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blackout

blackout
blackout
blackout

blackout
blackout
blackout
blackout
este livro foi impresso em meados
do mês de fe vereiro, no ano de
2 0 1 8 , n a c i d a d e d e N ata l , r n .
sumário

Introdução .....................................................................pg 5
Black Out? .....................................................................pg 7
Apresentação .................................................................pg 9
Murilo Zatu .................................................................. pg. 12
Olga Hawes ................................................................... pg. 20
José Zapiski ................................................................... pg. 28
Ana Mendes ................................................................. pg. 35
Ian Itajaí ........................................................................ pg. 42
Gabrielle Dal Molin .................................................... pg. 46
Caroline Santos ............................................................ pg. 54
Maíra Dal’Maz ............................................................. pg. 65
Igor Barboà .................................................................. pg. 75
Maluz ........................................................................... pg. 85
Ionara Souza ................................................................ pg. 91
Pedro Lucas .................................................................. pg. 96
Folha Joice .................................................................... pg. 102
Jota Mombaça .............................................................. pg. 108
Gessyka Santos ............................................................ pg. 115
Ayrton Alves Badriyyah .............................................. pg. 122
Victor H. Azevedo ..................................................... pg. 129
Fulô ............................................................................... pg. 139

Org. Ayrton Alves Badriyyah & Victor H. Azevedo


INTRODUÇÃO

Poderíamos começar com aquele lero-lero de sempre de que


toda antologia já nasce incompleta, ou com o migué de que é re-
sultado de uma afetação com os trabalhos selecionados que a com-
põem, mas não será o caso desse texto afirmar nada disso.
Os poemas aqui selecionados tentam dar um panorama da pro-
dução poética de uma galera mais nova, cronologicamente falando,
de Natal-RN, que até a data da “captação” dos poemas ainda era
inédita em livro solo. Aqui, os poetas são conscientes de que o texto
poético expande-se do objeto-livro e se espraia na voz, e é princi-
palmente na voz que quase todos aqui ganham os becos e vielas da
cidade. 5
Alguns não têm livro solo, porque acham balela tirar os poemas
da cabeça, outros publicam colando nos postes da cidade, outros
não têm oportunidades: este é o lado perverso & artístico natalen-
sis: os que podem fazer alguma coisa se entregam ao observatório
do próprio umbigo que, em sua maioria, aspira um dia ultrapassar
o ano, em brasilis termus, de 1922 que por aqui parece não chegar
nunca.
Os textos preservam, quando é a proposta, a gramática própria
de quem os escreveu, a gramática da subversão das ruas e do meio
e por que não de si próprio, da desconstrução e reconstrução de si
próprio? Mas também não é o objetivo deste texto dar uma chave de
leitura: ou você se joga no abismo faminto, ou fica com os pés bem
fincados na imobilidade superficial e gritante do agora.

Os organizadores
BLACKOUT ?

“Natal não consagra e nem desconsagra ninguém”. A


máxima cascudiana parece ser a pedra na qual todos fazem
questão de tropeçar. Muitos nomes geniais surgem e se
perdem nessa cidade que faz questão de ser uma província
desmemoriada. Esta antologia traz no título o nome do poeta
que foi ícone da marginália natalense, unindo um projeto de
vida a um projeto literário, como forma de driblar a miséria, o
racismo e a loucura.
Blackout, pseudônimo de Edgar Borges, além de poeta,
vivia de pintar paredes e fazer reparos em instalações elétricas. 7
Residia no Bairro de Mãe Luiza, desde que chegara de Currais
Novos, interior do RN, onde nasceu a 16 de Outubro de 1961.
Permitia-se um estilo de vestimenta excêntrico, dormia no
hospital psiquiátrico João Machado, trocava seus poemas por
comida no Café São Luiz e, frequentemente, era vítima de
perseguições policiais por ser negro.
Aos 20 anos, publicou o livro “Duas Cabeças” pela
Cooperativa dos Jornalistas de Natal (COOJORNAT), em
1981. Além disso, compõe o grupo de poetas selecionados
por J Medeiros para participar da antologia “Geração
Alternativa”(1997). Faleceu em 1999, eletrocutado ao fazer um
“bico” numa residência em seu bairro.
Pouco se fala em Blackout, o nome fica restrito a algumas
observações vagas dos que se dizem, hoje em dia, seus amigos.
Ao contrário do costume local, em que é rotineiro ver nome
de escritores em tendas de eventos, em ruas e escolas, como
forma ineficaz de preservação ou retomada da obra daquele
que nomeia tais elementos à memória da cidade, a antologia
Blackout tenta de alguma forma homenageá-lo, pela coragem que
teve, e é esta coragem de se dedicar à arte em Natal o principal elo
entre os poetas que estão por ser desbravados nas próximas páginas.

