomos até ao Bié.
O Mueleputu, que é a autoridade portuguesa do Bié, chamado Poloto, nome que os nativos
deram a Silva Porto, recebeu-nos muito bem. Aconteceu também que fui escolhido para
trabalhar como criado na casa de Poloto. Os outros carregadores, que tinham vindo comigo,
deixaram-me ali e continuaram a viagem com o mesmo branco. Trabalhei como criado
enquanto aprendia o ofício de cozinheiro. Quando o meu mestre cozinheiro faleceu, eu o
substituí.
Em casa do patrão havia uma lavadeira muito linda chamada Maria. Ela era muito asseada,
comecei a gostar dela e queria a todo o custo que ela fosse a minha amante. Infelizmente
aconteceu comigo o mesmo que com o meu Pai. Muita gente aconselhou-me a não envolver-me
com a Maria, dizendo que ela era uma olundumba, pessoa que se transforma em leoa. Eu não
dei ouvidos a ninguém. Ela também gostava de mim, tornou-se a minha amante e fui viver
com ela na sua casa. Assim, depois de me despachar do meu trabalho na cozinha, que sempre
terminava à noite, ia dormir com ela, armado com a minha mukonda (espécie de faca com a
ponta parecida a uma espada afiada nos dois gumes, metida em bainha de madeira e
transportada na cintura; é uma espécie de punhal).
Quando chegava em casa de Maria, encontrava sempre o pirão já feito acompanhado de
carne de porco ou de cabrito. Eu não sabia onde ela arranjava aquela carne que comiamos
todos os dias. Mas um dia ela disse-me: “É melhor que não venhas amanhã pois vou viajar
para visitar alguns familiares.
Eu acreditei nela. De manhã, como sempre fazia, fui trabalhar na cozinha do meu patrão, fiz
café e outros trabalhos. Quando anoiteceu, e como na cozinha do patrão não havia condições
para dormir, resolvi ir à casa da Maria mesmo sabendo que ela lá não estava. Abonava em
meu favor o facto de saber onde ela guardava as chaves da casa.
Terminado, então. o labor na cozinha do patrão, pus-me a caminho. Quando lá cheguei
encontrei a porta entreaberta, entrei e vi uma grande fogueira e duas grandes panelas de
barro de ochimbombo com a água em ebulição. Pensei que ela tivesse desistido da viagem e
estivesse, naquele momento, na casa da vizinha. Sentei-me num banco à sua espera.
Momentos depois ouvi um grande reboliço que vinha da aldeia vizinha. Ouviam-se gritos
usualmente utilizados para enxotar os lobos que invandem os quimbos quando tentam
apanhar os porcos ou os cabritos nos currais. Ouviam-se também tiros com armas de fogo.
Esperei algum tempo mais, e ouvi um ruído que vinha em direcção da casa onde estava, como
se alguém arrastasse alguma coisa pesada.
Cheio de medo, escondi-me debaixo da cama, e seguidamente pressenti que alguém atirava
um porco morto para dentro de casa. Espantado, vi a Maria entrar com o corpo de leoa. Ao
entrar tirou a água que estava a ferver numa das panelas e a despejou sobre o seu corpo.
Depois sacudiu-se como um cão encharcado, retomando a sua forma humana.
Apareceu de novo a Maria, tal qual era, embora completamente nua. Naquele estado pareceu-
me incomensuravelmente bela, sobretudo os seus seios de olonganja (há três tipos seios:
olonganja, são os redondos e que nunca se murcham; os olombenje, que são muito compridos
e que chegam quase ao umbigo, e os chibombo que são muito pequenos; os homens apreciam
mais os olnganja), o corpo fulo (preto de cor amarelenta), as ancas largas e o umbigo metido
para dentro da barriga.
Eu apreciava tudo aquilo escondido debaixo da cama, à luz da fogueira, no único quarto que
também servia de cozinha, dormitório e sala de estar. Entretanto Maria tomou as suas tangas
e vestiu-se. Depois tomou o porco e meteu-o na bacia do patrão onde costumava transportar a
roupa. Com a outra grande panela com a água a ferver, despejou-a em cima do porco e se pôs
a despelá-lo, para em seguida tomar uma faca e abrir com ela o ventre do animal. Tirou as
víceras e as colocou numa quinda; tomou uma panela pequena com água e a colocou ao lume,
e quando a água começou a ferver com a fuba pôs-se a fazer pirão. Cortou do fígado uma
porção, colocou-a no fogo, assou-a, e depois de a temperar com sal, que tirou duma cabaça, e
comeu. Quando acabou de comer pôs-se a trançar os cabelos, ao mesmo tempo que dizia em
voz baixa: “Desconfio do chifuanda. Será que ele terá vindo? Mas se tivesse vindo onde se
esconderia? Oxalá que não descubra o meu segredo de olundumba, senão comê-lo-ei vivo!
Eu ouvia o que ela dizia. Pouco depois sentiu sono e deitou-se na cama. Assim que começou a
ressonar, aproveitei a oportunidade para fugir. Saí pé ante pé, mas ao abrir a porta onde
rangeu o que a fez despertar: “Seu ordinário, eu não te disse para não vires? Vou comer-te
vivo. Dito isto, levantou-se da cama, encheu uma das panelas de barro com água, e colocou-a
ao lume para que, depois de se transformar em leoa tivesse a água a ferver para despejar
sobre si e voltar a ter forma humana. antes que ela concluísse este ritual eu já estava longe,
fugindo. Corri, passei por um riacho que tinha sapos a grasnar. Quando sentiram a minha
presença logo todos se calaram. Depois de me ter afastado uma certa distância, os sapos
voltaram a grasnar para, de seguida, emudecerem de novo. Não me foi difícil compreender
que Maria estava no meu encalço. A única maneira de poder escapar foi subir a uma árvore, o
que fiz logo que me foi possível. Passado algum tempo, vinha a Maria transformada em leoa
em minha busca. Passou rente a uma árvore, parou, farejou, e não sentindo o meu cheiro
voltou para trás farejando na direcção da árvore onde eu estava. Olhou para cima e disse:
“Eu não te disse que não viesses? Agora que descobriste o meu segredo sou obrigada a comer-
te vivo.
Então pôs-se a trepar na árvore onde eu estava; as patas traseiras eram de leoa, mas as
dianteiras conservavam a forma de mãos humanas para poder subir agarrada ao tronco.

“Quando chegou junto de mim, abriu a boca tal como os cães quando lutam, para me apanhar
com os seus terríveis dentes. Rapidamente, saquei da minha mukonda e enfiei-a pela boca
dentro saindo pela nuca1. A minha querida Maria caiu no chão acabando por morrer. Mas
permaneci ali até ao romper da aurora.
Os vizinhos dela, como sabiam que ela se levantava cedo, o que não aconteceu naquele dia,
foram à sua casa para averiguar do que se havia passado.
Quando abriram a porta viram então um porco estendido num canto e pegadas de leoa as
quais seguiram até ao lugar onde me encontrava. Quando os vi chamei-os e disse-lhes que a
Maria estava ali estendida no chão. Quando a viram sob a forma de leoa, ficaram todos
pasmados, e disseram todos em coro: “Quem matar uma águia, enxotou-a!”
Desci da árvore, tornada Tumba Memorial, e voltei à minha labuta ordinária. Tempos depois
arranjei uma outra mulher com o nome Kandimba, com a qual vivo até hoje muito feliz.
Quando o nosso cozinheiro, o Chifuanda, acabou de narrar esta história, pegou na eteña
(espécie de cachimbo grande para fumar liamba. Para se fazer um cachimbo destes, tem que
se cortar ao meio um chifre de boi, com uma chapa de ferro quente. Depois, para fazer o bico,
fura-se com um fio de aço também muito aquecido. Na parte cortada do meio tapa-se com
madeira enfeitada com tachas. Faz-se um furo na vertical onde se coloca um caniço oco. Em
cima do caniço mete-se a cabeça feita de barro onde se coloca a liamba seca. Dentro do chifre
mete-se água para filtrar a liamba que não se fuma directamente) e nela colocou liamba seca,
pôs-lhe fogo e pôs-se a fumar. À medida que fumava na eteña, esta fazia muito ruído, cra ta ta,
cra ta ta...
Depois ouvimos uns sons esquisitos, que se assemelhavam ao piar de um pássaro ou ao miar
de um gato bravo. Chifuanda tirou a eteña da boca e disse: “Estão a ouvir aqueles gritos
estranhos? São os gritos de uma alma do outro mundo!”
Paramos de conversar quando esses gritos se aproximaram de nós. A escuridão era total e os
ruídos sinistros não paravam: Hapa, hapa, Hapa..., que significa: É aqui, é aqui. Dispersamo-
nos e fugimos, cada um para a sua casa, e fechando muito bem as portas!

OS ESPÍRITOS

Os bailundos conhecem apenas os espíritos maus, que em umbundu se designam por Ondele o
que significa demónio. Para eles os demónios são espíritos muito maus, que quando penetram
numa família a extermina por completo.
Os doentes mentais são considerados como pessoas possuídas pelos demónios. Da mesma
forma, todas as doenças de cura difícil são atribuidas aos demónios, cujo rei se designa por
Ochindele. Ochindele é o superlativo de Ondele, que se traduz por Diabo.
Ochindele é também a designação que os bailundos atribuem a todos os individuos de raça
caucasiana (branca), provavelmenta devido aos maus tratos que ocorreram durante o
domínio colonial. Na verdade, os portugueses quando chegaram a Angola, não consideravam
como humanos os autóctones. Olhavam todos os africanos como se de animais se tratassem,
inclusivamente os missionários, quer católicos quer protestantes, chegaram lá com todos esses
preconceitos.
Na África do Sul reinava o apartheid, e em Angola o indigenato2. Os indígenas eram muito
mal tratados e desprezados. Um indígena não podia cumprimentar um branco com um aperto
de mão, e muito menos comer com ele à mesa.
Os indígenas podiam passar por grandes aflições, de fome, doenças, nudez, pobreza, etc., que
os brancos não se compadeciam deles, nem até mesmo o governo português se importava pelo
sofrimento dos indígenas.
Quando estive na Missão Evangélica do Bailundo, da Junta Americana e Canadiana, como
professor durante quinze anos, presenciei um acontecimento criminoso e muito triste:
Havia chegado da América, como médico cirurgião, o filho de um antigo missionário
americano em Angola, a fim de exercer medicina na terra onde nasceu. A sua vinda era
indesejada pelos outros missionários, americanos e canadianos. Para denegrir a sua imagem
envenenaram toda a anestesia do hospital da Missão do Dondi onde ele tinha sido colocado.
Por este motivo, todas as pessoas que ele operava estavam condenadas a morrer. Até que se
veio a descobrir a origem do problema, mas depois de dezenas de pessoas terem morrido. Por
serem negros os que morreram, não houve nenhuma investigação para que se descobrisse os
culpados.
Durante o tempo do colonialismo, grande parte dos portugueses chegavam a Angola pobres, e
para enriquecerem rápido, estabeleciam lojas no meio das aldeias indígenas onde compravam
por preços muito os produtos que os locais lhes levavam para vender. Passado pouco tempo já
estavam abastados, construíam prédios, compravam viaturas, etc. Por sua vez, o pobre do
indígena nascia e morria numa pobreza terrível, vivendo sempre em palhotas e alimentando-
se muito mal.

Enquanto os portugueses tinham no seu regime alimentos diversificados em termos de


calorias, os indígenas tinham um regime alimentar muito pobre, o qual não passava do pirão
feito de farinha de milho, o qual comiam juntamente com a efuanga, folhas de mandioqueira,
a servir de conduto.
O governo português não permitia que os indígenas enriquecessem, apenas os exploravam. Os
indígenas não tinham direito de possuir bons empregos, a não ser serem serventes de lojas
comerciais, cozinheiros, criados dos outros, etc., ganhando dos portugueses um salário mensal
que não chegava sequer para comprar uma camisa. Em qualquer trabalho que fosse, fosse na
construção ou outro qualquer tipo de trabalho, a desproporção entre o salário de um branco e
o de um negro era enorme. Por exemplo, se um português ganhasse 2.50 euros por dia, o
africano ganhava .05 cêntimos, embora ambos fizessem o mesmo trabalho. Às vezes o africano
trabalhava muito mais que o branco. Quando dei aulas na Missão Evangélica, eu e os colegas
como éramos negros ganhavamos apenas .40 cêntimos mensais, enquanto que um profissional
branco que dava as mesmas aulas, ganhava 15 euros, com cama e mesa.
Os indígenas eram a fonte de todos os ganhos, não apenas para o Estado como para o
enriquecimento de todos os portugueses. O governo português obrigava o indígena a pagar
pesadíssimos impostos, forçados, que eles pagavam com grandes dificuldades, em virtude de
não lhes serem dados empregos decentes e nem possuírem indústrias. O único recurso
disponível aos indígenas eram uma agricultura muito precária e primitiva. O que colhiam
pouco mais dava do que para a alimentação, pois tudo mais ia para pagar os impostos. Por tal
motivo, os indígenas padeciam a fome principalmente a partir de Outubro e Fevereiro,
períodos em que esperavam as novas colheitas. Trabalhavam de sol a sol, apenas com uma
enxada e sem fertilizantes ou alfaias agricolas, para se livrarem das terríveis torturas que o
governo português dava aos que não conseguiam pagar os impostos ou outras exigências. Todo
o indivíduo de sexo masculino começava a pagar impostos aos dezassete anos. No entanto,
convém dizê-lo, por vezes os jovens nem sequer tinham esses dezassete anos exigidos pela lei.
O critério por vezes utilizado pelas autoridades coloniais, para determinar a idade, era pouco
sério, pois aquando do recenceamento das populações, era corrente deitar um olhar aos
sovacos a fim de ver se o adolescente tinha pelos. Em caso afirmativo, esse adolescente devia, a
partir daí, começar a pagar impostos.
Quem não fosse capaz de pagar o imposto anual era imediatamente enviado para o contrato
forçado nas roças de café ou na pesca, onde tinha de permanecer durante um ano. Cumprido
esse tempo, era usual dar-se ao contratado um bónus em dinheiro, que passava a ser utilizado
para o pagamento dos impostos em dívida. Consequentemente, o contratado chegava em casa
completamente vazio.
As rusgas aos quimbos, durante a noite, eram outra forma utilizada pelas autoridades
portuguesas para apanharem mão-de-obra barata. Os que fossem apanhados eram pela
cintura, e em fila levados para o posto administrativo e dali para os contratos forçados. Não é
por mero acaso que Salazar dizia que “a riqueza de Angola era o preto no contrato”.

Nota de Rodapé 1
-http://www.religionnews.com/index.php?/rnstext/sudan_conflict_armed_machine_gun_preac
her/

Nota de Rodapé 2 - http://www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/edicao/03/Artigos%20e


%20Ensaios%20-%20Alberto%20de%20Oliveira%20Pinto.pdf

Além dos impostos forçados, havia outras formas de exploração; em geral, os africanos,
depois da ceia, costumam sair ao luar para dançar ao som do batuque. Para isto era também
necessário pagar uma licença, denominada licença de catita. Quem tivesse um cão no quimbo,
também tinha que pagar uma licença.
Qualquer português podia espancar os indígenas desumanamente, e submetê-los a um jugo de
ferro. Por isso, poucos africanos chegavam à idade de 70 anos. Eram magros, esfomeados,
esfarrapados, e muitos vestiam ombuengue (roupa feita de muitos remendos) e andavam
descalços.
Em 1918 o governo português enviou uma grande expedição de soldados a uma tribo
chamada Seles para matar a população toda, alegando que tinham comido um português
chamado Cimboto.
Apesar dos indígenas serem desprezados, as suas mulheres eram subtilmente assediadas por
muitos comerciantes brancos, facto esse que explica as cenas caricatas como aquelas em que
vários portugueses chegavam a Angola sós e pobres, arranjam uma mulher para sua lavadeira
que os ajudava a organizar a sua vida e família. Apesar disso, nem mesmo assim eles
permitiam que elas comessem consigo à mesa, embora dormissem na mesma cama.
De modo que, a mulher africana sacrificava-se, ajudando o marido nos seus negócios,
sobretudo os clandestinos, tais como a venda a venda de bebidas alcoólicas, como o
kassungueno (feita à base de farinha de trigo), proibida por leis nas colónias. Assim, em pouco
tempo, e graças à sua companheira negra, que sempre trabalhava ao seu lado, o marido
branco enriquecia a partir daí, ao ponto de já não necessitar da africana, que era expulsa de
casa juntamente com os filhos, também dele, para depois se casar com uma mulher branca. A
própria mulher autóctone ficava abandonada sem casa e sem recursos para sustentar os
filhos, mulatos. É de referir que, no tempo colonial, os mulatos passavam, geralmente, por
grandes privações porque as mães não tinham condições para os sustentar e eram
considerados pelo estado português como filhos de pais desconhecidos.
As estradas de cabinda ao Cunene, foram feitas pelos indígenas sem pagamento e sem comida.
Cada ngamba (pessoa obrigada a trabalhar forçosamente) tinha de levar a sua própria
comida de casa. A abertura destas estradas, em florestas cerradas e com árvores de grande
porte, levou muitas vidas à morte. Cada família mandava um ngamba à estrada, que podia ser
um filho, ou o próprio marido ou a própria mulher, que ficavam lá a trabalhar durante uma
semana até ser rendido por um dos seus familiares. Enquanto os filhos dos portugueses iam à
escola, os dos indígenas transportavam brita para a construção dessas estradas. Todos os que
nelas trabalhavam eram submetidos a grandes torturas. Faziam covas (pedreiras), as quais
ainda hoje existem à beira das estradas, de onde tiravam a brita que era transportada à
cabeça, utilizando olongonjo (casca de árvores), debaixo de chicote e forçados a correr.
Depois das estradas construídas ficavam sob a responsabilidade de cada quimbo, e os pais
tinham de enviar os seus filhos, todas as semanas, fazer a manutenção das mesmas, para tapar
todos os buracos quando os houvesse. Se por acaso um indígena conseguisse comprar uma
bicicleta, para poder circular com ela nas estradas, que ela próprio ajudou a construir, tinha
de pagar uma taxa muito alta todos os dias do ano. Caso não pagasse, a bicicleta ser-lhe-ia
apreendida.
Os portugueses evitavam a todo o custo que os indígenas estudassem. Quando eu exercia o
professorado na Missão Evangélica do Bailundo, assisti a cenas tristes, onde muitos dos meus
alunos eram forçados a abandonar a sala de aulas a fim de serem enviados para os trabalhos
forçados.
Em face do exposto, os bailundos deram ao branco o nome pejorativo de ochindele (“o que
castiga sem piedade”). Contudo também nutriam um grande respeito e admiração pelos
brancos devido ao seu desenvolvimento tecnológico e cultural, pelo fabrico de muitos
artefactos, como o vestuário, calçado, utensílios domésticos e outros. A admiração dos
bailundos pelos brancos, manifesta-se, sobretudo, quando viam um motor a funcionar, que o
sintetizava na seguinte canção:
“Ochindele vi kola we / Eyambo liavo kovava / Wyambo liavo we kovava”
(“Os brancos são maravilhosos / A sepultura deles é na água / Sim é na água / A sepultura
deles é na água”).

A MORTE E A ADIVINHAÇÃO

Entre os bailundos, quando morria um homem, antes dos ossos se enrijecerem, faziam-no
sentar num banco, numa esquina da cubata, tal como se ainda estivesse vivo.
Se for uma mulher, o corpo é colocado na cama, precisamente onde costuma dormir, sendo o
marido obrigado a dormir com a morta. Diziam que em vida o marido dormia com ela, na
morte não deverá desprezá-la. Assim, o marido, tal como é habito, dorme na dianteira e a
defunta esposa atrás dele. A separar os dois colocam um pau.
Quando uma pessoa morre não é enterrada de imediato. Tem, inclusivamente, havido casos
bizarros, como aqueles em que o corpo da parceira entra em decomposição ensopando o
marido com a matéria escorrida do cadáver.
No dia em que morre o homem, os aldeãos são obrigados a colocar o milho na água a fim de se
preparar o ossovo para fermentar a afamada bebida chamada ochimbombo, feita da farinha
de milho. O milho para grelar, pode levar oito dias ou mais. Quando o ossovo estiver pronto,
preparam o ochimbombo, o qual também demora uns quatro dias e é feito em todas as casas.
Durante este tempo todo, o cadáver mantém-se sentado no seu banco numa das esquinas da
cubata, repleta de gente, especialmente mulheres velhas, que lá dormem e passam dias ao seu
lado, até que este seja enterrado. Ali o cadáver é tratado por um grupo de homens chamado
vakuaciosoko. Se cair um olho do morto ou qualquer outro membro do seu corpo, são eles que
os colocam no seu respectivo lugar. Quando o cadáver começar a largar mau cheiro, as velhas
vão à mata em busca de folhas de uma planta aromática, chamada ondembi, cujas folhas são
colocadas nas narinas a fim de não sentir o odor vindo do cadáver em decomposição.
Fora da cubata, os homens dançam ao som do batuque, matam-se bois, porcos ou outros
animais, passando, por isso, todos os dias do velório do velório a comerem e a beberem.
Quando o ochibombo está pronto, todas as pessoas se juntam em frente da cubata bebendo
essa apreciada bebida e, ao mesmo tempo, dançam e comem. Para eles é uma grande festa em
memória do falecido. Dali, ainda passam dias até o cadáver ficar todo decomposto. Num dia
determinado, os vakuacisoco tomam o cadáver em alto grau de decomposição e embrulham-
no em panos a que dão o nome de asanya. Depois, com uma espécie de tipóia transportam o
cadáver para o campo de adivinhação onde irão pesquisar a causa da morte desta pessoa.
Toda a população do quimbo, sem excepção, é obrigada a assistir à adivinhação; a culpa da
morte desta pessoa recairá sobre os que estiverem ausentes, as quais serão acusadas de
feiticeiros.
Num local preparado para o efeito, os dois homens que transportam o morto mantêm-se em
pé junto do cadáver, onde começa a sessão de adivinhação. Intervém sempre um outro homem
com um balaio de fuba, farinha branca de milho, que começa por perguntar ao morto o
seguinte:
Amigo, estamos todos aqui neste local muito tristes pela tua morte. Deixaste um vazio no
nosso meio e muitas saudades, visto que andávamos, passeávamos e comiamos juntos.
Pretendemos agora conhecer os motivos que te retiraram do nosso convívio, acabando por
morreres. Agora faço-te uma pergunta: Será pela ambição que todos nós temos tido, que te
levou a arranjar algum feitiço que depois te vitimou? Sabemos que muitos se têm enganado,
para através de um feitiço enriquecerem depressa. Se tiver sido por isso, esclarece-nos.
Mal acaba de pronunciar estas palavras, pega num punhado de fuba e atira-a para debaixo da
tipóia onde repousa o cadáver. Os dois homens que a sustêm, se são enpurrados para trás, é
porque é uma resposta negativa. O homem do balaio volta a perguntar:
- Será que quem te matou fui eu que te interrogo?
O homem volta a lançar fuba para debaixo da tipóia; se de imediato os homens que carregam
o morto são empurrados para trás, é resposta negativa (acreditam que é a alma que faz
empurrar p'rá frente ou p'rá trás).
O interrogador torna a perguntar:
- Será que a pessoa que te matou é do nosso quimbo? - Se desta vez o impulso é p'rá frente, ele
volta a perguntar:
- Uma vez que confirmas que sim, diz-nos se é homem. - Se o impulso é novamente p'rá frente,
ele agora pergunta pelo nome de quem o matou.
Então vai colocando os nomes das pessoas até o morto confirmar, sempre através dos
impulsos.
Então os vakuacisoko colocam a tipóis em cima de dois paus em forquilha, e o interrogador
continua:
- Confirmas que quem te matou foi fulano? Gostariamos que o voltasses a confrmar para
termos essa certeza.
Volta a lançar a fuba para debaixo da tipóia aos olhos de todos, e se o cadáver se arrastar p'rá
frente, é mais que evidente que o homem indicado é o assassino, o qual é imediatamente preso
e manietado. Deixam passar mais um dia, e só então, se houver parentes o poderão enterrar.
Para irem ao cemitério, é costume darem muitas voltas com o morto a ponto de só chegarem
ao local ao pôr do sol, para desorientar a alma do defunto, que se em alguma noite ele voltar à
aldeia, seguindo os mesmos trilhos, para vingar a sua morte, só lá poder chegar ao nascer do
dia, e nesse caso já não poderá concretizar a vingança.
Caso não haja um parente para o enterrar, arranjam uma casca de um tronco de árvore em
forma de barril, onde o colocam e é depois levado para a floresta, muito longe do povoado, e o
penduram numa árvore.
De regresso ao cemitério, o acusado é submetido a julgamento. Como os feiticeiros nunca
confessam a verdade negando sempre ter feito tal feitiço, o acusado é posto na presença do
ombulungu. Quando desmaiar, dão-lhe uma composição até que vomite o ombulungu. Assim,
tudo se confirma, procurando depois a melhor forma de o fazer exterminar.

Os feiticeiros nunca são mortos à pedrada ou com facas, pois só as almas penadas os podem
exterminar. De um modo geral, existem três formas para matar um feiticeiro: queimados no
fogo, entregues às feras ou animais aquáticos, como jacarés, peixes e cobras, etc.
Mesmo depois da sentença, ainda fazem passar o feiticeiro por mais outra prova: levam-no à
floresta onde juntam muita lenha com a qual a envolvem, sentado num tronco ou no chão
rodeado pela lenha. Depois pronunciam as palavras sacramentais de obasa, dizendo:
A vós, que viveis noutro mundo, trouxemo-vos este homem (ou mulher), acusado(a) de
feiticeiro(a) e de ter morto fulano, conforme foi confirmado pelo cadáver aquando da
adivinhação e pelo ombulungu. Pedimos então a vossa opinião para sabermos se este homem
merece ou não morrer. Vamos colocar esta brasa em cima da lenha para vós soprardes,
ateando o fogo, caso ele seja mesmo culpado.
O homem que profere estas palavras imediatamente toma uma pequena brasa, do tamanho de
uma abelha, e a pôe em cima da lenha. De repente aparecem remoinhos de vento de várias
direcções, todas se dirigindo para a lenha com o fim de fazer com que a brasa pegue fogo.
Caso se confirme a acusação, em pouco tempo a fogueira tornar-se-á grande.
Quando o feiticeiro morrer e o seu corpo explodir, todos batem palmas ao mesmo tempo que
dizem:
- Wa paya ongonga wa vinga (“Quem matar uma águia enxotou-a”).
Outra opção é a de levar o feiticeiro junto de um rio, e ao chegarem rapam-lhe todo o cabelo.
Com uma navalha dão-lhe um golpe na cabeça fazendo escorrer sangue para uma folha de
árvore, chamada ombula. Depois pronunciam, como é hábito, o obasa:
- Alma dos falecidos, venham dar provas de que foi este homem quem matou fulano. Se for
ele, quando lançarmos ao rio esta folha ensanguentada que apareçam animais da água para
disputarem esta folha. Caso contrário, deixai a folha em paz.
Atiram a folha ao rio, e se o(a) indivíduo(a) for de facto feiticeiro(a), aparece de imediato um
grupo de animais das águas, jacarés, cobras e outros, para disputarem aquela folha. Em
consequencia, com um pequeno machado dão um golpe na nuca do feiticeiro e o atiram ao rio,
onde é esquartejado pelos animais.
Outras ocasiões, ao feiticeiro, prendem-lhe os pés e braços e o levam para floresta, longe dos
povoados, deixando o pobre feiticeiro numa encruzilhada e citam o obasa:
- Vós que viveis noutro mundo que nós desconhecemos, pedindo ajuda para este feiticeiro (ou
feiticeira), que seja comido pelas feras do mato, caso seja ele o culpado.
Então o feiticeiro(a) fica ali abandonado. Se de facto for ele(a) o(a) culpado(a), na manhã do
dia seguinte só se encontrarão pegadas de algum animal que o(a) tenha comido(a). Assim
ficam todos satisfeitos e então dizem:
- Wa paya ongonga wa vinga (“Quem matou uma águia enxotou-a”).
Estas práticas, hoje em dia, são pouco comuns, embora sejam praticadas em certas regiões,
ainda que um pouco modificadas. As acusações de feitiçarias e mortes por espancamento são
comuns entre os bailundos, sobretudo nos meios rurais.
Ainda hoje se verificam nos velórios as danças aos sons dos batuques, e o quarto onde estiver
o cadáver fica repleto de gente. As pessoas permanecem no velório dias e noites até o mesmo
terminar. Também se continuam a matar os animais, bois, porcos, galinhas ou outros, para os
banquetes, e também se usam muitas bebidas em memória do falecido, tudo com grandes
festas.

http://regeneracaomonergistica.blogspot.com/search/label/O%20Romance%20do%20Irm
%C3%A3o%20Armando%20-%20%22O%20Homem%20que%20Casou%20com%20uma
%20Alma%20do%20Outro%20Mundo%22

Atenção este romance vai passar permanentemente para: http://www.scribd.com/magcal, mas


vai poder aceder ao volume I e II e a parte do volume III com toda a facilidade aqui:
http://regeneracaomonergistica.blogspot.com/2010/09/irmao-armando-o-homem-que-casou-
com-uma.html
COM VÓS A HEMEROTECA TRAILER:

“Quando chegou junto de mim, abriu a boca tal como os cães quando lutam, para me apanhar
com os seus terríveis dentes. Rapidamente, saquei da minha mukonda e enfiei-a pela boca
dentro saindo pela nuca. [...]
E como prometido, antes da presença em PDF no http://scribd.com/magcal, aqui estão mais
algumas linhas da obra do Irmão Armando, "Os Bailundos e Angola, Portugal, EUA e o
Canadá, as Missões Cristãs, as Lendas e o sincretismo da quarta dimensão maligna que são
universos demasiado reais..."

A REALIDADE HODIERNA TRAZ NOVAS LINHAS DO SEU ROMANCE FAVORITO:

OS ÍDOLOS

Os ídolos, em todo o mundo são iguais. São figuras representativas de seres humanos. Têm
boca mas não falam; têm olhos mas não vêm; ouvidos e não ouvem. A diferença é que uns são
feitos de ouro, outros de prata, bronze, ferro, etc.... Mas em África... A REALIDADE É
OUTRA!!!
Os ídolos dos bailundos são feitos de madeira e não têm um ídolo superior, como a Diana dos
Efésios conforme é citado nas Escrituras. Entre os bailundos os ídolos são propriedade
privada a que eles dão o nome de iteka e fazem parte das feitiçarias. Todo aquele que possuir
os iteka é considerado feiticeiro.
Os ídolos dos outros povos, como os europeus, são muitas vezes considerados como deuses, e
são venerados, adorados, ao contrário dos ídolos dos bailundos. Entre estes há uma série de
ídolos que são mantidos em grande segredo, e entre eles destacam-se os seguintes:
Kalupokopoko, Samemba, Kandundo, Mechamecha, etc. Kalupokopoko é o ídolo da vingança
e mata sem piedade. Poucos feiticeiros o têm.
Quando eu era criança, com seis ou sete anos de idade, a mulher de um servente do meu pai,
chamado Serrote, tinha sido violada por alguém. Num domingo, depois desse Serrote ter
varrido a loja, foi ter com um feiticeiro que vivia do outro lado do rio, e pediu-me que o
acompanhasse. Quando chegamos à cubata do feiticeiro, Serrote disse-lhe algumas palavras
que eu não entendia por ser criança. Depois o feiticeiro entrou na sua casa e trouxe de lá um
boneco com forma humana, dizendo que se de facto o homem acusado violou a sua mulher,
cometera um ignóbil acto, o ídolo não pouparia a sua vida e o mataria sem piedade. Depois de
ter pronunciado aquelas palavras, o boneco, ou seja Kalupokopoko, saiu dali como se fosse
um raio, diringindo-se para o acusado. Mas antes que ele partisse, o feiticeiro prendeu uma
galinha num dos cantos da casa para que, no caso do acusado ser inocente, aquele boneco em
vez de ir contra o feiticeiro fosse contra a galinha. Depois de algum tempo passado, como o
Kalupokopoko não voltava, era o sinal evidente de que o acusado era culpado.
Mais tarde o feiticeiro instruiu o Serrote no sentido de ir ao velório do criminoso, queixando-
se de que via homens do tamanho de formigas, que o afligiam com agulhas, alfinetes e
faquinhas. O mais curioso é que só o doente os via. Tais seres têm o nome de Inganji.
Samemba, é o ídolo aceitável entre os bailundos; é o deus da caça e da carne. Este ídolo estava
sempre presente nas embalas. Quando alguém vai ao soba queixar-se contra outrem, tanto o
queixoso quanto o acusado são obrigados a entregar um porco ao soba. Os dois animais são
mortos, a sua carne dividida pelas pessoas, e o seu sangue é utilizado para untar a boca dessa
escultura.
A ideia prevalecente é a de que quando Samemba tiver sangue na boca, fará com que haja
mais queixas, e por consequência mais carne na Embala.
Na minha meninice, com doze anos de idade, fui uma vez à floresta com o filho do nosso
cozinheiro, e montamos mais de quarenta armadilhas para apanhar ratos. No dia seguinte,
quando lá voltamos, surpresos vimos que nenhum rato tinha caído nas armadilhas, e isto
prolongou-se durante vários dias. Foi então que o meu pai do meu amigo nos aconselhou a
fazer uma Samemba. Arranjamos um pedaço de madeira e esculpimos um boneco na forma
da samemba. Espetamos um pauzinho no ânus do boneco, e espetamos a outra extremidade
na terra; depois fizemos com que o boneco ficasse virado de frente para a floresta onde
tinhamos montado as armadilhas. No dia seguinte voltamos ao mesmo local mas encontramos
apenas um rato. Depois de o termos esfolado, pusemos um pouco do seu sangue na boca do
boneco Samemba. Na manhã seguinte encontramos mais de vinte ratos nas armadilhas, e
assim continuou nos dias seguintes. Todos os dias apanhavamos dezenas de ratos, ao ponto de
não os conseguirmos comer todos, pelo que depois os trocamos por milho. Três ratos
correspondiam a um prato cheio de milho, graças ao boneco Samemba.
Em relação aos outros ídolos da quarta dimensão maligna desconheço as suas histórias,
estórias e legendas. Deixo isso ao vosso cuidado.

OS REMOINHOS DE VENTO
Na visão dos bailundos, quando as pessoas de bom coração morrem, vão para Suku que é D-
us. Uma das primeiras coisas que dele recebem, são os meios de transporte chamados
Ochipepe, que são os remoinhos de vento. Os remoinhos, de acordo com qualquer dicionário,
são a massa de água ou de ar em movimento espiral. Mas na mitologia dos bailundos é uma
alma penada que viaja nesse meio de transporte que foi concedido por D-us. Só resta saber se
é o mesmo remoinho que levanta do chão as folhas secas, os papéis, que abana as árvores, que
tira o capim das cubatas, etc.
Diz-se entre os bailundos, que os que vão para kalunga voltam à terra através dos remoinhos
a fim de visitarem os seus familiares, ou para fazerem vingança no caso de serem almas de
pessoas mortas por feiticeiros.
Também é usual ouvir-se dizer que fulano hoje foi chicoteado por um ochipepe. Contudo, este
é susceptível de mudar de comportamento, e irrita-se se alguém cantar a seguinte canção:
Yuvila, yuvila w atava?
Hti, vimo um mbala?
Okambia, kihemba
Kua k asile konele yiko?
Kuafile?
(Toma, toma remédio, aceitaste?
Quando disseste que te doia a barriga?
Não deixaste a panelinha de remédio ao lado do fogo?
Acabando por morrer?)
Uma das possíveis explicações para a irritação do ochipepe, tem a ver com o facto de em vida
e no auge da sua doença, a alma penada ter sido alvo de zombaria, e ter estado numa esteira
ao lado da fogueira.

Lembro-me de um dia, em pequeno, termos ido pescar com o filho do nosso cozinheiro.
Estavamos na estação seca e as matas estavam todas queimadas, as campinas apresentavam
uma cor escura devido às queimadas, e as árvores tinham as folhas secas por causa do fogo.
Era o tempo dos remoinhos andarem de um lado para, pois esse fenómeno é muito raro e
inexistente no tempo das chuvas.
Enquanto pescavamos vimos um remoinho passar distante de nós. Entretanto o meu amigo
começou a cantar a canção antes referida, zombando da alma que ia naquele ochipepe. De
súbito fomos envolvidos pelo mesmo ochipepe, que pegou o meu amigo e o atirou para o lugar
mais fundo do riacho, que para a sua infelicidade, a faca que trazia na mão se lhe espetou na
boca. Como se não bastasse, o mesmo remoinho continuou irritado e começou a abanar
fortemente as árvores que estavam no seu caminho, levando muitas folhas secas para o ar e
produzindo muita poeira.
Num quimbo havia um professor ambulante chamado Afonso, que numa ocasião fora pelo
catequista desse quimbo para que devolvesse o dinheiro das propinas que havia cobrado aos
alunos. Ao chegar à casa do catequista e na sua presença, pôs-se a contar o dinheiro
colocando-o no chão. Às duas por três começaram a discutir, meios zangados, pois o docente
dizia que o dinheiro era insuficiente e que não chegava para nada, e foi nesse momento que
surgiu um remoinho de vento que arrebatou o dinheiro para o ar e o fez desaparecer para
sempre.
Havia um homem que tinha por hábito violar a mulher de um outro. Por várias vezes tinha
sido apanhado e julgado na embala, onde pagava elevadas multas. Tempos depois o marido
daquela mulher faleceu. Quando o violador soube do acontecido, resolveu ir aos pais da viúva
que consentissem o seu relacionamento com ela. Desta forma convidou os seus familiares a o
acompanharem à casa dos pais da viúva. Pelo caminho passaram perto do cemitério onde
estava sepultado o falecido marido dessa mulher. O homem desviou-se, aproximou-se do
túmulo do seu rival e disse:
Tu que estás dentro desta sepultura, fica a saber que a mulher pela qual me obrigavas a pagar
multas na presença do soba, vai agora ser minha. Estou a caminho da casa dos seus pais para
a pedir em casamento. Se és homem, levanta-te daí e repete o que fazias contra mim.
Quando se retirou do cemitério, apenas percorreu uma pequena distância, e viu que alguém
ateava fogo na floresta onde ele e os familiares passavam. Subitamente, o fogo foi tomado por
um grande remoinho de nome Kanyongo. O homem viu fagulhas de fogo passarem-lhe por
cima, e cercado pelas chamas viu-se impotente e sem uma brecha por onde escapar. Como se
estava na estação seca, o capim ardeu rapidamente, e em pouco tempo o Kanyongo atingiu o
homenzinho que morreu com a boca aberta.
Em 1947, quando terminei o curso no instituto da Igreja Evangélica Congregacional1, fui à
Missão Evangélica do Bailundo, onde soube de um pastor de nome António Chico, colocado
no Centro Evangélico de Zoar-Panda, o qual era perseguido pelos seus próprios discípulos.
Porém, também se soube que quem liderava esta perseguição eram os diáconos, Israel e Tito,
com mais o organista do centro, de nome Paulino Chinjambela. Durante as conferências
anuais da igreja, estes três homens apresentavam depoimentos hostis contra o clérigo que, ao
fim e ao cabo, não passavam de calúnias. Apesar disso, o ministro saia-se sempre impune, pois
sempre tinha razão.
Como a Igreja não tinha motivos para condenar o oficial eclesiástico perante as falsa
acusações, como por exemplo a do seu gado ter estragado as sementeiras, os denunciantes por
recorrer à feitiçaria. A primeira vez mandaram-lhe uma praga de animais ferozes que
dizimaram mais de metade da criação, e depois mandaram um cazumbi dentro de um
remoinho de vento. Na altura a esposa do pastor estava doente encontrando-se na cama no seu
quarto, e foi nesse preciso momento que o grande remoinho, Kanyongo, invandiu o quarto
pondo a senhora descoberto, levando os cobertores até ao teto, prendendo-os numa asna.
Depois ouviu-se um grande estrondo como quase o dum canhão.
Este acontecimento assustou o reverendo que resolveu mudar o Centro para outro local. Foi
então para um outro quimbo chamado Cheta. Falou com os habitantes que apoiavam a sua
iniciativa, e assim arranjou uma cubata com quartos grandes, um dos quais servia para ser a
casa dos cultos.
O pastor transportou tudo o que tinha para o novo centro, à excepção dos porcos. Quando
concluiu que o novo lugar reunia as condições mínimas, mandou lavar os cobertores, e
durante a tarde desse dia, conseguindo uma carroça decidiu ir em busca dos porcos. Depois
dos cobertores serem lavados, foram estendidos perto de uma árvore frondosa conhecida por
Omanda. Quando faltava pouco tempo para a partida de volta ao centro, o remoinho que
havia atirado os cobertores da cama da sua esposa voltou novamente; tomou os cobertores e
enrolou-os nos ramos mais altos da árvore, e tal como tinha acontecido da primeira vez,
ouviu-se de novo um grande estrondo. Depois de retirarem os cobertores da Omanda com a
ajuda duma escada, iniciaram a viagem de regresso na carroça. Chegaram a Zoar-Panda
quase ao anoitecer. Dormiram um pouco, e no dia seguinte, muito cedo, retomaram a viagem
que os levaria ao novo centro. Depois de calcorrearem uma certa distância, os porcos foram
morrendo, sucumbindo o último animal ainda nem tinham percorrido o último quilómetro.
Como não era muito aconselhável viajar com porcos para o Centro, o ministro amaldiçoado
decidiu passar ali o dia todo de forma a extrair a gordura dos animais e vender a sua carne,
evitando assim ter muito prejuízo.
Por volta das dezassete horas, o organista paulino Chinjambela, que pareceu arrependido aos
olhos do pastor, que tinha seguido o pastor no seu novo múnus pastoral, tocou o sino para o
culto vespertino, mas o pastor não pôde assistir e oficiar ao serviço divino devido a estar
ocupado na venda da carne dos porcos. Quando o culto terminou já era noite. O organista,
então, viu que à volta do edifício do templo congregacional existia muito capim alto e seco, de
modos que resolveu queimá-lo. Toda a congregação e os demais convidados ajudou nessa
limpeza. Ora no meio do capim havia muitos gafanhotos, e os rapazitos começaram a apanha-
los para os comerem. O filho mais novo do reverendo também fazia parte do grupo,
apanhando os insectos. De repente surge novamente o remoinho de vento, pela terceira vez, e
que acaba por envolver o benjamim do pastor. O fogo da queimada era tanto que fez pasmar
os presentes, os quais se puseram aos gritos: “Peya Kanyongo, peya Kanyongo! (Foi para lá
um Kanyongo, foi para lá um kanyongo!)2
O moço tentou fugir do fogo que o cercara, mas a tentativa foi vã, e depois de o fogo o ter
calcinado, ouviu-se, tal como das vezes anteriores, um grande estrondo como o de um canhão.
A criança estava tão desfigurada que quando as pessoas se aproximaram dela estava
irreconhecível.
Entretanto o nosso ministro congregacional, após ter realizado o seu labor urgente, esperava
pelo seu rebento, já na casa pastoral. A dado momento soube que tinha morrido um menino, e
imediatamente dirigiu-se ao local, e ao reparar na cicatriz que a criança tinha no braço quase
intacto, logo reconheceu que era o seu filho. Levou-o então para o sepultar. Apesar da
angústia em que o clérigo vivia, os seus adversários, sabendo do sucedido, não se deram ainda
por vencidos, e foram à Missão acusando-o de ter consultado um feiticeiro a quem levara uma
porção de terra do local onde o filho morrera, a fim de saber quem era o responsável pela sua
morte Estas acusações foram aceites na missão, e como consequência o anjo da congregação
foi impedido de exercer as suas funções ministeriais ad aeternum. (Continua)

