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Ergonomia e

Ginástica Laboral
Autor: Prof. Sérgio Hiroshi Furuya de Carvalho
Colaboradores: Profa. Vanessa Santhiago
Prof. Marcel da Rocha Chehuen
Professor conteudista: Sérgio Hiroshi Furuya de Carvalho

Graduado em Educação Física pela Universidade de São Paulo (1990) e especialista em Educação a Distância pela
UNIP (2014). Possui mestrado em Administração de Empresas pela Fundação Getulio Vargas (1995).

Estuda ginástica laboral desde 1990. De início, como assunto de sua dissertação de mestrado, depois trabalhando
na área e escrevendo artigos e livros sobre o tema. Atualmente, é o responsável pela disciplina Ergonomia e Ginástica
Laboral na UNIP. Empreende projetos de ginástica laboral em empresas privadas e em convênios da UNIP com o TJSP
(Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo) e OMS/Opas (Organização Mundial/Pan-Americana da Saúde).

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

C331e Carvalho, Sérgio Hiroshi de.

Ergonomia e Ginástica Laboral / Sérgio Hiroshi Furuya de


Carvalho. – São Paulo: Editora Sol, 2019.

180 p., il.

Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e


Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XXV, n. 2-074/19, ISSN 1517-9230.

1. Ergonomia. 2. Lesões por esforços repetitivos. 3. Ginástica


Laboral. I. Título.

CDU 331.827

W500.62 –19

© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
quaisquer meios (eletrônico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem
permissão escrita da Universidade Paulista.
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Vice-Reitora de Graduação

Unip Interativa – EaD

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Prof. Marcelo Souza
Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar
Prof. Ivan Daliberto Frugoli

Material Didático – EaD

Comissão editorial:
Dra. Angélica L. Carlini (UNIP)
Dra. Divane Alves da Silva (UNIP)
Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR)
Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT)
Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)

Apoio:
Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD
Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos

Projeto gráfico:
Prof. Alexandre Ponzetto

Revisão:
Vitor Andrade
Ricardo Duarte
Sumário
Ergonomia e Ginástica Laboral

APRESENTAÇÃO.......................................................................................................................................................9
INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................9

Unidade I
1 HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DO TRABALHO, DAS ORGANIZAÇÕES EMPRESARIAIS E DA
GINÁSTICA LABORAL.......................................................................................................................................... 11
1.1 História e evolução do trabalho e das organizações empresariais .................................. 11
1.2 Evolução da administração moderna........................................................................................... 15
1.3 História da ginástica laboral............................................................................................................. 18
1.4 Definições e benefícios da ginástica laboral.............................................................................. 19
1.4.1 Benefícios da ginástica laboral para os colaboradores............................................................ 20
1.4.2 Benefícios da ginástica laboral para as empresas...................................................................... 24
2 CARACTERÍSTICAS E EXIGÊNCIAS TÍPICAS DO TRABALHO.............................................................. 27
2.1 Tipificação do trabalho braçal, suas características e demandas...................................... 27
2.1.1 Atividades que requerem grande aplicação de força............................................................... 28
2.1.2 Movimentos repetitivos no trabalho braçal.................................................................................. 29
2.1.3 Desproporção entre exigências unilaterais................................................................................... 30
2.1.4 Muito tempo na posição em pé......................................................................................................... 31
2.1.5 Trabalho em posições forçadas.......................................................................................................... 32
2.1.6 Outras características do trabalho braçal...................................................................................... 33
2.2 Tipificação do trabalho administrativo, suas características e demandas..................... 33
2.2.1 Trabalho sentado e sedentarismo..................................................................................................... 34
2.2.2 Movimentos repetitivos........................................................................................................................ 35
2.2.3 Estresse e sobrecargas diversas.......................................................................................................... 36
3 ERGONOMIA....................................................................................................................................................... 36
3.1 Ergonomia do trabalho sentado..................................................................................................... 43
3.1.1 Posição de trabalho em terminais de computadores................................................................ 45
3.2 Ergonomia do trabalho em pé......................................................................................................... 47
3.3 Trabalho muscular estático e dinâmico....................................................................................... 48
3.4 Trabalho pesado e manuseio de cargas........................................................................................ 49
3.5 Norma Regulamentadora 17 (NR 17)........................................................................................... 51
3.6 Verificação ergonômica...................................................................................................................... 60
4 LER/DORT: LESÕES POR ESFORÇOS REPETITIVOS/DISTÚRBIOS OSTEOMUSCULARES
RELACIONADOS AO TRABALHO...................................................................................................................... 63
4.1 Definições................................................................................................................................................. 63
4.2 Prejuízos para as empresas................................................................................................................ 66
4.3 Principais quadros de LER/Dort....................................................................................................... 67
4.3.1 Tendinites.................................................................................................................................................... 69
4.3.2 Tenossinovites........................................................................................................................................... 69
4.3.3 Estrangulamento ou compressão de nervos................................................................................ 69
4.3.4 Bursites........................................................................................................................................................ 70
4.3.5 Lombalgias e cervicalgias..................................................................................................................... 70
4.4 Fatores contribuintes para desenvolvimento de LER/Dort................................................... 71
4.4.1 Presença de vibração nas atividades realizadas.......................................................................... 72
4.4.2 Alta repetitividade de movimentos.................................................................................................. 73
4.4.3 Postura incorreta ou forçada.............................................................................................................. 74
4.4.4 Necessidade de emprego de força para realizar as tarefas.................................................... 75
4.4.5 Fatores coadjuvantes.............................................................................................................................. 76

Unidade II
5 PROGRAMA DE GINÁSTICA LABORAL...................................................................................................... 80
5.1 Definição dos objetivos do programa........................................................................................... 80
5.2 Avaliação inicial..................................................................................................................................... 82
5.2.1 Reunião com os gestores...................................................................................................................... 82
5.2.2 Reunião com o médico do trabalho/departamento médico.................................................. 82
5.2.3 Reunião com os membros da Cipa................................................................................................... 82
5.2.4 Reunião com o setor de RH ............................................................................................................... 83
5.2.5 Contatos com os departamentos interessados........................................................................... 83
5.2.6 Aplicação de questionários ou entrevistas.................................................................................... 84
5.2.7 Observação in loco.................................................................................................................................. 86
5.3 Duração das sessões de ginástica laboral.................................................................................... 86
5.4 Locais para realização da ginástica laboral................................................................................ 88
5.5 Possibilidades de integração da ginástica laboral com outros programas
de incentivo à saúde e qualidade de vida do trabalhador........................................................... 89
5.5.1 Programas de ergonomia..................................................................................................................... 90
5.5.2 Academia in loco..................................................................................................................................... 91
5.5.3 Grupos de caminhada, ginástica ou corrida................................................................................. 92
5.5.4 Programa de nutrição ou combate à obesidade......................................................................... 92
5.5.5 Possibilidades de integração com outros programas de qualidade de vida
e saúde no trabalho........................................................................................................................................... 92
5.6 Planejamento do programa de ginástica laboral..................................................................... 94
6 PLANEJAMENTO DAS SESSÕES DE GINÁSTICA LABORAL................................................................ 97
6.1 Característica dos clientes................................................................................................................. 97
6.2 Planejamento do conteúdo da sessão de ginástica laboral...............................................100
6.3 Classificações da ginástica laboral...............................................................................................103
6.3.1 Ginástica de aquecimento ou preparatória................................................................................103
6.3.2 Ginástica de pausa................................................................................................................................104
6.3.3 Ginástica de fim de expediente.......................................................................................................104
Unidade III
7 IMPLANTAÇÃO DO PROGRAMA DE GINÁSTICA LABORAL.............................................................108
7.1 Sensibilização........................................................................................................................................108
7.2 Condução das sessões de ginástica laboral..............................................................................108
7.2.1 Organização pré-sessão......................................................................................................................108
7.2.2 Durante a sessão ................................................................................................................................... 110
7.3 Avaliação e controle das atividades............................................................................................113
7.3.1 Controle de frequência........................................................................................................................ 113
7.3.2 Adesão ao programa ........................................................................................................................... 114
7.3.3 Questionário de adequação das atividades................................................................................116
7.3.4 Verificações periódicas de resultados............................................................................................ 118
8 PROJETOS DE GINÁSTICA LABORAL E EMPREENDEDORISMO.....................................................120
8.1 Projetos de ginástica laboral..........................................................................................................120
8.2 Empreendedorismo.............................................................................................................................123
8.2.1 Características do empreendedor.................................................................................................. 125
8.2.2 Intraempreendedorismo.................................................................................................................... 129
8.2.3 Plano de negócio.................................................................................................................................. 130
APRESENTAÇÃO

As empresas modernas precisam otimizar seus recursos e produzir com mais eficiência.

Desde a Revolução Industrial até hoje, a situação modifica-se, impondo cada vez mais sobrecargas ao
trabalhador e gerando uma necessidade de cuidado com o fator humano na empresa, que é primordial
para as operações. Assim, a saúde dos trabalhadores torna-se uma preocupação constante.

A ergonomia e a ginástica laboral passam a ser ferramentas para amenizar tais sobrecargas, e cabe
ao profissional habilitado a atuar nessas áreas abrir portas para o exercício e o crescimento profissional
por meio do domínio técnico e do comportamento empreendedor.

INTRODUÇÃO

Com a modernização da sociedade e das condições de trabalho, aumentou a necessidade de


intervenções que amenizassem a alta exigência laboral e ajudassem na diminuição dos malefícios
causados pelo trabalho.

Como resposta a tal premência, inúmeras ações estão sendo tomadas, entre elas a aplicação
dos conceitos da ergonomia e da ginástica laboral. Essas iniciativas tornam mais aceitáveis as
exigências provenientes do trabalho, uma vez que buscam equilibrá-las e amenizá-las. Para Silva e
De Marchi (1997, p. 11):

o novo modelo empresarial do século XXI está baseado em indivíduos


saudáveis, dentro de organizações saudáveis, que respeitam e contribuem
para uma comunidade e meio ambiente saudáveis [...] representando
negócios saudáveis, com melhores lucros e maior retorno do investimento.
O grande capital da empresa é representado por pessoas capazes, aptas,
sadias, equilibradas, criativas, íntegras e motivadas.

Os profissionais da área da saúde habilitados para trabalhar com esses clientes têm a responsabilidade
de preparar-se para cumprir esse papel.

Serão estudados nesta disciplina os principais pontos que vão permitir o desenvolvimento
profissional: o conhecimento sobre as características das diversas condições de trabalho, os processos
deletérios advindos dessa necessidade humana e as possíveis intervenções profissionais para beneficiar
os trabalhadores.

Segundo Zilli (2002, p. 27):

a ginástica laboral, aliada à ergonomia, vem se apresentando como a


solução encontrada pelas empresas para lidar com as graves consequências
desse contexto, pois elas perceberam que a melhor saída para evitar
doenças ocupacionais e acidentes de trabalho, gastos com licenças e baixa
9
produtividade decorrentes de fadiga e desmotivação dos trabalhadores é a
prevenção [...] mediante a educação no trabalho, que envolve a segurança
e a boa qualidade de vida, associadas aos objetivos da empresa, bem como a
atividade física orientada por profissionais qualificados.

Ao fim da disciplina, além do conhecimento adquirido, o aluno será confrontado com um desafio
maior: o desenvolvimento de projetos e de uma visão empreendedora, características desejadas pelo
mercado de trabalho, com as quais poderá aprender a diferenciar-se.

10
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Unidade I
1 HISTÓRIA E EVOLUÇÃO DO TRABALHO, DAS ORGANIZAÇÕES EMPRESARIAIS
E DA GINÁSTICA LABORAL

A história revela as necessidades do passado que moldaram o panorama atual do trabalho e de suas
repercussões na saúde. É importante conhecer a evolução desse processo para entender a realidade do
presente e as carências e possibilidades do futuro.

1.1 História e evolução do trabalho e das organizações empresariais

O trabalho é uma necessidade humana. Mas a organização do trabalho nem sempre foi da forma
como é conhecida hoje. Pessoa, Cárdia e Santos, citados por Candotti, Stroschein e Noll (2011, p. 700),
enfatizam que as “mudanças e atualizações exigidas aos trabalhadores ocorrem em um ritmo muito
elevado, geralmente maior que a própria capacidade humana pode suportar”.

O sucesso na busca de alimentação e proteção era proporcional às melhores condições de sobrevivência


humana na Pré-História. Aqueles que conseguiam proteção das ameaças e meios de obtenção da
alimentação através da coleta e da caça eram mais bem-sucedidos. Os indivíduos preparados fisicamente
e com competência intelectual para resolver as questões que se impunham conseguiam sobreviver.
Os demais, nem sempre. A boa condição física já era um dos determinantes nessa conjuntura.

Figura 1 – A evolução das habilidades humanas foi um processo de especialização


que culminou no panorama atual do trabalho em uma sociedade evoluída

Com a evolução da espécie humana e de seus relacionamentos sociais, suas técnicas de cultivo
e criação de animais, foi possível assentar comunidades em locais férteis, e o aumento populacional
gerou novas demandas.
11
Unidade I

A especialização tornou-se uma forma de aumentar a eficiência do esforço de cada


indivíduo em busca do bem comum. Indivíduos mais aptos a lutar e defender a comunidade
responsabilizavam-se por essa tarefa, enquanto aqueles com maior sensibilidade para o cultivo
de alimentos, ou para a confecção de mantas para o frio, por exemplo, especializavam-se, cada
um na sua melhor função.

A manufatura de alguns itens tornar-se-ia importante de diversas formas. Em uma comunidade


isolada de pescadores, por exemplo, um membro que fosse capaz de fazer uma canoa a partir de um
tronco de árvore era encarregado de buscar a árvore correta, na época do ano em que a madeira
estivesse pronta, para então cortar a árvore, transportá-la e preparar o tronco. Somente depois fazia a
escavação com ferramentas apropriadas, por meio da técnica ensinada por seus antepassados. Assim,
sua comunidade, que vivia isolada, seria capaz de ter um meio de transporte que lhe possibilitaria
buscar a sobrevivência pela pesca. Uma maior população local precisaria de mais alimentos, portanto,
de mais canoas.

Aquele indivíduo, que antes era responsável por todo o longo processo, agora precisará produzir
diversas canoas para a população aumentada. Ele não terá mais o ano inteiro para fazer apenas
uma canoa em todas as suas etapas, mas vai se aperfeiçoar no conhecimento que apenas ele detém,
e deverá então designar a outras pessoas a tarefa de procurar árvores apropriadas, cortá-las e
carregá-las pela mata. Assim, o indivíduo qualificado vai receber vários troncos ao longo do ano
e poderá fazer várias canoas.

Figura 2 – Canoa rudimentar. Algum membro dessa comunidade detém a


técnica ancestral e é capaz de confeccioná-la a partir de um tronco

Portanto, apesar de não precisar mais fazer todo o trabalho sozinho (deixando de executar boa parte
do trabalho pesado), um indivíduo especializado vai realizar mais vezes a mesma tarefa (no exemplo
anterior, escavar o tronco para virar uma canoa). Ao fazer apenas o que domina melhor, vai repetir
os mesmos gestos com uma frequência elevada. O uso de ferramentas apropriadas à tarefa também
direciona o gesto (e suas repetições) de forma a buscar a eficiência, gerando, por sua vez, desgaste
muscular, articular e fisiológico repetidos.

12
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Figura 3 – Cada função a ser executada possui uma característica que exigirá do corpo determinada força,
resistência, flexibilidade, potência etc. A chave da ginástica laboral é identificar as solicitações mais
importantes e agir para preparar o organismo e amenizar as sobrecargas

O uso de inovações tecnológicas também faz parte desse processo de especialização e evolução do
trabalho. Por exemplo, se um escravo precisava moer cana-de-açúcar em um engenho manual, que usava
força humana para prensar a cana, ao passar a utilizar uma moenda com tração animal, será possível
moer a cana em um tempo menor. Entretanto, certamente não será permitido que descanse durante
o tempo economizado. Ele irá, sim, moer uma quantidade de cana muitas vezes maior, multiplicando
o carregamento de fardos pesados em busca de uma maior produtividade.

Figura 4 – Nessa máquina de moer cana com tração animal, espera-se maior produtividade
do que no engenho manual, pois o ser humano não precisará fazer força para rodar a máquina,
mas passará a carregar muitos fardos de cana por dia, mais tonéis com o caldo da cana,
e haverá maior quantidade de bagaço a ser descartada etc.

A escravatura termina com a Lei Áurea (1888) e a industrialização prospera, com o advento da
máquina a vapor. Surgem as grandes indústrias, necessitando de mais mão de obra, porque a velocidade
de produção aumenta cada vez mais. A Revolução Industrial mudou para sempre a organização do
trabalho, tornando a produção em larga escala uma forma predominante de beneficiamento.

A Revolução Industrial iniciou-se na Inglaterra no fim do século XVIII e concentrou o poder da


industrialização nas mãos dos detentores de capital, uma vez que o investimento nessa nova tecnologia
13
Unidade I

era alto e não disponível a pequenos produtores. Essa concentração gerou o adensamento das vilas
urbanas, caracterizando a mudança do modo de produção artesanal para o trabalho assalariado, inclusive
nos demais países da Europa e depois no Brasil. Ainda hoje é possível reconhecer algumas indústrias que
nasceram nessa época em diversas regiões de nosso país.

Figura 5 – Ainda utilizando o exemplo da cana-de-açúcar, observa-se que a prensa


manual ou por animais foi substituída pela máquina a vapor, e posteriormente pelo diesel
e pela eletricidade. Com isso, apesar da diminuição do esforço nessa tarefa, a sobrecarga
humana passa a ocorrer nas fases de colheita, carregamento, manejo dos tonéis, retirada
dos bagaços etc., tornando-se muito mais volumosa e repetitiva

Figura 6 – Maquinário a vapor, utilizado a partir da Revolução Industrial


em indústrias têxteis, adaptado depois ao transporte (trens a vapor e automóveis)
e a muitas outras aplicações

As diversas fases da Revolução Industrial compreenderam o início do uso da máquina a vapor,


os motores elétricos e à combustão interna, a indústria química fina e, por fim, a robotização e a
informatização, junto com os avanços aeroespaciais. Sempre progredindo com as tecnologias de
transporte, de comunicação e bélica, a Revolução Industrial transformou a vida das populações e sua
relação de consumo e de trabalho.

