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Boaventura de Sousa Santos: Qual a

relação entre o direito e a demanda por


uma sociedade melhor?
• Postado por Elaine Trigueiro em 10 novembro 2009 às 8:30
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Nome reconhecido não só pela sua produção intelectual, o sociólogo Boaventura de


Sousa Santos também o é pelo seu compromisso concreto com a problemática social
contemporânea. Boaventura aposta no diálogo do saber científico com outros saberes e
sua concepção de Direito e Justiça vai muito além daquela que nos é apresentada no
âmbito das instituições estatais. Em vários momentos, ele buscou conhecer de perto o
pluralismo jurídico vivenciado em comunidades pobres do Brasil, em cidades como
Recife, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, por exemplo.
Em seus estudos sobre o comportamento da sociedade e suas instituições o Direito
aparece como tema de destaque. Em seu artigo “Poderá o Direito ser
Emancipatório?”ele apresenta uma análise sobre o papel do Direito em nosso tempo e
faz questionamentos sobre o Direito como instrumento de transformação social. Antes
de tudo, nos revela que a resposta a ser dada não pode ser um simples sim ou não, sua
hipótese é de que seja um relativo sim. E ao traçar esse caminho, inicia sua análise
situando o problema em seu contexto histórico.
A partir do desenvolvimento capitalista e, posteriormente, com a consequente
superexploração da classe operária surgem movimentos de luta por melhores condições
sociais e trabalhistas. O Estado passa então a ter nas reivindicações emancipatórias das
classes menos favorecidas um problema. Neste contexto, existiu um dualismo expresso
por grupos que defendiam uma política emancipatória implementada através de meios
legais, gradual, em contraposição aos grupos que defendiam a emancipação social
através da ruptura revolucionária. Como uma estratégia de ação dos representantes dos
primeiros surgiu o Estado do bem-estar social, que implementou uma série de
concessões para que o capitalismo seguisse ileso. De outro lado, ocorreu a Revolução
Russa. Evidentemente, dentro de cada corrente existiam nuances, muitas vezes até
conflitos. Contudo, durante as últimas duas décadas, esse paradigma entrou em crise.
Essa crise motivou o ressurgimento do liberalismo, ou o chamado neoliberalismo, que
para Sousa Santos parece bloquear a via legal da emancipação. Por outro lado, o mundo
socialista entrou em colapso. Assim, vivemos um período de transição e apesar de
fazermos parte de uma sociedade em que reina a desigualdade e a exclusão,
continuamos apegados a uma ideia de ordem, de que as coisas são assim porque não
haveria outro jeito, de modo que o direito pós-globalizado é conservador, fixando o
modo como o mercado funciona e, com isso, garantindo que o Estado de direito seja
aplicado com eficácia. Esse paradigma jurídico e político do neoliberalismo se tornou
global e, neste sentido, o direito como mecanismo de emancipação social é uma visão
contra-hegemônica.
A globalização propagou pelo mundo um sistema de dominação e exclusão, porém
também criou mecanismos para que movimentos contra-hegemônicos percebessem e
articulassem interesses comuns. Prova disso é o fortalecimento, ano após ano, do Fórum
Social Mundial, inicialmente concebido através da comunicação entre as pessoas via
Internet, que se contrapõe aos fóruns econômicos.
Para buscar uma resposta à questão de como reinventar o direito, o autor propõe a
desocidentalização de sua concepção, buscando-se práticas que foram marginalizadas
pelas ideias liberais que se tornaram dominantes, concepções que se desenvolveram fora
do Ocidente, nas colônias e outras práticas propostas por movimentos e organizações
contra-hegemônicos. Ele propõe um afastamento da modernidade dominante em direção
à modernidade subalterna, na busca de se reinventar uma sociedade mais justa.
Em sua análise sobre as complexidades sociais Sousa Santos apresenta um conceito
interessante de cidadania, dividindo a cidadania em graus nas sociedades capitalistas.
