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Paul Auster

Da Mão Para a Boca


Crónica de um Fracasso Inicial
Traduzido do inglês por
Fernanda Pinto Rodrigues

ASA
L I T E R A T U R A
Índice

DA MÃO PARA A BOCA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7

Apêndice 1: Três Peças . . . . ..... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 117


Laurel e Hardy Vão para o Céu . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 119
Escuros (Blackouts) . . . ..... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 154
O Jogo das Escondidas . ..... . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 174

Apêndice 2: O Jogo dos Enganos (Squeeze Play),


por «Paul Benjamin» . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 193
Da Mão para a Boca
E ntre os meus vinte anos e o início dos trinta, atravessei um período
de vários anos em que tudo aquilo em que tocava se transformava
num fracasso: o meu casamento terminou em divórcio, o meu trabalho
como escritor soçobrou e vivi assoberbado por problemas de dinheiro.
Não estou a falar de uma simples e ocasional escassez de fundos ou de
alguma necessidade periódica de apertar o cinto, mas sim de uma falta
de dinheiro contínua, crónica, opressiva, quase asfixiante, que me enve-
nenava a alma e me mantinha num estado de pânico interminável.
Não podia culpar ninguém a não ser a mim próprio. O meu rela-
cionamento com o dinheiro fora sempre deficiente, enigmático e cheio
de impulsos contraditórios, e agora estava a pagar o preço de não ter
tomado uma atitude clara e definida a esse respeito. Desde que me
conhecia, a minha ambição tinha sido escrever. Aos dezasseis ou dezas-
sete anos já sabia que assim era e nunca me iludira pensando que pode-
ria ganhar a vida com isso. Tornar-se escritor não é «decidir sobre uma
carreira» como quem decide tornar-se médico ou polícia. Mais do que
escolhê-la, somos escolhidos, e uma vez aceite o facto de que não
somos aptos para mais nada, temos de estar preparados para percorrer
uma longa e árdua estrada durante o resto dos nossos dias. A não ser
que nos revelemos um favorito dos deuses (e ai daquele que conte com
isso), o nosso trabalho nunca renderá o suficiente para nos mantermos,
e se pretendemos ter um tecto sobre a nossa cabeça e não morrer de
fome, temos de nos resignar a fazer outro trabalho para pagarmos as
contas. Eu compreendia que era assim e estava preparado para isso,
e por isso não me queixava. Nesse aspecto, era imensamente afortuna-
do. Não ambicionava nada de especial no tocante a bens materiais e a

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perspectiva de ser pobre não me assustava. Tudo quanto queria era uma
oportunidade para realizar o trabalho que me sentia capaz de fazer.
Muitos escritores levam vidas duplas. Ganham bom dinheiro exer-
cendo profissões legítimas e tentam arranjar tempo para a escrita: de
manhã cedo, alta noite, aos fins-de-semana, nas férias. William Carlos
Williams e Louis-Ferdinand Céline eram médicos. Wallace Stevens tra-
balhava para uma companhia de seguros. T. S. Eliot foi bancário e
depois editor. Entre os que eu próprio conheço pesoalmente, o poeta
francês Jacques Dupin é co-director de uma galeria de arte de Paris. Wil-
liam Bronk, o poeta americano, geriu a firma de madeira e carvão da
sua família, no norte do estado de Nova Iorque, durante mais de qua-
renta anos. Don DeLillo, Peter Carey, Salman Rushdie e Elmore Leonard
trabalharam todos em publicidade durante longos períodos. Outros
escritores ensinam, o que nos dias de hoje é provavelmente a solução
mais comum, com todas as grandes universidades e pequenos colégios
provincianos a oferecer os chamados cursos de Escrita Criativa, levando
romancistas e poetas a esgaravatarem continuamente e a esforçarem-se
para obterem um lugar. Quem pode censurá-los? Os ordenados podem
não ser grandes, mas o trabalho é estável e os horários bons.
O meu problema residia no facto de não ter interesse nenhum em
levar uma vida dupla. Não se tratava de não estar disposto a trabalhar,
mas a ideia de assinar o ponto num emprego qualquer das nove às
cinco deixava-me frio e totalmente destituído de entusiasmo. Tinha vinte
e poucos anos e sentia-me demasiado jovem para assentar, demasiado
cheio de outros planos para desperdiçar o meu tempo a ganhar mais
dinheiro do que queria ou precisava. No que dizia respeito a finanças,
só queria aguentar-me. A vida era barata naquele tempo e, sem nenhu-
ma responsabilidade para com ninguém além de mim, calculava que
podia tentear as coisas com um rendimento anual de aproximadamente
três mil dólares.
Tentei a pós-graduação durante um ano, mas apenas porque a Co-
lumbia me oferecia uma bolsa isenta de propinas de dois mil dólares — o
que significava que estava na realidade a ser pago para estudar. Mesmo
com estas condições ideais, não tardei a compreender que não queria
ter nada a ver com aquilo. Já estava farto de estudar, e a perspectiva de

