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Paul Feyerabend

Tal como nas obras que tornam


Feyerabend um dos epistemólogos
contemporâneos mais polémicos,
Contra o Método e Ciência numa
Sociedade Livre, também aqui em
ADEUS
Adeus à Razão é feita uma crítica
acerada à racional idade ocidental
e à concepção objectivista da
À ~
ciência. Esta crítica, porém, está
aliada a um profundo respeito
pelos saberes e tradições de outras
civilizações e culturas. Mais do que
RAZAO
um iconoclasta da ciência, Paul
Feyerabend é um democrata radical
do saber.
muitas vezes se apresentam destituídas de conteúdo e se tornam
absurdas ou simplesmente falsas quando dotadas de conteúdo (cf.
o meu breve comentário à vossa tese principal e à vossa autono-
mia artística). A barreira da incompreensão criada por este dis-
curso não se baseia no conhecimento, mas na simulação e na
vontade de intimidar - mais uma razão para uma análise bas-
tante crítica de muitos privilégios intelectuais que conseguiu intro-
duzir na nossa sociedade.
Os maiores votos de felicidades pessoais e em todos os vossos
empreendimentos futuros!

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o ADEUS À RAZÃO

A versão alemã deste ensaio baseou-se na 3. a edição alemã


de Against Method (abreviado AM), que difere das edições
inglesa, francesa, japonesa e portuguesa e foi publicada em
1986. Erkenntniss Fur freie Menschen (abreviado EFM), é a
edição alemã, em grande parte reescrita (dois terços), de
Science in a Free Society (SFS). Não contém os capítulos sobre
Kuhn, Aristóteles e Copémico e dá respostaas críticas que cons-
tituíram mais de metade do texto inglês. Contém, muito pelo
contrário, uma explicação mais pormenorizada da relação entre
razão e prática, um capítulo mais desenvolvido sobre o relati-
vismo e um esboço do aparecimento do racionalismo na anti-
guidade. As críticas que comento foram publicadas em H. P.
Doerr (org.) Versuchungen, 2 Vols., Francoforte 1980/81.

1 Síntese

Este capítulo debruça-se sobre os seguintes tópicos: a estru-


tura do raciocínio científico e a função de uma filosofia da ciên-
cia; a autoridade da ciência comparada com outras formas de vida;
a importância destas outras formas de vida; a função do pensa-
mento abstracto (filosofia, religião, metafísica) e dos ideais abs-

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tractos (por exemplo, o humanitarismo). Contém igualmente res- regras não são aplicadas pelos cientistas, como não podem de
postas e ensaios críticos que surgiram em alemão em 1980 e escla- modo algum ser usadas em todas as circunstâncias - tal como
rece aspectos importantes de AM e EFM. é impossível escalar o Monte Evereste com passos de ballet
clássico.
As ideias acabadas de apresentar (e ilustradas com exemplos
2 A estrutura da Ciência históricos em AM e na minha obra Philosophical Papers, Cam-
bridge 1981) não são novas. Conforme referi na secção 4 do capí-
A minha tese principal sobre este aspecto é: os acontecimen- tulo 6, encontramo-Ias em filósofos como Mill (na sua obra On
tos e os resultados que constituem as ciências não têm uma estru- Liberty - a ousada apresentação de uma epistemologia anar-
tura vulgar; não contêm os elementos que se registam em todas quista), em cientistas como Boltzmann, Mach, Duhem, Einstein
as investigações científicas mas faltam noutros sítios (a objecção e Bohr, e depois, de uma forma um pouco já dissecada pela filo-
de que sem esses elementos a palavra «ciência» não tem signifi- sofia, em Wittgenstein. Eram ideias fecundas: as revoluções da
cado pressupõe uma teoria do significado que foi criticada, com física moderna, a relatividade e a mecânica quântica e as mudan-
excelentes argumentos, por Ockham, Berkeley e Wittgenstein). ças recentes na psicologia, biologia, bioquímica e física de alta
Os desenvolvimentos concretos (como a eliminação de cosmo- energia teriam sido impossíveis sem elas. No entanto, tiveram
logias de estado invariável ou a descoberta da estrutura do ADN) um impacte muito pequeno na filosofia. Até o movimento filosó-
apresentam, como é lógico, características bastante distintas e com fico mais iconoclasta da época, o neopositivismo, se agarrava ainda
frequência é possível explicar a maneira como essas característi- à antiga ideia de que a filosofia deve proporcionar os níveis gerais
cas levam ao êxito. Mas nem todas as descobertas se podem jus- de conhecimento e acção e que a ciência e a política só benefi-
tificar da mesma forma, e processos que se revelaram viáveis no ciam ao adoptarem esses níveis. Rodeados de descobertas revo-
passado podem originar problemas quando impostos no futuro. lucionárias nas ciências, perspectivas interessantes nas artes e
A investigação bem sucedida não obedece aos parâmetros gerais: progressos imprevisíveis na política, os rígidos pais do Círculo
depende de um artifício agora, outro depois, e os movimentos de Viena refugiaram-se num bastião estreito e mal construído.
que a fazem progredir nem sempre são conhecidos de quem os Deixou de existir a ligação à história; a estreita colaboração entre
desencadeia. Uma teoria da ciência que concebe padrões e ele- o pensamento científico e a especulação filosófica chegou ao fim;
mentos estruturais de todas as actividades científicas e os auto- passaram a dominar a terminologia estranha às ciências e os pro-
riza a uma teoria da racionalidade pode impressionar os estranhos blemas sem relevância científica.
- mas parece um elemento demasiado em bruto para as pessoas Fleck, Polanyi e depois Kuhn foram (ao cabo de muito tempo)
no local, ou seja, para os cientistas confrontados com um pro- os primeiros pensadores a comparar a resultante filosofia acadé-
blema concreto de investigação. O máximo que podemos fazer mica com o seu suposto objecto - a ciência - e a evidenciar
por eles, de longe, é enumerar métodos práticos, dar exemplos o seu carácter ilusório. Mas a situação não melhorou. Os filóso-
históricos, apresentar casos estudados que contenham processos fos não voltaram à história. Não abandonaram as charadas lógi-
diversos, demonstrar a inerente complexidade da investigação e cas que lhes são peculiares. Enriqueceram-nas com gestos mais
prepará-Ios, deste modo, para o atoleiro em que estão prestes a vazios, na sua maior parte retirados de Kuhn (sparadigma»,
entrar. Ao ouvirem a nossa história, os cientistas ficarão sensi- «crise», «revolução», e assim sucessivamente), ignorando o con-
bilizados para a riqueza do processo histórico que querem trans- texto e complicando deste modo a sua doutrina; mas não a apro-
formar, sentir-se-ão impelidos a pôr de lado infantilidades como ximaram da realidade. O positivismo pré-kuhniano era infantil,
regras lógicas e princípios epistemológicos e começar a pensar mas relativamente claro (inclui Popper, que não passa de uma
em formas mais complexas - e mais não podemos fazer devido pequeníssima baforada de ar quente na chávena de chá do positi-
à natureza do material. Uma «teoria» do conhecimento que queira vismo). O positivismo pós-kuhniano manteve a sua infantil idade
ir mais longe, perderá o contacto com a realidade. Não só as suas - mas é também muito obscuro.

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Imre Lakatos foi o único filósofo da ciência que aceitou o desafio que se aperceberam de que integrar esta capacidade num sistema
de Kuhn. Combateu Kuhn no seu próprio terreno e com as suas significaria o fim das ciências (das artes, da religião e assim suces-
próprias armas. Admitiu que o positivismo (verificacionismo, fal- sivamente). E as ciências naturais, em particular a física e a astro-
sificacionismo) nem esclarece os cientistas nem os ajuda na sua nomia, entram na discussão não porque «me fascinem», como
investigação. Todavia, negou que ao aproximarmo-nos da histó- afirmaram alguns confusos defensores das humanidades, mas por-
ria sejamos obrigados a relativizar a todos os padrões. Poderá que constituem a questão a debater: foram as armas que os posi-
tratar-se de uma reacção de um racionalista confuso que pela pri- tivistas e os seus ansiosos inimigos, os racionalistas «críticos»:
meira vez se vê confrontado com a história em todo o seu esplen- aplicaram às filosofias indesejadas, e são as armas que agora o~
dor, mas, assim o afirmou Lakatos, um estudo mais profundo levam a abdicar. Assim como também não falo de progresso por-
da mesma matéria revelará que os processos científicos partilham que acredito nele ou finjo conhecer o seu significado (usar uma
a estrutura e obedecem a regras gerais. Podemos ter uma teoria reductio ad absurdum não obriga o argumentador a aceitar as pre-
da ciência e, mais genericamente, uma teoria da racional idade missas: cf. AM, pág. 27). Quanto ao slogan «vale tudo», que certos
porque o pensamento entra na história pelas vias legais. críticos me atribuiram e depois atacaram: o slogan não é meu
Procurei refutar essa tese em AM bem como no capítulo 10 e não se destinava a condensar os casos estudados em AM e SFS.
do Vol. 2 de Philosophical Papers. Segui um processo em parte Não procuro novas teorias da ciência, pergunto antes se vale a
abstracto, consistindo numa crítica da interpretação de Lakatos, pena empreender a investigação dessas teorias e concluo pela nega-
e em parte histórico. Alguns críticos negam que os exemplos his- tiva: o conhecimento não vem das teorias, mas antes da partici-
tóricos sustentam o meu caso: as suas objecções serão abordadas pação. Deste modo, os exemplos não são pormenores que possam
a seguir. No entanto, se não estou errado - e tenho a certeza e devam ser omitidos uma vez feita a «descrição real» - são essa
de que não - então é necessário retomar a posição de Mach, Eins- descrição real. Os críticos, ao defenderem uma posição que rejeito
tein e Bohr. Será, por conseguinte, impossível uma teoria da ciên- manifestamente (de que pode existir uma teoria da ciência e do
cia. Temos apenas um processo de investigação, e paralelamente, conhecimento), só leram uma parte da minha história e leram-na
toda uma série de métodos práticos que nos pode ajudar na tenta- de uma maneira que está em contradição com o resto. Não admira
tiva de aprofundar o processo, mas que também nos pode des- que ficassem desconcertados com o resultado.
viar do bom caminho. (Quais os critérios que nos indicam esse Idênticas observações se aplicam aos leitores que aceitam o slo-
desvio? São aqueles que se adaptam à situação em presença. Como gan e o interpretam como simplificação da investigação e maior
estabelecemos essa aptidão? Criamo-la através da nossa investi- facilidade de êxito. A minha objecção a estes «anarquistas» pre-
gação: os critérios não avaliam só acontecimentos e processos, guiçosos é, novamente, de que fazem uma leitura errada das
são muitas vezes constituídos por eles e devem ser introduzidos minhas intenções: «vale tudo» não é um «princípio» que eu defenda,
deste modo ou então a investigação nunca chegará a iniciar-se: mas um «princípio» imposto a um racionalista que adora princí-
AM,26). pios, mas que também leva a sério a história. Além disso, e mais
É esta a minha resposta aos vários críticos que, ou me atacam importante ainda, a ausência de parâmetros «objectivos- não sig-
por combater teorias da ciência e, no entanto, desenvolver eu pró- nifica menos trabalho; significa que os cientistas têm de verifi-
prio uma teoria, ou me censuram por não apresentar uma «deter- car todos os ingredientes do seu ofício e não apenas aqueles que
minação concreta do que constitui uma boa ciência»: se um os filósofos e os cientistas consideram tipicamente científicos.
conjunto de normas práticas é designado por «teoria» então é claro Deste modo, os cientistas deixaram de dizer: dispomos já dos
que tenho uma «teoria» - mas diverge consideravelmente dos métodos e esquemas de investigação correctos - só nos falta
castelos de sonho antissépticos de Kant e Hegel e das casotas de aplicá-los. Pois, segundo a perspectiva da ciência defendida por
cão de Carnap e Popper. Mach, Einstein e Wittgenstein, por outro Mach, Boltzmann, Einstein e Bohr, e que reafirmei em AM, os
lado, não apresentam uma construção do pensamento tão impo- cientistas não são só responsáveis pela aplicação correcta de esque-
nente, não porque lhes falte a capacidade especulativa, mas por- mas que importaram não se sabe de onde, são também responsá-