14
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Saiba mais

O inigualável Charles Chaplin registrou em um de seus trabalhos


a questão da opressão do trabalho e da repetitividade das tarefas sobre a
saúde do trabalhador em um filme da época do cinema preto e branco que
vale ser assistido:

TEMPOS modernos. Dir. Charlie Chaplin. EUA: United Artists, 1936.


87 minutos.

Figura 7 – A tecnologia está presente na vida diária das pessoas e no ambiente


de trabalho, às vezes com grande carga de repetição

1.2 Evolução da administração moderna

Como consequência da maior e mais complexa organização da produção, evoluíram também as


ciências para torná-la mais produtiva. Os princípios da administração e economia modernas foram em
grande parte desenvolvidos juntamente com a nova organização da produção.

Em um conceito simplificado, podemos dividir a administração em quatro grandes funções:


planejamento, organização, direção e controle. Cada uma dessas funções terá como visão norteadora
o melhor funcionamento da empresa. Em tempos de pequenas produções, organizações familiares
rudimentares e trabalho pouco ordenado, o hábito gerencial de cumprir as necessidades era suficiente
para manter o funcionamento da empresa, mas com o maior porte das grandes empresas que foram
surgindo, a profissionalização da administração foi vital para garantir a sobrevivência frente à
concorrência que se estabeleceu.

Estudar a evolução do pensamento administrativo vai ajudar o profissional de ginástica laboral a


entender as imposições de solicitações existentes na organização e as possibilidades de resolução que
se encontram ao alcance dessa atividade de cuidado com a saúde. Limitaremos a nossa análise a alguns
aspectos, apenas para promover uma visão inicial sobre o assunto.

15
Unidade I

Na evolução da administração, podemos citar autores importantes, como: Jules Henri Fayol (teoria
clássica da administração), Frederick Winslow Taylor (administração científica), Henry Ford (fordismo) e
Elton Mayo (relações humanas no trabalho).

Fayol (1841-1925), um engenheiro francês, foi um dos pioneiros em definir a administração como
forma de condução dos processos na empresa. Ele formulou os 14 princípios conhecidos como a base
da administração clássica:

• Divisão do trabalho: tarefas específicas para cada indivíduo.

• Princípio da autoridade e da responsabilidade: devem estar bem definidas.

• Disciplina como forma de conduzir os objetivos.

• Unidade de comando: cada indivíduo responde a apenas um superior direto.

• Unidade de direção: ações devem buscar um objetivo comum.

• Subordinação do interesse particular em favor do interesse comum.

• Princípio de remuneração do pessoal.

• Centralização.

• Hierarquia: uma sequência determinada de autoridades, do primeiro nível até o nível mais inferior.

• Princípio da ordem.

• Equidade: tratar pessoas com benevolência e justiça no trabalho, mas usar o rigor e a disciplina
quando necessários.

• Estabilidade pessoal.

• Princípio de iniciativa.

• Princípio de união do pessoal: espírito de equipe.

Para Couto et al. (1998), o fordismo, implementado na década de 1920 e persistindo como
modo característico de trabalho por cerca de seis décadas, reuniu fatores que caracterizam
sobrecarga ao trabalhador:

(i) esteira de produção, eliminando a movimentação ativa do trabalhador;

(ii) ritmo do trabalho ditado pelo ritmo da esteira, com o tempo para
realização da tarefa alocado pelo engenheiro de tempos e métodos;

(iii) superespecialização do trabalhador naquela tarefa.

16
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Figueiredo e Mont´Alvão (2008) sugerem um quadro-resumo dos principais movimentos históricos


da administração, adaptado a seguir com foco nos pontos que podem interessar ao profissional de
ginástica laboral:

Quadro 1

Período Movimento/autor Principais características


14 princípios da administração
Henri Fayol Disciplina e ordem
Início do século XX
(administração clássica)
Administração como planejamento,
organização, direção e controle
Automatização do homem
Tempo ótimo: o ritmo é determinado
Frederick Taylor pela gerência para completar cada
Início do século XX
(taylorismo) tarefa
Mecanização na realização do trabalho
humano
Conceito linha de montagem
Ritmo determinado pela esteira

Henry Ford O trabalhador não se desloca, as peças


Início do século XX são trazidas a ele
(fordismo)
Basta repetir movimentos determinados
e especializados para seu posto de
trabalho

Valorização dos fatores psicológicos


para a produtividade
Elton Mayo
Fim da década 1920
(relações humanas no trabalho) Necessidades sociais a serem satisfeitas
Necessidade de trabalho em grupo

Hierarquia de necessidades
Abraham Maslow
Década de 1940 Sentido do trabalho relacionado à
(teoria das necessidades)
satisfação das necessidades pessoais
Qualidade como percepção do cliente
Dr. Armand V. Feigenbaum
Década de 1950 Atingir padrões de qualidade é
(controle de qualidade total)
responsabilidade de todos
Consideração com pessoas e
equipamentos
Década de 1990 Administração participativa
Satisfação e necessidades dos
envolvidos no trabalho

Adaptado de: Figueiredo e Mont’Alvão (2008, p. 34-35).

17
Unidade I

Lembrete

Estudar a evolução do pensamento administrativo vai ajudar o


profissional de ginástica laboral a entender as imposições de solicitações
existentes na organização e as possibilidades de resolução que se encontram
ao alcance dessa atividade de cuidado com a saúde.

1.3 História da ginástica laboral

A ginástica laboral tem seu início relacionado às alterações das condições de trabalho advindas
da Revolução Industrial. Uma de suas referências mais antigas é sua realização na Polônia em 1925
(CARVALHO, 2007), como uma pausa no trabalho para a execução de exercícios.

Há relatos da ginástica laboral no Japão em 1928 (SAMPAIO; OLIVEIRA, 2008), como forma de
ginástica preparatória para diminuir o estresse dos trabalhadores dos correios e promover qualidade
de vida a eles (RIMOLI apud FERREIRA; SANTOS, 2013). Após alguns anos, há registros na Rússia e na
Holanda, que usam exercícios diferenciados para cada necessidade dos trabalhadores (LIMA, 2008 apud
FERREIRA; SANTOS, 2013).

A Rádio Taissô foi uma das manifestações de ginástica coletiva praticada desde o início
do século passado no Japão, não só nas empresas, mas também nas escolas e pela população.
Havia música tocada em alto-falantes enquanto se repetiam exercícios básicos,
movimentando-se todos os segmentos corporais. Pode-se observar em algumas sequências
gravadas que há um crescente de mobilização corporal até culminar em algumas repetições de
polichinelos, e em seguida exercícios mais calmos para relaxar.

No Brasil, a prática foi trazida pelos imigrantes japoneses (LIMA, 2008 apud FERREIRA; SANTOS
2013). Na cidade e no estado de São Paulo, instituiu-se o dia 18 de junho como o Dia da Rádio Taissô
para preservar essa cultura.

Observação

A Rádio Taissô é uma prática instituída em comemoração à posse


do Imperador Hirohito, em 1º de novembro de 1928. Hoje conta com 30
milhões de praticantes, e são atribuídos à pratica expansão de produtividade,
redução de acidentes e doenças profissionais, aumento de aprovação nas
escolas e diminuição de acidentes de trânsito (FERREIRA; SANTOS, 2013).

No Brasil, os primeiros relatos de prática da ginástica laboral são em indústrias e no Banco do Brasil,
e registra-se no ano de 1969 a realização da ginástica laboral na indústria japonesa Ishikawajima,
de construção naval, no Rio de Janeiro (DEUTSCH apud FERREIRA, SANTOS, 2013). A primeira publicação
acadêmica do tema no Brasil foi realizada pela Feevale, em 1978 (CARVALHO, 2007).
18
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Hoje a ginástica laboral é um mercado em crescimento, mostrando que as empresas estão


tentando melhorar a produtividade e diminuir os problemas de saúde associados ao trabalho. No Brasil,
os conselhos federais de Educação Física e de Fisioterapia advogam desenvolvimento da capacitação
para que seus profissionais ministrem a ginástica laboral. Antigamente era comum que um trabalhador
de uma empresa ficasse responsável por conduzi-la, mas a prática caiu em desuso e ilegalidade com
a regulamentação das profissões, caracterizando, atualmente, desvio de função e exercício ilegal da
profissão.

Paralelamente, a área de Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) evolui, e as empresas buscam


outras ações complementares à ginástica laboral, com a finalidade de diminuir o estresse físico e
psicológico do trabalho. Ações como quick massage, salas de descompressão, sala de jogos, ioga
empresarial, academia in company, meditação e outras iniciativas são encontradas, dependendo
das necessidades diagnosticadas.

Figura 8 – Além da ginástica laboral, as empresas buscam outras estratégias para melhorar a condição física
do trabalhador em favor da produtividade – por exemplo, montar uma academia dentro da própria empresa

1.4 Definições e benefícios da ginástica laboral

A ginástica laboral é a atividade física específica realizada no horário de trabalho,


proporcionada pelo empregador e de prática facultada aos colaboradores, visando melhorias
em sua condição física e psicossocial (benefícios individuais), geralmente planejadas para que
provoquem benefícios empresariais.

Para Lima (2008 apud FIGUEIREDO; MONT’ALVÃO, 2008), a ginástica laboral é um conjunto de
práticas físicas elaboradas a partir da atividade profissional, visando compensar as estruturas mais
usadas durante o trabalho e ativar as que não são requeridas.

Na visão de Martins (2011, p. 57), a ginástica laboral pode ser considerada

uma pausa ativa realizada no ambiente de trabalho, composta de atividades


específicas como alongamentos, massagens, atividades lúdicas e exercícios
respiratórios, primariamente direcionada para as exigências psicofisiológicas
do trabalhador e passível de implantação em qualquer local de trabalho.

19
Unidade I

Para realizar uma sessão, pode-se utilizar o próprio espaço de trabalho dos funcionários quando
possível, ou fazer um deslocamento pequeno para usar uma área mais apropriada à prática, sem,
contudo, necessitar de instalação especializada, como uma quadra ou uma sala de ginástica.

Ginástica laboral não é o mesmo que ginástica em academia ou sessão de fisioterapia. Os objetivos
são mais específicos, voltados aos trabalhadores e a aspectos de prevenção, e a estratégia deve preservar
a possibilidade de retornar à rotina do trabalho logo após a sessão.

Para Dishman, O’Neal e Shephard (apud GRANDE; SILVA; PARRA, 2014, p. 55), a ginástica laboral
é uma

intervenção com exercícios físicos específicos para trabalhadores


desenvolvida no local de trabalho e que visa melhorar desfechos gerais,
como qualidade de vida e ambiente ocupacional, e desfechos específicos,
como força muscular e flexibilidade.

Normalmente, a procura e a oferta da ginástica laboral visam suprir alguma necessidade identificada
pela empresa, que seja alcançável através da diminuição de problemas relacionados às sobrecargas
impostas ao trabalhador.

A ginástica laboral não pode ter caráter obrigatório. Portanto, os colaboradores da empresa devem
ser constantemente conscientizados sobre os benefícios que pode trazer a eles individualmente, para
que tenham sua percepção e sua participação incentivadas. Não pode ser oferecida fora do horário de
trabalho, para que não configure legalmente que o funcionário está à disposição da empresa, tampouco
subtrair o tempo de suas pausas estabelecidas.

Pode-se dividir os benefícios da prática da ginástica laboral em dois grupos: os benefícios aos
colaboradores (trabalhadores) e à empresa.

Lembrete

A ginástica laboral tem seu início relacionado às alterações das condições


de trabalho advindas da Revolução Industrial. Uma de suas referências mais
antigas é sua realização na Polônia em 1925, como uma pausa no trabalho
para a realização de exercícios.

1.4.1 Benefícios da ginástica laboral para os colaboradores

A ginástica laboral tem sido utilizada para atingir objetivos diversos, em geral atuando em processos
fisiológicos ou psicossociais, que beneficiem a saúde do trabalhador. Pode-se compor um quadro com
os benefícios mais procurados:

20
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Quadro 2 – Benefícios da ginástica laboral ao trabalhador

Diminuição de dores Melhor disposição


Melhor saúde geral Melhor condicionamento físico
Melhor postura Diminuição de lesões
Melhor qualidade de vida Mais ânimo
Melhora na resistência Melhora da autoestima
Menor fadiga Maior satisfação
Melhor relacionamento interpessoal Melhora no humor
Melhor flexibilidade Maior reconhecimento
Maior felicidade Diminuição do estresse
Diminuição do sedentarismo Diminuição da ansiedade
Aumento do bem-estar Aumento da motivação
Melhora na força

Pode-se agrupar os benefícios aos trabalhadores listados como benefícios físicos gerais,
específicos (ligados ao trabalho) e benefícios psicológicos e sociais. Geralmente, cada um
deles está relacionado a condições que acabarão por auxiliar o rendimento do trabalhador e,
consequentemente, trazer vantagens às empresas.

Os benefícios físicos gerais estão associados à condição de saúde do trabalhador. Entre eles,
pode-se citar a sensação de melhor saúde geral e a possibilidade de melhor condicionamento
físico, muitas vezes aliada à mudança do comportamento sedentário para uma preocupação maior
com atividade física regular e aspectos de saúde.

O combate ao sedentarismo não é o foco da ginástica laboral na maioria dos programas, pois
não depende de exercícios específicos relacionados ao trabalho, mas sim de uma mudança no
comportamento também no tempo fora do trabalho e da empresa, e uma simples sessão de ginástica
laboral não é capaz de alterar esse quadro. Dependendo do programa, parte da comunicação
pode ser dedicada à sensibilização, orientação e compreensão das mudanças de comportamento
benéficas à saúde geral.

Os benefícios físicos específicos (ligados à execução do trabalho) são possibilitados conforme as


características de cada função, a partir de seu entendimento e verificação das exigências físicas utilizadas.

Observação
A diminuição de dores nas costas em trabalhadores que possuem
sobrecarga notável na região dorsal será buscada através de exercícios de
relaxamento, alongamento e às vezes até massageamento. Dessa forma,
o efeito da sobrecarga será combatido ou amenizado e haverá menor
chance de desconforto, dor, falta ao trabalho ou até afastamento por
esse motivo.
21
Unidade I

Pescoço 50%
47%

Ombros 60%
47%

Cotovelos 7%
7%

Punhos e mãos 25%


25%
Funcionárias que relataram
Segmento corporal

44% dor antes da GL


Coluna dorsal
25% Funcionárias que relataram
69% melhora da dor após a GL
Coluna lombar
54%

Coxas e quadris 29%


13%

Joelhos 10%
10%

Pernas 57%
41%

Tornozelos e pés 25%


19%

0% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80%


Porcentagem

Figura 9 – Incidência de queixas de dor e desconforto físico em trabalhadores


por regiões corporais antes e após a implantação da ginástica laboral, segundo uma pesquisa de Santos et al. (2007)

Outro exemplo interessante é a postura, que é uma característica de conhecimento e comportamento.


Um programa de ginástica laboral pode ser esclarecedor ao trabalhador para conscientizá-lo da
importância em assumir uma postura correta ao longo da jornada de trabalho, promovendo menor
fadiga pela adequação do uso da musculatura e melhoria ergonômica da posição assumida, diminuindo
a chance de dor, as faltas ao trabalho e a frequência ou duração de afastamentos.

O aumento de força também é um parâmetro a ser compreendido. O desenvolvimento de força em


musculatura muito utilizada é desejável – por exemplo, o fortalecimento dos flexores e extensores do
punho e dos dedos em usuários de computadores. Como a musculatura é muito usada em alta repetição
e baixa carga, é possível trabalhar o fortalecimento ao longo das sessões de ginástica laboral.

Figura 10 – Altas taxas de repetitividade na digitação expõem os trabalhadores


a sobrecargas que devem ser amenizadas e problemas que devem ser prevenidos

22
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Por outro lado, poder-se-ia presumir que a ginástica laboral contribui para aumento de força em
um operário que precisa carregar sacos de 50 kg de cimento em sua jornada de trabalho, mas devido
ao grande volume (intensidade e duração) já suportado, o trabalhador terá melhor aproveitamento
do tempo de pausa com exercícios de alongamento, compensação e relaxamento. Adicionar mais
sobrecarga é indesejável, pois a ginástica laboral não conseguirá produzir aumento de força devido à
sua curta duração.

Flexibilidade e resistência também contribuem com benefícios físicos específicos ao possibilitar ao


organismo uma maior proteção na execução do trabalho durante o dia. Musculaturas utilizadas por
longo tempo em contração estática tendem a ser uma grande causa de queixa de dores – por exemplo,
a musculatura lombar, que é uma das maiores causas de afastamento do trabalho.

Deve-se notar que os benefícios não são automáticos nem estão sempre todos presentes.
Dependendo da característica do programa, dos objetivos, das estratégias de trabalho e do
comportamento e comprometimento dos próprios participantes, o programa pode apresentar
variações nos resultados.

Os benefícios psicossociais advindos da prática da ginástica laboral podem ser associados aos
benefícios da prática de uma atividade física em grupo e à diminuição do desconforto provocado por
dores. Muito citados na literatura e ligados à prática de atividade física regular, podem estar presentes
em maior ou menor grau dependendo dos objetivos, da configuração do programa de ginástica laboral,
da interação do grupo e de outros fatores. Assim, podemos mencionar: melhor disposição, diminuição
do estresse, mais ânimo, maior satisfação, melhora do humor, aumento da autoestima, felicidade,
bem-estar e motivação e diminuição da ansiedade.

Tabela 1 – Nível de satisfação antes e após o programa de ginástica laboral

Nível de satisfação Antes Após

Motivação 65% 97%

Disposição 58% 95%

Humor 72% 95%

Fonte: Santos et al. (2007, p. 111).

Os agentes estressores nas empresas podem ser externos (pressões conjunturais ou diretamente
relacionadas ao exercício da função) ou internos (como cobranças internas, competições ou frustrações
relacionadas ao trabalho ou colegas etc.), resultando no estresse ocupacional, como insatisfação,
desajuste ao trabalho e problemas de relacionamento (com colegas, clientes, chefias e subordinados).
Parte dessa carga estressora pode ser aliviada através de atividades do programa de ginástica laboral
planejadas para esse objetivo.