Existiriam os super-cidadãos, que são aqueles pertencentes a sociedade civil íntima e
aqueles que têm variados tipos de cidadania, pertencendo ao grupo da a sociedade civil
estranha. Há ainda, os não-cidadãos, que pertencem a sociedade civil incivil. A não-
cidadania seria o grau zero de inclusão social, conseqüência da legalidade liberal. E
como o Direito se apresentaria para os diferentes tipos de cidadãos, sobretudo para os
não-cidadãos? Essa análise é mais profundamente realizada por Sousa Santos ao se
debruçar sobre o tema da democratização do acesso à justiça.
Para ele o tema do acesso à justiça é o que mais diretamente equaciona as relações entre
igualdade jurídico-formal e desigualdade sócio-econômica, existindo vários obstáculos
ao acesso efetivo pelos mais pobres, de caráter econômico, social e cultural. Para
começar, o valor que é gasto num litígio é maior quanto menor for o valor da causa. A
lentidão da tramitação dos processos encarece ainda mais a lide. A forma como são
distribuídos territorialmente os magistrados contribui ainda mais para a morosidade. Por
outro lado, a administração da Justiça reside sempre longe da periferia, em geral, dentro
de prédios luxuosos que intimidam os mais pobres. O componente da distância
geográfica só não seria maior do que outra barreira: a cultural. Quanto mais baixo é o
status sócio-econômico da pessoa menor é a possibilidade de que ela reconheça seus
direitos e se disponha a lutar por eles através de uma ação judicial. Quanto menor o
poder econômico do indivíduo, mais vulnerável a represálias ele se sente,
provavelmente mais vulnerável a abusos de poder ele está. Menos provável ainda é que
ele conheça um advogado ou que tenha amigos que conheçam algum. Sendo assim,
diminuir o valor das custas é uma medida que por si só não resolveria o problema do
acesso, porque o problema do acesso envolve condicionantes sociais e culturais muito
mais difíceis de se modificar. Para exemplificar, ainda que em vários países a
assistência jurídica gratuita aos hipossuficientes seja um direito consolidado já na
primeira metade do século XX, em lugares como o Brasil isso ainda está engatinhando.
Em muitos estados não há uma defensoria pública institucionalizada, de forma eficiente,
nem na esfera penal, quanto mais no âmbito civil. Portanto, se os mais pobres não tem
acesso à justiça institucionalizada, como eles resolvem seus conflitos sociais?
Sousa Santos nos chama a atenção para os mecanismos informais de resolução de
conflitos em muitos de seus trabalhos e aponta vários estudos de sociologia jurídica que
caracterizaram formas de direito totalmente fora dos padrões, apresentando mecanismos
rápidos, em que há participação da comunidade na conciliação ou mediação entre as
partes. Para ele, o Estado contemporâneo não tem o monopólio da produção e
distribuição do direito, embora seja o tipo dominante de juridicidade.
Em busca de se efetivar a democratização do direito para que ele possa ser um
instrumento de transformação social, verdadeiramente emancipatório, Sousa Santos
propõe a criação de uma nova política judiciária. Para ele não há que se falar em
democracia verdadeira se o acesso à justiça não é democrático. E a democratização do
Judiciário passa pela sua reorganização através de uma simplificação dos atos
processuais e o incentivo às práticas conciliatórias, além da organização da própria
sociedade em grupos, que possam reivindicar os seus direitos. Também é
imprescindível a criação de um sistema de serviços jurídico-sociais eficiente, não se
limitando a eliminar os obstáculos econômicos ao acesso, mas, sobretudo, os obstáculo
sócio-culturais, educando os cidadãos sobre os seus direitos, para que eles possam lutar
tanto para a aplicação da lei já vigente, quanto pela mudança do direito, ou mesmo à
mudança de interpretação do direito. Para Sousa Santos a informalização da justiça pode
ser um bom caminho para a democratização, desde que as partes tenham poder sócio-
econômico pariável. Em litígios entre indivíduos ou grupos estruturalmente desiguais a
informalização do direito pode causar a deterioração da posição jurídica mais fraca.