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veis pelos próprios esquemas. Nem sequer as leis da lógica esca- tigação. Que farão nestas circunstâncias os nossos «anarquistas»
pam à sua pesquisa minuciosa, pois as circunstâncias podem amantes da liberdade? Quando os seus opositores já não forem
obrigá-Ios a mudar igualmente a lógica (surgiram algumas des- os odiados peritos, mas os muito queridos cidadãos livres?
sas circunstâncias na teoria dos quanta).
Deveremos ter presente esta situação ao considerarmos a rela-
ção entre os «grandes pensadores» de um lado e os editores, finan- 3 Casos Estudados
ciadores e instituições científicas do outro. Segundo a justificação
tradicional, os cientistas com ideias invulgares e as instituições Irei abordar principalmente nesta secção as objecções à forma
onde procuram apoio têm algumas ideias genéricas em comum: como tratei Galileu. Repito que não critiquei os métodos de Galileu
ambos são «racionais». Basta um cientista em busca de apoio finan- - que constituem excelentes exemplos do carácter inventivo da
ceiro demonstrar que a sua investigação, independentemente de prática científica mencionada na secção 2 - mas aquelas teorias
conter sugestões inovadoras, está em conformidade com estas filosóficas que, se aplicadas com um melhor conhecimento da his-
ideias. De acordo com a tese defendida por mim, os cientistas tória, os teriam rejeitado porque «irracionais». Galileu foi irra-
- e quem os julga deve estabelecer primeiro um campo comum cional segundo estas teorias - mas foi também um dos maiores
- já não se podem basear em slogans convencionais (ou o seu cientistas-filósofos ao cimo da terra.
intercâmbio é «livre», e não «orientado»: cf. SFS, pág. 29). De acordo com Gunnar Andersson, o caso de Galileu pode fazer
Numa situação destas, a exigência de maior liberdade por parte perigar uma «aversão extremamente simples do falsificacionismo»
de cientistas «anárquicos» poderá ser interpretada de duas manei- - mas não ameaça uma filosofia em que tanto as teorias como
ras. Poderá ser vista como a necessidade de um intercâmbio aberto as observações são falíveis. A minha interpretação dos pressu-
que procura compreender sem estar dependente de regras espe- postos de Galileu revela ainda, segundo Andersson, que não
cíficas. Mas pode ser também interpretada como um pedido de aprendi a definição que Popper faz das hipóteses ad hoc. Estas,
aceitação sem análise. Nos termos de AM e SFS, o último pedido diz Anderson, não se limitam a ser introduzidas para explicar os
poderia ser viável se se afirmasse que as ideias em tempos consi- efeitos especiais; fazem também diminuir o grau de falsificação
dera as absurdas tenham posteriormente levado ao progresso. O do sistema em que ocorrem.
argumento esquece que os avaliadores, editores e financiadores Ora, é precisamente o que sucede com os pressupostos de Gali-
podem usar as mesmas razões: também o status quo levou ao pro- leu. A sua descrição do movimento transforma o argumento da
gresso e «vale tudo» inclui os métodos dos seus defensores. É, torrer') de uma refutação de Copérnico num caso confirmado e
por conseguinte, necessário oferecer um pouco mais do que arro- reduz o conteúdo da dinâmica de Aristóteles que o precedeu (AM,
gância e generalidades vagas. pp. 99 e segs.). Esta última teoria (explicada nos tomos I, lI, VI
Os casos estudados revelam que os rebeldes científicos deram e VIII de Física) trata de um modo geral uma diversidade de
este passo extra. Por exemplo, Galileu não se limitou a apresen- mudanças incluindo a locomoção, a geração, a corrupção, a
tar as suas reclamações; tentou antes convencer os seus oposito- mudança qualitativa (como a transmissão de conhecimentos de
res com os melhores meios de que dispunha. Estes meios um professor bem informado a um aluno ignorante - um exemplo
divergiam muitas vezes dos métodos profissionais, sendo incom-
patíveis com o senso comum - eis aqui a componente anárquica
da investigação de Galileu; mas tinham os seus motivos que pode- (I) Segundo o Argumento da Torre (AM, capo 7) uma pedra lançada de uma
torre para uma terra em movimento ficará para trás. Não fica para trás, pelo
riam ser expressos em termos de senso comum e conseguiam triun- que a Terra não se move. O argumento pressupõe (lei da inércia de Aristóteles)
far. Mas não esqueçamos que uma democratização plena da ciência que um objecto fora do alcance de forças se mantém em (retoma o) repouso.
dificultará ainda mais a vida dos autoproclamados descobridores Na ocasião do debate, este pressuposto foi confirmado. Serviu durante muito
de Grandes Ideias, que terão então de se dirigir a pessoas que tempo após a Revolução de Copérnico, para estabelecer a existência de ovos
nem sequer comungam do seu interesse pela ciência ou pela inves- de moscas, bactérias, vírus.

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muito usado por Aristóteles), o aumento e a diminuição. Con- . contradizem-se a si mesmas, nem todos as podem repetir, aque-
tém teoremas como: todo o movimento é precedido de outro movi- les que o fizeram (Kepler) chegaram a resultados confusos e não
mento; existe uma hierarquia de movimentos que parte de uma existia nenhuma teoria que separasse os «fantasmas» de fenóme-
causa de movimento imóvel, é seguida por um movimento pri- nos verídicos (a óptica física, mencionada por Andersson é irre-
máno com velocidade constante (angular) e se ramifica de lá; a levante; as afirmações básicas objecto de discussão não são os
distância de um objecto em movimento não tem um valor exacto raios de luz mas a posição, a cor, a estrutura das manchas visí-
- atribuir uma distância exacta a um objecto significa presumir veis, e facilmente se demonstra ser falsa a tese popular que rela-
que está em repouso; e assim sucessivamente. Partindo do prin- ciona os primeiros com as segundas: cf. AM, pág. 137). As
cípio de que o mundo é uma entidade legal, foi possível provar afirmações básicas de Galileu são, por conseguinte, hipóteses
o primeiro teorema. (A prova pode ser usada, nos dias de hoje, ousadas sem muita corroboração. Andersson aceita esta descri-
para refutar a teoria «Big Bang» da origem do universo ou a ideia ção - é preciso tempo, diz ele, para obter provas corroborativas
de que a redução do volume da onda se deve a um acto cons- (e as teorias de avaliação que lhe estão associadas, para usar
ciente). O último teorema que se baseia na noção de continui- uma excelente expressão de Lakatos). A primeira interpretação
dade de Aristóteles, toma em consideração as ideias básicas da do racionalismo crítico, atrás mencionada, afirma que durante
teoria dos quanta (cf. capítulo 8, para pormenores). a investigação as afirmações não têm poder de refutação. Se
A teoria do movimento de Aristóteles é coerente e foi confir- mesmo assim se diz, como faz Andersson, que Galileu refutou
mada. Estimulou a investigação no campo física (electricidade as ideias populares com base nas suas observações, então passa-
- cf. J. L. Heilbron, Electricity in the 17th and 18th Centuries, mos da primeira interpretação para a segunda, em que as afir-
University of California Press 1979), da fisiologia, da biologia mações básicas podem ser usadas indiscriminadamente.
e da epidemiologia até aos finais do século XIX e ainda hoje em O palavreado mantém-se crítico - mas o seu conteúdo desa-
dia: as noções de mecânica dos séculos XVII e XVIII e as suas pareceu.
actuais consequências são incapazes de tratar o seu processo espe- Segue-se uma crítica que T. A. Whitaker publicou em duas car-
cial, a locomoção (cf. a obra de Bohm e Prigogine assim como tas na revista Science (2 de Maio e 10 de Outubro de 1980). Whi-
o capítulo 8 da presente obra). Que fez Galileu? Substituiu esta taker salienta que existem dois conjuntos de imagens da Lua, as
teoria complexa e sofisticada, que continha já a distinção entre xilogravuras (que apresentei em AM) e as chapas de cobre que
as leis da inércia (que descrevem o que sucede quando as forças são mais precisas, segundo uma perspectiva moderna. As cha-
não actuam) e as leis das forças (que descrevem a maneira como pas de cobre, diz Whitaker, mostram que Galileu observou a Lua
as forças influenciam o movimento), pela sua própria lei da inér- muito melhor do que eu pensei.
cia que carecia de corroboração, se aplicava exclusivamente à Ora, primeiro que tudo, nunca pus em causa a capacidade de
locomoção e reduzia «drasticamente o grau de falsificabilidade Galileu como observador. Citando R. Wolf, que escreve que «Gali-
de todo o sistema». leu não foi um grande observador astronórnico, senão o entusiasmo
No que se refere à falsificabilidade das afirmações com base das muitas observações telescópicas por ele efectuadas na altura
na informação, a situação é, no entanto, a que se segue. O racio- teria momentaneamente ofuscado a sua perícia ou o seu sentido
nalismo crítico, a «filosofia» defendida por Andersson ou é uma crítico», respondo (AM, pág. 129) que
perspectiva fecunda que guia os cientistas, ou uma conversa oca
que se harmoniza com qualquer processo. Os popperianos dizem esta afirmação pode muito bem ser verdadeira (embora me pareça
que é a primeira (rejeição da reivindicação de Neurath de que duvidosa em face da extraordinária perícia de observação demons-
toda a afirmação pode ser eliminada por um motivo qualquer). trada por Galileu noutras ocasiões). Mas o seu conteúdo é pobre e,
Por isso insistem que as afirmações básicas destinadas a refutar permito-me afirmar, não muito interessante ... Há, no entanto, outras
uma teoria devem ser plenamente corroboradas. As observações hipóteses que conduzem a novas sugestões e que nos mostram como
de Galileu pelo seu telescópio não satisfizeram esta condição: era complexa a situação na época de Galileu.

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Menciono de seguida duas dessas hipóteses, uma relativa às Resolvi utilizar as xilogravuras com vista a determinar as reac-
características gerais da visão telescópica contemporânea, a outra ções dos contemporâneos de Galileu. Registe-se mais uma vez
considerando o pressuposto de que as percepções, isto é, as coi- que não procurei demonstrar que Galileu era um péssimo cien-
sas vistas a olho nu, têm uma história (que pode ser descoberta tista porque as xilogravuras divergiam das imagens actuais da Lua
conjugando a história da astronomia visual com a história da pin- - tal argumento estaria em contradição com as considerações
tura, da poesia, etc.). acabadas de referir. Parti antes do princípio de que a Lua, tal
Em segundo lugar, a referência às placas de cobre não afasta como a vemos a olho nu, parece diferente das xilogravuras, que
todos os aspectos incómodos das observações (da Lua) feitas por talvez tivesse parecido diferente aos contemporâneos de Galileu
Galileu. Não só Galileu desenhou figuras, como apresentou e que alguns deles tivessem criticado o Sidereus Nuncius com base
também descrições verbais. Por exemplo, perguntou (cf. AM, nas suas observações a olho nu. Este pressuposto tem ainda alguma
pág. 127): «Porque não vemos a irregularidade, a rugosidade e utilidade, pois as xilogravuras acompanhavam a maior parte das
a ondulação na periferia externa e na circunferência total da lua- edições do livro. Aplicar-se-á também às gravuras? Como O
-cheia? Porque se apresentam perfeitamente redondas e circula- demonstra a crítica de Kepler, sim.
res?« Retorquiu Kepler, com base nas observações a olho nu (cf. Além disso, houve muitas razões para o telescópio não ser con-
AM, p. 127, nota 24): «Se se olhar com atenção quando a Lua siderado com uniformidade um apresentador de factos (algumas
está cheia, parece notar-se uma falta de rotundidade», e respon- destas razões, tanto empíricas como teóricas, foram reunidas em
deu à pergunta de Galileu, dizendo: «Não sei com que cuidado AM). A afirmação de Whitaker, feita na segunda comunicação,
foi dispensada atenção a esta questão, ou se, mais provavel- de que os desenhos de Galileu sobre a Lua são de alta qualidade,
mente, a dúvida se baseia na impressão popular. Pois ... referi em comparação com as fotografias modernas, não têm aqui
que decerto existiria alguma imperfeição neste círculo externo cabimento.
durante a lua-cheia. Estude de novo o assunto, e dê-nos a sua
opinião». John Worral atribui-me o «truísmo de que os 'factos teóricos'
Esta curta troca de palavras revela, em terceiro lugar, que os dependem da teoria» assim como os argumentos que «estão depen-
problemas de observação que existiam na época de Galileu não dentes de se considerar o 'facto' a um nível teórico muito ele-
se resolvem demonstrando que as observações de Galileu estão vado». O que digo efectivamente no estudo em que são explicados
de acordo com a nossa opinião sobre o assunto. Para vermos como estes aspectos (reeditado agora como capítulo 2 do Vol. 1 de Phi-
Galileu procedeu, se foi «racional» ou se quebrou regras impor- losophical Papers) é que todos os factos são teóricos (ou, numa
tantes do método científico, teremos de comparar as suas desco- forma de discurso mais formal, «no âmbito da lógica, todos os
bertas e as suas sugestões com o seu meio envolvente e não com termos são 'teóricos'» - op. cit., pág. 32, nota 22) e não unica-
a situação num futuro ainda desconhecido. Se chegarmos à con- mente cheios de teoria. Contesto também esta afirmação e demons-
clusão de que os fenómenos descritos por Galileu não foram con- tro que e por que motivo é preferível às alternativas,
firmados por mais ninguém, e que não existiam razões para confiar inclusivamente a alternativa que Worral parece ter em mente. Em
no telescópio como instrumento de investigação, mas muitas lado algum as acusações de Worral chegam a este ponto ou defen-
razões, tanto teóricas como práticas em contrário, então seria anti- dem estes argumentos.
científico Galileu propagandear os fenómenos tal como o seria As dificuldades de John Worral deixam-nos ver que os poppe-
para nós em relação aos resultados de experiências sem corrobo- rianos pouco mais avançaram para além de formas de empirismo
ração autónoma e obtidos por métodos duvidosos - por muito mais ingénuas. Worral pretende estabelecer a distinção entre factos
que as suas observações se aproximassem das nossas. Ser cientí- empíricos e factos teóricos, mas não sabe como proceder. Umas
fico no sentido que aqui se pretende dar (e que é criticado em vezes adopta a psicologia, isto é, distingue entre factos que são
AM e SFS) significa agir correctamente com respeito ao conhe- aceites por todos os peritos num determinado domínio e factos
cimento existente e não ao conhecimento possível. mais duvidosos que dão origem aos debates. Já Carnap (em Tes-