VERSO PASSAGEIRO

Caminha ali
aqui...
coisas de um povo...
passa, grita, sussurra
e nada de novo...
Está completo, vivido,
ou vivida a branca cor
8 de um poeta esquecido
nas avenidas.

(poema de Blackout)

Os organizadores
APRESENTAÇÃO

Eu me arrepiei quando vi o título desta antologia, me


arrepiei quando li o outro eu de gente que eu só conhecia pela
cara e por um olá como vai, me arrepiei ao encontrar sujeitxs
cujas existências enxergo através um grazie mille.
Ayrton e Victor fizeram um trabalho lindo, gigantesco:
imagina montar uma antologia com a galera nova que escreve
poesia em Natal (e findar num resultado-delícia) quando todo
mundo já ouviu de alguma boca teia-de-aranha que Natal tem
9
1 poeta em cada esquina.
Mas Ayrton e Victor cataram justamente essxs: xs das
esquinas, que não têm livro publicado (dentro dessa pânde-
ga-metida-a-Louis-XIV que é o MERcADo literário no erre-
-ene) e visibilizaram essas pulsações. Dou também meus pa-
rabéns porque adoro o dito “visibilidade importa sim”: coisa
linda é ver numa só publicação um lgbtq brilhando. E, para
além disso, encontrar vozes poéticas fortes, autênticas, com
tons próprios.
Alguns poemas desta antologia perdem um pouco de
magia porque estão presos à superfície inerte do papel; por
isso, sugiro um exercício: ler os poemas em voz alta, andando
em círculos pelo seu quarto, por uma praça, pela Av. Rio Bran-
co, sempre inventando outras formas de dizê-los.
E de repente estalará uma explosão, uma alegria, uma
comichão, um calafrio. E se apagarão as luzes da Ponte New-
ton Navarro, os prédios amontoados protoespigões se escure-
cerão, e nos canhões do Forte dos Reis Magos crepitará uma
faísca. Essa chama, que definitivamente tem por nome poe-
sia, não é para proteger a capital, mas para incendiá-la com um
novo olhar.
Gozem cada palavra dessa reunião, sem medo de que o
verso penetre vocês como um dedinho que faz o corpo inteiro
tremelicar.

10

Leonam Cunha
11
murilo zatu

paris

paris, rue des rosiers, com meu bem, 5 de dezembro de 2015


para therezinha

paris, tempos atuais


trouxemos aquele mpb nas malas
para levar o romantismo
nos livros
mas antes
tomaremos um café em frente a torre
retomaremos aquela dr
sobre aquele carinha que você olhou na praia
12
sobre a pouca quantidade de vezes que me deste atenção
ou então pairemos por ai
tem uma discoteca virando aquela esquina
imagino que exista a música popular francesa
eu tomarei nota para o meu livro de poemas
você apenas falará sobre os movimentos dos dançarinos
mais tarde dirá que me viu no meio deles
eu vou dizer
“querido, eu não danço
eu só leio livros”
e isso vai soar brega
talvez eu tome algumas doses
veja, estamos aqui
onde tua amiga disse que queria vir outra vez
mas agora é nossa vez
paris, tempos atuais
***

amor de meu amor


já não sei quantas vezes eu disse
que fiz um altar teu em meu coração
estou devotado ao que nós somos ou ao que
um dia fomos
orquídeas abertas, primavera na praia
lua cheia, vênus e marulho
golfinhos, saguis, escorpiões
timbus, bem-te-vis
estou devotado do que nós um dia fomos
aquele ponto em que parece entrega de almas
uma fogueira num inverno glacial
a cabeleira esvoaçava junto com a neve
a paixão, o sexo, os mais lascivos movimentos
porque encontramos calor
13
amor de meu amor
hoje estamos consumidos
já nos estapeamos, nos xingamos
nos tratamos como um transeunte
parece que somos transeuntes
mas eu ainda quero ti perto de mim
porque dizem que os grandes amores suportam grandes coisas
mesmo que eu perca a chance
de conhecer outros amores
eu escolho a ti
porque estou devotado ao que um dia fomos
e isso me dá forças para os próximos dias
amor de meu amor
eu te faço um singelo convite
esqueçamos isso por um momento
e me vê feliz querendo uma dança
e dança
dança comigo
enquanto é este momento, dança comigo
***

machuca
quando é hora de dizer
adeus
não parece um até logo
adeus para o quê?
adeus para isto?
tão fácil dizer adeus com porte
tão fácil dizer adeus quando em sua frente
eu me despedaço pouco a pouco
tão fácil
tão fácil
tão fácil dizer adeus
sem saber que adeus não existe
graças a deus, existe a memória
14 irei te assombrar nos seus piores pesadelos
pra quê adeus?
se é aqui que tu bebes o teu poderoso cálix;
jaz em meus braços
só eu sei do seu segredo
my sweet love, eu jamais ousaria.