2. http://www.elielbatista.com/2010/10/confissoes.html
1. Instituto Currie do Dondi: http://bungonline.org/imagens/buginform/Dasep.pdf
A ADORAÇÃO A D-US E O KALITANGUI, O SUPOSTO J-SUS

O sistema religioso dos bailundos, antes do contacto com a religião cristã, cingia-se a súplicas
que faziam a D-us por intermédio dos seus parentes já falecidos. Cada família tinha um
pequeno templo, numa cubata circular com mais ou menos metro e meio de diâmetro. Nessa
cubata, que em umbundu se designa por Etambo, o chefe da família apresentava-se,
reverentemente, todas as manhãs com o propósito de falar com os seus bisavós, avós, pais e
tios já falecidos. A intenção era sempre a mesma. Pedir-lhes que intercedessem por eles
perante D-us, pois os bailundos acreditavam que todos os que em vida tivessem praticados
boas acções, quando morressem iriam habitar junto de D-us no KALUNGA. Aqueles que em
vida se tivessem portado mal, não eram venerados no Etambo, uma vez que os bailundos
criam que, pelos seus actos, haviam sido lançados no ONJEMBO, o inferno. Os Etambos
eram tratados e limpos constantemente; engalanavam-nos com pratos de porcelana,
cobertores novos, e vasos que compravam em benguela aos brancos em troca de borracha.
O chefe de família ia ao Etambo todas as manhãs, e as suas primeiras palavras eram as
seguintes: “Nunca fiz mal a ninguém; considero o filho do meu vizinho como meu; trato com
amor e carinho os animais do meu vizinho...”, e assim por diante. Referia-se a todos os actos
que mostravam a sua solidariedade com os outros bem como a sua rectidão. Depois disto,
pedia aos parentes já falecidos para lhes concederem saúde e outras coisas mais que
necessitassem. Mesmo para aquelas situações em que um dos familiares pretendia viajar, o
chefe da família ia ao etembo pedir que a viagem corresse bem; se houvesse um doente
também suplicavam pelo seu restabelecimento.
KALITANGUI
Segundo uma profecia, haveria de nascer uma uma pessoa que se desembaraçaria de D-us,
chamado Kalitangui (significa envolver-se, desdobrar-se). De modo que todas as raparigas
bailundas desejariam ter esse filho. Até que um dia uma rapariga ficou grávida sem que se
soubesse quem era o progenitor1, e esta gravidez durou cinco anos. Ao dar à luz, primeiro
veio ao mundo o Akuenje velombe (exército); depois o Eyemba (palácio real), e depois
nasceram bois, cabras e galinhas, para no fim ver ao mundo o Kalitangui, que fazia milagres
tais como os que fizera Jesus.
De acordo com a tradição dos bailundos, existira em tempos remotos um personagem de nome
Kalitangui que fazia grandes milagres, cujo nome completo Kalitangui wa li tangle la Suku.
Curava doentes, expulsava demónios, exortava os indivíduos de raça negra no sentido de
obterem o perdão de D-us, por lhe terem desobedecido aquando da saída das caldeiras. Para
mim tratava-se de uma lenda, mas para os bailundos foi um acontecimento real.
Eis, pois, um exemplo de um dos seus milagres:
Num certo quimbo havia uma família que vivia em grandes dificuldades; o que colhiam nas
suas lavras (terras de cultivo) mal chegava para o seu sustento. Por isso, trabalhavam nas
lavras dos outros a fim de obterem algum milho.
Aconteceu que um dia, apareceu naquele quimbo um indivíduo enfezado, cheio de bitacaias
(pulgas que penetram nos dedos e das mãos, onde se transformam em bolinhas do tamanho de
ervilhas, produzindo ovos que se lançam fora um a um) e piolhos, sujo, mal arranjado e
desprezado por toda a gente. Chegou ao quimbo completamente molhado pela chuva que
havia caído torrencialmente naquele dia, e tiritando de frio. Bateu a várias portas pedindo
agasalho e abrigo, mas ninguém o assistiu nem agasalhou devido às bitacaias que tinha.
Ao anoitecer chegou na casa a que nos referimos anteriormente, cujos moradores acabavam
de chegar do trabalho. Pediu para se hospedar (por caridade) e que foi aceito com muito
agrado. Deixaram-no entrar na cubata, e como estava com muito frio, acenderam o lume para
que o indigente se aquecesse, deram-lhe uma manta para se cobrir pois estava quase nu,
mataram uma galinha para lhe dar de jantar, tomaram do milho que haviam ganho nesse dia
e o reduziram a farinha no almofariz para fazer pirão, para que o estranho comesse com
carne de galinha.
Como aquele “hóspede” estava muito cansado, conduzira-no à tulha onde lhe estenderam
uma esteira para o deitar, deram-lhe o melhor cobertor para que se cobrir, e assim adormeceu
profundamente.
No dia seguinte, de manhãzinha, fizeram-lhe uma outra refeição, novamente com pirão e
carne da galinha. Depois dele se ter alimentado, resolveu continuar a sua viagem. Esta família
acompanhou-o até a uma certa distância onde se despediram dele, dizendo-lhe que se voltasse
a aparecer naquela aldeia, não hesitasse em os procurar pois seria sempre bem acolhido.
Momentos depois o estranho desaparecia da vista deles.
De regresso a casa prepararam alguma coisa para comer, pois iam ter de procurar trabalho
para aquele dia, e por isso necessitavam de recuperar as forças físicas.
Depois da refeição estar pronta, a mãe pediu a um dos filhos que fosse à tulha buscar os
pratos que o hóspede havia utilizado. O moço quando lá chegou, tentou abrir a porta mas não
o conseguiu. Foi então dizer ao pai que a porta não abria, e o pai estranhando dirigiu-se lá, e
só depois de muito esforço dispendido, inutilmente, verificou que a tulha estava cheio de milho
até ao teto, e como se não bastasse, o montão de milho não parava de aumentar.
Toda a gente do quimbo foi ver, admirados por aquele milagre, e diziam que aquele
acontecimento só podia vir do Kaltangui wa li litangele la Suku, o homem que se desembaraça
de D-us, que se disfarçou de mendigo, ou seja, um ser desprezível aos olhos de todos.
A partir daquele dia, aquela família que havia recebido em casa o Kalitangui, alcançou tudo o
que desejava, e nunca mais voltou a trabalhar nas lavras dos outros, pelo contrário, muitos
vinham pedir-lhes trabalho a eles. As suas lavras produziram abundantemente, e em pouco
tempo tornaram-se os mais ricos daquela terra, só pelo facto de terem hospedado o Kalitangui
em casa.
A CHEGADA DO EVANGELHO (BOA NOVA DE
ALEGRIA) AOS BAILUNDOS, ANGOLA

O Evangelho chegou aos bailundos graças à Junta Cristã


Americana, American Board, com sede em Boston, a qual
resolveu enviar alguns missionários para o sul de Angola e daí
até ao bailundo.
Era um grupo de três missionários: Drs. Revs. Sanders e
Bagster, e um missionário negro chamado Miller, os quais
chegaram a Benguela no dia 11 de Novembro de 1880, onde
permaneceram durante algum tempo, de modo a preparar a
viagem para o interior. Refira-se que naquela altura havia
grande dificuldade de deslocação, visto não haver estradas
nem meio de transporte, a não ser os puxados por animais,
para pessoas, sendo as cargas transportadas às costas de
humanos. Estes três missionários organizaram uma grande
comitiva de carregadores, que transportaram as bagagens às
costas ou na cabeça, comitiva essa composta de 95 pessoas,
homens e mulheres, com ainda mais um boi e sete burros,
todos carregados de mercadorias para as missões do interior
que tencionavam instalar.
Sanders e Miller viajavam nas tipóias, enquanto Bagster
caminhou a pé desde Benguela até ao Bailundo, e por esse
motivo os carregadores que os acompanhavam diziam: “Oku
enda o kela ño (“Esmaga tudo o que cruzar no caminho”)”,
dando-lhe a alcunha de Sachikela.

A viagem foi muito longa, e apenas chegaram aos bailundos


em Maio de 1881.

Logo que ali chegaram, foram imediatamente ter com o soba


da área chamado Ekuikui II, que tinha a sua embala (capital)
no cume do morro Mbalundu.
Os missionários faziam-se acompanhar de um intérprete de
uma tribo da região de Benguela chamada Quissanje, cujo
povo fala também a língua umbundu, embora com algumas
diferenças. Quando os missionários ali chegaram havia uma
altercação entre o soba, Tulumba e Lucamba por causa de um
boi. No meio da discussão viram uns brancos que se
aproximavam do Epandavelo (entrada da capital que tem um
guarda) a quem pediram uma audiência ao rei, o qual
interrompeu o julgamento para os receber.

Os missionários, postos diante do rei, ofereceram-lhe alguns


presentes. Pelo que se sabe, Eluikui não se mostrou muito
satisfeito com os presentes, por não ter visto aguardente nem
pólvora.

Com a ajuda do interprete, Sanders explicou ao rei os motivos


da sua viagem, dizendo que estavam ali para transmitir a
mensagem de Deus, para que as pessoas vivessem em
irmandade, amando-se umas às outras. De seguida citou os
mandamentos de Moisés: Não matar, não roubar, não ser
mentiroso, não adulterar, etc.

Explicou que as pessoas que praticassem tais actos, ao


morrerem eram lançados num fogo ardente que se encontrava
num lugar chamado inferno Ao ouvi-lo o soba disse:

“Se eu estou sentado neste banco é precisamente por esse


motivo. Todos os que pratiquem esses actos são sempre
severamente castigados aqui na Embala”.
Assim os missionários, vendo que aqueles mandamentos já
eram observados ali, decidiram falar de Jesus Cristo, o que
agradou sobremaneira ao rei Ekuikui, pensando que eles se
referiam ao Kalitangui/Kalitangi/J-sus
(http://www.uel.br/revistas/boitata/volume-2-2006/artigo
%20Ana.pdf, página 7).

Desta forma o rei, todo satisfeito com tal mensagem chamou os


rapazes da corte e ordenou-lhes que conduzissem os
missionários para um lugar mais seguro denominado Chilume
(lugar seguro rodeado de homens fortes) onde poderiam
construir a Missão.

1. Perto daquela localidade há uma nascente de onde


brota água potável. Trata-se de local com um lindo
panorama paisagístico, de onde se avista a serra de
Lumbandanga e aquém dela dois rios – Kulele e
Kukai.
»» Dizem que os missionários cristãos protestantes conservadores apreciaram muito aquele
lugar, mas no entanto não tardou que as complicações surgissem.
Assim que se criaram as condições para a construção da Missão, um português chamado
Braga, que traficava escravos, foi ter com o soba Ekuikui que lhe disse o seguinte:
- Ó soba, tu és o chefe supremo desta terra, mas aceita o conselho que te vou dar: expulsa
imediatamente os americanos das tuas terras, pois se os não expulsares, em breve virão com
máquinas, e num instante o outeiro onde tens a tua capital será destruída, e destruído serás tu
e todos os que aqui vivem.
O soba, perante esta advertência ordenou a todos os rapazes da corte para irem saquear os
missionários e expulsá-los do seu território. Diz-se que um dos rapazes ao ver uma garrafa
com medicamentos líquidos, pensou que se tratava aguardente e a tomou. Um dos
missionários teve de intervir imediatamente tirando-lhe o frasco das mãos, explicando-lhe que
era veneno.
Durante aquele assalto os missionários nada fizeram em sua defesa, e não tiveram outra
alternativa senão voltarem para Benguela. Passados que foram alguns meses um outro
missionário, chamado Frederico Stanley Arnot, chegava às terras do Bailundo. Depois foi ter
com Ekuikui explicando-lhe que fora incorrecto ao expulsar os missionários, uma vez que eles
vinham para o bem do povo. Assim o rei, arrependido, enviou a Benguela um grande grupo de
carregadores a fim de trazerem os missionários de volta.
Quando os missionários regressaram de novo ao Bailundo, o rei foi ter com eles, desculpando-
se por ter sido enganado por um português. Levou-os até ao Chilume, e para que nunca mais
fossem expulsos, selou com eles um pacto plantando uma mulemba (árvore doméstica). A par
disto cooperou com os missionários dando-lhes mão-de-obra e liberdade para evangelizarem
as pessoas que habitavam nas suas terras.
Os missionários foram objecto de manifestações de afectos por parte das populações, pois
eram diferentes dos outros estrangeiros, como os portugueses que por ali passavam, e por isso
deram-lhes o nome Afulu, que significa bons e mansos como as pombas. Não compravam
escravos e nem vendiam pólvora, não bebiam e nem fumavam. O seu objectivo era apenas
propagar o Evangelho e o Nome de Cristo, a fim de que todos os bailundos se amassem uns
aos outros como se fossem filhos de um só Pai/Mãe. Recorde-se que os bailundos atribuiam
aos Evangelhos a designação de Afulu e aos seus membros de Vakuafulu (Santos, sem mácula).
Infelizmente, dois anos depois o missionário Bagster faleceu vítima da picada de um insecto.
No local onde foi sepultado construiu-se o primeiro templo.
Em 1954, um missionário japonês, chamado Thomas Massagi Okuma, decidiu transladar os
restos mortais deste missionário falecido para outro lugar, onde também estavam sepultados
outros missionários.
Eu estive presente aquando das escavações do túmulo de Bagster, e para surpresa de todos
nada se encontrou lá nem sequer um osso, apenas dois parafusos. Então retiraram a terra
presa aos parafusos, e meteram-na num caixão de luxo, voltando a enterrá-lo no cemitério
juntamente com outros missionários falecidos no bailundo. No mesmo cemitério, à direita,
estão dois túmulos de missionários, que diziam ser de ingleses falecidos no mesmo dia. Pelo
que se sabe, tinham saído da Missão para evangelizar numa área chamado Utalamo, onde
tinham comido carne de porco que os vitimou. Nas suas lápides, em ferro fundido, o primeiro
tem a seguinte inscrição:
In loving memory of
Thomas Henry Morris of London
Who fell a sleep in Jesus
At Utalamo, 19th Oct. 1989.
Aged 36
If we believe that Jesus died & rose again
Even so, them also which sleep in Jesus
Will go again bring him
I ths: 14
A outra lápide dizia o seguinte:
Richard B. Gall
Who fell a sleep in Jesus
19th Oct. 1889
Aged 32 years
Till death comes
O terceiro túmulo é de uma criança, sem lápide. O quarto é o de Bagster, trasladado
recentemente, cuja inscrição na lápide se encontra completamente apagada, tendo apenas em
português: FALECEU EM 1982. É um túmulo em pedra mármore.
O quinto túmulo, também em mármore, é de uma criança, em cuja lápide se lê em seguinte:
Mable Means Stover
Born May 26, 1888
Died January 14, 1892
Sem mais qualquer indicação. O sexto túmulo é de uma missionária, tendo gravado na lápide
em português, e também em ferro fundido, a seguinte inscrição:
À saudosa memória
de
Clara wilkes curri
Missioneira pioneira Candiana
faleceu no Bailundo
em 21 de Setembro de 1882
Para mim o Viver é Cristo e o Morrer é Ganho
O sétimo túmulo volta a ser outra criança, sem qualquer outra inscrição. O oitavo tem uma
lápide escrita em francês. É uma sepultura de criança, filha provavelmente de algum
missionário chamado Neipp, e a lápide diz o seguinte:
Louis Joseph Neipp
1900
Au revoir
Matt. 19:14
Quando o Evangelho chegou aos bailundos, muitos dos hábitos tradicionais foram postos de
lado; já não comia no onjango; os feiticeiros deixaram de ser queimados; muitos
apresentavam as suas feitiçarias à Igreja; os que tinham duas três ou três mulheres ficaram
apenas com uma; como a “religião evangélica” proibia fumar, muitos fumadores levavam os
seus cachimbos para serem queimados; os nomes africanos das pessoas eram substituídos por
nomes bíblicos, como Mateus, Lucas, Paulo, Jonas, Neemias, etc. Os quimbos também
passaram a ter nomes da Bíblia, como Damasco, Jericó, Jope, Samaria, etc.
Todos procuravam viver em função do que a Bíblia dizia. No dia-a-dia, se alguém falasse ou
precedesse mal, os outros diziam: isto não se encontra no Evangelho ou não é bíblico.
Muitas noites acendiam-se fogueiras às portas dos catequistas para se aprender a palavra de
Deus. Também construíam capelas a que se davam o nome de Osicola (escola), porque ali
também se aprendia a ler e a escrever.
Os quimbos passaram a ser construídos de outra maneira: as casas alinhadas e feitas de
adobes; em todas as aldeias havia ruas bem alinhadas a que eles davam o nome de Olokolo
(ruas das aldeias). Era o começo de uma grande civilização entre os Bailundos.
Quando tudo estava em bom andamento, e o Evangelho tinha atingido uma área de alguns
trezentos quilómetros de raio, começaram a surgir alguns contratempos com a Igreja
Católica. Tudo começou depois dos católicos se instalarem também no Bailundo em 1890 com
um padre francês chamado Leconte. Após o começo desta desta Missão Católica todo o
trabalho evangélico transtornou-se. Todos os documentos passados por esta Igreja, como as
certidões de nascimento e de casamento tinham validade perante o estado português. Porém,
qualquer acto oficial realizado pelos evangélicos era considerado nulo, mesmo até os
casamentos. De modo que, todos quantos se casassem na Missão Protestante eram
considerados solteiros.
O governo português via com maus olhos a construção de qualquer Missão protestante,
incentivando a proliferação de Missões Católicas. Também advertia aos fiéis católicos sobre o
risco que correriam em casar os não católicos. Desfazia-se o casamento, e o rapaz, se fosse
protestante, era imediatamente enviado para o trabalho forçado. O povo que era muito unido
por causa do Evangelho, agora tinha-se desunido. A rivalidade entre as duas Igrejas era
grande e os quimbos eram separados. Havia quimbos exclusivamente católicos e quimbos
protestantes. Tinham-se tornado inimigos, e muitas vezes até havia violência.
Uma vez vi um grupo de fiéis evangélicos irem para a Mesa do Senhor, a Santa Ceia, cujo
caminho passava por um quimbo católico. Os habitantes desse quimbo, então, saíram das suas
casas armados com paus, agredindo os protestantes, alegando:
- Va pita posikola kavopileko ochapeu (“Passaram pela escola [capela] e não tiraram os
chapéus”).
Em 1925 o governo português proibiu a realização de cultos evangélicos em todos os quimbos.
Para o efeito constituiu uma rede de espiões oriundos das aldeias católicas. Se algum
protestante fosse visto a cantar um hino da sua igreja ou orar, era logo apresentada uma
queixa ao padre, que levava o assunto às autoridades portuguesas, sendo o prevaricador preso
e enviado para o trabalho forçado onde permanecia durante um ano. Esta situação levou a
que os missionários fossem a Luanda ter com o Governador-Geral de angola, pedindo
autorização para poderem realizar os seus cultos nos quimbos. Apesar dessa autorização, os
problemas não terminaram. Muitas vezes os chefes dos postos administrativos enviavam
cipaios, aos Domingos, para apanharem as pessoas e as levarem ao posto, onde algumas delas
eram levadas ao trabalho forçado e outras obrigadas a trabalhar no posto.
No Bailundo havia muitos brancos com grandes fazendas agricolas, em que colhiam arroz,
trigo, grão-de-bico, e outros produtos, mas forçavam os indígenas a trabalharem nas fazendas
e sem direito a alimentação; e a maior parte dessa mão-de-obra era dos quimbos protestantes.
A fazenda da Gandarinha, no Mungo, e que eu conheci pessoalmente, produzia arroz, trigo,
batata, etc. O seu proprietário era um português a quem deram o nome de Kambuka (homem
muito baixo). Centenas de pessoas eram arrebanhadas dos quimbos e levadas para esse
trabalho, e ali ficavam durante uma semana, sendo substituidas depois por outras, e onde
permaneciam presas durante a noite para não fugirem. No dia seguinte, muito cedo, tocava o
apito e todas saiam das prisões, levadas para as formaturas para serem contadas. Depois eram
substituídas pelos diversos afazeres onde, sob chicote, cavavam a terra. Quem se espreguiçasse
era imediatamente agredido, chegando a maior parte dos casos, a morrer. Quando isto
acontecia, cavavam um buraco no terreno já trabalhado onde o enterravam. Depois tratava-se
aquele terreno, semeava-se nele sem deixar vestígios do morto.
Como entre os bailundos os trabalhadores despertavam muito cedo, criou-se a segunte
canção:
Lomue o N’Denda la
Lomue o N’Denda la
Ndimola onganga we.
Lomue N’Denda la yele
Citeketeke omele opito ya sika
Lomue o N’Denda la
Citeketeke omele opitoya sika
Lomue o N’Denda la-
TRADUÇÃO:
Ninguém me rende
Ninguém me rende
Sou filho de um feiticeiro
Ninguém me rende.
Logo pela manhã cedo o apito toca
Ninguém me rende
Logo pela manhã cedo o apito toca
Ninguém me rende
Esta canção tem uma linda melodia e cantavam-na à medida que iam trabalhando. Ao meio-
dia o apito tocava outra vez e largavam o trabalho, indo preparar a comida que levavam das
suas casas.
Às 14 horas voltavam ao trabalho e só o largavam quando começasse a cair a noite. Depois de
jantarem, eram enclausurados nas prisões com as portas fechadas por fora. As prisões não
tinham casas de banho, tendo as pessoas de fazer as suas necessidades nas suas próprias
panelas.
Entretanto a Igreja Evangélica começou novamente a desenvolver-se. Em 1930 reallizou o seu
primeiro Jubileu que teve grande sucesso. Participaram nele mais de 30 mil pessoas, e se
prolongou durante uma semana.
Em 1929, um ano antes do Jubileu, fora ordenado o primeiro pastor nativo chamado Abraão
Ngulu. Infelizmente este pastor (“vaso de desonra”, não predestinado positivo em potencial,
i.e., pelo menos para ser um “vaso de honra leal a Ela-Ele/Ele-Ela [D-us]“), para obter mais
poder no seu ministério, arranjou um feiticeiro (sincretismo religioso) para administrar todos
os departamentos do seu pastorado. Intentaram manter isto no segredo mas o caso foi
descoberto e ele foi expulso da Missão. Anos mais tarde foi recolocado no Ministério graças a
um missionário chamado Hastings (um “gesto” arriscado, mas estratégico).
Como o governo português tinha interditado a abertura de mais Missões Evangélicas,
Hastings fundou muitos centros de evangelização, e em cada centro colocou um pastor nativo.
Nestes centros fazia-se todo o trabalho das Missões, o que evitava que os seus membros
percorressem grandes distâncias, e assim se deslocavam para esses centros a fim de tratarem
de quaisquer assuntos da sua conveniência, quer de casamentos, baptismos ou outros.
Os missionários eram muito estimados pelas populações, e quando faziam as suas visitas
pastorais, o povo, além de lhes preparar a melhor comida, construia um ochingala, espécie de
barracão feito de capim e folhas de bananeira.
No dia em que os missionários chegavam a um quimbo, ninguém trabalhava nas lavras. Logo
que eles se aproximassem da aldeia, um homem postava-se um pouco antes, na estrada, à sua
espera, e logo que os visse aproximar, lançava uns sons de enguena, que é um chifre de boi, e
toda a população corria para o barracão, cantando hinos religiosos.
Em 1951, numa manhã cedo, um padre português chamado Mendes, juntamente com um
grupo dos seus fiéis, carregavam uma quantidade de madeira e foram para uma “aldeia
evangélica” chamada Kandandi, e aí começaram a construir uma capela católica em frente da
capela daquela aldeia. No momento a população estava reunida no seu culto da manhã. O
catequista evangélico, chamado Vitorino, foi inquirir junto do padre dizendo que não era
correcto eles construirem católica mesmo em frente da capela protestante, o que era
considerado como usurpação e uma provocação. O padre irritou-se e espancou brutalmente o
catequista Vitorino.
A população da aldeia ao ver o padre na sua agressão ao Vitorino, reagiu batendo também no
padre, chegando mesmo a feri-lo com gravidade. O padre saiu dali sangrando na cabeça e foi
apresentar a questão no tribunal. Este acontecimento causou uma grande preocupação aos
missionários evangélicos, americanos e canadianos, que logo tiveram que meter um advogado
na sua defesa.
No dia do julgamento, todos os missionários estavam presentes. Antes da sentença, levantou-se
o delegado do Ministério Público e disse de sua justiça:
- Angola é uma terra portuguesa e a religião dos portugueses é a católica, e todos nós somos
católicos. Não é lícito quando os nossos missionários vão evangelizar e serem agredidos e
feridos. Responda-me a esta questão, senhor doutor juiz!
Entretanto levantou-se o advogado de defesa e ordenou que Vitorino se levantasse. Perguntou-
lhe qual a sua idade, naturalidade, nome dos pais, habilitações literárias, etc., que tomava
nota num papel. Depois perguntou-lhe o ano em que a aldeia fora fundada, e ele respondeu
que em 1911. O advogado depois disse:
- De facto Angola é uma terra portuguesa e a religião dos portugueses é a católica. Mas o
governo português não a impõe a ninguém visto que aqui a religião é livre. Cada um pode
seguir a religião que entender ou não seguir religião nenhuma. Então, por sermos católicos,
temos o direito de usurparmos uma propriedade alheia que os seus donos já possuem há
quarenta anos? E só este ano, 1951, é que o padre se lembrou de construir ali uma capela
católica para persuadir os protestantes a se converter ao catolicismo? Isto não é tirania?
Quando este advogado terminou a sua intervenção ouve um pequeno silêncio; depois saíram
todos os responsáveis judiciais para deliberar, e algum tempo depois voltaram a aparecer com
um documento escrito que foi lido à frente de todos, dizendo que o nosso catequista
reformador, de nome Vitorino, fora absolvido.
O MATRIMÓNIO E O PEDIDO DE CASAMENTO

Antes dos brancos terem chegado à região do Bailundo, já os bailundos realizavam


casamentos. Devemos afirmar também, no entanto, que o casamento tradicional é mais eficaz,
pois é raro haver divórcios. Entre os bailundos existem dois símbolos do amor do marido para
com a sua esposa, representados por uma arma e por um guarda-sol, símbolos, estes, muito
respeitados e considerados.
A arma é o compromisso do marido para, em qualquer circunstância, sair em defesa da
mulher, que o exprime nas seguintes palavras:
- Ó minha mulher, defender-te-ei de qualquer perigo que possas vir a correr!
O guarda-sol tem a ver com o aconchego que o marido dá à mulher, com a seguinte
declaração:
- Ó minha mulher, construirei uma casa para ti a fim de que te possas abrigar no seu teto.
O símbolo do guarda-sol, ou sombrinha, chegou até aos dias de hoje mas não o da arma, que
foi abandonado pelo facto de, depois da revolta de Matuyakevela contra os portugueses, em
1902, ter sido interdita a venda de armas aos bailundos. A partir desta data elas deixaram de
ser utilizadas nos casamentos.
O matrimónio começa também, entre os bailundos, pelo namoro. De modo que um rapaz
quando gostar de uma rapariga, pôe o assunto aos seus pais, e outros familiares, que analisam
a questão. Estes começam por procurar saber os antedentes da família da moça pretendida:
depois, se nessa família houver por acaso ladrões, mulherengos ou alguém que tenha
praticado actos condenáveis, ou tenham doenças complicadas, estes aconselham o rapaz a
desistir das suas pretensões. Do lado da moça procede-se da mesma forma.
No caso das famílias concordarem no casório, nomeiam um tio do rapaz para ir conversar
com os pais da rapariga, “levando” uma Ongandala (uma quinda, que é uma espécie de cesto
feito de madeira, contendo bebidas, peças em pano e outras coisas, que uma miúda transporta
à cabeça) por meio de uma miúda, que por sua vez, é escoltada por um miúdo, e uma arma,
essa sim, levada pelo tio. Ao chegarem ao destino, os anfitriões dizem:
- Akombe veya! – “Os hóspedes vieram!”
- Tu eya! – “Viemos!”, respondem os que chegam.
A mãe da rapariga recebe a ongandala e o pai a arma, colocando as prendas dentro de casa
mesmo antes de se cumprimentarem. Depois, tomam uns bancos e sentam-se fora de casa e só
depois se cumprimentam, dizendo:
- Akuku, akuku! – Cumprimento inicial nos encontros entre pessoas, usualmente pelos
anfitriões; a resposta dos visitantes será: “Kuku!”
Conversam depois sobre vários assuntos que são do interesse comum. Entretanto, entre uma
pausa no diálogo, os pais da rapariga mandam uma criança apanhar uma galinha (ou
duas) que servirá para o conduto na refeição oferecida aos hóspedes. À noite preparam a ceia,
levando a carne da galinha e o pirão para a cubata onde os hóspedes irão pernoitar. Estes
conferem a carne da galinha para verificarem se todas as partes da galinha estão presentes.
Caso falte uma das partes, devolvem a carne. Se estiver tudo completo, tiram uma parte para
si e devolvem o resto.
Depois da ceia dirigem-se à cozinha e sentam-se à volta da fogueira. Depois o pai da moça
pergunta:
- Tu fa ale tu puluka? – “Morreremos ou escaparemos?”
- Escapam! – respondem os hóspedes. – Então digam-nos o motivo que oa trouxe até ao nosso
meio! – Diz o pai da rapariga.
Cabe ao tio do rapaz tomar a palavra e dizer:
- O meu sobrinho (fulano) viu durante os passeios e nas actividades da aldeia a vossa filha
(fulana) e gostou dela. Assim, pediu-nos para virmos aqui a fim de a pedir em casamento. Já
nos reunimos e concluímos que não há nada contra ela, e aceitamos que ela seja a futura
noiva. Foi isso que aqui nos trouxe. Agora cabe a vocês matarem a cobra e depois dizerem o
nome dela (isto significa: pedir a confirmação do pedido, se aceitam ou não).
Os pais da noiva tomando a palavra respondem:
- Bem, por acaso ouvimos alguns zunzuns sobre o que vos trouxe aqui. Da nossa parte não há
nada que impeça a nossa filha de se casar com o vosso filho. Apenas dependerá dela, se aceita
ou não!
Mandam de imediato chamar a rapariga, e logo que chegue mandam-na sentar-se, e o pai
então diz-lhe:
- Eis aqui os teus hóspedes.
O tio do rapaz toma a palavra e diz:
- Ó mãe (tratam sempre as pessoas do género feminino por mãe, mesmo pequenas, e por pai
as do género masculino), nós viemos aqui pedir-te para que sejas a nossa futura nora, casando
com o nosso filho, fulano. Gostamos muito de ti, e pedimos que aceites este nosso pedido.
O pai dela ainda observa:
- Diz o que te convir. Se gosta dele diga que sim, e se não diga que não.
Ela então fica calada, pois entre os bailundos as raparigas nunca têm coragem de dizer
perante os pais, o sim, em relação ao casamento. De modo que ela fica indecisa e fica
completamente encabulada. A única solução, para estes casos, é chamar as suas tias, em
particular, cabendo a elas perguntar à parte se ela aceita ou não.
Assim, depois de algum tempo aparecem as tias para confirmar que ela aceita a proposta. O
tio do noivo desembrulha a ongandala de onde retira um pano, enrola-o à volta da rapariga.
Depois pega num par de brincos e mete-os nas orelhas dela e pôe-lhe um lenço na cabeça.
Estes artigos, que se dão no momento do pedido de casamento, designam-se por enxota rivais.
Na manhã do dia seguinte cozinham mais uma galinha para os hóspedes que a comem com o
pirão. Depois de terem comido, despedem-se e vãos alegres por terem conseguido as suas
pretensões. Quando chegarem aos seus, contam-lhes tudo quanto aconteceu, que não
conseguem conter a sua alegria pelo sucedido. A partir de então, o rapaz começa a preparar-se
para o casamento.
Depois de alguns meses o tio do rapaz vai ter novamente com os pais da rapariga a fim de a
levar consigo para a preparação das lavras. Já no quimbo do moço é entregue aos sogros,
ficando sob os cuidados da sogra; esta dormirá com ela na mesma cama, vigiando-a, para
evitar que o rapaz tenha relações sexuais com a moça o que, segundo a Tradição, romperia o
compromisso estabelecido para o casamento.
Começam então os preparos da lavra. O rapaz derruba os árvores, enquanto ela arrotea a
terra. Depois volta para a sua casa acompanhada do tio do moço a fim de a devolver aos seus
pais e levar o ilombo (aquilo que o pretendente dá aos pais da rapariga, como o cobertor de
papa, nome que dão a um cobertor grande e felpudo, panos, roupa do pai e da mãe, um
garrafão com bebidas, etc.) A partir daí só se espera o momento do casamento. Para o efeito, o
rapaz prepara a sua moradia com a sua respectiva cozinha, bem como a tulha.
Quando faltarem dez dias para o casamento, os aldeãos
preparam em grandes quantidades o “osovo”, o fermento para
fazer o “ochimbombo”. Nas vesperas do casamento, as tias dos
dois noivos dão instruções de como viver a vida conjugal; ele é
instruído em como dormir com uma mulher na cama, o que se
deve e o que não se deve, e outras coisas mais. Mais tarde a
noiva regressa à casa dos seus pais.

1. Nessa mesma noite o tio e algumas tias do rapaz vão


buscar a noiva em casa dos pais dela, e dizem:

1. - Etali, tu yea ok upa ukai wetu, “Hoje Viemos Buscar a


Nossa Mulher”

1. Os pais dela chamam-na em particular, advertem-na


que a partir deste dia deixará de viver com eles e
passará a viver com o seu marido. Dizem-lhe para
respeitar todos os familiares do marido, sobretudo os
sogros. Se um deles ficar doente ou precisar de auxílio,
ela deverá prestá-lo sem vacilar. Também a alertam no
sentido de quando quiserem poderão deslocar-se ali
para os visitar mas que, definitivamente esta está
separada deles. Depois destas instruções, a rapariga é
levada para a cubata do marido onde passará a noite.

1. No dia seguinte, muito cedo, o tio bate à porta e então


diz em tom de brincadeira, que, geralmente, os tios
dizem sempre aos sobrinhos: “Acorda rapaz! Já não foi
suficiente o gozo que tiveste com a minha mulher? Eu
já estou aqui, e tu sabes bem que ela me pertence!
Deixa-a, eu preciso dela!

1. Então abre-se a porta, os noivos saem e pôe uma esteira


ao pé da cubata dos casados1.
1. 1 A esteira desempenha um papel muito importante na
vida dos bailundos. Se morre um marido, a viúva fica
sentada na esteira durante muitos dias; no casamento a
noiva utiliza a esteira; para empossar um Soba este tem
que sentar-se numa esteira, etc.

1. A noiva, então, senta-se na esteira e o noivo também se


senta num banco ao seu lado. Assim começa a grande
festa, a de Uvala, ou seja, o casamento.

1. Ao lado dos noivos é colocado um prato com óleo de


palma. Quem se (VAMOS FAZER A PAUSA II:
http://www.marcossampaio.com.br/2010/10/dia-da-
reforma-protestante.html) se aproximar para os
cumprimentar põe qualquer coisa no prato, que tanto
poderá ser um alfinete, como uma moeda, missanga,
etc. No entanto apenas têm direito a isso os casados ou
aqueles que o tenham sido. Por conseguinte, depois de
deitarem algo naquele prato, tomam do óleo e untam o
pulso dextro, dando a entender que são ou já foram
casados.

1. Todas as pessoas dos quimbos vizinhos participam de


igual modo naquela grande festa. Matam-se muitos
animais, sobretudo bois, e sobretudo muito pirão.
Come-se ao ar livre, bebe-se o ochimbombo que é feito
em todas as casas.

1. As despesas para a festa são totalmente da


responsabilidade dos habitantes da aldeia, que é a sua
contribuição para os noivos. Este é um dia de festa
onde as pessoas dançam o batuque durante horas a fio.
1. No fim da festa a noiva é submetida a um tratamento
especial: durante todos os dias é lavada pelas tias do
noivo e untada com óleo de palma; os seus cabelos são
trançados todos os dias, a fim de que fique bonita, não
só aos olhos do marido mas também da comunidade.

1. Depois disto marca-se uma data para a segunda festa


nupcial em casa dos pais da noiva. No dia em que os
noivos se dirigem para casa dos pais da noiva são
acompanhados por muita gente. A noiva caminha ao
lado do marido com o guarda-sol na mão e bem vestida.
Trata-se praticamente de uma marcha nupcial, que é
feita com muita muita música (canções).

1. Apesar de toda esta azafama, também existem alguns


percalços nos casamentos. Por exemplo, se durante as
festas for vista uma luta de cães, este é um sinal de que
a noiva não era virgem no casamento.

1. Existem outros rituais para manifestar isto.


Geralmente lideram cada marcha nupcial dois homens
com um porco pelado. Caso o porco tenha duas pernas
ou se caminhar na dianteira uma miúda com uma
garrafa à cabeça com óleo de palma, cheia, é sinal que a
noiva já ia desonrada no casamento. Neste caso, esta
mulher será desprezada tanto pela população como
pelo marido e pelos sogros; será sempre considerada
como mulher alheia, ou seja, pertencente ao homem
que a desonrou. Quando um caso destes acontece, a
marcha é acometida por uma onda de desânimo, e as
pessoas, dispersam-se uma a uma. Se a noiva estava
virgem, toda a gente que participa canta alegremente:

1. Ondombua yetu ya fina A nossa noiva é bonita


1. Ondombua yetu ya fina A nossa noiva é bonita

1. Ondombua yetu ya fina we A nossa noiva é bonita, sim,

1. Ka yi talele wa pumba Quem não a vir perdeu um


grande espectáculo

1. Ou cantam ainda esta:

1. Omala vange volonjamba Que farei dos meus filhos


gémeos?

1. Ndi va linga ndati? Se prestar mais atenção ao


katombela (noivo)

1. Njupapo Katombela A Nawandi chora (noiva)

1. Nawandi o sukota Se prestar atenção à Nawandi

1. Njupapo Nawandi O Katombela chora.

1. Katombela o sokota Chora – respondem todos.

1. Ó lila…

1. Ó lila – respondem todos.

1. Há outras canções nupciais muito lindas,


melodicamente, que eles entoam durante a marcha
nupcial.
1. Próximo do quimbo da noiva, a população dessa aldeia,
num ajuntamento, fica à espera dos noivos. Dois
indivíduos, um do lado do noivo e outro do lado da
noiva, surgem com uma bandeira, travando uma luta
renhida para ver qual deles toma a bandeira do outro:
Se for o que vem da parte da noiva, então esse tem a
obrigação de pagar aos familiares do noivo, ou vice-
versa.

1. É deste modo que a festa começa a animar-se.

1. Quando chegam à casa dos pais da noiva, deparam-se


com uma mulher, em geral tia do noivo, mal vestida,
com bócio feito de trapos velhos, com uma quinda
grande na cabeça cheia de coisas ruins, como panelas
de barro partidas, restos de pirão, pratos sujos, etc.
Então essa mulher mal vestida e mal apresentada,
brutalmente escorraça a noiva e toma o seu lugar do
noivo. Para se sair deste imbróglio é necessário que o
noivo pague uma certa quantia em dinheiro ou em
bens, a fim de não ser lesado pelo que dizem as
superstições. Só apenas a partir daí é que começa a
grande festa, com a mesma envergadura como a que se
passou na casa do noivo.

1. A festa termina ao pôr-do-sol, e é nesse momento que os


convidados da parte do noivo se colocam na frente da
casa dos pais da noiva com paus batendo no chão, ao
mesmo tempo que cantam:

1. Ndombua, ndombua,

1. Ye, ye, liangilya

• Aye liangilya,
• Aye liangilya,

1. Aye liangilya,

Aye liangilya okakuata tundasa:

1. Ohumba yetu…

1. Tradução para português:

1. Noiva, noiva,

1. Ye, ye, prepara-te

1. Aye prepara-te,

Aye prepara-te,

• Aye prepara-te,

• Aye prepara-te, deixa sair aos objectos:

• Que saia a nossa quinda.

• Assim logo sai a quinda que vai na cabeça de alguém.


Repetem a canção, e no fim dizem: “O nosso
almofariz” – Este alguém sai e uma nova pessoa
assume de imediato a responsabilidade de a
transportar.
• Vão repetindo a canção citando um outro utensílio
que também sai, até completarem todos os objectos
preparados pelos pais da noiva. No fim desta
cerimónia, cada qual volta para o seu quimbo. Todos
os que pertencem à aldeia onde os noivos residem,
dirigem-se à sua casa onde deixam todos os utensílios
trazidos da casa dos pais da noiva.

• É o que entre os bailundos se designa por Oku kuata


epata, o que quer dizer: criar os laços familiares. Diz
a Tradição que se a noiva não passar por esta prova,
fará sempre o pirão de ombomba, ou seja, mal feito e
mal cosido.

• Dum modo geral, é por estes rituais que passa um


casamento tradicional entre os bailundos. Embora
não se registe nada, como é feita na conservatória ou
na igreja, estes casamentos são tão legítimos para o
povo bailundo quanto os outros. A mulher será
respeitada como legítima esposa daquele homem, e
quem dela se servir sexualmente não terá nenhuma
defesa, pois, aos olhos de todos é uma mulher casada.

• Entre os bailundos, geralmente, quem assediar uma


mulher de outro e for apanhado em flagrante, está
sujeito a grandes complicações pela população que,
muitas vezes, têm levado pessoas à morte.
• Na Tradição dos bailundos, existe uma metáfora que
conduz os homens a não praticarem essas acções. De
acordo com ela, o primeiro homem que cometeu este
crime, foi encontrado colado à mulher violada, tudo
devido ao feitiço que o marido havia deixado. No dia
seguinte, o marido ao voltar a casa e face àquele
quadro tão insólito, convocou toda a população do
quimbo, recorrendo a outro feitiço que fez com que
se desprendessem. Depois forçaram o transgressor a
mostrar os seus órgãos genitais, e um outro homem
arremessou uma flecha de ochilavi (flecha com ponta
de madeira destinada a matar passarinhos) contra
esses orgãos, ao mesmo tempo que perguntava à
multidão:

• - Quando se é adúltero e se é apanhado, o que é


melhor? Morrer desta forma ou indemnizar o
marido traído?

• - É melhor pagar – respondem todos em coro – É


melhor pagar do que ser morto desta maneira.

• Foi a partir de então que se decidiu amarrar o


transgressor, levar ao soba todos aqueles que violem
as mulheres dos outros, e a serem obrigados a pagar
uma multa elevada. Entre todos os que se casam
tradicionalmente é muito raro separarem-se. E se o
homem quiser mais uma mulher, só o fará mediante
autorização da sua mulher, que tem o nome de
Ombutulua (a primeira mulher de um homem
casado).
• Na Tradição única deste povo, prevalece a ideia
segundo a qual a união entre um homem e uma
mulher não é só a da carne, mas também da alma
(estou-me a lembrar dos Yaohúshuahe [cristãos] e da
Escritura: ”1Coríntios 16Não sabem vocês que
aquele que se junta com uma prostituta torna-se
parte dela e ela dele? Porque YÁOHU UL diz-nos na
Qaotáv: “Os dois se tornam num só”. 17Mas aquele
que se der a YÁOHU UL, torna-se um só espírito
com ele. 18Fujam de toda a ligação sexual ilícita!
Nunca outro pecado atinge tanto o corpo como este; é
como um pecado contra o seu próprio corpo. 19Não
aprenderam já que o vosso corpo é a morada do
RÚKHA hol-HODSHÚA que YÁOHU UL vos deu e
que vive portanto em vocês. Por isso o vosso corpo
não vos pertence. 20Porque YÁOHU UL vos comprou
por um preço elevado. Sendo assim, usem todo o
vosso ser, tanto o corpo como o espírito, para a glória
de YÁOHU UL, porque a ele pertencem”[2]). Entre
os casados há comportamentos que se devem evitar,
pois, segundo se diz, algumas ficam gravadas na
mente dos dois membros do casal, que depois da
morte poderão vingar-se um do outro. Uma das
prescrições é, por exemplo, referente aos orgãos
genitais. É expressamente proíbido, quer o marido
quer a esposa referirem-se a eles.


