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COLEÇÃO PSICOLOGIA SOCIAL Regina Helena de Freitas Campos

Coordenadores:
Pedrinho Arcides Guareschi -Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul Pedrinho A. Guareschi
(PUCRS) (Organizadores)
Sandra Jovchelovitch London School of Econornics and Political Science (LSE) -
Londres
Conselho Editorial:
Robert M. Farr - London School of Econornics and Political Science (LSE) -Londres
Denise Jodelet - L'École des Hautes Êtudes en Sciences Sociales - Paris
Sílvia Lane - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP)
Regina Helena de Freitas Campos - Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
Angela Arruda -Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Tânia Galli Fonseca -Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
PARADIGMAS EM
Leôncio Carnino- Universidade Federal da Paraíba (UFPA)

Psicologia social contemporânea (Livro-texto)


PSICOLOGIA SOCIAL
Vários autores
-As raízes da psicologia social modema A Perspectiva Latino-Americana
Robert M. Farr
- Representando a alteiidade
Angela Arruda (Org.)
Paradigmas em psicologia social
Regina Helena de Freitas Campos e Pedrinho A Guareschi (Orgs.) 2" Edição
- Gênero, subjetividade e trabalho
Tânia Galli Fonseca
- Psicologia social comunitária
Regina Helena de Freitas Campos e outros
- Textos em representações sociais
Pedrinho A Guareschi e Sandra Jovchelovitch
- As artimanhas da exclusão
Bader Sawaia (Org.)
- Representações sociais e esfera pública
Sandra Jovchelovitch
- Os construtores da informação
Pedrinho A Guareschi e outros

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação {CIP)


{Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Paradigmas em psicologia social : a perspectiva latino-americana I Regina Helena
de Freitas Campos, Pedrinho A. Guareschi (organizadores). -Petrópolis, RJ :
Vozes, 2000.

Vários autores
ISBN 85.326.2276-3

1. Psicologia social- América Latina


L Campos, Regina Helena de Freitas. !L Guareschi, Pedrinho A., 1940-. EDITORA
99-4569 CDD-302.098 VOZES
Índices para catálogo sistemático: Petrópolis
1. América Latina :Psicologia social 302.098 2002
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A PSICOLOGIA SOCIAL NA AMÉRICA países latino-americanos, através de sua ignorância e de
LATINA: POR UMA ÉTICA DO propagandas subliminares.
CONHECIMENTO Durante o golpe militar no Brasil, em 1964, surgiram
iI cartilhas onde a palavra Revolução era associada com
Silvia Tatiana Maurer Lane figuras dramáticas, em branco e preto, no decorrer do tex-
I, to, o significado de Revolução era transformado, através
de cores, em crianças loiras e saudáveis, empunhando uma
bandeira brasileira, significando uma nova revolução ...
Ditaduras "incorruptas", veiculadas através dos meios
de comunicação de massa, permitiram corrupções em to-
Características históricas da América Latina dos os níveis, principalmente nos altos escalões do gover-
no. Após os períodos ditatoriais, as eleições eram
Somos povos colonizados pelos espanhóis e portugue- decididas por slogans como "Rouba, mas Faz ... " E a cor-
ses, além dos aventureiros anônimos vindos de toda a rupção passa a ser instituída como uma característica do
Europa e, para um historiador, encontrar sujeitos puros político profissional.
nessa miscelânea cultural e racial tornou-se um objetivo Nesse contexto surge a industrialização multinacional,
difícil de ser atingido, porém de uma riqueza incalculável a procura de mão-de-obra barata e, conseqüentemente, do
para o conhecimento científico da Psicologia Humana. abandono da pequena agricultura, responsável pela ali-
O poder da sabedoria dos aborígenes, mais evoluídos mentação do dia-a-dia de quase toda a população. Enfren-
do que os europeus em termos culturais, foi desarmado tando todos estes problemas, com algumas variações, os
pela violência e pelo uso da força, a fim de se apoderarem psicólogos sociais de vários países da América Latina
de ouro e prata, utensílios valiosos economicamente e não questionaram o significado do seu conhecimento na in-
por sua beleza artística. fluência sobre a realidade social existente.