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passar outros cinco ou seis anos como estudante afigurava-se-me um
destino pior do que a morte. Não queria falar mais de livros, queria
escrevê-los. Por uma questão de princípio, achava errado um escritor
fechar-se numa universidade, rodear-se de demasiadas pessoas com a
mesma maneira de pensar e sentir-se demasiado confortável. Corria-se
o risco de nos tornarmos complacentes; e quando isso acontece a um
escritor, pode considerar-se perdido.
Não vou defender as escolhas que fiz. Se não foram práticas, a ver-
dade é que eu não queria ser prático. O que eu queria era experiências
novas. Queria sair para o mundo e pôr-me à prova, saltar de uma coisa
para outra, explorar o mais que pudesse. E desde que mantivesse os
olhos abertos, achava que, independentemente do que me acontecesse,
isso seria útil e ensinar-me-ia coisas que nunca conhecera antes. Isto
poderá parecer um procedimento um bocado antiquado, e talvez tenha
sido. Jovem escritor despede-se da família e dos amigos e parte para
lugares desconhecidos para descobrir de que é feito. Para o melhor ou
para o pior, duvido que qualquer outro caminho tivesse sido convenien-
te para mim. Tinha energia, uma cabeça fervilhante de ideias e pés
ansiosos por andar. Dado o tamanho do mundo, a última coisa que
desejava era jogar pelo seguro.

Não me custa descrever estas coisas e recordar como me fizeram


sentir. A complicação só começa quando me pergunto por que motivo
as fiz e senti o que senti. Todos os outros jovens poetas e escritores do
meu curso estavam a tomar decisões sensatas a respeito do seu futuro.
Não éramos rapazes ricos que pudéssemos depender de dádivas dos
nossos pais, e quando saíssemos da faculdade ficaríamos definitivamen-
te entregues a nós próprios. Defrontávamos todos a mesma situação,
conhecíamos todos a realidade dos factos e, no entanto, ainda não con-
sigo explicar. Por que motivo agiam os meus amigos tão prudentemen-
te e eu era tão irresponsável?
Provenho de uma família da classe média. A minha infância foi
desafogada e nunca conheci nenhuma das carências e privações que
afligem a maior parte dos seres humanos que vivem nesta terra. Nunca

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passei fome, nunca passei frio, nunca me senti em perigo de perder as
coisas que tinha. A segurança era um dado adquirido; e no entanto, ape-
sar de todo o bem-estar e sorte da família, o dinheiro era objecto de
conversas e preocupação constantes. Tanto o meu pai como a minha
mãe tinham vivido durante o período da Depressão e nenhum deles se
refizera inteiramente desses tempos difícieis. Ficaram ambos marcados
pela experiência de não ter o suficiente e cada um transportava essa
ferida de maneira diferente.
O meu pai era agarrado; a minha mãe, esbanjadora. Ela gastava; ele
não. A recordação da pobreza persistia forte no espírito do meu pai, e
apesar de a sua situação económica ter mudado, nunca conseguiu acre-
ditar inteiramente nisso. A minha mãe, por seu lado, encontrava grande
prazer nessa mudança de situação. Gostava dos rituais do consumismo
e, como tantos americanos antes e depois dela, cultivava o acto de com-
prar como um meio de auto-afirmação, elevando-o às vezes ao nível de
uma forma de arte. Entrar numa loja era envolver-se num processo
alquímico que impregnava a caixa resgistadora de propriedades mági-
cas. Desejos inexprimíveis, necessidades intangíveis e anseios mudos:
tudo passava pela caixa do dinheiro e saía como coisas reais, objectos
palpáveis que podíamos segurar nas nossas mãos. Nunca se cansava de
repetir este milagre, e as contas que daí resultavam constituíam uma
fonte de discórdia entre ela e o meu pai. A minha mãe achava que se
encontravam dentro das nossas possibilidades; o meu pai não. Dois esti-
los, duas visões do mundo e duas filosofias morais em eterno conflito
entre si — e isso acabou por lhes destruir o casamento. O dinheiro era
a linha de fractura e tornou-se na única e esmagadora fonte de discus-
são entre eles. A tragédia é que eram ambos boas pessoas — atencio-
sos, honestos, trabalhadores — e, tirando esse único e feroz campo de
batalha, pareciam dar-se muito bem. Palavra que nunca compreendi
como uma questão relativamente tão insignificante podia causar tantos
problemas entre eles. Mas o dinheiro, claro, nunca é simplesmente
dinheiro. É sempre outra coisa qualquer, é sempre mais alguma coisa
— e tem sempre a última palavra.
A minha infância foi apanhada no meio desta guerra ideológica.
A minha mãe levava-me consigo quando ia comprar roupa, arrastando-me