• Tive conhecimento de uma mulher que se havia
molhado com a chuva, e quando chegou em casa
achou por bem despir-se, cobrindo o corpo com um
cobertor da cama, o que desagradou ao marido, o
qual lhe disse para não usar o cobertor daquela
forma, toda molhada. Segundo se contava, a mulher
interpretou mal as palavras do marido, pensando que
ele se tivesse referido aos seus orgãos sexuais. Pôs-se
então a chorar e a cismar, acabando mesmo por
morrer. Ouviu-se mais tarde dizer que ela, depois de
morta, perseguiu o marido até este também morrer.
Diz-se que isto tem acontecido variadas vezes, o que
em umbundu quer dizer: Oku lambiwa (tradução:
ser perseguida por uma alma do outro mundo).

• NASCIMENTO DE CRIANÇAS

• Quando nasce uma criança, todo o quimbo dirige-se ao casal para os felicitar, gritando
em coro:
• - Ulú! Ulú! Ulú! Ulú!… – São interjeições que exprimem muita alegria.
• Se num lar nascerem gémeos, toda a população do quimbo vai ter com os pais e os
insultam, citando os orgãos reprodutores de onde saíram esses gémeos, tanto do pai
como da mãe. Se não se proceder assim, diz a Tradição, os gémeos não crescerão e
depressa morrerão.
• O pai dos gémeos chama-se Sonjamba e a mãe Nonjamba. Nas suas conversas do dia a
dia têm que se insultar mutuamente, referindo-se sempre aos orgãos sexuais, caso
contrário os gémeos morrerão.
• Se nasce um bebé albino, a mãe coloca-o às costas e, propositadamente amarra o pano
com desleixo, e dirige-se a um rio que tenha ponte de dois ou três paus; no meio do rio
e com os seus movimentos, o pano desprende-se, e a criança cai ao rio. A mãe corre
para uma das margens chorando aos gritos: – Ai, ai, o meu filho!
• À primeira vista dá a impressão de ter sido um acidente. Então ela dirige-se ao quimbo
onde se realiza o funeral. Também se diz que este procedimento, para além de evitar
que nasça mais algum albino nesta família, fará com que a alma da criança não volte
para clamar vingança, uma vez que também se convenceu de que, de facto, acontecera
um acidente.
• Quando nasce uma criança, os sogros dão ao genro um porco designado por ongulu
yokoviongo, isto é, a região lombar do pai. Pois pensavam que era dali que saem os
filhos.


• SOGROS, GENROS E NORAS

• Geralmente, entre sogros, genros e noras, as relações estabelecem-se dentro de um
certo pudor. Por exemplo, a sogra não pode comer perante o genro, pois quando isso
acontece, tem, necessariamente, de evacuar, e assim se evita que haja uma situação
embaraçosa entre ambos. Isto acontece com todos. Têm sempre vergonha em falar de
tudo o que diga respeito à sexualidade e aos sexos.
• Um genro para ir ao kuvala (a aldeia donde saiu a mulher ou o homem para casar) tem
de se preparar e portar-se bem. Lá não se deve comportar vergonhosamente.
• Na sociedade tradicional, os bailundos, nas anedotas riem-se das cenas vergonhosas
que praticam no kuvala. Até se conta a seguinte anedota: Um casal resolveu visitar os
sogos; foram bem recebidos e tratados. No dia em que tiveram que deixar o local, o
genro apanhou uma galinha que tinha entrado na cubata onde estavam hospedados e
guardou-a debaixo do casaco. Quando os sogros chegaram para se despedir, a galinha
escondida pôs-se a cacarejar. Este é uma acto que se não deve praticar perante os
sogros, pois é um acto muito vergonhoso.
• Numa outra história, conta-se que um homem, juntamente com a sua mulher, ajudava
a sogra a desbravar uma terra. O genro derrubava as árvores e a filha desbravava a
terra. De repente o pano que o genro tinha a cobrir-lhe as partes pudendas
desprendeu-se da cintura precisamente no momento em que uma árvore caia sobre ele.
Daí o dilema: se ele pegasse no pano a árvore cairia sobre ele, e se se desviasse da
árvore ficaria nú perante a sogra, o que é altamente reprovável. De modos que preferiu
que a árvore caísse sobre ele, com todos os riscos que daí pudessem advir.
• Conta-se ainda que uma mulher do Bailundo, cuja filha se tinha casado no Andulo,
tinha levado para o casamento uma das suas irmãs menores. Anos mais tarde aquela
irmã menor cresceu, foi pretendida por alguém e acabou por casar. A mãe, quando
soube que essa filha se havia casado também no Andulo, resolveu ir até lá para
conhecer o genro. [Nota: Faltam 46 A4 Para Acabar o Romance] Foi de autocarro até
ao Mungo e daí a pé até ao Andulo. [Continua em:
http://oblogdoirmaoarmando.wordpress.com/2010/11/04/parte-iv/]
• Eugenio Fernández: Devocional Aula Abierta EET documento PDF
• H. Poganatz: El profetismo en perspectiva biblico-teológica documento PDF

• Jonathan Nelson: El profetismo en la historia documento PDF


• http://regeneracaomonergistica.blogspot.com/
• [2] 15 Do you not see and know that your bodies are members (bodily parts) of Christ
(the Messiah)? Am I therefore to take the parts of Christ and make [them] parts of a
prostitute? Never! Never!16 Or do you not know and realize that when a man joins
himself to a prostitute, he becomes one body with her? The two, it is written, shall
become one flesh. 17 But the person who is united to the Lord [or to the Yaohúshuahee
wife/husband {mulher cristã/homem cristão}, with the inclusion of the Lord] becomes
one spirit [flesh] with Him.18 Shun immorality and all sexual looseness [flee from
impurity in thought, word, or deed]. Any other sin which a man commits is one outside
the body, but he who commits sexual immorality sins against his own body.19 Do you
not know that your body is the temple (the very sanctuary) of the Holy Spirit Who lives
within you, Whom you have received [as a Gift] from God? You are not your own,20
You were bought with a price [purchased with a preciousness and paid for, made His
own]. So then, honor God and bring glory to Him in your body. – AMPLIFIED BIBLE:
http://www.youversion.com/; http://www.yaohushua.org.il/portugal/Novo/1-
Corintios.html.

Ao chegar ao rio Cutato, como não havia ponte para o


atravessar, passou-o com uma piroga, cujo barqueiro, sem que
o soubesse, era o seu genro. Este assediou-a, dizendo, que a
levaria para a outra margem a troco do seu corpo.
Ela dada a urgência e não tendo alternativa, teve mesmo de ceder aos caprichos do barqueiro.
A mulherzinha chegando à aldeia logo procurou a casa da filha dizendo-lhe o motivo da sua
viagem, o qual era conhecer o genro. A filha então lhe disse que o seu genro era precisamente
o dono da piroga com quem atravessou o rio Cutato. A mulher então achou-se muito mal, e
quando chegou o genro suicidou-se por pudor e por não suportar a sua presença.
Estas histórias ou estórias, só os primeiros bailundos o sabem, circulam de boca em boca entre
este povo sob a forma de chistes.

A VIUVEZ
[http://www.portaldocidadao.pt/PORTAL/entidades/MTSS/DGSS/pt/SER_pensao+de+viuvez.
htm]
Se um dos cônjuges morrer o outro fica ochimbumba, isto é, viúvo ou viúva.
Se morrer o marido, a esposa, durante os dias que se seguem à morte do marido, fica sentada
numa esteira durante dez dias, chorando por ele. Durante o tempo em que ela fica sentada, é
sempre escolhido alguém para tratar dessa pessoa, acompanhá-la onde quiser ir,
especialmente quanto às suas necessidades fisiológicas. Dez dias depois, é levada ao rio para
ser lavada. De novo em casa, é submetida à adivinhação para se saber se durante o tempo em
que esteve com o seu cônjuge teve relações extra conjugais. Para o efeito, têm uma grande
quinda que enchem com água, onde lançam umas raízes mágicas (a propósito:
http://magcalcauvin.wordpress.com/2010/11/01/3017/), ao mesmo tempo que o responsável
pelo acto diz:
- Se esta mulher, no estado de ochikuwiya, durante o tempo de casamento teve alguma vez
relações extra conjugais com alguém, então, raízes ide para o fundo da água que está na
quinda. Caso tal tenha acontecido, essa pessoa é obrigada a pagar uma multa pesada aos
parentes do falecido, a fim de que a alma do outro não a persiga, Se as raízes flutuarem é sinal
de que a pessoa está isenta deste pecado.
Depois da adivinhação, a pessoa deixa de ser kapulungu, passando a ser ochimbumba, pois
passou ao estado de viuvez [1].
Se houver filhos do casal, a viúva poderá ficar a residir na sua casa, mas se voltar a casar tem
de abandonar tudo, casa e filhos. No caso de não haver filhos, logo após a adivinhação tem de
ir viver na casa de seus pais, se ainda estiverem vivos ou para casa de outros parentes.
Os viúvos, quer homens quer mulheres, são obrigados a esperar um ano para que possam
casar novamente, ou a terem relações sexuais com mais alguém, com o fim de evitar que a
alma do defunto/a o/a não persiga. Passado o ano, é realizado o ochissunji, que pela influência
do cristianismo passou a chamar-se oku lula oluto, que significa deixar o luto. É uma
cerimónia que é praticamente uma festa em que se matam animais para banquetes, dança-se o
batuque, bebe-se muito ochimbombo, ou seja, repetem-se os actos festivos dos dias do
falecimento. Apenas quando o ochissunji terminar, então o viúvo/a poderão ter permissão
para casar, ou ter relações com outra pessoa do sexo oposto, sem que a alma do falecido/a lhe
faça qualquer mal.
Quando na era colonial trabalhei na administração do Concelho do Mungo como recenseador,
uma vez realizava essan tarefa no sobado do Kaiumbuka. A meio do livro do recenseamento
chamei por um indivíduo, e o soba disse-me que ele se ausentara por ter sido castrado por um
cazumbi, o que despertou o meu interesse:
- Foi castrado por um cazumbi? – Perguntei eu. Será verdade? – Os presentes disseram em
uníssono que fora de facto isso que se tinha passado. Pedi-lhes que me explicassem bem as
coisas. O soba disse-me que este homem fora muito atrevido, pois passara a noite com uma
viúva que ainda não tinha terminado o luto. Foi por isso que o cazumbi do falecido o castrou.
Não cheguei a confirmar isto, mas a convicção com que me afirmarem estas coisas me marcou
profundamente.

A FEITIÇARIA

A história da feitiçaria em África é muito antiga. Muitos há que muito dizem que a feitiçaria
não existe, inclusivamente, os próprios feiticeiros negam a sua existência, no entanto dizem-no
para que não sejam descobertos. Se o feitiço não existisse não se falaria muito dele, dentro de
qualquer comunidade. Os feiticeiros mantêm os seus conhecimentos sobre o feitiço em sigilo.
O titular de feitiçaria faz prodígios; pode trnsformar-se em leão, voar como uma ave, pode
ordenar a uma alma para matar uma pessoa que esteja distante, visto os feiticeiros lidarem
com as almas penadas.
O feitiço dos brancos deve ser outro. O do africano visa essencialmente eliminar os outros,
para que o feiticeiro fique de posse da alma do defunto, o qual ficará a trabalhar para ele,
enquanto o dos brancos visa, sobretudo, para um enriquecimento fácil.
Conta-se que no Bailundo, exemplo – Vila Teixeira da Silva, durante o tempo colonial, um
comerciante português, que conheci pessoalmente e respondia por o nome de Neto, quis
enriquecer-se em pouco tempo e, para o efeito, recorreu à feitiçaria dos africanos, querendo
matar uma certa pessoa e trabalhar com a sua alma. Graças àquele feitiço, em pouco tempo,
tornou-se rico. Infelizmente não sabia que aquela [alma], quando se cansasse tinha de ser
substituída por uma outra. Para isso é necessário fazer uma grande festa em memória da
alma a substituir, ter de matar de matar outra pessoa. O português não sabia disto e foi
violentamente perseguido. Não suportando a perseguição, resolveu fugir para Portugal. Ficou
por lá apenas dois dias, e pelo que se constava, a referida alma foi até Portugal em busca dele,
onde o matou. Era um acontecimento que andava na boca de muita gente.
Muitas pessoas desta região recorrem ao feitiço para obterem sucesso em tudo o que realizam,
tal como no emprego, na conquista das mulheres e mesmo na caça, pois as almas do outro
mundo fazem com que a caça se aproxime do caçador.
»»»»»» Há muitos ramos da feitiçaria[2]. O feitiço para produzir muito milho nos campos
chama-se namufungila. »» http://www.angonoticias.com/full_headlines_.php?id=28243
Conta-se que havia dois amigos muito íntimos, que por serem solteiros viviam na mesma
cubata. Um era tocador de ochissangi (instrumento musical de cordas) e o outro era
dançarino. Um tocava e o outro dançava. Um dia o dançarino sonhou que um sekulu (velho)
feiticeiro do quimbo [CONTINUA]

[1] 1Timóteo 1 “DO NOT sharply censure or rebuke an older man, but entreat and plead
with him as [you would with] a father. Treat younger men like brothers;2 [Treat] older
women like mothers [and] younger women like sisters, in all purity.3 [Always] treat with
great consideration and give aid to those who are truly widowed (solitary and[/or] without
support).4 But if a widow has children or grandchildren, see to it that these are first made to
understand that it is their religious duty [to defray their natural obligation to those] at home,
and make return to their parents or grandparents [for all their care by contributing to their
maintenance], for this is acceptable in the sight of God.5 Now [a woman] who is a real widow
and is left entirely alone and desolate has fixed her hope on God and perseveres in
supplications and prayers night and day,6 Whereas she who lives in pleasure and self-
gratification [giving herself up to luxury and self-indulgence] is dead even while she [still]
lives.7 Charge [the people] thus, so that they may be without reproach and blameless.8 If
anyone fails to provide for his relatives, and especially for those of his own family, he has
disowned the faith [by failing to accompany it with fruits] and is worse than an unbeliever
[who performs his obligation in these matters].9 Let no one be put on the roll of widows [who
are to receive church support] who is under sixty years of age or who has been the wife of
more than one man;10 And she must have a reputation for good deeds, as one who has
brought up children, who has practiced hospitality to strangers [of the brotherhood], washed
the feet of the saints, helped to relieve the distressed, [and] devoted herself diligently to doing
good in every way.11 But refuse [to enroll on this list the] younger widows, for when they
become restive and their natural desires grow strong, they withdraw themselves against Christ
[and] wish to marry [again].12 And so they incur condemnation for having set aside and
slighted their previous pledge.13 Moreover, as they go about from house to house, they learn
to be idlers, and not only idlers, but gossips and busybodies, saying what they should not say
and talking of things they should not mention.14 So I would have younger [widows] marry,
bear children, guide the household, [and] not give opponents of the faith occasion for slander
or reproach.15 For already some [widows] have turned aside after Satan.16 If any believing
woman or believing man has [relatives or persons in the household who are] widows, let him
relieve them; let the church not be burdened [with them], so that it may [be free to] assist
those who are truly widows (those who are all alone and are dependent)”. (Amplified Bible,
http://www.youversion.com/) | “1 YÁOHU-
tam, http://www.yaohushua.org.il/portugal/Novo/1-YAOHU-tam.html, 1 Timót. 5
1Nunca censures com dureza um crente mais velho. Avisa-o como se fosse teu pai. Da mesma

forma aos jovens fala-lhes como a irmãos. 2As mulheres mais velhas trata-as como mães, e as
jovens como irmãs, com as mais puras intenções.
Conselhos acerca das viúvas, dos zaokanyáo (anciãos) e dos trabalhadores (escravos, servos)
3Dá toda a atenção a qualquer viúva que não tem mais ninguém que cuide dela., 4Mas se ela
tiver filhos ou netos, a primeira responsabilidade deles é mostrar bondade no seu lar e
recompensar os seus pais, cuidando deles. É isto que agrada a YÁOHU UL. 5Mas a viúva que
verdadeiramente está sozinha no mundo coloca a sua esperança em YÁOHU UL, e
continuamente gasta muito tempo em orações e súplicas. 6Mas a viúva que viva somente para
o seu prazer está espiritualmente morta. 7Dá estas instruções à Oholyáo para que as viúvas
que a Oholyáo suporta não sejam censuradas. 8Portanto se alguém não tem cuidado dos seus
parentes, principalmente daqueles com quem vive no seu próprio lar, está a contradizer a sua
fé; está mesmo a ser pior do que muitos infiéis. 9Aquela que pretenda estar incluída na lista de
viúvas deverá ter pelo menos uns sessenta anos e ter sido fiel ao seu marido. 10 Deve gozar de
estima em razão do bem que tiver praticado, se soube criar bem os seus filhos, se praticou a
hospitalidade, se foi capaz de se tornar útil para com os outros crentes, se socorreu os aflitos,
se, enfim, soube praticar toda a espécie de boas obras. 11Mas as viúvas mais novas não deves
incorporá-las em tal lista, porque os seus desejos físicos naturais ultrapassarão a sua devoção
a hol-MEHUSHKHÁY e elas desejarão casar de novo. 12Sujeitam-se assim à crítica, pelo facto
de não terem sabido manter-se fiéis a YÁOHU UL 13E além disso depressa se habituam a
andar de casa em casa em mexericos, para além de se tornarem ociosas, metendo-se onde não
são chamadas e falando do que não convém. 14Portanto quanto a essas, mais novas, o melhor é
que casem, tenham filhos e se ocupem das suas casas. E assim não darão aos inimigos da
Mensagem Gloriosa ocasião para dizerem mal. 15Porque algumas até já se desviaram,
tornando-se presa de ha-satán. 16Portanto se algum crente tem uma viúva na sua família, deve
cuidar dela, e não deixar a Oholyáo sobrecarregar-se com isso. Assim a Oholyáo poderá tomar
a seu cargo outras que vivem realmente sem o amparo de ninguém. “
[2] Kanódgaluth [Apocalipse] 21: 3E ouvi uma voz muito forte, que vinha do trono, dizendo:
“Eis que a morada de YÁOHU UL é agora entre o seu povo! Ele habitará com eles e eles serão
o seu povo. YÁOHU UL mesmo estará com eles. 4Limpará de seus olhos toda a lágrima e não
haverá mais morte; nem haverá tristeza, nem choro nem dor. Tudo isto pertence, para
sempre, ao passado.” 5E o que estava sentado sobre o trono disse: “Estou a fazer tudo de
novo!” E dirigindo-se a mim acrescentou: “Escreve o que te vou dizer, porque são palavras
verdadeiras e dignas de toda a confiança”. 6E depois disse assim: “Está tudo cumprido! Eu
sou o Álef e o Tav – a origem e o fim. Àquele que tem sede, darei de graça a beber da fonte da
água da vida!d 7O que vencer receberá o benefício de todas estas coisas. E eu serei o seu
YÁOHU UL e ele será meu filho.- 8Mas quanto aos cobardes e aos incrédulos, quanto aos
corruptos e aos assassinos, aos que praticam a imoralidade, aos que se entregam a bruxarias,
aos que se dão à idolatria, e a todos os que falam mentira, o seu destino será o lago que arde
com fogo e enxofre. Isso é a segunda morte.” –
http://www.yaohushua.org.il/portugal/Novo/Kanodgaluth.html |
“3[...] http://www.youversion.com/“
APOCALIPSE, AMPLIFIED BIBLE
3 Then I heard a mighty voice from the throne and I perceived its distinct words, saying, See!
The abode of God is with men, and He will live (encamp, tent) among them; and they shall be
His people, and God shall personally be with them and be their God. 4 God will wipe away
every tear from their eyes; and death shall be no more, neither shall there be anguish (sorrow
and mourning) nor grief nor pain any more, for the old conditions and the former order of
things have passed away. 5 And He Who is seated on the throne said, See! I make all things
new. Also He said, Record this, for these sayings are faithful (accurate, incorruptible, and
trustworthy) and true (genuine). 6 And He [further] said to me, It is done! I am the Alpha
and the Omega, the Beginning and the End. To the thirsty I [Myself] will give water without
price from the fountain (springs) of the water of Life. 7 He who is victorious shall inherit all
these things, and I will be God to him and he shall be My son.8 But as for the cowards and the
ignoble and the contemptible and the cravenly lacking in courage and the cowardly
submissive, and as for the unbelieving and faithless, and as for the depraved and defiled with
abominations, and as for murderers and the lewd and adulterous and the practicers of magic
arts and the idolaters (those who give supreme devotion to anyone or anything other than
God) and all liars (those who knowingly convey untruth by word or deed)–[all of these shall
have] their part in the lake that blazes with fire and brimstone. This is the second death.
»»»» ESTE BLOGUE É PARA SER LIDO COM ZOOM DE 137%
[...] QUERIA MATÁ-LO, para depois ser transformado em okovo (alma do outro mundo que
serve de escrava para roubar milho dos campos e o levar para o celeiro do feiticeiro). Teve o
mesmo sonho várias vezes, e quando isto acontece é o sinal mais que evidente de que a
intenção do feiticeiro será posta em prática. [A pessoa enfeitiçada sabe pelo sonho que será
morta por alguém. Já assisti a varios julgamentos deste tipo, onde alguém acusa uma pessoa
que sonhou em querer matá-la.]
De modo que o dançarino combinou com o tocador que quatro dias depois do seu enterro
fosse com o seu canhangulo ao cemitério emboscar o feiticeiro, junto de uma árvore que ficava
perto da sua sepultura.
Quatro dias depois do enterro, então o tocador de ochissanji tomou o seu canhangulo, e no
cemitério subiu à dita árvore esperando o feiticeiro. Pela meia-noite viu ao longe o cintilar de
um tição a arder; era o feiticeiro que se aproximava. Quando este chegou junto da sepultura
do dançarino, acendeu uma fogueira, pôs sobre ela uma panelinha de barro cheio de vários
ingredientes que compunham o respectivo feitiço. Quando a água começou a ferver, tirou-a do
fogo e deixou que arrefecesse. Em seguida pegou num bastão mágico com o qual bateu em
cima da sepultura, e num instante o cadáver veio à superfície. Depois o feiticeiro examinou a
temperatura dos ingredientes da panela, esperou mais uns momentos, tomando um trapo,

também mágico, molhou-o na composição e aplicou-o

como compressa no corpo do cadáver para o “ressuscitar”

(reanimar) ~» »»»»»(http://www.ihu.unisinos.br/uplo
ads/publicacoes/edicoes/1251112572.9789p
df.pdf -
»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»»
“Narrar a Ressurreição na pós-modernidade.
Um estudo do pensamento de Andrés
Torres Queiruga”, por Maria Cristina Giani).
repetiu isto várias vezes até o morto começar a dar sinais de vida, começando por abrir os
olhos. Sem parar de aplicar a composição, viu que o cadáver embora já tivesse reanimado,
continuava ainda sem forças. Continuou com a aplicação do feitiço até ao reanimado se
sentar, levantar e ter recuperado toda a força. Só depois o mandou levantar. Fê-lo, mas como
ele caminhava ainda com grande dificuldade, continuou o tratamento durante algum tempo
mais com aquelas mixórdias até o reanimado começar a correr. E assim se recuperou
completamente.
Pausa lúdica: As Cruzadas (Músicas de Tradição Oral)
Escutar: Descarregar
“As cruzadas cristãs (leia-se, católicas) pelo olhar do Oriente” é o título do trabalho que o
Ensemble Al-Kindî com a colaboração do cantor alepino Omar Sarmini publicou no ano 2001
para o selo Le Chant du Monde. Música e poesia árabe do tempo das cruzadas.
Finalmente, o feiticeiro proveu-se de uma armadilha, mandando que o morto-vivo fosse até a
uma certa distância, ordenando-lhe depois que se aproximasse dele a correr. A intenção do
feiticeiro era fazê-lo cair na armadilha montada, torcer-lhe o pescoço, de modo que a cara
ficasse voltada para as costas, transformando-o então em Ekovo.
No momento em que o dançarino obedecia às ordens do feiticeiro, correndo em direcção à tal
armadilha, ouviu-se um disparo de canhangulo, cuja bala atingiu em cheio o feiticeiro, que
sem conseguir o seu intento caiu morto. E assim o dançarino ficou são e salvo, e os dois
regressaram ao seu quimbo, continuando com as suas actividades artísticas.
Aconteceu porém, que as pessoas que tinham participado no funeral do dançarino quando o
ouviram cantar, ficaram aqdmirados com a sua presença, e sabendo do acontecido louvaram a
coragem do tocador ochissanji.
Em 1971, na Missão Evangélica do Bailundo, tinha ocorrido um caso semelhante. O pastor,
chamado Jaime, adoecera, acabando mesmo por morrer. O seu funeral fora muito concorrido.
Lembro-me que ele fora enterrado, levando sobre o peito uma linda coroa de flores feito pela
minha esposa.
Ora quatro dias depois estas flores foram encontradas à superfície da campa com a sepultura
semi-aberta, o que mostrava, sem sombra de dúvidas, que o cadáver tinha sido desenterrado.
O caso fora entregue às autoridades policiais da altura, sem nada ter sido apurado. Estes
casos têm acontecido várias vezes.
Do que se sabe, cada feiticeiro utiliza sempre um bastão, que ao batê-lo em cima da sepultura
faz com que o cadáver suba à superfície, tirando-lhe o coração, o fígado e outros orgãos,
munido de uma faca. Depois disto volta a deitar o cadáver sobre a campa, e com a mesma
magia ordena que o morto volte para o fundo da cova.
Os orgãos que o feiticeiro retira do cadáver (terá sido potencialmente animado por uma
Potestade/Demónio, visto ser um “vaso de desonra” (Carta aos Romanos: 9:14e segs »» What
shall we conclude then? Is there injustice upon God’s part? Certainly not!15 For He says to
Moses, I will have mercy on whom I will have mercy and I will have compassion (pity) on
whom I will have compassion. 16 So then [God’s gift] is not a question of human will and
human effort, but of God’s mercy. [It depends not on one’s own willingness nor on his
strenuous exertion as in running a race, but on God’s having mercy on him.]17 For the
Scripture says to Pharaoh, I have raised you up for this very purpose of displaying My power
in [dealing with] you, so that My name may be proclaimed the whole world over.18 So then
He has mercy on whomever He wills (chooses) and He hardens (makes stubborn and
unyielding the heart of) whomever He wills.19 You will say to me, Why then does He still find
fault and blame us [for sinning]? For who can resist and withstand His will?20 But who are
you, a mere man, to criticize and contradict and answer back to God? Will what is formed say
to him that formed it, Why have you made me thus? 21 Has the potter no right over the clay,
to make out of the same mass (lump) one vessel for beauty and distinction and honorable use,
and another for menial or ignoble and dishonorable use?22 What if God, although fully
intending to show [the awfulness of] His wrath and to make known His power and authority,
has tolerated with much patience the vessels (objects) of [His] anger which are ripe for
destruction? – http://www.youversion.com/1), e não pelo bastão, em última análise, o D-us
Todo-poderoso Ele-Ela/Ela-Ele exige continuamente a um Anjo ímpio (e que é indolente) do
tártaro (Moradia dos demónios), que opere, não fique na inércia:
http://magcalcauvin.wordpress.com/2010/10/05/escola-sabatista-escola-dominical/), servem
depois de ingredientes para reforçar os seus feitiços (visto que os feitiços »com os
ingredientes« não são guardados numa mala, são uma experiência viva, o que implica uma
reanimação e/ou actos ímpios, nocentes no porvir). Nota 1: “YÁOHU UL é benigno para com
uns, mas endurece o coração de outros, conforme a sua vontade. 19Bem, podem perguntar:
“Porque razão YÁOHU UL culpa as pessoas por não ouvirem? Não estão elas a fazer,
simplesmente, o que ele manda?” 20Não, não digam isso. Quem é o homem, um pobre mortal,
para criticar YÁOHU UL? Um objecto fabricado dirá àquele que o fabricou: Porque me
fizeste desta forma? 21Quando um oleiro faz um jarro de barro, não terá ele o direito de usar
o mesmo barro para fazer um belo objecto de ornamentação e um outro de uso
corrente/nocente [kitsch]? 22Então não teria YÁOHU UL o direito de manifestar a sua justa
cólera e o seu poder de justiça contra aqueles que se iam encaminhando para a perdição e
cuja maldade ele tem suportado com paciência todo este tempo?”,
http://www.yaohushua.org.il/portugal/Novo/Romanos.html
Ser feiticeiro é hereditário; transmite-se de geração em geração. Assim, quando nasce uma
criança fazem-na engolir um feitiço (os elementos usados para tal) que faz com que ela fique
feiticeira por natureza (testemunho literal de predestinação supralapsariana). Outros
ingredientes são reduzidos a pó e misturados nas papas, conhecidos por ekela (papas que dão
aos bebés); daí o dito: “Wa ci lila vekela”, “Comeu o feitiço junto com as papas”. Toda a
criança que tenha ingerido feitiço, quando for adulta torna-se num grande feiticeiro, podendo,
inclusivamente, enfeitiçar através da voz.
Tudo o que o feiticeiro disser se realizará: querendo matar alguém, basta-lhe dizer que essa
pessoa morra; pode fazer com que não chova2; mandar um raio para matar alguém, quer na
estação chuvosa como na seca. Geralmente, o feiticeiro, para além de reforçar o feitiço com
restos de cadáveres, também o reforça com raízes de plantas. Nota 2: [O feiticeiro segue] the
course and fashion of this world [está, por beneplacitum divino, under the sway of the
tendency of this present age, seguindo as correntes do mundo à volta do feiticeiro, e, até mais,
seguindo aquele que é o Chefe do poder dos ares e que actua, ainda hoje, naqueles que
recusam sujeitar-se a YÁOHU UL»»], following the prince of the power of the air. [obedient to
and under the control of] the [demon] spirit that still constantly works in the [predestinated]
sons of disobedience [the careless, the rebellious, and the unbelieving, the bad arminians, who
go against the purposes of G-d; but not to the supralasarian orders of the Eternal].3 Among
these we [former witches] as well as you once lived and conducted ourselves in the passions of
our [supralapsarian] flesh [our behavior governed by our corrupt and sensual nature, and the
predestinated divine orders of YHWH to perform evil], obeying the impulses of the flesh and
the thoughts of the mind [our cravings dictated by our senses and our dark imaginings and
the predestinated divine orders of YHWH to perform evil; [the former witches] will be saved
as ilustrates [1Coríntios 3:15]: But if any [...] work (arminian christian deeds) is burned up
[under the supralapsarian or arminian test], he will suffer the loss [of it all, losing his reward],
though he himself will be saved, but only as [one who has passed] through fire].
Conheci em tempos uma moça bonita que, em criança, tinha engolido feitiço. Havia um moço
que quis casar-se com ela, e para isso exigiu tomasse uma certa composição de efeito
contrário, apenas conhecida por feiticeiros, e assim vomitar o feitiço que engolira, deixando
dessa forma de ser feiticeira.
Em 1984 houve no Bailundo vários grupos de jovens que eram conhecidos por olosinguile. Era
corrente vê-los dançar o batuque, e quando o faziam reviravam os os olhos e movimentavam a
cabeça de cima para baixo como que numa afirmação. Neste transe citavam os nomes dos
feiticeiros, que de seguida eram apanhados e mortos.
Durante três semanas foram mortos à cacetada 429 feiticeiros. Os referidos olosinguile, na
sua maioria jovens, iam às casas dos feiticeiros a fim de trazerem de lá algum elemento dos
feitiços que por lá se encontrasse, pois, para reforçar o feitiço, os feiticeiros conservavam
corpos secos de bebés, e outras coisas mais. Muitas pessoas ligadas à Igreja foram mortas
acusadas de feitiçaria. Estes sucessos apenas terminaram com a intervenção das autoridades.
No capítulo do feitiço a nudez ocupa entre os bailundos um lugar de realce, servindo para dar
azar e desgraçar alguém. Todos os orgãos que se encontrem entre as pernas, quer de homens
quer de mulheres, incluindo as nádegas e os próprios excrementos humanos constituem
feitiços terríveis. Eu próprio fui testemunha de um caso impressionante e insólito sobre um
sujeito rebelde que violava constantemente as mulheres dos outros, perdão por o recurso à
linguagem patriarcal, económica, ninguém é propriedade de ninguém. Cabia ao pai ter que
pagar as multas aplicadas às rebeldias do filho. No último julgamento relativo ao mesmo
delito, o pai irritou-se de tal modo, levantando-se perante muita gente que assistia ao
jugamento, baixou as calças, e pegando nos orgãos sexuais, mostrou-os ao filho, e perante
todos disse-lhe: – Se tu de facto saíste mesmo na ponta deste senhorinho, a partir de hoje tens
os dias contados. – Dito e feito. Três dias depois chegava-nos a notícia de que este jovem
acabava de morrer.
Existe outro tipo de feitiço que é mais usual nas mulheres a quem se dá o nome de iliangu,
cuja finalidade é a de lançar desgraças nas pessoas, interferindo negativamente nos seus
negócios ou no seu trabalho. Estas mulheres costumam sair à noite, quando toda a gente já
dorme. Saem nuas e nem os seus maridos se apercebem. Vão para casas previamente
seleccionadas, munidas com ervas com a função de sonífero. Quando chegam nas referidas
casas, dançam em frente das portas ao mesmo tempo que dizem:
- Venho para te desgraçar, venho para te desgraçar! – Depois limpam o seu ânus na porta
dessa casa eleita (maldita), deixando ali restos de excrementos.
Conta-se que um homem vira, na porta da sua casa, uns restos de fezes, ficando a saber que
havia passado por ali um ochiliangu. Neste sentido, meteu a ponta de uma faca numa fenda da
porta. Quando o ochiliangu apareceu de novo, com a intenção de prosseguir a mesma tarefa,
feriu-se no ânus. De manhã, o dono daquela casa encontrou muito sangue à porta.
Também é usual meter numa fenda da parede de uma casa uma raiz de uma planta,
conhecida apenas pelos feiticeiros, caso a ochiliangu aparecesse; esta perderia a noção do
que fazia e, neste sentido, exerceria as suas actividades de bruxarias até ao amanhecer do dia
seguinte, portanto à vista de toda a gente. Eu pessoalmente cheguei a ver uma fotografia
tirada a uma destas mulheres nesta situação.
As fezes humanas são importantes na feitiçaria para lançar a maldição sobre alguém ou para
outros fins. Com elas uma mulher pode dominar o marido. Diz-se entre os bailundos que toda
a mulher que queira dominar o seu marido, segue-o à distância; quando ele for defecar na
mata… Sem ele dar por isto, ela retira uma parte (do tamanho de uma abelha) do excremento
e mistura-o com o conduto que ele irá comer com o pirão. É desta forma que se torna parvo e
dócil aos desígnios e intenções da mulher, obedecendo-lhe em tudo o que ela mandar. É isto
que explica quando os bailundos vêm um homem dócil e que obedece à mulher cegamente, e
clamam: - Vo lisa! ["A mulher faz-lhe comer as fezes!"]
Muitas vezes os feiticeiros, em especial as mukeres, costumam defecar em frente das portas,
nas cozinhas, e até nas panelas que se encontrem na cozedura durante a noite nas cozinhas
das casas dos outros. Recorde-se que entre os bailundos é usual ficarem as cozinhas separadas
das casas de dormir, tendo sempre portas muito frágeis. A utilização das fezes com o fim de
causar desgraças pode ser expressa neste conto da Tradição, passado num tempo já remoto:
Uma mulher, durante a noite, tinha deixado o seu bebé sozinho, indo praticar as suas
feitiçarias. O bebé começou a chorar muito, e então um vizinho foi saber por que motivo o
bebé chorava assim. Quando lá chegou deu pela ausência da mãe. Compadecendo-se da
criança, levou-a para a sua casa para a acalmar. Mas infelizmente ao chegar em casa o bebé
acabou por morrer. Cheio de medo, tomou alguns farrapos, embrulhou-o e pôs-se fora do
quimbo, atravessando um cerco com paus que, geralmente, circundam os quimbos, passou
por um buraco para a ir deitar fora. No momento, fora do cerco, estava um homem a defecar,
que quando o viu com o embrulho nas mãos pensou que fosse um ladrão e, acto contínuo,
atirou-lhe o porrete que levava consigo. O que fugia deixou cair o embrulho e fugiu, e o outro
apoderou-se do embrulho, levando-o para sua casa. Como não havia luz, resolveu ver o
conteúdo só quando amanhecesse. Não teve que esperar muito tempo, pois a aldeia entrou
numa azáfema total com a chegada da mãe da criança. Esta, não encontrando o seu filho em
casa, pôs-se a chorar, dizendo que alguém lho roubara. Os homens procuraram-no, mas não o
encontraram em parte nenhuma, nem mesmo quaisquer rasto dele. Nunca mais viram sinais
do bebé.
Cerca das nove horas da manhã, o filho do que tinha o embrulho convidou outros amigos a
irem a casa dele para fazerem pirão. Depois do pirão estar pronto, o moço procurou pela
carne do porco que o pai tinha comprado na véspera para servir de conduto. Procurou em
todos os cantos da casa sem nada encontrar. Mas depois sempre encontrou o embrulho,
pensando que seria aí que estivesse a carne. Tomou-o, e o levou aos seus amigos, e à vista de
todos o desembrulhou. Espantados, viram o bebé procurado por toda a aldeia. Assustados,
saíram dali correndo e a dizer que o bebé procurado estava naquela casa. Muitos se dirigiram
para lá, confirmando que era verdade o que o s moços diziam.
Aquele homem foi preso, e foi em vão que se defendeu perante a justiça, mesmo dizendo a
todo o mundo como as coisas se haviam passado. Como ninguém o acreditou, lá se resignou
dizendo: “Ondiangu eniña”, o que quer dizer: que o azar é o excremento que evacuara nessa
noite”.
A partir desse momento, os excrementos tornaram-se os elementos da desgraça. Foi daí que os
bailundos começaram a ter medo acrescido quando vêem excrementos humanos nas suas
lavras ou noutros locais, mesmo no caso de serem animais. Por exemplo, se um Onguli (animal
carnívoro parecido com o lobo) defecar dentro de um quimbo, as pessoas dispersam-se,
abandonando para sempre o local, indo fundar outro quimbo.