O período chamado de colonização foi antes uma época


de espoliação de riquezas, sem consideração aos valores As origens da psicologia social na América Latina
estéticos e ético-religiosos das culturas indígenas na Amé-
A convicção da possibilidade de atuar no sentido da
rica Latina, minerais tidos como valiosos na Europa e que
justificaram as barbáries cometidas. transformação de um povo ignorante em uma comunidade
capaz de tomar a direção de uma nova realidade sócio-po-
A procura de liberdade levou os países latino-america- lítica levou educadores, como Paulo Freire, a desenvolve-
nos a declararem a sua independência, através de lutas, rem procedimentos instrumentais em seu sentido mais
de acordos, de tratados. República e democracia eram amplo: ler e escrever como ferramentas para o desenvolvi-
temas de debates entre facções políticas, através de dis- mento da consciência social. Sua proposta de trabalho
cursos utópicos. A realidade social e política caracterizou- apontava para os pequenos aglomerados sociais como
se como anárquica, justificando golpes militares e dita- possibilidades de virem a se constituir em comunidades
duras impostas pela força. autônomas, organizadas para a reivindicação de providên-
Forças físicas, através de prisões e torturas, e forças cias governamentais, tendo em vista a satisfação de ne-
intelectuais como a ideologia e a censura oficial, facilmente cessidades básicas para a sua sobrevivência.
internalizadas, através dos meios de comunicação de mas- Orlando Fals Borda, na Colômbia, também procurava
sa, conseguiram dominar grande parte da população dos soluções para um trabalho científico de conhecimento e de

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p-···-

intervenção, para atuar em grupos sociais, visando o de- peculiar. A psicologia deveria se tomar uma ciência compro-
senvolvimento de consciências individuais e grupais. metida, política e eticamente, jamais neutra ou universal ...
Foram estes dois intelectuais que impulsionaram uma
procura, por parte dos psicólogos, de novos caminhos para
um conhecimento concreto da realidade social em que vivía- As origens da psicologia
mos e de uma ação transformadora através da participação A Filosofia, considerada uma forma de saber e de re-
consciente dos indivíduos que constituem uma comunidade. flexão crítica sobre o homem, a natureza, a ciência, a lógica,
A Educação Popular passa a ser o desafio de pedago- a ética, a estética e a metafísica, constitui a base da cultura
gos, psicólogos, assistentes sociais e também militantes ocidental. A partir da mitologia grega ela foi se racionali-
políticos. Atividade essa a ser desenvolvida junto aos tra- zando, na tentativa de encontrar explicações do inexplicá-
balhadores e suas famílias, visando a constituição de uma vel. Até os nossos dias vivemos à procura de respostas às
comunidade. questões propostas pela Grécia Antiga, característica pri-
mordial do século XX.
A expressão Psicologia Comunitária já era consagrada,
porém com uma forte conotação de paternalismo, rechaça- Aristóteles, com sua lógica formal, procurou desvendar
do por todos aqueles que lutavam pela autonomia e cons- a natureza; Platão, discípulo de Sócrates, questionava a
ciência social. própria realidade e, conseqüentemente, o saber desenvol-
vido pelo ser humano. Alguns séculos antes, Heráclito lan-
Diante dessa ressalva, psicólogos, em geral professo- çava as raízes da dialética. Os estóicos prepararam o
res em universidades, começaram a desenvolver uma nova terreno para o desafio ético trazido pelo cristianismo; pode-
Psicologia Comunitária, levando alunos a realizarem está- ríamos continuar desfilando nomes e temas debatidos ao
gios junto a essa população, procurando a sistematização longo de séculos, tendo o homem e Deus como as grandes
de uma área de atuação profissional. Em alguns países incógnitas para a explicação do Universo. Deus foi o grande
essa iniciativa partia da Igreja Católica, através da divul- tema da Escolástica durante a Idade Média. O ser humano
gação da Teologia da Libertação, contando com a partici- foi o desafio do Renascimento, desde os seus valores éticos
pação de intelectuais e militantes políticos. e estéticos, de sua capacidade de conhecer o mundo que o
As várias experiências realizadas, em diversos países da cercava, dando origem às ciências que chegaram até nossos
América Latina, ensinaram-nos que jamais o saber profissio- dias. A Psicologia tinha por objetivo estudar a alma humana,
nal deveria dominar o saber popular, muitas vezes mais porém, frente à impossibilidade de constatá-la empiricamen-
correto do que aquele. Portanto, tomou-se imprescindível o te, como convém a um saber científico, passou a observar as
resgate desse saber para que se pudesse, efetivamente, ações e reações do ser humano.
realizar trocas entre pessoas aparentemente diferentes. Wundt em seu laboratório considerou o Homem como
Também através destas experiências, descobrimos um organismo dentro de uma escala filogenética, porém a
que as relações grupais entre pares eram fundamentais natureza social deste ser já o perturbava bastante, levan-
para a superação de um individualismo profundamente do-o a questionar as características sociais dos agrupa-
arraigado. A constatação de condições sociais comuns, mentos humanos, à procura da sistematização de uma
responsáveis pelos problemas vivenciados como pessoais, ciência psicológica.
se tornava um vínculo de identidade social. Para um ver- Enquanto isso a Filosofia se recolhia em sua torre de
dadeiro conhecimento do ser humano era necessário con- marfim ou de Babel com suas múltiplas linguagens e, sem
siderá-lo como uma totalidade que se constituía a partir dúvida, foi Marx quem denunciou este distanciamento da
das relações sociais vividas num contexto sócio-histórico realidade, procurando recuperar a materialidade da histó-