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no turbilhão da sua euforia e generosidade; e eu deixava-me convencer
com frequência de que queria as coisas que ela me oferecia — sempre
mais do que esperava, sempre mais do que pensava que precisava. Era
impossível resistir, impossível não gostar de ver como os empregados
eram loucos por ela e corriam a satisfazer as suas ordens, impossível
não me deixar empolgar pela força da sua actuação. No entanto, havia
sempre uma grande dose de ansiedade nessa minha felicidade, pois
sabia exactamente o que o meu pai ia dizer quando recebesse a conta.
E o pior é que ele falava sempre. Haveria uma explosão inevitável e,
também quase inevitavelmente, o assunto seria resolvido com o meu
pai a afirmar que da próxima vez que eu precisasse de alguma coisa
seria ele que me levaria às compras. E quando chegava a altura de me
comprar um casaco novo para o Inverno, por exemplo, ou um par de
sapatos, então uma noite, depois do jantar, o meu pai e eu metíamo-
-nos no carro e íamos a uma loja que fazia descontos situada numa auto-
-estrada algures na escuridão de New Jersey. Lembro-me do clarão da
luz fluorescente desses estabelecimentos, das paredes de blocos de
cinza e cimento, das intermináveis prateleiras de vestuário masculino
barato. Como o anúncio da rádio dizia: «Robert Hall nesta estação / Vai
dizer-lhe qual a razão: / Encargos baixos / Bum bum, bum, / Encargos
baixos!» Feitas as contas, esta canção faz parte da minha infância como
o Pledge of Allegiance, ou o pai-nosso.
A verdade é que eu gostava tanto desta caça às pechinchas com o
meu pai como das farras de compras com a minha mãe. A minha leal-
dade repartia-se em partes iguais pelos meus dois progenitores e nunca
se levantou a questão de ter de montar a minha tenda num campo ou
no outro. A abordagem da minha mãe talvez fosse mais atractiva em ter-
mos do divertimento e da excitação que gerava, mas havia qualquer
coisa na teimosia do meu pai que me prendia igualmente, um sentimen-
to de experiência e sabedoria conquistadas a duras penas no cerne das
suas convicções, uma integridade de determinação que fazia dele
alguém que nunca recuava, nem mesmo correndo o risco de ser mal-
-visto pelos outros. Eu achava isso admirável; e por muito que adorasse
a minha bela e infinitamente encantadora mãe por deslumbrar o mundo
como deslumbrava, também adorava o meu pai por ele resistir a esse