A MEDICINA E A IMUNIZAÇÃO

A medicina tradicional entre os bailundos é tão antiga como a medicina dos países mais
evoluídos. Antes dos outros povos terem chegado à região, os seus autóctones já conheciam a
medicina tradicional, e tinham inclusivamente hospitais que consistiam em grandes
acampamentos feitos nas matas, em palhotas, e sob a responsabilidade de um Ochimbanda
(“papel espiritual e médico, que cabia então aos chamados Xamãs. Para as suas práticas de
cura usavam o que a natureza lhes oferecia: plantas, argila água, [répteis] e animais. Como
forma de destaque em relação à sua importância social, os Xamãs usavam máscaras
exuberantes”, http://historiadaestetica.com.sapo.pt/extdocs/africa.htm).
As substâncias medicamentosas eram extraídas da natureza animal, reptilária(vide nota rosa),
vegetal e mineral. Quanto às substâncias de natureza animal, podemos referir a jibóia, cuja
gordura ocupa um lugar muito importante na medicina tradicional. Na guerra civil em
Angola, vi eu mesmo a extracção de munições (balas) das armas, alojadas no corpo dos feridos
por elas, com a gordura da jibóia. Para isto, era suficiente aplicar esta substância no local
perfurado pela munição, e caso ela ainda se encontrassse no corpo da vítima, era logo
expelida.
Esta substância tem tem sido utilizada para curar úlceras estomacais, tomanda-a três vezes ao
dia, na medida de uma colher de chã.
Uma outra substância medicamentosa, esta já animal, é o fígado de lobo, o qual tem sido
utilizado para curar a epilepsia. Mas temos de referir, que a maior quantidade dos
medicamentos que os bailundos utilizam provém das raízes das plantas. Os ovivandas
conhecem os poderes curativos de cada raiz. Há determinadas doenças que estes curandeiros
recomendam que antes devem recorrer mais à medicina tradicional que procurar a medicina
moderna. Já vi muitas pessoas dizerem que a sua doença não se cura com os medicamentos
dos hospitais e sim com os tradicionais; isto acontece, precisamente, em doenças mentais e
epilépticas. Tenho visto pessoas atacadas por estas doenças e melhoraram depois depois de
terem tomado estes medicamentos.
Tanto em português como em umbundu, o sentido do remédio é o mesmo, ou seja, uma forma
de remediar. Remédio em umbundu é ikemba, oku lelembako, o que significa “remediar sem a
certeza da cura”. Para os bailundos quem cura é sempre D-us, e por isso costumam dizer:
“Suku a kuece ovim-banda vi li pande oku sakula” – “Um doente fica sarado se D-us o
permitir, para que os médicos se não vangloriem; mas se D-us não quiser, o esforço para a
obtenção da cura será em vão”.
[PAUSA: Audios, Bromas, Bromas San Bernardino »
LA VISITA DEL PAPA La broma de San Bernardino y Raúl y el Carrusel Benedictino

Shabbos (Shabbat/Sábado) llega el Papa a España y San Bernardino y Raúl Pérez


han querido poner su granito de arena en la organización de la visital papal. Porque vamos a
ver… ¿alguien sabe dónde va a comer Su Santidad mañana en Santiago? Pues ellos,
haciéndose pasar por responsables del arzobispado de Madrid y del Vaticano van a gestinarle
una reserva a Benedicto XVI
El Papa estará en Santiago y en Barcelona, pero claro, en su visita habrá muchos puntos de
conexión. Y qué mejor que para ello hacer una rooooonnnnddddaaaaa del Carrusel
Benedictino. Y si hablamos de Carrusel, ¿quién mejor para animarlo que Juanma Ortega?]
NOTA ROSA: http://www.umanovaera.com/david_icke/uma_nova_era.htm; podem
encontrar mais dados escatologicos no verbete curioso e, no contexto da religião da Nova Era,
dos reptilianos, a conexão reptiliana: http://www.google.pt/search?
sourceid=navclient&aq=1&oq=reptilianos&hl=pt-PT&ie=UTF-8&rlz=1T4GGLL_pt-
PTPT397PT397&q=reptilianos+2012
»» (ESTE POST JÁ CONTINUA; VAMOS FAZER UMA PAUSA PARA CAFÉ; FALTAM
+- 40 Páginas para o final) »» Entre os bailundos, quando um doente vai a um ochimbanda,
este começa por lhe explicar a sua doença. O curandeiro, antes de principiar o tratamento
exige o ussongo, o pagamento que é feito sempre antes da cura, que tanto pode ser uma
galinha como dinheiro. Depois disto, leva o doente para a adivinhação a fim de se saber a
causa da doença; isto é, se foi natural ou causada por um feitiço. Para o efeito, pega o
ongombo (instrumento para fazer as adivinhações). Trata-se de uma pequena quinda com a
forma de uma tigela, com muitas bugigangas dentro dela, onde se podem ver ídolos, tais
como: ombuiyu, ombinga, ociteka, omechamecha, omemba (algo parecido com cal, branco,
que significa inocência), ukundu e outros. O adivinhador, então, maneja o ongombo com as
duas mãos agitando a quinda de baixo para cima, pretendendo remexer os objectos que tem
dentro, de modo a encontrar o significado daquele que vier ao de cima (i.e., acima dos outros).
Por exemplo, se for um ídolo, significa que o doente foi enfeitiçado. Isto é explicado ao doente,
que responde: “Enda, enda!” – No caso de aparecer o omemba, siginifica que a pessoa de
quem se suspeita ser a causadora da doença está inocente. Se for o ukundu, significa que se
acertou na pessoa suspeita.
Depois da adivinhação, o curandeiro começa o tratamento. Para isso, leva o doente para o
acampamento, indicando-lhe uma palhota onde ficará internado. Dorme deitado numa esteira
ao lado da fogueira rodeado de pequenos vasos de barro, cheios de várias raízes para o doente
tomar. Têm-se tomado estes medicamentos em grandes quantidades, o que muitas das vezes
contribui para o mal estar do doente.
Para uma pessoa que sofra de febres, o xamã, utiliza raízes, folhas ou outras partes de plantas,
mete-as numa grande panela e a põe ao lume. Depois de ferver, tira a panela do fogo, senta o
doente num banco, cobre-o com um pano ou um cobertor, e diz-lhe para inalar o vapor da
panela. esta operação é chamada de ochiyuku.
Depois do tratamento e da cura, a pessoa é levada a um ochimbandi (terreno de forma circular
com pavimento duro feito com um salalé, que é um instrumento com que o agricultor debulha
os produtos que são debulháveis), um terreno que normalmente se situa no meio da mata. Ali
o curandeiro acende uma pequena fogueira onde coloca uma panela de barro contendo mais
raízes. O doente senta-se no meio do terreno e cobre-se com um pano ou cobertor.
Seguidamento o curandeiro coloca algumas pedras no fogo, e quando elas estão bem quentes
despeja-lhes água fria. O ruído provocado pelo arrefecimento das pedras, irá, segundo o
ochimbanda, afugentar os cazumbis causadores da doença. É então que o xamã tomas as
pedras escaldantes e arremessa-as em várias direcções, ao mesmo tempo que diz: “Cazumbis,
deixai este doente e nunca mais entreis nele”.
Realiza depois outras operações: Toma um pequeno tambor e pôe-se a dançar, juntamente
com os seus auxiliares, apelando para que os cazumbis deixem o doente em paz; toma a
panelinha de barro que estivera ao lume e serve o doente; mata uma galinha, e com raiva bate
no doente com ela, apelando sempre para que os cazumbis o deixem. Finalmente, abandona o
ochimbandi, deixando a panelinha voltada para baixo no pavimento. Quem por ali passar e
mexer nela, destapando-a, apanhará imediatamente a enfermidade (o/os demónio/os, pois
Satanás não os mandou de volta para o abismo sem fundo; Jesus (lutero, nos seus cadernos
pessoais, afirma que o Mestre é, ao mesmo tempo, D-us e o Diabo, o Bem [cura] e o Mal
[Lucas 8:32+: "32-33Andava ali perto uma vara de porcos a pastar no monte, e os demónios
rogaram-lhe que os deixasse entrar nos animais. YAOHÚSHUA consentiu [permitiu, como
judeu, não como o futuro Mestre acultural, assentado à dextra, entronizado, recebendo
adoração ecuménica e participando da condição de D-us por toda a eternidade, que se
destruísse propriedade privada; um judeu despreza os porcos e os cães;
http://servosdemariaamordedeus.blogspot.com/2010/02/os-inimigos-de-lutero-mary-

shulteze.html ««vide a imagem/transcrição supra


no post original, mencionado supra; dado evangélico adicional:
http://www.portalfiel.com.br/noticias.php?id=1507-pastor-causa-polemica-na-africa-do-sul-
ao-afirmar-que-jesus-tinha-aids.html; http://goodmenproject.com/2010/11/05/jesus-was-hiv-
positive/]. Deixaram o homem e entraram nos porcos. Logo a vara inteira se precipitou,
caindo por um despenhadeiro no lago, onde se afogou. 34Os porqueiros, ao ver aquilo, fugiram
para a cidade próxima, espalhando a notícia pelo caminho”]) o faria; Satanás e D-us desejam
que continuem operativos: http://magcalcauvin.wordpress.com/2010/10/05/escola-sabatista-
escola-dominical/) da pessoa acabada de ser curada.
Depois o curandeiro dá ao que estava doente (possuído por demónio/os) prescrições para
continuar a fazer.
Eles fazem estas cerimónias para para acabar de uma vez por todas com este sofrimento, a
que eles chamam de oku kota, que significa que “aquele endemoninhado (doente) jamais
tornará a ter o mesmo demónio ou legião de demónios (doença).
Eu assisti a estas cerimónias todas, quando um dos nossos criados, chamado Brandão, fora
atacado de escorbuto. No fim da cura, o xamã disse-lhe precisamente isto: Que o Brandão
jamais seria atacado pela mesma doença, o que de facto aconteceu até ao fim da vida.
Os ochimbandas também fazem imunizações aplicando vacinas. A vacina da varíola é a
melhor, pois é aplicada uma vez na vida de qualquer pessoa. Para isso fazem da seguinte
maneira: O ochimbanda vai ter com um doente atacado por esta doença, e lhe espreme o pus
das borbulhas numa pequena cabaça. Depois reúne toda a gente a um local determinado, e a
cada uma das pessoas é feito um pequeno corte na palma da mão. Com a ponta de um
pauzinho em bico, salpica-lhe no sangue um pouco do pus da varíola contido na cabaça. No
dia seguinte, nascem algumas borbulhas em volta daquele corte, ficando desta maneira as
pessoas imunes à doença para toda a vida.
A vacina contra a mordedura de um cão com raiva é feita também assim: Matam um cão com
raiva, e a sua carne, cortada em pequenos pedaços, são distribuidos às pessoas que a comem
crua. Este procedimento é o mesmo relativamente a outras enfermidades como as que são
casadas por insectos: mosquitos, percevejos, carraças, etc.. Apanham estes insectos, cozinham-
nos juntamente com o conduto que comem com o pirão.
Há uma outra vacina contra o veneno das cobras, escorpiões, etc., cuja vacina se chama
oluvai, mas que desconheço como é aplicada.
No tempo colonial, na vila do Bailundo, apareceu numa grande festa um homem com um saco
que continha muitas cobras venenosas, tais como a víbora, a surucucu, a lutanjila, onombo,
ekuiva, salili e outras. No momento, por dois cêntimos e meio (cinco escudos), o homem abria
o saco de onde tirava as cobras, uma de cada vez, para mostrar às pessoas. à medida que fazia
isto, as cobras picavam-no nos braços sem lhe provocar qualquer dano, pondo todos os
presentes admirados.
Durante a guerra civil, em Angola, havia uma vacinação contra as munições das espingardas.
Pessoalmente, vi gente vinda da frente da guerra com a farda esburacada pelas munições, sem
no entanto apresentarem qualquer arranhão no corpo. Dizia-se que as balas (munições) ao
atingirem o corpo dos militares caiam ao chão.
Trata-se de vacina anti-bala, que é feita da seguinte forma: num invólucro de bala mete-se-lhe
dentro um tipo de feitiço e tapa-se o buraco com cera preta, chamada esima. Depois
recomenda-se ao indivíduo interessado, sobretudo o soldado (praça), para engolir o respectivo
cartuxo, passando a partir dali a ser considerado blindado. A esima é uma cera altamente
mágica (para os bailundos). É extraída de um mel fabricado por uns insectos mais pequenos
que abelhas, que o fabricam debaixo da terra numa profundidade de um metro ou mais. Estes
insectos não fazem o mel em favos como as abelhas, metendo-os nuns recipientes como
pequenas cabaças, do tamanho do pulso de um homem magro, cujos recipientes são
fabricados com cera. É muito difícil descobrir os locais onde eles se encontram, cuja entrada
são uns pequenos tubos de mais ou menos cinco centímetros de altura. Para os descobrir é
necessário estar bem atentos, e mais ainda sendo em matas cerradas. Em toda a minha vida só
uma vez é que encontrei estes orifícios na floresta. Estes insectos, quando entram nestes
orifícios, também de cera, fazem-no de costas e com a cabeça voltada para a entrada. A cera
fabricada por eles, além de ser onerosa em transações comerciais, também possui poderes
mágicos. Os mulherengos costumam utilizar esta cera para conquistar mulheres. Para o
efeito, lambuzam com ela o limbo de folhas pegajosas de uma erva conhecida por onamela.
Friccionam as mãos com esta composição, e daí em diante bastará cumprimentar a mulher
desejada, com as mãos apertadas para ela ficar completamente colada ao homem e nunca
mais o deixar; procura-lo-á a todo o tempo. É por este motivo que entre os bailundos,
referindo-nos à sociedade tradicional, as mulheres evitam apertar as mãos dos homens (as
safistas ficavam “curadas”; perdão pela expressão pouco inclusiva).
A esima serve também para outros fins: Um caçador que tiver colocado a sua arma numa
porção daquela cera, nunca errará o tiro e uma armadilha que tenha daquela cera apanhará
muitas presas.
Outro poder da cera de esima é o de afugentar cazumbis.
Conheci um homem que comprou uns lindos tecidos para a sua mulher. Infelizmente ela não
chegou a vesti-los por estar doente, acabando mesmo por falecer. Então este homem, em vez
de meter os vestidos na urna, resolveu ficar com eles. Tempos depois, arranjou outra mulher a
quem deu os tais vestidos, acto considerado como uma humilhação à falecida, criando com
isto uma grande confusão naquela casa. Quando o homem dormia junto da nova mulher, a
alma da falecida (demónio a corporizar a falecida; “Since our inner experiences consist of
reproductions, and combinations of sensory impressions, the concept of a soul without a body
seem to me to be empty and devoid of meaning“. Albert Einstein,
http://richarddawkins.net/quotes) punha-se no meio deles com o seu corpo todo frio. Quando a
mulher fazia pirão para o marido, a defunta (demónio) metia lá os dedos; quando ficou
grávida, a “defunta” provocou-lhe um aborto. Muito aflito, ele então procurou em vão xamã
após xamã em busca de cura contra aquela perseguição feita pela “defunta” à sua nova
mulher, até que por fim sempre apareceu um, o qual tomando uma pequena porção de esima,
meteu-a numa fenda da porta da sua casa, de modo que aquele cazumbi já não pôde entrar
mais ali. Só assim a paz voltou a reinar naquela família, conforme se dizia.
Entre os bailundos pratica-se muito o desporto da pesca, competição de arco e outras
actividades desportivas. Tiro ao alvo com flechas, exige uma preparação especial. Para isso,
eles usam uns tubérculos de uma planta silvestre, chamada ochitiña, a qual se parece com uns
maiores. Cortam-no em rodelas para servirem de alvos, que os utilizam num descampado
destinado à competição. Ali os homens, alinhados, distribuindo-se os que competem com arco
e com mocas. Um dos acompanhantes nestas competições, colocado num dos extremos do
campo, arremessa com força uma rodela ao ar, e quem a atingir, quer com flechas ou com o
porrinho, será o vencedor. Este desporto, como se poderá constatar, não passa de uma
exercitação para na caça se abater um animal em velocidade.
A caça é outro desporto. Um sékulu organiza uma caçada, o enjevo. Para isso, ele envia vários
mensageiros aos quimbos, avisando os caçadores para se prepararem para uma caçada, que se
efectuará num determinado dia, referido pelos mensageiros. Marcam um lugar de
concentração, o epanga. Ali no dia marcado, juntam-se duas ou três centenas de caçadores,
munidos de azagaias com duas ou três flechas, e uma ou duas mocas na cintura. Todos os
caçadores vestem farrapos. Na epanga, traçam o itinerário da caçada, referindo as matas a
incluir nessa competição. É de referir que entre os bailundos, todas as matas têm nomes.
Geralmente vêem-se no epanga muitos cães gentílicos, pequenos, com as orelhas levantadas
para cima, cauda comprida e focinho alongado.
Quando tudo estiver organizado, formam uma grande fileira de quatro ou cinco quilómetros
através da floresta e a corta-mato. Os animais pequenos, como os coelhos, perdizes, hangas
(galinha do mato), são mortos com os porrinhos que transportam à cinta. Eu próprio
participei muitas vezes nestas caçadas, e tive a oportunidade de conhecer grandes
“arremessadores” de porrinhos. Quando se levanta uma peça de caça, só se ouve um ruído
“traz”, e de seguida viamos o animal a cair no chão. Era como se utilizasse uma caçadeira.
Durante a caçada existe sempre um responsável pela mesma, a quem chamam de “kapila”.
Este indivíduo corre, de momento a momento, duma ponta a outra da fila dos caçadores,
transmitindo orientações ao grupo.
Quando uma cabra de mato quisesse romper a fileira, os caçadores gritam em uníssono: –
“Etali opo! Etali opo!” – o que significa: – “Hoje ali! Hoje ali!”
E de imediato, uma chuva de flechas cai sobre o animal sob o olhar atento de cada caçador,
para assim aferir a sua pontaria. Se alguém acertar grita: “Nda veta! Nda veta!” (“Acertei!
Acertei!”)
Quando a cabra cai no chão, o grupo dirige-se com as mocas contra o animal, ferindo-o na
cabeça até o matar. Depois amarram-no e o entregam a um rapaz que o transporta. Se a cabra
consegue romper a fileira e ninguém lhe acerta, os responsáveis pelo falhanço sofrem os
insultos dos outros.
Para participar numa caçada é necessário ser muito cauteloso, e uma das recomendações é a
de, em momento algum, sair da fileira, pois quem o fizer pode ser atingido por uma flecha. As
razões estão no facto de que, quando vêem a cabra do mato, atiram as flechas p’ra frente ou
p’ra trás, em função do local onde ela se encontra. Uma outra recomendação é a de nenhum
caçador ter relações sexuais antes da caçada, para não redundar em fracasso.
No fim juntam-se todos num lugar para conferir os animais abatidos; cada caçador que tenha
morto uma cabra, extrai-lhe a coxa e a dá ao responsável da caçada, marcando desta maneira
o fim da mesma.
Quando eu tinha doze anos de idade, fui a uma caça sozinho com a minha azagaia e o cão de
um vizinho nosso, comerciante e chamado Santos. No percurso cheguei junto de um riacho
que nas margens tinha uns caniços altos. De repente vi sair dos caniços um animal com cauda
comprida e o corpo todo malhado. Era uma onça ou leopardo. Até ao momento nunca tinha
visto nenhuma onça. Vi então o meu cãozinho na boca do animal. Gritei, chorando, e a fera
largou o cão mas já morto.
Começa agora o meu relato a adensar-se mas em forma de estória (legenda mítica); assim é
África, a minha história vulgar mutaciona-se para o folclore mítico: Na mesma semana um
sékulu do quimbo chamado Numbu, nosso vizinho, organizou uma caçada pelo local onde eu
encontrara a onça. Quando ali chegaram, a onça voltou a aparecer no mesmo sítio. Uma
grande matilha de cães desentocou-a, forçando-a a subir numa grande árvore chamada
Omanda.
Os caçadores que fizeram parte desta caçada estavam cheios de medo, pois uma onça é um
animal perigoso, mais até do que o leão. É muito ágil, atacando com muita
agilidade.Geralmente, quando os caçadores matam uma onça, era costume levar duas tipóias
até às aldeias, uma para transportar a onça e outra para transportar alguma pessoa que tenha
sido vitimada por ela. Daí que estes caçadores temiam arriscar-se em atacar este animal. Dois
homens mais ousados colocaram-se debaixo da árvore com o s seus arcos e as flechas, bem
afiadas, uma das quais atingiu o animal na barriga. Num movimento rápido a onça estava
sobre um deles, ferindo-o gravemente na nuca e na cara, arrancando-lhe um olho e o nariz.
Depois atacou-lhe o ventre, ferindo os intestinos com as suas terríveis garras. O companheiro,
ao ver o animal sobre o outro, desfez-se do arco e das flechas, e com o porrinho desfez em
pouco tempo a cabeça do animal, espirrando os miolos pelos ramos das plantas, matando
assim a onça. Foi necessário arranjar as duas tipóias, uma para o homem gravemente ferido e
outra para a onça. Horas mais tarde deu-se a desgraça. Traduzo: a redenção do animal e o
consequente chamar a contas do organizador da caçada. O responsável pela caçada foi levado
perante o soba para ser julgado, acusado de ter praticado relações sexuais antes da caçada, e
responsabilizado pela morte, que veio a dar-se, do caçador atacado pelo animal selvático.
Pagou uma multa muito grande. Mas a onça ganhou o seu troféu na tumba.
Um leão não se mata com facilidade. Para se matar um leão é necessário, antes de mais,
justificar as razões para a sua morte. e depois a munição (bala) só o atingirá se essa
justificação for razoável. Os bailundos, tal como os europeus, consideram o leão como o rei
dos animais.
Contam que antigamente um caçador estava numa mutala, lugar em cima da árvore, e em
frente à árvore onde se encontrava havia uma lavra onde uma mulher trabalhava no
momento. Às duas por três o caçador viu um leão a apanhar a mulher arrastando-a pela nuca.
Passou perto do local onde se encontrava o caçador com um canhangulo, que não se atreveu a
usá-lo. Desceu da árvore, correu ao quimbo, alertou as pessoas do que havia acontecido. O
soba depois de o ter ouvido, chamou todos os homens da aldeia e disse-lhes que fossem até ao
onjango para que fossem fornecidos de pólvora. Depois foram preparar as suas armas, e no
dia seguinte, muito cedo, juntamente com o soba, foram no encalço do leão. Este quando os
viu, tentou atacá-los, ao que eles reagiram, disparando as suas armas em vão, pois não se
tinha feito o depoimento correcto. O leão, passando por todos foi direito ao soba, matando-
o imediatamente. Foi então que um dos participantes, antes de disparar, citou o depoimento,
dizendo: “Tembi, tembi haveko wa paya nganidetu. Nda ove wa paya ndandietu cilo omola
owima (“Se não foste tu que mataste a nosso parente, sairás ileso; caso contrário, o tiro que vou
disparar ser-te-á fatal“)“. O jacasser deste atirador parecia olvidar a morte do soba; tudo neste
sucesso (evento) passa-se ao ralenti slow motion. Mas adiante; pois a sua lógica escapa-me
totalmente. O certo é que o atirador dispara, e o leão caiu morto. Depois, finalmente
recordaram-se do soba, pegaram o defunto, mas não deixando de pensar no animal homocida,
merveille, os submeteram a uma adivinhação, na qual o leão disse: “Ove u soma, ame ndi
soma, ombanjela ovita?” (“Tu és rei e eu sou rei e na qualidade de sermos colegas, diriges uma
guerra contra mim? Foi por este motivo que te matei”).
Foi a partir deste dia que o leão passou a ser o rei dos animais.
Fora do ambiente mítico, recomendo-vos: http://pt.mongabay.com/news/2008/0420-080325-
interview_hazzah.html; http://sandyeb23vpa.blogs.sapo.pt/2010/03/17/
A PESCA
Existe entre os bailundos três tipos de pesca: a de chissamo, que consiste num caniço de pesca
com minhocas na ponta, sem anzol.
Outro tipo de pesca é a de “massas” chamada ileva. Para o efeito, eles fabricam as massas
com alguns pauzinhos obtidos de algumas plantas encontradas nas charnecas. É costume
meter salalé nas massas. Depois levam-nos para os lugares mais profundos dos rios onde
passam uma noite. No dia seguinte voltam a esses locais e, normalmente, encontram-nos
cheios de peixes.
Certa vez, no Mungo, caçava eu patos bravos nas margens do rio Luvulo, e vi um sujeito a
armar as suas massas neste rio. Na altura tinha chuvido, e por isso mesmo as suas margens
estavam alagadas. Então meteu-se nas águas das margens para chegar ao rio, e aí meter as
massas. De súbito, vi um turbilhão na água. Era um jacaré que tinha apanhado o homem, pois
quando as margens ficam alagadas, os jacarés costumam sair do rio estendendo o seu raio de
acção em busca do que comer, especialmente cágados.
Tal como na caça às cabras do mato, a pesca é de igual modo organizada. Um sékulu mobiliza
muitos quimbos, e todos se concentram no rio indicado por ele. Nestas pescarias participa
toda a gente, homens, mulheres e crianças e, como é costume, usam grandes quantidades de
folhas de uma planta chamada kalembe. Metem-nas num almofariz para serem pisadas, e
depois de pisadas são lançadas ao rio, agitadas com varas compridas de modo a que o seu
efeito intoxicante se espalhe pela água, atordoando deste modo os peixes e forçando-os a subir
à superfície, onde os participantes os apanham com as quindas e cestos presos às pontas de
varas compridas, apanhando todo o tipo de peixes que no rio existirem, à excepção do bagre
que nunca sobe à superfície.
Perto da Missão Evangélica do Bailundo passa um rio chamado Culele. Diz a Tradição que
este tipo de pesca está interdito nesse rio. De acordo com o que se conta, antigamente, quando
queriam fazer este tipo de pescaria, uma enorme cobra aquática que ali existia, urinou nele
em tão grande quantidade, que o encheu até transbordar, alagando-o até às margens, e
arrastando muita gente que nele praticava este tipo de pesca.
Desde então, nunca mais alguém se meteu a lançar o kalembe naquele rio.
Quando trabalhei na Administração do Concelho do Mungo, no tempo colonial, vi certa vez
muita gente, vinda de vários quimbos, dirigir-se a uma grande lagoa formada pelas águas do
rio Kussangu, para lançarem o kalembe, misturado com ulu, uma outra planta usada para
atordoar os peixes. Prepararam aquele produto durante vários dias e em grandes
quantidades. Num dia marcado, centenas de pessoas transportaram-no até junto da lagoa.
Fizeram palhotas onde se acamparam. Levaram alimentos e utensílios de cozinha para aí
permanecer durante alguns dias. Na tarde de cada dia metiam a mistura do produto na água,
e no dia seguinte de manhã foram apanhar o peixe que boiava à superfície em tanta
quantidade que foram necessários barcos para o recolher, dividindo-o por todos.
Depois de tudo terminado e todos se preparavam para regressar cada um ao seu lugar, um
homem chamado Yopilu viu um peixe enorme subir à superfície da água da lagoa. Foi então
em busca daquele peixe. Ao entrar na água esta dava-lhe pela cintura, depois pelo peito, até ao
pescoço, e quando faltava pouco para chegar ao pé do peixe, toda a gente viu grande agitação
na água, e momentos depois Yopilu desapareceu nas águas, levantando um braço e depois as
pernas. Perante o espanto de todos pelo que estava a acontecer, viram então uma enorme
cobra aquática que leu o pobre do Yopilu para as profundezas.
Perante tal acontecimento, o povo ficou preocupado, visto que, se um caso destes chegasse ao
conhecimento das autoridades, os responsáveis pela pescaria poderiam ser condenados. Por
isso decidiram manter sigilo pelo acontecido. Mas a mulher de Yopilu, perante a ausência do
marido, foi junto dos acompanhantes para saber dele, mas nada conseguiu saber. Depois de
dias de procura, uma sua cunhada, de outro quimbo distante, apareceu chorosa dizendo que
Yopilu havia sido morto por uma cobra. Imediatamente a mulher levou o caso à
administração. O administrador mobilizou um grupo de cipaios, e junto com eles foram no
Land Rover até ao local de desaparecvimento da vítima. Ordenou a todos os que participaram
na pescaria a estarem presentes para proceder às buscas e resgatar Yopilu, ou parte do seu
corpo. Toda a gente remexeu a água com varas, sobretudo em certas covas nas margens do
lago. Como a lagoa não tinha ligação com o rio, o corpo de Yopilu sempre foi encontrado. Foi
transportado à administração a fim de ser autopsiado por um médico ido do Huambo. Tinha
apenas alguns ferimentos no pescoço, mas contatou-se que lhe havia sido retirado todo o
sangue do corpo, o que comprovava que a serpente que o apanhara era a epolua. Estas cobras
apenas chupam o sangue das presa, abandonando-as depois.

O TRIBUNAL E O OMBULUNGU

Os bailundos não possuem edifícios próprios para exercer o poder judicativo, mas utilizam
um espaço destinado a esta função, utilizado desde sempre, que é junto e à sombra de uma
árvore, mais conhecida por Mulemba. Esta árvore encontra-se em todas as Embalas.
A audiência senta-se em pedras, abundantes por ali. O tribunal é sempre presidido pelo soba,
sobretudo nos julgamentos de crimes graves, e ladeados pelos Epalangas, Lusenje, Muecália,
Ndaka e outros, que no onjango aprenderam a exercer esta actividade. Num julgamento
nunca se condena um inocente. Dizem que o soba, ou outra pessoa que presida a um
julgamento, se condenar um inocente correrá, segundo a superstição, o risco de ficar cego.
Como tal, julgam os casos com muito zelo e rigor. As sessões costumam demorar dias até que
se apure a verdade e se pronuncie o veredicto correcto.
Antes de começar um julgamento, tanto o acusado como o acusador são instados a dar um
porco cada um, que são mortos no tribunal. E ali também onde se distribui a carne. Ao soba
cabem-lhe as coxas e o fígado; ao Muecália a região lombar, pois se diz que é ele quem protege
o Reino, tal como uma galinha a chocar os ovos; o soba Ndaka, das mensagens, pela sua
função recebe o pescoço e a língua; o epalanga recebe os braços, porque tem sido os braços do
soba. Depois da distribuição da carne, tomam o sangue do animal e com ele borrifam a
estatueta com nome de Samemba é o d-us da caça e da carne.
O acusador é quem fala primeiro, descrevendo em pormenor todos os crimes cometidos pelo
acusado. Depois tem a palavra o acusado que apresenta a sua defesa. O tribunal exige sempre
a presença de testemunhas. Caso não as haja, vão questionando o acusador e o acusado até
descobrirem a verdade, baseando-se sempre no apotegma vox pop: o peixe morre pela boca.
A título de exemplo, num julgamento a que eu assisti, eram dois amigos íntimos, em que um
deles necessitava de mil e duzentos dos escudos antigos para satisfazer uma necessidade, e
assim foi ter com o amigo para lhe pedir emprestado aquele dinheiro. Ora o outro não se
encontrava em casa, e então foi em sua procura na lavra onde na verdade o encontrou,
expondo-lhe a sua preocupação. Ele então lhe disse que no momento só tinha mil escudos. O
devedor, disse que mesmo assim lhe emprestasse esses mil escudos, pois procuraria onde
arranjar o resto. Como testemunha estava lá apenas um cão. Os dois, depois de terem chegado
a um acordo, foram a um morro de salalé (formigueiro) onde se sentaram, dentro da lavra. O
dinheiro foi contado e entregue com a promessa de ser devolvido tão cedo quanto possível.
Passou-se um ano, dois anos, e o devedor nunca se prontificava em honrar os seus
comprimissos.
Um dia o credor resolveu abordar o amigo para lhe exigir o pagamento da dívida. Este
responde que nunca recebera dele dinheiro nenhum, deixando deveras irritado o outro, que
apresentou de imediato queixa ao soba. O soba convocou os outros sobas do reino, seus
subordinados, para uma grande sessão de julgamento.
Neste julgamento fez-se como de costume: Falou primeiro o queixoso e depois o réu (arguido)
que alegou nunca ter recebido o dinheiro. Os sobas pediram testemunhas as quais,
infelizmente, não existiam, excepto um cão. O soba Epalanga, dirigindo-se para o devedor
perguntou-lhe:
- Por acaso numca foste à lavra deste senhor a fim de pedir dinheiro emprestado?
- Nunca, nem sequer conheco a tal lavra. – Respondeu ele.
O soba perguntou ao credor e disse-lhe:
- Como disseste que estavas com o teu amigo na lavra acertando as contas sentados num
morro de salalé, corre lá e traz-me um pedaço desse morro de salalé.
Logo que o credor recebeu tal ordem, meteu-se a caminho em busca do pedaço do morro de
salalé, no local onde estiveram sentados a contar o dinheiro. A audiência ficou suspensa
esperando pelo pedaço do morro pedido.
Depois de algumas horas de espera, o soba Epalanga virou-se para o devedor perguntando:
- Então, o teu amigo nunca mais vem? Eu tenho de ir apascentar os bois!
- Não conte com ele já – respondeu o devedor – a lavra fica muito longe daqui, e só aparecerá
logo à tarde.
- Há pouco disseste que não conhecias a tal lavra, e agora afirmas que fica longe daqui? Isso é
porque já lá foste alguma vez movido por qualquer interesse. Certamente sempre foste lá para
pedir o dinheiro emprestado. Pela boca morre o peixe!
Rapazes da corte, metam este homem no ukubi (as embalas não têm cadeias, apenas os
ukumbis, que é um instrumento de torturar os criminosos. Trata-se de um tronco de madeira
com dois buracos onde metem os pés do criminoso e outro horizontal onde metem uma cunha.
O preso fica ali sob o sol ardente, à chuva e ao frio, etc. Só sairá dali quando pagar o
estipulado pelo soba).
Os rapazes da corte lá o meteram no ukumbi.
Quando o queixoso regressou com o pedaço do salalé, encontrou o seu adversário no ukumbi
onde confessou a verdade, e pagando o que devia.
Depois o soba mandou dispersar a audiência, exigindo ao réu o dobro do que devia por ter
sido mentiroso.
Têm havido casos muito difíceis, como os relacionados com a feitiçaria, mas eles sempre
conseguem forma de os resolver. Na impossibilidade de num julgamento não se chegar à
verdade, então recorrem ao ombulungu, que é a raspa de raiz de um arbusto considerado
sagrado entre os bailundos, o qual se encontra em lugares ermos. Diz-se que qualquer ser
vivente que tenha morto outro ser vivente, morrerá imediatamente ao passar na sombra da
referida árvore. O mesmo acontecerá com um leão, uma onça ou lobo. Se por lá passar um
feiticeiro terá o mesmo fim. Só escapa quem não tiver morto outro ser vivo. Também se diz
que por baixo das referidas árvores se encontram muitas ossadas de animais.
Uma certa ocasião, já lá vão muitos anos, desloquei-me ao deserto de Moçâmedes que passou
a chamar-se de Namibe, onde passei dias à procura do referido arbusto. Fui até Tômbua, ex.
Porto Alegre, sempre à procura dele e nada encontrei. Encontrei, sim, perto da Tômbua, uma
planta, a welitschia Mirabilis, que não possui as propriadades do Ombulungu, embora
dissessem que esta planta fosse rastejante e carnívora, e qualquer animal, incluíndo pessoas,
que dela se aproximasse, seria envolvida nos seus tentáculos que ela abriria, e depois de
estrangular a presa, comi-a, o que não se verificou quando eu me aproximei da planta, e até
arranquei parte dela.
Quando estive na Jamba, então o Quartel-General da UNITA, que ficava na mesma extensão
do deserto do Namibe, chamado Calaári, continuei procurando por ali o mesmo arbusto. Não
só não o encontrei, como também nunca vi quaisquer ossadas debaixo de qualquer árvore.
Desde então considerei aquele arbusto como lendário. Mas os basilundos confirmam ter
existido.
Para confirmar o que se dizia do Ombulungu, o ordálio (prova jurídica), desloquei-me uma
vez à Embala, capital do sobado, a fim de ver a referida raiz sagrada. Paguei o que o soba
Epalanga me pediu.
Ele entrou na cubata, e de lá trrouxe a maravilhosa raiz toda ela fumada por estar no teto da
cozinha, e que me pareceu ser muito antiga. Apresentava muitas raspaduras.
O ombulungu, segundo eles, tem propriedades medicinais e de cura, especialmente as dores de
estômago. Mas segundo a Tradição, quando se lhe dirigem palavras de ohasa (invocações em
defesa própria) fica irritada e mata criminosos sem piedade.
Quando há um julgamento difícil, relacionado especialmente com feitiçaria, tomam esta raiz
e, com uma faca, raspam a mesma diluindo os residuos numa porção de água, conforme uma
medida estipulada. Depois servem uma quantidade equivalente a três colheres de pau. A
vítima, o acusado, e o próprio acusador, o soba, seguram nas mãos o recipiente que contém o
liquido. Depois cada um se refere ao ohasa. Então o acusador, o soba, diz:
- Ó ombulungu, tu sabes que eu nada tenho a ver com os actos referidos nesta acusação; por
isso não me farás dano algum. – Depois fala o acusado:
- Ó ombulungu, tu és maravilhoso, pois descobres todos os segredos, até os do coração; mata-
me se forem verdadeiras as acusações que aqui me fazem. Caso contrário, salva-me. Se
confirmares que fui eu que matei o filho deste individuo, mata-me; mas se achares que não
fui, salva-me.
Por último fala o queixoso, dizendo:
- Ó ombulungu, tu sabes que eu também não estou isento, mas que estou a falar a verdade, e
por isso peço que me salves. Mas se entendes que estou a caluniar esta pessoa, mata-me.
Depois de todos terem feito as suas invocações, cujas palavras são denominadas de “ohasa”,
cada um deles bebe a quantidade de água que lhes é designada. bebendo todos em simultâneo.
Passados alguns momentos, o verdadeiro culpado perde os sentidos, mas os outros vomitam.
Para o culpado não morrer, dão-lhe uma composição extraída de uma outra raiz. Depois deste
ter recuperado os sentidos é imediatamente condenado e preso.
Conta-se que dois homens, um chamado Katombela e o outro Pambanssangue, resolveram um
dia roubar maçarocas de milho. Entraram numa lavra: Pambanssangue transportava
Katombela nos ombros, sendo este que roubava o milho. No fim do roubo fizeram uma
fogueira, junto à lavra, onde assavam o milho roubado.
Passado algum tempo apareceu a dona do campo, que ao ver os dois assando o milho junto à
sua propriedade, acusou-os de roubo. Eles recusaram tal acusação, e por isso a mulher, como
tinha a certeza de que haviam sido eles, queixou-se ao soba, que de imediato mandou reunir o
tribunal para o julgamento. Como não havia provas concretas, recorreu ao processo
ombulungu. Com o ombulungu nas mãos de cada um, iam, um por um, citando o ohasa,
primeiro falou o Pambanssangue, que dizia:
- Ó ombulungu, tu és maravilhoso e sabes tudo o que se passa. quanto a mim, nem sequer me
refiro ao roubo; refiro-me apenas ao facto de ter passado neste lugar. Assim, se por acaso o
meu pé tiver pisado aquela terra, mata-me, mas se nunca o pisei salva-me. – Ao terminar estas
palavras engoliu a sua porção de ombulungu.
Desta foi a vez de Katombela que disse:
- Ó ombulungu, não te minto. Na verdade eu passei naquela lavra, mas se eu tiver posto a mão
em alguma maçaroca para a roubar, mata-me. – E tomou a sua porção.
O ombulungu nada mais fez que confirmar o que cada um dizia. De facto, um passou por lá
com seus pés mas não roubou; o outro nunca por lá passou com os seus pés, e por conseguinte
não podia ter roubado milho algum. Assim, o ombulungu não podia condenar nenhum dos
dois que, considerados inocentes (http://tsf.sapo.pt/Programas/programa.aspx?
content_id=904110&audio_id=1706620), vomitaram o liquido que haviam ingerido.
[Mas pergunto, eu: http://conviteavalsa.blogspot.com/, que faço a revisão deste texto:
Terminou aí o mito dos poderes mágicos do ombulungu? Pois se tinha tais poderes, não se
deixaria enganar pelo ardil dos dois criminosos!]
Nos julgamentos, os bailundos utilizam sempre adágios. Pode-se dizer que mesmo em
conversas do dia a dia, os bailundos utilizam sempre apotegmas. E um deles é este: “U o lia
laye ombua, u limbukila ku ku ikakuea” (Interpretação/tradução: “Reconhecerás logo a
pessoa que meterá contigo o cão, no modo como ele esfola o animal. Se o esfola com vontade e
desejo, saberás imediatamente que comerá da carne do animal; se o fizer com nojo, é sinal que
daquela carne ele não comerá, pois a carne de cão é rejeitada por ser nojenta”).
Vamos, pois, interpretar este provérbio. O significado é que, se tratares de algum negócio com
alguém, saberás de antemão se aquela pessoa está interessada ou não pelo mesmo negócio. Se
mostrar grande interesse, saberás que está de facto interessado no mesmo. Tudo se sabe pelo
interesse manifestado pela pessoa.
Uma ocasião eu assisti ao esfolamento de um cão. O animal foi amarrado pelo pescoço e
levado a um ochimbandi (terreno circular com cerca de um ou dois metros de diâmetro, com
pavimento muito rijo, feito pelo salalé, utilizado pelos agricultores como eira e dentro das
matas) em plena mata, onde fizeram uma grande fogueira. Depois pegaram o cão e o
penduraram numa árvore com a corda.
O animal defecou e morreu. Tiraram-no depois da árvore e o colocaram na fogueira, que o
iam virando até queimar todo o pêlo. A seguir tiraram-no do lume e rasparam o pêlo
queimado com uma faca; abriram-lhe o ventre para tirar as entranhas. O estômago foi
lançado para a fogueira, que depois de inchar o retiraram, e o mais forte do grupo o levou ao
ochimbandi que o arremessou com muita força ao pavimento, feito pelas térmitas, para que as
fezes fossem expelidas e o estômago ficasse vazio. O individuo que vi fazer este trabalho até
ficou completamente conspurcado pelas fezes, incluido o rosto. Em momento algum da minha
vida vi algo assim tão nojento.
Depois de esfolado, o cão é levado ao quimbo onde é esquartejado e cuja carne é conservada
em folhas de mulemba, numa panela de barro e temperada com sal e outros temperos. Aquela
panela passa o dia todo ao lume, para que a ferver a carne fique bem cozida. Dizem que é uma
carne saborosa, sobretudo quando acompanhada com pirão de bombó, isto é, feito de farinha
de mandioca.
Muitos adágios têm a sua própria história tradicional; por exemplo, “Kalunjinji, komanu ku
liwa luloño” (“A formiguinha alimenta-se dos restos humanos com subtileza”). Na verdade,
sem subtileza não se obtém nada de alguém. Este adágio percebe-se pela seguinte história:
Um homem tropeçou numa pedra, ferindo um dos dedos do pé que ficou com a pele
levantada. Ele tirou uma faca, cortou a pele e deitou-a para o chão. Uma formiguinha quando
a detectou, arrastou-a para o seu buraco. O epulu (mosca parecida com a tsé-tsé) quando viu
a formiga, perguntou:
- Ó formiguinha, onde foste tu buscar isto que transportas?
- Do homem! (Pausa: http://www.ivoox.com/cancion-mourinho-expulsado-audios-
mp3_rf_422138_1.html) – Respondeu ela.
- O homem é que tem isso? – Tornou a perguntar o epululu.
- Sim! – Respondeu a formiga.
- Neste caso, também vou ter com o homem para lhe tirar algo igual! – Disse o epululu.
Ele ao chegar junto do homem, pousou num dos seus braços a fim de lhe retirar a pele como a
que viu à formiguinha. O homem, ao dar-se conta de que o epululu lhe feria o braço, matou-o
com uma palmada dada pelo outro braço. O epululu, para seu azar, não se lembrou de que a
formiga só havia aproveitado algo desnecessário ao homem.
É o mesmo que acontece connosco. Se precisarmos de alguma coisa de alguém, não devemos
ter a mesma atitude do epululu, mas dialogar e não usar de violência para com ninguém.
Um outro apotegma é este:
“Ukuele nda o suñila langeka; vekehã liukuele mulivo ekahã liove” (“Se alguém, teu próximo,
tiver sono, leva-o imediatamente para a cama, para que também possas dormir”). Isto
significa que se alguém estiver em dificuldades ou em perigo, o melhor é ajudá-lo, pois se ele
se salvar também poderás ser livre. Se alguém ao teu lado tiver uma doença contagiosa, e não
o levares para ser curado, a mesma doença também poderá contagiar-te.
Um dia um caçador passou o dia todo a caçar sem conseguir caça alguma. Aborrecido,
resolveu voltar para casa. No entanto, viu uma rola no topo de uma frondosa árvore, e
resolveu abatê-la. Quando fez a pontaria, uma jibóia que estava debaixo da árvore viu-o e
disse à trepadeira, que chegava até onde estava a rola, e disse-lhe:
- Avisa a rola para que levante voo pois o caçador apontou-lhe a arma para a matar. –
Retorquiu a trepadeira:
- Eu não tenho nada a ver com os animais, pois sou apenas uma planta; que morra a rola.
Entretanto o caçador disparou e a rola caiu morta no chão. O caçador aproximou-se do local
onde a rola havia caído para a apanhar, e quando aí chegou viu de surpresa a jibóia; tomando
o machado que tinha à cintura, matou a cobra. Depois pensou em como levar a jibóia para
casa. Mas como não tinha corda para fazer a rodilha para a transportar, e como no lugar não
havia plantas de cujo caule se extraísse olondovi (correia para transporte de alguma coisa),
para superar esta falta cortou a trepadeira a fim de lhe servir de corda para amarrar a jibóia.
Pela má vontade da trepadeira morreu a rola, a jibóia, e a própria trepadeira. Se esta tivesse
aceite avisar a rola, nenhuma das três morreria.
QUANTO ME CUSTOU O EXCREMENTO DUM PRIMO DA MINHA MULHER

Em 1975, quando a minha mulher estava presa na cadeia por motivos políticos, eu tive de
ficar só em minha casa. Um dia acordei muito cedo, antes do nascer do sol, para ir trabalhar
na horta. Ao abrir a porta, deparei com um primo da minha mulher, o qual morava a cinco
quilómetros de nós, chamado António, que pensando que eu estivesse ainda a dormir,
defecava no nosso quintal, perto da entrada da casa, com o fim de enfeitiçar. Fiquei zangado e
tive que o levar ao soba para ser julgado.
Perante o tribunal, ele disse que estava a cumprir uma tradição familiar, que abrangia
também a minha mulher, que se estendia de geração em geração, e para não sofrer sozinho as
consequências desta prática queria que a minha mulher fosse também incluida, para que o
cazumbi que o perseguia passasse a perseguir a minha esposa, prima dele.
Depois de alguns dias [sugestão:http://sankeyfamily.blogspot.com/?expref=next-
blog (Metodistas)] passados, aquela defecação no nosso quintal começava a dar maus efeitos.
Um dos nossos filhos, em brincadeiras, ficou sem um olho. Depois um outro fugia da mãe
dizendo que ela lhe enviava um cazumbi para o matar. Era o princípio de ser endemoninhado.
Para poder fugir da mãe juntou-se com portugueses que abandonavam Angola aquando da
independência, indo com eles para Portugal onde esteve durante dois anos. Depois voltou para
casa. No dia em que chegou, vendo a sua mãe ficou logo endemoninhado, em grande escala, e
ficou completamente descontrolado.
Causava muita confusão e punha-se a nú. Partia tudo quanto
estivesse ao seu encalce e ninguém o podia amansar. Toda a
vizinhança entrava em nossa casa para lamentar o caso. Um
vizinho vindo de bicicleta encostou-a na parede da casa, o
endemoninhado subiu nela e em grande velocidade foi à escola
da Missão. Entrou na cozinha e de lá tirou uma grande faca e
se dirigiu ao hospital; partindo os vidros da porta de entrada
entrou numa enfermaria onde havia muitos doentes. Um
grupo de enfermeiros pegou nele à força conseguindo arrastá-
lo para fora. O chefe da enfermaria, chamado Alfeu Mateia,
ordenou a um grupo de homens para o espancar brutalmente
à paulada chegando a feri-lo na cabeça. Depois levámo-lo para
casa. Com uma corrente consegui acorrentá-lo no tronco duma
árvore. Depois fui ao hospital da vila pedir socorro, em que me
deram uns comprimidos para o aliviar. Quando cheguei com
estes comprimidos, a minha mulher, a mãe dela e um cunhado,
ameaçaram-me severamente, dizendo: “Não te metas na
doença de teu filho, nós faremos tudo o que for possível. Quem
te avisa teu amigo é, e não queremos que mal algum te venha a
acontecer”. Tomaram os tais comprimidos e deitaram-nos ao
lume. De facto os cazumbis, estariam contra eles se eu me
metesse na cura do endemoninhado, por não fazer parte da
tradição familiar. Eu, na qualidade de pai é que não podia
ficar de braços cruzados perante um filho endemoninhado. No
dia seguinte fui ter com um diácono da Igreja, chamado
Floriano, que conhecia os remédios tradicionais para curar
estes males.