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Pelo contrário, a sua atitude aproxima-se bastante da do psiquia-
tability and Meaning) e eu (na secção 2 do estudo acima mencio- tra que fala com um paciente que na sua, a do paciente, lingua-
nado) o fizemos antes dele, e de uma maneira mais clara. Nou- gem, se diz possesso, sem aceitar uma ontologia de diabos, anjos,
tras ocasiões, parece presumir que os consensos a que se chegou demónios e assim sucessivamente: os nossos modos correntes de
ultrapassaIP a psicologia e assentam nos próprios factos: os fac- pensar, inclusive os argumentos científicos, são muito mais elás-
tos empíricos são menos permeáveis à teoria do que os factos teó- ticos do que W orral os imaginou.
ricos, possuem um «núcleo empírico». Neurath, Carnap e eu Segundo Worral, o argumento da torre foi despoletado por Gali-
diríamos que tais factos parecem ser menos permeáveis à teoria: leu do seguinte modo: a Terra em movimento conjugada com a
os gregos antigos tiveram uma percepção directa dos seus deu- teoria do movimento de Aristóteles (segundo a qual um objecto
ses _ os fenómenos não continham quaisquer elementos teóri- fica em repouso se não estiver sujeito à influência de forças)
cos _ mas os filósofos acabaram por descobrir a ideologia aumenta a distância entre a pedra e a torre. A pedra não se afasta
complexa que lhes estava subjacente e mostrar de que modo «fac- da torre, por conseguinte, afirma o Galileu de Worral, «a expe-
tos» divinos mesmo muito simples eram constituídos por uma riência não refuta Copérnico, mas um sistema teórico mais com-
estrutura tão complexa (AM, cap .17). Os físicos clássicos des- plexo», e substitui a dinâmica de Aristóteles, que faz parte deste
creveram e nós continuamos a descrever o que nos rodeia numa sistema, pela sua própria lei da inércia. Ele segue aqui a estru-
linguagem que ignora a relação entre observador e objecto obser- tura da análise de Duhem da mudança de teoria. Mais em parti-
vado (presumimos coisas estáveis e imutáveis, assentamos nelas cular, corrige um «erro lógico» dos que se opõem a Copérnico,
as nossas experiências), mas a teroria dos quanta e a teoria da segundo os quais a falsa afirmação (a pedra afasta-se da torre)
relatividade mostraram que esta linguagem, este modo de per- é consequência directa do pressuposto de que a Terra gira. Até
cepção e esta maneira de empreender as nossas experiências assen- aqui, John Worral.
tavam em pressupostos cosmológicos. Os pressupostos não foram Em primeiro lugar, o suposto «erro lógico» nunca foi come-
explicitamente formulados - por este motivo não nos apercebe- tido pelos que se opunham a Copérnico. Sendo bons lógicos aris-
mos deles e falamos simplesmente de «factos» empíricos - mas totélicos, sabiam muito bem que a derivação carecia pelo menos
estão subjacentes a todos os fenómenos: os «factos» aparentemente de duas premissas. Mencionaram-nas até explicitamente, mas fize-
empíricos são totalmente teóricos. No entanto, muitas vezes fun- ram apenas pontaria à falsificação de uma única premissa - o
cionam como juízes de ideias contrárias. movimento da Terra - pois a outra era teoricamente plausível
Worral presume que os juízes devem ser neutros (daí a neces- e plenamente confirmada e, além disso, não estava relacionada
sidade de um forte «núcleo» empírico) - isto é, presume que os com a questão (cf. os comentários de Popper ao argumento de
cientistas que utilizam factos, ao analisarem uma diversidade de Duhem contra a falsificabilidade simples). Em segundo lugar, a
teorias, não os alteram no decurso dessa análise. Facilmente se substituição da lei da inércia de Aristóteles tratou-se apenas de
demonstra que este pressuposto está errado. Os relativistas e os uma parte da mudança empreendida por Galileu. A lei aristoté-
teóricos do éter têm factos diferentes, mesmo no domínio da obser- lica preconizava movimentos absolutos - e sucedia o mesmo em
vação. Para o relativista, as massas, distâncias ou intervalos de relação ao argumento da torre (claro que a previsão do desvio
tempo observados são projecções de estruturas quadridimensio- da pedra em relação à torre é uma mudança relativa, mas o pro-
nais em determinados sistemas de referência (cf. Synge em de blema presentemente em análise é o que Galileu mudou e não
Witt e de Witt, Relasivity, Groups and Topology, Nova Iorque as razões que invocou ao efectuar a mudança). Se for introdu-
1964), enquanto os «absolutistas» os consideram propriedades zida uma nova «hipótese auxiliar», então também esta hipótese
inerentes aos objectos físicos. Os relativistas admitem que as des- deve usar movimentos absolutos: deve revestir uma forma da teoria
crições clássicas (que foram concebidas para exprimir factos clás- do ímpeto. Mas Galileu foi-se tornando gradualmente um rela-
sicos) podem servir esporadicamente para transmitir informações tivista cinemático (AM, pág. 78, nota 10; pág. 96, nota 15).
sobre factos relativistas, utilizando-as em circunstâncias relevantes. A sua hipótese auxiliar tinha de resultar sem o ímpeto. Assim,
Mas isto não significa que aceitem a sua interpretação clássica.
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338
não se limitou a mudar uma hipótese de um sistema conceptual Suponhamos que existe uma teoria T (e refiro-me à totalidade
de outro modo inalterado (o movimento absoluto em torno da do conjunto: teoria mais condições iniciais mais hipóteses auxi-
Terra, ou em torno do Sol, mas não directamente no sentido do liares e assim sucessivamente). T afirma que C terá lugar. C não
centro); substituiu também os conceitos do sistema - introduziu tem lugar, verificando-se antes C'. Se este facto fosse conhecido,
uma nova imagem do mundo (que fora preparada por outros). então poderíamos dizer que T tinha sido refutada e C' seria a prova
O primeiro processo pode ser explicado pelo esquema de Duhem, da refutação (registe-se que não distingo factos de afirmações;
o segundo não. nenhum passo do argumento está dependente dessa distinção e
Worral critica também a forma como me sirvo do movimento nenhuma pessoa inteligente ficará confusa com a sua ausência).
browniano para defender uma plural idade de teorias. Esta crí- Suponhamos ainda que temos, na natureza, leis que nos impe-
tica constitui um extraordinário exemplo das deficiências de uma dem de separar directamente C de C': não existe nenhuma expe-
abordagem puramente filosófica (como descrevi no vol. 2, capí- riência que nos possa indicar a diferença. Por último, suponhamos
tulo 5 da minha obra Philosophical Papers) e é merecedora da que é impossível identificar C' indirectamente, com o auxílio de
nossa máxima atenção. efeitos especiais que ocorrem na presença de C', mas não na de
Demonstrei no capítulo 3 de AM que o movimento browniano C e que são postulados por uma teoria alternativa T'. Um exem-
contraria a segunda lei da termodinâmica fenomenalista apenas plo desse efeito seria o facto de C' desencadear um macropro-
se analisada pela teoria cinética que contraria também aquela lei. cesso M (Worral tem dificuldades com os «gatilhos»: qualquer
Worral afirma que não entende o meu argumento. Até aqui tudo dicionário lhe dará o significado da palavra). Neste caso, T' cons-
bem. Há muitas coisas que muitas pessoas podem não com- titui prova de que T não poderia ter sido descoberto só por recurso
preender. A fim de se entender o argumento, Worral tradu-lo a T e às experiências associadas: para Deus, M ou C' são provas
numa linguagem com que está familiarizado, uma espécie de contra T; nós, seres humanos, necessitamos, porém, de T' para
lógica adulterada. Também aqui não se podem levantar objec- descobrir esse facto.
ções: se não entendo um argumento, tentarei então reformulá-lo O movimento browniano é um caso especial da situação que
à minha maneira. Worral vai mais longe. Queixa-se em pri- acabei de descrever: C são os processos num meio inalterado no
meiro lugar de que não formulei o meu argumento na sua lingua- equilíbrio térmico, de acordo com a teoria fenomenalista da ter-
gem. Mas o meu argumento não consta de uma carta que lhe modinâmica; C' são os processos num tal meio, de acordo com
fosse pessoalmente dirigida, antes foi dirigido a todos os físicos a teoria cinética. C e C' não se distinguem pela experiência pois
partidários de um monismo teórico - que pareceram entendê-lo qualquer instrumento de medição do calor contém exactamente
perfeitamente. Além disso, Worral não se limita a levantar as mesmas flutuações que deve revelar no nosso caso especial.
objecções ao facto de ter ficado de fora, presume que a lingua- M é o movimento da partícula browniana, T' a teoria cinética.
gem que entende é a única linguagem racionalmente possível. Tal como no caso de Galileu, podemos introduzir estes elemen-
Está redondamente enganado, como o demonstra o absurdo da tos no esquema de Duhem, afirmando que uma hipótese auxiliar
tradução que apresentou (a sua noção de prova, por exemplo, foi substituída por outra hipóteses auxiliar, eliminando-se conse-
impossibilita que se fale de provas desconhecidas ou de aconte- quentemente alguma dificuldade entretanto surgida. Note-se,
cimentos que, apesar de sobejamente conhecidos, e a}?esar de porém, que no nosso caso não foi a dificuldade que levou à subs-
constituirem prova, não são reconhecidos como tal). A seme- tituição, mas esta que nos ajudou a encontrar a dificuldade - e
lhança do falante de uma língua demasiado pobre para exprimir este aspecto desapareceu da análise de W orral.
determinadas situações, projecta no meu argumento essa lacuna
e afirma ter demonstrado a sua incoerência. Em contrapartida, Passando a objecções mais genéricas, estou plenamente de
eu diria que existem linguagens melhores do que a lógica adulte- acordo com Ian Hacking em que as ciências são mais complexas
rada. Com base numa dessas linguagens, passo a explicar o meu e multifacetadas do que presumi em alguns dos meus anteriores
argumento. estudos e também em partes de AM. Tinha ideias simplistas tanto

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no que se refere aos elementos da ciência como às suas relações. Considerando o pensamento isoladamente, empreendi o meu
A ciência não contém teorias - mas as teorias também não são desvio do positivismo fazendo a distinção entre dois tipos de tra-
os seus únicos ingredientes, nem podem ser devidamente anali- dições respectivamente (pormenores no cap. 1, Vol. 2 de Philo-
sadas em termos de afirmações ou outras entidades lógicas. Pode- sophical Papers e em Wissenschaft ais Kunst, assim como no
mos admitir que existam formulações axiomáticas e que algumas capítulo 3 da presente obra). Existem muitas formas de caracte-
ideias científicas devem ser definidas com precisão; podemos rizar estas tradições. Uma diferença que me pareceu um ponto
admitir também que os cientistas, ao efectuarem a investigação, de partida extremamente útil é a forma como as duas tradições
podem confiar esporadicamente nos resultados desses esforços. abordam os seus objectos (pessoas, ideias, deuses, matéria, o uni-
Todavia, utilizam-nas de forma bastante desorganizada, combi- verso, sociedades - e assim sucessivamente).
nando axiomas de diferentes domínios, a ponto de causarem um As tradições abstractas formulam afirmações. Estas estão sujei-
ataque cardíaco aos filósofos fascinados com formas simples de tas a determinadas regras (regras de lógica; regras de testagem;
lógica. A própria lógica entrou agora numa fase em que as for- regras de argumento - e assim sucessivamente) e os aconteci-
malizações são usadas com bastante liberalidade e em que as con- mentos afectam apenas as afirmações que são consentâneas com
siderações de natureza «antropológica» (finitismo) desempenham as regras. Deste modo se pensa ficar garantida a «objectividade-
um papel preponderante. No conjunto, a engrenagem científica da informação veiculada pelas afirmações, ou do «conhecimento»
parece aproximar-se muito mais das artes do que dos antigos lógi- que contêm. É possível compreender, criticar ou melhorar as afir-
cos e filósofos da ciência (onde eu próprio me incluo) alguma mações sem ter estado em presença de um único dos objectos des-
vez supuseram (para este aspecto da questão cf. o meu ensaio critos (exemplos: física das partículas elementares; psicologia do
Wissenshaft ais Kunst, Francoforte 1984). comportamento; biologia molecular que pode ser conduzida por
As minhas dúvidas iniciais quanto à identificação da ciência com pessoas que nunca na vida viram um cão, ou uma prostituta).
características explícitas das suas teorias e seus relatórios de obser- Os membros das tradições históricas usam também os argu-
vação surgiram em 1950, quando li uma cópia manuscrita de Phi- mentos, mas falam de maneira diferente. Presumem que os objec-
losophical Investigations, de Wittgenstein. Continuei a exprimir tos possuem já uma linguagem própria e procuram apreendê-Ia.
estas dúvidas de forma abstracta, em termos de problemas con- Só que não o fazem de acordo com as teorias linguísticas, mas
ceptuais (incomensurabilidade; elementos «subjectivos- da teoria por imersão, tal como as crianças pequenas se familiarizam com
da explicação). Começando a trabalhar no capítulo 17 de AM, o mundo. Procuram aprender a linguagem dos objectos tal como
surgiu-me então a questão da adequação dos processos abstractos são e não como se apresentam depois de terem sido sujeitos a
tanto nas ciências como na filosofia da ciência. Consultei três obras: processos de estandardização (experiências, matematização). Cate-
a maravilhosa Discovery ofthe Mind, de Bruno Snell, que me foi gorias da abordagem abstracta como o conceito de uma verdade
recomendada por Barbara Feyerabend; Principies of Egyptian Art, objectiva não podem descrever um processo desta natureza que
de Henri Schaefer, uma obra importante que ultrapassa o conteúdo depende das idiossincrasias tanto dos objectos como dos obser-
da questão tratada e Optics, The Science of Vision, de Vasco Ron- vadores (não faz sentido falar da «existência objectiva- de um sor-
chi. Se fosse hoje, acrescentaria as obras de Panofski, sobre a his- riso que, conforme o contexto, pode ser visto como um sorriso
tória das artes (em particular o ensaio de desbravamento do terreno bondoso, cruel ou enfastiado).
Die Perspektive ais Symbolische Form) e Spãtrõmische Kunstin- As tradições ,ab~tractas e históricas têf!1 vindo a degladiar-se
dustrie, de Alois Riegl, em que a doutrina do relativismo artístico desde os primórdios do pensamento OCIdental. A competição
é explicada com simplicidade e argumentos de peso. Para tornar iniciou-se com a «antiga luta entre filosofia e poesia» (Platão, Repú-
estes argumentos extensíveis às ciências, bastava mentalizar-me blica 607b - ver capítulo 3 da presente obra). Prosseguiu na medi-
de que os cientistas também produzem obras de arte - residindo cina, em que a abordagem teórica de Empédocles e dos físicos
a diferença no facto de o material ser o pensamento e não a tinta, dos elementos foi criticada pelo autor de Medicina Antiga (por-
ou o mármore, ou o metal ou sons melodiosos. menores no capítulo 1, secção 6 e no capítulo 6, secção 1).