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mesmo mundo. Podia ser exasperante vê-lo em acção — um homem
que nunca parecia importar-se com o que as outras pessoas pensavam
dele —, mas também era instrutivo e, a longo prazo, parece-me que
prestei mais atenção a essas lições do que alguma vez supus.
Em rapaz, enquadrei-me no papel do fura-vidas clássico. Ao pri-
meiro sinal de neve, começava a tocar às campainhas e perguntava às
pessoas se queriam contratar-me para lhes desimpedir a entrada e os
caminhos de acesso da frente. Em Outubro, quando as folhas caíam, lá
estava eu com o meu ancinho: tocava às mesmas campainhas e pergun-
tava se queriam que limpasse os relvados. Noutras ocasiões, quando
não havia nada para remover do solo, oferecia-me para «pequenos ser-
viços»: arrumar a garagem, limpar a cave, aparar as sebes — tudo o que
precisasse de ser feito, eu era o homem para o fazer. No Verão, vendia
limonada a dez cêntimos o copo no passeio defronte da minha casa.
Recolhia garrafas vazias na despensa da cozinha, carregava-as no meu
pequeno carro vermelho e levava-as para a loja, para as trocar por
dinheiro: dois cêntimos pelas pequenas, cinco pelas grandes. Utilizava
os meus ganhos sobretudo para comprar cromos de baseball, revistas
desportivas e livros de banda desenhada, e o que sobrava guardava-o
diligentemente no mealheiro, que tinha a forma de uma caixa regista-
dora. Era verdadeiramente o filho dos meus pais, e nunca questionava
os princípios que sustentavam o mundo deles. O dinheiro falava, e na
medida em que o escutássemos e obedecêssemos aos seus argumentos,
aprenderíamos a linguagem da vida.
Recordo-me de uma vez ter tido uma moeda de cinquenta cênti-
mos. Não me lembro como a obtive — era tão rara então como hoje;
mas, quer me tenha sido dada, quer eu próprio a tenha ganho, conser-
vo uma noção viva do muito que significava para mim e da grande
quantia que representava. Naquele tempo, com cinquenta cêntimos
podíamos comprar dez carteirinhas de cromos de baseball, cinco livros
de banda desenhada, dez chocolates, cinquenta caramelos — ou, se pre-
feríssemos, várias combinações de todas essas coisas. Meti o meio dólar
na algibeira de trás das calças e dirigi-me para o armazém, a imaginar
febrilmente como ia gastar a minha pequena fortuna. A moeda desa-
pareceu algures ao longo do percurso, por razões que ainda hoje me

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escapam. Levei a mão à algibeira de trás para verificar — sabia que esta-
va lá, queria apenas certificar-me —, mas o dinheiro tinha desapareci-
do. Teria algum buraco na algibeira? Teria caído das calças na última
vez que lhe tocara? Não fazia a mínima ideia. Tinha seis ou sete anos,
mas ainda me lembro perfeitamente como me senti infeliz. Tentara ser
tão cuidadoso e mesmo assim, apesar de todas as minhas precauções,
acabara por perder o dinheiro. Como podia ter acontecido semelhante
coisa? À falta de uma explicação lógica, concluí que Deus me castigara.
Não sabia porquê, mas tinha a certeza de que o Todo-Poderoso metera
a mão na minha algibeira e tirara Ele próprio a moeda.

Pouco a pouco, comecei a voltar as costas aos meus pais. Não


quero dizer que tenha começado a amá-los menos, mas o mundo de
onde eles provinham deixara de parecer um lugar muito convidativo
para viver. Tinha dez, onze, doze anos, e já estava a tornar-me num emi-
grante interno, um exilado na minha própria casa. Muitas destas mudan-
ças podem ser atribuídas à adolescência, ao simples facto de estar a
crescer e a começar a pensar com a minha própria cabeça, mas nem
todas. Outras forças actuavam em mim ao mesmo tempo, e cada uma
delas empurrou-me com uma mão para o caminho que mais tarde segui.
Não se tratava apenas da dor de ter de assistir ao desmoronar do casa-
mento dos meus pais, nem da frustração de estar encurralado numa
pequena cidade suburbana, nem sequer do clima americano do fim dos
anos 50 — mas, juntando tudo isso, ficava-se de súbito com um forte e
fundamentado argumento contra o materialismo, uma denúncia da opi-
nião ortodoxa de que o dinheiro era um bem que devia ser valorizado
acima de tudo. Os meus pais valorizavam o dinheiro, e aonde é que isso
os levara? Tinham lutado e investido muita fé nele; e no entanto, por
cada problema que resolvera, surgira outro para ocupar o seu lugar.
O capitalismo americano criara um dos momentos mais prósperos da
história humana, produzindo números incontáveis de carros, vegetais
congelados e champôs milagrosos. E, apesar disso, Eisenhower era Pre-
sidente e o país inteiro tinha sido transformado num gigantesco anún-
cio televisivo, numa arenga incessante para comprar mais, produzir