23
Unidade I

1.4.2 Benefícios da ginástica laboral para as empresas

Paralelamente aos benefícios gerados ao trabalhador, pode-se ainda enumerar os benefícios


para a empresa:

Quadro 3 – Possibilidades de benefícios empresariais mediante


a ginástica laboral e outros programas de produção de saúde

Diminuição de gastos com saúde Diminuição do absenteísmo


Maior satisfação com o emprego Diminuição do presenteísmo
Diminuição de LER/Dort Menos acidentes
Diminuição de afastamentos Aumento do lucro
Diminuição do tempo de afastamento
Maior qualidade
Diminuição de estresse no trabalho
Melhor trabalho em equipe Melhor imagem interna
Melhor imagem externa Diminuição de turnover
Aumento da produtividade Diminuição de processos trabalhistas

Todas as implicações da prática de ginástica laboral relatadas podem ter impacto positivo na
produtividade e lucratividade.

Os benefícios às empresas podem ser analisados sob alguns parâmetros. O primeiro poderia
ser a produtividade gerada por diminuição do absenteísmo (faltas ao trabalho), diminuição nos
afastamentos do trabalho e na duração dos afastamentos, menos acidentes de trabalho, diminuição
de ocorrência de LER/Dort (lesões por esforços repetitivos/distúrbios osteomusculares relacionados
ao trabalho).

O próximo fator que se pode analisar é um grupo de benefícios que tem a característica
comportamental de melhorar a produtividade e a qualidade, como diminuição do presenteísmo
(quando o trabalhador está presente, mas não se concentra no trabalho por estar com algo tirando
sua atenção – baixa concentração), melhoria do trabalho em equipe (melhor entrosamento,
promovendo melhor resultado), maior satisfação no trabalho, diminuição do turnover (taxa de
saída e reposição de funcionários e custos associados de treinamento) por estarem mais satisfeitos
no trabalho. A taxa de turnover alta significa altos custos de reposição de mão de obra, assim
como uma diminuição do tempo médio de experiência profissional do grupo, repercutindo na
qualidade de atendimento ou realização do serviço. Segundo Silva e De Marchi (1997), a instituição
de programas de promoção de saúde nas empresas contribui para que os indivíduos passem “a
gostar do trabalho [...] e a vestir a camisa da empresa”.

Algumas empresas se beneficiam ainda da imagem interna ou externa com seu


investimento em ginástica laboral. Trabalhadores percebem que a entidade cuida da sua saúde,
e isso gera uma imagem favorável para instituições que mostram respeito e preocupação
(JONASH; SOMMERLATTE apud FIGUEIREDO; MONT’ALVÃO, 2008). Já os concorrentes, fornecedores,

24
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

clientes, público externo em geral (população), profissionais da área, entre outros, irão enxergar
a empresa que investe na saúde dos trabalhadores como uma organização diferenciada do ponto
de vista social e de qualidade. Assim, essa visão externa torna-se um capital intangível de boas
práticas adotadas no mercado.

Outra categoria que se pode analisar é a de menor gasto financeiro. Os motivos?


Despesas associadas a remuneração dos dias parados (afastamentos), gastos médicos, honorários
advocatícios, acordos e indenizações em processos trabalhistas etc. Caso seja alvo de uma ação
trabalhista, a empresa poderá alegar que, apesar de ter havido um dano, investe na prevenção
através da ginástica laboral, na tentativa de que sua atuação para proporcionar atividades
preventivas possa de alguma forma amenizar a gravidade de um caso tão delicado.

Ryan et al. (2018) estudaram a economia gerada por um programa de cuidado com a saúde realizado
em um hospital com 1.400 trabalhadores na Austrália. Nele, a ação principal era uma sessão diária de
6 minutos no início do turno de trabalho, permitindo que cada trabalhador tivesse um tempo para
si, realizando exercícios de alongamento, equilíbrio, fortalecimento, relaxamento, trabalho postural e
educação para a saúde, em um ambiente de interação social com outros trabalhadores.

Prevenção
Trabalhadores
sentem-se
valorizados pela
organização e
melhoram sua
saúde e sua aptidão
física
Suporte à saúde
na empresa
Atividades diárias
em grupo durante o
Intervenção período do trabalho Reabilitação
precoce
No local de trabalho,
Alterações
mantém relações pessoais
identificadas e
manejo proativo e identifica funções
adequadas

Figura 11 – Plano conceitual do programa estudado por Ryan et al. (2018). Em torno do triângulo central, representando o programa
diário de exercícios e educação, acoplam-se a prevenção e a valorização da saúde, as melhoras no reconhecimento precoce e no
manejo do problema e um trabalho de reabilitação mantendo as relações no próprio ambiente

Os principais resultados do estudo foram a diminuição de 30% em reivindicações por lesões, 57,5%
de diminuição em gastos e tratamentos médicos e 68% de redução nos dias perdidos até o retorno ao
trabalho, sendo o tratamento realizado com equipe e em ambiente conhecido um fator adicional de
acolhimento e manutenção das relações sociais durante esse período.

25
Unidade I

50

45
Número de reivindicações
40

35

30

25

20

15

10

0
Pré 3 Pré 2 Pré 1 Pós 1 Pós 2 Pós 3
Período

Figura 12 – Número total de reivindicações de compensação por problemas de saúde relacionados


ao trabalho nos períodos pré e pós-implantação do programa de cuidado com a saúde

Ainda no estudo de Ryan et al. (2018), notou-se que o desenvolvimento do conhecimento corporal,
a sensibilização dos trabalhadores e a identificação precoce de problemas possibilitada por esses fatores
fizeram crescer 45% o número de incidentes reportados ou indicadores de problemas de saúde, mas foi
totalizada uma queda real de 46% nos custos de gastos com saúde considerados.

1800

1600
Dias de trabalho perdidos

1400

1200

1000

800

600

400

200

0
Pré 3 Pré 2 Pré 1 Pós 1 Pós 2
Período

Figura 13 – Total anual de dias de trabalho perdidos por problemas de saúde no período
pré e pós-implantação do programa de cuidado com a saúde

26
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

A ginástica laboral torna-se, como parte do esforço para a saúde no trabalho e quando bem
implementada, um investimento, e não apenas um gasto. De fato, pode reverter o capital investido
em ganhos para as empresas, em um círculo virtuoso, através da geração de benefícios de saúde
a seus trabalhadores.

Conforme Figueiredo e Mont’Alvão (2008), um programa de qualidade de vida instituído por uma empresa
de Washington (EUA) forneceu prêmios a 52% dos 2.700 trabalhadores participantes, de US$ 250 a US$ 300
por ano. Então, obteve o retorno de US$ 3.00 para cada US$ 1.00 investido nos nove anos do levantamento.
Alguns estudos mostram que o impacto financeiro da ginástica laboral pode ser medido, como o que destacamos,
no qual a empresa verificou uma economia de US$ 6.00 para cada dólar investido, em redução de gastos com
saúde e de afastamentos por doenças e em aumento de produtividade (CARVALHO, 2007).

Para Kallas e Batista (2009), as sessões de ginástica laboral podem ser uma ferramenta para propagar
importantes conceitos sobre saúde, assumindo um papel não só compensatório, mas de contribuição
para mudança de comportamentos e melhoria da qualidade de vida.

2 CARACTERÍSTICAS E EXIGÊNCIAS TÍPICAS DO TRABALHO

O processo de evolução pelo qual passou (e passa) a relação homem versus trabalho gera novas
situações, exigindo adaptações e soluções. No entanto, muitas das antigas solicitações do trabalho não
deixaram de existir, apenas se tornaram menos frequentes.

Para analisar as exigências típicas envolvidas nesses casos, faz-se uma divisão didática, categorizando-se
os sujeitos como trabalhadores típicos de produção, por um lado, e, no outro extremo, típicos administrativos.

Deve-se lembrar que as diferentes funções exercidas pelos indivíduos não estão necessariamente nos
dois extremos distintos, mas sim em uma gradual mescla entre esses extremos, que são os funcionários
administrativos e os da produção.

O profissional de ginástica laboral deve ter essa visão clara e, a partir dela, assimilar as reais
solicitações encontradas em cada ambiente para entender as sobrecargas sofridas e programar as
atividades a serem propostas.

2.1 Tipificação do trabalho braçal, suas características e demandas

O trabalhador braçal também é conhecido como trabalhador de chão de fábrica, ou seja, geralmente
envolvido em situação de produção, manejo, transporte e beneficiamento físico.

A principal característica desse ofício é o desgaste físico envolvido em sua realização.


Tipicamente, essa categoria de trabalho requer o uso de grandes grupos musculares para fazer as tarefas.
Movimentos que envolvem múltiplas articulações, com grande dispêndio de energia, são frequentes.

São amplas as possibilidades de qualificação dessa realidade. Serão discutidas a seguir algumas das
situações de trabalho do ponto de vista das exigências físicas e cognitivas/psicológicas.
27
Unidade I

2.1.1 Atividades que requerem grande aplicação de força

Força muscular é necessária em muitas funções laborais, e é definida como a capacidade de


um músculo ou grupo muscular gerar torque em uma articulação específica (HAEFFNER et al. apud
EICHINGER et al., 2016). Segundo os autores, a dor lombar afeta de 70 a 85% dos adultos em algum
momento da vida, e pode ocorrer devido às atividades laborais, com sobrecarga de força, além de por
outros fatores, como a permanência em posição estática e a repetição de movimentos.

A função de um pedreiro pode ser muito ilustrativa nessa análise. É grande o envolvimento físico
nas tarefas a serem cumpridas: carregar sacos de areia e cimento, preparar a massa, transportar a massa
até o local etc.

A maior parte dessas ações motoras exige alta mobilização muscular, o que fisiologicamente irá
requerer compensações, que poderão ser atendidas por pausas e pelo programa de ginástica laboral.

Funções típicas com essa característica podem ser citadas, como carregadores, estivadores,
trabalhadores em indústrias etc.

Uma subdivisão dessa análise pode ser feita quando, além de grande intensidade, a força é aplicada
subitamente, muitas vezes em situações de necessidade imediata. Por exemplo, uma peça grande de
construção sendo içada por um guindaste, ao ser colocada no solo, sofre uma movimentação pendular,
que precisa ser desacelerada pelos homens encarregados de auxiliar a colocação da carga no chão, sob
o risco de lesões caso haja problemas na operação.

Segundo Dul e Weerdmeester (2012), movimentos bruscos geram picos de tensão, que podem produzir dores,
e pausas são necessárias para recuperação quando a tarefa exceder 250 W de energia gasta (o metabolismo
basal equivale a cerca de 80 W (1 W = 0,06 Kj/min = 0,0143 kcal/min). Para os autores, o peso máximo para
alguém levantar deveria ser de 23 kg, em condições ideais, que seriam a carga próxima do corpo, com as duas
mãos por meio de alças ou furos laterais, sem torcer o tronco, permitindo escolher uma boa postura e sem
exceder um levantamento por minuto e no máximo uma hora de duração, ofertando em seguida 120% de
tempo de repouso em relação ao tempo gasto no levantamento.

Figura 14 – Movimentos pendulares da carga no guindaste exigem dos trabalhadores não apenas a aplicação de força, mas que tais
ações sejam realizadas em um curto espaço de tempo (alta potência) para estabilizar a colocação da carga no solo. Essa característica
é importante para o andamento da tarefa do trabalhador braçal e até para a segurança dele

28
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

2.1.2 Movimentos repetitivos no trabalho braçal

Utilizando-se novamente o ofício de um pedreiro, o trabalho braçal pode ser caracterizado quando
este profissional lida com cargas menores, mas repetidamente, executando movimentos. Assentar a
massa em uma parede pode ser um bom exemplo de repetição e força. Vejamos a tarefa de um dos
braços: pegar a massa com a colher, elevando-a sempre com o mesmo braço, e fazendo movimentos de
vaivém na parede, com ajustes no ombro, cotovelo e punho, além da força de preensão da mão, para
que o peso não seja derrubado.

Essa tarefa requer certos movimentos repetidos de flexão e abdução do ombro, flexão e extensão do
cotovelo, pronação e supinação do antebraço, flexão e extensão do punho, sempre exercendo força na
musculatura flexora dos dedos para manter o peso da massa em sua mão.

Outro caso típico nessa categoria de solicitação é o de um montador de móveis. Em uma conta
simples, se um armário a ser montado utilizar 50 parafusos, entre a montagem das suas paredes,
prateleiras, gavetas, portas etc., e se cada parafuso exigir cerca de 15 movimentos de supinação e
pronação do antebraço, enquanto o montador ainda realiza força de preensão na mão, para que a chave
de fendas não “escorregue” entre seus dedos, são necessários cerca de 750 movimentos repetidos de
supinação e pronação do antebraço para montá-lo, sem contar as demais solicitações, como carregar as
partes, encaixá-las e parafusá-las.

Mesmo com o uso de parafusadeiras automáticas, haverá exigências musculares e articulares


significativas, pela ferramenta ter um peso considerável, por ter que ser segurada firmemente, por passar
a existir algum nível de vibração, ou mesmo pelo fato de que, ao usar um artefato que facilita o trabalho
ao diminuir o tempo de montagem de um móvel, é muito possível que se passe a exigir do trabalhador
a montagem de dois ou mais móveis no tempo que for economizado pelo uso da ferramenta.

Ao longo de muitas horas de trabalho, essas solicitações de repetição de movimentos com alguma
aplicação de força vão causar desgaste muscular e articular significativo. Muitos outros exemplos podem
ser citados, como trabalhadores em linha de produção, auxiliares de limpeza e padeiros.

Figura 15 – Muitas profissões exigem o emprego de força moderada em repetições durante muitas
horas de trabalho. Essa disposição é um dos alvos de programas de ginástica laboral

29
Unidade I

2.1.3 Desproporção entre exigências unilaterais

Essa característica do trabalho braçal diz respeito ao desequilíbrio entre os lados do corpo.
Muitas funções são executadas predominantemente apenas de um lado, devido à posição assumida,
tipo de ferramenta, destreza do trabalhador, segurança etc.

Não se deve abordar nessa análise apenas o uso de um dos lados do corpo, que ficará mais forte ou
mais fatigado, fato já tratado nos itens anteriores, mas também o desequilíbrio que pode ser gerado no
corpo humano.

Quando o desequilíbrio de utilização é grande, poderá causar dores que a médio prazo irão
comprometer o rendimento no trabalho e a vida social. Com essa solicitação permanente, ao usar sempre
os mesmos grupos musculares unilateralmente, estes serão exigidos desproporcionalmente, afetando
muitas vezes o alinhamento da coluna vertebral.

Figura 16 – Quando o esforço físico é repetidamente muito maior de um lado do que do outro,
gera um desequilíbrio muscular com o passar do tempo de trabalho, que pode ocasionar
comprometimento muscular e até desvios posturais

Ainda considerando o exemplo do pedreiro, os gestos citados de assentamento da massa na parede


em geral são unilaterais, usando o braço dominante, seja na característica de força, para que suporte
a necessidade de sustentar o peso, seja no aspecto da habilidade e destreza, quando se exige um
acabamento uniforme.

Entre esportistas profissionais, é possível encontrar tais desequilíbrios, e o seu treinamento é


planejado para que malefícios não sejam sentidos. É notável a carga diferenciada de trabalho entre o
braço dominante e o outro braço de um tenista. Modernamente, a ciência já mostrou o valor de um
trabalho equilibrado.

Analisando novamente o trabalhador braçal comum, pode-se citar outras funções que possuem a
característica de força unilateral importante, como um caixa de supermercado, que transpõe os produtos
30
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

de um lado para o outro, um trabalhador de limpeza, ao limpar as janelas ou varrer o piso, e um repositor
de estoques, que usa uma das mãos para retirar o produto da caixa e a outra mão para erguer o produto
até a prateleira.

A) B)

Figura 17 – Muitos equipamentos são utilizados forçando um lado do corpo, seja pelo posicionamento
mais favorável (painel lateral), seja pelo manuseio unilateral (materiais de limpeza)

2.1.4 Muito tempo na posição em pé

Trabalhadores de produção muitas vezes realizam funções nas quais o deslocamento é


importante, como carregadores, varredores e entregadores, ao passo que outras funções são
executadas na posição em pé com membros inferiores estáticos, enquanto os membros superiores
fazem alguma tarefa ou há pequenos deslocamentos para pegar uma peça ou ajustar a posição
do corpo frente a uma peça.

Essa necessidade pode ter desdobramentos diversos: no caso de se trabalhar em pé parado, haverá
uma sobrecarga na musculatura dorsal, especialmente lombar, e uma possível diminuição de retorno
venoso dos membros inferiores, pela falta de ação muscular na posição parada. Se o trabalho for
realizado em pé e em movimento, haverá grande demanda energética e fadiga na musculatura de
membros inferiores devido à grande distância percorrida.

Para Dul e Weerdmeester (2012), é essencial intercalar a posição em pé com a posição sentada ou
andando para aliviar a sobrecarga.

31
Unidade I

2.1.5 Trabalho em posições forçadas

Outra característica presente em diversas funções consideradas como trabalho braçal é a


possibilidade de o trabalho ser realizado em posição não anatômica.

Figura 18 – O trabalho em posição forçada, mesmo aquele em que não seja necessário executar
força, causará uma demanda estática importante para ser compensada por um programa de ginástica laboral

Certas tarefas obrigam o trabalhador a assumir uma posição forçada, muitas vezes necessária para
conseguir alcançar uma peça, ou encontrar uma posição em que seja possível aplicar força etc.

Quando se necessita assumir uma posição pouco natural, a musculatura precisa sustentar o peso
corporal, ao contrário de uma postura equilibrada. Dessa forma, haverá um desgaste por conta da força
empregada para assumir essa posição e, se for preciso manter tal postura por muito tempo, haverá uma
fadiga por causa dessa solicitação.

É importante considerar a variação de posturas, e o estresse de permanecer com o tronco inclinado


pode gerar dores no pescoço e nas costas (DUL; WEERDMEESTER, 2012).