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o antagonismo caracterizou a crítica de Tucídides a Heródoto o problema mente-corpo. Devo admitir que apesar das boas
e sobreviveu até aos dias de hoje - na psicologia (behaviorismo intenções, «recaía com demasiada frequência na prática empí-
versus métodos «verstehende»), na biologia (biologia molecular rica .. , de tratar. .. a priori o significado» (mas tinha também os
versus tipos qualitativos de investigação biológica), na medicina meus momentos de sanidade, e então tratava os significados
(medicina «científica» versus curandeiros de toda a espécie), na como estruturas ou «programas» neurofisiológicos: Ver Philoso-
ecologia e até na matemática (cantorianismo versus construtivismo phical Papers VoI. 1, capítulo 6; VoI. 2, capítulo 9). Admito
- para usar os termos sugeridos inicialmente por Poincaré). As também que às vezes me esquecia da natureza contingente da
tradições abstractas passam a tradições históricas durante épocas teoria pragmática da observação (para os meus momentos de
de crise e revolução, o que vem sustentar a minha tese de que sanidade sobre este assunto, cf. também a minha nota «Science
as boas ciências são as artes, ou as humanidades, e não as ciên- Without Experience», Philosophical Papers, VoI. 1, capítulo 7,
cias no sentido dos compêndios. A análise de Ian Hacking dos que levou Ayn Rand a amaldiçoar-me numa carta aberta aos
progressos experimentais é uma excelente ilustração do aspecto filósofos americanos). É certo que ao criticar as relações huma-
artístico da investigação científica. nas «criei um espantalho». Na verdade, o espantalho (a espanta-
Alan Musgrave mostra que a tradição instrumentalista na astro- lha") não foi criado por mim mas pelos fanáticos dos
nomia antiga era muito mais fraca do que Duhem pensava. dados-sensoriais - mas tendo-a(o?) eliminado, supus que
Esqueceu-se de mencionar que o realismo científico moderno se tivesse eliminado todos os aspectos das relações humanas - e
serve de um instrumentalismo de qualidades e leis qualitativas: nisto estava de todo enganado. Não fui coerente com o meu
os realistas partem do princípio de que as qualidade que não entram erro, pois por vezes presumi, como fizera Russell, que o cére-
no conjunto da ciência, mas nos permitem dar-lhe o nosso con- bro poderia ser apreendido directamente pelos sentidos, mas não
tributo, não nos levam por um caminho errado. A ciência extraí a conclusão correcta e afirmei que alguns acontecimentos
moderna, que criou mas nunca resolveu o problema mente-corpo, físicos teriam de ser mentais. Não fiquei muito preocupado com
serve-se do instrumentalismo na sua própria base - e é facilmente o facto de alguns dos meus argumentos poderem constituir
contestável (por exemplo, na teoria do quantum da medição). munições para o mentalista eliminatório - creio que isto se
Numa breve introdução, que nada tem a ver com a importância aplica a todos os argumentos sobre questões contingentes. Por
deste estudo e parece ter sido incluída depois de muito pensar, outro lado, parece-me que a própria teoria de Grover assenta
Musgrave apresenta uma interessante crítica a um anterior ensaio excessivamente em noções e processos científicos. A afirmação
meu (reeditado em Philosophical Papers, VoI. 1, capítulo 11). de Grover de que «a ciência resulta» não elimina a minha apreen-
Defendi aí que a maior parte das razões filosóficas para o rea- são. As vezes, a ciência resulta, muitas vezes falha e bastantes
lismo eram demasiado ténues para superar as razões físicas que histórias de êxitos não passam de boatos, em vez de factos. Além
se lhe opunham e que devem ser fortalecidas; desenvolvi depois disso, a eficiência da ciência é determinada por critérios que per-
as razões que era necessário fortalecer. Segundo Musgrave, o que tencem à tradição científica e não podem, por consequência, ser
fiz foi exactamente o oposto - tentei encontrar argumentos uni- juízes imparciais. (Por exemplo, a ciência não salva almas).
versais para o instrumentalismo! Não creio que Alan tenha feito Concluo que Grover demonstrou que as nossas noções de mente
uma leitura errada das minhas palavras, pois é um crítico cuida- e corpo podem ser desenvolvidas dentro da estrutura científica
doso, e o ensaio que critica um dos mais elucidativos que alguma s~~ que .como resultado .se eliminem ideias provenientes de tra-
dições diferentes (a tradição dos dogon, ou dos azande, ou dos
vez escrevi - mas estou pronto a alegar insanidade temporária.
camponeses equatorianos). E muito me apraz que não tenha sido
Já agora, acrescento que deixei de acreditar na relevância, para
b~~ sucedido neste último aspecto; pelo menos existe agora a
a nossa perspectiva das ciências, de argumentos genéricos como
os que expus nesse meu estudo. h~pot~se de o encontrar .de novo, noutro plano, em circunstân-
Concordo praticamente com a totalidade dos aspectos e objec- ~las diferentes, mas, assim se espera, com o seu humor cáustico
inalterado.
ções levantados no excelente ensaio de Grover Maxwell sobre

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344
4 Ciência - Uma Tradição entre Muitas aplicando os conhecimentos de propriedades de plantas, mudan-
ças climáticas e interacções ecol6gicas que estamos a recuperar
o segundo tópico dos meus escritos é a autoridade das ciên- muito lentamente (são referidos pormenores e uma vasta biblio-
cias. Afirmo não existirem razões «objectivas» para preferir a ciên- grafia em Lévi-Strauss, lhe Savage Mind, e posteriormente em
cia e o racionalismo ocidental a outras tradições. Com efeito, estudos pormenorizados de idêntica natureza). Estes conheci-
dificilmente se imagina quais poderão ser essas razões. Serão mentos foram gravemente afectados e parcialmente destruí-
razões que convençam uma pessoa, ou os membros de uma cul- dos, primeiro pelos gangsters do colonialismo e depois pelos
tura, independentemente dos seus costumes, das suas crenças e humanitários do auxílio para o desenvolvimento. A consequente
da sua situação social? Então, o conhecimento que temos das cul- incapacidade de grandes partes do chamado Terceiro Mundo
turas mostra-nos que não existem razões «objectivas- nesta acep- é o resultado da, não uma razão para a, interferência do
ção. Então, todas as culturas têm razões «objectivas- em seu favor. exterior.
Serão razões reportadas a resultados cuja importância se detecta Majid Rahnema, um investigador iraniano, comparou os efei-
logo? Nesse caso, todas as culturas têm pelo menos algumas razões tos do aUXI1iopara o desenvolvimento com os efeitos da SIDA
«objectivas- em seu favor. Serão razões que não dependem de que destr6i o sistema de imunidade do corpo humano (From «Aid»
elementos «subjectivos», como empenhamento ou preferência pes- to «Aids», manuscrito não publicado, Stanford 1984). Comentou
soal? Nesse caso, não existem pura e simplesmente razões «objec- também a forma como o conhecimento passou de um bem comum
tivas- (a escolha da objectividade como medida é em si uma a uma mercadoria rara e inacessível. «As Culturas e as Civiliza-
escolha pessoal e/ou de grupo - senão as pessoas aceitá-Ia-iam ções», escreve ele (Education for Exclusion or Participationr,
sem pensar muito). manuscrito, Stanford, 16 de Abril de 1985),
É verdade que a ciência ocidental contaminou agora todo o
mundo como uma doença contagiosa e muitas pessoas aceitam foram formadas, enriquecidas e transmitidas por milhões de pessoas
incondicionalmente os seus produtos (intelectuais e materiais) - que estão a aprender vivendo e fazendo, para quem viver e aprender
eram sinónimos, tal como tinham de aprender para viver e apren-
mas a questão subsiste: tratou-se do resultado de uma discussão
diam o que quer que pudesse interessar-lhes, bem como à comuni-
(na acepção dos defensores da ciência ocidental), isto é, foi cada
dade a que pertenciam. Antes de ser instituído o actual sistema
passo do progresso justificado por razões que estão de acordo com educativo, durante milhares de anos, a educação não foi uma merca-
os princípios do racionalismo ocidental? Será que a contamina- doria escassa. Não foi o produto de algumas fábricas institucionais,
ção melhorou as vidas daqueles em que tocou? A resposta a ambas cuja posse poderia conferir a uma pessoa o direito de lhe chamarem
as perguntas é não. A civilização ocidental ou foi imposta pela educada... O [novo] sistema educativo... serviu como eficientíssimo
força, não que os argumentos revelassem a sua veracidade, ou canal de filtragem, para o Poder Instituído, dos mais ambiciosos -
aceite porque produziu melhores armas (ver capítulo 1, secção e por vezes os mais inteligentes - que buscavam a fama pessoal e
9); e o seu progresso, conquanto algo benéfico, causou também profissional. Paradoxalmente, serviu também como «meiode cultura»
enormes danos (para uma perspectiva genérica consultar para alguns indivíduos mais proeminentes, entre os quais os pensa-
dores radicais e os revolucionários que utilizam alguns dos seus recur-
J.H.Bodley, Victims ofProgress, Menlo Park, Califórnia 1982).
sos de aprendizagem únicos para efeitos das suas ideologias liberais.
Não s6 destruiu os valores espirituais que davam significado às No entanto, globalmente, em breve se transformou numa «máquina
vidas humanas, como danificou também o correspondente domí- infernal» .9ue se disti~guiu na organização sistemática de processos
nio das envolventes materiais sem o substituir por métodos de de exc1usaoem relaçao aos mais pobres e desprotegidos... Os velhos
eficácia comparável. As tribos «primitivas» sabiam como fazer tempos... em que :<cada adu~to, um me~tre» acabaram. Agora, só
face a catástrofes naturais como pragas, inundações, secas - pos- aquel~~~ue possuírem u~ diploma d.o sistema educativo, segundo
suiam um «sistema imunológico- que lhe permitia superar uma os cntenos por ele própno estabelecidos, poderão ter o direito de
enorme variedade de ameaças do organismo social. Em épocas ensinar. Deste modo, a educação foi transformada num bem escasso
[o itálico é meu].
normais, exploravam o seu meio envolvente sem o danificar,