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mais, gastar mais, dançar à volta da árvore dos dólares até cairmos mor-
tos pelo puro furor de nos tentarmos manter ao nível de todos os outros.
Não tardei a descobrir que eu não era a única pessoa a sentir desta
maneira. Quando tinha dez anos encontrei por acaso um número da
revista Mad numa confeitaria em Irvington, New Jersey, e lembro-me
do prazer intenso, quase entorpecente, que senti ao ler aquelas pági-
nas. Soube então que tinha almas gémeas neste mundo, que outros
tinham já aberto as portas que eu próprio estava a tentar abrir. Estavam
a ser usadas agulhetas de bombeiros contra os negros do Sul america-
no, os Russos tinham lançado o primeiro Sputnik e eu começava a pres-
tar atenção às coisas. Não, nós não tínhamos de engolir o dogma que
eles estavam a tentar impingir-nos. Podíamos resistir-lhes, ridicularizá-
-los, desmascará-los. A salubridade e a rectidão enfadonha da vida ameri-
cana não eram mais do que uma impostura, um tíbio esforço publicitário.
No próprio momento em que começávamos a estudar os factos, as con-
tradições subiam à superfície e as hipocrisias desenfreadas ficavam a
descoberto — de súbito, tornava-se possível uma maneira inteiramente
nova de ver as coisas. Fôramos ensinados a acreditar em «liberdade e
justiça para todos», mas a verdade é que a liberdade e a justiça anda-
vam muitas vezes em rota de colisão uma com a outra. A busca de
dinheiro não tinha nada a ver com imparcialidade; o seu motor era ape-
nas o princípio social de «cada um por si». Como que para provar a inu-
manidade essencial do mercado, quase todas as metáforas americanas a
esse respeito tinham sido retiradas do mundo animal: dog eat dog, bulls
and bears, a rat race,1 sobrevivência dos mais aptos. O dinheiro dividiu
o mundo em vencedores e perdedores, os que têm e os que não têm.
Foi uma excelente solução para os vencedores. Mas e os outros, os

1 Mantive as expressões em inglês porque, traduzidas, perderiam o sentido que o autor


pretende atribuir às metáforas. Em português significam: dog eat dog (literalmente, «cão
come cão»): uma sociedade ou uma pessoa desumanamente gananciosa ou competitiva;
bulls and bears («touros e ursos»): especuladores altistas, ou optimistas (convencidos de que
os preços vão subir, compram para vender a termo e por preço mais elevado), em contra-
posição a especuladores baixistas, ou pessimistas (que acreditam no declínio do mercado
e, por isso, compram em baixa, esperando vender em alta); rat race («corrida de ratazanas»):
esta expressão já nos é mais familiar, e tipifica uma actividade difícil, esgotante e quase sem-
pre competitiva (o stress e a confusão, tantas vezes inglórios, da vida moderna). (N. da T.)

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perdedores? Baseado na evidência ao meu alcance, deduzi que seriam
rejeitados, postos de lado e esquecidos. Lamentável, claro, mas factos
são factos. Se construímos um mundo a tal ponto primitivo que fazemos
de Darwin o nosso principal filósofo e de Esopo o nosso principal poeta,
que mais podemos esperar? Lá fora é uma selva, não é? Reparem só
naquele Dreyfus leonino a descer pelo meio da Wall Street2. A mensa-
gem poderia ser mais clara? Comer ou ser comido. Esta é a lei da selva,
meu amigo, e se não tens estômago para tanto, sai enquanto podes.
Eu pus-me fora antes mesmo de alguma vez ter estado dentro. Aos
treze anos já tinha concluído que o mundo dos negócios teria de se
governar sem mim. Provavelmente estava no meu pior período, mais
insuportável e mais confuso. Consumia-me o ardor de um idealismo
novo, recém-descoberto, e os rigores da perfeição que ambicionava
para mim transformaram-me num pequeno puritano em formação.
Repugnavam-me os sinais exteriores de riqueza e tratava com desprezo
todos os sinais de ostentação que os meus pais traziam para casa. A vida
era injusta. Finalmente percebera isso. E como fora eu próprio a desco-
bri-lo, atingiu-me com toda a força de uma revelação. Com o passar dos
meses, fui achando cada vez mais difícil conciliar a minha sorte com o
azar de tantos outros. Que fizera eu para merecer os confortos e as van-
tagens abundantemente derramados sobre mim? O meu pai providen-
ciava-nos o que era necessário — era só isso —, e o facto de ele e a
minha mãe discutirem por causa de dinheiro constituía apenas um
pequeno pormenor quando comparado com facto de terem dinheiro
para poderem discutir sobre isso. Era um tormento para mim sempre
que entrava no carro da família — tão reluzente, novo e caro, um con-
vite ostensivo para que o mundo admirasse quão bem vivíamos. Toda
a minha simpatia ia para os oprimidos, os esbulhados, as vítimas da
ordem social, e um carro daqueles enchia-me de vergonha — não ape-
nas de mim próprio, mas pelo facto de viver num mundo que permitia
a existência de tais coisas no seu seio.