Quando voltei encontrei o cunhado da minha mulher com


muita fama de feiticeiro, juntamente com ela e com a minha
sogra os quais esperavam por mim para me maltratarem.
Estavam todos furiosos e me disseram: “Você é muito teimoso;
não te haviamos dito que não te metesses na doença da
maluquice do teu filho? Ainda para piorar foste ao diácono em
busca de medicamentos. Agora vamos espancar-te.”
Durante o espancamente o doido atirou-me um caneca, em que
bebia o leite, a qual me bateu na nuca, ficando atordoado. No
entanto vi a minha mulher, que estava sentada no chão, a
levantar-se toda zangada, aproximou-se de mim,
provavelmente para me dar o último golpe. Estendi-lhe a mão,
sem a tocar, e lhe disse: “Calma aí!” Ela então caiu redonda no
chão como que se eu a tivesse empurrado. Estava tão zangada,
que ao levantar-se os panos que vestia lhe caíram do corpo. A
seguir veio a sogra, também muito zangada, que me disse:
“Ove u mbua; nda ci kulihile nda katua kuihileomoletu.” O
que significa: “Tu és cão; se soubessemos que eras assim, não
te teriamos dado a nossa filha, casando com ela.”

Quando acabou de pronunciar estas palavras, foi logo


acometida por uma doença que a impediu de falar. No dia em
que ela morreu o meu filho ficou logo curado.

Foi isto que custou o excremento do primo da minha mulher


evacuado no nosso quintal.

UMA MULHER ENVIA-ME UM CAZUMBI NA FORMA DE


UM MONSTRO, QUE ME TOMBA NO CHÃO

»»»» Havia uma mulher na Missão Evangélica do Bailundo


que com as suas feitiçarias, um carisma/dom proveniente do
Demónio Satan, domava completamente os missionários
arminianos (cristãos não predestinados; logo que
“transportam a vivência cristã com temor e
tremor”) americanos e canadianos, sobretudo as irmãs
missionárias.
Todo o missionário ou missionária, perante esta mulher tornavam-se mansos e satisfaziam-lhe
todos os seus desejos. A pessoa que ela amasse também era amada pelos missionários, e a
quem ela odiasse também era odiada por eles. Era uma mulher que tinha a vida regalada na
Missão. Toda a sua manutenção lhe vinha da América e do Canadá. Nada lhe faltava. Os
missionários davam-lhe tudo o que ela necessitava. Às vezes até lhe davam o previlégio de
gozar férias na américa ou no Canadá.
Esta mulher, então, queria que eu casasse com ela, o que não era do meu interesse, pelo que
me perseguia fortemente. Difamava-me com acusações conscientemente falsas perante os
missionários, com o intuito de que me expulsassem da Missão, onde eu trabalhava como
professor. Às vezes questionava comigo e me ameaçava severamente. muitas vezes me armava
ciladas, as quais eu sempre descobria. Uma ocasião, numa manhã, quando me levantei da
cama, como era habitual, fui para baixo de um abacateiro que estava perto da nossa
residência, para ali despejar o bacio, e encontrei lá um abacate envenenado, como que tivessse
caído da árvore.
Fiquei logo desconfiado, visto aquele abacate ser tinto, quando aquele abacateiro
produzia abacates verdes. Peguei nele e arremessei-o a um porco que passava por ali no
momento, e logo que o animal o comeu caiu morto.

Uma outra ocasião encontrei excrementos humanos na sala onde eu dava aulas. Como os
excrementos desempenham importante papel na feitiçaria angolana, fiquei logo
consciente que alguém me queria eliminar com feitiçarias. (CONTINUA; UMA
PEQUENA PAUSA: Certo dia, YAOHÚSHUA foi orar para as montanhas, e orou toda a
noite. Ao amanhecer, reuniu os seus seguidores e escolheu doze deles para serem o círculo
mais íntimo dos seus discípulos. Foram nomeados emisários. Eis os nomes deles: Shamiúl
(a quem chamou também Káfos), Andorúl (irmão de Shamiúl), YÁOHU-caf, YÁOHU-
khánam, Felipe, Bartolomeu, Man-YÁOHU, Tomé, YÁOHU-caf (filho de Alfeu), Shamiúl
(também chamado Zelota), YAOHÚ-dah (filho de YÁOHU-caf) e Yudas Ish-Kerióth (que
viria a traí-lo por predestinação supralapsariana).
From the baptism of John at the outset until the day when He was taken up from among
us–one of these men must join with us and become a witness to testify to His resurrection.
And they accordingly proposed (nominated) two men, Joseph called Barsabbas, who was
surnamed Justus, and Matthias.24 And they prayed and said, You, Lord, Who know all
hearts (their thoughts, passions, desires, appetites, purposes, and endeavors), indicate to
us which one of these two You have chosen To take the place in this ministry and receive
the position of an apostle, from which Judas fell away and went astray to go [where he
belonged] to his own [proper] place. And they drew lots [between the two], and the lot fell
on Matthias; and he was added to and counted with the eleven apostles (special
messengers). – Amplified Bible) Também tentou meter em mim o espírito de fornicação, o
que não tinha perdão na Missão, pois quem fosse apanhado neste pecado era
imediatamente expulso. Tinha feito todos os possíveis para me destruir, e eu sempre
escapei, mas sempre sonhava com ela (talvez Lilith, a espírito que é referida na Cabala
como a primeira mulher do bíblico Adam, sendo que numa passagem (Patai81:455f) ela é
acusada de ser a serpente que levou Javá a comer o fruto proibido,
http://pt.wikipedia.org/wiki/Lilith); em que ela me trazia uma mulher nua, da altura de
uma torre de um templo, a qual me dizia: “Eis uma mulher para ti”.

As vítimas de feitiçaria costumam ter a revelação, em sonhos, do ou da


feiticeiro(a) que as enfeitiçam.

Depois enviou-me um cazumbi que me derrubou no chão.

http://antinominiano.wordpress.com/2010/03/28/frei-bento-domingues-evangelho-e-
cultura-na-semana-santa-escola-dominical-reformada/

Foi numa noite em que estava sentado à mesa a corrigir os trabalhos dos alunos, nos
Fiquei
impressionado ao
ver o chefe do posto,
o qual me parecia
ser um gigante por
ser alto e forte.
Chamava-se José

Sebastião Figueira. Devido ao tratamento que dava aos indígenas, tinha sido alcunhado de
Kuyekeya. Era de origem madeirense.

Depois de ler a guia, perguntou-me se eu era católico ou protestante, e eu lhe disse que era
protestante. Disse-me depois que era muito rigoroso, e que para trabalhar com ele terei de ser
bem comportado, ser assíduo ao trabalho, mas também garantindo-me que estaria ali para
qualquer sucesso impeditivo do meu bem fazer.

Assim deram-me uma máquina de escrever, começando a trabalhar nesse momento.

O edifício do posto administrativo tinha dois compartimentos: a secretaria e o gabinte do


chefe do posto, onde havia uma secretária e um grande cofre para guardar o dinheiro dos
impostos cobrados aos indígenas. Em cima da secretária estava a palmatória que tinha mais
ou menos oito centímetros de diâmetro, e o cabo com quarenta centímetros de comprido. Era
toda enfeitada com taxas de latão. Na parede estava pendurado um chicote feito de coiro de
hipopótamo, também enfeitado com taxas de latão, a que eles davam o nome de cavalo-
marinho. tanto a palmatória como o chicote se encontram em todos os estabelecimentos
governativos, e eram destinados somente para castigar os indígenas, mas não os brancos.

No balcão da secretaria, um Aspirante branco escrevia à maquina. Por detrás do balcão


estava uma prateleira cheia de boletins oficiais encadernados. Perto da porta estava uma
mesa onde estava um funcionário negro, já velho, chamado Albino, e cobrador de impostos
aos indígenas, impostos das licenças de bicicletas, de danças, de cães, etc. Se alguém fosse
apanhado a fabricar uma bebida chamada cachi, feita de frutas e açucar, pagava uma multa
pesada.

Ao lado da mesa dos impostos, estava um encadernador chamado Benedito, que tratava dos
boletins oficiais e outros livros.

Na varanda do edifício do posto estavam sentados cinco cipaios vestidos com farda de Kaki.

Depois o Chefe quis saber onde me havia hospedado, respondendo-lhe que ainda não tinha
procurado alojamento. Chamando um cipaio ordenou-lhe então: “Leva este homem e mostra-
lhe uma das casas por detrás da prisão, onde se poderá alojar”.

O cipaio então me conduziu ao local, e mostrou-me uma casinha desabitada, que tinha apenas
um compartimento com dois metros de largo e três de comprimento. Havia ali muitas outras
casas deste tipo, todas alinhadas, e fora de cada uma havia lugares com cinzas onde era
habitual fazer-se lume, com pedras a servir de fogão.

Era um lugar bastante repugnante e com muito lixo. Depois de o cipaio me haver mostrado
essa casa, voltamos ao posto, onde trabalhei até fechar o estabelecimento e o serviço daquele
dia.

Quando tocou o sino, saímos. O Albino mais o benedito me acompanharam, e fomos a uma
loja de um senhor chamado Silvino. Como já estava fora do horário de trabalho, entramos
pela porta traseira, no quintal. Ora o tal Silvino tinha um negócio clandestino, e se fosse
descoberto teria de pagar uma multa. era já noite, e um velho petromax estava sobre o balcão
do estabelecimento. Dentro da loja estavam dois brancos na conversa com o comerciante;
então o Albino pediu uma cerveja, à qual tirou a cápsula com os dentes e começando a bebê-
la. Por sua vez o Benedito foi junto do barril do vinho e o comerciante serviu-lhe um copo,
bebendo ele também.

Entretanto um dos brancos disse: “Ó Albino, ouvimos dizer que hoje chegou ao posto um
calcinha (nome que os portugueses davam a um preto que vestisse roupa limpa) que até o
Chefe lhe apertou a mão. É verdade?” – O Albino disse-lhe que não era verdade, que nunca
apareceu ninguém lá no posto a apertar a mão do Chefe.

- Pois claro! Se eu não aperto a mão a um preto, muito menos o Chefe que é uma Autoridade.
Ele nunca apertaria a mão de um preto! – Acrescentou aquele “senhor” branco.

O albino então lhe respondeu: “Engana-se, eu quando acordo de manhã na minha cama, lavo-
me com água quente e sabão. Tenho sempre as mãos limpas, e pelo facto de ser preto não
apertas a minha mão. Mas tenho a certeza que daqui a pouco irá à sanzala (espaço reservado
aos negros que estava situado à volta da residência de brancos) apertar a mão da Sofia, que
passa dias e dias sem se lavar!”
O branco disse de seguida, e isto para responder à interpelação: “Se eu aperto a mão da Sofia
é com outro interesse!”
Deu-se então uma gargalhada ecuménica.
Eu aproveitei a ocasião para comprar uma caixa de fósforos, um candeeiro, feito de latas de
conserva, um pouco de petróleo, dois pães e uma lata de atum em conserva, e saí para fora,
dirigindo-me para a casinha que me fora destinada.
Quando lá cheguei deparei com muitas outras pessoas nas outras casinhas, todas elas com as
suas fogueiras acesas fazendo o seu jantar. Vim a saber que todas elas eram trabalhadores das
granjas pertencentes ao posto, vindos das suas aldeias, mas que trabalhavam forçadamente,
sem salário e sem ao menos receberem comida, tendo eles que a pagar do seu bolso. Cada
aldeia era forçada a enviar, todas as semanas, trabalhadores para as granjas, tal como já o
haviamos referido antes.
Limitei-me a entrar na minha casinha. Acendi o candeeiro e comi o meu pão com o atum,
pensando que nenhuma daquelas pessoas me conhecesse.
Depois ouvi fora alguém que dizia o seguinte: “O Chefe do Posto tem mais consideração pelo
cipaio Adriano do que pelo cipaio Manuel, que está a fazer todos os possíveis para também
conquistar a mesma consideração do Chefe”. – Depois um outro disse o seguinte: Nas
Escrituras Sagradas, o Senhor considerava mais a João do que a Kefas (Pedro). Para Kefas
conseguir de Jesus essa consideração teria que se dedicar mais a ele.”
Quando ouvi aquela conversa dizia para comigo que afinal eram meus irmãos na fé. Saí e fui
cumprimentá-los. Um deles disse-me: “Ukombe wa tunda pi? (“Donde veio o hóspede?”)
Disse-lhes que vinha da Missão Evangélica do bailundo, e logo notei que todos ficaram
satisfeitos em me ver, e em coro diziam: “É nosso irmão em Jesus Cristo!” – deram-me um
pequeno tamborete, que utilizam para recolher água do rio, onde me sentei.
Havia outros que não ligaram me ligaram nenhum. Certamente eram católicos romanos.
Depois do jantar seguiu-se um serão amistoso, em que se contavam histórias, contos, fábulas,
etc., tal e qual como faziam os rapazes e as raparigas quando faziam serões nas cozinhas.
Depois ouviu-se numa outra fogueira um que dizia: “Vocês ouviram o que se passou no
Andulo acerca de um indivíduo que foi comido pelos bissondes?… (Em umbundu é issonde. É
uma espécie de formiga da cor de vinho, muito maior que a formiga normal. Vive em grandes
formigueiros e muito organizadas. Estes formigueiros têm vários compartimentos, armazéns,
dormitórios, salas de estar, etc. Cada um deles tem um número incontável de bissondes; no
meio deles há um rei, há polícias, que são os que têm dentes grandes e muito afiados; há as
obreiras, as que transportam os alimentos, as caçadoras, etc. Alimentam-se exclusivamente de
insectos e são carnívoros. Não comem frutas ou comida caseira. Saem dos formigueiros apenas
na estação chuvosa em que há calor, pois não suportam o frio. Na estação seca não saem dos
formigueiros. Se alguém encontrar os bissondes na estação seca fora do formigueiro, é sinal de
grande tragédia para essa pessoa, segundo a tradição dos bailundos. Uma ocasião encontrei
um homem que os tinha visto na estação seca, e no mesmo dia accionou uma mina anti-
pessoal.
Durante a estação chuvosa, os bissondes passam o tempo todo a percorrer de lugar para lugar
na caça. Formam carreiras muito compridas; se durante a viagem encontram um obstáculo
perigoso para eles, escavam um túnel por onde se metem procurando outro local que tenha
caça, como gafanhotos, aranhas, ratos, cobras e outras presas. Assim desfazem as suas
carreiras, dispersando-se cobrindo uma área de dez ou quinze metros quadrados. Cobrem
todo o chão, e tudo o que por ali passar é logo apanhado. Apanham as suas presas com muita
rapidez; basta um deles pegar com a sua pequena mão qualquer bicho, imediatamente se
aglomeram em grande número, cobrindo imediatamente o corpo da vítima.
No fim da caçada cortam a vítima em pequenos pedaços que envolvem numa matéria
transparente, cujos invólucros são em forma oval e bem construídos. Depois de empacotar a
presa formam novamente a carreira, e as formigas transportadoras passam pelo meio dela em
grandes colunas de quatro ou seis elementos.
Uma carreira de bissondes atinge centenas de metros de comprido com dois centímetros de
largo, com muitos deles a transportarem os alimentos para os seus armazéns. As
transportadoras caminham dentro da carreira com as que fazem o policiamento a vigiarem
nos flancos, indo de trás para a frente com as suas bocas abertas e mostrando os seus terríveis
dentes. Quando a caravana das transportadoras chegar ao formigueiro, armazenam todos os
fardos da comida, tornando a sair para nova missão.
Os bissondes não têm temor de nada, seja leão, cobra, e até mesmo os elefantes, e as pessoas
fogem deles, lutando contra tudo o que encontrarem no caminho. Quando se deparam com
um pequeno riacho ou uma vala de água, querendo passar para a outra margem, fazem uma
ponte segurando-se uns nos outros pelos braços. Quando todos os outros atravessam, por cima
dos que constituem a ponte, então os da margem de onde vêm se desprendem, e os que já
passaram todos puxam os elementos da ponte para a margem para onde se dirigem.
Também costuma invandir as casas das pessoas, especialmente durante a noite. Quando
entram numa casa, cobrem todas as paredes matando todas as baratas, percevejos, ratos e
todos os insectos caseiros. Também atacam as pessoas, se as apanharem, e matam galinhas,
porcos, coelhos, etc.)
…Depois referiu um episódio, contando que um homenzinho tinha saído muito tarde da sua
lavra, e quando chegou na sua casa dirigiu-se ao alambique, que ficava um pouco distante de
sua casa, para comprar aguardente. Quando lá chegou comprou uma garrafa cheia e a bebeu.
Mesmo estando muito embriagado, sendo já noite, teimou em seguir para casa. Os outros, que
haviam também bebido com ele, aconselharam-no a não ir, pois não estava em condições de
caminhar. Mas como era muito teimoso não aceitou tais conselhos, e se foi.
Saiu, mas andou apenas uma pequena distância, caíndo no chão embriagado. Depois apareceu
uma praga de bissondes que lhe envolveram o corpo todo e o mataram. Começaram por lhe
comer os olhos, e no dia seguinte só encontraram o esqueleto todo branco.
Um dos que estava ali disse mais: Os bissondes são tão terríveis que até matam um elefante se
lhe entrarem pelos ouvidos; um outro também afirmou que o Governo tinha feito projectos
para construir um novo Posto Administrativo na área de Vila Nova, mas por causa destes
bichos desistiu de o construir, pois aconteceu que o Governador da Provincia de Huambo, na
companhia de outras entidades administrativas, com as suas famílias, haviam resolvido fazer
um fim de semana naquele lugar, onde pretendiam abrir este novo posto, mas tiveram mesmo
que desistir de o fazer. Levaram para lá tendas, camas de viagem e ali comerem em
campanha. Aconteceu que logo na primeira noite, quando dormiam sossegadamente, pela
meia-noite foram assaltados por uma praga de bissondes que invandiu as tendas, atacando
nas camas as pessoas que dormiam, que acordaram sobressaltadas, e tendo imediatamente o
lugar nas suas viaturas, e nunca ali mais apareceram para construirem o dito posto.
Depois de terminarem estas narrativas, houve uma pequena pausa. Mas um outro narrou um
novo caso acerca de um homem que tinha o hábito de bater muito na sua mulher. Um dia deu-
lhe pancada quando era já noite. Ela desgostosa pegou no seu filho de dois anos, colocou-o às
costas prendendo-o bem com o seu pano. Levou uma enxada na mão, saindo de casa na calada
da noite para seguir p’ra casa dos seus pais que ficava distante, tendo de passar por matas
perigosas, e onde havia muitos leões. Andou até chegar a um lugar onde havia um pântano,
onde algumas rãs coaxavam, que ao se aperceberem do ruído que a mulher fazia no andar se
calaram [pausa: http://mp3.rtp.pt/mp3/wavrss/at3/988824_73212-1009201330.mp3]. Depois
dela ter avançado um pouco mais, as rãs tomaram o seu coaxar. Andando mais uma pequena
distância, as rãs voltaram a calar-se, o que era sinal de que algum perigo estava eminente por
detrás dela. Saiu do caminho que seguia e subiu a uma árvore.
Passado um pouco de tempo viu surgir na escuridão dois homens, ladrões, carregados de
grandes fardos que foram roubar a uma loja de um branco. Quando chegaram precisamente
em baixo da árvore onde tinha subido a mulher, descarregaram os fardos e um deles disse:
“Vamos fazer comida debaixo desta árvore; tu vais buscar água no riacho, enquanto eu
acendo o fogo”. – Entretanto a criança nas costas da mãe dormia profundamente. Quando a
comida estava pronta, a criança acordou e começou a chorar. Quando eles ouviram o choro da
criança, ficaram assustados e puseram-se em fuga, pensando que “aquilo” que chorava fosse
um cazumbi ou alma do outro mundo. A mulher então gritou: “Não fujam, que sou eu, uma
pessoa como vós!” – Os homens não acreditaram no que ouviam, mesmo com a mulher a dizer
que era mesmo uma pessoa e não um cazumbi. Depois deles se terem apercebido da realidade,
ficaram mais aliviados e disseram: “De facto é mesmo uma mulher” e dizendo: “Será para nós
os dois; há muito tempo que não conhecemos uma mulher!” – Começando então a dançar de
alegria.
Dirigiram-se então até debaixo da árvore e disseram à mulher para descer. Ela então lhes
disse que com a criança nas costas não conseguia descer sozinha, pois só desceria com ajuda.
Pediu então que um deles subisse para a ajudar a descer. Assim, um dos ladrões não hesitou,
começando logo a subir. O outro subiu também logo atrás.
Quando o primeiro ladrão chegou próximo da mulher, esta descarregou-lhe com toda a força
a enxada na cabeça, que ao cair arrastou o companheiro que o seguia, e ambos cairam ao chão
e morreram. Ela esperou algum tempo mais. Quando ouviu os pássaros a cantar apercebeu-se
de que já estava próximo o amanhecer. Desceu da árvore e foi para casa dos pais, como era o
seu propósito. Quando lá chegou ainda os seu pais dormiam. Bateu na porta e eles
perguntaram quem era a uma hora daquelas. Ela respondeu: “Sou eu, a Chilombo, e venho
da minha casa porque o marido me espancou quando era meia-noite. No caminho encontrei
dois ladrões que me atacaram e eu os matei. Deixaram tudo o que traziam, que eram grandes
fardos de pano e dinheiro. Seria melhor irmos lá a fim de recuperarmos tudo o que eles
deixaram.
Depois ela conduziu os seus pais até ao lugar da cena, encontrando os ladrões estendidos no
chão, mortos. Além dos fardos havia uma sacola com muito dinheiro. Levaram tudo para casa
e ficaram ricos.
Quando o marido daquela mulher apareceu na casa dos sogros, foi corrido à pancada, mas
sempre , dizendo-lhe que nunca se deve bater numa mulher de noite e deixá-la viajar sozinha,
tendo de passar por florestas perigosas e cheias de leões.
Depois desta narrativa, um outro que também se aquecia junto à fogueira comigo, contou
outro caso que metia feitiçaria, dizendo o seguinte:
- Na nossa aldeia havia dois caçadores. Um chamava-se Chissingui e o outro João; Chissingui
matava duas ou três cabras por dia, e o João só matava duas a três cabras por ano. Um dia o
João pediu a Chissingui que lhe revelasse o segredo de como matava. O outro disse-lhe que
para isso era necessário ter um sékulo de nome Sachifunga que vive na aldeia de Dembi, na
área administrativa de Lunge, para que ele dê uma lavagem à arma com determinado liquido
que ele tem. O João quis saber se era só dar uma lavagem à arma, ou se não haveria feitiçaria
no assunto. O Chissengui disse-lhe que era apenas a lavagem da arma e nada mais.
O João ficou desse modo convencido, e um dia resolveu ir ter com o tal Sachifunga a fim da
sua arma também ser lavada. Pegou na arma e se pôs a caminho da aldeia de Dembi, onde
morava o o velho. Chegou lá quase ao anoitecer. Quando ele ali chegou, correram ao seu
encontro. A mulher de sachifunga logo lhe tomou a arma e a meteu no etambo para a guardar.
Levaram o João ao Onjango onde o fizeram sentar ao pé do lume para que se aquecesse. Uma
rapariga foi em busca de uma galinha para o preparar o jantar do hóspede. Depois do jantar
feito levaram-no ao Onjango em dois pratos, um de pirão e outro com a carne da galinha para
que ele comesse. Depois seroaram com ele sem lhe perguntarem o que ele queria. No fim do
jantar o sékulo Sachifunga levantou-se e foi para a sua casa dormir, mandando chamar o João
por uma moça, para que ele fosse ter com ele ao seu quarto de dormir. O João foi, e quando lá
chegou deram-lhe um banco para se sentar. O Sachifunga estava sentado na cama, e a sua
mulher num banco ao lado. O sékulo tomando então a palavra, disse: “Quanto a tu quereres
matar muitas cabras do mato num dia, ao longo da noite haveremos de fazer tudo para ver se
isso vai ser possível ou não. Dependerá do sonho que irás ter durante o sono. Portanto, só
saberemos amanhã de manhã”.
Depois levaram o João para o etambo para dormir. Quando lá chegaram com ele, estenderam
uma esteira no chão perto de um ídolo grande, onde o João teve então um sono muito
profundo, não dando conta da passagem da noite, só acordando de manhã quando uma moça
lhe trouxe uma cabacinha com água para se lavar. Depois foi ao onjango para comer pirão
com a carne da galinha. Quando acabou de comer foi chamado novamente ao quarto do
sékulo e, como no dia anterior, lá lhe deram novamente o banco para se sentar, estando
também a mulher do Sachifunga e outras pessoas mais.
O velho então disse: “Durante toda a noite fizemos todos os possíveis para que a tua intenção
seja cumprida. Tudo dependerá do sonho que tiveste esta noite. Diz-nos então o que sonhaste.
Então o João disse: “Passei toda a noite a sonhar com a minha mãe sentada em cima duma
cabra do mato”.
Perante esta declaração do João, toda a gente na audiência ficou satisfeita e em uníssono
disseram:
- Ainda bem! A tua vontade será cumprida.
Sachifunga ficou muito contente e tomando a arma descarregou-a e voltou-a a carregar com
uma nova carga. Depois deu-lhe instruções dizendo que o seu sonho vai ser realizado;
“Quando chegares perto da tua aldeia entra na mata e verás que será como sonhaste, verás a
tua mãe sentada em cima duma cabra. Assim não hesites; dispara logo contra a tua mãe, e
mata-a. Dessa maneira matarás muitas cabras e ganharás muito dinheiro.
O João saiu dali muito triste no seu coração, pois nunca mataria a sua mãe que o deu à luz e o
criou. Pôs-se a caminho da sua aldeia, e quando chegou perto quis confirmar se de facto iria
ver mesmo a sua genitora sentada em cima de uma cabra. Viu na verdade uma cabra
que observou no mato, e em cima dela estava a sua mãe. Foi para casa, e a sua mulher quando
o viu chegar disse-lhe:
- Se foste em busca de feitiço, ele não chegará cá.
Entrou em casa todo macambúzio, encostando a sua arma na parede, e se sentou com a cara
voltada para o chão. Não esperou muito tempo, e foi logo atacado por um cazumbi que lhe
apertou o pescoço querendo matá-lo por não querer disparar contra a sua mulher. O João
pediu que o largasse e que lhe desse mais uma oportunidade, pois iria matar a sua mãe sem
hesitar. Assim o cazumbi o deixou. De noite teve mais um sonho em que viu, em vez da sua
mãe, um seu irmão que estava sentado, a quem também não queria matar. Por isso o mesmo
cazumbi apareceu novamente no momento em que estava ao pé de um fogareiro quando se
aquecia. Pegou nele e o atirou sobre o fogareiro, acabando mesmo por o matar.
As populações das aldeias vizinhas quado ouviram tudo quanto aconteceu, do falecimento do
João, ficaram penalizadas, considerando o João como um homem corajoso, como o Job da
Bíblia, e todos foram participar no seu funeral.
Depois desta história, um outro que estava sentado junto da fogueira onde eu me encontrava,
disse:
- Falando acerca de Vila Nova, faz-me recordar um acontecimento terrível que se passou
comigo quando ultimamente por lá passei. Eu era ajudante de um caixeiro-viajante, branco e
muito meu amigo. Vestíamos sempre roupa branca e percorríamos toda a Província do
Huambo fazendo propaganda das suas mercadorias. Uma vez, quando chegamaos a Vila
Nova, o meu patrão quis passar ali o fim-de-semana. Era Sábado e fui procurar o meu primo
que morava na Sanzala. Recebeu-me muito bem, e no dia seguinte, que era Domingo, fomos a
um alambique (destilaria?) que estava junto a um riacho, perto de um grande acampamento
da circuncisão. Compramos aguardente e a bebemos. Eu estava muito preocupado dado que
aquele acampamento era ilegal. Os responsáveis dele faziam emboscadas nos caminhos, e todo
o homem que ali passava era exanimado para verificar se estava circuncidado ou não. Se não
estava circuncidado era logo arrastado para o acampamento para ser circuncidado à força.
Quando estávamos na destilaria apareceu um indivíduo desse acampamento para comprar
aguardente também. Olhou-me com aquele ar desconfiado que me deixou muito satisfeito,
numa sensação de profunda ordure, aflição mental covarde, e eu disse para o meu primo: “Ó
primo, tenho muito medo de ficar aqui por perto deste acampamento, pois me poderão
arrastar para lá e me circuncidar à força (http://tsf.sapo.pt/Programas/programa.aspx?
content_id=917512&audio_id=897024).
O meu primo então me disse: “Tem calma ‘hardes; onde eu estiver ninguém te tocará”.
Aquele indivíduo comprou a aguardente e voltou para o acampamento. Passado não muito
tempo surgiu de lá um grupo de homens gritando: “Ochindimba ci kasi pi? (“Onde está o
incircunciso?)”
Corri para o meu primo pedindo socorro e ele me respondeu: “Aproveita esta oportunidade
para te circuncidares e verás que ficarás mais satisfeito do que seres incircunciso toda a vida”.
Os homens me agarraram, despiram-me para me examinarem confirmando que não estava
circuncidado. Pouco tempo depois de haverem-me despido, notei que a minha roupa já estava
no corpo de um deles.
Levaram-me à força para o acampamento onde então me circuncidaram. Na altura estavam
todos a dançar ao som do batuque, e os meus gritos de dor foram abafados.
Fiquei lá durante três semanas que acabei por ficar curado. Um outro companheiro de
fogueira contou ainda novo caso arrepiante:
- Todas as pessoas têm os seus dias de aflição. Eu escapei de ser comido pelos Seles quando
fugimos do contrato forçado nas grandes roças de cafezeiros do norte para onde o governo nos
mandara como contratados. Eu, mais quatro amigos meus fugimos e caminhamos a pé.
Quando passamos nas terras dos Seles, a tribo de canibais de Angola, resolvi passar uma noite
em casa do meu amigo de Seles, o qual conheci no Lobito quando éramos serventes de um
outro comerciante português. Ele me recebeu muito bem! Havia lá uma cubata em construção
que já tinha o teto coberto de capim e as paredes ainda não barreadas e sem porta. Fizeram
uma fogueira ali onde me encontrava a aquecer-me, pois era já noite. Muitas mulheres foram
ao rio em busca de algo. Arranjaram muitas folhas de bananeira. Vi muitos homens fortes
atarefados naquelas actividades, que pareciam matar o porco. Depois levaram comida para
cubata onde eu estive a comer. Era um prato de pirão feito de farinha de mandioca e outro de
conduto de lagartixas. Como a nossa tribo dos bailundos não comem estes répteis, abri um
buraco na terra e lá enterrei as lagartixas.
Passado algum tempo, apareceram naquela cubata duas crianças com pratos de comida e se
sentaram junto da fogueira a comer. Uma delas disse: “Hoje vamos comer o amigo do nosso
pai. Sabendo que o amigo do pai delas era eu, saí logo correndo para fugir. Assim que saí, vi
homens na escuridão da noite para me apanharem e me matar
(http://tsf.sapo.pt/Programas/programa.aspx?content_id=917512&audio_id=1554842).
Quando me viram fugir gritaram: “Pára ai, amigo; para onde vais com esta escuridão?” E
começaram a perseguir-me, tendo de me esconder num buraco que por ali havia, onde ouvi
um deles dizer: “Conseguiu fugir. Hoje bem podiamos comer tripas de que tanto gosto!”
Passei a noite naquele buraco sem que me apanhassem. Quando amanheceu fui apresentar
queixa ao Chefe do Posto Administrativo de Seles de como eles me queriam matar e comer. O
Chefe do Posto enviou para lá muitos cipaios para os prender, a amarrados foram todos
condenados a penas pesadas. O que pensava ser o meu amigo, afinal também era canibal.
No final da história, como eu tinha sono, resolvi deixar o serão e fui para o meu quarto
dormir, pois no outro dia iria começar uma nova etapa de trabalho, muito importante na
minha vida.

INTIMIDAÇÕES, TORTURAS E ESPANCAMENTOS


No dia seguinte, logo que amanheceu, recordei
o agradável serão da noite passada. Fiz o
desjejum e depois de o comer pus-me a
caminho do Posto Administrativo, a fim de
começar o trabalho seriamente. Eram
espancamentos muito demorados. Enquanto o
cipaio dava palmatoadas ao indígena pela
frente, o chefe por detrás o chicoteava com o
terrível cavalo-marinho. O desgraçado saia
dali com o corpo todo cortado com o chicote, e
as mãos inchadas das palmatoadas. Quando
chegava em casa os seus familiares
amargamente. Aqueciam água, deitavam-lhe
sal, e aplicavam-na nos ferimentos do corpo,
com as mãos e os pés todos pisados. Esta
atitude desumana acontecia todos os dias em
todos os estabelecimentos do governo; torturar
o preto sem dó nem piedade. Muitos eram
espancados por não terem conseguido o
dinheiro para pagar o imposto indígena.
Outros trabalhavam juntamente com
portugueses e estes também batiam por prazer
e sadismo, sem que o preto tivesse cometido
qualquer crime punível por lei. No pátio do
edifício do posto, poisavam a todo o instante
muitas pombas, que mal ouvissem as
palmatoadas e os gritos que de dentro vinham,
logo levantavam voo. De longe ouviam-se os
gritos das vitímas destes espancamentos. Até
mesmo as mulheres eram espancadas desta
forma.
Mas naquele primeiro dia fiquei ainda mais
chocado pelo espancamento de um rapazinho
de doze anos, que servia de criado a um
comerciante português. O salário do
adolescente era apenas uma caneca de fuba e
uma tabuinha de peixe seco por dia. Como
tinha aparecido um professor ambulante na
sua aldeia, o gaiato resolveu deixar de ser
criado para frequentar a escola. O patrão
branco ofendeu-se por esta iniciativa, e foi
apresentar queixa ao Chefe do Posto, tendo o
Chefe enviado enviado um cipaio em busca
dele. Levaram-no atado para o Posto, onde lhe
arrancaram a camisa do corpo para o
espancarem. O seu Pai, que o acompanhava,
foi quem lhe guardou a camisa e sem mais
nada poder fazer pelo filho.
Foi então brutalmente torturado e acabou por
desmaiar, deitando-lhe depois água fria para
que recuperasse os sentidos.
Ilustremos ainda com um outro caso:
Um homem já idoso, morador na aldeia de
Demba, esteve muitos anos em Nova Lisboa a
trabalhar como sapateiro. Como a idade já era
muita, resolveu ir para a sua aldeia para
trabalhar uns terrenos que tinha recebido por
herança. Mas estes terrenos tinham sido
tomados ilícitamente por um português
chamado Alfredo, fabricante de carros bóeres
(carros puxados por bois). O sapateiro foi
reclamar junto do português para que os
terrenos lhe fossem devolvidos. O português
ficou muito furioso, e tomando um ferro,
ameaçou o pobre sapateiro de lhe partir a
cabeça. O sapateiro teve de fugir do português
em fúria. O branco apresentou, por escrito,
uma queixa no Posto contra o Velho, e o Chefe
o mandou prender por uns cipaios, os quais o
levaram manietado. O Chefe mandou que o
despissem e aplicou-lhe um terrível
espancamento. Enquanto o cipaio o agredia
com a palmatória, o Chefe cortava-lhe as
costas com o chicote. O sapateiro gritava
muito alto até mais não poder, pedindo
misericórdia. Uma chicotada atingiu-lhe um
dos olhos que o arrancou, deixando-o sangrar;
mesmo assim a tortura continuou, que
começando às 14 horas terminou às 17. Saiu
dali com o corpo todo retalhado, sangrando, e
mesmo nesse estado deram-lhe uma enxada
para que fosse abrir uma vala na rua, sem
sequer lhe tratarem dos ferimentos. Quando
anoiteceu foi metido na prisão sem qualquer
tratamento médico.
Em relação às cadeias, que eram inúmeras, das
que existiam, algumas não mereciam este
nome, e eram só para os negros. As cadeias
para os brancos só as havia nas grandes
cidades e todas com boas condições e com boas
camas, boa mesa, cuja comida era fornecida
pelos hotéis, tinham boas roupas e boa
assistência médica. Ao contrário das cadeias
dos indígenas que eram um inferno autêntico,
não só no tratamento como na higiene. Cada
estabelecimento prisional tinha apenas um
salão onde metiam juntamente homens e
mulheres, e não tinham camas nem sanitários.
Os detidos dormiam no chão e faziam as
necessidades numa selha conhecida por caneco
e a colocavam no centro do salão. Quando o
recipiente ficava cheio de excrementos,
nomeavam dois dos detidos para fazerem os
despejos. A alimentação para os presos era
feita num bidão grande, e como não havia
pratos, a comida era despejada no chão,
precisamento no centro e junto à selha dos
excrementos, e ai todos tinham de comer com
as mãos pois não havia colheres. Todas as
manhãs entregavam enxadas aos presos onde
passavam o dia a trabalhar forçadamente nas
granjas administrativas.
Qualquer branco só ia para a cadeia se
cometesse algum crime, o que não acontecia
com os autóctones, e as cadeias estavam
sempre cheias mas de pretos. Os crimes para
condenar os autóctones, muitos deles eram
forjados, como já constatamos supra; sendo
que na maior parte das vezes o preto era
condenado se não pagasse o imposto indígena,
quer tivesse possibilidade ou não de arranjar o
dinheiro. Era um imposto forçado. Mas
também eram detidos se se deslocassem para
qualquer lado sem uma guia. Os serventes que
trabalhassem em casas comerciais de
portugueses, se fizessem qualquer reclamação
sobre o que ganhassem também iam parar nas
cadeias. Muitos foram desterrados para
S.Tomé onde permaneciam anos a trabalhar
nas roças do cacau. Outros eram enviados
para Moçâmedes, que actualmente se chama
Namibe, e ali ficavam cinco anos em desterro.
Outros iam para os cafezais, para a pesca, etc.,
sempre em regime de trabalhos forçados.
Muitas cadeias, como a do Bailundo, tinham
guilhotinas, instrumentos de decapitação dos
condenados à morte. Muitos presos que nas
cadeias desapareciam, certamente eram
executados nestes instrumentos de execução.
Os portugueses não respeitavam os angolanos,
tratando-os sempre por tu, como se fossem
apenas servos ou escravos; não tinham
quaisquer previlégios nem direitos cívicos.
Qualquer português podia espancar um
indígena, e se este reagisse ia parar na cadeia
ou para o desterro, alegando o agressor que o
preto queria queria bater no branco. Até
mesmo as autoridades indígenas tradicionais
não eram respeitadas por qualquer português.
Eu mesmo presenciei o espancamento brutal
que um soba recebeu por um Chefe branco de
um Posto.
Soba significa rei. Cada soba costuma ser um
grande proprietário de terras, tem os seus
súbditos e está sempre rodeado de outras
autoridades a si subordinadas, e por isso
mesmo um soba é sempre um personagem de
grande destaque na sociedade africana.
O soba que vi a ser severamente espancado
pelo Chefe do Posto tinha acabado de ser
empossado pelo seu Povo. O emposse de um
soba demora muitos dias e tem muito
cerimonial, onde se costumam matar bois,
onde há muitas bebidas e acompanhado de
muitas músicas e danças. Aquele Soba no fim
de todo aquele cerimonial, foi levado junto da
Autoridade portuguesa para ser reconhecido
como tal e passar a ser o cobrador dos
impostos dos autóctones. Juntamente com os
seus súbditos, chegou cedo ao posto
administrativo antes mesmo da sua abertura.
Sentou-se no seu banquito de pele de boi, o seu
trono, que é sempre transportado por um
moço que o acompanha para onde quer que
vá. Como estava cercado dos seus
acompanhantes, não se apercebeu quando o
Chefe desse Posto saiu da sua residência para
ir para o trabalho. Depois este Chefe mandou
chamar aquele soba junto de si e lhe disse:
“Quando passei por ti, porque foi que te não
levantaste?” – Tomou logo o chicote e o
agrediu severamente.
No meu segundo dia do trabalho naquele Posto, logo pela manhã, um português comerciante
transportou numa camioneta um grupo de cinquenta homens para serem identificados, com o
fim de irem para contrato de trabalho “voluntário”. Na altura, o governo português tinha
acabado com o trabalho forçado e estabelecido o voluntário, cujo encargo era entregue aos
comerciantes portugueses, que iam aos quimbos arrebanhar os homens para esses trabalhos.
De cada homem angariado o contratador recebia do Estado uma grande soma de dinheiro,
sendo os nativos, desta forma, considerados gente de comércio. Aquelas cinquentas pessoas
foram-me entregues a mim para eu os identificar. No fim, mandei que fizessem formatura na
varanda da secretaria para que fossem interrogados pelo Chefe que lhes perguntou:
• Para onde vão vocês trabalhar?
• Vamos para a Companhia C.A.D.A em Gambela.
• Quem vos angariou?
• Foi o Patrão António Teixeira.
• Ele vos forçou ou vão de livre vontade?
• Ele não nos forçou; vamos de livre vontade.
• Quanto é que cada um vai ganhar?
• Cada um vai ganhar por mês cem escudos (50 cêntimos) mais cinquenta (25 cêntimos)
de abono.
• O contrato é de quantos meses?
• É de doze meses.