***

Ergo os braços
para o azul translúcido do céu.
Hendrik partiu.
Disse que iria se perder em Santiago.
Desde sua ida,
ergo meus braços para o imenso céu
e meus olhos viram as cascatas do meu quintal.
Eu rezo.
Oh, Iago, por que partiste?
Não sabes que a Miranda não entende mais meu linguajar?
Seremos dois estranhos
que já não conduzem mais a mesma dança.
Sem ti, não há nós.
Por que partiste
e só deixaste um bilhete?
O céu derrama águas violetas
e eu me banho de novo, mais uma vez.
Ergo os braços para o azul translúcido do céu.
Como é suave as gotas da tempestade que se aproxima...
Eu ficaria aqui por anos
rezando sua partida e pedindo graças aos anjos
mas, bem, por que eu perderia meu tempo com fábulas?

Sei que tu não me esqueceste


isto jamais acontecerá.

*** 
15
No cangote, sinais.
No cangote, um cheiro delicado
(calêndula)
saturado na gola de zéfiro.
Aquele cheiro que
há mais de três semanas
ainda jaz lá
e eu lembro desse dia
há três semanas:
Manhattan,
tantra,
uma erupção...
Um ósculo rodopiante entre lençóis.
Dizem que as crianças amam genuinamente.
A criança dentro de mim, de braços retesados
clama socorro,
pelo teu socorro,
pelo porto dentro dos teus olhos
enigmáticos.
- Alguém me diz, sussurrando no ouvido:
quam pulchra visum vitae est at XC gradus –
e dou cambalhotas para ver a vida em 90°
lá naquele ponto
entre o ombro
e a pelagem
cor de anis.

Como o meu cavo.

***

Tem aquela coisa


Que me volve desejos – ah!
Aquilo que é túrgido
Que me assola por completo
16 Como se me dobrasse ao meio
E meus quereres
E meu entrecho
Tudo o que sou
Na gozada se esvaía...

***

Pissing

Ele me regou
Como eu rego as minhas variegadas flores.
De olhos fechados,
Um banho áureo.

***
Filhos

Filhos
pequenos cactos
que uma cópula concebeu.
Pequenos cactos
num ancho deserto.
Pequeno cactos,
pequenos brotos
que desabrocham dia após dia
- e desabrocham com selvageria...

Mãe, eterna e fantasma.


Alma que dança com seu vestido verde
enquanto seus filhos
rodopiam como piões
explodem como um bubble gum 17
e atiram o coração ao negrume,
como jogar pedrinhas no arroio
e vê-las quicando
uma vez, duas vezes e assim vai.
Esses filhos dessa senhora...

Houvera dito que o luto é como uma onda forte


eu não rolaria pela beira mar

Não fosse o luto,


era o silêncio.
E esse silêncio
esses filhos não ouviriam sequer de longe...
Tão alagado estariam vossos quartos.

***
um dia
quando me olhei no espelho
mal acreditei
o tempo realmente fez o seu trabalho
passei o dia chocada
e túrbida com os meus sinceros desejos
ser jovem
mãe de família

disseram-me que sou louca


tenho em mim as minhas falhas
tão louca quanto uma cigana
tão louca quanto uma louca
falo três idiomas
mas não sei dizer eu te amo em sua língua
18 me olhei no espelho
e tentei decifrar enigmas
como se diz eu te amo em sua língua?
todas as vezes em que falo
só ouço o seu silêncio.

um dia
quando me olhei no espelho
mal acreditei... 

***

Primeiro, eu deito.
O teto sobre a minha cabeça traz mais histórias
tanto quanto o baú empoeirado
na cachola do meu avô.
Segundo, fecho os olhos.
O silêncio que se faz dentro de mim
cuja calmaria
mais parece a quietude do universo particular do menino
no balanço
que de um extremo ao outro
sempre volta saltitando para dizer que ele
na verdade:
soy yo.

Entre isso, adormeço.


Os delírios de Caco são tão mágicos
e reais
quanto os sonhos que tenho
por vezes achando que são tão vívidos
que tenho a sensação de caminhar sobre as águas.
19
Acordo.
Me equilibro no meio fio com os braços
tipo um 14 bis
ou a cabeça cheia como um balão.
As flores que nasceram em meu peito
foram regadas pelas despedidas
de São Pedro.
O cheiro de terra molhada só me lembra o amadeirado
que ficava em minha gola.
- que saudades! –
eu suspiro.
Como um foguete rumo ao infinito.
olga hawes

barravista
Para Ele.