2 Jack Dreyfus, financeiro norte-americano e fundador do Dreyfus Fund. Os seus pri-


meiros anúncios, onde aparecia um leão em Wall Street, foram bastante populares. (N. do E.)

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Os primeiros empregos que tive não contam. Os meus pais conti-
nuavam a sustentar-me e eu não sentia nenhuma obrigação de ganhar
a minha vida ou contribuir para o orçamento familiar. Não havia, por-
tanto, pressão, e quando não existe pressão não há nada importante em
jogo. Sentia-me satisfeito por ter o dinheiro que ganhava, mas nunca
precisei de o gastar nas necessidades elementares, nunca precisei de me
preocupar com o problema de pôr comida na mesa ou de não me atra-
sar no pagamento da renda. Esses problemas só surgiriam mais tarde.
Por enquanto, era apenas um miúdo do liceu à procura de um par de
asas que me levassem para outras paragens.
Aos dezasseis anos, passei dois meses a trabalhar como emprega-
do de mesa num campo de férias, no norte do estado de Nova Iorque.
No Verão seguinte trabalhei na loja de electrodomésticos do meu tio
Moe em Westfield, New Jersey. Estes empregos assemelhavam-se pelo
facto de serem maioritariamente tarefas físicas e não exigirem grande
esforço mental. Não me interessava saber se transportar travessas e lavar
pratos era menos interessante do que instalar aparelhos de ar condicio-
nado ou descarregar frigoríficos de camiões de doze metros. Não se tra-
tava de uma questão de maçãs e laranjas, mas de dois tipos de maçãs
com o mesmo tom de verde. Porém, por muito enfadonho que o traba-
lho pudesse ser, achei ambos os empregos imensamente satisfatórios.
Havia tantos indivíduos pitorescos, tantas surpresas e tantos pensamen-
tos novos a absorver a minha atenção que não me importava da estafa
cansativa, e nunca achei que estivesse a perder o meu tempo somente
para ganhar um salário. O dinheiro era uma parte importante, sem dúvi-
da, mas o trabalho não tinha a ver apenas com dinheiro: tinha a ver com
aprender quem eu era e como me encaixava no mundo.
Mesmo no campo de férias, onde os meus colegas de trabalho eram
todos estudantes do secundário com dezasseis e dezassete anos, os aju-
dantes de cozinha provinham de um universo absolutamente diferente:
pobres e vagabundos do Bowery, homens com histórias duvidosas, arre-
banhados das ruas de Nova Iorque pelo proprietário do campo e per-
suadidos a aceitar estes empregos mal pagos — que incluíam dois meses
de ar puro e cama e mesa. Grande parte deles não ficava muito tempo