O programa de ginástica laboral deve considerar esse aspecto e providenciar a devida compensação
ou relaxamento das estruturas envolvidas.

Figura 19 – Parece cômodo trabalhar deitado, mas essa posição de abdução dos braços
forçará o mecânico a realizar trabalho muscular para adução dos braços por tempo prolongado,
fatigando a musculatura peitoral, tríceps e deltoides. Se houver necessidade de elevar a cabeça do chão,
para poder enxergar o acesso às peças, ainda mais desgastante será a posição

32
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

2.1.6 Outras características do trabalho braçal

Além das características citadas, é possível identificar outros fatores típicos de trabalhadores
braçais. Assim, o profissional de ginástica laboral deve estar atento a quais aspectos são os mais
importantes para aquele grupo para o qual pretende montar o programa, e então será possível
atender às suas necessidades.

Deve-se, ainda, estar preparado para verificar as exceções. Alguns trabalhos, apesar de serem
realizados na linha de produção, em vez de requererem força, podem se assemelhar a trabalhos de
controle, portanto, em muito se aproximando das características do trabalho administrativo, que serão
analisadas a seguir.

Figura 20 – Apesar de estar na linha de produção, este operário tem característica


de trabalhador administrativo, observando um painel e pressionando os controles.
É importante considerar, ainda, a posição do trabalho em pé e a presença de ruídos e vibrações

2.2 Tipificação do trabalho administrativo, suas características e demandas

No outro extremo dos aspectos típicos de trabalho está o chamado trabalho administrativo.
Também há uma série de fatores que o destacam para poder identificar quais solicitações são as mais
comuns nesse tipo de função.

O trabalhador administrativo é definido como aquele que cumpre tarefas ligadas a decisões ou
procedimentos diversos com mais atuação cognitiva do que uso de grandes grupos musculares.
Logicamente, ele utilizará movimentos sempre que necessário, pois muitas tarefas exigem algum
tipo de interação, como falar ao telefone, escrever, digitar, bem como pequenos deslocamentos,
às vezes apresentações em reuniões ou atividades em grupo. Entretanto, esses movimentos
são pouco significativos em relação ao dispêndio energético, sendo que muitos trabalhadores
administrativos passam a maior parte do tempo sentados.

33
Unidade I

Figura 21 – O trabalho administrativo é marcado pelo intenso envolvimento


cognitivo, com pouca ação muscular. Escrita, digitação, comunicação e discussões
são algumas das principais atividades exercidas

Acentuaremos agora alguns dos atributos típicos do trabalho administrativo.

2.2.1 Trabalho sentado e sedentarismo

Muitas das funções do trabalho administrativo podem ser realizadas na posição sentada, o que,
de certo modo, é interessante para evitar o cansaço provocado pela posição em pé, típica do grupo de
trabalhadores anteriormente estudado.

Todavia, muitas horas por dia de jornada de trabalho na posição sentada também não trazem
benefícios ao organismo, podendo gerar, além da condição sistêmica de sedentarismo, problemas
relacionados à posição assumida. Um traço importante do trabalho sentado é a diminuição da circulação
sanguínea nos membros inferiores.

Outra influência da posição sentada é a sobrecarga da coluna, especialmente na região lombar,


e muitas vezes na região cervical, podendo ser associada a problemas ergonômicos, que serão analisados
adiante. Um programa de ginástica laboral pode abordar essas objeções, ao realizar atividades para
membros inferiores e coluna.

Adicionalmente aos prejuízos à saúde causados por muito tempo na posição sentada, não se pode
deixar de considerar que muitos trabalhadores não se sentam corretamente, acarretando problemas
ainda maiores. Assim, a integração da ginástica laboral com a ergonomia poderá trazer resultados
favoráveis para os trabalhadores.

34
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Figura 22 – Trabalhar sentado também gera sobrecarga física na coluna


e nos membros inferiores, e isso deve ser compensado para não
causar prejuízos físicos permanentes

O sedentarismo não pode ser totalmente combatido em uma sessão de ginástica laboral do
ponto de vista fisiológico, pois, pela duração curta que a sessão possui, não será capaz de reverter
o quadro. Por isso, será visto mais adiante que um dos componentes do programa pode ser
educacional, complementando o pouco tempo de sessão com o incentivo à mudança de hábitos
em outros horários do dia.

2.2.2 Movimentos repetitivos

Uma das características mais presentes e típicas do trabalhador administrativo é a realização de


movimentos repetitivos de pequenos grupos musculares, como na escrita ou na digitação.

Movimentos repetitivos diversos, como escrita manual, uso constante de carimbos, mouse,
calculadora, manuseio de botões ou painéis, são a demonstração da presença de repetições na
rotina. Sem dúvida, são pontos de atenção no estudo das funções executadas pelo trabalhador,
mesmo com baixa força envolvida. A repetição deve ser considerada, e o profissional de ginástica
laboral deve observar em quais condições o trabalhador realiza os movimentos, bem como sua
intensidade e frequência. Assim, terá a informação da relevância do movimento em relação ao
desgaste do trabalhador, bem como das necessidades a serem consideradas para o planejamento
do programa de ginástica laboral.

A digitação, em especial, tornou-se uma grande preocupação das empresas, pela sobrecarga na
musculatura flexora e extensora dos dedos e estruturas anatômicas envolvidas. Trata-se de uma
demanda muito importante, típica de trabalhadores administrativos, e sua relevância será verificada na
Norma Regulamentadora 17 (NR 17), que dispõe especificamente sobre este tópico.

35
Unidade I

2.2.3 Estresse e sobrecargas diversas

O setor administrativo possui uma dinâmica que, muitas vezes, pode ser considerada demasiadamente
estressora. Realização de muitas atividades ao mesmo tempo, cobrança por prazos, hierarquia rígida,
relações interpessoais não favoráveis, entre outras causas, podem fazer com que o indivíduo trabalhe
em condição de estresse emocional constante.

O estresse ocasional faz parte de diversas funções administrativas, mas quando os agentes estressores
são permanentes os prejuízos aos trabalhadores são consideráveis. Em geral, as empresas reconhecem
tal carga negativa e adotam a ginástica laboral como forma de combater parte das causas de estresse.

A responsabilidade assumida no trabalho administrativo pode ser muito estressora, e a concentração


de responsabilidades também se torna um fator estressante muito grave, chegando a prejudicar as
relações interpessoais no trabalho.

Figura 23 – Trabalhadores do setor administrativo lidam com uma


série de fatores estressores típicos da sua atuação

Ao finalizar essa análise das características dos trabalhadores da produção e da administração,


deve-se lembrar que esses mundos extremos não são isolados. Muitos trabalhadores da administração,
por exemplo, deparam-se com a tarefa de ter que “transportar” os documentos burocráticos. Carregar os
documentos remete a um traço do trabalhador braçal, apesar de estar em um ambiente administrativo.
Da mesma forma, um operário de uma linha de produção pode passar parte do tempo conduzindo
uma máquina ou computador que controla o processo. Ele está exercendo uma função tipicamente
administrativa, embora trabalhe diretamente no chão de fábrica. Assim, o profissional de ginástica
laboral deve ter a clareza para analisar as funções desempenhadas em cada departamento, para poder
conhecer as principais demandas do trabalho e programar a melhor forma de ação.

3 ERGONOMIA

A ergonomia é uma valiosa ferramenta para o profissional de ginástica laboral. A palavra vem do
grego ergon (trabalho) e nomia (normatização, regras). Segundo a International Ergonomics Association
(IEA), a ergonomia (fatores humanos) pode ser definida como
36
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

disciplina científica que trata do entendimento da interação entre humanos e


outros elementos de um sistema, e a profissão que aplica a teoria, princípios,
dados e métodos a projetos, a fim de otimizar o bem-estar humano e a
performance geral do sistema (IEA, 2018).

Para Gonçalves (2008, p. 466 apud CALASANS, 2014), ergonomia é “a ciência que estuda a
adaptação do trabalho ao homem, visando propiciar uma solicitação adequada do trabalho, evitando
desgaste prematuro de suas potencialidades profissionais e objetivando alcançar a otimização do
sistema de trabalho”.

A origem da ergonomia, do ponto de vista moderno, voltado à produtividade, vem da área militar
em razão da Segunda Guerra Mundial, quando se verificou que uma maior adaptação do homem e de
suas ferramentas/ambiente de trabalho pode otimizar a eficiência. Acesso aos comandos das armas e
posição de trabalho em aviões, por exemplo, foram sendo estudados e gradualmente adaptados para
uma melhor interação homem-máquina.

A partir dessa origem mais moderna, a ergonomia foi sendo utilizada nas mais diversas áreas.
Hoje em dia, desde a culinária e a escrita, até os painéis de instrumentos dos carros e os cabos dos
secadores de cabelo são desenhados pensando em seu uso facilitado. Produtos tão diferentes como
teclados e mouses de computador e canetas ganham benefícios na usabilidade quando levam em conta
as questões ergonômicas em seu design. A questão se mostra sedimentada em parte da população,
pois as áreas de marketing das empresas fazem menção à questão ergonômica para comprovar a
superioridade de seu produto. Até mesmo a área de software vai usar os recursos da ergonomia para
adequar programas de computador e aplicativos de celulares para uma melhor utilização.

Saiba mais

Os sites a seguir destacam a abrangência da ergonomia, uma vez que


neste livro estão concentradas informações sobre a questão da posição e
dos movimentos relacionados ao corpo humano durante o trabalho.

Associação Brasileira de Ergonomia: <http://www.abergo.org.br>

International Ergonomics Association: <https://www.iea.cc/index.php>

O trabalho da ergonomia deve iniciar-se conhecendo o ser humano, que, além de não ser
completamente entendido, apresenta variações pessoais muito importantes. Vejamos algumas
características psicofisiológicas do ser humano que devem ser consideradas no enfoque da ergonomia:

Prefere escolher livremente sua postura, dependendo da exigência das


tarefas e do estado de seu meio interno.

37
Unidade I

Prefere utilizar alternadamente toda a musculatura corporal, e não


apenas determinados segmentos corporais.

Tolera mal tarefas segmentadas com tempo exíguo (especialmente quando


o tempo é externamente determinado).

É compelido a acelerar sua cadência quando estimulado pecuniariamente


ou por outros meios, não levando em conta os limites de resistência de seu
sistema musculoesquelético (BRASIL, 2002).

Enquanto isso, no trabalho, a intenção é utilizar a ergonomia de forma a adaptar ferramentas,


postos de trabalho, organizações e processo produtivo ao homem, no intuito de proporcionar maior
conforto, segurança e produtividade.

A)

B)

Figura 24 – A evolução das máquinas com enfoque na ergonomia visa uma maior
produtividade do trabalho, partindo da colheita manual para máquinas rudimentares
e, como mostrado nas duas imagens, uma condição de trabalho melhorada, desde
uma colheitadeira mais simples e mecânica (A) até sua evolução, computadorizada (B)

38
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Moraes e Soares (apud FIGUEIREDO; MONT´ALVÃO, 2008) afirmam que a ergonomia possibilita:

Maximizar conforto, satisfação e bem-estar.

Garantir a segurança.

Minimizar constrangimentos, custos humanos e carga cognitiva, psíquica e


física do operador e/ou usuário.

Evitar doenças profissionais, lesões e mutilações do trabalhador.

Otimizar o desempenho da tarefa, o rendimento do trabalho e a produtividade


do sistema homem-máquina.

O entendimento de ergonomia pelo profissional de ginástica laboral vai levá-lo a interpretar


corretamente as necessidades dos trabalhadores. A abordagem neste livro vai destacar o enfoque
de avaliação e colaboração, pois para atuar no desenvolvimento de sistemas e alterações maiores o
profissional precisará buscar maior especialização nessa área.

As especializações possíveis segundo a International Ergonomics Association (IEA, 2018) são:

• Ergonomia física: relacionada a anatomia, fisiologia, biomecânica e antropometria, incluindo


posturas, movimentos executados, cargas movimentadas e leiaute do posto de trabalho.

• Ergonomia cognitiva: trata dos processos mentais e de como estes afetam a relação do homem
com os outros elementos do sistema. Percepção, memória, julgamento, tomada de decisão,
estresse e interação com o computador são alguns dos temas desta área.

• Ergonomia organizacional: a otimização dos processos sociotécnicos faz parte desta área.
Estrutura, políticas, processos, comunicação, organização do trabalho, horários, equipes, trabalho
a distância e administração da qualidade são tarefas tipicamente desenvolvidas, entre outras.

Figura 25 – Sistemas de interação para computadores devem ter um design que


facilite a interação com o trabalhador, gerando economia de tempo e de movimentos

39
Unidade I

A atuação em ergonomia do profissional de ginástica laboral terá, então, objetivos coadjuvantes


na busca de melhores condições através da aplicação do conhecimento de ergonomia deste
profissional na análise das condições de trabalho encontradas e, em especial, no posicionamento
dos segmentos corporais e na conscientização preventiva. Eventualmente, a pedido da empresa
contratante, o conceito de ergonomia poderá ainda ser aplicado para pequenas orientações, como
postura para sentar-se, para levantar uma carga, ou organização e posicionamento do teclado,
monitor etc. À medida que o profissional se especialize nas áreas acentuadas, poderá assumir um
papel de maior intervenção.

Quando um posto de trabalho ou a organização da execução da tarefa já tiver passado por análise
de um ergonomista ou indivíduo designado para tal, o profissional de ginástica laboral não deverá fazer
intervenções, para não afetar o planejamento que foi realizado.

Figura 26 – A natureza da tarefa e o ambiente para realizá-la são componentes


importantes na avaliação da ergonomia. Uma simples anteriorização
da cabeça aumenta a força necessária para sustentá-la

O profissional de ginástica laboral deve ser cauteloso, pois mesmo pequenas intervenções,
como a sugestão de usar o mouse na mão menos habilidosa para dividir a carga de trabalho, podem
causar interferências negativas, apesar da boa intenção da mudança. Para um trabalho que requer
precisão na interação com o sistema através do mouse, por exemplo, sofrer alteração não planejada
através de uma sugestão descompromissada pode ocasionar erros no processamento dos pedidos
de compras, ou de despacho de mercadorias. Pode haver prejuízos financeiros e de imagem da
empresa, que são indesejáveis. Qualquer alteração que possa causar interferência no trabalho deve
ser autorizada pela gestão da empresa e fazer parte de um planejamento cuidadoso.

O planejamento do espaço e da relação homem-máquina é altamente relacionado com a ginástica


laboral, pois a localização dos comandos em uma máquina, por exemplo, vai determinar os ângulos de
trabalho dos segmentos (ombros, cabeça, coluna etc.) e a posição corporal (em pé, sentado, inclinado
etc.), provocando as demandas associadas ao desgaste e à saúde do trabalhador.
40
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Figura 27 – O correto design do posicionamento, dos controles e dos instrumentos


pode fazer uma grande diferença quando se analisa o desgaste humano
para observar e interagir com a máquina de forma segura e eficiente

Hendrik (apud FIGUEIREDO; MONT´ALVÃO, 2008) acrescenta o conceito de macroergonomia,


como a interface homem-organização-máquina, observando a empresa como um todo, englobando
organização, gerenciamento, objetivos, métodos, tecnologias, características psicossociais dos
trabalhadores etc. É um conceito mais amplo, necessário para tomar as decisões nas esferas mais
específicas de forma coerente. Além da macroergonomia, o autor considera como as demais
partes desse complexo a ergonomia cognitiva ou ergonomia de software, parte na qual devem
ser estudadas as relações do usuário com o sistema de computador, por exemplo, a ergonomia
de hardware ou interface homem-máquina, com a interação do homem com a máquina por ele
operada do ponto de vista mecânico (posicionamento, comandos, alavancas etc.), e a ergonomia
ambiental, na qual entram componentes como temperatura, umidade, vibração, iluminação, ruído
e ventilação.

A vibração, especialmente advinda do uso de ferramentas ou da permanência em plataformas de


grandes máquinas, afeta diretamente a solicitação física e a fadiga causadas pelo trabalho, bem como
aumenta a ocorrência de LER/Dort. Assim, a ginástica laboral bem planejada pode auxiliar a minimizar
tais efeitos.

41
Unidade I

Figura 28 – Trabalhos que envolvem vibração desgastam aceleradamente a musculatura e


as articulações, necessitando de atenção especial do programa de ginástica laboral

Nos demais aspectos ambientais, como temperatura, ventilação, iluminação etc., a ginástica laboral
poderá colaborar do ponto de vista fisiológico, tanto pelo planejamento, para que ocorra em um local
com menor incidência desses fatores, como também por atividades que combatam esses agentes com
relaxamento, consciência corporal, trabalhos de respiração etc.

Figura 29 – Trabalhos em ambientes aquecidos demais geram uma sobrecarga no sistema fisiológico do trabalhador.
O mesmo ocorre em sentido inverso, quando se trabalha em ambientes frios ou expostos ao vento ou à chuva

Utilizando essas primeiras noções, o profissional de ginástica laboral poderá entender os caminhos
para estudos mais aprofundados e buscar uma maior compreensão dos inúmeros panoramas que possam
se apresentar, para identificar as principais sobrecargas sofridas pelos trabalhadores que irá atender.

Apesar de cada função ter exigências diferentes na sua relação com o equipamento e com as tarefas
sendo executadas, exigindo análises específicas, pode-se começar a entender o problema a partir
da análise de duas interações gerais, que envolvem grandes grupos musculares, que são as posições de
trabalho em pé e sentado, e também interações que utilizem o trabalho muscular estático e o trabalho
muscular dinâmico.
42
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

3.1 Ergonomia do trabalho sentado

O trabalho sentado diminui parte da solicitação muscular estática do corpo, que é a necessidade de
contração para manter-se em pé. A própria NR 17, que será analisada mais adiante, prevê que “sempre
que o trabalho puder ser executado na posição sentada, o posto de trabalho deve ser planejado ou
adaptado para esta posição” (BRASIL, 2002).

De acordo com Marano (2007), a posição sentada divide a carga transmitindo cerca de 50% do peso
corporal para as tuberosidades isquiáticas, 34% para a face posterior das coxas e 16% para as plantas
dos pés.