Os dias de terror
não mais tanto diferem daqueles
na casa em frente ao mar
onde você me ensinou a sequência dos planetas
e como identificar constelações

(meus poemas são substrato de ti


apesar de tudo)

Estas janelas circulares,


os enfeites nas paredes,
20 esse marulho e
até mesmo a maresia que corrói os dentes,
nos últimos dias tornaram-se assunto.
Agora eu durmo onde costumávamos dormir abraçados
depois de você me contar as histórias de seu joca, o pescador
sobre quando foi abduzido por extraterrestres e
viu sereias em alto mar.
(quando escrevo sobre esse mar e sobre esses pescadores
juro dizer nada além da verdade em memória)

Mas os tempos são outros


e nós estamos em tempo.
Vou engolindo o que passa e permaneço
eternamente remoçando.

Quanto mais me transformo em essência


mais me assemelho a ti
que falha em ensinar filhotes de passarinho a bater asas
quando parte muito antes de
doar-se o suficiente para que sejam
capazes de voar.

Os morcegos da casa ficaram


Os traumas ficaram
Os distúrbios ficaram
Suas camisetas tamanho gg ficaram
Nossas fotos em preto e branco ficaram
Minhas cegueiras ficaram
Nada mais
ficou.

Já não durmo da mesma forma que antes e


seria difícil reconhecer a diferença sutil entre as situações,
mas você me treinou
exatamente para isso.

***
21
(um poema sobre silhuetas, medo de mar de
madrugada e poesias inacabadas)

Roda gigante
o mundo girando
dois corpos aqui
eu estático olhando a tua
silhueta em alto mar

Você gosta de ficar em êxtase


pular sete ondas e
fazer alguma oferenda
mesmo nós estando em março que
me desculpe não é ano novo em nenhum calendário.

Mas sabe, é assim que se ama, não?


Com cabelo molhado de suor
pele quente de banho de lua
no ímpeto das coisas que a gente faz de madrugada
na areia da praia

eu gosto desse seu jeito meio sei lá o quê vamos morrer juntos
dessa sua vontade de se afogar no mundo
no calor dos meus braços
ou no oceano que carrega nos olhos

mas é quando começa a nascer o sol que


você deita na cama e me agradece com essa voz cansada
de quem lutou contra
setenta e quatro tubarões pra estar ali
só pra poder encher as unhas de areia e
o cabelo de água e sal

E eu sento na cadeira pra tentar te colocar num poema


mas não tem palavra no meu vocabulário que
22 te descreva fácil assim

É desse jeito que isso acaba virando um poema sem nome

E sem fim…

***

um idoso sozinho em um restaurante

Um senhor idoso sozinho em um restaurante tomando sopa,


entre a vida e a morte
(como absolutamente qualquer pessoa, só talvez mais perto de
um dos extremos)
olha descabidamente o relógio. Tem pressa.
Falta um dia
para amanhã.
Observa os casais nas mesas ao lado,
e como um consolo se diz
para amanhã.
Observa os casais nas mesas ao lado,
e como um consolo se diz
que nenhuma companhia o contempla.

Questiona:
onde estaria se
não estivesse aqui?
onde estaria se, nos últimos 3 anos,
não estivesse aqui?
Mais um idoso sem objetivos fora do comum,
já saciado da sopa de todos os dias
antes mesmo de tomar a sopa do dia.

O tempo, ele diz, não acredite no tempo,


e repete as palavras como repetiria alguém que já se cansou
da linguagem. 23
Disseram que a sabedoria vem com o tempo,
mas o que veio com o tempo foi o cansaço.

O idoso cansado, que


não sabe se está perdendo
ou ganhando dias, esquece
do número que calça quando fica de pé
para ir até seu carro na vaga preferencial. 41.

O idoso cansado sem números nos sapatos


deixa a porta de casa entreaberta
esperando que alguém, que não é importante,
entre.

***
jornada

1.
Clarão no olho eles
agarram minha cabeça
(talvez arranquem fora)

2.
a gengiva coça a boca quer
cravar os dentes e
dizer o que guarda o peito

3.
hoje é dia de mostrar
24 minha lancheirinha nova.

4.
Por que mamãe fica estranha quando eu pergunto
por quê é bom pôr a mão na florzinha?
(menina não deixa seu pai ouvir isso!)

5.
Eles disseram que eu devo
gostar de rosa.

6.
Tem uma algema no meu dedo anelar.
ela coça.

7.
Hiperatividade se pega
por osmose
quem é esse do meu lado
afirmando que é neurose?
8.
Deixo-lhe flores feito um símbolo de comemoração
pela minha cama de solteira de volta.