No fim de todas estas perguntas aqueles


homens foram transportados na camioneta e
levados para o local de trabalho. Durante o
contrato a Companhia não pagava os salários
aos trabalhadores, mas eram depositados para
no fim do contrato serem enviados para o
Posto onde foram identificados, e ai para lhes
ser pago os salários e serem descontados os
impostos que passavam a ter para com o
Estado, e levando apenas o que sobejasse.
O terceiro dia do meu trabalho era Sábado e
só trabalhávamos da parte da manhã. Na
Segunda-feira seguinte, antes das oito horas já
me encontrava no Posto, esperando que as
portas se abrissem. Foi ali que encontrei um
antigo colega da escola, chamado Abel
Pabassangue. Depois de nos cumprimentarmos
perguntei-lhe o motivo que ali o levava. Disse-
me que ia transmitir ao Chefe do Posto um
caso passado com uma mulher da sua aldeia,
pois enquanto ele trabalhava na sua “banda”
(um campo de cultivo de milho junto a um
rio), nas margens do rio Cunji (um rio que se
chamava Mbaca e depois passou a ser
chamado Cunji, que significa “não me
conheces pois se me conhecesses não brincarias
comigo, pois tenho serpentes venenosas”).
Tinha o filho dela de seis meses deitado à
sombra, perto do rio, e de repente sentiu um
grito estranho de criança. Foi junto do seu
bebé, para ver o que havia sucedido. Quando
ali chegou, viu já metade do seu filho na boca
de uma Epolua (serpente aquática do tamanho
de uma jibóia, que dizem ser hipnotizadora,
que apanha muitas presas que estejam junto
ao rio), e esta mãe quando viu o seu filho a ser
levado pelo animal (réptil), saltou para o rio
em seu socorro.
Aquele dia em que me encontrei com o meu
antigo companheiro, era dia de identificar os
indígenas de todos os habitantes do sobado
Chango. Nesta semana identificamos
quinhentas pessoas. O objectivo desta
identificação era ter todos os indígenas
inscritos para o pagamento dos impostos. Para
ser identificado e ter o processo arquivado, em
quatro modelos, incluindo o cadastro, cada
pessoa tinha que pagar quarenta escudos
(vinte cêntimos). O modelo mais importante
era o modelo 8, o qual tinha todos os dados de
cada indivíduo, como: Nome do Indígena,
Idade, Estado Civil, Profissão e Habilitação
Escolar. Depois tinha um mapa com espaços
em branco para preencher o nome da mulher e
a sua idade; os nomes dos filhos, datas de
nascimento e sexo de cada filho. Por último
havia o mapa para descarregar os impostos a
pagar durante cinco anos. As identificações do
Modelo 8 são impressos em livro para a
cobrança dos impostos, e cada indivíduo tinha
uma caderneta, também com espaços vazios,
para descarregar os impostos quando estes são
pagos em cada ano, mais um cartão laminado
com toda a identificação da pessoa. Tanto a
caderneta como o cartão tinham fotografias. O
fotógrafo era um branco português que
ganhava muito dinheiro neste trabalho, e que
girava em torno de todos os postos
administrativos que havia em todo o Concelho
do Bailundo.
Nos dias quinze e trinta de cada mês eram os
dias em que os sobas se apresentavam no
Posto, juntamente com os sékulos, para
entregar os impostos. Para facilitar o
pagamento destes impostos o Governo
português terminou com os sobados,
substituindo-os por regedorias e os sobas por
regedores. Cada aldeia ou quimbo que
estivesse na jurisdição de um soba, tinha um
sékulo que cobrava os impostos a todos os
residentes na sua aldeia, os quais depois
entregavam no Posto, juntamente com o soba.
O soba que entregasse poucos impostos era
severamente castigado com cavalo-marinho.
Uma vez vi um soba ser agredido na boca pelo
Chefe com a palmatória, partindo-lhe vários
dentes, só porque quando este foi fazer
pagamentos lhe entregaram apenas o dinheiro
de quinze impostos.
No pagamento dos impostos, cada contribuinte
recebia uma senha que lhe servia de prova de
pagamento, mas também de salvaguarda…
duma grande tareia!
Os indígenas eram forçados a pagar impostos,
pesadíssimos para as suas posses, sem que a
sua vida beneficiasse em nada com isto. Viviam
em palhotas e não tinham direito a energia
eléctrica; não tinham água canalizada, como
todos os brancos tinham; em nenhuma aldeia
existia um posto sanitário, tendo de curar as
suas doenças pelos curandeiros. Se por acaso
um doente fosse levado a um hospital, não lhe
era permitido ser internado com os brancos.
Cada hospital tinha quartos para brancos e
quartos para pretos. Se um indígena morrer,
mesmo pagando muitos impostos, o Estado
português não lhe fornecia caixão. Muitos
foram enterrados sem caixão como os animais,
transportados num carro conhecido por
etumba. Só eram enterrados em caixão quem
tivesse dinheiro para comprar tábuas e
mandar fazer o caixão.
OS ANGOLANOS DEIXAM O ESTATUTO
DE INDÍGENAS E PASSAM PARA O
ESTATUTO DE CIDADANIA
PORTUGUESA

Em 1960, o Posto Administrativo do Mungo


passa a pertencer ao Concelho administrativo
do Mungo. No ano seguinte, o território
vizinho do Congo Belga torna-se independente.
»»»
Frequently Asked Questions Week 1 | Week 2 | Week 3
»»»» A independência do Congo incomodava
grandemente os portugueses, devido aos maus
tratos com que tratavam os naturais
angolanos, visto estarem convencidos que
Angola também procuraria a sua
independência, e os povos de Angola lhes
pagarão na mesma moeda com que tratavam
os angolanos. Por esta razão, iam dizendo que
Angola não se poderia tornar independente,
visto ser uma Provincia de Portugal. Um
homem chamado Lumumba, sendo natural do
Congo, incomodava em muito os portugueses
de Angola, e estes o consideravam terrorista.
Linha liberal: http://www.pcusa.org/
Visite também a linha conservadora:
http://www.monergismo.net.br/
Logo após a independência do Congo,
principiou no norte de Angola uma revolta
contra os portugueses. Como estes revoltosos
não tinham armas utilizavam catanas. O
governo português, para evitar que a mesma
revolta se estendesse a todo o território de
Angola, organizou grandes campanhas para
ver se sensibilizava os povos indígenas. Esta
campanha também chegou ao Mungo,
dirigindo-se até ali numa grande coluna de
viaturas, e na frente vinha um Land Rover
com um grande cartaz que dizia: “A Voz da
Verdade”. Chegaram também grandes
individualidades governativas da Província de
Huambo, incluindo o próprio governador.
Quando ali chegaram estava a vila do Mungo
repleta de gente mobilizada para aquele
acontecimento, em especial os brancos. Depois
de cantarem o hino nacional, a Portuguesa, um
indivíduo nativo, de profissão professor,
chamado Diamantino, que tinha uma escola
particular nos arredores da vila, fez o discurso
a favor de Portugal, e nesse discurso falou
mais ou menos nestes termos:
• “… Devemo-nos unir para defender a
nossa bandeira das quinas e a sua
soberania. Todos, sem distinção de raça ou
de cor, somos filhos de uma só Nação.
Lutemos contra todas as manobras do
inimigo. Todo o subversor que pretendia
instabilizar a nossa paz, venha de onde vier,
castiguemo-lo com veemência. Encostemo-
nos ao nosso querido Portugal,
defendendo-o até à última gota de sangue.
Esforcemo-nos para que a revolta
começada no norte de Angola não chegue
até nós!…”
• Aconteceu que após o discurso, em vez do
agradecimento ao orador, este foi preso,
pois o viam como um forte adversário e
outro líder contra Portugal, caso venha
mesmo a independência de Angola, pois os
portugueses tencionavam exterminar todos
os instruídos angolanos. Quem o prendeu
foi um agente da PIDE chamado Reis, e
quando o interrogaram, eu estava perto e
ouvi parte do interrogatório, e a primeira
pergunta que lhe fizeram foi: “Quantas
vezes é que tu já foste à América?” (Entre
os portugueses dizia-se que os americanos é
que atiçavam os angolanos a se revoltarem
contra Portugal). Depois, o capitão que
dirigia aquela comitiva, pediu que todos os
brancos entrassem no salão das audiências
da Câmara Municipal a fim de fazer um
esclarecimento. Eu também entrei. No seu
discurso ele dizia: “Certamente já todos
têm conhecimento de que no norte de
Angola os pretos se revoltaram contra nós,
fazendo uma guerra renhida querendo
expulsar-nos daqui, devido aos maus-tratos
que lhes temos dado. Tanto os comerciantes
como as autoridades governativas têm as
suas culpas desta revolta. O preto quando
leva os seus produtos à loja, o que os
comerciantes lhes dão não os compensa.
Nós temos uma vida folgada e eles vivem
em miséria extrema. O governo obriga-os a
pagar impostos pesados sem lhes darem as
condições de trabalho para conseguir o
dinheiro. Trabalham de sol a sol nas terras
cansadas, e o que colhem não chega nem
para comer. São forçados a trabalhos sem
qualquer remuneração. O que agora temos
que fazer é puxá-los para o nosso lado,
acarinhando-os, para que possam ter os
mesmos direitos que nós temos. Mas ao
terminar, acrescentou: “Se cá ficarmos!”
• No entanto, quando me viram presente
expulsaram-me dali.
• No fim do mês, no Boletim Oficial trazia o
Decreto em que terminava o regime de
“indígenato” e promovendo todos os
angolanos à cidadania portuguesa. Todas
as leis que diziam respeito aos indígenas
foram todas revogadas. A identificação
indígena em que eu trabalhava também
tinha acabado, bem como o pagamento do
imposto indígena. Estabeleceram outro tipo
de imposto, designado Imposto Geral
Mínimo, que todos pagavam, angolanos e
portugueses.
• O Concelho Administrativo era gerido por
um Administrador, um Secretário do
Concelho, um Chefe de Secretaria e três ou
quatro escriturários. A partir daquele
decreto, muitos angolanos foram admitidos
para serem funcionários públicos, o
que nunca havia acontecido antes. Por este
motivo, passaram três angolanos a
trabalhar na Administração do Concelho
do Mungo como escriturários, sendo o
Chefe da Secretaria um cafuzo (filho de um
mulato e de uma negra).
• Em consequência do Estatuto de Indígena
haver terminado, era necessário que cada
angolano também possuísse Bilhete de
Identidade de Cidadão Nacional, pelo que
chamaram a Juventude Branca, composta
por rapazes e raparigas, a trabalharem na
identificação de todos os angolanos para a
obtenção desse documento, num
compartimento da Administração, em que
o Chefe da Secretaria começou a
relacionar-se com uma rapariga branca
chamada Beth, pois estava convencido de
já não existia segregação racial. Pelo
contrário, quando todos os portugueses
residentes no Mungo souberam da intenção
deste relacionamento, indignaram-se todos,
e querendo aplicar medidas severas contra
aquele chefe de secretaria, chamado
Guimarães, dizendo que não podia um
preto casar com uma branca. Mas a moçoila
era apaixonada e toda ela decidida a
continuar ligada a ele, mesmo sendo negro,
e para a persuadir deste relacionamento,
todas as senhoras da vila a chamaram em
particular aconselhando-a a não
prosseguir, dizendo que seria uma
vergonha ela, na qualidade de uma branca,
andar com um marido preto, quando as
outras andavam com marido branco. Mas
ela não aceitou tais recomendações, pois o
seu desejo era possuir aquele homem como
marido, pois ela já era senhora de si, e não
se preocupava com o facto de ele ser preto.
Tendo-se esgotado todas as hipóteses de
persuasão, então todos os brancos da vila,
unanimemente, fecharam as suas lojas e foram
à Administração do Concelho, onde trabalhava
o atrevido, para o espancar, o que não foi
possível pela intervenção do Administrador.
Depois retiraram a moçoila à força dos
serviços de identificação, e levaram-na e a
fecharam num quarto, forçadamente, sem
permissão para sair, ficando ela a fazer tricot.
Uma amiga da moçoila, que servia de intermediária, enviava-
lhe revistas com desenhos de rendas, nas quais vinham
secretamente as cartas do namorado, onde combinaram uma
fuga, com dia marcado e que fosse adequado.
Neste dia, o Chefe da Secretaria estacionou o
seu carro nas traseiras
http://estaticos.marca.com/multimedia/grafico
s/otrosdeportes/2010/bar_mad/contador_bar_
mad2010_02.swf da casa dos pais dela, que
tem uma pista de aviões, e enquanto os pais
conversavam com um comerciante, que
também sabia do segredo, numa noite escura,
ela saiu do quarto como quem ia à casa de
banho, e foi ter com o namorado que a
esperava. Meteram-se no carro e começaram a
fuga. Até que os pais da moçoila dessem pela
sua falta, eles já haviam percorrido uma
grande distância, mas por azar, o carro
avariou. Os pais quando se aperceberam do
sucesso organizaram uma perseguição, e em
três viaturas cheias de homens foram em busca
dos fugitivos, tendo-os apanhado no local da
avaria. Espancaram o homem até sangrar. A
partir dai a jovem estava profanada
(desonrada) e já não servia para outro homem,
e neste caso não havia outra alternativa senão
levá-los à Conservatória e realizar o
casamento.
Os angolanos que trabalhavam para o governo português eram submetidos a
muita pressão pelos superiores brancos, e estavam sempre na mira da PIDE.
Muitos foram desterrados para S. Nicolau, pois os portugueses não gostavam de
ver os angolanos serem funcionários públicos.
Entretanto no norte de Angola a guerra ganhava grandes proporções. Os guerrilheiros já não
utilizavam catanas mas armas automáticas, e as suas bases situavam-se fora das fronteiras.
Haviam dois movimentos principais, MPLA e FNLA, que lutavam para o mesmo fim – a
independência de Angola -, o MPLA tinha a sua base no Congo e a FNLA em Brazaville. No
momento a Unita ainda não existia.

Os portugueses da Vila de Mungo, temendo


que os bailundos os atacassem, passavam as
noites na Capela Católica da vila; furavam
buracos nas paredes por onde metiam os canos
das armas para se defenderem caso fossem
atacados. Por seu lado os bailundos não
tinham quaisquer intenções de o fazer, mas até
os ajudavam a combater contra os seus
compatriotas do Norte. Iam voluntariamente à
tropa como pessoas civilizadas e já não como
indígenas, como lhes diziam ser antigamente,
que nos tempos passados eram soldados
descalços e os vestiam com fardamento de
caqui, composto de calção e casaco.
Os portugueses que dormiam na Capela, todas as noites, por
medo prendiam as pessoas negras civilizadas, que vestiam
roupa limpa e passada a ferro, e as torturavam na Torre da
Capela, prendendo-as nas cadeias, alegando que eram essas
pessoas que um dia poderiam a governar em Angola. Os
bailundos, apesar dos sofrimentos que recebiam dos
portugueses, sempre se esforçaram por defender a soberania
portuguesa de Angola, que até muitas vezes vinham os aviões
com soldados bailundos mortos em combate no Norte, para
serem sepultados nos seus locais de nascimento. Havia grande
carnificina, visto estes portugueses intentarem exterminar a
população negra de Angola. Todas as noites saiam esquadrões
da morte para as aldeias para matarem as populações, quando
se encontrassem a dormir. Na Gabela, as autoridades
portuguesas locais, prendiam as populações das aldeias,
homens, mulheres e crianças, ordenando-lhes para fazerem
filas compridas, de mãos dadas, obrigando a pessoa da frente a
colocar a sua mão num cabo eléctrico para passar o choque a
toda a gente da fila. Noutras áreas usavam aviões para lançar
bombas nas aldeias. Mesmo que os bailundos não fizessem
guerra contra os lusos, mesmo assim eram constantemente
incomodados e presos pela PIDE; alguns foram mortos, e
outros foram enviados para o campo de concentração de S.
Nicolau, acusados de terroristas. Neste campo havia vários
meios de tortura, submetendo os presos a uma morte lenta.
Amarravam as pessoas com os braços levantados, presos em
cima de uma rede, e pela manhã e à tarde os picavam com um
sabre. Isto durante dias seguidos, até que morresse
lentamente. Havia também um forno onde queimavam os
prisioneiros ainda vivos.
Os brancos viam-se tão desorientados e inseguros, que não
sabiam mais o que fazer, pois em vez de irem aos locais de
combate para fazerem frente aos guerrilheiros que os
combatiam, chamados de terroristas, massacravam as
populações indefesas que com eles viviam, as quais também
desconheciam o que se passava nas frentes de combate. Até os
grandes batalhões de soldados portugueses que Salazar
enviava para Angola para defender as populações brancas.
Muitos dos guerrilheiros não iam para a frente dos combates
por estarem fora das fronteiras, de onde surgiam para fazer a
guerra às colunas militares portuguesas, com emboscadas e
outras estratégias de guerrilha, para os atacar nas cidades e
vilas.

Um Administrador já idoso fora transferido do norte de Angola para o Concelho do Mungo.


Tinha uma mão danificada pelas catanas dos revoltosos e, por vingança, descarregava a sua
raiva contra os bailundos, com uma barra de ferro. Um outro, chamado António Matoso
Quaresma, que também fora transferido para o Mungo, era um homem diabólico; espancava
diabolicamente todos quantos ele visse que poderiam vir a ser dirigentes de uma Angola
independente. Batia nas pessoas com paus ou chicote até as vítimas desmaiarem, dando-lhes
uma injecção para recuperarem os sentidos, para serem novamente espancadas. Todas as
semanas enviava viaturas cheias presos inocentes para Nova Lisboa, onde estava a cadeia da
PIDE, de onde depois seguiam para S. Nicolau.

Uma certa ocasião um grupo de sobas, que em virtude de entregarem poucos impostos,
cobrados aos seus conterrâneos, esse mesmo Administrador, refiro-me ao Quaresma, alinhou-
os no seu gabinete e os espancou brutalmente. O chão ficou todo manchado do sangue
espirrado pelos narizes dos sobas com a pancada; mandou que eles tirassem os casacos e com
eles limpassem o soalho. Ao ver toda aquela brutalidade desumana por parte do
Administrador, ganhei coragem para pedir misericórdia em nome da bandeira portuguesa,
para que não desrespeitasse desta forma estas pessoas, pois também eram autoridades
tradicionais entre o povo de Angola. A minha aitude causou-lhe uma fúria terrível contra a
minha pessoa. Pegou-me pela camisa e esbarrou-me contra as paredes, ameaçando-me com a
PIDE e que me enviaria para S. Nicolau.
A PIDE era quem mais torturava os angolanos. Todo o angolano que refilasse a um português
era logo enviado para a PIDE e seguia para o campo de concentração. Uma ocasião um
português, de noite, foi a uma sanzala em busca de prostitutas. Bateu na porta de casa de uma
rapariga que nesse momento dormia, que ao ouvir o batimento gritou por socorro. Os homens
da sanzala acordaram, indo em seu encontro, sendo depois esse português corrido de lá. No
dia seguinte apareceu a PIDE prendendo todos os homens, que depois de torturados foram
internados no campo de prisioneiros, acusados de quererem maltratar um branco.
Em todos os concelhos da Província do Huambo só havia perseguição contra os habitantes do
Mungo, que eram inocentes. Noutros concelhos apenas prendiam os que fossem apanhados em
flagrante, lutando contra os portugueses, se de facto houvessem provas. Até o Governador da
Província de Huambo fez todos os possíveis para evitar que a revolta do Norte se estendesse às
terras do seu Governo, salvando também muitos que foram acusados falsamente das calúnias
dos lusos.
Houve um grupo de colonizadores vindos de Portugal para construírem uma auto-estrada,
conhecida por Lusodana, que ia até Lobito. Eles haviam caluniado um professor, chamado
Pedro Paulo, o qual possuía uma escola na área administrativa de Londuimbali, acusando-o
de possuir armas para atacar os portugueses da área. Foram ter com o Chefe do Posto
pedindo autorização para eliminar o dito professor. O Chefe do Posto disse-lhes que não tina
competência para uma ordem destas. Foram depois ao Bailundo contar as mesmas calúnias ao
Administrador, pedindo autorização para atacarem o docente. O Administrador ficou furioso
contra o docente, acompanhou-os à casa do acusado para saber onde tinha as ditas armas.
Foram nas viaturas até ao local, mandando que lhes fossem mostradas as armas, mas tiveram
de se calar perante o desmentido de não haver armas nenhumas. Perante isto, o
Administrador não podia ter outra atitude senão expulsá-los, mandando-os de volta para
Portugal.

PRISÃO DE QUEM TIVESSE A OTALA,


TORTURAS E MORTE DE ADÚLTEROS E
DE ADIVINHAÇÃO
Tendo acabado o estatuto do indigenato, também a mesma
identificação em que eu trabalhava, estatuto que fora
revogado, por este motivo passei a ser recenseador das
populações. Era um serviço enfadonho para mim, pois
percorria as aldeias de bicicleta, onde tinha muita gente para
recensear.

Quando fazia este trabalho no sobado do Cunjo, reparei que


havia muitas pessoas com deficiências causadas pela otala. Uns
com deficiências nos pés, outros com pernas torcidas e muitos
com falta de membros superiores ou inferiores. Perguntei
porque é que estas pessoas tinham estas incapacidades, e as
pessoas a uma diziam: “É que nesta aldeia há quem tenha a
otala, o que provoca todos estes males em muita gente”.

Perguntei então que me dissessem os nomes desses tais


possuidores da otala para que fossem julgados, mas por medo
ninguém quis dizer nomes temendo vingança.

Desta forma, à medida que ia fazendo o recenceamento,


entregava um papelinho a cada um dos que eram chamados, e
dizia-lhes que escrevessem o nome de todos os que
suspeitassem ter a otala.
No fim do recenseamento, em todos os papéis havia apenas
dois nomes suspeitos. Mandei que essas pessoas viessem à
minha presença para que fossem interrogados. Perguntei a um
deles a razão que o tem levado a fazer todo aquele mal às
pessoas com a otala. Ele disse-me que não tinha otala
nenhuma, e que todas aquelas denúncias eram falsas calúnias.
Então dei ordem ao cipaio que me acompanhava para o
castigar, para desta maneira o obrigar a confessar. O cipaio,
então, usou o seu cinturão e lhe bateu nas costas, até que ela
confessasse. Sempre confessou, e pedi-lhe para que ele
entregasse o objecto para ser destruído, e assim não houvesse
mais vítimas. Como o não queria entregar, obriguei-o a levar-
me ao local onde guardava a otala. Pensava que me conduzisse
a casa, onde fariamos uma revista, mas conduziu-nos a um
alto monte. Quando ali chegamos, levantou uma grande pedra
de onde retirou a referida otala, que se encontrava
embrulhada numa pele de cabrito. Eram cabeças secas de
cobras venenosas, como a vívora, cabeças de maribondos, de
abelhas, de lagartixas, de camaleões, etc., as quais torrava com
óleo de palma e depois reduzia a pó. Todo aquele que tivesse
contacto com esse pó, fosse no caminho ou colocado em
qualquer objecto, logo ficava contaminado com os efeitos
nefastos dele, vindo depois a sofrer deformações físicas.
Muitas vezes era colocado nos guiadores de bicicletas, nos
cabos das enxadas, nas maçanetas das portas, etc. Bastava
tocar nesse pó, que é difícil de detectar, que a pessoa ficava
logo afectada no seu corpo, pois o efeito quimico penetra no
corpo até aos ossos.
Este era um tempo de grande perturbação para mim, visto
que além de estar sempre na mira da PIDE, e ter saído da
Missão Evangélica, a tal mulher que me perseguia com as suas
feitiçarias, quando por lá andava, passei a sonhar novamente
com ela como anteriormente, em que me apresentava, nos
sonhos, mulheres nuas, mulheres tão altas como a torre duma
igreja, dum Templo SUD ou dum minarete, e me dizia:
“Eis aqui uma mulher para ti!”

Mas desta vez também me trazia uma serpente venenosa. Isto


na feitiçaria africana era a evidência de que aquela mulher só
pretendia eliminar-me, pois quando ainda da minha presença
na Missão, colocava-me um cazumbi no meu caminho para ser
tentado com as mulheres alheias, o que constituia um grande
perigo para mim, pois os homens bailundos, quando se tratava
das suas mulheres, são muito ciumentos. O ciúme que tem por
elas tem um nome terrível, que é “Ukuelume”.

Quanto a este ciúme que os bailundos têm pelas suas


mulheres, há alguns factos verídicos que gostaria de narrar e
presenciados por mim:

Quando estive no Mungo tinha um vizinho chamado


Katombela, e a sua esposa chamava-se Anastácia. Uma manhã
apareceram ali dois irmãos de Katombela, que lhe disseram:
“Ontem à noite apanhamos a cunhada Anastácia adulterando
com o António”. Katombela ao ouvir isto ficou furioso e disse
aos seus irmãos: “Konjupili lonjanga (Vão já buscá-lo)”.
Passado algum tempo os dois irmãos traziam o tal adúltero
amarrado e posto na frente de Katombela, que ficou tão
furioso que até parecia comê-lo vivo. Ajudado por os seus
irmãos, deu-lhe uma carga de pancada até ao desgraçado
defecar. Depois estenderam-no no chão, ataram-lhe as pernas
com uma corda, suspendendo-o no ramo de uma árvore de
cabeça para baixo, e depois de o espancarem com um cacete
até se cansarem, desceram o homem da árvore e o estenderam
novamente no chão, fazendo-o beber uma composição extraída
de raízes de uma planta chamada olondeia, para o tornar
impotente sexualmente para toda a vida. Finalmente,
estenderam-no novamente no chão, tomaram uma enxada com
cabo comprido, foram a uma retrete e de lá tiraram uma
porção de excrementos podres e cheios de bichos, abriram a
boca do adúltero e lhe meteram todos aqueles excrementos
pela garganta a baixo. Um pisava-lhe a garganta com o pé,
para o sufocar, enquanto outro metia-lhe as fezes na boca, e
quando a boca ficava cheia o outro levantava o pé para que ele
ao aspirar o ar que lhe faltava, ao mesmo tempo tinha que
engolir o que tivesse na boca. Daí o dito: “Quem mexer em
saias alheias comerá os excrementos”.

Outro caso foi de dois rapazes que tinham casado no mesmo


dia e vizinhos um do outro. Um destes casais tinha filhos e o
outro não. Aconteceu que na véspera de um Natal, o que tinha
filhos foi à mata apanhar a lenha para a festa, que ficava no
outro lado do rio. Quando chegou junto do rio encontrou a
mulher do vizinho, que não tinha filhos, em busca de água, à
qual lhe disse:

- Nós que casamos juntamente convosco já temos três filhos,


quando vocês ainda não têm nenhum. Isso é mau para nós os
negros, pois os filhos são a nossa riqueza, e serão eles que
tratarão de nós na velhice. – Então a mulher respondeu:
- Temos feito tudo para resolver este problema; andamos já
pelos hospitais e curandeiros, mas sem nenhum resultado.

O vizinho então lhe disse:

- Pelos vistos o teu marido é que não pode dar filhos! – e ela
respondeu:

- Se assim for significa que não temos solução para este


problema!

Depois o outro falou:

- Solução há! Vais então ficar sem filhos, se existem tantos


homens que te poderiam ajudar, e eu poderia um deles! Ora
hoje era o dia adequado para te engravidar, e como estamos
em dia de festa, e certamente como todas as pessoas vão estar
entretidas durante a noite nas danças, aí podemos aproveitar
uma oportunidade de escaparmos para um lugar sem que
alguém perceba.
PAUSA NO ROMANCE:

http://www.vejamso.com.br/comentarios.php (Se D-us é


perfeito e sabe todas as coisas, porque é que criou a Lúcifer?;
DATA: 2010-12-01
HORA: 21:05:17
NOME: Pastor cristiano
CIDADE: Sao Bernardo do Campo/São Paulo
ESTADO: São Paulo/Brasil
COMENTÁRIO ILUSTRATIVO: “Graça e Paz pastor/reverendo Éber, existem coisas que só
cabe a D-us responder, mas acredito que o livre arbítrio (livre-alvedrio) nosso em comparação
com o livre arbítrio dos Anjos difere em muito, principalmente nas consequências após o
pecado, acredito por exemplo que Lúcifer por estar com D-us, e ser um Anjo de confiança e
consequentemente o trair com uma terça parte do Céu, fez com que D-us achasse que não
deveriam ser perdoados, e assim condenados ao lago de fogo e enxofre, (“E o Diabo, que os
enganava, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde está a besta e o falso profeta…
(Apocalipse 20:10) como a Lúcifer foi permitido conhecer a D-us e estar sobre a mesma esfera
celestial acredito que por isso ele foi julgado de maneira justa por DEUS, (“Mas o que a não
soube, e fez coisas dignas de açoites, com poucos açoites será castigado. E, a qualquer que
muito for dado, muito se lhe pedirá, e ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá”
(Lucas 12,48)). | Visão judaica:
“DATA: 2010-12-01
HORA: 20:03:27
NOME: Francisco Walter
CIDADE: Natal
ESTADO: Rio Grande do Norte/Brasil

COMENTÁRIO: Shalom Sr. Éber! A respeito do tema de hoje, creio que o fato de o único
ETERNO criar satanás só nos mostra a forte evidência da sua UNIDADE (Isaias 45:7) em
detrimento da trindade, por isso satanás não tem nenhum poder sobre o crente em Yeshua
(Jesus), vale lembrar tambem que satanás nao é o nome do dito cujo. Assim como o único
ETERNO, satanás e o homem também têm o poder de criar. Mas a grande questão do tema
é : “Por que o unico ETERNO criou satanás”? A tradição cristã nos diz que satanás é um anjo
caido pela desobediência ao ETERNO, a pergunta que fica é: seres celestiais (anjos, arcanjos,
serafins) têm livre arbítrio? Segundo a tradição judaica, o homem tem duas naturezas
(terrena e divina), cremos que quando um crente fiel ao ETERNO peca, nao o faz por causa
de uma força maligna, mas porque já nasceu com esta natureza. Concluimos com isto que a
criação de “satanás” serve exclusivamente como prova de que o ETERNO é o unico D-S.
(Mateus 24:36 e 43) Paz e graça a todos!”
O homem ao dizer estas coisas, estava tentando aquela mulher para o adultério, e não sabia
que o marido dela estava a cinco metros de distância, metido entre o capim alto, e desse modo
escutando toda a conversa e a combinação entre os dois.
Depois dela estar convencida, ela mesmo deu o sinal que deveriam fazer para esse encontro
proibído, dizendo: “Quando ficar escuro, esteja atento ao que vou dizer ao meu marido;
quando lhe disser que entre em casa que a comida está na mesa, pois eu vou para o terreiro
dançar. Nesse momento saia da sua casa e vá ter ao campo onde nos haveremos de encontrar,
antes mesmo das outras pessoas lá chegarem”.
Depois de toda aquela conversa separaram-se. A Mulher com a sua cabaça de água, e ele
seguindo para a mata.
O marido atou um molho de capim, pô-lo na cabeça e seguiu atrás da mulher, como quem não
sabia de nada. Em casa tomou o seu cnivete, Best, e pôs-se a afiá-lo com uma lima, sem que a
mulher o percebesse. Quando anoiteceu, a mulher lá lhe fez a comida e disse ao marido:
“Entra em casa que a ceia está na mesa, pois eu vou já para o campo dançar com o pessoal da
aldeia. Ela pôs-se a cantar uma canção, simulando uma dança à medida que se dirigia para o
campo. Por sua vez, o vizinho ouvindo o sinal também saiu de casa seguindo-a. O marido,
então, que já sabia de tudo, tomou o seu canivete e os seguiu à distância. Estava escuro,
apenas se viam as estrelas no céu, o suficiente para ver tudo. Depois viu quando os dois se
encontraram e se dirigiram para os lados debaixo da aldeia, um sítio com muitos eucaliptos.
Debaixo de um deles com muita ramagem, ele então lhe disse: “Certamente que hoje vais ficar
grávida. Despe o teu vestido para evitar depois teres complicações no momento de dar à luz.
Então ela despiu-se ficando nua. Entretanto o marido dela aproximou-se pé ante pé sem que
dessem por ele, escondeu-se junto de outro eucalipto, e quando os dois já estavam praticando
o acto de adultério, saiu de onde estava e disse: “Que é que vocês estão a fazer?” – O outro
ouvindo e reconhecendo a voz do vizinho, tentou levantar-se mas nesse momento apanhou
uma navalhada nas costas que lhe atingiu os pulmões. Ainda tentou defender-se mas apanhou
mais uma facada na barriga atingindo-lhe os intestinos, depois outra facada cortou-lhe a cara,
atingindo-lhe um olho. Apanhou sete facadas. A mulher fugiu nua. Foi a casa tomar outro
vestido, começando a gritar por socorro: “”Homens acudam! Homens acudam!” - Os homens
então apareceram, e transportaram o ferido numa tipóia para um posto sanitário, mas ele
morreu pelo caminho. Este caso passou-se numa aldeia chamada chitalela.

Num outro caso, (continua em:


http://regeneracaomonergistica.blogspot.com/2010/12/kalumbonjambonja-o-homem-que-
casou-com.html; ou já a seguir)

AGGIORNAMENTO:
Apanhou sete facadas. A mulher fugiu nua. Foi a casa tomar outro vestido, começando a
gritar por socorro: “”Homens acudam! Homens acudam!” – Os homens então apareceram, e
transportaram o ferido numa tipóia para um posto sanitário, mas ele morreu pelo caminho.
Este caso passou-se numa aldeia chamada chitalela.
Num outro caso, que evidencia as consequências do ciúme dos bailundos, foi o que se passou
com um rapaz solteiro, com dezanove anos de idade, o qual vivia com os seus pais numa aldeia
nos arredores da vila de Mungo, cuja aldeia se chamava Binguilangue. Este rapaz, de todas as
vezes que sentia vontade de uma mulher, ia a uma casa vizinha onde morava um casal,
entrava sorrateiramente para dentro dela, dirigia-se ao aposento onde o homem e a mulher
dormiam, e aproveitando o sono pesado do marido, subia na cama e sem mesmo a mulher
perceber que não era o marido, fazia sexo com ela. Depois retirava-se novamente
sorrateiramente e se dirigia para a sua casa. Ela pensando que era o seu próprio marido até
lhe dava um bom "aconchego". Fez isto várias vezes sem ser apanhado.
Numa noite, o rapaz voltou a entrar naquela casa dum marido que, nessa noite, não
estava abocetado. Estava sem pegar no sono. Quando percebeu que alguém estava no aposento,
pensando que fosse algum ladrão, saltou da cama para o apanhar, mas o moço escapou.
Quando amanheceu, o dono da casa seguiu as pegadas do ladrão, visto haver chovido durante
a noite, e as marcas conduziram-no à casa do criminoso. Falou com o Chefe da Casa no
sentido de aconselhar o filho a não voltar a fazer o mesmo, tentando roubar a sua casa.
Passados alguns dias, o rapaz voltou a entrar na casa do outro com a mesma finalidade, pois o
marido desta vez voltava a dormir pesadamente. Quando saia de cima da mulher, por
inadvertência com a sua mão tocou na cara do dormente e este acordou. Tentou fugir mas
logo foi apanhado ainda com os orgãos sexuais dependurados.
O Dono da Casa chamou por socorro, comparecendo todos os homens da aldeia. Quando
souberam o que o rapaz ali fazia, pegaram nele e lhe cortaram o pénis. Foi levado para o
hospital onde se curou, mas ficando sem o seu órgão para toda a vida. O marido traído, por
ter feito o que fez, foi condenado a alguns anos de cadeia, ainda pelas autoridades
portuguesas.
Têm ocorrido muitos outros casos que levaram muitos adúlteros ao cemitério. Quanto a mim,
coisas semelhantes me esperavam.
Fiquei muito mais aflito quando fui atacado de novo pelo cazumbi, agora na forma de um
monstro com aparência de sapo. Da primeira vez que me aparecera fora de noite, mas desta
vez apareceu-me em pleno dia e na própria secretaria da Administração do Concelho; ele me
trouxe de novo a mulher da Missão. Esta visão era apenas vista por mim, e quando me
encontrava ao balcão da Administração quando atendia uma pessoa na busca de certidão de
idade, visto eu também tratar de assuntos do Registo Civil, provisoriamente, na
Administração do Concelho.
De repente fiquei surpreendido com aquele monstro, que depois de me ter sacudido
violentamente, atirou comigo para o chão, onde fiquei como morto. Transportaram-me ao
hospital no carro da Administração, onde permaneci alguns dias.
Para me livrar das feitiçarias fui consultar um curandeiro feiticeiro, que depois de lhe haver
contado toda esta história, passada e presente, citando o nome da tal mulher e de como me
tem aparecido em vários sonhos, sempre me induzindo a cometer adultério com mulheres
alheias, o curandeiro disse-me então que tudo isto poderia ser suspeito, e que para se apurar a
verdade era necessário recorrer a um acto de adivinhação. Levou-me então a uma mata, e
junto a um morro de salalé (formigueiro), de onde retirou, com extrema cautela, um
fragmento desse morro sem o despedaçar. Enquanto segurava na sua mão aquele fragmento,
pronunciava as palavras de adivinhação, dizendo: "Fulana de Tal, a pessoa que aqui se
encontra comigo, Fulano de Tal, acusa-te de lhe teres enviado um cazumbi, induzindo-o a
praticar adultério com mulheres alheias. Amanhã de manhã, quando cá voltarmos para a
confirmação, serás inocente se encontrarmos este fragmento do salalé ligado com saliva no
respectivo lugar do morro de onde fora retirado. Caso o salalé não esteja no lugar então é
prova de seres culpada.
Depois colocou este fragmento com cuidado no lugar de onde o havia tirado. No dia seguinte,
o curandeiro apareceu com um saco cheio de remédios tradicionais, compostos de várias
raízes e folhas de várias plantas, fervendo-os numa grande panela. Ordenou que me sentasse
num banco, colocou a panela em cima das minhas coxas, e cobriu-me com um cobertor para
que eu aspirasse o vapor impregnado da essência das raízes, acto este que em umbundu se
chama ochiyuku, o qual serve para afastar os cazumbis.
No fim de toda aquela cena, paguei ao curandeiro com muita boa vontade, contando às
pessoas que já estaria livre de toda aquela perseguição de cazumbis vindos da mulher da
Missão, mas infelizmente no dia seguinte, para meu desgosto, o curandeiro apareceu-me para
me dizer que havia passado toda a noite a sonhar com a referida mulher, em que ela lhe dizia
que não impedisse os cazumbis de me perseguir que ela metia em mim, incitando-me à
prostituição para a minha condenação à morte.
TERRÍVEIS CONSEQUÊNCIAS PARA MIM
Com o aparecimento em sonhos da mulher da Missão ao curandeiro, ameaçando-o com duras
ameaças de morte para ele, caso ele prosseguisse na expulsão dos cazumbis que ela me enviara
para violar mulheres alheias, fez com que ele deixasse de me curar, o que me afligiu bastante,
pois andava sempre com medo de ser atacado por este terrível monstro. Neste sentido, resolvi
ceder, e fazer o que a feiticeira queria de mim, isto é, violar as mulheres que me surgissem
para ver se me livraria dela.
Uma ocasião de noite, como não tinha comida em casa, fui à casa de uma mulata chamada
Albertina que vivia na sanzala e vendia comida; ali encontrei uma mulher muito bonita, que
impedia uma fé arminiana de permanecer (já bem afectada pelo recurso à feitiçaria; daí a
importância da emergência do serviço pentecostal, de cura e libertação, para limitar o recurso
ao universo ocultista) acendrada; o seu nome era Raquel, casada com um branco. Logo que a
vi, apoderou-se de mim o cazumbi da prostituição, e comecei a tentá-la, dizendo-lhe que fosse
passar aquela noite comigo, prometendo-lhe uma boa soma de dinheiro, ao que ela logo
concordou.
Foi o pior que podia ter feito na minha vida, pois a partir desse dia o cazumbi passou a
permanecer em mim e me tornou o seu escravo. Passava o tempo todo a procurar mulheres
alheias, vindo muitas outras se me oferecerem voluntariamente. Quando as mulheres não
cediam à minha vontade, empregava a força. Quando isto me acontecia, o cazumbi ganhava
cada mais força em mim, começando a sofrer grandes e terríveis consequências, com
espancamentos dos homens delas e pagamento de pesadas multas à justiça, e tudo quanto
ganhava ia quase todo para as mulheres; também era fortemente desconsiderado por toda a
gente, sofrendo ainda de muitas doenças venéreas, etc.
A primeira desavença tive-a com o soba chamado Tito do sobado de Erimbondo, tio da tal
Raquel, que me obrigou a pagar uma multa muito pesada, que tive que pagar com dinheiro de
alguns meses de salário.
Depois de ter pago ao soba, um dia passei numa rua da vila do Mungo, entre muita gente,
para ver se me esquecia das agruras da vida. De repente senti que alguém me empurrava
fortemente e me fez cair no chão, ao mesmo tempo que me dizia: "Este maldito gajo fornicou
com a minha prima Raquel". Quando me levantei, segurou-me pela camisa e deu-me um soco
na boca que me deixou a sangrar e voltando a dizer: "Este malvado finge-se de cristão, mas é
um lobo vestido com pele de ovelha; o que ele merecia era apanhar uma grande surra." -
Fiquei logo todo envergonhado perante aquele tratamento perante toda a gente que ali se
aglomerara à minha volta.
Entretanto os sonhos com aquela mulher redobravam. Às vezes tinha visões em que ela me
trazia mulheres.
Um dia tive o prazer de alguém me convidar para uma festa de casamento. Vi que a noiva era
muito bonita. Passados alguns dias encontrei-me com ela numa rua do Mungo. Como ela
vinha só, logo a tentei. Ela concordou e disse-me que lhe aparecesse de noite fora de horas na
sua casa, pois o marido tinha-se ausentado para o Andulo, em viagem de negócios. Peguei
numa nota de mil escudos (cinco euros) e lha entreguei. Quando anoiteceu, esperei até altas
horas da noite, vesti um sobretudo, comprado nos fardos, e fui de bicicleta a caminho do
perigo. Não fui pela estrada para não ser visto por alguém, mas segui por um atalho, dando
uma volta muito maior. Quando cheguei perto da aldeia da moça, guardei a bicicleta nuns
arbustos e segui a pé, seguindo o atalho que me levou a um cemitério, ficando assustado
quando me deparei com muitas cruzes das sepulturas, saíndo de lá a toda a pressa. Desviei-me
para uma picada que conduzia a outra aldeia vizinha. Quando ali cheguei, como era fora de
horas, uns homens sentiram-me e gritaram: "O ladrão das galinhas veio; vamos em sua
perseguição e chamando pelos cães". - Fugi correndo, e ouvi um ruído de uma flecha
arremessada contra mim que caiu ao meu lado. Eles corriam com os cães em minha
perseguição. Em frente haviam um riacho que tinha uma ponte de dois paus. Atravessei-a e
desliguei um dos paus da margem para evitar que os cães a atravessassem, e de seguida trepei
numa pequena árvore que ali havia. Os cães quando chegaram junto da ponte, pararam; um
deles que parou resolveu entrar em acção de imediato e seguiu para baixo e para cima do rio,
motivando os outros. Mas como não havia ponte, voltaram para trás. Entretanto chegaram os
homens e um deles disse: "O gajo conseguiu fugir; voltemos para trás". E se retiraram.
Desci da árvore e dirigi-me para casa da Josefina já sem qualquer vontade de mulher. Quando
lá cheguei bati à porta, ouvindo-me ela de dentro, ainda em trajes menores, pois estava
deitada, levantou-se da cama, acendeu um candeeiro, abriu a porta e eu entrei.

... dirigiu a mim com um tição na mão e disse-me em português: "Vou


queimar-te também". - Levantei-me a voar para fugir, e fui poisar em cima de um outeiro.
Assim que pousei os pés no chão, apareceram muitos porcos com as bocas abertas, querendo
morder-me nas pernas. Para escapar tive que subir acima de um pedregulho onde os porcos
não chegavam. Depois apareceu um grupo de bodes que vieram até mim e me davam
marradas com os chifres, mas que não me atingiam, porque estava em cima de pedregulho.
Depois apareceu o jovem que tinha lançado no fogo com o mesmo tição para me queimar, e foi
assim que despertei do sonho. Olhei o relógio e eram vinte e uma horas e trinta minutos.
Aquele sonho deixou-me muito triste, visto eu estar em vias de me suicidar, o que para mim
significava o inferno, e por isso desisti de o praticar. Tornei a adormecer, e em visões vi a
mulher feiticeira trazendo-me muitas mulheres nuas, o que transtornava o meu coração, e não
me largando. Quando me largou o sono foi tão profundo que não ouvi o toque do despertador,
e por isso só acordei de manhã já de dia. Ela tinha deixado um demónio em mim, pois quando
sai para o trabalho encontrei-me no caminho com um português, funcionário da Câmara
municipal, juntamente com outro, e me disse agressivamente: "Ó seu filho da puta, então
andas a fornicar com a minha mulher?" - E tendo dito tal vernáculo, os dois cairam sobre
mim e espancaram-me com o objectivo quase certo de provocar uma acensão em mim,
levando-me depois ao tribunal. Como não havia provas nem testemunhas desta acusação,
fiquei absolvido, pois aquela senhora, uma branca, mantinha as nossas relações muito em
segredo, e como ela me enviava comida, foi por isso que o marido veio a saber destas nossas
relações take away.
Na tarde desse mesmo dia, um mensageiro vindo do Bailundo numa motorizada, apareceu
para me informar dum grave acontecimento passado com a minha família. Eu vivia no
Mungo e a minha mulher no Bailundo trabalhando como professora da Escola Doméstica da
Missão Evangélica do Bailundo. Ali me deslocava todos os fins de semana para estar com ela.
Depois do Administrador ter-me dado permissão para me deslocar ao Bailundo para saber do
que se trataria, tomei a minha motorizada e me pus ao caminho. Quando lá cheguei, deparei-
me com um caso muito ruim para mim; fui informado que dois indivíduos fornicavam com a
minha mulher na minha ausência, e numa certa noite, por coincidência, se juntaram os dois
na minha casa. Um chamava-se Fernando Epalanga, era o Director da Escola Primária da
Missão, e o outro chamava-se Ângelo, Diácono e Tesoureiro da Igreja. O adúltero Fernando,
vendo que a mulher com quem andava afinal tinha mais outro amante, ficou zangado, e por
motivos de ciúme espancou até adolorar o Diácono Ângelo, fazendo-lhe um grande ferimento
na cabeça. Depois arremessou a sua bicicleta para um buraco que ali havia junto à minha
casa e desapareceu.
Quanto ao Ângelo resolveu ir a um enfermeiro que morava longe para tratar do seu
ferimento e para que ninguém soubesse do sucesso (acontecimento). Por isso não foi para a
sua casa. A sua mulher esperou por ele toda a noite sem que o marido aparecesse. Quando
amanheceu foi à polícia dar parte do desaparecimento do marido. A polícia, sabendo que se
tratava do Tesoureiro da Igreja suspeitou que ele se fosse encontrar com os movimentos que
lutavam contra os portugueses para lhes levar o dinheiro da tesouraria da Igreja a que
pertencia. O caso foi então parar à PIDE, que dizia querer o Ângelo vivo ou morto.
Por este motivo todas as actividades da vila paralisaram. Todas as lojas estavam fechadas bem
como a própria Escola Técnica que tinha cerca de mil alunos. Todos foram em busca do
desaparecido. Buscaram em toda a parte e quando passaram por a minha casa encontraram a
bicicleta que o Fernando tinha arremessado no tal buraco. A PIDE quis saber de quem era a
casa onde a bicicleta fora encontrada. Informaram que o Chefe da casa trabalhava no Mungo
como funcionário, e a mulher dava aulas na Escola Doméstica da Missão Protestante. Foram
então à referida Escola e prenderam a minha mulher que foi julgada. Quando o Diácono
apareceu voluntariamente, então por ordenação do tribunal, ele então contou como as coisas se
haviam passado. Mas não acreditaram no que ele dizia e por esse motivo também ele foi preso
e desterrado para o campo de concentração de S. Nicolau, com a acusação de ter levado
dinheiro aos movimentos que lutavam contra os portugueses.
Quanto ao que eu fiz nesta ida não merece ser narrado por um abestalhado possesso e
compulsivo. Este é o Romance dos actos arminianos do Irmão Armando e dos bailundos e não
o romance dos actos do diabo. Tenho dito.

