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questões da fronteira

MULA NÃO FAZ QUARENTENA


Em tempos de epidemia, fronteira fechada no Acre reduz, mas não interrompe tráfico de drogas
FABIO PONTES
28abr2020_16h22

Ilustração de Carvall

A
noite começava naquela quinta-feira, 2 de abril, quando as 44
pessoas embarcaram em Cruzeiro do Sul, cidade acriana na
fronteira com o Peru. Seguiriam por 635 km pela BR-364 até Rio
Branco, capital do estado. Seria uma viagem tensa: O governo do Acre
tinha decretado medidas de distanciamento social por causa da epidemia
de Covid-19 havia 15 dias. O estado já tinha 45 casos registrados. Até ali,
nenhum em Cruzeiro do Sul. Seriam doze horas dividindo o mesmo
espaço e o confinamento com ar-condicionado ligado. Por causa da
pandemia, o ônibus precisaria fazer a parada obrigatória na barreira
sanitária de funcionários da Secretaria de Saúde montada na comunidade
da Lagoinha, a 17 km de Cruzeiro do Sul. Militares do Exército e PMs
também participavam da inspeção. Os militares, além dos fuzis Parafal e
os IA2 calibre 5.56 mm, usavam máscaras cirúrgicas. Todos os
passageiros tiveram de descer para uma avaliação rápida nas condições
de saúde, mais a checagem das bagagens. Enfermeiros e técnicos
mediram a temperatura corporal para saber se algum deles tinha febre,
um dos sintomas da Covid-19.

Enquanto os agentes sanitários usavam o termômetro, os militares e PMs


estavam de olho nas bagagens. A BR-364 é rota estratégica para o tráfico
internacional de drogas, e por ela passa grande parte da cocaína
produzida nos laboratórios da selva do Peru. É caminho certo para as
mulas, pessoas que transportam drogas para o tráfico. Ao revistar os
passageiros, os militares identificaram um homem que tentava levar para
Rio Branco 4 quilos de cocaína solidificada em cristais, ou a chamada
“escama de peixe”. Este é o tipo da cocaína mais pura encontrada no
mercado, com alto valor de comercialização, e muito apreendida nas
batidas policiais no Acre.

A apreensão daqueles 4 quilos poderia representar pouca coisa numa


região que é rota internacional do tráfico de drogas. De fato, em 2018,
apenas a Delegacia de Repressão ao Narcotráfico (Denarc), da Polícia
Civil do Acre, apreendeu 2 toneladas de droga. Mas a apreensão foi
principalmente um sinal de que, apesar da fronteira fechada, o tráfico
continua ativo em tempos de pandemia, com a passagem de mulas
carregando drogas. Vinte dias depois, em 23 de abril, naquela mesma
BR-364, agora no sentido Rio Branco a Porto Velho, em Rondônia, a
Polícia Rodoviária Federal apreendeu 100 quilos de cocaína em um
caminhão que tinha como destino Minas Gerais. Em alguns dos pacotes
da droga estavam as iniciais CV. Além do entorpecente, a PRF apreendeu
R$ 54,6 mil em espécie – que seria o pagamento da mula – e uma pistola
calibre 380. O motorista do caminhão foi indiciado e preso pela Polícia
Federal por tráfico internacional de droga. Segundo policiais consultados
pela reportagem, o valor da carga apreendida poderia variar de R$ 1
milhão a R$ 3 milhões.

Com o aumento dos casos de contaminação na América do Sul, o Brasil


fechou as fronteiras com os vizinhos. A portaria 125 assinada entre a Casa
Civil e o Ministério da Justiça em 19 de março proibiu o acesso ao país de
estrangeiros vindos da Argentina, da Bolívia, da Colômbia, da Guiana
Francesa, do Peru, do Paraguai, da Guiana e do Suriname. A medida teria
vigência por quinze dias. No dia 2 de abril, mesmo dia da prisão do mula
com drogas em Cruzeiro do Sul, o então ministro Sergio Moro assinou
nova portaria prorrogando por trinta dias o fechamento das fronteiras. A
primeira fronteira fechada pelo governo brasileiro foi com a Venezuela,
no dia 18 de março.
No Acre, Brasil, Bolívia e Peru formam uma tríplice fronteira. Antes de
Brasília proibir a passagem de estrangeiros pelas fronteiras, Lima e La
Paz já tinham adotado a medida para reduzir o trânsito de pessoas
eventualmente contaminadas pelo coronavírus. As vias de acesso
terrestre aos dois países vizinhos foram ocupadas 24 horas por militares e
policiais com uma ordem: ninguém sai, ninguém entra. Um contraste
gritante com os tempos pré-pandemia, em que a tríplice fronteira Brasil,
Bolívia e Peru convive mais com outro tipo de soldado, o do tráfico, como
são conhecidos os integrantes das facções criminosas que disputam o
controle da rota do tráfico na região. A proximidade com Bolívia e Peru
fez o Acre ser alvo da cobiça das duas organizações criminosas que
dominam o mercado de drogas no país, o Primeiro Comando da Capital
(PCC) e o Comando Vermelho (CV).