9.
Quase não tenho forças quando ouço a batida
e preciso abrir a porta.

10.
É fim de papo. Abraço o eterno ócio.
meu pulso já não suporta mais o peso
do relógio.

***

petricor 25

1.
Dia nublado
Abro espaço
Para o peito
Sozinho e congelado

2.
Dia úmido
Anagramo eu:
Miúdo

4.
Dia chuvoso
O poema
É gozo
5.
Banho de chuva
Mergulho
A visão turva

6.
Já a tempestade advertiria:
Quem toma banhos de chuva
Corre o risco de nostalgia

***

Empasse natural

Talvez o furacão katrina tenha escolhido começar numa


26 fazenda de esquina onde
dois velhinhos brigam pois já estão casados há 60 e tantos
anos e não suportam mais a presença um do outro.
E um cachorro late pro troço vindo com tamanha velocidade,
sendo que
os velhinhos nem ligam
porque ainda estão brigando por causa da
pasta de dentes que um deixou no chuveiro;
pela toalha molhada em cima da cama;
pelas vezes que um cuidou do outro doente ou
pelas vezes que como agora eles brigaram até não terem
mais motivos e voltarem
a se amar como sempre foi.

O resumo da história doida é que o monstrão comeu a casa


toda e a velhinha ficou perdida
sem saber se era destino ou falta de sorte
mas sobre o velhinho decidiu o seguinte:
ela não vai deixá-lo como disse ontem que faria
e nesse caos,
no olho do furacão,
eles encontraram a calmaria.

***

27
josé zapiski

Se lembre: você é gente.


Uma solução de pedra e água.

Você é gente:
Uma mistura de terra e asa.

É gente.

Você é Gente:
Uma lesma sendo carregada pelo vento.

28 ***
Não,
nem o miolo
preto e redondo
da pupila
mais profunda
é capaz
de absorver tudo.

Observe,
olhe tudo;
será mesmo
que o mundo
passa todo
dentro de você?

Perceba;
a vida também
é a arte
de deixar passar
***

Percorri fundos de
mundos e
galopei horas e

dei voltas
-órbitas-
em minha vida de
-rotação -

Revolta idiota:

Demora tanto e
Acaba tão rápido.

Automático e caótico. 29
Aleatório e ordenado.
Fractal e limitado.

***

Caminho:
destino inacabado.

***

Um cachorro
revira lixo na rua
e minh’alma atirou-se
numa melancolia
de rasgar os olhos.
Minha vontade
era agarrá-lo
num abraço
despedaçado
pra prender minh’alma
qu’andava querendo
desgarrar-se do corpo.

Alma vadia, astuciosa...

Quando se baixa,
desce mais rente qu’o chão.
Quando sobe,
Eleva-se mais que pra lá.

Eu fico no meio
30 de cabo de guerra,
caboca fechada,
cococo fervendo.

Arre, Alma,
te aquieta!
Arre, Quorpo,
te acalma!

***

quanto mais palavras fossem ditas


mais elas pareciam dizer
(como quem escreve um romance que
poderia facilmente ser um poema)
No pescoço,
uma bolsa de mágoas.

No porão,
um cofre de alegrias.

Não me cabe
varrer o sentido das coisas.

No lixo,
um quebra-cabeças
de emoções com
várias peças faltando.

Um labirinto aceso.

Posso eu ralhar com os pássaros-bebês


que choram por comida mastigada?

Ah, que merda!


As palavras não dizem nada
(e cada vez menos). 31

***

Sim, eu tenho pressa


de tirar o osso da carne!

E se você tem pressa,


então abraboque fale!

E se a fala falha,
faça então o que te cabe!

(...)
E na noite escura...
Seja a mão que te ajuda...
Que afaga, cospe e empurra...
E a faca; corta e cura!

Sim, o ferro fere,


mas, por mais que você erre,
não se iluda, não se engane
e jamais se desespere,
por que o sol que queima o solo
é o mesmo sol que ergue.

§
32

(...)
E quando estiver só...
Se lembre que o pó...
Já foi teu pai!

***

O que se esconde atrás da face?


Atrás dos olhos?
Atrás da máscara?

Persona.

O que esconde o mistério


qu’está depois da casca?

Nós todos estamos fantasiados.


***

Arremesso bombas de efeito retardado:

Granadas preto e branco,


que o vento contrário
traz de volta ao meu colo

Lanço-me ao mar
e explodimos juntas
n’ alguma praça perdida.

E
no meio da rua,
na sala esquecida
dum prédio
prestes 33
a desmoronar,
compartilhamos a ruína:

Eu e ele enlatamos memórias


com prazo de validad.

Sumiremos um dia
entre gritos, risadas
y gemidos imbecis.