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Estabelece três pressupostos: (1) é importante resolver proble-
É curioso ver como estas descobertas tiveram tão pouca influência
mas; (2) existem métodos mais ou menos inequívocos de resol-
nos sermões pregados pelos racionalistas profissionais. Karl Pop-
ver os problemas; (3) alguns problemas são independentes de todas
per, por exemplo, lamenta o «ambiente geral de anti-racionalismo ...
as tradições - problemas desta natureza a que Kekes chama pro-
da nossa época», elogia Newton e Einstein como grandes bene-
blemas da vida. Kekes presume também que a conceptualização
méritos da humanidade, mas não refere uma só palavra a respeito
explícita desempenha um papel importante no reconhecimento,
dos crimes cometidos em nome da Razão e da Civilização. Muito
formulação e resolução de problemas. Mas para os órticos, alguns
pelo contrário, parece pensar que os benefícios da civilização
devem, por vezes, ser impostos a vítimas não predispostas, por cristãos e alguns fundamentalistas islâmicos, muito daquilo que
um intelectual ocidental poderia designar como problemas não
uma «forma de imperialismo» (ver capítulo 6, secção 1).
Por várias razões muitos intelectuais defendem ainda esta forma eram situações indesejáveis a aguardar que a ingenuidade humana
tão tacanha. Uma delas é a ignorância. A maior parte dos inte- as viesse eliminar, mas antes testes de fibra moral (cf. a função
dos ritos de iniciação) ou preparativos para uma tarefa difícil,
lectuais não faz a menor ideia das realizações concretas da vida
fora da civilização ocidental. O que tínhamos (e infelizmente ainda ou ingredientes necessários de uma vida que, sem eles, perderia
as características humanas. Algumas culturas tratam os proble-
temos) nestas áreas são boatos sobre a excelência da ciência e
mas como subtilezas que provocam divertimento, em vez de cons-
a duvidosa qualidade de tudo o mais. Outra razão são os disposi-
ternação; limitamo-nos a deixá-los passar, sem que nos esforcemos
tivos de imunização criados pelos racionalistas para superar as
dificuldades. Por exemplo, fazem a distinção entre ciência básica por encontrar a sua «resolução». ,
Os funcionários governamentais brancos na Africa Central mui-
e as suas aplicações: se houver alguma destruição, então foi obra
tas vezes se exaltaram com o facto de os problemas de que se
dos aplicadores, não de teóricos bonzinhos e inocentes. Mas os
apercebiam e transmitiam aos seus colegas negros não serem leva-
teóricos não são tão inocentes assim. Eles recomendam a aná-
dos a sério, por um maior esforço mental, mas simplesmente
lise, para além da compreensão, inclusivamente em domínios que
objecto de chacota fora do tribunal: quanto maior o problema,
respeitam aos seres humanos; eles enaltecem a «racional idade»
maior a hilaridade. Isto, diziam os racionalistas brancos, foi uma
e a «objectividadei da ciência sem se aperceberem de que um pro-
atitude muito irracional - e efectivamente assim era, segundo
cesso cujo objectivo principal é eliminar todos os elementos huma-
os seus valores. Em contrapartida - que excelente maneira de
nos só pode conduzir a ações inumanas. Ou distinguem entre o
evitar as guerras e o tormento que trazem! «Fazer qualquer coisa»
bem que a ciência pode fazer «em princípio» e as coisas más que
não será propriamente superior a «Deixar andar». Kekes articula
efectivamente faz. Todas as religiões são boas - mas, infeliz-
os processos tradicionais dentro de certas tradições - não nos
mente, este Bem abstracto só muito raramente evitou que os que apresenta princípios «objectivos», isto é, transtradicionais.
o praticam agissem como safados. Na acepção de Kekes, os «problemas da vida» integram tradi-
ções especiais e relativamente novas de uma tendência
As pessoas imprudentes têm o hábito de dizer que todos os que
materialístico-humanista. As suas soluções não podem ser juízes
são «racionais» se convencem de que a ciência é que sabe. O imparciais do resto. Além disso, mesmo as tradições seculares
comentário admite um ponto fraco na argumentação: os argumen- permitem muitas maneiras de viver fora das ciências como o
tos não resultam com toda a gente, apenas com aquelas pessoas demonstram os nossos artistas e o vasto espectro coberto por con-
que tenham sido convenientemente preparadas. E trata-se de uma ceitos aparentemente «objectivos» como o de saúde (cf. Foucault).
característica inerente a todos os debates ideológicos: os argu- Temos de admitir que muitos valores e muitas culturas deixaram
mentos a favor de uma certa perspectiva dependem de pressu- de existir; extinguiram-se e agora quase ninguém se lembra deles.
postos que são aceites numas culturas, rejeitados noutras, mas Mas isto não quer dizer que não possamos aprender com eles e
que em virtude da ignorância dos seus defensores se supõe terem além disso, Kekes quer uma solução teórica para o problema do
validade universal. A tentativa de Kekes de superar o relativismo relativismo - e não se avista uma tal solução.
constitui um excelente exemplo desta situação.
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Idênticas observações aplicam-se ao ensaio um tanto provoca- mos em presença de uma descrição perfeita de intelectuais (só
dor de Noretta Kõrtge. É louvável ela salientar que a análise do lhe falta a ânsia de salários elevados) - mas uma pessoa com
aspecto dos cidadãos é pelo menos tão importante quanto a «rea- uma perspectiva ligeiramente diferente terá de fazer ver, com toda
lidade» (que de qualquer forma não passa da maneira como tudo a modéstia, que a «teoria do homem» de Macham não passa de
se apresenta aos peritos em voga): «não só deve ser feita justiça uma ideia entre tantas e que, felizmente, os intelectuais são ape-
como deve a justiça parecer ser feita». Apoiado! Numa demo- nas uma pequena percentagem da humanidade. Há a ideia de que
cracia, o que conta é a experiência dos cidadãos, isto é, a sua os seres humanos não se adaptam ao mundo material, são inca-
subjectividade e não o que pequenos grupos de intelectuais autistas pazes de compreender a sua posição e o seu fim e «têm uma nítida
dizem ser verdade (se um perito não gostar das ideias do povo,' necessidade» de salvação; há também a ideia, em estreita ligação
então, só lhe resta falar com ele e procurar levã-lo a pensar de com a anteriormente mencionada, de que os seres humanos cons-
modo diferente; ao fazê-lo, não deve esquecer a humildade, em tituem uma centelha divina enterrada num vaso terreno, «um ves-
vez de se arvorar em «professor» que procura meter à força um tígio de ouro enterrado na lama», como tinham por hábito dizer
pouco de verdade nas cabeças de alunos renitentes). Mas ao ten- os gnósticos, «com a nítida necessidade» de libertação pela fé.
tar separar esta experiência de alguma «realidade» a autora não E estas ideias não são só abstractas e «caprichosas» - fizeram
conseguirá vencer. Concordo que as ciências, e as civilizações e ainda fazem parte das vidas de milhões de pessoas. Há a ideia,
construídas em seu redor, contêm algo chamado «opinião par- entre os budistas, de que os seres humanos querem fugir à dor,
cial» que difere daquilo a que os peritos chamam «superstições que o pensamento e a acção intencional assente no pensamento
populares» - mas acrescentaria que o mesmo se aplica também são as principais causas da dor, e que esta cessará uma vez afas-
a outras tradições (por exemplo, em relação aos dogon, como tadas as distinções convencionais e abolidos os objectivos tradi-
nos mostrou Griaule no seu maravilhoso livro). Concordo tam- cionais. O Genesis hopi representa os seres humanos como
bém que a opinião pericial revela esporadicamente alguma uni- inicialmente em harmonia com a Natureza. O pensamento e a luta,
formidade - todas as convergências esporádicas verificadas em ou por outras palavras, a mesma «necessidade do pensamento e
algumas áreas são mais do que compensadas por discordâncias acção baseados em princípios» que Macham transforma no cen-
noutras. Nem tão pouco a convergência da opinião pericial esta- tro da humanidade, destroem a harmonia inicial, os animais
belece uma autoridade objectiva e se assim for, teremos então afastam-se dos seres humanos, a espécie humana é dividida em
muitas autoridades diferentes à nossa escolha: a distinção entre raças, tribos e pequenos grupos com ideias diferentes e surgem
perito-realidade e leigo-aparência dissolve-se no aspecto que línguas diferentes ao ponto de os próprios indivíduos não se con-
reveste para cada um de nós, incluindo os peritos. seguirem entender. Mas os seres humanos, «tendo a nítida neces-
Que os racionalistas que clamam por objectividade e raciona- sidade e capacidade de» harmonia, podem superar a fragmentação
lidade não estão senão a tentar vender uma crença tribal sua é libertando-se das grilhetas do pensamento conceptual e do con-
o que se pode depreender das reacções de alguns membros da flito por ele criado, e assentando as suas vidas no amor e na com-
tribo menos dotados. Assim, Tibor Macham, escrevendo às cus- preensão intuitiva.
tas de uma sinistra fachada de nome Fundação Razão (refiro-me Existem inúmeras ideias desta natureza e todas diferem da teoria
a uma crítica de SFS que foi publicada em Philosophy of the Social mencionada e tida como certa por Macham. Claro que Macham
Sciences, 1982), faz a distinção entre parâmetros, ideias e tradi- está no pleno direito de favorecer uma opinião e condenar a outra.
ções aceitáveis e tradições que são «um mero capricho e destrui- Mas fã-lo armado em racionalista e humanitário. Afirma-se deten-
doras da vida humana». Qual é a fundamentação lógica da sua tor não só de anátemas, mas também de argumentos e motivado
distinção? Uma teoria do homem. Qual o cerne desta teoria do por um amor à humanidade. Uma análise da sua crítica revelará
homem? Que «os seres humanos são animais racionais ... seres que ambas as afirmações são insustentáveis. Os seus argumentos
biológicos com nítidas necessidade e capacidade de pensamento não passam de pragas lançadas na rigidez retórica do humanista
e acção baseados em princípios (ou conceptuais)». Claro que esta- constrangido e o seu amor pela humanidade cessa exactamente

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à porta do seu gabinete (ou à secretária do caixa da Fundação raciofascistas como Macham e quejandos. Infelizmente, a edu-
Razão). cação contemporânea está longe de concordar com este princípio.
Como sucede normalmente entre os intelectuais, Macham serve-
-se de casos não analisados, como as mortes de Jonestown, que Temos, em último lugar, o velho argumento de que as tradi-
só assustam os leitores em vez de os esclarecer (os «racionalis- ções não científicas já tiveram a sua oportunidade, que não
tas» alemães servem-se, para o mesmo efeito, de Auschwitz e, sobreviveram à confrontação com a ciência e o racionalismo e
mais recentemente, do terrorismo ad nauseam). «Estes casos são que as tentativas de as ressuscitar são, por conseguinte, irracio-
fáceis», diz Macham. Somos assim tão ingénuos? Em Jonestown, nais e desnecessárias. A pergunta óbvia será: foram eliminadas
algumas pessoas suicidaram-se plenamente conscientes do que por motivos racionais, deixando-as competir com a ciência com
estavam a fazer (caso 1). Outras hesitaram, mostraram-se inde- imparcialidade e de forma controlada, ou o seu desaparecimento
cisas, teriam gostado de ficar vivas, mas foram sujeitas à pres- ficou a dever-se a pressões militares (políticas, económicas,
são dos seus iguais e líderes (caso 2). Outras ainda, foram etc.)? E a resposta é quase sempre: a segunda. Os índios
simplesmente assassinadas (caso 3). Para Macham, as distinções americanos não foram consultados sequer, primeiro cristia-
não existem. Mas são essenciais para uma análise instrutiva do nizaram-nos, depois ocupararn-Ihes os territórios e por fim
caso. O caso 3 pode ser «fácil» se quisermos falar com superfi- amontoaram-nos em reservas no meio de uma cultura científico-
cialidade, apesar dos enormes problemas aqui surgidos (devem -teconológica em progresso. A medicina índia (que foi muito
destruir-se os corpos para salvar as almas? Assim pensavam os usada pelos médicos do século XIX) não competiu com os novos
Inquisidores racionais e com excelentes argumentos: deverão estes fármacos que invadiram o mercado, mas foi simplesmente proi-
argumentos ser ignorados? Devemos tomar como certo o mate- bida por pertencer a uma época de tratamento antediluviano.
rialismo? Não tenho qualquer objecção ao último passo - mas E muitos casos mais.
em que situação fica um racionalista, isto é, uma pessoa que afirma A referência a oportunidades do passado ignora também o
possuir argumentos para cada atitude sua?). O caso 1 é de novo aspecto de inclusivamente refutações claras e inequívocas não deci-
«fácil» embora não da maneira que Macham presumiu. Claro que direm o destino segundo uma perspectiva interessante (para o que
«destrói a vida humana» - mas é a vida humana um valor mar- se segue, cf. SFS, pp.100 e segs., e capítulo 1, secção 1 da pre-
ginalizado? Os mártires cristãos não tinham esta opinião e nem sente obra); os meios de refutação (equipamento para experiên-
Macham, nem qualquer outro racionalista, conseguiu demons- cias, as teorias aplicadas na interpretação dos resultados obtidos)
trar que estavam enganados. Tinham uma opinião diferente - mudam constantemente e com eles a natureza do argumento. Deve
é tudo. Sócrates exprimiu um sentimento idêntico antes de mor- também registar-se a extraordinária semelhança entre o argumento
rer; não se encontrava só, pois o mesmo sentimento surge em do êxito e comentários como os dos nazis depois da sua vitória
Heródoto, em Sófocles e noutros distintos representantes da Grécia em 1933: o liberalismo, que já tivera a sua oportunidade, foi der-
clássica. Nem uma só vez encontramos em Mach esta ideia de rotado pelas forças nacionalistas e seria um disparate tentar
um ser humano se revelar um entre muitos, parte interveniente introduzi-lo.
no debate e não o seu moderador. Por último, cabe aos cidadãos a escolha das tradições que pre-
Resta o caso 2; estou aqui plenamente de acordo com aqueles ferem. Assim, a democracia, a fatal imperfeição da crítica, e a
que exigem que as pessoas sejam protegidas de pressões de gru- descoberta de que a predominância de uma ideia não é, nem nunca
pos e de líderes. Mas este embargo aplica-se não só a chefes reli- foi, o resultado de uma aplicação exclusiva de princípios racio-
giosos como o Reverendo Jones, mas também aos chefes seculares nais, tudo leva a crer que as tentativas de ressuscitar velhas tra-
como filósofos, galardoados com o Prémio Nobel, Marxistas, dições e reintroduzir ideias anticientíficas devam ser elogiadas
Liberais, homens de sucesso de fundações e seus representantes como princípio de uma nova era de iluminismo, em que as nos-
ao nível do ensino: os jovens devem precaver-se contra abusos sas acções se norteiam pelo conhecimento e não somente por sLo-
desta natureza provenientes destes professores, em particular de gans sagrados e muitas vezes bastante imbecis.