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ria social, através da lógica dialética conforme proposta o bastante para destruir o seu planeta, ou para criar um
por Hegel. novo mundo.
Não podemos negar a revolução das ciências humanas Segundo Spinosa, um ser integrado em um universo
desencadeada pela obra de Marx, que nos obrigou a repen- panteísta, ou seja, Deus, Homem, Natureza, constituindo
sar o ser humano, se por um lado como um ser alienado, uma unidade indissolúvel e em sua Ética more geometricus
por outro, como sujeito da história de sua sociedade, con- procurou demonstrar essa unidade. A ação, o pensamento
tradição aparentemente insuperável. e os sentimentos, nos conduzem a atividades criadoras ou
A necessidade de se construir uma Psicologia Crítica destruidoras, dependendo de nossa vontade.
capaz de recuperar o homem enquanto agente de sua O que será esta vontade? Um impulso, um instinto?
história foi o grande desafio vivido na América Latina, Raízes biológicas do ser humano que se transformaram
como uma possibilidade de contribuir para a eliminação historicamente em sentimentos sociais, denominados de
das injustiças sociais, da opressão e da ignorância alienan- desejos, de libido ... Querer, como dizemos cotidiana-
te social e psicologicamente. mente, significa o quê? Querer bem, querer comer ou
beber, querer saber, querer vencer? Ele denota uma ne-
Esta se tomou a característica de uma Psicologia Social
cessidade, a falta de algo. E as necessidades têm origens
latino-americana quando, principalmente na década de 70,
biológicas (fome, sede, etc.}, mas também são criadas
tomou-se necessária uma reflexão crítica e uma ação com-
prometida socialmente, a fim de que ela se tomasse efeti- social e culturalmente.
vamente uma práxis científica a serviço de transformações Impulso para agir: poder e ação. O ser humano, ao agir,
sociais urgentes. transforma a natureza e se transforma. Porém, o que o leva
A Filosofia se afasta das questões metafísicas e volta- a agir?
se para a Pessoa, determinada, condicionada, construída Poder? Potência? Impulsos? Instintos? Ou, simples-
pelas condições históricas que a geraram. O cotidiano mente, estar Vivo?
passa a ser objeto de análise. Um novo universo se abre
para a investigação filosófica e psicológica. Estar de posse da vida significa sentir. Darwin (1913),
através da constatação de uma escala filogenética, cons-
O cotidiano, a história, a sociedade, a cultura, são os tata nos animais a presença de emoções muito semelhan-
grandes desafios para o conhecimento desse Ser Humano: tes às dos seres humanos, sempre desencadeadoras de
um Ser inserido em uma escala filogenética, segundo Dar- comunicações e ações.
win (1913), e uma Pessoa ontogenética, segundo Vigotski
(1990), inseparáveis na constituição de uma nova espécie:
Homem-Mulher.
A estética e a criatividade
Pé no chão da história da sociedade e da cultura são os
desafios tanto da Filosofia como da Psicologia. Quem é Retomar a questão emocional na constituição do psi-
este ser humano, antropóide transformado por descobrir quismo humano significa enfrentar velhos desafios da Psi-
uma ferramenta e ter que explicar para que ela serve ... ? cologia, ou seja, como se dá o processo criativo no ser
humano. A capacidade de encontrar soluções novas, de
inventar a própria história da humanidade, como ocorreu,
O ser humano, uma grande incógnita por exemplo, com um gênio como Leonardo da Vinci, no
século XV. Poderíamos citar uma relação infinita de ho-
Segundo Darwin (1913), seria um elo perdido entre mens e mulheres criativos que marcaram a nossa cultura,
os paleolíticos. Porém o ser humano está aqui, poderoso além dos anônimos cotidianos, pois a capacidade de criar