***

(prólogo)

O prédio tira minha peruca


me beija (dulcemente y con paixão)
e sussurra, ao pé do meu ouvido:
“take it, take another little piece of my heart”

***

Não foi fácil incendiar-me


sou frio demais
e junto muita umidade nos ossos.

Tive de me quebrar em pedaços,


partir meus galhos,
arrancar minhas folhas

E só assim
pude ir queimando aos poucos.
34
Com a ajuda do vento,
reduzi-me a cinzas.

Fui feliz em deixar


um leve calor sobre a terra
e uma marca escura de
fogueira apagada.

O tempo varreu meus destroços


e meu carbono alimentou a
respiração das árvores.

Esse fogo foi o melhor que


pude tirar de mim.
ana mendes

antes de mais nadas:


não sou poeta
nem poetisa
sou uma pirralha
balbuciando palavras
e por isso trago em mim
o rosto do mundo e de deus:
um adolescente aprendiz
conhecendo a si através
das nossas almas

***
35
poesia é o ápice da abstração

***

há silêncios que são guizos:


meu ventre vibra
o teu víbora

***

o respirar das folhas


em seu embalar calmo
tem um algo
que não diz
se mostra:
a existência vaga

***
não me anulo
me empresto
sou enquantos

o outro me é
encontro e perda

***

Mãe
não adianta tá no mundo enquanto
teu sossego estiver sujo:
36 volte para casa

Cria
estou voltando
para mim a morada
e a poesia: sustento

***

- você é estranha -
o que ainda pode dizer o meu escândalo
o que ainda pode os clichês do nosso tempo
todas as coisas sinceras são bregas e sem jeito
o mesmo que nossa timidez teu riso e o primeiro encontro
e eu agradeço por este lugar na terra
onde os quadris ninam os olhos alimentam
e o silêncio e a luz baixa nos diz

saudade é um entardecer
uma crise de ansiedade
uma rede
que em espanhol é
extrañar...

quis que soubesse


***
queria ser menino
quando pequena
pensava
que apenas meninos
podiam beijar meninas
pensava
que apenas meninos
podiam poder
ainda sem
saber ler
escrever
aprendeu
37
de ouvir
palavras
gritantes
VIADO SAPATÃO
com elas
agressividade
com ela
medo
temia
a mesma
sina ser:
alvo de
exclamações
cresceu
com isso de dor e riso
descobriu o frio
na barriga de fazer e ser
o que quer, sentiu
do macio das meninas
nunca quis ser menino
e sim, ser ela mesma liberdade

***

esgrima de egos
e toda a boçalidade
que lhe é possível em
palcos palanques
púlpitos praças
poemas
e o topo do mundo
num punhados
de umbigos
cagando regra
há séculos que só
cabem em seu próprio cu
o que há de você na tua aparência?
38 o que não é orgulho e vaidade?
o que não é trauma na face?
o que nos difere a fuça
dos detritos da fossa?
setorizando felicidade
em sessões e por embalagens
nos exilando dos nossos
próprios corpos
convivendo
em um não lugar
de ondas de micro
afetos emoticons smiles
os quase mortos
de pernas e braços cruzados
outros de seu gesto em cruz
de seu medo teleférico
e a letargia de uma geração inteira
me perdoem meu juvenil libido
ainda desejo arrebentar
a vida dos átrios
***

Sempre que resisto


Sou arrastada, esfolada, pisoteada
Espancada pelo punho do padrasto Capital
Personificado na insígnia da farda
Que sussurra em cassetetes e coronhadas:
Recue!
Desista!
Os omissos se preenchem com mais um cheque
Os desesperados com crack
Ou esvazia a cabeça com cleck!
Afogam-me na lama
Me bombardeiam no oriente
Às vezes, caminho com um fuzil
Que me pesa mais que meu corpo
E a fome, minha companhia inseparável 39
Tem rosto franzido
Com passos de brita caminha
E sorri ao prato de comida:
Quem dera
Pelo menos aqueles alimentos cancerígenos
Eu comesse...
E o meu algoz?
Assina e assassina
Com mais um cheque
Aos meus sobram
Crack e cleck!
Minhas mãozinhas carregam pedras
Esculpem tijolos
E para me manter acordada
Masco coca cheiro loló
Caminho descalça
sobre pedregulhos e chão ressecado
Com fome e sede
Desesperada
Também agonizo no concreto das metrópoles
Nos morros, nos becos
Morando entre lixão e bueiros
Repouso pelas calçadas
E me esquento com a chama do isqueiro
Seja no chão rachado
Ou no asfalto
Ou naquele terreno
Em que meu corpo abandonaram
A mídia madrasta
Ganhará mais um prêmio:
Sonegação de impostos e um cheque
Pelo registro fotográfico
Da minha carcaça esquelética
Apática, leiloa minha dor:
Vende a imagem da minha tragédia
40 Àqueles que lhe querem
Recortada, silenciosa e encoberta.
lhes convido a responder a charada existencial:
Quem eu sou?
Sou o sonho de Humanidade
Que vocês esquecem
E perseguem