352 353
5 Razão e Prática
com os talentos especulativos dos meus colegas académicos _
o que disse até aqui pode ser sintetizado nas duas seguintes a razão é o meu respeito pelas tradições que devo consagrar com
afirmações: os meus dons intelectuais. Estas tradições são históricas, e não
(A) A maneira como os problemas científicos são abordados abastractas (ver atrás, secções 2, 3 e 4 e capítulo 3). As tradi-
e resolvidos depende das circunstâncias em que surgem, os meios ções históricas não se entendem à distância. Os seus pressupos-
(formais, experimentais, ideológicos) disponíveis na altura e os tos, as suas possibilidades, os desejos (muitas vezes inconscientes)
desejos daqueles que com eles trabalham. Não existem condições dos seus apoiantes só se podem encontrar por imersão, isto é,
duradouras que limitem a investigação científica. é preciso viver a vida que se pretende mudar. Nem (C) nem (D)
(B) A maneira como os problemas da sociedade e a interacção se aplicam às tradições históricas. Podem também ser impostas
de culturas são abordados e resolvidos depende também das cir- as condições limitativas e as soluções inventadas por especula-
cunstâncias em que surgem, os meios disponíveis na altura e os dores distantes, mas só por via do desrespeito de toda a humani-
desejos daqueles que com eles trabalham. Não existem condições dade das vítimas. Os intelectuais que sustentam a imposição não
que limitem eternamente a acção humana. ignoram a «dimensão humana»; possuem «teorias do homem» e
Critiquei assim, a ideia que designarei por (C), de que a ciên- usam-nas como guias das suas acções. Mas estas teorias não reflec-
cia e a humanidade podem ser determinadas independentemente tem as suas vítimas; reflectem a mentalidade do local onde sur-
de vontades pessoais e circunstâncias culturais. E levantei objec- giram - designadamente, gabinetes de universidades e salas de
ções ao pressuposto, (D), de que é possível resolver os proble- seminários (cf. as minhas observações a Tibor Macham na sec-
mas de longe, sem participação nas actividades das pessoas ção 4 que antecede): a minha principal objecção às soluções inte-
intervenientes. lectuais dos problemas sociais reside no facto de partirem de um
(C) e (D) são o cerne do que se poderia designar por a aborda- reduzido ambiente cultural, atribuirem-lhe validade universal e
gem intelectual (à ciência e) aos problemas sociais. São uma coisa servirem-se do poder para o imporem aos outros. Causará tanta
óbvia para os marxistas académicos, liberais, cientistas sociais, surpresa o facto de não me querer associar a uns sonhos tão racio-
homens de negócios, políticos ansiosos por ajudar «as nações sub- fascistas? Ajudar as pessoas não significa empurrá-Ias de um lado
desenvolvidas» e os profetas de «novas eras». Todo o escritor que para o outro, até irem parar ao paraíso de outrém, ajudar as pes-
queira melhorar o conhecimento e salvar a humanidade e esteja soas significa tentar introduzir uma mudança como um amigo,
descontente com as ideias existentes (reducionismo, por exem- ou seja, como uma pessoa capaz de identificar a sua sensatez bem
pio) pensa que a salvação só pode provir de uma nova teoria e como as suas loucuras e que seja suficientemente adulta para deixar
que para desenvolver uma tal teoria bastam os livros certos e algu- que as últimas predominem: discutir em abstracto as vidas das
mas ideias inteligentes. pessoas que não conheço e cuja situação não me é familiar cons-
(C) e (D) serviram também para desacreditar o que refiro a titui não só uma perda de tempo mas também inumanidade e
impe rtinência.
respeito da política. Segundo dizem os meus críticos, faço muito
barulho, mas o proveito é pouco. A minha abordagem, dizem, É uma perda de tempo porque a aplicação prática das teorias
é absolutamente negativa. Oponho-me a determinados processos encontradas terá sempre de ser precedida de inúmeras mudanças
- mas não tenho nada para oferecer em substituição. Os mar- que podem eliminar o programa básico. É impertinente: não
xistas têm-se mostrado particularmente insensíveis à minha indi- estando familiarizado com as condições de estrangeiros, com as
ferença trocista pelos seus dois brinquedos preferidos, a ciência maneiras como estas condições se Ihes afiguram, não possuindo
ocidental e o humanitarismo. experiência directa dos seus sonhos, receios, desejos, recuso-me
a fazer dos meus próprios parâmetros, dos meus chamados conhe-
Estas observações estão correctas. Não tenho efectivamente
sugestões concretas a fazer. Mas a razão não se prende com o cimentos (sejam eles insignificantes, sejam imponentes - é irre-
levante), da minha própria humanidade muito limitada, a base
meu esquecimento da questão, ou a impossibilidade de competir
de diagnósticos e sugestões «objectivos- (só pessoas muito ingé-

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355
nuas ou intolerantes podem acreditar que um estudo da «natu- ções (das iniciativas dos cidadãos) para as quais foram concebi-
reza do homem» seja superior aos contactos pessoais, tanto na das. Um erro crasso em quase todos os estudos que abordam estas
vida privada de uma pessoa, como na política). Jutta, que tem partes das minhas obras - e inclui-se o estudo de Christian van
nome de mulher, mas parece determinada a ultrapassar o chau- Briessen, que descobriu as minhas intenções em muitos outros
vinismo dos seus colegas masculinos mais descarados, diz que aspectos - é o facto de interpretarem as minhas sugestões como
me faltam coração e imaginação. Muito pelo contrário: eu posso se devessem ser objecto de uma leitura idêntica à dos políticos,
imaginar que existam situações que nunca me ocorreram, que não filósofos, críticos sociais e «grandes» homens e mulheres de todo
vêm descritas nos livros, com que os cientistas nunca se viram o tipo que querem ser lidos: interpretam-nas como esboços de
confrontados e não reconheceriam mesmo que estivessem na sua uma nova ordem social que deve ser agora imposta às pessoas
presença; posso também imaginar que tais situações pareçam dife- com o recurso à educação, à chantagem moral, a uma pequena
rentes consoante as pessoas, as afectem de modo diverso, des- revolução e a slogans melífluos (como «Liberta-te pela Verdade»),
pertem esperanças, receios, emoções que nunca senti, e tenho ou utilizando as pressões provenientes de instituições já consti-
coração para submeter as minhas suposições distantes às impres- tuídas. Mas sonhos de poder como estes não estão só muito longe
sões daqueles imediatamente interessados. Diz Jutta que eu deveria das minhas ideias - provocam-me náuseas. Sinto pouca ternura
«examinar» com «respeito» aquilo que desconheço. Examinar? Se pelo educador ou reformador rural que trata as suas malditas efu-
amo uma mulher e quero viver a seu lado, para meu benefício sões como se viessem trazer uma nova luz às vidas daqueles que
e provavelmente também dela, não «examinarei» então essa vida, estão nas trevas; sinto profundo desprezo por aqueles professo-
quer respeitosamente, quer com desdém, irei antes tentar parti- res que tentam aguçar o apetite dos seus alunos a ponto de, per-
cipar nela (desde que ela me deixe) para a poder compreender dendo o respeito e o controlo de si próprios, chafurdarem na
de dentro. Ao participar na vida dela, transformo-me numa nova verdade como porcos no chiqueiro; tenho apenas desprezo por
pessoa com novas ideias, sentimentos, maneiras de ver o mundo. todos aqueles belos planos de escravização de pessoas em nome
Claro que farei montes de sugestões - posso até levá-Ia à lou- de «Deus», da «verdade», da «justiça», ou de outras abstracções,
cura com toda a minha conversa, mas só depois de ocorrida a em particular por os seus perpetuadores serem demasiado cobar-
mudança e com base nas novas sensibilidades em comum a que des para aceitarem a responsabilidade destas ideias, escondendo-se
deu origem. Ora, na minha perspectiva, a política está relacio- por detrás da sua pretensa «objectividade». Muitos dos meus lei-
nada de muitas maneiras com o amor. Respeita às pessoas, con- tores parecem considerar estas maquinações um procedimento nor-
sidera os seus desejos pessoais, não os «estuda» quer através do mal - de que outro modo posso explicar que tenham feito uma
sufrágio quer do trabalho de campo antropológico, mas procura tal leitura das minhas propostas? Mas comentários vagos e impre-
novamente compreendê-Ias de dentro e articula as sugestões de cisos que fiz sobre o estado, a ética, a educação e a máquina da
mudança com os pensamentos e emoções que dimanam dessa com- ciência em AM e SFS deverão ser analisados pelas pessoas a que
preensão. Numa palavra: a política, devidamente compreendida, se destinam. São opiniões subjectivas e não directrizes «objecti-
é firmemente «subjectiva», É impossível desenvolver para ela vas»; devem ser testados por outros sujeitos, não por critérios
esquemas teóricos «objectivos». «objectivos» e receberem poder político apenas depois de todas
as pessoas interessadas os terem considerado: o consenso daque-
les a quem se dirigem, e não os meus argumentos, é que acaba-
rão por decidir a questão.
6 Elementos de uma Sociedade Livre
A objecção de que as pessoas devem primeiro ser ensinadas
a pensar, só reflecte a presunção e a ignorância dos seus autores
Como se relaciona esta exposição com as minhas ideias sobre
pois o problema básico é: quem pode falar e quem deve fica;
a polícia, a igualdade de tradições, a separação do estado e da
calado? Quem tem conhecimentos e quem é apenas obstinado?
ciência? A resposta foi já dada em SFS e EFM (EFM, pág. 77
e passim): ideias como estas devem passar pelo filtro das tradi- Podemos confiar nos nossos peritos, nos nossos físicos, nos nos-

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sos filósofos, nos nossos curandeiros, nos nossos educadores, sabe- os mindoro das Filipinas não querem igualdade de direitos - que-
rão eles o que estão a dizer, ou pretendem apenas produzir uma rem apenas que os deixem em paz.) Os conflitos não são resolvi-
cópia da sua triste existência? Terão os nossos grandes cérebros, dos pela «educação» mas por uma força policial. Margherita von
Platão, Lutero, Rousseau, Marx, algo a oferecer, ou a reverên- Brentano interpreta a ultima sugestão como indício de que os cida-
cia que por eles sentimos não passa de um reflexo da nossa pró- dãos só podem falar, e talvez escrever, mas que as suas acções
pria imaturidade? são severamente restringidas. Outros críticos podem ter erguido
Estas questões dizem respeito a todos nós - e todos devem as mãos, desesperados; falem na polícia - e os liberais e os mar-
contribuir para a sua solução. O aluno mais estúpido e o campo- xistas muito provavelmente molharão as calças. E precisamente
nês mais astuto; o funcionário público muito honrado e a sua sofre- este o erro anteriormente descrito. Para a polícia, não se trata
dora mulher; académicos e apanhadores de cães vadios, assassinos de um agente externo que instiga os cidadãos; é introduzido pelos
e santos - todos estão no direito de dizer: olhe lá, eu também cidadãos, constituído por eles e serve as suas necessidades (cf.
sou um ser humano; eu também tenho ideias, sonhos, sentimen- os meus comentários sobre os guardas de protecção dos muçul-
tos, desejos; eu também fui criado à imagem de Deus - mas o manos negros, EFM, pág. 162, pág. 297). Os cidadãos não se
senhor, com as suas histórias bonitas, nunca quis saber do meu limitam a pensar, decidem sobre tudo o que os rodeia. Deixo aqui
mundo (na Idade Média, era diferente; cf. Friedrich Heer, Die a sugestão de que é mais humano regular o comportamento atra-
Dritte Krajt, Francoforte 1959). A relevância de questões abs- vés de restrições externas - tais restrições podem ser facilmente
tractas, o conteúdo das respostas dadas, a qualidade da vida deli- eliminadas se não forem práticas - do que salvar algumas.
neada nestas respostas - todas estas coisas só podem ser decididas Supondo que conseguimos implantar o Bem em todos - como
se cada um puder participar no debate e ser induzido a emitir a poderemos depois voltar ao Mal?
sua opinião sobre o assunto. Encontra-se no grande discurso de
Protágoras (Platão, Protágoras, 320c-328d) um esquema melhor
e mais simples das ideias acabadas de explicar: os cidadãos de 7 O Bem e o Mal
Atenas não necessitam ser instruídos na sua língua, na prática
da justiça, no tratamento dos peritos (chefes militares, arquitec- Com esta observação chego a um aspecto que enfureceu mui-
tos, navegadores); tendo crescido numa sociedade aberta, em que tos leitores e desiludiu muitos amigos - a minha recusa em con-
a aprendizagem é directa e por intermédio e interferência de edu- denar um fascista extremista e a minha sugestão de que deveria
cadores, aprenderam tudo isto do nada. Quanto às restantes objec- ser deixado vivo. Há um aspecto que deve ficar claro: não gosto
ções de que todas as iniciativas dos estados e dos cidadãos não do fascismo (cf. EFM, 156: «apesar do meu sentimentalismo
surgem do nada, devem ser desencadeadas por uma acção inten- amplamente desenvolvido e a minha tendência quase instintiva
cional - a resposta é fácil: deixem o objector empreender uma para 'agir de modo humanitário'»). Não é este o problema, mas
iniciativa própria de cidadão, e não tardará a descobrir o que pre- sim a relevância da minha atitude: é uma tendência que sigo e
cisa, o que aumenta as suas ambições, o que as impede, em que que vejo com agrado nos outros; ou tem um «núcleo objectivo»
medidas as suas ideias podem ajudar os outros, em que medida que me deverá permitir combater o fascismo não só porque não
as entravam, etc. me agrada, mas porque é mau por inerência? E a minha resposta
É, por conseguinte, esta a minha resposta às variadas críticas é: temos uma tendência - nada mais. A tendência, tal como qual-
ao «meu» «modelo político». O modelo é vago - é verdade - quer outra, encontra-se rodeada de muita conversa fiada e sobre
mas esse carácter vago é necessário, pois deve «criar espaço» ela foram construídos sistemas filosóficos inteiros. Alguns des-
(EFM, pág. 160) para as decisões concretas daqueles que o apli- tes sistemas falam das qualidades e dos deveres objectivos que
cam. O modelo recomenda uma igualdade de tradições: qualquer os mantêm. Mas a minha questão não é como falamos, mas qual
proposta deve ser primeiro verificada pelas pessoas a que se des- o conteúdo a dar às nossas palavras. E ao tentar identificar algum
tina; o resultado é imprevisível. (Os pigmeus, por exemplo, ou conteúdo, só encontro diferentes sistemas a reclamar conjuntos