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e um belo dia desapareciam simplesmente, despedindo-se à francesa e
voltando para a cidade. Um ou dois dias depois, o homem desapareci-
do era substituído por uma alma perdida da mesma espécie, que por
sua vez também raramente aquecia o lugar. Lembro-me de um dos lava-
dores de pratos, um tipo carrancudo e intratável chamado Frank e que
tinha um grave problema de alcoolismo. Não sei como aconteceu, mas
acabámos por nos tornarmos amigos e à noite, terminado o trabalho,
sentávamo-nos a conversar uma vez por outra nos degraus atrás da cozi-
nha. Descobri assim que Frank era um homem muitíssimo inteligente e
instruído. Trabalhara como agente de seguros em Springfield, Massa-
chusetts; e até a garrafa o ter vencido, levara uma vida de cidadão pro-
dutivo e pagador de impostos. Recordo-me perfeitamente de que não
me atrevia a perguntar-lhe o que acontecera, mas ele próprio mo con-
tou certa noite, transformando o que deve ter sido uma história compli-
cada num relato breve e seco da sua perdição. No espaço de dezasseis
meses haviam falecido todas as pessoas que tinham significado alguma
coisa para ele, contou. Aparentava uma atitude filosófica a esse respei-
to, quase como se estivesse a falar de outra pessoa qualquer, mas mes-
mo assim havia na sua voz uma espécie de contracorrente de amargura.
Primeiro foram os seus pais, disse, depois a sua mulher e por fim os
seus dois filhos. Doenças, acidentes e funerais; e quando todos tinham
partido, fora como se as suas entranhas tivessem ficado dilaceradas.
«Desisti, e pronto», acrescentou. «Deixei de me importar com o que me
acontecia e tornei-me vagabundo.»
No ano seguinte, em Westfield, travei conhecimento com mais algu-
mas figuras inesquecíveis. Carmen, por exemplo, a guarda-livros volu-
mosamente anafada e jocosa, que até hoje continua a ser a única mulher
com barba que conheci (tinha mesmo de se barbear), e Joe Mansfield,
o ajudante de reparações com duas hérnias e um Chrysler a cair aos
bocados, cujo conta-quilómetros se apagara três vezes e ia então nos
680 000 quilómetros. Joe tinha duas filhas na faculdade e, além do seu
emprego diário na loja de electrodomésticos, trabalhava todas as noites
oito horas como encarregado numa padaria onde, para não adormecer,
lia histórias aos quadradinhos ao lado de enormes cubas de massa. Foi o
homem mais exausto que já conheci, e também um dos mais enérgicos.

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Aguentava-se de pé fumando cigarros de mentol e bebendo doze a
dezasseis garrafas de laranjada por dia, pois nunca o vi meter um peda-
ço de comida na boca. Se almoçasse, dizia, ficaria tão cansado que des-
faleceria. As hérnias tinham aparecido uns anos antes, quando ele e
mais dois homens carregavam um enorme frigorífico por uma escada
estreita acima. Os outros dois tinham-se desequilibrado, deixando nas
mãos dele o peso inteiro do mastodonte, e fora exactamente nessa altu-
ra, quando se esforçava para não ser esmagado pelas centenas de qui-
los que estava a suportar, que os testículos lhe saltaram do escroto.
Primeiro um, explicou, e a seguir o outro. Pop… pop. Depois disso, fora-
-lhe recomendado que não voltasse a pegar em objectos pesados, mas
sempre que havia um aparelho pesado para entregar, ele vinha também
para nos ajudar — só para ter a certeza de que nós não nos matávamos,
brincava ele.
Este nós incluía um ruivo de dezanove anos chamado Mike, uma
tensa, magra e rija amostra de gente que tinha um indicador a menos e
uma das línguas mais desbragadas que já conheci. Mike e eu formáva-
mos a equipa de instalação de ar condicionado e passávamos muito
tempo juntos na carrinha do armazém durante as idas e vindas de vários
trabalhos. Nunca me cansava de escutar o chorrilho de retorcidas e ines-
peradas metáforas e insultuosas opiniões que jorrava daquela boca sem-
pre que ele a abria. Por exemplo, se achava um dos clientes demasiado
esquisito ou exigente, não dizia: «Aquele tipo é um cagão» (como mui-
tos diriam), ou «Aquele tipo é um emproado» (como diriam alguns), mas
sim «Aquele gajo julga que a merda dele não cheira mal». O jovem Mike
possuía um dom especial, e nesse Verão tive várias oportunidades de
ver como isso lhe era útil. Muitas vezes entrávamos numa casa para ins-
talar um aparelho de ar condicionado, e em quase todas, precisamente
quando estávamos a meio do serviço (a apertar os parafusos, ou a medir
tiras de calafeto para vedar as janelas), era certo e sabido que entrava
uma rapariga na sala. Parecia que nunca falhava. Ela tinha sempre
dezassete anos, era sempre bonita e mostrava-se sempre enfadada e
aborrecida, com o ar de quem não tem nada de especial para fazer. Mal
ela aparecia, Mike punha o encanto em acção. Era como se soubesse
de antemão que ela ia aparecer, como se tivesse ensaiado o seu papel

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e estivesse completamente preparado. Eu, pelo contrário, era sempre
apanhado desprevenido, e enquanto Mike executava o seu número
(uma combinação de tretas, parlapatice e descaramento puro), eu con-
tinuava a trabalhar muda e estupidamente. Mike falava e a rapariga sor-
ria. Mike falava um pouco mais e a rapariga ria-se. Ao fim de dois
minutos eram velhos amigos, e enquanto eu dava os últimos retoques
no trabalho eles trocavam números de telefone e combinavam encon-
trar-se no sábado à noite. Era absurdo, era sublime, deixava-me de quei-
xo caído. Se tivesse acontecido só uma vez ou duas, atribuiria o facto a
um acaso feliz e não pensaria mais nisso, mas assisti a esta cena repeti-
damente, pelo menos cinco ou seis vezes durante aquele Verão. No fim,
tive de admitir, relutantemente, que Mike era mais do que um simples
sortudo: era alguém que criava a sua própria sorte.