Desde 2016, PCC e CV travam uma guerra pelas ruas das cidades
acrianas em busca da hegemonia na fronteira. O PCC se aliou à facção
local Bonde dos 13 (B13), surgida dentro do sistema prisional acriano. O
CV foi atraindo seus integrantes aos poucos e hoje domina as cidades da
fronteira, em especial as com o Peru. Para chegar aos centros urbanos, a
droga navega pelos rios que nascem na Amazônia peruana e se
confundem com os rios brasileiros. No Acre, a rota pelos rios da Bacia do
Juruá estão dominados pelo CV. Em dezembro, a facção celebrou com
fogos a tomada de Cruzeiro do Sul, a maior cidade no leito do rio Juruá e
entreposto na logística da distribuição da droga oriunda do Peru.

No Aeroporto Internacional Marmud Cameli, em Cruzeiro do Sul, mais


sinais de que o tráfico não parou mesmo em tempos de epidemia. No dia
23 de março, a Polícia Federal prendeu em flagrante uma mulher
tentando embarcar com 3 quilos de cocaína presos ao corpo. Seu destino
era Natal, no Rio Grande do Norte, importante ponto da distribuição da
droga para a Europa. Segundo a PF, não se sabe ao certo o destino da
cocaína: se ficaria na capital potiguar ou se era destinada à exportação.

“As pessoas que levam essa droga no corpo não têm o Acre como destino
final. Ou é para o Nordeste ou para São Paulo. Essas pessoas ganham
pela viagem, e não pelo valor da droga em si. Muitas das vezes elas
próprias não sabem o destino final da droga. Quando a droga se destina
ao mercado europeu, geralmente é uma quantidade maior”, diz a
delegada Diana Calazans, superintendente da Polícia Federal no estado.

O valor recebido pela mula varia. Mas o pagamento tem valores bem
distantes do mercado da droga. Para quem carrega a droga na estrada, o
preço médio é de R$ 500 por quilo da cocaína e de R$ 200 a R$ 300 o quilo
da maconha – baixos diante do alto valor de comercialização dos
entorpecentes no mercado. De acordo com os dados da Denarc Acre, que
acompanha com uma espécie de tabela os preços da droga, a “escama de
peixe” (cocaína pura) sai dos laboratórios com o quilo valendo US$ 2.200
(R$ 11,6 mil). Em Rio Branco chega a R$ 12 mil e, no Nordeste, a R$ 30
mil reais.

O
Acre foi anexado ao Brasil em 17 de novembro de 1903 com a
assinatura do Tratado de Petrópolis, numa operação que teve a
intervenção diplomática do Barão do Rio Branco – daí o nome da
capital. Até ali, as terras que formam o estado pertenciam à Bolívia e ao
Peru. Ocupada por brasileiros oriundos do Nordeste usados como mão
de obra na produção da borracha, foi palco de conflitos armados entre
bolivianos e um exército formado por seringueiros apoiado pelos barões
da borracha de Manaus e Belém, interessados em manter os lucros com a
exploração da principal matéria-prima da Amazônia à época: o látex.
Hoje o curso do rio Acre demarca a tríplice fronteira conhecida como
MAP: Madre de Dios (Peru), Acre (Brasil) e Pando (Bolívia). Brasileiros,
bolivianos e peruanos vão de um lado para o outro da fronteira
misturando idiomas, culturas e moedas. Desde o aumento dos casos da
Covid-19 no continente, toda esta movimentação foi interrompida.

Soldados armados protegem as entradas de seus países, e só o transporte


de cargas é permitido. Os bolivianos dependem dos supermercados do
Brasil para a compra de alimentos. A cidade boliviana de Cobija, capital
do departamento de Pando, faz fronteira com duas cidades do Acre:
Brasileia e Epitaciolândia. As três cidades estão praticamente coladas. Por
ser uma zona franca (livre da cobrança de impostos), Cobija vende
produtos mais em conta do que o lado brasileiro. Os moradores da
capital Rio Branco vão até a cidade em busca de produtos eletrônicos,
perfumes, bebidas, roupas de grife e outras bugigangas. É ali que os
camelôs da capital compram suas mercadorias para vender – isso quando
não as perdem nas barreiras policiais por não fazer a declaração na
Receita Federal. O real é a principal moeda a circular pela zona franca de
Cobija, concorrendo com o boliviano. Em seguida vem o dólar.
Atualmente 1 real equivale a 1,30 boliviano. Seis anos atrás essa relação
era de 1 real para 3,70 bolivianos. Muitos empresários de Cobija
contratam brasileiros para trabalhar em suas lojas, o que quebra a
barreira entre o português e o espanhol, ou um portunhol.