***

cansado de jogar meus pedaços aos porcos de mim da minha


paranoia da minha ansiedade gástrica da posição fetal da
repetição entediante dos dias do meu corpo se deteriorando
- meu estômago que o diga - a exaustão tem sido a palavra
constante e não sei mais quais sinônimos usar e o que escondi
por trás dos olhos tornou-se insuportável arquiteto frases
para dizer o óbvio puuff... crescer dói e o mais foda disso é
que estamos indissociáveis do que nos faz rir e doer e meu
otimismo tristonho tem provocado deboche: é preciso que
doa que incomode que faça acontecer mesmo sem aplausos,
pulsos ou plateia quero me desprender do que criei deus

caso exista algum é um poeta frustrado com crise de


identidade depois de se enxergar na criatura do poema


***

o que me dói é lembrar o futuro, a mesma queda


ao declive molhado de dentro
enquanto isso, coso versos na pele para que existam
em silêncio manso, singela, para se saber bruta
e toda inteira rir de lábios moles
forte e vulnerável feito um cão de rua
mantendo-se apaixonado incessantemente indo embora 41
que me perdoem as faltas, antes isso
do que o apalpar da indiferença em tuas minhas costas:
há ausências tão palpáveis em palavras desencapadas
que esmurrar o nada é mais desconcertante do que a parede
limpo a dor charmosa de escolher ser quem
e no impacto da cobra cega do meu rosto defronte
é preciso; sim, se voltar a nossa subjetividade e isso
é o mais próximo da redenção que há
e se te defines, definhas, porque com o mesmo rosto
jamais conhecerá a si próprio
é a empatia que gesticula o oculto de nós mesmos
e que a culpa não nos ampute
pois é o insulto do inusitado que nos ganha a alma
e amplitude é me enxergar em suas córneas
porque o amor é uma palavra na tentativa
enquanto arranco lascas de mim:
pois é no toque a existência do desejo
ian itajaí

Rebelde sem causa

Você teme tanto que virou um bolor sob o nariz.


Você teme tanto que virou uma chanana com espinhos.
Você teme tanto que perto de ti,
sou um teatro de espíritos.

Chego de boné. É teu pai que lhe dava surras.


Chego a pé. É o carteiro que noticiou as mortes suas.
Beijo sua bochecha. É o amor que lhe desfiou em mil
espirais mudas.

E é em espiral que me suga o rebelde sem causa.


42
De mãos atadas, a presa perfeita espreita.
Nem espírito, nem penada alma,
apenas o amor insuficiente diante daquela viela estreita
que sempre será teu trauma.

Ouço estalos.
São suas vértebras que quebram, e dobram
E giram, e esticam os braços inanimados
E dobram-se os dedos e afundam toras de ti

Você teme tanto que virou um próton


Você teme tanto que virou retrato mórbido
Você virou almondegas, você virou o olhar que foge
Você virou aquele que morre.

E a presa te põe numa caixa redonda


E guarda no bolso esquerdo de sua melhor camisa casual.
O temor emanando raios gama
Que perfuram a gentileza d’um coelho que se joga às raposas
A gentileza que o torna amável é a mesma que o torna tragável
E a presa morre por amor a venenos sem causa.

***

A Fome

Dói a boca do estômago


E a dor é análoga àquela sob o peito, penso
Estou faminto
Mas não quero comer!
De birra

As coisas inanimadas me chamam, eu penso


A fome é uma forma estranha 43
De impedir que meus miolos adentrem canoas
em busca de indiozinhos
Penso
Que meu coração é couve-flor
Meu olhos são tamarindos
Meus lábios são de mel
- E o nome das coisas é findo –
Passo os dedos sob a derme
Sinto cravados hieróglifos, aramaico,
letras romanas

Num tufo de cabelo, no entanto


O emaranhado se solta em fio que não acaba mais
E é puxando fios no ralo que eu vomito
o infinito
- As flores morrem às onze horas
E eu sei que meu coração existe
Porque dói a falta dele
Dói feito bocas de estômagos
famintos
Dói feito pulmões vazios
Dói feito uma goiabeira brotando dos alvéolos -
A ponta do dedo pega a ponta do meu ser
(ou seja, meu nariz)
E eu sinto que estou a beira do famigerado colapso que deu
vida a tudo
Só a pele sob o crânio me ligando aqui
E a gravidade puxando bolsas sedosas sob meus cílios
E Aquele Que Me Chama dando vida a milhares de buracos
negros
Que um dia me sugarão
E chorarão as palmeiras que amei
E a areia pedregosa, ou aquele lamaçal que é a praia de grossos
Chorarão as flores que vi morrer e os besouros que trepam
44 nelas
Chorarão os móveis suaves, a nota Dó do trompete
Chorarão as gravuras de Victor que nunca me viram nem
me verão
Porque eu sou um abismo para o qual ninguém merece ser
sugado
O vento gostoso que mescla com sol e desenha um arco-íris
na minha alma chora também
Chorarão porque saberão que existi
Pois a falta se faz presente
E a falta será meu único legado.
Terei ido dormir com meu coração.