A posição sentada, entretanto, também impõe exigências físicas. Assim, é importante estudar a
postura e as funções desempenhadas na posição sentada. Algumas considerações podem ser feitas
sobre a frequente constatação de se assumir uma postura errada ao sentar-se.

A altura do assento deve permitir o acesso à mesa de trabalho sem necessitar de contração muscular
estática para elevação dos ombros ou abdução dos braços. Os pés devem estar apoiados e com espaço
para ajustes de posição. Pode ser necessário e recomendável a utilização de apoio para os pés para
garantir que estes não fiquem sem contato com o solo, o que iria provocar um aumento da pressão da
parte posterior da coxa contra o assento.

Também é essencial verificar o que ocorre com a sobrecarga na coluna vertebral durante o trabalho
na posição sentada. Na figura seguinte, pode-se comparar a pressão de disco intervertebral (entre L3
e L4), considerando como referência de 100% a pressão na posição em pé. Nota-se que na posição
sentada com o tronco reto a 90º da coxa a pressão chega a 140%, e com curvatura do tronco à frente
pode atingir 190% da pressão existente na posição em pé.

100%

24%

140% 190%

Figura 30 – Relação proporcional da pressão do disco


intervertebral (L3/L4) em quatro diferentes posturas

Se for comparada a postura sentada com o tronco na vertical com a postura inclinada à frente,
pode-se verificar que há uma menor pressão dos discos na postura reta. Porém, para manter as costas
eretas, é necessária uma maior ativação muscular, sobrecarregando os músculos ao aliviar os discos.
43
Unidade I

Assim, a ergonomia no desenho de cadeiras e poltronas precisou evoluir para diminuir essa
sobrecarga. O trabalho dos profissionais envolvidos, como ergonomistas e profissionais de ginástica
laboral, torna-se um importante fator de manutenção da consciência e das condições de correta
utilização da posição sentada.

A) B)

Figura 31 – Diferentes cadeiras possibilitam posições variadas no trabalho sentado. Regulagens de


altura, apoios para braços, encostos, dimensões, presença de rodízios e outras características as
diferenciam, e o profissional de ginástica laboral deve verificar a sua forma de utilização

As conclusões dos estudos existentes sobre cadeiras são muito variadas, pois tratam de situações
e realidades diferentes. Em pesquisa específica sobre o desenho de uma cadeira ideal, Kroemer e
Grandjean (2005) detectaram a preferência de usuários por cadeira com assento reclinado a cerca de
20º da horizontal para trás, e encosto de 20º a 30º da vertical para trás, proporcionando apoio das costas
e coxas de maneira a diminuir as sobrecargas musculares e discais. A existência de um apoio lombar
também é desejável.

Os profissionais de ginástica laboral não atuarão no desenho do mobiliário, mas o conhecimento


dessas recomendações é importante para:

• A constatação das sobrecargas existentes e de qual é o desvio da posição ideal, para poder planejar
as atividades compensatórias.

• O auxílio na orientação das regulagens e nas orientações posturais, quando previsto no planejamento.

• A participação eventual em comitês de ações ou grupos de estudo de ergonomia no trabalho,


podendo aprofundar seus estudos para recomendar determinadas características quando houver
a decisão de aquisição de novo mobiliário.

44
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

a) 48-50 cm
b) 38-54 cm
c) mín. 17 cm a
d) 10-25º c

b
d

Figura 32 – Recomendações para projeto de cadeiras e mesas. Vale ressaltar


que diferentes funções podem exigir arranjo diferenciado

Além das características das solicitações por permanecer na posição sentada, deve-se considerar
ainda as funções executadas, como digitação, leitura, telefonia, controle de máquinas etc.

3.1.1 Posição de trabalho em terminais de computadores

Uma das funções executadas na posição sentada que merecerá destaque pela grande abrangência
em nossa sociedade de serviços é o trabalho em computadores, também presente, faça-se menção,
em ambientes de produção automatizada.

O trabalho em computadores exige uma integração, a partir da posição sentada, com elementos da
postura, como posição da cabeça, posicionamento de membros superiores para acesso ao teclado e ao
mouse, e movimentos repetitivos no uso desses equipamentos. Também envolve a questão ambiental,
como a iluminação e os reflexos na tela.

A posição da cabeça é a primeira a ser examinada: utilizando como referência a linha OO


(linha ouvido-olho), esta linha não deve estar mais de 15º abaixo da horizontal, ou seja, a cabeça
não deve estar mais inclinada que 30º para a frente (KROEMER; GRANDJEAN, 2005). A posição do
monitor de computador deve estar dentro de 0º a 15º da horizontal para baixo, para que a visão
seja utilizada sem esforço.

Figura 33 – Pode-se notar que a tela de um notebook fica muito baixa em relação à linha
da visão horizontal. Olhar para baixo gera uma sobrecarga estática na região cervical, sendo
importante considerá-la para planejamento da ginástica laboral. Existem suportes para elevar
o notebook e deixar a tela mais próxima à linha da visão, devendo ser acoplado um teclado à parte

45
Unidade I

Observação

Linha OO (linha ouvido-olho) é uma linha imaginária que liga o


orifício do ouvido à extremidade lateral do olho, na junção das pálpebras.
É fácil de ser visualizada, e por isso é muito usada em referências sobre
posição da cabeça.

Na tabela a seguir, pode-se comparar o número de estudos avaliados por Couto et al. (1998), que
relacionaram alguns parâmetros ergonômicos com o acometimento por LER/Dort de trabalhadores em
terminais de computadores. Muitos dos problemas ligados ao aparecimento de LER/Dort estão associados
com o posicionamento de cabeça e membros superiores.

É interessante notar ainda que a percepção de desconforto parece ser um indicador relevante em
três estudos em que houve o aparecimento de LER/Dort, mostrando que o indivíduo pode ter alguma
capacidade de detecção através de seu conhecimento corporal e sensibilidade para um problema
presente, para que possa ser prevenido.

Tabela 2 – Número de estudos demonstrando fatores de posição assumida no trabalho com


terminais de computadores comprovando (“Sim”) ou não comprovando (“Não”)
relação com ocorrência de LER/Dort

Fator Sim Não


Ângulos forçados/articulações 4 2
Posição da tela/documento 3 1
Posição do teclado/mesa 2+1- 2
Cadeira inadequada 1 3
Falta de espaço para pernas 1 –
Leiaute do teclado 1 –
Falta de suporte para punho 1 –
Percepção de desconforto 3 1
Tempo na profissão (digitação) 1 2
Força excessiva com mãos 1 –

Adaptado de: Couto et al. (1998).

Para a ergonomia, a posição de membros superiores durante o trabalho sentado é especialmente


importante na digitação, além da questão dos movimentos repetitivos.

Alguns teclados de computadores possuem um ângulo interno entre as teclas utilizadas pela mão
direita e as que são usadas pela mão esquerda, diminuindo o desvio ulnar necessário para assumir a
posição de trabalho. Dessa forma, buscam diminuir a quebra de neutralidade da articulação do punho,
melhorando a ergonomia.

46
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Figura 34 – Note o desvio ulnar do antebraço esquerdo. Os teclados convencionais,


sobretudo os menores modelos, exigem uma adaptação dos punhos em relação
à largura dos ombros, causando uma quebra da neutralidade desse segmento e
expondo a região a um maior desgaste devido à repetição dos movimentos

Figura 35 – Alguns modelos de teclado são curvos ou angulados, permitindo


que os dedos acessem as teclas necessitando de menor desvio ulnar

3.2 Ergonomia do trabalho em pé

A manutenção da posição em pé repercute no organismo e gera demandas energéticas e desgastes


posturais. Pode-se fazer subdivisões nesta categoria, para quando o trabalho em pé é realizado com
deslocamentos ou em posição parada.

Considerações sobre o trabalho em pé estático levam à preocupação com o acúmulo sanguíneo


no sistema vascular venoso dos membros inferiores. Sem movimentação, a musculatura não consegue
auxiliar com o efeito de bombeamento sanguíneo no retorno venoso, aumentando a propensão a
varizes, por exemplo, e outras consequências. Caberá ao profissional de ginástica laboral proporcionar
as atividades necessárias para amenizar o quadro, inclusive medidas educativas para estimular a
movimentação de membros inferiores periodicamente.

47
Unidade I

Figura 36 – O trabalho parado na posição em pé requer contrações musculares estáticas


dos membros inferiores e do tronco para manutenção da postura, e pode ser altamente desgastante

Segundo Kroemer e Grandjean (2005), a pressão nas veias é aumentada em 80 mmHg nos pés e
40 mmHg nas coxas, quando se fica parado em pé.

Já o trabalho em pé com movimentação (andar, subir escadas, acionar pedais) gera um acionamento
muscular relevante e desgastante, necessitando também da intervenção do profissional de ginástica
laboral para contrapor tais solicitações. O trabalho de garçom, carteiro, lixeiro ou entregador de pizzas
ilustra que, além do trabalho na posição em pé, pode ser significativo o número de passos realizados
durante a jornada.

Para Marano (2007), o trabalho predominantemente em pé é contraindicado para casos


de alterações físicas, articulares ou circulatórias, obesidade ou outras características que são
agravadas pela posição.

3.3 Trabalho muscular estático e dinâmico

O trabalho muscular dinâmico é caracterizado por alternância de contração muscular e relaxamento,


enquanto o trabalho estático é marcado pela manutenção da contração isométrica, muitas vezes para
manter a postura necessária.

O trabalho estático é mais desgastante do ponto de vista laboral. A necessidade de irrigação


sanguínea para manter a contração muscular nem sempre é suprida de forma satisfatória,
resultando em fadiga mais rápido, pois, sobretudo em maiores tensões, a pressão interna do
músculo dificultará a circulação sanguínea. Para o profissional de ginástica laboral, deve ser
fator de consideração no momento da avaliação das atividades laborativas e de planejamento
de sua proposta.

48
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Figura 37 – Observe o trabalho desta dentista, em um ambiente confortável, sentada


em uma cadeira com apoios, mas a necessidade da carga estática muscular dorsal,
sustentando sua cabeça com flexão cervical e tronco inclinado à frente, é desgastante

Durante o trabalho dinâmico, a cadência de contração e relaxamento auxiliará na circulação


sanguínea e, dependendo da intensidade, o trabalho poderá ser mantido por um longo tempo
sem fadiga.

Deve-se notar que em algumas situações é possível existir uma região corporal executando trabalho
estático (segurar uma caixa pesada com os braços, por exemplo), enquanto outra região executa
trabalho dinâmico (caminhar). Em outras situações pode ocorrer repouso em uma região (posição sentada),
enquanto os membros superiores trabalham intensamente na montagem de uma peça, por exemplo.

3.4 Trabalho pesado e manuseio de cargas

Atualmente, grande parte do trabalho nos países industrializados é realizado na posição sentada
e em muitas indústrias há uma diminuição na necessidade de trabalho pesado devido à mecanização e
automação, mas ainda é uma frequente solicitação nas mais variadas funções.

O trabalho pesado também é um grande desafio para o organismo. Mesmo sendo dinâmico,
a requisição de grande parte da musculatura, em alta tensão, gera uma necessidade de pausas de
recuperação, que podem ser maximizadas com o trabalho de ginástica laboral. Portanto, o profissional
deve estar atento às solicitações existentes na rotina do trabalhador. A alta exigência muscular local
ainda pode refletir na sobrecarga cardiopulmonar.

O trabalho não deveria exigir de forma contínua ou repetitiva mais de 30% da capacidade de
um grupo muscular, evitando utilização aguda, mesmo ocasional, de mais de 50% da capacidade
(COUTO et al., 1998). A redução da força necessária pode ser alcançada com diversas ações, como reduzir
o peso de objetos ou caixas, melhorar a “pega” de ferramentas para ter atrito adequado, e evitar o uso
de força além do necessário.

A tabela a seguir indica o dispêndio de energia considerando um homem e uma mulher médios,
em várias funções laborativas:

49
Unidade I

Tabela 3 – Demandas energéticas de algumas atividades

Tipo de trabalho Exemplo Demanda do homem Demanda da mulher


Leve, sentado Guarda-livros 9.600 kJ/dia 8.400 kJ/dia
Manual, pesado Tratorista 12.500 kJ/dia 9.800 kJ/dia
Moderado, todo o corpo Açougueiro 15.000 kJ/dia 12.000 kJ/dia
Pesado, todo o corpo Comutador de ferrovia 16.500 kJ/dia 13.500 kJ/dia
Extremo Madeireiro 19.000 kJ/dia –
Metabolismo basal Imobilidade 7.000 kJ/dia 5.900 kJ/dia

Adaptado de: Kroemer e Grandjean (2005, p. 83).

Comparando com a demanda energética basal, os trabalhos pesados são considerados muito
significativos no que diz respeito à saúde do trabalhador.

Estudos avaliam que uma média diária para trabalho pesado na Europa e nos Estados Unidos é de
cerca de 20.000 kJ/dia, sendo aceitável ultrapassar este valor em alguns períodos, desde que a média se
mantenha ao longo do ano (KROEMER; GRANDJEAN, 2005).

O carregamento de peso é uma das formas mais comuns de trabalho pesado, devendo se considerar
tanto o gasto energético quanto as estruturas solicitadas.

Figura 38 – O trabalho pesado de carregamento de cargas é extremamente penoso,


tanto do ponto de vista energético quanto do desgaste muscular e articular

Sempre que possível, deve-se utilizar equipamentos e acessórios que diminuam a carga
carregada, dividindo-a em partes ou ainda a transportando em carrinhos. O profissional de
ginástica laboral deve observar qual a disponibilidade desses equipamentos na rotina de trabalho
e verificar a sobrecarga sofrida pelo colaborador, para equacionar seu programa de acordo com
as necessidades verificadas.

50
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Figura 39 – Quando a carga a ser carregada for muito pesada, devem ser usados carrinhos para diminuir a sobrecarga no corpo.
O profissional de ginástica laboral deve considerar que a sobrecarga que incide sobre o trabalhador é muito significativa

O carregamento e o manuseio de cargas são demandas essenciais no trabalho braçal, e sua


importância pode ser verificada na Norma Regulamentadora 17 (NR 17), que dispõe especificamente
sobre este tópico.

3.5 Norma Regulamentadora 17 (NR 17)

As normas regulamentadoras são um conjunto de instruções sobre segurança e saúde no trabalho


visando a preservação e a melhoria da segurança do trabalhador por meio da especificação das diversas
situações de condições de trabalho.

A NR 17 aborda especificamente os aspectos ergonômicos relacionados ao trabalho. Será feita a


seguir uma breve análise de partes dessa norma, conforme disponível até a data da edição deste material.

Saiba mais

Informe-se sobre a Norma Regulamentadora 17, suas atualizações e as


demais normas diretamente no site do Ministério do Trabalho:

<http://www.trabalho.gov.br/seguranca-e-saude-no-trabalho/
normatizacao/normas-regulamentadoras>.

A primeira parte da NR 17 trata de disposições gerais, seguidas por considerações específicas para
diversas tarefas. O profissional de ginástica laboral deve conhecer as normas, não para fiscalizar sua
aplicação ou gerar conflitos entre trabalhadores e a empresa, mas para ter argumentação teórica

51
Unidade I

quando fizer proposições de programas que visam diminuir as sobrecargas sofridas, ou participação de
seu parecer ao contratante quando solicitado.

Em caso de observação de desvios da norma que possam causar problemas físicos aos trabalhadores,
o agente deve entrar em contato com o responsável por sua contratação, passando as informações
necessárias para que seja possível tomar as providências.

Considerações iniciais da NR 17:

17.1. Esta Norma Regulamentadora visa a estabelecer parâmetros que


permitam a adaptação das condições de trabalho às características
psicofisiológicas dos trabalhadores, de modo a proporcionar um máximo de
conforto, segurança e desempenho eficiente (BRASIL, 2007).

Pode-se verificar que a NR 17 é definida como norteadora para decisões de adaptação das condições
de trabalho em favor da característica dos trabalhadores para seu conforto, segurança e desempenho
eficiente de suas funções. No item 17.1.2, dispõe que cabe ao empregador a responsabilidade de realizar
a análise ergonômica do trabalho.

No item 17.2 da NR 17 – Levantamento, transporte e descarga individual de materiais –,


definem-se os parâmetros para trabalho de transporte de materiais. Especialmente, há um cuidado com a
necessidade da diminuição da carga para trabalhadores jovens e trabalhadoras do sexo feminino.

17.2.1.1. Transporte manual de cargas designa todo transporte no qual o peso


da carga é suportado inteiramente por um só trabalhador, compreendendo
o levantamento e a deposição da carga.

17.2.1.2. Transporte manual regular de cargas designa toda atividade


realizada de maneira contínua ou que inclua, mesmo de forma descontínua,
o transporte manual de cargas (BRASIL, 2007).

A Norma atribui ao empregador a responsabilidade sobre qualquer problema relacionado à designação


de transporte de carga a um trabalhador, mesmo quando utilizados meios auxiliares de transporte:

17.2.2. Não deverá ser exigido nem admitido o transporte manual de cargas,
por um trabalhador cujo peso seja suscetível de comprometer sua saúde ou
sua segurança.

17.2.6. O transporte e a descarga de materiais feitos por impulsão ou tração


de vagonetes sobre trilhos, carros de mão ou qualquer outro aparelho
mecânico deverão ser executados de forma que o esforço físico realizado
pelo trabalhador seja compatível com sua capacidade de força e não
comprometa a sua saúde ou a sua segurança (BRASIL, 2007).

52
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Figura 40 – O uso de carrinhos de carga atenua a exigência da tensão muscular necessária


para carregar os objetos na mão, e pode diminuir a quantidade de deslocamentos ao exigir
menos viagens. Entretanto, gera uma maior intensidade de força de membros inferiores
necessária para tracioná-lo. A NR 17 fixa que mesmo com o uso de carrinhos o esforço
deve ser compatível com a capacidade do trabalhador

O item 17.3 da NR 17 trata especificamente do mobiliário, visando estabelecer posição preferencial


sentada e condições de operação confortáveis.

17.3.1. Sempre que o trabalho puder ser executado na posição sentada,


o posto de trabalho deve ser planejado ou adaptado para esta posição.