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é inerente ao ser humano, assim como sentir emoções. outro através dos sentimentos vividos durante o processo
Como já afirmamos, elas se constituem primitivamente na criativo e o produto final conta este percurso.
escala filogenética. No ser humano, elas se associam à
linguagem e ao pensamento no desencadear do processo A catarsís, como aponta Vigotski (1972), em sua Psico-
ontogenético que o constitui. logia da Arte, é caracterizada como um processo de per-
cepção e emoção estética, resultante da contradição entre
As emoções estão presentes nos animais e repre- forma e conteúdo. Tudo indica que o mesmo processo
sentam a garantia da sobrevivência das espécies, porém ocorre na criação artística, porém num sentido contrário,
é no ser humano que elas irão constituir as bases da há um sentimento indecifrável que se gostaria de concre-
comunicação, ao se relacionarem com palavras, pensa- tizar, daí a necessidade de se criar algo de novo ...
mentos, imaginação, desenvolvendo a fantasia, tão rica
nos primeiros anos de nossas vidas. As histórias da Caro- A pressuposição de que as emoções nos seres vivos (e
chinha que o digam ... aí incluo as plantas) são os desencadeadores da ação e da
comunicação entre as espécies, parece ser indiscutível,
Porém o conhecer, o descrever a realidade que nos porém elas, desde muito cedo na História da Humanidade,
cerca tornou-se uma necessidade básica para a sobrevi- foram associadas às palavras e pensamentos, conseqüên-
vência dessa nova espécie, recém-surgida, denominada cia do salto ontogenético, constituindo portanto pontos de
de Humana. partida para o estudo da Criatividade.
E as emoções, a imaginação, a fantasia? Seriam elas Por enquanto, contamos com emoções, ações, lingua-
reações primárias desprezíveis? Ou a matéria-prima da gens (códigos) e pensamento para imaginar, fantasiar,
criatividade? A sensibilidade foi sempre um adjetivo atri- criar algo único. Esta é a característica reconhecível numa
buído a artistas, em oposição à racionalidade do cientista, obra de arte - ela é única.
sentir e pensar se opuseram na construção de uma cultura
ideológica, traduzida em códigos complexos, instituciona-
lizados, cristalizados socialmente. Ética e moral
As expressões artísticas que acompanham o ser humano Se a criatividade e a estética têm suas origens nas
desde que ele aprendeu a falar e denominar os seus senti- condições filogenéticas do ser humano, a moral, a partir da
mentos têm suas raízes nas emoções, as Artes constituem linguagem e do pensamento, desencadeados pelas emo-
códigos de comunicação que desafiam a racionalidade, po- ções, irá constituir o processo ontogenético, criando uma
rém também pretendem expor a sua visão da realidade. nova espécie: Homem-Mulher, responsáveis pelo primeiro
São canais de comunicação social, entre ser e seme- agrupamento humano - a Família.
lhantes, na sua constituição filogenética, animais e seres A racionalidade foi a grande característica do homo
humanos são emotivos e contam a sua história em duas sapíens, a qual deveria ser conhecida e desenvolvida pela
direções: filogenética e ontogenética. Creio que a primeira Filosofia, e, conseqüentemente, tornar-se o tema central
manifestação deste ser foi a arte, pois era preciso contar da pesquisa psicológica.
uma história de sobrevivência, de lutas e de prazeres. Já
era um código de comunicação que dispensava as pala- Esse desafio caracterizou toda a história da Psicologia,
vras, porém necessitava delas para chamar a atenção do com exceção da Psicanálise, à procura de um status cien-
companheiro para a beleza contemplada. tífico, experimental, positivista, neutro e universal.
A Arte se constitui num código de comunicação suí Freud denunciava a presença de instintos, de pulsões,
generís no qual a expressão emocional é transmitida ao difíceis de serem observados e constatados e preocupava-