...

Numa aldeia chamada Luvemba havia um grande centro escolar com cerca de mil alunos e
muitos professores, cujo director se chamava Vasco. Na mesma aldeia havia também uma
rapariga chamada Mariana, que após o seu casamento o governo português mandou o seu
marido para o contrato forçado, deixando dessa forma a sua mulher só e no desamparo.
Aconteceu que o Vasco um dia encontrou-se com a Mariana e a seduziu. Quando ele estava a
tentar a rapariga, ela lhe disse: "O senhor Director está a falar a falar a sério ou está a
brincar comigo, sabendo que sou casada?"
Ele lhe afirmou que era sério porque gostava muito dela. Ela então lhe respondeu: "Se me
deres dois mil escudos (dez euros), eu aceito e prometo guardar segredo".
Depois do Vasco dizer que estava disposto a dar-lhe o dinheiro que ela pedira, ela se deu por
convencida e o trato ficou feito. A Mariana perguntou onde seria o ponto de encontro, e ele
disse:
- Amanhã, Sábado, podemos encontrar-nos lá na congregação antes do culto nocturno das 20
horas.
No Shabbat, então conforme o combinado, o Vasco sempre foi ao encontro da Mariana.
Quando chegou ao local viu que ela já lá estava. A Mariana começou por lhe dizer: "Dá-me já
o dinheiro enquanto é cedo". O Vasco lá lhe entregou os dois mil escudos que ela guardou, não
que sem antes conferisse se o dinheiro estava certo. Ela meteu-o num bolso do vestido e fechou
com um alfinete, e disse depois: "Vamos já entrar na Igreja para o diabo entrar nos infernos,
antes que chegue gente para o culto". Ela foi na frente e ele atrás.
Já dentro da Igreja a Mariana disse: "Mas o senhor Director vai servir-se de mim deitada no
chão de terra batida sem pelo menos pôr uma esteira? Peço-lhe para estender o seu casaco no
chão". - O Vasco lá despiu o seu casaco e o estendeu no chão. Ela disse depois: "O casaco só
me resguarda da cintura para cima; ora onde está o elemento que o senhor tanto deseja vou
estendê-lo no chão? Despe as calças e põe-as abaixo do casaco". Ele assim o fez, ficando só
com as cuecas e a camisa. Mas a Mariana voltou a insistir: "Ora eu, que tratei o meu cabelo
com óleo de palma seria mau colocar a cabeça no chão de terra. Tira então a camisa e as
cuecas para fazer um travesseiro p'rá cabeça!" - O que de imediato ele fez.
Quando ela viu que estava completamente nú, tossiu, o que era um sinal combinado, e logo
surgiram três indivíduos, seus cunhados, irmãos do seu marido, os quais estavam debaixo dos
bancos do templo, que gritaram dizendo: "Ó senhor Director, o que é que está a fazer com a
mulher alheia?"
Pegaram nele e o espancaram severamente. Arrastaram-no para fora do templo e o amarraram
no tronco de uma laranjeira com uma corda que já tinham guardada para o efeito, espancando-o
mais ainda à paulada. Depois apareceram as pessoas para o culto, que quando o viram
naquela cena tão triste, uns o insultavam e outros lhe davam punhadas e cuspindo-lhe na cara.
Como ali havia palha seca queimaram-lhe a roupa. Passou toda a noite amarrado na
laranjeira. No dia seguinte, Dominga, por volta das noves horas da manhã o sineiro tocou o
sino para o culto; compadeceu-se do Director e o desprendeu da árvore. Como não tinha
roupa para se cobrir, teve que sair dali nú e foi para a sua casa que ainda ficava distante. Teve
que cruzar-se no caminho com muitas pessoas que se dirigiam para a congregação, e todos
que por ele passavam o insultavam e o socavam. Por este motivo ficou ainda mais manchado
com nódoas negras no corpo, indo depois para Nova Lisboa onde se empregou no CFB
(Caminhos de Ferro de Benguela) como telefonista.
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Por causa de uma mulher três indivíduos me espancaram até perder os sentidos, e no dia
seguinte a PIDE tortura-me até sangrar.
Como no concelho do Mungo não havia Conservatória, o Registo Civil funcionava numa
dependência da Administração, cujo oficial era o Secretário do Concelho, trabalhando eu
também nesse lugar.
Uma vez apareceram uns noivos para casarem civilmente, sendo a noiva muito bonita à vista.
Um dia tomei a minha caçadeira e fui à caça aos patos junto ao rio Luvulo. Passei numa
nascente de água potável, onde as pessoas se abasteciam, encontrando lá a tal noiva que já era
a mulher, que tinha visto no Registo Civil, tirando água.
Quando os meus olhos deram nela, o cazumbi, vindo da mulher da Missão, apoderou-se de
mim, e apesar de saber que era casada e com marido no activo, logo fui tentado a seduzi-la em
adultério. Com poucas palavras ela se deixou convencer, e disse-me que não era conveniente
praticar o conhecer das Escrituras naquele momento, para não sermos vistos por alguém que
por ali andasse e nos observasse em oculto. Citou até um apotegma vox pop, dizendo em
umbundu: "Nda o kasi vusenge ku ka lipundole; oviti momanu", cuja tradução para o
português quer dizer: "Se estiveres numa mata não te desnudes; as árvores são pessoas".
Disse-me ainda, como o marido dela se tinha ausentado para um funeral de um primo, onde
devia passar a noite, era uma boa ocasião para eu ir à sua casa quando já for noite, para não
dar muito nas vistas das pessoas.
Depois de termos combinado o encontro, ela tomou a sua cabacinha com a água e seguiu. Eu
fiquei à espera da noite e que ela me viesse buscar. Quando anoiteceu, ela sempre apareceu
com o jantar, que era um prato de pirão com churrasco de galinha. Depois de termos comido,
ela me levou para a sua casa. De facto o marido não se encontrava lá. Fez-me entrar na sua
cubata, feita de adobes e coberta de capim. Tinha dois quartitos; um era a cozinha e sala de
estar, outro era o quarto de dormir. O lume estava no chão, no centro e em volta, e onde
estavam os utensílios da cozinha. Meteu-me no quarto de dormir, onde havia uma pequena
cama de madeira, sem colchão, apenas com uma esteira e um cobertor sujo. Na parede havia
uma corda pendurada em dois pregos, onde havia roupa suja também. Era tudo muito
repugnante à minha vista.
Sentei-me naquela caminha, e ela estava a tratar de algumas coisas relacionadas com a
cozinha. Para mim tudo aquilo significava um grande perigo devido ao já mencionado e
ilustrado grande ciúme do marido bailundo.
Num instante apanhei um grande susto, ao ouvir lá de fora um "Até amanhã" em português.
Era a chegado do marido despedindo-se dum companheiro. Apanhei um calafrio, que me
deixou transtornado, pois não havia meio de me escapar de tão grande perigo. O quarto tinha
apenas um buraco que servia de janela para o exterior, por onde eu não podia passar. Depois
do marido se ter despedido do companheiro, entrou na cozinha, dando um beijo na sua
mulher e se sentou num banquito junto ao lume. E eu metido no quarto cheio de medo, já
esperando que fosse este o meu fim ditado pelo cazumbi. Depois a mulher disse-lhe assim:
"Sempre pensei que ias passar a noite no local do funeral".
- Não querida, não posso passar uma noite sem ti! - Respondeu ele.
A mulher com muita calma, à medida que rachava lenha e a colocava no lume, disse-lhe:
"Esteve cá há pouco tempo o Rodrino (empregado do ICA de Angola) perguntando por ti; ele
trazia umas garrafas com cabeças brancas. Devem ser bebidas!
- Ah! Sim! - Exclamou o marido. Deve ter recebido o seu salário; ele quando recebe compra
sempre vinho. Deixa-me ir lá ter com ele enquanto é cedo. - Acrescentou o marido no activo.
Levantou-se na escuridão indo para a casa do Rodrino. Foi o que me safou naquele momento.
A mulher ainda esperou algum tempo mais, e chamando-me para que saísse dizendo: "Não te
desanimes; podemos marcar outro encontro. Aparece um pouco fora de hora, depois de
amanhã, que é Sábado, dia em o meu marido passa a noite como guarda na padaria do senhor
Dimas. Podemos encontrar-nos junto à Igreja. Tento tudo combinado, meti-me ao caminho e
segui para casa.
Quando chegou o dia do novo encontro, já bastante de noite, lá segui para o grande perigo.
Fui directamente ter à Igreja (Católica) onde a moça tinha sugerido o meu encontro com ela.
Mas ela não apareceu, pois não há segredo que não se descubra. Desconheço como tudo isto
veio a ser descoberto. Aconteceu que o marido daquela mulher, tendo conhecimento do
combinado, naquela noite já não foi à padaria. Arranjou dois dos seus irmãos e me fizeram
uma emboscada. Quando eu procurava a mulher, repentinamente fui cercado por três
operacionais aptos a combater em favor da cavalaria. Temos, pois, a minha cavalaria
(ego) dentro da infantaria (corpo externo desarmado), porque a cavalaria (egos feridos) do clan
era apoiada pela infantaria munida de paus. Recebo a mensagem do inimigo ferido (chifrado)
mas agarrado à bandeira da sua casa: "Tu que fornicaste com a minha mulher na minha cama e
dentro da minha casa (penso eu, o sátiro: maldito cazumbi espalhador de boatos infundados!),
hoje vamos dar-te uma lição. Não julgues que não sei de tudo quanto tens feito com ela a partir
da fonte da água".
Agarrou-se ao meu casaco, passou-me uma rasteira e caí no chão. Apertou-me a garganta com
força, enquanto os seus band of brothers batiam-me com os chifres (paus especiais para estes
momentos, estou a ironizar em dores!!). Como eu estava sufocado, tentei levantar-me, mas
entretanto recebi uma cacetada na cabeça que me deixou desacordado. Os torturantes, pensando
que tivesse morrido, foram em busca de água, pelo sim pelo não, para despejar em mim, para ver
se eu recuperava os sentidos. Depois deixaram-me abandonado, fiquei estendido no chão, e
foram-se embora.
Tendo passado algumas horas em terra de ninguém, recuperei os sentidos perdidos no Registo
Civil do dia da cerimónia civil. Levantei-me e estava todo molhado.
Fui para a minha casa, e quando lá cheguei lavei todas as minhas feridas com água quente e
salgada. Na cabeça tinha um grande inchaço, precisamente no local da pancada com os
cacetes.
No dia seguinte era Dominga, em que o passei todo a dormir e a tratar dos ferimentos. Na
segunda feira fui para o trabalho, e como ainda tinha coágulos de sangue nos olhos e o
inchaço na cabeça, na Administração perguntaram-me o que me havia acontecido, e me
desculpei dizendo que tinha dado um tombo com uma bicicleta motorizada. Da parte da tarde,
havia muito trabalho na secretaria, e só saímos do trabalho quando era já noite. Fui para casa
para continuar o tratamento dos ferimentos das torturas.
De repente ouvi fora o ruído de uma bicicleta; era o cipaio Pedro Kambuala que vinha dizer-
me que o administrador me chamava. Perguntei-lhe o que tinha acontecido na Administração
para que necessitassem de mim. Disse-me que estavam lá uns agentes da PIDE que me
queriam falar; talvez seja para lhes indicar o caminho do sobado Nele.
Para chegar mais depressa pedi emprestada a bicicleta ao cipaio. Quando lá cheguei, o
Administrador e o secretário sairam apressadamente com o Land Rover e desapareceram.
Fiquei eu só com os agentes da PIDE. Um deles, o Reis, era o carrasco que matava muita
gente inocente, principalmente os mais civilizados. Todo o indivíduo que ele soubesse que
vestia roupa limpa e passada a ferro, logo o prendia, e dizia sempre: "Este é um dos tais". - De
seguida arranjava-lhe uma falsa acusação.
Eles então levaram-me para dentro da secretaria da Câmara e me mandaram sentar.
Colocaram as pastas em cima da mesa, e o carrasco do Reis tomou um papel para escrever a
minha identificação. Quando eles o faziam, eu pensava para comigo: "Estes gajos são tão
zelosos, que para lhes indicar um caminho tinham que me identificar". Mas estava enganado.
Mal eu sabia o que a seguir me iria acontecer.
No fim da identificação, então, o mesmo carrasco olhou para mim e disse-me: "Vou fazer-te
algumas perguntas, e se me mentires vou matar-te de porrada". Virou-se para o lado dos
papéis, como que buscando alguma coisa.
Nesses breves momentos, procurei lembrar-me se haveria cometido algum crime contra o
Estado Português, mas não deduzi nada que houvesse feito digno de castigo. Depois disse-me:
- Conheces o Domingos?
- Sim, conheço! - Respondi eu. Ali começava o interrogatório, perguntando depois:
- Quem são os teus amigos? - Era a primeira pergunta do Reis.
- O senhor é um dos meus amigos! - Respondi.
- Eu sei que sou teu amigo, mas refiro-me àqueles teus amigos que se juntam contigo para
escutar programas subversivos na rádio (referia-se a programas transmitidos do Congo, onde
estavam sedeados os movimentos terroristas) contra o Estado Português.
Eu disse que não tinha rádio, e ele me respondeu:
- Se não tens rádio é provável que costumes reunir-te com os outros na casa do Domingos,
para escutar esses programas subversivos que vos incitam contra os brancos. Costumas ir de
motorizada às aldeias, não é para incitar os povos à rebelião contra os brancos?
- O senhor fala à toa. Isso que está a dizer sabe muito bem, em consciência, que é tudo
mentira, pois não têm provas disso.
Dito isto, os dois se levantaram e me agrediram brutalmente. Batiam-me contra as paredes,
deitavam-me ao chão dando-me pontapés na barriga. Quando se cansavam de me bater,
faziam-me novas perguntas para me espancarem novamente. Como eu deitava muito sangue
pela boca e narinas, e o chão já estava sujo de muito sangue, obrigaram-me a tirar o casaco
para com ele limpar o chão.
No fim das torturas, sempre me largaram e me deixaram ir para casa.
Quem me tinha acusado falsamente à PIDE foi o Administrador com quem trabalhei,
chamado António Matoso Quaresma, que era um verdadeiro carrasco, pois tinha contribuido
para o desaparecimento de muitos angolanos.
No dia seguinte, quando voltamos ao trabalho, um escriturário português, chamado Luís,
disse-me que em Portugal havia rebentado uma revolução liderada pelo General António de
Spínola, o qual derrubou o governo fascista e religioso de Salazar, e a PIDE desmantelou-se.
Por este motivo as guerras coloniais irão terminar.

O 25 DE ABRIL, A INDEPENDÊNCIA DE ANGOLA E A GUERRA CIVIL

O golpe de estado em Portugal, feito por um grupo de oficiais, conhecidos por os "Capitães de
Abril" e depois liderado pelo General António de Spínola, como Chefe de Estado, pôs termo
às guerras coloniais e desmantelou a PIDE. Devido a este sucesso (evento revolucionário), os
movimentos que lutavam pela independência de angola, todos eles regressaram do Congo.
Eram três os movimentos: MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), liderado
por Agostinho Neto; FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola), liderado por Holden
Roberto, e a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), liderada por
Jonas Malheiro Savimbi (vide http://pt.wikipedia.org/wiki/Jonas_Savimbi), que cultivou um
relacionamento estreito com a clerezia protestante conservadora e fundamentalista de direita
estadunidense e com a Igreja
Congregacional (http://www.lusotopie.sciencespobordeaux.fr/schubert.pdf).
Estes sucessos (eventos) afligiam muitos portugueses, pois estavam certos de que os angolanos
haveriam de se vingar das atrocidades que deles recebiam diariamente. Por tudo isto os
angolanos citavam o provérbio "Omu ya pitile limo, haimo iya yi pita lamola", o que significa
em português "Por onde passara com a gravidez, tornará a passar com o filho". É um
provérbio que tem o mesmo sentido de "Pagar com a mesma moeda".
Foi a partir daqui que começou a confusão, e a começar a reinar o desassossego para os
portugueses presentes em Angola, mas também o princípio da instabilidade e
desentendimento entre os angolanos, divididos que estavam nos três grupos de guerrilheiros,
com interesses ideológicos antagónicos. Os carros dos portugueses eram mal tratados nas ruas
e nas estradas, e quem reagisse era espancado. Até o carro do Administrador do concelho do
Mungo foi mal tratado. As lojas foram saqueadas e os proprietários espancados. O poder dos
portugueses havia terminado. Muitos deles eram mortos indiscriminadamente nas ruas, nas
residências, etc. Um angolano entrou numa loja de um comerciante português, chamado Real,
e pediu um litro de vinho. Quando o comerciante pediu que lhe pagasse, o angolano que ali
fora já com a intenção de provocar, fez-se de muito irritado e insultou o português.
Repentinamente, um grande grupo de homens e mulheres invadiram a loja e pilharam tudo o
que lá havia. O lojista vendo aquela cena tão ignóbil, foi em busca de uma caçadeira e
disparou contra os saqueadores, chegando mesmo a matar alguns.
Entretanto os líderes dos movimentos de libertação entraram em acordo com Portugal para
tratarem de negociar a descolonização da colónia, conversações previstas e realizadas no
Alvor, do qual a independência de Angola foi estabelecida para 11 de Novembro de 1975.
Depois deste acordo os três movimentos ainda se entenderam por algum tempo, fazendo
campanhas de sensibilização entre as populações. Nas tribunas, ainda juntos, falava primeiro
o MPLA, depois a FNLA e em último a UNITA. Faziam assim em todas as tribunas. Todos
falavam no sentido de se fazerem as eleições, para que cada cidadão escolhesse livremente o
líder para governar o país.
Infelizmente, quando tudo parecia ir no bom caminho, o MPLA lança na rádio um programa
chamado "Kundipanguela", totalmente hostil para a FNLA e a UNITA. Era o princípio da
guerra civil em Angola, a qual viria a dizimar milhares de vidas.
Num Shabbat (Sábado), a vila do Bailundo ficou repleta de pessoas que faziam a sua vida
normal, com compreas e vendas do dia a dia. Todos os estabelecimentos estavam a abarrotar
de gente, bem como as ruas. Repentinamente surgiu uma carrinha de caixa aberta em que um
branco deu um brado de guerra. Toda a gente entrou em pânico. Muitos deixaram as suas
compras em cima dos balcões das lojas para fugir. No espaço de pouco tempo, a vila ficou
deserta. Eu fugi no lado oposto à nossa residência, mas voltei para trás, atravessando a
vila em que havia guerra.
Quando estava em frente ao edifício dos Correios, surgiram três viaturas carregadas de
militares, armados até aos dentes. Era um carro de cada movimento. Fiquei aflito, pois se se
confrontassem naquele momento, eu não escaparia. Era a FNLA e a UNITA contra o MPLA.
Estes dois guerreavam o MPLA por ser de ideologia comunista, dizendo que não queriam o
comunismo em Angola. Naquele recontro dos três movimentos, quem falou primeiro foi o
Comandante do MPLA, chamado Vilinga. Queria expressar-se em português, mas como não
sabia bem o português falou em umbundu, citando o apotegma que diz: "Ene akuatu wa tu
yombe-keli okanyoha vombenge", que quer dizer "Camaradas, vocês esconderam-nos uma
cobrinha na cabeça" (Traição Secreta).
Depois continuou: "Nós fomos à mata apanhar lenha, e quando voltamos soubemos da cilada
que os camaradas nos armaram, de quererem guerrear contra nós. Em toda a parte, para se
fazer uma guerra é necessário que essa guerra seja declarada, e nós não sabiamos de nada. Se
somos todos filhos de Angola, e alcançamos já a independência, que ganhamos em fazer a
guerra, matando-nos uns aos outros? Se alguma situação não correr bem, devemos
conversar".
Entretanto eu saí daquele lugar e fui até a uma rotunda da vila onde me sentei para observar
os movimentos militares. Vi passar viaturas das FAPLAS com soldados do MPLA, que se
dirigiram para o quilómetro 5. De tarde, quando regressaram ouvimos um grande tiroteio,
pois tinha caído numa emboscada que o FNLA lhes armara, matando dezoito soldados das
FAPLAS.
Na noite daquele mesmo dia houve um grande tiroteio na vila do Bailundo, em que a FNLA e
a UNITA escorraçaram o MPLA. Depois todo o sul de Angola passava a ser dominado pelos
dois movimentos, que entretanto ainda se entendiam.
No Mungo, o responsável da Unita queimou a bandeira do MPLA.
Iam também passando constantemente aviões que transportavam os portugueses para
Portugal, fugindo ao desespero e deixando todos os seus haveres, que imediatamente eram
saqueados.
Passado algum tempo a UNITA e a FNLA desentenderam-se e começaram a fazer a guerra
uma contra a outra, tendo depois a UNITA escorraçado o FNLA, ficando ela só a dominar
todo o sul de Angola. Foi o Presidente Savimbi quem presidiu às cerimónias da Independência
no Huambo no mesmo dia 11 de Novembro.
Estava determinado que no Dia da Declaração da Independência, no Huambo, as bandeiras
de Portugal e da UNITA desfraldassem juntas, e quando a bandeira de Portugal descesse a da
UNITA fosse içada simultâneamente, mas aconteceu que nesse dia não haviam portugueses
presentes para cantar o hino de Portugal, sendo este entoado por angolanos.
Depois de declarada a independência começou a sério a guerra fraticida entre angolanos, em
luta pelo poder.
O MPLA era apoiado pela Rússia e a UNITA pela África do Sul e América, que na altura
ocupava todas as cidades e vilas do sul de angola.
O MPLA contratou com Fidel Castro o envio de sessenta mil cubanos para lutarem contra os
outros dois movimentos rivais, e avançaram para o sul com blindados (tanques) carregados de
armamento pesado e com aviões Migs. O Presidente da Unita ordenou às suas tropas para
abandonarem todos os lugares e se introduzissem nas matas, e assim utilizarem a guerra de
guerrilha. Os militares da UNITA que estavam acantonados no Mungo não receberam esta
mensagam atempadamente, e quando ali chegaram os cubanos com 18 blindados (tanques) de
guerra os militares da UNITA resistiram-lhes por algum tempo, mas tiveram mesmo que
desistir e escaparem de qualquer maneira.
Quando os cubanos chegaram ao Mungo, a primeira coisa que fizeram foi procurar o
indivíduo que tinha queimado a bandeira do MPLA, chamado Artur Chilesso. Foram a sua
casa, mas ele já havia desaparecido de lá. Saquearam-lhe a casa, e entregaram os bens ao
povo, mas o povo depois os restituiu pois eram todos familiares. Mas um dia os cubanos
apareceram secretamente e encontraram o homem em casa, prenderam-no e o levaram para o
Huambo para que fosse julgado. No julgamento ele disse que quando recebeu da UNITA as
ordens para expulsar os soldados do MPLA do Mungo, sabendo que eram quase todos os seus
parentes, conversou com eles para queimarem todos os papéis que estivessem na delegação do
MPLA, menos a bandeira que estava dobrada e guardada, e por este motivo não houve guerra
no Mungo. Mediante esta afirmação deixaram-no em liberdade.
Eram dias terríveis. O MPLA ocupava as cidades e vilas, e a UNITA as florestas, de onde
saiam com emboscadas nas estradas. Destruiam prédios e pontes, e o MPLA destruia as
estradas com os tanques quando por elas passavam.
Todas as povoações que a UNITA ocupasse por algum tempo, eram bombardeadas pelos Migs
do MPLA, destruindo prédios e outros bens das pessoas. Foi assim que Angola ficou
destruida. As populações viveram uma grande catástrofe; dificilmente se conseguiam os bens
para a sobrevivência das populações. Era muito difícil encontrar-se um pou de sal; passava-se
muito tempo nas filas para se obterem os bens de primeira necessidade, pois o MPLA já
adoptava o mesmo regime russo. Os meios de transporte, como os camiões de transporte de
mercadorias, não circulavam livremente, pois eram atacados e emboscados com acções feitas
pela UNITA ao longo das estradas.
Ora foi numa dessas emboscadas feita pela UNITA, contra uma coluna de viaturas, que uma
munição (bala) traiçoeira atingiu mortalmente a mulher feiticeira da Missão, a que me
perseguia com as suas feitiçarias. Desde então fiquei livre dela; já não me aparecia mais em
sonhos e em visões com mulheres desnudas, serpentes e monstro diabólicos, o que me
provocava muitos pesadelos. Com a morte dela fiquei completamente curado e aliviado.
Tendo morrido a mulher que me tinha colocado o espírito satânico de adulterar as mulheres
alheias, tive que ir a um Centro Evangélico para confessar os meus pecados, pois eu estava
completamente seguro mas com a necessidade de penitência arminiana.
A Missão Evangélica do Bailundo, tinha oito centros e cada um tinha um pastor, muitas
aldeias e mais de mil fiéis. Cada aldeia tinha um catequista que ensinava a Palavra de D-us
aos membros da Congregação. Estes centros também eram designados por pastorados.
Durante todos os meses da estação seca, todos os membros de cada pastorado juntavam-se a
uma aldeia para celebrar a Santa Ceia, resolver os problemas da Igreja, realizar casamentos,
baptizar as pessoas, dedicar as crianças e confissões dos que tinham transgredido alguma lei
da Igreja.
Ora, nós tinhamos chegado ao nosso Centro numa quinta-feira e fomos logo encaminhados
para a aldeia designada para a Santa Ceia do mês. Encontramos tudo preparado; as cubatas
todas caiadas, a aldeia toda capinada e limpa. Tinham feito um ochingalala muito grande,
espécie de um barracão, feito de paus, capim e folhas de bananeiras. Também tinham morto
um boi e preparado muita comida para os que viriam participar naquela reunião de Santa
Ceia. A noite desse mesmo dia em que chegamos a essa aldeia, tinha-se logo começado com
todas as actividades daquela reunião. Depois do Culto divino, cada catequista dava o relatório
sobre o andamento do trabalho de D-us na sua aldeia. No dia seguinte que era sexta-feira, logo
de manhã o barracão já se encontrava cheio de gente e começava-se logo a organizar todos os
trabalhos. O Secretário da Igreja punha tudo em ordem, fazendo listas dos que iam ser
baptizados, etc. À tarde dava-se o ensaio dos coros que iam ser cantados no Culto de Dominga
e os catequistas examinavam os catecúmenos que iam ser baptizados. No dia seguinte, que era
Shabbat, de manhã as pessoas estavam livres para poderem ir aos rios tomar banho, lavar a
roupa e fazerem todos os preparativos do Culto divino de Dominga. A tarde desse mesmo
Shabbat, tinha tocado o sino para toda a gente ir ao barracão a fim de assistirem às confissões
dos transgressores do sétimo mandamento da TORAH que diz: "Não adulterarás". Quando lá
entramos, nós os tais transgressores daquele mandamento, fizeram-nos sentar num grupo,
conforme a relação que o Secretário tinha na mão. Depois do Culto, o Secretário começava a
fazer a chamada dos que iam se confessar. O primeiro que tinha sido chamado, subiu ao altar
e os olhos de todos no barracão estavam fitos nele. Ele, então começou logo a confessar
dizendo:
- Confesso perante D-us e perante a sua santa Igreja que tenho transgredido o sétimo
mandamento e prometo que nunca mais tornarei a pecar. Depois levantou-se um diácono e
disse: "Explica como cometeste esse pecado tão terrível".
O pecador disse: "Foi no Natal em que o meu primo católico tinha-me convidado a passar o
evento com ele. Depois de termos comprado na loja do senhor Santos, arroz, macarrão... O
meu primo tinha convidado duas raparigas católicas para servirem de cozinheiras. À noite, na
véspera do Natal, fomos à Igreja católica ver os dramas do nascimento de Jesus. Quando
voltamos do templo fomos para casa e encontramos a comida já pronta. Comemos com as
raparigas num espírito de integração com aquelas de quem ninguém pergunta (não se convida
os empregados para a mesa). Quando fomos para a cama levamos as moçoilas connosco (o que
enerva os empregadores que me estão a ouvir; demasiada integração laboral). Aconteceu
que a que tinha dormido comigo ficou grávida e por este motivo, o padre mandou prender-me
e fui levado amarrado ao Posto Administrativo e dalí fui levado para os serviços forçados.
Fiquei lá um ano de castigo e graças a D-us, voltei e peço que a Igreja me receba".
A seguir levantou-se um catequista e disse:"Quando fizeste essas vergonhas não sabias que
era pecado perante D-us?"
- Sabia; pequei por engano carnal. - Respondeu o pobre pecador. Na mesma altura levantou-
se o catequista da aldeia do pecador e começou a dar o seu testemunho dizendo: "Desde que
este nosso irmão saiu do castigo por ter engravidado uma rapariga católica, tem-se
comportado bem. Tem feito todos os trabalhos da Igreja e nunca faltou aos Cultos divinos;
acho que é lícito ser recebido pela Congregação. Ele podia casar com a rapariga conforme o
que a nossa Igreja manda: que se um rapaz engravida uma rapariga tem de casar com ela. O
padre não deixa que uma rapariga católica case com um rapaz da Igreja protestante.
Nesta altura, levantou-se logo o pastor e disse ao pecador: "Senta-te, o teu pecado foi
perdoado e não peques mais".
A seguir o Secretário da Igreja, chamou uma rapariga que também subiu ao altar para
confessar o seu pecado e disse: "Confesso perante D-us e perante a sua santa Igreja que tenho
transgredido o sétimo mandamento e prometo que nunca mais tornarei a pecar". Também
foi compelida a explicar como tinha cometido o seu pecado e ela disse: "O homem com quem
cometi o adultério já é casado e foi muito exigente na sua conquista. Começou e resistiu
durante muito tempo até seduzir-me, acabando por me convencer". Aí um diácono levantou-
se e disse: "Quando o homem te convenceu a pecar apalpou-te nas chuchas?" A rapariga
disse: "Se me apalpasse nas chuchas não morria?"
O mesmo diácono ainda disse: "O tal homem quando dormiu contigo foi dentro de uma casa
ou foi numa mata?" A rapariga contestou: "Não me faças essas perguntas tão absurdas". O
pastor disse: "Assim respondes a um diácono?" Ela emudeceu e no entretanto, levantou-se o
catequista da rapariga, e deu o seu testemunho sobre aquela rapariga e depois o problema
dela ficou resolvido.
A seguir o Secretário da Igreja tinha chamado um outro pecador que também subiu ao altar
para se confessar, mas antes de abrir a boca, foi logo interrompido pelo catequista da aldeia
do pecador que disse: "Este homem tem um problema a resolver. Ele praticou a prostituição
com uma rapariga e engravidou-a, mas ele afirma que não. Na nossa Igreja existe lei de que se
alguém que tiver engravidado uma rapariga solteira, e ele também for solteiro, tem que casar
com ela. Ele não quer casar com ela alegando que não foi ele quem a engravidou".
O Pastor interveio e disse: "Então você engravidou a rapariga e não quer casar com ela
porquê?" O pecador respondeu: "Não fui eu que a engravidei porque todas as vezes que me
tenho deitado com ela tenho utilizado preservativos". Mediante esta afirmação, parecia que
rebentava uma bomba. Toda a gente agitada e a gritar muito alto, dizendo:
- Bandido ordinário! Então tu arranjas material para violar as mulheres?
O Ministro ordenou: "Expulsem este bandido para fora! - De imediato, levantou-se logo um
grupo de homens e o expulsaram do barracão aos empurrões.
Depois desta cena tão ignóbil, o Secretário chamou mais um que subiu ao altar. Após o
habitual acto penitencial ilustrativo e pedagógico de formação contínua, um diácono chamou-
me. Para abreviar, tendo em conta a paciência dos leitores, disse a certa altura: "Eu estou
certo que nunca mais serei um homem com espíritos de prostituição. Agora estou
completamente curado". Como eu era branco (mestiço especial), não me complicaram visto
que esta Congregação respeitava sempre os brancos. Aquelas confissões estenderam-se até ao
anoitecer. Se não houvesse absolvição, o grupo coral ia à casa do pecador compulsivo,
arrombavam a porta da casa do transgressor tirando tudo para levarem para a sua lavra. Se
tiverem um ochipundo (palhota da lavra) arrumavam tudo dentro. Se não tiverem o
ochipundo, arrumavam tudo em baixo de uma árvore. Se for um trabalhador da Igreja, quer
seja professor, pastor, etc., era logo despedido e ficava fora da Igreja cinco anos como
excomungado. A transgressão de outros pecados, pecados leves cometidos por debilidade ou
imprudência, não eram punidos.
No dia seguinte era a Dominga. Logo pela manhã, as pessoas vestiam as suas melhores roupas
e preparavam-se para o Ofício dominical. O secretário ponha por ordem todos os trabalhos do
Culto. Fazendo sentar em grupos todos os congregantes que tinham deveres. Primeiro era o
grupo das mulheres, que tinham as crianças para dedicação. A seguir os que iam ser
baptizados, depois os catecúmenos que iam também ser dedicados e por último os
excomungados em final de carreira que iam ser recebidos pela Igreja.
Depois começava a liturgia simples reformada. Primeiro, o Secretário lia a Invocatória,
dizendo: "Desde o nascimento do sol até ao se ocaso, seja louvado o Nome do S-nhor. Entrai
pelas portas dele com louvor, e em seus átrios com hinos. Louvai-o e bendizei o seu Nome".
Depois o Secretário citava o nome de uma criança e o Pastor segurava-a no seu colo e dizia:
"Fulano, pela fé dos teus pais, eu te dedico ao D-us Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, que a
benção do Altíssimo caia sobre ti durante toda a tua vida, Ámen". Depois da dedicação das
crianças, vinham os baptismos. O Secretário chamava o nome de alguém que ia ser baptizado
que saia do grupo e ia ajoelhar-se junto ao pastor que lhe dizia: "Fulano tal, acreditas que
Jesus morreu para te salvar?"
- Sim acredito. - responde o baptizando. depois o ministro tira um punhado da água de uma
tigela que um diácono segura na mão, e diz: "Eu te baptizo em nome do Pai e do Filho e do
Espírito Santo. Que a benção do Altíssimo e a sua Graça esteja sempre contigo".
Depois dos baptismos vinha a dedicação dos catecúmenos e por último eramos nós os
transgressores da prostituição. Mandaram-nos levantar e o Secretário dizia: "Diácono
Samuel, exorta os retornados da Igreja". Então o tal Diácono de nome Samuel, aproximou-se
a nós e disse: "Vocês tinham abandonado a Igreja. Rodearam o mundo e não acharam
pastagem e resolveram voltar aos antigos pastos elaborados por mãos eclesiais, voltar para a
mesma Igreja. A Congregação não fecha as portas para quem quer realmente voltar. Isto não
quer dizer que não sereis mais tentados. O mundo está cheio de raparigas bonitas e belos
rapazes que vos irão tentar e atrair. Cuidado e não pequem mais". Depois citou um ditado em
umbundu dizendo: "Nda o pita po cisingui ca Ku nyehele osala petameko" ("Se tornares a
passar por baixo do ramo que te tinha tirado o barrete, baixa a cabeça"). "A Igreja que vocês
tinham abandonado sempre mantem-se firme e nunca vacilou. Se vocês brincam com o
pecado, as consequências serão vossas e não da Congregação visto que ela nunca se perde;
vocês é que se perderão. Uma faca é que se perde na mata e não é a mata a perder-se na faca.
São Paulo disse que o salário do pecado é a morte. Quem estiver no aprisco do S-nhor,
engorda-se porque os seus mandamentos são fiéis e dignos de aceitação. O porco cria-se
fechado num curral, no entretanto engorda-se. O boi que vagueia aqui e acolá nunca se
engordou".
Depois desta exortação, o coro levantou-se e começou a cantar o seguinte hino:
É franca porta divinal,
Aberta a todo o mundo.
Por ela o pecador mortal
Avista amor profundo
Oh Graça imensa! Pois assim
A porta aberta fica a mim!
Entrai! De toda a condição
Graça e perdão pedindo!
Entrai! Buscando a salvação!
Sereis aqui benvindos!
Aberta, sim! De par em par!
Entrai [arminianos] com grande urgência!
Deus aos constantes
Vai mostrar
Real munificência.
Deposta a cruz, o vencedor
Nos céus entronizado,
Repousará com o Senhor,
Seu Deus e Rei amado.