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de valores diferentes constituídos unicamente pela nossa tendên- lhe opor? A crença de que existe um método científico e que a
cia de opção (SFS, 1. a parte). Ora, se as tendências forem opos- ciência triunfou? A primeira parte da crença é falsa (cf. secção
tas, ao fim vence a mais forte, o que significa hoje, e no Ocidente: 2 anterior); a segunda parte está correcta mas deverá ser com-
os bancos maiores, os livros mais volumosos, os educadores mais plementada dizendo que havia e ainda há muitos insucessos e tam-
decididos, as armas maiores. Neste momento, e novamente no bém que os êxitos ocorrem num domínio muito restrito que quase
Ocidente, a grandeza parece ser favorável a um humanitarismo nunca aborda o que está aqui em questão (por exemplo, a alma
cientificamente distorcido e beligerante (armas nucleares!) - e nunca entra em cena). O que não cabe no domínio, como a ideia
assim a questão entrou numa fase de impasse. de inferno, nunca foi examinado, perdeu-se, tal como o progresso
Por acaso, foi uma das lições que aprendi com a vida de Remi- científico da antiguidade se perdeu com os primeiros cristãos.
gius, o inquisidor. Margherita von Brentano, que menciona a refe- De acordo com a estrutura do seu pensamento, Remigius agiu
rência que lhe faço, teve a gentileza de não presumir que eu estava como um ser humano responsável e racional e deveria ser elo-
a defender um regresso à bruxaria e às perseguições que lhe eram giado, quanto mais não fosse pelos racionalistas. Se as suas ideias
feitas. Claro que não é esta a minha intenção. Nem tão pouco nos causarem repulsa e não formos capazes de lhe fazer justiça,
creio que fosse testemunha silenciosa dessas perseguições. Mas então, devemos compenetrar-nos de que não existem quaisquer
a minha explicação seria que o tema não me agrada e não que argumentos «objectivos- que sustentem esta nossa repulsa. Claro
seja inerentemente mau ou se baseie em ideias retrógradas do uni- que podemos cantar árias moralistas, compor até uma ópera em
verso. Estas expressões excedem largamente o que as melhores que estas árias se harmonizem maravilhosamente - mas não pode-
intenções e os argumentos mais inteligentes podem sustentar. Con- mos construir um meio de articular todo aquele barulho com Remi-
ferem ao utente uma autoridade que este não possui. Colocam- gius e, apelando à sua razão, trazê-lo para o nosso lado. Pois
-no ao lado dos anjos quando afinal se limita a exprimir as suas ele usa a razão, mas com uma finalidade diferente, segundo regras
opiniões pessoais. A própria verdade se apresenta como sua com- diferentes e com base em provas diferentes. Não há uma saída:
panheira quando apenas estamos de novo a tratar de uma opinião é nossa a total responsabilidade por não procedermos como Remi-
e muito mal sustentada até. Existiam muitos argumentos contra gius e nenhuns valores objectivos abonarão em nosso favor caso
os átomos, o movimento da Terra, o éter - e, no entanto, todas venhamos a descobrir que foram as nossas acções que levaram
estas coisas voltaram à cena. A existência de Deus, do Diabo, à catástrofe.
do céu, do inferno nunca foi atacada com razões minimamente Por outro lado, não esqueçamos os nossos inquisidores, os nos-
decentes. Deste modo, se pretendo eliminar Remigius e o espí- sos cientistas, físicos, educadores, sociólogos, políticos, «desen-
rito da sua época, então posso fazê-Io, como é lógico, mas devo volvedores». Vejam aqueles médicos que até há bem pouco tempo
confessar que os únicos instrumentos de que disponho são os pode- cortavam, envenenavam e submetiam a radiações sem se terem
res da retórica e da hipocrisia. Se em contrapartida, eu aceitar debruçado sobre os métodos alternativos de tratamento que eram
só razões «objectivas», então a situação obriga-me a ser tolerante, bastante conhecidos, não traziam consequências perigosas e podia
pois essas razões não existem nem neste caso nem nos outros (SFS, dizer-se que tinham êxito. Não valia a pena experimentar estes
l. a e 2. a partes; EFM, capítulo 3). métodos (não valia a pena manter vivos os filhos das bruxas)?
Remigius acreditava em Deus, acreditava na outra vida, no Claro que valia. Mas como resposta ouvíamos: anathema sit! Ou
inferno, nas suas torturas e acreditava também que os filhos das debrucemo-nos sobre os esforços dos nossos educadores que ano
bruxas que não fossem queimados acabariam no inferno. Não só sim, ano não são soltos sobre a geração mais jovem para a encher
acreditava nestas coisas como teria fornecido os argumentos. Não de «conhecimentos» sem atender aos antecedentes dos alunos. Cul-
o haveria feito da mesma maneira que nós, nem poderiam as suas turas inteiras foram destruídas, os seus sistemas de imunidade
provas (a Bíblia, os Padres da Igreja, as decisões dos concílios aniquilados (cf. secção 4), os seus conhecimentos reduzidos quase
ecuménicos, etc.) ser consideradas como tal. Mas isso não signi- ao zero - e tudo isso em nome do Progresso (e do dinheiro, logi-
fica que as ideias não tivessem substrato. O que temos nós para camente). O espírito de Remigius, minha cara Margherita von Bren-

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tano, está ainda em nós, na economia, na produção e (mau) uso reservatio mentalis, para me empenhar totalmente na «filosofia»
da energia, no auxílio estrangeiro, na educação, residindo a grande de Popper e, especialmente, para encher os meus ensaios de notas
diferença no facto de Remigius ter agido por razões humanitá- de rodapé sobre Popper? Foi o que fiz - bem, sou um tipo fixe
rias (queria salvar as criancinhas da condenção eterna) enquanto e disposto a ajudar aqueles que só se sentem vivos quando o seu
os seus sucessores modernos só zelam pela sua integridade pro- nome aparece escrito - mas não totalmente: no final do ano a
fissional; não só lhes falta a perspectiva, como igualmente a huma- que Agassi se refere (1983), Popper convidou-me para seu assis-
nidade. Também não gosto deles - mas aqui por motivos que, tente; recusei, não obstante o facto de não ter dinheiro e precisar
mais uma vez, não são parâmetros objectivos, antes sonhos de de recorrer ora a um, ora a outro dos meus amigos mais abonados.
uma vida melhor. Agassi apresenta também alguns dos boatos que eram aparen-
Agora, se combinarmos esses sonhos (que alimento) com uma temente necessários para sustentar a vida na Igreja Popperiana:
noção de valores objectivos (que rejeito) e designarmos por cita Popper dizendo que uma vez chorei amargamente a partici-
consciência moral o resultado, então eu não tenho consciência pação na Segunda Guerra Mundial. É muito possível, sou uma
moral e ainda bem, diria, pois a maior parte da miséria no nosso pessoa emotiva e fiz muita burrice na minha vida - mas isto é
mundo - guerras, destruição de mentes e corpos, carnificinas improvável: nunca discuto assuntos pessoais com estranhos e, além
sem fim - são provocadas não por indivíduos maus, mas por disso, não havia nada a lamentar a não ser talvez inteligência insu-
pessoas que objectivizaram os seus desejos e tendências pessoais ficiente na tentativa de escapar ao recrutamento. As lágrimas,
e, deste modo, os tornaram inumanos. muito provavelmente de tédio, fluiam bastante livremente durante
Ao que parece, foi o único aspecto de que Agassi se apercebeu as minhas visitas ao Mestre. É um triste indício de decadência
no seu estranho ataque. Agassi diz que vai dizer a verdade. É dos padrões da cultura na Alemanha que um pedaço de lixo lacri-
muito simpático da sua parte, mas não nos serve de nada. Pois moso, como o ensaio de Agassi, pudesse ter sido escrito com o
como há muito salientaram os críticos do seu trabalho científico, auxílio de um estipêndio que arvora o nome antigo e honroso de
é raro ele saber do que está a falar, mesmo qundo tenta dizer a Alexander von Humbolt.
verdade (por exemplo, ponto 882 na bibliografia de Rosen sobre Num aspecto apenas revela Agassi uma percepção da realidade,
Copérnico, Three Copernican Treatises, Nova lorque 1971). O e respeita à nossa discussão das questões morais. Lembro-me
seu estudo confirma a impressão. Diz ele que me ofereci como muito bem da discussão. Agassi pressionou-me para tomar uma
voluntário para o exército alemão - fui recrutado. Que tentei posição, isto é, cantar árias morais. Senti-me muito pouco à von-
ignorar os aspectos políticos e morais da Segunda Guerra Mun- tade. Por outro lado, a questão era bastante idiota - eu canto
dial- não me apercebi deles; aos 18 anos, era um rato de biblio- a minha ária, o nazi a sua - e daí? Por outro lado, senti a pres-
teca não um mensch. Que idolatrei Popper. E bem verdade que são irracional de Auschwitz a que Agassi e muitos outros antes
eu gosto de idolatrar as pessoas, gosto de poder considerá-Ias um e depois dele recorreram descaradamente para levar as pessoas
modelo a seguir, admirá-Ias, apontá-Ias como exemplo - mas a gestos vazios (ou a fazer-Ihes lavagens ao cérebro para que os
Popper não é da massa de que se fazem os ídolos. Agassi chama- gestos tenham «significado»). Que digo hoje?
-me discípulo de Popper. Num sentido, isto é verdade, mas não Digo que Auschwitz é uma manifestação extrema de uma ati-
noutro. É verdade que escutei as conferências de Popper, assisti tude que prospera ainda em meu redor. Revela-se no tratamento
ao seu seminário, uma vez por outra o visitei e falei com o seu de minorias nas democracias industriais; na educação, inclusiva-
gato. Não o fiz de livre vontade, pois era o meu orientador: tra- mente a educação numa perspectiva humanitária que, na maior
balhar com ele foi uma condição para o British Council me pagar. parte das vezes, consiste na transformação de pessoas jovens e
Não escolhera Popper para essa função, mas antes Wittgenstein maravilhosas em cópias amorfas e hipócritas dos seus professo-
e este aceitara. Mas Wittgenstein morreu e Popper era o candi- res; torna-se evidente na ameaça nuclear, no constante aumento
dato seguinte na minha lista. Aliás, não se recordará Agassi de do número e da potência das armas mortíferas e na prontidão dos
me pedir insistentemente, de joelhos, que abdicasse da minha chamados patriotas para empreenderem uma guerra, comparado

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com a qual o holocausto será reduzido à sua insignificância. 8 O Adeus à Razão
Revela-se na destruição da natureza e das culturas «primitivas»,
sem nunca se pensar naqueles que ficam privados das suas vidas; Que esteve na origem das críticas que comentei neste capítulo?
o enorme pretensiosismo dos nossos intelectuais, a sua convic- E porque dei uma r~spo~ta ~scrita?
ção de que sabem exactamente do que a humanidade necessita E fácil responder a primeira pergunta.
e os seus esforços desmedidos para recriarem pessoas à sua pró-
Há cerca de dois anos (1979), Hans Peter Doerr foi convidado
pria imagem deplorável; na megalomania infantil de alguns dos pela famosa casa editora Suhrkamp na Alemanha a publicar um
nossos médicos que com o medo fazem chantagem com os seus livro. Declinou, alegando outros compromissos. Mas ficou com
doentes, os mutilam e depois perseguem com avultadas contas; problemas de consciência - não é fácil a Hans Peter declinar
na falta de sensibilidade dos ditos investigadores da verdade, que convites de amigos. O Dr. Unseld, o espírito-guia da editora Suhr-
torturam sistematicamente animais, estudam o seu desconforto kamp, cuja capacidade de detectar à distância os problemas de
e recebem prémios pela sua crueldade. consciência só é excedida pela perícia na sua manipulação, des-
No que me respeita, não existe diferença alguma entre os fiéis cobriu a situação difícil de Hans Peter e tratou-a com palavras,
partidários de Auschwitz e estes «benfeitores da humanidade» - comida e bebida. Resultou: Hans Peter concebeu a ideia de um
em ambos os casos, a vida é usada erradamente para efeitos festival PKF e começou a mandar cartas para todos os sítios. Algu-
especiais. O problema é a cada vez maior inobservância dos mas foram simplesmente devolvidas, outras enviadas com comen-
valores espirituais e a sua substituição por um materialismo rude tários à sua sanidade mental, outras ainda com a tradicional
mas «científico», às vezes chamado até humanismo: o homem desculpa de falta de tempo - mas bastantes pessoas resolveram
(isto é, os seres humanos treinados pelos seus peritos) pode elogiar-me ou amaldiçoar-me, ou exorcizar-me, rodeando-me de
resolver todos os problemas - não precisa da confiança de qual- retórica. Assim, não foi o mérito da minha «palavra» que levou
quer auxílio de outras instâncias. Como posso levar a sério à sJla recolha, mas o poder do álcool.
alguém que chora crimes distantes, mas elogia os criminosos em E muito difícil responder à segunda pergunta. Muitas pessoas
seu redor? E como posso decidir um caso de longe vendo que - cientistas, artistas, advogados, políticos, padres - não fazem
a realidade é mais rica do que inclusivamente a imaginação mais qualquer distinção entre a sua profissão e as suas vidas. Se triun-
fértil? fam, então vêem nisso uma afirmação da sua própria existência.
Uma coisa é estar na frente do combate à crueldade e à opres- Se falharem na sua profissão, então pensam que falharam tam-
são, e nesse caso vê-se e sente-se o inimigo; e toda a nossa exis- bém como seres humanos, por maior alegria que tenham dado
tência, não só a capacidade de diversificação, será consagrada aos seus amigos, filhos, cônjuges, amantes ou cães. Se escrevem
à tentativa de o derrotar. E muito diferente abanar a cabeça e deci- livros, sejam eles romances, colectâneas de poemas ou tratados
dir sobre o Bem e o Mal sentado num gabinete confortável. Sei filosóficos, então esses livros passam a constar de um edifício
que muitos dos meus amigos podem tomar uma tal decisão com construído a partir da sua própria substância. «Quem sou eu?»
ambas as mãos atadas atrás das costas - a sua consciência moral perguntava-se Schopenhauer - e respondia, «Sou aquele que escre-
está, sem dúvida, bem desenvolvida. Eu, por outro lado, levando veu O Mundo como Vontade e como Representação e resolveu
a sério a distância, gostaria de considerar uma perspectiva dife- o grande problema da existência». Pais, irmãos, irmãs, maridos,
rente em que o Mal faz parte da Vida, tal como faz parte da Cria- amantes, periquitos, inclusivamente os sentimentos íntimos do
ção. Não o acolhemos de braços abertos - mas as reacções infantis autor, os seus sonhos, receios, esperanças só têm significado em
também não me agradam. Delimitamo-lo - mas deixamo-lo per- relação àquele edifício e são descritos em conformidade: a mulher,
sistir no seu domínio. Pois ninguém poderá dizer a quantidade bem, essa sabia cozinhar, limpar, lavar e criar o ambiente propí-
de bem que encerra ainda e em que medida a existência nem que cio; os amigos, bem, esses compreenderam o desgraçado durante
seja do mais insignificante aspecto positivo não estará ligada aos o~ tempos mais difíceis e deram-lhe apoio, emprestaram-lhe
crimes mais atrozes. dinheiro, ajudaram-no ansiosamente a dar corpo aos monstros que