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se, prioritariamente, com a sanidade mental, comprometi- cristã. Porém, pouco se realizou pela sobrevivência da
da com as repressões de uma época vitoriana preconcei- espécie: guerras, genocídios, destruição possível da hu-
tuosa, ignorante no que diz respeito ao ser humano, en- manidade e do planeta, são as características da civiliza-
quanto produto sócio-histórico. ção do século XX. As instituições ditaram valores e papéis
Wundt desafiou o conhecimento do ser humano; criou a fim de garantirem a sobrevivência da sociedade: é preci-
o seu laboratório de acordo com os modelos das ciências so sentir e agir de formas prescritas para que ela sobreviva
físicas e biológicas. Medidas sensoriais de tempo de rea- tal e qual.
ção de respostas e sentimentos constituíam o desafio des- Porém o ser humano, nesta encruzilhada entre o filo e
ta nova ciência denominada de Psicologia. o ontogenético, devem individualmente decidir o caminho
Aprender, saber, falar, fazer, expor, comprovar, toma- a percorrer? Ou deve acatar as normas éticas definidas
ram-se os grandes temas que orientaram as pesquisas e pelas instituições?
experimentos durante várias décadas de produção cientí- Todos estes valores existentes em nós - seres ontoge-
fica. As emoções eram consideradas reações primitivas, néticos - constituem contradições vividas desde a adoles-
perturbadoras do desenvolvimento da grande conquista cência à maturidade e à velhice.
humana, ou seja, falar e pensar.
Será a ética superior à moral?
Na vida cotidiana, as emoções deveriam ser reprimidas,
pois perturbavam a racionalidade e a saúde psicológica. A Será a sociedade superior ao indivíduo, ou este é res-
consciência estava salva. Falar, demonstrar, convencer, de- ponsável pela sociedade da qual faz parte?
veriam ser as armas invencíveis do ser humano. Esta é a contradição a ser enfrentada no século XXI.
Cientes de que eles não eram, nem passarinhos, nem
cães ou gatos, foi necessário criar normas para garantir a
sobrevivência dessa nova espécie. Aqui surge um primeiro Conclusão
paradoxo: não somos animais, mas somos animais ... Como convém à Filosofia, cabe a ela questionar esses
Algo nos diferenciou na escala filogenética: a comuni- valores. Diz a Encyclopaedia (1972): "A ética é o estudo
cação é a ferramenta. Não era mais preciso gesticular nem sobre a natureza dos conceitos valorativos: bom-mau, de-
fazer caretas, bastava falar, pensar e inventar. ver (ought), certo-errado, e dos princípios gerais que justi-
ficam as nossas ações em qualquer situação. É também
Inventar o quê? A maioria dos mitos de origem referem- denominada de Filosofia Moral".
se ao ser humano, ao universo e a divindades. São criações
necessárias para garantir a sobrevivência dessa nova es- O caráter essencialmente social dos valores morais
pécie: a memória e a capacidade de transmiti-la. individuais afirma: "isto é errado; você não pode fazê-lo;
que coisa feia!" ...
Mas também as normas e valores são inseridos nas
ações cotidianas a fim de fazer prevalecer a espécie humana. Enquanto a Ética questiona: Por que é errado? Por que
Ela fala, ela pensa, ela inventa e ela transforma o seu meio não posso? Por que é feio? ...
ambiente, em colaboração com os seus pares e pela natureza A Psicologia já conseguiu detectar a afetividade ine-
que a cerca. É assim que foram criadas a sociedade e as rente ao significado de uma palavra. O Diferencial Semân-
instituições, ditando normas e valores a serem preservados. tico de Osgood, May e Miron (1975: 394) demonstrou a
Não matarás, não roubarás, etc., etc. Os Dez Manda- existência de três fatores universais: o valor, a potência e
mentos foram o primeiro código ético da civilização greco- a atividade; reproduzindo, segundo ele, as três dimensões