17.3.2. Para trabalho manual sentado ou que tenha de ser feito em pé,
as bancadas, mesas, escrivaninhas e os painéis devem proporcionar ao
trabalhador condições de boa postura, visualização e operação e devem
atender aos seguintes requisitos mínimos:

a) ter altura e características da superfície de trabalho compatíveis com o


tipo de atividade, com a distância requerida dos olhos ao campo de trabalho
e com a altura do assento;

b) ter área de trabalho de fácil alcance e visualização pelo trabalhador;

c) ter características dimensionais que possibilitem posicionamento e


movimentação adequados dos segmentos corporais (BRASIL, 2007).

Pode-se notar que a condição de boa postura não é especificada quanto a altura, distância e
proporções, mas sim nos termos “boa postura”, “fácil visualização”, “compatíveis” etc., de certa forma
necessitando referência externa.

Ainda sobre o trabalho sentado, a NR 17 dispõe um padrão para ser seguido para os assentos de
cadeiras de trabalho:

53
Unidade I

17.3.3. Os assentos utilizados nos postos de trabalho devem atender aos


seguintes requisitos mínimos de conforto:

a) altura ajustável à estatura do trabalhador e à natureza da função exercida;

b) características de pouca ou nenhuma conformação na base do assento;

c) borda frontal arredondada;

d) encosto com forma levemente adaptada ao corpo para proteção da região


lombar (BRASIL, 2007).

Além da preocupação com o assento e o apoio da região dorsal, é fixada a necessidade de suporte
para trabalhar com os pés apoiados.

O item 17.3.4 acentua: “Para as atividades em que os trabalhos devam ser realizados sentados,
a partir da análise ergonômica do trabalho, poderá ser exigido suporte para os pés, que se adapte ao
comprimento da perna do trabalhador” (BRASIL, 2007).

Figura 41 – O trabalho sentado é uma preocupação da norma, tanto nas especificações


mínimas da cadeira (assento, encosto etc.) como na posição da visão do documento e
na alternância de posições. Dependendo do tempo despendido nesta posição, a trabalhadora
terá dores na região cervical, possíveis problemas circulatórios nas pernas e dores na região
da coluna devido à assimetria da distribuição de peso no quadril

Já no caso de trabalho em pé, a NR 17 especifica a disponibilização de assentos para que sejam


utilizados durante as pausas: “17.3.5. Para as atividades em que os trabalhos devam ser realizados de

54
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

pé, devem ser colocados assentos para descanso em locais em que possam ser utilizados por todos os
trabalhadores durante as pausas” (BRASIL, 2007).

Mais adiante, a NR 17 dispõe a obrigação de fornecer suporte adequado para documentos em


trabalhos com digitação, fazendo com que haja uma diminuição na movimentação do pescoço.
O profissional de ginástica laboral deve verificar a necessidade de alongar, compensar ou até massagear
a região cervical em seu programa de ginástica laboral, pois a preocupação é fundamentada:

17.4.2. Nas atividades que envolvam leitura de documentos para digitação,


datilografia ou mecanografia deve:

a) ser fornecido suporte adequado para documentos que possa ser ajustado
proporcionando boa postura, visualização e operação, evitando
movimentação frequente do pescoço e fadiga visual; [...] (BRASIL, 2007).

Avançando nos itens da NR 17, pode-se analisar o espectro das tarefas:

17.6.1. A organização do trabalho deve ser adequada às características


psicofisiológicas dos trabalhadores e à natureza do trabalho a ser executado.

17.6.2. A organização do trabalho, para efeito desta NR, deve levar em


consideração, no mínimo:

a) as normas de produção;

b) o modo operatório;

c) a exigência de tempo;

d) a determinação do conteúdo de tempo;

e) o ritmo de trabalho;

f) o conteúdo das tarefas (BRASIL, 2007).

Ou seja, o trabalho a ser executado deve ser adequado às características do trabalhador, e os subitens
“a” a “f” do item 17.6.2 devem ser observados para essa adequação.

Ainda sobre a execução das tarefas no trabalho, pode-se destacar que a NR 17 estipula que,
se houver a presença de algumas sobrecargas musculares, os sistemas de avaliação de desempenho
visando recompensas deverão considerar as consequências no trabalhador e a necessidade de pausas:

17.6.3. Nas atividades que exijam sobrecarga muscular estática ou dinâmica


do pescoço, ombros, dorso e membros superiores e inferiores, e a partir da
análise ergonômica do trabalho, deve ser observado o seguinte:
55
Unidade I

a) todo e qualquer sistema de avaliação de desempenho para efeito de


remuneração e vantagens de qualquer espécie deve levar em consideração
as repercussões sobre a saúde dos trabalhadores;

b) devem ser incluídas pausas para descanso (BRASIL, 2007).

Sobre tarefas realizadas no contexto de entrada de dados em computadores, a Norma deixa explícito
que há uma abordagem específica para evitar sobrecargas dessa natureza:

17.6.4. Nas atividades de processamento eletrônico de dados, deve-se, salvo o


disposto em convenções e acordos coletivos de trabalho, observar o seguinte:

a) o empregador não deve promover qualquer sistema de avaliação dos


trabalhadores envolvidos nas atividades de digitação, baseado no número
individual de toques sobre o teclado, inclusive o automatizado, para efeito
de remuneração e vantagens de qualquer espécie;

b) o número máximo de toques reais exigidos pelo empregador não


deve ser superior a 8.000 por hora trabalhada, sendo considerado toque
real, para efeito desta NR, cada movimento de pressão sobre o teclado;

c) o tempo efetivo de trabalho de entrada de dados não deve exceder o limite


máximo de 5 (cinco) horas, sendo que, no período de tempo restante
da jornada, o trabalhador poderá exercer outras atividades, observado o
disposto no art. 468 da Consolidação das Leis do Trabalho, desde que não
exijam movimentos repetitivos, nem esforço visual;

d) nas atividades de entrada de dados deve haver, no mínimo, uma pausa


de 10 minutos para cada 50 minutos trabalhados, não deduzidos da
jornada normal de trabalho (BRASIL, 2007).

Após esses itens, a Norma prossegue com a inclusão do Anexo I, que trata do trabalho de operadores
de checkout, como são conhecidos os serviços de caixa (supermercados, lojas de conveniência, lojas
de departamentos etc.). Na análise, cabe ressaltar as seguintes informações constantes do item 2.1 do
Anexo I da NR 17, que trata do posto de trabalho do operador de checkout:

a) atender às características antropométricas de 90% dos trabalhadores,


respeitando os alcances dos membros e da visão, ou seja, compatibilizando
as áreas de visão com a manipulação;

b) assegurar a postura para o trabalho na posição sentada e em pé,


e as posições confortáveis dos membros superiores e inferiores, nessas
duas situações;

56
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

c) respeitar os ângulos limites e trajetórias naturais dos movimentos, durante


a execução das tarefas, evitando a flexão e a torção do tronco;

d) garantir um espaço adequado para livre movimentação do operador e


colocação da cadeira, a fim de permitir a alternância do trabalho na
posição em pé com o trabalho na posição sentada;

e) manter uma cadeira de trabalho com assento e encosto para apoio


lombar, com estofamento de densidade adequada, ajustáveis à estatura do
trabalhador e à natureza da tarefa;

f) colocar apoio para os pés, independentemente da cadeira (BRASIL, 2007).

Se o profissional de ginástica laboral constata que alguns dos aspectos não são atendidos na empresa
em que irá atuar, deve verificar qual a sobrecarga adicional imposta ao trabalhador, para poder amenizar
a influência em sua saúde e prevenir as lesões decorrentes da não observação completa da NR 17, que
pode estar presente no trabalho.

Vale ainda destacar o item 2.2 do Anexo I da NR 17, que fixa os equipamentos do posto de checkout,
visando diminuir as solicitações físicas decorrentes da função:

2.2. Em relação ao equipamento e às ferramentas utilizadas pelos operadores


de checkout para o cumprimento de seu trabalho, deve-se:

a) escolhê-los de modo a favorecer os movimentos e ações próprias da


função, sem exigência acentuada de força, pressão, preensão, flexão,
extensão ou torção dos segmentos corporais;

b) posicioná-los no posto de trabalho dentro dos limites de alcance manual


e visual do operador, permitindo a movimentação dos membros superiores e
inferiores e respeitando a natureza da tarefa (BRASIL, 2007).

As tarefas de ensacamento e de pesagem de mercadorias concomitantes ao trabalho de operador de


checkout são tratadas nos itens 3.3 e 3.4, respectivamente, estipulando limites que devem ser conhecidos
pelo profissional de ginástica laboral no sentido da compreensão dos fatores agravantes a seu trabalho,
ou seja, quando presentes em maior grau, haverá dentro do programa a ser definido um planejamento
para poder compensar essas solicitações agregadas.

Interessante notar que o item 6 do Anexo I da NR 17 encarrega a empresa da educação do


trabalhador para exercer a função de operador de checkout de modo a preservar sua saúde, sendo
necessário fornecer treinamento:

6.2. O treinamento deve conter noções sobre prevenção e os fatores de


risco para a saúde, decorrentes da modalidade de trabalho de operador
de checkout, levando em consideração os aspectos relacionados a:
57
Unidade I

a) posto de trabalho;

b) manipulação de mercadorias;

c) organização do trabalho;

d) aspectos psicossociais do trabalho;

e) agravos à saúde mais encontrados entre operadores de checkout


(BRASIL, 2007).

A última seção da NR 17 é o Anexo II, que estuda a função de operador de telemarketing ou central
de atendimento, nos chamados call centers. Esses profissionais, pela natureza de seu trabalho, precisam
de considerações especiais, das quais algumas são destacadas a seguir. No seu primeiro item, define-se
o escopo do que trata o Anexo II:

1.1.1. Entende-se como call center o ambiente de trabalho no qual a principal


atividade é conduzida via telefone e/ou rádio com utilização simultânea de
terminais de computador.

1.1.1.1. Este Anexo aplica-se, inclusive, a setores de empresas e postos de


trabalho dedicados a esta atividade, além daquelas empresas especificamente
voltadas para essa atividade-fim.

1.1.2. Entende-se como trabalho de teleatendimento/telemarketing aquele


cuja comunicação com interlocutores clientes e usuários é realizada
a distância por intermédio da voz e/ou mensagens eletrônicas,
com a utilização simultânea de equipamentos de audição/escuta e fala
telefônica e sistemas informatizados ou manuais de processamento de
dados (BRASIL, 2007).

Algumas necessidades específicas sobre o posto de trabalho são tratadas no item 2 do Anexo II da
NR 17, podendo-se dar destaque ao item 2.1:

a) o monitor de vídeo e o teclado devem estar apoiados em superfícies com


mecanismos de regulagem independentes;

b) será aceita superfície regulável única para teclado e monitor quando


este for dotado de regulagem independente de, no mínimo, 26 (vinte e seis)
centímetros no plano vertical; [...]

g) o dispositivo de apontamento na tela (mouse) deve estar apoiado na


mesma superfície do teclado, colocado em área de fácil alcance e com
espaço suficiente para sua livre utilização (BRASIL, 2007).
58
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Já o item 5 do Anexo II da NR 17 discorre sobre a organização do trabalho do operador de


teleatendimento. Diz respeito a diversas necessidades, e pode-se destacar como vitais para o
conhecimento do profissional de ginástica laboral:

5.3. O tempo de trabalho em efetiva atividade de teleatendimento/


telemarketing é de, no máximo, 06 (seis) horas diárias, nele incluídas as
pausas, sem prejuízo da remuneração.

5.4. Para prevenir sobrecarga psíquica, muscular estática de pescoço,


ombros, dorso e membros superiores, as empresas devem permitir a
fruição de pausas de descanso e intervalos para repouso e alimentação
aos trabalhadores.

5.4.5. Devem ser garantidas pausas no trabalho imediatamente após


operação onde haja ocorrido ameaças, abuso verbal, agressões ou
que tenha sido especialmente desgastante, que permitam ao operador
recuperar-se e socializar conflitos e dificuldades com colegas, supervisores
ou profissionais de saúde ocupacional especialmente capacitados para
tal acolhimento.

5.6. A participação em quaisquer modalidades de atividade física,


quando adotadas pela empresa, não é obrigatória, e a recusa do
trabalhador em praticá-la não poderá ser utilizada para efeito de
qualquer punição.

5.8. Nos locais de trabalho deve ser permitida a alternância de postura


pelo trabalhador, de acordo com suas conveniência e necessidade
(BRASIL, 2007).

Saiba mais

Para verificar todos os itens e especificações da NR 17, leia:

BRASIL. Ministério do Trabalho e Previdência Social (MTPS). Portaria


SIT nº 13, de 21 de junho de 2007. Norma Regulamentadora nº 17 –
Ergonomia. Brasília, 2007. Disponível em: <http://www.mtps.gov.br/images/
Documentos/SST/NR/NR17.pdf>. Acesso em: 3 out. 2018.

59
Unidade I

3.6 Verificação ergonômica

Uma verificação ergonômica deve ser realizada para avaliação inicial das necessidades,
conforme acentuamos.

A verificação ergonômica, dentro da abrangência dos programas de ginástica laboral, não visa
necessariamente elaborar um laudo ergonômico ou destacar a obrigatoriedade da contratação de
um ergonomista. Caso não haja esses recursos de pessoal qualificado estritamente para a ergonomia,
o profissional de ginástica laboral deve fazer as suas observações in loco, considerando as queixas
relatadas pelos trabalhadores e as observações dos gestores ou responsáveis para poder traçar um perfil
da exigência de cada posto de trabalho.

Com experiência, o profissional poderá perceber e deve anotar posições forçadas, repetições,
ângulos excessivos, tensões presentes nas ações e, principalmente, encontrar soluções para os
problemas constatados.

Para iniciar o contato prático do profissional de ginástica laboral com a avaliação da ergonomia no
trabalho, pode-se utilizar a proposta da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em colaboração
com a International Ergonomics Association (IEA), que resultou na publicação Pontos de Verificação
Ergonômica (OIT, 2018).

De uma forma simplificada, o documento estimula empresas e gestores interessados a melhorar as


condições ergonômicas do trabalho cumprindo uma rotina de verificação e intervenções em prol da
discussão de melhorias viáveis para diminuir acidentes de trabalho relativos à ergonomia, particularmente
em pequenas e médias empresas. Para tal, avaliam-se as necessidades reais encontradas pela OIT em
diversos locais do mundo.

Esse manual tem 132 questões para as situações de trabalho mais diversas, e propõe que a
implementação de melhorias siga uma filosofia, incluindo:

As soluções imediatas precisam ser desenvolvidas com a participação ativa


dos empregados e trabalhadores.

O trabalho em grupo é uma vantagem para planificar e aplicar melhorias práticas.

O uso do material e dos peritos locais disponíveis resulta em muitas vantagens.

Uma atuação em muitas direções pode assegurar que as melhorias


permaneçam com o tempo.

Para elaborar melhorias ajustadas localmente, são necessários programas de


ação contínua (OIT, 2018, p. 13).

60
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Um ponto interessante na proposta de verificação e nas sugestões resultantes é o incentivo ao


trabalho em grupo na análise e solução dos problemas ergonômicos, como se pode verificar no quadro
de proposição de trabalho a seguir:

Quadro 4 – Processo de trabalho em grupo para concepção de uma lista de verificação


localmente adaptada

Concordar sobre as áreas principais que exigem melhorias imediatas


(aprendizagem de boas práticas locais)
Selecionar um número limitado (30-50) de títulos de pontos de
verificação (vários por área)
Testar um rascunho de lista de verificação e formular a lista de
verificação localmente ajustada (foco nas melhorias de baixo custo)
Complementar com uma brochura de páginas correspondentes
(como material de referência para usuários)
Usar o conjunto (lista de verificação e brochura) para o trabalho em
grupo de gerentes e trabalhadores

Fonte: OIT (2018, p. 15).

Uma lista de pontos de verificação é então proposta e pode ser seguida de modo bastante didático,
nas seguintes áreas de atenção:

• manipulação e armazenagem de materiais;

• ferramentas manuais;

• segurança do maquinário;

• design do posto de trabalho;

• iluminação e ventilação;

• substâncias e agentes perigosos;

• instalações de bem-estar;

• organização do trabalho.

Para o profissional de ginástica laboral sem especialização em ergonomia, propostas simples devem
ser consideradas para entender as situações de exigências em que os trabalhadores se encontram em
comparação a um quadro ideal, e assim poder implementar ações para tornar as atividades do programa
em soluções para as necessidades dos trabalhadores.

À medida que os profissionais de ginástica laboral se tornam experientes e buscam formação


complementar em ergonomia, mais recursos podem ser utilizados para projetos, sugestões e
adequações, sempre com a participação do corpo gestor da empresa, para que não haja qualquer

61
Unidade I

modificação do ambiente, das tarefas ou dos procedimentos da empresa sem que tenham sido
discutidos os parâmetros para tais decisões.

Para ilustração dos questionamentos referentes aos pontos de verificação ergonômica, veja o quadro
a seguir:

Quadro 5

106. Resolver os problemas do trabalho envolvendo os trabalhadores em grupos. Propõe alguma ação?
NÃO SIM PRIORITÁRIO
Observações___________________________________________________

107. Consultar os trabalhadores sobre como melhorar a organização do tempo de trabalho. Propõe
alguma ação?
NÃO SIM PRIORITÁRIO
Observações___________________________________________________

108. Envolver os trabalhadores no design melhorado dos seus próprios postos de trabalho. Propõe
alguma ação?
NÃO SIM PRIORITÁRIO
Observações___________________________________________________

109. Consultar os trabalhadores sobre as mudanças a serem feitas na produção e sobre as melhorias
necessárias para tornar o trabalho mais seguro, fácil e eficiente. Propõe alguma ação?
NÃO SIM PRIORITÁRIO
Observações___________________________________________________

110. Informar e premiar os trabalhadores sobre os resultados de seu trabalho. Propõe alguma ação?
NÃO SIM PRIORITÁRIO
Observações___________________________________________________

111. Dar treinamento aos trabalhadores para que assumam responsabilidades e fornecer-lhes os meios
para que tragam melhorias nas suas tarefas. Propõe alguma ação?
NÃO SIM PRIORITÁRIO
Observações___________________________________________________

112. Dar treinamento aos trabalhadores para operação segura e eficiente. Propõe alguma ação?
NÃO SIM PRIORITÁRIO
Observações___________________________________________________

Fonte: OIT (2018, p. 38).