Em Setembro iniciei o meu último ano do ensino secundário. Foi


também o último ano que passei em casa e igualmente o último ano do
casamento dos meus pais. O rompimento demorara tanto tempo a che-
gar que quando a notícia me foi dada, no fim das férias do Natal, senti-
-me menos transtornado do que aliviado.
Tinha sido um casamento incompatível desde o início. Se perma-
neceram juntos tanto tempo, foi mais «por causa das crianças» do que
por vontade própria. Não tenho a pretensão de saber todas as respos-
tas, mas desconfio que o momento decisivo surgiu dois ou três anos
antes do fim, quando o meu pai chamou a si o encargo de fazer as com-
pras para a casa. Foi a última grande batalha financeira que travaram, e
que eu encaro como a derradeira e simbólica gota de água, aquilo que
finalmente fez transbordar a taça. É verdade que a minha mãe gostava
de encher o carrinho do supermercado no ShopRite local até ficar tão
pesado que era quase impossível empurrá-lo; é verdade que ela sentia
prazer em proporcionar-nos os mimos que a minha irmã e eu pedíamos;
é verdade que lá em casa todos comíamos bem e a despensa estava far-
tamente abastecida. Mas também é verdade que nos podíamos dar a esses
luxos e que as finanças da família não eram de modo algum postas em
perigo pelas quantias que a minha mãe esportulava na caixa. Aos olhos

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do meu pai, no entanto, ela gastava descontroladamente. Quando, por
fim, bateu o pé, acertou no lugar errado e acabou por fazer o que
nenhum homem jamais deveria fazer à sua mulher. Na realidade, desti-
tuiu-a do seu trabalho. E daí em diante assumiu ele a responsabilidade
de levar a comida para casa. Uma, duas ou até três vezes por semana,
parava num lugar qualquer quando regressava do trabalho (como se
não tivesse já bastante que fazer) e carregava a mala da carrinha com
artigos de mercearia. A carne de primeira que a minha mãe costumava
comprar foi substituída por acém e pá. Produtos de marca deram o lugar
a produtos de marca branca. Os saborosos lanches depois das aulas aca-
baram. Não me lembro de ouvir a minha mãe queixar-se, mas esta situa-
ção deve ter sido uma derrota colossal para ela. Já não governava a sua
própria casa, e o facto de não protestar, de não contra-atacar, significa-
va que já renunciara ao casamento. Quando o fim chegou, não houve
nenhum drama, nenhuma discussão violenta, nenhum arrependimento
de última hora. A família dispersou serenamente. A minha mãe mudou-
-se para um apartamento na zona de Weequahic, em Newark (levando-
-me a mim e à minha irmã com ela), e o meu pai ficou sozinho naque-
la casa grande, onde viveu até ao dia da sua morte.
De uma maneira perversa, estes acontecimentos deixaram-me extre-
mamente feliz. Estava satisfeito por a verdade ter ficado a claro e foi
com agrado que recebi as convulsões e mudanças que se seguiram em
consequência dessa verdade. Havia algo de libertador nisso, um regozi-
jo em saber que o quadro fora finalmente apagado e estava limpo. Todo
um período da minha vida terminara, e enquanto o meu corpo conti-
nuava a fazer os gestos de terminar o secundário e ajudar a minha mãe
a mudar-se para a sua nova morada, o meu espírito já levantara o acam-
pamento. Não só me encontrava prestes a sair de casa, como a própria
casa tinha deixado de existir. Já não havia nada aonde regressar, só me
restava sair e afastar-me.
Não me dei sequer ao trabalho de esperar pela minha formatura
escolar — é a prova, a demonstração do pouco que significava para
mim. Enquanto os meus condiscípulos, de barrete e beca, recebiam os
seus diplomas, já eu me encontrava do outro lado do Atlântico. A escola
concedera-me uma licença especial para sair mais cedo, e eu reservara

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