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da afetividade propostas por Wundt: agradável-desagra- OSGOOD, C.; MAY, W.H.; MIRON, M.S. (1975). The Cross-Cultu-
dável, tensão-relachamento e excitação-calma. ral Universais oi Affective Meaning. Urbana-Champaign
Univ. of Illinois Press. '
E é esta palavra que orienta as ações humanas, ge-
rando ordens de acordo com as normas preestabeleci- SPINOSA, W. (1934). Ethique. Trad. de Charles Appuhn. Paris, Garnier.
das, ou questionando o seu significado e, conseqüen- VIGOTSKI, L.S. (1990). Obras Escogidas. Madrid, Visor, Vol. 1.
temente suas ações, criando assim a contradição própria _ (1972). Psicologia dei Arte. Barcelona, Barrai editores.
da espécie humana:
Ser ou não ser?
É a grande questão moral. Qual será a sua equivalência
ética? "Por que somos o que somos?"
E a resposta está na concepção de ser humano que
adotamos: podemos ser meras criaturas à mercê de forças
superiores, ou então podemos nos tomar sujeitos da His-
tória de nossa sociedade, ou seja, capazes de decidirmos
sobre quais os valores éticos que irão orientar nossas
ações e interações.
Para tanto cabe à Psicologia desvendar como são cons-
tituídos os valores morais e éticos no psiquismo humano,
estruturados em categorias como a Atividade, a Consciên-
cia, a Metividade e a Identidade.
Concluindo, proponho como um paradigma para a Psi-
cologia Social na América Latina a investigação sistemáti-
ca destas questões, a fim de orientar uma práxis trans-
formadora, visando tomar o ser humano Sujeito consciente
da História da Humanidade.

Referências bibliográficas
DARWIN, Ch. (1913). The expression of Emotions in Man and
Animais. New York, Appleton.
ENCYCLOPAEDIA Britannica (1972). London, William Bento
Publ., Vol. 8, p. 752.
FALS BORDA, O. (1989). La Ciencia y el Pueblo- Nuevas Refle-
xiones sobre la Investigacion-Action. Bogotá, Ass. Colombia-
na de Sociologia, Vol. 18.
FREIRE, P. (1979).Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, Paz e Terra.

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