62
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Com as imagens a seguir, é possível analisar as orientações para a aplicação da verificação ergonômica.

A) B)
Uma cábrea móvel é confiável, segura Um dispositivo mecânico acionado
e fácil de manejar para o transporte de manualmente para levantar peças de
carga pesada a uma distância curta com fundição até a altura de trabalho
mínima elevação

C) D)
Uma grua hidráulica de solo com
braço telescópico Certifique-se de que a máxima carga
segura esteja claramente marcada

Figura 42

4 LER/DORT: LESÕES POR ESFORÇOS REPETITIVOS/DISTÚRBIOS


OSTEOMUSCULARES RELACIONADOS AO TRABALHO

4.1 Definições

Bernardino Ramazzini, médico italiano (1633-1714), publicou De Morbis Artificum Diatriba


[Doenças do Trabalho], relacionando as afecções que na sua época atingiam os trabalhadores.
Os casos mais notáveis foram designados como “doença dos escribas e notários”, que eram aqueles
que tinham a função de tomar notas e escrever diversos documentos, e “doença dos mineiros”, devido
a posturas forçadas.

63
Unidade I

Historicamente, o primeiro termo usado no Brasil para designar os problemas ocasionados pelo
acúmulo de repetições foi LER (lesões por esforços repetitivos), sendo uma tradução de repetition strain
injuries, definida por Couto et al. (1998, p. 17) como:

doenças musculotendinosas dos membros superiores, ombros e pescoço,


causadas pela sobrecarga de um grupo muscular particular, devido ao uso
repetitivo ou pela manutenção de posturas contraídas, que resultam em dor,
fadiga e declínio do desempenho profissional.

Entretanto, esse conceito evoluiu em diversas vertentes. Em primeiro lugar, apesar de a maioria dos
quadros existentes e estudos realizados serem nos membros superiores, a repetição de movimentos
também pode desencadear processos semelhantes nos membros inferiores, como em motoristas
profissionais, por exemplo.

Pode-se, ainda, citar quadros importantes que não acometem diretamente um grupo muscular,
como as bursites, os desgastes de discos intervertebrais etc.

Outra análise pode ser realizada, pois o prejuízo não é apenas o declínio profissional, mas também o da
vida familiar e social do trabalhador. Ademais, nem sempre a configuração como doença será apropriada.

A origem de quadros semelhantes nem sempre é de natureza profissional. Uma criança jogando
video game ou uma pessoa fazendo tricô também podem apresentar sintomas devido aos movimentos
repetitivos, não ligados a qualquer atuação profissional.

Há referência na literatura internacional como CTD (cumulative trauma disorders), havendo tradução
para o português como lesões por traumas cumulativos. Note que se usou uma tradução inapropriada
de disorders, “lesões” em vez de “desordens”, que não têm o mesmo significado. Outros termos utilizados
são síndrome ocupacional por overuse, síndrome da sobrecarga ocupacional e distúrbios cervicobraquiais
ocupacionais (um quadro mais específico). Assim, a terminologia foi evoluindo com o tempo e com a
realidade encontrada em pesquisas sobre o assunto.

De qualquer modo, o nome LER (lesões por esforços repetitivos) tornou-se insuficiente para abranger
o problema, sendo hoje unido ao termo Dort (distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho), como
LER/Dort. Essa denominação é mais apropriada, pois nem sempre um quadro apresenta uma lesão clara –
às vezes, pode ser uma dor, ou incapacitação. Assim, um quadro incapacitante sem lesão que ocorra com
um trabalhador não deixa de ser considerado em um processo trabalhista, por exemplo, por não ter como
comprovar uma lesão. Ao declarar um quadro de LER/Dort e o respectivo CID do acometimento específico,
o médico atestará o nexo com a função exercida, caso tenha como definir essa comprovação.

Os termos LER e Dort não são considerados o quadro clínico em si, mas a ocorrência específica
identificada como adquirida nessas condições. As LER/Dort têm sido as mais frequentes entre as doenças
ocupacionais na população trabalhadora segurada. Em 2013, 3.568.095 trabalhadores disseram ter sido
diagnosticados com LER/Dort, cerca de 2,29% da população pesquisada pelo IBGE na PNS – Pesquisa
Nacional da Saúde (FUNDACENTRO, 2013).
64
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Dos indivíduos afetados pelas LER/Dort, ainda segundo a PNS, cerca de 25% realizavam
exercícios/fisioterapia para minimizar os efeitos delas, e 35% recorriam a recursos medicamentosos.
Segundo Barbosa et al. (2014), em 2006 foram registrados 26.645 casos de doenças ocupacionais na
Previdência Social, com uma estimativa de 45% de ocorrência de LER/Dort, o que mostra quanto é
grande seu potencial de prejuízo econômico e social.

Em dados do INSS de 2003 (BARBOSA et al., 2014), as LER/Dort são consideradas como um dos
principais problemas de saúde pública, responsável por quase 90% dos afastamentos de trabalho.

As limitações sofridas pelos trabalhadores afetados por LER/Dort podem ser discretas ou muito
significativas, não só nas tarefas do trabalho, mas também na vida diária, como destacado a seguir:

Tabela 4 – Grau de limitação de atividades diárias devido a LER/Dort

Respostas Pessoas %

Não limita 1.492.716 41,84

Um pouco 993.812 27,85

Moderadamente 520.404 14,58

Intensamente 468.184 13,12

Muito intensamente 92.979 2,61

Fonte: Fundacentro (2013, p. 8).

Como ilustração dos quadros de LER/Dort devidos a alguns agentes ou fatores de risco de natureza
ocupacional, é esclarecedora a análise do quadro a seguir, que destaca os acometimentos específicos e
seus prováveis agentes.

Quadro 6

Agentes etiológicos ou fatores de risco


Doenças de natureza ocupacional
Grupo VI da CID-10
VIII – Transtornos do plexo braquial (síndrome da saída do Posições forçadas e gestos repetitivos (Z57.8)
tórax, síndrome do desfiladeiro torácico) (G54.0)
IX – Mononeuropatias dos membros superiores (G56.-
): síndrome do túnel do carpo (G56.0). Outras lesões
do nervo mediano: síndrome do pronador redondo
(G56.1); síndrome do canal de Guyon (G56.2); lesão do
nervo cubital (ulnar): síndrome do túnel cubital (G56.2); Posições forçadas e gestos repetitivos (Z57.8)
lesão do nervo radial (G56.3). Outras mononeuropatias
dos membros superiores: compressão do nervo
supraescapular (G56.8); posições forçadas e gestos
repetitivos (Z57.8)
X – Mononeuropatias do membro inferior (G57.-): lesão Posições forçadas e gestos repetitivos (Z57.8)
do nervo poplíteo lateral (G57.3)

65
Unidade I

Grupo XIII da CID-10


III – Outras artroses (M19.-) Posições forçadas e gestos repetitivos (Z57.8)
IV – Outros transtornos articulares não classificados em Posições forçadas e gestos repetitivos (Z57.8)
outra parte: dor articular (M25.5) Vibrações localizadas (W43.-; Z57.7) (Quadro XXII)
Posições forçadas e gestos repetitivos (Z57.8)
V – Síndrome cervicobraquial (M53.1)
Vibrações localizadas (W43.-; Z57.7) (Quadro XXII)
Posições forçadas e gestos repetitivos (Z57.8)
VI – Dorsalgia (M54.-): cervicalgia (M54.2); ciática
(M54.3); lumbago com ciática (M54.4) Ritmo de trabalho penoso (Z56.3)
Condições difíceis de trabalho (Z56.5)
VII – Sinovites e tenossinovites (M65.-): dedo em gatilho Posições forçadas e gestos repetitivos (Z57.8)
(M65.3); tenossinovite do estiloide radial (De Quervain)
(M65.4); outras sinovites e tenossinovites (M65.8); Ritmo de trabalho penoso (Z56.3)
sinovites e tenossinovites, não especificadas (M65.9) Condições difíceis de trabalho (Z56.5)
VIII – Transtornos dos tecidos moles relacionados com o
uso, o uso excessivo e a pressão, de origem ocupacional
(M70.-): sinovite crepitante crônica da mão e do punho
(M70.0); bursite da mão (M70.1); bursite do olécrano Posições forçadas e gestos repetitivos (Z57.8)
(M70.2); outras bursites do cotovelo (M70.3); outras
bursites pré-rotulianas (M70.4); outras bursites do joelho Ritmo de trabalho penoso (Z56.3)
(M70.5); outros transtornos dos tecidos moles relacionados Condições difíceis de trabalho (Z56.5)
com o uso, o uso excessivo e a pressão (M70.8); transtorno
não especificado dos tecidos moles, relacionado com o uso,
o uso excessivo e a pressão (M70.9)
IX – Fibromatose da fáscia palmar: contratura ou Posições forçadas e gestos repetitivos (Z57.8)
moléstia de Dupuytren (M72.0) Vibrações localizadas (W43.-; Z57.7) (Quadro XXII)
X – Lesões do ombro (M75.-): capsulite adesiva do
ombro (ombro congelado, periartrite do ombro) (M75.0); Posições forçadas e gestos repetitivos (Z57.8)
síndrome do manguito rotatório ou síndrome do
supraespinhoso (M75.1); tendinite bicipital (M75.2); Ritmo de trabalho penoso (Z56)
tendinite calcificante do ombro (M75.3); bursite do
ombro (M75.5); outras lesões do ombro (M75.8); lesões Vibrações localizadas (W43.-; Z57.7) (Quadro XXII)
do ombro, não especificadas (M75.9)
XI – Outras entesopatias (M77.-): epicondilite medial Posições forçadas e gestos repetitivos (Z57.8)
(M77.0); epicondilite lateral (“cotovelo de tenista”);
mialgia (M79.1) Vibrações localizadas (W43.-; Z57.7) (Quadro XXII)

XII – Outros transtornos especificados dos tecidos Posições forçadas e gestos repetitivos (Z57.8)
moles (M79.8) Vibrações localizadas (W43.-; Z57.7) (Quadro XXII)
XVIII – Doença de Kienböck do adulto (osteocondrose
do adulto do semilunar do carpo) (M93.1) e outras Vibrações localizadas (W43.-; Z57.7) (Quadro XXII)
osteocondropatias especificadas (M93.8)

Adaptado de: Brasil (2016, p. 57- 71).

4.2 Prejuízos para as empresas

Muitos estudos tentam relatar os prejuízos gerados pelos afastamentos médicos para as empresas.
Um deles especifica os quadros de LER/Dort (COUTO et al., 1998) e estipula que em apenas uma
instituição bancária à época do estudo (1995) houve 152 trabalhadores afastados por LER/Dort
em todo o Brasil, gerando um gasto de cerca de R$ 621.952,53 (correspondentes a mais de R$ 3,5
milhões corrigidos pelo IGP-M para julho/2018), o que significa cerca de R$ 23.200,00 por trabalhador
afastado, em valores corrigidos.
66
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Além desse montante, apenas na região de Contagem e Belo Horizonte, em Minas Gerais, foram
levantados 650 processos trabalhistas de indenização por dano físico em diversas instituições.
Cada processo, na época do estudo, foi estimado em média de R$ 70.000,00 (mais de R$ 396.000,00,
corrigidos pelo IGP-M para julho/2018). Esse valor mostra o potencial passivo de prejuízo para empresas
que não administram e não implantam prevenção dos casos de LER/Dort. Certamente, nem todos os
casos serão julgados favoráveis ao autor da reclamação, mas é possível estimar o montante envolvido
na disputa (COUTO et al., 1998).

Por fim, deve-se considerar um impacto não menos importante, que é a perda de produtividade.
Mesmo que um trabalhador não se afaste, quando trabalha sujeito a dor ou desconforto, vai diminuir
sua produtividade, ou mesmo faltar ao trabalho para atendimento médico, afetando o custo de
produção e a competitividade, ficando a empresa atrás de outras que administram melhor esse fator de
custo. “Em algumas empresas, estimou-se que a prevalência de LER atinge cerca de 25% da população
trabalhadora”, podendo calcular qual proporção de perda de produção e consequente impacto financeiro
devem ser esperados (BRASIL, 2000).

4.3 Principais quadros de LER/Dort

A ocorrência de LER/Dort está estritamente ligada à natureza e à característica das tarefas e


condições de realização do trabalho, além de fatores pessoais, sem a intenção de esgotar a análise das
possibilidades dos acometimentos relacionados. Um quadro que é comum em determinada empresa ou
função pode não ser usual em outra realidade funcional.

O profissional de ginástica laboral deve ter conhecimento dos principais quadros para entender seus
mecanismos de instalação, identificar problemas e elaborar programas que visam prevenir ou amenizar
as cargas presentes, uma vez que seu papel não é trabalhar no tratamento das afecções. A análise não
tem a intenção de indicar tratamento ou acompanhamento da evolução.

De maneira geral, alguns quadros são mais frequentes ou típicos, e serão expostos a seguir.

Segundo Kroemer e Grandjean (2005), os esforços estáticos excessivos e os esforços repetitivos


podem gerar problemas reversíveis ou persistentes, e estão associados a:

• inflamação nas articulações;

• inflamações nos tendões ou extremidades;

• inflamações nas bainhas dos tendões;

• processos degenerativos nas articulações;

• espasmos musculares (cãibras);

• doenças dos discos intervertebrais.


67
Unidade I

Figura 43 – A adoção de postura forçada é característica de muitas funções especializadas


de trabalho e gera uma sobrecarga estática importante no desenvolvimento de quadros de LER/Dort

Couto et al. (1998) enumeram os principais distúrbios dos membros superiores, dos quais pode-se destacar:

• Fadiga de qualquer grupamento muscular envolvido em esforços estáticos.

• Tendinite e tenossinovite dos músculos do antebraço.

• Miosite dos músculos lumbricais (mão), pronador redondo e fascite da mão.

• Tendinite do bíceps, supraespinoso, tendões dos flexores dos dedos.

• Cisto gangliônico no punho ou flexores dos dedos (dedo em gatilho).

• Síndrome do túnel do carpo (compressão do nervo mediano).

• Síndrome de De Quervain (abdutor longo e extensor curto do polegar – próximo ao processo


estiloide do rádio).

• Síndrome do desfiladeiro torácico (compressão do conjunto artéria-veia-nervo do tórax para


o braço).

• Compressão do nervo ulnar (no cotovelo ou no túnel de Guyon – junto da mão).

• Compressão do nervo radial (terço superior do antebraço).

• Epicondilite medial e lateral.

• Bursite do cotovelo e do ombro.

• Síndrome da tensão cervical (dor miofascial na cintura escapular e pescoço).

68
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

4.3.1 Tendinites

Sob solicitação intensa ou repetitiva, os tendões podem se inflamar devido ao seu tracionamento.
Couto et al. (1998) consideram que as principais fontes de sobrecarga tendínea são: tensão abrupta,
tensão oblíqua, tensão contínua, movimentação repetitiva, falta de pausa, atrito e instabilidade articular.

4.3.2 Tenossinovites

Couto et al. (1998) citam o estudo de Hammer (1934), que notou que as funções de empacotar
cigarros, repetições de movimentos de dedos com mais de 30 a 40 movimentos por minuto, eram
acompanhadas de casos de tenossinovites. Trata-se de inflamações não dos tendões em si, mas
das bainhas sinoviais, que os recobrem. Os principais sintomas são: dor, edema, crepitação e
perda funcional.

De acordo com Mendes (1995), quando há esforços repetitivos, o tendão ou a própria bainha sinovial
pode sofrer espessamento, e o líquido sinovial adquire aspecto inflamatório. Outra hipótese é que esse
espessamento possa causar uma má nutrição tecidual, a depender da intensidade, frequência ou duração
do movimento realizado localmente (ARMSTRONG et al. apud MENDES, 1995).

A tenossinovite estenosante ou “dedo em gatilho” é mais frequente em trabalhadores que usam


ferramentas manuais, representando uma inflamação e dificuldade do tendão de um dedo passar pela
bainha na região da junção com a palma da mão. O nódulo que se forma na região distal da mão
dificulta a passagem do tendão, gerando um “travamento do dedo” em flexão, e um ressalto no ato
da extensão, que pode ser dificultada ou dolorosa. Pacientes com algumas disfunções hormonais e o
sexo feminino apresentam maior incidência (MATTAR JR., 2008). A dor pode concentrar-se no trajeto
do tendão flexor longo do polegar e dos flexores profundos dos dedos, concentrando-se na cabeça do
metacarpo e na palma da mão (MENDES, 1995).

Também típica é a ocorrência da enfermidade de De Quervain, ou tenossinovite estilorradial,


na região do punho, quando é aumentado o atrito dos tendões do músculo extensor curto do polegar
e abdutor longo do polegar, que dividem a mesma bainha sinovial. A dor inicia-se agudamente na
região dorsal do polegar e pode irradiar-se para o ombro, causando dificuldade de segurar objetos com
a posição em garra (por exemplo, uma xícara). Tipicamente, ocorre em trabalhos com uso de chave
de fendas, de alicates, digitação com desvio ulnar ou movimento de torção (por isso, a síndrome era
conhecida como síndrome das lavadeiras).

4.3.3 Estrangulamento ou compressão de nervos

Os nervos distribuem-se pelo corpo passando por entre músculos, polias, sulcos ósseos e articulações,
podendo ser comprimidos e ter diminuída ou alterada a capacidade de transmissão de impulsos.
Uma compressão contínua pode levar a edema e alterações locais ou periféricas. Dependendo do local
afetado, o nervo atingido irá causar efeitos em regiões diversas, como dor, formigamento, perda de
força e dormência.

69
Unidade I

Na estrutura da coluna cervical, é possível ocorrer a epicondilose, por exemplo, devido ao transporte
de cargas na cabeça, podendo causar degeneração local e lesão de uma ou várias raízes nervosas
(WARIS apud MENDES, 1995).