A capital de Pando também é procurada por quem busca tratamento


médico. Aqueles que não podem pagar consultas ou cirurgias na rede
privada do lado de cá da fronteira recorre aos tratamentos mais baratos
lá. Cobija também passou a ser “ocupada” por brasileiros interessados em
estudar medicina. Ao invés de irem para cidades como Santa Cruz de la
Sierra ou Cochabamba, muitos ficam na proximidade com a fronteira,
reduzindo os custos. Essa vizinhança, agora, nunca esteve tão distante.
Com o fechamento da fronteira, estudantes brasileiros que moram em
Cobija não conseguem deixar a Bolívia. Alguns optaram por alternativas
perigosas como atravessar um igarapé ou o rio Acre. Um grupo foi
filmado fazendo essa travessia.

A piauí conversou por telefone com um desses brasileiros retidos em


Cobija. Por medo de represálias por parte dos diretores da universidade e
das autoridades bolivianas, muitos têm medo de falar sobre a situação. A
reportagem sondou quatro deles, mas apenas um aceitou conversar,
desde que mantido o anonimato. De acordo com ele, ao menos duzentos
estudantes estão na mesma situação que ele. “O nosso dinheiro está
acabando, os bolivianos não estão mais aceitando o real, não podemos
deixar a Bolívia”, diz. Segundo o relato, a única forma de sair legalmente
é obter uma carta-autorização emitida pelo consulado do Brasil na região,
registrar a saída no posto de fronteira da Bolívia e pagar uma taxa de 160
bolivianos. Como muitos já estão com poucos recursos e não conseguem
receber a ajuda de parentes, o retorno fica inviável. O estudante afirma
que o consulado vem sendo procurado constantemente, sendo
informados de que nada pode fazer por eles. A representação brasileira,
diz ele, informa que só pode requerer uma carta-autorização por dia,
levando um tempo até receber a autorização.

“Eu me sinto totalmente desamparado. Não posso contar com o


consulado. O cônsul diz que não pode fazer muita coisa pois está sob a lei
da Bolívia, e que a lei aqui é a seguinte: ninguém sai, ninguém entra e
acabou. Estamos pisando em ovos todos os dias para não sermos presos.
A cada esquina tem um polícia e em cada esquina pedem documentação.
A única coisa que me alivia é quando faço videochamada com o meu pai
e os meus irmãos”, relata.

Procurado, o Ministério das Relações Exteriores informou não ter


conhecimento sobre casos de brasileiros retidos em Cobija,
recomendando que os estudantes procurem o consulado para obter
orientações.

O atual fechamento da tríplice fronteira vem sendo o mais longo dos


últimos anos. Em tempos normais, traficantes se aproveitam da frágil
fiscalização na área para passar com drogas e armas, e o transporte do
entorpecente é feito pelas próprias rodovias. É por essa região que
também passam os carros roubados em Rio Branco e trocados por drogas
e armas em Cobija. Ainda é cedo para mensurar até que ponto o
fechamento das fronteiras entre os três países por conta da pandemia do
novo coronavírus afetou os negócios do narcotráfico. Enquanto alguns
policiais falam em quase quebradeira financeira com menos “produto”
chegando às bocas de fumo, outros dizem preferir esperar o fim da
medida para comparar com os anos anteriores.

“Essa presença mais forte do Estado com certeza inibe as práticas


criminosas [nas áreas de fronteira]; mas assim como a gente vê os nossos
vizinhos bolivianos e peruanos tentando entrar por outros caminhos, a
gente sabe que não é possível haver um fechamento das fronteiras. Existe
demanda por esse produto (a droga), existe um valor muito alto e vai se
buscar uma alternativa. Mas é claro que a presença da polícia é muito
benéfica, e esse apoio do Exército é essencial”, diz a superintendente da
Polícia Federal. No Acre os militares do Exército estão nas regiões
fronteiriças desde 24 de março. Eles integram o 4º Batalhão de Infantaria
de Selva (BIS), sediado em Rio Branco, e o 61º BIS, de Cruzeiro do Sul.
Um dos militares que atuam na região de fronteira foi contaminado pelo
coronavírus. Segundo o Exército, o contágio ocorreu em ambiente
familiar; a mulher foi a primeira infectada. Outros militares estão em
monitoramento.

O delegado Karlesso Nespoli, titular da Denarc, da Polícia Civil, diz que


o tráfico de drogas na fronteira acriana é praticado tanto pelas facções
criminosas quanto por “traficantes solitários”, pessoas que não
necessariamente são integrantes da facção, mas prestam um serviço
eventual. “A gente sentiu uma queda, uma redução no tráfico. Esse
aumento na presença policial nas fronteiras gera diminuição no volume
de tráfico. Não que não esteja ocorrendo. Os traficantes vão ficando mais
cautelosos. Inclusive temos informações de que alguns começaram a
praticar outros crimes, como o estelionato, para buscarem se financiar por
conta da queda nas vendas. Houve uma diminuição sim na oferta de
drogas a ser comercializada”, afirma. Com menos entorpecente na praça,
explica ele, houve aumento no preço de revenda. “É a lei da oferta e da
procura.”