***

Escute os baixos tocando e os trompetes estourando


tímpanos distantes
Augusto dos Anjos, horrorizado por ser carne, escreveu a
antologia de sua vida.
Eu canto harmonias físicas e sinto o vento sobre meu rosto
e a grama sobre os pés
Os asfaltos as bactérias coliformes fecais bichos de pé as
texturas do muro da sua casa
e eu ando em sintonia com ondas mecânicas que me
trazem a música
Temos a paz de ser Deus
E a obrigação de ser o caos.

***

Goiamuns em estaca de feira


Eu sou o trauma de meus pais.
Os filmes de ficção científica de sessões da tarde
E a dopamina que tais lembranças me jogam no sangue.

Eu sou o cérebro, o pulmão, a hipófise 45


Sou a ansiedade, a depressão e a catarse ansiolítica de
surtos esporádicos
Fui abençoado por deus com anormalidades sociais
E uma puta vontade de olhar encontrar o desgraçado
Só para tomar umas cervejas e saber
Por Que?
A ponta da caneta rabisca nomes falsos
Eu sou o interpasso, vândalo descalço
Eu sou aquele que não existe
Eu sou o hospício, o louco e o triste

Eu sou as duas da manhã e eu sou o dia de jornada


Eu sou aquele homem que a buceta ficou cansada
Estou esperando que me existam
E nem pensarão em ter pena, em ter pena, os leitores,
que não estarão em posição.
Vocês não existem tampouco.
Um dia, a existência será apenas uma saudade profunda
Nos cosmos da imensidão.
gabrielle dal molin

esse péssimo hábito


de me doar sem perceber
as fronteiras do que há
e do que nunca vai haver
quero tanto o querer
me perco dando e pra quê?
se já não sou mais linear
nessa vida de cimento
que concreta não há de ser
porque dissipa-se em medo
e nessa eterna foda mal dada
que a gente sua mas não goza
46 que a gente goza mas não ama
e se ama joga fora
o gozo e o amor no lixo do banheiro

***

Quem és tu América
que passas por mim
como se fôssemos ainda
aquele tempo de chumbo?
És uma ferida aberta
um sentimento profundo
Os poros de tuas ruas
marcam em mim teus muros
O que tu queres América
se em ti ardem os sonhos
cerram-se os pulsos?
América, não falamos a mesma língua
mas posso entender-te
com as veias de meu coração ibérico
por onde corre nosso sangue bebido
Quem és tu América
que reconheço em linhas
mortes e santos?
Quem és América
tu que fazes de mim um desejo
doce e incestuoso
fraterna y sedutora

América, não falamos a mesma língua


mas quero fecundar-me de ti
teus sonhos, tua fúria
sobretudo tua fúria
Para que teus gritos não me abandonem 47
para que tua alma não vá em vão
Para que teus caminhos durmam em meus pés
e as sementes cresçam em minhas mãos

***

ela me diz:
que tempo bonito pra chover!
e eu me perco contando as nuvens
que pairam sobre sua cabeça insone
eu digo que não sei mais onde
procurar meus cometas
servir meu céu que tem fome
de mais água
e menos homens
o clima ameno me agrada
mas eu sinto o tédio violar meu corpo
quando chove pouco
e de nada me lembro
que não seja pingo me iluminando
na fonte dos meus desejos
ela me diz que a gente pode dar a outra face
quando cansar de bater de frente
a lua está em peixes
e eu sonhei com uma cama habitada
encharcada de leite
eu não bebo mais vacas nem as como
nem as louvo
mas sei que na Índia há deus na carne
sei que em mim há carne em deus
morto pela minha vontade
de saciar os lábios em outras santas
que de tanto rezar perderam os dedos
fazem de mim sua chuva

48 ***

Aquela parte do teu corpo


me invade
aquela arte do teu gozo
me arde
meu coração queima
te encontro inteira
minha mão não sabe
teus atalhos
onde cabe
mais de mim
em tua carne
aquela parte do teu gozo
é arte
aquela face do teu corpo
em alarde
meus dedos e anseios
derretem e caem
aquela parte do teu ser