Como exemplo, pode-se citar a compressão do nervo ulnar, na região do cotovelo, causada pelo
apoio do cotovelo em superfícies duras (COUTO et al., 1998). Chamada de “doença das telefonistas”,
acarreta formigamentos como manifestação inicial, podendo ser prevenida por uso de almofada sob
o cotovelo. Se a compressão do nervo ulnar ocorrer no canal de Guyon (punho), gerando a síndrome
do canal de Guyon, haverá queixas de alteração de sensibilidade no 4º e no 5º dedo, perda de força de
preensão e dificuldades de movimentação da mão.

Outro caso é a compressão do nervo mediano, que pode ocorrer na base da mão (por uso de
ferramentas e vibração) ou no túnel do carpo (devido ao trabalho em extensão ou flexão de punho,
ou ainda tenossinovite dos tendões dos flexores). Nessa afecção, o nervo mediano é pressionado pelo
engrossamento de algum dos tendões e bainhas sinoviais que passam pela estreita região do túnel do
carpo, causando dor, parestesia, adormecimento, fadiga muscular, alterações sensitivas ou motoras,
podendo evoluir para fibrose neural, degeneração e atrofia muscular. A dor em queimação na região,
geralmente no período noturno, é típica deste quadro (COUTO et al., 1998).

Também pode ser citada a compressão nos dedos por objetos como cabos de ferramentas, tesouras
e alicates.

4.3.4 Bursites

As bolsas sinoviais são submetidas a maior tensão na elevação dos braços acima do nível dos ombros
(90º), e a inflamação devido a esta sobrecarga, se reincidente, pode gerar calcificação e perpetuação do
quadro (COUTO et al., 1998).

Além dos membros superiores, são citadas a bursite isquiática, adquirida em posição sentada
por longos períodos (popularmente chamada de “nádega do tecelão”), e a bursite infra ou
pré-patelar, em trabalhadores que assumem a posição ajoelhada com frequência (“joelho da
empregada doméstica”) (ZILLI, 2002).

4.3.5 Lombalgias e cervicalgias

Os problemas de coluna são mais frequentes em trabalhadores que exercem muita atividade física
do que em sedentários. Em geral, é o desgaste da coluna o responsável pelas faltas ao trabalho, e não a
carga muscular em ofícios pesados (KROEMER; GRANDJEAN, 2005).

Na lombalgia aguda os sintomas podem desaparecer em trinta dias mesmo sem tratamento,
em 90% dos casos. Mas a recidiva é de cerca de 60% no mesmo ano ou no máximo em dois anos
se não houver uma educação preventiva (KESLEY; GOLDEN apud MENDES, 1995). São fatores que
aumentam a recidiva: idade, posturas não adequadas e fadiga (BERGQUIST-ULMANN; LARSSON
apud MENDES, 1995).
70
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

É considerada lombalgia crônica a dor persistente durante três meses no mínimo, o que
corresponde a 10% dos pacientes com lombalgia aguda ou recidivante (MENDES, 1995). Este mesmo
autor cita que Nachemson (1982) enumerou como fatores de cronicidade das dores de coluna o
trabalho pesado e o levantamento de pesos, o baixo nível de escolaridade, a falta de exercícios,
o trabalho sentado e fatores psicológicos.

Entretanto, as cargas musculares estáticas em musculaturas associadas à manutenção da posição da


cabeça e da posição do tronco, sobretudo a musculatura cervical e lombar, são importantes fontes de dores
e preocupação de profissionais da ginástica laboral em ações de conscientização, verificação ergonômica,
análise de queixas álgicas e ações de prevenção com exercícios e educação postural. Síndrome da tensão
cervical e lombalgia estão entre as principais LER/Dort, segundo Zilli (2002).

A) B)

Figura 44 – Lombalgias e cervicalgias são queixas frequentes de trabalhadores

4.4 Fatores contribuintes para desenvolvimento de LER/Dort

Vejamos a seguir os fatores que aumentam a propensão à ocorrência de LER/Dort:

Quadro 7

Movimentos repetitivos
Movimentos manuais com uso da força
Fatores biomecânicos
Postura inadequada
Uso de ferramentas manuais
Ineficácia da empresa em eliminar riscos potenciais
Fatores administrativos Método de trabalho inadequado, uso de ferramentas e
equipamentos impróprios
Pressões no trabalho
Inexistência de autonomia e controle sobre o trabalho
Fatores psicossociais
Inexistência de ajuda ou apoio de colegas de trabalho
Pouca variabilidade no conteúdo da atividade

Fonte: Polito (2002, p. 44 apud POLETTO, 2002, p. 9).

71
Unidade I

Para Couto et al. (1998), os principais fatores biomecânicos contribuintes para LER/Dort são:
utilização de força, postura incorreta, repetitividade e vibração. Para Santos et al. (2007), acrescenta-se
ainda a possibilidade de existência de compressão mecânica nas estruturas musculares. A compressão
de estruturas musculotendíneas ocorre quando, por exemplo, executam-se movimentos de digitação
com o antebraço apoiado na quina da mesa, provocando restrição adicional a cada movimento de
contração muscular.

Pode-se notar na tabela seguinte, analisando estudos sobre a relação de fatores biomecânicos
com a incidência de LER/Dort, que, dependendo da região corporal, maior evidência da causa já foi
estabelecida, e em outras regiões a relação parece ter menor significância. Por exemplo, constata-se um
alto número de trabalhos com evidências para a postura como causa relacionada a problemas na região
de pescoço e cintura escapular, razoável evidência de que repetitividade está ligada a problemas em
todas as regiões, exceto cotovelos, e que a força está associada a disfunções em todas as regiões, exceto
ombros. A vibração foi associada a índice razoável de evidência somente para a síndrome do túnel do
carpo, e para as regiões de cotovelo e punho/mão são fortes as evidências de que é a combinação entre
os fatores que desencadeia os problemas.

Tabela 5

Pescoço e Punho/mão
Fator de risco Ombro Cotovelo
cintura escapular S. túnel carpo Tendinite
Repetitividade ++ ++ +/- ++ ++
Força ++ +/- ++ ++ ++
Postura +++ ++ +/- +/- ++
Vibração +/- +/- ++
Combinação +++ +++ +++
+++ evidência forte ++ evidência razoável + / - evidência suficiente

Fonte: Niosh (1997 apud COUTO et al., 1998, p. 80).

Para Mendes (2012), a hipótese biomecânica é que há reações graves do organismo às exigências do
trabalho quando estas são maiores que as capacidades funcionais individuais.

4.4.1 Presença de vibração nas atividades realizadas

Uma das causas frequentemente relacionadas à incidência de LER/Dort é a presença de vibração


na operação. De fato, a vibração requer uma resposta corporal para estabilização, muitas vezes
insuficiente e desgastante. A vibração é um alto estímulo para a musculatura agir na busca de
manutenção da postura, da posição ou precisão e do posicionamento de membros manuseando
ferramentas que vibram, como marteletes, serras elétricas e lixadeiras.

72
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Figura 45 – A presença de vibração é um dos fatores que podem


causar predisposição à ocorrência de LER/Dort

4.4.2 Alta repetitividade de movimentos

A repetitividade é um dos fatores mais citados entre os desencadeadores de LER/Dort, fazendo parte
inclusive da nomenclatura LER (lesões por esforços repetitivos). Couto et al. (1998) acentuam que mais
de 25 a 33 movimentos por minuto devem ser evitados para proteger tendões, fixando um limite de
12 mil movimentos de digitação por hora, e que, se o trabalho fosse desenvolvido em parte do dia, não
traria lesões, apenas se ocorresse durante todo o dia de trabalho. Vale lembrar que a NR 17 estabelece o
limite de 8 mil toques por hora como permitido para trabalho em digitação.

Estudos mostram que há uma grande relação entre os fatores de realização da tarefa de digitação e
a ocorrência de LER/Dort, como podemos observar na tabela a seguir:

Tabela 6 – Número de estudos demonstrando problemas relacionados


à execução da tarefa comprovando (“Sim”) ou não
comprovando (“Não”) a relação com LER/Dort

Fator Sim Não


Falta de variedade de tarefa 8 1
Trabalho em teclado 6 3
Horas de uso em teclado 11+1- 3
Ausência de pausas 2
Velocidade de trabalho 2 1
Carga de trabalho inapropriada 1
Pressão no trabalho 8 -
Falta de autonomia 8 1
Insatisfação com o trabalho 2 2
Insegurança 1 -

Fonte: Couto et al. (1998 apud RODRIGUES, 2003, p. 47).

Como se pode verificar nos resultados, a grande maioria dos trabalhos relacionou positivamente
a falta de variedade, o uso do teclado, o tempo prolongado de trabalho, a velocidade e a ausência de
pausas como fatores predisponentes a LER/Dort.
73
Unidade I

Figura 46 – A digitação é uma das formas características de atividades


repetitivas, realizada através de milhares de movimentos por hora

4.4.3 Postura incorreta ou forçada

A má postura ou necessidade de permanecer em posição forçada é um fator relevante quando


mantida ao longo do dia de trabalho. Assumir uma posição menos neutra durante pouco tempo não
deve ser preocupante, mas a necessidade de sua repetição ou da sua manutenção por mais tempo é
que deve alertar o profissional de ginástica laboral sobre a necessidade de compensação.

Figura 47 – Se o trabalhador assume postura inadequada ou posição forçada, está sujeito a


uma maior predisposição em adquirir LER/Dort. Note neste caso que, adicionalmente, há o risco
de queda pelo fato de o trabalho ser executado em altura, e o risco de trabalhar com eletricidade,
mas estes não fazem parte do escopo da ginástica laboral, sendo pertencentes a outros grupos de NRs

A manutenção da postura forçada incorre na necessidade de manter uma contração muscular


estática para suportar a quebra da neutralidade, e essa exigência é penosa para o trabalhador. Além da
contração muscular, algumas articulações podem estar sendo solicitadas por longos períodos de tempo
em amplitudes diversas da neutralidade, o que gera uma sobrecarga em toda a estrutura articular.
74
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Figura 48 – Posições forçadas mantidas por muito tempo ou assumidas repetidamente ao longo
da jornada de trabalho causam solicitações importantes ao sistema musculoesquelético e articular

4.4.4 Necessidade de emprego de força para realizar as tarefas

O fator força como determinante para ocorrência de LER/Dort também é bastante difundido na
literatura. Nos movimentos da mão, por exemplo, Couto et al. (1998) propõem que baixa aplicação
de força manual equivale a menos de 4 kg, e alta força significa valores maiores que 6 kg, aplicados
em média ao longo do ciclo de trabalho. Ainda segundo os autores, valores de 10 a 15 kg, se em baixa
frequência e por pouco tempo, não precisam ser considerados preocupantes, pois sua incidência dentro
do valor médio da jornada não é relevante (considere-se que há variações entre os indivíduos e esses
valores não são uma referência única).

O trabalho pesado pode ser caracterizado como moderado ou severo. Mendes (1995) considera na
primeira categoria critérios como postura fixa por mais de 20% do tempo de trabalho, coluna cervical para
cima ou para os lados (menos de 45º), ou em rotação por mais de 2h/dia, trabalho com braços acima do
ombro por até 40% do tempo ou acima de 30º por mais de 10% do tempo, e ainda uso de ferramentas
pesadas, ou uso de ferramentas com cabo em más condições ou com peso de cerca de 0,6 kg por mão.

Já o trabalho pesado considerado como severo por Mendes (1995) envolve elementos
de carga como postura fixa por mais de 40% do tempo, coluna cervical em posição de mais de
45º de desvio, braços elevados acima do ombro por mais de 40% do tempo, ou mais de 1/3 do
período de trabalho com braços acima de 30º, ou ainda peso de ferramentas de mais de 1,5 kg
por mão.

Também são sobrecarregadas as estruturas articulares, uma vez que a maior aplicação de força
requer esforço de toda a estrutura. A sobrecarga de força também é transferida aos tendões e às bainhas
sinoviais, por exemplo, no punho, para manter uma ferramenta sob controle, podendo desencadear
processos inflamatórios não apenas na porção contrátil do músculo.

75
Unidade I

Figura 49 – Trabalhos que exigem a aplicação de força excessiva


também são predisponentes à ocorrência de LER/Dort

4.4.5 Fatores coadjuvantes

Há fatores que podem ser considerados deletérios à condição de saúde no trabalho e com potencial
para contribuir para a ocorrência de LER/Dort.

Alguns desses fatores são de ordem individual, como disfunções hormonais e psíquicas, problemas
já instalados e maior sensibilidade à dor. Outros estão presentes no local de trabalho, como ambiente
estressante e más relações com chefia e colegas de trabalho.

Figura 50 – Acúmulo de trabalho em atividades cujo ritmo é compassado


externamente gera um ambiente estressante, no qual o trabalhador não se
sente confortável, pois não tem o controle sobre o ritmo

76
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

Resumo

Nesta unidade, destacamos inicialmente o panorama em que se insere


o trabalho moderno. Partindo de caça, pesca e manufaturas simples,
o homem inseriu mudanças no processo de produção enquanto passava por
grandes transformações sociais, o que levou ao quadro atual de produção
em larga escala da economia.

Essa necessidade de produzir, vender e entregar causou a especialização


dos postos de trabalho em todas as indústrias. Em uma avaliação simplificada,
os trabalhadores braçais realizam movimentos corporais significativos em
sua jornada, com desgastes físicos e fisiológicos importantes. Por outro
lado, os funcionários administrativos representam a forma de trabalho
mais sedentária, muitas vezes na posição sentada e em grande parte das
funções usando computadores.

A ergonomia lida com essa preocupação, estudando as exigências dos


ambientes e das tarefas que são impostas ao trabalhador. Uma boa visão
da ergonomia ajudará o profissional de ginástica laboral a entender as
sobrecargas sofridas pelo trabalhador que deverão ser consideradas em um
programa de exercícios.

A ginástica laboral surgiu como uma das ferramentas modernas para


combater os malefícios causados pelo trabalho. Buscando preservar e
melhorar as condições de saúde para o trabalhador através de programas de
exercícios e atividades diversas, espera-se diminuir as perdas relacionadas
a problemas de saúde, dores, faltas ao trabalho e outras intercorrências
negativas ao processo de produção.

Por fim, foram analisadas as LER/Dort (lesões por esforços repetitivos/


distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho) e os fatores mais
importantes que contribuem para sua ocorrência. Vimos que o profissional
de ginástica laboral não trata de lesões durante as sessões, mas precisa ter
um entendimento dos quadros principais para, ao analisar as situações de
trabalho encontradas, ter um panorama do quadro a ser evitado e de como
planejar atividades preventivas por meio do programa de ginástica laboral.

77
Unidade I

Exercícios

Questão 1. (Enade 2010, adaptada) A postura, ou alinhamento corporal, refere-se à posição do corpo,
parado ou em movimento, e envolve o estado de equilíbrio das diversas partes corporais sob a ação da
gravidade. [...] Bons hábitos posturais conduzem a boa aparência, eficiência mecânica nos movimentos e menor
risco de lesões, sendo dependentes da força e da flexibilidade, aliadas à prática consciente e inconsciente que
produzem esses hábitos.
NAHAS, M. V. Atividade física, saúde e qualidade de vida: conceitos e sugestões para um estilo de vida ativo.
Londrina: Midiograf, 2001. p. 68-69. Adaptado.

Diversos estudos demonstram que o avanço tecnológico decorrente do uso de computadores tem
contribuído para o aumento de lombalgias, seja no ambiente de trabalho, seja no ambiente doméstico.
Nessa perspectiva, entre as orientações que devem ser transmitidas por profissionais de educação física
aos usuários de computador, incluem-se:

I – Manter a região lombar apoiada no encosto da cadeira.

II – Posicionar os joelhos e o quadril mantendo ângulo de 45º quando sentado.

III – Sustentar a cabeça e o pescoço em posição reta e manter ombros e braços relaxados.

IV – Ajustar o topo da tela ao nível dos olhos e posicionar-se a um comprimento de braço de


distância do teclado do computador.

É correto apenas o que se afirma em:

A) I e II.

B) I e III.

C) II e IV.

D) I, III e IV.

E) I, II, III e IV.

Resposta correta: alternativa D.

Análise das afirmativas

78
ERGONOMIA E GINÁSTICA LABORAL

I – Afirmativa correta.

Justificativa: manter a região lombar apoiada no encosto da cadeira para aliviar a força de compressão
sobre essa região.

II – Afirmativa incorreta.

Justificativa: posicionar os joelhos e o quadril mantendo ângulo de 90° a fim de não prejudicar o
retorno venoso e manter as articulações em posição neutra.

III – Afirmativa correta.

Justificativa: sustentar a cabeça e o pescoço em posição reta para não aumentar a pressão intradiscal
na cervical e manter ombros e braços relaxados a fim de não tensionar os músculos elevadores dos ombros.

IV – Afirmativa correta.

Justificativa: ajustar o topo da tela ao nível dos olhos e posicionar-se a um comprimento de braço de distância
do teclado do computador, a fim de manter a postura da região cervical e ombros sem tensão exagerada.

Questão 2. (Enade 2010, adaptada) Em um ambiente de trabalho em que empregados exercem


atividades que provocam dores articulares intensas, o profissional de educação física deve orientar
a adoção de posturas corporais adequadas, a prática da ginástica compensatória, o respeito pelas horas
estabelecidas na jornada de trabalho de cada um dos trabalhadores e a prática de exercícios físicos
regulares.

PORQUE

As doenças crônico-degenerativas, as doenças psicossomáticas e as psicocinéticas são essencialmente


oriundas do trabalho excessivo e repetitivo.

Acerca dessas asserções, assinale a alternativa correta.

A) As duas asserções são proposições verdadeiras, e a segunda é uma justificativa correta da primeira.

B) As duas asserções são proposições verdadeiras, mas a segunda não é uma justificativa correta da primeira.

C) A primeira asserção é uma proposição verdadeira, e a segunda é uma proposição falsa.

D) A primeira asserção é uma proposição falsa, e a segunda é uma proposição verdadeira.

E) As duas asserções são proposições falsas.

Resposta desta questão na plataforma.

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