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criou - e assim sucessivamente. Esta atitude encontra-se gene- gos sobre religião, arte, política, sexo, assassínio, o teatro, a teoria
ralizada. Está na base de quase todas as biografias e autobiogra- do quantum da medição ~ ~1UitOSoutros temas .. Nestas ?i~cus-
fias. Encontra-se nos grandes pensadores (Sócrates, algumas horas sões, assumi ora uma posiçao, ora a outra: mudei de posiçao _
antes da sua morte, mandou embora a mulher e os filhos para e até a forma da minha vida - em parte como fuga ao tédio, em
que pudesse falar de questões profundas com os seus adorados parte porque não me deixo influenciar (como uma vez Karl Pop-
estudantes: Fedon 60a7. O paralelo artístico é contado com satis- per comentou com ~esar) e em. parte ?evid? ~ mi~ha crescente
fação e muito ódio por Claire Goll na sua autobiografia, Ich ver- convicção de que ate a perspectiva mais estúpida e inumana tem
zeihe keinem, Munique 1980), mas é também muito corrente entre mérito e carece de uma boa defesa. A quase totalidade ... diga-
os roedores académicos de hoje. mos, da minha «obra» escrita, a começar pela minha tese, partiu
Esta atitude é-me estranha, incompreensível e ligeiramente sinis- destas discussões vivas e mostra o impacte dos participantes. Che-
tra. Certo, também eu em tempos admirei de longe o fenómeno; guei por vezes a acreditar que tinha pensamentos próprios - quem
alimentei esperanças de entrar nos castelos de onde se difundia não se toma, de onde em onde, vítima destas ilusões? - mas nunca
e participar nas guerras de esclarecimento que os sábios cavalei- me teria passado pela cabeça considerar estes pensamentos uma
ros haviam desencadeado um pouco por toda a parte. Cheguei minha parte essencial. Eu, assim afirmei ao considerar o assunto,
até a aperceber-me de aspectos mais básicos da questão: isto é, sou na verdade muito diferente da sublime invenção que apre-
o facto de os cavaleiros - os professores - servirem os senho- sentei e da mais profunda convicção que me invade, e nunca deve-
res que lhes pagam e lhes dizem o que fazer: não são mentes livres rei permitir que estas invenções e convicções levem a melhor e
em busca de harmonia e felicidade para todos, são funcionários me transformem num seu obediente escravo. Posso até «tomar
públicos (Denkbeamte, para usar um excelente termo alemão) e posição» (não obstante a prática e inclusivamente a expressão,
a sua mania da ordem não resulta de uma investigação equilibrada, com as suas conotações puritanas me convenceram do contrá-
ou de uma aproximação da humanidade, é uma doença profis- rio), mas ao fazê-Io, a razão era apenas um capricho passageiro
sional. Assim, enquanto fazia pleno uso dos grandes salários que e não uma «consciência moral» ou qualquer outro absurdo desse
auferia para produzir tão pouco, tive o cuidado de proteger da género.
doença os pobres seres humanos (e em Berkeley, cães, gatos, gua- Havia um outro elemento oculto por detrás da minha relutân-
xinins e até às vezes um macaco) que iam às minhas palestras. cia em «tomar posição», e só muito recentemente o descobri.
Afinal, disse para com os meus botões, sinto uma certa respon- Escrevi AM em parte para provocar Lakatos (que devia escrever
sabilidade em relação a esta gente e não devo abusar da sua con- uma resposta, mas morreu antes de o poder fazer) e em parte para
fiança. Contei-lhe histórias e procurei fortalecer a sua defender a prática científica da regra da lei filosófica, Tendo absor-
contrariedade natural pois, em meu entender, seria a melhor defesa vido Ernst Mach com cerca de 15 anos e sido aluno de Hans Thir-
contra a ideologia dos cantores de rua com que estão prestes a ring e Felix Ehrenhaft em física, parti do princípio de que o
encontrar-se: a melhor educação consiste na imunização das pes- trabalho dos cientistas se sustentava em si mesmo e não carecia
soas contra tentativas sistemáticas de educação. Mas inclusiva- de legitimação externa. Tornei-me impaciente com as pessoas que
mente estas simpáticas considerações nunca estabeleceram uma embora inexperientes em relação à complexidade da investiga-
ligação mais estreita entre mim e o meu trabalho. Frequentemente, ção científica continuavam a afirmar saber do que tratava e como
ao passar de carro pela universidade, seja agora em Berkeley, poderia ser melhorada. Creio haver sido um anarquista cientí- .
seja em Londres, Berlim, aqui em Zurique onde sou pago nos fico e o meu grito de guerra poderia ser «deixem a ciência para
fortes francos suíços, apercebi-me de repente de que era «um os cientistasi, Claro que, em tempos, eu próprio fora um racio-
deles». «Sou professor», disse a mim mesmo, «impossível- como nahsta - mas bastava uma simples análise prática, bastavam ape-
pôde suceder isto?« nas os argumentos concretos do Prof. von Weizsãcker, para
No que se refere às minhas chamadas «idéias», a minha atitude revelar a superficialidade das orações racionalistas e para me faze-
era exactamente a mesma. Sempre gostei de discutir com os ami- rem voltar a Mach.

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atingir uma vida plena, as tradições da minha assistência esta-
Houve uma segunda experiência que teve uma tremenda influên-
vam completas desde o início. Deste modo, a interferência era
cia sobre mim. Repito as palavras com que a descrevi pela pri-
muito mais grave e necessária uma resistência muito maior. Ao
meira vez (SFS, 118 e seg.): tentar criar essa resistência, considerei as soluções intelectuais,
A partir de 1964, os mexicanos, negros e índios entraram na univer- ou seja, mesmo assim parti de princípio de que me competia a
sidade em consequência de novas políticas educativas. Sentavam-se, mim e aos meus iguais conceber políticas para outras pessoas.
em parte curiosos, em parte desdenhosos, em parte simplesmentecon- Claro que era minha intenção conceber políticas melhores do que
fusos, esperando receber «educação».Que oportunidade para um pro- as impostas pelo Presidente Johnson e seus ajudantes, mas ao fazê-
feta em busca de seguidores!Que oportunidade, disseram-me os meus -10, eu, tal com ele, afastei a responsabilidade daqueles que que-
amigos racionalistas, de contribuir para a difusão da razão e do pro- ria ajudar, lidei com eles como se incapazes de cuidarem de si
gresso da humanidade! Que maravilhosa oportunidade de uma nova próprios. Quer-me parecer que estava consciente desta contradi-
onda de esclarecimento! A minha perspectiva era diferente. Com- ção e foi esta consciência inconsciente que me levou a agir com
preendi então que os argumentos complicados e as histórias maravi- reserva e despreocupação e recusar a «tomar uma posição».
lhosas que havia contado à minha assistência mais ou menos Surge agora no meu caminho a terceira experiência - o meu
sofisticada, poderiam não passar de sonhos, reflexos da presunção contacto com Grazia Borrini, uma lutadora gentil e determinada
de um grupo pequeno que conseguira escravizar toda a gente com
as suas ideias. Quem era eu para dizer a estas pessoas o que e como pela paz e pela independência. Grazia estudou física, tal como
pensar? Não conhecia os seus problemas mas sabia que eram mui- eu. E achou também este estudo demasiado cerceante. Mas
tos. Não estava a par dos seus interesses, dos seus sentimentos, dos enquanto eu usava ainda as abstracções (tal como a ideia de uma
seus receios, conquanto fosse grande a sua avidez de aprender. Seriam «sociedade livre») para chegar a um ponto de vista mais amplo
sofisticações sem interesse que os filósofos haviam conseguido acu- e mais humano, as suas ideias integravam as «tradições históri-
mular ao longo dos anos e que os liberais tinham rodeado de frases cas» (para retomar a minha maneira de falar um cinto presa). Eu
cheias de sentimentalismo para serem agradáveis, o mais indicado sabia de facto da existência destas tradições e escrevera a seu res-
para oferecer às pessoas que haviam sido despojadas da sua terra, peito antes de conhecer Grazia, mas era necessário um encontro
da sua cultura, da sua dignidade e que se esperava que fossem agora concreto para me levar a compreender o que lhe estava implí-
absorver pacientemente e repetir depois as ideias anémicas dos porta- cito. Grazia deu-me também livros e estudos da autoria de sábios
-vozes dos captores tão humanos? Queriam saber, queriam apren-
proeminentes que se debruçaram sobre os problemas da mudança
der, queriam compreender o estranho mundo que os rodeava - não
mereceriam um melhor alimento?Os seus antepassadostinham desen- (intercâmbio) económica e cultural. Foi um verdadeiro achado.
volvido culturas próprias, línguas vivas, ideias harmoniosas da rela- Primeiro, eu possuía agora exemplos muito melhores dos limites
ção homem/homem e homem/natureza cujos resquícios são uma da abordagem científica do que aqueles que tivera por hábito uti-
crítica mordaz às tendências da separação, da análise, do egoísmo lizar (astrologia, vodu, um tudo-nada de medicina). Em segundo
inerentes ao pensamento ocidental. .. Foram estas as ideias que me lugar, apercebi-me de que os meus esforços não haviam sido em
vieram à mente ao olhar a minha assistência e me fizeram ter uma vão e que bastava uma ligeira mudança de atitude para os tomar
revulsão e recuar de terror em face da missão que devia efectuar. eficazes, tanto aos meus olhos como aos dos outros. É possível
Quanto a essa missão - tornou-se-me agora bastante clara - era ajudar as pessoas escrevendo livros. Fiquei surpreendido e deveras
a de um condutor de escravos muito requintado e muito sofisticado. sensibilizado quando vi que pessoas de diferentes culturas, cujas
E isso eu não queria ser. acções eu respeitava, tinham lido algumas das minhas obras, e
com uma franca aceitação. Deste modo, resolvi pôr de lado o
Esta experiência revestiu uma natureza muito idêntica à da
meu cinismo e escrever um último livro bom, para Grazia, por-
minha experiência face à física. Também aqui sentira bastante
que a conhecia e porque escrevo melhor tendo um rosto sorri-
a superficialidade e as presunções de uma filosofia que queria
dente diante de mim (lembrem-se de que escrevi AM tendo Imre
interferir numa prática bem formada. Contudo, enquanto a ideia
Lakatos em mente) e, através dela, para todos aqueles que não
apenas faz parte da cultura e necessita de outros ingredientes para

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obstante a fome, a opressão, as guerras tentam sobreviver e alcan-
çar um pouco de dignidade e felicidade. Claro que, para escre-
ver um tal livro, terei de cortar os últimos cordões que me ligam
à abordagem abstracta, ou retomando a minha habitual maneira
irresponsável de falar, terei de dizer

ADEUS À RAZÃO.

ÍNDICE

Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9
1. Comentários ao Relativismo ;. ... 29
2. A Razão, Xen6fanes e os Deuses Homéricos. . . . 111
3. O Conhecimento e o Papel das Teorias 127
4. A Criatividade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 153
5. O Progresso na Filosofia, nas Ciências e nas Artes 171
6. Banalizar o Conhecimento: Comentários às Excur-
sões de Popper na Filosofia . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193
7. A Teoria da Investigação de Mach
e a sua Relação com Einstein 227
8. Alguns Comentários à Teoria da Matemática
e do Contínuo de Arist6teles 259
9. Galileu e a Tirania da Verdade .. . . . . . ...... 289
10. Putnam e a Incomensurabilidade . . . . . . . . . . . . . . 309
11. Pluralismo Cultural ou Admirável Monotonia Nova? 319
12. O Adeus à Razão 327

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