Depois seguiu-se o Sermão da Palavra feito pelo Pastor. No fim do sermão foi a Santa Ceia
que os Diáconos distribuiam para toda a gente. Quem estivesse fora da Igreja não lhe é
permitido aceder a participar na Sagrada Comunhão. Depois da Santa Cheia, o culto estava
no fim e todos saiam indo para as casas almoçar.
A noite era entregue ao culto dos coros; cada aldeia cantava um coro que se prolongava até
quase à meia noite. Saímos do barracão e fomos para as casas para dormir e dormir.
Naquela noite tive um sonho digno de realce. Sonhei que estava perante um rio muito grande e
largo que mal se via o que estava na outra margem. Um rio com água muito límpida e cristalina
e era muito profundo. Nas suas margens havia muitas árvores que produziam muitos frutos e vi
também muitas crianças no mesmo rio. A tal água corria com muita velocidade para baixo. Os
passarinhos cantavam alegremente e em toda a parte brotavam lindas flores. Quando estive a
apreciar estas belezas todas, apareceu-me um personagem vestido de bata branca até aos pés e
com lábios abertos para uma lectio divina memorial: "Estás a ver a água do rio?" Eu disse-lhe
que era "um rio maravilhoso; nunca tinha visto água tão límpida e cristalina como aquela!"
Então iniciou um memorial de Sião (Joel 4:17): "Esta água que tu vês representa o sangue de
Cristo que purifica todo o pecado. Todo o pecador que reconhece o seu pecado e o deixa é
purificado nesta água. Esta água lava todo o tipo de pecado".
Depois trouxeram uma toalha muita suja com várias sujidades, como óleo de mecânica,
gorduras, tintas, etc., que foi metida naquela água e ficou logo branquinha como a neve e disse-
me o Homem: "É assim que o sangue de Cristo purifica os pecados. O dono do rio, o Cordeiro,
mandou os seus servos plantar estas árvores que produzem bons frutos para saciar a sede dos
pecadores arrependidos que deixaram os seus pecados. Os frutos que tais árvores produzem são
as alegrias que um pecador desfruta quando deixam os seus pecados (crimes), o amor, pois todo
o amado arrependido passa a ser amado pelo seu Amante. Também produzem todos os frutos do
Espírito Santo que são: caridade, gozo, paz, longanimidade, benignidade, fé, mansidão,
temperança, etc.
Depois eu perguntei porque é que as crianças tão pequenas brincam no rio muito profundo e não
se afogam? Ele disse-me que quem estiver no amor de Cristo nunca se afoga. Depois mostrou-me
os peixinhos que nadavam alegremente e disse-me: "Estás a ver os peixes todos satisfeitos a
nadar alegremente sem nenhum receio de mal?" Ainda disse-me: "Da maneira como a água
corre, simboliza como o Evangelho do Nosso Senhor Jesus Cristo se propagou rápidamente ao
mundo inteiro entre as nações e línguas".
Depois aquele personagem levou-me para junto de uma fogueira muito grande. "O fogo
representa Satanás e a água representa a Cristo.
Observa com muita atenção no fogo e verás que não há nenhum ser vivo como na água. Todo o
ser vivo que for para o fogo morrerá imediatamente. Se o fogo representa o Diabo, a obra dele é
matar e destruir. Mas a água que representa Jesus, pode eliminar Satanás. Foram buscar água e
despejaram-na na fogueira que se apagou imediatamente. A seguir o mesmo personagem levou-
me para uma outra fogueira que tinha uma panela a ferver, e disse-me: "Em baixo há fogo que
representa o espírito satânico e em cima há a água que representa o Espírito Santo. Entre os dois
Espíritos encontra-se o fundo da panela. O Espírito que está em cima tenta ir para baixo para
destruir o Espírito satânico. Não tendo por onde passar devido ao fundo da panela, fica a ferver
e depois desaparece e a panela fica seca". Depois foram buscar um fio de aço e fizeram um
buraquinho no fundo da panela, deixando a água passar gota a gota para o fogo que depois
ficou todo apanhado. Disse-me ainda aquele personagem: "Jesus pode destruir Satanás. O
fundo da panela representa os nossos corações. Se não deixarmos o Espírito Santo entrar para
destruir a força satânica, morremos".
Depois o meu sonho foi interrompido devido a um grande tiroteio das armas do MPLA que
destruiam uma base da UNITA que estava perto do Centro.
Era o tempo da mortandade, pois outros morriam nas prisões acusados de colaborarem com o
"inimigo". Num ano com pouca chuva, o rio Culele ficou quase seco, e quando uma ocasião
passei numa das suas margens, vi muitos cadáveres no leito do rio. Era o local onde os homens
da segurança matavam as pessoas que estavam nas cadeias, cujos corpos eram lançados ao rio.
Era assim em todos os rios.
Um português, uma ocasião, ao ver as pessoas que eram levadas para o fuzilamento, atreladas às
viaturas e presas com cordas pelos braços e arrastadas por uma rua a grande velocidade, dizia:
- Isto não é humano; vou-me daqui para fora.
Nas confrontações, as munições perdidas matavam muita gente. Por vezes os Migs voavam de
noite enquanto as pessoas dormiam, e bombardeavam as aldeias, morrendo muita gente que
nada tinha a ver com a guerra. O MPLA reabriu o campo de concentração de S. Nicolau, campo
esse montado pela PIDE, e onde o MPLA estabeleceu a DISA, continuando a servir para fins
políticos. O povo estava desta maneira entre a espada e a parede. Os que estavam a favor do
MPLA eram perseguidos fortemente pela UNITA, e vice-versa. Um ditado em umbundu diz: "Se
dois elefantes lutam pelo capim, é a erva quem sofre e não os elefantes".
Uma ocasião, eu e mais um amigo meu fomos acusados de termos colaborado com o inimigo.
Por isso, numa madrugada fomos presos e levados para a Direcção de Segurança, da UNITA,
onde havia uma prisão. Estávamos à espera de ver o que nos iria acontecer. Na altura alguns
militares trouxeram manietada uma adolescente de doze anos, juntamente com o sei irmão de
oito anos, capturados das mãos do inimigo. Como haviam passado dias sem comer, resolveram
fugir. Infelizmente foram apanhados e levados para a Direcção de Segurança da UNITA para
serem julgados, e dizerem a razão porque fugiram. Fugiram porque tinham muita fome. Assim, o
Chefe mandou que fizessem pirão num prato grande com outro cheio de feijão a servir de
conduto. As crianças comeram até fartar, mas como o pirão era muito não conseguiram comer
tudo. No fim de comerem, a polícia da prisão reuniu um grupo maior de crianças da mesma
idade para torturarem, com paus, os dois irmãos incluídos, até que morreram.
Depois foi a nossa vez. Chamaram-nos para interrogatório a começar pelo meu amigo. Como
disseram que era tudo mentira, tudo quanto ele havia dito, com um alicate puxaram-lhe os
testículos até quase perder os sentidos, o que o forçava a berrar muito alto. Como era já tarde,
meteram-nos na cadeia, sem que eu fosse interrogado.
No dia seguinte, muito cedo, antes do sol nascer, tiraram-nos da prisão juntamente com outros
presos e conduziram-nos a uma mata fechada. Depois de termos caminhado alguns quilómetros
a pé, um dos que nos conduzia disparou alguns tiros para o ar, e um outro dentro da mata
respondeu com outros disparos. Era o ponto de encontro. Quando lá chegamos, encontramos um
homem fardado e, em certo momento, mais três militares conduziam um homem amarrado
dizendo: "Capitão, eis aqui o homem que o senhor nos mandou buscar".
Enquanto aquele capitão falava com o homem, ficamos surpreendidos quando um grande grupo
de pessoas, homens e mulheres, vieram em nossa direcção, o tal ponto de encontro. Eram todos
prisioneiros como nós, e lhes ordenaram para fazerem uma fila. Um militar tomou um canjavil,
que é um machado gentílico, cuja lâmina tinha só dois centímetros de largura, cuspiu nas mãos
e segurou-o com força. Foi um momento terrível; tudo à volta respirava normalidade; o sol
brilhava e o vento soprava suavemente; nada tinha mudado. Um pássaro voava de uma árvore
para outra, não se preocupando com o terrível drama que estava acontecendo ali.
Então começou a carnificina. Dois militares da UNITA seguravam os braços de um dos
prisioneiros, um em cada braço, torcendo-os para trás, um outro militar pegou-lhe na cabeça,
fazendo inclinar a pessoa para a frente, e o quarto deu-lhe deu-lhe um golpe na nuca com o
machado. Depois vinham outros militares para arrastar o morto dali. Todos os golpeados
gritavam como o gritar de um vitelo quando é morto.
Quando chegou a vez de uma mulher, ela gritou muito alto e dizia: "Ñueli ño ka njipayi!", o
quer dizer "Abusem de mim só, não me matem!"
Infelizmente o seu pedido não foi atendido, e foi também degolada como os outros. Depois foi a
vez de uma rapariga que estava grávida; o responsável daquele morticínio disse-lhe: "Tu que
fostes engravidada por um inimigo, passa para ali, - tirando-a da fila e ordenando: tirem fora o
que esta gaja tem na barriga, que foi emprenhada por um inimigo". Os outros obedecendo à
ordem, estenderam-na no chão com a barriga para cima, e espetaram-lhe um sabre no ventre
para lhe tirarem o bebé que tinha cerca de seis meses. Foi na verdade um espectáculo horrível,
aquele que todos presenciaram. Afinal, estes ainda eram piores assassinos que a PIDE.
Quando chegou a minha vez, os dois militares pegaram nos meus braços com força e quando
queriam torcê-los para trás, surgiu uma munição vinda de fora, a riscar o céu, passando rente às
nossas cabeças. O zunir daquela bala, fez paralizar os cruéis massacres e pela nossa felicidade
que ainda não tinhamos morrido, tudo aquilo foi detectado pelos soldados do MPLA que
faziam patrulha naquela área das terras de Bimbe a sessenta e cinco quilómetros do Bailundo,
que num instante se levantou um grande tiroteio para nos libertar. Os soldados da UNITA como
eram poucos não resistiram e dispersaram-se todos. Depois da libertação, os soldados do MPLA
levaram-nos para o Bailundo, estando sempre na eminência dos ataques da UNITA.
A UNITA atacava sempre de noite. E quando atacavam muita gente morria. Os soldados do
MPLA morriam às dezenas, mas também um número enorme da população civil, pois se uns
morriam com as balas da UNITA, outros morriam com as armas pesadas do MPLA,
estacionadas no morro do Bailundo, de onde disparavam indiscriminadamente contra a
povoação. Se a UNITA conseguisse escorraçar as FAPLA, e tomasse a vila, então vinham os
Migs bombardear o inimigo, matando civis e destruindo tudo.
Um dia houve um ataque em grande escala da UNITA à vila do Bailundo, donde foram expulsos
os soldados do MPLA, e pilharam todos os nossos haveres, e no fim, eu e a minha mulher, fomos
levados pelos soldados da UNITA em grande fila como cativos de guerra, cuja fila fazia mais de
cinco quilómetros de comprido, e nos levaram para a Jamba, Quartel-General da UNITA, no
Quando-Cubango. Para lá chegarmos, caminhamos a pé durante dez dias e cinco dias em
camiões, decarregando-nos no Likuwa, considerado como a base industrial da UNITA.
Dava a impressão de estarmos noutro mundo. Havia lá uma grande e boa organização e onde se
encontravam milhares de pessoas. Ficamos alojados na Missão Católica que tinha muitos padres
brancos e negros. Ao lado havia uma grande pista de aviação onde aviões americanos
descarregavam muito material bélico. Não havia dinheiro, mas as pessoas tinham tudo, sem
nada lhes faltar. As pessoas vestiam bem, e ninguém andava descalço. Cada base tinha um
hospital com muitos medicamentos, e um grande stock de comida. Durante a semana tocava o
sino duas vezes avisando que podiamos ir receber a comida que necessitassemos; em todas as
habitações havia luz eléctrica, assim como nas ruas; as igrejas eram bem organizadas, com três
denominações religiosas: católicos, evangélicos e adventistas. O hospital de Cacuchi era muito
bonito, de construção definitiva e com médicos vindos da África do Sul. Tinha grandes stocks de
medicinas; havia todo o tipo de viaturas, pesadas e ligeiras, bem como autocarros onde as
pessoas viajavam sem pagar. Os carros eram tantos, que eram precisos guardas para dirigirem o
trânsito. O ensino ia até à décima segunda classe de escolaridade, e os livros de estudo vinham
de Portugal. Os alunos andavam sempre sempre bem vestidos e com boa alimentação. Tinham
também em todas as bases cinemas com assistência gratuita. Os professores eram competentes e
tinham todo o material escolar necessário. As pessoas andavam bem nutridas comendo três vezes
ao dia. Todos os dias se comia carne, de caça e de conserva, ida da África do Sul. Havia campos
de futebol com os seus pavilhões. Também havia aeroportos onde os aviões pousavam todos os
dias, levando turistas, missionários, agentes secretos e os bens necessários. Os "turistas" eram
brancos, mas na maioria americanos. Aprendiam-se muitas artes, como carpintaria, mecânica,
electricista de rádio, etc. Como havia um grande hospital, também se aprendia enfermagem.
Muitos estudantes foram para os Estados Unidos, outros para a Europa e para outras partes do
mundo, tirando cursos. A VORGAN, a emissora rádiofónica da UNITA (Galo negro) transmitia
mensagens para todo o mundo. O material bélico que constantemente era armazenado em
lugares prontos, designados por Mateguerra (material de guerra). Cada base (zonas povoadas
pelos militantes da UNITA) era ladeada de baterias de lançamento de foguetes anti-aéreos,
contra os aviões do MPLA, e havia muitas carcaças de aviões abatidos em todas estas bases. O
MPLA constantemente lançava ataques contra estes lugares, não só ataques aéreos como
terrestres, com muito armamento sofisticado, mas foram sempre derrotados neste ataque.
Também a UNITA recebia da América armas anti-aéreas com a marca Stinger, as quais
derrubaram muitos aviões inimigos.
Eu e a minha mulher estávamos localizados na base de Luengue. Aqui havia um liceu onde eu
fora colocado como escriturário, com docentes muito competentes, africanos e europeus.
Perto daquela base corria um rio chamado Luengue muito rico em pescaria, mas também muito
abundante em jacarés, hipopótamos e cobras aquáticas. Depois de muitos dias de ali estarmos,
um rapaz foi nadar nesse rio, mas foi apanhado por dois jacarés que o despedaçaram em pouco
tempo.
Uma ocasião, estávamos a receber os géneros alimentícios trazidos da África do Sul. Um Mig
tripulado caiu e dois pilotos cubanos tiveram que saltar de pára-quedas, caindo numa mata ao
redor da base. Logo um grupo de militares saiu em perseguição dos cubanos, que apesar de
alguma resistência foram capturados e levados para a base. Jonas Savimbi recebeu-os e tratou-
os humanamente durante alguns meses, e finalmente foram libertados, tendo recebido uma
quantia em dinheiro. Era o que se dizia entre o povo. Seria uma legenda urbana?
Mais tarde fomos novamente para a Jamba. Aqui deu-se um caso muito grave e triste. Foi uma
atitude muito má do Presidente Savimbi para com as pessoas consideradas feiticeiras. Um dia
Savimbi, apareceu sem farda nem com as insígnias de General, num local devidamente alterado.
Levava nas mãos muitos papéis. Depois fez uma chamada, através dos papéis, dos nomes das
mulheres consideradas e acusadas de feitiçaria, mandando que entrassem num grande barracão
encharcado com combustível. Eram muitas as dezenas de mulheres que ali entrarem, fechando-
as lá dentro. Ouviram-se depois os gritos das mulheres, gritos de terror, que pediam misericórdia,
mas Savimbi nada se ralou com tais gritos. Depois ordenou que lançassem fogo no barracão
feito com madeira seca, capim e erva seca, e no meio daquela cena horrorosa, ouviu-se o grito de
uma mulher que tinha um filho de dois anos ao colo, que no momento de ali entrar levava o seu
filhinho a mamar. Esta mãe aproximou-se da porta e rogou:
- Se sou acusada de feitiçaria, que culpa tem o meu filho que não é culpado de nada? - Um
militar foi em busca da criança, e correndo foi junto do Presidente e disse-lhe que aquela mãe
rogou para que o filho não morresse juntamente com ela. Savimbi tomou a criança nos braços e
disse: "Filho de peixe também nada". Atirando-a para a fogueira, cujas chamas já eram muito
intensas e altas. Pergunto: Afinal em que é que Savimbi, que se considerava cristão, era melhor
que os da MPLA, considerados comunistas e ateus?
Ao fim de cinco anos da nossa estada em Jamba, houve uma grande batalha no Huambo que
durou 55 dias, onde o MPLA foi expulso da cidade pela UNITA, e que acontecera depois das
eleições de 1992, eleições que Savimbi considerou condiderou fraudelentas.
A partir desta data a UNITA dominou todo o sul de Angola, mas também algumas províncias
do Norte.
Um dia, um avião de grande porte levou-nos da Jamba até o Andulo, e do Andulo fomos em
autocarro até ao Huambo para regressar ao Bailundo novamente, a nossa terra, e
encontramos todos os nossos bens totalmente destruídos. Mas ainda não era o fim da guerra.
Como estava em disputa o poder em toda a Angola, por isso a guerra ainda não havia
chegado. Embora nesta guerra morrese muita gente, era uma guerra que não interessava a
ninguém, interessando apenas aos políticos que lutavam pelo poder. O povo, esse, é que
continuaria a sofrer. Quem morresse que morresse, nisso os políticos pouco se ralavam, e que
para ir à tropa não era pela chamada mas pelas rusgas e buscas armadas que os movimentos
políticos faziam, levando quem fosse apanhado mas principalmente os jovens, sendo muitos
deles ainda crianças, e quem tentasse escapar era sumariamente abatido. Foi desta forma que
muitas crianças se tornaram involuntariamente criminosas.
Na verdade, uma guerra civil é sempre a pior das guerras.
Chegamos ao Bailundo precisamente na sexta-feira designada sexta-feira sangrenta, em que o
Presidente do MPLA, no poder, enviara uma força militar para as ruas de Luanda para
abater a todos os que não falassem a língua Kimbundu, a língua das tribos do Norte. Como
Luanda era o refúgio de todas as tribos de Angola, fugindo da guerra, neste dia foram
milhares os que foram mortos nas ruas desta cidade. Foram necessários muitos camiões para
recolher os cadáveres por toda a Luanda. Foi um genocídio autêntico, que alguém um dia terá
que dar contas diante do Tribunal Divino. Foi isto que me ensinaram os Missionários que um
dia chegaram ao Bailundo, e que bem hajam.
Como a nossa vida estava constantemente ameaçada, e não conseguíamos vislumbrar
qualquer futuro para nós, e também com todos os nossos bens totalmente perdidos,
resolvemos aproveitar uma oportunidade de deixar Angola, e o Bailundo, a nossa amada
terra, e fugimos, eu e a minha mulher, para Portugal, com a esperança de um dia voltar, o que
aconteceu já com a minha mulher, ficando eu, actualmente como assistente numa Igreja
Metodista na cidade de Braga, da qual sou membro, e exercendo o ministério de organista, e
só D-us saberá se algum dia irei voltar à terra onde um dia nasci, mas não sabendo se lá irei
ser sepultado.
Mas a guerra lá continuou, e só terminaria com a morte brutal de Jonas Savimbi. Seria esta
morte o juízo dos homens, ou o Juízo divino? Só D-us o saberá.
Hoje só peço a D-us que torne a minha Pátria como uma terra de esperança para todos os
seus filhos, a muitos dos quais eu peço perdão pela minha má conduta durante um bom
pedaço de tempo, dominada que estava por forças satânicas. Sou um cristão arminiano. Não
há volta a dar.
Deus salve Angola. (FIM)

Nota histórica sobre a Reconciliação:


• Na Igreja primitiva, a Penitência tornou-se uma tábua de salvação para o pecador batizado. Mas propagou-se a
prática de limitar o frequente acesso ao sacramento para evitar abusos. João Crisóstomo via-se reprovado por
os seus adversários por outorgar sem descanso penitência e o perdão dos pecados aos fiéis que vinham
arrependidos.

• No século III, o rigor dá lugar a excessos e heresias. Propaga-se a heresia de Montano, que pregava que o final
do mundo estava próximo e dizia: "A Igreja pode perdoar os pecados, mas eu não o farei para que outros não
pequem mais". Tertuliano e muitos outros aderem ao "montanismo".

• Com grandes dificuldades, a Igreja superou esta heresia, esclarecendo o estatuto do penitente e a forma pública
e solene em que devia desenvolver a disciplina sacramental da penitência.
• Depois que a Igreja impôs a penitência, os pecadores constituíam-se num grupo penitencial ou "ordem dos
penitentes". Os pecados não se proclamavam em público, mas era pública a entrada do grupo já que se fazia
diante do bispo e dos fiéis.

• O "ordem dos penitentes" mantinha um longo tempo de renúncia ao mundo, semelhante ao dos monges mais
austeros. Segundo a região, os penitentes levavam um hábito especial ou a cabeça raspada.

• O bispo fixava a medida da penitência. "a cada pecado corresponde a sua penitência adequada, plena e justa".
Fixavam-se as obrigações penitenciais por meio de concílios locais, ex. Elvira, na Espanha ou Arlés, na França.
As obrigações penitenciais eram de tipo geral, litúrgicas e as estritamente penitenciais, como a vida
mortificada, jejuns, esmolas e outras formas de virtude exterior.

• Na prática ocorria que as pessoas iam pospondo o tempo de penitência até a hora da morte, fazendo da
penitência, um exercício de preparação para bem morrer, porque só podia ser exercitada uma vez.

• O processo penitencial equivalia a um verdadeiro estado de excomunhão. Até que o penitente não fora
reconciliado, não podia aproximar-se da Eucaristia. O término do processo penitencial era a reconciliação com
a Igreja, sinal da reconciliação com D-us.
• A partir do século V se realizava a reconciliação Na quinta-feira Santa, ao término de uma quaresma que, de
por si, já é um exercício penitencial.

• O bispo acolhia e impunha as mãos aos penitentes, em sinal de bênção. A prece dos fiéis era o eco comunitário
desta reconciliação.

• Enquanto, nas Ilhas Britânicas, especialmente na Irlanda, ia abrindo passo a um novo procedimento de
reconciliação com penitência privada com um sacerdote e utilizando os famosos manuais de pecados
(penitenciais), confeccionados por alguns Padres da Igreja, como Agostinho ou Cesáreo de Arlés. Das Igrejas
Celtas, esta forma de penitência propaga-se pela Europa.

• http://www.acidigital.com/sacramentos/penitencia/historia.htm

• Os manuais penitenciais estabeleciam a penitência segundo o pecado cometido e foram muito importantes para
evitar o "barateamento do perdão" e o relaxamento do compromisso cristão. Ajudaram também a desmascarar
as heresias dos séculos III ao VII. Delimitavam o que que é pecado grave, fruto da malícia e o que é pecado
leve, cometido por debilidade ou imprudência.
• Renuncia-se ao princípio de outorgar a reconciliação uma só vez na vida.

• O Concílio de Trento reiterou a fé da Igreja Católica: a confissão dos pecados diante dos sacerdotes, é
necessária para os que caíram (gravemente) depois do Batismo)
PAUSA II: EXTRAS

Armando ribeiro Simões


Travessa António Menici Malheiro, nº 35 – 2º trás, 4705-080 – Braga
27 de Fevereiro de 2006
À Igreja e a todos os portugueses Cristãos de boa fé
Assunto – Assassinato do Padre Afonso Moreira
Lamentamos dolorosamente o assassinato tão cruel do amado padre Afonso Moreira, no
Bailundo. A Igreja em Angola, especialmente a província do Huambo, teve uma perda
irreparável. Jesus disse: Mateus 10: “28 And do not be afraid of those who kill the body but
cannot kill the soul; but rather be afraid of Him who can destroy both soul and body in hell
(Gehenna)”, Amplified Bible: http://www.youversion.com/. O assassino só matou o corpo e
não a alma, que é mais importante de que o corpo.
Fico muito comovido quando penso no instrumento que o assassino utilizou para matar o
homem de Deus. Será uma catana? Uma moca ou punhal? Ou então uma arma de fogo, ou um
cacete? Eu sei lá.
Oh! Como foi, querido Padre Moreira,
o teu morrer ali no Bailundo?
Tu que nasceste para fazer o bem,
Morres desta forma tão ruim?
Certamente seguiste as pegadas do Teu Senhor Jesus.
Repousa em paz no seio do Senhor,
onde brevemente nos encontraremos.
Disse Jesus: Mateus 25: “34-36E então eu, o rei, direi aos que estiverem à minha direita:
‘Venham, filhos felizes do meu YÁOHU ABí, para o reino que vos foi preparado desde o
princípio do mundo. Porque tive fome e deram-me de comer; tive sede e deram-me água; era
estranho e convidaram-me para vossas casas; andava nu e vestiram-me; estive doente e
cuidaram de mim; estive na prisão e visitaram-me. 37-39Esses homens justos perguntarão:
‘Molkhiúl, quando foi que alguma vez te vimos com fome e te demos de comer? Ou com sede e
te demos de beber? Ou, sendo um estranho, te hospedámos? Ou nu, te vestimos? Quando te
vimos alguma vez doente, ou na prisão, e te visitámos? ? 40E eu, o rei, lhes direi: ‘Quando
fizeram isso a um destes meus mais insignificantes irmãos, a mim o fizeram!” (Mateus 25)
“Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor
Para que descansem dos seus trabalhos e
As suas obras o sigam”
(Apocalipse 14: 13 - ↓
”12 Here [comes in a call for] the steadfastness of the saints [the patience, the endurance of
the people of God], those who [habitually] keep God’s commandments and [their] faith in
Jesus.13 Then I heard further [perceiving the distinct words of] a voice from heaven, saying,
Write this: Blessed (happy, to be envied) are the dead from now on who die in the Lord! Yes,
blessed (happy, to be envied indeed), says the Spirit, [in] that they may rest from their labors,
for their works (deeds) do follow (attend, accompany) them!)” [Amplified Bible])
Querido Padre, tenho saudades de ti.
Desde aquele dia que estiveste na nossa casa
numa tarde de um domingo (dominga para ti),
nunca mais te vi,
Mas ver-te-ei lá no Palácio Celestial.
O assassino devia ser julgado em Portugal na presença dos habitantes de Vila Real, onde o
pobre Padre nasceu, para o conhecerem. Também devia ser condenado à pena capital
(http://direitoreformacional.blogspot.com/2010/07/pena-de-morte-no-novo-testamento-e-
pena.html), pois o rei David não poupou a vida daquele que matar o rei Saul. Mandou matá-
lo, depois de lhe ter dito o seguinte: “14-16″E como te atreveste tu a matar o rei escolhido por
YÁOHU ULHÍM?” E Dáoud, dirigindo-se a um dos seus mancebos: “Mata-o!” O rapaz
atravessou-o com a sua espada e ele morreu. “Foste vítima da tua própria condenação”, disse
Dáoud, “porque confessaste, tu mesmo, ter morto o rei ungido de YÁOHU ULHÍM.”" (II
Samuel 1). Qualquer padre ou cura (sacerdote) também é o ungido de YHWH – ”He-Vau-He-
Yod” (Ela-Ele/Ele-Ela, Pai-Mãe, D-us),
http://supralapsarianismo.wordpress.com/2010/10/11/damasio-%e2%80%9co-signo-o-tempo-
e-a-consciencia%e2%80%9d-maria-a-mae-de-yaohushua-era-hermafrodita-como-o-afirmam-
alguns-muculmanos/.
Quando Jesus estava no madeiro, disse: “34″ YÁOHU ABí, perdoa-lhes”, disse
YAOHÚSHUA, “porque não sabem o que fazem.” (Mateus 23). O criminoso que matou o
Padre moreira, também não sabia o que estava a fazer.
Eu, que estive cerca de quarenta anos com o Padre Moreira, sei todos os pormenores da sua
vida no Bailundo. Ele tinha, por lema, fazer sempre o Bem e amava as suas ovelhas. Quando
ouvia a voz divina como o Profeta Isaías a tinha ouvido, dizendo: “8Depois ouvi YÁOHU
ULHÍM perguntar: “Quem enviarei como mensageiro ao seu povo? Quem irá por nós?”E eu
disse, “Vou eu! Envia-me a mim.”" (Isaías 6), de imediato o Padre Moreira disse: “Eis-me
aqui, envia-me a mim”. Veio até ao Bailundo, para dirigir as populações negras ao aprisco do
Senhor com Amor.
Ia às aldeias dos nativos ensinar sobre Jesus, baptizar em Nome do Pai, e do Filho, e do
Espírito Santo, realizar casamentos, etc. Levava as crianças negras no seu colo.
Quando começou a guerra em Angola, não quis abandonar as sua ovelhas e passou grandes
tribulações. Os outros padres, seus colegas, deixaram tudo, mas ele aguentou-se com todos
os sofrimentos de guerra. Vi a sua residência a ser incendiada. Comia mal, porque as estradas
não davam acesso por causa da guerra. Sempre arriscou a sua vida. Uma vez, saiu do
Bailundo de bicicleta, passando pela estrada perigosa por causa da guerra, a ir para a
Comuna de Lunge, que estava a quarenta quilómetros de distãncia, a fim de ir realizar os
serviços que Jesus lhe incumbira, como pregar o Evangelho, baptizar, etc. Era o único branco
que estava na terra do Bailundo. Jesus disse: “11-13Eu sou o bom apacentador. O bom
apacentador sacrifica a vida pelas ovelhas. Quem é assalariado para guardar o rebanho foge
quando vê vir um lobo. Ele abandona o rebanho porque não lhe pertencem e ele não é
verdadeiramente o seu apacentador. Assim o lobo salta sobre elas e espalha o rebanho. Tal
homem foge porque é contratado e não se preocupa a sério com as ovelhas. 14-16Eu sou o Tav
Ro-éh (Bom Apacentador) e conheço as minhas ovelhas, e elas conhecem-me também, assim
como meu YÁOHU ABí me conhece e eu conheço o meu YÁOHU ABí. E sacrifico a minha
vida pelas ovelhas.”" (João 10). Alimentava pessoas famintas e vestia os que andavam nús.
Apesar de ter nascido em Portugal, era considerado como filho da terra do Bailundo, onde
passou a maior parte da sua vida. Era estimado por por todos e, por isso, o seu funeral foi
participado por milhares de pessoas que o choravam amargamennte. Foi comparado com o
Apóstolo Paulo, que disse: “7Combati o bom combate; acabei a carreira da minha vida;
guardei a fé. 8Está já preparada por YÁOHU UL a coroa de justa recompensa que YÁOHU
UL, justo Juiz, me dará naquele dia que há-de vir. E não somente a mim, mas também a todos
os que amarem a sua Vinda.” (II a Timóteo 4)
Este acontecimento não desanime a ninguém e creio que jamais se repetirá. O povo do
Bailundo, deseja que um outro padre branco, seja português ou de outra nacionalidade, venha
substituir o saudoso Padre Moreira. Na guerra, quando um soldado tomba é logo substituido
por um outro. O Apóstolo Paulo disse: “12Pois na verdade o nosso combate não é contra seres
humanos, mas sim contra as forças malignas, contra as ditaduras que actuam nas trevas,
contra verdadeiros exércitos de espíritos do mal que dominam nas esferas do mundo
sobrenatural.” (Efésios 6: Amplified Bible “12 For we are not wrestling with flesh and blood [contending only
with physical opponents], but against the despotisms, against the powers, against [the master spirits who are] the
world rulers of this present darkness, against the spirit forces of wickedness in the heavenly (supernatural) sphere”)

Que a Missão Católica do Bailundo não seja abandonada por causa de um crime praticado por um
assassino. É de referir que quem matou o Padre Moreira, foi um homem que ele tinha adoptado
como filho e já se encontra preso.
A referida Missão é muito bonita, moldurada de várias montanhas e rios de água potável. Foi
fundada por um padre pioneiro francês de nome Lecomte em 1890 e tem muitos milhares de fiéis.
Por aqui termino. Vosso no Senhor Jesus Cristo.
Armando

CONTOS E LENDAS DOS BAILUNDOS SOBRE J-SUS


Quando os bailundos receberam o Evangelho (“Boas novas de Alegria”) logo inventaram
contos e lendas sobre J-sus Cristo (YAOHÚSHUA). Na cultura portuguesa é costume as
crianças serem transportadas em carrinhos de bebé ou então nos braços das mamãs, ao
contrário das mulheres bailundas que transportam as crianças às costas presas com uma
manta de tecido. Desta maneira os bailundos pensam que também o KYRIOS (SENHOR) J-
sus, o Filho Único de YÁOHU UL (Ela-Ele/Ele-Ela, YHWH, D-us Pai/Mãe) o Criador
Eterno, era transportado às costas de Maria (Maoro-ém, Miriam) sua Mãe.
Diz então uma lenda que uma vez J-esus quando ia nas costas de sua Mãe, passaram debaixo
de uma árvore frondosa e muito alta e carregada de bons frutos. J-sus, então ao ver os frutos
pediu à sua Mãe que colhesse alguns dos seus frutos. A Mãe disse que os não podia colher
porque estavam muito altos e ela não podia lá chegar. A árvore, quando se apercebeu que o
menino desejava os frutos, ela mesma baixou os seus ramos para a Mãe de J-sus os poder
colher.
Outra lenda conta que os habitantes de Nazaré (Nudtzoróth, Natzeret) diziam que o Menino,
chamado Natzrati (Nazoreu, Nazir, talvez Nazareno) J-sus era o Filho (ha-BOR) do Altíssimo
e desta forma adivinhava sempre tudo. E um dia, quando o menino tinha oito anos de idade,
fecharam muitas crianças dentro de uma casa. Depois chamaram J-sus e lhe disseram: “Se tu
és o ha-Bor do altíssimo adivinha o que está aqui dentro!” J-sus disse que ali dentro estavam
porcos. Então todos zombaram d’Ele dizendo-lhe que afinal Ele não era o ha-Bor do
Altíssimo, porque se o fosse adivinhava que ali dentro estavam crianças. Mas ao abrirem as
portas para lhe mostrarem que Ele estava errado, de lá saíram apenas porcos, o que os deixou
a todos estupefactos, pois viram que as crianças se tinham transformado em suínos.
Uma outra lenda que J-sus tinha por hábito ir brincar com outras crianças da sua idade, e
numa destas ocasiões Ele entrou dentro da casa de um dos seus amigos, e tomando um pau
partiu tudo o que havia na casa, e fazendo ali grandes estragos. A dona de casa foi tirar
satisfações a Maria, a Mãe de J-sus, para que lhe pagasse todos os prejuízos sofridos, e
quando a sua Mãe e a vizinha foram verificar todos os estragos da casa, quando lá chegaram
afinal estava tudo em ordem, nada de mal havia acontecido.
Mas de todos os contos e lendas, existe uma estória (levemente alterada por este blogger, não
por o autor original, por razões lúdicas e pedagógicas) e que é a mais significativa: Dois
amigos, um cristão e um ateu sarcástico, iam de caminho para tratar de negócios, e no
caminho o cristão disse:
- Queira D-us que os nossos negócios nos corram bem. – Esta expressão fez zangar o ateu que
lhe respondeu dizendo:
- Se tu metes a Deus nos nossos negócios fico zangado contigo, pois os negócios vão sempre
melhor com Satanás. Com ele podemos mentir, roubar e fazer negócios fraudulentos. Com
Deus não podemos fazer nada disso.
Dali resultou uma grande discussão entre os dois a ponto de se zangarem e a quererem bater-
se em duelo. O cristão dizia dizia que D-us era melhor porque foi Ele que nos criou e nos dá
tudo o que carecemos. Também nos deu o seu Filho YAOHÚSHUA que veio salvar-nos da
morte (e do Seio de Abraão) presente (para nos colocar “debaixo do Altar [...] com uma bata
branca1 [...] para [que descansassemos] ainda algum tempo, até que [fique] completo o
número dos [nossos] companheiros e irmãos que iriam ser mortos [por efeito de uma
acção passada e presente e futura de Satanás]“, vide Apocalipse 6) e da escatológica. 1 A
veste branca mostra que os mártires cristãos já participam na vitória da Ressuscitado.
O ateu, porém dizia, que melhor era Satanás que nos facilita mais as coisas. Então este disse:
- Vou fazer-te uma proposta: às três primeiras pessoas que se vierem a cruzar connosco no
caminho vamos colocar a nossa questão; se todas disserem que é Satanás o melhor, eu te
arranco os olhos. Se for ao contrário tu arrancas os meus!
O cristão aceitou o desafio pois tinha a certeza que todos diriam que era o Eterno melhor
que Satan. Andada pequena distância, logo lhes surgiu o primeiro encontro: um ministro
protestante carregando muitas Bíblias e a caminho de realizar um Ofício de Casamento, a
quem logo colocaram a questão. Então o pastor disse que não se confundissem. “Toda a gente
sabe que Satanás é sempre melhor de que o Eterno. Eu sou pastor de Igreja mas confio mais
em Satanás. Ele tem-me dado tudo o que preciso e por isso nada me falta. Todas as pessoas
que confiam em Satanás têm boa vida e nada lhes falta também. Os que confiam no Eterno
são sempre os mais miseráveis deste mundo”. A resposta do clérigo entristeceu o cristão.
Depois de caminharem mais uma distância encontraram um diácono que se dirigia para a
igreja. Fizeram-lhe a mesma pergunta, se era o Eterno ou Satanás o melhor, e ele foi dizendo
que o “Diabo é sempre o melhor, pois sem este ente operativo nada podemos fazer. Ele é que
nos a dá sorte de possuir riquezas. Eu sou diácono da Igreja, mas o meu S-nhor é o Diabo!”
O ateu disse ao cristão que só faltava uma resposta igual para lhe arrancar os olhos.
Assim, avançaram mais uma distância e se encontraram com um padre que ia a caminho da
sua paróquia e igreja para conduzir a celebração da Missa, como acção do Cristo à imagem
do magistério católico e do sacerdócio hierarquicamente ordenado. Este era um padre secular
(o que muitas vezes consiste numa espiritualidade truncada) e não um sacerdote religioso que
exerce o seu múnus pastoral com a componente de plenificar-se de D-us, de deificar-se na vida
do otium sanctum, quer dizer na vida de contemplação e louvor à TRINDADE, trabalho
manual e intelectual e vida comunitária. Os planos pastorais do seu superior hierárquico não
eram do agrado do padre secular; ele buscava a Coelesti Hierarchia dos Ares. E é isso que
transmite aos seus interlocutores: “O Princípe dos Ares é sempre melhor do que a Trindade;
se vocês quiserem ter êxito nos vossos negócios façam-nos com o DIABO e não com o
ETERNO e verão que tudo corre melhor. Diz o Livro sagrado e as Lendas gregas: ‘pois os
filhos deste sistema económico são mais sábios, em sentido prático, para com a sua própria
geração, do que os Filhos da Luz.
9 «Eu vos digo [J-sus] também: Fazei para vós [das Potestades dos ares] amigos, por meio das
riquezas injustas, para que, quando estas vos falharem, vos recebam [as Potestades] nas
moradias eternas» [no Tártaro, diz a legenda ' [na] porta do Tártaro e [na certeza de
ultrapassar o seu umbral] -com a licença expressa do feroz Cão cerbero [na realidade um
demónio], naturalmente-, e [de entrarem] nos escuros abismos de tão sinistro lugar. Depois de
deleitar com [as sua cítaras] e as suas canções [o que significa, eufemisticamente, o pacto com
o Diabo] o próprio [Satanás], [resolvem rogar a Satanás] que [lhes] permitisse sair [..] do
Tártaro, ao qual acedeu a terrível deidade, com a condição [de que os Filhos de Satanás não
olhassem para trás, para comprovarem que os seus correligionários seguiam o primeiro que
indicava a saída], enquanto não se encontrassem [todos] fora daquelas [moradias eternas].
[Aceitaram] [...] tais condições e [cada um] dispôs-se a caminhar para a saída do Tártaro;
quando já se [encontrarem] praticamente fora daquela região escura, [sentirão] a necessidade
de comprovar se os [...] seus [pares os seguiam] e, sem lembrar-se da condição imposta [pelo
Diabo] [...], [cada um] virou a cabeça para [...] olhar’. Mas só [conseguiram] ver, entre
[assustados e atônitos], como [os co-associados][...] [convertiam-se] em brumas e
[desapareciam] para sempre’, [original: http://calucalivros.forums-free.com/lendas-mitos-
t31.html]‘, Lucas 16:8b.9. Nunca olhar para trás (i.e., para D-us). Eu sou padre mas o meu S-
nhor é Satanás!”
O ateu, então, com a ajuda do padre, arrancou os olhos ao cristão, conforme o trato que
haviam feito e o deixaram abandonado à sua sorte. Era já quase o anoitecer. O pobre cristão
saiu dali e foi sem direcção porque nada via, e foi dar a uma caverna na encosta de uma
montanha onde entrou, lamentando a sua sorte. Lá pela meia-noite ouviu um ruído da parte
de cima da caverna. Ele não sabia que o primeiro piso da caverna era a residência do Diabo e
dos seus súbditos, e naquele dia havia muita agitação, pois era o dia da chegada dos
emissários que Satanás tinha enviado ao mundo exterior para desviar as pessoas, não as
eleitas, mas as seculares e as cristãs arminianas e romanistas que não são escravas (e
eleitas) de Maria (calvinismo católico, melhor montfortinismo católico, vide Tratado da
Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem), dos caminhos de Cristo. O cristão então ouviu
o Glorioso (Satanás, carta de Judas) a dizer:
- Eu vos convoquei para ouvir os relatórios da vossa missão. - Assim um desses emissários
começou a ler o seu relatório e dizendo:
- Eu persegui um homem que era cristão fervoroso. Parece que tinha lido o Kanódgaluth
(Apocalipse) 14: 4, que diz: “Estes são espiritualmente limpos, puros como virgens”. Ele não
queria contaminar-se com mulheres, e por isso fiz com que chovesse torrencialmente e me
transformei numa menina de cinco anos de idade e me aproximei a chorar da cubata daquele
homem. Ele, quando me ouviu chorar, compadecido de mim, pensando que fosse uma criança
perdida, levou-me para a sua cubata. Como estava toda molhada e com frio, acendeu uma
fogueira para me aquecer. Depois comecei a ter sono e como só havia uma cama, deitou-me
juntamente consigo. Ele dormia numa banda e eu noutra. Ao amanhecer eu me transformei
numa moça crescida e bonita. Ele vendo a mina formusura não resistiu à tentação… Desde
então ele se tem perdido com outras mulheres deixando de ser cristão.
Mediante este relatório, o Glorioso ficou muito satisfeito e disse:
- Escravo excelente no teu labor e fiel, entra no gozo do teu S-nhor. Como haverá alegria no
Céu por um pecador que se arrepende, assim também há alegria no Reino do Glorioso por um
cristão antinomiano que se desvia para se perder. Pois era um cristão arminiano. Bem
selecionado!
O outro emissário também relatou o seu testemunho dizendo:
- Encontrei dois amigos aqui perto da nossa Moradia que iam tratar dos seus negócios. Um
era cristão praticante e o outro ateu na práxis. Fiz com que discutissem sobre D-us e o
Glorioso (refiro-me a vós, Vossa Iniquidade Predestinada), qual de vós seria o melhor para a
vida das pessoas não eleitas por o ETERNO. Durante a discussão o cristão dizia que o He-
Vau-He-Yod (Pai-Mãe, D-us) era melhor que Vossa Iniquidade Predestinada, e o o ateu dizia o
contrário. Depois o ateu fez uma proposta para que às três primeiras pessoas com quem se
cruzassem lhes colocariam a mesma questão, que achavam elas quem seria o melhor: se D-us
ou Satanás? Mas induzi o ateu a propor ao cristão que se todas dissessem que o melhor fosse
Satanás, teria que lhe arrancar os olhos. Assim, passei à frente deles e me transformei num
ministro protestante arminiano que ia carregado de Bíblias a caminho da sua congregação.
Eles lá me fizeram a pergunta, e a minha resposta só podia ser uma: Vossa Iniquidade
Predestinada era o melhor. Depois, mais à frente tranformei-me num diácono arminiano.
Quando me perguntaram a mesma dúvida voltei a dar a mesma resposta. O cristão ia ficando
muito sorumbático não entendendo como é que um pastor e um diácono podiam dizer aquelas
coisas, sendo eles, como se diziam ser, escravos de D-us. Voltei a avançar e mais adiante surgi
como um sacerdote católico ordenado, um cura a caminho da igreja para celebrar missa.
Voltaram a colocar a mesma pergunta que foi alvo da mesma resposta dos anteriores
interlucutores, rivais do cura. Assim o ateu e eu arrancamos os olhos ao cristão e o
abandonamos à sua sorte. Ora nem o Diabo nem os seus demónios sabiam que o cristão
estava a escutar tudo aquilo.
Então o Glorioso disse:
- Isso que fizeste não tem nenhuma importância, porque mesmo que um homem fique sem os
olhos sempre pertence a YAOHÚSHUA, se for um “Vaso de Honra” (ELEITO).
Depois um outro das Potestades do Ar também falou e disse:
- Se o cristão soubesse que bastaria pegar numa folha verde de planta e passasse com ela no
lugar dos olhos, recuperava-os novamente.
Quando o cristão ouviu isto, saiu da caverna e às apalpadelas foi em busca de uma folha verde
e fresca de uma planta; passou com elas nos olhos e logo ficou a ver perfeitamente. Voltou a
entrar na caverna para passar o resto da noite e teve um sono profundo só acordando quando
a manhã e o sol já iam altos. Quando se levantou para sair da caverna e continuar a viagem,
ficou surpreendido por uma abertura que se abriu numa das paredes da caverna e que dava
acesso à tesouraria de Satanás, onde estavam depositadas muitas riquezas. Depois ouviu uma
voz que dizia: – Entra; tira o que quiseres. – Ele então entrou e de lá tirou ouro, dinheiro e
pedrarias preciosas, ficando deste modo muito rico.
Um dia ele encontrou-se com o amigo ateu o qual ficou muito admirado de o ver tão rico e já
com os olhos. O cristão explicou-lhe o que havia acontecido e ele pediu ao cristão para o levar
a essa caverna com o fim de tirar de lá o seu quinhão e ficar rico também. Ora aquele dia era
também dia de regressarem as Potestades de Satanás. Depois de desviarem as pessoas do
Caminho. Pela meia-noite ouviu o que também o amigo cristão ouvira, os relatos como cada
um deles se transformava em formas para desviar os crentes de seguirem o ETERNO,
enganando-os, sendo ele também um dos enganados. Mas um dos emissários então disse:
- Antes de continuarmos a apresentação dos relatórios, será melhor irmos primeiro fiscalizar a
nossa tesouraria, porque no outro dia quando aqui estávamos a relatar os nossos trabalhos,
estava um homem na nossa tesouraria de onde levou quase todo o nosso tesouro.
Assim, o Glorioso mandou lá um dos seus súbditos e quando lá chegou encontrou o ateu
(Romanos 13, Amplified Bible: ”For if you live according to [the dictates of] the flesh, you will
surely die. But if through the power of the [Holy] Spirit you are [habitually] putting to death
(making extinct, deadening) the [evil] deeds prompted by the body [ateísmo], you shall [really
and genuinely] live forever.14 For all who are led by the Spirit of G-d are sons of G-d.15 For
[the Spirit which] you have now received [is] not a spirit of slavery to put you once more in
bondage to fear, but you have received the Spirit of adoption [the Spirit producing sonship] in
[the bliss of] which we cry, Abba (Father)! Father!16 The Spirit Himself [thus] testifies
together with our own spirit, [assuring us] that we are children of G-d.17 And if we are [His]
children, then we are [His] heirs also: heirs of God and fellow heirs with Christ [sharing His
inheritance with Him]; only we must share His suffering if we are to share His glory.18 [But
what of that?] For I consider that the sufferings of this present time (this present life) are not
worth being compared with the glory that is about to be revealed to us and in us and for us
and conferred on us! ). Prenderam-no e logo o mataram. O seu corpo foi queimado e as cinzas
lançadas ao rio.
Moral da história: “20 YÁOHU ULHÍM abençoa os que obedecem consciente e
reflectidamente à sua Palavra, e os que confiam em YÁOHU ULHÍM serão felizes”
(Maush’léi, Provérbios 16: 20 –
http://www.yaohushua.org.il/portugal/Velho/MAUSH’LAY.html; este é o Fiat dos eleitos
(predestinados, porque Ele-Ela (D-us) disse, através do hagiógrafo: “Romanos 14 Pois todos os
que são guiados pelo Espírito de D-us, esses são filhos de D-us. 15 Porque não recebestes o
espírito de escravidão, para outra vez estardes com temor [no contexto, de que o Demónio
procure recuperar as riquezas no poder do cristão; o Eterno YÁOHU ULHÍM será o seu
ESCUDO defensivo, Ele-Ela porá em movimento o MAL:
http://magcalcauvin.wordpress.com/2010/10/05/escola-sabatista-escola-dominical/]“),
igualmente de todos os arminianos que confiam na Graça).

¿Hay algo más allá de la muerte?